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Coleção
Educação: Experiência e Sentido
Jorge Larrosa
Tremores
Escritos sobre experiência
Troduçõo
Cristina Antunes
João Wanderley Geraldi
autêntica
Copyright © 2014 Jorge larrosa
Copyright © 2014 Autêntica Editora
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicaç�o poderá ser
reproduzida, seja por meios mecanicos, eletrOnicos, se1a via cópia xerográfica, sem a autorizaçao
prévia da Editora.
COORDENADORES DA COLEÇÃO
EDUCAÇÃO: EXPERitNCIA E SENTIDO
Jorge Larrosa
Walter Kohan
EDITORA RESPONSÁVEL
Rejane Dias
REVISÃO
Dila Bragança de Mendonça
Lívia Martins
CAPA
Alberto Bittencourt
DIAGRAMAÇÃO
Jairo Alvarenga Fonseca
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP. Brasil)
Larrosa, Jorge
Tremores : escritos sobre experiência I Jorge Larrosa ; traduçao
Cristina Antunes, Joao Wanderley Geraldi. .. 1. ed. -·Belo Horizonte :
Autêntica Editora, 2014.-(Coleçao Educaçao: Experiência e Sentido)
ISBN 978·85-8217-437-1
1. Educaçao • Filosofia 2. Educadores • Formaç�o 3. Experiências
4. Pedagogia 5. Professores • Formaçao I. Titulo. 11. Série.
14-06641
CDD-370.7
lndices para catálogo sistemático:
1. Educadores : Experiências : Educaç�o 370.7
GRUPO AUT�NTICA Ô
Belo Horizonte
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APRESENTAÇÃO DA COLEÇÃO
A experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à escri
tura. Digamos, com Foucault, que escrevemos para transformar
o que sabemos e não para transmitir o já sabido. Se alguma
coisa nos anima a escrever é a possibilidade de que esse ato de
escritura, essa experiência em palavras, nos permita liberar-nos
de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos
para ser outra coisa, diferentes do que vimos sendo.
Também a experiência, e não a verdade, é o que dá sentido
à educação. Educamos para transformar o que sabemos, não para
transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a educar é a
possibilidade de que esse ato de educação, essa experiência em
gestos, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a
deixarmos de ser o que somos, para ser outra coisa para além
do que vimos sendo.
A coleção Educação: Experiência e Sentido propõe-se a tes
temunhar experiências de escrever na educação, de educar na
escritura. Essa coleção não é animada por nenhum propósito
revelador, convertedor ou doutrinário: defmitivamente, nada a
revelar, ninguém a converter, nenhuma doutrina a transmitir.
(ouç.lo ·�: ExPw!NcJA E Se<roo•
que em filosofia, e não só em filosofia, quando a questão é estar
bem informado sobre o caráter sensível da língua, quando se
trata de considerar a língua a partir de sua relação com o corpo e
com a subjetividade, frequentemente se apela a noções que têm
a ver com a oralidade, com a boca e com a língua, com o ouvido
e com a orelha, com a voz. E aí não se trata da diferença entre
fala e escrita, mas sim da diferença entre distintas experiências
da língua, incluindo o ler e o escrever. A oralidade a que me
refiro não se opõe à escrita, mas, ao contrário, atravessa toda a
linguagem, como se a escrita tivesse sua própria oralidade, como
se fosse possível traçar diferenças entre tipos de escrita segundo
suas diversas formas de oralidade. A voz é a marca da subjetividade
na experiência da linguagem, também na experiência da leitura e
da escrita. Na voz, o que está em jogo é o sujeito que fala e que
escuta, que lê e que escreve. A partir daqui se poderia estabelecer
um contraste entre uma língua com voz, com tom, com ritmo,
com corpo, com subjetividade, uma língua para a conversação ... e
uma língua sem voz, afônica, átona ou monótona, arrítmica, uma
língua dos que não têm língua, uma língua de ninguém e para
ninguém, que seria, talvez, essa língua que aspira a objetividade,
a neutralidade e a universalidade e que tenta, portanto, o que foi
apagado de todo traço subjetivo, a indiferença tanto no que se
refere ao falante/escritor quanto no que se refere ao ouvinte/leitor.
E o que quero dizer a você, por último, é que necessitamos
de uma língua na qual falar e escutar, ler e escrever seja uma ex
periência. Singular e singularizadora, plural e pluralizadora, ativa,
mas também pessoal, na qual algo nos aconteça, incerta, que não
esteja normatizada por nosso saber, nem por nosso poder, nem por
nossa vontade, que nunca saibamos de antemão aonde nos leva.
Gostaria de conversar com você.
72
CAPITUL04
Ferido de realidade e em busca
de realidade. Notas sobre as
linguagens da experiência1
Tradução de Cristina Antunes
Isso é só o que hoje podemos te dizer,
o que �1ão somos, o que não queremos.
Eugenio Montale
Mas o que
mas como
mas de que outro modo
com que cara
continuar vivo
prosseguir.
Idea Vilariõo
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora:
e um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse
que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Fernando Pessoa
1 Publicado em: CONTRERAS, José; LARA, Nuria Pérez de (Eds). Investi
gar la experienda educativa. Madrid: Mora ta, 2010.
73
Cafç.l,o •Eooo.ç.lo: �E S<Nroo•
O não e o talvez
A palavra "experiência" serviu a muitos de nós para
elaborar uma distância a respeito do que poderíamos chamar
de "a ordem do discurso pedagógico", esta ordem que está
feita de modos de dizer e de pensar (e de olhar e de escutar,
e de ler e de escrever, e de fazer e de querer) nos quais não
podemos nos reconhecer. A palavra "experiência" nos serviu
e nos serve para nos situar num lugar, ou numa intempérie, a
partir da qual se pode dizer não: o que não somos, o que não
queremos. Mas nos serviu também para afirmar nossa vontade
de viver. Porque se a experiência é o que nos acontece, o que
é a vida senão o passar do que nos acontece e nossas torpes,
inúteis e sempre provisórias tentativas de elaborar seu sentido,
ou sua falta de sentido? A vida, como a experiência, é relação:
com o mundo, com a linguagem, com o pensamento, com os
outros, com nós mesmos, com o que se diz e o que se pensa,
com o que dizemos e o que pensamos, com o que somos e o
que fazemos, com o que já estamos deixando de ser. A vida
é a experiência da vida, nossa forma singular de vivê-la. Por
isso, colocar a relação educativa sob a tutela da experiência (e
não da técnica, por exemplo, ou da prática) não é outra coisa
que enfatizar sua implicação com a vida, sua vitalidade. Mas
como? E sobretudo de que outro modo?
Fazer soar a palavra "experiência" em educação tem
a ver, então, com um não e com uma pergunta. Com um
não a isso que nos é apresentado como necessário e como
obrigatório, e que já não admitimos. E com uma pergunta
que se refere ao outro, que encaminha e aponta em direção
ao outro (para outros modos de pensamento, e da lingua
gem, e da sensibilidade, e da ação, e da vontade), porém,
sem dúvida, sem determiná-lo. Só porque ainda queremos
continuar vivos, prosseguir. E porque ainda intuímos, ou
acreditamos intuir, um além de. Um além desse sótão que
nos aprisiona, mas do qual sabemos que não será nunca o que
74
Ferido de realidade e em busco de realidade
acreditamos que poderia ser. É preciso abrir a janela. Porém,
sabendo que o que se vê quando a janela se abre nunca é o
que havíamos pensado, ou sonhado, nunca é da ordem do
"pre-visto". Por isso a pergunta sobre "de que outro modo"
não pode ser outra coisa que uma abertura. Para o que não
sabemos. Para o que não depende de nosso saber nem de
nosso poder, nem de nossa vontade. Para o que só pode se
indeterminar como um quem sabe, como um talvez.
Deixar que a palavra "experiência" nosvenha à boca (que
tutele nossa voz, nossa escrita) não é usar um instrumento,
e sim se colocar no caminho, ou melhor, no espaço que ela
abre. Um espaço para o pensamento, para a linguagem, para a
sensibilidade e para a ação (e sobretudo para a paixão). Porque
as palavras, algumas palavras, antes que se desgastem ou se fos
silizem para nós, antes de permanecerem capturadas, também
elas, pelas normas do saber e pelas disciplinas do pensar, antes
que nos convertam, ou as convertamos em parte de uma dou
trina ou de uma metodologia, antes que nos subordinem, ou
as subordinemos a esse dispositivo de controle do pensamento
que chamamos "investigação", ainda podem conter um gesto
de rebeldia, um não, e ainda podem ser perguntas, aberturas,
inícios, janelas abertas, modos de continuar vivos, de prosseguir,
caminhos de vida, possibilidades do que não se sabe, talvez.
Com que cara
O poema da Idea Vilariiio não só se interroga por quê,
como ou de que outro modo (continuar vivo, prosseguir)
como também se pergunta com que cara. Porque, como
disse Ferlosio, a cara é o espelho da alma se não é, clara e
simplesmente, a alma, ou para dizer ainda mais claramente,
a pessoa.2 E como nos ensinou Gombrowicz, as caras se con
vertem muito rapidamente em aparências, fachadas, em caras
1 FERLOSIO, R. S. E/ alma y la vergiiwza. Barcelona: Destino, 2000.
75
Cot.eç.i.o •EDUCAÇÃO: � E SENTOO•
de pau, em caras duras, em máscaras rígidas, de papier machê,
congeladas em uma careta i móvel e grotesca. 3 Sabemos com
que facilidade as relações inter-humanas (essas que se dão, ou
deveriam se dar, cara a cara) se transformam em mascaradas
quando as caras se acartonam em posições mais ou menos
institucionalizadas. Além disso, tanto Ferlosio quanto Gom
browicz, ainda que em registros muito diferentes, insistiram em
assinalar a voz, junto com o rosto, como os lugares essenciais
de singularização humana. E também da experiência humana,
porque às vezes a nossa voz falha ou nossa cara se decompõe.
Os pedagogos, os que falam ou escrevem sobre educa
ção, fizeram cara de especialistas, de experts, de sacerdotes, de
políticos, de técnicos, de pregadores, de professores, de pes
quisadores, de funcionários, ou de uma mistura de tudo isso.
Por isso falam (e escutam, e leem, e escrevem) na qualidade
de especialistas, ou experts, ou sacerdotes, ou políticos ... sem
mostrar a cara. Ou seja, impostando uma voz de técnicos,
ou de pregadores, ou de professores, ou de pesquisadores,
ou de funcionários ... que nunca treme.
Por isso, nosso não às formas que configuram "a ordem
do discurso pedagógico" é também um não a todas essas
caras acartonadas, a todas essas vozes impostadas. Porque não
queremos fazer caras como essas, não queremos que saiam de
nós essas vozes. Então, com que cara vamos seguir adiante?
Qual é a cara viva, estremecida, com a qual possamos aftrmar
a vida? Com que cara encarar o que nos acontece? Qual é a
voz viva, trêmula, balbuciante que corresponde a essa cara,
qual é a língua que lhe convêm?
Ferlosiana
Falava Ferlosio do indigno comércio psicológico entre
padres e professores sobre a alma dos meninos. E dizia que
' Ver, por exemplo, GOMBOWICZ, W. Ferdydurke. Barcelona: Edhasa, 1984.
76
Ferido de reolidode e em busca de reolidode
ficava arrepiado só de imaginar uma mãe dizendo a uma
professora: "é que meu Luisito é muito introvertido".4 E isso
porque o bom Rafael não havia assistido nunca ao opressivo
espetáculo de uma professora dissertando, numa reunião de
pais, sobre "a criança nesta idade". Pois bem, outro dia, em
uma reportagem sobre as reformas universitárias, aparecia
um grupo de estudantes de psicologia de uma célebre uni
versidade catalã interpretando desenhos de crianças. Desses
em que as crianças têm de desenhar sua família. E no limbo5
nos perguntamos por que tanto empenho em que essas po
bres crianças indefesas desenhem sua família. Que tipo de
curiosidade mórbida inspirará uma petição semelhante. Mas
ali estão eles, aprendendo a arrogância e a estupidez própria
de seu grêmio, olhando atentamente os desenhos que seu
professor projetava para eles, impostando a voz, compondo a
cara, dando-se importância, dogmatizando descaradamente
e sem nenhum pudor sobre qual era o significado das cores,
dos tamanhos, das roupas, das cabeças e das extremidades das
crianças, de seus pais e de seus irmãos. E vai saber que tipo
de diagnósticos eles fazem e como os usam para aborrecer
impunemente, por seu próprio bem, as crianças e muitas
vezes também os pais. Além do mais, são tão covardes que
só se atrevem a fazer essas patifarias com as crianças e com
outros seres precários, dependentes, vulneráveis e, certa
mente, desafortunados. Sobre os quais se pode discursar com
toda tranquilidade e com total impunidade. E aos que, sem
dúvida, não se atreveriam a lhes dizer essas coisas na cara.
Sua cara deveria cair de vergonha, se tivessem vergonha.
Deveriam aparecer bolhas na sua língua, se tivessem língua.
' FERLOSIO, R. S. Pedagogos pasan, ai infierno vamos. ln: La !rija de la
guerra y la madre de la pátria. Bercelona: Destino, 2002, p. 115.
1 Esta Ferlosiana foi escrita para um programa de rádio que se chamava "Pa
lavras desde o limbo", concretamente para uma seção intitulada "Esta nossa
civilização é de assustar, cara".
77
Úllf(ÃO ·�:�e SeNroo"
E o fato é que antes as crianças eram mo
lestadas pelos padres,
que tinham muito poder e que se acr
editavam possuidores
da verdade. Mas agora são molestados
pelos psicólogos, que
também têm muito poder e também
se creem na posse da
verdade, porém são muito mais traiç
oeiros. E esta nossa
civilização é de assustar, cara.
O corpo docente segundo Gombrowicz
Quando o diretor da escola escolhe um corpo para fazer
parte do corpo docente toma muito cuidado para que não seja
um corpo simpático, normal e humano, mas sim um corpo
pedagógico, quer dizer, profunda e perfeitamente enfadonho,
estéril, obediente e abstrato. Embora, sem dúvida, o corpo
docente dessa escola esteja coroado pelas melhores cabeças
da capital: nenhuma delas tem um só pensamento próprio.
E se o tivesse, tanto o pensamento quanto o pensador seriam
imediatamente validados. Esses mestres são perfeitos alunos
e por isso são altamente eficazes em seu ofício de "alunizar"
a qualquer um que lhes apareça pela frente.6
Animais
O enorme rinoceronte se detém. Levanta a cabeça.
Recua um pouco. Vira para um lado e investe como um
aríete, com um só chifre de touro blindado, enraivecido e
cego, em arranque total de investigador positivista. Nunca
acerta o alvo, mas sempre fica muito satisfeito com sua razão,
com sua metodologia, com seus resultados e com sua força.7
• Elaborado para o limbo a partir do
capítulo segundo do Ftrdydurkt, de
GOMBROWlCZ (1984).
' Também para o limbo, trata-se de um
a variação a partir de uma das peças
do Bestiário, de Juan José ARREOLA. M
éxico: Joaquim Mariz, 1972.
78
Ferido de realidade e em busco de realidade
Palavras vazias
É um tempo em que no espaço, no 'éter', só se ouve
o zumbido, o silvo, o troar dos diáJogos. Em todos os
canais se ouve continuamente o estampido da palavra
"diálogo". Segundo as últimas pesquisas da pesquisa
dialogal, uma disciplina que acaba de receber certidão
de naturalização e que se vangloria de haver adquirido
com muita rapidez uma multidão de seguidores, a pa
lavra "diálogo", e não só nos meios de comunicação,
nos sínodos interconfessionais e nas sínteses filosóficas,
nesses momentos é mais frequente que "sou", "hoje",
"vida" (ou "morte), "montanha" (ou "vale"), "pão" (ou
"vinho"). Inclusive nos passeios dos presidiários pelo
pátio da cadeia, com frequência "diálogo" é menciona
do mais vezes do que, por exemplo, "merda", " foder"
ou "a buceta de sua mãe". E, do mesmo modo, nos
passeios vigiados dos internos em um manicômio, ou
dos idiotas, está comprovado que "diálogo" é uma
palavra pelo menos dez vezesmais frequente do que,
por exemplo, "homem da lua", "maçã" (ou "pera"),
"Deus" (ou "Satanás"), "medo" (ou "comprimidos").
Em um contínuo diálogo estão inclusos os três ou
quatro camponeses que ainda restam, separados sempre
por um dia de viagem, ou pelo menos são apresenta
dos dialogando sem parar. E dialogando também são
apresentadas as crianças, até na última imagem dos
livros ilustrados que foram avaliados pelas autoridades
competentes para fazer parte da biblioteca da escola.8
Porém, no limbo, o zumbido estrondoso e mentiroso
do diálogo ainda não conseguiu acabar com o murmúrio
vivo e verdadeiro da conversação.
8 HANDKE, P. La perdida de la imageu, o por la sitrra de Credos. Madrid: Alian
za, 2003, p. 108-109.
79
CoiKJ.o "Eouc:Aç.i.O: fmRJ!NO>. E 5ENmo"
Mais animais
Fiéis ao espírito de toda aristocracia em d
ecadência, as
aves de rapina enjauladas ou encurraladas
observam, a todo
o momento, o protocolo. No registro d
os poleiros notur
nos, como em qualquer organismo ofic
ial ou extraoficial,
cada qual ocupa seu posto por rigorosa
hierarquia. No alto,
as águias tortas e de asas quebradas. Um
pouco abaixo, os
falcões de bicos sem corte e garras embot
adas. Em seguida,
os gaviões tristes e desplumados. E abaixo
de tudo os abutres
imundos rodeados de moscas. O mesmo que em qu
alquer
grêmio ou corporação, seja de índole loca
l, nacional, estatal
ou internacional. Incluídas, naturalmente
, as que têm a ver
com isso que agora se chama "conhecime
nto".9
Cantilenas
Nunca mais voltei a me encontrar com os ho
mens me
nos possuídos por aquilo que levavam entre
as mãos do
que aqueles catedráticos e professores da Un
iversidade;
qualquer empregado de banco, sim, qualque
r um con
tando as cédulas, umas cédulas que, além do
mais, não
eram suas, qualquer operário que estivesse
asfaltando
uma rua, em um espaço quente que havia en
tre o sol,
acima, e o fervor do alcatrão, abaixo, davam
a impres
são de estar mais no que faziam. Pareciam
dignitários
cheios de serragem a quem nem a admiração
( ... ], nem
o entusiasmo, nem o afeto, nem atitude int
errogativa
alguma, nem a veneração, nem a ira, nem a i
ndignação,
nem a consciência de estar ignorando algo ja
mais lhes
fazia tremer a voz, porque, melhor dizendo
, se limita
vam a ir soltando uma cantilena, a ir cumpr
indo com
distintos expedientes, a ir medindo frases n
o tom de
alguém que está antecipando um exame ( ... ]
enquanto
9 Ver nota 7.
80
Ferido de realidade e em busca de realidade
lá fora, diante das janelas, se viam tons verdes e azuis,
e depois escurecia: até que o cansaço do ouvinte, de
um modo repentino, se convertia em relutância, e a
relutância em hostilidade.10
Zambraniana
Em um texto menor, mas muito formoso, que se chama
A mediação do mestre, María Zambrano se refere ao instante
que antecede o gesto de começar a falar em uma sala de aula.
O mestre, diz Zambrano, ocupa seu lugar, pega talvez alguns
livros da bolsa e os coloca diante de si e, justamente aí, antes
de pronunciar qualquer palavra, o mestre percebe o silêncio
e a quietude da classe, o que esse silêncio e essa quietude têm
de interrogação e de espera, e também de exigência. Nesse
momento, o mestre cala um instante e oferece sua presença
ainda antes de sua palavra. E aí María Zambrano diz o seguin
te: "Poder-se-ia medir, talvez, a autenticidade de um mestre
por esse instante de silêncio que precede a sua palavra, por
esse ter-se presente, por essa apresentação de sua pessoa antes
de começar a dá-la de modo ativo. E ainda pelo imperceptível
tremor que o sacode. Sem eles, o mestre não chega a sê-lo
por maior que seja a sua ciência".11 Antes de começar a falar,
o mestre tremia. E esse tremor se deriva de sua presença. De
sua presença silenciosa, nesse momento, e da iminência de sua
presença no que vai dizer. Isso é, certamente, a voz, a presença
no que se diz, a presença de um sujeito que treme no que diz.
E por isso as aulas são, ou foram às vezes, ou poderiam ter
sido, lugares da voz, porque nelas os alunos e os professores
tinham que estar presentes. Tanto em suas palavras como em
seus silêncios. Talvez sobretudo em seus silêncios.
10 HANDKE, P. Ensaio sobre e/ caiiSando. Madrid: Alianza, 2009, p. 13-14.
"ZAMBRANO, María. La mediación dei maestro. ln: LARROSA, J.;
FENOY, S. (Eds.), María ZAMBR.ANO: L'arl deles mediacions (Textos peda
gogics). Barcelona: Publicacions de la Universitat de Barcelona, 2002, p. 112.
81
Couç.i.o 'EillJCAC}.o: EXPERJ!NOA E SEN1100'
É isso
Entende-se agora que situar o educativo no lugar da
experiência supõe um não e uma pergunta que é, ao mesmo
tempo, uma abertura? Entende-se "o que não somos e o
que não queremos"? E entende-se "com que cara continuar
vivo"? Soa-lhes familiar isso de falar impunemente do que se
ignora? Vocês já sabem que as posições discursivas do saber
e do poder garantem a impunidade e também a imunidade.
Carlos Skliar escrevia sobre isso dessa forma: "De certo modo
somos impunes ao falar do outro e imunes quando o outro
nos fala".12 Lembra-lhes algo isso de falar sem uma só palavra
ou um só pensamento próprio? O que seria dos professores,
dos experts e dos pesquisadores se lhes pedissem que dissessem
o que aprenderam, o que viveram, o que pensaram, e não o
que lhes foi ensinado? Vocês sabem quem são esses que nunca
acertam o alvo (como se houvesse um alvo), mas que, sem
dúvida, estão tão satisfeitos com sua força? E as aves de rapina
que guardam rigorosamente a hierarquia, vocês sabem onde
elas habitam? e que linguagem falam (ou grasnam)? Já não
estão fartos de palavras vazias, de palavras fetiche, de palavras
palavreadas repetidamente, usadas como moedas falsas, até
esvaziar seu sentido? Juan Gelman escrevia assim sobre isso:
[ ... ] "não queremos outros mundos que o da liberdade e esta
palavra não a palavreamos porque sabemos, depois de muita
morte, que se fala enamorado e não do amor, se fala claro,
não da claridade, se fala livre, não da liberdade.''13 Vocês
escutaram alguma vez esses que falam como que antecipando
um exame? esses aos quais a voz nunca muda e que nunca
ficam de cara no chão? Vocês estiveram alguma vez numa
12SKLIAR, C. Fragmentos de experiencia y alteridade. ln: LARROSA, J.;
SKLIAR, C. (Eds.). Experiencia y alteridad w ed11cación. RosarioJ Argentina:
Homo Sapiens, 2009, p. 147.
"GELMAN,J. Bajo la lluvia ajena (notas ai pie de uma derrota). ln: GELMAN,
J.; BAY ER, O. Exllios. Buenos Aires: Legasa, 1984, p. 15.
82
Ferido de reolidode e em busca de realidode
classe ou numa conferência na qual nem o que fala, nem os
que escutam estão presentes? É isso.
César Vallejo dizia assim: "Quero escrever, mas me sai
espuma, I quero dizer muitíssimo e me atolo. I [ ... ] Quero
escrever, mas me sinto puma; I quero me laurear, mas me ace
bolo".14 E nisso estamos entre o laurel e a cebola, entre o puma
e a espuma, entre o quero e o porém, nesse entre, nesse atoleiro.
Falar contra as palavras
Um dos textos fundadores do que poderíamos chamar
de a crítica da linguagem é a Carta de Lord Chandos, de Hugo
Von Hofmmansthal, publicada em 1902. A carta está data
da de 22 de agosto de 1603, e nela Lord Chandos descreve
a seu amigo Francis Bacon os sintomas de uma estranha
enfermidade: "as palavras abstratas, das quais a língua por
lei natural deve fazer uso para trazer à luz do dia juízos de
qualquer espécie, se decompunham na boca como fungos
apodrecidos".15 Porém, o rastro dessa enfermidade atravessa o
século XX e alcança dimensões de pandemia nessa sociedade
que chama a si mesma do conhecimento, da informação e
da comunicação. O que ocorre é que são poucos os que
perceberam. E é a esses poucos a quem temos de escutar.
Na mesma cidade e na mesma época em que viveu
Hofmannsthal, Karl Kraus também se havia dado conta de
que a linguagem estava enferma, e de que sua podridão não
14VALLEJO, C. Poemas póstumos. ln: Obra poética. Madrid:Archivos, 1988,
p. 400.
"VON HOFMANNSTHAL, H. Una carta (De Lord Plrilip Clrandosa Sir
Francis Bacon). Valencia: Pre-Textos, 2008, p. 126. A edição que cito, mui
to formosa, contém seis respostas à carta (de José Luís PARDO, Stefan
HERTMANS, Clément ROSSET, Esperanza LÓ PEZ PARADA, Higp
MÚGlCA e Abraham GRAGErtA), além de um prólogo de Claudio
MAGRIS, um ensaio de Juan NAVARRO BALDEWEG e uma introdu
ção de José MUNOZ MILLANES.
83
� •Eruo.ç.�.o: �E SeNroo•
era diferente da podridão geral. A corrupção linguística,
pensava Kraus, está relacionada com a corrupção dos pen
samentos e das consciências e, certamente, com a corrup
ção da sociedade e da cultura. E foi ele, que se considerava
um continuador, um epígono, o herdeiro de uma fortuna
destruída e dissipada, o habitante crepuscular da velha e
arruinada casa da linguagem, o que "descobriu os vínculos
entre um falso imperfeito de subjuntivo e uma mentalidade
ignóbil, entre uma falsa sintaxe e a estrutura deficiente de
uma sociedade, entre a grande frase oca e o assassinato or
ganizado".16 Em 1929, um jovem poeta comunista, Francis
Ponge, percebeu, quando expôs suas razões para escrever:
"Nosso primeiro estímulo foi, sem dúvida, o asco pelo que
somos obrigados a pensar e a dizer, por aquilo no qual nos
sa natureza de homens nos obriga a tomar parte [ ... ]. Uma
única saída: falar contra as palavras". Em 1958, em relação
com a aniquilação da linguagem produzida pelo nazismo,
outro poeta, Paul Celan, um dos maiores, disse: "Restava a
língua, sim, salvaguardada apesar de tudo. Pois teve então que
atravessar sua própria falta de respostas, atravessar um terrível
mutismo, atravessar as mil trevas profundas de um discurso
homicida".17 Em 1982, e depois de toda uma vida dedicada
a combater a linguagem automática e automatizada do que
nos faz dizer e do que nos faz pensar, Peter Handke escreveu
assim: "De cada frase que passe por sua mente, pergunta
te: é esta realmente a minha linguagem".18 Ao longo de sua
obra, e falando do nacional-catolicismo espanhol, disse, de
16 A citação, de Erich HELLER, é tirada de um texto do poeta venezuelano
Rafael CADENAS, intitulado "Karl Kraus" e incluído em sua Obra entera.
México: Fondo de Cultura Económica, 2000, p. 594.
11Tanto a citação de PONGE como a de CELAN foram tiradas do magnífico
texto de Miguel CASADO, "Hablar contra las pala bras. Notas sobre poesia
y política" . ln: Deseo de realidad. Oviedo: Ediciones de la Universidad de
Oviedo, 2006.
18HANDKE, P. Historia del lápiz. Barcelona: Península, 1991, p. 50.
84
Ferido de realidade e em busco do realidade
muitas maneiras e em muitos lugares, Juan Goytisolo: "A
negação de um sistema intelectualmente opressor começa
necessariamente pela negação de sua estrutura semântica",
ou "Todo espanhol se viu obrigado a pensar ou pelo menos
a falar e escrever conforme certas fórmulas e princípios es
tabelecidos [ .. .]. A linguagem deverá ser recunhada e polida
antes que possa circular como moeda genuína", ou "Cada
palavra de teu idioma te estende uma armadilha: adiante
aprenderás a pensar contra tua própria língua".19 Também
Antonio Gamoneda havia notado a corrupção linguística do
franquismo e disse em 1977: "Quem fala ainda ao coração
abrasado quando a covardia pôs nome a todas as coisas?".20
Em 1988, e em um romance que, como a maioria dos seus,
descreve a aniquilação linguística e cultural produzida pelo
totalitarismo comunista, o escritor albanês Ismail Kadaré
estabeleceu assim as fases da destruição: "A primeira, a elimi
nação material da rebelião; a segunda, a eliminação da ideia
de rebelião; a terceira, a erradicação da cultura, da arte e dos
costumes; a quarta, a extinção ou mutilação da língua, e a
quinta, a extinção ou debilitação da memória". 21 Em relação
a essa redução da linguagem a instrumento de comunicação,
junto com seus ideais de eficácia e de transparência, o filósofo
José Luís Pardo disse em 1996 que
[ . . . ] há uma tentativa em marcha para livrar a lingua
gem de sua incômoda densidade, uma tentativa de
apagar das palavras todo sabor e toda ressonância, a
tentativa de impor pela violência uma linguagem lisa,
sem manchas, sem sombras, sem rugas, sem corpo,
a língua dos deslinguados, uma língua sem outro na
19 As citações são do livro de CA RRIÓN, J. Viaje contra espacio. ]11an Goytisolo
y W. C. Sebald. Madrid: lberoamericana, 2009.
20GAMONEDA, A. Lápidas. ln: Esta l11z. Poesia Re11nida. Barcelona: Galaxia
Gutemberg, 2004, p. 293.
21KADARÉ, I. E/nicho de la verg11enza. Madrid: Alianza, 2001, p. 145.
85
CooçJ.o 'EDUCAÇÃO: ExPERI�NC"- E SENllOO'
qual ninguém escute a si mesmo quando fala, uma
língua despovoadaY
Outro ftlósofo, Miguel Morey, disse em 2001 numa carta que
dedicou a sua fLlha e a todos os que, como ela, completaram
18 anos nesse ano:
( ... ] ninguém pode se pôr a salvo do modo como a
linguagem nos desenha os contornos de tudo aquilo
do qual podemos ter experiência. Vivemos segundo a
linguagem que temos a nossa disposição ( . . .] . Por isso é
tão terrível que as palavras morram, que as matem, que
pertençam cada vez mais a um inimigo cego, surdo e
mudo diante do peso do mundo, como se fossem um
território ocupado. Porque quando as palavras morrem,
irremediavelmente, os homens adoecem.23
E poderíamos multiplicar os dados, os testemunhos,
os matizes.
Mas sempre o mesmo motivo: a linguagem recebida é
impronunciável, e o mundo que nos apresenta é inabitável,
e uma coisa não vai sem a outra, e só uma consciência des
prezível e submissa pode falar essa linguagem e habitar esse
mundo sem problemas. Uma linguagem podre é o sintoma de
um mundo podre e de umas formas de vida podres. Porém, a
nós essa linguagem nos provoca asco e a sentimos como uma
armadilha, e sabemos que é o que impõem os poderosos, os
opressores e os covardes, a linguagem do inimigo. E por isso
não podemos senti-la como nossa, porque foi arrasada, aplai
nada, alisada, mutilada, simplificada, desumanizada, porque
foi convertida em uma linguagem de deslinguados, em uma
linguagem de ninguém e sem ninguém e para ninguém. E
22PARDO,J. L. Carne de palabras. ln: FERNÁNDEZ QUESADA, N. (Ed.);
VALENTE,]. A. Arwwmfa de la palabra. Valencia: Pre-Textos, 2000, p. 190.
2lMOREY, M. Carta a uma princesa. ln: Pequenas doctrinas de la sociedad. Mé
xico: Sexto Piso, 2007, p. 433-434.
86
Ferido de realidade e em bv= de reolidode
por isso sentimos que ficamos sem palavras, e nos sentimos
mudos. E para imaginar a possibilidade de falar, temos que
reinventá-la, ressemantizá-la, dar-lhe um novo rigor, um
novo sentido, para que possa continuar dizendo, dizendo-nos.
Entre o já não e o ainda não
A carta de Lord Chandos termina assim:
[ . . . ] porque a língua em que talvez me fosse dado
não só escrever, mas também pensar, não é o latim,
nem o inglês, nem o italiano, ou o espanhol, e sim
uma língua de cujas palavras nem sequer uma só me
é conhecida; uma língua na qual as coisas mudas me
falam e na qual, talvez um dia na tumba, terei que
prestar contas a um juiz desconhecido.24
A língua recebida já não nos serve, nos provoca nojo,
e aquela na qual talvez pudéssemos dizer alguma coisa, não
a temos ainda. Porém aí estamos, nesse intervalo, e conti
nuamos insistindo.
Uma estranha enfermidade
A enfermidade de Lord Chandos é, na realidade, uma
enfermidade da linguagem. As palavras apodrecem. Quando
nos vêm à boca, antes de dizê-las, as tocamos com a ponta
da língua e elas se decompõem como fungos apodrecidos,
e já não podemos pronunciá-las sem asco. E aí começa a es
tranheza, nessa sensação de repugnância por uma linguagem
que é a nossa, a que existe, a única que temos. Porque, para
sentir que a linguagem está podre, ou que a apodreceram,
é preciso ter língua. Por isso Lord Chandos se sente doente:
2'VON HOFMANNSTHAL, H. Una carta (De Lord Phi/ip Clrandos a Sir
Fraruis Bacon). Valencia: Pre-Textos, 2008, p, 135.
87
li
IÚllfÇ,IO •EoucAç.J,o: Ela>mrNoA E Sooro"
porque ainda tem língua, porque ainda é capaz de sentir,
em sua língua, o sabor apodrecido da língua, porque ainda
tem uma língua com a qual saboreia as palavras e as frases
antes de dizê-las, porque ainda tem uma língua com a qual
sentir asco. Como diz José Luís Pardo:
Para ter acesso à linguagem, temos que falar uma
língua, e falá-la a partir de dentro, com nossa própria
voz e com nossa própria língua. E ela faz com que as
palavras nos deixem um resíduo na ponta da língua,
um sabor de boca (doce ou amargo, bom ou mau), o
que elas nos fazem saber (nos dão a saborear). 25
Por isso, embora a linguagem tenha apodrecido, a maioria
das pessoas não se dá conta, não sente náuseas e não se sente
doente: porque perderam a língua, porque não têm, ou nunca
tiveram uma voz própria, uma língua própria, porque só assim,
sem língua, podem falar sem nojo uma língua apodrecida.
Repassemos os sintomas e o progresso dessa enfermida
de. Para Lord Chandos, primeiro se tornam impossíveis as
grandes palavras, essas que são tão abstratas, tão gerais, tão so
lenes, tão mentirosas, tão grandiloquentes e tão vazias. Talvez
perceba que já não querem dizer nada, de tão vaidosas e de
tão soberbas. Em segundo lugar, se tornam impossíveis para
ele os juízos sobre temas gerais, sobre os assuntos da corte e
do parlamento, sobre tudo aquilo que, segundo essa artificio
sa construção chamada "atualidade", deveria ser importante.
Talvez perceba o que esses julgamentos e essas opiniões têm
de precipitados, de artificiais, de convencionais. Talvez sinta
aí a língua sem língua dos jornalistas, dos experts, dos políticos
e dos funcionários, dos que fabricam o presente, dos "atuais",
dos donos da "atualidade". Em terceiro lugar, se tornam
impossíveis para ele também os juízos banais, esses que se
acontecem automaticamente e sem pensar na'S conversações
"PARDO. J. L. La i11timidad. Valencia: Pre-Textos, 1996, p. 52-53.
88
Ferido de realidade e em busco de realidade
de todos os dias. Tudo isso lhe produz mal-estar, nojo, cólera,
ansiedade, angústia. Porque lhe parece falso, oco e sobretu
do simplificador. O real é infinito e, sobretudo dinâmico,
caótico e fragmentado, e sempre inunda qualquer pretensão
da linguagem em abarcá-lo, unificá-lo, fixá-lo, simplificá-lo,
compreendê-lo e ordená-lo.
A enfermidade de Lord Chandos consiste em ele sentir que
a linguagem apenas é capaz de captar o real. Mas o que ocorre
é que essa linguagem, em sua arrogância e sua autossuficiência,
não sabe disso. E por isso se separou irremediavelmente do real,
já não serve para nomear o que somos nem o que nos acontece,
já não nos permite distinguir, ordenar, classificar e determinar
o que há, já não é capaz de dar conta de nossas relações com
os demais, com nós mesmos e com o mundo em que vivemos,
já não é capaz, definitivamente, de dizer a verdade. Então, a
linguagem fabrica um mundo a sua medida, um mundo que
já não é um mundo, e sim uma armação, ou uma jaula, ou um
armário, ou um esquema ao qual tudo o que existe se submete
ou deveria se submeter. Por essa razão, quando isso ocorre,
quando Lord Chandos toca com a ponta de sua língua essa
falsidade da linguagem habitual, da linguagem costumeira, as
palavras se libertam, ganham vida própria e se tornam perigo
sas: "As palavras, uma a uma, flutuavam livres ao meu redor:
se coagulavam em olhos que me fitavam ftxamente e aos quais
eu devo devolver o mesmo olhar fixo: são redemoinhos que me
dão vertigem ao contemplá-los, que giram sem cessar e através
dos quais se alcança o vazio".26
Descrevendo a seu amigo Francis Bacon os sintomas de sua
enfermidade, Lord Chandon conta um episódio especialmente
significativo. A ponto de repreender uma mentira de sua
filha de quatro anos, a ponto de dizer a ela que é preci
so falar seinpre a verdade, Lord Chandos não pode evitar
parar para pensar no que vai dizer. Então, todo um fluxo de
26VON HOFMANNSTHAL, 2008, p. 128.
89
ÚXfÇk) •Eouc:AçAo: � E SENroo•
ideias lhe passa instantaneamente pela cabeça, e, do mesmo
modo que lhe acontece com as palavras, que se automatizam
e se tornam quase físicas, as ideias se fundem umas com as
outras de maneira que se torna impossível para ele terminar
a frase. Como se um gesto aparentemente tão simples, o de
dizer a uma menina que é preciso ser sempre verdadeira, se
tornasse de repente tão complexo, tão infinito, tão cheio de
matizes, que a proposição se torna impronunciável. E isso
simplesmente porque se pensa. Quem poderia dizer, se pensa
por um momento, que é preciso ser sempre verdadeiro? O
que quer dizer "verdadeiro"? E sobretudo o que quer dizer
"sempre"? É possível a verdade? É possível um mundo, uma
convivência na qual sempre se diga a verdade? As ideias
começam a fluir, a se associar, a proliferar, a se contradizer.
E não nos resta outro remédio, como acontecia com Lord
Chandos, do que sair a cavalo para acalmar a angústia, para
tratar de voltar a esse mundo singelo e habitual no qual frases
como essas podem ser ditas automaticamente, sem pensar. O
problema de Lord Chandos não é dizer o que pensa (esse é
o problema banal da liberdade de expressão, da "opinioni
tis" generalizada, da conversação e do tumulto universais,
o problema, definitivamente, dos deslinguados), e sim algo
muito mais complicado: pensar o que diz. Ou, em outras
palavras, sentir que pode estar presente no que diz.
Talvez por isso, o que ocorre a Lord Chandos não é
que não entenda as palavras ou as ideias (seu problema não
é, de modo algum, o da compreensão), e sim que não pode
situá-las em relação a si mesmo:
Compreendia bem os conceitos: via alçar-se dian
te de mim suas combinações maravilhosas como
majestosos mananciais que jogam com bolas de ouro.
Podia lhes dar a volta e ver como jogavam entre si;
mas estavam relacionadas apenas umas às outras, e o
mais profundo, o pessoal de meu pensamento, ficava
90
Ferido de realidade e em busco de realidade
excluído de seu círculo. Sobreveio-me entre elas um
sentimento de espantosa solidãoY
Lord Chandos compreende a linguagem, compreende
o pensamento, é capaz, inclusive, de admirá-lo, mas o sente
alheio, como um jogo elegante, vazio e autocontido, como
se não tivessem relação com ele, com o que há nele de mais
profundo e de mais pessoal E então se sente só. Separa-se desse
mundo normalizado do social, do coletivo, do habitual e do
acostumado no qual se pode falar e pensar automaticamente, ou
seja, no qual se pode falar sem língua e pensar sem pensamento.
O normal e o patológico
A enfermidade de Lord Chandos se deriva daí: de que
ainda tem língua com a qual tocar e saborear as palavras antes
de dizê-las (e por isso elas se decompõem em sua boca como
fungos apodrecidos), de que ainda pensa no que diz e trata de
estar presente nisso (e por isso, as ideias se interrompem, se
quebram e se desordenam nele, antes que consiga terminar
de formulá-las) e de que já abandonou, irremediavelmente,
qualquer forma de comunidade (e por isso ficou excluído
do círculo). Os aparentemente sãos, portanto, os normais e
normalizados, serão deslinguados, os que não param para
pensar, os que falam e pensam automaticamente, gregaria
mente, os homens e as mulheres do rebanho, os que não
podem viver senão no asilo das corporações, dos agrupa
mentos, das instituições, dos coletivos.
Textos transpassados por outros textos
Há uma curiosa versão contemporânea da enfermidade
de Lord Chandos.28 Seu protagonista é Simon, um psicólogo
27VON HOFMANNSTHAL, 2008, p. 128.
28EMMANUEL, F. La cutstión lumrana. Madrid: Losada, 2002. Levado ao
cinema em 2007, com o mesmo título, por Nicholas Klotz, com roteiro de
Elisabeth Perceval.
9 1
ColeçAo .EOUCAcAo: Exi'€RiENc1A E SEN1100.
do departamento de recursos humanos na sede francesa de
uma multinacional alemã. Suas tarefas são a motivação dos
empregados e a seleção de pessoal ou,em outras palavras, o
ajuste ótimo entre os trabalhadores e a produção. Um dos altos
executivos da empresa o encarrega de uma pesquisa de caráter
profissional sobre a "saúde mental" do diretor-geral, um tal de
Mathias Jüst. A partir dai Simon irá averiguando coisas sobre
a relação que os alto executivos tiveram com o nazismo (todos
eles viram ou ouviram contar algo que, de alguma maneira,
implicava seus pais com o maquinário da morte) e sobretudo
será testemunha e vítima de uma enfermidade da linguagem
que solapa a segurança, as certezas e a estabilidade intelectual
e emocional de todos os que são contagiados por ela.
As manifestações da enfermidade consistem em uma
sensibilidade aguçada em relação ao modo como a linguagem
técnica da empresa está contaminada pela linguagem técnica
do nazismo ou, mais precisamente, com o modo como a
própria definição dos "problemas" e das "soluções" que têm
a ver com a otimização da produtividade da empresa (a forma
de conjugar o fator humano com as necessidades econômicas)
exige o uso de um vocabulário e de uma gramática tomados
do tratamento nazi do "problema judeu" e da "solução final".
Existe, primeiro, um informe técnico sobre as cifras
de produção, dados de pessoal e projetos de futuro em que
faltam algumas palavras. Como se seu redator, Matias Jüst,
houvesse lutado contra a emergência de uma série de termos
técnicos dos quais só ele percebia a origem, e isso tivesse
dado como resultado um texto perfurado, transpassado, cheio
de espaços em branco deixados pela ausência das palavras
impronunciadas ou impronunciáveis.
Além do mais, há cinco cartas anônimas encontradas na
caixa forte do senhor Jüst. A primeira delas é um fac-símile
de uma nota técnica sobre o funcionamento e as possíveis
modificações dos caminhões especiais desenhados para ma
tar os j udeus durante o transporte, utilizando dióxido de
92
Ferido de realidade e em busca de realidade
carbono produzido pelo motor do caminhão. Na segunda
delas o documento anterior está sobreimpresso em uma série
de fragmentos cortados e desordenados de notas técnicas da
empresa. Na terceira carta, os dois textos anteriores têm o
mesmo valor tipográfico e estão estranhamente mesclados
produzindo um texto absurdo mas gramaticalmente correto.
Quando Simon isola as passagens intrusas, percebe que não
pertencem à linguagem tecnológica da engenharia, e sim
àquela que se emprega nos serviços de pessoal e de orga
nismos diretivos da empresa. Na quarta, alguns fragmentos
do texto inicial estão colocados em uma partitura musical,
concretamente a do segundo movimento de um quarteto de
cordas de César Frank. A quinta e última carta contém um
texto apagado, exceto algumas palavras como instruções,
segurança, funcionamento, limpeza, observação, avaliação,
etc. e a seguinte anotação introduzida à mão: "Não ouvir.
Não ver. Lavar infinitamente a sujeira humana. Pronunciar
palavras limpas. Que não manchem. Expulsão. Reestrutu
ração. Reinstalação. Reconversão. Deslocalização. Seleção.
Evacuação. Despedida técnica. Solução definitiva. A máquina
de morte está em 1narcha".29
Por último, há duas cartas enviadas a Simon. A pri
meira está construída com frases extraídas de um manual de
psicologia laboral, mas cujos termos técnicos, em sua nova
organização, revelam outra procedência muito mais maligna.
Na segunda, esse primeiro texto aparece como invadido e
devorado por fragmentos tomados de um programa nazista
de erradicação de doentes mentais.
Ao longo do relato, a enfermidade do senhor Jüst, essa
enfermidade produzida pela sensibilidade à contaminação
nazista da linguagem (ao modo como essa língua apodre
cida pela violência e pelo assassinato atravessa as formas de
racionalidade da biopolítica contemporânea, a linguagem
29EMMANUEL, 2002, p. 68.
93
Cooc.i.o •EDUCA(:).o: EmRI!NaA E 5a<noo•
da gestão racional dos indivíduos e das populações no
capitalismo pós-industrial) da qual pouco a pouco Simon
vai se contagiando. E isso até fazê-lo duvidar das palavras
que antes lhe eram familiares e que usava sem problemas,
de sua escolha profissional e, em geral, no sentido de seu
trabalho. Simon se percebe incapaz de terminar um dossiê
rotineiro de seleção, já não suporta os seminários com os
empregados, perde a capacidade de intervir com natu
ralidade nas discussões. E isso, como em Lord Chandos,
acompanhado de uma turbação, um mal-estar e uma an
gústia físicas, corporais.
Como diz Arie Neuman no monólogo final do filme,
a linguagem é o método mais eficaz de propaganda porque
se introduz em nossa carne e em nosso sangue. E assim
funciona a linguagem dos especialistas, decompondo o real
em temas, convertendo-o em uma série de problemas téc
nicos, de fórmulas fragmentadas e neutras, de maneira que
se possam obter soluções eficientes. E assim vai se formando
uma linguagem feita de "palavras vazias de significado, uma
linguagem neutra, neutral, invadida por palavras técnicas que
gradualmente absorvem sua humanidade". E isso é precisa
mente o que, em sua progressiva inquietação, vai aprendendo
Simon. Pouco a pouco, sua língua se torna capaz de sentir
o cheiro da violência e do assassinato que tem a linguagem
que, antes, manejava com total naturalidade. Pouco a pouco
se vê obrigado a pensar no que diz, em cada palavra, em cada
frase, e isso faz com que perca a fluidez, que não seja capaz
de terminar seus relatórios, seus argumentos, suas teses, que
já não sinta suas ideias tão seguras e asseguradas como as
sentia antes. Além disso, na medida em que a enfermidade
avança, Simon vai se sentindo cada vez mais só.
Mas não só a linguagem está contaminada. O horror
nazista contamina também as artes. A mesma música está man
chada, e a sala de concertos não pode manter fechada a porta
atrás da qual a máquina da morte funciona a pleno vapor. Por
94
Ferido de realidade e em busco de realidade
isso Jüst, que havia sido um violinista aficionado e obsessivo,
não só não suporta a linguagem da racionalidade empresarial,
como também se tornou incapaz de suportar a música.
Uma vez que a enfermidade ataca a linguagem, e esta
perde sua antiga segurança, já não se pode continuar falando
com o automatismo do hábito e do costume, uma vez qu_e as
palavras limpas e neutras deixam de sê-Jo e se decompõem
em sua boca como fungos apodrecidos, nada pode nos manter
a salvo. E a sociedade se apodera delas.
O pai de Mathias Jüst infligia a seu filho uma só palavra,
Arbeit, que significa trabalho, mas também função, atividade,
dever. Porém, quando as palavras ligadas à função deixam de
protegê-la, aparece outra palavra, Schmutz, que significa sujei
ra, mancha, imundície, mas também merda, como a merda a
cuja rápida, cômoda e eficaz limpeza se refere a epígrafe 4 do
relatório sobre os caminhões. Jüst não pode se manter distante
da merda, desse resto humano do assassinato. Do mesmo modo
que Simon tampouco pode se manter a salvo desses sonhos
nos quais alguém abre a porta da sala de concertos e aí, fora
dela, aparece o montão de cadáveres emaranhados, mesclados
com essas palavras neutralizadas e esvaziadas de humanidade
que os tornaram possíveis. E, ao final, tanto Jüst como Simon
ficam isolados, separados do círculo, em uma espantosa solidão.
Jüst internado em um sanatório psiquiátrico, e Simon, como
ele mesmo diz, "nas margens do mundo", trabalhando em um
estabelecimento para meninos autistas.
Problemas e soluções
As artes modernas do Governo e da Administração
fabricam o real a partir do par problema/solução. Cons
troem o social como o lugar dos problemas e o político
como o lugar das soluções. E assim distribuem os papéis
entre a sociedade e a política. Qualquer coisa que acon
tece na sociedade deve ser convertida em problema que
95
Couç;.o ·�: EXPERttNa.t. E SENroo.
os políticos têm que resolver, com a ajuda, naturalmente,
dos experts e dos funcionários. A obrigação mais calorosa
dos políticos, dos experts edos funcionários é, sem dúvida,
resolver os problemas que a sociedade lhes delineia. Basta
abrir os jornais para encontrar essa linguagem: o problema
das jubilações, o problema do desemprego, o problema
da insegurança, o problema da emigração, o problema da
infância em perigo social, e a lista é infinita. O exemplo
paradigmático de uma gestão racional do social é, certa
mente, o que aconteceu entre a delimitação do "problema
judeu" e o desenho e a aplicação da "solução final". O pior
é que é impossível sustentar esse esquema falaz e perverso.
Não passamos a vida assinalando problemas e pedindo
soluções. Não nos damos conta de que, muitas vezes, nós
mesmos somos o problema. E aí estamos: completamente
capturados. E esta nossa civilização é desprezível, cara. E
esta nossa civilização é uma merda, cara.30
Dicionário do limbo31
Academia. Originalmente, um bosquezinho no qual os
filósofos tratavam de entender a vida. Hoje em dia, uma es
cola onde alguns imbecis passam a vida tratando de entender
os ftlósofos. A classe mais degradada desses imbecis já não
lê os filósofos e sequer trata de entender nada. São os novos
amos, trabalham para o governo e chamam a si mesmos de
experts e investigadores.
Cfnico. Sem-vergonha cuja visão defeituosa o faz ver as
coisas como são e não como as pintam. Por isso, antes de se
dedicar à investigação ou ao ensino é conveniente arrancar
lhes os olhos.
lOEJaborado no limbo a partir de MILNER,]. C. Las indinaciones criminales de
la Europa democrárica. Buenos Aires: Manantial, 2007.
"Elaborado a partir do Dicionário do diabo, de Ambrose Bierce.
96
Ferido de reolidode e em busco de realidade
Conhecimento. Tipo de ignorância de que as raças civi
lizadas e altamente escolarizadas gostam. Em nossa época
tecnológica e mercantilizada, a esse tipo de ignorância se dá
o nome específico de informação.
Erudição. Nas épocas remotas em que ainda se lia, a
erudição era um pó fino e pegajoso que se levantava dos
livros e que os professores introduziam nos crânios ocos
dos estudantes. Agora que não se lê, chamamos a esse pó
viscoso de informação. Seus produtores máximos, como
vocês sabem, são os experts e os pesquisadores.
Fadiga. Estado de alunos e professores depois de haverem
feito todos os deveres. A fadiga se converte em mau humor
quando, graças às refonnas educativas locais, autónomas, nacio
nais e internacionais, cresce o volume, a inutilidade e a estupidez
dos referidos deveres. Por isso a fadiga se estende, oceânica,
desde o jardim da infància até a pós-graduação e mais além.
Fé. Crença em que os políticos, os experts, os poli
ciais, os professores, os jornalistas, os pesquisadores e os
funcionários estão aí para melhorar nossas vidas Por isso se
diz que a fé é cega.
Filisteu. Indivíduo que segue a moda no pensamento,
na linguagem, nas emoções e nos sentimentos. Costuma ser
próspero, limpo, exibido, educado e quase sempre solene.
Costuma fazer carreira como jornalista, como político, como
expert, professor ou como funcionário.
A força do real
Porém h á algo mais nessa estranha anomalia de Lord
Chandos, uma consequência talvez inevitável de seu afasta
mento radical da linguagem dos deslinguados: uma extrema
sensibilidade às manifestações da vida. Qualquer coisa que
passaria normalmente ignorada e despercebida, que apenas
chamaria a atenção, se apresenta a ele com uma força terrível.
Um cachorro ao sol, um ancinho esquecido podem ser origem
97
COLEÇ}.o ·e�: Em•� , SENnoo.
de uma revelação. Uns ratos que morrem envenenados na
adega de sua casa penetram em seu espírito com tal intensi
dade que sente, não só piedade e compaixão, sentimentos que
ainda o manteriam em uma relação de exterioridade com elas,
mas sim uma verdadeira participação em sua agonia e em sua
morte. Um escaravelho em um regador lhe causa os maiores
estremecimentos. Não só os animais mais insignificantes,
como também as coisas mais ordinárias "se elevam até mim
com uma plenitude tal, com uma presença de amor tal, que
meus olhos ditosos são incapazes de detectar nenhum ponto
morto ao meu redor [ ... ] e não há nenhuma só entre as maté
rias que o compõe na qual não seja capaz de me transvasar".32
Tudo está vivo para Lord Chandos e, ainda mais, em
tudo se sente partícipe, como se pudesse identificar sua pró
pria vida com a vida de tudo o que existe, como se tudo
pudesse entrar nele e ele mesmo pudesse entrar em tudo,
confundir-se com tudo. Como se, ao abandonar essa lin
guagem que coisifica e separa, essa linguagem que nos faz
sujeitos na medida em que converte em objetos a tudo o
que nos rodeia, essa linguagem que só nos permite ser nós
mesmos ao preço de nos arrancar do mundo, Lord Chandos
tivesse perdido essa distância que protege e assegura, essa
distância que nos dá um lugar confortável, um lugar onde o
real foi, por fim, dominado e domesticado, mas ao preço da
indiferença, de que nada nos toque. E o que ocorre a Lord
Chandos é que o real o ataca, e aborda, e alcança, e penetra.
E não pode dominá-lo de tão presente, de tão vivo. E nada
pode protegê-lo do êxtase, da queda fora de si. As palavras
não lhe dizem nada, não penetram em seu interior, se man
têm alheias, mas a terrível presença do real lhe fala com uma
linguagem que não é uma linguagem e que lhe penetra e lhe
coloca em contato com a vida até dissolvê-lo nela.
"VON HOFMANNSTHAL, 2008, p. 131-132.
98
Ferido de realidade e em busco de realidade
Experiência
Fazer uma experiência com algo - seja uma coi
sa, um ser humano, um deus - significa que algo
nos acontece, nos alcança; que se apodera de nós,
que nos derruba e nos transforma. Quando fala
mos de "fazer" uma experiência, isto não significa
exatamente que nós a façamos acontecer, "fazer"
significa aqui: sofrer, padecer, agarrar o que nos
alcança receptivamente, aceitar, na medida em que
nos submetemos a issoY
Cair no rio
J. M. Coetzee termina um de seus romances com ou
tra carta, a que Lady Elizabeth, esposa de Lord Chandos,
escreve a Francis Bacon umas semanas depois da de seu
marido. Nessa carta, a podridão da linguagem e o êxtase
da vida são contados com outra alegoria: num moinho em
desuso, as palavras são como as tábuas sob as quais passa
a água, as que permitem nos mantermos em outro nível,
seguro e garantido, enquanto o rio ruge e se encrespa sob
nossos pés. Mas quando as tábuas apodrecem, se destroem
e desmoronam, caímos irremediavelmente no abismo onde
nos mesclamos com mil outras criaturas em uma corrente
indiferenciada, móvel e caótica na qual estamos a ponto de
nos afogarmos. Lady Chandos, contagiada pelo infortúnio
de seu esposo, se pergunta como fazer para "viver com ratos
e cachorros e escaravelhos correndo por minha pele dia e
noite, afogando-me e arfando, arranhando-me, tirando de
mim, pressionando-me cada vez mais . . . ". 34
33HEIDEGGER, M. La esencia dei habla. ln: De cami11ilo a/ ilabla. Barcelona:
Serbal, 1987, p. 143.
3'COTZEE, J. M. Carta de Elizabeth, Lady Chandos a Francis Bacon. Epí
logo a Elizabetil Costeio. Barcelona: Debolsillo, 2005, p. 233.
99
ÚliEÇ.iO "EoucAç.i.o: ExJ>MNOA E 5ENnoo"
Talvez seja também isso, que existe uma linguagem que
é feita para que não caiamos, para que nos mantenhamos
afastados, para que possamos permanecer tranquilamente
em um lugar a salvo, no qual.
os ratos e os cachorros e os
escaravelhos, e a morte e a desolação e a falta de sentido não
nos toquem, não nos derrubem, não ponham em perigo
nossas pequenas certezas, nossas míseras seguranças, nossos
esquemas medíocres, esses que nos dão a vida ordenada,
classificada, simplificada, desativada, desvitalizada, dissecada
e, no fundo, inofensiva.
Por isso a enfermidade de Lord Chandos supõe também
que o que poderíamos chamar de "ex-posição", outro nome
para a experiência, para o sujeito da experiência. A falência
da linguagem implica para ele a falência de qualquer posição
na qual poderia se manter a salvo,na qual poderia falar e
pensar sem perigo, a partir da qual poderia se opor ou se
impor a uma realidade distinta. E ao perder essa posição, ao
perder o pé, o real o afeta de uma forma terrível, se converte
em uma inevitável doença.
Colado à linguagem
Além disso, na carta, Elizabeth constantemente co
loca entre aspas o que acaba de dizer porque supõe que a
linguagem com a qual ela, em sua carta, como também
seu marido na dele, tentam explicar a Francis Bacon sobre
sua anomalia e sobre sua desventura, é uma linguagem
inevitavelmente alegórica, uma linguagem que lhes faz
dizer sempre uma coisa em lugar de outra: "As palavras se
desmoronam sob os pés de uma pessoa como tábuas podres
('como tábuas podres', digo outra vez, não posso evitar,
não sei se quero fazê-lo entender minha preocupação e
a de meu marido: digo 'fazê-lo entender', mas o que é
100
Ferido de realidade e em busca de realidade
entender, o que quer dizer?".35 Porque Lady Chandos sabe
muito bem que a experiência, a experiência real e viva,
isso que José Luís Pardo chamou de "intimidade", sempre
é outra coisa, sempre está em outro lugar, sempre é algo
diferente do que dizemos ou do que somos capazes de dizer,
é, de alguma maneira, intraduzível à linguagem. Mas isso
não significa que não a digamos, que não está, de alguma
maneira, na linguagem. O que acontece é que a intimi
dade (a maneira singular como Elizabeth vive ou sente ou
experimenta essa particular estranheza que é ela própria)
não está no explícito ou no informativo da linguagem (aí
sempre é outra coisa), embora isso não signifique que seja
indescritível ou incomunicável.
A linguagem, como disse Pardo, comunica a intimi
dade em
[ . . . ] uma conversação na qual o importante não é o
que se diz (ou o que se faz ao dizer) e sim o que se
quer dizer, não o poder das palavras e sim sua impo
tência. Que isso não seja informação (nem possa sê-lo)
não significa que não seja linguagem; ao contrário,
isso que não se pode - e sim que se quer - dizer
é precisamente o que se comunica implicitamente
quando se fala [ .. .]. A conversação íntima é aquela na
qual alguém participa não para se informar de algo
que outro sabe ou para fazer algo a outro, e sim para
ouvir como soa o que outro diz, para escutar mais
a música do que a letra, para saborear sua língua. 36
Por isso a experiência de Lord Chandos (essa à qual
deveríamos prestar atenção) não está no que diz, e sim está
"COTZEE, 2005, p. 232.
"PARDO, 1996, p. 117-118.
101
Cruç.lo "EwcAç.i.o: ExPBotNcJA E S&lmo"
como que costurada ou colada ao que diz, como esse segre
do que o discurso transmite em seus silêncios (não se trata
de compreender o que diz e sim o que cala no que diz) e
em suas alusões (aquilo ao qual enfatiza no que diz). Por
isso, "cada palavra dita sempre quer dizer mais do que diz
e nunca pode dizer tudo o que queria".37 Porém, nisso está
justamente sua força.
Daí que o importante não seja procurar averiguar o
que há por trás das palavras de Lord Chandos (que é o que
significam, a que se referem, a que tipo de enfermidade ou
de experiência remetem, que estão nos dizendo ou de que
nos estão informando), mas sim que há adiante, até onde se
dirigem, de que maneira podem encarnar em nós (que somos
carne de palavras, também de palavras apodrecidas), o que é
que podem mover ou mobilizar ou incitar ou suscitar em nós.
Mais dicionári0'8
Impostura. Profissão dos políticos, ciência dos experts,
opinião dos jornal is tas e religião dos pregadores.
Independente. Pessoa com algum resto de amor próprio.
Na política, na religião e na universidade, que são ativida
des corporativas e gregárias, esse é um termo claramente
depreciativo.
Lacaio. Em sentido estrito, criado com libré. Aplicar
essa palavra a políticos, jornalistas, experts, universitários
e funcionários é um insulto que os honrados serventes
não merecem.
Leitura. Conjunto do que se lê. Como na escola e na
universidade, em vez de ler, se busca a informação, a leitura
37PARDO, 1996, p. 122.
38Ver nota 31.
102
Ferido de realidode e em busco de reolidode
ascendeu para a categoria de inútil, passou à clandestinidade,
e desde logo só se pratica no limbo e seus limites.
Monólogo. Atividade de uma língua que carece de ou
vidos. Como a dos jornalistas, dos políticos, dos experts e
dos funcionários. Ultimamente, também foram detectadas
muitas línguas sem ouvidos entre as autoridades acadêmicas
das universidades catalãs.
Néscio. Pessoa que invade todos os domínios de todas as
atividades intelectuais e morais. É oniforme, oniperceptivo,
onisciente e onipotente. Já era visto nos alvores da criação,
mas desde então não deixou de se divertir. Seus represen
tantes mais notáveis no mundo de hoje são os políticos, os
jornalistas, os funcionários e os experts. O pior é que quando
todos tenhamos nos recolhido na noite do esquecimento,
ele tomará corpo e escreverá a história da humanidade. E a
escreverá à sua imagem e semelhança.
Passado. Mínima fração de uma parte da eternidade da
qual temos um escasso conhecimento, embora acreditemos
que o compreendemos todo. Uma linha em movimento per
pétuo chamada Presente o separa de um período imaginário
chamado Futuro. Em geral, o Passado está obscurecido pela
desilusão e pela dor enquanto o Futuro reluz com as cores da
felicidade e da alegria. Chama-se de progresso essa maneira
estúpida de pintar o tempo e, na atualidade, é uma merca
doria de baixo custo que nos vendem os políticos, os experts,
os jornalistas e os funcionários para justificar sua posição no
mundo. Porque eles, não esqueçam, são os senhores.
Afinar o ouvido
A enfermidade de Lord Chandos é exemplar porque
nos ajuda a sentir (com nossa língua) as misérias do presente,
as formas com que neste nosso mundo se procura assegurar
103
CoocÃO ·�: Elc.omENaA E SENooo•
uma saúde feita de estupidez e indiferença. Falarei sobre
isso muito brevemente. Trata-se, em primeiro lugar, de
todos os dispositivos que nos fazem falar e ler e escrever em
uma linguagem de ninguém e que a ninguém se dirige: na
língua dos deslinguados, na língua neutra e neutralizada
dos que não têm língua, nessa língua na qual é melhor não
estar presente no que se diz, no que se lê, no que se escreve,
em uma língua reduzida à informação e à comunicação.
Trata-se, em segundo lugar, de todos os dispositivos que
fazem com que seja impossível parar para pensar no que se
diz, ou no que se lê, ou no que se escreve: os que nos dão
uma língua sem atenção, sem detenção, sem pensamento,
uma língua própria, não de indivíduos e sim de grupos, de
coletivos, de instituições, de corporações, de todos esses
lugares nos quais só se pode falar como está determinado, a
língua dos políticos, dos experts, dos jornalistas, dos funcio
nários, a língua da opinião, do saber e do poder. E trata-se,
em terceiro lugar, de todos os dispositivos que constroem e
mantêm os lugares e as posições bem seguros e separados, os
que tornam impossível a exposição, os que fazem com que
nada nos afete, com que nada nos aconteça. É essa língua a
que nos dá nojo. Mas não para apelar a uma renovação, e
sim para nos manter em suspenso, para tratar de manter o
ouvido apurado em uma época, como todas, de indigência.
A inquietude e o desassossego
O desassossego é uma enfermidade da identidade que
tem a ver com a alma e com a relação que temos com o
tempo. A inquietude, contudo, começa no cérebro e mina
nossa relação com o espaço, destruindo sua familiaridade e
suas certezas, e convertendo-o em asfixiante. Os místicos
e os poetas cultivam o desassossego. Mas a inquietude per-
104
Ferido de realidade e em busco de realidade
tence sobretudo às crianças e aos viajantes. Um dos sintomas
da inquietude poderia se chamar de: nostalgia dos espaços
abertos. Quando isso ocorre, a pergunta essencial não é a
inofensiva e narcisista "quem sou?", e sim a perturbadora e
perigosa "o que faço aqui?"Por isso aqui, no limbo, o prin
cipal não é interrogar o que somos, e sim onde estamos. E
isso para partir imediatamente.39
Respirar
No Primer Manifiesto Surrealista, o de 1924, André Bre
ton escreve o seguinte: "a experiência está confinada em
uma jaula, em cujo interior dá voltas e voltas sobre si mesma,
e da qual cada vez é mais dificil fazê-la sair . . . ".40 A suspei
ta, naturalmente, é que nossa experiência do educativo só
nos acontece mediada ou enquadrada ou enjaulada pelas
operações de categorização, de tematização, de ordenação,
de desierarquização, de abstração, etc., que constituem as
lógicas de nossos saberes e de nossas práticas. Porém há
algo, seja isso o que for, que está fora da jaula e não po
demos senti-lo, ou dizê-lo, ou pensá-lo, a partir de uma
experiência enjaulada. Talvez sejamos nós mesmos os que
estamos enjaulados junto com nossa experiência, e damos
voltas e mais voltas sobre nós mesmos, sem nenhum outro,
sem nenhum exterior, sem nenhum acontecimento, sem
nenhuma surpresa, sem nada distinto a nós mesmos (ou a
nossas projeções, ou a nossos desejos, ou ao que já sabemos,
ao que já pensamos, ao que já queremos . . . ) que nos atinja,
39Elaborado para o limbo a partir de uma das ideias de Bruce CHATWIN ex
traída do livro de entrevistas com Antonio GNOLI, La nostalgia de/ tspacio.
Barcelona, Seix Barrai, 2002.
40BRETON, A. Mani.fiestos de/ surrealismo. Madrid: Guadarrama, 1969, p. 25.
105
Cruç.i.o "EDUCAÇÃO: Exi>ERJENaA E SENroo"
ou que nos aconteça, ou que nos enfrente. E talvez nossa
vontade de viver tenha a ver às vezes com um desejo de
tirar a experiência da jaula, de fazê-la sair, de abri-la para
o lado de fora, com um desejo de sairmos nós mesmos da
jaula. A pergunta é agora "como sair daqui?" Trata-se de
liberar a experiência, de fazê-la sair da jaula, de conseguir
uma forma de liberdade, em suma, que tem a ver com o
exterior, com o aberto: com o real que sempre é mais e outra
coisa, que o outro sempre dá. Elías Canetti escreve isso da
seguinte maneira: "A palavra liberdade serve para expressar
uma tensão muito importante, talvez a mais importante de
todas. Alguém quer sempre partir, e quando o lugar aonde
quer ir não tem nome, quando é indeterminado e não se
vê nas fronteiras, o chamamos de liberdade". E alguém
quer partir porque se asfixia, porque o lugar em que está se
torna irrespirável para ele. Por isso, Canetti acrescenta que
"a origem da liberdade está na respiração".41
A linguagem e a realidade
Na enfermidade de Lord Chandos, o desmoronamento
da linguagem é correlativo à presença terrível e ameaçadora
da realidade, da vida, da realidade viva. Como se essa lin
guagem segura e assegurada que para nós já se converteu
em fórmula e em clichê tivesse como função nos separar
do real, da vida, e nos dar, em troca, uma realidade disse
cada, falsificada, inanimada e morta, reduzida também ela
à fórmula e ao clichê. Talvez por isso a palavra "realidade"
seja uma das palavras favoritas dessa rede de jornalistas,
políticos, experts e funcionários que se dedica a administrar
a vida dos indivíduos e das populações. Como se o real
" CANETTI, E. LA provi11da de/ !Jombre. Madrid: Taurus, 1982, p. 11-12.
106
Ferido de realidade e em busca de realidade
não fosse outra coisa que o objeto do saber e a presa do
poder dos dispositivos biopolíticos de governo, ou seja,
como se o real não fosse outra coisa que aquilo que deve
ser conhecido e governado, uma projeção de nosso saber,
de nosso poder e de nossa vontade. Porém, a realidade que
nos é apresentada na experiência não tem nada a ver com
isso, e deveríamos situar em outro lugar a relação entre
língua e realidade.
Há um aforismo de Peter Handke que diz assim: "A
transformação de faz necessária quando algo que era válido
como real deixa de ser real; se se consegue a transformação,
então outras coisas serão reais; se nenhuma outra coisa se
torna real, então a pessoa sucumbe"!2 E há um poema de
Olvido Garcia Valdés que diz o seguinte: "Às vezes me
acometem crises de irrealidade; não de identidade, e sim
de irrealidade; não quem sou, e sim se estou. Onde vive
mos? (O plural acolhe a muitos, mas sozinhos). Não onde
somos vistos, somos encontrados, e sim onde nos sentimos
viver"Y O importante, então, não é a natureza do real, ou
o conhecimento, ou a gestão, ou a transformação do real, e
sim o que significa que algo seja "válido como real". Porque
quando nada é válido como real, então é quando temos essa
sensação de irrealidade sobre a qual escreve Olvido, e não
só não sabemos onde vivemos como não sabemos sequer
se vivemos uma vez que não "nos sentimos viver", e então
"sucumbimos", ainda que continuemos caminhando sobre
nossas pernas, tão tranquilos. Por isso o real está relacionado
com a vida. E o sentimento de irrealidade, esse que faz com
que a pessoa sucumba ou não se sinta viver quando já nada
"HANDKE, P. Fautas(as de la repeticiórt. Santa Cruz de Tenerife: Prames,
2000, p. 50.
"GARCÍA VALDÉS, O. Esa poli/la que de/ame de mi revolotea. Poesia Reu11ida.
Barcelona: Galaxia Gutemberg, 2008, p. 433-434 .
.
107
Cafç.l.o "EDuc:A<;.iD: Exl'eRIENc:IA E S&nlxl"
"se torna real", está muito ligado ao sentimento de certa
desvitalização da vida, a esse sentimento que nos faz dizer
que esta vida não é vida, ou que a vida está em outra parte.
Se isso nos acontece não é porque não estamos vivos, mas
sim porque vivemos uma vida desvitalizada, uma vida à qual
falta vida. E o que buscamos é algo assim como a vida da
vida, uma vida que esteja cheia de vida. Se falamos, então, de
que necessitamos que algo seja válido como real, isso tem a
ver com a suspeita de que falta algo ao que nos é dado como
real. Como se o que nos dizem que é, o que nos dizem que
existe, o que nos dizem que acontece, fosse uma espécie de
realidade sem realidade, uma realidade, poderíamos dizer,
des-realizada, como se estivesse inclinada a perder. E bus
camos então algo assim como a realidade da realidade, esse
ingrediente, ou essa dimensão, que faz com que algo ou
alguém seja válido como real, que nos dê certa sensação de
realidade. Por isso, do mesmo modo que reclamamos que
a vida esteja viva, reclamamos também que a realidade seja
real, quer dizer, que tenha a legitimidade, a força, a presença,
a intensidade e o brilho do real.
Muros
Dado que o solo é horizontal, e que a moral do traba
lho atualmente imperante nos obriga a adotar, muito mais
do que gostaríamos, posições verticais, entender-se-á que a
situação do ser humano no mundo não é demasiado cômoda.
Por isso, precisamos dos muros, para que nos ajudem a nos
mantermos erguidos. Quando os muros se fecham sobre
si mesmos, se convertem em guetos e cárceres de diversas
espécies como as fábricas, as escolas, os manicômios, os
hospitais, os condomínios geminados e os diversos tipos de
escritórios. Quando sua altura é excessiva, tornam-se frontei-
108
Ferido de realidade e em busco de realidade
ras, obstáculos e barreiras. São muros a metafisica, a ciência,
a moral, a política, a religião, a arte e as formas consensuais
da linguagem. Em geral, nos impedem de ver o outro lado,
transpassar o âmbito do conhecido e aprender outras formas
de viver, de pensar e de nos relacionarmos. E, o que é pior,
nos fazem esquecer que alguma vez os construímos.44
Desejo de realidade
Podemos dizer que a pedagogia é esse conjunto de dis
cursos mais ou menos especializados que serve para nomear
o que há, o que acontece ou o que nos acontece em uma
série de ambientes vitais ou existenciais determinados, os que
têm a ver com a educação. E prestem atenção em que digo
"vitais" e não simplesmente "profissionais". O que acontece
é que esses discursos (talvez precisamente porque são profis
sionais e não vitais ou existenciais) raramente surpreendem,
ou comovem, ou golpeiam com o que antes se chamava "a
legitimidade, a força, a presença, a intensidadeou o brilho
do real". Algo que de fato acontece, às vezes, com a lite
ratura, as artes, o cinema ou a filosofia. Ou ao menos com
certa literatura, com certas artes, com certo cinema e com
certa filosofia. Como se o escritor, o artista. o cineasta ou
o filósofo é que fossem sim, às vezes, capazes dessa relação
com o real na qual o real está cheio de realidade. E talvez isso
ocorra, precisamente, porque nem o escritor, nem o artista,
nem o cineasta, nem o filósofo estão preocupados por isso
que nos discursos pedagógicos se chama de "conhecimento
do real" ou "diagnóstico do real" (ou, ao menos, não por
um conhecimento do mesmo tipo, não por esse tipo de
"Elaborado para o limbo a panir do prólogo do livro de MAILLARD, C.
Colllra e/ arte y otras imposturas. Valencia: Pre-Textos, 2008.
109
ÚllEÇÃO •EDUCAÇÃO: EXPE�!NOA E SENTIDO•
conhecimento, o da investigação, que talvez pudéssemos
chamar, provisoriamente, de conhecimento objetivante, ou
conhecimento crítico), nem estão preocupados, tampouco,
por isso que na pedagogia se chama de "transformação do
real" (ou, ao menos, não por uma transformação de tipo
técnico ou, inclusive, de tipo prático). E se o que eu estou
chamando de pedagogia (em uma generalização abusiva e
sem dúvida brutal) não é capaz de nos dar coisas que sejam
válidas como reais e, inclusive, contribui para a desreali
zação do real e a correlativa desvitalização da vida, talvez
fosse preciso começar a problematizar a sério nossas formas
de olhar, de dizer e de pensar o educativo, nossas formas,
definitivamente, de habitar esses espaços (não só de estar
neles). E nos colocarmos no caminho de olhar de outro
modo (e talvez possamos aprender do cinema, e de outras
artes do olhar), de dizer de outro modo (aprendendo, talvez,
da literatura, arte da palavra), e de pensar de outro modo
(aprendendo aqui da filosofia, arte do pensamento). Para que
esse modo de olhar, de dizer e de pensar nos faça encontrar
talvez uma realidade que mereça esse nome e na qual nos
sintamos viver.
A desrealização do real
O real não é coisa, e sim acontecimento. A coisificação
e a objetivação destroem o real, o põem a perder. Por isso
o sujeito da experiência não é um sujeito objetivador ou
coisificador, e sim um sujeito aberto que se deixa afetar
por acontecimentos.
O real não é um tema ou um problema, mas sim uma
questão sempre aberta. Um tema exige um desenvolvimento,
um problema exige uma solução, mas uma questão exige, por
acaso, uma resposta. Por isso a tematização ou a problematiza-
110
ferido de reolidade e em busca de reolidade
ção também são mecanismos de devastação do real. E o sujeito
da experiência não é aquele que tematiza ou que problematiza,
e sim o que pergunta e sobretudo o que se pergunta.
O real não é representação ou identidade, e sim presen
ça. A representação e a identificação são essas operações de
desdobramento ou de duplicação pelas quais algo ou alguém
real e, portanto, singular, incompreensível, inidentificável e
irrepresentável se converte em uma espécie de duplo de si
mesmo enquanto é construído como representante de alguma
categoria genérica que não é senão a encarnação de um este
reótipo. Por isso os dispositivos de identificação desrealizam o
real. E por isso o sujeito da experiência não é aquele obcecado
pela vontade de identificar, uma vontade que sempre tem algo
de policial, mas o que trata de estar ele mesmo presente na
relação que estabelece com aquilo que se lhe apresenta
O real não é o que deveria ser, e sim o que é. Por isso
as intenções sobre o real (inclusive as melhores intenções)
o põem a perder enquanto o constroem à medida de nossa
vontade, de nossos objetivos, de nossos fins e, definitiva
mente, de nosso poder. O sujeito da experiência não julga.
Tampouco é aquele que se pergunta constantemente sobre
o que poderia fazer para que o real seja outra coisa diferente
do que é, para que seja, definitivamente, como ele gostaria
que fosse. Não é um sujeito intencional, nem um sujeito
jurídico, nem um sujeito crítico, e sim um sujeito atento.
Et cetera, et cetera, et cetera.
Desejo de linguagem
As linguagens da experiência tratam de fazer justiça à
realidade e à vida. Uma vez que dizem respeito à experiên
cia, estão feridas de realidade, feridas de vida. Mas também
querem constituir experiên<;ia. Por isso vão em busca da
1 1 1
ÇO!fÇAo "Eouc:A<;k>: � E 5ENIDo"
realidade e da vida. E isso não quer dizer, certamente, que
tenham de estar evidenciadas nas diferentes retóricas do
realismo nem que tenham de responder a pressupostos vi
talistas. O realismo, na escrita, está muito desprestigiado. E
os vitalismos, em filosofia, recordam vagamente a primeira
metade do século passado. Porém, ao mesmo tempo, só nos
interessam as escrituras que estão atingidas pela realidade,
e os pensamentos que estão relacionados com a vida. Com
esse algo que acontece ou que nos acontece, que não é sim
plesmente uma projeção de nós mesmos, que às vezes pesa,
e às vezes dói, e às vezes assombra e maravilha, e sempre
surpreende, e às vezes é incompreensível, e que eu gostaria,
ao menos aqui e agora, de continuar nomeando com essas
velhas e arruinadas palavras sem as quais a palavra "expe
riência" não tem sentido: a palavra "realidade" e a palavra
"vida". Porque só é real, "válido como real", o que está
vivo. E só nos sentimos viver se temos um "sentimento de
realidade", quer dizer, se estamos em conta to com algo que
mereça ser chamado de "real". Além disso, há muitos âmbi
tos e muitos tipos e muitas dimensões da realidade, todas as
que constituem nossa vida, todas as que nos tocam em um
ponto sensível: o que vemos, o que sentimos, o que existe,
o que inventamos, o que imaginamos, o que sonhamos,
o que já não está e de que sentimos falta, o que acontece
ou o que nos acontece. E é a isso que temos de ser fiéis no
modo como o dizemos, o nomeamos, o representamos ou,
em geral, o significamos. Trata-se, então, de problematizar
o modo como colocamos juntas as palavras e as coisas, a
linguagem e o mundo, o inteligível e o sensível, o sentido
e a experiência. Por isso nossa forma de nos situarmos na
relação ou no interstício entre o real e a linguagem é, li
teralmente, vital. Essa, e não outra, é a questão do relato e
do ensaio como linguagens da experiência. As demais são
112
Ferido de reolidode e em busca de reolidode
técnicas de escrita, ladainhas autojustificativas e banalidades
metodológicas.45
Vibrações
Nada restará de nossos corações. Cada uma de nossas
partículas retornará a seu elemento. Mas nossas palavras tra
çaram um rastro, vibraram no ar, tocara1n a outros. E o que
vibra segue seu caminho, incita, se recarrega, se multiplica,
cresce e continua. Transforma-se. Somente ouvido irá se
transformar. O destino da palavra é se desintegrar quando
chega a tocar o que é mais sólido do que ela: a carne. Ao
se desintegrar como se desintegra qualquer signo apenas
cumpre sua incumbência, isto é, ao mostrar aquilo a que se
dirige. Porém, de novo, a palavra, felizmente, é mais do que
um signo: é uma força viva que se desfaz quando alcança a
matéria que há de lhe dar nova fora. A palavra se encarna,
seu destino é encarnar-se.
A menina de Barcelona
A história se situa numa manhã de sábado de outono
na Plaza Virrey Amat de Barcelona. Havíamos deixado as
"Sobre o relato e o ensaio como linguagens da experiência pode-se ver os
textos incluídos em AAVV, Déjame que cueme. Ensayos y •�arrativas y educadón.
Barcelona: Laertes, 1995 (2' edição em Buenos Aires, 2009). Também os
trabalhos que há em Jorge LAR ROSA e Carlos SKLIAR (Eds.), Entre pe·
dagogía y literatura. Buenos Aires: Miiio y Dávila, 2005. E, por exemplo,
Jorge LARROSA, "El ensayo y la escritura acadêmica" em Propuesta Edu
cativa no 26. Buenos Aires, 2003. "La operación ensayo. Sobre el ensayar y
el ensayarse en el pensamiento, en la escritura y en la vida" em Educt1fào
e Realidade. v. 29. n.I. Porto Alegre (Brasil), 2004. "Aigunas notas sobre
la experiencia y sus lenguajes", em Raquel LAZZARI; Leite BARBOSA
(Ed.), Trajetórias e p erspectivas dafomração de educadores. São Paulo: Universi
dade Estadual de São Paulo, 2004.
113
(OUÇÃO "Elluc.Aç}.o: � E SeNnoo"
meninas na porta do ginásio poliesportivo (a partida de
basquete começaria uma hora mais tarde) e nós, o grupo de
pais, fomos tomar um café num terraço ensolarado. Depois
de um tempo, passou entre as mesas uma menina de cabelo
negro, liso e longuíssimo, olhar triste, uma saia preta que
ia até os pés e que tinha uns 12 anos de idade (a idade das
nossas). Estava pedindo esmola. O grupo ao qual eu pertencia
a ignorou completamente, creio que sequer a olhamos, e
começou uma estranha conversação. Que se devia chamar
a polícia; que é a família que a explora e esta menina, sem
dúvida, seria muito mais feliz em outro lugar, daqui a um
mês teria outro sorriso; que estão lhe roubando a infància
(porque infância é o que nossas meninas têm, é claro, as que
praticam esporte nos fins de semana, como tem que ser); que
se acostumam com a mendicidade, a viver dos outros e não
aprendem o que é o esforço e o trabalho (porque o esforço
e o trabalho, claro, é o de nossas meninas, as que de fato
aprendem a viver de si mesmas, a ser autônomas como se diz
agora); que sempre são as crianças que o pagam (mas pagam
o quê?); que menos mal que não havia nenhum motivo em
cima da mesa porque já se sabe (o que quererá dizer isso
de "já se sabe"? e, sobretudo "quem sabe?") que enquanto
alguém o distrai pedindo o outro lhe rouba o bolso ou o
telefone; que seria preciso fazer algo para que essas coisas não
acontecessem, etc., etc., etc. A conversação me lembrou o
filme De nens, de JoaquimJordá, aquele que ele fez sobre o
caso de pederastia do Raval. Nesse filme e, naturalmente,
em nome de uma infância a proteger, por amor às crian
ças, fa.ltaria mais, se empregam todos os aparatos policiais,
jurídicos, psicológicos, assistenciais e mediáticos, toda essa
bateria de experts que falam a partir da ignorância, ainda que,
sem dúvida, a partir de uma ignorância muito informada,
certamente sem que jamais lhes trema a voz, e tive a sensação
114
Fe<ido de realidade e em busco de realidade
de que nenhum de nós havia olhado para essa menina que
havia passado disfarçadamentejunto à nossa mesa, inclusive
de que ninguém havia passado por ali, que sua passagem
fugaz e quase imperceptível não havia sido outra coisa que
um pretexto para o desdobramento de nossas opiniões (de
nossos prejulgamentos, de nossa estupidez) sobre o que é
uma criança e o que seria preciso fazer com ela.
A menina de Londres
Um pouco mais tarde, quando todos se levantaram
para irem ver o jogo, decidi ficar um pouco mais para ver
se passava meu mau humor. Então abri o jornal e a primeira
coisa que vi foi uma coluninha de José Luis Pardo sobre um
livro recém-publicado que se chama "Lo que está mal em
el mundo". A coluna dizia assim:
Ao final do século XIX, a legislação higienista obri
gava às meninas pequenas - obviamente, só as pobres,
a rasparem o cabelo para lutar contra os piolhos que
habitavam nos subúrbios; parecia uma medida sábia, e
poucos notaram que o que estava mal eram os piolhos
e os subúrbios, não os cabelos, e que, portanto, eram
os primeiros, e não os segundos, o que era preciso
eliminar. Certamente, tampouco havia muitos que
dissessem publicameme que se o cabelo das meninas
dos subúrbios estava cheio de piolhos é porque vi
viam, como seus pais e mães, pisoteados no pó por
seus tiranos, e que o que seria preciso cortar era as
cabeças destes e não os cabelos dos servos, embora
este último fosse mais fácil. Entre os poucos que eram
de fato capazes de dizer todas essas coisas encontra-se
o autor destes ensaios, que em suas páginas de con
clusões ilustra sua posição tomando o partido dessa
moça andarilha
,
que passeia seus formosos cachos de
1 1 5
CO!Kk> 'Eouc:,t.ç-'o; � E SENnoo'
cabelos ante as ávidas tesouras dos higienistas: "a pe
quena menina de rua de cabelo loiro dourado, aquela
que acabo de ver passar junto à minha casa, não deve
ser tosquiada, nem aleijada, nem alterada; seu cabelo
não deve ser cortado como o de um convicto; todos
os reinos da terra devem ser destruídos e mutilados
para servirem a ela; ao seu redor, a trama social deve
oscilar, romper-se e cair, os pilares da sociedade va
cilarão e os telhados mais antigos desabarão, mas não
será estragado nenhum fio de cabelo de sua cabeça".
Chamava-se G. K. Chesterton e o mundo seria bas
tante pior sem seus livros.46
Aqui teríamos o segundo conto, ou uma segunda meni
na, um conto que se situa há mais de cem anos, em alguma
rua de Londres, talvez também alguma manhã ensolarada,
em que outra menina passa pela rua, mas em vez de cruzar
com um grupo de cidadãos exemplares, ou seja, de imbecis
perigosos, cruzou com um escritor.
A menina de São Paulo
As duas meninas ficaram bailando na minha cabeça e,
ao chegar em casa, procurei uma terceira menina, para que a
coisa não ficasse por demais dicotômica. De modo que procurei
um livro e encontrei o terceiro conto, aquele que acontece na
Avenida Paulista, em São Paulo (Brasil), desta vez na primavera,
em um entardecer de 1984. Outra menina atravessa a paisa
gem, passa pela rua, e a testemunha agora não é um grupo de
papais tão estúpidos quanto seguros de si mesmos, nem um
escritor talvez irritado com o mundo, mas sim um cineasta,
um desses que reinventou o realismo, ou melhor, desses que
•• PAR.DO, J. L. llabelia. ln: E/ Pais, 08jan. 2008.
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Ferido de reolidode e em busca de realidade
trabalham na confluência e na tensão entre os dois polos do
cinema: o cinema do real (o que entende o mundo como
uma realidade a desvelar através de algum tipo de epifania,
do surgimento inesperado de alguma espécie de verdade) e o
cinema da construção (o que entende o mundo não como um
real a revelar ou a descobrir mas sim como uma construção
labiríntica, vertiginosa, sempre com duplo ou triplo fundo, ou
sem fundo), mantendo sempre a tensão entre o documental e
a ficção, o real e o mental, o concreto e o abstrato, o material
e o ideal, o dado e o construído, o fisico e o metafisico.
O caso é que Abbas Kiarostami estava como jurado
de um festival de cinema, havia terminado o trabalho, não
tinha nada para fazer, desceu até a rua, e uma menina lhe
chamou a atenção:
Acendo um cigarro e, a dois metros de mim, vejo
uma menina que está revirando lixo. Seus seios estão
despontando. Usa calças verdes e saltos de três ou
quatro centímetros. A menina veste duas camisetas,
uma em cima da outra (a de baixo justa, branca, suja;
a de cima maior e ainda mais suja). No cabelo, muito
cacheado, tem uma piranha exatamente do mesmo
tom de verde das calças. Carrega uma bolsa de plás
tico. Seus gestos são delicados, deliberados. Ansioso,
sigo-a com o olhar. Anda muito bonito, sem pressa,
caminhando de um lixo a outro.47
O cineasta a segue a distância, a observa e, por razões
que ele mesmo não entende, fica obcecado por ela:
Ao princípio tudo era fácil. Podia desistir, me esque
cer. Mas agora estou demasiado implicado. Quero
47KIAR.OSTAMI, A. Sobre la mirada (Uma buena ciudadana). ln: MASS
CHELEIN, J.; SIMONS, M. (Eds.). Mmsages e-ducativos desde tierra de 11adie.
Barcelona: Laertes, 2008, p. 58.
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CruçAo 'EDUCAÇÃO: Exl'ERJENaA E SENlloo"
saber se a menina, finalmente, vai encontrar algo
para comer. Mas não, não é só isso. Não há nada
novo na fome humana. O problema da fome entre
os que não têm fome tampouco é novidade. Desde
o primeiro dia, nessa cidade, topei com um número
enorme de famintos pelas ruas. Um número muito
maior do que me haviam contado. Mas essa menina
em particular tem alguma coisa que me chamou a
atenção. Gosto do modo como se veste, de sua ma
neira de andar, sua idade e seus seios minúsculos.
Caminha com orgulho. Caminha deuma forma
diferente dos outros. Seu porte é superior ao dos ou
tros famintos [ .. .]. Sua expressão é digna e acalmada.
Sua pele, delicada e saudável. Seu rosto não reflete
pobreza, nem fome, nem desespero. Não parece
olhar nada, não parece dar-se conta de nada. Está
claro que ninguém a olha. Não há, na menina, nada
que de fato chame a atenção. Mas é impossível não
notá-la. Quem a vê dar vinte passos não pode ficar
indiferente. Eu a teria notado, inclusive mesmo que
tivesse metido as mãos no lixo. Parece uma princesa
dedicando a tarde a passear por um imenso jardim.
Caminha com um passo um pouco mais rápido do
que os que estão passeando, é verdade, porém como
alguém que quer perder peso. Mas não está nem
gorda nem magra. Suas formas estão perfeitamente
proporcionadas. As nádegas, um pouco mais pro
nunciadas que a média. Talvez pela roupa. Talvez os
saltos de três ou quatro centímetros façam com que
as nádegas se sobressaiam. Mas não é por isso que a
estou seguido. É possível que uma pessoa com fome,
e em busca de comida, possa manter seu orgulho. É
possível que uma pessoa pobre possa ter, por algum
acaso, umas nádegas formosas. Eu a sigo pelo que
representa. Não sou uma pessoa boa, uma pessoa hu
manitária, um sentimental. O que me leva a segui-la
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Ferido de realidade e em busca de realidade
é a combinação da beleza, orgulho e fome. E deve se
tratar de uma combinação poderosa, porque, via de
regra, eu desvio os olhos dos pobres. Não gosto que
me incomodem. Odeio ver a pobreza, a fealdade, a
enfermidade e a desgraça. Não sou responsável pela
fome. Alimento-me com minha parte (nem mais,
nem menos). E estou dizendo tudo isso para que
você não pense que sou dado a sentimentalismos.
Não, nunca. E, sim, sigo a menina porque não tenho
nada para fazer, de maneira que não faço o que faço
movido por nenhuma preocupação humanitária".48
Moral da história
Três meninas (ou a mesma menina) passam pela rua. Os
cidadãos respeitáveis não as olham, mas manifestam em torno
de sua ausência o que eles sabem, o que eles opinam, o que
eles creem que seria preciso fazer com elas. Mesclam o policial
e o humanitário (a biopolítica e as boas intenções) de uma
forma parecida com aquela como a maior parte do discurso
pedagógico convencional. O escritor irritado sente que todos
os poderes da terra, toda a ordem social, cambaleiam diante
de seu passo desafiante. A menina não confirma o mundo,
mas sim o põe em questão na sua totalidade. O cineasta coloca
em jogo toda a sua atenção para cancelar qualquer projeção
emocional ou de qualquer outro tipo e conseguir nos levar
a ver (e a pensar) a beleza longínqua e incompreensível, mas
radiante, dessa mescla andante de orgulho e fome.
Eu não sei se esta história diz algo das diferentes formas
como fazemos com que algo seja, ou não, "válido como real".
Não sei se diz algo da experiência, do que nos acontece quando
algo ou alguém, uma menina, passa pela rua. Não sei se diz
'8KIAROSTAMI, 2008, p. 59-60.
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ÚllEÇÃO •Eouo.çJ.o: � E SfNnoo•
algo do "sentir-se viver". Não sei se diz algo da linguagem,
ou de certo tipo de linguagem, esse que nos ensina a olhar, a
sentir, que nos torna atentos. Mas, possivelmente, nos permite
pensar alguma coisa. Ou, simplesmente, nos faz pensar em
outras meninas, em outras coisas que acontecem ou que nos
acontecem, e nessa sensação de irrealidade que às vezes nos
acomete quando reduzimos o que acontece a uma projeção de
nós mesmos ou, em outras palavras, de nosso saber, de nosso
poder e de nossa vontade. Não se trata, é claro, de querer
escrever como Chesterton ou como Kiarostami. Mas não é
mau ler um ou ver os filmes do outro, ainda que seja só para
tratar de não ser tão estúpidos como os cidadãos exemplares
de minha primeira história e os políticos, os experts, os jorna
listas e os funcionários que cultivam e encarnam suas formas
estúpidas de sentir, de pensar e de dizer.
Sobre a arte de tocar as castanholas
Outra vez Ferlosio:
[ ... ) um dos mais inteligentes espanhóis - cujo nome, por
desventura, eu nunca soube-, autor de uma Arte de tocar
as castarrholas, começava o prólogo de seu tratado com
esta declaração absolutamente exemplar e memorável:
"Não faz nenhuma falta tocar as castanholas, mas em
caso de tocá-las, mais vale tocá-las bem do que tocá-las
mal". Se isto disse aquele homem, alcançando iluminar
simultaneamente a ética e a estética com um mesmo e
único resplendor de luz, referindo-se à declaradamen
te inútil dedicação de tocar as castanholas, bem cabe
aplicar o mesmo a outras dedicações que, em vez disso,
tendem a ser consideradas, em princípio, necessárias.49
"FERLOSIO, R. S. Cultura, {para quê? ln: E/ alma y la vergiieuza. Barcelona:
Destino: 2000, p. 320.
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Ferido de realidade e em busco de reolidode
Ler e dar a ler
Os pedagogos, dizia antes, fizemos cara, ou carranca,
de experts, de políticos, de jornalistas e de funcionários. Por
isso a linguagem dominante no campo é uma mescla pasto
sa, pegajosa e totalitária das línguas de todos esses grêmios.
Além do mais, a maioria de nós vive encurralada, como as
aves asquerosas, em espaços universitários, ou seja, colocados
a serviço do Governo e completamente mercantilizados.
Como se isso fosse pouco, o imperativo dos dispositivos da
"pesquisa" e das pressões da "carreira acadêmica" nos obri
gam a escrever, e a publicar, de uma forma completamente
absurda, inútil e enlouquecida. Escrever (e ler) se converteram
em práticas espúrias e mercenárias, orientadas à produção de
textos direcionados sobretudo aos comitês de avaliação e aos
organismos financiadores de projetos de pesquisa. E, como
bons professores, nos dedicamos a explicar e a doutrinar
quando falar a partir da experiência e para a experiência
consiste, exclusivamente, em dizer algo a alguém, como
igual, e não como aluno, não como alguém a quem é preciso
explicar alguma coisa ou convencer de alguma coisa. José
Ángel Valente dizia com clareza: "Escrever é uma ventura
totalmente pessoal. Não merece julgamento. Não o pede.
Pode produzir, produz às vezes no outro uma escolha, uma
enfermidade, uma penetração. Outra aventura pessoal. Isso
é tudo". 50 Então, é possível algum tipo de "verdade" nessas
condições? Inclusive a "experiência" se converteu em tema
de pesquisa, em disciplina acadêmica e em motivo de escrita
de teses doutorais. As formas institucionalizadas de escrever
expulsam os que têm língua, os que pensam o que dizem e
os que não se acomodam às formas coletivas e gregárias de
trabalho que nos são impostas. Não é mau, então, insistir,
50VALENTE,J. A. Notas de'"' simulador. Madrid: La Palma, 1997, p. 22.
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(QlfÇÃO "EoucAç).o: ExPeRJ!NciA E SEN1100"
como Ferlosio, em que não há nenhu
ma necessidade. Nem de
tocar as castanholas, nem de escrev
er. Se não somos capazes
de fazê-lo bem, mais vale não fazê-
lo. Deveria bastar ler. Y,
se trabalhamos na universidade, deve
ria bastar ler e transmitir
o que temos lido, que não é pouco. D
everia bastar dar a leii1•
Como naqueles tempos remotos nos
quais ainda se estudava.
Palavra de poeta
Talvez essa relação entre a língua e
a vida, entre a lín
gua e a realidade, só seja custodiad
a já pelos poetas ou, em
geral, pelos que ainda são capazes d
e prestar atenção ao que
a 1íngua tem de poético, ao que a v
ida tem de interminável
e ao que a realidade tem de incom
preensível (quando está
viva e nos toca num ponto sensível
). Comecei comentando
uns versos de Montale, de Vilarií1o
, de Pessoa. Terminarei
com palavras de Paul Celan, umas
palavras que fazem com
que este texto que você talvez aca
ba de ler seja completa
mente prescindível, essas nas quais
se defme o poeta como
aquele que "exposto em um sentido
nunca antes previsto, e
portanto terrivelmente ao descober
to, vai com todo seu ser
à linguagem, ferido de realidade e e
m busca de realidade". 52
"Ver LAR ROSA, J. Dar a leer,qu
izá ... ln: Entre las lenguas. Lenguaje y educa
ci6n después de Babel. Barcelona: La
ertes, 2003.
52CELAN, P, Discurso de Breme
n. Rosa cúbica. Revista de poesia. n
. 15-16.
Barcelona, 1996, p. 50.
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