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Obará e as abóboras 
 
 
 
Abóbora — imagem da internet. 
Obará era um negro baixo, de pele escura lustrosa e seus dentes eram 
límpidos e claros como marfim do elefante mais brilhante de todo o 
Ayê. No entanto, a beleza de Obará sempre ficava escondida entre 
vestes e trapos tão feios, que despertava olhares curiosos daqueles que 
com ele se encontravam. 
Obará tinha dezesseis irmãos: Okaram, Megioko, Etaogunda, 
Yorossum, Oxé, Odí, Edjioenile, Ossá, Ofum, Owarin, Edjilaxebora, 
Ogilaban, Iká, Obetagunda, Alafia e dentre eles, Obará era o mais 
pobre, e por isso seus irmãos tinham muita vergonha dele. 
Como de costume, os irmãos foram fazer uma visita anual ao babalaô, 
porém não chamaram o irmão mais pobre pela vergonha que dele 
sentiam. O Babalaô ao ver que faltava Obará, imediatamente 
perguntou aonde estava o irmão mais pobre. Os irmãos mentiram 
dizendo que ele havia ficado doente e por isso não tinha ido junto com 
eles para fazer suas consultas. 
Assim, como de costume, o babalaô presenteou cada irmão com uma 
lembrança dando a todos abóboras. Após a visita, no caminho de volta, 
os irmãos começaram a reclamar entre si dizendo: Apenas abóboras? 
O que faremos com essas abóboras? Isso é presente que se dê a 
alguém? 
Ao cair da noite, acabaram passando em frente a casa de Obará, e 
resolveram fazer-lhe uma visita. Obará, alegre com a chegada de seus 
irmãos, pediu a sua esposa que fizesse bastante comida para todos, e 
ela assim o fez. Os irmãos comeram e beberam e saíram saciados 
esquecendo as abóboras dadas de presente pelo Babalaô na casa de 
Obará. 
No dia seguinte a fome veio sob Obará e ele pediu a sua esposa que 
preparasse a comida. A esposa disse que tudo se havia acabado no 
jantar que ele oferecera fartamente aos seus irmãos. Obará, então 
pediu-lhe que cozinhasse as abóboras. 
Quando a esposa foi coloca-las ao fogo, percebeu que dentro das 
abóboras havia jóias e muito ouro e assim Obará prosperou e se tornou 
um dos homens mais ricos de todo o reino. Tempos depois, os irmãos 
passaram por um período de grande miséria e foram ao Babalaô para 
pedir ajuda. Ao chegarem na cidade para consultá-lo, perceberam que 
o povo saudava um príncipe muito rico, que as vestes ressaltavam sua 
pele negra e lustrosa. Assim perceberam que era Obará, e correram até 
ele implorando por riquezas. Obará deu-lhes o que lhes era de direito: 
as abóboras vazias. 
Obará, as Abóboras e a Pretagogia 
A prosperidade de Obará foi fruto da sua maior riqueza: a humildade. 
Mas a humildade que não o fez “virar a outra face” e sim, dar aos 
irmãos aquilo que lhes era de direito: as abóboras vazias, que é a 
pretagogia da vida. Se Obará não tivesse usado da mesma 
reciprocidade que seus irmãos tiveram com ele, devolvendo por 
exemplo as abóboras, não teria prosperado. É interessante perceber 
como Obará enxergou como as velhas abóboras não eram um fator que 
limitava a sua situação, e sim, como poderiam saciar a sua fome — e 
que por fim trouxe a ele a riqueza. Também podemos comparar as 
abóboras com o ebó que precisa ser feito. Se eu quero correr 10 km por 
dia, preciso ao menos todos os dias correr um pouco. Tenho que aos 
poucos e continuamente transformar um corpo capaz de correr a 
princípio nem meio km em um corpo que pode correr 10. Se eu quero 
prosperar qual ebó tenho que fazer pra alcançar a prosperidade? Qual 
das minhas abóboras vai ao fogo para que possa frutificar a 
prosperidade almejada? Obará não enxergou nas abóboras um fim e 
sim um meio. 
Outro ponto é que a humildade de Obará o coloca em uma situação 
que ele se permite a aprender. Lembro de tantos mestres de capoeira 
que dizem que ainda são meninos e tem tanto a aprender mais do que 
a ensinar. 
 
Grupo de Capoeira Angola: Meninos de Angola. Imagem da Internet. 
No jogo da vida o aprendizado sempre traz uma saída: sejam com tomates, 
laranjas, bananas ou abóboras. Quem não fica olhando pro seu umbigo 
como os brancos — que pensam que possuem todo o conhecimento e por 
isso são tão limitados — entende que a vida é um jogo de capoeira com 
situações com tomates, laranjas, bananas ou abóboras, e se coloca como um 
mestre menino que tem muito a aprender, e na 
pretagogia sempre prospera. 
 
O jogo da vida é dinâmico como o da capoeira, 
pra cada situação é uma saída, 
para cada oponente, 
a ginga é diferente. 
No jogo da vida saí na frente o angoleiro 
que faz da a abóbora sua semente. 
Vem golpes de lá, e cá, 
vem rasteira, 
mas o bom aprendiz, 
o mestre menino, 
traz ouro nas abóboras que os tolos não entendem. 
O nosso povo, é aquele que tem nas abóboras o que muitos cobiçam. O nosso 
povo, é o povo que aprende com os mais velhos e com as crianças. Os dois 
grupos que são vistos como mais frágeis pela sociedade branca. O povo 
que nasce e o povo que tá mais próximo da morte. Entender que a vida é 
melhor vivida com sua abóbora, que é a pretagogia, em que temos que 
aprender a enxergar que no que parece ser um fim, na verdade é um meio, 
buscando pelo rico conhecimento ancestral que não se esgota, é tirar ouro 
de abóboras. 
E assim como Obará, o nosso povo é o visto como o mais pobre, mas na 
verdade, é o mais rico, porque o ouro da pretagogia é a nossa maior 
riqueza.

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