A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
256 pág.
avaliação triangulação

Pré-visualização | Página 4 de 50

ou das idiossincrasias dos gestores que estiverem no poder. 
É claro, também, como está referido no livro, que as investigações avaliativas – termo 
preferido pelos autores para explicitar o caráter científico de sua proposta – partem do 
entendimento de que as políticas públicas se realizam em processo contínuo de decisões e, 
por isso mesmo, modificam-se permanentemente. Elas nascem de necessidades sentidas e 
diagnosticadas pelos poderes públicos e das demandas sociais, mas são transformadas em 
negociações, pressões e decisões pelo poder de ambas as partes. Nessas circunstâncias, a 
avaliação constitui um tercius, na medida em que os avaliadores não são nem quem 
formula e nem quem demanda. 
No processo, tanto os formuladores e os beneficiários como os gestores e os técnicos serão 
chamados a se auto-avaliarem. Essa exigência, porém, constitui apenas um dos elementos 
da avaliação que, no seu conjunto, atua de forma independente para dar ao sistema mais 
racionalidade, eficácia e sentido. Desse ponto de vista, como dizem os autores deste livro, a 
avaliação deveria ser considerada como parte constitutiva da política pública, uma vez que 
tem o papel complexo de apresentar a necessidade de correção de rumos pari passu ao 
desenvolvimento das ações e, ao mesmo tempo, evidenciar a necessidade de 
aprofundamento e continuidade de determinadas intervenções para que seus resultados 
sejam duradouros e crescentes. 
De quem faz avaliação de programas sociais, portanto, não se exige apenas entender de 
técnicas. Pois, como bom jardineiro, este analista precisa estar a par do tempo de maturação 
e de florescimento dos vários processos sociais, cujos intervenientes são muito mais 
complexos do que a mecânica de intervenção em vários outros campos. 
Gostaria de comentar, ainda, a proposta estratégica apresentada nesta obra: a avaliação por 
triangulação de métodos. Primeiro, esta proposta se diferencia diametralmente das que 
tratam a execução da política social como uma seqüência linear, estanque e sucessiva de 
intervenções que deveria ser avaliada pela estrutura tradicional de formulação, implantação, 
implementação e resultados previstos antecipadamente. Ela dá lugar à compreensão da 
gestão de políticas sociais como um processo contínuo de tomada de decisões, portanto, 
prevendo correção de rumos, permanentemente. Em segundo lugar, ela trabalha com 
contextualização das propostas, evitando o mecanicismo tecnicista que estabelece as 
mesmas perguntas para realidades diferentes. Em terceiro lugar e, principalmente, ela ao 
mesmo tempo supera e valoriza o que há de mérito da proposta tradicional pela inclusão, 
primeiramente analítica e depois em forma de síntese, de todos os ingredientes envolvidos 
numa intervenção social: história, contexto, cultura, estruturas, relações, pluralidade de 
atores, acessibilidade a recursos, resultados contínuos e ganhos quantitativos e qualitativos. 
Por fim, gostaria de ressaltar mais um mérito deste livro. Ele se constitui na teorização de 
uma experiência interdisciplinar de longo prazo do Claves. Por realizar a dialética entre 
teoria e prática, os autores puderam trazer aos leitores exemplos concretos do que eles 
fazem e consideram como avaliação por triangulação de métodos, termo que vem sendo 
usado por muitos estudiosos, mas que nunca foi devidamente conceituado, descrito e 
analisado como nesta obra. Aqui se apresenta o exemplo de avaliação de um programa de 
educação para valores, denominado Programa Cuidar. Essa ilustração que acompanha a 
apresentação de todos os passos metodológicos descritos e teorizados pelos autores permite, 
a quem se interessar, utilizar as mesmas estratégias, adaptando a proposta aos objetos 
específicos a serem analisados. 
Por todos esses motivos, congratulo-me com as organizadoras, parabenizo a todos os 
autores, desejo vida longa a este próspero grupo de pesquisa e convido os leitores, mais 
uma vez, que prestem atenção a este trabalho que inova e traz uma perspectiva promissora 
para a gestão das políticas públicas no país e para o campo teórico e prático da avaliação de 
programas sociais. 
 
Ricardo Henriques, economista do 
MEC. 
Ver créditos com Simone 
 
SUMÁRIO 
 
 
 
Apresentação 
 
Introdução 
Maria Cecília de Souza Minayo 
 
1. Mudança: conceito-chave para intervenções sociais e para avaliação de 
programas 
Maria Cecília de Souza Minayo 
 
2. Métodos, técnicas e relações em triangulação 
Maria Cecília de Souza Minayo, Edinilsa Ramos de Souza, Patrícia Constantino, Nilton 
César dos Santos 
 
3. Definição de objetivos e construção de indicadores visando à triangulação 
Simone Gonçalves de Assis, Suely Ferreira Deslandes, Maria Cecília de Souza Minayo, 
Nilton César dos Santos 
 
4. Construção de instrumentos qualitativos e quantitativos 
Edinilsa Ramos de Souza, Maria Cecília de Souza Minayo, Suely Ferreira Deslandes, João 
Paulo Veiga da Costa 
 
5. Trabalho de campo: construção de informações qualitativas e 
quantitativas 
Suely Ferreira Deslandes 
 
6. Organização, processamento, análise e interpretação de dados: o desafio 
da triangulação 
Romeu Gomes, Edinilsa Ramos de Souza, Maria Cecília de Souza Minayo, Juaci Vitória 
Malaquias, Cláudio Felipe Ribeiro da Silva 
 
7. Apresentação e divulgação de resultados 
Simone Gonçalves de Assis, Kathie Njaine, Maria Cecília de Souza Minayo, Nilton César 
dos Santos 
 
 38
CCaappííttuulloo 11 
 
MMuuddaannççaa:: ccoonncceeiittoo--cchhaavvee ppaarraa iinntteerrvveennççõõeess ssoocciiaaiiss ee ppaarraa aavvaalliiaaççããoo 
ddee pprrooggrraammaass 
 
 
Maria Cecília de Souza Minayo 
 
 
Uma boa análise crítica de programas sociais precisa problematizar o conceito de 
mudança, pois todas as intervenções, em última análise, visam a modificar o curso 
de determinadas visões, ações ou problemas. Mudança é, pois, um conceito-
chave, tanto para promotores de políticas públicas quanto para avaliadores de 
projetos. Esses últimos são chamados sempre a medir e compreender o impacto 
das ações sobre instituições e atores tendo em vista os objetivos dos serviços 
prestados e apontar pontos cruciais para o sucesso e as condições de 
possibilidades de determinada intervenção. 
Visando a contribuir para a problematização desse tema tão crucial, propõe-se 
discorrer, sucintamente, sobre ele, entendendo-o como pano de fundo e imagem-
objetivo1 da gestão de políticas sociais. Isto implica uma análise do conceito, 
levando-se em conta todos os atores envolvidos e suas dimensões coletivas, 
institucionais e individuais. O foco da reflexão iluminará quatro subtemas: 
mudança social; mudança educacional; mudança de valores e avaliação de 
mudanças. O sentido desta última expressão, dado o objetivo deste trabalho, 
perpassará a análise de todos os outros termos. 
A vida, a sociedade, a natureza, tudo o que vive se transforma e a mudança é 
intrínseca à dinâmica existencial. No entanto, mesmo que todos saibam disso pela 
experiência, mudar constitui um processo difícil que supõe nascimento de novos 
brotos, flores e frutos e, também, perdas. Como diz Saint-Exupéry (1953: 884) em 
 
1 Imagem-objetivo é um modelo e, como tal, uma simplificação seletiva e idealista da realidade. A 
característica fundamental da imagem-objetivo é sua racionalidade interna. Ela não é um somatório 
de objetivos e sim uma construção em que foram resolvidos os problemas de coerência entre 
distintos objetivos e a possibilidade idealizada, pressupondo uma ordenação e harmonização entre 
eles (Cohen & Franco, 1993). 
 39
A Cidadela: “Toda palavra nova parecerá amarga, porque nunca ninguém passou 
por metamorfose alegre”. 
O estudo da mudança social foi e continua sendo fortemente influenciado pelos 
pressupostos evolucionistas. Mas os métodos e o sentido dessa evolução sempre 
foram tratados de forma controversa. O marxismo, por exemplo, sempre pensou 
mudança como