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uma visão hierárquica, cujo imperativo é a ordem e a planificação centralizada. 
O ideal pós-moderno tem uma proposta de mudança para os diferentes níveis 
sociais. Substitui o conceito de estado propulsor do desenvolvimento pelo de 
estado planejador e avaliador das ações sociais delegadas à sociedade. No 
campo da educação e da intervenção social, substitui a idéia de meritocracia 
cumulativa e estática pela de empreendedorismo e de autonomia individual. Tal 
enfoque significa uma outra ótica em relação às idéias da modernidade fundada 
no industrialismo, quando a oferta educacional e das políticas sociais tendia a ser 
um monopólio do Estado e as instituições e a população-alvo dos programas 
sociais, clientela cativa da burocracia estatal. 
Tomando como exemplo as escolas, a tendência é substituir a organização forte e 
simples pela organização leve, flexível e complexa. A mobilização de recursos 
humanos e técnicos de formação especializada, diversificada e perenemente 
atualizada, seria sua chave do sucesso (Tourraine, 1995). Os ideólogos da pós-
modernidade pretendem instituir uma nova cultura profissional de qualidade e 
excelência, à moda dos modelos pós-fordistas de reorganização industrial, 
substituindo as indefinições e contradições que rodeiam os desenhos curriculares, 
as resistências dos professores e a falta de compromisso com a direção da 
mudança. 
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A idéia central que domina as novas propostas de intervenção é a metanoia, ou 
seja, a da mudança da mente, levando a uma forma diferente de organização: 
cada escola é chamada a se transformar em uma organização única e 
especificamente adequada, criando sua identidade a partir de seus recursos e de 
uma projeção criativa dos seus próprios horizontes. Observa Terrén (1999) que a 
pós-modernidade translada a ênfase da organização da cultura para a cultura da 
organização. 
Do ponto de vista institucional, a proposta pós-moderna é criar uma administração 
com rosto humano que se expressaria nas iniciativas institucionais e materiais: 
cursos de formação, preparação de materiais curriculares, preparação de quadros 
para a direção. Todas as iniciativas institucionais devem, dentro de tal visão, ser 
orientadas para ressaltar a responsabilidade individual de cada ator envolvido no 
sistema escolar. E o sistema escolar teria compromisso com as necessidades e 
potencialidades dos atores que ele envolve. 
O aparente cenário fragmentado resultante seria justificado pelos diferentes 
estágios em que cada uma das instituições se encontra. A idéia intrínseca à 
proposta não é a do tratamento igual ou massivo para todas, mas a da distinção 
que coloca luz na falta de capacidade de inovação de algumas e nas chamadas 
instituições orgânicas em que predomina o clima de abertura, de crítica e de 
reorientação permanente de métodos e objetivos, auferidos por meio de 
avaliações que enfatizem qualidade e excelência. 
Referindo-se à necessidade de mudanças profundas no sistema escolar, tendo em 
vista seu papel socializador dos dispositivos culturais, diz Osborne (1994: 148), 
um dos ideólogos da educação e da intervenção social no ambiente pós-moderno: 
“unicamente a competição pode motivar a que todas as escolas melhorem. Pois 
unicamente a competição pelos usuários cria conseqüências reais e pressões 
reais a favor da mudança, quando as escolas fracassam”. Em conseqüência, a 
“necessária revolução deve começar com a administração docente”, diz Terrén 
(1999: 14). 
Portanto, dentro da lógica da ideologia que preconiza a mudança em curso, nada 
deveria impedir o exercício da responsabilidade individual. A primazia caberia ao 
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princípio da liberdade sobre o da igualdade. O que, do lado positivo, supõe 
aceitação das diferenças; e do lado negativo, a naturalização da desigualdade, 
como algo dado e eficaz do ponto de vista do rendimento cultural e 
socioeconômico. 
No âmbito das mudanças culturais, merece destaque à idéia de profissionalismo 
como uma espécie de guarda-chuva da nova imagem do trabalho social, cujo 
contexto discursivo é o de revitalização renovada da fé no poder auto-regulador e 
criador do mercado liberado. 
Assim, no caso da escola, por exemplo, o novo modelo de professor (centro de 
todo o processo) é o de um profissional motivado, realizado e criativo, cuja 
competência depende, em grande medida, dele próprio, de seu labor intelectual. 
Mas a organização deve propiciar-lhe satisfação no trabalho, sentido de eficácia, 
compromisso, independência, perspectiva de carreira e oportunidade de formação 
permanente. 
O novo ethos do trabalhador social, basicamente, propõe uma gestão da 
organização voltada para sua produtividade, buscando tirar o máximo de proveito 
de suas potencialidades e riquezas internas. Isto se opõe à idéia de um projeto 
cultural desenhado por intelectuais e especialistas da burocracia do estado. A 
reiterada exigência de qualidade e de excelência é, no fundo, uma desesperada 
demanda de motivação e um intento de reconstruir a organização pela 
subjetividade de seus membros. 
Os parágrafos anteriores se referem a uma tendência que os atores dos sistemas 
de intervenção social, com maior ou menor dramaticidade, estão sentindo: as 
inseguranças e incertezas percebidas e nomeadas balizam as dificuldades do 
momento de transição pelo qual estão passando. Como diz o ditado popular, vive-
se um momento em que há que “trocar os pneus com o carro andando”, pois os 
legítimos operadores das transformações, como os educadores, os agentes 
sociais e os pais são pessoas formadas em outra mentalidade. 
Contradições existem, não há dúvidas: de um lado, os ideólogos falam em 
flexibilizações, responsabilizações, leveza organizacional e, ao mesmo tempo, na 
prática, as instituições são reféns de estruturas de gestão em que predomina o 
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modelo burocrático-centralizador e autoritário. Vale ressaltar, como marca cultural 
entranhada, a forte tendência brasileira ao gatopardismo, ou seja, a mania de 
deixar tudo como está parecendo que se está revolucionando. De outro lado, há 
muito esforço de transformação empurrando a máquina emperrada do 
conservadorismo, em busca de ênfase na cultura participativa, na flexibilidade na 
gestão, no clima fluido de discussão, de cooperação e de co-responsabilidade de 
cada um dos atores institucionais. Isto significa que está em curso um novo 
modelo que, no mínimo, poderia ser denominado “pós-burocrático”. O que está 
acontecendo tem defeitos e falhas? Sem dúvida, mas está vindo a reboque de 
outras transformações e ao mesmo tempo empurrando-as, como na bela metáfora 
usada por Atlan em Entre o cristal e a fumaça (1992), sua obra sobre a 
organização dos seres vivos. 
 
 1.3.Mudança de valores 
Na sua acepção de princípios morais, os valores constituem um foco de discussão 
em três níveis principais das teorias sociais. No primeiro, apresentam-se como 
objeto de análise, como é caso das discussões sobre troca de valores 
materialistas por pós-materialistas entre as populações do capitalismo central. No 
segundo, constituem conceito central para algumas perspectivas teóricas. Já no 
terceiro nível, são tratados em reflexões metodológicas sobre problemas sociais e 
compromissos normativos de várias espécies. 
As teorias que tratam das mudanças sociais do ponto de vista dialético 
consideram que os seres humanos fazem sua própria história, mas a fazem em 
condições previamente dadas. A referência central para o que se apresenta aqui é 
o conceito de valores trabalhado por Agnes Heller (2000), uma das últimas 
filósofas remanescentes do marxismo clássico. A autora leva em conta, na 
questão da mudança social, o papel da subjetividade. 
Agnes Heller pondera que, à primeira vista, parece certo acreditar que os seres 
humanos aspiram a certos fins, mas estes estão determinados pelas 
circunstâncias que modificam seus esforços e aspirações, produzindo resultados