Prévia do material em texto
AULA 03 PROCESSO CIVIL IV ❑ PROCEDIMENTOS ESPECIAIS Prof. Ulisses Juliano AULA 03 – DIREITO PROCESSUAL CIVIL IV 1. PROCEDIMENTOS ESPECIAIS Prevê o Código de Processo Civil, em matéria de processo de conhecimento, um procedimento comum (Livro I, Título I, da Parte Especial) e vários procedimentos especiais (Livro I, Título III, também da Parte Especial). O processo pode ser compreendido como método de criação de normas jurídicas, ato jurídico complexo (procedimento) e relação jurídica. Processo é, com efeito, o método jurídico utilizado pelo Estado para desempenhar a função jurisdicional, ou seja, a que corresponde à tutela dos direitos ameaçados ou lesados, assegurada pelo art. 5º, XXXV , da Constituição da República. Consiste o processo, intrinsecamente, numa relação jurídica de direito público, formada entre autor, réu e juiz. Objetivamente, compõe-se de uma sucessão de atos que se encadeiam desde a postulação das partes até o provimento final do órgão judicante, que porá fim ao litígio, tudo presidido pela obrigatória dinâmica do contraditório. O procedimento é justamente a maneira de estipular os atos necessários e de concatená-los, de forma a estabelecer o iter a ser percorrido pelos litigantes e pelo juiz ao longo do desenrolar da relação processual. É ato- complexo de formação sucessiva, porquanto seja um conjunto de atos jurídicos (atos processuais), relacionados entre si, que possuem objetivo comum, no caso do processo judicial, a prestação jurisdicional. Para o geral dos litígios, o Código prevê o procedimento comum. A par do procedimento comum, no entanto, disciplina em título próprio, vários procedimentos destinados a orientar a tramitação judicial de certas pretensões que não encontrariam tratamento processual condizente dentro dos parâmetros do procedimento AULA 03 – DIREITO PROCESSUAL CIVIL IV ordinário. Leis extravagantes, por sua vez, estabelecem diversos outros procedimentos especiais, principalmente no âmbito dos direitos públicos (mandado de segurança, ação popular, ação civil pública etc.), mas não apenas nesse segmento do ordenamento jurídico (há procedimentos especiais também instituídos em legislação especial para tutela de direitos privados, como as ações a cargo dos juizados especiais, as ações locatícias, as pertinentes aos contratos de alienação fiduciária etc.). Positivada, destarte, a realidade da insuficiência do procedimento comum, não consegue o legislador fugir do único caminho a seu alcance, que é o de criar procedimentos outros cuja índole específica seja a adequação às peculiaridades de certos direitos materiais a serem disputados em juízo. Os atos processuais são, aí, concebidos e coordenados segundo um plano ritualístico que tenha em vista unicamente a declaração e execução daquele direito subjetivo de que se cuida. 1.1. Pressupostos dos procedimentos especiais a. requisitos materiais: a pretensão tem de situar-se no plano de direito material a que corresponde o rito. Mas a inexistência ou não comprovação do suporte substancial dessa pretensão é matéria de mérito, que conduz à improcedência do pedido e não à carência de ação; b. requisitos processuais: os dados formais do procedimento especial costumam ser ligados a requisitos que condicionam a forma e o desenvolvimento válidos do processo até o julgamento de mérito. A falta desses requisitos conduz à ineficácia da relação processual e à sua extinção prematura, sem AULA 03 – DIREITO PROCESSUAL CIVIL IV julgamento de mérito, como, por exemplo, se dá com a ação de consignação em pagamento, em que o autor não promove o depósito no prazo legal, ou na ação monitória, quando o promovente não exibe, com a inicial, a prova escrita do direito exercitado contra o réu. Em havendo erro na adoção do procedimento, por parte do autor ao propor a ação, temos que: Art. 283. O erro de forma do processo acarreta unicamente a anulação dos atos que não possam ser aproveitados, devendo ser praticados os que forem necessários a fim de se observarem as prescrições legais. Parágrafo único. Dar-se-á o aproveitamento dos atos praticados desde que não resulte prejuízo à defesa de qualquer parte. 1.2. Jurisdição Voluntária A designação “jurisdição voluntária” tem sido criticada porque seria contraditória, uma vez que a jurisdição compreende justamente a função pública de compor litígios, o que, na verdade, só ocorre nos procedimentos contenciosos. Na chamada “jurisdição voluntária”, o Estado apenas exerce, por meio de órgãos do Judiciário, atos de pura administração, pelo que não seria correto o emprego da palavra jurisdição para qualificar tal atividade. O que, na verdade, distingue a atividade da jurisdição voluntária daquela desempenhada no processo contencioso é justamente a presença, neste, da contenda, ou seja, da pretensão ao exercício de um direito contra outrem; ao passo que na jurisdição voluntária não existe parte adversária e só se trata de uma fixação de valor substancial em si e por si. AULA 03 – DIREITO PROCESSUAL CIVIL IV 1.2.1. Características a. como função estatal, ela tem a natureza administrativa, sob o aspecto material, e é ato judiciário, no plano subjetivo orgânico; b. em relação às suas finalidades, é função preventiva e também constitutiva”. 1.2.2. Procedimento comum da jurisdição voluntária (arts. 719 a 725, CPC) Em princípio, os procedimentos de jurisdição voluntária também se sujeitam à regra do art. 2º do CPC. Pela natureza administrativa da atividade do juiz nesse setor do processo, admite a lei, no entanto, que em várias situações possa o magistrado agir de ofício, ou seja, sem requerimento de interessado. Assim, por exemplo, podem ser determinadas, ex officio, a alienação de bens depositados judicialmente (art. 730), a arrecadação de bens da herança jacente (art. 738) e várias outras medidas típicas da jurisdição voluntária. AULA 03 – DIREITO PROCESSUAL CIVIL IV Por não haver litígio, os sujeitos do procedimento recebem aqui a denominação interessados, em lugar de partes (autor e réu), como ocorre nos procedimentos contenciosos. Embora inexista conflito, a jurisdição voluntária sempre leva à constituição de situações jurídicas novas, que naturalmente produzem efeitos junto a outras pessoas além do promovente. Daí a obrigatoriedade da citação, sob pena de nulidade, de todo aquele que tiver interesse suscetível de ser atingido pelo ato processado em juízo (art. 721). Também o órgão do Ministério Público participa de alguns procedimentos de jurisdição voluntária, como fiscal da ordem jurídica, nas hipóteses previstas em lei e nos processos que envolvam (i) interesse público ou social, e (ii) interesse de incapaz (CPC, arts. 721 e 178). Em linha simétrica aos procedimentos contenciosos, a jurisdição voluntária conta com um procedimento comum e vários procedimentos especiais. O procedimento comum está regulado pelos arts. 719 a 725, e os especiais, pelos arts. 726 a 770 do CPC. AULA 02 – DIREITO PROCESSUAL CIVIL IV REFERÊNCIAS – BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA BUENO, Cássio Scarpinella. Curso Sistematizado de Direito Processual Civil. – 8ª ed. – vol. 3. São Paulo: Saraiva, 2019. CÂMARA, Alexandre Freitas. O novo processo civil brasileiro. – 2ª ed. – São Paulo: Atlas, 2016. DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, decisão, precedente, coisa julgada e tutela provisória. – 21ª ed. – Salvador: Jus Podvm, 2019. LENZA, Pedro [et al.]. OAB primeira fase: volume único. – 2ª ed. – São Paulo: Saraiva, 2017. TEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil – Teoria geral do direito processual civil, processo de conhecimento e procedimento comum – vol. III – 47ª ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2016. WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: cognição jurisdicional – 18ª ed. - São Paulo: Revista dos Tribunais, 2019.