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Aspectos Discursivos da Língua 1ª edição 2017 Aspectos Discursivos da Língua Presidente do Grupo Splice Reitor Diretor Administrativo Financeiro Diretora da Educação a Distância Gestor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas Gestora do Instituto da Área da Saúde Gestora do Instituto de Ciências Exatas Autoria Parecerista Validador Antônio Roberto Beldi João Paulo Barros Beldi Claudio Geraldo Amorim de Souza Jucimara Roesler Henry Julio Kupty Marcela Unes Pereira Renno Regiane Burger Daniella Caruso Rosemeire Rodrigues Mirian Lúcia Brandão *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. 44 Sumário Unidade 1 Introdução aos estudos de leitura e discurso ...........6 Unidade 2 Aspectos de dialogismo e polifonia .........................23 Unidade 3 Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade........................................................41 Unidade 4 Noções de interlocução ..............................................58 Unidade 5 Gêneros do discurso e o diálogo ................................75 Unidade 6 Estrutura textual como aparato do discurso ...........93 Unidade 7 A dimensão ideológica da linguagem .....................112 Unidade 8 Tópicos de enunciação: o sentido discursivo .........130 5 Palavras do professor Caro aluno, seja bem-vindo à disciplina Aspectos Discursivos da Língua! A partir de agora, você está convidado a adentrar no universo da língua e suas múltiplas facetas. No decorrer de oito unidades, teremos a opor- tunidade de refletir sobre a dinâmica social e ideológica do discurso e estudaremos conceitos centrais, como língua, texto, gênero e discurso, compreendendo-os em sua dinâmica de funcionamento e relacionando- -os ao campo de ensino-aprendizagem. A língua e seus discursos permeiam nossa vida cotidiana, independen- temente de nossa área de estudo ou atuação profissional, sendo assim, as concepções teóricas e práticas aqui abordadas serão de fundamen- tal importância para você e o ajudarão a ampliar sua leitura da realidade, afinal, a língua se faz viva a partir dos discursos que construímos através dela. Os conteúdos que preparamos para você têm como objetivos específicos ajudar na reflexão sobre aspectos linguísticos, sociais e ideológicos da lei- tura, compreender conceitos de letramento e gêneros discursivos, iden- tificar as relações entre dialogismo e polifonia, assim como reconhecer os elementos enunciativos constitutivos dos discursos, como interlocução e intersubjetividade. Conhecer e refletir sobre os processos de construção e análise da língua como discurso é a competência central que desejamos que você desen- volva, de modo a aprofundar sua leitura de mundo, ou melhor, das leitu- ras que se entrelaçam por meio das relações entre língua e discurso, no mundo. Então, está pronto para começarmos esta viagem? Bons estudos! 1 6 Unidade 1 Introdução aos estudos de leitura e discurso Para iniciar seus estudos Nesta primeira unidade da disciplina Aspectos Discursivos da Língua, estudaremos os conceitos mais complexos e que fazem parte do estudo de toda a disciplina. Começaremos nossa aula refletindo sobre leitura, lín- gua e discurso e o modo como esses conceitos se relacionam, além disso, conheceremos quais são suas implicações sociais e ideológicas. Esse assunto é de vital importância, afinal, a leitura é a base de todo estudo, em quaisquer ramos do conhecimento. Preparado? Objetivos de Aprendizagem • Apresentar conceitos de leitura e seus aspectos sociais e discur- sivos. • Estabelecer relação entre língua e discurso. • Compreender os conceitos de texto e formação discursiva. 7 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso 1.1 O que é leitura A leitura é inerente às relações humanas. Estamos sempre, de alguma maneira, a ler: muito antes de lermos textos propriamente ditos, lemos a realidade que nos cerca, as pessoas e nós mesmos. O ato de ler, mais do que decodificar palavras, implica revelar o que está por trás delas, o que as permeia, o que representam. Um bom leitor é uma espécie de decifrador de “segredos” nas mensagens implícitas daquilo que lê. O código escrito, na dinâmica da linguagem, não é uma expressão direta do pensamento; existe uma opacidade, algo a ser desvendado. Nesta disciplina, vamos conhecer como isso se dá, mas, antes, conheça algumas concep- ções sobre leitura e as diferentes visões de linguagem e de mundo que tais concepções evidenciam. A concepção de leitura como mera decodificação de palavras é recusada pelos Parâmetros Curriculares Nacio- nais (BRASIL, 1998), que definem leitura como: [...] um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a linguagem [...]. (BRASIL, 1998, p. 41). Dessa forma, ler “[...] implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais não é possível proficiência” (BRASIL, 1998, p. 69). Esse modo de conceber a leitura pressupõe o leitor como um sujeito ativo no ato de ler, o que, infelizmente, não tem se verificado no desempenho dos alunos em exames como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB). Segundo Nascimento (2011), os péssimos resultados obtidos nos exames avaliativos indicam que a lei- tura tem sido trabalhada na escola de modo centrado no texto, contemplando somente o modelo ascendente de leitura. Destaca-se que o modelo ascendente de leitura tem relação com um dos modos como o leitor constrói sentidos na atividade de leitura. Você já ouviu falar sobre isso? Entenda melhor essa questão acompanhando com atenção o que vem a seguir. 1.1.1 Modelos ascendente, descendente e interativo de leitura As pesquisas sobre leitura ganharam força a partir da década de 1960, com as investigações nos campos da Psicolinguística e da Linguística Cognitivista (SANTOS, 2017). Esses estudos demonstravam que a leitura de um texto é um processo que ocorre por operações mentais, daí surgem as definições de três modelos de processa- mento de leitura, propostos por Gough e Goodman (1976 apud SANTOS, 2017), que são: ascendente, ou “bot- tom-up”, descendente, ou “top-down”, e interativo. Nas palavras de Aebersold e Field (1997, p. 10): A teoria bottom-up argumenta que o leitor constrói o texto das pequenas unidades (letras para palavras para frases para sentenças, etc.) [...] Decodificação é o termo para esse processo. 2. A teoria top-down argumenta que os leitores trazem seu próprio conhecimento, suas experiências e suas dúvidas para o texto e continuam lendo-o até que as hipóteses ditas anteriormente sejam confirmadas [...] 3. A teoria interativa argumenta que os processos top-down e bottom-up ocorrem alternados ou ao mesmo tempo. No modelo ascendente (também chamado “bottom-up”), o leitor acompanha o texto linearmente, decodifi- cando suas unidades linguísticas das menores para as maiores, partindo assim do grafema para a sílaba, para o morfema, deste para a palavra, depois, para a frase, e assim por diante, buscando compreender seu sentido. Nesse modelo, o leitor assume uma função mais passiva e presa aos elementos textuais. Vale destacar também que esse modelo foi muito popular nas salas de alfabetização brasileiras até os anos de 1990, pois as atividades 8 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso de ensino tinham como ponto de partida os sons e letras até chegar ao texto. Devido às críticas e controvérsias em relação às discussões do método ascendente,Gough (1986 apud SANTOS, 2017) declara que o problema central da leitura é especificar o modo como os significados das sentenças são registrados no léxico mental. Por sua vez, no modelo descendente (também designado de “top-down”), o leitor busca a compreensão por movimento inverso, partindo de unidades maiores, abarcando, inclusive, elementos extralinguísticos, contextu- ais, sem se prender a linearidades. Nesse modelo, o leitor tem um papel mais ativo e realiza inferências, a partir de seus conhecimentos prévios, na construção de sentido do que lê. De acordo com Kleiman (1996), quando o leitor lê, seguindo o modelo descendente, o ato não ocorre de forma linear, da mesma forma que na hipótese ascendente. De acordo com a autora, o significado não é construído palavra por palavra, pois o leitor realiza o levantamento de hipóteses com base naquilo que está sendo lido e que, posteriormente, serão confirmadas ou rejeitadas por meio de testes feitos pelo próprio leitor, os quais vão desde o nível do discurso até o nível grafofonêmico, passando pelos níveis sintático e lexical (KLEIMAN, 1996). Nível grafofonêmico: refere-se às relações de correspondência entre letras (grafemas) e sons (CRISTÓFARO SILVA, 2014). Glossário Já o modelo interativo resulta da associação dos modelos ascendente e descendente de leitura, de maneira que o leitor, no decorrer de sua leitura, aciona os dois movimentos, havendo interação entre seus conhecimentos linguísticos e extralinguísticos na construção da compreensão do que lê. Nesse contexto, Santos (2017, p. 29-30) adverte que: [...] a interação desses conhecimentos, segundo a perspectiva cognitiva, ocorre na mente do leitor; ler é, portanto, uma ação individual, um ato estratégico de processamento da informação que não estabelece relação com os fatores externos ao texto. Cada uma das palavras que compõem o texto representa entidades do mundo físico, havendo uma relação direta entre linguagem e mundo. O modelo interativo de leitura ainda não é uma atividade dialógica entre leitores, afinal, o diálogo que ocorre é uma operação mental, na qual os conhecimentos prévios acionados pelo leitor são aliados à sua percepção das unidades linguísticas presentes no texto e, embora configure uma atividade de leitura mais madura e autônoma, não é ainda uma leitura como interação social, e sim uma interação entre o leitor e o texto. Os estudos sociocognitivistas, que surgiram nos anos de 1980, questionaram as concepções cognitivistas e psi- colinguísticas de leitura, contrapondo-se não aos modelos em si, mas ao pressuposto de que os movimentos 9 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso mentais e sociais ocorrem de modo separado. Por esse motivo, defendem que a cognição é, também, um fenô- meno social (SANTOS, 2017). Figura 1.1: Modelos de processamento de leitura Legenda: A figura apresenta um livro aberto, do qual emergem letras aleatórias simbolizando modelos de leitura. Fonte: Plataforma Deduca (2018). No próximo tópico, discutiremos sobre a leitura em um viés sociocognitivista. 1.1.2 Perspectiva sociocognitivista de leitura Você certamente já ouviu falar que “uma pessoa é um leitor competente ou não”. Tal afirmação tem relação com os estudos sociocognitivistas como os de Lerner (2002) e Solé (1998), que compreendem a leitura como uma prática em que se mobiliza um conjunto de estratégias para o desenvolvimento da competência leitora. Essas estratégias envolvem operações cognitivistas gerais que consistem em: decodificar o escrito, levantar hipó- teses, localizar e generalizar, informar, inferir, relacionar, comparar e sintetizar informações (BICALHO, 2014). Nas palavras de Solé (1998, p. 45-46), tais estratégias funcionam: [...] porque você, como leitor, dispõe de conhecimento prévio relevante, que lhe permite compre- ender e integrar a informação que encontra e porque esta possui um certo grau de clareza e coe- rência, que facilita a sua árdua tarefa. Entretanto, estas condições não representam nada sem a sua disponibilidade para ir a fundo, para desentranhar a informação, para discernir o essencial do acessório, para estabelecer o maior número possível de relações [...] É evidente que, para mostrar essa disponibilidade, precisa encontrar sentido em ler um texto [...] deve se sentir motivado para essa atividade concreta. A partir do que leciona Solé (1998), compreendemos que a prática da linguagem se realiza por meio de relações lógicas entre o leitor e o texto e, por isso, o primeiro é convidado a colocar seu conhecimento prévio a serviço da mobilização de estratégias de texto. Ainda segundo Solé (1998), as estratégias de leitura são procedimentos que o leitor deve utilizar para ajudá-lo na compreensão do texto e que precisam ser mobilizadas no processo de leitura: antes, durante e depois. Para a autora, antes da leitura, o leitor pode mobilizar estratégias para levantar 10 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso conhecimento prévio sobre o assunto, criar expectativas em função do portador (livro, jornal, revista, por exem- plo) e seus elementos, como capa, formatação, ilustrações e outros elementos paratextuais (título, subtítulo e outros). Durante a leitura, segundo Solé (1998), outras estratégias de leitura podem ser mobilizadas, como confirmar ou retificar as antecipações, expectativas e hipóteses elaboradas antes ou durante a leitura; esclarecer palavras des- conhecidas e identificar palavras-chave, pistas linguísticas e referências a outros textos. Depois da leitura, o leitor pode construir uma síntese semântica do texto como estratégia de apropriação do conteúdo lido. Embora essa perspectiva apresente a leitura como atividade cognitiva e social, o estabelecimento de estratégias para o desenvolvimento de competência leitora desconsidera as relações dialógicas de construção de sentidos do texto. Assim, a centralidade está nos aspectos cognitivos e na materialidade do texto, sem relação com as condições de produção nem com os discursos. Nesse contexto, os estudos posteriores apontam para uma perspectiva interacionista da linguagem, revelando que a leitura não se localiza exclusivamente no texto (tal como no modelo ascendente) e nem parte simplesmente do leitor (modelo descendente), sendo perpassada pela interação entre leitor, autor e texto (NASCIMENTO, 2011). Esse entendimento de que a leitura é um processo discursivo é aprofundado por Bakhtin e Voloshinov (1992), conforme veremos na próxima seção. Agora que você iniciou seus estudos e está ampliando seus conhecimentos sobre o tema, chegou a hora de conhecer o fórum desafio e refletir sobre o que estudamos até aqui. Vamos lá? 1.1.3 Concepção interacionista de leitura Você já observou que, para uma mesma notícia veiculada nas redes sociais, há diferentes sentidos de leitura sobre o que foi relatado? Já se perguntou por que isso ocorre? De acordo com os pressupostos de Bakhtin e Voloshinov (1992), as interações entre autor, texto e leitor consti- tuem a atividade de leitura, considerando a importância do contexto na construção de sentidos do texto, sendo esta um processo dialógico. Assim, o sentido se constrói na interação verbal, de modo que poderá haver tantos e diferentes sentidos à medida que mais interações ocorrerem. Tal perspectiva compreende a leitura como uma prática de linguagem em que a interação verbal ocorre pela reciprocidade do diálogo, como fenômeno heterogêneo, vivo, variável, flexível e situado em um contexto sócio- -histórico. Também a leitura é compreendida como uma atividade multifacetada, em que autor e leitor de deter- minado texto assumem seus papéis como interlocutores ativos (BAKHTIN, 2007). Assim, na interlocução ativa, toda palavra comporta duas faces, pois sempre procede de alguém para outro alguém. Dessa forma, a palavra e a sua multiplicidade de sentidos são o resultado da interação entre locutor e ouvinte,sendo que a expressão parte de um para o outro e vice-versa (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992). Ainda de acordo com os autores, os interlocutores partilham provisoriamente as mesmas palavras, mas cada uma delas está “prenhe” de sentidos, visto que cada “face” comporta valores sociais e culturais únicos e multifacetados. Segundo Bakhtin e Voloshinov (1992, p. 112): 11 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo social ou não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social, se estiver ligada ao locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.). Não pode haver interlocutor abstrato; não teríamos linguagem comum com tal interlocutor, nem no sentido próprio nem no figurado. Nesse contexto, a produção de sentidos ocorre na enunciação, estruturada pela situação imediata e pelo con- texto sócio-histórico em que a interação verbal está inserida e em função do contexto de produção e recepção do texto na atividade de leitura. Segundo Bronckart (2009, p. 93), o contexto de produção e recepção textual “[...] pode ser definido como o conjunto de parâmetros que podem exercer influência sobre a forma como um texto é organizado [...]” e recebido. Consoante a isso, o contexto de produção e recepção textual se organiza em dois planos: na situação imediata da produção e recepção do texto e no plano sócio-histórico, que consiste no meio social mais amplo em que se produzem normas, valores, regras sociais, ideologias, relações de poder, conflitos sociais, intenções e visões de mundo (BAKHTIN, 2007). No plano da situação imediata, situam-se o lugar e o momento físico de produção de texto, o autor e o leitor/ coprodutor. No plano sócio-histórico, considera-se a posição social dos interlocutores, os contextos de circula- ção dos textos e os objetivos de interação. Compreende-se, então, que produtor e leitor/coprodutor de textos têm a representação de si como indivíduos e também de seus papéis sociais (como filha, mãe, professora, por exemplo), assim como do tipo de imagem que pretendem mostrar de si mesmos (como acadêmica, bem-humo- rada, democrática, por exemplo). Assim, na representação de si mesmos, os interlocutores, em especial o leitor, têm no outro o horizonte da ação discursiva como uma realidade concreta. Segundo Bakhtin (2007, p. 271): [...] o ouvinte, ao perceber e compreender o significado (linguístico) do discurso, ocupa simultaneamente em relação a ele uma ativa posição responsiva: concorda ou discorda dele (total ou parcialmente), completa-o, aplica-o, prepara-se para usá-lo, etc.; essa posição responsiva do ouvinte se forma ao longo de todo o processo de audição e compreensão desde o seu início, às vezes literalmente a partir da primeira palavra do falante. Embora a citação trate do ouvinte, no processo de interação pela leitura, este é o equivalente ao leitor, que exerce uma posição ativa. Assim, ao estabelecer a interação entre dois interlocutores, um deles não só espera a resposta do outro como também constrói o seu processo interno de sentido da palavra por meio da palavra do outro, em outras palavras. Nesse processo dinâmico e multifacetado, o leitor transforma-se em produtor de sentidos ou coprodutor de texto. Figura 1.2: Interações dialógicas de leitura Legenda: A figura apresenta jovens interagindo com textos diversos. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 12 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso Dessa forma, o leitor ocupa uma posição de interlocutor ativo diante do texto, pois atua como produtor de sen- tidos ao realizar a análise do enunciado e fazer deduções, sínteses, identificação ou inferência dos aspectos rele- vantes do texto, dos propósitos e das intencionalidades do autor. Tal atitude responsiva é pressuposta pelo pro- dutor do texto com base nas representações que realiza sobre o contexto de produção pelo qual considera um leitor previsto; pelo meio no qual o seu texto será publicado; pelo âmbito de circulação e pelos possíveis objetivos a serem construídos na interação verbal. Nessa direção, quando uma notícia na internet tem diferentes sentidos atribuídos, outras perguntas precisam ser realizadas para compreender a leitura como prática dialógica: “Quem são os interlocutores, ou seja, autor e leitores?”; “Que posição social eles ocupam na sociedade”; “De que ponto de vista social o autor produz o enun- ciado?”; “De qual ponto de vista o leitor interage com o que leu?”; “Onde foi publicada a notícia?”; “Qual ponto de vista informado esse meio de publicação do texto tem em relação ao conteúdo?”; “Em quais circunstâncias o texto foi produzido?”; “Em quais circunstâncias foi lido?; “Quais motivações levaram à escrita do texto”; “E quais motivaram o leitor?”. Assim, as respostas a essas perguntas reconstroem o contexto de produção e recepção do texto e possibilitam compreender o percurso da interação entre autor/leitor/texto na produção de sentidos. 1.2 Língua, texto e discurso Desde que nascemos, a linguagem permeia nossas interações no e com o mundo. Antes mesmo de aprendermos a usar as palavras em nossa língua materna, somos capazes de nos comunicar. Você já parou para pensar sobre isso? Como podemos nos expressar de modos tão variados? Como estabelecemos nossas relações por meio da linguagem? Figura 1.3: Palavras do universo das teorias discursivas Legenda: Nuvem de palavras com os conceitos discutidos na unidade. Fonte: Elaborada pela autora (2018). Essa dinâmica é possível porque a linguagem é inerente à natureza humana. No seu dia a dia, você se depara com variados tipos de linguagem: a linguagem cinematográfica, a linguagem de programação, a linguagem cor- 13 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso poral etc. Desse modo, a linguagem pode ser compreendida como um processo de interlocução que se realiza em práticas sociais existentes em situações sociocomunicativas e em contextos sócio-históricos determinados (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992). Além disso, o processo de interlocução se constitui na e pela linguagem que, por sua vez, é instrumento, processo e produto na constituição das relações humanas. Como atividade social e histórica, a linguagem atua na cons- trução de quadros de referências culturais, como representações sociais, teorias científicas e populares, concep- ções, orientações teórico-filosóficas ou ideológicas ou preconceitos (BRAIT, 2000). Segundo Bakhtin (2008, p. 210, grifo do autor): [a] linguagem só vive na comunicação dialógica daqueles que a usam. É precisamente essa comuni- cação dialógica que constitui o verdadeiro campo da vida da linguagem. Toda a vida da linguagem, seja qual for o seu campo de emprego (a linguagem cotidiana, a prática, a científica, a artística, etc.), está impregnada de relações dialógicas [...] Essas relações se situam no campo do discurso, pois este é por natureza dialógico e, pois, tais relações devem ser estudadas pela metalinguística, que ultra- passa os limites da linguística e possui objeto autônomo e metas próprias. Para Saussure (apud BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992), a língua é o produto social da faculdade de linguagem dos seres humanos, é um sistema organizado de signos, um conjunto de convenções que permite o exercício da linguagem. Segundo Bakhtin (2007), a língua é também uma atividade social, todavia, sua perspectiva se con- trapõe à ideia de que a língua compõe um sistema estático de convenções. Para o filósofo, “[...] a língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua” (BAKHTIN, 2007, p. 282), e qualquer linguagem só pode existir dentro de um complexo e ininterrupto sistema de diálogos. Nas palavras de Bakhtin e Voloshinov (1992, p. 125, grifo dos autores),a língua: [...] não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação mono- lógica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da inte- ração verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. O diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra “diálogo” num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja. Nas relações sociais estabelecidas pela enunciação, pela interação verbal, a língua é colocada em movimento, em transformação, em mudança, graças ao papel empreendido pelos falantes, no uso diário e a cada instante de sua vida em sociedade, pelo diálogo, em um sentido amplo (BAGNO, 2014). Nesse sentido, os enunciados concretos que realizam a língua, ainda de acordo com Bakhtin (2007), não per- tencem exclusivamente a quem os produziu, posto que são permeados de outras vozes. Desse modo, ao abor- dar os enunciados como polifônicos, isto é, carregados de múltiplas vozes, Mikhail Bakhtin convoca o conceito de discurso, haja vista que considera os enunciados como unidades da comunicação discursiva. Para Bakhtin e Voloshinov (1992, p. 371): Não pode haver enunciado isolado. Ele sempre pressupõe enunciados que o antecedem e o suce- dem. Nenhum enunciado pode ser o primeiro ou o último. Ele é apenas o elo na cadeia e fora dessa cadeia não pode ser estudado [...] Assim, a compreensão completa o texto: ela é ativa e criadora [...] A co-criação dos sujeitos da compreensão. [...] é impossível uma compreensão sem avaliação. [...] O sujeito da compreensão não pode excluir a possibilidade de mudança e até de renúncia aos seus pontos de vista e posições já prontos. No ato da compreensão desenvolve-se uma luta cujo resultado é a mudança mútua e o enriquecimento. 14 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso Figura 1.4: Cadeia de enunciados Legenda: A figura apresenta um balão de diálogo formado por várias pessoas. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Em muitos momentos, texto e discurso são tratados de forma relacionada, assim, podemos definir, de forma básica, o texto como a materialização dos enunciados. De acordo com Bakhtin e Voloshinov (1992), o texto é compreendido como ponto de partida, dado primário, para acessar qualquer área de conhecimento, pois os sujeitos dialogam com os demais e se veem na relação com os outros pelos textos que criam, criaram ou criarão. Segundo Brait (2012), os textos podem ser entendidos como organizações coerentes nas quais a associação da materialidade linguística funciona como princípio organizador da produtividade da vida social. Sobre a relação entre texto e enunciado, Bakhtin (2007, p. 308-310) afirma que se trata de: Dois elementos que determinam o texto como enunciado: a sua ideia (intenção) e a realização dessa intenção. As inter-relações dinâmicas desses elementos, a luta entre eles [...] O problema do segundo sujeito, que reproduz (para esse ou outro fim, inclusive para a pesquisa) o texto (do outro) e cria um texto emoldurador (que comenta, avalia, objeta, etc.) [...] O texto como enunciado incluído na comunicação discursiva (na cadeia textológica) de dado campo. As relações dialógicas entre os textos e no interior de um texto. Nesse sentido, de acordo com Bakhtin (2007), o que determina o texto como enunciado são a sua ideia, cujos sentidos e a significação são inerentes a qualquer atividade discursiva, e a realização da intenção, que é a sua materialização. As inter-relações desses elementos criam uma cadeia textológica, na qual os textos/enunciados, que vieram antes e virão depois do momento do enunciado, constituirão outros textos e diferentes discursos em relações intertextuais e interdiscursivas. Sobre o texto, Bakhtin (2008, p. 402) afirma: Cada palavra (cada signo) do texto leva para além dos seus limites. Toda interpretação é o correla- cionamento de dado texto com outros textos. O comentário. A índole dialógica desse correlacio- namento. [...] a interpretação como correlacionamento com outros textos e reapreciação em um novo contexto (no meu, no atual, no futuro). Dessa forma, o texto, como enunciado, não é tratado isoladamente, mas em relações dialógicas entre os textos e no interior dos textos, em uma cadeia de outros enunciados. Ainda se compreende que o texto como enunciado extrapola o aspecto linguístico, colocando-se na dimensão que se realiza no confronto de duas consciências: de 15 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso quem o produz e na compreensão responsiva do outro interlocutor, assim como na conjunção dos seus discursos situados em contextos sócio-históricos e culturais. O enunciado concreto se define, então, na enunciação em situações de contexto de produção e de recepção definidos. Mas qual é a relação entre textos e discursos? O texto engloba os discursos e é formado por discursos, colocando- -se na fronteira entre discursos culturais e históricos que constroem outros textos ou enunciados. Assim, o enun- ciado tem relação com os sujeitos e com a linguagem em uso e apresenta dois lados de sua natureza, o dado e o criado. Toda a criação nas relações de linguagem ocorre a partir de algo dado, então, todo dado se transforma em algo criado, e a criação ocorre na relação entre diferentes enunciados e por consequência de diferentes discursos (BAKHTIN, 2007). Dessa forma, o “discurso” se situa nas relações entre os sujeitos, na conjunção do histórico, social, cultural e polí- tico, em suas diferentes vivências, em uma perspectiva exclusivamente externa. De acordo com os PCNs (BRASIL, 1998, p. 22): Produzir linguagem significa produzir discursos. Significa dizer alguma coisa para alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico. Isso significa que as escolhas feitas ao dizer, ao produzir um discurso, não são aleatórias — ainda que possam ser inconscientes —, mas decorrentes das condições em que esse discurso é realizado. Quer dizer: quando se interage ver- balmente com alguém, o discurso se organiza a partir dos conhecimentos que se acredita que o interlocutor possua sobre o assunto, do que se supõe serem suas opiniões e convicções, simpatias e antipatias, da relação de afinidade e do grau de familiaridade que se tem, da posição social e hierárquica que se ocupa em relação a ele e vice-versa. Podemos compreender, a partir da discussão apresentada, que não há discurso sem texto, ou vice-versa, porque as relações dialógicas entre os enunciados se dão tanto na materialidade do texto quanto nos elementos extra- linguísticos, como espaço de produção e reprodução, assim como valores históricos, sociais, culturais e políticos. Para ampliar seu entendimento a respeito do caráter ideológico da língua, sugerimos a lei- tura do artigo de José Luiz Fiorin, “Língua, Discurso e Política”. Disponível em: <http://www. scielo.br/pdf/alea/v11n1/v11n1a12.pdf>. 1.3 Texto e formação discursiva Pelas reflexões até aqui propostas, você já deve ter percebido que não existe neutralidade em qualquer texto, pois sempre haverá algum aspecto ideológico subjacente ao que dizemos, ao que lemos ou ouvimos. Da mesma forma, os interlocutores, ao proferirem um enunciado (e como já vimos, um discurso), sempre o fazem a partir de um lugar social, e essas formações discursivas têm, em essência, uma formação ideológica. Importa destacar que o conceito de formação discursiva surge na Análise do Discurso e se refere aos possíveis efeitos de sentido que um enunciado pode suscitar. Segundo Orlandi (1996), o sentido é algo aberto e depende da formação discursiva e ideológica dos interlocutores para garantir a compreensão damaterialidade discur- http://www.scielo.br/pdf/alea/v11n1/v11n1a12.pdf http://www.scielo.br/pdf/alea/v11n1/v11n1a12.pdf 16 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso siva, isto é, do discurso propriamente dito. Ainda segundo a autora, os sentidos, determinados ideologicamente, emergem das palavras, as quais mudam de significação de acordo com as posições daqueles que a empregam. Dessa forma, segundo Orlandi (1996), o sentido não está nas palavras, mas nas formações discursivas em que são escritas, que representam as formações ideológicas no discurso, dadas pela conjuntura sócio-histórica. Nesse sentido, para Orlandi (1996), os diferentes efeitos de sentido, dados pela formação discursiva, podem estar relacionados com a materialidade discursiva. Diferentes efeitos de sentido podem ser analisados pelo dispositivo de leitura interpretativa, sendo que essa leitura interpretativa, por meio da materialidade do texto, pode revelar diferentes discursos, em decorrência das escolhas lexicais, da organização sintática, do registro linguístico e dos modalizadores selecionados, pois revelam sentidos que somente podem ser alcançados pela análise dos ele- mentos linguísticos. Sendo assim, o sentido pode variar de acordo com a formação discursiva, relacionada com o interdiscurso, por- tanto, nunca há um sentido predeterminado, pois ele sempre será construído pelas escolhas do sujeito enuncia- dor a cada formação discursiva, que terá, invariavelmente, implicações ideológicas. Qualquer modificação na materialidade do texto corresponde a diferentes gestos de interpre- tação, compromisso com diferentes posições do sujeito, com diferentes formações discursivas, distintos recortes de memória, distintas relações com a exterioridade. (ORLANDI, 1996, p. 14). Por essa via, o interdiscurso é uma espécie de lacuna discursiva e pode ser definido como tudo aquilo que já foi formulado e que determina tudo o que é dito (ORLANDI, 1996). Nas interações discursivas, no entanto, Orlandi (1996) pondera que o sujeito não percebe a origem das formações discursivas das quais participa. Interdiscurso: é uma propriedade constitutiva do discurso, é o espaço não palpável, a memória do que já foi enunciado e que garante o funcionamento do discurso (ORLANDI, 1996). Glossário Figura 1.5: Interdiscursividade Legenda: A figura apresenta balões se entrecruzando. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 17 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 1 - Introdução aos estudos de leitura e discurso De acordo com Silva (2014), a interdiscursividade alinha-se à concepção de que os discursos se relacionam com outros discursos. Isso quer dizer que um discurso traz em si outros discursos e é constituído por eles, seja os que já foram ditos pelos sujeitos, seja os que ainda serão produzidos. Ainda segundo Silva (2014), a interdiscursividade significa que não existe discurso homogêneo e monológico, pois, quando nos expressarmos, os nossos enuncia- dos são permeados por outras fontes enunciativas. Nesse contexto, alinhado ao conceito de interdiscursividade encontra-se o texto. Segundo Orlandi (1995), a con- dição necessária para se considerar um texto como tal é a possibilidade de identificar sua textualidade, cuja inter- pretação deriva de um discurso que o sustenta e o provê de realidade significativa. Ainda de acordo com a autora, na compreensão do que é texto, podemos entender a relação com o interdiscurso, a relação com os sentidos mesmos e com outros que surgirem. Nas palavras de Orlandi (1995, p. 115): Na perspectiva dessa relação dado/fato, quando afirmo que um texto não é um documento, mas um discurso, estou produzindo algo mais fundamental: estou instalando na consideração dos elementos submetidos à análise — no movimento contínuo entre descrição e interpretação — a memória. Em outras palavras, os dados não têm memória, são os fatos que nos conduzem à memória linguística. Nos fatos, temos a historicidade. Observar os fatos de linguagem vem a ser considerá-los em sua historicidade, enquanto eles representam um lugar de entrada na memória da linguagem, sua sistematicidade, seu modo de funcionamento. Nessa perspectiva, Orlandi (2001) afirma que a sua análise do texto não se pauta na sua discursividade, mas na sua relação como um fato que pode ser interpretado pela memória, considerando a sua historicidade e, por con- sequência, seu funcionamento e sistematicidade. Em suas interações cotidianas, ou mesmo em seus discursos, você consegue se dar conta de que eles são o resultado de inúmeras outras interações e discursos, ou seja, de muitas outras vozes? Reflita sobre os vários discursos que você enuncia. No processo de produção de sentidos, os enunciados trazem consigo outros tantos e estão no centro da consti- tuição dos diálogos. Acerca disso, Bakhtin (2007, p. 348) assegura que: [...] a única forma adequada de expressão verbal da autêntica vida do homem é o diálogo incon- cluso. A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, res- ponder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal. Sob uma ótica discursiva de leitura, a constituição do sentido carrega vestígios de sua determinação histórica (ORLANDI, 2001), de forma que toda fala é a simulação de um discurso anterior, na qual o sentido muda e ao mesmo tempo se reescreve indefinidamente (PÊCHEUX, 1997 apud ORLANDI, 2001). Considerando essas questões, a autora recomenda que, para que alguém se forme como um bom leitor, mais do que ler muitas coisas, é necessário que se envolva em situações de interdiscursividade. 18 Considerações finais Vamos, agora, retomar os pontos principais abordados nesta unidade. • Ler não é meramente compreender os sinais gráficos, o ato de ler é dinâmico e pressupõe um leitor ativo na compreensão do texto. • A perspectiva cognitivista de leitura prevê três modelos de proces- samento de leitura: ascendente (que parte de unidades menores para as maiores do texto), descendente (na qual o leitor parte de seus conhecimentos prévios, fazendo predições antes de conside- rar os elementos linguísticos) e o interativo, que é a combinação dos dois primeiros. • A perspectiva sociocognitivista enfatiza o desenvolvimento de competência leitora por meio de estratégias de leitura mobiliza- das pelo leitor. O enfoque está no sujeito e na sua capacidade de realizar relações lógicas no contexto imediato da leitura. • A concepção interacionista de leitura enfatiza a importância do contexto e sustenta que a atividade de leitura se constitui nas interações dialógicas entre autor, texto e leitor, e que a produção de sentidos ocorre na enunciação, sendo o leitor um interlocutor ativo. • O processo de interlocução se constitui na e pela linguagem, ativi- dade social e histórica cujo produto social é a língua. • O texto engloba os discursos e é formado por discursos, assim como o enunciado tem relação com os sujeitos e com a lingua- gem em uso, nunca havendo neutralidade nesse processo. • A produção de sentidos não é algo previamente determinado, pois os sentidos variam de acordo com a formação discursiva e com os aspectos interdiscursos (a memória de tudo que já foi enunciado), reatualizando-se a cada nova interlocução. • Um leitor proficiente participa de variadas situações de interdis- cursividade. 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Estamos iniciando esta unidade de estudo em que iremos tratar da enunciação, sendo esta compreendida como a interação que ocorre quando a língua está em funcionamento, manifestando posições socioideológicas e histórico-culturais, como também o universo parti- cular de cada indivíduo. Além disso, você terá a oportunidade de apro- fundar seu estudo em conceitos como o de enunciado/texto, semiótico e semântico, mediados pelo dialogismo e polifonia, aspectos caracterís- ticos dos discursos, a fim de chegar à produção de sentidos. Bom estudo! Objetivos de Aprendizagem • Introduzir conceitos da Teoria da Enunciação. • Diferenciar os conceitos de dialogismo e polifonia. • Relacionar os conceitos de dialogismo, polifonia e leitura. 24 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia Aspectos da Teoria da Enunciação Antigamente, era comum a linguística se basear em construções de enunciados que mantinham um monólogo fechado, sendo que a língua posta em movimento, aberta e inacabada, era ignorada. De algum tempo para cá, no entanto, nos estudos sobre a enunciação se percebe a linguagem em movimento, isto é, o processo de cons- trução de frases. Além disso, muito se discutiu sobre a relação entre língua, fala e sentido, em que este último sobressaiu para estabelecer o que, hoje, denominamos discurso, que já não se baseia na forma para compreen- der a estrutura da língua, mas na sua significação. Benveniste (2005 [1966]), em seu artigo intitulado “Problèmes de Linguistique Générale”, atesta que o sentido é a própria essência da língua, e não algo que lhe é somado, mas construído na comunidade dos falantes, quando se usa a língua para atingir determinados fins por meio de unidades de significação denominadas signos linguís- ticos (significante e significado). A frase, por sua vez, é uma referência e, quando inserida em um contexto, traduz um sentido e, consequente- mente, um discurso, pois expressa uma enunciação. Assim, uma enunciação produz um enunciado, que é tudo aquilo que emite sentido e é associado a um contexto (situação). A frase, portanto, é uma entidade da língua que depende de um contexto para fazer sentido, isto é, quando ela acontece de modo particular, segundo uma intenção, cria-se um enunciado. Desse modo, a língua é a ferramenta que o falante ou o escritor utiliza para se expressar (enunciar), formando um discurso. Portanto, é através do ato de enunciar (enunciação) que a língua (sistema formal de código) se torna discurso. Também importa destacar que é através da língua que se dá a interação dialógica entre interlocutores no meio social, tanto na comunicação verbal quanto na não verbal, possibilitando a construção dos enunciados em um contexto em que todos são envolvidos. Ao interpretar e responder ao que é enunciado, temos uma ação de modo interno (por meio de seus pensamentos) ou externo (por meio de um novo enunciado oral ou escrito). Também podemos entender a enunciação como uma atividade de interação social através da qual a língua é colocada em funcionamento. Assim, o resultado da enunciação é o enunciado. Logo, sem o dito não ocorre enunciado. Nesse sentido, ao compreendermos um enunciado por meio da oralidade, da escrita ou de múltiplas linguagens, saberemos que ocorre uma enunciação. Vale ressaltar que a enunciação nos indica o sentido do enunciado, com atenção para o enunciador, aquele que partilha o seu pensamento, seu papel social, sua intenção comunicativa com o enunciatário; o enunciatário, que também partilha aquilo que recebe e suas impressões, suas ideologias; o espaço onde a mensagem é veiculada (lugar físico ou abstrato) e o tempo no qual ela ocorre (época, evento). Desse modo, outro ponto que destacamos é a questão de o enunciado não depender da língua, embora através dela se concretize, pois este é uma realidade do discurso. Isso porque, para identificar o sentido de um enunciado, precisamos saber em que contexto ele acontece. Por exemplo, quando alguém pergunta para outra pessoa: “Conseguiu a aprovação?”, existem para essa resposta milhares de significados, no entanto, só é possível iden- tificar do que realmente se trata a pergunta analisando-se em que situação o processo de enunciação ocorre. 25 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia 2.1 Teoria da Enunciação Èmile Benveniste, linguista francês, inspirador da Teoria da Enunciação, ao longo de sua vida, estudou muito a respeito da enunciação, do discurso, cuja natureza deste último é heterogênea, haja vista os inúmeros significa- dospossíveis a depender da conjuntura em que o discurso se insere. O linguista atesta que “[a] linguagem é, pois, a possibilidade da subjetividade, pelo fato de conter sempre as formas linguísticas apropriadas à sua expressão, e o discurso provoca a emergência da subjetividade” (BENVENISTE, 1988, p. 289). Logicamente, é por meio da subjetividade que o enunciador se propõe como sujeito, pois somente na linguagem ele existe, conforme a realidade que o permeia. A partir da afirmação de Benveniste (1988), deduzimos que a referência integra o discurso, que é algo subjetivo, mesmo que dito ou escrito objetivamente. Desse modo, pela importância dada ao outro na teoria de Benveniste, à intersubjetividade, é que o discurso tem a capacidade de se renovar, atualizar-se. Isto ocorre porque na realiza- ção do discurso existem sujeitos que atuam e materializam a estrutura dialógica. Essa teoria também aponta para o fato de a língua expressar uma relação com o mundo, sendo que tal relação é propiciada pelo discurso, refletida, então, na dinâmica entre os locutores da enunciação e entre a referência. Figura 2.1: A subjetividade no discurso Legenda: Uma mulher fazendo uma declaração qualquer com base nas referências de mundo que possui. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Contudo, uma observação se faz necessária no que concerne à enunciação: seu sentido é verificado ao se pro- duzir o enunciado, e não somente ao se falar alguma coisa. Portanto, o enunciado é a matéria da enunciação apropriada pelo sujeito que enuncia (enunciador). Nos estudos de Benveniste, a condição principal para que a enunciação produza o enunciado, e não o texto que nele aparece, consiste no fato de não se poder repeti-la, por isso, afirma-se que a enunciação é irrepetível. Já um enunciado pode ser, inclusive, ressignificado, como na declaração: “O Rio está em situação de emergência”. Perceba que na frase podemos tanto relacionar o Rio como o curso natural de água como o estado do Sudeste brasileiro. Isto posto, notamos que é através do enunciado (produto da enunciação) que detectamos o sentido. É, por- tanto, no enunciado que estão o conteúdo, o estilo (jeito próprio de expressar ideias) e a construção composi- 26 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia cional. Logo, cada enunciado é individual, mas cada contexto de utilização da língua equivale a tipos específicos de enunciados, denominados gêneros do discurso. Nesse sentido, enquanto o enunciado se revela como uma experiência interior, na qual prevalece o “eu”, a enunciação é fruto da necessidade de conceder ao mundo a lin- guagem que se concretiza quando há um “eu” e um “tu” (outro). Ducrot (apud BRAIT; MELO, 2005, p. 64) afirma: [...] para as diversas realizações, escolheremos a palavra enunciado (é o termo correspondente a token da Escola de Oxford). De acordo com essas definições, nosso primeiro exemplo comporta dois enunciados diferentes, ocorrências do mesmo enunciado-tipo, e que possuem característi- cas “históricas” (notadamente espaço-temporais) distintas. Enfim, entenderemos por enuncia- ção o fato que constitui a produção de um enunciado, isto é, a aparição da ocorrência de um enunciado-tipo. O que eu chamo de “frase” é um objeto teórico, entendendo por isso, que ele não pertence, para o lingüista, ao domínio do observável, mas constitui uma invenção desta ciên- cia particular que é a gramática. O que o lingüista pode tomar como observável é o enunciado, considerado como a manifestação particular, como ocorrência de uma frase. O que designarei por termo [enunciação] é o acontecimento constituído pelo aparecimento de um enunciado. A realização de um enunciado é de fato um acontecimento histórico: é dando existência a alguma coisa que não existia antes de se falar e que não existirá depois. É esta aparição momentânea que chamo de enunciação. 2.1.1 Semiótico e semântico Ao percebermos que o discurso articula forma (sistema de códigos da língua) e sentido (enunciação), podemos formular novos conceitos que dialogam entre si e coexistem no discurso: o semiótico e o semântico. O primeiro se refere a tudo o que somos capazes de interpretar e atribuir sentidos; o segundo, ao modo como moldamos os significados para atingirmos determinados fins. Figura 2.2: Exemplo do que é semiótico Legenda: A figura do relógio, como objeto concreto, cuja ideia é o passar do tempo. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 27 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia A Figura 2.2 mostra um objeto que nos é familiar, o relógio, que indica o passar das horas, o tempo cronológico no sentido horário, mas também podemos ressignificar esse signo como no poema de Quintana (2006), a seguir: O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família. (QUINTANA, 2006, s.p.). No poema, o relógio admite outro sentido, o de uma sequência linear de momentos passados de geração em geração, perspectiva em que essa palavra se aproxima de outra (animal doméstico) para corresponder ao con- texto criado pelo poeta, que é o de significar a vida das pessoas com base no relógio, em que somos todos con- trolados por ele ou assim seguimos permitindo. Notamos, então, que uma frase como a do poema: “O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede”, compõe-se de um significado e de um valor semântico, sendo que cada palavra da frase possui um significado conhecido por nós, ou seja, sabemos o que cada uma delas quer dizer, conseguimos imaginá-las, mas elas só ganham sentido a partir da forma como a frase é enunciada. No caso analisado, o poeta construiu as frases de modo que o leitor, por meio dos significados de cada uma das palavras contidas no poema, possa chegar ao sentido da mensagem, à intencionalidade do autor. A semiótica, portanto, não pode ser compreendida sem abranger a semântica. Para você se familiarizar com a coexistência do semiótico e do semântico, além de compre- ender o processo da enunciação, desde os conceitos linguísticos formulados por Saussure – teórico que originou e desenvolveu estudos sobre a Linguística, tornando-a ciência autô- noma –, leia o texto “Signo, significação e discurso”, de Rubens César Baquião. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/esse/article/download/35250/37970>. https://www.revistas.usp.br/esse/article/download/35250/37970 28 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia 2.2 Dialogismo e polifonia na enunciação Na década de 1980, dois outros conceitos surgiram no Brasil e renderam longas discussões nas décadas pos- teriores: dialogismo e polifonia. Mas antes de tratarmos desses conceitos, é importante lembrarmos de Mikhail Bakhtin – filósofo e teórico que analisou a linguagem, criando conceitos e categorias para estudá-la com base em discursos do cotidiano, das artes, filosóficos e institucionais – e seus estudos sobre a palavra do outro. De acordo com Bakhtin (apud TEZZA, 1988, p. 55): Nossas palavras não são ‘nossas’ apenas; elas nascem, vivem e morrem na fronteira do nosso mundo e do mundo alheio; elas são respostas explícitas ou implícitas às palavras do outro, elas só se iluminam no poderoso pano de fundo das mil vozes que nos rodeiam. Assim, podemos compreender que a linguagem se insere não só em uma conversa interativa, em que há dois ou mais interlocutores, mas também entre línguas, literaturas, culturas, estilos, gêneros e, até mesmo, no universo das ideias, em um sentido totalizador. Diante disso, Bakhtin (1997) aprofundou-se ainda mais em sua análise sobre a linguagem, ao estudar outro autor, Dostoiévski, um destaque do romance russo, e uma de suas obras mais populares (Crime e Castigo), na qual é concedida a cada personagem uma visão de mundo, e não uma repetição do que pensa o próprio autor da obra. Assim, as vozes lá contidas são polifônicas, e os indivíduos são autônomos em relação ao criador da obra. A essência dapolifonia consiste justamente no fato de que as vozes, aqui, permanecem independen- tes e, como tais, combinam-se numa unidade de ordem superior à da homofonia. E se falarmos de vontade individual, então é na polifonia que ocorre a combinação de várias vontades individuais, rea- liza-se a saída de princípio para além dos limites de uma vontade. (BAKHTIN, 1997, p. 21). Vale destacar que existe a possibilidade também de compreendermos o conceito de polifonia por aquilo que ela representa na música. Primeiramente, na Idade Média, aproximando-se do canto popular, sendo uma composi- ção simultânea de sons, em que cada som é independente um do outro, contudo, são percebidos como um todo. No entanto, na literatura, foi Bakhtin (1997) quem desenvolveu o conceito de polifonia, por meio de seus estudos sobre o romance, principalmente os de Dostoiévski, em que identificou que as vozes das personagens indepen- dem da estrutura da obra, bem como do autor, já que as consciências dessas personagens são apresentadas de forma similar, sem que uma seja superior à outra, e, muito menos, inferiores à consciência do autor. Além disso, também é possível notar a combinação dos universos particulares de cada uma das personagens, embora todos mantenham sua própria individualidade. Nesse contexto, outra característica que também pode ser incluída em um romance polifônico é o caráter aberto da obra, ou seja, inconclusivo, uma vez que os conflitos não são dissolvidos, mas permanecem em um processo contraditório: afirmando e negando simultaneamente. Na obra “Crime e Castigo”, Dostoiévski conta a história de um assassinato que tem como estopim o conflito moral sofrido por um ex-estudante de direito, Raskólnikov, o qual vive em uma condição miserável, em um quarto alu- gado, sendo explorado pela locadora do imóvel, que cobra juros altos pelas minguadas moedas que lhe empresta sob a penhora de objetos familiares. O rapaz também tem uma irmã, que está desempregada por não ter se ren- dido à sedução do patrão casado e, também, por ter sido mal falada na cidade por conta dos ciúmes da esposa traída, que, depois, ao descobrir a honestidade da moça, decide lhe arranjar um “bom partido”. Raskólnikov, con- tudo, não deseja ver o sacrifício de sua irmã ao se casar sem amor. Ao longo da trama, a personagem protagonista, Raskólnikov, assim como as outras que com ela interagem e per- meiam a narrativa, move-se de maneira interdependente, de modo que seus pensamentos e atitudes são regi- dos por uma dinâmica afórica, na qual se notam outras vozes a dialogar no percurso da personagem em foco no momento, alterando-se entre sentimentos e emoções eufóricas e negativas. Veja um exemplo retirado do livro: 29 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia Caramba, Zamiótov!... a delegacia!... E por que é que estão me intimando à delegacia? Cadê a intimação? Caramba!... eu confundi: a intimação foi da outra vez! Naquele momento eu também examinei a meia, mas agora... agora eu estava doente. E o que Zamiótov veio fazer aqui? Para que Razumíkhin o trouxe aqui?... – resmungava ele impotente, voltando a sentar-se no sofá. – O que é mesmo isso? Será que eu continuo delirando ou isso é verdade? Parece que é verdade... Ah, me lembrei: fugir! Fugir logo, sem falta, sem falta fugir! Sim... mas para onde? E onde está minha roupa? Não tenho botas! Recolheram! Esconderam! Compreendo! Mas, e o sobretudo – não dis- tinguiram! Eis o dinheiro na mesa, graças a Deus! E eis a letra... Pego o dinheiro e vou embora, alugo outro quarto, eles não vão me achar!... É, mas e o serviço de informações de endereços? Vão achar! Razumíkhin acha. O melhor é fugir de vez... para longe... para a América, e me lixar para eles! E levar a letra... lá ela vai servir. Levar mais o quê? Eles pensam que estou doente! Eles nem sabem que estou podendo andar, he-he he!... Pelo olhar deles percebi que estão sabendo de tudo! Eu só precisava descer a escada! Mas lá estão os guardas deles, os policiais! O que é isso, chá? Ah, olha sobrou cerveja, meia garrafa, fresca! (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 140). Afórica: no contexto sugerido, é uma espécie de referência a termos que já apareceram no texto ou que ainda aparecerão. Glossário Ao refletir sobre a possibilidade de fugir, a personagem Raskólnikov imagina a reação de Zamiótov e dos policiais ali presentes, promovendo uma polêmica ao levantar a questão da fuga. Tal fato também constitui a polifonia, pois, além de se situar em um campo dialógico, as vozes se fazem presentes e coexistentes (interagem simulta- neamente), mesmo que através de uma só personagem. Podemos perceber, então, que essa tessitura de vozes polifônicas carrega posicionamentos ideológicos que são questionados pela personagem protagonista e, de acordo com Bakhtin (1997, p. 7, grifo nosso), “[...] a multiplici- dade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes consti- tuem, de fato, a peculiaridade dos romances de Dostoiévski”. Imiscíveis: que não se misturam. Plenivalentes: no contexto sugerido, significam independentes. Glossário Se formos trazer o conceito de polifonia que até agora estudamos a um nível de compreensão em nosso país, veremos como este é confundido com o conceito de dialogismo e até com o de carnavalização (banalização). No entanto, devemos compreendê-lo como uma reflexão a respeito da natureza do discurso, que se manifesta como um embate social devido à dialética constituinte do signo (unidade que integra o código da língua, composta de 30 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia significante e significado), através da qual o indivíduo se reflete e se refrata (muda de direção ou de ideia), sendo que isto ocorre porque há na interação uma dinâmica socioideológica. Desse modo, o texto que lemos é dialógico porque sugere um confronto de várias vozes sociais (Raskólnikov, o jovem estudante; Zamiótov, o escrivão; e os policiais), cujas concepções do dialogismo se encontram na interação entre o enunciador e o receptor da mensagem, como também no interior do próprio discurso (intertextualidade). Assim, a intertextualidade presente na narrativa romântica de Dostoiévski ocorre pela superposição da obra referida a outra, como a Bíblia. Veja um trecho no qual Raskólnikov visita a prostituta Sônia, inclina-se diante dela e beija-lhe os pés exclamando: “Eu não me inclinei diante de ti, eu me inclinei diante de todo o sofrimento humano” (DOSTOI- ÉVSKI, 2001, p. 332). Note que esse excerto lembra a passagem de Jesus na vida de Maria Madalena. Superposição: no contexto sugerido, tem o sentido de referenciação. Glossário Assim, podemos diferenciar um texto monológico de outro polifônico. No primeiro, os traços típicos sociais e os que caracterizam a individualidade são fixos, nem se alteram nem se moldam; já no segundo tipo de texto, o homem está sempre questionando a sua própria consciência, o que gera mudanças constantes. Notamos que o dialogismo consiste em relações de sentido que possam ser estabelecidas no decorrer das enunciações, em diálogos, em narrativas, de modo a se verificar uma gama de valores retidos pelas várias vozes atuantes e a correspondência entre textos. 31 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia 2.2.1 O discurso dialógico e polifônico observado na leitura Segundo as concepções de Bakhtin (1997), o dialogismo é a engrenagem da polifonia, ou seja, da interação tex- tual, que ocorre na interposição de um texto sobre outro, similares entre si de algum modo, ou na convergência entre eles. Convergência: engloba um ponto em comum. Glossário Em uma conversa, por exemplo, o processo de percepção se dá em um mesmo espaço, que é preenchido tanto pelo emissor quanto pelo receptor da comunicação. Então, para Bakhtin (1997), todos os envolvidos no movi- mento dialógico, que tem na linguagem o seu instrumento principal, refletemelementos sociais, históricos e ideológicos, que estruturam sentidos reais, mesmo estando contidos em obras ficcionais. A partir disso, então, também podemos conceber a leitura como um diálogo em que se constroem sentidos, por meio da visão do autor e do leitor que interagem entre si, sem que a do primeiro se sobressaia ou se imponha, mas deixando que o leitor interprete livremente aquilo que lê, chegando a uma formulação de pensamento. Conforme as palavras de Orlandi (2012, p. 71), leitura é: [...] trabalho simbólico no espaço aberto da significação que aparece quando há textualização do discurso. Há pois muitas versões de leitura possíveis. São vários os efeitos-leitor produzidos a par- tir de um texto. São diferentes possibilidades de leitura que não se alternam, mas coexistem assim como coexistem diferentes possibilidades de formulação em um mesmo sítio de significação. Desse modo, compreendemos que ler é uma prática simbólica que admite múltiplos sentidos, a depender da posição que o sujeito ocupa no discurso, isto porque o texto será determinado pelas formações discursivas e ide- ológicas que indagam o sujeito no decorrer da leitura, assim como por não haver um sentido acabado, limitado, nem um sentido reproduzido, mas o perpassar permitido do leitor diante da obra. E, logicamente, cada discurso, manifestado em textos, intercala outros ditos, outros saberes, histórias, ideologias, culturas, enfim, identificados na leitura. Barros (1994, p. 6) sintetiza: Os textos são dialógicos porque resultam do embate de muitas vozes sociais; podem, no entanto, produzir efeitos de polifonia, quando essas vozes ou algumas delas deixam-se escutar, ou de monofonia, quando o diálogo é mascarado e uma voz, apenas, faz-se ouvir. Para Bakhtin (1997), podemos compreender o dialogismo sob duas formas: o diálogo entre interlocutores e o diálogo entre discursos. O primeiro tipo de diálogo ocorre entre interlocutores, isto é, duas pessoas; funda a linguagem porque é atra- vés dessa interação que as palavras ganham significado e os sentidos são construídos. Há também a noção de sociabilidade, que não só se vale da conversa entre dois sujeitos, mas desses sujeitos com a sociedade (aspectos ideológicos, culturais). 32 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia Podemos, então, resumir o dialogismo como uma forma de se organizar a linguagem, já que: [...] todo discurso concreto (enunciação) encontra aquele objeto para o qual está voltado, sem- pre, por assim dizer, desacreditado, contestado, avaliado, envolvido por sua névoa escura ou, pelo contrário, iluminado pelos discursos de outrem que já falara sobre ele. O objeto está amarrado e penetrado por ideias gerais, por pontos de vista, por apreciações de outros e por entonações. Orientado para o seu objeto, o discurso penetra neste meio dialogicamente perturbado e tenso de discursos de outrem, de julgamentos e de entonações. Ele se entrelaça com eles em intera- ções complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando com terceiros; e tudo isso pode formar substancialmente o discurso, penetrar em todos os seus estratos semânticos, tornar complexa a sua expressão, influenciar todo o seu aspecto estilístico. (BAKHTIN, 1998, p. 86). O segundo tipo trata da relação de um discurso com outros discursos, pois cada texto tece muitas vozes (textos) que se entrecruzam, inter-relacionam-se, posto que todo discurso carrega um caráter ideológico. Nesse sen- tido, essas relações dialógicas podem ser notadas em enunciações completas, como parte de um enunciado, ou mesmo em palavras isoladas. Assim sendo, compreendemos que o texto é o entrecruzamento de várias vozes geradas em práticas de comunicação que se polemizam, completam-se ou respondem umas às outras. Todavia, também podemos compreender o dialogismo em relação ao próprio processo de construção de sen- tidos, no qual há uma seleção de procedimentos por parte de escritores e leitores para dialogar com o texto e produzir um significado para ele, incorporando nesse processo tanto aspectos internos, do próprio ser, quanto as experiências trazidas por outros textos lidos. Dessa forma, o texto, segundo Reid (1993, p. 34), é um produto escrito e sendo produzido, no qual o objetivo inicial é constituir um sentido, sendo a tarefa do escritor atribuir ao texto uma forma e uma utilidade conforme a vontade e conhecimento do escritor (experiências anteriores, percepções do interlocutor, conhecimento do tema e intenção comunicativa), levando em consideração o leitor (suas experiências anteriores, percepções, conhecimento do tópico e propósito da leitura). Por esse motivo, o leitor, além de ser quem lê o texto, deduz o seu sentido e questiona o que ali é colocado diante dele, sendo que, também, ao reler o mesmo texto, pode gerar um novo sentido para ele. Ainda sobre o processo de leitura, Zamel (1992, p. 468) comenta as formas de se construir sentidos: [...] a leitura representa uma atividade engajada de construir significado e assim, permite aos aprendizes fazer conexões com o texto. A escrita fornece uma oportunidade única para desco- brir e explorar essas contribuições e conexões, além de permitir ao leitor dialogar com o texto e encontrar uma maneira particular de entrar nele. Todo texto é dialógico, mas alguns são monofônicos, nos quais uma voz se sobressai em relação a outras, e outros são polifônicos, em que há várias vozes independentes umas das outras para conferir sentidos. 33 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia 2.2.2 O texto no âmbito dos discursos O texto é popularmente conhecido como unidade de sentido, mas no entendimento da Análise do Discurso o texto tem um significado muito mais profundo porque parte da premissa de que qualquer fato enunciativo estará sempre à mercê das relações de sentido naturalmente antagônicas, pois ocorre sempre algum equívoco na sua apreensão. [...] todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se des- locar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro (a não ser que a proibição da inter- pretação própria ao logicamente estável se exerça sobre ele explicitamente). Todo enunciado, toda sequência de enunciados é, pois, linguisticamente descritível como uma série (léxicosintaticamente determinada) de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar à interpretação. É nesse espaço que pretende trabalhar a análise de discurso. (PÊCHEUX, 1997a, p. 53). Esse processo pode ser explicado pela autonomia característica da própria língua, por toda representação histó- rica e ideológica que ela marca, embora ela, a língua, não atue de modo isolado, mas se configure pelos sentidos, afinal, todo enunciado pode transformar-se em outro. Para melhor compreender essa representatividade manifestada pela língua, vamos nos ater um pouco sobre a teoria do discurso, que também diz respeito à determinação histórica dos processos semânticos, que se vincula ao social, que está atrelada à história. Desse modo, devemos olhar para a história como um processo descontínuo e permeado por rupturas, em que a ideologia é percebida pelo sujeito de maneira imediata, no momento presente em que esse sujeito é interpelado pela história. Por essa via, Bakhtin e Voloshinov (1995) destacam que a existência da ideologia e o chamamento ou interpelação dos indivíduos como sujeitos não apresentam diferença, aparentando, assim, acontecer na rea- lidade, e não na ideologia. Nesse sentido, o discurso que esse mesmo sujeito produz não pode ser desassociado do contexto, posto que o dis- curso é uma construção linguística realizada em um dado contexto social. Assim, para compreendermos o sentido de um discurso, precisamos analisar o contexto, o aspecto estético – relacionado à sensibilidade que o teor provoca – e a forma de construção desse discurso, no entanto, ele permanece aberto à interpretação de seu leitor. Vejamos, no Quadro 2.1,a seguir, três aspectos relacionados ao processo de significação do texto realizado pelo sujeito para a atribuição de sentidos. Quadro 2.1: Concepções do processo de atribuição do sentido de um texto INTELIGÍVEL INTERPRETÁVEL COMPREENSÍVEL Aquilo que é claro, de fácil assimilação. Atribuição de um sentido para o texto. Está além da interpretação. Decodificam-se as palavras no texto. O sentido do texto parte da interpretação do contexto. O sujeito compreende o texto com base em usa ideologia, memória e situações vivenciadas. Fonte: Adaptado de Lima e Heine (2014). 34 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia Orlandi (1988, p. 74) resume bem esses aspectos: “[o] sujeito que produz uma leitura a partir de sua posição, interpreta. O sujeito que se relaciona criticamente com sua posição, que problematiza, explicitando as condições de produção da sua leitura, compreende”. Com isso, podemos pensar a língua como uma rede de significação, que depende da relação entre efeito-leitor e vice-versa, com base na linguagem, cuja condição para existir se dá pela incompletude, pelo inacabado. A autora (2012, p. 53) complementa afirmando que, “[ao] dizer, o sujeito significa em condições determinadas, impelido, de um lado, pela língua e, de outro, pelo mundo, pela sua experiência, por fatos que reclamam sentidos e, também, por sua formação discursiva [...]”. A seguir, vamos analisar uma pequena fábula para visualizar como a apreensão do texto funciona na prática. Uma rã viu um boi que tinha uma boa estatura. Ela, que era pequena, invejosa, começou a inflar-se para igualar-se ao boi em tamanho. Depois de algum tempo, disse: - Olhe-me, minha irmã, já é o bastante? Estou do tamanho do boi? - De jeito nenhum. - E agora? - De modo algum. - Olhe-me agora. - Você nem se aproxima dele. - O animal invejoso inflou-se tanto que estourou. Fonte: Rocha ([s. d.]), p. 63). Se fosse perguntado a você se a história é sobre bichos ou humanos, saberia responder? Se você respondeu sobre humanos, acertou! Mas como você chegou a essa conclusão? Simples. Pelo fato de que algumas informações presentes na fábula dizem respeito ao comportamento humano, como o adjetivo “invejo- sos” e a vontade de a rã se igualar em tamanho ao boi. Essas informações revelam o traço semântico contido no texto. Assim, os traços semânticos presentes no texto direcionam a leitura que devemos fazer sobre ele, portanto, a leitura está arrolada a uma possibilidade existente no texto (interpretação). E quanto aos textos polifônicos? Como identificar os traços semânticos que nos permitem compreender, de fato, o texto? Vejamos um exemplo, a partir do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, cujo discurso confessional também se encaixa no discurso de várias vozes (polifônico). Nesse conto, o narrador, Nogueira, jovem ingênuo do campo, recém-chegado à cidade grande e não familiari- zado com a vida urbana, é também uma personagem que conversa com sua autoconsciência, ao tentar entender o seu passado, uma vez que logo no início do conto, na primeira página, o enunciado – “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta” – reflete dois narra- dores fundidos em um só: o jovem e o velho, já que no momento em que a história é contada Nogueira já é um homem maduro. Perceba que essa marca temporal consiste em uma presença dialógica. Além desta, a outra forma de percebermos a polifonia no texto é através da autoconsciência da personagem com os discursos que vêm de fora e, também, os que dizem respeito à realidade que o permeia. Veja o trecho na segunda página do conto de Machado de Assis que transmite essa ideia: “Boa Conceição! Chamavam-lhe ‘a santa’ e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido”. Nesse trecho, o narrador faz um juízo de valor sobre a personagem Conceição. 35 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 2 - Aspectos de dialogismo e polifonia Desse modo, entendemos que existem duas maneiras de incorporar vozes de outro em um enunciado: • uma, em que o discurso do outro é demarcado, separado e citado abertamente no texto; • outra, em que o discurso do outro é dialogicamente interno, é bivocal. Com base nessas informações, percebemos que só produzimos linguagem por meio do discurso, quando dize- mos algo a alguém em um contexto específico, demarcado por condições peculiares, que vão desde convicções a posições sociais das pessoas envolvidas, sendo que essas condições definem o gênero textual no qual o discurso se realiza e onde o texto pressupõe a atividade discursiva. No entanto, não devemos confundir tipologia textual, compreendida pelo gênero ao qual o texto pertence (narra- tivo, descritivo, argumentativo e injuntivo), com o gênero discursivo (que trata das ações de interação que ocorrem através da linguagem, considerando a situação comunicativa, o objetivo, o público e as escolhas do interlocutor). Exemplos de gêneros do discurso são: chat, crônica, bate-papo entre amigos, anúncio publicitário etc. A importância de entendermos esses conceitos tem a ver com a forma como lidaremos com as atividades de lei- tura, compreensão e produção textual em sala de aula. E, como professores de Língua Portuguesa, não devemos restringir as nossas aulas à gramática, mas permitir ao aluno leitor construir “[...] um sentido que seja compatível com a proposta apresentada pelo seu produtor” (KOCH; ELIAS, 2006, p. 8). Tendo como base os conhecimentos sobre interpretação e compreensão de sentidos que adquiriu ao longo do estudo desta unidade, você, agora, tem mais conhecimentos e infor- mações para participar do Fórum Desafio e ampliar sua reflexão sobre o tema. 36 Considerações finais Por fim, chegamos à conclusão desta unidade, na qual vimos os conceitos que envolvem a Teoria da Enunciação, cerne dos estudos sobre a lingua- gem, a partir de Benveniste, pondo a dinâmica dos discursos como centro das atenções para analisar a apreensão de sentidos nos textos, como tam- bém a relação dialógica presente em discursos e percebida na atividade de leitura. Vejamos os pontos mais importantes que aprendemos. • Uma frase fora de contexto não tem significação, mas, quando sustentada por uma dada situação específica, gera um enunciado. • A enunciação dá-se pelo ato de enunciar, cujo resultado é o enun- ciado; sem o dito não há enunciação. • Na Teoria da Enunciação, o sujeito existe por meio da linguagem na qual incorpora a sua subjetividade. • A subjetividade do sujeito é também uma referência da realidade que o permeia. • A diferença entre semiótico e semântico se encontra no sentido das coisas. Enquanto o primeiro compreende o que cada palavra significa, o segundo interpreta as palavras de acordo com o con- texto em que elas estão inseridas. • Discursos polifônicos dizem respeito à multiplicidade de vozes contidas em um único texto ou enunciado, que refletem posi- cionamentos histórico-ideológicos e a consciência individual do homem. • Há dois tipos de diálogos: os que ocorrem entre interlocutores e os que ocorrem entre textos. Este último trata da noção de inter- textualidade. • A intertextualidade pressupõe a existência de referências no pro- cesso de produção e recepção dos textos. • Um texto pode ser inteligível (decodificado), compreensível (evo- cado por outras instâncias, como a memória do leitor ou ouvinte, por exemplo) e interpretável (percepção do contexto). 37 Referências ASSIS, J. M. M. de. Missa do Galo. In: Páginas recolhidas. Domínio Público. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ bv000223.pdf>. Acesso em: 23 abr. 2018. BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. ______. Questões de literatura e de estética. A teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1998. ______. VOLOSHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de MichelLahud e Yara Frateschi Vieira com a colaboração de Lúcia Tei- xeira Wisnik e Carlos Henrique D. Chagas Cruz. 7. ed. São Paulo: Hucitec, 1995. BAQUIÃO, C. R. 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Tesol Quarterly, v. 26, n. 3, p. 463-485, 1992. http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/fabulas.pdf 41 3Unidade 3 Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Para iniciar seus estudos Nesta unidade, você entrará em contato com os conceitos de letramento e de intersubjetividade, relacionando-os com seus significados no campo da leitura. Iniciando com um breve histórico do conceito de letramento, você conhecerá diferentes modelos de letramento, suas práticas e even- tos, assim como seus aspectos intersubjetivos. Por fim, refletiremos sobre os letramentos múltiplos na era digital. Vamos começar? Objetivos de Aprendizagem • Estudar os pressupostos teóricos dos conceitos de letramento e de intersubjetividade. • Discutir as dimensões das práticas e eventos de letramento. • Refletir sobre a dimensão intersubjetiva da leitura. 42 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade 3.1 Breve histórico O que vem à sua cabeça quando você ouve dizer que determinada pessoa é letrada? É possível que, em um primeiro momento, a primeira imagem que surja seja a de alguém culto, que tenha lido muito e que domine conhecimentos eruditos. Esse com certeza é um significado possível para o termo, entretanto, o conceito de letramento que abordaremos aqui tem outros pressupostos e, para conhecê-los, faremos um breve passeio pelas origens desse tão importante fenômeno da linguagem, no âmbito dos usos sociais da leitura e da escrita. A palavra letramento surge no campo educacional e linguístico em meados dos anos de 1980, ganhando des- taque pelo seu uso nos discursos de seus respectivos especialistas. Soares (2000) informa que um dos primeiros registros do termo se encontra na obra “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística”, de Mary Kato, publicada em 1986, na qual o termo letramento é apontado como causa da língua falada culta. Outras ocorrên- cias são apontadas por Soares (2000): no livro “Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso”, em que a autora, Leda Verdiani Tfouni, diferencia alfabetização de letramento, e no livro “Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita”, de 1995, no qual a organizadora, Ângela Kleiman, lança a hipótese de que Mary Kato seja a proponente inicial do termo que viria a se firmar depois como conceito específico da educação e das ciências linguísticas. Mas, afinal, o que exatamente é letramento? O que é uma pessoa letrada, de acordo com esse conceito? Para res- ponder essas perguntas, é necessário ainda compreender o contexto do surgimento desse conceito. Para tanto, a fim de facilitar esse entendimento, vamos nos reportar às origens etimológicas e às acepções de sentido de letramento. No “Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa”, de Caldas Aulete, edição de 1974, letramento tem o sen- tido de escrita, significado este remetido às acepções do verbo letrar – investigar, soletrando; letrar-se; adquirir letras ou conhecimentos literários. Tal definição está distante da que o conceito assume atualmente, mas está na base do efeito de sentido assumido popularmente, pois ainda hoje a ideia de erudição é associada à de uma pessoa letrada. Soares (2000) pondera que o sentido registrado por essa fonte lexicográfica não é suficiente para compreender o sentido atual de letramento, haja vista que o próprio dicionário registra o verbete como uma palavra antiga/antiquada. Segundo a autora, é nas raízes etimológicas que encontraremos o significado de letramento conforme o con- ceito é entendido hoje em dia: Etimologicamente, a palavra literacy vem do latim “littera” (letra), com o sufixo -cy, que denota qualidade, condição, estado e fato de ser [...]. No Webster’s Dictionary, literacy tem a acepção de “theconditionofbeingliterate” [...] definido como educado, especialmente, capaz de ler e escrever. Ou seja: literacy é o estado ou a condição que assume aquele que aprende a ler e a escrever. (SOA- RES, 2000, p. 17). Trata-se, portanto, da condição que assume alguém que aprendeu a ler e a escrever, sendo que esse aprendizado tem implicações “[...] sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, linguísticas [...]” (SOARES, 2000, p. 17) que atingem, de acordo com a pesquisadora, não somente a pessoa como também o grupo social em que ela se insere. O conceito de letramento se refere, assim, ao resultado de uma ação, seja ela aprender ou ensinar a ler e a escrever. Você deve estar se perguntando: se letramento tem a ver com aprender a ler e a escrever, isso não é o mesmo que alfabetização? Essa é uma questão bastante pertinente, então, vamos refletir sobre esse assunto. 43 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Figura 3.1: Alfabetizar ou letrar? Legenda: A figura apresenta uma pessoa com dúvida sobre algo. Fonte: Plataforma Deduca (2018). No início deste tópico, vimos que o termo letramento começou a ser usado por teóricos da educação e por lin- guistas para designar quem desempenhava com desenvoltura atividades que envolviam usos da leitura e da escrita para além da mera decodificação das palavras. Até então, o contexto educacionalvivenciado no Brasil era o de altíssimas taxas de analfabetismo, por isso, a análise e a resolução desse grave problema era o foco das pes- quisas acadêmicas e também das intervenções institucionais educacionais que se fizeram. Nesse cenário, urgia combater o analfabetismo, o que significava aumentar o número de crianças, jovens e adultos alfabetizados. Analfabetismo-alfabetização era, desse modo, a dicotomia sobre a qual se centravam as atenções. Todavia, a realidade é dinâmica. Aos poucos, o “dragão” do analfabetismo foi perdendo força e os índices de brasileiros capazes de codificar o próprio nome (critério definido, até 1940, por institutos de pesquisa para carac- terizar alguém como alfabetizado) foram aumentando. No entanto, em face de uma sociedade em evolução, as demandas sociais exigiam um sujeito que soubesse mais do que simplesmente ler e escrever, o que se refletiu inclusive nas pesquisas estatísticas. Soares (2000) relata que o Censo de 1950, que investigava o número de analfabetos, modificou sua pergunta central, passando a inquerir se o entrevistado sabia ler ou escrever um bilhete simples, fato que revelava: [...] a busca de um ‘estado ou condição de quem sabe ler e escrever’ mais que a verificação da simples presença da habilidade de codificar em língua escrita, isto é, já se evidencia a tentativa de avaliação do nível de letramento, e não apenas a avaliação da presença ou ausência da “tecnolo- gia” do ler e escrever. (SOARES, 2000, p. 21-22). 44 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Apesar de os censos demográficos registrarem queda na taxa de analfabetismo, ainda há cerca de 11 milhões de analfabetos no Brasil (7,2% da população a partir de 15 anos), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2016, estando a maior concentração de analfabetos na região Nordeste e entre pretos ou pardos, o que revela a desigualdade de classe e étnico-racial no país. Embora o termo letramento ainda não fosse usado em estudos e pesquisas relevantes da década de 1980, per- cebe-se que já havia um novo olhar para o fenômeno da alfabetização. As pesquisas psicogenéticas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, por exemplo, ao demonstrarem que a aquisição da escrita, em vez do domínio de uma técnica, como se supunha, consistia, na verdade, em uma construção conceitual, revolucionaram a concepção que se tinha sobre a alfabetização ao convidar os educadores a propiciarem condições para os aprendizes cons- truírem suas interpretações e se apropriarem das culturas do escrito. Paralelamente, Paulo Freire, ao reivindicar a importância de a leitura do mundo preceder a leitura da palavra e elaborar sua proposta de alfabetização coletiva, conscientizadora e libertária, enfatizava a dimensão política do processo de aprendizagem da leitura e da escrita. Ambas as linhas de atuação, a das pesquisadoras e a do edu- cador brasileiro, abordavam a alfabetização por um viés que não se restringia à decodificação, portanto, poderí- amos dizer que o conceito de alfabetização com o qual trabalhavam abarcava a dimensão social que o conceito de letramento descreve. Emília Ferreiro e Paulo Freire são de suma importância para os avanços dos estudos sobre alfabetização. Entenda por que esses e outros pesquisadores contribuíram também para as discussões sobre letramento e reflita sobre as polarizações que envolvem os dois conceitos lendo o artigo “Leitura e alfabetização no Brasil: uma busca para além da polarização”, de Claudemir Belintane. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v32n2/a04v32n2.pdf>. É necessário evitar a dissociação entre alfabetização – que acabou sendo entendida, equivocadamente, como um código de correspondências grafofônicas, isto é, entre letras (os grafemas) e seus sons (os fonemas) – e letramento – associado aos usos e funções sociais da escrita. Isso porque, segundo Soares (2004, p. 14, grifo da autora), alfabetização e letramento: Não são processos independentes, mas interdependentes, e indissociáveis: a alfabetização desenvolve-se no contexto de e por meio de práticas sociais de leitura e de escrita, isto é, através de atividades de letramento, e este, por sua vez, só se pode desenvolver no contexto da e por meio da aprendizagem das relações fonema–grafema, isto é, em dependência da alfabetização. Emília Ferreiro e Paulo Freire são de suma importância para os avanços dos estudos sobre alfabetização. Entenda por que esses e outros pesquisadores contribuíram também para as discussões sobre letramento e reflita sobre as polarizações que envolvem os dois conceitos lendo o artigo “Leitura e alfabetização no Brasil: uma busca para além da polarização”, de Claudemir Belintane. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v32n2/a04v32n2.pdf>. 45 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Você já deve ter percebido que o conceito de letramento, embora surgido em um contexto em que o conceito de alfabetização parecia não abarcar os impactos sociais da escrita, sobretudo fora do ambiente escolar, não des- caracteriza a fundamental importância da alfabetização como um processo a ser desenvolvido e preservado em suas especificidades. No tópico a seguir, detalharemos o conceito de letramento, apresentando os dois diferentes modelos de letra- mento que embasam as ações pedagógicas: o autônomo e o ideológico. Também explicaremos como as práticas e eventos de letramento se manifestam. Acompanhe com atenção o que virá a seguir. 3.2 Letramentos e suas perspectivas Com o que foi exposto anteriormente, podemos afirmar que letramento é um conceito mais amplo do que o de alfabetização e engloba múltiplas dimensões e valores, o que, em contrapartida, dificulta defini-lo de modo com- pleto. Por outro lado, letramento é um fenômeno que ocorre de forma combinada ao de alfabetização, dando- -lhe um entorno sociocultural (CERUTTI-RIZZATTI, 2012). Para que você entenda melhor, considere a seguinte situação comparativa, adaptada de um exemplo dado por Cerutti-Rizzatti (2012). Uma criança imersa em um ambiente em que interage com frequência com aparelhos eletrônicos, como smar- tphones e tablets, e variados suportes de leitura, como livros, revistas e jornais, e outra que habita uma comuni- dade carente de suportes básicos, como letreiros em fachadas de lojas ou placas de trânsito, terão diferentes compreensões e, por conseguinte, construirão distintas representações da escrita, o que afetará seu processo de alfabetização e os usos que farão do código escrito. Figura 3.2: Dimensões da alfabetização e do letramento Legenda: A figura apresenta uma criança lendo. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 46 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Esse exemplo permite observar que o conhecimento e o exercício dos usos sociais da leitura e da escrita têm relação com aspectos socioculturais e econômicos (CERUTTI-RIZZATTI, 2012) e nos trazem a uma possível definição: Letramento é, pois, o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita. [...] Letramento é prazer, é lazer, é ler em diferentes lugares e sob diferentes condições [...] Letramento é informar-se através da leitura, é buscar notícias e lazer nos jornais, é interagir com a imprensa diária, fazer uso dela, selecionando o que desperta interesse, divertindo-se com as tiras de quadrinhos. (SOARES, 2000, p. 18). Cabe aqui destacar que o letramento tem modos específicos de funcionamento, com desdobramentos nas rela- ções de identidade e poder para os sujeitos envolvidos (KLEIMAN, 1995). Tais maneiras de funcionar estão asso- ciadas a dois modelos de letramento, os quais você conhecerá agora. 3.2.1 O modelo autônomo O modelo autônomo de letramento, também chamado de logocêntrico (centrado na palavra),privilegia a dimen- são individual do fenômeno, concebendo letramento como um conjunto de habilidades e práticas neutras e uni- versais com as quais a pessoa, na condição de letrada, almejaria benefícios socioeconômicos e cognitivos, pura e simplesmente por dominar as normas da leitura e da escrita e fazer uso delas. Esse modelo parte da concepção de que a pessoa letrada seria mais informada, intelectual, criativa e propensa ao sucesso. O modelo autônomo de letramento é uma designação do antropólogo Brian Street e se refere à ideia de que a escrita seja um produto em si mesma, ou seja, autônoma em relação a outras manifestações de linguagem; suas características centrais seriam: a consideração da escrita como superior à oralidade; correlação entre aquisição da escrita e desenvolvimento cognitivo; atribuição de qualidades intrínsecas à escrita desvinculadas de seu con- texto de produção e associação da aquisição da escrita com mobilidade social (KLEIMAN, 1995). Esses pressupostos podem ser percebidos em discursos, muito comuns até hoje, de que pessoas que leem bas- tante são mais inteligentes, por exemplo. Quem nunca ouviu que era preciso estudar (e, consequentemente, tornar-se letrado) para subir na vida? O modelo autônomo serviu de sustentação para que muitos estudos antropológicos postulassem diferenças cognitivas entre indivíduos de sociedades centradas na escrita ou na oralidade e reforçou preconceitos e estere- ótipos envolvendo pessoas analfabetas, vistas como incompletas, incapazes ou ignorantes. Outra consequência do modelo autônomo de letramento, segundo Kleiman (1995), é responsabilizar o sujeito pelo fracasso ou evasão escolar, como se essa faceta da marginalização social pertencesse ao contexto individual. Kleiman (1995), ao apontar a escola como principal agência de letramento, argumenta que, nos moldes tradicio- nais de ensino-aprendizagem, o modelo autônomo foi o que, historicamente, permeou as práticas pedagógicas. Como contraponto a essa concepção, o antropólogo Brian Street defende o modelo ideológico de letramento, pelo qual o cientista destaca que as práticas de letramento são aspectos culturais e das estruturas de poder de uma sociedade (KLEIMAN, 1995). Conheça mais detalhadamente esse modelo no tópico seguinte. 47 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Caro aluno, atenção: nesta unidade, você estudará conceitos que ampliarão sua instru- mentalização teórica e facilitarão que você resolva o desafio proposto no início desta dis- ciplina. Ao final deste estudo, não deixe de acessar o fórum para refletir sobre a proposta que você elaborará. 3.2.2 O modelo ideológico Sem negar completamente os resultados das pesquisas realizadas sob a ótica da concepção autônoma de letra- mento, o modelo ideológico evidencia as estruturas culturais e de poder subjacentes aos aspectos cognitivos da escrita adquirida na escola, denunciando a reprodução das desigualdades e visando à transformação da reali- dade de grupos marginalizados. O modelo ideológico, ao abordar o fenômeno do letramento contextualizadamente, prevê a existência de letra- mentos múltiplos, cujas práticas são discursivas e mudam de acordo com o contexto. O próprio modelo autô- nomo é também considerado como ideológico, pois os pertencentes aos grupos majoritários privilegiam suas práticas de letramento e suas visões específicas de mundo (KLEIMAN, 1995). Nesse sentido, do mesmo modo que o conceito de letramento não invalida o conceito de alfabetização, os modelos autônomo e ideológico não são o avesso um do outro, por isso: [...] os modelos jamais foram propostos como opostos polares: em vez disso, o modelo ideológico de letramento envolve o modelo autônomo. A apresentação do letramento como sendo “autô- nomo” é apenas uma das estratégias ideológicas empregadas em associação ao trabalho no campo do letramento, que em realidade disfarça a maneira em que a abordagem supostamente neutra efetivamente privilegia as práticas de letramento de grupos específicos de pessoas. Nesse sentido, o modelo autônomo mostra-se profundamente ideológico. Ao mesmo tempo, o modelo ideológico consegue perceber as habilidades técnicas envolvidas, por exemplo, na decodificação, no reconhecimento das relações entre fonemas e grafemas e no engajamento nas estratégicas aos níveis de palavras, sentenças e de textos [...]. Entretanto, o modelo ideológico reconhece que essas habilidades técnicas estão sempre sendo empregadas em um contexto social e ideológico, que dá significado às próprias palavras, sentenças e textos com os quais o aprendiz se vê envol- vido. (STREET, 2003, p. 9 apud CERUTTI-RIZZATTI, 2012, p. 5-6). A abordagem do modelo ideológico remete às práticas de letramento à medida que não considera que o letra- mento se desenvolva somente em contexto escolar, mas que “[...] as práticas de letramento, no plural, são social e culturalmente determinadas, e, como tal, os significados específicos que a escrita assume para um grupo social dependem dos contextos e instituições que ela foi adquirida” (KLEIMAN, 1995, p. 21). Assim, a dicotomia oralidade e escrita, típica do modelo autônomo, não faz sentido no modelo ideológico, visto que este reconhece uma interface entre práticas orais e escritas; de forma análoga, a relação entre letramento, progresso e civilização, estabelecida no modelo autônomo, perde o sentido no modelo ideológico. Você entenderá melhor essas questões ao adentrarmos no próximo ponto de nosso estudo. Continuemos. 48 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Figura 3.3: Usos sociais da leitura e da escrita Legenda: A figura apresenta uma pessoa lendo e escrevendo. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 3.2.3 Eventos e práticas de letramento Eventos e práticas de letramento são conceitos intimamente relacionados, daí serem abordados conjuntamente. De acordo com Street e Castanheira (2014), o primeiro se refere aos elementos mais observáveis das atividades ligadas à leitura e à escrita, já o segundo situa os eventos em contextos institucionais, os quais, por sua vez, são palco de disputas de forças econômicas, religiosas e políticas. Dito de outro modo, o evento de letramento engloba as interações mediadas pela escrita; a prática de letramento estabelece conexões com as dimensões cultural e social (STREET, 2003 apud KLEIMAN, 1995). No ambiente escolar, por exemplo, quando um professor abre uma roda de conversa sobre alimentação saudável, ou quando coordena a elaboração de uma lista com os alimentos mais consumidos pela turma e as informa- ções nutricionais destes, temos a concretização de eventos de letramento. Fora da escola também há inúmeros eventos de letramento passíveis de observação, como a escrita de e-mails, a postagem de algum texto em redes sociais ou a procura de algum endereço no mapa. Street e Castanheira (2014, s./p.) definem e ilustram os eventos de letramento da seguinte forma: Os eventos de letramento ocorrem em diferentes espaços sociais, assumem diferentes formas e têm funções variadas. No cotidiano de uma sala de aula, por exemplo, podem ser identificados em situações em que professor e alunos conversam sobre um livro lido pela turma ou sobre uma notícia de jornal comentada por um aluno. O mesmo ocorre nas situações em que o professor registra no quadro o nome dos aniversariantes, a agenda de trabalho do dia ou os nomes dos alunos ‘bagunceiros’. As pessoas também se envolvem em vários eventos de letramento fora da escola quando, por exemplo, participam de um ritual religioso, leem um livro para os filhos, ano- tam compras em uma caderneta, leem e escrevem cartas e e-mails ou leem pequenos anúncios em busca de emprego. 49 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Para cada evento ou conjunto de eventos de letramento existem práticas de letramento que os situam em deter- minada concepçãocultural ou social, bem como designam comportamentos específicos dos participantes de um dado evento. Suponha, a fim de melhor entendimento, a situação prática apresentada a seguir. Você é professor e faz parte de um grupo de WhatsApp composto pelo corpo docente da escola. Em um deter- minado dia, alguém posta uma piada repleta de preconceitos. Você, então, escreve uma mensagem criticando o fato, e o autor da postagem, sentindo-se ofendido com sua crítica, responde que quem o conhece sabe que ele não tem aquele tipo de preconceito e que só postou para suscitar o debate no grupo. Sua reação é escrever outra mensagem alertando o colega para o fato de que postar um conteúdo sem nada especificar quanto às intenções gera o entendimento de que há concordância com o que foi postado. Nessa situação hipotética, poderíamos citar como exemplos de eventos de letramento: a postagem de uma piada no grupo; a escrita de um texto crítico quanto aos preconceitos subjacentes à anedota e a escrita de um texto de objeção à sua crítica. Configuraria também como evento de letramento a leitura desses textos que comporiam a conversa entre você e o outro professor pelos outros integrantes do grupo. Como outros exemplos de prática de letramento vinculada a esses eventos, poderíamos elencar: o comportamento dos interlocutores na conversa travada, o qual seria revelador das concepções de cada um sobre gênero discursivo e de suas visões de mundo, o que resultaria em distintas reações ao conteúdo postado. As práticas de letramento são, portanto, historicamente situadas e darão sentido aos eventos de letramento, revelando sua natureza ideológica. Street (2001 apud KLEIMAN, 1995) alerta que o conceito de evento de letra- mento não pode ser separado do conceito de prática de letramento, sob pena de se resumir à mera descrição, pois os sentidos e os significados dos eventos de letramento advêm tanto da situação específica quanto das conversações e concepções de cunho cultural e social que as permeiam. Há elementos que devem ser visíveis nos eventos de letramento. São eles: participante(s), ambiente(s), artefato(s) e atividade(s). Isto porque os eventos de letramento são situações reais em que se enquadram as práticas de letramento. Retomando os conceitos em outras palavras, evento de letramento é qualquer situação em que uma ou mais pessoas interajam para produzir e compreender a escrita. Prática de letramento é uma produção social que tem relação com o modo como as pessoas realizam o evento de letramento e com o valor ideológico subjacente a ele. Em sua formação familiar, de que eventos e práticas de letramento você se lembra de ter participado? Você considera que esses eventos e práticas tiveram influência no modo como você se constituiu como leitor? Reflita sobre sua trajetória nos usos sociais da leitura e da escrita, ou seja, sobre sua trajetória de letramento. 50 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade 3.3 Multiletramentos e intersubjetividade O exemplo dado no tópico anterior já demonstra que letramento designa atitudes e procedimentos vários, sendo mais adequado falarmos de letramentos, afinal, os gêneros discursivos, inúmeros e variados, são englobados pelo conceito. Vivemos em uma sociedade multifacetada, cujas manifestações de linguagem são caracterizadas pela multimodalidade, o que demanda, por parte dos educadores, um olhar plural para os letramentos com os quais convivemos, em maior ou menor grau, em diversas instâncias de nosso cotidiano. Multimodalidade consiste nos variados modos de configuração da comunicação linguística. Um texto multimodal refere-se a enunciados híbridos, que aliam textos verbais e não verbais, como um filme, um blog ou uma fotografia, por exemplo (ROJO; MOURA, 2012). Glossário Nesse contexto, os textos híbridos, isto é, compostos por diferentes linguagens, alteram o modo de veiculação e circulação da informação, demandando o surgimento de novos gêneros discursivos que deem conta dos varia- dos contextos de interação possíveis nesta era digital. No campo educacional, tal realidade pode implicar o uso de novos letramentos, em uma abordagem pluralista, ética e democrática (ROJO; MOURA, 2012). Figura 3.4: Textos híbridos Legenda: A figura apresenta imagens de textos impressos, digitais e infográficos. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 51 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Assim, o termo multiletramentos se baseia na concreta participação dos sujeitos em práticas sociais, em uma perspectiva que implica os múltiplos modos de interação, e não somente a escrita. Nesse sentido, há uma ampliação das discussões, pois se considera que emergem várias formas de letramento, tais como: computa- cional, midiático, digital, literário, visual, tecnológico, sonoro, televisivo, entre outros. Dessa forma, a interação ocorre por meio de modos diferentes e inter-relacionados de expressão de linguagem, ou seja, pela sua multi- modalidade. Nas palavras de Rojo (2014, [s. p.]): [...] isso se dá porque hoje dispomos de novas tecnologias e ferramentas de “leitura-escrita”, que, convocando novos letramentos, configuram os enunciados/textos em sua multissemiose (mul- tiplicidade de semioses ou linguagens), ou multimodalidade. São modos de significar e configu- rações que se valem das possibilidades hipertextuais, multimidiáticas e hipermidiáticas do texto eletrônico e que trazem novas feições para o ato de leitura: já não basta mais a leitura do texto verbal escrito – é preciso colocá-lo em relação com um conjunto de signos de outras modalidades de linguagem (imagem estática, imagem em movimento, som, fala) que o cercam, ou intercalam ou impregnam. Esses textos multissemióticos extrapolaram os limites dos ambientes digitais e invadiram, hoje, também os impressos (jornais, revistas, livros didáticos). Além disso, letramentos múltiplos, ou multiletramentos, sinalizam para a existência de uma gama de práticas e eventos de letramento, quer sejam ou não valorizados pela sociedade, portanto, contemplam tanto uma anima- ção ou curta-metragem cult quanto uma pichação de rua. Rojo e Moura (2012, p. 13) explicitam que o conceito de multiletramentos: [...] aponta para dois tipos específicos e importantes de multiplicidade presente em nossas socie- dades, principalmente urbanas, na contemporaneidade: a multiplicidade cultural das popula- ções e multiplicidade semiótica de constituição dos textos por meio dos quais ela se informa e se comunica. Tal perspectiva de letramentos múltiplos ou multiletramento e a multimodalidade da linguagem tem total cone- xão com o conceito de intersubjetividade. Desse modo, a intersubjetividade pode ser descrita, no processo de interação, como o conjunto dos múltiplos modos de comportamento, tais como a fala, o gesto, o olhar e o espaço interindividual (OLIVEIRA, 2005). De acordo com a teoria da intersubjetividade, para que alguém possa estar com o outro, é necessário que sua subjetividade seja objetivada através da linguagem. Sendo assim: [...] intersubjetividade é tudo o que está além e aquém de minha subjetividade. Compartilhamos o que damos conta de fazê-lo, mediante acordos feitos em comum. O sentido, por sua vez, é construído no espaço entre, por meio de mediações simbólicas compartilhadas. (OLIVEIRA, 2005, p. 12). Esse processo se dá por meio da linguagem, pelas intersubjetividades dialógicas que expressam elementos inconscientes e representam, ao mesmo tempo, um elemento social (OLIVEIRA, 2005). A relação intersubjetiva começa, então, pela responsividade ativa de um interlocutor em relação a si mesmo, a qual tem origem na mani- festação do outro. Assim, a intersubjetividade se constrói em um conjunto de representações que se despersoni- ficam à medida que aumenta a distância entre os interlocutores. Se nos reportarmos ao modo de funcionamento dos gêneros típicos dos letramentos digitais, fica maisfácil entender a construção da subjetividade. Em um blog, por exemplo, os comentários são o principal instrumento de interação, e através deles os interlocutores (re)constroem suas identidades. Nesse processo, o “eu” e o “outro” se instauram como sujeitos discursivos, em uma interdependência em que o “eu” necessita do “outro” para se constituir (OLIVEIRA, 2005). Essa noção de intersubjetividade remonta aos postulados dialógicos bakhtinianos, que preveem as relações sub- jetivas como a inserção social de sujeitos corpóreos em um dado espaço e suas relações uns com os outros por meio da linguagem (BAKHTIN, 1998 [1975]). 52 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade A leitura, por essa ótica, é entendida como um diálogo constante entre subjetividades, e essa dimensão intersub- jetiva deve ser explorada nos contextos escolares. Daí a importância das ferramentas trazidas pelos multiletra- mentos, cuja lógica interativo-colaborativa possibilita subverter as relações de poder preestabelecidas no que diz respeito ao controle unidirecional da comunicação e da informação (ROJO; MOURA, 2012). Importa destacar também que o conceito de multiletramentos costuma esbarrar em definições um tanto con- fusas, sendo assim, convém retomarmos essa questão apresentando uma classificação dos tipos de letramentos que compõem a educação linguística nas escolas (ROJO, 2009). • Letramentos múltiplos ou multiletramentos, incluindo os letramentos das culturas locais e possibilitando o contato de seus agentes, professores, alunos e comunidade escolar com os letramentos valorizados, universais e institucionais. • Letramentos multissemióticos, que ampliam a noção de letramentos, abarcando a imagem, a música e outras semioses além da escrita. Essa modalidade de letramento é essencial no mundo globalizado a fim de instrumentalizar os educandos para os progressos tecnológicos que dão novos contornos e possibili- dades aos tradicionais suportes textuais. Semiose é um conceito da área da Semiótica e se refere aos processos de significação dos signos linguísticos. A semiose é a apreensão ou a produção de uma representação semiótica, ou seja, da ordem dos significados. Glossário • Letramentos críticos e protagonistas, exigidos para garantir a ética dos discursos, considerando que os textos, em suas variadas linguagens, estão sempre a serviço de determinados “[...] valores, projetos políti- cos, histórias e desejos” (ROJO, 2009, p. 108). Operacionalizar a prática pedagógica em torno desses letramentos, contudo, não é tarefa fácil. Para que a escola consiga alcançar, com seu repertório, as múltiplas práticas de letramentos cotidianos, cumpre levar para a sala de aula gêneros textuais e discursivos que sejam representativos dos diversos níveis de atividade – doméstica, familiar, religiosa, artística –, em distintas posições sociais – produtores, consumidores, receptores de discursos –, em gêne- ros, mídias e culturas diversas (ROJO, 2009). Tamanha polifonia, ou seja, variedade de vozes discursivas, não é um processo sempre harmonioso, pelo contrá- rio, tem implicações conflituosas, o que não significa que deva ser evitada: O papel da escola na contemporaneidade seria o de colocar em diálogo – não isento de conflitos, polifônico em termos bakhtinianos – os textos/enunciados/discursos das diversas culturas locais com as culturas valorizadas, cosmopolitas, patrimoniais, das quais é guardiã, não para servir à cul- tura global, mas para criar coligações contra-hegemônicas, para translocalizar lutas locais. (ROJO, 2009, p. 115). 53 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 3 - Apontamentos sobre letramento e intersubjetividade Vale lembrar que toda ação docente é, inerentemente, um compromisso com escolhas, as quais nunca serão neutras. Educar é se posicionar. Figura 3.5: Polifonia Legenda: A figura apresenta uma imagem de jovens reunidos. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Outra discussão que se relaciona aos multiletramentos e à intersubjetividade é o diálogo multicultural, de modo que possamos entender como os letramentos se constituem em culturas locais e populares para torná-las vozes em diálogo e objetos de estudo e de crítica (ROJO, 2009). 54 Considerações finais Nesta unidade, você aprendeu alguns conceitos importantes. Vamos relembrá-los? • A palavra letramento surge no campo educacional e linguístico em meados dos anos de 1980 e se refere à condição e às implica- ções sociais, culturais, políticas, cognitivas e linguísticas de quem aprendeu a ler e a escrever. • Alfabetização e letramento são dois processos indissociáveis, embora tenham suas especificidades próprias. • Existem dois modelos de letramentos, os quais revelam distintos modos de conceber os usos e funções da língua escrita: modelo autônomo e modelo ideológico. • Evento de letramento é qualquer situação em que se produza e/ ou compreenda a escrita. Prática de letramento tem relação com o modo como as pessoas realizam o evento de letramento e com o valor ideológico subjacente a ele. • A noção de multiletramentos consiste na variedade de práticas letradas, que englobam textos multimodais, valorizados ou não socialmente. • Intersubjetividade é um movimento dialógico que entende as relações subjetivas dos interlocutores por meio da linguagem. 55 Referências BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética – a teoria do romance. São Paulo: UNESP/Hucitec, 1998 [1975]. BELINTANE, C. Leitura e alfabetização no Brasil: uma busca para além da polarização. Educação e pesquisa, São Paulo, v. 32, n. 2, p. 261-277, maio/ago., 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v32n2/ a04v32n2.pdf>. Acesso em: 11 jul. 2018. CERUTTI-RIZZATTI, M. E. Letramento: um conceito em (des) construção e suas implicações/repercussões na ação docente em língua materna. Fórum Lingüístico, Florianópolis, v. 6, n. 2, p. 1-15, jul./dez., 2009. ______. Letramento: uma discussão sobre implicações de fronteiras con- ceituais. Educ. Soc., Campinas, v. 33, n. 118, p. 291-305, jan./mar., 2012. FERRARO, A. R. Analfabetismo e níveis de letramento no Brasil: o que dizem os censos? Educ. Soc., Campinas, v. 23, n. 81, p. 21-47, dez., 2002. Disponível em: <http://www.cedes.unicamp.br>. Acesso em: 20 abr. 2018. KLEIMAN, A. Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas, SP: Mercado das Letras, 1995. OLIVEIRA, A. M. de. Caminhos e descaminhos da intersubjetividade: os laços sociais e a construção da identidade. 2005. Disponível em: <http:// bocc.ubi.pt/pag/oliveira-adriano-intersubjectividade.pdf> Acesso em: 21 abr. 2018. ROJO, R. Letramentos Múltiplos, escola e exclusão social. 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Você terá a oportunidade de refletir sobre como o conceito de discurso e de sujeito se inter-relacionam, um coexistindo no outro, além de identificá-los como uma referência do dialogismo. Estudará também a forma como a educação pode auxiliar o sujeito a desenvolver habilidades comunicativas de forma ampla e a relação entre a linguagem e a contemporaneidade. Objetivos de Aprendizagem • Favorecer a apropriação do conceito de interlocução. • Compreender a linguagem como uma atividade de interlocução e como um processo mediado pelo diálogo. 59 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução 4.1 Interlocução: conceito e características Quando conversamos com alguém, estamos construindo um diálogo e também paramos para ouvir o que o outro tem a nos dizer. A partir disso, podemos afirmar que, tanto nós quanto a pessoa com quem dialogamos, somos interlocutores, pois participamos de uma produção linguística na qual enunciados são realizados mediante um dado contexto. Essa noção de interlocução também acontece na escrita, e não só na fala, ou seja, em situações de uso da língua, de acordo com uma intenção comunicativa e sendo adotadas condições para incutir efeitos de sentido. Incutir: introduzir, suscitar pensamentos. Glossário De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, a partir do momento em que dialogamos com alguém ou lemos um texto, é pela interlocução que os sentidos são construídos e, também, é nela que os interlocutores se constituem e são constituídos (BRASIL, 2002). É por meio da língua que participamos das trocas sociais nas mais diversas situações comunica- tivas. E essa competência que adquirimos conceitua a interlocução: pela língua somos capazes de agir e fazer reagir: quando nos apropriamos dela – instaurando um “eu” que dialoga com um outro – buscamos atingir certas intencionalidades, determinadas em grande medida pelo lugar de que falamos, e construir sentidos que se completam na própria situação de interlocução. (BRASIL, 2002, p. 74). Desse modo, para, de fato, desenvolvermos essa habilidade de interação comunicativa, devemos considerar as variedades linguísticas, adequando-as às situações de interlocução: interlocutores, finalidade da comunicação, espaço e tempo. Assim sendo, compreendemos o discurso como um processo de interação comunicacional e, nesse sentido, a linguagem cumpre o seu papel para a socialização do indivíduo. Bakhtin (1997) reafirma a ideia de que a linguagem humana pode ser entendida pela prática da fala em socie- dade. Com isso, compreende-se que a linguagem existe devido a um sistema extremamente complexo de diálo- gos que nunca se interrompe. Dessa forma, não produzimos discursos vazios, mas sim enunciados que refletem múltiplos contextos do fazer humano. Por isso, todo enunciado se relaciona a algum tipo de atividade humana, seja escrito ou falado, e sempre carrega um tema e um estilo de composição para produzir sentidos. Vejamos agora algumas características do processo de interlocução: • texto e contexto: cada texto se refere a determinado contexto, podendo ser educacional, cultural, social ou político. Para detectar esse contexto, o interlocutor necessita ter algum conhecimento de mundo, ou seja, certa bagagem informativa que lhe dê condições de responder ao texto; • fatores extralinguísticos: indicam em que situação o texto é gerado. É preciso considerar o nosso inter- locutor para que ele possa construir sentidos a partir daquilo que falamos ou escrevemos; • reformulação de enunciados: ao compreender uma mensagem, é possível reformulá-la quantas vezes for necessário a fim de adaptar o enunciado às situações de comunicação. 60 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução Assim, ao falarmos e escrevermos, moldamos o nosso dizer ao gênero do discurso de dado contexto da atividade humana (em casa, no trabalho, no universo acadêmico etc.) e em um determinado tempo e espaço, em que há uma troca entre sujeitos históricos. Entendemos, portanto, gênero do discurso como aquilo que transmitimos por meio da língua e que é facilmente percebido pela sociedade, a forma que o texto assume, isto é, o modo de organização verbal: notícia, bula de remédio, bilhete, anúncio publicitário etc. Todo discurso verbal (oral e escrito) revela-se em um enunciado que é compreendido no momento em que é produzido e recebido, e as condições da enunciação e da recepção desse enunciado podem ser alteradas conforme a necessidade comunicativa. Faraco (2009), seguindo a concepção de Bakhtin, comenta que todo enunciado expõe valores e significados e reflete um ato responsivo por parte de quem o produz, pois o sujeito da enunciação se posiciona mediante um contexto cultural. Outro aspecto fundamental na dinâmica do diálogo entre sujeitos é o de que todos participam a partir de um sistema de igualdade, pois o enunciador escolhe as palavras e as organiza em enunciados de modo que faça sentido ao seu destinatário ou interlocutor. Nesse sentido, Bakhtin (2011) aponta que, no momento em que um enunciado é exposto, nossas próprias palavras já são também do outro, e isso dá sentido à vida humana. Eu vivo em um mundo de palavras do outro. E toda a minha vida é uma orientação nesse mundo; é reação às palavras do outro (uma reação infinitamente diversificada), a começar pela assimi- lação delas (no processo inicial do discurso) e terminado na assimilação das riquezas da cultura humana (expressas em palavras ou em outros materiais semióticos). A palavra do outro coloca diante do indivíduo a tarefa especial de compreendê‐la (essa tarefa não existe em relação à minha própria palavra ou existe em seu sentido outro). Para cada indivíduo, essa desintegração de todo o expresso na palavra em um pequeno mundinho de suas palavras (sentidas como suas) e o imenso e infinito mundo das palavras do outro são o fato primário da consciência humana e da vida humana. (BAKHTIN, 2011, p. 379). Logo, para que haja um diálogo, devem existir também sujeitos sociais para acolherem as palavras um do outro, confirmá-las ou refutá-las ou, ainda, complementá-las, buscando sentidos para aquilo que é dito. Para que você se aprofunde mais sobre o pensamento de Bakhtin no que diz respeito ao processo dialógico da interlocução, procure ler o livro “Marxismo e filosofia da linguagem” (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1997). 61 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução 4.2 A linguagem como atividade de interlocução A complexidade de compreendermos, de fato, que a linguagem é uma atividade de interlocução está em defi- nir linguagem também como o resultado ou produto da atividade humana, posto que podemos concebê-la no campo teórico da pragmática conversacional – o princípio básico da comunicação humana é a cooperação –, que se realiza pela interlocução, por uma conversa mais simples; e também no campo da psicologia histórico- -cultural – que diz respeito a normas e costumes sociais e suas transformações ao longo do tempo –, sendo mediada pelas relações interpessoais sob diferentes aspectos ou condições de comunicação. Então, é interessante apresentar a você algumas situações simples de uso da linguagem e outras mais complexas a fim de percebermos como a linguagem pode exercer diferentes funções. Comecemos por citar algumas interlo- cuções que servem para realizar a própria atividade, ou seja,aquelas que se realizam na e por meio da linguagem: • em uma entrevista de emprego; • em uma sessão de psicoterapia; • em uma homilia dominical; • em audiências de divórcio; • em uma aula de canto etc. A linguagem tem uma natureza mutável, porém fundamental para que possamos nos constituir em quem somos e aquilo que fazemos. Além disso, a linguagem integra uma atividade, como uma conversa qualquer, liga-se a algo observável de uma tarefa realizada em conjunto (troca de ideias) ou, ainda, a toda uma simbologia dessas atividades. Na abordagem pragmática, uma conversa é sempre uma prática a serviço de outra porque falar nunca é um fim, mas um meio em que eventualmente é atingida uma finalidade. Isto porque uma conversa é sustentada por uma sequência de pensamentos, na qual ocorrem perguntas e respostas que articulam esse funciona- mento da linguagem. Nesse sentido, todo esse encadeamento de manipulação da linguagem permite aos interlocutores se proverem de ações para que, de fato, interajam, tais como: argumentar, contradizer, concordar, negociar, contra-argumen- tar etc. Essas atividades em que a linguagem se articula, contudo, só produzem sentido quando fazem referência a um contexto social, pois estão sempre a serviço de outra atividade, como resolver uma questão, fazer o outro compreender um tema, executar uma tarefa, avaliar etc. Assim, embora as atividades discursivas sejam frequentemente coordenadas e recíprocas, afinal todos os envol- vidos participam do processo de interlocução, elas não são iguais, muito menos orientadas para uma atividade comum. Por exemplo, podemos identificar quem pergunta versus quem responde, os mal-entendidos ou uma confusão. Perceba, portanto, que todo ato da linguagem constitui uma relação com o mundo, uma relação com o outro e, segundo o pensamento de Vygotsky (2003 [1925], p. 91), um relacionar-se consigo. Logo, a interlocução é um instrumento em curso para efetivar uma atividade, ou seja, o sujeito usa a interlocução para realizar uma atividade. Ademais, uma atividade discursiva divergente com alguém pode se transferir para uma linguagem interior, em um diálogo silencioso consigo mesmo (FERNYHOUGH, 2008). 62 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução Pense no exemplo do romance, gênero literário narrativo composto por enredo e persona- gens, em que o autor pode optar por circundar a história através de diálogos entre as perso- nagens, mas também pode apresentar uma linguagem aparentemente monológica, que é contrária à que contém explicitamente os diálogos entre pessoas, mas que, ainda assim, é considerada dialógica, pois existe uma conversa da personagem consigo mesma. Para compreendermos as funções que a linguagem possui na dinâmica dos discursos, antes, devemos conceituar a palavra como sendo a unidade mínima da consciência do indivíduo. Além disso, devemos situar a linguagem, que se utiliza muitas vezes da palavra para efeitos de sentido, como um conjunto variado de funções, as quais refletem oposições, tais como: modo oral e escrito; monólogo e diálogo. Podemos enunciar um discurso em voz alta para falar conosco ou falarmos ao outro, conscientizando-nos de nosso próprio pensamento, ou identificarmos o outro como receptor parcial para falar conosco (VON KLEIST, 2003). Assim, um texto pode conter um monólogo e um diálogo ao mesmo tempo. O sujeito, por sua vez, ao dizer, se significa e significa o próprio mundo. Nessa perspectiva é que consideramos que a linguagem é uma prática. Não no sentido de realizar atos, mas, porque pratica sentido, ação simbólica que intervém no real. Pratica, enfim, a significação do mundo. O sentido é história e o sujeito se faz (se significa) na historicidade em que está inscrito. (ORLANDI, 2001, p. 44). Para Mead (1968), um sujeito constitui-se indivíduo quando se socializa, processo este mediado pela linguagem. Desse modo, podemos perceber na linguagem o poder de constituir a consciência individual do ser humano, mas esse processo somente é realizado através da interação desse indivíduo com outros sujeitos sociais. Figura 4.1: Autoconsciência do sujeito mediante a interação social Legenda: Enquanto o indivíduo interage com as pessoas, constitui a própria consciência sobre si mesmo. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 63 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução Segundo o que afirma Casagrande (2012), na teoria de Mead, a organização da mente, a emergência do self e a evolução da sociedade humana pautam-se na linguagem, interação e socialização. Então, para haver comunica- ção é preciso também haver compreensão. Nesse sentido, desde pequenos fomos orientados a pensar que a linguagem e as nossas capacidades intelectu- ais começam a se formar nos primeiros anos de vida, conforme a concepção cognitiva da língua e, a partir dessa concepção, uma pessoa não se desenvolveria sem a língua. Entretanto, na época de Aristóteles (384-322 a.C.), filósofo grego e discípulo de Platão, a crença existente era a de que para um indivíduo desenvolver seu processo cognitivo ou intelectual este não dependia do outro, de usar a língua em um contexto social. Somente no final do século XVIII Wilhelm Von Humboldt (1767-1835) começou a investigar sobre o tema da lin- guagem e, para tanto, analisou as lacunas existentes entre a concepção cognitiva e a mentalista, de Aristóteles, chegando à conclusão de que: [...] a diversidade das línguas não consiste apenas em uma mera diversidade entre os signos, mas que as palavras e as composições de palavras ao mesmo tempo representam e determinam os con- ceitos e [...] toda língua, na verdade, é uma visão de mundo. (HUMBOLDT apud JÄGER, 2005, p. 48). Assim, temos que a língua exerce influência na estrutura do léxico (vocabulário) e nas situações de uso. Outro ponto importante reside no fato de que somente desenvolvemos a faculdade da linguagem, instituída pela lín- gua, se tivermos uma autoconsciência. De acordo com pesquisas científicas sobre o funcionamento do cérebro, nem todo pensa- mento ocorre de modo isolado no cérebro, pois este é altamente dependente do corpo em que habita. Nesse contexto, o espaço onde se pressupõe a tomada de consciência sobre si mesmo, sendo intermediada pela interação com o mundo exterior, é a escola. Portanto, inserir no contexto educativo atividades que se valham do texto e do discurso para levar a uma reflexão sobre a construção de sentidos é fundamental. Ao trabalhar a linguagem na escola, uma vez que ela é a força motriz que instaura e incentiva a produção e a compreensão do conhecimento, destaca-se a vivência prévia do sujeito e o que é construído social e historica- mente. Assim, o contato com o outro (socialização) é a forma de construir e se apropriar do conhecimento e da dupla natureza da linguagem (cognitiva e social). Nesse sentido, interagimos através de nossos domínios cogni- tivos, remodelando-os a partir das experiências sociais que vivemos. Desse modo, a cada novo contexto social, novos sentidos são emitidos, recuperados e remodelados. 64 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução 4.3 Mediação do diálogo na linguagem Já sabemos que a linguagem possibilita as interações do sujeito com o seu meio, e isso caracteriza o próprio desenvolvimento individual do sujeito e o de grupos sociais, pois o conhecimento de mundo é adquirido através da cultura, transmitida pela linguagem escrita e oral. Nesse sentido, o diálogo nos permite uma aproximação com os outros, como uma espécie de comunhão, na qual ocorrem revelações de nós para os outros e vice-versa. A partir disso, é possível um aprofundamento na temática do diálogo reportando-nos ao passado, mais precisa- mente ao campo filosófico, com Sócrates. O referido filósofo afirmava que a Filosofia se constituía pela intera- ção. Gadamer (1993, p. 133), como Sócrates, também nos diz que: [...] a palavra só encontra sua confirmação através da recepção no outro e da aprovaçãodo outro e que a consequência do pensar, que não fosse ao mesmo tempo um acompanhar dos pensamen- tos do primeiro pelo outro, ficaria sem força convincente. Assim, o diálogo, para Sócrates, envolvia uma conversa realizada em grupo, discutindo-se sobre a existência e a ética com o intuito de levar a uma reflexão. Isto porque Sócrates acreditava que através do diálogo, da troca de ideias entre as pessoas, seria possível chegar à verdade. No entanto, essa verdade só apareceria quando os indivíduos dia- logassem uns com os outros, de modo a falar para o outro, escutá-lo e, também, realizar um exercício autorreflexivo. Figura 4.2: Diálogo Legenda: Duas pessoas trocando ideias por meio do diálogo. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Todavia, para que, de fato, possamos compreender como se dá a mediação do diálogo para efeitos de sentido, vamos contrapor a oralidade à escrita, de modo a evidenciar o papel da linguagem na construção de significados vários. Pois bem, ao falarmos, utilizamos métodos próprios, e esse processo consiste em uma construção, reconstrução e descontinuação, considerando as situações de uso da língua nas quais há uma interlocução. Assim, um fator imprescindível para que o sujeito venha a desenvolver sua habilidade de diálogo é considerar aquilo que fala 65 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução relacionando com a escrita, o que sintetiza a competência linguística do indivíduo, pois através do discurso e do texto se produzem sentidos e interação. De acordo com Brait (1993, p. 195), os sujeitos interagem mediados por uma percepção sobre os elementos que constituem o diálogo entre eles, ou seja, quem é o destinatário, sobre o que se fala, qual a intenção de quem emite a mensagem, quais estratégias são adotadas para que haja compreensão sobre o que se fala, além da criação de condições para o outro se posicionar a respeito, orientando a conversa de forma adequada, em uma mobilização cooperativa entre ambos os interlocutores. Nesse processo, reside uma real mobilização, além do instrumental linguístico fornecido pela língua como sis- tema de código, de regras e situações de uso que se adaptam a condições culturais, sociais (contextuais), conhe- cidas e identificadas pelos interlocutores do diálogo. 4.4 Processos discursivos na oralidade e na escrita Para que um discurso seja compreendido, as ideias precisam ser claras e os pontos de vista devem ser bem argu- mentados, de modo a adequá-los a diferentes situações de comunicação, considerando as variações linguísticas, como a dialetal, as redundâncias e os marcadores conversacionais. Por variação dialetal, entende-se a diferença dos modos de falar de habitantes que usam um mesmo idioma, mas que residem em locais diversos e com dialetos próprios, ou que indicam registros linguísticos diferenciados por conta de condições socioeconômicas. Por exemplo: “mandioca” e “aipim” possuem o mesmo sentido, no entanto, na região Sudeste o termo “aipim” prevalece; já na região Norte, “mandioca”. Já as redundâncias signifi- cam o uso repetido de palavras ou significações (ideias), que poderiam ser dispensadas na prática, e comumente percebidas na oralidade. Por exemplo: “Subir para cima”. Por fim, os marcadores conversacionais, típicos da oralidade, são elementos ou expressões do vocabulário que têm a função de monitorar a conversa, apontando que ela está sendo iniciada ou finalizada ou, ainda, compreendida. Exemplo: “Jura?”, “Ao dar início...”. Tais questões tratam não só das modalidades da linguagem, mas da inclusão de interlocutores, seus conheci- mentos prévios, as relações entre eles, aquilo que constroem juntos no momento da interação, suas intenções comunicativas e as condições sociais que refletem. Figura 4.3: Interação entre os interlocutores Legenda: A imagem representa as pessoas interagindo e construindo um processo discursivo na oralidade e na escrita. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 66 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução Nota-se, assim, que as duas modalidades, a oralidade e a escrita, correlacionam-se porque partem de um mesmo sistema gramatical adaptável às diversas situações comunicativas. Outro ponto que devemos ressaltar é o de que o processo discursivo indica que a palavra é uma linguagem em movimento, articuladora de ações e das relações humanas, caracterizando-a como um avançar constante que é interativo e dialógico, no qual o indivíduo constrói sua identidade individual e social. Dessa forma, aquele que elabora e põe em circulação um enunciado não o faz pela primeira vez e nem é o pri- meiro a fazê-lo, pois o objeto a ser discursado já esteve em uso, já foi tema tratado em um dado momento his- tórico e social, já foi conceituado, esclarecido, contestado e ganhou diferentes perspectivas ou pontos de vista, e, assim sendo, atualizado no discurso do outro. É importante ressaltar que a compreensão também é dialógica porque implica duas consciências, dois ou mais sujeitos. O fato de ser ouvido, por si só, estabelece uma relação dialógica. A palavra quer ser ouvida, com- preendida, respondida e quer, por sua vez, responder à resposta, e assim por diante. Ela entra num diálogo em que o sentido não tem fim (entretanto ele pode ser fisicamente interrompido por qualquer um dos participantes). (BAKHTIN, 2000, p. 357). Assim, ao compreendermos o discurso do outro, passamos a participar do diálogo, a estabelecer juntamente com o nosso interlocutor uma relação dialógica. Por isso, precisamos entender que não existe discurso sem sujeito e nem sujeito sem ideologia, e que, à medida que o sujeito se torna autor de seu próprio discurso, a linguagem se realiza em um contexto histórico, social e cultural definindo a organização do discurso. As práticas sociais de uso da linguagem, portanto, concretizam-se por meio da interação verbal entre os interlo- cutores. Nesse sentido, tendo por base as ideias de Bakhtin (1997, 2000), Barros e Fiorin (1999), podemos con- cluir que o dialogismo é a característica fundamental da linguagem, é princípio constitutivo de todo discurso e espaço interacional entre o “eu” e o “tu”, ou o “eu” e o “outro”, pois nenhuma palavra é propriedade de alguém, mas traz consigo a perspectiva de outra voz. Desse modo, além de a linguagem ser o resultado da interação entre sujeitos partícipes de uma situação comu- nicativa, é também o instrumento por meio do qual o sujeito se constitui. 4.5 O diálogo e a sua função na educação Temos na Teoria da Hermenêutica a importância do diálogo como linguagem vivida para a compreensão de mundo. Em outras palavras, quando a linguagem circula, passamos a compreender o sentido das coisas por meio de trocas sociais e linguísticas com os outros. A hermenêutica é, portanto, “[...] uma atividade comum voltada para o problema da significação e da linguagem na relação diária dos seres humanos na produção do sentido da vida e na compreensão da sua história” (MUHL; ESQUINSANI, 2004, p. 41). Nesse contexto, a nossa consciência histórica reside na possibilidade de dialogarmos também com as tradições que são passadas através das gerações, pois é a linguagem que situa o passado no presente e projeta o futuro na atualidade e, dessa forma, compreendemos o mundo em que vivemos. Enfim, podemos afirmar que a linguagem antecede a história porque ela nos conduz a um conhecimento cultural totalizante, que é mediado pelo diálogo. Este último, por sua vez, tem o poder de atualizar o passado e atribuir a ele um novo sentido no presente. Então, para reconhecermos o sentido das coisas, precisamos buscá-lo perma- nentemente e articulá-lo através do diálogo, da linguagem em situações práticas do dia a dia. Sendo assim, é na hermenêutica que dialogamos com o passado histórico e o ressignificamos, permanecendo no momento atual. 67 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução Logo, a nossa existência social adquire um caráter linguístico que se opera no nívelda compreensão, que se define como a busca por respostas que inquietam o indivíduo. É através do diálogo que o indivíduo se emancipa, supera-se. Nisso consiste a função social da hermenêutica, que leva o sujeito a uma compreensão maior sobre as coisas e sobre si mesmo, por meio da interação dialógica. Ademais, é na educação que há maior possibilidade de um indivíduo se desenvolver nos aspectos cognitivo, social e humano, através das interações que se instrumentalizam pelo diálogo. Por esse motivo, práticas que direcionem o estudante a transformar textos falados em textos escritos ou a observar a forma como se organizam os textos nas duas modalidades são estratégias contundentes e que promovem a compreensão do funciona- mento da linguagem, priorizando os processos discursivos da fala e da escrita, necessários para a continuidade da aprendizagem e para o envolvimento com as atividades sociais que abarcam esses conhecimentos. Por essa via, algo relevante nesse processo de ensino-aprendizagem é interpor as atividades de linguagem, de produção e compreensão dos aspectos que envolvem a oralidade e a escrita, trabalhados em sala de aula, em um contexto significativo, que faça uma ligação entre aquilo que é familiar ao aluno com o que integra a coleti- vidade, expandindo-o para novas situações sociais e interpessoais diferenciadas, com novos propósitos e novas exigências formais. É importante destacar também que, embora exista em nossa sociedade contemporânea o avanço tecnológico e o fácil acesso a informações que geram conhecimento, parece haver uma indiferença em relação às interações humanas, pois adotam-se nos espaços educativos técnicas procedimentais em detrimento de reflexões sub- jetivas e sociais. Diante desse quadro, é importante lembrar que nos espaços educativos deve-se privilegiar o diálogo e toda sua potencialidade reflexiva para um repensar do mundo. Por esse motivo, manter uma atitude ativa sobre a práxis pedagógica e andragógica define a educação como lócus detentor de saberes mais elaborados para um autoconhecimento e um conviver mais solidário e produtivo. Ao problematizar os conhecimentos de antes e os relacionando com a atualidade, Fávero (2002, p. 114) comple- menta apontando que: [...] o diálogo é a relação de um “eu” frente a um “tu”. Pressupõe, portanto, a existência de saberes nos dois sujeitos que compõem os pólos da relação. O confronto de saberes, porém, requer dos sujeitos a partilha da palavra e a concessão de que seus saberes não são absolutos. Com isso, compreendemos que a palavra coloca os sujeitos em situação de igualdade, mesmo que se converta distintamente quanto ao posicionamento ideológico, pois é no diálogo que ocorre a abertura para o outro, em uma inconclusibilidade em que reside a ideia de que ninguém é melhor do que ninguém e que cabe a cada um pensar do próprio jeito. É, então, nessa capacidade de ir ao encontro do outro, de dialogar com ele e escutá-lo, que o sujeito torna-se solidário e se beneficia também através de um conhecimento mais profundo a respeito de si mesmo e do mundo que o cerca. Somente mobilizando os saberes adquiridos ao longo do tempo, em situações concretas mediadas pela lingua- gem, pelo diálogo, que podemos nos constituir sujeitos educados, posto que nesse movimento articulatório e interativo desenvolvemos um repensar de mundo e um retomar de experiências, em um processo de construção e reconstrução, mantido em um diálogo interior e social, o que nos leva à formação de nossa identidade. É essencial, portanto, conceber o processo de aquisição e desenvolvimento das competências de leitura e de produção de textos, os quais se sucedem através da educação, enfatizando um contexto mais vasto que vincule a oralidade e a escrita, o discurso e o texto. 68 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução 4.6 A linguagem dialógica no mundo contemporâneo Hoje, temos acesso a uma diversidade de linguagens que até então não tínhamos, e com o advento das Tecno- logias da Informação e Comunicação, a linguagem se materializa em vários suportes e dispositivos, o que trans- forma o comportamento humano, isto é, o modo de agir, reagir, de interagir e de se relacionar com as pessoas. Nas redes sociais, por exemplo, encontramos diversas formas discursivas que incorporam diferentes sentidos, como os chats em tempo real, as tirinhas, fotografias, músicas, vídeos, emoticons etc. que expressam questões já conhecidas dos interlocutores ou projeções para o futuro, como atesta Fiorin (2006, p. 19): Todos os enunciados no processo de comunicação, independente de sua dimensão, são dialógi- cos. Neles, existe uma dialogização interna da palavra que é perpassada sempre pela palavra do outro. É sempre e inevitavelmente também a palavra do outro. Isso quer dizer que o enunciador, para constituir um discurso, leva em conta o discurso de outrem, que está presente no seu. Por isso, todo discurso é inevitavelmente ocupado, atravessado pelo discurso alheio. O dialogismo são as relações de sentido que se estabelecem entre os dois enunciados. Além disso, segundo Giddens (2002, p. 9): As instituições modernas diferem de todas as formas anteriores de ordem social quanto a seu dinamismo, ao grau em que interferem com hábitos e costumes tradicionais, e a seu impacto global. No entanto, essas não são apenas transformações em extensão: a modernidade altera radicalmente a natureza da vida social cotidiana e afeta os aspectos mais pessoais de nossa exis- tência. A modernidade deve ser entendida num nível institucional; mas as transformações intro- duzidas pelas instituições modernas se entrelaçam de maneira direta com a vida individual, e, portanto, com o eu. Assim sendo, o discurso no mundo contemporâneo é compreendido hipoteticamente, pois, o que antes era inal- terável, hoje já pode ser revisitado e modificado, logo, dispensado no futuro. Desse modo, o discurso sempre está amparado pela história, pelas relações de poder, pelos acontecimentos atuais e por questionamentos subjetivos e socioculturais. É, portanto, essa dinâmica o que define a dialogicidade, que afere sentidos. Ao usarmos a linguagem para atribuir a ela algum sentido, não a expomos de forma isolada, mas mediada em um contexto histórico e social que transparece no momento em que o enunciado é proferido ou atualizado. Isto posto, o diálogo é só uma das nuances de interação verbal, e uma das mais visíveis. No entanto, também pode- mos conceituá-lo de maneira mais abrangente, isto é, o diálogo está contido em qualquer comunicação verbal, e não só durante uma conversa oral entre duas ou mais pessoas, conforme afirma Schnaiderman (1983, p. 73): Realmente, o dialogismo bakhtiniano, que deixou de ser novidade, e que não é de modo algum a simples ocorrência de mais de uma voz, o ‘diálogo’, no sentido corrente, mas o fato de que toda palavra se emite na expectativa do discurso do interlocutor e todo monólogo aparece ‘dialogi- zado’, é para o autor a decorrência de um fenômeno muito mais abrangente. Assim, compreendemos que o diálogo se constitui em toda a linguagem humana e em suas relações e manifes- tações que resultam em sentidos. A partir disso, também percebemos que uma enunciação sempre é antecedida e sucedida por outras, compondo o elo da cadeia da linguagem verbal. 69 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução Figura 4.4: Linguagem dialógica Legenda: A imagem representa o diálogo entre as pessoas e como uma forma de manifestação da linguagem. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Perceba que em qualquer um dos campos de atividade da linguagem, onde ela for adotada – o cotidiano, o educacional, o cultural, o político e o científico – há o dialogismo, a presença de relações dialógicas, as quais são consideradas extralinguísticas, pois equivalem a contextos situacionais, e não ao sistema léxico-semântico próprio da língua. Além disso, o contexto no qual o sujeito contemporâneo se encontra inserido édisperso, sem que o situe local ou globalmente, pois, ao mesmo tempo, ele se configura na existência humana (contexto global), mediado pelas tecnologias que o cercam e respondendo às necessidades histórico-sociais que sobre ele se debruçam. Assim, tais dinamizadores do processo dialógico legitimam o discurso do sujeito. Nesse sentido, um dos fatores da contemporaneidade, tendo em vista o uso da tecnologia como um status quo onipresente, e que é similar à atribuição de sentidos possibilitada pelas relações dialógicas, é a questão proposta por Deleuze (2006), na qual as percepções sobre o antigo e o atual coexistem em relação ao objeto virtual, no momento em que ocorre algum tipo de interatividade entre sujeitos, através de uma intersubjetividade com- plexa, em que cada um cumpre um papel que já pertenceu a outro sujeito em algum período anterior, já que, conforme vimos, toda enunciação precede e sucede outra, e assim por diante. A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal. (BAKHTIN, 2000, p. 348). O que compreendemos disso tudo? Que, de fato, é a alteridade que representa a humanidade em nós, isto é, constituímo-nos através do outro, pela interação social que reflete um contexto específico e imediato. Alteridade: condição do que é outro a partir de relações de contraste. Glossário 70 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 4 - Noções de interlocução Hall (2004) nos ajuda a entender como chegamos até aqui revelando que as definições de sujeito e identidade somente começaram a ser estabelecidas há pouco tempo, ao serem debatidas, pois, no passado, acreditava-se em um eu imutável, não tal qual o concebemos hoje: um eu constituído pelas relações interpessoais e pós- -moderno, múltiplo e dinâmico. Assim sendo: [...] as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. (HALL, 2004, p. 7). Desse modo, o sujeito contemporâneo passa a se identificar de jeitos diversos porque já se enxerga como um fruto do processo histórico, social, cultural e discursivo, em um agir, reagir, construir e reconstruir por meio de suas relações com os outros sujeitos. Com isso, também depreendemos que a natureza da interação é social, afinal, toda e qualquer enunciação que seja completa é formada de significação e de sentido, e a compreensão disso só se dá na interação. Ademais, a enunciação é um fenômeno histórico, em que o contexto e a ideologia são revelados pelo enunciado, produto da enunciação, e quando acompanhado pelo posicionamento do interlocutor, este se transforma em locutor, posto que o que se enuncia é repetível, embora o momento em que isso ocorra seja único. Portanto, a linguagem é também heterogênea, pois todo discurso é construído através do discurso do outro, isto é, daquilo que já foi dito. Aquele que enuncia, que produz um discurso, não é detentor da palavra, pois o enun- ciado já apareceu em um dado momento histórico e em algum contexto ideológico cujo sentido se modifica pela situação de uso. 71 Considerações finais Chegamos, então, ao final desta unidade e iremos, a seguir, recapitular os principais assuntos abordados, de forma a contribuir para a sistematiza- ção do seu conhecimento. • Vimos que a interlocução se apresenta tanto através dos discur- sos, que se desenvolvem por meio de uma conversa, quanto por um texto, pois ali também existem interlocutores que se posicio- nam ideologicamente (autor e leitor), e entre textos, uma vez que é sempre possível realizar inferências. • Também vimos que a interlocução envolve texto (ou discurso), contexto (social, histórico, cultural, linguístico etc.), fatores extra- linguísticos (comunicação verbal e não verbal) e a reformulação de enunciados, pois tudo já foi falado ou escrito, sendo único ape- nas o momento em que isso se atualiza. • Outro ponto relevante é o de que toda atividade da linguagem exerce uma função tanto voltada para outra atividade quanto para a própria linguagem, como enunciar para alguém fazer algo ou descrever uma dada ação. • A interlocução apresenta-se no diálogo entre duas ou mais pes- soas, como também no diálogo da pessoa consigo própria. • Para, de fato, um indivíduo desenvolver a sua linguagem oral e escrita, pois ambas se correlacionam, é preciso haver interação com outro indivíduo, portanto, a linguagem é um fenômeno social. • A educação assume um papel importante no mundo hoje, tanto para levar o indivíduo a se comunicar eficazmente quanto para fazê-lo compreender a atualidade à luz das tradições. 72 Referências BAKHTIN, M. 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Para finalizar este material, você terá a oportunidade de conhecer sobre a classificação dos gêneros em primáriose secundários. Vamos começar? Objetivos de Aprendizagem • Compreender o conceito de gênero do discurso. • Identificar a classificação dos gêneros quanto aos contextos de uso da linguagem: discursos primários e secundários. 76 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo 5.1 Introdução ao conceito de gênero Você provavelmente já ouviu falar sobre gêneros do discurso e/ou gêneros textuais. Em nossa vida diária, seres sociais que somos, estamos sempre interagindo e, nessas interações, produzimos discursos que se manifestam concretamente em textos de variados gêneros. O conceito de gêneros é tema de investigação desde a Antiguidade, tendo atraído interesse de várias áreas do conhecimento. Ferreira (2011) afirma que muitos aspectos da realidade foram alvo de classificação, como os fatos linguísticos (oratória, literatura), em seus diferentes gêneros, favorecendo o desenvolvimento de muitos campos de estudo. Na obra “Arte Retórica”, escrita quatro séculos antes de Cristo, Aristóteles divide a oratória em três gêneros, de acordo com as circunstâncias em que são proferidos e a categoria de seus ouvintes: gênero deliberativo, diri- gido a um auditório que se pretende aconselhar ou dissuadir; gênero forense (ou judiciário), pelo qual o orador acusa ou defende algo ou alguém; gênero demonstrativo (ou epidítico), no qual o orador elogia ou repreende o cidadão. Ferreira (2011) ainda argumenta que essa classificação já revelava uma preocupação com o objetivo da enunciação, a qual faz parte dos estudos sobre gênero. Enunciação é o termo usado para designar a atividade social pela qual a língua se movi- menta. Tal movimento se dá pela interação entre um enunciador (o que fala ou escreve) e um enunciatário (para quem se fala ou se escreve), sendo o produto dessa enunciação o enunciado. Enunciação (o dizer) e enunciado (o dito) são indissociáveis, prescindindo um do outro para que os discursos de materializem na língua (ASSIS, 2014). Glossário Os gêneros também foram objeto de estudos da Poética. Aristóteles, por exemplo, classificou o gênero poético em comédia e tragédia; esta, segundo o filósofo, originária da obra “Odisseia”, e aquela originária da obra “Mar- gites”, ambas de Homero. Além disso, a segunda década do século XX foi profícua para os estudos de gênero, e muitos teóricos, como os adeptos do formalismo russo – escola de crítica literária inspirada pelas teorias linguísticas de Ferdinand de Saus- sure –, defendiam que os gêneros possuíam um aspecto evolutivo, cuja forma e função poderiam sofrer altera- ções como resposta ao aparecimento ou desenvolvimento de outros gêneros (FERREIRA, 2011). Ferreira (2011) também explica que os estudos de gênero percorreram um longo caminho na Literatura até che- gar ao campo das ciências linguísticas, e atribui esse tempo ao fato de a Linguística ser uma ciência relativamente nova, cujo foco inicial consistia em analisar unidades menores do que o texto, como os fonemas e as frases. Em meados do século XX, Bakhtin (1992 [192-]), com seus estudos, amplia esse alcance ao considerar que todo gênero do discurso está inserido em um contexto histórico e se relaciona sempre com algum contexto de ativi- dade humana. Bakhtin (1992 [192-]) preconiza, também, que a língua funciona através de enunciados concretos e únicos que emanam desses contextos. Nesta unidade, ateremo-nos a abordar os gêneros sob o enfoque dos estudos linguísticos e, no tópico a seguir, você entenderá melhor algumas perspectivas de análise, em especial, a bakhtiniana. 77 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo 5.1.1 Perspectivas teóricas Acerca dos gêneros do discurso, Bakhtin (1992 [192-]) descreve seu processo de constituição da seguinte forma: [...] O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais –, mas também, e, sobretudo, por sua construção composicional. Esses três elementos (conteúdo temático, estilo e construção com- posicional) fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros dos discursos. (BAKTHIN, 1992 [192-], p. 279, grifo nosso). Para que você entenda melhor esses contextos, reflita: em nossa vida, estamos participando de atividades varia- das o tempo todo, em contextos distintos, desempenhando diferentes papéis sociais (como filhos ou pais, aluno/ professor, chefe/funcionário, eleitor/candidato etc.). Esses papéis têm a ver com os contextos de atividades per- mitidas pelas interações humanas, como a familiar, a escolar, a profissional e a política, por exemplo. Em cada um desses contextos circulam muitos gêneros (um bilhete deixado na geladeira; uma avaliação bimestral; uma reunião de planejamento; um comício). Como a variedade de atividades humanas é inesgotável, Bakhtin aponta como infinitas as variedades e riqueza dos gêneros discursivos: A riqueza e a variedade dos gêneros do discurso são infinitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gêneros do dis- curso que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa. (BAKHTIN, 1993 [192-], p. 280). Figura 5.1: Níveis de circulação dos gêneros Legenda: A figura apresenta pessoas em interações diversas. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 78 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo As perspectivas teóricas de Bakhtin influenciaram estudos posteriores sobre gêneros. Ferreira (2011) aponta que, no decorrer desses estudos, houve emprego de diferentes terminologias para os gêneros discursivos, citando Luiz Antônio Marcuschi como um dos autores brasileiros que optaram por usar o termo “gêneros textuais” para designar “formas textuais” orais ou escritas que materializam “situações comunicativas recorrentes” relativa- mente estáveis e sócio-historicamente situadas” (MARCUSCHI, 2003, p. 3 apud FERREIRA, 2011, p. 8). De acordo com Ferreira (2011), o linguista utiliza, em seus estudos sobre gênero, dois conceitos: tipo textual e domínio discursivo. O conceito de tipo textual é contraposto ao conceito de gênero textual, referindo-se a uma construção teórica, de natureza linguística, restrita a cinco categorias, que são: narração, argumentação, exposi- ção, descrição e injunção (orientar ou aconselhar). O conceito de domínio discursivo está atrelado ao que Bakhtin designava de “esfera de atividade humana” (como um discurso sindical ou pedagógico, por exemplo) e, para Marcuschi, dá origem aos gêneros, por carregar marcas institucionais (MARCUSCHI, 2003 apud FERREIRA, 2011). Muitos outros pesquisadores se debruçaram sobre os gêneros como seus objetos de estudo ao designarem os gêneros ora como “gêneros textuais”, ora como “gêneros discursivos”, com aproximações e diferenças entre os termos (DIAS et al., 2011). No tópico a seguir, você entenderá melhor essas nuances teóricas. 5.1.2 Gêneros do discurso x gêneros textuais Para Bakhtin (1992 [192-]), os gêneros discursivos têm um enfoque discursivo-interacionista. O enunciado, produto da interação social, é produzido em um determinado contexto e materializa os discursos, os quais se expressam em uma multiplicidade de gêneros dado o contexto, que se caracterizam por três dimensões: o con- teúdo temático, a construção composicional e o estilo. Vamos conhecer mais sobre cada um deles a seguir. • Conteúdo temático: corresponde ao conjunto de temas abordados, os quais são selecionados pelo enunciador; não é simplesmente o assunto de umgênero, mas o conteúdo baseado em uma apreciação de valor do enunciador e pelo qual se constrói seu sentido (ROJO, 2014). Vale enfatizar que o conteúdo temático não está concentrado unicamente na voz do enunciador, pois existem vínculos dialógicos entre esse conteúdo e outros, haja vista que os “[...] enunciados não são indiferentes entre si nem se bastam cada um a si mesmos; uns conhecem os outros e se refletem mutuamente uns nos outros” (BAKHTIN, 1992 [192-], p. 297). Em certa medida, o conteúdo temático de cada enunciado é “[...] uma resposta àquilo que já foi dito sobre dado objeto, sobre dada questão [...]” (BAKHTIN, 1992 [192-], p. 298). Ade- mais, os valores ideológicos que permeiam os gêneros discursivos se dão a ver pelo conteúdo temático. • Construção composicional: refere-se à estruturação interna do enunciado, uma espécie de forma fle- xível, que se define ao adquirir conteúdo, ou seja, o acabamento geral de um texto/discurso, “[...] assim como sua estruturação textual em partes [a qual] preveria certa extensão do texto e certa disposição dos parágrafos” (MACIEL, 2015, p. 254). • Estilo: é constituído pelo vocabulário, pelas frases e recursos gramaticais (como registro formal ou infor- mal, uso de gírias) que o enunciador escolhe utilizar. O estilo é o modo particular de apresentação do con- teúdo concretizado na construção composicional, mas nem sempre reflete a individualidade do enun- ciador, pois há gêneros mais propícios a subjetividades estilísticas do que outros. Bakhtin (1992 [192-]) divide o estilo em dois tipos: o “estilo individual” e o “estilo linguístico” ou “funcional”. Segundo o filósofo, os gêneros primários são mais abertos ao estilo individual, sendo o estilo linguístico mais presente nos gêneros secundários. Não se preocupe, caro aluno, pois, mais à frente, você entenderá do que se trata os gêneros primários e secundários. 79 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo Quanto ao estilo de gênero, Ferreira e Vieira (2013) detalham da seguinte forma os aspectos característicos que envolvem sua construção: • vocabulário: formal, coloquial, com termos específicos da área de conhecimento, da esfera social de circulação; • recursos morfossintáticos: construções sintáticas mais simples ou mais complexas; • organizadores textuais (conjunções ou expressões adverbiais que interligam as grandes par- tes do texto, os parágrafos, as orações): conforme o tipo textual predominante no texto e/ou em cada passagem do texto; • paragrafação e pontuação: de acordo com a variedade linguística usada e com o tipo textual; • tempos e modos verbais: de acordo com o tipo textual predominante no texto e/ou em cada passagem do texto; • elementos da cadeia referencial (ou recursos de coesão nominal): de acordo com a variedade linguística usada, o contexto social de circulação e, em alguns casos, com o tipo textual. (FERREIRA; VIEIRA, 2013, p. 96). Rojo (2014) elucida que esses três elementos se articulam entre si na realização concreta dos gêneros discursivos, um dependendo do outro para se realizar, não existindo, assim, um sem o outro. No dizer de Bakhtin: [...] o estilo é indissociavelmente vinculado a unidades temáticas determinadas e, o que é par- ticularmente importante, a unidades composicionais: tipo de estruturação e de conclusão de um todo, tipo de relação entre o locutor e os outros parceiros da comunicação verbal. (BAKHTIN, 1992 [192-], p. 284). Vamos a um exemplo prático: imagine a frase “Tarefas são DA CASA, não DELAS...”, acompanhando a imagem a seguir. Figura 5.2: Serviço de mulher? Legenda: A figura apresenta duas mulheres e um homem fazendo tarefas de limpeza. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 80 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo A imagem e a frase comporiam o gênero cartaz, cujo discurso poderia ser assim descrito: conteúdo temático – defesa da divisão igualitária das tarefas domésticas entre homens e mulheres; construção composicional – texto multimodal, com texto e imagem utilizados em formato de cartaz; estilo: linguagem não verbal associada à lin- guagem verbal com uso de termos em letra maiúscula para ironizar e criticar a expressão “tarefas de mulher” (típica de uma visão de mundo sexista), inferidas na mensagem. Por esse exemplo, é possível perceber o aspecto ideológico presente no discurso veiculado pelo texto (verbal e não verbal) do cartaz. Dias et al. (2011) relatam que a perspectiva do interacionismo sociodiscursivo, de Jean-Paul Bronckart, retoma a teoria de Bakhtin sob uma ótica diferente. Para Bronckart, a linguagem surge da diversidade e complexidade das diferentes práticas que implicam adaptações de linguagem e das quais resultam textos diferentes: “[...] os textos são produtos da atividade humana e, como tais, estão articulados às necessidades, aos interesses e às condi- ções de funcionamento das formações sociais no seio das quais são produzidos” (BRONCKART, 2003, p. 72 apud DIAS et al., 2011, p. 146). Ainda para Bronckart, segundo Dias et al. (2011), “[...] uma ação de linguagem exige a mobilização dos gêneros de textos” (DIAS et al., 2011, p. 146) e, por isso, o autor sustenta que os textos, e não os gêneros, devem ser estudados. Assim, classifica os textos em três camadas: • a infraestrutura geral do texto, o nível mais profundo, composta pelo plano geral (organização do conte- údo temático), pelas articulações entre diferentes discursos e pelas articulações entre tipos e sequências; • os mecanismos de textualização, nível intermediário, que estabelecem a coerência temática, explicitadas pelos organizadores textuais (mecanismo de conexão e coesão); • os mecanismos enunciativos, nível superficial, que mantêm a coerência pragmática do texto, eviden- ciando posicionamentos enunciativos como a inserção de vozes nos textos (BRONCKART, 2013 apud DIAS et al., 2011). Importa destacar que os teóricos que se enquadram na perspectiva do interacionismo sociodiscursivo adotam a terminologia “gêneros de texto”. Não nos deteremos no referencial de Bronckart, visto que nosso foco é a pers- pectiva discursiva de Bakhtin, apenas o convocamos para demonstrar a existência de diferentes posicionamen- tos sobre o estudo de gêneros. Conheça mais sobre o interacionismo sociodiscursivo lendo a entrevista que Jean-Paul Bron- ckart deu para a revista Delta durante a organização do XIV INPLA (Intercâmbio de Pesqui- sas em Linguística). Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi d=S0102-44502004000200006>. Para outros pesquisadores, como os franceses Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz, os gêneros são, ao mesmo tempo, objeto e instrumento de trabalho para o desenvolvimento da linguagem (SCHNEUWLY; DOLZ, 2010 apud FERREIRA; VIEIRA, 2013) e, por isso, propõem a elaboração de modelos didáticos que possibilitem a criação de sequências didáticas, visando à apropriação dos gêneros pelos alunos. Note que sequência didática diz respeito a um conjunto de atividades escolares sistematizadas por ou para um gênero textual oral ou escrito (SCHNEUWLY; DOLZ, 2010 apud FERREIRA; VIEIRA, 2013). Acompanhe a seguir a descrição da sequência didática. Apresentação da situação é a primeira etapa da sequência didática, na qual serão descritas detalhadamente as tarefas que serão desenvolvidas, é feito o diagnóstico dos conhecimentos prévios e dificuldades dos alunos e defi- nido o contexto, a forma e o conteúdo, bem como os interlocutores e destinatários do gênero a ser estudado e pro- http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44502004000200006 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44502004000200006 81 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo duzido. Nessa etapa, os alunos fazem uma produção inicial, a partir da qual serão detectados os problemas linguís- ticos com o gênero em questão e as necessidades de intervenção didática, os quais serão abordadosem módulos, até o momento da produção final, que indicará os conhecimentos construídos ao longo das atividades realizadas. Figura 5.3: Gêneros textuais e interações discursivas Legenda: A figura apresenta imagens de figuras humanas e instrumentos de comunicação. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Resumidamente, na proposta dos pesquisadores franceses, os papéis definidos para o professor, quanto ao tra- balho com gêneros, são: Explicitar as regras e constatações, por meio das observações e análises das atividades, utilizando a escrita como instrumento; intervir pontualmente, em momentos escolhidos, para lembrar as normas que é preciso ter em conta e para avaliar a produção dos alunos; dar um sentido às ativi- dades levadas a efeito na sequência, situando-as em relação ao projeto global da classe. (SCH- NEUWLY; DOLZ, 2010 apud FERREIRA; VIEIRA, 2013, p. 100). Para entender melhor a concretização de uma sequência didática em sala de aula, acom- panhe a proposta de trabalho de duas professoras, direcionada para uma turma de Ensino Fundamental I com o gênero tirinhas. Disponível em: <http://www.ufjf.br/revistaedufoco/ files/2012/08/Texto-05.pdf>. http://www.ufjf.br/revistaedufoco/files/2012/08/Texto-05.pdf http://www.ufjf.br/revistaedufoco/files/2012/08/Texto-05.pdf 82 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo Voltando ao que apontamos no início deste tópico, o uso das terminologias “gêneros do discurso” e “gêneros textuais” expressa diferenças de perspectivas quanto ao estudo dos gêneros, o que não significa, necessaria- mente, que sejam perspectivas excludentes. Vamos aprofundar esse entendimento observando a relação entre os termos “tipos textuais” e “gêneros textuais”: O tipo textual é uma noção que remete ao funcionamento da constituição estrutural do texto, ou seja, um texto configurado em um determinado gênero (piada, charge, história em quadrinhos, resenha etc), pode trazer na sua organização vários tipos textuais, os quais compõem a tessitura do texto, a estrutura composicional do texto em questão. (FERREIRA; VIEIRA, 2013, p. 56). Diferentemente dos gêneros, os tipos textuais englobam uma quantidade limitada de categorias. Nesse sentido, a proposta de Schneuwly e Dolz (2010) enumeram cinco tipos de textos, os quais são designados como ordens às quais pertencem os gêneros: narrar, relatar, argumentar, expor e descrever ações. Essas tipologias podem apare- cer combinadas na construção composicional de um mesmo gênero e, por isso, costuma-se classificar um texto por sua tipologia predominante. Não é só a materialidade linguística que define uma tipologia textual, pois também têm implicações em sua classificação a função social e a intencionalidade do gênero textual, ou seja, o contexto em que está inserido e as intenções de quem produz o texto, o que revela um movimento de interação nos textos, daí, em certa medida, sem menosprezar as diferenças basilares, o uso dos termos “gêneros textuais” e “gêneros discursivos” ser uma questão de nomenclatura. Uma proposta de diferenciação entre tipos e gêneros textuais foi elaborada por Marcuschi (2005), conforme apresentamos no quadro a seguir. Quadro 5.1: Tipos e gêneros textuais TIPOS TEXTUAIS GÊNEROS TEXTUAIS Constructos teóricos definidos por propriedades linguísticas intrínsecas. Realizações linguísticas concretas definidas por propriedades sociocomunicativas. Constituem sequências linguísticas ou sequências de enunciados no interior dos gêneros e não são textos empíricos. Constituem textos empiricamente realizados cumprindo funções em situações comunicativas. Sua nomeação abrange um número limitado de categorias teóricas, determinadas por aspectos lexicais, sintáticos, relações lógicas e tempo verbal. Sua nomeação abrange um conjunto aberto e praticamente ilimitado de designações concretas determinadas pelo canal, estilo, conteúdo, composição e função. 83 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo Designações teóricas dos tipos: narração, argumentação, descrição, injunção e exposição. Exemplos de gêneros: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, aula expositiva, romance, reunião de condomínio, lista de compras, conversa espontânea, cardápio, receita culinária, inquérito policial etc. Fonte: Marcuschi (2005, p. 22). Ferreira e Vieira (2013) ainda propõem outro quadro, detalhando as diferenças entre tipologias e gêneros: Quadro 5.2: Tipologias e gêneros TIPOLOGIAS GÊNEROS 1) NARRATIVA • Liga-se à percepção no tempo. • Realiza-se por meio de verbos de mudança no pretérito perfeito e imperfeito e por expressões adverbiais de tempo e de lugar. • Ocorre quando uma história é narrada, incluindo-se, assim, tempo, espaço, personagens etc. Conto de fadas; fábula/biografia romanceada; romance/conto; crônicas: literária/social/esportiva; charge/piada; notícia/reportagem; casos contados em rodas de amigos etc. 2) DESCRITIVA • Liga-se à nossa percepção de espaço. • Permite ao leitor construir um retrato mental. • Possui uma estrutura simples, com um verbo estático no presente do indicativo ou no pretérito perfeito do indicativo. • Adjetivos, advérbios de lugar e de modo. • Caracteriza uma pessoa, uma paisagem, um ambiente ou um objeto. Conto de fadas; poema descritivo, fábula; biografia romanceada; romances; conto; crônicas: (literária/social/esportiva); notícia; reportagem; casos contados em rodas de amigos etc. 3) ARGUMENTATIVA • Liga-se ao ato de julgar e à tomada de posição. Realiza-se por meio de conectores lógicos, predominando as sequências contrastivas explícitas. • Além de muitas outras relações, expõem-se ideias para convencer o leitor/ouvinte de certos posicionamentos. Artigos de opinião; carta de leitor; carta de reclamação; carta de solicitação; debate regrado; discurso de defesa (advocacia); discurso de acusação (advocacia); resenha crítica; editorial; ensaio etc. 84 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo 4) EXPOSITIVA • É caracterizada pela intenção de facilitar a compreensão do leitor/ouvinte através de informações que normalmente são feitas por meio de afirmações e logicidade na ordenação de conceitos, entre outros aspectos. • Materializa-se por meio de conectores lógicos. • Predominam as sequências explicitamente explicativas. Texto expositivo (em livro didático); seminário; conferência; comunicação oral; palestra; entrevista de especialista. Pode ocorrer em trechos de: artigos científicos, notícias jornalísticas, verbetes de enciclopédias. Também em trechos informativos de outros gêneros, como romances, relatórios e cartas. 5) INJUNTIVA • Liga-se à previsão de comportamento por meio de enunciados incitadores à ação. • Concretiza-se por meio de verbos no imperativo ou de perguntas e de expressões congeladas de cumprimento. • Direta ou indiretamente, instrui-se ou se orienta o leitor/ ouvinte, visto como aquele que pode tomar uma decisão ou realizar algo. Receitas de culinária/instruções de uso/ instruções de montagem/regras de utilização; leis; guias; regras de trânsito/ obrigações a cumprir/normas de conduta etc. Fonte: Ferreira e Vieira (2013, p. 61-63). Por esse quadro, percebe-se que tipologias e gêneros se articulam na constituição dos textos, sendo expressões dinâmicas e vivas da língua em uso, e, aquelas, caracterizações teóricas de textos que ainda não estão postos em funcionamento em situações concretas de uso, isto é, em contextos dialógicos, nos quais interajam as vozes que permeiam toda formação discursiva. Tome como exemplo o seguinte roteiro de propaganda veiculada na TV: entra em cena uma mulher com ar de felicidade, divertindo-se com os filhos e o marido na sala, cantando em um videokê. De repente, entra a voz do locutor: “Com o SUPER FAXINEX, você, mulher moderna, não perderá tempo com a limpeza pesada e sobrará tempo para curtir sua família” (texto elaborado pela autora).Poderíamos dizer que o gênero propaganda concretiza um discurso sexista, que reforça a ideia de que as tarefas domésticas são responsabilidade única da mulher, sendo mais de um os tipos textuais mobilizados nesse gênero: a argumentação (mulheres modernas dão conta de todos os seus papéis) e a injunção (instrução indireta de compra do produto SUPER FAXINEX). No tópico a seguir, você compreenderá o conceito de voz e sua relação com o diálogo. 85 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo 5.2 O diálogo em Bakhtin Inicialmente, é importante mencionar que Bakhtin não aborda a oralidade como campo destacado da escrita, bem como não trata a cultura oral e a cultura escrita como contrastantes entre si (BUBNOVA; TONELLI, 2011). Segundo as autoras, o filósofo concebe a escrita como a transcrição codificada das vozes, as quais, por sua vez, povoam o mundo que nos cerca, construindo o sentido de nossas enunciações. Vale dizer que o conceito de voz é tomado, na perspectiva bakhtiniana, não como literalmente a emissão vocal, e sim em seu sentido metafórico; as vozes refletem os diálogos subjacentes a cada enunciado, como som e silêncio em alternância. O enunciado, movimentado pela situação de enunciação, contempla tanto o dizer explícito quanto o silêncio “eloquente”, isto é, o não dito que é recheado de significados. Isto porque: A significação da voz que soa alterna com a significação do calar, do silêncio que é pausa do pro- cesso da enunciação, do intercâmbio discursivo. O domínio do discurso inclui, desse modo, não apenas o estritamente vocalizado, mas também os gestos e as expressões corporais, as pausas, as ausências, as respostas tácitas, os sentidos mudos. (BUBNOVA; TONELLI, 2011, p. 273). Você já parou para pensar no quanto o silêncio pode dizer, no quanto de vozes que pode abar- car? Reflita sobre algumas situações discursivas em que para você o silêncio foi altamente significado. Que vozes você consegue perceber permeando esses momentos polifônicos? Bubnova e Tonelli (2011) explicam que a interação do som com o silêncio significativo produz a irrupção do sen- tido, que é, então, uma resposta a algo dito antes e algo que pode ser respondido. As palavras, nos processos dia- lógicos, nunca ocorrem no vazio nem são constituídas de uma só voz, pois passam de boca em boca, de geração a geração, daí Bakhtin utilizar o conceito de polifonia, valendo-se de uma metáfora advinda do contexto musical para dizer que interagimos e produzimos discursos por meio de uma orquestração de vozes na qual o silêncio também significa e pela qual os sentidos soam. Perceba que as vozes representam diversas posturas ideológicas e pronunciam sequências de sentido em diálogo permanente, inacabado, tal como cada um de nós, e que a prosa artística consegue reproduzir por conta do dia- logismo inerente à palavra, alcançando um efeito polifônico (BUBNOVA; TONELLI, 2011). Então, a palavra, prenhe de vozes, é nosso instrumento de agir no mundo. A vida humana é dialógica por natureza e nela estaremos sempre interagindo polifonicamente, em diálogos nunca conclusos, mas repletos de significa- dos, diálogos estes materializados em discursos em uma infinitude de gêneros. 86 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo Figura 5.4: Orquestra de vozes Legenda: A figura apresenta as mãos de um maestro. Fonte: Plataforma Deduca (2018). 5.3 Os gêneros quanto aos contextos de uso da linguagem Os gêneros primários correspondem àquelas situações comunicativas cotidianas, espontâneas, não elaboradas e informais, que sugerem uma comunicação imediata, como a carta pessoal, o bilhete ou o diálogo cotidiano. Já os gêneros secundários, quase sempre mediados pela escrita, aparecem em situações comunicativas mais com- plexas e elaboradas, como teatro, romance, tese científica, palestra, entre outros. Ao tratar da heterogeneidade dos gêneros discursivos e de suas incontáveis manifestações, Bakhtin (1992 [192- ]) preocupou-se em evitar um entendimento simplista de sua teoria, por isso, classificou os gêneros em primários e secundários e tratou de diferenciá-los de modo cuidadoso: Não há razão para minimizar a extrema heterogeneidade dos gêneros do discurso e a conse- quente dificuldade quando se trata de definir o caráter genérico do enunciado. Importa, nesse ponto, levar em consideração a diferença essencial existente entre o gênero de discurso primário (simples) e o gênero do discurso secundário (complexo). Os gêneros secundários do discurso — o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico, etc. — aparecem em circunstân- cias de uma comunicação cultural, mais complexa e relativamente mais evoluída, principalmente escrita: artística, científica, sociopolítica. Durante o processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários (simples) de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea. Os gêneros primá- rios, ao se tornarem componentes dos gêneros secundários, transformam-se dentro deles e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos enunciados alheios — por exemplo, inseridas no romance, a réplica do diálogo cotidiano ou a carta, conservando sua forma e seu significado cotidiano apenas no plano do conteúdo do romance, só se integram à realidade existente através do romance considerado como um todo, ou seja, do romance concebido como fenômeno da vida literário-artística e não 87 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo da vida cotidiana. [...] A inter-relação entre os gêneros primários e secundários de um lado, o pro- cesso histórico de formação dos gêneros secundários de outro, eis o que esclarece a natureza do enunciado (e, acima de tudo, o difícil problema da correlação entre língua, ideologias e visões do mundo). (BAKHTIN, 1993 [192-], p. 281-282, grifo nosso). Acerca da diferenciação proposta por Bakhtin (1992 [192-]), muitos autores se reportaram e, neste tópico, você conhecerá algumas dessas análises. Caro aluno, atenção: a esta altura, você deve estar bem mais preparado e seguro para aprofundar sua resolução ao desafio proposto no começo desta jornada de estudos dis- cursivos sobre a língua. Não se esqueça de acessar o fórum para continuar participando e dando suas contribuições. Martins (2009) adverte que, embora Bakhtin tenha afirmado que os gêneros secundários surgem em situações comunicativas mais complexas e que um gênero primário não possa aparecer nesses contextos ou que, se apa- recerem, será como resultado de sua assimilação pelos gêneros secundários, é importante considerar que a assi- milação dos gêneros primários aos secundários não se deve restringir aos fatos de citação ou de paródia, pois aspectos próprios dos gêneros primários podem reaparecer nos gêneros secundários e contribuir para a mobili- dade e hibridização nos diversos gêneros. Schneuwly (2010) se vale do conceito marxista de instrumento para analisar os gêneros do discurso. Para o psi- cólogo: [...] os instrumentos encontram-se entre o indivíduo que age e o objeto sobre o qual ou a situação na qual ele age: eles determinam seu comportamento, guiam-no, afinam e diferenciam sua percepção da situação na qual ele é levado a agir. A intervenção do instrumento, objeto socialmente elabo- rado, nesta estrutura diferenciada dá à atividade uma certa forma; a transformação do instrumento transforma evidentemente as maneiras de se comportar numa situação. (SCHNEUWLY, 2010, p. 23). Com isso, o autor elabora algumas considerações sobre os gêneros. Quanto aos primários, afirma que nestes a interação se realiza na dependência da situação de enunciação, havendo pouco ou nenhum controle metalin- guístico da ação linguística em curso, concluindo que constituem “[...] o nível real com o qual a criança é confron- tada nas múltiplas práticasde linguagem. Eles instrumentalizam a criança [...] e permitem-lhe agir eficazmente em novas situações (o instrumento se torna instrumento de ação)” (SCHNEUWLY, 2010, p. 30). Quanto à caracterização dos gêneros secundários, este afirma que sua regulação se dá de modo diverso do que ocorre com os gêneros primários, (nos quais ela se dá pela própria ação de linguagem), devendo se dar por outros mecanismos a serem definidos. Outra característica apontada são os modos diversificados de referência a um contexto linguisticamente criado: Com a complexificação dos gêneros e, sobretudo, com sua autonomização no que diz respeito ao contexto, aparece, cada vez mais, a necessidade de criar uma coesão interna, um fechamento interno por assim dizer do texto. Entre outras maneiras, isto se faz linguisticamente pela cria- ção de instrumentos linguísticos que referem a um contexto linguisticamente criado pelo texto. (SCHNEUWLY, 2010, p. 30-31). 88 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 5 - Gêneros do discurso e o diálogo Além disso, Schneuwly (2010) aponta que, quanto maior a autonomia de gênero frente a uma situação ime- diata, mais complexo e enriquecido se torna o aparelho linguístico criado na língua para falar dele. Ao fazer tal afirmação, o psicólogo se refere, segundo Martins (2009), à metalinguagem das crianças de mais de 10 anos, especialmente no processo de produção escrita, ao demonstrarem uma capacidade crescente de controlar seu próprio processo de produção de linguagem se utilizando de gêneros apropriados a seus objetivos. Por fim, em sua análise, é levantada a hipótese de que: [...] a gestão eficaz dos gêneros secundários pressupõe a existência e a construção de um aparelho psíquico de produção de linguagem que não funciona mais na ‘imediatez’ (comunicação verbal espontânea, diz Bakhtin), mas que pode se basear na gestão de diferentes níveis relativamente autônomos (não se trata aqui de um modelo de modularidade inata, mas construída, fruto do desenvolvimento). Isto significa a existência de níveis de decisão, de operações discursivas trans- versais em relação aos gêneros. (SCHNEUWLY, 2010, p. 31-32). Bakhtin (1992 [192-]), ao tecer sua teoria de gêneros, enfatiza que quanto maior for nosso domínio sobre os gêneros, maior será nossa habilidade e facilidade em empregá-los de forma adequada nas variadas situações comunicativas das quais participamos, daí sua crítica aos estudos que desconsideram as modalidades de gêne- ros do discurso e que não reconhecem a linguagem de modo pleno. 89 Considerações finais Nesta unidade, você estudou conceitos e referenciais teóricos muito rele- vantes. Retome-os sinteticamente: • os estudos de gênero remontam à Antiguidade Clássica, tendo sido objeto de estudo da Retórica e da Poética antes de fazer parte dos enfoques das ciências linguísticas; • os estudos de Bakhtin sustentam que todo gênero do discurso está inserido em um contexto histórico e se relaciona sempre com algum contexto de atividade humana, preconizando que a língua funciona através de enunciados concretos e únicos que emanam desses contextos; • conteúdo temático, estilo e construção composicional são os ele- mentos indissolúveis de todo gênero discursivo; • conteúdo temático corresponde ao conjunto de temas aborda- dos, os quais são selecionados pelo enunciador; construção com- posicional se refere à estruturação interna do enunciado; estilo é constituído pelo vocabulário, pelas frases e recursos gramaticais (como registro formal ou informal, uso de gírias) que o enunciador escolhe utilizar; • gêneros do discurso e gêneros textuais expressam diferenças de perspectivas quanto ao estudo dos gêneros, o que não significa que sejam perspectivas excludentes; • tipos textuais são constructos teóricos, já gêneros textuais são realizações linguísticas concretas; • exemplos de tipos textuais: narração, argumentação, descrição, injunção e exposição; • exemplos de gêneros: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, aula expositiva, romance, reunião de condomínio, lista de compras; • os gêneros primários correspondem a situações comunicati- vas cotidianas, espontâneas e informais, como a carta pessoal, o bilhete, o diálogo cotidiano; • gêneros secundários aparecem em situações comunicativas mais complexas e elaboradas, como teatro, romance, tese científica, palestra, entre outros. 90 Referências ASSIS, J. 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Nesta unidade, você aprofundará seus estudos sobre os conceitos de texto, discurso e gênero e, também, sobre as relações entre eles, além de baseá-los nos estudos da Análise do Dis- curso em uma perspectiva sociointeracionista e segundo as linhas de concepção da linguagemreferentes às contribuições de Mikhail Bakhtin. Bom estudo! Objetivos de Aprendizagem • Aprofundar conhecimentos sobre os conceitos de texto, discurso e gênero. • Estabelecer analogia entre texto, discurso e gênero. 94 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso 6.1 A linguagem como discurso Você já deve saber que precisamos conceber a linguagem como um processo dinâmico e intencional, sendo este o resultado de ocorrências observáveis da língua e de discursos históricos e ideológicos. Desse modo, para compreendê-la, devemos contextualizar as condições que levaram à sua produção, a época em que foi elaborada e a ideia em que se baseou. Esse entendimento reúne estudos da Análise do Discurso, e tal tendência começou a ser pesquisada entre os anos 1950 e 1960. Brandão (2012) explica que, para analisarmos um discurso, precisamos refletir sobre os fatos que o precedem, envolvendo as condições sócio-históricas de produção e, também, a função que o sujeito exerce na enunciação, ou seja, o posicionamento que toma ao emitir um enunciado. Na concepção tradicional da linguística, há a prescrição de regras, sendo a língua um processo homogêneo, cujo enfoque é a informação, o que contraria a concepção da Análise do Discurso, que vai além do produto em si, mas foca no modo de produção, pois percebe o sujeito do discurso como um agente que interage em um meio social. “Na perspectiva da análise do discurso, [...] tomar a palavra é um ato social” (ORLANDI, 1996, p. 17). Além disso, a palavra pode representar diferentes sentidos, e, segundo Orlandi (1996), o nosso modo de articular as ideias se relaciona com cada época social e os efeitos de sentido nesse período produzidos. Figura 6.1: Representação da época social do discurso Legenda: A imagem apresenta dois indivíduos frente a frente discursando e a representação do tempo entre eles. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Dependendo do lugar onde se emitem enunciados, ou discursos, a palavra muda de sentido, pois ela advém de uma formação ideológica, em que reside o que pode ou não pode ser dito em determinado contexto comuni- cativo, já que o sujeito se apropria da linguagem em grupo, isto é, no seu ambiente social, e não isoladamente. Orlandi (1996, p. 9) também afirma que a compreensão de um texto “[...] não é uma questão de tudo ou nada, é uma questão de natureza, de condições, de modo de relação, de trabalho, de produção de sentidos, em uma palavra: de historicidade”. Portanto, a significação dos discursos se encontra na posição que os falantes e ouvin- tes ocupam na sociedade, sem esquecer de que todo discurso se origina em outro e assim por diante, em per- manente atualização. 95 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso Para você relembrar ou se atualizar sobre os principais conceitos linguísticos como forma de compreender melhor a produção e a assimilação de sentidos em um discurso, sugerimos a leitura do artigo “Signo, significação e discurso”, de Rubens César Baquião, disponível em: <https://www.revistas.usp.br/esse/article/download/35250/37970>. 6.1.1 Processos de articulação do discurso Um discurso é articulado de acordo com dois tipos de processos: o parafrástico (paráfrase) e o polissêmico (polis- semia). No primeiro tipo se estabelece uma reformulação do discurso sem alterar o seu sentido, enquanto no segundo tipo há várias possibilidades de sentido para um mesmo discurso. Ambos os processos servem para que possamos refletir sobre a linguagem., Então, a partir de agora, estudaremos cada um deles detalhadamente. Na Análise do Discurso, a paráfrase equivale a uma reformulação, sob um determinado contexto que se originou de algum texto-fonte ou que foi interpretado. Segundo Pêcheux (1988, p. 53 apud ORLANDI, 2001, p. 24), “[...] toda sequência de enunciado é, pois, linguisticamente, descritível como uma série léxico-sintaticamente deter- minada de pontos de deriva possíveis [...] deslizamento, efeitos metafóricos oferecendo lugar à interpretação”. Posto isso, a paráfrase é entendida como “[...] atividade efetiva de reformulação, pela qual o locutor restaura (bem ou mal, na totalidade ou em parte, fielmente ou não) o conteúdo de um texto-fonte sob a forma de um texto- -segundo” (FUCHS, 1985, p. 133). E o curioso é que, ao pensar em outro sentido na reformulação de um texto ou discurso, esse processo pode ser relacionado com o conceito de polissemia, sendo que é exatamente daí que se fundamenta a linguagem, como um permanente movimento entre o mesmo e o diferente, afinal, dizemos uma mesma coisa para significar algo diferente e dizemos coisas diferentes para designar um mesmo sentido. Essa tensão entre dizer o mesmo e o diferente traz à tona contextos equivalentes à produção de discursos ante- riores, que podem ser acessados no decorrer desse movimento antagônico, no qual a linguagem adquire fluidez. Dessa forma, enquanto na paráfrase o mesmo, o explícito no dizer, é retomado, resgatado na memória (inter- discurso), na polissemia se permite uma abertura ou amplitude de sentidos. Com isso, a memória se organiza entre a paráfrase e a polissemia, produzindo novos efeitos de sentido, que não os esperados, efeitos metafóricos, ressignificando sentidos. Isto se relaciona com aquilo que é externo às condições de produção, a partir de uma ideologia e historicidade. Com base no exposto, podemos compreender que um indivíduo produz um enunciado com características próprias que dependem do tema abordado e das condições em que esse sujeito se encontra no momento em que produz seu discurso, isto é, ao mesmo tempo em que o indivíduo se posiciona individualmente, também se baseia no que determina o contexto no qual está inserido. Esse fato de manter um mesmo discurso, embora o reformulando (parafraseando) ou direcionando-o para um novo sentido (polissemia), ocorre muito no meio político, principalmente em época de eleições, com o objetivo de ganhar votos. Do mesmo modo, o que percebíamos no discurso de determinado partido político pode ser similar em outro partido, em um dado momento histórico-social. https://www.revistas.usp.br/esse/article/download/35250/37970 96 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso Figura 6.2: Representação de político com discurso pronto na boca para vencer uma eleição Legenda: A imagem apresenta um sujeito de colarinho branco com a bandeira do Brasil na boca. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Além disso, você pode notar que em campanhas publicitárias também existe o processo parafrástico, como no período que antecede a estação do inverno, sendo comum que organizações não governamentais e demais ins- tituições manifestem interesse em angariar cobertores para distribuí-los entre os moradores de abrigos e de rua, e, para isso, utilizam discursos semelhantes, reformulados, porém, com o mesmo sentido. Outro componente que faz parte do processo discursivo é o interdiscurso, que significa a memória do dizer, ou seja, refere-se àquilo que já foi dito em um dado espaço e momento e por outro enunciador. É o saber discursivo que torna possível reformular ou atribuir novos sentidos a um dito. O interdiscurso também interfere no modo de produção do enunciador, conforme a situação em que ele se encon- tra, sendo por meio dessa memória que construímos sentidos, parecendo que o que dizemos (e no momento em que dizemos) teve origem em nós, quando, na verdade, apenas foi esquecido e suscitado ao relacioná-lo a um contexto específico. Esse “esquecimento” e essa disponibilização do dito ocorrem na interação social, nas relações que se estabele- cem na sociedade. Assim, o diálogo – manifestação dessas relações sociais – perpetua a necessidade de dizer o que já foi dito, mas em outro espaço e tempo. 97 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso Na música, por exemplo, já ouvimos diversas vezes o amore outros temas serem cantados, mas de diferentes formas e contextos, o que reafirma a noção de paráfrase e polissemia. Isso ocorre também quando se faz uma versão de alguma música para outro idioma. Ouça a can- ção original “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, adaptada pela cantora Amy Winehouse, e reflita a respeito do que foi comentado. Precisamos tomar cuidado, no entanto, para não confundirmos interdiscursividade, que é a “relação entre dis- cursos”, com repetição, que é um “gesto que reitera uma frase sem que esta tenha origem nos sujeitos”. Exemplo de frase repetida (paráfrase) que não se origina em algum sujeito, mas em uma pesquisa científica, é a ques- tão de ser mais conveniente não tomarmos antibióticos com leite para evitar a redução do efeito (resultado) do medicamento em nosso organismo. Já para haver interdiscursividade, será preciso existir certo esquecimento das “vozes” que precedem os ditos, ou seja, os posicionamentos a respeito do assunto. Por exemplo, durante um debate, um cientista defende a libera- ção do uso da maconha para fins medicinais como fonte de cura e alívio para muitos males que afetam a saúde, além de prover tratamentos eficazes e prevenções de doenças. Entretanto, esquece-se daqueles que pensam de maneira diferente e que veem na licença do uso da maconha um estímulo para o vício. Logo, podemos interpre- tar o interdiscurso como uma contrapalavra que, de acordo com Bakhtin (1992 [192-]), é o lugar onde o leitor (ou ouvinte) constrói a sua compreensão. O desejo diz: “Eu não queria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não queria ter de me haver com o que tem de categórico e decisivo; gostaria que fosse ao meu redor como uma transpa- rência calma, profunda, indefinidamente aberta, em que os outros respondem sem a minha expec- tativa, e de onde as verdades se elevassem, uma a uma; eu não teria senão de me deixar levar, nela e por ela, como um destroço feliz”. E a instituição responde: “Você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra, mas o desarma; e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que lhe advém”. (FOUCAULT, 1996, p. 7). O filósofo explica, em conferência dada no College de France, em 1970, que um discurso, conectado a outros tan- tos, caracterizado como um sistema aberto, registra, estabelece e reproduz valores sociais a serem perpetuados. Portanto, o encadeamento entre as palavras em um enunciado observará o contexto social no qual é empregado. Mas outro elemento que interessa estudar na Análise do Discurso é a metáfora, pois encerra como os sentidos são produzidos e as condições de produção. A metáfora equivale à substituição de uma palavra por outra em que se verifique uma correspondência entre elas em dado contexto. Para Orlandi (2001), é através da metáfora que a ideologia e a historicidade se refletem, pois, pelas diferentes interpretações geradas por essas variáveis no inconsciente do anunciador, os sentidos atribuídos pelos próprios sujeitos se mostram. Entretanto, a metáfora na perspectiva da Análise do Discurso não deve ser compreendida do mesmo modo que na gramática, como uma figura de linguagem, porque no discurso ela supera a função literária. Lakoff e John- son (1980) demonstraram que a metáfora se incorpora nas interações sociais cotidianas, ou seja, por indivíduos comuns, que talvez nem saibam identificá-las em uma obra literária. 98 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso A metáfora é, para a maioria das pessoas, um recurso da imaginação poética e um ornamento retó- rico – é mais uma questão de linguagem extraordinária do que de linguagem ordinária. Mais do que isso, a metáfora é usualmente vista como uma característica restrita à linguagem, uma questão mais de palavras do que de pensamento ou ação. Por essa razão, a maioria das pessoas acha que pode viver perfeitamente bem sem a metáfora. Nós descobrimos, ao contrário, que a metáfora está infiltrada na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas também no pensamento e na ação. Nosso sistema conceptual ordinário, em termos do qual não só pensamos, mas também agimos, é fundamentalmente metafórico por natureza. (LAKOFF; JOHNSON, 1980, p. 45). Esses autores evidenciam o uso da metáfora conceitual presente em nosso cotidiano quando expõem que a nossa sociedade frequentemente relaciona “discussão” com “guerra”. Por exemplo, ao dizermos “não quero dis- cutir com você”, praticamente estamos declarando paz em meio a uma possibilidade de guerra. Ainda podemos incluir no processo discursivo o imaginário inconsciente, que se articula na organização do pensamento para produzir o dito e simultaneamente deduz o que não pode ser dito. Orlandi (2001) ressalta que um discurso aponta para outro que o sustenta e, assim, segue continuamente. Com- preendemos, então, que não há um começo ou fim em um dito, pois este tem sempre relação com outro já rea- lizado, imaginado ou possível de ser manifestado. Pêcheux (2001) também nos esclarece que construímos um discurso com base em outro, na posição que ocu- pamos e na que o nosso interlocutor ocupa. Essa antecipação de imaginar para quem o nosso discurso é dire- cionado possibilita que o enunciador se coloque no lugar de seu interlocutor, de modo a tentar perceber quais efeitos de sentido incutirá neste. Compreenda que esse mecanismo de adiantar-se para denotar o sentido que se produzirá no interlocutor ao emitirmos um discurso está baseado no poder de argumentação. 6.2 Texto e gênero Compreendemos o texto como a unidade do discurso que, ao mesmo tempo, não é fechado em si mesmo, mas polissêmico, sendo interpretado de diferentes formas, conforme os sujeitos, suas experiências etc. Assim, Orlandi (1999) afirma que um texto é um composto de ideologias, e não homogêneo. Ademais, as ideias contidas nele contemplam a posição que o sujeito do discurso ocupa, bem como as dimensões interdiscursivas. A autora (1999, p. 54) ainda acrescenta que “[...] o discurso não é um conjunto de textos, é uma prática. Para se encontrar sua regularidade não se analisam seus produtos, mas os processos de sua produção”. Posto isso, ao analisarmos um texto, devemos reconhecer a posição de quem o escreve, o contexto no qual o texto se insere e a intenção do autor, captando, assim, o que ele deixou de dizer (entrelinhas), a sua posição ide- ológica e a finalidade comunicativa. 99 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso Entrelinhas = compreender aquilo que não está explícito no texto, mas que é sugerido. Glossário Uma informação interessante, segundo Bakhtin (2006, p. 283), diz respeito à forma como adquirimos a nossa língua materna, como aprendemos a falá-la, modelando “[...] nosso discurso em formas de gênero e, quando ouvimos o discurso alheio, já adivinhamos o seu gênero pelas primeiras palavras [...]”. Então, vamos agora compreender a importância do gênero textual na Análise do Discurso. Convém, portanto, começar afirmando que toda comunicação humana se baseia nos gêneros. A cada tipo de enunciado pressupõe- -se um conjunto de regras do dizer que podem ser adaptadas às variadas práticas de linguagem representadas pelos contextos da comunicação humana. Vejamos, a seguir, os contextos da comunicação humana para que você compreenda melhor a materialização de um gênero no texto. Quadro 6.1: Esferas comunicativas Esferas da comunicação humana I CIENTÍFICA II LITERÁRIA III ARTÍSTICO-CULTURAL GÊNEROS Verbetes do dicionário Soneto Provérbio Crendices Quadrinhas TEXTOS 1. Amor 2. Namorar Versos íntimos _________ TIPOLOGIA TEXTUAL Expositivo Opinativo/narrativo Opinativo Injuntivo Variados Legenda: Alguns exemplos de gêneros destacados em amarelo. Fonte: Discini e Teixeira (2012, p. 57). Apresentamos no Quadro6.1 apenas alguns exemplos de gêneros textuais equivalentes aos contextos da comu- nicação humana, grifados em amarelo, para você ter uma ideia de que cada gênero constitui parâmetros do que dizer e como dizer, isto é, o conjunto de regras. Além disso, podemos designar um contexto de comunicação também como um discurso, por exemplo, o gênero “sermão” pertence ao contexto ou ao discurso religioso, entendeu? Então, para que um gênero seja selecionado, antes, é preciso verificar a que nível ou discurso da comunicação ele pertence, depois, basta materializá-lo em texto. 100 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso O gênero citado no quadro, referente ao discurso literário, o soneto, possui uma padronização fixa, o qual é com- posto por quatro estrofes, dois quartetos (quatro versos nas duas primeiras estrofes) e dois tercetos (três versos nas estrofes seguintes). Leia o soneto “Versos íntimos”, de Augusto dos Anjos, na sequência: Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nesta boca que te beija! Pau d’Arco, 1901. (ANJOS, 1971, p. 146). Agora, vejamos os três gêneros citados que integram o discurso artístico-cultural. Provérbios são ditos próprios da oralidade, repassados de geração a geração, constituindo a memória cultural de um povo. São organizados em frases curtas em um período simples (uma só oração). Veja alguns exemplos: “O amor é cego” “Quem tem boca vai a Roma” “Quem espera sempre alcança” Já as crendices têm um caráter místico, religioso, conectando o indivíduo a significados ocultos, mas nem sempre verdadeiros. Há crendices que se relacionam também ao ambiente social, ao folclore de um lugar. Por exemplo: quando as pessoas se casam, é comum crer-se que jogar arroz nos noivos, ao saírem da porta da igreja, traz sorte aos nubentes. E as quadrinhas também são repassadas de geração a geração, manifestando-se oralmente, assim como os dita- dos ou provérbios populares. Geralmente, as quadrinhas possuem, no máximo, sete sílabas (versos com sete sílabas). Leia um exemplo em que as sete sílabas estão grifadas: 101 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso VII Quando te encontro na rua, Baixo os olhos um momento, Olho pra te-rra que pi-sas, E com isso me contento. (MOTA, 192, p. 235). Percebemos, até aqui, que os gêneros nos auxiliam a organizar a nossa linguagem em textos. Sendo assim, todo texto é interpretado com base no gênero, além, é claro, da situação de comunicação. Além disso, no âmbito das práticas sociais coletivas, os gêneros são associados às atividades de linguagem: cotidiana, acadêmica, jornalís- tica, publicitária, jurídica, comercial etc. No entanto, um mesmo gênero pode estar vinculado a atividades de linguagem diversas ou, ainda, conforme comenta Bronckart (2008, p. 43), há, por um lado, gêneros que podem corresponder a diferentes práticas e, por outro lado, gêneros que, tendo sido elaborados no quadro de um determinado campo prático, podem ser reuti- lizados e reelaborados depois em outros campos e em outras práticas singulares. Existe também a possibilidade de identificar características específicas em cada gênero, mas vamos fazer uma pausa para chamar a sua atenção e destacar aqui a diferença entre texto e gênero do discurso, que muitos iden- tificam como a mesma coisa. Este último, mais recentemente estudado, embora já tenha sido objeto de pesquisa desde Platão, foi através de Mikhail Bakhtin que ficou evidenciado na linguagem. A partir disso, já podemos afirmar que um sujeito conhecedor da diversidade de gêneros discursivos que existem nas esferas sociais pode transitar de um contexto para outro participando ativamente das práticas comunicativas que se estabelecem em cada meio. Pois bem, agora vamos pontuar uma informação importante: os gêneros discursivos são manifestados em textos, sendo também produtos de interações sociais. Além disso, os gêneros discursivos ocorrem em contextos espe- cíficos e são definidos como tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo caracterizados pelo tema, pelo estilo e pelo modo como são construídos. Tais gêneros discursivos refletem finalidades específicas e três dimensões: tema, estilo e composição. De acordo com Rodrigues (2005), a primeira dimensão (tema) é o objeto do discurso; a segunda dimensão equivale a esco- lhas pessoais (vocabulário, estruturas frasais, preferências gramaticais) do enunciador ou do escritor; e a terceira dimensão corresponde à estrutura formal do enunciado. O gênero envolve, portanto, toda atividade comunicativa humana e representa as formas do dizer e a de inte- ração em cada situação específica. Conforme Bakhtin (2003, p. 268), os gêneros “[...] refletem de modo mais imediato, preciso e flexível todas as mudanças que transcorrem na vida social”. Para Bronckart (2003, p. 72), “[...] os textos são produtos da atividade humana e, como tais, estão articulados às neces- sidades, aos interesses e às condições de funcionamento das formações sociais no seio das quais são produzidos”. Dessa forma, podemos notar como há textos de diferentes espécies devido à variedade situacional comunicativa, e, por isso, aparecem textos similares que compõem gêneros. Ademais, compreendemos que qualquer texto sempre manifestará um gênero próprio às variadas situações de comunicação. Assim, o gênero receita de bolo, por exemplo, especifica os ingredientes necessários e orienta a maneira de fazer o bolo, como em um tutorial, e é organizado através de uma injunção. Chamamos de sequência ou tipo textual a forma como um texto se orga- niza, logo, a sequência ou tipologia textual da receita é a injunção. 102 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso Listamos agora as demais sequências textuais que compõem um gênero: • narrativo: por exemplo, a história de um romance; • expositivo: por exemplo, a explicação de algo, verbete de dicionário; • descritivo: por exemplo, a página de um cardápio; • opinativo: por exemplo, expressa uma opinião, um editorial de um jornal. A seguir, então, vamos analisar cada gênero citado: o romance, o verbete de dicionário, o cardápio e o editorial. O romance equivale a uma composição poética e, também, à literatura, envolvendo ações pequenas e cotidia- nas, ou épicas e grandiosas, que refletem um conflito situacional e um ou mais personagens em um todo orga- nizado. Pode ser narrado em primeira ou terceira pessoa e, ainda, conter outro gênero em seu interior, como a carta. Veja um exemplo: [...] Tão engraçadas as cartas da mamãe... Sempre no mesmo papelzinho de xadrez, com a mesma letrinha redonda, tinta roxa... As cabeças quase encostadas, Clarissa e a tia leem: Querida filha: Estimo que estas poucas e mal traçadas linhas va-te encontrar em goso de perfeita saúde, nós vamos indo graças a Deus teu pai é que anda aborrecido por causa dos negócios mas não há de ser nada si Deus quiser e Maria Santissima. [...]. (VERÍSSSIMO, 2005, p. 55-56). Já os verbetes de dicionário apresentam, normalmente, o registro da palavra em negrito, a sua classe gramatical (se substantivo, adjetivo), o seu significado, a data da primeira ocorrência da palavra na língua portuguesa e as derivações da palavra. Vejamos um exemplo: Namorar v.b. ‘cortejar, cativar, atrair’ XIII. Forma aferética de enamorar DE EM + AMOR + AR. namorada 1813// namoradeira 1813// namorado XV namorador XVI// namoro 1881. . (CUNHA, 1997, p. 544). No cardápio de um restaurante, descreve-se uma listade bebidas e alimentos de que o estabelecimento dispõe, juntamente com os preços. Observe o exemplo que apresentamos na figura a seguir. 103 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso Figura 6.3: Representação de cardápio Legenda: A imagem ilustra um cardápio com vários tipos de pizza e suas imagens (centralizado), além do nome do restaurante, ao lado. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Agora, conforme publicado no Jornal Hoje em Dia (2018, [s. p.]), vejamos o gênero editorial, que manifesta a opi- nião do veículo de comunicação acerca de determinado tema atual: Quem já passou por uma separação conjugal admite ser esta uma das fases mais sofridas e des- gastantes da vida. Um relacionamento ruim, motivado por fatores que vão da incompatibilidade de gênios, desrespeito e até violência física e emocional, é motivo de sobra para que cada um siga o seu caminho. No entanto, questões como falta de moradia para um dos cônjuges ou ausência de acordo sobre divisão de bens fazem com que muitos continuem sob o mesmo teto em uma relação infeliz, que pode ser rápida ou não, dependendo da condição de cada casal. Há quem diga que é mais difícil se separar que casar. Pautada no afeto, a união é fácil e suave, ao contrário da separação, em que reinam, na maioria das vezes, sentimentos nada nobres. A situação torna-se mais complicada quando entre os dois lados existem filhos menores. A guarda das crianças e adolescentes pode ser consensual, mas muitas vezes esbarra na Justiça, devido à tentativa por parte de pai ou mãe, separados, de dificultar o contato do filho com um dos genitores, uma das formas de alienação parental. Casos de alienação parental motivaram mil ações no primeiro trimestre deste ano contra 708 no mesmo período de 2017 e se tornaram um desafio para os magistrados mineiros. Ferramenta para assegurar que a criança possa conviver tanto com o pai quanto com a mãe, a lei da alienação parental, porém, pode estar sendo usada de forma crimi- 104 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso nosa por alguns genitores para garantir o contato com filhos dos quais abusam fisica- mente, emocionalmente e até sexualmente. Denúncias do tipo vêm se tornando mais fre- quentes, e esbarram, principalmente, na dificuldade para se provar quem está mentindo. A despeito de mágoas e até de falsa comunicação de crime, é preciso lembrar, porém, que a parte mais vulnerável destes processos está nos menores. Portanto, que a Justiça consiga – com a ajuda de especialistas, peritos e polícia – buscar a verdade e proteger essas crianças. 6.3 Relação entre texto, discurso e gênero Iniciamos este tópico afirmando que texto, gênero e discurso se inter-relacionam em enunciados comunicativos e integram a perspectiva interacionista ou sociodiscursiva da linguística. Isto quer dizer que as produções de linguagem se relacionam com as atividades humanas, em geral, isto é, as atividades de linguagem se associam às práticas sociais, mas em cada uma dessas práticas é possível delimitarmos ações de linguagem específicas. Assim, todo texto se insere em um gênero no momento em que é construído, pois o produtor do texto já possui um conhecimento parcial dos gêneros que permeiam a sua comunidade linguística, daí, escolhe o tipo de gênero mais adequado em função da situação comunicativa na qual agirá. Já os tipos de discursos compõem os gêneros textuais e refletem o tema mobilizado no texto e a situação comunicativa. Enquanto o gênero constitui a ação que envolve a linguagem, o discurso constitui a estrutura interna do texto. Conforme atesta Bronckart (2006), o modo como se estruturam os gêneros depende das atividades humanas a eles associadas, enquanto o modo como se organiza o discurso está ligado às formas em que se podem desdo- brar as operações do pensamento humano. Quadro 6.2: Tipos de discurso / gêneros textuais TIPOS DE DISCURSOS GÊNEROS interativo conversa, romance teórico monografia relato *entrevista, *relatório, romance narração romance Fonte: Adaptado de Miranda (2008). A partir das informações que apresentamos no quadro anterior, torna-se possível identificar a ocorrência domi- nante do tipo de gênero textual através de como o discurso no interior do texto é organizado. Se em um deter- minado texto há o predomínio da narração, o mais provável é que o gênero se trate de um romance ou conto do que de uma monografia, por exemplo. Logo, o modo como um discurso é articulado em um texto apontará a que gênero esse texto pertence. Vejamos, então, a seguir, com mais detalhes cada tipo de discurso. Porém, antes de nos aprofundarmos em cada tipo de discurso, convém explicar de que forma um texto se organiza para que um discurso atue, segundo a concepção de Bronckart (2003). 105 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso No plano geral do texto, mas também no plano das sequências textuais, está a infraestrutura do texto: o eixo temático, os tipos de discurso e as formas de articular esses elementos no interior do texto. Já o que garante a organização do tema tratado no texto são os mecanismos de textualização: processo de coesão nominal (reto- mada ou progressão no texto) e verbal (organização temporal), dotando o texto de coerência (sentido). Há também os mecanismos enunciativos que refletem as vozes sociais e os valores ou ideologias, os quais, desde que nascemos, permeiam a nossa sociedade, assumidos pelo locutor (produtor do conteúdo textual), levando em consideração o destinatário ou interlocutor e a finalidade comunicativa. Agora, vamos analisar os tipos de discursos, que significam as partes que o texto comporta. Nesse sentido, o discurso interativo e o teórico embasam uma exposição, o ato de expor alguma coisa, enquanto o relato e a nar- ração refletem o ato de narrar. Entretanto, pode haver no discurso interativo um eixo teórico também. Nos discursos de narração e de relato podemos encontrar sequências descritivas, já no discurso teórico, as sequências podem ser argumentativas e explicativas, e, por fim, no discurso interativo, as sequências são dialogais. Importa lembrar que as sequências textuais indicam a estrutura do gênero, se narrativa, argumentativa, injun- tiva, descritiva etc., sendo mais estáveis por não sofrerem as interferências de fatores sociais. Além disso, de tanto lermos e ouvimos os outros, adquirimos maior contato com textos e com as sequências textuais, abrigando, assim, um esquema memorizado. Em uma visão pedagógica, ensinar a ler e a escrever textos, considerando fatores sociais e reais, através de um conjunto formado por etapas que levem à aprendizagem de algo, contribui para que os estudantes desenvolvam sua competência linguístico-textual, utilizando os recursos variados que a língua lhes oferece. Você deve saber que mesmo que um texto apresente variadas sequências (narrativa, des- critiva etc.) uma predominará. Por exemplo, em uma narração, pode haver a descrição de alguma coisa em dado momento e também a interferência do narrador para argumentar a respeito de algo. Vamos verificar semelhanças entre dois textos de gêneros diferentes, observando, também, as sequências tex- tuais contidas neles. “A televisão daquela época era mágica. Embora transmitisse em branco e preto programas feitos sem profissionalismo, com imagens tecnicamente ruins, ela possuía um fascínio único” (MARCONDES FILHO, 2012, p. 82). “[...] as pessoas sentavam juntas, conversavam e trocavam ideias na hora das refeições” (NOVAES, 2012, p. 82). 106 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 6 - Estrutura textual como aparato do discurso Ambos os textos tratam do mesmo tema: a televisão. No entanto, o primeiro trecho lido se trata de um “ensaio”, no qual o autor propõe ao leitor uma reflexão baseada na própria opinião sobre algum assunto. Já o segundo se trata do gênero “romance”, cujo teor é ficcional, em que se narramsituações dramáticas, envolvendo personagens, lugares etc. Além disso, verificamos duas sequências textuais: a narrativa e a descritiva, assim como o discurso interativo, pois, no primeiro texto, existe um processo dialógico entre autor e leitor; já o segundo é um romance. Agora, vamos analisar, com base nos trechos lidos, como os discursos se articulam no interior do texto, segundo a concepção de Dick (1997). Existem duas formas de articular um discurso: • articulação por encaixamento: o discurso é delimitado e ordenado; • articulação por fusão: um discurso é associado a outro. No primeiro caso de articulação, há o estabelecimento de um “estado-de-coisas” na forma de elementos argu- mentadores ou modificadores, essenciais para estabelecer sentidos em relação ao tempo, ao espaço e à circuns- tância. Isso é visível no primeiro trecho: “A televisão daquela época...” / “Embora transmitisse em branco e preto programas feitos sem profissionalismo, com imagens tecnicamente ruins”. No segundo caso de articulação, os discursos presentes nos dois trechos lidos fundem-se em torno de uma temática em comum: a televisão. Portanto, referenciando as contribuições de Bakhtin a respeito dos estudos sobre a linguagem, podemos enten- der que o conceito de gênero envolve as interações sociais, sendo que, segundo Marcuschi (2008, p. 154), é “[...] impossível não se comunicar verbalmente por algum gênero, assim como é impossível não se comunicar verbal- mente por algum texto”. Nossa competência linguística serve para que alcancemos as finalidades nas situações comunicativas de que participamos. Daí, passamos a produzir uma carta, um relatório e até um romance porque, afinal, já conhecemos as formas de comunicação que se denominam gêneros, materializados através de textos. Marcuschi (2008, p. 154) ressalta, ainda, que “[...] são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos con- cretamente realizados [...]”. Logo, podemos conceituar gênero textual, de acordo com Silva (2002), como a essência de uma experiência comunicativa, através de interações entre pessoas em eventos concretos, reais, em que estas assumem papéis comunicativos e posições sociais. A partir das relações estabelecidas entre texto, discurso e gênero, que vimos até então, participe do fórum desafio. 107 Considerações finais Agora, vamos recapitular o que estudamos sobre texto, discurso e gênero e relacionar esses três elementos para que você saiba o que cada um significa e tenha mais clareza tanto na hora de produzir e compreender algum texto quanto no momento em que for ensinar tais conceitos para seus alunos. • A linguagem humana e as atividades sociais que realizamos por meio dela constituem-se em texto, discurso e gênero. • Todo discurso é articulado através de processos de paráfrase, no qual ideias são reformuladas sem alterar o sentido inicial, e através da polissemia, em que novos sentidos são gerados a partir de ideias. • A interdiscursividade, como o próprio nome já nos indica, é a rela- ção entre discursos e através dela posicionamentos são manifes- tados a respeito de um dado assunto. • A metáfora também é outro recurso utilizado em discursos e que reflete significações acomodadas pela sociedade. • Enquanto um discurso reflete uma prática social, de acordo com um contexto comunicativo, o texto simplesmente é o plano onde esse discurso se materializa. • O gênero envolve as atividades da comunicação humana e aponta a forma de dizer e como dizer. • As sequências textuais indicam a estrutura do gênero, se narra- tiva, argumentativa, injuntiva, descritiva etc. 108 Referências ANJOS, A. dos. 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São Paulo: Cia das Letras, 2005. 112 7Unidade 7 A dimensão ideológica da linguagem Para iniciar seus estudos Nesta unidade, você estudará sobre língua e linguagem e sua dimen- são ideológica. Em nossos estudos, abordaremos as relações da lingua- gem com a cultura e suas implicações com a ideologia. Além disso, você terá oportunidade de refletir sobre o mito da neutralidade do discurso e conhecerá históricos envolvidos na definição da norma-padrão e das variedades linguísticas prestigiadas. Ao longo do texto, você também poderá compreender sobre os processos dialógicos envolvidos na enun- ciação e na construção dos sentidos. Então, vamos começar? Objetivos de Aprendizagem • Analisar criticamente os aspectos ideológicos inerentes à linguagem. 113 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem 7.1 Língua, linguagem e ideologia Os conceitos de língua e linguagem são compreendidos sob diferentes perspectivas teóricas, as quais, por sua vez, refletem distintas visões histórico-filosóficas. Nesta unidade, vamos apresentar um breve panorama sobre como língua e linguagem têm sido compreendidas nas ciências linguísticas, e você compreenderá os aspectos ideológicos dessas representações. Ferdinand de Saussure, considerado pai da Linguística moderna, impactou o campo dos estudos sobre lingua- gem com seus posicionamentos teóricos sobre o sistema linguístico. Leite e Oliveira (2012) afirmam que o lin- guista aborda a língua por dois modos de análise, o sincrônico e o diacrônico, e define língua de modo combi- nado à sua concepção de linguagem. Assim, Saussure (2006 apud LEITE; OLIVEIRA, 2012) compreende a língua instituída socialmente, entretanto, com um componente histórico herdado e convencionado que não permite ao falante fazer com a língua o que queira, fato que não descarta a existência de traços individuais momentâneos trazidos pelos falantes. Diacrônico (ao longo do tempo) e sincrônico (ao mesmo tempo) são termos que dizem res- peito aos métodos de estudo da Linguística. A diacronia analisa os fatos linguísticos suces- sivos ao longo do tempo, já a sincronia se atém a estudar os fenômenos linguísticos em um mesmo período de tempo (SAUSSURE, 2006). Glossário Um bom exemplo para que você entenda a relação entre diacronia e sincronia como métodos de observação e análise da língua é o pronome pessoal “você”. Historicamente, isto é, diacronicamente, essa unidade linguística passou por três momentos sucessivos: a forma de tratamento “Vossa Mercê”, depois, a forma aglutinada “Vos- mecê” e, após, a forma atual, “você”. Paralelamente, podemos descrever, sincronicamente, neste estágio atual do pronome, um modo de funcionamento que revela formas simultâneas de uso dos falantes, como “cê” (“Cê vai pra balada hoje?”) e “vc” (Vc tá bem?). A língua, entendida como parte integrante da linguagem, é multiforme e heteróclita, logo, não passível de sis- tematização (SAUSSURE, 2006). Por outro lado, a língua é passível de generalizações, compondo a parte siste- matizável da linguagem (SAUSSURE, 2006 apud LEITE; OLIVEIRA, 2012). Assim, a partir da constatação de que a língua tem um componente social e um individual, Saussure apresenta duas possibilidades de estudo: a língua e a fala. Desse modo, a língua é o “[...] produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (SAUSSURE 2006 apud LEITE; OLIVEIRA, 2012, p. 7), e a fala é a utilização individual, porém subordinada à ordenação e con- venção da língua (SAUSSURE 2006 apud LEITE; OLIVEIRA, 2012). Dito em outras palavras, a linguagem corresponde à capacidade inerente aos seres humanos de expressarem suas emoções e subjetividades, bem como de transmitir informações e emitir opiniões, e a fala corresponde ao modo peculiar e individual que uma pessoa se comunica através da linguagem verbal. Ademais, a fala sofre influências dos ambientes nos quais os sujeitos convivem e de suas experiências pessoais. Desse modo, pode-se compreender que Saussure discutia os conceitos em dicotomias, em que cada elemento só faz sentido na relação com o outro. De acordo com Pietroforte (2003, p. 81-82): 114 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Se na dicotomia sincronia versus diaconia se estabelecem duas maneiras de estudar a língua, na dicotomia língua versus fala há a definição do conceito língua. Para Saussure, língua opõe-se à fala, porque a língua é coletiva e a fala é particular, portanto, a língua é um dado social e fala é um dado individual. Além disso, a língua é sistemática e a fala assistemática. Pessoas que falam a mesma lín- gua conseguem comunicar-se porque, apesar de diferentes falas, há o uso da mesma língua. Nesse contexto, Görski e Siqueira (2017) elencam quatro concepções de linguagem no campo da Linguística, são elas: • linguagem como representação (espelho) do mundo e expressão do pensamento; • linguagem como instrumento de comunicação; • linguagem como forma ou ação ou lugar de interação; • linguagem como inata e universal. Tais concepções se coadunam com outras quatro concepções de língua: • língua como forma de expressão; • língua como código; • língua como conjunto de usos concretos; • língua como conhecimento internalizado. Figura 7.1: Representações linguísticas Legenda: A figura apresenta a imagem de uma mulher com letras e símbolos na cabeça e saindo pela boca. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Ainda sobre este assunto, Görski e Siqueira (2017) apresentam um quadro-resumo das concepções relacionadas, o que nos ajuda em uma melhor compreensão a respeito. 115 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Quadro 7.1: Concepções de linguagem CONCEPÇÃO DE LINGUAGEM CONCEPÇÃO DE LÍNGUA Linguagem como representação (espelho) do mundo e expressão do pensamento: a expressão é construída na mente, como reflexo do mundo, sendo traduzida pela linguagem. Língua como formas de expressão: formas a serviço da exteriorização de ideias, primando pela organização lógica e pela clareza, sem preocupação com a situação comunicativa. Linguagem como instrumento de comunicação: o falante tem em sua mente uma mensagem a transmitir a um ouvinte; essa mensagem é codificada e enviada através de um canal para o outro, que a recebe e a decodifica. Língua como código: conjunto de signos que se combinam sistematicamente de acordo com regras convencionadas. A língua é concebida como um sistema convencional imanente. Linguagem como forma de interação: o indivíduo realiza ações, atua sobre o interlocutor (ouvinte/leitor) por meio da linguagem. Língua como conjunto de usos: realidade sócio-historicamente construída pelos interlocutores, sujeitos que ocupam lugares sociais e falam a partir desses lugares. Linguagem como capacidade inata e universal: estrutura cognitiva que faz parte da herança genética do ser humano; corresponde ao estado mental inicial (chamado de Gramática Universal), que se desenvolve, passando por estágios sucessivos de maturação, até atingir um estágio estável. Língua como conhecimento internalizado: conjunto de propriedades estruturais abstratas, complexas e altamente específicas, que são conhecidas pelos indivíduos independentemente do contexto. Fonte: Adaptado de Görski e Siqueira (2017 p. 28-29). Além disso, Mendes (2012, p. 669), ao discutir a linguagem como capacidade inata e universal com base nos estudos de Chomsky, elucida que: Essa tendência a conceber a língua como entidade abstrata, apartada de sua feição social, foi ainda reforçada por Noam Chomsky, linguista de grande prestígio em nossa área, o qual defende a ideia deque as línguas e, consequentemente, as suas gramáticas se estruturam a partir de pro- cessos mentais, adquiridos de modo inato e que se organizam por princípios que são universais. Assim, na perspectiva da língua como forma de expressão a serviço da exteriorização de ideias, Saussure (2006 apud LEITE; OLIVEIRA, 2012) afirma que esta não é nomenclatura, ou seja, não está colada ao mundo, como uma legenda ou etiqueta; para o linguista, a língua é a linguagem menos a fala, sendo que em seus estudos faz esse recorte, ele- gendo a língua como seu objeto de estudo. Nesta unidade, não nos aprofundaremos na perspectiva saussureana, somente a convocamos por sua importância como ponto central da ciência linguística, afinal, as proposições de Saussure influenciaram muitas correntes posteriores, ainda que dela discordassem em certos aspectos. Sobre este assunto, Macedo (2009) menciona que Mikhail Bakhtin e seu círculo concordavam com a designação de Saussure no sentido de que a língua seja um fato social, mas discordavam da tese saussureana de que a lín- gua é um sistema de regras. Para o filósofo, a língua se constitui pelo fenômeno social da interação verbal e se realiza pelas enunciações, pois “[...] a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não 116 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem no sistema linguístico abstrato das formas da língua, tampouco no psiquismo individual dos falantes” (BAKHTIN, 2010, p. 124). De acordo com Bakhtin e Voloshinov (1992), a língua é essencialmente dialógica, composta pelo fenômeno social da interação verbal, a qual se concretiza pelas enunciações, não sendo, portanto, um objeto abstrato, des- vinculado de aspectos ideológicos. Nesse sentido, no processo de construção dos enunciados, nunca há um enunciador isolado: Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que pro- cede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o pro- duto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia sobre mim numa extremidade, na outra apoia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 115). Nesse contexto, podemos depreender que o sentido de um enunciado é construído por meio do diálogo entre essas vozes, as quais representam distintos posicionamentos ideológicos. Por conta disso, Brait (2006) pondera que o dialogismo não se resume à orientação da palavra ao outro, mais do que isso, abarca a confrontação, no enunciado, das vozes ideológicas de um grupo social, em um momento e lugar historicamente determinados. Além disso, Bakhtin (2010) considera que, quando a atividade mental de um sujeito se realiza sob a forma de uma enunciação, a orientação social subjacente a ela torna-se mais complexa, lançando nova luz sobre o problema da consciência e da ideologia. A ideologia é fenômeno objetivo e subjetivo involuntário pelo qual ocorre a transformação das ideias da classe dominante em ideias dominantes para o restante da sociedade, permi- tindo que a classe que domina no plano material (econômica, social e politicamente) possa dominar no plano espiritual (das ideias) (CHAUÍ, 2008, p. 36). Glossário Por essa via, como expressão material estruturada, a consciência constitui um fato objetivo e uma força social imensa. Então, enquanto a consciência permanece fechada na cabeça do ser consciente, seu alcance é limitado, todavia: [quando passa pelas] etapas da objetivação social, que entrou no poderoso sistema da ciência, da arte, da moral e do direito, a consciência torna-se uma força real, capaz mesmo de exercer em retorno uma ação sobre as bases econômicas da vida social. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 115). Dessa forma, argumenta-se que tudo que é ideológico é um signo, e que sem signos não há ideologia. Nesse sentido, Modesto (2009) descreve que há ideologia na educação familiar e escolar, nos meios de comunicação de massa, na dinâmica dos hospitais psiquiátricos, das prisões e das indústrias, de um modo que impossibilita a flexibilidade entre o pensar e o agir, reforçando e legitimando fórmulas prontas e acabadas. Paradoxalmente, o autor aponta que é justamente nesses espaços de veiculação da ideologia que processos de conscientização podem ser iniciados. 117 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Figura 7.2: Ideologia Legenda: A figura apresenta a imagem de uma cabeça humana sendo carregada por conteúdos linguísticos. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Entretanto, nem sempre essa conscientização ocorre, pois a ideologia funciona como um acobertamento da rea- lidade social, em uma lógica perversa que naturaliza as relações de exploração e da dominação, fazendo parecer aos dominados ou explorados que aquela é a única realidade possível. Por essa razão, Modesto (2009) esclarece que este não é um processo consciente, no qual a classe dominante constrói discursos ideológicos para enganar os grupos subjugados: [...] a ideologia não é concebida como uma mentira que os indivíduos da classe dominante inven- tam para subjugar a classe dominada. Também os que se beneficiam dos privilégios sofrem a influência da ideologia, o que lhes permite exercer como natural sua dominação, aceitando como universais os valores específicos de sua classe. (MODESTO, 2009, p. 2, grifo do autor). No tópico a seguir, abordaremos um mito muito forte até hoje, o qual facilita a circulação da ideologia nas rela- ções sociais: a neutralidade dos discursos. 7.1.1 O mito da neutralidade A linguagem é o principal instrumento pelo qual a ideologia se constitui, haja vista que por meio da linguagem a classe dominante padroniza um modo de falar, menosprezando o que é diferente, como as variações regionais (MODESTO, 2009). Na verdade, ao se desvalorizar ou não reconhecer uma variedade linguística, o que está se fazendo é desprestigiar seus falantes, daí a norma/língua-padrão ser chamada de norma/língua culta, como se tudo que fugisse das suas regras não fosse também uma forma de cultura e/ou expressão linguística possível. “A norma culta, geralmente confundida com língua-padrão ou fala culta representa um ideal imaginário de uma língua platônica, que somente existe na língua utópica dos normativistas” (MODESTO, 2009, p. 8). 118 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Importa destacar, então, que os signos não são neutros, nem arbitrários, são ideológicos e se materializam dialogicamente no processo enunciativo como enunciados carregados de marcas capazes de refletir e modifi- car determinadas situações dialógicas entre os interlocutores, pois cada interlocutor traz para a interação não somente suas subjetividades como também a singularidade histórica de sua classe social, grupo político, cul- tural, econômico ou religioso específico, apresentando os valores, crenças, preconceitos e interesses captados e refletidos pelo signo verbal ideológico, materializado na condição de palavra, que capta e reflete (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992). Por essa via, Bakhtin e Voloshinov (1992) postulam que nessas interações verbais “[...] o ser, refletido no signo, não apenas nele se reflete, mas também se refrata” (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 45), sendo determinante para tal refração a colisão de distintos interesses sociais: Assim, classes sociais diferentes servem-se de uma só e mesma língua. Consequentemente, em todo signo ideológico confrontam-se índices de valor contraditórios. O signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes. Esta plurivalência social do signo ideológico é um traço da maior importância. Na verdade, é este entrecruzamentodos índices de valor que torna o signo vivo e móvel, capaz de evoluir. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 45, grifo dos autores). A observação atenta dessa citação permite compreender que nas tensões da luta de classes o signo se converte em letra morta, sem função para o confronto de valores sociais. Contudo, de acordo com Bakhtin e Voloshinov (1992), o que torna o signo ideológico, vivo e com dinamicidade o faz um instrumento de refração e de defor- mação do ser, pois a classe dominante tem interesse de abafar as diferenças de classe para tornar o signo mono- valente. Essa ideia é mais fácil de entender se nos reportarmos às duas faces que todo signo ideológico possui. Toda crítica viva pode tornar-se elogio, toda verdade viva não pode deixar de parecer para alguns a maior das mentiras. Esta dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária. Nas condições habituais da vida social, esta contradição oculta em todo signo ideológico não se mostra à descoberta porque, na ideologia dominante estabelecida, o signo ideológico é sempre um pouco reacionário e tenta, por assim dizer, estabilizar o estágio anterior da corrente dialética da evolução social e valorizar a verdade de ontem como sendo válida hoje em dia. Donde o caráter refratário e deformador do signo ideoló- gico nos limites da ideologia dominante. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 46). Assim, entende-se por dialética o movimento das contradições pelo qual ocorre a existência de uma relação de negação interna entre termos que só existem graças a essa negação (CHAUÍ, 2008). É fundamental não confun- dir a negação de que trata a dialética com uma simples oposição, pois uma relação dialética, segundo a filósofa, é sustentada pela contradição e, nela, os elementos existem em função dessa negação interna, não podendo ser tomados fora dessa relação. A relação escravo e senhor é um exemplo de relação dialética: “[...] escravo é o não-senhor e o senhor é o não-escravo e só haverá escravo onde houver senhor e só haverá senhor onde houver escravo” (CHAUÍ, 2008, p. 15-16). Aprofunde seu conhecimento sobre dialética e sua relação com a ideologia lendo o artigo “O avesso do avesso”, de Mariana Cruz, no qual é abordado o conceito por meio de uma ana- logia com um texto poético. Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblio- teca/filosofia/0025.html>. http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/filosofia/0025.html http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/filosofia/0025.html 119 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Importa destacar também que a linguagem, ao se fundir à ideologia prescritiva da Gramática Tradicional (GT), torna-se instrumento de opressão social. De acordo com Modesto (2009, p. 5): A linguagem se torna instrumento de opressão social quando se funde à ideologia normativista da Gramática Tradicional (doravante GT). Não é contra a GT nem pela sua destruição a que se destina este trabalho, mas sim contra os usos que se fizeram (ainda se fazem, hoje mais do que nunca) dela. Como veremos adiante, a GT apresentou, nos primórdios de sua existência, uma pro- funda colaboração para a ciência da linguagem. Foi uma primeira tentativa de se estudar a língua, de extrair dela sua essência, sua vitalidade. Essa discussão sobre o caráter ideológico da Gramática Tradicional (GT) não nega seu valor científico e cultu- ral, pois a GT é um patrimônio cultural ocidental, com saberes acumulados há mais de dois milênios, compor- tando as reflexões e investigações sobre linguagem feitas por brilhantes pensadores da história da humanidade (BAGNO, 2000). A despeito disso, a GT, ainda de acordo com Bagno (2000), não é a única fonte de saberes sobre língua e a lingua- gem, pois houve muitas investigações e descobertas nesse campo, não podendo a GT se tornar um dogma nem ser usada como instrumento de exclusão de outros usos da língua escrita, mesmo aqueles que não almejam a perfeição artística (BAGNO, 2000). Assim, Bagno (2000, p. 37) identifica a Gramática Tradicional como uma das ideologias conservadoras: [...] uma última tarefa importante na identificação da Gramática Tradicional como uma ideologia, parece-me, é mostrar de que modo as ideologias conservadoras – entre as quais incluo a GT – privilegiam um discurso totalmente voltado para o passado, num processo de des-historicização desse discurso, que passa a ser, assim, uma “grande verdade” atemporal, estática, autônoma, eterna e imutável em relação à situação histórico-social que a produziu, independente das lutas sociais que o conformaram. Sobre este assunto, Gnerre (1994) denuncia que somente uma parcela dos falantes tem acesso à dita “norma culta”, variedade prestigiada da língua que é associada a um patrimônio cultural com valores assentados na tra- dição escrita, em restritos ambientes de poder, cuja diferenciação política favorece a discriminação linguística das pessoas que utilizam outra variedade da língua. O autor afirma ainda que a linguagem pode ser usada para impedir a comunicação de informações para grandes setores da população, sendo, assim, o arame farpado mais poderoso que funciona como bloqueio de acesso ao poder e para se adquirir e produzir conhecimentos relevan- tes. Nas palavras de Gnerre (1994, p. 5): A linguagem não é usada somente para veicular informações, isto é, a função referencial denota- tiva da linguagem não é senão uma entre outras; entre estas ocupa uma posição central a função de comunicar ao ouvinte a posição que ocupa de fato ou acha que ocupa na sociedade em que vive. As pessoas falam para serem “ouvidas”, às vezes para serem respeitadas e também para exercer uma influência no ambiente em que realizam os atos linguísticos. O poder da palavra é o poder de mobilizar a autoridade acumulada pelo falante e concentrá-la num ato linguístico [...]. Contiero e Ferraz (2013), em seu estudo sobre os aspectos ideológicos no acerco lexical de uma língua, demons- tram que o modo de funcionamento da língua atinge, de alguma forma, valores identitários e simbólicos per- meados pela crença de que a língua é monolítica e homogênea e de que todos falam a mesma variedade do português, o que está longe de ser verdadeiro, visto que os itens lexicais de uma língua compõem um inventário de criação infinita e em constante atualização. 120 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Figura 7.3: Linguagem: o poderoso arame farpado Legenda: A figura apresenta um cérebro cercado de arame farpado. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Nessa mesma direção, Geraldi (1997) afirma que a norma de prestígio é imposta por meio da segregação de classe, pelo uso de diversos mecanismos. De acordo com o autor, nas normas de prestígio: [...] se produzem as ideologias, enquanto elaborações sistemáticas das experiências, das neces- sidades, das aspirações, selecionando, hierarquizando, estruturando seus componentes. Neste confronto, para usar uma expressão corrente, as classes dominantes articulam os elementos, enquanto que as classes dominadas, em função da apropriação dos meios de produção por aque- las, atomizam e fragmentam seus “modos de ver o mundo” e de representá-lo, sem que lhes permitam totalizações que levariam à reapropriação, reelaboração e projeção de seus desejos. (GERALDI, 1997, p. 56). Outra crença ainda difundida atualmente é a que prega que dominar a norma-padrão, prestigiada e considerada culta, seja instrumento de ascensão social. É importante, evidentemente, defender o acesso de todos à variedade linguística de prestígio, mas isso por si só não constitui garantia de ascensão social, afinal, a sociedade é organi- zada sob a lógica de aspectos socioeconômicos e políticos. 7.2 Sistemas ideológicos e Filosofia da Linguagem A hierarquização da sociedade e das relações sociais tem implicações nas formas de enunciação. Para Bakhtin e Voloshinov (1992), os signos são condicionadospela organização social dos indivíduos e pelas condições em que ocorrem as interações verbais, em um processo dialético que origina uma evolução social. Considerando essa concepção, destacamos os procedimentos metodológicos para o estudo do signo: não separar a ideologia da realidade material do signo linguístico; não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social e nem de sua base; não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material, a qual seria sua infraestrutura. Segundo Bakhtin e Voloshinov (1992, p. 29, grifo dos autores): Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes ele também reflete 121 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. [...] No entanto, todo corpo físico pode ser percebido como símbolo: é o caso, por exemplo, da simbolização do princípio de inércia e de necessidade na natureza (deter- minismo) por um determinado objeto único. E toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico particular já é um produto ideológico. Converte-se, assim, em signo o objeto físico, o qual, sem deixar de fazer parte da realidade material, passa a refletir e a refratar, numa certa medida, uma outra realidade. Com base nessa concepção, Bakhtin e Voloshinov (1992) mostram o papel da Filosofia da Linguagem no estudo da evolução do signo, desenvolvendo sua análise a partir dos conceitos de infraestrutura e superestrutura, expli- citando a relação entre eles. Nesse sentido, a realidade ideológica é compreendia como uma superestrutura loca- lizada imediatamente acima da base econômica, alertando que “[...] a consciência individual não é o arquiteto dessa superestrutura ideológica, mas apenas um inquilino do edifício social dos signos ideológicos” (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 36). Por isso, a materialização sócio-historicamente localizada da comunicação é o que concretiza o signo, refletindo e refratando a realidade, o que faz dele um signo ideológico. Nesse sentido, nas palavras de Bakhtin e Voloshinov (1992, p. 43, grifo dos autores), uma das formas de compreender a realidade material do signo é: 1. Não separar a ideologia da realidade material do signo (colocando-a no campo da “consciên- cia” ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível). 2. Não dissociar o signo das formas concre- tas da comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora deste sistema, a não ser como objeto físico). 3. Não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material (infraestrutura). Nesse sentido, Bakhtin e Voloshinov (1992) consideram que a ideologia, e não a língua, seja uma superestrutura, cuja veiculação se dá pela palavra e nela, a ideologia, sejam refletidas as transformações sociais de base, servindo a palavra de “indicador” dessas mudanças. Na concepção filosófica bakhtiniana, signo e ideologia se imbricam, daí que a palavra se constitui um fenômeno ideológico por excelência, pois possui propriedades que a ligam dire- tamente à ideologia. Além disso, Bakhtin e Voloshinov (1992) identificam as seguintes propriedades da palavra: pureza semiótica, neutralidade ideológica, implicação na comunicação humana ordinária, possibilidade de inte- riorização e presença obrigatória em todo ato consciente (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992). Vamos, agora, entender melhor cada uma dessas propriedades. A pureza semiótica mencionada por Bakhtin e Voloshinov (1992) se refere ao fato de que toda palavra é absorvida por sua função de signo e não comporta algo que não esteja ligado a essa função. Ela é o modo mais puro e sensível de materialização e revelação da ideolo- gia. Quanto à neutralidade, a palavra é caracterizada como neutra por ser capaz de preencher qualquer função ideológica, em distintos discursos. A terceira propriedade da palavra é sua condição de material privilegiado de comunicação, afinal, é por ela que a comunicação humana se realiza no dia a dia. É também a palavra o primeiro meio de consciência individual e, em contrapartida, acompanha os fenômenos ideológicos sociais. 122 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Quando Bakhtin e Voloshinov afirmam que a palavra é neutra, não significa que estejam con- tradizendo a concepção da dimensão ideológica da linguagem. Isto porque a palavra é tida como neutra em uma das situações previstas pelo autor de existência para o locutor, que é quando não pertence a ninguém, ou seja, é uma abstração. Quando a palavra se realiza como enunciado, em dialogia, funciona como signo ideológico (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992). Voltando à relação entre infraestrutura e superestrutura, Bakhtin e Voloshinov (1992) rejeitam a assertiva de que a língua seja uma superestrutura por conceber que esta é indiferente à luta de classes, garantindo a autonomia do sistema linguístico. Já as classes não são indiferentes à língua, estando o processo discursivo inscrito em uma relação ideológica de classes. Ademais, a autonomia da linguagem é relativa: a linguagem não é totalmente autônoma e nem é totalmente subordinada à ideologia. Figura 7.4: Discurso ideológico Legenda: Conceitos que envolvem a discussão de discurso e ideologia. Fonte: Elaborada pela autora (2018). Nos processos dialógicos, a enunciação tanto pode remeter a um contexto interior, de compreensão psicológica, como se referir a uma exterioridade, demandando uma compreensão ideológica. Bakhtin e Voloshinov (1992) não traçam uma delimitação rígida entre o psíquico e o ideológico, pois: O signo ideológico tem vida na medida em que se realiza no psiquismo e, reciprocamente, a rea- lização psíquica vive do suporte ideológico. A atividade psíquica é uma passagem do interior para o exterior; para o signo ideológico, o processo é inverso. O psíquico goza de extraterritorialidade em relação ao organismo. É o social infiltrado no organismo do domínio socioeconômico, pois o signo ideológico, situado fora do organismo, deve penetrar no mundo interior para realizar sua natureza semiótica. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 64). No tópico seguinte, trataremos do conceito de enunciação e o processo de construção dos sentidos. 123 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem 7.2.1 Enunciação e construção dos sentidos Na visão de Bakhtin e Voloshinov (1992), a enunciação é o resultado da interação entre dois indivíduos social- mente organizados. Assim, na situação de não haver um interlocutor real, um locutor ideal pode substituir o representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor. Nesse sentido, a alteridade é constitutiva do sujeito, havendo sempre na fala de um a fala de outro. O “eu”, então, para além de se enunciar como “eu”, pode ser o porta-voz de inúmeras outras vozes. Compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreen- são. Assim, cada um dos elementos significativos isoláveis de uma enunciação e a enunciação toda são transferidos nas nossas mentes para outro contexto, ativo e responsivo. A compreensão é uma forma de diálogo; ela está para a enunciação assim como uma réplica está para a outra no diálogo. Compreender é opor à palavra do locutor uma contrapalavra. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 131, grifo dos autores). A enunciação é, portanto, “[...] uma resposta a alguma coisa e é constituídacomo tal. Não passa de um elo na cadeia dos atos de fala” (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 98). Então, o enunciado, para os filósofos, como ato singular, é irrepetível e situado concretamente. Em suas palavras, trata-se de: Um sentido definido e único, uma significação unitária, é uma propriedade que pertence a cada enunciação como um todo. Vamos chamar o sentido da enunciação completa o seu tema. O tema deve ser único. Caso contrário, não teríamos nenhuma base para definir a enunciação. O tema da enunciação é na verdade, assim como a própria enunciação, individual e não reiterável. Ele se apresenta como a expressão de uma situação histórica concreta que deu origem à enunciação. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 131, grifo dos autores). Por sua vez, a dialogia, na concepção de Bakhtin e Voloshinov (1992), advém não meramente da troca verbal entre interlocutores, em um dado contexto imediato, mas da combinação de fatores sócio-histórico-ideológicos como eixo da constituição dos sentidos (FRANÇA; RODRIGUES, 2016). Muitos teóricos se debruçaram sobre a enunciação e a construção dos sentidos, tendo como ponto em comum a consideração do sujeito na língua, por isso: [a] enunciação é algo distinto para cada autor. Não há unanimidade; há, no máximo, pontos de aproxi- mação. Isso quer dizer que, quando queremos fazer uma análise enunciativa, temos de nos vincular a uma das Teorias da Enunciação. (FLORES, 2013, p. 96 apud FRANÇA; RODRIGUES, 2016, p. 60). Bakhtin e Voloshinov (1992) salientam que a significação nunca ocorre de forma abstrata, e sim na interação verbal e na responsividade ativa entre os interlocutores: [...] não tem sentido dizer que a significação [significado] pertence a uma palavra enquanto tal. Na verdade, a significação pertence a uma palavra enquanto traço de união entre os interlocutores, isto é, ela só se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva. A significação não está na palavra nem na alma do falante, assim como também não está na alma do interlocutor. Ela é o efeito da interação do locutor e do receptor produzidos através do material de um determinado complexo sonoro. É como uma faísca elétrica que só se produz quando há contato dos dois polos opostos. (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992, p. 132). Nesse sentido, a significação é a produção social, relativamente estável, da palavra na consciência e no discurso, que é absorvido pelos diferentes sentidos, colocado em contradições constantes e reconstruído com estabilidade e identidade provisórias. Assim, o significado evolui, pois, na interação com os diferentes sentidos, novos signifi- cados são construídos e se estabilizam provisoriamente. 124 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem Figura 7.5: Interações com signos verbais e sociais Legenda: A figura apresenta pessoas com cartazes e bandeira. Fonte: Plataforma Deduca (2018). O signo, por esse entendimento, será passível de análise em dois planos: a) o descritivo, no qual o estudo do signo é compreendido dentro do sistema estrito da língua aceito como um sistema abstrato, composto de elementos idênticos a si mesmos, mantendo-se a estabilização linguística; o estudo típico da gramática, no nível da frase e da norma, e b) o discursivo, no qual o signo é tomado em sua essência dinâmica, sem uma significação prévia ou inerente à palavra que lhe dá a ver; nesse plano, o signo será ideológico (BAKHTIN; VOLOSHINOV, 1992). No seu dia a dia, como você percebe os aspectos ideológicos subjacentes aos discursos com os quais se depara? Você considera importante compreender os mecanismos de construção dos sentidos? No jornal que assiste, nas informações que recebe dos mais variados meios de comunicação, como a ideologia que oculta a realidade pode ser descortinada? Destaca-se que o segundo plano de descrição representa a língua como atividade social, e, nesse contexto dos usos concretos da língua, o sentido será construído nas negociações dialógicas travadas durante a interação verbal dos falantes. Caro aluno, não se esqueça de acessar o fórum para enriquecer suas contribuições ao desa- fio proposto. Aprofunde os aspectos já abordados e elabore com cuidado suas intervenções. Por fim, lembre-se de que a Filosofia de Linguagem de Bakhtin prevê como centro do processo de construção dos sentidos as diferentes vozes sociais e ideológicas presentes nos enunciados. O sentido instala-se no espaço 125 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 7 - A dimensão ideológica da linguagem entre o “eu” e o “tu”, ou entre “eu” e o “outro”. Sendo assim, a enunciação é entendida como fenômeno social, e não individual (MACEDO, 2009). 126 Considerações finais Esta unidade abordou conceitos importantes. Vamos relembrá-los: • concepções de linguagem no campo da Linguística: linguagem como representação (espelho) do mundo e expressão do pensa- mento, como instrumento de comunicação, como forma ou ação ou lugar de interação, como inata e universal; • concepções de língua: língua como forma de expressão, como código, como conjunto de usos concretos, como conhecimento internalizado; • a língua é essencialmente dialógica, composta pelo fenômeno social da interação verbal, a qual se concretiza pelas enunciações, não sendo, portanto, um objeto abstrato, desvinculado de aspec- tos ideológicos; • a autonomia da linguagem é relativa: a linguagem não é total- mente autônoma e nem é totalmente subordinada à ideologia; • o centro do processo de construção dos sentidos e as diferentes vozes sociais e ideológicas presentes nos enunciados. 127 Referências BAGNO, M. Dramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Loyola, 2000. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 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Vamos também analisar os meios de construir sentidos, relembrando os ele- mentos que envolvem o dialogismo e o discurso, e contemplando con- ceitos como os de cena de leitura e de enunciação para a produção de sentidos. Bom estudo! Objetivos de Aprendizagem • Apresentar o conceito de efeito de sentido. • Refletir sobre os processos de construção do sentido na enunciação. 131 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo 8.1 O que é o efeito de sentido? Antes de conceituarmos efeito de sentido, vamos compreender melhor o que dizem alguns teóricos do estudo sobre linguagem e discurso, uma vez que este só ocorre quando a linguagem é posta em ação. Definimos o discurso como uma forma de ato social, ou seja, por meio desse ato (discurso), as pessoas interagem umas com as outras em sociedade. Para Fairclough (2001, p. 63), “[...] o discurso é um modo de agir, uma forma pela qual as pessoas agem em relação ao mundo e principalmente em relação às outras pessoas”. Como todo signo parte de uma ideologia, o autor institui que as mudanças sociais envolvem, diretamente, reformulações de enunciado significativas e, por consequência, novas formas de empregar a palavra. Bakhtin (1986, p. 31) ratifica: “[...] sem signos não existe ideologia”. E o que vale o signo? O signo só vale na e através da interação social. De acordo com Normand (2009, p. 157), ele se reveste de valor no uso, por isso, é concebido como um “sistema de valores”. A partir disso, também compre- endemos o poder da composição da palavra porque, através dela, somos capazes de perceber aspectos ideológi- cos, ao mesmo tempo em que, por meio dela, socializamo-nos e construímos sentidos. Ideologia não se define como o conjunto de representações, nem muito menos como ocultação de realidade. Ela é uma prática significativa; sendo necessidade da interpretação, não é cons- ciente – ela é efeito da relação do sujeito com a língua e com a história em sua relação necessária, para que se signifique. (ORLANDI, 1998, p. 48). Desse modo, ao analisarmos um enunciado, que é o teor do discurso, devemos atentar para a condição de sua produção, isto é, o contexto no qual o discurso contido no enunciado foi elaborado. Nisso, então, reside a feição dialógica de um texto. Os textos são dialógicos porque resultam do embate de muitas vozes sociais; podem, no entanto, produzir efeitos de polifonia, quando essas vozes ou algumas delas deixam-se escutar, ou de monofonia, quando o diálogo é mascarado e uma voz, apenas, faz-se ouvir. (BARROS, 2003, p. 6). Mas, afinal, quem detém do sentido de um texto, de um enunciado? A resposta é muito simples e reafirma o que já foi dito até agora: um enunciado só tem sentido quando associado ao discurso, que é social, ou seja, quando a língua está sendo posta em movimento, quando se estabelecem relações entre sujeitos de acordo com a condi- ção na qual esse discurso é produzido. Segundo Orlandi (1996), a prática da leitura é que vai propiciar a percepção do sentido de um texto, entendido aqui como o material no qual o enunciado se apresenta, e, com isso, o interlocutor processa a significação desse texto. Uma palavra-chave sobre este assunto é “intersubjetividade”, que fundamenta a condição do indivíduo na linguagem, pois a linguagem intermedeia a relação entre realidade e sujeito, já que através dela simbolizamos o mundo, damos sentido a ele. Intersubjetividade = relação entre sujeitos durante a comunicação. Glossário 132 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Segundo Bakhtin (1986), os sentidos são construídos sob dois modos de significação: a significação, que limita o sentido a um sinal, cujo entendimento ocorre de modo passivo, pois a palavra é descontextualizada; e a compre- ensão ativa, na qual o sentido é construído pelo contexto e determinado por ele. Assim, o processo dinâmico relativo à compreensão de sentidos, a cada novo contexto, gera novos sentidos na enunciação. Além disso, há a determinação do valor de algo que está presente na enunciação (ideologia) e que promove diálogos repletos de valores sociais (SOBRAL, 2009). Já no nível da linguagem, vale mencionar que a frase é uma unidade completa, determinada pela “transversa- lidade enunciativa” de suas dimensões, pois é composta por sentido e referência. Assim, conforme Benveniste (2006, p. 140), é “[...] no discurso atualizado em frases que a língua se forma e se configura”. Nesse contexto, a forma do signo diz respeito à organização interdependente entre o signo e seu significante, que é operada pelo locutor, resultando na frase; e o sentido diz respeito à ideia que da frase desenrola-se. A enunciação, por seu turno, põe a língua em funcionamento pelo ato individual de utilização, ou seja, cada enunciação expressa uma singularidade. Assim, o locutor, pela enunciação, produzirá a referência no discurso, constituindo a intersubjetividade enunciativa, a partir de certa relação com o mundo e com o outro. Figura 8.1: Representação da singularidade na enunciação Legenda: A imagem ilustra diversos bonequinhos, e um deles se destaca na cor vermelha, em referência à singularidade na enunciação, em um ato individual do discurso. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Na teoria da argumentação, Ducrot (1990) não se baseia na exterioridade da língua, e sim nas relações intralin- guísticas desse sistema. Por exemplo, uma palavra tem valor de argumentação de acordo com o papel que ela desempenha no discurso: “Pedro é inteligente, portanto poderá resolver esse problema”, sendo não aconselhá- vel incluir nessa argumentação – devido à relação entre os enunciados – “entretanto”, pois modificaria o sentido da frase, já que “entretanto” não conclui como “portanto”, mas abarca uma oposição. Segundo Silva (2012, p. 183), “[...] o próprio discurso que é doador de sentido, já que o valor da palavra atualiza no discurso o sentido argumentativo”. Tal teoria condiz com aquilo que é esperado para a aprendizagem da língua, 133 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo tanto no texto oral quanto no escrito, baseando-se em um processo de interlocução a partir dos valores argu- mentativos das palavras no discurso. Logo, uma palavra pode gerar diversos efeitos de sentido, conforme Pêcheux (1997, p. 161) confirma: “[...] as mesmas palavras, expressões ou proposições mudam de sentido ao passar de uma formação discursiva a outra”. Para que possamos, então, compreender os efeitos desentido em um enunciado, devemos reconhecer que o sujeito-leitor ocupa uma posição importante porque dele participa, isto é, o leitor é parte do enunciado, já que apreende deste significações. Dessa forma, o conceito de efeito de sentido está relacionado à noção de discurso, concepção esta apontada desde a década de 1960. Guilhaume (1964 apud BOONE; JOLY, 1996, p. 1) aponta que: [...] dado que o discurso é o lugar do observável e a língua, um lugar de reconstrução teórica que corresponde a um movimento natural do pensamento, os efeitos de sentido nada mais são do que o resultado dos valores atribuídos pelo discurso ao significado em língua. No final dos anos 1960, Pêcheux, por sua vez, dentre outros teóricos, trouxe a noção de efeito de sentido para o campo da Análise do Discurso, destacando o caráter histórico dos sentidos. Na obra “Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio”, Pêcheux (1997, p. 160) destaca que: [...] as palavras, expressões, proposições [...] mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam, o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência a essas posições, isto é, em relação às formações ideológicas. Percebemos, então, como a questão da ideologia se adere ao sentido enunciativo, possibilitando as condições para desenvolvê-lo. Além disso, para a Análise do Discurso, o sentido não está atrelado ao significante, e sim ao resultado de um processo, como explica Possenti (1997, p. 4): Mas, o fundamental é enfatizar que, no que se refere ao sentido, não se trata mais de concebê-lo como uma mensagem codificada num texto, numa língua, como um conteúdo embutido num código. O que não significa, no entanto, excluir do discurso o material linguístico, verbal, como já se insistiu acima. Significante = imagem à qual uma palavra é associada. Glossário 134 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Figura 8.2: Produção de sentido Legenda: Uma mulher produzindo sentido por meio de seu discurso. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Assim sendo, podemos conceituar efeito de sentido como resultado da enunciação. Em outras palavras, é a pro- dução originada da enunciação, pois é na dimensão da enunciação que se dão os efeitos de sentido, ou seja, no “terreno” do dizer. Para Ducrot (1987), os conceitos de locutor e enunciador diferem. O locutor forma o enunciado e direciona o seu percurso, já o enunciador é manifestado através do(s) posicionamento(s) sobre os fatos ou do que ali se afirma ou se nega. 135 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo 8.1.1 Efeitos de sentido de monofonia e polifonia Segundo Jacqueline Authier-Revuz (2004), o discurso é constantemente atravessado pelas palavras de outro. Desse modo, o discurso está permanentemente em contato com a alteridade, com aquilo que o antecede ou com aquilo que lhe contrapõe. Alteridade = natureza do que é do outro. Glossário Com isso exposto, percebemos que o sujeito não é dono daquilo que diz e nem é mais formado pela relação de oposição entre “eu / tu”, mas ocupa agora o mesmo espaço de produção e recepção de outro sujeito, por isso, outras vozes, outros discursos, relacionam-se com aquilo que esse sujeito diz. Então, a enunciação e a linguagem não só se organizam conforme os aspectos linguísticos, mas também pelas projeções que se constroem em torno do interlocutor e sobre as condições históricas e sociológicas de seu tempo. Observe que o dialogismo é a concepção de relações constituídas socialmente na qual só há uma consciência individual a partir de outra consciência, isto é, a intersubjetividade se relaciona com a alteridade. Segundo Barros (2003), para Bakhtin o texto é formulado na enunciação, sendo um produto significante de determinada sociedade, e nisso está contido o contexto social, histórico e cultural que originou esse texto. Por- tanto, o texto é composto também por conteúdos ideológicos que decorrem dessa sociedade. Nesse caso, a enunciação tem a função de exteriorizar e tornar material o discurso, sendo que o sujeito que diz alguma coisa é o enunciador, o qual se dirige a um enunciatário (quem recebe o que esse sujeito diz) para con- cretizar uma comunicação. Contudo, ao abordarmos os sujeitos da enunciação, estamos nos referindo aos sujeitos do discurso, os que estão dentro do texto. Vejamos um esquema, na figura a seguir, que ilustra bem essa definição. 136 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Figura 8.3: Representação da linguagem em uso Locutor Sujeito comunicante Ser social Eu enunciador Ser de fala Destinatário Ser de fala Receptor Sujeito interpretante Ser social Espaço interno Espaço externo dizer SITUAÇÃO DE COMUNICAÇÃO Legenda: Um quadrado abrigando outros quadrados menores, e cada uma das partes conceituando um elemento que compõe a linguagem em uso. Fonte: Adaptada de Charaudeau (2009, p. 77). Sobre este assunto, Bakhtin (1986) demonstrou como a linguagem é dialógica, em que a palavra serve como ponte que se direciona para o outro. Também explicou que o discurso se insere no campo heterogêneo de dis- putas entre sujeitos em uma situação de interação. Assim, concebemos o discurso de natureza heterogênea e aberta, constituído por uma rede de elementos oriundos de outros discursos. Compreendemos, então, que a polifonia abarca, em um mesmo discurso, diferentes posicionamentos, várias ide- ologias, relacionadas, assim, ao sentido; enquanto a monofonia abarca um único ponto de vista que se sobressai. Observe no quadro a seguir uma observação que marca a oposição entre um discurso monológico e outro dialó- gico, conforme Authier-Revuz (2004): Quadro 8.1: Representação da oposição discursiva monológica e dialógica O diálogo, o múltiplo O plural, o outro no um As fronteiras no heterogêneo O conflitual O relativo O inacabado O monólogo, o único O um e o outro O homogêneo O imóvel O absoluto, o centro O acabado, o dogmático Legenda: Um quadrado dividido em duas partes: uma que apresenta as características do discurso dialógico e, a outra, que mostra as características do discurso monofônico. Fonte: Adaptado de Authier-Revuz (2004, p. 24). 137 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo A partir disso, surge a teoria de polifonia, que trata exatamente dos discursos evidenciados na voz do sujeito enunciador, conforme os princípios dialógicos propostos por Bakhtin (1986). Perceba que, no quadro apresen- tado, vemos que um discurso múltiplo, relativo e inacabado tem caráter aberto e equipolente – pois todas as vozes ali contidas têm a sua vez de dizer, de se posicionar –; já um discurso homogêneo é absoluto e acabado, tem uma voz que é dominante e que conclui todos os dizeres, como se existisse uma única verdade. Além disso, algo importante, e delicado até, sobre o qual precisamos refletir, segundo LaCapra (2010), a partir das críticas de Bakhtin ao discurso monológico, é a concentração na linguagem como um espaço de tensão onde se chocam forças uniformes e heterogêneas, constituindo-se, desse modo, a cultura. Mas a polifonia não está em todo texto e também diverge do conceito de dialogismo, que rege a linguagem. A polifonia é, portanto, o efeito de sentido que ocorre durante o discurso. Como aponta Barros (2003, p. 6): Em outras palavras, o diálogo é condição da linguagem e do discurso, mas há textos polifônicos e monofônicos, segundo as estratégias discursivas acionadas. No primeiro caso, o dos textos poli- fônicos, as vozes se mostram; no segundo, o dos monofônicos, elas se ocultam sob a aparência de uma única voz. Monofonia e polifonia de um discurso são, dessa forma, efeitos de sentido decorrentes de procedimentos discursivos que se utilizam em textos, por definição, dialógicos. Então, para identificarmos essas “vozes” ou outros discursos, analisaremos, mais à frente,um texto literário, cuja interdiscursividade está presente, ou seja, no qual existe uma relação entre discursos. Antes, porém, podemos tam- bém afirmar que é possível detectar a polifonia em vários gêneros textuais, como no romance, na reportagem e até na música, possibilitando que reconheçamos a existência e o confronto de vozes ou discursos no interior do texto. Vejamos um trecho de uma reportagem da Folha de São Paulo (2002) em que se percebe a polifonia: Você consegue imaginar mais de 15 mil jovens juntos no Brasil hoje para um evento que não seja uma grande festa ou um enorme show de rock? Pois foi o que aconteceu na semana passada, em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial [...]. (BOUER, 2002, [s. p.]). Pelo texto, notamos um tipo de discurso que apregoa ser o universo da juventude, pouco interessada em temas relacionados à transformação social pela participação ativa das pessoas e bem mais disposta a se reunir em prol da sua banda favorita de rock, em um evento da pesada. Mas também podemos nos lembrar de certas ocasiões em que grupos de jovens se envolveram em projetos comunitários de benfeitorias, como movimentos pela paz, como, por exemplo, o “Marcha para Jesus”, dentre outros relacionados não só à religião, mas à política, levando toda uma juventude para as ruas, em manifestação para gerar um coletivismo mais justo e igualitário. Dessa forma, além do posicionamento do autor da reporta- gem, há diversos outros que dialogam com aquele texto, sustentando a ocorrência de outro efeito de sentido que não o denotado no artigo. Para que você se aprofunde mais sobre o tema “efeito de sentido”, leia o livro “Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio”, de Michel Pêcheux. 138 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Compreendemos, portanto, que na produção de um texto existe uma intenção comunicativa que mascara outras vozes divergentes daquela que está ali no texto, conforme as estratégias discursivas utilizadas pelo autor desse texto. Nesse sentido, Barros (2003) define monofonia e polifonia discursiva como efeitos de sentido resultantes de procedimentos discursivos inerentes aos textos, e, por isso, dialógicos. Tal concepção abrange os tipos de discursos, elaborados por Orlandi (1996), categorizando-os em autoritários, polêmicos e lúdicos. Veremos cada um separadamente, a seguir. • No discurso autoritário inexiste a polifonia, sendo monofônico, e, geralmente, serve de base para ela- boração de paráfrases (reformulação textual). Por exemplo: o discurso religioso. • O discurso polêmico contempla tanto a monofonia quanto a polifonia; é onde há uma tensão decor- rente dessa oposição e que, no entanto, controla-se mais a heterogenia presente no texto. Por exemplo: o discurso do Direito. • O discurso lúdico recai na polifonia, no qual se fazem possíveis inúmeras interpretações. Por exemplo: o discurso musical. Figura 8.4: Representação de polifonia discursiva Legenda: Diversos balões de fala de diferentes cores representando diferentes discursos: a polifonia. Fonte: Plataforma Deduca (2018). De acordo com Orlandi (1996), todos podem exceder-se: o discurso autoritário pode se tornar demasiadamente imperativo (ordem) no sentido militar; o polêmico, injurioso; e o lúdico pode extrapolar e tornar-se sem nexo. Ademais, esses três tipos de discursos são identificados também pelos adjetivos que os expressam. Observemos, então, por meio de contextos midiáticos, os tipos de discursos que se pode identificar. • No programa “O aprendiz” (2004), apresentado pelo empresário Roberto Justus, na emissora de televisão Record, pode-se notar com clareza o tipo de discurso autoritário, por ter sido o apresentador o próprio porta-voz do acesso ou não dos participantes à empresa que ele preside, ao expressar o discurso: “Você está demitido”, resultando na saída do concorrente do programa. • No programa do SBT, “Casos de Família” (2004), comandado pela apresentadora Christina Rocha, temos um ótimo exemplo de discurso polêmico, pelo gênero de talk-show, onde são debatidos vários tópicos 139 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo entre pessoas com diferentes opiniões e posicionamentos. Isto porque o que gera o fator polêmico nos discursos em torno dos participantes do programa é exatamente a divergência entre dois ou mais pontos de vista envolvendo um mesmo tema. • No programa “Tá no ar – A TV na TV” (2014), da rede Globo de Televisão, é apresentado o discurso lúdico, aquele que tem a intenção de divertir, embora haja uma crítica a respeito da própria grade televisiva brasileira. De acordo com Greimas e Courtés (2008), o conceito de polifonia pressupõe um procedimento artístico, situ- ando-se no patamar da criação estética. Desse modo, a polifonia é um efeito de sentido que não escapa de um campo de presença, ou seja, no campo da recepção. Portanto, para imprimir efeitos de sentido no público-leitor, o autor deve considerá-lo a fim de criar condições para que esse público interprete o texto. 8.2 Como se constrói o sentido da enunciação? Devemos começar por entender a construção do sentido da enunciação através do estudo das relações que se estabelecem entre linguagem, sociedade e história, sendo que o enunciado é a unidade da comunicação verbal, conectado à ação de pôr a língua em movimento e responsável pelo que acontece durante a interação entre os sujeitos intermediados no contexto: o do agora e o socialmente produzido ao longo dos tempos. Já o texto fun- cionaria como objeto organizado no enunciado e como objeto de uma cultura. Dessa forma, a partir de agora, trataremos de dois conceitos que contribuem para a construção de sentidos, que são: “cena de leitura” e “cena de enunciação”, propostos por Dominique Maingueneau (1996, 2008, 2010). Assim, afirmamos, primeiramente, que a leitura é uma coenunciação, pois, através da leitura, o leitor constrói uma cena, significando as palavras contidas no texto. Maingueneau (1996), em “A leitura como enunciação”, destaca a relevância do sujeito-leitor e do contexto de recepção para a produção e para a apreensão de sentidos, particularmente no campo literário, cenário em que esse processo é mais intenso. Vejamos agora como a cena de leitura ocorre, baseando-nos em um trecho do conto “Começo de vida”, de Dal- ton Trevisan – autor da prosa urbana contemporânea –, em que se narra o estupro de uma mulher grávida de seis meses, durante o seu caminho de volta para a casa, após comprar sabão, cujo marido decide por não se vingar do violentador. Começo de vida Dois dias atrás, onze horas da manhã. Era segunda, dia de lavar roupa. Juve trocou de vestido para ir buscar sabão no armazém. Gostava de fazer compras, agradável estar ali na sombra fresca, depois caminhar pela vereda ensolarada [...]. (TREVISAN, 1975, p. 9). As palavras destacadas em negrito são denominadas “dêiticos”, tendo como função identificar os elementos do texto em um tempo e espaço predeterminados. Note que, no trecho, temos dois tipos de dêiticos: três temporais e um espacial. Temporais: “Dois dias atrás”; “da manhã”; “depois”. Espacial: “ali”. 140 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Ao inserir tais dêiticos, o narrador possibilita que o leitor participe da cena da história que está sendo narrada e o situa no tempo e no espaço da narração. Perceba que essa dinâmica somente ocorre pelo ato de leitura. Vejamos mais um trecho do conto, em que o autor possibilita ao leitor identificar que a personagem tem a con- dição de mulher grávida: Juve sofria o desejo de beber gasosa de limão e comer coração de Maneco, bolacha mole, de massa escura e doce, na forma de colorido coração de açúcar. De seis meses, senhor. Não chegando o dinheiro para guloseimas, escolheu o coração de Maneco. Sim, ele estava lá, comendo banana, sentado num dos caixotes vazios, sobre os quais no domingoos homens jogavam truco. (TREVISAN, 1975, p. 9). Desse modo, cabe ao leitor, durante seu acesso à leitura, resgatar, (re)construir sentidos, agindo como coenun- ciador. Isto porque, segundo Maingueneau (1996, p. 33), a leitura renova-se devido ao modo de estruturar o texto concebido pelo autor para que o leitor detecte as lacunas, sem que haja uma única voz predominante, mas uma instância de enunciação assim que o leitor põe o texto em movimento, ao lê-lo. Ainda segundo a autora (1996, p. 35), “[...] pelo vocabulário empregado, pelas relações interdiscursivas [...], a ins- crição neste ou naquele código de linguagem [...], um texto vai supor categorizações muito variadas do seu leitor”. No trecho lido, cujo gênero literário é o conto, composto por uma narrativa de extensão curta, podemos verificar que o autor, tendo previamente identificado o seu tipo de público, em meados dos anos 1970, criou um cenário onde é apresentado um narrador parceiro, que permite ao sujeito-leitor se identificar e simpatizar com a narrativa. A seguir, vamos ampliar a cena de leitura para a cena de enunciação. Partimos, então, considerando que o leitor coopera na significação de um objeto ficcional, no caso visto, o conto, por meio de marcações linguísticas conti- das no texto, sem que, necessariamente, introduzam esse leitor à intencionalidade do autor, ao criar a obra. Vimos que no início do conto existem marcações temporais que conduzem o leitor para um passado não tão distante, que o permite acompanhar o desenrolar dos fatos. A superfície do texto narrativo aparece como uma rede complexa de artifícios que organizam a decifração, condicionam o movimento da leitura. Mesmo que não tenha consciência disso (é geralmente uma habilidade adquirida por impregnação), para elaborar sua obra o autor deve pre- sumir que o leitor vai colaborar para superar a “reticência” do texto. (MAINGUENEAU, 1996, p. 39). Analisemos agora outro trecho do mesmo conto de Trevisan, em um momento em que o leitor é surpreendido, quando informado de um acontecimento inesperado entre a personagem Juve e um desconhecido com dente de ouro: No meio do caminho, escondido atrás de um vassoural, essas plantas baixas que crescem no campo e por isso estava de cócoras. De repente deu um pulo: - Aqui não passa! Inútil suplicar que a poupasse, olho esbugalhado para dentro de si mesmo. Juve apertou no peito os pedaços de sabão, assim a pudessem defender ou salvar. Um bocado de bolacha na boca – a língua secou e não podia engolir. Não, senhor. Só repetia – “Tem de ser hoje. Aqui não passa!” [...] Fácil de saber o que ele queria. Juve olhou para os lados e desistiu de correr, era mais ligeiro. Não estivesse bastante pesada, ainda o pacote no bolso. [...]. (TREVISAN, 1975, p. 9). 141 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Tal episódio apenas deixa o leitor de sobreaviso do que possivelmente poderia acontecer com Juve, mas sem uma certeza. Já no trecho em sequência, fica evidente o ato de violação: A mão arrebatada do vassoural, arrancando folha, galho e raízes. Os dois embolaram no pó. Debaixo dele, ao sentir o peso, deu um grito. (TREVISAN, 1975, p. 12). Assim, de modo estratégico, a interpretação de um texto abrange a adoção de competências para que o leitor o percorra, como a complementação de lacunas, a remoção de dados e informações presentes no texto e em rela- ção ao contexto onde se insere a comunicação, além da percepção de valores e representações contidos no texto. Outra questão essencial na compreensão de sentidos em um texto, o qual possui alguns vãos para serem resol- vidos pelo leitor (expansão), é a tarefa de filtragem para selecionar uma intepretação razoável. Dessa forma, a cooperação entre autor e leitor na apreensão de sentidos é um dos fundamentos da leitura literária, exigindo, portanto, expansões por parte do leitor. A cooperação do leitor requer também que ele possua certa familiaridade com a intertextualidade (diálogo entre textos) e com os diversos gêneros, que variam a partir de sua experiência com a leitura, o que permite que o coe- nunciador reconheça a rota sugerida pela própria ambientação literária. No conto que analisamos, o leitor que já tem familiaridade com gêneros pontuais e com a intertextualidade facil- mente detectaria que se trata de um texto narrativo, cujo núcleo dramático se atém a um único fato: o estupro da mulher grávida. A partir daí, temos que a cena de enunciação comporta o discurso, cujas vivências dos coenun- ciadores se dá por meio do dizer, isto é, do modo de enunciação. De acordo com Maingueneau (2010), todos os atos de enunciação envolvem não só estruturas dêiticas de pes- soa, espaço e tempo para entender o funcionamento do discurso como também a importância do contexto a fim de garantir a interpretação. Figura 8.5: A importância do contexto na interpretação Legenda: Um quebra-cabeça com os dizeres: contexto, enunciação, discurso e interpretação. Fonte: Plataforma Deduca (2018). Com base no que vimos, devemos considerar, então, o “plano da enunciação elementar” e o “plano do texto”. No primeiro plano, temos a situação de enunciação (plano abstrato) e a situação de locução (plano concreto). Sobre este assunto, Maingueneau (2010, p. 200) conceitua situação de enunciação como “[...] sistema de coor- denadas abstratas, puramente linguísticas, que torna possível todo e qualquer enunciado, fazendo-o refletir sua própria atividade enunciativa”. 142 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Destacam-se na situação de enunciação, portanto, as posições assumidas pelo enunciador e pelo coenunciador, além de marcações temporais e espaciais (dêiticos). Já a situação de locução materializa a enunciação, diferen- ciando as figuras do locutor e do alocutário. Alocutário = a quem o locutor se dirige em um ato comunicativo. Glossário É a situação de enunciação que sugere a instauração da cena de leitura, a qual possibilita que os sujeitos assumam seus papéis na prática discursiva de interação por meio do ato de ler. Outro termo bastante comum para aquisição de efeitos de sentido é “cenografia”, sendo também através dela que se instaura a enunciação. Conforme ressalta Maingueneau (2008, p. 77): [...] em uma cenografia, como em qualquer situação de comunicação, a figura do enunciador, o fiador, e a figura correlativa do co-enunciador são associadas a uma cronografia (um momento) e a uma topografia (um lugar) das quais supostamente o discurso surge. Dessa forma, compreendemos que uma situação de comunicação (interação entre duas ou mais pessoas) acar- reta a construção de uma cena de enunciação em que se configura uma cenografia (ambientação). Já o plano de texto revela a sua estrutura global, a forma como os parágrafos se organizam, a disposição ordenada das palavras no texto, contando, também, com a colaboração do leitor como um coenunciador, baseando-se em seus conhecimentos linguísticos e textuais. Vamos, então, analisar algumas partes do conto que foi lido e que compõem o plano de texto. No trecho: “Dois dias atrás, onze horas da manhã. Era segunda, dia de lavar roupa. Juve trocou de vestido para ir buscar sabão no armazém” (TREVISAN, 1975, p. 9), temos a apresentação do conto, que ambienta o leitor. Já em: “No meio do caminho, escondido atrás de um vassoural, essas plantas baixas que crescem no campo e por isso estava de cócoras. De repente deu um pulo: - Aqui não passa!” (TREVISAN, 1975, p. 9), temos a constatação dos fatos e o problema (clímax). A seguir, ainda com base em nosso conto, pontuaremos as cenas de leitura, relacionando-as aos conceitos de cena de enunciação que vimos há pouco, por meio de um quadro esquemático: 143 Aspectos Discursivos da Língua | Unidade 8 - Tópicos de enunciação: o sentido discursivo Quadro 8.2: Cena de enunciação e tom do conto “Começo de vida” Cena integral domínio literário Cena particular contoCenografia identificação – surpresa – suspense – dor Tom discursivo rememorativo/denunciante Fonte: Adaptado de Oldoni e Freitas (2007). Explicando o quadro, percebemos que a cena ou situação integral trata do tipo de composição, no caso, literária. Já a cena ou situação particular condiz com o tipo de narrativa, o conto. A cenografia diz respeito aos aspectos ligados ao discurso e que abrangem momentos e lugares, propiciando o tom discursivo que caracteriza a narrativa. O tom supera o que transmite a circunstância dimensional da voz do enunciador, incluindo as suas determina- ções físicas e psíquicas. E, portanto, o leitor retoma as pistas incorporadas às cenas de leitura e de enunciação a fim de que possa, enfim, assimilar os efeitos de sentido. Acesse o Fórum desafio e discuta o papel do coenunciador na colaboração e apreensão dos efeitos de sentido na leitura. 144 Considerações finais Chegamos ao fim de nossa unidade, e, por isso, vamos recapitular os assuntos mais importantes em torno do tema estudado para que você possa sistematizar o seu conhecimento. • Vimos que a enunciação põe a língua em funcionamento pelo ato individual de utilização, ou seja, cada enunciação expressa uma singularidade. Assim, o locutor, pela enunciação, produzirá a refe- rência no discurso, constituindo a intersubjetividade enunciativa, a partir de certa relação com o mundo e com o outro. • O conceito de efeito de sentido equivale à produção originada da enunciação, pois é na dimensão da enunciação que se dão os efeitos de sentido, ou seja, no “terreno” do dizer. • A enunciação e a linguagem não só se organizam conforme os aspectos linguísticos como também pelas projeções que se cons- troem em torno do interlocutor e sobre as condições históricas e sociológicas de seu tempo. • Vimos também que monofonia e polifonia discursiva, como efei- tos de sentido, resultam de procedimentos discursivos inerentes aos textos e, portanto, dialógicos. • Alguns tipos de discursos são autoritários, polêmicos e lúdicos. • Estudamos também a importância da interpretação de um texto, a qual abrange a adoção de competências para que o leitor o per- corra, como a complementação de lacunas, a remoção de dados e informações presentes no texto e em relação ao contexto onde se insere a comunicação, além da percepção de valores e represen- tações contidas no texto. 145 Referências AUTHIER-REVUZ, J. 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