A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
28 pág.
empreendedorismo aula 01

Pré-visualização | Página 1 de 10

25
A Psicologia 
e os empreendedores
Não se pode dissociar o empreendedor da empresa que criou [...] a empresa tem a cara do dono.
Fernando Dolabela
[Os] padrões de personalidade em um empreendedor exercem uma 
influência dominante no sucesso subsequente de seu empreendimento.
John B. Miner
A dministrador por formação, meu interesse pela Psicologia surgiu por causa de um problema que enfrentava na carreira como consultor de empresas. Apesar de, nas reuniões, os clientes concordarem com minhas orientações técnicas, as ações posteriores de alguns deles demons-
travam exatamente o contrário. Outros simplesmente ignoravam totalmente a realidade em momentos 
de crise, como se vivessem em um mundo à parte ou estivessem acometidos por uma súbita febre de 
otimismo.
No início, atribuía esse problema a minha pouca experiência em argumentar de forma convin-
cente com pessoas que normalmente eram mais velhas do que eu, em alguns casos, ou à pura teimo-
sia, em outros. Mas um dia, enquanto discutia o comportamento errático de alguns clientes com um 
colega de profissão, a avó dele, que estava atenta à conversa, pronunciou a seguinte frase: “Meu filho, 
quando a pessoa é rica, dizem que é excêntrica. Quando é pobre, dizem que é doida.”
A frase me alertou para o fato de que existem pessoas saudáveis e pessoas com distúrbios de 
personalidade, e elas podem ser encontradas em qualquer lugar, inclusive no comando de empresas.
Posteriormente, a leitura das obras dos professores Dolabela e John Miner reforçaram em mim a 
crença de que, para compreender o funcionamento das empresas, é necessário compreender o funcio-
namento das pessoas. Começava aí meu interesse pelo estudo da personalidade humana e sua relação 
com a condução de negócios.
Mas o que é personalidade? A Enciclopédia e dicionário Koogan-Houaiss (2002) define-a como 
o “caráter essencial e exclusivo de uma pessoa, aquilo que a distingue de outra. Conjunto de caracte-
rísticas psicológicas relativamente estáveis que influenciam a maneira pela qual o indivíduo interage 
com o meio ambiente.”
A palavra personalidade vem da palavra latina persona, que se refere à máscara utilizada pelos 
atores em uma peça. A palavra passou a se referir à aparência externa que mostramos aos que nos ro-
deiam e é comum as pessoas descreverem a personalidade de alguém por meio das características exter-
nas e visíveis, da impressão que provocam, usando adjetivos como afetuoso, alegre, ou mal-humorado.
Contudo, é evidente que ao usarmos o termo personalidade não podemos nos limitar apenas 
àquilo que é visto, pois a palavra engloba também toda uma série de qualidades sociais e emocionais 
que não podem ser vistas diretamente. O termo também nos remete a características relativamente 
estáveis e previsíveis, o que não quer dizer que a personalidade seja algo rígido: embora possamos 
afirmar que um amigo seja uma pessoa calma na maior parte do tempo, sabemos que ele pode se exal-
tar ou entrar em pânico em algumas ocasiões.
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., 
mais informações www.iesde.com.br
A Psicologia e os empreendedores
26
Existem diferentes visões sobre a natureza da personalidade humana. Neste 
capítulo, não pretendo abordar todas as teorias da personalidade, mas apenas 
aquelas sobre as quais encontrei material referente aos empreendedores. Existe 
muita coisa a ser pesquisada nesse campo, como observou Manfred Kets de Vries 
(1996, p. 853):
Na teoria psicanalítica, estudos sobre o trabalho têm sido relativamente escassos. A maio-
ria da literatura existente se preocupa com casos de inibição ou de compulsão pelo traba-
lho. Ocasionalmente, são encontradas discussões sobre pessoas em profissões criativas. 
Nenhuma atenção tem sido dada, contudo, ao maior contribuinte para o desenvolvimento 
econômico na sociedade, o empreendedor. Isso contrasta de forma significativa com a 
atenção dada aos empreendedores por outras disciplinas.
A Psicologia e os 
teóricos da personalidade
A Psicologia1 teve suas origens em duas disciplinas científicas: a Filosofia e 
a Medicina. No início do século XIX, ela estava tão entrelaçada a esses campos 
que foi considerada um ramo da Filosofia por uns e da Medicina por outros.
Como ciência independente, nasceu no final do século XIX, na Alemanha, e 
foi em grande parte obra de Wilhelm Wundt, que criou o primeiro laboratório de 
Psicologia em 1879, na Universidade de Leipzig. Esse pesquisador foi grandemente 
influenciado pelo enfoque das ciências naturais e, por isso, baseou-se fortemente 
no método experimental, estudando os processos mentais que poderiam ser 
afetados por algum estímulo externo que pudesse ser manipulado e controlado pelo 
experimentador. Wundt foi o precursor de uma corrente chamada estruturalista, 
que – como o nome já sugere – foca o estudo da estrutura da mente humana.
Outro cientista que contribuiu de forma significativa para o surgimento da 
Psicologia foi William James, considerado um dos precursores de outra corrente 
da Psicologia, a funcionalista. Os funcionalistas focavam os processos de pen-
samento. Enquanto os estruturalistas se perguntariam: “Quais são os conteúdos 
(estruturas) elementares da mente humana?”, os funcionalistas se perguntavam: 
“O que as pessoas fazem e por que fazem isso?”
A Psicologia Experimental e o estudo formal da personalidade começaram 
em duas tradições separadas, mas é importante observar que, nos seus anos de 
formação, a Psicologia não estudava a personalidade como um todo, mas apenas 
alguns de seus aspectos, não existindo uma área de especialização distinta de-
nominada Personalidade, como havia na Psicologia Infantil ou Social. Segundo 
Schultz e Schultz (2002), somente no final da década de 1930 o estudo da persona-
lidade foi formalizado e sistematizado, principalmente com o trabalho de Henry 
Murray e Gordon Allport, da Universidade de Harvard.
Considerando que a proposta deste capítulo é realizarmos algumas reflexões 
sobre a relação entre personalidade e condução de negócios, não iremos abordar 
todos os grandes teóricos da personalidade, restringindo-nos apenas àqueles que 
nos parecem fundamentais para alcançar o objetivo proposto.
1Ciência que estuda as ideias, sentimentos e de-
terminações cujo conjunto 
constitui o espírito humano, 
ou, ciência dos fenômenos 
da vida mental e de suas leis. 
(AURÉLIO)
Este material é parte integrante do acervo do IESDE BRASIL S.A., 
mais informações www.iesde.com.br
A Psicologia e os empreendedores
27
Sigmund Freud e a Psicanálise
Freud nasceu em 1856, em Freiberg, Morávia (atual República Checa). Não 
era um psicólogo por treinamento, mas um médico que exercia clínica particular e 
trabalhava com pessoas que sofriam de problemas emocionais, tendo desenvolvido 
a sua teoria da personalidade baseado na observação clínica de seus pacientes.
Ele chamou seu sistema de Psicanálise, o qual é considerado a primeira 
teoria formal da personalidade e até hoje a mais conhecida. Muitas das teorias 
propostas depois dele são derivações ou elaborações de sua obra clássica, enquanto 
outras devem sua origem e rumo à oposição à psicanálise de Freud.
Polêmicas à parte, uma contribuição de Freud é inegável para o estudo da 
natureza humana: a descoberta do inconsciente. O conceito original de Freud divi-
dia a personalidade em três níveis: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. 
O consciente corresponde às sensações e experiências das quais estamos cientes 
em todos os momentos – por exemplo, quando você está lendo estas palavras e 
está ciente da imagem da página e dos objetos que o rodeiam.
Freud considerava o consciente um aspecto limitado da personalidade, por-
que somente uma pequena parte de nossos pensamentos e lembranças permanece 
no consciente o tempo todo. Se fossemos comparar a um iceberg, o consciente 
seria a ponta visível acima da superfície da água.
A parte mais importante ficaria invisível abaixo da superfície, e ali mora-
riam os instintos ou desejos que regem