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Sociedade da imagem, por Régis Debray. Régis Debray1 escreveu tempos atrás que vivemos sob uma sociedade da imagem e cujo poder se legitima pela sedução. Em termos comparativos, ele afirma que o antecessor da sociedade da imagem era a da escrita com o poder sendo exercido pela autoridade do conhecimento e, antes disto ainda, a sociedade da oralidade e o poder da fala. Uma sociedade da sedução coloca para os indivíduos a valorização do exibicionismo – a sua validade é diretamente proporcional à imagem que constrói. O autor francês classifica a história humana sob a perspectiva da imagem, com o cenário de um meio de vida e de pensamento. Para Debray, a evolução de técnicas e crenças mostra três eras na história do visível no Ocidente. A primeira, logosfera, apresenta o olhar mágico, que suscitou o ídolo, e se estende da invenção da escrita à da imprensa; a segunda, grafosfera, era da arte, caracteriza-se pelo olhar estético e seu período vai da imprensa à TV em cores; e a terceira, a contemporânea, é a videosfera com seu olhar econômico e traz o visual, que se inicia com o surgimento do vídeo e da TV ao vivo. Na logosfera, a imagem representa o cotidiano mas, principalmente, o sentimento. Exemplos são as figuras desenhadas nas cavernas de Lascaux, no sudeste da França, há 15 mil anos, ou as sepulturas de Aurignaciano (do Paleolítico Superior) há 30.000 anos. Cavernas de Lascaux Sepulturas de Aurignaciano Essas imagens, não eram para os vivos, mas sim para os mortos. Cada civilização tem sua maneira e seus ritos para lidar com a morte, mas todas são consideradas civilizações por tratarem da morte, caso contrário, voltariam à barbárie. Na Roma do baixo Império, as imagens dos mortos só eram visitadas por homens e poderosos, que também eram os únicos representados depois de sua morte. Só mais tarde é que apareceram bustos e retratos de mulheres, e ao fim da era republicana, do cidadão comum. A morte foi o primeiro mistério com o qual o homem se deparou. O adereço, primeira réplica contra a morte, é vital aos vivos, pois a imagem gráfica representa a continuação. A imagem servia como uma moeda de troca com o mágico/infinito, trocando a imagem pela proteção divina. Para agradar aos Deuses, ao mundo invisível, faziam-se representações imagéticas. Elas não foram feitas para se olhar, mas para que o invisível olhasse por nós e, durante muito tempo, eram um bem de primeira necessidade. Portanto, os objetos não eram mágicos, mas sim, a crença e o olhar das pessoas sobre ele. Na grafosfera, inicia-se a dúvida de deuses e ídolos, e busca-se a verdade relacionando o visível e o invisível. É o momento da arte. Na logosfera, vale lembrar o Antigo Testamento, com vários trechos que proíbem a idolatria e as imagens. Em muitos momentos, a Bíblia relaciona a visão com o pecado, com a sedução, a cobiça. Debray lembra que na grafosfera o cristianismo usou estrategicamente a imagem como meio de se chegar a Deus. São exemplos disso as representações de santos, as imagens sacras e a representação de Deus, como nas imagens da Capela Sistina, feira por Michelangelo Buanorroti. 1 Jules Regis Debray é filósofo, jornalista, escritor e professor francês, atualmente titular de Filosofia da Universidade de Lyon. na França. Michelangelo Buonarroti (1475 – 1564) A imagem vai se introduzindo devagar, de baixo para cima. Começa pela decoração funerária privada, ourivesaria, vidraria, a marca do Imperador. A Igreja católica se deixa influenciar pelo Império e passa a adotar imagens. Entretanto, começa a distinguir as imagens que poderiam ser usadas das que não seriam aceitas. Um dos preceitos é de que a imagem deveria apoiar a oratória do pregador. A TV é o suporte difusor do vídeo, e é com ele que se inicia a era da videosfera. No seu surgimento, a TV pretendeu fazer cinema, mas descobriu seu próprio caminho e linguagem. Para Debray, o século XX trouxe a fotografia, o cinema, a TV e o computador, e com as novas tecnologias, uma nova poética, e uma nova arte visual26 Na videosfera, a imagem catódica é a verdade. Ela anula o discurso verbal e a imagem gráfica. No regime visual (videocracia) pode-se ignorar a verdade e contestar ideais, mas não duvidar das imagens catódicas. O que passa no Jornal Nacional é incontornavelmente verdadeiro, por exemplo. Debray levanta alguns paradoxos sobre a TV, e um deles é sobre o valor da realidade: TV opera verdades ou TV fabrica mentiras. Resumindo: há posturas diferentes perante a imagem de cada categoria. Para o ídolo, temor; para a arte, amor; e para o visual, interesse. Na logosfera é uma questão de crença, na grafosfera é uma questão de gosto, e na videosfera, a economia decide o valor e a forma de distribuição das imagens. É uma questão de poder de compra. REFERÊNCIA DEBRAY, R. Vida e morte da imagem: uma história do olhar no ocidente. Petrópolis: Ed. Vozes, 1993.