Aula 14 - A célula cancerosa
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Aula 14 - A célula cancerosa


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rara. Por outro lado, fatores como o cigarro, o álcool e outras drogas 
aumentam muito a probabilidade de isto ocorrer. Um outro dado a ser 
levado em conta é que, por depender do acúmulo de mutações ao longo 
do tempo, as chances de uma pessoa desenvolver algum tipo de câncer 
aumentam com a idade.
Outro ponto a ser enfatizado é que, se várias células sofrem 
mutações e apenas uma dá origem ao tumor, isso equivale a dizer que:
\u2022 todo tumor é um clone; 
\u2022 cada tumor foi submetido a condições seletivas que o levaram 
a sobressair-se sobre os demais, numa versão da lei da sobrevivência do 
mais apto que subverte e contraria a teoria da seleção natural de Darwin, 
uma vez que leva o indivíduo à morte;
\u2022 cada clone acumula mutações que foram sendo acrescidas 
ao longo de gerações de multiplicação de uma célula que era apenas 
ligeiramente modificada.
Na Aula 4 de Biologia Celular I fizemos referência a linhagens 
celulares de células tumorais. De fato, determinadas linhagens 
utilizadas em laboratórios no mundo todo são derivadas de 
tumores humanos. Um exemplo disso são as células HeLa e as CACO2. 
A primeira foi isolada de uma paciente com câncer cervical e a 
segunda de um tumor de cólon. Ao contrário de culturas primárias 
de células normais, que só sobrevivem em cultura por um número 
limitado de gerações, estas células são virtualmente imortais.
Que condições seletivas seriam estas? Para possuir alguma 
vantagem sobre as demais, não basta que as células mutantes se dividam 
continuamente. Elas precisam ter alguma outra característica que as 
favoreça em determinadas circunstâncias. Por exemplo, se estas células 
forem mais capazes de suportar baixas concentrações de oxigênio que 
as demais e o organismo for submetido a condições de restrição de 
oxigênio, elas sobressairão não apenas com relação a outros mutantes 
eventuais, mas também com relação às células normais, assegurando a 
manutenção e a propagação do genótipo alterado e a possibilidade de 
incorporação de novas mutações (Figura 14.2).
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Que tipo de mutação ocorre numa célula cancerosa?
As mutações que afetam o DNA das células tornando-as cancerosas 
são de diversos tipos, mesmo para um mesmo tipo de câncer. 
Entretanto, em um tipo de leucemia, a leucemia mielogênica 
crônica, sempre é observada a translocação de um pedaço do 
cromossomo 22 para o cromossomo 9. Existem diferenças com 
relação ao tamanho do fragmento translocado entre pacientes, 
mas o padrão se repete em todos os indivíduos, e o cromossomo 
9 anormalmente alongado é chamado cromossomo Filadélfia, em 
referência ao local onde foi feita esta descoberta. 
Figura 14.2: Células dotadas de 
instabilidade genética podem, no 
correr de ciclos de divisão, gerar 
mutantes que, sob determinadas 
condições, são mais viáveis que 
as células normais. A exposição 
dessas células a sucessivas barreiras 
funciona como um filtro para que 
essas mutações se acumulem e 
resultem na célula cancerosa. 
QUE TIPO DE MUTAÇÃO OCORREU NUMA CÉLULA 
CANCEROSA?
No início desta aula, comentamos que a célula cancerosa subverte 
a sua programação natural de divisão e morte. Também já sabemos 
que não basta uma mutação para que o câncer se desenvolva, os erros 
precisam se acumular ao longo de várias gerações de replicação.
Já foram identificados mais de 100 genes cuja mutação conduz 
ao câncer: são os genes críticos, e podem ser agrupados em dois grupos: 
aqueles cuja supressão (\u201cdesligamento\u201d) leva ao câncer e aqueles cuja 
superexpressão leva ao câncer. 
Os primeiros são chamados genes supressores de tumor. Sua 
inatividade predispõe a célula a tornar-se cancerosa.
Células normais Células geneticamente instáveis
Barreira seletiva
Barreira seletiva
Célula cancerosa
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Os do segundo grupo são chamados proto-oncogenes, quando 
seu comportamento é normal, e oncogenes quando assumem a 
forma hiperativa. 
O primeiro oncogene a ser identificado foi o da proteína Ras, uma 
GTPase monomérica que participa na transdução de sinal de fatores de 
crescimento presentes na superfície da célula (que você viu em Aula de 
Biologia Celular I). A hiperatividade dessa proteína causa proliferação 
excessiva da célula, uma das características básicas da célula cancerosa. 
Já a descoberta do primeiro gene supressor de tumor foi feita 
ao estudar-se um tipo raro de câncer humano de natureza hereditária, 
o retinoblastoma. Este tipo de tumor se desenvolve em células da 
retina ainda em desenvolvimento e provoca cegueira ainda na infância. 
Descobriu-se que os portadores de retinoblastoma possuem uma deleção 
no cromossomo 14 e que nessa região se localiza normalmente o gene 
Rb, ausente nesses indivíduos. Mais ainda, este gene se encontra mutado 
em portadores de vários outros tipos de câncer, como mama, pulmão e 
bexiga. Qual a função do gene Rb? Esse gene codifica a proteína Rb, que 
é uma reguladora do ciclo celular em todos os tipos celulares, atuando 
como um \u201cfreio\u201d do ciclo celular. Sem ela, novamente, as células passam 
a se dividir descontroladamente, gerando tumores. 
Estes são apenas dois exemplos de mutações associadas ao câncer. 
Em outros casos, múltiplas cópias de um determinado gene podem ser 
produzidas, amplificando seu efeito e provocando a superexpressão da 
proteína codificada por ele. 
COMO PODE SOBREVIVER UMA CÉLULA COM ALTERAÇÕES 
NO DNA?
Estudamos na Aula 13 os mecanismos de morte celular 
programada, responsáveis por manter estável o número de células de um 
organismo adulto, eliminando aquelas que entram na fase de senescência, 
entre outras funções. Outra característica básica da célula cancerosa é a 
sua imortalidade, ou seja, ela ignora as restrições naturais de divisão e 
sobrevida das células normais. Acredita-se que o gene mais importante 
na manutenção da normalidade celular seja aquele que codifica para a 
proteína P53. Esta proteína se encontra mutada em pelo menos metade 
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dos tipos de câncer conhecidos e possui pelo menos três importantes 
funções: no controle do ciclo celular, na apoptose e na manutenção 
da estabilidade genética. Em condições normais, a quantidade de P53 
produzida é muito pequena, mas em condições em que a integridade do 
DNA seja rompida, como no caso de exposição a raios ultravioleta, sua 
síntese é aumentada e ela tenta, inicialmente, reparar o DNA. Quando 
isso não é possível, a P53 atua ativando o mecanismo de autodestruição 
celular por apoptose. Conseqüentemente, células deficientes em P53 são 
incapazes tanto de reparar o DNA quanto de morrer, proliferando sem 
controle. Em muitos tipos de tumor são detectadas grandes quantidades 
de uma forma mutada e, portanto, inativa dessa proteína. 
COMO SE FORMAM AS METÁSTASES?
As células cancerosas possuem seis habilidades diabólicas, algumas 
das quais acabamos de comentar:
1. as células cancerosas continuam a se dividir independentemente 
do recebimento de qualquer sinal, tal como uma lesão nas células 
vizinhas;
2. ao serem comprimidas pelo tumor em crescimento, as células 
normais enviam sinais para interromper a divisão das células cancerosas, 
mas estas os ignoram, assim como ignoram os sinais de seu próprio 
processo de envelhecimento;
3. todas as células cancerosas possuem alterações importantes 
em seu DNA que inibem os possessos de morte celular programada e 
escapam