Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais94 seguidores
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Capítulo 1

Introdução

 “Quando eu tinha os meus nove ou dez anos de idade, costumava ouvir que não

deveríamos passar por aquela rua; ou ao menos, evitar aquele lado da calçada ou

ainda, em último caso, desviar terminantemente o olhar daquele estranho casarão...

Com um misto de curiosidade, temor e atração, via-me - sempre que podia escapar do

controle dos mais velhos -, passando em frente àquela misteriosa casa.

 Ela era um tanto recuada da calçada principal, tinha um grande muro de

grades e um jardim que a antecedia. Ao fundo, lá se impunha ela: branca, com janelas

fortemente gradeadas, dois andares e, em volta, algumas árvores frondosas que

acabavam por compor uma cena que me amedrontava e, ao mesmo tempo, me incitava,

obrigando-me a diminuir os passos naquelas escapulidas providenciais. Não raro,

ouviam-se gritos assustadores, como se estivessem pedindo socorro e, para mim, reais

ou não, eu via vultos por detrás daquelas janelas.

 Para a grande maioria dos adultos que me rodeavam, os habitantes do casarão

eram ‘não-pessoas’, eram o ‘estranho’, o bizarro. Não tinham nome, não tinham

passado nem futuro, enfim, não tinham história. Quem seriam eles, afinal?...

 Àquela época, eu ainda não conseguia entender exatamente quem eram tais

pessoas. A única coisa que eu sabia era que, para os adultos, aquela rua era

considerada proibida, maldita, como se, ao passarmos por ela, a loucura pudesse nos

contaminar...

 Esta pesquisa se inicia com uma indagação: teria a concepção a respeito da

loucura se modificado ao longo desses mais de 50 anos? Seriam os manicômios da

atualidade diferentes dos sanatórios de então? Terão sido aqueles gritos do passado

silenciados em nossos dias?

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A minha aproximação e meu interesse pela loucura teve aí os seus primórdios...

Mas a ideia de problematizar a questão acerca do sujeito inimputável
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 surgiu, de fato, a

partir da minha vivência nos quase trinta anos trabalhados numa instituição psiquiátrico-

penal, o Manicômio Judiciário, que custodia indivíduos portadores de um duplo

estigma, qual seja, o do crime e o da loucura.

 A fundamentação teórica desse trabalho apresenta-se ancorada no pensamento

filosófico de Michel Foucault com referência, sobretudo, às relações de saber/poder, aos

jogos de verdade, e ao fenômeno da resistência presente no campo social. Acreditamos

ser Michel Foucault, um dos grandes pensadores da contemporaneidade, o autor que

mais tenha tratado e contribuído de forma efetiva para a produção de novas maneiras de

se olhar o instituído e de como resistir às suas injunções.

 É sabido que, ao se trabalhar em instituições totalitárias, o profissional corre o

risco de se adaptar ao fenômeno da prisonização
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 - conforme detecta Augusto

Thompson (1976) - especialmente se ele lá permanece durante muitos anos. Neste caso,

é comum observar-se uma forte identificação com a engrenagem institucional, o que lhe

dificulta ter um olhar crítico e diferenciado em relação à mesma. E mais: essa maciça

identificação produz uma atitude maquinal e automática de aceitação a tudo o que é dito

e proposto pela instituição, levando o profissional ‘psi’ a acatar cegamente e a obedecer

a determinadas regras e normas sem, ao menos, tentar ou se arriscar a questioná-las.

Tanto aquele lá encarcerado quanto o que lá trabalha, acabam, por vezes, se adequando

aos mecanismos e às estruturas que permeiam o campo institucional; tornam-se, via de

regra, cronificados e engessados aos princípios e modelos já constituídos, o que lhes

impossibilita a estranhar com o que está posto, a se surpreender com o naturalizado, a

destruir as evidências, enfim, a reagir ao que lhes é estabelecido e determinado.

 Acompanhando Foucault, acreditamos que, para se continuar a refletir, é

imprescindível saber que podemos pensar sobre o que pensamos de forma diferente

daquela que pensamos. Para tal, faz-se mister desconstruir o que há tanto se encontra

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 Considera-se inimputável a pessoa que cometeu uma infração penal, porém, no momento do crime, era

inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse

entendimento.
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 O termo ‘prisonização’, cunhado por Donald Clemmer (1950), demarca os efeitos psicológicos do

confinamento, indicando a adoção do modo de pensar, dos costumes e dos hábitos da cultura geral de

quem vive enclausurado em penitenciárias e afins.

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instaurado, naturalizado e definido como verdadeiro, pois, segundo o autor, o que

interessa não é ‘a’ verdade, aquela que pretende distinguir o legítimo do ilegítimo, o

falso do verdadeiro, o louco do não louco, mas a verdade como perspectiva histórica,

como produto da contingência e do acaso.

 Foucault nos fala de múltiplas verdades: para ele, não existe uma verdade

absoluta, universal, mas tão somente jogos de verdade articulados a estratégias de

saber/poder que dizem o que é falso e o que é verdadeiro. Interessa a ele o

enfrentamento analítico do presente, o olhar crítico aos jogos de verdade que fixam

determinadas regras e as adotam como incontestáveis. Tais verdades tornam-se

absolutas e reinam incólumes no campo mesmo do instituído, podendo ser observadas

através da prática dos dispositivos jurídico-psiquiátricos utilizados tanto pelo saber

médico, quanto pelo saber da psicologia.

 Esta dissertação não tem a intenção de denunciar a forma como é ou não visto ou

como é ou não tratado o paciente internado nos nosocômios, nem tampouco em analisar

o motivo que para lá os levou. O que pretendemos examinar e analisar neste trabalho -

contrariamente à proposta de querer entender a loucura, a doença mental ou os

dispositivos que permeiam a seara institucional – é tentar compreender em que medida e

em que condições de possibilidades estas práticas se produzem. Dito de outra maneira,

o nosso objetivo é problematizar como certas práticas institucionais - que fazem parte

da engrenagem médica-judiciária -, tornam-se estatutos de verdade com efeitos de

prescrição do que deve e do que não deve ser feito; e de como este regime de práticas

costuma ser aceito de forma tão natural e evidente, tanto pelos juristas quanto pelos

profissionais ‘psi’ que atuam neste campo.

 Queremos chamar a atenção para o fato de certos acontecimentos serem

naturalmente acatados e acolhidos como pressupostos de verdade, sem qualquer

estranhamento ou resistência. Queremos pontuar a importância, não de abjurar a lei ou

as regras, mas em problematizar o estatuto das normatizações em prol do exercício de

uma ‘atitude crítica’ proposta, entre outros autores, por Didier Eribon (2004).

 Parafraseando Foucault (1977 c), interessa-nos saber como o poder exercido

sobre a loucura produz o discurso ‘verdadeiro’ da psiquiatria. Interessa-nos, tal como

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propõe a tese foucaultiana, romper com as evidências e com o que se apresenta

naturalizado; saber como - a partir de quais valores ou de quais interesses jurídico-

institucionais - atualiza-se certas práticas em regulamentos exatos e meticulosos. Sem

dúvida, estas práticas estão a serviço de jogos de saber/poder que definem o que é

normal ou anormal, perigoso ou não perigoso, medicável ou não medicável, passível ou

não passível de ser punido. Com efeito, estes jogos de saber/poder não são privilégio

nem direito apenas dos manicômios judiciários... Toda e qualquer instituição totalitária

os têm como prerrogativa.

 São problematizações desse tipo que propomos levantar ao longo desta

dissertação.

 O trabalho está organizado em seis capítulos e nas suas respectivas subdivisões.

O Capítulo 1 diz respeito à Introdução do trabalho, o Capítulo 6 refere-se às

Considerações Gerais, e o Capítulo 7 às Referências bibliográficas. O corpo do texto

compõe-se pelos demais capítulos.

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