Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


DisciplinaPsicologia e Instituições22 materiais127 seguidores
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Capítulo 1 
Introdução 
 
 
 \u201cQuando eu tinha os meus nove ou dez anos de idade, costumava ouvir que não 
deveríamos passar por aquela rua; ou ao menos, evitar aquele lado da calçada ou 
ainda, em último caso, desviar terminantemente o olhar daquele estranho casarão... 
Com um misto de curiosidade, temor e atração, via-me - sempre que podia escapar do 
controle dos mais velhos -, passando em frente àquela misteriosa casa. 
 Ela era um tanto recuada da calçada principal, tinha um grande muro de 
grades e um jardim que a antecedia. Ao fundo, lá se impunha ela: branca, com janelas 
fortemente gradeadas, dois andares e, em volta, algumas árvores frondosas que 
acabavam por compor uma cena que me amedrontava e, ao mesmo tempo, me incitava, 
obrigando-me a diminuir os passos naquelas escapulidas providenciais. Não raro, 
ouviam-se gritos assustadores, como se estivessem pedindo socorro e, para mim, reais 
ou não, eu via vultos por detrás daquelas janelas. 
 Para a grande maioria dos adultos que me rodeavam, os habitantes do casarão 
eram \u2018não-pessoas\u2019, eram o \u2018estranho\u2019, o bizarro. Não tinham nome, não tinham 
passado nem futuro, enfim, não tinham história. Quem seriam eles, afinal?... 
 Àquela época, eu ainda não conseguia entender exatamente quem eram tais 
pessoas. A única coisa que eu sabia era que, para os adultos, aquela rua era 
considerada proibida, maldita, como se, ao passarmos por ela, a loucura pudesse nos 
contaminar... 
 
 
 
 Esta pesquisa se inicia com uma indagação: teria a concepção a respeito da 
loucura se modificado ao longo desses mais de 50 anos? Seriam os manicômios da 
atualidade diferentes dos sanatórios de então? Terão sido aqueles gritos do passado 
silenciados em nossos dias? 
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A minha aproximação e meu interesse pela loucura teve aí os seus primórdios... 
Mas a ideia de problematizar a questão acerca do sujeito inimputável
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 surgiu, de fato, a 
partir da minha vivência nos quase trinta anos trabalhados numa instituição psiquiátrico-
penal, o Manicômio Judiciário, que custodia indivíduos portadores de um duplo 
estigma, qual seja, o do crime e o da loucura. 
 
 A fundamentação teórica desse trabalho apresenta-se ancorada no pensamento 
filosófico de Michel Foucault com referência, sobretudo, às relações de saber/poder, aos 
jogos de verdade, e ao fenômeno da resistência presente no campo social. Acreditamos 
ser Michel Foucault, um dos grandes pensadores da contemporaneidade, o autor que 
mais tenha tratado e contribuído de forma efetiva para a produção de novas maneiras de 
se olhar o instituído e de como resistir às suas injunções. 
 
 É sabido que, ao se trabalhar em instituições totalitárias, o profissional corre o 
risco de se adaptar ao fenômeno da prisonização
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 - conforme detecta Augusto 
Thompson (1976) - especialmente se ele lá permanece durante muitos anos. Neste caso, 
é comum observar-se uma forte identificação com a engrenagem institucional, o que lhe 
dificulta ter um olhar crítico e diferenciado em relação à mesma. E mais: essa maciça 
identificação produz uma atitude maquinal e automática de aceitação a tudo o que é dito 
e proposto pela instituição, levando o profissional \u2018psi\u2019 a acatar cegamente e a obedecer 
a determinadas regras e normas sem, ao menos, tentar ou se arriscar a questioná-las. 
Tanto aquele lá encarcerado quanto o que lá trabalha, acabam, por vezes, se adequando 
aos mecanismos e às estruturas que permeiam o campo institucional; tornam-se, via de 
regra, cronificados e engessados aos princípios e modelos já constituídos, o que lhes 
impossibilita a estranhar com o que está posto, a se surpreender com o naturalizado, a 
destruir as evidências, enfim, a reagir ao que lhes é estabelecido e determinado. 
 
 Acompanhando Foucault, acreditamos que, para se continuar a refletir, é 
imprescindível saber que podemos pensar sobre o que pensamos de forma diferente 
daquela que pensamos. Para tal, faz-se mister desconstruir o que há tanto se encontra 
 
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 Considera-se inimputável a pessoa que cometeu uma infração penal, porém, no momento do crime, era 
inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento. 
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 O termo \u2018prisonização\u2019, cunhado por Donald Clemmer (1950), demarca os efeitos psicológicos do 
confinamento, indicando a adoção do modo de pensar, dos costumes e dos hábitos da cultura geral de 
quem vive enclausurado em penitenciárias e afins. 
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instaurado, naturalizado e definido como verdadeiro, pois, segundo o autor, o que 
interessa não é \u2018a\u2019 verdade, aquela que pretende distinguir o legítimo do ilegítimo, o 
falso do verdadeiro, o louco do não louco, mas a verdade como perspectiva histórica, 
como produto da contingência e do acaso. 
 
 Foucault nos fala de múltiplas verdades: para ele, não existe uma verdade 
absoluta, universal, mas tão somente jogos de verdade articulados a estratégias de 
saber/poder que dizem o que é falso e o que é verdadeiro. Interessa a ele o 
enfrentamento analítico do presente, o olhar crítico aos jogos de verdade que fixam 
determinadas regras e as adotam como incontestáveis. Tais verdades tornam-se 
absolutas e reinam incólumes no campo mesmo do instituído, podendo ser observadas 
através da prática dos dispositivos jurídico-psiquiátricos utilizados tanto pelo saber 
médico, quanto pelo saber da psicologia. 
 
 Esta dissertação não tem a intenção de denunciar a forma como é ou não visto ou 
como é ou não tratado o paciente internado nos nosocômios, nem tampouco em analisar 
o motivo que para lá os levou. O que pretendemos examinar e analisar neste trabalho - 
contrariamente à proposta de querer entender a loucura, a doença mental ou os 
dispositivos que permeiam a seara institucional \u2013 é tentar compreender em que medida e 
em que condições de possibilidades estas práticas se produzem. Dito de outra maneira, 
o nosso objetivo é problematizar como certas práticas institucionais - que fazem parte 
da engrenagem médica-judiciária -, tornam-se estatutos de verdade com efeitos de 
prescrição do que deve e do que não deve ser feito; e de como este regime de práticas 
costuma ser aceito de forma tão natural e evidente, tanto pelos juristas quanto pelos 
profissionais \u2018psi\u2019 que atuam neste campo. 
 
 Queremos chamar a atenção para o fato de certos acontecimentos serem 
naturalmente acatados e acolhidos como pressupostos de verdade, sem qualquer 
estranhamento ou resistência. Queremos pontuar a importância, não de abjurar a lei ou 
as regras, mas em problematizar o estatuto das normatizações em prol do exercício de 
uma \u2018atitude crítica\u2019 proposta, entre outros autores, por Didier Eribon (2004). 
 
 Parafraseando Foucault (1977 c), interessa-nos saber como o poder exercido 
sobre a loucura produz o discurso \u2018verdadeiro\u2019 da psiquiatria. Interessa-nos, tal como 
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propõe a tese foucaultiana, romper com as evidências e com o que se apresenta 
naturalizado; saber como - a partir de quais valores ou de quais interesses jurídico-
institucionais - atualiza-se certas práticas em regulamentos exatos e meticulosos. Sem 
dúvida, estas práticas estão a serviço de jogos de saber/poder que definem o que é 
normal ou anormal, perigoso ou não perigoso, medicável ou não medicável, passível ou 
não passível de ser punido. Com efeito, estes jogos de saber/poder não são privilégio 
nem direito apenas dos manicômios judiciários... Toda e qualquer instituição totalitária 
os têm como prerrogativa. 
 São problematizações desse tipo que propomos levantar ao longo desta 
dissertação. 
 
 O trabalho está organizado em seis capítulos e nas suas respectivas subdivisões. 
O Capítulo 1 diz respeito à Introdução do trabalho, o Capítulo 6 refere-se às 
Considerações Gerais, e o Capítulo 7 às Referências bibliográficas. O corpo do texto 
compõe-se pelos demais capítulos. 
 
No Capítulo