Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


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2 é descrita a estrutura física e geográfica do Manicômio Judiciário, 
como se estivéssemos fazendo um \u2018vôo rasante\u2019 sobre ele: mostramos onde ele se 
encontra localizado, como é composto em seu espaço interior, qual a disposição das 
celas e enfermarias, das salas de atendimento, dos diferentes departamentos e seções, 
dos pátios e dos pontos estratégicos onde se situa o setor de segurança. Para melhor 
compreender o tipo de local a que estamos nos referindo, descrevemos e analisamos as 
suas principais características e funções, assim como a dinâmica de seu funcionamento. 
Em seguida dedicamo-nos a apresentar quem é este paciente inimputável encarcerado e 
separado do mundo através dos altos portões de ferro batido do MJ
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: trata-se daqueles 
chamados \u2018monstros\u2019, os quais as pessoas, de um modo geral, esperam encontrar por 
detrás desses portões. Para tal, faz-se mister explorar de que maneira o chamado louco 
foi transformado - ao longo dos séculos - em doente mental, ou seja, como se deu a 
passagem da concepção trágica à concepção crítica da loucura, problematizada por 
Michel Foucault em História da Loucura, escrita em 1961, considerada uma de suas 
mais ricas produções. 
 
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 Sempre que for me referir ao Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro, usarei a sigla MJ. 
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 Ainda neste mesmo capítulo, analisamos como e porque a ciência psiquiátrica 
precisou criar a nosologia do \u2018crime de loucura\u2019 gerando-se, assim, o denominado 
\u2018paciente inimputável\u2019. Discutimos aí a loucura como anomalia, como perigo, como 
algo que se deva manter isolado e afastado a fim de se proteger a sociedade (Foucault, 
1974). Ao criar-se a figura do sujeito perigoso, do \u2018louco-criminoso\u2019, foi antes preciso 
classificá-lo, catalogá-lo, enquadrá-lo dentro de determinados conceitos e de certas 
nosologizações. Para isso fez-se necessário a \u2018invenção\u2019 de dispositivos que pudessem, 
não só descrever tais figuras consideradas estranhas, como também de poder ordená-las: 
celebra-se, desse modo, o \u2018casamento\u2019 entre o direito e a psiquiatria, que surge como 
instrumento de transformação do louco em doente mental construindo-se, a partir daí, a 
figura - cunhada por Foucault (2001) - do \u2018médico-juiz\u2019, aquele que pretende tratar, 
julgando. Desta feita, com o surgimento da criminologia, surgem as noções de 
periculosidade e criam-se os dispositivos que pretendem controlar tal perigo e, para tal, 
é concebida uma modalidade jurídica denominada \u2018medida de segurança\u2019, a ser aplicada 
àqueles considerados inimputáveis. Fazemos também, ainda nesta primeira parte do 
trabalho, referência a alguns peritos-forense dos séculos XVIII/XIX que se baseavam na 
tese de que os comportamentos antissociais advinham de causas orgânicas. 
 
 Dedicamos o Terceiro Capítulo a justificar a nossa escolha por embasar este 
trabalho, preferencialmente, na rica obra de Michel Foucault. O filósofo e historiador 
francês é um dos autores da contemporaneidade que mais se preocupou em 
problematizar as relações de saber/poder, e de analisar como esses saberes se 
transformam em verdades universais e absolutas - através dos \u2018jogos de verdade\u2019 - 
presentes no campo e na prática institucional, quer seja nos manicômios como nas 
prisões. 
 
 Dando continuidade ao tema, lançamos luz sobre o terceiro pilar foucaultiano \u2013 
considerando-se os dois primeiros como sendo, respectivamente, os \u2018jogos de 
saber/poder e os \u2018jogos de verdade\u2019. Este terceiro pilar, diretamente imbricado às 
relações de saber/poder, diz respeito ao fenômeno da resistência entendida dentro da 
concepção foucaultiana como sendo um jogo de forças, a potência mesma que se 
insurge sobre as tentativas de dominação que partem do instituído. Sem dúvida, dentro 
desse ponto de vista, a resistência apresenta-se, através de suas estratégias, como 
possibilidade de transformação daquilo que está posto como definitivo e imutável, 
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daquilo que se encontra naturalizado; a resistência passa a funcionar como um olhar 
crítico às normatizações e burocratizações do campo mesmo do instituído. 
 
 Em seguida passamos a estudar e a discutir os \u2018jogos de verdade\u2019, analisando 
criticamente algumas formas de dispositivos jurídico-psiquiátricos utilizadas no 
diagnóstico e na classificação do paciente inimputável. Para tanto, usamos como uma 
das principais referências, as obras Os Anormais (2001) e A verdade e as formas 
jurídicas (2005), este último composto por uma série de conferências proferidas por 
Michel Foucault na PUC/RJ, em maio de 1973, quando de sua visita ao Brasil. Nossa 
análise tem como alvo não somente discorrer e construir um olhar crítico sobre os 
dispositivos propriamente ditos, mas também investigar e pesquisar quem são aqueles 
que os produzem e que deles se utilizam: estamos nos referindo, destarte, aos chamados 
\u2018especialistas\u2019, ou como os denomina Michel Foucault (2001), os \u2018reis-ubus\u2019. Nossa 
intenção é, portanto, problematizar a questão de como é composta a prática desses 
profissionais e de sua rede maquiada de cientificidade. 
 
 São sobre eles, os operadores da saúde, que nos debruçamos no Capítulo 4 
mostrando, inicialmente, como eles operam e como eles agem no interior da seara 
médica-jurídica. Segundo Foucault (1977 a), foi a partir da mecânica de poder, presente 
nas instituições totalitárias, que se definiu a maneira como os corpos lá habitáveis 
deveriam ser distribuídos e analisados. E para que essas práticas fossem efetivamente 
exercidas, fez-se necessário não somente a invenção de técnicas de controle e de exame, 
como também a criação de profissionais capacitados para utilizar tais técnicas e saberes 
com o intuito de classificar e de nosologizar o \u2018louco-criminoso\u2019 e todos aqueles que 
ameaçavam a \u2018paz social\u2019. Mas como nem tudo está perdido, analisamos - ainda nesse 
mesmo capítulo -, as condições de possibilidade de se encontrar saídas aos jogos de 
saber/poder vigentes no campo do instituído, indagando de onde deveriam surgir os 
focos de resistência: do paciente, do operador da saúde, ou de ambos? 
 
 Assim, procuramos nos deter sobre as possíveis estratégias de resistência e de 
que maneira o profissional \u2018psi\u2019 poderia exercer o seu poder para modificar o 
naturalizado, de modo a localizar as brechas, a fim de intervir na inação e na indiferença 
do estabelecido, \u201cali onde estão os pontos de resistência, onde há passagens possíveis\u201d, 
como leciona Paul Veyne (2004, p.83). 
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 Finalmente, no Capítulo 5 nos dedicamos a dar a palavra àquele que quase nunca 
a tem: o louco. Iniciamos essa última parte trazendo a contribuição - além da já 
proporcionada por Michel Foucault -, de José Carlos Bruni (1989), autor igualmente 
estudioso e preocupado com o silêncio dos sujeitados. 
 
 Demonstramos, a partir de nossa vivência durante os quase trinta anos 
trabalhados no MJ, algumas formas - conscientes ou não -, de se fazer calar o sujeito 
encarcerado, especialmente o \u2018louco-criminoso\u2019, aquele considerado \u2018sujeito 
duplamente perigoso\u2019. Por outro lado, felizmente, observamos que é possível se fazer 
passar a palavra a esses sujeitos invisíveis através de uma importante ferramenta 
utilizada como instrumento para fazer falar o silêncio: trata-se da chamada História Oral 
e de suas distintas maneiras de historiografar a verdade, e de entender a memória 
singular como forma de resistência à memória oficial. 
 
 Concluindo o capítulo, trazemos algumas histórias desses sujeitos que, via de 
regra, são nomeados de \u2018loucos-criminosos\u2019. 
 
 Por último, no Capítulo 6, apresentamos as nossas Considerações Finais onde 
procuramos, a partir das problematizações aduzidas ao longo do trabalho, refletir sobre 
a possibilidade de se poder perceber com um olhar distinto, aqueles comumente 
considerados como sendo tão somente os \u2018monstros\u2019, os \u2018anormais\u2019: procuramos 
pontuar para a necessidade de se ouvir esses sujeitos