Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado


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 A palavra \u2018técnica\u2019 se origina do grego \u2018tekhné\u2019. 
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acompanhando Eugenia Vilela, que \u201cos resistentes à ordem totalitária sempre foram 
aqueles que possuíam, segundo a expressão de Hannah Arendt, o hábito de viver 
consigo mesmo de forma explícita\u201d (2001, p. 246). A este \u2018modo de ser\u2019 Michel 
Foucault denominou de \u2018ética\u2019, assunto que abordaremos um pouco mais adiante neste 
mesmo capítulo. 
 
 Retornando à prática do profissional \u2018psi\u2019, concordamos com Foucault que 
pensar significa desnaturalizar o que parece evidente ou, ainda, não tomar os fatos como 
naturais; pensar significa buscar compreender os jogos que determinam o que pode e o 
que não pode ser dito; pensar é fornecer instrumentos de análise da situação presente, 
através de uma percepção profunda de tal modo que se possam localizar os pontos aos 
quais estão ligados os poderes, \u201cfazendo um sumário topográfico e geológico da 
batalha\u201d (Foucault, 1975, p. 151). Pois, ao se trabalhar no campo mesmo de uma 
instituição totalitária, tal como os manicômios, prisões e afins, não é incomum deparar-
se no centro de um campo de batalha \u2013 por vezes silenciosa \u2013 mas, com efeito, uma 
batalha! E por ser silenciosa, ela torna-se ainda mais perigosa. Portanto, é de suma 
importância que estejamos atentos a todos os jogos de saber/poder que se insinuam sub-
repticiamente, tentando se instituir como postulados sólidos, globais, previsíveis e 
definitivos, que obstaculizam, sobremaneira, não somente a possibilidade de uma visão 
crítica dos discursos e das práticas características nesse tipo de instituição, como 
também de calarem os saberes dominados. 
 Por saber dominado entendemos uma série de saberes que são desqualificados 
como saberes ditos comuns, ingênuos, inferiores; saberes singulares, \u201cesses saberes das 
pessoas que são saberes sem senso comum e que foram de certo modo deixados em 
repouso, quando não foram efetivamente e explicitamente mantidos sob tutela\u201d 
(Foucault, 1999, p. 12). Não é incomum constatar-se essa afirmação do autor. Pelo 
contrário, é bastante comum observar-se certos diálogos entre especialista e paciente no 
interior das \u2018instituições de sequestro\u201948, onde o saber \u2018psi\u2019 tenta se estabelecer com seus 
discursos hierarquizantes - respaldados por uma suposta cientificidade e, portanto, 
considerados verdadeiros - sobre o saber particular, diferencial e crítico daqueles que 
ousam se contrapor à unanimidade que os circundam. A este saber desqualificado 
 
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 Entende-se por \u2018instituição de sequestro\u2019, termo cunhado por Michel Foucault, aquelas que capturam o 
indivíduo e o colocam dentro de um espaço fechado onde ele vai ser produzido. 
 
 
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porque descontínuo e heterogêneo - do psiquiatrizado, do doente, do \u2018médico paralelo e 
marginal\u2019 em relação ao saber médico -, Foucault (1999) nomeou de \u2018saber das 
pessoas\u2019: um saber capaz de oposição e de luta contra a tirania do discurso totalitário, 
científico; um saber feito de crítica; um saber que produz resistência. 
 Pensamos que caberia aos operadores da saúde recusar os conceitos universais, 
não por terem causas duvidosas, mas pelo simples fato de que seu conteúdo varia com o 
tempo e com as circunstâncias (Foucault, 1984b). Em seu A Nau do Tempo-Rei, Peter 
Pál Pelbart enfatiza a necessidade de uma desconstrução da racionalidade, subsumindo 
que 
a nossa razão, a forma hegemônica de racionalidade vigente é carcerária, mesmo 
quando ela é edulcorada pelos burocratas do desejo com uma terminologia inefável. 
Seria preciso desmontar essa racionalidade a fim de deixar o pensamento permeável à 
desrazão. Isto não significa optar pela irracionalidade [...], mas praticar um trânsito com 
tudo aquilo que os loucos nos sugerem, embora eles mesmos, por estarem imersos nesse 
funcionamento exclusivo, tenham sido reduzidos a corpos passivos e impotentes 
(PELBART, 1993, p. 161). 
 
 Mas voltemos à questão dos saberes, proposta por Foucault. Durante o período 
de nosso trajeto no MJ vivenciamos situações bastante incômodas, provocadoras de um 
imenso mal-estar. Dentre tantas, parece-nos de suma importância enfatizar uma delas, já 
brevemente citada no Capítulo 3. Sabe-se que - de acordo com a Lei de Execução 
Penal
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 -, no que diz respeito à execução das Medidas de Segurança quanto à cessação 
da periculosidade do paciente inimputável, o Art. 176 da referida lei determina que, 
 
 
Em qualquer tempo, ainda no decorrer do prazo mínimo de duração da medida de 
segurança, poderá o Juiz da execução, diante de requerimento fundamentado do 
Ministério Público ou do interessado, seu procurador ou defensor, ordenar o exame para 
que se verifique a cessação da periculosidade, procedendo-se nos termos do artigo 
anterior (LEI DE EXECUÇÃO PENAL). 
 
 
 O artigo anterior
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 refere-se à época em que o laudo deverá ser elaborado pelo 
perito forense. Todavia, como se observa no artigo seguinte (Art. 176), é concedido ao 
próprio paciente o direito de reivindicar por sua desinternação - observando-se todos os 
requisitos exigidos -, ainda que antes do fim do prazo mínimo de duração da medida. 
Isto significa dizer que o sujeito é legalmente reconhecido e autorizado a externar o 
saber sobre si mesmo: é ele, e não apenas o saber médico, quem solicita a revogação da 
 
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 Lei 7210 de 11 de Julho de 1984. 
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 Art. 175. A cessação da periculosidade será averiguada no fim do prazo mínimo de duração da medida 
de segurança, pelo exame das condições pessoais do agente, observando-se o seguinte [...]. 
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sua medida de segurança. Esta inversão de conhecimento proporciona ao sujeito/ 
paciente manifestar-se, e é exatamente sobre esta manifestação de saber exercida por 
aqueles que, usualmente não o exercem, que Foucault denominou de \u2018saberes 
sujeitados\u2019, como refletíamos há pouco, ou seja, \u201csaberes que estavam desqualificados 
como saberes não conceituais, como saberes insuficientemente elaborados: saberes 
ingênuos, saberes hierarquicamente inferiores, saberes abaixo do nível de 
conhecimento\u201d (Foucault, 1999, p. 12). 
 Quando o paciente mesmo manifesta o saber sobre si, ele exerce, ao mesmo 
tempo, um poder sobre aqueles que procuram inabilitá-lo, fragilizá-lo. Portanto, é 
essencial que esses saberes desqualificados, não legitimados, intervenham sobre a 
instância teórica e unitária da instituição, que tenta filtrar, ordenar e tutelar esses saberes 
locais em nome de um saber científico. 
 Assim sendo, indagamos se não caberia ao profissional \u2018psi\u2019 exercer - à 
semelhança do que faz o paciente -, sua análise crítica e sua resistência em relação ao 
saber \u2018vindo de cima\u2019, aquele que supõe saber mais do que o próprio sujeito sabe de si. 
E mais: não caberia a ele procurar reativar e intensificar os saberes ditos menores, 
mantidos sob a tutela dos saberes vinculados à instância médica-jurídica, intervindo de 
modo que eles possam se exercer com liberdade? 
 No caso da solicitação do exame de cessação de periculosidade partindo do 
paciente mesmo, não deveria o profissional, não somente incentivar o paciente a fazê-lo, 
como também agilizar os meios para que o referido exame fosse, de fato, realizado? 
Contudo, na prática, a teoria no MJ era outra... Nós - os operadores da saúde -, 
optávamos pelo silêncio cauteloso, pela prudência taciturna, pela fraqueza, pela negação 
absoluta em relação à existência do Art.176 da Lei de Execução Penal. Os que se 
aventuravam a pô-lo em evidência - tanto o paciente quanto o profissional \u2018psi\u2019 -, 
costumavam ser vistos como insurgentes, costumavam se vistos como traidores mesmo 
da instituição. 
 
 
4.2. Estratégias de resistência: procurando saídas na prática 
 
\u201cMesmo quando a relação de poder é completamente desequilibrada, quando 
verdadeiramente se pode dizer que um tem todo o poder sobre o outro, um 
poder só pode