Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais92 seguidores
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real que o poder daquele que domina tenta se

manter com tanto mais força, tanto mais astúcia, quanto maior for a resistência”

(Foucault, 1977 c, p. 232).

 Podemos então sustentar que o sujeito se constitui através da imposição do poder

e da resistência exercida sobre ele, ou seja, é exatamente neste jogo de embate entre

forças antagônicas que podemos pensar na produção de uma brecha anunciando a

entrada de novas práticas e saberes e, assim sendo, de novas formas de subjetivação. Por

conseguinte, isto nos leva a pensar que podemos e devemos nos insurgir contra a

dominação; podemos lutar e subverter o que está posto e instituído, criando um mundo

onde as subjetividades possam aflorar na sua diferença e alteridade. E, principalmente,

visando-se a constituição de um novo sujeito histórico. Constatamos, assim, que é na

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resistência – potência que se insurge sobre as estratégias de dominação – que o sujeito

escapa do lugar das origens, rompendo com o que está posto.

 De acordo com Didier Eribon (2004), não se trata de ser fiel a uma teoria, mas

sim, a uma atitude, a um estilo de vida, a qual Foucault denominava de ‘atitude crítica’:

“La crítica es la verdad sobre sus efectos de poder y al poder sobre sus discursos

acerca de la verdad; la crítica sería el arte de la insumisiíon voluntaria, el de la

indocilidad reflexionada”(Eribon, 2004, p.22).56 Entendemos, pois, a crítica como uma

atitude, como uma forma mesmo de resistir ao conjunto de dispositivos que comandam

a conduta dos sujeitos. A atitude crítica seria, então, uma prática de não aceitação

daquilo que nos é determinado, um permanente questionamento do “porque sempre foi

assim”, uma resistência às formas de assujeitamento. A atitude crítica nada mais é do

que a ética mesma. Para Eribon (2004), trata-se de refletir e subsumir aquilo que

Foucault

nos transmitió y el êthos que quería valorizar: el gesto incansable de la crítica radical

y a exigencia de um pensamiento que nunca debe dejar de cuestionar las evidencias del

mundo que nos rodea, y los poderes o instituiciones que se ensañan en perpetuarlas

(ERIBON, 2004, p. 22).
57

 Para Foucault o êthos é visto como a junção de atitude e exercício, como uma

forma de ser consigo mesmo, com o outro, e com a verdade, ou seja, uma atitude ética,

como um ‘modo de ser’. A ética, tal como entendida por ele, é “um exercício de si sobre

si mesmo, através do qual se procura elaborar, se transformar e atingir um certo modo

de ser” (Foucault, 1984 a, p. 265). Dito de outra maneira, trata-se da relação que se

estabelece consigo mesmo, uma ‘prática de si’58, uma ‘estética da existência’59

(Foucault, 1995 b) que determina a maneira pela qual o indivíduo constitui a si mesmo

como sujeito moral de suas próprias ações. Uma prática reflexiva da liberdade, a qual

56

 “A crítica é o movimento pelo qual o sujeito se dá o direito de questionar a verdade sobre seus efeitos
de poder e o poder sobre seus discursos de verdade; a crítica seria a arte da insubordinação voluntária,

aquela da indocilidade refletida” (Tradução nossa).
57

 “[...] nos transmitiu e o êthos que queria valorizar: o gesto incansável da crítica radical e a exigência de
um pensamento que nunca deve deixar de questionar as evidências do mundo que nos rodeia, e os poderes

ou instituições que insistem em perpetuá-las” (Tradução nossa).
58

 A expressão ‘práticas de si’ ou ‘saber de si’, dentro da concepção foucaultiana, refere-se ao conjunto
das relações que o indivíduo pode estabelecer consigo mesmo, dentro do domínio de uma ética. Prática de

si, hermenêutica de si, cuidado de si, saber de si, ou seja, as relações que o indivíduo estabelece consigo

mesmo, e ao que Foucault chamará de ética (Fonseca, 2002, p. 42).
59

 “O conceito de estética não é sinônimo de beleza ou a busca hedonista do gozar a vida; ele remete a um
exercício da sensibilidade em relação ao mundo. Essa sensibilidade, ou seja, o deixar-se afetar pelo outro

(no sentido de Spinoza), é um dos elementos indispensáveis para a prática reflexiva da liberdade” (Nardi
e Silva, 2009, p.102).

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inclui, necessariamente, a nossa relação com a loucura, não apenas a partir de um tal

saber sobre a doença mental ou uma tal atitude diante do homem alienado, mas desde

um olhar isento de preconceito em relação a este outro.

 Ao problematizar a questão da ética, o autor retorna aos textos gregos e constata

que na ética grega as pessoas estavam muito mais preocupadas consigo mesmas e com

os outros do que com quaisquer aspectos dos sistemas social ou jurídico: a sua

preocupação era constituir um tipo de ética que fosse uma ‘estética da existência’, ou

seja, a possibilidade de um trabalho de si para si onde se poderia transformar a vida

mesma numa obra de arte, ocupando-se de si mesmo, através de um ‘cuidado de si’

(Foucault, 1984 a). Em outras palavras, trata-se de criar-se sem se servir das regras

universais, sem se apegar aos saberes já instituídos e naturalizados, enfim, “a partir da

ideia de que o eu não nos é dado, creio que há apenas uma conseqüência prática: temos

que nos criar a nós mesmos como uma obra de arte” (Foucault, 1995 b, p. 262). Com

isto o autor sugere que o sujeito deve conservar o controle sobre sua vida, intervindo

constantemente sobre ela, como se tratasse de uma obra de arte. Sustenta ainda que esse

projeto do sujeito sobre si mesmo se dá através de uma longa prática e de um trabalho

diário que nunca se conclui.

 Nos últimos textos foucaultianos, a noção de sujeito – até então visto como

efeito de práticas discursivas e não discursivas, e de relações de saber/poder –, passa a

ser problematizada não somente como sendo produto dessas práticas e relações, mas

também, ele próprio, como produtor de si mesmo, com uma certa autonomia, um

quantum de resistência de modo que possa ser pensado além do dispositivo saber/poder.

O autor passa a se interessar, de fato, pela maneira com a qual o sujeito se (auto)

constitui de uma maneira ativa, através das ‘práticas de si’, sendo capaz de lidar com as

técnicas de dominação que atuam sobre ele, compondo, assim, uma estratégia que

mescla a maneira como o querem conduzir e a maneira como ele se conduz. Trata-se

aqui de um sujeito ético, distinto do sujeito sujeitado (Foucault, 1995 a).

 Não existe aí nenhuma intenção em se descobrir uma verdade escondida no

interior do sujeito, mas sim de tentar determinar o que ele pode ou não fazer com uma

liberdade disponível; trata-se, pois, não de decifrar, mas de construir. Assim, ao se

referir ao ato de interrogação da verdade, Foucault propõe não a busca de uma verdade,

mas das inúmeras verdades que o sujeito é capaz de articular, possibilitando-o a desafiar

“uma certa ordem de governabilidade” (Echavarren, 2011, p. 10), capaz de tirá-lo de um

estado de tutela e direcioná-lo à condição de autonomia. Melhor dizendo, o autor

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sustenta que a atitude crítica, a interrogação da verdade, a interpelação do real, viabiliza

a saída de um estado de servidão, de sujeição, levando, em contrapartida, à liberdade da

razão, à autonomia sobre a vida mesma. A atitude crítica é um escape, uma via de saída

que livra o sujeito do estado de tutela (Foucault, 2010 c). Assim, acompanhando a tese

foucaultiana, acreditamos que a tarefa do profissional da saúde deva ser a de reflexão e

de atitude crítica permanente em relação à sua prática, lutando sempre contra as

manobras de sujeição, tanto aquelas que são aplicadas ao paciente encarcerado, quanto

as que lhe são imputadas a si próprio.

As técnicas para se relacionar consigo mesmo como um sujeito de capacidades

singulares, digno de respeito, vão contra as práticas para se relacionar consigo próprio

como o alvo da disciplina, do dever e da docilidade (ROSE, 2010, p. 48).

 Consequentemente, as invenções cotidianas representam