Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais94 seguidores
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as diferentes formas de

os profissionais psi se adequarem – mas não de se conformarem – às estratégias

presentes no campo institucional, criando recursos que promovam a reorganização e a

recriação do dia-a-dia de suas práticas. Tais invenções vão, por outro lado, gerando

novos saberes e viabilizando, assim, condições de possibilidade para que o próprio

paciente possa resistir ao que lhe é imposto. Deste modo acreditamos em uma possível

mudança na concretude do cotidiano manicomial.

 Não obstante o papel do profissional de saúde encontrar-se atrelado a um

sistema de poder, funcionando como mais uma peça da engrenagem institucional,

paradoxalmente, esse lugar leva o mesmo profissional, tanto a utilizar intervenções

normatizadoras e adaptativas, quanto a produzir práticas que promovam a criação de

novas aberturas e de novos modos de produção de subjetividades. Assim como o GIP

mobilizou os intelectuais franceses a trabalharem ao lado dos detentos, Felix Guattari e

Suely Rolnik (1986) nos advertem, igualmente, de que não há mais porque se aceitar

falsas neutralidades. Destarte, entendemos que a tarefa do profissional ‘psi’ é a de se

inquietar, de se surpreender diante das verdades absolutas, diante do estagnado e, a

partir daí, questionar os jogos presentes no campo do instituído, desmontando a ‘historia

oficial’, descolando os pontos de solda, possibilitando novos desenhos e novas verdades

passíveis de transformação.

 Indo um pouco mais além - e diríamos, de forma ousada e provocativa -, Peter

Pál Pelbart (1993) sugere que o profissional ‘psi’ possa, enfim, desarrazoar... De acordo

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com o autor, não se trata de gritar novas palavras de ordem em substituição às antigas,

pois,

 a desrazão não é uma nova ideologia, muito menos uma nova tecnologia - mas o

 exercício, no seio do próprio pensar e das práticas sociais, de uma nova forma de

 relacionar-se com o acaso, com o desconhecido [...]. Trata-se de não burocratizar o

 acaso com causalidades secretas ou cálculos de probabilidade, mas fazer do acaso um

 campo de invenção e imprevisibilidade; de não recortar o desconhecido com o bisturi

 da racionalidade explicativa [...]. Trata-se enfim de um pensamento que não transforma

 a força em acúmulo, mas em diferença e intensidade (PELBART, 1993, p.107).

Por conseguinte, o operador da saúde não pode se deixar apaziguar nem deixar de se

surpreender com aquilo que está posto, nem tampouco em adaptar-se à cronicidade do

instituído. Ou ele se adéqua às praticas e instrumentos teóricos pré-estabelecidos e,

dessa forma se identifica maciçamente com os valores institucionais, ou ele tenta

desestabilizar esse lugar neutro e seguro implementado e sustentado pelo poder

hegemônico, resistindo a ele através de uma bricolagem, “usando inúmeras e

infinitesimais metamorfoses da lei, segundo seus interesses próprios e suas próprias

regras” (Certeau, 2005, p.40).

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Capítulo 5

Os pequenos grandes homens

Essas vidas, por que não ir escutá-las lá onde, por elas próprias, elas falam?
60

Dizer as imagens e as palavras – os olhos e as vozes – é a única forma de dar

visibilidade à impossibilidade de sentido de certos acontecimentos.
61

5.1. O silêncio dos sujeitados

 Antes de iniciar este capítulo gostaria de esclarecer que, parte dele, foi elaborada

na primeira pessoa por um simples motivo: se assim não o fizesse, me soaria como algo

artificial, como se alguém estivesse falando por mim... Assim como nós, ‘psis’, muitas

vezes falamos pelo paciente...

 Ao longo de meu trajeto no MJ fui reunindo - sem objetivo definido -, imagens

de alguns homens e mulheres que, por alguma razão me afetavam mais do que as

imagens de alguns outros. Assim, sem muita explicação, me vi nas mãos com histórias

de personagens vivas num mundo quase morto. Histórias que demonstravam um misto

de amargura, desamparo, ódio, ingenuidade, desesperança, alheamento, enfim, histórias

que, para muitos, seriam consideradas ‘histórias de loucura’. E em algum momento do

qual não consigo precisar com exatidão, comecei a perceber que aquelas imagens,

despretensiosamente gravadas ao longo dos anos, poderiam servir como instrumento

facilitador na tentativa de desnaturalizar o que secularmente vinha sendo instituído: a

maneira de se olhar o louco-criminoso. O audiovisual poderia contribuir para a

promoção de novos entendimentos e perspectivas acerca da loucura.

 Como é comum na produção de documentários, nenhum roteiro foi produzido

com antecedência. Tampouco me inquietei em fazer marcações preliminares, nem em

elaborar perguntas pré-programadas ou locais de filmagem previamente determinados.

Não houve preocupação com nenhum detalhe técnico como luz, som, ou

posicionamento de câmera. Sequer houve cenário: o paciente era o cenário mesmo.

60

 A vida dos homens infames. (1977 d, p. 208).
61 Corpos inabitáveis, errância, filosofia e memória, (2001, p. 251).

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Este trabalho de captação de imagem do dia-a-dia dos pacientes do MJ começou

por um desejo em travar uma comunicação informal e mais próxima com o paciente,

liberando-nos, a mim e a ele, do habitual setting terapêutico. A maioria dos encontros

foi gravada no pátio da instituição, no interior das enfermarias, nas saídas extramuros e

alguns, por questões de preservação do próprio paciente
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, foram tomados dentro da sala

de atendimento. As imagens e as conversas iam sendo gravadas sem qualquer objetivo

específico: apenas o de ouvir o que aqueles sujeitos tinham a dizer - ou a não dizer; suas

histórias de vida, o seu cotidiano ou, simplesmente, o que quisessem falar; de que forma

resistiam - ou não - às imposições institucionais. Ao longo dos anos, fui guardando

esses pedaços de histórias, aqui e ali, e decidi valorizar exclusivamente o testemunho

daqueles que, via de regra, são sujeitos considerados como ‘não confiáveis’ e ‘não

privilegiados’, ou seja, priorizei tão somente a palavra dos ‘homens infames’.

Entendo que, ao falar de si, o homem cria possibilidades de resignificar não o

passado, mas o presente mesmo, podendo, assim, transformá-lo, e a simples captação de

suas imagens, por si só, proporcionaria a escuta e o acolhimento do sofrimento daqueles

sujeitos. Assim, acredito que, ao invés de se falar pelo paciente, deveríamos dar-lhe a

palavra. Por conseguinte, minha intenção foi a de criar condições para que eles

pudessem falar por si próprios, ao invés de serem falados por aqueles que usualmente se

apoderam de seus discursos.

Falar por si mesmo, fora do enquadre terapêutico, fora da situação ‘especialista-

paciente’, possibilita ao sujeito sentir-se mais livre para deixar surgir suas outras

facetas, suas histórias de vida - reais ou inventadas -, seus gostos e preferências, seus

sonhos e desilusões. Pelo fato de conhecer os pacientes há muitos anos, a minha

presença nas conversas facilitou o modo como eles se expressaram. Não havia interesse

de em me colocar em um papel de destaque ou de liderança, nem tampouco de me

posicionar de forma neutra, impessoal, ‘superior’, como se fosse detentora de alguma

espécie de poder. Pelo contrário, a captura das imagens se deu de maneira bastante

natural, instaurando-se um modo peculiar de discursividade entre entrevistador e

entrevistado: eram, na verdade, encontros e conversas. Não havia nenhuma intenção,

naquela situação, em entender os motivos que pudessem ter levado o sujeito à execução

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 Como havia livre acesso aos pacientes e, inclusive, toda a liberdade do uso da câmera