Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais92 seguidores
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existência de uma verdade absoluta, estabilizadora,

inquestionável. Em contrapartida, propõe verdades parciais, não definitivas, passíveis de

transformação. Verdades, que se deslocam dos pontos de solda, formando novas

costuras, novas verdades. Sem dúvida, Michel Foucault pensa a história em termos de

descontinuidade, de rupturas, de singularidade, com temporalidades distintas,

utilizando-se da história para romper com o presente, para desnaturalizá-lo. Segundo

advertem Araújo e Fernandes,

[...] o fator singular presente no depoimento oral é que a fonte é constituída por uma

narrativa e que esta consiste na interpretação da experiência vivida, longe da

objetividade e da verdade almejada pela historiografia tradicional [...] o papel do

historiador é justamente tentar ’desnaturalizar’ as construções da memória oficial
(ARAÚJO e FERNANDES, 2006, p. 23).

 Ao se falar em memória oficial
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, lembramos Portelli que, ao longo de suas

pesquisas, optou pelas histórias construídas pelos ‘pequenos homens’, ao invés de se

apoiar na historicização da memória oficial das ‘grandes elites’. Para ele, “a história oral

nos conta menos sobre eventos do que sobre significados. [...] entrevistas revelam

eventos desconhecidos [...] que sempre lançam luz sobre áreas inexploradas da vida

diária das classes não hegemônicas” (Portelli, 1997 a p. 31). E é destas classes não

hegemônicas que a História Oral pretende falar. Ela se propõe a problematizar este

social, insistindo em alguns pontos nevrálgicos que se mantêm invisíveis, escondidos e

geralmente incômodos.

 Da mesma forma pensamos que assim deva ser o papel do profissional ‘psi’

operando no interior das instituições, qual seja, o de tentar desnaturalizar as construções

da memória oficial, o de apontar para os ‘não-ditos’, o de recusar a responder sempre

prontamente ‘porque sempre foi assim’; ao invés disso, ele deverá buscar revelar as

redes de poder , os jogos de verdade, os processos de ocultação dos acontecimentos,

trazendo à tona a vivência pessoal e a subjetividade de cada paciente para enfim,

evidenciar o relato desses ‘pequenos grandes homens’.

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 Segundo Michael Pollak (1989), a memória oficial, geralmente construída intencionalmente, pode

disputar espaço com as chamadas ‘memórias subalternas’, onde o silêncio aparece como uma estratégia
de sobrevivência.

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Daisy Perelmutter (2006) reforça esta idéia, afirmando que “[...] o que a história

oral nos parece trazer de forma caudalosa são as representações da experiência vivida, o

sentido atribuído ao passado pelos próprios sujeitos que o protagonizaram”. Vemos

assim que, o que importa é a maneira como os entrevistados vão contar a história: os

enganos ou as fantasias transformam-se em detalhes riquíssimos de investigação. O

mesmo ocorre com os delírios e alucinações que compõem, por vezes, o relato de alguns

pacientes do MJ. Ouvir o outro é, não só ouvi-lo e valorizá-lo em suas palavras, mas é

também se responsabilizar pelo vínculo formado neste encontro:

É evidente que eu me sinto responsável por aquela favela, por aquelas pessoas do lixo

que eu filmei. Obviamente se é uma imagem decente que eu transmito deles, eu

suponho que vou ser fiel a uma relação com os favelados em geral, com as pessoas do

lixo em geral, etc., mas o importante são aquelas pessoas que tem nome; não é uma

confiança de classe desencarnada, é encarnada em pessoas que foram gentis comigo

(COUTINHO, 1997, p. 170).

Reconhecer o outro, portanto, possibilita ao sujeito se apossar de sua própria

história contribuindo, ele mesmo, para a formação de novas subjetividades. Assim como

Coutinho, temos outros autores que costumam ouvir as histórias dos ‘pequenos

homens’. Em seu documentário, Notícias de uma guerra particular, João Moreira Salles

não mostra a polícia nem o ‘dono do morro’, mas a história comum dos moradores, dos

‘sem história’, dos ‘homens infames’. Assim como o rapper MVBill, que ouviu os

invisíveis ‘falcões’ do tráfico, ao invés dos ‘grandes traficantes’.

 Foi através dos recursos audiovisuais - da fotografia e da filmagem - que

começamos a perceber o quanto eles poderiam contribuir para libertar o sujeito do

destino que já lhes havia sido traçado. Sem dúvida, podendo narrar a sua própria

história, o paciente encontra-se mais disponível a fazer novas movimentações e

prováveis mudanças: a palavra possibilita-o a apropriar-se de sua vida mesma. A

câmera torna-se, assim, a prova daquilo que não pode ser dito nem visto. A partir dela, é

possível passar-se a palavra ao louco - mas não à loucura como uma entidade genérica,

que fique bem claro. Não nos interessa uma narrativa histórica geral que fale sobre a

loucura, mas tão somente nos interessa ouvir a palavra de sujeitos singulares, de

identidades nomeáveis, marcadas nos seus corpos e nas suas almas. Como nos ensina

Eugénia Vilela:

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no testemunho, aquele que se manifesta passa a existir para além de um discurso

legitimado pelos jogos de verdade [...] pois adquire, por um lado, uma dignidade

decorrente da sua condição de homem-memória e, por outro, uma legitimidade e

identidade sociais enquanto portador de história. [...] Dar sentido através dos nomes aos

acontecimentos sem memória é não dizer o outro, mas erguer a voz do outro, é construir

linguagens de resistência (VILELA, 2001, p. 245- 248).

 Dito de outra maneira, o ato de testemunhar, de falar com sua própria voz,

desafia os jogos legitimados pelos diferentes regimes de poder/saber, afirmando-se

como um ato mesmo de resistência. Resistência que cria condições de possibilidade de

produção de novos sentidos, de novos significados, de novas linguagens, e não apenas

aquela produzida pelo especialista ou mesmo pelo conhecimento científico.

 Ao passar a palavra a esses sujeitos, temos apenas uma certeza: a de não se falar

por eles, mas sim, a de oferecer acesso para que suas histórias individuais possam se

destacar sobre aquilo a que foram previamente destinadas. Não é incomum que esses

sujeitos sejam ‘falados’ através da voz do profissional ‘psi’, tanto através de laudos,

como de pareceres, ou ainda na prática mesma de suas relações. O louco, o delinquente,

o demente, o inimputável, o encarcerado, passa a ter nenhuma importância; ele sequer é

ouvido. Fala-se por ele. Mas, se por acaso, vier a tomar a palavra, isto poderá significar

o grande risco dele ser punido.

 Podemos observar esse fenômeno quando, ao definir o que é o MJ a partir de sua

própria experiência vivida lá dentro Anderson fala com a sua própria voz
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. Contudo,

sob outras circunstâncias, a sua palavra poderia ser vista como algo perigoso e,

justamente por não possuir crédito algum, o que o paciente dissesse poderia ser

entendido da forma que melhor aprouvesse à instituição. Neste caso, a saída tradicional

é, presumindo-se ali um sujeito louco e intrinsecamente perigoso, segregá-lo ao silêncio

da tranca.

 Sabe-se que, ao longo dos séculos, a instituição totalitária vem se manifestando

como uma grande expert em calar ou em distorcer a voz do sujeito asilado. Dificilmente

ouvimos relatos provindos dos próprios pacientes quanto ao método de internação a que

são submetidos, quanto às formas de tratamento que lhe são impostas, e quanto aos seus

direitos e deveres a serem cumpridos durante o período de cumprimento da medida de

segurança. Fala-se sobre a loucura, sobre a delinquência, sobre o manicômio, sobre a

prisão, fala-se... Mas não se ouve a voz daqueles que lá habitam.

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 Estamos nos referindo ao seu comentário sobre se o MJ seria um hospital ou uma prisão.

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 Acreditamos na importância da participação do indivíduo no processo de

mudança, no seu reconhecimento como autor e transformador de sua própria história.

Conhecendo