Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais93 seguidores
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mental,

ainda que possam parecer delitos hediondos ou até mesmo inexplicáveis aos nossos

olhos. É preciso não se esquecer que, antes mesmo do ato criminoso, existe uma longa

trajetória de sofrimento mental que, muitas vezes, resulta em transgressão como

consequência da perturbação psíquica manifestada.

 Procuramos mostrar que, ainda que portadores de algum tipo de transtorno,

ainda que confinados e controlados pelos mecanismos da engrenagem institucional,

ainda que tutelados, esses sujeitos - se puderem ser ouvidos - muito têm a dizer. E,

muitas vezes, eles falam o que nós não queremos ouvir. Estes pacientes encarcerados

nos nosocômios são capazes de resistir ao que lhes é imposto e determinado; eles se

mostram, muitas vezes, aptos - ainda que considerados inaptos perante a lei - a dizer não

às formas de dominação e de submissão: é como se a força da resistência fizesse com

que as suas vozes não se calassem. Essas pessoas classificadas como inimputáveis -

diferentemente daquelas consideradas ‘sadias’ -, são capazes de falar com suas próprias

palavras e gestos, não obstante estes nos possam parecer inadequados ou ininteligíveis.

 Ora, por que nos ocorre sempre pensar que a generalidade, o irrefutável, o

evidente, o universal, são o termômetro mesmo da lucidez, da normalidade, da

segurança da sociedade como um todo? Por que, ao contrário, não podemos apostar nas

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diferenças, nas singularidades, ainda que se apresentem excêntricas ou estranhas? Por

que conter e aprisionar aquilo que se apresenta distinto de nós? Por que afastar o

desigual, o bizarro, o inusitado? Recorremos a Michel Foucault, em mais uma de suas

ricas contribuições:

Ali onde se estaria bastante tentado a se referir a uma constante histórica, ou a um traço

antropológico imediato, ou ainda a uma evidência se impondo da mesma maneira para

todos, trata-se de fazer surgir uma “singularidade”. Mostrar que não era “tão necessário
assim”; não era tão evidente que os loucos fossem reconhecidos como doentes mentais;
não era tão evidente que a única coisa a fazer com um delinquente fosse interná-lo

(FOUCAULT, 2010 e, p. 339).

 Evidências, naturalizações, verdades absolutas: faz-se imperioso resistir a elas!

Necessário é que, nem só os pacientes resistam, mas também nós - os operadores da

saúde - possamos nos transformar no embate com as circunstâncias, resistir às injunções que

nos são aplicadas e prescritas e, por fim, sermos capazes de acatar novas formas de

subjetivação. Necessário é - através de uma perspectiva crítica em relação às

normatizações do poder instituído -, desconstruir a lógica institucional, produzindo

novos acontecimentos, novos olhares, novas posturas, enfim, desconstruindo a doutrina

do ‘sempre foi assim’....

 É de conhecimento de todos que qualquer sociedade surge a partir das forças que

resistiram ao poder estabelecido: este se mobiliza, ora para capturar, ora para normatizar

o que resiste. Mas, na verdade, o que move a história é a resistência, e não o poder.

Assim sendo, acreditamos que a resistência é a mola propulsora para toda e qualquer

mudança. Ela é a potência que se insurge sobre as tentativas de dominação que partem

do instituído.

 Ao longo do trabalho, nos foi possível constatar que tanto o paciente quanto o

profissional ‘psi’ são sujeitos capazes de resistir. A ele, profissional, cabe perceber as

tentativas de resistência travadas pelos pacientes, não como transgressão à norma

instituída, mas sim, como trajeto de seu desejo, como uma atitude crítica em direção a

práticas de liberdade, como uma vontade mesmo de viver. Quanto a nós, que possamos

nos definir a nós mesmos, independentemente de funções ou de papéis, mas segundo

uma prática de si sobre si, através da qual possamos nos transformar e atingir um certo

modo de ser, não remetido a uma essência, mas como uma prática de liberdade, com um

espírito permanentemente crítico, resistindo sempre! Assim como nos ensina a filósofa

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portuguesa Eugénia Vilela, quando afirma que “a resistência é uma ética dos que estão

vivos” (Vilela, 2001, p. 25).

 Mas, indagaríamos, em que medida essa prática da resistência se produziria?

 Acreditamos que, primeiramente, há de se estranhar e se recusar o que é

proposto pelo saber como sendo de validade universal - não como se o saber nada fosse

-, mas interrogando sobre que condições e através de que regras esse saber reconhece e

determina o sujeito como alienado ou delinquente. Faz-se mister procurar entender

como e em que medida o louco foi transformado em doente mental, e quais as condições

de possibilidade que o conduziram a essa categoria. Cumpre lembrar o compromisso e a

incumbência do profissional ‘psi’ em problematizar essas questões, muito bem

lembradas pelo pontual comentário de Jurandir Freire Costa:

A ética da psiquiatria termina onde começa a pobreza e o asilo. Nós temos

responsabilidade, em particular a comunidade dita científica, aquele que de direito e de

fato se ocupa de cuidar dessas pessoas. [...] Nós formamos esse grupo de pessoas a

quem a sociedade em geral e o Estado, delegam o poder de tutelar, de tratar, de

conviver com o doente mental e de ter uma palavra de respeito da natureza do que são

suas necessidades, suas saídas, suas dificuldades. Acredito que uma das razões

históricas da situação da doença mental no Brasil é a maneira como a comunidade

científica se relacionou com a loucura (COSTA, 1987).

 Não se trata simplesmente de criticar o saber ou o poder vigente. Importa sim,

problematizar as técnicas e os dispositivos utilizados nos contextos institucionais que

atuam sobre o comportamento dos indivíduos, tentando dirigí-los, normatizá-los,

modificá-los em sua maneira de ser para, finalmente, inscrevê-los nas estratégias de

controle e disciplina. É justamente assim que os jogos de poder tentam governar o

louco, objetivando-o como tal.

 Contudo, acreditando como Foucault, que o poder se manifesta também como

potência de vida, e que toda relação de poder implica em uma estratégia de luta, em uma

insubmissão, pensamos que seja através da resistência mesma que os operadores da

saúde poderão usar seu saber/poder com fins de questionar, provocar e, enfim, demarcar

alvos para uma ação possível. De acordo com o autor, não basta apenas denunciar ou

criticar a instituição, mas, “apresentá-la é a única maneira de evitar que outras

instituições, com os mesmos objetivos e os mesmos efeitos, tomem seu lugar”

(Foucault, 1981, p. 385). Para ele, o problema não é abolir as instituições psiquiátrico-

penais ou as prisões, nem tampouco o de criar o ‘hospital modelo’; o problema, sim, é

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“oferecer uma crítica do sistema que explique o processo pelo qual a sociedade atual

impele para a margem uma parte da população” (Foucault, 1974, p. 296).

 Por conseguinte, cabe a nós, operadores da saúde, o dever e o direito de

interrogar os discursos acerca da verdade e, assim, poder exercer uma atitude crítica

sobre ela. É através dessa resistência que será possível desembaraçar-se das práticas

universais que tentam unificar as condutas em torno de um único modelo de

subjetividade. Para isso, propomos uma reflexão acerca, não apenas da prática exercida

pelo profissional ‘psi’ no campo mesmo do instituído, mas, principalmente quanto à

possibilidade de transformação do seu olhar: do olhar de quem está dentro dos portões

de ferro batido do MJ que, muitas vezes, parece muito semelhante àquele olhar

carregado de pavor e repulsa de quem está no mundo de fora daqueles portões.

 Assim, acreditamos que saídas poderão sempre ocorrer, tanto através da

invenção de táticas e estratégias, ‘bricolagens’, golpes e astúcias – como nos ensina

Michel de Certeau – quanto por intermédio da criação de linhas de fuga que fomentem a

produção de um pensamento crítico, de uma visão reflexiva e de um