Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais93 seguidores
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questionamento a respeito das engrenagens produzidas no campo do instituído.

 Faz-se imperioso abandonar as antigas e cronificadas soluções até então

utilizadas e, em seu lugar, buscar novas práticas, novas maneiras de ser e de fazer,

novas ações para se lidar com o cotidiano institucional, visando uma análise

micropolítica que incite vigor e potência na lógica instituída, podendo-se, assim,

produzir outros modos de subjetivação. Enfim, como afirmou Foucault em um de seus

cursos, é preciso encontrar os pontos de resistência, através do quais as passagens se

façam possíveis. Para isso, é preciso ousar!

 O que não podemos mais suportar é continuar repetindo as antigas práticas

jurídico-institucionais, nem tampouco permanecer atrelados a uma visão arcaica e

obsoleta com relação à loucura. Acreditamos que exista um sujeito por trás da máscara

nosológica conferida ao paciente inimputável e é preciso olhá-lo, considerando-o como

alguém singular, como um sujeito de direito, capaz de respostas e atitudes que não

aquelas preconizadas pela fatídica presunção de periculosidade. Desta feita, somos de

opinião de que a singularidade presente em cada sujeito não pode ser reduzida ao

simples vocábulo de ‘louco-criminoso’, carregado de preconceito e historicamente

construído ao longo dos séculos.

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 Ao final desta dissertação, gostaríamos de acrescentar uma audaciosa e bem-

humorada citação de Peter Pál Pelbart a respeito do trabalho do profissional ‘psi’ nas

instituições totalitárias:

A história mostra que também grandes revoluções às vezes começam em pequenos

laboratórios, na cabeça e na prática de alguns poucos desvairados, na mais microscópica

das agitações. Penso que é esse um dos nossos mais caros alentos. O trabalho diário e a

mão na massa são sempre mais maçantes do que as belas palavras, mas não se deve, sob

hipótese alguma, abdicar das belas palavras, assim como não se deve abdicar das belas

histórias, nem dos belos gestos, muito menos das belas intervenções - o que não dizer

das belas e desvairadas viagens. Sobretudo delas, que num trabalho deste tipo só se

consegue fazer quando se está devidamente acompanhado, isto é, ladeado por uma

equipe audaciosa e tresloucada [...], assumindo o risco de alçar vôos inusitados

(PELBART, 1993, p. 25-26).

 Desse modo, seguindo as ideias de Pelbart e acompanhando Michel Foucault,

consideramos que o profissional atuante no campo ‘psi’ deve renunciar a sua missão

profética e destruir as evidências e universalidades (Foucault, 1979 b), indicando e

localizando brechas, pontos de força, e todas as formas possíveis de resistência: seja

inventando contrapoderes ao poder instituído, seja, como afirma Heliana Conde

Rodrigues (2006), “gerando campos de análise desnaturalizadores, tentando a ruptura

com os cientificismos, profissionalismos e especialismos historicamente cristalizados,”

ou, ainda, singularizando o estilo de viver e criando maneiras facultativas de ser.

 Acreditamos que, ao estabelecermos linhas de fuga que possibilitem a ruptura

dos padrões institucionalizados, poderemos criar relações estratégicas que ampliem e

diversifiquem as possibilidades de inventar novos modos de relação, consigo mesmo e

com o outro. Segundo pensamos, o profissional ‘psi’ - e os demais trabalhadores na área

de saúde - deve problematizar e tentar analisar como acontece o processo de sujeição,

“o conjunto de obstáculos que antecedem à constituição dos sujeitos, [...] como, a partir

de mecanismos sociais complexos que incidem sobre os corpos, foram-se dando

historicamente mil formas de sujeição” (Bruni, 1989, p. 201), dentre elas, a do ‘louco-

criminoso’.

 Para Michel Foucault, faz parte desse entendimento, não apenas a aquisição de

conhecimento científico sobre a loucura, mas, sobretudo, em adquiri-lo através do

discurso daquele considerado como o próprio louco. No diálogo entre Michel Foucault e

Gilles Deleuze em Os intelectuais e o poder, ambos refletem a respeito do fim do

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intelectual universal, do porta-voz dos direitos dos sujeitados, do cientista perito, do

portador de saberes, “daquele que se coloca um pouco na frente para dizer a muda

verdade de todos” (Foucault, 1979, p. 71). Para ambos, não existe maior indignidade do

que se ‘falar pelos outros’. José Carlos Bruni nos alerta para a lógica da produção do

silêncio (dos sujeitados), como sendo o mais forte componente da situação de exclusão.

E é, justamente, ao manter a perpetuação desse silêncio que o especialista impossibilita

“de se considerar sujeito àquele a quem a fala é de antemão desfigurada ou negada”

(Bruni, 1989, p. 201).

 Tendo em conta as problematizações apresentadas nos últimos parágrafos,

optamos por terminá-lo citando parte do primeiro prefácio da complexa obra de Michel

Foucault, História da Loucura.
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Em meio do mundo sereno da doença mental, o homem moderno não se comunica mais

com o louco; há de um lado o homem da razão que delega o médico para a loucura,

autorizando, assim, a relação apenas por meio da universalidade abstrata da doença;

há por outro lado, o homem da loucura que comunica com o outro somente pelo

intermediário de uma razão completamente abstrata, que é ordem, coação física e

moral, pressão anônima do grupo, exigência de conformidade. Linguagem comum não

há; ou melhor, não há mais; a constituição da loucura como doença mental, no fim do

século XVIII, comprova o diálogo rompido, dá a separação como já adquirida, e

afunda no esquecimento todas essas palavras imperfeitas, sem sintaxe fixa, um pouco

balbuciantes, nas quais se fazia a troca da loucura e da razão. A linguagem da

psiquiatria, que é monólogo da razão sobre a loucura, só pode se estabelecer sobre tal

silêncio.

Não quis fazer a história dessa linguagem, mas sim a arqueologia desse silêncio.

67

 Tal prefácio só figura integralmente na edição original, Folie et déraison. Histoire de la folie à l’âge
classique (Paris, 1961). A partir de 1972, ele desaparece das três reedições.

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Capítulo 7

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