Tese de Mestrado
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Tese de Mestrado

Disciplina:PSICOLOGIA E INSTITUIÇÕES16 materiais94 seguidores
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do delito. Ainda, segundo a

autora, a Psiquiatria surge como instrumento de transformação do louco em doente

mental e, a sua história se confunde com a história mesma do Direito Penal. A medicina

psiquiátrica passa a intervir na modulação da pena e com isso, cada vez menos, os

conceitos por ela utilizados tornam-se de caráter médico: surge a figura, cunhada por

Foucault, do médico-juiz, , aquele que pretende tratar, julgando. Conforme leciona o

autor, a psiquiatria para se justificar como poder e ciência da higiene pública - e,

portanto, de proteção social -, precisa mostrar que é capaz de perceber um certo perigo,

mesmo onde nenhum outro possa ver (Foucault, 2001).

 Assim, no decorrer do século XX, organiza-se efetivamente um poder médico-

judiciário que leva o indivíduo diante de um tribunal não apenas com o seu crime: ele

vai acompanhado de um exame psiquiátrico, o qual que diz muito mais respeito ao tipo

de vida que este sujeito está submetido, ao seu comportamento disciplinar, à sua relação

com seus subordinados dentro do cárcere, enfim, ao nível de perigo que ele ainda possa

representar, do que, na realidade, ao próprio ato por ele cometido. Segundo Cristina

Rauter, passa-se a exercer um tipo de controle mais amplo e eficiente:

Enquanto a justiça só pode agir sobre o delito quando este já tiver sido cometido, a

psiquiatria aparece como capaz de prevê-lo em função de critérios de periculosidade

definidos ‘cientificamente’. O ato criminoso torna-se resultado inevitável de uma
condição mórbida que já se esboçava desde a infância. A criminalidade atravessa a vida

do indivíduo, o crime é sempre uma virtualidade (RAUTER, 2003, p. 113).

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 Vê-se, destarte, a produção de um discurso criminológico sobre a figura do

louco-criminoso que, desconhecida pelos juristas, passam estes a contar com a

intervenção da psiquiatria para assessorá-los, resultando, assim, na profícua união entre

o direito e a medicina que, agora, funcionam juntos como a principal defesa à sociedade

contra essa figura estranha e obscura do louco-criminoso.

 Conforme pensamos, a noção de medida de segurança perde a sua especificidade

como medida de tratamento e ganha contornos puramente jurídicos. Nota-se, neste caso,

que a psiquiatria - e por que não dizer também a psicologia -, funciona como uma

prática essencialmente disciplinar, coercitiva e produtora de subjetividade: em seu nome

o sujeito inimputável não só é produzido como também é condenado. Como já

dissemos, é o manicômio o lugar que lhe é destinado. Detenhamo-nos um pouco sobre

ele - o MJ.

 O Manicômio Judiciário (MJ)
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 é um hospital psiquiátrico-penal, que custodia

em sistema de reclusão, sob regime fechado, indivíduos portadores de sofrimento

mental que cometeram crime. Sua população é composta por cerca de 200 pacientes,

sendo a grande maioria masculina. Ao longo dos anos lá trabalhados, constatamos que o

MJ abriga uma série distinta de pacientes portadores de transtorno mental, que se

distribuem em uma escala que varia, tanto de acordo com o tipo de delito cometido,

quanto com o nível de seu comprometimento psíquico. Assim, poderíamos observar,

por um lado, desde as expressões mais brandas de esquizofrenia, até as mais sérias e

agudas formas de psicose, como também uma variação entre alguns tipos de delito

considerados leves até aqueles classificados como mais graves. Estes indivíduos,

considerados por lei como sendo inimputáveis, encontram-se incursos no Art. 26 do

Código Penal
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, que afirma ser

isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto

ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o

caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. A pena

pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente em virtude de perturbação de saúde

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 Apesar da mudança ocorrida em sua nomenclatura a partir do falecimento de Heitor Carrilho, em 1954

- passando a ser nomeado de hospital ao invés de manicômio -, optei por manter a utilização de

Manicômio Judiciário, usando a sigla MJ, por acreditar que desta forma estaria sendo mais fiel à idéia

mesma que ele representa. Parece-nos que de nada adiantaria mudar-se o nome se a prática continua

sendo a mesma.
21

 O Código Penal vigente é ainda o de 1940, ao qual foram feitas algumas alterações através da Lei de

Execuções Penais 7.209/84.
Entretanto, ainda permanece a mesma orientação no que se refere à atuação

frente ao doente mental.

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mental ou por desenvolvimento mental incompleto ou retardado, não era inteiramente

capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse

entendimento (Decreto-Lei 7209 de 11 de Julho de 1984, Código Penal Brasileiro).

 Uma vez enquadrados no artigo 26 do Código Penal, os mesmos serão

absolvidos de seus crimes, mas pesará sobre eles uma nova modalidade de apenação - a

‘medida de segurança’ - que será, no próximo subcapítulo, problematizada.

2.3.2. O surgimento da Criminologia e suas confusas terminologias

 O termo Criminologia foi criado por Raphael Garófalo, como sendo a ciência da

criminalidade, do delito e da pena. Baseada na observação e nos fatos, a criminologia

tratava de explicar a origem da delinquência. Garófalo concebeu sua concepção de

delito natural partindo da ideia lombrosiana do ‘criminoso nato’. Este conceito apareceu

em 1871 com a publicação da obra L’Uomo delinqüente de Cesare Lombroso, que

acreditava ser o criminoso possuidor de uma série de estigmas anatômicos indicadores

de certas anomalias.

 As ideias defendidas por Lombroso acerca do ‘criminoso nato’ professavam que,

pela análise de determinadas características somáticas seria possível antever aqueles

indivíduos que se voltariam para o crime. Lombroso – médico de pensamento

positivista - realizava estudos de anomalia craniana nos estabelecimentos prisionais

italianos, tentando responder às questões deterministas a partir da chamada

antropometria
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 criminal. Para ele, o individuo criminoso tinha em sua face – e o autor

acreditava que o rosto era o ‘espelho da alma’ –, aquilo que dizia respeito ao próprio

crime, a algo intrínseco à subjetividade e ao corpo desse sujeito, que seria, então,

criminoso por essência. O delinquente era considerado um ‘louco atávico’ que produzia

os instintos de seus ancestrais mais primitivos.

 Foi por exemplo, através da comparação das medidas do corpo humano que

cientistas do século XIX chegaram à conclusão de que o negro era inferior ao branco

por possuir um cérebro menor do que aquele. As pessoas já não eram definidas apenas

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 Processo ou técnica de mensuração do corpo humano ou de suas várias partes. (Novo Dicionário

Aurélio)

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pela cor da pele, ou pelo ângulo facial. Começaram a surgir maneiras cada vez mais

refinadas de classificação, que isolavam e estigmatizavam aqueles que não cumpriam o

padrão pré-estabelecido pela sociedade de classes. A ciência passa a classificar o sujeito

com fins de controle e segregação. Aqueles conotados como diferentes, ocuparam e

ocupam na historia e nas relações de poder, um lugar à margem, à exclusão.

 A partir daí, todas as pesquisas científicas dobrariam seus esforços para

demonstrar que os comportamentos antissociais provinham essencialmente de causas

orgânicas e, até mesmo o crime, deveria ser explicado por meio de fenômenos causais.

Órgãos internos e externos eram avaliados com o objetivo de relacionar suas lesões às

manifestações da alienação mental. A maioria dos documentos clínicos traz descrição

minuciosa desses caracteres morfológicos, sendo registrados também os traços físicos

indicativos de degeneração.

 Em uma das conferências proferidas por Franco Basaglia, quando de