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EXPRESSÃO DO CORPO E MUSICALIDADE UNIASSELVI-PÓS Autoria: Hairlaine Treici Freitas Indaial - 2020 2ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Jóice Gadotti Consatti Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Marcelo Bucci Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2019 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: F866e Freitas, Hairlaine Treici Expressão do corpo e musicalidade. / Hairlaine Treici Freitas. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 130 p.; il. ISBN 978-65-5646-028-4 ISBN Digital 978-65-5646-029-1 1. Expressão corporal. - Brasil. 2. Musicalidade. – Brasil. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 792.028 Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 Expressão e Consciência Corporal ........................................... 7 CAPÍTULO 2 Estudo do Movimento ................................................................. 49 CAPÍTULO 3 Ritmo X Musicalidade .................................................................. 87 APRESENTAÇÃO Ao longo dos nossos estudos, veremos a evolução da prática corporal do movimento em seu contexto histórico, a expressão e a consciência corporal, bem como os processos metodológicos do ensino do movimento. É necessário compreender a diferença entre expressão e consciência corporal para poder entender o quanto a expressão corporal é importante para o estudo do movimento. Enquanto a expressão corporal diz respeito ao gesto, a consciência corporal diz respeito ao entendimento que temos do próprio corpo. Para compreender como nos expressamos corporalmente, é necessário entender a evolução e o processo histórico dentro do movimento corporal. Veremos ao longo deste material, os processos históricos e as modificações que a estrutura de movimentação e a dança construíram ao longo dos anos. Além de ter todo o entendimento a respeito da história e da diferenciação entre expressão e consciência corporal, desenvolveremos a nossa compreensão a respeito de como funciona o processo de ensino do movimento corporal. Teremos, portanto, modelos e exercícios para que, não somente na teoria, mas também com a prática, seja possível compreender um planejamento de aula tendo em vista a expressão corporal. Vamos começar? Bons estudos! CAPÍTULO 1 Expressão e Consciência Corporal A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: • compreender a prática corporal e a expressão corporal no processo de ensino- aprendizagem; • conhecer a história da dança e sua evolução contextualizando com os períodos históricos; • entender como se dá a dança enquanto prática corporal; • diferenciar expressão corporal de consciência corporal. 8 Expressão do Corpo e Musicalidade 9 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 1 EXPRESSÃO E CONSCIÊNCIA CORPORAL Quando utilizamos a expressão consciência corporal, apesar de entendermos que essas palavras juntas já explicam um pouco o sentido, ainda nos perdemos a analisar a dicotomia entre consciência corporal e expressão corporal. Todos compreendemos, mesmo que basicamente, como movimentamos o nosso corpo e dessa forma todos possuímos alguma consciência corporal. Porém vamos nos questionar o seguinte: por que precisamos desenvolver a consciência corporal? A consciência corporal é a linguagem básica humana e, antes de nos comunicarmos através da fala, já a utilizávamos. Através de expressões de choro ou o clássico “fazer beiço” do bebê já são expressas as primeiras necessidades dele, como a fome. Já através do bocejo ou apertar de olhos, o bebê expressa que tem sono. Cada corpo possui seus próprios signos para comunicar sentimentos e emoções. Essa capacidade humana é chamada de expressão corporal. Segundo Brickman (1989), a expressão corporal é o modo natural pelo qual os seres humanos revelam suas peculiaridades. Ainda de acordo com o autor, essa habilidade pode ser ensinada e desenvolvida, sendo reconhecida enquanto uma disciplina. Como disciplina, ela busca resgatar, cuidar e desenvolver as potencialidades humanas inerentes ao movimento corporal. Já a consciência corporal é a consciência que temos do nosso próprio corpo. Não se constitui em uma disciplina, porém, pode ser desenvolvida por meio de técnicas e práticas corporais. Portanto, para desenvolver a consciência corporal, devemos explorar as possibilidades de movimento, como o controle e a expressão corporal. Conhecer um pouco sobre a estrutura corporal anatômica (os músculos, ossos e órgãos) contribui para o desenvolvimento da expressão corporal. Compreendendo assim não somente conceitualmente, mas também sensorialmente através da exploração das possibilidades corporais o que desenvolverá o conhecimento sobre nosso próprio corpo. Não existe um objetivo definido quanto ao modelo que queremos chegar, não existe um “conhecer perfeito” do corpo, inclusive porque temos corpos variados e conhecer essa diversidade e suas especificidades é muito importante dentro desse processo. Assim compreendemos que nosso corpo é único e, portanto, tem suas particularidades. Para desenvolver nosso corpo e sua expressão, necessitamos possuir 10 Expressão do Corpo e Musicalidade algumas habilidades corporais, por isso os trabalhos de alongamento e força são importantes no desenvolvimento da expressão corporal para obtermos mais consciência do corpo. Estas duas qualidades corporais: força e alongamento possibilitarão a realização, de maneira mais eficiente, de gestos e movimentos, porém a expressão não se vincula diretamente à potência muscular. Quando pensamos em gesto, tendemos a pensar muito no movimento de mãos e braços e não lembramos de rosto, pés, coluna, entre outros. O nosso corpo se expressa de muitas maneiras e é importante conheçamos todas as possibilidades expressivas corporais. Está a expressão ligada à emoção? Sim, porém, controlar as emoções é parte do processo de aquisição da consciência corporal. Conhecer nossos limites e possibilidades nos permitirá ampliar a qualidade da nossa comunicação como um todo. Tanto a expressão quanto a consciência corporal são fundamentais para o ser humano. No entanto, enquanto uma permite o relacionamento com o ambiente externo, a outra envolve a nossa relação pessoal com o corpo, portanto, é uma relação interna. As técnicas para desenvolver cada uma são muito diferentes. Na expressão corporal, são desenvolvidas as habilidades comunicativas do movimento por meio de mímica, interpretação, teatro e dança. A consciência corporal, por sua vez, utiliza práticas diversas para o reconhecimento do corpo. É o conhecer a si mesmo, as habilidades que o corpo possui, como ele se movimenta, as potencialidades existentes e suas limitações. Portanto, com a expressão corporal e aulas direcionadas para aprender a se expressar, acabamos conhecendo mais a respeito do nosso próprio corpo. Vamos conhecer as duas em suas singularidades na sequência. 1.1 EXPRESSÃO CORPORAL De onde vem o termo “expressão corporal”? Expressão vem do latim expressiõnis que está associada ao adjetivo exprimere. Pensando nessa palavra, temos o seguinte: o prefixo ex refere-se a colocar para fora, externar; e primere relaciona-se com pressionar. Logo, o significado da expressão seria colocar para fora de maneira pressionada.11 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Você sabia? Muitos países e povos possuem suas regras e normas referentes à linguagem corporal, que muitas vezes, é uma disciplina escolar. Na Itália a linguagem de mãos é chamada de Quirologia. Na cultura italiana existe uma complexa gama de mãos, cada gesto possuindo uma expressão, um “dizer”. Já se catalogou 200 gestos na Itália e acredita-se que esse costume se deu para que os antigos italianos pudessem se comunicar sem que os invasores compreendessem sua linguagem durante a invasão de austríacos e espanhóis. Acredita-se que esse costume já vinha da Grécia Antiga e foi mais desenvolvido pelos italianos no período em que eles tiveram seu país invadido pelos austríacos e espanhóis. Já o termo corporal vem do latim corporãlis que obviamente relaciona-se com corpo do latim corpus. O sufixo al provém do latim ãlis que significa pertencer a. Portanto é aquilo que pertence ao corpo. Então expressão corporal seria colocar para fora aquilo que pertence ao corpo. Pensando na relação com pressionar, seria aquilo que externalizamos do corpo quando algo nos pressiona. Portanto, quando nos sentimos pressionados por uma emoção interna, o nosso corpo se comunica através da expressão corporal. Esclarecendo: o nosso corpo através de gestos e movimentos é capaz de comunicar sentimentos, ideias e emoções sem o uso da fala ou da escrita. Existem algumas expressões que são espontâneas e, claro que com trabalho, podemos desenvolver um controle destes gestos. No teatro é possível desenvolver técnicas expressivas para serem utilizadas no dia a dia. Temos ainda a dança e a mímica como elementos artísticos que nos auxiliam no desenvolvimento da expressão corporal, que torna aquele gesto espontâneo uma técnica para comunicar artisticamente algo. Nos esportes também fazemos uso da expressão corporal como na ginástica rítmica; na patinação artística; em algumas atividades de relaxamento e concentração, como a ioga; ou nas artes marciais, como o tai chi. Muitas vezes ela também é utilizada como meio terapêutico. Na década de 40, nos Estados Unidos, surgiu a dança terapia que rapidamente se alastrou pelo mundo como uma prática muito procurada para aliar relaxamento, expressão e tonicidade. A proposta na qual houve a união entre dança e psicologia, incialmente, foi realizada em pacientes com transtornos mentais que se mostrou muito eficaz. 12 Expressão do Corpo e Musicalidade FIGURA 1 – ITALIANO GESTICULANDO FONTE: <https://pt.dreamstime.com/homem-consider%C3%A1vel- novo-que-mostra-o-gesto-italiano-significa-voc%C3%AA-querem-sobre- fundo-branco-image129214821>. Acesso em: 6 nov. 2019. Como podemos desenvolver a expressão corporal? Que tipo de aula é própria para a expressão corporal? De acordo com Ribeiro (2019), desenvolver uma prática rítmica criativa permite que a habilidade seja desenvolvida. Tanto as brincadeiras cantadas como as danças de roda, por exemplo, permitem ao professor explorar e desenvolver a expressão corporal com as crianças dentro das aulas de Educação Física. As práticas constituem uma importante atividade educativa, pois, por meio delas, a criança consegue experimentar movimentos expressivos em um espaço social coletivo. Além disso, explorar com outras crianças permite o desenvolvimento de símbolos corporais que perdurarão pela vida toda. De acordo com Ribeiro (2019), as brincadeiras, as danças populares e a dança acadêmica são exercícios corporais que permitem o desenvolvimento de um corpo expressivo. Dessa forma, podemos entender que a expressão corporal é o início do ato de dançar. Isso porque, desenvolvendo a expressão e criando movimentos, o indivíduo pode experimentar a dança significativa. Para Ribeiro (2019), o corpo é, então, o instrumento de maior comunicação com o mundo. Portanto, mais do que uma prática corporal específica, a expressão corporal está associada a diversas práticas corporais tanto na sua relação com a dança como na comunicação dentro da perspectiva de linguagem não verbal, o que chamamos de linguagem corporal. 13 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Você conhece quem está fotografado na figura a seguir? FIGURA 2 – KLAUSS VIANNA FONTE: A autora Conhecido como o introdutor da expressão corporal no Brasil, Klauss Vianna desenvolveu seu trabalho principalmente na área do teatro brasileiro sendo o preparador corporal de atores para que eles desenvolvam melhor a consciência de seus corpos e para que tenham uma melhor expressão para atuar através da fala e de gestos. Ele escreveu e datilografou um documento chamado expressão corporal no qual desenvolveu o pensamento em relação a esse tema. Para Klauss, ter consciência de suas próprias emoções estava sempre relacionado a ter consciência do seu corpo e, portanto, as nossas emoções ficavam refletidas na imagem do nosso corpo. Foi um grande pesquisador da anatomia humana e vinculava a musculatura, o ar e ações dos estados físicos e psíquicos com a expressão corporal. Escreveu a movimentação corporal que se relaciona com os sentimentos como medo e ameaça, alegando que, toda vez que o indivíduo se sente assim, ele se contrai com 14 Expressão do Corpo e Musicalidade o fim de se proteger. Seu trabalho sempre esteve vinculado à relação física criativa e artística do corpo, proporcionando a expressão do homem. Ele acreditava que através de um método no qual corpo e mente dialogam era possível recuperar atenções físicas e emocionais. Através de sua pesquisa e de outros pesquisadores que seguiram apropriando- se do que ele já havia pesquisado, foi possível compreender melhor a expressão corporal humana relacionando-a com uma prática terapêutica capaz de resolver os problemas do interno humano. 1.2 CONSCIÊNCIA CORPORAL O autoconhecimento corporal é a consciência corporal e a utilizamos para a realização de todo tipo de atividade, seja cotidiana ou para a prática de exercícios físicos. Com a consciência corporal, além de saber o potencial corporal que possui, o indivíduo também aprende a respeito dos limites, ou seja, até onde seu corpo pode ir em um esforço físico. Esse conhecimento é fundamental para os indivíduos em qualquer faixa etária. Conhecer nosso corpo envolve compreender nossos movimentos, nossa relação com o ambiente e com a música. Entender como o corpo funciona evita lesões, traz maior qualidade e funcionalidade ao corpo. Isso porque, com a consciência corporal, melhoramos nossos esquemas corporais. Algumas práticas nos permitem conhecer mais o funcionamento do corpo, como a ioga, o pilates, o RPG, a própria dança e, principalmente, durante aulas de expressão corporal. Contudo, vale ressaltar que toda atividade física realizada com atenção é capaz de desenvolver uma melhor percepção corporal. Em um processo pedagógico de dança, são explorados os aspectos sociais, temporais e expressivos (RIBEIRO, 2019). Assim, uma das melhores formas de explorar o corpo, percebê-lo e desenvolver o autoconhecimento corporal é por meio da dança. Existem atividades que proporcionam um melhor desenvolvimento da consciência corporal. Autoconhecer-se é fundamental para se ter qualidade de vida porque, através desse conhecimento, entendemos também aquilo de que gostamos e não gostamos e, através desse autoconhecimento, ganhamos mais consciência corporal. É, portanto, a habilidade de conhecer o próprio corpo que chamamos de consciência corporal e essa deve ser desenvolvida desde a infância. 15 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Conhecer o próprio corpo nos permite aproveitar melhor suas potencialidades, mantendo, dessa forma, uma boa saúde. Quanto mais consciente realizamos práticas do nosso cotidiano, como sentar, levantar, subir escadas, caminhar e correr, menor será a chancede termos lesões e por isso a consciência corporal é tão fundamental. 1.3 RITMO OU TEMPO Ribeiro (2019) nos explica que o ritmo se refere à capacidade de o ser humano compreender, organizar e interpretar estruturas temporais contidas no movimento. Ele se refere diretamente a uma capacidade do sistema nervoso central, por isso, está classificado como uma capacidade coordenativa. Nesse contexto, temos que o nosso corpo é portador de um ritmo biológico, sendo que os movimentos musculares involuntários o produzem. Assim, nosso corpo é como uma orquestra afinada e em grande sincronia. A menção na morfologia da palavra ritmo origina-se no termo grego rhythmo que significa sucessão regular de tempos fortes e fracos em uma frase musical. É, portanto, o ritmo que define o valor das notas de acordo com a intensidade e o tempo delas. Muitas vezes falamos em ritmo utilizando a denominação cadência, portanto, quando falamos: “somos cadenciados”, estamos falando que a música está no ritmo. Relacionando com a música, vemos que o ritmo está diretamente ligado a ela, porém, muitas vezes, podemos denominar como ritmo outras formas de arte como a poesia declamada, tendo em vista a forma como distribuímos as sílabas e utilizamos tempos fracos e fortes durante o verso da poesia. A palavra ritmo muitas vezes é usada para explicar a velocidade. Quando dizemos que algo está em um ritmo acelerado, estamos escrevendo que está se movendo rápido, agindo rápido. Já ao utilizá-la na seguinte expressão: ele diminuiu seu ritmo no trabalho, denota-se que alguém está trabalhando menos, fazendo então uma relação com quantidade. Podemos classificar o ritmo em: • ritmo musical: quando relacionamos harmonia e melodia de instrumentos musicais; • ritmo sinusal: está diretamente ligado ao primeiro instrumento do homem que é o seu próprio coração e relaciona-se com a frequência cardíaca portanto. 16 Expressão do Corpo e Musicalidade Falando em ritmo, não podemos deixar de relacionar que dentro do ritmo não temos somente som, temos também um silêncio. A relação entre som e silêncio é que dita o ritmo de algo. Ainda dentro de ritmo, constantemente, utilizaremos o conceito de compasso que se relaciona com os assentos que as notas musicais terão durante a composição musical. Vamos analisar uma situação problema: a dança como prática corporal: expressão e consciência corporal. Tanto a expressão corporal quanto a consciência corporal são fundamentais para o ser humano. Todavia, enquanto uma permite ao ser humano se relacionar com o ambiente externo, com as outras pessoas, a outra envolve a nossa relação pessoal com o nosso corpo, portanto, é uma relação interna. As técnicas para desenvolver cada uma são, portanto, muito diferentes. Na expressão corporal são desenvolvidas as habilidades comunicativas do movimento através de mímica, interpretação, teatro e dança; enquanto a consciência corporal utiliza-se de práticas diversas para esse reconhecimento do corpo. É o conhecer a si mesmo, conhecer as habilidades que nosso corpo possui, como ele se movimenta, as potencialidades e limitações existentes nele. A expressão corporal é então uma das práticas corporais para se conquistar maior consciência corporal. Através da expressão corporal e de aulas direcionadas a aprender a se expressar, acabamos conhecendo mais do nosso próprio corpo. Aprendemos como ele pode transmitir aquilo que sentimos e a maneira com que sentimos cada emoção. São, portanto, dois aprendizados diferentes, enquanto a expressão corporal refere-se a aprender a transmitir o que sentimos, consciência corporal refere-se a aprender sobre como nosso corpo funciona em suas capacidades e potencialidades. Vamos praticar: muitas vezes expressão corporal é confundida com consciência corporal. Apesar de parecerem ter a mesma definição, existem diferenças entre elas como você já aprendeu. Vamos imaginar que você é proprietário de uma escola e os futuros alunos/clientes têm questionado a secretaria da escola a respeito de aulas de expressão OU consciência corporal. Como excelente diretor que é, você montará um folder explicativo para que os alunos compreendam as diferenças entre as definições de expressão e consciência corporal, além de uma explicação sobre em que consiste uma aula de expressão corporal e como pode ser desenvolvida a consciência corporal. Faça esse folder em Word e compartilhe no fórum. Sugestão da proposta: dança como prática corporal: expressão e consciência. Enquanto expressão corporal é a linguagem corporal por meio da qual 17 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 demonstramos nossas emoções, consciência corporal é o conhecimento do seu próprio corpo. Uma aula de expressão corporal é, portanto, uma aula que aborda as possibilidades corporais para transmitir o que sentimos. Já para desenvolvermos consciência corporal, diversas práticas podem contribuir com esse aprendizado, tais como: ioga, pilates, ginásticas e dança. Para criar um folder eficiente, deve-se levar em consideração que sua estrutura é mais complexa que um panfleto, pois envolve mais conteúdo. Ele é, usualmente, escolhido quando temos maior volume de informações para transmitir, uma vez que as dobras facilitam a organização do fluxo de textos e imagens. Assim, no folder não há limitação de tamanho, fator flexível em função da quantidade de conteúdo. Temos, então, que o folder é dividido em três partes: • texto explicativo sobre que se pretende apresentar, que, no caso, seria a proposta de aula; • imagem atrativa que represente o que se pretende divulgar; • informações como local, hora e nome do professor e da escola. Como qualquer outro impresso, ele pode ter caráter institucional ou promocional. Muitas vezes, unimos as informações em um único material. No entanto, é indicado sempre tomar cuidado para não deixar seu folder muito carregado e/ou desviar do objetivo da divulgação. Lembre-se de que o folder é o item de captação, por isso, quanto mais o seu público sente que as informações atendem as suas expectativas, mais conseguirá conquistá-lo. Veja na figura a seguir um modelo de folder. FIGURA 3 – FOLDER FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-vector/stationary-a4-folder- branding-identity-mockup-1326733103>. Acesso em: 6 nov. 2019. 18 Expressão do Corpo e Musicalidade Você sabia? Nosso coração é um órgão ritmado, sendo esse observado e corrigido, caso saia do padrão, pelo marca-passo. Cada pessoa tem um marca-passo natural, o qual contém um gerador de impulsos elétricos com até três eletrodos. Esses são fios elétricos que conduzem o impulso gerado pelo marca-passo até o coração. Caso haja algum problema com esse sistema, arritmias ou bradicardias podem se instalar. Disponível em: <https://mundoeducacao.bol.uol. com.br/saude-bem-estar/marcapasso-artificial.htm>. Acesso em: 6 nov. 2019. FIGURA – CORPO HUMANO COM MARCA-PASSO FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/medical-illustration- permanent-pacemaker-implant-3d-1487085152>. Acesso em: 6 nov. 2019. 19 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 De acordo com Ribeiro (2019), o ritmo faz parte da natureza comunicativa humana, por isso, ritmo e movimento estão diretamente relacionados. Já a intenção, conforme Ribeiro (2019), refere-se ao exercício da expressão corporal. Essa, por sua vez, diz respeito à linguagem do ser humano na expressão de sentimentos, na comunicação e na consciência do próprio corpo. 1.4 PLANOS E DIREÇÃO NA DANÇA A direção, o plano e a dimensão são pontos fundamentais nas estruturas da dança. Essas constituem o que chamamos de estruturas espaciais. Para Ribeiro (2019), o espaço na dança é compreendido pelo domínio dessas estruturas. A direção se refere ao percurso do corpo no espaço. Seu ponto de início é no centro do corpo, sendo que as direções podemser para frente, para trás, para a esquerda, para a direita, para as diagonais e para cima ou para baixo. FIGURA 4 – VARIAÇÕES DAS DIMENSÕES RELACIONADAS ÀS DIREÇÕES DOS MOVIMENTOS NA DANÇA FONTE: Ribeiro (2019, p. 128) Os planos, por sua vez, são os níveis de altura nos quais o movimento é realizado, tendo como referência a linha média da cintura. Eles podem ser altos, médios e baixos. Já a dimensão está relacionada à extensão que o corpo adquire durante o movimento. Ela é determinada por forças de oposição, quando o movimento recebe altura e profundidade. Dentro desses conceitos, temos, portanto, a kinesfera, que é tudo aquilo que podemos alcançar com todas as partes do corpo, tendo em vista uma esfera que envolve o corpo humano. E, dentro do conceito de movimento em relação à esfera que envolve o corpo, temos: Largura Larfo/Estreito Altura Alto/Baixo Profundidade Frente/Atrás 20 Expressão do Corpo e Musicalidade • a relação de fluxo que se refere às tensões musculares com a qual o movimento é realizado; • a fluência do movimento e seus graus de atenção; • os movimentos de giro que são os movimentos de suspensão para voltar o corpo no próprio eixo, utilizando equilíbrio e desequilíbrio; • os autos que utilizam os eixos verticais e horizontais, movimentando o corpo sem uso de apoio em que o corpo fica suspenso no ar, podendo ser realizado com um pé, dois pés ou com apoio de uma outra pessoa; • o conceito de eixo que parte, principalmente, do centro do corpo como estes de movimentação, sustentação e equilíbrio; • a relação de peso que envolve as forças utilizadas para movimentar o corpo. Ainda pensando em movimento, temos o conceito de espaço que é a relação entre o corpo e o meio em relação ao seu próprio corpo ou em relação a outro corpo ou objeto. No conceito de espaço, veremos também o conceito de níveis que relaciona-se com as alturas utilizadas para se realizar os movimentos, por exemplo, ao realizar um movimento de salto, utilizamos o nível alto acima da cabeça ou, quando utilizamos o movimento rastejar pelo chão, utilizamos o nível baixo, pois estamos trabalhando abaixo do nível da cintura. Dentro das possibilidades de movimento, temos a dimensão e a direção. A dimensão relaciona-se com a orientação no espaço e os planos que são: plano da mesa, plano da porta e plano da roda. Já a direção relaciona-se com a trajetória na qual nos movimentamos no espaço. É, portanto, o termo que utilizamos para explicar o sentido para onde vamos nos movimentar. As seis direções dimensionais são os elementos mais básicos para a orientação espacial, elas são: frente; trás; direita; esquerda; cima e baixo. Já as doze direções diametrais são: direita-alta; esquerda-baixa; esquerda-alta; direita- baixa; direita-frente; esquerda-trás; esquerda-frente; direita-trás; frente-alta; trás-baixa; trás-alta; frente-baixa. Temos ainda as oito direções diagonais: alto- direita-frente; baixo-esquerda-trás; alto-esquerda-frente; baixo-direita-trás; alto- esquerda-trás; baixo-direita-frente; alto-direita-trás; baixo-esquerda-frente. Referente ao conceito de movimento, ainda temos deslocamento que é o ponto para o qual você se desloca na dança, que pode ser realizada de diversas formas, como andando, correndo ou sendo arrastado e pode ter várias linhas, ser reto, curvo, individual ou em grupo. Por fim, temos o tempo que está relacionado com a velocidade com que são executados os movimentos, podendo ser rápido, moderado e lento. Muitas vezes o tempo é chamado de qualidade do movimento. 21 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 1.5 CORPO NA DANÇA O corpo é o instrumento principal na orquestra da dança. Sem ele, o bailarino não possui o item fundamental para transmitir as mensagens que deseja. Para uma execução de dança, é imprescindível que conheçamos esse instrumento, o que inclui aspectos anatômicos e cinesiológicos. Você sabe explicar, por exemplo, como um corpo, com seus ossos rígidos, pode se movimentar? Para que isso ocorra, as protagonistas da função são as articulações. De acordo com Haas (2011), elas são conexões entre dois ossos. QUADRO 1 – MOVIMENTOS ARTICULARES Ação Movimento Exemplo Flexão Dobrar uma articulação Flexão do quadril: a região an- terior do quadril se dobra no grand battemente devant Extensão Retificar uma articulação Cotovelo se estende na posição de flexão no solo Abdução Afastar do centro Braços à la seconde: movi- mento a partir dos lados do corpo para a segunda posição Adução Aproximar do centro Assemblé: aproximação dos membros inferiores Rotação lateral Rodar para fora Turnout: grand plié em segun- da posição Rotação medial Rodar para dentro Articulação do ombro roda me- dialmente para apoiar a mão no quadril 22 Expressão do Corpo e Musicalidade Flexão plantar Abaixar a planta do pé Relevê na ponta Dorsiflexão Levantar o dorso do pé Apoio do calcanhar no solo, le- vantando-se o ante pé FONTE: Haas (2011, p. 2) Dividindo o corpo em regiões, temos a cabeça, o tronco, os membros superiores e inferiores. Vamos entender melhor cada uma delas? Vejamos! • Cabeça: os movimentos são realizados pela articulação do pescoço e coluna cervical. Os movimentos são de flexão/extensão, flexão lateral, rotação e circundução. • Tronco: suas articulações são as vértebras, que compõem a coluna vertebral. Os movimentos realizados são de flexão/extensão, flexão lateral, rotação, circundução e translação. • Membros superiores: muitas são as articulações envolvidas aqui. O ombro e a cintura escapular realizam os movimentos de elevação/ depressão, retração/protração, adução/abdução, flexão/extensão, rotação interna/externa e circundução. Já os cotovelos realizam os movimentos de flexão/extensão e supinação/pronação. Temos, ainda, o punho, com movimentos de flexão/extensão, inclinação ulnar/radial e circundução. Por fim, há os artelhos das mãos, com movimentos de flexão/extensão, adução/abdução e circundução. • Membros inferiores: entre as articulações envolvidas aqui, temos o quadril e a pelve. Os movimentos executados são de anteversão/ retroversão, flexão/extensão, rotação interna/externa, abdução/adução, inclinação lateral e circundução. Ainda temos os joelhos com flexão/ extensão e tornozelos com movimentos de dorsiflexão, flexão plantar, adução/abdução e circundução. Assim como nos membros superiores, há os artelhos, porém dos pés, com movimentos de flexão/extensão, abdução/adução e circundução. 23 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 FIGURA 5 – REGIÕES DO CORPO E SEUS MOVIMENTOS FONTE: Ribeiro (2019, p. 154) 24 Expressão do Corpo e Musicalidade 1 De acordo com Ribeiro (2019), o ritmo faz parte da natureza comunicativa humana. Por isso, não se pode dizer que uma pessoa não tem ritmo. Inclusive, no corpo humano, há um órgão com ritmo próprio. Sendo assim, um exemplo de órgão humano que possui ritmo é o: a) ( ) Útero. b) ( ) Fígado. c) ( ) Pâncreas. d) ( ) Cérebro. e) ( ) Coração. 2 Na dança, a direção, o plano e a dimensão são pontos fundamentais. Esses componentes constituem o que chamamos de estruturas espaciais. Para Ribeiro (2019), o espaço na dança é compreendido pelo domínio dessas estruturas. A direção, como sabemos, refere-se ao percurso do corpo no espaço. Seu início se dá no centro do corpo, sendo que as direções podem ser: a) ( ) Para cima e para baixo. b) ( ) Para frente, para trás e para as diagonais. c) ( ) Para a esquerda e para a direita. d) ( ) Para frente, para trás, para a esquerda, para a direita, para as diagonais, para cima ou para baixo. e) ( ) Para frente, para trás, para a esquerda, para a direita, para as diagonais e para os vértices. 3 De acordo com nossos estudos, o corpo é divido em cabeça, tronco, membros superiores e inferiores. Os movimentos da cabeça são realizadospela articulação do pescoço e coluna cervical. Seus movimentos são de: I. Flexão/extensão. II. Flexão lateral. III. Circundução e rotação. IV. Retração/protação. V. Translação. 25 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Está correto o que se afirma em: a) ( ) I, II, IV e V, apenas. b) ( ) III, IV e V, apenas. c) ( ) II, IV e V, apenas. d) ( ) I, II e III, apenas. e) ( ) II, III e IV, apenas. 2 A HISTÓRIA DA EXPRESSÃO E MOVIMENTAÇÃO CORPORAL A dança possui caráter comunicativo expressivo que permite ao homem se relacionar com a natureza, sua religiosidade, seu meio social e com ele mesmo. Por meio dela, o homem externaliza suas emoções e se encontra enquanto indivíduo único e complexo. A dança é, portanto, uma representação da alma, pois seu ritual e sua manifestação são carregados de mensagens. História, dança, expressão e comunicação se relacionam e se entrelaçam, sendo, talvez, impossível explicar uma sem mencionar a outra. Com o passar do tempo, a dança se transformou e evoluiu, segundo Brickman (1989) apesar de se transformar, a dança não perdeu seu poder de transcender o homem de Homens Sapiens a anjo, permitindo-o relacionar-se com sua religiosidade e emoção. 2.1 A EVOLUÇÃO DA DANÇA NO CONTEXTO HISTÓRICO Diversas danças foram criadas e transformadas em relação ao contexto histórico. Ainda hoje, em diversos ritos, elas são utilizadas como ato principal. Casamentos, formaturas e festas de 15 anos marcam os processos de desenvolvimento humano e a dança é utilizada para que a comunicação ou apresentação social ocorra. 26 Expressão do Corpo e Musicalidade FIGURA 6 – LINHA DO TEMPO DA HISTÓRIA DA DANÇA FONTE: Ribeiro (2019, p. 70) A partir de agora, compreenderemos a evolução da dança em seu contexto histórico. Aliás, você sabia que a dança e a história se relacionam em períodos? Muitas vezes, a dança teve sua evolução diretamente conduzida pela história humana. Vamos entender isso melhor. Acompanhe! 2.1.1 Dança na Era Primitiva Desde o início dos tempos, o homem utiliza a dança como forma de comunicação. De acordo com Ribeiro (2019), a dança foi uma das primeiras manifestações artísticas do ser humano e nasceu da sua relação com a natureza. A Era Primitiva remonta ao início dos primeiros homens na terra. Sua data inicia em 4000 anos antes de Cristo. Nessa era, deu-se as primeiras invenções, como o fogo e a roda. Nesse momento histórico, o homem dançava para sanar suas necessidades básicas: alimento, condição climática e acasalamento. 27 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Inicialmente, a dança era individual, característica daquele que era tido como nômade. De acordo com Ribeiro (2019), em várias partes do mundo, esses registros foram encontrados, relacionando a dança a um fator comum entre os povos. Com a Arqueologia, foi possível verificar rituais religiosos que tinham a dança como atividade central. As pinturas rupestres foram fundamentais para se chegar a essa conclusão. Isso porque diversos movimentos de dança foram encontrados em rochas e no interior de cavernas. Essa descoberta, inclusive, permitiu aos estudiosos definirem que a dança foi a primeira linguagem humana. 2.1.2 Dança na Idade Antiga A Idade Antiga vai de 4000 anos antes de Cristo ao ano de 476, depois de Cristo. Nessa época, o homem, que antes era nômade, passou a viver em grupos e aldeias. Com o desenvolvimento da agricultura, três civilizações de grande representatividade histórica surgiram: os egípcios, os gregos e os romanos. No Egito, a dança era tida como um ritual sagrado. Ribeiro (2019) nos explica que, nesse período, o homem acreditava que a dança poderia interferir em fenômenos da natureza, portanto, era fundamental para o bom desenvolvimento da agricultura. Além disso, foi com a dança que o homem compreendeu as estações do ano. Já na civilização grega, a dança teve muito mais representatividade, pois para esse povo, a dança era um dom dos imortais e usada como forma de comunicação dos mortais com os deuses. Dessa forma, o ato de dançar tinha caráter religioso e místico. Com a ideia de corpo e mente sãos, o homem grego elevou a dança ao apogeu. Para essa civilização, a dança preparava o corpo para as batalhas, tornando- se essencial para o bom preparo físico. Grandes filósofos tratavam a dança como a arte relacionada à educação, fator muito importante para se formar um bom cidadão, de acordo com Brickman (1989). Os gregos incluíam a dança em ritos, festividades, educação e, inclusive, como ato para alegrar o homem, ou seja, como uma forma de lazer. Ela era considerada uma prática esportiva e estava presente, também, no teatro, nas apresentações cênicas. Muitos dos movimentos utilizados na dança grega, 28 Expressão do Corpo e Musicalidade incluindo os movimentos realizados com os pés, permaneceram presentes, influenciando o balé da Corte e, futuramente, a dança clássica. Você quer ver? A dança é muito comum em peças de teatro. A prática começou com o povo grego e permanece até os dias de hoje. Para assistir a uma peça assim, indicamos que acesse o vídeo intitulado “Dualidade – Cia. Corpo em Cena Dança/Teatro”, da companhia de dança Corpo em Cena, disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=XTyCFLBwEzw>. Acesso em: 6 nov. 2019. Por fim, na civilização romana, a dança teve seu declínio e iniciou um processo de desvalorização. Para Ribeiro (2019), foi com o povo romano que a repressão da prática da dança começou. 2.1.3 Dança na Idade Média Durante o período da Idade Média, a Igreja Católica teve grande poder. A religião, então, virou centro das ações humanas, cabendo aos padres definirem o que o homem podia ou não fazer. De acordo com Ribeiro (2019), isso, logicamente, atingiu o ato de dançar. Com os Imperadores Romanos Cristãos, a dança passou a ser condenada, inclusive porque tinha em sua história a característica de ritual politeísta, uma ode aos deuses da antiguidade, considerada assim “dança profana”, diferente da visão monoteísta cristã. Mesmo com a repressão, as classes populares continuaram a praticar a dança. Os camponeses mantiveram, em suas festividades, o ritual de dança, representando alegria e comunhão. Foi por conta dessas pessoas que a dança e a sua linguagem mantiveram-se vivas. 2.1.4 Dança na Idade Moderna Na Idade Moderna, as navegações tinham como objetivo dominar regiões da América e da África. Com elas, o homem expandiu suas fronteiras, conheceu 29 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 novos lugares e transformou sua tecnologia. Com a Reforma Protestante, a igreja cristã foi dividida entre católicos e protestantes, perdendo seu poder político. De acordo com Ribeiro (2019), a ideia de corpo como uma máquina predominou no período, refletindo na expressão corporal. Já com a valorização da ciência, a dança buscou a perfeição das formas nos movimentos corporais. Surgiu, assim, a dança erudita, voltada para as classes abastadas, com métricas corporais e movimento mais organizado. Nessa época, assim como outras artes, a dança se transformou em símbolo de riqueza e poder, sendo muito apreciada pelos nobres. Iniciaram-se, com isso, os balés da Corte de Luís XIII, na França, seguindo a prática com o filho, Luís XIV, que aprimorou as apresentações, pedindo mais qualidade e requinte. Isso deu início ao balé clássico de acordo com Bourcier (2001). Grandes coreógrafos de balé e dança de teatro surgiram nesse período, como Beauchamp, Lulli e Noverre. Além disso, formaram-se as primeiras companhias de dança e as atividades de professor de dança, coreógrafo e bailarino passaram a ser consideradas profissões. Dessa maneira, os bailarinos passaram a ser pagos com salário definido por classes e terem contrato de funcionários dos teatros. 2.1.5 Dança na contemporaneidadeA Era Contemporânea é marcada pela necessidade de expressão, novas formas de organização social e mudanças de pensamentos e valores. Nesse momento surgiram novas danças, como a moderna, em oposição à estrutura tradicional e rígida do balé clássico. Como um dos grandes nomes desse período, podemos citar Isadora Duncan, principal nome da dança moderna. Seus movimentos tinham como intuito se aproximar dos naturais, buscando a liberdade de expressão por meio da dança. 30 Expressão do Corpo e Musicalidade Você a conhece? Isadora Duncan descrevia que, quando menina, havia dançado a alegria espontânea do crescimento. Já quando adolescente, a alegria se transformou em apreensão das correntes que estavam por vir. A bailarina não trouxe novas técnicas à tona, mas uma nova concepção quanto ao conceito da dança: mais leve, fluída e natural. Para Isadora, a dança devia ser não apenas uma arte expressiva, mas uma concepção de vida harmoniosa e flexível. Em sua análise, a dança não devia ser um mero conjunto de movimentos, nem a combinação mecânica de passos (DANTAS, 2007). FIGURA 7 – ISADORA DUNCAN FONTE: Brickman (1989, p. 55) A dança moderna, geralmente, era dançada de pés descalços, com roupas leves, utilizando movimentos com técnicas de tensão e relaxamento. O fato de dançar descalço conferiu ao bailarino a possibilidade de explorar mais movimentos, como torções e desencaixes. 31 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Você quer ler? A zumba é uma modalidade de dança que invadiu as academias e tem sido tema de muitas discussões referentes à dança como cultura e arte e a dança como cultura esportiva. Dentro dos ritmos trabalhados na zumba, temos a salsa, o reggaeton, o zouk e a bachata. Outras danças surgiram nesse período, como a dança do jazz, influenciada pelo movimento musical do jazz norte-americano. Essa utiliza técnicas do balé clássico e de estruturas desenvolvidas na dança moderna. Logo após a Primeira Guerra Mundial, a dança passou por uma nova transformação: o homem pós-guerra sentiu a necessidade de descobrir uma nova linguagem, nova forma de expressar suas necessidades. Segundo Brickman (1989), surgiu com isso a dança pós-moderna ou contemporânea, caracterizada pela experimentação e criação de novas estruturas. Na pós-moderna, os pés, que passaram das sapatilhas para descalços, começaram a calçar tênis. Os lugares de apresentação deixaram de ser somente os teatros, incluindo locais públicos, com roupas semelhantes às usadas comumente. A dança contemporânea veio com a proposta de pesquisa de movimento. Deu-se destaque a novas estruturas, técnicas somáticas, contato e improvisação. Buscou-se, além disso, novas formas de interação com o público. Para Brickman (1989), assim a relação do bailarino com o chão, o palco e o local de dança são explorados. Outras manifestações artísticas somaram-se à dança nessa nova proposta, fazendo com que as artes se entrelaçassem e se relacionassem. Para Ribeiro (2019), vídeos, músicas, fotografias, artes plásticas e cultura digital são incorporadas à prática. Mesmo sem técnica ou padrão, a pesquisa do movimento ganhou foco, permitindo ao bailarino desenvolver novas expressões, privilegiando a consciência de movimento em detrimento à dança por meio do mero processo repetitivo. 32 Expressão do Corpo e Musicalidade 1 Conforme vimos em nossos estudos, a dança foi uma das primeiras manifestações artísticas do homem. Na Era Primitiva, por exemplo, a dança envolvia objetivos específicos, fazendo com que se tornasse necessária para o período. Sendo assim, com quais objetivos o homem dançava? a) ( ) Para sanar suas necessidades básicas. b) ( ) Para compreender as estações do ano. c) ( ) Para se aproximar dos movimentos naturais, buscando a liberdade de expressão. d) ( ) Para descobrir uma nova linguagem, nova forma de expressar suas necessidades. Você conhece algo sobre a Zumba? Leia um artigo que trata desse tema enquanto prática corporal. Disponível em: <http:// www.revistaintellectus.com.br/DownloadArtigo.ashx?codigo=556>. Acesso em: 6 nov. 2019. FIGURA - PESSOAS FAZENDO ZUMBA FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-premium/zumba-ou-jazzdance-jovens-dancando- no-estudio_5534508.htm#page=1&query=zumba&position=0>. Acesso em: 6 nov. 2019. 33 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 e) ( ) Para buscar uma nova consciência de movimento em detrimento da dança. 2 Na civilização grega, a dança teve muita representatividade, pois, para esse povo, a dança era um dom dos imortais, usada como forma de comunicação com os deuses. Nesse período, o ato de dançar, tinha, portanto, caráter religioso, místico, uma vez que os gregos acreditavam que corpo e mente sã era uma premissa para a vida. Sendo assim, a respeito da dança na cultura do povo grego, em quais momentos a civilização incluía essa prática? a) ( ) Apenas em festividades, sem simbolismos. b) ( ) Para invocar a chuva, por exemplo. c) ( ) Em ritos, festividades, na educação e como ato para alegrar o homem. d) ( ) Em locais públicos, com roupas semelhantes às usadas comumente. e) ( ) Como forma de comunicação entre as tribos. 3 Na Idade Antiga, o homem, que antes era nômade, passa a viver em grupos. Com isso, três civilizações de grande representatividade histórica surgiram. A respeito desse assunto, em qual civilização teve início a repressão da prática da dança? a) ( ) Egípcia. b) ( ) Grega. c) ( ) Romana. d) ( ) Turca. e) ( ) Protestante. 4 Foi nos balés da Corte de Luís XIII e no reinado de seu filho, Luís XIV, que as apresentações de dança foram aprimoradas com mais qualidade e requinte, dando início ao balé clássico como conhecemos hoje. Nesse contexto surgiram grandes profissionais de balé, dança e teatro. Quem são eles? a) ( ) Beauchamp, Isadora Duncan e Luís XV. b) ( ) Isadora Duncan, Lulli e Noverre. c) ( ) Lulli, Noverre e Luís XV. d) ( ) Beauchamp, Lulli e Noverre. e) ( ) Noverre, Lulli e Luís XVI. 34 Expressão do Corpo e Musicalidade 5 A dança contemporânea tem uma proposta de pesquisa de movimento. Nela, o destaque se dá a novas estruturas, técnicas, contato e improvisação. Busca-se novas formas de interação com o público e a relação do bailarino com o chão, o palco e o local de dança são explorados. Além disso, no período contemporâneo, outras manifestações podem ser encontradas. Sendo assim, conforme nossos estudos, quais são as outras manifestações artísticas da contemporaneidade? a) ( ) Televisão, 3D, fotografias, artes plásticas e cultura digital. b) ( ) Vídeos, músicas, fotografias, artes plásticas e cultura digital. c) ( ) Vídeos, músicas, fotografias e técnicas em terceira dimensão. d) ( ) Músicas eletrônicas, 3D e cultura digital. e) ( ) Técnicas rupestres, cultura digital e tecnologias de distorção de imagem. 3 PRINCÍPIOS METODOLÓGICOS DO ENSINO DA DANÇA E DO MOVIMENTO Dançar é uma prática muito envolvente, porém, para dançarmos, precisamos entender a dança. O professor de dança deve desenvolver técnicas e processos que permitam transmitir ao aluno os elementos estruturantes da prática. Segundo Ribeiro (2019), os elementos estruturantes da dança são as ações corporais, os tempos rítmicos e os espaços determinados com o objetivo de transmitir uma intenção. Ribeiro (2019) define os elementos estruturantes da dança como sendo: • as ações corporais: pesquisa das possibilidades dos movimentos articulares; • o tempo: reconhecimento do ritmo individual e coletivo; • o espaço: possibilidades do corpo de se expressar em direções, planos e trajetórias; • a intenção: linguagem da dança por meio da qual as mensagens são transmitidas. 35 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 FIGURA 8 –ELEMENTOS ESTRUTURANTES DA DANÇA FONTE: Ribeiro (2019, p. 114) É por meio desses elementos que o planejamento de aula deve ocorrer. O processo pedagógico deve levar em consideração o desenvolvimento humano em cada uma de suas fases. Assim, nessa proposta, o corpo deve ser considerado uma unidade que envolve o biológico, o cognitivo, o social, o político e o emocional. FIGURA 9 – OS FUNDAMENTOS DA DANÇA DEVEM SER ESTUDADOS COM ATENÇÃO FONTE: Ribeiro (2019, p. 110) 36 Expressão do Corpo e Musicalidade Exemplo Imagine que você é um professor de dança e pretende ensinar a dança de roda do estilo Coco. A aula será dada no pátio da escola e você levará em torno de 50 minutos para realizar o ensino. Além disso, uma caixa de som será utilizada para a música “Magalenha”. Segue o link da música: <https://www.youtube.com/ watch?v=stYJkLlNmsY>. Acesso em: 6 nov. 2020. A ação pretendida é propiciar a vivência da dança popular, com o ritmo sincopado da dança Coco, por meio da música escolhida. As dimensões utilizadas serão a linha, a roda e a coluna, com as direções de frente, traz e Considerando a dança enquanto uma arte comunicativa, é fundamental compreender que os signos e símbolos ensinados por meio dela permitirão maior repertório para se expressar. Portanto, quanto mais dançarmos, mais ampla será nossa comunicação externa. Além disso, melhor desenvolveremos nossa capacidade de percepção corporal interna. 3.1 FUNDAMENTOS PEDAGÓGICOS PARA O ENSINO DA DANÇA O professor que abordará a dança em sua aula nem sempre precisa saber dançar com maestria, pois, por meio de técnicas pedagógicas, ele conseguirá propiciar ao aluno a prática e o desenvolvimento das estruturas expressivas da dança. Por isso, é muito importante preparar e fundamentar pedagogicamente a aula, para que, mesmo sem dominar os fundamentos, seja possível realizar a prática rítmica (RIBEIRO, 2019). Vamos comparar com outra prática física: para ensinar os fundamentos da ginástica artística, como reversão ou arco, o professor precisa vivenciar a prática e conhecer como se dá os fundamentos técnicos envolvidos, porém, não é necessário que ele seja um atleta. Dentro desse contexto, vamos construir a seguinte estrutura: o que queremos ensinar, onde ensinaremos, quanto tempo levaremos para ensinar e com que música. Além disso, precisamos pensar qual é a ação que pretendemos, com que tempo/ritmo, quais dimensões serão utilizadas e com qual intenção realizaremos a prática. 37 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 diagonal, direita e esquerda, explorando os níveis médio e alto. Por meio dessa aula, os alunos poderão conhecer essa forma expressiva e conseguirão se relacionar com ela, transmitindo o histórico que envolve as danças populares. No entanto, antes de realizarmos a prática expressiva rítmica, é preciso, segundo Miller (2012), levar em consideração outro aspecto: o desenvolvimento humano em cada fase. 3.2 DESENVOLVENDO A AULA DE ACORDO COM A FAIXA ETÁRIA Para elaborar a aula de dança, é necessário pensar na faixa etária que será atendida, visto que, em cada etapa, aprendemos de determinada forma. Portanto, é fundamental ter consciência dessa singularidade. Dentro dessa perspectiva, Miller (2012) sugere que levemos em consideração os desenvolvimentos cognitivos, motor, afetivo e social. O desenvolvimento cognitivo se refere a como aprendemos; o motor está relacionado aos aspectos motores, físicos de desenvolvimento; o afetivo envolve o que sentimos; e o social a forma como nos relacionamos. Você já escutou alguém dizer que “dança desde que estava ainda na barriga da mãe”? Na verdade, todos nós dançamos desde sempre, pois é natural do homem se comunicar por meio do gesto. Assim, a ação motora é a primeira linguagem realizada pelo ser humano. Na primeira infância, temos as seguintes etapas do desenvolvimento motor: • movimentos reflexos (até um ano); • movimentos rudimentares (até dois anos); • movimentos fundamentais (até sete anos). Nessas etapas, a relação da criança com o ambiente que a cerca é fundamental para o desenvolvimento dela, sendo que, ao final dos movimentos fundamentais, inicia-se a fase de socialização e, portanto, da sua relação com o outro. Porém, é nesse momento que as músicas e as brincadeiras cantadas de roda são essenciais para se explorar os fundamentos estruturantes das atividades 38 Expressão do Corpo e Musicalidade Vamos saber mais? O uso do vídeo então como uma proposta de ensino de dança educação Muitos artistas já têm usado o vídeo como recurso didático para ensinar a dança. Qualquer profissão pode utilizar-se dessa ferramenta, basta que seja feita alguma formação direcionada para isso. No artigo de Ida Mara Freire intitulado Dança-Educação: o corpo e o movimento no espaço do conhecimento, a autora desenvolve a proposta de vídeo educação. O artigo tem como objetivo refletir sobre a Dança-Educação, tendo como cenário uma experiência intercultural envolvendo professores e pesquisadores do Brasil e da Inglaterra. Segundo Freire (2001) ela apresenta a dança como área de conhecimento, comparando o ensino e a formação de professores nos dois países. A partir disso explicita a relação entre criar, executar e observar como meta para apreciação da dança, discutindo o uso do vídeo como uma estratégia para o ensino de Dança-Educação e reconhecendo seus espaços de aprendizagem como possibilidades de trocas culturais e ressignificação do corpo singular e múltiplo, a partir de abordagens da dança contemporânea. Freire (2001) apresenta que uso de vídeo dança sobre um trabalho de dança profissional tem uma ampla aplicação no ensino de dança. No entanto não como algo para se copiar, mas para as crianças terem novas ideias de movimentos. Ela exemplifica que durante a exibição de um vídeo, por exemplo, pode se identificar muitos tipos de saltos em dança e isso pode ser observado e expressivas. Segundo Ribeiro (2019), uma gama de ações inicia a partir de então, a criança experimenta o mundo, explora a afetividade, os toques corporais e os sons. Já na segunda infância, fase de transição da fase motora fundamental para a fase motora especializada, devemos levar em consideração o passado expressivo rítmico da criança. É nesse momento que as habilidades motoras devem ser acrescentadas no planejamento. Além disso, é nesse momento que o indivíduo se torna social, descentralizando e se tornando parte de grupos de convivência. Danças de equipe e criações coletivas são muito importantes nesse período. 39 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 discutido, abrindo novas possibilidades de saltar em diferentes formas, algumas das quais não poderiam ser imaginadas sem ter o vídeo como ponto de partida. Para a pesquisadora, as crianças podem ser encorajadas a tentar realizar o movimento para elas mesmas, adaptá-los e refiná-los, de modo que ampliassem seu próprio vocabulário de movimentos. Em sua pesquisa, ela demonstra que para mostrar como se dança samba e capoeira no Brasil, por exemplo, foi verificado que o vídeo dança em sala de aula capacitava seus alunos para observarem e discutirem os estilos da dança e conhecerem mais sobre o contexto em que essas manifestações culturais podem ser encontradas. Através do estudo de algumas partes selecionadas do vídeo, os estudantes, após as aulas, foram capazes de: · Identificar os movimentos presentes no samba e na capoeira, por exemplo: quais são as ações, eles se movem rápido ou lento? Os movimentos são amplos ou restritos, e como é usado o espaço para dançar? Em quais níveis e direções? · Descrever as caraterísticas e estilos de cada dança. · Descobrir sobre as tradições e origens do samba e da capoeira, o que foi ouvido por meio do vídeo, comentando e discutindo as informações. · Copiar algumas ações e padrões rítmicos domovimento observados e colocar em suas próprias coreografias. · Usar a imaginação para adaptar e/ou alterar os movimentos observados, como também manter as caraterísticas dos respectivos estilos de dança. · Apreciar as similaridades e diferenças entre os movimentos de samba e capoeira. · Apreciar o tipo de música e dos instrumentos usados para dançar samba e acompanhar a capoeira (FREIRE, 2001, p. 23). Segundo a pesquisadora, o vídeo selecionado para trabalhar com os estudantes mostrou os modos informais de dançar samba e capoeira na comunidade brasileira. Ela ainda alega que usar vídeos de companhias de dança pode demonstrar exemplos de dança excelentes que o professor pode não conseguir demonstrar ou realizar. No entanto, Freire (2001) ressalva que eles servem como modelo, estimulando-nos a elevar o padrão e a qualidade da dança em educação, mas não deve substituir o papel do professor como mediador dessa interação. 40 Expressão do Corpo e Musicalidade 3.3 MONTAGEM DO PLANO DE AULA A partir de tudo que aprendemos até aqui, é necessário entender como montar uma aula de dança, levando em consideração a proposta, a faixa etária envolvida, a música que será utilizada, os objetivos a serem alcançados com a prática e como avaliaremos o resultado da aula. O primeiro momento deverá utilizar, em média, 5% a 10% da duração da aula para a introdução e a preparação da prática. Nesse momento, o professor deve explicar como será o procedimento prático, apresentar um resumo do que será realizado e contextualizar a prática em seu histórico e sua importância. Além disso, também pode preparar o corpo dos alunos com aquecimento e alongamento para os segmentos corporais que serão utilizados. Algumas sequências simples com movimentos globais podem ser apresentadas durante o aquecimento. No segundo momento, na fase de desenvolvimento, o professor utilizará de 35% a 40% da aula. Será a parte principal, em que o desenvolvimento das técnicas necessárias e os movimentos para a realização da dança serão ensinados e praticados. A exploração de temáticas, dimensões de prática, níveis e planos é aconselhável nesse momento. É interessante, também, utilizar posicionamentos diversos, como círculo, fila, coluna, linha e triângulos. O terceiro momento, por fim, tem a duração de 5% a 10% da aula. Esse será o momento avaliativo, utilizado para criações coreográficas e improvisações, em que os alunos apresentarão o que foi adquirido do conteúdo apresentado. É fundamental que seja considerado no programa de aulas de dança o fato de que o programa deve desenvolver a educação através da dança e não ter os movimentos como objetivos finais ou como meta. O professor deve levar em consideração as seguintes habilidades para desenvolver em suas aulas: • desenvolver por meio do movimento a consciência de um indivíduo integral: corpo, mente e emoção centralizados; • ampliação do repertório de movimento; • autoconhecimento corporal por meio da interação social; • observação e análise do movimento; • formação estética; • análise crítica da dança. Na aula deve-se levar em consideração a necessidade de feedback, pois através dele será possível perceber a necessidade de reforço e mais motivação para dar continuidade ao trabalho. Além disso, o feedback é fundamental para 41 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Vamos praticar Imagine que você possui uma turma do quarto ano e precisa desenvolver uma aula de expressão corporal com a temática “natureza”. Utilizando o quadro a seguir, monte uma aula levando em consideração a faixa etária com que vai trabalhar e os conhecimentos adquiridos ao longo dos nossos estudos. acompanhar o desenvolvimento do aluno, de suas emoções e ações relacionadas à aula. Os tópicos a seguir podem ser selecionados pelo professor para desenvolver esse feedback: • conhecimento pleno da habilidade motora proposta; • ser capaz de descrever e relembrar (mentalmente) a atividade realizada; • identificar os aspectos corretos e os incorretos da atividade desempenhada; • observar o desempenho do aluno naquela atividade antes e depois de uma nova prática; • descrição do aluno do que foi feito; • estabilidade emocional; • capacidade de relacionar/respeitar o aluno com necessidades educacionais especiais; • senso de humor e habilidade para jogar/brincar; • franqueza e honestidade; • resistência e vigor. Sugere-se que os professores repensem suas práticas de dança de expressão corporal tendo em vista alunos com necessidades educacionais especiais para que eles desenvolvam essas habilidades também. 42 Expressão do Corpo e Musicalidade Planejamento de aula Tema: Data: Série: Professor: Disciplina: Escola: Conteúdo Objetivos Desenvolvimen- to Materiais Avaliação Duração Descrever o conteúdo a ser aborda- do Objetivo ou i n t e n ç ã o que se deseja alca- nçar com a aula Roteiro passo a passo de como será realizada a aula M a t e r i a i s necessários para a re- alização da aula Método a ser utilizado para avaliar se o aluno aprendeu o conteúdo Tempo de duração da aula FONTE: A autora Com esses conceitos teóricos e com a prática realizada, é possível contextualizar prática e teoria e montar seus próprios planos de aula. O planejamento na docência é fundamental e faz parte do processo de preparação de aula. 43 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 Vamos relacionar os conteúdos com a prática docente? Ao longo da Capítulo 1, aprendemos algumas questões relacionadas aos fundamentos da dança. Conhecemos a dança através da história, diferenciamos consciência e expressão corporal e aprendemos a planejar e montar uma aula de dança, levando em consideração os princípios aprendidos sobre desenvolvimento humano, escolha musical, escolha de tema e estrutura da aula. Na primeira infância temos, portanto, as seguintes etapas do desenvolvimento motor: a etapa dos movimentos reflexo (até um ano), a etapa dos movimentos rudimentares (até dois anos) e fundamentais (até 7 anos). Nessas fases a relação da criança com o ambiente que a cerca é fundamental para seu desenvolvimento. Ao final dessa fase, inicia a fase de socialização e, portanto, da sua relação com o outro. Segundo Ribeiro (2019), a criança inicia uma gama grande de ações nesse momento, ela experimenta o mundo, bate palmas, ri, chora, explora a afetividade, os toques corporais, os sons, entre outras. Levando em consideração o texto acima, elabore uma proposta de aula que permita o desenvolvimento rítmico expressivo na primeira infância. Referência RIBEIRO, S. R. Atividades rítmicas e expressivas: a dança na educação física. Curitiba: InterSaberes, 2019. 44 Expressão do Corpo e Musicalidade Modelo: Plano de aula Tema: Poses Objetivos: Os alunos praticarão habilidades de concentração e conceitos de movimento. Será trabalhado também equilíbrio e coordenação. Duração: 25 minutos de aula. Local: • Grande área aberta para as crianças se movimentarem. Materiais utilizados: • Aparelho de som. Introdução com duração de 5 minutos. A temática pose será debatida. Como deve ser uma pose? Quando ficamos parados no dia a dia? Será pedido aos alunos que iniciem uma corrida no local e com uma voz de comando será dito que eles precisam parar e não se moverem. Várias poses de diferentes temáticas devem ser exploradas, por exemplo: dormindo, congelado, de cimento etc. Desenvolvimento com duração de 15 minutos •Os alunos devem se espalhar. •Será explicado que uma vez que a música comece, eles devem começar a se mover ou dançar. •Eles devem continuar a dançar e se mover até que a música pare completamente. •Se a música parar, eles devem fazer a pose em qualquer posição em que estejam no momento e mantê-la até que a música seja iniciada novamente. Avaliação com duração de 5 minutos. Cada alunomostrará para a turma a pose que mais gostou. A avaliação será baseada na participação, seguindo instruções e simplesobservação. 45 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 1 Para ensinar os fundamentos da ginástica artística, como reversão ou arco, o professor precisa vivenciar a prática e conhecer como se dão os fundamentos técnicos envolvidos. Conforme vimos, é importante entender que o ensino, no entanto, difere-se da necessidade de o professor ser um bailarino profissional. Dessa forma, qual estrutura deve ser utilizada para ensinar a dança? Analise as afirmativas a seguir. I. O que queremos ensinar. II. Onde ensinaremos. III. Quanto tempo levaremos para ensinar. IV. Qual música será utilizada. V. O domínio que temos dos movimentos que pretendemos ensinar. Está correto o que se afirma em: a) ( ) II e III, apenas. b) ( ) I, III, IV e V, apenas. c) ( ) I e IV, apenas. d) ( ) III e IV, apenas. e) ( ) I, II, III e IV, apenas. 2 Para elaborarmos uma aula de dança, é necessário levar em consideração a faixa etária escolhida para o público a ser atendido. Isso porque, em cada etapa, aprendemos e nos desenvolvemos de alguma maneira. Nessa perspectiva de desenvolvimento humano, ao preparar uma aula de dança, é preciso levar em consideração: a) ( ) Os desenvolvimentos cognitivos, motor, afetivo e social. b) ( ) Os aspectos de crescimento físico e biológico. c) ( ) Os desenvolvimentos cognitivo e psicomotor. d) ( ) Os aspectos afetivo e emocional. e) ( ) Os aspectos psicológico e pedagógico. 3 Como visto ao longo do Capítulo 1, na primeira infância, a relação da criança com o ambiente que a cerca é fundamental para seu desenvolvimento. Já, ao final dessa fase, inicia-se a fase de socialização e, portanto, é nesse período que desenvolvemos nossa relação com o outro. Temos, portanto, as seguintes etapas do desenvolvimento motor: 46 Expressão do Corpo e Musicalidade a) ( ) Dos movimentos reflexo (até dois anos), dos movimentos rudimentares (até três anos) e dos movimentos fundamentais (até sete anos). b) ( ) Dos movimentos reflexo (até um ano), dos movimentos rudimentares (até quatro anos) e dos movimentos fundamentais (até sete anos). c) ( ) A etapa dos movimentos reflexo (até um ano), a etapa dos movimentos rudimentares (até um ano e meio) e fundamentais (até 2 anos). d) ( ) A etapa dos movimentos reflexo (até um ano), a etapa dos movimentos rudimentares (até quatro anos) e fundamentais (até 6 anos). e) ( ) A etapa dos movimentos reflexo (até um ano), a etapa dos movimentos rudimentares (até dois anos) e fundamentais (até 7 anos). REFERÊNCIAS BOURCIER, P. História da dança no Ocidente. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. BRICKMAN, L. A linguagem corporal do movimento. Rio de Janeiro: Summus, 1989. CORPO EM CENA. Dualidade: Cia. Corpo em Cena Dança/Teatro. 4 abr. 2012. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=XTyCFLBwEzw>. Acesso em: 6 nov. 2019. DANTAS, M. O corpo natural de Isadora Duncan e o natural do corpo em educação somática: apontamentos para uma história do “corpo natural” em dança. 2007. In: GOELLNER, S. V.; JAEGER, A. A. (Org.). Garimpando memórias: esporte, Educação Física, lazer e dança. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007. Disponível em: <https://www.academia. edu/3441241/O_Corpo_Natural_de_Isadora_Duncan_eo_Natural_no_Corpo_ em_Educa%C3%A7%C3%A3o_Som%C3%A1tica_apontamentos_para_uma_ hist%C3%B3ria_do_corpo_natural_em_dan%C3%A7a>. Acesso em: 6 nov. 2019. 47 Expressão e Consciência CorporalExpressão e Consciência Corporal Capítulo 1 FREIRE, I. M. Dança-Educação: o corpo e o movimento no espaço do conhecimento. Cad. CEDES. v. 21. n. 53. Campinas, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0101-32622001000100003>. Acesso em: 15 fev. 2020. FREIRE, Ana Vitória. Angel Vianna, uma biografia da dança contemporânea. Rio de Janeiro: Dublin, 2005. FREIRE, I. M. Compasso ou descompasso: o corpo diferente no mundo da Dança. Ponto de Vista. v. 1. Florianópolis: UFSC/NUP-CED, 1999. FREIRE, I. M.; ROLFE, L. Dançando também se aprende: o ensino da dança no Brasil e na Inglaterra. 1999. In: CABRAL, B. (Org.). O ensino de teatro: experiências interculturais. Santa Catarina: UFSC, 1999. HAAS, J. G. Anatomia da dança. São Paulo: Manole, 2011. KALMAR, Déborah. Qué es la expresión corporal: a partir de la corriente de trabajo creada por Patricia Stokoe. Buenos Aires: Lúmen, 2005. KLAITR, D.; UGHETTI, M. A.; PEREIRA, P. R. A dança como fator influente na qualidade de vida do idoso: um foco na zumba. 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Curitiba: InterSaberes, 2019. 48 Expressão do Corpo e Musicalidade CAPÍTULO 2 Estudo do Movimento A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: • conhecer quem foi Rudolf Laban; • analisar os trabalhos conduzidos por Laban e a importância de suas pesquisas para o universo da dança; • conhecer os temas do movimento e seus fatores; • aprender a desenvolver um plano de aula de dança. 50 Expressão do Corpo e Musicalidade 51 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Você sabia que, antigamente, as tribos se comunicavam por meio de batidas de tambores? Essa comunicação se dava por longos percursos, sendo que as pessoas não utilizavam a mesma língua, mas a informação era transmitida, não apenas pelo ritmo, mas pelo movimento corporal também. Dessa forma, a sensibilidade para a observação do movimento se tornou uma espécie de linguagem que foi se desenvolvendo naturalmente pelo instinto rítmico do homem, embora tenhamos perdido a habilidade com o passar do tempo. Aliás, você consegue entender o porquê de a observação do movimento ser uma ferramenta útil para o trabalho do ator e/ou bailarino, assim como o controle e o desenvolvimento de seus hábitos, de modo a desvendar o significado do movimento? Os movimentos internos, do sentimento e do pensamento, refletem- se nos olhos do homem e na expressão do seu rosto e de suas mãos. Para compreendermos melhor a respeito de todos os pontos, neste capítulo, vamos nos aprofundar no estudo do movimento. Veremos os fatores do movimento, a importância dos estudos e métodos desenvolvidos por Rudolf Laban, e a criação de um plano de aula de dança eficiente para o entendimento dos movimentos. Vamos começar! 2 RUDOLF LABAN Rudolf Von Laban nasceu na Bratislava em 1879. Ele criou diversos centros de pesquisa, sempre buscando se aprofundar nos movimentos naturais, principalmente, com relação à espontaneidade e riqueza. Com isso, podia desenvolver a consciência no bailarino. Além disso, o pesquisador desenvolveu uma notação de movimento conhecido como labanotação (LABAN, 1978). A história dele se mistura ao período europeu da Segunda Guerra Mundial e a relação dele com Hitler é muito comentada em obras literárias que versam sobre o tema. Suas pesquisas e metodologias sobre o movimento humano, devido à profundidade e extensão, são utilizadas ainda hoje como base para uma melhor compreensão do homem e seus movimentos. Galante e conquistador, Laban sempre teve diversas bailarinas ao seu redor. 52 Expressão do Corpo e Musicalidade Era descrito como elegantee de um carisma inigualável. Além disso, era um excelente coreógrafo, tinha uma inteligência notável e dominava muitas línguas (MELINA, 2017). Para entendermos um pouco mais a história de vida de Rudolf Laban e como ele pensava a respeito da pesquisa do movimento, leia a seguir um trecho do livro de sua autoria em que relaciona arte e ciência. É essencial àqueles que estudam o movimento no palco cultivarem a faculdade de observação, o que é de muito mais fácil consecução do que geralmente se acredita. Os atores, bailarinos e professores de dança usualmente possuem tal capacidade como dom natural, a qual, no entanto, pode ser refinada a tal ponto que se torne inestimável para os objetivos da representação artística. É obvio que o procedimento do artista ao observar e analisar o movimento e depois ao aplicar seu conhecimento difere em vários aspectos do procedimento do cientista. Mas é muitíssimo desejável que se dê uma síntese das observações artística e científica do movimento já que, de outro modo, a pesquisa sobre o movimento do artista tende a especializar-se tanto numa só direção quanto a do cientista em outra. Somente quando o cientista aprender com o artista o modo de adquirir a necessária sensibilidade para o significado do movimento, e quando o artista aprender com o cientista como organizar sua própria percepção visionária do significado interno no movimento, é que haverá condições de ser criado um todo equilibrado (LABAN, 1978, p. 154). Nesse trecho podemos ver como Laban pensava a análise de observação do movimento. Para o autor, o artista era como um cientista que deveria observar e analisar para depois registrar. As pesquisas dele na área da educação foram fundamentais para o estudo do movimento e continuaram sendo realizadas posteriormente por discípulos dele. Para duas de suas discípulas que descreveram sua obra, a análise de movimento de Laban consistia em um sistema de estudo que reconhecia o movimento como a primeira linguagem do homem. Essa análise era proporcionada através de símbolos e uma terminologia padronizada, que ajudava a definir e identificar os aspectos efêmeros da linguagem não verbal. Para as pesquisadoras, o sistema definia quatro aspectos do movimento que são interrelacionados – corpo, esforço, espaço e relações – e que serviam como lentes pelas quais se observava o foco da experiência do movimento (SCOTT, 1996; NORTH, 1990). A observação e a análise do movimento de Laban, segundo North (1990), era pautada em quatro aspectos: I- O corpo, relacionando com a parte do corpo que se move. Fluência centrípeta/ 53 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 centrífuga ou uso do corpo de maneira ampla, restrita ou ampla; consciência de qual parte do corpo está se movendo; unidade entre as partes superiores e inferiores do corpo; unidade entre o centro e as extremidades do corpo; movimentos do tronco iniciados em diferentes partes; formas do corpo e destreza manual. II- A qualidade ou "esforço": relaciona-se com como o corpo se move. Fases: habilidades rítmicas, movimento mecânico ou métrico; resistência; reações imediatas ou demoradas; frases crescentes e decrescentes. Elementos do movimento: 1. atitude da pessoa frente ao peso do seu corpo; 2. atitude da pessoa frente ao tempo; 3. atitude da pessoa frente à fluência do movimento; 4. atitude da pessoa frente ao espaço. habilidade para alternar entre atitudes opostas; Combinações de três elementos apresentados ao mesmo tempo: (a) peso, tempo e fluência; (b) peso, espaço e fluência; (c) espaço, tempo e fluência. Combinações de dois elementos apresentados ao mesmo tempo: (1) fluência/ tempo; (2) peso/fluência; (3) peso/tempo; (4) peso/espaço; (5) tempo/ espaço; (6) espaço/fluência. III- O espaço ou onde o corpo se move – gestos (shaping); localização das formas; planos do movimento; níveis do espaço que são utilizados pelo indivíduo. IV- Relações: com o que ou quem o corpo se move. As relações da pessoa em movimento com os objetos ou com os outros indivíduos são notadas em associação com um particular movimento que está sendo observado. Laban construiu diversos referenciais teóricos metodológicos que foram seguidos e desenvolvidos por diversos estudantes seus. Dentro desse sistema, foram apresentados os seguintes sistemas: Body-Mind-Centering e Contact- Improvisation. Vamos ver um pouco mais sobre o sistema exposto por Laban? O Body-Mind Centering é definido por Cohen (1997) como uma jornada experiencial dentro do vivo e cambiante território do corpo. O explorador é a mente, nossos pensamentos, sentimentos, alma e espírito. É através dessa jornada que caminhamos para o entendimento de como a mente é expressa por meio do corpo em seus movimentos. Segundo Cohen (1997), nosso corpo se move como nossa mente se move. As qualidades de qualquer movimento são as manifestações de como a mente é expressa através do corpo que está em movimento e as mudanças nas qualidades do movimento indicam que a mente mudou o foco sobre o corpo. O movimento, portanto, pode ser um modo de observarmos a expressão da mente por meio do corpo. O estudo Body-Mind Centering inclui a aprendizagem tanto experiencial como cognitiva dos sistemas do corpo humano como, por exemplo, esqueleto, ligamentos, músculos, nervos, gordura, pele, órgãos, glândulas endócrinas, 54 Expressão do Corpo e Musicalidade fluidos, respiração e vocalização; os sentidos e a dinâmica da percepção e o desenvolvimento do movimento tanto ontogenético como filogenético; a arte do tocar e a responsividade. Conforme apresenta Cohen (1997), essa técnica tem sido aplicada por pessoas de diferentes áreas, como dança, atletismo, trabalho corporal, educação física, terapias da fala, do movimento ocupacional, psicoterapia, medicina, desenvolvimento infantil, educação, arte visual e musical, yoga, artes marciais, meditação e outras disciplinas. Esse trabalho foi fundamental para o ensino da dança possibilitando um conhecimento mais cognitivo da escrita do próprio corpo e foi desenvolvido e aportado na dança contemporânea por diversos professores e bailarinos. Além do Body-Mind Centering, temos o seguinte conjunto de técnicas desenvolvidas a partir desse sistema: o Contact-Improvisation, criado por Steve Paxton. Definido como um processo criativo que ocorre quando duas ou mais pessoas se movimentam com apoio mútuo e trabalham com a mudança de equilíbrio coletivo. Influenciado por técnicas da dança moderna, por componentes de acrobacia e pilates, ele tem seus próprios princípios característicos de movimento. O Contact-Improvisation também promove interações do corpo perceptivo com o organismo corpo-mente e baseia-se no toque e no equilíbrio entre duas pessoas. Os parceiros, em duplas, tocam um ao outro e, por meio do toque, a informação sobre o movimento de cada um é transmitida. O treinamento dessas técnicas do sistema pauta-se em seis aspectos apresentados a seguir: • atitude; • senso de tempo; • orientação do espaço; • orientação do parceiro; • expansão da visão periférica; • desenvolvimento muscular. Você quer ler? Para saber ainda mais sobre o coreógrafo e pesquisador Rudolf Laban, suas ideias e metodologias aplicadas até hoje nas teorias do movimento, sugerimos a leitura do livro Domínio do movimento, organizado por Lisa Ulmann. Na obra, é possível compreender a genealogia da práxis do autor. Vale a pena pesquisar e ler o livro! 55 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 3 FATORES DO MOVIMENTO: FLUÊNCIA, ESPAÇO, PESO E TEMPO A mímica é a origem da dança e do drama, sendo que suas raízes são o trabalho e a oração. O trabalho garantiu nossa existência material, enquanto a prece desenvolveu nossa espiritualidade. Dessa forma, a mímica é o movimento corporal que pode, muitas vezes, ser traduzida em palavras, diferentemente da dança ou da música, que são mais difíceis de serem descritas e estão relacionadasa emoções. Para Laban (1978), incontáveis são os exemplos de movimentos da vida cotidiana que podem ser aplicados à expressão de estados mentais e emocionais, como a pressão, o soco, o torcer, o talhar, o deslizar, o pontuar, o sacudir e até o flutuar. Eles se referem às ações básicas do operário e, ao mesmo tempo, aos movimentos fundamentais para as expressões mental e emocional. Isso porque também modificam a voz e a expressão da fala, sendo possível verbalizar, utilizando entonações diferentes com essas ações. A descoberta de elementos do movimento — idênticos tanto no trabalho quanto na expressão — confere uma nova dimensão para a significação dos movimentos audíveis e visíveis na dança. A observação e a assimilação das características do movimento de uma pessoa são essenciais para o trabalho em dança, habilidades que podem ser adquiridas e aperfeiçoadas por meio de exercícios. Laban (1978), em sua pesquisa sobre o esforço, utilizou o processo de observação do movimento humano. Ele relacionava o movimento à Revolução Industrial e ao desenvolvimento dos grandes centros urbanos, que acabaram modificando a experiência do gesto e, portanto, do movimento. 56 Expressão do Corpo e Musicalidade FIGURA 1 – LABAN COM SUA CINESFERA FONTE: <https://labanlibrary.files.wordpress.com/2016/03/ lc-a-1-3-30.jpg>. Acesso em: 4 out. 2019. Era de interesse do pesquisador e coreógrafo analisar o corpo e seus movimentos, por isso, estudava as qualidades expressivas corporais. De acordo com Melina (2017), seu objetivo era, a partir dos conhecimentos adquiridos, atuar melhorando a experiência corporal na educação de crianças e jovens e no desenvolvimento profissional de atores e bailarinos. O estudo de movimento com base no esforço levava em consideração modalidades básicas do movimento. Dessa forma, os parâmetros que Laban utilizava como base eram os movimentos naturais do ser humano, como a respiração e o repouso, realizados de forma automática, mas que podem ser conscientes, principalmente, quando nos referimos aos profissionais que utilizam o corpo para se expressarem. Conforme Laban (1978), os movimentos poderiam ser classificados em: • atitude relaxada ou enérgica, relativa ao peso; • atitude linear ou flexível, relacionada ao espaço; • atitude curta ou prolongada, relacionada ao tempo; • atitude liberta ou controlada, referindo-se à fluência. 57 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Exemplo Imagine que uma professora de dança do Ensino Fundamental está fazendo um estudo de observação com seus alunos para que eles entendam a classificação dos movimentos tão intensamente retratados nas pesquisas de Rudolf Laban. Para tanto, ela fez as crianças observarem com atenção quatro cenas: uma pena caindo, um chute a gol, um abraço carinhoso e o balançar das mãos. Depois, pediu para que os alunos relacionassem cada situação com as atitudes elencadas por Laban. Grande parte dos alunos relacionou a pena caindo ao movimento relaxado, linear e prolongado; o chute, por sua vez, foi ligado ao movimento enérgico, linear, curto e controlado. O movimento de abraço carinhoso foi classificado como enérgico, prolongado e controlado, porém, quanto ao espaço, alguns alunos relacionaram a flexível e outros a linear, afinal essa classificação depende de interpretação e não é uma determinação estática. Já o balançar de mãos foi classificado como flexível, enérgico, prolongado e liberto. Após essa prática, a professora sugeriu que selecionassem outros movimentos do cotidiano e experimentassem relacionar com a classificação das atitudes de Laban. Surgiram algumas ações: • varrer a casa; • escrever no caderno; • correr no pátio; • levar a colher até a boca. Faça agora a classificação dessas ações. Você consegue classificá-las assim como os alunos fizeram com as anteriores? Nem todas se enquadram nas atitudes de Laban, afinal cabe interpretação em algumas e essa interpretação é realizada por aquele que vê a ação. Por exemplo: o balançar de dedo ao dizer não pode ser enérgico, linear, curto e controlado quando uma mãe o direciona para seu filho pequeno que está prestes a arremessar um brinquedo. Todavia, a mesma atitude pode ser relaxada e prolongada quando tomada de forma tranquila como resposta a um questionamento simples como “Você já realizou a tarefa?”, resposta: “Ainda não.” 58 Expressão do Corpo e Musicalidade Com isso, em sua pesquisa, Laban determinou os fatores que influenciam e determinam o movimento: peso, espaço, tempo e fluência. Isso porque, para ele, o movimento tinha uma fluência, era realizado em um espaço, a partir de um peso e em determinado tempo. Tais fatores modificavam as características do movimento e, ao serem combinados, encontraríamos o que o pesquisador chama de “temas do movimento” (MELINA, 2017). Agora que entendemos um pouco melhor o movimento, vamos conhecer cada um dos seus fatores separadamente. Acompanhe com atenção! 3.1 FLUÊNCIA A fluência ou o fluxo é o primeiro fator observado no desenvolvimento do movimento nas pesquisas de Lana, estando relacionado à continuidade ou não do movimento. Temos, portanto, o movimento livre e o controlado. Quando temos um movimento livre, espalhamo-nos pelo espaço com um movimento expandido e contínuo. Porém, no movimento controlado, temos a sensação de contenção, sendo realizado com cuidado, restrição de espaço, de forma limitada (LABAN, 1978). É na fluência que temos a manifestação da emoção pelo movimento, pois é no conter ou liberar que manifestamos a emoção. Assim, de acordo com Melina (2017), a fluência liberada está relacionada à expansão, à entrega e à projeção; enquanto a fluência controlada diz respeito à restrição, ao cuidado e à retração do movimento. É necessário o uso da tensão muscular para manifestar essas impressões do movimento, pois, por meio da mudança na tensão, é possível apresentar o movimento contido (quando o músculo está tenso) ou o liberado (quando o músculo está relaxado). 3.2 ESPAÇO O espaço é o lugar em que nos movimentamos, sendo que o influenciamos e somos, também, influenciados por ele, seja em movimento, seja em repouso. Quando em movimento, mudamos nossa ocupação do espaço. De acordo com Laban (1978), o espaço é possível nas seguintes formas: 59 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 • Kinesfera: espaço pessoal do tamanho das extremidades, sem trocar a base, ou seja, sem locomoção. É toda área que podemos alcançar com as partes do corpo, portanto, pode ser entendido como o quadro que delimita o espaço pessoal. FIGURA 2 – PLANOS FONTE: <http://microcities.net/portfolio/measuring-space/>. Acesso em: 9 abr. 2020. • Planos: também podemos nos movimentar dentro dos planos, sendo que, nesse caso, o espaço é bidimensional. Os planos se referem aos espaços que o movimento percorre, muito semelhantes aos planos aprendidos em Cinesiologia ou Biomecânica. Inclui os planos sagital, coronal e transversal, mas com uma nova nomenclatura. O plano da porta é a combinação de altura e largura, o plano da roda é a combinação 60 Expressão do Corpo e Musicalidade de profundidade e altura e o plano da mesa é a combinação de largura e profundidade. Essa forma de descrever os planos é didática, a fim de correlacionar o plano a um objeto, permitindo a compreensão mais clara dos movimentos. FIGURA 3 – DIMENSÕES DE LABAN FONTE: <http://www.labananalyses.org/laban_analysis_reviews/ laban_analysis_notation/space_harmony_choreutics/planes/ laban_dimensional_planes.htm>. Acesso em: 9 abr. 2020. • Cubo, tetraedro, octaedro, icosaedro e dodecaedro: utilizando tais figuras geométricas, Laban (1978) delimitava o suporte de movimentação do bailarino. Com essas escalas de dimensão, os movimentos se tangiam, pois, com elas, os movimentos tinham alturas, níveis e direções. Inclusive, muitas pesquisas e propostas de Laban foram realizadasno icosaedro (poliedro de 20 faces). 61 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Você sabia? No mundo todo, uma prática comum entre universidades e escolas que desenvolvem o método de Laban é criar um icosaedro com diversos tipos de materiais. Já foram realizados icosaedros de madeira do tamanho de uma pessoa, pequenos icosaedros flexíveis e, inclusive, icosaedros com palitos de dentes e bala de goma. Esse último segue no exemplo a seguir. FIGURA 4 – FIGURAS DE LABAN FONTE: <http://www.labananalyses.org/laban_analysis_reviews/ laban_analysis_notation/space_harmony_choreutics/planes/ laban_dimensional_planes.htm>. Acesso em: 9 abr. 2020. 62 Expressão do Corpo e Musicalidade FIGURA 5 – EXEMPLO DE FORMA UTILIZADA NAS PESQUISAS DO MOVIMENTO DE LABAN FONTE: Melina (2017, p. 60) Para Cone e Cone (2015), o espaço pode ser individual ou geral dentro da dança. No espaço individual, temos aquele que está ao nosso redor, em que nos movimentamos. Já no espaço geral ou coletivo, temos aquele disponível para os movimentos, compartilhado por todos. Seria, então, o espaço geral o espaço de dança, a sala de aula, o palco ou o ginásio. Observe atentamente a figura a seguir. FIGURA 6 – DIREÇÕES DO MOVIMENTO DE RUDOLF LABAN FONTE: Laban (1978, p. 71) 63 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Ainda de acordo com Laban (1978), os movimentos partiriam do centro para frente, para trás, para a direita, para a esquerda e para as diagonais. 3.3 PESO O fator do peso é apresentado pela cruz de esforços que Rudolf Laban exemplificava por duas atitudes contrastantes: forte ou pesado e leve ou fraco de acordo com Melina (2017). Na atitude de forte ou pesado, o uso da força muscular resulta em um movimento bruto. Quando deixamos que o corpo ceda à força da gravidade, temos uma atitude passiva, que resulta em descida, como um movimento pesado a ser realizado pelo nosso corpo. Na atitude de leve ou fraco, por sua vez, ao contrário da anterior, o movimento é conduzido para cima, ou seja, é realizado em oposição à força da gravidade, como em uma suspensão corporal momentânea. 3.4 TEMPO Podemos tratar o fator do tempo também como de ritmo. Ele está relacionado à velocidade com que o movimento é realizado pelo indivíduo. Envolve os acentos, os intervalos, a duração e a intensidade da prática. De acordo com Laban (1978), o tempo pode ser rápido, moderado ou lento. O tempo ou ritmo rápido se refere à aceleração constante ou rápida sem alterações; o lento está relacionado a um movimento em que o tempo é vagaroso ou tem sua velocidade diminuída até finalmente parar; e, por fim, o moderado está relacionado ao meio termo, entre o rápido e o lento. Contudo, é válido dizer que o fator do tempo é um tanto subjetivo, pois é muito difícil determinar o que é lento ou rápido, uma vez que essa conclusão varia de pessoa para pessoa. Na sequência, passaremos para o entendimento dos seguintes temas do movimento estudados por Rudolf Laban: elementar e avançado. Acompanhe! 64 Expressão do Corpo e Musicalidade 4 TEMAS DO MOVIMENTO DE RUDOLF LABAN: ELEMENTAR E AVANÇADO Laban acreditava que a grandeza do teatro e da dança estava no despertar nas pessoas o sentimento de serem responsáveis pelo próprio destino. De acordo com Melina (2017), a importância dos trabalhos de Laban na arte e na educação foi tão grande que até hoje suas pesquisas são utilizadas como referência nas universidades de dança e teatro. A abordagem conduzida pela linha de trabalho criada por Laban permitia ao artista construir e desconstruir sua dança. Foi seu estudo a respeito do movimento que inspirou a criação de formatos de dança e modelos coreográficos usados atualmente. Dada a relevância do coreógrafo para as atividades expressivas, a partir de agora, aprenderemos um pouco mais sobre ele e seus estudos na área da dança. Vejamos! 4.1 LABANOTAÇÃO A labanotação é o método de notação da dança criado por Laban. Com ele, o coreógrafo propõe uma análise do movimento que inclui sua localização no espaço e sua intensidade. A partir disso, desenvolve-se uma espécie de partitura do movimento, semelhante à partitura musical. Segundo Melina (2017), é um sistema de registro de movimentos executados por meio de símbolos gráficos, em um eixo vertical e um plano bidimensional. No entanto, durante o aperfeiçoamento de seu trabalho, Laban perdeu o interesse pelo método, pois descobre que ele aponta o corpo em sua posição. Todavia, seu interesse estava nos pontos de transição que o corpo percorria (MELINA, 2017). Assim, em 1960, os pupilos de Laban criam uma nova forma de notação na dança: notação Motif. A grande diferença entre ela e a labanotação está no tipo de informação que é transmitida. Conforme nos explica Melina (2017), na notação Motif, a informação é mais simples, permitindo uma interpretação livre do que foi anotado e a recriação com a transformação de coreografias ou sequências de movimentos. 65 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Você o conhece? FIGURA – KURT JOOSS FONTE: <https://alchetron.com/Kurt-Jooss>. Acesso em: 1 dez. 2019. Kurt Jooss foi um grande aluno de Rudolf Laban. De caráter expressionista, criou um sistema de dança chamado Eukinetics, um método interpretativo que valorizava a técnica do bailarino. Em suas obras, havia a representação da Alemanha no período do pós-guerra. Uma de suas produções mais importantes foi A Mesa Verde de 1932 (PEREIRA, 2007). 66 Expressão do Corpo e Musicalidade FIGURA 7 – CENA DE A MESA VERDE FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/284289795213105225/>. Acesso em: 30 nov. 2019. Ainda hoje, diversos encontros de labanotadores ou notadores de dança são realizados pelo mundo. Neles, a notação em dança é debatida e as transformações da proposta são compartilhadas a fim de aprimorar a técnica e difundi-la. 4.2 MOVIMENTO ENQUANTO LINGUAGEM Laban também procurou interpretar o movimento em seus estudos, defendendo que, nele, há símbolo de linguagem, sendo, portanto, passível de interpretação e registro. Ao analisar o movimento, Laban (1978) menciona que corpo, esforço, forma e espaço se inter-relacionam. O corpo descreve estrutural e fisicamente as características do ser humano quando em movimento: qual parte está se movendo? Quais partes estão conectadas? Quais influenciam outras? É, então, a categoria que observa a organização do corpo. Já quanto ao esforço, Laban (1978) explica que é a dinâmica e a qualidade do movimento, a compreensão de como o movimento se dá, em qual ritmo ele é realizado e se a motivação é interna ou externa. Essa categoria é subdividida 67 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 em quatro fatores básicos: fluxo, peso, tempo e espaço, tanto de forma isolada quanto considerando combinações. Na forma, Laban (1978) analisa as possibilidades plásticas do corpo, as posturas e as mudanças de volume. Além disso, apresenta que o corpo interage e se relaciona com o ambiente ao seu redor, analisa como isso ocorre. Por fim, no espaço, observa-se o movimento e sua conexão com o ambiente. Nessa categoria, Laban (1978) apresenta a exploração da esfera pessoal de movimento (kinesfera). 4.3 OUTROS TRABALHOS DE LABAN Em sua pesquisa sobre domínio do movimento, Laban (1978) — além de apresentar o movimento, sua origem e seu desenvolvimento — também trata da necessidade de as pessoas que estudam o movimento no palco cultivarem a prática da observação, a fim de desenvolverem melhor o trabalho expressivo. Seus estudos sobre a temática se desenvolveram apresentando fatores como o recolher e o espalhar, que seriam as principais atitudes corporais realizadas pelo ser humano ao se movimentar. O recolher ocorre em movimentos de trazer alguma coisa para o centro do corpo, enquanto o espalhar pode ser observado ao empurrar algo para longe docentro do corpo. Enquanto o recolher é mais flexível, o espalhar é mais direto (LABAN, 1978). Podemos, inclusive, realizar muitas combinações dessas duas formas. Ainda em sua pesquisa sobre o movimento, Laban relaciona as posições arabesque e attitude como remanescentes dos movimentos de recolher e empurrar. Relaciona, também, o recolher com o agarrar que comprime o espaço em uma única dimensão. Já o empurrar se relaciona com o repelir, que irradia do centro do corpo para algum ponto no espaço. Para Laban (1978), existia uma diferença entre os movimentos de dança e mímica ou teatro. Isso porque, enquanto a dança usa o movimento como linguagem poética, a mímica ou o teatro criam a prosa do movimento. O balé, nesse contexto, é colocado como uma necessidade interna do homem em um mundo intenso demais para ser traduzido em palavras: o mundo silencioso da ação simbólica. Essas são mais que simples representações de ações comuns da vida cotidiana, são os silenciosos movimentos recheados de emoção. 68 Expressão do Corpo e Musicalidade Você quer ler? No artigo intitulado Rudolf Laban inspira exposição com coreografias de dança inéditas, escrito por Mariana Marinho, temos a apresentação da exposição de Rudolf Laban no ano de 2016 no MAC USP de Ibirapuera. No artigo, parte da história do coreógrafo é apresentada, assim como as obras do pesquisador. Acesse o artigo completo por meio do link: <https://guia.folha.uol.com.br/ exposicoes/2016/05/10002221-rudolf-laban-inspira-exposicao-com- coreografias-de-danca-ineditas.shtml>. Acesso em: 30 nov. 2020. Você quer ver? A Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) tem um vídeo publicado em seu canal no YouTube a respeito do movimento a partir de fragmentos da história da humanidade. Vale a pena conferir a produção para agregar ainda mais conhecimento sobre a temática. Você pode assistir ao vídeo por meio do link: <https://www.youtube. com/watch?v=_YYm7nrow4w>. Acesso em: 30 nov. 2019. Em seus escritos, Laban (1978) menciona que, na busca por uma maior naturalidade do movimento, diferente da movimentação pomposa de antes, muitos bailarinos não conseguiram apresentar os detalhes sutis de movimentação e acabaram desenvolvendo um teatro vazio de movimento, sendo necessária a busca por um equilíbrio entre os dois polos, sem negligenciar a mímica, pois com ela está a significação dos movimentos. 4.4 TEMAS DO MOVIMENTO Os temas do movimento de Rudolf Laban constituem um dos principais pontos de seu legado para o estudo da linguagem do movimento em diversas áreas, incluindo educação, dança, teatro, terapia e trabalho. Seguindo um grupo de ações relacionadas aos fatores do movimento (fluência, espaço, tempo e peso), suas combinações foram definidas pelo pesquisador como sendo os temas do movimento (LABAN, 1978). 69 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Entre os temas do movimento, temos o de luta e de atitude indulgente. No tema de luta, temos uma ação de movimento forte, rápida e direta, ou seja, o ato de socar. Dentro desse, modificando o peso para leve, teremos a ação de pontuar. Já alterando o tempo para lento, teremos a ação de pressionar. Por fim, substituindo o espaço para indireto, teremos a ação de chicotear. Essas ações podem ser melhor analisadas conforme o quadro a seguir. QUADRO 1 – MOVIMENTOS DO TEMA DE LUTA Socar Pontuar Pressionar Chicotear Tempo Rápido Rápido Lento Rápido Peso Forte Leve Forte Forte Espaço Direto Direto Direto Indireto FONTE: A autora Por outro lado, no tema de atitude indulgente, temos uma ação de movimento leve, lento e indireto, ou seja, o ato de flutuar. Da mesma forma que no tema de luta, porém de forma contrária, modificando o peso para forte, temos a ação de torcer. Já substituindo o tempo para rápido, teremos a ação de sacudir. Por fim, alterando o espaço de indireto para direto, temos a ação de deslizar. Temos, portanto, as ações dispostas conforme o quadro a seguir. 70 Expressão do Corpo e Musicalidade 1 Laban descreve “recolher” e “espalhar” como “duas formas de ação principais”. a) Como ele define “recolher”? R.: ____________________________________________________ b) Como ele define “espalhar”? R.:____________________________________________________ QUADRO 2 – MOVIMENTOS DO TEMA DE ATITUDE INDULGENTE Flutuar Torcer Sacudir Deslizar Tempo Lento Lento Rápido Lento Peso Leve Forte Leve Leve Espaço Indireto Indireto Indireto Direto FONTE: A autora Vamos praticar! 71 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 c) Quais são os estímulos fundamentais que Laban relaciona com “recolher” e “espalhar”? R.: ___________________________________________________ 2 Como Laban caracteriza as “ações simbólicas”? R.: ___________________________________________________ 3 Segundo Laban, “exemplos dos movimentos das ações cotidianas de trabalho podem ser aplicados à expressão dos estados internos da mente e das emoções” (LABAN, 1978, p. 153). Ele prossegue sugerindo uma experiência – simplesmente pronunciando a palavra “não” com diferentes qualidades sonoras e gestos correspondentes. Experimente fazer isso nas oito formas especificadas. a) Em que situação você diria “não” com qualidade de pressão? R.: ___________________________________________________ b) Em que situação você diria “não” com uma qualidade espanar/ sacudir? R.: ___________________________________________________ Sugestão de referência para respostas: Texto: O Significado do Movimento. LABAN, Rudolf. Domínio do Movimento. São Paulo: Summus, 1978. 4 Segundo a pesquisa de Laban (1978), os fatores que influenciam e determinam o movimento são denominados “fatores do movimento”. Para o pesquisador e coreógrafo, o movimento possui, portanto, uma fluência, é realizado em determinado espaço, com um peso, a partir de certo tempo. Tais fatores modificavam as características do movimento, sendo que, quando combinados, recebiam outra nomenclatura. LABAN, R. Domínio do movimento. São Paulo: Summus Editorial, 1978. 72 Expressão do Corpo e Musicalidade Sendo assim, de acordo com nossos estudos, qual é o nome dado aos fatores do movimento quando combinados? a) ( ) Fluxo do movimento. b) ( ) Dimensão. c) ( ) Ações do movimento. d) ( ) Temas do movimento. e) ( ) Atitude. 5 Como sabemos, o fluxo ou a fluência se referem à continuidade ou não de um movimento. De acordo com Laban (1978), trata- se do primeiro fator a ser observado no desenvolvimento do movimento. Nesse fator, temos a manifestação da emoção por meio do movimento, pois é no conter ou liberar que manifestamos o que sentimos. LABAN, R. Domínio do movimento. São Paulo: Summus Editorial, 1978. Sendo assim, baseado em nossos estudos sobre a fluência, é nela que temos os movimentos: a) ( ) Livre e controlado. b) ( ) Forte e leve. c) ( ) Rápido e lento. d) ( ) Livre e rápido. e) ( ) Direto e indireto. 6 De acordo com Melina (2017), Rudolf Laban definia o espaço como o lugar por onde nos movimentamos. Para o pesquisador, podemos influenciar o espaço, assim como também podemos ser influenciados por ele. Além disso, ao espaço, Laban relacionava imagens tetraédricas para explicar as movimentações. MELINA, S. Laban plural: arte do movimento, pesquisa e genealogia da práxis de Rudolf Laban no Brasil. São Paulo: Summus Editorial, 2017. Sendo assim, com base nas formas possíveis no espaço, elas poderiam ser: I- Kinesfera. II- Triângulo. III- Planos. IV- Octaedro. V- Cubo. 73 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Estão corretas: a) ( ) I, II e V, apenas. b) ( ) I, III, IV e V, apenas. c) ( ) II, IV e V, apenas. d) ( ) II, III, IV e V, apenas. e) ( ) I, III e V, apenas. 7 De acordo com Laban (1978), um dos fatores do movimento se refere à velocidade com que o movimento é realizado. Envolve acentos, intervalos, duraçãoe intensidade do movimento. Devido a suas características, é tido como um fator subjetivo, uma vez que pode variar de acordo com o que cada pessoa acredita. LABAN, R. Domínio do movimento. São Paulo: Summus Editorial, 1978. Sendo assim, com base em nossos estudos, podemos tratar o fator descrito anteriormente como sendo: a) ( ) O tempo ou a força. b) ( ) O coronal ou transversal. c) ( ) O leve ou fraco. d) ( ) O fluxo ou a fluência. e) ( ) O tempo ou ritmo. 8 De acordo com o pesquisador e coreógrafo Rudolf Laban, um dos fatores do movimento é apresentado pela cruz de esforços, que poderia ser exemplificada por duas atitudes contrastantes. Uma delas é quando deixamos que o corpo ceda à força da gravidade e temos uma atitude passiva. MELINA, S. Laban plural: arte do movimento, pesquisa e genealogia da práxis de Rudolf Laban no Brasil. São Paulo: Summus Editorial, 2017. Dessa forma, podemos entender o fator descrito como: a) ( ) A fluência. b) ( ) O peso. c) ( ) O espaço. d) ( ) A direção. e) ( ) O plano. 74 Expressão do Corpo e Musicalidade Um pouco mais sobre Laban: FIGURA - LABAN E SUAS BAILARINAS FONTE: <https://pt.slideshare.net/tollens/rudolf- von-laban>. Acesso em: 30 nov. 2020. Rudolf Von Laban nasceu na Bratislava em 1879. Foi criador de vários centros de pesquisa nos quais buscava pesquisar o retorno aos movimentos naturais na sua espontaneidade e riqueza, desenvolvendo consciência no bailarino. Inspirou diversos coreógrafos europeus e teve como pupilos os principais bailarinos e bailarinas da Europa. Desenvolveu uma notação de movimento conhecido como Labanotação. Foi o autor de várias coreografias famosas, além de desenvolver trabalhos como pesquisador da dança e do teatro. Trabalhou com grupos profissionais de onde saíram os mais importantes nomes da dança expressiva europeia. Boa parte da sua pesquisa e dos métodos de dança desenvolvidos por ele sobre o uso do movimento humano são até hoje utilizados como base para uma melhor compreensão do movimento corporal e do homem e através de sua expressão na dança. Sua história se mistura com o período europeu da Segunda Guerra Mundial e sua relação com Hitler é comentada nas obras literárias que versam sobre esse tema. De maneira muitas vezes controversa não se chega a uma conclusão sobre se ele se opunha ou se ele teria apoiado o nazismo na época. 75 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Galante e conquistador, teve diversas bailarinas ao seu redor. Era descrito como bonito, elegante e de carisma inigualável. O fato é que além de excelente coreógrafo, era de inteligência notável, sabendo muitas línguas e se relacionava com facilidade. Vamos praticar: fazer uma pesquisa sobre Rudolf Laban e sua história, sintetizar as informações encontradas referentes à vida dele em modelo Word com até uma lauda e compartilhar no fórum. Sugestão de material para a pesquisa: SCIALOM, Melina. Laban plural: arte do movimento, pesquisa e genealogia da práxis de Rudolf Laban no Brasil. São Paulo: Summus Editorial, 2017. Laban (1978) dizia que a grandeza do teatro e da dança era despertar nas pessoas o sentimento de serem responsáveis pelo seu destino e livres em suas ações. Segundo o coreógrafo e pesquisador de dança, a raiz da dança estava no trabalho e na oração. A importância dos trabalhos de Laban nas áreas da arte e educação foi tamanha que até nos dias de hoje sua pesquisa e seus livros são utilizados como referência na maioria das universidades de dança e teatro espalhados pelo mundo. A abordagem da dança conduzida pela linha de trabalho criada por Laban permite ao artista construir e desconstruir a sua dança. Sua pesquisa em movimento inspirou e inspira a criação de formatos de anotação em dança e de modelos coreográficos. Além do seu trabalho em análise da dança, Laban (1978) realizou trabalhos de dança para o povo. Nessa proposta, a dança deveria servir a todos, ter estrutura simples e instigar bailarinos e não bailarinos a dançarem de maneira colaborativa. Ainda nesse viés comunitário, Laban (1978) auxiliou operários a estudar os movimentos utilizados em seu trabalho e desenvolverem métodos para realizá-los da melhor maneira possível. Agora que pudemos compreender os temas do movimento estudados por Rudolf Laban, partiremos para a montagem do plano de uma aula de dança. Veremos, então, nossos conhecimentos adquiridos até aqui na prática. Acompanhe! 76 Expressão do Corpo e Musicalidade 5 PLANO DE AULA DE DANÇA Como podemos montar uma aula de dança? De acordo com Cone e Cone (2015), devemos planejar uma aula de dança levando em consideração o objetivo que pretendemos alcançar e a faixa etária envolvida nessa aula. Para desenvolver o processo criativo empregado na concepção de uma nova dança, Cone e Cone (2015) nos apresentam o seguinte modelo: • estudar os movimentos usando os elementos da dança; • selecionar os movimentos a partir dos estudados; • escolher uma sequência de movimentos; • decidir em que porção do espaço esses movimentos serão executados; • praticar a sequência e introduzir mudanças; • praticar a nova sequência; • executar a dança completa. Com base nessa proposta, podemos verificar algumas variantes: • o que se quer trabalhar (objetivo da aula); • escolha dos movimentos (desenvolvimento da aula para a realização do objetivo); a porção do espaço que será utilizada (local, dimensão, plano etc); • a prática (treino da técnica); • e a execução propriamente dita (avaliação para analisar se o objetivo foi alcançado, incluindo a finalização da aula). Dessa forma, a partir de agora, veremos como tomar essas decisões e desenvolver um plano de aula eficaz para se alcançar o resultado esperado. Vamos em frente! 5.1 TIPOS DE AULAS De acordo com Cone e Cone (2015), podemos dividir as aulas de dança em quatro tipos principais: dança pessoal ou em grupo, dança criada por um coreógrafo profissional, dança social ou de um período e dança cultural. 77 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Dança pessoal ou em grupo: criada pelos alunos ou pelo professor, executada pela turma. Nesse caso, a criatividade será levada em consideração. É uma prática muito interessante para trabalhar a colaboração, pois pode ser proposta uma montagem colaborativa da coreografia, em que todos podem participar. Além disso, pode ser apresentada uma temática, colaborando com o processo criativo e norteando a direção da proposta. Alguns exemplos de temáticas podem ser observados no quadro a seguir. QUADRO 3 – EXEMPLOS DE TEMÁTICAS PARA DANÇA CRIATIVA Temas Tópicos Literatura Poemas, romances, livros de história, contos folclóri- cos e poemas escritos pelos alunos. Feriados Feriados nacionais, culturais e religiosos. Eventos sociais Aniversários e formaturas. Máquinas Lavador de automóveis, eletrodomésticos e computa- dores. Atividades diárias Jantares em família e jogos. Mídia Vídeos, programas de televisão e filmes. Atividades escolares Intervalos, caminhada pelos corredores e hora do lanche. Sentimentos Tristeza, medo, alegria, raiva e excitação. Estações Folhas do outono, neve e gelo, diversão ao sol e flores da primavera. Amizade Dança com nomes, dança com pares e danças sobre aceitação ou ajuda. FONTE: Adaptação de Cone e Cone (2015) 78 Expressão do Corpo e Musicalidade Dança criada por um corógrafo profissional: o contato com um profissional da área será o ponto alto dessa proposta. É importante levar em consideração o nível dos alunos para aprender a coreografia, sendo que ela deve ser alinhada anteriormente com o profissional convidado. O mais interessante será a troca de conhecimentos entre profissional e alunos, traçando novos horizontes. FIGURA 8 – GRUPO DE PESSOAS DANÇANDO JUNTAS FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/group- energetic-hiphop-dancers-focused-on-702288490?src=a758963c- 9798-4f05-869c-acaf8f55317c-1-12>.Acesso em: 1 dez. 2019. Dança social ou de um período: a dança social versa sobre aquela dançada socialmente, em grupos, na comunidade. Tanto o professor pode apresentar a dança social de outras épocas ou locais como os próprios alunos se tornam grandes colaboradores ao apresentarem sua dança social. FIGURA 9 – DANÇA DE SALÃO – TANGO FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/young- pretty-woman-red-dress-man-482996470?src=7a3ea32a-3440-414f- a8f6-65534ad2d41a-1-51>. Acesso em: 30 nov. 2019. 79 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 Dança cultural: tem por objetivo apresentar eventos, tradições e heranças culturais de um povo ou uma época. Com ela, os alunos desenvolvem o conhecimento da história e aprendem elementos importantes de outras culturas. Nesse caso, é importante contextualizar o ambiente e o povo que realiza a dança apresentada em aula, a fim de promover a valorização da cultura e o respeito a ela. FIGURA 10 – DANÇA FOLCLÓRICA FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/riyadh- saudi-arabia-january-5th-2019-1289798155?src=d6f8e845-6882- 4120-95fa-47a39862d532-1-32>. Acesso em: 1 dez. 2019. No próximo item, aprenderemos métodos para fazer o planejamento da aula de dança. Estude com atenção para compreender o assunto! 5.2 MÉTODOS E PLANEJAMENTO O primeiro ponto a se considerar no momento de planejar uma aula é destacar o objetivo proposto. A partir dele, todos os outros pontos serão determinados. O objetivo da aula pode ser entendido como o foco final para sua realização, aquilo que você pretende que o aluno aprenda ou desenvolva. Em uma aula de dança, por exemplo, o objetivo do professor pode ser fazer com que os alunos aprendam a dança Jongo, ou, então, desenvolvam técnicas de giro, melhorem a flexibilidade dos membros inferiores ou montem uma coreografia para posterior apresentação. Dessa forma, é fundamental, também, relacionar o objetivo à idade e ao nível que o aluno se encontra. 80 Expressão do Corpo e Musicalidade Para planejar a aula, devemos pensar no local onde a aula será realizada. Os sons do ambiente também interferirão, portanto, determinar o local mais adequado pode ser o ponto-chave para que a aula seja eficiente. Após o local estar definido, é preciso determinar quanto tempo a aula terá. Com essa informação, é possível planejar cada momento da aula para que ela não seja muito extensa ou muito superficial. Nesse sentido, é essencial dividir os momentos para poder atender a todos os objetivos planejados. Deve-se separar o primeiro momento para uma contextualização da aula e preparação. Depois, há o desenvolvimento da técnica, a sequência de movimentos e a coreografia. Por fim, há a finalização, o alongamento, o relaxamento e a avaliação dos objetivos, identificando se eles foram alcançados ou não. Cone e Cone nos dão um exemplo para servir como base: Introdução e aquecimento: o professor pede aos alunos que criem, a partir de um trabalho colaborativo, uma história sobre as folhas que caem. Aquecimento: […] o professor estabelece uma contagem para determinar as paradas em que eles se mantêm no formato de folha imóveis; e inclui movimentos de balanço. Desenvolvimento: o professor e os alunos criam uma história sobre folhas que caem. As palavras- chave da história são registradas em um cartaz. As crianças elaboram, junto com o professor, movimentos correspondentes a cada uma da palavras-chave e criam uma dança. Atividade da apoteose: o professor conta a história enquanto as crianças dançam. A música utilizada varia. Uma é lenta e suave, e outra, rápida e forte. Encerramento: o professor pede que os alunos expliquem o que sentiram dançando ao som de diferentes tipos de músicas (CONE; CONE, 2015, p. 50). Com o local definido também é possível determinar os materiais necessários para o desenvolvimento da aula. Colchões, aparelho de som, instrumentos musicais etc. Vale mencionar, aqui, que os materiais também podem estar relacionados aos objetivos da aula. Por exemplo, em uma aula em que o objetivo é trabalhar ritmos binários, ternários e quaternários, os alunos poderão desenvolver um chocalho artesanal com copo de plástico, sementes e saco de supermercado. Dessa forma, no plano de aula devem aparecer o local da aula, os materiais que serão utilizados em seu desenvolvimento, o tempo necessário para sua realização e os objetivos a serem atingidos ao final do ensino. 81 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 5.3 MODELOS DE PLANOS DE AULA E AVALIAÇÃO Vamos pensar nos planos de aula e planejamento das aulas de dança tendo em vista que também teremos que avaliá-las?! Você já imaginou como fará isso? E para que servem os planos de aula? Vamos ver a seguir. Os planos de aula servem como um roteiro para o professor basear suas aulas. Por meio deles, é montada uma sequência metodológica para desenvolver o assunto ou tópico proposto. Sugere-se que sejam construídos de quatro a seis planos de aula para trabalhar determinado assunto ou tópico. Vejamos um exemplo completo na sequência para a educação infantil. Proposta da aula: trabalhar musicalidade e percussão rítmica. Faixa etária: entre 4 e 6 anos. Local: sala de aula. Aula 1 Tema: músicas e estilos musicais. Material a ser utilizado: aparelho de som. Objetivo: apresentar diferentes estilos musicais e escolher uma música que agrade ao grupo. Desenvolvimento: após a escolha musical, ensaiar a música escolhida. Tempo de aula: 3 horas. Aula 2 Tema: instrumentos musicais e som. Materiais a serem utilizados: diversos instrumentos musicais. Objetivo: apresentar diferentes instrumentos musicais para o grupo. Desenvolvimento: experimentar os instrumentos musicais, tentar encontrar nas músicas qual som cada um faz e representar com a boca o som de cada instrumento. Tempo de aula: 3 horas. Aula 3 Tema: produzindo o próprio instrumento. Materiais a serem utilizados: caixinhas de Tic-Tac recicladas, semente de arroz, feijão, milho, fita crepe, canetinhas coloridas e cola. Objetivo: produzir e praticar seu próprio instrumento. 82 Expressão do Corpo e Musicalidade Desenvolvimento: experimentar os diferentes sons dos materiais a serem utilizados e escolher o mais adequado para produzir o instrumento. Tempo de aula: 3 horas. Aula 4 Tema: ensaio e apresentação final. Objetivo: preparar a apresentação final. Desenvolvimento: retomar a música escolhida na Aula 1, ensaiar com o instrumento produzido na Aula 3 e fazer um vídeo para que todos se vejam na televisão da escola. Tempo de aula: 3 horas. Por fim, não podemos esquecer de desenvolver um método avaliativo para a aula de dança. Nesse momento, é importante levar em consideração o envolvimento dos alunos. Observe o quadro a seguir. QUADRO 4 – MODELO DE AVALIAÇÃO DE AULA DE DANÇA PARA CRIANÇAS Nome da experiência de apren- dizagem Descrição da experiência Dança das fitas da amizade na viz- inhança As crianças utilizaram fitas coloridas em uma dança sobre a comemoração da am- izade em uma comunidade. Nuvens flutuantes e pancadas de chuva As crianças exploraram e expressaram as formas e os movimentos das nuvens em uma dança que representava a con- exão de nuvens isoladas para formar uma grande nuvem carregada de chuva. Correr, saltitar, pular e saltar Um texto poético serviu de acompanham- ento para quatro danças, cujo objetivo era expressar as palavras que formavam um ritmo por meio de rima. 83 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 1 Levando em consideração a proposta apresentada por Cone e Cone (2015), podemos verificar algumas variantes para realizarmos o planejamento de uma aula de dança, o que inclui os fatores: o que se quer trabalhar, a escolha dos movimentos, a decisão de que porção do espaço será usada, a prática e a execução propriamente dita. CONE, T. P.; CONE; S. L. Ensinando dança para crianças. 3. ed. São Paulo: Manole,2015. Sendo assim, de acordo com nossos estudos sobre o plano de aula de dança, devemos pensar, principalmente: Parque infantil As crianças recriaram as atividades rela- cionadas com o brincar em um escorre- gador, em um balanço ou em uma gan- gorra, movimentando-se em diferentes níveis e direções. Ondas do oceano e nadadores O espaço da dança se transformou em um oceano e uma praia, empregando-se a mudança de nível das ondas e as ações dos nadadores para a criação de uma dança sobre um dia de praia. FONTE: Cone e Cone (2015, p. 114) No quadro exposto anteriormente, Cone e Cone (2015) nos mostram um modelo para ser utilizado na avaliação da aula de dança para crianças na pré- escola e nos primeiros anos do currículo básico. Não é tão complexo, não é mesmo? Quando entendemos um pouco mais sobre os movimentos do corpo e os objetivos que pretendemos ao realizar uma aula de dança, colocar em prática esses conhecimentos se torna natural. 84 Expressão do Corpo e Musicalidade a) ( ) No objetivo que queremos alcançar com a aula e a faixa etária a ser atendida por ela. b) ( ) Nos equipamentos que serão utilizados na aula e a faixa etária a ser atendida por ela. c) ( ) No objetivo que queremos alcançar com a aula e a data para sua realização. d) ( ) No local que a aula será realizada e a capacidade que o professor dispõe para ela. e) ( ) No método que iremos utilizar na aula e a faixa etária a ser atendida por ela. 2 Após a escolha do local da aula, se será realizada no ginásio, na sala, em uma escola de dança, no saguão, precisamos determinar quanto tempo de aula teremos. Com o tempo de aula definido, podemos estruturar o planejamento da aula. É importante dividir os momentos de aula para poder atender a todos objetivos planejados. Deve-se então separar: a) ( ) Um primeiro momento para a explicação e preparação dessa aula, um segundo momento para o desenvolvimento da técnica dela, sequência de movimentos, coreografia etc. E um terceiro momento para a finalização, alongamento, relaxamento e avaliação dos objetivos da aula. b) ( ) Um primeiro momento para a explicação e preparação dessa aula, um segundo momento para o desenvolvimento da técnica da aula, sequência de movimentos, coreografia etc. E um terceiro momento para o desenvolvimento da prática da aula. c) ( ) Um primeiro momento para a explicação e preparação dessa aula, um segundo momento para o desenvolvimento da técnica da aula, sequência de movimentos, coreografia etc. Um terceiro momento para a finalização e um quarto momento para alongamento, relaxamento e avaliação dos objetivos da aula. d) ( ) Um primeiro momento para o desenvolvimento da técnica da aula, sequência de movimentos, coreografia etc. E um segundo momento para a finalização, alongamento, relaxamento e avaliação dos objetivos da aula. e) ( ) Um primeiro momento para a explicação e preparação dessa aula, um segundo momento para a finalização, alongamento, relaxamento e avaliação dos objetivos da aula. 85 Estudo do MovimentoEstudo do Movimento Capítulo 2 REFERÊNCIAS COHEN, B.B. Sensing, feeling, and action: the experiential anatomy of body- mind centering. Northampton: Contact Editions, 1997. CONE, T. P.; CONE; S. L. Ensinando dança para crianças. 3. ed. São Paulo: Manole, 2015. CORDEIRO, A.; HOMBURGER, C.; CAVALCANTI, C. Método Laban. São Paulo: Laban Art, 1989. FDE. Fundação para o Desenvolvimento da Educação. Laban: movimento, 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=_YYm7nrow4w>. Acesso em: 30 nov. 2019. KALTENBRUNNER, T. Contact improvisation: moving-dancing interaction. Transl. by Nick Procyk. Germany: Meyer und Meyer, 1998. LABAN, R. Domínio do movimento. São Paulo: Summus Editorial, 1978. MARINHO, M. Rudolf Laban inspira exposição com coreografias de dança inéditas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 mai. 2016. Disponível em: <https:// guia.folha.uol.com.br/exposicoes/2016/05/10002221-rudolf-laban-inspira- exposicao-com-coreografias-de-danca-ineditas.shtml>. Acesso em: 30 nov. 2019. MELINA, S. Laban plural: arte do movimento, pesquisa e genealogia da práxis de Rudolf Laban no Brasil. São Paulo: Summus Editorial, 2017. NORTH, M. Movement e dance education: a guide for the primary e middle school teacher. Plymouth: Northcote House, 1990. NOVACK, C. J. Sharing the dance: contact improvisation and american culture. Madison/Wisconsin: The University of Wisconsin Press, 1990. PEREIRA, S. S. Rastros do Tanztheater no processo criativo de ES-BOÇO: espetáculo cênico com alunos do Instituto de Artes da UNICAMP. 2007. Tese (Pós-Graduação em Instituto de Artes da UNICAMP) – Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. PRESTON-DUNLOP, V. Rudolf Laban: an extraordinary life. London: Dancebooks, 1998. 86 Expressão do Corpo e Musicalidade SCOTT, M. Laban movement analysis and bartenieff fundamentals. In: FITT, S.S. Dance Kinesiology. New York: Schirmer Books, 1996. VECCHI, A. M. B. Sobre o autor. In: Laban, R. Domínio do movimento. São Paulo: Summus, 1987. CAPÍTULO 3 Ritmo X Musicalidade A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: • compreender a diferença entre ritmo e musicalidade; • conhecer os diferentes estilos musicais, suas histórias e características; • aprender como se desenvolve o fraseamento e a musicalidade através da dança; • conhecer os ritmos latinos e regionais, suas características e histórias. 88 Expressão do Corpo e Musicalidade 89 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Vimos nos outros capítulos muito sobre a dança, mas o que é a música? Muitos diriam que a música é a expressão por meio do som; que é a combinação crítica de sons. É difícil compreender exatamente qual são os conceitos de música, arte, expressão, ritmo e musicalidade, pois estão permeados de muitos significados. Assim sendo, não é possível separar expressão corporal de musicalidade, pois podemos afirmar que esses conceitos estão interligados. O corpo precisa do ritmo e da musicalidade para se expressar. Já a expressão corporal perpassa as ações de ritmo e musicalidade e é através do corpo que podemos apresentar esses dois termos. Quando falamos em ritmo, estamos abrangendo outros aspectos ligados a princípios musicais como pulso, pausa e intensidade. Já no aspecto musicalidade transcorremos sobre as nuances musicais e a interpretação através de instrumentos ou até mesmo do corpo. O corpo humano é por si só um instrumento musical, tanto que possui dentro de si o metrômetro natural: o coração. Temos então no nosso corpo humano o ritmo natural conduzido por esse órgão tão importante para a vida humana. Já para interpretarmos a musicalidade, é necessária uma aprendizagem por parte do corpo de como expressar aquilo que é escutado e mesmo para aqueles que não escutam, de alguma maneira como através da vibração sonora, é possível interpretar ritmo através dos movimentos. Nas próximas páginas, apresentaremos essas noções e algumas práticas que permitam você compreender melhor essas terminologias. Vamos aos estudos! 2 RITMO X MUSICALIDADE Tavares (2013) apresenta que a música é o uso do som pelo ser humano. Segundo o autor, a música é uma forma de linguagem e, para entendê-la, é necessário entender a linguagem. A linguagem da música é polissêmica, pensando em linguagem enquanto instrumento de interação social formadora de conhecimento. Desde a barriga da mãe, o bebê já reage ao som. Assim como um adulto dança ao escutar uma música, quando a mãe se movimenta, o bebê reage a isso. Como já foi apresentado por Tavares (2013), durante a flutuação na barriga da 90 Expressão do Corpo e Musicalidade mãe através dos constantes movimentos corporais dela, o bebê obedece a um ritmo,som, movimento e ritmo. Eles são elementos fundamentais da inspiração que estão impregnados no aparelho sensorial do nosso corpo bem antes do nascimento. Diversas pesquisas relacionam o som ao estágio uterino e Tavares (2013) apresenta que o feto é capaz de escutar muito antes que a mãe consiga perceber nele alguma reação no estágio fetal. Tanto o som quanto o movimento físico desempenham um papel fundamental no desenvolvimento humano, pesquisas realizadas há muito tempo provam que os movimentos corporais tanto do feto como da mãe moldam e amadurecem o cérebro da criança, nos primeiros meses da gestação, o feto flutua no líquido amniótico e esses movimentos influenciam as estruturas sensoriais do equilíbrio. Segundo Schroeder (2010), é importante que em tudo e em qualquer contexto de ensino-aprendizagem na área musical sejam integrados elementos musicais. Não se pode separar teoria da prática como também não é possível desvincular ritmo da melodia e da prática da escrita musical e a linguagem musical tradicional. É importante incentivar a participação ativa do aluno na aprendizagem de música, pois, de acordo com o mesmo autor, por meio dos movimentos do corpo, é possível concretizar elementos e ideias musicais trazendo vivências de seu mundo e contribuindo criativamente para o enriquecimento das atividades desenvolvidas na aula de música. Acreditar no potencial educativo da música é um ponto de partida para um trabalho abrangente efetivo do ensino de música. A aula de música é uma grande ferramenta de educação e pode ser um momento importante de comunicação e expressão. Ensinar música é muito mais do que transmitir uma técnica para tocar instrumento ou passar noções teóricas de música, é permitir que o indivíduo se familiarize com a música por meio de um processo gradual que, segundo Schroeder (2000), chamamos normalmente de sensibilização. Ao mesmo tempo que inicia a parte rítmica, o professor pode começar um trabalho de melodia ou musicalidade e é importante entender que esses termos estão trabalhando conjuntamente e que a música é um todo. O aspecto rítmico é inerente ao ser humano segundo Schroeder (2000) e está ligado a sua parte fisiológica e ao movimento. A manifestação do ritmo da criança acontece intuitivamente/espontaneamente. Schroeder (2000) apresenta que é necessária a existência do ritmo como elemento musical básico e deve acontecer durante sua vivência. Um dos termos mais utilizados é pulsação, em que o ritmo ideal é a marcação do pulso de uma música que surge naturalmente como quando vemos pessoas 91 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 movimentando a ponta dos pés, a cabeça, o corpo ou batendo palmas ao ouvir uma melodia. Segundo Schroeder (2000), a pulsação é um elemento regulador do ritmo e é imprescindível interiorizar a noção de pulso antes de compreender o ritmo. Uma sugestão do autor para facilitar o entendimento do aluno é que façamos uma analogia entre a pulsação da música e a humana colocando os dedos em seu próprio punho ou a mão no pescoço ou sobre o coração, dessa forma é possível perceber a regularidade que é a constância das batidas. Podemos propor que apesar de haver variação de velocidade durante os movimentos do pulso, eles mantêm sua regularidade e, a partir dessa experiência, podemos apresentar que a música é como o coração se expressa por meio da pulsação ou do pulso. Um outro conceito importante é o de acento ou compasso que está diretamente relacionado à pulsação, por isso é entendido após a ideia de pulso. O acento determina a visão de compasso e, consequentemente, a sua forma. Para chegarmos à noção teórica de compasso e fórmula de compasso, precisamos identificar o acento musical através da percepção do acento em canções já conhecidas. Schroeder (2000) apresenta como sugestão de prática cantar uma música com a qual você já esteja acostumado e perceber, com flexões de tronco, o balanço dos braços como existem assentos diferentes durante a música mesmo ela se mantendo igual. Definimos como ritmo binário quando possuímos o acento de 2 em 2 pulsos; ritmo ternário quando o acento ocorre de 3 em 3 pulsos; ritmo quaternário quando o acento ocorre de 4 em 4 pulsos e para algumas músicas não é possível perceber esses acentos, por isso as chamamos de complexas. Veja a seguir alguns exemplos: • ritmo binário: merengue, música pop, entre outros; • ritmo ternário: valsa, forró, entre outros; • ritmo quaternário: samba, salsa, entre outros; • ritmos complexos: tango, música clássica, entre outros. Leia a seguir alguns exemplos de como podemos praticar com os alunos a ideia de ritmo e musicalidade apresentados por Schroeder (2000). 92 Expressão do Corpo e Musicalidade FIGURA 1 – EXERCÍCIOS PARA AULA DE PULSO FONTE: Schroeder (2000, p. 32) FIGURA 2 – EXERCÍCIO DE AULA 2 FONTE: Schroeder (2000, p. 32) Segue agora uma sugestão de prática para a ideia de cumprimento do som para introduzir a ideia de sons longos e curtos apresentada por Schroeder (2000). 93 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 FIGURA 3 – EXERCÍCIO DE AULA 3 FONTE: Schroeder (2000, p. 33) A frase musical, portanto, é composta de 8 tempos musicais. Se é um ritmo binário, teremos 4 repetições para formar uma frase musical, já no ritmo quaternário, teremos 2 repetições. Um bloco musical é formado de 4 frases musicais e, portanto, de 32 tempos, normalmente, a primeira frase se chamará de pergunta e a segunda frase de resposta repetindo a nuance nas próximas 2 frases musicais. Na prática a seguir, a ideia é ter uma noção de compasso. 94 Expressão do Corpo e Musicalidade 1 A frase musical, portanto, é composta por 8 tempos musicais. Se é um ritmo binário, teremos 4 repetições para formar uma frase musical, já no ritmo quaternário, teremos 2 repetições. Um bloco musical é formado, portanto, por: Assinale a alternativa correta. a) ( ) 2 frases musicais e 16 tempos. b) ( ) 4 frases musicais e 32 tempos. c) ( ) 3 frases musicais e 24 tempos. d) ( ) 5 frases musicais e 40 tempos. e) ( ) 6 frases musicais e 48 tempos. FONTE: Schroeder (2000, p. 33) FIGURA 4 – EXERCÍCIO DE AULA 4 Vamos praticar! 95 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 2 Segundo Schroeder (2000), a __________ é um elemento regulador do ritmo e é imprescindível interiorizar a noção de pulso antes de compreender o ritmo. Uma sugestão do autor para facilitar o entendimento do aluno é que façamos uma analogia entre a ________ da música e a humana. Preencha as lacunas e assinale a resposta correta. a) ( ) pulsação – ritmo. b) ( ) ritmo – ritmo. c) ( ) ritmo – pulsação. d) ( ) batida – ritmo. e) ( ) pulsação – pulsação. FONTE: Schroeder (2000, p. 33) Vamos a mais uma prática? A ideia da prática apresentada por Schroeder é que ela permita a compreensão rítmica e de esquemas de ritmo, no caso o quaternário, para compreendermos como funciona cada formato de ritmo. FIGURA 5 – EXERCÍCIO DE AULA 5 96 Expressão do Corpo e Musicalidade FIGURA 6 – DEMONSTRAÇÃO DO EXERCÍCIO FONTE: Schroeder (2000, p. 34) Indo mais além nos conceitos musicais, vamos pensar em gêneros musicais. De acordo com Tavares (2013), os gêneros podem aparecer mesclados em diversas composições, porém eles subdividem-se em: • música religiosa: aquela que tem como finalidade fazer uma oração a um ser divino, agradecer, fazer um pedido e louvar independentemente de religião; • música profana: aquela que não tem intenção religiosa, que é para relaxar, dançar, ninar, brincar, guerrear e anunciar algo; • música tradicional étnica: consiste na música de raiz feita pelo povo normalmente com caráter ritualístico; • música folclórica ou cultura popular: normalmente criada de forma coletiva, é aceita pela comunidade, é transmitida pela tradição oral e normalmente não se sabe quem é compositor;• música erudita: feita normalmente por pessoas que estudaram música formalmente e que seguem determinados padrões de composição; • música popular urbana: que é a música feita por um compositor conhecido que normalmente alcança todas as camadas da sociedade, características dos centros urbanos e com certo apoio da mídia; • música criada pela indústria cultural: aquela feita para ser assimilada por muitas pessoas, sua estrutura de composição é simples e sua intenção é incentivar o consumo alienado da população. 97 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 1 Indo mais além nos conceitos musicais, vamos pensar em gêneros musicais. De acordo com Tavares (2013), os gêneros podem aparecer mesclados em diversas composições. A música ____________ consiste na música de raiz feita pelo povo normalmente com caráter ritualístico. Preencha a lacuna e assinale a alternativa correta. a) ( ) erudita b) ( ) profana c) ( ) popular urbana d) ( ) tradicional étnica e) ( ) religiosa Ainda na análise das formas musicais, Tavares (2013) apresenta a seguinte classificação: • concerto: uma obra musical na qual frequentemente um instrumento solista contrasta com um conjunto de orquestra; • sonata: uma sinfonia composta para ser executada por um grupo menor de instrumentos musicais e não precisa de uma orquestra inteira; • rock: esse estilo surgiu na década de 60 e tem várias formas musicais. Todas elas incorporadas nesse estilo têm semelhança com o canto e possuem instrumentos elétricos amplificados. Após compreendermos a música, ficam as seguintes perguntas: quem fez essa música? Quando? Essas perguntas dizem respeito ao contexto no qual a música foi criada, pois, por exemplo, ela pode ter uma representatividade de um período da história da música e apresentar características comuns da época. Como ela foi criada, segundo Tavares (2013), apresenta uma relação de movimentos musicais, como o impressionismo, a jovem guarda e a bossa nova. É importante compreender o contexto de produção para poder analisar a música fazendo referência também ao lugar de origem, por exemplo, a música inglesa, música nordestina e ópera chinesa. Só através de questionamentos como esses é possível perceber que, dependendo da época e do lugar, as músicas têm características distintas diretamente relacionadas com o contexto em que foram criadas como estudaremos a seguir. Vamos praticar? 98 Expressão do Corpo e Musicalidade 2 Ainda na análise das formas musicais, Tavares (2013) apresenta a seguinte classificação: • Concerto • Sonata • Rock Assinale a alternativa que descreve o estilo musical Rock. a) ( ) É um estilo que surgiu na década de 70; em um sentido mais amplo, muitas formas musicais são incorporadas a ele; tem semelhança com o canto; e possui instrumentos analógicos amplificados. b) ( ) É uma sinfonia composta para ser executada por um grupo menor de instrumentos musicais e não precisa de uma orquestra inteira. c) ( ) É uma obra musical na qual, frequentemente, um instrumento solista contrasta com um conjunto de orquestra. d) ( ) É um estilo que surgiu na década de 90; em um sentido mais amplo, muitas formas musicais são incorporadas a ele; tem semelhança com o canto; e possui instrumentos tradicionais de percussão. e) ( ) É um estilo que surgiu na década de 60; em um sentido mais amplo, muitas formas musicais são incorporadas a ele; tem semelhança com o canto; e possui instrumentos elétricos amplificados. 2 DIFERENTES ESTILOS MUSICAIS, HISTÓRIA E CARACTERÍSTICAS É sabido que os povos da pré-história criavam e executavam música para as mais diversas situações. Portanto o homem nunca parou de fazer música, ela faz parte da vida de praticamente todos os povos e de todas as épocas. Segundo Tavares (2013), como estilo musical que deu início à música, podemos citar a música étnica que é aquela feita pelos povos que viviam de uma forma mais primitiva como tribos indígenas e povos da África da Ásia da Oceania. De acordo com Tavares (2013), esse gênero musical, na maioria das vezes, está relacionado a rituais religiosos e tem uma ligação íntima com a natureza, por isso também, algumas vezes, é chamado de música ritualística. Elas têm 99 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 características específicas e são executadas por muitos tipos de instrumentos musicais, com técnicas vocais diferentes das que estamos acostumados a escutar atualmente. O autor ainda enfatiza que esse tipo de música é pouco conhecido e a maioria dos povos que mantém as tradições musicais foi dizimada pela cultura ocidental e pela dominação de povos que eram considerados mais desenvolvidos. Algumas músicas étnicas sobreviveram até os dias de hoje, permitindo a análise e estudo desse gênero musical. A comparação da música ética de diversos povos e a suposição sobre algumas características dessa música primitiva como era na pré-história, por exemplo, apresenta as seguintes características: • íntima relação com os elementos da natureza; • transmitida de geração em geração através da fala; • acompanhada de dança; • responsável pela formação dos indivíduos; • acompanhada de instrumentos musicais feitos com materiais naturais. Tavares (2013) apresenta que, através de entrevistas e da conversa coletiva sobre o assunto, foi desenvolvida a seguinte lista para comparar estilos de música de diversos tempos e lugares: • música para ninar; • música para guerrear; • música de divertimento; • música de oração; • música para casamento em rituais em geral; • música de trabalho; • música para publicidade; • música para acompanhar imagens, trilha sonora; • músicas para relaxar; • músicas para curar; • músicas para seduzir; • músicas para educar; • músicas para contar histórias; • músicas para dançar. A essa última denominação é que vamos nos ater nas páginas a seguir. 100 Expressão do Corpo e Musicalidade Curiosidade: Ried (2003) nos apresenta o estado de flow, que é um dos principais fatores do estado de felicidade. A dança é um fator de qualidade de vida, pois propicia o estado de flow durante sua realização. Além disso, a prática age sobre o sistema cardiovascular e muscular de maneira corretiva e terapêutica. O incentivo educacional da dança de salão é uma proposta excelente para diversos fatores atuantes no processo educativo, visto que promove melhorias física e cognitiva, assim como ganho psicológico com a melhora da autoestima e do humor. Tratando-se da dança de salão, o fator social deve ser destacado, que influencia nas relações e no aprendizado de como devemos nos postar e relacionar com os outros. Você Quer Ler? Desenvolvido a partir de uma pesquisa que, após virar artigo, foi editada pela editora Phorte, o livro Dança de Salão apresenta a dança de salão e sua potencialidade como prática de desenvolvimento motor no Ensino Fundamental. Na obra os autores e pesquisadores Maria Aparecida Coimbra Maia e Vanildo Rodrigues Pereira apresentam diversos teste físicos que foram feitos após a aplicação da dança de salão na educação básica. FIGURA – CAPA DO LIVRO FONTE: A autora 101 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 Vamos compreender um pouco mais os estilos de música utilizados na dança social? O maxixe, criado no Rio de Janeiro, mais precisamente na periferia, por volta de 1870, ficou conhecido como “tango brasileiro”. Na época, era muito comum dançar tango nos salões brasileiros, além de grandes artistas da época escutarem esse estilo musical. Ele foi influenciado pela estrutura de dança de entrelaçar de pernas e pelo lundum — dança africana com característica de umbigada, sendo que, mais à frente, deu origem ao samba de gafieira. De forma sensual, o maxixe era dançado com os pés sendo arrastados, sem se levantaremdo chão, com pernas entrecruzadas e muito rebolado. Devido aos movimentos explícitos, chegou a ser proibida. Seu abraço remete ao forró, porém, no maxixe, os passos são mais curtos e com mais movimento de cintura. Apesar de ser um estilo rápido de dança, ela persistiu até hoje e é ensinada nas escolas de dança do país inteiro, muito popular no Nordeste e no Rio de Janeiro (RIED, 2003). O lindy hop, por sua vez, de origem norte-americana, tem influência africana e é dançado ao som do swing jazz, carregando características que lembram o soltinho brasileiro. Uma das danças mais antigas, sua origem remonta à década de 1920, feita para dançar nos salões durante as apresentações das big bands (RIED, 2003). A base do sapateado e o charleston foram utilizados para incorporar o lindy hop e, apesar da segregação racial da época, negros e brancos lotavam os salões para dançar o estilo. Um tempo depois, a pedido de cineastas de Hollywood, a dança ganhou um caráter mais aberto e passou a aparecer na maioria dos filmes norte-americanos. Já a rumba, de origem cubana, recebeu influências dos ritmos africanos e do jazz. Criada na década de 1930 por influências das músicas trazidas pelos espanhóis para Cuba e pelas danças africanas trazidas pelos escravos, a rumba era dançada de forma rápida e enérgica. Para dançá-la, o casal deveria afastar a pélvis e evitar contato físico, somente mantendo as mãos entrelaçadas —não se sabe se isso era para facilitar a execução dos passos ou por uma questão social, pois a dança contém extrema sensualidade. Em 1925, inclusive, foi banida do país por ser considerada inapropriada (RIED, 2003). A bachata tem origem na República Dominicana na década de 1960 e é considerada o bolero da dança latina. De acordo com Ried (2003), ela é tocada em ritmo mais lento que a rumba, nos mesmos bailes de encontros de latinos. Sua grande característica é o movimento de quadril no quarto tempo musical. 102 Expressão do Corpo e Musicalidade Normalmente com tema romântico, tinha por intuito, nas festas, aproximar os casais, pois a rumba distanciava e não permitia “sentir” melhor o parceiro. Ela tem como grande nome na música o cantor Juan Luiz Guerra. Atualmente, temos Prince Royce, com a dança cantada em uma “levada” mais rápida que sua velocidade original. O chá-chá-chá, por sua vez, é de origem cubana, derivado do mambo e da rumba e com origem nos anos de 1950 (RIED, 2003). Ele tem por característica a marcação de pés na “pausa” entre o deslocamento para frente e para trás. Da mesma maneira que a rumba, os casais não dançam tão próximos, apesar de suas letras terem conotação romântica. Além disso, muitos dos movimentos da rumba são executados nesse estilo, com a inserção do chassê, realizado na pausa da troca de pés. Diferentemente da maioria dos outros ritmos, o chá-chá- chá foi criado para acompanhar o som que era emitido quando os dançarinos dançavam um tipo de rumba mais lento. Podemos citar como grandes nomes que cantam, hoje, o estilo, Carlos Santana e Rick Martin. Com relação ao forró há uma ampla discussão quanto a sua origem. Alguns historiadores contam que seu nome deriva da palavra “forrobodó”, pois as festas eram animadas e davam a entender que, segundo a expressão nordestina, o “agito” era um forrobodó. Contudo, outros pesquisadores tratam seu nome como uma expressão norte-americana de “for-all”, que havia sido dada pelos “gringos” quando visitavam o Nordeste e iam nas festas do povo. De acordo com Ried (2003), o forró é uma dança típica realizada entre casais, com movimentos de giro e quadril. Na década de 1980, surgiu um estilo de forró que, utilizando instrumentos musicais eletrônicos, passou a se chamar “forró eletrônico”. Por ser mais rápido, atraiu o público jovem e ganhou popularidade nos bailes de forró, principalmente, em São Paulo. Entre seus passos mais básicos, temos o dois e dois, a frente e trás e a insistência ou pilão. Dança-se bem próximo e, normalmente, sua velocidade é rápida. O samba de gafieira originou-se do maxixe e começou a ser praticado a partir do Século XX. O nome vem da palavra francesa “gaffe” (gafe) e foi dado por um jornalista da época que, ao visitar os salões de dança, considerou que eram cometidas muitas “gafes” nos locais, tendo em vista a cultura e os bons costumes da época (RIED, 2003). É a música e a dança mais divulgada no Brasil, acompanhada por instrumentos como o violão, o cavaquinho, a percussão, o choro e a clarineta. Temos, também, o merengue, que é um ritmo da República Dominicana e é muito dançado em Porto Rico, Haiti, Venezuela e Colômbia. É tocado com instrumentos como saxofones, acordeão, trompete e teclado. Sua base é diferente 103 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 da maioria das músicas latinas binárias, sendo que seus movimentos são simples e de enlace de braços. Os movimentos do quadril é que ganham destaque no merengue, já que os de pé se assemelham a de uma marcha militar. Aliás, o estilo tem como seus grandes representantes na música dois nomes: Elvis Crespo e Juan Luiz Guerra. A salsa, apesar de ser considerada uma dança, denomina todos ritmos da América Central, como o chá-chá-chá, a rumba, o dano e o mambo. Conforme nos explica Ried (2003), a denominação foi dada pela gravadora norte-americana de discos latinos Fania Records a fim de vender melhor as músicas dessa área da América. FIGURA 7 – SALSA FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/>. Acesso em: 18 nov. 2019. Dentro dos estilos musicais, podemos mencionar a salsa Los Angeles, dançada no tempo 1 da frase musical; a salsa Nova York, dançada no tempo 2 da frase musical; e a salsa Cubana, dançada no tempo 3 da frase musical. Outro estilo que deve ser citado é a salsa Bogaloo, que é o formato de dança dançado na Colômbia e mundialmente conhecido por ter os maiores campeões de salsa nas competições internacionais. Como dito, tais estilos carregam os locais em que se desenvolveram e receberam características específicas de acordo com as danças locais. O bolero, ritmo de origem europeia, chegou em Cuba pelos espanhóis por volta do século XIX. Seus movimentos básicos são o dois e dois e a frente e trás. Em suas evoluções, temos os giros, as caminhadas e os cruzados. De acordo 104 Expressão do Corpo e Musicalidade com Ried (2003), o nome desse ritmo foi dado para homenagear os vestidos usados por algumas dançarinas, os quais possuíam bolas que eram chamadas de “boleiras”. Ainda temos o tango, que surgiu nos bairros mais humildes da Argentina e acabou se tornando um dos ritmos e das danças mais dançadas e assistidas no mundo. Apesar da origem argentina, o tango argentino sofreu influências da Itália, França e Espanha. Sua criação tem os homens argentinos carregadores de navios de Puerto Madero que faziam filas nos bordéis e, durante a espera, escutavam tango (RIED, 2003). O zouk tem origem musical nas ilhas do Caribe. A palavra, porém, é de origem africana e significa “festa”. Se nome e música já não procedem do mesmo lugar, a dança também não. Com características do carimbo e das danças típicas do norte brasileiro, o zouk tem origem no Brasil (RIED, 2003). Devido a sua fusão com a salsa, o estilo foi chamado de “lambada” no final da década de 1980 e ganhou o mundo no período. No entanto, ela ficou conhecida como uma dança proibida nos filmes norte-americanos e, academicamente, teve dificuldade para se manter no Brasil. Com isso, os profissionais da dança que trabalhavam na Europa se uniram e passaram a chamar a dança novamente de zouk, a fim de tentar fortalecer o estilo. A dança toma força e passa a ser dançada no Brasil com mais popularidade, sendo um dos ritmos mais comuns hoje, após a realização do Berg’s Congresso em 2004. FIGURA 8 – ZOUK FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/>. Acesso em: 18 nov. 2019. 105 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 31 O _______ ritmo de origem europeia, chegou em Cuba pelos espanhóis por volta do século XIX. Seus movimentos básicos são o dois e dois e a frente e trás. Em suas evoluções, temos os giros, as caminhadas e os cruzados. De acordo com Ried (2003), o nome desse ritmo foi dado para homenagear os vestidos usados por algumas dançarinas. Assinale a alternativa que corresponde a esse estilo de música. a) ( ) tango b) ( ) forró c) ( ) bolero d) ( ) salsa e) ( ) samba 2 O _______ tem origem musical nas ilhas do Caribe. A palavra, porém, é de origem africana e significa “festa”. Se nome e música já não procedem do mesmo lugar, a dança também não. Com características do carimbo e das danças típicas do norte brasileiro, o ______ tem origem no Brasil (RIED, 2003). Assinale a alternativa que apresenta o ritmo descrito no enunciado. a) ( ) samba/samba b) ( ) zouk/zouk c) ( ) pagode/pagode d) ( ) forró/forró e) ( ) salsa/salsa Vamos praticar? Vamos saber mais sobre o Bolero? Como nos explica Ried (2003), o bolero tem origem na Europa, mais precisamente na Espanha. Ele chegou em Cuba ainda no Século XIX pelos colonizadores espanhóis. Como vimos, recebeu esse nome para homenagear os vestidos usados por algumas bailarinas, que continham bolas chamadas de “boleiras”. 106 Expressão do Corpo e Musicalidade Entre os boleros clássicos, podemos mencionar Usted, de Luis Miguel; Sábanas Frias, de Maná e Rubén Blades; Corazón Partío, de Alejandro Sanz; e Samba Pa Ti (Acoustic), de Santana e Ottmar Liebert. Já entre as músicas modernas para se dançar o bolero, temos Sway, de The Pussy cat Dolls; Perfect Love, de SimplyRed; She Will Be Loved, do Maroon 5; e Caso Sério, da Rita Lee. 2.1 RITMOS BRASILEIROS/ SAMBA E PAGODE O samba é uma música típica brasileira dançada ao som de pagode, bossa nova, samba rock e demais variações, tendo sua origem no maxixe. Recebeu influências do rock e, dessa fusão, nasceu a vertente de dança chamada samba- rock, muito comum na cidade de São Paulo. Além disso, como sua origem data do período em que o tango tinha forte presença nos salões brasileiros, muitos de seus movimentos foram incorporados ao samba. Já o pagode, enquanto música, tem por característica o mesmo significado de seu nome, ou seja, a reunião de diversos sambistas. Para se dançar o samba de gafieira, algumas músicas se encaixam melhor que outras. Dessa forma, quanto mais melódicas e tranquilas, melhor. Já para o pagode, as músicas mais rápidas e alegres são mais adequadas. • Alcione – Meu ébano. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=Wo_KbGmrvIg>. Acesso em: 30 nov. 2020. • Alcione e Emilio Santiago – Eu só sei que amei. • Art Popular – Meu fraco é mulher. • Djavan – Fato Consumado. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=PqfN8iwlEIk>. Acesso em: 30 nov. 2020. • Martinho da Vila – Devagar, devagarinho. • Martinho da Vila – O pai da alegria. • Black Eye Peas feat. Sergio Mendes – Mas Que Nada. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ucD0gTr66ho>. Acesso em: 30 nov. 2020. • Luiz Melodia – Diz que fui por aí. • Seu Jorge – Burguesinha. • Seu Jorge – O samba tá aí. • Seu Jorge e Zeca Pagodinho – Samba do approach. • Dudu Nobre – Mordomia. • Zeca Pagodinho e Beth Carvalho – Camarão que dorme a onda leva. • Zeca Pagodinho e Dudu Nobre – Faixa amarela. Disponível em: <https:// 107 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 www.youtube.com/watch?v=lhaBsl7kk5k>. Acesso em: 30 nov. 2020. • Zeca Pagodinho e Sandra de Sá – Judia de mim. • Beth Carvalho – Amor de verdade. • Maria Rita – Casa de noca. • Maria Rita – Num corpo só. • Maria Rita – Ta perdoado. • Maria Rita – Corpitcho. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=XYT99yMuYB0>. Acesso em: 30 nov. 2020. • Maria Rita – Maltratar, não é direito. • Casuarina – Tempo de Don Don. • Martinália – Chega. • Arlindo Cruz – O meu lugar. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=TC3BhhraHgc>. Acesso em: 30 nov. 2020. • Martinália – Entretanto. • Turma do Pagode – Camisa 10. Para dançar samba Para dançar pagode Alcione – Meu ébano Alcione e Emilio Santiago – Eu só sei que amei Art Popular – Meu fraco é mulher Martinho da Vila – O pai da alegria Seu Jorge – O samba tá aí Djavan – Fato consumado Martinho da Vila – Devagar, deva- garinho Seu Jorge – Burguesinha Tendo em vista a apresentação dessas músicas, vamos praticar? Se separarmos por velocidade as músicas apresentadas, poderíamos determinar quais serviriam para o pagode e quais serviriam para se dançar samba? Vamos a um exemplo: Para se dançar samba, poderíamos escolher: Eu só sei que amei de Alcione e Emilio Santiago, as duas se encaixariam na proposta. Para se dançar pagode: Burguesinha de Seu Jorge seria a escolha adequada. Portanto, ficaria como é apresentado no quadro a seguir. QUADRO – SAMBA E PAGODE – MÚSICAS 108 Expressão do Corpo e Musicalidade Black Eye Peas feat. Sergio Mendes – Mas que nada Seu Jorge e Zeca Pagodinho – Samba do approach Luiz Melodia – Diz que fui por aí Dudu Nobre – Mordomia Zeca Pagodinho e Beth Carvalho – Camarão que dorme a onda leva Zeca Pagodinho e Dudu Nobre – Faixa amarela Maria Rita – Casa de Noca Zeca Pagodinho e Sandra de Sá – Judia de mim Maria Rita – Num corpo só Beth Carvalho – Amor de verdade Maria Rita – Corpitcho Maria Rita – Tá perdoado Arlindo Cruz – O Meu Lugar Maria Rita – Maltratar, não é direito Martinália – Chega Casuarina – Tempo de Don Don Martinália – Entretanto Turma do Pagode – Camisa 10 FONTE: A autora Lopes (2004) considera que o samba, na verdade, é uma síntese de múltiplas influências musicais que chegaram ao Brasil no Século XVI. De acordo com o autor, os “[…] festejos das ruas em glória aos reis do congo, realçados por muita música e dança, seriam só uma recriação das celebrações que marcavam a entonação dos reis na África” (LOPES, 2004, p.15). A atividade era tida como uma forma de sobrevivência dos costumes dos escravos para animarem suas vidas e o trabalho. De acordo com Lopes (2004), nos textos dos autos dramáticos e nos nomes e nas cantigas entoadas, muitos termos e expressões de origem dos idiomas quicongo e quimbundo eram utilizados. Temos, também, o termo “samba” que tem origem africana e vem da palavra “semba”. O pesquisador Lopes (2004) descreve que a palavra samba era, no idioma quioco de Angola, o verbo utilizado para descrever brincar da expressão “cabriolar” que vem de “agir como um cabrito”. Na raiz do samba, encontra-se a raiz do banta que deu origem à umbigada, um movimento muito comum nos passos de maxixe e nas rodas dançadas desse estilo. 109 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 Você sabia? No site Estatutos da Gafieira desenvolvido pelo Itaú Cultural como um repositório de músicas do Brasil uma listagem de músicas e músicos de samba é apresentada. Nela é possível ver que tanto músicos antigos quanto atuais integram o grupo de músicos que desenvolvem o estilo musical samba. Para saber mais, entre no site através do link: <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/ busca?categoria=musica&q=Samba>. Acesso em: 30 nov. 2020. Já o pagode, que tem uma origem mais atual, no mundo contemporâneo, ganhou características do samba, porém teve a fusão com elementos de outros ritmos. As danças que cederam movimentos a este estilo de dança são o forró, a salsa e o zouk. No Brasil existem diversas regiões e cada uma delas possuí suas músicas que se diferem em estilo e características uma das outras. Como vivemos em um país geograficamente extenso, é natural que as músicas mais do Sul recebam uma herança das danças dos pampas, portanto, características mais “sulistas” como as músicas gaúchas e a Chacarera Argentina que se parecem em estilo. Já no norte do país, as músicas se mesclam com os estilos das músicas do Caribe, como o Zouke o Carimbó. A seguir, vamos conhecer alguns estilos brasileiros regionais. 2.2 SAMBA E SAMBA DE GAFIEIRA Para Ried (2003), o samba de gafieira é um dos ritmos e das danças mais dançadas no Brasil. Sua origem se deu no Rio de Janeiro estado, porém mais precisamente na cidade do Rio de Janeiro, nas comunidades mais simples. Sua origem tem relação com as danças de matiz africana como o Lundum e o Semba. A mescla das músicas dos tambores africanos unida a instrumentos de cordas das músicas jazzistas deu origem ao estilo musical samba e para ele passou a ser desenvolvida uma dança. Em seus instrumentos principais, temos o cavaquinho, o pandeiro, o agogô, o repenique, o violão e, muitas vezes, alguns elementos de sopro como o trompete e o saxofone. De acordo com Perna (2001), esses últimos instrumentos foram inseridos no samba devido à forte influência que os músicos brasileiros tiveram do Rock norte-americano durante o período de desenvolvimento da música samba. 110 Expressão do Corpo e Musicalidade No início sua estrutura musical tinha característica binária com o surdo sendo sempre a batida rítmica principal. No entanto, ao receber as características musicais do rock, o samba se transforma em uma estrutura quaternária com sua base marcada com piano e cavaquinho. 2.3 FORRÓ Segundo Zamoner (2013), a origem do forró é nordestina e dança e música se relacionam com a mesma designação. Tanto a música quanto a dança se conectam diretamente aos aspectos regionais nordestinos. Para Ried (2003), seu surgimento se dá no Século XIX. Os instrumentos comuns são o triângulo, a zabumba e a sanfona. No entanto, tratando-se musicalmente, hoje, existem muitos estilos de forró e alguns incorporam aos instrumentos citados o teclado eletrônico e a guitarra como acontece no forró eletrônico. Perna (2002) relata duas histórias da origem do nome forró. Uma está relacionada ao local no qual se dançava que por ser uma grande festa era um forrobodó e por isso o nome de forró para a dança. A outra história está associada à etimologia da palavra forró que teria vindo da expressão “for all” utilizada pelos “gringos”, que vieram a turismo para o nordeste, para se referirem às festas ocorridas por lá. A escolha do uso dessa expressão deve-se à democratização dos locais onde essas festas ocorriam, pois permitiam a entrada de todas as pessoas. Sua disseminação no país deu-se muito através dos imigrantes nordestinos. Tanto que uma das cidades em que mais se dança esse estilo e que é considerada a “capital” do forró, segundo Zamoner (2013), é São Paulo. Existem por lá muitas escolas de dança de salão nas quais se ensina esse estilo, além de vários locais para dançá-lo. Entre eles, podemos citar o Canto da Ema que é considerado um dos tradicionais, nele apresentam-se as principais bandas de forró do país como Falamansa, Rastapé, Forróçana, entre outras. 111 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 FIGURA 9 – CANTO DA EMA – SP FONTE: A autora No Canto da Ema pessoas de todos os locais do país se reúnem para dançar forró. O local também é famoso por ter uma das mais tradicionais festas juninas do país que é apresentada na imagem anterior. Bandas famosas de forró, além de se apresentarem, também já gravaram vídeo clipes nesse local como o vídeo clipe da música Amigo velho da banda Falamansa. Dentre cantores famosos, temos cantando forró: Elba Ramalho, Gabriel Diniz e Wesley Safadão. A banda mais famosa, que carrega o nome dessa música/ dança, é Aviões do Forró que tem por característica cantar somente esse estilo e levar para os seus shows um grupo de dançarinos que dança durante toda apresentação no palco. Ainda podemos citar Alceu Valença, Calcinha preta, Frank Aguiar, Genival Lacerda, Jackson do Pandeiro, Mastruz com Leite e Zé Ramalho. 112 Expressão do Corpo e Musicalidade Você sabia? No dia 13 de dezembro, é comemorado o dia internacional do forró. Nesse dia muitas festividades relacionadas a esse estilo são realizadas por todo país e, principalmente, no Nordeste. Acesse o link a seguir para ler uma matéria que divulga o I Fórum de Forró de raiz no Espírito Santo. <https://www.aquinoticias. com/2019/07/i-forum-de-forro-de-raiz-do-espirito-santo-sera- promovido-em-itaunas/>. Acesso em: 30 nov. 2020. Você o conhece? Genival Lacerda, nascido em Campina Grande no ano de 1931, é um dos mais famosos cantores e compositores de forró. Teve como principais sucessos as músicas: Severina Chiquê Xique, De quem é esse jegue, e Radinho de pilha. Durante sua carreira, gravou 70 discos e participou de diversos programas de TV e inclusive de filmes brasileiros. Fez composição com músicos famosos como Elba Ramalho e Jackson do Pandeiro, esse último tornou-se seu concunhado. Famoso por balançar a barriga durante suas apresentações, sempre utilizou em sua vestimenta roupas tradicionais nordestinas, enaltecendo a cultura do Nordeste. Atualmente, a música se divide em alguns estilos que passaram a designar algumas diferenças no formato de seu ritmo e dança, de acordo com Perna (2012). Entre os atuais estilos temos: • o forró eletrônico com instrumentação eletrônica e uma dança bem mais rápida e com movimentos enérgicos; • o forró tradicional, com movimentos tranquilos e o contato corporal durante maior parte do tempo da dança, o forró rastapé com uma música tranquila e a dança conduzida com os pés mais rentes ao solo sem saltito, nem muitos giros; • o forró universitário que ganhou essa denominação devido aos universitários paulistas que realizavam festas com esse estilo musical e colocavam movimentos de giro aprendidos de outras danças como a salsa. 113 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 No I Fórum de Forró de raiz, pesquisadores, produtores e gestores públicos reuniram praticantes de forró e artistas desse gênero para realizar debates sobre como proteger e preservar as raízes do forró. O evento ocorreu em 17 e 18 de julho de 2019 na Vila de Itaúna no município de Conceição da Barra no Espírito Santo. Políticas públicas para preservar o forró também foram discutidas. Outros eventos importantes espalhados pelo país apresentam aulas, bailes, shows e ciclos de debate sobre a temática Forró, entre eles podemos citar: • Forró in Rio que se realiza todo ano na cidade do Rio de Janeiro e reúne os forrozeiros da região sudeste; • Encontro de Forró de Itaúna, que, como o nome sugere, é realizado anualmente na cidade mais famosa Itaúna; • Encontro de Forró do Brasil, realizado em Porto Alegre de dois em dois anos está em sua 6ª edição e realiza mais de 24 horas de forró ininterruptas, com duas grandes festas e a Mostra Brasileira de Forró. Organizado por Fábio Reis, grande campeão do estilo e dj de forró, e Fábio Magalhães, proprietário do Gafieira Club escola de dança de Porto Alegre; • Forrózea, que é o encontro de forró da baixada santista, reúne diversos forrozeiros de São Paulo e do Nordeste brasileiro. 2.4 AS RELAÇÕES ENTRE SAMBA DE GAFIEIRA E FORRÓ O samba de gafieira é um dos ritmos mais comuns no Brasil, sendo que sua história é permeada de personalidades cariocas que deram origem ao estilo e desenvolveram a música e a dança. Temos, portanto, a música e a dança de samba de gafieira. Durante anos, o estilo recebeu influências do rock, do jazz e do funk, modificando-se e recebendo elementos por meio de instrumentos e movimentos. O forró, por sua vez, em sua origem, tem mais de uma história. Enquanto dança, locais famosos, como o Canto da Ema, fazem parte da linha do tempo da dança e são fundamentais em seu desenvolvimento. Com o passar dos anos, sendo uma importante dança nas festividades juninas, o estilo se desenvolveu e adquiriu uma roupagem mais moderna, com elementos mais eletrônicos. Como estilos brasileiros, os dois estilos são os mais conhecidos e praticados. Enquanto o samba tem sua origem no Sudeste, o forrótem no Nordeste. No 114 Expressão do Corpo e Musicalidade entanto, o desenvolvimento das duas danças se entrecruza, conforme o samba de gafieira ganha espaço tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, o forró acaba ganhando força em sua estrutura de dança em São Paulo. 3 RITMOS LATINOS E REGIONAIS Cores fortes e contrastantes, junto com a energia da dança espanhola, são vistas nas apresentações e festas de danças latinas até hoje. Zamonen (2013) relaciona então essas danças espanholas com a influência africana como origem das danças latinas. Os escravos trazidos pelos colonizadores espanhóis descendiam de duas tribos principais da África que se localizavam no oeste africano. São elas: a tribo Iorubá e a Bantu. Nessas tribos a dança e o batuque de tambores, feitos com pele de animal, estendido sobre uma caixa acústica que era feita de madeira ou cascas de frutos, como o coco, são caraterísticas incorporadas à música espanhola e que deram origem à maioria das músicas encontradas na américa central e do sul. Como um dos principais países de música latina, podemos citar, de acordo com Ried (2003), Cuba. Nesse país o desenvolvimento de ritmos foi grande, sendo dele a origem do cha cha, do danzón, do bolero, da rumba e do mambo. Esse último é um dos mais famosos estilos emigrados de Cuba que teve em sua origem a soma do Son cubano às músicas de jazz e blues norte-americanas. Essa fusão criou um estilo único que, mesmo com a dupla origem, ficou conhecida como uma dança originalmente cubana por ter sido desenvolvida por cubanos que conseguiam sair de Cuba e se fixar em Miami nos Estados Unidos. Ainda hoje Miami é conhecida por ter casas noturnas e de dança com show e música Cubana. 3.1 ESTILOS DE MÚSICA LATINA Salsa é um estilo de música latina que, segundo Ried (2003), tem os seguintes ritmos latinos: mambo, rumba, cha cha e merengue. Então por que damos o nome do estilo de salsa? O nome salsa, segundo Zamonen (2013), foi dado para designar os estilos de música da América Central, entre eles temos a cúmbia, o danzón, o son cubano, o mambo, a guaracha. Esse nome vem da tradução livre da palavra molho que significa união de temperos. Portanto, todos esses “temperos” musicais seriam a salsa. Entre os estilos latinos e suas danças, podemos citar: 115 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 • Merengue Música originária da república dominicana. Teve início na década de 30 de acordo com Ried (2003). É tocado também no Haiti, na Venezuela e na Colômbia. Sua música tem andamento binário e é tocada por instrumentos de corda e percussão. Tem um forte movimento dos quadris que são característicos dessa dança. É muito parecido com o minueto francês e recebeu o nome de merengue como alusão aos combates da guerra de libertação dominicana denominados “merengues”. Muito utilizado para brincadeiras nos bailes latinos, dançado em roda e com formações semelhantes à quadrilha junina brasileira. • Cumbia Música simples e de andamento rápido. Os movimentos principais são dois e dois e os deslocamentos não são amplos. • Rumba Mistura de gêneros das danças espanholas e africanas. De origem cubana, popularizou-se nos Estados Unidos com a emigração dos cubanos. Tem por instrumentos bases o trompete, saxofone, as congas, os timbales, a campana e as maracas. • Cha Cha Antigamente era conhecido como cha cha cha, ficou famoso na Europa e entrou para as danças competitivas latinas. Sua música é de andamento lento quaternário e recebeu esse nome devido ao som dos pés dos dançarinos que marcavam um contratempo na “pausa” da música entre as trocas de pés. • Mambo De origem cubana, descende da dança rumba. Ficou famoso na música de Lou Bega Mambo Nº 5. É mais rápido que a rumba e tem característica de sons mais de sopro por influência dos músicos de jazz de Nova York, onde se desenvolveu. • Bachata Sua origem é porto riquenha e tem por característica um som de reco-reco marcado pela campana no quarto tempo musical. Antigamente era utilizado de maneira mais lenta e romântica como o bolero, hoje tem características mais parecidas com a rumba. 116 Expressão do Corpo e Musicalidade Você conhece? Entre as principais personalidades da música temos: Tito Puente, Marc Anthony, Gilberto Santa Rosa, Tito Nieves, Buena Vista Social Club (um dos grupos mais famosos de salsa do mundo), Hector Lavoe, Grupo Niche, Willi Colon, Juan Luiz Guerra, Frankie Ruiz, Elvis Crespo, Grupo Africando, entre outras. Destacaremos a seguir Reina de la salsa Celia Cruz. Nascida em 1925 na cidade de Havana em Cuba, Celia Cruz saiu de Cuba aos 34 anos e fez fama em Miami e Nova York. Ficou famosa pelo grito Azucar em suas músicas. Morreu em 2003 vítima de um tumor maligno no cérebro e foi velada nas cidades de Miami e Nova York a pedido da cantora em vida. Foi chamada como “La Reina” por colegas e músicos no mundo todo. De timbre forte, suas músicas são famosas e tocadas em bailes de dança latina até hoje. Vamos saber mais? Os brasilienses aproveitam a variedade de opções de estilos musicais dançantes da cultura nacional e dos países vizinhos para participar de eventos artísticos, de aulas de dança e de festas baseadas na América Latina. A capital abre as portas para prestigiar ritmos nacionais e de países vizinhos, acompanhando a tendência mundial de popularização Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ diversao-e-arte/2017/08/03/interna_diversao_arte,614643/os- indispensaveis-ritmos-latinos-a-disposicao-dos-brasilienses.shtml>. Acesso em: 30 nov. 2020. Muitos ritmos são designados como ritmos latinos, todavia, ao longo desse tópico, destacamos os principais. Para conhecer um pouco mais sobre as músicas latinas, destacaremos a seguir algumas personalidades marcantes desse estilo. 117 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 FIGURA – CÉLIA CRUZ EM HOMENAGEM EM SELO DOS CORREIOS AMERICANOS FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/>. Acesso em: 18 nov. 2019. 4 DESENVOLVENDO O FRASEAMENTO E A MUSICALIDADE ATRAVÉS DA DANÇA Vamos analisar então qual é a relação entre a musicalidade e seu uso prático na dança. A dança não precisa necessariamente ser acompanhada de música. Segundo Schroeder (2000), muitas vezes, associamos música à dança, isso gera algumas controversas, pois ao fazer isso consideramos que são idênticas e esquecemos que cada uma dessas artes tem suas características específicas e suas identidades. Schroeder (2000) apresenta ainda que dança e música são artes independentes e consideradas por muitos estudiosos como manifestações artísticas que se aproximam, porém uma é distinta da outra. Constantemente relacionamos o uso de música à dança, não de uma forma que seja necessária a existência de uma para que a outra ocorra, mas consideramos a música indispensável para a dança. Como opção pessoal, de acordo com Schroeder (2000), não é um problema em si, desde que não influencie na ideia de criação coreográfica. O autor ainda apresenta que existem bailarinos 118 Expressão do Corpo e Musicalidade e coreógrafos que consideram a dança uma concretização da música, porém, o fato de dar enfoque na música nas suas criações não diminui a importância dos dançarinos e nem tira a qualidade de suas coreografias. Tendo a música como fator central ou não, as obras continuam sendo danças. É comum nos tempos atuais que corógrafos optem por trabalhar com música em suas coreografias até mesmo com músicas ao vivo. Essa relação entre música e dança é intensa, mas não podemos discutir dança sem abordar o corpo que é o fator principal da comunicação entre essas duas artes. Como apresentado nesse capítulo, o ser humano já usa o corpo como forma de comunicação através do movimento antes mesmo da fala, portanto, antes de dominar a linguagem oral, o homem pré-histórico já se utilizava de movimentos corporais paratransmitir mensagens. Na dança quem se comunica é o corpo, transmitindo percepções, sensações e emoções através das qualidades expressivas no espaço. Muitas vezes, em espetáculos de dança, utilizamos como aliada da expressão do corpo a música. Então, nessa perspectiva, a música é uma aliada do artista na dança. Schroeder (2000) destaca que a escolha do tipo da música para a execução de movimentos sincronizados, muitas vezes, tem a ver com a marcação do pulso para que seja possível ser localizado dentro da música. Você pode mudar drasticamente dependendo da escolha da música, portanto, a música não é condição essencial para a dança, porém, quando ela é usada, alia-se o sentido auditivo à visão, trazendo ao público um entender melhor do que está sendo dançado e permite um focar sua atenção nas coisas da arte. FIGURA 10 – DANÇARINOS DE JAZZ FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/>. Acesso em: 18 nov. 2019. 119 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 Tanto a dança pode influenciar a música, quanto o ritmo musical pode influenciar a dança e, portanto, para Schroeder (2000), existe uma reciprocidade mútua entre essas duas artes. As descobertas realizadas no estudo sobre dança e música são inúmeras e as conclusões de algumas pesquisas permitem entender melhor a riqueza de aprendizagem e troca estabelecida entre elas. Na dança, portanto, temos as seguintes situações distintas já apresentadas: • a dança relacionada ao ritmo; • a dança relacionada à melodia. Uma determina qual é o pulso e a dinâmica que será utilizada na realização dos movimentos, enquanto a outra tem sua relação com como será desenvolvida a estrutura coreográfica. Portanto, a pesquisa da música a ser utilizada é fundamental para a criação coreográfica em cima da música, se essa for a escolha do coreógrafo. E o que é uma coreografia? Coreografia é uma palavra proveniente do grego e seu significado é: “A ESCRITA DA DANÇA”. 4.1 A ESCRITA DA DANÇA A palavra coreografia vem do grego koreos, que significa dança/movimento; e da palavra grega grafia, que significa escrita. Coreografia, portanto, é um conjunto de movimentos que organizados têm o objetivo de transmitir alguma mensagem. A coreografia é, portanto, a base da dança, mas cada estilo de dança apresenta características específicas que se relacionam com os movimentos e a sintonia da música. As coreografias podem ser realizadas por uma única pessoa, que são chamadas de monólogas; e por um grupo, que é uma coreografia conjunta. Como poderíamos montar uma coreografia? O primeiro passo para montar uma coreografia é escolher a música que utilizaremos para ela. Depois pensaremos se usaremos a música toda, normalmente, sugere-se que se utilize no máximo três minutos dela, podendo a música escolhida sofrer edições. Isso feito, é necessário fazer um mapeamento da música que nada mais é do que determinar as nuances musicais que ela apresenta para que possamos colocar os movimentos de acordo com a estrutura musical que temos. Ainda sobre como coreografar, destacamos as seguintes dicas: 120 Expressão do Corpo e Musicalidade • a música pode inspirar os passos de dança, mas não necessariamente precisa ser o ponto fundamental, o caminho inverso, escolhendo, primeiramente, os movimentos e depois as músicas que combinem com eles, também pode ser feito; • para o mapeamento, é interessante escutar a música muitas vezes, levando em consideração ritmo, musicalidade e a letra; • pensar em quantos bailarinos teremos na coreografia também é fundamental porque teremos que utilizar deslocamentos e é necessário ver o tempo que será utilizado para isso; • é fundamental que os movimentos combinem com a intensidade da música. E para uma aula de dança, quais seriam as músicas ideais? Para o balé clássico em geral, são escolhidas músicas clássicas, mas cada momento dessa aula, normalmente, precisa de uma música em uma certa intensidade. Por exemplo, iniciamos normalmente com adágio que são músicas com andamento mais lento e nos permitem realizar o aquecimento e os movimentos na barra. Depois desse momento mais lento da aula, começamos a elevar a intensidade, aumentando os movimentos e passamos a utilizar mais dinâmicas como Alegro (estilo mais animado de música). Hoje já existem listas prontas para aulas de balé clássico no Spotify, por exemplo, e, é claro, que você também pode montar a sua. Veja a seguir sugestões de lista de reprodução para utilizar. • Musique pour le cours de danse paris classique de Ellina Akimova. • Musique de danse classique de Musique de Ballet Academy. • La danse par le disque, barre et milieu de Colette Astruc. • Danse classique: Complete Course de Anne Thomas. • Ballets pour enfants de The Royal Ballet – Royal Opera House. • Musique classique, musique de danse de Trio Raisner. • Echauffement musique de danse classique de Ballet Jazz Compagnie. • CD’s de Delma Nicolace. Box Delma Nicolace: Natural de Ribeirão Preto (SP), Bacharel em música (Piano) pela Fundação Mineira de Artes. Licenciada em música pela Unimes, 121 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 Pós-Graduada em Musicalização pela IPGEX e Mestre em Ciências Musicais na FCSH em Lisboa. Trabalhou como pianista correpetidora no Teatro Palácio das Artes de BH posteriormente na Itália, nos Teatros Cárcano e La Scala de Milão. De 2002 a 2012, atuou como pianista acompanhadora das aulas de dança clássica e de balé de repertório da ETBB. Atualmente atua como pianista acompanhadora das aulas de balé clássico na Escola de Dança do Conservatório Nacional e na Companhia Nacional de Bailado em Lisboa. Alguns de seus CDs: Músicas para Ballet Repertório; Músicas para Ballet Ópera e Barroco nas Pontas; Músicas para Ballet Baby Class; Músicas para Ballet Repertório vol. 2; Músicas para Ballet Brasileiríssima; Músicas para Ballet Repertório vol. 3; Músicas para Ballet Jazz, Rag and Blues; Músicas para Ballet Brasileiríssimas vol. 2; Músicas para Ballet Repertório vol. 4; Músicas para Ballet Baby Class vol. 02; Aplicativo Ballet Music by Delma Nicolace; CD Vaganova Method Music for Ballet Class, CD Italian Music for Ballet Class, App Magic of Ballet Music Trilogy, Sheet Music Italian Music for Ballet Class; CD; Sheet Music Vocational Training 1st year for Ballet Class; e CD Vocational Training 2nd year for Ballet Class. Para as aulas de dança jazz, outro estilo musical será utilizado. Esse estilo de dança pode diferenciar de aula para aula e dependerá de uma renovação musical mais constante em suas aulas. Os professores que utilizam, por exemplo, um jazz moderno, utilizarão diferentes estilos de música dos de jazz clássico que farão outras escolhas musicais. Seguem sugestões de músicas para o estilo jazz moderno: • Joga de Björk • Iron de Woodkid • Stay de Rihanna • Gasolina de Jullie • Follow me de Muse • Time after time de Cindy Lauper • A little less conversation de Elvis Presley • Can’t be tamed de Milei Cyrus • Je te donne de Jean-Jacques Goldman 122 Expressão do Corpo e Musicalidade • Breathe me de Sia • Video games de Lana del Rey • Hung up de Madonna • Say my name de Alex and Sierra • Rock your body de Justin Timberlake • Play hard de David Guetta Já para o estilo dança contemporânea e dança moderna, outras escolhas musicais serão feitas. Normalmente, no caso da dança contemporânea, a escolha combina muito com a proposta dessa dança que é de pesquisa de movimento. As músicas utilizadas para esse estilo terão uma pesquisa mais aprofundada relacionada com o que se propõem para a sua prática. Veja a seguir algumas sugestões de músicas para esse estilo de dança: • Mad world de Gary Jules • Circles de Post Malone • California king ded de Rihanna • Don’t you remember de Adele • Don’t start now de Dua Lipa • Make you feel my love de Adele • Catch me de Demi Lovato • Dance monkey de Tones and I • Comptine d’unautre été de Yann Tiersen • The scientist de Coldplay • Come away with me de Norah Jones • Memories de Maroon 5 • Come home de One Republic, • Chandelier de Sai • Only human de Jonas Brothers Nos tópicos anteriores, vimos os estilos musicais de origem latina, as regionais e as brasileiras, pois a escolha musical é fundamental não somente para a montagem coreográfica, mas também para a montagem de sua aula. Essa etapa é sempre anterior à prática e é fundamental que ocorra um bom planejamento dela. 123 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 FIGURA 11 – PROFESSORA COREOGRAFANDO FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/>. Acesso em: 18 nov. 2019. Na dança podemos viver igualmente tempo e espaço, essa grande arte nos permite relacionar o artista à obra em um mesmo tempo. A coreografia na dança, portanto, é o formato que temos para compô-la. Nessa arte a técnica não é fundamental, ela é somente instrumento para podermos comunicar algo. Mas não existe somente a coreografia, existe também a improvisação e, com uma boa pesquisa de música, é possível propor a improvisação de bailarinos e ou alunos. Essa também é uma técnica dentro da dança que exige estudo e cuidado. A improvisação permite ao bailarino expressar-se com um sentimento momentâneo, tornando essa realidade espaço e tempo muito mais sincronizada. Esse é, com certeza, um elemento que depende muito mais do bailarino do que do professor ou do condutor dessa prática. De uma improvisação pode-se desenvolver uma coreografia, mas sem esquecer de que, para improvisar, é necessário conhecer muito bem a música e as etapas enquanto conhecimento musical, mapeamento musical e a estrutura musical nessa nova prática. Seguem algumas técnicas que podemos utilizar para relacionar música e dança: • canon: quando pessoas realizam movimentos um após o outro em sequência; • retrógrada: quando pessoas realizam movimentos em sequência inversa; • espelhamento: quando as pessoas realizam movimento um de frente 124 Expressão do Corpo e Musicalidade para o outro, realizando o mesmo movimento; • sombreamento: quando uma pessoa atrás de outra realiza os movimentos em forma de cópia; • uníssono: quando duas ou mais pessoas realizam a mesma série de movimentos ou os mesmos movimentos ao mesmo tempo. Além disso, podemos trabalhar dentro de uma sequência as possibilidades de níveis: • alto: com os saltos e movimentos aéreos; • médio: com os movimentos realizados em pé na estrutura da altura dos bailarinos; • baixo: com todos os movimentos que são realizados no plano do solo, rolamentos, deslizamentos e movimentos agachados. FIGURA 12 – COREOGRAFIA DE SOMBREAMENTO FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/>. Acesso em: 19 nov. 2019. 4.2 HISTÓRIA DA COREOGRAFIA E DO SURGIMENTO DOS PRIMEIROS COREÓGRAFOS A ideia de criar e compor danças vem do Século XVII com a utilização de sinais gráficos que representavam os movimentos apresentados. Essa ideia 125 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 foi chamada de notação coreográfica no Século XIV e foi aí que começou a se pensar nas ideias de coreografia e coreógrafo como o responsável dessa criação, o profissional dessa área. Da mesma forma que existe um compositor para a música, o coreógrafo seria o compositor da dança e utilizaria sinais para registrar essa coreografia. No Capítulo 2 citamos Laban e o seu sistema de notação de dança. Ele foi um importante coreógrafo que se preocupou com essa anotação coreográfica. No entanto, nem sempre foi assim, nem sempre houve uma anotação, um registro de vídeo a respeito. Muitas coreografias somente sobreviveram porque foram passadas de bailarino para bailarino, professor para professor e coreógrafo para coreógrafo. Vamos ver como surgiram os grandes coreógrafos na corte francesa de Francisco I a Luís XIV? Durante a idade média, segundo Nunes (2015), gestos, contrações de corpo e rebolados corporais eram condenados pela igreja. Foi nesse período que a figura de um mestre de dança apareceu pela primeira vez e seu nome é Hacen Ben Solomon. No Século XV, a dança havia se tornado sinônimo de um comportamento refinado. Junto com o conhecimento de grego e latim, as aptidões para a música, as artes militares e a ginástica eram algumas das formas que diferenciavam a elite do restante da sociedade. A dança ocorria com uma parte dos eventos oficiais do estado e podia ser realizada tanto ao ar livre perante membros da corte como diante de milhares de pessoas dos mais diversos níveis da sociedade. Para Nunes (2015), na Europa renascentista, a dança era praticada nos mais diversos lugares: cortes, províncias, casas burguesas e praças de pequenas cidades. Muitos reis franceses tiveram uma forte ligação com as artes ou, mais especificamente, com a dança como Francisco primeiro, Henrique III e Luís quatorze. Francisco primeiro julgava necessário manter membros da corte ocupados e entretidos com danças, caças e outras atividades como forma de distrair a atenção deles e impedir a ação deles em conspirações contra os interesses da coroa. O autor Nunes (2015) afirma que o rei Henrique III era apaixonado por dança e estava sempre cercado de professores de dança com os quais frequentemente aprendia novos passos. Já Luís XIV começou suas aulas de dança com apenas 6 anos de idade e descobriu o potencial da dança como forma de entretenimento e distração para os cortesãos, dessa forma ele poderia dedicar-se com mais 126 Expressão do Corpo e Musicalidade tranquilidade as suas ambições políticas. Sua primeira aparição em um balé foi no balé de Cassandra em 1651 quando ele tinha 12 anos. Segundo Nunes (2015), apesar da grande influência das danças promovidas na França, a Itália é o berço dos primeiros tratados de dança considerados significativos. Esses tratados mostravam uma atividade intensa das danças pelas cortes do norte da Itália e uma rivalidade entre as cidades do norte da Itália tentando contratar os melhores professores de dança para as criações coreográficas das celebrações dinásticas importantes. Domenico de Piacenza foi o autor do primeiro tratado de dança que temos notícia até então. Ele coreografou as danças Bali e Morisques. Não só coreografou vários balés como também participou como dançarino conforme apresenta Nunes (2015). Ele considerava os seguintes fundamentos necessários para uma boa dança: memória, espírito, avaliação e utilização do espaço. Durante o final do período medieval e início da era moderna, a equitação e a caça eram os símbolos de status da nobreza. A dança se tornou parte frequente nos entretenimentos da corte francesa no final do Século XIV e durante todo o Século XVI. De acordo com Nunes (2015), a popularidade da dança era bem evidente na grande maioria das europeias e até nas praças das cidades era comum encontrar pessoas de todas as classes dançando, uma vez que não somente elite, mas a classe média abastada, os comerciantes e os juízes também buscavam aprender as danças. O estilo Minueto foi considerado a rainha das danças e foi introduzido na corte francesa por volta de 1650 no reinado de Luís quatorze. Era considerado a expressão mais refinada do ritual de cortejo, foi a dança de salão a dois mais popular da sociedade aristocrática francesa até a chegada da Revolução Francesa. Os dançarinos olhavam-se, aproximavam-se, recuavam e o único contato físico entre eles era as mãos dadas com os cotovelos estendidos enquanto eles circulavam pelo salão. 127 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 Vamos saber mais? Academia Royal de Dança Para Nunes (2015), ela exprimia o objetivo de desenvolver uma dança polida e cortesã. Foi fundada a partir do desejo do rei Luís 14 de que a França elevasse os padrões tanto da dança social quanto da teatral nos balés de corte. A academia foi formada pelos 13 mais velhos e experientesprofessores de dança que se reuniam uma vez por mês com o intuito de debater sobre a dança e as formas de aperfeiçoar as aulas, corrigindo possíveis erros que fossem introduzidos nela. A função da academia era analisar e padronizar a dança, divulgando as regras que foram estabelecidas pelos seus integrantes. Haviam 12 estatutos criados pela academia sendo que o estatuto de número 7 cobrava uma espécie de registro profissional dos professores de dança, correndo o risco de serem multados aqueles que não o fizesse. Além disso toda a composição coreográfica desenvolvida deveria passar primeiro pelo crivo dos professores de dança mais experientes que fariam uma votação oral em data marcada pela assembleia. As regras não permaneceram por um longo tempo e, de acordo com Nunes (2015), a academia acabou não desempenhando o papel que lhe foi atribuído, vegetando por mais de um século quando então sucumbiu em 1780. FIGURA – COREOGRAFIA DE HIP HOP FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/>. Acesso em: 18 nov. 2019. 128 Expressão do Corpo e Musicalidade Vamos saber um pouco mais? Para o coreógrafo e bailarino Jomar Mesquita, quando criamos uma coreografia, pensamos em harmonia e montagem de pequenas sequências de movimento para no final ter um espetáculo. Segundo Mesquita, o figurino, a cenografia, a iluminação, a trilha sonora e a coreografia são as vozes que compõem um espetáculo. Esse importante coreógrafo brasileiro de Minas Gerais ainda ressalta que não basta ter músicas boas, colocar passos de dança legais, ter um bom figurino e utilizar bons efeitos de luz. Se não houver a harmonia de todas as vozes, o espetáculo pode ser um desastre. De acordo com Mesquita os princípios da criação coreográfica para que ela seja realizada de forma consciente são: • unidade; • variedade; • repetição; • contraste; • transições; • sequência > ritmo; • clímax; • proporção; • equilíbrio (X tensão); • harmonia. Quer saber ainda mais? Na página Dança em pauta você encontra tudo sobre a visão de Jomar Mesquita e os princípios estéticos na criação de uma coreografia. Disponível em: <http:// site.dancaempauta.com.br/principios-esteticos-na-criacao-de-uma- coreografia/>. Acesso em: 30 nov. 2020. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta disciplina você viu um pouco das estruturas da dança, expressão corporal, música e estilos e aprendeu inclusive como elaborar sua própria aula. É importante aproveitar ao máximo os conhecimentos contidos no conteúdo do livro, fazendo uso das atividades práticas propostas, assistindo aos vídeos e acessando os livros, artigos e sites sugeridos. 129 Ritmo X MusicalidadeRitmo X Musicalidade Capítulo 3 No Capítulo 1, estudamos a evolução da expressão corporal no seu contexto histórico, da dança enquanto prática corporal, a expressão corporal e a consciência corporal e os processos metodológicos do ensino da dança. Aprendemos a elaborar um plano de aula de dança. Conhecemos a história da dança e sua evolução contextualizada com os períodos históricos. Aprendemos a diferenciar expressão corporal de consciência corporal e compreendemos os princípios metodológicos do ensino da dança. Já no Capítulo 2, apresentamos os fatores do movimento: fluência, espaço, peso e tempo e como se dão essas denominações. Conhecemos as formas geométricas de Laban e seus temas de movimento, além dos trabalhos produzidos por esse coreógrafo e pesquisador de dança. Ainda nesse capítulo, aprendemos a elaborar um plano de aula de dança, conhecendo os métodos e os modelos que podem ser utilizados. No Capítulo 3, conhecemos a estrutura de fraseamento e a relação entre música e dança. Estudamos coreografia, suas características e as principais danças e estilos. Fizemos uma contextualização dos principais ritmos que envolvem a dança, entendendo como se dança, que música utilizar e como se dá o processo coreográfico. Ao final do capítulo, foram apresentas algumas músicas e estilos de dança; e como é possível criar uma coreografia além da história da coreografia e dos primeiros coreógrafos. Esperamos que você tenha se apropriado dos conhecimentos abordados na disciplina! REFERÊNCIAS CONE, T. P.; CONE; S. L. Ensinando dança para crianças. Trad. Lúcia Helena de Seixas Britas e Soraya Iomon de Oliveira. 3. ed. Barueri, SP: Manole, 2015. ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Estatutos da gafieira. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70045/ estatutos-da-gafieira>. Acesso em: 14 dez. 2019. GARCIA, A.; HAAS, A. N. Expressão corporal. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008. HASS, A. L.; GARCIA, A. Ritmo e dança. 1. ed. Canoas: Editora Ulbra, 2003. LOPES, N. A presença africana na música popular brasileira. Revista ArtCultura, Uberlândia, n. 9, jul./dez. 2004. 130 Expressão do Corpo e Musicalidade NUNES, B. B. As danças de corte francesa de Francisco I a Luís XIV: história e imagem. 2015. Dissertação de mestrado (Pós-Graduação em História). Universidade Federal de Pelotas, Pelotas. Disponível em: <http:// repositorio.ufpel.edu.br:8080/bitstream/prefix/2931/1/Bruno_Blois_Nunes_ Disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf>. Acesso em: 14 dez. 2019. PERNA, M. A. 200 anos de dança de salão no Brasil. v. 2. Rio de Janeiro: Amaragão Edições de Periódicos, 2012. PERNA, M. A. Dança de salão brasileira: personagens e fatos. Rio de Janeiro: O autor, 2002. PERNA, M. A. Samba de gafieira: a história da dança de salão brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: o autor, 2001. RIED, B. Fundamentos da dança de salão. São Paulo: Midiograf, 2003. SCHROEDER, J. L. A música na dança: reflexões de um músico. 2000. 141 p. Dissertação de mestrado em Educação. Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2000. Disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/ REPOSIP/251067>. Acesso em: 14 dez. 2019. TAVARES, I. M. 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