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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS 
INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM 
 
 
ABILIO PACHÊCO DE SOUZA 
 
 
 
 
 
 
“No rastro e no rumo das palavras”, 
dos fragmentos, da história brasileira recente na 
obra de Benedicto Monteiro 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAMPINAS, 
2020 
 
 
 
 
ABILIO PACHÊCO DE SOUZA 
 
“No rastro e no rumo das palavras”, 
dos fragmentos, da história brasileira recente na obra de Benedicto 
Monteiro 
 
 
 
 
 
Tese de doutorado apresentada ao 
Instituto de Estudos da Linguagem da 
Universidade Estadual de Campinas para 
obtenção do título de Doutor em Teoria e 
História Literária, na área de Teoria e 
Crítica Literária. 
 
 
 
 
 
 
Orientador: Prof. Dr. Márcio Orlando Seligmann-Silva 
 
 
 
Este exemplar corresponde à versão final da 
Tese defendida pelo aluno Abilio Pachêco de Souza 
e orientada pelo Prof. Dr. Márcio Orlando Seligmann-Silva 
 
 
 
 
 
 
 
CAMPINAS, 
2020 
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem
Leandro dos Santos Nascimento - CRB 8/8343 
 
 Pacheco de Souza, Abilio, 1976- 
 P115n Pac"No rastro e no rumo das palavras", dos fragmentos, da história brasileira
recente na obra de Benedicto Monteiro / Abilio Pacheco de Souza. –
Campinas, SP : [s.n.], 2020.
 
 
 PacOrientador: Márcio Orlando Seligmann-Silva.
 PacTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de
Estudos da Linguagem.
 
 
 Pac1. Monteiro, Benedicto, 1924-2008. 2. Ditadura na Amazônia. 3.
Materialismo histórico. 4. Anarquivamento. I. Seligmann-Silva, Márcio Orlando.
II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III.
Título.
 
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: "On the trail and in the direction of words", of fragments, of recente
Brazilian history in the work of Benedicto Monteiro
Palavras-chave em inglês:
Monteiro, Benedicto, 1924-2008
Amazon, River, Region - Politics and government
Historical materialism
Anarchivation
Área de concentração: História e Historiografia Literária
Titulação: Doutor em Teoria e História Literária
Banca examinadora:
Márcio Orlando Seligmann-Silva [Orientador]
Mario Luiz Frungillo
Carlos Henrique Lopes de Almeida
Tania Maria Pereira Sarmento-Pantoja
Liliane Batista Barros
Data de defesa: 04-08-2020
Programa de Pós-Graduação: Teoria e História Literária
Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a)
- ORCID do autor: http://orcid.org/0000-0001-6809-4865
- Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/2734421939764148 
Powered by TCPDF (www.tcpdf.org)
BANCA EXAMINADORA:
Márcio Orlando Seligmann Silva
Mario Luiz Frungillo
Carlos Henrique Lopes de Almeida
Tânia Maria Pereira Sarmento-Pantoja
Liliane Batista Barros
IEL/UNICAMP
2020
Ata da defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no
SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação/Tese e na Secretaria de Pós Graduação do IEL.
 
 
 
 
 
Eu, que tenho 
poder sobre as palavras, 
e que invento o tempo 
e a vida, 
revolvi cortar dez anos 
da existência. 
 
[...] Corto o âmago: 
 
Corto, 
extirpo, 
extingo, 
expurgo, 
excomungo 
o ano fatídico de 1964. 
 
Não vivi 
esse período: 
Nessa época 
inventei o 
Verde Vagomundo 
nele criei o Cabra-da-Peste, 
o Minossauro 
[...] 
 
Benedicto Monteiro. 
A força do poeta. 
 
 
 
 
Método deste trabalho: Montagem literária. Eu não tenho nada 
a dizer. Apenas a mostrar. Eu não vou furtar nada de valioso 
ou apropriar-me de formulações espirituosas. Mas sim os 
trapos, o lixo: eles eu quero não inventariar, mas, antes, fazer 
justiça a eles do único modo possível: utilizando-os. 
WALTER BENJAMIN 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dedicatória 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A tantos Benés Monteiro, 
e Gabrieis Pimenta, e Paulos Fontelles... 
que viveram suas certezas 
contra as correntezas 
 
A alunos, alunas e estudantes 
Com os quais partilhei leituras e angústias 
Dentro e fora da sala de aula. 
 
Aos meus que cá estão 
– Alyne e Bento – 
 
... e aos que virão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Agradecimentos 
 
Agradeço a Deus, como eu o concebo, sem perfumaria e espalhafato, 
muito mais etéreo que humano. Por isso incompreensível a meu parco entendimento 
e muito diverso daquilo que se apregoa: hominizado, consumível e vulgarizado. 
Agradeço ao meu orientador, professor Márcio Seligmann-Silva, além da 
orientação dedicada, imediata e sempre muito pontual, ele também foi bastante 
paciente e generoso comigo em momentos bem complicados desta minha trajetória. 
Imagem profissional e pessoal que vou levar comigo sempre. 
Agradeço a professora Suzanne Klengel, que me orientou durante o 
período de meu estágio doutoral no Instituto de Latino América, na Universidade 
Livre de Berlin, e que – talvez ela nem mesmo tenha percebido – colocou-me 
novamente em trilhos nos quais estavam difíceis demais de eu trilhar, muito embora 
eu procurasse demonstrar firmeza. 
Agradeço a Universidade Estadual de Campinas por todo o apoio durante 
a realização desta pesquisa. Apoio que vai além das questões básicas da pesquisa 
e se estende às questões pessoais como alimentação, moradia, saúde e apoios 
diversos. 
Agradeço a todos que fazem parte do Instituto de Estudos de Linguagem, 
sem os quais muitos dos pequenos problemas dificilmente seriam sanados. 
Agradeço também Universidade Livre de Berlin por todo o suporte que me 
foi fornecido tanto para a realização da pesquisa, quanto para meu crescimento 
intelectual e aprendizado num país distante da minha humilde “macondo”. 
Agradeço ao Instituto de Latino América que me acolheu cheio de dúvidas 
e insegurança, onde pude encontrar uma excelente guarida para debates e trocas. 
Aos colegas do IEL-Campinas e do LAI-FU, eu saúdo com alegria pela 
convivência em sala de aula e nos debates externos. Especialmente a Kate (IEL) e 
Joana (LAI). 
Agradeço ao DAAD pela bolsa e demais auxílios que me foram 
concedidos, sem os quais eu não poderia ter realizado parte da pesquisa em Berlin. 
 
 
Período importante sem o qual talvez eu não tivesse me dado conta do quanto eu 
preciso cambiar, entender, ceder e aplainar pensamento, objetivo, métodos. 
Agradeço ao CAPES pelo auxílio fornecido para viabilizar a viagem a 
Berlin e pela possibilidade de usufruir da bolsa concedida pela instituição alemã. O 
presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de 
Pessoal de Nível Superior -Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 - 
401604/2014-4. 
Durante o tempo desta pesquisa estive bastante tempo ocupando e 
usando os espaços de várias bibliotecas. Agradeço aos profissionais que zelam por 
estes repositórios de saber. Em especial das bibliotecas onde estive pesquisando: 
Bibliotecas da UNICAMP (Biblioteca Central, do IEL, do IFCH, da FE), Biblioteca da 
FU-Berlin, Biblioteca do IAI (Instituto Ibero-Americano, em Berlin), Bibliotecas dos 
Campi da UNIFESSPA (em Marabá), Biblioteca da UFPA (em Bragança). 
Agradeço aos meus colegas da Faculdade de Letras, do Campus 
Universitário de Bragança (Universidade Federal do Pará), pela licença concedida, 
pela prorrogação concedida e por outras concessões relativamente triviais que me 
fizeram e possibilitaram mesmo que atabalhoadamente eu pudesse prosseguir. 
Agradeço aos colegas dos grupos de pesquisa NARRARES, do qual faço 
parte desde sua fundação, com os quais estabeleci muitos diálogos principalmente 
antes do início do doutorado. Nominalmente, meu agradecimento a Tânia Sarmento-
Pantoja com quem muito dialoguei antes da escrita do pré-projeto e aos membros do 
Grupo de Pesquisa com os quais também mantive um diálogo próximo e afetuoso: 
Augusto Sarmento-Pantoja, Carlos Augusto Carneiro Costa, Veridiana Valente e 
Viviane Dantas. 
Também agradeço aos colegas do GP ITENMPO (Investigações do 
Tempo: ensino, narrativa, memória e política – coordenado pelo professor Dr. Eri 
Cavalcante - UNIFESSPA) que meacolheram em 2017, que me possibilitaram 
compreender alguns conceitos relevantes no campo da Historiografia e que 
possibilitaram um espaço de debate do qual muito senti falta ao retornar para o 
Brasil. 
Agradeço a Wanda Monteiro, pela amizade (e isto já diria tudo), pela 
entrevista que me concedeu sobre a obra de seu pai Benedicto Monteiro, pelos 
materiais que me emprestou para a pesquisa, por ter me recebido em sua casa para 
 
 
pesquisar dando-me acesso aos materiais pertencentes a seu pai e por ter mantido 
um canal de diálogo aberto para que eu conseguisse avançar nesta pesquisa. 
Muitas pessoas passaram pela vida acadêmica nestes anos e de algum 
modo deram-me alguns norteamentos. Impossível nomear todas, mas não poderia 
deixar de registar meu afeto incondicional aos professores da, então, UFPA-Marabá, 
hoje UNIFESSPA e hoje colegas de trabalho, que há anos estão nesta tarefa árduo 
de desbravar Amazônia(s): fronteira(s). Gilson Penalva, Nilsa Brito, Eliane Machado 
e Austria Brito. E Liliane Barros. 
Há ainda um paar de agradecimentos pessoais, a familiares e parentes e 
vizinhos. Agradecimentos que vou deixar para fazer nas redes sociais. Mesmo 
assim, registro aqui a participação decisiva para que este trabalho saísse como saiu 
e nos tempos que me foi possível fazê-lo sair. Agradeço a meu irmão Ezequiel 
Pacheco Neto, que me recebeu com um amplo fardo nas costas, bem como a sua 
família que também penou detritos e destroços de meu peso. Agradeço a Deurilene 
(minha Nereida) que esteve por perto e ter colaborado decisivamente nos momentos 
de dificuldades deste trabalho. 
Registro aqui também aqueles que chegaram de repente na minha vida 
pessoal, familiar e profissional sem avisos nem preparos. Num trabalho silencioso e 
ocluso, areia e detritos que na ostra e viram pérolas. 
Por fim, meu muito obrigado a pessoas cujos nomes não indico porque 
elas mesmas não fazem a menor ideia que me ajudaram a compreender o 
verdadeiro significado da parábola do servo da última hora. 
 
 
 
 
 
RESUMO: 
A parte central da obra de Benedicto Monteiro, formada pelos romances 
Verde Vagomundo (1972), O minossauro (1975), A terceira margem (1983) e Aquele 
um (1985), apresenta nos três primeiros romances (num processo de montagem e 
fragmentação narrativa) dois narradores e uma pletora de materiais os mais diversos 
(cartas, relatórios, depoimentos, poemas, letras de canções.). A crítica tem 
destinado atenção preferencial ao único narrador que permanece nas três 
narrativas. O grande personagem mítico Miguel dos Santos Prazeres. Personagem 
que perdura unívoco em Aquele Um. Demais textos costumam ficar esquecidos pela 
crítica e costumam ser objetos de análise apenas quanto as falas de Miguel também 
são. Tomando esta parte do trabalho do autor e entendendo-o como um documento 
de cultura e de barbárie procuramos seguir os rastros da história persecutíveis 
através do material disperso nas publicações num processo de montagem intratável. 
Para tanto, o conceito de rastro (em Walter Benjamin, principalmente) e a noção de 
anarquivamento (conforme Seligmann-Silva) são relevantes na análise dos 
narradores, das notícias (rastros que contextualizam a narrativa) e os desfechos 
destes romances. O contexto histórico da ditadura militar no Pará e na cidade de 
Alenquer, dados biográficos do autor, bem como um excurso sobre o projeto estético 
cambiante da tetralogia em virtude dos fatos históricos e pessoais, alicerçam 
caminho e amainam chão por onde se palmilha na análise. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Ditadura militar na Amazônia, Benedicto Monteiro, rastro, 
materialismo histórico, anarquivamento. 
 
 
 
 
 
ABSTRACT: 
The central part of the work of Benedicto Monteiro, formed by the novels Verde 
Vagomundo (1972), O minossauro (1975), A terceira margem (1983) and Aquele um 
(1985), presents in the first three novels (in a process of narrative montage and 
fragmentation ) two narrators and a plethora of the most diverse materials (letters, 
reports, testimonies, poems, song lyrics.). Critics have given preferential attention to 
the only narrator who remains in the three narratives. The great mythical character 
Miguel dos Santos Prazeres. Character that remains univocal in Aquele um. Other 
texts tend to be overlooked by critics and tend to be objects of analysis only as much 
as Miguel's speeches are also. Taking this part of the author's work and 
understanding it as a document of culture and barbarism, we seek to follow the 
persecutable traces of history through the material dispersed in publications in an 
intractable montage process. Therefore, the concept of trail (in Walter Benjamin, 
mainly) and the notion of anarchivation (according to Seligmann-Silva) are relevant in 
the analysis of the narrators, of the news (trails that contextualize the narrative) and 
the outcomes of these novels. The historical context of the military dictatorship in 
Pará and in the city of Alenquer, the author's biography, as well as an excerpt on the 
changing aesthetic project of tetralogy in virtue of historical and personal facts, lay 
the groundwork and reduce the ground through which the analysis can be traced. 
 
KEY-WORDS: military dictatorship in Amazônia, Benedicto Monteiro, trail, Historical 
materialism, anarchivation. 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 13 
 
CAPÍTULO 01 – GOLPES, CICATRIZES, TRANSTEMPO, TRILHAS .................. 19 
1.1 - GOLPE DE 64 NO PARÁ – ANOS INICIAIS .................................................. 24 
1.2 – CICATRIZES - COMO SE DEU O GOLPE EM ALENQUER-PA ................. 29 
1.3 – TRANSTEMPO – EXCURSO BIOGRÁFICO ................................................. 37 
1.4 – TRILHAS LITERÁRIAS – OBRAS DO AUTOR ............................................ 48 
 
CAPÍTULO 02 – CAMINHOS, CANTOS E MARGENS SEMOVENTES ............... 53 
2.1 – PROJETO ESTÉTICO MAS NÃO-ESTÁTICO ............................................. 54 
2.2 – INÍCIO DO CAMINHO IN MEDIA RES 
(LEITURA DE VERDE VAGOMUNDO) .................................................................. 68 
2.3 – CANTOS DE MINOPÁSSARO (LEITURA DE O MINOSSAURO) ................ 86 
2.4 – MARGEM SEMOVENTE (LEITURA DE A TERCEIRA MARGEM) .......... 97 
 
CAPÍTULO 03 – PEGADAS DE CURUPIRA, CANTOS DE UIRAPURU ............ 123 
3.1 – MONTAGEM EM FRACTAL SEMOVENTE ................................................ 128 
3.2 – CANTOS DE UIRAPURU E SEUS CONTRACANTOS (OS NARRADORES) 133 
3.3 – INTERFERÊNCIAS SONORAS, VISUAIS (NOTÍCIAS DE RÁDIO, 
JORNAIS E REVISTAS) ....................................................................................... 145 
3.4 – PEGADAS DE CURUPIRA (OS DESFECHOS DOS ROMANCES) ........... 169 
 
CONCLUSÃO – PORTO MORTO OU PRAIA BRANCA? ................................... 181 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 184 
OBRAS DE BENEDICTO MONTEIRO ................................................................. 184 
ENTREVISTAS .................................................................................................... 184 
REFERÊNCIAS GERAIS ..................................................................................... 188 
 
ANEXO 1 - Entrevista concedida por Wanda Monteiro. .................................. 194 
ANEXO 2 – Fotos e recortes ............................................................................... 213 
 
13 
 
 
 
Introdução – (des) calibrando bússola(s) 
 
 
 
 
 
O desenvolvimento das ideias que deram origem a este texto transcorreu 
num clima de muita mudança política, social e econômica. Um clima envolto numa 
atmosfera que caminhou de uma perspectiva no mínimo positiva para um estágio 
que mais se parece com uma completa depressão política e no caminho para umestranho caos social. Se o pré-projeto desta tese (cujas transformações quase 
ensejam outra tese) foi trabalhado logo após a instalação da Comissão Nacional da 
Verdade, quando as perspectivas em torno das políticas de memória no Brasil eram 
relativamente otimistas e quando se esperava que, finalmente, o estado brasileiro 
pudesse prestar contas à nação dos crimes de direitos humanos praticados durante 
a ditadura (civil)militar1, hoje vemo-nos diante de uma perspectiva incerta sobre o 
futuro da democracia no Brasil. As políticas de memória vêm sendo seriamente 
 
1 O debate sobre esta terminologia, que ano após ano tem se consagrado como ditadura civil-militar, 
aponta para dois argumentos principais. Daniel Aarão Reis Filho afirma seu uso, pois destaca que o 
apoio civil foi decisivo para instalação e manutenção do regime. Segundo ele, as pesquisas 
realizadas sobre o golpe após 50 anos de instalação do mesmo, ressaltam “a participação civil e a 
‘responsabilidade ampliada’ na construção da ditadura brasileira.” 
REIS FILHO, Daniel Aarão. A ditadura faz cinquenta anos: história e cultura política nacional-estatista. 
In: REIS FILHO, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; SÁ MOTTA, Rodrigo Patto. A ditadura que mudou 
o Brasil. 50 anos do golpe de 1964. ZAHAR, 2014. (pág. 13). 
Para Carlos Fico, entretanto, o argumento de Reis Filho ao acrescentar o adjetivo ‘civil’ não se 
solidifica, já que devido sua constituição a ditadura contou com o apoio de diversos agentes inclusive 
da imprensa, dos empresários e da igreja católica. Para Fico, “O golpe foi efetivamente dado (não 
apenas apoiado) por civis e militares e, portanto, é possível chamá-lo de civil-militar. [...] O regime 
subsequente foi inteiramente controlado pelos militares, de modo que adjetivá-lo em ressalva (“foi 
militar, mas também civil” ou empresarial ou o que seja) é supérfluo e impreciso – além de ter, como 
tudo mais em História do Tempo Presente, imediata implicação política: nesse caso, justamente por 
causa dessa adversatividade, a conotação é de redução da responsabilidade dos militares.” [pág. 53] 
FICO, Carlos. Ditadura militar brasileira: aproximações teóricas e historiográficas. Revista Tempo e 
Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 20, pág. 05 ‐ 74. Jan./Abr. 2017. 
Existe ainda o fato de que (e creio haver ralos estudos a este respeito) houve também resistência nos 
quartéis. Definir qual o grau de participação de cada um desses setores (porcentabilizá-los) nas 
ações de tomada e manutenção do poder central e da distribuição de funções nos poderes estaduais, 
municipais, não parece algo possível, viável ou necessário. 
Há ainda um historiador da minha região que já prefere chamar de golpe militar-civil. (PETIT, Pere, 
2014) 
Neste trabalho, não utilizaremos a expressão proposta por Aarão Filho, mas usaremos as expressões 
“ditadura (civil)-militar” (com civil entre parênteses) mas também “ditadura militar”, indistintamente. 
14 
 
 
feridas de pior a pior desde quando o pedindo de impeachment de Dilma Rousseff 
foi aceito pela Câmara Federal, em 02 de dezembro de 2015. Ou antes. 
Não seria fácil para um pesquisador da temática passar incólume por todo 
este contexto. Escrever uma reflexão sobre a memória e o testemunho da ditadura 
militar no Brasil nunca foi tarefa simples, mas correr os olhos pelos livros e os dedos 
pelo teclado anulando-se completamente do entorno e sem pensar no quanto o 
esforço tem parecido vão, tornou-se para mim um empecilho a mais e meteu-me 
numa apatia da qual foi muito difícil sair (se é que saí). Acresçam-se os problemas 
pessoais que não vem ao caso. Acresça-se o fato de que a região onde moro ser... 
que metáfora usar? Um barril de pólvora? Um campo minado? Um faroeste de rios e 
matas? A pesquisa que envolve a didatura militar na Amazônia é envolta em medo e 
silêncio. Enquanto escrevemos, chegam-nos notícias de índios mortos (como 
Paulino Guajajara), de fazendeiros matando posseiros ou membros do MST, de 
grupos de estudantes sendo enviados para um assentamento a fim de que isso iniba 
fazendeiros de enviar pistoleiros-milicianos, de um evento acadêmico na UFPA em 
Belém sendo invadido por fazendeiros que impediram o andamento do seminário e 
ameaçaram professores2, de uma professora em Marabá sendo ameaçada a arma 
durante a ocupação na UNIFESSPA, da tragédia de Pau-D’arco3 (sua imediata 
repercussão internacional e o pdf do Relatório da Anistia pululando no WhatsApp – 
em grupos mas principalmente no meu individual), de militantes simbólicos das lutas 
na região falecendo (como foi a morte de Paulo Fonteles Filho), da interrupção dos 
trabalhos da Comissão Estadual da Verdade, de colegas de pesquisa aconselhando 
abandonar a temática, de bolsistas desistindo das atividades e alguns faltando a 
apresentações de trabalho em eventos na região, entre outros fatos. 
Da época em que comecei a pesquisar as relações entre literatura e 
história, ou literatura e violência, ou literatura e regimes de exceção, em 2002, na 
Iniciação Científica, e hoje, muita coisa mudou em mim, na minha região, no meu 
 
2 Em 29 de novembro de 2017, durante o seminário “Veias abertas da volta grande do Xingu”, o então 
prefeito do município de Senador José Porfírio, na região do Xingu, Dirceu Biancardi (PSDB), 
acompanhado de mais 40 pessoas impediram a realização do evento. Professora Doutora Rosa 
Acevedo, que coordena o grupo de pesquisa que organizava o evento, concedeu entrevista a El país 
a respeito. 
[https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/02/politica/1512215133_537779.html] 
3 Em maio de 2017, 10 trabalhadores rurais foram mortos numa ação conjunta das polícias civil e 
militar. Os trabalhadores estavam acampados na Fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco, sul do Pará, 
próximo de Redenção. Dois meses depois outro trabalhador sobrevivente da tragédia foi encontrado 
assassinado. 
15 
 
 
país, nos estudos sobre estas temáticas. Naturalmente mudariam. Entretanto, foram 
mudanças substanciais, graves, violentas, aos borbotões. É-me difícil dizer o que na 
minha infância acadêmica (iniciação científica) eu tinha como vontade ou sentimento 
em relação ao que eu pesquisava, mas sei que em 2012, quando estava escrevendo 
meu pré-projeto, eu estava cheio de um sentimento de resgate da memória e 
respeito às vítimas e familiares das vítimas, de mortos e desaparecidos políticos. 
Este sentimento pode não ter sumido completamente, mas ele, hoje, é secundário. O 
sentimento principal nos últimos três anos oscilou entre apatia e impotência, 
sentimento de urgência, medo e pavor, compromisso inadiável. Hoje, talvez ele seja 
apenas um bruxuleante desejo de resistir. 
Desta trajetória, de sustos e solavancos, de reconfigurações existenciais e 
históricas, de câmbios e negociações institucionais, acadêmicas, pessoais e internas, 
merece o registro de algumas coisas que mudaram e outras que permaneceram. Se 
antes eu tinha um desejo de estudar, compreender e desenvolver trabalhos acerca da 
literatura brasileira sem considerar os trabalhos produzidos na Amazônia em sua 
especificidade regional, ou se simplesmente não me referir à questão regional, hoje eu 
compreendo a necessidade (e até o compromisso) de estudar a produção nacional 
sem abrir mão do estudo da literatura produzida na Amazônia, sem desconsiderar sua 
especificidade e em muitos momentos colocar os estudos sobre esta produção entre 
minhas prioridades de pesquisa. Por este motivo, o corpus antes composto por 
romances de autores de regiões diversas4 como forma de pensar uma certa 
representatividade da escrita sob e sobre a ditadura (ou com teor testemunhal) na 
intenção de abarcar o cenário nacional foi substituído pelo recorte regional – mesmo 
que este trabalho não seja necessariamente um trabalho de literatura regional5. A 
mudança no corpus favoreceu também algo de catártico que eu precisava em algum 
momento daquele 2016. Fixei-me na obrado escritor, político, romancista e militante 
Benedicto Monteiro. 
 
4 No corpus do pré-projeto, estavam Pessach, A travessia, de Carlos Heitor Cony, Quatro Olhos, de 
Renato Pompeu, e Ensaio geral, de Antonio Marcello. Mas eles representavam um desejo secreto de 
fazer um painel nacional com mais de 40 romances. 
5 Eu agradeço a Professora Suzanne Klengel (LAI-FU-Berlin) pela perspicácia ao me sugerir este 
recorte e ao professor Márcio Seligmann-Silva (IEL-UNICAMP) por ter abraçado com tanto 
entusiasmo a mudança no corpus (perspicácia e entusiasmo que me faltavam naquele momento). 
O corpus inicial era formado por um dos romances de Benedicto Monteiro, A Terceira Margem, mas 
também Pessach, A travessia, de Carlos Heitor Cony, Quatro Olhos, de Renato Pompeu, e Ensaio 
Geral, de Antonio Marcello. Eu, entretanto, tinha secretamente o desejo de fazer este estudo 
envolvendo 40 romances brasileiros do período. 
16 
 
 
Quando ocorreu o golpe de 1964, ele era deputado estadual, advogado 
de posseiros e conhecido por seu alinhamento político à esquerda. Paralelo a isto, 
Benedicto Monteiro – como é conhecido no meio Literário Paraense e como vez ou 
outra vou me referir a ele – era pesquisador “prático” dos falares caboclos da 
Amazônia paraense, experimentava o material de linguagem desta pesquisa em 
contos publicados em revistas literárias da região e – como é ou era comum aos 
escritores de prosa – tinha um projeto de publicar uma obra de fôlego, de escrever 
um romance. O golpe militar, a cassação de seu mandato e de sua carteira da OAB, 
seu refúgio nas matas de Alenquer protegido pela população local e principalmente 
sua prisão numa cela solitária e os sofrimentos pelos quais passou, podem ser lidos 
como responsáveis por cambiar, mesmo que parcialmente, seu norte literário. 
Enquanto na década de 50 e início de 60, mais ou menos alinhado a uma 
tendência de renovação estética presente em vários setores artísticos culturais como 
a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Teatro de Arena, as inovações de linguagem no 
romance seja pelos influxos centro-europeus como o Novo Romance, seja pelo 
marco divisor de águas que foi a obra de Guimarães Rosa, seja por um auto-fluxo de 
leitura regional, a literatura pretendida por Benedicto Monteiro procurava um 
caminho de linguagem e uma aproximação com as questões regionais, o final da 
década de 60 e início da década de 70, radicalizam processos de fragmentação e 
montagem, fortalecem contatos com a produção hispano-americana e conduzem o 
autor a um processo de reflexão e produção estética de glocalização (global, 
nacional e regional). Os romances de Benedicto Monteiro da década de 70 (Verde 
Vagomundo e O Minossauro, bem como A Terceira Margem, de 1983) escritos sob a 
regência de dois narradores e pontuados com textos dos mais diversos gêneros e 
origens (desde transcrições de rádio, cartas e relatórios, a notícias de jornais, letras 
de canções e citações de filósofos, historiadores, antropólogos...) possibilitam um 
jogo de montar e seu estrato formal uma variedade de leitura, no sentido mecânico 
do termo (o encadear massas textuais uma após a outra). Já na década de 80, o 
autor mantém a fala de apenas um dos narradores, elimina todo o material 
linguístico que indicamos acima entre parênteses, justapõem sequencialmente as 
falas deste narrador na mesma ordem dos romances anteriores, publica o quarto 
romance desta série intitulado Aquele um (1985) e o declara como “o romance de 
seu sonho inicial”. 
17 
 
 
O romance de 1985 é uma retomada de um projeto estético da década de 
50, mas sua publicação gera também um elemento no mínimo perturbador, por 
causa da manutenção dos romances anteriores em sua lavra, tendo inclusive 
publicado novas edições dos mesmos. Por um lado, a publicação de Aquele um soa 
como um gesto de seleção de um material útil para publicação e um de gesto de 
descarte do material que teria funcionado como rascunho, borrão, como anotações 
esparsas ou notas de apoio. Este material descartado, todo este “entulho verbal”, 
corresponde às partes dos romances que a recepção crítica contemporânea não 
considerou de qualidade. A opinião crítica era a de que os romances apresentavam 
dois escritores digladiando, um experiente e outro não-experimentado (como afirmou 
Nélida Piñon). Por outro lado, ao contrário do que romancistas costumam fazer em 
edições revistas ou atualizadas, o autor não renegou os romances anteriores. Assim 
mantendo toda a “matéria de escritor não experimentado”, todo o resíduo e 
especialmente mantendo a parte de sua produção que insere a narrativa num 
contexto local-nacional-global, que apresenta um potencial de testemunho e de 
resistência, ao interseccionar as temáticas da Ditadura Militar, da Guerra Fria, dos 
debates sobre a Amazônia e da escrita literária. Como afirma em uma entrevista 
para a professora Fátima Nascimento, “você pega isso (as três primeiras obras) 
espreme e faz o Aquele Um. Tirei todo o contexto histórico, o fragmentário, o 
anedótico, tirei tudo, fixei-me só na linguagem do personagem Miguel” (pág. 106-7). 
O corpus preferencial desta tese é exatamente este “bagaço”, este resto; com 
especial destaque para os narradores urbanos e para as notícias (de rádio, jornais e 
revistas), bem como o desfecho dos três romances. 
Interessa-nos, portanto, identificar, interpretar, analisar a presença de 
fatos e dados da história brasileira recente (a década de 1970), os quais podem de 
algum modo ainda ou não estar presentes em Aquele um, mas que neste trabalho 
interessa-nos exatamente este material que sobrou e não foi inserido no quarto 
romance da, aí sim, Tetralogia. Tais materiais, por si, já nos indicam o caminho de 
leitura para os resquícios, os rastros de história. Os temas contidos neles e a forma 
de organização deste material permitem-nos pensar a história do período sob o 
ponto de vista não-oficial, não-hegemônico, realizando uma leitura a contrapelo. A 
seleção e distribuição de todo esse material (em especial as notícias), inclusive por 
conta do conteúdo, ao aproximarmos os romances de procedimentos das 
vanguardas artísticas, possibilitam-nos pensar em um procedimento de 
18 
 
 
fragmentação e montagem cujo princípio é “anarquivar para recolecionar as ruínas 
dos arquivos e reconstruí-las de forma crítica” (SELIGMANN-SILVA, 2014, pág. 38). 
Estamos diante de um anti-arquivo, formado por material recolhido de nossa história 
recente. Material que é pelo próprio autor do romance renegado a plano secundário 
cuja utilidade foi apenas temporária e após espremido para sua obra prima fica 
reduzido a um resíduo. Paradoxalmente convivendo em sucessivas reedições. 
Com a finalidade de trilharmos “no rastro e no rumo das palavras” 
(MONTEIRO, 1983, pág. 186), dos fragmentos, da história brasileira recente e 
chegarmos a “verde vagomundo a ser desvendado” (pág. 18) organizamos este 
trabalho em três grandes capítulos. 
No primeiro, apresentamos Golpes, cicatrizes, transtempo e trilhas: um 
breve excurso pelos fatos iniciais da ditadura militar no Pará (espacialmente 
circunscrita à cidade de Belém), logo em seguida procuraremos sintetizar os 
principais estudos sobre como ocorreu o golpe militar na cidade de Alenquer, para 
situarmos neste contexto o homem político e literato Benedicto Monteiro, uma breve 
biografia referente ao período que nos interessa para sua obra até o início da 
década de 1980, seguida de uma apresentação geral de sua obra com ênfase no 
corpus deste trabalho. 
No capítulo dois, procuramos fazer uma apresentação estendida de cada 
um dos três romances que formam o corpus desta tese (a Trilogia Amazônica) 
indicando elementos que serão relevantes para a análise do capítulo seguinte. Ainda 
neste capítulo, é apresentada uma interpretação sobre as modificações que o 
projeto estético de Benedicto Monteiro sofreu entre as décadas de 1950 até apublicação de Aquele um em 1985. 
No capítulo três, procuraremos demonstrar como os narradores culto-
urbanos (que atuam como editores/compiladores ou como coletadores de materiais) 
apresentam-se e como eles favorecem a reflexão sobre a Amazônia num contexto 
nacional-internacional (a Ditadura Militar e Guerra Fria) e sobre a escrita literária. 
Analisaremos ainda como uma dessas partes (as notícias de rádio, jornais e 
revistas) coletada, selecionada e publicada pelos narradores urbanos se relaciona 
com o enredo e este com o contexto contemporâneo das décadas de 1960-70. 
Encerrando o capítulo analisamos como os desfechos dos romances se inscrevem 
nesta relação com o contexto citado. 
19 
 
 
 
CAPÍTULO 01 – Golpes, cicatrizes, transtempo, trilhas 
 
 
 
 
 
Os caminhos que trilhamos, os lugares por onde passamos, os espaços 
por onde percorremos, físicos, históricos, pessoais, metafóricos, neles deixamos 
algo. Um odor, uma marca, uma pegada, um traço. Uma lembrança feliz; algum 
desentendimento. Mas os caminhos, os lugares e os espaços também nos 
atravessam com suas pegadas leves ou com seus passos pesados. Alegrias suaves 
e golpes dilacerantes. Na pele, carícias passam mas permanecem; dores ferem e 
cicatrizam. Numa enorme e indefinida rede em muitas dimensões, estamos o tempo 
todo atravessando e sendo atravessados. Dialética e aporeticamente a História é-
nos caminho e caminhante, passeio e passeante. Como quem caminha às tontas ou 
às cegas tropeçando em objetos, nós deixamos marcas nos caminhos e os 
caminhos também nos marcam, acariciam ou ferem. Fazemos a História e ela nos 
faz. 
É sobre marcas e cicatrizes deixadas pela História em seu pai que Wanda 
Monteiro se refere em seu depoimento na Comissão Estadual da Verdade no Pará6 
durante a oitava realizada em 10 de março de 2016, na sala VIP da Assembléia 
Legislativa do Estado do Pará (ALEPA), em Belém. 
 
Quando eu falo de 1964, eu falo das marcas. Das cicatrizes, que nunca se 
fecham e sempre se abrem. E uma das marcas mais angustiantes que eu 
tenho de 1964 foi o profundo silêncio, isolamento de um exílio na própria 
pátria, no próprio estado, na própria casa, no próprio lar. No ostracismo, 
num exílio, que não só ele mas também os filhos dele. Por ter sido 
execrado. Exposto em praça pública de short, como se fosse um troféu, um 
bicho. E depois renegado. Renegado pelos pares, pelos colegas, pela OAB, 
pelos vizinhos que não mais nos conheciam, pelos parentes. Fomos 
renegados. Ficamos recolhidos. (MONTEIRO, 2017) 
 
 
6 A Comissão Estadual da Verdade, do Pará disponibilizou em 02 de dezembro de 2018 o vídeo com 
o depoimento em seu canal do youtube. [https://www.youtube.com/watch?v=KAjI5XGuBA4] As 
transcrições dos depoimentos bem como o texto final do relatório da comissão ainda não foi 
concluído. Os trabalhos da Comissão foram interrompidos em 2017 por causa da morte do seu relator 
em 26 de outubro de 2017, vítima de uma parada cardíaca. Paulo Fonteles Filho, Paulinho. 
20 
 
 
É bastante simbólico o fato de seu depoimento (e também de seus 
irmãos, bem como de outras personalidades como Paulo Fonteles Filho) ocorra nas 
dependências da mesma ALEPA que, em 1964, havia cassado por unanimidade o 
mandato do então deputado estadual Benedicto Monteiro. 
Wanda inicia sua fala lendo o seguinte fragmento da autobiografia 
Transtempo, em que Benedicto Monteiro rememora fatos que lhe marcaram a vida 
pessoal, literária, política. 
 
Não sei se posso me gabar do único recorde que consegui na vida: as 
cassações. Sou o cidadão mais cassado desta minha pátria, desse meu 
espaço-tempo que não escolhi para viver no mundo. E só agora percebi que 
sempre eu fui cassado, no transtempo. Fui cassado mesmo antes dos Atos 
Institucionais terem inventado as cassações. Antes mesmo de 1964. Antes 
mesmo que qualquer outro cidadão tenha sido atingido por essa medida 
odiosa da nossa sociedade. Fui cassado em 1962, quando já era deputado 
estadual e já inscrito pelo meu partido o PTB, no Tribunal Regional Eleitoral, 
para disputar a minha reeleição. (MONTEIRO, 1995, pág. 189) 
 
É devido as cicatrizes, as marcas, do período que inicia em 1964 que 
Benedicto Monteiro, num poema lido em sua posse na Academia Paraense de 
Letras, afirma o desejo de extirpar, extinguir, expurgar, um período de sua 
existência. Para os dez anos que ele resolveu cortar de sua existência, ele afirma 
 
Não vivi 
esse período: 
Nessa época 
inventei o 
Verde Vagomundo 
Nele criei Cabra-da-Peste, 
O Minossauro 
e pus para andar 
o Carro dos Milagres. 
(MONTEIRO, 1995, pág. 152) 
 
Nesses dez anos, após sua prisão e sua soltura em 1964, Benedicto 
Monteiro precisou criar não apenas uma literatura, mas uma segunda realidade para 
si e para seus filhos. Teve que abstrair a história para os filhos que ouviam na escola 
que ele era subversivo. Sempre que alguma autoridade passava por Belém, ele 
tinha sua prisão preventiva decretada. Aos filhos dizia que eram trabalhos e 
passeios longos. No poema, escrito em 1984, afirma ainda 
 
 
21 
 
 
subverti o tempo 
e o calendário: 
apaguei as horas, 
os dias, 
noites, 
meses, [...] 
amputei a década [...] 
apaguei a História 
da memória. 
(Monteiro, 1995, pág. 152) 
 
Entretanto, essas horas apagadas, essa década amputada e essa 
História apagada da memória, deixou seus espectros, suas sombras, cotocos, 
vestígios e rastros persecutíveis nas obras citadas num dos trechos acima e que 
foram produzidas e publicadas no período correspondente a este apagamento, ou 
tentativa de apagamento. Nelas, estão presentes as marcas dos golpes e os 
registros das cicatrizes. Afinal, “o rastro é fruto do acaso, da negligência, às vezes 
da violência”, como afirma Jeane Marie-Gagnebin (2006, pág. 113). Como uma 
amputação ainda causa por algum tempo o que os médicos chamam de “dor 
fantasma” (a sensação de unha encravada num dedo que não mais existe), um 
rastro “denuncia uma presença ausente” (pág. 113). A amputação de uma década, 
como a amputação de um membro do corpo, é também o registro, uma presença de 
algo ausente, de algo que não há mais. E à “dor fantasma” ainda por meses irá se 
tentar coçar os dedos inexistentes. 
Walter Benjamin, num fragmento poético em que faz uma comparação em 
quiasmo entre aura e rastro, afirma: 
 
Rastro e aura. O rastro é a aparição de uma proximidade, por mais 
longínquo [que] esteja aquilo que o deixou. A aura é a aparição de algo 
longínquo, por mais próximo [que] esteja aquilo que a evoca. No rastro, 
apoderamo-nos da coisa; na aura, ela se apodera de nós. [M.16a, 4] (2006, 
pág. 490) 
 
Ao contrário da aura cuja presença/ausência aponta para uma 
eterelidade/ perda de eterelidade, o rastro tem um sentido mais mundano. Sua 
ausência/presença aponta para aspectos voltados para a historicidade, para a 
narratividade da história. Aliás, as relações do rastro com “outras marcas da 
existência humana”, como afirma Gagnebin (a esteira de Assmann) não é mais de 
privilégio (GAGNEBIN, 2006, pág. 113). O rastro não apresenta uma possibilidade 
de leitura ou um referente claro. Ele formaria uma oposição simétrica com a alegoria, 
22 
 
 
não fosse o fato de que o próprio ato de deixar rastros, a forma como eles são 
deixados e os motivos de suas não-intencionalidades poderem apresentar um 
potencial alegórico. 
Ainda conforme Gagnegin a esse respeito, 
 
o rastro é fruto do acaso, da negligência, às vezes da violência, ele foi 
deixado por um animal que corre ou por um ladrão que fugiu, ele denuncia 
uma presença ausente sem, no entanto, prejulgar de sua legibilidade: já que 
quem deixou rastros não o fez com uma intenção de transmissão ou de 
significação, o decifrar dos rastros também é marcado por essa não-
intencionalidade. O detetive, o arqueólogo e o psicanalista, esses primos 
menos distantes do que pode parecer à primeira vista, devem decifrar não 
só o rastro na sua singularidadeconcreta, mas também tentar adivinhar o 
processo, muitas vezes violento, de sua produção involuntária. (GAGNEBIN, 
2006, pág. 113) 
 
Embora o romance possa ser entendido “como unidade dinâmica do ato 
volitivo” nas palavras de Bakhtin (2010, pág. 22), ou seja, o resultado de uma criação 
verbal praticada pela vontade de um/a autor/a, ele não escapa de acidentes, 
incidentes, acasos, tropeços, enfim, rastros deixados de forma não intencional. Num 
romance, tanto podemos nos deparar com estratégias narrativas propositais quanto 
podemos notar várias outras não programadas. O decifrador de rastros deixados em 
um romance deve agir como um detetive que tanto se depara com vestígios 
intencionais na cena do crime (deixados para ludibriar o resultado), quanto se 
depara com rastros não-intencionais (deixados por descuido, acidente, imperícia), 
como se depara com as marcas dos rastros que se tentou ocultar. 
A análise de um romance em qualquer época ou postura metodológica 
costuma revelar este empenho com ênfase em um ou outro aspecto. Aqui, 
interessam-nos os rastros não-intencionais e os rastros que se tentou esconder. 
Analista compartilha com autores uma ação que resulta, na visão de Benjamin, não 
apenas em um ritual de protesto, mas 
 
também cumprem a tarefa silenciosa, anônima, mas imprescindível do 
narrador autêntico e, mesmo hoje, ainda possível: a tarefa, o trabalho de 
apokatastasis, esta reunião paciente e completa de todas as almas no 
Paraíso, mesmo das mais humildes e rejeitadas, segundo a doutrina 
teológica (julgada herética pela igreja) de Orígenes. (GAGNEBIN, 2006, 
pág. 118) 
 
O rastro, como objeto de trabalho historiográfico, é uma categoria 
relevante para leitura de narrativas que se colocam contra os registros hegemônicos, 
23 
 
 
favorece a leitura da história a contrapelo (Walter Benjamin). Como afirma 
(GAGNEBIN, 2012, p. 33), a “procura por rastros deixados pelos ausentes da 
história oficial (os oprimidos, die Unterdrückten), à revelia da historiografia em vigor” 
é uma tarefa relevante para a “historiografia crítica de Benjamin” (GAGNEBIN, 2012, 
p. 33). A persecução dos rastros como metodologia consiste num trabalho de 
demonstração de “um materialismo histórico que aniquilou em si a ideia de 
progresso” como afirma Benjamin em um aforismo presente em suas Passagens. 
Acrescenta ele ainda que o conceito fundamental do materialismo histórico “não é o 
progresso, e sim a atualização” [N 2, 2] (BENJAMIN, 2006, pág. 502). 
Os romances de Benedicto Monteiro, em consonância com a vida do 
autor, sua ação política e sua militância à esquerda, além de integrarem um conjunto 
disperso de obras que auxiliam na compreensão do passado recente da história 
política brasileira, servem também para compreendermos a inserção do romance 
ficcional brasileiro da década de 1970 numa “geografia mundial da barbárie” (DE 
MARCO, 2004, pág. 51). A busca pelas marcas, rastros, pegadas, cicatrizes deste 
momento conformam este trabalho. Neste capítulo inicial, apresentaremos breves 
apontamentos sobre o golpe no Pará e breves notas sobre como a cidade de 
Alenquer se defrontou com a instituição dos militares nos mais variados espaços 
sociais e administrativos do município. As cicatrizes destes golpes permanecem 
entreabertas/entrefechadas. O trabalho de luto e de memória ainda inconcluso. 
Golpes, feridas e cicatrizes no corpo e no espírito. Apresentaremos também um 
percurso biobliográfico de Benedicto Monteiro. Seu transtempo (presente, passado e 
futuro imbricados). Bem como as trilhas literárias que este autor sulcou em mais de 
meio século de atividade estética, consonantemente política. Com isso seguiremos 
calçando e palmilhando a análise. 
 
 
 
24 
 
 
1.1 – GOLPE DE 64 NO PARÁ – ANOS INICIAIS 
 
De um modo geral, os preâmbulos do golpe ou prelúdio do golpe; as 
ações e o clima político que se estende desde a campanha pela legalidade, em 
1961, e vai até a noite de 31 de março de 1964, são bastante conhecidos e sobre 
eles há uma vasta bibliografia. O tema certamente não está esgotado, mas as 
principais questões, os principais eventos já estão relativamente consolidados na 
historiografia. A maioria desses eventos ocorrendo após o plebiscito de 1963, que 
restabeleceu o presidencialismo no Brasil. 
Neste texto, opto por não apresentar uma síntese do período 
nacionalmente seja por causa do fácil retomar deste período, seja por desejar resistir 
à tentação historiográfica de encadear fatos como se suas ligações fossem sempre 
vinculadas em termos de causa e consequência. A História não necessariamente 
obedece essas tramas de linearidade. Seus acontecimentos são muito mais 
chapiscados que pontilhados. A História é muito mais constelar que linear. 
É bem provável que o leitor dos romances de Benedicto Monteiro que 
também foi leitor das notícias de jornais nas décadas de 1960-70 forme, ao ler a 
trilogia (especialmente os dois primeiros romances), um espectro histórico imediato 
à leitura. Por outro lado, é bem provável, que leitores mais jovens, como eu, que 
não acompanharam pari passu o desenrolar dos acontecimentos relevantes citados 
nas notícias transcritas, recorram ou ao conhecimento histórico adquirido no 
processo de formação escolar, ou precisem se debruçar na pesquisa para tentar 
remontar o pano de fundo. Ou ainda, precisem fazer as duas coisas, ora uma, ora 
outra. 
Ao contrário do que se afirmou em relação aos fatos nacionais, vemos a 
necessidade de apresentar alguns fatos sobre a ditadura militar na Amazônia. Em 
especial, os acontecimentos na capital paraense e na cidade de Alenquer. 
Tal como no restante do Brasil, o golpe de 64 ocorre em Belém após um 
significativo trabalho preparatório que consistia na instauração do medo e da 
construção de um inimigo interno a ser derrotado (no caso, o Comunismo7) e foi 
reforçado pelas manifestações de rua por Deus e pela Família e um maçante e 
persistente trabalho da imprensa. Paulo Roberto Ferreira (2015), em seu livro sobre 
 
7 Sobre o anti-comunismo: MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o “Perigo vermelho”: o 
anticomunismo no Brasil (1917-1964). São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 18-46. 
25 
 
 
A censura no Pará, apresenta um panorama da imprensa local (principalmente dos 
jornais impressos de Belém) no que se refere às práticas de censura posteriores ao 
golpe. Seu trabalho, entretanto, também apresenta um quadro da situação ou do 
clima anterior a março de 1964. 
Segundo Ferreira (2015), a imprensa em Belém nesta época tinha claras 
vinculações políticas e 
 
Era de resistência às anunciadas reformas de base [...] as manchetes dos 
jornais de Belém destacavam a posição do governo, sempre ligada a um 
caráter revolucionário, e a reação dos partidos de oposição, liderados pela 
União Democrática Nacional (UDN) e seu maior expoente, o então 
governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda (FERREIRA, 2015, 
pág. 49). 
 
Ferreira apresenta uma série de manchetes de jornais da época que 
demonstravam a oposição da imprensa de Belém ao governo de João Goulart. 
Alguns jornais mostravam isso de modo menos evidente, mas a maioria era 
claramente oposicionista. Estes veículos de comunicação de Belém, seguindo 
praticamente a mesma toada dos jornais do sudeste, posicionavam-se contra a 
Reforma Agrária, especialmente contra o decreto da SUPRA8; apresentavam 
intolerância ideológica, associando o nome de João Goulart ao regime comunista e 
procuravam vinculá-lo ao “estigma de clandestinidade” com o qual era marcado o 
PCB desde a ditadura de Vargas; alertavam contra uma possível instalação do 
comunismo no Brasil; destacavam o caos social e afirmavam que “as manifestações 
de rua eram vistas como distúrbios da vida nacional” (2015, pág. 56), entre outras 
coisas. A polarização mundial própria da Guerra Fria também temperava o noticiário 
e os ânimos na capital do Pará. Ferreira(2015) apresenta exemplos da linguagem 
empregada pela mídia. Em geral, agressiva, depreciativa, apelativa e de alerta. 
Os relatos testemunhais (literários ou memorialísticos) bem como estudos 
desenvolvidos na região (VELARDE & PERE PETIT, 2012; PACHECO & VELARDE, 
2014, FONTES, 2014), nos mostram que o quadro geral do prelúdio do Golpe não 
foi diferente na Amazônia Paraense em relação ao que ocorria no restante do Brasil. 
O clima político desde a renúncia de Jânio Quadros e da campanha da legalidade foi 
conturbado nacionalmente. Durante este período ocorreram muitas tentativas 
 
8 Superintedência de Reforma Agrária. O decreto se refere a desapropriação de terras às margens 
das rodovias federais para a reforma agrária 
26 
 
 
“quarteladas”, como Carlos Heitor Cony chamou as tentativas de golpe ocorridas na 
época9. 
Para se ter uma noção do clima que campeava a região neste intermezzo, 
no estado do Pará, alguns episódios merecem destaque. Um deles ocorrido nas 
comemorações do Dia dos Trabalhadores em 1962: em frente ao Cinema Olímpia, 
no entorno da Praça da República, foi montado um palanque para discursarem as 
autoridades civis e militares. No comício, além de autoridade civis, como o prefeito 
de Belém, e eclesiásticas, bem como representantes de trabalhadores, estavam 
presentes, “o general Taurino de Rezende Neto, comandante militar da Amazônia, e 
o major Jarbas Passarinho10, chefe do Estado maior da 8ª Região Militar” (PINTO 
JUNIOR, 2011, pág. 31). O discurso do presidente do Sindicato dos Bancários e do 
Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), e afiliado ao Partido Comunista Brasileiro 
(PCB) do Pará desde 196211, o sindicalista Raymundo Jinkins teria irritado os 
militares presentes. 
Jinkins, em 1962, já era famoso por suas publicações em jornais 
paraenses, seus artigos “denunciavam a ação imperialista dos Estados Unidos na 
região e a existência de mazelas resultantes das injustiças” (OLIVEIRA, 2010, pág, 
244). O jornal do Dia, na edição de 02 de maio de 1962, afirma que Jinkins fora o 
primeiro orador e que saudou “os trabalhadores, enalteceu a memória do líder 
camponês João Teixeira, assassinado” no dia 02 de abril do mesmo ano no interior 
da Paraíba. Segundo Jocelyn Brasil (1995), em livro que narra a biografia política de 
Jinkins, inclusive nos anos posteriores ao golpe como um dos mais importantes 
livreiros de Belém, no discurso daquele 1º de maio, ele teria dito: 
 
Companheiros, nós estamos aqui, em praça pública, com absoluta 
liberdade, porque nós, trabalhadores, os democratas, em aliança 
com os setores progressistas das forças armadas, impedimos aquele 
golpe fascista que tentou impedir a posse de Jango. Aqui estamos na 
 
9 Conforme podemos ler sobre uma tentativa de golpe em 1961, que foi registrado em 
TAVARES, Flávio. 1961: o golpe derrotado. Luzes e sombras do Movimento da Legalidade. Porto 
Alegre: L&PM, 2011. 
10 Jarbas Passarinho foi promovido no ano seguinte a tenente-coronel e se transformou “no principal 
articulador dos golpistas no Estado do Pará” (PETIT, 2014, pág. 187) 
11 É importante destacar que, na página da internet dedicada a Jinkins, na transcrição de uma 
reportagem do Jornal do Dia, de 02 de maio de 1962, Jinkins é apresentado como presidente Pacto 
Operário Estudantil e Camponês (Disponível em: http://raimundojinkings.blogspot.com/p/blog-
page.html). A fala de Isa Jinkins, sua viúva, a Comissão da Verdade no Pará, corrobora para esta 
informação (entrevista disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Pnsnvv4azpI). 
27 
 
 
praça que é do povo, como acontece em tantas outras praças do 
mundo, exceção feita para a Espanha e Portugal. 
(1995, pág. 76) 
 
Pinto Junior (2011) afirma que logo após Jinkins, “falou o sindicalista 
Zacarias Fernandes, outro comunista, presidente da Federação dos Trabalhadores 
na Indústria” (pág, 31). Neste momento, militares, autoridades civis e o Arcebispo de 
Belém, D. Alberto Gaudêncio Ramos, deixaram o palanque. Apenas o prefeito de 
Belém permaneceu. Quando o último orador, Carlos Sá Pereira, do Sindicato dos 
Trabalhadores do Petróleo, iniciou sua fala, o microfone foi desligado, os 
amplificadores fechados e retiraram a chave do gerador que alimentava a praça 
(Jornal do Dia, 02.05.62). Aquele primeiro de maio encerrou-se às escuras. 
Violentado pelo cerceamento da manifestação de ideias dos trabalhadores. 
Existe ainda um episódio que é citado com recorrência na rememoração 
do golpe no Pará. A “noite dos lenços brancos” seguida da invasão do prédio da 
UAP na noite do dia seguinte12. 
No dia da abertura do I SLARDES (I Seminário Latino Americano de 
Reforma do Ensino Superior), evento promovido e organizado pela UNE (União 
Nacional do Estudantes), pela UAP (União Acadêmica Paraense) e pela UIE (União 
Internacional dos Estudantes), em 30 de março de 1964, na Faculdade de 
Odontologia, da UFPA, no entorno da Praça Batista Campos, um grupo de 
estudantes de direita, “filhos de latifundiários e outros ricaços da terra” (OLIVEIRA 
2010, pág. 611) “regimentados por Jarbas Passarinho” (PETIT, 2014, pág. 189, mas 
também SILVEIRA; CUNHA, 2009), combinaram antecipadamente com a Polícia 
Militar uma ação violenta contra os estudantes que organizavam o evento. O grupo 
de direita, portando porretes, iniciaria “uma briga generalizada” (VELARDE, 2012, 
pág, 32). Os PMs, ao chegarem, espancariam e prenderiam os estudantes de 
esquerda, pois o grupo de direita para que fossem identificados, utilizava “lenços 
brancos” no pescoço. Só não foi pior o desfecho porque um dos “lenços brancos”, 
“esporeado pelos nervos, detonou a invasão alguns minutos antes do tempo. A tropa 
só chegaria depois, “quando já se havia conseguido serenar os ânimos” (GALVÃO, 
2004, pág, 21). 
 
12 Valverde (2014) afirma que esses dois episódios correspondem ao “ponto de partida das memórias 
sobre os tempos de Ditadura Militar na Amazônia Paraense” (2012, página 32). 
28 
 
 
Na ocasião, além de prender os estudantes de esquerda, a polícia militar 
apreendeu e destruiu todos os exemplares que encontrou do livro de poemas 
Tarefa, do então estudante de Direito João de Jesus Paes Loureiro. O livro, que 
apresenta poemas com temática social semelhante à poesia Praxis de Mário 
Chamie, seria lançado dois dias depois (VELARDE, 2012, passim). Apesar desse 
episódio sugerir o contrário, o governo Paraense somente indicou apoio à 
“revolução” na noite do dia 1º de Abril, quando a situação no Centro-Sul já estava 
relativamente definida. A escolha pelo lado vitorioso foi bastante cômoda ao governo 
de Aurélio do Carmo (conforme Amílcar Tupiassu, apud Pere Petit, 2012, pág. 172) e 
deu início a um período de perseguições políticas, perdas de mandatos de 
deputados, prisões arbitrárias, torturas, mortes e desaparecimentos13. 
Petit afirma que 
 
no Pará, cerca de 300 pessoas foram detidas durante os três primeiros 
meses de estado de exceção que vivenciou o país. A maioria dos presos 
eram estudantes universitários, lideranças sindicais e militantes da Ação 
Popular (AP) e, sobretudo, do PCB. 
(PETIT. 2014, pág. 202) 
 
Ainda segundo o autor, o deputado estadual, Benedicto Monteiro, que 
conseguira fugir de Belém, foi preso no município de Alenquer no dia 15 de abril. Um 
dia antes, o seu mandato havia sido cassado pela Assembleia Legislativa do Pará, 
“por unanimidade de trinta e quatro votos, em uma reunião especialmente 
convocada para esse fim” (pág. 24). 
 
 
13 Apesar dos trabalhos aqui citados sobre a ditadura militar no estado do Pará serem resultados de 
pesquisas criteriosas realizadas por professores pesquisadores cuidadosos e empenhados, a 
pesquisa sobre a temática é bastante incipiente. Além disso, a pesquisa notadamente realizada em 
Belém se detém basicamente em número não maior que 100 pessoas envolvidas com o golpe e 
ações circunscritasà cidade de Belém, quando muito, cidades próximas cujos personagens tenham 
alguma relação com a capital e uma quantidade de pesquisadores na área de História ainda bem 
limitada. Falta pesquisa. E falta pesquisa sobre os tentáculos da ditadura nas cidades do interior do 
estado. Desse modo, o número aventado por Pere Petit, muito provavelmente se refere apenas à 
Belém e a cidades circunvizinhas. 
Talvez o relatório da Comissão Estadual da Verdade, do Pará, trouxesse mais informações e desse 
um pouco mais de chão, norte e sustança para as pesquisas. Entretanto, o texto final ainda não foi 
concluído, pois os trabalhos da Comissão foram retomados em Abril deste ano após terem sido 
interrompidos ano passado por causa da morte do seu relator em 26 de outubro de 2017, vítima de 
uma parada cardíaca. Paulo Fonteles Filho, Paulinho. 
A pesquisa sobre a Guerrilha do Araguaia (um capítulo à parte da Ditadura militar na Região), embora 
represente um monstro muito maior a ser perscrutado, tem mais pesquisas, mais trabalhos, mais 
professores e pesquisadores empenhados, do que a pesquisa sobre a ditadura no restante do 
Estado. 
29 
 
 
1.2 – CICATRIZES – COMO SE DEU O GOLPE EM ALENQUER-PA 
 
Alenquer é descrita pelo narrador do primeiro romance como “uma 
pequena cidade no interior da Amazônia” (MONTEIRO, 1972, pág. 11). As 
características físicas, sua população, as profissões citadas, as festas e tradições, a 
sensação de isolamento diante do cenário político nacional e internacional da época 
remetem para a cidade de Alenquer14, mas bem poderiam apontar para qualquer 
outra cidade ribeirinha do interior da Amazônia, à exceção de um ou outro dado 
geográfico muito específico. 
Benedicto Monteiro desejava não só representar ficcionalmente Alenquer 
no romance, como também apresentar seu testemunho sobre o momento político da 
dimensão microrregional à dimensão internacional. Ou ainda o regional inserido num 
contexto político internacional, mediado pelo contexto político nacional. Assim, são 
importantes para a compreensão do contexto a forma como a percepção dos 
antecedentes do golpe até o momento da instauração do regime são vistos a partir 
de Alenquer. 
Era também complementar ao desejo que ele já apresentava na década 
de 1950 de construir uma obra que refletisse a realidade da Amazônia de um modo 
o mais completo e abrangente possível. Com o golpe e com a instauração do 
governo militar, com as consequências disso para Alenquer, para a Amazônia, para 
a vida pessoal, para a democracia e para o percurso político de inclusão social que 
havia em curso, ficaria fosca e irreal qualquer imagem sobre a região que não se 
referisse à Ditadura Militar. 
Os acontecimentos sobre a ditadura militar em Alenquer, além de uma 
relação estreita com o contexto nacional e com o contexto estadual, estão 
intimamente ligadas à pessoa de Benedicto Monteiro. É, entretanto, um equívoco 
responsabilizá-lo pelo que ocorreu na vida de políticos, familiares, amigos e pessoas 
comuns da cidade. O professor Enilson Sousa, narrador em off e produtor de um 
documentário amador publicado no Youtube e intitulado “Alenquer Revelada – golpe 
militar na Amazônia” parece incorrer neste equívoco. O documentário é formado por 
uma série de entrevistas com pessoas relevantes na comunidade alenquerense, que 
 
14 As relações estabelecidas pela Alenquer da obra e a Alenquer verdadeira da época foram 
esmiuçadas por MESQUITA, Ruth Athias. Pelos verdes vagomundos: Alenquer na obra de 
Benedicto Monteiro. 2007. 41 f. Monografia (Especialização) - História Social da Amazônia, 
Universidade Federal do Pará, Belém. 2002. [orientador: Prof. Dr. Aldrin Moura de Figueiredo] 
30 
 
 
tinham alguma participação na vida política, que tinham amizade com Benedicto 
Monteiro e que sofreram perseguições, prisões e torturas após a instalação dos 
militares no poder. Em vários momentos das entrevistas, é possível perceber, pelo 
texto ou pelo tom de voz do professor Enilson Sousa, que ele insinua atribuir a 
Benedicto Monteiro responsabilidade pelas prisões, torturas e outros padecimentos 
sofridos pelas pessoas da região que tinham algum contato com o então deputado. 
O desvio da culpa soa como perverso, embora possa ser apenas um erro de leitura 
histórica. Os padecimentos das pessoas anônimas em virtude do conhecimento com 
políticos e militantes devem ser atribuídos ao regime de exceção e seus agentes 
instalados nos mais variados espaços de poder e não a quem quer que lhes seja 
oposição. 
Percebemos essa tentativa de atribuir responsabilidade a Benedicto 
Monteiro, quando ao entrevistar Omar Arraes, primo de Benedicto Monteiro e irmão 
do então prefeito de Alenquer15, o professor Enilson pergunta “porque você acha que 
Bené Monteiro veio para Alenquer?” e acrescenta que o deputado “tinha o Brasil 
[todo] pra fugir”. As perguntas feitas para outras pessoas também parecem ter o 
objetivo de corroborar para este ponto de vista. Deixando os acontecimentos amplos 
a respeito da ditadura na cidade um pouco ao largo. Na entrevista com o senhor Luis 
Sousa (Lico), o professor insiste em tentar encontrar ligação entre as prisões dos 
populares e o romancista alenquerino, sem fazer nenhuma reflexão sobre esta 
relação e insistindo em perguntas que direcionem para a conclusão de atribuir culpa 
a Benedicto Monteiro. Realmente ocorreram prisões de populares pelo simples fato 
de terem um calendário com foto ou santinho de campanha de Benedicto Monteiro 
na parede da casa ou mesmo sobre a mesa. As prisões em Alenquer, assim como 
em muitas cidades brasileiras, ocorreram por causa da insânia dos militares em 
procurar ligação das pessoas com um suposto comunismo16. Diferentemente do que 
 
15 Omar e Aldo Arraes eram parentes de Miguel Arraes. Eleito 1962, governador de Pernambuco pelo 
PST (com apoio do PCB e do PSD), foi preso na tarde de 1º de Abril de 1964 após tropas do IV 
Exército invadirem o Palácio das Princesas e lhe proporem a renúncia. 
16 Como a insânia de perseguição gera o temor persecutório, as pessoas em Alenquer procuraram se 
livrar de qualquer coisa que pudesse ser entendida como ligação com o comunismo. Nessas auto-
devassas, os populares sacrificaram todos os livros com capa vermelha que encontraram. Eles foram 
destruídos, queimados, enterrados, jogados em poços... Raimundo Santos, locutor da Voz da 
Liberdade (uma emissora de áudio em caixas de som afixados nos postes da cidade), afirma que em 
Abril de 1964, ao retornar “para casa sua mamãe tinha enterrado todos os seus livros do Flamengo” 
(apud Monteiro, 2014, pág. 100). 
31 
 
 
faz Enilson Sousa, a professora, pesquisadora e historiadora Áurea Nina Monteiro17, 
mesmo transcrevendo entrevistas em que moradores avaliam que “Bené só trouxe o 
terror” (João Ferreira, apud 2014, pág. 101) para Alenquer, ela ressalta o fato de que 
o ressentimento provocado pelo caos causou inversão de valores na avaliação de 
populares. Em suas palavras, percebe-se “que as vítimas é que se transformaram 
em algozes” (2014, pág. 101). 
Tal como ocorreu no restante do Brasil e como indicamos na seção 
anterior sobre a Ditadura Militar no Pará, também, em Alenquer, houve um trabalho 
prévio ao Golpe. Não exatamente como em Belém, mas houve um trabalho de 
pesquisa e levantamento de dados. Áurea Nina Monteiro afirma que 
 
muito antes de ser deflagrado o Golpe em 31 de Março de 1964. Já haviam 
passado em nosso município, agentes militares para identificarem os 
militantes, que estavam preparando-se para o “levante comunista”. Quando 
eles chegaram aqui, no dia primeiro de abril, já possuíam uma lista dos 
suspeitos de serem comunistas. (MONTEIRO, 2014, pág. 98) 
 
O início da perseguição política ou perseguição aos supostos comunistas 
foi pelas estações de “rádio” do sistema de alto-falantes que havia na cidade. Existia, 
na época, a Voz da Liberdade e a Voz da Legalidade18.Na Voz da Legalidade, 
costumavam tocar o “Hino do Lavrador”, composto por Benedicto Monteiro, por 
serem seus proprietários de partido correligionário aos do deputado. Mas em 29 de 
fevereiro de 1964 tocaram o hino também na Voz da Liberdade, em homenagem ao 
aniversário deste filho querido da cidade que à época era deputado estadual. Os 
militares já vinham acompanhando as atividades das duas estações. Em Abril de 
1964, a Voz da Legalidade é fechada e lacrada. 
 
17 Áurea Nina Monteiro, professora e historiadora, residente em Alenquer com persistência e ousadia 
escreveu um trabalho corajoso sobre a Ditadura Militar em Alenquer. Algum historiador mais austero 
pode apontar falhas metodológicas e falta de rigor no trabalho que ela produziu, mas é preciso 
reconhecer é trabalho arqueológico, pioneiro e raro, cujas limitações são muitas, especialmente no 
que se refere a própria dificuldade de encontrar fontes e documentos seguros com os quais laborar. 
Hoje, qualquer trabalho sobre a Ditadura no Pará (e que busque registrar o que ocorreu no interior do 
estado) deve necessariamente recorrer a três fontes básicas: as pesquisas feitas por Edilza Fontes, o 
documentário feito pelo professor Enilson Sousa e – principalmente – a pesquisa de Áurea Nina 
Monteiro. 
O livro de Áurea me caiu nas mãos apenas em junho do ano passado, quando eu já tinha dado o 
trabalho de busca das fontes como concluído. O fato de ser um livro auto-publicado, sem editora e – 
principalmente – sem registro de ISBN dificulta bastante o trabalho de qualquer pesquisador em 
encontrá-lo. Uma aluna em Bragança, que tem um sebo de rua, disse-me que tinha um livro sobre a 
ditadura que poderia me interessar. Ela não faz ideia do quanto foi importante para mim. Registro 
aqui meu agradecimento a Karina e Edi, seu esposo. 
18 Aldo Arraes afirma no documentário Alenquer Revelada que esta estação funcionava na garagem 
das sua casa. 
32 
 
 
Aurea Nina Monteiro relata que os militares ao chegar na Voz da 
Liberdade para prender o locutor e apreender o disco com o “Hino do Lavrador”, 
perguntaram o que eles estavam defendendo e chamou o locutor de comunista, que 
após negar ser comunista, pergunta: “O que é ser comunista?” Ela afirma que as 
pessoas não sabiam o era ser comunista. Elas eram chamadas de comunistas, mas 
não tinham a menor ideia do que fosse ser comunista. Nas emissoras de rádio, 
tocavam o “Hino do Lavrador”, por serem muito amigos do Benedito Monteiro, para 
prestigiar sua obra e para homenageá-lo (Áurea Nina MONTEIRO, 2018). 
No Boletim Cultural Digital “Marambiré”, de 10 de junho de 2011, de 
circulação em pdf e editado por Luiz Ismaelino Valente, lemos que após o golpe de 
1964, 
 
o estúdio de A Voz da Liberdade foi invadido por soldados da Aeronáutica 
acantonados em Alenquer, à procura do disco compacto de 45 rpm com o 
“Hino do Internacional”, de um lado, e o “Canto do Lavrador”, do outro lado, 
ambos de autoria de Benedicto Monteiro, então perseguido pelos militares 
nas matas do rio Curuá. O “Canto do Lavrador” era profusamente tocado 
pelo alto-falante nos meses anteriores ao golpe. Os militares queriam, com 
a apreensão do disco, produzir “prova material” do “crime” imputado ao 
deputado: a sua “militância comunista”. Com a truculência própria do 
período, os militares reviraram o estúdio e danificaram discos e 
equipamentos. Dona Isolina Valente e o locutor Raimundo Santos foram 
várias vezes conduzidos, sob a escolta de metralhadoras, para deporem 
perante as autoridades militares e intimados a entregar o compacto com o 
“hino subversivo” de Benedicto Monteiro. A dona do alto-falante, entretanto, 
jamais cedeu à pressão dos soldados e ainda troçava, sem querer, dos 
milicos, entregando-lhes outros discos semelhantes, como os do conhecido 
cantor gaúcho Vitor Mateus Teixeira (1927-1985), o “Teixeirinha”, com a 
ingênua e, dadas as circunstâncias, perigosa indagação – “Não é este que 
os senhores querem?” (pág. 03-04) 
 
Transcrevo a seguir o hino subversivo, que circulou anônimo pelo sul e 
sudeste do Pará e que muitas pessoas ainda não sabem que é de autoria de 
Benedicto Monteiro. 
 
Canto do lavrador 
 
Agora nós vamos pra luta, 
A terra que é nossa ocupar, 
A terra é de quem trabalha, 
A História não falha, 
Nós vamos ganhar. 
 
Já chega de exploração, 
Já chega de tanto sofrer, 
33 
 
 
Ou morre jogado no eito 
Ou leva no peito 
O jeito é vencer. 
 
Já chega de tanta promessa, 
Já chega de tanto esperar, 
A terra na raça ou na garra, 
Na lei ou na marra, 
Nós vamos tomar. 
 
Além do hino se caracterizar por uma força de marcha épica (verso 1), 
trazer preceitos ideológicos do pensamento do campesinato (“a terra é de quem 
trabalha” – verso 3), bem como preceitos ideológicos do marxismo (“chega de 
exploração” – verso 6), o hino ainda trazia explícito o lema da Reforma Agrária: “na 
lei ou na marra” (verso 14) 19. 
Áurea Nina Monteiro afirma que logo no dia 1º de Abril o prefeito de 
Alenquer é preso em Belém e seu irmão em Alenquer (respectivamente Aldo e Omar 
Arraes). No dia 02, é preso o irmão de Benedicto Monteiro, Fernando Monteiro. Nos 
dias subsequentes foram presas outras pessoas: “José Wilson Arraes (primo), Maria 
Júlia Miranda (amiga), Areolino Sousa (amigo), Paulo Bruno da Silva, amigo e 
vereador do PTB, e o vice-prefeito José Simões” (MONTEIRO, 2014, pág. 63). 
Nesses “primeiros dias, os interrogatórios e prisões, ocorriam na Delegacia. Mas, a 
partir do dia 03 o Quartel dos militares foi instalado na residência de Dona Antonica, 
onde residia o Juiz Dr. Ociam Brito” (pág. 98) 
O panorama geral em Alenquer, naquele início de abril, é assim descrito: 
 
o município foi transformado em um verdadeiro estado de sítio. As pessoas 
só podiam viajar com autorização dos militares. Tudo era revistado, canoas, 
barcos, residências, tomavam armas e munições. Aglomerações de 
pessoas nas ruas eram proibidas, se houvesse mais de três, nas esquinas, 
eram logo inquiridas sobre o destino de Benedicto Monteiro, e acusadas de 
serem comunistas ou estarem ocultando-o; Havia toque de recolher às 
18h00; Não [se] podia ouvir rádio; Os dois sistemas de alto-falantes, o da 
Legalidade, foi fechado e o da Voz da Liberdade, foi censurado; Havia 
soldados nas ruas, nas estradas, nos rios e igarapés; Pelo ar, nos aviões da 
Força Aérea Brasileira-FAB, sobrevoando o município, caçando o deputado 
“comunista” e seus aliados políticos. Os soldados invadiam e revistavam as 
“residências suspeitas”, onde encontravam cartazes, fotos, panfletos de 
propaganda de Benedicto Monteiro, os proprietários eram presos como 
comunistas subversivos. Dessa forma, foram instalados vários Inquéritos 
Policiais Militares – I. P. M., contra muitos cidadãos alenquerenses. Os 
homens eram presos ou obrigados a acompanhá-lo para ensinar o caminho 
 
19 Dentre as composições musicais de Benedicto Monteiro, é importante destacar que ele também é 
autor do Hino de Alenquer. 
34 
 
 
e as mulheres interrogadas e ameaçadas; Na zona rural, eram obrigadas a 
preparar refeições, de bois, galinhas, porcos. (MONTEIRO, 2014. pág. 62) 
 
O aparato militar que chega e se instala em Alenquer impressionou e 
assustou a todos. Benedicto Monteiro em sua autobiografia afirma que para sua 
captura nas matas de Alenquer foi montada uma “verdadeira operação de guerra” 
(MONTEIRO, 1993, página 57). Em seu assombro com a situação, numa avaliação 
feita anos mais tarde, ele afirma: 
 
Eu só não atinava com a importância e a necessidade da minha prisão para 
um governo militar que tinha se instalado comodamente, até com a 
conivência do Congresso. O que representava para um país-continente de 
mais de oito milhões de quilômetros quadrados e de oitenta milhões de 
habitantes, quatro gatos pingados se escondendo numa selva bruta de um 
pequeno munícipio do Norte? (MONTEIRO, 1993, pág. 57) 
 
Áurea também demonstra surpresa e julga “incompreensívela truculência 
e a radicalidade” numa cidade que tinha entre 15 e 18 mil habitantes, a maioria 
moradores ribeirinhos ou da zona rural. Considerando ainda o fato de o município 
ser “afastado do centro do poder [econômico e político] e por não ser área de 
Segurança Nacional” (pág. 98). 
A única explicação para os atores do golpe chegarem a Alenquer seria a 
busca por Benedicto Monteiro. Argumento, aliás, endossado pelo próprio autor de 
forma ficcional ao ‘levar’ os militares para sua Alenquer transposta no romance 
Verde Vagomundo. Em que o narrador Major Antonio de Medeiros se refere a um 
“deputado esquerdista”. Segundo o narrador, 
 
o Prefeito lembrou-me da chegada de um Deputado do Governo trazendo 
delegado da Capital para apurar invasões de castanhais de propriedade 
particular estimuladas por outro Deputado do Governo com tendências 
esquerdistas (MONTEIRO, 1972, pág. 198). 
 
Neste trânsito para o ficcional, quem seria o deputado esquerdista, cujo 
nome não é revelado? 
A professora Edilza Fontes afirma que Benedicto Monteiro estava entre os 
cinco grandes comunistas que foram perseguidos pelos militares no estado do Pará. 
Além de Benedicto Monteiro, teríamos Rui Barata, Humberto Lopes (dirigente do 
 
 
35 
 
 
PTB), Paes Loureiro (na época, estudante de Direito -UFPA)20, e Raymundo Jinkins 
(presidente do CGT)21. Benedicto Monteiro era vigiado por órgãos de segurança 
desde 1962 (pelo que se tem de registro, talvez antes). Em sua autobiografia, ele 
relata o problema que teve no pleito eleitoral para deputado. A professora Edilza 
Fontes ressalta que encontrou nos arquivos do SNI, após a abertura desses 
arquivos, documentação referente a essa vigilância persecutória. 
Esta informação é reforçada pelo relato de Jarbas Passarinho em seu 
livro de memórias sobre o período22: 
 
Entre os candidatos a deputados em 62, vigorava o dr. Denedicto Monteiro 
que era suspeito de ligação com o PC, ele trabalhava não apenas em sua 
cidade interiorana de Alenquer como particularmente a rodovia Belém-
Brasília recentemente aberta em cujas margens viera em massa o imigrante 
sem terra do nordeste, principalmente, era massa de manobra a copiada 
para a pregação do jovem deputado, que fazia comícios frequentes na 
região, ele não sabia ou não soube por muito tempo que estava sendo 
acompanhado por nós. O seu encalço seria pessoalmente o major Ademar 
Marques Curvo, um excelente oficial de infantaria, que lutara na Itália da 
FEB, homem desassombrado, saia em companhia de poucos auxiliares, e a 
pretexto de fazer ação social, levava filme de 16 milímetros, para passar nas 
povoações, que então começava-se a nuclear-se. Em seguida fazia a 
prelação anti-comunista. De posse de informações merecedoras de crédito, 
os três comandantes militares da área decidiram por sugestão do general 
Taurino, impugnar a candidatura de BM. A ação judicial não prosperou e o 
candidato se elegeu (PASSARINHO, 1990, página 85). 
 
 
Por volta do dia 09 de abril de 1964, os militares que se instalaram em 
Alenquer foram substituídos por outros piores que os primeiros. Segundo o Vereador 
Toninho (citado por Áurea Monteiro, 2014, pág. 65), esse novo grupo “cometeu as 
 
20 João de Jesus Paes Loureiro foi certamente o primeiro escritor preso pela ditadura em todo o 
Brasil. Só que antes do golpe. Nos dias que antecederam o golpe de 1964, durante I SLARDES (já 
citado anteriormente neste trabalho), Paes Loureiro lançaria um livro intitulado Tarefa. O livro trazia 
poemas relacionados a problemas sociais e urbanos da região, mas principalmente relacionados às 
lutas de trabalhadores rurais. Daí o título, tarefa é também o nome de uma medida agrária, cujo 
tamanho varia de região para região. 
Além dos livros de poemas que retratam o período (especialmente Epistolas do cárcere) e de um livro 
de teatro (A Ilha da Ira), em 2011, Paes Loureiro lançou um romance que remete ao período em que 
ficou escondido no Café Central (um hotel no centro de Belém), sua posterior fuga de Belém para a 
cidade Abaetetuba, depois sua tentativa de retorno e sua prisão. 
Sobre o Café Central (ed. Escrituras, 2011), remeto o leitor para o texto que publiquei Pacheco de 
SOUZA, Abilio, Leituras da ditadura militar brasileira na literatura pós-64 da Amazônia Paraense: ou 
vice-versa. 
21 Sobre Raimundo Jinkings remeto o leitor a Dissertação de mestrado: PINTO JÚNIOR, Antonio 
Carlos Pimentel. A biblioteca vermelha de Raimundo Jinkings: uma história de livros. 2011. 234 f. 
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de Letras e Comunicação, Belém, 
2011. Programa de Pós-Graduação em Letras. [Orientadora: Professora Doutora Germana Sales] 
22 Esta mesma informação é citada na autobiografia de Benedicto Monteiro. E nos trabalhos da 
Professora Edilza Fontes este mesmo fragmento é transcrito tal qual aqui apresentamos. 
36 
 
 
maiores arbitrariedades e violências à integridade física do cidadão, supliciando 
pobres e indefesos caboclos do interior do Município, surrupiando-lhes ainda até 
dinheiro guardado” em pequenas malas chamadas baútas. “Na zona rural, o clima 
também era intimidador” (Monteiro, 2014, pág. 101), as pessoas eram presas pelos 
militares independente integrarem o círculo político. Nas colônias, bastava que 
tivessem calendário ou cartazes de Benedicto Monteiro para que fossem detidos. Se 
os militares encontrassem armas, também prendiam o respectivo morador. Não era 
incomum colonos terem armas em casa, seja para se proteger de animais selvagens 
nas matas durante as colheitas das safras, seja para caçar animais de pequeno e 
médio porte, cutia ou viado, por exemplo. Como afirma Luis Sousa (Lico) em 
entrevista ao Professor Enilson Sousa, quando os militares “chegavam na casa, 
procuravam ‘pelo cidadão’. Aí procurava[m] pelo Bené. Se nada, eles pediam licença 
para entrar na casa. Aí se topasse a arma, aí eles levavam” o morador preso. 
Muitos dos presos em Alenquer foram transferidos para Belém e 
Santarém. Omar Arraes conta que ele, José Wilson, Aureolino e Paulo Bruno, 
passaram mais ou menos três meses na Ilha de Cotijuba, uma das ilhas que fazem 
parte da chamada Belém Insular. Segundo ele, os soldados não os espancavam, 
mas ficavam sempre chamando de “Comunista”. “Safado”. “Bandido”. “Humilhação 
mesmo era para urinar” – revela Omar Arraes. Ele conta que havia cerca de 62 
presos políticos na ilha e que para “ir verter água, tinha que passar por aquele bando 
de soldados” pois tinham que ir urinar na praia. Parte desses presos tinham que ser 
carregados pelos soldados porque não resistiam andar. O desgaste físico de que 
padeciam era tanto que alguns presos chegaram a falecer no porão do navio 
durante o trajeto para a ilha. 
Omar Arraes relata que havia 
 
Inclusive um professor de Bragança chamado (acho) Raimundo Lira. Os 
soldados faziam pilhérias do que poderiam fazer com os presos. Raimundo 
Lira sofria de asma e já chegou a Cotijuba morto. Morreu no porão. 
 
Conta ainda que seu irmão, Aldo Arraes, usou uma ponta de cigarro como 
se fosse uma vela para rezar sobre o morto. Ele afirma que junto com Aureolino 
enterrou o corpo do professor na praia e acrescenta: “A gente nem sabia o que ia 
ser da gente”. 
 
37 
 
 
Áurea Nina Monteiro faz um balanço desse período da ditadura em 
Alenquer nas seguintes palavras: 
 
as consequências do golpe militar foram funestas para a população 
alenquerense. Mais de duzentas pessoas foram intimadas, inúmeras 
famílias tiveram suas residências invadidas e vistoriadas. Foram cassados 
três prefeitos e seus vices; um deputado; calcula-se que foram mais de 80 
prisões. Entre vereadores, funcionários públicos, pescadores, agricultores e 
outros. Sendo que desses: 13 foram conduzidos para Belém, cinquenta 
para Santarém. E outros tantos permaneceram na delegacia de Alenquer. 
(Monteiro, 2014, pág. 103-104). 
 
Existem ainda muitos relatos sobre os períodos posteriores:como as 
eleições dos anos seguintes e sobre a intervenção estadual ocorrida em 1976. Aqui 
interessou-nos apresentar os fatos do imediato pós-golpe. Mesmo assim, a parte dos 
relatos que se refere à fuga na mata e a prisão de Benedicto Monteiro, que 
correspondem a uma fração considerável do que encontramos no livro de Áurea 
Monteiro e no documentário do professor Enilson Sousa (2017), iremos abortar na 
seção deste texto em que apresentamos a síntese biográfica do autor. 
 
1.3 – TRANSTEMPO – EXCURSO BIOGRÁFICO 
 
Uma biografia de Benedicto Monteiro – dentro dos moldes padrões de um 
texto biográfico – ainda está por ser escrita. Ou jamais será, se considerarmos que o 
próprio autor era resistente ao aprisionamento em certos padrões (principalmente de 
tempo e espaço). A literatura para ele sempre foi uma das suas mais altas formas de 
expressão da liberdade. Delimitá-lo em marcos e datas exatas pode ser uma 
agressão a este seu desejo de liberdade, mas é um exercício praticamente 
obrigatório para quem trabalha com a relação Literatura e História. Nós, entretanto, 
vamos tentar flutuar num meio termo. Sem tentarmos ser rigorosamente cronológico, 
mas sem abrirmos mãos de datas explícitas (exatas ou aproximadas), sempre que 
necessário. Importam-nos aqui os fatos que entrelaçam sua vida literária e sua vida 
política. Especialmente os fatos ou dados que se relacionam com sua tetra-trilogia 
Amazônica. 
Falamos de vida literária e de vida política por conta das declarações do 
próprio Benedicto Monteiro feitas numa entrevista ao fanzine Bandeira 3, em 1975. 
Os termos usados são atividade e militância política e atividade e militância literária. 
38 
 
 
Na época da entrevista, ele já havia publicado os dois primeiros livros de sua trilogia 
amazônica (como ele a denominava na época) e o volume de contos O carro dos 
milagres (1975). Em entrevista concedida ao jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do 
fanzine, Benedicto Monteiro afirma que sempre havia militado no meio literário, mas 
que foi a militância política que lhe moveu a retornar à literatura após seus direitos 
políticos terem sido cassados. Esse retorno teria sido uma forma de exercer sua 
vocação de homem público. Na mesma entrevista, afirma que sua atuação política 
favoreceu sua experiência sobre os problemas humanos, sociais e econômicos da 
Amazônia – que eram seu principal interesse em sua atividade político-parlamentar. 
Conforme afirma, “foi esse caldeamento que se operou durante essa época e que 
permitiu usar todo esse material” na trilogia que estava escrevendo (Bandeira 3). 
O livro de poemas Bandeira Branca (1945) marca sua estreia, bem como 
seu rito inicial na complexa relação entre literatura e política. Benedicto havia ido 
para o Rio de Janeiro dar continuidade aos seus estudos, tanto por ser um centro 
mais avançado que a Belém da época, quanto pelo fato de ter parentes na Cidade 
Maravilhosa. Além da mesada recebida, ele fazia bicos como desenhista, moldista e, 
posteriormente, fazendo padrões de tecido para fábricas. Com as economias dessas 
atividades, ele mesmo custeou a impressão do livro que foi prefaciado por Dalcídio 
Jurandir. 
O jovem Benedicto Monteiro, entretanto, morava na casa de um tio que 
era “general de cinco estrelas e um homem extremamente de direita” (Wanda 
Monteiro, entrevista em anexo). 
 
Quando esse tio descobriu que ele [Benedicto Monteiro] conseguiu editar o 
livro Bandeira Branca, e que o prefácio tinha sido escrito por um comunista, 
[isto] deu um problema sério. O pai não mandou mais a mesada e o tio 
mandou o sobrinho embora de casa (2017). 
 
Sua primeira experiência como autor já lhe trouxe as primeiras 
experiências políticas. 
Após deixar a casa do tio, Benedicto Monteiro foi morar com Dalcídio 
Jurandir. Eles foram companheiros de quarto durante algum tempo. Neste período, o 
jovem escritor desempenhou várias atividades na INFRAERO. Iniciando como 
carregador de malas até chegar a ocupar uma gerência. Sobre o período em que 
conviveu com Dalcídio, Wanda afirma que 
39 
 
 
 
Dalcídio abriu [para Benedicto Monteiro] uma janela para o mundo que ele 
não conhecia. Ele não conhecia esse mundo [literário]. Imagine um rapaz 
criado dentro de uma usina de arroz, duas fazendas, o pai latifundiário, que 
mandou trazer gado Nelore lá do inferno para trazer aqui para o Brasil. 
Criado por várias irmãs. Ele era o irmão mais novo que as irmãs. Uma 
família catolicíssima. Ele estudou no Dom Amando. [...] Ele descobriu um 
outro mundo através do Dalcídio. (2017) 
 
Em sua autobiografia Transtempo, Monteiro (1993) fala sobre o impacto 
que lhe causou a leitura de Chove no campos de Cachoeira (1933). O livro, lido após 
ter sido autorizado pelos padres do colégio interno onde estudava na juventude, 
deveria ter sido resenhado pelo jovem estudante para o informativo da instituição. A 
resenha quase lhe custou a expulsão, porque era para ele fazer uma resenha 
negativa para o livro. Uma resenha que seguisse um pensamento conservador da 
Igreja e que criticasse as ousadias e as “licenciosidades” na narrativa do romancista 
marajoara. Em vez disso, ele escreveu uma resenha bastante positiva, 
reconhecendo os méritos e as qualidades literárias daquele que foi o romance de 
estreia de Dalcídio Jurandir. 
Ainda no Rio de Janeiro, Benedicto Monteiro trabalhou “como repórter do 
Diário Carioca [e] foi incumbido de dar cobertura ao andamento da Constituinte de 
1946 no Congresso Nacional” (OLIVEIRA, 2010, pág. 275). Seu retorno para 
Alenquer, em 1953, um ano após ter regressado à Belém, corresponde ao início de 
uma vida de intensa atividade política. Tendo sido “pretor, promotor público, juiz de 
direito e também vereador pela legenda do PSP (Partido Social Progressista)” (pág. 
275). Em 1954, candidatou-se a vaga de deputado estadual pelo PSP. Segundo 
Oliveira, Benedicto obteve “grande votação no Baixo Amazonas, mas acabou 
derrotado de forma fraudulenta, tendo sido prejudicado dentro do próprio TRE” (pág. 
276). Em 1958, candidatou-se novamente a deputado estadual, agora pelo PTB 
(associando-se ao trabalhismo de João Goulart, embora ligado ao PCB clandestino à 
época). Foi eleito “com margem expressiva de votos” (pág. 276). Durante o mandato 
foi Secretário de Obras, Terras e Viação e “deu partida a um importante projeto de 
reforma agrária às margens da estrada Belém-Brasília em construção” (pág. 276). 
Enquanto sua atividade e militância política avançava e é bastante 
registrada em vários trabalhos sobre Benedicto Monteiro (inclusive em sua 
autobiografia), sua atividade literária após a publicação de Bandeira Branca e 
durante toda as décadas de 1950 e 1960 permanecem às sombras. É importante 
40 
 
 
saber, entretanto, que sua experiência social e política constituem um estofo 
imprescindível para assentarmos sua produção literária. Parte desta relação pode 
ser observada ao analisarmos os episódios em torno da gravação dos falares dos 
caboclos da Amazônia paraense e do destino que foi dado às fitas e suas 
anotações. 
Benedicto Monteiro durante o período em que esteve as campanhas 
eleitorais e durante as visitas que fazia às comunidades ribeirinhas e à zona rural 
dos municípios da região do Baixo Amazonas, gravou os falares dos caboclos em 
várias fitas K7 (ou cassete). Com isto punha em desenvolvimento uma pesquisa 
relativamente assistemática e ametodológica sobre os falares da Amazônia 
Paraense com o intuito de fazer mestrado e ingressar no Magistério Superior 
(MONTEIRO, 1993, pág. 83). Com o golpe de 1964, ele teve seus direitos políticos 
cassados, foi preso e, durante os anos em que esteve na prisão, seu escritório foi 
invadido várias vezes. Todo material de pesquisa que vinha realizando sobre os 
falares caboclos, “mais de cem fitas e mais de trezentas fichas” (1993, pág. 83), foi 
levado por militares que deram fim ao produto de anos de trabalho. Esse material 
nuncafoi encontrado posteriormente. 
Sobre essas gravações, ele relata que, após a soltura da prisão em 1965, 
 
Fui logo procurar os meus apontamentos e fitas gravadas da minha 
pesquisa. Eu estava pesquisando sobre linguística. Pretendia escrever 
minha tese sobre os falares da Amazônia, sobre os falares paraenses. 
Durante todas as minhas viagens pelo interior do Estado e da Amazônia eu 
tinha colhido depoimentos e gravado muitas conversas. Faltava ordenar 
todo esse material pesquisado para desenvolver a minha tese. Eram mais 
de cem fitas e mais de trezentas fichas. Tinha gasto vários anos neste 
trabalho. Eu pretendi fazer o mestrado na universidade, e assim ingressar 
no magistério. 
(MONTEIRO, 1983, pág. 83) 
 
Professor Guilherme Castro (2001), que escreveu uma tese sobre o herói 
na obra de Benedicto Monteiro e esteve muitas vezes conversando com autor, 
acredita que além da intenção declarada do escritor de querer fazer uma pesquisa 
linguística com vistas a “ingressar no magistério [superior]” (MONTEIRO, 1993, pág. 
83), essas fitas também traziam os relatos e as denúncias das pessoas da região 
sobre sua relação com o estado, com o capitalismo voraz e com os posseiros 
(conforme também nos afirmou Wanda Monteiro, 2017). Esta também teria sido uma 
razão para que os militares tivessem confiscado e dado fim a todo esse material. 
41 
 
 
Sem indicar uma data precisa, Benedicto Monteiro afirma que começou a 
tentar resgatar esse material pesquisado escrevendo contos. Tal empenho vai 
ocorrer após uma visita de Marighela convidando-o para a luta armada, num 
momento em que se intensificavam as preparações e recrutamentos para as 
guerrilhas urbana e rural. Neste período, ele exercia a advocacia sem carteira da 
OAB, trabalhando em escritórios de amigos. Suas prisões ainda eram frequentes 
nesta época. Conforme ele afirma: “toda vez que era anunciada a chegada de um 
general, de um ministro ou do próprio presidente da República, eu era preso com 
antecedência, para ser solto só depois de alguns dias” (MONTEIRO, 1993, pág. 
100). 
Em sua autobiografia Transtempo, o autor afirma que o sumiço de todo 
seu material de pesquisa linguística foi relevante para construir seu personagem 
principal: Miguel dos Santos Prazeres. Já em entrevista a Fátima Nascimento, o 
autor afirma que pretendia, inspirado não em Guimarães Rosa23, mas sim em 
Dalcídio Jurandir – autor que já escrevia usando a oralidade desde seu primeiro 
romance em 1933 (Chove nos Campos de Cachoeira) – produzir uma narrativa com 
a linguagem do caboclo da Amazônia24. Os romances e contos são, portanto, uma 
tentativa de retomar a linguagem do caboclo paraense. Embora possam parecer um 
pouco desencontradas as informações sobre esta motivação para a criação da sua 
obra principal, parece-nos relevante ver que ocorre uma conjunção de fatores, dos 
quais podemos destacar a inspiração em Dalcídio e o posterior sumiço de seu 
material de pesquisa linguística, sem que um implique a exclusão do outro. É através 
dessa linguagem que ele procura formar um personagem de modo a refletir sobre o 
isolamento da Amazônia (MONTEIRO, 1995, pág. 86). É assim, primeiramente em 
 
23 Há uma certa insistência em apontar esta influência também por causa do título do terceiro 
romance ser semelhante ao conto de Guimarães Rosa, mas é importante destacar que a expressão 
era relativamente comum na mídia escrita da década de 1970 em relação a vários contextos, 
inclusive político. Entretanto, a escolha do título apresenta uma relação mesmo é com a filosofia da 
linguagem de Roland Barthes. No exemplar pertencente a Benedicto Monteiro de Grau Zero da 
Escritura, o romancista registra em duas páginas a próprio punho a expressão “3ª margem”. Não há 
como negar totalmente alguma relação com o conto roseano, desde que via Barthes. Não através de 
uma intertextualidade direta. 
24 Sobre a influência causada ou exercida por Dalcídio na produção de Benedicto Monteiro e de 
outros escritores da região, veja a dissertação de mestrado de Edilson Pantoja. O “Extremo-norte”: 
finitude e niilismo em Dalcídio Jurandir. Livro digital, 2006. 
42 
 
 
contos publicados em suplementos literários da época e depois em romances, que 
nasce o personagem Miguel dos Santos Prazeres25. 
Neste período, ele resolve experimentar “o material de linguagem que 
tinha pesquisado” e que ainda restava em sua memória. Escreve contos e logo 
escreve o conto “Carro dos Milagres” que é submetido a análise crítica de Benedito 
Nunes26. “Pela opinião de Benedito Nunes, percebi que eu tinha criado uma nova 
linguagem. E com esse instrumento recriado dos falares paraenses, comecei a 
escrever um romance” (MONTEIRO, 1995, pág. 99). E acrescenta: 
 
Meu objetivo era escrever um romance cujos espaços, os fatos, o tempo e 
os personagens surgissem da própria linguagem. O título já estava 
escolhido há muito tempo. Seria Verde Vagomundo. E era uma ambição 
extremamente ousada, que ia ocupar toda a minha disponibilidade e 
recuperar minha memória (MONTEIRO, 1995, pág. 99). 
 
Apesar disso, é bem provável que toda a gestação de seu trabalho 
literário tenha iniciado exatamente no período que permanece às sombras, ou seja, 
nas décadas de 50 e 60. O primeiro texto produzido e publicado pelo autor fazendo 
uso de sua pesquisa de linguagem foi publicado no Suplemento Literário da Folha 
do Norte em 1959. Segundo Wanda Monteiro (2012, mas também em entrevista 
recente) “a gestação de Miguel foi iniciada com o conto ‘O Precipício’ – publicado”, 
no mesmo ano em que ela, Wanda, nascera, 1959. Ela acrescenta ainda que a 
evolução da escrita de Benedicto Monteiro e seus processos de construção de 
personagens começaram “a evoluir a partir do livro de contos ‘Carro dos Milagres’.” 
(publicado em 1975) (MONTEIRO, 2012). 
Há ainda um outro trabalho de criação literária do autor que fica num 
limbo cronológico. Segundo Wanda, antes de publicar Verde Vagomundo, Benedicto 
Monteiro escreveu um outro romance intitulado E agora, José?, cujo enredo seria 
sobre um personagem que após ter sido solto estaria sem saber o que fazer da vida. 
Como afirma Wanda, era a partir de sua própria experiência: “era a fala dele”. O livro 
foi entregue para Rui Paranatinga Barata ler. “Rui Barata ficou bêbado. Perdeu o 
livro. Ele [Benedicto Monteiro] só tinha o original. Não tinha cópia. Esse livro ficou 
 
25 Segundo Wanda Monteiro, o primeiro texto em que o personagem aparece é na primeira versão 
publicada do conto “O precipício”, em uma das edições da Folha do Norte em 1959. 
26 O conto foi adaptado para o cinema e foi lançado em 12 de outubro de 1990, com exibição no Cine 
Líbero Luxardo, no CENTUR, em Belém. Direção de Moisés Magalhães. Na casa de Wanda 
Monteiro, eu tive acesso ao manuscrito do projeto do filme com data de setembro de 1988 e assinado 
por Duty Monteiro, Diely Cunha e Moisés Magalhães. 
43 
 
 
perdido pelo mundo” – afirma Wanda e acrescenta que existe ainda uma outra 
versão para a perda do livro que é contada por Vicente Cecim27. 
Em outras palavras, existe todo um trabalho de criação literária realizado 
por Benedicto Monteiro além daquele que enfim chegou até nós, sejam os contos 
produzidos e publicados em periódicos como a Revista Norte, sejam os originais 
perdidos como o romance E agora, José?. Foi, entretanto, sua produção decidida a 
existir quando começou “a escrever de medo de morrer e de medo de viver” que 
mais marcou sua trajetória. É esta escrita de quando ele se encontrou consigo 
mesmo nas “matas de Alenquer” e no “cárcere de quartel” que ele começa a 
conceber seus personagens28. 
 
Foi nas matas de Alenquer e nesse cárcere de quartel que me encontrei 
comigo mesmo e também com o tempo, com o espaço e o homem 
amazônico. A partir daí, a minha vida íntima se confundia com esse tempo, 
esse espaço e a vida de gente que seriam meus futuros personagens 
(MONTEIRO, 1993,pág. 81). 
 
Benedicto Monteiro afirma que seus livros refletem seu “convívio com a 
natureza amazônica e transbordam as águas” de sua infância. Sobre esta temática 
das águas, Wanda Monteiro, no dia em que ele completaria 88 anos, escreveu um 
texto sobre um rio no qual seu pai mergulhou. 
 
Miguel diz em sua prosa, vestida de poesia e circundada pelo devaneio 
verde e líquido do caboclo ribeirinho, o que Benedicto Monteiro não pôde 
dizer na linguagem dos discursos, na retórica de sua oratória, num 
momento em que lhe foi usurpado o direito de se expressar como 
cidadão e político. Esse direito lhe foi usurpado pelo Golpe Militar de 1964, 
nesse momento de sua vida, ele recorreu à literatura para expressar 
livremente o seu pensamento. E mesmo depois de seu retorno à militância 
política, quando foi absolvido do processo que foi instaurado pela Justiça 
Militar, o Miguel dos Santos Prazeres, perfilado em “Verdevagomundo”, 
"Minossauro", “A Terceira Margem” e em "Aquele Um" e depois em "O 
Homem Rio", continuou sendo meio e fim de todo o seu ideário e de seu 
imaginário poético (MONTEIRO, 2012). 
 
 
27 Segundo Wanda Monteiro, existem ainda dois inéditos do autor: um sobre a cabanagem e outro 
sobre Cazuza, além de dois originais perdidos: além de E agora José, há ainda uma narrativa em que 
relata sua experiência de fazer sexo num motel, intitulada Na cama e com luz. 
28 Existe ainda um trabalho musical, como compositor de letra e música. Em 1996, George Paez 
realizou um projeto com o objetivo de resgatar e registrar a obra musical de Benedicto Monteiro. 
Infelizmente não consegui encontrar o resultado do projeto. Das letras de canção de Benedicto 
Monteiro, as mais relevantes são o Hino do Internacional (time de futebol de Alenquer, que ele ajudou 
a fundar), o Canto do Lavrador e o Hino de Alenquer. 
44 
 
 
Na obra de Benedicto Monteiro, as questões políticas aparecem e são 
relevantes para compreender o homem Benedicto Monteiro de um modo amplo. Não 
só através de Miguel dos Santos Prazeres, mas também através dos narradores, 
das cartas das mulheres e das falas do painel de especialistas em O Minossauro 
(1972). 
A professora Edilza Fontes, num artigo em que analisa o papel ativo de 
Benedicto Monteiro no projeto da reforma agrária através de processos legais de 
distribuição de terras, apresenta também um perfil do homem Benedicto Monteiro. 
No texto, a pesquisadora transcreve as bases assentadas no I Congresso Nacional 
dos Lavradores e trabalhadores agrícolas e demonstra como estas bases foram 
assimiladas por Benedicto Monteiro durante o período em que esteve à frente da 
Secretaria de Estado de Obras, Terra e Água (SEOP). No estado do Pará, através 
da ação de Benedicto Monteiro foram instaladas as diretrizes que seriam 
futuramente utilizadas para o rasgo na floresta que foi a Transamazônica. Benedicto 
Monteiro, através de decreto referente a rodovia BR-14, deu início 
 
a organização do plano piloto do Estado. Foi estabelecida uma faixa de seis 
quilômetros de fundos para cada margem a partir do quilômetro 86 até o 
quilômetro 110. Foram paralisados todos os processos de venda de terras 
nessas áreas, reservando-se o governo o direito de estudar a 
desapropriação dos que tinham expedidos, de acordo com as conveniências 
do plano (FONTES, 2015, pág. 376). 
 
Fontes destaca a forte atuação de Benedicto Monteiro como um 
secretário ao interferir na organização agrária do estado do Pará. Após a criação da 
SUPRA, as ações de Benedicto Monteiro 
 
foram focadas para organizações dos trabalhadores em sindicatos 
principalmente na região do Baixo Amazonas e nas terras das margens da 
Belém-Brasília. Benedicto Monteiro foi indicado para assumir a SUPRA no 
Pará e fez uso do cargo para organizar e assentar trabalhadores rurais sem 
terras ao longo da estrada da Belém-Brasília. A SUPRA foi criada em 10 de 
setembro de 1962, pela lei 4.132, que regulamentava os casos em que a 
propriedade deveria ser considerada interesse social (FONTES, 2015, pág. 
378). 
 
Não custa nada lembrar que a Reforma Agrária para Benedicto Monteiro 
não era apenas uma questão de política pública. Ele, que era filho e neto de 
latifundiários, promoveu a reforma agrária pessoal. Ao herdar suas propriedades, 
Benedicto Monteiro doou suas terras para os trabalhadores. Como advogado, ele 
45 
 
 
sabia do problema das terras sem titulação como um dos grandes problemas da 
região Amazônica. Sendo assim, seu latifúndio não foi doado apenas por 
apalavramento. Ele deu suas terras titulando os novos proprietários. É difícil traçar 
com precisão quem eram esses novos proprietários, mas de modo geral eram 
pessoas que já trabalhavam nas terras de seus pais e também pessoas da cidade 
que demandavam algum espaço para morar e plantar. No âmbito familiar, ele era um 
problema. Passava o dia com os filhos dos trabalhadores e fazia as refeições com 
eles. A divisão de classe não lhe era aceitável. Na época, havia em Alenquer um 
clube de futebol que tinha uma sede social. Apenas as pessoas da elite tinham 
direito de utilizar o espaço social do clube. E mesmo para participar do elenco de 
jogadores havia restrições. Como ele não aceitava esta segregação, ele fundou o 
Clube de Futebol Internacional, construiu sede social e compôs o hino do clube. A 
inspiração para o nome do clube e para o hino foi a Internacional Socialista. 
Quando a ditadura militar eclodiu no Brasil, Benedicto Monteiro era 
deputado estadual, tinha projetos na câmara relacionados à reforma agrária, era 
conhecido por seu alinhamento político ao presidente João Goulart, era autor de leis 
para desapropriação de terras ao longo da Belém-Brasília, havia assinado inúmeros 
títulos de terra para população tradicional, era advogado de posseiros contra 
latifundiários e havia começado a realizar a reforma agrária distribuindo legalmente 
as terras que ele herdara de seu pai e de seu avô latifundiários. Se isto tudo não 
bastasse para ele ser perseguido pelo poder político instalado a partir do golpe, 
Benedicto era também vinculado ao pensamento político de esquerda, já havia 
visitado países comunistas – que para os militares instalados no poder consistiu em 
pecado mortal – e vinha nos meses iniciais de 1964 usando a plenária da câmara 
para denunciar a presença de aviões militares norte americanos no espaço aéreo da 
Amazônia e em pistas de pouso instaladas no Pará. 
Fontes (2015) sintetiza da seguinte maneira o perfil de Benedicto Monteiro 
até as décadas de 1960 e 1970. 
 
Benedicto Monteiro é um homem do seu tempo, entende que os problemas 
da concentração de terras, os latifúndios e as relações sociais que eles 
estabelecem são problemas históricos e podem ser resolvidas por meio de 
ações políticas como a reforma agrária. Ele nomina o homem do campo 
como trabalhador rural, camponês, pequeno proprietário, migrante sem 
recursos, que poderiam receber terras e desenvolver uma economia 
produtiva, progressiva e coletivizada. Um homem do campo capaz de mudar 
o local de moradia e trabalho. Um homem do campo produtivo organiza-se 
46 
 
 
em cooperativas e associações. A reforma agrária eliminaria o latifúndio e 
suas relações de dominação. Seu sistema de dominação controlada pelo 
dono da terra, que estabelecem formas de exploração e imobilização da 
mão de obra. Quando Benedicto Monteiro propõe o projeto, estavam no 
centro da discussão as propostas de reforma agrária como instrumento de 
distribuição de dar acesso à terra. O projeto é distributivo (FONTES, 2015, 
pág. 383). 
 
Não à toa ele era um dos 5 maiores comunistas conforme os órgãos de 
vigilância que o tinham em mira desde antes da deflagração do golpe em 1964 e 
posterior instauração do regime de exceção. Áurea Nina Monteiro (2018) faz um 
painel das ações de Benedicto Monteiro que o transformaram nesta figura que a 
ditadura irá perseguir. Segundo ela, 
 
A criação do sindicato, a organizaçãodos trabalhadores rurais, o incentivo 
para a valorização da produção, o incentivo para a permanência do 
trabalhador na terra, o incentivo para brigar pela construção das estradas 
[para chegar] lá para o colono, a ajuda que ele dava financiava toda uma 
produção para forçar o governo a melhorar o preço da produção do 
agricultor, essa baixada [trajetória] dos caboclos de lá do morro para vir aqui 
pressionar o prefeito e [outras] autoridades para fazer essas estradas, para 
doar essas sementes, para distribuir essa terra... Isto daí, na minha 
avaliação, são ações que vão pontuando para que a elite [de Alenquer] vá 
ficando espinhada. E quando vem o golpe de 64, apesar de que o Benedicto 
já veio marcado lá de Belém, mas isto daqui a elite [local] só vai 
engordando, aumentando as suspeitas, reforçando as suspeitas que os 
militares tinham: que o Benedicto Monteiro era um comunista. Por que tudo 
que ele fazia tinha a ver com ajudar o pobre, para dividir a terra, tinha a ver 
com ajudar o pobre que estava lá dentro dágua para vir morar numa casa 
decente, tinha a ver com a produção ser valorizada do agricultor. Então 
essas ações do Benedicto Monteiro, seja lá no meio da seresta onde ele 
sempre participou de grupos de serestas, nos cantos das serestas, por 
exemplo, 13 de maio, ele fazia seresta 13 de maio em homenagem ao 
término da escravidão... Então esses fatos que parecem isolados que na 
verdade tem muito nexo, muita conexão entre eles... Isso daí reforça o que 
os militares vinham dizendo [sobre] o Benedicto Monteiro e que ele já fazia 
lá em Belém, como superintendente da SUPRA, com a criação lá dos 
assentamentos dos colonos naquela região lá da Transamazônica. Então 
isto daí já ia ligando e apontando para ele: “Olha, ele é comunista. Olha, ele 
é comunista. Olha, ele é comunista” (MONTEIRO, 2018). 
 
Para além da sua atuação frente à luta a favor da Reforma Agrária, que 
são os principais aspectos indicados por Edilza Fontes (2015) e Áurea Nina 
Monteiro(2018), ele também teve uma atuação parlamentar que lhe colocaria em 
foco. Segundo Alfredo Oliveira (2010), Benedicto Monteiro, em sua tribuna, não só 
denunciou os crimes cometidos pelo latifúndio no Pará, como também denunciou 
 
a existência clandestina de bases militares norte-americanas na Amazônia. 
Com isso, atraiu para a sua pessoa a vigilância secreta dos militares 
brasileiros comprometidos com os interesses imperialistas dos Estados 
47 
 
 
Unidos. Em 1964, viria a pagar caro por sua conduta “subversiva”, 
particularmente pela ousadia de revelar a ação traiçoeira dos gringos 
poderosos (OLIVEIRA, 2010, pág. 277). 
 
Benedicto Monteiro foi preso no município de Alenquer no dia 15 de abril 
de 1964. Um dia antes, o seu mandato foi cassado pela Assembleia Legislativa do 
Pará, por unanimidade. Todos os trinta e quatro parlamentares votaram por sua 
cassação, em sessão extraordinária, apenas para esta pauta. 
 
1.4 – TRILHAS LITERÁRIAS – OBRAS DO AUTOR 
 
Toda a obra de Benedicto Monteiro pode ser dividida em três fases 
principalmente se considerarmos as intermitências em sua produção bem como suas 
declarações acerca sobre seu trabalho estético. A primeira fase corresponderia ao 
período anterior ao golpe de 1964, com a publicação de um único livro de poemas 
intitulado Bandeira Branca29 (1945 – assinado com o nome de Benedicto Wilfredo) e 
vários contos publicados em suplementos literários em Belém. No livro de poemas, 
já é possível se verem esboçados alguns temas e aspectos relevantes da obra de 
Benedicto Monteiro tais como as reflexões sobre a Amazônia vinculadas ao contexto 
nacional e mundial. Enquanto nos contos publicados nos jornais literários podemos 
encontrar os exercícios de experimentação de linguagem que serão desenvolvidos 
nos romances30. 
Na segunda fase, estão os livros escritos e publicados após o golpe de 64 
e todas as consequências pelas quais o autor e o país passaram até o momento em 
que ele se decide por deixar a atividade literária para se dedicar a vida pública como 
Procurador Geral do Estado do Pará31 e como político sendo deputado constituinte. 
Neste período, são publicados o livro Direito Agrário e Processo Fundiário (1981), 
 
29 Benedicto publicou este livro como Benedicto Wilfredo. Os exemplares são uma raridade. Eu 
encontrei um num sebo virtual, comprei e doei para a biblioteca do IEL da UNICAMP. 
30 Em entrevista, Wanda Monteiro nos disse que há ainda um romance cujo original foi perdido. O 
romance se intitulava E agora, José?. Nele, estariam as dúvidas de Benedicto Monteiro sobre o que 
fazer logo após a liberdade no início da década de 1970. 
31 Em Agosto de 2010, a Escola Superior da Defensoria Pública do Estado do Pará - ESDPPA, 
instituiu o “Prêmio Benedicto Wilfredo Monteiro”. Lemos na apresentação do edital que o prêmio 
“destina-se aos melhores trabalhos forenses e projetos realizados pelos Defensores Públicos do 
Estado do Pará” e que “a premiação tem por escopo a valorização da produtividade funcional e 
aprimoramento técnico-jurídico da atividade intelectual dos membros da Defensoria Pública do Estado 
do Pará, bem como prestar homenagem ao seu fundador Benedicto Wilfredo Monteiro.” (Site da 
Defensoria Púlica do Estado do Pará - http://www.defensoria.pa.gov.br/). 
48 
 
 
seu segundo livro de poemas O cancioneiro de Dalcídio Jurandir (1985) e é o 
período em que são publicados os livros que correspondem ao núcleo central de 
toda sua produção literária: um complexo orgânico formado a partir da escrita de três 
romances e três contos, que resultam na publicação de seis livros, sendo quatro 
romances, um livro de contos e uma novela. Este núcleo central é o objeto principal 
desta tese. Os romances formam a parte da obra que mais tem merecido atenção de 
público, editores, críticos acadêmicos e professores. Tais romances formam o que já 
se convencionou chamar Tetralogia Amazônica, muito embora o autor tenha 
chamado de Trilogia logo após o lançamento dos dois primeiros livros. Nesta mesma 
fase, Benedicto também redigiu boa parte dos volumes da História do Pará9. 
A terceira fase de sua produção é bem menos orgânica que a segunda e 
é composta por produções esparsas. Com o fim dos 21 anos de militares no poder, 
Benedicto Monteiro retorna as suas atividades políticas com mandato eletivo. Desta 
vez como Deputado Federal. Tendo sido, por exemplo, membro da Assembleia 
Nacional Constituinte de 1988. Foram publicados neste período dois livros de 
poemas: Discurso sobre a corda (1994) e A poesia do texto (1998); três livros de 
literatura infantil: Ecologia e Amazônia: idéias sobre a alfabetização ecológica 
(2004), Aruanã, o peixe macaco, e Uma verdadeira história de cobra grande; os 
romances: Maria de todos os rios (1992); A terceira dimensão da Mulher (2002); O 
homem rio – a saga de Miguel dos Santos Prazeres (2008)32; sua autobiografia 
Transtempo (1993); e o livro didático História do Pará. 33 
O núcleo central de toda esta produção é um conjunto de livros que a 
crítica do autor convencionou chamar de Tetralogia Amazônica. Alguns 
 
9 Existe ainda um folheto de cordel publicado para a campanha eleitoral de 1982 intitulado A Luta do 
Cabo Bené contra o Major Curió e o Coronel Passarinho. Este folheto, entretanto, foi assinado sob o 
pseudônimo de Jesuíno Brasil. Segundo consta no blog do projeto UFPA 2.0, o folheto era um 
“material da campanha política da eleição de 1982 que marcou a redemocratização do Brasil. A obra 
foi feita em forma de cordel por Benedicto Monteiro que utilizou o pseudônimo Jesuino Brasil e foi 
ilustrada por Birantan Porto. Como a campanha política estava polarizada entre os setores populares 
representados pelo PMDB, comandado por Jáder Barbalho, e os conservadores do PDS, liderado por 
Jarbas Passarinho e que tinha na figura do Major Curió o seu rosto mais soturno, o enredo segue a 
tradição do cordel de travar uma luta do bem, oCabo Bené, contra o mal, o Major Curió e o Coronel 
Passarinho amparados pela águia, símbolo do Imperialismo.” No mesmo endereço, o folheto está 
disponível para download: [https://ufpadoispontozero.wordpress.com/2015/05/26/a-luta-do-cabo-
bene-contra-o-major-curio-e-o-coronel-passarinho/]. Outra opção de download é o blog criado com a 
finalidade de alocar informações sobre o autor: www.aquele.wordpress.com 
32 Em dois trabalhos de pós-graduação este livro é citado com outro título. Infelizmente a informação 
não se fundamenta na bibliografia do autor. Sendo contestada por Wanda Monteiro. 
33 Wanda Monteiro, em entrevista, afirmou que existem alguns inéditos inconclusos. 
49 
 
 
pesquisadores preferem apenas de Trilogia34. A dúvida decorre do fato de que a 
intenção do autor era de publicar uma trilogia (era seu projeto no início da década de 
1970) e decorre também da estrutura complexa de todo esse tecido textual que no 
final das contas resulta na publicação de 6 livros. Considerando apenas os livros 
publicados pelo autor em vida. 
Os estudos sobre o autor e suas declarações em entrevistas e outros 
textos (como prefácios) indicam que o projeto do autor na década de 1970 era de 
escrever uma Trilogia, ambientalizada na Amazônia Paraense, principalmente na 
região de Alenquer com a finalidade de discutir questões regionais de modo 
contextualizado em relação ao momento político que vivia o mundo (Guerra Fria) e 
principalmente o Brasil (Ditadura Militar). 
Os três livros são: Verde Vagomundo (1972)35, O Minossauro (1975) e A 
Terceira Margem (1983). Em cada um deles temos dois narradores: um mesmo 
narrador caboclo chamado Miguel dos Santos Prazeres, vulgo Cabra da Peste, vulgo 
Afilhado do Diabo e a cada romance um narrador culto urbano diferente, 
respectivamente: Major Antonio de Medeiros, um geólogo da Petrobrás chamado 
Paulo e um professor de Geografia sem nome. Além da alternância desses 
narradores, nesses romances são insertados outros textos dos mais diferentes 
gêneros: cartas, relatórios, letras de canção, depoimentos, notícias de jornais, etc. 
Enquanto as falas de Miguel correspondem ao exercício de recriação de linguagem 
empreendido pelo autor e das quais podem ser extraídas narrativas inteiras à guisa 
de contos, os outros narradores, em geral se servindo do expediente da escrita de 
um diário, apresentam uma linguagem brasileira culta urbana. 
O último romance da tetralogia, Aquele um (1975), consiste na transcrição 
das falas de Miguel nos três romances anteriores (vamos falar mais sobre isso mais 
adiante). Ele é publicado com a seguinte informação na capa do volume logo abaixo 
do título. 
 
 
34 Em 1974, quando estava sendo anunciada a publicação de O minossauro, parte da imprensa 
paraense saudava o lançamento deste romance como o último livro integrante de “trilogia amazônica, 
iniciada com Verde Vagomundo ao qual se seguiu o livro de contos O Carro dos milagres” (O Liberal, 
16 de maio de 1976). 
35 Verde Vagomundo teve duas edições em 1972. O livro esteve em destaque na revista Veja na lista 
dos 10 mais vendidos e foi arrolado em várias listas do mesmo ano como um dos melhores livros do 
ano – conforme a entrevista que nos foi concedida por Wanda Monteiro (anexo 1) e nos recortes 
(anexo 2). 
50 
 
 
A verdadeira história de Miguel dos Santos Prazeres, vulgo Afilhado-do-
Diabo, também conhecido como Cabra-da-Peste, narrada por ele mesmo a 
um major do Exército, a um geólogo, a um geógrafo e ao próprio 
BENEDICTO MONTEIRO. 
 
Um leitor que venha acompanhando as publicações do autor ou que 
tenha tido acesso às duas ou três primeiras narrativas é induzido a pensar que 
Aquele um segue a mesma proposta estética de montagem, fragmentação e/ou 
heterogeneidade de discursos. Espera, inclusive, que haja um segundo narrador 
urbano que, neste caso, seria um alter-ego do autor ou um eu com o próprio nome 
porém ficcionalizado. Ou pode supor após o início da leitura que haja uma quarta 
fala de Miguel não publicada anteriormente e que seria destinada a este Benedicto 
Monteiro ouvinte-mudo ficcionalizado. Nada disso. Mais que uma informação literária 
propriamente dita, estamos diante de um embuste de marketing editorial. No interior 
do livro, o que temos são as transcrições das falas de Miguel contidas nos três 
romances anteriores. Ou seja: narradas a um Major em Verde Vagomundo, a um 
Geólogo em O Minossauro e a um Geógrafo em A Terceira Margem. E ponto. 
Além dos livros citados, existem ainda dois outros livros que tem alguma 
relação com a tetra-trilogia. Um livro de contos intitulado O carro dos milagres e 
outros contos (1975) que contém: 
 
 o texto que dá nome ao volume; 
 os dois contos exclusivos deste volume (“O peixe” e “O sinal”); 
 o conto “Pau-mulato”, também presente em Verde Vagomundo; 
 e os contos “O papagaio”, “O Precipício” e “O fim do mundo” também 
publicados em O Minossauro. 
 
O sexto livro desse arcabouço intitulado Como se faz um guerrilheiro 
(1995) e publicado com indicação paratextual de ‘novela’, é a transcrição das falas 
de Miguel em A Terceira Margem cujo tema é a constituição da prole do caboclo 
com sete mulheres de diferentes raças/etnias36. Além de personagem-elo da 
Tetralogia, Miguel o é também para esses seis livros e, de certa maneira, garante a 
unidade desta que é a parte mais significativa da obra de Benedicto Monteiro, 
conforme Benedito Nunes já havia afirmado por ocasião da publicação de O carro 
 
36 Na verdade, há uma controvérsia na contagem, pois embora o narrador Miguel afirme computar 
sete, existem ainda um caboclo e uma cabocla (única mulher dentre os filhos) citados por ele. Marcel 
Franco da SILVA (2014) deve ter sido o primeiro pesquisador da obra de Monteiro a fazer esta 
afirmação. 
51 
 
 
dos milagres e outros contos em 197637. Miguel aparece ainda como personagem 
principal num último romance intitulado O homem rio (2008)38. 
O trânsito de textos de um livro para outro configura novas posturas de 
leitura, novas recepções, e, portanto, se apresentam como outro texto. Afirmar que 
Aquele um é meramente as transcrições da fala de Miguel e que o leitor da trilogia 
não precisaria ler Aquele um ou que o leitor de A Terceira Margem não precisaria ler 
Como se faz um guerrilheiro, são afirmações eivadas de muita ingenuidade. Pois a 
cada nova edição, cada novo contexto, temos sempre outro novo texto. Por outro 
lado, assim como uma leitura não anula a necessidade da outra, uma leitura interfere 
na outra. Quem leu O Minossauro para depois ler os contos do livro O carro dos 
milagres, leva na memória a leitura do contexto desses contos. Quem ler Como se 
faz um guerrilheiro e depois ler A Terceira Margem, vai sentir que o romance 
preenche possíveis lacunas e atribui à novela uma contextualização que nela parece 
apenas latente. Essas são apenas algumas das possibilidades de leitura de toda 
essa engenharia verbal plena de potencialidades. 
Ao decidir-se pela publicação de Aquele um, Monteiro afirma que este 
seria “o romance de seu sonho inicial” com o qual sentiu-se plenamente realizado. 
Em entrevista à professora Fátima Nascimento, o romancista afirma que ao retornar 
para a literatura na década de 60, o que ele gostaria mesmo de fazer era o romance 
Aquele um. 
Segundo lemos em um posfácio escrito pelo autor, três foram as 
motivações para seu gesto de isolar apenas as falas de Miguel num único volume, 
descartando todas as demais textualidades. As três motivações foram: a 
correspondência de Nélida Piñon, que após ler Verde Vagomundo, escreveu-lhe 
afirmando que Miguel era um personagem muito forte e que o romance parecia obra 
de dois escritores: um experimentado e outro não. Além disso, a maioria das 
resenhas ao seu primeiro romance diziam que o mesmo “fraquejava” ao tratar a 
“realidade contextual”. As palavras são de Leo Gilson Ribeiro numa crítica publicadano Jornal da Tarde em 1972. Por fim, um episódio mais rés ao chão. Uma das 
 
37 Quando Benedito Nunes fez essa afirmação, apenas três dos seis livros haviam sido publicados. 
38 Em alguns trabalhos acadêmicos, este livro é citado como publicado com o título provisório (Belém 
vista por Miguel) que – talvez – o autor havia atribuído. Mas não houve publicação deste livro com 
este título. Trata-se de um equívoco por parte dos pesquisadores que assim fizeram a citação e a 
referência bibliográfica em seus trabalhos. Também algumas páginas de internet divulgam Belém 
vista por Miguel na lista de obras do autor. Benedicto Monteiro não publicou nenhum livro com este 
título. 
52 
 
 
editoras da Marco Zero, que publicou parte de seus romances, comentou com o 
romancista que sua mãe lia apenas as falas de Miguel, “saltando os textos que 
discutiam os problemas políticos, sociais e econômicos” da Amazônia. Cabe frisar, 
entretanto, que as falas de Miguel não são alheias a esses problemas. Apenas eles 
são tratados de um modo diverso. 
A preferência da crítica, o gesto e a afirmação de Monteiro, a opinião de 
Nélida Piñon e a opção de leitura de uma amiga, favorecem para que o gesto de 
publicação do romance Aquele um, que contém apenas as falas de Miguel, seja o 
gesto qualitativo, seletivo, um gesto de descarte. Em outras palavras, este gesto 
sugere que todo o material de linguagem que não provém de Miguel, possa ser 
considerado como resíduo, rascunho, borrão, treino... 
No posfácio de Aquele um, Benedicto Monteiro afirma que sua 
 
idéia inicial era escrever um romance que, pela própria linguagem, 
formasse a personagem e refletisse o contexto da realidade 
amazônica totalmente isolada do contexto histórico, político e social 
do resto da humanidade. Mas ao iniciar esta experiência, achei que 
uma obra dessa natureza, naquela época de censura, repressão e 
violência, podia representar uma fuga dos problemas políticos e 
sociais que enfrentávamos e da violência particularmente desfechada 
contra a cultura e a civilização fluvial do homem da Amazônia. 
(MONTEIRO, 1995, pág. 222) (grifo meu). 
 
Fechando este complexo jogo de montar, temos a novela Como se faz um 
guerrilheiro, que é a transcrição integral das falas de Miguel presentes no romance A 
Terceira Margem e, completando a tetralogia amazônica, temos o romance Aquele 
um, sobre o qual já falamos anteriormente, que corresponde a transcrição das falas 
de Miguel em cada um dos três romances. Enquanto as falas transcritas de Verde 
Vagomundo passam por algum processo de modificação (chegando a ter um 
acréscimo de 3 páginas na edição de Aquele um) e as falas transcritas de O 
Minossauro passam por uma modificação menor, perceptível apenas através de um 
minucioso trabalho de comparação frase a frase. Já as falas de Miguel transcritas a 
partir de A Terceira Margem são integrais. 
Os efeitos de leitura decorrentes destas transposições escapam a este 
trabalho e as análises destes dois últimos livros (que junto com os outros quatro 
formam a parte mais importante da obra de Benedicto Monteiro) dentro da proposta 
aqui apresentada já estão esparsas no decorrer deste trabalho. 
53 
 
 
 
CAPÍTULO 02 – caminhos, cantos e margens semoventes 
 
 
 
 
 
Quando a água escorre pela rua até o rio, ela cria um sulco no chão de 
terra. Sempre serpenteante. Quando chove outra vez após dias de sol, novamente 
as águas fazem sulcos serpenteantes. Caminhos semelhantes aos rios e igarapés 
sinuosos da Amazônia. Mais de uma vez ouvi minha vó cereaba (para usar o mesmo 
termo que li em Benedicto Monteiro) dizer que nós fazemos um plano, Deus faz 
outro, o diabo outro... e meu avô pigarreava para dizer que nenhum daria certo. Um 
projeto, tal como um plano, um roteiro, um itinerário, está sempre sujeito a 
intempéries, incidentes e acidentes. Sujeito aos serpenteios. Mesmo que o projeto 
não tenha sido redigido ou verbalizado, o tempo, as circunstâncias, os imprevistos 
promovem sua reavaliação, seu replanejamento. 
Um projeto literário, aquilo que um autor deseja para sua obra, seja no 
aspecto temático, ideológico, seja no aspecto estético, por mais organizado e 
disciplinado que possa ser o escritor, não está isento ou imune de câmbios, de 
oscilações, de reordenamento de rotas, enfim, de serpenteios. Às vezes, estas 
correções de itinerário ficam apenas nas filigranas, os autores desconversam, não 
revelam e talvez um ou outro crítico mais arguto possa explicitar os câmbios. Outras 
vezes, as circunstâncias históricas e as ocorrências pessoais impregnam-se 
fortemente à vida do autor que os serpenteios evidenciam-se perceptíveis. 
No capítulo anterior, ao falarmos dos golpes históricos e pessoais, das 
cicatrizes deixadas no tempo sem tempo, no transtempo da vida do autor, e nas 
trilhas estéticas que ele seguiu, era intensão apontar alguns elementos possíveis 
para pensarmos nas oscilações que sofreu seu projeto estético-literário, 
especialmente no que se refere aos romances que formam nosso corpus de 
trabalho. Neste capítulo, além de procurarmos indicar estas mudanças, iremos 
também apresentar as sínteses dos caminhos, dos cantos e das margens presentes 
nos romances da tetralogia. 
54 
 
 
2.1 – PROJETO ESTÉTICO MAS NÃO-ESTÁTICO 
 
Benedicto Monteiro não deixou um projeto literário escrito e delineado. Foi 
através da leitura de prefácios, posfácios e entrevistas dadas pelo autor que foi 
possível traçar linhas gerais do que ele pretendia para sua carreira literária, ou mais 
especificamente para sua obra principal. A Tetralogia Amazônica, que resulta na 
publicação de seis livros, faz parte de um projeto estético que sofreu modificações 
entre as décadas de 1950 e 1980. Um projeto literário que potencialmente já poderia 
ser dinâmico, mas que se tornou cada vez menos estático em decorrência dos 
golpes e cicatrizes apresentados no capítulo anterior. 
Com Benedicto Monteiro e com seu projeto literário parece ter ocorrido 
algo semelhante ao que ocorreu com Eduardo Coutinho. O cineasta havia iniciado 
em fevereiro de 1964, a gravação de um filme-documentário sobre a morte de um 
dos líderes da Liga Camponesa da Paraíba, João Pedro Teixeira. Após o golpe, 
camponeses e membros da equipe de filmagem foram presos e todo o equipamento 
de filmagem foi apreendido. Apenas em 1981, Eduardo Coutinho retomou as 
filmagens, já não mais do filme que pretendia fazer, mas sobre o filme que não fez. 
O Cabra marcado para morrer é documentário do documentário. A narrativa do 
fracasso da narrativa anterior. 
Segundo Eduardo Coutinho (1984), “a maior parte do negativo filmado 
[em 1964] foi salva”, além de “oito fotografias de cena”. Com Benedicto Monteiro o 
desfecho foi bem diferente. Conforme nos conta em sua autobiografia Transtempo, 
“mais de cem fitas e mais de trezentas fichas” (MONTEIRO, 1993, pág. 83) com os 
falares dos caboclos paraenses sumiram definitivamente após terem sido levados 
por militares que invadiram seu escritório. Seu projeto literário inicial passa por uma 
sensível modificação conforme ele mesmo afirma num posfácio e conforme 
podemos acompanhar em seus três primeiros romances. Paralelo aos falares 
regionais representados por seu arquiprotagonista Miguel dos Santos Prazeres são 
acrescentados outros narradores com falar urbano, são incrustados outros materiais 
de natureza diversa (literários e não literários), formando um verdadeiro 
caleidoscópio (conforme indicou Meyer-Koeken, 1990), no qual giram materiais 
relacionados aos contextos históricos internacional (Guerra Fria, Guerra do Vietnam, 
entre outros), nacional (Ditadura Militar, principalmente) e regional (a Amazônia 
Brasileira e seus problemas econômicos e sócio-culturais), bem como textos 
55 
 
 
relacionados a duas temáticas relevantes para o autor: a Amazônia, sobretudo 
através das citações de Charles Wagney; e a escrita do romance, atravésdas 
citações de Roland Barthes, Allan Robert Grillet, entre outros. Tal como ocorre em 
Cabra marcado para morrer em que os temas da ditadura militar, da luta do 
campesinato nordestino e da gravação do documentário não estão isolados, os 
aspectos elencados em Benedito Monteiro se interpenetram, interagem e 
influenciam um no outro. 
Tal como o espectador da obra de Coutinho, o leitor, nos três primeiros 
romances de Benedicto Monteiro – para além dos temas tratados – , está diante do 
laboratório de criação artística, diante de um laboratório estético cuja constituição se 
relaciona inexoravelmente com as questões histórico-políticas. Entretanto, ao 
contrário do que ocorre com a obra de Coutinho, cuja finalização da gravação vai 
ocorrer apenas na década de 80 (um ano após-anistia), os dois romances de 
Benedicto Monteiro são escritos e publicados ainda na década de 1970. 
Verde Vagomundo (1972), O Minossauro (1975) e A Terceira Margem 
(1983) tratam cada um dos aspectos citados de modo diverso, bem como 
apresentam visualidades, feições, processos de fragmentação e “anarquia formal” 
(SANTIAGO, 1989, pág. 29) distintos. Para além do conteúdo que lemos nos 
romances de Benedicto Monteiro ou assistimos no filme-documentário de Coutinho, 
por si carregados de um alto teor testemunhal sobre o/s contexto/s histórico/s local-
nacional-global, as visualidades ou fragmentações dos romances não só testificam e 
testemunham a desordem social do momento político (conforme CALEGARI, 2008), 
mas também representam um ato de resistência, exercendo um “ato de violência 
verbal ou manifestação intencional contrária [...] à (des)ordem estabelecida” 
(PACHÊCO, 2016). 
A base constitutiva desta fragmentação, ou aquilo que favorece alguma 
ordem para este o caos no caso da obra de Benedicto Monteiro, é o contra-canto 
narrativo composto por um narrador culto urbano diferente em cada uma dessas três 
narrativas e por um mesmo narrador caboclo em todas elas. Esses dois esses 
narradores por si representam duas cosmovisões distintas que coexistem neste 
trabalho ficcional. Como pontuou Tania Sarmento-Pantoja, existe uma certa 
articulação entre as “matérias historiográficas” (o caleidoscópio citado anteriormente) 
e os “aspectos culturais [...] provenientes do imaginário popular” e seus “estratos 
religiosos ou de natureza mítica e lendária” (2014, pág. 132). Nesta oposição ou 
56 
 
 
contraposição ou choque, entre a existência mítica de um herói, assim definido por 
Guilherme Castro (1997), “à margem de todos os elementos que moldam a 
modernidade” (SARMENTO-PANTOJA 2005, pág. 236) e esta mesma modernidade, 
relativamente representada pelos narradores cultos urbanos em cada uma das 
narrativas, a crítica à obra de Benedicto Monteiro tem se dedicado, com raras 
exceções, ao narrador caboclo, sua linguagem, sua vivência e suas narrativas. 
Esta opção crítica acompanha esta parte da obra do autor desde o 
lançamento de Verde Vagomundo, seu primeiro romance lançado em 1972. Tal 
opção, somada ao gesto do próprio autor de publicar um romance (refiro-me a 
Aquele um) contendo apenas o material narrativo proveniente do narrador caboclo, 
coloca todo o material restante num refugo. Relativo, entretanto, se considerarmos 
que este romance convive com as novas edições dos romances anteriores. Não se 
trata de uma publicação revisada ou atualizada como muitas vezes ocorre em 
sucessivas edições de romances ou mesmo livros de contos ou poemas, mas de um 
novo romance contendo parte do material narrativo, com alguma alteração, já 
publicado em romances anteriores. Se acrescermos a isto, a declaração do autor de 
que Aquele um representa o romance de seus sonhos e é tido como sua obra prima, 
o maquinário constituído para compreensão desse complexo de romances se 
acentua. 
Integra o material restante, além de todo o caleidoscópio contextualizador 
com notícias de jornais, relatórios, depoimentos etc, as narrativas dos narradores 
urbanos, seus diários e demais anotações sobre o contexto amazônico e a atividade 
de escrita. Em outras palavras, parte do que vai para o refugo é o laboratório 
estético dos três narradores que se apresentam como desejosos de escrever um 
livro ou um romance. Aquele um – na analogia com a obra de Eduardo Coutinho – 
seria o Cabra marcado para morrer que o cineasta tinha nos seus planos iniciais, 
mas não fora executado por conta das questões políticas do período. 
Como já explicamos, a motivação literária principal de Benedicto Monteiro 
foi a partir da leitura de Chove nos Campos de Cachoeira (1935), de Dalcídio 
Jurandir. Em Transtempo (1993), autobiografia de Benedicto Monteiro, lemos o 
quanto esta obra lhe causou impacto. Ele afirma ter lido e relido o romance “como se 
fosse meu primeiro amor e o meu primeiro orgasmo” (MONTEIRO, 1993, pág. 16). 
Na época da publicação, Monteiro era aluno de um internato e para ler o romance de 
Dalcídio precisou de uma licença dos padres. 
57 
 
 
Edilson Pantoja em sua dissertação de mestrado sobre a obra do escritor 
marajoara, observa que Monteiro considera que 
 
a experiência estética do romance de Dalcídio Jurandir [...] foi determinante 
como móbil para uma ação transformadora, como algo capaz de apontar 
novos horizontes e, curiosamente, possibilitar, segundo suas próprias 
palavras, pleno exercício de liberdade” (2006, pág. 39). 
 
Pantoja chama atenção para o fato desta declaração ser feita por um 
homem maduro na casa dos 70 anos num texto em que se propõe reencontrar a 
“própria trajetória”. 
Monteiro, várias vezes, declarou enfaticamente que sua influência para a 
ilusão de oralidade apontada na tese de Meyer-Koeren (1990) não seguia a 
influência de Guimarães Rosa, mas sim a influência de Dalcídio que já “escrevia 
utilizando a oralidade em 1933, quando lançou o romance Chove nos Campos de 
Cachoeira” (MONTEIRO, 2000, pág, 116), muito embora o fizesse escrevendo em 
terceira pessoa, e não em primeira pessoa como no romance rosiano ou nos 
romances de Benedicto Monteiro. O romancista alenquerino, assim como outros 
escritores da região amazônica, apresenta seus referenciais estéticos na própria 
Amazônia. Fenômeno semelhante ao apontado por Achugar em relação a literatura 
latino-americana da década de 1970. Segundo ele, os escritores latino-americanos 
no período deixam de ter ou seguir uma referência de autores europeus e passam a 
ter entre eles mesmos suas referências literárias. 
Dalcídio exerce uma grande influência na produção de Benedicto 
Monteiro. O escritor marajoara escreveu um ciclo de romances – chamado pela 
crítica de Ciclo do Extremo Norte – narrando a trajetória de vida do menino Alfredo 
inicialmente na ilha do Marajó, depois em Belém, depois em Gurupá, numa 
sequência de 10 livros. Benedicto Monteiro afirma que, embora Dalcício seja um 
escritor extraordinário e tenha “expressado magistralmente” Marajó e Belém, “a 
Amazônia num contexto geral [...] nenhum escritor conseguiu expressar” 
(MONTEIRO, 2000, pág. 112). Benedicto Monteiro afirma que este era seu desejo, 
mas que ele mesmo após a publicação da Tetralogia talvez não tenha atingido este 
objetivo. 
Esse desejo de expressar a Amazônia num contexto geral refletindo os 
aspectos humanos, sociais e econômicos através de um exercício de linguagem 
58 
 
 
próprio da oralidade semelhante ao realizado por Dalcídio, mas com o intento de 
estetizar a fala do caboclo da região de Alenquer em narrativas literárias, já 
acompanhava Benedicto Monteiro desde a década de 1950. Suas primeiras 
incursões ou experimentos foram apresentados a Benedito Nunes por Ruy Barata. 
Motivado pela avaliação positiva do filósofo e crítico, Monteiro publica contos em 
suplementos literários paraenses. Sendo o primeiro desses contos, “O Precipício” 
em 1959, quando pela primeira vez o caboclo Miguel ganha vida na ficção. O esboço 
inicial de seu projeto literário era, então, publicarromances, ou um romance, 
inteiramente constituídos com essa linguagem. 
No posfácio de Aquele um, Monteiro afirma 
 
minha idéia inicial era escrever um romance que, pela própria 
linguagem, formasse a personagem e refletisse o contexto da 
realidade amazônica totalmente isolada do contexto histórico, político 
e social do resto da humanidade. 
(MONTEIRO, 1985, pág. 222) 
 
De modo muito semelhante, em Transtempo, ele afirma que, após uma 
visita que Marighela lhe havia feito em sua casa para convidá-lo a atuar na 
resistência armada e se alistar na guerrilha rural e urbana e ter seu isolamento 
aumentado em decorrência disso, ele se refugiou nos livros e começou a escrever. 
Daí, começou 
 
a experimentar o material de linguagem que tinha pesquisado e que 
ainda lhe restava na memória [...] com esse instrumento recriado dos 
falares paraenses, comecei a escrever um romance. 
Meu objetivo era escrever um romance cujos espaços, o tempo e os 
personagens surgissem da própria linguagem. O título já estava 
escolhido há muito tempo. Seria Verde Vagomundo. Era uma 
ambição que ia ocupar toda minha disponibilidade e recuperar a 
minha memória (1995, pág. 99). 
 
Após o golpe militar, a cassação de seu mandato parlamentar, a 
suspensão de seu direito de advogar e principalmente por causa de sua prisão numa 
cela solitária e das torturas pelas quais passou, Benedicto Monteiro repensou seu 
projeto. Ele não chegou a escrever na prisão seu primeiro romance, mas foi 
enquanto estava preso que ele concebeu como seria esse trabalho. Em vez de uma 
fala única atravessando todo o romance, temos um romance marcado pela 
heterogeneidade enunciativa e pela polifonia. Nos três primeiros romances, temos 
59 
 
 
basicamente dois narradores: um narrador urbano com registro próximo ao 
vernáculo (diversos a cada romance) e um mesmo narrador caboclo ou ribeirinho 
com registro de linguagem próprio da oralidade e fruto do experimento estético que 
Benedicto Monteiro vinha desenvolvendo nos contos publicados nos suplementos 
literários. Para além desses dois narradores, os romances trazem também: cartas, 
relatórios, poemas, letras de canção, citações de filósofos, escritores e estudiosos 
sobre a Amazônia, transcrições de depoimentos, fragmentos de jornais, revistas, 
transcrições de rádio e outras textualidades. 
Benedicto Monteiro justifica esta estrutura fragmentária com dois 
narradores e com a incrustação de materiais os mais diversos por acreditar que um 
romance como ele desejava, 
 
naquela época de censura, repressão e violência, podia representar 
uma fuga dos problemas políticos e sociais que enfrentávamos e da 
violência particularmente desfechada contra a cultura e a civilização 
fluvial do homem da Amazônia. 
(MONTEIRO, 1995, pág. 222) 
 
Embora os romances apresentem uma estrutura relativamente 
semelhante é possível notar algumas gradações do primeiro ao terceiro. De algum 
modo, a maioria destas gradações se concluem em Aquele um. O romance inicial é 
mais caótico enquanto o último é mais organizado, mesmo ainda havendo 
fragmentação. No primeiro romance, o narrador urbano é o personagem principal da 
narrativa e tem nome e sobrenome, enquanto no segundo tem apenas nome próprio, 
já no terceiro sequer nome tem, para enfim desaparecer totalmente em Aquele um. 
A participação de Miguel dos Santos Prazeres se desenvolve e sua complexidade 
estrutural de personagem ganha relevo de romance a romance até ele assumir 
totalmente a fala da narrativa. A oscilação das falas e dos demais materiais se 
apresenta de modo totalmente aleatório no primeiro romance e de modo mais 
ordenado no terceiro. As citações relevantes sobre a Amazônia e sobre os 
processos de escrita não aparecem no primeiro romance, mas são a base 
constitutiva do terceiro – especialmente de Charles Wagley e Roland Barthes. No 
primeiro romance, o narrador urbano deseja – motivado pelo tio Jozico – escrever 
um livro de modo genérico, enquanto o narrador do terceiro romance tem planos de 
escrever um romance, um livro mais específico. Do primeiro ao último romance, o 
60 
 
 
contato de Miguel com os demais personagens diminui significativamente. As falas 
que compõem a narrativa de Miguel são menos coesas, tem menos unidade no 
primeiro romance, enquanto no terceiro são coesas a ponto de serem transcritas 
isoladamente formando um livro à parte intitulado Como se faz um guerrilheiro. 
Em entrevista a professora Fátima do Nascimento, Benedicto Monteiro 
afirma uma outra elaboração relevante para pensar estes romances. Segundo ele, 
Verde Vagomundo “retrata a Amazônia e o homem embutido lá no meio, pequeno”; 
já O Minossauro seria “um estudo sobre [...] o homem da Amazônia sobre vários 
aspectos”; enquanto A Terceira Margem seria um debate sobre a inocuidade “do 
ensino [acadêmico] a respeito da Amazônia”. 
No levantamento sobre a recepção crítica aos romances de Benedicto 
Monteiro publicados na década de 1970, os principais aspectos destacados são a 
Amazônia e questão contextual da mesma e os comentários sobre as opções 
estéticas adotadas pelo autor para a composição da obra, especialmente fazendo 
alguma ressalva negativa para os narradores urbanos. 
Lúcio Flávio Pinto, que lê Verde Vagomundo ainda sem título, afirma que 
o romance situa em seu enredo dois impasses ou problemas próprios da literatura 
da e sobre a Amazônia: a interrelação regional-universal e a linguagem muito 
“impressionista e marcada pela influência do ambiente” (apud Nascimento, 2004 
pág.28). Já Benedicto Nunes, ressalta a técnica de composição com uso do 
“estranhamento brechtiano”, aponta alguns desníveis, destaca como a obra alcança 
universalidade ao mesmo tempo que é representativa do regional, devido aos “vários 
contextos linguísticos, sociológicos, religiosos, políticos ‘cabalmente latino-
americanos’ como diria Alejo Carpentier” e, por fim, apresenta uma afirmação que 
melhor descreve a obra de Benedicto Monteiro e que é explorada recorrentemente 
na publicidade de sua obra nos jornais da década de 1970. Nunes afirma que Verde 
Vagomundo é o “primeiro romance contextual da realidade amazônica” (Benedicto 
Nunes, 1973, pág. 95). 
A resenha de Léo Gilson Ribeiro, publicada na Veja em 1972 (pág. 83), 
chama a atenção para um novo sotaque – ainda inédito, como ele diz – na literatura 
brasileira. Ribeiro faz a ressalva de que Benedicto Monteiro usa alguns chavões 
literários que empobreceriam o texto, mas não indica quais. Salienta a 
universalidade da obra ombreando seus personagens a “Manuelsões, Otelos e 
Hamlets” que são “vítimas do ciúme ou da inércia e petrificados já pela luta diária 
61 
 
 
com a fome”. Nascimento destaca que Leo Gilson Ribeiro coteja a obra de Monteiro 
com a de Ferreira de Castro, ambos “abordando uma temática social e local”, mas o 
autor de A Selva não se desvencilha do sentimentalismo (NASCIMENTO, 2004, pág. 
30). 
Flávio Moreira da Costa, em texto que faz o balanço da produção de 
1975, chama a atenção para a estrutura fragmentária de O Minossauro aproximando 
com o romance Zero, de Ignácio Loyola Brandão, lançado no mesmo ano. Para 
Costa, O Minossauro seria “um dos melhores romances do ano”. Apesar disso, vê na 
fragmentação uma perda de unidade e falta de síntese estética (aspecto que ele 
também aponta em Zero). 
Affonso Romano Sant’anna, além de também comentar a técnica 
narrativa, a temática mítica e o universalismo, destaca o quanto o romance O 
Minossauro mostra “disputas políticas e econômicas” da região de forma “clara e 
legível”. Para ele, este segundo romance é “um misto de romance-relatório-
depoimento” (apud NASCIMENTO, 2004, pág 41). Destaca ainda a vinculação da 
obra de Monteiro à produção literária latino-americana, sobretudo Cortázar e 
Carpentier. Havendo em Monteiro pesquisas formais como a fragmentação, 
superposição de textos e outros elementos estéticos (apud NASCIMENTO, 2004, 
pág 42). A únicaressalva que faz Sant’anna corresponde à característica própria da 
linguagem regional estilizada. Para o crítico, “falta acabamento estético decorrente 
da falta de concisão” e devido as “repetições de ideias e palavras” no discurso de 
Miguel e “dos lugares-comuns” na fala do narrador Paulo. 
Nascimento também destaca comentários ou trechos contidos nos livros 
de história da literatura brasileira de Afrânio Coutinho, Alfredo Bosi, bem como o 
prefácio de Darcy Ribeiro em A Terceira Margem e a análise de Malcolm Silverman 
sobre a qual ainda comentaremos mais adiante. 
O que se pode notar nos três romances que compõem o projeto literário 
de Benedicto Monteiro quando ele ainda tinha em mente apenas a trilogia é que 
seus livros se organizam basicamente com dois narradores em contracanto 
(PACHÊCO, 2014): um narrador urbano e um narrador caboclo. Este contracanto se 
apresenta melhor delineado no segundo romance e melhor ainda no terceiro. 
Contracanto ou contraponto é um termo da música que estou utilizando 
de empréstimo como imagem ou metáfora para compreender a obra de Benedicto 
Monteiro ou para explicar melhor os processos constitutivos da mesma. 
62 
 
 
 
Contracanto é uma melodia que é construída para combinar com outra 
melodia que normalmente é a principal. Pode ser com duas vozes, uma 
cantando a melodia e outra fazendo os contracantos. Pode ser uma voz 
com instrumentos fazendo o contracanto. Ou mesmo dois instrumentos um 
fazendo a melodia principal e outro fazendo o contracanto. – O contracanto 
sempre vem para complementar o arranjo da música. (EYMARD, 2016) 
Contracanto é a conversa entre uma, duas ou mais vozes com a melodia 
principal. São vozes que costuram ou enfeitam ou destacam ou enfatizam 
partes da melodia principal. Dois contracantos muitos utilizados na MPB são 
o CC-passivo e o CC-ativo. (CCMUSICAL, 2015) 
 
Um bom exemplo de contracanto ativo na Música Popular Brasileira é a 
canção Andança. O contraponto ativo é quando as duas vozes que constituem a 
canção ou a música coexistem no mesmo nível ou num nível aproximado de altura 
ou valor. Além da convivência ou coexistência de duas vozes no romance, podemos 
considerar que toda a pletora de material literário ou não literário presente no 
romance corresponde a um terceiro contraponto ou arranjo, em suma: em um 
suplemento para a composição. Os romances que integram o projeto da Trilogia 
apresentam esta organização em contracanto ativo com suplemento melódico. 
Benedicto Monteiro ao escrever estes romances tinha clareza que todo o 
material que correspondia ao “contexto histórico, ao fragmentário, ao anedótico” 
(MONTEIRO, 2000, pág. 107) eram material de linguagem e de valoração estética 
diversa em relação às falas de Miguel. Este tipo de composição não era alheia ao 
romance brasileiro da década de 1970. Podemos encontrá-lo, por exemplo, em A 
festa, de Ivan Ângelo, em Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, em Ensaio Geral, de 
Antonio Marcello, para citarmos apenas três exemplos. Benedicto Monteiro, 
entretanto, adota este procedimento atravessando três romances. Sendo Miguel dos 
Santos Prazeres, o elo entre os romances da trilogia mas também do contexto de 
seis obras que constituem o núcleo central de toda sua produção composta por mais 
de duas dezenas de livros. Miguel também aparece isolado como um narrador 
protagonista do último romance do autor, mas já não se pode incluir este último 
romance (O homem rio, 2008) neste núcleo central. 
A oscilação deste contracanto talvez tenha motivado as avaliações 
negativas de algumas partes dos romances por leitores críticos na época do 
lançamento dos dois primeiros romances. Essa oscilação – independente da 
questão da qualidade estética de uma ou outra voz – faz lembrar também alguns 
elementos típicos da Amazônia, como o Boto (que emerge e depois vai até às 
63 
 
 
profundezas das águas27), como as marés que oscilam todos os dias e fazem parte 
do cotidiano do homem ribeirinho da Amazônia, e como o canto do uirapuru que 
apresenta uma variação de notas altas e baixas e saltos dificílimos de graves e 
agudos ou vice-versa. Como afirma Valdemir Vinagre Mendes: 
 
os uirapurus possuem uma grande variação melódica em seus 
cantos, muitos saltos intervalares e um cromatismo intenso, efeitos 
estridentes, graves e roucos, utilizando sons temperados e comas de 
sons (2015, pág. 43). 
 
Esse procedimento em duas vozes é próprio do Testimonio Latino 
Americano e de algum modo está presente em Menchu/Debray e Jesus/Dantas. 
Com a diferença que nos romances da trilogia, bem como em A festa, de Ivan 
Ângelo, este procedimento não está submetido à verdade histórica. Interessa-nos 
por ora observar como ocorre a última mudança de rota no projeto literário de 
Benedicto Monteiro. De certa forma, já explicamos um pouco sobre isso ao falarmos 
da gênese deste trabalho. Aqui cabe também salientar a peculiaridade que é o 
romance A Terceira Margem dentro de arcabouço. 
Quando Benedicto Monteiro havia se decidido pela publicação de Aquele 
um, seguindo as sugestões de Nélida Piñon, atentando para os comentário críticos e 
para a curiosa leitura que realizou a mãe de sua editora, na Ed. Marco Polo, o 
romance A Terceira Margem ainda não havia sido concluído. Inclusive, Aquele um já 
havia inclusive obtido um Prêmio Literário Brasília. 
Se Aquele Um é um romance formado pelas falas do narrador caboclo a 
partir dos romances que estavam no projeto da trilogia, e foi concluído antes de A 
Terceira Margem, isso significa que todas as falas de Miguel dos Santos Prazeres no 
terceiro romance já estavam prontas. Benedicto Monteiro precisava, então, redigir as 
falas do narrador urbano (o professor de geografia improvisado na função de 
Geógrafo e coordenador do grupo de especialistas e romancista aprendiz), bem 
como o conjunto de todo material literário e não-literário que formam o arranjo do 
contracanto – para nos valermos da imagem que usamos anteriormente. 
Não é possível saber quais seriam as demais partes do romance que 
efetivamente ainda não estavam escritas. Podemos, entretanto, afirmar que ao 
 
27 Imagem que fascinou Foucault e que ele cita em sua Microfísica do Poder, Organização, introdução 
e revisão técnica de Renato Machado. 26 ed. São Paulo: Graal, 2013, pág. 263. 
64 
 
 
concluir a escrita e a edição de A Terceira Margem, Benedicto Monteiro já sabia que 
o ‘destino’ de todo este material seria não integrar sua obra prima. Em outras 
palavras e nos valendo da afirmação feita anteriormente, ele sabia que estava 
redigindo o resíduo ou o borrão posteriormente descartável, porém-mantível. 
Em entrevista a professora Fátima, Benedicto Monteiro afirma: 
 
Então, você pega isso (as três primeiras obras) espreme e faz o “Aquele 
Um”. Tirei todo o contexto histórico, o fragmentário, o anedótico, tirei tudo, 
fixei-me só na linguagem do personagem Miguel (MONTEIRO, 2000, pág. 
107). 
 
Outro fato relevante é que a voz do narrador caboclo (que compõe a 
terceira parte do romance Aquele um e que são “extraídas” de A Terceira Margem) e 
que resultam na publicação do sexto livro que compõe toda esta estrutura complexa 
da qual faz parte a Tetralogia, a novela Como se faz um guerrilheiro, que embora 
publicada como livro em 1995, já havia sido publicada em 1982 integrando uma 
coletânea de narrativas eróticas resultado de um prêmio literário organizado pela 
Revista STATUS. 
As falas de Miguel nesta novela têm um foco específico ao contrário do 
que ocorre em suas falas nos dois primeiros romances. Em Como se faz um 
guerrilheiro, Miguel, que trabalha como embarcadiço, desenvolvendo as mais 
variadas atividades de piloto, cozinheiro, mecânico etc., narra suas histórias através 
das viagens que realizou no regatão de comércio, de suas paradas para vendas e 
abastecimentos e dos encontros amorosos para a confecção de filhos em mulheres 
de “raças” diferentes.Essa sua prole é toda dispersa por pequenas cidades, rios e ilhargas com 
mulheres de sete origens diferentes: uma negra-quilombola, uma índia, uma 
cabocla, uma nordestina-paraibana, uma portuguesa, uma libanesa e uma japonesa. 
Emborao narrador afirme esta quantidade de filhos, Marcel Franco da Silva (2014) 
em seu estudo sobre o romance afirma serem nove. Franco inclui também um 
caboclo “mateiro” cujo destino Miguel não sabe ao certo já que a mãe era 
subversiva, e uma “menina” cuja origem o narrador refuta, por ter certeza que só 
fabricou filho homem. Franco da Silva (2014) ressalta em seu trabalho algo 
importante sobre a constituição dessa prole. Além das origens geográficas 
diferentes, esses filhos indicam influências religiosas diversas que ajudam a 
65 
 
 
constituir um mosaico religioso na Amazônia: catolicismo, religiões de origem afro e 
indígena, bem como islâmica, budista ou xintoísta. 
Já foi afirmado que a constituição dessa prole corresponde a formação 
identitária “centrada num hibridismo ético-cultural [...] fazendo da Amazônia 
Paraense uma região bastante diversificada do ponto de vista sociocultural” (ROSA, 
2003, pág. 109). O próprio romance permite ler que a extensão geográfica por onde 
passa Miguel em seu regatão de comércio ultrapassa as fronteiras do Pará, e 
mesmo que assim não fosse, há elementos suficientes para afirmamos que esta 
constituição identitária, mesmo que parcial, vale para toda a Amazônia Brasileira, 
este espaço geográfico pluriforme que mais se identifica com os problemas sócio-
político-econômico-culturais da América Hispânica do que com o Brasil do Sul-
Sudeste. Em Conferência em Berlin, ouvimos o romancista brasileiro Luiz Ruffato 
afirmar que o Brasil sempre esteve de frente para a Europa e que, para o Brasil, a 
Amazônia não existe. A Amazônia estaria assim mas vinculada aos países que ficam 
às costas do Brasil (não a costa geográfica, diga-se de passagem, mas à fronteira), 
ou seja, aos vizinhos hispano-hablantes. Claro que isso tem relação com a extensão 
da floresta amazônica que também cobre estes países, mas a questão é muito mais 
de natureza conflitiva, de sentimento de subalternidade e resquício de terceiro-
mundismo que assola também países do Cone Sul, onde não há Floresta 
Amazônica. Ana Pizzarro (2012) também destaca uma maior similitude de uma 
problematização da Amazônia com os estudos sobre a América Hispânica. O 
hibridismo étnico-cultural da formação da prole de Miguel também deve ser lida 
como uma problemática ou uma constituição comum à Latinoamérica. 
Vale destacar que, assim como o ato de queimar um “despotismo” de 
fogos mesmo proibidos pelas autoridades policiais, no primeiro romance, e o de 
resistir ao registro formal, escrito, grafocêntrico-civilizatório, no segundo, a 
constituição da prole de Miguel no terceiro romance também se consolida como um 
ato de sublevação. Lembrando que é desse terceiro romance que são retiradas as 
falas para a publicação do livro com o sugestivo título “Como se faz um guerrilheiro”. 
No Manual do Guerrilheiro Urbano, Mariguella afirma que um guerrilheiro 
era quem lutava “contra uma ditadura militar com armas, utilizando métodos não 
convencionais” Um guerrilheiro era um “revolucionário político”. A escrita romanesca 
de Benedicto Monteiro não só se enquadra nesta concepção como parece não se 
deixa amoldar ou submeter-se ao processo de dominação hegemônica e de 
66 
 
 
subalternidade a que ab sempre a região está submetida. Seu personagem rompe 
as hierarquias tradicionais desvincula-se de um universo “monoeclesial”, e vence 
onipresente exploração “da força de trabalho” que se realiza “através de formas 
coercitivas de dominação, diretas e interpessoais” (conforme o conceito de 
subalternidade utilizado por Silva, 2014, pág. 09). 
Miguel e sua prole dispersa (mesmo se tratando de uma personagem de 
ficção) pode ser um elo importante para compreensão da representação da 
subalternidade na Amazônica Brasileira como parte da América Latina. Mesmo que 
seus sete filhos (8 filhos e uma filha) não representem uma totalidade identitária, 
essa prole é por si um ponto de partida para um estudo mais amplo desses 
processos na região incluindo para tanto outros personagens e romances, outras 
identidades, etnias, raças, religiões. 
O projeto estético que resulta na Tetralogia Amazônica é projeto em três 
tempos. Primeiro, antes da ditadura, a escrita de um romance com a estilização da 
linguagem do caboclo ribeirinho do Baixo Amazonas e sob a influência e o impacto 
que a leitura de Chove no Campos de Cachoeira, de Dalcídio Jurandir, lhe causou. 
Depois, o projeto da escrita de uma Trilogia, utilizando o projeto estético de ilusão da 
oralidade, paralelo a narradores que discutem o processo de composição de um livro 
(ou um romance) de modo a expor os bastidores da criação literária e 
complementado com um vasto material “fragmentário, anedótico” contendo – entre 
outras coisas – notícias de jornais e revistas (que contextualizam a Amazônia 
mundialmente, Guerra Fria, e nacionalmente, Ditadura Militar), citações de livros 
sobre a Amazônia (notadamente Charles Wagley) e sobre o ato de escrever ou 
sobre a linguagem (Roland Barthes, por exemplo). E, num terceiro momento, a 
edição de Aquele um contendo apenas as narrativas do personagem caboclo, de 
modo a formar não mais uma Trilogia, mas uma Tetralogia. Aquele um, entretanto, 
não é mero recortar as falas dos três romances para colar no quarto. Existe um 
trabalho de edição que precisa ser melhor explicado. 
A ideia de um romance que de algum modo recoloca em efetivação o 
projeto literário inicial causa alguma estranheza na medida em que ele não se 
sobreescreve aos demais. Ele não é uma edição revista e atualizada. Pelo contrário, 
Aquele um convive com as reedições de Verde Vagomundo, de O Minossauro e de 
A Terceira Margem. Espreme-se a trilogia – como afirma o autor – para fazer Aquele 
um, mas “o bagaço”, ou – como nós temos afirmado – o rascunho, o resíduo, os 
67 
 
 
borrões continuam tendo existência própria paralelamente a obra prima, ou, nas 
palavras do autor, continuam existindo paralelamente “ao romance de seu sonho”. 
Escolher chamar esta produção de Trilogia ou Tetralogia (que resultam na 
publicação de seis livros), como se pode notar não é uma tarefa fácil ou simples. 
Tetralogia Amazônica, por se tratar do resultado final e por conter a maior 
abrangência no que tange a publicação dos romances tem sido o uso mais 
recorrente. Mas, assim como é possível afirmar que um romance pode ser lido como 
um objeto, de leitura digestiva ou de leitura crítica, isoladamente, e chamá-lo 
romance, também podemos unir os três primeiros romances que compõe um projeto 
para leitura trivial ou crítica, e chamá-los de Trilogia. É curioso como o próprio autor 
faz isso. Quando comenta a escrita de Aquele um, Benedicto Monteiro afirma que 
era preciso terminar A Terceira Margem pois precisava concluir a Trilogia. 
Da mesma maneira, podemos ler as falas de Miguel em A Terceira 
Margem em forma de texto uno em uma outra publicação com o título Como se faz 
um Guerrilheiro (1995) e podemos também ler os contos que integram os dois 
primeiros romances e que integram o livro de contos O carro dos milagres e outros 
contos (1975) como objeto pleno. 
O narrador urbano do primeiro romance publicado em 1972 afirma que 
somente as falas do caboclo Miguel resultariam em um “surpreendente romance”. 
Esta afirma parece ecoar o pensamento do próprio Benedicto Monteiro ao afirmar 
que Aquele um seria “o romance de seu sonho inicial”, seria sua obra prima. 
Contrariando um pouco esta opinião do autor, acreditamos que obra prima ou 
“surpreendente” não é a publicação de um desses romances, mas sim de toda esta 
estrutura complexa envolvendo seis livros nos quais personagens e textos saltam de 
um livro ao outro num magnífico jogo de montar.68 
 
 
2.2 – INÍCIO DO CAMINHO – IN MEDIA RES 
(LEITURA DE VERDE VAGOMUNDO) 
 
Toda história começa com alguma coisa da história já iniciada. Sempre 
inicia in media res. O primeiro passo de uma criança é um contínuo de seu 
engatinhar e do jeito de caminhar de outras crianças antes dela. Todo primeiro dia 
de aula é o contínuo de outros aprendizados em outras salas de aula ou fora dela. 
Todo primeiro poema de autor é a continuação de uma longa história de outros 
poemas de outros autores e de outros poemas rascunhados, terminados, 
descartados. O início de caminho é a continuação de tantos outros caminhos 
trilhados por tantos outros ou dos próprios caminhos trilhados anteriormente. 
Os romances que integram a parte central da obra de Benedicto Monteiro 
marcam a continuação de sua produção, as mudanças em seu itinerário estético, a 
continuação de uma narrativa que já vinha se formando em seu espírito, bem como 
uma narrativa que já vinha sendo publicada em jornais e suplementos literários. 
Marcam também a inserção de sua escrita num conjunto de outras obras escritas e 
que se relacionaram programaticamente contra o regime militar que governava o 
Brasil. 
Verde Vagomundo é lançado em 1972. Na época, o Brasil estava sob um 
dos piores períodos da ditadura, que a historiografia nomeou “anos de chumbo” e é 
também o momento em que a produção literária sob e sobre o regime estava na 
segunda fase. Não é muito fácil apontar as motivações que causaram uma recepção 
quantitativamente positiva desse romance. Como é raro acontecer e por isso 
importante registrar, Verde Vagomundo teve sua segunda edição publicada no 
mesmo ano. O livro esteve na lista dos 10 melhores livros de 1972, segundo a 
revista VEJA39, e chegou a ser destaque em meia página na edição de 20/09/1972 
dividindo a página com Carlos Drummond de Andrade. Nas edições dos anos 
seguintes, algumas poucas alterações foram feitas. Nada que possa interferir 
significativamente no enredo. Foram principalmente correções gráficas, alguns 
 
39 Listas qualitativas podem ser questionáveis sempre, mas podem ser um balizador importante. Para 
um autor um destaque como este tem uma importância muito grande em termos de reconhecimento. 
Cabe destacar ainda que em 1972, a lista da revista Veja era uma só. Não havia a divisão atual entre 
obras nacionais, estrangeiras, não-ficção. Dentre os 10 melhores livros presentes nesta lista, apenas 
4 eram de autores brasileiros. 
69 
 
 
termos regionais ‘corrigidos’ por desconhecimento de revisores ou editores, e ainda 
revisão em algumas pontuações... Mudança alguma de caráter macro textual. 
Em nossa análise, utilizaremos a primeira edição e, sempre que for 
necessário, uma das edições mais recentes destacando alguma alteração entre as 
versões. 
O romance parece apresentar um enredo movediço. Como se o próprio 
projeto da escrita do romance apresentasse alterações conforme o andamento dos 
acontecimentos narrados. O narrador principal não demonstra ser (como nos 
romances tradicionais, notadamente os memorialísticos ou nas autobiografias de 
personagens de ficção) alguém que detém todo o conhecimento sobre os 
acontecimentos da narrativa e resolve fazer algum balanço de existência; seja 
amplo, seja focal. Ele em pouco ou nada se aproxima de Riobaldo, Dom Casmurro 
ou Nael. Narradores que iniciam suas narrativas com pleno domínio (na medida do 
que isso possa ser questionado) dos fatos que pretende narrar. Toda a narração se 
refere ao passado. Seja Riobaldo recebendo o visitante que será seu interlocutor, 
seja Bento Santiago olhando as imagens na casa que construíra semelhante a casa 
onde vivera com Capitu, seja Nael morando nos fundos do Hotel Rochiram, no 
antigo quarto dos fundos da casa dos dois irmãos (Omar e Yakub). Neste romance, 
o narrador não apresenta uma posição, um espaço e uma cena de narração, bem 
como um tempo delimitado com exatidão a partir de onde ele estaria narrando. 
Embora possa parecer à primeira vista, o narrador de Verde Vagomundo 
não é um narrador memorialista. Ele não se apresenta como alguém preso em sua 
interioridade e exilado da sociedade circundante. Não tem um comportamento de um 
autobiógrafo que vive apenas o passado que deseja resgatar, anulando todo o 
presente histórico. Não é tampouco alguém preso ao passado que narra (LEJEUNE, 
1996 - passim). 
Verde vagomundo causa ao leitor uma sensação de presentidade. 
Sensação de as ações estarem ocorrendo num instante muito próximo ao momento 
da narração. Os verbos no pretérito não interferem negativamente nesta sensação. 
Como na narração de um jogo de futebol, o tempo verbal do pretérito indica um 
tempo passado e uma ação passada colada ao presente imediato. O leitor 
acompanha o narrador nas ações que se tornam pretéritas no exato momento 
posterior ao que sucedem. 
70 
 
 
Essa sensação de presentidade é reforçada pelas transcrições das falas 
de outros personagens, mas - principalmente - pela inserção das transcrições de 
rádio, que trazem também o presente histórico imediato para dentro da narrativa. 
Adriana Delgado Santelli, em sua Dissertação de mestrado, na qual procura 
observar as novas propostas estéticas do romance amazônico e ainda estuda como 
Benedicto Monteiro desenvolve traços de teatralidade neste romance, desenvolve 
um argumento que está presente na resenha escrita por Benedicto Nunes, em 1972. 
Para Nunes, Verde Vagomundo “supera o documentarismo, e, pondo à mostra a sua 
técnica compositiva, cria um estranhamento brechtiano, lúdico e lúcido, da escrita 
em relação aos fatos” (NUNES, 1972, pág. 95 - grifo no original). 
 
Por sua vez, a narração geral se desdobra internamente, como matéria dum 
livro, o próprio romance, escrito pelo personagem-narrador no curso das 
duas acções conjugadas que ele testemunha. Mencionando-se como livro e 
portanto como documento, o romance supera o documentarismo, e, pondo à 
mostra a sua técnica compositiva, cria um estranhamento brechtiano, lúdico 
e lúcido, da escrita em relação aos fatos. (“Os factos que vão escrever esse 
livro ou o livro que vai inscrever os factos?”) (Benedito Nunes) 
 
Santelli afirma que “as interrupções oferecidas pelas notícias de rádio, 
que cortam as falas das personagens” (2008, pág. 32) favorecem ao distanciamento, 
na medida em que avança na leitura que faz de Brecht “permite total observação do 
objeto”. Tais interrupções 
 
se aproximam de uma proposição estética que oferece ao leitor a 
possibilidade de reflexão - a constante interrupção dos acontecimentos 
narrativos provoca uma atitude reflexiva, anti-ilusionista e de importante 
valor para a contextualização político-social da obra” (SANTELLI, 2008, pág. 
33). 
 
Santelli também ressalta que o distanciamento brechtiano equivale a um 
ato político que ao criar um efeito de estranhamento faz a obra de arte “ultrapassar o 
plano estético […] alcançar sua responsabilidade ideológica” (SANTELLI, 2008, pág 
36). 
O romance traz como epígrafe um fragmento de Alain Robbe-Grillet, do 
artigo “Um caminho para o romance do futuro”, de 1956, publicado no livro Por um 
novo romance: ensaios sobre uma literatura do olhar nos tempos da reificação, 
publicado em 1969, em português. A citação provavelmente traduzida pelo próprio 
Benedicto Monteiro, é a seguinte: 
71 
 
 
 
Estas não serão mais o vago reflexo da vaga alma do herói, a imagem de 
seus pensamentos, a sombra de seus desejos.40 
 
Vale destacar que esta citação é de um artigo de Grillet, intitulado “Um 
caminho para o romance do futuro” (1956). Neste artigo, Robbe-Grillet discute a 
possibilidade de uma renovação na arte do romance. Considera que o grande 
modelo de romance ainda é Balzac, que não aceita a solução simplista de que o 
romance esteja morrendo, que existem transformações consideráveis e que o 
circuito literário ainda era (à época em que escreveu o ensaio) integrado por 
“herdeirosde uma tradição” (1969, pág. 14), os quais, muito embora reconheçam o 
valor de uma pesquisa e do experimento para a renovação do gênero, ainda assim 
consideraram os novos romances como aberrações. 
Afirma ele que: 
 
haverá curiosidade, movimentos de interesse, reservas quanto ao futuro. 
Entre os elogios sinceros, a maioria será dirigida aos vestígios dos tempos 
passados, a todos esses liames que a obra ainda não tiver rompido e que a 
puxam desesperadamente para trás (ROBBE-GRILLET, 1969, pág. 17). 
 
Robbe-Grillet lamenta ainda a “dificuldade [dos romancistas] para se libertar dos 
trilhos habituais” (pág. 17). 
A citação nos dá uma indicação sobre o título do romance. O “vago 
reflexo da vaga alma do herói” corresponde ao Vago reflexo do mundo deste herói. 
Pelo menos, para este primeiro romance, o foco da abordagem ser o espaço. Como 
afirma Benedicto Monteiro em entrevista a professora Fátima: este romance “retrata 
a Amazônia e o homem embutido lá no meio, pequeno”. 
Verde Vagomundo inicia com um Prólogo sem assinatura41, no qual são 
apresentados um primeiro perfil do narrador, o motivo que o faz retornar a sua 
cidade natal e o argumento principal para a escrita do romance. O narrador chama-
 
40 Na edição traduzida por T. C. Netto, temos: “Estas não serão mais o vago reflexo da vaga alma do 
herói, a imagem de seus tormentos, a sombra de seus desejos” (1969, pág. 17). 
Provavelmente a tradução apresentada no romance seja do próprio Benedicto Monteiro. O autor tinha 
um bom domínio da língua francesa (conforme nos afirmou Wanda Monteiro em entrevista). 
41 Em edições posteriores, será assinado como “O Autor” e será chamado de Prefácio. Considerando 
a estratégia de romance dentro de romance, ou de romance no qual se desenvolve a escrita de um 
outro romance, assinar o Prefácio com “O Autor” explicita a referência ao narrador que está 
escrevendo o romance. Neste caso, um autor ficcional. A mudança de Prólogo para Prefácio, 
entretanto, driblou autor (o próprio Benedicto Monteiro), o editor e o revisor. Pois ao se referir a este 
frontispício do livro no interior da narração, esqueceram-se de registrar prefácio em vez de prólogo. 
72 
 
 
se Major Antonio de Medeiros, “solteiro, 45 anos de idade, herói da Força 
Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial”, que depois de 30 anos 
regressa para Alenquer42, sua cidade natal, “uma pequena cidade no interior da 
Amazônia”, em gozo de uma licença duradoura, com a intenção de realizar “uma 
simples operação comercial” (MONTEIRO, 1972, pág. 32): vender as propriedades 
que lhe ficaram de herança. O argumento para a escrita do romance provém da 
cobrança do seu tio, que ficara administrando as terras: 
 
Um homem só é mesmo homem, quando faz um filho, escreve um livro e 
planta um árvore (MONTEIRO, 1972, pág. 12). 
 
Antes de fazermos um breve passeio pelo romance é importante observar 
que o livro apresenta: capítulos não numerados, capítulos com o registro 
“GRAVADOR-AUTOMÁTICO - FITA” seguido da numeração das quatro fitas, 
capítulos com o registro “RADIO-TRANSISTOR-10”, com uma numeração que vai 
até oito, e ainda capítulos encimados por uma anotação referente a um diário com a 
contagem regressiva para a Festa de Santo Antonio (FALTAM HOJE ‘X’ DIAS PARA 
O INÍCIO DA FESTA DE SANTO ANTONIO). 
As entradas de diário, que iniciam na terça parte final do livro, ao romper 
com a escrita dos dois terços iniciais, servem como uma marcação para que 
possamos dividir o livro em duas partes. É a partir destas entradas que o livro 
apresenta uma organicidade, de enredo, de causalidade, de cronologia e de 
delimitação espacial. A partir da página em que iniciam as entradas de diário, não 
teremos mais transcrições do gravador, embora tenhamos inseridas no diário 
transcrições de nove depoimentos de um Inquérito Policial Militar. Entretanto, são 
mantidas, sem nenhuma regularidade, as oscilações destes quatro registros. 
O narrador, como dissemos, é o Major Antonio Medeiros que chega ou 
retorna a sua cidade natal. Os dois primeiros capítulos do romance narram sua 
chegada a Alenquer numa lancha (que fazia também a função de regatão de 
comércio) e sua chegada à cidade vestido em uniforme militar atravessando a pé a 
 
42 Sobre a relação da Alenquer ficcional com a Alenquer real, remeto a dois trabalhos que foram 
escritos e que se sustentam nesta afirmação: 
MESQUITA, Ruth Athias. Pelos Verdesvagosmundos: Alenquer na obra de Benedicto Monteiro. 
UFPA: Belém, 2007. (orientação de Aldrin Moura de Figueiredo) e 
SIMÕES, Nicéia; CASTRO, Leila Maria; BATISTA, Alexandra Oléa. O Município de Alenquer visto 
sob a ótica de Verde Vagomundo de Benedicto Monteiro. Santarém-PA: UEPA, 2006. Monografia 
(graduação) 
73 
 
 
ponte entre o trapiche e a cidade. A narrativa apresenta um andamento lento. 
Tateando de lento em lento. É marcada por uma reflexão existencial, um balanço da 
vida. Predominam frases curtas. Orações coordenadas. Períodos com uma só 
oração. Como a “cadência de [seu] andar sem gesto” (pág. 20). A linguagem beira o 
poético, o lírico, numa atmosfera onírica. Apesar disso, o trabalho de linguagem 
parece propositalmente precário. A insegurança do Major no retorno parece-nos 
expressa pela própria insegurança no tratamento com a linguagem. A recepção 
crítica do romance (conforme apresentamos no capítulo 01) mostra que o risco de 
iniciar um romance com uma narração propositalmente mal escrita no que se refere 
a narração do Major não espantou o leitor contemporâneo à obra. Embora parte da 
crítica, notadamente em resenhas de primeira hora, tenham registrado a percepção 
dos defeitos da obra, o romance esteve na lista dos 10 mais vendidos da revista 
Veja e teve uma segunda edição impressa no mesmo ano43. 
Nestas páginas iniciais, lemos as primeiras anotações sobre cores que 
serão recorrentes em todos os romances da tetra-trilogia. 
 
Verde! Milhares de tons de verde: verde-cinza, verde-mar, verde-mata, 
verde-chão, verde-terra, verde-barro, verde-curva, verde-reta, verde-plano, 
verde-mato, verde-campo, verde-capim; verde-azul, verde-planície, verde-
planura, verde-verdura; verde-sombra, verde-ouro, verde-prata, verde-vazio, 
verde-vago, verde-vagomundo, verde-espaço; verde-manhã, verde-tarde, 
verde-restea de sol, verde-mancha-de-nuvens, verde-quase, verde-lugar-de-
roçado, verde-caminho, verde-senda-estreita, verde-estrada, verde-perto-
de-casa, verde-água, verde-árvore, verde-lago, verde-algo, verde-rio, verde-
cerca, verde-divisa, verde-limite, verde-horizonte, verde-verde, verde-
distância. Principalmente: verde-distância (MONTEIRO, 1972, pág. 18). 
 
Nos parágrafos finais, ele mesmo avalia que a “chegada surpreendeu a 
cidade como uma violência”. Afinal, a população “nunca antes tinha visto um oficial 
com tantas estrelas e tantas medalhas atravessar sozinho aquela ponte” (1972, pág. 
20). 
O espanto dos populares quase incrédulos com sua chegada é uma 
prévia do que virá a ser a reação dos mesmos populares diante da chegada dos 
militares após o golpe. 
 
43 O interesse crescente pela Amazônia, com anúncios de vendas de terras em jornais impressos de 
circulação nacional, as reportagens sobre a transamazônica e as campanhas de integração nacional 
feitas pelo governo podem ser indícios importantes para se entender o interesse pelo romance de 
Benedicto Monteiro. Tais hipóteses ficam em aberto para futuros trabalhos e/ou para futuros 
pesquisadores. 
74 
 
 
Após esses dois capítulos, temos a primeira transcrição do Gravador 
Automático. Nela, lemos-ouvimos a voz do Tio Josico. Na voz do caboclo, 
predominam parágrafos longos. Abundam, mas não predominam, períodos 
compostos por subordinação. Uma linguagem fluída; com registro coloquial e 
regional. Fala afetiva e afetuosa. Com registro natural do vocabulário da região. Tio 
Josico fala da surpresa da chegada do sobrinho,reclama de não ter havido aviso 
prévio, a fim de fazer uma devida preparação para uma recepção com fogos, festas 
e convites para autoridades locais. Interroga-se como teria reagido seu irmão 
Francisco (Chiquinho), se vivo fosse, ao ver a chegada do filho. Fala sobre as 
reações dos populares na beira do rio e no mercado ao retorno de um filho da terra. 
Fala também da reação das mulheres, em especial a Professora Odília que se 
animou com a aparição do Major. O tio estima que várias localidades próximas já 
tenham ciência da chegada do Major. “Não tem igarapé, lago, igapó, campo, 
colocação, roça, tapiri, retiro, que não saiba que chegou na cidade um senhor major” 
(pág. 22). 
Tio Josico ressalta que a chegada do Major sem aviso e sem pompas 
“deu ensejo pra palpites desencontrados” (pág. 21) causando certa apreensão por 
parte dos populares. A preocupação da população vem pelas falas desencontradas 
repetidas pelo Tio. Um destes teria perguntado: “quem então é aquele todo 
entonado que chega assim sem nenhum foguete?”. Outro revela uma preocupação 
mais alarmante: 
 
Que não seja da polícia; que não venha da parte do Governo cobrar mais 
impostos; arrecadar espingardas de colonos; proibir pesca nos lagos sem 
dono; nem demarcar no chão as terras dos castanhais ainda devolutos. Não 
se concebe um oficial da Pátria cuidando desses pequenos e mesquinhos 
préstimos (MONTEIRO, 1972, pág. 22). 
 
Outro confirma que “oficial com medalhas e estrelas foi feito pra guerrear 
os inimigos nas fronteiras, nos campos de batalhas, e não pra executar esses ruins 
serviços” (pág. 23) 
 
75 
 
 
É pelo tio também que sabemos que o pai do Major era um tipo “coronel 
de barranco” ou “coronel-da-seringa”44 
 
Te lembra que ele também era coronel! Não de carreira de armas; mas de 
posses, de respeito pelas propriedades, e de confiança do governo. 
(MONTEIRO, 1972, pág. 22) 
 
No final da fala, o tio reforça o conselho para que o sobrinho tenha filhos. 
Não seja como ele, Josico que só teve filhos bastardos. O Major deveria levar “o 
nome de Medeiros” adiante. Conforme o desejo de seu pai. 
No capítulo seguinte, o Major apresenta um primeiro esboço de descrição 
do Tio Jozico. Um nordestino de tipo físico mirrado, que não se parece com um 
“caboclo autêntico” da Amazônia. O tio mantém com algum custo a “autoridade” 
herdada do irmão, seu “gesto patriarcal”. Para o sobrinho, o tio é a “sombra 
espectral” de sua família, do que restava de suas raízes. Esse esboço é 
complementado pelo que lemos no capítulo seguinte a partir da comparação que faz 
com seu pai. 
 
Tio Jozico não parece tanto com o que deveria ter sido o meu pai. Meu pai, 
pelo que me resta na memória, era uma figura imponente. E tio Jozico […] 
carregava sem jeito e com certo desleixo - o porte de senhor - que lhe tinha 
ficado por herança. Tinha sim o jeito de um jagunço vestido de pijama, e um 
ar de fazendeiro decaído. 
(MONTEIRO, 1972, pág. 34) 
 
É um capítulo muito curto. O tom, o clima e a escrita é muito semelhante 
aos dois primeiros. Logo após, temos a primeira transcrição do Rádio Transistor 10. 
O resumo e a análise desta e das demais transcrições de rádio estão em outro 
capítulo desta tese. Exceto quando alguma notícia se infiltrar na voz do Major ou dos 
populares. 
 
44 Samuel Benchimol assim explica como eram os coronéis-de-barranco ou coronéis-da-seringa na 
Amazônia. Segundo Benchimol (pág. 161-162), cumpria a esses coronéis que, em geral eram 
oriundos do Nordeste brasileiro (tal como o tio e - supomos - o pai do narrador) “convidar padres para 
o batismo das crianças, fazer casamentos e enterros; resolver brigas, evitar emboscadas, [162] 
combater invasões de seringais vizinhos, justiçar criminosos, seringueiros fujões, estabelecer vínculo 
de compadres e afilhados, disciplinar e distribuir justiça, quando necessária, apoiar políticos durante 
as eleições nos municípios e no Estado, por meio de candidatos previamente escolhidos e eleitos sob 
conchavos e acordos. Todas estas funções davam, sem dúvida, grande prestígio aos seringalistas e 
faziam crescer a sua importância como líderes e dirigentes dessas comunidades. […] O título 
impunha respeito e conferia autoridade ao seu titular e, destarte, o interior da Amazônia foi sendo 
dominado por coronéis, a princípio com legítimas patentes da Guarda Nacional, e depois, mesmo 
sem título, tornou-se costumeiro agregar ao nome dos proprietários dos barracões esse atributo e 
honraria.” 
76 
 
 
Continuamos acompanhando o narrador. Sua ideia principal ou única, 
objetiva e simples vai aos poucos se dissolvendo. “Meu tio-velho com suas 
recordações teimosas, restabelecia certos laços” (MONTEIRO, 1972, pág. 31). Além 
disso, a venda das terras correspondia a uma mudança significativa em seu próprio 
caráter, em sua subjetividade. Ele se sentiria “um homem amputado” e 
desguarnecido de possibilidades ou alternativas: “a simples existência dessas terras 
tinha me impedido de tomar certas atitudes” (pág. 32). 
Talvez o Major tivesse em mente que a venda das terras fosse uma 
operação absolutamente objetiva, sem nenhuma relação de intimidade ou afeto, tal 
como sua rotina militar de “obedecer ordens, executar uma política, estabelecer uma 
estratégia, usar uma tática” (pág. 32). São, entretanto, os contatos com os populares 
e as falas do tio Jozico que o fazem sentir o peso subjetivo daquilo; a dor da 
amputação a que ele se refere. 
Além do espectro do pai, seja pela aparência, pela presença, seja pela 
constante referência a ele, é tio Jozico quem lhe “revolve recordações da infância” 
(pág. 34), quem noticia sobre os “companheiros de molecagem […] que aguentaram 
a febre, o trabalho e o tempo” e que desejam com ele tomar uns goles de cachaça. 
Após a notícia da venda das terras se espalhar, o Major começa a receber 
visitas. Visitas que lhe deixavam “a convicção de estar no fim do mundo” (pág. 34), 
pois queixavam-se das distâncias dos centros de poder e salientavam a sensação 
de isolamento própria de quem vive na Amazônia, especialmente nas cidades do 
interior. Apenas Pepe Rico pareceu-lhe ter “escapado àquele ambiente fatalista, 
furando aquele imenso bloqueio” (pág. 34). Embora tenha nascido na região, o Major 
é esquivo quanto às pessoas do lugar, chega a ser irônica sua ojeriza e o choque de 
sua visão de mundo com os (outros) autóctones. Ele se diz asfixiado com os 
moradores da cidade e declara-se “aliviado” quando um morador relata ter 
“trabalhado no sul do país”. 
Mesmo ao falar de sua propriedade, o tom não deixa de ser frio, insosso. 
“A terra: com seu valor complexo, sua significação social e com suas raízes 
profundas” (pág. 34). Mais adiante afirma que possuía “aquilo que os políticos de 
esquerda chamavam de latifúndio”: “mais de 35 mil hectares! Mais de sete léguas 
quadradas de patrimônio” (pág. 36). Nova transcrição de seu “Rádio Transistor 10”. 
Com a certeza de ser um latifundiário, mas sem que isto lhe perturbe em 
nada, o Major conversa com pessoas que lhe pudessem apresentar informações 
77 
 
 
importantes sobre suas terras com vistas a vendê-la. A começar pelo preço e 
encerrar com o encontro de um possível comprador. Pepe Rico não faz ideia do 
preço e ainda lhe diz que se fossem suas as terras ele nunca as venderia. O gerente 
do banco lhe faz saber que suas terras não tinham cadastro ou registro (coisa 
comum por esta região), que pouca gente tinha algo daquele porte para oferecer 
como garantias para obtenção de empréstimo e que nas terras “existem castanhais, 
balatais e preciosos campos para a criação de gado” (pág. 40). Ao procurar o 
prefeito para obter os dados necessários para anunciar a venda das terras em 
jornais da capital ou do sul do país45 – afinal, ele “sabia que os norte-americanos 
estavam bastante interessados em grandes áreas na Amazônia” (pág. 41) – , 
esbarrou na mesma decepção. A prefeitura não tinha nem “um bomserviço de 
estatística” nem mesmo “um bom arquivo”. E ainda ouviu o prefeito queixar-se do 
isolamento causado – em parte – pelo “manhoso igarapé”, “sinuoso e estreito”. A 
conversa progride para falar sobre as origens da cidade, cuja versão mais divulgada 
era decorrente de um milagre de Santo Antonio. É a deixa para que o prefeito 
anuncie que vai lhe apresentar o secretário que está escrevendo um livro sobre as 
origens da cidade. 
A transcrição da fita nº 2 do gravador automático nos apresenta o registro 
do diálogo entre o Major, Tio Josico e o Norberto, o secretário da Prefeitura. O 
secretário vai falar das dificuldades de seu trabalho de pesquisa, da ausência de 
dados etc. Alegra-se pelo fato do Major afirmar que irá ler seu trabalho, lamenta não 
ter escrito nada sobre os negros, mas destaca a existência de “uma história 
interessantíssima” sobre o quilombo do Pacoval46, por onde o Major passaria antes 
de chegar em suas terras. É nesta transcrição da fita que aparecem as primeiras 
referências relevantes sobre o grande protagonista da tetralogia de Benedicto 
Monteiro. Miguel é assim apresentado pelo tio Jozico: 
 
 
 
45 As ofertas de terras para venda em jornais do Sul e Sudeste eram comum na década de 1970. 
46 Segundo o site do Iterpa-Pa, o quilombo do Pacoval foi titulado em 1996, tem 115 famílias e uma 
área de 7472.879 ha (http://www.iterpa.pa.gov.br/content/quilombolas). 
Neste quilombo, é realizada uma importante festividade da cultura amazônica. O Marambiré que 
ocorre principalmente em homenagem a São Benedito, um santo negro. A festa, realizada no mês de 
dezembro, é um reizado africano com música, dança e cantos. 
Na vida pessoal de Benedicto Monteiro, é uma referência importante pois foi onde ele se casou – a 
contragosto da sua família cristã-católica. 
Os comentários desencontrados de Norberto sobre o quilombo não merecem transcrição ao meu ver. 
78 
 
 
Só te garanto – que este porte de caboclo meio dançante como quem se 
desvia do trabalho – não descobre nada do que é por dentro. Dizem que 
mulato como este, que tem os zolhos meios clareados, é falso até no pisar 
do rastro. [...] Ele só é um pouco caviloso... (MONTEIRO, 1972, pág. 45). 
 
Após o tio falar sobre a distância das terras e reafirmar a necessidade de 
que Miguel fosse junto, o Major registra suas primeiras impressões sobre o Caboclo: 
 
Não cheguei ouvir uma só palavra de Miguel. Sua rústica figura firmou-se 
para mim na cara lavrada (sic) de quem espreita alguma coisa indefinida no 
escuro. Seu porte infundiu-me logo profunda confiança. Tomei a sua reserva 
como o silêncio costumeiro do caboclo que não fala. Ao retirar-se, ele 
apenas apertou a minha mão e disse: “seu Major” e fez um gesto que era 
tudo, menos reverência (pág. 46). 
 
E é Norberto, o secretário da prefeitura quem primeiro fala sobre os 
apelidos do caboclo e sua relação com o padrinho migrante nordestino. 
 
— Ele antes era conhecido como afilhado-do-diabo, pelas suas incríveis 
proezas nos rios e nas matas. Apesar dele ter pai e mãe, que moravam nas 
suas terras, era praticamente criado por um estranho nordestino, diz’que 
foragido da Justiça. Dizem que esse cearense, era terrível e célebre 
cangaceiro remanescente de bandos de jagunços. Falam que esse arigó 
misterioso, era até caçado em todo o nordeste. Mas nesse lugar, que o 
senhor vai visitar, possivelmente, e que fica muito longe daqui, ele vivia 
fazendo celas e arreios escondido na mata. Nunca vinha à cidade, nem 
aparecia na beira dos rios. Consta que desde muito cedo, ensinava a Miguel 
todas as artes do cangaço. [...] 
Quando estive fazendo lançamento de impostos por essas bandas, tive 
oportunidade de encontrar com esse ceriaba, casualmente, ele já estava 
aleijado de uma perna. Disse-me, já com uma expressão de beato, que 
tinha preparado Miguel desde criança, para cumprir um grande destino. 
Nesse tempo, Miguel andava desaparecido... e quando Miguel voltou, o 
arigó já estava morto. Foi aí, então, que o nosso caboclo herdou todos os 
haveres do estranho cearense, inclusive o célebre apelido. 
(MONTEIRO, 1972, pág. 50) 
 
Segue nova sequência de transcrições de notícias do Rádio-Transistor 10 
e a anotação do Major sobre o silêncio, a solidão, o isolamento (“o cerco da floresta”, 
pág. 57), suas recordações da guerra e sua companhia transistorizada 
principalmente sintonizada em A voz da América. Além disso, uma breve reflexão 
sobre as palavras e sobre o livro que pretende escrever: “quero empregar a máxima 
fidelidade possível para escrever este livro” (pág. 57). As páginas seguintes (11 
páginas) são dedicadas à transcrição do escrito de Norberto sobre a fundação de 
Alenquer. Depois, a 4ª sequência de notícias ouvidas através de seu Rádio-
Transistor-10. 
79 
 
 
Em seguida, nova reflexão do Major sobre Alenquer, seu isolamento, as 
memórias de infância dele, bem como sobre as viagens que fizera. Quem lhe corta a 
reflexão é Pepe Rico, que tem uma visão bastante severa sobre a região. Ele tem 
uma visão de futuro baseado no progresso, no sentido capitalista. Enquanto o Major 
comenta o escrito de Norberto, Pepe Rico assevera que “não tem nada desse 
negócio de água nem de santo. O que manda nessa gente é a boa ou a má safra”. E 
acrescenta: “enquanto o povo viver exclusivamente dos produtos extraídos das 
matas, como viviam os selvagens, não pode haver progresso.” Ele corrobora com a 
impressão já apontada pelo Major em momentos anteriores sobre o “atraso” da 
cidade. Afirma Pepe Rico: “Acontece que o século vinte ainda nem chegou aqui. E 
não chegará tão cedo”. Entremeando o diálogo, uma nova anotação com palavras 
duplas que ocupam a página toda. Nestes fragmentos, a narrativa eleva o tom e 
escrita assume um veio poético de “boa literatura”: 
 
Há sempre uma porfia entre a água semiparada e o céu enublado; entre a 
luz-reflexo e a sombra-noite. Porque a luz já é apenas raios filtrados nas 
distâncias: a sombra emoldura todas as coisas. Na Amazônia, parece que a 
noite bóia ao fundo das águas e nasce das entranhas da floresta. [...] Nessa 
transição das horas, das coisas e das cores, a água é quase morta. Água-
sombra, água-nuvem, água-onde-de-nuvem, [...] Nenhuma cor no espaço. 
Pela água chegou a noite (MONTEIRO, 1972, pág. 79). 
 
A retomada do diálogo inclui agora Miguel e serve de deixa para a 
inserção da Fita 3 do Gravador-Automático. A fala é de Miguel e são narradas duas 
histórias encadeadas. A primeira corresponde ao conto intitulado “Pau Mulato”, 
publicado no livro de contos Carro dos milagres e outros contos e a segunda narra o 
episódio da busca de uma sua ex-mulher que havia fugido grávida de e com outro 
homem para um garimpo. As duas narrativas têm como finalidade dar contornos não 
só para o perfil de Miguel, mas principalmente para entendermos o papel de seu 
padrinho Possidônio. 
Ao contrário da narrativa do Major, o texto que traz a fala de Miguel é de 
melhor qualidade e valor literário. Sua fala tem ritmo, tem vigor, tem metáfora e 
trabalho de linguagem. Embora pensemos no Major como transcritor destas falas e, 
no limite, um espelhamento autoral de Benedicto Monteiro, é admirável como até 
mesmo o próprio planejamento da narrativa e sua intencionalidade sobrelevam em 
relação aos trechos de “autoria do Major. 
80 
 
 
Pau mulato narra a primeira tentativa de Miguel de sair de casa, ou ainda 
sua primeira saída. Quando decide “correr terra”. O título do conto se refere à árvore 
que Miguel escolhera para deixar como símbolo de sua partida. Após considerar as 
características de várias árvores da região (mangueira, taperebazeiro, moirão 
grosso, taxizeiro, imbaúba, etc.), opta por “um brutelo de pau mulato” que era para 
ele “uma imagem digna e viva” (pág. 92). 
Acrescenta ainda Miguel: 
 
Quando minha mãe sentisse saudade, podia recorrer à lembrança e 
encontrar de novo o filho representado na mata. Era só ver e olhar: escrito-e-escarrado o caboco plantado no visgo do barro. Sem pôr e nem tirar 
(MONTEIRO, 1972, pág. 92). 
 
Nada sabemos de sua estada longe de casa, pois o narrador afirma 
apenas que “o tempo tinha corrido o tanto que o mato tinha crescido” (pág. 96) 
Quando retorna, é o Padrinho Possidônio quem lembra Miguel de sua 
árvore-símbolo e quem caminha com ele pela mata em busca do pau mulato. 
Com alguma dificuldade Miguel encontra, sufocado por um enorme 
apuizeiro. O filhotão de pau mulato mais parecia uma cobra ou um “simples galho”. 
Miguel sente uma tristeza muito grande e faz ao pau mulato “um terrível desabafo” 
lamentando a “triste sina de árvore asfixiada” (pág. 113) 
Apesar de Miguel acreditar ter entendido a diferença entre a árvore e o 
homem, é ele mesmo quem sugere uma possibilidade de interpretação para o 
envolvimento do pau-mulato pelo apuizeiro, pois foi após este fato que ele passou a 
compreender que seu padrinho Possidônio lhe “governava pelo silêncio”. 
A história seguinte é sobre uma viagem de Miguel em busca de uma 
mulher (sua) que fugira grávida de outro homem e com outro homem. Enquanto pai 
e mãe de Miguel aconselham o filho que arrume outra e não cometa nenhuma 
asneira, o padrinho lhe fustiga um incentivo de vingança. 
Entretanto, às distâncias tantas e às viagens tantas, não tinha como se 
sustentar no íntimo um sentimento que lhe parecia só existir em histórias como as 
que “os cegos cantam nas feiras, escritos nos livros de poesia” (pág. 114). 
Miguel mesmo avalia que a vingança por conta da fuga da mulher e que a 
“lavagem-de-honra-em-sangue” era uma das formas como seu padrinho já vinha 
81 
 
 
“manejando nas cáusticas palavras de ruim induzimento” (pág. 116). Acrescenta 
ainda que 
 
Vieram à tona, todas as malquerenças na instigação malina dos seus mais 
pequenos gestos. Até na bênção que me dava, ele dizia: “Deus te faça um 
bom cabra-da-peste”. Não era por brincadeira, não. Nem por apelido 
carinhoso de familial convivência. Ele queria mesmo, que eu fosse um bom 
cabra jagunço (MONTEIRO, 1972, pág. 116). 
 
No dia da fuga da mulher, Possidônio lhe confidenciou o desejo de que 
Miguel se tornasse “o maior bandido da Amazônia”. Disse-lhe o padrinho 
 
de agora em diante, é que tu és meu discípulo, o meu conseguinte, o 
herdeiro de meu nome, da minha sina, do meu dinheiro e da minha história. 
O herdeiro de todas as minhas forças! Eu mesmo não te engano [...] 
Amazônia não é Amazonas-rio, nem rios e nem Estado. [...] Por muitos e 
séculos eu quero que seja contada a tua lenda, assim como Caramuru, 
Tiradentes, Zumbi, Padre Cícero, Lampião e Ajuricaba. Quero que falem 
para sempre do Cabra-da-peste. Nunca nunca agarrado da polícia: virado 
em gente de mil formas, em vivente de mil caras: virado em bicho, virado 
em cinza, virado em sombra, virado em árvores. Capaz de muitas lutas e 
disfarces. Cabra da Peste! [...] Nunca nunca agarrado da polícia, nunca 
nunca encontrado nas distâncias. Na mata: feito camaleão misturado na 
folhagem. No rio: feito água, feito peixe, feito sombra virado num encante. O 
maior homem da selva, o maior bandido. O maior bandido da Amazônia, 
Discípulo do diabo, o Cabra da Peste, o Cabra, Afilhado do Jagunço. Filho 
adotivo de Joaquim da Silva Possidônio (MONTEIRO, 1972, pág. 119). 
 
Das transcrições do Rádio-Transistor 10, a quinta. Páginas 121 a 123. 
Novamente o Major em sua narrativa faz reflexões existenciais sobre o passado e 
queixa-se de solidão e isolamento. Sentimento que agora acha semelhante ao que 
sentia quando estava em quartos de hotéis durante suas viagens, com a diferença 
de poder nas viagens logo dissipar seu isolamento ligando o interfone, entrando num 
elevador e saindo para a rua. 
 
Nessas ocasiões, eu sabia, que se acionasse um botão, uma pessoa 
atenderia o meu chamado: bastava ligar a TV, o rádio, e tinha dentro do 
quarto toda a cidade. E, se entrasse no elevador então, as ruas estariam 
logo ao meu alcance. O rádio, o telefone e a televisão me infundiam nesse 
isolamento, profunda segurança. Mas ali naquele quarto, era como se 
estivesse mesmo no vácuo, apenas sobrenadando (MONTEIRO, 1972, pág. 
125). 
 
O narrador, sob o barulho do seu relógio de pulso, mergulha numa 
reflexão sobre a passagem do tempo de um modo geral, em relação a si mesmo, 
que sempre esteve “dependente de horários” e “numa cidade onde se despreza até 
82 
 
 
a marca de um século” (pág. 125) Outra vez uma página inteira cheia de palavras 
duplas, envolvendo vento/s, aroma/s, mata/s etc. 
No diálogo com Pepe Rico, o major fala sobre sua conversa com Miguel 
na noite anterior. Segundo o Major, já tarde da noite, Miguel 
 
...dizia: “pra encurtar história, seu Major”... e recomeçava novo episódio que 
nunca mais terminava. Só foi bom, porque eu gravei tudo, felizmente, eu 
tinha levado o gravador. 
(MONTEIRO, 1972, pág. 127). 
 
Na interpretação de Major sobre as duas histórias ou causos contados por 
Miguel, o caboclo vive “numa luta íntima [...] entre o bem e o mal, [...] entre duas 
concepções de vida” (pág. 128). Para ele, Miguel luta “a vida toda pra não ser talvez 
um herói ou um bandido” (pág. 128). O Major fala que Miguel teria lhe adiantado 
algo sobre sua promessa, mas Pepe faz o diálogo enveredar pelas histórias míticas 
de Miguel (que teria ficado desaparecido por mais de 45 dias e sido considerado 
morto), ambos falam ainda dos relatos de um explorador francês, sobre o 
extrativismo que Pepe Rico condena mas reconhece como a única forma de ganhar 
dinheiro na região. Pepe, que já havia tentado fortuna com couro de jacaré e com a 
juta, produtos com os quais ganhara algum “dinheirinho”, tinha o audacioso projeto 
de construir um campo de pouso na mata para poder exportar balata. 
Tio Jozico aparece trazendo notícias de pessoas que desejam conversar 
com o major, dentre estas pessoas uma comitiva da festa de Santo Antonio e uma 
comitiva de políticos. O major é veemente na negação a ambos os temas. 
 
Eu quero que me façam um favor: digam a todos, que eu vim aqui apenas 
para vender as minhas propriedades. Embora de licença, sou um militar que 
não tem tempo para se meter em festas e muito menos em política. 
(MONTEIRO, 1972, pág. 131) 
 
No decorrer deste diálogo, o Major conversa ainda com Norberto acerca 
do texto deste sobre Alenquer. O Major reclama da ausência de objetividade e da 
falta de dados mais específicos como “datas, nomes, números”. Dados que o Major 
também não registar em suas anotações e transcrições de rádio. O diálogo com 
Norberto é também sobre comércio, decadência da região (que já teve um período 
áureo com a venda de castanha e borracha) e sobre o isolamento da região. Os 
navios “passam ao largo no Amazonas” (pág. 133) e apenas os regatões de 
83 
 
 
comércio e um navio do governo de menor porte, ocasionalmente. De modo que 
apenas “os comerciantes da praça”, analisa Norberto, é que “às vezes tiram proveito 
dessa crônica deficiência de transporte” (MONTEIRO, 1972, pág. 133). 
Encerra-se esta parte com a reflexão do narrador sobre a “fisionomia da 
cidade” de Alenquer, sua semelhança com o labirinto, suas formas de temporalidade 
ligadas à natureza, ao ciclo das águas e à demarcação religiosa vinculada às festas 
como a de Santo Antonio. Assim, afirma o narrador: 
 
O próprio calendário, calendário dessa gente, divide-se também de acordo 
com o movimento das águas. Não existem semanas nem meses. Existem 
safras, que são marcadas pelo cair das frutas nativas e dependem da 
precipitação das chuvas e do nível das enchentes. E, a única festa que é ao 
mesmo tempo feriado e dia-santo-de-guarda, é o dia da festa de Santo 
Antonio. (MONTEIRO, 1972, pág. 133) 
Aqui, o sol e a chuva marcam a divisão do tempo (MONTEIRO, 1972, pág. 
134) 
 
Talvez o narrador esteja demonstrando sua estranheza, embora ele seja 
um autóctone que regressa à cidade natal. Na região, as estações do ano, apesar 
de em alguns momentos nos referirmosaos termos usados pela nomenclatura dos 
trópicos (verão e inverno), se organizam principalmente a partir do ciclo das águas, 
ao contrário dos trópicos cujo ciclo é fundamentalmente solar. Bentes & Freire 
(2008) afirmam que uma boa maneira de demarcar a sazonalidade na região é a 
partir destas demarcações vinculadas as chuvas e as cheias. Assim, temos o 
período seco ou estio (agosto, setembro e outubro); transição seco-chuvoso, 
quando o nível das águas começa a subir (novembro, dezembro e janeiro); 
chuvoso, quando costumam ocorrer as cheias (fevereiro, março e abril); e 
transição chuvoso-seco, quando as águas dos rios começam a descer (maio, 
junho e julho) (Freire e Bentes, 2008). De modo que normalmente associamos o 
período seco ao verão e o período chuvoso ao inverno. 
Segue a sexta anotação de notícias a partir do rádio-transistor 10. Os 
comentários do narrador Major voltam às suas reflexões existenciais e a sua 
sensação de somente estar novamente sintonizado no mundo a partir de sua 
conexão com as notícias que ele “acompanhava apaixonadamente” (pág, 138). Para 
além de si, ele também versa a respeito do pós-guerra, fala sobre o telefone 
84 
 
 
vermelho47 e sobre a “Guerra Fria: nome terrível que hoje se dá à angustiante 
expectativa de uma guerra nuclear” (MONTEIRO, 1972, pág. 138). Após afirmar que 
o noticiário anda monótono, citar a busca por estações com assuntos de vários 
lugares do mundo e enumerar alguns temas nacionais que ouve, tais como: 
“reformas de base, música popular, novela, futebol e anúncios comerciais” (pág. 
138). De súbito esbarra na notícia da morte do presidente norte-americano John 
Kennedy. Nós leitores também somos surpreendidos, enfim, com a possibilidade de 
alguma datação no romance. A morte de Kennedy ocorreu no dia 23 de novembro 
de 1963. 
O major sai pelas ruas de Alenquer mas nada na cidade reverbera a 
notícia da morte do presidente ianque. A natureza da cidade ignora tudo que lhe seja 
externo, cães latem, marrecas migram prenunciando enchentes. Ele volta-se para 
seu rádio transistor com a certeza de estar “numa cidade que despreza até o 
calendário, quanto mais a geopolítica” (pág. 139). O fato é que a morte de Kennedy 
afeta sua tranquilidade, conforme ele mesmo declara e acrescenta que 
“possivelmente limita até a minha já precária liberdade” (pág. 140). Indaga-se, sem 
conseguir responder o que afinal deve fazer (“interromper a licença”, por exemplo) e 
reflete sobre o fato de ter sempre sido apontado por seus colegas como alguém “em 
cima do muro”. Sua neutralidade política é auto-apresentada, mas em passagens 
anteriores ele já havia se declarado não ser de esquerda. 
Uma chuva desaba e novamente temos parágrafos de palavras-duplas. 
Logo em seguida ele procura alguém na cidade com quem conversar sobre a morte 
do presidente Kennedy. Basicamente ele só consegue estabelecer alguma 
interlocução com um frade franciscano alemão que apresentava uma visão política 
pautada na ideia de que o presidente não teria tanta relevância por ser apenas 
alguém que teria que atender aos interesses grupos os mais diversos. Por se tratar 
de algo relevante para entender a presença das tecnologias no romance faço uma 
interpretação deste diálogo no subcapítulo 3.3: Interferências sonoras, visuais. 
 
47 O telefone vermelho (Moscow - Washington Hotline, em inglês) era um canal de comunicação 
direta entre a Casa Branca, em Washington, e o Kremlin, em Moscou. Ele surgiu após um impasse 
militar ocorrido em 1962. A lentidão no diálogo entre os dois países quase deu início a uma guerra 
nuclear. Os dois aparelhos eram em tons claros (branco ou bege). A cor vermelha foi atribuída pela 
mídia e o aparelho era, na verdade, um teletipo, um equipamento semelhante a uma máquina de 
escrever ligada a uma linha telefônica. 
 
85 
 
 
No diálogo com o religioso, o major espanta-se quando aquele afirma que 
outro religioso está desligado do mundo por estar concentrado “nestes dias que 
precedem a festa” (pág. 147) de Santo Antonio. O espanto é pelo tempo entre a data 
de então (novembro) e o mês do festejo (junho do ano seguinte). Enquanto para o 
Major “ainda falta um bom bocado”, o vigário afirma: “nós aqui, vivemos em função 
desta festa” (MONTEIRO, 1972, pág. 147). 
Ao falar de suas atribuições, o religioso queixar-se de ter que cuidar dos 
preparativos da parte profana e da escolha da diretoria. Ele, como vigário, tenta 
evitar que a escolha da diretoria “sofra a influência dos grupos políticos locais” e 
acrescenta que “justamente por este motivo, já até cogitei o seu nome [do major] 
para evitar a disputa entre os grupos que dominam a cidade” (pág. 148). O 
transcorrer do diálogo não apresenta uma resposta do Major para este convite. 
O desejo de saber mais sobre a repercussão da notícia faz o major ouvir a 
sugestão do tio para conversar com um espião de Deus. Isto faz o major pensar 
sobre as pessoas da cidade e novamente lembrar de Miguel, o cabra-da-peste, 
afilhado-do-diabo e, antes de transcrever a fita 4 do gravador-automático afirma: 
 
Eu estava descobrindo aos poucos quem era o cabra-da-peste, o tal 
afilhado-do-diabo... No fundo, no fundo, era um caboclo crédulo e simplório 
que tinha lutado desde criança para não seguir à risca os conselhos de um 
bandido. De um bandido, que ele não sabia bem, se a sorte tinha lhe dado 
como padrinho, como patrão, ou como padrasto... 
(MONTEIRO, 1972, pág. 150) 
 
Deste ponto em diante temos uma modificação significativa da 
organização narrativa devido o narrador decidir-se pela escrita de um diário 
encabeçado pela contagem regressiva para festa de Santo Antonio. É neste ponto 
da narrativa que temos a chegada dos militares e a instalação de um Inquérito 
Policial Militar. Os depoimentos serão transcritos no corpo do diário deste narrador. 
A análise desta parte da narrativa é apresentada no subcapítulo 3.4. 
 
 
 
86 
 
 
2.3 – CANTOS DE MINOPÁSSARO (LEITURA DE O MINOSSAURO) 
 
 
O Minossauro é lançado no final de 1975. O cenário político no Brasil não 
havia mudado muito desde o lançamento de Verde Vagomundo. Mesmo que o 
governo já apontasse para uma abertura “lenta, segura e gradual” desde o ano 
anterior, estávamos em um contínuo de autoritarismo, repressão, perseguição, 
tortura, desaparecimentos e morte. O lançamento do segundo romance de 
Benedicto Monteiro aproveita em parte o prestígio que o autor tivera com o primeiro. 
A divulgação do lançamento feita pela editora Nova Cultura e divulgada em vários 
jornais de circulação nacional da época, é endossada pelas resenhas de Benedito 
Nunes e Jorge Amado, bem como pela boa recepção de críticas e de vendas que 
obteve Verde Vagomundo. 
Como ressalta Dinah Silveira de Queiroz, em publicação no Correio 
Braziliense, de 30 de dezembro de 1975, o romance 
 
está aí para reforçar o prestígio literário conquistado pelo romancista [...] 
com o primeiro volume de sua trilogia, em que desbrava ele o universo 
amazônico, mostrado em toda a sua realidade, ecológica e humana, 
apoiado em inovações de estilo e linguagem com que abre picadas, quase 
revolucionárias, em regiões inexploradas de nossa literatura. 
 
A euforia em torno da boa recepção de Verde Vagomundo era tanta que 
em janeiro de 1975, já eram anunciadas a 3ª edição do primeiro romance e as 
publicações de três livros para o mesmo ano 
 
Duas dessas obras constituem o que ele denominou “a trilogia amazônica”, 
que são Minossauro e O regatão ou Cidade Flutuante (ele ainda não decidiu 
qual nome escolhe). O próximo livro, que ele lançará de cunho poético, será 
Carro dos Milagres. (Jornal do comércio, Manaus, 19 de janeiro de 1975). 
 
Apenas O Minossauro e O carro dos milagres e outros contos são 
publicados em 1975, ficando o romance cujo título será A Terceira Margem para a 
década seguinte. 
Assim como Verde Vagomundo, O Minossauro não sofreu nas edições 
seguintes modificaçõessignificativas também penando nas “correções” dos termos 
regionais. Muito semelhante esteticamente ao romance anterior na proposta do uso 
da montagem, este romance também apresenta um enredo movediço, seu narrador 
87 
 
 
culto urbano que se apresenta como um editor/compilador vincula-se fortemente ao 
tempo presente da narração, sendo um narrador não-memorialístico e que causa a 
sensação de presentidade tanto pela forma como os verbos são empregados, 
quanto pela transcrição de falas de personagens. A relação com os eventos 
contemporâneos às ações se mantém através das transcrições das notícias, mas 
estas já não chegam aos personagens nem a nós leitores por um rádio transistor 
utilizado individualmente por um personagem, mas sim pelas antenas das torres de 
transmissão que captam sinais de rádio num acampamento fluvial onde trabalham o 
narrador e outros poucos personagens. 
O romance apresenta três epígrafes. A primeira é do poema “A Torre sem 
degraus”, do livro BOITEMPO, de Carlos Drummond de Andrade48, seguindo de uma 
citação de Vladmir Nabokov, do romance Transparências (Transparent Things) e a 
terceira epígrafe, um poema do livro H’Era, de Max Martins. Cada epígrafe numa 
página separada. Aqui transcrevemos as três uma após a outra. 
 
No 12° andar da torre, o aquário de peixes fosforescentes ilumina do teto a 
poltrona de um cego de nascença. 
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE 
 
Uma fina camada de imediata realidade é espalhada sobre a matéria natural 
e artificial, e quem queira conservar-se no agora, com o agora, sobre o 
agora, deve fazer o favor de não romper essa película. Do contrário, o 
inexperiente fazedor de milagres vai dar consigo não mais caminhando 
sobre a água, mas sim afundando por entre peixes atônitos. 
VLADIMIR NABOKOV 
 
E veio Amor, este amazonas 
fibras febres 
 e mênstruo verde 
este rio enorme, paul de cobras 
onde afinal boiei e enverdeci 
amei 
 e apodreci 
 MAX MARTINS 
 
 
A primeira epígrafe vai aparecer novamente na página 85 do romance. 
Todo o poema que este verso integra é transcrito de modo intermitente por todo o 
livro. Ele confere uma certa ordem no meio do caos, ou um pouco de caos numa 
aparente ordem. Acerca disso discorremos um pouco mais no capítulo 3 (3.3). 
 
48 O poema “A torre sem degraus” foi publicado também na edição do Correio da manhã de 07 de 
julho de 1968. Segundo caderno, página 01. Ou seja, ele integrava o conhecimento comum de uma 
intelectualidade leitora urbana da época. 
88 
 
 
A segunda citação é de um romance de Nabokov publicado originalmente 
em 1972, com tradução no Brasil em 1973, feito por Primavera das Neves. O 
fragmento transcrito corresponde ipsis litteris à tradução, por isso acreditamos se 
tratar de uma transcrição da edição brasileira e não uma tradução realizada por 
Benedicto Monteiro. O romance Transparências (Transparent Things), cujo autor à 
época já era conhecido por causa do sucesso de Lolita, narra a trajetória do editor 
Hugh Person através dos pontos de vista de vários personagens. O trecho transcrito 
é do último parágrafo do primeiro capítulo e apresenta parte das reflexões que vão 
se repetir no enredo do romance de Nabokov sobre o ato de escrever, bem como a 
reflexão filosófico-metafísica que o escritor deve ter sobre sua matéria de trabalho 
que são as palavras, mas também a vida, a realidade. 
Epígrafes com reflexões sobre o ato de escrever aparecem nos três 
romances e podemos creditá-las a escolhas que interagem com uma das 
preocupações principais dos narradores urbanos: a escrita de um livro. Em A 
Terceira Margem, reflexões do tipo serão mais frequentes também no corpo do 
romance, interagindo e articulando de uma outra forma a relação interna com a 
epígrafe, normalmente considerada como elemento paratextual. 
A última epígrafe é um poema de Max Martins que além da vinculação 
temática com a região é importante ressaltar a construção poética que é peculiar ao 
estilo empregado pelo poeta. A composição espacial, fragmentária, minimalista e 
sintética, uma estrutura precária como um “esqueleto gráfico” (NUNES, 1991, p. 37). 
A presença de um poema de Max Martins como epígrafe é – de alguma forma – uma 
declaração de vinculação estética e temática. Esteticamente, o poeta paraense 
aborrece a lógica cartesiana em sua escrita, aproveita a espacialidade na 
composição, e seus poemas se apresentam com elementos mínimos, mas ricos em 
significação e em recursos de linguagem que tornam o leitor um partícipe ativo no 
processo de construção dos significados. A epígrafe vale por uma profissão de fé: 
estes romances estão para o romance realista tradicional assim como a poética de 
Max Martins está para a poesia parnasiana. 
Apesar disso, O Minossauro é o que apresenta uma proposta de 
organicidade que não encontramos em Verde Vagomundo. Não é como se o projeto 
do livro fosse se alterando no decorrer das ações. O livro tem uma proposta de 
organização e distribuição das vozes, das falas e dos discursos que é claramente 
perceptível desde o início. Na seguinte ordem: 
89 
 
 
- as anotações do narrador Paulo (anotações à guisa de diário); 
- os blocos de notícias (organizados entremeando um poema de 
Drummond – “A torre sem degraus”); 
- os pares de cartas de Zuleika e Simone (e nelas inseridas poemas, 
letras de canção, relatórios técnicos); 
- as falas (ou transcrições das falas) de Miguel (onde podemos ler três 
narrativas inteiras que serão destacadas e publicadas como contos em outro livro). 
Essas entradas aparecem no romance nesta ordem 9 vezes, à exceção 
da primeira fala de Miguel – que, considerando a disposição textual, funcionaria 
como um preâmbulo – e da última oscilação destas entradas, na qual as anotações 
do narrador Paulo é deslocada para o fim, encerrando o volume. A distribuição das 
vozes é tão equilibrada que até a quantidade de vezes que aparecem é equitativa. 
São 10 anotações do narrador Paulo, 10 blocos de notícias, 10 cartas de Zuleika, 10 
de Simone e 11 falas de Miguel. 
Esta organização aparente é destruída por dentro. 
Nas anotações do diário de Paulo, são inseridos: citações de cronistas e 
autores sobre a Amazônia, como Alberto Rangel e Raimundo Moraes; um 
depoimento de IPM; um relatório de um coronel encarregado por um IPM; 
referências ao filme 2001: Uma odisseia no espaço e ao livro de Arthur Clarke; 
citação de fragmento do romance Jogo de Amarelinha, de Cortazar; e um resumo da 
Revolta de Belterra. 
Nas cartas, são inseridos comentários sobre o noticiário acerca da 
Amazônia que estariam circulando principalmente no Rio de Janeiro; um extenso 
relatório de 7 páginas da empresa SUVABRÁS; as letras de canção “Como dois e 
dois são cinco”, de Caetano Veloso, e “Construção”, de Chico Buarque. 
Nas falas de Miguel, há narrativas inteiras que serão publicadas no livro 
de contos O carro dos milagres e outros contos: “Fim do mundo”, “Papagaio” e 
“Precipício”. As duas primeiras narrativas são narrativas de segunda mão. São 
histórias que Miguel ouviu de outra personagem, seu compadre Franquilino. No livro 
de contos, a história do “Fim do mundo” é apresentada de modo contínuo. No 
romance, ela é intermitente. Sendo (re)contada por Miguel em três momentos. 
Destes contos, apenas “Precipício” é uma narrativa contada por Miguel como uma 
experiência sua. Além destas três narrativas, pelo menos mais três poderiam ser 
transcritas como contos sem prejuízo de unidade. Seriam elas: “Uma breve história 
90 
 
 
do Cabra-da-Peste por ele mesmo”, “Aventuras com Maria Taxi” e “A Varação da 
Mata do Assombrado”. 
Já nas transcrições de notícias captadas pelo narrador urbano, o geólogo 
Paulo, em missão no meio da selva amazônica, ao contrário de uma ordem das 
notícias nacionais para as internacionais como em Verde Vagomundo, aqui as 
transcrições não obedecem nenhuma ordem. Conforme explicaremos num capítulo 
destinado a análisedeste tipo de texto nos romances, as transcrições das notícias 
sempre iniciam com a imagem de três torres de transmissão e são inseridas entre os 
versos do poema de Drummond, “A torre sem degraus”. 
A alternância destas quatro vozes, bem como a presença do poema 
drummondiano, conforme veremos no capítulo 3, contribuem para tornar por dentro 
a aparente ordenação em caos. Os vazios discursivos do poema são preenchidos 
por notícias dispostas sem nenhuma lógica aparente na escolha. 
O romance apresenta uma fragmentação formal. A estrutura da torre e da 
alternância dos discursos de modo regular, sugere uma organicidade, uma 
logicidade, ou uma feição mais visível que o romance anterior. As cartas nem 
sempre indicam um encadeamento ou sucessividade. Os registros de diário do 
narrador são na maioria das vezes circunloquiais. A tarefa de resumi-lo termina 
ficando mais simples, por não haver muitas ações em todo este material que 
elegemos como corpus. Mesmo as narrativas de Miguel, que apresentam ações com 
encadeamento lógico, discurso articulado, etc, elas não interpenetram todo este 
outro emaranhado discursivo. Ao contrário do romance anterior que se apresenta 
como um objeto em construção conforme as páginas avançam, O Minossauro já se 
apresenta como um reiterado plano de escrita, que não avança, cujo plano não 
ganha consistência, modificações não ocorrem por não ter o que mudar. Como se 
nos fossem mostrados os andaimes de uma construção que não conforma imagem 
nenhuma. A presença do poema de Drummond é bastante significativa quanto a 
isso. 
Ainda sobre o enredo do romance O Minossauro, a parte mais narrativa 
do livro é formada pelas falas do narrador caboclo Miguel dos Santos Prazeres, tanto 
que essas falas são publicadas isoladamente no quarto livro da tetralogia, e parte 
delas são publicadas como contos no livro Carro dos milagres e outros contos. 
Embora Paulo e sua equipe tenham um objetivo e Paulo escreva seu diário com 
reflexões predominantemente sobre a escrita, esta massa textual não parece formar 
91 
 
 
uma unidade autônoma legível ou publicável ou que cause interesse num público 
leitor se apresentada de forma independente. O mesmo vale, inclusive, para as 
outras partes do texto. Ou ainda para as outras partes do texto juntamente com a 
narrativa do narrador urbano. O que de fato não valeria para o primeiro romance. 
Tanto as falas e notas de diário do narrador Antonio Medeiros formariam um 
romance interessante, legível e publicável, quanto a publicação deste material com 
as outras falas seria algo viável. Não consideramos, entretanto, uma questão 
fechada, mas à guisa da interpretação que fazemos e que não demanda uma 
narrativa fechada. 
Importante destacar que Verde Vagomundo encerra como um romance 
em aberto em muitos aspectos. Se lermos o romance como a história de um 
personagem que regressa para sua cidade natal com a finalidade de vender suas 
terras e definitivamente romper seus laços com suas origens, poderíamos afirmar 
que a narrativa é malograda ou fracassada ou inacabada. Concluímos o romance 
com várias questões em aberto em relação ao personagem que assumira a narrativa 
como seu protagonista. Não sabemos, nem saberemos se o Major vende as terras, 
bem como não sabemos se ele é reinserido nas forças armadas, se é banido, se 
assimila a conjuntura da ditadura tomando partido favorável ao regime. Teria ele sido 
condenado como parte de uma rede subversiva, conforme a insânia persecutória 
dos instauradores do IPM e motivados pelas declarações de Jorge Sadala, o 
primeiro depoente? De verdade, são questões cujas respostas podem ter pouca 
importância, mas são questões relevantes exatamente para termos em mente o 
processo de fragmentação instaurado no corpo próprio do romance. Também não 
saberemos o resultado do inquérito em relação aos acusados de subversão. Os 
destinos das vidas de muitas pessoas desaguaram nesta incerteza após a 
instauração de um regime de exceção no país. De modo que não sabemos o 
resultado da investigação da morte da jovem Gersonita, ou se Pepe Rico foi 
considerado subversivo por conta de suas ideias de fazer um campo de pouso na 
região. 
A única personagem cujo destino é retomado neste segundo romance é 
Miguel dos Santos Prazeres, que nesta narrativa assume sua narração com uma 
mediação mais direta, sem o artifício de ser uma transcrição das gravações do outro 
narrador. Em termos de equidade narrativa, Miguel e o narrador urbano aqui estão 
mais nivelados, mais próximos em relevo que na narrativa anterior, na qual ele era 
92 
 
 
completamente subordinado. Este outro narrador é um geólogo da Petrobrás, 
chamado Paulo (sem sobrenome) que está coordenando uma equipe de 
pesquisadores, fazendo um levantamento sismográfico a fim de descobrir se a 
Amazônia poderia ser o “local onde a humanidade pode tentar novas experiências 
de vida?”49 (pág. 46), como indaga a personagem Zuleika numa carta enviada a 
Roberto, colega de equipe de Paulo. Miguel vai trabalhar para o grupo de 
pesquisadores desenvolvendo as mais variadas tarefas. 
A partir deste livro, Miguel dos Santos Prazeres assume o protagonismo 
da série de narrativas que continuará se desenvolvendo em A Terceira Margem. De 
certa forma, e em paralelo nos contos, bem como na novela Como se faz um 
guerrilheiro, para assumir completa autonomia em Aquele um. Romance em que são 
publicadas apenas as transcrições de suas falas. 
Se em Verde Vagomundo, podemos acompanhar a trajetória do Major 
pela cidade de Alenquer, seja pelas suas falas seja pelas falas de Miguel e assim 
perceber um enredo, um desenvolvimento das ações, como: a venda das terras, a 
festa do santo, a chegada dos militares, a morte de uma personagem na casa do 
juiz, as investigações feitas para o IPM e a queima de fogos no final da narrativa, em 
O Minossauro quase não temos um enredo visualmente perceptível. As falas de 
Miguel basicamente se referem a narrativas próprias de um narrador memorialista de 
tradição oral, ou seja, um narrador benjaminiano e que apresenta histórias 
completas que pouco se relacionam com o presente histórico das personagens que 
ouvem. As cartas dão conta do cenário nacional, mas não conferem progressão 
cronológica, inclusive por conta da ausência de datas. As notícias de jornais, como 
já dissemos, não apresentam cronologia ou organicidade e os registros de diário de 
Paulo também não tem narratividade. Os blocos, por sua vez, pouco se relacionam. 
Apenas no último bloco, tanto as cartas, quanto as falas de Miguel e as anotações 
de Paulo confluem para a temática de enchente que vai acontecer na região e que 
vai expulsar a equipe da qual Paulo faz parte. 
Basicamente a sucessão dos textos nos dão a saber que Paulo chefia 
uma equipe de pesquisadores na Amazônia com a finalidade de fazer um 
levantamento sismográfico. Ele ouve notícias num aparelho de rádio ligado a uma 
 
49 Esta mesma pergunta vai aparecer no romance seguinte. Ela parece ser uma alusão a alguns dos 
projetos criados para a região. Principalmente os projetos mirabolantes como o da construção de uma 
grande rede de lagos na América Latina. Projeto elaborado pelo Instituto Hudson, dos EUA. 
93 
 
 
torre de transmissão e recebe através de um hidro-avião cartas de sua namorada 
Simone, e de Zuleika, noiva de seu colega Roberto, que também são transcritas. As 
notícias e as cartas fazem a contextualização nacional e internacional da obra. 
Miguel trabalha para a equipe como guia e nos intervalos narra histórias para a 
equipe. 
O diário do narrador Paulo gira em torno de suas preocupações com o 
universo da criação literária. O lugar privilegiado para escrever, seu desejo de 
libertar-se das leituras prévias sobre a Amazônia, a impossibilidade de escrever, a 
“inveja da fluência de Miguel” (1975, pág. 66), o impacto que lhe causou o filme 
“2001 – Uma Odisseia no Espaço” ea decepção que foi não encontrar na obra de 
Arthur Clarke um texto que correspondesse à narrativa atordoante da sequência de 
cores e luzes da abertura do filme. 
Além desta referência intertextual, Paulo também transcreve uma citação 
do Jogo de Amarelinha, de Cortazar, e na mesma entrada de diário cita a existência 
na Amazônia do insólito real maravilhoso de que fala Alejo Capentier, no prefácio de 
O reino deste mundo. Ambas ideias, entretanto, não ganham desenvolvimento 
algum. Sua batalha com as palavras, reiteradamente citada, mal funciona como 
reflexão sobre o processo de escrita. Caem num vazio circunloquial que comunicam 
bem pouco. Sua escrita, cheia de frases curtas, orações absolutas, páginas e mais 
páginas de palavras compostas, tal como a formulação que ele dá para nomear 
Miguel: minopeixe, minopássaro, minossauro (1975, pág. 93). Paulo deve realmente 
acreditar que 
 
as palavras podem perfeitamente significar o potencial de mensagem e 
imagem que não consigo transmitir utilizando as regras convencionais. Acho 
que as palavras podem reter o mundo que aprendo na sua pureza mais 
remota. E, por estar neste mundo ainda vago, as palavras não precisam de 
relações gramaticais mais complexas, para transmitir o significado puro e 
intrínseco. Servem apenas as palavras, as palavras-duplas como as 
estrelas, ou as palavras-triplas e as palavras-múltiplas. (Monteiro, 1975, 
pág. 83). 
 
Apesar disso, ele ainda escreve, ao contrário de seu amigo Roberto que 
mal consegue escrever umas poucas linhas que envia para sua namorada num 
“raquítico envelope” (1975, pág. 93). 
Segundo Paulo, Roberto parece uma vítima do sectarismo político que 
após “ter sido arrancado de uma militância política, [...] ficou mais marginalizado pela 
94 
 
 
impropriedade do seu vocabulário”, com dificuldade de conversar com os demais 
membros da equipe, mesmo quando o assunto é futebol, ou pesca, ou caça. 
Revelando grande interesse mesmo quando o assunto é política. Aliás, a única 
confidência que Paulo ouve de Roberto é exatamente sobre isso. Sentindo mais do 
que frustrado com a pesquisa, sentindo-se cúmplice, ele reconhece que o trabalho 
de geofísico foi também uma fuga. Ele “precisava sair do Rio de Janeiro para romper 
as suas ligações de militância política” (1975, pág. 132) e que sua noiva temia que 
seu envolvimento com subversão pudesse ser descoberto. 
Também o interesse de Roberto por Miguel é ralo. Ele chegou a pensar 
que o caboclo fosse um agente secreto da polícia (pág. 93) e somente se interessou 
pelas estórias do caboclo duas vezes. Na primeira, ele se empolgou pensando que a 
queima de fogos tivesse “sido um gesto de rebeldia, uma reação heroica ou até 
mesmo uma inequívoca manifestação política” (pág. 146). Na segunda vez que se 
entusiasmou, foi quando Miguel narrou a Revolta de Belterra. Roberto imaginou um 
movimento de massas com trabalhadores armados de terçados e machados contra 
o imperialismo. Sua decepção não foi pequena quando soube que a revolta havia 
ocorrido por causa de farinha e cachaça: 
 
Os gringos tinham excluído a farinha da alimentação de todos os 
trabalhadores e proibido a venda da cachaça em toda a área de serviço. Por 
isso os caboclos se revoltaram. (MONTEIRO, pág. 148). 
 
Lemos quase 90% do romance e não parece haver qualquer indício de 
progressão de ações na narrativa, até que uma grande enchente precipita o 
andamento da narrativa e tira personagens da inércia. A equipe tem que 
 
partir para uma missão urgente: devemos salvar as máquinas e os 
equipamentos que estão fazendo os canais de colmatagem. Vamos tentar 
salvar a obra do século. A palavra urgente é absolutamente incompatível 
com esta viagem. Não sabemos se chegaremos a tempo. Mas ordens são 
ordens. A missão de resgate. O rio é imenso e as distâncias são de vento e 
água. É difícil prever a velocidade de uma casa, quanto mais várias casas, 
andando sobre as águas em enchente. Uma vila viajando sobre as balsas, 
um acampamento boiando sobre o rio. Vento, correnteza e uma chuva num 
caminho líquido. (pág. 148) 
 
Ao longe, vemos Miguel em sua canoa de itaúba e o romance encerra 
com um tom poético retomando a epígrafe de Nabokov que abre o livro. 
 
95 
 
 
Da última distância que eu vejo, a sua pequena montaria ligeira já nem 
aparece entre ele e a água. Parece que ele está apenas flutuando na sua 
condição de peixe, pássaro, jacaré e homem. Para mim, ele vai ficar, com 
suas caças e flores, com seus compadres faladores e suas cidades 
distantes, boiando entre peixes atônitos. (MONTEIRO, 1975, pág. 191) 
 
Antes de apresentarmos o enredo do romance A Terceira Margem, é 
importante uma observação sobre as cartas em O Minossauro. Elas apresentam ao 
leitor uma dimensão do que está fora do espaço geográfico-social de 500.000 onde 
estão as personagens. Como são cartas enviadas pelas companheiras de dois 
membros da equipe (Zuleika, noiva de Roberto, e Simone, namorada de Paulo), elas 
falam de amor e da saudade que elas sentem, com algum tom piegas de vez em 
quando. Mas, principalmente tocam em assuntos de extrema importância para a 
compreensão da situação política do país. São nestas cartas que estão inseridos 
outros textos como as letras de canções, poemas e o relatório de uma empresa 
(SUVABRAS). 
Uma dessas missivistas é Zuleika, noiva de Roberto. Ela é estudante de 
Ecologia no Rio de Janeiro. Desviando-se dos temas amorosos como a saudade e a 
preparação de seu enxoval de casamento, ela procura atualizar o noivo sobre o que 
acontece na capital carioca. É uma forma de situá-lo no contexto geral do sufoco 
causado pela ditadura. Ela também comenta sobre as reportagens que lê nos jornais 
e que assiste na Televisão. As cartas não têm data nem é possível termos uma noção 
do espaçamento temporal preciso ou aproximado entre uma e outra. 
É através de Zuleika que tomamos conhecimento sobre os motivos que 
teriam levado Roberto a ir para a Amazônia. Segundo ela, a transferência “foi o 
caminho certo” e acrescenta que o “temperamento e a concepção política” dele não 
permitiriam a permanência dele no Rio, onde “estaria correndo sério perigo” (pág. 
85). Em poucas palavras, dá o tom de como está a situação política nas 
universidades cariocas – o que não seria muito diferente do quadro geral das 
universidades no Brasil daquele momento: 
 
Só para você ter uma ideia: X está preso, Y parece que caiu na 
clandestinidade e Z, condenado a dez anos, está exilado não sei onde. Aqui 
na nossa faculdade, professores e alunos vigiam-se mutuamente contra a 
delação generalizada. Ninguém sabe mais quem é professor, estudante ou 
polícia (MONTEIRO, 1975, pág. 85-6). 
 
96 
 
 
Devido a este contexto, Zuleika pede desculpas a Roberto por tocar num 
assunto que ela sabe que é perigoso. Por isso, ela afirma que vai “tentar engendrar 
um código” cuja compreensão se dará após a leitura das sucessivas cartas. 
Numa das cartas, ela comenta: 
 
Sei que você está ansioso para saber notícias do movimento político. O 
movimento político está parado como diria um deputado conhecido pelas 
suas gafes. Ou simplesmente não existe, conforme informam informalmente 
os nossos cronistas bem informados. Você sabe que não devo (nem tenho) 
condições de apurar o que fazem as forças que atuam na clandestinidade. 
Os protestos, parece que se refugiaram em piadas sibilinas de raros 
humoristas, ou na letra de alguma música proibida pela censura. Parece 
que já não se discute nem nos bares nem nas esquinas. Caetano Veloso, 
diz muito bem dessa situação na sua última gozação tropicalista: TUDO 
CERTO. Creio que você já deve ter ouvido no rádio, mas, em todo caso, vai 
a letra como lembrete. 
(MONTEIRO, 1975, pág. 85-6) 
 
Na carta seguinte, uma das cartas mais longas, com quatro páginas, 
Zuleika explica o funcionamento da engrenagem do poder político e econômico 
utilizando como recurso a alegoria direta – numa tentativa de cumprir o queprometera numa carta anterior de “engendrar um código”. Nesta carta50, Zuleika 
procura descrever em linhas gerais como seria o funcionamento do “Sistema” que 
governava então o país. Segundo ela, 
 
não temos por que usar as palavras presidente, deputado, senador, 
ministro, congresso, governadores e assembleias legislativas: são palavras 
obsoletas. Partido político, então, é um verdadeiro anacronismo 
(MONTEIRO, 1975, pág. 112). 
 
Na carta seguinte, ela escreve apenas: 
Como sei que você é vidrado em Música Popular Brasileira, quero lhe avisar 
que a coisa mais importante é a música “Construção”, de Chico Buarque de 
Holanda. 
 
. Em seguida, transcreve a letra integralmente. Nós não temos as 
respostas remetidas pelos parceiros... 
 
 
 
50 Podemos perceber que a forma de disposição das cartas não necessariamente obedece uma 
sequência conforme elas tenham sido entregues, enviadas ou escritas. Nessa carta, ela se refere à 
carta em que engendraria o código como “última carta”, ou carta anterior, mas esta e a outra não 
estão dispostas em sequência. 
97 
 
 
2.4 – MARGEM SEMOVENTE (LEITURA DE A TERCEIRA MARGEM) 
 
A Terceira Margem é lançado em 1983, num momento político bem 
diferente, pós-anistia, ventos da democracia soprando e alguma esperança mais 
acentuada no ar. Entretanto, a escrita deste romance deve ter ocorrido ainda na 
década de 1970. João de Jesus Paes Loureiro51 em entrevista ao jornal O Correio 
Braziliense, publicada em 05 de fevereiro de 1980, já se refere aos três romances, 
inclusive A Terceira Margem. A entrevista é sobre o lançamento de seu livro de 
poemas Porantim. Contudo Paes Loureiro apresenta também um painel da 
paisagem artística e cultural da região da região amazônica, tecendo comentários 
sobre a produção romanesca de Márcio Souza, a poesia de Elson Farias, Luis 
Bacelar e Jorge Tafic, no Amazonas. Fala também sobre a música no paraense 
destacando Fafá de Belém, Paulo André e Rui Barata. Na literatura paraense, exalta 
a crônica de Eneida de Moraes. Ao falar do gênero romance, enaltece Dalcídio 
Jurandir e afirma que 
 
a grande explosão que houve na prosa foi com Benedicto Monteiro, autor de 
Verde Vago Mundo (sic), O dinossauro (sic) e A terceira margem. [...] O 
trabalho de Benedicto Monteiro teve como um dos principais aspectos, 
atualizar um processo de visão da região, pela literatura. 
(PAES LOUREIRO, 1980, pág. 02). 
 
É bem provável que não apenas o poeta e escritor Paes Loureiro 
conhecesse o original do romance, mas também outras pessoas do círculo 
intelectual e pessoal do autor. 
Nenhuma das ações do enredo e das notícias de jornais e revistas 
transcritas se refere a acontecimentos posteriores a 1978, bem como nenhuma 
delas se relaciona com o contexto político brasileiro da ditadura militar. A maior parte 
do romance certamente fora escrito ainda na década de 1970. 
É importante destacar que encontramos uma referência a este romance (e 
também a Aquele um, publicado em 1985) numa biografia do autor publicada em 
1982 no livro Status – 4 novelas eróticas, resultado de um concurso promovido pela 
revista STATUS, com o intuito de publicar as 4 melhores narrativas eróticas 
enviadas para o certame. Foram elas: “Movimentos automáticos”, de Amilcar Neves; 
 
51 Paes Loureiro, João de Jesus. (entrevista) Porantim: uma vião do mundo através da resistência 
amazônica. O correio braziliense. 05 de fevereiro de 1980. Pág 01. Caderno 02. 
98 
 
 
“Um favor para Heloísa”, de Marco Antonio de Menezes; “O terceiro enviado”, de 
Geraldo Lopes de Magalhães; e “Como se faz um guerrilheiro”, de Benedicto 
Monteiro. 
A revista STATUS era uma revista que tinha como objetivo ser uma 
revista diferenciada direcionada ao público masculino “sofisticado, com formação 
universitária, de classe média e alta”, apreciador de literatura, interessado em 
cultura, temas atuais e que gostava de “ler entrevistas longas” (conforme a 
reportagem da Isto é, de 25/04/2011). A revista teve como colaboradores iniciais os 
escritores Ignácio de Loyola Brandão e Paulo Francis. Consolidando seu alto nível, a 
partir de julho de 1976, a revista organizou, o “Concurso Status de Literatura Erótica 
Brasileira”, cujo primeiro vencedor foi Dalton Trevisan, com Mister Curitiba. 
A premiação confere ao autor e ao seu trabalho a continuidade de um 
reconhecimento público antes obtido pela crítica de Benedito Nunes, e de autores 
como Jorge Amado e Nélida Piñon, pela recepção nas vendas e na reedição no 
mesmo ano de Verde Vagomundo, o contrato para a publicação de sua obra pela 
editora Nova Cultura. Com a outorga, Benedicto Monteiro obtém o aval de uma 
publicação de circulação nacional e aparece ladeado por outros grandes autores. A 
narrativa de Monteiro será publicada individualmente em livro com o paratexto de 
“novela” em 1995. O início da década de 80 é marcado por mais uma outorga 
importante para sua obra. O romance Aquele um obtém o Prêmio Literário Brasília, 
de 1981. 
Ao contrário dos romances Verde Vagomundo e O Minossauro, A Terceira 
Margem apresenta algumas alterações chegando a ter um acréscimo de quatro 
páginas em Aquele um. As “correções” dos termos regionais já não foram tantas 
quanto nos romances anteriores, embora ainda ocorram52. A proposta de montagem 
segue a tendência das obras anteriores com a diferença de haver aqui uma unidade 
demarcada pelas indicações empregadas, conforme veremos (“À margem”, 
“Primeira margem”, “Segunda margem”). Esta opção torna o enredo menos 
movediço, apresenta uma visualidade mais acabada, como uma margem estática. O 
seu narrador culto urbano também se apresenta como um editor/compilador, mas já 
não mais como um compilador das falas de Miguel, que se apresentam de forma 
 
52 As diferenças entre edições e as questões de correção citadas em relação aos três romances, ou 
seja, neste subcapítulo e nos dois anteriores, não serão objeto deste trabalho, mas podem interessar 
a algum outro pesquisador para uma pesquisa genética ou sobre questões editoriais, por exemplo. 
99 
 
 
autônoma em paralelo, ou à margem de todas as demais falas. Não havendo, 
inclusive, nas falas de Miguel ou nas falas dos demais personagens, uma inter-
relação. Com exceção da última fala de Miguel. 
Também podemos afirmar que a narração é marcada pela presentidade, 
vinculada fortemente ao momento presente. Apesar da total ausência de referência 
às notícias de jornais e revistas que são transcritas. Seus temas bordejam as falas 
dos especialistas, mas nenhuma delas é citada nos debates, diálogos, ou falas dos 
narradores. Neste romance, ao contrário dos anteriores, a relação do enredo com os 
eventos contemporâneos – que agora são através de nove notícias extraídas de 
jornais e revistas – já não chegam aos personagens. Eles não comentam nenhuma 
delas. 
A Terceira Margem traz apenas esta epígrafe 
 
... A apreensão de uma linguagem real é, para o escritor, o ato literário mais 
humano. E uma parte inteira da Literatura Moderna é atravessada por 
farrapos mais ou menos precisos deste sonho: uma linguagem literária que 
alcançasse a naturalidade das linguagens sociais. 
... O escritor reconhece o imenso frescor do mundo presente, mas, para 
transmiti-lo, só dispõe de uma linguagem morta. Diante da página branca, 
no momento de escolher as palavras que devam assinalar francamente seu 
lugar na história e provar que ele lhe assume os dados, observa uma 
disparidade trágica entre o que faz e o que vê. 
Roland Barthes 
 
Os dois fragmentos foram extraídos do livro Grau Zero da Escritura. O 
primeiro, do capítulo “A escritura e a fala” e o segundo do capítulo “A utopia da 
linguagem”. Eles são outra vez transcritos no interior do romance. Essas e outras 
citações do mesmo livro de Barthes transcritas no romance aparecem destacadas e 
sublinhadas no exemplar pertencente ao autor. Às vezes, comalguma indicação à 
margem. Uma leitura destas relações escapam a esta análise mas é importante 
destacar que duas destas anotações (no último parágrafo do prefácio e no parágrafo 
inicial do capítulo “O que é a escritura?”, Benedicto Monteiro escreveu “3ª margem” 
(ver anexo, pág. 235). 
Mais ou menos como ocorre com os personagens do romance Verde 
Vagomundo no prosseguimento das narrativas, também em A Terceira Margem, 
pouco sabemos sobre o desfecho dos personagens de O Minossauro. Existem, 
entretanto, algumas diferenças significativas nestas transições. No que se refere a 
história de Miguel, enquanto na transição do primeiro para o segundo romance, o 
100 
 
 
segundo vai nos esclarecer algo sobre o desfecho do primeiro (ou seja vai explicar 
sobre o sumiço de Miguel e a interpretação atabalhoada feita num inquérito sobre a 
sua “ação subversiva”) na transição do segundo para o terceiro romances esta 
vinculação não ocorre relacionada ao desfecho do romance anterior. Em A Terceira 
Margem, há elementos esparsos, principalmente considerando a fala do narrador 
urbano, no que se refere a trajetória de Miguel, que favorecem a vinculação da 
trajetória de Miguel neste romance com o anterior ou mesmo com o primeiro 
romance, mas não se estabelece um encadeamento narrativo. Importante dizer que 
a maioria das informações sobre a trajetória de Miguel nós lemos a partir das falas 
dos demais personagens e que ele mesmo Miguel esclarece bem pouco sobre seu 
papel nos romances anteriores. Assim A Terceira Margem parece um romance mais 
independente em relação aos outros. Um tipo de estratégia de escrita que lembra 
bastante as narrativas encadeadas das trilogias gregas, mas também das trilogias 
cinematográficas como a saga intergaláctica de George Lucas. 
Neste romance, a re-instauração de Miguel como personagem não se 
realiza a partir do narrador culto urbano. Afinal, esses dois narradores não interagem 
como personagens. Como já mencionado, enquanto o narrador urbano segue no 
sentido sul-norte, ou num trajeto longitudinal, Miguel segue um trajeto leste-oeste-
leste, Belém-Manaus-Belém, ou num trajeto latitudinal. Este desencontro também 
precisa ser entendido pela constituição ontológica que cada um desses personagens 
apresenta. Enquanto Miguel é mais integrado à natureza, à paisagem local e ao 
plano do mítico, o narrador urbano, o Geógrafo, é menos integrado à natureza local, 
é mais citadino e mais distante do pensamento mundo mítico do caboclo. Apesar do 
pensamento deste narrador se constituir por uma visão integradora, como veremos 
no capítulo 3. 
Este narrador também vai se postar como narrador principal, como aquele 
que organiza ou orienta tudo que há na narrativa. Vale observar uma certa 
progressão no papel autônomo do narrador em relação ao caboclo Miguel. Em 
Verde Vagomundo, o narrador urbano é o narrador principal e as falas de Miguel se 
associando com as falas de outros personagens seja através das transcrições (como 
as falas do Tio Jozico), seja por outras formas (o discurso direto ou as transcrições 
dos depoimentos), fazem de Miguel menos que um narrador coadjuvante. Em O 
Minossauro, sua participação é maior e ele é um narrador em contracanto com o 
narrador urbano, Paulo. Já neste romance, sua narração em paralelo com a 
101 
 
 
narração do Geógrafo, apresenta uma independência bem maior. Sua narrativa 
forma um complexo narrativo completo que já fora assim publicado três anos antes – 
como vimos – e que será publicado como livro na década seguinte. Miguel ocupa um 
papel que não só ultrapassa a ideia de um narrador coadjuvante mas sim de um 
narrador principal tal qual o narrador urbano. 
Por outro lado, o narrador Geógrafo também se desprende do papel 
paralelo em relação a Miguel. Dos romances que integram a trilogia, este é o único 
cuja narração do narrador urbano poderia ser desmembrado em um romance 
fechado. Não apenas interessante e publicável como Verde Vagomundo, mas 
realmente desprendido. 
Este narrador também esboça os desfechos dos narradores dos dois 
romances anteriores. Sem apresentar informações precisas, mas apenas hipóteses. 
 
Infelizmente, quando procurei o Major Antonio para me ajudar, já era tarde. 
Depois de ter descoberto o Verde Vagomundo e Miguel dos Santos 
Prazeres, vulgo Cabra-da-peste, esse militar vendeu suas vastas 
propriedades em Alenquer e desapareceu pelo mundo. Provavelmente, foi 
tragado pela voragem de alguma cidade grande, ou absorvido pela 
engrenagem de algum Órgão de Segurança. 
Procurei então, Paulo, o geólogo, narrador do Minossauro, que foi 
confidente de Miguel, Miguel dos Santos prazeres. Paulo, depois de 
trabalhar numa equipe sismográfica de pesquisa de petróleo que atuava no 
Baixo-Amazonas, ficou enredado de tal forma na trama das palavras, e 
permanece aprisionado nas formulações de uma linguagem a tal ponto 
simplificada, que despreza completamente a sintaxe, o discurso e a lógica 
formal. Mesmo assim mostrou-me o livro concebido como forma narrativa 
mais adequada para expressar a sua visão pessoal. 
(MONTEIRO, 1983, pág. 28). 
 
Em A Terceira Margem53, o narrador é um professor de geografia, 
nomeado para chefiar um Grupo de Trabalho formado “obrigatoriamente, de um 
arquiteto, um economista, um antropólogo social, um sociólogo, um psicólogo social, 
um ecologista e um geógrafo que seria o coordenador da equipe” (1983, pág. 14). 
Exceto o geógrafo, todos os demais possuem “doutorado em Universidades da 
França, da Alemanha, da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte” 
 
53 A questão autorreferencial presente no romance e o fato de haver um personagem com uma 
linguagem regional estilizada, além do fato de ser uma obra publicada na década de 80, pode remeter 
o leitor imediatamente ao conto de Guimarães Rosa, “A Terceira Margem do rio”. Mas é preciso dizer, 
se possível com a mesma ênfase que Benedicto Monteiro afirmava e com a mesma ênfase que 
Wanda afirma, que não se trata de uma homenagem ao romancista mineiro. 
A Terceira Margem pode remeter a Roland Barthes, cujas citações pontuam o romance de Benedicto 
Monteiro. 
Este romance chegou a ser anunciado com os títulos de Cidade Flutuante ou Regatão de Comércio. 
102 
 
 
(pág. 16). Vale observar que todos esses profissionais não apresentam nome 
próprio. Eles, em bloco, representam a inocuidade da visão acadêmica sobre a 
Amazônia. O próprio narrador urbano, que sucede os anteriores também não tem 
nome próprio. Assistimos uma gradativa modificação em relação a constituição do 
narrador. Se nome primeiro romance temos um narrador com nome e sobre, Antonio 
de Medeiros, e no segundo romance temos um narrador apenas com pré-nome, 
Paulo, aqui o narrador apenas ocupa, preenche uma função. Apesar desse 
movimento de despersonificação identitária, este narrador ao contrário dos demais 
apresenta forte vinculação com uma personalidade importante da mentalidade 
intelectual paraense. O escritor, pesquisador e professor Eidorfe Moreita – conforme 
explicaremos no decorrer deste trabalho. 
O grupo de trabalho é formado por lei que teria sido elaborada por “um 
representante da oposição consentida” pelo ou ao Regime Militar. Na interpretação 
do narrador, os professores integrantes do grupo estavam numa condição não muito 
diferente do personagem Roberto, no romance O Minossauro. Uma espécie de exílio 
interno. O narrador explica, então, que: 
 
o grupo fora criado justamente para dar emprego a professores afastados 
da Universidade por motivos de segurança. [...] O grupo também seria uma 
saída para atender aos prejudicados que, embora afastados de suas 
cátedras, conservavam, por qualquer razão, forte apadrinhamento militar e 
político. 
(MONTEIRO, 1983, pág. 15) 
 
O objetivo do grupo seria o de verificar a viabilidade de se tentar uma 
nova experiência de vida para a humanidade na Amazônia e tentar responder a 
mesma pergunta quejá apareceu no romance anterior, numa das cartas que a 
personagem Zuleika envia ao seu noivo Roberto: 
 
A Amazônia é local onde a humanidade pode ainda tentar uma nova 
experiência de vida? (MONTEIRO, 1975, pág. 46) 
 
A estrutura fragmentária deste romance consiste na oscilação regular de 
textos em que sobressaem as “duas principais preocupações do narrador urbano: 
reflexões sobre a Amazônia e sobre a atividade da escrita” (PACHÊCO, 2014) 
dentro de um contexto político adverso, ou seja, dentro do contexto internacional da 
Guerra Fria e durante a Ditadura Militar brasileira. 
103 
 
 
O romance se organiza na oscilação de seções denominadas “À 
margem”, “Primeira margem” e “Segunda margem”. 
Em “À margem”, estão: 
- as diretrizes da missão do grupo (que aparece apenas no início), 
- transcrições de textos de autores que discutem o papel do escritor na 
sociedade ou o poder da escrita (Roland Barthes e Pierre Barberis, por exemplo) e 
de autores que discutem a Amazônia (Charles Wagley, sendo o mais citado e o mais 
relevante deles), sempre encerrando com comunicado do C.N.P.D.C.T.18 
- transcrições de revistas e jornais: oito transcrições. Uma no final de cada 
um dos ciclos, exceto o primeiro. São três notícias sobre desastres ambientais; duas 
notícias seguidas sobre a Nova York dos anos 1970; uma notícia sobre a corrida 
armamentista e duas notícias contíguas sobre Aquápolis (cidade flutuante no Mar da 
China). A leitura mais detalhada destas notícias é realizada no capítulo seguinte 
desta tese. 
Na seção seguinte, “Primeira Margem”, temos notas sobre a missão do 
GT-33-CF, sob o ponto de vista do coordenador do grupo, o professor de geografia 
sem nome próprio, e também os pontos de vista dos outros membros da equipe. 
Preferencialmente através de diálogos, às vezes com evidente identificação dos 
discursos dos personagens, às vezes sem que saibamos a quem atribuir cada uma 
destas falas. Nesses diálogos estabelecidos entre os especialistas, os temas são 
política, o isolamento da Amazônia e de Alenquer, em particular, os projetos do 
governo para a região, como a construção da Transamazônica e da Perimetral 
Norte. Discutem muito sobre a vida em centros urbanos, sobre as cidades e sobre a 
cidade do Futuro. Além disso, corroborando para a pulverização de ideias e jogos de 
intertextualidades, eles fazem várias referências e citações aos mais diversos 
autores (Humboldt, Peter Berger, Viana Moog, Charles Wagley) e às vezes obras 
específicas (como A Cidade Antiga, de Fustel Coulange). E também conversam 
sobre Miguel, mesmo sem tê-lo visto. 
O Geógrafo, entretanto, faz citações aspeadas sem indicação de autoria e 
assume como suas as ideias de Eidorfe Moreira sobre “a concepção geográfica da 
 
18 Provavelmente, uma referência ao CNPq que em 1972 “passou a ser o órgão central do chamado 
Sistema Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, cujo objetivo era consolidar 
programas e projetos, bem como incentivar a pesquisa no setor privado e nas chamadas economias 
mistas.” (extraído de http://cnpq.br/anos-70/). Aqui a sigla parece se referir a todos os termos que 
compõem o nome do Conselho: “Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico”, 
que até a Lei N° 6.129/74 era conhecido por “Conselho Nacional de Pesquisas”. 
104 
 
 
vida”. Citando vários trechos deste autor, modificando ou não, mas sem fazer em 
nenhum momento referência a este pesquisador e professor paraense. 
É na seção denominada “Segunda margem”, que encontramos a parte 
mais narrativa do romance. Ela se apresenta como uma espécie de diário do 
professor de Geografia. Nesta parte do livro, o narrador registra sua busca por 
Miguel, reflete sobre a linguagem, sobre o papel do geógrafo e sobre a Amazônia, 
deixando evidente suas influências principais, seja de modo explícito através de 
citações literais (como as de Barthes) seja através da alusão ou apropriação, como é 
o caso da recorrente referência ao trabalho de Eidorfe Moreira, mesmo não sendo 
citado. 
Ainda na “Segunda margem”, em itálico e separada por um duplo espaço 
temos as falas de Miguel dos Santos Prazeres, centradas nas descrições dos 
encontros amorosos que resultaram em seus filhos (narrativa que resultará, como 
afirmamos, em outro livro intitulado Como se faz um Guerrilheiro). Após oscilarem “À 
margem”, “Primeira margem” e “Segunda margem” nove vezes, temos uma última 
fala de Miguel intitulada “A Terceira Margem”. Embora as falas de Miguel escapem 
de nosso corpus de trabalho, iremos recorrer a elas sempre que uma ou outra 
explicação for necessária. A análise das citações será retomada sempre que 
necessário e a análise das notícias está no subcapítulo 3.3. 
Apesar da separação em “Primeira margem” e “Segunda margem”, os 
registros deste narrador, guardam relação entre si. Seja nos registros da “Primeira 
margem” em que há narração e que o discurso é do narrador, seja nos discursos 
direto atribuídos ao personagem Geógrafo. 
No primeiro desses nove blocos que se repetem, temos a primeira 
entrada “À margem” que serve como preâmbulo. É a única entrada “À margem” que 
não tem nem citações de autores, nem comunicado do CNPDCT, nem transcrições 
de jornais e revistas. São páginas e páginas de recomendações. Quatro com 
“Recomendações confidenciais aos membros do GT-33-CF” e duas com 
“Recomendações confidenciais complementares”. 
O texto das primeiras recomendações inicia todos os parágrafos com a 
expressão em caixa alta “NÃO ESQUECER” e se refere a uma série de 
preocupações de geopolítica internacional das décadas de 1960-70. A Amazônia 
como lugar de pesquisa para a “sobrevivência da humanidade” (MONTEIRO, 1983, 
pág. 09), inclusive por causa dos “imensos espaços vazios, pela grande extensão 
105 
 
 
de seu território e pela grande quantidade de recursos naturais [...] alvo de cobiça 
internacional mais desenfreada” (pág.09 – grifos meus). Há referência ao Grande 
Lago Amazônico cuja tentativa de efetivação pelo Hudson Instituto falhou, embora 
tenha contado com “a conivência e a colaboração das autoridades brasileiras da 
época” (pág 09). Ressalta a importância e a viabilidade do Lago como “solução pós-
guerra-nuclear”, devido ao seu tamanho, aos recursos naturais disponíveis na região 
e possibilidade de acesso através de “super-navios dos mais altos calados”. (pág. 
10), e que sua implantação “ como salvação do Hemisfério Ocidental [...] não levaria 
em conta a soberania do Brasil”. Registra-se ainda o potencial energético devido ao 
tamanho da área inundada, onde “caberiam mais de dez Portugais e mais de vinte 
ilhas do Marajó” (pág. 10) e o fato de haver nestas áreas populações ribeirinhas e 
cidades marginais cujo destino não foram observados “pelos tecnocratas que 
idealizaram o projeto” (pág. 10) que indicaram apenas a “modificação global que 
sofreria o planeta”. Por fim, a observação de que o projeto só não prosperou por 
causa da “coexistência pacífica adotada pela União Sociética e aceita pelos Estados 
Unidos da América do Norte” (MONTEIRO, 1983, pág. 11). 
As “Recomendações confidenciais complementares” são apresentadas 
em apenas um parágrafo sem a indicação de “NÃO ESQUECER”, versam sobre 
propostas a serem adotadas após a tentativa de internacionalização da Amazônia e 
da consequente exploração de seus recursos, e apresenta como possibilidades para 
resolução do problema o investimento na 
 
conivência das autoridades brasileiras que [já] puseram em execução uma 
política econômica de exportação e endividamento externo disfarçada em 
projetos faraônicos, dos quais o Poloamazônia, Jarí, Carajás, Albrás e 
Alunorte são os mais evidentes (MONTEIRO, 1983, p. 11) 
 
além da construção da Transamazônica e da Perimetral Norte. 
Parte destas recomendações são republicadas por Benedicto Monteiro 
num artigo intitulado “Ecologia ou Neocolonialismo”, em 21.05.1989. O autor lembraque em seu romance, o tema “das cobiças internacionais sobre a Amazônia [...] tem 
como pano de fundo a pretendida construção do Grande Lago com o represamento 
do Rio Amazonas nas proximidades da cidade de Óbidos”. No artigo, ele discute as 
concepções neocolonialistas dos EUA através das novas preocupações norte-
106 
 
 
americanas em relação a Amazônia e do desejo “imprescindível e urgente” que 
revelam de “tornar a nossa grande floresta como um patrimônio da humanidade”. 
Voltando as recomendações presentes no romance, é importante dizer 
que o último parágrafo desta secção apresenta a primeira reflexão do narrador. Ele 
vê como consequência destas pressões às autoridades brasileiras, a opção pública 
de investir em pavimentação, trocando “a vocação fluvial da civilização amazônica” 
por “um dispendioso sistema rodoviário” tornando a economia dependente do 
“petróleo importado” (MONTEIRO, 1983, pág. 12). As recomendações à equipe 
servem para nos apresentar um panorama das questões políticas implicadas no 
contexto deste romance, bem como da Tetralogia. 
Em A Terceira Margem, cujo eixo são as discussões a respeito da 
Amazônia, logo após as recomendações, há um prosseguimento desta 
contextualização. O primeiro registro de “Primeira margem” discorre sobre a base 
teórica que dá subsídio principal à pesquisa a ser desenvolvida na região: o trabalho 
do Antropólogo norte-americano Charles Wagley. 
 
O projeto original seria uma avaliação científica das modificações sofridas 
por uma comunidade amazônica no espaço-tempo de uma geração. Serviria 
como base os estudos do antropólogo Charles Wagley, encomendado em 
1948 pela ONU, com o patrocínio da FAO-UNESCO e do Instituto da Hiléia 
Amazônica. 
Por mais estranho e absurdo que pareça às autoridades atuais, a cidade 
real estudada pelo famoso antropólogo ainda permanece intacta, decorrido 
todo esse tempo. E, segundo as observações mais recentes, nem a 
Transamazônica e nem a Perimetral Norte parecem afetá-la nestas 
próximas décadas. 
(MONTEIRO, 1983, pág. 13) 
 
Lembrando que a “Primeira Margem” são registros do professor de 
Geografia, “uma espécie de caderno de campo com as elucubrações profissionais 
do geógrafo”, como assinalou Tania Sarmento-Pantoja (2005, pág. 230), mas com a 
predominância do diálogo entre ele e os demais especialistas. A “Primeira margem” 
atende de modo bastante evidente a afirmação de Benedicto Monteiro sobre a 
inocuidade do discurso acadêmico, scholar, sobre a região. Motivo pelo qual os 
especialistas são identificados apenas por suas profissões; não apresentam nomes 
próprios ou qualquer outra identificação que os individualize, fora uma ou outra 
citação nas suas falas que possam apontar para alinhamentos teórico-
metodológicos. Por exemplo, o Sociólogo apresenta uma leitura marxista dos meios 
107 
 
 
de produção. Ou seja, mesmo neste caso, a individualização das personagens é 
mais funcional, mais tipificadora que personalizadora. 
Este registro introdutório, ao contrário dos demais, é subdividido em seis 
partes e encerra com uma citação (Spix e Martius – 1885). Na primeira parte, após a 
indicação da base teórica do projeto, o narrador geógrafo destaca que os fatores 
geográficos foram esquecidos pelas autoridades norte-americanas e negligenciados 
por Charles Wagley em sua pesquisa. Tais fatores que são, para o geógrafo, os 
mais importantes, indicam os que “mais determinam as civilizações no seu 
desenvolvimento histórico” (MONTEIRO, 1983, pág. 14). 
O projeto denominado “GT-33-CF [...] Grupo de Trabalho para a pesquisa 
da Cidade do Futuro” (pág. 14) para além da sua base teórica e uma ou outra 
informação, repousa em muitas incógnitas, dúvidas e incertezas. O narrador destaca 
o fato de não haver informações concretas sobre os critérios de seleção dos 
cientistas ou de suas especialidades, o motivo pelo qual o Geógrafo é quem 
devesse ser o coordenador, a forma de aprovação sem restrição pelo Governo 
Militar (embora sido apresentado por um deputado da oposição consentida) e a 
hipótese de que o grupo teria sido criado 
 
para dar emprego a professores afastados da Universidade por motivos de 
segurança. Assim, o Grupo também seria uma saída para atender aos 
prejudicados que, embora afastados de suas cátedras, conservavam, por 
qualquer razão, forte apadrinhamento militar e político (MONTEIRO, 1983, 
pág. 15). 
 
Afirma ainda que entre as informações sobre o projeto contava a seguinte 
pergunta: “a Amazônia é local onde a humanidade pode ainda tentar uma nova 
experiência de vida?” que integrava “um relatório secreto que havia circulado 
sigilosamente entre os membros da Comissão de Segurança Nacional do Senado” 
(pág. 14) É irônico dizer que a pergunta consta de um relatório secreto sendo que a 
mesma teria sido publicada numa revista de grande circulação, conforme afirma 
Zuleika, numa carta enviada para seu noivo Roberto – personagens do romance O 
Minossauro (MONTEIRO, 1975, pág. 46). 
A seguir temos um debate sobre o nome do grupo. Para o Arquiteto, 
Cidade do Futuro no nome oficial da pesquisa “cheirava a ficção científica” e sugeria 
Cidade Flutuante como nome, bem como a utilização de suas pesquisas sobre as 
cidades amazônicas. A manutenção da sigla não implicaria gastos com material 
108 
 
 
gráfico e de expediente. O Geógrafo, entretanto, prefere associar ao seu “antigo e 
irrealizado projeto literário” (pág. 15). De modo que, isento de “compromissos 
formais com os militares, políticos e tecnocratas que dominam o Estado e a 
Universidade” (pág. 16) ele poderá mesmo que de modo secreto dedicar-se 
simultaneamente ao projeto oficial, ao projeto oficioso e ao projeto pessoal, ou seja, 
 
à Cidade do Futuro, do poeta-acadêmico e dos políticos, à Cidade 
Flutuante, do nosso jovem e sonhador arquiteto, e à Cidade Fictícia, do meu 
antigo e irrealizado projeto literário (MONTEIRO, 1983, pág, 16). 
 
É importante destacar que ele refere-se a si mesmo como “um simples 
professor de Geografia que nunca saiu das fronteiras amazônicas para escrever e 
defender os seus trabalhos” (pág. 16), que teria relutado a aceitar a coordenação do 
grupo tanto por não ser um Geógrafo, como regulamentava o projeto, quanto por 
não ter doutorado no exterior como todos os demais. O fato é que sua presença 
numa equipe formado por apadrinhados políticos não é realmente explicada. Esse 
seria, inclusive, um terceiro motivo para estranheza quanto sua integração ao grupo. 
Além da execução de seu projeto literário de escrever um romance, o 
Geógrafo também revela interesse em desenvolver suas teses sobre a “concepção 
geográfica da vida”. Assim, com uma região para a pesquisa, com a isenção ou 
independência como pesquisador, com um laboratório natural a sua frente, com 
recursos materiais próprios e até com cobaias humanas, ele poderia verificar a 
validade de suas “teorias sobre a concepção geográfica da vida” (pág. 16). E, se 
houvesse muitas limitações, seja por conta da equipe, seja por conta dos 
patrocinadores, ele ainda poderia 
 
gozar da mais completa liberdade de execução do meu secreto projeto 
literário. Neste, sim, poderei ter uma visão abrangente da vida, sem me 
condicionar a fórmulas, a espaços limitados e a regras oriundas de 
paisagens estabelecidas pela geometria euclidiana ou pela geografia escrita 
nos livros e fixadas nos mapas (MONTEIRO, 1983, pág. 17). 
 
Num romance tão cheio de citações, referências, transcrições, aqui 
podemos apontar uma das mais importantes para a concepção deste personagem. 
O Geógrafo, que na verdade é um professor de Geografia, apresenta como base 
para o seu pensamento geográfico as reflexões de um geógrafo paraense. A 
“concepção geográfica da vida” é o que norteia o pensamento do professor Eidorfe 
109 
 
 
Moreira, tanto num estudo publicado em livro em 1960, intitulado Ideias para uma 
concepção geográfica da vida quanto trabalhos posteriores, como Uma filosofiaem 
termos geográficos (conforme PEREIRA, 2008), em que retoma este pressuposto 
metodológico para uma disciplina nascente que era a Geografia da época. 
Na introdução do livro citado no parágrafo anterior, Moreira assim 
descreve a relação do Geógrafo com seu objeto e como deve ser sua postura com o 
objeto: 
 
O geógrafo não pode subtrair-se do seu “objeto’’ de estudo: a paisagem. Ele 
participa como qualquer ser vivente, da paisagem, e não poder anular sua 
pessoa, sua individualidade, sua subjetividade […] O geógrafo não é mero 
analista de paisagem, mas deve possuir visão e sensibilidade para 
compreendê-las como fato natural e senti-la nas suas manifestações 
humanas [...] o conhecimento geográfico é um conhecimento participante 
e de integração efetiva [...] no sentido de exigir do observador a integração 
efetiva da sua pessoa na paisagem que estuda ou descreve [...] mas sentir 
o que elas são e o que sugerem do ponto de vista humano, sentir as 
grandezas e as vicissitudes da experiência cósmica (MOREIRA,1960, 
pág.14-5 – grifos nossos). 
 
Nesta primeira parte das anotações em “Primeira margem”, e que 
funciona como introdução para as demais, assim se posiciona o Geógrafo sobre a 
postura que pretende ter diante da oportunidade que lhe caiu de repente e com a 
qual nunca sonhara. 
 
Não posso ser um mero espectador ou apenas um frio analista de 
paisagens. Tenho que ser compreensivo e participante, integrando-me 
totalmente nelas, ao mesmo tempo em que as estudo e as descrevo. Não 
posso compreender, por exemplo, a paisagem apenas como um fato 
natural, mas tenho que senti-la em toda a complexidade das implicações 
humanas. Preciso mesmo apreender, flagrar a vida, no momento de maior 
expressividade fisiográfica de sua humanidade. É que o geógrafo nunca 
pode esquecer e nem deixar de incorporar ao conteúdo humano, ainda que 
por momentos, as grandezas e vicissitudes das experiências cósmicas 
(MONTEIRO, 1983, pág, 17 – grifos nossos). 
 
Quando o personagem Geógrafo afirma que seu pensamento abarca 
também as manifestações religiosas, poéticas e inspirações literárias, especialmente 
aquelas ligadas a cidades utópicas como Shangri-la e Paraíso perdido, são as ideias 
de Eidorfe Moreira novamente expressas. Segundo Edir Augusto Dias Pereira (2008, 
pág. 168), a concepção de geografia para Eidorfe Moreira é tão ampla que poderia 
ser denominada “antropocentrismo geográfico”. 
110 
 
 
Voltando ao seu projeto literário, para encerrar esta primeira parte da 
secção, o Geógrafo afirma a necessidade de encontrar “Miguel dos Santos Prazeres, 
o personagem que procuro há tanto tempo, e que, no sentido inverso de Pirandelo, 
será o centro do meu projeto literário” (MONTEIRO, 1983, pág. 18-9). 
É importante destacar que a linguagem do narrador oscila entre um 
“pesado estilo do tecnoleto, próprio do discurso cientificista” e a “voz mais subjetiva 
do geógrafo, [...] menos rígida, na medida em que ele se refere às impressões de 
viagem ou aos elementos de um romance que intenta escrever” (SARMENTO-
PANTOJA, 2005, pág. 231). Assim nos deparamos com frases como a que encerra 
esta primeira parte, ao afirmar quais especialistas seriam úteis para ajudar “na busca 
desse caboclo-cabra-da-peste, perdido neste verde vagomundo que começo a 
desvendar” (1983, pág. 19). 
O primeiro diálogo transcrito ocorre quando estão no Hotel Tropical em 
Santarém, descrito como “Plataforma sobre o rio. Torre de cimento e vidro. Torre de 
marfim entre os rios, entre as águas e entre as duas margens” (1983, pág. 22) O 
próprio Geógrafo fala sobre a dificuldade do diálogo travado desde o início. É ele 
quem inicia falando sobre o mal-estar das cidades grandes e – diante do silêncio dos 
demais – declara abrir “oficialmente a primeira reunião do GT-33-CF” com as 
seguintes palavras: 
 
- Como vocês sabem, estamos reunidos para pesquisar aqui no Baixo-
Amazonas as experiências desta civilização fluvial prestes a se extinguir. 
Baseados nesta realidade, talvez possamos apresentar um projeto que 
ajude o homem a planejar uma cidade do futuro (MONTEIRO, 1983, pág, 
23). 
 
Como vai se repetir na maioria dos demais diálogos, a última fala é do 
Geógrafo. Nela, o professor de geografia reitera sua “concepção geográfica da vida” 
novamente através do pensamento do professor Eidorfe Moreira sobre as três 
principais ignorâncias: 
 
a ignorância das nossas exatas relações com o meio cósmico; a ignorância 
dos limites e das possibilidades ecológicas do planeta em relação ao 
homem; e a ignorância do alcance das influências desse meio sobre a 
nossa vida (MONTEIRO, 1983, pág, 26). 
 
No trabalho de Eidorfe, estas são as ignorâncias da geografia: 
 
111 
 
 
a) a ignorância de nossas exatas relações com o meio (carência de precisão 
dessas relações); b) a ignorância do alcance das influências desse meio 
sobre nossa vida; e, c) a ignorância dos limites e das possibilidades do 
Planeta em relação ao homem (MOREIRA, 1960, pág, 23-4). 
 
Nosso narrador ressalta a importância de se dissipar tais ignorâncias a fim 
de que a cidade do futuro seja baseada “na inteligência, na alegria e na 
esperança”.(MONTEIRO, 1983, pág. 26) e encerra esta parte da secção com um 
parágrafo com efeito poético: 
 
Abri a porta de vidro que dava para a praia, afastei as pesadas cortinas e 
deixei entrar o sol e o vento. As cores e os sons dos dois rios que corriam 
em frente invadiram a sala abafando o eco das últimas palavras 
(MONTEIRO, 1983, pág. 26-7). 
 
A “Segunda margem”, no primeiro bloco, também se apresenta como uma 
introdução. É o início da busca pelo personagem Miguel dos Santos Prazeres. Os 
primeiros passos foram através dos narradores dos outros dois romances. Major 
Antonio já havia vendido as propriedades e ido embora. Talvez “tragado pela 
voragem de alguma cidade grande, ou absorvido pela engrenagem de algum Órgão 
de Segurança” (MONTEIRO, 1983, pág. 28). Já Paulo, o geólogo da Petrobrás, teria 
lhe mostrado um esboço do livro que escrevera com 
 
páginas inteiras de verbos, palavras-verbos, verbos-palavras, palavras-
cores, cores-palavras, palavras-sons, palavras-espaços, palavras-tempo, 
palavras-pessoas, palavras-objetos, objetos-palavras, palavras-sentimentos, 
sentimentos-palavras e palavras-movimento (MONTEIRO, 1983, pág. 28). 
 
A breve resenha que faz do livro que Paulo lhe mostra parece deter-se 
apenas nesta parte de O Minossauro que contém as paletas-de-cores. O Geógrafo 
resvala seu pensamento sobre o ser-palavra numa indefinição entre as concepções 
de linguagem presentes principalmente em Roland Barthes, Foucault e Heidegger. 
Nenhum deles citado nominalmente, mas a referência a Barthes ecoa as marcações 
feitas pelo autor em seu exemplar do livro Grau zero da escritura. De Heidegger 
encontramos no último parágrafo desta seção a transcrição de uma citação entre 
aspas, mas sem o nome do autor. “A palavra enquanto sentido sensível mede o 
espaço que se estende entre a terra e o céu” (Heidegger citado por Monteiro, 1983, 
112 
 
 
pág. 49)54. Essas reflexões de filosofia da linguagem direcionam-se para a busca 
mítica de Miguel como “o ser-palavra, que daria substância à sua escrita, vida à sua 
narrativa e unidade às várias formas de pensamento, parece que ainda continua 
incógnito no fundo de Deus” (pág. 28). 
Ainda na breve resenha, o Geógrafo comenta que Paulo mesmo usando 
uma “linguagem que quase desprezava a sintaxe [...] conseguiu dizer algumas 
coisas sobre Miguel” (pag. 29), como a confirmação do apelido, o episódio da 
queima de fogos que resultou na derrota das tropas do Exército e da Polícia, do local 
onde vira Miguel pela última vez, numa canoa pequena após a grande cheia do 
desfecho do romance anterior, e a certeza de Miguel ainda estar vivo, pois 
 
Miguel é meio peixe e meio pássaro, não pode morrer afogado pela água e 
nem asfixiado pela amplidão de tanto céu. Miguel é meio homem e meio 
sáurio, também nãodeve ter morrido atolado nas lamas do igapó 
(MONTEIRO, 1983, pág. 29). 
 
Somada à busca mítica, a busca empírica prossegue. Na secção da 
“Primeira margem”, no segundo bloco, logo após uma breve contextualização que 
indica uma progressão narrativa, temos o diálogo travado entre os especialistas 
dentro de um barco de linha indo de Santarém para Alenquer. Inicialmente eles 
falam sobre as cidades, as mudanças nas concepções urbanas, o problema do 
planejamento, a integração com a natureza. Esta secção é logo após uma notícia 
sobre uma catástrofe ambiental em Seveso, Itália, ocorrida em 10 de julho de 1976. 
Todas as notícias não registram as datas. E os diálogos entre os especialistas em 
nenhum momento se referem às notícias transcritas. Por este motivo, não iremos 
nos reportar doravante a elas, deixando a análise de todas essas notícias para o 
subcapítulo 3.3. 
Neste diálogo, os verba dicenti são indicados apenas ocasionalmente. De 
modo que a atribuição do discurso direto a um ou outro personagem não é possível. 
A fala seguinte sobre a integração com a natureza, embora não identifique, é 
 
54 A citação é retirada do seguinte contexto: 
“Uma palavra da linguagem soa e ressoa na voz, é clara e brilhante nos caracteres. Voz e escrita são, 
de fato, sensíveis, no entanto sempre dentro deles um sentido (Sinn) é tido e aparece. Enquanto 
sentido sensível, a palavra atravessa a expansão da deriva entre terra e céu. A linguagem 
mantém aberto o reino no qual o homem, sobre a terra e sob o céu, habita a casa do mundo” 
Heidegger, ‘Hebel – Friend of the House’, trad. Bruce V. Foltz and Michael Heim, em Contemporary 
German Philosophy 3 (1983), p.100-1. 
113 
 
 
possível atribui-la ao Geógrafo seja pela ênfase no fator geográfico, seja pela 
semelhança ao pensamento de Eidorfe Moreira. 
 
- Mais do que isso, a cidade precisa ser reintegrada à natureza, coexistindo 
com ela, através do aproveitamento de todos os fatores geográficos 
(MONTEIRO, 1983, pág. 45). 
 
Para o geógrafo paraense, nos estudos geográficos, a relação entre 
homem e natureza, sociedade e natureza, geógrafo e seu objeto de pesquisa (a 
paisagem) devem enfatizar o conhecimento participante e a integração efetiva 
(MOREIRA, 1960, pág. 14). 
No prosseguimento do diálogo, ao falarem sobre o planejamento urbano, 
sobre as utopias urbanas, “as ideologias altivas dos grandes arquitetos que querem 
que suas construções sejam entendidas como uma espécie de solução para a 
humanização” (MONTEIRO, 1983, pág. 46), até o diálogo desembocar em Brasília 
que é interpretada como uma cidade que isolou “completamente o povo do governo” 
(pág. 47). Segundo este personagem, que não conseguimos identificar, teria sido 
este isolamento o responsável pela deposição de João Goulart, que na capital 
estava “desligado de suas bases populares”, tendo se tornado “presa fácil de sua 
própria classe latifundiária”, com isto tendo sido “deposto pelos militares” colocando 
o país num “hiato histórico” em que estavam vivendo. Ainda para este personagem, 
“os militares que governaram o País, todos se adaptaram a Brasília, porque sempre 
fizeram questão de dispensar e desprezar o apoio espontâneo das manifestações 
populares” (pág. 47). O mesmo personagem demonstra ser complacente com o 
“apesar de Ditador, nacionalista e populista” Getúlio Vargas. 
Num corte brusco, outro personagem faz o diálogo retornar para as 
reflexões sobre Brasília e as cidades do futuro. O Arquiteto não vê potencial de 
influência internacional da pesquisa que eles fazem na Amazônia sobre o tema. Já 
Geógrafo encerra o diálogo retomando às referências ao pensamento de Eidorfe 
Moreira sobre a concepção geográfica no debate acerca do progresso destrutivo e 
fecha com uma citação aspeada de Humboldt, que está presente no estudo de 
Eidorfe (HUMBOLDT, 1846 apud MOREIRA, 1960, pág. 26). 
 
- E eu, como geógrafo, preferiria que nossas pesquisas fossem sobre uma 
cidade fictícia, já que, do ponto de vista de uma concepção geográfica, 
nenhuma cidade do mundo foi construída sem a consequente e completa 
114 
 
 
destruição da natureza. Pode ser que agora, com a experiência que 
sofremos, com as lições que aprendemos e com o imenso cabedal de 
conhecimentos recolhidos através de tantos séculos, possamos 
compreender a lição de Humboldt: “A natureza é o reino da liberdade e, 
para escrever vivamente as concepções e as alegrias que o sentimento 
profundo da natureza faz nascer, será preciso dar também ao pensamento 
uma expressão livre e nobre, em harmonia com a grandeza e a majestade 
da criação”55 (MONTEIRO, 1983, pág 48). 
 
O final desta secção retoma o tom poético já indicado anteriormente. Após 
um misto de narração da travessia, de reflexão sobre sua busca e imaginar como 
seria o diálogo com Miguel, lemos mais um trecho de enleio poético do narrador: 
 
O motor, trepidando levemente, embalava o sono, enquanto o “pau-de-
arara-flutuante” singrava o igarapé estreito, furando a noite e correndo entre 
as duas margens (MONTEIRO, 1983, pág 50). 
 
Na “Segunda margem” (segunda entrada), ele narra sua chegada a 
Alenquer pelo igarapé estreito e sinuoso e faz referência a origem mítica da cidade; 
o milagre ou promessa já apresentados em Verde Vagomundo. Destaca seu ponto 
de vista geográfico, novamente conforme o pensamento de Eidorfe Moreira de 
integração entre os elementos da paisagem. Em sua interpretação, o igarapé “é a 
própria razão de ser da cidade e do povo”, sendo 
 
tão necessário, tão importante que, se ele secasse de repente, a cidade não 
existiria no espaço. 
Percebe-se que a cidade existe porque existe o igarapé. E o igarapé, de ilha 
em ilha, de furo em furo, de lago em lado, transpõe a imensidade da mata e 
liga a cidade ao destino de um outro rio bem distante (MONTEIRO, 1983, 
pág. 50). 
 
Sua reflexão sobre a cidade de Alenquer novamente resvala num tom 
poética. A cidade é descrita como algo que “brota da terra como puro produto da 
natureza” (pág. 52) cuja pureza e harmonia com a paisagem vem se perdendo em 
“labirintos de pedras” que isola pessoas e coisas “da natureza dentro da natureza”. 
(pág. 53). É neste espaço que se desimacula que a busca por Miguel prossegue 
mas as respostas sobre seu paradeiro são desencontradas: “Falam que ele ainda 
está vivo e anda num regatão de comércio, alguns asseveram” (MONTEIRO, 1983, 
pág. 51). 
 
55 Humboldt, A. von. Cosmos. Vol. II. Paris, Gide et J. Baudry, 1946. 
115 
 
 
No registro seguinte da “Primeira Margem” (o terceiro), são expostas as 
opiniões dos especialistas sobre a fundação da cidade de Alenquer. A maioria das 
opiniões são negativas e procuraram replicar a mítica religiosa preponderante. O 
Psicólogo Social especula se, para além das motivações religiosas e de ordem 
sentimental, os portugueses não teriam construído a cidade naquele local por 
considerá-lo um ponto estratégico onde estariam “protegidos dos aventureiros e 
exploradores estrangeiros e também dos ataques traiçoeiros dos índios” 
(MONTEIRO, 1983, pág. 62). 
Importante destacar a opinião do Sociólogo, que apresenta uma leitura 
marxista do mundo, despojado de uma visão prioritariamente religiosa ou emotiva, 
bem como diferindo das razões estratégicas de defesa apontadas pelo Psicólogo 
Social. O Sociólogo entende que a principal razão para a fundação de Alenquer 
naquele local foi o comércio. Segundo ele, 
 
A fundação da cidade data de uma época em que toda a região vivia quase 
que exclusivamente da atividade mercantilista. Como o comércio se fazia 
através de matérias-primas, a atividade do povo e a construção da cidade 
foram moldadas pela necessidade daquilo que se convencionou chamar 
pomposamente de indústria extrativa. [...] Se a cidade ficou assim 
imprensada e exprimida é porque a tal indústria extrativa é essencialmente 
latifundiária e predatória, precisa de imensa áreas de terras para realizar oslucros de comércio. Quem imprensou e espremeu a cidade não foi nem a 
religião, nem o medo, mas um bicho de sete cabeças que se chama 
latifúndio. E tanto a sociedade como o comércio, e como a própria economia 
de subsistência, são meras consequências dessa origem (MONTEIRO, 
1983, pág. 63-64). 
 
O Geógrafo procura um ponto de equilíbrio nas falas e também uma 
tentativa de não deixar que os conhecimentos dos especialistas expostos de modo 
disperso. 
 
O Geógrafo: 
- Diz Peter Berger, que os horizontes do mundo são determinados por 
cartógrafos remotos56. O povo desta cidade, possivelmente, não pôde 
escapar às limitações desses horizontes, nos quais permanece encarcerada 
pelas próprias coordenadas geográficas. Não esqueçamos de que nós não 
devemos ter ideias preconcebidas. Estamos aqui para pesquisar, embora a 
aparência atual da cidade nos decepcione. Acho que temos que aprender 
muito com este povo. Principalmente o seu relacionamento positivo ou 
negativo com a natureza. Temos que nos despir de todos os preconceitos e 
de todas as teorias apriorísticas. Vamos aproveitar esta oportunidade para 
 
56 “Os horizontes do mundo, da maneira como os adultos o definem, são determinados pelas 
coordenadas de cartógrafos remotos”. BERGER, Peter. L. Perspectivas sociológicas: uma visão 
humanística. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1976. (pág. 79) 
116 
 
 
ouvir, investigar e questionar. Sei que as conclusões serão difíceis. E, por 
mim, ao me defrontar com estas casas enfileiradas na margem deste 
igarapé estreito, quero abstrair que estou entrando numa cidade de quase 
cem anos, para colher somente a experiência de um povo que foi explorado 
por todos os meios de comércio e política. Mas que pôde subsistir até hoje, 
à custa exclusivamente da natureza (MONTEIRO, 1983, pág. 64). 
 
No registro seguinte da “Segunda margem” (terceiro bloco), com os 
personagens já instalados em Alenquer, o Geógrafo se sente contemplado por não 
encontrar Miguel na cidade que já perdeu suas características originais, já perdeu 
sua pureza e inocência. A população “já não tem mais o ar lavado de água limpa. 
Nem o jogar dos braços como quem rema. Nem o pisar em falso de quem 
acompanha a canoa no balanço” (pág. 65). Até as atividades desenvolvidas pelo 
caboclo, “seus préstimos de mateiro, balateiro e castanheiro já não são mais 
solicitados e reconhecidos” (pág. 66) devido a devastação e a pecuária. 
Entre a versões diversas sobre Miguel, existem aquelas que falam sobre 
sua existência na época do golpe de 1964: 
 
Um golpe militar havido no País há muito tempo. Falam também de um 
Coronel, do contingente militar, das prisões havidas, de um Major do 
Exército, filho da cidade, que tinha vindo pra vender as suas heranças. E 
alguns, até, acreditam que Miguel talvez estivesse mesmo envolvido com 
subversivos. Os que acreditam na existência de Miguel, mas não se 
lembram do golpe, o golpe havido há muito tempo, acham que Miguel foi 
salvo por puro milagre, no momento em que pagava uma promessa e o céu 
se incendiou com fogos de artifício (MONTEIRO, 1983, pág. 67). 
 
A referência ao golpe de 1964 como algo ocorrido “há muito tempo” ou 
como algo de que os populares já não se lembram revela a displicência dos 
populares em relação a temáticas nacionais. Isto tanto pode indicar a desimportância 
que eles atribuem ao evento, quanto ao silêncio imperativo sobre o mesmo. 
No quarto bloco da “Primeira margem”, temos novo diálogo entre os 
especialistas transcrito apenas através de travessões. Sem a indicação de a quem 
pertence cada uma das falas. Exceto uma. Em quatro páginas, os especialistas 
falam sobre a construção da Transamazônica, a intenção de integração nacional 
que, caso tenha dado certo, não teve êxito em relação às cidades do leito esquerdo 
do rio Amazonas, cuja integração entre si é feita com a Perimetral Norte, uma 
estrada que liga “o nada ao nada” (pág. 81). Alenquer, sendo uma destas cidades à 
esquerda do Amazonas e isolada pelo “obstáculo quase intransponível, que é a 
calha do rio Amazonas” (pág. 81), é o assunto seguinte. A cidade é vista como 
117 
 
 
isolada ou ligada ao mundo apenas pelo sinuoso e estreito igarapé e sem alterações 
econômicas (“o nível de produção e exportação e o nível de consumo e importação, 
permanecem o mesmo”, conforme um dos especialistas ouvira do Agente de 
Estatística, pág. 83). Apesar disso, eles afirmam que ela tem sofrido algumas 
mudanças a ponto de não restar muito de “uma comunidade amazônica típica” (pág. 
83) e apontam a presença de automóveis e a elevação da violência urbana, após a 
abertura “do tráfego rodoviário com cidades vizinhas” como indícios destas 
mudanças. Para alento, “pelo menos na paisagem ainda encontramos uma cidade 
fluvial, onde ainda vegeta uma população ribeirinha” (pág. 83). Há ainda um curto 
diálogo sobre arquivo, história e memória da cidade. 
 
- Parece que a cidade não tem arquivo. 
- Nem memória. 
- Nem mesmo história. 
- A história que existe é da terra. 
- E das famílias que possuíam a terra e a água. 
- É sim, existiram famílias que possuíam rios e lagos. 
(MONTEIRO, 1983, pág. 83) 
 
Tal como no diálogo acima, todas as opiniões apresentadas 
anteriormente, bem como as transcritas entre aspas constam num diálogo sem 
indicação de qual especialista tenha dito o que. A ausência de alguma indicação 
precisa indica que tais especialistas, todos sem nome próprio, expressam uma visão 
estereotipada, na maioria das vezes negativa, algumas com algum preconceito, e de 
certo modo artificial e homogênea sobre a cidade de Alenquer, por extensão de 
qualquer cidade ribeirinha interiorana da Amazônia. Ou, no limite, destoante do que 
esperavam tendo em mente que a diretriz inicial do projeto era o texto de Charles 
Wagley. Daí, a referência a “uma comunidade amazônica típica” (pág. 83) ser 
importante, por remeter ao trabalho do antropólogo americano Uma Comunidade 
Amazônica (Amazon Town). 
Sobre as citações de Wagley abarcadas pelo romance, Tania Sarmento-
Pantoja afirma que todas 
 
fazem parte da introdução do estudo realizado pelo antropólogo, no qual ele 
ainda defende uma abordagem [que] deveria considerar a disponibilidade 
de recursos técnicos, a noção de “boa vida” do homem amazônida, as 
formas locais de convivência com instituições universais, as relações 
políticas e econômicas com o resto do mundo (MONTEIRO, 1983, pág. 83). 
 
118 
 
 
Apenas quando a fala é do Geógrafo temos uma indicação através de 
verbum dicendi de que se trata dele. A fala do Geógrafo, coordenador da equipe 
costuma ser a última transcrita, 
 
_ Pois eu, como geógrafo, não posso me queixar da qualidade do material 
que me oferece a natureza. Toda a história deste povo, seus alegrias e 
tristezas, suas vitórias e derrotas, suas esperanças e fracassos, sua vida e 
sua morte, tudo está escrito com as palavras da terra, das matas e das 
águas. As matas, os campos, os rios, as corredeiras, as veredas e as 
estradas semi-abertas, falam dessa convivência e dessa luta pela vida. Já 
estou até achando que o tempo que nos deram para as nossas pesquisas é 
muito curto para aprendermos as inúmeras lições de vida que estão prestes 
a desaparecer com este povo (MONTEIRO, 1983. pág. 84). 
 
No quarto bloco da “Segunda margem”, lemos o registro de diário da 
busca por Miguel. Nesta busca, o Geógrafo aponta ainda um paralelo entre a forma 
como o personagem é visto na cidade e quando o Geógrafo está distante da cidade. 
A busca ocorre pela água, em viagens de barco, com a finalidade de “reconstruir os 
caminhos de Miguel”, cuja presença física se torna mais evidente quanto mais 
distante o Geógrafo está da cidade e os caboclos com “um riso aberto, um olhar 
desconfiado, um jeito perdido entre a dúvida e a certeza, põem vertigem nas tramas 
das palavras” e apresentam versões as mais variadas para o destino de Miguel. 
Quanto mais longe da cidade, mais Miguel parece(-lhe)integrado na paisagem e as 
falas das pessoas sobre ele se referem aos seus préstimos e trabalhos, seja como 
mateiro, balateiro ou pirotécnico (atividades que aparece desempenhando em Verde 
Vagomundo) seja pelos trabalhos que deve estar desenvolvendo nas viagens entre 
Belém e Manaus: contra-mestre, mestre, mestre-cozinheiro, mestre-piloto... (que se 
referem a atividades desempenhadas em A Terceira Margem). O narrador afirma 
que a cidade, entretanto, lhe dá 
 
limites e contornos da sua existência, molda a sua figura através dos fatos. 
Ele existe porque é o que tira o maior saldo; porque ele foi capaz de gastar 
tudo o que tinha, fazendo fogos para pagar uma promessa; e sozinho com 
esses fogos de artifício [86] derrotou um coronel e um contingente. Ele 
existe também porque fez muitos filhos em mulheres das mais diversas 
raças. Ele existe porque foi, sobretudo, um bom cabra-da-peste 
(MONTEIRO, pág. 1983, pág. 86). 
 
No bloco seguinte da “Primeira margem”, novamente temos um diálogo 
entre os especialistas. Desta vez, antes do discurso direto de cada um deles, há 
uma indicação de a quem pertence a fala e assim os temas mais variados vem á 
119 
 
 
tona. O Psicólogo Social vai se referir ao “desenvolvimento não controlado das 
capitais” e a violência jovem urbana como resultado de “transtornos de puberdade” 
(pág. 99). O Sociólogo apresenta pontos positivos do desenvolvimento urbano, 
principalmente na contraposição da competição braçal com a disputa intelectual e 
discorre um pouco sobre “as cidades são espaços políticos” (pág. 99), ressaltando 
uma questão socialista-marxista sobre “o direito urbano de propriedade da terra”. 
Sua preocupação com um espaço urbano está relacionada com o direito a 
propriedade privada e a substituição do “monstro do latifúndio” nas cidades como 
Alenquer pela “especulação imobiliária” que ocorre nas grandes cidades e que pode 
vir a ocorrer na cidade que eles estão planejando. O Antropólogo Social, sem muitas 
explicações, vê o “tabu ideológico” como impasse para que seja eliminado o 
problema “da distribuição arbitrária da posse da terra”. O Ecologista evoca um 
questionamento de Mumford sobre a cidade como espaço para pessoas de idades 
diversas. 
A seguir o diálogo se volta para um problema que parecia estar num 
centro do debate urbanístico: o planejamento urbano de cidades compactas ou 
cidades dispersas. O Arquiteto é favorável a “tecnologia da dispersão” que é, 
inclusive a base para seu projeto para a edificação de uma cidade flutuante. O 
pensamento deste personagem aparece explicado nas cartas de Zuleika enviadas 
para Roberto no romance anterior. O Arquiteto teria criado uma cidade com uma 
infra-estrutura-móvel para a Amazônia, baseada “nas palafitas do caboclo das 
várzeas e nas vitórias-régias” (MONTEIRO, 1975, pág, 73). Com a “tecnologia da 
dispersão”, explica Zuleika o projeto do Arquiteto, a civilização (sic) poderá chegar “à 
Amazônia de maneira móvel, sem raízes que possam destruí-la”. (MONTEIRO, 
1975, pág. 72)57. A ideia, enfim, do Arquiteto é bastante utópica – como também 
sugere Zuleika na carta citada – a ponto de ser risível em alguns detalhes tamanho 
grau de imaginação scifi e de ênfase no exotismo da região: 
 
Se construíssemos cidades flutuantes, além de termos soluções adequadas 
ao meio ambiente amazônico, elas motivariam milhares de pessoas do 
mundo inteiro para, sem perder o conforto do avião e do telefone, virem 
conviver com um animal, uma árvore ou um pôr-do-sol no mesmo espaço e 
no mesmo tempo (Monteiro, pág. 1983, pág. 86). 
 
 
57 Mas também em MONTEIRO, 1983, pág. 102 - o fato de fragmento idêntico aparecer na carta e 
nas falas do Arquiteto embasam a ideia de que seja o mesmo personagem). 
120 
 
 
O Arquiteto, após uma fala do Antropólogo Social sobre as motivações 
para participar da equipe e encerrando em uma crítica à formação dos arquitetos, 
também aponta problemas no programa do curso e na formação universitária do 
arquiteto, resvala contra a reforma universitária em curso na época, resenha suas 
leituras de autores estrangeiros que mal citam e/ou sequer compreendem o Brasil. 
Por fim, uma avaliação crítica sobre Brasília como uma cidade projetada e 
construída para o futuro baseada nos estudos de Le Corbusier e desenhada por 
Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Para ele, cidades como Brasília parecem muito mais 
a personificação do grande Ego do arquiteto e poderão transmitir aos pósteros as 
maravilhas e proezas do talento de seus geniais criadores. Mas, quanto à 
capacidade funcional e à tentativa de proporcionar uma vida social adequada ao 
homem, ele vê que “existem e existirão muitas restrições a respeito” (MONTEIRO, 
1983, pág. 104). 
A última fala é do Geógrafo. Ele, ao se referir a “tecnologia da dispersão” 
no contexto amazônico, confessa-se “entusiasmado com a idéia da cidade flutuante; 
ela pode redimensionar essa questão de espaço e distância”. Em sua fala ele 
também se refere a uma 
 
frase de Viana Moog, já citada por mim em conferência que fiz na 
Universidade: “Numa região em que a natureza se concentrara para resistir, 
o homem se dispersara para agredi-la” (Monteiro, pág. 1983, pág. 104). 
 
A frase de Clodomir Viana Moog58 é novamente uma referência às leituras 
de Eidorfe Moreira em seus trabalhos publicados na década de 1960. Como afirma 
Geraldo Mártires Coelho, no final dos 1950, quando já havia publicado trabalhos 
como Amazônia, o conceito e a paisagem, Eidorfe Moreira já apresentava “um 
universo bibliográfico expressivo” que lhe possibilitava um suporte epistemológico 
interdisciplinar amplo nas áreas da literatura, da história, da geografia, além de obras 
de “interesse antropológico, histórico e geográfico” (2016, pág. 297) 
 
58 A citação é do capítulo 08 do romance Um rio imita o Reno. O fragmento faz parte das reflexões do 
personagem Geraldo, um jovem amazonense envolvido num conflito étnico por estar apaixonado por 
uma jovem alemã. No fragmento, ele relembra as descrições feitas em cartas que enviava para seu 
nas quais descrevia as dificuldades de se realizar qualquer empreendimento comercial ou financeiro 
no interior da Amazônia. De certa forma, este personagem reflete uma ego-autoria do próprio Vianna 
Moog, que era gaúcho, mas viveu parte de sua vida na Amazônia como punição por sua participação 
na revolução de 1932. 
121 
 
 
Pelo que lemos até aqui, o Geógrafo, como narrador e como personagem 
neste romance, se apresenta de duas formas diferentes. Em ambas, sua 
conformação é um entrecruzamento de muitas referências epistemológicas (literárias 
e de outras áreas do saber) basicamente referentes a 1) um discurso paralelo ao 
oficial, através do contraditório que estabelece com Charles Wagley que é o 
discurso-base do projeto para a Cidade do Futuro; 2) um discurso com uma 
concepção de linguagem vinculada principalmente a Roland Barthes, daí a 
poeticidade, por exemplo; e 3) o discurso que se aproxima explicitamente a 
concepção geográfica da vida, de Eidorfe Moreira (embora não citado em momento 
algum). Enquanto Barthes predomina na “Segunda margem”, na busca por Miguel, o 
ser-palavra, Eidorfe Moreira predomina nas falas em discurso direto proferidas pelo 
Geógrafo para o grupo de especialistas. Já o contra-discurso a Charles Wagley 
atravessa sub-repticiamente e de modo indistinto as duas falas. 
No bloco sexto da “Segunda margem”, o Sociólogo apresenta uma 
reflexão sobre o papel do profissional da sociologia na sociedade. Depois faz críticas 
a políticas como a do Banco Nacional de Habitação. Em seguida, há um extenso 
diálogo com o Geógrafo e Sociólogo sobre um processo contra Miguel. Notamos, 
então que o projeto do Geógrafo de escrita de um romance, já não é mais um 
segredo total. O Sociólogo afirma ter encontrado nos arquivos da polícia um 
processo contra Miguel por “Filipeta” – um golpe na praça, nocomércio. Neste 
diálogo encontramos, então, uma outra versão para os fatos que ocorreram com 
Miguel no primeiro romance. 
O Sociólogo afirma ao Geógrafo que encontrou nos arquivos da 
Delegacia de Polícia “uma pista muito interessante desse teu personagem” (pág. 
120): um processo volumoso contra Miguel. O Geógrafo indaga se seria o I.P.M. 
relatado em Verde Vagomundo, mas o Sociólogo esclarece que se trata de outro 
processo provavelmente originado por causa das acusações feitas no I.P.M. 
Segundo o Sociólogo, 
 
o processo começa entre dois comerciantes que se acusam mutuamente e 
versa sobre compra e venda de pólvora e material explosivo. Um acusa o 
outro de ter vendido a Miguel dos Santos Prazeres material para a 
fabricação de foguetes, muito além da cota autorizada pela Polícia. É um 
processo confuso e há constantes referências a atividades subversivas 
apuradas por um I.P.M. (MONTEIRO, 1983, pág. 121). 
 
122 
 
 
O Sociólogo afirma que encontrou “a prova histórica da existência física” 
de Miguel, que o nome deste se encontra escrito completo e com todos os apelidos, 
mas que não existe nenhuma assinatura. Miguel, lembra o Geógrafo, não permitia 
seu nome escrito em lugar algum, apenas permitiu que registrassem no panfleto da 
festa de Santo Antonio. O processo teria corrido à revelia e todas as pessoas 
desejavam que ele fosse capturado a fim de quitar dívidas por ele contraídas. O 
Sociólogo supõe que Miguel pagaria a dívida com trabalho de colheita. Supõe ainda 
que Miguel teria vendido e recebido “adiantado todo o seu trabalho de colheita numa 
safra” (pág. 122) e esclarece: 
 
Eu acho. Não sei se estou enganado. Mas, para uma sociedade que vivia 
quase que exclusivamente da indústria extrativa, Miguel praticou naquela 
época, sozinho e com muita astúcia, o golpe da “migueleta”, ou “filipeta” ou 
ainda “simoneta”, só que às avessas. Como se diz hoje, acho que Miguel 
aplicou na praça de Alenquer o “conto da safra”, isto é, “deu um golpe” no 
comércio. E o mais interessante é que ele vendeu o seu próprio trabalho, o 
seu trabalho de uma safra inteira, a todos os comerciantes da cidade, ao 
mesmo tempo [...] [Miguel] tramou negociar e receber antecipadamente, em 
mercadoria, todo o pagamento pelo trabalho que ele prestaria durante uma 
safra de castanhal (MONTEIRO, 1983, pág. 122-123). 
 
Para o Sociólogo, o plano de Miguel deu certo porque “a cada 
comerciante Miguel pediu segredo” a fim de que seu patrão não soubesse, mas 
também – como é comum no golpe da “migueleta” – por causa da ambição dos 
comerciantes, os quais avaliavam que quanto mais vendesse a Miguel maior seria a 
safra que ele traria. Além disso, tinha a promessa feita para Santo Antonio. 
 
Justificava-se plenamente a quantidade de material explosivo pleiteado por 
ele como mercadoria em adiantamento pelo seu trabalho. Com essa história 
ele enganou praticamente a todos os comerciantes da praça – e de todos 
obteve o material necessário para fabricar todos os foguetes e fogos de 
artifício que, na opinião das autoridades militares, daria para incendiar toda 
a cidade e até o município (MONTEIRO, 1983, pág. 124). 
 
Ainda nesta seção, nos ciclos 7, 8 e 9, assistimos a instauração de um 
verdadeiro processo kafkiano, como o próprio Geógrafo avalia (pág. 157) e sobre o 
qual nos deteremos nas páginas mais adiante. 
123 
 
 
 
 
CAPÍTULO 03 – Pegadas de curupira, cantos de uirapuru 
 
 
 
 
 
Cantos de pássaros, lendas de botos, mitos de cobras grandes, histórias 
de curupira, além de águas, sol e calor, povoam o imaginário e o cotidiano na região 
amazônica. Sobretudo das populações de beiras de rio, igarapés, alagados, 
várzeas, igapós... A população citadina não fica tão ao largo desta paisagem natural, 
sonora, quente, líquida e mítica. Mas para esta população a floresta não é a mesma 
que é para o caboclo, para o indígena, para outros povos tradicionais. 
A primeira vez que me perdi na mata, eu tinha oito anos. Entrei na mata 
com minha mãe para catar milho. Era a paga por seu trabalho de costureira para os 
índios Gavião. O milharal era no meio de uma clareira a dois quilômetros da aldeia. 
Conforme catávamos milho, o sol se punha sem percebermos. Com as sacas de 
milho cheias às costas e o sol quase posto, sumiu-se de nossos olhos o caminho de 
volta e a mata rapidamente ia se tornando um escuro só. Cantos de cigarra, 
barulhos de folhas, assobios que só minha mãe ouvia, assombro e medo de curupira 
que só eu sentia. Ela agarrou-se em rezas com anjos e orixás. Enquanto dizia 
Oxóssi, eu procurava nossos passos no chão ou um espeto de churrasco que 
trouxera da aldeia, ou qualquer coisa que apontasse o caminho de volta. 
Perder-se na mata. Num emaranhado de árvores, folhas, silvos, seres 
invisíveis, ameaças reais. Na mata, onde índios Parkatejê fazem tocaias para caça, 
onde cada árvore é sua conhecida e onde não se perderiam nem de olhos fechados. 
Perder-se na mata, em sete anos que fui quinzenalmente àquela aldeia, foi a 
experiência mais sobrenatural, mítica, íntima que tive com a floresta, com meus 
medos e com minha desinteligência. Ficaram-me nos ouvidos os sons da mata e nos 
olhos os rastros indistinguíveis no chão. Mas ficaram-me também os sorrisos dos 
índios quando voltamos. Nós trazíamos metade do milho colhido e tínhamos os 
124 
 
 
olhos assustados. Seus sorrisos largos diziam-nos o quanto nós erámos ignorantes 
a algo que para eles é completa e absolutamente familiar e legível. 
Que tipo de ordem, regularidade, parâmetro existe nas matas e nas 
florestas para que estas sejam tão legíveis aos índios? Talvez não haja nenhuma. A 
própria pergunta parece denunciar a nossa frágil necessidade de racionalidade, 
seleção, agrupamento. Como se apenas assim, com o mundo mais ou menos 
controlado, dominado, pudéssemos nos sentir seguros para caminhar por ele. O 
desejo de racionalidade, entretanto, tem feito a humanidade, especialmente 
ocidental, eurocêntrica, se deparar com a terrível dialética do Esclarecimento 
(Aufklärung): “ao invés do prometido triunfo de uma vida civilizada, racional e livre 
das peias da incivilização, o processo civilizatório se mostrou violento, genocida, 
amigo da guerra e da destruição” (SELIGMANN-SILVA, 2017). De modo que foram 
abaladas as crenças na razão ocidental baseada no pensamento uniforme, 
cartesiano, monolítico. “A razão ocidental”, acrescenta Seligmann-Siva, “foi derretida 
sob o calor das catástrofes” ocorridas no Século XX: as guerras, suas 
consequências, as execuções em massa nos campos de concentração e de 
extermínio. Se “o abalo do arquivo central levou a uma disseminação dos saberes”, 
ao “fim das grandes narrativas” que explicavam a História, também cada vez mais 
estivemos diante da “disseminação de saberes”, de formas de pensar e de entender 
o mundo. 
Para trilharmos matas, rios e tramas, na obra de Benedicto Monteiro ao 
mesmo tempo que precisamos tentar compreender, precisamos tentar nos deixar 
perder, num movimento de aprendizagens e desaprendizagens. Neste conjunto de 
romances, em meio a tantas formas de compreensão do mundo (relatórios, cartas, 
depoimentos e textos de vários outros gêneros) existe um vislumbrar constante dos 
narradores pelas artes contemporâneas. Dos narradores, ou do autor através dos 
narradores. Benedicto Monteiro, que tinha “muitos livros de artes plásticas” e era 
muito interessado “pelos movimentos de estética, pelos movimentos que as artes 
plásticas tomavam”, segundo nos afirmou Wanda Monteiro em entrevista (em 
anexo). 
No primeiro romance, há registros sobre a arte expressionista abstrata de 
Kenzo Okada; a composição Les Echanges, de Rolf Lieberman; nudez masculina na 
publicidade francesa; a polêmica causada pela premiação de Robert Raushenberg 
na bienal de Veneza; o happening de Jean Jacques Lebel. A maioria destas 
125 
 
 
referências aparecem nas transcrições feitas a partir de um aparelho de rádioque 
um dos narradores carrega consigo. Trataremos sobre isso mais adiante. 
As transcrições sobre arte contemporânea não servem apenas como um 
painel contextual. Elas representam uma vinculação estética do processo de 
montagem presente em Verde Vagomundo (bem como no conjunto dos romances) a 
estes processos. 
Vejamos, por exemplo, as transcrições feitas sobre a sinfonia Les 
Echanges, e sobre a pop-art de Robert Raushenberg: 
 
EM LAUSANNE, O SUIÇO ROLF LIEBERMAN OBTÉM GRANDE 
SUCESSO COM A COMPOSIÇÃO “LES HEXANGE”, GRAVADA EM FITA 
MAGNETOFÔNICA, COM A PARTITURA COMPOSTA PARA 52 
MÁQUINAS, INCLUINDO TELETIPOS, GRAMPEADORES E 
MIMEÓGRAFOS. TEMPO DE EXECUÇÃO - : 195 MINUTOS 59 
(MONTEIRO, 1972, pág 53 – em caixa-alta no original) 
A Bienal de Veneza consagra a Pop-Art, concedendo o prêmio de pintura 
(3.200 dólares) ao americano Robert Raushemberg, provocando indignação 
geral. Garrafas de refrigerantes, sabonetes, frascos de remédios, se 
integram na textura de seus quadros montagens (MONTEIRO, 1972, pág. 
217). 
 
Ao observarmos o vanguardismo e o processo de composição bem como 
os materiais utilizados, observamos o quanto há de afinidade e aproximação nestas 
propostas estéticas. Tanto na composição musical, quanto nos quadros, bem como 
nos romances da tetra-trilogia de Benedicto Monteiro, observamos a presença de 
materiais alheios às respectivas artes: uma sinfonia de grampeadores de escritório, 
quadros/telas com garrafas e frascos, romances produzidos com os mais diversos 
tipos de materiais textos. Estes processos por si já revelam bastante sobre as obras: 
a ousadia inovadora das formas, um processo disruptivo, uma elaboração anti-
convencional. Para além disso, estes artistas, que integram a segunda metade do 
século XX, 
 
se tornam cada vez mais anarquivadores, anarquizadores do arquivo, [...] 
eles vão embaralhar os arquivos, vão pôr em questão as fronteiras, vão 
tentar abalar poderes, revelar segredos, reverter dicotomias, para as 
explodir. A palavra de ordem é anarquivar para recolecionar as ruínas dos 
arquivos e reconstruí-las de forma crítica (SELIGMANN-SILVA, 2014, pág, 
38). 
 
 
59 Um trecho da composição pode ser vista em execução em: 
https://www.youtube.com/watch?v=2V5Wn2CKcdw 
126 
 
 
Como afirma Seligmann-Silva, o artista neste contexto (e adotando este 
procedimento) se enquadraria na “tradição daquele trapeiro, descrito por 
Baudelaire”, conforme a leitura de Walter Benjamin: 
 
Os poetas encontram o lixo da sociedade nas ruas e no próprio lixo o seu 
assunto heroico. Com isso, no tipo ilustre do poeta aparece a cópia de um 
tipo comum. Trespassam-no os traços do trapeiro que ocupou Baudelaire 
tão assiduamente. 
 
A seguir, fragmento do poema em prosa de Baudelaire, “O vinho dos 
trapeiros”, a que se refere Walter Benjamin: 
 
Aqui temos um homem - ele tem de recolher os restos de um dia da capital. 
Tudo o que a grande cidade jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que 
desprezou, tudo o que quebrou, ele o cataloga, ele o coleciona. Compila os 
arquivos da devassidão, o cafarnaum da escória; ele procede a uma 
separação, a uma escolha inteligente; recolhe, como um avarento, um 
tesouro, o lixo que, mastigado pela deusa da Indústria, tornar-se-á objeto de 
utilidade ou de gozo. 
 
Um dos quadros-montagem de Robert Raushemberg, Buffalo II, de 
aproximadamente dois metros de altura, é um painel feito com técnica mista de 
serigrafia e montagem. A obra foi composta logo após o assassinato do presidente 
Kennedy e traz além da colagem do retrato, elementos em tamanhos variados e 
dispersos, tais como: uma águia, a logo da Coca-cola, imagens de um helicóptero de 
transporte, imagens do espaço entre outros elementos que conformam um contexto 
histórico-icônico. 
127 
 
 
 
Fonte: Galerie Magazine [https://www.galeriemagazine.com/] 
 
Guardadas as devidas proporções em cada um dos campos estéticos, a 
relação contextual de Benedicto Monteiro através da técnica da montagem além de 
alinhar-se a propostas estéticas de outras artes, se aproxima da forma como o 
romance brasileiro da década de 1970 se relacionou com a substância histórica. 
Renato Franco (1998, pág. 40) afirma que nos romances do período 
 
o uso de procedimentos técnicos não tão usuais em nossa tradição literária 
– como a montagem – pode significar uma expressiva alteração na relação 
que o romance brasileiro pós-64 estabeleceu com a substância histórica. O 
emprego da montagem, por exemplo, ao privilegiar a simultaneidade – 
espacial ou temporal – e a multiplicidade de pontos de vista no corpo da 
narração, pode ter abalado a confiança na crença do progresso histórico. 
 
De certo modo, a fragmentação e a montagem representam não só esta 
descrença no progresso histórico, mas também acentuam o quanto o Brasil havia 
saído de sua rota com o golpe. O golpe teria inviabilizado o país tangível o país 
128 
 
 
tangível no qual se acreditava em fins da década de 50, com justiça social, direitos 
humanos, reformas de base entre outros avanços no pensamento progressista. 
Por estas pegadas, apresentamos uma proposta de interpretação do 
princípio organizador dos romances. Antes de analisarmos os narradores, as 
notícias e os desfechos dos romances, vejamos a importância a importância da 
montagem para a narrativa romanesca brasileira nas décadas de 60 e 70. 
 
 
3.1 – MONTAGEM EM FRACTAL SEMOVENTE 
 
Para Renato Franco (1998), foi a defesa feita por Bertold Brecht e por 
Walter Benjamin que conferiram maior prestígio à montagem como princípio estético. 
Brecht ressaltou a inapreensibilidade da essência social através da percepção 
emotiva, a limitação da experiência individual para abarcar a significação de um 
empreendimento capitalista. Assim a montagem pode ser considerada “como 
constituinte do núcleo sólido das possibilidades oferecidas pela narração realista, a 
única capaz de romper a carapaça da reificação” (FRANCO, 1998, pág. 130). Franco 
acrescenta que 
 
Brecht concebeu que o leitor, estimulado pela técnica do estranhamento 
adotada em seu teatro, pudesse decifrar em profundidade, através da 
reflexão, o material que lhe é oferecido pela obra para captar, num subido 
despertar, a disparidade entre a aparência e a essência social. Para tanto, a 
montagem construtivista, por ele proposta, de fragmentos da realidade – ou 
de documentos – poderia ser um método adequado. Desta maneira, o 
narrador “que sabia contar a história inteira” e parecia estar em franco 
processo de desaparecimento daria lugar a um narrador-organizador 
(FRANCO, 1998, pág. 130). 
 
Para Benjamin, o fato do homem moderno ser pobre em experiências, o 
que reduz a possibilidade do ato de narrar, e estar cada vez mais em choque diante 
do aparato e aparelhamento tecnológicos contemporâneos, conferem à montagem a 
exposição (não mais da experiência, mas) da vivência. A montagem corresponde 
ainda a percepção do choque ante à máquina destrutiva do progresso e se 
apresenta para o escritor como uma técnica que lhe possibilita coletar/colecionar 
“por meio de considerável esforço, os fragmentos ou cacos esparsos da realidade 
presente ou passada” (FRANCO, 1998, pág. 130). Assim, 
 
129 
 
 
O emprego da montagem como procedimento literário privilegiado pelo 
romance pode, portanto, estar associado tanto à intensa modernização do 
aparato técnico da sociedade quanto à complexidade proveniente da 
organização mais racional da produção ou do próprio processo de trabalho. 
 
Para a literatura brasileira da década de 1970, a montagem 
corresponderia a percepção do choque provocado pelo aparelhamento do estado 
contra a população, a liberdade, a democracia... corresponde a vertigem provocada 
ante o aparato violento, tecnocrático. Para a obra de Benedicto Monteiro, a fortuna 
crítica do autor60, ou em especial dos volumes que integram o corpus deste trabalho, 
basicamente tem se referido à técnica a partirda imagem de um caleidoscópio ou 
tem privilegiado o comentário crítico sobre a binaridade de narradores. Outras 
imagens seriam válidas e poderiam ser usadas com ressalvas e justificativas: vitral, 
puzzle, labirinto, cubo mágico (suas seis faces moventes). Entretanto, a montagem 
empregada por Benedicto Monteiro faz lembrar processos de ramificação em 
bifurcações não regulares, que não seguem sempre um mesmo processo ou 
caminho em cada um dos galhos. Um processo em constante movimentação, 
mesmo que lento como a paxiúba (Socratea exorrhiza), esta “palmeira andante” que 
temos na Amazônia e que se move até 20 km em um ano. A montagem da tetra-
trilogia de Benedicto Monteiro se posto em diagrama, num método ao gosto do 
narrador do segundo romance (Paulo, geólogo da Petrobrás) formaria a imagem de 
uma bela, estranha, quase grosseira árvore, tal como um fractal desconjuntado e 
semovente. 
Um fractal com galhos que se quebram, com outros que se ampliam, com 
ramos curtos, ramos longos. Rompendo a tradição romanesca da narrativa 
cosmológica, a montagem tem como primazia o caos: “a destruição da totalidade 
interna da obra” (FRANCO, 1998, pág. 131). Tal como em outros romances 
fragmentados, nestes romances de Benedicto Monteiro 
 
a representação se tornou apta a captar a nova diversidade do real ao 
suprimir a relação harmônica entre as diferentes partes do romance: tal 
relação passou a ser contraditória, mas a contradição – nervo da vida – não 
é produto da narração, ao contrário, provém da própria realidade exterior à 
obra. 
 
 
60 As principais leituras críticas à obra de Benedicto Monteiro estão no capítulo 2 deste trabalho. 
130 
 
 
Os dois primeiros romances de Benedicto Monteiro (Verde Vagomundo e 
O Minossauro), embora publicados na década de 1970, alinham-se aos romances 
publicados em 1967 (Pessach, a travessia, de Carlos Heitor Cony, e Quarup, de 
Antonio Callado), os quais são alocados por Renato Franco (1998) como romances 
do primeiro período ou movimento após o golpe de 1964. 
Explicando melhor: segundo Renato Franco, duas tendências no romance 
brasileiro conviviam no momento imediato pós-64: “romance de impulso político” e 
“romance da desilusão urbana”. Na primeira tendência, estão romances “mais 
afinados com a atmosfera experimentada pela produção cultural” do imediato pós-64 
(pág. 28), como a agitação política com alguma liberdade e a politização da cultura 
por setores da esquerda. O “impulso político” para a produção dos romances em 
Benedicto Monteiro pode ter sido imediato, inclusive pelo que apresentamos no 
capítulo anterior, mas a publicação dos romances é feita com um descompasso 
(delay) de cerca de 5 anos. 
Segundo Franco (1998), estes romances podem ser classificados como 
romance radical ou como ficção radical da década de 70, cuja ambição “foi a de 
narrar a história recente, nos vários aspectos, verdadeiramente a contrapelo”. Estes 
romances 
 
não privilegiaram os temas predominantes em nossa tradição literária: ao 
contrário, narrou preferencialmente as questões políticas oriundas da 
conjuntura história e os diversos aspectos implicados nas violentas 
transformações (sociais, psicológicas etc) suscitadas pelos vagalhões do 
processo modernizador (FRANCO, 1998, pág. 133). 
 
Ainda sobre o processo de montagem nos romances de Benedicto 
Monteiro, é importante ressaltar, antes de seguirmos para os cantos de uirapuru, as 
interferências e pegadas de curupira, que, embora integrem um mesmo logos, 
existem diferenças relevantes de um romance a outro. Neles, há uma progressão na 
maneira de apresentar os enredos, ou desenredos, diferentes formas de interação 
com os materiais não literários, diferentes formas como o enredo se relaciona com 
as notícias e diferentes formas de participação e de presença do narrador culto. 
Enquanto no primeiro romance, este narrador ocupa o papel principal, nos 
dois seguintes eles dividem a narração com Miguel. No primeiro romance, o narrador 
urbano é também o protagonista isolado da narrativa. As ações narradas no 
romance derivam das ações dele. Nos outros dois romances, os dois narradores são 
131 
 
 
co-protagonistas. Sendo que no último não há interação do narrador culto com o 
narrador caboclo. Há, inclusive maior destaque a Miguel no terceiro romance, posto 
que ele é o objeto da busca do narrador urbano, o professor de geografia 
improvisado na função de Geógrafo e coordenador de um grupo de pesquisa, que 
deseja escrever um romance. 
As oscilações existentes entre narradores e outros materiais textuais 
são bem anárquicas, mais caóticas, no primeiro romance. Nele há inclusive a 
substituição de um tipo de gênero textual por outro: a partir da página em que o 
narrador declara que vai usar o expediente da escrita de um diário no terço final 
do livro. Nos dois romances seguintes, já existe uma oscilação mais regular na 
disposição dos gêneros textuais principais61. Com uma destruição interna 
evidente em O Minossauro e uma ordem distinguível em A Terceira Margem. 
Mais importante que isso, é que esses gêneros textuais revelam algum princípio 
de organicidade a partir do qual os textos seguintes irão seguir o diapasão. Por 
exemplo, no romance O Minossauro, o tema da cheia será abordado 
sequencialmente pelo narrador Paulo, nas notícias, nas cartas e na fala de 
Miguel. 
Este tipo de seleção e ordenação com temas próximos é mais nítido em O 
Minossauro que em A Terceira Margem. Neste romance, é compreensível que isso 
não ocorra como em O Minossauro, por se tratar de uma busca de um narrador pelo 
outro. Enquanto o narrador Geógrafo está procurando Miguel no eixo vertical do 
mapa (do Sul para o Norte), Miguel está no eixo horizontal entre Belém e Manaus. 
Em outras palavras, como esses narradores não interagem em toda a narrativa, as 
entradas textuais também se apresentam desencontradas, elas não versam sobre os 
mesmos temas. 
Embora ainda seja um romance fragmentado (conforme a conceituação 
de Calegari, 2008), O Minossauro é o menos caótico dos três. Se considerarmos a 
argumentação de Calegari sobre as auto-interferências da desordem política na 
desordem formal, devemos observar o quanto as mudanças no cenário político 
podem explicar este acomodamento progressivo da visualidade de mais caos a mais 
cosmos. 
 
61 Chamo de principais as narrações, os diários e as cartas porque alguns gêneros textuais são 
inclusos ou anexos a estes. Poemas, letras de canções e relatórios são anexos ou transcritos nas 
cartas. Depoimentos a um IPM aparecem como transcrição dentro do diário. E citações de filósofos e 
escritores são pronunciadas por personagens. 
132 
 
 
É importante demarcar que Verde Vagomundo foi publicado num 
momento político bastante adverso e que o contexto histórico do seu enredo é 
singularmente complexo (o contexto da Guerra Fria, com fatos concretados entre 
fins de 1963 e meados de 1964). Em 1972, estávamos no pior momento da ditadura, 
e os romances publicados na época, de algum modo, refletiam a desordem social na 
desordem formal das narrativas do período (conforme Calegari 2008), ou – em 
leitura inversa – se apresentavam com uma visualidade caótica como forma de 
resistir ou de agir contra o regime social estabelecido, ou ainda, procuravam meios 
de burlar a censura burocrática, estatal, deliberada (ou a censura popular). Já A 
Terceira Margem, o quarto romance concluído da tetralogia, é publicado num 
momento político de certa expectativa política positiva, de algum otimismo e de 
retomada da normalidade. Em 1983, estávamos num fim (problemático dizer isso) ou 
no meio (também problemático) da distensão proposta por Geisel (distensão lenta, 
gradual e segura). Os romances deste momento, pós-anistia, já não mais se 
apresentavam de modo fragmentado. Predominava a narração mais ordenada 
(digamos de entrada única, único narrador.), a fragmentaçãoe a montagem já não 
eram mais o princípio ordenador das narrativas. Os romances abandonaram de vez 
a ficção e predominou o testemunho direto. O tema principal de narrativas como O 
que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, ou Os Carbonários: memórias da 
guerrilha perdida, de Alfredo Hélio Sirkis (respectivamente publicados em primeira 
edição em 1979 e 1980), era um balanço da derrota da guerrilha e um levantamento 
crítico das ações terroristas de grupos armados de esquerda. Assim, o romance A 
Terceira Margem é lançado com a defasagem de uma década no que se refere às 
principais tendências estéticas relacionadas a temática da resistência. Neste 
contexto geral, A Terceira Margem é um romance temporão da década de 1970, 
publicado nos anos 1980. Ou ainda, um romance tardio da 1970, publicado em 
198062 e que já estaria pronto em Janeiro de 1980, conforme vimos no capítulo 2.4. 
Como um romance tardio da década de 1970, A Terceira Margem 
apresenta uma característica bifrontal. Ele ao mesmo tempo em que ainda apresenta 
 
62 No contexto dos romances que tematizam a ditadura militar, A Terceira Margem não é o único 
romance temporão. Os romances de Sinval Medina, como Cara Coroa Coragem (1982), também. 
Não é incomum na literatura em geral (sem considerarmos o tema e a região). Memorial de Aires 
(1908), de Machado de Assis, é sem dúvida um romance realista tardio. Na literatura da região 
amazônica, Chove nos campos de Cachoeira (1941), de Dalcídio Jurandir, é um exemplo digno de 
nota no que se refere à publicação tardia. Sobre este delay do romancista marajoara, veja o texto de 
FURTADO, Marli Tereza. Dalcídio Jurandir e o romance de 30 ou um escritor de 30 publicado em 40. 
In: Revista Teresa, nº 16, São Paulo, pág. 191-204. 
133 
 
 
certa fragmentação também nos possibilita perceber uma ordenação formal mais 
nítida. É exatamente sua segmentação e distribuição regular que nos permite, por 
exemplo, espelhar nos romances anteriores a forma como ele é organizado. A leitura 
que fazemos de A Terceira Margem é tributária do princípio da montagem dos dois 
primeiros romances, mas a leitura destes também sofre algum afluxo da progressiva 
organicidade presente em A Terceira Margem. Depois cosmologizada em Aquele 
um. 
Como quem se aventura na mata em busca de pagas de trabalho, ou se 
atreve a cortar um rio a terçado, procuramos neste paul de falas, vozes e histórias 
destacar nas páginas seguintes: o canto do uirapuru (os narradores), as 
interferências (notícias de rádio, jornais e revistas) e as pegadas de curupira (os 
desfechos dos romances). 
 
3.2 – CANTOS DE UIRAPURU E SEUS CONTRA-CANTOS (OS NARRADORES) 
 
O principal elemento ordenador desses romances é, sem dúvida, o 
narrador ou os narradores. 
Como já afirmamos, nos três romances, temos a oscilação de dois 
narradores em contra-canto. Um deles representando a sociedade urbana, um 
mundo citadino (pouco nos agrada dizer ‘civilizado’) e com sua cosmovisão 
emprenhada de uma concepção de progresso, acúmulo de propriedades, herança, 
bens materiais. Mesmo que de algum modo cada um dos três narradores discorde 
deste mundo ao seu modo. Enquanto o outro narrador, o mesmo nos três romances 
(e único remanescente no romance Aquele um) representa o mundo caboclo, sua 
relação simbiótica com a natureza e meios básicos de produção de subsistência, sua 
forma de contar o tempo e sua relação com as tecnologias disponíveis. 
Valendo-nos da metáfora musical apresentada no primeiro capítulo é 
importante afirmar que nos contracantos costumamos ter uma voz primária ou 
predominante. Aqui, temos não apenas um narrador principal como este também irá 
desempenhar um papel de editor, transcritor ou compilador de todo o material 
linguístico que temos em mãos. O livro, enquanto produto material, é gestado 
ficcionalmente por um personagem. O major, o geólogo e o geógrafo, 
sucessivamente, não apenas desempenham este papel, como declaram em seus 
134 
 
 
relatos a intenção de escrever e/ou publicar um livro. Paradoxalmente, como 
veremos, todos afirmam seu malogro. 
O narrador é elemento muito importante para a constituição da narrativa. 
O narrador, segundo uma visão estruturalista, é o elemento (semiótico) instaurador 
de todos os demais elementos da narrativa. Ele é “categoria essencial para a 
narrativa tanto como elemento estrutural quanto como sujeito ontológico”, que se 
constitui “como um ser semiótico e cognoscente instaurado pelo discurso” 
(PACHÊCO, 2002). Entretanto, essa demiurgia e onipotência do narrador como 
elemento estrutural precisa ser contrastada com o desfalecimento da própria arte 
narrativa frente à modernidade, aos meios de produção atomizantes, a declínio do 
valor da experiência, à falência da memória e à ruína da necessidade de narrar. O 
narrador continua sendo um elemento narrativo importante, mas a concepção do 
narrador demiúrgico e onipotente, cartesiano, iluminista, senhor de uma narração 
totalizante, esclarecido (Aufklärung), não ressoa nas narrativas e nas artes 
contemporâneas. O romance fragmentado e feito com o princípio da montagem 
aborrece a lógica totalizante e baseada na lógica do progresso. A narrativa mergulha 
numa espiral semovente de atualização. 
Walter Benjamin (1994) destaca o declínio do modo ‘artesanal’ de 
narrativa, devido a nossa incapacidade de intercambiar experiências estar em baixa, 
a sabedoria estar em extinção e devido à valorização da informação. Enquanto a 
informação é efêmera, fugaz e descartável, a sabedoria adquirida pela experiência 
(fonte de todos os narradores) é duradoura e confere à narrativa perenidade e 
capacidade de renovação em cada sociedade, ganhando força na coletividade de 
narradores. A narrativa, neste sentido, são “as sementes da arca de Noé”, funciona 
como um repositório do ser humano, ela “é dominada pelo interesse em conservar o 
que foi narrado. Para o ouvinte imparcial, o importante é assegurar a possibilidade 
da reprodução. A memória é a mais épica de todas as faculdades” (pág. 210). 
Em todas as narrativas, o narrador que se apresenta como principal é 
sempre o narrador culto urbano. Como escreveu a professora Fátima Nascimento 
(2004), esses narradores atuam como narradores-escritores-compiladores. Todos se 
apresentam como alguém que deseja escrever um livro. O major, para atender uma 
prescrição do seu tio Jozico de que um homem para ser inteiro deve ter filho, plantar 
árvore e escrever um livro. Paulo, que tendo passado por outras experiências 
estéticas (tendo escrito poemas, pintado quadros e composto músicas) antes de ir 
135 
 
 
para a Amazônia, afirma que “aqui, só conto mesmo com as palavras” (MONTEIRO, 
1975, pág. 91). E o professor de Geografia, que desde antes de ser nomeado para 
chefiar o projeto já desejava escrever, não um livro, mas um romance. 
De uma forma geral, as narrativas escritas sobre a ditadura militar durante 
o período de vigência do regime basicamente radicalizaram a experiência do real, 
tendendo seja para o realismo cru dos romances-reportagens, romances denúncias, 
seja para o totalmente oposto, como as máquinas alegóricas de J. J. Veiga. Além 
desta bipolaridade, existe uma quantidade significativa de romances que apresenta 
uma reflexão pessoal do escritor transposta para a narrativa, flertando com as mais 
variadas formas de escrita de si, dentre elas, o memorialismo e a autoficção. Bem 
como uma quantidade significativa de romances apresentando protagonistas 
narradores63. 
Este espelhamento autoral, este “jogo especular entre os narradores 
protagonistas e os escritores”, tal jogo estabelece como afirma Tânia Sarmento-
Pantoja “uma ambiguidade [...] perturbadora demais para ser proscrita” (2012, pág. 
108) e que 
 
leva para o interior do romance a imagem em formação, em construção, do 
homem que está num embate entre os problemas políticos e os problemas 
da escrita literária,seja ele um escritor incidental, seja aprendiz, seja 
fracassado, seja (raramente) profissional” (PACHÊCO, 2016). 
 
Renato Franco, ao comentar a importância deste aspecto para o romance 
do período, destaca como A Festa, de Ivan Ângelo, e Quatro-Olhos, de Renato 
Pompeu, apresentavam como 
 
conquista espetacular [...] a capacidade de elaborar, ainda que de modo 
contraditório e amplamente esfacelado uma aguda autoconsciência 
estética acerca das próprias contradições, sobre sua atual natureza ou a do 
ato narrativo e também sobre a condição particular do escritor em uma 
sociedade que parece conspirar contra sua mera existência (FRANCO, 
1998, pág. 122 – grifos meus) 
 
63 Durante os anos a que venho me dedicando a esta pesquisa, inicialmente me chamaram a atenção 
a reincidência de personagens protagonistas intelectuais em romances sobre a ditadura seja nos 
anos de vigência do regime seja nos romances sobre a mesma temática, mas escritos e publicados 
depois da retomada da democracia. Posteriormente, a partir de 2012, dei-me conta que, dentre estes 
protagonistas intelectuais, uma quantidade significativa exercia atividades ligadas à escrita (jornalistas 
ou escritores romancistas ou contistas). Hoje, posso afirmar seguramente que, pelo menos, um 
quarto deles apresentam narradores protagonistas escritores. Isso é importante para este trabalho de 
tese, pois os narradores cultos urbanos dos três primeiros livros da tetra-trilogia de Benedicto têm o 
desejo ou o projeto de escrever ou publicar um livro, um romance. 
136 
 
 
 
Para além de apenas indicar o desejo de escrever um livro ou um 
romance, os narradores urbanos da obra de Monteiro expressam uma reflexão sobre 
a escrita, seja através das anotações de diário, seja através das citações 
selecionadas, seja por causa da seleção de material transcrito de jornais e revistas, 
alguns deles não relacionados à literatura, mas à produção estética de outras artes, 
todas de vanguarda, principalmente em Verde Vagomundo. 
Os narradores destes romances também incorporam outras tensões 
significativas, como afirma Tânia Pantoja Pereira64, eles terminam intersecionando 
as “tensões: o popular e o erudito, a cidade e o campo, o oral e o escrito” (Pereira, 
1999, pág. 66). Enquanto o narrador urbano, também por causa de sua centralidade 
e primazia enunciativa, favorece uma leitura mais adorniana para o narrador no 
romance contemporâneo, o narrador caboclo Miguel dos Santos Prazeres incorpora 
os arquétipos do narrador apontados por Walter Benjamin em seu ensaio seminal 
sobre o narrador em Nikolai Leskov. 
Adorno (2003), ao abordar a posição do narrador no romance 
contemporâneo, também destaca o declínio do ato de narrar devido a desintegração 
da experiência e inicia seu ensaio afirmando que “a posição do narrador [...] se 
caracteriza [...] por um paradoxo: não se pode mais narrar, embora a forma do 
romance exija a narração” (pág. 55). Adorno destaca a impossibilidade de narrar 
experiências vinculadas à violência e ao trauma. O romance contemporâneo não 
mais procura um compromisso com a representação (realista) da realidade, com “a 
tentativa de decifrar o enigma da vida exterior” (pág. 58), mas se apresenta como 
linguagem, destacando-se como ilusão do real e se esforçando por captar a 
essência da vida exterior. Além disso, a distância estética entre o narrador e o leitor, 
antes fixa, agora é variável e o romance contemporâneo reconhece-se incapaz de 
dar conta de representar uma realidade desmensurada. O narrador do romance 
contemporâneo assume a narrativa como construção, linguagem, e assume-se como 
mediador de uma realidade parcial, filtrada por sua visão, sua experiência, mas ao 
mesmo tempo procura possibilitar ao leitor caminhos para que este especule outras 
verdades. 
 
64 Atualmente, Tânia Sarmento-Pantoja. À época, a pesquisadora usava seu nome de Pereira. 
137 
 
 
Como destaca Seligmann-Silva, já não mais se acredita na “tradução total 
do passado” (2003, pág. 64), “estamos despertando desse sonho ou pesadelo [...] 
do historicismo, que acreditou na possibilidade de se conhecer o passado ‘tal como 
ele ocorreu’” (pág. 60). Afinal, “não se trata mais de imitação da realidade, mas sim 
de uma espécie de ‘manifestação’ do ‘real’” (2003, pág. 382). 
Ao mesmo tempo, esta binaridade de narradores incorporam as tensões 
do testimonio ou testemunho latino ou hispano-americano conforme as postulações 
decorrentes da Revista Casa de Las Americas. O narrador urbano, narrador-escritor-
compilador, atua como o escritor solidário no primeiro romance quase involuntária e 
destrambelhadamente e, de modo mais intencional e quase sistemático, no último. 
Assim, o testemunho coligido pelo escritor solidário que tenta fazer o trânsito do 
informante para a cidade letrada, convive por todo o livro com o comentário em 
paralelo da voz citadina. Nos romances que compõem a trilogia de Benedicto 
Monteiro, é como se o prefácio dos testemunhos etnográficos, de obras como 
Biografia de un Cimarron, de Bartes/Montejo, Me llamo rigoberta menchu y asi me 
nacio la consciência, de Debray/Menchu, fosse inserido no corpo mesmo da obra. 
Tudo isso em termos ficcionais, diga-se. Em vez de lermos um prefácio para o 
testemunho coligido, vamos sendo lateralmente guiados pelo narrador culto ao 
personagem que representa a voz subalterna, periférica, excluída. 
No caso desses narradores urbanos, é também possível perceber a 
opção pelo diário. Para Renato Franco (1998, pág. 30), o uso do expediente da 
escrita de um diário no interior da ficção se apresentava como “um caminho mais 
curto de a ficção alcançar a história” (1998, pág. 30). Segundo Seligmann-Silva 
(2010), é relevante observar “a força perlocutória de convencimento do ato de escrita 
do diário”. Segundo ele, o convencimento estético do diário 
 
é reforçado por um elemento ético. A escrita é vista tanto como ducto por 
onde escorre a vida privada, como também, em muitos diários, neste duto 
misturam-se de modo claro as águas da vida pública. O texto, nestes casos, 
se transforma em um dique. A potência que guarda pode ser transformada 
em energia mesmo muitos anos depois de passados os fatos, justamente 
porque na estrutura do texto se entrecruzam, em uma trama, a vida íntima 
com a pública, o trabalho literário com as marcas do “real”. No limite, 
tendemos a ver nestes diários uma escrita performática (SELIGMANN-
SILVA, 2010, pág. 162) 
 
Como afirmamos anteriormente, os narradores cultos urbanos optam pela 
escrita de um diário. 
138 
 
 
Em Verde Vagomundo, o narrador65 é o Major Antonio Medeiros que 
retorna a Alenquer para vender as terras herdadas de seu pai e de seu avô. Ao 
chegar, o tio Jozico, responsável pelas terras durante todo o período que o Major 
ficara fora do estado, ao se deparar com a ausência de mulher e filhos, diz-lhe que 
um homem só o é completo quando faz um filho, planta uma árvore e escreve um 
livro. Então, o major se põe a gravar tudo, transcrever e tomar notas das 
transmissões de rádio com intuito de organizar todo esse material e escrever um 
livro (ou um romance). A opção pelo diário só aparece na página 167 do livro (na 
terça parte final do volume) e encerra sua primeira anotação com a seguinte 
observação: “se eu não tiver oportunidade de melhorar esta narrativa e esclarecer 
melhor certas dúvidas, ficará ao leitor, o direito e o dever de interpretar toda esta 
estória” (MONTEIRO, 1972, pág. 172). Dos romances que formam a Tetralogia, este 
é o que tem a feição mais fragmentada e que tem menos material narrativo falado 
por Miguel66. 
No segundo romance, o narrador é Paulo, um geólogo da Petrobrás, 
membro de uma equipe que vai para Amazônia fazer um levantamento sismográfico 
da região. Além do diário, Paulo escreve também sequências de palavras compostas 
com a tentativa de criação de uma linguagem e de apreensãoda realidade 
circundante na Amazônia. Sua primeira anotação como diário, somente vai aparecer 
pela primeira vez na página 41. 
 
Aqui, nesta Equipe, estou no lugar privilegiado para ler, estudar, analisar e 
escrever. Todas as tardes chegam as turmas de topografia e de sísmica, do 
trabalho, com material de campo. Se puder recolher a impressão que cada 
um traz dos lagos, das matas, da terra e do rio, vou ter material para 
escrever um grande livro. 
(MONTEIRO, 1975, pág. 41) 
 
Embora suas anotações sejam as mais poéticas, mais metafóricas que 
dos outros dois narradores urbanos, Paulo – quando escreve registrando algo 
referente ao seu trabalho de Geólogo – é o mais minucioso, meticuloso, é o mais 
 
65 A anotação inicial deste romance – como um prefácio – aparece em algumas edições assinada 
como “o narrador” e em outras como “o autor”. 
66 Existe uma certa progressão na fragmentação dos romances. Os primeiros tendo feição 
fragmentária maior que os últimos. Aliás, Aquele um se encerra numa síntese, com uma 
fragmentação quase mínima, se considerarmos que todas as arestas foram aparadas e restou 
apenas a presença-ausência dos ouvintes de Miguel, assinalados no pórtico que divide cada uma das 
três partes (cada parte é a fala de Miguel em cada um dos romances anteriores). Também a 
participação de Miguel de um romance a outro se torna mais efetiva, até alcançar a completude do 
livro. 
139 
 
 
técnico. Existe nestes registros uma busca por informações exatas, com dados 
precisos, números, medidas. É a partir de uma anotação dele que é possível extrair 
do mapa da região a localização exata do local onde se passam as ações. 
 
 
(MONTEIRO, 1975, pág. 39) 
 
A partir desta informação podemos delimitar o recorte espacial das ações 
do romance. 
 
 
Fonte: https://www.google.com.br/maps 
140 
 
 
Como narrador principal da narrativa, quase exercendo um papel narrativo 
de editor, é possível depreender que a seleção, escolha e ordenação das páginas 
anteriores coube a ele eleger. 
Os registros de diário desse narrador praticamente repetem o exercício 
presente na escrita das palavras-duplas, das paletas de cores. Muitos desses 
registros são circunloquiais. O narrador parece perdido num repetitivo trabalho de 
elocubração sobre as palavras, sobre a linguagem. O texto não se desenvolve nem 
se assenta em nenhuma linha de raciocínio rastreável. Ficamos tentados a dizer que 
ele, efetivamente, não escreve nada. Se antes não conseguira ser pintor, nem 
compositor, sua tentativa de ser romancista segue caminho semelhante. Ao 
isolarmos apenas estes registros notaremos a ausência de encadeamento lógico, de 
discurso articulado e enredo progressivo. Deparamo-nos ante um emaranhado 
discursivo inócuo, no qual ora ou outra é possível catar algumas informações e uni-
las de modo a – aí sim – perceber que tem alguma coisa escrita. 
Ao contrário de Verde Vagomundo, que vai sendo construído conforme 
progridem as falas, os registros, os personagens, O Minossauro é uma reiterada 
exposição de um plano de escrita, que não avança, que não ganha consistência. 
Como se nos fossem mostrados os andaimes de uma construção que não 
composiciona imagem nenhuma, ao mesmo tempo que expõe um objeto 
desconforme como a torre do poema de Drummond. 
Paulo, que já escrevera poemas, pintara quadros e compusera canções, 
deixa apenas entrevisto o desejo de escrever um livro. Em sua segunda anotação de 
diário lemos: “Não sei o que vai ser destas minhas notas” (MONTEIRO, 1972, pág 
91) e numa das últimas se refere aos textos como “livro” afirmando que seu desejo 
inicial foi a tentativa de registrar “as palavras-cores, as duplas-palavras, as múltiplas-
palavras” (MONTEIRO, 1972, pág. 173). 
Convém observar que Benedicto Monteiro ao entregar aos editores o 
segundo volume da tetra-trilogia, Aquele um já estava praticamente concluído e 
antes da publicação A Terceira Margem em 1983, Aquele um já havia sido premiado 
num concurso literário nacional67. Portanto, a redação da escrita do diário do 
professor de geografia e toda sua reflexão sobre o processo de escrita do romance, 
que por extensão reflete em alguma medida a reflexão do próprio autor, é feita 
 
67 Trata-se do XII Concurso Literário promovido pela Fundação Cultural do Distrito Federal. 
141 
 
 
posteriormente. Se entendemos que as falas de Miguel neste romance foram todas 
escritas e concluídas antes do diário, concluímos que a reflexão sobre a própria 
escrita literária que correspondem ao processo de aprendizado como romancista é 
feita por um autor já experimentado e que, ao contrário dos primeiros romances, em 
que os diários podem ser entendidos um exercício extensivo de reflexão de um autor 
num processo de aprendizagem, em A Terceira Margem, a escrita dessa reflexão é 
feita por autor já ciente do destino do livro. Na redação do diário do professor de 
geografia, Benedicto Monteiro está ciente que está apenas expondo os andaimes da 
construção – para usar a conhecida expressão de Olavo Bilac. 
No romance A Terceira Margem, é principalmente na seção denominada 
“Segunda margem”, que encontramos sua parte mais narrativa. Ela se apresenta 
como uma espécie de diário do professor de Geografia seguida em itálico e 
separada por um duplo espaço das falas de Miguel dos Santos Prazeres, centradas 
nas descrições dos encontros amorosos que resultaram em seus filhos (narrativa 
que resultará, como afirmamos, em outro livro intitulado Como se faz um 
Guerrilheiro). Após oscilarem “À margem”, “Primeira margem” e “Segunda margem” 
nove vezes, temos uma última fala de Miguel intitulada “A Terceira Margem”. 
O diário do professor de geografia, improvisado na função de Geógrafo, 
centra-se na busca por Miguel como personagem de um romance que deseja 
escrever, bem como outras observações sobre seu projeto literário. Em sua primeira 
entrada de diário, escreve: “já que estou aqui e tenho um projeto literário, preciso 
assumir toda a necessidade de escrever este livro” (MONTEIRO, 1983, pág. 28) e 
acrescenta observações sobre os narradores dos romances anteriores, pois parte de 
seu projeto consiste em entrevistar pessoas que tenham conhecido o caboclo. 
Desse modo, conforme a equipe avance na pesquisa que realiza, ele procura 
informações sobre Miguel, começando por Alenquer, onde o caboclo havia 
estourado em uma só noite fogos de artifício que seriam para queimar durante a 
novena de Santo Antonio. As informações dos populares, por demais 
desencontradas, apenas destacam a força de mito ou lenda que volteia Miguel e 
triscam na temática do contexto histórico da ditadura como algo distante: “um golpe 
militar havido no país há muito tempo” (MONTEIRO, 1983, pág. 67). 
Aliado a este desejo de encontrar Miguel, o professor revela outras 
preocupações quanto a este encontro. O contexto do encontro não poderia ser entre 
as paredes de numa cidade onde as palavras sofreriam o desbotamento das cores e a 
142 
 
 
ressonância no concreto (MONTEIRO, 1983, pág. 66), mas na mata, no rio, “nalguma 
margem”, no ambiente natural, ou “simplesmente através de sua linguagem” 
(MONTEIRO, 1983, pág. 126). A busca pelo personagem é também uma busca por 
sua linguagem. Ao comentar o diálogo que entabulou com Paulo, há uma crítica 
quanto aos procedimentos adotados pelo narrador de O Minossauro, no que se refere 
ao processo adotado por este como tentativa de apreensão da paisagem através das 
palavras-duplas e palavras-múltiplas, bem como do processo de gravação e 
transcrição, adotados pelo Major e por Paulo. Há um desejo de encontrar Miguel, mas 
há também um receio de desfigurar sua fala, pois a transcrição resultaria não só na 
perda de som e de ritmo, mas também no esvaziamento do “conteúdo humano”. 
Tensão que só poderia ser preenchida através de uma escrita desenvolvida num 
“novo processo literário” já tentado por Paulo, narradorde O Minossauro. 
Essa preocupação com a gravação e a transcrição podem ser percebidas 
também na última entrada de diário, em que o narrador sugere que o encontro com 
Miguel tenha ocorrido, mas a certeza se torna fugaz no uso recorrente de verbos no 
condicional, e também por afirmar a necessidade da continuação da busca. Por isso, 
o narrador sente que a única forma de encontrar Miguel é através da linguagem, na 
qual declara a certeza do encontro, embora se veja diante do desafio “de fazer a 
transcrição para a escrita dessa linguagem-presença” (MONTEIRO, 1983, pág. 180). 
Na narração de Miguel em O Minossauro, este também revela a 
dificuldade com as palavras e se preocupa com a transcrição. Antes, é importante 
dizer que, embora nenhuma nota do diário aponte a certeza do encontro entre os 
narradores, somente na narração do caboclo encontramos esta certeza desde sua 
primeira fala68. O diário deixa entrever que esse encontro com seu personagem só 
ocorre mesmo na linguagem, na narração do Cabra-da-Peste, cuja última seção, a 
única intitulada “A Terceira Margem”, que contém apenas a fala de Miguel, narrando 
como ele escapou de um naufrágio. Num tom narrativo não muito diferente daquele 
empregado pelo caboclo quando narrou a morte do pai, a travessia do grande lago e 
a varação da mata do assombradado, nos romances anteriores. 
 
68 Segundo a Professora Fátima Nascimento, este seria o livro mais fraco da Tetralogia, embora 
tenha recebido uma premiação. Para ela, “sem características de romance, com sérios problemas de 
incoerência interna, muitas contradições e repetições, tendo como que o papel de explicação dos 
livros anteriores. Além do que, a maioria dos fragmentos dessa obra é constituída de citações de 
historiadores, antropólogos, cientistas políticos, linguistas, entre outros, que não passaram por uma 
elaboração romanesca, tornando-se, portanto, citações panfletárias da história da ditadura militar pós-
1964 e sobretudo da Amazônia brasileira” (pág. 27). Veremos que os defeitos apontados por 
Nascimento serão em partes aceitos por nós como características próprias da proposta que o 
romance adota dentro do conjunto. 
143 
 
 
No limite, o Geógrafo é um narrador marcado por várias negativas. Ele 
gora, falha, malogra em vários aspectos. Primeiro porque não é um geógrafo; é um 
professor de geografia. Talvez nem fosse licenciado em Geografia, mas em alguma 
outra área de humanidades como era comum na década de 1970 (o romance não 
afirma nem nega). Ele coordena um grupo ligado a todo um aparelhamento 
burocrático, mas descura da burocracia ao não ter consigo documento algum 
comprobatório de suas atividades. Segundo, sente-se inferior aos demais por todos 
terem estudado em grandes centros de pesquisa fora do Brasil. Amuleta-se numa 
tese que não é sua e cita trechos do livro do autor da tese sem se referir a ele, bem 
como cita trechos de citações que estão na tese que é do outro: As Ideias sobre a 
concepção geográfica da vida, de Eidorfe Moreira69. Por último se apega num 
objetivo fugaz. Considera imprescindível encontrar pessoalmente Miguel dos Santos 
Prazeres para escrever um romance. Ele age como um pintor que precisasse de um 
modelo vivo para poder fazer um quadro. Não encontra o personagem, nem escreve 
o romance. Ele se afirma pelas negações: geógrafo que não é geógrafo, 
coordenador de grupo sem credenciais para tanto (portaria ou diploma de pós-
graduação), pesquisador plagiário, escritor/romancista que não escreve o romance. 
Todos esses narradores desaparecem no quarto romance (no romance 
Aquele um) em um movimento gradativo de despersonalização. O primeiro indício é 
o nome. Em Verde Vagomundo, tem nome, sobrenome e profissão. Major Antonio 
de Medeiros. Em O Minossauro, é o Geólogo Paulo. Em A Terceira Margem, apenas 
Geógrafo (que não é geógrafo). Outro indício são as relações familiares desses 
narradores expressas nos romances. O Major volta para vender as terras que 
recebera de herança, tem um tio com quem conversa. Paulo tem apenas – ou pelo 
menos – a namorada com quem troca cartas. O Geógrafo, ninguém. As relações 
com a terra ou com a região também diminuem. No primeiro romance, o Major vivera 
em Alenquer na infância. Os outros dois narradores, não. As relações de amizade 
também gradualmente diminuem. Enquanto o Major tem ex-colegas de infância, o 
que estabelece uma relação de afetividade com as pessoas e o lugar, Paulo não tem 
ligações com a região e sua amizade é apenas com um colega de equipe, Roberto, 
proveniente “quase da mesma escola” (MONTEIRO, 1975, pág. 162). Já o Geógrafo, 
está totalmente isolado. Miguel, autônomo no último romance, é o oposto de tudo 
 
69 Tese, aqui, no sentido de proposição resultado de pesquisa, não no sentido de trabalho final de 
doutorado. 
144 
 
 
isso. Ele tem nome completo, alcunhas, epítetos, muitas profissões e uma relação 
orgânica com a terra. Sem contar os filhos espalhados pela região. 
Os narradores urbanos dos três romances praticam um exercício de 
criação literária com reflexões sobre a linguagem desde as mais brandas (Verde 
Vagomundo), passando pelas precárias e desconexas (O Minossauro) até as mais 
elaboradas e embasadas (A Terceira Margem). Todos planejam escrever um livro 
(Verde Vagomundo) ou mais especificamente um romance (A Terceira Margem) e se 
referem a algo marcante: “um surpreendente romance” (Verde Vagomundo), “um 
grande livro” (O Minossauro) e ao reiterado “projeto literário” do Geógrafo (A Terceira 
Margem). Paradoxalmente temos romances em mãos, mas nenhum deles como 
fruto do resultado do trabalho desses narradores. Todos fracassam também em seus 
outros objetivos. Pelo menos nas páginas que lemos nos romances, o Major não 
vende as terras. O geólogo não completa o levantamento sismográfico. E o 
Geógrafo não dá andamento ao projeto do GT-33-CF, da Cidade do Futuro. Em O 
Minossauro, a equipe de pesquisadores é expulsa pela natureza, mas nos outros 
dois romances são as conjunturas históricas da Ditadura Militar que interrompem os 
projetos. Em Verde Vagomundo, é a chegada de uma comissão de militares no 
imediato pós-golpe. Já em A Terceira Margem, uma operação para levar assistência 
médica e fornecimento de serviços os mais diversos que submetem incidentalmente 
o grupo de pesquisa do geógrafo ao que este considerou como “engrenagem do 
Processo de Kafka” (MONTEIRO, 1983, pág. 157). Como veremos mais adiante. 
Esses narradores também incorporaram em seus projetos fracassados, 
principalmente o projeto do Geógrafo, a dificuldade de assimilação à mentalidade 
dos povos da floresta, da vida cabocla ou mentalidade indigenista. Eles incorporam 
a mentalidade das pessoas provenientes dos meios urbanos, detentores da 
mentalidade burguesa-capitalista de acumulação de bens, presas à lógica da 
produtividade mercantilista... Eles se revelam o desejo de se desfazer das terras 
convertendo em capital, o desejo de procurar escavar a região em busca de poços 
de petróleo, o desejo de criar uma cidade flutuante. 
Pontuando esses caminhos que fazem nos rios e nas florestas, esses 
narradores além do que em si mesmo revelam como vínculos ao mundo urbano, 
reforçam esta vinculação e apego, conduzindo consigo a necessidade de contato 
com o mundo – dito – civilizado. Por isso não deixam de ter contatos com 
instrumentos transmissores/receptores de comunicação: rádio, jornais e revistas. 
145 
 
 
3.3 – INTERFERÊNCIAS SONORAS, VISUAIS (NOTÍCIAS DE RÁDIO, JORNAIS E 
REVISTAS) 
 
A Amazônia brasileira é sem dúvida uma enorme Macondo70. 
Algumas de suas cidades desenvolveram-se e desenvolvem-se sob a 
égide do progresso capitalista, exploratório, destrutivo, mas ao mesmo tempo são 
mantidas alijadas dos benefícios (melhorias na qualidade de bens e serviços como 
melhores escolas e saneamento básico) que o mesmo progresso poderia trazer. 
Vemos cáuma evidente falência da possível relação custo-benefício que um estado 
de bem estar traria com o progresso. A falácia do capitalismo não poderia ser mais 
visível. 
Na cartografia do Brasil e da América Latina, a Amazônia é um enorme 
parêntese ora exageradamente destacado ora completamente ignorado. Para um 
país de dimensões continentais, qualquer afirmação generalizante costuma esbarrar 
na necessidade de se indicar esse espaço, essa fronteira, essa margem com “algum 
entretanto” (especialmente se o diálogo ocorrer com alguém da região). Qualquer 
afirmação a respeito do Brasil, deve ou deveria necessariamente indicar alguma 
ressalva no que se refere a Amazônia. Ressalva sempre ignorada, ou às vezes 
apenas pincelada mesmo em textos acadêmicos ou especializados sobre o país. 
Ainda está por ser escrito um Casa grande e senzala para a região. 
É espantoso o quanto os governos demoram a trazer benesses e o 
quanto são rápidos para levar embora as benesses que existem na região. Curioso o 
quanto se demora para implementar políticas públicas voltadas para minimizar a 
violência da região no campo e na cidade, mas por outro lado, a Força Nacional de 
Segurança, criada para ser rapidamente direcionada a locais de conflito funcionando 
como uma força militar extra, esteve praticamente instalada em Altamira por mais de 
dois anos com o intuito de conter manifestações ou passeatas contrárias à 
instalação da usina de Belo Monte. Mais um capítulo do genocídio indígena 
brasileiro. 
Uma metonímia para a incompreensão das dimensões do Brasil é pensar 
que as mercadorias produzidas na Zona Franca de Manaus são vendidas de volta 
 
70 Foi na VII Feira PanAmazônica do Livro, em 2004, evento que ocorre anualmente em Belém, que 
ouvi Ferreira Gullar comparar a capital maranhense à cidade criada por Gabriel Garcia Marquez, em 
Cem anos de Solidão. 
146 
 
 
para a mesma região com frete oriundo de São Paulo. Uma incoerência sem 
tamanho é saber que os cálculos usados na construção civil e os projetos de escolas 
públicas, por exemplo, são os mesmos das demais regiões do país. Nesta região, o 
asfalto não dura e parece derreter já que a base de cálculo de engenharia são vinte 
graus célsius. Os prédios racham, pois as juntas de dilatação (quando há) não foram 
calculadas para o clima local. Se existem ruínas na região, elas são resultado da 
ignorância dos especialistas. 
A sensação de fim de mundo pode ser apreendida nas coisas simples do 
cotidiano. Durante muito tempo nas cidades Amazônicas, as revistas de circulação 
nacional chegavam com déficit de semanas e os álbuns de figurinhas noticiados na 
televisão só estavam nas bancas quase dez meses após as propagandas cessarem 
a veiculação. Eram vendidas quando não mais circulavam no restante do país. Uma 
sub-nação, que não deixa, entretanto, de apresentar seus próprios contrastes 
internos. Um mundo de florestas onde as poucas áreas verdes nos espaços urbanos 
e que são administrados por órgãos públicos cobram entrada de seus moradores. 
Um espaço desmesurável de águas, onde as distâncias não podem ser apenas 
medidas em quilômetros, mas conforme a existência de rios e as formas de 
travessias (balsas ou pontes), além de marés altas ou baixas. Se por um lado é fim 
de mundo, por outro reserva para o futuro. Distopia e utopia. 
A medição do tempo, a ação no espaço, a circulação de informação, a 
percepção do ser, a presença de bens de consumo, a sensação de isolamento, ou 
de abandono. Tudo isso, com uma ou outra variação, ontem e hoje são elementos 
importantes para pensar a Amazônia. No contexto de uma cidade ribeirinha, com 
uma população entre 15 e 18 mil habitantes, a maioria pescadores, moradores de 
palafitas ou na zona rural, como era a Alenquer da década de 1960 e como ainda 
são muitas cidades do interior da Amazônia, qualquer elemento de tecnologia se 
torna relevante para compreensão do contexto histórico-mundial, “para fazer a 
ligação do tempo amazônico com o tempo universal” como afirma Ferreira (2010, 
pág. 04) ao discutir a presença do rádio transistor usado por Benedicto Monteiro em 
Verde Vagomundo. 
É o próprio Benedicto Monteiro, em entrevista para Lúcio Flávio Pinto, 
para o fanzine Bandeira 3, que afirma o quanto a presença deste aparelho de 
tecnologia representou para a população local. Segundo ele, “o rádio transistor 
processou uma revolução no Baixo-Amazonas. Ele levou aquele povo notícia e 
147 
 
 
conhecimento que ele jamais poderia ter, porque é totalmente isolado do mundo”. 
(1975, s/n). Santelli (2008, pág. 80) afirma que 
 
O rádio, para a região amazônica, [...] transformou totalmente a relação 
deste com o espaço e o tempo e consolidou-se como um importante agente 
de sobrevivência e de relacionamento das populações isoladas da floresta. 
Ele revelou a essas pessoas informações que jamais poderiam ter por 
serem totalmente isoladas do mundo. 
 
Em Verde Vagomundo, o rádio transistor 10 (bem como o gravador de fita 
magnética) que circula pela cidade nas mãos do Major Antonio Medeiros, não é 
absorvido e utilizado pela população local que permanece alheia às notícias que são 
ouvidas pelo narrador. A presença das notícias, primeiramente pelo rádio transistor 
em Verde Vagomundo, depois as notícias que chegam pelas torres de transmissão 
em O Minossauro e, por fim, as notícias de jornais e revistas em A Terceira Margem, 
embora localizem a vinculação local-universal e situem as ações temporalmente, 
exercem também um papel de interferência nas intermitências das falas dos 
narradores e nos entremeios dos demais materiais presentes nos romances. Tais 
interferências, vale lembrar, que serão descartadas na transição dos três romances 
para o romance-final, quase romance-síntese, Aquele um. 
No contexto da produção literária da década de 1970, este tipo de 
interferência era comum. Outros romances do período também utilizaram transcrever 
notícias notadamente nos romances fragmentados/fragmentários. 
A transcrição de notícias verdadeiras fazia parte da estratégia utilizada 
por romances de testimonio (testemunho latino-hispano-americano) especialmente 
aqueles escritos a partir do (ou mesmo com a intenção de concorrer ao) Prêmio 
Casa de Las Americas. Ao instituir o prêmio Testimonio, a revista cubana indicou 
entre os critérios de avaliação das obras a presença de “fontes de informação ou 
documentação fidedignas e qualidade literária” (DE MARCO, 2004, pág. 46), muito 
embora nem todas as obras premiadas tenham seguido à risca este critério ou tal 
paradigma. Como é o caso do mais famoso deles: Me llamo Rigoberta Menchú y así 
me nació la conciência. 
Dentre os livros premiados pela revista cubana, o livro de Elena 
Poniatowska, La noche de Tlatelolco, é organizado a partir da transcrição de uma 
série de fragmentos de falas de estudantes que participaram do protesto, mas 
também de várias notícias de jornais. O livro é sobre o massacre ocorrido em 2 de 
148 
 
 
outubro de 1968 no México, durante um protesto contra a realização dos jogos 
olímpicos daquele ano. Poniatowska transcreve a seguinte notícia sobre a morte de 
um estudante: 
 
Un estudiante de 19 años de edad —Luis González Sánchez— perdió la 
vida a manos de un policía, el 17 de noviembre de 1968, por el delito de ser 
sorprendido pintando propaganda del Movimiento en una pared, cerca del 
Periférico. • Excélsior, 18 de noviembre de 1968. (PONIATOWSKA, 1985, 
pág. 39-40). 
 
A notícia é escrita de forma irônica. O crime cometido pelo estudante foi 
ter sido flagrado pintando um muro. É uma notícia verdadeira. Se considerarmos a 
escolha da autora quanto ao tom irônico do jornalista, podemos afirmar que a 
transcrição não só ajuda a conferir veracidade ao livro como coopera para a reflexão 
crítica sobre o massacre. A ironia destaca a desproporcionalidade da força policial 
(leia-se oficial) empregada contra os estudantes civisdesarmados. 
Na literatura brasileira de 1970, a transcrição de notícias também foi um 
recurso utilizado com alguma frequência. Ignácio de Loyola Brandão certamente é o 
autor que mais fez uso deste artifício, em romances como Zero e Bebel que a cidade 
comeu. Em A festa, de Ivan Ângelo, a narração sobre os sem-terra que ocupam a 
estação do metrô de Belo Horizonte na noite de 31 de Março e que são espancados 
pela políc., vem carregada de muitos pequenos detalhes e lhes dão suporte às falas 
dos participantes que são coletadas pelos personagens jornalistas, bem como 
transcrições de recortes de jornais que teriam realizado a cobertura do incidente. 
Todos esses os indícios de verdade cooperaram para esta sensação de realidade 
empírica. Tudo, entretanto, é ficcional; é criação do autor. 
Ao contrário do que ocorre com a literatura hispânica da década de 1970, 
o romance brasileiro que lhe é contemporâneo trabalha com artifícios semelhantes 
mas de modo ficcional. Na obra de Benedicto Monteiro, mesmo que as notícias 
apontem para fatos realmente acontecidos, elas não acompanham registros de 
nomes de jornais, assinaturas de jornalistas ou mesmo datas. 
Nos romances que compõem a trilogia de Benedicto Monteiro, as notícias 
transcritas se apresentam de formas bem diversas de um romance a outro. Benedito 
Nunes afirma que elas assinalam “o contexto nacional e mundial da ação, 
regionalmente localizada” (1972), auxiliando na demarcação do contexto nacional e 
internacional das ações do romance. Santelli (2008), em sua dissertação de 
149 
 
 
mestrado, afirma que a presença do rádio em Verde Vagomundo corresponde à 
técnica do estranhamento brechtiano. 
Aqui pretendo destacar que as notícias assumem formas diferentes de 
interferência e importância de romance a outro, considerando a interligação de uma 
obra com a outra sem ferir autonomia e independência de cada uma. Pretendo 
indicar ainda que as notícias indiciam a própria mudança na forma de apreensão do 
mundo da década de 60 para 70; e que – longe da suposta aleatoriedade das 
notícias transcritas – existe, não só um princípio que rege a escolha e a seleção das 
mesmas, como também podemos apontar alguma intencionalidade; alguns rastros 
de curupira. 
Benedicto Monteiro afirma a importância dessas transcrições para colocar 
as ações dentro de um contexto. 
 
Você se lembra que o personagem Major Antônio Medeiros do romance 
Verde Vagomundo portava um radinho de pilha e um gravador? Pois é, ele 
gravava tudo que era interessante numa fita k-7. Significa aí também um 
contexto (MONTEIRO, 2000, pág. 107). 
 
Embora Benedicto Monteiro – ao ser indagado sobre a voz do rádio no 
romance O Minossauro – responda que não fez “pesquisa para escrever esses 
fragmentos”, que eles “não foram feitos baseados naquela realidade (em fatos 
retirados de noticiários de rádio ou jornal impresso)” (MONTEIRO, 2000, pág. 107) e 
que não teria sido de propósito que ele fez as transcrições, preferimos acreditar que 
ele pegou “tudo o que pudesse estabelecer o contexto daquele momento histórico” 
(afirmação feita na mesma entrevista, pág. 108) e que ele tinha uma coleção de 
transcrições (conforme Wanda Monteiro)71, as quais teriam sido usadas como 
matéria-prima para o romance. Acreditamos ainda que essas transcrições 
obedecem, não a uma linearidade ou cronologia, mas – como afirmamos acima – 
uma intencionalidade. Existe algum princípio na seleção das notícias e uma lógica 
na ordenação das mesmas com o intuito de contextualizar a obra, mas também de 
criar sulcos por onde a interpretação do leitor deverá seguir. 
 
 
71 Em entrevista Wanda nos afirma que: 
“Alguns recortes ele tinha. Ele tinha assinatura de O Globo, do Correio Brasiliense (em casa). Fora os 
outros jornais, mas ele ouvia muito aquelas rádios internacionais. Por aquele rádio (transistor). E 
eram aquelas notícias que ele praticamente gravava e depois transcrevia”. (entrevista em anexo) 
150 
 
 
De forma geral, acreditamos que: 
1) as notícias assumem importância diferente de romance a outro, 
inclusive em relação às suas respectivas autonomias; 
2) que elas indiciam também a mudança na forma de apreensão do 
mundo através de novas mídias da década de 60 para 70; 
3) e que existe, não só um princípio que rege a escolha e a seleção das 
mesmas, como também existe uma intencionalidade, que contraria a ideia de 
aleatoriedade da transcrição. 
Em Verde Vagomundo, a inserção do aparelho de rádio transistor 10 e do 
gravador de fita magnética, dois “aparelhos que revolucionaram a produção e a 
recepção de mensagens” em meados do século XX (MAGNONI; RODRIGUES 
(2013, pág. 7), além de causar como efeito na narrativa o estranhamento brechtiano, 
(SANTELLI, 2008), representam a presença de uma nova forma de tecnologia de 
informação numa “pequena cidade do interior da Amazônia”, Alenquer, que serve 
como metonímia para qualquer outra cidade ribeirinha da região, ou – para usarmos 
a expressão de Charles Wagley – qualquer comunidade tipicamente amazônica. 
É significativo que a chegada do major tenha ocorrido exatamente num 
batelão de comércio com suas cargas de subida e suas cargas de descida. Antes do 
advento do rádio, as notícias chegavam às pequenas cidades exatamente pelos 
batelões. Conforme Benedicto Monteiro explicou numa entrevista. 
 
Depois que terminou a época do “regatão” no Baixo-Amazonas, que se 
extinguiram as grandes companhias de navegação, ou por outra, faliram as 
grandes casas aviadoras – Nicolau da Costa & Cia, Ferreira de Oliveira 
Sobrinho, Silva & Cia -, essa região ficou praticamente sem comunicação, 
porque a comunicação era o “regatão”. Quem levava as notícias para a 
cidade eram os navios em viagens constantes de Belém a Manaus e de 
Manaus a Belém. Mas isso desapareceu. Quer dizer: ficou uma região 
realmente isolada, o Baixo-Amazonas é praticamente uma região sitiada. O 
sistema rodoviário liga uma parte dessa região, agora através de Santarém 
e outra chegando até Manaus. Essa região ficou isolada de notícias e 
comunicação, daí sobrar só rádio transistor (MONTEIRO, 1975b, s/p). 
 
Não só as notícias do mundo à fora, mas principalmente o que mais 
interessava àquelas pessoas às margens dos rios da região amazônica: notícias de 
parentes, nascimentos, casamentos, batizados. 
 
 
151 
 
 
o contato entre o homem do interior e o mundo urbano era feito pelo barco 
que abastecia de mercadorias os seringais e as pequenas povoações. 
Inclusive o regatão quebrava o isolamento e levava também as cartas dos 
parentes que viviam em outras localidades, às margens dos rios, além de 
notícias do Brasil e do mundo (SANTELLI, 2008, pág. 34). 
 
Vale ressaltar que as tecnologias poderiam representar um escarcéu de 
novidade. Se o Major com seu rádio, ouvindo notícias do Brasil e do Mundo, bem 
como de seu gravador, não parecem chamar tanto a atenção da população de 
Alenquer, o mesmo não ocorre com uma prostituta que vai ficar notória por fazer “as 
maiores sem-vergonices [...] em posições estranhas meia-safadas” (MONTEIRO, 
1972, pág. 154) sempre numa cama de colchão de molas e com as luzes acesas, 
diferente do costume de fazer sexo às escuras, à luz de lamparina e deitados em 
redes. A cama, o colchão de molas e as luzes acesas representavam a novidade tão 
grande a ponto dela cobrar pelos serviços um “dinheiro muito brabo” (pág. 153). 
A própria forma como Miguel se refere aos fogos de artifício revelam um 
encantamento, um fascínio causado por um som artificial e belo de um foguete. Ele 
responde ao Major que resolveu aprender a fazer foguete 
 
porque foi a primeira coisa alegre e bonita que vi na minha vida. Naquele 
mato horrível, no ôco do mundo do Vai-quem-quer, a única coisa que surgia 
diferente do canto dos pássaros, do tiro de espingarda e do grito dos 
animais, era o estrondo alegre do foguete (MONTEIRO, 1972, pág. 151). 
 
Não à toa a históriado encontro com a “poldra brava” do colchão de 
molas é narrada entremeada ao relato de sua vocação de ser pirotécnico. 
A despeito disso, as tecnologias portadas pelo Major não se impregnam 
em seus conterrâneos autóctones. Todas as notícias apenas conferem ao relato um 
fundo histórico sem inter-relação. Com exceção da notícia da morte do presidente 
dos Estados Unidos, John Kennedy, notícia sobre a qual o Major procura algum 
interlocutor, encontrando apenas o frade franciscano alemão para quem a notícia 
representava muito interesse, ninguém mais na população da metonímica Alenquer 
se interessou ou se importou. Aliás, os populares perguntavam espantados para o 
Major o que aquilo poderia interferir em suas vidas. “Mas o presidente que o senhor 
fala, não é o Presidente da América? O que isso tem a ver conosco?” (1972, pág. 
156) – pergunta o personagem Pepe Rico. 
Como afirmado no parágrafo anterior, apenas o frade alemão serviu de 
interlocutor para o Major sobre a morte ou assassinato do presidente John Kennedy. 
152 
 
 
O religioso não só apresentava uma reflexão política que oferecia ao Major um 
diálogo que tanto desejava quanto demonstrou ser alguém ciente de que as 
questões políticas internacionais poderiam afetá-lo e afetar a vida das pessoas 
mesmo numa comunidade aparentemente isolada do mundo. 
Para o frade, o presidente ianque fora assassinado e pouco importava 
quem assumisse em seu lugar, porque a conjuntura política implicava o cargo de 
presidente ser o de um mero preposto, 
 
quase um robôt. Menos até que um robô, porque o robô é governado ou 
programado pelas leis da cibernética, enquanto que o preposto é 
subordinado aos interesses dos grupos. [...] Grupos econômicos, 
tecnocráticos, burocráticos e políticos. [...] Esses grupos, hoje, em face da 
alta concentração do poderio econômico, do monopólio das armas 
nucleares, do alto poder de destruição das armas, do extraordinário 
progresso da tecnologia, da incontrolável corrida espacial, do imenso poder 
dos órgãos de comunicação de massa – esses grupos – já superaram as 
divisões tradicionais existentes de classes (MONTEIRO, 1972, pág. 145). 
 
Em sua opinião, isso valeria principalmente para os Estados Unidos. De 
um modo geral, os países capitalistas nada mais fariam do que representar esses 
grupos. Sua visão crítica surpreende o Major ao sintetizar como, em seu ponto de 
vista, os países socialistas teriam algo correlato aos grupos. Enquanto naqueles 
temos os grupos, nestes “a mais alta sublimação do coletivismo, gerou as castas” 
(pág. 146). 
Tal jogo de forças e de poder também se infiltrava na igreja e engendrava 
as decisões mesmo que os vigários mal se dessem conta do que ocorria nas altas 
esferas episcopais. Ele conta que antes estava numa missão franciscana nas selvas 
do Xingu e que inesperadamente fora transferido para Alenquer. Depois de um 
período indefinido apareceram “aviões de reconhecimento [...] da Força aérea Norte-
Americana”. Depois mais 
 
aviões e helicópteros. Fizeram campos de pouso. Diziam que estavam 
fazendo levantamento geodésicos para um acordo internacional com 
objetivos de corrigir os mapas, as rotas aéreas, sei lá... Certo dia, nós 
alemães, fomos surpreendidos com ordens superiores para cedermos 
lugares a frades norte-americanos da nossa mesma ordem. Fomos rápido e 
sumariamente substituídos (MONTEIRO, 1972, pág. 149). 
 
A notícia da morte do presidente John Kennedy chama a atenção por ser 
uma das poucas que salta do Rádio Transistor 10, que o Major escuta, para os 
153 
 
 
diálogos estabelecidos com seus conterrâneos. A instalação do golpe militar é, 
entretanto, a notícia de maior impacto, que, embora não gere diálogos, é, ela 
mesma, instalada nas vidas dos alenquerenses. 
Anteriormente citadas as notícias transcritas pelo narrador não são 
aleatórias e apresentam alguma lógica na sua seleção e ordenação, bem como 
apresentam em gradação alguma intencionalidade. Muito embora, elas, no conjunto, 
não obedeçam nenhuma cronologia progressiva, são essas notícias que nos situam 
historicamente em relação aos fatos narrados. Elas referem-se ao contexto 
internacional da Guerra Fria e à crise no governo João Goulart que resulta no golpe 
de 1964. Consequentemente, vários temas circunscritos a estes, gravitam e 
completam o panorama histórico. Dos 8 blocos de transcrições, nos 6 primeiros 
(aqueles que são transcritos antes do Major se decidir pela escrita de um diário), as 
notícias são apresentadas obedecendo sempre uma mesma disposição: primeiro as 
internacionais, depois as nacionais (a sexta transcrição faz isso duas vezes). 
Podemos indicar ainda outros temas que complementam os dois 
principais citados no parágrafo anterior. Notícias sobre as conquistas espaciais, 
sobre tecnologias de ponta, corrida armamentista, política externa norte-americana, 
guerra do Vietnam, manifestações públicas contra guerras, etc. conformam o 
panorama da Guerra Fria, com destaque para a intervenção Norte-Americana e a 
bipolarização deste país com a, então, União Soviética. A crise do governo João 
Goulart e a derrocada da democracia em 1964 são emolduradas por notícias sobre: 
política econômica, relação do presidente com a esquerda, debates sobre as 
reformas de base, atos paliativos (nem sempre bem logrados) do presidente João 
Goulart, a relação do governo com as forças armadas, os comícios-monstro, a 
passeata “com Deus pela Liberdade e pela Pátria”, o apoio da Igreja Católica, entre 
outros. As últimas 11 notícias, na última transcrição, tratam do golpe já instalado: o 
exílio de João Goulart no Uruguai, a presença do Comando Supremo da Revolução, 
os atos institucionais, as cassações, a revogação de atos do governo João Goulart 
como os da encampação das refinarias de petróleo e do controle das remessas de 
lucro para o exterior. Voltemos a isso mais adiante. 
Um terceiro tema importante presente nas transcrições são as notícias 
sobre arte de vanguarda: a arte expressionista abstrata de Kenzo Okada; a 
composição Les Hexange (ou Les Echanges) de Rolf Lieberman; nudez masculina 
na publicidade francesa; a polêmica causada pela premiação de Robert 
154 
 
 
Raushenberg na bienal de Veneza; o happening de Jean Jacques Lebel; algumas 
transcrições de notícias relacionadas à literatura (são citados dois autores do boom 
latino-americanos como autores que consagram a nova literatura do sub-continente); 
a polêmica causada pela apresentação de Elizete Cardoso interpretando as 
Bachianas, de Villa Lobos, com a regência do maestro Diogo Pacheco, no Teatro 
Municipal do Rio de Janeiro; além de uma ênfase na Bossa Nova como uma arte 
brasileira de exportação. 
Complementando o quadro desta conturbada fração do século XX, ainda 
são transcritas notícias sobre: comportamento social, novos comportamentos 
sexuais (a prática do swing e sexo antes do casamento), uso de drogas, avanços no 
pensamento da Igreja Católica, inserção de minorias ou grupos não-hegemônicos 
em espaços públicos (negros, homossexuais, mulheres), problemas mundiais (como 
a superpopulação e a possível escassez de alimentos), e problemas de países 
periféricos, tecnologias de vigilância e segurança, interpretações filosóficas de 
autores da Escola de Frankfurt (Adorno e a noção de “Indústria Cultural”, por 
exemplo), problemas ambientais. 
O tempo da história entre a chegada do Major a Alenquer e o dia em que 
Miguel estourou os fogos de artifício, que seriam para nove noites, delimitam um 
período de tempo superior a 1 (um) ano. Entretanto, se temos uma data exata para o 
término – o dia 13 de junho de 196472 – a data inicial é imprecisa. Podemos situá-la 
entre o início de agosto e meados de outubro de 1962. A data mais remota que 
podemos indicar pelas transcrições das transmissões do rádio transistor 10 é 
relacionada à nave espacial Mariner II, que passou perto de Vênus em 14 de 
dezembro de 1962. Esta inclusive é aprimeira notícia transcrita. Isto pode induzir o 
leitor a pensar que todas as demais serão ordenadas cronologicamente, coisa que 
não acontece em nenhum dos três romances. 
A não-linearidade e a falta de “compatibilidade cronológica” – para 
usarmos uma expressão utilizada por Wanda Monteiro – inscrevem um pano de 
fundo difuso em que o tempo não apresenta uma demarcação precisa. Benedicto 
Monteiro concebia o tempo como um Transtempo: “o passado, o presente e o futuro 
[unidos] naquele momento”. Palavra que intitula de sua autobiografia – livro que 
 
72 O romance não cita, nem a isto se refere, mas esta é a data em que é escolhido através de eleição 
indireta o primeiro governador do Pará após o Golpe de 1964. Jarbas Passarinho tomaria posse dois 
dias depois substituindo Aurélio do Carmo que fora eleito pelo voto e tomara posse em 1961. 
155 
 
 
deixa o pesquisador ortodoxo por datas e períodos históricos perplexo, perdido... Em 
entrevista para Fátima Nascimento, ele afirma ser 
 
contra datas. Eu sou contra a cronologia, tanto que você vê que no 
Transtempo não há nenhuma referência a data. Então, tudo que eu escrevo 
é sem data. É a minha forma de escrever. A data, ela prende as pessoas 
(MONTEIRO, 2000, pág. 109). 
 
Ainda considerando os marcos de calendário do romance. A única 
informação apresentada pelo narrador sobre sua chegada é de que seria verão no 
Norte do Brasil; ou ainda, já que estas nomenclaturas parecem pouco servir de 
parâmetros numa região cujas estações são mais regidas pela água que pelo sol, 
poderíamos dizer que era período de estio. Afirma o narrador, que “era verão e noite, 
o barranco do rio onde tínhamos encostado, me dava a nítida sensação de estar 
num buraco”, ou seja, o nível das águas estava baixo, num período de estio. O Major 
deve ter chegado em agosto, setembro ou outubro. Reforçando esta imagem de que 
as águas estavam baixas, na mesma página lemos que o Major afirma ver a ponte 
que liga o trapiche à cidade de Alenquer bastante alta em relação ao nível do rio, 
“uma ponte suspensa entre o céu e a terra” (MONTEIRO, 1972, pág. 15). 
As notícias nacionais desta primeira transcrição corroboram para 
demarcarmos a data inicial no período citado. São transcritas notícias sobre o Plano 
Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social (1963-1965), elaborado pelo 
ministro do Planejamento Celso Furtado, anunciado em 30 de dezembro de 1962, e 
logo em seguida a nomeação de Almino Affonso para o posto de Ministro do 
Trabalho (cargo que ocupou entre 24 de janeiro a 18 de junho de 1963). As duas 
notícias visam salientar as contradições do governo João Goulart. Ambas não citam 
datas, nem os nomes dos ministros: 
 
O presidente da República do Brasil empenha-se em resolver os problemas 
da Nação dentro da estrutura política existente. 
-o0o- 
Economista brasileira formula o primeiro Plano Trienal que é aprovado pelo 
Presidente da República. Objetivo: manter um ritmo de crescimento elevado 
(7%), reduzindo paralelamente a taxa de inflação (10%) e realizando as 
reformas necessárias. 
-o0o- 
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA NOMEIA PARA O MINISTÉRIO DO 
TRABALHO JOVEM POLÍTICO DA ESQUERDA INDICADO SOB 
PRESSÃO DOS SINDICATOS OPERÁRIOS. O MINISTRO NOMEADO É 
CONTRA O CONGELAMENTO DE SALÁRIOS EXIGIDOS PARA A 
EXECUÇÃO DO PLANO TRIENAL. 
(MONTEIRO, 1972, pág. 30) 
156 
 
 
 
Ainda considerando as transcrições das notícias como marcos, apenas 
uma notícia não estaria entre as balizas que indicamos acima. Ela aparece na 5ª 
transcrição do Rádio Transistor 10. 
 
A MORTE EM COMBATE NA COLÔMBIA DO PADRE GUERRILHEIRO 
CAMILO TORRES DÁ NOVA DIMENSÃO ÀS LUTAS DE LIBERTAÇÃO DA 
AMÉRICA [123] LATINA E PÕE EM CHOQUE A POSIÇÃO DA IGREJA NO 
CONTINENTE (MONTEIRO, 1972, pág. 122-3). 
 
A morte de Camilo Torres73 ocorre em 15 de fevereiro de 1966. Fora dos 
limites temporais das ações do romance, embora com elas relacionadas. 
Importante destacar que as transcrições captadas a partir da cidade de 
Alenquer num aparelho de ondas médias, como era o Rádio Transistor 10, 
correspondem a recortes da realidade do momento. Sendo o primeiro recorte próprio 
das escolhas feitas pelas emissoras de rádio escutadas pelo Major, sobretudo a Voz 
da América. Afirma o narrador em vários momentos: 
 
Como das outras vezes, me agarrei ao rádio transistor, para percorrer o 
mundo, naquela faixa exígua, cujas distâncias, eram milimetradas pelos 
quilociclos. Paris, Londres, Washington, Roma, Berna, Tóquio, Cuba, 
Moscou, Berlim. A Voz da América, em todas as faixas, percorrendo todas 
as latitudes e cobrindo todas as distâncias. A Voz da América, nítida, 
potente, diversificada, em vários horários e falando corretamente várias 
línguas e principalmente um esplêndido português em muitas audiências. O 
poder das palavras, a guerra das palavras em todas as línguas e em todas 
as direções (MONTEIRO, 1972, pág. 56). 
Divago com o ponteiro do dial procurando as estações: Paris, Londres, 
Moscou, Berlim, Tóquio, Pequim, New York, Cairo, Argélia, Cuba e Buenos 
Aires. Passo de raspão pelas estações do Brasil: reforma de base, música 
popular, novela, futebol e anúncios comerciais. Em todos os percursos 
encontro a Voz da América. A Voz da América (pág.138). 
 
A Voz da América foi fundada em 1943. Era uma emissora Norte-
Americana com transmissão exclusiva para a comunidade internacional, já que a 
política interna da época proibia o governo ianque de ter uma estação pública para 
transmissões locais (como existe a Voz do Brasil, por aqui). As transmissões em 
Língua Portuguesa iniciaram em 1961. Segundo o site Ondas Curtas 
(www.ondascurtas.com) a emissora 
 
 
73 Há um documentário de 2017 sobre ele: Camilo Más que un Cura Guerrillero/ "Camilo, Mais que 
um Padre Guerrilheiro" – disponível em youtube. 
157 
 
 
rapidamente tornou-se uma das emissoras internacionais mais ouvidas no 
Brasil [e] notabilizou-se pela cobertura das missões espaciais da NASA, 
muitas vezes com transmissões ao vivo, e das eleições presidenciais norte-
americanos ao longo da existência do serviço74. 
 
Segundo Ivani Vassoler Froelich (2005, pág. 207), a Voz da América 
integra um conjunto de ações americanas (de caráter intervencionista, segundo eu 
interpreto) isentas do uso da força (soft power em oposição ao hard power – “uso do 
poderio militar”) dentre as quais também estariam “as concessões de bolsas de 
estudo para estrangeiros, os programas de intercâmbio cultural entre acadêmicos”, 
bem como “a atividade de órgãos do governo, encarregados das relações públicas 
no exterior”. Froelich afirma que estas 
 
ações funcionam como canais para a disseminação, no exterior, do objetivo 
americano declarado em promover a expansão da democracia 
representativa liberal [...] uma das pedras fundamentais para a manutenção 
da estabilidade e da segurança internacional, sempre tão almejadas pelo 
poder hegemônico (2005, pág. 207). 
 
Froelich (pág. 209), citando um artigo da professora Martha Bayles, do 
Boston College, acrescenta algo relevante para entendermos a importância da 
emissora no contexto das décadas de 1960-70, ou ainda no contexto do romance 
Verde Vagomundo. A Voz da América era usada como instrumento de propaganda 
política durante a Guerra Fria com a finalidade “de conter a expansão do 
comunismo”. Nos anos 50, a audiência da estação era de cerca de 100 milhões de 
ouvintes no mundo. 
Não só as notícias da Voz da América foram produzidas com determinada 
intencionalidade, mas também a seleção feita por este personagem e, por extensão, 
pelo próprio Benedicto Monteiro, apresenta uma finalidade. Para além de 
contextualizar a narrativa, as transcrições representam, dentro de um universo 
maior, aquilo se desejava apresentar como contextualização. É importante lembrar 
que Benedicto Monteiro possuía na época um equipamento como o Rádio Transistor 
10, que ele usava com frequência quando estavaem Alenquer e que, durante o 
período em que esteve na mata fugindo dos militares (em Abril de 1964), ele usou 
para saber as notícias sobre o golpe e localizar tropas que lhe perseguiam 
 
74 No site, é possível ouvir algumas gravações como um compacto da narração da chegada do 
homem à lua. Acesso: https://www.ondascurtas.com/acervo/voz-da-america/. 
158 
 
 
(MONTEIRO, 1993, pág. 74). Segundo Wanda Monteiro, ele escutou, inclusive, a 
notícia de que teria sido capturado e morto. 
Ao lado das notícias da Voz da América e de sua propaganda imperialista 
e anti-comunista, estão as notícias sobre a crise no governo João Goulart, 
principalmente sobre o prelúdio do golpe no Brasil e, na oitava e última transcrição, 
sobre o início da ditadura. Afirma o narrador que nas estações do Brasil ouviam-se 
notícias sobre as reformas de base, além de música popular, radionovelas e futebol 
(MONTEIRO, 1972, pág. 138). 
Ao contrário das notícias internacionais, que basicamente chegavam ao 
conhecimento de Benedicto Monteiro via rádio e outros meios de comunicação (ele 
era assinante d’O globo e do Correio Brasiliense), as notícias nacionais faziam parte 
de sua vivência imediata. Ele estava na metade do segundo mandato como 
deputado estadual em abril de 1964. De algum modo, as escolhas das notícias 
nacionais transcritas seguem o intento que extrapola a intencionalidade das 
emissoras ouvidas pelo Major. Além disso, a transcrição das notícias referentes ao 
contexto nacional mostra um quadro preocupante, adverso ao presidente da 
república e este é apresentado de forma bastante negativa. Tais notícias nacionais 
mostram o cenário político não apenas de forma objetiva e imparcial, mas de 
maneira incompleta já que elas são intercaladas por opiniões, que aparecem no 
texto sem qualquer marcação que as diferenciem visualmente. 
As opiniões apresentadas, por se tratarem de transcrições de ouvido e 
não aspeadas, tanto podem ser oriundas do noticiário, como do próprio Major (por 
extensão, do próprio Benedicto Monteiro75). Lemos, por exemplo, na transcrição 5 do 
rádio transistor 10: 
 
A impressão geral é que o Presidente da República acaba apoiando-se no 
radicalismo das esquerdas. No entanto, mais do que nunca, sente-se que 
ele é um homem insolado e indeciso (MONTEIRO, 1972, pág. 121). 
 
Esta transcrição (que nem bem poderíamos classificá-la assim) integra 
um bloco de 06 outras de notícias sobre a política nacional. A primeira delas é sobre 
a concessão do voto para analfabetos. Uma outra é sobre o desastre do Plano 
 
75 Ao afirmarmos, por extensão, o próprio, não significa que ele (Benedicto Monteiro) concorde com 
essas opiniões, mas sim que ele também captava ou percebia a forma como a maioria das pessoas 
avaliava o presidente João Goulart. 
159 
 
 
Trienal. E as outras 4 referem-se à Reforma Agrária – sendo uma sobre a 
quantidade de ligas camponesas e a outra sobre as reformas de base em geral. 
Outras transcrições apresentam mais opiniões negativas sobre o 
Presidente João Goulart. Vejamos algumas delas: 
 
Tentando equilibrar-se entre os dois extremos – direita e esquerda – o 
Presidente da República procura capitalizar a opinião indecisa do centro 
condenando dois governadores de estado, símbolo dessa mobilização 
extremista (MONTEIRO, 1972, pág. 37. Rádio transistor 10/2). 
O Presidente da República num esforço para manter-se equidistante das 
correntes extremistas, modifica o seu ministério e coloca na pasta da 
fazenda um autêntico representante das forças empresariais de São Paulo 
(MONTEIRO, 1972, pág. 54. Rádio transistor 10/3). 
Em Brasília, nova capital federal, sargentos da marinha e da aeronáutica 
revoltam-se contra disposição do Tribunal Eleitoral, que não lhes permite 
candidatarem-se a cargos eletivos, prendendo o presidente da câmara dos 
deputados e um ministro do Supremo Tribunal. O presidente da república 
mantendo a sua atitude de vacilação recusa-se a atacar ou defender os 
rebeldes (MONTEIRO, 1972, pág. 55. Rádio transistor 10/3 - (grifos nossos). 
O Presidente da República solicita ao Congresso Nacional a decretação de 
Estado de Sítio para fazer face as greves e agitações, mas retira logo o 
pedido sem qualquer justificativa sobre o fato (MONTEIRO, 1972, pág. 71. 
Rádio transistor 10/4). 
 
Ângela de Castro Gomes (2006) afirma que “dependendo de quem esteja 
avaliando” a memória de João Goulart, ela pode ser considerada 
 
altamente positiva ou perigosamente negativa. Uma imagem partida, como 
a dos políticos em geral (que sempre têm opositores), mas que, nesse 
exemplo específico, ganha força especial, sobretudo após os 
acontecimentos de 1964, com o regime militar e o exílio (pág. 46). 
 
O artigo de Ângela Gomes (2006) é sobre a atuação de Jango como 
ministro do Trabalho, mas a afirmação sobre a leitura extremada de sua memória 
tanto vale para o exercício deste cargo quanto valeria para o período na presidência. 
Carlos Fico (2008), entretanto, pontua que a visão predominante da 
historiografia sobre João Goulart é negativa. Ele não poupa desqualificativos sobre o 
então presidente. Para este historiador, João Goulart apresentava uma “imagem de 
indeciso e incompetente” (pág. 72), “suas ações após o Comício da Central foram 
muito infelizes, especialmente a desastrada reação à rebelião dos marinheiros e o 
desarvorado discurso no Automóvel Clube” (2008, pág. 74). 
160 
 
 
A visão do historiador corrobora com o recorte de notícias eivadas de 
opiniões apresentadas no romance de Benedicto Monteiro tendo em vista algumas 
das ações do presidente João Goulart. Fico (2008) avalia que João Goulart 
 
foi deposto porque deu a impressão de fomentar conquistas populares 
demasiado amplas que, aos olhos de certos setores da elite, poderiam levar 
à radicalização da democracia (2008, pág. 75). 
 
As 12 últimas notícias transcritas a partir da audição do rádio transistor 10 
referem-se ao golpe e aos meses seguintes (sem indicações de datas): 
 
DIZENDO QUERER EVITAR UMA GUERRA CIVIL, O PRESIDENTE DA 
REPÚBLICA, JÁ DEPOSTO, EXILA-SE NO URUGUAY. 
-o0o- 
Começa-se a falar em Comando Supremo da Revolução que é constituído 
aparentemente pelos ministros militares. 
-o0o- 
ATO INSTITUCIONAL EDITADO PELO COMANDO [219] SUPREMO DA 
REVOLUÇÃO OUTORGA A SI PRÓPRIO PODERES DISCRICIONÁRIOS 
ILIMITADOS. 
-o0o- 
Especificamente, o Comando Supremo, tem poderes para cassar mandatos 
eletivos, suspender direitos políticos de qualquer pessoa e praticar qualquer 
ato do interesse da Revolução. 
-o0o- 
SEGUNDO ATO INSTITUCIONAL EDITADO PELOP COMANDO 
SUPREMO MARCA ELEIÇÃO PARA O NOVO PRESIDENTE DA 
REPÚBLICA. A ELEIÇÃO DEVE SER INDIRETA E FEITA DENTRO DE 
DOIS DIAS PELO CONGRESSO NACIONAL AMPUTADO DE VÁRIOS DE 
SEUS MEMBROS QUE TIVERAM SEUS MANDATOS CASSADOS E 
SEUS DIREITOS SUSPENSOS. 
-o0o- 
DE UMA LISTA DE 5.000 INIMIGOS DO NOVO REGIME ORGANIZADA 
POR OFICIAIS DA “LINHA DURA” O COMANDO SUPREMO CASSA 
INICIALMENTE MANDATOS E DIREITOS POLÍTICOS DE 378 PESSOAS, 
ENTRE OS QUAIS TRÊS EX-PRESIDENTES DA REPÚBLICA, SEIS 
GOVERNADORES DE ESTADO E 55 MEMBROS DO CONGRESSO 
NACIONAL. 
-o0o- 
Dez mil (10.000) funcionários são demitidos e cerca [220] de cinco mil 
(5.000) investigações sumárias são abertas envolvendo inicialmente 
cinquenta mil (50.000) pessoas que são detidas ou encarceradas. 
-o0o- 
DAS 50.000 PESSOAS DETIDAS OU ENCARCERADAS A MAIORIA É 
CONSTITUÍDA DE INTELECTUAIS, POLÍTICOS, ESTUDANTES, 
SINDICALISTAS OU SIMPLESMENTE CAMPONESES OU OPERÁRIOS. 
-o0o- 
O primeiro ato administrativo do novo governo foi revogar a encampação 
das refinarias particulares. 
-o0o- 
SEGUNDO ATO: REVOGAÇÃO DA LEI QUE PRETENDIA CONTROLAR A 
REMESSA DE LUCROS DAS EMPRESAS ESTRANGEIRAS PARA O 
EXTERIOR. 
-o0o- 
161 
 
 
Em ato solene e com grande publicidade o Comando [221] Supremo que 
subsiste com o novo Governo, revoga o decreto que executava a reforma 
agrária. 
-o0o- 
O COMANDO DA POLÍTICAECONÔMICA E FINANCEIRA DO PAÍS 
PASSA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA PARA O MINISTÉRIO DE 
PLANEJAMENTO QUE É EXERCIDO POR UM 
 TÉCNICO BRASILEIRO FUNCIONÁRIO DE IMPORTANTE TRUSTE 
NORTE-AMERICANO. 
(MONTEIRO, 1972, pág. 118-121) 
 
Em O Minossauro (1975), as notícias são transcritas não mais a partir de 
um rádio transistor 10 (um aparelhinho de mão), mas sim a partir da recepção feita 
em uma sala de rádio (com torre externa – supomos). O narrador urbano e 
ordenador do material discursivo presente na narrativa é um geólogo da Petrobrás 
que comanda uma equipe na Amazônia. As notícias são de consumo apenas deste 
personagem e, no limite, de sua equipe. Ao contrário do que ocorre em Verde 
Vagomundo, em que as notícias chegando pelo rádio correspondiam a um intrujão 
no cenário local e a um destom no contexto, aqui as notícias se amalgamam senão 
ao cenário local, mas ao contexto que lhe é imediato: a equipe de pesquisa 
sismológica e todos os seus aparatos. Estes sim, e de forma ampliada, formam um 
enorme intrujão no cenário da Amazônia. Uma interferência significativa e, 
contextualmente, visual. 
Mesmo as notícias sendo de consumo de Paulo e sua equipe, elas não 
saltam da sala de rádio para o diálogo que os personagens estabelecem entre si. 
Este romance apresenta uma organicidade que não encontramos no 
primeiro. As notícias de rádio integram uma alternância com as outras formas 
discursivas principais e iniciam sempre com a imagem de três torres que aqui 
reproduzimos. 
 
 
 
Também ajuda a conferir alguma ordenação o fato dessas transcrições 
serem entremeadas aos versos de um poema de Drummond – “A torre sem 
162 
 
 
degraus” – poema publicado no livro Boitempo 76. O romancista, entre os versos do 
poema, insere as transcrições de rádio que são captadas pelo personagem em 
missão no meio da selva amazônica. 
Apesar disso, é exatamente a existência dos versos deste poema que 
cooperam para transformar (por dentro) a aparente ordenação em caos. No conjunto 
da narrativa, as inserções das notícias nos versos de Drummond apresentam uma 
regularidade, mas em seu interior prevalece a desordem. A mesma desordem que já 
havia no poema drummondiano. 
Maria do Carmo Campos(1999), em sua análise sobre o poema “A torre 
sem degraus”, afirma que o poema, ao edificar 
 
os andares infindáveis dessa torre desprovida de degraus, alude à 
construção possível de um real em ruptura, sem pontos de referência ou 
apoio. A solidez da pedra é iluminada por imensos vazios lógicos e 
estruturais, na desierarquização grave e poética de uma escada que 
paulatinamente se constrói e se desmonta (1999, pág. 136). 
 
Benedicto Monteiro preenche estes vazios lógicos com notícias dispostas 
sem nenhuma lógica aparente na escolha. Preenche sem a intenção de criar uma 
lógica mas de aproveitar os vazios lógicos de modo a amplificá-los. Neste romance – 
contrariamente do que lemos em Verde Vagomundo – não há uma disposição em 
grupo de notícias internacionais para notícias nacionais. Nele, não podemos indicar 
que haja uma seleção de notícias sobre o contexto da Guerra Fria entre as notícias 
internacionais, nem que haja uma seleção de notícias especificas sobre a política 
nacional. 
A colcha de retalhos temática é tão variada que qualquer tentativa de 
estabelecer alguma ordem resultou em malogro. À exceção dos blocos de notícias 
remanescentes do romance anterior, ou seja, o contexto internacional pós-guerra (ou 
pós-guerra fria) e o contexto nacional de golpe militar instalado, as demais 
transcrições parecem peças de um quebra-cabeças para as quais, de modo muito 
disperso e com muito custo, encontramos outra peça que complemente o desenho 
mesmo sem se tocarem. Nisso, também, a “torre” de Benedicto Monteiro é tributária 
da torre drummondiana. Tal como esta, aquela também é desmontada pela 
 
76 Este poema talvez fosse um objeto de conhecimento comum da intelectualidade da época que 
acompanhava jornais impressos numa época em que os principais escritores publicavam seus 
poemas em cadernos de cultura. O poema torre sem degraus foi publicado também na edição do 
Correio da manhã de 07 de julho de 1968. Segundo caderno página 01. 
163 
 
 
“impossibilidade de representação do leitor em relação aos dados que o poema 
avoluma e sustenta no caos” (CAMPOS, 1999, pág. 137). Se “o espaço da Torre é 
falseado por seus vazios – degraus inexistentes – ausência paradoxal, mas 
indispensável à existência do poema” (CAMPOS, 1999), no romance, a torre tem 
feição mais tridimensional e é quase esqueleto desconjuntado de um edifício. 
A maioria das notícias sobre o contexto internacional que envolvem de 
algum modo os EUA e o contexto da Guerra Fria dizem respeito a Guerra do 
Vietnam ou ainda sobre manifestações contrárias a Guerra do Vietnam. 
 
Em sinal de protesto, os veteranos atiram contra o Capitólio as 
condecorações conquistadas na guerra do Vietnam (MONTEIRO, 1975, 
pág. 95). 
Uma operação de “desobediência civil” contra a guerra do Vietnam, 
envolvendo 45.000 pessoas em Washington, acaba dissolvida pelo Exército 
que prende 7.000 e expulsa 20.000, da cidade, com cassetetes, tanques e 
gás lacrimogêneo (MONTEIRO, 1975, pág. 110). 
 
Algumas notícias sobre o contexto político brasileiro são explícitas (como 
o sequestro do embaixador suíço77). Outras são implícitas ou indiretas, mas de 
compreensão imediata (“Os quatro exércitos que compõem as forças de terras, com 
mais de 30.000 homens, mudam de comando” (MONTEIRO, 1975, pág. 39). A 
maioria, entretanto, exige um esforço interpretativo dispendioso e demandam uma 
atitude cooperativa do leitor. Assim, é possível encontrarmos através de inferências 
(ou nas entrelinhas) notícias que se remetam ao contexto da ditadura militar no 
Brasil. Por exemplo: 
 
Na construção da ponte Rio-Niterói desaba um tubulão que mata um 
engenheiro e vários operários. – Em Belo Horizonte 10.000 toneladas de 
concreto desabam sobre 150 operários nas obras do parque exposição, da 
Gameleira: o cálculo da estrutura foi feito por um engenheiro-poeta ou um 
poeta-engenheiro... (MONTEIRO, 1975, pág. 71). 
 
O poeta-engenheiro a quem se refere é Joaquim Cardozo que costumava 
atuar juntamente com Oscar Niemeyer. As duas notícias se referem a obras 
grandiosas nas quais ocorreram acidentes graves. O acidente da Gameleira, 
ocorrido em 1971, deixou 65 mortos e 50 feridos. Segundo O Globo (04/02/2016), 
este é o maior acidente já ocorrido na construção civil brasileira. Acidentes em 
 
77 O sequestro do embaixador suíço de Giovanni Bucher, por membros da VPR, ocorreu em 7 de 
dezembro de 1970. 
164 
 
 
obras, principalmente públicas, ocorriam com frequência na época. O país vivia 
oficialmente o período considerado de prosperidade, denominado pelo governo com 
“milagre econômico”. Na prática, apenas as classes média, média alta e alta colhiam 
certas benesses e conseguiam adquirir bens de consumo que começavam a circular 
no período. O país estava pontilhado por obras que simbolizavam o crescimento. 
Entretanto, os acidentes transcritos foram dos poucos noticiados amplamente pela 
imprensa, pois a partir de 1973 os acidentes em obras públicas eram proibidos de 
serem noticiados. A censura instalada nos jornais substituía as reportagens ou 
notícias por poemas ou receitas de bolo. 
Neste romance, ganham destaque as transcrições sobre o contexto 
político da América Hispânica, notícias sobre esporte, referências a lançamentos de 
livros resultados de estudos acadêmicos, cultura popular, participação de minorias, 
como grupos de mulheres e negros. 
As transcrições sobre o contexto político da América Hispânica referem-se 
principalmente às ditaduras: 
 
Acontece o enésimo golpe militar na Bolívia (MONTEIRO, 1975, pág. 39). 
General Lanusse, honesto militar, liberal em economia, homem rico, bom 
pai de família de nove filhos, também assumiu o governo da

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