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Filosofia da Educação 4ª edição Rio de Janeiro UVA 2016 Regina Yara Martinelli da Silveira 4ª edição Rio de Janeiro UVA 2016 Filosofia da Educação Copyright © UVA 2016 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. ISBN - 978-85-65812-29-0 Autoria do Conteúdo Regina Yara Martinelli da Silveira Design Instrucional Angélica Maria da Silva Projeto Gráfico UVA Diagramação Cristina Lima Revisão Cristina Freixinho Janaina Vieira Ficha Catalográfica elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UVA. Biblioteca Maria Anunciação Almeida de Carvalho. S587 Silveira, Regina Yara Martinelli da. Filosofia da educação [livro eletrônico] / Regina Yara Martinelli da Silveira. – 4. ed. – Rio de Janeiro : UVA, 2016. 573 KB. ISBN 978-85-65812-29-0 1. Educação - Filosofia. I. Universidade Veiga de Almeida. II. Título. CDD – 370.1 SUMÁRIO Apresentação................................................................................................................7 Sobre a autora...............................................................................................................8 Capítulo 1 - Bases filosóficas da Educação...................9 O processo de socialização...................................................................11 Primórdios da Educação...........................................................................21 Estruturação da atividade filosófica educativa.............................31 Referências......................................................................................................46 Capítulo 2 - Política e Educação.................................49 Concepção filosófica da política............................................................51 Compromisso político da Educação....................................................67 Ideologia e emancipação..........................................................................75 Referências......................................................................................................86 Capítulo 3 - Formação filosófica do pensamento moderno.....................................................................89 Filosofia e desenvolvimento científico..............................................91 A Pedagogia realista................................................................................99 Concepções cientificistas da Educação..........................................110 Referências....................................................................................................121 Capítulo 4 - Educação contemporânea – Questões epistemológicas.......................................................123 As novas ciências.......................................................................................124 Os valores.....................................................................................................133 Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade..........................................................................................141 Referências....................................................................................................157 Considerações finais.....................................................159 7 APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO Este livro trata de Filosofia da Educação e tem por finalidade oferecer a você, futuro profissional, os subsídios necessários à compreensão e à análise das vertentes intelectuais que orientam a arte de ensinar. É uma obra composta por quatro capítulos, com três tópicos cada um, ao fim dos quais espera-se que você esteja plenamente capacitado a compreender e a analisar criticamente as diretrizes filosóficas que sustentam o processo educacional. Tenha em mente que a missão da Filosofia — missão, aliás, cada vez mais difícil — é estimular o raciocínio, promover a discussão, ques- tionar, fazer pensar; enfim, tornar o homem cada vez mais humano. Portanto, se no decorrer desta leitura você tiver muitas dúvidas e mui- to o que perguntar, parabéns! Você estará aprendendo. Do contrário, cuidado: pode ser que você esteja virando máquina. Desejamos que você aproveite ao máximo esta experiência e que a leitura desta obra promova uma oportunidade de reflexão sobre os conteúdos abordados, contribuindo efetivamente para o seu enrique- cimento cultural e acadêmico. ...................................................................................................................................................................................................................... 8 SOBRE A AUTORA Regina Yara Martinelli da Silveira é doutora em Filosofia pela Uni- versidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ. Tem bacharelado e licen- ciatura em Filosofia pela mesma universidade, onde também obteve o lato sensu em Literatura Brasileira. Bacharelou-se em Comunicação Social, na área de Jornalismo, pela Faculdade Hélio Alonso - FACHA. É integrante do corpo docente da Universidade Veiga de Almeida - UVA. 9O processo de socialização ...................................................................................................................................................................................................................... CAPÍTULO 1 BASES FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO Filosofar e educar são ações indissociáveis e interagentes, relacionadas à busca do conhecimento e à compreensão da realidade. Porque o ser humano, enquanto procura en- tender o mundo, também se educa, isto é, aprimora sua consciência crítica, sua interação com o outro e, por con- sequência, sua adaptação ao grupo social a que pertence. Aqui, será analisado o projeto construtivo dos alicerces da educação no mundo ocidental, desde os esboços neolíticos até as primeiras edificações intelectuais da Idade Média. De início, vai ser observada a saga do ser humano em seus esforços de alcançar pelo menos um nível mínimo de so- cialização, sem a qual a própria sobrevivência da espécie estaria em risco. É quando eclode a linguagem e é quando, a partir dela, a cultura e o trabalho ensaiam suas primei- ras manifestações mutuamente estimulantes. Em um segundo momento, vivendo em grupos mais ou menos organizados, o homem já poderá ser encontrado em pleno desenvolvimento do seu processo educativo – um processo casual e desestruturado, no princípio, mas intencional e sistemático, adiante, quando, todavia, estará subjugado à vontade de reis e sacerdotes, até finalmente conseguir desvencilhar-se de algumas amarras ideológi- cas, com o surgimento da Grécia Clássica. Bases filosóficas da Educação10 ...................................................................................................................................................................................................................... Por fim, será visto o homem medieval, com seus medos, sua fé mais imposta que convicta, sua determinação de saber e suas escolas laicas e populares, as quais, apoian- do-se na evolução pedagógica dos estabelecimentos de en- sino eclesiásticos, iriam transformar-se nos embriões das modernas universidades. 11O processo de socialização ...................................................................................................................................................................................................................... O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO Pode-se entender processo de socialização como um con- junto de ações e eventos comuns capazes depromover a integração grupal dos indivíduos. Pode-se entender, tam- bém, que não existe socialização sem um trabalho cons- ciente e direcionado a fins específicos, cuja organização advém de uma cultura mais ou menos desenvolvida, a qual, em última análise, não poderia subsistir sem linguagem. A linguagem — aqui entendida como um sistema de sig- nos arbitrários e convencionais — é uma característica in- trínseca e exclusiva da espécie humana. Por certo, muitos já ouviram um bom número de frases do tipo “Ninguém é uma ilha” ou “O homem é um animal social”. Trata-se de lugares-comuns, afirmações repetidas automaticamente que acabam prescindindo de reflexão. Mas não há, neces- sariamente, nada de errado com elas; até porque a segun- da é de autoria de um filósofo, e dos maiores: Aristóteles. Como se sabe, um dos mais ferozes embates da Filosofia é justamente contra o senso comum e, por extensão, contra aquelas frases corriqueiras. Aliás, diga-se de passagem, Aristóteles teria falado que “o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos” (cf. ARISTÓTELES, 2000, p. 4), e, pode-se acrescentar, um animal dotado de logos, vocábulo grego de significação bastante ampla, podendo referir-se, por exemplo, a palavra, discurso, juízo, razão. Bases filosóficas da Educação12 ...................................................................................................................................................................................................................... Mas a frase “pegou” assim, assim ficou e deu conta do recado, pois a nossa espécie não consegue mesmo subsis- tir sem que seja em grupos conscientemente organizados, ao contrário dos animais irracionais, que se agregam por puro instinto, rigorosamente conformes às suas peculiari- dades genéticas. De fato, os animais não são iguais aos seres humanos; tampouco os seres humanos são os donos do planeta: as duas espécies se complementam, assim como tudo no mundo; mas não se pode negar que existem diferenças consideráveis entre ambas, e a linguagem, sem dúvida, é a mais relevante: A diferença entre a linguagem proposicional e a lin- guagem emocional é a verdadeira fronteira entre o mundo humano e o mundo animal. Todas as teorias e observações relativas à linguagem animal estarão bem longe do alvo se deixarem de reconhecer essa diferença fundamental. Em toda a literatura sobre o tema parece não haver uma única prova conclu- siva de que algum animal jamais deu o passo de- cisivo que leva da linguagem subjetiva à objetiva, da afetiva à proposicional. Koehler enfatiza que a fala está decididamente fora do alcance dos maca- cos antropoides. Sustenta que a falta desse inesti- mável auxílio técnico e a grande limitação desses importantíssimos componentes do pensamento, as chamadas imagens, constituem as causas que im- pedem os animais de jamais realizarem sequer os mais mínimos rudimentos de desenvolvimento cul- tural. (CASSIRER, 2001, p. 55-56) Porque só os homens interagem e se agrupam de forma puramente racional e intencional, por força mesmo de al- gumas características físicas especiais – “o cérebro que se desenvolveu sob influência do trabalho e da linguagem 13O processo de socialização ...................................................................................................................................................................................................................... articulada; a mão que se transformou em ferramenta prin- cipal de trabalho; o pé que deve sua forma à postura ver- tical”. (NESTOURKH, s/d, p. 53). Não foi por acaso, portanto, que o homem conseguiu resis- tir, com o passar dos séculos, às mais adversas condições geológicas, climáticas e até mesmo ecológicas; houve um bom motivo para isso: o fato de ter aprendido a substituir sopapos e empurrões por gestos elaboradamente expressi- vos, e gritos e grunhidos por sons diligentemente articula- dos, próprios a um nível de comunicação elevado. Mas isso só se deu quando lhe desabrochou na mente a imaginação: A imaginação, diz Kant, é a faculdade de tornar pre- sente o que está ausente, a faculdade da represen- tação: “Imaginação é a faculdade de representar na intuição um objeto que não está presente”. Ou: “A imaginação (facultas imaginandi) é uma faculdade de percepção na ausência de um objeto”. Dar nome de “imaginação” a essa faculdade de ter presente o que está ausente é bastante natural. Se eu represen- to o que está ausente, tenho uma imagem em meu espírito – uma imagem de algo que eu vi e que agora, de algum modo, reproduzo. (ARENDT, 1993, p. 101) E foi a partir dessa faculdade quase mágica de “represen- tar na intuição um objeto que não está presente” que o ho- mem começou a simbolizar e a transmitir aos semelhantes, de forma eficiente, precisa e rápida, as experiências coti- dianas cujo somatório iria compor o seu arcabouço social. Os grandes pensadores que definiram o homem como animal rationale não eram empiristas, nem pretenderam jamais dar uma explicação empírica da natureza humana. Com essa definição, estavam antes expressando um imperativo moral fundamen- tal. A razão é um termo muito inadequado com o Bases filosóficas da Educação14 ...................................................................................................................................................................................................................... qual compreender as formas da vida cultural do ho- mem em toda a sua riqueza e variedade. Mas todas essas formas são formas simbólicas. Logo, em vez de definir o homem como animal rationale, devería- mos defini-lo como animal symbolicum. Ao fazê-lo, podemos designar sua diferença específica, e enten- der o novo caminho aberto para o homem – o cami- nho para a civilização. (CASSIRER, cit., p. 50) Ora, civilização implica um alto grau de socialização; e so- cialização, como foi visto no início, é produto do trabalho, que por sua vez é resultado da cultura. Seria, pois, reco- mendável que, a partir daqui, se procurasse definir o que se pode entender por cultura. Mas essa não é uma tarefa das mais fáceis. Cultura é uma daquelas palavras em cujo significante po- dem ser apostos diversos significados. Existe cultura fí- sica, cultura intelectual, cultura agrícola, e por aí vai. Se pesquisado o verbete em um bom dicionário, será encon- trado algo próximo de vinte acepções; é preciso, portanto, antes de tudo, especificar de qual cultura se está falando. Algumas linhas atrás, ensaiou-se uma definição para cul- tura, quando se falou de experiências cotidianas cujo so- matório iria compor o seu (do homem) arcabouço social, e foi selecionada a palavra arcabouço por se entender que a cultura está sempre em processo de produção e reprodu- ção, é sempre uma obra em progresso. Em tempos de internet e em um sentido mais filosófico, a cultura pode ser considerada como esse feixe de representações, de símbolos, de imaginário, de atitudes e referências 15O processo de socialização ...................................................................................................................................................................................................................... suscetível de irrigar, de modo bastante desigual, mas globalmente, o corpo social. (JAPIASSU; MAR- CONDES, 1991) No entanto, pode ser preferível, até pela natureza deste tra- balho, uma definição antropológica, entre muitas possíveis: Inúmeros antropólogos consideram a cultura como comportamento aprendido, característico dos mem- bros de uma sociedade, uma vez que o comporta- mento instintivo é inerente aos animais em geral. Sob esse ponto de vista, os instintos, os reflexos ina- tos e outras formas de comportamento predetermi- nadas biologicamente devem ser excluídos. Cultura resulta da invenção social; é aprendidae transmitida por meio da aprendizagem e da comunicação. (MAR- CONI; PRESOTTO, 2009, p. 23-25) Relativismo cultural e etnocentrismo Toda cultura é considerada como configuração saudável para os indivíduos que a praticam [...]. Por isso, o relativismo cultural não concorda com a ideia de normas e valores absolutos e defende o pressuposto de que as avaliações devem ser sempre relativas à própria cultura onde surgem. [...] A posição relativista liberta o indivíduo das perspectivas deturpadoras do etnocentrismo, que significa a supervalorização da própria cultura em detrimento das demais. (MARCONI; PRESOTTO, cit., p. 31-32) Pode-se constatar, então, que ambas as concepções, tan- to a filosófica quanto a antropológica, vão convergir para uma só conclusão: cultura é uma prerrogativa humana, criada e transmitida pelos grupos sociais ao longo das ge- rações. Na verdade, cada ser humano é ao mesmo tempo um receptor e gerador de cultura, seja pela pura e simples repetição, seja pela transformação, seja ainda pela criação de novos objetos culturais. Bases filosóficas da Educação16 ...................................................................................................................................................................................................................... Atualmente, sob os auspícios da cultura de massa (auspí- cios com o sentido mesmo de patrocínio), verifica-se que há duas vertentes teóricas tratando da mesma coisa, mui- tas vezes só aparentemente em rota de colisão: uma que denuncia o incentivo ao consumo desenfreado e a bana- lização educacional, e outra que comemora a democrati- zação das informações e do acesso à instrução. Só que ambas, frequentemente, se contradizem. É nesse sentido que a massa é característica da nossa modernidade, na qualidade de fenômeno al- tamente implosivo, irredutível a qualquer prática e teoria tradicionais, talvez mesmo irredutível a qualquer prática e a qualquer teoria simplesmente. (BAUDRILLARD, 1985, p. 9-10) Para alguns autores, a cultura de massa tem sua origem no século XV, com Gutenberg e a prensa de tipos móveis. Daí em diante, as gazetas manuscritas se transformaram em jornais impressos que, no começo do século XVIII, já circulavam na Inglaterra. Foi a época da primeira etapa da Revolução Industrial e do radical rearranjo dos meios de produção, das relações sociais e, muito especialmente, da educação, já que do operário, agora, exigia-se pelo menos que soubesse ler e fazer contas. No século XIX, ocorre a se- gunda etapa da Revolução Industrial, marcada pela subs- tituição da energia do vapor pelas do combustível fóssil e da eletricidade, avanço que propiciaria o surgimento de meios de locomoção e comunicação muito mais eficientes. Depois, em um átimo de tempo histórico, surgem o telé- grafo sem fio, o rádio, a televisão e a internet (cf. SANTOS, 2003, p. 47-51), transformando, radicalmente, as relações de trabalho. 17O processo de socialização ...................................................................................................................................................................................................................... Trabalho, em uma definição muito geral, é a ação exercida deliberada e conscientemente pelo homem sobre a natu- reza, em benefício próprio. É por isso que não se pode afirmar que os animais trabalham, pois, na verdade, suas ações, quaisquer que sejam, são hereditárias, instintivas, repetitivas e não intencionais. A abelha, por exemplo, ao construir sua colmeia, não trabalha, porque sua ação de- riva dos sempre mesmos gestos mecânicos e imutáveis, próprios de sua espécie: Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na men- te sua construção antes de transformá-la em reali- dade. No fim do processo do trabalho, aparece um resultado que já existia antes idealmente na imagi- nação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao mate- rial o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que trabalham, é mister a von- tade adequada que se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. (MARX apud CO- TRIM; FERNANDES, 2010, p. 142) O trabalho, na verdade, não é — ou não deveria ser — apenas uma necessidade existencial, mas também um pra- zer, já que pode ser imaginado e realizado, e uma boa realização é sempre prazerosa. No entanto, todas as pes- soas, religiosas ou não, certamente já ouviram algumas ve- zes esta sentença bíblica que as condena ao eterno labor: “Ganharás o teu pão com o suor do teu rosto.” A própria palavra “trabalho”, aliás, vem do latim tripalium, artefato formado por três paus que se usava tanto para dominar Bases filosóficas da Educação18 ...................................................................................................................................................................................................................... animais arredios quanto para torturar pessoas, nos velhos tempos de Roma. Mas o trabalho não é, em si, necessa- riamente, uma atividade ruim, uma espécie de maldição, um castigo terrível: quando contratado e remunerado de forma justa, liberta; do contrário, escraviza. A única difi- culdade que se pode encontrar nesta afirmação instala-se exatamente sobre a questão de como entender o que seria essa forma justa. Gilberto Cotrim e Mirna Fernandes tal- vez possam resolver essa dúvida (pelo menos por alguns instantes): Em termos individuais, o trabalho permite ao ser humano expandir suas energias, desenvolver sua criatividade e realizar suas potencialidades. Pelo trabalho o indivíduo é capaz de moldar e mudar a realidade sociocultural e, ao mesmo tempo, trans- formar a si próprio. Ou seja, trabalhando podemos modificar o mundo e a nós mesmos; em termos so- ciais — isto é, como esforço conjunto dos membros de uma comunidade —, o trabalho tem como obje- tivos últimos a manutenção e satisfação da vida e o desenvolvimento da sociedade. Em resumo, o tra- balho teria esse poder de promover a realização do indivíduo, a edificação da cultura e a solidariedade entre os seres humanos. Essa nos parece uma boa definição, com uma visão positiva e ideal do tra- balho, o que significa que nem sempre ele cumpre esse papel na vida das pessoas. [...] Na interpretação de Marx, ao longo da história, a dominação de uma classe social sobre outra desviou o trabalho de sua função positiva. Em vez de servir ao bem comum, passou a ser utilizado para o enriquecimento de al- guns. De ato de criação virou rotina de reprodução. De recompensa pela liberdade transformou-se em castigo. Enfim, em vez de constituir um elemento de realização de nossas potencialidades, conver- teu-se em instrumento de alienação. (COTRIM; FER- NANDES, cit., p. 142-143) 19O processo de socialização ...................................................................................................................................................................................................................... Alienação, seria oportuno esclarecer, é um conceito fundamental nas obras de Hegel e Marx. Pelo latim (alie- natio, de alienare), liga-se a transferir, alucinar, perturbar; pelo alemão (Entfremdung), o vocábulo pode ser traduzi- do por “afastamento”, “separação”. Em Hegel, idealista, é um obstáculo intransponível no percurso da autoconsci- ência em busca do absoluto (cf. BLACKBURN, 1977); em Marx, materialista, significa a ‘despossessão’, seguida da ideia de es- cravidão. Assim, quando dizemos hoje que o tra- balho é um instrumento de alienaçãona economia capitalista, estamos reconhecendo que o operário é despossuído do fruto de seu trabalho. (JAPIASSU; MARCONDES, 1991) Mas antes de Hegel e Marx, e antes, muito antes da senten- ça bíblica citada alguns parágrafos atrás, os seres humanos já trabalhavam, ou seja, já exerciam a atividade consciente de modificar a natureza para satisfazer suas necessidades existenciais básicas (roupas, moradia, alimentação). Na Pré-História, o trabalho era dividido entre os homens — incumbidos da caça e da defesa do grupo —, e as mulheres —, às quais cabiam as tarefas “domésticas”. Na Antiguida- de, em sociedades avançadas como a grega, depreciava-se qualquer atividade manual ou de negócios, dando-se gran- de importância ao trabalho intelectual. Na Idade Média, ainda se privilegiava a atividade intelectual, mas, por força das orientações cristãs — Tomás de Aquino à frente —, o trabalho estafante passou a ser considerado um bom ca- minho para que fossem alcançados os tesouros do Céu. Na Idade Moderna, com a ascensão da burguesia na Europa ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação20 ...................................................................................................................................................................................................................... Ocidental, o catolicismo se enfraquecia e propiciava a eclosão do protestantismo, cuja vertente calvinista reco- mendava aos fiéis uma vida de muito trabalho, também, só que visando aos tesouros da Terra — uma das razões que teriam levado o sociólogo alemão Max Weber (1864- 1920) a defender a existência de um vínculo entre a ética preconizada por Calvino e o capitalismo, em países onde predominava a orientação protestante. Trabalho alienado e taylorismo O processo de alienação [que] afeta milhões de trabalhadores nas sociedades capitalistas modernas [começou com] a chamada or- ganização científica do trabalho, desenvolvida pelo engenhei- ro e economista norte-americano Frederick Taylor (1856-1915), cujo método ficou conhecido como taylorismo. A principal consequência do taylorismo é que a fragmentação do trabalho conduz a uma fragmentação do saber [...]. Tudo transcorre sem que o operário tenha controle sobre o resultado final do seu tra- balho, nem governo sobre a finalidade do que fabrica. (COTRIM, 1999, p. 30) 21Primórdios da Educação ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ PRIMÓRDIOS DA EDUCAÇÃO No tópico anterior foram analisados três assuntos impor- tantes, se não imprescindíveis, para o entendimento do processo de socialização: o primeiro foi a linguagem, ima- ginada e articulada, quesito fundamental para a diferen- ciação entre o homem e os outros animais; o segundo foi a cultura, comunicada homem a homem, grupo a grupo, geração a geração, por meio da qual o indivíduo se modi- fica e modifica o ambiente; e o terceiro foi o trabalho, que produz e reproduz cultura e é por ela simultaneamente produzido e reproduzido, num processo dialético ininter- rupto, tipicamente hegeliano (tese, antítese, síntese), ca- paz de engendrar ideias e, a partir delas, construir objetos materiais e imateriais. Atente-se, a propósito, para o que Dermeval Saviani pode dizer a respeito do binômio traba- lho-educação (e vice-versa): Assim, o processo de produção da existência hu- mana implica, primeiramente, a garantia da sua subsistência material com a consequente produção, em escalas cada vez mais amplas e complexas, de bens materiais; tal processo nós podemos traduzir na rubrica “trabalho material”. Entretanto, para pro- duzir materialmente, o homem necessita antecipar em ideias os objetivos da ação, o que significa que ele representa mentalmente os objetivos reais. Essa representação inclui o aspecto de conhecimento das propriedades do mundo real (ciência), de valoriza- ção (ética) e de simbolização (arte). Tais aspectos, na medida em que são objetos de preocupação ex- plícita e direta, abrem a perspectiva de uma outra categoria de produção que pode ser traduzida pela rubrica “trabalho não material”. Trata-se aqui da 22 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação produção de idéias, conceitos, valores, símbolos, hábitos, atitudes, habilidades. Numa palavra, tra- ta-se da produção do saber, seja do saber sobre a natureza, seja do saber sobre a cultura, isto é, o conjunto da produção humana. Obviamente, a edu- cação situa-se nessa categoria do trabalho não ma- terial. (SAVIANI, 1991, p. 12) Ora, classificar-se a educação como trabalho não mate- rial — ideal, portanto — pode tornar implícita a aceitação imediata de que ela já se revelara um agente modificador, embora ainda incipiente, logo aos primeiros e tímidos lam- pejos da inteligência humana. De fato, nos agrupamentos mais primitivos existia uma protoeducação, assistemática e difusa, recebida e repassada por seus membros entre si, a qualquer tempo e em qualquer idade, por intermédio de processos rudimentares de observação e imitação ou de tentativa e erro. Adiante, contudo, à época das sociedades organizadas, já se registra a ocorrência daquilo que se con- vencionou chamar de educação informal, centrada na imi- tação das atividades dos adultos pelos jovens — o exercício da linguagem, o manejo das armas e de outros instrumen- tos usados na caça e na pesca, as técnicas de transformação ambiental, a reverência aos antepassados. Esse era, contu- do, um ensinamento casual, por certo baseado no que se podia observar no ambiente: Nas comunidades tribais, as crianças aprendem imi- tando os adultos nas atividades diárias de manuten- ção da existência. Quer nas tribos nômades, quer nas que já se tenham sedentarizado, ocupando-se com a caça, a pesca, o pastoreio ou a agricultura, as crianças aprendem “para a vida e por meio da vida”. Não há alguém especialmente convocado para de- senvolver essa aprendizagem, que nem sequer é ta- refa exclusiva dos pais. Na verdade, todos na tribo são agentes do processo. As atividades econômicas 23Primórdios da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... são desenvolvidas em comum, não havendo pro- priedade privada, e a tendência predominante é a existência da família extensa, constituída pelo pa- triarca, sua esposa, seus filhos com suas mulheres e filhos. (ARANHA, 1998, p. 58) Esse modelo educacional da família extensa, aliás, vai per- durar por muito tempo, mas sofrerá importantes transfor- mações ao longo dos séculos, até chegar à família nuclear conjugal — mas isso lá pelo século XVI da Era Cristã. Por enquanto, trata-se aqui da Era Neolítica, cerca de 10 mil anos atrás, quando a agricultura e a pecuária intensivas iriam propiciar a substituição gradual da inquietação nô- made pela relativa estabilidade do sedentarismo, com o consequente enriquecimento das técnicas artesanais utili- tárias e um não menos importante desenvolvimento artís- tico, voltado agora não só para a simbologia mágica, mas também para a estética e a educação:A revolução neolítica é também uma revolução edu- cativa: fixa uma divisão educativa paralela à divisão do trabalho (entre homem e mulher, entre especia- listas do sagrado e da defesa e grupos de produto- res); fixa o papel-chave da família na reprodução das infraestruturas culturais: papel sexual, papéis sociais, competências elementares, introjeção da au- toridade; produz o incremento dos locais de apren- dizagem e de adestramento específicos (nas diversas oficinas artesanais ou algo semelhante; nos campos; no adestramento; nos rituais; na arte) que, embora ocorram sempre por imitação e segundo processos de participação ativa no exercício de uma atividade, tendem depois a especializar-se, dando vida a mo- mentos ou locais cada vez mais específicos para a aprendizagem. Depois, são a linguagem e as técni- cas (linguagem mágica e técnicas pragmáticas) que regulam – de maneira cada vez mais separada – dois modelos de educação. Mas aqui já estamos no limiar das sociedades hidráulicas. (CAMBI, 1999, p. 59) 24 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação Franco Cambi entende por sociedades hidráulicas aquelas que se fixam em vales de rios cujas águas controlam e das quais dependem para o desenvolvimento da agricul- tura. Pode-se pensar, contudo, se não seria mais próprio chamá-las sociedades hidrófilas, ou hídricas, ou fluviais. De qualquer modo, Cambi faz referência àquelas socie- dades que, nascidas no Extremo Oriente, vão-se estender à Mesopotâmia e ao Egito — tendo em comum a severa divisão do trabalho, a instituição de castas sociais e um poder centralizado, fortemente estatal, exercido por um soberano cercado de burocratas, guerreiros e sacerdotes —, a partir das quais se irá desenvolver a história, propria- mente, como hoje se conhece, embora o surgimento delas não tenha ocasionado o fim das sociedades ex-nômades ou nômades, organizadas em tribos que já se fixavam ou percorriam ainda as ilhas, os desertos e as estepes. Seria importante acrescentar que, nas sociedades ora em estudo, a natureza é divinizada, descrita por narrativas mitológicas controladas por grupos sacerdotais, mas é também, simultaneamente, dominada, compreendida em seus mecanismos e submetida aos desígnios do homem, pelo controle técnico que implica, porém, o conhecimento do mun- do natural para poder dominá-lo e transformá-lo. E que, nelas, [...] a educação também muda profundamente: 1. ela é, ainda, transmissão da tradição e aprendiza- gem por imitação, mas tende a tornar-se cada vez mais independente deste modelo e a redefinir-se como processo de aprendizagem e de transforma- ção ao mesmo tempo; 2. liga-se cada vez mais à 25Primórdios da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... linguagem — primeiro oral, depois escrita —, tor- nando-se cada vez mais transmissão de saberes dis- cursivos (ou discursos-saberes) e não somente de práticas, de processos que são apenas, ou sobretu- do, operativos; 3. reclama uma institucionalização desta aprendizagem num local destinado a transmi- tir a tradição na sua articulação de saberes diversos: a escola. Instituição esta que se torna cada vez mais central até que das sociedades arcaicas se passa aos estados territoriais e a uma rica e articulada divi- são dos saberes que reflete a do trabalho, o qual é cada vez mais especializado e tecnicizado. Será uma escola dúplice (de cultura e de trabalho: liberal e profissional) que acentuará o profundo dualismo próprio das sociedades hidráulicas ou agrícolas, li- gado ao enrijecimento dos papéis sociais em clas- ses sociais separadas, com alguns aspectos quase de castas. (Cf. CAMBI, cit., p. 59-62) E que povos seriam esses, aos quais se fez referência, ge- nericamente, como pertencentes a “sociedades hidráuli- cas”? São chineses, indianos, japoneses, mesopotâmicos, egípcios, fenícios e hebreus. Observemos, a seguir, de que forma cada um deles tratava a educação. Os chineses, por força de uma estrutura social extrema- mente conservadora e pragmática, engendraram um mo- delo educativo igualmente tradicional e “útil”, separado por classes, no qual cultura e trabalho eram colocados em campos opostos e em que havia escolas especiais para a classe dirigente. Algo semelhante se passou na Índia das castas sociais, onde dirigentes e sacerdotes brâmanes, jainistas e budis- tas nada mais ofereciam à população miserável e faminta senão recomendações de infinita paciência e de renúncia ao mundo. 26 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação Esse mesmo amálgama de imobilidade e exacerbado tradi- cionalismo também ocorrerá no Japão, cuja sociedade foi organizada em classes sociais e profissionais fechadas. Os mesopotâmicos tiveram no templo seu verdadeiro cen- tro social; daí a entrega, aos sacerdotes, da formação es- colar, ligada a um processo de iniciação ao qual se seguia o aprendizado oral e depois criptográfico da língua, além daquele ligado à matemática e à contabilidade, visando à formação de um técnico — o escriba — fielmente atrelado aos protocolos e restrições religiosas. Entre os egípcios, o saber também se concentrava na casta dos sacerdotes e era ministrado no templo; seguia, por- tanto, uma orientação semelhante à dos mesopotâmicos, com algumas variações, como a educação escolar paralela à familiar, e a dos ofícios, seguidas, quando conveniente, da admissão à Casa da Vida, onde se ministrava algo pare- cido com uma “instrução superior”. Os fenícios se destacaram no cálculo e na navegação, mas a maior realização desse povo foi a invenção do alfabeto de 22 consoantes (sem vogais), do qual iriam derivar o dos gregos e em seguida o dos europeus; todavia, no que toca à educação, seus processos não se afastaram signifi- cativamente daqueles, já abordados, que privilegiavam a sacralização dos saberes e o pragmatismo técnico. Para os hebreus, os grandes educadores eram os profetas, embora, em família, a autoridade estivesse centrada na fi- gura do pai e a escola se organizasse na interpretação da Lei dentro da sinagoga. (Cf. CAMBI, cit., 62-70). 27Primórdios da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... Finaliza-se, aqui, essa rápida incursão pelo campo educati- vo das “sociedades hidráulicas”. É tempo, agora, de se falar dos gregos, esse povo ao qual a cultura do Ocidente tanto deve, no que tange às artes plásticas (especialmente escul- tura e Arquitetura); às artes cênicas (dramaturgia, canto, dança); às ciências (Medicina e Matemática, destacando-se a Geometria); à Filosofia; e, por uma relação simultânea de causa e consequência entre todos estes campos, à edu- cação. Esta seção se fechará, portanto, com a pesquisa de como era a educação na Grécia Arcaica. Na Ilíada e na Odisseia, poemas atribuídos a Homero, não é difícil encontrar alguns indícios mais ou menos eviden- tes daquilo que se entendia e se praticava como educação naqueles “tempos heroicos”. Mas, advertimos que, nes- sas obras, principalmente na primeira, estaremos sempre diante de simples “alusões pedagógicas”, proferidas no calor de uma narrativa épica eivada de sangue e violência explícita, e plena de interpolações e repetições por vezes desconcertantes.De qualquer modo, se isso permite pers- crutar apenas superficialmente até que ponto poderia cha- mar-se de educação aquilo de que dispunham as classes mais baixas, não deixa de apresentar um quadro muito claro sobre a orientação que se ministrava aos aristocra- tas, desde a infância, com a finalidade precípua de perpe- tuá-los no poder. Canta, ó Deusa, a cólera de Aquiles, filho de Peleu, cólera funesta, que causou inumeráveis dores aos aqueus, precipitou no Hades almas de heróis sem conta, e os corpos lhes tornou em presas de cães e pássaros carniceiros [...]. (HOMERO, 1986, p. 17) 28 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação É assim que começa a Ilíada. Nada mais próprio, já que o poema narra as façanhas daquele herói durante os dez anos da Guerra de Troia (ou Ílion; daí, Ilíada). Claro que há coadjuvantes, às dezenas, deuses e mortais, mas o artista principal é mesmo o dono do famoso calcanhar. Aquiles é filho de Peleu, rei da cidade de Ftia, na Tessália. Descende diretamente do rei dos deuses, Zeus, por parte de pai, e sua mãe é uma deusa menor, Tétis. Teria sido educado pelo preceptor Fênix ou pelo centauro Quíron. De qualquer modo, educado por quem quer que fosse, exer- citou-se no canto, na lira, no adestramento de cavalos e aprendeu Medicina. Alimentavam-no exclusivamente de entranhas de leões e de javalis, para lhe comunicar a força desses animais, de mel (que devia lhe conceder a doçura e a persuasão), e de medula de urso. (GRIMAL, 2000) Ulisses (ou Odisseu; daí, Odisseia), de ascendência não tão nobre ou pelo menos não tão “divina” quanto Aquiles, é o varão industrioso que, depois de haver saque- ado a cidadela sagrada de Tróade [outro nome de Troia], vagueou errante por inúmeras regiões, visi- tou cidades e conheceu o espírito de tantos homens [...]. (HOMERO, 1979, p. 11) O adjetivo industrioso (habilidoso) atribuído a Ulisses, considerados os valores éticos atuais, é no mínimo eufe- místico. Ulisses, na verdade, seria hoje tachado de ladrão, mentiroso, solerte, traiçoeiro, nódoas de caráter vistas pela própria Atena, a deusa que o protegia, como magní- ficas e raras qualidades. E foram justamente Aquiles, com sua cólera sanguinária, e Ulisses, com sua velhacaria, dois 29Primórdios da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... dos melhores modelos de nobreza e virtude nos tempos da Grécia Arcaica: Estamos diante de uma “pedagogia do exemplo”, da qual Aquiles encarna a areté (o modelo ideal mais completo de formação) ligada à excelência e ao valor. Não só: já a partir da Ilíada “a música e a ginástica pertencem ao programa educativo” dos gregos e são indicadas como modelo e programa às jovens gerações justamente pela leitura educativa do poema homérico, que será texto de formação — por séculos — das classes dominantes. (CAMBI, cit., p. 77) Enquanto isso, para o povo, versos com regras morais e exortação ao trabalho, versos adequados à manutenção e opulência da aristocracia, mas certamente desprovidos desse intento quando Hesíodo os compôs: Mede bem o que tomas de teu vizinho e devolve bem/ na mesma medida, ou mais ainda, se pude- res,/ para que precisando depois o encontres mais generoso./ [...] Doar é bom, roubar é mau e doador de morte;/ pois o homem que dá de bom grado, mesmo doando muito,/ alegra-se com o que tem e em seu ânimo se compraz./ Confiando na impu- dência, quem para si próprio furta,/ mesmo sendo pouco, deste se enrijece o coração,/ pois se um pou- co sobre um pouco puseres/ e repetidamente o fi- zeres logo grande ficará./ Quem acrescenta ao que já tem ardente fome afastará;/ o armazenado em casa desassossego ao homem não traz;/ melhor é o de casa, o de fora danoso é./ [...] Facilmente imen- sa fortuna forneceria Zeus a muitos:/ quanto maior for o cuidado de muitos, maior o ganho./ Se nas entranhas riqueza desejar teu ânimo,/ assim faze: trabalho sobre trabalho trabalha. (HESÍODO, 1991, p. 49-51) É certo que os tempos eram outros e que não se pode, a partir de uma visão humanista do século XXI, simples ...................................................................................................................................................................................................................... 30 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação e sumariamente criticar e reprovar os usos e costumes de uma cultura instalada lá pelos séculos XI ou X da era pré-cristã; o próprio relativismo cultural, sempre válido e desvinculado, naturalmente, de limitações de espaço físico e/ou político, reprovaria essa postura etnocêntrica, tanto neste caso quanto em qualquer outro. Mas, apesar disso, ou por isso mesmo, será interessante investigar como foi possível que, partindo de um modelo socioedu- cativo desses, a Grécia Arcaica se transformasse em Gré- cia Clássica, paradigma de sabedoria que vai influenciar todo o mundo ocidental. 31Estruturação da atividade filosófica educativa ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ ESTRUTURAÇÃO DA ATIVIDADE FILOSÓFICA EDUCATIVA Não parece impróprio chamar de metamorfose o processo pelo qual a Grécia Arcaica iria transformar-se em Grécia Clássica; essa passagem de ovo a lagarta, de lagarta a cri- sálida e de crisálida a borboleta, na verdade, é sem dúvida uma boa metáfora para o caso. De fato, Franco Cambi nota que “a organização política do Estado típica da Gré- cia arcaica — reinos independentes e territoriais — tende gradativamente, mas de modo profundo, a mudar com a afirmação da pólis”. (CAMBI, cit., p. 77). Mas o que seria a pólis? A palavra pólis é uma transliteração direta do grego; significa “cidade” e, aportuguesada, tem como derivadas, por exemplo, “acrópole” – cidade alta –, “metrópole” – cidade grande – e “política” – discussão a respeito dos assuntos públicos (“da cidade”). A instituição da pólis se dá entre os séculos VIII e VII e assinala a crise daquela “pedagogia do exemplo” de que fala Franco Cambi. Porque já começa a existir, a partir de então, “uma Cidade-Estado com forte unidade espiritual (religiosa e mitopoiética) que organiza um território, mas que sobretudo é aberta para o exterior (comércio, emigra- ção, colonização) [...].” (CAMBI, cit., p. 77). E aí está: essa “abertura para o exterior” significa também a abertura das mentes e dos olhos do povo, um povo que 32 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação passa a compreender que, afinal, a divindade e a onipotên- cia dos soberanos — desde aqueles seus representantes mais “ilustres”, como Aquiles, Ulisses e tantos outros — não passam, em última análise, do produto de um medo injustificável com uma empulhação desmedida; afinal, como dizia Abraham Lincoln, proferindo uma verdade evidente por si mesma em qualquerépoca e em qualquer lugar, “Vocês podem enganar todos por algum tempo; po- dem mesmo enganar alguns todo o tempo; mas não podem enganar todos todo o tempo”. Assim, os reis se enfraque- cem, declinam, e se elevam as cidades, com seus (agora) cidadãos, alguns já plenamente cônscios de sua importân- cia na comunidade, outros em vias de compreendê-la. Mas (como na metamorfose da borboleta) esse processo não aconteceu automaticamente nem de uma hora para outra: Desde a antiguidade os gregos interessaram-se pela palavra, pelos discursos, especialmente por seus me- canismos de ação, pela influência que a palavra pode produzir [...]. E este fascínio pelo poder da palavra re- monta à época arcaica, quando [...] os conhecimentos ancestrais eram divulgados oralmente pelos aedos [...]. Ao enaltecer os grandes feitos, os aedos fortale- ciam também o poder dos reis, mantendo o controle da sociedade e a sacralização em torno da palavra, pois seus discursos [...] eram aceitos incondicional- mente, não admitindo contestações: os aedos tinham o privilégio de serem os escolhidos das musas. Mas o interesse grego pela palavra não se limita apenas ao período arcaico; na verdade, atravessou séculos, para – com as transformações sociopolíticas e eco- nômicas – consagrar-se, enfim, no Estado democráti- co, com a atuação dos professores sofistas. É com os mestres da sofística que a palavra, agora laicizada e acessível a todos os cidadãos, alcança sua plenitude democrática e libertadora, capaz de influir decisiva- mente, através da argumentação, no destino da pólis. (SILVEIRA, 1998, p. 107) 33Estruturação da atividade filosófica educativa ...................................................................................................................................................................................................................... Sobre essa verdadeira paixão dos gregos pela palavra, escreve Marcel Detienne: Peithó é uma divindade todo-poderosa, tanto em relação aos deuses quanto aos homens; somente a morte pode lhe oferecer resistência. Peithó dispõe dos ‘Sortilégios das palavras de mel’; tem o poder de fascinar; dá às palavras sua doçura mágica, resi- dindo sobre os lábios do orador. Peithó corresponde, no panteão grego, ao poder que a palavra exerce sobre o outro, traduz, no plano mítico, o charme da voz, a sedução, a magia das palavras. [...] Sob a máscara de Thelxinoé ela é uma das musas, e sob a de Telxiepeia, uma das Sereias. Mas, como estas últimas, ela é funda- mentalmente ambivalente: benéfica e maléfica. [...] Através de um de seus aspectos, Peithó, tão estreitamente ar- ticulada à Alétheia [Verdade], relaciona-se com potências negati- vas que são da mesma espécie de Léthe [Esquecimento]. (DETIEN- NE, 1988, p. 38) Os sofistas eram professores itinerantes que percorriam a Grécia do chamado “período clássico”, ensinando, aos cidadãos que os podiam remunerar de alguma forma, as técnicas, os segredos e as artimanhas do discurso, naque- le tempo em que a palavra certa, na hora exata, era deci- siva nos debates das assembleias em que se definiam as questões políticas. Sócrates, Platão e Aristóteles não gos- tavam deles, fosse por cobrarem pelas aulas, fosse por es- timularem — com absoluta coerência e inequívoca lógica, admita-se — a relativização da verdade, que não era mais do que o resultado da persuasão e do consenso. De acordo com Werner Jaeger, os sofistas foram considerados os fundadores da ciência da educação. Com efeito, estabeleceram os fundamentos da pedagogia, e ainda hoje a formação intelectual trilha, em grande parte, os mesmos cami- nhos. (JAEGER, 1995, p. 348-349) 34 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação Ensinavam um pouco de tudo; acrescente-se, aliás, que “antes dos sofistas não se fala de gramática, de retórica ou de dialética. Devem ter sido eles os seus criadores”. (JAE- GER, cit., p. 366). Dentre os sofistas, que foram muitos (embora apenas fragmentos da obra deles tenham resistido ao tempo e à oposição intelectual), três podem ser destacados como os mais importantes: Protágoras (c. 480-420 a.C.), autor da célebre expressão “O homem é a medida de todas as coi- sas”, Górgias (c. 485-380 a.C.), grande mestre da palavra e Isócrates (436-338 a.C.), desafeto de Platão e, talvez por isso, não admitido como membro do exclusivíssimo clube dos filósofos atenienses mais consagrados: Educador por excelência, Protágoras elege o discur- so — a palavra — como instrumento de ensino, a qual é capaz de influenciar e, mesmo, modificar as condições de conhecimento do aluno. De seus en- sinamentos faziam parte os dissoi logoi, isto é, os discursos duplos e opostos, pois [...] para cada tema existe a possibilidade de se utilizarem as antino- mias, argumentos reciprocamente conflitantes [...]; a possibilidade da utilização de discursos breves [...] ou longos [...], de acordo com as circunstâncias; [e] a habilidade de tornar forte um argumento fraco, quer dizer, fazer com que um discurso inferior ( e sem consistência) se apresente como superior. Em Górgias, o poder da palavra alcança toda a sua ple- nitude. Para ele, a ciência do discurso é uma arte suprema [...] [e] é neste aspecto que a sua retórica se preocupa com a harmonia entre a forma e o conteú- do das palavras, detendo-se especialmente no efei- to que estas produzem sobre o interlocutor, pois a arte de bem dizer, que influencia e seduz o ouvinte, depende desta junção para estabelecer uma adesão eficaz. (SILVEIRA, 2005, p. 60-61) 35Estruturação da atividade filosófica educativa ...................................................................................................................................................................................................................... Isócrates foi um dos últimos grandes mestres da re- tórica da Grécia Clássica, e, entre os mais famosos, o único ateniense. Discípulo e imitador de Górgias, e também de Sócrates, [...] considerava que a arte da persuasão retórica deveria estar ligada à vida em sociedade [...]. Contemporâneo e adversário de Pla- tão, [...] postulava uma educação abrangente para a formação do espírito humano, afirmando que a retórica, pela característica de seus ensinamentos, pode ser também chamada de filosofia [...] [e] Platão reclamava para si o direito de ministrar a verdadei- ra filosofia, marcando vigorosamente sua oposição com a retórica. (SILVEIRA, 1998, cit., p. 49) Retórica e Dialética Embora às vezes se fale em “retórica dialética”, é recomendável separar uma coisa da outra, selecionando ao menos uma ou duas definições de cada (entre muitas possíveis): Retórica é a “arte de utilizar a linguagem em um discurso persuasivo, por meio do qual visa-se convencer uma audiência da verdade de algo. Técni- ca argumentativa, baseada não na lógica, nem no conhecimento, mas na habilidade em empregar a linguagem e impressionar os ouvintes. Considera-se que a retórica foi sistematizada e desen- volvida pelos sofistas.” Dialética, “em Platão, [...] é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às re- alidades inteligíveis ou ideias. [...] Em Aristóteles, a dialética é a dedução feita a partir de premissas apenas prováveis. Ele opõe ao silogismo científico, fundado em premissas consideradas verdadeiras e concluindo necessariamente pela ‘força da forma’, o silogismo dialético que possui a mesma estrutura de necessidade, mas tendo apenas premissas prováveis, concluindo apenas de modo provável”. (JAPIASSU; MARCONDES, cit.) Abordou-se até aqui (de forma diligente e sintética) a Pai- deia, a formação do homem grego —, assunto vasto e com- plexo, que mereceu de Werner Jaeger a elaboração de um verdadeiro tratado,composto por nada menos de 1.413 páginas. Examine-se, agora, como se processava, especifi- camente, a educação infantil na Grécia Clássica, no limiar e logo depois daquela formidável “virada educacional”. 36 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação As crianças passavam os primeiros anos sob a severa au- toridade do pai, que as podia tanto reconhecer e acolher quanto simplesmente recusar e abandonar. Afetivamen- te ignoradas, com medo de um pai terrível e onipotente, assistidas de longe pelas mulheres da casa, as crianças viviam, de fato, ao largo da vida social. Isso em Atenas, que já se anunciava como um dos mais importantes pa- radigmas educacionais do mundo e “berço da democra- cia”. Em Esparta — também cidade-Estado da conturbada federação grega, como Atenas, mas com a qual rivalizava —, a situação da criança era ainda pior, pois o modelo de Estado militar totalitário espartano voltava-se inte- gralmente para a formação de cidadãos-guerreiros. Na verdade, Esparta e Atenas deram vida a dois ideais de edu- cação: um baseado no conformismo e no estatis- mo, outro na concepção de Paidéia, de formação humana livre e nutrida de experiências diversas, sociais mas também culturais e antropológicas. (CAMBI, cit., p. 82) Três dos mais importantes filósofos atenienses — res- ponsáveis pelos grandes modelos teóricos da Filosofia, de um modo geral, e, particularmente, da Filosofia da Educação — foram Sócrates, Platão e Aristóteles. Sócrates (c. 470-399 a.C.) costumava ensinar em praça pública e gratuitamente. Para ele, o objetivo da educação era a formação moral, o que poderia ser alcançado por um sistema de perguntas e respostas mediante o qual o discípulo, após reconhecer a própria ignorância, podia finalmente alcançar a Verdade — que já existia em seu in- terior. Trata-se do processo maiêutico, do grego maieu- 37Estruturação da atividade filosófica educativa ...................................................................................................................................................................................................................... tikós, relativo a partos, porque, afinal, como o próprio nome indica, faz mesmo alusão a um parto — só que, neste caso, o parto é metafórico, intelectual. Sócrates, conhecido apenas pelos depoimentos de seus discípu- los Platão e Xenofonte, e pela peça As Nuvens, do comediógra- fo Aristófanes, era filho de um escultor e de uma parteira. Teria, então, colhido da prática profissional da mãe os subsídios teóri- cos para desenvolver o seu método de ensino. Foi condenado à morte por “desprezar os deuses” e “desencaminhar os jovens”, e, quando alguns amigos influentes lhe ofereceram a fuga, preferiu ficar, como bom cidadão, e submeter-se à sentença dos juízes, servindo-se com as próprias mãos da taça de cicuta, veneno ve- getal bastante usado à época, que lhe prepararam seus algozes. Platão (c. 427-348 ou 347 a.C.) defendia que a Verda- de era um atributo anímico, alcançável pela educação. Caberia ao mestre a tarefa de conduzir o discípulo, por um processo de rememoração do que sua alma já conhe- cia, do mundo material até o mundo das ideias, onde se encontravam as matrizes reais de todas as coisas, das quais, enquanto ignorantes, só poderíamos vislumbrar as sombras. Discípulo de Sócrates, ensinava em sua Aca- demia também por meio de diálogos, a exemplo do sau- doso mestre. Na República, no Político e nas Leis, [...] enuncia as condições da cidade harmoniosa, governada pelo filósofo-rei, personalidade que governa com auto- ridade mas com abnegação de si, com os olhos fi- xos na ideia do bem. (JAPIASSU; MARCONDES, cit.) 38 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação Platão e sua “Alegoria da Caverna” Segundo esse famoso relato, homens se encontravam acorrenta- dos em uma caverna desde a infância, de tal forma que, não poden- do se voltar para a entrada, apenas enxergam o fundo da caverna. Aí são projetadas as sombras das coisas que passam às suas costas [...]. Se um desses homens conseguisse se soltar das correntes para contemplar, à luz do dia, os verdadeiros objetos, quando regressas- se para contar o que vira não mereceria o crédito de seus antigos companheiros, que o tomariam por louco. [...] Platão compara o acorrentado ao homem comum que permanece dominado pelos sentidos, pelas paixões, e só alcança um conhecimento imperfeito da realidade. [...] O homem que se liberta dos grilhões é o filósofo, capaz de atingir o verdadeiro conhecimento. (ARANHA, 2000, p. 45) Aristóteles (384-322 a.C.) adotava como metodologia pro- por ao discípulo uma série de assuntos que, após devi- damente apreendidos, deveriam ser inter-relacionados, gerando outros, e outros, e assim por diante, o que propi- ciaria ao aluno, por meio de sucessivos exercícios, aquilo que hoje se poderia chamar de educação transdisciplinar e holística. Note-se, contudo, que esse processo exigia, como condição prévia, a existência de disposições capazes de se desenvolverem, como também de meios para fazê-lo, [...] [pois] o educando só pode realizar possibilidades a ele inerentes”. (Cf. GILES, 1983, p. 66) Assim, providos dessa educação abrangente e integral, os discípulos poderiam finalmente alcançar a felicidade, últi- ma fronteira das aspirações humanas. Aluno de Platão na Academia, preceptor de Alexandre Magno, aos cinquenta anos fundou sua própria escola, o Liceu, em cujo bosque ministrava as aulas caminhando com os alunos, os peri- patéticos (do grego peripatetikós, “que gosta de passear”). 39Estruturação da atividade filosófica educativa ...................................................................................................................................................................................................................... A mente ordenada de Aristóteles mostrava o mesmo interesse instintivo pelo meio-termo que sua filosofia moral glorificava: evi- tava todos os extremos e em geral era justo com todos os lados das divisões que separam os filósofos em campos adversários. Foi a principal figura nas filosofias árabe e medieval. Sua concepção fundamentalmente animista da natureza, como uma espécie de planta ou organismo ativo que se esforça por atingir seus fins, sua distinção entre fenômenos celestes e a natureza sublunar [...] foram aspectos dominantes do pensamento europeu até as re- voluções que acabaram por produzir a concepção galileana do mundo no século XVII. [...] No século XX, sua importância tem sido frequentemente reafirmada e Aristóteles continua a ser uma figu- ra central no pensamento ético e metafísico. (BLACKBURN, cit.) Com a helenização do mundo, a cultura grega vai trilhar outros caminhos. No que toca ao processo educativo, a preocupação agora é transmitir ao homem livre um conhecimento en- ciclopédico, processo cujo desempenho também dependerá sobremaneira do Estado, ao qual incum- be codificar as prescrições e vigiar as instituições, visando à formação do homem erudito, universal. (GILES, cit., p. 67) O “mundo helenizado” é, de fato, um mundo novo, que se alastra pelo Mediterrâneo e Oriente Próximo, sob a decisiva (e paradoxal) influência de uma Grécia de cida- des-Estado que decaíam, por força da devastadora Guer- ra do Peloponeso, travada entre Esparta e Atenas, cada qual com seus respectivos aliados, durante longos 27 anos (431 a 404 a.C.). É então que se ergue a Macedônia, onde o povo falava grego, frequentava festivais gregos e tinha reis que afirmavam descenderde Aquiles, o grande herói grego da Ilíada. A hegemonia da Macedônia vai perdurar de 358 a.C., quando começa o reinado de Filipe II, até cerca 40 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação de meio século após a morte de Alexandre, em 323 a.C. A partir daí, assiste-se à ascensão de uma nova potência: trata-se de Roma, que de certa forma [...] também foi um Estado sucessor do helenismo, [...] [embora] sua história, tanto tra- dicionalmente quanto à luz dos estudos modernos, [...] [tenha começado] bem antes de Alexandre [...]. (ROBERTS, 2001, p. 215) No que tange à educação, é evidente o pragmatismo dos romanos — a busca da ação prática, rápida e decisiva, uma das “marcas registradas” mais próprias da cultura deles —; e isso se confirma quando se observa a ocorrência, em Roma, de uma espécie de mixagem entre os métodos es- partano e ateniense, a qual se revelou — como por certo o esperavam tanto os generais quanto os educadores civis — de grande eficiência na materialização daquilo que se esperava da instrução infantil: crianças sadias no espíri- to e no corpo (“mens sana in corpore sano”, como canta- ria o poeta Juvenal já no ano I de nossa era), desde cedo conduzidas, em família e nas escolas elementares, para a honestidade, a austeridade e, principalmente, o amor in- condicional à pátria (isso no que toca aos meninos, pois às meninas caberia o aprendizado dos deveres de esposa, de mãe e das tarefas domésticas). Mas acontece que o continuado contato com outros povos leva o proces- so educativo romano a tomar outros rumos. [...] Inicia- -se a helenização da cultura romana. [...] Doravante, o principal valor do processo educativo será a formação do caráter do educando, em sentido universal, cosmo- polita, humanista. (GILES, cit., p. 67-68) 41Estruturação da atividade filosófica educativa ...................................................................................................................................................................................................................... E é justamente nesse aspecto que sábios como Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), considerado o maior orador latino, Lú- cio Aneu Sêneca (4 a. C.-65 d.C.), filósofo estoico e literato, e Marco Fábio Quintiliano (35-100 d.C.), seguidor da retóri- ca de Isócrates e educador, vão contribuir decisivamente. Para Cícero, a educação deve ensinar, sobretudo, que “o verdadeiro orador é o homem ideal que reúne em si capaci- dade de palavra, riqueza de cultura e capacidade de parti- cipar da vida social e política, como protagonista”, morren- do pelo Estado, se for preciso. “É o homem da pólis grega, reativado e universalizado pelo culto da humanitas, que se completa com o estudo das artes liberais, das humanae litterae e da retórica em particular” (CAMBI, cit., p. 109). Para Sêneca, a verdadeira educação pressupõe uma sólida aliança entre o homem e a natureza, com o concurso da razão, e deve propiciar ao aluno a sua libertação do jugo das paixões, convencendo-o de que a vida exige, de cada um e de todos, vigor e pertinácia; contudo, “este ensino só conseguirá ser eficaz mediante o exemplo e as convicções íntimas” (Cf. GILLES, cit., p. 68-69). Para Quintiliano, o processo educacional, que deve começar muito cedo, é responsabilidade do Estado, “pois só ele é que possui meios de garantir a educação coletiva, pública, vi- sando à formação do cidadão, do homem público, político e humanista”. Quanto à metodologia, o educador recomenda aqueles três mesmos fatores apontados por Aristóteles: cul- tivo das disposições naturais; instrução continuada; e muita prática, sem a qual “as melhores disposições naturais e a melhor técnica serão totalmente inúteis” (Cf., ib., p. 68). 42 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação Devidamente consolidada e adequada às classes privile- giadas, e como sempre vedada ao povo, a educação no Ocidente prosseguiu sem turbulências ou modificações significativas, até chegar à Europa medieval, onde o cris- tianismo, muito antes divulgado pela peregrinação dos “quatro evangelistas” — Mateus, Marcos, Lucas e João — e, mais tarde, reforçado em suas bases materiais e espiri- tuais pelo trabalho incansável de Paulo de Tarso, “exigirá a idealização de um processo educativo mais consistente e organizado, o que se fará mediante a formação de escolas catequéticas” (Cf. GILES, cit., p. 69). Com efeito, é no período medieval que surgem dois dos maiores educadores cristãos: Clemente de Alexandria (c. 153-220) e Orígenes (185-253). Clemente, com seu Paedagogus, coloca como mo- delo a paidéia helênica, mas também afirma que esta só se realiza plenamente no cristianismo. [...] Segundo Orígenes, ‘Cristo era o grande Mes- tre’ que indicava uma ‘paideia do gênero huma- no’. (CAMBI, cit., p. 129) A partir de Agostinho (354-430) — que seguia orientação filosófica nitidamente platônica —, diante dos conflitos e inquietações que acometem o homem medieval, busca-se, sobretudo, a disciplina, pois, já que as palavras “são ape- nas sinais de objetos que, por sua vez, são imagens das [...] ideias abrigadas na mente de Deus [,] [...] é preciso que o educando seja levado até o mundo das ideias com a ajuda do educador e da iluminação divina”, para só então poder alcançar a Verdade, que, afinal, habita seu próprio interior (Cf. GILES, cit., p. 69-70). 43Estruturação da atividade filosófica educativa ...................................................................................................................................................................................................................... Já na segunda metade da Idade Média — após a invasão dos bárbaros, a queda do Império Romano e a instituição das es- colas monásticas, onde a Literatura e o Latim eram ensinados juntamente com as “sete artes liberais” (Gramática, Dialética, Retórica, Aritmética, Geometria, Astronomia e Música) — sur- ge a Escolástica, modificando fundamentalmente o “modo de idealizar e realizar o processo educativo”, mas conservando a mesma disposição de transmitir a sabedoria como instrumento a serviço da fé, e não de investigar a sabedoria por si. Visa-se sobre- tudo resolver possíveis conflitos entre fé e razão, entre Filosofia e Teologia. (Cf. GILES, cit., p. 70) Tomás de Aquino (1224-1274), o mais importante pensador da época (que, em De Magistro, retoma Agostinho), Sublinhou a importância do professor no despertar da mente do estudante, o aspecto sensível do conhe- cimento e do ensino, a possibilidade de conhecer os ‘primeiros princípios’ de toda ciência e de ensiná-los a outros despertando a atividade racional. A pedagogia tomista é toda embebida de fé na razão. Tudo isso ex- plica a condenação que foi feita de muitas teses tomis- tas em 1270, e depois em 1277. (CAMBI, cit., p. 189) Tanto intelecto, tanta fé, tanta elucubração transcendental e nada relativo à vida prática; mas não é preciso ser um gênio ou um santo para saber que a nossa existência é feita de pen- samento e ação: vida é práxis, seja pela tradução direta do grego, seja pelo sentido estritamente marxista do termo: Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que dirigem a teoria para o misticismo encontram sua solução na praxis humana e na com- preensão dessa praxis. (Marx, in JAPIASSU; MAR- CONDES, cit.) 44 ......................................................................................................................................................................................................................Bases filosóficas da Educação Foi por falta de uma educação (também) “terrena”, por parte das escolas monásticas, que profissionais do mes- mo ramo, artesãos e comerciantes, por exemplo, criaram a escola gremial, capaz de oferecer a seus pares e cola- boradores ensinamentos práticos, técnicos e comerciais. Pela mesma época, passaram a existir também, em contra- ponto àqueles estabelecimentos religiosos de ensino, as escolas municipais, onde se ministravam aulas de língua vernácula em vez do Latim, bem como de Cálculo, Geo- grafia, Ciências Naturais e outras disciplinas “mundanas”. Por fim, a disseminação das escolas gremiais e munici- pais, somada à discreta — mas inevitável — evolução das próprias escolas monásticas, vai propiciar a fundação das primeiras universidades, fomentadoras incansáveis, em todas as épocas, do saber irrestrito e geral que nos acom- panha até hoje. Neste capítulo, vimos que o processo de socialização promove a integração dos indivíduos com base em três elementos fundamentais e exclusivamente humanos: a linguagem articulada, sem a qual uma comunicação de alto nível não se poderia manifestar; a cultura, aprendida e transmitida por meio dessa comunicação; e o trabalho, com o qual o homem modifica intencionalmente a natu- reza e, num processo recíproco, produz e reproduz cul- tura — aquele conjunto de características intrínsecas a determinada sociedade capaz de mantê-la sempre viva e coesa. Aprendeu-se, ainda, que é por intermédio da edu- cação — trabalho não material —, que se planeja, se con- cebe, se dissemina e se perpetua a cultura. Na verdade, assim como é possível inferir que a linguagem é o começo da nossa humanização, é possível afirmar, sem qualquer resquício de dúvida, que a educação é a única responsá- 45Estruturação da atividade filosófica educativa ...................................................................................................................................................................................................................... vel pela nossa permanência como espécie, como seres hu- manos, como gente. Mas por certo, também, a educação nunca teve “vida fácil”: passou por maus bocados, desde as sociedades mais antigas até a Grécia Clássica, quando a situação de fato melhorou, porém entrou na Idade Média oscilando confusamente entre fé e ciência, entre religião e razão. No entanto, apesar de todas as dificuldades, ape- sar, sobretudo, do aviltamento que tantas vezes lhe foi imposto pelas classes dominantes — que jamais hesita- ram em usá-la para promover e justificar interesses nem sempre nobres —, a educação continua resistindo. 46 ...................................................................................................................................................................................................................... Bases filosóficas da Educação REFERÊNCIAS ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna,1998. Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. São Paulo: Moderna, 2000. ARENDT, Hannah. Noções sobre a filosofia política de Kant. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993. ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BAUDRILLARD, Jean. A Sombra das maiorias silenciosas. São Paulo: Brasiliense, 1985. BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. 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Mas é pratica- mente impossível ser refratário à política e aos políticos quando se vive em sociedade, a não ser que se consiga viver trancado em uma caverna — a do Platão, por exem- plo —, vendo as sombras das ideias e a própria vida (es) correndo pelas paredes, em um festival de irrealidades. Veremos agora a possível convivência entre política e edu- cação. O ideal seria que se pudesse escrever sempre Polí- tica & Educação, claramente associadas, mas às vezes as duas se comportam como uma mistura de água e óleo: quando agitada, até dá a impressão de unidade, mas basta parar de sacudir para que se separem novamente as fases do sistema. No primeiro momento se buscará, a partir da pólis grega, uma conceituação filosófica para a política, pressupondo que, até etimologicamente, seu início remontaria à Grécia Clássica. Em seguida, a pesquisa estará sobre Roma, com sua república pródiga de intrigas, traições e usurpações que lhe daria um império imenso e uma queda proporcio- nal às dimensões de tudo que conquistou. 50 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação O foco de pesquisa seguinte irá centrar-se no compromis- so bilateral que deve ou deveria existir entre a política e a educação, começando pelo Renascimento — assumido como uma via de ligação expressa entre a Idade Média e a Modernidade— e terminando com algumas palavras so- bre a necessidade de todos participarem criticamente do processo educativo, dentro e fora das salas de aula. Finalmente, será examinada a ideologia em alguns de seus muitos aspectos, de forma que se possa estar, tanto quan- to possível, preparado contra os diversos e camaleônicos tipos de manipulação que ameaçam indivíduos, grupos ou nações inteiras, a qualquer tempo e em qualquer lugar. 51Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... CONCEPÇÃO FILOSÓFICA DA POLÍTICA Por volta dos séculos XII e XIII, a Idade Média é marcada por uma radical mudança de paradigma em vários cam- pos, e muito especialmente na educação. É a época das grandes catedrais cristãs — Saint-Sernin, Durham, Sainte- -Foy, Notre-Date, Canterbury —, ciclópicos monumentos que “falam” ao povo analfabeto por meio de sua icôni- ca linguagem de pedra. É a época da Escolástica, de To- más de Aquino, e do conflito entre fé e razão, e é a época das primeiras universidades, com origem nas escolas das próprias catedrais, onde alguns professores, na verdade livres-pensadores pagos para ensinar, disseminavam o saber laico, gerando uma controvérsia inevitável entre as pessoas mais ilustradas e abastadas da Europa Ocidental. Um paradoxo: catedrais da fé gerando, contra si mesmas, “catedrais do saber”. A aporia, até semântico-etimológica, é interessante: catedral, archieratiké ekklesía em grego, pode ser traduzido por algo como lugar principal da as- sembleia hierática (relativa às coisas sagradas); e ekklesía, de onde saiu a palavra igreja (e daí eclesiástico), pode sig- nificar também assembleia popular; além do que, catedral se relaciona ainda a cátedra e catedrático, palavras nitida- mente “universitárias”. Não parece despropositado, portanto, inferir-se a exis- tência de uma instigante semelhança funcional entre os professores laicos medievais — os livres-pensadores — e os professores “laicos” da Grécia Clássica — os sofistas. Em essência, uma das poucas diferenças que podem ser 52 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação identificadas entre ambas as classes depende de uma só variável: o tempo; mas aqui trata-se de um tempo histórico, domínio abstrato em que alguns anos podem equivaler a uma fração de segundo. Outra dessemelhança é a seguin- te: na Grécia Clássica, a intensidade da pressão política exercida sobre os sofistas, por parte das classes dominan- tes, sequer seria aproximativamente comparável àquela que sofreram os professores-livres-pensadores medievais, para os quais a tortura e a fogueira não eram apenas puni- ções possíveis, mas muito prováveis. Com efeito, essa postura intransigente da Igreja vinha de longe, desde pelo menos o século IV, nos tempos de Agos- tinho, o neoplatonista, para quem: O homem foi criado à imagem de Deus; e em seu estado original, no qual saiu das mãos de Deus, era igual ao seu arquétipo. Mas tudo isso foi perdido com a queda de Adão. A partir desse momento, todo o poder original de raciocínio ficou obscurecido. E a razão sozinha, deixada a si mesma e a suas próprias faculdades, nunca pode encontrar o caminho de vol- ta. Não pode reconstruir-se; não pode, por seus pró- prios esforços, retornar à sua pura essência anterior. Se tal transformação for algum dia possível, será apenas por ajuda sobrenatural, pelo poder da graça divina. [...] Até Tomás de Aquino, o discípulo de Aris- tóteles, que volta às fontes da filosofia grega, não se aventura a desviar-se desse dogma fundamental. Ele concede à razão humana um poder muito mais alto que o concedido por Agostinho; mas está convenci- do de que a razão não pode usar corretamente esses poderes a menos que seja guiada e iluminada pela graça de Deus. Chegamos aqui a uma inversão total de todos os valores sustentados pela filosofia grega. O que outrora parecia ser o mais alto privilégio do homem revela-se como seu perigo e sua tentação; o que surgia como seu orgulho torna-se sua mais pro- funda humilhação. (CASSIRER, 2001, p. 22-23) 53Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... Ou seja, na Idade Média das catedrais, seria extremamente arriscado “humanizar” o conhecimento, falar em ciência, em novas descobertas ou em novos modos de pensar e de agir, senão naqueles previstos por Agostinho e Tomás de Aquino, os grandes doutores da Igreja, os únicos verdadei- ros e confiáveis mentores da educação, devidamente ca- rimbados com a venerável e onipotente chancela do Papa — o grande poder político à época. Mas é preciso esclare- cer, desde logo, o que se pode entender por poder político. Em O que é poder, Gerard Lebrun levanta a seguinte questão: Se X tem poder, é preciso que em algum lugar haja um ou vários Y que sejam desprovidos de tal poder. É o que a sociologia norte- -americana chama de teoria do ‘poder de soma zero’: o poder é umasoma fixa, tal que o poder de A implica o não poder de B. Esta tese (ou este pressuposto, quando a tese não é expressamente enunciada), encontra-se em autores tão diferentes ideologica- mente como Marx, Nietzshe, Max Weber, Raymond Aron, Wright Mills...” (LEBRUN, 1992, p. 18) Foi dito de passagem que política vem do grego pólis, ci- dade. Portanto, politikós é o político, aquele que cuida dos negócios públicos, atividade que, nos tempos do esplendor de Atenas, lá pelos séculos V e IV a.C., significa- va ocupar-se dos negócios daquela cidade-Estado. De fato, não seria possível ou recomendável falar de uma política propriamente, de uma políteyma (administração pública), reportando-se ao tempo dos aristoi (de aristos, de onde se originou a palavra aristocrata), os melhores, os exce- lentes, os príncipes, os que exerciam o governo por meio de decisões pessoais irrecorríveis; isso na Grécia ou em qualquer outro lugar à época. Porque política só começará a ser exercida em plenitude, pelo menos, com toda a carga semântica que a etimologia do vocábulo sintetiza, a partir 54 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação do advento da democracia ateniense (demos, povo; krátos, poder; demokratía, poder do povo), uma forma de governo realmente muito avançada para a época, apesar de excluir das deliberações e decisões as mulheres, os escravos e os estrangeiros (metecos, de métoikos), a qual, não obstante isto, terá sido capaz de inspirar, até uns dois mil e qui- nhentos anos depois, as democracias plenas (ou quase), conformes àquela conhecida e repetida frase, um tanto ou quanto “romântica” e que antes soa a esperança do que a constatação: “Todo o poder emana do povo...” Note-se, no entanto (lembremo-nos daquela borboleta de que falamos antes), que: [...] o regime aristocrático não acabou de uma hora para outra em Atenas. A trajetória política dos ate- nienses até o regime de maior participação popular da Antiguidade foi marcada por várias e longas eta- pas. Para que se chegasse à democracia foi preciso muita luta popular, pois os aristocratas não cede- ram facilmente. (FUNARI, 2002, p. 34) Sem dúvida, o incremento mercantil por via marítima deu aos comerciantes a capacidade de rivalizar com os grandes proprietários rurais, e, de carona no sucessodos comerciantes, seguiram camponeses e artesãos, amplian- do sua participação social. Todavia, no século VI a.C., ao tempo de Sólon (considerado o “pai da democracia ate- niense”) e do tirano Pisístrato, apesar da “reforma agrária” que se tentou, desapropriando e redistribuindo terras en- tre pequenos proprietários, os aristocratas permaneceram firmes e coesos em suas posições; e isso até que Clíste- nes, poderoso estadista, conseguisse lhes retirar também, além de terras, boa parte das prerrogativas tradicionais, 55Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... reorganizasse a concessão de propriedades e instituísse um novo sistema de representação política, pelo qual todo cidadão seria inscrito em um demos (neste caso, e em Ate- nas, significando cantão, povoação) e ganharia o direito de votar durante a assembleia. Foi também no tempo de Clís- tenes que se concebeu o ostracismo (de ostrakon, concha de ostra, fragmentos de barro cozido): Por este procedimento, os atenienses podiam votar para que um indivíduo fosse exilado da cidade por um período de dez anos, caso sua presença fosse considerada uma ameaça à liberdade dos cidadãos. Escrevia-se o voto em cacos de cerâmica [...] (FUNA- RI, cit., p. 35) Mais tarde, após liderar as cidades gregas na vitória so- bre os persas, numa guerra que durou de 491 a 485 a.C., Atenas finalmente pôde conhecer a democracia em toda a plenitude, sob Péricles, que se tornou líder dos democra- tas em 469 a.C. Foi nessa época que: Os cargos políticos ligados à redação das leis e sua aplicação tornaram-se legalmente acessíveis tanto aos cidadãos ricos como aos pobres, e as palavras justiça e liberdade passaram a ser referenciais im- portantes no imaginário ateniense. (FUNARI, cit., ib.) Um dos primeiros “democratas notórios”, depois de insta- lado e consolidado o “poder do povo”, teria sido Sócrates. Afinal, o que se sabe de Sócrates, que não deixou nada escrito, veio por terceiros, via Xenofonte, em suas Memo- rabilia, e Platão, em especial nos diálogos Apologia de Só- crates e Fédon. De qualquer modo, parece não existirem dúvidas de que ele 56 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação participou ativamente da vida da cidade, dominada pela desordem intelectual e social [após a derrota na Guerra do Peloponeso], submetida à demagogia dos que sabiam falar bem [e por trás disso pode- -se entrever a sombra ambígua dos sofistas]. Con- vidado a fazer parte do Senado dos 500 [o bulé], manifestou sua liberdade de espírito combatendo as medidas que julgava injustas [e permanecendo] independente em relação às lutas travadas entre os partidários da democracia e da aristocracia. (Cf. JA- PIASSU; MARCONDES, 1991) Depois de Sócrates, até por questões cronológicas, o pró- ximo personagem objeto de estudo é Platão. Mas Platão, apesar da coincidência espaço-temporal (Atenas, séculos V e IV a.C.), não era, de forma alguma, um democrata. Na República, no Político e nas Leis, Platão enuncia as condições da cidade harmoniosa, governada pelo filósofo-rei, personalidade que governa com autori- dade mas com abnegação de si, com os olhos fixos na ideia do bem. [...] Abaixo dessa virtude quase divina, situa-se a virtude propriamente humana: a justiça, que consiste na harmonia interior da alma. (JAPIASSU; MARCONDES, cit.) Isso tem um quê de já visto, e certamente essa história de governar “com abnegação de si, com os olhos fixos na ideia do bem” foi um dos principais motivos que teriam levado Schüller (Literatura grega, p. 77-79), citado por Co- trim e Fernandes, a sentenciar, sem mais floreios: “Inimigo da democracia foi Platão, o maior dos discípulos de Sócra- tes. Em A República, apresenta-nos um Estado ideal de- senvolvido a partir da constituição militarista de Esparta”. E prossegue, descrevendo a organização social e política defendida pelo filósofo-rei (ou rei-filósofo). Vale a pena a longa transcrição: 57Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... [Platão] divide o Estado em três classes: os gover- nantes, o exército e o povo. [...] Esta última classe (formada por artesãos, agricultores, comerciantes, profissionais liberais e escravos) não lhe merece o menor respeito. Totalmente excluídos do governo, devem curvar-se às leis que lhes são impostas. Nem lhes cabe buscar consolo na religião dos antepas- sados. Criada pelo Estado, a religião comparece como poderoso instrumento de domínio bem como a literatura e as artes. Embora duramente reprimi- do, compete ao povo suprir o Estado da produção pastoril, agrícola e industrial. [...] Aos incorporados do exército são negados quaisquer direitos pri- vados. Não podem ser proprietários, não podem constituir família e o Estado controla as horas de lazer. A união sexual tem como finalidade única a procriação, sendo os casais e a data das conjunções determinadas pelo Estado por critérios políticos e de eugenia. A educação começa desde a infância e é, em todas as etapas, controlada pelo Estado para os interesses deste e não do indivíduo. Também o exército permanece excluído do governo. Velar pela segurança externa e interna é a sua única função. A admissão da mulher no exército e na educação, que poderia ser considerada um progresso, visa, contu- do, aos exclusivos interesses do Estado. [...] A classe dos governantes é constituída pelos filósofos, re- crutados entre os militares, depois dos cinquenta anos. Únicos detentores da verdade, compete-lhes legislar autoritariamente o Estado sem vigilância de outra classe. Já que os conteúdos metafísicos aos quais devem adequar as leis lhes são minuciosa- mente prescritos, suspeitamos que já não lhes cabe o nome de filósofos a eles atribuído. Se tomamos Sócrates como protótipo de filósofo, os governantes da República, presos a um sistema preconcebido e rígido, não se parecem nada com ele. Assemelham- -se antes a sacerdotes de uma religião secreta, dog- maticamente elaborada pelo fundador. (SCHÜLLER, D., apud COTRIM; FERNANDES, 2010, p. 200) 58 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação República vem do latim e significa “coisa” (res) pública; em gre- go, traduz-se por demokratía ou politeía. À primeira vista, parece tratar-se de dois significantes para um só significado, mas certamente existem derivações denotativas, apreensíveis tanto pelos textos de Platão quanto pelos de Aristóteles. Foi bem observado que os filósofos-governantes da Repú- blica não se pareciam nada com Sócrates, mas o método utilizado por Platão para defender seus pontos de vista era muito semelhante ao do falecido mestre: o diálogo, o dialogismós, o raciocínio, a conversa, a discussão. Como nestes passos do Livro VIII de A República, em que os diálogos não economizam ironia. Conversam “Sócrates” e “Gláucon”, com Platão pensando pelos dois: — Ora, a democracia surge, penso eu, quando após a vitória dos pobres, estes matam uns, expulsam outros, e partilham igualmente com os que restam o governo e as magistraturas, e esses cargos são, na maior parte, tirados à sorte. — É essa, efectivamente, a maneira como se esta- belece a democracia, quer pelas armas, quer pelo medo do outro partido, quefoge. [...] — Pois não serão em primeiro lugar pessoas livres, e a cidade não estará cheia de liberdade e do direito de falar, e não haverá licença de aí fazer o que se quiser? — É o que se diz, pelo menos. — Mas onde houver tal licença, é evidente que aí cada um poderá dar à sua própria vida a organiza- ção que quiser, aquela que lhe aprouver. — É evidente. [...] — Tal constituição é muito capaz de ser a mais bela das constituições. Tal como um manto de muitas cores, matizado com toda a espécie de tonalidades, 59Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... também ela, matizada com toda a espécie de carac- teres, apresentará o mais formoso aspecto. E talvez que, embevecidas pela variedade do colorido, tal como as crianças e as mulheres, muitas pessoas jul- guem essa forma de governo a mais bela. – É muito provável. (PLATÃO, 1993, p. 386-387) Seria proveitosa uma breve digressão para recapitular o que já foi apresentado até aqui: revisitou-se a Idade Média, com suas catedrais da fé e catedrais da razão; apontou-se uma semelhança funcional entre os sofistas e os profes- sores-livres-pensadores medievais; Agostinho e Tomás de Aquino foram revisitados; colocou-se o poder político do papa em evidência; e, assumido o pressuposto de que a Política, em toda a sua plenitude semântica, nasce na Ate- nas da era clássica, iniciou-se o estudo dos perfis dos filó- sofos mais importantes para este assunto à época. Assim, foram vistos Sócrates e Platão; prosseguindo na cronolo- gia, o próximo será Aristóteles. A filosofia aristotélica tinha como um de seus pontos ba- silares a crença de que a virtude está no meio. O homem virtuoso deve [...] conhecer o ponto mé- dio, a justa medida das coisas, e agir de forma equi- librada de acordo com a prudência ou moderação (sophrosine), que pode ser entendida como a pró- pria caracterização do saber prático. (MARCONDES, 1997, p. 77) Assim, também na Política, especificamente no que toca à democracia, Aristóteles recomendava que se procurasse atrair os grupos intermediários, a ‘classe média’ [...], já que o regime democrático foi ameaçado, diversas vezes, pela reação das elites, intimidadas pelas mas- sas. (FUNARI cit., p. 41) 60 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação Mas democracia não significa poder do povo? E povo – de- mos, habitantes de um país, ou, no caso, de uma cidade – não implica, até pela etimologia, as massas e a classe mé- dia e a elite? Por que motivo, então, seria preciso “atrair” a classe média? O que Aristóteles pensava, afinal, sobre a democracia? No Livro III de A Política, Aristóteles apresenta e sistematiza, como lhe é peculiar, as diversas formas de governo que enten- de existirem: a Monarquia, colocada entre “os grandes gover- nos”, dividida em cinco espécies; a Aristocracia, cujo nome não deve ser dado “senão à magistratura composta de pessoas de bem sem restrição”; a República, que “reúne o que há de bom em dois regimes degenerados, a Oligarquia e a Democracia; a Tirania, “o pior dos governos”, da qual a Monarquia se distin- gue “pela grande excelência de quem reina”; a Oligarquia, divi- dida em quatro classes, governo cujas magistraturas são dadas a poucos, ricos e geralmente não qualificados; e a Democracia, dividida em quatro tipos (cf. ARISTÓTELES, 2000, p. 109-125): A primeira espécie [de democracia] é aquela em que os poderes se distribuem segundo as posses até cer- ta mediocridade [com o sentido de ponto médio]. [...] A segunda espécie reconhece-se pelo direito de voto nas eleições que se realizam na Assembleia; todos são ad- mitidos, se seu nascimento for digno, mas somente são elegíveis os que têm meios de viver sem trabalhar. [...] A terceira espécie é a que admite no governo todos os que são livres, mas, não oferecendo nenhum atrativo à cupidez, não sofre a concorrência perigosa de um nú- mero excessivo de pretendentes [...]. A quarta é aquela que se introduziu em último lugar nas Cidades que se tornaram maiores e mais opulentas do que eram nos primeiros tempos [e] exibe a igualdade absoluta, isto é, a lei coloca os pobres no mesmo nível que os ricos e pretende que uns não tenham mais direito ao governo do que os outros [...]. (ARISTÓTELES, cit., p. 124-125) 61Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... Mas é o trecho de A Política reproduzido em seguida que dá o que pensar, confrontando os dias de hoje, quando qualquer evento corriqueiro define um momento histórico e qualquer ação, ainda que obscura ou difusa, é classificada de republicana: Mas, se todos são indistintamente admitidos no go- verno, é a massa que se sobressai e, sendo os pobres assalariados, podem deixar o trabalho e permanecer ociosos, não os retendo em casa a preocupação com seus próprios negócios. É, pelo contrário, um obstá- culo para os ricos que não assistem às Assembleias nem se preocupam com o papel de juiz. Resulta daí que o Estado cai no domínio da multidão indigente e se vê subtraído ao império das leis. Os demagogos calcam-nas com os pés e fazem predominar os de- cretos. Tal gentalha é desconhecida nas democracias que a lei governa. Os melhores cidadãos têm ali o pri- meiro lugar. Mas onde as leis não têm força pululam os demagogos. O povo torna-se tirano. Trata-se de um ser composto de várias cabeças; elas dominam não cada uma separadamente, mas todas juntas. [...] Seu governo não difere em nada da tirania. Os baju- ladores são honrados, os homens de bem sujeitados. O mesmo arbítrio reina nos decretos do povo e nas ordens dos tiranos. Trata-se dos mesmos costumes. [...] Não é sem razão que se censura tal governo e, de preferência, o chamam democracia ao invés de Repú- blica; pois onde as leis não têm força, não pode haver República, já que este regime não é senão uma ma- neira de ser do Estado em que as leis regulam todas as coisas em geral e os magistrados decidem sobre os casos particulares. Se, no entanto, pretendermos que a democracia seja uma das formas de governo, então não se deverá nem mesmo dar este nome a esse caos em que tudo é governado pelos decretos do dia, não sendo então nem universal nem perpétua nenhuma medida. (ARISTÓTELES, cit., p. 125-126) 62 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação De fato, a história parece repetir-se, à maneira de um jogo de espelhos. Mas como teriam transcorrido as questões políticas, à mes- ma época, em Roma? Segundo J. M. Roberts, a história de Roma, “de certa forma [...] um Estado sucessor do helenis- mo”, começou por volta de 510 a.C. Era uma República de cidadãos fiéis às tradições, mesmo muito tempo depois de seu governo parecer monárquico. Assim, “oficialmente” a República persistiria por uns 450 anos — até a metade do século I a.C. —, sofrendo, portanto, grandes transforma- ções, das quais a mais significativa foi a expansão de seu poderio político e militar, que “chegou a englobar todo o mundo mediterrâneo num sistema de dominação e trans- formou Roma num império que até hoje molda grande par- te da nossa vida” (ROBERTS, 2001, p. 215). As sete colinas de Roma, nos primeiros duzentos anos da República,foram testemunhas mudas de acirradas lutas dos “cidadãos” pobres contra os patrícios, membros de famílias abastadas que dominavam o Senado, a sede do poder. Mas, por força do célebre pragmatismo romano, esses embates, apesar de perdurarem por muito tempo, não causaram da- nos de monta à República, pois aos poucos, e na medida do necessário e suficiente, foram sendo feitas mudanças nas instituições, de modo a atender as reclamações do povo. Como se percebe então, a res publica não era tão pública assim, ou, pelo menos, não tão espontânea e naturalmente pública – o que não é uma exclusividade romana, pois aten- der as reclamações do povo espontânea e naturalmente é algo que parece jamais ter ocorrido em lugar algum. Ainda assim, embora os cidadãos mais pobres con- quistassem muitas vitórias e uma parte maior nos espólios do poder, Roma nunca se tornou uma demo- cracia no sentido de que estes cidadãos controlassem o governo por muito tempo (ROBERTS, cit., p. 215-216) 63Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... [...] O típico cidadão romano era camponês e cultiva- va sua pequena propriedade, se beneficiando do es- plêndido clima e da fertilidade que sempre fizeram da Itália um país rico quando bem governado, e às vezes até quando não foi. Este cidadão já demonstra- va a diligência e a habilidade dos futuros italianos. A agricultura era a base da primitiva República; não se deve pensar na enorme metrópole dos séculos se- guintes, importando milho, engolida por grande nú- mero de imigrantes, como típica dos primeiros dias da República. Durante um longo tempo, o romano típico era o pequeno proprietário independente. So- mente no século II a.C. é que se tornaram comuns as grandes propriedades, cujos donos viviam na cidade e dependiam do trabalho escravo para colher grãos ou azeitonas [...] (ROBERTS, cit., p. 216) E foi justamente no século II, quando “se tornaram co- muns as grandes propriedades”, que começou um perí- odo de séria crise em Roma, situação que ainda iria per- durar por uns cem anos. Escravos, plebeus “sem-terra”, comerciantes ricos — todos se voltavam contra o Senado da elite patrícia. Não bastasse isto, havia também a cobi- ça desmesurada dos generais, cada vez mais importantes para as conquistas e a manutenção da ordem interna e externa, e cada vez mais ávidos de poder, agora não só militar, mas também e principalmente político: lutavam eles com os conquistados, com a plebe e entre si, unindo- -se, quando conveniente, e traindo-se, quando oportuno, como nos dois triunviratos. Mas o preocupante, ao ser examinada a luta pelo poder pessoal ou coletivo nas sociedades (arcaicas, clássicas, medievais, modernas ou contemporâneas), é que a essa luta onipresente e atemporal pode ser dado um nome bastante comum: vaidade, mãe extremosa do narcisismo, aspecto psicológico irrestrito e variável, isto é, comum a todos, indivíduos e sociedades, em diversos graus, do 64 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação saudável ao patológico. E poucos estudiosos teriam abor- dado com tanta perspicácia o narcisismo quanto Erich Fromm, em O Coração do Homem: Um exemplo particular de narcisismo [individual] que fica na fronteira entre saúde e insanidade pode ser encontrado em certos homens que alcançaram um grau extraordinário de poder. Os faraós egíp- cios, os césares romanos, os Bórgias, Hitler, Stalin [...] — todos revelam certos aspectos similares [...]. Tentam fingir não haver limite para [...] seu poder. [...] Isso é loucura, ainda que seja uma tentativa para resolver o problema da existência fingindo que não se é humano. É uma loucura que tende a crescer no decurso da vida da pessoa por ela afligida. [...] Na dinâmica do narcisismo coletivo encontramos fenô- menos análogos aos já examinados a propósito do narcisismo individual. Aqui também podemos dis- tinguir as formas benigna e maligna do narcisismo. [...] Uma sociedade a que faltem os meios de aten- der adequadamente à maioria de seus membros ou a uma grande proporção deles, deve atender esses membros com uma satisfação narcisista do tipo ma- ligno para impedir insatisfação entre eles. (FROMM, 1977, p. 72-73; 87) 65Concepção filosófica da política ...................................................................................................................................................................................................................... Narciso foi objecto da paixão de grande número de raparigas e de ninfas. Mas ele ficava insensível. Quando finalmente a ninfa Eco apaixonou-se por ele, não conseguiu mais do que as outras. De- sesperada, Eco retirou-se na sua solidão, emagreceu e de si mes- ma, em pouco tempo, não restou mais que uma voz gemente. As jovens desprezadas por Narciso pediram vingança aos céus. Némesis ouviu-as e fez com que, num dia de grande calor, depois de uma caçada, Narciso se debruçasse sobre uma fonte, para se dessedentar. Nela viu o seu rosto, tão belo, e imediatamente ficou apaixonado. A partir de então, torna-se insensível a tudo o que o rodeia, debruça-se sobre a sua imagem e deixa-se morrer. No Estige, procura ainda distinguir os traços amados. No lugar onde morreu, brotou uma flor à qual foi dado o seu nome, o narciso. (GRIMAL, 2000) Um daqueles generais patologicamente ávidos de poder foi Julio César, o conquistador da Gália, que conseguiu manipu- lar o Senado e transformar-se em ditador vitalício, isso por volta de 49 a.C; mas, temendo que a monarquia fosse resta- belecida, seus inimigos, que eram muitos, resolveram assas- siná-lo, o que ocorreu em 44 a.C., ano que marca de fato o fim da República, ainda viva, mas por um fio, e já se deslo- cando decididamente para a centralização do poder, cujas coordenadas foram definidas pelo próprio César. Assim é que, após derrotar Marco Antonio e Cleópatra na Batalha de Ácio, em 31 a.C., Otávio, filho adotivo de César, aceita, em 27 a.C. o título de Augusto — que lhe dava o direito de ser ado- rado como um deus depois que morresse — e se transforma em dono único e absoluto de todo o mundo romano. De Augusto, morto em 14 d.C., passando pela crise do século III, que culminou com o assassinato do imperador Alexandre Severo, em 235, o Império Romano transborda por todo o en- torno do Mediterrâneo, mas cai, por volta do século V, com as invasões dos “bárbaros”, fato que alguns ainda chamam de fim da Antiguidade (ou início da Idade Média). Contudo, ...................................................................................................................................................................................................................... 66 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação [a História] não é um edifício que se constrói e cujo andamento se possa registrar num desses cronogra- mas de parede [...] que se veem nas salas dos arqui- tetos. Não é algo necessariamente lógico [...], embora muitas vezes se insista em arranjar e rearranjar os fatos em antecedentes e consequentes que possam dar ao todo um aspecto de racionalidade ‘habitável’. (SILVEIRA, 1999, p. 102) Depois, vêm a expansão do cristianismo e a ascensão de uma nova Roma, a Roma dos papas. Mas esses eventos — que antecedem o Renascimento, próximo assunto a ser abordado — já foram vistos. 67Compromisso políticoda Educação ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ COMPROMISSO POLÍTICO DA EDUCAÇÃO Este título, no fundo, pode ser entendido de duas formas: a primeira, óbvia, liga-se àquilo que se espera do leitor — apreender nas linhas e nas entrelinhas o que é que o governo, aqui e agora, ou o que é que qualquer governo, em qualquer tempo e lugar, anda ou andou fazendo com a educação. Contudo, o inverso também é possível, median- te uma discreta pirueta hermenêutica, pois é evidente que quem governa não deixou de receber, de alguma forma, boa ou ruim, a educação que o próprio governo — ou o sistema — lhe proporcionou. Cuida-se, então, de um caso de reciprocidade entre duas facções simultaneamente res- ponsáveis pelos erros e acertos que se verificam no pro- cesso educacional. Quer dizer, sintetizando: só teorizar e reclamar não resolve o problema; é preciso participar ati- vamente, ou nada acontece. Feita esta rápida mas necessá- ria observação, pode-se entrar propriamente no assunto. É natural, quando se fala em Renascimento, que a maioria das pessoas se lembre logo de projetos arquitetônicos gre- co-romanos, afrescos, estátuas e monumentos de mármore, essas obras que, inspiradas nas da Grécia Clássica, de tão semelhantes aos respectivos modelos, também poderiam ser desdenhosamente chamadas por Platão, cada uma de- las, de cópia da cópia. Mas o Renascimento não é isso, ou não é só isso; trata-se, antes, de um período histórico agi- tadíssimo, compreendido (mas não “programado”) entre os séculos XV e XVI; desenvolve-se, portanto, simultaneamente às primeiras grandes navegações e descobertas — pelo me- nos as “oficiais” — e tira proveito de um comércio que já se anunciava planetário muito antes que sequer se sonhasse com a globalização. Porque o Renascimento é, muito além de um movimento ou de uma simples tendência, uma ponte de mão única da Idade Média para a Modernidade. 68 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação As grandes pinturas, esculturas e projetos arquite- tônicos do período se assemelham mais aos da an- tiga Grécia e Roma que aos da Idade Média gótica; isto era deliberado. A partir de meados do século XIV, iniciou-se uma busca crescente de manuscritos de autores clássicos e suas opiniões foram objeto de análises detalhadas e de imitação por parte dos eruditos que denominavam a si mesmos como hu- manistas. [...] O estudo dos escritos de Aristóteles (que não contava com o apoio da Igreja) teve uma importância crucial, estimulando novos filósofos [...]. Outros redescobriram os princípios arquite- tônicos da Roma Imperial e edificaram estruturas clássicas, como Filippo Brunelleschi (1377-1446), que demonstrou pela primeira vez as regras da perspectiva e provou, em sua grande cúpula para a catedral de Florença, que as características arqui- tetônicas monumentais dos romanos podiam ser imitadas com êxito. [...] Também surgiram significa- tivos avanços na ciência e no conhecimento, muitos deles a anos de distância de sua aplicação prática. [...] A invenção do telescópio (1609), do microscópio (1618), da régua de cálculo (1622), do termômetro (1641) e do barômetro (1644) foram produtos de uma tradição de investigação científica empírica, iniciada dois séculos antes. (O GLOBO, 1995, p. 162) Em Sobre a revolução das órbitas celestes (1543), Nicolau Co- pérnico equaciona a hipótese de que a Terra é redonda e gira ao redor do Sol (Teoria Heliocêntrica). Isso provoca forte comoção na Igreja, por colidir com a concepção geocêntrica, medieval, ain- da ptolomaica, aceita pelo clero; de modo que, em 1610, quan- do Galileu Galilei publica e comprova suas observações sobre o movimento da Lua e dos planetas, reabilitando o que sustentara Copérnico, o papa condena definitivamente a Teoria Heliocêntri- ca, põe no índex o livro de Galileu e obriga-o a retratar-se e a jurar que jamais publicaria de novo qualquer coisa que se relacionasse com Astronomia. 69Compromisso político da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... Pois é justamente no Renascimento, esse período de tran- sição conturbado e efervescente, que viveu aquele que foi o grande mestre das piores personalidades do Cinquecen- to europeu, o qual, segundo Antonio D’Elia, foi um século negro e vergonhoso para a Itália [...] que nasce prematuramente, em 1494, quando Carlos VIII da França invade a península, feito vanguardei- ro dos novos bárbaros e iniciador de um processo de decomposição para a qual iriam concorrer os próprios príncipes italianos e o próprio pontificado [...]. (Antonio D’Elia, in MAQUIAVEL, 1984, p. 7) Trata-se de Nicolau Maquiavel, florentino, autor de O Príncipe, esse manual [que] tem a economia e a sobriedade de um documento que hoje ficaria talvez confinado nos arquivos secretos das instruções para bem se manobrar na consecução e na manutenção do po- der. (Antonio D’Elia, ib.,p. 12) De fato, não seria muito fácil, “talvez”, encontrar esse pe- queno grande livro na cabeceira da cama de algum per- sonagem poderoso, de qualquer período histórico, mas, trancado no criado-mudo ou móvel assemelhado, é certo que muitas autoridades o tiveram e o têm, e se serviram e se servem dele como se fosse uma espécie de Bíblia. Atente-se, por exemplo, para o trecho a seguir, extraído do Capítulo V, em que Maquiavel discorre sobre De como governar cidades ou principados que, anteriormente à ocupação, se regiam por leis próprias: Quando os Estados que se conquistam são [...] acostumados a viver regidos por suas próprias leis e em liberdade, há três maneiras de mantê-los: a 70 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação primeira, é arruiná-los; a segunda, ir pessoalmen- te habitar neles; a terceira, permitir-lhes viver regi- dos por suas leis, fazendo-os, porém, pagar tributo ao conquistador e organizando neles governos de pouca gente, que saiba conservá-los amigos. É que tais pessoas, investidas no governo pelo príncipe, sabem que não poderão manter-se sem sua amiza- de e seu poder, e tudo farão para não perder sua posição; e mais facilmente se conserva o domínio de uma cidade habituada a viver livre fazendo-a go- vernar por seus cidadãos do que de alguma outra maneira. (MAQUIAVEL, cit., p. 55) A genialidade, a amoralidade e a atualidade são realmente desconcertantes. E, na verdade, O Príncipe sempre esteve em pauta: em 1559, entra no índex do papa Paulo IV, pois a Igreja Católica, abalada pela Reforma, não podia tolerar a submissão da moral à política, traço essencial do maquiavelismo. [...] Diderot sus- tentou que ‘O príncipe’ é uma sátira que, por equí- voco, foi entendida como elogio.” – E quem viu ou leu, por exemplo, a comédia A Mandrágora, não desconhece o lado irônico e mordaz de Maquiavel, e entende perfeitamente o que o enciclopedista quis dizer (mesmo que possa não concordar com ele). “Rousseau sublinhou a profundidade das convic- ções republicanas do florentino [...]. Mussolini re- conheceu em Maquiavel um precursor do fascismo,enquanto o marxista Antonio Gramsci viu em suas teorias uma antecipação da teoria do partido do proletariado. (In: MAQUIAVEL, cit., p. 168) Resumindo: O Príncipe é uma obra “multiuso”, controversa, mas sedutora; como controversas mas sedutoras são, aliás, várias das coisas da vida. Não obstante isto, o Renascimento retoma os ideais de liberdade da Grécia Clássica e se expande por toda a 71Compromisso político da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... Europa Ocidental, revolucionando os valores sociais, culturais, econômicos, intelectuais e religiosos, devido, em grande parte, a uma das figuras mais importantes do período: Martinho Lutero. A liberdade que inspira os humanistas da Renas- cença inspira também, até certo ponto, Lutero. Para este, e contra a tradição católica, o homem individual é responsável por sua própria fé, cuja fonte é a Sagrada Escritura. Este princípio é de im- portância fundamental para o conceito do proces- so educativo, porque cria a obrigação de colocar à disposição de cada um a possibilidade de ler para compreender a Sagrada Escritura. Exige que o edu- cando seja levado a exercer a razão pessoal, obri- gando portanto que se proporcione uma educação acessível a todos sem distinção. Todavia cabe ao poder público encarregar-se do processo educati- vo universal e obrigatório, à mesma medida que a cada cidadão incumbe o dever de prestar servi- ço militar para defesa e prosperidade do Estado. Entretanto, por se tratar de humanismo cristão, o catecismo ocupará lugar de destaque no processo educativo. (GILES, 1983, p. 72-73) Com Melancheton (1497-1561), as propostas e ações de Lutero, centradas na popularização do ensino elementar, vão estender-se também ao ensino secundário — e é então que soa o alarme e que o papa lança em campo a sua mais combativa e eficiente tropa de choque: os jesuítas. Muito se tem escrito e falado sobre os jesuítas, quase sem- pre de forma a execrá-los ou a enaltecê-los, mesmo que indireta ou sub-repticiamente. Parece que, em se tratando desses religiosos, não há meio-termo possível no que tan- ge a opiniões. Talvez porque eles próprios nunca tenham sido dados a cortesias e mesuras, senão àquelas ligadas às 72 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação coisas, aos hábitos (nas duas acepções mais comuns, de costumes e de vestimentas de frades ou freiras) e à liturgia da religião que professam. Chamados muito propriamente de soldados da fé, para eles a semelhança entre a cruz e a espada não está somente no design; o próprio idealizador e depois superior-geral da organização, Inácio de Loyola, era militar, e lutou no Cerco de Pamplona, em 1521, onde foi gravemente ferido. A ordem, com o nome de Compa- nhia de Jesus, foi fundada em 1540 e recebeu do papa Pau- lo III a incumbência de ser a primeira linha de combate da Contrarreforma à Reforma de Lutero. Uma ordem “militar”, portanto, com uma estrutura rigidamente hierárquica e sujeita à mais total obedi- ência ao chefe supremo, que é o preposto geral, mas também uma ordem missionária que [...] desde o iní- cio do seu mister mostra atribuir grande importância ao instrumento educativo na afirmação do catecismo contra-reformista. Nesse sentido, compreende-se a instituição por parte da companhia de inúmeros co- légios para religiosos, depois abertos também aos leigos, em grande parte da Europa e do mundo [...]. Destes colégios, os primeiros são os de Messina, fun- dado em 1548, orientado para os estudos clássicos e frequentado também por não religiosos, e o de Roma, bem mais famoso, instituído dois anos depois e orien- tado para os estudos “de gramática, de humanidades e de doutrina cristã”. Em pouco tempo, surgem outros em quase toda a Itália e na Europa: em 1586, conta-se um total de 162, dos quais 147 abertos no exterior. Com a sua difusão, afirma-se a necessidade de dar uma organização coerente e unitária aos programas de ensino. Num primeiro momento o problema é re- solvido estendendo aos outros colégios as orienta- ções seguidas nos de Messina e de Roma, passando-se sucessivamente à redação de uma verdadeira Ratio Studiorum [ uma espécie de normatização geral da metodologia pedagógica] [...], programa formativo de caráter católico que se estende a todos os colégios je- suíticos do mundo. (CAMBI, 1999, p. 261) 73Compromisso político da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... Com tantos colégios e um sistema de ensino unificado e comprovadamente eficaz, não seria de estranhar que os jesuítas fossem preceptores de muitos jovens que logo iriam tornar-se personalidades importantes: Voltaire e Descartes, por exemplo. Mas, nem o fato de serem mestres de primeira linha foi capaz de blindar aqueles excelentes educadores contra a intriga e a perseguição; pelo contrá- rio, só os deixou mais expostos, já que nada incomoda mais o poder do que o saber. Afinal, é o saber que conduz à liberdade — e a liberdade alheia, para alguns, é um atri- buto intolerável. No Brasil, isso ficou evidente pela obstinação com que Se- bastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal, combateu os jesuítas, responsáveis pelas missões indíge- nas, comunidades autossustentáveis, independentes e, portanto, inconcebivelmente livres. Foi também (e talvez principalmente) por isso que em 1758 o poder temporal dos jesuítas foi elimina- do [...]. A 3 de setembro de 1759 o governo portu- guês decretou a proscrição e a expulsão da Compa- nhia de Jesus de todo o Império, proibindo qualquer comunicação verbal ou escrita entre os jesuítas e os súditos portugueses” (MAXWELL, 1977, p. 44) De 1759 para cá, no Brasil, muita coisa aconteceu: caiu o Im- pério, proclamou-se a República, enfrentou-se uma ditadura e reconquistou-se a democracia. O ensino melhorou, sem dúvida, até pela impossibilidade de se dar o contrário, mas de vez em quando bate a impressão de que ainda se caçam (ou cassam) “jesuítas”. De qualquer modo, a Constituição de 1988, a Constituição Cidadã, traz esperanças, embora cause desconforto vê-la hoje tão cheia de exclusões, inclu- ...................................................................................................................................................................................................................... 74 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação sões e emendas (inclusive, naturalmente, na Seção I do seu Capítulo III, em que se trata especificamente da educação), um indício de que certamente há gente trabalhando para melhorar, embora também possa existir gente trabalhan- do para piorar ou apenas protelando, para que tudo fique como sempre esteve. Espera-se que a primeira opção se ma- terialize, mas não é suficiente ficar só esperando: é preciso agir, interagir e reagir; é preciso, na sala de aula ou fora dela, participar ativamente do processo educativo. A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteú- do narrado. Mais ainda, a narração os transforma em “vasilhas”, em recipientes a serem “enchidos” pelo educador. Quanto mais vá “enchendo” os re- cipientes com seus “depósitos”, tanto melhor edu- cador será. Quanto mais se deixem docilmente “en-cher”, tanto melhores educandos serão. Desta maneira, a educação se torna um ato de depo- sitar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante. Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comu- nicados” e depósitos que os educandos, meras in- cidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá- -los e arquivá-los. Margem para serem colecionado- res ou fichadores das coisas que arquivam. No fun- do, porém, os grandes arquivados são os homens, nesta (na melhor das hipóteses) equivocada concep- ção “bancária” da educação. Arquivados, porque, fora da busca, fora da práxis, os homens não podem ser. Educador e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. Busca esperançosa também. (FREIRE, 1977, p. 66) 75Ideologia e emancipação ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ IDEOLOGIA E EMANCIPAÇÃO Pelo grego, ideologia é o resultado de idea + logos + ia (sufixo nominal); idea pode ser traduzida por ideia, na- turalmente, mas também se aproxima de noção, fantasia, opinião (dóxa); lógos é ainda mais generosa quanto a sig- nificados: palavra, sentença, exemplo, ordem, matéria de estudo, razão, explicação, inteligência são apenas alguns deles. Já se percebe, só pela riqueza etimológica, que es- colher um conceito para ideologia não é nada fácil, mas podem ser propostos uns dois ou três. Ideologia pode ser definida, por exemplo, como: “qualquer sistema abrangente de crenças, categorias e maneiras de pensar que possa constituir o fundamento de projetos de ação política e social [...]” (BLACKBURN, 1997); ou “um con- junto de ideias, princípios e valores que refletem uma de- terminada visão de mundo, orientando uma forma de ação, sobretudo uma prática política” (JAPIASSU; MARCONDES, 1991); ou, esta usual para os marxistas, que parece mais de acordo com o espírito daquilo que se está a estudar: Pensamento teórico que crê desenvolver-se abs- tratamente sobre seus próprios dados, mas que é, na realidade, a expressão de fatos sociais, particu- larmente de fatos econômicos, de que aquele que a constrói não tem consciência, ou, pelo menos, não percebe que determinam o seu pensamento. (LALANDE, 1993) 76 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação O Parágrafo Único do Art. 1º da Constituição Brasileira, promulgada em 1988, é bastante claro: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. O Art. 205 também não deixa dúvidas: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a cola- boração da sociedade, visando ao pleno desenvol- vimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Mas, pensando bem, alguns aspectos dos supracitados artigos exigem reflexão e interpretação, e é exatamente neste ponto que se entra no campo minado da ideologia. Assim, pode-se inquirir, por exemplo: 1. O que se deve inferir por poder? Algo divino? Uma força inata? A persuasão pela palavra? A coa- ção pelas armas? 2. O que é povo? É a própria sociedade como um todo interagente e dinâmico, mas harmônico? Ou é uma ameaça potencial à democracia, “pela reação das elites, intimidadas pelas massas”, como teria afirmado Aristóteles? (Cf. FUNARI, cit., p. 41) 3. O que se entende por pleno desenvolvimento da pessoa? Acréscimo à bagagem cultural e intelectual? Ou à moral e ética? Ou à econômico-financeira? 4. O que significa preparo para a cidadania? Diz respeito à imposição de algum tipo de “Educação Moral e Cívica”? Ou se refere à formação de cida- dãos críticos e atentos a qualquer espécie de mani- pulação? 77Ideologia e emancipação ...................................................................................................................................................................................................................... 5. Quando se fala em qualificação para o trabalho, assume-se que toda atividade útil à sociedade tem de ser proporcional e adequadamente remunerada por condições e salários dignos? O resultado da enquete vai variar de acordo com o posicio- namento ou o condicionamento ideológico daqueles que a responderem, porém, de qualquer forma, se algo tiver de ser mudado, certamente não será por meio de enquetes, mas da educação — metódica, paciente e incansável —, único meio pacífico de se contrapor à esmagadora pres- são exercida sobre o povo pela determinação nem sempre “republicana” de alguns, de muitos ou de todos aqueles que estão no comando. Seria necessário, porém, definir em que se está pensando exatamente quando se fala em educação, pois, como a ideologia, a educação também apresenta suas dificuldades conceituais. Não é possível fazer uma reflexão sobre o que é a educação sem refletir sobre o próprio homem. Por isso, é preciso fazer um estudo filosófico-antro- pológico. Comecemos a pensar sobre nós mesmos e tratemos de encontrar, na natureza do homem, algo que possa constituir o núcleo fundamental onde se sustente o processo de educação. Qual seria este núcleo captável a partir de nossa pró- pria experiência existencial? Este núcleo seria o inacabamento ou a inconclusão do homem. O cão e a árvore também são inacabados, mas o homem se sabe inacabado e por isso se educa. Não haveria educação se o homem fosse um ser acaba- do. [...] O homem pode refletir sobre si mesmo [...] e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir- -se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação. A educação é uma resposta da finitude da infinitude. 78 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação A educação é possível para o homem, porque este é inacabado e sabe-se inacabado. [...] O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso, ninguém educa ninguém. Por outro lado, a busca deve ser algo e deve tradu- zir-se em ser mais: é uma busca permanente de ‘si mesmo’ [...]. [Mas] esta busca deve ser feita [...] em comunhão com outras consciências, caso contrário se faria de umas consciências objetos de outras. O homem não é uma ilha. É comunicação. Logo, há uma estreita relação entre comunhão e busca. (FREIRE, 1983, p. 27-28) As repetições e aparentes contradições são característi- cas do método dialético de Paulo Freire. “Ninguém educa ninguém” porque todos se educam reciprocamente, ou seja, enquanto se ensina, também se aprende, e vice-ver- sa. Naturalmente, o processo educativo inclui, no pacote de intercâmbio existencial, a troca ideológica — a qual, se executada de forma assimétrica, resultará inevitavelmen- te na supremacia nefasta de algumas consciências sobre outras. E a tarefa mais nobre e difícil da educação é jus- tamente combater e, pelo menos, reduzir a assimetria in- telectual,conduzindo-a a um ponto de equilíbrio elevado que possa alcançar e atender a todos. Isso pode parecer utópico, e é mesmo: Quando eu falo em utopia, eu não falo em torno do possível, eu falo em torno do viável. Até que eti- mologicamente é assim mesmo, utópico: a topia é o sistema, e u é fora dele. Só que a palavra, o conceito, se desvirtuou, depois que ele foi altamente modifi- cado por Marx quando este criticou os utopistas, o socialismo utópico, inviável. Ao fazer a crítica de um socialismo inviável, ele o chamou de utópico. Ele propunha um socialismo que chamou de científico. A minha posição diante da uto- 79Ideologia e emancipação ...................................................................................................................................................................................................................... pia é distinta, diferente, e não digo que seria só mi- nha, evidentemente, mas eu entendo a utopia como uma relação também dialética entre a denúncia e o anúncio. Nesse sentido eu sou utópico, também. A minha proposta pedagógica é utópica nesse senti- do, não no sentido inviável, repito. Para mim, o utó- pico se vincula também ao esperançoso, no sentido de que a utopia se dá historicamente no ato de de- nunciar e, simultaneamente, anunciar. Quer dizer, de denunciar uma dada realidade e de anunciar o sonho ou o projeto a ser realizado com a transfor- mação da realidade denunciada. Então, na minha visão de utópico, a práxis, portanto, a ação e a re- flexão, são uma demanda, são uma exigência sem a qual não é possível a própria realização da utopia. (FREIRE, 1983b, p. 61-62) É interessante comparar o estudo filosófico-antropológico que Paulo Freire desenvolve na primeira citação, à procura do nexo entre a natureza inacabada do ser humano e a educação, com este enfoque psicanalítico de Eric Fromm, em busca da essência do homem: 1) O homem é um animal, e no entanto seu equipamento ins- tintivo, em comparação com o de todos os outros animais, é in- completo e insuficiente para assegurar-lhe a sobrevivência [...]. 2) O homem possui inteligência, como outros animais [...], porém, tem outra qualidade mental ausente no animal. Ele se dá conta de si mesmo. [...] O homem está na natureza, sujeito a seus man- damentos e acidentes, todavia transcende a natureza porque lhe falta a inconsciência que torna o animal uma parte da natureza – uno com ela. O homem se defronta com o assustador conflito de ser o prisioneiro da natureza e no entanto ser livre em seus pensamentos; ser uma parte da natureza e no entanto ser por assim dizer uma curiosidade da natureza; não está cá nem lá. A consciência de si próprio do ser humano tornou-o um estranho no mundo, separado, solitário e assustado. (FROMM, cit., p. 130) Mas, entenda-se bem, não se trata de pretender a aniquila- ção da ideologia, porque, afinal, “erradicá-la” seria mutilar a integridade intelectual e, por consequência, a própria in- dividualidade do ser humano, nascido livre, uno e único, 80 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação em corpo e mente; o que se quer — e eis a grande tarefa da educação e da Filosofia da Educação — é promover uma ampla discussão, em todos os níveis e foros, por meio da qual se possa avaliar “o que existe de irrefletido na ideologia [...] [e] desvendar como atuam as ilusões e os in- teresses de toda espécie, o peso e o alcance de todo ensino propagandístico.” (GILES, cit., p. 33) Atualmente existe uma descrença na ideologia que tem por resultado não a negação da sua existência ou força, mas um certo reforço do aprendizado ideológico através dos diversos níveis do processo educativo, sobretudo através dos meios de comuni- cação. Esse processo de imposição extrapola a edu- cação formal. Para impor a ideologia não se insiste mais que se acredite necessariamente no conteúdo da ideologia. Basta que se fale sua linguagem es- pecífica, o seu jargão, que se assuma sua maneira de abordar a realidade, de se expressar. Pouco im- porta que se acredite ou não nas ideias como tais. Basta assumir o código de comportamento por ela expresso. Torna-se desnecessário fazer qualquer declaração de princípios ou tampouco afirmar o que se defende. É suficiente usar a terminologia, às vezes bastante equívoca, e realiza-se o compromis- so. Nestas circunstâncias, a ideologia se modifica de projeto de construção em arma de manutenção. (GILES, ib.) A essência do que se acabou de ler (sem, portanto, desta- car quaisquer especificidades) já era motivo de análise e discussão em meados do século passado. Em 1964, Her- bert Marshall McLuhan (1911-1980), educador e filósofo, a quem não seria exagerado atribuir a classificação de “vi- sionário racional”, prenunciava a aldeia global em que o mundo iria transformar-se em pouco tempo, com direito a uma rede de comunicação que hoje se chama internet, 81Ideologia e emancipação ...................................................................................................................................................................................................................... declarando ainda que “o meio é a mensagem”, frase que até pode ter soado um tanto enigmática à época, mas que hoje poderia rotular, com toda a propriedade, o supracita- do excerto de Giles, por exemplo. Como se percebe, ideologia, educação e a correlata (mas não consequente) emancipação intelectual não são temas fáceis de abordar; nem, tampouco, essa dificuldade é uma exclusividade brasileira: ela existe também em países como a Itália, uma das chamadas nações do Primeiro Mundo, e pode manifestar-se desde os graus mais básicos da trajetória escolar. Examine-se, a propósito, esse desabafo em forma de Introdução que Umberto Eco escreveu para sua coletânea crítica das “histórias da carochinha” que se impingem às crianças italianas na forma de livros didáticos: Os livros de leitura falam dos pobres, do trabalho, dos heróis e da Pátria, da importância e da serieda- de da escola, da variedade das raças e povos que habitam a terra, da família, da religião, da vida cí- vica, da história humana, da língua italiana, da ci- ência, da técnica, do dinheiro e da caridade. Não se referem, então, aos problemas reais que o jovem, uma vez maduro, deverá enfrentar e sobre os quais deverá tomar uma atitude? Esta antologia, ao contrário, [...] procura mostrar que estes problemas são apresentados de uma ma- neira falsa, grotesca, risível... Que, através deles, a criança é educada para uma realidade inexistente... Que, quando os problemas (e a resposta a eles for- necida) dizem respeito à vida real, são colocados e resolvidos de forma a educar um pequeno escravo, preparado para aceitar o abuso, o sofrimento, a in- justiça e para ficar satisfeito com isto. [...] O que quero dizer é que a luta contra os livros didáticos das escolas elementares coloca-se antes mesmo de qualquer escolha ideológica que tenha um sentido 82 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação no mundo em que vivemos atualmente. Essa luta pode ser sustentada pelo liberal, pelo democrata, pelo comunista e pelo social-democrata, pelo crente e pelo ateu, porque a realidade educativa que estes livros propõem existia antes do nascimento destas ideologias e destas correntes políticas, antes da Re- volução Francesa, antes da Revolução Industrial, antes da revolução inglesa, antes da descoberta da América, antes – numa palavra – do nascimento do mundo moderno. (ECO; BONAZZI, 1980, p. 16) Contudo, o que se faz para melhorar o ensino é pouco— seja na Itália, no Brasil ou em vários outros países; quan- do não se limita aos esforços meio quixotescos de alguns professores excêntricos e de uma ou outra organização exótica, mantém-se na marca do mínimo possível e nos li- mites da conveniência político-ideológica, quando depen- de de providências governamentais. Paulo Freire é um bom exemplo daqueles professores ex- cêntricos: poucos autores nacionais foram tão traduzidos como ele; no entanto, no Brasil, seu método de ensino para alfabetização de adultos teve vida oficial muito cur- ta: aprovado pelo Decreto nº 53.465, de 21 de janeiro de 1964, foi extinto menos de três meses depois pela portaria 237, de 14 de abril, mas não sem antes ser aproveitado pela ditadura, após algumas “adequações”. Assim é que o o Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL, criado em 15 de dezembro de 1967 pela Lei nº 5.379 e reestruturado em 1970, “inspirando-se” em Freire, vai tratar da “erradicação do analfabetismo” pelo atendimento imediato e prioritário à população urbana entre 15 e 35 anos, porque “os adultos e adolescentes al- fabetizados são elementos importantes na produtividade 83Ideologia e emancipação ...................................................................................................................................................................................................................... do sistema econômico”, além do que essa faixa etária e topográfica “é a que apresenta maior probabilidade de de- senvolver, em termos de acréscimo de produtividade, os recursos investidos na sua formação”, e “é mais fácil, nes- te grupo, o ajustamento social, por oferecer menor resis- tência a mudanças de vida” (Cf. SILVEIRA, cit., p. 30; 35). Todos estes absurdos sob aspas, e muitos outros, estão no Documento Básico do MOBRAL (MOBRAL, 1973, p. 12- 13). A propósito, sintetize-se, a seguir, a comparação que Gilberta Januzzi faz entre o que defendeu Paulo Freire e o que propôs o Movimento Brasileiro de Alfabetização: 1. Paulo Freire coloca a educação como situação de conhecimento em que os educadores = educandos como sujeitos tomam consciência de sua historici- dade. Educação para Paulo Freire é conscientização [...] O MOBRAL concebe a educação como adaptação, preparação de mão de obra para o mercado de tra- balho [...] 2. Segundo Paulo Freire, todos os homens são seres ontologicamente iguais, finitos, inacabados, capazes de procederem crítica autêntica, “em situação”, so- frendo, portanto, os condicionamentos da realidade, mas sendo capazes de transformá-la, porque são se- res históricos [...] Para o MOBRAL [só] alguns homens são capazes de críticas, cabendo a eles definir as me- tas que devem ser concretizadas pelos alfabetizado- res e alfabetizandos [...] 3. Paulo Freire adota para a conscientização o diálo- go como método, porque este método assegura que os educadores = educandos sejam sujeitos da refle- xão e da ação [...]. O MOBRAL utiliza método que é basicamente antidialógico, isto é, parte de objetivos previamente definidos pelo MOBRAL/CENTRAL, dis- cutindo nas comunidades apenas os melhores meios de concretizá-los [...] (JANNUZZI, 1979, p. 81 ss.) 84 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação Vê-se, portanto, que a solução mágica da pragmática con- servadora foi aproveitar a eficiente estrutura física original esvaziando-a do conteúdo político; o que faz sentido, pois, para quem se equilibra no poder à custa de uma empedernida refração a mudanças, o método de Freire pode ser visto como um elemento de subver- são – subversão no sentido mesmo de verter sob, infiltrar-se em, degradar as paredes que selecionam e agrupam os indivíduos num sistema de base capi- talista. (SILVEIRA, cit., p. 36) Neste capítulo, pôde-se constatar que política e edu- cação nem sempre se relacionam tão harmonicamente quanto seria desejável, mas para chegar a essa certeza foi preciso percorrer um caminho histórico e teórico lon- go e acidentado. Em busca de uma concepção filosófica para a política, fo- mos à Grécia Clássica, admitindo o pressuposto de que, já a partir mesmo da etimologia, vieram de lá os modelos políticos que hoje conhecemos e praticamos, em especial no que toca às repúblicas democráticas. Em seguida, co- nhecemos a arrogante grandeza de Roma, cidade-Estado na qual a prepotência, a cobiça e a intriga somaram-se às invasões dos “bárbaros” para destruir aquele que foi o maior império da Antiguidade. Discutiu-se sobre a possi- bilidade de se estabelecer um compromisso recíproco de cordialidade entre política e educação, e certamente ficou claro que continuará sendo difícil de conseguir, a não ser que haja uma ação pertinaz e contínua de toda a socie- dade no sentido de aperfeiçoar e fazer valer o processo educativo. 85Ideologia e emancipação ...................................................................................................................................................................................................................... Por fim, pesquisou-se a ideologia, pelo menos em algumas de suas múltiplas formas, e enfatizou-se o fato de que só a participação e a vigilância constantes podem nos livrar de eventuais “ciladas”. 86 ...................................................................................................................................................................................................................... Política e Educação REFERÊNCIAS ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2000. BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: UNESP, 1999. CASSIRER, Ernst. Ensaio sobre o homem. São Paulo: Mar- tins Fontes, 2001. COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de filosofia. São Paulo: Saraiva, 2010. ECO, Humberto ; BONAZZI, Marisa. Mentiras que parecem verdades. São Paulo: Summus, 1980. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. Paz e Terra, 1977. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. Terra, 1983. Paulo Freire ao vivo (gravação de conferências com debates realizados na Faculdade de Filosofia, Ciên- cias e Letras de Sorocaba – 1980-1981). São Paulo: Loyola, 1983b. 87 ...................................................................................................................................................................................................................... FROMM, Erich. O coração do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. FUNARI, Pedro Paulo A. Grécia e Roma. São Paulo: Con- texto, 2002. GILES, Thomas Ransom. Filosofia da Educação. São Paulo: EPU, 1983. GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. JANNUZZI, Gilberta S. de Marinho. Confronto pedagógico: Paulo Freire e o Mobral. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979. LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da Filoso- fia. São Paulo: Martins Fontes, 1993. LEBRUN, Gérard. O que é poder? São Paulo: Brasilien- se,1992 MAQUIAVEL. O príncipe. São Paulo: Círculo do Livro, 1984. MARCONDES, Danilo. 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Rio de Janeiro: UERJ, 1999. Dissertação de Mestrado. 89Filosofia e desenvolvimento científico ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ CAPÍTULO 3 FORMAÇÃO FILOSÓFICA DO PENSAMENTO MODERNO Quando Descartes profere seu famoso “cogito” — “Pen- so, logo existo” —, a frase ecoa nos salões da intelectua- lidade europeia como a síntese do Manifesto da Filosofia Moderna; mas, já a partir dos antecedentes — Galileu e Bacon, por exemplo —, representa também uma espécie de carta de alforria concedida aos cientistas, até então, ou pouco antes, ainda atrelados aos procedimentos medie- vais. É que Descartes era um filósofo, capaz de profundos voos transcendentais, por um lado; porém, por outro, bem definido, um cientista, nas acepções moderna e contem- porânea da palavra; tanto que não hesitou em aplicar o método dos geômetras à Filosofia, e foi capaz de conceber (ou desenvolver, pelo menos) o sistema de coordenadas — as coordenadas cartesianas — utilizado em larga escala, até hoje, por praticamente todas as ciências. Primeiramente, será observada a forma como se deu a ruptura — ou, melhor, a desvinculação — entre Filosofia e ciência. Em seguida, poderá ser avaliada a importância do método de Descartes no estabelecimento de novos para- digmas educacionais, o que significa identificar a própria Modernidade como uma época de forte e inédito impulso pedagógico. Por fim, a atenção se voltará para a influência (nem sempre comedida) das teorias científicas na práti- 90 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno ca educacional, relacionando algumas das muitas escolas e tendências que fazem da pedagogia uma atividade não apenas útil e fascinante, mas, também, às vezes, tão mul- tifacetada que chega a ser problemática. 91Filosofia e desenvolvimento científico ...................................................................................................................................................................................................................... FILOSOFIA E DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO Filosofia e ciência caminharam juntas desde os pré-socrá- ticos até a Idade Moderna. Para Tales de Mileto (século VI a.C.), o elemento primordial seria a água; para Anaxíme- nes, da mesma cidade, o ar para Xenófanes de Cólofon, a terra; para Heráclito de Éfeso, o fogo (cf. BORNHEIM, 1997, p. 22-35). E isso para ficar só nos “especialistas” dos quatro elementos, pois havia muitos outros pensadores, cada qual defendendo elegantemente seu ponto de vista (ou atacando o oposto) sobre este ou aquele assunto, fe- nômeno ou problema, mas sempre buscando, em última análise, uma melhor compreensão da physis, a natureza, incluindo-se nela a totalidade dos seres. Dois séculos depois dos “físicos”, portanto já em IV a.C., o próprio Aristóteles não lhes negaria, pelo menos não completamente, a honrosa titulação de filósofos, àquela altura, em Atenas, já bastante seletiva, ao mesmo tempo em que classificava a Filosofia como uma ciência isenta de utilitarismo: Que a Filosofia não é uma ciência prática, vê-se clara- mente pela própria história dos primeiros filósofos. Com efeito, foi pela admiração que os homens come- çaram a filosofar tanto no princípio como agora; per- plexos, de início, ante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e enunciaram problemas a respeito das maiores, como os fenômenos da Lua, do Sol e das estrelas. E o homem que é tomado de per- plexidade e admiração julga-se ignorante (por isso 92 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno o amigo dos mitos é, em certo sentido, um filósofo, pois também o mito é tecido de maravilhas); portan- to, como filosofavam para fugir à ignorância, é evi- dente que buscavam a ciência a fim de saber, e não com uma finalidade utilitária. E isto é confirmado pelos fatos, já que foi depois de atendidas quase to- das as necessidades da vida e asseguradas as coisas que contribuem para o conforto e a recreação, que se começou a procurar esse conhecimento. Está claro, pois, que nós não o buscamos com a mira posta em qualquer outra vantagem; mas, assim como declara- mos livre o homem que existe para si mesmo e não para um outro, assim também cultivamos esta ciên- cia como a única livre, pois só ela tem em si mesma o seu próprio fim. (ARISTÓTELES, 1969, p. 40; 982b) De fato, a situação não se altera, isto é, Filosofia e ciência continuam unidas, da Grécia Clássica até o ocaso do Re- nascimento, quando, ainda sob os horrores da Inquisição, no caminho às vezes penosamente aberto por homens de ciência como Giordano Bruno (1548-1600), Galileu Galilei (1564-1642), William Harvey (1578-1657) e Francis Bacon (1561-1626) — todos a essa altura já vinculando teoria e prática (techné) científicas —, surge René Descartes (1596- 1650), considerado um dos criadores da Filosofia moder- na; mas seria recomendável, antes de falar sobre ele, traçar os esboços biográficos desses seus colegas e antecessores. Giordano Bruno foi ordenado sacerdote em 1572. Incon- formista por natureza, processado em 1567 e 1576, fugiu para Roma e, em 1579, já estava em Paris, sob a proteção de Henrique III. Viveu na Inglaterra, como acompanhante do embaixador francês, teve uma conturbada passagem por Oxford, acusado de plagiar as doutrinas mágico-her- méticas de Ficino, e retornou a Paris, de onde teve de fugir depois de um sério conflito com os aristotélicos. Foi en- 93Filosofia e desenvolvimento científico ...................................................................................................................................................................................................................... tão para a Alemanha, onde elogiou publicamente o lutera- nismo. Voltou à Itália em 1591, foi processado pelo San- to Ofício em Veneza, retratou-se, mas, submetido a novo processo em Roma, dessa vez se negou a renunciar a suas convicções. Morreu na fogueira, em Campo dei Fiori, em fevereiro de 1600 (cf. REALE; ANTISERI, 1990, p. 156-157). Galileu Galilei nasceu em Pisa, na Itália. É considerado um dos criadores da ciência moderna. Foi professor em diversas universidades italianas. Ampliou os horizontes da Física e da Astronomia, ao repelir o sistema geocêntrico e acatar o heliocentrismo copernicano, baseado no uso que fez do te- lescópio em suas observações. Defendeu a Matemática como linguagem da Física na construção de teorias mais precisas e rigorosas, cujas hipóteses seriam empiricamente compro- váveis. Preso pela Inquisição em 1633, por elaborar teorias contrárias à visão do Universo chanceladas pela Escolástica, foi forçado a retratar-se, mas prosseguiu com suas pesqui- sas, em segredoe silêncio (cf. JAPIASSU; MARCONDES, 1991). William Harvey publicou, em 1628, De Motu Cordis, obra na qual apresenta uma revolucionária teoria para o processo de circulação do sangue no corpo humano. De acordo com essa nova teoria, o coração era uma bomba que trabalhava para manter o movimento contínuo do sangue nas veias. De Motu Cordis representou uma importante contribuição para a filosofia mecanicista — “o organismo vivo é uma máquina” —, que Descartes estenderia a todos os animais (cf. REALE; ANTISERI, cit., p. 311-312). Francis Bacon foi o primeiro a tentar criar uma ciência útil para a humanidade, baseada em um método de investi- gação criterioso e realizado por alguém verdadeiramente 94 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno qualificado, um método que, às vezes, pode parecer que não passa da simples indução enumerativa (a generaliza- ção de fenômenos particulares em leis experimentais). Mas acredita-se que Bacon, de fato, tenha sido o criador de uma sofisticada classificação de procedimentos científicos. Compreendeu, ainda, que a busca de leis é antes um exer- cício de imaginação do que uma atividade empírica. Lutou, em sua obra, contra a falsa metodologia da metafísica e a superstição (cf. BLACKBURN, 1997). A ‘nova ciência’ de Copérnico e Galileu precisou de uma defesa filosófica contra o dogmatismo da Igreja e de Aristóteles. Encontrou esse defensor em Francis Bacon [,] [...] geralmente reconhecido como fundador da tradição científica moderna, [pois] rompeu com Aristóteles e insistiu que deveríamos ‘recomeçar’ com um método experimental puramente empíri- co de investigação do mundo. (SOLOMON; HIGGINS, 2003, p. 113) Descartes nasceu em La Haye, França. Estudou com os je- suítas em La Flèche, destacando-se no aprendizado da Ma- temática. Ingressou na carreira militar, combateu, viajou e decidiu, finalmente, buscar a ciência por conta própria (cuidando, porém, de não desagradar com suas obras nem a Igreja nem os protestantes, temeroso de sofrer as mes- mas ou até piores penas que Galileu). Afirmava que a ver- dade só podia ser alcançada pela dúvida metódica, tanto no que tange aos nossos sentidos físicos quanto aos nos- sos supostos conhecimentos (cf. COTRIM, 1999, p. 152). Foi o idealizador do sistema de coordenadas não por acaso chamadas de cartesianas, utilizadas em praticamente to- das as disciplinas científicas: “o método das coordenadas cartesianas não produz mais nenhum efeito sobre nós, pois tornou-se parte integrante do nosso patrimônio cien- 95Filosofia e desenvolvimento científico ...................................................................................................................................................................................................................... tífico.” (REALE; ANTISERI, p. 383). Celebrizou-se por sua frase “Penso, logo existo” (“Cogito ergo sum”), do Discurso do Método, retomada na “Meditação Segunda”: E enfim, considerando que todos os mesmos pen- samentos que temos quando despertos nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que haja nenhum, nesse caso, que seja verdadeiro, resolvi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais ver- dadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas, logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamen- te que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, no- tando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagan- tes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procura- va. (DESCARTES, 1983, p. 46) Serei de tal modo dependente do corpo e dos senti- dos que não possa existir sem eles? Mas eu me per- suadi de que nada existia no mundo, que não havia nenhum céu, nenhuma terra, espíritos alguns, nem corpos alguns: não me persuadi, portanto, de que eu não existia? Certamente não, eu existia sem dú- vida, se é que eu me persuadi, ou, apenas, pensei al- guma coisa. Mas há algum, não sei qual, enganador mui poderoso e mui ardiloso que emprega toda a sua indústria em enganar-me sempre. Não há, pois, dúvida alguma de que sou, se ele me engana; e, por mais que me engane, não poderá jamais fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa. De sorte que, após ter pensado bastante nisto e de ter examinado cuidadosamente todas as coi- sas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamen- te verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito. (DESCARTES, cit., p. 92) 96 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno O Discurso do Método é dividido em seis partes e apre- senta os quatro preceitos gerais da obra na segunda: E, como a multidão de leis fornece amiúde escusas ao vício, de modo que um estado é bem melhor di- rigido quando, tendo embora muito poucas, são es- tritamente cumpridas; assim, em vez desse grande número de preceitos de que se compõe a Lógica, julguei que me bastariam os quatro seguintes, des- de que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de observá-los. O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidente- mente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse ne- nhuma ocasião de pô-lo em dúvida. O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas pos- síveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensa- mentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pou- co, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada omitir. (DESCARTES, cit., p. 37-38) Embasado no cogito e nos quatro preceitos, dando ênfase ao sujeito pensante (res cogitans) e ao método dos geôme- tras para que se alcançasse o conhecimento certo e evi- dente, o sistema filosófico de Descartes planeja e constrói o protótipo do modelo intelectual que se iria instaurar na Modernidade: 97Filosofia e desenvolvimento científico ...................................................................................................................................................................................................................... Descartes assentou em posição dualista a questão on- tológica da filosofia: a relação entre o pensamento e o ser [correspondente à disjunção entre mente e corpo, à precedência do pensar sobre o agir, ao dualismo psi- cofísico]. Convencido do potencial da razão humana, propôs-se a criar um método novo, científico, de co- nhecimento do mundo e a substituir a fé pela razão e pela ciência. Tornou-se assim o pai do racionalismo. Sua filosofia esforçou-se por conciliar a religião e a ciência. Sofreu a influência da ideologia burguesa do século XVII, que refletia, ao lado das tendências pro- gressistas da classe em ascensão na França, o temor das classes populares. (GADOTTI, 2001, p. 77) Descartes identifica três tipos de ideias: as ideias inatas, que não são derivadas da experiênciamas se encontram no indivíduo desde o seu nascimento, dentre as quais se incluem as ideias de infinito e de perfeição; as ideias adventícias (ou empíricas), que formamos a partir de nossa experiência e que dependem de nos- sa percepção sensível, estando portanto sujeitas à dúvida; e as ideias da imaginação, que formamos em nossa mente a partir dos elementos de nossa experiência, como por exemplo a ideia de unicórnio, que resulta da junção da ideia de chifre à ideia de cavalo. (MARCONDES, 1997, p. 170) Isso significa que: a) as ideias inatas correspondem àquilo que é sempre verdadeiro, porquanto, segundo Descartes, já nascemos com estas ideias, que transcendem qualquer tipo de experiência; b) as ideias adventícias estão condicionadas à nossa percepção sensorial, e, por isso, nem sempre são verdadeiras, pois, comu- mente, “os sentidos nos enganam”; c) as ideias da imaginação, também conhecidas como ideias fictícias (ou ficcionais), não po- dem ser verdadeiras, uma vez que envolvem a concepção de ob- jetos inexistentes, criados com partes de ideias adventícias. De acordo com Franc Morandi, se não há motivo para que se inclua Descartes no rol dos “filósofos da educação”, não se pode negar que a ruptura com o intelectualismo tradicionalista proposta em seu método vai estabelecer novos paradigmas racionais e educacionais. Note-se que, ...................................................................................................................................................................................................................... 98 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno com o método, a educação se torna racional, o es- tudo se torna razão e a empresa educativa espe- culativa [...]. Humanismo e racionalismo entram em acordo para recusar o ensino escolástico das universidades, sendo o cartesianismo a inscrever a obra educativa na educação da razão como Razão. Esse racionalismo é educação: “pois não basta ter o espírito bom, mas o principal é educar bem” (cf. MORANDI, 2002, p. 72-73) Em 1657, exatamente vinte anos depois de publicado o Discurso do Método, Jan Amos Comenius, ou Jan Amos Komenský (1592-1670), escreve a Didática Magna, sob cuja orientação se poderia “ensinar com rapidez, eco- nomia de tempo e sem fadiga”, pois, em vez de ensinar palavras, “sombras das coisas”, a escola poderia fixar-se no ensino do conhecimento a respeito delas (cf. GADOT- TI, 2001, p. 78). Comenius, aliás, será o primeiro perso- nagem a entrar em cena na próxima seção, dedicada à pedagogia realista. 99A Pedagogia realista ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ A PEDAGOGIA REALISTA Comenius era tcheco. Superou o “pessimismo antropoló- gico” da Idade Média com seu “otimismo realista”, atento ao contexto da época, influenciando os métodos pedagógi- cos posteriores com a crença inabalável no homem como um ser capaz de aprender e de ser educado (cf. GADOTTI, 2001, p. 80). Acreditava firmemente na igualdade entre os seres humanos, na missão humanitária da educação e na precedência dos sentidos físicos para a apreensão das coisas do mundo (noção já presente em Bacon). O currí- culo que propunha incluía Religião, Ética, Música, Econo- mia, Política, História e Ciência. Pioneiro na concepção e aplicação de métodos capazes de provocar o constante e crescente interesse dos alunos, baseou sua pedagogia em nove princípios fundamentais, condensados abaixo: 1º) A natureza observa um ritmo adequado. Por exemplo: um pássaro que deseje multiplicar sua es- pécie não o faz no inverno [...], nem no verão [...]; também não escolhe o outono [...], mas escolhe a primavera, quando o sol devolve vida e força para todos. [...] Concluímos por isso que: 1) A educação dos homens deve começar na primavera da vida, isto é, na meninice [...]. 2) As horas matinais são as mais adequadas ao estudo [...]. 3) Todos os assun- tos a serem aprendidos devem ser organizados de modo a adequar-se à idade dos estudantes [...]. 2º) A natureza prepara o material antes de começar a dar-lhe forma. Por exemplo: o pássaro que deseja produzir uma criatura semelhante a ele mesmo con- cebe, em primeiro lugar, o embrião [...]; em seguida, prepara o ninho onde porá os ovos. [...] Por isso é necessário: 1) Que os livros e materiais necessários 100 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno ao ensino sejam mantidos à mão. [...] 4) Que o co- nhecimento das coisas preceda o conhecimento de suas combinações. 5) E que os exemplos venham antes das regras. 3º) A natureza escolhe um objeto adequado sobre o qual irá agir, ou primeiro submete um deles a um tratamento apropriado para torná-lo adequado. Por exemplo: um pássaro não coloca nenhum objeto no ninho onde está, a não ser [...] um ovo. [...] Mas, quando ocorre [...] [a] choca, o pássaro aquece [...] [o] ovo e cuida dele até que o filhote saia da casca. [...] Por isso, é desejável: 1) Que todos os que entram para a escola perseverem em seus estudos. 2) Que, antes de se introduzir qualquer estudo especial, a mente do estudante seja preparada para tanto, e tornada receptiva. 3) Que todos os obstáculos sejam removidos do caminho das escolas. 4º) A natureza não é confusa em suas operações, mas em seu progresso avança distintamente de um ponto a outro. [...] É impossível concentrar a men- te em qualquer coisa, quando ela tem de ocupar-se de várias coisas ao mesmo tempo. [...] Portanto, as escolas deviam ser organizadas de tal modo que o estudante se ocupasse com apenas uma tarefa de estudo de cada vez. 5º) Em todas as operações da natureza o desenvol- vimento se faz de dentro para fora. Por exemplo: no caso do pássaro, não são as garras, as penas ou a pele que se formam primeiro, mas as partes in- ternas. [...] [Isso significa que o estudante] “devia, primeiro, compreender as coisas e em seguida re- cordá-las e que o professor devia ter consciência de todos os métodos de conhecimento”. 6º) A natureza, em seu processo formativo, começa pelo universal e termina com o particular. Por exem- plo: um pássaro é produzido de um ovo. [...] Todo ovo é aquecido, o calor produz movimento, e esse movimento gera um sistema de veias, que esboçam a forma do pássaro inteiro [...]. Até que esse esboço esteja completo, as partes individuais não são leva- 101A Pedagogia realista ...................................................................................................................................................................................................................... das ao acabamento. [...] [Isso significa:] a) Cada lín- gua, ciência ou arte deve ser ensinada primeiro em seus elementos mais simples, para que o estudante possa obter uma ideia geral sobre ela. b) Seu conhe- cimento pode, em seguida, ser mais desenvolvido, apresentando-se-lhe regras e exemplos. [...] 7º) A natureza não dá saltos, mas prossegue passo a passo. Segue-se, portanto: a) Que todos os estudos deviam ser cuidadosamente graduados nas várias classes [...]. b) Que o tempo deve ser dividido cui- dadosamente [...]. c) Que a divisão do tempo e das matérias de estudo deve ser rigorosamente respei-tada [...]. 8º) Se a natureza começa qualquer coisa, não a abandona até que a operação esteja completa. Se- gue-se, portanto: 1) Que aquele que é mandado para a escola nela deve ser mantido até tornar-se bem informado, virtuoso e piedoso. [...] 4) Que nenhum rapaz, sob qualquer pretexto, tenha permissão de afastar-se ou faltar às aulas. 9º) A natureza evita cuidadosamente os obstáculos e as coisas com probabilidade de causar dano. Por exemplo, quando um pássaro está chocando ovos, não permite que um vento frio, [...] a chuva ou o granizo [...] os alcance. [...] As escolas devem ter cui- dado: a) Para que os estudantes não recebam quais- quer livros, a não ser aqueles adequados a suas aulas. b) Que esses livros sejam de tal espécie que possam ser chamados, com justiça, de fontes de sabedoria, virtude e piedade. c) Que nem na escola nem em suas proximidades os estudantes tenham permissão de misturar-se a maus companheiros. [...] (Cf. MAYER, Frederick. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Zahar, 1976, ap. GADOT- TI, cit., p. 80-85) Quanto ao tempo de estudo, Comenius fixava-o em 24 anos, igualmente distribuídos por quatro períodos de seis, entre as escolas maternal, elementar (ou vernácula), latina (giná- 102 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno sio) e acadêmica (universitária), esta destinada aos “mais capazes”, o que mostra que à época — e como sempre — ainda se relegava o aprimoramento intelectual do povo. A pedagogia realista segue em frente com John Locke (1632-1704), não tão naturalista, “ecológica” ou “ornitoló- gica” quanto em Comenius, mas intrinsecamente empírica e, portanto, pelo menos quanto ao aspecto conceitual, an- tagônica ao racionalismo inatista cartesiano. Mas, em si, o antirracionalismo lockiano tinha lá seus limites, pois, na verdade, Locke concorda com Descartes, ao preferir i idéa a eîdos (ser, essência substancial) como base etimológica (do grego) para “ideia” — assumida esta, especificamente, como “imagem, noção, espécie ou tudo aquilo em torno do qual o espírito pode ser utilizado no pensar” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 510) —, e então afirmar que todas as nossas representações do real são deri- vadas de percepções sensíveis, não havendo outra fonte para o conhecimento. [...] A mente é como uma folha em branco, uma ‘tabula rasa’, na qual a experiência deixa as suas marcas [...]. (MARCONDES, 1997, p. 180) Para Locke, portanto: a) todo conhecimento humano tem origem na sen- sação [...]; não há ideias inatas no espírito; b) a partir dos dados da experiência, o entendimento vai produ- zir novas ideias por abstração; c) se o entendimento humano é passivo na origem [...], tem um papel ativo, pois pode combinar as ideias simples e formar ideias complexas. (JAPIASSU; MARCONDES, 1991) 103A Pedagogia realista ...................................................................................................................................................................................................................... Racionalismo: qualquer filosofia que enfatize o papel da razão, que nesta perspectiva garante a aquisição e a justificação do conhecimento sem auxílio. [É a] preferência pela razão em detri- mento da experiência sensorial como fonte de conhecimento [...]. Empirismo: orientação filosófica persistente que procura ligar o conhecimento à experiência. A experiência é concebida como qualquer coisa que se exprime numa determinada classe desig- nada de afirmações cuja verdade possa ser verificada pelo uso dos sentidos. Os racionalistas do continente europeu, nomeadamente Descar- tes, Leibniz e Espinosa, com frequência são contrastados com os empiristas britânicos (Locke, Berkeley e Hume), mas esta posição simplifica exageradamente uma realidade mais complexa. Por exemplo, vale a pena notar que Descartes aprova até certo ponto a investigação empírica e que Locke partilha, em certa medida, a concepção racionalista segundo a qual o verdadeiro conhecimen- to é uma espécie de intuição intelectual. (Cf. BLACKBURN, 1997) No âmbito estritamente pedagógico, a obra de Locke irá centrar-se no gentleman — o gentil-homem, cavalheiro, fidalgo — que seria ou deveria ser o paradigma da nova classe dirigente pós-Revolução Industrial, o indivíduo vir- tuoso “capaz de renunciar aos próprios desejos, de opor- -se às próprias inclinações, e de seguir unicamente aquilo que a razão lhe indica como melhor, mesmo que os ape- tites o dirijam para outro lado”, educado de acordo com quatro princípios fundamentais: 1. a mens sana in corpore sano, afirmada como “um estado feliz neste mundo” e como critério-guia de todo educador; 2. a importância do “raciocinar com as crianças”, como meio de ensino; 3. a prioridade da formação prático-moral em re- lação à intelectual e do critério da “utilidade” das disciplinas a ensinar aos jovens; 104 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno 4. a centralidade da experiência, que desenvolve a natural curiosidade das crianças, amadurece seus interesses e se afirma também através do[s] jogo[s] e do trabalho. (CAMBI, 1999, p. 317-318) Franco Cambi sustenta, ainda, que o fato de Locke afinal não [ter] levado em nenhuma conta o problema da educação do povo [...], ou que o tenha resolvido de forma caritativa ou através de escolas de trabalho forçado para os rapazes pobres, isso não vem prejudicar o valor teórico de sua proposta pedagógica. (CAMBI, 1999, p. 321) De qualquer modo, como já foi visto enfaticamente, educação implica ideologia, que implica política, que implica poder, que implica sempre alguma forma de go- verno (e é aí — neste circuito fechado cujos elementos mantêm entre si uma relação de reciprocidade — que as dificuldades começam). Após Locke, já em pleno Iluminismo, todavia prenun- ciando o Romantismo, surge outro importante educador: trata-se de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), suíço de ascendência francesa, um dos autores da Enciclopédia, obra coletiva fundada por Diderot e d’Alembert e pu- blicada de 1751 a 1766. Seus livros Discurso sobre a Origem da Desigualdade, de 1755, e Contrato Social, de 1762, causam-lhe grandes problemas, pela temática revolucionária (para o século XVIII e até para o XXI, em muitos casos). A seguir, alguns dos temas insistente- mente abordados e discutidos: 105A Pedagogia realista ...................................................................................................................................................................................................................... a) o homem é, por natureza, bom; é a sociedade que o corrompe; quer dizer: a sociedade não é, por essência, corruptora, mas somente [...] aquela que repousa na afirmação da desigualdade natural dos homens [...]; b) o estado de natureza é um estado primordial onde o homem vive feliz, em harmonia com o mundo e na inocência, não havendo necessi- dade de sociedade [...]; c) o homem difere essencial- mente dos outros seres naturais e animais por sua perfectibilidade; o problema, para ele, consiste em encontrar uma forma de sociedade na qual possa preservar sua liberdade natural e garantir sua se- gurança; para solucionar esse problema, Rousseau propõe o contrato social. O soberano é o conjunto dos membros da sociedade [...]. Cada homem é ao mesmo tempo legislador e sujeito [...] [e] possui, como cidadão, uma vontade geral que o conduz a querer o bem do conjunto do qual é membro. Cabe à educação formar essa vontade geral. O regime so- cial idealé o democrático, [entendendo-se que]: “um homem livre obedece, mas não serve; tem chefe, e não mestres; obedece às leis mas somente às leis; e é pela força das leis que não obedece aos homens.” (JAPIASSU; MARCONDES, 1991) Iluminismo: período do pensamento europeu caracterizado pela ênfase na experiência e na razão [...]. Na Inglaterra do século XVII, o movimento já pode ser apreciado [...]. No entanto, foi só no século XVIII que se deu o completo florescimento do Iluminismo, especialmente na França [...], na Escócia [...] e na Alemanha [...]. [O] Iluminismo está associado a uma concepção materialista dos se- res humanos, a um otimismo quanto a seu progresso por meio da educação e a uma perspectiva em geral utilitarista da sociedade e da ética. (BLACKBURN, 1997) Como é próprio dos românticos, Rousseau defenderá seus pontos de vista de modo exacerbado e beligerante, repe- lindo o tradicionalismo e a finesse afetada e enaltecendo a espontaneidade intuitiva, a fantasia e, em certo sentido, a própria irracionalidade do ser humano. Franco Cambi 106 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno afirma que Rousseau “operou uma ‘revolução copernica- na’ em pedagogia”, opondo-se “a todas as ideias correntes [...] em matéria educativa: desde o uso das fraldas até o ‘raciocinar’ com as crianças”, onde vai colidir frontalmen- te com Locke (CAMBI, cit., p. 343; cf. id., p. 318). Conver- gindo para o naturalismo de Comenius e contrapondo-se mesmo ao espírito técnico e científico do Século das Luzes, Rousseau vai defender, com a peculiar veemência, que se desperte no indivíduo, desde a primeira idade, a valoriza- ção do que é natural, pois tudo sai perfeito das mãos da Natureza, Au- tora das coisas. É nas mãos do homem que tudo se degenera. É o homem que tudo mutila, que tudo transforma, que tudo desfigura. Ele não quer nada como a Natureza fez. (GILES, 1983, p. 77) Franc Morandi aponta o livro Émile, de Rousseau, como “referência de qualquer reflexão filosófica sobre a educa- ção, pela sua amplidão, pelo papel e projeto humano e social que nele se estabelecem.” (MORANDI, cit., p. 80). De fato, a tarefa autoimposta por Rousseau é colossal: no auge do Iluminismo — quando a intelectualidade europeia se locupleta de uma racionalidade pretensamente capaz de resolver todos os problemas do mundo — buscar o equilíbrio e a conciliação entre natureza e cultura, além de proclamar que “a natureza da infância não é a natureza da criança, mas a infância segundo a natureza, a infância como desenvolvimento humano e fundamento puro dos ‘homens livres’.” (Ib., p. 85). 107A Pedagogia realista ...................................................................................................................................................................................................................... Trechos do Émile, de Rousseau Tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas, tudo de- genera nas mãos do homem. Ele obriga uma terra a nutrir as produções de outra, uma árvore a dar frutos de outra; mistura e confunde os climas, as estações; mutila seu cão, seu cavalo, seu escravo; transtorna tudo, desfigura tudo; ama a desformidade, os monstros; não quer nada como o fez a natureza, nem mesmo o homem; tem de ensiná-lo para si, como um cavalo de picadeiro; tem que moldá-lo a seu jeito como uma árvore de seu jardim. [...] Nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, te- mos necessidade de juízo. Tudo o que não temos ao nascer, e de que precisamos adultos, é-nos dado pela educação. Essa educação nos vem da natureza, ou dos homens ou das coi- sas. O desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nos- sos órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação dos homens; e o ganho de nossa própria experiência sobre os objetos que nos afetam é a educação das coisas. [...] É preciso portanto generalizar nossos pontos de vista e consi- derar em nosso aluno o homem abstrato, o homem exposto a todos os acidentes da vida humana. Se os homens nascessem arraigados ao solo de um país, se a mesma estação durasse o ano todo, se cada qual se prendesse a seu destino de maneira a nunca poder mudar, a prática estabelecida seria boa até cer- to ponto; a criança educada para sua condição, dela não saindo nunca, não poderia ser exposta aos inconvenientes de outra. Mas, dada a mobilidade das coisas humanas, dado o espírito in- quieto e agitado deste século [XVIII] que tudo transforma a cada geração, poder-se-á conceber um método mais insensato que o de educar uma criança como nunca devendo sair de seu quarto, como devendo sem cessar achar-se cercada dos seus? Se o infeliz dá um só passo na terra, se desce um só degrau, está perdido. Não é isso ensinar-lhe a suportar a dor; é exercitá-lo a senti-la. [...] (ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da educação. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1968; ap. GADOTTI, cit., p. 94, 96, 97) 108 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno Immanuel Kant (1724-1804) é um filósofo familiar a vários escoliastas consagrados — como Hannah Arendt, por exem- plo —, mas conhecido também por não especialistas, quan- do menos pela lei moral contida naquele célebre resumo do imperativo categórico, que pulsa como um letreiro lumino- so em sua Crítica da razão prática: “Age de tal forma que cada uma das tuas ações possa ser tomada como lei uni- versal”; máxima semelhante, aliás, à bem mais antiga “Não faças aos outros o que não queres que te façam”. Contudo, Kant era também, além de um convicto humanista e mora- lista, um respeitável teorizador da educação: O modelo pedagógico elaborado por Kant, embora exclusivamente teórico e desprovido de remessas à experiência concreta da vida infantil e da vida esco- lar, afirma-se como uma das maiores elaborações da pedagogia iluminista, confiante nas reformas e, em particular, na reforma da sociedade através da educação, mas também como uma concepção ori- ginal (pela forte conotação ética que o distingue) assim como orgânica (ainda que esquemática). Isso justifica a longa influência que esse modelo terá, especialmente na área alemã, durante todo o curso do século XIX [...]. (CAMBI, 1999, p. 364) Mas note-se que, talvez preocupado com alguns possíveis excessos e desvios do Iluminismo no que tange à educa- ção infantil, e apesar das naturais diferenças de método e principalmente de temperamento (Kant: racional, comedido e teórico; Rousseau: intuitivo, arrebatado e prático), não dei- xará de existir, em Kant, admiração e respeito por Rousseau: Kant lê no Émile a busca de uma via, “saber como a civilização deve progredir para desenvolver as dis- posições da humanidade enquanto espécie moral, em conformidade com sua destinação, de forma que uma não se oponha mais à outra como espécie 109A Pedagogia realista ...................................................................................................................................................................................................................... natural”. Para ambos, a educação volta a ser um re- encontro ético, histórico e político com o humano. Retenhamos que, para Rousseau como para Kant, o progresso não é nem linear nem necessário; mas ele indica, orienta o sentido da humanidade e de sua educação. (MORANDI, cit., p. 93) 110 ......................................................................................................................................................................................................................Formação filosófica do pensamento moderno CONCEPÇÕES CIENTIFICISTAS DA EDUCAÇÃO A partir dos séculos XVII e XVIII, como se depreende do que já foi examinado, registra-se a constante e crescen- te exigência do rigor metodológico nos campos científico (Galileu, Bacon), filosófico (Descartes, Locke, Kant) e edu- cacional (Comenius), de modo que, quando se observa a Idade Contemporânea — iniciada, só por mera e imprecisa convenção, na Revolução Francesa, em 1789 —, pode-se constatar que: A centralidade da especulação fifosófica como guia da pedagogia foi susbstituída [...] pela centralidade da ciência [...]. Melhor: em pedagogia, a referência à ciência manifestou-se como referência a uma série de ciências, cada vez mais ricas na sua articulação [...], de modo a dar uma imagem do saber cientí- fico em pedagogia bastante fragmentado, inquieto e problemático. Foram a psicologia (com seus as- pectos de enquete cognitiva, de sondagem sobre a afetividade, sobre processos de aprendizagem etc.), a sociologia (com os destaques em torno da socia- lização do sujeito, as dinâmicas de grupo, o papel social das instituições educativas etc.), a antropolo- gia (com as comparações entre os diversos modelos formativos, com as sondagens sobre o vínculo entre desenvolvimento cognitivo, linguagem e vida social etc.), depois a psicanálise, a estatística, a biologia e até ciências ainda mais recentes como a cibernética etc., que delinearam um novo horizonte no saber pedagógico, para ancorá-lo, por um lado, a proces- sos experimentais e analíticos, e, por outro, a mo- delos em contínuo desenvolvimento, em contínua transformação, reclamando uma “pesquisa educa- tiva” em estreito contato com as ciências, aberta a 111Concepções cientificistas da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... contínuas revisões e reprogramações. Podemos di- zer que, desde os anos 60, pelo menos, a pedagogia tornou-se pesquisa educativa desenvolvida dentro das ciências da educação e à qual é delegada a ta- refa de fixar modelos e estratégias de formação. (CAMBI, cit., p. 403) O tom no mínimo preocupado desta citação de Cambi en- contra sua razão de ser na proliferação de “escolas” — que vem ocorrendo desde o século XVI, origem da escola tra- dicional, até hoje, quando parece predominar a escola pro- gressista —, bem como de um sem-número de tendências, teorias e ramificações. Segue-se, a propósito, um pequeno inventário metodológico e conteudístico de algumas delas: 1. Escola tradicional: atuante de fato até o final do século XIX, mas presente ainda hoje. Segue a linha magistrocêntrica — ou seja, centrada no mestre, mo- delo de saber e de autoridade — e utiliza metodolo- gia expositiva, com exercícios de fixação, leituras e cópias. Quanto ao processo avaliativo, enfatizam-se aspectos cognitivos e mnemônicos, e, no que tange à disciplina, admitia-se, até bem pouco tempo, o casti- go físico e o moral, uma espécie de bullying institu- cionalizado (Cf. ARANHA, 1998, p. 158). Sob forma de transmissão, em origens e práticas di- versificadas (histórica, cultural e educacionalmen- te), o modelo tradicional, quer sirva de referência quer dele haja distinção, é arbitrariamente o princí- pio de identificação de todo modelo em pedagogia. Precisa-se do tradicional como lugar de origem e referência. Ele não se define a priori, e sim num mo- vimento de tradições verdadeiras (por exemplo, as humanidades e a cultura) e de disposições bastante recentes (a parte do curso magistral). Para a pedago- gia escolar, a “pedagogia tradicional” é na realidade 112 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno pedagogia convencional, lugar de identificação de convenções sociais e culturais pelas quais se cons- titui a visão compartilhada do sistema pedagógico. Combinaram-se um fio condutor e um modo de pensamento comuns a realizações múltiplas muito mais do que uma realidade pré-definida. O modelo pode ser também considerado como uma leitura da pedagogia organizada e pensamento em torno do professor. Só é explicitamente criado um modelo da parte do professor: o aluno é o ponto cego da ima- gem assim dada dos princípios pedagógicos. Como se o papel da pedagogia fosse organizar a execução (e o conforto) da atividade preestabelecida do pro- fessor sábio. Se a pedagogia tradicional está “cen- trada sobre o docente”, o papel do aluno também está aí definido. Ajudar o aluno em seu trabalho se- gundo o esquema tradicional (com suas anotações de aula por exemplo) tem a ver com a mesma peda- gogia: mudar de olhar não é mudar de pedagogia. (MORANDI, 2002b, p. 57) 2. Escola nova: surge no final do século XIX, como uma reação ao magistrocentrismo; portanto, coloca a criança no centro do processo educativo (pedo- centrismo ou puericentrismo, conforme se prefira o radical grego ou o latino). Dá grande atenção à psi- cologia e aos interesses infantis, o que pode tornar o professor um agente secundário na transmissão do conhecimento. Tendo por lema “aprender fazen- do” (Comenius), a Escola Nova pretende ser a for- madora do homem integral, resultante da interação dos sentimentos e emoções com a razão e a ação, preparado para as novidades do mundo e para a au- tonomia (Cf. ARANHA, cit., p. 167-168). Dewey enuncia os termos da oposição fundadora das duas teses: “uma [a da educação nova] susten- ta que ela [a educação] é um desenvolvimento que procede de dentro, a outra [a educação tradicional] que ela é uma formação que se faz de fora; uma que 113Concepções cientificistas da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... ela se funda sobre os dons naturais, a outra que ela domina as inclinações naturais e tende a substi- tuí-las por hábitos que uma longa pressão externa permitiu inculcar”. O novo “modelo” adquire então um sentido positivo e fundador. Para Henri Wallon, “todos os sistemas de Educação Nova concordam em condenar, nos métodos tradicionais ou clássicos de ensino, o erro que eles cometem colocando como ponto de partida no espírito da criança noções cuja simplicidade é uma simplicidade racional [...] En- tre educadores modernos, chegou-se a um acordo quanto à necessidade de inverter, com a criança, a ordem lógica de nossas explicações, que vão da pa- lavra à coisa, do fator abstrato ao objeto concreto”. Esta referência fundadora à criança expressa uma “crença, não só na bondade da criança, mas também na sua capacidade de construir sozinha seu saber”. Centrar a educação e a escola naquele que está em situação de aprender (projeto retido e afirmado pela lei de orientação de 1989) é o projeto da Edu- cação Nova. (MORANDI, cit. b, p. 60) 3. Tendência tecnicista: baseada no modelo indus- trial e empresarial do taylorismo, origina-se nos Es- tados Unidos dos anos 1960, de onde se alastra para toda a América Latina; no Brasil, chega com força após o golpe militar. Tem por escopo sujeitar a edu- cação às necessidades industriais e tecnológicas, por meio de objetivos didáticos diligentemente concebi- dos de modo a evitar interpretações, valorizando o uso da tecnologia. (Cf. ARANHA, cit., p. 175). Herdeira do cientificismo, a tendência tecnicista busca no behaviorismo, teoria psicológica também de base positivista, os procedimentos experimentais necessários para a aplicação do condicionamento e o controle do comportamento. Daí a preocupação com a avaliação a partir dos aspectos observáveise mensuráveis da conduta e o cuidado com o uso da tecnologia educacional, não só quanto à utiliza- ção de recursos avançados da técnica, mas também 114 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno quanto ao planejamento racional, que tem em vista alcançar os objetivos propostos com economia de tempo, esforços e custo. Como se vê, os ideais de racionalidade, organização, objetividade e eficiência que permeiam as propos- tas tayloristas têm sua fundamentação teórica no positivismo, encontrando na tendência tecnicista sua adequada expressão. (ARANHA, cit., p. 176) 4. Teorias antiautoritárias: decididamente puericen- tristas, consideram o professor não um “comandante”, mas um orientador. O conteúdo apresentado é sem- pre ligado aos interesses e ao cotidiano dos alunos, e a metodologia se pauta pela autogestão, daí, a instau- ração de comunidades de aprendizagem dirigidas pelo próprio grupo. Por consequência, efetua-se a autoa- valiação, baseada na crítica, na responsabilidade e na disciplina intrínsecas ao próprio aluno, repelindo-se os instrumentos de poder materializados nos procedi- mentos burocráticos. José Oiticica (1882-1957), Miguel Gonzales Arroyo e Maurício Tragtenberg são três dos poucos adeptos da educação libertária no Brasil. (Cf. ARANHA, cit., p. 182). Michel Lobrot, um dos mais significativos represen- tantes da pedagogia institucional, assim enuncia o princípio fundamental da autogestão: “O princípio consiste em confiar aos alunos tudo o que é possí- vel lhes confiar, isto é, não a elaboração dos progra- mas ou a decisão dos exames, que não dependem nem do docente nem de seus alunos, mas o con- junto da vida, das atividades e da organização do trabalho dentro desse âmbito”. Assim como Rogers [Carl Rogers (1902-1987), psi- cólogo americano], o professor deve intervir só quando solicitado e, mesmo assim, cabe a ele a difí- cil tarefa de saber quando a pergunta de um aluno é pertinente ao grupo. Caso não seja, deve calar-se. Aliás, para exercer a desafiadora prática da ausência 115Concepções cientificistas da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... do poder, o mestre precisa aprender, com prudência e humildade, a silenciar sempre que possível: o si- lêncio sistemático e prolongado é a concretização da não-diretividade. As clássicas tarefas do professor passam a ser res- ponsabilidade do grupo, porque a noção de auto- gestão supõe a atividade instituinte dos alunos. Re- alçando a dinâmica dessas relações, Lobrot critica severamente a burocracia, típica expressão do po- der que, ao instaurar a hierarquia, coisifica as pesso- as e cristaliza toda ação. (ARANHA, cit., p. 182, 184) 5. Teorias crítico-reprodutivistas: a) Teoria da vio- lência simbólica: para Bourdieu e Passeron, a escola, ao reproduzir os privilégios da classe dominante, exerce uma forma de violência, simbólica, mas forte o bastante para legitimar as regras vigentes e ho- mogeneizar a conduta social. b) Teoria da escola como aparelho ideológico de Estado: baseado em Marx, Louis Althusser (1918-1990) aponta a escola de orientação capitalista como reprodutora dessa mesma ideologia, ao privilegiar a disseminação do saber prático na qualificação ao trabalho. c) Teo- ria da escola dualista: para Baudelot e Establet, o capitalismo se mantém distribuindo o ensino por dois tipos de escola, um destinado ao trabalho in- telectual, para os filhos dos dirigentes, e outro ao trabalho manual, para os filhos dos proletários (Cf. ARANHA, cit., p. 188-192). Em síntese, Bourdieu desenvolve três argumentos básicos relativos ao papel dos sistemas simbólicos ou culturais na produção e reprodução das estru- turas sociais. Antes de mais nada, eles seriam for- mas de percepção e representação da realidade. Os indivíduos criariam, sustentariam e defenderiam seus sistemas simbólicos no âmbito da sociedade em geral ou no interior de um campo específico. Como resultado da disputa e da dominação entre 116 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno os representantes de diferentes produções simbóli- cas, estabelecer-se-iam hierarquias culturais. Certas produções seriam consideradas superiores e ou- tras inferiores. Os indivíduos capazes de produzir ou, pelo menos, de identificar, apreciar e usufruir as produções consideradas superiores ganhariam maior prestígio e poder na sociedade em geral ou no campo específico de produção simbólica em questão. Nos termos de Bourdieu, pode-se dizer que eles acumulariam capital cultural em geral ou uma forma específica desse capital. [...] Em segundo lugar, Bourdieu observa que os siste- mas simbólicos seriam um meio capaz de traduzir e, portanto, escamotear, dissimular, eufemizar as hierarquias sociais. [...] Em terceiro lugar, o autor observa que, ao traduzir simbolicamente, de forma irreconhecível, as hierar- quias sociais, os sistemas culturais contribuiriam para legitimar (justificar) essas hierarquias. (NO- GUEIRA; NOGUEIRA, 2004, p. 47-48) 6. Teorias construtivistas: os teóricos dessa ten- dência ultrapassam o inatismo (sujeito ativo) e o empirismo (sujeito passivo). Para eles, o aprendiza- do se dá pela interação do sujeito com o objeto, isto é, nem a criança é simples receptor, nem o mestre é mero transmissor. Assim, o conhecimento é uma construção contínua, que se desenvolve por eta- pas, entre e durante as quais afloram a curiosidade e a consequente inventividade. Entre os principais “construtivistas”, podem ser apontados: Jean Pia- get (1896-1980), biólogo, autodidata em Filosofia e Psicologia; Emília Ferreiro, aluna de Piaget, a cujos estudos e ensinamentos acrescentou a pesquisa lin- guística; e Lev Semenovich Vygotsky, para o qual atributos tipicamente humanos, como a abstração, a memorização e a intencionalidade, podem e de- vem ser avaliados à luz de pressupostos marxistas. (Cf. ARANHA, cit., p. 202-204). 117Concepções cientificistas da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... A Piaget [...] a pedagogia contemporânea deve uma nova concepção da mente infantil e a individualiza- ção das suas estruturas cognitivas (bem menos ou quase nada das afetivas), elementos necessários para impostar uma educação do pensamento que leve em conta, no trabalho didático, as efetivas capacidades, linguísticas e lógicas, da criança. Talvez a mente de que fala Piaget seja uma mente demasiado epistemo- logizada (modelada sobre o saber científico e apenas sobre ele), uma mente talvez etnocêntrica (ligada à infância tal como se apresenta na cultura ociden- tal e junto às classes médias altas, mas postulada como modelo universal) e escassamente socializada (e pouco dependente do habitat social em que se de- senvolve), mas certamente a sua contribuição para os problemas da pedagogia foi decisiva, e decisiva so- bretudo pela revolução cognitiva que a caracterizou nos últimos decênios. (CAMBI, cit., p. 611) 7. Teorias progressistas: visam a proporcionar às classes populares o acesso irrestrito à educação, em todos os níveis de conhecimento. Também, como no construtivismo de Vygotsky, assentam sua base teórica em pressupostos marxistas, combatendo, portanto, o liberalismo e a divisão de classes.En- tre os cultores dessas teorias, que são muitos e de várias nacionalidades, encontram-se os soviéticos Makarenko e Pistrak, o italiano Antonio Gramsci, os franceses Célestin Freinet e Bernard Charlot, o espanhol Francisco Ferrer, o polonês Suchodolski. No Brasil, assim como no cenário pedagógico in- ternacional, ergue-se a figura serena mas enérgica de Paulo Freire, com seu curso de alfabetização de adultos centrado na conscientização social. O processo de alfabetização de Paulo Freire parte de palavras geradoras, extraídas preferencialmente do vocabulário cotidiano comum ao local de ensi- no, que, “decompostas em seus elementos silábicos, 118 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno propiciam, pela combinação desses elementos, a criação de novas palavras”, a partir das quais serão estabelecidos assuntos para discussão. Em uma das aulas do curso de alfabetização de adultos que ministrava no Rio de Janeiro, à época Estado da Guanabara, Freire e os alunos examina- ram dezessete palavras: favela, chuva, arado, ter- reno, comida, batuque, poço, bicicleta, trabalho, salário, profissão, governo, mangue, engenho, enxa- da, tijolo, riqueza. A cada uma delas atribuíram-se necessidades fundamentais. Para a primeira, favela, que nos basta como exemplo, elas seriam habita- ção, alimentação, vestuário, saúde, educação. Os as- pectos para discussão foram O Brasil e a dimensão universal [...]; Nações ricas x nações pobres; Países dominantes e dominados; Países desenvolvidos e subdesenvolvidos; Emancipação nacional [...]. De ou- tro lado, no Roteiro de Alfabetização da Fundação MOBRAL, trabalhavam-se assuntos (e aliterações, à moda das velhas cartilhas) como O povo vive; Pelé leva a bola; Saúde é vida; Davi vai à vila. Ele leva a família; Moema cuida da casa; A casa é feita de tijolo [...]; A família vê televisão. Rui ouve o rádio; João ama Rita. João e Rita vão à capela [...]; O time ouve o hino [...]; O homem cuida da terra. A máqui- na ajuda o homem; A Lua está mais perto de nós. O homem chegou até lá. Ele usou o foguete. (SILVEIRA, 1999, p. 37-38) Sem dúvida, depois do que se estudou até aqui, não se pode tirar a razão de Franco Cambi quando ele, por ou- tras palavras, parece reclamar para a Pedagogia um pouco mais de si mesma e um pouco menos de outras ciências. Mas vive-se o tempo da inter, multi e trans-disciplinarida- de, quando as áreas de estudo, até por força da globaliza- ção midiática, inevitavelmente se aproximam e se pene- tram, e o conhecimento avança sob aceleração geométrica para uma fusão de proporções e consequências imprevisí- veis. De qualquer modo, talvez seja útil atentar para essas palavras de Franco Morandi sobre o sentido da Pedagogia: 119Concepções cientificistas da Educação ...................................................................................................................................................................................................................... A pedagogia descreve uma condição específica, socialmente construída, das ações combinadas de ensinar e de aprender. O objeto da pedagogia não é o professor, nem o saber, nem o aluno, e sim a atividade que os reúne. Este conjunto fundador cria uma coerência entre a identidade da pessoa, os sa- beres, a cultura, a sociedade e a atividade que os produz. Os modelos pedagógicos são os princípios condutores desta atividade, sendo os métodos seu modo de realização. A pedagogia constitui por extensão o sistema orga- nizado da atividade, a criação dos modelos de suas práticas, de seus métodos. Ela descreve por exten- são as competências, os saberes sobre a atividade, os saber-fazer ligados à sua prática, o trabalho pe- dagógico (do aluno e do professor). A pedagogia, simultaneamente modelo e método, é uma organiza- ção formadora. O termo “pedagogia” foi frequentemente tomado no mau sentido. Ele retoma aqui o sentido de uma atividade essencial e de um corpo de pensamento em evolução que se formaliza. Disciplina de ação, devendo gerir a incerteza numa problemática da de- cisão, a pedagogia está na dependência do princípio de competência profissional para os educadores e os formadores de uma profissionalização numa or- ganização de aprendizagem complexa: a escola e as instituições formadoras. Ele retoma igualmente uma interrogação e uma tra- dição fundadoras que o termo alemão Bildung (pe- dagogia no sentido de “formação”) destaca. Martin Heidegger sublinhava esse sentido: “ele correspon- de melhor, embora incompletamente, ao grego pai- déia [...]. Bildung quer dizer duas coisas. Primeiro, um ato formador que imprime à coisa um caráter segundo o qual ela se desenvolve. Em seguida, [...] se esta formação ‘informa’, imprime um caráter, é porque ao mesmo tempo ela conforma a coisa a uma visão determinante que por esta razão é cha- mada ‘modelo’ (Vor-bild)”. Foi como empresa evolutiva e criadora de modelos que a pedagogia construiu nossa escola. (MORANDI, cit. b, p. 26) 120 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno Neste capítulo, observamos que filosofia e ciência estive- ram juntas até o final do Renascimento, quando alguns pesquisadores, às vezes arriscando a vida em incursões demasiado próximas das fogueiras sempre acesas e fa- mintas da Inquisição, decidiram unir a teoria à prática, a especulação metafísica à técnica, deixando, assim, menos acidentado o caminho do conhecimento para todos que o trilhavam ou almejavam trilhar. Vimos também o quan- to o pensamento moderno, livre das coerções medievais, e, portanto, já plenamente centrado na razão, vai ser de singular importância para o desenvolvimento de procedi- mentos pedagógicos desvencilhados de concepções nebu- losas e dogmáticas. Por fim, pudemos conhecer algumas das principais escolas e teorias da atividade educativa, e, a partir daí, certamente seremos capazes de refletir a respeito da influência — quase sempre benéfica, mas às vezes nefasta, dependendo da dose — que várias ciências exerceram e ainda exercem sobre a Pedagogia. 121 ...................................................................................................................................................................................................................... REFERÊNCIAS ARANHA, Maria Lúcia de. Filosofia da Educação. São Pau- lo: Moderna, 1998. ARISTÓTELES. Metafísica. Porto Alegre: Globo, 1969. BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. BORNHEIN, Gerd A. (Org.). Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1997. CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: UNESP, 1999. COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 1999. DESCARTES, René. Discurso do método/meditações. São Paulo: Abril Cultural, 1983. GADOTTI, Moacir. História das ideias pedagógicas. São Paulo: Ática, 2001. GILES, Thomas Ransom. Filosofia da Educação. São Paulo: EPU, 1983. ...................................................................................................................................................................................................................... 122 ...................................................................................................................................................................................................................... Formação filosófica do pensamento moderno JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. MARCONDES,Danilo. Iniciação à história da Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. MORANDI, Franc. Filosofia da Educação. São Paulo: EDUSC, 2002. Modelos e métodos em Pedagogia. São Paulo: EDUSC, 2000. NOGUEIRA, Maria Alice; NOGUEIRA, Cláudio M. Martins. Bourdieu e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. REALE, Giovani; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 1990. vol.2. SILVEIRA, E. A. Os olhos azuis do cão sem plumas: a poe- sia de João Cabral de Melo Neto e o processo de conscien- tização social. Rio de Janeiro: UERJ, 1999. Dissertação de Mestrado. SOLOMON, Robert; HIGGINS, Kathleen M. Paixão pelo Sa- ber. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 123As novas ciências ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ CAPÍTULO 4 EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA – QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS As ciências tomam impulso a partir de três grandes rup- turas que abalam a ideia de centralidade do ser humano: a primeira, cosmológica, no século XV; as outras duas, uma biológica e outra psíquica, nos séculos XIX e XX. De início, o foco da observação se concentrará na traje- tória da ciência, desde que o homem abandona o eixo do Universo e vai buscar na razão o seu “paraíso perdido”, o que traz consequências drásticas para todas as áreas de conhecimento. A seguir, será avaliado de que forma e em que medida os valores éticos e morais sofreram modificações, nesses quase quinhentos anos de aceleração tecnológica, até que se chegasse ao que passou a ser chamado, genericamente, de comunicação social, comunicação de massa, meios de comunicação de massa ou simplesmente mass media. Por fim, o exame recairá sobre o modo como a Filosofia e a Pedagogia, em uma ação coesa e bilateral sintetizada na designação de Filosofia da Educação, procuram dar conta da problemática sempre crescente e mutante das questões inerentes ao ensino, nessa era de modificações paradig- máticas radicais e contínuas. 124 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas AS NOVAS CIÊNCIAS Se, para os conservadores obstinados, um homem que pen- sa é um perigo potencial, um homem que pensa, reflete e ainda por cima contesta é um verdadeiro desastre. Nicolau Copérnico, por exemplo: desde sempre o Universo funcio- nou muito bem com o sistema de Ptolomeu — a Terra no centro, os astros girando em torno dela, tudo simples, bo- nito, inalcançável e incompreensível, como devem ser as coisas dogmatizáveis relativas à Criação; tudo repetitivo, indefectível, seguro e preciso como um relógio (até que se quebre). Mas tinha de aparecer aquele polonês desmancha- -prazeres, trazendo debaixo do braço um livro herético — Sobre a Revolução das Órbitas Celestes (1543) —, no qual procurava demonstrar matematicamente que a Terra é que girava em torno do Sol. A ideia nem sequer era original, Aristarco de Samos já a tivera no século III a.C., porém mesmo assim não havia desculpa; a ordem do papa era clara e irrecorrível: ou a Terra voltava para o centro, ou quem iria para o centro, só que de uma bela fogueira, ia ser o defensor daquela ideia estapafúrdia de heliocentrismo. De resto, o livro foi para o índex, a teoria esfriou, foi re- quentada quase setenta anos depois por Galileu (agora de- vidamente equipado com um telescópio), mas as coisas se reacomodaram ainda na Modernidade, e isso já foi visto. De qualquer modo, Copérnico, por sua depois chamada revolução copernicana, é considerado o precursor da pri- 125As novas ciências ...................................................................................................................................................................................................................... meira grande ruptura com a concepção de que o homem é a obra máxima da natureza, e de que o Universo, portanto, teria sido feito só para ele. Houve ainda pelo menos duas outras grandes rupturas epistemológicas diretamente liga- das ao indivíduo: A segunda grande ruptura é provocada pelo que se poderia chamar, por analogia com a primeira, a re- volução darwiniana, resultado da obra de Charles Darwin, A origem das espécies pela seleção natural (1859), onde este formula sua famosa teoria da evo- lução, ou, mais apropriadamente, da transformação das espécies pela seleção natural. Na medida em que revela que o homem é apenas mais uma espécie natural dentre outras e que a espécie humana resul- ta de um processo de evolução natural, tendo an- cestrais comuns com o macaco, Darwin abala pro- fundamente a crença na superioridade humana, no homem como o “rei da criação”, como tendo uma natureza não só superior como radicalmente distin- ta da dos demais seres. [...] A terceira grande fonte de ruptura se encontra no que poderíamos chamar, seguindo a mesma linha, de revolução freudiana, e é consequência da teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856-1939) e de sua descoberta do inconsciente, cuja formulação inicial se encontra no clássico A interpretação dos sonhos (1900). Freud revela que o homem não se define pela racionalidade, e que sua mente não se carac- teriza apenas pela consciência, mas, ao contrário, nosso comportamento é fortemente determinado por desejos e impulsos de que não temos consciên- cia e que reprimidos, não realizados, permanecem entretanto em nosso inconsciente e manifestam-se em nossos sonhos, e em nosso modo de agir. [...] Um dos argumentos centrais do racionalismo mo- derno – o acesso privilegiado do ser pensante à sua própria consciência, a evidência do cogito enfatiza- da por Descartes – torna-se assim altamente proble- mático. (MARCONDES, 1997, p. 254-255) 126 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas Charles Robert Darwin (1809-1882), naturalista inglês, estabeleceu com A origem das espécies as bases da Biologia (e da ecologia) moderna e contemporânea. Transcreve-se abaixo um trecho do úl- timo parágrafo com o qual Darwin encerra a sua obra-prima: [...] É interessante contemplar uma ribeira exuberante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abri- gando aves que cantam nos galhos, insetos variados que saltitam aqui e acolá, vermes que rastejam na terra úmida, se se pensar que essas formas tão admiravelmente construídas, tão admiravelmente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complicada, foram todas produzidas por leis que atuam ao nosso redor. Estas leis, tomadas no seu sentido mais amplo, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade de que implica a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da ação direta e indireta das condições de vida, do uso e não uso; a lei da multipli- cação das espécies em razão bastante elevada para provocar a luta pela sobrevivência, que tem como consequência a seleção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado direto desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte é, pois, o fato mais notável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. [...] (DARWIN, 1981, p. 458) Essas três grandes rupturas — a “cosmoantropológica”, a biológicae a psíquica — vão, até certo ponto, colocar o ser humano em sua devida posição de hóspede, e não dono do grande hotel do mundo; o que não vai impedi-lo de persis- tir na sua jornada em busca do conhecimento, promoven- do as necessárias modificações nos modelos científicos — as chamadas mudanças paradigmáticas. Assim, chega-se aos séculos XX e XXI sob o domínio (em dois sentidos) da cibernética, matriz daquela que talvez possa ser clas- sificada como a segunda maior mudança paradigmática de todas (já que o primeiro lugar, imbatível, pertenceria à “era nuclear” e à catástrofe de Hiroshima e Nagasaki): a da tecnologia, cujas intenções, declaradas ou sub-reptícias, se mostrarão curiosamente bastante próximas dos obje- 127As novas ciências ...................................................................................................................................................................................................................... tivos finais do positivismo, idealizado por Auguste Comte no século XIX: “A finalidade última do sistema é política, organizar a sociedade cientificamente com base nos prin- cípios estabelecidos pelas ciências positivas” (JAPIASSU; MARCONDES, cit.). A palavra “cibernética” tem origem no grego kybernétes, que sig- nifica “piloto“ (de navio), e, por extensão, “aquele que conduz“ (o engenho). “Pilotagem“ vem de kybernetiké, trazendo subentendi- da a téchne (téchne kybernetiké); é a arte ou habilidade do piloto, daquele que está no comando. Hoje, entende-se por cibernética a ciência dos sistemas de controle, comunicação e interação nos organismos vivos e nas máquinas. Algumas pessoas experimentam uma espécie de frisson só de ouvir falar de Comte e de Positivismo. A repulsa até se explica, pois Comte foi um incorrigível reacionário, mas não se justifica; para que haja isenção de propósitos avaliativos, indivíduos e fatos devem ser observados sincronicamente à época em que viveram ou ocorreram. Olhar com olhos de hoje as coisas do século XIX e, a partir desse relance, proferir juízos de valor, não parece uma atitude das mais corretas ou inteligentes. Não se pode negar que o positivismo foi partícipe do desenvolvimento científico, e que teve os seus bons tempos; ficou para trás, como tudo passa, mas ainda está lá, no grande rolo de filme da história; se for cortado, vai faltar um pedaço do enredo, e a cena anterior e a posterior poderão até perder o sentido (se é que existe um sentido). Auguste Comte (1798-1857) nasceu em Montpellier, na França. Por sete anos foi secretário do filósofo Claude-Henri Saint-Simon (1760-1825), também francês, socialista, defen- sor da extinção das diferenças de classe e da remuneração 128 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas justa do trabalho. Na obra Discurso sobre o espírito po- sitivo, Comte aponta as características fundamentais que distinguem o positivismo das demais filosofias: realidade: pesquisa de fatos concretos, acessíveis à nossa inteligência, deixando de lado a preocupação com mistérios impenetráveis referentes às causas primeiras e últimas dos seres. utilidade: busca de conhecimentos destinados ao aperfeiçoamento individual e coletivo do homem, desprezando as especulações ociosas, vazias e es- téreis. certeza: obtenção de conhecimentos capazes de estabelecer a harmonia lógica na mente do próprio indivíduo e a comunhão em toda a espécie humana, abandonando as dúvidas indefinidas e os intermi- náveis debates metafísicos. precisão: estabelecimento de conhecimentos que se opõem ao vago, baseados em enunciados rigorosos, sem ambiguidades. organização: tendência a organizar, construir me- todicamente, sistematizar o conhecimento humano. relatividade: aceitação de conhecimentos científi- cos relativos. Se não fossem relativos, não poderia ser admitida a continuidade de novas pesquisas, capazes de trazer teorias com teses opostas ao co- nhecimento estabelecido. Assim, a ciência positiva é relativa porque admite o aperfeiçoamento e a ampliação dos conhecimentos humanos. (COTRIM, 1999, p. 185-186) Comte também defendeu uma “reforma da sociedade”, reorganizada intelectual, moral e politicamente, pois a Re- volução Francesa: [teria destruído] uma série de valores importantes da sociedade tradicional europeia, não sendo capaz, entretanto, de impor novos e permanentes valores para a emergente sociedade burguesa [...], nisso [re- sidindo] a grande tarefa a ser desempenhada pela filosofia positiva: restabelecer a ordem na sociedade capitalista industrial. (COTRIM, cit., p. 187) 129As novas ciências ...................................................................................................................................................................................................................... É aqui que as coisas começam a se complicar, porque já se vai entrando naquele conhecido “campo minado da ideologia”; e se complicam ainda mais, quando Comte elabora um Catecismo positivista e [decide] criar uma nova seita religiosa, denomina- da Religião da Humanidade, [cuja] deusa [...] tinha os traços de Clotilde de Vaux [escritora francesa, o grande amor de Comte] e os santos eram pensado- res como Dante, Shakespeare, Galileu, Adam Smith etc.” (Cf. COTRIM, cit., p. 187-188) De qualquer modo, fora religião, catecismo, deuses e san- tos, não se pode negar que o Positivismo, expurgado de alguns excessos e impropriedades, colaborou, pelo menos com sua essência metodológica, para que se atingisse o atual patamar científico; só não se pode é ter absoluta cer- teza, ainda, se isso foi um bem ou foi um mal. COMTE E SUA LEI DOS TRÊS ESTÁGIOS (OU ESTADOS) [...] Essa lei consiste no seguinte: cada uma das nossas principais concepções e cada ramo dos nossos conhecimentos passam necessariamente por três estágios teóricos diferentes, o estado teológico ou fictício, o estado metafísico ou abstrato e o estado científico ou positivo [...]. No estágio teológico, os fenômenos são vistos como “produtos da ação direta e contínua de agentes so- brenaturais mais ou menos numerosos”; no estágio metafísico, são explicados em função de essências, ideias ou forças abstratas (os corpos se uniriam graças à “simpatia”; as plantas cresceriam em virtude da presença da “alma vegetativa”; [...] mas é somente no “estágio positivo que o espírito humano, reconhecendo a im- possibilidade de obter conhecimentos absolutos, renuncia a per- guntar-se qual é a sua origem, qual o destino do universo e quais as causas íntimas dos fenômenos para procurar somente desco- brir, com o uso bem combinado do raciocínio e da observação, as suas leis efetivas, isto é, as suas relações invariáveis de sucessão e semelhança.” (REALE; ANTISERI, 1991, p. 299) 130 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas Para os adeptos incondicionais da tecnologia, a ciência atual é o Bem Absoluto; do lado contrário, há os que veem em cada novo estágio tecnológico um passo a mais na di- reção de um abismo sem fundo. Entre os dois grupos, os ponderados, aristotelicamente buscando um meio-termo, um modo de fruir os benefícios da ciência contemporânea sem deixar de ser gente. Seja como for, Danilo Marcondes afirma que: No século XX [e no XXI], novas descobertas cientí- ficas, igualmente revolucionárias, provocarão trans- formações profundas em nossa maneira de conceber o homem e o conhecimento, com um grande impacto no pensamento filosófico. Duas merecemdestaque. Em primeiro lugar, a revolução da informática e a questão da inteligência artificial que seu desenvol- vimento suscita. Seria o pensamento uma caracterís- tica, pode-se dizer mesmo um privilégio, do ser hu- mano, ou seria possível construirmos máquinas que pensam [...], [usando] o cérebro como modelo para [...] computadores que tentariam reproduzir a ativi- dade do pensamento? [...] Em segundo lugar, a revolução biológica, a engenha- ria genética, a possibilidade de criar novas espécies ou de manipular as características de uma espécie [...]. Até onde podemos intervir na natureza biológi- ca? Uma nova área de reflexão na fronteira entre filo- sofia e biologia, a bioética, tem surgido como tenta- tiva de dar conta desses problemas, impensáveis até bem pouco tempo atrás. (MARCONDES, cit., p. 255) Poderia ser proposta ainda uma terceira “revolução”: a da comunicação, que foi capaz de conduzir-se — e conduzir o mundo —, como uma força autônoma, da prensa de tipos móveis à internet, em uma porção mínima de tempo his- tórico; uma transformação rápida, radical e, para alguns autores, intrínseca à própria sociedade contemporânea: 131As novas ciências ...................................................................................................................................................................................................................... Não se pode imaginar a chamada sociedade pós-mo- derna (ou pós-industrial) sem a presença maciça de informações ou a intervenção constante dos meios de comunicação de massa na vida pessoal ou social. Nada mais pós-moderno do que assistir pela tevê, ao vivo e via satélite, a eventos que marcam a histó- ria contemporânea (como a Guerra do Golfo, a der- rubada do muro de Berlim ou o atentado ao World Trade Center) entremeados por intervalos comer- ciais e vinhetas geradas por computador. [...] A pós- -modernidade caracteriza-se por alguns elementos: 1. Alta Tecnologia: [...] facultando a criação de no- vos códigos e a possibilidade de interferência na emissão e no conteúdo das mensagens. 2. Velocidade: [...] as ideias e comportamentos são modificados rapidamente. Vive-se em um contínuo momento presente, diferente daquele que o antece- deu e do que o irá suceder. [...] 3. Consumismo e Hedonismo: [...] A compulsão consumista gera o fenômeno do hedonismo, do individualismo exacerbado [...], que se manifesta como forma de defesa em um ambiente hostil [...]. 4. Niilismo: com o aumento da quantidade de in- formações e a rapidez com que surgem e desapa- recem nas mídias, não há mais temas relevantes e as ideologias aparentemente ficaram obsoletas [...]: os discursos repetem o que já foi dito e ouvido. [...] 5. Pastiche: se não há originalidade, a cultura pós- -moderna busca retrabalhar velhos temas, dar nova roupagem a antigos produtos [...]. A nostalgia (olhar saudosista, já que o presente é ruim) é outra fórmu- la bastante usada na moda, na tevê, no cinema, na publicidade e na música. 6. Simulacro: uma vez que a realidade não corres- ponde aos desejos do indivíduo, os meios de comu- nicação oferecem um substituto melhor: a fantasia, a recriação da realidade, produzida de maneira cada vez mais sofisticada. (SANTOS, 2003, p. 117-120) ...................................................................................................................................................................................................................... 132 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas Essas transformações, ou revoluções, ou mudanças de pa- radigma, esse turbilhão tecnológico para o qual, é bom que se diga, a maior parte da humanidade ainda não está preparada, traz sérias consequências ativas e reativas em todas as áreas do conhecimento, muito especialmente no que tange ao campo educacional, onde não deixará de pro- vocar turbulências e abalos teóricos e práticos. 133Os valores ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ OS VALORES Ao tornar evidente aquilo de que se tratará — valores éticos e educacionais — a finalidade da aula, por consequência, deixa implícito aquilo de que não se tratará: não se tratará, por exemplo, e até por motivos óbvios, de valores relacio- nados a dinheiro, à bolsa, a aplicações financeiras, à econo- mia & finanças; enfim, a tudo que diga respeito a assuntos capitalistas, no sentido estritamente monetário da palavra. Mas há outro “capital” a ser examinado, só que bem dife- rente: é o capital ético e moral (que não tem preço). Os significados das palavras ética e moral, às vezes, se con- fundem; desde a origem, seja pelo grego (ethikón – moral, ciência dos costumes), seja pelo latim (ethice; mos, moris). Historicamente, a palavra Ética foi aplicada à Moral sob todas as suas formas, quer como ciência, quer como arte de dirigir a conduta. [...] Parece que há aqui três conceitos distintos a separar: 1º) A Moral, quer dizer, o conjunto das prescrições admitidas numa época e numa sociedade determi- nadas, o esforço para conformar-se a essas prescri- ções, a exortação a segui-las. 2º) A ciência de fato que tem por objeto a conduta dos homens [...], abstração feita dos juízos de apre- ciação que dirigem os homens nessa conduta. Pro- pomos chamá-la Etografia ou Etologia [também com raiz em ethos, uso, costume, hábito]. 3º) A ciência que toma por objeto imediato os juízos de apreciação sobre os atos qualificados como bons ou maus. É o que propomos chamar Ética. (LALAN- DE, 1993) 134 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas Paralelamente, segundo Aristóteles, todos os homens [...] parecem de certa forma adi- vinhar que essa espécie de disposição que está de acordo com a sabedoria prática é virtude [...]. Fica claro, então [...], que não é possível ser bom, no sen- tido estrito da palavra, sem sabedoria prática, nem é possível ter essa sabedoria sem a virtude moral. (ARISTÓTELES, 2007, p. 144, 1144b) Mas, por consequência lógica, ninguém será capaz de “atos qualificados como bons” se não praticar o bem (ori- gem do que é bom), aquilo a que todos os seres aspiram [...], desejável quando ele interessa a um indivíduo isolado; mas seu caráter é mais belo e mais divino quando se aplica a um povo e a Estados inteiros. (Id., ap. JA- PIASSU; MARCONDES, 1991) A priori, idealmente, as ciências, em geral, e as ciências pedagógicas, em particular, devem sempre estar associa- das a valores éticos e morais elevados, bons e, portanto, capazes de promover o bem, geral e irrestrito. Mas não se pode esquecer de que os conceitos de ético, moral, bom e mau, bem e mal estarão sempre, infalivelmente, atre- lados a dois atributos humanos subjetivos e instáveis: o poder e a ideologia. Daí a necessidade de se avaliar de que modo e até que ponto as transformações do campo cien- tífico teriam interferido na ética e na moral educacionais, em especial no que respeita à contemporaneidade, que é quando a Pedagogia se transforma radicalmente, com a admissão de uma série de “assessores”: 135Os valores ......................................................................................................................................................................................................................No curso da segunda metade do século XX com- pletou-se definitivamente e se impôs em âmbito mundial uma radical transformação da pedagogia, que redefiniu sua identidade, renovou seus limites e deslocou o seu eixo epistemológico. Da pedago- gia passou-se à ciência da educação; de um saber unitário e “fechado” passou-se a um saber plural e aberto; do primado da filosofia passou-se ao das ciências. Tratou-se de uma revolução no saber edu- cativo que se afirmou rapidamente e que se colocou como um “ponto de não retorno” da evolução da pe- dagogia [...] com o advento de uma sociedade cada vez mais dinâmica e mais aberta, que reclama a for- mação de homens sensivelmente novos em relação ao passado; homens técnicos e homens-abertos ca- pazes de fazer frente às inovações sociais, culturais e técnicas. (CAMBI, 1999, p. 595) Que a Pedagogia (principalmente desde o século passado) vem recebendo os mais diversos tipos de colaboradores, não há dúvida; não se discute também que, ao recebê- -los, ela assimila valores que podem não ser ruins, mas lhe são estranhos; é evidente, ainda, e isso é grave, que a comunicação de massa, mais e mais veloz, abrangente e persuasiva, vai-se tornando a grande máquina de ensinar do nosso tempo: Com o advento da “indústria cultural” e dos mass media [meios de comunicação de massa] produziu- -se uma verdadeira e própria revolução pedagógica, talvez uma das mais fundamentais do nosso tempo, que justamente no segundo pós-guerra manifestou- -se em toda a sua potência, de difusão e de incidên- cia. Os chamados “persuasores ocultos” ocuparam um espaço cada vez mais amplo na formação do imaginário coletivo, influindo diretamente sobre a consciência pessoal de cada indivíduo, sobre seus níveis de aspiração, sobre seus gostos, comporta- mentos, consumos, chegando a regular em larga medida a sua identidade e, portanto, também a das 136 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas massas. [...] Os mass media foram verdadeiros e pró- prios educadores, informais, até ocultos, mas edu- cadores de primeiro plano, que se tornaram poten- tíssimos através do meio televisivo que revoluciona a percepção e a conceitualização (elementarizando- -a, separando-a da linguagem verbal e resolvendo-a sobretudo em imagens), agindo em profundidade já desde e sobretudo na infância [...]. É a cultura do- minante na “época da reprodução técnica” da arte, num tempo novo que leva a arte às massas e assim a simplifica, também a vulgariza, embora, gramscia- namente, leve as massas para além do folclore e do seu horizonte mágico-religioso, eriçado de supersti- ções e de irracionalidades. [...] O que deve porém ser sublinhado com força é que, com o advento dos mass media e da “indústria cul- tural”, todo o universo educativo foi radicalmente transformado, já que os agentes tradicionais da educação foram deslocados na sua centralidade so- cial e no interior da experiência individual de for- mação [...]. (CAMBI, cit., p. 630-633) Até aqui foram examinados, entre outros quesitos, alguns aspectos importantes da questão epistemológica da edu- cação — definida a epistemologia, neste caso, como a disciplina que toma por objeto não mais a ciên- cia feita, uma ciência verdadeira de que devería- mos estabelecer as condições de possibilidade ou os títulos de legitimidade, mas as ciências em vias de se fazerem, em seu processo de gênese, de for- mação e de estruturação progressiva. (JAPIASSU; MARCONDES, cit.) Essa conceituação de epistemologia, aliás, revela-se per- feitamente adequada quando se aponta para uma ciência que é transformada pelo homem em processo contínuo, e que também o transforma, por meio de uma série de 137Os valores ...................................................................................................................................................................................................................... rupturas e mudanças. Primeiro, quando a Terra se deslo- ca do centro confortável para qualquer local periférico de um universo cada vez mais amplo, o ser humano perde a sua posição cósmica, física, de eixo e ápice da criação — e talvez nunca se tenha sentido tão perplexo e solitário. De- pois, o homem (re)conhece a sua inexorável condição de espécie animal, como qualquer outra sujeita às mesmas leis de evolução e seleção natural — com a agravante de, agora, ter plena consciência de si, e a atenuante de ser até certo ponto capaz de interferir no processo – o que pode trazer consequências imprevisíveis. Quase simultaneamente a essa segunda ruptura, o homem experimenta uma terceira, ao descobrir que a sua supos- tamente infalível e absoluta racionalidade pode ser mani- pulada por um inconsciente que dispõe da prerrogativa de transformá-lo em um fantoche de si mesmo. Mas, apesar ou justamente por causa dessas coisas, o ser humano per- sistiu em sua saga rumo ao conhecimento, até chegar aos atuais níveis técnicos, científicos e (inevitavelmente) tec- nocráticos, com todas as implicações boas e más que isso possa ter no tocante a valores éticos e morais. Atingido este ponto, já se pode então discutir, com alguma base teórica, as implicações de todo o processo mutacional — ético, moral e comportamental — da educação. Existe, nesses tempos da comunicação de massa (às vezes eufemisticamente chamada de comunicação social), uma inevitável ausência ou pelo menos um distanciamento daquele professor tradicional que, de qualquer forma — bem, não tão bem e até mal — humaniza a educação; e 138 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas vai-se chegando, pouco a pouco, mesmo que não se quei- ra ou nem se perceba, àquele estado educativo geral, ho- mogeneizado, característico da sociedade de consumo — uma sociedade composta de quem consome, do que se consome e de quem é, no fim das contas, consumido. Não é de estranhar, portanto, que os próprios valores éticos e morais, depois de um adequado tratamento profilático, sejam retransmitidos, não raras vezes, como simples apli- cativos, prontos para uso imediato e refratários à reflexão. Porém, o grande problema não está nos mass media em si, mas no uso que deles se faz ou que se permite que deles se faça; pois, como tudo, eles também têm os seus prós e contras. A favor dos meios de comunicação de massa, pode-se citar, por exemplo: 1. o aumento do número de fontes de informação: o receptor tem a seu alcance [...] novos meios de di- fusão, que podem garantir acesso a uma pluralida- de de opiniões, tornando mais difícil o monopólio, o controle e a censura da comunicação; 2. a velocidade em que as informações circulam: os fatos são conhecidos com rapidez, às vezes ins- tantaneamente. Por outro lado, as novas tecnologias de transmis- são de informação também podem causar efeitos negativos: 1. saturação: a quantidade de informações é tão grande, e sua difusão, tão intensa, que os destina- tários não conseguem absorver tudo o que recebem da mídia e tampouco distinguem o que é importan- te do que pode ser descartável; 2. redundância: mídias diferentes transmitem (às vezes, repetidamente) as mesmas informações; 139Os valores ...................................................................................................................................................................................................................... 3. banalização: com tantas informações, os meios de comunicação precisam revestir os fatos com ele- mentos sensacionalistas para chamara atenção do receptor, banalizando-os (despindo-os de seu real significado) e transformando-os em espetáculo para o entretenimento do público. [...] 4. cacofonia: além da quantidade e da velocidade com que as informações são veiculadas, a obsoles- cência dos fatos é cada vez mais rápida, provocan- do um “caos semiológico”, um estado entrópico. Há uma confusão de signos que impede o receptor de captar correta e plenamente o conteúdo das mensa- gens. [...] (SANTOS, 2003, p. 72-73) Recapitulando, pode-se dizer que a Pedagogia conhece três grandes momentos, e também aqui a tríade da dialética hegeliana não é mera coincidência: o da escola tradicional, magistrocêntrica (tese); o da escola nova, pedocêntrica ou puericêntrica (antítese); e o da escola contemporânea, com fulcro no próprio ensino, disseminado como mensagem constante e contínua nos meios de comunicação de mas- sa (síntese). Esta última, ainda em processo, apresenta as vantagens e as desvantagens que foram examinadas há pouco: o aumento do número de fontes de informação e a velocidade em que as informações circulam são pontos positivos, enquanto a saturação, a redundância, a banali- zação e a cacofonia são pontos negativos. Seja como for, mais ou menos “vantajosa”, a educação massificada está aí, e parece que veio para ficar: O modelo global (que inclui portanto o local) corres- ponde a uma mudança de escala da relação escola- -sociedade e a uma mudança de configuração dos processos de formação. Ao sistema instrumental, onde a escola é articulação entre indivíduo e socie- dade, se superpõe um sistema simultaneamente glo- bal e múltiplo, no qual ela se torna acompanhadora, ...................................................................................................................................................................................................................... 140 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas reguladora, mas assim realmente formadora: papel diferente, mas papel importante. Entre os motores desta transformação, ou na sua origem, o desenvol- vimento das técnicas e das funções de informação e de comunicação serve de “meio” transformando os modos de aprender e portanto de fazer “escola” no seio de uma sociedade global de informação. A informação torna-se o pivô do saber. O meio (digi- tal, multimídia, redes) é de novo a mensagem. Há uma evolução em curso segundo a qual atividades sociais e cognitivas são outra vez culturalmente si- tuadas para o aluno e o cidadão por vir. Aprender supõe hoje um conjunto de atividades, de competências e de redes múltiplas. Aprender não é um fim, nem uma forma, nem um processo isolável em seu princípio ou tratamento escolar. O novo estatuto dado à informação na escola e fora da escola torna necessária uma verdadeira didática da informação e da compreensão das mensagens. [...] (MORANDI, 2002, p. 126) 141Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ OS DESAFIOS DA NOVA FILOSOFIA EDUCACIONAL – TRANSDISCIPLINARIDADE E COMPLEXIDADE É próprio do que está vivo — vivo no sentido literal e no sentido figurado — não se manter fechado em nada ou em si mesmo. Uma casa, por exemplo, se está viva, deve ter as suas janelas abertas pela manhã, para que através delas entrem a luz e o calor do sol, e pelos cômodos possa circular a brisa fresca e asséptica; assim também um homem, um cão, uma planta não podem ser mantidos enclausurados; assim também uma língua, que ao deixar de ser usada pe- los falantes e de interagir com outras estará irremediavel- mente condenada ao mausoléu das línguas mortas; assim também as ciências, talvez em especial as chamadas de ciências humanas. Mas o que se acabou de afirmar não sig- nifica, em absoluto, que tudo tenha de permanecer aberto dia e noite (embora alguém mais minucioso não vá deixar de apontar exceções, como hospitais, borracheiros ou lojas de conveniência). Ninguém “normal” deixaria, ainda mais em uma grande cidade, as portas e as janelas de casa aber- tas e iria viajar: em tudo deve haver bom-senso, e bom-sen- so, entre outras coisas, significa limites. O saudoso poeta, tradutor e professor de Literatura Jorge Wanderley aceitava de bom grado, com toda a serenidade que lhe era peculiar, o arejamento de sua disciplina, pela circula- ção de outras fontes de saber e de pesquisa não específicas, todavia “aderentes” à arte da escrita; mas fazia sempre a res- 142 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas salva de que, “assim como feijoada tem de ter feijão, estudos literários têm de ter literatura”. Da mesma forma, imitando o mestre, pode-se dizer que, em situação semelhante, estudos pedagógicos têm de ter pedagogia; mas nem sempre é assim, e isso motiva um ou outro especialista, como já se constatou, a expressar algumas preocupações a respeito. Ao discorrer sobre inter-poli-transdisciplinaridade, Edgar Morin como que superdimensiona o problema, a começar pela sequência de prefixos — inter (do latim, reciprocida- de, interação); poli (do grego, muito; ou multi, do latim); trans (do latim, para além de) —, e inicia uma concisa e cuidadosa preleção sobre a gênese da disciplina, para, em seguida e de passagem, permitir finalmente a antevisão de uma abertura disciplinar: A disciplina é uma categoria organizadora dentro do conhecimento científico; ela institui a divisão e a especialização do trabalho e responde à diversida- de das áreas que as ciências abrangem. Embora in- serida em um conjunto mais amplo, uma disciplina tende naturalmente à autonomia pela delimitação das fronteiras, da linguagem em que ela se constitui, das técnicas que é levada a elaborar e a utilizar e, eventualmente, pelas teorias que lhe são próprias. A organização disciplinar foi instituída no século XIX, notadamente com a formação das universidades mo- dernas; desenvolveu-se depois, no século XX, com o impulso dado à pesquisa científica; isto significa que as disciplinas têm uma história: nascimento, institu- cionalização, evolução, esgotamento etc.; essa his- tória está inscrita na da Universidade, que, por sua vez, está inscrita na história da sociedade; daí resulta que as disciplinas nascem da sociologia das ciências e da sociologia do conhecimento. Portanto, a disci- plina nasce não apenas de um conhecimento e de uma reflexão interna sobre si mesma, mas também de um conhecimento externo. Não basta, pois, estar por dentro de uma disciplina para conhecer todos os problemas aferentes a ela. (MORIN, 2004, p. 105) 143Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ...................................................................................................................................................................................................................... Adiante, Edgar Morin admite que arejar é preciso, pois pode até acontecer que: um olhar ingênuo de amador, alheio à disciplina, mesmo a qualquer disciplina, resolva um problema cuja solução era invisível dentro da disciplina. [...] JacquesLabeyrie sugeriu o seguinte teorema, que submetemos à verificação: “Quando não se encontra solução em uma disciplina, a solução vem de fora da disciplina”. [...] Marcel Proust dizia: “Uma verdadeira viagem de descobrimento não é encontrar novas ter- ras, mas ter um olhar novo”. (cf. ib., p. 106-107) Mas, ao que parece, a grande preocupação de Morin tem origem no risco de estratificação e isolamento ao qual uma disciplina estaria sujeita (mas não necessariamente condenada), quando fechada em si. Na mesma obra, um parágrafo antes dos trechos citados acima (Proust e La- beyrie), ele afirmara: a instituição disciplinar acarreta [...] um perigo de hiperespecialização do pesquisador e um risco de “coisificação” do objeto estudado, do qual se corre o risco de esquecer que é destacado ou construído. O objeto da disciplina será percebido, então, como uma coisa autossuficiente as ligações e solidarieda- des desse objeto com outros objetos estudados por outras disciplinas serão negligenciadas, assim como as ligações e solidariedade com o universo do qual ele faz parte. A fronteira disciplinar, sua linguagem e seus conceitos próprios vão isolar a disciplina em relação às outras e em relação aos problemas que se sobrepõem às disciplinas. A mentalidade hiperdisci- plinar vai tornar-se uma mentalidade de proprietário que proíbe qualquer incursão estranha em sua parce- la de saber. (MORIN, cit., p. 106) 144 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas Contudo, a profecia, talvez um tanto alarmista, é também inócua: dificilmente, no meio de todo esse emaranhado tecnológico e comunicacional contemporâneo, há de ser possível “isolar” o que quer que seja. O próprio Morin ad- mite que a “‘revolução biológica’ dos anos 50 nasceu de invasões e contatos, de transferências entre disciplinas à margem da Física, da Química e da Biologia.” (cf. ib., p. 107-108). Portanto, projetos inter-poli-transdisciplinares já existem há muito tempo, assim como certos pro- cessos de “complexificação” das áreas de pesquisa disciplinar [que] recorrem a disciplinas muito diver- sas e, ao mesmo tempo, à policompetência do pes- quisador. (cf. ib., p. 110) (grifo nosso) Hoje em dia, a grande questão para qualquer disciplina não é se vai ou não se encastelar e se desvincular de in- fluências ou interferências, porque o isolamento é prati- camente impossível; também não é se vai ou não se mos- trar, interagir e colaborar, porque a hiperexposição já está aí, voluntária ou involuntariamente; a grande questão de qualquer disciplina, atualmente, é participar do turbilhão multimidiático sem se despersonalizar, nem se fragmen- tar ou se desintegrar. E esse é, também, como não poderia deixar de ser, o grande desafio da Pedagogia. A pedagogia é um saber em transformação, em crise e em crescimento, atravessado por várias tensões, por desafios novos e novas tarefas, por instâncias de radicalização, de autocrítica, de desmascaramen- to de algumas – ou de muitas – de suas “engrena- gens” ou estruturas. É um saber que se reexamina, que revê sua própria identidade, que se reprograma e se reconstrói. Ao mesmo tempo, a educação (o ter- reno das práxis formativas, da transmissão cultural, das instituições educativas) também vem se reexa- 145Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ...................................................................................................................................................................................................................... minando e requalificando, fixando novas fronteiras, elaborando novos procedimentos. A pedagogia/ educação atual está à procura de um novo equilí- brio, ligado porém a uma nova identidade ainda in fieri [por nascer]. Daí a impressão de oscilação, de ondulação de formigueiro, até mesmo de confusão que a caracteriza. Todavia, a pedagogia é um saber que se tornou (e se torna) [...] cada vez mais central: social, política e cul- turalmente. De fato, pela pedagogia passam os diver- sos problemas da convivência social e da projeção política, como também os da continuidade e da reno- vação cultural: todos esses problemas implicam um empenho de formação, um itinerário de intervenção, uma obra de orientação de acompanhamento, de in- terpretação ativa, que só a pedagogia/educação pode desenvolver. Desse modo, porém, até a pedagogia como saber vem mudando de forma: perde qualquer caráter dogmático, invariante e supra-histórico, e se torna saber das transformações e das formações his- tóricas; liga-se à política (mas sem subalternidade) como se liga à ciência e à filosofia (mas sem se deixar absorver); caminha para uma nova identidade: plu- ral, dialética, crítica. Assim, justamente o caráter da criticidade passa a assumir um papel de paradigma metateórico, de orientador-chave, da sua pesquisa; e isso não acontece por acaso: acontece por solicitação de uma sociedade em profunda transformação e que está assumindo a forma de uma “sociedade aberta” (plural, dinâmica e até mesmo conflituosa). (CAMBI, cit., p. 641-642) Mas a resistência e a capacidade de adequação e trans- formação da Pedagogia, que se inferem das palavras de Cambi, vêm de longa data. Por isso os filósofos, de um modo geral, tanto os de ontem quanto os de hoje, sem- pre demonstraram pela Pedagogia um interesse muito especial; como, por exemplo, entre os mais importantes e “recentes”, Friedrich Nietzsche (1844-1900), Gaston Bachelard (1884-1962) e Michel Foucault (1926-1984) – todos professores. 146 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas Nietzsche era alemão, nascido na Prússia. Bom em Grego e Latim, estudou Teologia e Filosofia, mas, por influência de seu mestre Ritschl, passou a dedicar-se à Filologia, em especial à Filologia Grega, disciplina para a qual foi nome- ado professor na Universidade de Basileia, na Suíça, onde se manteve por dez anos. Sua guinada para a filosofia se dá com a leitura de O mundo como vontade e represen- tação, de Schopenhauer (1788-1860) —, pensador influen- ciado por Kant, anti-hegeliano (e pessimista, segundo al- guns), que via na vontade de viver ou no querer viver uma força universal de todos os seres [...] que leva cada indivíduo a lutar, consciente ou inconsciente- mente, para preservar sua espécie: ‘A vontade é a substância íntima, o meio de toda coisa particular como do conjunto; ela se manifesta na força cega da natureza e encontra-se na conduta razoável do homem’. (Cf. JAPIASSU; MARCONDES, cit.) Foi, com efeito, a partir da influência de Schopenhauer que Nietzsche publicou A origem da tragédia (1871), obra na qual estabelece a distinção entre o impulso apolíneo, emanado de Apolo, deus da contenção e da harmonia, e o impulso dionisíaco, originário de Dioniso, deus da exacer- bação e da desordem, ambas as forças — estabilidade e caos — antagônicas e ao mesmo tempo complementares. E continuou escrevendo livros contundentes, polêmicos e denunciatórios; ou desconcertantes, como Assim falou Zaratustra (1884), obra que se mantinha à margem dos cânones da época já a partir do subtítulo insólito, enig- mático, digno de ser inscrito em uma placa de bronze e afixado entre as patas da Esfinge de Édipo: “Um livro para todos e para ninguém” (NIETZSCHE, 1990). 147Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ......................................................................................................................................................................................................................No entanto, a despeito de algumas idiossincrasias, ape- sar de alguns comportamentos “excêntricos” peculiares, Nietzsche foi um bom professor; apenas, talvez por seu temperamento irrequieto e por sua ciclotimia, não poucas vezes foi antes um reformador que um formador; mas isso em decorrência, também, da própria situação do en- sino na Alemanha pós-1850: Ao percorrer o texto das conferências Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino, proferidas por Nietzsche há mais de cem anos, um leitor desaten- to poderia supor ter diante dos olhos um livro que acaba de ser escrito. E o mesmo poderia pensar um leitor atento — com mais razão até. Como podería- mos ignorar as semelhanças entre o diagnóstico que o filósofo apresenta do sistema educacional alemão da segunda metade do século passado e o que hoje faríamos do nosso? Como desconhecer os pontos comuns entre os ataques que ele dirige à cultura de sua época e os que hoje faríamos à nossa? Pode ser que o pensamento nietzschiano se deva a seu caráter extemporâneo ou às transformações tardias por que passam nossas concepções de educação e cultura — isso não importa. O que conta é que, tomado como ferramenta de trabalho, ele nos permite lançar um olhar mais crítico sobre o momento em que vivemos. (SCARLETT MARTON, in: DIAS, 1993, p. 7) De qualquer modo, a figura deste Nietzsche “visionário” não foi capaz de embotar a figura do Nietzsche professor; aliás, acrescente-se, do Nietzsche respeitado e admirado por seus discípulos, além de “excelente professor”: Poucos professores foram tão estimados pelos alu- nos quanto Nietzsche. Seu temperamento, suas ma- neiras, o charme de sua personalidade afável fas- cinava-os. Tinha o poder de entusiasmar os jovens para a disciplina que ensinava. Excelente professor, não visava ao simples acúmulo de conhecimento 148 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas — pelo contrário, insistia no desenvolvimento do senso crítico e da atividade criadora de cada um. In- citava os alunos a exprimirem livremente suas opi- niões, incentivava-os a fazerem suas leituras pesso- ais e as controlava frequentemente. Não precisava castigar, porque punha para trabalhar mesmo os alunos mais relapsos. [...] Estimulava os alunos na busca de seus próprios in- teresses, ouvia com atenção suas opiniões pessoais, preparava escrupulosamente seus cursos, corrigia minuciosamente seus trabalhos e mantinha-os, com raro dom, motivados para a matéria que lhes ensi- nava. (DIAS, cit., p. 51; 57) Trecho de A origem da tragédia [...] É, pois, às suas duas divindades das artes, a Apolo e a Diónisos, que se refere a nossa consciência do extraordinário antagonismo, tanto de origens como de fins, que existe no mundo grego entre a arte plástica ou apolínea e a arte sem formas ou musical, a arte dionisíaca. Estes dois instintos impulsivos andam lado a lado e na maior parte do tempo em guerra aberta, mutuamente se desa- fiando e excitando para darem origem a criações novas, cada vez mais robustas, para com elas perpetuarem o conflito deste anta- gonismo que a palavra “arte”, comum dos dois, consegue masca- rar, até que por fim, devido a um milagre metafísico da “vontade” helênica, os dois instintos se encontrem e se abracem para, num amplexo, gerarem a obra superior que será ao mesmo tempo apolínea e dionisíaca, – a tragédia ática. (NIETZSCHE, 1985, p. 35) Bachelard nasceu em Bar-sur-Aube, na França. Formou-se em Matemática e em Filosofia. Ensinou até 1940 na Uni- versidade de Dijon e de 1940 a 1954 na Sorbonne. Filó- sofo, cientista e poeta, ousou finalmente — não sem an- tes travar sérias e íntimas batalhas intelectuais (veja-se A formação do espírito científico, de 1937) —, conciliar e unir a filosofia, a ciência e a poesia em um todo episte- mológico, com a aproximação entre a figura do homem diurno, racional e cético, e a do homem noturno, sonhador 149Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ...................................................................................................................................................................................................................... e intuitivo. Concebeu ou desenvolveu, ainda, outros con- ceitos bastante originais, como o de corte epistemológico, ponto de ruptura e de não retorno a partir do qual já não é mais possível a uma determinada ciência retomar noções anteriores (por exemplo, o heliocentrismo de Copérnico e o geocentrismo de Ptolomeu; a seleção natural de Darwin e o criacionismo judaico-cristão; o inconsciente de Freud e o cogito cartesiano – todos os três pares de opostos já devidamente examinados). Para Giovanni Reale e Dario Antiseri, o pensamento episte- mológico de Bachelard, despojado de sua porção dedicada ao devaneio, ao sonho e à poesia, é novo e transcende a filosofia e a ciência de seu tempo: A epistemologia de Bachelard (seguida depois de vá- rios modos por Canguilhem, Foucault e Althusser), devido à época em que surgiu e se desenvolveu, representa o pensamento, prenhe de novidade, de filósofo solitário (ainda que não isolado), que, den- tro da tradição francesa de reflexão sobre a ciência (Meyerson, Poincaré, Duhem), ultrapassa a filosofia “oficial” da ciência de sua época (o neopositivismo) e propõe, como escreveu Althusser, um não positi- vismo radical e deliberado. Com base nisso, devemos registrar logo (prescindin- do aqui de todos os estudos que Bachelard dedicou à atividade fantástica, ou seja, à rêverie: A psicaná- lise do fogo, 1938; A poética do espaço, 1957; A po- ética da rêverie, 1960) que os pontos fundamentais do seu pensamento podem ser reduzidos a quatro: 1) o filósofo deve ser “contemporâneo” à ciência de sua própria época; 2) tanto o empirismo de tradição baconiana como o racionalismo idealista são inca- pazes de dar conta da prática científica real e efe- tiva; 3) a ciência é fato essencialmente histórico; 4) a ciência possui “inelutável caráter social”. (REALE; ANTISERI, cit., p. 1010-1011) 150 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas Talvez não fosse nem preciso expurgar da filosofia ba- chelardiana tudo o que nela existe de “fantástico” para descobrir, lá no fundo, uma alusão ao “inelutável caráter social” da ciência. Um olhar de relance sobre as preocu- pações pedagógicas de Bachelard já seriam suficientes para inferir que, ao lado do poeta e do cientista, coexistia harmonicamente um filósofo, consciente também de sua responsabilidade social, como os outros dois partícipes. Pois, sem dúvida, é difícil imaginar algo mais eminente- mente social do que a Pedagogia. Léon Brunschvicg, com aquele matiz de crítica sem- pre benevolente que dava tanta força a suas obser- vações, surpreendeu-se, certo dia, de me ver atribuir tanta importância ao aspecto pedagógico das noções científicas. Respondi-lhe que eu era, sem dúvida, mais professor que filósofo e que, além do mais, a melhor maneira de avaliar a solidez das ideias era ensiná-las, seguindo nisso o paradoxo que se ouve com tanta fre- quência nos meios universitários: ensinar é a melhor maneira de aprender. Excluída a falsa modéstia que habitualmente dá o tom dessa expressão, ela é bas- tante freqüente para que não tenha um sentido pro- fundo. O ato de ensinar não se destaca tão facilmente quanto se crê da consciência de saber e, precisamente quando nos for necessário garantir a objetividade do saber por um apoio na psicologia da inter-subjetivida- de, veremos que o racionalismodocente exige aplica- ção de um espírito a outro. (BACHELARD, 1977, p. 19) Duas observações: a) as frases “Ensinar é a melhor maneira de aprender”, “Ensinar aprendendo e aprender ensinando” e outras correlatas já viraram lugar-comum há muito tem- po, mas isso não quer dizer que tenham perdido a validade; b) “pegar carona” no que se ensina, para aprender mais, é um modo eficiente de que o professor dispõe para aperfei- çoar seus conhecimentos e, consequentemente, suas aulas: 151Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ...................................................................................................................................................................................................................... Se prestássemos mais atenção ao racionalismo en- sinado, veríamos que esse caráter redutor do inter- -racionalismo é tão-só um dos tempos do processo. Precisamente uma das funções do ensino científico é suscitar dialéticas. Os dois tempos: integração e dife- renciação são igualmente valores do inter-racionalis- mo. Coloca-se um assunto em oposição a outro. Essa oposição pode ser inteiramente racional. Ela pertur- ba a racionalidade do discípulo em benefício de uma racionalidade de mais ampla aplicação do mestre. [...] Toda filosofia da cultura deve acolher a noção de ní- veis pedagógicos. Toda cultura é solidária com plano de estudos, com ciclo de estudos. A pessoa afeita à cultura científica é um eterno estudante. A escola é o modelo mais elevado da vida social. Continuar sendo estudante deve ser o voto secreto de todo professor. Devido à própria natureza do pensamento científico em sua prodigiosa diferenciação, e devido à inevitá- vel especialização, a cultura científica coloca inces- santemente o verdadeiro cientista na situação de estudante. (BACHELARD, cit., p. 29, 31) Mas as atenções de Bachelard com a educação não se li- mitavam às esferas instrucionais mais elevadas; também o ensino infantil o ocupava e preocupava; ele censurava a vigilância constante dos pais em detrimento do “direito de solidão da criança”, assim como a postura de sabe-tudo do professor, que “instala um dogmatismo que é a negação da cultura”. (Cf. BACHELARD, cit., p. 89). É claro, as observações precedentes não têm por objetivo preparar a defesa de uma educação frouxa, a defesa de uma cultura não vigiada. A severidade é necessária tanto para a educação da criança quanto para a cultura do adolescente. Mas é preciso apenas separar a severidade arbitrária, ditatorial, absoluta, em proveito de uma severidade justa que se revele muito discursivamente ao apelar para a necessida- de do progresso que assinala todo psiquismo em busca de cultura. 152 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas No fundo, no reino da cultura, a severidade justa só se justifica de três maneiras: pelas experiências objetivas; pelos encadeamentos racionais; pelas rea- lizações estéticas. Neste último domínio, por exem- plo, ver-se-á o valor singularmente convincente do ensino do desenho, da pintura, da modelagem, caso em que o mestre efetua as correções objetivamen- te, sobretudo se compararmos tal ensino realiza- dor com o ensino habitual das Belas-letras em que o professor se limita, não raro, a criticar. (BACHE- LARD, cit., p. 90-91) Foucault nasceu em Poitiers, França. Formou-se na École Normale Supérieure, em Paris, e lecionou nas universidades de Clermont-Ferrand, de Vincennes e no Collège de France. Foi um dos mais importantes (e polêmicos) intelectuais do século XX, e, como poucos, se valeu da transdisciplinarida- de na formulação de denúncias incômodas, contundentes e traumáticas contra as estruturas sociais, de um modo geral, e as estruturas de poder, em particular. Tanto o ca- ráter transdisciplinar quanto o teor fortemente denuncia- tório da filosofia de Foucault podem ser pressentidos, com efeito, já desde os títulos de várias de suas obras: História da loucura na Idade Clássica (1961), O nascimento da clí- nica (1963), As palavras e as coisas (1966), A arqueologia do saber (1969), Vigiar e punir(1975), História da sexu- alidade (1966-1988). Considere-se, a propósito de Vigiar e Punir, este excerto de Roberto Machado sobre algumas das sutilezas do poder que não escaparam à visão aguda e penetrante de Michel Foucault: Sabemos que não existe em Foucault uma pesquisa específica sobre a ação do Estado nas sociedades modernas. Mas o que a consideração dos micro-po- deres mostra, em todo caso, é que o aspecto nega- tivo do poder — sua força destrutiva — não é tudo e talvez não seja o mais fundamental, ou que, ao 153Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ...................................................................................................................................................................................................................... menos, é preciso refletir sobre o seu lado positivo, isto é, produtivo, transformador: “É preciso parar de sempre descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele ‘exclui’, ele ‘reprime’, ele ‘recalca’, ele ‘censura’, ele ‘abstrai’, ele ‘mascara’, ele ‘esconde’. De fato, o poder produz; ele produz real; produz domínios de objetos e rituais de verdade” [Surveil- ler et Punir, Paris, Gallimard, 1975, p. 196]. O poder possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estraté- gica, uma positividade. E é justamente esse aspecto que explica o fato de que tem como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo. Não se explica inteiramente o poder quando se pro- cura caracterizá-lo por sua função repressiva. O que lhe interessa basicamente não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas ativida- des, e sim gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradu- al e contínuo de suas capacidades. (MACHADO, In: FOUCAULT, 1979, p. XV-XVI) Portanto, se macrofísica e empiricamente — isto é, se pela experiência física ampla, geral e cotidiana — pode-se con- siderar o poder, algumas vezes, como algo abertamente corruptor e corrupto, Foucault, com sua minuciosa análise microfísica, mostra que ele, o poder, também é capaz de ser perverso e sub-reptício, ao interferir de forma dissi- mulada na habilidade funcional e na sintonia ideológica de cada indivíduo: Objetivo ao mesmo tempo econômico e político: au- mento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efei- 154 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas tos de contra-poder, isto é, tornar os homens dó- ceis politicamente. Portanto, aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos; aumentar a força econômica e diminuir a força política. (MACHADO, In: FOUCAULT, ib.) Panopticon É interessante a descrição que Foucault faz do Panopticon, pro- jeto detalhado por Jeremy Bentham para prisões do século XIX: O princípio é: na periferia, uma construção em anel; no centro, uma torre; esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. A construção periférica é dividida em celas, cada uma ocupando toda a largura da construção. Estas celastêm duas janelas: uma abrindo-se para o interior, correspondendo às jane- las da torre; outra, dando para o exterior, permite que a luz atra- vesse a cela de um lado a outro. Basta então colocar um vigia na torre central e em cada cela trancafiar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um estudante. Devido ao efeito de contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se na lumino- sidade, as pequenas silhuetas prisioneiras nas celas da periferia. Em suma, inverte-se o princípio da masmorra; a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro que, no fundo, protegia. (FOUCAULT, cit., p. 210) Foucault nunca se fixou, ou, melhor, nunca se imobilizou sobre determinada área de estudo; ao contrário, fez da caminhada ininterrupta através de diversos campos de sa- ber — alguns pantanosos, outros movediços, outros ainda minados — uma viagem meio heroica, meio quixotesca, em busca de um objetivo que parecia postar-se sempre além do que antes fora assumido como o ponto de chega- da; foi um peregrino, um escritor itinerante de si mesmo e de uma obra vasta, ambos “lidos” de várias maneiras. Assim, Foucault também não “acampou” no sítio da edu- cação, mas fez sobre ela estudos que, no mínimo, estre- meceram algumas estruturas já solidamente assentadas: 155Os desafios da nova filosofia educacional: transdisciplinaridade e complexidade ...................................................................................................................................................................................................................... Não tendo sido, certamente, o foco de suas inves- tigações, ele dedicou-se à educação de uma forma um tanto marginal, transversal. [...] Em nenhum lu- gar da sua obra se encontrarão advertências éticas e técnicas sobre o papel do professor, sugestões so- bre a educação no seio da família ou na escola, exor- tações a essa ou àquela política educacional. [...] De uma maneira resumida, podemos dizer que a ar- ticulação de todo o pensamento de Foucault com a educação pode ser feita tomando o sujeito [...] como o elemento que, por excelência, é capaz de fazer a conexão entre ambos. [...] Mas aqui é preciso um alerta. Enquanto Foucault entende o sujeito como uma invenção moderna, a imensa maioria das cor- rentes pedagógicas – senão sua totalidade... – enten- de o sujeito como uma entidade preexistente, como um a priori a ser “trabalhado”, isto é, ser educado. (GALLO; VEIGA-NETO, s/d, p. 19) A propósito, os mesmos autores recém-citados identifi- cam na obra de Foucault três domínios que podem produ- zir resultados bastante eficientes e interessantes quando se visa à libertação das mentes em franco processo edu- cativo, auxiliando-as a se desacorrentarem de verdades refratárias à crítica e prontas para consumo. No primei- ro domínio, educação e ser-saber (arqueológico), compre- ende-se que a trajetória histórica educacional é capaz de ajudar no desvelamento dos aparatos disciplinares e tec- nológicos que conformaram a escola moderna e sua crise. No segundo domínio, educação e ser-poder (genealógico), entende-se que, assim como a tecnologia do poder disci- plinar manipula e “domestica” o corpo individual, aquilo que Foucault denominou de biopoder vai ultrapassar esta etapa, atuando sobre um corpo não mais pessoal, mas co- letivo: a própria população. (Cf. ib., p. 22-24). 156 ...................................................................................................................................................................................................................... Educação contemporânea – Questões epistemológicas [No] terceiro domínio [educação e ser-consigo (ético)], Foucault permite a nós, educadores, pensarmos em torno daquilo que estamos fazendo de nós mesmos. A investigação em torno das relações de poder levou-o a encontrar os mecanismos de relação do indivíduo consigo, a noção da Antiguidade clássica da ética como uma construção de si, como uma forma de cuidar de si. E qual é a ação do educador, senão cuidar dos ou- tros (os educandos) e, assim, cuidar de si mesmo, constituindo-se ele próprio como sujeito do ato educativo? [...] A inspiração foucaultiana nos desafia a pensar uma construção autônoma de si, como resultante dos jo- gos de poder, de saber e de verdade nos quais va- mos nos constituindo social e coletivamente. Aquela “educação de si da qual já falava Nietzsche, na con- tramão da instituição formativa alemã. [...] Repensar a educação em seus domínios epistemoló- gicos, políticos e ético-estéticos, possibilitando uma descolonização do pensamento, tornando o pensa- mento uma vez mais possível nesse território, eis o que nos possibilita o deslocamento da produção fou- caultiana para o território da educação. (Ib., p. 24-25) Neste capítulo, avaliou-se de que forma o homem pôde alcançar, depois de várias rupturas e mudanças paradig¬- máticas, um estágio tecnológico que pouco tempo atrás seria considerado mera ficção. Mas, como também não se deixou de ver, esse avanço, tão rápido e tão drástico, oca- sionou significativos abalos e interferências nos parâ¬me- tros éticos, morais e, sobretudo, educacionais, o que acar- retou, por uma necessidade inalienável, a aproxima¬ção entre a filosofia e a pedagogia: a Filosofia da Educação. 157 ...................................................................................................................................................................................................................... REFERÊNCIAS ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2007. BACHELARD, Gaston. O racionalismo aplicado. Rio de Ja- neiro: Zahar, 1977. CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: UNESP, 1999. COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 1999. DARWIN, Charles. A origem das espécies. São Paulo: He- mus, 1981. DIAS, Rosa Maria. Nietzsche educador. São Paulo: Scipio- ne,1993. FOUCAULT, Michel; MACHADO, Roberto (Org). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal,1979. GALLO, Sílvio; VEIGANETO, Alfredo. Ensaio para uma fi- losofia da educação In: Revista Educação, n. 3. São Paulo: Segmento,[s.d.] JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. 158 LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da Filoso- fia. São Paulo: Martins Fontes, 1993. MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. MORANDI, Franc. Modelos e métodos em Pedagogia. Bau- ru: EDUSC, 2002. MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Rio de Janeiro: Ber- trand, 2004. NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra. São Pau- lo: Circulo do Livro, 1990. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. São Paulo: Paulus, 1991. vol.3. SANTOS, Roberto Elísio dos. As teorias da comunicação: da fala à internet. São Paulo: Paulinas, 2003. 159 CONSIDERAÇÕES FINAIS No exame das condições de acesso ao conhecimento, tor- na-se evidente a importância da atividade filosófica na fundamentação do processo educativo — que se manifesta por intermédio da natural ação dialética entre filosofia e pedagogia. Mas, para que a abordagem filosófica mante- nha seus imprescindíveis princípios críticos, é necessário, sempre, questionar os pressupostos teóricos e práticos do conhecimento, enfatizando a característica interdisciplinar da filosofia como possibilidade concreta de transformação educacional. Esse foi, com efeito, o principal objetivo do livro, e seria oportuno ainda uma vez apresentar a síntese conteudística dos tópicos abordados. No primeiro capítulo, ‘’Bases filosóficas da educação’’, en- fatizou-se a relação do homem com o mundo, bem como o seu processo de socialização e inserção no grupo do qual faz parte, salientando, também, as condições da educação em diversos contextos históricos. Em ‘’Política e educação’’, o segundo capítulo, foi apresen-tado um panorama das relações socioeconômicas e histó- ricas que iriam interferir na construção do conhecimento, levando em conta o aparato ideológico que perpassa as sociedades e, muito especialmente, no seio destas, as ins- tituições escolares. No terceiro capítulo, ‘’Formação filosófica do pensamento moderno’’, empreendeu-se a análise da dimensão filosófica 160 da modernidade e a influência das ciências nos novos mo- delos educacionais que marcaram as teorias pedagógicas. Por fim, no quarto capítulo — ‘’Educação contemporânea: questões epistemológicas’’ —, foram postas em evidência as investigações científicas, mormente aquelas ligadas ao próprio desenvolvimento tecnológico, a fim de sustentar a inequívoca existência de um nexo entre as novas tecno- logias e os processos educativos, tendo por base o fato de que é a associação entre o saber filosófico e a ativida- de educativa que possibilita a ampliação do conhecimento verdadeiro, questionador, capaz de tornar possível a trans- formação do próprio indivíduo. A filosofia, de fato, sempre teve grande afinidade com a peda¬gogia, e não é difícil constatar a veracidade dessa afirma¬tiva quando se observa que alguns dos mais im- portantes filósofos do nosso tempo ou próximo dele fo- ram profes¬sores, e, como professores, preocupados com a educação. De resto, quem for seguir a carreira do magistério deverá estar certo de que a Filosofia da Educação não tem qual¬- quer intenção de ensinar a ensinar. O que ela modestamen- te pretende é — para usar uma lin¬guagem atual e já ine- vitavelmente tecnológica — funcio¬nar para a pedagogia como uma ferramenta, um aplicati¬vo, um antivírus contra a verdadeira tropa de cavalos de Troia ideológicos por in- termédio dos quais estão sempre tentando invadir nossas escolas.