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License-524652-28270-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Conhecimento Científico e Senso Comum Você concorda que, desde o seu nascimento, você adquire conhecimentos vindos de diversas fontes? Esses conhecimentos vêm, principalmente, de dois lugares: da sua casa e da escola. Em casa, você aprendeu a falar, andar, comer e andar de bicicleta. Mais tarde, quando você foi para a escola, você começou a descobrir novas possibilidades de conhecimento, como a Matemática, a História e o Português (que você já falava, mas ainda não escrevia). Tudo isso chegou e continua chegando até você por meio de conhecimentos que são introduzidos ao longo de sua vida. Esses conhecimentos são diferenciados por tipos, tais como o senso- comum e o conhecimento científico. Que tal aprendermos mais sobres eles? Siga com atenção! O conhecimento vindo do senso comum A forma de conhecimento a que chamamos de senso comum diz respeito àquelas coisas que aprendemos no cotidiano, com a convivência e experiência que adquirimos com outras pessoas. E você concorda que, na maioria das vezes, nem paramos para pensar de onde vem esse conhecimento? Por exemplo, quando arremessamos um objeto para outra pessoa, não calculamos, formalmente, a força que temos que colocar no objeto para que ele chegue até o seu destino. Porém, ainda que não percebamos, nosso cérebro faz cálculos mentais para que saibamos de que forma e com que força lançaremos o objeto. O conhecimento vindo do senso comum vai se acumulando ao longo de nossas vidas, através da aquisição de saberes intuitivos e espontâneos. License-524652-28270-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Will Hugues, Shutterstock, 2017. Perceba que a necessidade de acumular esse tipo de conhecimento é indispensável para o cumprimento de nossas tarefas ao longo da vida, e geralmente nós adquirimos esses saberes através da tradição, que é passada de geração para geração. Quer mais um exemplo? Tente resgatar da sua memória de que forma aprendeu a se vestir. Provavelmente foi com sua família, não é mesmo? Portanto, note que, desde a infância, adquirimos diversos conhecimentos: aprendemos a nos vestir, a usar o dinheiro, a falar, a andar de bicicleta. Quando adultos, geralmente usamos esses aprendizados de forma natural e espontânea, ou seja, automaticamente, sem grandes esforços para nos equilibrarmos na bicicleta ou colocarmos uma calça, por exemplo. Mas será que esses conhecimentos bastam para as nossas vidas? License-524652-28270-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A resposta é não. Essa forma de conhecimento adquirida por meio da tradição ainda é precária em relação a todas as exigências que fazem parte do desenvolvimento humano. Então, para se desenvolver ainda mais, o Homem começou a fazer observações e experimentos para entender de que forma os fenômenos aconteciam, construindo, assim, o que chamamos de ciência. E de que forma o conhecimento científico chega até nós? O conhecimento científico chega às nossas vidas de uma maneira um pouco diferente, geralmente com o início da nossa vida escolar. Vamos aprender um pouco mais sobre o conhecimento científico? Continue atento (a)! O conhecimento científico Quando você começa a ir para a escola, ainda criança, um novo mundo de possibilidades e explicações surge na sua vida, não é mesmo? Começamos a aprender a escrever, a fazer contas, a entender o fenômeno da chuva, etc. Que tal focarmos em um exemplo? Pense na chuva: antes de ir para a escola, provavelmente você sabia que poderia chover quando olhava para o céu e via um céu nublado. Porém, a partir do momento em que começamos a estudar, passamos a conhecer todo o processo que acontece desde a evaporação da água até o seu retorno em forma de chuva. É dessa forma que o conhecimento científico começa a ser inserido em nosso cotidiano. O conhecimento científico é resultado de experimentos e observações que conseguem explicar como os mais diversos fenômenos acontecem em nossas vidas. License-524652-28270-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Andrey_Popov, Shutterstock, 2017. Em outras palavras, de acordo com Bock et al , a ciência é um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos da realidade, expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa. E de que forma esses conhecimentos são obtidos? Esses conhecimentos devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e controlada, para que se permita a verificação de sua validade. Assim, a ciência aponta o seu objeto de estudo e seus diversos ramos de aprofundamento, demonstrando como o conteúdo é construído e possibilitando novos estudos que possam reproduzir e desenvolver a experiência. Dessa forma, o saber pode ser transmitido, verificado, utilizado e desenvolvido. E quais seriam as aspirações da ciência? A ciência sempre aspira objetividade e a continuidade, ou seja, ela é objetiva (apresentando conclusões que são válidas e isentas de emoção) e contínua (produzindo algo novo a partir do que já foi descoberto e desenvolvido). Isso quer dizer, então, que a ciência se trata de uma produção de conhecimento que se diferencia daquilo que é subjetivo e que vai além de posições ou opiniões? License-524652-28270-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Isso mesmo! Quando falamos que algo foi comprovado cientificamente, estamos apresentando um dado que não pode ser discutido e que já refutou todas as outras possibilidades. Ainda não ficou claro? Então acompanhe um exemplo. Antes de a ciência comprovar que a Terra girava em torno do Sol, acreditava-se que a Terra estava no centro do Sistema Solar e que os demais astros orbitavam ao redor dela. Porém, por meio de estudos e experimentos científicos, comprovou-se que o nosso planeta, assim como os demais do Sistema Solar, giram ao redor do Sol, sendo este o verdadeiro centro desse sistema. Assim, a teoria anterior a essa foi refutada. Mas será que existe algum tipo de conhecimento científico que parte do senso comum? A resposta é sim: grande parte do conhecimento científico parte de saberes do senso comum. Por exemplo, quando Newton formulou a Lei da Gravidade, ele partiu da observação de uma fruta que caía do pé e se partia no chão, ou seja, a primeira ideia de Newton veio de um conhecimento adquirido através do senso comum. Posteriormente, por meio de diversos experimentos, essa ideia inicial foi comprovada, e hoje faz parte dos conhecimentos científicos aos quais temos acesso. Fonte: docstockmedia, Shutterstock, 2017. License-524652-28270-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A psicologia e a sua relação com esses conhecimentos Agora que você estudou o que é senso comum e conhecimento científico, talvez esteja se perguntando: mas o que a Psicologia tem a ver com tudo isso? Bem, perceba que, assim como usamos alguns termos da Psicologia no senso comum, também encontramos explicação para diversos comportamentos psicológicos usando métodos científicos. Quer um exemplo? Você já percebeu que alguns termos da Psicologia são usados com vários sentidos em nosso cotidiano? Por exemplo, o uso do termo “histérica”, no senso comum, remete a uma pessoa, geralmente mulher, que está alterada, nervosa, exaltada. Note que, no senso comum, esse termo é normalmente atribuído a mulheres porque, inicialmente, acreditava-se que a histeria era uma doença nervosa que se originava no útero. Porém, no mundo científico da Psicologia, chegou-se à conclusão de que a histeria se trata de um tipo de personalidade, geralmente feminino, descoberto por Freud, pois as mulheres que ele atendia apresentavam sintomas físicos como forma de exteriorizar seus sintomas psíquicos. Senso comum CiênciaPsicologia Percebeu que muitos termos ligados à Psicologia entram em nosso cotidiano por meio da popularização e de um consenso estabelecido por meio do uso desses termos? License-524652-28270-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Veja que essa Psicologia não é aquela usada pelos psicólogos, nem mesmo aquela Psicologia transmitida nos ambientes acadêmicos.Trata-se apenas da apropriação dos termos psicológicos para o uso no cotidiano – ou seja, podemos tratá- la de Psicologia do Senso Comum. Porém, nem por isso ela deixa de ser Psicologia e de ser uma fonte de conhecimento, pois, com ela, conseguimos explicar e compreender diversos problemas que acontecem conosco, mas que não se tratam da Psicologia que é estudada pelos pesquisadores. A Psicologia possui termos usados no senso comum, mas que também encontram explicação em diversos comportamentos diagnosticados por métodos científicos. License-525724-28448-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Compreender a Psicologia como ciência Você deve se lembrar, da unidade anterior, que a ciência está presente em nossas vidas das mais diversas formas, com o objetivo de confirmar as teorias levantadas e proporcionar melhoras na condição de vida humana, por meio de experimentos e descobertas. Mas será que isso se aplica também à Psicologia? Claro! Com a psicologia não seria diferente, pois ela representa uma área do conhecimento que gera interesse há muito tempo, desde os mais antigos cientistas e pensadores. Esses estudiosos já faziam questionamentos sobre temas que, hoje em dia, são comuns no estudo da Psicologia, como a memória, o comportamento ou a aprendizagem, por exemplo. Mas há quanto tempo, exatamente, a Psicologia teve início enquanto ciência? Bem, embora esses temas dos quais acabamos de falar sejam estudados há muito tempo, a Psicologia Moderna teve início há pouco mais de 100 anos. Porém, ainda hoje há questionamentos relativos ao objeto de estudo da Psicologia e ao fato de essa forma de estudo poder ser considerada científica ou não. Que tal nos aprofundarmos mais nesse debate? Para isso, siga em frente! O objeto de estudo da Psicologia Conforme vimos estudando, o conhecimento científico possui algumas características próprias, dentre elas a existência de um objeto de estudo específico. Quer um exemplo? Então vamos lá! License-525724-28448-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Por exemplo, na Sociologia, estudamos a sociedade e a forma como ela se organiza; na Biologia, estudamos os seres vivos; área de Letras, estudamos as línguas e a forma como elas se transformam ao longo do tempo, com o uso que os falantes fazem dela. Essa classificação facilita os estudos acerca desses objetos de estudo, pois, com isso, é possível isolar os objetos e estudá-los profundamente. Vamos acompanhar um exemplo ainda mais detalhado? Pense em um cientista que estuda Botânica: ele foca no estudo das plantas, isolando-as de outros componentes e minimizando o risco de confundir esse estudo com outro fenômeno. Assim, ele se aprofunda no assunto e pode trazer contribuições para a sociedade por meio do uso das plantas. A figura abaixo mostra o trabalho de um cientista diante do seu objeto de estudo. Fonte: Leah-Anne Thompson, Shutterstock, 2017. Mas e a Psicologia que estuda o Homem, consegue isolar seu objeto de estudo? License-525724-28448-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Perceba que não, pois o Homem representa um objeto muito amplo e confuso, o que dificulta que se faça alguma divisão na tentativa de reduzi-lo ou isolá-lo. Por ser ainda uma disciplina tão recente, a Psicologia ainda não conseguiu definir e reduzir o seu objeto de estudo. Os diversos objetos de estudo da Psicologia A Psicologia Moderna, ou seja, a Psicologia dos dias atuais, é estudada sob o viés de diversas abordagens, sendo que cada uma delas apresenta um objeto de estudo diferente. Por exemplo, para a Psicologia Comportamental, o objeto é o comportamento humano; para a Psicanálise, é o estudo do inconsciente; e por aí transitamos em diversas fontes de estudos que abordaremos ao longo de nossos estudos. E quais seriam as explicações para que a Psicologia tenha tantos objetos diferentes? Bock et al. trazem duas supostas explicações para essa diversidade de objetos: a primeira explicação é referente ao fato de o estudo da Psicologia Moderna ser recente, não dando tempo de apresentar teorias definitivas que tratem com exatidão o objeto. Já a segunda teoria diz respeito ao fato de que o pesquisador desse campo também faz parte do objeto de estudo, o que faz com que os cientistas coloquem em seus estudos a sua visão de Homem e suas perspectivas, contrariando uma característica da ciência, que seria a ausência de emoções nos estudos. Tomemos como exemplo alguns autores da Filosofia que são usados na construção da Psicologia: para alguns deles, o Homem é bom, em sua essência, desde o nascimento; outros acreditam que o homem tenha características predefinidas desde o nascimento e que não mudam ao longo de suas interações; e há, ainda, outras correntes que afirmam que o homem é puramente uma construção social diante das suas experiências e escolhas, ou seja, seu caráter é definido com base nas relações que tem ao longo da vida. License-525724-28448-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Perceba que, por causa dessa complexidade e diversidade de interpretações, nos deparamos com um problema. Afinal, diante disso, vemos que a Psicologia, assim como outras ciências humanas, contraria alguns requisitos que a ciência impõe para a definição do conhecimento científico. As diferentes concepções de Homem representam uma forma distinta de abordar o objeto de estudo, o que, para muitos, afasta a Psicologia da ciência. Chegamos, então, ao questionamento que cerca esta Unidade de Aprendizagem: afinal de contas, a Psicologia é ou não é uma ciência? A solução para esse questionamento, na visão de BOCK et al, é a seguinte: o ideal é que adotemos a definição não de uma Psicologia formada e concluída, mas de Ciências Psicológicas que estão em desenvolvimento. Na figura a seguir são relacionadas diversas abordagens que são objeto de estudos da Psicologia. Ciências Psicológicas Humanismo Comportamental Psicanálise Gestalt Cognitivista Fenomenologia License-525724-28448-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A subjetividade como um grande objeto de estudo Como temos estudado, a Psicologia se diferencia das outras áreas de estudos justamente por considerar as especificidades do Homem e fazer disso sua a matéria de estudo e trabalho, construindo maneiras de contribuir para a qualidade de vida humana. Toda essa dificuldade que temos enfrentado para conceituar e reduzir o objeto de estudo da Psicologia está relacionada ao estudo da subjetividade, ou seja, a essa forma particular e única de se compreender o ser humano. Clique na figura para assistir ao vídeo Mas o que é essa tal de subjetividade? Para BOCK et al, a subjetividade é a reunião das nossas experiências individuais, que vamos adquirindo ao longo da vida e que constroem aquilo que nos identifica. São características que são únicas para cada um de nós, mas que ao mesmo tempo nos igualam com as outras pessoas que têm vivências parecidas com as nossas. License-525724-28448-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Ainda não ficou claro? Em outras palavras, a subjetividade trata das características que nos tornam únicos e que constituem nosso modo de ser e nossas escolhas, como indicado na figura a seguir. Fonte: Lightspring, Shutterstock, 2017. Por exemplo, ao conhecermos uma pessoa flamenguista, vegetariana, que gosta de rock e pratica natação, estamos falando de características particulares dessa pessoa, que fazem com que a sua vivência seja singular. Você concorda, então, que temos um grande paradoxo em torno da subjetividade? Afinal, as características que carregamos conosco nos constroem e nos fazem tomar posicionamentos diante da sociedade, mas também fazem com que possamos License-525724-28448-0-6 PSICOLOGIA APLICADA promover novas formas de subjetividade, recusando a estagnação e moldando a construção da sociedade. Temos como exemplo disso posições que, atualmente, são popularmente discutidas, como a regulamentação da maconha para uso medicinal: há pessoas que defendem esse tema; e há outras que são contrárias.Essas posições, no futuro, certamente influenciarão as decisões que serão tomadas quanto ao uso da substância. Perceba que o destaque vermelho da figura a seguir bem representa a subjetividade que torna cada ser humano único no universo. Fonte: Robert Kneschke, Shutterstock, 2017. Vale lembrar que a subjetividade não é inata, mas socialmente construída através das vivências, escolhas e experiências do indivíduo ao longo da vida. License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA História da Psicologia Todos nós temos uma história que vai se construindo ao longo de nossas vidas, não é mesmo? Então, é o conjunto de histórias individuais e coletivas que forma a História da humanidade, aquela que, quando entramos na escola, começamos a estudar. Por meio desses estudos, entendemos o percurso de diversos objetos (por exemplo, como o telefone foi inventado e como evoluiu até hoje, possibilitando o uso da internet) e pessoas na História, além de entender como os fatos aconteceram. Mas qual será a importância de estudar História? Ora, o estudo da história de alguma coisa ou de algum fato é essencial para entendermos o presente e evitarmos repetir os erros do passado, além de ser um guia para o futuro. Pense, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial. Entender seu contexto, o que inclui estudar o nazismo, é fundamental para refletirmos sobre a perversidade dos campos de concentração nazistas e evitarmos que novos massacres como aqueles aconteçam. Logo, ao pensarmos em qualquer fato da atualidade, chegaremos à conclusão de que é impossível entendê-lo sem conhecer minimamente a sua história. Quer um exemplo? Reflita sobre as atuais políticas de cotas raciais, que permitem o ingresso de grupos antes excluídos das universidades públicas. Por que essas pessoas tinham pouco acesso a esses locais? Por que se decidiu criar essa política de inclusão? Pois bem, recentemente, no Brasil, percebeu-se que havia poucos negros e pardos estudando em universidades públicas. Isso foi fruto, em grande parte, da exclusão social desencadeada, há muito tempo, pela libertação dos escravos, pois esse grupo recebeu a liberdade, mas ela não veio, em geral, acompanhada de acesso à educação, moradia e outras condições dignas de vida. Assim, esse grupo acabou sendo privado de muitos direitos básicos, o que inclui a educação pública de ensino superior. Para amenizar essa “dívida” que a sociedade tem com os negros e pardos, foram criadas as ações afirmativas, também conhecidas como política de cotas. E será que isso também se aplica à Psicologia? License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA A resposta para essa pergunta é sim. Com a Psicologia, não seria diferente, pois essa área de estudo também possui uma história que a fez chegar à sua atual situação (GOODWIN, 2005). Quer entender melhor como isso aconteceu? Então siga atento (a)! A figura a seguir, por exemplo, aponta sinaliza os primeiros passos dos estudos realizados pelos humanos. Fonte: valzan, Shutterstock, 2017. Os primeiros filósofos Iniciaremos nosso percurso pela história da Psicologia com uma curiosidade interessante: apesar de ser uma das áreas que instiga os pensadores há muito tempo, faz pouco mais de 100 anos que a Psicologia foi considerada ciência e estudada como tal. Porém, conforme acabamos de comentar, desde os primeiros filósofos são levantados questionamentos referentes à con- strução do pensamento humano. Perceba que isso se inicia na Antiguidade, com os gregos e o surgimento da Filosofia. Esses License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA filósofos gregos foram os primeiros a tentar sistematizar uma Psicologia, pois até mesmo o termo “psicologia” se origina do grego: psyché = alma; e logos = razão. Portanto, para os gregos, a Psicologia seria o “estudo da alma”. Mas quem são esses tais primeiros filósofos da humanidade? Dentre os mais influentes da História, podemos citar Sócrates, Platão e Aristóteles. Vamos conhecer cada um deles? Começaremos por Sócrates (469-399 a.C.), o primeiro filósofo que apresenta preocupações relativas ao estudo da alma. Seu principal questionamento girava em torno daquilo que diferenciava nós, Homens, dos animais. Assim, Sócrates afirmava que a principal característica humana seria a razão, e era através dela que o homem conseguia superar a irracionalidade. Depois de Sócrates, temos Platão (427-347 a.C.), um seguidor das ideias de Sócrates que aprofundou o tema do estudo da alma: para ele, a alma seria separada do corpo, estando situada na apenas na cabeça. Esse filósofo ainda afirmava que, quando o homem morria, a matéria desaparecia, mas a alma estaria livre para ocupar outro corpo. Fonte: Anastasios71, Sshutterstock, 2017. License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Posteriormente, seguindo a ordem da História, viveu Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão. Além de ser um dos mais importantes filósofos da História, trouxe contribuições inovadoras: segundo ele, a alma e o corpo não poderiam ser separados, sendo a psyché (atualmente entendida como mente) o princípio que move toda a vida. A teoria platônica acreditava na alma imortal e separada do corpo; e a aristotélica, na mortalidade da alma e no seu pertencimento ao corpo. Clique na figura para assistir ao vídeo Descartes e o surgimento da Psicologia Científica Continuando nossa trajetória pela história da Psicologia, chegamos, agora, à era do Renascimento, época de diversas transformações na sociedade, como a descoberta das novas terras da América, o desenvolvimento de diversas áreas do conhecimento e o estabelecimento das primeiras regras para a construção do conhecimento científico. E qual foi o pensador que melhor representava o pensamento dessa época? License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Foi René Descartes (1596 – 1659), um dos pensadores que mais contribuiu para o avanço da ciência. Com sua célebre frase “Penso, logo existo”, fez uma cisão entre mente e corpo, afirmando que o corpo seria apenas uma máquina que só funcionaria ao acionar uma substância pensante, chamada de alma pelos outros filósofos (BOCK et al., 2007; GOODWIN, 2005). Segundo ele, por causa dessa distinção entre corpo e mente, os animais seriam criaturas puras sem a alma, e os seres humanos possuíam essa mente racional que possibilitava que o corpo funcionasse (Goodwin, 2005). Por esse motivo, Descartes era um racionalista, ou seja, ele acreditava que o conhecimento passava pelo uso sistemático do raciocínio. A figura, a seguir, indica o pensamento de René Descartes. Penso logo Existo Que tal avançarmos mais um pouco em nossa linha do tempo? Ao chegarmos ao século XIX, a ciência já estava avançando aceleradamente, e o capitalismo crescia como nova ordem econômica. Mas o que isso tem a ver com Descartes? License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Perceba que grande parte do avanço científico está embasado na ideia de separação entre corpo e mente. Afinal, foi a partir dessa separação que foi possível iniciar os primeiros experimentos com corpos humanos, o que possibilitou o avanço da medicina e da ciência como um todo. E qual a relação disso com o capitalismo? Bem, com o advento do capitalismo, a ciência precisa oferecer respostas e soluções práticas para os questionamentos e problemas que atormentam a sociedade. Além disso, os Homens passam a ser consumidores, ou seja, eles passam a adquirir mercadorias por meio do dinheiro – e a ciência, claro, também se torna uma dessas mercadorias. Nesse contexto, os saberes religiosos começam a ser contestados, causando a separação entre conhecimento e fé. Portanto, a racionalidade começa a andar atrelada com a ciência, libertando- se de dogmas religiosos ou da própria autoridade da igreja, que durante muito tempo proibiu o estudo do corpo humano, por exemplo. Nesse contexto e ainda hoje, o conhecimento científico se torna sinônimo de verdade. Para o conhecimento ser consistente,é necessário um aval da ciência. E qual é a relação disso tudo com a Psicologia? Perceba que a Psicologia que até então era estudada somente pelos filósofos passa a interessar, também, cientistas da área da Fisiologia e Neurofisiologia, que começam a se interessar pelo funcionamento do sistema nervoso e pela forma como aconteciam fenômenos como o pensamento, os sentimentos, as percepções, etc. (BOCK et al., 2007), a exemplo do que se sinaliza na figura abaixo. License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Andrey_Kuzmin, Shutterstock, 2017. Graças a isso, a Psicologia começa a avançar não somente na área filosófica que procurava entender o homem, mas também na área de Neuroanatomia, que começava a fazer descobertas do funcionamento cerebral e a explicar a razão de várias disfunções, como as doenças mentais. A Psicologia Moderna Com todo esse avanço e com as possibilidades de estudos que surgiram, chegamos ao início da Psicologia Moderna, que se iniciou com a criação do primeiro laboratório para realizar experimentos, criado por Wilhelm Wundt (1832-1926), na Alemanha. Mas quais foram os estudos desenvolvidos por Wundt? É importante que você saiba que Wundt iniciou os estudos que procuravam entender o paralelismo psicofísico, que significa que, License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA para cada fenômeno físico, há um fenômeno mental equivalente. Por exemplo, ao estimular a pele com uma picada de agulha, haveria uma estimulação correspondente na mente do indivíduo, para que ele sinta a picada. Além disso, Wundt apresenta o introspeccionismo, que estuda os caminhos percorridos em virtude dessa estimulação sensorial (Bock et al., 2007), como se observa na figura a seguir. Fonte: Istvan Csak, Shutterstock, 2017. Essa nova proposta de Psicologia também foi estudada por outros dois importantes pesquisadores, também na Alemanha: Gustav Fechner (1801-1887) e Ernst Weber (1795-1878), que criaram a Lei Fechner-Weber. Esse estudo estabelece uma mensuração entre a relação estímulo x sensação. Segundo esses estudiosos, a percepção aumentaria em progressão aritmética; e o estímulo, em progressão geométrica. Ainda não ficou claro? Em outras palavras, esse estudo conclui que a diferença entre o que sentimos quando uma lâmpada de 100W é aumentada para 110W é a mesma de um aumento de 1000W para 1100W. License-519790-81766-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Mas por que esse estudo é tão importante para nós? Pois foi a partir desse momento que a Psicologia começou a ser vista com o status de ciência e se tornou independente da Filosofia. Assim, a distinção entre a Psicologia Moderna e os pensadores que a antecederam está principalmente nas técnicas usadas e na forma com que abordam a natureza humana (SHULTZ; SHULTZ, 2002). Perceba que, com o surgimento dessa Psicologia Científica, são estabelecidos alguns padrões para a produção do conhecimento na área, tais como: a definição de um objeto de estudo; a criação de um método para estudo desse objeto; e a formulação de teorias que devem obedecer aos critérios da ciência (Bock et al., 2007). Lembre-se de que os requisitos do conhecimento científico são: a neutralidade, a comprovação e a continuidade para novas pesquisas. Note que toda essa expansão da Psicologia proporcionou avanços não somente em termos de pesquisas, mas também na forma como ela interfere em nossas vidas. Certamente, em diversos momentos da sua vida, você já teve contato com o trabalho dos psicólogos, independentemente da abordagem usada. License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Primeiras Escolas da Psicologia Conforme vimos estudando, embora as raízes da Psicologia estejam ligadas aos grandes filósofos da Grécia Antiga (que já se interessavam pelo estudo da mente e do corpo), a Psicologia só ganhou status de ciência no final do séc. XIX, com a criação do primeiro laboratório psicológico na Universidade de Leipzig, na Alemanha, por Wilhelm Wundt. Mas você sabia que, apesar de a Psicologia científica ter nascido na Alemanha, é nos Estados Unidos da América (EUA) que ela encontra campo para crescer? Sim, é nesse país que surgem as primeiras escolas em Psicologia, que deram origem às inúmeras teorias que existem hoje. Vamos conhecer um pouco mais sobre essas abordagens? Siga com atenção! A Psicologia Científica e o Pai da Psicologia Moderna Recordando um pouco o que temos estudado, a fim de retomarmos nossa linha do tempo da história da Psicologia científica, podemos dizer que esta nasce com os novos métodos científicos de Wundt, no século XIX. E qual era a linha de pensamento que guiava as pesquisas de Wundt? Wundt acreditava na introspecção, ou seja, acreditava que a percepção interna poderia fornecer todos os dados básicos para o estudo da Psicologia, pois o foco dos seus estudos encontrava- se dentro do observador, ou seja, na sua experiência consciente. Além disso, esse estudioso afirmava que as duas formas básicas de experiência eram a sensação e os sentimentos. Falamos um pouco sobre isso na Unidade de Aprendizagem 3, na qual trouxemos o exemplo da pele sendo estimulada por meio de uma picada de agulha. A figura, a seguir, retrata a autoanálise da mente por meio da introspecção humana. License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Jurgen Ziewe, Shutterstock, 2017. Wundt definiu a introspecção como a autoanálise da mente, ou seja, uma forma de descrever os pensamentos ou os sentimentos pessoais. Mas será que os trabalhos de Wundt se resumem ao introspeccionismo? A resposta para essa pergunta é não: outras teorias e estudos foram desenvolvidos por ele, conforme você pode acompanhar no quadro a seguir. License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Atividade Descrição Aplicação/Resultado Trabalho com o metrônomo: Teoria tridimensional do sentimento Ao trabalhar com o metrônomo (um aparelho que pode ser programado para produzir cliques que podem ser ouvidos em intervalos de tempo regulares), Wundt notou que alguns padrões despertavam mais prazer e sensações agradáveis do que outros. Com isso, Wundt criou a teoria tridimensional do sentimento, que diz que os estados de sentimento são baseados em três dimensões: prazer e desprazer; tensão e relaxamento; e excitação e depressão. Percepção do mundo real: Apercepção É o processo em que os elementos mentais são organizados: a totalidade não é a soma das partes. Ou seja, uma experiência sensorial pode ter várias sensações experimentadas por diferentes sujeitos. Por exemplo: ao vermos uma árvore, nossa experiência visual vai abranger a árvore inteira, e não partes dela, a partir das nossas experiências pessoais, emocionais e do nosso conhecimento de ideal e mundo. Fonte: Adaptado de BOCK, 2007; SCHULTZ,2013. Fonte: Shutterstock, 2017. Agora vamos conhecer um pouco das escolas que vieram depois de Wundt, pode ser? Siga em frente! License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA As primeiras escolas da Psicologia e suas características Neste momento, talvez você esteja se perguntando como a Psicologia científica se desenvolveu depois de Wundt, não é verdade? Perceba que é a consolidação dos métodos científicos e seu crescente desenvolvimento investigativo nos EUA que possibilitaram o surgimento das primeiras escolas ou abordagens da Psicologia. Que tal conhecer um pouco mais dessas escolas? Vamos lá! Começaremos pelo Funcionalismo, de William James (1842-1910). Essa escola pertencia a uma época marcada pela exigência do pragmatismo, para o desenvolvimento econômico do final do séc. XIX e início do séc. XX, nos EUA. Mas o que é esse tal de pragmatismo? Bem, na Psicologia, o pragmatismo é uma doutrina que valida uma ideia ou um conceito a partir da análise consciente das consequências práticas visando a uma sociedade eficiente e produtiva, na busca por avanços científicos e tecnológicos. Para dar um exemplo simples e atual, reflita sobre a seguinte pergunta:qual é a importância do método científico para a Psicologia? O pragmatista irá questionar se a utilização desse método irá trazer efeitos práticos positivos, se ajudará na solução de casos de pacientes e na aplicação de técnicas. Caso não provoque nenhuma mudança, não terá sentido, ou seja, nenhum significado. Isso explica por que a consciência era o centro das preocupações, pois, ao compreender o funcionamento dessa consciência, o homem poderia utilizá-la melhor em suas atividades cotidianas. Isso permitiu aos EUA, nessa época, expandir seu crescimento industrial e econômico, sua pesquisa de ponta e explorar uma cultura que exigia um pensamento ágil, experimental e prático, capaz de prever resultados e consequências. Ou seja, buscava- se uma filosofia voltada para a experimentação e para a ciência, novas formas de produção capitalista, conforme bem ilustra a figura a seguir. License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: alphaspirit, Shutterstock, 2017. E você sabia que o interesse pelo estudo da consciência surgiu da adaptação da publicação da teoria da evolução de Charles Darwin? Sim, foi a partir da teoria de que as espécies se transformavam a partir de uma seleção natural (ou seja, os organismos que melhor se adaptavam a um meio poderiam sobreviver e, com isso, repassar essas mudanças a seus descendentes) que alguns pesquisadores argumentaram que a consciência havia evoluído porque servia com algum propósito na orientação das atividades do indivíduo. Na prática, os pensadores trouxeram os conceitos de evolução e adaptação para a compreensão das civilizações: o chamado darwinismo social, que acreditava que algumas sociedades e civilizações eram dotadas de valores que as tornavam superiores às demais. Essas ideias foram bem aceitas nos EUA, no final do séc. XIX, marcado pelo crescimento econômico e pelo interesse que esse país tinha em se tornar uma hegemonia mundial. License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Podemos partir para a próxima escola? Agora vamos falar sobre o Estruturalismo, cujo fundador, Titchener (1867-1927) estava preocupado em compreender a consciência a partir da análise das estruturas mentais, ou seja, de partes que juntas criavam experiências complexas. Para ele, o objeto de estudo da Psicologia é a experiência consciente ligada ao indivíduo que a vivencia. Sua proposta de estudo era a abordagem experimental para a observação introspectiva na Psicologia, com rigorosas normas, baseando-se em estímulos e observações extensas de suas experiências. Para ele, quanto mais repetições fossem observadas, maior sua percepção. Quer um exemplo? Quando uma palavra era falada em voz alta, Titchener pedia que fosse observado o efeito desse estímulo sobre a consciência, como: ideias que vinham à mente, o efeito desse estímulo à consciência e como essa palavra afetava a pessoa. Titchener cita, ainda, o seguinte exemplo da Física: imagine que uma sala pode estar com uma temperatura de 30ºC, independentemente de ter ou não uma pessoa para sentir essa temperatura. Mas e se houver pessoas que sintam calor? Perceba que essas pessoas podem sentir um calor desconfortável, o que poderá gerar sensações de mal-estar, enjoos, tonturas e estresse. São essas experiências relatadas e vivenciadas de maneira consciente que interessam para a pesquisa psicológica dos estruturalistas. A figura a seguir, bem representa o foco dos estruturalistas. License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: pathdoc, Shutterstock, 2017. Então, agora que estudamos o mecanismo do Estruturalismo, vamos para a terceira e última escola: o Associacionismo. Você concorda com a afirmação de que, para aprender um conteúdo complexo, a pessoa precisa aprender primeiro um conteúdo mais simples, que estaria associado àquele conteúdo? Se sim, você segue a linha do Associacionismo, de Thorndike. É dessa concepção de associar conteúdos simples e complexos que surge o termo associacionismo. Mas será que essa foi a única contribuição de Thorndike para essa escola? Não: segundo Bock, outra contribuição de Thorndike foi a Lei do Efeito. Mas do que trata essa lei? License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA Para explicar a Lei do Efeito, Thorndike criou as caixas-problema para estudar como os animais aprendem. As caixas eram fechadas e continham uma pequena alavanca que, quando pressionadas, permitiam que o animal escapasse. Cada vez que a alavanca era acionada, os animais (gatos) ganhavam um pedaço de carne (recompensa), e a porta se abriria. Como o resultado de pressionar a alavanca era favorável, os gatos eram mais propensos a repetir o comportamento no futuro. Que tal acompanhar um resumo sobre as escolas que acabamos de estudar? Para isso, tenha atenção ao quadro a seguir. Escola/Fundador Características Funcionalismo William James (1942-1910) Foi considerada a primeira escola genuinamente americana de conhecimentos em Psicologia do século XIX. Importava responder às seguintes perguntas: “o que fazem os homens?” e “por que o fazem?”. Estruturalismo Edward Titchener (1867-1927) Preocupava-se com o mesmo fenômeno que o Funcionalismo: a consciência. Mas, diferentemente de William James, E. B. Titchener iria estudá-la como estruturas do sistema nervoso central. Seu objeto era a experiência consciente como elemento dependente do indivíduo que a vivencia. Associacionismo Edward L. Thorndike (1874-1927) É considerada a primeira teoria de aprendizagem na Psicologia. Surgiu a partir da compreensão e aceitação de que a aprendizagem se dá por um processo de associação das ideias, ou seja, das mais simples às mais complexas. Fonte: BOCK, 2007. A importância dos Estudos das Primeiras Escolas Você percebeu que a Psicologia passou por várias fases até chegar ao arcabouço de teorias e abordagens que temos hoje, não é verdade? E, para chegar a esse patamar, muitas pessoas, em épocas diferentes, precisaram participar desse processo, que continua em desenvolvimento. Quer dizer, então que surgiram e ainda surgirão novas abordagens? Isso mesmo! E, para que você possa compreender de que forma surgem as novas abordagens da Psicologia, precisa entender que cada nova construção está ligada a um determinado momento histórico. Dessa forma, fica mais fácil acompanhar License-511501-28454-0-8 PSICOLOGIA APLICADA essa incessante busca do homem em compreender a si mesmo. Para entender melhor tudo isso, assista à animação a seguir. Clique na figura para assistir ao vídeo A história permite diferenciar o conhecimento científico do senso comum, o que nos ajuda a entender o surgimento de novas abordagens e sua aplicação. O que achou dos nossos estudos até aqui? Aprendemos várias teorias, não é mesmo? E elas são muito importantes, pois foram precursoras das três teorias psicológicas do desenvolvimento e aprendizagem que iremos estudar na próxima Unidade de Aprendizagem: o Behaviorismo, a Gestalt e a Teoria de Campo- insight de Kurt Lewin. Até lá! License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA O Behaviorismo e a Gestalt Começaremos nossos estudos com duas importantes escolas da Psicologia: o Behaviorismo e a Gestalt. Ambas possuem o mesmo objeto de estudo: o comportamento, porém, discordam na maneira como abordam esse tema. Os Behavioristas consideram o comportamento de maneira mais isolada, já a Gestalt analisa condições mais globais, que poderiam alterar a percepção do indivíduo. Vamos entender melhor? Siga com atenção! Behaviorismo: o estudo do comportamento Você sabia que o termo Behaviorismo vem da palavra inglesa behavior, que significa comportamento? Pois é, essa teoria foi criada pelo americano John B. Watson, em 1913, em seu famoso artigo “Psicologia: como os behavioristas a veem”, que dizia que nossos comportamentos são resultados dos estímulos que recebemos do meio ambiente em que vivemos. Em outras palavras, para cada acontecimento que recebemos, iremos apresentaruma reação, uma resposta, e essa resposta, poderia ser treinada, ou seja, condicionada. Além disso, Watson buscava a construção de uma Psicologia sem alma e sem mente, livre de conceitos mentalistas e de métodos subjetivos e que tivesse a capacidade de prever e controlar. Para Watson, as crianças poderiam ser formadas em um ambiente controlado e a partir dos estímulos fornecidos a elas, o que poderia torná-las especialistas na área que ele quisesse: de médico a artista, independentemente de cor, raça ou crença. Mas será que existe algum termo em português para nomear essa escola? Sim! O Behaviorismo também é conhecido por Teoria Comportamental, Comportamentalismo ou Análise Experimental do Comportamento. Behaviorismo, Comportamentalismo, Teoria Comportamental ou Análise Experimental do Comportamento é a ciência da Psicologia que estuda o comportamento. License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA E existiu algum outro estudioso importante para essa teoria além de Watson? A resposta para essa pergunta é sim: outro nome importante do Behaviorismo foi o de Burrhus Frederic Skinner, um dos mais importantes sucessores de Watson. Ele criou, na década de 1940, o Behaviorismo Radical, em oposição ao Behaviorismo de Watson. Vamos conferir algumas características dessas linhas de pensamento no quadro a seguir? Teórico Escola Características J. B. Watson Behaviorismo Metodológico Bastante difundida nos EUA, tem a capacidade de prever e controlar os hábitos dos organismos. Watson ignorava os estados mentais como objetos de estudo para explicar o comportamento. Além disso, desenvolveu experimentos em laboratórios. Por exemplo, qualquer pessoa pode ser treinada para agir de uma maneira particular. J.F. Skinner Behaviorismo Radical Possui influência no Brasil e em vários países onde a Psicologia americana tem grande relevância. Os estímulos são dados aos indivíduos pelo meio ambiente. É de Skinner a criação do termo Comportamento Operante. Por exemplo: se uma empresa der um aumento de salário pelo bom desempenho de seus colaboradores, a tendência é que eles continuem a desempenhar bem seu trabalho. É dele também o Comportamento Respondente, o qual chamamos de comportamento reflexo, involuntário ou inato. Fonte: Adaptado de BOCK, 2007. Agora que introduzimos nossos estudos sobre o Behaviorismo, vamos conhecer alguns dos termos mais utilizados por essa teoria? Preste atenção, pois esses conceitos irão te ajudar a compreender a aplicação do Behaviorismo no seu dia a dia. Siga em frente! Behaviorismo: compreendendo alguns conceitos Estamos estudando que o Behaviorismo se baseia no comportamento para formular suas teorias, não é mesmo? Mas será que existe apenas um tipo de comportamento? Não: temos o comportamento respondente e o operante, descritos por Skinner. License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA Começaremos pelo comportamento respondente, que é o comportamento reflexo, involuntário ou inato. E como podemos identificar esse tipo de comportamento? Bem, o comportamento respondente ocorre quando uma mudança no meio ambiente provoca uma reação (independentemente de aprendizagem). Em outras palavras, o Behaviorismo estuda as interações em que, para cada estímulo emitido pelo ambiente (S), haverá uma resposta, um comportamento do indivíduo (R), a exemplo do que se ilustra na figura a seguir. Estímulo (S) Resposta (R) Luz forte sobre os olhos Contração da pupila Ainda não ficou claro? Que tal acompanharmos um exemplo? Você já percebeu que, quando uma luz forte incide sobre os seus olhos, suas pupilas se contraem? Então, isso acontece porque um estímulo (luz forte) gerou uma resposta (pupila contraída). E o comportamento respondente se resume a isso? Não, pois, além do estímulo e da resposta, temos o reflexo, que representa a relação entre estímulo (S) e resposta (R), ou seja, entre o organismo e o seu ambiente. Perceba que as respostas são as mudanças estimuladas em nosso organismo por meio de mudanças no ambiente. A essa relação damos o nome de reflexo. Por exemplo: uma martelada no joelho (S) causa uma flexão na perna (R). Note que, antes do estímulo o joelho estava imóvel, mas, após a martelada (S), o joelho apresentou uma resposta (R): um movimento de flexão na perna. E quanto ao comportamento operante, do que se trata? O comportamento operante está presente na maioria das interações, produzindo consequências no ambiente e sendo afetado por elas. Ou seja, aquele comportamento que produz consequências no ambiente e é afetado por elas. Assim, podemos entender que a relação de aprendizagem ocorre quando um License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA comportamento, também chamado de resposta (R), produz consequências (C) diante desse comportamento. E por que é importante entender esse tipo de comportamento? Porque, a partir dele, compreendemos como aprendemos as nossas habilidades e conhecimentos, como falar, ler e escrever, ou até mesmo a compreensão da nossa personalidade. Acompanhe como isso se processa na figura a seguir. Dizer "Oi" Girar uma Torneira Estudar COMPORTAMENTO (R -resposta) Ouvir um "Olá" Obter Água Tirar boas notas CONSEQUÊNCIA (C) Quer mais um exemplo? Pense em uma criança que pede um doce e tem seu pedido negado pelos pais. Na primeira negativa que a criança recebe dos pais, ela chora. Por causa disso, os pais acabam cedendo e compram um doce para o filho. Perceba que o fato de a criança conseguir o doce é uma consequência da birra que ela fez. Aqui, portanto, temos um reforço positivo, pois a probabilidade de a criança conseguir um doce (resposta) no futuro aumentou, visto que os pais removeram algo indesejável, ou seja, o choro e a birra da criança. Nesse caso, houve um reforço positivo porque o comportamento de chorar foi reforçado pela adição de um estímulo satisfatório (a criança foi recompensada com o doce), conforme se representa na figura a seguir. License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Aaron Amat, Shutterstock, 2017. Mas existe também outro tipo de reforço: o reforço negativo, que ocorre quando há a remoção de um estímulo que pode ser aversivo ao ambiente. Em outras palavras, reforços negativos são comportamentos que produzem a supressão ou o cancelamento de estímulos reforçadores. Por exemplo: digamos que você more com seus pais e decida limpar a bagunça no seu quarto (comportamento) para evitar de entrar em uma briga com eles (é a remoção do estímulo aversivo), ou seja, você suprime o estímulo aversivo que é a briga com seus pais. Interessante, não? Outro termo importante que você deve conhecer é conceito de punição, que significa apresentar ou retirar um estímulo para enfraquecer um comportamento. Mas atenção: quando usamos o termo punição, dizemos que diminuímos ou extinguimos a frequência de um comportamento e não que estamos implantando um sofrimento em alguém. Por exemplo: considere que você mora com seus pais e sempre lava os pratos após as refeições. Porém, um dia você sai de casa e deixa a pia suja com os pratos sem lavar e sem avisar ninguém. Como resultado, seus pais podem atribuir uma tarefa extra: além License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA de te fazer lavar a louça, também podem pedir para você secá- la e guardá-la, como punição para que o comportamento não tenda a ocorrer novamente. Vamos conhecer mais um importante termo do Behaviorismo? Por fim, temos outro importante termo: a extinção, que, na Psicologia, significa o enfraquecimento de uma resposta condicionada que irá resultar na diminuição ou no desaparecimento do comportamento. Em outras palavras, o comportamento condicionado deixa de acontecer, ou seja, é extinto. Que tal acompanharmos um exemplo sobre a extinção? Pense em um rato treinado em laboratório. Suponha que você esteja treinando um rato de laboratório para pressionar uma barra, a fim de receber alimento. Assim, se toda vez que a barra forpressionada ele receber o alimento, esse comportamento tenderá a se repetir, certo? Mas, se você deixar de entregar a comida, a extinção não ocorrerá imediatamente, só irá acontecer após algum tempo. Ou seja, se o rato continuar pressionando a barra e não receber o alimento, o comportamento irá diminuir até desaparecer por completo. Comportamento Respondente: o meio (S) produz resposta no organismo (R). Comportamento Operante: organismo emite uma resposta(R) e altera o ambiente(S). Agora que conhecemos o Behaviorismo, que tal partirmos para outra importante Escola da Psicologia? Conheça, agora, a Gestalt. A Psicologia da Gestalt e o estudo da Percepção À medida que o Behaviorismo se fortalecia nos EUA, surgia, na Alemanha, outra teoria: a Gestalt, por volta do ano de 1912. Mas qual seria o significado da palavra Gestalt? License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA Gestalt é uma palavra de origem alemã e de difícil tradução. O termo que mais se aproxima do português e que é encontrado em livros de Psicologia é “forma” ou “configuração”. E existem diferenças entre a Gestalt e o Behaviorismo, escola que acabamos de estudar? Sim. Perceba que, embora tanto a Gestalt quanto o Behaviorismo entendam que o estudo da Psicologia se refere ao comportamento, há diferenças na compreensão desse estudo. O Behaviorismo, por ser mais objetivo, estuda o comportamento a partir da relação estímulo-resposta. Já a Gestalt irá criticar essa abordagem, pois considera o comportamento num contexto mais amplo, podendo perder seu significado se estudado de maneira isolada. Assim, para a Gestalt, o comportamento deve ser estudado nos seus aspectos mais globais, levando em consideração as condições que alteram a percepção do estímulo. Para conhecer um pouco melhor as diferenças entre essas teorias, assista à animação a seguir. Clique na figura para assistir ao vídeo License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA E quais foram os criadores dessa abordagem psicológica? A Gestalt teve como fundadores Max Wertheimer, Kurt Koffka e Wolfang Köhler, que se interessavam pela percepção. Eles acreditavam que existe mais percepção do que os nossos olhos podem ver, ou seja, a percepção vai muito além dos elementos sensoriais, dos dados físicos demonstrados pelos nossos órgãos dos sentidos. O estudo da percepção é o ponto de partida e um dos temas centrais dessa teoria. Além disso, a Gestalt compreende o homem como uma totalidade. O que você acha de entendermos melhor essa teoria por meio de um exemplo? Para isso, acompanhe a imagem a seguir. Fonte: Vitaliy Snitovets, Shutterstock, 2017. Se você observou bem a imagem, deve ter percebido dois dados, e não apenas duas figuras inclinadas. Isso quer dizer que o que vemos, na verdade, está relacionado ao fundo contra o qual esses dados estão colocados. Traduzindo: o todo é diferente da soma de suas partes, pois ele depende da soma das relações entre as partes. Assim, ao olharmos a figura, vemos a forma de dados na sua totalidade, independentemente de demais estímulos, como os pontos pretos. License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA Perceba que esse exemplo ainda irá te ajudar a entender outro termo bastante utilizado pela Gestalt, que é a palavra insight e sua aplicabilidade em nosso cotidiano. Para melhor entender esse conceito, pense na seguinte situação: já aconteceu de você olhar para uma figura que não tem sentido ou para uma situação-problema, e, de repente, sem que você tenha feito nenhum esforço, a relação figura-fundo elucida-se? Observe o exemplo contido na figura que segue. Fonte: ImageFlow, Shutterstock, 2017. A esse fenômeno a Gestalt dá o nome de insight. Esse termo significa uma compreensão imediata, ou seja, uma espécie de “entendimento interno”. Isso significa dizer que nem sempre as situações vividas por nós apresentam-se da forma como percebemos imediatamente. Isso implica na dificuldade do processo de aprendizagem, porque não compreendemos de forma clara uma definição da figura-fundo, impedindo o entendimento da mensagem como um todo. Provavelmente, você já deve ter usado ou ouvido a expressão “Tive um insight”, não é mesmo? Caso desconheça essa frase, saiba que ela é bastante utilizada quando solucionamos um License-391254-28468-0-9 PSICOLOGIA APLICADA problema sem ter feito um grande esforço. Essa compreensão imediata, esse entendimento interno recebe o nome insight. Mas, além de tudo o que vimos até aqui, existe mais algum termo importante para a Gestalt? Sim! Outro importante termo é o da Boa Forma, ou seja, as condições necessárias para a compreensão do comportamento humano. Em outras palavras, é a maneira como percebemos um determinado estímulo que irá desencadear nosso comportamento. Quer um exemplo? Pense, então, quantas vezes já aconteceu de você cumprimentar uma pessoa e, ao chegar perto dela, perceber que era uma desconhecida? Isso ocorreu porque a sua percepção do estímulo (da pessoa desconhecida), em determinadas condições ambientais, foi mediatizada pela forma como você interpretou o conteúdo percebido (BOCK, 2007). Note que, quando há um erro de percepção, isso nos leva a cumprimentar um desconhecido, pois pensamos estar cumprimentando um amigo ou conhecido. Para que se atinja a boa forma, o elemento que buscamos compreender deve ser apresentado em aspectos básicos, que permitam a sua decodificação, ou seja, a percepção da boa-forma. E então, o que achou da Gestalt? Pronto (a) para conhecer outra escola psicológica? Vamos agora conhecer outra importante abordagem. Você já ouviu falar da Teoria de Campo-insight de Kurt Lewin? Essa teoria explica que o comportamento de um indivíduo é baseado em seu campo de influências sociais, como família, trabalho, religião, amigos, sendo a base para o estudo de toda a sua teoria. Vamos lá? License-391254-80138-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Teoria Campo-insight de Kurt Lewin A partir de agora, vamos conhecer um pouco da teoria de Kurt Lewin e sua importante contribuição para o estudo dos grupos humanos e suas relações. Esse autor, considerado o fundador da Psicologia social, acreditava que sua pesquisa deveria contribuir para a melhora da sociedade. Essa pesquisa também era chamada de “pesquisa-ação” devido ao seu caráter social. Vamos conhecer tudo isso e muito mais? Siga com atenção! A Teoria de Campo-insight de Kurt Lewin Iniciaremos nossos estudos sobre a Teoria de Campo-insight falando sobre Kurt Lewin (1890-1947), que trabalhou com os psicólogos da Gestalt durante dez anos na Universidade de Berlim. Isso mesmo, foi a partir disso que surgiu a sua Teoria de Campo. Isso quer dizer que Lewin era um gestaltista? Não! Apesar de partir da teoria da Gestalt, Lewin seguiu outro rumo para construir um novo conhecimento, cujo método aplica o conceito de campos de força para explicar o comportamento de um indivíduo a partir do seu campo de influências sociais. A partir disso, Lewin desenvolveu seu conceito de espaço vital. Vamos nos debruçar melhor sobre essas ideias? Perceba que, para Lewin, as atividades psicológicas de um indivíduo ocorrem em uma espécie de campo psicológico, chamado de espaço vital. O espaço vital compreende todos os acontecimentos do passado, do presente e até do tempo futuro que afetam os indivíduos. Espaço vital é, portanto, o principal conceito de Lewin. Significa que a totalidade dos fatos é que irá determinar o comportamento do indivíduo em certo momento. License-391254-80138-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Lewin explica que o espaço vital mostra os graus de desenvolvimento a partir da quantidade de experiências acumuladas. Por exemplo, um bebê tem pouca experiência, não é mesmo? Portanto, ele tem pouco espaço vital. Já um adulto culto, com acesso à arte, cultura e educação, por exemplo, possui um amplo e complexo espaço vital diferenciado, pois possui uma variedade de experiências, conforme se representa na figura a seguir,por meio da passagem do tempo. Fonte: billdayone, Shutterstock, 2017. Lewin e o importante conceito de grupo Além do espaço vital, Lewin também desenvolveu o conceito de realidade fenomênica. Mas o que é essa tal de realidade fenomênica? É a maneira particular como cada indivíduo interpreta uma determinada situação. Indo além, para Lewin, esse conceito também se referia a características de personalidade do indivíduo, a componentes emocionais ligados ao grupo e à própria situação vivida, assim como a situações passadas e que estivessem ligadas a algum License-391254-80138-0-5 PSICOLOGIA APLICADA acontecimento vivenciado na forma em que eram representadas no espaço de vida atual do indivíduo. Melhor entendermos por meio de um exemplo, não é mesmo? Então pense na seguinte situação: um rapaz, ao chegar em casa, observa que seus pais estavam conversando e os escuta falar, em um tom de voz baixo: “é melhor não falarmos disso agora, ele chegou”. O rapaz julga ser um problema sério, e isso o deixa preocupado. Porém, dias depois, ele se depara com a mesma situação, só que, dessa vez, com pessoas estranhas em sua casa. Porém, a conversa tratava-se de uma festa surpresa que seus pais preparavam para ele. Assim, vemos que o jovem interpretou de uma forma própria aquela situação. E no mais, Lewin deu mais alguma contribuição para a Psicologia? Sim. Lewin também desenvolveu a ideia de campo psicológico, um espaço de vida dinâmico que considera o indivíduo, o meio e a totalidade dos fatos coexistentes e mutuamente interdependentes. Complicou? Então preste atenção: Lewin considerava que o comportamento deveria ser visto em sua totalidade, e, a partir disso, ele chegou ao conceito de grupo. Para ele, todos os momentos de nossas vidas acontecem no interior de grupos. O ser humano é um ser social, e suas relações se constituem em grupos, sejam os familiares, de trabalho, amizade ou escolar, como representado na figura a seguir. Fonte: d3images, Shutterstock, 2017. License-391254-80138-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Mas o que seria um grupo, para Lewin? Segundo Lewin, o que define o grupo é a interdependência de seus membros. Para ele, o grupo não é a soma das características de seus membros, mas algo novo, e os resultados que ocorrem ali. A partir disso, Lewin acreditava que a mudança de um membro no grupo poderia alterar toda a sua dinâmica. Em outras palavras, o comportamento de um membro do grupo pode influenciar o comportamento dos demais, ou alterar o funcionamento do grupo. Por exemplo, se em uma empresa ocorre uma mudança no cargo de chefia, o comportamento desse novo chefe pode modificar o rendimento equipe, seja de maneira positiva ou negativa. Mas fique atento (a): Lewin não se dedicou a estudar todos os tipos de grupos. Ele deu ênfase ao pequeno grupo. Sabe por quê? Porque ele considerava que a Psicologia ainda não possuía instrumentos suficientes para o estudo de grandes massas. Lewin e o estudo dos grupos e suas dinâmicas Além de tudo o que vimos até aqui, Lewin também criou o conceito de campo social, ou clima social, formado pelo grupo e seu ambiente. Aqui, uma liderança, por exemplo, poderá determinar todo o desempenho do grupo. Vamos nos aprofundar nessa questão? Perceba que, para Lewin, os conflitos são inevitáveis durante a interação entre os indivíduos de diferentes grupos, pois cada um foi socializado e criado de uma forma diferente, o que faz com que cada um dos integrantes desses grupos tenham uma visão de mundo particular. Além disso, Lewin considera, em seus estudos experimentais, que os grupos passam por fases de desenvolvimento, assim como acontece com o ser humano. E quais seriam essas fases? Vamos falar um pouco mais sobre cada uma delas? License-391254-80138-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Começaremos pela infância, fase na qual os grupos estão inseguros, e seus componentes estão se conhecendo. Essa fase condiz com o início de sua formação, assim como é o caso da nossa infância. Já na adolescência, os jovens agem, em geral, de maneira impensada e precipitada, não conseguindo administrar seus problemas. Com relação aos grupos, essa fase é marcada pela definição de seus membros: alguns sairão, outros entrarão no grupo. Perceba que, nessa fase, como as regras estão sendo formadas, alguns conflitos poderão surgir. Por fim, Lewin acredita que, na fase adulta, os grupos conseguem refletir sobre aquilo que acontece com os indivíduos em geral: é o momento de discernir e avaliar os atos. Mesmo que ocorram algumas falhas, a equipe consegue chegar a um consenso sobre determinado assunto. Mas foi somente essa classificação que Lewin atribuiu aos grupos? Não! Lewin também classificou os grupos em democráticos e autoritários. Vamos conhecê-los? Os grupos democráticos são os mais eficientes e abertos ao diálogo, exigindo maior participação de todos os membros, que dividem a responsabilidade da realização da tarefa com sua liderança. Já os grupos autoritários possuem uma eficiência imediata, são muito centralizados e dependem praticamente de seu líder, sendo pouco produtivos, pois funcionam a partir da demanda do líder. Seus membros são, geralmente, cumpridores de tarefas. O tema da liderança é tão importante que Kurt Lewin dedicou uma parte da sua teoria somente para esse assunto. Foi entre os anos de 1935 e 1946 que Kurt Lewin desenvolveu uma teoria consistente sobre métodos que avaliavam o clima grupal e a influência das lideranças na produção do ambiente dos grupos, como vimos acima. Para esse autor, cada ser humano se comporta de uma maneira única no estudo dos grupos e suas lideranças. E, no universo do trabalho e das empresas, esses comportamentos podem License-391254-80138-0-5 Aula 5PSICOLOGIA APLICADA ser observados a partir das ações do gestor ou líder de um grupo ou de uma empresa, por exemplo. Isso quer dizer que nem sempre os indicados aos cargos de liderança ou os que se autointitulam líderes irão se comportar de uma maneira única e obrigatoriamente previsível. Por fim, perceba que as três teorias estudadas nesta unidade estudam o comportamento e podem ser aplicadas, cada uma a partir de suas técnicas e da percepção que possuem da realidade e do comportamento, para ajudar a entender não somente como os integrantes dos grupos se comportam, mas também seus líderes. É a materialização da Psicologia no mundo organizacional, uma das importantes áreas de atuação da Psicologia. Lewin classificou os grupos em democráticos (exigem participação de todos os membros, a longo prazo são os mais eficientes) e autoritários (possuem uma eficiência imediata, são muito centralizados e dependem praticamente de seu líder) License-512161-28470-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O surgimento da Psicanálise Fundada por Sigmund Freud (1856-1939), a Psicanálise representa o estudo do inconsciente. Freud acreditava que, se as pessoas trouxessem os sonhos, as fantasias e os problemas reprimidos pela mente e que não eram lembrados até à consciência, poderiam ser curadas. Por isso, Freud ousou colocar o inconsciente da mente humana no centro dos estudos científicos. Vamos estudar mais sobre isso? Qual é o significado de Psicanálise? Para que possamos compreender o significado da palavra Psicanálise, precisamos partir do pressuposto de que a Psicanálise é um método de investigação da alma humana e que tem como objeto de estudo o inconsciente. Mas quem foi o criador da Psicanálise? A Psicanálise foi criada por Sigmund Freud por meio do método clínico, que deu origem à Psicologia Clínica. Quer dizer então que, antes de Freud, esse tipo de Psicologia não existia? Isso mesmo! E o que existia, então? Bem, o que havia antes de Freud era um “ensaio” da Psicologia experimental (que vimos em unidades anteriores) e o esboço de uma Psicologia social. Ou seja, o estudo do comportamento era feito de maneira observável, com conhecimento científico, com base emestudos realizados em laboratórios, tanto em animais quanto em humanos, tendo como base a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. License-512161-28470-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Perceba que, nessa época, ainda não havia maneiras de se intervir no sintoma de um problema psicológico e no sofrimento psíquico do ser humano, seja na normalidade ou na sua doença. Freud foi o primeiro a falar sobre conflitos mentais, lembranças escondidas na mente, traumas emocionais, ideia a qual ele chamou de inconsciente. A teoria Psicanalítica é um método para investigação de fenômenos psíquicos. E quais são os termos que fazem parte do arcabouço teórico da Psicanálise? Além do inconsciente, outro termo importante para a Psicanálise é a associação. Note que o inconsciente, na teoria psicanalítica da personalidade de Freud, pode ser traduzido como um reservatório de sentimentos, de pensamentos e até de memórias, mas que está fora da nossa consciência. Frequentemente o inconsciente é representado pelo desenho de um iceberg, ou seja, o que está acima da água (apenas uma ponta) e à nossa vista representa a nossa consciência; e tudo o que está abaixo da água, sob a superfície, longe de nossa visão, é o inconsciente. E o que seria a associação? O termo associação vem de “Livre Associação” ou “Associação Livre”, que representa uma técnica que, segundo Freud, poderia trazer conteúdos e sentimentos inconscientes à consciência. A associação corre quando o paciente fala tudo o que vem à sua mente, sem interrupções e sem julgamentos, em uma livre associação de ideias. Freud acreditava que, dessa forma, poderia descobrir algum conteúdo inconsciente da mente, ou seja, desejos reprimidos e memórias dolorosas de infância, por exemplo. Mas, afinal, como surgiu a Psicanálise e como Freud criou esse método de investigação científica? É o que vamos ver a partir de agora. License-512161-28470-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Um breve histórico da Psicanálise Para que possamos compreender melhor o que é a Psicanálise, é importante que conheçamos o contexto em que ela surgiu. Isso ocorreu por volta do final do século XIX e início do século XX, em meados de 1895-1900, graças a Sigmund Freud (1856-1939). Freud foi um médico vienense formado em Medicina pela Universidade de Viena, com especialização em neurologia (suas pesquisas se concentraram na área de neurofisiologia). Mas o que, especificamente, deu origem à Psicanálise? Perceba que, no final do século XIX, a doença que predominava e mais intrigava os médicos era a histeria, que atacava, sobretudo, as mulheres (mas não só elas). A origem dessa doença remonta à palavra grega hysteron, que significa útero. E qual era a relação da histeria com o útero? Bem, acreditava-se que o útero ficava passeando dentro da barriga das mulheres por razões desconhecidas, provocando comportamentos histéricos – daí o nome histeria para essa doença. Acompanhe, na figura a seguir, um dos comportamentos característicos da histeria: os gritos. Fonte: Ollyy, Shutterstock, 2017. License-512161-28470-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Mas será que os sintomas da histeria se resumiam a gritos? Claro que não! Os sintomas iam além dos gritos, sendo físicos e corporais, como: paralisias, tremedeiras, cegueira, contratura muscular, dentre outros. Perceba que, na época, não havia explicação física para esses comportamentos. Existia, na verdade, um componente psicológico e emocional envolvido, mas essa ideia era inaceitável, e sabe por quê? Porque não era científica. Quem falava das emoções e da complexidade dos sentimentos da alma humana eram os literatos, os dramaturgos, os poetas, e não os médicos. Freud foi, então, um médico pioneiro no estudo da alma. Foi nessa época que ele, ao final de sua residência médica em Paris, trabalhou com o psiquiatra francês Jean Charcot, que tratava as pacientes histéricas utilizando o método da hipnose, representada na figura a seguir. Fonte: Michelangelus, Shutterstock, 2017. License-512161-28470-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Charcot tentou encontrar motivos e causas para a grande questão da histeria: como algo psíquico se transformava em corporal? Afinal, embora houvesse sintomas físicos visíveis, os exames médicos não justificavam tais sintomas. Charcot e Freud hipnotizavam o indivíduo como forma de eliminação dos sintomas dos distúrbios nervosos. O estudo do inconsciente Além de Charcot, Freud teve contato com outro importante médico e cientista, Josef Breuer, que utilizava o método da hipnose na clínica. Desse encontro resultou um dos livros que representa um marco inicial da Psicanálise: Estudos sobre a histeria. Você já ouviu falar do famoso caso de Ana O.? Ela era uma paciente histérica de Breuer que apresentava um conjunto de sintomas: paralisia com contratura muscular, inibições e dificuldades de pensamento. Esses sintomas tiveram origem na época em que ela cuidava de seu pai enfermo, quando ela tinha pensamentos e o desejo de que o pai morresse. Foi somente sob efeito da hipnose que Ana O. foi capaz de relatar a origem de seus sintomas. E, a partir disso, os sintomas desapareciam. Mas qual é a ligação de Freud com a hipnose? Freud se utilizou da hipnose para tentar ampliar cientificamente seu método. Hipnotizadas, as pessoas começavam a contar lembranças que não eram conscientes. Freud pensou, então, que isso só poderia estar dentro da mente delas, porém em um lugar inacessível à consciência. A esse lugar Freud chamou de inconsciente. License-512161-28470-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Foi com base nessas análises que Freud chegou à conclusão de que parte do desejo do indivíduo é recalcado (enviado para o inconsciente). Por esse motivo, há o retorno do recalcado ou do oprimido, e o desejo se manifesta como sintoma. Perceba que, para a Psicanálise, esse sintoma se estabelece como uma relação, sendo estruturado como metáfora que só se completa na relação com o outro. O sintoma tem relação com a nossa história, com a nossa família. Ele é uma espécie de “obra de arte” que utilizamos para dizer o que não conseguimos dizer e organizar de outra forma. O inconsciente representa conteúdos reprimidos que não estão presentes na consciência, mas que, em algum momento, podem ter sido conscientes. Para aprofundar seus conhecimentos sobre essa estrutura do aparelho psíquico, assista à animação a seguir. Clique na figura para assistir ao vídeo License-512161-28472-0-5 PSICOLOGIA APLICADA As fases de desenvolvimento na infância As fases do desenvolvimento psicossexual propostas por Freud descrevem que a personalidade é desenvolvida ao longo da infância em fases ou estágios. Embora a teoria seja bastante conhecida e utilizada no campo da Psicologia, ainda hoje é uma das mais controversas e polêmicas, já que as descobertas de Freud sobre a sexualidade provocaram espanto e dúvidas. Vamos conhecer um pouco sobre essa teoria? Freud e o estudo da sexualidade humana Outra importante contribuição de Freud para a Psicologia foi seu estudo sobre a sexualidade. Ao se dedicar ao estudo das neuroses, ele descobriu que a maioria dos pensamentos e desejos reprimidos dos indivíduos tinha ligação com os conflitos de origem sexual relativos aos primeiros anos de vida do indivíduo, ou seja, à infância. Você deve imaginar que isso causou muitas manifestações contrárias a essa teoria, não é mesmo? Afinal, a imagem da criança sempre foi associada à pureza. Mas quais foram os argumentos que Freud usou para elaborar esse estudo? Perceba que Freud acreditava que é na infância que ocorrem eventos decisivos para a pessoa, como experiências traumáticas ou desejos reprimidos, que refletirão nos sintomas do homem adulto, deixando marcas profundas na estruturação e formação da sua personalidade. Freud colocou a sexualidade humana no centro da vida psíquica e, consequentemente, postulou a existência da sexualidade infantil. License-512161-28472-0-5 PSICOLOGIAAPLICADA Um dos conceitos trabalhados por Freud, nesse contexto, foi a teoria da libido, que era, originalmente, um conceito anatômico. Como explica Bock (2007), os órgãos produtores de libido eram denominados zonas erógenas (lábios, boca, pele, movimento muscular, mucosa anal, pênis e clitóris). Mas o que isso significa? Para Freud, a personalidade era desenvolvida através de uma série de estágios na infância, quando as energias da busca do prazer estavam focadas em determinadas áreas erógenas. Foi essa energia psicossexual, ou libido, que Freud descreveu como a força motriz do comportamento. Dessa forma, se essas etapas psicossexuais forem concluídas com êxito, o resultado será uma personalidade saudável, para Freud. Porém, se certas questões não forem resolvidas na fase adequada, podem ocorrer algumas fixações. E o que seriam essas fixações? Bem, a fixação ocorre quando há um foco persistente em um dos estágios psicossexuais. O indivíduo pode se manter preso nessa fase até que o conflito seja resolvido. Por exemplo, uma pessoa fixada na fase oral pode ser mais dependente e buscar estímulos orais por meio do fumo, da bebida ou da comida. Confira um exemplo disso na figura a seguir, que mostra que a boca é uma zona de prazer para o bebê. Fonte: OLJ Studio, Shutterstock, 2017. License-512161-28472-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Por fim, embora exista uma classificação de idade, as etapas evolutivas na formação da personalidade da criança não são estanques e nem de progressão linear. Ou seja, elas se transformam, interagem entre si. Isso acontece porque o ser humano não é um ser estático. As fases do desenvolvimento sexual segundo Freud Agora que entendemos de que forma Freud entende a sexualidade humana, veremos que ele a divide em fases. E quais seriam essas fases? As fases do desenvolvimento sexual postuladas por Freud são classificadas em: fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. Para conhecê-las melhor, acompanhe o quadro a seguir. Fases do desenvolvimento sexual Fase Oral 0 a 1 ano. A zona de erotização é a boca. Fase Anal 2 a 3 anos de vida do bebê. A zona de erotização é o ânus. Fase Fálica 3 a 5 anos. A zona de erotização é o órgão sexual. Corresponde à fase edípica (Complexo de Édipo). Período de Latência 5 anos até a pré-adolescência. Prolonga-se até a puberdade. Caracteriza-se por uma diminuição das atividades sexuais, isto é, há um intervalo na evolução da sexualidade. Fase Genital Adolescência até a idade adulta. Ocorre na puberdade, quando o objeto de erotização ou de desejo não está mais no próprio corpo, mas em um objeto externo ao indivíduo — o outro. Alguns autores denominam esse período exclusivamente como genital, incluindo o período fálico nas organizações pré-genitais, enquanto outros autores denominam o período fálico de organização genital infantil. Fonte: BOCK (2007); ZIMERMAN (1999). License-512161-28472-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Perceba que, nessas fases desenvolvidas em determinados estágios da infância, o id concentra-se em determinadas áreas erógenas. Mas o que seria o id? Para que você entenda esse conceito, considere que, entre os anos de 1920 e 1923, Freud remodelou a teoria do aparelho psíquico, chegando à sua segunda teoria do aparelho psíquico, que introduz os conceitos de id, ego e superego para referir-se aos três sistemas da personalidade. Para Freud, o id é regido pelo princípio do prazer. Já o ego equilibra as exigências e impulsos do id. Por fim, o superego é regido pelo princípio da realidade, ou seja, é um regulador. Para saber mais sobre essas instâncias psíquicas, assista à animação a seguir. Clique na figura para assistir ao vídeo O id é regido pelo princípio do prazer; o ego equilibra as exigências e impulsos do id; e o Superego é regido pelo princípio da realidade. License-512161-28472-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Ainda não ficou claro? Veja bem, o id representa o reservatório da energia psíquica, é nele que se localizam as pulsões de vida e a de morte. Aqui o id é regido pelo princípio do prazer que são os nossos impulsos. Mas o que são essas tais pulsões? Entende-se por pulsão um estado de tensão que busca, por meio de um objeto, a extinção desse estado. A pulsão de vida é chamada de Eros e abrange as pulsões sexuais. Já a pulsão de morte é chamada de Tanatos e pode ser autodestrutiva ou estar dirigida para fora (por exemplo, pode se manifestar como pulsão agressiva ou destrutiva). O ego, por sua vez, é o sistema que irá estabelecer o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as ordens ou o excesso de rigidez do superego. É o que chamamos de princípio da realidade, que busca a satisfação considerando as condições objetivas da realidade. Inclusive essa busca do prazer pode ser substituída pelo evitamento do desprazer. Ou seja, se o indivíduo evita o desprazer, ele está buscando o prazer. Assim, o princípio de realidade obriga a pessoa a considerar os riscos e os resultados das decisões. Perceba que o ego não vai se esforçar para impedir o desejo do id, mas vai buscar formas de garantir que as necessidades do id sejam satisfeitas de forma segura e realista. Quer um exemplo? Se estamos com muita vontade de comer doce, não podemos simplesmente tirar o doce da mão de uma criança ou pegar os doces da vitrine de uma loja, pois o nosso código de conduta não permite que façamos isso. E, finalmente, temos o superego, que se origina com o complexo de Édipo, sobre o qual estudaremos a seguir. No superego, temos a internalização das proibições, dos limites e da autoridade. Nesse caso, a moral é uma função básica do superego, ou seja, é relativa às exigências sociais e culturais. Perceba que é na moral que reina o sentimento de culpa. Ainda não ficou claro? Pense na seguinte situação: quando você faz alguma coisa, no trabalho, por exemplo, se respondeu a um e-mail sem consultar seu superior antes, mesmo sabendo que não estava fazendo nada de errado License-512161-28472-0-5 PSICOLOGIA APLICADA e que tinha permissão para isso (mas se sente culpado por isso), é o seu superego agindo. Portanto, essa culpa ou esse medo de fazer algo errado ou de ser punido pode nos levar a um mal-estar. Note que esse sentimento de culpa se origina na passagem pelo Complexo de Édipo, o qual estudaremos a seguir. License-512161-28290-0-4 PSICOLOGIA APLICADA O Complexo de Édipo O Complexo de Édipo, termo usado por Sigmund Freud em sua teoria de estágios psicossexuais do desenvolvimento, é um conceito que descreve quando um menino “concorre” com o pai pela posse de sua mãe, ou seja, ele vê seu pai como um rival na disputa de atenções e afetos de sua mãe. Vamos nos aprofundar um pouco mais nesse complexo? O Complexo de Édipo e a fase fálica Dentre os estudos que vimos até aqui, um dos mais importantes é o Complexo de Édipo, sobre o qual nos debruçaremos agora. Provavelmente você já deve ter ouvido falar no Complexo de Édipo, certo? Mas do que ele trata exatamente? Segundo Freud, é em torno do Complexo de Édipo que ocorre a estruturação da personalidade do indivíduo. E em qual período da vida ele ocorre? O Complexo de Édipo acontece mais ou menos entre os três e os cinco anos de idade – isso mesmo, durante a fase fálica. Mas o que acontece nessa fase? Bom, no caso do menino, por exemplo, a mãe é o seu objeto de desejo. Por esse motivo, o pai é visto como um rival que impede que esse menino acesse a mãe, símbolo do objeto desejado. Perceba que, nessa fase, a criança tenta ocupar o lugar do pai para ter a mãe só para si, escolhendo o pai como um modelo de comportamento a ser seguido. O garoto passa, então, a internalizar as regras impostas e representadas pela autoridade paterna. A figura a seguir demonstra um filho resistindo ao abraço do pai, que é visto como um rival. License-512161-28290-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: treerockimages, Shutterstock, 2017.Porém, considerando-se que essa mesma criança teme perder o amor de seu pai, ela “desiste” da mãe, ou seja, a mãe é “trocada” pela riqueza do mundo social e cultural. A partir de então, o garoto pode participar do mundo social, pois, ao se identificar com o pai novamente, tem suas regras básicas internalizadas mais uma vez. Mas tenha atenção: perceba que tudo isso acontece em nível inconsciente. A figura a seguir ilustra o édipo masculino, em que a criança “desiste” da mãe. Fonte: Everett Collection, Shutterstock, 2017. License-512161-28290-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Note que, quando esse processo tem as figuras de desejo e identificação invertidas, Freud nomeia esse fenômeno de Édipo feminino. E o que acontece no final dessa fase do Édipo? Para Freud, ao final dessa fase ocorrerá o processo de identificação da personalidade, quando a criança irá assumir papéis sociais, de sua cultura, relacionados com seu sexo e gênero. No caso do nosso exemplo, o garoto vai participar do mundo social. O Complexo de Édipo representa os desejos amorosos e hostis que a criança tem diante de seus pais. Desvendando o Complexo de Édipo Embora o Complexo de Édipo tenha sido concebido por Freud, há outros estudiosos que continuaram a teorizar sobre ele. Como vimos, Freud situou-o por volta dos três anos na criança, porém, Melanie Klein, psicanalista austríaca, postulou seu surgimento entre os seis e oito meses de vida da criança. Na figura a seguir, você pode acompanhar um bebê que possui entre seis e oito meses de idade, época em que Melanie Klein acredita que surge o Complexo de Édipo na criança. Fonte: linavita, Shutterstock, 2017. License-512161-28290-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Talvez você esteja pensando que essa concepção seguia uma direção oposta à ideia original de Freud sobre o Édipo, e você está certo (a)! Para Freud, o Complexo de Édipo abrange duas formas: uma positiva (o desejo sexual pelo genitor do sexo oposto), assim como um desejo de morte pelo genitor do mesmo sexo; e, como explica Zimerman (1999), uma forma negativa, na qual há um desejo amoroso pelo genitor do mesmo sexo e um ciúme ou desejo de desaparecimento do outro. Segundo Freud, o Complexo de Édipo abrange um forma positiva e uma negativa. E como isso ocorre na prática? Bem, o mais frequente, segundo Zimerman (1999), é que ambas as formas coexistam, apesar de uma delas predominar. Psicanálise: aplicação e contribuições Você viu, nesta Unidade de Aprendizagem, que a Psicanálise tem como premissa o estudo do inconsciente e a forma como esses conteúdos se ligam à consciência. São esses conteúdos desconhecidos e inconscientes que determinam, pelo menos em grande parte, a conduta dos homens e dos grupos, ou seja, as dificuldades em se viver em sociedade e o sofrimento psíquico. E esse sofrimento psíquico ainda é tratado, na atualidade, por meio da hipnose? Não. Atualmente, a hipnose deu lugar ao divã. Perceba que a pessoa que está deitada no divã não tem estímulos externos, ou seja, o analista está quieto. Isso permite que o indivíduo se sinta mais à vontade, sem inibições. Quer dizer, então, que a Psicanálise se restringe ao divã? Novamente a resposta é negativa: pensar que a Psicanálise se restringe apenas ao divã, com um trabalho longo no consultório, é uma visão estereotipada. Afinal, há algumas décadas, é possível perceber a grande contribuição da Psicanálise na área da saúde mental. Nomes como D. W. Winnicott, Ana Freud e, License-512161-28290-0-4 PSICOLOGIA APLICADA mais recentemente, Françoise Dolto e Maud Mannonni, abriram o debate da aplicação das técnicas psicanalíticas em campos como a educação e o trabalho com crianças e adolescentes em creches, hospitais e abrigos. E no Brasil especificamente, quais são as contribuições da Psicanálise? No Brasil, o alcance da Psicanálise no âmbito social tem sido bastante discutido em pesquisas que venham a contribuir para a compreensão dos fenômenos sociais. Que tal alguns exemplos? O aumento da criminalidade entre os jovens, as drogadições, os transtornos de autoimagem corporal, a síndrome do pânico, a medicalização e a sexualização na infância são apenas alguns dos novos modos de sofrimento psíquico que têm merecido a atenção da Psicanálise. As técnicas psicanalíticas podem ser aplicadas em vários campos fora da clínica, como para abordar questões sociais, políticas e epistemológicas. License-517558-29210-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Anna Freud Você sabia que Anna Freud é conhecida por representar a difusão da Psicanálise? Sim, ela estudou a Psicologia do ego, que enaltece as funções do ego, indo além das pulsões do id; e foi pioneira nos estudos sobre a Psicanálise com crianças. Vamos conhecer um pouco sobre ela e sua teoria? Anna Freud: uma breve biografia Talvez você esteja se perguntando se o nome Anna Freud tem alguma relação com o da família de Sigmund Freud, não é mesmo? E você está certo (a)! Anna Freud foi filha de Sigmundo Freud, o pai da Psicanálise. Ela foi considerada a líder da Psicologia neofreudiana do ego, e seu nascimento, em 1895, coincidiu com o surgimento da Psicanálise. Anna foi a única dos filhos de Freud a se dedicar e a seguir a carreira do pai, tornando-se uma analista. Veja, no quadro a seguir, a cronologia da carreira de Anna Freud. Fatos importantes na carreira de Anna Freud Aos 14 anos Passou a se interessar pelo trabalho de Freud. Ouvia discretamente as reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena. Aos 22 anos Passou a fazer análise com o pai, o que gerou muitas críticas a Freud. Aos 29 anos Anna apresentou seu primeiro trabalho acadêmico para a Sociedade Psicanalítica de Viena. Segundo Schultz (2002), o trabalho intitulado “Beating fantasies and daydreams” (“Fantasias de Espancamento e Devaneios”), foi supostamente baseado no caso de uma paciente, mas, na verdade, abordava suas próprias fantasias. Aos 30 anos Anna passou por uma crise de identidade que durou seis anos. Isso aconteceu porque Freud era ambivalente sobre o fato de Anna tornar-se psicóloga. Além disso, ele ficou um pouco perturbado quando soube que sua filha havia decidido não casar. Fonte: SCHULTZ, 2002. License-517558-29210-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Anna também descrevia, em seus artigos acadêmicos, sonhos que envolviam surras e relações incestuosas entre pai e filha. Esse trabalho rendeu-lhe a admissão na Sociedade Psicanalítica. Anna Freud aprofundou os estudos sobre as funções do ego, tanto as conscientes quanto as inconscientes, as quais Freud esboçou, mas não aprofundou. Anna Freud e a Psicanálise infantil Outra importante contribuição de Anna Freud foi para a Psicanálise de crianças, área na qual ela foi pioneira – porém, mesmo pioneira, ela seguiu bastante a linha de Freud, tendo dedicado sua vida ao desenvolvimento e ao aprimoramento da teoria psicanalítica. Mas em que momento a Psicanálise adotada por Anna se distanciava da do pai? Bem, com relação ao tratamento de crianças, ela acreditava que a criança era muito frágil para ser submetida à análise com a exploração do subconsciente. Assim, embora ela se utilizasse da Psicanálise na análise infantil, essa não era uma análise semelhante àquela feita com os adultos, que se utilizava da interpretação do inconsciente, por exemplo. Nesse trabalho com crianças, a filha de Freud se preocupou em trabalhar com crianças emocionalmente perturbadas, sobretudo aquelas que tinham uma condição social mais precária. Ainda não ficou claro? Continue acompanhando a evolução desse processo. Anna Freud se propõe a conscientizar a criança de sua doença, pois, dessa forma, a criança acredita que será criado um vínculo de confiança com o analista. Para Anna Freud, se a criança percebe que é vista como um doente mental, digamos assim, a primeira reação pode ser de intimidação, acompanhada do sentimento de impotência e sofrimento. Porém, isso levará a criança a aceitar mais rapidamente oauxílio do analista e a License-517558-29210-0-4 PSICOLOGIA APLICADA estabelecer um vínculo com ele. Assim, podemos entender que a preocupação de Anna Freud é garantir o tratamento da criança, e não tanto a forma como essa criança receberia a informação de sua doença. Além disso, Anna Freud estudou o desenvolvimento infantil, a demora no processo de aprendizagem e os motivos por que algumas crianças aprendiam e se desenvolviam mais rápido que outras. A figura a seguir ilustra o processo de aprendizagem de uma criança. Fonte: Kateryna Larina, Shutterstock, 2017. A análise infantil e a Psicologia do ego de Anna Freud Para começarmos nossos estudos sobre esse tema, é preciso que entendamos que, para Anna Freud, a Psicanálise deveria ter uma utilidade taerapêutica, não somente na vida dos adultos, mas sobretudo na vida das crianças. Uma das obras que registra essa preocupação de Anna foi escrita por ela no ano de 1927, quando publicou seu livro Introduction to the technique of child analysisI (introdução à técnica da análise infantil). Em sua abordagem com crianças, Anna Freud levava em conta a imaturidade e o nível de capacidade verbal infantil. License-517558-29210-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Mas o que isso significa? Isso significa que Anna Freud acreditava que, para que se estabelecesse uma relação de confiança entre a criança e o analista, era preciso que a comunicação ocorresse de maneira agradável. Assim, ela tinha a pretensão de se aproximar das crianças e da sua linguagem extinguindo o distanciamento que a figura do analista poderia representar. Afinal, diferentemente do adulto (que busca a análise consciente), a criança vai por intermédio dos pais, e não por vontade própria. Dessa forma, Anna Freud foi a primeira a utilizar o uso de brincadeiras e a observação da criança no ambiente familiar como meio de lidar com o emocional das crianças. Outro ponto importante desse contexto é o de que o divã não era utilizado com as crianças: no lugar dele, foi dado espaço para as brincadeiras, meio de expressão das crianças, conforme ilustra a figura a seguir. Fonte: 2xSamara.com, Shutterstock, 2017. Além disso, no artigo The Ego and the mechanisms of defense (1936), Anna Freud explica como os mecanismos de defesa funcionam para proteger o ego da ansiedade. Outro dado importante é que Anna Freud, após revisar toda a Psicologia ortodoxa, expandiu o papel do ego (que, para ela, tem um funcionamento independente do id) e do uso dos mecanismos de defesa para proteger o ego da ansiedade. Seu estudo sobre o ego e os mecanismos de defesa defende a preocupação do analista infantil e a recuperação da integridade da criança, além da correção das anormalidades do ego. License-517558-29210-0-4 PSICOLOGIA APLICADA E quanto aos mecanismos de defesa? Dentre os mecanismos de defesa estudados por Anna Freud, resumidamente, os mais conhecidos são: repressão, ou seja, necessidade de conter os pensamentos e as emoções que mantêm a ansiedade; projeção, enquanto capacidade e costume de enxergar os defeitos em si mesmo e no outro; deslocamento, que significa transferir sentimentos negativos para outras pessoas; e a regressão, ou, em outras palavras, quando retornamos a uma idade mais jovem. Veja a animação sobre os mecanismos de defesa elaborados por Freud e como Anna Freud aprofundou esse estudo, isso vai te ajudar a identificar os tipos de mecanismos de defesa. License-517558-29212-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Alfred Adler Você sabia que foi Alfred Adler que criou a Psicologia individual e desenvolveu uma teoria em que o interesse social desempenha o papel principal? Isso mesmo! E, para Adler, diferentemente de Freud, o consciente estava no centro do estudo da personalidade. Além disso, Adler também se dedicou a estudar os sentimentos e o complexo de inferioridade, além da busca pela superação desses sentimentos. Que tal nos aprofundarmos nesses temas? Siga com atenção! Uma breve biografia sobre Alfred Adler Agora que conhecemos o importante trabalho neofreudiano de Anna Freud, vamos partir para outro importante psicanalista, Alfred Adler (1870-1937). Ele é considerado o primeiro proponente da abordagem psicológica social da Psicanálise, ou seja, em sua teoria, o interesse social tem papel fundamental. Mas o que isso significa? Para Adler, somos seres sociais, e nossa personalidade é moldada pelo nosso ambiente e pelas nossas interações sociais em nosso cotidiano, seja nas relações familiares, de trabalho ou em nossos relacionamento amorosos (e não por esforços em satisfazer nossas necessidades biológicas). Tido como um aluno fraco na escola, Adler se dedicou muito até superar suas “deficiências e inferioridades”, sendo que esses dois aspectos tornaram-se pontos fundamentais de sua teoria. Formou-se em medicina no ano de 1895. Em 1902, participou do grupo de discussão semanal de Freud sobre Psicanálise, tornando-se um dos quatros membros fundadores. Apesar de Adler ter sido nomeado presidente da Sociedade Psicanalítica de Viena em 1910, em 1911 rompeu com a Sociedade. No ano de 1920, sua Psicologia individual, que se referia ao seu sistema psicossocial, atraiu muitos adeptos, tornando-se bastante popular nos Estados Unidos. License-517558-29212-0-6 PSICOLOGIA APLICADA E do que tratava essa Psicologia? Veja que a Psicologia individual de Adler explicava que a personalidade incorporava tanto fatores sociais como biológicos e se concentrava na singularidade de cada pessoa, negando a universalidade dos motivos e metas biológicos, ao contrário do que afirmava Freud. Além disso, Adler minimizou o papel do sexo no seu sistema, embora não descartasse sua importância, (diferentemente de Freud, que enxergava o sexo como fator determinante da personalidade). Na Psicologia individual de Adler, as pessoas não são vítimas dos seus instintos nem são condenadas por forças biológicas e experiências da infância. A Psicologia individual de Adler Agora que você teve contato com a história pessoal de Adler, pode se aprofundar nos conceitos que ele desenvolveu. Para começar, é importante que você saiba que Adler postulava que a determinação do comportamento humano acontecia através dos fatores sociais e não por instintos biológicos. Adler também criou o conceito de interesse social. Mas o que isso significa? Isso representa o potencial inato que os homens possuem em cooperar com os indivíduos para atingir objetivos e metas pessoais e sociais. Complicou? Então vamos entender melhor! Adler postulava que o interesse social se desenvolve na infância, por meio de experiências aprendidas. Em outras palavras, para Adler, esse processo começa na infância, quando as crianças pequenas são indefesas e dependentes dos adultos. Adler acreditava que as crianças são conscientes do poder e da força que os pais têm e que não adianta lutar contra esse poder. É a partir disso, portanto, que elas desenvolvem seus sentimentos de inferioridade diante de pessoas mais fortes. E essa sensação License-517558-29212-0-6 PSICOLOGIA APLICADA é determinada pelo ambiente, e não geneticamente. Porém, esse ambiente irá motivar essa criança a lutar, crescer e alcançar suas metas pessoais. Adler postulava ainda que nossa personalidade se moldava pelo nosso ambiente e pelas interações sociais, e não pelos esforços de satisfazer nossas necessidades biológicas. Note que não era o caso de o sexo não ser considerado importante, ele apenas não era fator determinante da formação da personalidade. Vejamos, no quadro a seguir, outros pontos em que Adler e Freud divergiam. Adler Freud Minimizava a importância do sexo na formação da personalidade do indivíduo. Dava importância ao sexo na formação da personalidade do indivíduo. Concentrava-se nos determinantes conscientes do comportamento. Estudava o inconsciente como fator determinante para o comportamento. A busca por metas ou antecipação dos acontecimentosfuturos influenciava no comportamento presente. Associava o comportamento presente com as experiências do passado. Unidade e consistência eram forças para atingir a superioridade (perfeição), a total realização e a evolução de si mesmo. Dividia a personalidade em partes separadas (id, ego e superego). Fonte: SCHULTZ, 2002. Os sentimentos de inferioridade, para Adler, estavam sempre presentes na vida do indivíduo, desde a infância, como força motivadora no comportamento. Percebeu os motivos que levaram ao rompimento de Adler com as ideias psicanalíticas de Freud? Então siga em frente para conhecer um pouco mais sobre as ideias de Adler. License-517558-29212-0-6 PSICOLOGIA APLICADA O Sentimento de inferioridade e o poder criativo do “Self” Conforme vimos há pouco, Adler era visto como um aluno inferior em sua escola. Isso o levou a estudar o sentimento de inferioridade: Adler acreditava que a motivação do comportamento devia- se ao sentimento de inferioridade generalizado, inicialmente relacionado às deficiências físicas. Além disso, para Adler, já na infância as crianças buscavam a superação dessas deficiências. Quer um exemplo? Veja que isso acontece quando as crianças não conseguem lidar com deficiências físicas, por exemplo, não aderindo a tratamentos ou não buscando motivação para lidar com as dificuldades, não conseguindo lidar com os sentimentos de inferioridade nem buscando a superação de suas fraquezas. Isso leva àquilo que Adler chamou de complexo de inferioridade. Perceba que as pessoas com complexo de inferioridade possuem uma opinião ruim sobre si mesmas e sentem-se incapazes de lidar com as demandas da vida. Adler chegou a essa conclusão ao estudar a infância de muitos adultos que o procuraram para tratamento. A figura a seguir ilustra uma pessoa que se sente inferior à outra. Fonte: Marcin Balcerzak, Shutterstock, 2017. License-517558-29212-0-6 PSICOLOGIA APLICADA E de que forma Adler via o sentimento de inferioridade? Perceba que, para ele, o sentimento de inferioridade funcionava a favor não somente do indivíduo, mas também da sociedade, em busca do aperfeiçoamento, com o objetivo de superar as fraquezas e melhorar seu desempenho. Por outro lado, o excesso de mimo ou a rejeição na infância em relação a essa busca de superação poderiam resultar no complexo de inferioridade até a fase adulta. Que tal acompanharmos um exemplo? Para Adler, mimar uma criança pode despertar o sentimento de inferioridade, devido ao fato de ela ser o centro das atenções em casa, tendo seus desejos sempre atendidos, acreditando que é a pessoa mais importante em qualquer situação. Porém, quando ela cresce e passa a não ser mais o foco das atenções (na escola por exemplo), quando encontra obstáculos à realização imediata de suas necessidades, desenvolve um complexo de inferioridade por não saber lidar com as frustrações. Para Adler, o complexo de inferioridade surge a partir da incapacidade de superar os sentimentos de inferioridade. E Adler fala, também, sobre a superioridade? Sim! Para Adler, a busca pela superioridade é universal, porém, cada indivíduo age de modo diferente e único na busca por seus objetivos. E como surge o complexo de superioridade? Segundo Adler, o complexo de superioridade surge quando uma pessoa supercompensa os sentimentos de inferioridade, ou seja, pessoas com esse tipo de complexo tendem a se gabar, a serem vaidosas e denegrir os outros. License-517558-29212-0-6 PSICOLOGIA APLICADA E será que, além dos conceitos de inferioridade e superioridade, Adler também desenvolveu outras teorias? A resposta para essa pergunta é sim. Adler ainda conceituou a força criativa do self: ele afirmava que o indivíduo é capaz de determinar sua própria personalidade a partir de seu estilo de vida. Mas como isso funciona na prática? Pense que cada pessoa adquire habilidades e experiências por fatores hereditários, passadas de pais para filhos (por exemplo, talento para o canto) e por influências ambientais (a partir da criação familiar, em um ambiente voltado para a música, por exemplo). Porém, a maneira de interpretar essas experiências é que vai servir de base para a formação da personalidade de cada um. Nesse sentido, Adler acredita que cada indivíduo molda, em nível consciente, sua própria personalidade e seu próprio destino, e não com base em experiências do passado. Dessa forma, cada indivíduo vai agir de forma singular diante de suas experiências de vida. Por fim, Adler também examinou a infância de seus pacientes. Ao estudar a infância, Adler descobriu que o filho mais velho, o do meio e o caçula, por ocuparem posições diferentes na família, passam por diferentes experiências sociais que irão resultar em diferentes atitudes em relação à vida e ao modo de enfrentar as situações do cotidiano. Ainda não ficou claro? Então observe o que se expõe a seguir! Segundo Adler, a ordem do nascimento tem grande influência social na infância e, consequentemente, em como criamos nosso estilo de vida. Nesse sentido, Adler acredita que, apesar de os irmãos terem os mesmos pais e a possibilidade de viver na mesma casa, eles não possuem ambientes sociais idênticos. Como? Ora, ser filho mais velho ou mais novo é estar exposto a atitudes diferentes dos pais e até mesmo às condições como são criados. Para complementar seus estudos, veja a animação e conheça a importância de Adler para a psicanálise pós-freudiana. License-517558-29212-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Clique na figura para assistir ao vídeo License-517558-28300-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Carl Jung Você sabia que Carl Jung, principal discípulo de Freud, é conhecido por ser o criador da Psicologia analítica, que estuda a personalidade? Sim! Além disso, outro aspecto importante de sua teoria é o seu importante estudo sobre os arquétipos e o estudo do inconsciente, o qual ele dividiu em dois importantes tipos: o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, que você vai conhecer agora. Vamos lá? Carl Jung: uma breve biografia Para que você tenha uma noção do quanto Carl Jung (1875- 1961) foi importante para a Psicanálise, precisa saber que ele foi considerado o substituto e herdeiro do movimento psicanalítico pelo próprio Freud! Porém, após o rompimento de sua amizade com Freud, no ano de 1914, Jung desenvolveu um de seus maiores legados: a Psicologia Analítica. A Psicologia Analítica é a teoria da personalidade de Jung, bastante estudada e utilizada até os dias de hoje. Mas, antes de estudarmos os principais conceitos elaborados por Jung, que tal conhecermos um pouco de sua história? Jung cresceu em um ambiente familiar difícil: seu pai era um religioso que, em determinado momento da vida, perdeu sua fé; e sua mãe sofria distúrbios emocionais. Nesse ambiente, Jung aprendeu a mergulhar no inconsciente, em um mundo de fantasias e sonhos, dedicando-se a estudá-lo. Estudou Medicina, mais especificamente Psiquiatria. E quais foram as diferenças entre ele e Freud? Diferentemente de Freud, ele não colocava seus pacientes no divã, mas em poltronas, um de frente para o outro, fora da clínica (como em barcos, por exemplo). Além disso, embora pudesse ser License-517558-28300-0-6 PSICOLOGIA APLICADA bastante rude com seus pacientas, chegava a cantar para eles diversas vezes. Outra diferença entre Jung e Freud é referente à análise dos sonhos. Em vez de interpretar o sonho separadamente, como fazia Freud, Jung trabalhava com uma série de sonhos relatados por seus pacientes, durante um certo período, pois ele acreditava que assim poderia descobrir temas e problemas recorrentes no inconsciente do paciente. Além disso, Jung se concentrava em um elemento central do sonho e pedia aos seus pacientes repetidas associações e respostas para esse elemento (ao contrário de Freud, que fazia isso numa cadeia de associações). Ou seja, Jung preocupava-se com a causa dos sonhos e acreditava que eleseram mais que desejos inconscientes. E como Jung classificava os sonhos? Jung classifica os sonhos em dois tipos: prospectivos, que nos ajudam a preparar para experiências e eventos que irão ocorrer; e compensatórios, que nos ajudam a conseguir um equilíbrio, compensando nossa estrutura psíquica. Por fim, concluiu, ainda, que a fase mais importante do desenvolvimento era a meia-idade, e não a infância, como dizia Freud. Jung acreditava que é nesse período que acontece o crescimento pessoal, época de o indivíduo buscar novas direções, libertando-se dos problemas passados já vivenciados e experimentando a liberdade de ser ele mesmo. Ou seja, isso acontece quando o indivíduo atinge a maturidade psicológica, em um estado de saúde psicológica e de autodesenvolvimento. A psicologia analítica e o inconsciente coletivo Você deve ter observado que as experiências da vida de Jung influenciaram e muito na criação de sua Psicologia Analítica, não é mesmo? Mas, além disso, para entender seu pensamento, é importante entender no que ele divergia da obra de Freud. Vamos conhecer? Para isso, acompanhe o quadro a seguir. License-517558-28300-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Jung Freud Não acreditava no Complexo de Édipo. O Complexo de Édipo é seu legado. Na infância, preferia se isolar de outras crianças. Isso se reflete em sua teoria mais voltada para as relações sociais. Não teve uma infância tão introspectiva. Sua teoria volta-se mais para as relações interpessoais. Libido: energia de vida generalizada. O sexo apenas faz parte. A libido é definida exclusivamente em termos sexuais, criada para a satisfação dos instintos sexuais. A personalidade pode ser modificada ao longo da vida por meio de metas. O indivíduo é vítima dos acontecimentos do passado. Fonte: Adaptado de SCHULTZ, 2002. Conseguiu perceber as diferenças entre eles? E será que há outras diferenças entre os dois psicanalistas? Sim! Embora Jung também tenha tentado investigar a mente inconsciente, assim como Freud, Jung se propôs a ir um pouco além de Freud, pois descreveu dois estados da mente inconsciente. Para Jung, abaixo da consciência estaria o que ele chamou de inconsciente pessoal, que continha as lembranças, os impulsos, os desejos e outras experiências da vida do indivíduo que foram suprimidas ou esquecidas por serem insignificantes ou perturbadoras. Esse inconsciente não é muito profundo, e o que está guardado ali pode ser trazido para a consciência (e todos os tipos de experiências estão armazenados no inconsciente pessoal). Quer um exemplo? Imagine uma pessoa que passou por uma experiência traumática na infância. Após alguns anos, essa possoa pode ter superado essa experiência ruim, que pode ter sido encoberta, ficando armazenada no inconsciente pessoal, podendo ser recuperada ou manifestada na forma de sonhos, por exemplo. A figura a seguir ilustra lembranças que podem ser trazidas à consciência. License-517558-28300-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: agsandrew, Shutterstock, 2017. Abaixo do inconsciente pessoal estaria o inconsciente coletivo, que, segundo Jung, é desconhecido pelo indivíduo. Ali estariam armazenadas as vivências de gerações anteriores, dos nossos antepassados ancestrais e até de animais. Para Jung, essas experiências formam a base da personalidade. Ou seja, você possui essas experiências, mas não se lembra delas. O inconsciente coletivo é o nível mais profundo da psique humana e contém experiências pré-humanas e humanas. Os arquétipos Outro importante conceito elaborado por Jung foi o de arquétipos: para ele, são aquelas tendências herdadas e armazenadas dentro do inconsciente coletivo. Além disso, os arquétipos são inatos, ou seja, já nascem com o indivíduo, levando-o a se comportar de maneira semelhante aos povos primitivos que passaram por situações semelhantes. Em outras palavras, um arquétipo são símbolos, sonhos ou imagens que todos os seres humanos compartilham por meio do inconsciente coletivo e que podem expressar ideias ou até mesmo temores. Por exemplo, a água pode ser considerada um arquétipo tanto na literatura quanto na aparição em sonhos: a água representa nascimento, criação e fertilidade, herança de nossos ancestrais primitivos. License-517558-28300-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Dentre os arquétipos herdados dos nossos ancestrais, podemos listar alguns: a persona, ou seja, a máscara que carregamos, que não representa nossa verdadeira personalidade, e, sim, o papel que desempenhamos diante de outras pessoas. Ela representa as diferentes máscaras sociais que usamos entre os vários grupos e situações que vivemos. Segundo Jung, esse arquétipo pode aparecer em sonhos e ter diferentes formas. Além disso, Jung afirmava que a persona é necessária porque somos forçados a representar vários papéis na vida (por exemplo, para nos sairmos bem na escola e no trabalho, ou até mesmo para nos darmos bem nos diferentes grupos de que participamos, precisamos agir de acordo com o que o ambiente exige. Assim, se costumamos falar palavrões, por exemplo, temos de nos policiar para não fazer isso no trabalho). A figura a seguir ilustra o arquétipo persona, ou seja, a máscara ou papel que uma pessoa representa. Fonte: benik.at, Shutterstock, 2017. Já os arquétipos anima e animus referem-se ao reconhecimento, segundo Jung, de que os humanos são essencialmente bissexuais. Ou seja, biologicamente, cada sexo secreta hormônios de seu sexo e do sexo oposto, e, psicologicamente, cada sexo manifesta características, temperamentos e atitudes do sexo oposto, isso em decorrência de séculos de convivência. No arquétipo anima, temos aspectos com características femininas na psique do homem; e, no arquétipo animus, temos características masculinas observadas na psique da mulher. License-517558-28300-0-6 PSICOLOGIA APLICADA E o que seria a sombra? A sombra significa o nosso self, aquele mais sombrio (digamos, assim, a parte mais animalesca da nossa personalidade), mas também representa a criatividade, ou seja, comportamentos que a sociedade considera maldosos e imorais residem nesse arquétipo. Porém, a sombra não é de todo mal, ela também, segundo Jung, representa vitalidade, espontaneidade, criatividade e emoção. Para Jung, o self é o nosso principal arquétipo, pois integra e equilibra todos os aspectos do inconsciente. Além das ideias que acabamos de estudar, Jung também definiu os conceitos de introversão e extroversão. Para ele, todo indivíduo é dotado de alguma dessas atitudes (ou das duas, sempre uma será mais forte que a outra). Que tal acompanharmos um exemplo? Pense em uma pessoa extrovertida: ela é bastante influenciada pelas forças do ambiente, por ser mais voltada para o mundo exterior (e não para seu interior). Além disso, ela é sociável e confiante. Por outro lado, a pessoa introvertida é mais tímida e tende a se concentrar mais em si mesma, no seu pensamento e sentimento. Em outras palavras, os introvertidos são pessoas mais pensativas e inseguras ao lidar com pessoas e situações. E você, se identificou com algum desses conceitos? Mas como podemos trazer aplicar esses significados na prática, no ambiente organizacional, por exemplo? Tomemos como exemplo o arquétipo persona, por exemplo. A palavra persona refere-se a uma máscara que os atores e as atrizes utilizam para representar vários papéis ou rostos para o público. E esse arquétipo da persona também é utilizada por nós, em nosso dia a dia: mesmo que não sejamos atores ou atrizes, muitas vezes usamos uma máscara, não a do teatro, mas a do nosso próprio rosto, para nos apresentarmos como alguém diferente de quem realmente somos. License-517558-28300-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Perceba que isso não é, necessariamente, prejudicial, pois, para nos inserirmos na sociedade, somos muitas vezes obrigados a representar vários papéis no nosso dia a dia, principalmente nos diferentes grupos sociais ou em ambientes corporativos,desde que não vivamos eternamente criando personagens e esqueçamos quem verdadeiramente somos. Por exemplo, podemos ser mais emotivos, mas, durante uma reunião de trabalho, que exige um comportamento mais rígido e racional, podemos nos adequar àquela situação, embora a razão não seja parte preponderante de nossa personalidade. License-389052-28306-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A origem da Psicologia Analítica Veremos, a seguir, um breve histórico relativo ao surgimento da abordagem da Psicologia criada por Carl Jung (1875 – 1961), nomeada de Psicologia Analítica, que é tratada por muitos como uma teoria que envolve alguns temas polêmicos, como misticismo e religião . Siga com atenção! A história de Jung e sua aproximação com a Psicanálise Começaremos a tratar da Psicologia Analítica conhecendo a história de Carl Gustav Jung, que nasceu em 1875, na Suíça. Jung se formou em medicina, já demonstrando seu interesse pela ciência, Psicologia e religião e, principalmente, pela relação entre esses três temas. Especializou-se em Psiquiatria e, em seus primeiros anos de trabalho, se interessou pelos trabalhos que Freud vinha desenvolvendo na área da Psicanálise. Jung se interessou, na Psiquiatria, por fenômenos vistos como espiritualistas e místicos: hipnose, alucinações, estado de transe e parapsicologia. E como foi a relação de Jung com Freud? Bem, os dois iniciaram uma troca de correspondências e experiências, fazendo de Jung um aprendiz da obra de Freud. Porém, após alguns anos de estudos, Jung começou a contestar as ideias de seu mentor no que se refere a questões do inconsciente e da importância do sexo. Jung também resolveu não seguir o hábito freudiano de deitar no divã, sendo que ele e seus pacientes sentavam-se em cadeiras uma em frente à outra. Acompanhe, na figura a seguir, uma ilustração de Freud, mentor de Jung. License-389052-28306-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: catwalker, Shutterstock, 2017. Perceba que foram essas discordâncias que fizeram com que Jung iniciasse o trabalho de escrever sua própria obra, criando, assim, a Psicologia Analítica. E qual é a principal diferença entre Jung e Freud? Veja que a principal diferença entre a teoria de Jung e a de Freud está em torno da natureza da libido, pois, para Freud, ela é predominantemente sexual. Já para Jung, trata-se de uma energia vital generalizada, de que o sexo é apenas uma parte. A criação da Psicologia Analítica A partir da recusa de Jung em relação a algumas concepções freudianas, surgiram interpretações diferentes para aquilo que Freud considerava conter apenas teor sexual. Quer um exemplo? Vamos lá: Jung considerava que uma criança, entre os três e cinco anos, estava passando por uma fase pré-sexual. Nessa fase, a energia libidinal (responsável pelas respostas de prazer da criança) era a principal fonte para o crescimento e desenvolvimento dela, não tendo nenhuma relação com as questões sexuais que Freud apontava para essa mesma fase da vida. License-389052-28306-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Freud via Jung como seu herdeiro psicanalítico, porém Jung ampliou sua visão e seguiu em direção à criação da Psicologia Analítica. E o Complexo de Édipo, é visto de que forma por Jung? Quanto ao Complexo de Édipo, uma das maiores teorias freudianas, Jung também a rejeita, afirmando que a dependência que a criança possui em relação à mãe diz respeito a uma necessidade, já que a mãe é a sua fonte de alimento. Além disso, à medida que a criança vai se desenvolvendo e amadurecendo o funcionalismo sexual, as funções de alimentação se confundem com sentimentos sexuais, desenvolvendo prazeres pela sucção do próprio dedo ou do seio da mãe, por exemplo. E há mais diferenças entre Jung e Freud? Sim! Outra grande diferença entre as abordagens é relativa à direção daquilo que motiva o ser humano. Para Freud, o sujeito é vítima dos eventos de sua infância; já para Jung, todos nós somos moldados de acordo com as nossas metas e desejos, bem como pelo nosso passado. Por fim, a última grande diferença trata da forma como cada um dos médicos via o inconsciente: enquanto Freud o via como apenas uma das estruturas individuais que compõem a mente humana, Jung o priorizou em sua obra, acrescentando a ideia de inconsciente coletivo, uma dimensão na qual herdamos experiências da espécie humana e de seus ancestrais animais, conforme vimos anteriormente. Além disso, para a Psicologia Analítica há três níveis que constroem a mente: a consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo, que veremos em breve. A figura a seguir ilustra como se estruturam esses níveis da psique humana. License-389052-28306-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Inconsciente coletivo Insconsciente pessoal Consciência As tipologias da personalidade Um dos trabalhos mais conhecidos de Jung foi a criação dos tipos psicológicos, um trabalho que ele fez como forma de procurar entender a relação do homem com outro homem e do homem com as coisas do mundo. Além disso, ele apresenta as atitudes de introversão e extroversão como reações que eram definidas a partir da direção da energia libidinal. Estamos indo muito rápido? Então vamos explicar separadamente cada termo. Acompanhe! Segundo Jung, o extrovertido dirige a sua libido para fora do eu, para pessoas e eventos do mundo exterior. Já o introvertido se dirige para o seu próprio interior, sendo uma pessoa mais resistente às influências externas. Mas será que as pessoas são somente extrovertidas ou somente introvertidas? Não. Conforme vimos anteriormente, todos nós possuímos, em algum grau, as duas atitudes, porém, há a presença de uma atitude dominante. Quer um exemplo? Pense em alguma pessoa introvertida (você, algum amigo, familiar ou conhecido): provavelmente ela será sociável em situações que sejam de seu interesse ou na qual ela se sinta mais à vontade. É possível que alguém que você conheça seja uma pessoa introvertida em ambientes de trabalho ou fique tímida ao falar em público, mas quando está com a família ou License-389052-28306-0-5 PSICOLOGIA APLICADA amigos, se apresenta de forma diferente sendo mais sociável e extrovertida. Veja, na figura a seguir, exemplos de tipos psicológicos (introvertido e extrovertido). Fonte: Aleutie, Shutterstock, 2017. Mas será que apenas a introversão e a extroversão determinam a personalidade? A resposta para essa pergunta é não! Há, ainda, a presença de quatro funções que complementam a manifestação da personalidade: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. Vamos estudar melhor cada uma delas? O pensamento se refere a um processo com o foco na compreensão; já o sentimento aborda um processo subjetivo de ponderação e avaliação; a sensação, por sua vez, é a própria percepção consciente dos objetos; e a intuição se trata dessa percepção, mas de forma inconsciente. Perceba que, para Jung, o pensamento e o sentimento seriam funções racionais de reação, pois se relacionavam com a razão, enquanto que a sensação e a intuição seriam não racionais, pois não envolvem o uso da razão. Que tal acompanharmos um exemplo? License-389052-28306-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Pense em uma pessoa que tem o pensamento como a principal função: geralmente ela gosta de lidar com questões concretas e racionais, como cálculos ou execução de projetos mecânicos. Por outro lado, uma pessoa intuitiva prioriza os sentimentos que não podem ser explicados nem definidos, como, por exemplo, pessoas que se aproximam de questões místicas. Assim como no caso da introversão e da extroversão, geralmente há o domínio de uma função, sendo que elas podem ser combinadas com o domínio da extroversão e introversão, produzindo os oito diferentes tipos psicológicos criados por Jung, os quais estudaremos ainda neste material. Através das ideias de pensamento, sentimento, sensação e intuição, além da introversão e extroversão, Jung estabeleceu oito tipos psicológicos. License-389052-35174-0-5PSICOLOGIA APLICADA O inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo Estamos estudando que Jung apresentou, em sua teoria, a divisão da psique em três estágios: a consciência, o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. A consciência seria o centro da mente: por meio dela, nós percebemos a concepção que possuímos de nós mesmos. Além disso, é através da consciência que temos o contato com a realidade, e é ela que nos permite ter percepções e lembranças. Mas do que tratam o inconsciente pessoal e coletivo? É o que veremos agora. Siga com atenção! O inconsciente pessoal Agora que estudamos a consciência, vamos conhecer o inconsciente pessoal, que vem logo abaixo da consciência e que consiste nas lembranças, nos impulsos, nos desejos e em outras experiências que, ao longo da vida, foram esquecidas ou reprimidas. E esses fatos podem ser trazidos para o consciente? Sim! Esses fatos e essas memórias podem ser facilmente trazidos para o nível consciente, principalmente através da psicoterapia. Isso permite que apareçam aspectos do nosso inconsciente na nossa percepção da realidade. Quer um exemplo? Pense em uma situação na qual você se esquece de algo que iria falar ou se esquece de um nome. Isso pode revelar a sua entrada no inconsciente, ou uma separação momentânea do consciente, pois, apesar de perdido, esse material continua em nossas mentes conscientes. License-389052-35174-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Portanto, parte do inconsciente é uma junção de vários pensamentos, imagens e impressões que ficam ocultos provisoriamente (ou não) e que influenciam a parte consciente de nossas mentes. Que tal acompanharmos mais um exemplo? Muitas vezes abrimos a geladeira e nos esquecemos do que iríamos pegar lá dentro, não é mesmo? Ainda assim, continuamos a procurar, deixando-nos guiar, inconscientemente, até encontrar o que estávamos procurando. Isso acontece porque o inconsciente nos ajudou a lembrar do que procurávamos. Para Jung, a nossa mente inconsciente, assim como o nosso corpo, é um repositório de relíquias e memórias do passado. O inconsciente coletivo Abaixo do inconsciente pessoal aparece o inconsciente coletivo, nível mais profundo, do qual o sujeito desconhece o conteúdo. O inconsciente coletivo contém as experiências acumuladas de todas as nossas outras gerações, incluindo nossos ancestrais humanos e animais. Mesmo em se tratando da força mais potente presente em nossas personalidades, as experiências evolutivas do inconsciente não são notadas, justamente porque elas não são experiências pessoais, mas, sim, universais. Jung fala, ainda, que essa herança se apresenta através de tendências, as quais ele chama de arquétipos. Os arquétipos são alguns determinantes inatos da mente humana que fazem com que a pessoa se comporte de maneira semelhante aos seus ancestrais que estiveram em situações parecidas. Jung estendeu esse estudo dos arquétipos à diversas manifestações culturais e criações míticas e artísticas, e com isso, descobriu que diversos símbolos se repetem de forma parecida em culturas separadas no tempo e no espaço, excluindo a possibilidade de influência direta. Com isso, esses arquétipos se apresentam geralmente como emoções ou experiências significativas ao longo de nossas vidas. License-389052-35174-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Ainda não ficou claro? Que tal acompanharmos um exemplo? Um dos arquétipos que Jung identificou foi o arquétipo materno, que seria a representação da fertilidade e de proteção. Ele pode ser representado através da natureza, por Maria, mãe de Cristo (no cristianismo); por Afrodite (na mitologia grega); e até mesmo por uma pessoa pela qual temos um grande afeto devido à sua proteção. A figura a seguir mostra um mito: segundo Jung, o inconsciente coletivo deriva dos mitos dos nossos ancestrais. Fonte: Panos Karas, Shutterstock, 2017. Veja ainda que, em seus estudos, Jung percebeu que quatro arquétipos apareciam com mais frequência e com uma carga emocional maior. São os arquétipos da persona, da anima e animus, da sombra e do self, nos quais nos aprofundaremos em breve. License-389052-35174-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Para Jung, o inconsciente coletivo contém toda a herança espiritual da evolução da humanidade, renascida na estrutura do cérebro de cada indivíduo. Clique na figura para assistir ao vídeo A manifestação inconsciente através dos sonhos Ao criar a Psicologia Analítica, Jung abordou profundamente o sentido dos sonhos que temos: para ele, assim como para Freud, os sonhos se tratam de uma expressão no nosso inconsciente, como forma de revelar aspectos que se encontram inconscientes diante de um determinado acontecimento. E qual a importância dos sonhos para a Psicologia Analítica? Bem, o sonho é o material mais fundamental e acessível para investigar a forma como o homem produz seus símbolos. Pense, por exemplo, em uma criança que sonha com um monstro toda vez que sente medo. Podemos supor que isso nada mais é do que uma representação do medo real que essa criança sentiu ao longo do dia. License-389052-35174-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Porém, devemos deixar claro que não estamos tratando de suposições prévias em relação aos sonhos, pois não há um padrão. Devemos considerar, sim, o sentido que determinado símbolo possui para a realidade de cada indivíduo. Por exemplo, o monstro do sonho da criança pode representar, para determinado adulto, não o medo, mas outro aspecto, como uma insegurança financeira. Veja, na figura a seguir, que a manifestação inconsciente de algo se dá por meio dos sonhos. Fonte: agsandrew, Shutterstock, 2017. Perceba, ainda, que as revelações contidas nos sonhos não necessariamente são um milagre ou previsão, mas, sim, aquilo que não vemos no consciente e que quase sempre é captado pelo inconsciente, transmitindo-nos a informação por meio de sonhos. O inconsciente, então, usa o material arquetípico e modifica a sua forma de acordo com as necessidades de quem sonha, representando os arquétipos da forma como o sujeito possa reconhecer. License-389052-35174-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Para compreender melhor esses conceitos, assista à animação a seguir. Clique na figura para assistir ao vídeo Por fim, de acordo com Jung, geralmente quem sonha tem a tendência de ignorar ou até mesmo rejeitar a mensagem do sonho, justamente por se tratar de uma mensagem do inconsciente. Nesse sentido, podemos dizer que a consciência pode resistir a tudo o que é desconhecido, erguendo barreiras psicológicas que têm como objetivo proteger o sujeito do choque que o próprio sonho pode trazer. Os sonhos são, portanto, a representação daquilo que é enviado para o nosso inconsciente e reprimido, podendo ser representando através de símbolos. License-389052-28302-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Principais conceitos e objetivos da teoria Conforme já falamos, ao estudar os arquétipos, Jung encontrou quatro principais, os quais continham uma carga maior de significado emocional, sendo remetidos a mitos antigos de diversas origens. Veremos como esses arquétipos (persona, sombra, anima e animus, e self) influenciam em nossas mentes e personalidade. Siga com atenção! A persona O primeiro arquétipo de Jung que você precisa conhecer é a persona, que se refere ao aspecto mais exterior da personalidade, podendo ser uma persona oculta ou o eu verdadeiro. Seria como uma máscara que usamos quando temos que nos relacionar com outras pessoas, podendo ser comparada com um papel que alguém interpreta. Portanto, a persona não pode ser considerada a nossa verdadeira personalidade, pois geralmente a usamos como forma de nos mostrarmos acordo com o que os outros esperam de nós. Jung comparava a persona a um casaco, que pode simbolizar um abrigo protetor, onde o indivíduo pode se esconder. Com isso, a persona tem dois objetivos: passar determinada impressão aos outros e ocultar o seu íntimo da curiosidade alheia. Acompanhea figura a seguir, na qual temos a representação de uma persona como algo exterior. Fonte: Ollyy, Shutterstock, 2017. License-389052-28302-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Quer um exemplo? Pense no hábito que uma freira usa: ele pode ser considerado uma representação da persona por mostrar, exteriormente, o que aquela roupa representa e por ocultar tanto o corpo quanto as opiniões da freira. A persona seria, portanto, um compromisso que o indivíduo faz com a sociedade para representar aquilo que as outras pessoas esperam dele. Anima e animus Começaremos a estudar anima e animus tendo contato com seus conceitos: são representações do sexo oposto que cada pessoa apresenta em sua personalidade. Mas o que cada um representa, especificamente? A anima representa as características femininas presentes no homem; e o animus, as características masculinas presentes na mulher. Assim como os outros arquétipos, anima e animus referem- se ao passado antigo da espécie humana, quando os homens e as mulheres tomaram para si características comportamentais e emocionais do outro sexo. Ressaltamos que essas características são elementos do inconsciente, pois, apesar de a personalidade visível do indivíduo ser aquela que condiz com o seu sexo, há possibilidade de escondermos um lado oposto, que fica escondido interiormente A figura a seguir mostra um esquema sobre a anima e o animus. • Representação do feminino no homem • Representação do masculino na mulher anima animus License-389052-28302-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Temos como exemplo dessa representação os sonhos que um sujeito do sexo masculino tem com a sua mãe e as possíveis identificações com as atitudes dela. Perceba que a mãe pode ser a forma que a anima toma em um sonho, como forma de simbolizar o desejo do indivíduo de manifestar suas características do sexo oposto. Além disso, geralmente o caráter da anima de um homem é determinado pela sua relação com a mãe. Em geral, a anima demonstra o modo mais afetivo que a pessoa tem para lidar com o ambiente e com o sexo oposto. Afinal, somente após liberar os aspectos da anima, que seria a representação do feminino, um homem estará realmente pronto para se relacionar com as mulheres (ou em outros relacionamentos em geral). E quanto à personificação masculina, o animus? Veja que o animus se manifesta menos em forma de fantasias do que a anima, aparecendo mais comumente com a imposição dos desejos, por meio de voz forte e insistente da mulher. Por exemplo, geralmente podemos perceber características mais frias e obstinadas na mulher, demonstrando o animus se sobressaindo em sua personalidade. Podemos notar essas manifestações, por exemplo, quando uma mulher apresenta intimidade com situações de liderança. Podemos nos referir ao animus como um composto de opiniões espontâneas; e à anima como os sentimentos que distorcem o entendimento. A sombra e o self Outros dois importantes arquétipos que precisamos conhecer, fundamentais para a construção das bases da Psicologia Analítica, são a sombra e o self. Mas do que trata cada um desses arquétipos? Começaremos pelo arquétipo da sombra, que seria o nosso eu mais sombrio, a parte mais animalesca de nossas personalidades. A sombra é composta por nossos desejos imorais, que não License-389052-28302-0-4 PSICOLOGIA APLICADA podem ser aceitos pela sociedade. Ela se projeta pela mente consciente do indivíduo e contém os aspectos ocultos, reprimidos e negativos das nossas personalidades. Porém a sombra não é necessariamente negativa, visto que ela pode ser a fonte da espontaneidade, dos instintos e da criatividade. Que tal acompanharmos um exemplo? A sombra representa aquelas atitudes que abominamos em outra pessoa, mas que geralmente gostaríamos, inconscientemente, de fazer. Porém, devido a repressões sociais ou morais, não temos coragem de colocá-las em prática. É o caso, por exemplo, de uma pessoa trabalhadora que condena as atitudes de um preguiçoso, mas que, de alguma forma, também gostaria de ser um pouco mais relaxada. Acompanhe a figura a seguir, na qual está representada a sombra como algo reprimido. Fonte: Khamidulin Sergey, Shutterstock, 2017. Em outras palavras, para Jung a sombra é uma personalidade escondida, reprimida, na maioria das vezes cheia de culpa. Isso também pode descender dos nossos ancestrais, compreendendo todo o aspecto histórico do inconsciente. License-389052-28302-0-4 PSICOLOGIA APLICADA E quanto ao self, o que seria? Jung considerava o self o arquétipo mais importante do seu sistema, pois ele é o responsável pelo equilíbrio de todos os aspectos do inconsciente. O self pode ser considerado como um impulso de autorrealização que visa promover a harmonia e estabilidade da personalidade do indivíduo . Veja, na figura a seguir, o self como representação do equilíbrio. Consciente Inconsciente Self E em qual fase da vida acontece o ápice do self? Bem, Jung considerava que o auge da autorrealização não poderia acontecer antes da meia-idade, sendo a fase de 30 a 40 anos a fase essencial para o desenvolvimento da personalidade. Essa ideia contraria a teoria de Freud, que apresentava que a infância era o estágio mais importante do desenvolvimento da personalidade. Perceba que é a partir do self que se dá a totalidade da psique, fazendo emergir a consciência individualizada do ego, através da qual o homem alcança a plena realização das suas potencialidades. Embora reconheçamos a existência do self, ainda não o conhecemos em sua totalidade, pois ele é o grande responsável por todo o equilíbrio da psique. License-448870-37890-0-6 PSICOLOGIA APLICADA O processo de individuação Vimos, na Unidade de Aprendizagem 8, a presença de alguns conceitos criados por Jung, tais como os arquétipos e a formação da psique através da consciência, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. Porém, ao estudar todas essas estruturas, Jung percebeu que ainda faltava uma questão particular em relação ao indivíduo. Diante de toda essa apresentação simbólica, o autor notou que isso era necessário à correta interpretação individual de cada um. Ficou curioso (a)? Então siga em frente para saber mais! O que é o processo de individuação? Você concorda que o ser humano, ao crescer e se desenvolver, quer se sentir completo? Veja que esse desejo torna o indivíduo capaz de tomar consciência desse desenvolvimento e o influencia nas suas decisões ao longo da vida, seja nas escolhas da profissão, das relações afetivas e até mesmo de crenças pessoais. Surge, assim, um confronto entre o inconsciente e a consciência, e é nesse confronto que os componentes da personalidade amadurecem, moldando um sujeito específico e único. Essa construção é o processo de individuação que cada um passa ao longo da vida. E de que forma esse processo começa? Perceba que esse processo tem início com uma simples estrutura, que se desenvolve até se transformar em algo complexo. Quer um exemplo? Pense em uma larva, que começa com uma pequena estrutura e se transforma em borboleta. Dessa forma também é o desenvolvimento do nosso self: ele parte de uma simples estrutura, que vai se desenvolvendo ao longo de nossas vidas até atingir o seu amadurecimento. Note, porém, esse processo não é linear, pois depende da organização que o self estabelece entre o consciente e o inconsciente, construindo uma personalidade individual. A figura a seguir simboliza o caminho que o indivíduo percorre para descobrir seu verdadeiro eu. License-448870-37890-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: connel, Shutterstock, 2018. Clique na figura para assistir ao vídeo Contudo, esse conceito de Jung é muitas vezes deturpado, por dois motivos: primeiramente porque esse conceito não License-448870-37890-0-6 PSICOLOGIA APLICADA se relaciona à perfeição, mas ao objetivo de completar-se, principalmente em relação a aceitar, conscientemente, os erros e defeitos; e, em segundo lugar,há uma confusão entre individuação e individualismo – veja que, mesmo em processo de individuação, o sujeito ainda participa de componentes que são partilhados, inclusive o inconsciente coletivo. Através do processo de individuação, você se despe de suas máscaras e descobre o seu verdadeiro eu. Podemos notar o estímulo desse processo de individuação dentro da psicoterapia. Jung descobriu, através de diversos estudos, que através da psicoterapia os arquétipos podem tomar forma para o consciente, desenrolando o processo de individuação através da análise dos sonhos e visões do paciente. Como a individuação se relaciona com os principais arquétipos Embora as ideias de Jung sejam recentes, o processo de individuação é descrito em diversas produções históricas e mitológicas. Além disso, ele sempre existiu por meio dos nossos sonhos. Mas por que os sonhos têm relação com a individuação? Perceba que são os sonhos que sinalizam os progressos, as interrupções e interferências. Por exemplo, rotineiramente podemos sonhar com alguém com quem brigamos devido ao fato de que isso pode estar nos incomodando. Além disso, através de diversos estudos, Jung percebeu que esse processo passa por um caminho no qual as etapas são os principais arquétipos. Dessa forma, a persona, a sombra, a anima e o animus e os demais arquétipos vão se expressando de maneira singular, na medida em que vão se individualizando. E como ocorre o processo de individuação? O verdadeiro processo de individuação acontece através de uma harmonização do consciente com o self, que é o nosso centro License-448870-37890-0-6 PSICOLOGIA APLICADA psíquico, e isso só acontece na medida em que o indivíduo toma consciência dos seus símbolos inconscientes e os toma para si. Vamos a um exemplo disso? Veja que muitas pessoas podem sonhar com algum episódio em que elas se sentem culpadas. Isso pode se referir a algum fato que aconteceu na vida real e que, de alguma forma, faz com que essa pessoa possua algum sentimento de culpa que esteja recalcado. Individuação não é individualização, mas a realização consciente daquilo que está na existência do indivíduo, ou seja, a individuação não isola, conecta. Saiba, ainda, que a individuação ocorre por etapas: a primeira etapa acontece através da persona, que aqui representa a defesa de cada um diante do mundo externo. Essa defesa pode ser representada pelas máscaras que colocamos para que não percebam uma face desconhecida nossa. Então, através do processo psicoterápico, é possível estimular que nos dispamos de nossa persona, refletindo a nossa verdadeira face, nua e crua. Veja, a seguir, uma imagem que simboliza a remoção das máscaras da persona. License-448870-37890-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: benik.at, Shutterstock, 2018. Perceba que, quando deixamos transparecer essa nossa face que estava oculta, mostra-se, também, o nosso lado escuro. Assim, encontramos as coisas que reprimimos, que nos desagradam ou nos assustam. Ou seja, vem à tona a sombra, o conjunto das coisas que abominamos e que projetamos em pessoas que condenamos. E de que forma a sombra se manifesta? Geralmente a sombra aparece em nossos sonhos, por meio de símbolos que representam o avesso. Por exemplo, uma pessoa muito caridosa pode sonhar com algum episódio em que ela esteja sendo egoísta. Isso não representa necessariamente um desejo de ser egoísta, mas, talvez, em determinados momentos, essa pessoa pode desejar dizer não, mas não consegue. Perceba que faz parte da individuação retirar a sombra da repressão e iniciar a segunda etapa, que seria a aceitação dos nossos defeitos e desejos condenáveis que habitam o inconsciente, incorporando, na personalidade de cada um, também os traços mais sombrios. License-448870-37890-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Depois de aceitar a própria sombra, é preciso começar a confrontar a anima. Lembre-se de que a anima é a representação psíquica da minoria genética feminina presente no corpo do homem. Essa anima se manifesta através das experiências ancestrais que o homem teve com a mulher e que foi moldando o que seria essa herança feminina dos traços da personalidade, como a sensibilidade ou a vocação para o cuidado, que cada homem pode carregar. Dessa forma, faz-se necessário confrontar e entender as manifestações dessa anima para o inconsciente, através dos sonhos. Ela pode se manifestar através dos mitos, folclore ou produções artísticas, tais como a sereia, a feiticeira, fada, deusa, etc. É preciso desenvolver e diferenciar esse princípio feminino para o homem e procurar evoluir, buscando aceitar essas características femininas que cada um tem, sem demonstração de preconceitos. Afinal, é através da anima que o homem vai estabelecer a forma como se relaciona com o mundo exterior. E a mulher, não recebe influência masculina? Claro! Assim como a manifestação da anima, há também a presença do animus, que representa a masculinidade existente no psiquismo da mulher. Essa masculinidade se apresenta através de opiniões convencionais e simplistas, estimulando o raciocínio lógico. Perceba que o animus se opõe à essência feminina, que busca como prioridade o relacionamento afetivo. Além disso, da mesma maneira que a anima, o animus pode evoluir e se transformar através da psicoterapia e análise dos sonhos. Dentre os contos, é possível ver figuras masculinas que se redimem pela ajuda da heroína. Isso pode simbolizar a evolução do princípio masculino através da consciência da mulher. Veja, na figura a seguir, que todos os principais arquétipos se relacionam com a persona. License-448870-37890-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Self PersonaSombra Anima Animus Ressaltamos que todos esses componentes da psique humana que vimos até agora são muito úteis para nos conhecermos, principalmente através de um processo psicoterápico. Além disso, esses aspectos também podem ser muito úteis no ambiente organizacional, como forma de conhecer mais profundamente as motivações e as razões pelas quais as pessoas agem de diferentes maneiras frente aos problemas que podem aparecer no cotidiano do trabalho. License-448870-35188-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A origem dos complexos Já falamos sobre a importância do inconsciente pessoal para a formação da psique e que o material contido nessa parte inconsciente pode ser facilmente acessado pela parte consciente através de estímulos. Agora estudaremos uma característica muito interessante do inconsciente pessoal, os complexos, os quais veremos a seguir. Vamos lá? A descoberta dos complexos Começaremos a estudar os complexos conhecendo sua definição: podemos entender os complexos como uma reunião de conteúdos dotados de forte carga afetiva para o indivíduo. Jung comprovou a existência dos complexos em um estudo de associação de palavras em que as pessoas tinham de ler as palavras de uma lista e logo depois dizer a primeira coisa que viesse à sua mente. Muitas vezes as pessoas demoravam a apresentar a resposta, e Jung percebeu que essa demora era provocada por alguma emoção inconsciente que inibia a resposta. Com isso, Jung chegou à conclusão de que devem existir grupos de sentimentos e lembranças no inconsciente de cada um. Esses grupos afetivos foram chamados por Jung de complexos. Veja, na figura a seguir, que os complexos são associações carregadas de emoção. Fonte: Rawpixel.com, Shutterstock, 2018. License-448870-35188-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Clique na figura para assistir ao vídeo Perceba que, graças à definição de complexos, surgiram, no cotidiano do senso comum, termos como complexo de inferioridade ou complexos sexuais. Isso se refere ao fato de que, quando afirmamos que uma pessoa tem um complexo, estamos querendo dizer que aquela característica é tão presente na personalidade da pessoa que se torna uma forma de defini-la. Quer um exemplo? Um grande exemplo dado por Jung é o complexo materno, que pode denominar uma pessoa que é extremamentesensível a tudo o que envolve a maternidade. Geralmente essa pessoa tenta incluir a mãe em todas as situações, conversas ou acontecimentos, inclusive tentando imitá-la nas atitudes e dando preferência às coisas que são de interesse da mãe. Assimilação dos complexos Conheceremos, agora, mais uma etapa importante na procura pelo autoconhecimento, principalmente através da psicoterapia: a necessidade de tomar consciência dos complexos que cada um de nós possui. License-448870-35188-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Veja, porém, que essa tomada de consciência não pode ocorrer apenas no plano intelectual: quando, por exemplo, alguém diz para outra pessoa que ela possui complexo de inferioridade, isso deve ser trabalhado em um ambiente psicoterápico, como forma de fazer com que o sujeito entenda as motivações que o fazem possuir aquele complexo. Como sabemos, os complexos envolvem questões emocionais, e com isso surge a necessidade de exteriorizá-los e aceitá-los também através de nossos sentimentos. A figura a seguir simboliza uma pessoa assimilando seus complexos. Fonte: Ollyy, Shutterstock, 2018. Ainda não ficou claro? Vamos aprofundar um pouco mais! Perceba que, ao chegar aos complexos, o sujeito está se aproximando de temas emocionais que foram reprimidos e que podem causar algum distúrbio psicológico permanente. Todavia, os complexos não são por essência, patológicos: eles apenas indicam a existência de um material que não foi assimilado ou que ainda está em conflito. Mas existe algum caso em que os complexos são patológicos? License-448870-35188-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Sim! Eles são patológicos apenas quando sugam para si uma grande carga psíquica. Como exemplo disso, temos diversos casos de pessoas que desenvolveram algum surto psicótico devido a alguma decepção amorosa. Além disso, Jung também descobriu, posteriormente, que os complexos não necessariamente são um obstáculo para a evolução da pessoa. Eles também podem ser fontes de inspiração, estimulando a criatividade e de impulso, podendo servir em prol de realizações pessoais e profissionais. Por exemplo, um pintor que possui um grande envolvimento com a beleza pode produzir diversas obras de arte expressando a forma como ele entende e enxerga a beleza. Quando assimilamos nossos complexos, somos capazes de levá-los para o campo da consciência e entendê-los visando à superação. Os complexos e o inconsciente coletivo Ao abordar os complexos, podemos entender que há várias origens possíveis para eles. Dentre essas origens, podemos citar a formação dos arquétipos. Veja, na figura a seguir, como se formam os complexos. Complexos Experiências Individuais Símbolos Arquétipos License-448870-35188-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Que tal acompanharmos um exemplo? Retornemos ao complexo materno: podemos inferir que muito dele pode estar relacionado ao arquétipo da mãe e a sua representação cultural para a sociedade. Perceba que há vários exemplos dessa representação: Maria, a mãe de Cristo; a natureza, mãe dos seres vivos; Demeter, a deusa da fertilidade para a mitologia grega, etc. Sendo assim, o arquétipo pode ser considerado o centro de um complexo, atraindo para ele todas as experiências significativas. Quando esse complexo se torna suficientemente forte, ele pode chegar à consciência, ou seja, ele é tão desenvolvido que se expressa em níveis conscientes. Quer um exemplo? Imagine uma pessoa que tenha complexo divino, a partir de um arquétipo de Deus. Como todos os outros arquétipos, ele existe primeiramente no inconsciente coletivo. À medida que a pessoa passa a ter experiências com esse arquétipo, essas experiências vão se reunindo e podem formar um complexo. Perceba que o complexo também vai se fortalecendo com esses novos materiais, até adquirir forças para chegar ao nível da consciência desse sujeito. Diante disso, a pessoa vai se aproximando das coisas relacionadas ao Deus de sua crença. Veja, ainda, que, se esse complexo se tornar dominante, isso pode chegar a níveis extremos, como é o caso de pessoas que acreditam ser um profeta de Deus e acusam as pessoas que “vivem no pecado”. Isso demonstra que o complexo assumiu o controle da personalidade desse sujeito, chegando a níveis patológicos. Se esse complexo tivesse assumido somente parte da personalidade dessa pessoa, ela poderia ser apenas alguém que frequenta celebrações religiosas e acredita no poder na fé. Os complexos estão relacionados ao inconsciente coletivo, pois se apresentam em nossos sonhos através da simbologia que herdamos dos nossos ancestrais. License-448870-35188-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Entender os complexos e como eles se apresentam pode nos a judar muito também a entender alguns aspectos das pessoas que nos acompanham no ambiente de trabalho. Toda essa simbologia também se manifesta na forma como as pessoas se comportam e quais valores elas seguem, podendo ser facilitadores para conhecer o perfil dos funcionários, e com isso buscar adequar as melhores pessoas para exercerem cada função. License-448870-33276-0-4 PSICOLOGIA APLICADA A terapia analítica e a eliminação dos complexos Depois de vermos como os complexos atuam em nossas psiques, veremos de que forma o trabalho psicoterápico pode influenciar na construção e assimilação desses complexos. Vamos lá? A psicoterapia e sua relação com os complexos Um dos principais objetivos da psicoterapia é eliminar os complexos, livrando-nos das imposições e traumas que esses complexos causam. E, conforme já vimos, conhecer os complexos é um passo importante para o autoconhecimento. Saiba que os complexos geralmente são indícios de todos os distúrbios comportamentais. Por exemplo, quando um homem chama a esposa pelo nome da mãe, provavelmente ele está remetendo ao seu complexo materno. Com isso, vemos que os complexos se relacionam intimamente com as memórias que são reprimidas pelo inconsciente. E de que forma podemos superar esses complexos? Veja que a psicoterapia pode servir como uma forma de procurar entender os traumas e conflitos que originam esses complexos e como podemos evoluir em relação a eles, de forma a procurar superá-los. A figura a seguir simboliza a importância da Psicoterapia Analítica. License-448870-33276-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Ambrophoto, Shutterstock, 2018. Além disso, a psicoterapia é um instrumento de trabalho importante em relação a essas memórias suprimidas e à forma como os complexos se organizam. Uma vez que o psicólogo identifica o verdadeiro complexo, pode iniciar um processo para lidar com ele. Porém, descobrir esses complexos reais pode ser um trabalho árduo, visto que, muitas vezes é preciso lidar com complexos disfarçados, não obtendo êxito. Através da psicoterapia, podemos descobrir quais complexos nos afligem e procurar superá-los. O self como o ordenador dos complexos Quando abordamos os principais arquétipos, aprendemos que o self é o principal arquétipo, pois ele é o responsável pela ordenação das estruturas psíquicas, visando torná-las harmoniosas. Ao procurar organizar essas estruturas, ele também é umas das principais forças sobre os complexos, pois License-448870-33276-0-4 PSICOLOGIA APLICADA é através do self que os arquétipos se organizam, harmonizando as atuações dos complexos e conferindo um senso de unidade para toda a estrutura da personalidade. Veja, na figura a seguir, o self como ordenador da psique. Auto Conhecimento Self Complexos Com isso, a meta final de qualquer personalidade é chegar a um estado de autorrealização, em que o self é conhecido e entendido. Contudo, essa não é uma tarefa fácil, que faz parte de um processo que acontece através da psicoterapia. Jung recomenda que, ao procurar desenvolver esse trabalho através da psicoterapia, devemos visar ao autoconhecimento (não à autorrealização). Essa distinção se faz necessária porque muitas pessoas procuram a perfeição sem ter o menor conhecimentode si. Veja que é preciso, primeiramente, reconhecer as origens dos nossos próprios erros e defeitos. A consciência de si faz com que cada um deixe de projetar nos outros os elementos reprimidos do próprio inconsciente. License-448870-33276-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Os sonhos sendo analisados Um dos principais materiais analisados dentro da psicoterapia analítica, visando procurar a tomada de consciência de si, é a análise dos sonhos, como forma de procurar entender as mensagens que o inconsciente tenta transmitir. Através dos sonhos, os arquétipos podem se manifestar, entre eles o self, aumentando a consciência e a compreensão da vida. Mas como isso funciona? Jung afirma que, por meio das associações que os sonhos apresentam, é possível fazer outras associações que nos levam aos complexos. Por exemplo, você pode sonhar com a natureza caso esteja trabalhando, na terapia, temas relacionados à sua relação com a sua mãe. Perceba que uma história apresentada pela consciência possui começo meio e fim, o que não acontece com o sonho, que apresenta dimensões, espaço e tempo diferentes. Portanto, para entender os sonhos, é necessário examinar os seus mais diversos aspectos. A figura a seguir simboliza a importância dos sonhos analisados. Fonte: Yuganov Konstantin, Shutterstock, 2018. License-448870-33276-0-4 PSICOLOGIA APLICADA Percebeu a importância do autoconhecimento em sua vida? Note que a relação que há entre nós e nossos inconscientes pode influenciar nossas relações, tanto pessoais quanto profissionais. A possibilidade de se conhecer melhor durante o processo terapêutico também pode ser uma excelente ferramenta no seu ambiente profissional, como forma de conhecer os seus potenciais, as suas fraquezas e até mesmo melhorar as relações que são estabelecidas no ambiente de trabalho. Diante disso, vemos que a psicoterapia é algo essencial para todos nós, sendo de sua importância para buscarmos entender melhor a nossa mente. Sendo assim, a recomendação e o estímulo, por parte dos profissionais de RH para que seus funcionários também façam essa prática, pode ser de grande ajuda para solucionar conflitos e até mesmo entender questões pessoais do empregado, como satisfação, interesse, motivação, etc. O sono fornece a possibilidade de uma descida ao inconsciente e a apresentação de suas manifestações através dos sonhos. License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA A construção da psique para Jung Conforme já vimos anteriormente, ao romper com as ideias de Freud, Jung inicia o desenvolvimento de seu próprio trabalho e estabelece uma nova estrutura para a formação da mente humana, ou como o próprio Jung nomeou: a psique. Vamos conhecer mais sobre ela? Siga com atenção! A psique Para entendermos o significado da palavra psique, começaremos por sua origem, que é latina: originalmente, essa palavra significava alma. Jung então se apropriou desse termo para definir a sua concepção de personalidade como um todo. Veja que a psique seria, portanto, o englobamento de todos os nossos pensamentos, sentimentos e comportamento, tanto conscientes quanto inconscientes. Acompanhe a figura a seguir, que simboliza a psique e suas engenhosidades. Fonte: Michael D. Brown, Shutterstock, 2018. License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA E de que forma Jung sustenta esse conceito de psique? Note que Jung sustenta esse conceito de psique afirmando que uma pessoa é, primeiramente, um todo, e não uma reunião de partes que podem ser moldadas. Nesse sentido, ele contraria as abordagens que tratam o homem como partes que têm como objetivo ser um todo. Segundo Jung, todos nós já nascemos como um todo, e, ao longo da vida, vamos desenvolvendo esse todo até atingir o mais alto nível de harmonia. Uma personalidade que se fraciona se trata de uma personalidade deformada, e é função do psicólogo recuperar a unidade perdida e fortalecer a psique, de modo que não aconteçam desmembramentos. Jung, então, divide essa personalidade em duas partes (o consciente e o inconsciente), as quais poderíamos comparar a um sistema energético relativamente fechado. Perceba que, nesse sistema psíquico, há a presença de uma energia psíquica que é constante, mas cuja distribuição varia, podendo desaparecer de um lugar e aparecer em outro de forma diferente. Ainda não ficou claro? Acompanhe um exemplo! Se um grande interesse existente por um determinado objeto deixa de encontrar nele uma oportunidade para aplicar-se, a energia que alimentava esse interesse tomará outros caminhos, podendo aparecer em manifestações somáticas (palpitações, distúrbios digestivos, erupções cutâneas, etc.). Veja, ainda, que isso também poderá reativar conteúdos adormecidos no inconsciente, construindo sintomas neuróticos. Além disso, para Jung, a psique está em constante dinamismo, tendo correntes energéticas que se cruzam continuadamente e favorecendo o aparecimento de tensões diferentes, polos opostos, correntes em progressão ou regressão. Veja, na figura a seguir, as energias psíquicas. License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Psique Inconsciente Consciente Note que a energia da libido apresenta uma constante necessidade de se adaptar ao meio, como forma de responder às exigências impostas pelo mundo. Por exemplo, fazemos isso quando temos que conter nossas manifestações de alegria em público. Porém, ao longo da vida, essa energia pode encontrar obstáculos que podem procurar deter essa energia, que fica acumulada ou estagnada até retornar ao seu campo de origem . E esse retorno pode trazer consequências? Sim! Esse recuo pode reativar materiais que se encontram reprimidos no inconsciente, causando um confronto que pode provocar os sintomas somáticos e a apresentação de neuroses . Clique na figura para assistir ao vídeo License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Observe a figura a seguir, que simboliza a energia psíquica que precisa se adaptar ao meio. Fonte: Ollyy, Shutterstock, 2018. Assim como a humanidade, a psique vem evoluindo ao longo do tempo, mas até hoje apresenta traços arcaicos, como nossos instintos frente ao medo. A consciência Conforme vimos, a psique se divide em duas partes: a consciência e a inconsciência. Perceba que estabelecemos a nossa relação com o mundo e com nós mesmos por meio da transição dessa energia psíquica entre essas duas instâncias. Mas o que é a consciência? License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Jung apresenta que a consciência é um processo de evolução humana que levou um tempo infindável até chegar ao estado civilizado em que vivemos atualmente, e essa evolução está longe de alcançar a conclusão. A consciência seria, portanto, a única parte da mente que já conhecemos que aparece em nossas vidas antes mesmo do nascimento. E como isso ocorre? Note que, mesmo nos bebês, podemos observar a presença de uma percepção consciente: por exemplo, a criança sempre é capaz de reconhecer e identificar os pais, demonstrando a sua tomada de consciência quanto aos seus cuidadores. À medida que vamos crescendo, vamos desenvolvendo a consciência e as quatro funções mentais denominadas por Jung da seguinte forma: pensamento, sentimento, sensação e intuição, as quais estudaremos em breve. Sem a consciência não haveria o mundo, pois ele só se apresenta para nós à medida que ele toma a forma consciente para a psique. O inconsciente Embora já tenhamos estudado o conceito de inconsciente, não custa nada relembrarmos, não é mesmo? O inconsciente se refere ao material que fica contido em um nível mais profundo de nossas mentes, ou seja, é no inconsciente que se encontra o material que a consciência reprime como forma de se defender das situações traumáticas e conflitantes vivenciadas. Também é importante que você saiba que Jung divide o inconsciente em duas partes: o pessoal, que se refere às nossas experiências únicas; e o coletivo, que seria a herança histórica que semanifesta através de símbolos, os quais Jung chama de arquétipos. Perceba que esse material se refere a coisas que escapam da nossa consciência, mas que, no entanto, não desaparecem – apenas se mudam para um outro local, ou seja, mais tarde poderemos reencontrar. License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Que tal acompanharmos um exemplo para entender melhor essas questões? Se observarmos um neurótico, podemos perceber comportamentos que, aparentemente, são completamente intencionais e conscientes. Porém, se questionarmos essa pessoa, poderemos descobrir que ela ou não tem consciência alguma das ações praticadas, ou as enxerga de maneira diferente da forma como elas realmente acontecem. Isso faz com que muitos médicos rejeitem as queixas dos histéricos, afirmando que a pessoa não possui nenhum tipo de dor ou enfermidade. Afinal, de fato a mente da pessoa provoca os sintomas sentidos, mas, no entanto, eles se encontram no inconsciente, não apresentando razões para a sua existência. Veja, na figura a seguir, que o inconsciente ainda é uma estrutura misteriosa. Fonte: Bruce Rolff, Shutterstock, 2018. License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA O inconsciente é como um carro que virou a esquina: o perdemos de vista, porém, ele não deixou de existir, e poderemos reencontrá-lo em outro momento. Perceba que a consciência se trata de uma parte que foi recentemente descoberta e ainda se encontra em estado experimental. Com isso, aceitar uma parte que é completamente desconhecida (inconsciente), para os estudiosos, pode gerar uma grande angústia de como lidar com esse desconhecido. Além disso, dentro do processo histórico há mitos chamados de “ruptura da alma”, que seriam justamente essa dissociação entre a consciência e a inconsciência. Essa crença pode fazer com que a ideia de que uma parte alma pode se perder assuste e provoque a renegação desse fato. Ainda não ficou claro? Acompanhe um exemplo! Vemos isso acontecer comumente quando uma pessoa passa por algum surto psicótico com alucinações: nesse caso, há pessoas que ainda acreditam que esse surto de trata de uma perda da alma da pessoa. Diante disso, vemos como essa estrutura da nossa mente ainda é misteriosa, e os estudos sobre ela ainda estão inacabados. Em outras palavras, falta muito para conseguirmos entender toda a dimensão e capacidade do nosso inconsciente. Porém, mesmo diante de tudo que ainda falta para que entendamos a mente humana por completo, podemos observar, também através da teoria de Jung, as suas contribuições para diversas áreas do conhecimento, entre elas a área organizacional. Através desse conhecimento, certamente você pode estar mais sensível a entender o funcionamento da psique das pessoas que você convive em seu ambiente de trabalho, além de ser capaz de entender determinadas atitudes que as pessoas apresentam nesse ambiente. Por exemplo, por muitas vezes você pode não ser capaz de compreender as motivações de determinadas atitudes dos seus License-377914-35196-0-7 PSICOLOGIA APLICADA colegas de trabalho, mas agora você já é capaz de entender que essas atitudes podem acontecer devido a motivações inconscientes, que muitas vezes fazem com que a pessoa não perceba que as suas ações não são agradáveis, necessitando de aconselhamentos e orientações para se adequar ao ambiente organizacional. License-377914-35198-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Tipos psicológicos Mesmo que cada pessoa tenha a psique formada pelas mesmas estruturas (consciente e inconsciente), Jung percebeu, a partir de estudos, que havia características que se manifestavam de formas diferentes nas pessoas. Esse conceito foi chamado por Jung de tipos psicológicos. Vamos conhecê-los? Como se manifestam os tipos psicológicos Para que possamos entender a complexidade dos estudos sobre os tipos psicológicos, precisamos levar em consideração que Jung levou quase 20 anos, no campo da Psicologia prática, para elaborar esses conceitos. Mas qual foi o pontapé inicial de sua pesquisa? Veja que Jung começou a sua análise e descreveu um certo número de processos psicológicos básicos, como a introversão e a extroversão, demonstrando de que forma esses processos podem se combinar para determinar o caráter de uma pessoa. Além disso, a partir de sua experiência clínica, Jung percebeu que a comunicação entre as pessoas, muitas vezes, se tornava um desafio constante, já que os indivíduos não são tão semelhantes assim. Quer um exemplo? Não é raro ouvir uma mãe reclamar que não conhece a filha, não é mesmo? Perceba que até mesmo em relações conjugais ou de amizade surgem diversos desentendimentos por determinadas atitudes de uma pessoa que são contrárias às posições de outra. A figura a seguir simboliza as diferenças entre as pessoas. License-377914-35198-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: bioraven, shutterstock, 2018. E a extroversão e introversão, onde ficam nessa teoria? Veja que Jung distinguiu, inicialmente, duas formas de atitudes básicas que podem estar presentes no sujeito: a extroversão e a introversão. Esses dois tipos estabelecidos por ele visavam orientar melhor os quadros de referência que temos do outro. Jung ainda estabeleceu que esses dois tipos psicológicos não se apresentam de forma excludente, ou seja, eles podem coexistir mutuamente na mente, mas podem se alternar em determinadas ocasiões. Extroversão e introversão são atitudes normais, mas que, em graus exagerados, podem se tornar questões patológicas. License-377914-35198-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Além disso, a distinção entre as funções de introversão e extroversão acontece pela presença de determinada atitude no inconsciente. Quer um exemplo? Perceba que uma pessoa que se expressa extrovertidamente na consciência dos seus atos, pode ser muitas vezes um introvertido em seu inconsciente. Precisamos salientar que essa manifestação entre a consciência e o inconsciente acontece de forma diferente, pois um extrovertido ou introvertido consciente expressa sua função de forma direta através de seus comportamentos conscientes, sendo facilmente identificado, enquanto que as manifestações do inconsciente podem não ficar claras tão facilmente. Já a manifestação inconsciente exerce, indiretamente, uma influência sobre o comportamento, não se expressando de forma aberta justamente porque está reprimida no inconsciente. Isso acontece quando uma pessoa age de maneira que aparenta ser diferente de seu comportamento habitual – por exemplo, uma pessoa que é introvertida e de repente se apresenta sociável e falante. Nesse caso, essa pessoa foi temporariamente dominada pela extroversão reprimida. Por fim, veja que esses termos passaram a fazer parte do cotidiano do senso comum e foram adotados por diversos filósofos e artistas como forma de definir pessoas que possuíam essas atitudes típicas. Os tipos extrovertidos Provavelmente você sabe o que caracteriza um indivíduo extrovertido, não é mesmo? Que tal conferir se a sua visão é parecida com a de Jung? Jung considera extrovertidas aquelas pessoas que vão confiantes e de forma objetiva em direção ao encontro do objeto de seu interesse (pessoas, carreira, relacionamentos, etc.). Na extroversão, a libido flui sem embaraços e é canalizada para as representações do mundo exterior e objetivo. Em um movimento de compensação, há a presença de uma corrente inconsciente License-377914-35198-0-6 PSICOLOGIA APLICADA que vai em direção ao outro tipo, a introversão. Então, se uma pessoa é extrovertida, há um movimento inconsciente de introversão, mantendo reprimidas as atitudes em que objetos interiores seriam canalizados e priorizados . Agora veja a figura a seguir, que retrata uma pessoa extrovertida. Fonte: alphaspirit, Shutterstock. Perceba, ainda, que uma pessoa extrovertida é uma pessoa que possui um bom contato com o mundo exterior e não possui problemas de canalizar sua libido em relações com outras pessoase com objetos do mundo exterior e objetivos. No mais, a relação com aquilo que é objetivo demonstra que os extrovertidos são pessoas que se relacionam com um mundo que está de fora delas, ou seja, um mundo formado por coisas, costumes, regras, relações sociais e condições físicas . O extrovertido é aquele que se relaciona bem com o mundo exterior, ou seja, tem facilidade em falar em público ou fazer novas amizades. License-377914-35198-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Os tipos introvertidos Em oposição à extroversão temos a introversão, ou seja, uma função que representa as pessoas cuja libido recua diante do objeto. Mas o que caracteriza uma pessoa introvertida? Note que o introvertido é uma pessoa que valoriza preferencialmente as questões interiores, tendo dificuldades de se expressar para o mundo exterior. Da mesma forma da extroversão, a introversão também possui uma energia inconsciente voltada para a extroversão, em que ficam reprimidas ações voltadas para o exterior. Em outras palavras, os introvertidos são as pessoas chamadas de tímidas e até mesmo de antissociais, ou seja, são aquelas pessoas que possuem maior facilidade de lidar com os seus objetos interiores e subjetivos. Agora veja, na figura a seguir, um exemplo de pessoa introvertida. Fonte: Sofi photo, Shutterstock, 2018. License-377914-35198-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Mas o que significa ser subjetivo? Nesse caso, ao nos referirmos a um mundo subjetivo, estamos definindo um mundo privado que não pode ser diretamente observado por quem está de fora. Na verdade, esse mundo se apresenta de forma tão privada que, muitas vezes, não se faz diretamente acessível pela mente consciente, sendo formado por elementos psíquicos inconscientes. Clique na figura para assistir ao vídeo Os introvertidos também são chamados de tímidos e geralmente possuem maiores habilidades em profissões nas quais eles podem trabalhar sozinhos. Portanto, conhecer esses tipos psicológicos pode contribuir para a atuação dentro das organizações, visto que, a partir da possibilidade de entender que existem pessoas com tipos e habilidades diferentes, é possível também conseguir entender onde elas melhor se adequam dentro da empresa. Você certamente estará mais atento a detalhes como a impossibilidade de colocar uma pessoa introvertida em uma função em que ela tenha que lidar diretamente com pessoas estranhas. License-377914-35198-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Diante disso, conhecer esses tipos psicológicos pode ser uma útil ferramenta para que os processos de recrutamento e seleção visem buscar pessoas que possuem as melhores características para determinado cargo. Isso também pode ser positivo no momento do treinamento, momento em que, através do conhecimento das habilidades dos funcionários, é possível que sejam oferecidos treinamentos buscando potencializar essas habilidades. License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Função psicológica dominante e função psicológica auxiliar Graças a seus estudos, Jung percebeu que havia muitas variações para as atitudes de extroversão e introversão, ou seja, um introvertido podia diferir de forma muito diferente de outras pessoas tidas como introvertidas também. Por esse motivo, Jung foi acumulando observações até concluir e definir que, em cada pessoa, dominava uma das quatro funções de adaptação: pensamento, sensação, sentimento e intuição (SILVEIRA, 1981). Que tal conhecer um pouco mais sobre cada uma delas? Então siga em frente! As funções psicológicas Ao perceber que as características das pessoas iam além da introversão e extroversão, Jung estabeleceu duas funções que seriam intelectuais. Mas por que motivo elas são intelectuais e quais são essas funções? Essas funções são consideradas intelectuais porque exigem um ato de julgamento. A primeira delas é o pensamento, que se refere a associações de ideias cujo objetivo é chegar a um conceito geral ou à solução de um problema. Trata-se de uma função intelectual que procura compreender as coisas do mundo. Já a segunda função é o sentimento, que avalia se a ideia será rejeitada ou aceita, de acordo com o sentimento (agradável ou desagradável) que essa ideia provoca. A figura a seguir simboliza as funções racionais de pensamento e sentimento. License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Ollyy, Shutterstock, 2018. E quais são as duas outras funções? As outras duas funções são a sensação e a intuição, consideradas funções irracionais por não fazerem uso da razão. Elas evoluem a partir do fluxo de estímulos que agem sobre o indivíduo, não necessitando da razão e não tendo um objetivo final. Assim, a função da sensação representa uma percepção sensorial, com experiências conscientes, que são produzidas pela estimulação dos nossos órgãos, tais como a visão, o olfato e o paladar. Já a intuição é uma experiência também produzida por estímulos, tendo como diferença o fato de que nessa função a origem é desconhecida. A figura a seguir simboliza as funções irracionais de sensação e intuição. License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Sergey Nivens, Shutterstock, 2018. Para exemplificar melhor, podemos falar que a sensação sempre pode ser explicada: “estou sentindo calor” ou “gosto de comida doce”. Quanto à intuição, porém, não há uma definição sobre a sua origem: geralmente, quando questionada, a pessoa fala que “teve um pressentimento”. Vemos, com isso, que a combinação entre as funções e as atitudes de extroversão e introversão são possíveis, formando os oito tipos psicológicos que Jung definiu e que veremos a seguir. A combinação das atitudes de extroversão e introversão com as funções de pensamento, sentimento, sensação e intuição formam oito tipos psicológicos. Os tipos extrovertidos Veremos, agora, como se formam e quais são as principais características dos tipos extrovertidos quando combinados com as quatro funções que Jung desenvolveu ao longo de sua obra. License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Os tipos extrovertidos se relacionam diretamente com as coisas e pessoas que se encontram no mundo exterior. Veja que a junção da extroversão com o pensamento forma o pensamento extrovertido, que possui uma personalidade consciente extrovertida e o pensamento como função principal, sendo que esse pensamento se dirige para o mundo exterior. E como é o comportamento dessas pessoas? O comportamento de pessoas de pensamento extrovertido tende a buscar constantemente a lógica e estabelecer a ordem entre as coisas concretas. As ideias abstratas são algo que não atraem essas pessoas, que gostam de fazer prevalecer seus pontos de vista, ou seja, elas podem ser pessoas autoritárias e rigorosas. O pensador extrovertido é mais pragmático e excelente em desenvolver trabalhos que demandem organização. Outro tipo extrovertido é o tipo sentimento extrovertido, governado por critérios externos. Note que essas pessoas geralmente subordinam o pensamento ao sentimento. Além disso, tendem a ser pessoas mais convencionais ou conservadoras. Perceba, ainda, que esse tipo extrovertido mantém uma boa relação com o ambiente externo, sendo uma pessoa acolhedora e que possui uma grande quantidade de amigos. Geralmente é fiel aos seus valores e não tem problemas com as manifestações de afeto, que muitas vezes podem parecer exageradas. Não raramente, essas pessoas podem se tornar boas líderes, usando mais apelo emocional da sua personalidade do que a originalidade do pensamento. E quais são os outros tipos extrovertidos? Ainda temos o tipo sensação extrovertida e intuição extrovertida, os quais conheceremos, com mais detalhes, a partir de agora. As pessoas do tipo sensação extrovertida se identificam muito com a apreciação sensorial das coisas, sendo capazes de identificar detalhes nos objetos com os quais se relacionam. Em outras palavras, são detalhistas. Também são realistas, práticas e obstinadas, não demonstrando interessepelo significado das License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA coisas – ou seja, aceitam as coisas e o mundo tal como lhes são apresentados, sem muitos questionamentos e previsões. Saiba, ainda, que essas pessoas vivem em função de apreciar as sensações, tais como os prazeres da comida, das artes e dos perfumes. Geralmente não se interessam pelas questões teóricas, mas se preocupam com a descrição minuciosa e exata dos objetos e com a explicação dos fenômenos, sem necessariamente querer descobrir as suas causas. Por fim, temos o tipo intuição extrovertida: essas pessoas estão sempre em busca de novas possibilidades ou coisas que ainda não conheceram. Além disso, são desbravadoras e sabem, antes de todo mundo, quais serão as tendências e perspectivas futuras. Interessam-se pela aquisição de coisas inovadoras e pela descoberta de novos mundos e possibilidades. Perceba, ainda, que as pessoas de intuição extrovertida são instáveis em relacionamentos, estando sempre em busca de algo novo, seguindo as suas intuições. Quando se encontram em situações estáveis, geralmente se sente prisioneiras, até que buscam novas atividades (que também podem ser abandonadas no meio do caminho, claro). Veja, na figura a seguir, os tipos extrovertidos. Pensamento Intuição Sensação SentimentoExtroversão License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Os tipos introvertidos Agora que estudamos os tipos extrovertidos, veremos as combinações das mesmas quatro funções (pensamento, sentimento, sensação e intuição), mas como o tipo introvertido. Para isso, falaremos sobre as principais características e como se expressam esses tipos introvertidos. Os tipos introvertidos geralmente possuem maior contato com as questões subjetivas, relacionando- se melhor com o seu próprio mundo interior. Veja que a junção da introversão com o pensamento forma o tipo pensamento introvertido: é aquela pessoa cujo pensamento se dirige para dentro. Em outras palavras, é uma pessoa que considera que as ideias gerais são as mais importantes e significativas. E como agem essas pessoas diante de um problema? Bem, sempre que estão diante de um problema, elas buscam entender, antes de tudo, as ideias e pontos de vista, procurando uma visão panorâmica da situação. Só depois disso é que essas pessoas irão agir. Perceba que, ao contrário do pensador extrovertido, que se contenta com a ordem lógica das ideias, o sujeito do tipo pensamento introvertido se interessa principalmente pela produção de novas ideias. E, por se envolver muito com essas novas ideias, pode ser uma pessoa que perde o contato com a realidade exterior, voltando-se para uma realidade do próprio ser. E o tipo sentimento introvertido, como se comporta? Saiba que as pessoas com esse tipo psicológico tendem a esconder seus sentimentos do mundo, sendo silenciosas, inacessíveis e até mesmo indiferentes. Podem se apresentar como pessoas melancólicas ou depressivas, mas também podem dar a impressão de pessoas que estão vivendo em uma extrema harmonia interior. Além disso, essas pessoas têm sentimentos profundos e intensos, sendo consideradas até mesmo enigmáticas. License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA E o tipo sensação introvertida, tem quais características? O tipo sensação introvertida é comum às pessoas que, assim como os introvertidos, se mantêm distantes dos objetos exteriores. Usualmente mergulham em suas próprias sensações psíquicas, considerando o mundo banal e desinteressante. São muito sensíveis às sensações, mas se expressam de forma subjetiva, geralmente através das artes, produzindo sempre algo carregado de significados. Por fim, temos o tipo psicológico que trata das pessoas do tipo intuição introvertida. Este tipo psicológico está presente normalmente em pessoas sensíveis a novos lugares e possibilidades, sentindo-se muito pouco atraídas pelo mundo exterior. Geralmente são pessoas sonhadoras e visionárias, que se preocupam com um universo de imagens, tendo intuições que podem se relacionar com os símbolos e o inconsciente coletivo. Note que essas pessoas possuem grande aptidão para apreender conteúdos que se desdobram ao longo do tempo e da história, sendo chamados muitas vezes de feiticeiros ou profetas. Observe, na figura a seguir, os tipos introvertidos. Pensamento Intuição Sensação SentimentoIntroversão License-377914-33284-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Com a apresentação dessa abordagem, procuramos mostrar para você mais uma possibilidade de entender e lidar com as pessoas no ambiente organizacional. Esses tipos psicológicos podem ser ferramentas úteis para que você consiga perceber as características das pessoas em seu entorno e em quais funções elas podem se adequar melhor. License-397402-28370-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Atividade Avaliativa Aplicação Vimos que diversos estudos foram desenvolvidos procurando classificar os tipos de inteligência do ser humano. Dentre eles, destacamos os estudos de Thorndike, que estabeleceu que possuímos três tipos de inteligência. Segundo ele, todos nós possuímos os três tipos, porém em intensidades diferentes, tendo um como destaque. Esses três tipos de inteligência são: a inteligência abstrata (a pessoa possui maior facilidade em lidar com símbolos, podendo ser numéricos ou palavras); a inteligência mecânica (corresponde à facilidade em lidar com dispositivos mecânicos); e a inteligência social (refere-se à facilidade que a pessoa tem nos relacionamentos interpessoais). Diante desses tipos de inteligência que vimos nesta Unidade de Aprendizagem, propomos que você faça agora uma atividade visando a uma pequena reflexão sobre este material. Etapas da atividade I. Faça uma releitura do texto sobre os tipos de inteligência. II. Reflita e avalie qual seria o tipo de inteligência que você teria como destaque. Explique as razões. III. Procure identificar duas pessoas do seu convívio e qual seria a inteligência que mais se destaca em cada pessoa. E explique se a profissão que exercem corresponde às características do tipo de inteligência que possivelmente apresentam. License-397402-28368-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Critérios de Avaliação Para que você possa se autoavaliar, deverá analisar alguns aspectos de sua atividade. Na sequência, conheça quais são eles. I. Você leu e conseguiu refletir sobre as características de cada um dos tipos de inteligência? II. Conseguiu observar quais características você tem e relacioná-las ao seu tipo de inteligência dominante? III. Conseguiu identificar o tipo de inteligência dominante das pessoas que escolheu? License-397402-33286-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Os conceitos e a aplicação da inteligência para a Psicologia Introdução Olá! Seja bem-vindo (a) à décima primeira Unidade de Aprendizagem de Psicologia Aplicada, na qual veremos de que forma a Psicologia aborda a questão da inteligência humana. No decorrer do conteúdo, serão vistas as abordagens que tratam da inteligência, bem como as definições que são estabelecidas para esse termo. Abordaremos, também, como são definidos os graus de inteligência e o tão popularizado Quociente Intelectual (Q.I.). Além disso, ainda veremos como funcionam os testes psicológicos que visam medir a inteligência, seus critérios de classificação e como esses testes podem influenciar no futuro das pessoas. E você, se pegou imaginando como pensamos? Você sabia que o QI é utilizado em testes para que se possa medir a capacidade intelectual de cada um? Tudo isso e muito mais será estudado por nós a seguir! Vamos lá? License-397402-38286-0-6 PSICOLOGIA APLICADA O que é inteligência? Conforme aprendemos na escola, diferenciamo-nos dos outros seres porque somos capazes de pensar, ou seja, somos animais racionais. Conseguimos pensar em coisas reais e abstratas, passadas e presentes, e até mesmo pensar sobre nós mesmos. E um dos aspectos do pensamento mais inquietantes sobre essa nossa característicaé a inteligência e a forma como ela se estrutura. Convidamos você a embarcar nessa jornada, buscando entender melhor o significado da inteligência. Os significados de inteligência Embora a palavra inteligência seja muito conhecida pelo senso comum em certos contextos, seu significado ainda é um tema muito estudado pelos cientistas da área. Mas por que ainda são feitas pesquisas sobre esse tema? Perceba que, até hoje, o significado de inteligência é um pouco obscuro devido ao fato de os cientistas ainda não terem conseguido definir claramente do que se trata realmente a inteligência, visto que ela pode ter diversas faces e concepções. E de que forma a inteligência é compreendida pelo senso comum? A inteligência, para o senso comum, pode ser definida como a capacidade que as pessoas têm de resolver corretamente um problema ou até mesmo a qualidade de se adaptar a novas situações e aprender com facilidade. A figura a seguir simboliza a capacidade de resolver problemas, um dos significados da palavra inteligência, de acordo com o senso comum. License-397402-38286-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: ESB professional, Shutterstock, 2018. Porém, esses termos usados pelo senso comum não são suficientes para definir um conceito tão amplo e que pode ser tão distinto. Por causa disso, a Psicologia e outras áreas do conhecimento tentaram e continuam tentando definir a inteligência de acordo com as suas bases teóricas. Para o senso comum, a inteligência pode ser definida como a capacidade que temos de aprender e se adaptar a novas situações. Vamos acompanhar um exemplo de um teórico que trata do tema da inteligência? Piaget (1896-1980), um dos principais estudiosos da área educacional, definiu a inteligência como um pré-requisito para a aprendizagem. Segundo ele, o processo de aprendizagem seria movido pela motivação, que é um movimento energético para a aprendizagem. Já a inteligência seria a forma como o sujeito entende e faz as coisas. Que tal conhecermos ainda mais as ideias de Piaget? Então siga em frente! License-397402-38286-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Inteligência e adaptação biológica Ao desenvolver seus estudos sobre a aprendizagem e a inteligência, Piaget também se baseou nas questões biológicas para entender o funcionamento dessas estruturas. Para ele, a questão da inteligência também perpassa funções elementares, tais como a percepção, a motricidade, a memória, etc. Diante disso, considerar apenas os aspectos psicológicos não é suficiente para entender o funcionamento da inteligência. Em outras palavras, não podemos desvincular a inteligência dos processos cognitivos que todos nós apresentamos: muito pelo contrário, a inteligência se torna uma forma de equilíbrio entre os mecanismos motores e a adaptação. A inteligência seria, portanto, uma função capaz de nos adaptar ao meio, através das nossas experiências e aprendizagens. Por exemplo, uma criança, ao pisar um chão quente, sentirá que não consegue suportar o calor. Logo, aprenderá que precisa de um calçado para fazer isso. Clique na figura para assistir ao vídeo Mas o que seria a adaptação? É a capacidade que temos de interiorizar uma experiência que foi manifestada exteriormente. Por exemplo, quando uma criança toca em algo quente e se afasta desse objeto, naquele momento ela interioriza que, ao se aproximar de coisas quentes, License-397402-38286-0-6 PSICOLOGIA APLICADA ela pode se queimar. Assim, ela se adapta a esse novo conceito, tendendo a não se aproximar mais de coisas quentes novamente. Logo, a inteligência representa o equilíbrio entre essas funções cognitivas e a adaptação ao meio. Observe, na figura a seguir, uma criança descobrindo o mundo. Fonte: Monkey Business Images, Shutterstock, 2018. Portanto, a inteligência é algo integrado e que surge como forma de representar o fato de que todas as expressões humanas são decorrentes de uma capacidade cognitiva, seja ela, afetiva ou corporal. Também é a capacidade de desenvolver esses atos de forma adequada. Ainda não ficou claro? Então acompanhe um exemplo! Pense em uma situação na qual você esteja muito preocupado. Nesse caso, provavelmente você terá mais dificuldade de aprender algum conteúdo novo ou mesmo expressar seus pensamentos, não é mesmo? Isso ocorre devido ao fato de que, quando a situação psíquica do indivíduo não está bem, isso pode interferir em toda a sua capacidade de lidar adequadamente com os conflitos. License-397402-38286-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A inteligência está intimamente relacionada à nossa capacidade cognitiva de aprendizagem e adaptação ao meio. A teoria da aprendizagem de Piaget Agora vamos nos aprofundar ainda mais nos estudos de Piaget sobre a inteligência. Esse autor, ao relacionar a inteligência à aprendizagem, desenvolveu uma hipótese sobre como esse processo acontece desde a infância. Assim, ele criou o conceito de adaptação e os estágios de aprendizagem que a criança desenvolve. Quer mais detalhes? Então vamos lá: para Piaget, nós aprendemos através da assimilação (que seria o contato com o objeto) e da adaptação, que seria a interiorização do aprendizado. Por exemplo, uma criança, ao pegar um brinquedo, assimila esse objeto e percebe as suas características. Depois desse momento, ela cria um esquema de adaptação e poderá ser capaz de distinguir esse objeto dos demais, compreendendo que ele se trata de um brinquedo, e não de outra coisa. Veja, na figura a seguir, o processo piagetiano. Assimilações Adaptações Operações License-397402-38286-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Então, através de observações, Piaget percebeu que existem fases para essa assimilação e concluiu a existência de quatro estágios, os quais ele definiu como os estágios de desenvolvimento da criança. Vamos conhecê-los? O primeiro estágio é o sensório-motor, que corresponde à fase de zero a dois anos da criança. Nessa fase, a criança apresenta os primeiros esquemas, que são os reflexos, como sucção e deglutição. Além disso, por meio da estimulação do ambiente e da maturação vão aparecendo novos esquemas, o que permite que a criança apresente comportamentos tais como de agarrar, bater, esfregar. Nesse estágio, também a criança começa a perceber a existência dos objetos e sua permanência (até então, os objetos apenas existiam enquanto ao alcance dos olhos) Que tal acompanharmos um exemplo? Pense em uma criança jogando uma bola no chão e considere que essa bola rola para trás de um objeto. Enquanto essa bola está no campo de visão da criança, ela existe, porém, longe dos seus olhos, o objeto deixa de existir para a criança. E qual seria o segundo estágio de Piaget? Dos dois aos sete anos de idade, a criança apresenta o segundo estágio de desenvolvimento, o pré-operacional. Nessa fase, com os progressos do primeiro estágio, a criança atinge o domínio do simbolismo, ou seja, um objeto ou gesto pode representar algo além de sua representação real. Por exemplo, para crianças nessa idade, um boneco pode simbolizar uma pessoa tal como as pessoas que estão à sua volta. Esse domínio do simbolismo também faz com que a criança passe a entender as funções dos objetos (ela compreende, por exemplo, que uma cadeira é um móvel utilizado para sentar). Vamos ao terceiro estágio? O terceiro estágio, o operacional concreto, corresponde ao período dos sete aos 11 anos de idade. Nesse estágio, surge a manifestação da função de acomodação. Se, até então, o pensamento dependia das ações externas, a partir dessa fase License-397402-38286-0-6 PSICOLOGIA APLICADA a criança inicia a sua capacidade de ação interna. Em outras palavras, com a acomodação, a criança interioriza uma ação (que passa a ter significado) e a capacidade de reversibilidade, ou seja, ela entende uma ação ao contrário. Por exemplo, ao separar um bloco que foi unido, a criança é capaz de entender que ele não se quebrou, mas que foi separado. Por fim, temos o último estágio, quese trata da fase operacional formal, que acontece a partir dos 11 anos. Nessa fase, a criança já passa a realizar as operações sem a necessidade de um dado concreto, usando apenas o raciocínio. Além disso, a criança já é capaz de estabelecer raciocínios hipotético-dedutivos, estabelecendo hipóteses e deduções que podem ser testadas através de observações e experimentações, como, por exemplo, a capacidade de entender que o líquido contido em dois copos de formatos diferentes pode ser da mesma quantidade. Para construir o conhecimento, o sujeito nasce com alguns esquemas inatos. A partir disso, novos esquemas vão se formando, construindo as operações. License-397402-33290-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Conhecendo os graus de inteligência Conforme já vimos, há diversos estudos sobre a inteligência e como ela se desenvolve no ser humano. Dentre esses vários estudos, há pesquisadores que estabelecem tipos de inteligência, além de formas de quantificar os níveis de cada tipo. Ficou curioso (a)? Então siga em frente em seus estudos! Os tipos de Inteligência Quando falamos de inteligência, geralmente supomos que exista apenas uma forma principal de habilidade cognitiva. Assim, pensar em inteligências, no plural, pode nos parecer estranho, concorda? Entretanto, é possível distinguir alguns tipos de inteligência e crer na ideia de que há a presença de um traço intelectual dominante em cada sujeito. Veja, a seguir, uma figura que representa os diferentes tipos de inteligência. Fonte: Shutterstock, 2018. License-397402-33290-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Geralmente pensamos em inteligência como uma capacidade de fazer todas as coisas, porém, ela pode se dividir e se destacar em algum tipo. E de que forma a inteligência é classificada? Veja que existem diversos estudos que estabelecem critérios para a classificação qualitativa da inteligência, dentre os quais podemos citar os estudos de Thorndike (1874-1949). Esse autor fala sobre os campos de atividade nos quais a pessoa pode se destacar, apresentando três tipos de inteligência: inteligência abstrata, inteligência mecânica e inteligência social. Que tal conhecermos melhor cada uma delas? Comecemos pela inteligência abstrata, que se refere à facilidade de lidar com palavras, números, fórmulas, etc. Geralmente, pessoas com domínio desse tipo possuem habilidades matemáticas ou para a escrita. E as pessoas que se destacam na inteligência mecânica, possuem facilidade em quê? Note que esses indivíduos possuem facilidade para lidar com máquinas e dispositivos mecânicos, como é o caso de engenheiros e mecânicos. Por fim, ainda temos a inteligência social, que favorece as relações interpessoais. Perceba que as pessoas que têm essa inteligência mais desenvolvida possuem habilidades em relacionamentos e no contato com outras pessoas, como acontece com vendedores, publicitários ou diplomatas. É importante que você saiba que todas as pessoas possuem parcialmente cada um dos tipos de inteligência, diferenciando-se pela intensidade com que elas aparecem (e sempre com destaque para uma das três inteligências). Além dos tipos, Thorndike ainda apresenta sete fatores que compõem a inteligência e aparecem em menor ou maior intensidade em cada pessoa: inteligência verbal, inteligência numérica, raciocínio em geral, memória, inteligência espacial, fluência verbal e rapidez de percepção. License-397402-33290-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A figura a seguir simboliza o fato de cada pessoa se destacar em um tipo de inteligência. Fonte: Vador, Shutterstock, 2018. O Quociente Intelectual Agora vamos entender de que forma as diferenças individuais desses tipos de inteligência podem ser quantificadas. Veja que essa quantificação é feita por meio de testes padronizados. Quer um exemplo de teste padronizado? O mais popular e mais usado é o conceito de Quociente Intelectual (QI), criado a partir dos estudos de Binet e Simon: através de uma série de questões, eles procuravam medir a idade mental das crianças. Esse QI é calculado através da divisão entre idade mental (obtida no teste de Binet) e a idade cronológica. Depois disso, esse resultado é multiplicado por 100. Veja, na figura a seguir, a fórmula do teste de QI. QI = Idade Mental 100 Idade Cronológica = × License-397402-33290-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Através dessa fórmula, é possível estabelecer um percentil que exprime uma medida padronizada da aptidão de cada um, facilitando a abordagem, caso a pessoa apresente níveis abaixo ou acima da média. O QI de uma pessoa normal é de 90 a 110, ou seja, de uma pessoa dentro da média esperada. A Classificação do QI Neste momento, talvez você esteja se perguntando: feito o cálculo, como vou saber a qual classificação a pessoa pertence? Bem, depois de feito o cálculo, é possível analisar, através da tabela a seguir, a classificação do sujeito e, com isso, definir a sua capacidade intelectual. Pontos de QI Classificação 180 em diante Genial 140-179 Talentoso 120-139 Muito superior 110-119 Superior 90-109 Normal 80-89 Inferior 70-79 Deficiente mental leve 50-69 Deficiente mental moderado 25-49 Deficiente mental severo Até 24 Deficiente mental profundo Veja que, através dessa classificação, é possível facilitar um plano de atendimento, de acordo com o que a pessoa necessita, pois tanto uma pessoa com altos níveis de QI quanto as pessoas que estão abaixo da média necessitam de uma abordagem especial. Sem isso, podemos correr o risco de repetir casos como os que License-397402-33290-0-5 PSICOLOGIA APLICADA aconteceram com Einstein e Newton, que foram considerados alunos de aprendizagem lenta na escola. Mas será que esse teste de QI é unanimidade entre os estudiosos? Não! Esse tipo de teste ainda é considerado contraditório por estudiosos da Psicologia e da Pedagogia, visto que há dúvidas quanto à capacidade de testar todas as habilidades da pessoa. Além disso, esse teste não prevê outras variáveis, como controle emocional, que, conforme já vimos, pode interferir no desempenho intelectual. E existem outros testes além desse que acabamos de estudar? Sim! Além do teste de QI, foram desenvolvidos diversos outros testes de inteligência e aptidão que contribuem para os trabalhos desenvolvidos na área da Psicologia. Esses testes também representam forma de buscar recursos para uma educação especial voltada para as habilidades e necessidades de cada um. Veja a figura a seguir, que simboliza um teste de inteligência. Fonte: Phimsri, Shutterstock, 2018. License-397402-33290-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A categorização do QI permite que os profissionais possam desenvolver as habilidades das pessoas de acordo com suas potencialidades. Pelo que vimos até aqui, percebe-se que o conhecimento do tipo de inteligência dos colaboradores de uma organização pode se transformar numa importante ferramenta para o uso no ambiente organizacional pelos gestores, facilitando o desenvolvimento das potencialidades de cada um desses colaboradores. Veremos, na sequência, alguns testes psicométricos de uso exclusivo da Psicologia que auxiliam no conhecimento da inteligência humana. License-397402-37532-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Os testes de inteligência e sua utilidade para a Psicologia A partir dos primeiros estudos de Binet e Simon, muitas outras pesquisas foram desenvolvidas com o intuito de estabelecer medidas que possibilitassem a mensuração mental. Assim, foram desenvolvidos diversos testes psicométricos visando estabelecer padrões e níveis de inteligência. Vamos conhecê-los? Testando a Inteligência Embora o ato de testar a inteligência seja louvável, cabem questionamentos quanto à validade e precisão dessa forma de teste, visto que já vimos o quão vasto pode ser o conceito de inteligência. O que os estudiosos dessa área demonstraram é que medidas nessa área não podem ser estabelecidas através do tudo ou do nada, mas por meio de uma classificação que possuagraus de exatidão. E quais testes foram desenvolvidos nesse sentido? Existem diversos testes que já foram desenvolvidos para essa área, os quais são divididos entre testes coletivos e individuais. Os testes individuais são os mais usados: são aqueles que exigem preparo e habilidades do aplicador, além dos instrumentos apropriados para a aplicação. Conforme já vimos, o primeiro teste apresentado foi o de Binet, desencadeando a construção de vários outros. E será que já chegamos a um teste “perfeito”? Não, pois os testes que temos ainda não conseguem lidar com a mensuração de aptidões como a percepção, a abstração e a retenção de informações, demonstrando que é preciso considerar fatores que vão além daquilo que os testes apresentam, devendo complementá-los com sessões de observação e discussão. Observe a figura a seguir, que nos mostra que é preciso questionar: será que é possível mensurar as aptidões de cada um? License-397402-37532-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: ESB Professional, Shutterstock. Os testes de inteligência visam mensurar as capacidades intelectuais da pessoa como forma de contribuir para o psicodiagnóstico. Os principais testes psicológicos Apresentaremos, a seguir, os principais testes dos quais a Psicologia faz uso com o objetivo de mensurar os níveis de inteligência e contribuir para um atendimento especial de acordo com as demandas apresentadas. Lembre-se de que apenas psicólogos podem aplicar os seguintes testes, que são diferentes de testes aplicados em revistas ou sites. License-397402-37532-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O primeiro teste que conheceremos é a Escala de Maturidade Mental Colúmbia, que se trata de uma escala de aplicação individual que permite estimular a habilidade intelectual de crianças de 3 a 12 anos através da resposta a 100 itens contidos em cartões. Esses cartões apresentam vários desenhos, sendo que um se difere dos demais. A criança, portanto, deve apontar qual é aquele desenho que não combina. De acordo com o resultado do gabarito, é possível estabelecer uma classe de QI da criança. Vamos a mais um teste? Agora é a vez do Teste de matrizes progressivas de Raven, que também busca avaliar a capacidade intelectual geral através de três escalas: a Geral, voltada para adolescentes a partir de 12 anos e adultos; a Especial, destinada à avaliação de crianças de 5 a 11 anos, de deficientes intelectuais e de crianças com sérias dificuldades de linguagem e audição; e a Avançada, que é destinada para a avaliação de pessoas de 17 a 63 anos, que supostamente possuem um nível mental superior. O teste é composto por 60 itens, divididos em cinco séries com 12 itens cada. Nesse teste, cada item possui uma matriz composta por figuras geométricas e uma lacuna em branco que será completada com uma das opções que estão abaixo da matriz. Essa escala visa avaliar a capacidade intelectual geral, além de fornecer informações sobre as operações mentais que estão sendo empregadas para a resolução dos itens. O último teste que estudaremos é a Escala Wechsler para crianças (WISC), que tem como objetivo medir as capacidades intelectuais de forma objetiva, descobrindo o que a criança é capaz de fazer com as informações e experiências obtidas ao longo de seu desenvolvimento. Esse teste também ainda se apresenta em duas versões: uma para adultos, o WAIS III; e uma versão abreviada, que é chamada de WAIS I. Assim, o teste é composto por atividades que buscam fornecer problemas através de 12 subtestes que a criança deve procurar resolver. Os resultados fornecem informações que são capazes de analisar os itens contidos em cada um dos seguintes subtestes: informação, compreensão, aritmética, números, vocabulário, semelhanças, arranjo de figuras, completar figuras, cubos, código, armar objetos e labirinto. License-397402-37532-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Mas será que esses são os únicos testes existentes? Não! Além desses testes tratados aqui, há outros testes psicológicos voltados para a atenção, percepção, memória, aptidão, interesses profissionais, personalidade, tipos psicológicos, etc. Esses testes, juntamente com os de inteligência, podem ajudar o profissional numa avaliação psicodiagnóstica mais completa, complementando as ferramentas de entrevista e observação que temos para formar um psicodiagnóstico completo. A importância social dos testes Assim como existem divergências sobre o significado da palavra inteligência, também existem grupos de estudiosos que apoiam e outros que são contra a aplicação de testes como forma de mensurar a inteligência. A oposição a essas mensurações pode ocorrer devido à ênfase na competição que esses testes podem gerar, além de uma seleção por meritocracia. Mas será que isso é ruim? Sob alguns pontos de vista, sim. Afinal, conforme já abordamos, os testes psicométricos não conseguem controlar todas as variáveis, podendo não representar numericamente todas as habilidades de uma pessoa, que pode ser taxada de acordo com seus resultados, acarretando consequências negativas para o seu futuro. Isso quer dizer que os testes não deveriam ser aplicados? Não! Apesar dos pontos negativos, os testes de inteligência podem ser, sim, um recurso eficiente para o auxílio no tratamento das pessoas, mas não podem ser o único instrumento-base para esse tratamento. Em outras palavras, os testes devem ser considerados um recurso que contribui para conhecer melhor uma pessoa. A figura a seguir simboliza os testes como uma ferramenta de ajuda. License-397402-37532-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Olly, Shutterstock, 2018. Outro ponto que salientamos é a impossibilidade de um teste de inteligência ser universal, visto que as formas de educação variam muito de acordo com a cultura e tradição de cada país. Com isso, é necessário que os testes sejam adaptados para a realidade local e validados por meio de experimentos que demonstrem que eles são efetivos dentro do país. Clique na figura para assistir ao vídeo License-397402-37532-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Os testes psicológicos são mais um tipo de instrumento para a construção do psicodiagnóstico, e não uma forma de determinar as capacidades de alguém. Conforme visto nos conteúdos até aqui, observa-se que é por meio da Psicologia que se tem acesso à inteligência humana, sua medição, seus parâmetros e suas aplicações individualmente pelas pessoas. E, no meio organizacional, isso não é diferente. As empresas são dotadas de diversos tipos de colaboradores, cada um com inteligências diferentes que, aplicadas às situações empresariais, resultam em processos operacionais produtivos, ou não. Então, o domínio da Psicologia e de suas aplicações se faz necessário nas empresas, principalmente pelas pessoas que atuam nos setores de Recursos Humanos (RH) e também pelos gestores de modo geral. Pelo lado das pessoas de RH, diversos processos internos que envolvem a inteligência humana são facilitados e, por consequência, envolvem também a Psicologia. Pelo lado dos gestores, estes podem se utilizar melhor da capacidade dos colaboradores, na medida em que têm o conhecimento da inteligência de cada um. Perceba, portanto, que os testes psicológicos podem ser ferramentas úteis para a complementação de resultados de processos de seleção, avaliação de desempenho, desenvolvimento de carreiras, etc. Afinal, trata-se de um recurso que, se utilizado com critérios, pode contribuir para identificar as potencialidades das pessoas. Dessa forma, é possível fazer uso dessas habilidades visando ao desenvolvimento da empresa e profissional do indivíduo, caracterizando-se numa aplicação prática da psicologia às organizações. License-501040-33294-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Conhecendo as Inteligências Múltiplas e a Inteligência Emocional Introdução Seja bem-vindo (a) a mais uma unidade de Psicologia Aplicada! Nesta unidade, veremos dois grandes autores que se aprofundaram no tema da inteligência:Howard Gadner e Daniel Goleman. Você sabia que existem tipos diferentes de inteligência e diversas técnicas para estimular o aprimoramento delas? Veremos aqui como Gadner criou o conceito de “Inteligências múltiplas”, bem como os seus tipos e diferenças nas habilidades. Além disso, abordaremos também a Inteligência Emocional, criada por Goleman e como se aplicam seus principais conceitos. Bom estudo! License-501040-29634-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Atividade Avaliativa Aplicação Nesta unidade, vimos duas grandes teorias a respeito da inteligência e as suas possibilidades de manifestação. Vimos a teoria de Howard Gadner das Inteligências Múltiplas, apontando que existem seis habilidades básicas: inteligência linguística; musical; lógico-matemática; espacial; corporal- cinestésica; e pessoais (interpessoal e intrapessoal). As pessoas se destacam dentro dessas possibilidades, representando de formas diferentes suas inteligências e a forma como elas podem contribuir para a sociedade. Em seguida, vimos a inteligência emocional de Daniel Goleman, na qual ele considera cinco habilidades básicas: a autoconsciência; a automotivação; o autocontrole; a empatia; e a sociabilidade. Essas capacidades se relacionam às nossas emoções, que devem ser também consideradas ao tratarmos da questão intelectual. Diante disso, propomos aqui um exercício de autoconhecimento, a fim de se aprofundar um pouco mais quanto às possibilidades de inteligência. Etapas da atividade I. Faça uma releitura das descrições das habilidades básicas, tanto das inteligências múltiplas quanto da inteligência emocional. II. Faça uma reflexão crítica de qual habilidade você acredita que mais se manifesta em você em cada uma das teorias. III. Aponte duas atividades que você faz em seu ambiente de trabalho que você acredita que são facilitadas devido às suas habilidades. License-501040-29632-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Critérios de Avaliação Para que você possa se autoavaliar, deverá analisar alguns aspectos de sua atividade. Na sequência, conheça quais são eles. I. Tenha em vista que não são teorias concorrentes e que elas podem, inclusive, complementar uma à outra na reflexão das capacidades. II. Considere essa atividade como um exercício de autorreflexão acerca de suas habilidades e não uma forma de padronizar suas capacidades. III. Reflita criticamente se as suas atividades são condizentes com aquilo que você acredita ser as suas habilidades. License-501040-36356-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O que são as Inteligências Múltiplas? O autor Howard Gadner desenvolveu sua teoria para explicar como funciona a inteligência humana, além de identificar os possíveis tipos de inteligência que cada um de nós possui. Confira a seguir! O que constitui uma inteligência Gadner introduz a questão da inteligência afirmando que diante das visões mais tradicionais, trata-se de uma capacidade que temos para resolver problemas ou elaborar produtos que são importantes em uma determinada área. Essa inteligência pode ser aferida operacionalmente por meio da capacidade de responder determinados itens em testes de inteligência. A partir dos resultados, é possível fazer inferências de acordo com dados estatísticos que comparam as respostas de indivíduos diferentes, estabelecendo uma correlação entre a noção da pessoa avaliada e dos resultados anteriormente obtidos. Assim, é possível mensurar a capacidade intelectual de uma pessoa, bem como as habilidades que ela possui. A figura a seguir simboliza as habilidades e capacidade intelectual de uma pessoa. Fonte: Ollyy, Shutterstock, 2018. License-501040-36356-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A teoria das inteligências múltiplas, que veremos mais adiante, se refere justamente a essas competências intelectuais que cada um nós temos, e como elas influenciam na forma como resolvemos os problemas apresentados. Clique na figura para assistir ao vídeo Gadner ainda afirma que mesmo com todas as tentativas de definir “inteligência”, até hoje a ciência ainda não conseguiu uma resposta completamente correta e final. Não existe uma teoria que consiga explicar de forma completa o funcionamento do cérebro humano e todas as capacidades intelectuais que ele pode desenvolver. Dessa forma, o que temos são teorias buscando compreender minimamente essas aptidões. O autor apresenta, em sua teoria, sete habilidades que ele considera principais, mas enfatiza que não é possível criar uma lista única e universal de inteligências humanas. Jamais haverá uma abordagem que contemple todas essas capacidades e que seja endossada por todos os estudiosos da área. Assim, Gadner deixa claro que seu foco está em nível de análise basicamente neurofisiológico, abordando os níveis intelectuais que as pessoas podem alcançar nos estudos em uma universidade. License-501040-36356-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A ciência ainda não apresentou uma teoria completa sobre a inteligência. As teorias atuais buscam englobar o máximo possível de possibilidades. Pré-requisitos e critérios de uma inteligência Gadner ainda estabelece a existência de alguns pré-requisitos e critérios para definir as competências intelectuais. O autor aponta que cada competência deve apresentar um conjunto de habilidades que capacitem o indivíduo para a resolução dos problemas que ele encontrar, e, quando possível, que o levem a criar um produto eficaz com essas resoluções. Além disso, o indivíduo deve ser capaz de apresentar o potencial para encontrar ou criar novos problemas, assegurando que os novos conhecimentos tenham continuidade. Acompanhe a figura a seguir. Conjunto de habilidades Criação de novos produtos Criação de novos problemas Esses pré-requisitos são uma forma de assegurar que cada uma das inteligências humanas seja genuinamente útil e importante para determinados cenários culturais. Lembrando que esses pré-requisitos não desqualificam determinadas capacidades, eles apenas definem a história de cada habilidade que se torna importante para uma determinada população que se envolve com a temática. Quer um exemplo? Pense em uma pessoa que possui grandes habilidades na inteligência musical. Não necessariamente seus conhecimentos serão úteis para cientistas que estudam questões matemáticas, certo? Essas habilidades têm sua importância License-501040-36356-0-5 PSICOLOGIA APLICADA para uma determinada classe que estuda e se aprofunda dentro daquele tema. Gadner salienta que a lista de inteligências essenciais — as quais veremos posteriormente — não é algo exaustivo, mas que, para ele, contempla a maioria dos temas e não deixa lacunas óbvias, ou seja, contempla a maioria dos papéis e habilidades valorizados pelas culturas humanas. Dessa forma, outro pré- requisito que ele apresenta é a necessidade da teoria sustentar uma gama razoavelmente completa de tipos de competências, buscando englobar a maior parte da população. Além desses pré-requisitos, Gadner apresenta alguns critérios estabelecidos por ele mesmo como forma de validar uma teoria sobre inteligência. Segundo ele, existem alguns sinais mínimos para que as habilidades sejam determinadas e aceitas pela comunidade de estudos sobre inteligência. Vejamos. Isolamento potencial por dano cerebral: é preciso considerar os casos em que lesões cerebrais em uma determinada área têm consequências para certas habilidades. Dessa forma, casos que apresentem essas condições não devem ser considerados ao se formatar as habilidades de uma competência específica. A existência de prodígios e outros indivíduos excepcionais: assim como o dano cerebral, a descoberta de sujeitos que possuem um perfil altamente diferente das habilidades comuns também deve ser desconsiderada. Esses sujeitos caracterizam um grupo que não condiz com os formatos esperados pelas habilidades, podendo, inclusive, aumentar ou diminuir as expectativas intelectuais de determinada população. Conjunto de operações identificáveis:vê-se necessário mecanismos de processamento de informações que sejam capazes de identificar a competência que se destaca. Essas operações servem como forma de provar a eficácia da teoria e garantir que a habilidade seja claramente identificada. Uma história evolutiva identificada: cada habilidade deve possuir uma história por meio da qual os indivíduos possam se identificar. Essa história evolutiva se torna especialmente importante para os profissionais da educação, como forma de estudar as origens de cada uma das competências. Uso de testes experimentais e psicométricos: o uso de testes psicológicos que mensuram as capacidades intelectuais também são essenciais para a definição das habilidades. Eles são uma forma de assegurar as características de cada uma e demonstrar como cada habilidade específica pode interagir com a execução das tarefas. Representação em um sistema simbólico: é necessário que a teoria embase cada uma das competências em um sistema simbólico próprio que a representa, como forma de manter-se única dentro da cultura. License-501040-36356-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Para que uma competência seja considerada como uma forma de representação da inteligência, é necessário cumprir todos os critérios e pré-requisitos. A ideia das Inteligências Múltiplas O Quociente Intelectual (QI) foi, por muito tempo, a forma mais eficaz de se avaliar as capacidades intelectuais das pessoas. Trata-se de um número que vincula a pessoa a uma limitada capacidade e que muitas vezes exerce um considerável efeito sobre o seu futuro. Gadner, entre outros estudiosos, não se mostrou satisfeito com essa forma de avaliação, alegando que deveria haver mais formas de se mensurar e entender a inteligência do que simplesmente por meio de respostas a perguntas curtas padronizadas. Pense em um adolescente iraniano que tem domínio da língua árabe e já memorizou o Corão, e considere um adolescente brasileiro estudante de música, que começou a compor suas obras musicais. Certamente em um teste padronizado de QI esses adolescentes poderiam até possuir os mesmos escores, porém o que os diferencia são suas diferentes habilidades. Talvez o adolescente brasileiro não seja tão bom no domínio da linguagem, mas se destaca no uso de instrumentos musicais, demonstrando que seu potencial é diferente, mas não necessariamente inferior ao outro. Gadner apresentou sua Teoria das Inteligências Múltiplas e desafiou essa visão clássica de inteligência. O autor propõe uma visão pluralista da mente, e reconhece que existem diferentes facetas para a cognição que podem ser diferentes e até contrastantes. A figura a seguir representa diferentes indivíduos, fazendo uma analogia às inteligências múltiplas. License-501040-36356-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: alphaspirit, Shutterstock, 2018. (traduzida) A ideia das inteligências múltiplas se baseia em duas posições para sustentar essa capacidade de que cada um pode se destacar em habilidades diferentes. A primeira é que nem todas as pessoas possuem os mesmos interesses e nem todos apreendem da mesma maneira. Já a segunda é a suposição de que ninguém atualmente pode apreender tudo o que há para ser apreendido. Consequentemente, a escolha por determinadas áreas que são de nosso interesse é inevitável, fazendo com que procuremos as áreas nas quais apresentamos mais facilidade de apreensão. As inteligências múltiplas são uma pluralidade de possibilidades de expressão das capacidades intelectuais, indo além dos padrões estabelecidos. License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Os seus tipos Gadner, ao construir sua teoria, estabeleceu sete competências básicas, buscando englobar as formas de inteligências mais comuns nas pessoas. Vamos conhecê-las? Siga em frente! A Inteligência Linguística e a Inteligência Musical Para começarmos nossos estudos sobre os tipos de inteligência, acompanhe uma figura que ilustra quais são esses tipos. Linguística Musical Espacial Corporal- cinestésica Pessoal Lógico- matemática A primeira inteligência que Gadner apresenta é a capacidade linguística. Ele exemplifica essa competência com a história de um jovem poeta britânico que se correspondia com seu mentor por meio de cartas. Essa correspondência continha poemas e demonstrava os processos de pensamento de um poeta ao compor. License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Em suas cartas, ele demonstrava a frequente agonia e cuidado ao encontrar a palavra mais adequada para o momento. É nesse cuidado que vemos a manifestação da inteligência linguística, um funcionamento excepcional das operações centrais da linguagem. Trata-se de uma sensibilidade em relação ao significado das palavras, por meio da identificação de sutis nuances, como saber identificar qual termo expressa da forma melhor possível aquilo que se deseja comunicar. A maioria de nós, contudo, não é poeta. Ainda assim, temos em alguma medida essa sensibilidade. A competência linguística é a capacidade intelectual mais ampla e democrática entre as pessoas, justamente porque, em algum grau, todos a possuímos. Salientamos que o dom da linguagem é universal e o seu desenvolvimento nas crianças é constante, até mesmo em crianças surdas, em que uma linguagem manual é desenvolvida como forma de comunicação. Uma pessoa que possui danos nessa área da inteligência pode compreender palavras e frases bem, e ainda assim ter dificuldades de se expressar, mesmo que outros processos de pensamento permaneçam inalterados. A habilidade linguística é a capacidade mais usada por todos nós, pois fazemos uso da linguagem diariamente para nos comunicarmos. A segunda capacidade apresentada por Gadner é a inteligência musical que, segundo ele, engloba o talento que pode surgir mais cedo em um indivíduo. Essa manifestação precoce, contudo, representa apenas o início de um processo de amadurecimento da habilidade, visto que a tendência é que essas pessoas atinjam um elevado grau de competência musical, como ilustra a figura a seguir. License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Phovoir, Shutterstock, 2018. Um exemplo dessa capacidade musical é o renomado pianista contemporâneo Arthur Rubinstein. Ele, quando criança, amava todos os tipos de sons, inclusive sirenes de fábricas e o canto dos vendedores de sorvete, mesmo vindo de uma família na qual ninguém tinha esse tipo de predisposição. Aos três anos, seus pais compraram um piano para que as crianças mais velhas da família tivessem aulas, e, desde essa idade, sua capacidade se destacava. Mesmo que a capacidade musical não seja tipicamente considerada uma capacidade intelectual, há evidências que apoiam essa habilidade como uma inteligência, visto que ela cumpre os critérios estabelecidos pelo autor. License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA A Inteligência Lógico-matemática e a Inteligência Espacial A inteligência lógico-matemática é a terceira competência que Gadner apresenta e, em contraste com as capacidades linguísticas e musicais, não tem origem em questões auditivas ou orais, mas no confronto com o mundo dos objetos. É confrontando, ordenando, reordenando e avaliando objetos que a criança inicia o desenvolvimento dessa habilidade. Podemos observar que, desde bebê, a criança explora objetos à sua volta (chocalhos, chupetas, móbiles, etc.), vindo a formar expectativas de como esses objetos se comportam. Com seu desenvolvimento, ela começa a desenvolver a capacidade de agrupar esses objetos e entender que eles possuem propriedades em comum. A partir de então, ela começa a desenvolver suas habilidades, compreendendo quantidades, tamanhos e distâncias. Perceba que diferentemente da capacidade linguística, a capacidade matemática se restringe a alguns poucos indivíduos, fazendo de nós, a maioria da população, apenas admiradores de suas ideias e trabalhos. O que os especialistas da área afirmam é que a capacidade de seguir as cadeias de raciocíniojá estabelecidas não é tão difícil, porém a capacidade de inventar uma nova matemática significativa é muito rara. A capacidade lógico-matemática é, juntamente com a linguagem, a principal base para os testes de QI, sendo considerada popularmente como a representação da “inteligência pura”. Cientistas bem-sucedidos nessa área são aqueles que possuem a capacidade de resolver problemas lógicos surpreendentemente rápido e lidar com muitas variáveis ao mesmo tempo, criando numerosas hipóteses, que, depois de testadas, são aceitas ou refutadas. A imagem a seguir representa essa capacidade. License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Gajus, Shutterstock, 2018. A quarta competência estabelecida por Gadner é a inteligência espacial, que corresponde à capacidade de resolver problemas espaciais, tais como as pessoas que trabalham com mapas ou até mesmo os jogadores de xadrez. Para entender melhor a capacidade espacial, imagine a seguinte situação: um homem e uma menina iniciam uma caminhada juntos com o pé esquerdo, mas a menina caminha três passos no período que o homem caminha dois. Em que ponto ambos levantarão o pé esquerdo do chão simultaneamente?. Assim, vemos que a operação mais elementar da inteligência espacial está na capacidade de perceber uma forma ou um objeto. São essenciais para a inteligência espacial as capacidades de perceber o mundo visual com precisão, efetuar transformações e modificações sobre as percepções iniciais e ser capaz de recriar aspectos da experiência visual. Por meio das populações cegas, conseguimos distinguir claramente a inteligência espacial e a percepção visual. Uma pessoa incapaz de perceber o mundo visualmente ainda pode reconhecer formas por métodos indiretos, como o toque, License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA percebendo formatos e outras características. Faz-se, inclusive, uma analogia entre o raciocínio espacial do cego e o raciocínio linguístico do surdo. Com a inteligência espacial, conseguimos nos localizar dentro dos espaços que ocupamos e identificar fatores como formas, distâncias e quantidades. A Inteligência Corporal-cinestésica e as Inteligências Pessoais A quinta competência construída por Gadner é a inteligência corporal-cinestésica. Para entendê-la, apresentamos um exemplo: um jovem arrasta uma pesada mala dentro de um trem até localizar seu assento, quando o trem adquire velocidade, ele é jogado para os lados até conseguir se estabilizar. Após algum tempo, ele tira de sua maleta uma garrafa de café e um copo, no entanto, com o balançar do trem, ele derrama todo o líquido em sua roupa. Essa cena até poderia ser algo rotineiro em nossas vidas, mas se refere à performance de mímica do grande artista Marcel Marceau. Cabe a um mímico representar uma pessoa ou um objeto de forma caricata e engenhosa, fazendo com que a descrição seja facilmente reconhecida por qualquer um. Portanto, a habilidade aqui retratada, ilustrada pela imagem a seguir, se refere às capacidades que dançarinos, nadadores, jogadores de futebol ou artesãos: um domínio aguçado sobre os movimentos de seus corpos, sendo capazes de manipular objetos com refinamento. Pessoas com esse tipo de capacidade geralmente buscam harmonia entre a mente e o corpo, treinando a mente para usar o corpo adequadamente e o corpo para responder aos poderes expressivos da mente. A figura a seguir mostra uma pessoa que possui essas habilidades. License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: AYakovlev, Shutterstock, 2018. Essas habilidades corporais certamente passam por um desenvolvimento iniciado desde a infância. Comumente, vemos crianças com vocação para o futebol, para a dança, e isso demonstra o uso dos aspectos cognitivos de nosso corpo. Essa habilidade não é usada na resolução de problemas tradicionais, como os que são vistos em testes de QI, mas certamente as computações específicas exigidas, por exemplo, para fazer uma bola entrar no gol, fazem dessa capacidade algo que satisfaz os critérios de uma inteligência. Por fim, temos as inteligências pessoais, que Gadner divide em duas: a inteligência interpessoal e a inteligência intrapessoal. São capacidades que demonstram as nossas relações com os outros. A inteligência interpessoal se refere à capacidade de perceber variações em outras pessoas, em especial a percepção de contrastes nos estados de humor, temperamento, motivações, intenções, etc. Essa capacidade permite que uma pessoa perceba as intenções e desejos de outras pessoas, mesmo que elas tentem escondê-las. License-501040-33302-0-7 PSICOLOGIA APLICADA Já a inteligência intrapessoal trata dos aspectos internos da pessoa, ou seja, o acesso aos sentimentos e emoções de sua própria vida. Essa capacidade pode ser utilizada como uma maneira de entender e orientar o próprio comportamento. Uma pessoa com essa capacidade bem desenvolvida possui consciência do próprio eu. Diante disso, podemos afirmar que tanto a inteligência interpessoal quanto a intrapessoal podem ser verificadas em testes de inteligência. Ambas apresentam tentativas de resolver problemas significativos: seja a interpessoal, que nos permite compreender e trabalhar com os outros; seja na intrapessoal, que nos permite compreender a nós mesmos. As inteligências pessoais se referem a como nos relacionamos com as questões subjetivas internas e externas. License-501040-36354-0-6 PSICOLOGIA APLICADA O que significam as diferenças de habilidades? Diante de tantas formas de se entender a inteligência e as suas possibilidades, é necessário que vejamos quais são as implicações desse trabalho e como aplicá-lo, visando a melhora no desenvolvimento humano. A necessidade de avaliação dessas inteligências Gadner também abordou questões como a necessidade de submeter as pessoas a avaliações que permitam a escolha de carreiras e passatempos adequados às suas habilidades. Esses testes também devem ser capazes de avaliar as dificuldades e sugerir rotas alternativas para o alcance de um objetivo educacional. Por exemplo, uma avaliação pode apontar que João tem dificuldades matemáticas, porém muita habilidade com relações espaciais. Assim, podemos criar estratégias que façam com que essa criança aprenda matemática por meio das relações espaciais. O autor Gadner ainda enfatiza que é essencial que os sistemas educacionais se afastem dos testes padronizados que classificam os alunos em números em vez de habilidades. Esses testes, além de criar estigmas que podem prejudicar o futuro dessas pessoas, aferem somente uma pequena proporção das capacidades intelectuais, muitas vezes beneficiando um determinado tipo de habilidade e considerando-o um “saber supremo”. Uma avaliação que considere as inteligências múltiplas deve fornecer problemas que possam ser resolvidos de acordo com os conhecimentos de cada uma das inteligências avaliadas. Uma avaliação matemática, por exemplo, deveria apresentar problemas matemáticos para serem resolvidos. Além disso, essa avaliação deve considerar os princípios da teoria e a capacidade do indivíduo de resolver problemas. License-501040-36354-0-6 PSICOLOGIA APLICADA É preciso avaliar para identificar as habilidades que cada um possui, procurando oferecer estímulos que sejam condizentes com essas capacidades. Um exemplo desse tipo de avaliação é o que acontece quando uma criança assiste a um filme complexo, em que várias inteligências são estimuladas: musical, pessoas interagindo, um enigma a ser resolvido ou uma determinada habilidade corporal. Diante de todas essas habilidades competindo pela atenção da criança, podemos questioná-la sobre quais aspectos ela prestou mais atenção. Geralmente, esses aspectos estarão relacionados ao perfil das inteligências daquela criança. A próxima figura retrata uma criança assistindo a um filme na televisão. Fonte: Ivan Josifovic, Shutterstock, 2018. Esse tipo de teste difere dos tradicionais em duasquestões. A primeira é o fato de eles dependerem de materiais e estratégias que possam criar problemas a serem resolvidos, contrastando com as medidas pré-estabelecidas pelos exames tradicionais. E, em segundo lugar, os resultados demonstram apenas parte do perfil de inclinações intelectuais, e não uma única classificação da inteligência. Acompanhe a figura a seguir. License-501040-36354-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Testes com diversos problemas a serem resolvidos Resultado das aptidões que se destacam Perfil de inclinações intelectuais Como lidar com essa pluralidade das inteligências? Diante dessa multiplicidade de inteligências, é necessário também que as formas de abordar e ensinar sejam embasadas nessas habilidades. O ideal seria que os projetos educacionais fossem elaborados de acordo com as competências individuais de cada estudante, mas, diante dessa impossibilidade, existem estratégias que estimulam o conhecimento por meio das capacidades intelectuais de cada um . Imagine que Joana está apreendendo algum princípio matemático, mas não é muito dotada da inteligência lógico- matemática, apresentando dificuldades durante o processo de aprendizagem. Ela não consegue acessar completamente o princípio matemático, justamente porque ele existe apenas no mundo lógico-matemático, sem ser comunicado por meio de outras capacidades . Propondo uma solução para essa adversidade, Gadner defende que os professores devem achar rotas alternativas. No exemplo de Joana, o autor propõe encontrar metáforas que sirvam para transmitir o conteúdo matemático. Geralmente, a linguagem é License-501040-36354-0-6 PSICOLOGIA APLICADA a alternativa mais óbvia, mas o uso de um modelo espacial ou uma metáfora corporal-cinestésica talvez possa ser adequado também. Assim, Joana poderia traçar uma rota secundária para a solução do problema por meio da inteligência que se destaca nela. A próxima figura demonstra uma criança em processo de aprendizagem. Fonte: Monkey Business Images, Shutterstock, 2018. Gadner ainda enfatiza dois aspectos dessa possibilidade alternativa de ensino. Para ele, primeiramente deve-se considerar que a metáfora usada é apenas uma forma complementar e em algum momento o aluno terá que traduzir novamente no domínio da matemática, sendo, essas alternativas apenas facilitadores para se chegar ao produto final. E em segundo lugar, o autor afirma que a rota alternativa também não é completamente garantida, sendo apenas testes experimentais que os professores devem fazer não tendo como garantia também que o que funciona com um aluno funciona com os demais. License-501040-36354-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Embora a teoria das inteligências múltiplas seja consistente com diversas evidências, ela ainda é pouco difundida no meio educacional, dificultando o reconhecimento de habilidades que são ignoradas por não se encaixarem nos padrões já estabelecidos. De fato, existem diversos talentos não reconhecidos em nossa sociedade. Seria oportuno orientar as pessoas quanto ao conjunto de possibilidades de aptidões, reconhecendo a pluralidade das inteligências e as diversas maneiras de representá-las. Não somos preparados culturalmente para lidar com essa diversidade de competências, ficando limitados aos padrões intelectuais já estabelecidos. As implicações educacionais Com todas essas questões acerca das novas possibilidades das inteligências múltiplas, Gadner traz as implicações que o uso dessa nova teoria pode ter para os sistemas educacionais. Deve se tornar uma preocupação dos educadores estimular essas novas possibilidades de talento que, muitas vezes, não são valorizadas no ambiente escolar. A primeira implicação que Gadner apresenta é a questão da diversidade cultural dos talentos, pois o que pode ser considerado algo prodigioso na China, aqui no Brasil não é visto assim, ou vice versa. Dessa forma, é necessário compreender o que são talentos desejáveis dentro da nossa cultura. Outro aspecto apresentado é a adoção de uma abordagem, por parte dos professores, que leve em conta as diferentes respostas aos estímulos motivacionais e cognitivos . Devemos considerar, ainda, os modelos educacionais que são oferecidos às crianças, pois os professores também possuem formas diferentes de ensinar. É essencial selecionar profissionais que estejam de acordo com a direção que o ensino deve tomar. License-501040-36354-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Clique na figura para assistir ao vídeo Perceba, na figura a seguir, que cada criança é diferente, e o professor precisa levar em consideração essas diferenças na hora de ensinar. Fonte: Posnyakov, Shutterstock, 2018. License-501040-36354-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Por fim, podemos observar que discussões que envolvem educação e habilidades são inevitáveis em nosso contexto cultural, dado o fato de que, na sociedade, pode haver modelos contrastantes de predisposições para determinadas áreas e até mesmo contraditórios. Portanto, é nossa reponsabilidade estar preparado para receber e entender essa diversidade de habilidades, além de valorizá-las em prol da promoção do conhecimento. Precisamos adaptar a educação para receber os mais diversos talentos e estimulá-los como forma de formar pessoas de sucesso no mercado de trabalho. License-501040-36358-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O que é a Inteligência Emocional? A partir de agora, exploraremos a Inteligência Emocional criada por Daniel Goleman. Essa teoria revolucionária traz uma nova forma de entender o funcionamento da inteligência humana. A Inteligência Emocional de Daniel Goleman De acordo com Goleman, a criação do conceito de Inteligência Emocional, ou QE, nasce da junção da neurociência com o estudo das emoções. Trata-se de uma forma de determinar nosso potencial para apreender os fundamentos do autodomínio e mostrar quanto potencial possuímos em cada uma de nossas habilidades. A QE se concentra no desempenho do trabalho e da liderança organizacional aliados à uma modelação das competências de cada sujeito. Para esse autor, enquanto a inteligência emocional serve para determinar o potencial que cada um de nós possui para apreender os fundamentos do autodomínio, a nossa competência emocional mostra o quanto desse potencial dominamos, e a maneira para transformá-lo em capacidades profissionais. Por exemplo, um vendedor que lida diretamente com o público precisa ter uma habilidade, baseada na QE, de consciência social e gerenciamento de relacionamentos. As competências emocionais são habilidades que podem ser apreendidas, fazendo com que a pessoa aprimore suas capacidades de trabalho. Assim, uma pessoa pode ser muito empática, mas péssima em lidar com clientes, caso ela não tenha desenvolvido as competências para o atendimento de clientes. Observe a ilustração a seguir. Potencial que cada um possui O grau de domínio do potencial obtido Inteligência Competência License-501040-36358-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A inteligência emocional se baseia em cinco habilidades básicas e interdependentes: a autoconsciência; a automotivação; o autocontrole; a empatia; a sociabilidade. As três primeiras cabem ao sujeito e sua relação com os próprios sentimentos, enquanto que as outras se referem ao exterior, aos sentimentos dos outros e às interações sociais. Diante do conceito da inteligência emocional, podemos perceber que as nossas emoções também devem ser consideradas nas tomadas de decisão. A primeira habilidade que Goleman apresenta é a autoconsciência, que pode ser considerada a mais importante delas, visto que ela abre caminhos para as demais. É por meio da autoconsciência que o sujeito pode perceber, distinguir e nomear os próprios sentimentos de forma a se reconhecer e aceitar seus estados emocionais. Já a automotivação se refere à capacidade de criar metas para si mesmo, com objetivos que promovam o entusiasmo e a persistência. Trata-se da capacidade de não permitirque os obstáculos impeçam a concretização desses objetivos, mantendo sempre um foco. A terceira habilidade é o autocontrole, que se relaciona à capacidade de administrar os sentimentos pessoais que possam atrapalhar a conquista das metas estipuladas. Com o desenvolvimento dessa habilidade, o sujeito é capaz de entender as adversidades que acontecem e, muitas vezes, conter um impulso momentâneo, visando o objetivo final. Como quarta habilidade, e já voltada para o exterior e para os sentimentos dos outros, temos a empatia, que se trata da License-501040-36358-0-5 PSICOLOGIA APLICADA capacidade de perceber e compreender os sentimentos dos outros por meio de expressões não verbais (tom de voz, postura corporal etc. Por fim, a última habilidade desenvolvida por Goleman é a sociabilidade, sendo essa a capacidade de iniciar e manter relações sociais. Pessoas com essa habilidade desenvolvida possuem a capacidade de disseminar sentimentos positivos e substituir os negativos, fazendo com que os relacionamentos se tornem mais profundos e duradouros. Para que servem as emoções? Em diversos momentos, somos tomados por diferentes emoções, como tristeza, alegria, medo, raiva etc. Essas emoções muitas vezes conduzem as nossas atitudes e sentimentos, demonstrando que elas são essenciais e que a espécie humana deve grande parte da sua existência à força que elas têm. Goleman traz um exemplo de um incêndio em um apartamento no qual o pai contém o próprio instinto de sobrevivência ao passar pelas chamas para salvar a filha. Vemos que, ao longo da evolução humana, a emoção teve um papel muito forte e essencial em nosso psiquismo, pois quando estamos diante de um impasse ou de uma situação de perigo, geralmente são elas emoções que nos orientam. Assim, perceba que ignorar o poder das emoções em nossas vidas é algo enganoso, visto que essas emoções ocupam hoje um peso equivalente à razão. Somente a partir do equilíbrio entre as duas que conseguimos tomar decisões acertadas. License-501040-36358-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Clique na figura para assistir ao vídeo Embora as emoções possam servir de sábios guias para as decisões ao longo do percurso evolucionário, sabemos que na sociedade em que vivemos há códigos e leis que podem ser interpretados como uma forma de conter, subjugar e domesticar as emoções humanas. A figura a seguir representa as principais emoções. Fonte: Curioso, Shutterstock, 2018. License-501040-36358-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Vemos que, diante das pressões sociais, muitas vezes somos levados pelas nossas paixões, deixando a razão em segundo plano. Isso fica muito claro nas situações em que um indivíduo precisa decidir sobre sua futura profissão. Muitas pessoas contrariam as expectativas sociais de decidir por uma profissão estável e rentável para procurar algo que realize sonhos. Podemos nos deixar levar por nossos instintos como uma forma de defesa ou por seguir nossas paixões, o que pode nos levar a decisões não acertadas. A evolução humana nos moldou e continua nos moldando ao longo da História, de forma que ainda avaliamos as situações complicadas e damos respostas baseados não somente em nossos julgamentos racionais, mas também em nossa bagagem pessoal e legado ancestral. Tudo isso nos faz julgar as situações procurando um equilíbrio entre a razão e a emoção que carregamos e herdamos. Inteligência Emocional aplicada Todas as nossas emoções têm uma forte raiz no impulso de agir, portanto, conseguir controlar esses impulsos é básico para a QE. Manter esse controle, entretanto, pode ser algo muito difícil nas relações que estabelecemos ao longo da vida com nossos pais, parceiros, amigos etc. Todos temos a necessidade de sermos amados e respeitados, mas, diante do medo da perda, podemos agir de forma impulsiva não controlando completamente nossas habilidades. Além dos relacionamentos, vemos também os benefícios que a inteligência emocional pode trazer para as empresas e para o ambiente organizacional. De acordo com Goleman, uma pesquisa feita na década de 1970, com 250 executivos, constatou que a maioria acreditava que, no trabalho, o foco deveria estar no uso da razão e não das emoções. Eles alegavam que temiam que a empatia ou a solidariedade nesse ambiente pudesse causar conflitos com as metas das empresas. License-501040-36358-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Com a aplicação da inteligência emocional, podemos garantir que a nossa história de vida não seja guiada apenas por decisões puramente racionais. Porém, atualmente, entende-se que uma nova realidade competitiva impõe a utilização da QE como um recurso. Percebeu-se, ao longo dos anos, que quando emocionalmente perturbadas, as pessoas produzem menos, não apreendem e nem tomam decisões com clareza. Assim, a forma como utilizamos nossas emoções influencia em diversos aspectos das nossas vidas, seja pessoal, social e até profissional. Fazer uso das habilidades que podemos desenvolver e do controle das emoções pode contribuir na forma como conduzimos nossas vidas. License-501040-37280-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Emoção versus mente Vimos que, para buscar a QE, devemos procurar o equilíbrio entre a nossa razão e emoções, certo? Muitas vezes as enxergamos como rivais, fazendo com que uma se sobreponha à outra, o que nos causa diversos problemas. O cérebro emocional De acordo com Goleman, temos, na verdade, duas mentes: uma que raciocina e a outra que sente. Da interação entre esses dois modos de conhecimento surge nossa vida mental. A mente racional seria o modo de compreensão do que, em geral, temos consciência, ou seja, é a parte que nos faz pensar, ponderar e refletir. Já o outro sistema de conhecimento, a mente emocional, é impulsivo e até ilógico, sendo responsável por nossos sentimentos e pela forma como nós os expressamos. Popularmente essa divisão é conhecida como as coisas do “coração” e as coisas da “cabeça”, como ilustra a imagem a seguir. Frequentemente, ouvimos pessoas afirmando que, ao ter certeza de algo, ela sente “dentro do coração”, atribuindo um sentido mais profundo ao fato. Fonte: Sangoiri, Shutterstock, 2018. License-501040-37280-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Essas duas mentes operam juntas na maior parte do tempo, entrelaçando seus modos de conhecimento de forma a nos orientar em nossas decisões e atitudes. Em geral, elas caminham em equilíbrio, fazendo com que a emoção alimente e informe as operações da mente racional, e a mente racional refine e ou até vete a entrada das emoções. Elas são, na verdade, semi- independentes, podendo muitas vezes surgir paixões, desfazendo esse equilíbrio. Possuímos duas mentes, uma racional e uma emocional. O equilíbrio entre elas nos guia ao longo da vida. A natureza da Inteligência Emocional Ao longo dos anos, diversos instrumentos que procuram medir a inteligência humana, como o famoso teste do QI, que nos apresenta uma escala de medida dos níveis de inteligência, foram disseminados. De fato, esses instrumentos podem sim determinar algumas capacidades da pessoa e até mesmo prever, dentro de grandes grupos, que indivíduos com altos níveis de QI tendem a obter excelentes empregos. Contudo, nem sempre isso ocorre. Há inclusive pesquisas que demonstram que o QI contribui com cerca de 20% dos fatores que podem determinar o sucesso na vida de uma pessoa, o que deixa os outros 80% para fatores que vão desde a classe social até mesmo a própria sorte. Vemos, portanto, a importância dessas outras características que moldam a vida das pessoas. Destacamos a inteligência emocional, que aborda diversos outros fatores que influenciam na construção da vida do sujeito. A QE envolve temas que vão além da capacidade intelectual, abarcando a capacidade de criar motivações para si próprio e manter um foco apesar das adversidades do caminho, de controlar os impulsos e saber aguardar pela satisfação dos desejos, de tentar impedir que a ansiedade interfirana capacidade de raciocinar e de ser empático e autoconfiante. License-501040-37280-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Goleman afirma que ainda não se pode afirmar o quanto a QE é responsável pela variação de pessoa para pessoa ao longo da vida, mas que existem dados que sugerem que esse tipo de inteligência pode ser tão valioso quanto o próprio QI. Além disso, o QI é um fator que dificilmente pode ser modificado, enquanto que a inteligência emocional apresenta a possibilidade do aprendizado, através do desenvolvimento e aprimoramento das aptidões. Clique na figura para assistir ao vídeo Outra questão que envolve o QI é que possuímos uma aptidão específica e esse dado é imutável. Segundo os estudiosos dessa área, nascemos com algum tipo de inteligência que nos destaca em alguma área, e somos desestimulados a desenvolver os outros tipos. Além disso, há outro fator que a inteligência emocional oferece de diferencial: a inteligência acadêmica pode ser muito útil, mas não oferece preparo para as experiências que teremos ao longo da vida. Por mais que estudamos um determinado tema, dificilmente todo esse estudo nos dará preparo para enfrentar questões como paixões, perdas, medos etc. A QE se sobressai, portanto, pois ao desenvolvê-la você também desenvolve aptidões que podem ser decisivas para compreender e lidar com os acontecimentos da vida. License-501040-37280-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A figura a seguir simboliza a QE se sobressaindo. Fonte: amasterphotographer, Shutterstock, 2018. Por fim, Goleman afirma que o QI e a QE não são capacidades que se opõem, mas que são distintas em sua proposta. Ao contrário dos testes de QI, a QE não oferece nenhum tipo de formulário que ateste um valor. Existem, sim, pesquisas que visam testar a aptidão de uma pessoa em uma determinada tarefa, buscando entender em quais aptidões a pessoa se destaca e quais ela ainda pode desenvolver. Dessa maneira, todos nós mesclamos o QI e a inteligência emocional em graus variados, fazendo uso das duas e buscando reter o melhor de cada uma em nossas jornadas. A inteligência emocional se difere do QI, pois considera diversos outros fatores externos ao buscar avaliar quais são as aptidões das pessoas. License-501040-37280-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Harmonizando emoções e pensamento Já vimos a importância que as emoções têm em nossas vidas, e como o controle delas e o desenvolvimento das aptidões que elas nos oferecem é fundamental para o acerto nas decisões ao longo da vida. A figura a seguir mostra uma pessoa ponderando entre razão e emoção. Fonte: Sergey Nivens, Shutterstock, 2018. Devemos considerar também o poder que as emoções têm de perturbar nossos pensamentos. Os neurocientistas definem como “memória funcional” aqueles fatos que armazenamos como fatos essenciais para o desenvolvimento de uma determinada tarefa ou problema. A questão é que alguns estudos já comprovaram como os circuitos do sistema límbico (aquele responsável pelas emoções) podem ir direto para o córtex pré-frontal, local onde armazenamos a memória funcional. Isso nos leva a concluir que os sinais de fortes emoções, como raiva ou ansiedade, podem paralisar e sabotar a capacidade do cérebro de manter a memória funcional. License-501040-37280-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Exemplos claros são as situações em que estamos emocionalmente perturbados e afirmamos que “não conseguimos raciocinar”. Isso acontece justamente porque essa perturbação emocional cria deficiências nas aptidões intelectuais. Pensemos também no papel que as emoções exercem até mesmo na mais racional decisão que tomamos; por mais que tentemos manter o controle, geralmente alguma emoção influencia de alguma forma esse processo. Com isso, há diversas indicações que demonstram que os sentimentos geralmente são indispensáveis na tomada das decisões racionais. Por exemplo: “Como aplicar o dinheiro?”, ou “Com quem casar?”. O aprendizado que temos ao longo da vida, como as separações anteriores ou algum investimento mal sucedido, sinaliza para qual lado devemos tomar a decisão, fazendo com que o cérebro emocional e o cérebro pensante tomem essa decisão em conjunto. Nesse sentido, temos dois cérebros e dois tipos de inteligência: a emocional e a racional. Nosso desempenho e sucesso ao longo da vida depende da forma como essas duas inteligências se comunicam e se manifestam. As emoções são importantes para a racionalidade e vice versa, de forma que o emocional muitas vezes guia nossas decisões, enquanto que o próprio pensamento desempenha a função de administrar essas emoções, fazendo com elas não dominem nossos desejos. Acompanhe, na figura a seguir, como as decisões acertadas são tomadas. Uso da razão Uso da emoção Decisões acertadas License-501040-37280-0-6 PSICOLOGIA APLICADA As decisões acertadas podem ser mais garantidas quando não sobrepomos nem o sentimento, nem a razão, fazendo os dois caminharem juntos. Lembrando que não é que queiramos eliminar um ou outro, ou colocá-los como antagonistas, mas procurar a harmonia entre eles, de forma que possamos usá-los em nosso benefício, caminhando juntos e usando inteligentemente a emoção. License-501040-33306-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Inteligência versus empatia Muitas vezes, pensamos que manifestar as nossas emoções pode ser uma forma menos inteligente de viver. Mas, como já vimos, as emoções quando usadas de forma correta podem nos ajudar nas relações interpessoais. E uma das principais aptidões da inteligência emocional trata da capacidade de exercer a empatia. As aptidões da Inteligência Emocional Goleman elabora, como forma de explicar a inteligência emocional, cinco principais aptidões, demonstrando que a inteligência pode ir além das habilidades intelectuais que conhecemos. Lembra quais são elas? Então veja a seguir, começando pela figura. Autoconsciência AutocontroleSociabilidade Empatia Automotivação License-501040-33306-0-6 PSICOLOGIA APLICADA 1 Conhecer as próprias emoções: também nomeada por autoconsciência, trata- se da capacidade de reconhecer um sentimento. É fundamental controlar nossos sentimentos, como forma de discernimento emocional e para a autocompreensão. Quando não desenvolvemos essa capacidade, podemos ficar à mercê de nossos sentimentos, justamente porque não conseguimos identificá-los, o que atrapalha as decisões pessoais. 2 Lidar com emoções: além de conhecer os nossos próprios sentimentos, precisamos também lidar com eles e eliminar aqueles que nos atrapalham, como a ansiedade, a tristeza ou irritabilidade, etc. São sentimentos que nos incapacitam e, como consequência, promovem um fracasso emocional. É preciso, portanto, desenvolver essa aptidão como forma de conseguir se recuperar mais rapidamente daquilo que pode perturbar sua vida. 3 Motivar-se: colocar as emoções a serviço da razão é uma meta essencial, que devemos promover como forma de automotivação. Saber adiar a satisfação e a impulsividade está por trás de qualquer tipo de realização. Além disso, é preciso também manter-se focado no objetivo, mesmo com as eventuais adversidades. A figura a seguir representa uma pessoa focada em seu objetivo. Fonte: Dan Kosmayer, Shutterstock, 2018. License-501040-33306-0-6 PSICOLOGIA APLICADA 4 Reconhecer emoções nos outros: trata-se da empatia. É a aptidão pessoal fundamental, e é por meio dela que conseguimos nos sintonizar com as outras pessoas, e até com os mais sutis sinais do mundo externo. Ela faz com que sejamos capazes de compreender o que os outros precisam ou o que querem. 5 Lidar com relacionamentos: relacionar-se com outras pessoas se torna uma arte e uma aptidão em que precisamos lidar com as emoções. Com essa aptidão, determinamos a popularidade, capacidade de liderança e a eficiência interpessoal, o que nos capacita para interagir com os outros de forma habilidosa. Cada um de nós difere nas aptidões que possuímos e em suas intensidades. Por exemplo,você pode conhecer uma pessoa muito hábil em lidar com a própria ansiedade, aparentando ser uma pessoa calma, mas que não é boa em entender os problemas de outra pessoa. Possuímos tendências para algumas aptidões, mas o que difere a QE das outras formas de inteligência é que, por meio de um conjunto de hábitos e respostas e com a prática, elas podem ser aprimoradas. Essas aptidões, diferente das que são estabelecidas por testes convencionais, podem ser apreendidas e desenvolvidas ao longo da vida. As origens da empatia Como você já deve saber, a empatia é a capacidade de entender e se reconhecer nos sentimentos das outras pessoas. Essa capacidade é alimentada pelo autoconhecimento, e quanto mais consciente estivermos de nossos sentimentos, mais capazes de entender o sentimento alheio estaremos. Essa capacidade se torna importante em diversos aspectos de nossas vidas, seja nas práticas comerciais, buscando entender o que o cliente precisa ou deseja, seja em um relacionamento, procurando compreender as razões da demonstração de determinados sentimentos, como o ciúme, por exemplo. Raramente conseguimos expressar nossas emoções por meio de palavras, de forma que nos façamos compreensíveis, mas com muita frequência elas são de formas não verbais. Portanto, o segredo para tentar entender o que a outra pessoa sente está License-501040-33306-0-6 PSICOLOGIA APLICADA na capacidade de interpretar sinais como o tom do voz, gestos, expressão facial etc. Assim como a forma mais conhecida de expressão da mente racional é a palavra, a demonstração dos sentimentos acontece principalmente de forma não verbal, representando cerca de 90% das mensagens emocionais que uma pessoa pode demonstrar. Essas mensagens, tais como ansiedade no tom de voz ou irritação, geralmente são aceitas inconscientemente, sem que consigamos dar a devida atenção para seu conteúdo ou significado. Logo, a empatia se desenvolve quando somos capazes de entender e reconhecer essas mensagens como forma de ajudar as pessoas que as emitem. Veja um exemplo disso na figura a seguir. Fonte: fizkes, Shutterstock, 2018. Goleman apresenta pesquisas que demonstram que a empatia se desenvolve no ser humano desde a infância. Segundo o autor, ao observar uma criança de dois anos de idade cair e começar a chorar, outra criança com a mesma idade se mostra aflita License-501040-33306-0-6 PSICOLOGIA APLICADA e busca um urso de pelúcia como forma de sanar o choro da criança machucada. Estudos revelam que a partir dos dois anos, as crianças começam a perceber que os sentimentos dos outros não são os seus, e com isso se tornam mais sensíveis aos indícios que demonstram o que os outros estão sentindo. Com isso, percebemos que a empatia é uma aptidão que, em algum grau, todos nós possuímos e demonstramos. Porém, como todas as outras aptidões da QE, o que a diferencia é a forma como aprimoramos e manifestamos essa capacidade. A empatia é essencial tanto para as relações profissionais quanto para as pessoais e sociais, facilitando, inclusive, entender e reconhecer os próprios sentimentos. A empatia se manifesta na sutileza de entender os gestos não verbais que as pessoas demonstram e compreender seus sentimentos, desejos ou necessidades. A arte de viver em sociedade Goleman diz que para que entremos em sintonia com o outro, precisamos ter calma e controlar nossas próprias emoções, como forma de compreender os sentimentos alheios. A paciência também é uma demonstração de empatia, visto que dessa forma é possível manter uma relação mais eficaz com o outro, priorizando naquele momento as necessidades da outra pessoa. Assim, para a prática dessa arte de se relacionar com outras pessoas, é preciso o amadurecimento de duas outras aptidões: o autocontrole e a empatia. Só assim torna-se mais fácil viver em sociedade e amadurecer as aptidões pessoais, o que nos permite moldar um relacionamento, inspirar, convencer e influenciar os outros, deixando-os à vontade. License-501040-33306-0-6 PSICOLOGIA APLICADA No entanto, para um bom convívio em sociedade, é necessário controlar a forma como expressamos nossos sentimentos dentro dos ambientes. A demonstração de nossas emoções trazem diferentes impactos para as pessoas, que por meio de determinadas regras já existentes, conseguem entender o que queremos expressar. É consenso dentro da sociedade, por exemplo, que quando damos um abraço em alguém estamos procurando uma forma de demonstrar afeto e apreço pela pessoa. Seguimos essas regras que fazem com que os sentimentos sejam reconhecidos facilmente, o que gera um impacto ideal dentro da sociedade. Usar essas regras de forma inadequada pode implicar uma forte devastação emocional, como aqueles que usam do afeto para conseguir algo de seu interesse. Veja, na figura a seguir, que a união entre as pessoas é muito importante. Fonte: ESB Professional, Shutterstock, 2018. License-501040-33306-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Essas normas chegam até nós como um manual de boas maneiras sociais, as quais ditam nossos sentimentos e se refletem em outras pessoas. Reconhecemos também que apreendemos ao longo da vida e de nossas experiências as lições acerca dessas normas, e levamos os modelos que recebemos para o nosso cotidiano. O domínio das teorias desses dois autores (Gardner e Goleman) por parte dos estudantes pode trazer-lhes contribuições altamente benéficas, seja na esfera pessoal, seja na esfera profissional. Na esfera pessoal, sabe-se que todo aquele que conhece bem a si próprio enfrenta menos problemas do que aquele que não desenvolveu essa capacidade. Já na esfera profissional, encontramos um vasto campo de aplicação das teorias, principalmente na gestão de pessoas de uma organização. Para um bom convívio em sociedade, determinadas normas estabelecem como manifestamos nossos sentimentos e como as pessoas podem compreendê-los. License-383754-30154-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Atividade Avaliativa Aplicação O papel da liderança dentro de uma organização é algo essencial para o desenvolvimento das tarefas, visto que essa pessoa se torna uma grande referência na forma como os processos de trabalho serão conduzidos. Existem diversos tipos de liderança e diversas formas de desempenhar essa atividade. Conhecemos as três principais (autoritária, transformacional e laissez-faire), além de suas principais características e formas de conduta na busca pelo objetivo maior da empresa. Diante desses tipos, vamos desenvolver um exercício prático tendo como base o seu ambiente de trabalho e o líder direto que orienta suas atividades. Etapas da atividade I. Entreviste sua gerência, ou, caso não trabalhe em uma empresa, a liderança de alguma organização. Busque entender quais são os recursos que o líder utiliza para fazer com que o grupo desempenhe as tarefas de acordo com o que é esperado pela empresa. II. Tente identificar em qual dos tipos de liderança ele melhor se encaixa. III. Aponte exemplos que evidenciem essas características. License-383754-30156-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Critérios de Avaliação Para que você possa se autoavaliar, deverá analisar alguns aspectos de sua atividade. Na sequência, conheça quais são eles. I. Quais as vantagens e desvantagens que você percebe nesse tipo de liderança? II. Você acredita que a liderança entrevistada representa a formação de um grupo ou uma equipe de trabalho? III. Se você fosse o líder, quais aspectos você manteria e o que faria de diferente quanto à forma de conduzir o grupo? License-383754-30160-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Psicologia Organizacional: Relações Sociais e Liderança Introdução Olá! Seja bem-vindo (a) à penúltima unidade desta disciplina! Você está cada vez mais próximo da conclusão. Esperamos que você se mantenha firme e persistente nos estudos. Neste capítulo, abordaremos questões práticas relativas ao ambiente organizacional. Analisaremos como se estabelecemas relações sociais por meio de conceitos como cultura organizacional, formação de equipes e estágios de maturidade. Além disso, veremos os objetivos e tipos de liderança dentro da organização. Você sabia que os líderes podem se distinguir por tipos? Então siga lendo e continue aprendendo conosco! License-383754-36546-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Como se estabelecem as Relações Sociais em uma empresa É comum estabelecermos relações e vínculos com pessoas e temas que são de nosso interesse e convívio, certo? No ambiente empresarial, não é diferente, sendo a forma como essas relações se estabelecem importante para a produtividade. Os vínculos do trabalhador com a organização Desde que nascemos, estabelecemos vínculos com diferentes pessoas, grupos, instituições, ideologias, objetos e até mesmo locais. Esses vínculos fazem parte da nossa concepção de mundo, geralmente tendo uma relação afetiva envolvida ou acontecendo por meio de normas sociais, às quais nos submetemos. Dentro das empresas, local em que passamos boa parte de nossa vida adulta, esses vínculos não são diferentes, tornando-se essenciais para garantir um ambiente de trabalho agradável e influenciando, muitas vezes, a produtividade e o desempenho do trabalhador. Observe a figura a seguir! Fonte: Wichy, Shutterstock, 2018. License-383754-36546-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A diversidade dentro de um grupo organizacional contribui para que diferentes opiniões e manifestações aconteçam e assim buscar o equilíbrio entre os desejos dos membros. Embora esse vínculo esteja relacionado diretamente à empresa, a satisfação com os demais funcionários, com a missão da empresa e com as condições de trabalho são essenciais para garantir que esse vínculo seja harmonioso. Essa satisfação assume uma posição de destaque, à medida que possui um papel determinante no comportamento dos colaboradores, sendo extremamente relevante para garantir um bom desempenho. Clique na figura para assistir ao vídeo Zaneli et al. , com base em diversas pesquisas realizadas, demonstram que pessoas com altos níveis de contentamento com o ambiente de trabalho são aquelas que menos planejam sair das empresas onde trabalham, que menos têm faltas e que apresentam o melhor desempenho e maior produtividade. Vemos, assim, que o vínculo afetivo do colaborador com o trabalho realizado, ou seja, a manutenção de uma boa relação com os cinco principais fatores integrantes de satisfação — License-383754-36546-0-6 PSICOLOGIA APLICADA chefia, colegas, salário, promoções e o próprio trabalho —, pode impactar positiva ou negativamente os resultados das organizações. Uma das formas de manter um bom vínculo entre a empresa e o empregado é a satisfação, resultado de uma boa relação entre os envolvidos. Vemos, portanto, o estabelecimento desse vínculo como um ato de reciprocidade, em que os colaboradores esperam receber um retorno tanto financeiro quanto afetivo, enquanto que a empresa espera do trabalhador o comprometimento e bom desempenho de suas funções. Isso faz com que seja criada uma rede de relações, na qual o cumprimento dos papéis de cada um faz com que o vínculo garanta a satisfação de ambas as partes. Confira as relações de troca na ilustração a seguir! Expectativas dos trabalhadores com a troca: -satisfazer às suas necessidades; - receber apoio organizacional; - obter reciprocidade organizacional; - entabular uma troca justa. Retribuições organizacionais: - Econômicas; - Financeiras; - Sociais; -Materiais. Atos dos trabalhadores: - Desempenho; - Assiduidade; - Permanência; - Colaboração espontânea. Relações de troca Fonte: ZANELI et al. (2014). License-383754-36546-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Comprometimento organizacional Assim como a satisfação, as relações organizacionais passam também por uma necessidade de compromisso, que é estabelecido entre a empresa e o empregado. Esse compromisso é chamado de “comprometimento organizacional”. Trata-se de uma forma confiável de estabelecer comportamentos relevantes para o contexto do trabalho, tais como ausência de faltas, bom desempenho e cumprimento da carga horária . Atualmente, é possível estabelecer duas bases teóricas para o comprometimento organizacional: uma de natureza afetiva e outra de natureza cognitiva. Essas duas bases são fortemente estudadas e defendidas de acordo com os seus princípios. O princípio afetivo defende que o indivíduo desenvolve uma forte identificação com a organização, a qual é nutrida por sentimentos positivos e negativos. Enquanto que a base cognitiva estabelece que esse comprometimento aconteça sobre crenças desenvolvidas pelos funcionários acerca de suas relações com a organização. A partir dessas duas bases de comprometimento, foram desenvolvidos três estilos de comprometimento: o estilo afetivo; o estilo calculativo; e o estilo normativo. O primeiro é regido pelos princípios afetivos e os outros dois, pela base cognitiva. O comprometimento organizacional afetivo é definido como um vínculo sustentado pela identificação do colaborador com empresa e seus objetivos, o que faz com que o funcionário deseje manter-se afiliado a ela no intuito de participar do cumprimento desses objetivos. A próxima figura ilustra esse vínculo. O segundo estilo de comprometimento é o calculativo, em que a manutenção do empregado na organização acontece com base no acúmulo de valores (tempo, esforço, dinheiro). Esses valores podem ser investidos pelo indivíduo em outros objetos de desejo social, e seriam perdidos caso o vínculo acabasse. A figura a seguir retrata o vínculo entre o colaborador e o empregador. License-383754-36546-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Konstantin Chagin, Shutterstock, 2018. Por fim, temos o comprometimento normativo, que é uma forte tendência do sujeito em guiar seus atos por valores culturais já internalizados, sem raciocinar criticamente acerca de certas ações. Esse vínculo se baseia em um conjunto de pensamentos no qual são reconhecidas obrigações e deveres morais com a empresa, que podem ser acompanhados de sentimentos de culpa, incômodo ou preocupação. Isso pode fazer com que o sujeito se sacrifique pessoalmente pelo medo da perda do vínculo. Por meio dos estilos de comprometimento, o funcionário desenvolve sua maneira de se manter na empresa, estabelecendo vínculos. License-383754-36546-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Análise das Redes Sociais As redes sociais em uma organização são definidas por um conjunto de dois elementos: os atores (pessoas, instituições ou grupos) e as conexões estabelecidas. Em outras palavras: essas redes são conjuntos de contatos que ligam várias pessoas, e podem ser de diferentes tipos e ter variados conteúdos. Observe uma representação dessas redes na figura a seguir. Fonte: Lightspring, Shutterstock, 2018. A Análise das Redes Sociais (ARS) pode ser considerada um conjunto de métodos e técnicas visando identificar quais estruturas sociais podem emergir em uma relação. A ideia básica de uma rede seria um conjunto de atores ou pontos que se vinculam por meio de relações. Logo, essa análise se propõe a entender como se forma essa rede, conhecendo as relações estabelecidas. Com isso, a maneira como um ator se encontra inserido em uma rede relacional determina suas oportunidades e restrições. License-383754-36546-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Os atores que possuem posições estruturais mais favoráveis, geralmente tendem a enfrentar menos restrições e ter melhores ofertas. Além disso, essas redes podem apresentar subgrupos, os quais estabelecem suas próprias normas, valores e orientações, tendo como base o comportamento coletivo dentro do grupo. Esses subgrupos se formam por meio da identificação e proximidade entre os membros. Considere o exemplo apresentado por Reyes Junior et al. : é feita uma ARS em 53 empresas do setor de couro de determinado município. Os autores conseguiram identificar diversas formas de relaçãoe vínculo, tanto interno quanto externo às empresas. Foram observadas, por exemplo, relações comerciais, de amizade e baseada em instituições, montando, assim, uma grande rede que representa as formas como essas organizações se estabelecem dentro do espaço e como se relacionam com os envolvidos. Por meio das redes sociais que estabelecemos na organização, é possível definir nossas afinidades e preferências de relacionamento. License-383754-33316-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A cultura organizacional e seus tipos de processos Todos somos regidos por costumes e agrupamentos sociais específicos, que nos identificam, e que dizem muito a respeito de nossa história e preferências. Isso está relacionado à construção cultural, o que nos leva à cultura organizacional. A proposta da cultura organizacional Desde os mais remotos tempos, os grupos e nações apresentam diferenças de comportamentos que são definidas como “cultura”. Esse conceito, no entanto, é considerado amplo, visto que diversas perspectivas sociais foram estudadas e definidas, sendo todas elas consideradas alguma forma de manifestação cultural. Em linhas gerais, contudo, trata-se da expressão e interação social, dos hábitos, costumes e crenças compartilhados por um determinado grupo . Veja, na figura a seguir, uma representação envolvendo a cultura das pessoas. Fonte: Rawpixel.com, Shutterstock, 2018. (traduzida) License-383754-33316-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O ambiente organizacional também tem uma representação cultural, compreendida como uma variável da organização. Assim, o cotidiano de uma sociedade organizacional é permeado por crenças, rotinas e rituais próprios, que a caracteriza e a distingue das demais. A cultura organizacional também é vista como um recurso utilizado pelas empresas para propagar e internalizar nos funcionários valores, normas, significados e interpretações, buscando um sentido de direção e unidade, criando a identidade da organização e o reconhecimento para seus membros. Por exemplo, somos capazes de identificar diversas empresas por seus logotipos, ou até mesmo por algum bordão que associamos a ela ou a seu produto. Isso se refere à construção cultural da organização, como forma de ser reconhecida e compreendida a partir de seus costumes. Essa dinâmica está representada na ilustração a seguir. FUNDADORES - os pioneiros desenvolvem e implementam uma visão compartilhada e uma estratégia. CULTURA - a cultura reflete na visão estratégica e nas experiências das pessoas na organização. RESULTADOS - a organização baseia seu sucesso nos resultados financeiros e nos indicadores de desempenho. COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL - os funcionários se comportam de acordo com os valores compartilhados e a estratégia de empreendimento. Fonte: ZANELI et al. (2014). License-383754-33316-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Por meio da cultura organizacional, é possível definir e transmitir o que é importante para a empresa, moldando qual a maneira apropriada de pensar e agir em relação aos ambientes internos e externos, as condutas adequadas e os comportamentos aceitáveis. Por exemplo, você deve conhecer ambientes de trabalho em que o cumprimento da carga horária é rígida, já outras empresas são mais maleáveis quanto ao tema. Isso faz parte da construção cultural da organização, que apresenta aos funcionários a forma que acredita ser mais adequada para o seu funcionamento. Além disso, é por meio dos elementos culturais que as organizações se apresentam como lugar de excelência, sua missão e projetos). Outro aspecto muito comum na cultura organizacional é a incorporação de valores e atributos humanos, como forma de buscar a personificação da identidade da organização. Muitas empresas, por exemplo, trazem em suas missões características como respeito e dignidade, buscando transparecer uma mensagem de que sua ideologia representa a ideologia dos funcionários. Isso mostra a busca de uma maior identificação entre o empregado e a empresa. A cultura organizacional é uma forma de a empresa definir as normas, condutas e missões que os funcionários devem prezar ao trabalhar no ambiente. As principais perspectivas de estudos culturais nas organizações Existem alguns critérios utilizados para a construção das perspectivas teóricas que conceituam a cultura organizacional. A partir da combinação desses pressupostos, que se referem à cultura organizacional como expressão cultural total ou como uma variável da organização, são especificadas cinco perspectivas que o conceito pode assumir. Observe a figura a seguir. License-383754-33316-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: bleakstar, Shutterstock, 2018. Administração comparativa: é o interesse em conhecer a cultura do ambiente social no qual a organização se encontra, e como seus pressupostos se transferem para o ambiente interno por meio de seus participantes. Nessa perspectiva, são efetuadas análises comparativas entre os trabalhadores de países e regiões diferentes como forma de conhecer a influência da cultura local ou nacional sobre a cultura organizacional. Cultura corporativa: aqui, as organizações são vistas como produtoras de elementos culturais, como rituais, lendas e cerimônias, além de seus bens e serviços característicos. Essa proposta acredita que as produções culturais têm o papel de garantir a regularidade e previsibilidade da relações estabelecidas no ambiente de trabalho. Cognição organizacional: esse tipo aborda que a cultura da organização é um “grande contrato” que compreende a imagem da empresa e as regras que orientam os comportamentos e crenças. O objetivo principal envolve buscar entender as regras que norteiam os grupos sociais e a visão de mundo individual. Simbolismo organizacional: a cultura nessa proposta é entendida como um sistema de símbolos e significados que são compartilhados pelos participantes. A importância é dada para a interpretação dos significados que os discursos assumem, buscando identificar quais experiências foram mais significativas para os membros. Processos inconscientes da organização: nessa perspectiva, as ações das pessoas são compreendidas como projeções inconscientes, fazendo com que as práticas organizacionais se tornem uma junção das manifestações inconscientes dos membros, sendo projetada na forma de expressão da organização. License-383754-33316-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Cada organização assume um princípio de cultura organizacional de acordo com suas prioridades e também com aquilo que ela preza. Os valores como elementos centrais da cultura organizacional Em tempos de divulgação de grandes escândalos corporativos, algumas questões assumem destaque dentro da temática da cultura organizacional. Entre elas, temos questionamentos quanto à perda dos valores diante das pressões por produtividade ou em relação à capacidade humana de perder os princípios apreendidos em função de implicações morais, ambientais ou psicológicas. Assim, uma forte discussão se apresenta quanto aos valores dentro das organizações, uma vez que os valores individuais tendem a influenciar os comportamentos individuais e coletivos, já que eles não podem ser dissociados da forma de manifestação da própria subjetividade. Esses valores são construídos socialmente desde nossa infância. Ao ingressar em uma empresa, cada um leva os seus valores consigo. No entanto, não é possível saber se na cultura organizacional esses valores serão mantidos ou submetidos a executar ações que discordam desses pressupostos. De muitas maneiras, os valores praticados dentro da empresa serão confrontados com o que cada um carrega de sua trajetória em prol da produtividade e do desempenho. Os valores individuais dos funcionários podem ser contrários aos que a organização acredita, criando conflitos de interesse e até mesmo atritos. Uma questão que pode fazer com que essa polêmica apareça é a inserção de grupos estrangeiros, que trazem consigo os valoresculturais de sua origem e que podem contrapor os valores próprios do país ou de determinado grupo, conforme License-383754-33316-0-5 PSICOLOGIA APLICADA ilustra a próxima imagem. Por exemplo, uma multinacional pode se implantar no Brasil, tendo como princípios e cultura o trabalho aos fins de semana. No entanto, existem diversas religiões que não permitem que seus fiéis trabalhem nesses dias. Isso pode fazer com que um funcionário, seguidor de determinada crença, seja obrigado a decidir entre o próprio emprego ou seguir o que sua religião prega. A figura a seguir retrata uma praticante do candomblé. Fonte: Daniel-Alvare, Shutterstock, 2018. Diversas pesquisas apontam que culturas construídas com a busca autêntica de propósitos claros e comprometidas com os valores compartilhados pela cultura local tendem a diminuir comportamentos contrários aos princípios da empresa e diminuem as tensões e adversidades que podem ocorrer. License-383754-36548-0-5 PSICOLOGIA APLICADA As equipes de trabalho – formação e estágios de maturidade Outro aspecto muito importante no ambiente de trabalho é a formação dos grupos e a execução do trabalho. Torna-se essencial considerar os aspectos que podem facilitar e dificultar o trabalho em grupo, formato essencial dentro do ambiente organizacional. As relações humanas entre os grupos Todos nós estamos associados a diversos grupos, sejam eles familiares, de trabalho, de diversão, de clube, religiosos, etc. Um grupo, no entanto, não é formado apenas pela junção de várias pessoas, são necessários alguns elementos para que esse aglomerado seja considerado um grupo. Destacamos a importância de existir uma interdependência entre os membros, alguma forma de interação e também uma unidade em que são reconhecidos (observe a figura a seguir). Por exemplo, um setor de uma fábrica em que os operários trabalham juntos na mesma seção, não necessariamente representa um grupo, visto que eles podem não possuir objetivos em comum. Eles não necessariamente precisam se comunicar a respeito do que estão fazendo e, para a empresa, não são vistos como uma unidade, sendo apenas pessoas reunidas. Fonte: baranq, Shutterstock, 2018. License-383754-36548-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Existem alguns aspectos necessários para que um grupo cumpra o que a empresa espera dentro do ambiente de trabalho. Inicialmente, há a necessidade de interação entre os membros, fazendo com que os indivíduos se relacionem entre si, buscando influenciar as decisões que devem ser tomadas. Além da interação, temos a necessidade de coesão entre os membros como forma de se estruturar e buscar objetivos em comum. À medida que o grupo se estrutura, faz-se necessário que as pessoas nutram um sentimento de pertencimento a ele, reforçando os laços e fazendo com que se sintam atraídos pela atividades em conjunto. Temos também as normas, outro aspecto que deve existir dentro do grupo, como forma de estabelecer o que se deve ou não fazer visando atingir o objetivo em comum. É certo que os indivíduos se diferem em suas formas de manifestação e reação, sendo necessário que existam normas de orientação do trabalho, visando a coesão. Por fim, para que o grupo consiga atingir seus objetivos, é necessário que os membros possuam motivos e metas em comum. É por meio das metas que os membros do grupo podem orientar as suas atividades em determinada direção, fazendo com que todos procurem obter os mesmos objetivos, visando um bem maior que os objetivos individuais. Um grupo é caracterizado principalmente pela junção de pessoas visando um objetivo comum, com interações, metas e normas que busquem esse objetivo. A diferença entre grupos de trabalho e equipes de trabalho Spector apresenta uma diferenciação que se faz muito necessária no ambiente organizacional: a diferença entre grupo de trabalho e equipe de trabalho. O autor apresenta que todas as equipes são grupos, mas nem todos os grupos se caracterizam como equipes. License-383754-36548-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Isso acontece porque um grupo consiste em pessoas que trabalham juntas, mas podem realizar seu trabalho isoladamente, ao passo que uma equipe é um grupo de pessoas que não pode realizar seu trabalho, pelo menos não com eficácia, sem os outros membros. Observe essa diferença ilustrada abaixo. A junção de pessoas em torno de um objetivo em comum, mas que podem realizar seu trabalho sem as outras. Um grupo que depende de todo os membros para desempenhar as atividades. Grupo Equipe Assim, Spector ainda apresenta que existem quatro conceitos importantes relativos aos grupos e equipes, e dois relativos exclusivamente às equipes, que nos ajudam a fundamentar o comportamento humano em grupos e equipes. O primeiro conceito se refere aos papéis assumidos dentro do grupo ou da equipe, visto que nem todas as pessoas possuem a mesma função ou o mesmo propósito. Ao contrário, é por meio da junção das habilidades de diferentes pessoas com diferentes responsabilidades que é formado um grupo ou equipe. O conceito seguinte se refere às normas e regras de comportamento que são aceitas pelos membros. Essas regras podem incluir desde questões internas, como o vestuário e o jeito de falar, até questões mais amplas como o empenho que cada um deve ter. As normas podem ser uma forte influência no comportamento individual, pois o cumprimento delas pode ser muito valorizado e suas transgressões podem acarretar repressões e punições. License-383754-36548-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O terceiro aspecto apresentado por Spector é a coesão, que se trata da soma das forças dos membros, buscando manter o grupo unido em prol de um objetivo. Geralmente, em um ambiente de trabalho, grupos coesos fiscalizam vigorosamente o cumprimento das normas, aliando elas à alta ou a baixa produtividade. Outro conceito que se apresenta na formação dos grupos é o conflito, pois por mais que o objetivo seja a coesão do grupo, é improvável que todos os membros concordem com todas as decisões, podendo levar a conflitos em relação a questões importantes para os membros. Lembrando que não necessariamente esses conflitos são algo negativo ou agressivo, eles podem acontecer com surgimento de ideias opostas, que podem gerar debates e melhores possibilidades para o grupo. O aspecto de comprometimento organizacional é referente apenas aos grupos que se tornam equipes, e representa a intensidade do envolvimento do sujeito com a equipe na qual ele está inserido. Isso se reflete na forma como a pessoa aceita as metas, na disposição de se empenhar pelos demais e no desejo de permanecer na equipe. O comprometimento está diretamente relacionado ao alto desempenho, à baixa rotatividade e ao alto nível de satisfação com os membros da equipe. O último conceito também é referente apenas às equipes: trata- se do modelo mental que a equipe assume. Isso se trata de uma concepção em comum do que é preciso realizar juntos, ou seja, o entendimento compartilhado em relação à tarefa, aos equipamentos e à situação de todos. Por mais que cada um dentro da equipe tenha uma função, faz-se necessário para o bom funcionamento que todos os membros conheçam, mesmo que de forma superficial, qual é o papel e as funções dos outros membros. Isso faz com que a equipe dialogue a respeito de suas tarefas e entenda qual é o objetivo maior, diante da junção das partes que cada um representa. Toda equipe é um grupo, mas nem todo grupo é uma equipe. Para ser uma equipe, é necessário que os membros dependam um do outro. License-383754-36548-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Clique na figura para assistir ao vídeo Diversidade do grupo Por fim, vamos abordar o trabalho grupal, uma questão que vem se tornando muito importante para as organizações, pois trata da diversidade que pode haver dentro de um grupo. Tenha em mente as mudanças demográficas que resultam, hoje, em um número cada vez maior de representantes das minoriasno ambiente de trabalho. Observe a imagem a seguir. Fonte: Rawpixel.com, Shutterstock, 2018. (traduzida) License-383754-36548-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Essa diversidade pode se apresentar no ambiente organizacional de duas maneiras principais: cognitiva e demográfica. A diversidade cognitiva se refere ao conhecimento, habilidades e valores diferentes que as pessoas apresentam. E a diversidade demográfica consiste em atributos como gênero, idade, raça, etc. Em um estudo apresentado por Spector, foram analisadas 63 pesquisas que envolviam essa temática e o efeito que poderia ter para os trabalhadores e empresas. Foi constatado que pode haver questões positivas e negativas nessa variedade de grupos. Foi percebido, por exemplo, que a diversidade cognitiva pode contribuir para a inovação da equipe, enquanto que a diversidade demográfica pode ser útil quando há necessidade de opiniões diversificadas. Esse grande estudo não conseguiu demonstrar, porém, nenhuma relação em que a diversidade dos grupos pode prejudicar o desempenho dentro das empresas, inclusive apontando uma tendência de melhor desempenho entre grupos que eram diversificados. A diversidade nos grupos de trabalho pode ser algo positivo, como forma de agregar diversas formas de pensamento e opiniões diversificadas. License-383754-36544-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Para que serve a liderança na empresa? O que faz de uma pessoa um bom líder? Sabemos que como forma de manter a ordem, as organizações fazem uso de lideranças. Porém, existem diversos aspectos a ser considerados na hora de escolher um líder. Confira a seguir! A natureza da liderança Você já deve ter uma ideia intuitiva do que é uma liderança, e como ela atua em sua vida. Associamos os líderes à capacidade de influenciar o comportamento dos outros, fazendo com que as pessoas cumpram aquilo que é esperado. No entanto, “ser um gerente” não significa “ser um líder”, pois pode ser que a pessoa não se faça ser ouvida ou seus subordinados não sigam seus comandos. Assim, existem diversas outras questões que fazem com que seja formada uma autêntica liderança dentro de uma organização. A próxima figura ilustra a forma como um líder pode atuar. Fonte: Rawpixel.com, Shutterstock, 2018. (traduzido) License-383754-36544-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Zaneli et al. defendem que há uma dificuldade muito grande em apresentar um conceito único para liderança, visto que se trata de um fenômeno complexo e que é influenciado por distintas classes de variáveis. Por muito tempo, esse conceito era associado somente ao líder que comandava, porém novas dimensões de análise começaram a ser consideradas, tornando o conceito multifacetado. Temos duas grandes formas de abordar o conceito de liderança que embasam todas as teorias encontradas: a perspectiva psicológica, que desenvolve esse tema se voltando para as características, comportamentos, estilos e competências dos líderes; a perspectiva sociológica, que considera liderança como um fenômeno social, vinculado a uma dinâmica de grupos e instituições. Em outras palavras, uma pessoa que ocupa um lugar de destaque, seja formal ou informal, dentro de um grupo de pessoas em uma determinada situação. O conceito de liderança é algo que possui diversas abordagens e formas de ser encarado, sendo embasado principalmente na visão de homem e sociedade. Mesmo com tantas possibilidades de definição para a liderança, Zaneli et al. identificaram alguns elementos que são comuns e demarcam o que seria o núcleo das definições existentes. Veja a seguir. - É um processo; - envolve influenciaroutras pessoas; - ocorre em grupos; envolve a busca de mudanças reais; envolve o estabelecimento e a realização de objetivos comuns. License-383754-36544-0-5 PSICOLOGIA APLICADA As principais características de um líder A definição de liderança é considerada um processo, dado o fato de que ela é passível de ser desenvolvida, não se resumindo a uma posição, a um cargo ou a um conjunto de traços de personalidade inatos. A liderança envolve trocas e interações tanto entre os grupos quanto entre as organizações. Portanto, o líder não é necessariamente uma pessoa que assume um cargo formal, mas sim uma pessoa capaz de mobilizar outras por meio de processos de influência. Assim, o foco de um líder concentra-se na sua capacidade de influenciar e afetar os seus liderados. No entanto, é importante ressaltar que a influência não está relacionada com comportamentos ditatoriais, fazendo uso do poder para representar a autoridade, sendo fundamental que a influência aconteça por meio da persuasão das pessoas, de modo que elas respondam de modo livre. A figura a seguir retrata um líder influenciando sua equipe. Fonte: Shutterstock, 2018. License-383754-36544-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Outro aspecto determinante da liderança é o fato de que ela sempre depende da existência de um grupo para acontecer, pois para que exista um líder, é necessário que exista também seguidores, processos vinculares entre eles e uma dinâmica de reconhecimento e legitimação dos papéis. Essa distinção entre líder e seguidor é crucial para o conceito de liderança. Contudo, o seguidor não é visto como alguém passivo que somente acata ordens, mas como um indivíduo ativo que se sente representado por uma figura de destaque. Clique na figura para assistir ao vídeo A busca por mudanças reais é outra característica determinante da liderança, pois é por meio de palavras e ações que promovem a mudança que o líder se faz presente e mostra os seus objetivos. As consequências dessa atitude são refletidas no futuro, quanto se atingem os resultados desejados pela empresa e até mesmo quando o grupo percebe que as mudanças foram reais, contribuindo para a coesão. A busca por mudanças também está diretamente relacionada à demonstração de resultados, como forma de qualificar se as mudanças apresentadas foram efetivas ou não. O último aspecto em comum entre as teorias é a atenção aos objetivos e propósitos comuns, pois a liderança não envolve a License-383754-36544-0-5 PSICOLOGIA APLICADA perseguição de objetivos que sejam exclusivos dos líderes ou da organização, mas sim uma construção compartilhada, visando o alcance de objetivos que sejam interpretados como comuns ao grupo. Esses objetivos em comum são a essência dessa relação, visto que é através deles que o líder passa a ser visto como alguém que facilita o alcance das metas por meio de direção, apoio e orientação para o êxito. Essas características principais são apresentadas na maioria das teorias sobre liderança, como pré-requisitos para que a pessoa atinja esse patamar. Mulheres em posição de liderança Por fim, traremos neste tópico um assunto muito estudado e visado. Trata-se das mudanças culturais que proporcionam a oportunidade de mulheres assumirem posições de gestão e supervisão em organizações no mundo todo. Pesquisas apontam que cerca de 46% das posições de gestão já são assumidas por mulheres atualmente, e ainda que mais de 15% das mais altas posições de gestão corporativa têm sido ocupadas por mulheres. No entanto, esses estudos apontam também que os homens recebem salários iniciais mais elevados e seus vencimentos aumentavam mais rapidamente com a idade do que os das mulheres. Há tendências que apontam que as empresas estão procurando exercer práticas de promoção mais justas e estão mais compromissadas com a igualdade de oportunidade de empregos. Apesar disso, contudo, ainda há a presença de estereótipos que deixam as mulheres em desvantagem nos processos seletivos e de promoção. Isso pode acontecer devido ao fato de que a mulher não é percebida como tendo as características necessárias para o cargo, fazendo necessário que exista, por parte da cultura das organizações e dos responsáveis pela seleção, uma mudança de atitude, possibilitando um acesso igualitário a cargos de alta gestão. Além disso, esses estereótiposrelativos a homens e mulheres sugerem que geralmente as mulheres se preocupariam mais License-383754-36544-0-5 PSICOLOGIA APLICADA com os sentimentos e o bem-estar emocional dos subordinados. Já os homens se voltariam mais para a realização das tarefas, facilitando o raciocínio das empresas de que homens apresentam maiores índices de eficácia. A figura a seguir retrata homens e mulheres em um ambiente de trabalho. Fonte: ESB Professional, Shutterstock, 2018. Pesquisas realizadas com homens e mulheres em cargos de liderança demonstraram que, quando comparados em termos de tendências autocráticas ou democráticas, há diferenças entre os gêneros, sendo os homens mais autocráticos e as mulheres mais democráticas. Com isso, podemos constatar que a atenção ao efetuar as contratações deve estar na necessidade de estilo que a empresa demanda, sendo que cada um será mais eficaz em diferentes circunstâncias. Mulheres na liderança podem ser uma alternativa para as empresas que buscam efetuar contratações com base nas competências demandadas. License-383754-37282-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Os tipos de liderança Dentre as diversas abordagens do conceito de liderança, também emergem diversas formas de categorizar os tipos de liderança no ambiente organizacional. Apresentaremos aqui as formas mais abordadas dos tipos de liderança que são conhecidos atualmente. Observe: Liderança autoritária Liderança transformacional Liderança laissez-faire Que tal conhecer uma a uma em detalhes? Prossiga em seus estudos! Liderança autoritária A liderança autoritária, também conhecida como transacional, estabelece posições definidas, em que existem posições consideradas corretas e as demais são desconsideradas. Geralmente, líderes desse estilo possuem como características a certeza, direções claras, controle de descuidos e tratamento justo com os demais membros do grupo. Esse tipo de liderança é mais efetivo em ambientes que precisam de estabilidade em suas atividades e que a verificação gráfica do desempenho é a estratégia de sucesso. Podem funcionar, por exemplo, em ambientes como construtoras, em que se faz necessário garantir que as atividades sejam cumpridas de forma sistemática. O princípio para o bom funcionamento desse estilo de liderança é a troca entre o líder e o seguidor. Eles se influenciam mutuamente de maneira que ambos recebam suas recompensas. Além disso, a recompensa é a fonte primária do poder para líderes autoritários, pois quando os seguidores cumprem com o esperado eles são recompensados de acordo com suas necessidades. License-383754-37282-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Esse tipo de liderança implica monitorar de perto possíveis desvios, problemas e erros, tomando atitudes corretivas e podendo punir aqueles que estiverem fora dos padrões definidos. Dessa forma, as metas e objetivos devem estar sempre claras, e somente por meio do cumprimento delas é que o seguidor recebe sua recompensa. A figura a seguir simboliza um trabalho cujos objetivos e metas são acompanhadas e medidas pela liderança junto à equipe. Fonte: CoraMax, Shutterstock, 2018. Os líderes desse estilo são frequentemente valorizados em ambientes de negócios e na indústria. Por exemplo, em uma indústria de produção de alimentos, esse estilo de liderança pode ser algo que contribua, visto que se faz necessário muito rigor na execução das tarefas e o cumprimento dos objetivos que são estabelecidos pela organização. A liderança autoritária tem como moeda de troca a recompensa que os seguidores buscam por desempenhar suas atividades efetivamente. License-383754-37282-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Liderança transformacional Muitas empresas hoje assumem um formato diferente de estrutura, sendo formadas por redes e alianças estratégicas, não tendo, assim, um comando unitário centralizado e estruturado, mas sim alianças soltas que são construídas em torno de interesses comuns. Dessa forma, é necessário também que um novo formato de liderança emerja e que esteja de acordo com os propósitos e missões da organização, estimulando os empregados a olhar para além de seus interesses pessoais, para o bem de toda a entidade. Esse formato de liderança é chamado de transformacional ou liderança carismática, pois ele tem como marca principal o uso do carisma para gerar consciência e aceitação da proposta estabelecida. Esse poder se trata da capacidade de estimular o seguidor e mobilizar os outros a querer lutar por aspirações compartilhadas. Líderes transformacionais possuem como características a comunicação de maneira eloquente e uma linguagem expressiva, além de serem vistos como aqueles que assumem riscos, articulam metas, elevam as expectativas, dão ênfase à identidade coletiva, melhoram a autoafirmação e disseminam a visão da organização. A liderança carismática também é vista como aquela que, além de compartilhar os riscos com seus seguidores, apresenta condutas éticas, princípios e valores bem definidos. Esses valores operam fora dos valores de sistemas pessoais e são aqueles que não podem ser negociados ou trocados entre as pessoas. Com essa conduta, esses líderes tendem a conseguir maior união entre os seus seguidores e ainda mudar objetivos e opiniões dessas pessoas. A liderança transformacional é representada por líderes que têm a capacidade de motivar os seus seguidores em busca de um objetivo maior. License-383754-37282-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Benevides aponta que esse tipo de liderança é marcado por quatro fatores principais que geram o desenvolvimento do grupo. O primeiro aspecto é o carisma, que provém visão e um sentido de missão para os seguidores, criando respeito e a confiança do grupo. O segundo componente é a motivação inspiracional, que geralmente caminha lado a lado com o carisma, pois é caracterizada pela comunicação das expectativas, estimulando o foco nos esforços e motivando todos à volta. Com esse aspecto, os seguidores passam a ver sentido em suas atividades e a encarar os objetivos como desafios. Geralmente, entusiasmo e otimismo são estimulados, encorajando os membros do grupo a vislumbrar futuros atraentes para a empresa e consequentemente para si mesmos. A estimulação intelectual é a terceira dimensão da liderança transformacional e se caracteriza por promover a inteligência, a racionalidade, a lógica e a resolução de problemas. Os seguidores desse tipo de liderança são estimulados a ser inovadores e criativos diante dos problemas, além de buscar reformular as soluções para a realidade de cada questionamento. As novas ideias e soluções que surgem podem ser inseridas no cotidiano do trabalho, fazendo com que os membros se sintam parte do processo e valorizados de acordo com as suas capacidades. Clique na figura para assistir ao vídeo License-383754-37282-0-5 PSICOLOGIA APLICADA E o quarto componente apresentado por esse tipo de líder é a consideração individual, tendendo a prestar muita atenção nas diferenças individuais e buscar considerá-las dentro do grupo. Esses líderes promovem uma atenção pessoal, buscando treinar e aconselhar individualmente, de acordo com as necessidades de cada um, visando a realização, o crescimento e agindo como um mentor. Com isso, novas oportunidades de aprendizagem são criadas, favorecendo o crescimento, além de serem consideradas as diferenças e desejos individuais. Liderança laissez-faire Na apresentação dos dois modelos anteriores de liderança, você pôde perceber que falávamos de líderes ativos, o que contrasta com a liderança laissez-faire, que se apresenta como uma liderança extremamente passiva. Esse tipo de líder é descrito como aquele que evita tomar decisões e responsabilidade de supervisão, deixando a maioria dos controles dos processos para os seus seguidores. Além disso, não oferece feedback e nem direcionamento ou suporte para esses membros. A figura a seguir retrata um líder ouvindo a opinião de seus liderados. Fonte:Shutterstock, 2018. License-383754-37282-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Os líderes laissez-faire assumem um princípio de que seus seguidores são intrinsecamente motivados, podendo ser deixados sozinhos para realizar suas tarefas e metas. Dessa forma, eles evitam assumir responsabilidades, tomar decisões e são ausentes quando necessário. Essa liderança também evita o contato direto com os seguidores, dificultando a formação de acordos, o esclarecimento das expectativas e o provimento das metas e padrões que são estabelecidos pela organização. Esse estilo de liderança pode ter efeitos negativos nos resultados esperados, justamente pelo fato de que líderes laissez-faire geralmente são o oposto do que se espera de um líder em uma empresa. Essa liderança ainda pode ser considerada de alguma forma com menores perdas nos grupos, caso os membros possuam maior conhecimento agregado e grande capacidade para a tomada de decisões. Para um líder laissez-faire, seus seguidores já são motivados pelos valores da empresa, ausentando-se na tomada de decisões e desenvolvimento de metas. License-383754-33318-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A teoria dos traços de personalidade de liderança A teoria dos traços foi a primeira sistematização construída sobre o conceito de liderança, e tinha como propósito analisar principalmente as qualidades pessoais do líder. A teoria dos traços A teoria dos traços propõe como ponto de partida que os líderes devem possuir determinadas características de personalidade, que seriam basicamente aquelas características que facilitariam o desempenho do papel de liderança. Dessa forma, eles passaram a ser entendidos como pessoas que tinham traços diferentes dos demais, sendo essas características as responsáveis por elevar e também manter os líderes em suas posições. Assim, pela proposta dessa teoria, são enfatizadas as qualidades do líder a partir do pressuposto de que ele já nasce como elas, não havendo grandes possibilidades de se construir uma liderança por meio de técnicas de desenvolvimento. Bergamini apresenta três grandes traços sobre os quais essa teoria se baseia: os fatores físicos, como altura, peso, aparência, etc.; as habilidades características, como inteligência, fluência verbal, escolaridade, etc.; e uma gama de aspectos da personalidade que seriam característicos de uma liderança, como moderação, dominância, autoconfiança, sensibilidade, empatia, controle emocional, etc. Diante desses traços, o que interessava aos pesquisadores era eleger as características que faziam com que os líderes se distinguissem das demais pessoas. A imagem a seguir aponta características de um líder ideal. License-383754-33318-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fatores físicos Aspectos da personalidade Habilidades características Líder ideal Diversos pesquisadores desenvolveram estudos com o objetivo de identificar um conjunto de traços característicos de um líder e determinar precisamente como retratar uma pessoa que assume a liderança. No entanto, quase todos os estudos com esse objetivo levaram a resultados que eram impossíveis de serem considerados em termos práticos. Isso acontecia justamente porque as pesquisas buscavam uma descrição pura e simples das características de personalidade, desconsiderando diversos outros aspectos sociais, grupais e subjetivos. Assim, vemos que a teoria dos traços pode não ser eficaz em explicar completamente as características de uma liderança, pois ela não consegue isoladamente determinar todo o conceito de liderança. Apesar disso, as contribuições dessas pesquisas foram fundamentais para o campo de estudo, apresentando de alguma maneira comportamentos que podem se repetir, sendo tendenciosos na maioria dos líderes. A teoria dos traços pressupõe que o líder já nasce com determinadas características essenciais para desempenhar essa função. License-383754-33318-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Os enfoques situacionais Vimos que apenas características de personalidade ou motivos comportamentais não são suficientes para promover a eficácia do processo de liderança, certo? Então, temos a necessidade de desenvolver outros enfoques buscando investigar mais profundamente esse conceito de liderança. Atualmente os pesquisadores vêm percebendo que não somente o surgimento, mas também a permanência do líder eficaz deve considerar outros aspectos que vão além de sua personalidade. Por exemplo, o ambiente em que a liderança está agindo. Os estudos da área têm mostrado que a personalidade é apenas um dos fatores que determina o desempenho do líder dentro de uma empresa. Esse desempenho depende de um conjunto de condições específicas para um grupo, em que o líder pode ou não se sair bem com outros grupos, em outras tarefas ou sob outras condições, conforme ilustra a próxima imagem. Bergamini apresenta que cada vez mais há uma necessidade de contextualizar as teorias de liderança de acordo com as particularidades que cada líder apresenta. Dessa forma, a autora nos apresenta o enfoque situacional, no qual as variáveis que cercam o processo de liderança também devem ser consideradas, não deixando de lado os diferentes traços de comportamento dos líderes. Portanto, o objetivo é determinar de que forma o comportamento dos líderes influencia os resultados da interação entre a liderança e seguidores. Essa ideia está representada na próxima figura. Acompanhe! License-383754-33318-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: winui, Shutterstock, 2018. O grande desafio dessa perspectiva é buscar explicar se a situação na qual o líder se encontra pode interferir no uso eficaz do seu estilo de liderança. Para isso, foi desenvolvida uma pesquisa em que uma atividade era proposta, na qual o líder era solicitado a descrever o colega com o qual tenha maior dificuldade em trabalhar, supondo que as características dessa pessoa são aquelas que o próprio líder possui. Diante dessas descrições, foi possível distinguir a existência de dois estilos diferentes de líder: aquele que é orientado para a tarefa e aquele que é orientado para o relacionamento. Bergamini apresenta que os resultados da pesquisa apontam que quando a descrição do colega menos preferido é feita de forma muito crítica, a pessoa se caracteriza como aquela cuja meta principal é a realização da tarefa. Enquanto que o líder que encara o seu colaborador menos desejado de forma mais positiva, se apresenta como uma pessoa mais otimista, preferindo relacionar-se com os demais de maneira mais amistosa. License-383754-33318-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Assim, podemos constatar que o ponto importante dessa teoria é que a eficácia da liderança depende tanto da situação em que o grupo se encontra quanto das características do líder. Um estilo de liderança não pode ser considerado melhor do que outro, mas dependente da situação e da necessidade do tipo de liderança que a situação apresenta. Dessa forma, quase todo mundo seria capaz de ter sucesso como líder em algumas situações . A teoria situacional aborda outras variáveis que influenciam numa boa liderança, tal como o ambiente organizacional. Existe o líder ideal? Dessa forma, chegamos ao questionamento se existe um líder ideal ou um conceito que apresente exatamente aquilo que um líder deve representar? Vimos que tanto as pesquisas que abordam os traços de personalidade quanto as que apresentam os motivos e estilos dos líderes eficazes, representam exemplos de formas abstratas de um ideal de liderança. Essas abordagens podem ser preocupantes, visto que, ao caracterizar um líder ideal, as empresas podem passar a se preocupar em alcançar determinados padrões. Conforme já vimos, foi constatado que o processo de liderança envolve um conjunto complexo de variáveis que devem ser consideradas. Esse conjunto de variáveis é tão amplo que pode até mesmo ser problemático, visto que as pesquisas não conseguem considerar todos eles, dificultando a apresentação de respostasdefinitivas para o assunto. Essa ideia está simbolizada na figura a seguir. Veja! License-383754-33318-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Lightspring, Shutterstock, 2018. O enfoque contingencial representa uma abertura maior dessas possibilidades de estudos, permitindo uma visão mais ampla do problema. Porém, é também necessário adotar certo cuidado, visto que pode existir uma escolha das variáveis a serem analisadas, também não esgotando todas as possibilidades de análise do problema. Diante disso, percebemos que ainda não há uma teoria universal que ofereça todas as orientações necessárias para o processo de liderança, ainda faltando uma teoria que proporcione princípios gerais facilmente aplicáveis de forma mais concreta. No entanto, como estamos nos referindo ao trabalho com humanos, isso se torna inviável, devido ao fato de que as necessidades de liderança variam muito, sendo necessário fazer o reconhecimento do líder por meio da prática e da criação de condições para que ele possa se desenvolver em termos de eficácia, levando consigo o grupo. License-383754-33318-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Com isso, podemos também perceber a relação que existe entre as formas de atuação das lideranças e as abordagens da Psicologia que já apreendemos anteriormente. Com o auxílio dessas abordagens, é possível que um bom líder procure entender a subjetividade dos funcionários e identifique os pontos da personalidade de cada um que podem ser usados a favor da organização. A boa liderança varia de acordo com as necessidades da empresa, sendo necessário descobrir qual é a melhor abordagem para esse papel. License-439169-30180-0-0 PSICOLOGIA APLICADA A saúde do trabalhador e a segurança no trabalho Introdução Olá! Seja bem-vindo (a) à última unidade de nossa disciplina! Aqui, você verá a importância de se prezar pela saúde do trabalhador, além de conhecer o papel do psicólogo nesse processo. Você sabia que os acidentes de trabalho podem trazer consequências que vão além da parte física? Isso mesmo. Um ambiente de trabalho em que não são asseguradas as condições necessárias de saúde pode desencadear diversos problemas mentais e emocionais no trabalhador. Abordaremos quais são os recursos existentes para assegurar que o ambiente de trabalho seja adequado, bem como a importância de se prevenir os acidentes. Mais uma vez, bons estudos! License-439169-34732-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Atividade Avaliativa Aplicação Vimos, ao longo dessa unidade, a importância de se garantir a saúde dos trabalhadores, e como as doenças provocadas por ambientes de trabalho inadequados podem causar graves consequências para a vida do trabalhador e de seus familiares. Aprendemos que as empresas que investem em programas de qualidade vida (QVT) no trabalho e de prevenção de acidentes garantem não somente a segurança e bem-estar de seus funcionários, como também estimulam a melhoria no desempenho das atividades. Sabemos que implementar essas propostas pode ser um desafio, mas que também é função dos profissionais da área garantir que os direitos à saúde e à segurança sejam cumpridos. Pensando no ambiente de trabalho, e no seu cotidiano de atividades, propomos as seguintes atividades: Etapas da atividade I. Faça uma visita completa no seu local de trabalho e entreviste um profissional. Procure saber se há um programa de QVT e quais estratégias existem para prevenir os acidentes e adoecimento mental, visando garantir a qualidade de vida dos funcionários. II. Se você fosse responsável por criar essas estratégias, quais outras você criaria evitar ou minimizar acidentes e/ou adoecimento psíquico no ambiente de trabalho? III. E quanto às estratégias para motivação dos funcionários, você acha que poderia mudar alguma coisa? Se sim, o que mudaria e, em caso de negativo, quais são os aspectos importantes para promover a motivação e satisfação do trabalhador no ambiente laboral? License-439169-30174-0-0 PSICOLOGIA APLICADA Critérios de Avaliação Para que você possa se autoavaliar, deverá analisar alguns aspectos de sua atividade. Na sequência, conheça quais são eles. I. Analise e avalie essas possiblidades de mudanças a partir de seu cotidiano e de seu ambiente de trabalho. II. Considere mudanças a partir das ideias de QVT e enriquecimento no trabalho. III. Tente considerar também questões que não são somente responsabilidade da empresa, mas que o próprio trabalhador pode fazer para garantir sua segurança. License-439169-35442-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Para que serve a segurança no trabalho? Desde o início da Revolução Industrial, com a possibilidade de os trabalhadores se manifestarem e buscarem seus direitos, os métodos de produção vêm se adequando tanto às necessidades do empregador quanto às do empregado. Assim, chegamos à necessidade de estabelecer garantias para assegurar a saúde das pessoas que desenvolvem determinadas atividades por meio de uma perspectiva de segurança no trabalho. O trabalhador e as atuais condições de trabalho A partir da possibilidade de manifestações que surge com a Revolução Industrial, o trabalhador passou a lutar em prol de direitos, tentando garantir que o ambiente de trabalho passasse a ser um local agradável e adequado às suas necessidades. A imagem a seguir retrata um grupo lutando por seus direitos. Fonte: Peter Scholz, Shutterstock, 2018. License-439169-35442-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A eficiência no trabalho sempre foi uma questão priorizada nos meios de produção, e, a partir de estudos, pesquisadores perceberam que a eficiência também estava intimamente relacionada às motivações do trabalhador. Um exemplo desses estudos foi a expansão das estradas ferroviárias nos Estados Unidos, no final do século XIX. O coordenador do empreendimento tomou três fatores como diretrizes para gerar maior eficiência: a organização; a continuação; e a comunicação. A partir desse modelo, ele percebeu uma grande motivação e satisfação, por parte dos trabalhadores, ao desenvolver o trabalho. No ambiente de trabalho, era estimulada uma liberdade, em que os funcionários se sentiam parte do processo, além de sentirem que estavam desenvolvendo algo significativo. Isso os motivou, e se tornou uma referência no estudo dos processos de administração. Outra referência para o gerenciamento das empresas foi o trabalho de Taylor. Taylor desenvolveu métodos em que o trabalhador possuía um conhecimento completo do processo de produção, valorizando-o e dando condições para que ele desenvolvesse várias tarefas, retirando o sujeito da monotonia da repetição. Atualmente, o trabalhador vem conseguindo garantir condições mínimas de dignidade, sendo sua força de trabalho minimamente valorizada e garantida a sua segurança. Dentre essas garantias, está a saúde, que deve ser visada e priorizada nos meios de produção. Assim, surge a ideia de segurança do trabalho, a qual compreende um conjunto de normas, ações, tecnologias e medidas preventivas visando melhorar as condições no ambiente de trabalho, promovendo a proteção do trabalhador contra acidentes e doenças ocupacionais. Ainda há muito a ser feito para que a saúde do trabalhador seja priorizada dentro das organizações, garantindo segurança e saúde para todos. License-439169-35442-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Qualidade de vida no ambiente de trabalho A Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) passou então a ser uma reivindicação dos trabalhadores, além dos empregadores, que também perceberam como isso influenciava a produtividade. Clique na figura para assistir ao vídeo Entenda que a QVT trata de pontos favoráveis e desfavoráveis de um ambiente de trabalho para as pessoas. A proposta básica é tentar equilibrar um local agradável e adequado para os trabalhadores com os interesses econômicos do empregador Os pontos básicos da QVT são: comunicações abertas; sistemas de recompensa justos; preocupação com a segurança dos empregose participação no planejamento do trabalho. Além disso, deve fazer parte dessa ideia os planos de carreira e a valorização do aprimoramento técnico. A QVT está intimamente relacionada à qualidade da produção, visto que se o trabalhador tem condições adequadas, ele é motivado a produzir mais. License-439169-35442-0-6 PSICOLOGIA APLICADA O objetivo da QVT é promover um ambiente de trabalho humanizado, no qual as habilidades do trabalhador sejam valorizadas, proporcionando um ambiente que os encoraje a desenvolver essas capacidades. A ideia é que os trabalhadores são recursos humanos que devem ser desenvolvidos e não somente usados. Além disso, o trabalho deve ter condições que não submetam os empregados a tensões e situações indevidas ou perigosas . No Brasil, assim como em diversos lugares do mundo, vários estudos vêm sendo desenvolvidos, procurando encontrar um modelo próprio de desenvolvimento da QVT a partir das características culturais locais. Perceba que o objetivo é desenvolver trabalhos em que as habilidades do brasileiro sejam valorizadas e priorizadas para a construção de um ambiente no qual o indivíduo possa desempenhar e aprimorar suas qualidades. A hipótese é que esse tipo de trabalho promove um melhor ajustamento entre os empregados e as tarefas a cumprir, a justando essas tarefas à situação e às habilidades que o trabalhador pode desenvolver. Essa possibilidade de criar um ambiente de trabalho adequado às necessidades de saúde e ao bem-estar do trabalhador influencia diretamente na qualidade da produção e na motivação do empregado em desenvolver suas tarefas. Os benefícios aparecem para o empregador à medida que é assegurada a qualidade do trabalho, bem como minimiza as perdas por acidentes de trabalho ou adoecimentos. A imagem a seguir sinaliza fatores do ambiente de trabalho envolvendo a motivação e a QVT. License-439169-35442-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Maior Coordenação Maior Produtividade Maior Capacidade Qualidade de Vida no Trabalho Maior Motivação Fonte: RODRIGUES, 1994. Políticas Públicas de saúde no trabalho Diversas medidas que buscam garantir a qualidade de vida do trabalhador e assegurar condições seguras para o desenvolvimento do trabalho transgrediram a preocupação das empresas e passaram a ser políticas públicas, as quais as empresas são obrigadas a cumprir. Com isso, o caráter social do processo de saúde-doença passa a ser um campo de estudo específico da medicina social, visando conhecer e criar condições que se adequem às necessidades do trabalhador, criando leis e políticas que devem ser cumpridas. Nas últimas décadas, as questões que envolvem o processo de trabalho e a saúde mental têm sido consideradas e estudadas, no sentido de que o trabalho pode ser um fator de desenvolvimento de adoecimento mental. Essa preocupação vem mobilizando a opinião pública, no sentido de promover ações que visem minimizar ambientes que promovam esse tipo de adoecimento. License-439169-35442-0-6 PSICOLOGIA APLICADA É essencial, portanto, mencionar as atuais políticas públicas, uma vez que nas últimas duas décadas as discussões e pesquisas têm sido crescentes. Aqui no Brasil, temos a Portaria nº 1.823, de 23 de agosto de 2012, que institui a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora. Há também o Decreto nº 7.602, de 07 de novembro de 2011, que dispõe sobre a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho, dando origem ao Plano Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho – PLANSA, ilustrados na figura a seguir. Fonte: Levent Konuk, Shutterstock, 2018. Porém, sabemos que a realidade da área de saúde e segurança do trabalho é cruel, havendo diversos setores que apresentam ambientes e atividades que não se adequam às necessidades de saúde das pessoas. É comum vermos nos jornais denúncias de casos de precarização do trabalho, injustiça social e degradação ambiental e humana, nos mostrando que muito ainda deve ser feito em prol de garantir que as leis sejam efetivamente cumpridas. License-439169-35442-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Ainda é muito comum, nos dias atuais, denúncias de trabalho escravo, onde o mínimo exigido no ambiente de trabalho não é assegurado às pessoas. Sabemos que a saúde e a segurança no trabalho só serão eficazes quando houver a democratização dos ambientes de trabalho e os direitos de cidadania forem garantidos aos trabalhadores. License-439169-33326-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Os principais transtornos mentais que podem se desenvolver no ambiente de trabalho Os adoecimentos em ambientes de trabalho podem ser tanto físicos quanto psíquicos. Você conhece alguém que se afastou do trabalho por depressão, estresse ou pânico? Saiba que os transtornos mentais são a terceira causa de afastamento do trabalho, segundo pesquisa de 2017 do Ministério da Saúde. A depressão, a síndrome do pânico, a Síndrome de Burnout, o estresse pós-traumático e o uso de substâncias psicoativas, como o álcool e as drogas, figuram entre os principais desses transtornos. Fatores estressantes no ambiente de trabalho Diversos fatores podem desencadear adoecimentos mentais em função das condições de trabalho. O processo de estresse ocupacional pode ser derivado de diversos fatores que expõem o indivíduo a situações que geram uma forte carga de tensão. Alguns exemplos muito comuns: ser repreendido ou intimidado; a possibilidade de ser demitido; pouco tempo para cumprir metas etc. A figura a seguir retrata a imagem de um trabalhador submetido a uma situação de estresse. Fonte: Phovoir, Shutterstock, 2018. License-439169-33326-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Diversos elementos no ambiente de trabalho podem ser estressantes, alguns deles podem ser comuns na maioria dos empregos, tais como a carga excessiva e o conflito com os colegas. Porém, há também fatores que aparecem de acordo com a pressão profissional do cargo ocupado. Por exemplo, por meio de estudos, foi identificado que um fator estressante para os enfermeiros é lidar com pacientes em estado terminal. Assim, foram identificados alguns fatores que podem aparecer significativamente na maioria das profissões como possíveis causas de desgaste dos funcionários. O primeiro é a ambiguidade e conflito de papéis que podem surgir dentro da empresa, situações em que supervisores deixam de dar as devidas orientações para seus profissionais, não deixando claro o que se espera que esse funcionário faça. O segundo grande fator é a carga de trabalho e as demandas que são impostas, as quais podem estar além dos limites do trabalhador, causando desgastes psicológicos de ansiedade, frustração e insatisfação com o emprego. O terceiro fator está voltado às questões sociais estressantes, em que os funcionários relatam diversos conflitos envolvendo o relacionamento com as pessoas. Trabalhar em um ambiente em que todos se relacionem bem é um importante elemento de bem- estar, e a ocorrência do contrário pode causar graves desgastes. O quarto fator é a política organizacional, em que os funcionários podem começar a agir em causa própria, desconsiderando os interesses da organização, além das recompensas que, se não forem bem estabelecidas, podem ser consideradas favoritismo. O quinto dos principais fatores estressantes é o excesso de controle sobre o funcionário, não permitindo que ele se manifeste e atue de forma subjetiva, levando em conta as suas habilidades e necessidades. Por fim, o último fator é o assédio moral, um dos principais causadores da depressão, devido a abordagens inadequadas dentro das empresas. A imagem a seguir reproduz os fatores estressantes no ambiente de trabalho. License-439169-33326-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Ambiguidade e conflito de papéis Carga de trabalho e as demandas impostas Questões sociais estressantes Política organizacional Excesso de controle sobre os funcionários Assédio moral Esses fatores são motivos para o desenvolvimento de reações emocionaiscomo ansiedade, frustração e até depressão, que, aliadas a reações físicas como dores e cansaço, podem gerar doenças psíquicas que impedem as pessoas de continuar a cumprir suas funções. Esse estresse ocupacional, além de prejudicar drasticamente a vida do profissional, também leva a desgastes no trabalho, podendo prejudicar o funcionamento da empresa. Com isso, é necessário que avalições dos fatores estressantes sejam feitas periodicamente, como forma de assegurar que o ambiente de trabalho esteja adequado aos limites do empregado . Fatores estressantes no ambiente de trabalho podem ocasionar doenças mentais e emocionais nas pessoas, além de influenciar sua vida fora da empresa. Síndrome de Burnout Todos os fatores aqui apresentados podem causar transtornos mentais e emocionais, derivados do estresse ocupacional. Atualmente o mais conhecido e abordado nos estudos de saúde do trabalho é a Síndrome de Burnout, que, traduzido do inglês, significa “esgotar-se” ou Síndrome do Esgotamento. License-439169-33326-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Uma pessoa que sofre a Síndrome de Burnout chega a um estado psicológico de angústia, sentindo-se emocionalmente esgotada e com baixa motivação e energia para desenvolver suas atividades. Esse estado pode ser o resultado de um trabalho intenso e se agrava principalmente em profissões com contato com outras pessoas, como simbolizado na figura a seguir. Fonte: classen, Shutterstock, 2018. A Síndrome de Burnout pode ser avaliada por meio de uma escala que mensura três aspectos: a exaustão emocional, que é a sensação de cansaço e fadiga; a despersonalização, que se refere ao desenvolvimento de um sentimento pessimista; e o senso de realização pessoal reduzido, que seria o sentimento de não estar realizando nada de valor no trabalho. Atualmente, muitas pesquisas mostram a recorrência da Síndrome de Burnout em professores. Esses estudos sugerem duas formas de amenizar os sintomas desse transtorno: uma trégua do trabalho, procurando se distanciar dos problemas desse ambiente; e a criação de planos em que os gestores apoiem emocionalmente os funcionários, dando feedbacks positivos e se envolvendo em discussões de meios de reduzir os fatores estressantes do ambiente de trabalho. A Síndrome de Burnout afeta principalmente quem atua com pessoas, como enfermeiros, professores, psicólogos e policiais, etc. License-439169-33326-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O uso de substâncias como mecanismo de enfrentamento Outra questão que atualmente está em foco nos estudos que envolvem a saúde do trabalhador é o uso de álcool e outras drogas como um recurso para o escape das situações estressantes. Vivemos em uma sociedade em que o uso de recursos compensatórios para as situações conflituosas são valorizados e incentivados. O uso de álcool ou até mesmo outras drogas como forma de proporcionar momentos de relaxamento e descanso são valorizados e respeitados. Por exemplo, você certamente já ouviu alguém falando que irá tomar alguma bebida porque teve um dia estressante, certo? Ou até mesmo alguém que toma algum tipo de remédio para dormir, como forma de obter descanso do dia cheio que teve. A figura a seguir reflete a imagem de um trabalhador já esgotado pelo uso de álcool, pelo consumo sem moderação. Fonte: Photosebia, Shutterstock, 2018. License-439169-33326-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Pesquisas em torno dessa temática demonstram que o uso de álcool está relacionado a fatores como insegurança no trabalho, assédio moral, sobrecarga de serviço ou até mesmo um meio de lidar com a angústia. Além disso, foi constatado que as pessoas com altos níveis de afetividade negativa tendem a consumir mais álcool, procurando lidar com as condições estressantes do trabalho. Pode haver, é claro, outras situações específicas do trabalho que favorecem o aumento do consumo de bebidas alcoólicas: disponibilidade do álcool; pressão social para beber; altos ou baixos rendimentos; tensão; estresse e perigo; invisibilidade do trabalho; pressão quanto a horários e metas; condições climáticas adversas; isolamento social; e trabalho noturno. Ainda devemos considerar que as normas entre os colegas podem influenciar o consumo de álcool e outras drogas, já que as pessoas tendem a praticar o que os colegas considerarem aceitável. Apesar do uso moderado não prejudicar a produtividade da empresa, o consumo pesado pode se tornar um problema significativo, levando à redução do desempenho no trabalho, o aumento de risco de acidentes e até mesmo no afastamento do empregado. O uso de álcool é, muitas vezes, motivado em ambientes fora do local de trabalho, mas as consequências do abuso podem refletir no desempenho profissional. License-439169-35444-0-6 PSICOLOGIA APLICADA As consequências psicológicas dos acidentes de trabalho Os acidentes em um ambiente de trabalho podem trazer consequências tanto físicas quanto psicológicas para as pessoas. Várias dessas consequências podem ser reversíveis, possibilitando ao empregado retornar a seu cotidiano profissional. Há contudo, acidentes que podem ter consequências irreversíveis, modificando toda a existência das pessoas. Veremos a seguir como esses acidentes podem modificar a vida dos trabalhadores. Os acidentes de trabalho e suas consequências A atual legislação brasileira considera como acidente de trabalho eventos que ocorrem pelo exercício do trabalho e que causem lesão corporal ou perturbação funcional, morte e perda ou redução da capacidade para trabalhar. A figura a seguir ilustra um trabalhador acidentado. Fonte: shellyagami-photoar, Shutterstock, 2018. License-439169-35444-0-6 PSICOLOGIA APLICADA A legislação ainda classifica os acidentes de trabalho em três categorias: acidente tipo (aquele que ocorre a serviço da empresa); acidente de trajeto (aquele que ocorre enquanto o trabalhador se desloca para o local de trabalho); e doença do trabalho (aquela em que a atividade exercida atua como a responsável pela aquisição) , como exposto na imagem a seguir. Acidente tipo Acidente de trajeto Doença de trabalho São inúmeras as potenciais consequências de um acidente em um local de trabalho, como sequelas físicas, desenvolvimento de transtornos psíquicos ou em casos mais graves, mas não menos raros, a morte. Os acidentes de trabalho são atualmente uma das maiores causas de morte entre as pessoas, tornando-se indispensável a construção de estratégias que visem minimizar esses acidentes e garantir locais de trabalho adequados para as pessoas. Os acidentes de trabalho podem trazer consequências que vão desde perdas físicas e traumas psicológicos até casos fatais. License-439169-35444-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Spector, com base em pesquisas realizadas, nos mostra que os principais tipos de acidentes fatais no trabalho ocorrem por veículos automotivos, contato com objetos ou equipamentos, violência e quedas. Isso demonstra que mesmo com regulamentações na legislação, ainda é possível encontrar trabalhadores em ocupações perigosas, sem cumprir as regras estabelecidas ou sem uso do equipamento adequado. Assim, torna-se indispensável a necessidade de tomada de consciência no sentido de evitar e neutralizar a possibilidade de ocorrência desses acidentes, que podem trazer danos morais e materiais para a pessoa. Ressaltamos aqui que não existem somente acidentes de trabalho, há a presença das doenças ocupacionais físicas: LER; DORT; PAIR; doenças decorrentes da exposição a agentes químicos, físicos, biológicos ou radioativos e doenças da coluna. Elas provocam incapacidade parcial ou total, temporária ou permanente. Tenha em mente que esses acidentes e doenças podem provocar sofrimento e angústias tanto no trabalhador quanto em sua família. Destacamos, ainda, outra consequência desses acidentes: o desencadeamento de ações indenizatórias e a oneração da Previdência Social, acarretando elevados custos para a sociedade e para asempresas. Percebemos, mais uma vez, que a prevenção desses acidentes é a melhor alternativa para a empresa, para o empregado e para o poder público. Vida ativa interrompida Os acidentes de trabalho atualmente não são mais estritamente relacionados a atividades que são realizadas dentro do ambiente de trabalho. Os riscos mais gerais que a população está exposta, se expande, principalmente no que se refere à violência ou a exposição a produtos tóxicos. Através dessas exposições, os riscos de acidentes se ampliam, principalmente para aquele que tem o local de trabalho ampliado para o espaço público. License-439169-35444-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Dessa maneira, as vítimas no exercício da profissão que chegam a casos fatais aumentam. Embora a consequência mais grave desses acidentes seja a morte, é preciso reconhecer que muitas pessoas perdem a sua habilidade para o trabalho através desses acidentes, mudando completamente a vida ativa dessas pessoas e podendo provocar traumas emocionais devido às essas perdas, como ilustrado na imagem a seguir. Fonte: Shutterstock, 2018. Uma pesquisa realizada nos processos do INSS e nas declarações de óbito no estado de São Paulo, entre os anos 1997 e 1999, apresentou um total de 3.646 acidentes de trabalho fatais. Isso demonstra que, em média, 3,3 trabalhadores morreram por dia devido a causas relacionadas a atividades profissionais. Já dados mais atualizados de 2017, da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirmam que: License-439169-35444-0-6 PSICOLOGIA APLICADA 2,3 milhões de pessoas morrem e 300 milhões (860 mil diariamente) ficam feridas a cada ano devido a acidentes de trabalho; 160 milhões de pessoas sofrem de doenças não letais relacionadas ao trabalho; a cada 15 segundos, um trabalhador morre de acidente ou doenças relacionadas ao trabalho; a cada 15 segundos, 115 trabalhadores sofrem um acidente laboral. Diante de dados como esses, percebemos o quão comuns podem ser os acidentes de trabalho e refletimos sobre como esses acidentes, que muitas vezes poderiam ser prevenidos, afetam a vida de diversas pessoas. Pensando em vítimas fatais, temos toda a exposição da família, que perde um membro. E ainda temos os casos em que as vítimas não chegam ao óbito, mas que perdem capacidades físicas ou motoras, inviabilizando a continuidade da vida produtiva ou até mesmo causando dependência para desenvolver atividades básicas. A perda da capacidade de desempenhar atividades pode impactar muito a vida de um indivíduo, de seus familiares e de toda a organização. Depressão Além dos acidentes, sabemos que quando desempenhado sob determinadas condições, o trabalho pode causar doenças físicas e mentais. Dentre elas, uma das que mais trazem consequências para vida do trabalhador são os episódios de depressão, que podem causar perda de produtividade e até afastamento. A depressão pode afetar o trabalhador não somente com o afastamento do trabalho, mas também com o afastamento das atividades que eram cotidianas para o indivíduo. Os acidentes de trabalho resultam também em transtornos mentais, os quais causam graves consequências às vidas dos trabalhadores. License-439169-35444-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Clique na figura para assistir ao vídeo A depressão geralmente é caracterizada por sintomas que podem incluir sentimento de tristeza, autodepreciação, abandono, culpa, ideias de suicídio, apatia, incapacidade de sentir prazer e angústia. Além disso, o quadro é acompanhado por alterações físicas, como distúrbios do sono, do apetite, perda ou ganho de peso e retardo ou agitação físico. De acordo com estudos da área de psicopatologia, a depressão proveniente do trabalho atinge todas as raças, idades e profissões, e alcança tanto os profissionais que trabalham direto com o contato humano, quanto aqueles que desempenham atividades mais operacionais e mecânicas. Vale dizer que a relação entre o adoecimento psíquico e o trabalho vem se apresentando de maneira crescente, principalmente entre a população rural, devido ao uso indiscriminado de agrotóxicos e entre trabalhadores que vivenciaram processos de reestruturação produtiva em seus locais de trabalho. A figura a seguir retrata uma pessoa deprimida. License-439169-35444-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Shutterstock, 2018. De acordo com as estatísticas do INSS, os transtornos mentais são responsáveis pela terceira posição em causas de concessão de benefícios previdenciários, sendo ainda a depressão o problema que mais afeta os trabalhadores. Isso pode estar relacionado a dois fatos que vêm atualmente mudando o mercado de trabalho: as mudanças tecnológicas aceleradas, que causam um impacto considerável para aqueles que não conseguem se adaptar; e o aumento da violência social, que interfere de forma significante no trabalho. Essas constatações são alertas para a necessidade de estudos sobre as causas e os principais focos de desenvolvimento da doença entre os trabalhadores, visando avaliar a situação atual da saúde ocupacional e procurar medidas que possam prevenir o desencadeamento de novos casos. License-439169-33322-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A psicologia e a saúde do trabalhador Diante de toda essa necessidade de assegurar a saúde do trabalhador dentro das organizações, o psicólogo passa a ter um papel fundamental como um mediador entre os interesses da organização e os do trabalhador. As pressões psíquicas no ambiente de trabalho Diante de todas as mudanças pela qual vem passando o mercado de trabalho, seja pela competitividade, pela exigência técnica e até mesmo pelas crises financeiras atuais, os empregados das empresas são cada vez mais cobrados em prol da produtividade. Dessa forma, a pressão psíquica a que os trabalhadores são submetidos pode ser muito grande, podendo causar adoecimento pela impossibilidade de cumprir tantas demandas. A Psicopatologia do Trabalho coloca o sofrimento como algo muito presente na relação entre o homem e o trabalho, sendo esse sofrimento muitas vezes usado como um recurso para o controle das condutas e da produtividade. A atuação por meio de pressões faz com que a pessoa se veja perdida da possibilidade de manutenção da sua subjetividade dentro da empresa, sendo dominado pelas imposições que são feitas , provocando esgotamento, como retratado na figura a seguir. Fonte: nelzajamal, Shutterstock, 2018. (traduzida) License-439169-33322-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Sabemos que o impacto que uma organização pode causar em seus funcionários devido às formas de trabalho é grande. Em condições não adequadas, emerge o sofrimento, dificultando a relação entre o homem e o trabalho, que passa a ser uma forma de punição e, muitas vezes, levando o empregado ao desenvolvimento de doenças. Com isso, é necessário que a fiscalização e ação no combate aos abusos sejam visadas e aplicadas, pois, conforme já vimos anteriormente, garantir a segurança dos profissionais, além de ser uma obrigação das organizações, também é uma forma de garantir a motivação e a produção do funcionário. As pressões psíquicas podem trazer diversas consequências para a vida dos empregados, inclusive causando diversos adoecimentos no ambiente de trabalho. Saúde no trabalho Assim, é necessário garantir a saúde física e mental do trabalhador, como forma de garantir a subjetividade do homem e suas necessidades de saúde. O trabalhador apresenta necessidades tanto individuais quanto organizacionais, e é necessário que essas demandas estejam em sintonia, visando atender ambos os lados do processo de trabalho. Quando essas necessidades não são atendidas, o vínculo entre a empresa e o empregado pode se romper. Por exemplo, um trabalhador apresenta uma demanda para atuar fora do horário comercial. Caso o trabalho dessa pessoa possa ser desenvolvido em qualquer horário, sua demanda pode ser atendida e negociada, como forma de satisfazer suas necessidades e garantir para a empresa que eladesempenhe suas atividades de forma melhor em um horário que lhe é mais conveniente. License-439169-33322-0-5 PSICOLOGIA APLICADA A partir disso, podemos pensar que existem duas possibilidades nas relações de trabalho: apenas trabalhar, desenvolvendo suas funções, ou trabalhar com segurança e satisfação. A figura a seguir retrata funcionários satisfeitos e seguros em seu ambiente de trabalho, com equipamentos de proteção. Fonte: ndoeljindoel, Shutterstock, 2018. Isso nos faz pensar na importância de fazer do ambiente de trabalho um local agradável, no qual o funcionário se sinta à vontade para desenvolver suas tarefas. Garantir que o trabalhador mantenha condições mínimas de manifestação da sua individualidade pode ser um grande aliado para garantir sua saúde. Condições físicas adequadas Relações interpessoais saudáveis Necessidades de saúde do trabalhador License-439169-33322-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Precisamos reforçar também que essas necessidades de saúde vão além das condições físicas adequadas e segurança. É preciso ter um ambiente em que as relações interpessoais permitam que o sujeito se sinta à vontade para trabalhar e se manifestar de acordo com os seus descontentamentos e inseguranças. Como a psicologia atua nesse ambiente O trabalho do psicólogo se tornou indispensável dentro das organizações, tanto como forma de promoção da qualidade de vida e bem-estar, quanto como um trabalho de compreensão de todas as interações que existem dentro da empresa, procurando as melhores formas de promover a produtividade. Por meio de diversos estudos do Ministério da Saúde, percebeu- se que os fatores psicológicos podem ser decisivos no aumento do rendimento do trabalho, derivando daí estudos que envolvem a motivação, a satisfação no trabalho, além de métodos que identifiquem e promovam essas questões. A figura a seguir retrata cordialidade no ambiente de trabalho, o que é essencial para a saúde do colaborador. Fonte: wavebreakmedia, Shutterstock, 2018. License-439169-33322-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Com a definição de algumas doenças mentais e os estudos de suas causas, começou-se a perceber que elas tinham origem das frustrações que envolviam a prática do trabalho. Assim, o psicólogo passou a ser parte integrante dos ambientes empresariais como forma de identificar as possíveis demandas e procurar prevenir o surgimento dessas enfermidades . Lembramos também que o psicólogo desenvolve um trabalho muito importante no que se refere à saúde do trabalhador, mas suas atividades não se resumem a isso. São também funções desses profissionais o recrutamento e a seleção dos novos funcionários, o treinamento e inserção dessas pessoas no cotidiano da empresa, a procura pelo desenvolvimento das habilidades que os empregados apresentam e a identificação dos elos fracos da empresa, visando fortalecê-los. O esforço de compreender e lidar com questões do comportamento humano e do trabalho constitui um campo da Psicologia denominado Psicologia do Trabalho. Trata-se de um ramo que estuda a natureza dos processos de organização do trabalho e os possíveis impactos psicossociais, principalmente no que se refere à qualidade de vida e saúde do trabalhador, tanto individual quanto coletivamente. Além disso, há a Psicologia Organizacional, que surge como uma necessidade de entender e lidar com os processos psicossociais dentro da empresa. Imagine um conjunto de pessoas que precisam ser coordenadas para que consigam atingir as metas e objetivos da missão organizacional da empresa. Perceba que a atuação do psicólogo dentro desse campo necessita de parcerias com diversos outros ramos científicos e profissionais, como forma de garantir que o diálogo na empresa seja algo priorizado. Além disso, para entender toda a dimensão dos problemas organizacionais, o psicólogo depende de contato com diversos outros profissionais especializados nas demandas . License-439169-33322-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Como você pode ver, trata-se de um profissional que deve estar presente nesse campo organizacional como um mediador entre os interesses da empresa e o dos funcionários. Seu objetivo é proporcionar as melhores condições e garantir os interesses de ambos os lados. O psicólogo deve ser um profissional que busca equilibrar os interesses econômicos da empresa com os interesses de saúde e bem-estar do trabalhador. License-439169-35440-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Os programas de qualidade de vida no trabalho Como forma de implantar e manter as ideias que garantam a saúde do trabalhador, existem programas que visam promover a qualidade de vida no ambiente de trabalho e assegurar que motivação e desempenho estejam aliados. A QVT é um conjunto de ações de uma empresa que envolve diagnósticos e implantação de melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas e estruturais, dentro e fora do ambiente de trabalho, com vistas a propiciar condições plenas de desenvolvimento humano para e durante a realização do trabalho. Enriquecimento do trabalho O interesse em manter altos padrões de qualidade de vida no trabalho é algo novo que as empresas começam a aderir a partir do momento que percebem a importância da satisfação do trabalhador para o aumento dos níveis de produtividade. Dentre essas ideias, está o enriquecimento no trabalho, termo criado por Frederick Herzbeg e baseado no desenvolvimento de uma pesquisa feita sobre motivadores e fatores de manutenção. O enriquecimento no trabalho se refere aos motivadores adicionais que, ao serem somados à tarefa principal, podem torná-la mais recompensadora. Trata-se de uma forma de melhoramento do trabalho, buscando reduzir a monotonia .conforme ilustra a imagem a seguir. License-439169-35440-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: Kzenon, Shutterstock, 2018. Essa forma de melhorar o ambiente de trabalho busca a satisfação e o prazer do empregado ao desempenhar suas funções, trazendo muitos benefícios. Por meio de pesquisas realizadas e apresentadas por Davis e Newstrom, foram percebidos resultados de enriquecimento do papel social dentro da organização e a disposição para o crescimento e autorrealização. Além disso, como consequência do aumento da motivação, o desempenho melhorou, proporcionando um trabalho mais humano e produtivo, como ilustrado na imagem a seguir. Tarefa principal Motivadores adicionais Trabalhador satisfeito License-439169-35440-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Um exemplo de aplicação dessa proposta de trabalho aconteceu em uma fábrica de bandejas térmicas, na qual originalmente os operários trabalhavam em uma linha de produção, cada um desempenhando uma pequena parte do processo total. A empresa então decidiu pelo enriquecimento do trabalho, e cada operário passou a completar toda uma bandeja térmica, sendo responsável por todo o processo de produção. Com isso, os trabalhadores logo desenvolveram mais interesse pelo trabalho, e as peças rejeitadas pelo controle de qualidade caíram de 23% para 1%, bem como faltas de 8% para 1%. Uma vez que nenhuma outra mudança foi feita no departamento, pode-se perceber que os resultados obtidos se devem ao enriquecimento no trabalho. Dessa forma, vemos que essa proposta beneficia o trabalhador que tem maior satisfação em seu trabalho, sendo capaz de participar de todos os processos da produção de forma eficiente. E a organização se beneficia também com uma pessoa motivada e com melhor desempenho. O enriquecimento no trabalho surge para garantir que o trabalhador conheça todo o processo de produção, e se sinta responsável por suas atividades. O Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP) Outra proposta que se mostrou eficiente na promoção da qualidade de vida no trabalho foi o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade, implantado por volta de 1990, envolvendo vários órgãos do governo e alguns representantes privados. Com alguns realinhamentos ao longo dos anos, esse programapassou a envolver não somente o Ministério do Emprego e Trabalho, como também outros ministérios que se interessavam pelas questões sociais, como o Ministério da Educação e o da Saúde. A figura a seguir retrata um grupo de trabalhadores com foco em saúde e prevenção. License-439169-35440-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Fonte: kurhan, Shutterstock, 2018. O programa tinha como proposta a adesão da sociedade em geral, mobilizando as pessoas e os órgãos que se envolvessem com a área do trabalho, visando divulgar e conseguir a participação popular nas ações que pretendiam desenvolver. Foi escolhida como meta principal do programa, a redução dos acidentes fatais em cinco anos, e foram definidas quatro linhas de ação: rever e reconstruir o modelo de organização do sistema de segurança e saúde; potencializar as políticas de segurança e saúde; implementar um sistema integrado de gestão em segurança e saúde; e aperfeiçoar e organizar o sistema de informação e pesquisa de interesse na área. Além disso, dentro desse programa, foram construídos projetos que visavam a erradicação do trabalho infantil, a prevenção de acidentes do trabalho em micro e pequenas empresas e a melhoria das informações estatísticas sobre doenças e acidentes de trabalho. Atualmente há uma tendência na redução dos agravos do trabalho na saúde. Porém, ainda é preciso fazer muito para melhorar essa área, pois indicadores apresentados pelo Ministério da Saúde, inclusive o de mortalidade, ainda se apresentam em faixas inadequadas para o considerado aceitável. License-439169-35440-0-6 PSICOLOGIA APLICADA É função do governo assegurar que medidas sejam tomadas para a promoção de estratégias visando a saúde do trabalhador. Responsabilidade legal e social frente à promoção da saúde no trabalho De acordo com nossa Constituição, existem alguns direitos do trabalhador que devem ser garantidos e assegurados pelas empresas. Dentre eles, destacamos: toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal; toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família, saúde, e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais (desemprego, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência). Esses direitos nasceram da necessidade e da luta dos trabalhadores para garantir a integridade física e psicológica, buscando regulamentar isso por meio de leis. Clique na figura para assistir ao vídeo License-439169-35440-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Esses direitos definem que o trabalhador tenha seus benefícios garantidos e que a empresa cumpra com as determinações. Atualmente, além da responsabilidade legal que as empresas devem exercer, enfatiza-se a importância da responsabilidade social. A responsabilidade social prevê o comprometimento com diversos aspectos sociais, tais como o meio-ambiente, a qualidade de vida da comunidade, a ampliação da educação, como forma de promover mudanças no ambiente em que se encontram. Esse caminho de consolidação da responsabilidade social ainda está sendo trilhado, buscando garantir que exigências de respeito à vida e a integridade física das pessoas sejam priorizados. O número de simpatizantes vem aumentando a cada dia no mundo e no Brasil, justamente porque as empresas que se adaptam ao pensamento moderno passam a perceber que essas responsabilidades devem ser também tomadas por aqueles que lucram com o trabalho. Podemos destacar também que à medida que as empresas adotam os princípios da responsabilidade social, mais elas se aproximam do ideal de garantir a responsabilidade legal para os seus trabalhadores, buscando o resgate da cidadania e do bem-estar, com a devida responsabilidade de empregados e empresa, como ilustrado a seguir. Fonte: Mathias Rosenthal, Shutterstock, 2018. (traduzido) License-439169-35440-0-6 PSICOLOGIA APLICADA Apresentamos, assim, os benefícios que há no desenvolvimento de programas de QVT. Para o indivíduo, é promovida uma maior resistência ao estresse, maior estabilidade emocional, maior motivação, maior eficiência no trabalho, assim como melhora na autoimagem e no relacionamento com as outras pessoas, além da promoção de uma atitude favorável ao trabalho. Já para a organização, os benefícios podem ser os seguintes: uma força de trabalho mais saudável; menor absenteísmo ou rotatividade; menor número de acidentes; menor custo de saúde assistencial; maior produtividade; melhor imagem e um melhor ambiente de trabalho em geral. License-439169-35446-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Medidas de prevenção Conforme já vimos, os acidentes de trabalho são um dos maiores problemas de saúde em todo o mundo, tendo como consequência perdas significativas para o trabalhador, para a empresa e para a sociedade em geral. Dessa maneira, uma das formas mais eficazes de evitar essas perdas é investindo na prevenção desses acidentes. É preciso conhecer para prevenir Sabemos que a maioria dos acidentes são consequências de condições de trabalho inadequadas. Ou seja, para que esses acidentes não aconteçam é necessário que as empresas garantam todo o equipamento de proteção necessário para desenvolver as tarefas. Além disso, uma das maiores e mais eficazes formas de prevenção dos acidentes engloba aprender sobre o que ocorre e o que pode ocorrer dentro do sistema de produção. Conhecer e identificar as possibilidades de acidentes facilita muito identificar os pontos de ações e desenvolver medidas preventivas. A maioria dos acidentes é previsível e possível de prevenir, sendo pouquíssimos os casos de acidentes que acontecem completamente ao acaso. Os sistemas de produção devem sempre ter medidas de controle que devem ser adotadas como forma de eliminar, reduzir e prevenir os acidentes. Caso eles ocorram, isso significa que essas medidas adotadas não foram completamente eficientes na missão de prevenção. Dessa forma, é indispensável que essas medidas sejam aplicadas e que todos os trabalhadores que estão envolvidos no processo de produção as conheçam, e tenham domínio das formas de empregá-las . Por meio da criação de estratégias de prevenção é possível reduzir ou eliminar a maioria das possibilidades de acidentes nos locais de trabalho. License-439169-35446-0-5 PSICOLOGIA APLICADA É necessário também que o trabalhador conheça todo o processo de produção, das formas corretas de manuseio dos objetos e das possibilidades de uso do maquinário. O estabelecimento de uma comunicação clara, deixando especificadas as possibilidades e riscos do uso do material, facilita para o empregado o contato e o manuseio. Outra questão é a necessidade de levar em consideração a experiência e o conhecimento do empregado. Muitas vezes, por se tratar de operários de uma empresa, seu conhecimento não é considerado para a efetivação do trabalho. No entanto, são esses profissionais que conseguem fazer com que os sistemas funcionem, apesar de seus conhecimentos nem sempre serem os tidos como formais). A figura a seguir retrata alguns equipamentos de segurança utilizados no trabalho. Fonte: fotohunter, Shutterstock, 2018. Modelo de Análise e Prevenção de Acidente de Trabalho (MAPA) Um instrumento criado para promover ações de prevenção dentro das organizações é o Modelo de Análise e Prevenção de Acidente de Trabalho (MAPA), atualmente difundido entre as empresas e comumente usado nessa perspectiva. License-439169-35446-0-5 PSICOLOGIA APLICADA O MAPA tem a sua origem nos conceitos desenvolvidos nas últimas décadas para a temática de análise de desastres e acidentes, ampliando esses conceitos para a área do trabalho. Trata-se de fornecer para o mundo do trabalho as ferramentas e concepções já testadas em outras situações de análises de acidentes eprocurar adaptá-las para a área de acidentes do trabalho . Um MAPA pode relacionar em uma mesma análise conceitos de ergonomia da atividade, análise de barreiras, análise de mudanças etc. Parte-se da ideia de que cada caso é único e acontece em um momento histórico e cultural singular, devendo as análises serem feitas de acordo com as características próprias do ambiente. Dessa maneira, a proposta é parecida com a montagem de um quebra-cabeças que possibilite a compreensão dos aspectos técnicos e organizacionais que existem na ocorrência. O acidente deve passar a ser compreendido como uma ocorrência que precisa ser narrada. Ao mesmo tempo, uma equipe de vigilância deve se fazer presente investigando o ocorrido e não declarar encerrada suas atividades enquanto não identificar o maior número possível de condições relacionadas à origem e às consequências do acidente. As etapas desse processo de narrativa e investigação do acidente devem ser: A descrição sistemática do trabalho normal e descrição do acidente; B análise de barreiras que provocaram o acidente associadas às falhas na gestão da segurança e outras possíveis falhas associadas aos outros subsistemas de gestão; C análise das mudanças ocorridas em termos de falhas na organização do trabalho, tais como a gestão de pessoal, os materiais, a comunicação etc.; D ampliação conceitual, identificando os possíveis conceitos que podem contribuir para o estudo do caso. O MAPA se torna uma excelente estratégia para a prevenção, à medida que ele visa desenvolver ações entre os funcionários. License-439169-35446-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Depois de desenvolvido esse processo, inicia-se a criação de propostas de intervenção que devem estimular o aperfeiçoamento das condições de segurança, buscando sempre minimizar ou eliminar as possibilidades de novos acidentes. O diálogo entre diferentes lógicas e interesses presentes deve ser estimulado também, de modo a construir conjuntamente decisões que considerem os interesses do maior número possível de envolvidos. A imagem a seguir se reporta aos apontamentos de um MAPA. Clique na figura para assistir ao vídeo Fonte: michaeljung, Shutterstock, 2018. License-439169-35446-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Clima de segurança Além de toda a questão humana da importância da prevenção de acidentes, ela também se torna uma fonte de preocupação devido aos custos que os acidentes incidem tanto ao funcionário, quanto à organização. Muitas abordagens são testadas para impedir os acidentes, envolvendo desde o design dos equipamentos até mesmo no relacionamento interpessoal dos funcionários. Percebeu-se, com isso, que muitas vezes as soluções podem ser simples, tais como obrigar os funcionários a usar óculos de proteção para impedir danos aos olhos. Um ambiente seguro e prazeroso pode ser um grande aliado para que o trabalhador se sinta confortável, aumentando seu rendimento. Contudo, uma das grandes dificuldades de prevenção dos acidentes é o ambiente de trabalho, pois se torna fundamental conquistar a cooperação dos funcionários na utilização dos equipamentos de segurança apropriados, bem como no envolvimento de atitudes seguras. Por exemplo, é comum identificar funcionários que dispensam o material de segurança por considerar desconfortável e incômodo, ou por achar que se trata de um desperdício de tempo, fazendo com que essas pessoas fiquem expostas mais facilmente a situações perigosas . Por isso, a promoção de um clima de segurança deve ser efetiva, promovendo uma percepção compartilhada de que os procedimentos de segurança são de suma importância. Essa atitude deve ser adotada não apenas pelos funcionários, mas também pela organização que deve encorajar e recompensar aqueles que se adaptam a essas condições. Ainda é essencial destacar que a motivação e satisfação no trabalho vai além das questões físicas. License-439169-35446-0-5 PSICOLOGIA APLICADA Um ambiente de trabalho com relações de confiança e assertividade contribuem para evitar acidentes de trabalho. Por exemplo, uma discussão entre colegas em uma construção civil, pode aumentar as chances de um acidente físico. Ao contrário, um bom clima no trabalho pode ser muito útil à segurança, como simbolizado na imagem a seguir. Clima de segurança Motivação Aumento da produtividade Diversas pesquisas já comprovaram que organizações que possuem alto nível de segurança têm funcionários que se sofrem menos acidentes, além da produtividade, que geralmente se equilibra com um clima adequado, conforme mostra a ilustração anterior. License-439169-34804-0-2 PSICOLOGIA APLICADA Referências Bibliográficas ALMEIDA, I. M. et al. Modelo de Análise e Prevenção de Acidentes – MAPA: ferramenta para a vigilância em saúde do trabalhador. 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