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CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” (ESPECIALIZAÇÃO) A DISTÂNCIA QUÍMICA QUÍMICA INORGÂNICA Ruy Carvalho Walclée de Carvalho Melo Mário César Guerreiro Universidade Federal de Lavras - UFLA Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão - FAEPE Lavras - MG Parceria Universidade Federal de Lavras - UFLA Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão - FAEPE Reitor Antônio Nazareno Guimarães Mendes Vice-Reitor Ricardo Pereira Reis Diretor da Editora Marco Antônio Rezende Alvarenga Pró-Reitor de Pós-Graduação Joel Augusto Muniz Pró-Reitor Adjunto de Pós-Graduação “Lato Sensu” Marcelo Silva de Oliveira Coordenador do Curso Walcleé de Carvalho Melo Presidente do Conselho Deliberativo da FAEPE Luis Antônio Lima Editoração Centro de Editoração/FAEPE Impressão Gráfica Universitária/UFLA Ficha Catalográfica preparada pela Divisão de Processos Técnicos da Biblioteca Central da UFLA Carvalho, Ruy Química inorgânica / Ruy Carvalho, Wlaclée de Carvalho Melo, Mário César Guereiro. UFLA/FAEPE, 2006. . 145p. il Curso de pós-graduação "Lato Sensu" (Especialização) a Distância : Química. Bibliografia 1. Química inorgânica. 2. Complexos. 3. Quelatos. 4. campo cristalino. I. Melo, W.C. II. Guereiro, M.C. III. Universidade Federal de Lavras. IV Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão. V. Título. CDD – 546 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, por qualquer meio, sem a prévia autorização da FAEPE. SUMÁRIO PARTE I - QUÍMICA DESCRITIVA DOS ELEMENTOS 1 ELEMENTOS DO BLOCO s ...................................................................................... 10 INTRODUÇÃO............................................................................................................ 10 1.1 GRUPO I – METAIS ALCALINOS...................................................................... 10 1.1.1 Estrutura Eletrônica ............................................................................... 10 1.1.2 Propriedades Gerais .............................................................................. 11 1.1.3 Propriedades Químicas ......................................................................... 12 1.1.4 Solubilidade e Hidratação ...................................................................... 12 1.1.5 Extração dos Metais .............................................................................. 13 1.2 GRUPO II – METAIS ALCALINOS TERROSOS................................................ 13 1.2.1 Estrutura Eletrônica ............................................................................... 13 1.2.2 Propriedades Gerais .............................................................................. 14 1.2.3 Comportamento Anômalo do Berílio. ..................................................... 15 1.2.4 Propriedades Químicas ......................................................................... 15 1.2.5 Extração dos Metais .............................................................................. 17 1.3 PROBLEMAS (GRUPO I)................................................................................... 18 1.4 PROBLEMAS (GRUPO II).................................................................................. 20 2 ELEMENTOS DO BLOCO p ...................................................................................... 22 2.1 GRUPO III .......................................................................................................... 22 2.1.1 Propriedades Gerais .............................................................................. 22 2.1.2 Caráter Eletropositivo ............................................................................ 23 2.1.3 Extração dos Elementos ........................................................................ 24 2.1.4 Complexos............................................................................................. 24 2.2 GRUPO IV.......................................................................................................... 24 2.2.1 Propriedades Gerais .............................................................................. 25 2.2.2 Caráter Metálico e Não-Metálico ........................................................... 25 2.2.3 Diferenças Entre Carbono, Silício e os Outros Elementos..................... 25 2.2.4 Efeito do par inerte................................................................................. 26 2.3 GRUPO V........................................................................................................... 26 2.3.1 Estrutura Eletrônica e Estados de Oxidação ......................................... 26 2.3.2 Tipo de Ligação ..................................................................................... 27 2.3.3 Caráter Metálico e Não-Metálico ........................................................... 27 2.3.4 Diferenças entre N e os outros Elementos ............................................ 27 2.3.5 Ocorrência e Extração ........................................................................... 28 2.4 GRUPO VI .......................................................................................................... 28 2.4.1 Estrutura Eletrônica e Estados de Oxidação ......................................... 29 2.4.2 Caráter Metálico e Não-Metálico ........................................................... 30 2.4.3 Diferença entre O e os outros Elementos .............................................. 30 2.4.4 Usos dos Elementos .............................................................................. 30 2.4.5 Ocorrência e Extração ........................................................................... 30 2.4.6 Polimorfismo .......................................................................................... 31 2.4.7 Propriedades Gerais dos Óxidos ........................................................... 31 2.5 GRUPO VII – OS HALOGÊNIOS ....................................................................... 33 2.5.1 Estrutura Eletrônica e Estados de Oxidação ......................................... 33 2.5.2 Propriedades Gerais .............................................................................. 34 2.5.3 Poder Oxidante...................................................................................... 34 2.5.4 Reatividade dos Elementos ................................................................... 35 2.5.5 Separação dos Elementos..................................................................... 36 2.5.6 Óxidos Halogenados.............................................................................. 37 2.5.7 Propriedades Básicas dos Halogênios .................................................. 41 2.6 GRUPO 0 – OS GASES NOBRES..................................................................... 42 2.6.1 Estrutura Eletrônica e Propriedades Gerais........................................... 42 2.7 PROBLEMAS ..................................................................................................... 43 2.7.1 Grupo III................................................................................................. 43 2.7.2 Grupo IV ................................................................................................ 44 2.7.3 Grupo V ................................................................................................. 45 2.7.4 Grupo VI ................................................................................................ 46 2.7.5 Grupo VII ............................................................................................... 47 2.7.6 Gases nobres ........................................................................................ 48 3 ELEMENTOS DO BLOCO d ......................................................................................50 3.1 PROPRIEDADES GERAIS................................................................................. 50 3.1.1 Densidade.............................................................................................. 51 3.1.2 Pontos de Fusão e Ebulição .................................................................. 51 3.1.3 Reatividade dos Metais.......................................................................... 51 3.1.4 Cor ......................................................................................................... 51 3.1.5 Propriedades Magnéticas ...................................................................... 51 3.1.6 Propriedades Catalíticas........................................................................ 52 3.1.7 Valência Variável ................................................................................... 52 3.1.8 Capacidade para formar Complexos ..................................................... 54 3.1.9 Não-Estequiometria ............................................................................... 54 3.1.10 Abundância............................................................................................ 54 3.2 GRUPO DO ESCÂNDIO .................................................................................... 55 3.2.1 Introdução.............................................................................................. 55 3.2.2 Ocorrência, separação, obtenção e usos ............................................. 55 3.2.3 Estado de oxidação ............................................................................... 56 3.2.4 Tamanho................................................................................................ 56 3.2.5 Propriedades químicas .......................................................................... 57 3.2.6 Complexos............................................................................................. 58 3.3 GRUPO DO TITÂNIO......................................................................................... 59 3.3.1 Ocorrência e abundância....................................................................... 60 3.3.2 Obtenção e usos.................................................................................... 60 3.3.3 Estados de oxidação.............................................................................. 62 3.4 GRUPO DO VANÁDIO....................................................................................... 63 3.4.1 Abundância, obtenção e usos................................................................ 63 3.4.2 Estados de Oxidação............................................................................. 65 3.5 GRUPO DO CROMO ......................................................................................... 66 3.5.1 Abundância, obtenção e usos................................................................ 66 3.6 GRUPO DO MANGANÊS................................................................................... 69 3.6.1 Abundância, obtenção e usos................................................................ 70 3.6.2 Estados de oxidação.............................................................................. 71 3.7 GRUPO DO FERRO .......................................................................................... 73 3.8 GRUPO DO COBALTO...................................................................................... 77 3.9 GRUPO DO NÍQUEL.......................................................................................... 78 3.10 GRUPO DO COBRE .......................................................................................... 81 3.11 GRUPO DO ZINCO............................................................................................ 84 3.12 PROBLEMAS (BLOCO D).................................................................................. 88 4. ELEMENTOS DO BLOCO f ....................................................................................... 89 4.1 LANTANÍDEOS .................................................................................................. 89 4.1.1 Configuração eletrônica ......................................................................... 89 4.1.2 Estados de Oxidação............................................................................. 90 4.1.3 Abundância de Isótopos ........................................................................ 92 4.1.4 Obenção e usos..................................................................................... 93 4.1.5 Separação dos Lantanídeos .................................................................. 94 4.1.6 Precipitação ........................................................................................... 95 4.1.7 Reação Térmica .................................................................................... 95 4.1.8 Cristalização Fracionada ....................................................................... 95 4.1.9 Formação de complexos........................................................................ 95 4.1.10 Extração com Solvente .......................................................................... 96 4.1.11 Variação de Valência ............................................................................. 96 4.1.12 Troca Iônica ........................................................................................... 97 4.1.13 Propriedades químicas dos compostos com estado de oxidação (+3) ......................................................................................... 97 4.1.14 Estados de Oxidação (+4) ................................................................... 100 4.1.15 Estados De Oxidação (+2)................................................................... 101 4.1.16 Solubilidade ......................................................................................... 102 4.1.17 Cor e Espectros ................................................................................... 102 4.1.18 Contração Lantanídica......................................................................... 104 4.1.19 Complexos........................................................................................... 105 PARTE - II - COMPOSTOS DE COORDENAÇÃO........................................................ 107 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................... 108 1.1 CONCEITOS .................................................................................................... 109 1.2 CLASSIFICAÇÃO DOS PRINCIPAIS LIGANTES. ........................................... 111 1.3 GEOMETRIAS MAIS COMUNS DOS COMPLEXOS....................................... 112 1.3.1 Número de coordenação 2 .................................................................. 112 1.3.2 Número de coordenação 4 .................................................................. 112 1.3.3 Número de coordenação 6 .................................................................. 113 1.3.4 Quelatos .............................................................................................. 113 1.4 NOMENCLATURA DE COMPLEXOS.............................................................. 114 1.5 QUESTIONÁRIO E EXERCÍCIOS.................................................................... 117 2 LIGAÇÕES QUÍMICAS NOS COMPLEXOS............................................................ 119 2.1 TEORIA DAS LIGAÇÕES DE VALÊNCIA (TLV). ............................................. 119 2.2 TEORIA DO CAMPO CRISTALINO (TCC)....................................................... 124 2.2.1 Fundamentos....................................................................................... 124 2.2.2 Propriedades Magnéticas dos Complexos........................................... 127 2.2.3 PropriedadesEspectrais dos Complexos. ........................................... 128 2.3 TEORIA DOS ORBITAIS MOLECULARES...................................................... 128 2.4 ESTABILIDADE RELATIVA ENTRE ALGUNS COMPLEXOS DE METAIS DE TRANSIÇÃO ................................................................................ 138 2.4.1 Efeito quelato....................................................................................... 138 2.4.2 Isomeria ............................................................................................... 141 2.4.3 Doadores π .......................................................................................... 143 2.4.4 Receptores π ....................................................................................... 143 QUESTIONÁRIO E EXERCÍCIOS. ................................................................................. 143 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................ 145 PREFÁCIO A demanda por reciclagem por parte dos profissionais da química, notadamente professores do Ensino Médio e Superior da região de Lavras (MG), serviu de base para elaboração do presente texto. Despretensiosa a princípio, esta obra passou, numa segunda fase, a se constituir numa grande motivação para os seus autores. As causas foram (e ainda são) as mais diversas: o aumento da procura, antes regional, para nacional; o desafio de ensinar química à distância sem perder a qualidade, uma característica centenária da Universidade Federal de Lavras; abdicar de transmitir conceitos habitualmente sedimentados através da prática laboratorial de repente substituída por recursos de comunicação como o computador, a postagem e a telefonia; e a interação aluno-professor às vezes invertendo uma lógica tradicional, qual seja, ao invés de “ensinar”, muitas vezes o professor passou a “aprender” com a experiência bem vivenciada pelos pós graduandos e jamais experimentada no intramuros do campus universitário. Por tudo isso, e sempre dispostos a receber e a incorporar críticas e sugestões de enriquecimento deste texto, podemos afirmar sem medo de errar, que a pós graduação à distância em química não é, como os fenômenos físicos, apenas uma transformação material de caráter mais passageiro, mas algo mais profundo, que, como os fenômenos químicos perdura, modifica, se estabelece. os autores. PARTE I QUÍMICA DESCRITIVA DOS ELEMENTOS 1 ELEMENTOS DO BLOCO s INTRODUÇÃO Os metais alcalinos formam um grupo homogêneo de elementos extremamente reativos. Suas propriedades químicas e físicas são facilmente interpretadas em termos de suas configurações eletrônicas, ns1. Compostos de Na e K são conhecidos, desde a antigüidade e são essenciais à vida. Os elementos do grupo II ou alcalino-terrosos exemplificam e continuam as tendências observadas para os metais alcalinos. 1.1 GRUPO I – METAIS ALCALINOS TABELA 1: Símbolos e estruturas eletrônicas de alguns elementos do Grupo I. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Lítio Li [He] 2s1 Sódio Na [Ne] 3s1 Potássio K [Ar} 4s1 Rubídio Rb [Kr] 5s1 Césio Cs [Xe] 6s1 Frâncio Fr [Rn] 7s1 1.1.1 Estrutura Eletrônica Todos os elementos do Grupo I possuem um elétron s em seu orbital esférico. Não considerando as camadas internas, as estruturas eletrônicas podem ser escritas: 2s1, 3s1, 4s1, 5s1, 6s1 e 7s1. Devido às semelhanças nas estruturas eletrônicas desses elementos, Elementos do Bloco s 11 seria de se esperar muitas semelhanças no comportamento químico. Os elementos são tipicamente moles, altamente reativos, metais univalentes, que formam compostos iônicos incolores. 1.1.2 Propriedades Gerais Os átomos são os maiores, em seus períodos correspondentes, na tabela periódica, e quando o elétron externo é removido para dar um íon positivo, a carga positiva nos núcleos se torna maior do que o número de elétrons, tanto que os elétrons são atraídos para os núcleos e o íon é menor do que o átomo correspondente. Mesmo assim, os íons são muito grandes e aumentam de tamanho do Li para o Fr, quando elétrons extras são adicionados. Devido ao grande tamanho, estes elementos possuem densidade baixa. Com o aumento do tamanho dos átomos, os elétrons ficam mais afastados dos núcleos e são menos fortemente atraídos, tanto que o potencial de ionização diminui. Estes elementos podem emitir elétrons, quando irradiados com luz – daí o uso do césio e do potássio em células fotoelétricas. Os elétrons podem também ser excitados a um nível de energia superior, por exemplo, no teste de chama. Quando os elétrons voltam para suas posições iniciais, emitem a energia extra obtida. Neste caso, a quantidade de energia é pequena; portanto, ela aparece como luz visível. Isto explica as colorações de chama característica produzidas por estes elementos. Os valores da eletronegatividade para os elementos deste grupo são muito pequenos. Assim, quando estes elementos reagem com outros elementos, para formar os compostos, é provável que se tenha uma grande diferença de eletronegatividade entre os dois átomos, formando-se, portanto, ligações iônicas. A química dos metais alcalinos é mais do que a dos seus íons. TABELA 2: Parâmetros atômicos de alguns elementos do Grupo I. Símbolo Raio Atômico Å Raio Iônico Å Densi- dade g/cc Potencial Ionização eV Eletrone- gatividade P.E. ºC Abundân- cia crosta ppm Li 1,23 0,60 0,54 5,4 1,0 181 65 Na 1,57 0,95 0,97 5,1 0,9 98 28300 K 2,03 1,33 0,86 4,3 0,8 63 25900 Rb 2,16 1,48 1,53 4,2 0,8 39 310 Cs 2,35 1,69 1,87 3,9 0,7 29 7 Os pontos de fusão e os pontos de ebulição são muitos baixos e diminuem com o aumento de dimensão. O ponto de fusão do lítio é bastante diferente dos outros elementos e, em geral, o primeiro elemento de cada grupo difere apreciavelmente do resto de grupo. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 12 O sódio e o potássio são o sexto e o sétimo elementos mais abundantes na crosta terrestre, mas o frâncio não ocorre apreciavelmente na natureza, pois é reativo e possui um período de meia-vida pequeno. Todos os íons metálicos possuem as configurações de gás inerte; assim, eles não possuem elétrons desemparelhados e são diamagnéticos e incolores. De fato, todos os compostos formados pelos metais do Gupo I são brancos, exceto aqueles cujos radicais ácidos são coloridos, por exemplo cromatos e permanganatos. 1.1.3 Propriedades Químicas Quimicamente estes elementos são muito reativos e perdem o brilho rapidamente ao ar, formando o óxido (ou o nitreto no caso do lítio). Descendo o grupo desde o lítio até o césio, a reação com água aumenta em violência, liberando hidrogênio e formando hidróxidos que são as bases mais fortes conhecidas. O hidróxido de sódio é produzido em grande escala pela eletrólise da salmora (processo de Nelson ou Castner Kellner) ou do Na2CO3 com cal ou óxido férrico (processo de Gossages e Ferrite). Formam-se os óxidos, quando os metais são queimados ao ar; lítio forma o monóxido Li2O; o sódio forma o peróxido Na2O2 e os outros, superóxidos do tipo MO2. O monóxido é iônico 2 Li + e O-2; o peróxido contém o íon [-O-O-]-2 e os superóxidos contêm um terceiro elétron ligante, que o torna paramagnético e colorido. Os outros óxidos são preparados dissolvendo-se o metal em amônia líquida, que O O ... - reage desta forma com a quantidade adequada de oxigênio. Os óxidos típicos M2O são óxidos básicos fortes, que reagem com água, formando bases fortes. Estes hidróxidos alcalinos são as mais fortes bases conhecidas e, exceto o LiOH, são todos muito solúveis em água e são termicamente estáveis, o que ilustra a natureza eletropositiva forte dos metais. Os óxidos e superóxidos são agentes oxidantes e reagem com água e ácido,dando H2O2 e O2. Os metais reagem com hidrogênio, com menos facilidade do Li→Cs, formando hidretos iônicos ou salinos M+H-. Estes contêm o íon H- e o hidrogênio é libertado durante a eletrólise no ânodo. Os hidretos reagem com água, libertando hidrogênio, e o hidreto de lítio é uma útil fonte de hidrogênio, pois possui um baixo peso molecular e libera mais hidrogênio do que o que contém. LiH + H2O → LiOH + H2 1.1.4 Solubilidade e Hidratação Todos os sais são solúveis em água e, embora o lítio, o menor íon, devesse conduzir a eletricidade melhor do que os outros íons maiores, os resultados das medidas Elementos do Bloco s 13 da condutividade em solução aquosa resultam na seguinte ordem Cs+ > Rn+ > K+ > Na+ > Li+ . Isto, porque os íons estão hidratados em solução. O Li+ é facilmente hidratado, portanto se move lentamente, e o Cs+, o menos hidratado, move-se mais rapidamente. A diminuição de hidratação Li → Cs é também demonstrada nos sais cristalinos, pois praticamente todos os sais de lítio são hidratados; muitos sais de sódio, poucos sais de potássio e nenhum sal de rubídio ou de césio são hidratados. Como todos os sais simples são solúveis em água, estes metais são precipitados em análise química como sais menos comuns, como o cobaltinitrito de potássio K3[Co(NO2)6], perclorato de potássio KClO4 ou acetato de uranilo e sódio Na[UO2(Ac)3]. 1.1.5 Extração dos Metais Os metais deste grupo são, dos agentes redutores químicos conhecidos, os mais fortes e não são preparados pela redução de óxidos. Como os metais são tão eletropositivos que reagem com a água, não teria sucesso a tentativa de substituir um elemento da solução por outro mais acima na série eletroquímica. A eletrólise de soluções aquosas para se obter o metal também não dá resultado, a menos que seja utilizado um cátodo de mercúrio, isto quando for possível a formação de amálgamas, mas é difícil a recuperação do metal puro da amálgama. Todos os metais são isolados por eletrólise, geralmente do haleto fundido, com adição de impurezas para abaixar o ponto de fusão. Assim, o sódio é obtido pelo processo Dows (eletrólise do NaCl com adição de CaCl2) ou pelo processo Castner, que utiliza hidróxido de sódio fundido. 1.2 GRUPO II – METAIS ALCALINOS TERROSOS TABELA 3: Símbolos e estruturas eletrônicas de alguns elementos do Grupo II. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Berílio Be [He] 2s2 Magnésio Mg [Ne] 3s2 Cálcio Ca [Ar} 4s2 Estrôncio Sr [Kr] 5s2 Bário Ba [Xe] 6s2 Rádio Ra [Rn] 7s2 1.2.1 Estrutura Eletrônica Todos os elementos do Grupo II possuem dois elétrons s em seu orbital mais externo: não considerando os orbitais internos completos, suas estruturas eletrônicas podem ser escritas 2s2, 3s2, 4s2, 5s2, 6s2 e 7s2. Sendo tipicamente divalentes, formam uma série bem graduada de metais altamente reativos, geralmente formando compostos EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 14 iônicos incolores e menos básicos do que os do Grupo I. O berílio apresenta diferenças consideráveis do resto do grupo e relações diagonais análogas com o alumínio do Grupo III. 1.2.2 Propriedades Gerais O berílio não é muito conhecido, parcialmente porque não é muito abundante e parcialmente porque é difícil de ser extraído. O magnésio e o cálcio são muito abundantes e estão entre os sete elementos mais comuns da crosta terrestre. O estrôncio e o bário são muito menos abundantes, mas são bem conhecidos, pois ocorrem como minerais concentrados e são facilmente extraídos, enquanto que o rádio é extremamente escasso e sua radioatividade é mais importante do que sua química. Os átomos são grandes, mas são menores do que os dos átomos dos elementos correspondentes do Grupo I, pois a carga extra no núcleo atrai os elétrons orbitais. Analogamente, os íons são grandes, mas são menores do que os do Grupo I, especialmente porque a remoção de dois elétrons orbitais aumenta ainda mais a carga nuclear efetiva. Assim, estes elementos são mais densos e mais duros do que os metais do Grupo I e são mais eletronegativos (Tabela 4). TABELA 4: Caracteristicas físico-químicas dos elementos do Grupo II. Símbolo Raio Atômico Å Raio Iônico M+2 (Å) Densida- de g/cc Potencial Ionização 10 (eV) Potencial Ionização 20 (eV) Eletrone- gatividade Abundân- cia crosta ppm Be 0,89 0,31 1,8 9,3 18,2 1,5 6 Mg 1,36 0,65 1,7 7,6 15,0 1,2 20900 Ca 1,74 0,99 1,6 6,1 11,9 1,0 36300 Sr 1,91 1,13 2,6 5,7 11,0 1,0 300 Ba 1,98 1,35 3,5 5,2 10,0 0,9 250 Ra --- 1,50 5,0 5,3 10,1 --- 1,3 x 10-6 Os compostos são sempre divalentes e iônicos. Como os átomos são menores do que os do Grupo I, os elétrons são mais fortemente atraídos pelo núcleo, tanto que a energia necessária para remover o primeiro elétron (primeiro potencial de ionização) é maior do que a do Grupo I. Uma vez removido um elétron, a relação entre as cargas nucleares e os elétrons orbitais aumenta, tanto que os elétrons restantes são mais fortemente atraídos e a energia necessária para remover um segundo elétron é, aproximadamente, o dobro da requerida pelo primeiro. A energia extra para a remoção do segundo elétron é compensada pela energia de retículo nos cristais ou pela energia de solvatação em solução. Os compostos são mais facilmente hidratados do que os do Grupo I, por exemplo, MgCl2.6H2O, CaCl2.6H2O, BaCl2.2H2O. A solubilidade da maioria dos sais diminui com o aumento do peso atômico, embora esta tendência seja invertida Elementos do Bloco s 15 para os fluoretos e hidróxidos. Como os íons divalentes possuem uma estrutura de gás inerte, sem elétrons desemparelhados, seus compostos são diamagnéticos e incolores, a menos que o radical ácido seja colorido. 1.2.3 Comportamento Anômalo do Berílio O berílio difere do resto do grupo, em parte porque é extremamente pequeno e, em parte, devido à sua comparativamente alta eletronegatividade. Assim, quando o berílio reage com outro átomo, a diferença em eletronegatividade é raramente grande e o berílio é predominantemente covalente em seus compostos. Seus sais são muito hidrolisáveis. Além disso, os sais de berílio nunca possuem mais do que quatro moléculas de água de cristalização, provavelmente porque existem somente quatro orbitais disponíveis na segunda camada de elétrons, enquanto que o magnésio pode ter um número de coordenação seis pelo uso de alguns dos orbitais 3d tão bem como o 3s e o 3p. 1.2.4 Propriedades Químicas Os metais são menos eletropositivos do que os do Grupo I, mas ainda regem com a água, formando hidrogênio e hidróxidos metálicos. O berílio não é típico e existem algumas dúvidas se reage com vapor d’água, formando o óxido BeO, ou se não consegue reagir totalmente. O magnésio decompõe a água quente e os outros metais regem com água fria. O hidróxido de berílio (Be(OH)2) é anfótero; os outros aumentam em força básica na ordem Mg para o Ba. As soluções de hidróxido de cálcio e hidróxido de bário são usadas como água de cal e de barita para detectar o dióxido de carbono. O excesso de CO2 produz bicarbonatos solúveis, eliminando a turbidez. Ca+2 + CO2 CaCO3 + H2O Ca+2(HCO3)2 -CO2 excesso de solúvelprecipitado branco insolúvel Estes bicarbonatos são somente estáveis em solução e sua decomposição em carbonatos é a razão da formação de estalactite e de estalamagnite. Todos os elementos deste grupo queimam em oxigênio dando óxidos iônicos MO (Tabela 5). Assim, todos os óxidos possuem uma estrutura tipo cloreto de sódio, exceto o berílio, que possui um arranjo do tipo sulfeto de zinco (wurtzita). A deficiência na previsão da relação de raios para o SrO e BaO mostra que a relação de raios não é o único fator envolvido. À medida que os átomos se tornam maiores, o potencial de ionização diminui e os elementos se tornam mais básicos. Assim, o óxido de berílio é insolúvel em água, mas dissolve-se em ácido, dando sais e em álcalis, dando beritatos, que deixados em repouso precipitamo hidróxido. Portanto é anfótero. O óxido de magnésio reage com água dando o hidróxido de magnésio Mg(OH)2, que é fracamente básico. O óxido de cálcio reage muito facilmente com água e o hidróxido de EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 16 cálcio (Ca(OH)2) é uma base moderadamente forte, enquanto que os hidróxidos de estrôncio e de bário são bases mais fortes. Os óxidos são geralmente preparados pela decomposição térmica de carbonatos, nitratos ou hidróxidos. O aumento da força básica é ilustrada pela temperatura na qual os compostos se decompõem; BeCO3 < 100ºC, MgCO3 < 540ºC, CaCO3 < 900ºC, SrCO3 < 1290ºC, BaCO3 < 1360ºC. O óxido de cálcio é preparado em grande escala, aquecendo-se o CaCO3 em fornos de cal, e é utilizado na preparação de Na2CO3, NaOH, CaC2, em pó de branquear, vidro e cimento. A facilidade com que os peróxidos se formam aumenta com o tamanho dos átomos. O peróxido de bário, BaO2, se forma na passagem de ar sobre o BaO à 500ºC. Em altas pressões e temperaturas pode-se formar o peróxido de estrôncio. O peróxido de cálcio não se forma deste modo, mas pode ser obtido com hidrato, aquecendo-se o hidróxido de cálcio com peróxido de hidrogênio e depois desidratando o produto. O peróxido de magnésio tem sido obtido utilizando-se peróxido de hidrogênio, mas não é conhecido o peróxido de berílio. Os peróxidos são sólidos iônicos brancos, formados por íons [O-O]-2 e podem ser considerados como sais do muito fraco ácido peróxido de hidrogênio. Quando tratados com ácido, forma-se o peróxido de hidrogênio. TABELA 5: Óxidos de elementos do Grupo II. Óxido Relação de raios M+2/O-2 Número de coordenação previsto Número de coordenação encontrado BeO 0,22 4 4 MgO 0,44 6 6 CaO 0,56 6 6 SrO 0,81 8 6 BaO 0,96 8 6 Todos os elementos, com exceção do berílio, formam hidretos, MH2, por combinação direta, tendo sido obtido o hidreto de berílio impuro pela redução do cloreto de berílio pelo hidreteo de alumínio e lítio Li[AlH4]. Todos eles são agentes redutores, que reagem com água e liberam hidrogênio, mas o hidreto de berílio e o de magnésio são, provavelmente, polímeros covalentes (estrutura em ponte), enquanto que o hidreto de cálcio, estrôncio e bário são iônicos (salinos). Todos os metais combinam-se diretamente com os halogênios numa temperatura apropriada, formando haletos MX2. Estes também podem ser formados pela ação do ácido halogenídrico sobre o metal, ou sobre o carbonato. Os haletos de berílio são covalentes, higroscópicos e fumegam ao ar devido à hidrólise. Os fluoretos MF2 são quase todos insolúveis. Os outros haletos metálicos são iônicos e facilmente solúveis em água. A solubilidade diminui um pouco com o aumento do número atômico, exceto entre os fluoretos. Os haletos são higroscópicos e formam hidratos. O CaCl2 é um agente Elementos do Bloco s 17 secante bem conhecido e o MgCl2 anidro é importante na extração eletrolítica do magnésio. Em contrate com os elementos do Grupo I, os elementos alcalinos terrosos queimam em atmosfera de nitrogênio, formando os nitretos M3N. O composto do berílio é bastante volátil; os outros não o são. Todos eles são sólidos cristalinos incolores que se decompõem pelo aquecimento e reagem com a água, libertando amônia, e formam o óxido metálico ou o hidróxido. Os carbetos iônicos MC2 formam-se quando aquecemos os metais Mg – Ba ou seus óxidos com o carbono. Todos eles possuem a estrutura do tipo do cloreto de sódio com o M+2 substituindo o Na+ e o CC-2 substituindo o Cl-. O carbeto de cálcio é o mais conhecido: reage com a água, libertando acetileno, e é também chamado de acetileto. CaC2 + 2H2O → Ca(OH)2 + C2H2 O berílio forma o Be2C com o C e BeC2 com o acetileno. O primeiro é um metileno que libera metano com água. O MgC2 por aquecimento forma o Mg2C3 que é um alileto, pois com água liberta alileno (metilacetileno). Todos os metais libertam hidrogênio dos ácidos, embora o berílio reaja lentamente. O hidróxido de sódio também libera hidrogênio, quando tratado com berílio, mas não afeta os outros metais. Este fato ilustra o aumento nas propriedades básicas do anfótero para o básico, descendo pelo grupo. A maioria dos sais é solúvel. Os sulfatos de cálcio, estrôncio e de bário são insolúveis. Este é um fator útil na análise qualitativa. 1.2.5 Extração dos Metais Os metais deste grupo, não são facilmente obtidos por redução química, pois são agentes redutores fortes e formam carbetos. São fortemente eletropositivos e desta forma as soluções aquosas não podem ser empregadas na substituição de um metal por outro, ou por eletrólise, devido à reação do metal com a água. Na eletrólise, pode ser utilizado um cátodo de mercúrio, mas é difícil a recuperação do metal do amálgama. Todos os metais podem ser obtidos na eletrólise do cloreto fundido, com adição de cloreto para abaixar o ponto de fusão, embora o estôncio e o bário tendam a formar uma suspensão coloidal. O berílio é, muitas vezes, extraído na forma de complexo, tetrafluorberilato de sódio, Na2[BeF4], que é transformado no hidróxido e depois no óxido. O mais antigo processo de extração do berílio do silicato não reativo, mineral berílio, envolve tratamento térmico ou fusão com álcali, seguido por tratamento com ácido sulfúrico, resultando BeSO4 solúvel. O berílio muito puro e o óxido de berílio têm sido utilizados em reatores nucleares, sendo o acetato básico obtido por destilação sob pressão reduzida e depois decomposto por aquecimento. O berílio é também usado em ligas. O magnésio é um metal estrutural importante. Forma muitas ligas e também os reagentes de Grignard, EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 18 como o C2H5MgBr. Foi inicialmente preparado, aquecendo-se o óxido de magnésio e carbono a 2000°C e resfriando rapidamente o gás para evitar um estado de equilíbrio: MgO + C ↔ Mg + CO Atualmente, é preparado comercialmente pelo processo Pidgeon por redução do óxido de magnésio com ferrossilício e aqlumínio. O estrôncio e o bário são obtidos a partir de seus óxidos pela redução com alumínio (aluminotermia). 1.3 PROBLEMAS (GRUPO I) 1. Por que os elementos do Grupo I são: a) monovalentes; b) essencialmente iônicos; c) agentes redutores fortes; d) agentes complexantes fracos; e) por que eles apresentam menores valores para a primeira energia de ionização nos respectivos períodos? 2. Por que os metais do Grupo I são moles, têm baixo ponto de fusão e baixa densidade? 3. O lítio é o menor íon do Grupo I. Seria de esperar para ele a maior mobilidade iônica e, portanto, soluções de sais de césio. Explique porque isso não ocorre. 4. Por que motivo o lítio tem maior tendência de formar compostos covalentes que os demais elementos do Grupo I? 5. O raio atômico do lítio é de 1,23 Å. Removendo-se o elétron mais externo, o raio do Li+ passa a ser 0,76 Å. Supondo que a diferença de raios se relaciona ao espaço ocupado pelo elétron 2s, calcule a porcentagem do volume do átomo de lítio que é ocupado pelo único elétron de valência. Essa suposição é razoável? (volume da esfera 4/3 πr3). 6. Por que, e de que maneira o lítio se assemelha ao magnésio? 7. Quais os produtos formados quando cada um dos metais do Grupo I é queimado em oxigênio? O que resulta da reação desses produtos com água? Utilize a teoria dos orbitais moleculares para descrever a estrutura dos óxidos formados pelo sódio e pelo potássio. 8. Explique as diferentes reatividades dos metais do Grupo I com água. 9. As energias de ionização dos elementos do Grupo I sugerem que o césio deve ser o mais reativo, mas os potenciais de eletrodo padrão sugerem que o lítio é o mais reativo. Explique esta observação, aparentemente antagônica. Elementos do Bloco s 19 10. Descreva um método de obtenção de hidreto de lítio. Represente com equações químicas duas propriedades importantes deste composto. O hidreto de lítio pode ser representado isoeletronicamentecomo Li+ e H-. Qual desses dois íons é maior? Explique. 11. Represente através de equações as reações entre sódio e: a) H2O, b) H2, c) Grafite, d) N2, e) O2, f) Cl2, g) Pb e h) NH3. 12. Os elementos do Grupo I formam geralmente compostos muito solúveis. Apresente e denomine compostos insolúveis ou pouco solúveis. Como esses elementos podem ser detectados e identificados através de análises qualitativas? 13. Descreva a cor e a natureza das soluções dos metais do Grupo I em amônia líquida. Dê uma equação que mostre como essas soluções sofrem processos de decomposição. 14. Qual dos seguintes métodos poderia ser utilizado para extinguir fogo provocado pelos metais lítio, sódio e potássio, quando reagem com as seguintes substâncias? a) água, b) nitrogênio, c) dióxido de carbono, Explique porque alguns desses métodos são inadequados para essa finalidade, e escreva as equações que representam cada um dos processos envolvidos. 15. Os quatro métodos gerais de obtenção de metais são: decomposição térmica, deslocamento de um elemento por outro, redução química e redução eletrolítica. Como podem ser obtidos os metais do Grupo I, e por que os demais métodos não são adequados? 16. 0,347 g de um metal (A) foram dissolvidos em HNO3 diluído. Essa solução apresentou uma coloração vermelha numa chama não luminosa de um bico de Bunsen, e por evaporação formou 0,747 g do óxido do metal (B). (A) também reage com nitrogênio, formando um composto (C), e com hidrogênio, formando (D). A reação de 0,1590 g de (D) com água libera um gás (E) e um composto pouco solúvel (F), que apresentou EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 20 sensibilidade a uma reação fortemente básica e consumiu 200 mL de HCl 0,1000 M para sua determinação. Identifique as substâncias de (A) até (F) e explique os processos químicos envolvidos. 1.4 PROBLEMAS (GRUPO II) 1. Por que os elementos do Grupo II são menores do que seus correspondentes presentes no Grupo I? 2. Por que motivo os compostos de Be são mais covalentes do que os compostos dos demais elementos do Grupo II? 3. Por que os metais do Grupo II são mais duros, e por que apresentam pontos de fusão mais elevados que os metais do Grupo I? 4. Qual a estrutura do BeCl2 no estado gasoso? E no estado sólido? Por que o BeCl2 é ácido quando dissolvido em H2O? 5. Descrever as diferenças entre as estruturas do BeH2 e do CaH2. 6. Por que os haletos e os hidretos do Be sofrem polimerização? 7. Que precauções são necessárias durante o manuseio de compostos de Be? 8. Quais são os números de coordenação mais comuns para os íons Be2+ e Mg2+? Qual o motivo desta diferença? 9. Compare o grau de hidratação dos haletos do Grupo I e II. Por quê os sais de berílio raramente contêm mais que quatro moléculas de água de cristalização? 10. Apresente as equações que representam as reações entre o Ca e: a) H2O, b) H2, c) C, d) N2, e) O2, f) Cl2 e g) NH3. 11. Compare as reações dos metais do Grupo I e do Grupo II com água. Como a força básica dos hidróxidos do Grupo II varia dentro do Grupo? Essa tendência é típica do restante da tabela periódica? 12. A “dureza” da água pode ser “temporária” ou “permanente”. a) Quais as causas de cada uma destas condições como a dureza pode ser eliminada em cada um dos casos? 13. Os íons dos metais alcalinos-terrosos formam complexos? Os elementos do Grupo II formam complexos com mais ou menos facilidade que os do Grupo I? Qual o motivo Elementos do Bloco s 21 da diferença? Qual dos íons metálicos do Grupo II forma complexos com maior facilidade? Quais são os melhores agentes complexantes? Cite um complexo de um elemento do Grupo II que tenha importância biológica. 14. Esquematize a preparação, propriedades, estrutura e usos do acetato básico de berílio. 15. Em que condições os íons dos metais do Grupo II formam complexos estáveis com EDTA? Como a quantidade de íons Mg2+ e Ca2+ presentes numa amostra de água pode ser determinada por reação com EDTA?. Os complexos de EDTA são mais ou menos estáveis que aqueles da maioria dos outros íons metálicos? Por que a titulação é efetuada em pH elevado? Qual o indicador usado? 16. Um elemento (A) reage moderadamente quando tratado com água, liberando um gás inodoro e incolor (B), e uma solução (C). O lítio reage com (B) formando um produto sólido (D), que com água mostra efervescência formando uma solução fortemente básica (F). Borbulhando gás carbônico através da solução (C), observa-se a formação inicial de um precipitado branco (G), que forma uma solução (H), juntamente com moléculas de CO2. O Precipitado (G) apresenta efervescência quando tratado com HCl concentrado, e dá uma coloração vermelha intensa na chama do bico de Bunsen. Quando (G) é aquecido com C a 1.000 °C dá um composto sólido (J) de certa importância comercial. Identifique as substâncias de (A) a (J) e escreva a equação balanceada para cada uma das reações. 2 ELEMENTOS DO BLOCO p 2.1 GRUPO III TABELA 6: Símbolos e estruturas eletrônicas de elementos do Grupo III. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Estado de Oxidação Boro B [He] 2s22p1 3 Alumínio Al [Ne] 3s23p1 (1) 3 Gálio Ga [Ar} 3d104s24p1 1 3 Índio In [Kr] 4d105s25p1 1 3 Tálio Tl [Xe] 4f145d106s26p1 1 3 2.1.1 Propriedades Gerais O boro é um não-metal, mas os outros elementos deste grupo (Tabela 7) são positivamente metais reativos. O alumínio é o terceiro elemento mais abundante da crosta terrestre e é o metal mais abundante, mas os outros elementos são muito menos comuns. Todos os elementos apresentam um estado de oxidação igual a +3. A pequena dimensão dos íons, suas altas cargas e o valor elevado da soma dos três primeiros potenciais de ionização sugerem que os elementos são muito covalentes. O boro é sempre covalente e muitos compostos simples como AlCl3 e GaCl3 são covalentes quando anidros. Entretanto, em solução, a grande quantidade de energia de hidratação envolvida compensa o elevado potencial de ionização e todos os íons metálicos existem no estado hidratado. Elementos do Bloco p 23 TABELA 7: Parâmetros atômicos de elementos do Grupo III. Símbolo Raio Iônico M+3 (Å) Soma dos três primeiros potenciais Ionização M →→→→ M+3 (eV) Eletronega- tividade Abundância crosta ppm B 0,20 70,1 2,0 3 Al 0,52 53,0 1,5 81300 Ga 0,60 57,0 1,6 15 In 0,81 52,5 1,7 0,1 Tl 0,95 56,1 1,8 ~2 Ao contrário dos elementos do bloco s, alguns dos elementos deste grupo apresentam estados de valência menores, além da valência do grupo. Os elementos mais pesados apresentam um aumento da tendência para formar compostos univalentes e, de fato, os compostos univalentes do tálio (talioso) são os mais estáveis. A monovalência é explicada pelos elétrons s emparelhados da última camada, que não participam de ligações, pois a energia para os desemparelhar é muito grande. Este fato ocorre, particularmente, entre os elementos pesados do bloco p e é chamado de efeito do par inerte. O gálio é aparentemente divalente em uns poucos compostos, como o GaCl2, mas cuja estrutura mostra ser Ga+[GaCl4] -, que contém Ga(+1) e Ga(+3). O boro amorfo finamente dividido é geralmente impuro e queima ao ar formando o óxido e o nitreto e, em atmosfera de halogênios, formando os trialetos. Reduz os ácidos nítrico e sulfúrico e liberta hidrogênio com o hidróxido de sódio. O boro cristalino puro, em contraste, não é reativo, exceto em temperaturas muito elevadas ou por aquecimento com reagentes, como o ácido sulfúrico concentrado ou peróxido de sódio. Os metais Al, Ga, In e Tl são branco-prateados. O alumínio é estável ao ar, devido ao desenvolvimento de um filme de óxido que protege o metal de ataques posteriores. Quando o óxido que recobre o metal é removido e não confere proteção ao metal, por exemplo, por amalgamação com mercúrio, o metal é rapidamente oxidadoe decompõe a água fria. O gálio e o índio são estáveis ao ar e não são atacados pela água, exceto na presença de oxigênio livre. O tálio é um pouco mais reativo e sofre oxidação superficial ao ar. 2.1.2 Caráter Eletropositivo A natureza eletropositiva dos elementos aumenta do boro para o alumínio e depois diminui do alumínio para o tálio. O aumento em eletropositividade do B para o Al é a tendência geral associada com o aumento de dimensão. Entretanto, B e Al seguem imediatamente após os elementos do bloco s, enquanto que o Ga, In e Tl seguem após o bloco d. Estes elétrons d extras não protegem a carga nuclear muito efetivamente, tanto que os elétrons orbitais são mais firmemente atraídos pelo núcleo e os metais são menos EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 24 eletropositivos. Este fato é ilustrado pelo aumento de potencial de ionização entre o Al e Ga, quando seria de se esperar que o átomo maior tivesse um valor menor. 2.1.3 Extração dos Elementos O boro é obtido pela redução do B2O3 com magnésio ou sódio, ou utlizando-se um filamento de tungstênio na redução do BCl3 pelo hidrogênio. O boro muito puro é obtido pelo método de Van Arkel (pirólise do BH3) e é utilizado para aumentar a facilidade de têmpera dos aços (profundidade até a qual os aços são temperados),. O ácido bórico e o boro possuem grande emprego. O alumínio é obtido do minério bauxita (Al2O3). Adiciona- se hidróxido de sódio ao minério, formando-se aluminato de sódio que se dissolve no hidróxido de sódio, separando-se, desta forma, o Al do óxido de ferro. O hidróxido de alumínio é reprecipitado pelo CO2 e calcinado a Al2O3, fundido com criotila Na3AlF6 e eletrolisado. O alumínio é produzido em grande escala e é muito utilizado em ligas, pinturas, fogos de artifícios e utensílios de cozinha. O gálio, o índio e o tálio ocorrem somente em quantidades pequenas e são, geralmente, obtidos na eletrólise de soluções aquosas de seus sais. A grande diferença entre o boro (não-metal, sempre covalente, ácido, alto ponto de fusão) e o alumínio era de se prever, pois o Al+3 é 2,5 vezes maior do que o B+3. 2.1.4 Complexos Os elementos do Grupo III formam complexos mais facilmente do que os elementos do bloco s, devido às suas dimensões menores e ao aumento de carga. Além do hidreto tetraédrico e do haleto complexo Li[AlH4] e H[BF4], já mencionados, são conhecidos muitos complexos octaédricos como o [GaCl6] -3, [InCl6] -3 e [TlCl6] -3. Os complexos octaédricos mais importantes são os que contêm grupos quelatos, por exemplo, acetilacetona, oxalatos e 8-hidroxiquinoleína. O último complexo é comumente utilizado na determinação gravimétrica do alumínio. 2.2 GRUPO IV TABELA 8: Símbolos e estruturas eletrônicas de elementos do Grupo IV. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Estado de Oxidação Carbono C [He] 2s22p2 (2) 4 Silício Si [Ne] 3s23p2 (2) 4 Germânio Ge [Ar] 3d104s24p2 2 4 Estanho Sn [Kr] 4d105s25p2 2 4 Chumbo Pb [Xe] 4f145d106s26p2 2 4 Elementos do Bloco p 25 2.2.1 Propriedades Gerais Todos os elementos são tetravalentes. Os potenciais de ionização são muito elevados e a existência de íons +4 é improvável. Os valores da eletronegatividade não diminuem de forma completamente regular no grupo (C = 2,5, Si = 1,8, Ge = 1,8, Sn = 1,8 e Pb = 1,8), possivelmente, devido ao preenchimento dos orbitais d e, por último, dos orbitais f. Os valores de eletronegatividade são baixos e os íons –4 normalmente não existem, embora o carbono forme íons C2 -2 nos carbetos salinos com metais eletropositivos, como no Ca+2C-2. Todos os elementos mostram uma covalência de quatro, o que necessita de uma promoção de elétrons do estado fundamental para um estado excitado e da hibridação sp3 dos orbitais resulta uma estrutura tetraédrica. Estrutura eletrônica do átomo de Carbono – Estado normal 1s 2s 2p (dois elétrons desemparelhados que podem formar duas ligações covalentes) Átomos de Carbono – estado excitado 2p2s1s (quatro elétrons desemparelhados que formam quatro ligações e da hibridação sp3 resulta numa estrutura tetraédrica) 2.2.2 Caráter Metálico e Não-Metálico A passagem de não-metal a metal, devido ao aumento de número atômico, está bem ilustrada no Grupo IV, onde o carbono e o silício são não-metais, o germânio possui algumas propriedades metálicas e o estanho e o chumbo são metais. 2.2.3 Diferenças Entre Carbono, Silício e os Outros Elementos Em geral, o primeiro elemento de um grupo difere do resto do grupo, devido à sua menor dimensão, alta eletronegatividade e a não disponibilidade dos orbitais d. O carbono difere dos outros elementos em suas limitações pelo número de coordenação quatro (pois não existem orbitais d na segunda camada), em sua capacidade única de formar ligações múltiplas, como C=C, C≅C, C=O, C=S e C≅N e em sua facilidade de formar cadeias (catenação). A tendência para catenação está relacionada com a força da ligação (Tabela 9). EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 26 TABELA 9: Energias de ligações entre elementos do Grupo IV. Ligação Energia de ligação Kcal/mol Observações C-C 83 Forma muitas cadeias Si-Si 53 Forma poucas cadeias Ge-Ge 40 Tendência muito pequena para formar cadeias O carbono e o silício possuem somente elétrons s e p, mas os outros elementos seguem um série completa de transição com dez elétrons d. Assim, é de se esperar algumas diferenças e o carbono e o silício diferem um do outro e do restante do grupo, enquanto que o germânio, estanho e chumbo formam uma série separada. 2.2.4 Efeito do par inerte O efeito do par inerte intensifica-se nos elementos mais pesados do grupo. Existe uma diminuição na estabilidade do estado de oxidação +4 e um aumento de estabilidade do estado +2, quando descemos pelo grupo. Assim, Ge(+2) é um forte agente redutor e Ge(+4) é estável. O Sn(+2) existe como íons simples, mas é redutor enérgico e Sn(+4) é covalente. O Pb(+2) é iônico, estável e mais comum do que o Pb(+4) que é oxidante. As menores valências são mais iônicas, pois os raios do M+2 são maiores do que M+4 e, de acordo com as regras de Fajans, o íon menor possui maior tendência para a covalência. 2.3 GRUPO V TABELA 10: Símbolos e estruturas eletrônicas dos elementos do Grupo V. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Estado de Oxidação Nitrogênio N [He] 2s22p3 1, 2, 3, 4, 5 Fósforo P [Ne] 3s23p3 3, (4), 5 Arsênio As [Ar} 3d104s24p3 3, 5 Antimônio Sb [Kr] 4d105s25p3 3, 5 Bismuto Bi [Xe] 4f145d106s26p3 3, 5 2.3.1 Estrutura Eletrônica e Estados de Oxidação Todos os elementos deste grupo possuem cinco elétrons em sua camada eletrônica mais externa. Apresentam um estado de oxidação máximo de cinco em relação ao Elementos do Bloco p 27 oxigênio, quando utilizam todos os cinco elétrons externos na formação de ligações. A tendência de par de elétrons s permanecer inerte (efeito do par inerte) aumenta com o aumento do peso atômico. Assim, somente os elétrons p são utilizados na ligação, resultando a trivalência. Valências iguais a 3 e 5 são mostradas com os halogênios e com o enxofre e os hidretos são trivalentes. No caso do nitrogênio, existe um intervalo muito amplo de estados de oxidação, de +1 no N2O até +5 no HNO3 e no N2O5. 2.3.2 Tipo de Ligação Potenciais de ionização elevados impedem a formação de íons altamente carregados. Exceto com o F, a diferença em eletronegatividade não é suficiente para permitir uma ligação iônica, embora em alguns casos o Sb e o Bi percam elétrons e formem o íon M+3; estes íons, entretanto, na água , são rapidamente hidrolisados a SbO+ e BiO+. A tendência para ganhar três elétrons e dar M+3 ocorre somente como o N. Na maioria dos casos, as ligações são covalentes e esta tendência aumenta com o aumento do número de oxidação. 2.3.3 Caráter Metálico e Não-Metálico Dentro do grupo existe um aumento do caráter eletropositivo (metálico). O N e o P sãonão metais, o As e o Sn são metalóides que apresentam muitas propriedades metálicas e o Bi é um metal verdadeiro. Portanto, os óxidos do N e do P são fortemente ácidos, enquanto que o As e o Sb são anfóteros e o Bi é fortemente básico. 2.3.4 Diferenças entre N e os outros Elementos Como no grupo anterior, o primeiro elemento difere dos restantes. Assim, o nitrogênio é gasoso e diatômico. Isto envolve nitrogênio triplamente ligado, que neste caso, é muito estável. Os outros elementos são sólidos e possuem formas alotrópicas, incluindo formas tetraatômicas, como o P4 e o As4, e arranjos mais complicados, como o fósforo vermelho e o negro (Figura 1). FIGURA 1: Arranjo dos átomos nos planos ondulados encontrados no fósforo preto cristalino. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 28 Exceto o NF3, os haletos do nitrogênio são instáveis e, muitas vezes, explodem, embora os haletos dos outros elementos sejam estáveis. Muitos óxidos e íons oxigenados, como o N2O3, N2O5, NO2 +, NO3 -, são monoméricos, embora os trióxidos e pentóxidos dos outros elementos sejam dímeros. Como a segunda camada de elétrons está limitada a um octeto, o N não pode formar complexos por recepção de pares de elétrons. Os elementos seguintes possuem orbitais d vazios adequados e podem formar complexos, aumentando, desta forma, seu número de coordenação máximo para seis. Além disto, o N forma óxidos (N2O, NO e N2O4) que não possuem correspondentes nos outros elementos. 2.3.5 Ocorrência e Extração O nitrogênio compreende 78% da atmosfera terrestre; é importante constituinte essencial das proteínas e é, também, utilizado em fertilizantes e explosivos. É obtido comercialmente pela destilação fracionada do ar líquido, mas, quando obtido desta forma, contém traços de oxigênio. O nitrogênio obtido pela remoção de outros componentes do ar contém traços dos gases inertes. No laboratório é obtido pelo aquecimento do nitrito de amônio ou pela oxidação da amônia pelo hipoclorito. NH4Cl + NaNO2 → NaCl + NH4NO2 → N2 + 2H2O 4NH3 + 3Ca(OCl)2 → 3CaCl2 + 6H2O + 2N2 O nitrogênio muito puro é obtido pelo aquecimento cuidadoso do nitreto de sódio, NaN3. O fósforo é o décimo elemento mais abundante da crosta terrestre e é importante no metabolismo biológico, pois ocorre nos ácidos nucléicos, em ossos, como Ca3(PO4)2, e em fertilizantes;possui também uma série de outros usos. É obtido pela redução do fosfato de cálcio num forno elétrico. O arsênio, o antimônio e o bismuto não são muito abundantes, mas são bastante conhecidos, pois são obtidos como subprodutos metalúrgicos, e são facilmente extraídos por redução de seus óxidos pelo carbono. 2.4 GRUPO VI TABELA 11: Símbolos e estruturas eletrônicas dos elementos do Grupo VI. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Estado de Oxidação Oxigênio O [He] 2s22p4 2 Enxofre S [Ne] 3s23p4 2, 4, 6 Selênio Se [Ar} 3d104s24p4 2, 4, 6 Telúrio Te [Kr] 4d105s25p4 2, 4, 6 Polônio Por [Xe] 4f145d106s26p4 2, 4, 6 Elementos do Bloco p 29 2.4.1 Estrutura Eletrônica e Estados de Oxidação Todos os elementos possuem a estrutura eletrônica s2p4 e tendem a alcançar uma configuração de gás inerte, ganhando ou compartilhando dois elétrons. A eletronegatividade do oxigênio sugere que a maioria dos óxidos metálicos são iônicos e contêm o íon O-2, dando, assim, um estado de oxidação –2. Até mesmo com os elementos mais eletropositivos, o S, Se e Te formam poucos compostos que são mais do que 50% iônicos, pois são menos prováveis os íons S-2, Se-2 e Te-2 (Tabela 12). TABELA 12: Eletronegatividade dos elementos do Grupo VI. Símbolo Eletronegatividade O 3,5 S 2,5 Se 2,4 Te 2,1 Os elementos também formam compostos contendo ligações (covalentes) de dois pares de elétrons, tais como, H2O, Cl2O, H2S, SCl2. Nas moléculas onde o átomo calcogênio é o menos eletronegativo, ele apresenta um estado de oxidação +2. O oxigênio nunca é mais do que divalente, pois a segunda camada está limitada a oito elétrons e requer muita energia para excitar um elétron para a camada superior. Entretanto, os elementos S, Se, Te e Po possuem orbitais d disponíveis para ligações e podem formar quatro a seis ligações por desemparelhamento de elétrons. Os compostos do S, Se e Te com oxigênio são tipicamente tetravalentes, mas o flúor conduz ao estado de máxima oxidação +6. Os estados de oxidação maiores tornam-se menos estáveis ao descermos pelo grupo. O estado +4 apresenta propriedades oxidantes e redutoras, mas no estado +6 os compostos são somente oxidantes. Estes compostos são tipicamente voláteis, pois são covalentes. Estado normal s p d Estado excitado dps Estado mais excitado s p d EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 30 2.4.2 Caráter Metálico e Não-Metálico Os quatro primeiros elementos possuem caráter não-metálico e são coletivamente chamados de calcogênios ou elementos formadores de minérios, pois muitos minérios metálicos são óxidos ou sulfetos. O caráter não-metálico é mais forte no O e S, mais fraco no Se e Te, enquanto que o Po, que é radioativo e tem vida curta, é marcantemente metálico. 2.4.3 Diferença entre O e os outros Elementos O oxigênio difere dos outros elementos do grupo por ser mais eletronegativo e, portanto, mais iônico em seus compostos. A ligação hidrogênio é muito importante nos compostos do oxigênio, mas, só recentemente, foi provada a existência de fracas ligações hidrogênio envolvendo o S. Outras diferenças, tais como a ausência de estados de oxidação maiores e a limitação ao número de oxidação em quatro, são conseqüências da limitação da segunda camada de oito elétrons, enquanto que os outros elementos podem ter número de coordenação seis, utilizando os orbitais d. 2.4.4 Usos dos Elementos Praticamente todos os elementos, exceto os gases inertes, reagem com o oxigênio, sendo as reações, em geral, fortemente exotérmicas. O oxigênio é essencial na respiração e, portanto, para a vida. O S, Se e Te são moderadamente reativos e queimam ao ar formando dióxidos. Combinam-se com muitos metais e não-metais, mas não são atacados pelos ácidos, exceto aqueles que são agentes oxidantes. Este fato está de acordo com seu caráter não-metálico. O polônio se dissolve em H2SO4, HF, HCl e HNO3, o que é uma nova evidência do aumento do caráter metálico. O enxofre e o selênio podem desidrogenar os hidrocarbonetos saturados. O enxofre reage com as olefinas e forma ligações cruzadas que são importantes na vulcanização da borracha. O enxofre é também utilizado em grandes quantidades na fabricação de H2SO4 e outros usos incluem os fungicidas e a pólvora. 2.4.5 Ocorrência e Extração O oxigênio, o mais abundante de todos os elementos, ocorre na forma livre e constitui 20,9% em volume da atmosfera. Como minério, constitui cerca de 46,6% da crosta terrestre e, como água, constitui 89% dos oceanos. O enxofre, que ocorre nos sulfetos e sulfatos e naturalmente como um elemento, constitui 0,05% da crosta terrestre. Os outros elementos são muitos raros. O oxigênio é produzido ou por eletrólise da água, contendo traços de ácido sulfúrico, ou pela destilação fracionada do ar líquido. É preparado no laboratório pela decomposição térmica de agentes oxidantes, tais como, o KClO4 (com MnO2 como catalisador), KMnO4, PbO2, HgO, H2O2 ou nitratos. Elementos do Bloco p 31 Depósitos de enxofre são encontrados em Sicily e Louisiana, USA. O enxofre elementar é obtido como subproduto do gás de carvão e o dióxido de enxofre é obtido como subproduto na extração de metais dos minerais sulfetos. O selênio e o telúrio ocorrem em mistura com os minerais sulfetos e são obtidos, na forma concentrada, a partir da lama anódica do eletrorrefino do cobre e das cinzas produzidas na ustulação do FeS2. 2.4.6 Polimorfismo Todos os elementos ocorrem em mais de uma forma alotrópica: isto é, eles são polimórficos. O oxigênio ocorre em duas formas não-metálicas, O2e ozona, O3. O enxofre possui duas formas cristalinas comuns, α ou rômbico, que é estável à temperatura ambiente, e β ou monoclínico, que é estável acima de 95,5ºC. Uma terceira modificação, conhecida como enxofre Engel, é instável e é obtida vertendo-se solução de Na2S2O3 em HCl e extraindo com tolueno. O enxofre plástico ou amorfo é obtido vertendo-se enxofre líquido em água. Todas essas formas são não-metálicas. O selênio ocorre em forma não- metálica vermelha e em forma metálica cinza; e no caso do telúrio, a forma metálica é mais estável do que a não-metálica. O polônio ocorre nas formas metálicas α e β. Portanto existe um aumento no caráter metálico dentro do grupo. 2.4.7 Propriedades Gerais dos Óxidos Os óxidos podem ser classificados de acordo com a estrutura geométrica em: 1. Óxidos Normais. Nestes, o número de oxidação de M pode ser deduzido da fórmula empírica MxOy, admitindo-se que o oxigênio é divalente e que tem número de oxidação –2. Estes óxidos, por exemplo, H2O, MgO e Al2O3, possuem somente ligações M-O 2. Peróxidos. Estes óxidos contêm mais oxigênio do que seria de se esperar, a partir do número de oxidação de M. Possuem ligações O-O além das ligações M-O, por exemplo, H2O2, (H-O-O-H) e BaO2. Os superóxidos também contêm mais oxigênio do que o esperado. 3. Subóxidos. Nestes, a fórmula contém menos oxigênio do que seria de se esperar do número de oxidação de M. Temos ligações M-M, além das ligações M-O, por exemplo, O=C=C=C=O. Sem levar em conta a estrutura, óxidos podem ser classificados de forma diferente, dependendo de suas propriedades ácido/base. Os óxidos são, geralmente, classificados como ácido, básico, anfótero ou neutro, dependendo da natureza dos produtos formados quando reagem com a água. Assim, os óxidos metálicos são, geralmente básicos e os óxidos de não-metais, usualmente, são ácidos. Na2O + H2O → 2NaOH EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 32 SO3 + H2O → H2SO4 Mais importante do que a reação de um óxido com a água são suas inter-relações e as reações com outros óxidos. Ordenando os óxidos em série, desde o mais básico até o mais ácido, quanto mais afastados estiverem dois óxidos nesta série, mais estável será o composto formado quando eles reagirem entre si. Este fato pode ser verificado em base quantitativa, considerando-se a variação da energia livre normal. Energia livre normal Na2O(s) + -90 H2O(l) → -56 2NaOH(s) 2(-90) ∆G = -34gcal/mol Energia livre normal CaO(s) + -144 H2O(l) → -56 Ca(OH)2(s) -214 ∆G = -14gcal/mol Energia livre normal Al2O3(s) + -376 H2O(l) → -56 2Al2(OH)3(s) 2(-272) ∆G = 0 Pelos valores de ∆G, o Na2O é o mais básico e o Al2O3, o menos básico. Considerando os valores da energia livre dos hidróxidos, temos que o NaOH, quimicamente, é mais reativo e o Al(OH)3 é o mais estável. Este fato também é verdadeiro para as seguintes reações: Energia livre normal CaO(s) + -144 CO2(l) → -94 CaCO3(s) -270 ∆G = -32 kgcal/mol Energia livre normal CaO(s) + -144 N2O5(g) → +32 Ca(NO)3(s) -177 ∆G = -65 kgcal/mol Energia livre normal CaO(s) + -144 SO3(g) → -88 CaSO4(s) -315 ∆G = -83 kgcal/mol Pelos valores de ∆G, temos que o SO3 é o óxido mais fortemente ácido, N2O5 é o seguinte em força e o CO2 é o mais fraco. Considerando os valores da energia dos sais formados, Ca(NO3)2 é o menos estável e o mais reativo, enquanto que o CaSO4 é o mais estável e o menos reativo. A ordem de força ácida dos ácidos pode ser obtida como segue: K2O, CaO, MgO, CuO, H2O, SiO2, CO2, N2O, SO3 ←mais básico mais ácido → É possível prever os produtos de uma reação. Quando o CaO é adicionado à mistura de H2O e SO3 (H2SO4) forma-se o CaO.SO3 (CaSO4) mais estável, isto é: H2SO4 + CaO → CaSO4 + H2O Elementos do Bloco p 33 mas CuSO4 + CaO → não reagem Embora os dados termodinâmicos e a força de acidez estejam, evidentemente, relacionados e seja possível prever os produtos de uma reação, não é possível prever a velocidade de uma reação. Assim, a reação: CaO + SiO2 → CaSiO3 é extremamente lenta na temperatura ambiente, ainda que seja mais rápida num autoforno. Muito da química inorgânica consiste em memorizar quais compostos reagem entre si e comparar as diferentes solubilidades dos hidróxidos, silicatos, carbonatos, nitratos, sulfatos, etc. O uso de uma série dada acima, minimiza este trabalho de memória. 2.5 GRUPO VII – OS HALOGÊNIOS TABELA 13: Símbolos e estruturas eletrônicas dos elementos do Grupo VII. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Estado de Oxidação Flúor F [He] 2s22p5 -1 Cloro Cl [Ne] 3s23p5 -1, +1,+3, +4, +5, +6, +7 Bromo Br [Ar} 3d104s24p5 -1, +1,+3, +4, +5, +6 Iodo I [Kr] 4d105s25p5 -1, +1,+3, +5, +6, +7 Astato At [Xe] 4f145d106s26p5 --- 2.5.1 Estrutura Eletrônica e Estados de Oxidação Os halogênios apresentam muitas semelhanças de grupo. Todos os elementos possuem sete elétrons em sua camada mais externa e ganham um elétron, formando uma ligação iônica (dando X - ) ou formando uma ligação covalente, de forma a completar seu octeto. O flúor é sempre univalente. Como é o elemento mais eletronegativo, sempre apresenta número de oxidação –1. Para os outros elementos são possíveis os números de oxidação de +1, +3, +5 e +7. Os estados de valência superiores são atingidos pelo uso dos orbitais d e são encontrados nos inter-halogênios e nos óxidos halogenados. Os estados de oxidação +4 e +6 ocorrem nos óxidos e nos oxiácidos. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 34 2.5.2 Propriedades Gerais Os pontos de fusão e de ebulição dos elementos aumenta com o aumento do número atômico. O flúor e o cloro são gasosos, o bromo é líquido e o iodo é sólido. Todos os elementos formam moléculas diatômicas. A energia de ligação na molécula do flúor é muito baixa, cerca de 38 kcal/mol. Este fato é devido à repulsão entre os elétrons não ligantes. No Cl2, Br2 e no I2 existe a possibilidade de ligação múltipla envolvendo os orbitais d. Isto explica o aumento da energia de ligação do Cl2, Br2 e do I2. Os potenciais de ionização dos halogênios são todos muito elevados, o que indica que existe pequena tendência de perder elétrons. O valor para o F- é mais elevado, pois os elétrons são fortemente atraídos num átomo pequeno e o potencial do I é o menor, pois o I possui átomo grande (Tabela 14). As moléculas dos halogênios são coloridas, devido à absorção de luz visível, que resulta na excitação de elétrons externos para níveis de energia superiores. As energias de excitação seguem a mesma tendência dos potenciais de ionização, isto é, a excitação do átomo pequeno de F requer uma grande quantidade de energia e a excitação de um átomo grande de I requer menos energia. O F absorve luz violeta (alta energia) e aparece, portanto, amarelo, enquanto que o I absorve luz amarela (baixa energia) e aparece violeta. 2.5.3 Poder Oxidante A eletroafinidade, ou tendência dos átomos de ganhar elétrons, atinge um máximo para o cloro. A oxidação pode ser considerada como a remoção de elétrons, tanto que um agente oxidante ganha elétrons. Portanto, os halogênios atuam como agentes oxidantes, isto é, seu potencial de oxidação depende de diversos termos energéticos e é melhor representado por um ciclo tipo Haber-Born. 1/2 X2 (sólido) (líquido)X21/2 (gás)X21/2 X (gás) (gás)X --X (hidratado) 1/2 c. de fusão 1/2 c. de evaporação 1/2 calor de dissociação calor de hidratação eletroafinidadepotencial de oxidação Para o flúor e cloro, que são gasosos à temperatura ambiente, são omitidos os calores de fusão e evaporação e seus potenciais de oxidação dependem somente da soma do calor de dissociação, eletroafinidade e calor de hidratação. (Os calores de fusão, evaporação e dissociação são positivos, pois a energia deve ser fornecida, e o fator 23,06 transforma eV em kcal). Desta forma, apesar da eletroafinidade docloro ser a mais elevada (Tabela 14), o F- é o agente oxidante mais forte, devido ao seu baixo calor de dissociação e alto calor de hidratação. O F é um agente oxidante, o gás cloro pode substituir o Br- das soluções e este fato é utilizado na preparação de bromo. Em geral, Elementos do Bloco p 35 qualquer halogênio de menor número atômico oxidará os íons-haletos de maior número atômico. TABELA 14: Propriedades físico-químicas de moléculas diatômicas de halogênios. ½ calor de fusão ½ calor de sublimação ½ calor de dissociação Eletro- afinidade Calor de hidratação Total Kcal F2 --- --- +38/2 -3,62 x 23,06 - 122 - 186,5 Cl2 --- --- +58/2 -3,79 x 23,06 - 89 - 147,4 Br2 --- +7,4/2 +46/2 -3,56 x 23,06 - 81 - 136,4 I2 +3, 6/2 10,4/2 +36/2 -3,28 x 23,06 - 72 - 122,6 A diminuição do poder oxidante ao descermos pelo Grupo VIII é ilustrada pela reação dos halogênios com a água. O flúor é um agente oxidante tão forte, que a água é oxidada a oxigênio. A grande variação negativa da energia livre indica uma reação exotérmica e espontânea. F2 + H2O → 2H + + 2F- + ½ O2 ∆G = -190 kgcal/mol A oxidação da água pelo cloro é termodinamicamente possível, mas como a energia de ativação é elevada, esta reação não ocorre. De fato, ocorre outra reação: Cl2 + H2O → HCl + HOCl O iodo é um agente oxidante muito fraco e a variação de energia livre indica que devemos fornecer energia para que ocorra a oxidação da água. I2 + H2O Ö 2H + + 2I- + ½ O2 ∆G = +25 kgcal/mol De fato, ocorre a reação inversa e o oxigênio pode oxidar os íons-iodetos a iodo. 2.5.4 Reatividade dos Elementos Todos os halogênios reagem com os metais e também com muitos não-metais. O flúor é o mais reativo e a reatividade diminui com o aumento do número atômico. O flúor e o cloro, frequentemente, oxidam os elementos mais do que o bromo e o iodo, desta forma ressaltando as valências superiores, por exemplo, PBr3, PCl5, S2Br2, SCl2 e SF6. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 36 A grande reatividade do flúor é devida à pequena energia de ligação F-F, ao poder oxidante extremamente elevado, ao pequeno tamanho dos átomos ou dos íons e alta eletronegatividade. A pequena dimensão dos íons origina um alto número de coordenação e, portanto, numa energia reticular elevada do cristal. Da alta eletronegatividade resulta a formação de ligações muito fortes com a maioria dos outros elementos. 2.5.5 Separação dos Elementos A principal fonte do flúor é o mineral fluorita, CaF2. Este é tratado com ácido sulfúrico concentrado e destila-se a seguir, obtendo-se uma solução aquosa e HF anidro. O flúor é, então, obtido, eletrolisando-se uma mistura de KHF2 e HF a 100°C. A água deve ser rigorosamente eliminada, pois senão será oxidada pelo flúor a oxigênio. O hidrogênio formado no cátodo é impedido por um diafragma de se misturar com o flúor libertado no ânodo, pois estes dois elementos reagem entre si violentamente. Devido à reatividade do flúor, a aparelhagem foi originalmente construída de platina. Esta mostrou-se desnecessária, pois o cobre ou o metal Monel (liga Cu/Ni) são protegidos de ataques futuros por uma película de fluoreto, que se forma após um pequeno tempo. Os cátodos são de aço, os ânodos de carbono e é utilizado teflon para a isolação elétrica. Os ânodos de grafita foram originalmente utilizados, mas são atacados pelo flúor, formando o composto lamelar CF. Este composto força a separação das camadas de grafita, aumentando a resistência elétrica, resultando ser necessário um aumento de corrente, produzindo-se mais calor e, eventualmente, uma explosão. Para prevenir esta ocorrência, é utilizado como ânodo o coque impregnado de cobre. A produção de flúor tornou-se importante, quando foi descoberto que os isótopos de urânio podiam ser separados pela difusão gasosa do UF6. Devido à ligação F-F ser muito fraca e o átomo de flúor ser um agente oxidante altamente exotérmico, o flúor pode ser utilizado como combustível de foguete. O cloro é produzido pela eletrólise de soluções aquosas de cloretos ou cloretos fundidos. É um subproduto da fabricação do NaOH e do sódio metálico. 2NaCl + 2H2O → 2NaOH + Cl2 + 2H2 2NaCl → 2Na + Cl2 O cloro é utilizado em grande escala como alvejante e, como destrói as bactérias, é utilizado para purificar a água. Entre seus muitos empregos industriais, temos a manufatura do policloreto de vinila. Inicialmente, o bromo era obtido pela eletrólise de seus sais, mas é agora obtido da água do mar. Quando o cloro é passado pela água do mar, oxida os íons-brometos presentes a bromo. Elementos do Bloco p 37 Cl2 + 2Br - → 2Cl- + Br2 O bromo é absorvido em solução de Na2CO3, dando uma mistura de NaBr e NaBrO3, que, quando acidificada e destilada, dá origem ao bromo. HBrO3 + 5HBr → 3Br2 + 3H2O O iodo é obtido do Salitre do Chile, que é, principalmente, KNO3, mas contém traços de iodato de potássio e periodato de potássio. O iodato concentrado é reduzido a iodo pelo NaHSO3. 2IO3 - + 5HSO3 - → 3HSO4 - + 2 SO4 -2 + H2O + I2 Não se encontra ocorrência de astato, que é obtido sinteticamente, bombardeando- se o bismuto com partículas α de alta energia, Bi At 209 83 211 85 α,2n A química do 211At somente é estudada pelo método traçante, pois ele se decompõe por captura de elétron orbital e por emissão α e possui um período de meia-vida de 7 ½ horas. Parece se assemelhar muito de perto ao iodo. 2.5.6 Óxidos Halogenados Numerosos compostos têm sido relacionados, embora muitos deles sejam instáveis e apresentados entre colchetes. As ligações são largamente covalentes devido às semelhanças de eletronegatividade (F = 4,0; Cl = 3,0; Br = 2,8; I = 2,5; O = 3,5). O flúor é mais eletronegativo que o oxigênio; portanto, os compostos de F e O são fluoretos de oxigênio em vez de óxidos de flúor (Tabela 15). O iodo forma o I2O4 e o I4O9, que são iônicos e salinos. Destes compostos, os mais importantes são o ClO2, I2O5 e o OF2. TABELA 15: Óxidos de elementos do Grupo VII. Fluoretos Óxidos Número de -1 OF2 +1 Cl2O +1 Br2O Oxidação - 1 O2F2 +2 (ClO) - 2 (OF) +4 ClO2 +4 BrO2 +5 I2O5 (O2F3) +6 Cl2O6 +6 BrO3 +7 Cl2O7 +7 (Br2O7) +8 (ClO4) EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 38 O OF2 é um gás incolor e tem sido utilizado como combustível de foguetes. Reage energicamente com os metais, S, P e halogênios, formando fluoretos e óxidos. É obtido passando-se F2 em solução diluída de NaOH. 2F2 + 2 NaOH → 2NaF + H2O + OF2 O OF2 dissolve-se em água, dando uma solução neutra, e com o NaOH, dando íons fluoreto e oxigênio. Não é um anidrido de ácido. O Cl2O é um gás e o BrO é líquido, sendo preparados aquecendo-se precipitados recentes de óxido de mercúrio com o gás halogênio. 2Cl2 + 2HgO 300°C HgCl2.HgO + Cl2O Os dois são coloridos e explodem na presença de agentes redutores ou por aquecimento. O Cl2O dissolve-se em água, formando o ácido hipocloroso, HOCl. Com o NaOH, o Cl2O e o Br2O formam hipocloritos e hipobromitos. Estes óxidos são, portanto, ácidos. Os óxidos podem, a seguir, oxidar estes produtos. NaOBr → NaBrO3 hipobromito bromato As estruturas dos três óxidos estão relacionadas com um tetraedro com duas posições ocupadas por pares isolados de elétrons. Estrutura eletrônica do átomo de oxigênio – estado normal 2p2s Dois elétrons desemparelhados que formam ligações com dois átomos de halogênio – hibridização sp3 – tetraedro com dois pares isolados de elétrons. O F F105o o111 O Cl Cl ? O Br Br Os ângulos de ligação estão distorcidos devido aos pares de elétrons isolados. No OF2, os elétrons ligantes estão mais perto do F devido à sua maior eletronegatividade. Portanto, a repulsão entre os pares isolados é maior do que entre os pares ligantes; assim, o ângulo de ligação é menor do que 109°28’. No Cl2O, os elétrons ligantesestão mais perto do oxigênio, pois este é mais eletronegativo. A repulsão entre pares ligantes Elementos do Bloco p 39 excede a existente entre pares isolados, portanto, o ângulo da ligação é maior do que o ângulo tetraédrico. Como a diferença de eletronegatividade entre Br e O é maior do que entre Cl e O, os elétrons ligantes estão, provavelmente mais perto do O no Br2O; portanto, a repulsão entre pares ligantes seria maior e é previsto um ângulo maior do que 111°. O difluoreto de dioxigênio O2F2 é produzido passando-se uma descarga elétrica através de uma mistura de F2 e O2, à baixa pressão, e na temperatura do ar líquido. Decompõe-se a - 95°C e sua estrutura é, possivelmente: O F F O O dióxido de cloro Cl2O é um líquido de P.E. 11°C. É um poderoso oxidante e clorante e é utilizado em grande escala na purificação de águas. É um bom alvejante e é empregado no branqueamento da celulose. É três vezes mais eficaz que o cloro no branqueamento de farinha, mas este uso tem sido, recentemente, diminuído, pois suspeita-se que o pão fabricado com farinha branqueada desta forma deixa os cachorros loucos! O ClO2 reage com água e álcalis, dando cloritos e cloratos sendo, portanto, um anidrido misto. ClO2 + 2NaOH → NaClO2 + NaClO3 + H2O clorito clorato O ClO2 explode na presença de agentes redutores. O gás puro também explode, mas é livre de explosão quando diluído com o ar ou CO2. É produzido a partir do clorato de potássio. Adiciona-se ácido oxálico para fornecer o CO2. 2KClO3 + 2(COOH)2 → 2ClO2 + 2CO2 + (COOK)2 + 2H2O O ClO2 é obtido em laboratório a partir do clorato de prata e cloro, sendo o ClO2 separado por condensação: 2AgClO3 + Cl2 → 2AgCl + 2ClO2 + O2 O ClO2 gasoso é paramagnético e contém um número ímpar de elétrons. As moléculas com elétrons ímpares são, em geral, altamente reativas, sendo o ClO2 típico. Os comprimentos das ligações são apreciavelmente menores do que os da ligação simples e admite-se que ocorra ressonância entre duas estruturas. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 40 Cl O O : : : : : : ::: : : : : Cl O O : Estas envolvem duas ligações coordenadas e uma ligação de três elétrons que pode ocupar cada uma das posições indicadas. A ligação de três elétrons explica, pois, os comprimentos menores das ligações e possui mais ou menos a metade da força da ligação covalente normal ou coordenada. As ligações de três elétrons podem também ser descritas em termos da teoria do orbital molecular (ver O2, NO e NO2). O dióxido de bromo BrO2 possui uma estrutura semelhante, mas é somente estável abaixo de -40°C, quando ocorre como sólido amarelo. É menos explosivo do que o ClO2 e, na hidrólise, dá origem ao brometo e ao bromato. BrO2 + 6NaOH → NaBr + 5NaBrO3 + 3 H2O É preparado pela ação de uma descarga elétrica sobre o Br2 e O2 gasosos, à baixa temperatura e pressão, e é muito menos importante do que ClO2. O hexóxido de dicloro Cl2O6 é um líquido vermelho que pode ser preparado a partir de Cl2O e ozônio. É um forte agente oxidante e explode quando em contato com gorduras. Com os álcalis dá origem ao clorato e perclorato. Cl2O6 + 2NaOH → NaClO3 + NaClO4 + H2O clorato perclorato O Cl2O6 não tem elétrons desemparelhados e é diamagnético. Provavelmente, está em equilíbrio com o ClO3, que é uma molécula de elétrons ímpares e é paramagnética. Cl2O6 ClO3 ∆ 2 O BrO3 é um sólido branco e é produzido a partir de ozônio e de bromo ou de oxigênio e bromo sob influência de uma descarga elétrica silenciosa. É um agente oxidante e com água dá origem a soluções ácidas. Até 1955, era incorretamente formulado como Br3O8. É instável acima de -70°C. Elementos do Bloco p 41 2 Cl2O7HClO4 H2O P4O10 O heptóxido de dicloro Cl2O7 é um líquido moderadamente estável e é o único óxido exotérmico do cloro. É obtido desidratando-se o ácido perclórico com pentóxido de fósforo e, com água, dá origem ao ácido perclórico. O pentóxido de iodo I2O5 é sólido branco e é o único óxido verdadeiro do iodo. É obtido na desidratação do ácido iódico por aquecimento a 170°C. 2 HIO3 → I2O5 + H2O O I2O5, quando aquecido a 300°C, se decompõe em seus elementos. É o anidrido do ácido iódico e é também um agente oxidante. Um emprego importante do I2O5 é a detecção e avaliação do monóxido de carbono. Oxida o CO e CO2 quantitativamente, libertando iodo, que pode ser titulado com tiossulfato de sódio. I2O5 + 5CO → 5CO2 + I2 A estrutura do I2O5 é, provavelmente, I O I O O O O Os compostos I2O4 e I4O9 são iônicos e são, provavelmente, iodatos, respectivamente, IO+, IO3- e I+3 (IO3-)3. 2.5.7 Propriedades Básicas dos Halogênios As propriedades básicas ou metálicas aumentam ao descermos um grupo. Assim, nos Grupos IV, V e VI, os primeiros elementos são não-metais, mas os membros mais pesados Sn, Pb, Biodigestores e Po são metais. Como as propriedades metálicas diminuem ao cruzarmos um período e como o astato é pouco conhecido, a tendência das propriedades metálicas é menos evidente no Grupo VII. O aumento de estabilidade dos íons positivos sugere um aumento da tendência para o caráter básico ou metálico. Devemos salientar que o iodo não é um metal. O flúor é o elemento mais eletropositivo e não possui propriedades básicas (isto é, não possui tendência de formar íons positivos). Mesmo que o ClF não tenha qualquer tendência à ionização, formará Cl+ e F-, devido à grande eletronegatividade do F. O cloro EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 42 apresenta uma leve tendência para formar íons positivos e tem número de oxidação +1 no HOCl. Existe bromo positivo em complexos como Br (piridina) NO3 e BrF3. Estes ionizam, dando [Br piridina]+ e NO3 - e BrF2 + e BrF4 -, respectivamente. São mais numerosos os compostos do iodo positivo que são mais conhecidos. A evidência da existência de íons- iodo positivos como I+ e I+3 é dada a seguir. 2.6 GRUPO 0 – OS GASES NOBRES TABELA 16: Símbolos e estruturas eletrônicas dos gases nobres. Elemento Símbolo Estrutura Eletrônica Hélio He 1s2 Neônio Ne [He] 2s22p6 Argônio Ar [Ne] 3s23p6 Criptônio Kr [Ar} 3d104s24p6 Xenônio Xe [Kr] 4d105s25p6 Radônio Rn [Xe] 4f145d106s26p6 2.6.1 Estrutura Eletrônica e Propriedades Gerais Os dois elétrons do He formam uma camada completa e todos os outros gases inertes possuem um octeto de elétrons em suas camadas mais externas. A configuração eletrônica está relacionada com sua inatividade química. Estes átomos possuem uma eletronegatividade próxima de zero e possuem potenciais de ionização maiores do que qualquer outro elemento. Consequentemente, não ganham e nem perdem elétrons nas condições normais e não formam ligações. Portanto, existem como átomos simples. As únicas forças entre estes átomos são as forças muito fracas de Van der Waals, tanto que os pontos de fusão e de ebulição são muito baixos. TABELA 17: Parâmetros físico-químicos dos gases nobres. Elemento Primeiro potencial de ionização (eV) P. F. °°°°C P.E. °°°°C He 24,6 --- -268,9 Ne 21,6 -248,6 -246,0 Ar 15,7 -189,4 -185,9 Kr 14,0 -157,2 -153,2 Xe 12,1 -111,9 -108,1 Rn 10,8 -71 -62 Elementos do Bloco p 43 O hélio é notável, pois forma somente sob pressão e ocorre em duas fases líquidas. O hélio I é um líquido normal, mas o hélio II é um superfluido, ou seja, um líquido com as propriedades de um gás. Sua energia é tão baixa, que cessa o movimento térmico dos átomos, mas as forças interatômicas não são suficientemente fortes para formar um sólido. Quando o He I passa a He II, muitas propriedades físicas mudam abruptamente. A condutividade térmica se torna 800 vezes maior do que a do cobre, a viscosidade se torna 1/100 da do gás hidrogênio e o líquido escoa pelas paredes do recipiente. O calor específico, tensão superficial e compressibilidade são também anômalos. O radônio éradioativo. É um produto de desintegração do rádio, mas ele próprio se desintegra, dando o polônio, e possui uma meia-vida menor do que quatro dias. Os gases ocorrem em quantidades mínimas na atmosfera e o He é formado como produto da desintegração radioativa. São usados para dar atmosfera inerte em soldas e como enchimentos de lâmpadas elétricas, válvulas de rádio e de tubos de descarga de néon. 2.7 PROBLEMAS 2.7.1 Grupo III 1. O primeiro elemento de cada um dos grupos principais da tabela periódica mostra propriedades anômalas quando comparados com os elementos do mesmo grupo. Discuta esse fato, com referência, sobretudo, aos elementos Li, Be e B. 2. Qual é a principal fonte de boro? Esquematize as etapas de obtenção do boro. 3. Represente a estrutura da unidade B12 encontrada na estrutura sólida do boro. Como se chama essa forma tridimensional? 4. a) Enumere aspectos que tornam o bórax um útil padrão primário, e mostre a equação balanceada de seu emprego em titulações; b) Represente a forma do íon BO3 3- e explique por que ela apresenta tal estrutura. 5. O ácido ortobórico pode ser escrito como H3BO3 ou B(OH)3. Como ele se dissocia em água e qual das duas fórmulas é mais útil? Qual a força desse ácido? Por que o glicerol acentua as propriedades ácidas desse composto? Escreva uma equação balanceada para a reação de neutralização com ácido bórico. 6. Explique sucintamente o que são isopoliácidos, com referência particular aos boratos. 7. Apresente um método de preparação de biborano, B2H6. Por que esse composto é chamado de deficiente em elétrons? Represente a estrutura do diborano, indicando os comprimentos das ligações. O que há de diferente nas ligações encontradas nesse composto? 8. O que ocorre na reação do diborano com a) amônia, b) tribrometo de boro, e c) trimetilboro? EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 44 9. Descreva o uso do diborano em hidroboração. 10. Apresente a obtenção, estrutura e usos do borohidreto de sódio. 11. Compare as estruturas do BF3 gasoso, AlCl3 gasoso e AlCl3 em solução aquosa. 12. Explique os seguintes fatos: a) BF3 não apresenta momento dipolar, mas PF3 apresenta um dipolo considerável; b) As moléculas de BF3 e BrF3 apresentam formas diferentes. 13. Descreva a preparação e represente as estruturas dos dihaletos de boro, gálio e índio. 14. Qual é o principal minério de alumínio? Como o minério é purificado, e como o metal é obtido? Como se chama esse procedimento? Qual a função da criolita nesse processo? Quais são as aplicações do alumínio? 15. Com base na posição do alumínio na série eletroquímica, qual será sua estabilidade em água? Por que ele é estável ao ar e em água? 16. Mostre as equações que representam as reações entre o Al e a) H+aq, b) NaOH, c) N2, d) O2 e e) Cl2. 17. Apresente dois exemplos de alúmens. Quais são as espécies presentes quando esses compostos se dissolvem em água? 18. Como é preparado o cloreto de alumínio? Qual é sua estrutura quando anidro e quando dissolvido em água? Dê um exemplo de uso do AlCl3 como catalisador em reações de Friedel-Crafts. 19. Apresente dois métodos diferentes de preparação de Et3Al e descreva seu uso como catalisador na polimerização de eteno. 2.7.2 Grupo IV 1. Quais são os estados de oxidação mais comuns do carbono e do estanho? Por que existe alguma diferença entre eles? 2. a) Esquematize as estruturas do diamante e da grafite. b) Explique a diferença de densidade encontrada entre o diamante e a grafite. c) Explique a diferença de condutividade elétrica entre o carbono e o diamante. d) Qual das formas alotrópicas de C apresenta a menor energia? 3. Apresente o maior número possível de métodos de obtenção de CO e CO2. Para que são utilizados esses compostos, e como podem ser detectados? 4. Explique as ligações que existem no CO e no CO2. 5. Cite as vantagens e limitações do uso do CO como agente redutor na obtenção de metais a partir de seus óxidos. 6. Apresente equações que expliquem as reações que ocorrem quando aquecemos os seguintes compostos: a) CaCO3, b) CaCO3 e SiO2, c) CaCO3 e C, d) CaC2 e N2. Elementos do Bloco p 45 7. Explique o que acontece quando se passa CO2 através de uma solução de Ca(OH)2. O que acontece com excesso de CO2. 8. Represente as equações para as reações que ocorrem entre CO e: a) O2, b) S, c) Cl2, d) Ni, e) Fe e f) Fe2O3. 9. Escreva as fórmulas para as carbonilas mononucleares formadas pelo V, Cr, Fe e Ni. Qual é a regra do número atômico efetivo? Quais desses compostos obedecem tal regra. 10. Explique, com a ajuda de diagramas adequados, como o CO forma ligações σ e π no Ni(CO)4. 11. Represente as estruturas dos compostos carbonílicos polinucleares Mn2(CO)10, Fe3(CO)12, Ru3(CO)12 e Rh4(CO)12. 12. Por que o CaCO3 se dissolve ligeiramente quando um excesso de CO2 é passado através de uma suspensão aquosa? Escreva equações que expliquem o efeito de pequenas quantidades de um excesso de CO2 sobre água e cal. 13. Apresente motivos que justifiquem porque CO2 é um gás e SiO2 um sólido. 14. Explique as ligações π no CO, CO32-, SO2 e SO3. 15. Por que o CCl4 não é afetado pela água, enquanto que o SiCl4 é rapidamente hidrolisado? O CCl4 é inerte ao vapor superaquecido? 16. Por que o SnI4 é um sólido alaranjado, se CCl4 e SiBr4 são líquidos incolores? 17. Apresente três exemplos de freons. Como eles são obtidos, quais são suas aplicações, e como prejudicam o meio-ambiente? 18. Compare e comente as diferenças das estruturas da trimetilamina e da trissililamina. 19. Represente as estruturas de seis tipos diferentes de silicatos e apresente o nome e a fórmula de um exemplo de cada tipo. 20. Como poderia ser preparado o tetraacetato de chumbo? Qual a sua estrutura, e em que é utilizado? 2.7.3 Grupo V 1. Utilize a teoria dos orbitais moleculares para descrever as ligações existentes no N2 e no NO. Qual é a ordem de ligação em cada um dos casos? 2. Explique porque as moléculas de nitrogênio apresentam fórmula N2, enquanto o fósforo possui a fórmula P4. 3. Esquematize os métodos de obtenção industrial do nitrogênio e do fósforo. 4. Explique as ligações π existentes no íon NO3-. 5. Faça um resumo da química dos óxidos de nitrogênio. Descreva e equacione os métodos de obtenção de cada um deles. Discuta suas propriedades, reatividade, estruturas e ligações. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 46 6. Descreva os métodos de obtenção de hidrazina e de sulfato de hidrazínio. Quais são as dificuldades de ordem prática encontradas? Quais as aplicações desses compostos? 7. Por que o NF3 é estável, enquanto que NCl3 e NI3 são explosivos? 8. Por que o NF3 não apresenta propriedades doadoras de elétrons, e o PF3 forma muitos complexos com metais? Dê exemplos desses complexos. 9. Apresente um método de obtenção de hidroxilamina, NH2OH, e descreva um de seus usos mais importantes. 10. Quais são os principais componentes dos fertilizantes? Como são fabricados esses componentes, e que uso as plantas fazem deles? 11. Compare os óxidos de nitrogênio com os de fósforo. 12. Compare as estruturas dos óxidos de fósforo com as dos sulfetos de fósforo. 13. Discuta a utilização dos fosfatos na química analítica e na indústria. 14. Compare e mostre as diferenças na estrutura e no comportamento dos fosfatos, dos silicatos e dos boratos. 15. Sugira motivos que justifiquem a existência de PF5 mas não do NF5. 16. Dê exemplos dos fosfazenos. Como podem ser obtidos, e quais são suas estruturas? 2.7.4 Grupo VI 1. Como se obtém o oxigênio em escala industrial, e quais são seus principais usos? 2. Compare os óxidos de Na e Ca com os de S e N. Comente seus pontos de fusão, a natureza da ligação, e suas reações com água, ácidos e bases. 3. De que maneira e com base em que critério podem ser classificados os óxidos? 4. Utilize a Teoria dos Orbitais Moleculares para descrever as ligações em cada um dosseguintes compostos, informando em cada caso as ordens de ligação e o caráter magnético (paramagnético ou diamagnético): a) O2; b) íon superóxido O2 -; c) íon peróxido O22-. 5. Explique os seguintes fatos: a) Oxigênio líquido aponta para os pólos de um imã, mas o nitrogênio líquido não. b) O íon N−O+ tem comprimento de ligação menor do que o NO, mesmo que este último tenha um elétron a mais. 6. Como pode ser preparado o ozônio no laboratório? Qual a sua estrutura e quais seus principais usos? Há uma camada de ozônio na atmosfera superior: qual a importância disto para o homem? 7. Por que as moléculas de oxigênio apresentam fórmula O2 e as de enxofre S8? 8. Descreva um método de preparação de peróxido de hidrogênio. Mostre a estrutura do H2O2 na fase gasosa. Escreva equações balanceadas para as reações de H2O2 com: Elementos do Bloco p 47 a) uma solução acidulada de KmnO4; b) HI aquoso; c) Uma solução ácida de hexacianoferrato(II) de potássio 9. Quais são as principais fontes de obtenção de enxofre? Quais são as duas variedades alotrópicas de enxofre mais comuns? 10. Descreva o processo Frasch de extração de enxofre. 11. Descreva as transformações que ocorrem quando se aquece o enxofre. 12. Explique as diferenças nos ângulos de ligação e nos pontos de ebulição de H2O e H2S. 13. Explique como ocorrem as ligações π no O2, no O3, no SO3 e no SO42- 14. Descreva o processo de fabricação do ácido sulfúrico em escala industrial. Enumere suas principais aplicações. 15. Compare e assinale as diferenças entre os ácidos sulfúrico, selênico e telúrico. 16. Quais são os principais fluoretos de enxofre? Como são obtidos, quais são suas estruturas e para que são utilizados? 17. Explique porque o SF6 é inerte frente a água, mas o TeF6 reage. 18. Apresente razões que justifiquem porque existe o SF6 não o OF6. 2.7.5 Grupo VII 1. Descreva os métodos de obtenção do flúor, os equipamentos utilizados e as precauções necessárias na sua produção. O flúor elementar é muito empregado em reações químicas? 2. Por que não é possível obter F2 por eletrólise de NaF aquoso, HF aquoso ou HF anidro? 3. Quais os agentes de fluoração usados no lugar de F2? Mostre equações que ilustrem sua utilização. 4. Quais são as principais aplicações do flúor? 5. Quais são as fontes mais comuns de cloro, bromo e iodo na forma de sais? Onde ocorrem e como os elementos podem ser obtidos a partir dos sais correspondentes? 6. Quais são as principais aplicações do cloro? 7. Apresente equações que mostrem como podem ser preparados os ácidos halogenídricos HF, HCl, HBr e HI em solução aquosa. Por que, em solução aquosa, o HF é um ácido fraco quando comparado com o HI? 8. O HCl(g) pode ser preparado a partir de NaCl e H2SO4. Por que o HBr(g) e o HI(g) não podem ser preparados de maneira similar a partir de NaBr e NaI, respectivamente? Explique o motivo desse fato. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 48 9. Explique o que acontece quando uma solução aquosa de AgNO3 é adicionada a soluções de NaF, NaCl, NaBr e NaI. Que transformação será observada (se houver alguma) com adição de amônia a cada uma dessas misturas? 10. Escreva métodos de preparação e uso em análise do I2O5. 11. a) apresente os nomes de quatro tipos diferentes de oxiácidos dos halogênios, e apresente a fórmula de um ácido ou de um sal derivado de cada um destes tipos. b) Descreva os métodos de obtenção dos compostos abaixo, indicando ainda um uso para cada um: NaOCl, NaClO2, NaClO3 e HIO4. 12. O iodo é quase insolúvel em água, mas se dissolve rapidamente numa solução aquosa de KI. Explique o motivo desse comportamento. 13. a) Explique a forma do íon I3-. b)Explique porque o CsI3 é estável, mas o NaI3 sólido não é. 14. a) Apresente as fórmulas de 11 compostos interhalogenados. b) Represente as estruturas das seguintes moléculas ou íons, mostrando as posições dos pares eletrônicos isolados: ClF, BrF3, IF5, IF7, I3 -, ICl4 - e I5 -. 15. Enumere diferenças entre a química do flúor e as dos outros halogênios e justifique o motivo destas diferenças. 2.7.6 Gases nobres 1. De onde provém o hélio presente na terra e em sua atmosfera? Como o He é obtido em escala industrial, e quais são suas aplicações? Qual o ponto de ebulição do He em °C e em K? 2. Qual é a quantidade de argônio é obtido industrialmente e para que é utilizado? 3. Explique porque se usa argônio no processo Kroll de extração de titânio, na solda e nos bulbos de lâmpadas elétricas. 4. Como Bartlett interpretou a reação entre Xe e PtF6, e como esta reação é interpretada atualmente? 5. a) Esquematize as estruturas do XeF2, do XeF6 e do XeF4. b) Como esses compostos podem ser preparados a partir do Xe? c) Escreva as equações balanceadas que mostrem as reações desses três compostos com a água. 6. Como podem ser preparados os compostos XeO3, XeOF4 e Ba2XeO6, e quais são suas estruturas? 7. “De certo modo a descoberta dos compostos dos gases nobres criou mais problemas do que resolveu”. Discuta essa afirmação, com referência em especial à estabilidade de nível eletrônico preenchido e à participação de orbitais d na ligação por parte de elementos dos blocos s e p. Elementos do Bloco p 49 8. Sugira motivos que expliquem por que os únicos compostos binários dos gases nobres são fluoretos e óxidos de Kr, Xe e Rn. 3 ELEMENTOS DO BLOCO d 3.1 PROPRIEDADES GERAIS Os elementos de transição ou do bloco d (Tabela 18) são assim chamados, porque suas posições na tabela periódica estão situadas entre os elementos do bloco s e p e sua penúltima camada de elétrons se expande de oito para dezoito com a adição de elétrons d. Os elementos formam três filas completas de dez elementos e uma fila incompleta de quatro elementos. A posição da série incompleta de quatro elementos será estudada com os elementos do bloco f. TABELA 18: Elementos do Bloco d e f. Sc escân- dio Ti titânio V vanádio Cr cromo Mn manga- nês Fe ferro Co cobalto Ni níquel Cu cobre Zn zinco Y Ítrio Zr zircônio Nb nióbio Mo molibdê- nio Tc tecné- cio Ru rutênio Rh ródio Pd paládio Ag prata Cd cádmio La lantânio Hf háfnio Ta tálio W tungs- tênio Re rênio Os ósmio Ir irídio Pt platina Au ouro Hg mercúrio Ac actínio Th tório Pa proctactí nio U urânio Como a penúltima camada de elétrons de todos esses elementos está expandida, é de se esperar que possuam muitas propriedades físicas e químicas em comum. Assim, todos os elementos de transição são metais e são bons condutores de eletricidade e de calor. Eles são ductéis e formam ligas com outros metais. Elementos do Bloco d 51 3.1.1 Densidade Os volumes atômicos dos elementos de transição são menores, comparados com os seus vizinhos dos Grupos I e II, pois os orbitais internos começam a ser preenchidos e a carga nuclear aumentada atrai os elétrons. Consequentemente, as densidades dos metais de transição são altas. De fato, Sc com 3,0 g/cm3 e Y e Ti com 4,5 g/cm3 são os únicos elementos com densidade menor do que cinco. 3.1.2 Pontos de Fusão e Ebulição Os pontos de fusão e de ebulição dos elementos de transição são, geralmente, muito altos. Zn, Cd, e Hg são exceções notáveis, porque o orbital d está completo. Fora estes o La e a Ag, que fundem, respectivamente, a 920°C e 961°C, todos os outros fundem acima de 1000°C. Este fato é um contraste marcante com os metais do bloco s, onde o Li funde a 181°C e o Cs funde a 29°C. 3.1.3 Reatividade dos Metais Os metais apresentam um aumento de tendência a permanecer não reativo ou nobre. Isto é favorecido pelo elevado calor de sublimação, elevados potenciais de ionização e baixos calores de solvatação. Os elevados pontos de fusão indicam altos calores de sublimação e os átomos menores indicam maiores potenciais de ionização. Estatendência é mais pronunciada na platina e no ouro. 3.1.4 Cor Compostos iônicos e covalentes dos elementos de transição são, em geral, nitidamente coloridos, em contraste com os dos elementos dos blocos s e p que são, muitas vezes, brancos e não possuem cores muito fortes. A cor está associada com a camada incompleta e a facilidade para promover um elétron de um nível energético para outro. A quantidade exata de energia para esta promoção é obtida por absorção de luz de um comprimento de onda particular. Nos elementos de transição, os elétrons d são promovidos a nível energético mais alto dentro da camada d. Este fato corresponde a uma diferença de energia relativamente pequena e, assim, a luz é absorvida na região visível. Quando a luz vermelha é absorvida, então a luz transmitida contém um excesso de outras cores do espectro – particularmente o azul, tanto que os compostos se apresentam azuis, por exemplo, o Cu+2. Nos elementos dos blocos s e p, a diferença de energia é muito maior, pois o elétron deve ser promovido a uma camada externa e pode corresponder à luz ultravioleta, pelo que os compostos não aparecem coloridos à vista. 3.1.5 Propriedades Magnéticas A maioria dos elementos de transição é paramagnético, isto é, atrai linhas de força magnéticas. Esta propriedade está associada com o spin do elétron desemparelhado do átomo. Outras substâncias, nas quais todos os spins estão emparelhados, não atraem EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 52 linhas de força e são chamadas diamagnéticas. Podemos observar que Fe, Cu, Co e Ni são ferromagnéticos, isto é, podem ser magnetizados. 3.1.6 Propriedades Catalíticas Muitos dos metais de transição e seus compostos possuem propriedades catalíticas; talvez os mais comuns sejam o Fe, Pt, V2O5 e Ni. Em alguns casos, os metais de transição com sua valência variável podem formar compostos intermediários estáveis e, em outros casos, o metal de transição fornece uma superfície de reação adequada. 3.1.7 Valência Variável Uma das muitas características dos elementos de transição é que apresentam valência variável. Muitos dos elementos apresentam uma gama muito grande de valência, que varia de uma unidade, por exemplo, Fe+3 e Fe+2, Cu+2 e Cu+. Este é um contraste com os elementos do bloco s, que possuem valência sempre igual ao número do grupo, e com os elementos do bloco p que possuem valência igual ao número do grupo ou igual a oito menos o número do grupo. A valência variável ocorre em extensão limitada no bloco p, mas a variação de valência é sempre dois, por exemplo, TlCl3 e TlCl, SnCl4 e SnCl2, PCl5 e PCl3, e é devida à causa diferente. O termo estado de oxidação é preferido ao termo valência e pode ser definido como a carga residual do átomo central, quando todos os outros átomos do composto forem removidos como íons, por exemplo, N-3, O-2, Cl- e H+. Assim, Tl apresenta estados de oxidação +3 e +1, o Sn +4 e +2 e P +5 e +3. O número de oxidação pode ser determinado tanto para os compostos iônicos quanto para os compostos covalentes e sem conhecer os tipos de ligações. Portanto, o número de oxidação do Mn no KMnO4 pode ser obtido como segue: retirar o íon K+ (deixando uma carga negativa) e romover quatro O-2 (deixando oito cargas positivas), tanto que a carga residual do Mn é –1 + 8 = +7. Deve ser salientado que o número de oxidação não é necessariamente a carga do íon, pois, embora exista Tl+ e Tl+3, não existe Mn+7, tanto que o KMnO4 se ioniza em K + e MnO4 -. Os estados de oxidação apresentados pelos elementos de transição podem ser relacionados com suas estruturas eletrônicas. O cálcio, elemento precedente à primeira fila dos elementos de transição, possui a estrutura eletrônica: Ca 1s2 2s2 2p6 3s23p64s2 Seria de se esperar que os dez elementos de transição seguintes teriam este arranjo eletrônico de um a dez elétrons 3d. Isto é verdadeiro, exceto no caso do Cr e do Cu, onde um elétron s de desloca para a camada d, devido à estabilidade adicional, quando os orbitais d estão exatamente meio completos ou totalmente preenchidos (Tabela 19). Elementos do Bloco d 53 TABELA 19: Estruturas eletrônicas e estados de oxidação de elementos bloco d. Estrutura Sc Ti V Cr Mn Fe Co Ni Cu Zn Eletrônica D1s2 d1s2 d3s2 d4s2 d5s1 d5s2 d6s2 d7s2 d8s2 d9s2 d10s1 D10s2 1 1 Estados 2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 De 3 3 3 3 3 3 3 3 3 Oxidação 4 4 4 4 4 4 4 5 5 5 5 5 6 6 6 7 Assim, Sc pode ter um número de oxidação de +2, quando os dois elétrons s são utilizados na ligação, e de +3, quando são envolvidos dois elétrons s e um elétron d. O Ti possui um estado de oxidação +2, quando os dois elétrons s são utilizados na ligação, e +3, quando dois elétrons s e um d são utilizados, e +4, quando são empregados dois elétrons s e dois elétrons d. Analogamente, o V apresenta números de oxidação 2, 3, 4 e 5. No caso do Cr, utilizando o único elétron s para a ligação, encontramos um número de oxidação de +1; desta forma, utilizando-se números variáveis de elétrons d, são possíveis os estados de oxidação +2, 3, 4, 5 e 6. O Mn possui estados de oxidação 2, 3, 4,.5, 6 e 7. Entre os cinco primeiros elementos, a correlação entre a estrutura eletrônica e os estados de oxidação mínimo e máximo é total. Para os restantes cinco elementos o estado de oxidação mínimo é, entretanto, igual ao número de elétrons s presentes, mas não existe correlação entre a estrutura eletrônica e o estado de oxidação máximo. Estes fatos podem ser, entretanto, memorizados convenientemente, pois os estados de oxidação formam uma “pirâmide” regular (Tabela 19). Somente o Sc(+2) e o Co(+5) são as dúvidas. Além disso, diversos elementos apresentam valência zero e outras valências menores em complexos principalmente com o monóxido de carbono e o dipiridilo. Este tipo de tabela de estados de oxidados é valido só parcialmente, no caso das outras filas de elementos de transição. Na segunda e na terceira filas, um estado máximo de oxidação de +8 é encontrado no grupo do ferro (por exemplo, RuO4 e OsO4), embora o ferro apresente um número de oxidação máximo de +6. (As referências sobre o octafluoreto de ósmio foram provadas serem incorretas). Também as estruturas eletrônicas dos átomos da segunda e terceira filas não seguem exatamente o modelo da primeira fila. As estruturas do grupo do níquel são; Ni 3d8 4s2 Pd 4d10 5s0 Pt 5d96s1 EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 54 3.1.8 Capacidade para formar Complexos Os elementos de transição formam muitos compostos coordenados, em contraste com os elementos dos blocos s e p. Isto, porque os elementos de transição possuem íons pequenos, altamente carregados e com orbitais vazios de energia, aproximadamente adequada, para receber pares de elétrons isolados doados por outros grupos ou ligantes. 3.1.9 Não-Estequiometria Uma outra característica dos elementos de transição é a existência de compostos não estequiométricos, isto é, compostos com estrutura e proporções indefinidas. Por exemplo, o óxido ferroso FeO deve ser escrito como uma barra sobre a fórmula, para indicar que esta fórmula não sugere que os átomos de ferro e oxigênio estão exatamente na proporção de 1:1, pois a análise mostra que a fórmula varia entre Fe0,94O e Fe0,84O. O vanádio e o escândio formam uma série de compostos desde o VSe0,98 a VSe2. Estes compostos são dados pelas fórmulas: VSc (VSc0,98 → VSc1,2) V2Sc3 (VSc1,2 → VSc1,6) V2Sc4 (VSc1,6 → VSc2) Esta não-estequiometria é apresentada, particularmente, entre compostos dos elementos do Grupo VI (O, S, Se, Te) e é devida à valência variável dos elementos de transição e também aos efeitos das estruturas sólidas. Os níveis d estão completos no cobre, paládio e ouro, em suas respectivas séries, Cu 3d10 4s1 Pd 4d10 5s0 Au 5d10 6s1 Mas, como os elétrons d estão ainda disponíveis para as ligações, estes são elementos tipicamente detransição. Entretanto, no zinco, cádmio e mercúrio, os níveis d estão completos e não disponíveis para as ligações, tanto que estes elementos não apresentam as propriedades características dos elementos de transição. 3.1.10 Abundância Considerando a primeira fila dos elementos de transição, os de número atômico par são, em geral, mais abundantes do que os de número atômico ímpar da mesma parte da tabela. O manganês é exceção. Os elementos da segunda e da terceira filas são, geralmente, menos abundantes do que os da primeira fila (Tc, Ru, Rh, Pd, Ag, Cd, Re, Elementos do Bloco d 55 Os, Ir, Pt, Au, Hg); alguns ocorrem mais do que 0,15 partes por milhão (ppm) na crosta terrestre. 3.2 GRUPO DO ESCÂNDIO 3.2.1 Introdução Esses quatro elementos são às vezes agrupados com os 14 lantanídeos, e chamados coletivamente de “terras raras”. Isso não é muito correto, porque os elementos do grupo do escândio são elementos do bloco d, e os lantanídeos são elementos do bloco f. Além disso, os elementos do grupo do escândio não são tão raros assim, exceto o actínio, que é radioativo. As tendências encontradas nas propriedades dessa família, Sc, Y, La e Ac, mostram uma variação bastante regular, e muito semelhante às variações observadas nos elementos dos grupos. Há poucos usos industriais importantes desses elementos ou de seus compostos, exceção feita ao “mischmetal” (literalmente “metal misto”, uma liga de 50% de Ce, de La, de Nd e outros lantanídeos), que encontra emprego na indústria metalúrgica. Os elementos deste grupo são apresentados na Tabela 20. TABELA 20: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do Escândio Elemento Símblo Configuração Eletrônica Estado de oxidação Escândio Sc [Ar] 3d1 4s2 III Ítrio Y [Kr] 4d1 5s2 III Lantânio La [Xe] 5d1 6s2 III Actínio Ac [Rn] 6d1 7s2 III 3.2.2 Ocorrência, separação, obtenção e usos O Sc é o trigésimo-primeiro elemento mais abundante, em peso, da crosta terrestre. O elemento encontra-se muito espalhado. Ocorre como o mineral raro thortveitita, Sc2[Si2O7]. O escândio ocorre como subproduto da separação do urânio. O escândio e seus compostos apresentam pouquíssimas aplicações. O Y e La são vigésimo-nono e o vigésimo-oitavo elementos mais abundantes, respectivamente. São encontrados juntamente com os lantanídeos na basnaesita, MIIICO3F, na monazita, MIIIPO4, e outros minerais. É extremamente difícil separar os elementos individualmente. Também é bastante difícil extrair os metais de seus compostos. Os metais são eletropositivos e reagem com a água. Seus óxidos são muito estáveis, o que impede o uso do método da termita ou da aluminotermia. Esses metais EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 56 podem ser obtidos por redução de seus cloretos ou fluoretos com cálcio a 1.000 °C, numa atmosfera de argônio. Pequenas quantidades de Y são empregadas na fabricação da substância fosforescente para tubos de TV. Uma certa quantidade encontra emprego na fabricação de granadas sintéticas, usadas em radares, e como pedras preciosas. Já o La é produzido anualmente em quantidades de aproximadamente 5.000 toneladas, a maior parte do mischmetal. O mischmetal é uma mistura de La e de metais lantanídeos (50% Ce, 40% La, 7% Fe e 3% outros metais). O mischmetal é usado em grande quantidade para melhorar a resistência e a maleabilidade do aço, e também em ligas de Mg. Pequenas quantidades são utilizadas como “pedras de isqueiro”. O La2O3 é usado em vidros ópticos, como, por exemplo, nas lentes de Crookes, que protegem contra a radiação ultravioleta. Traços de Ac são sempre encontrados em associação com o U e o Th, já que ele é formado como produto de decaimento radioativo tanto da série de decaimento radioativo natural do tório como do rádio. O Ac pode ser obtido irradiando-se Ra com nêutrons num reator nuclear. Na melhor das hipóteses, esse método produz quantidades da ordem de miligramas. A separação dos outros elementos é efetuada por troca iônica. O Ac228 89 e Ac227 89 são os únicos isótopos de actínio de ocorrência natural, sendo ambos fortemente radioativos. A meia-vida do Ac228 89 e a do Ac227 89 são de 6 horas e de 21,8 horas, respectivamente. Assim, qualquer quantidade de actínio que tenha existido quando a Terra se formou já se desintegrou. O actínio encontrado atualmente deve estar sendo formado no decaimento radioativo recente de algum elemento. Isso explica porque o Ac natural é tão raro. A elevada radioatividade do Ac limitou o estudo do seu comportamento químico. 3.2.3 Estado de oxidação Esses elementos existem sempre no estado de oxidação (+3), ocorrendo como íons M3+. A formação do íon M3+ requer a remoção de dois elétrons s e de um elétron d. Assim sendo, os íons apresentam uma configuração d0, e espectros d→d são impossíveis. Em conseqüência, os íons e seus compostos são incolores e diamagnéticos. A soma das três primeiras energias de ionização para o escândio é um pouco menor do que a correspondente soma para o alumínio. As propriedades do escândio são semelhantes, em alguns aspectos, às do alumínio. 3.2.4 Tamanho Os raios covalentes e iônicos desses elementos aumentam regularmente de cima para baixo dentro do Grupo, como ocorria no bloco s. Nos grupos dos elementos de transição, os elementos de segunda e terceira séries são quase idênticos em tamanho, por causa da contração lantanídica. Contudo, isso acontece após o elemento La. Elementos do Bloco d 57 3.2.5 Propriedades químicas Os metais desse grupo apresentam potenciais de eletrodo padrão moderadamente elevados. São bastante reativos, e a reatividade cresce com o aumento do tamanho. Eles perdem o brilho quando expostos ao ar e queimam na presença de oxigênio, formando M2O3. O Y forma uma camada protetora de óxido quando exposto ao ar, o que o torna não-reativo. 4La 3 O 2 2 L a 2O 3 Os metais reagem lentamente com água fria, e mais rapidamente com água quente, liberando hidrogênio e formando o óxido básico ou o hidróxido correspondente. 2La + 6H2O 2La(OH)3 + 3H2 La(OH)3 LaO.OH + H2O O Sc(OH)3 parece não existir como um composto definido, mas o óxido básico, ScO(OH), é bem conhecido, sendo anfótero como Al(OH)3. Como o escândio é anfótero, ele se dissolve em NaOH, liberando H2. 2Y(OH)3 + 3CO2 Y2(CO3)3 + 3H2O O La(OH) 3 é uma base suficientemente forte para liberar NH3 de sais de amônio. Como os óxidos (e hidróxidos) são anfóteros ou bases fracas, seus oxissais podem ser decompostos a óxidos por aquecimento. Isso é análogo ao comportamento observado com os elementos do Grupo II, mas a decomposição é mais fácil, isto é, ocorre a temperaturas mais baixas: 2Y(OH)3 calor Y2O3 + 3H2O Y2(CO3)3 Y2O3 + 3CO2 2Y(NO3)3 Y2O3 + 6NO2 +3/2O2 Y2(SO4)3 Y2O3 + 3SO2 + 3/2O2 Os metais reagem com os halogênios, formando trihaletos, MX3. Eles lembram os haletos de Ca. Os fluoretos são insolúveis (como o CaF2), e os demais haletos são deliqüescentes e muito solúveis (como o CaCl2). Se os cloretos forem preparados em EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 58 solução, eles cristalizam na forma de sais hidratados. O aquecimento desses sais hidratados não leva aos haletos anidros. Com o aquecimento, o ScCl3(H2O)7 se decompõe a óxido, ao passo que os outros formam os oxohaletos. 2ScCl3.(H2O)7 Sc2O3 + 6HCl + 4H2O YCl3.(H2O)7 YOCl + 2HCl + 6H2O LaCl3.(H2O)7 LaOCl + 2HCl + 6H2O calor Cloretos anidro podem ser preparados tratando óxidos com NH4Cl: Sc2O3 + 6 N H 4 C l 2 S c C l 3 + 6 N H 3 + 6 H 2 O 3 0 0 o C O ScCl3 anidro difere do AlCl3, pois o ScCl3 é um monômero e o (AlCl3) é um dímero. Além disso, o ScCl3 não mostra atividade como catalisador para reações de Friedel- Crafts. Os sais geralmente se assemelham aos sais de cálcio, e os fluoretos, carbonatos, fosfatos e oxalatos são insolúveis. Todos esses elementosreagem com hidrogênio mediante aquecimento a 300 °C, com formação de compostos altamente condutores de fórmula MH2. Esses compostos não contêm o íon M2+, mas provavelmente contêm M3+ e 2H-, com um elétron adicional numa banda de condução. Exceto no caso do Sc, eles podem absorver mais H2 e perder seu caráter condutor, formando compostos não exatamente estequiométricos, mas que se aproximam da composição MH3. A composição exata depende da temperatura e da pressão do hidrogênio. Os hidretos reagem com água, liberando hidrogênio, e apresentam natureza salina (iônica), contendo o íon hidreto, H-. O escândio forma um carbeto, ScC2, quando se aquece o óxido com carbono num forno elétrico. O carbeto reage com água, liberando acetileno (etino). Sc2O3 + C 2 S c C 2 C 2 H 2 + S c O . O H 1 0 0 0 C H 2 O Supunha-se antigamente que o carbeto continha Sc(+2), ou seja, que continha os íons Sc2+ e (C=C)2-. Medidas magnéticas sugerem que ele contêm íons Sc3+ e C2 2-, com elétrons deslocalizados numa banda de condução, levando assim a um certo grau de condução metálica. 3.2.6 Complexos Apesar da carga +3, os íons metálicos desse grupo não apresentam uma tendência acentuada para formar complexos. Isso se explica pelo tamanho razoavelmente grande dos íons. O Sc3+ é o menor íon do grupo e forma complexos mais facilmente que os demais elementos. Entre esses complexos estão [Sc(OH)63- e o [ScF63-], ambos com número de coordenação 6 e a forma octaédrica. Elementos do Bloco d 59 De longe o átomo doador mais importante em complexos é o O, ocorrendo formação de complexos, particularmente com agentes quelantes. Formam-se complexos com agentes fortes tais como ácido oxálico, ácido cítrico, acetil-cetona e EDTA. Os complexos dos metais maiores, Y e La, freqüentemente têm números de coordenação 8. Assim, o [Sc(aceti-acetona)3] apresenta número de coordenação 6 e é octaédrico. Já o [Y(acetil- acetona)3(H2O)] tem número de coordenação 7 e sua estrutura é um antiprisma trigonal com uma fase piramidal. No [La(acetil-acetona)3(H2O)2] o número de coordenação é 8 e a estrutura é um antiprisma quadrado distorcido. NO [LaEDTA(H2O)4]3H2O o EDTA forma quatro ligações com seus átomos de oxigênio e duas com os átomos de nitrogênio, e os átomos de O das quatro moléculas de água se ligam todos ao La, dando origem a um número de coordenação 10. Os íons NO3 - e SO4 2- também atuam como ligantes bidentados e formam complexos com elevado número de coordenação. No [Sc(NO3)5]2- quatro grupos NO3- são bidentados e um unidentado, lavando a um número de coordenação 9. No [Y(NO3)5] todos os cinco ligantes NO3 - são bidentados, e o número e coordenação é 10. No La2(SO4)3.9H2O metade dos átomos de La tem número de coordenação 12. Os sais de lantanídeo foram usados como marcadores biológicos. O La3+ parece substituir o Ca2+ na condução de impulsos nervosos ao longo dos axônios de células nervosas, e também no estabelecimento de estruturas de membranas celulares. O La3+ é facilmente detectado por ressonância eletrônica de spin (ESR). A semelhança na atividade biológica pode ser conseqüência do tamanho semelhante dos íons (La3+=1,032 Å e Ca2+=1,00 Å). 3.3 GRUPO DO TITÂNIO O titânio é um elemento de importância industrial. Grandes quantidades de TiO2 são usadas como pigmento e como “carga”, e o metal titânio é importante por causa da sua resistência a esforços mecânicos, baixa densidade e resistência a corrosão. O TiCl3 é um importante catalisador de Ziegler-Natta na fabricação de polietileno e de outros polímeros. O zircônio é usado para fabricar os revestimentos das barras de combustível em reatores nucleares resfriados a água. O háfnio é utilizado para fabricar barras de controle para certos reatores. Os elementos deste grupo são apresentados na Tabela 21: TABELA 21: Configurações eletrônicas e estados de oxidação do grupo do titânio. Elemento Símblo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Titânio Ti [Ar] 3d2 4s2 (-I) (0) (II) III VI Zircônio Zr [Kr] 4d2 5s2 (II) (III) IV Actínio Ac [Xe] 4f14 5d2 6s2 (II) (III) IV a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis são apresentados entre parênteses. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 60 3.3.1 Ocorrência e abundância O Ti é nono elemento mais abundante, em peso, na crosta terrestre. Os principais minérios são a ilmenita, FeTiO3, e o rutilo, TiO2. Em 1988 a produção mundial deste elemento foi de 7,8 milhões de toneladas de ilmenita e de 456.000 toneladas de rutilo, que representavam um conteúdo em TiO2 de 4,3 milhões de toneladas. Os principais produtores são o Canadá (32 %), Austrália (24 %), Noruega (11,5 %), a ex-URSS e a Malásia com 6 % cada. O zircônio é o décimo-oitavo elemento mais abundante na crosta terrestre, sendo encontrado principalmente como zirconita, ZrSiO4, e pequenas quantidades de baddeleyita, ZrO2. A produção mundial de minerais de zircônio foi de 918.000 toneladas em 1988. O háfnio é bastante semelhante em tamanho e propriedades ao zircônio, por causa da contração lantanídica. Assim, o Hf ocorre em proporções de 1 a 2 % em minérios de Zr. A separação de Zr e Hf é particularmente difícil, mais difícil mesmo que a separação dos lantanídeos. 3.3.2 Obtenção e usos O titânio tem sido chamado de o “metal maravilha” por causa de suas propriedades únicas e úteis. Ele é muito duro, tem elevado ponto de fusão (1.667 ºC), é o mais forte e muito mais leve que o aço. Contudo, mesmo traços de impurezas não-metálicas, como, por exemplo, H, C, N ou O tornam quebradiço o Ti, e também os dois outros metais, Zr e Hf. O Ti tem melhor resistência a corrosão que o aço inoxidável. É melhor condutor de calor e de eletricidade que os metais do grupo de Sc. O metal Ti e ligas de Ti e Al são utilizadas em grande escala na indústria aeronáutica, em turbinas e motores a jato, e em peças para a indústria aeroespacial. Aviões supersônicos, como o Concorde, podem usar o Al como revestimento estrutural (ponto de fusão 600 ºC) limitando sua velocidade a 2,2 Mach (2,2 vezes a velocidade do som). Quando se fabricam aviões supersônicos que operam a três vezes a velocidade do som, é provável que tenham sido fabricados com Ti (ponto de fusão 1.660 ºC). O Ti também é empregado em equipamentos marítimos e em instalações para a indústria química. Pequenas quantidades de Ti são adicionadas ao aço, formando ligas mais duras e rígidas que este. A produção mundial do metal Ti é de cerca de 100.000 toneladas/ano. É difícil obter o metal a partir de seus minérios, por causa de seu elevado ponto de fusão e porque reage facilmente com o ar, oxigênio, nitrogênio e hidrogênio a temperaturas elevadas. O óxido não pode ser reduzido com o auxílio de C ou CO, já que ele forma carbetos. Como o TiO2 é muito estável, a primeira etapa consiste em transformar o óxido em TiCl4, aquecendo-se com C e Cl2, a 900 ºC. Ti O 2 + 2 C + 2 C l2 Ti C l 4 + 2 C O 2 Fe Ti O 3 + 6 C + 7 C l2 2Ti C l 4 + 6 C O + 2FeCl3 Elementos do Bloco d 61 O TiCl4 é 1um líquido (ponto de ebulição 137 ºC) e é removido do FeCl3 e das outras impurezas por destilação. Em seguida, utiliza-se um dos seguintes métodos para a obtenção do metal: Processo Kroll - Inicialmente, Wilhelm Kroll produziu Ti reduzindo TiCl4 com Ca num, forno elétrico. Mais tarde, passou-se a usar o magnésio, e a Imperial Metal Industries (IMI) chegou a usar o Na. Em tal temperatura, O Ti é altamente reativo, com relação ao ar ou ao N2. É necessário, portanto, efetuar a reação em atmosfera de argônio. TiCl4 + 2Mg Ti + 2MgCl2 C o 1000-1150 O MgCl2 formado pode ser removido por arraste com água, ou melhor, com HCl diluído, pois este dissolve qualquer excesso de Mg. Como alternativa, O MgCl2 pode ser removido por destilação a vácuo. Resta o titânio numa forma esponjosa e não de bloco sólido. O Ti é convertidonum bloco por fusão num arco elétrico a alto vácuo ou numa atmosfera de argônio. O processo IMI é quase idêntico. O TiCl4 é reduzido por Na numa atmosfera de argônio, e o NaCl é removido com auxílio de água. O Ti produzido tem a forma de pequenos grânulos. É possível fabricar peças metálicas a partir destes grânulos, usando técnicas de metalurgia de pó e sintetizando numa atmosfera inerte. As elevadas despesas com combustível, a necessidade de emprego de argônio, os altos custos do Mg ou Na, e a necessidade de reaquecer uma segunda vez, tornam o Ti um metal muito caro. Seu elevado preço impede um uso mais generalizado. Também o zircônio pode ser produzido pelo processo Kroll. O método de van Arkel- de Boer – Esse processo permite obter pequenas quantidades de metal muito puro. O Ti ou Zr impuro são aquecidos com I2 num recipiente sob vácuo. Formam-se TiI4 ou ZrI4, que se volatilizam, separando-se assim das impurezas. A pressão atmosférica o TiI4 funde a 150 ºC e ferve a 377 ºC; o ZrI4 funde-se a 499 ºC e ferve a 600 ºC. Sob pressão reduzida, contudo, os pontos de ebulição são mais baixos. O MgI4 gasoso é decomposto sobre um filamento de tungstênio aquecido à incandescência do filamento. Tiim puro + 2I2 TiI4 Ti + 2I2 50-250 oC Co1.400 fi lamento de tungstênio O Zr é produzido em escala bem menor que o Ti. O Zr é ainda mais resistente à corrosão que o Ti, sendo usado em equipamentos para indústrias químicas. Seu uso mais importante é a fabricação da cobertura, isto é, do revestimento para o combustível UO2 de reatores nucleares resfriados a água. Sua resistência à corrosão, elevado ponto de fusão (1.857 ºC) e baixa absorção de nêutrons tornam-no adequado para tal aplicação ( dos elementos metálicos, somente o Be e o Mg apresentam seção transversal de absorção de EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 62 nêutrons menor que o Zr, mas são inadequados para revestimento protetor, pois o Be é quebradiço e o Mg facilmente sofre corrosão). O Hf sempre ocorre junto com o Zr. Suas propriedades químicas são quase idênticas, e para maioria dos seus usos não necessidade de separar os dois elementos. Contudo, o Hf absorve fortemente os nêutrons, e o Zr usado para fins nucleares deve ser isento de Hf. A semelhança de tamanho dos íons torna essa separação extremamente difícil. O mesmo problema se observa na separação dos elementos lantanídeos. O Zr e Hf podem ser separados por extração com solvente de seus nitratos em fosfato de tri-n-butila, ou dos tiocianatos em metil-isobutil-cetona. Como alternativa, os elementos podem ser separados por troca iônica de uma solução alcoólica dos tetracloretos em colunas de silica-gel. Eluindo a coluna com uma mistura de álcool/HCl, o Zr é removido antes. O Zr também é utilizado na fabricação de ligas de aço, e uma liga Zr/Nb é um importante supercondutor. A absorção muito grande de nêutrons térmicos por parte do Hf encontra um uso prático. O Hf é utilizado em barras de controle para regular o nível de nêutrons livres nos reatores nucleares usados em submarinos. 3.3.3 Estados de oxidação O titânio é um elemento d2, e forma compostos em estado de oxidação +2, +3 e+4. O estado +2 corresponde a perda de dois elétrons 4s e os estados de oxidação mais elevados correspondem a perda de um ou mais elétrons 3d. É importante salientar, que especialmente em estados de oxidação mais altos, os elétrons não são completamente perdidos, mas sim compartilhados com átomos mais eletronegativos. O estado +2 não é comum, em grande parte devido ao Ti2+ ser um bom agente redutor, tão bom que é capaz de reduzir, por exemplo, água a hidrogênio. O cloreto de titânio (II), TiCl2, pode ser obtido por redução do TiCl4 com titânio metálico a altas temperaturas: TiCl4 + Ti(s ) 2TiCl2(s) O titânio +3 é chamado de íon titanoso. Em solução aquosa forma um aquocomplexo octaédrico, [Ti(H2O)6] 3+. É um íon d1, de cor violeta, como resultado da transição eletrônica t2g→eg. É rapidamente oxidado pelo oxigênio do ar ao estado de oxidação +4. O estado de oxidação +4 é o mais estável e importante para o titânio. É encontrado no cloreto de titânio (IV), TiCl4, um líquido incolor que é hidrolisado rapidamente quando exposto a umidade do ar, formando uma densa fumaça, processo que foi utilizado para produzir cortinas de fumaça na Primeira Guerra Mundial. Acredita-se que as duas reações seguintes ocorram. Elementos do Bloco d 63 TiCl4(l) + 2H2O(g) TiO2(s) + 4HCl(g) TiOCl2(s) + 2HCl(g)TiCl4(l) + H2O(g) O óxido de titânio (IV), TiO2, comumente chamado dióxido de titânio, é um sólido branco utilizado como pigmento de tintas, plásticos, e outros materiais. Ocorre naturalmente como diversos minerais, um dos quais é o rútilio, que possui um índice de refração maior que o diamante, mas é muito mole para ser utilizado como pedra preciosa. O íon Ti4+, ou íon titânico, não existe em solução aquosa devido à sua elevada tendência de hidrólise. Existe na realidade uma mistura de íons oxo e hidroxo; esta combinação é chamada normalmente, por uma questão de simplicidade, íon titanilo, TiO2+. Na realidade, sais sólidos tais como o sulfato de titanila TiOSO4.H2O, podem ser preparados, mas nesse caso o íon titanilo ocorre na forma de cátion de cadeia extensa. 3.4 GRUPO DO VANÁDIO O vanádio é importante industrialmente como componente da liga ferro-vanádio, que participa da fabricação de aços. O V2O5 é um composto bem conhecido, sendo um importante catalisador; o metal V também é empregado como catalisador. Os vanadatos apresentam uma extensa química em solução. O nióbio e o tântalo são usados apenas em pequenas quantidades. Contudo, há um grande interesse teórico pelos “clusters” ou agregados que eles formam quando nos estados de oxidação inferiores. Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis são apresentados na Tabela 22. TABELA 22: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do vanádio. Elemento Símblo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Vanádio V [Ar] 3d3 4s2 (-I) (0) (I) (II) III VI V Nióbio Nb [Kr] 43 5s2 (-I) (0) (I) (II) III (IV) V Tântalo Ta [Xe] 4 f14 5d3 6s2 (-I) (0) (I) (II) III (IV) V a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis são apresentados entre parênteses. 3.4.1 Abundância, obtenção e usos O V, Nb e Ta têm números atômicos ímpares e são menos abundantes do que seus vizinhos. Ainda assim, o V é o décimo-nono elemento mais abundante, em peso, da EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 64 crosta terrestre, e é o quinto mais abundante dos elementos de transição. Há, contudo, poucos depósitos concentrados, encontrando-se o metal bastante espalhado. Uma grande parte é obtida como subproduto de outros produtos. Ocorre em minérios de chumbo, como vanadinita, PbCl2.3Pb3(VO4)2, em minérios de urânio, como carnotita, K2(UO2)2(VO4)2.3H2O, e em alguns petróleos da Venezuela e do Canadá. Os resíduos de vanadato são aquecidos com Na2CO3 ou com NaCl a 800 °C. O vanadato de sódio NaVO3 formado é então extraído com água, acidulado com H2SO4 para precipitar o polivanadato de sódio, de coloração vermelha; o aquecimento a 700 °C fornece o V2O5 (este é preto, possivelmente por causa da presença de impurezas: usualmente o V2O5 é vermelho ou laranja). Mais de 75 % do V2O5 são convertidos numa liga ferro/vanádio, chamada de “ferrovanádio”. Ela contém cerca de 50 % de ferro. É obtida aquecendo-se o V2O5 com ferro ou óxido de ferro, e um agente redutor como C, Al ou ferro-silício. O ferrovanádio é utilizado industrialmente para fabricar ligas de aço para molas e ferramentas de corte. O metal vanádio raramente é usado puro. Ele é de difícil preparação, porque em elevadas temperaturas necessárias para a sua metalurgia ele reage com O2, N2 e C. O vanádio puro pode ser obtido reduzindo-se o VCl5 com H2 ouMg, reduzindo-se V2O5 com Ca, ou pela eletrólise de um haleto complexo fundido. A produção mundial de vanádio, em ligas e como metal puro, foi de 31.600 toneladas em 1988. O V2O5 é extremamente importante como catalisador na conversão de SO2 em SO3 no Processo de Contato para a fabricação de H2SO4. Ele substituiu Pt como catalisador, por ser mais barato, e por ser menos susceptível ao envenenamento por impurezas como o arsênio. O vanádio é um importante catalisador em reações de oxidação, como a transformação de naftaleno em ácido ftálico ou de tolueno em benzaldeído. Uma liga Cu/V é usada como catalisador na oxidação de misturas ciclohexanol/ciclohexanona a ácido adípico, que é empregado na fabricação do nylon-66. O vanádio também é usado como catalisador para a redução (hidrogenação) de alcenos e hidrocarbonetos aromáticos. O nióbio e o tântalo ocorrem juntos. O mineral mais importante é piroclorita, CaNaNb2O6F. Também são extraídas quantidades menores de columbita (Fe,Mn)Nb2O6,e a tantalita (Fe,Mn)Ta2O6. Contudo, 60 % do tântalo são obtidos a partir da escória da metalurgia do Sn. Os minérios são dissolvidos ou por fusão com álcalis ou em ácido. Antigamente a separação de Nb de Ta era efetuada por tratamento com uma solução de HF, em que o Nb formava um composto solúvel, K2[NbOF5] e Ta formava um composto insolúvel K2[TaF7]. Em 1988 a produção mundial foi de 17.900 toneladas de Nb e 400 toneladas de Ta. O Nb é utilizado em vários tipos de aço inoxidável, e a liga Nb/aço é usada para encapsular os elementos combustíveis de alguns reatores nucleares. Uma liga Nb/Zr é um supercondutor a baixas temperaturas sendo empregado para os fios de letroímãs muito potentes. O Ta é usado na fabricação de capacitores para a indústria eletrônica. Como ele não é rejeitado pelo organismo humano, encontra aplicação em próteses para o tratamento de fraturas: chapas, pinos, parafusos, etc. O carbeto de tântalo é um dos Elementos do Bloco d 65 sólidos com mais elevado ponto de fusão que se conhece (TaC, P.F. em torno de 3.800 °C). 3.4.2 Estados de Oxidação Em seus compostos, o vanádio, um elemento d3, exibe os estados de oxidação +2, +3, +4 e +5. Os óxidos, haletos e complexos aniônicos, neutros e catiônicos encontram-se representados na maior parte destes estados de oxidação. O vanádio (II), ou íon vanadoso, V2+, existe em solução aquosa como um hexaaquocomplexo, violeta. É facilmente oxidado pelo oxigênio e, assim como o Ti2+, pela água. Pode ser formado pela redução dos estados de oxidação mais elevados em solução, tanto eletroliticamente, como através de um agente redutor, tal como Zn em solução ácida. No estado de oxidação +3, o vanádio forma uma série extensa de complexos, tais como [V(H2O)6] 3+, catiônico, de cor azul, denominado íon vanádico ou vanádio (III), o [VF6] 3-, aniônico, e o [VF3(H2O)3], neutro. A adição de uma base a uma solução contendo o íon vanádico precipita um composto verde representado tanto como o hidróxido, V(OH)3, como um óxido hidratado, V2O3.xH2º Trata-se de um óxido básico, lentamente oxidado pelo ar ao estado +4. Aquecendo-se uma mistura de V2O5 e V2O3, produz-se o dióxido, VO2, azul escuro. Trata-se de um óxido básico, solúvel em ácidos formando o íon pentaaquovanádio (IV), [VO(H2O)5] 2+, freqüentemente chamado de íon vanadilo (IV), formulado simplesmente como VO2+. Este íon forma uma série de sais tais como VOCl2 e VOSO4. O V2O5, óxido de vanádio (V), é formado pelo aquecimento do metavanadato de amônio: 2NH4VO3(s) V2O5(s) + 2NH3(g) + H2O(g) Ou por acidificação de sua solução com H2SO4: 2H+(aq) + 2VO3 - (aq) V2O5(s) + H2O O V2O5 é óxido anfótero, solúvel em meio básico formando o íon vanadato, VO4 3-: V2O5(s) + 6OH - (aq) 2VO4 3- (aq) + 3H2O e em ácidos dando origem a um mistura complexa de espécies contendo ligantes oxo e hidroxo. Em soluções fortemente ácidas acredita-se existir o íon dioxovanádio (V), VO2 +. O único haleto formado pelo vanádio com número de oxidação +5 é o VF5; Todavia, os VOF3 e VOCl3 são conhecidos. OVOCl3 é um composto pouco comum: possui elevada resistência a redução, sendo cineticamente inerte mesmo com sódio metálico. Forma soluções com não metais e solventes orgânicos apolares, mas decompõe-se violentamente com a adição de água, formando o V2O5. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 66 3.5 GRUPO DO CROMO O metal cromo é produzido em larga escala, é empregado em grandes quantidades em ligas com ferro e com metais não-ferrosos, e na eletrodeposição. Os metais molibdênio e tungstênio são obtidos em quantidades apreciáveis. Também o dicromato de sódio é usado em grandes quantidades. O CrO3 e o Cr2O3 são usados para fins industriais. Os íons tungstato e molibdato formam ambos extensas séries de isso - e heteropoliácidos. O acetato de cromo (II) tem uma estrutura pouco comum com uma ligação quádruplo. Os haletos inferiores MoX2 e WX2 formam interessantes compostos do tipo “cluster”, baseados no grupo octaédrico [M6X8] 4+. O Mo é importante na fixação do nitrogênio. Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis, são apresentados na Tabela 23. TABELA 23: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do cromo. Elemento Símbolo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Cromo Cr [Ar] 3d5 4s1 (-II) (-I) 0 (I) II III (VI) V VI Molibdênio Mo [Kr] 45 5s1 (-II) (-I) 0 I (II) III IV V VI Tungstênio W [Xe] 4 f14 5d4 6s2 (-II) (-I)0 I (II) (III) IV V VI a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis, são apresentados entre parênteses. 3.5.1 Abundância, obtenção e usos O cromo é o vigésimo-primeiro elemento mais abundante na crosta terrestre, em peso. Ele é quase tão abundante quanto o cloro. O molibdênio e o tungstênio são bastante raros. O único minério de cromo de importância industrial é a cromita, FeCr2O4. Ela é o análogo de cromo da magnetita, Fe3O4, que é melhor representada pela fórmula FeIIFeIII2O4. A estrutura da cromita é a do espinélio. Nessa estrutura os átomos de O estão dispostos num retículo cúbico de empacotamento denso, com FeII em um oitavo dos interstícios tetraédricos disponíveis, e o CrIII em um quarto dos interstícios octaédricos. A cromita tem um leve brilho e um aspecto semelhante ao piche, com tons de marrom na cor. Ela pode ser ligeiramente magnética. A produção mundial de cromita foi de 11,7 milhões de toneladas em 1988, com um conteúdo em Cr de 3,4 milhões de toneladas. Os principais produtores de cromita são a África do Sul 36 %, a ex-URSS 28 %, Turquia 7%, Elementos do Bloco d 67 Índia 6,5 %, Albânia 6 % e Finlândia e Zimbabwe 5 % cada. Também são extraídas pequenas quantidades de crocoíta, PbCrO4, e de óxido de cromo, Cr2O3. O cromo é obtido em duas formas: ferrocromo e o metal Cr puro, dependendo do uso a que se destina. O ferrocromo é uma liga contendo Fe, Cr e C. Em 1988 foram produzidas 3,3 milhões de toneladas de ferrocromo. É obtido reduzindo a cromita com C. É empregado na obtenção de muitas ligas de ferro, incluindo o aço inoxidável e o aço- cromo, muito duro. FeCr2O4 + C Fe + 2Cr + 4CO forno elétrico ferrocromo Diversas etapas são necessárias para a obtenção de cromo puro. Inicialmente a cromita é fundida com NaOH em presença de ar, com o que o Cr se oxida a cromato de sódio. 2FeCr2 IIIO4 + 8NaOH + 7/2O2 4Na2[Cr VIO4] + Fe2O3 + 4H2O O Fe2O3 é insolúvel, mas o cromato de sódio é solúvel. Assim, o Na2[CrO4] é removido por dissolução em água, solução que é então acidulada para formar dicromato de sódio. Este é menos solúvel, podendo ser precipitado. O dicromato de sódio é reduzido a Cr2O3 por aquecimento com C. Na2[Cr2O7] + 2C Cr2O3 + Na2CO3 + CO Finalmente o Cr2O3 é reduzido ao metal pelo Al ou Si. Cr2O3 + 2Al 2Cr + Al2O3 Como o metal é quebradiço, raramenteé usado como metal puro, porém o é para preparar ligas não-ferrosas. Em outro uso, o Cr2O3 é dissolvido em H2SO4 e depositado eletroliticamente sobre a superfície de um metal. Isso protege o metal da corrosão e lhe comunica um aspecto brilhante. O molibdênio ocorre como o mineral molibdenita, MoS2. A produção mundial do minério em 1988 tinha um conteúdo de molibdênio de 92.000 toneladas. Os principais produtores são os EUA 47 %, Chile 15,5 %, Canadá 13,5 % e ex-URSS 12,5 %. Também se obtém certa quantidade de MoS2 como subproduto de minérios de cobre. O MoS2 é aquecido no ar, convertendo-se em MoO3. Este pode ser diretamente adicionado ao aço, ou então é aquecido com Fe e Al para formar ferromolibdênio, que é então adicionado ao aço. Quase 90 % do molibdênio são empregados na fabricação de aço para ferramentas de corte ou de aço inoxidável. Obtém-se molibdênio puro dissolvendo MoO3 em NH4OH diluído e precipitando molibdato de amônio, dimolibdato ou paramolibdato. A redução deste com hidrogênio fornece o metal. O metal Mo é usado como catalisador na indústria petroquímica. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 68 O tungstênio ocorre na forma de tungstatos, os mais importantes dos quais são a wolframita, FeWO4. MnWO4 e a scheelita, CaWO4. A produção mundial em 1988 foi de 43.000 toneladas de conteúdo de metal. Os principais produtores são a China 49 %, ex- URSS 21 %, Mongólia 5 %, Coréia do Sul 4 % e Portugal e Austrália 3 % cada. Usam-se diferentes processos para extrair o W da wolframita e da scheelita. A wolframita é fundida com Na2CO3, formando tungstato de sódio, que é separado e acidificado para formar o “ácido túngstico”, que é o óxido hidratado. A scheelita é acidulada com HCl, com o que precipita o “ácido túngstico”, dissolvendo-se os outros materiais. O “ácido túngstico” é então aquecido para originar o óxido anidro, que é reduzido ao metal por aquecimento com hidrogênio a 850 °C. O Mo e W são obtidos por esse processo na forma de pó. Seus pontos de fusão são muito altos, e a fusão do pó para obter o metal em bloco seria muito dispendiosa. Em vez disso, obtém-se objetos desses metais moldando o pó na forma desejada e sinterizando (aquecendo, mas sem fundir), sob uma atmosfera de hidrogênio. Tanto o Mo como o W formam ligas com o aço, originando ligas muito duras usadas na fabricação de aços para ferramentas de corte e máquinas operatrizes. O aço para ferramentas de corte conserva sua lâmina cortante ou fio, mesmo quando aquecido ao rubro. Cerca de metade do W produzido é usado para fabricar carbeto de tungstênio WC, que é extremamente duro (dureza 10 na escala de Mohs), podendo usado para cortar vidro. O WC é utilizado na fabricação de brocas. O metal W é empregado na fabricação dos filamentos de lâmpadas incandescente. O dissulfeto de molibdênio, MoS2, tem estrutura lamelar, sendo um excelente lubrificante, tanto puro como misturado a hidrocarbonetos. Em seus compostos o cromo (3d54s1) mostra estados de oxidação de +1 a +6, porém, os mais comuns são os estados +3 e +6, sendo os estados +2 e +4 de menor importância. O cromo (II), ou íon cromoso, Cr2+, é íon hexaaquo azul que pode ser formado pela redução de Cr3+ ou Cr2O7 2-, por via eletrolítica ou por zinco metálico. Um precipitado amarelo de hidróxido cromoso básico, Cr(OH)2, é formado com adição de uma base à solução. Tanto o Cr2+ como o Cr(OH)2 reduzirão a água a hidrogênio, mas lentamente. A oxidação por O2 produz Cr3+ e Cr(OH)3, respectivamente. No estado +3, o cromo é encontrado em inúmeros complexos, quase todos octaédricos. O cromo (III), ou íon crômico, Cr3+ existe como um hexaaquo complexo violeta em solução, e nos sais sólidos tais como [Cr(H2O)6]Cl3 e alúmem contendo cromo. A adição de base ao Cr3+ conduz à formação de cromo (III) gelatinoso, o hidróxido de cromo (III), Cr(OH)3 ou Cr2O3.xH2O, cinza esverdeado. O hidróxido crômico é anfótero; a dissolução em excesso de base produz o íon cromita, verde, formulado como [Cr(OH)4(H2O)2] -, ou mesmo CrO2 -. O mais importante composto de Cr(IV) é o óxido, CrO2. Pode ser obtido na oxidação do Cr(OH)3 por O2 em altas temperaturas: 4Cr(OH)3(s) + O2(g) 4CrO2(s) + 6H2O(g) Elementos do Bloco d 69 O CrO2 é um condutor metálico e é ferromagnético; seu comportamento magnético justifica sua utilização como revestimento em fitas de gravação de alta qualidade. Quando o íon cromita, formulado como Cr(OH)4-, é oxidado pelo peróxido de hidrogênio, que existe em solução alcalina como (HO2) -, forma-se um composto amarelo, tetraédrico, conhecido como íon cromato, CrO42-: 2Cr(OH)4 - (aq) + 3HO2 - (aq) 2CrO4 2- (aq) + OH - (aq) + 5H2O Em solução muito diluída, este íon reage com ácido para formar o íon hidrogenocromato alaranjado: CrO4 2- (aq) + H + (aq) HCrO4 - (aq) (laranja)(amarelo) Em ácido concentrado, forma-se o H2CrO4, ácido crômico. Devido K2 para este ácido ser igual a 1,3x10-6, o sistema hidrogenocromato-cromato atua como um indicador ácido- base inorgânico. Na realidade, na faixa de concentrações comuns, ao redor de 0,1 M, o íon hidrogenocromato é extensamente dimerizado para formar o íon dicromato, Cr2O7 2-, de mesma coloração; 2HCrO4 - (aq) CrO7 2- (aq) + H2O K=160 (laranja) (laranja) A reação ácido-base é, geralmente escrita como: CrO4 2- (aq) + H + (aq) CrO7 2- (aq) + H2O (amarelo) (laranja) 3.6 GRUPO DO MANGANÊS O manganês é produzido em quantidades muito grandes, e a maior parte encontra emprego na indústria do aço. Também são produzidas grandes quantidades de MnO2, usado principalmente em “pilhas secas” e na indústria de cerâmica. O KMnO4 é um importante agente oxidante. O Mn+3 forma um acetato básico com uma estrutura pouco usual. O Mn tem importância biológica e é importante para a fotossíntese. Os elementos tecnécio e rênio são raramente encontrados. Eles diferem do manganês por terem uma química pobre na forma de cátions, estados de oxidação elevados mais estáveis, e pela formação de agregados e compostos com ligações metal-metal nos estados de oxidação +2, +3 e +4. Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis são apresentados na Tabela 24. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 70 TABELA 24: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do manganês. Elemento Símbolo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Manganês Mn [Ar] 3d5 4s2 (-I) 0 (I) II (III) IV (V) (VI) VII Tecnécio Tc [Kr] 45 5s2 0 II (III) IV (V) VI VII Rênio Re [Xe] 4 f14 5d5 6s2 0 (I) (II) III IV (V) VI VII a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis são apresentados entre parênteses. 3.6.1 Abundância, obtenção e usos O manganês é décimo-segundo elemento mais abundante, em peso, na crosta terrestre, sendo extraído predominantemente como o minério pirolusita, MnO2. É um material secundário que se originou da extração de Mn de rochas ígneas por águas alcalinas: o manganês deposita-se como MnO2. A produção mundial de minérios de manganês foi de 22,7 milhões de toneladas em 1988, contendo cerca de 9 milhões de toneladas de Mn. Os principais produtores são a ex-URSS 40,5 %, a África do Sul 15 %, Gabão 10 %, Austrália 9 %, Brasil 8 % e China 7 %. O Mn puro é obtido atualmente por eletrólise de soluções aquosas de MnSO4 (antigamente o Mn era obtido por redução do MnO2 ou Mn3O4 com Al numa reação do tipo “termita” ou aluminotermia, mas a reação com o MnO2 era particularmente violenta). O metal puro encontra poucos usos. 95 % dos minérios de manganês produzidos são utilizados na indústria siderúrgica, para obter ligas. A mais importante delas é o ferro-manganês, que contém 80 % de manganês. A produção mundial de ferro-manganês foi de 2,7 milhões de toneladas em 1985. O ferro-manganês é obtido reduzindo a mistura apropriada de Fe2O3 e MnO2 com carvão,em alto-forno, ou em forno de arco elétrico, adicionando-se ainda certa quantidade de calcário para remover as impurezas de silicato como escória de silicato de cálcio. Entre as ligas com um conteúdo menor de Mn estão o ferro sílico-manganês (aproximadamente 65 % Mn, 20 % Si, 15 % Fe), e o ferro “spiegel” ou de fundição especular, que é semelhante ao ferro fundido e contém de 5 a 25 % de Mn. O Mn é um aditivo importante na fabricação do aço. Atua como removedor de oxigênio e de enxofre, impedindo assim a formação de bolhas e a consistência quebradiça do aço, formando, além disso, uma liga de aço muito dura (aço Hadfield contém cerca de 13 %¨de Mn e 1,25 % de C. É muito resistente ao desgaste e resiste ao choque, sendo utilizado em escavadoras e britadeiras). Quantidades menores de Mn também são empregadas em ligas de metais não-ferrosos. Por exemplo, “manganina” é uma liga contendo 84 % de Cu, 12 % de Mn e 4 % de Ni. É utilizada largamente em instrumentos elétricos, porque sua resistência elétrica quase não é afetada pela temperatura. Elementos do Bloco d 71 O tecnécio não ocorre na natureza, sendo o primeiro elemento a ser obtido artificialmente. Todos os seus isótopos são radioativos, e só recentemente suas propriedades químicas foram estudadas. O 99Tc é dos produtos de fissão do urânio. É um beta emissor com uma meia-vida de 2,1x105 anos. É obtido em quantidades da ordem de quilogramas a partir de barras esgotadas de combustível de reatores de usinas elétricas nucleares. As barras podem conter até 6 % de Tc. Elas devem ser armazenadas por vários anos, para permitir o decaimento radioativo das espécies de meia-vida curta. O Tc pode ser extraído por oxidação a Tc2O7, que volátil. Em outra técnica, podem-se separar soluções por troca iônica e extração com solvente. O Tc2O7 pode ser dissolvido em água, formando o íon pertecnato de amônio, TcO4 -, que pode cristalizar como pertecnato de amônio ou potássio. O pertecnato de amônio, NH4TcO4, pode ser reduzido com H2 ao metal. O Tc metálico não possui utilidade prática. O 97Tc e 98Tc podem ser obtidos bombardeando Mo com nêutrons. Pequenas quantidades de compostos de tecnécio são às vezes injetadas em pacientes, para o exame readiodiagnóstico do fígado e de outros órgãos. O rênio é um elemento muito raro, e ocorre em pequenas quantidades em minérios de sulfeto de molibdênio. O Re é recuperado dos vapores que escapam na calcinação desses minérios, na forma de Re2O7. Este último é dissolvido em NaOH, formando uma solução contendo íons perrenato, ReO4 -. A solução é concentrada, adicionando-se então KCl para precipitar o perrenato de potássio, KreO4. O metal Re é obtido por redução de KreO4 ou NH4ReO4 com hidrogênio. A produção mundial foi de apenas 2,4 toneladas dem1988. A maior parte é utilizada na fabricação de ligas Pt-Re, usadas como catalisadores na obtenção de combustíveis com baixo teor ou isentos de chumbo. Pequenas quantidades encontram emprego como catalisadores para reações de hidrogenação e desidrogenação. Por causa de seu ponto de fusão muito elevado (3.180 °C) é usado em pares termoelétricos, espirais de fornos elétricos e filamentos de espectrômetros. 3.6.2 Estados de oxidação O número máximo de oxidação mostrado pelo manganês (d5) é +7. Também são importantes os estados de oxidação +2 e +4, em menor extensão os estados +3 e +6. O estado +2 do manganês é bastante importante. Diferentemente dos íons Ti2+, V2+ e Cr2+, em solução aquosa, o manganês (II), ou íon manganoso, Mn2+, não é oxidado pelo oxigênio nem pela água. Os sais manganosos, tais como o sulfato, MnSO4.5H2O, têm uma coloração rósea pálida, mas na água o íon [Mn(H2O)6] 2+ apresenta esta coloração somente em soluções muito concentradas. (As transições d-d são proibidas por spin neste íon). A adição de uma base ao Mn2+ (se puro) forma o hidróxido manganoso, Mn(OH)2, branco, insolúvel, que é um hidróxido básico. Distintamente do Mn2+, este composto é oxidado pelo O2 para formar o MnOOH, preto amarronzado: EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 72 4Mn(OH)2(s) + O2(g) 4MnOOH(s) + 2H2O Na maioria das condições, o estado +3 do manganês é muito instável (contrastando com o cromo). O manganês (III), ou íon mangânico, Mn3+, existe em solução aquosa como um íon hexaaquo complexo, e é instável devido a: 1. É um agente oxidante poderoso e oxidará a água: 4 x [e- Mn3+(aq) Mn2+(aq) 2H2O O2(g) + 4H + (aq) + 4e - Eo= 1,51 V Eo= 1,23 V Eo= 0,28 V4Mn 3+ (aq) + 2H2O 4Mn 2+ (aq) + O2(g) + 4H + (aq) 2 Oxidará a si próprio, constituindo um bom exemplo de desproporcionamento: Mn3+(aq) + e - Mn2+(aq) Mn3+(aq) + 2H2O MnO2(s) + 4H + (aq) + e - 2Mn3+(aq) + 2H2O 4Mn 2+ (aq) + O2(g) + 4H + (aq) Eo= 1,51 V Eo= -0,95 V Eo= 0,56 V O Mn (III) é relativamente estável em determinados compostos sólidos, tais como Mn2(SO4)3 e MnF3, e em complexos, tais como o íon hexacianomanganato (III), [Mn(CN)6] 3-. O composto mais importante do manganês no estado de oxidação +4 é o óxido de manganês (IV), MnO2, comumente chamado de dióxido de manganês, uma substância com cor variando de marrom a preta, que ocorre na natureza como mineral pirolusita. O MnO2 é um bom agente oxidante e tem sido utilizado em laboratório na preparação de cloro a partir de HCl: MnO2(s) + 4H + (aq) + 2Cl - (aq) Mn 2+ (aq) + Cl2(g) + 2H2O Vários compostos constituindo dióxido de manganês são não-estequiométricos, ou seja, a relação Mn: O varia consideravelmente da relação ideal de 1:2. A espécie química representativa mais importante do estado de oxidação +6 é o íon manganato MnO4 2-. Possui uma cor verde intensa e pode ser obtido por redução do MnO4 - em solução fortemente alcalina. A espécie mais importante de Mn(VII) é o íon permanganato, MnO4 -. Este íon possui uma coloração tão intensamente violeta que pode ser facilmente observada em soluções diluídas da ordem de 10-4 mol/L. a fonte mais comum deste íon é o sal de permanganato de potássio, KMnO4. O íon MnO4 - é um forte agente oxidante de grandes aplicações e Elementos do Bloco d 73 freqüentemente utilizado em titulações redox. Nestas, uma solução contendo o íon MnO4 - é adicionada à solução de agente redutor (nunca vice-versa), até que no ponto final o súbito aumento na concentração de MnO4 - possa ser facilmente observado. A titulação ocorre em solução ácida, na qual a semi-reação de redução é 5e- + MnO4 - (aq) + 8H + (aq) Mn 2+ (aq) + 4H2O E o= 1,51 V Se o agente redutor for adicionado à solução de MnO4 -, o íon Mn2+ é oxidado pelo MnO4 -, em excesso na solução (até o ponto final): 2MnO4 - (aq) + 3Mn2 + (aq) + 2H2O 5MnO2(s) + 4H + (aq) E o MnO2, de cor marrom escura, obscurece o ponto final. Se a titulação ocorrer em solução neutra ou ligeiramente alcalina, o produto também é MnO2: 3e- + MnO4 - (aq) + 2H2O MnO2(s) + 4 OH - (aq) E o= 0,59 V Como já mencionamos, a redução do MnO4 - em solução fortemente alcalina forma o íon manganato: e- + MnO4 - (aq) MnO4 2- (aq) E o= 0,56 V 3.7 GRUPO DO FERRO O ferro encontra maior uso do qualquer outro metal. Sendo muito abundante (cerca de 5 % da crosta terrestre é constituída de ferro) e de fácil obtenção a partir de seus minerais, o ferro tornou-se indispensável para a manufatura variando de peças de automóveis a cordas de guitarras. Ocorre naturalmente nos minerais hematita (Fe2O3), limonita (Fe2O3.H2O), magnetita (Fe3O4) siderita (FeCO3), pirita (FeS2), e como impureza de muitos outros minerais. Todos estes minerais servem como minérios de ferro, exceto a pirita (as “piritas de ferro” ou “ouro dos trouxas”), na qual a remoção total do sulfeto é difícil e de custo elevado. Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis são apresentados na Tabela 25. EDITORA – UFLA/FAEPE– Química Inorgânica 74 TABELA 25: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do ferro. Elemento Símbolo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Ferro Fe [Ar] 3d6 4s2 0 II III (IV) (V) (VI) Rutênio Ru [Kr] 46 5s2 0 II III IV (V) VI (VII) VIII Ósmio Os [Xe] 4 f14 5d6 6s2 0 (I) (II) (III) IV (V) VI (VII) VIII a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis, são apresentados entre parênteses. A redução do minério de ferro, conhecida como siderurgia, é feita em um alto forno, uma construção imensa semelhante a uma torre cilíndrica colocada em pé. O alto forno funciona continuamente e é periodicamente carregado na parte superior com minério de ferro, calcário (CaCO3) e carvão (carbono). O ferro fundido e a escória, um material semifundido constituído predominantemente por silicatos, são drenados por aberturas na base da torre. Ar quente é injetado pela base do alto forno, ocasionando a queima do carbono e a formação de monóxido de carbono, 2C(s) + O2(g) 2CO(g) que é o principal agente redutor no forno. Se o minério é de Fe2O3, este é reduzido pelo CO a Fe3O4 na parte superior do alto forno em uma temperatura de aproximadamente 300 °C: CO(g) + 3Fe2O3(s) 2Fe3O4(s) + CO2(g) O Fe3O4 escorre gradativamente pela torre e é reduzido (a cerca de 600 °C) ao FeO: CO(g) + Fe3O4(s) 3FeO(s) + CO2(g) Ainda mais baixo no forno, o FeO é reduzido a ferro metálico a uma temperatura de 800-1600 °C: CO(g) + FeO(s) Fe(l) + CO2(g) O calcário colocado no alto forno sofre uma decomposição térmica: CaCO3(s) CaO(s) + CO2(g) E o óxido de cálcio reage com impurezas de sílica e silicato formando uma escória de silicato. A reação ocorre aproximadamente do seguinte modo CaO(s) + SiO2(s) CaSiO3(l) Elementos do Bloco d 75 Por ser muito menos densa que o ferro, a escória flutua sofre o ferro fundido e pode ser drenada separadamente. Certas escórias são utilizadas na construção de estradas, fabricação de tijolos e pedras artificiais. O produto proveniente do alto forno é denominado ferro gusa, que contém cerca de 5 % de C e até 5 % total de Si, P, Mn e S. Após fundir novamente o ferro, estas impurezas são geralmente oxidadas pelo ar e são então removidas. A purificação parcial fornece o ferro fundido, o qual ainda contém considerável quantidade de carbono. Quando o ferro fundido, recentemente solidificado, é resfriado lentamente, o carbono é eliminado da solução sólida como grafita, e o produto é o ferro fundido cinza, um produto relativamente maleável e resistente. Por outro lado, o resfriamento rápido forma o ferro ou cementita, Fe3C. O ferro fundido branco é muito duro, mas muito quebradiço. O ferro batido, ferro no qual removeu-se a maior parte do carbono, é bastante dúctil e maleável. O aço bruto tem cerca de 0,1 % de carbono, enquanto outros tipos de aço têm até 1,5 %. São conhecidas centenas de aços inoxidáveis: as ligas resistentes à corrosão freqüentemente contêm cromo e/ou níquel. Os metais vanádio, titânio, manganês, tungstênio e outros, são também usados nas ligas. O ferro dissolve-se em ácidos não oxidantes tais como HCl e H2SO4 diluído para formar ferro (III), ou íon ferroso: Fe(s) + 2H + (aq) Fe 2+ (aq) + H2(g) O HNO3, diluído oxida o ferro ao estado +3: Fe(s) + NO3 - (aq) + 4H + (aq) Fe3+(aq) + NO(g) + 2H2O Em HNO3 concentrado, entretanto, pouca ou nenhuma reação é observada. Da mesma forma agentes oxidantes semelhantes ao HNO3 ocasionam a passivação do ferro, isto é, tornam o ferro não reativo com relação a quase todos os reagentes. Acredita-se que o ferro passivo é protegido por uma fina camada de óxido; a reatividade do ferro pode ser restaurada ao raspar a superfície do mesmo, presumivelmente devido à eliminação desta camada. (Muitas tintas antiferrugem contêm um agente oxidante para tornar a superfície do ferro passiva, ver a seguir.) O ferro metálico apresenta ferromagnetismo, uma forte atração em um campo magnético. Como o paramagnetismo, o ferromagnetismo tem sua causa nos spins de elétrons desemparelhados, porém trata-se de um efeito mais intenso. O ferromagnetismo ocorre quando átomos com spins de elétrons desemparelhados se encontram a uma distância tal, que permite o alinhamento de muitos spins individuais uns com os outros, dentro de uma região relativamente grande (106 átomos ou mais) chamada um domínio. Devido aos spins individuais atuarem cooperativamente dentro de um domínio, o efeito magnético se torna grande. Os domínios ferromagnéticos são tão grandes que as suas fronteiras podem ser observadas mediante técnicas adequadas ao microscópio. Somente EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 76 sólidos podem demonstrar ferromagnetismo, e os únicos elementos ferromagnéticos na temperatura ambiente são o ferro, cobalto e níquel, embora alguns outros elementos sejam ferromagnéticos em baixas temperaturas. Muitos compostos ferromagnéticos, tais como CrO2 e Fe3O4, são conhecidos, assim como as ligas ferromagnéticas, tais como alnico (Al, Ni, Co, Fe e Cu). Em seus compostos, o ferro (d6) mostra em geral os números de oxidação +2 e +3. (os números de oxidação +4 e +6 são conhecidos, porém menos comuns.) Observe que na medida em que nos movemos da esquerda para a direita através da primeira série de metais de transição, o ferro é o primeiro elemento que realmente não exibe um número de oxidação correspondente a uma perda aparente de todos os elétrons ns e (n-1)d. remos perceber que assim que nos afastarmos do ferro em direção à direita na tabela periódica, teremos os números de oxidação mais elevados tornando-se crescentemente menos estáveis. O íon ferro (II), ou íon ferroso, Fe2+, de cor verde pálida, existe na realidade como um hexaaquo complexo octaédrico em água. Quando tratado com base precipita o hidróxido ferroso, Fe(OH)2, um precipitado branco quando puro, mas que aparece quase sempre como um precipitado verde claro devido a existência de um intermediário na oxidação razoavelmente rápida do Fe(OH)2 a Fe(OH)3 pelo O2. O íon ferroso é oxidado muito lentamente a Fe3+, mesmo em solução ácida. O hidróxido ferroso é ligeiramente anfótero, dissolvendo-se em solução de NaOH concentrada a quente. O íon de ferro (III), ou íon férrico, Fe3+, é essencialmente incolor em água, embora as soluções de sais férricos geralmente demonstram uma coloração amarela ou amarela acastanhada devido à hidrólise, que forma complexos tais como Fe(OH) 2+ e Fe(OH)2 +, os quais são na realidade [Fe(H2O)5(OH)]2+ e [Fe(H2O)4(OH)2]+, respectivamente. A adição de base ao íon férrico precipita uma substância gelatinosa, de cor vermelho amorronzada, comumente chamada de hidróxido de férrico, Fe(OH)3; na verdade trata-se de um óxido hidratado, Fe2O3.xH2O. Ele é menos solúvel que o hidróxido ferroso e não é anfótero. O Fe(III) forma diversos complexos. Os mais comuns destes são aniônicos e incluem [FeF6] 3-, [Fe(CN)6] 3- e [Fe(C2O4)3] 3-. O último, íon trisoxalatoferrato (III), é um complexo quelato no qual cada um dos três ligantes oxalato bidentado liga—se em duas posições octaédricas adjacentes ao redor do ferro. Na realidade, esta fórmula representa um par quirálico (você poderia representá-los?). Tanto os íons férricos como os ferrosos formam muitos complexos estáveis com cianeto; são os íons hexacianoferrato (II), [Fe(CN)6]4-, chamado íon ferrocianeto, e o íon hexacianoferrato (III), [Fe(CN)6] 3-, ou ferrocianeto. A mistura de (1) uma solução de ferrocianato de potássio, K4[Fe(CN)6], com uma solução contendo o íon férrico ou (2) uma solução de ferricianeto de potássio, K3[Fe(CN)6], com uma solução contendo o íon ferroso, produz um precipitado intensamente azul de KfeFe(CN)6.H2O. Historicamente, o produto no caso 1 é conhecido como “azul da Prússia” e o do caso 2 “azul de Turnbull”, porém sabe-se atualmente que estes compostos são idênticos.Os azuis da Prússia e de Elementos do Bloco d 77 Turnbull possuem um imenso retículo com os íons de Fe(II) e Fe(III) se alternando na ligação com -C≡N-, e com íons K+ e moléculas de água ocupando outras posições do retículo. Na análise qualitativa, o Fe(III) é geralmente identificado em solução por reação com o íon tiocianato, SCN-, para formar o complexo vermelho de isotiocianato, [FeNCS]2+ que existe na realidade como [Fe(H2O)5(NCS)] 2+. 3.8 GRUPO DO COBALTO O cobalto é um metal duro, relativamente inerte, com um brilho azul prateado. Como o ferro, é ferromagnético e pode se tornar passivo por agentes oxidantes fortes. É utilizado amplamente em ligas com ferro, níquel e outros metais. Nos seus compostos, o cobalto (d7), geralmente mostra os números de oxidação +2 e +3; neste aspecto o cobalto assemelha-se ao seu vizinho, o ferro. Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis são apresentados na Tabela 26. TABELA 26: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do cobalto. Elemento Símbolo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Cobalto Co [Ar] 3d7 4s2 (-I) 0 (I) II III (IV) Ródio Rh [Kr] 48 5s1 (-I) 0 (I) II III (IV) (VI) Irídio Ir [Xe] 4 f14 5d9 (-I) 0 (I) (II) III IV V (VI) a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis, são apresentados entre parênteses. O íon cobalto (II), ou íon cobaltoso, Co2+, de cor rósea, é um agente redutor muito fraco para reduzir o oxigênio (contraste com o Fe2+); como resultado, as soluções do íon cobaltoso são bastante estáveis. Quando uma solução contendo o íon cobaltoso é adicionada à solução de uma base forte, forma-se o hidróxido cobaltoso, de cor azul, Co(OH)2; quando a base é adicionada a uma solução de Co 2+ a 0 °C, forma-se o Co(OH)2 de cor rósea. Surpreendentemente, ninguém até hoje conseguiu determinar exatamente o que causa esta diferença de coloração. O Co (II) forma complexos tetraédricos e octaédricos: os tetraédricos incluem [CoCl4]2-, [Co(OH)4]2- e [Co(NO2)4]2-. Acredita-se que o íon hexaaquocobalto (II) existe em equilíbrio com uma pequena concentração do íon tetraaquocobalto (II): EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 78 Co(H2O)6 2+ (aq) Co(H2O)4 2+ (aq) + 2H2O Como um aquocomplexo, o Co(III) (íon cobáltico) é instável em solução. O Co3+ é um agente oxidante extremamente forte, Co3+(aq) + e - Co2+(aq) E o= 1,81 V E oxida água a oxigênio. Por outro lado, muitos ligantes estabilizam o Co(III) mais do que o Co(II), de modo que o estado de oxidação mais alto é observado em inúmeros íons complexos. Na presença de amônia, por exemplo, o potencial de redução acima torna-se [Co(NH3)6] 3+ + e- [Co(NH3)6] 2+ Eo= 0,1 V Que reflete a maior estabilidade do Co(III) quando complexado. Muitos complexos de Co(III) podem ser obtidos adicionando-se ligantes desejados a uma solução de Co(II) seguido de oxidação com O2 ou H2O2. Complexos aniônicos, neutros ou catiônicos de Co(III) são todos comuns, assim como os complexos polinucleares (ou policêntricos), nos quais dois ou mais átomos de cobalto estão ligados por ligantes bidentados: Co NH3 NH3 NH3 O O NH3 NH3 NH3 NH3 Co NH3 N Íon complexo polinuclear de cobalto 3.9 GRUPO DO NÍQUEL O níquel pertence a chamada tríade do ferro – ferro, cobalto e níquel. As semelhanças químicas entre estes três elementos são muito mais acentuadas que as semelhanças encontradas em cada um dos grupos B, por exemplo; níquel-paládio-platina. O níquel é um metal razoavelmente duro com um fraco brilho amarelado, em parte, talvez devido à camada de óxido alto-protetora. O níquel é utilizado na segunda camada da “galvanização tripla” do cromo. O níquel é também utilizado como catalisador em certas reações de hidrogenação, tais como na fabricação de margarina a partir de gorduras líquidas. Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis são apresentados na Tabela 27. Elementos do Bloco d 79 TABELA 27: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do níquel. Elemento Símblo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Níquel Ni [Ar] 3d8 4s2 -I 0 (I) II (III) (IV) Paládio Pd [Kr] 4d10 0 (I) II IV Platina Pt [Xe] 4 f14 5d9 7s1 0 (I) II (III) IV (V) (VI) a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis, são apresentados entre parênteses. O níquel metálico se combina com monóxido de carbono, a 50 °C, para formar um complexo tetraédrico neutro, tetracarbonilníquel (0). Ni(s ) + 4CO(g) Ni(CO)4(g) ∆ H o= 191 kJ Este é um composto volátil, altamente venenoso e utilizado no processo Mond para purificar o níquel; a reação é invertida a cerca de 200 °C para formar o metal extremamente puro. A tendência ao decréscimo na estabilidade dos números de oxidação mais elevados, indo da esquerda para a direita na primeira série dos metais de transição, também ocorre com o níquel. Para este elemento, o número de oxidação +2 e a regra, o +3 é bastante incomum, e o +4, raro. O íon de níquel (II), ou íon niqueloso, Ni2+, é um íon d8, verde, e existe como um hexaaquocomplexo em solução aquosa. Quando uma base forte é adicionada a uma solução de Ni2+, precipita o hidróxido niqueloso, verde, Ni(OH)2. O Ni(OH)2 não é anfótero, mas se dissolverá em amônia para formar amin complexos, tal como o [Ni(NH3)6] 2+. O Ni(II) forma complexos aniônicos, neutros e catiônicos. As geometrias incluem octaedro, tetraedro, quadrado-planar, e mesmo bipirâmide tetragonal. Os complexos quadrados-planares são comuns para os íons d8, devido à degeneração do campo cristalino para esta geometria produzir um orbital de elevada energia, como mostrado na Figura 2. Os subconjuntos de orbitais em um complexo quadrado-planar podem ser considerados como sendo o resultado da remoção dos ligantes situados no eixo z do átomo central, em um complexo octaédrico. Este processo é denominado distorção tetragonal, e quando os ligantes no eixo z tiverem sido totalmente removidos, forma-se um complexo quadrado-planar. A remoção dos ligantes no eixo z reduz a energia do orbital dz 2 e, em menor extensão, as energias dos orbitais dyz e dxz. O conjunto de níveis de energia resultante permite o emparelhamento de todos os elétrons enm um complexo d8, e um arranjo que torna vacante o orbital 22 yxd − de maior energia, sendo, portanto, relativamente. Devido ao fato de serem ocupados somente os orbitais de menor energia, ocorre um decréscimo na energia total do complexo, estabilizando-º Em alguns casos, os EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 80 ligantes situados no eixo z são removidos apenas parcialmente, produzindo um octaedro distorcido, na realidade, uma bipirâmide tetragonal, como no complexo [Ni(NH3)4(H2O)2] 2+. FIGURA 2: Degeneração do campo cristalino em complexos quadrado-planares com configuração d8. Um exemplo importante de complexo de níquel quadrado-planar neutro é o bis(dimetilglioximato) níquel (II): C C Ni N N N N C C CH3 CH3 CH3 CH3 O OO O H H Este complexo é um sólido vermelho utilizado para confirmar níquel em análises qualitativas e para precipitá-lo em análises quantitativas. Embora muitos compostos de níquel (III) sejam conhecidos, os íons simples de níquel (III), ou Ni3+, chamado algumas vezes de íon niquélico, não existe. A oxidação do Ni(OH)2 pelo hipobromito ou hipoclorito produz o óxido hidratado negro, formulado como NiO(OH), mas também escrito como Ni2O3 e mesmo como NiO2 (este deve consistir na realidade de uma mistura do níquel em dois diferentes estados de oxidação. Alguma coisa deve ser dita sobre os seis metais do grupo da platina: rutênio ródio e paládio (5o período) e ósmio, irídio e platina (6o período).Estão localizados logo abaixo da tríade do ferro na tabela periódica, mas são muito diferentes nas propriedades, sendo bastante nobres, ou seja, pouco reativos. Estes metais ocorrem associados na natureza, algumas vezes com o ouro, como elementos não combinados. Muitos dos metais do grupo da platina são utilizados em ligas especiais e como chapas de proteção em outros Elementos do Bloco d 81 metais. Alguns são úteis como catalisadores para várias reações orgânicas tais como as de hidrogenação. A platina é usada como conversor catalítico para automóveis. Os metais platínicos são particularmente difíceis de dissolver. A maior parte é dissolvida em água régia (HCl + HNO3) com a formação de complexos com cloro tal como [PtCl6] 2-. O ósmio e o irídio resistem mesmo à água régia, mas podem ser oxidados por aquecimento em uma mistura fundida de KOH-KNO3. 3.10 GRUPO DO COBRE Os elementos cobre, prata e ouro, que constituem um sub-grupo de metais de transição, são conhecidos como metais de cunhagem. . O cobre é um metal familiar; seus minérios incluem sulfetos, tais como chalcocita, e os óxidos, tais como cuprita, Cu2O. Também ocorre em pequenos depósitos como elemento não combinado, ou cobre nativo. O elemento é obtido inicialmente a partir da concentração do minério, o qual pode conter apenas umas dezenas de porcentagem de cobre, e então por aquecimento ao ar, convertendo muitas impurezas à escória de silicato, que é retirada. Este processo, que é desenvolvido na realidade em várias etapas, também faz a oxidação do sulfeto ao dióxido de enxofre gasoso, o qual pode ser transformado em ácido sulfúrico, um produto de valor. O cobre produzido tem pureza de 97 % a 99 % e apresenta-se manchado, por possuir bolhas de SO2. A purificação final do cobre é feita eletroliticamente num processo conhecido como eletrorrefino. A cela eletrolítica contém sulfato cúprico em meio aquoso, e seu componente anódico é um pedaço de cobre impuro, e seu cátodo uma placa fina de cobre puro. A voltagem na cela é controlada de tal modo que apenas o cobre é transferido do ânodo ao cátodo, e as impurezas permanecem em solução ou depositam-se. Considere, por exemplo, que o cobre impuro contenha ferro e prata como impureza. Os potenciais de oxidação padrão para o ferro, cobre e prata são Fe(s) Fe 2+ (aq) + 2e - Eo= 0,44 V Cu(s) Cu 2+ (aq) + 2e - Eo= -0,34 V Ag(s) Ag + (aq) + e - Eo= -0,80 V Mantendo a tensão suficientemente alta de modo que as duas primeiras reações ocorram no ânodo mas, não a terceira, o cobre e o ferros são dissolvidos, e a prata existente se depositará no fundo da cela. Em função dos íons ferrosos serem menos facilmente reduzidos que os íons cúpricos, somente o cobre EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 82 se deposita no cátodo. No fundo desta típica cela de eletrorrefino restarão prata não combinada, ouro, e até mesmo traços de platina, em um depósito conhecido como “lama anódica” ou “barro anódico” . (Em algumas operações, muitos destes elementos são recuperados para cobrir os custos com eletricidade.) Quando puro, o cobre é bastante maleável e dúctil e é excelente condutor de eletricidade, sendo superado neste aspecto somente pela prata. Seu uso mais extenso é na manufatura de fios elétricos; é também usado em tubos de água e em ligas com zinco (latões) e com estanho (bronzes). Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis, são apresentados na Tabela 28. TABELA 28: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do cobre. Elemento Símblo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Cobre Cu [Ar] 3d10 4s1 0 I II (III) Prata Ag [Kr] 4d10 5s1 0 I II (III) Ouro Au [Xe] 4 f14 5d10 6s1 0 I III V a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis, são apresentados entre parênteses. O cobre tem uma configuração 3d104s1, mas, embora possua um único elétron de valência, não apresenta comportamento semelhante aos metais alcalinos. O potencial de redução padrão do cobre é maior que o do hidrogênio, Cu2+(aq) + 2e - Cu(s ) E o= 0,34 V E, portanto, não dissolverá em ácidos não oxidantes, ou seja, ácidos cujos ânions não sejam bons agentes oxidantes. É oxidado pelo HNO3, contudo; em tais reações o nitrato é reduzido a NO e/ou NO2, dependendo da concentração. Em seus compostos, o cobre demonstra dois números de oxidação, +1 e +2, sendo este último de longe o mais comum. Em solução, o íon de cobre (I), ou íon cuproso, Cu+, é facilmente reduzido ao metal, Cu(s) E o= 0,52 VCu + (aq) + e - ou oxidado ao estado +2, Cu2+(aq) + e - Eo= -0,15 VCu + (aq) Elementos do Bloco d 83 A primeira destas duas equações pode ser combinada com a segunda conduzindo a um valor global de Eo maior que zero. Em outras palavras, o Cu+ pode se oxidar e reduzir ao mesmo tempo (desproporcionamento): Cu(s) E o= 0,52 VCu + (aq) + e - Cu2+(aq) + e - Eo= -0,15 VCu + (aq) 2Cu+(aq) Cu(s) + Cu 2+ (aq) E o= -0,37 V O valor de Eo corresponde a uma constante de equilíbrio igual a 2x106 a 25 °C, e deste modo os íons cuprosos não são estáveis em solução aquosa. O desproporcionamento pode ser invertido, entretanto, na presença de ligantes que complexem mais fortemente o Cu(I) do que Cu(II). Estes incluem Cl- e CN-. Compostos cuprosos insolúveis incluem CuCl e Cu2O, os quais são estáveis em contato com a água. O íon de cobre (II), ou íon cúprico, Cu2+ (d9), forma um hexaaqua complexo azul, no qual duas das seis moléculas de água estão mais afastadas do cobre do que as outras quatro, dando origem a uma estrutura octaédrica distorcida tetragonalmente. Tal estrutura é geralmente formulada como [Cu(H2O)4] 2+ e classificada como um complexo quadrado- planar. A adição de uma base ao íon cúprico precipita o hidróxido cúprico, Cu(OH)2, que é pouco anfótero, dissolvendo-se ligeiramente em solução contendo OH- concentrado para formar o íon cuprita, Cu(OH)3 -. O Cu(OH)2 dissolve-se rapidamente em soluções contendo amônio formando um complexo intensamente azul de [Cu(NH3)4] 2+, “planar”, sendo na realidade um complexo tetragonalmente distorcido de [Cu(NH3)4(H2O)2] 2+. A adição gradativa de ácido a este complexo precipita o Cu(OH)2, que se dissolve novamente com excesso de ácido formando [Cu(H2O)4] 2+. A prata é encontrada naturalmente como um elemento não combinado e em poucos compostos; é rara, entretanto, é obtida na sua grande maioria como um subproduto de eletrorrefino do cobre. Quando pura, a prata é um metal mole, maleável, com os maiores valores de condutividade elétrica e térmica que se conhecem. A “prata genuína” é a prata na qual se adicionou 8 % de cobre para endurecimento. Até a década de 1960, as moedas de prata nos Estados Unidos constituíam ligas de 10 % de cobre; atualmente, moedas de “prata” são feitas de uma liga de cobre e níquel. O maior emprego da prata éna indústria fotográfica. Assim como os metais do grupo da platina são menos reativos que os da tríade do ferro, as reatividades da prata e do ouro são menores que as do cobre. A prata metálica pode ser dissolvida em ácido nítrico e também em soluções de cianeto na presença de H2O2 ou O2, devido à formação de um complexo muito estável de [Ag(CN)2] - Em seus compostos a prata comumente exibe apenas o número de oxidação +1 (íon argenoso), embora os estados de oxidação +2 (íon argêntico) e +3 sejam conhecidos. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 84 Quando uma base forte é adicionada a uma solução aquosa de íons prata, Ag+, precipita o óxido de prata preto amarronzado: 2Ag+(aq) + 2OH - (aq) Ag2O(s) + H2O A adição de uma pequena quantidade de amônia a Ag+ também precipitará Ag2O, porémeste se dissolve em excesso de NH3 formando o íon diaminprata(I) estável, um “complexo de prata com amônia” : Ag2O(s) + 2NH3(aq) + H2O [Ag(NH3)2] + (aq) + 2OH - (aq) Muitos sais de prata são insolúveis. Estes incluem os haletos (exceto o AgF, que é solúvel), AgCN e Ag2S. Sais de prata de ácidos fracos, tais como Ag2CO3 e Ag3PO4, são insolúveis em soluções neutras ou básicas, mas solúveis em meio ácido. A maioria dos íons complexos formados por Ag(I) são lineares: [Ag(NH3)2] +, [AgCl2] -, [Ag(CN)2] - e [Ag(S2O3)2] 3-. 3.11 GRUPO DO ZINCO O zinco é um metal razoavelmente mole, cinza prateado, com um ponto de fusão moderado (419 °C). É moderadamente reativo (seu potencial de oxidação para formar o Zn2+ é igual a 0,76 V) e serve como um bom revestimento protetor para o ferro por que protege catodicamente, e por formar em sua superfície uma camada autoprotetora de Zn2CO3(OH)2. O zinco é usado em várias ligas e em baterias tais como pilhas secas (Leclanché). Artigos de formatos complicados, como grades de automóveis e enfeites, têm sido fabricados com zinco fundido e suas ligas. Atualmente, devido à baixa densidade e ao baixo custo, os plásticos têm substituído amplamente o zinco em peças de automóveis e em outras aplicações. Os elementos deste grupo, juntamente com a distribuição eletrônica e os estados de oxidação mais estáveis, são apresentados na Tabela 29. TABELA 29: Configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos do Grupo do cobre. Elemento Símblo Configuração Eletrônica Estado de Oxidaçãoa Zinco Zn [Ar] 3d10 4s2 0 II Cádmio Cd [Kr] 4d10 5s2 0 II Mercúrio Hg [Xe] 4 f14 5d10 6s2 0 I II a: Os estados de oxidação mais importantes são apresentados em negrito. Os estados de oxidação instáveis, são apresentados entre parênteses. Elementos do Bloco d 85 O único número de oxidação importante do zinco em seus compostos é +2, pois a configuração (n-1)d10 é bastante estável. Em solução aquosa, o íon de zinco, Zn+, existe como um tetraaquo complexo tetraédrico, e as soluções de sais de zinco tendem a serem ácidas em função da hidrólise: Zn2+(aq) + H2O(aq) ZnOH+(aq) + H + (aq) Onde, o ZnOH+ existe na realidade como [Zn(OH)(H2O)3] +. O hidróxido de zinco é precipitado com adição de base ao íon de zinco: Zn2+(aq) + 2OH - (aq) Zn(OH)2(s) Este é anfótero e se dissolve em excesso de OH- para formar soluções contendo espécies do tipo zincato, tais como [Zn(OH)3(H2O)] - e [Zn(OH)4] 2-. O zinco forma muitos outros íons complexos tetraédricos, incluindo [Zn(NH3)4]2+, [Zn(CN)4] 2- e [Zn(C2O4)2] 2-. Muitos destes complexos de zinco são menos estáveis do que aqueles formados com outros metais de transição. O cádmio, membro da segunda série dos metais de transição (no quarto período, logo abaixo do zinco), é muito semelhante ao zinco em se tratando de suas propriedades químicas e físicas. É um metal cinza esbranquiçado, mais mole e de fusão inferior à do zinco. Seu principal uso está no revestimento do ferro, no qual pode ser depositado como uma camada bem lisa que, como no caso do revestimento de zinco, protege catodicamente o ferro e é autorestaurável quando sofre arranhões. Na maior parte de seus compostos, o cádmio exibe apenas o número de oxidação +2. Em soluções alcalinas o Cd2+ é precipitado como Cd(OH)2, o qual, distintamente do Zn(OH)2, não é anfótero. Cd(OH)2(s) + 4NH3(aq) [Cd(NH3)4] 2+ (aq) + 2OH - (aq) Todavia, o Cd(OH)2 irá se dissolver em solução de NH3 para formar um amim complexo, conforme a reação anterior. O cádmio forma íons complexos tetraédricos semelhantes em muitos aspectos aos de zinco. Entretanto, seus complexos com ligantes haletos são mais estáveis. O cádmio apresenta um comportamento não muito comum pois forma numerosos “sais fracos”, os quais não se dissociam completamente em água. Medidas de condutividade mostram a existência de espécies do tipo CdCl+ e CdCl2 em uma solução aquosa de cloreto de cádmio, por exemplo. Os compostos de cádmio são muito tóxicos. O elemento mercúrio apresenta-se como um líquido prateado fascinante na temperatura ambiente (seu ponto de fusão é de –39 °C). Sua pressão de vapor é baixa, cerca de 1x10-3 mmHg a 20 °C, porém é suficientemente alta para tornar o mercúrio potencialmente perigoso em vista de sua elevada toxicidade. Como muitos “metais EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 86 pesados”, o mercúrio é um veneno cumulativo. Nos primórdios da química, muitos pesquisadores experimentaram seus efeitos após terem passado anos trabalhando em laboratórios pouco ventilados, nos quais o mercúrio derramado se escondia nas rachaduras e tábuas dos assoalhos. O mercúrio é utilizado em termômetros, barômetros, chaves elétricas e lâmpadas a vapor de mercúrio, incluindo as lâmpadas fluorescentes. É também utilizado em ligas, chamadas de amálgamas, que podem ser líquidas ou sólidas na temperatura ambiente. O amálgama dentário (para preenchimento das cavidades com “prata”) é uma liga composta por mercúrio, prata, cádmio, estanho e cobre. Distintamente do zinco e do cádmio, os elementos acima do mercúrio na tabela periódica, o Hg exibe comumente o número de oxidação +1, assim com o +2. O mercúrio forma um inesperado íon duplo, o mercúrio (I), ou íon mercuroso, Hg2+. O íon mercuroso não é paramagnético, mostrando que os elétrons nos orbitais 6s em cada um dos dois íons Hg+ estão sendo usados na formação de ligação simples no Hg2 2+. É de se esperar que este íon se desproporcione, mas isto não ocorre, como pode ser observado com base nos seguintes potenciais de redução padrão: 2Hg+(aq) + 2e - Hg2 2+ (aq) E o= 0,92 V Hg2 2+ (aq) + 2e - 2Hg(l) E o= 0,78 V A inversão da primeira semi-reação e a adição da mesma à segunda resulta em 2Hg(l) E o= 0,78 VHg2 2+ (aq) + 2e - Hg2 2+ (aq) 2Hg+(aq) + 2e - Eo= -0,92 V 2Hg2 2+ (aq) 2Hg2+(aq) + 2Hg(l) E o= -0,14 V O que corresponde a um valor de ∆Go (para a reação como está escrita) igual a 27 kJ. Dividindo por 2, obtemos, Hg2+(aq) + Hg(l)Hg2 2+ (aq) ∆Go= 14 kJ para a qual a constante de equilíbrio correspondente é 3 2 2 2 104 ][ ][ − + + ×== Hg Hg K Elementos do Bloco d 87 um valor suficientemente baixo para garantir estabilidade ao Hg2 2+ em solução. Porém, a adição de OH- força a ocorrência de reação de desproporcionamento Hg(I) → Hg(0) + Hg(II) devido à formação de um produto com Hg (II) bastante insolúvel, o óxido mercúrico: Hg2 2+ (aq) + 2OH - (aq) Hg(l) + HgO(s) + H2O O composto mais comum de Hg(I) é provavelmente o cloreto de mercúrio (I) (cloreto mercuroso), Hg2Cl2, um sólido branco insolúvel chamado calomelano. É semelhante ao cloreto de prata com relação à sua insolubilidade, porém torna-se preto com adição de NH3. A reação é um outro exemplo de desproporcionamento do Hg(I) e é geralmente representada como Hg2Cl2(s ) + 2NH3(aq) HgNH2Cl(s ) + Hg(l) + NH4 + (aq) + Cl - (aq) branco preto embora seja aparentemente mais complexa. O íon de mercúrio (II), ou íon mercúrico, Hg2+, é formado invariavelmente quando o mercúrio é dissolvido em um agente oxidante forte, porque qualquer reagente capaz de oxidar o Hg(0) a Hg(I) pode também oxidá-lo a Hg(II): 2Hg2+(aq) + 2e - 2Hg(l) E o= 0,79 V Hg2+(aq) + 2e - Hg(l) E o= 0,85 V O íon mercúrico forma um cloreto, HgCl2, chamado sublimado corrosivo, o qual é um sal fraco, existindo em solução como moléculas lineares pouco dissociadas. O sulfeto mercúrico, HgS, é um sal muito insolúvel (Kps= 10 -54), o qual não se dissolverá em HNO3 concentrado a quente, mas se dissolverá em água régia com formação do íon [HgCl4] 2-, onde o sulfeto é oxidado a enxofre (e talvez um sulfato). O mercúrio representa uma séria ameaça ao ambiente. Duranteanos de ignorância e falta de cuidados, algumas partes do mundo tornaram-se intensamente poluídas com mercúrio. Os compostos de mercúrio nas águas residuais provenientes dos estabelecimentos industriais foram convertidos parcialmente a dimetil-mercúrio, CH3-Hg- CH3 que é solúvel nas gorduras e entra na cadeia alimentar, tornando-se eventualmente concentrado nos peixes. Uma conseqüência deste processo é a proibição da pesca em determinadas enseadas e águas continentais. Na maior parte do mundo, a descarga de mercúrio nos rios, lagos e oceanos tem sido proibida, porém, levará um longo tempo para a limpeza daqueles corpos de águas já poluídas. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 88 3.12 PROBLEMAS (BLOCO D) 1. Como poderia ser definido um elemento de transição? Cite as propriedades associadas a esses elementos. 2. Como as seguintes propriedades variam nos elementos de transição: 1) Caráter iônico; 2) Propriedades básicas 3) Estabilidade dos diferentes estados de oxidação; 4) Capacidade de formar complexos. 3. Dê exemplos para os seguintes aspectos da química dos metais de transição, sugerindo motivos que justifiquem estes fatos: 1) o óxido de número de oxidação mais baixo de um metal de transição é básico, ao passo que o óxido superior é geralmente ácido. 2) um metal de transição usualmente exibe número de oxidação maior nos fluoretos e nos iodetos. 3) os haletos se tornam mais covalentes à medida que aumenta o estado de oxidação do metal, e são também mais susceptíveis à hidrólise quando aumenta o estado de oxidação. 4. Escreva anotações sobre os seguintes fatos: 1) A regra do número atômico efetivo; 2) Ligantes que estabilizam estados de oxidação baixos; 3) Ligações coordenadas em compostos metálicos contendo carbonilas. 5. Descreva os métodos que permitem preparar amostras extremamente puras desses metais. 4 ELEMENTOS DO BLOCO f 4.1 LANTANÍDEOS Os quatorze elementos do bloco f são denominados de lantanídeos. Estes elementos possuem como principal característica o preenchimento gradual do penúltimo nível de energia, o 4f. Com relação às suas propriedades, são extremamente semelhantes entre si, sendo o mais recente deles caracterizado quimicamente no ano de 1907. Eram conhecidos antigamente como “terras raras”. No entanto, este nome não é muito conveniente, pois sabe-se, atualmente, que estes elementos não são particularmente raros. Além deste fato, o termo não é muito preciso, já que as terras raras incluem, além dos lantanídeos, o La, ou até Sc e Y, que são elementos do bloco d, as vezes o Th (um actinídeo) e o Zr(outro elemento do bloco d). 4.1.1 Configuração eletrônica Na Tabela 30 são mostradas as configurações eletrônicas dos metais lantanídeos. O lantâneo, elemento do bloco d, possui a seguinte distribuição eletrônica: [Xenônio] 5d1 6s2. Desta maneira, seria de se esperar que os 14 elementos que vão do cério ao lutécio, fossem formados mediante a adição sucessiva de 1, 2, 3..., 14 elétrons ao nível de energia 4f. Entretanto, para a maioria desses elementos, torna-se mais energeticamente favorável deslocar o elétron isolado no nível 5d para o nível 4f, o que não é observado para os elementos Ce, Gd e Lu. O Gd mantém o elétron 5d1, pois dessa forma é possível ter-se um subnível 4f semipreenchido, que é energiticamente mais favorável. O Lu mantém um arranjo 5d1 por ter sua subcamada 4f preenchida. Os elementos da série dos lantanídeos caracterizam-se pelos seus estados de oxidação de +3, sendo seus compostos tipicamente iônicos e trivalentes. As configurações eletrônicas de seus íons são: Ce3+ f1, Pr3+ f 2, Nd3+ f 3 ..., Lu3+ f14. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 90 Os elétrons 4f do antepenúltimo nível de energia são muito blindados pelos elétrons dos subníveis 5s e 5p, como conseqüência disto, tais elétrons não participam efetivamente na formação de ligações químicas em compostos contendo elementos deste tipo. O fato dos orbitais f estarem preenchidos ou vazios, tem pouca influência sobre as propriedades químicas dos lantanídeos. No entanto, tal fato afeta profundamente os espectros eletrônicos e as propriedades magnéticas destes elementos. TABELA 30: Símbolos, configurações eletrônicas e estados de oxidação dos elementos da série dos lantanídeos. 4.1.2 Estados de Oxidação A Tabela 31 mostra a soma das três primeiras energias de ionização dos elementos da série dos lantanídeos, sendo estes valores relativamente pequenos. Elementos do Bloco f 91 TABELA 31: Energias de ionização e raios iônicos dos elementos da série dos lantanídeos. Íons Ln3+, onde Ln representa qualquer um dos lantanídeos, domina a química do estado de oxidação 3+ para esta série de elementos. Os íons Ln2+ e Ln4+, também ocorrem, porém são menos estáveis que os íons Ln3+. Da mesma maneira que ocorre para outros elementos, os estados de oxidação mais altos ocorrem no caso dos fluoretos e óxidos e os estados de oxidação mais baixos ocorrem para os demais haletos, tais como brometos e iodetos. Os estados de oxidação 2+ e 4+, principalmente, nas seguintes situações: 1) Quando ocorre uma configuração de gás nobre, por exemplo, Ce4+ (f 0) 2) Um nível f semipreenchido, por exemplo, Eu2+ e Tb4+ (f 7) 3) Um nível f completamente preenchido, por exemplo, Yb2+(f 14) Além disso, os estados de oxidação 2+ e 4+ existem em elementos que se aproximam dessas situações. Assim, Sm2+ e Tm2+ ocorrem com configurações f 6 e f 13 e Pr4+ e Nd 4+ ocorrem com configurações f 1 e f 2, respectivamente. Os únicos casos de estados de oxidação 4+ e 2+ em que existe uma química estável em solução aquosa são os dos íons Ce4+, Sm2+, Eu2+ e Yb2+. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 92 Os elementos lantanídeos assemelham-se muito mais uns aos outros do que os demais elementos da série de transição (horizontal). Isso se deve a existência de, praticamente, um estado de oxidação, o 3+. Dessa forma, nessa série de elementos é possível comparar os efeitos de pequenas variações de tamanho e de carga nuclear sobre o comportamento químico destes elementos. 4.1.3 Abundância de Isótopos Os lantanídeos não são elementos raros. O cério é quase tão abundante quanto o cobre. Excetuando-se o promécio, que não ocorre na natureza, todos os lantanídeos são mais abundantes que o iodo. A abundância dos elementos e o número de isótopos que ocorrem na natureza variam regularmente (Tabela 32), elementos com um número atômico par, são mais abundantes do que seus vizinhos de número atômico ímpar (regra de Harkins). TABELA 32: Abundância dos isótopos dos elementos da série dos lantanídeos. Os elementos de número número atômico par também possuem maior número de isótopos estáveis. Elementos com número atômicos ímpar nunca apresentam mais do que dois isótopos estáveis. Através de toda tabela periódica, a estabilidade de um núcleo está relacionada tanto ao número de prótons como ao número de neutrons existentes no núcleo (Tabela 33). Elementos do Bloco f 93 TABELA 33: Relação entre número atômico e número de neutrons e estabilidade nuclear. 4.1.4 Obtenção e usos A produção mundial de minerais contendo terras raras foi de 72.100 toneladas em 1988; o conteúdo em óxidos de lantanídeos Ln2O3 foi de 41.800 toneladas. Os principais produtores desses minerais foram a China (24%), Estados Unidos e Austrália (17%) e a Índia (5,5%). 1) A areia monazítica é o mineral mais importante e mais disseminado. É responsável por 78% das terras raras produzidas. Antes de 1960, a areia monazítica era a única fonte para lantanídeos. Trata-se de ma mistura contendo principalmente fosfatos de lantânio e fosfatos trivalentes dos lantanídeos mais leves (Ce, Pr e Nd). Contêm, também, quantidades menores de ítrio e de lantanídeos mais pesados, além de fosfato de tório, que é um elemento fracamente radioativo. As areias monazítica apresentam, também,traços do produto de decaimento radioativo do tório, o rádio. 2) Bastnaesita é um fluorcarbonato misto MCO3F, onde M é o elemento da série dos lantanídeos. Grandes quantidades do mineral são extraídas nos EUA, responsável hoje, por 22% da produção mundial. A bastnaesita só é encontrada nos Estados Unidos e em Madagascar. 3) Utiliza-se também, na obtenção de lantanídeos, um outro mineral conhecido como xenotina. A monazita é tratada com H2SO4 concentrado a quente. O Th, La e os lantanídeos se dissolvem como sulfatos, separando-se a parte insolúvel do mineral bruto. O Th é precipitado como ThO2, por neutralização parcial com NH4OH. Usa-se o Na2SO4 para a precipitação (“salting out”) do La e dos lantanídeos leves como sulfatos, permanecendo em solução os lantanídeos mais pesados. Os lantanídeos leves são oxidados com Ca(OCl)2. O Ce 3+é oxidado a Ce4+, que é precipitado como Ce(IO3) e removido. O La 3+ pode ser removido por extração com solvente, como fosfato de tri-n-butila. Se necessário, os elementos podem ser obtidos individualmente, por troca iônica. O tratamento da bastnaesita é algo mais simples, pois ela não contêm tório. Uma vez separados os compostos dos lantanídeos podem ser obtidos como segue: EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 94 1. Por eletrólise do LnCl3 fundido, com adição de NaCl ou CaCl2 para abaixar o ponto de fusão. 2. La e os metais mais leves Ce e Eu podem ser obtidos por redução de LnCl3 anidro com Ca a 1.000-1.100 ºC, num recipiente com atmosfera de argônio. Os elementos mais pesados com pontos de fusão mais elevados requerem temperaturas em torno de 1.400 ºC. Nessa temperatura o CaCl2 ferve, devendo-se a usar por este motivo, LnF3; em alguns casos o Ca é substituído por Li. São produzidos anualmente cerca de 5.000 toneladas de lantânio e 13.000 toneladas de lantanídeos. Os metais têm pouco uso no estado puro. O principal emprego é reservado a uma mistura de La e lantanídeos conhecida como “mischmetal” (50% Ce, 40% La, 7% Fe e 3% de outros metais. É adiciona ao aço para aumentar sua resistência e a facilidade de manuseá-lo, sendo também utilizado em ligas de magnésio. Em pequenas quantidades, o mischmetal é aplicado em pedras de isqueiros. O La2O3 é utilizado nas lentes de Crookes, que protegem contra a radiação ultravioleta, absorvendo-ª O CeO2 é utilizado no polimento de vidros, como revestimento em fornos auto-limpantes e como oxidante em análise volumétrica. Camisas de lâmpadas a gás são tratadas com uma mistura de 1% de CeO2 e 99% de ThO2, para aumentar a quantidade de luz emitida pela chama de gás. Outros óxidos de lantanídeos são empregados como material fosforescente em tubos de imagem de aparelhos de TV a cores. O “óxido de didímio” (uma mistura de óxidos de praseodímio e neodímio) é utilizado, juntamente com CuCl2 como catalisador no novo processo Deacon para obtenção de Cl2 a partir de HCl. O Nd2O3 dissolvido em SeOCl2 é usado como laser líquido (oxicloreto de selênio é adequado como solvente porque não contêm átomos que poderiam converter a energia fornecida em calor). Elementos da série dos lantanídeos estão presentes nos supercondutores dos tipo La(2-x)BaxCuO(4-y) e Yba2Cu3O(7-x), e outros (Sm, Eu, Nd, Dy e Yb) foram usados como substituintes destes metais. 4.1.5 Separação dos Lantanídeos As propriedades dos íons metálicos são determinadas por seu tamanho e carga. Todos os lantanídeos são, geralmente, trivalentes e quase idênticos em seus tamanhos, de modo que suas propriedades químicas são quase as mesmas. A separação de um dos lantanídeos de uma mistura de metais desta série é extremamente trabalhosa, sendo quase tão difícil quanto a separação de isótopos em um determinado elemento. Os métodos clássicos de separação exploram as ligeiras diferenças nas propriedades básicas, nas estabilidades relativas e solubilidades dos lantanídeos. A seguir apresentamos um sumário dos métodos de separação. Recentemente, contudo, os únicos métodos utilizados têm sido a troca iônica e a variação de valência. Elementos do Bloco f 95 4.1.6 Precipitação Com uma quantidade limitada de um agente precipitante, a substância com a menor solubilidade é precipitada em primeiro. Suponha a adição de íons hidroxila a uma solução contendo uma mistura de Ln(NO3)3. Precipita inicialmente a base mais fraca Lu(OH)3, a última base a ser precipitada é a mais forte La(OH)3. O precipitado contém maior quantidade de elementos da esquerda da série. O precipitado pode ser removido por filtração. Só se consegue uma separação parcial, mas o precipitado pode ser redissolvido em HNO3, repetindo-se o procedimento para obter-se um maior grau de pureza. 4.1.7 Reação Térmica Fundindo-se uma mistura de Ln(NO3)3, atingir-se-á uma temperatura em que o nitrato menos básico se converte ao óxido. A mistura é tratada com água. Os nitratos se dissolvem e podem ser removidos com o filtrado, deixando os óxidos insolúveis como resíduo. Esses óxidos são dissolvidos em HNO3, repetindo-se o procedimento. 4.1.8 Cristalização Fracionada Este método pode ser utilizado para separar sais de lantanídeos. A solubilidade decresce do La para Lu. Portanto, os sais próximos da extremidade do Lu cristalizam-se em primeiro lugar. Foram utilizados para este fim, nitratos, sulfatos, bromatos, percloratos e oxalatos. Também, utilizou-se sais duplos, tais como: Ln(NO3)33Mg(NO3)2.24H2O, já que estes são cristalizados com maior facilidade. Para se obter boas separações, o procedimento deve ser repetido várias vezes. Solventes não-aquosos, como éter dietílico, foram usados para separar Nd(NO3)3 e Pr(NO3)3. 4.1.9 Formação de complexos Uma mistura de íons lantanídeos é tratada com um agente complexante, tal como o EDTA (ácido etilenodiamino(tetraacético)). Todos os íons formam complexos estáveis. Os íons da direita da série lantanídica, como Lu3+, formam complexos com maior estabilidade, já que são constituídos dos menores íons. Os oxalatos dos lantanídeos são insolúveis. Contudo, a adição de íons oxalato a essa solução não forma um precipitado, já que os íons Ln3+ estão todos complexados com o EDTA. HOOC COOHCH2 CH2 CH2 CH2 N HOOC CH2 N COOHCH2 EDTA Adicionando-se uma certa quantidade de ácido à solução, o complexo menos estável com o EDTA será dissociado. Isso libera íons da parte esquerda da série dos lantanídeos, como Ce3+, Pr3+ e Nd3+, que precipitam imediatamente na forma de oxalatos. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 96 Estes são separados por filtração. A separação não é completa; os oxalatos são redissolvidos e o procedimento é repetido muitas vezes. 4.1.10 Extração com Solvente Os íons Ln3+ mais pesados são mais solúveis em fosfato de tri-n-butila que os íons mais leves. Contudo suas solubilidades em solventes iônicos e H2O são inversas. A relação entre os coeficientes de partição de La(NO3)3 e Gd(NO3)3 entre uma solução dos íons metálicos em HNO3 concentrado e fosfato de tri-n-butila, é de 1:1,06. Essa diferença é bastante pequena, mas com a utilização de um aparelho de fluxo contínuo em contra- corrente pode ser efetuado automaticamente um grande número de partições. Isso é menos trabalhoso que efetuar 10.000 ou 20.000 cristalizações. Por este método, foi possível obter quantidades de ordem de quilogramas de Gd com pureza de 95%. A técnica foi desenvolvida originalmente nos primórdios das pesquisas sobre energia atômica, para separar e identificar os lantanídeos produzidos na fissão do urânio. 4.1.11 Variação de Valência Alguns poucos lantanídeos apresentam estados de oxidação (+4) e (+2). As propriedades do Ln4+ e do Ln2+ são bem diferentes das do Ln3+, permitindo uma separação relativamente fácil. O Ce pode ser separado com bastante facilidade das misturas dos lantanídeos, pois é o único destes elementos que forma um íon tetravalente estável em solução aquosa. Oxidando uma solução contendo uma mistura de íons Ln3+ com NaOCl em meio alcalino,obteremos o Ce4+. Devido a sua carga maior, o Ce4+ é muito menor e menos básico que o Ce3+ ou qualquer outro Ln3+. O Ce4+ é separado por precipitação cuidadosamente controlada de CeO2 ou de Ce(IO3)4, permanecendo em solução os demais íons trivalentes. Num processo alternativo, O Ce4+ pode ser extraído da mistura dos lantanídeos Ln3+ por extração com solvente, em solução de HNO3 e usando fosfato de tri-n-butila. Desse modo é possível obter, a partir de uma mistura contendo 40% de Ce, em uma operação de uma única etapa. Analogamente, as propriedades do Eu2+ são muito diferentes das do Ln3+. O sulfato de európio (EuSO4) se assemelha aos sulfatos do grupo II e é insolúvel em água. Os sulfatos de Ln3+ são solúveis. Reduzindo-se eletroquimicamente uma solução de íons Ln3+, usando um cátodo de mercúrio, ou um amálgama de zinco, obtêm-se o Eu2+. Na presença de H2SO4 ocorrerá precipitação de Eu SO4, que poderá ser separado por filtração (Sm2+ e Yb2+ também podem ser obtidos dessa maneira, mas são oxidados lentamente pela água). A variação da valência continua sendo um método útil de purificação de Ce e de Eu, apesar do desenvolvimento, em anos recentes, do método da troca iônica. Elementos do Bloco f 97 4.1.12 Troca Iônica Este é o método geral mais importante, mais rápido e mais eficiente para a separação e purificação dos lantanídeos. Uma solução de íons dos lantanídeos percorre uma coluna de resina de troca iônica sintética, por exemplo, “Dovex-50”. Trata-se de poliestireno sulfonado, que contém grupos –SO3H. Os íons Ln 3+ são retidos pela resina, onde substituem o hidrogênio ácido do grupo –SO3H. 3 3 (aq)+ H+ H++ (s)Ln(resina)(resina)(s)3 Ln3+(aq) Os íons H+ formados são lavados da coluna. A seguir os íons metálicos são aluídos, ou seja, “lavados’ ou removidos da coluna de maneira seletiva. O eluente contém um agente complexante, por exemplo uma solução tamponada de ácido cítrico/citrato de amônio, ou solução diluída de (NH4)3H.EDTA a pH=8. No caso de citrato, estabele-se o seguinte equilíbrio: + Ln(citrato)33(citrato)3 3 (aq) + H+H+ +(s )Ln(resina) (resina)(s )3 À medida que a solução de citrato desce pela coluna, os íons Ln3+ são removidos da resina, passando a formar complexos com o citrato. Um pouco mais abaixo na coluna, os íons Ln3+ retornam à resina. Enquanto a solução de citrato percorre a coluna, os íons metálicos formam complexos alternadamente com a resina e com a solução de citrato, várias vezes consecutivas. O íon metálico gradativamente desce pela coluna, e eventualmente é recolhido na parte inferior da coluna na forma de complexo de citrato. Os íons lantanídeos menores, tal como o Lu3+, formam com o citrato, complexos mais estáveis do que os íons maiores, como o La3+. Assim, os íons menores e mais pesados permanecem mais tempo na solução, e são, portanto, os primeiros a serem eluídos da coluna. O processo das de formação de bandas contendo os diferentes íons, pode ser acompanhado através de espectroscopia de fluorescência atômica. A solução que deixa a coluna é coletada em recipientes separados por coletor automático de frações. Dessa maneira é possível separar os elementos individuais. Os metais podem ser precipitados na forma de seus oxalatos insolúveis, e a seguir aquecidos para formarem seus óxidos correspondentes. O processo cromatográfico corresponde à execução de muitas separações ou de muitas cristalizações, mas a separação é efetuada numa única coluna. Utilizando-se uma coluna de troca iônica suficientemente longa, os elementos podem ser obtidos com purezas de até 99,9%, numa única passagem. 4.1.13 Propriedades químicas dos compostos com estado de oxidação (+3) Todos estes metais são moles e de coloração branco prateada. São eletropositivos e consequentemente, muito reativos. Os metais mais pesados de grupo são menos reativos EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 98 que os mais leves, porque formam uma camada de óxido na superfície metálica. As propriedades químicas do grupo são essencialmente as propriedades dos compostos trivalentes. A soma das três primeiras energias de ionização varia, com mínimos no La3+, Gd3+ e Lu3+, associados com uma camada f vazia, semipreenchida e preenchida. Ocorrem máximos no Eu3+ e Yb3+, associados à ruptura de uma camada semipreenchida ou preenchida. Os potenciais padrão de redução ( E0) são elevados. Variam de forma regular num pequeno intervalo que vais de –2,48 a –2,26 V, dependendo do tamanho dos íons. + + 362 2Ln H2O Ln(OH)3 H2 Todos os lantanídeos são muito mais reativos que o Al (E0= -1,66 V), e são ligeiramente mais reativos que o Mg (E0= -2,37 V). Assim, reagem lentamente com água fria, mas reagem rapidamente com o aquecimento da solução. Os hidróxidos Ln(OH)3 formam precipitados gelatinosos, mediante adição de NH4OH às soluções aquosas. Esses hidróxidos são iônicos e básicos. São menos básicos que o Ca(OH)2, mas é mais básico que o Al(OH)3, que é anfótero. Todos os metais, óxidos e hidróxidos se dissolvem em ácidos diluídos, formando sais. Os hidróxidos Ln(OH)3 são suficientemente básicos para absorverem o CO2 do ar e formarem carbonatos. A basicidade decresce à medida que decresce o raio iônico, do Ce ao Lu. Assim. O Ce(OH)3 é o mais básico; o Lu(OH)3, que é o menos básico, é intermediário em basicidade entre o escândio e o ítrio. O decréscimo nas propriedades básicas é ilustrado pela dissolução dos hidróxidos dos últimos elementos em NaOH concentrado, formando complexos. Lu(OH)3 33 - - 3 3 33 + + + + [Lu(OH)6] [Yb(OH)6] Na+ Na+ NaOH NaOHYb(OH)3 Expostos ao ar, os metais perdem o brilho rapidamente e, aquecidos em presença de O2, formam os óxidos Ln2O3. O Yb e o Lu formam um filme protetor de óxido, que impede que o restante do metal forme óxido, a não ser quando aquecido a 1000 ºC. A única exceção é o Ce, que forma o óxido CeO2 em vez do Ce2O3. Os óxidos são iônicos e básicos. A força básica decresce à medida que os íons se tornam menores. + + 22 H2CeO2H2OCeH2 Os metais do grupo reagem com H2, mas muitas vezes é necessário um aquecimento a 300-400 ºC para dar início a reação. Os produtos são sólidos de fórmula Elementos do Bloco f 99 LnH2. O Eu e Yb têm ambos, tendência a formar compostos bivalentes EuH2 Yb2, que são hidretos salinos que contêm os íons M2+ e H-. Os outros metais formam hidretos LnH2, que são pretos, metálicos e condutores de corrente elétrica. Seria melhor formulá-los como contendo Ln3+, 2H- e um elétron ocupando uma banda de condução. Além disso, o Yb forma um composto não-estequiométrico correspondendo a aproximadamente YbH2,5. Os hidretos são surpreendentemente estáveis ao calor, às vezes até a temperatura de 900 ºC. São decompostos pela água e reagem com oxigênio. Quando aquecidos sob pressão, esses “dihidretos” absorvem H, e todos, com exceção do Eu, formam hidretos salinos LnH3, constituídos por Ln 3+ e três H-. Não possuem um elétron deslocalizado e não apresentam condução metálica. Os haletos anidros MX3 podem ser obtidos aquecendo-se o metal com o halogênio, ou então aquecendo-se o óxido com o haleto de amônio apropriado. Co300 +++ 3626 H2ONH3LnCl3NH4ClLn2O3 Os fluoretos são muito insolúveis, e podem ser precipitados de soluções de Ln3+, mediante a adição de NaF ou de HF. Essa reação é utilizada como teste para os lantanídeos na análise qualitativa. Contudo, com excesso de F-, os íons lantanídeos menores podem formar complexos solúveis [LnF(H2O)n] 2+. Os cloretos são deliqüescente e solúveis, e cristalizam com seis ou sete moléculas de água de cristalização. Se os haletos hidratados forem aquecidos, eles formam oxohaletos, em vez de se desidratarem aos haletos anidros. ++ 25 HClH2OLnOCl calorH2O6LnCl3. O aquecimento de CeX3.(H2O)n forma CeO2. Os brometos e iodetos são semelhantes aos cloretos. As temperaturas mais altas os lantanídeos reagem comB, formando LnB4 e LnB6. Fundindo-se os metais com C num arco voltáico, em atmosfera inerte, ocorre a formação de carbetos de estequiometria LnC2 e Ln4(C2)3. Esses carbetos também podem ser obtidos reduzindo-se Ln2O3 com C num forno elétrico. O LnC2 é mais reativo que o CaO2. Reagem com água, formando etino (acetileno), e também certa quantidade de hidrogênio, C2H4 e C2H6. Mostram também condutividade metálica. Esses compostos não contêm o Ln2+ e são melhor representados como acetilenos contendo Ln3+ e C2- e um elétron adicional numa banda de condução. +H+ C2H6C2H4C2H2 + H2 2Ln(OH)3 + 2C2H2 + H22LnC2 + 6H2O A temperaturas elevadas, esses metais também reagem com N, P, As, Sb e Bi formando LnN, LnP, etc. O LnN sofre hidrólise de modo similar ao AlN: EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 100 Ln(OH)3 + NH3LnN + 3H2O Conhece-se uma grande variedade de oxossais, incluindo os nitratos, carbonatos, sulfatos, fosfatos, bem como sais de íons fortemente oxidantes, como os percloratos. 4.1.14 Estados de Oxidação (+4) O único lantanídeo (+4) que existe em solução aquosa é o íon Ce4+. É raro encontrar íons com carga +4 em solução. A carga elevada no íon causa uma hidratação intensa, e exceto em soluções fortemente ácidas o íon Ce4+ sofre hidrólise, com a formação de espécies poliméricas e de H+. Soluções de Ce4+ são largamente usadas como agente oxidante em análise volumétrica, no lugar de K2Cr2O7 e KMnO4. Na análise clássica, as buretas devem ser lavadas com ácido para evitar-se a hidratação do íon. Solução aquosas contendo Ce podem ser preparadas oxidando-se uma solução de Ce3+ com um agente oxidante muito forte, tal como o perossulfato de amônio (NH4)2S2O8. O Ce4+ também é utilizado em reações orgânicas, por exemplo, na oxidação do carbono alfa de álcoois, aldeídos e cetonas. Os compostos mais comuns são CeO2, que é um sólido branco, e CeO2.(H2O)n, que consiste em um precipitado gelatinoso amarelo. O CeO2 pode ser obtido por aquecimento do metal na forma de Ce(OH)3 ou de Ce(oxalato)3, na presença de ar. O CeO2 tem uma estrutura do tipo da fluorita. É insolúvel em ácidos e álcalis, mas torna-se solúvel se reduzido para Ce3+. O sulfato cérico, Ce(SO4)2, um composto bem conhecido, amarelo como o K2Cr2O7. O CeF4 é obtido a partir da reação entre CeF3 com F2. É branco, e em água é rapidamente hidrolisado. Apresenta uma estrutura cristalina tridimensional, com o metal no centro de um antiprisma quadrado. Diversos complexos são estáveis, tal como o nitrato cérico de amônio, (NH4)2[Ce(NO3)6]. A estrutura cristalina deste composto é pouco comum, envolvendo grupos bidentados NO3 -. O átomo de Ce possui número de coordenação 12, e sua geometria é a de um icosaedro. Essa estrutura é estável, mesmo em solução. Dois dos grupos NO3 - podem ser substituídos por ligante derivados da fosfina, Ph3PO, com formação de um complexo neutro decacoordenado, [Ce(NO3)4(Ph3PO)2]. Os outros compostos com estado de oxidação +4 não são estáveis em solução aquosa, e são conhecidos somente como óxidos, fluoretos, e alguns poucos fluorocomplexos. Conhecem-se o PrO2, PrF4, Na2[PrF6], TbO2, DyF4 e Cs3[DyF7]. 2CeO2 + 6CO2Ce2(C2O4)3 + 2O2 2CeO2 + 3H2O2Ce(OH)3 + 1/2O2 CeO2Ce + O2 Elementos do Bloco f 101 Os elementos Pr, Nd, Tb e Dy também podem ser encontrados no estado de oxidação (+4). Mas são geralmente instáveis, ocorrendo somente como sólidos, ou na forma de fluoretos, ou de óxidos, que podem ser não-estquiométricos. 4.1.15 Estados de Oxidação (+2) Os únicos dos elementos que no estado de oxidação (+2) apresentam uma química em solução aquosa são o Sm2+, Eu2+ e Yb2+. O lantanídeo bivalente mais estável é o Eu2+. É estável em água, mas a solução é fortemente redutora. O EuSO4 pode ser obtido pela hidrólise de soluções de Eu2(SO4)3, quando ocorre precipitação do sulfato bivalente. EuCl2 pode ser obtido na forma de sólido, reduzindo-se EuCl3 com H2. 2EuCl2 + 2HCl2EuCl3 + H2 Soluções aquosas de Eu3+ podem se reduzidas por Mg, Zn, amálgama de zinco ou eletroliticamente, com a formação de Eu2+. O EuH2 é iônico e semelhante ao CaH2. O Eu2+ se assemelha ao Ca em diversos aspectos: 1) Na insolubilidade do sulfato e do carbonato em água. 2) Na insolubilidade do dicloreto em HCl concentrado. 3) Na insolubilidade dos metais em NH3 líquida. Uma diferença significativa entre o Ca e o Eu é o momento magnético de 7,9 magnétons-Bohr dos dialetos EuX2, o que corresponde à presença de sete elétrons desemparelhados, enquanto que os compostos de Ca são diamagnéticos. O par Eu3+/Eu2+ apresenta um potencial de redução de –0,41 V. esse valor é quase o mesmo que o valor obtido para o par Cr3+/Cr2+, e são ambos provavelmente os agentes redutores mais fortes que não reduzem a água. O Yb2+ e Sm2+ podem ser preparados por redução eletrolítica de soluções aquosas de seus íons trivalentes. Contudo, os íons Ln2+ são facilmente oxidados pelo ar. Esses dois elementos formam hidróxidos, carbonatos, haletos, sulfatos e fosfatos. Os íons Nd2+, Pm2+, Sm2+ e Gd2+ somente são encontrados nos diahaletos LnCl2 e LnI2. Esses diahaletos podem ser preparados reduzindo-se o trihaleto do metal com hidrogênio, com o metal correspondente, ou com amálgama de sódio. Os diahaletos como LaI2 e NdI2 tendem a ser não-estequiométricos. Mostram condução metálica, e uma maneira melhor para representá-los seria La3+ + 2I- + elétron. Um estudo detalhado da terceira energia de ionização mostra a estabilidade de um subnível semipreenchido e completamente preenchido. As energias de ionização também sugerem que pode haver uma estabilidade adicional associada a um nível preenchido em três quartos. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 102 4.1.16 Solubilidade Os sais dos lantanídeos geralmente contêm água de cristalização. A solubilidade depende da pequena diferença entre a energia do retículo cristalino e a energia de solvatação, e não há no grupo uma tendência nítida de variação nestas energias. A solubilidade de muitos de seus sais segue os padrões observados para os elementos do Grupo II. Assim, os cloretos e nitratos são solúveis em água, e os oxalatos, carbonatos e fluoretos são praticamente insolúveis. Diferentemente do Grupo II, contudo, os sulfatos são solúveis. Muitos dos lantanídeos forma sais duplos com os sais correspondentes dos elementos do Grupo I ou amônia, por exemplo, Na2SO4Ln2(SO4)3.8H2O, e como estes sais duplos cristalizam bem, são usados para separar os lantanídeos uns dos outros. 4.1.17 Cor e Espectros Muitos íons trivalentes dos lantanídeos são fortemente coloridos, tanto no estado sólido como em solução aquosa. Parece que a cor depende do número de elétrons f deemparelhados. Os elementos com n elétrons f freqüentemente mostram um padrão de cor semelhante ao observado em elementos com (14-n) elétrons f (Tabela 34). Contudo, os elementos em outros estados de oxidação nem sempre mostram coloração semelhante a de seus correspondentes compostos no estado de oxidação (+3), (Tabela 35). TABELA 34: Número de elétrons e cores de elementos lantanídeos. TABELA 35: Cores e configurações eletrônicas de alguns íons de lantanídeos. Elementos do Bloco f 103 A cor surge porque a luz de um determinado comprimento de onda, na região do visível, é absorvida pela lantanídeo. Este comprimento de onda corresponde à energia necessária para promover um elétron a um nível superior de energia. Nos lantanídeos, o acoplamento de spins é mais importante que o desdobramento do campo cristalino. Nos espectros dos metais de transição o desdobramento do campo cristalino é mais importante. Todos, exceto um dos íons lantanídeos, mostram absorção na região do visível e ultravioleta próximo do espectro eletromegnético. Este elemento é o Lu3+, que apresenta um nível f preenchido. As cores observadas correspondem a transições f-f. Estritamente falando, estas transições são proibidaspela regra de seleção de Laporte, já que a variação no número quântico secundário é igual a zero. Assim, as cores observadas são pouco intensas, porque as transições eletrônicas dependem da relaxação dessa regra. Os orbitais f se situam bem no interior do átomo. Assim, estão fortemente blindados de fatores externos, tais como a natureza e o número de ligantes. Portanto, a posição da banda de absorção, isto é, a cor não varia com diferentes ligantes. A variação dos ligantes modifica os campos externos. Contudo, isso desdobra os diferentes estados espectroscópicos em apenas cerca de 100 cm-1, de modo que as bandas de absorção são muito finas. Os lantanídeos são usados na calibração do comprimento de onda de instrumentos, por causa de suas bandas de absorção particularmente estreitas. Para um elétron f, o número quântico secundário é l=3, de modo que ml pode ter vários valores 3, 2, 1, 0, -1, -2 e –3. Assim, muitas transições d-d dão bandas de absorção cujas posições variam de ligante para ligante, e largas, por causa da vibração dos ligantes. É possível também a ocorrência de transições do nível 4f para o nível 5d. Essas transições dão banda mais largas ainda, e sua posição é influenciada pela natureza dos ligantes. Espectros de absorção de lantanídeos são úteis tanto para a determinação qualitativa como para a análise quantitativa desses elementos. Eles são às vezes usados como traçadores biológicos, para acompanhar o destino de medicamentos no homem e em animais.. Isso porque os lantanídeos podem ser seguidos facilmente no organismo, por meio de recursos espectroscópicos, já que as bandas são muito finas e características. Ce3+ e Tb3+ são incolores, pois não absorvem na região do visível. Contudo, mostram absorções excepcionalmente intensas na região do ultravioleta, por causa das transições do nível 4f para o 5d. a absorptividade molar é muito elevada por dois motivos. Como ∆l=1, é uma transição permitida, e mais intensa que as transições f-f proibidas. Além disso, a promoção de elétrons nesses íons é mais fácil que em outros íons. A configuração eletrônica do Ce3+ é f 1, e a do Tb3+ é f 8. A remoção de um elétron leva às configurações particularmente estáveis do subnível f vazio e semipreenchido. Transições f-d apresentam bandas largas, ao contrário das transições f-f. Também, são possíveis transições de transferência de carga, devidas à transferência de um elétron do ligante para o metal. Essa transferência é mais rovável se o metal estiver num estado de oxidação elevado, ou se o ligante tiver propriedades redutoras. A transição de transferência de carga geralmente produz cores muito intensas. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 104 A cor amarela forte de soluções de Ce4+ decorre de uma transição de transferência de carga ao invés de transições f-f. A coloração vermelho-sangue do Sm2+ também é devida a uma transição de transferência de carga. 4.1.18 Contração Lantanídica Os raios covalentes e os raios iônicos normalmente aumentam de cima para baixo dentro de um grupo da tabela periódica, por causada presença de níveis adicionais de elétrons que vão sendo preenchidos. Num período da tabela periódica, os raios covalentes e iônicos decrescem da esquerda para a direita. Isso porque os elétrons que vão sendo acrescidos “protegem” de modo incompleto a carga nuclear dicional. Assim, todos os elétrons são atraídos mais para o dentro. O efeito de blindagem dos elétrons decresce na seqüência s > p > d > f. A contração lantanídica de tamanho de um elemento para outro é razoavelmente pequena. Contudo, o efeito aditivo pelos 14 elementos lantanídeos do Ce ao Lu é de cerca de 0,2 Å, e este fato é conhecido como contração lantanídica ou recua lantanídico. A dureza, pontos de fusão e pontos de ebulição de todos esses elementos aumenta do Ce para o Lu. Isso porque a atração entre os átomos aumenta à medida que o tamanho diminui. As propriedades de um íon dependem de seu tamanho e de sua carga. Os íons dos lantanídeos Ln3+ diferem muito pouco de um elemento para o seguinte da a; assim suas propriedades químicas são muito semelhantes. Como o Lu3+ é o menor dos íons, ele é o mais fortemente hidratado. Embora os lantanídeos não formem uma grande variedade de complexos, podemos dizer que o Lu3+ forma os complexos mais estáveis, porque o este elemento forma o menor íon. O La3+ e Ce3+ são os maiores desses íons, de modo que o La(OH)3 e o Ce(OH)3 são os hidróxidos mais básicos dentre os lantanídeos. A contração lantanídica provoca a diminuição dos raios dos últimos quatro elementos da série abaixo do valor para o ítrio, na série precedente da transição. Como os tamanhos dos; íons lantanídeos mais pesados, particularmente do Dy3+ e do Ho3+, são semelhantes ao do Y3+, deduz-se que suas propriedades químicas também são muito semelhantes. Em conseqüência, é muito difícil separar esses elementos uns dos outros. Os raios iônicos dependem do número de elétrons removidos. Contudo, observa-se uma variação semelhante, comparando os tamanhos de íons de mesma carga. Por causa dessa contração de tamanho ao longo da série lantanítica, os elementos que a seguem na segunda e terceira séries de transição são consideravelmente menores do que o esperado de outra forma. O aumento normal de tamanho →Y→La desaparece depois dos lantanídeos. Assim, pares de elementos como Zr/Hf, Nb/Ta e Mo/W têm tamanhos quase idênticos. A grande semelhança de propriedades nesses pares torna muito difícil a separação por métodos químicos. Os tamanhos dos elementos da terceira Elementos do Bloco f 105 série de transição são muito semelhantes aos dos correspondentes elementos da segunda série de transição. 4.1.19 Complexos Os íons dos lantanídeos (Ln3+) apresentam uma carga elevada, o que favorece a formação de complexos. Contudo, os íons são relativamente grandes (1,03 Å-0,86 Å) quando comparados com os íons de elementos de transição (Cr3+ = 0,615 Å, Fe3+ = 0,55 Å) (spin baixo), e consequentemente não formam complexos com facilidade. Em solução aquosa não se formam complexos com aminas, porque a água é um ligante mais forte dos quais as aminas. Contudo, em solventes não-aquosos, é possível obter complexos com aminas. Com CO, CN- e grupos organometálicos formam-se apenas alguns poucos complexos estáveis. Nisso esses elementos diferem acentuadamente dos metais de transição. A diferença decorre da boa blindagem dos orbitais 4f, situados nas camadas mais internas do átomo. Nos elementos de transição os orbitais d participam de ligações π, o que não ocorre com os orbitais f dos lantanídeos. Os complexos estáveis mais comuns são aqueles com ligantes quelantes contendo átomos de oxigênio, tais como o ácido cítrico, ácido oxálico, EDTA4+ e acetilacetona. Esses complexos freqüentemente apresentam números de coordenação elevados e variáveis, e moléculas de água ou de outro solvente muitas vezes se ligam ao metal central. Complexos de Eu3+ e Pr3+ com betadicetona dissolvidos em solventes orgânicos são usados em espectroscopia de ressonância magnética nuclear, como reagentes de deslocamento lantanídico. Números de coordenação abaixo de seis são pouco comuns, e somente ocorrem com ligantes volumosos, como (2,6-dimetil-fenila)- e [N(SiMe3)2]-. De modo diferente dos metais de transição, o número de coordenação seis não é comum para os complexos de lantanídeos. Os números de coordenação mais comuns são 1, 8 e 9, resultando numa grande variedade de estereoquímicas. Números de coordenação 10 e 12 ocorrem com os lantanídeos maiores (mais leves) e agentes quelantes pequenos como NO3- e SO4- (Tabela 36). Complexos com ligantes monodentados oxigenados são muito menos estáveis que os quelatos, e tendem a sofrer dissociação em solução aquosa. Há poucos complexos com ligantes com nitrogênio doador, exceto com etilenodiamina e NCS-, e estes são decompostos pela água. Complexos com fluoreto, como LnF2+(aq), formam-se sobretudo com os íonsmenores. Em meio aquoso ou em HCl, não se formam complexos com cloreto. É uma distinção importante entre os grupos dos lantanídeos e dos actinídeos. O Ce4+ é menor e tem carga maior, e o complexo [Ce(NO3)6]2- forma-se no solvente não aquoso N2O4, tendo número de coordenação 12. Cada NO3 - utiliza dois átomos de oxigênio para se coordenar ao metal. Os lantanídeos não formam complexos com ligantes que se ligam através de ligações π, sendo a falta destas atribuída à indisponibilidade dos orbitais f para a formação deste tipo de ligação. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 106 TABELA 36: Complexos de lantanídeos e suas respectivas estruturas. Difícil explicar as ligações que ocorrem em complexos com elevado número de coordenação. Se forem usados na ligação um orbital s, três orbitais p e os seis orbitais d do nível de valência, teremos um número de coordenação máximo de 9. Os números de coordenação superiores 10 e 12 representam um problema. Implicam na participação de orbitais f nas ligações, ou em ordens de ligação inferiores a um. Existem alguns poucos compostos orgânicos dos lantanídeos. Alquil- e aril- derivados podem ser obtidos a partir de reagentes orgânicos de lítio em solução etérea: Li[LnR4] e [LnMe6] 3 -LnR3 + LiR LnR3 + 3LiClLnCl3 + 3LiR São conhecidos os complexos com ciclopentadienila [Ln(C5H5)3], [Ln(C5H5)2Cl] e [Ln(C5H5)Cl2], mas eles são sensíveis ao ar e à água. PARTE II COMPOSTOS DE COORDENAÇÃO 1 INTRODUÇÃO Os chamados compostos de coordenação desempenham um papel essencial na indústria química e na vida de um modo geral. O prêmio Nobel de Química de 1963 foi atribuído conjuntamente ao Dr. K. Ziegler, do Instituto Max Planck, da Alemanha, e ao Professor G. Natta, da Universidade de Milão, na Itália. Suas pesquisas tornaram possível o desenvolvimento do processo de polimerização do etileno a baixas pressões e, como conseqüência, existem atualmente milhares de produtos de polietileno de uso comum. O catalisador de Ziegler-Natta para esta polimerização é um composto de coordenação dos metais alumínio e titânio. Na indústria, além do processo catalítico já mencionado, destaca-se a presença desses compostos no seqüestro de íons metálicos decompositores de alimentos, fabricação de tintas devido ao seu poder pigmentante, e síntese de detergentes. Em medicina têm sido empregados no tratamento de várias patologias. É o caso, por exemplo, da doença de Wilson, que consiste no acúmulo de cobre nos olhos e no cérebro. Introduzidos nesses locais, determinadas substâncias coordenam-se com o cobre previamente ligado às proteínas, permitindo a sua eliminação através da urina. Pela mesma via, a ferriteína pode ser eliminada do organismo humano como um composto de coordenação, em tratamento utilizado pela medicina ortomolecular; a hemoglobina, que leva oxigênio às células animais, desempenha essa função coordenada com átomos de ferro. No campo da produção vegetal basta lembrar que a clorofila, vital para o processo de fotossíntese das plantas, é um composto de coordenação de magnésio. Adubos de alta estabilidade e ótima capacidade de absorção via foliar ou pelo solo têm sido formulados como compostos de coordenação (quelatos) de ferro, manganês, cobre e zinco. Introdução 109 1.1 CONCEITOS Compostos de coordenação, complexos metálicos ou simplesmente complexos são compostos que contêm um átomo ou íon central rodeado por um certo número de outros átomos ou moléculas chamados ligantes que têm a propriedade de doar elétrons ao átomo central, conforme mostrado na Tabela 1. A carga do complexo depende das cargas do átomo central, normalmente um metal transição, e dos íons ou espécies que o rodeiam, podendo resultar em um cátion, ânion, ou compostos não iônico. TABELA 1: Exemplos de complexos. Complexo Átomo central ligantes [AuCl2]- Au+1 dois íons cloreto [BF4]- B+3 quatro íons fluoreto [Cr(CO)6] Cr0 seis moléculas de monóxido de carbono [V(CO)6]- V-1 seis moléculas de monóxido de carbono [Co(NH3)6]+3 Co+3 seis moléculas de amônia [Cr(C2O4)3]- Cr+3 três íons oxalato Em um complexo, o átomo ou íon central é normalmente um metal de transição, ou seja, um elemento pertencente a uma grande série localizada entre os grupos IIA e IIIA da tabela periódica. Esta série inclui os 10 elementos, do escândio (Z = 21) ao zinco (Z = 30) no quarto período, e os elementos correspondentes abaixo deles nos períodos seguintes; todos exibem uma extensa variação de números de oxidação (Nox). Em muitos casos, o Nox mais baixo é +2, o que geralmente corresponde à remoção dos dois elétrons ns. Os números de oxidação mais elevados correspondem à perda gradativa de elétrons (n-1)d, ou ao compartilhamento deles com átomos mais eletronegativos. Em grande extensão, a química dos metais de transição é dominada pela tendência à formação de íons-complexos, tanto em solução quanto no estado sólido. Estes complexos exibem cores chamativas e são paramagnéticos (atraídos pelo ímã). De modo contrário, a maioria dos compostos dos metais representativos são brancos (quando reduzidos a um pó fino) ou incolores (quando na forma de um cristal simples ou em soluções), e a grande maioria não demonstra paramagnetismo. A formação de um complexo pode ser considerada um exemplo de uma reação ácido-base de Lewis. Por exemplo, na reação de íons Cu+2 com moléculas de amônia, EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 110 Cu+2 + 4 N H H H Cu N H H H N H HH NH H H N H H H +2 Cada NH3 atua como uma base de Lewis doando um par de elétrons, enquanto o cátion Cu+2 funciona como ácido de Lewis (receptor de elétrons). Cada NH3 contribui com seu par de elétrons na formação de uma ligação covalente coordenada entre o nitrogênio e o cobre, advindo daí o termo compostos de coordenação. No íon resultante, [Cu(NH3)4] +2, o Cu tem duas valências, a valência primária ou número de oxidação (+2) e a valência secundária ou número de coordenação (4). O número de coordenação é definido portanto, como o número de ligações formadas pelos ligantes com o átomo central em um complexo. Na Tabela 1, o número de coordenação do ouro é 2, do boro é 4, e os números de coordenação do cromo, vanádio e cobalto são todos iguais a 6. Se a união ligante-átomo central foi feita através de apenas um átomo do ligante, esse ligante denomina-se monodentado. À exceção do [Cr(C2O4)3]-3 os demais complexos da Tabela 1 são monodentados. Na espécie [Cr(C2O4)3] -3, cada íon C2O4 -2 liga-se ao Cr através de dois átomos de oxigênio sendo portanto um ligante bidentado. Os complexos formados por ligantes polidentados são denominados quelatos. Desde que o complexo seja iônico, sua carga deve ser balanceada por um ou mais íons de carga oposta, chamados contraíons. O complexo aniônico [Cu(NH3)4] +2 pode ter, por exemplo, sua carga balanceada por 2 Br- que serão os contraíons, resultando na espécie neutra [Cu(NH3)4]Br2. O complexo aniônico [Cr(C2O4)3] -3 poderia ser neutralizado por 3 contraíons Na+, formando [Cr(C2O4)3]Na3. Podem ser realizados diversos experimentos para se obter informações a respeito do número de íons que existem em soluções de muitos complexos. Quanto maior for o número de íons em solução, maior será a condutividade elétrica da mesma. A comparação das condutividades elétricas das soluções que contêm a mesma concentração de compostos de coordenação permite, portanto, estimar o número de íons em cada complexo. Alguns resultados obtidos a partir desse tipo de experimento encontram-se na Tabela 2. Observa-se que, ao diminuir o número de moléculas de amoníaco nos compostos, diminui também o número de íons até chegar a zero, para novamente voltar a aumentar. Introdução 111 TABELA 2: Condutividade molar de complexos de platina (IV) Complexo Condutividade molar (ohm-1) Número de íons Formulação Atual PtCl4.6NH3523 5 [Pt(NH3)6] +4, 4 Cl- PtCl4.5NH3 404 4 [Pt(NH3)5Cl] +3, 3 Cl- PtCl4.4NH3 229 3 [Pt(NH3)4Cl2] +2, 2 Cl- PtCl4.3NH3 97 2 [Pt(NH3)3Cl3] +, Cl- PtCl4.2NH3 0 0 [Pt(NH3)2Cl4] PtCl4.NH3.KCl 109 2 K+, [Pt(NH3)Cl5]-, PtCl4.2KCl 256 3 2K+, [Pt(Cl)6]-2 1.2 CLASSIFICAÇÃO DOS PRINCIPAIS LIGANTES. A Tabela 3 apresenta uma relação dos principais ligantes empregados na síntese ou estudo dos complexos. Esta compilação visa atender dois objetivos que serão oportunamente abordados neste texto, quais sejam, as regras de nomenclatura dos complexos bem como o estudo de sua geometria. TABELA 3: Símbolos, fórmulas e classificação dos principais ligantes. Nome Fórmula Símbolo classificação Etilenodiamina NH2CH2CH2NH2 en bidentado Piridina N py monodentado Dietilenotriamina NH2CH2CH2NHCH2CH2NH2 dien tridentado 2,2’-dipiridina N N dipy bidentado 1,10 fenantrolina N N fen bidentado Água H2O --- monodentado Amônia NH3 --- monodentado continua... EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 112 Cont. Tabela 3 Nome Fórmula Símbolo classificação cloreto Cl- --- monodentado monóxido de carbono CO --- monodentado Cianeto CN- --- monodentado Trifenilfosfina P(C6H6)3 Pφ3, PPh3 Monodentado Oxalato C C O O O O - - ox bidentado Acetilacetonato CH3CCH2CCH3 O O - acac bidentado Etilenodiaminote tracetato NCH2CH2N CH2COOOOCCH2 CH2COOOOCCH2 - - - - EDTA hexadentado glicinato NH2CH2COO - gli bidentado 1.3 GEOMETRIAS MAIS COMUNS DOS COMPLEXOS Números de coordenação de 2 até superiores a 8 têm sido observados, sendo os mais comuns 2, 4 e 6. O número de coordenação (valência secundária) e a geometria em um complexo estão obviamente inter-relacionados. 1.3.1 Número de coordenação 2 São lineares e praticamente se restringem aos cátions Cu+, Ag+. Au+ e Hg+2, todos de configuração d10. Exemplos: [CuCl2] -, [Ag(NH3)2] + e [AuCl2] -. 1.3.2 Número de coordenação 4 Esses complexos podem ser tetraédricos ou quadráticos. Os primeiros ocorrem com os metais de transição que não possuam configurações d8 ou s1d7, como por exemplo, [AlCl4] -, [Ni(CO)4] e [Zn(NH3)4] +2 (Figura 1). Introdução 113 Zn NH3 H3N NH3 NH3 +2 FIGURA 1: Coordenação tetraédrica em [Zn(NH3)4] +2 Os complexos quadráticos são característicos dos metais de transição com configurações d8 ou s1d7, como por exemplo, [Pt(NH3)4] +2, [PdCl4] -2 e [AuCl4] -. 1.3.3 Número de coordenação 6 Os complexos com número de coordenação 6 são os mais numerosos entre todos. Sua geometria é octaédrica (Figura 2), podendo apresentar-se também como um octaedro distorcido. Exemplo: [Co(NH3)6] +3, [Cr(NH3)6] +3, [PtCl6] -2 e [Rh(NH3)4Br2] +. NH3 NH3 NH3 NH3 Co NH3 NH3 FIGURA 2: Coordenação octaédrica em [Co(NH3)6] +3 1.3.4 Quelatos Quando o átomo central está ligado a um ligante bidentado ou polidentado há a formação de anéis. Complexos com anéis são chamados quelatos (Figura 3). N Co N N N NN FIGURA 3: Geometria do complexo [Co(en)3] +3. Cada molécula de etilenodiamina (en) está representada por dois átomos de nitrogênio unidos por uma linha. O número de coordenação é 6 (geometria octaédrica) EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 114 A hemoglobina, responsável pelo transporte de oxigênio no sangue é também uma espécie que contém anéis quelatos, em que o ligante polidentado é um derivado da molécula da porfina (Figura 4). FIGURA 4: Estrutura da molécula da porfina. A molécula da porfina pode apresentar-se como um ligante tetradentado pela perda de dois prótons ligados aos átomos de nitrogênio. Assim, porfirinas são moléculas derivadas da porfina pela substituição dos hidrogênios periféricos por grupos orgânicos. As porfirinas formam complexos metálicos de grande importância para os seres vivos. Um deles é o heme, em que o metal é o Fe(II). A hemoglobina contém 4 unidades heme. A Figura 5 mostra a coordenação do ferro na oxiemoglobina, ilustrando uma das unidades heme, a molécula de oxigênio e uma proteína, que completa a coordenação octaédrica do metal. O2 Fe N N NN HN N proteína heme FIGURA 5: Coordenação do ferro oxiemoglobina. 1.4 NOMENCLATURA DE COMPLEXOS O sistema de nomenclatura considerado como o mais adequado, e, portanto, utilizado neste texto é o recomendado pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC). Serão listadas e exemplificadas somente as regras mais básicas de nomenclatura. Introdução 115 a) Ordem de escrita dos íons. Escreve-se primeiro o cátion e logo após o ânion, o que, aliás, é a prática usual de escrita das fórmulas, de sais; - Na+Cl- cloreto de sódio - [Cr(NH3)6](NO3)3 nitrato de hexamincromo(III) - K2[PtCl6] hexacloroplatinato (IV) de potássio b) Os complexos não iônicos (ou moléculas) e cátions recebem nomes formados por uma só palavra; - [Co(NH3)3(NO2)3] trinitrotriamincobalto(III) - [Cu(CH3COCHCOCH3)2] bis(acetilacetonato)cobre(II) CH3COCHCOCH3 = acetilacetonato - [Fe(H2O)6]SO4 sulfato de hexaaquoferro(II) c) Nomes dos ligantes c.1.) Ligantes aniônicos Um ânion com terminação eto ou ido, quando atuando como ligante tem estes sufixos substituídos por o. TABELA 4: Nomes comuns de ligantes e Ânions de Halogêneos. Ânion Nome do ânion Nome do ligante Cl- Cloreto Cloro Br- Brometo Bromo OH- Hidróxido hidroxo CN- Cianeto Ciano Um ânion com terminação ato, quando atuando com ligante, tem este sufixo inalterado. TABELA 5: Alguns ânions contendo enxofre e oxigênio e/ou carbono. Ânion Nome do ânion Nome do ligante SO4 -2 sulfato Sulfato S2O3 -2 tiossulfato Tiossulfato C2O4 -2 Oxalato Oxalato CH3COCHCOCH3 - acetilacetonato Acetilacetonato (acac) EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 116 c.2.) Outros ligantes Os ligantes a seguir relacionados não seguem exatamente as regras as regras anteriormente citadas. TABELA 6: Outros ligantes Espécie Nome da espécie Nome do ligante H2O Água Áqua (aquo) NH3 Amônia Amin (amino) CO Monóxido de carbono Carbonil (carbonila) NO Monóxido de nitrogênio Nitrosil (nitrosila) O2 oxigênio dioxigênio N2 Nitrogênio Dinitrogênio O-2 Óxido Oxo O2 -2 Peróxido Peroxo NO2 - Nitrito Nitro (N = átomo doador) NO2 - Nitrito Nitrito (O = átomo doador) d) Prefixos numéricos Os prefixos di, tri, tetra, etc. são empregados antes de expressões simples como bromo, nitro, cloro, oxalato. Antes de nomes complicados utilizam-se os prefixos bis, tris, tetraquis, etc. - K3[Al(C2O4)3] trioxalatoaluminato(III) de potássio - [Co(en)2Cl2]SO4 sulfato de dicloro bis(etilenodiamina) cobalto(III) en = 22222 HNCHCHCHHN &&&& = etilenodiamina e) Complexos que são ânions têm terminação em ato após o nome em português do átomo central. - [CrCl6] -3 íon hexaclorocromato(III) - [CuBr4] -2 íon tetrabromocuprato(II) f) O número de oxidação do átomo central é indicado por algarismos romanos entre parênteses. Introdução 117 1.5 QUESTIONÁRIO E EXERCÍCIOS 1. Descreva resumidamente a importância do estudo dos complexos. 2. Definir ou explicar o que é um composto complexo. 3. Quais são as diferenças básicas entre um composto contendo um íon complexo e um composto de um metal representativo? 4. Explique com um exemplo por que os complexos são também chamados compostos de coordenação. 5. Definir (com exemplos) o que é “valência primária” e “valência secundária” de um complexo. 6. Explicar o que é um ligante monodentado e um ligante polidentado. 7. Explicar com um exemplo o que é um quelato. 8. Determinar o número de oxidação do átomo central em cada um dos complexos; [Pt(NH3)4] +2, [HgCl4] -2, [PF6] -,[Ag(CN)2 ]+3, [Cr(CO)5] -2, [Cr(H2O)6] +3, [Al(OH)(H2O)5] +2 e [Al(C2O4)3] -3. 9. Explicar com exemplos o que são contraíons. 10. Determinar a “valênciaprimária” e a “ valência secundária” dos complexos; [Pt(NH3)2Cl4], [Pt(NH3)Cl5] -, [Pt(NH3)4Cl2] +2, [Cr(OH)4(H2O)2] -e [Ir(C2O4)3] -3. 11. Entre as espécies a seguir relacionadas indicar quais são quadradas planares (quadráticas) e quais são tetraédricas; [Pd(NH3)4] +2, [FeCl4] -, [Ni(CN)4] -2, [Co(CO)4] - e [Pt(NH3)2Cl2] 12. Representar (desenhar) uma das espécies acima citadas na geometria quadrada planar (quadrática) e uma na geometria tetraédrica. 13. Representar (desenhar) os complexos [Cr(OH)3(H2O)3], [Fe(CO)4Br2] + e [Co(NH3)6] +3 na geometria octaédrica. 14. Determinar o número de oxidação e o número de coordenação do metal em cada um dos complexos; [CdCl5] -3, [Ru(acac)2Cl2], [Cr(en)Cl2] +, [NbF7] -2 e [Ce(NO3)5] -2. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 118 15. Indicar o nome de cada um dos complexos a seguir: K4[Ni(CN)4], [Cr(H2O)6]Cl3, [Cr(H2O)5Cl], [CoCl4] -2, [FeCl2(CN)2(NH3)2] -, [Cr(OH)4(H2O)2], [Cr(NH3)5Cl](NO2)2, K3[Al(C2O4)3] e [Cr(en)2Cl2] +. 16. Escrever a fórmula de cada um dos complexos a seguir: Nitrato de dibromotetraaminrutênio(III), dioxalatodia-mincobaltato(III) de cálcio, tetraidroxoaluminato(III) de sódio, íon tetracianoniquelato(II), íon dibromotetracarbonil ferro(III) e nitrato de tris(etilenodiamina) cobalto(III). 2 LIGAÇÕES QUÍMICAS NOS COMPLEXOS Que tipo de força une um ligante ao átomo central em um complexo? Pensando num modelo puramente eletrostático poder-se-ia considerar que no íon hexacianoferrato(III), [Fe(CN)6] -3, os seis ligantes CN- (ciano) estão ligados ao átomo central Fe+3 por seis ligações iônicas. Embora simplista e até atraente, tal modelo é inconsistente com diversas observações experimentais. O simplismo advém do fato que, tal como todos os demais compostos, os complexos dos metais de transição devem sua estabilidade à diminuição de energia que ocorre quando elétrons se movem no campo de mais do que um núcleo. Por isto, as teorias da ligação em complexos de metais de transição não diferem, fundamentalmente, das teorias empregadas nas discussões de outras ligações químicas. Três são os modelos teóricos de importância no estudo das ligações químicas nos complexos: Teorias das Ligações de Valência (TLV) proposta nos anos 30, Teoria do Campo Cristalino (TCC), muito popular até os anos 50 e só aplicada aos complexos na década de 70, e a Teoria dos Orbitais Moleculares (TOM), que prevalece hoje em dia, e que engloba a TLV e TCC. 2.1 TEORIA DAS LIGAÇÕES DE VALÊNCIA (TLV). A primeira descrição com razoável sucesso sobre ligação nos complexos foi estabelecida pela TLV, através da formação de orbitais híbridos. De acordo com este modelo, o átomo central na grande maioria das vezes um metal de transição, forma uma ligação covalente coordenada com cada ligante no complexo, sendo o par de elétrons envolvido na ligação, doado pelo ligante. Na TLV, o metal de transição “mistura” alguns de seus orbitais d, alguns de seus orbitais p e o seu orbital s, originando orbitais híbridos, como por exemplo, d2sp3 ou dsp3. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 120 No “esquema” d2sp3 existem seis orbitais híbridos (2 d + 1 s + 3 p) apontados para os vértices de um octaedro, como é o caso dos íons [Co(NH3)6] +3 ou [CoF6] -3. Quanto à hibridização dsp3, os cinco orbitais híbridos (1 d + 1 s + 3 p) orientam-se para os vértices de uma bipirâmide trigonal, como por exemplo, no complexo [Fe(CO)5]. Assim, dependendo do tipo de hibridização formada, haverá a definição de um “desenho geométrico espacial” para cada complexo. Antes da exemplificação da TLV em complexos, há necessidade de familiarizar-se com as formas espaciais dos orbitais d (Figura 6). dxy dxz dyz dx2 - y2 dz2 FIGURA 6: Configuração espaciais dos orbitais d. Ligações Químicas nos Complexos 121 Os três primeiros, dxy, dxz e dyz estão orientados pelos planos xy, xz e yz, respectivamente, com seus lóbulos situados entre os eixos. O quarto orbital, dx2-y2, está orientado segundo o plano xy, mas seus lóbulos são paralelos aos x e y, ou seja, estão sobre os eixos x e y. O orbital dz2, cuja forma é completamente diferente das demais, está orientado segundo o eixo z, isto é, sobre o eixo z. Para compreender os exemplos a seguir é importante ter uma clara imagem mental das formas tridimensionais desses orbitais. • • Primeiro exemplo: íon [Fe(CN)6] -3 Um átomo de Fe0, no estado fundamental, tem a seguinte configuração: Fe026 3d 4s 4p (vazios) dxy dxz dyz dx2 -y2 dz2 A remoção, de três elétrons do Fe0 produz o Fe+3, ou íon férrico, no estado fundamental; Fe+3 4p (vazios)3d 4s (vazio) dz2dx2 -y2dyzdxzdxy A remoção de três elétrons do Fe0, resulta na perda dos dois elétrons de 4s que fica vazio, bem como um elétron de dxy. Considere, agora, que os cinco elétrons d tornem-se “empacotados”, isto é, sejam “obrigados” a se unirem dois a dois em cada orbital d. Passam portanto a ser ocupados com elétrons somente os orbitais dxy, dxz e dyz, ficando desocupados os orbitais dx2-y2 e dz2, o orbital 4s e os três orbitais 4p. Fe+3 (“empacotado”): dxy dxz dyz dx2 -y2 dz2 4s (vazio) 4p (vazios)vazios EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 122 Observe que, neste caso, existem seis orbitais vazios. Estes combinam-se formando seis orbitais híbridos do tipo d2sp3 (2 orbitais d + 1 orbital s + 3 orbitais p): Fe+3 (hibridizado): dyzdxzdxy seis orbitais híbridos d2sp3 Agora, os íons Fe+3 atuam como ácido de Lewis recebendo seis pares de elétrons dos seis ânions CN- e formando assim seis ligações covalentes coordenadas. Cada par de elétrons doado por cada CN- ocupará um orbital híbrido, totalizando portanto 12 elétrons no complexo: Fe+3 (coordenado): dxy dxz dyz CN-CN- CN- CN- CN- CN- A mecânica quântica mostra que os seis orbitais d2sp3 constituem um conjunto octaédrico (Figura 7), ou seja, os lóbulos dos orbitais apontam em direção aos vértices de um octaedro regular. Fe C N C N C N CN CN C N : : -3 : : FIGURA 7: Esquema mostrando o íon Fe+3 coordenado com seis ligantes :CN- em arranjo espacial octaédrico. Ligações Químicas nos Complexos 123 • Segundo exemplo: íon [CoF6] -3 Configuração do átomo central (cobalto) no estado fundamental (Co0). Co27 dxy dxz dyz dx2 -y2 dz2 4s3d 4p (vazios) 4d (vazios) A remoção de três elétrons do Co0 resulta na perda dos dois elétrons de 4s e um elétron do dxz, para a formação do íon Co+3: Co+3 4d (vazios)4p (vazios)3d 4s dz2dx2 -y2dyzdxzdxy vazio Diferentemente do exemplo anterior, considere agora que os seis elétrons d não sofrerão “empacotamento”, não sendo, portanto, “obrigados” a se unirem dois a dois nos orbitais d. Neste caso, para haver a formação de seis orbitais híbridos do tipo d2sp3, resta ao íon Co+3 “misturar (hibridizar) seis orbitais vazios (o orbital 4s, os três orbitais 4p e dois orbitais 4d): Co+3 (híbrido) dxy dxz dyz dx2 -y2 dz2 3d seis orbitais híbridos d 2sp3 De modo análogo ao primeiro exemplo, cada um dos seis orbitais híbridos do íon Co+3 (ácido de Lewis) receberá um par de elétrons do ligante F- totalizando seis ligações covalentes coordenadas. A Figura geométrica espacial resultante será também um octaedro regular. Co+3 (Coordenado) seis orbitais híbridos d2sp33d dz2dx2-y2dyzdxzdxy F-F- F- F- F- F- A TLV, ou formação de orbitais híbridos, esclarece muito bem a existência das geometrias exibidas pelos complexos, sendo esta a sua grande virtude. Entretanto, existem certas falhas; uma das mais sérias reside na falta de explicação das propriedades EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 124 magnéticas nos complexos. Por exemplo, as medidas magnéticas mostram que os complexos octaédricos de Fe+3 caem em duas classes.A primeira classe, os chamados complexos de baixo spin, engloba complexos com um elétron desemparelhado por íon (caso do [Fe(CN)6] -3, do primeiro exemplo). Porém, em uma segunda classe de complexos de Fe+3, cada íon possui cinco elétrons desemparelhados; estes são denominados complexos de alto spin. O íon octaédrico [FeF6] -3 pertence a esta classe. Além do mais, determinados complexos de outros metais de transição também mostram esta divisão nas classes de alto e baixo spin. A TLV não explica a existência dessas duas classes de complexos. Resumidamente, esta teoria não responde a questões como: a) Como explicar a existência de duas classes de complexos, alto spin e baixo spin? b) Por que é que o ligante determina, para um metal de transição, se um complexo será de baixo ou alto spin? c) Como são ocupados os orbitais nas duas diferentes classes, particularmente nos complexos de alto spin? d) Por que os complexos dos metais de transição mostram cores tão variadas e intensas, tanto no estado sólido como em solução? 2.2 TEORIA DO CAMPO CRISTALINO (TCC) 2.2.1 Fundamentos A TLV é completamente diferente da Teoria do Campo Cristalino (TCC). A primeira supõe que a união metal-ligante é covalente. A TCC descarta a covalência e propõe que o enlace metal-ligante é totalmente iônico. A energia da ligação iônica pode ser calculada empregando-se as clássicas equações que expressam a energia potencial entre partículas carregadas. Energia de ligação = (q1q2)/r, onde q1 e q2 são as cargas dos íons que interagem na ligação e r a distância entre os seus centros. Os resultados destes cálculos concordam razoavelmente bem com as energias de ligação obtidas experimentalmente para complexos de metais que não são de transição. Para os metais de transição os valores obtidos são muito baixos. A maior parte da discrepância é corrigida tendo em conta os elétrons dos orbitais d do metal de transição e os efeitos dos grupos ligantes sobre as energias dos mesmos. Esse refinamento da teoria eletrostática clássica foi introduzida em 1930 pelos físicos Bethe e Van Clerk para explicar as cores e as propriedades magnéticas dos sólidos cristalinos, constituindo-se no fundamento básico da TCC. Para compreender a TCC é necessário Ter uma imagem clara da orientação espacial dos orbitais d (Figura 6), porque é a interação dos orbitais d de um metal de transição com os grupos ligantes que o rodeiam que produz os efeitos do campo cristalino. Ligações Químicas nos Complexos 125 No complexo [TiF6] -2 por exemplo, o íon Ti+4 livre de qualquer outra espécie química, apresenta a configuração eletrônica 1s2, 2s2, 2p6, 3s2, 3p6, não existindo elétrons em 3d. Os cinco orbitais 3d deste íon possuem energias idênticas. Isto significa que um elétron pode situar-se em quaisquer dos cinco orbitais 3d com a mesma facilidade. Orbitais que possuem a mesma energia denominam-se orbitais degenerados. No complexo [TiF6] -2 o íon Ti+4 encontra-se rodeado por seis íons (ligantes) F-. Como conseqüência, resulta muito mais difícil introduzir elétrons nos orbitais 3d do que no íon Ti+4 livre, por que esses elétrons sofrem a repulsão das cargas negativas dos íons F-. Em outras palavras, ao aproximar íons F- (ou quaisquer outros ligantes) dos orbitais 3d, a energia destes aumenta (Figura 8). eg t2g en er gi a 3d íon metálico livre (Ti+4) orbitais 3d degenerados complexo octaédrico [TiF6] -2 0 00,6 0,4 FIGURA 8: Energia dos orbitais d em um íon metálico livre, em orbitais degenerados e em um complexo octaédrico. Como o complexo [TiF6] -2 possui geometria octaédrica pode-se representá-lo supondo que os seis íons F- estão situados sobre os eixos x, y, e z de um sistema de coordenadas cartesianas conforme o esquema abaixo. F F FF F F y z x Admitindo esta orientação, à mediada que os ligantes vão se aproximando do íon central, há uma diminuição geral da energia do sistema todo, devido à atração EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 126 eletrostática entre íon metálico e ligantes. Os cincos orbitais 3d do íon metálico não são especialmente equivalentes. Dois deles dx2-y2 e dz2, têm sua maior densidade eletrônica em direções situadas sobre os eixos das coordenadas cartesianas. Os outros três orbitais d, dxy, dxz, dyz, têm sua maior densidade em regiões entre os eixos das coordenadas. O primeiro par de orbitais é chamado eg, enquanto que os três últimos são chamados t2g. Como conseqüência, é muito mais difícil introduzir elétrons em orbitais eg do que em t2g. Esta transformação dos cinco orbitais degenerados do íon metálico livre em dois grupos de orbitais d com diferente energias é a mais importante característica da TCC, sendo chamada desdobramento produzido pelo campo cristalino. Em uma distribuição octaédrica os orbitais eg e t2g possuem energias diferentes. A diferença de energia entre eles é designada por ∆0. Num sistema octaédrico a energia dos orbitais t2g é 0,4 ∆0 unidades menor do que a energia dos cinco orbitais d degenerados (Figura 8). Quanto aos orbitais eg, os mesmos situam-se 0,6 ∆0 unidades de energia acima da energia dos orbitais degenerados. Em um complexo octaédrico que contenha um elétron d (d1), como por exemplo, [Ti(H2O)6] +3, o elétron ocupará o orbital d de menor energia (um dos orbitais t2g). esse elétron terá energia 0,4 ∆0 menor do que o dos orbitais degenerados, e, por conseqüência, o complexo [Ti(H2O)6] +3 resultará 0,4 ∆0 mais estável do que o íon livre Ti+3. O valor 0,4 ∆0 denomina-se energia de estabilização do campo cristalino (EECC). A Tabela 7 reproduz as EECC para íons metálicos em complexos octaédricos. Observe que os valores da EECC são facilmente calculados atribuindo o valor 0,4 ∆0 a cada elétron situado em t2g e um valor de -0,6 ∆0 a cada elétron localizado em eg. Assim, a EECC para um sistema d5 resulta igual a 3(0,4 ∆0) + 2(-0,6 ∆0) = 0,0 ∆0, ou 5(0,4 ∆0) + 0(-0,6 ∆0) = 2,0 ∆0, dependendo dos cinco elétrons estarem localizados em t2g ou eg. TABELA 7: Energias de estabilização do Campo Cristalino para íons metálicos em complexos octaédricos. Campo Fraco Campo Forte Elétrons d t2g Eg ∆∆∆∆0 t2g eg ∆∆∆∆0 1 t2g 1 eg0 0,4 t2g 1 eg0 0,4 2 t2g 2 eg0 0.8 t2g 2 eg0 0,8 3 t2g 3 eg0 1,2 t2g 3 eg0 1,2 4 t2g 3 eg1 0,6 t2g 4 eg0 1,6 5 t2g 3 eg2 0 t2g 5 eg0 2,0 6 t2g 4 eg2 0,4 t2g 6 eg0 2,4 7 t2g 5 eg2 0,8 t2g 6 eg1 1,8 8 t2g 6 eg2 1,2 t2g 6 eg2 1,2 9 t2g 6 eg3 0,6 t2g 6 eg3 0,6 10 t2g 6 eg4 0 t2g 6 eg4 0 Ligações Químicas nos Complexos 127 2.2.2 Propriedades Magnéticas dos Complexos. A TCC explica facilmente as propriedades magnéticas dos complexos dos metais de transição. Como esses metais possuem o subnível d incompleto, e se a regra de Hund deve ser cumprida, necessariamente haverá elétrons d desemparelhados. Um íon metálico que contenha três elétrons d (d3), deverá possuir três elétrons desemparelhados; um íon d8 apresentará dois elétrons desemparelhados. Substâncias que possuem elétrons desemparelhados são denominados paramagnéticas (atraídas por um ímã). Há casos de complexos de metais de transição que não cumprem a regra de Hund. Alguns complexos d6 do Co+3, como, por exemplo, o [Co(NH3)6] +3, não são atraídos por um ímã, sendo, portanto, diamagnéticos. Neste caso, os elétrons foram “forçados” a emparelhar-se; são chamados complexos de spin baixo. Ao contrário, o complexo [CoF6] - 3, contendo também o íon Co+3, é paramagnético porque “nada forçou” o emparelhamento de seus elétrons; trata-se de um complexo denominado de spin alto. Tem-se resumidamente a seguinte situação: [Co(NH3)6] +3 Complexo de spin baixo, de spin emparelhado, ou complexo orbital interno [CoF6] -3 Complexo de spin alto, sem spin emparelhado, ou complexo orbital externo. A “força” responsável pelo emparelhamento ou não dos elétrons em um complexo é determinada pelo parâmetro ∆, ou parâmetro de desdobramento do campocristalino. Se ∆ é suficientemente elevado para compensar a perda de estabilidade resultante do emparelhamento, os elétrons emparelham-se produzindo um complexo de spin baixo. Caso contrário, os elétrons permanecerão desemparelhados originando um complexo de spin alto. Dentre os diversos fatores quer determinam a magnitude do desdobramento do campo cristalino (∆), destaca-se a natureza dos ligantes. Ligantes que possuem um par de elétrons livres, como por exemplo, a amônia (:NH3), produzem maior desdobramento que ligantes circundados por vários pares de elétrons, como por exemplo o íon fluoreto. Portanto, a capacidade dos grupos ligantes em produzir a separação do campo cristalino decresce na ordem: Ligantes de campo intenso CO > CN- > fen > NO2 - Ligantes de campo intermediário en > NH3 > NCS - > H2O > F - EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 128 Ligantes de campo fraco RCO2 > OH - > Cl- > Br- > I-. É importante destacar aqui que, para explicar a ordem acima citada é necessário abandonar o modelo puramente eletrostático da TCC e levar em conta que existem também interações covalentes entre o íon metálico e os ligantes. A TCC modificada para incluir interações covalentes denomina-se Teoria do Campo Ligante. Assim, pelo menos qualitativamente, assume-se que os ligantes produtores de campo intenso são capazes de formar ligações π com o íon metálico, o que aumenta em muito a magnitude do parâmetro ∆. 2.2.3 Propriedades espectrais dos complexos. O maior êxito da TCC foi a interpretação das cores dos compostos de metais de transição. Devido às pequenas diferenças de energia existentes entre orbitais d não equivalente nesses complexos, a excitação de um elétron de um nível mais baixo para um nível mais alto de energia ocorre devido à absorção de luz pelo mesmo, e por esta razão, o complexo resulta colorido. A solução de Ti+3, por exemplo, é violeta. Esta cor deve-se ao espectro de absorção do complexo [Ti(H2O)6] +3, que absorve luz na região do visível, provocando a transição de um elétron de t2g para o orbital eg. Os espectros de absorção de complexos que possuem mais de um elétron d são mais complicados, por que o número de transições t2g → eg possíveis é maior. 2.3 TEORIA DOS ORBITAIS MOLECULARES Um outro modelo para ligações químicas é conhecido como teoria dos orbitais moleculares (OM). Este modelo assume que, se dois núcleos encontram-se posicionados a uma distância de equilíbrio e são adicionados elétrons a este sistema, estes deverão ocupar orbitais moleculares análogos aos orbitais atômicos. Em um átomo existem orbitais s, p, d, f, ..., determinados por quatro números quânticos, enquanto que em uma molécula haverão orbitais σ, π, δ, ..., determinados por seus números quânticos característicos. Devemos ter em mente, que o princípio de exclusão estabelecido por Pauli e o princípio de Hund da máxima multiplicidade, são aplicáveis aos orbitais moleculares da mesma maneira que os aplicamos aos orbitais atômicos. Quando tentamos solucionar a equação de Schrödinger para obtermos os vários orbitais moleculares, esbarramos nos mesmos problemas encontrados para os átomos mais pesados que o hidrogênio. Desta forma, não podemos resolver a equação de Schrödinger exatamente, tornando-se necessário efetuar certas aproximações para que possamos conhecer a forma da função de onda para os orbitais moleculares. Ligações Químicas nos Complexos 129 Dos diferentes métodos utilizados para obter-se aproximações corretas para os orbitais moleculares, discutiremos apenas um deles: o método da combinação linear de orbitais atômicos (CLOA). Assumiremos que é possível obter-se aproximações satisfatórias através da combinação linear dos orbitais atômicos dos átomos que constituem uma molécula. É razoável imaginarmos que os elétrons possam estar sob a influência das forças causadas por um dos dois núcleos presentes em uma ligação química. Neste caso, o orbital molecular será similar aos orbitais atômicos para cada átomo isolado. Basicamente, empregamos o mesmo processo utilizado na obtenção dos orbitais híbridos, porém, neste caso, combinaremos orbitais atômicos de diferentes átomos. Assim, combinando-se as funções de onda dos dois orbitais atômicos sobre os átomos A e B (ψA e ψB), obteremos dois orbitais moleculares [3]:: ψl = ψA + ψB ψa = ψA - ψB Os orbitais moleculares assim formados, consistem de um orbital ligante (ψl) e outro antiligante (ψa). Se um elétron ocupa o orbital molecular ligante, como no cátion H2 +, por exemplo, a função de onda aproximada para a molécula é: ψ = ψl(1) = ψA(1) + ψB(1) Para um sistema com dois elétrons, tal como a molécula de H2, a função de onda total será o produto das funções de onda para cada elétron isolado. ψ = ψl(1) ψl(2) = [ψA(1) + ψB(1)] [ψA(2) + ψB(2)] ⇔ ⇔ ψ = ψA(1) ψA(2) + ψA(1) ψB(2) + ψ = ψB(1) ψA(2) + ψ = ψB(1) ψB(2) Os resultados obtidos através deste tratamento são similares àqueles produzidos pela teoria da ligação de valência. Utilizando-se tais parâmetros moleculares para solucionarmos as equações que determinarão a função de onda que descreve este tipo de sistema, nota-se que existe uma tendência a exagerar em certas variáveis responsáveis pela descrição do comportamento do sistema em questão. Estes desajustes podem ser corrigidos através de otimizações executadas sobre os resultados obtidos inicialmente. Alguns resultados típicos para este tipo de sistema são apresentados na Tabela 8. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 130 TABELA 8: Parâmetros típicos obtidos para a molécula de hidrogênio. Tipo da Função de Onda Energia (kJ.mol-1) Distância (pm) Sem correção ψ = ψA + ψB 260 85 Adição de shielding 337 73 OM, limite SCF 349 74 Valores Observados 458,0 74,1 Os dois orbitais ψl e ψa diferem um do outro nos seguintes aspectos. No orbital molecular ligante as funções de onda dos átomos componentes são somadas reforçando a região entre os núcleos, como mostra a Figura 9 e 10. FIGURA 9: (a) Funções de onda ψψψψA e ψψψψB para os átomos de hidrogênio, (b) ψψψψb = ψψψψA + ψψψψB (c) função probabilidade para o orbital molecular ligante, ψψψψb2 (d) ψψψψa = ψψψψA + ψψψψB (e) Função probabilidade para o orbital molecular antiligante, ψψψψa2. Ligações Químicas nos Complexos 131 FIGURA 10: Representação tridimensional de um orbital molecular ligante. Por outro lado, no orbital antiligante os orbitais atômicos se cancelam, formando um nodo entre os núcleos (figuras 9 e 11). Contudo, estamos interessados na distribuição eletrônica na molécula de H2, portanto, devemos nos concentrar no quadrado das funções de onda dos orbitais moleculares ligantes e antiligante. Assim, temos [3]: ψl 2 = ψA 2 + 2ψAψB + ψB 2 ψa 2 = ψA 2 - 2ψAψB + ψB 2 FIGURA 11: Representação tridimensional de um orbital molecular antiligante. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 132 A diferença entre as densidades de probabilidades nestas duas funções, encontra- se no termo cruzado 2ψAψB. A integral ∫ ψAψB dτ é conhecida como integral de sobreposição (S) e é de fundamental importância neste tipo de teoria de ligação. No orbital ligante, a sobreposição é positivo e a densidade eletrônica entre os núcleos é aumentada, enquanto que no orbital antiligante, a densidade eletrônica entre os núcleos diminui (Figura 9(c) e (e)). No primeiro caso as forças de atração são maximizadas, resultando em um abaixamento da energia da molécula, representando a situação ligante. No segundo caso a densidade eletrônica tende a se localizar no espaço fora da região entre os núcleos, diminuindo severamente a atração entre eles. Esta é praticamente uma situação de repulsão nuclear e, portanto, antiligante. A Figura 12 [3] apresenta um mapa da densidade eletrônica para o íon molecular H2 +, ilustrando as diferenças das situações ligante e antiligante. FIGURA12: Linhas de contorno da densidade eletrônica para o íon H2 +: orbitais ligante e antiligante. Sendo a probabilidade de encontrar-se um elétron em alguma parte do espaço igual a 1, podemos normalizar os orbitais moleculares da seguinte maneira: ∫ Nl 2 ψl 2 dτ = Nl 2 [∫ ψA 2 dτ + ∫ ψB 2 dτ + 2 ∫ ψAψB dτ ] = 1 onde, Nl é a constante de normalização. Considerando-se que S é a integral de sobreposição ∫ ψAψB dτ, temos: ∫ ψl 2 dτ = [∫ ψA 2 dτ + ∫ ψB 2 dτ + 2S] Assim, desde que as funções de onda atômicas ψA e ψB sejam previamente normalizadas, isto é, ∫ ψA 2 dτ e ∫ ψB 2 dτ sejam igualadas a 1, então: Nl 2 = 1/ 2 + 2S Ligações Químicas nos Complexos 133 Nl = S22 1 + Na = S22 1 − Com a finalidade de simplificar nossos cálculos, assumiremos que a integral de sobreposição S, é numericamente muito pequena e, portanto, pode ser desprezada sem provocar erros consideráveis. Desta forma, simplificamos consideravelmente a álgebra envolvida e ainda podemos obter resultados satisfatórios. Assim, ignorando-se o valor de S, nossa função de onda torna-se: ψl = 2 1 (ψA + ψB) ψa = 2 1 (ψA - ψB) A idéia de negligenciar-se completamente S, refere-se a omissão do valor matemático da integral de sobreposição durante os cálculos de normalização. Note, contudo, que uma “boa sobreposição” é, qualitativamente, necessária, para uma boa ligação, porque a energia covalente (∆Ec) é proporcional à extensão da sobreposição entre os orbitais atômicos. Se a integral de sobreposição é ignorada nos cálculos, as energias de estabilização e de desestabilização dos orbitais ligantes e antiligantes, respectivamente, são iguais e ambas constantes de normalização são Nl = Na = 0,71. Se o valor da sobreposição é incluído nos cálculos, os coeficientes de normalização são Na = 1,11 e Nl = 0,56. Outras moléculas que possuem integrais de sobreposição menores que a observada para a molécula de H2, sofrem menos este tipo de efeito. A molécula de oxigênio foi um dos primeiros sistemas químicos a ser tratado através da teoria dos orbitais moleculares, mostrando-se mais eficiente que a teoria do orbital de valência na obtenção de determinados parâmetros moleculares. A molécula de O2 contêm, 16 elétrons, dos quais quatro deles ocupam os orbitais σ1s e σ * 1s, que se cancelam e, portanto, podem ser ignorados. Os quatro próximos elétrons encontram-se na região do espaço determinada pelos orbitais σ2s e σ * 2s, que também não contribuem para a formação das ligações na molécula de O2. Os oito elétrons remanescentes encontram-se nos níveis σ2p, π2p e π * 2p, produzindo a seguinte configuração eletrônica: O2 = KKσ 2 2sσ *2 2sσ 2 2pπ 4 2pπ *2 2p EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 134 FIGURA 13: Níveis de energia dos orbitais moleculares da molécula de O2. No entanto, examinando-se o diagrama dos níveis de energia (Figura 13), podemos notar que o nível π*2p é duplamente degenerado em dois orbitais π, π * 2py e π * 2px. A regra de Hund da máxima multiplicidade, prediz que os dois elétrons pertencentes ao nível π* deveram ocupar dois orbitais moleculares diferentes. Desta maneira, podemos escrever a configuração eletrônica de modo mais detalhado, como mostra equação a seguir: O2 = KKσ 2 2sσ *2 2sσ 2 2pπ 4 2pπ *1 2py π *1 2px Ligações Químicas nos Complexos 135 A seguir apresentamos os contornos das densidades eletrônicas nos vários orbitais da molécula de oxigênio (Figura 14). Este tipo de refinamento não tem influência sobre a ordem de ligação, a qual é ainda dois [1/2(6-2)], como já havia sido antecipado pela teoria da ligação de valência. A diferença encontra-se então, no paramagnetismo observado na molécula de O2, decorrente dos dois elétrons desemparelhados. Neste aspecto, o O2 é análogo ao átomo de carbono, que possui dois elétrons remanescentes desemparelhados, ocupando orbitais diferentes e degenerados. A teoria da ligação de valência prediz que todos os elétrons na molécula de oxigênio estão emparelhados. Contudo, medidas experimentais do paramagnetismo na molécula de O2, confirmam os resultados obtidos através da teoria do orbital molecular. FIGURA 14: Gráfico de curvas e nível das densidades eletrônicas dos orbitais moleculares calculados para a molécula de hidrogênio. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 136 Até o presente momento tratamos de um sistema homonuclear envolvendo dois átomos de oxigênio, onde não é observado efeitos decorrentes de diferenças de eletronegatividade entre os dois átomos que constituem os sistemas em questão. No entanto, o tratamento de ligações heteronucleares é desenvolvido em torno do conceito de eletronegatividade. Isto é simultaneamente um dos mais importantes e um dos mais complexos problemas em química. Em nossa discussão prévia dos orbitais moleculares, assumimos que os orbitais atômicos dos átomos ligantes possuíam a mesma energia. Nas ligações heteronucleares as interações ocorrem entre átomos com orbitais de energias diferentes. Nestas condições, os elétrons ligantes devem ser estabilizados na presença de núcleos com alta eletronegatividade, isto é, átomos tendo orbitais atômicos de baixos níveis de energia. Desta forma, os elétrons devem passar mais tempo próximos a este núcleo. Considere a molécula de monóxido de carbono (CO), que é isoeletrônica com a molécula de N2. O oxigênio é mais eletronegativo que o carbono. Assim, os elétrons ligantes serão mais estáveis se passarem a maior parte do seu tempo na região próxima ao núcleo de oxigênio. A densidade eletrônica do átomo de oxigênio é maior que a do átomo de carbono, em contraste com a distribuição simétrica da molécula de N2 (Figura 14). Para moléculas diatômicas homonucleares, nos vimos que os orbitais moleculares são: ψl = ψA + ψB ψa = ψA - ψB FIGURA 14: (a) Linhas de contorno para densidade eletrônica para a molécula de monóxido de carbono (b) linhas de contorno para a densidade eletrônica da molécula de nitrogênio. Ligações Químicas nos Complexos 137 Ambos orbitais atômicos contribuem igualmente. Contudo, se um orbital atômico possui energia menor do que o outro em uma molécula, este contribui de modo mais efetivo para a formação do orbital molecular ligante: ψl = aψA + bψB onde b > a, se o átomo B é mais eletronegativo que o átomo ª Por outro lado, o orbital mais estável contribui menos para a formação do orbital antiligante: ψl = aψA - bψB Na molécula de monóxido de carbono o orbitail ligante devera se parecer mais com o orbital atômico do oxigênio do que do carbono. Os orbitail antiligante, por sua vez, será mais parecido com o orbital atômico do elemento de menor eletronegatividade, neste caso o carbono (Figura 15). FIGURA 15: Representação dos orbitais moleculares para a molécula de monóxido de carbono: (a) orbital ππππ ligante, (b) orbital ππππ antiligante. A Figura 16 mostra o diagrama de energias para a molécula de CO. Note que os elétrons que formam as ligações na molécula de monóxido de carbono, ocupam orbitais com energias mais próximas daquela observada para o átomo de oxigênio. Observe também, que a ordem de ligação desta molécula é 3, já que os orbitais 1σ e 3σ são essencialmente não ligantes (Figura 16). EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 138 FIGURA 16: Diagrama de níveis de energia para a molécula de monóxido de carbono. 2.4 ESTABILIDADE RELATIVA ENTRE ALGUNS COMPLEXOS DE METAIS DE TRANSIÇÃO 2.4.1 Efeito quelato Algumas referências já foram feitas previamente a respeito da estabilidade de complexos contendo anéis quelatos. Esta estabilidade adicional é chamada de efeito quelato. Este é um efeito entrópico comum a todos os sistemas quelatos, porém a estabilidade adicional é resultado de mudanças de entalpia. Variações entrópicas associadas a quelação são relativamentecomplexos. Com relação a entropia translacional existem dois pontos de vista os quais são essencialmente equivalentes, pois são ambos de natureza estatística e probabilistica. Os dois pontos de vista relatam a entropia de um sistema, mas olham o problema sob alguns aspectos diferentes. Um deles é simplesmente considera a diferença na dissociação entre complexos de etilenodiamina e complexos de amônia, por exemplo, em termos dos efeitos do anel de etilenodiamina (os efeitos eletrônicos dos átomos de nitrogênio nas moléculas de etilenodiamina e amônia são similares). Se uma molécula de amônia é dissociada de um complexo, ela é rapidamente difundida na solução, e a probabilidade de ela retornar ao sítio original é Ligações Químicas nos Complexos 139 remota. Por outro lado, se um grupo amina do etilenodiamina é dissociado do complexo, o ligante ainda permanece ligado ao complexo. O átomo de nitrogênio pode se mover apenas algumas poucas centenas de picometros, podendo girar e se ligar novamente ao sítio sobre o metal. Este tipo de complexo tem uma menor probabilidade de ser dissociado, e, portanto, experimentalmente apresenta uma estabilidade maior que o complexo de amônia: [Ni(en)3] 2+ + NH3[Ni(NH3)6] 2+ + 3 en A melhor aproximação para compararmos estes dois tipos de complexos, pode ser representada através da seguinte equação: Em termos da entalpia e da entropia. Desde que as características ligantes da amônia e da etilenodiamina são muito similares, nos esperamos que o ∆H para esta reação seja muito pequeno. Como primeira aproximação, espera-se que a variação de entropia seja proporcional a diferença do número de partículas presentes no início e no final da reação. Nesta reação o equilíbrio químico encontra-se deslocado para direita, o que provoca um aumento do número de partículas, e assim, a entropia translacional favorece a produção do sistema quelato no lugar do complexo hexaamina. Na substituição de moléculas de H2O por quelatos, o aumento no número de partículas causa uma aumento de entropia dado por ∆S = nR ln 55,5 = 33.4n J.mol-1.K-1, onde n é o número de anéis quelantes, contribuindo 10,0 kJ.mol-1 para a energia livre de estabilização do complexo a 300 K para cada anel quelato formado. Como podemos ver, através da Tabela 9, os valores calculados para entropia (33,4n J.mol-1K-1) concordam razoavelmente com os valores observados experimentalmente. Dada a complexidade termodinâmica envolvida no processo de formação do quelato, podemos considerar que com essa simples aproximação, podemos obter resultados relativamente satisfatórios. TABELA 9: Contribuições termodinâmicas para o efeito quelato em complexos de níquel(II) e cobre (II). Comple- xos de amônia Comple -xos de etileno- diamina Efeito Quelato (a) ∆G ∆H ∆S (b) ∆G ∆H ∆S ∆G ∆H ∆S 33,4 n 1 -29,0 -33 -12 1 -41,9 -38 17 -12,9 -5 29 33 2 -46,3 -65 -63 2 -77,2 -77 12 -30,9 -11 74 67 3 -51,8 -100 -163 3 -101,8 -117 -42 -50,0 -17 121 100 4 -44,7 -46 -4 4 -60,1 -55 25 -15,5 -8 29 33 5 -74,2 -92 -58 5 -111,8 -107 29 -37,6 -15 88 67 EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 140 (a) [Ni(NH3)2(H2O)4] 2+ [Ni(NH3)4(H2O)2] 2+ [Ni(NH3)6] 2+ 1 2 3 [Cu(NH3)2(H2O)4] 2+ [Cu(NH3)4(H2O)2] 2+ 4 5 (b) [Nien(H2O)4] 2+ [Ni(en)2(H2O)2] 2+ [Ni(en)3] 2+ [Cuen(H2O)4] 2+ [Cuen(H2O)4] 2+ 1 2 3 4 5 Devemos levar em consideração também os efeitos da entalpia presentes. Isto pode ser visto de maneira simples em termos do quelato inicialmente formado. Em outras palavras, a formação do complexo despende uma certa quantidade de energia referentes a processos, tais como; interferência estérica entre dois ligantes adjacentes unidentados, repulsões entre dipolos de ligantes adjacentes, etc., podendo ser compensada, em parte, quando o ligante potencialmente bidentado foi originalmente formado, sendo desnecessário um gasto extra de energia na formação do complexo. Para mostrar que isto é verdade, podemos verificar que a entalpia de formação do complexo quelante é menor que a entalpia de formação do complexo unidentado. Finalmente, ligantes quelantes, tal como a acetilacetona produzem uma estabilização por ressonância decorrente do anel de seis membros formado, que possui Ligações Químicas nos Complexos 141 um certo caráter aromático. A acetilacetona (2,4-pentanodiona) coordena-se como um ligante enolato (aniônico): Os quelatos são ainda mais estáveis quando possuem ligações formadas por elétrons em orbitais moleculares π ( ligações dupla), com ligações simples intercaladas entre cada insaturação (duplas conjugadas). Podemos descrever este tipo de sistema representando-o através de uma distribuição eletrônica onde os elétrons responsáveis pelas ligações π estejam ocupando orbitais moleculares de mesma energia (degenerados), isto é deslocalizados de forma similar a de um anel. Podemos observar na natureza, vários complexos contendo ligantes quelantes. A hemoglobina presente nas células vermelhas do sangue consiste em um complexo ferro- porfirina. A clorofila encontrada nas plantas verdes é um complexo magnésio-porfirina. Um outro exemplo interessante, é a vitamina B12, que é um complexo de cobalto, e as enzimas citocromo-oxidases contêm ferro e cobre. O organismo contém diversas moléculas capazes de formar quelatos com metais de transição, tais como a adrenalina, o ácido cítrico e a cortisona. Uma importante aplicação dos complexos contendo quelatos, é o tratamento para intoxicações provocadas por metais pesados, tais como: chumbo, cobre, ferro, cromo, níquel, etc., com a formação de complexos quelatos com EDTA, que forma compostos estáveis posteriormente, eliminados com a urina. 2.4.2 Isomeria Os compostos de coordenação estão sujeitos aos efeitos referentes às posições relativas dos ligantes que compõem um certo complexo. Algumas vezes a diferença de energia entre dois complexos isoméricos torna-se considerável é responsável pela estabilidade da molécula em questão. Compostos dissubstiuídos podem existir em duas formas isoméricas. Este tipo de isomeria deve-se a geometria da molécula. Complexos quadrados planares como o [Pt(NH3)2Cl2] podem ser preparados de duas formas diferentes, obtendo-se dois produtos distintos, o cis e o trans. Um dos complexos, formado pela reação com HCl não apresenta momento de dipolo, logo deve ser o isômero trans. Por outro lado, o composto obtido através da adição de NH4OH a uma solução de [Pt(NH3)4], apresenta momento de dipolo finito, e portanto, é o isômero cis. A Figura 17 mostra uma representação destas duas moléculas. Pt Cl Cl NH3 NH3 cistrans NH3 NH3 Cl Cl Pt FIGURA 17: Isômoros cis e trans EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 142 O mesmo tipo de isomerismo pode ocorrer com complexos quadrados planares do tipo quelato, quando os ligantes quelantes são diferentes e não permitem geometrias simétricas. O complexo formado entre a glicina e a platina é um exemplo típico deste tipo de isomeria. Em geral, os isômeros trans são mais favoráveis, e esta observação é algumas vezes chamada de “efeito trans”. Complexos octaédricos também apresentam isomeria cis-trans. A seguir são apresentados alguns exemplos deste tipo de complexo (Figura 18). NH2 CH2 COO Pt O NH2 CO CH2 O CO CH2NH2 Pt O NH2 CO CH2 NH3 NH3 Cl NH3 Co Cl NH3 Cl Co Cl NH3 NH3 NH3 NH3 Cl Co Cl en en Co Cl Cl en en en enCo Cl Cl Par enantiomorfo A B C FIGURA 18: Isômeros espacias: A: Isômeros cis e trans da Glicinba; B: Complexos octraédricos cis e trans; C: Possiveis isômeros do cis-dicloro bis (etilenodiamina) cobalto(III). Ligações Químicas nos Complexos 143 2.4.3 Doadores ππππ Ligantes tais como CO, CN- e NO+ possuem orbitais π vazios, com simetria e energias que permitem a interação com orbitais do tipo t2g presentes em metais de transição. Esse efeito é freqüentemente chamado de retrodoação.Normalmente, os orbitais π presentes nos ligantes possuem energias maiores que os orbitais t2g do metal. Contudo, a retrodoação ocorre devido a diminuição da diferença de energia representada por 10Dq. 2.4.4 Receptores ππππ Neste caso, os ligantes possuem seus orbitais π preenchidos, com energias e simetrias que permitem a interação com orbitais t2g presentes no metal de transição. Este tipo de complexo torna-se mais favorável, se o átomo central possuir um estado de oxidação elevado, isto é, quando apresenta deficiência eletrônica. Devido a deslocalização dos elétrons π, podemos observar uma redução no valor de 10Dq e um aumento significante da força de ligação. QUESTIONÁRIO E EXERCÍCIOS 1. Por que o modelo eletrostático clássico é inconsistente para explicar as ligações entre o metal e o ligante num complexo? 2. Qual é o fundamento básico da TLV para explicar as ligações químicas em um complexo? 3. Escreva as configurações eletrônicas dn dos seguintes íons Ni+2, Co+3, Fe+2, Co+2, Mn+3, Au+, B+3, Au+3, Cr+2 e Cu+2. 4. Faça, à semelhança do que foi discutido nos exemplos citados no texto durante o estudo da TLV, diagramas de quadrículas para os íons anteriormente citados (lembre- se da regra de Hund). 5. Utilizando a TLV, escreva, na forma de diagrama de quadrículas, as configurações eletrônicas dos íons: [Fe(H2O)6] +2 (spin alto), [Ni(NH3)6] +2 (spin alto), [Mn(CN)6] -3 (spin baixo). 6. Qual é o grande mérito e as limitações da TLV para explicar as ligações em complexos? 7. Qual a diferença básica entre a TLV e a TCC? 8. Explique com suas palavras o que significa desdobramento do campo cristalino. Utilize um exemplo se julgar necessário. EDITORA – UFLA/FAEPE – Química Inorgânica 144 9. Qual é a diferença entre orbitais t2g e orbitais eg? Dê um exemplo, se julgar necessário. 10. O que são complexos paramagnéticos e diamagnéticos? Dê exemplos. 11. O que são complexos de spin alto e de spin baixo? Dê exemplos. 12. Por que um mesmo íon metálico é capaz de produzir complexo de spin alto e complexos de spin baixo? 13. O que você entende por Teoria do campo Ligante? 14. Explique, com base na TCC, porque os complexos dos metais de transição são coloridos. 15. Determinar a EECC dos sistemas d1 octaédrico; d5 octaédrico de spin baixo; d8 octaédrico de spin alto. 16. Mostre, através de desenhos, como os orbitais s, p ou d podem interagir com os orbitais deste tipo de um átomo adjacente. 17. Enumere três regras para a “Combinação linear de orbitais atômicos”. 18. Mostre como aproximação do método das CLOA dá origem a orbitais ligantes e antiligantes. Ilustre sua resposta com exemplos de três moléculas diatômicas diferentes. 19. Utilize a teoria dos orbitais moleculares para prever a ordem de ligação e o número de elétrons desemparelhados em cada um das espécies a seguir: O2 2-, O2 -, O2, O2 +, NO e CO. 20. Utilize a teoria dos orbitais moleculares para explicar porque a ligação na molécula de N2 é mais forte que a ligação na molécula de F2. 21. Desenhe diagramas dos níveis de energia dos orbitais moleculares nos compostos C2, O2 e CO. Mostre quais os orbitais ocupados e determine as ordens de ligação e propriedades magnéticas dessas espécies. 22. Relacione e explique os fatores que influenciam a estabilidade de compostos de coordenação. 23. Representes todos os isômeros de um complexo octaédrico com seis ligantes unidentados, dois dos quais do tipo A e quatro do tipo B. 24. Represente todos os isômeros de um complexo octaédrico com três ligantes bidentados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROS, H. L. C. Química inorgânica, uma introdução. Belo Horizonte, PADCT, p. 509 (1992). BASOLO, F.; JOHNSON, R. Química de los compuestos de coordenación. Rio de Janeiro, p. 174 (1980). GREEWOOD, N.N; Earshaw, A.; Chemistry of the Elements, Pergamon Press, Oxford, 1989. 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