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8 Anatomia & fisiologia cap. 01Parte externa do olho Parte externa do olho Pálpebras As pálpebras (Figura 1) desempenham duas prin- cipais funções: • Proteção do globo ocular; • Secreção, distribuição e drenagem da lágrima. Dinâmica palpebral O espaço entre as pálpebras é chamado de “fis- sura” ou “abertura ocular”. As fibras do músculo orbicular formam um anel ao redor da abertura palpebral e sua contração leva ao fechamento da mesma. A abertura palpebral é realizada prin- cipalmente pelo músculo elevador da pálpebra superior, embora ainda existam túnicas fibrosas que agem na retração da pálpebra inferior. O músculo elevador se origina no ápice da órbi- ta, cursa anteriormente sobre o músculo reto superior e insere-se na placa tarsal e na pele da pálpebra superior. As pálpebras são firmemente aderidas às margens da órbita pelos ligamentos palpebrais medial e lateral. O movimento de piscar distribui a lágrima atra- vés da córnea, o que mantém uma superfície lisa, além de promover a retirada de debris. O reflexo palpebral do piscar é também um impor- tante fator de proteção. A via nervosa aferente é composta por um ramo do trigêmeo (V par), e a eferente, pelo nervo facial (VII par). Os cílios tam- bém desempenham função protetora. Pele e apêndices A pele das pálpebras é fina e frouxamente ade- rida aos tecidos subjacentes, o que permite, em situações de inflamação e sangramento, a for- mação de considerável edema. A placa tarsal é uma faixa de tecido conjuntivo denso e situa-se, posteriormente, à pele e ao músculo orbicular, e anteriormente, à conjuntiva palpebral (tarsal). É nessa região que encontramos as glândulas de Meibomius, responsáveis pela produção da camada lipídica do filme lacrimal. Essas glându- las são alinhadas verticalmente na placa tarsal e se abrem junto à margem palpebral, onde se pode notar seus orifícios. As placas tarsais são contínuas perifericamente com o septo orbitário (uma fina, mas relevante estrutura divisória en- tre a pálpebra e a órbita). Ao longo da margem palpebral encontramos os cílios, anteriormente (com importante função protetora), e os orifícios meibomianos, posteriormente. No terço nasal, observa-se uma abertura denominada “ponto la- crimal”, responsável pela drenagem da lágrima. A linha cinzenta, importante estrutura na repa- ração das lacerações palpebrais, situa-se entre os cílios e os orifícios meibomianos. Inervação A inervação sensorial é originada do nervo trigê- meo (V par craniano), via divisão oftálmica (pál- pebra superior) e divisão maxilar (pálpebra infe- rior). O músculo orbicular é inervado pelo nervo facial (VII par craniano). O músculo levantador da pálpebra superior é inervado pelo nervo oculo- motor (III par craniano). Uma paralisia desse ner- vo leva a uma queda da pálpebra superior deno- minada “ptose”. Note-se que todos os nervos, ex- ceto o facial, são oriundos da órbita e alcançam a pálpebra. Irrigação vascular e drenagem linfática As pálpebras são supridas por uma extensa ma- lha vascular, a qual forma anastomoses entre ra- 9 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Parte externa do olho Figura 01: pálpebras e bulbo ocular em corte sagital. mos originados da artéria carótida externa (pela face) e da artéria carótida interna (pela órbita). Isso fornece excelente recuperação dessa região no pós-trauma. O fluido linfático das pálpebras superiores é drenado para linfonodos pré-auriculares e das pálpebras inferiores para os linfonodos subman- dibulares. Linfadenopatia é um sinal comum de infecção das pálpebras e das conjuntivas (princi- palmente por vírus). 10 Anatomia & fisiologia cap. 01Parte externa do olho Conjuntiva A conjuntiva (Figura 1) é uma membrana muco- sa que reveste posteriormente as pálpebras e co- bre a superfície anterior do olho até a córnea. Na reflexão superior e inferior, entre o globo ocular e as pálpebras, a conjuntiva forma um fundo de saco, denominado “fórnice”. A conjuntiva é firme- mente aderida às pálpebras, frouxamente aderi- da ao globo ocular e encontra-se livre na região dos fórnices. Portanto, inflamações podem cau- sar edema (quemose) na região dos fórnices e da conjuntiva bulbar (globo ocular). A conjuntiva é composta de uma camada epite- lial e de um estroma subjacente. Na camada epi- telial encontramos as células caliciformes, res- ponsáveis pela secreção de mucina (importante componente do filme lacrimal). Outras glândulas conjuntivais contribuem ainda na formação das camadas aquosa e lipídica do filme lacrimal. A conjuntiva facilita o livre movimento do globo ocular e promove uma superfície lisa para que as pálpebras deslizem sobre a córnea. A inervação sensorial é mediada via divisão oftál- mica do nervo trigêmeo. A vascularização é pre- dominantemente originada de ramos orbitários com presença de anastomoses do sistema facial. A conjuntiva tem um importante papel na prote- ção do olho contra microorganismos. Córnea e esclera Juntas, a córnea e a esclera formam uma superfí- cie esférica que compõe a parede externa do glo- bo ocular. Embora as duas sejam muito similares, a estrutura corneana é unicamente modificada para transmitir e refratar a luz (Figura 1). A esclera é formada principalmente por fibras colágenas. É avascular, apesar de apresentar va- sos em sua superfície, e relativamente acelular. Apesar de ser fina (máxima espessura de 1 mm), é a esclera que dá o suporte para inserção dos músculos extra-oculares. É perfurada posterior- mente pelo nervo óptico e também por vasos e nervos (sensoriais e motores) ao longo do globo ocular. A união entre a córnea e esclera chama-se “limbo”. A córnea é formada por cinco camadas: o epité- lio, camada de Bowman, estroma (mais espessa), membrana de Descemet e endotélio (camada única de células hexagonais). A córnea é extremamente sensível ao toque (em contraste com a esclera) devido a fibras nervosas originadas da divisão oftálmica do nervo trigê- meo. Este é exposto quando há quebra do epité- lio corneano (desepitelização), causando grande dor. A córnea é avascular, sendo nutrida pelo humor aquoso, pelo filme lacrimal e por difusão de vasos presentes no limbo. A isquemia do limbo pode levar a um afilamento corneano periférico (mel- ting), e a restrição da oxigenação através do filme lacrimal (devido ao uso de lentes de contato, por exemplo) pode resultar em ulceração corneana. As funções principais da córnea são: proteção contra invasão de microorganismos e transmis- são e refração da luz. A refração da luz ocorre porque a superfície de curvatura corneana possui índice refracional maior que o do ar. Sua superfície é transparente devido ao especializado arranjo das fibras de co- lágeno presentes no estroma, as quais devem se manter em um estado de relativa desidratação. Isso é conseguido através de uma bomba de íons encontrada no endotélio (a direção do fluxo é do estroma para a câmara anterior). A perda severa de células endoteliais (e a conseqüente perda da bomba iônica) leva a uma hidratação excessiva (edema) e à perda da transparência corneana. 11 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Parte externa do olho Figura 02: produção e drenagem lacrimal. Produção e drenagem lacrimal A glândula lacrimal secreta a maior parte do com- ponente aquoso do filme lacrimal (Figura 2). Ela repousa na região súpero-temporal da órbita an- terior. Seu lobo anterior pode ser visto algumas vezes no fórnice conjuntival superior. É inervada por fibras parassimpáticas carreadas pelo nervo facial. A lágrima corre em um menisco na margem pal- pebral inferior, é espalhada através da superfície ocular pelo movimento do piscar e é drenada nos pontos lacrimais superior e inferior (situados no canto nasal palpebral). Os canalículos de cada ponto lacrimal se unem para formar o canalículo comum que termina no saco lacrimal. Finalmen- te, a lágrima passa pelo ducto nasolacrimal e al- cança a cavidade nasofaríngea através do meato inferior. Isso explica odesconfortável sabor que se segue após a administração de certos colírios. Ao nascimento, o ducto nasolacrimal pode não estar totalmente desenvolvido, causando lacri- mejamento constante (epífora). Na maioria dos casos o seu completo desenvolvimento se dá em um ano de vida. Já a obstrução adquirida do ducto nasolacrimal é uma causa importante de epífora em adultos. Pode ser causada por uma infecção aguda do saco lacrimal, a qual se mani- festa por edema da região medial palpebral. 12 Anatomia & fisiologia cap. 01Parte interna do olho Parte interna do olho A função das estruturas oculares internas é basi- camente de refinar a imagem vinda da córnea e converter a energia luminosa em energia elétrica para formação da imagem no cérebro. Úvea A úvea compreende a íris e o corpo ciliar, anterior- mente, e a coróide, posteriormente (Figura 03). Íris A íris consiste em tecido conjuntivo contendo fibras musculares, vasos sangüíneos e células pigmentares. Sua superfície posterior é determi- nada por uma camada de células pigmentares. Em seu centro há uma abertura, a pupila. A fun- ção principal da íris é controlar a entrada de luz na retina e reduzir a lesão intra-ocular causada pela luminosidade. A dilatação da pupila é cau- sada por contrações de fibras musculares lisas radiais inervadas pelo sistema nervoso simpáti- co. A contração pupilar ocorre quando um anel de fibras musculares lisas em torno da pupila se contrai. Esse anel é inervado pelo sistema nervo- so parassimpático. A pigmentação da íris reduz a lesão intra-ocular mediada pela luz. A quantidade de pigmento iriano determina a “cor dos olhos”: olhos azuis contêm menos quantidade de pigmento do que olhos marrons. Corpo ciliar O corpo ciliar (Figura 3) é uma estrutura especia- lizada que une a íris com a coróide. É responsável pela produção do humor aquoso. O corpo ciliar é ligado ao cristalino pela zônula. Anteriormente, a superfície interna é transfor- mada em processos ciliares, os quais são respon- sáveis pela produção do humor aquoso. A contração de fibras musculares presentes no músculo ciliar causa uma redução em sua circun- ferência; isso reduz a tensão na zônula, fazendo com que a elasticidade natural do cristalino gere um aumento em sua convexidade, propiciando um melhor foco para a visão de perto. Esse fenô- meno é chamado “acomodação”, o qual é contro- lado por fibras parassimpáticas do nervo oculo- motor (III par craniano). O relaxamento das fibras é um processo passivo, aumentando a tensão na zônula, de forma que aplaina o cristalino, geran- do melhor visão para longe. A região posterior do corpo ciliar une-se à retina através da ora serrata. 13 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Parte interna do olho Figura 03: corte transversal do olho. Coróide A coróide consiste em: vasos sangüíneos, teci- do conectivo e células pigmentares. Está locali- zada entre a retina (camada interna) e a esclera (camada externa). É responsável pelo aporte de oxigênio e de nutrição das camadas externas da retina. Existe um espaço virtual entre a coróide e a es- clera, o qual pode ser preenchido por sangue ou por líquido seroso em algumas patologias ocu- lares. 14 Anatomia & fisiologia cap. 01Parte interna do olho Cristalino O cristalino (Figura 3), em formato discóide, é compreendido por uma massa de células alongadas, chamadas “fibras cristalinianas”. No centro, essas fibras estão compactadas em um núcleo duro envolto por uma menor densidade de fibras, o córtex. Toda essa estrutura está en- volvida por uma cápsula elástica e é capaz de se deformar para realizar a acomodação. Falência da acomodação relacionada à idade (presbiopia) ocorre devido à perda da elasticidade capsular e do enrijecimento do cristalino. O cristalino é relativamente desidratado e suas fibras contêm proteínas especiais, o que gera sua transparência. A catarata é qualquer opacidade, congênita ou adquirida, do cristalino. Humor aquoso O humor aquoso preenche as câmaras anterior e posterior. A câmara anterior é o espaço entre a córnea e a íris. Atrás da íris e anteriormente ao cristalino, situa-se a câmara posterior. Essas duas regiões comunicam-se através da pupila. Formação O humor aquoso (ou apenas “aquoso”) é pro- duzido pelo corpo ciliar por ultrafiltração e por secreção ativa. Sua composição é estritamente regulada para excluir proteínas de alto peso mo- lecular e células, mas contém glicose, oxigênio e aminoácidos para a córnea e para o cristalino. Drenagem O aquoso circula da câmara posterior para a câ- mara anterior pela pupila, deixando o olho pela malha trabecular; esta é um tecido especializa- do, localizado no ângulo da câmara anterior, en- tre a íris e a córnea, semelhante a uma peneira. A partir da malha trabecular, o aquoso é coletado pelo canal de Schlemm, o qual circunda o olho no limbo corneoescleral, drenando-se, então, para as veias episclerais. A produção e a drenagem do aquoso são balan- ceadas para manter uma pressão intra-ocular adequada. Vítreo O corpo vítreo é 99% composto de água, mas, vitalmente, também contém fibras de colágeno e de ácido hialurônico, que promovem coesão e uma consistência gelatinosa. Com o avançar da idade, o vítreo sofre uma progressiva liquefação (degeneração). É aderido à retina em certos pon- tos, particularmente no nervo óptico e na ora serrata. Quando ocorre sua degeneração, pode haver tração e conseqüente descolamento da retina. O vítreo ajuda no amortecimento do globo ocu- lar e tem um menor papel como fonte de meta- bólitos. Retina A retina converte a imagem luminosa em im- pulsos nervosos (Figura 4). É compreendida pela retina neurossensorial e pelo epitélio pigmentar retiniano (EPR). O raio luminoso tem que passar através da retina interna para alcançar os fotor- receptores (cones e bastonetes), os quais con- vertem a energia luminosa em elétrica. A retina então tem que ser transparente. Neurônios co- nectores (interneurônios) modificam e passam o impulso elétrico para as células ganglionares, cujos axônios correm ao longo da superfície reti- 15 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Parte interna do olho Função Concentração Número BASTONETES Visão no escuro, movimento Periferia da retina > 100 milhões CONES Visão no claro, cores e definição Mácula 6-7.000 milhões Tabela 1. Propriedades dos cones e dos bastonetes niana e entram no nervo óptico. Uma região da mácula é responsável pela visão central. Em seu centro existe uma área altamente especializada denominada “fóvea”, a qual é res- ponsável pela visão de alta qualidade. O restante da retina é responsável pela visão periférica. Os cones estão concentrados na mácula. Eles são responsáveis pela acuidade visual e pela aprecia- ção de cores. Os bastonetes estão relacionados com a visão em baixos níveis de luminosidade e com a detecção de movimento, estando distri- buídos por toda a retina (Tabela 1). Os fotorreceptores contêm pigmentos visuais, como o retinol (vitamina A), ligados à proteína (opsina). A absorção luminosa causa uma mu- dança estrutural e química que resulta na hiper- polarização elétrica do fotorreceptor. Externamente à retina neurossensorial encontra- se o EPR, uma camada única de células pigmen- tadas que são essenciais na fisiologia dos fotor- receptores. As células do EPR reciclam a vitamina A para formação do fotopigmento, transportam água e metabólitos, renovam os fotorreceptores e ajudam na redução do dano luminoso. Prejuízo na função do EPR, que pode ocorrer com a idade e em muitos estados patológicos, pode levar a uma perda da função retiniana e, conseqüente- mente, da visão. O suprimento sangüíneo da retina é derivado da artéria central da retina e da coróide. Ambos os sistemas são necessários para o funcionamento normal da mesma. Os vasos retinianos entram e saem do olho através do nervo óptico e correm sob a camada de fibras nervosas. Um ramo cali- broso de artéria e veia forma uma “arcada”, a qualnutre cada quadrante da retina. A barreira hemato-retiniana, que consiste nas ti- ght junctions entre as células endoteliais dos va- sos retinianos e as células do EPR, isola a retina da circulação sistêmica. A quebra dessa barreira, que ocorre na retinopatia diabética, por exem- plo, leva a um edema retiniano e a acúmulo de proteínas e de lipídeos, causando perda da trans- parência retiniana e diminuição da acuidade vi- sual. 16 Anatomia & fisiologia cap. 01Parte interna do olho Figura 04: diagrama da retina. Nervo óptico Os axônios das células ganglionares presentes na camada de fibras nervosas da retina chegam ao nervo óptico através do disco óptico, o qual não possui fotorreceptores e corresponde, por- tanto, a uma mancha cega fisiológica (Figuras 4 e 6). A maioria dos discos ópticos tem uma ca- vidade central, denominada “escavação”, a qual é pálida em comparação com a coloração rósea das fibras nervosas que a circundam. A perda das fibras nervosas, que ocorre no glaucoma e em outras patologias, resulta em um aumento dessa escavação. Há aproximadamente um milhão de axônios no nervo óptico. Atrás do globo ocular, esses axô- nios tornam-se mielinizados e o nervo óptico é revestido pelo fluido cerebroespinhal do espaço subaracnóideo, sendo protegido por uma bainha contínua com as meninges cerebrais. Relações e conexões: órbita e vias ópticas Cada olho repousa dentro de uma cavidade óssea (a órbita), que o protege em todas as direções, com exceção da sua parte anterior. Os músculos que movem o olho unem-se no ápice orbitário formando o cone muscular. Dentro da órbita ain- da encontramos os nervos motores, sensoriais e autonômicos do olho e de estruturas associadas. O espaço orbitário é preenchido por gordura e por uma complexa malha de tecido conjuntivo que ajuda na sustentação do globo ocular e na interação com os músculos extra-oculares. O campo e a qualidade de visão são gerados pe- los dois olhos conjuntamente. Os nervos ópticos de cada olho são coordenados e conectados a outras áreas em nível cortical cerebral; disso re- sulta a visão. Determinados centros motores, núcleos cranianos e conexões interligam os dois olhos (como as rodas da frente de um carro) para manter a visão binocular sem diplopia. 17 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Parte interna do olho Órbita As paredes ósseas da órbita formam uma estru- tura piramidal (Figura 5). São constituídas pelos ossos frontal, maxilar, zigomático, etmoidal, la- crimal e esfenoidal. A parede medial e o assoalho da órbita são finos. Quando uma forte pressão é exercida sobre a órbita (por exemplo nos trau- mas), sua descompressão através de fraturas do assoalho ou da parede medial ajuda a minimizar o dano ao globo ocular. Por outro lado, infecções dos seios maxilar e etmoidal podem facilmente penetrar na órbita. No ápice orbitário, o forame orbitário leva o ner- vo óptico, posteriormente, para o quiasma ópti- co intracraniano, e a artéria oftálmica, anterior- mente, para a órbita. Lateralmente ao forame, existem duas fissuras: • A fissura orbitária superior, a qual dá passagem para os nervos lacrimal, frontal e nasociliar (divi- são oftálmica do V par craniano), para os III, IV e VI pares cranianos e para a veia oftálmica superior. • A fissura orbitária inferior, a qual permite a saída da veia oftálmica inferior e a entrada da divisão maxilar do V par craniano. Os quatro músculos retos extra-oculares (medial, superior, lateral e inferior) deixam o ápice da ór- bita para se inserir no globo ocular de 5 a 7 mm atrás da junção córneo-escleral. Eles formam um cone, cujo interior possui nervos sensoriais e autonômicos, artérias do globo ocular, nervo óptico e nervos motores para todos os músculos extra-oculares, com exceção do músculo oblíquo superior. Portanto, a compressão do ápice orbi- tário por um tumor, por exemplo, pode resultar na perda da sensibilidade corneana, na redu- ção dos movimentos oculares e no prejuízo da função visual, assim como num deslocamento anterior do globo ocular (proptose). A completa anestesia ocular, por injeção local, requer que o anestésico seja injetado ou difundido para esse espaço intraconal. 18 Anatomia & fisiologia cap. 01Parte interna do olho Figura 05a e 05b: paredes da órbita. 19 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Parte interna do olho Músculos extra-oculares Os quatro músculos retos (Figura 6) têm uma adesão posterior comum no anel de tecido con- juntivo que circunda o canal óptico e que divide a fissura orbitária superior em dois comparti- mentos. • Reto lateral: é inervado pelo VI par craniano (abducente). Sua contração move o olho lateral- mente e, portanto, sua paralisia gera um desvio para dentro (convergente). • Reto medial: é inervado pelo III par craniano (oculomotor). Sua contração move o olho nasal- mente. • Reto superior e inferior: esses músculos não só movem o olho para cima e para baixo, respec- tivamente, mas também têm ações adicionais, ajudando na adução (movimento em direção ao nariz) e na rotação. Eles também são inervados pelo nervo oculomotor. • Oblíquo superior e inferior: o músculo oblíquo superior se origina na região posterior da órbi- ta, sofre um desvio em um tipo de polia (tróclea) situada atrás da rima orbitária súpero-nasal, e é então direcionado para trás, para se inserir no globo ocular. É inervado pelo IV par crania- no (troclear). Age principalmente na rotação do olho, mas também contribui para o movimen- to lateral (abdução) e para alguma depressão ocular. O músculo oblíquo inferior origina-se na rima orbitária inferior próximo à parede medial e passa lateralmente, e, posteriormente, para se aderir ao globo próximo à topografia da mácula. Como o oblíquo superior, ele roda o olho e ajuda na elevação e na abdução. É inervado pelo nervo oculomotor. Músculo levantador da pálpebra O músculo levantador (inervado pelo III par cra- niano) projeta-se anteriormente na forma de uma ampla aponeurose, ligando-se na placa tar- sal superior e na pele da pálpebra superior (Figu- ras 1 e 6). Associadas a ele encontram-se fibras de músculo liso inervadas pelo sistema nervoso simpático. A função do músculo levantador é a de elevar a pálpebra superior. Nervos da órbita Além dos nervos motores dos músculos extra- oculares, a órbita contém nervos sensoriais e au- tonômicos (Figura 6). O principal nervo sensorial é o nervo óptico (II par craniano), envolto por uma membrana contí- nua com as meninges intracranianas, sendo que o espaço subaracnóideo estende-se até o globo ocular. O suprimento sangüíneo é dado por nu- merosos vasos derivados da artéria oftálmica. Na porção final dessa artéria (próximo ao globo), não existem anastomoses, de forma que um pro- cesso isquêmico, como arteriosclerose ou arte- rite de células gigantes, tipicamente leva a uma perda visual severa. Ramos da divisão oftálmica do nervo trigêmeo fornecem a inervação sensorial para o globo ocu- lar (especialmente a córnea), para a conjuntiva e para a pele das pálpebras, com extensão para a fronte e o occipício. O nervo nasociliar dirige-se ao globo ocular, mas não termina nele. O nervo passa pela órbita junto à parede medial e emer- ge ao lado do nariz. O herpes zoster ocular geral- mente encontra-se associado a lesões cutâneas nasais. 20 Anatomia & fisiologia cap. 01Parte interna do olho Figura 06a e 06b: nervos e músculos da órbita. vista frontal vista superior As fibras parassimpáticas do corpo ciliar (acomo- dação) e do músculo constritor da íris seguem o trajeto do terceiro nervo. Há uma sinapse entre as fibras pré e pós-ganglionares no gânglio ciliar próximo ao nervo óptico. As fibras parassimpáticas da glândula lacrimal possuem um trajeto complexo, passando pelo nervo facial e então seguindo o trajeto da divisão maxilar do trigêmeo. As fibras sensoriais e parassimpáticas chegam ao globo ocular via nervos ciliares curtos e longos, que atravessam a esclera posteriormente. Fibrassimpáticas pós-ganglionares emergem do gânglio cervical superior no pescoço, unem-se à artéria carótida interna e percorrem um longo trajeto, entrando no crânio, passando através do seio cavernoso e finalmente chegando à órbita. Além de exercerem vasoconstricção arteriolar, 21 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Parte interna do olho tais fibras inervam o corpo ciliar (produção do aquoso) e o músculo dilatador da pupila. Dila- tação pupilar máxima pode ser conseguida pela administração tópica de um inibidor do sistema parassimpático (como a tropicamida e o ciclo- pentolato) ou de um agonista do sistema simpá- tico (fenilefrina). Vias ópticas Os nervos ópticos unem-se no quiasma óptico sobre a sela túrcica do osso esfenóide. A glân- dula pituitária projeta-se inferiormente atrás do quiasma. As fibras nervosas da retina nasal (cam- pos visuais temporal ou lateral) cruzam para o lado oposto do quiasma, sendo que as fibras pós-quiasmáticas do lado esquerdo represen- tam o campo visual do lado direito de ambos os olhos (e vice-versa). O trato óptico estende-se do quiasma até o cor- po geniculado lateral, onde nervos que começa- ram como fibras na superfície da retina formam sinapses com neurônios, os quais seguem pela radiação óptica para alcançar o córtex visual no lobo occipital. A pressão sobre o quiasma por um tumor hipo- fisário leva a uma hemianopsia bitemporal. Atrás do quiasma, uma lesão unilateral causa uma he- mianopsia no lado oposto. O trato óptico e suas radiações são supridos por ramos da artéria cerebral média, e o córtex visu- al, pela artéria cerebral posterior. Cada mácula é representada por uma área cortical em ambos os pólos occipitais, e tem um duplo suprimento sangüíneo (artérias cerebrais média e posterior). Como resultado, a oclusão do suprimento arte- rial do córtex visual causa uma perda de campo bilateral, com preservação da visão central (cam- po macular). 22 Anatomia & fisiologia cap. 01Saiba mais Saiba mais Pálpebras Músculo de Müller (tarsal superior): origina-se na face inferior do músculo levantador da pálpe- bra superior a cerca de 15 mm da borda tarsal su- perior. Consiste em um músculo liso de inervação simpática. Está fracamente aderido à conjuntiva e insere-se na borda tarsal superior. É responsá- vel por cerca de 2 mm de abertura palpebral e tem papel na ptose da síndrome de Horner e na retração palpebral da doença de Graves. Músculo de Horner (tensor do tarso): porção profunda, medial do orbicular pré-tarsal, que se insere na crista lacrimal posterior e na fáscia la- crimal. Sua contração move a pálpebra medial e posteriormente. Ao mesmo tempo, o saco lacri- mal é distendido lateralmente a partir do orbi- cular pré-septal, criando uma pressão negativa dentro do saco que drena a lágrima a partir do canalículo. Esse é o mecanismo conhecido como “bomba lacrimal”, sendo que paralisia, enfraque- cimento e frouxidão palpebral causam epífora em razão da perda de função de bomba. Músculo de Riolan: é a porção do orbicular que se situa próxima à borda palpebral, separada do orbicular pré-tarsal pelos folículos pilosos. Cor- responde à linha cinzenta. Medialmente, o mús- culo de Riolan se prolonga até o músculo de Hor- ner. Ajuda a aproximar as bordas palpebrais. Septo orbitário: separa a órbita da pálpebra, constituindo uma barreira para o acesso poste- rior de hematomas ou de infecções. Na pálpebra superior, não se funde diretamente com o tarso e sim com o tendão do músculo levantador da pál- pebra superior (MLPS). Posteriormente ao septo, encontra-se a gordura pré-aponeurótica, um de- marcador importante para se chegar ao MLPS. O septo é composto por tecido conectivo fibroso que pode adelgaçar-se com a idade, permitindo o prolapso de bolsas de gordura. Os equivalentes ao MLPS e ao músculo de Müller na pálpebra inferior são a “fáscia capsulopalpe- bral do músculo reto inferior” e o “músculo tarsal inferior”, que são os retratores da pálpebra in- ferior. Durante a infraversão, a pálpebra inferior excursiona inferiormente 5-6 mm graças à ação desses músculos. Quando as pálpebras estão fechadas, a rima pal- pebral está quase no plano horizontal, exceto em determinadas raças (por exemplo, nos asiáticos). Nessas pessoas ocorre leve inclinação da rima palpebral para cima, em direção ao nariz, porque as extremidades mediais das pálpebras superio- res projetam-se em sentido superomedial. Além disso, seus ângulos mediais são recobertos por uma prega cutânea extra denominada “prega palpebronasal”, a qual varia em tamanho. Rimas palpebrais oblíquas e pregas palpebronasais também estão presentes em pessoas com a sín- drome de Down (trissomia do cromossomo 21) e com outras síndromes, por exemplo, síndrome do miado do gato (resultante de uma deleção terminal do cromossomo número 5). Qualquer uma das glândulas palpebrais pode se tornar inflamada e edemaciada. Se os ductos das glândulas de Meibomius ficam obstruídos ou in- flamados, desenvolve-se na pálpebra uma tume- fação avermelhada e dolorosa conhecida como “hordéolo”. O calázio é uma lesão inflamatória, crônica, lipogranulomatosa e estéril, causada por obstrução dos orifícios das glândulas de Meibo- mius e pela estagnação das secreções sebáceas. Limbo De um ponto de vista mais sofisticado, já foram identificadas várias evidências estruturais e bio- químicas sugestivas não só da individualidade 23 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Saiba mais anatomofuncional do limbo, como também da possibilidade de que a região seja o reservatório das células germinativas da córnea (stem cells). Estudos realizados em coelhos demonstraram que a remoção parcial da região límbica compro- mete a superfície corneana, o que poderá levar a descompensação da mesma e posterior defeito epitelial extenso. Transplantes de córnea homólogos podem ser realizados cirurgicamente em pacientes com córneas opacas ou lesadas. O epitélio de super- fície é regenerado pelo hospedeiro e recobre o transplante em poucos dias. Também são usados implantes corneais de material plástico não rea- tivo. Como a parte central da córnea recebe oxi- gênio do ar, lentes de contato gelatinosas usadas por longo período devem ser permeáveis a gás. Camadas da retina (Figura 7) Externamente, aderido à coróide, encontramos o “epitélio pigmentar da retina (EPR)”, que é uma monocamada de células cubóides a qual se es- tende da margem do disco óptico até a ora ser- rata, onde continua como “epitélio ciliar pigmen- tário”. No sentido da esclera para o corpo vítreo, te- mos: • Retina externa (nutrida principalmente pela coróide) 1. Camada de fotorreceptores: compreende os segmentos interno e externo dos fotorrecepto- res e as vilosidades do EPR. 2. Membrana limitante externa: não é uma membrana verdadeira mas sim complexos jun- cionais que unem as células de Müller com os segmentos internos dos fotorreceptores. 3. Camada nuclear externa: é composta pelos corpos celulares dos fotorreceptores. 4. Camada plexiforme externa: consiste em axônios dos cones e dos bastonetes que formam sinapse com dendritos das células bipolares e horizontais. • Retina interna (nutrida por vasos retinia- nos) 5. Camada nuclear interna: contém núcleos das células bipolares, células horizontais, células amácrinas e células de Müller, sendo geralmente mais fina que a nuclear externa. 6. Camada plexiforme interna: consiste em axônios das células bipolares e amácrinas, além de suas sinapses, e nos dendritos das células ganglionares. 7. Camada de células ganglionares: consiste em corpos celulares das células ganglionares se- parados uns dos outros por processos das célu- las de Müller e de neuroglia. 8. Camada de fibras nervosas: composta pela extensão dos axônios das células ganglionares. 9. Membrana limitante interna: consiste, em sua maior parte, na lâmina basal das células de Müller. cap. 01 24 Anatomia & fisiologia cap. 01Saiba mais Figura 07: camadas da retina. 25cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Resumocap. 01 Resumo Pálpebras • Proteção do globo e distribuição da lágrima pela córnea. • Fecha-se por contração da porção ocular do músculo orbicular (nervo facial). • Abertura feita pelo uso do levantador (nervo oculomotor). • A margem palpebral contém uma linha de cílios anterior a uma linha de orifícios da glândula de Meibomius. Conjuntiva • Uma membrana mucosa que contribui para a produção lacrimal e dá resistência contra infec- ções. Córnea • Tecido altamente especializado. • Principal função: refração e transmissão lumi- nosa. • Formada por epitélio externo, por estroma avas- cular e por monocamada de células endoteliais. • O endotélio bombeia a água do estroma para a câmara anterior; sua falência leva à perda da transparência. Lágrima • Camada lipídica secretada por glândulas de Mei- bomius; camada aquosa, pelas glândula lacrimal e glândulas conjuntivais associadas; camada de mucina, pelas células caliciformes conjuntivais. • Drena para o ponto lacrimal, para os sacos lacri- mais, chegando ao nariz pelo ducto nasolacrimal no meato inferior. Íris • Constrição: parassimpático. Dilatação: simpáti- co. Corpo ciliar • Produz o humor aquoso, mediador de acomo- dação. Cristalino • Consiste em um núcleo duro e um córtex mole, circundado por uma cápsula e fixo pela zônula. Aquoso • Drenado pela malha trabecular, no ângulo da câmara anterior entre a íris e a córnea. Retina • Fotorreceptores convertem energia luminosa em elétrica; transmitem a energia elétrica para as células ganglionares via interneurônios. • Axônios das células ganglionares cruzam a su- perfície da retina e deixam o olho pelo disco óp- tico. • Os cones estão concentrados na mácula e são responsáveis por visão de alta qualidade. cap. 01 26 Anatomia & fisiologia cap. 01Resumo Relações e conexões: órbita e via óptica • As paredes orbitárias medial e inferior são mais delgadas. • O nervo óptico e a artéria oftálmica passam através do canal óptico. • O terceiro nervo supre os músculos levantador, retos superior, inferior e medial, oblíquo inferior, além de ser responsável pela acomodação e pela contração pupilar. • O quarto nervo supre o músculo oblíquo supe- rior. • O sexto nervo supre o músculo abducente. • Função dos músculos extra-oculares: • Reto medial: adução. • Reto lateral: abdução. • Retos superior e inferior: elevação e depressão. • Oblíquos: rotação. Via visual • Nervos ópticos chegam ao quiasma (fibras da retina nasal cruzam para o lado oposto) e diri- gem-se ao trato óptico. • Ocorre uma sinapse no corpo geniculado late- ral. • Radiações ópticas seguem ao córtex occipital. 27 cap. 01 Anatomia & fisiologia cap. 01 Auto-avaliaçãocap. 01 Auto-avaliação 1. Fazem parte da ÚVEA: a. Cristalino, íris e esclera; b. Coróide, corpo ciliar e íris; c. Cristalino, esclera e coróide; d. Coróide, retina e esclera. 2. Paciente vítima de trauma crânio-facial dá en- trada no PS com quadro de edema periorbitário à direita. Ao exame nota-se enfisema subcutâneo periorbitário à direita. As paredes orbitárias mais prováveis de terem sido fraturadas são: a. Superior e inferior; b. Temporal e nasal; c. Nasal e inferior; d. Temporal e superior. 3. Paciente com ptose pode ter qual nervo (par craniano) lesado? a. Óptico; b. Troclear; c. Facial; d. Oculomotor. 4. Considere as assertivas abaixo: I. A córnea é avascular, sendo nutrida por difu- são de vasos presentes no limbo, além do humor aquoso e filme lacrimal; II. Os cones são responsáveis pela visão em bai- xos índices de luminosidade e detecção de mo- vimentos, enquanto que os bastonetes relacio- nam-se com a acuidade visual e visão de cores; III. O humor aquoso é produzido pelo corpo ciliar por ultrafiltração e secreção ativa. a. Apenas I e II são corretas; b. Apenas I e III são corretas; c. Apenas II e III são corretas; d. Todas estão corretas. 5. Na fisiologia da drenagem lacrimal qual dos fatores abaixo é responsável pelo maior percen- tual de drenagem? a. Evaporação; b. Absorção; c. Bomba lacrimal; d. Gravidade. 6. No hordéolo (terçol) temos o comprometi- mento de: a. Glândula de Meibomius; b. Glândulas sudoríparas da pálpebra; c. Glândulas de pele - sebáceas; d. Glândulas de Krause. 7. Os músculos levantador da pálpebra superior e orbicular do olho são inervados, respectiva- mente, por ramos oriundos dos seguintes nervos cranianos: a. III e V; b. III e VII; c. III e VII; d. VI e VII. 8. O conduto lacrimonasal chega à fossa nasal através de: a. Meato médio; b. Corneto inferior; c. Corneto médio; d. Meato inferior. 28 Anatomia & fisiologia cap. 01Auto-avaliação 9. As paredes da órbita formam uma estrutura: a. esférica b. piramidal c. trapezoidal d. em forma de elipse 10. O músculo reto lateral é inervado pelo: a. VI par craniano b. III par craniano c. IV par craniano d. VII par craniano 11. O corpo ciliar: a. É responsável pela produção do humor aquo- so. b. Se une à retina através da zônula. c. Se une ao cristalino pela ora serrata. d. Não tem papel na acomodação. A acomoda- ção se dá exclusivamente por ação do cristalino. 12. Quanto à retina: a. A visão central se dá na mácula. b. Os bastonetes estão relacionados com a visão de cores. c. Há grande concentração de bastonetes na má- cula. d. Os cones se concentram na periferia retiniana. cap. 01 30 Exame ocular cap. 02Introdução Introdução Josenalva Cassiano da Silva Alguns testes do exame oftalmológico podem ser efetuados pelo médico geral, sem neces- sidade de equipamentos especiais; há outros que necessitam de especialistas e de aparelhos adequados. Para o médico especialista, tanto em atendi- mento em Pronto-Socorro quanto em ambiente ambulatorial, é importante saber acessar os prin- cipais dados da história, sinais e sintomas do pa- ciente, sabendo identificar também as principais urgências, como será abordado posteriormente neste livro. Assim como em outros sistemas, o exame of- talmológico inicia-se com anamnese bem feita e detalhada. A seguir, realiza-se o exame oftal- mológico propriamente dito. O especialista deve estar apto a realizar exames que podem ser feitos pelo generalista para conduzir ao diagnóstico: acuidade visual, motilidade ocular extrínseca, fundoscopia, bio- microscopia, tonometria além de outros exames complementareas como gonioscopia, teste de Schirmer, de rosa bengala e etc. Anamnese A anamnese oftalmológica, assim como nas outras especialidades, é de extrema relevância, pois fornece dados que sugerem a causa e o diagnóstico da doença, partes do exame que irão necessitar de mais atenção, bem como ensejam a necessidade ou não de exames complemen- tares. É importante caracterizar se os sintomas apareceram inicialmente de forma aguda ou progressiva, se são uni ou bilaterais, se houve história de trauma ocular e se há manifestações extra-oculares associadas, como cefaléia, vômi- tos, paralisias, dentre outras. Cada queixa do paciente deve ser detalhada, de- terminando-se seu início, sua duração e impacto funcional, avaliando-se características específi- cas: • Olho vermelho: agudo ou crônico, associado a secreção, prurido, fotofobia, dor ou a baixa de acuidade visual; • Dor: ocular ou orbitária, associada a halos de luz, diminuição da acuidade visual, cefaléia, vômitos, agravada ou não à movimentação ocular; • Redução da acuidade visual: repentina ou pro- gressiva; para longe ou para perto, associada a dor ou a “flashes” de luz; • Visão dupla (diplopia): verificar se é: - monocular: persiste mesmo quando se oclui um dos olhos que pode sugerir doenças oculares como erros de refração, catarata, astigmatismo, ceratocone; - binocular: desaparece quando um dos olhos é ocluído, fato que decorre da perda de fusão entre as imagens dos dois olhos por paralisias ou pare- sias da musculatura extrínseca do globo ocular; • Protrusão do globo ocular (proptose): aguda ou progressiva, olho seco (queimação, sensação de corpo estranho),associada a dor; • Olho torto: olhos desviados para dentro ou para fora, com início na infância ou na idade adulta, com ou sem outros sinais que sugiram doença do SNC, como paralisias de nervos cranianos; • “Flashes” de luz (fotopsias): seguidos de di- minuição da acuidade visual e/ou associados a cefaléia. 31 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Introdução Antecedentes Pessoais Deve-se indagar ativamente sobre: 1. Tratamentos oculares anteriores: • uso de óculos; • instilação de colírios (se prescritos por oftalmo- logista; tempo de tratamento). Deve-se dar aten- ção especial ao uso de colírios corticosteróides, por seus efeitos colaterais oculares (catarata, glaucoma cortisônico, facilitação de infecções corneanas); • cirurgias oculares prévias; • realização de laser; • uso de lentes de contato (tipo, cuidados, segui- mento com oftalmologista). 2. Doenças sistêmicas: • hipertensão arterial sistêmica, diabetes melli- tus, cardiopatias, lúpus eritematoso sistêmico, granulomatoses, neoplasias, tuberculose, sífilis, HIV; • tabagismo; • etilismo. Antecedentes Familiares Pesquisar casos de estrabismo, glaucoma, desco- lamento de retina e cegueira (determinar, se pos- sível, a causa). Interrogatório Sobre os Diversos Aparelhos Atentar-se para zumbido, cefaléia, artralgias e outros sintomas relatados ativamente pelo pa- ciente. Exame Ocular Após anamnese detalhada, segue-se o exame ocular propriamente dito. O especialista deve estar apto a realizar o exame oftalmológico básico a fim de melhor determi- nar a queixa do paciente e chegar ao diagnós- tico, bem como avaliar a necessidade de exames complementares. O exame oftalmológico básico compreende: • Avaliação da acuidade visual; • Motilidade ocular extrínseca; • Exame das pupilas; • Exame ocular externo; • Biomicroscopia; • Tonometria; • Gonioscopia; • Fundoscopia; • Exames complementares: campo visual, teste de Schirmer, rosa bengala. 32 Exame ocular cap. 02Acuidade visual Acuidade visual Josenalva Cassiano da Silva Introdução A avaliação da acuidade visual é feita com o auxílio de tabelas existentes de diversos tipos (Snellen, LEA Symbols, ETDRS, dentre outras (Figura 01 e Figura 02), com o paciente posicio- nado a uma distância preestabelecida de 3 ou 6 metros em relação à tabela escolhida pelo examinador. A avaliação da acuidade visa iden- tificar tanto baixa de acuidade significativa (como nos casos de descolamento de retina, de hemorragia vítrea, de neurites, que podem representar uma emergência oftalmológica), quanto diminuição de acuidade devido a erros refracionais, ceratites, astenopia, catarata. A acuidade visual deve ser medida sem o uso dos óculos e posteriormente com eles, caso o paciente os use, para longe e para perto. A medida da acuidade visual é expressa por uma fração. Por exemplo: 20/200 significa que o pa- ciente leu o optotipo a uma distância de 20 pés, enquanto um indivíduo emétrope o faria a 200 pés. Em bebês, como não é possível obter medida objetiva da acuidade visual, podem-se uti- lizar os cartões de Teller, os quais fornecem es- timativa da acuidade visual considerando a faixa etária do paciente. A oclusão de um dos olhos também pode evidenciar diminuição de acuidade, pois a criança tende a reagir à oclusão do olho de melhor visão com choro, ou tentando tirar da frente de seu olho a mão do examinador. Figura 01 Figura 02 Yasmim Realce 33 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Acuidade visual Após a medição da acuidade visual, realiza-se a refração, que mede a adequação óptica da retina em relação ao comprimento axial do olho, for- necendo a melhor acuidade visual corrigida para cada paciente. Essa medição pode ser feita de duas maneiras: • Objetiva: no refrator automático, retinoscopia (esquiascopia) (Figura 03); • Subjetiva: no refrator de Greens, de acordo com a informação do paciente; refina a medição ob- jetiva. Em pacientes jovens e em crianças, o exame de refração deve ser feito sob cicloplegia, pois elimina o fator acomodativo, permitindo um bom estudo refratométrico. O exame de refração será abordado posteriormente neste livro. Avaliando a Acuidade Visual A avaliação deve ser feita em um ambiente bem iluminado, com o paciente posicionado bem em frente à tabela escolhida pelo examinador. O paciente deve ser orientado a ocluir os olhos com a palma da mão de forma a não poder enxergar entre os dedos, não comprimindo o globo ocular. (Figura 04) Figura 03 Figura 04 cap. 02 34 Exame ocular cap. 02Acuidade visual Figura 05 • Aferir um olho por vez, anotando-se o valor da linha com os menores optotipos que o pa- ciente conseguiu ver. Em doenças oculares com comprometimento da visão central (cicatriz de corioretinite, glaucoma avançado), pede-se ao paciente que coloque a cabeça na posição que ele enxergue melhor, aferindo a acuidade e anotando a posição (por exemplo, 0,1 em hemicampo temporal). Se o paciente não consegue ler a linha correspondente ao maior optotipo, procede-se de outra forma. • A uma distância conhecida e determinada (ex.: quatro metros, três metros, e assim por diante), pede-se que o paciente conte os dedos mostrados pelo examinador. Caso o paciente não enxer- gue a mão do examinador, este deve se aproximar até uma distância em que o paciente consiga ver corretamente o número de dedos mostrado (Figura 05). Deve-se medir a acuidade dos olhos um de cada vez e registrar, por exemplo, se o paciente conta dedos a um metro, a dois, etc. Se o paciente não conseguir contar os dedos a contento, pode-se passar à etapa seguinte. • Mantendo-se ainda de frente para o paciente, o examinador movimenta sua mão a uma distância de 30 cm dos olhos do paciente e pergunta se ele percebe a mão em movimento ou parada. Se o paciente responder corretamente, registra-se a acuidade visual como “movimentos de mão”. Em casos de glaucoma avançado, por exemplo, deve-se lembrar de testar o hemicampo temporal, que costuma corresponder ao local de visão remanescente. Caso ele não consiga fazê-lo, passa-se à última etapa. • Estando o paciente com um dos olhos bem ocluído, o examinador acende uma fonte de luz e per- gunta se está acesa ou apagada. A identificação correta significa acuidade de percepção luminosa; caso contrário, registra-se a ausência de percepção de luz. 35 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Motilidade ocular extrínseca (MOE)cap. 02 Motilidade ocular extrínseca (MOE) Josenalva Cassiano da Silva A avaliação da motilidade ocular extrínseca com- preende visualização do reflexo corneano, testes de oclusão e das posições do olhar. I. Avaliação pelo reflexo O primeiro passo para avaliação da MOE é a vi- sualização do reflexo de uma lanterna sobre a superfície da córnea (Figura 06). O examinador posiciona-se a 1 metro de distân- cia do paciente, projetando a luz de uma lan- terna sobre a glabela. O examinador pode então observar o reflexo luminoso nos olhos do pa- ciente, que devem ser simétricos em relação a pupila nos dois olhos. Caso haja deslocamento do reflexo em um dos olhos, diz-se que há um “desvio”, que pode ser horizontal (para dentro ou para fora) ou vertical. Caso haja deslocamento do reflexo em um dos olhos, diz-se que há uma “tropia”, que é o desvio manifesto do olhar. II. Testes de oclusão Os testes de oclusão permitem avaliar de forma mais completa o desvio, bem como diferenciar tropias de forias (Figura07). A foria é a tendência dos olhos desviarem quan- do se quebra a fusão, isto é, quando se ocluem os olhos. A tropia é o desvio manifesto, em que há des- vio de um dos olhos já percebido no reflexo cor- neano do foco de luz. O teste de oclusão consiste em duas etapas, uma para cada olho: Figura 06 Figura 07 • Oclusão: o paciente fixa um objeto em frente e deve se fazer avaliação para longe e perto e oclui-se um de seus olhos. Na suspeita de desvio de um olho, o examinador oclui o olho fixador e observa o movimento do olho contralateral: se aduz é XT, se abduzé ET. • Desoclusão: identifica heteroforia. Após a fixação pelo paciente de um objeto em frente, o examinador oclui um olho e após segundos retira oclusão. A ausência de movi- mento indica não haver desvio aparente. Se, no entanto, o olho estiver desviado sob o oclusor, haverá movimento de refixação à desoclusão, que pode ser de adução ou de abdução. 36 Exame ocular cap. 02Motilidade ocular extrínseca (MOE) III. Teste de oclusão alternada A oclusão alternada interrompe o mecanismo de fusão pela binocularidade, evidenciando desvios latentes. Deve ser feita, portanto, após o teste de oclusão e desoclusão. As posições cardeais ou diagnósticas do olhar são aquelas nas quais predomina a ação de apenas um dos músculos extra-oculares de cada olho (Figura 08), sendo, por isso, úteis no diagnóstico das alterações da sua função. Através das nove posições diagnósticas do olhar avaliam-se as forças inervasionais dos movimen- tos conjugados. (Figura 09) IV. As posições do olhar conjugado Para a correta avaliação da motilidade ocular extrínseca, deve-se considerar a inervação dos músculos: • Reto lateral: inervado pelo VI nervo craniano (nervo abducente, músculo abdutor); • Oblíquo superior: inervado pelo IV nervo cra- niano (nervo troclear, músculo associado à tró- clea); • Demais músculos, inclusive o elevador da pálpebra superior são inervados pelo III nervo craniano (nervo oculomotor). • Pede-se para o paciente fixar um objeto a sua frente; • O olho direito é ocluído por 2 a 3 segundos; • Rapidamente oclui-se o olho esquerdo, por 2 a 3 segundos, repetindo-se essa alternância por várias vezes; • Após a remoção do oclusor, observa-se o re- torno dos olhos ao estado anterior à oclusão; • O paciente com “foria” terá os olhos parale- los antes e depois do exame, enquanto que na “tropia”, permanecerá o desvio manifesto. 37 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Motilidade ocular extrínseca (MOE) Figura 08 RS: reto superior RM: reto medial RI: reto inferior RL: reto lateral OI: oblíquo inferior OS: oblíquo superior RI OS RM RL RS OI OI RS OS RI RL RM cap. 02 38 Exame ocular cap. 02Motilidade ocular extrínseca (MOE) Figura 09 Posição primária RI + OS RI + OS RS: reto superior RI: reto inferior RM: reto medial RL: reto lateral OI: oblíquo inferior OS: oblíquo superior RS + OI RS + OI 39 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exame das pupilascap. 02 Exame das pupilas Dina Regensteiner À inspeção, as pupilas normais são dois círculos negros, do mesmo tamanho, cada uma localizada no centro da íris de cada olho. Algumas doenças podem torná-las de cor esbranquiçada (leucoco- ria), modificar sua forma, ou mesmo sua função, que consiste em graduar a iluminação recebida pela retina. O exame das pupilas compreende inspeção, biomiocroscopia, avaliação dos reflexos fotomo- tores e da contração das pupilas ao olhar para perto (sincinesia acomodação-convergência- miose). Algumas vezes, há necessidade do uso de colírios especiais para a realização de testes diagnósticos. I. O exame do reflexo vermelho De acordo com a Lei no. 12.551 de 05/03/2007, do Estado de São Paulo, todas as crianças recém-nas- cidas devem ser obrigatoriamente examinadas no berçário para se avaliar a presença do “reflexo vermelho”. Esse exame é normalmente realizado pelo pediatra, utilizando-se um oftalmoscópio direto e procedendo-se à dilatação farmacológi- ca da pupila. O exame deve ser feito em penumbra e com o oftalmoscópio direto no zero colocado a aproxi- madamente a distância de um braço dos olhos da criança, fazendo-se a luz incidir sobre a glabe- la e observando-se o reflexo vermelho das duas pupilas simultaneamente. Se for notada diferença no reflexo entre um olho e outro, ou ausência do reflexo vermelho, a crian- ça deve ser encaminhada para o oftalmologista com urgência. O oftalmoscópio permite a incidência da luz per- pendicularmente à pupila e a observação do re- flexo avermelhado da retina no mesmo ângulo. Não se conseguiria obter o reflexo vermelho com lanterna porque esta não permite a incidência e a simultânea observação da luz refletida. A presença de assimetria nas pupilas vermelhas de pessoa que, ao ser fotografada, olhou dire- tamente para a câmara fotográfica com “flash”, como registrado em algumas fotografias, tam- bém deve ser observada, e essa pessoa deve ser encaminhada para exame especializado. A ausência do reflexo vermelho significa que há bloqueio à passagem da luz ou que existe algo não vermelho na retina. Assim, opacidades de córnea, do cristalino (catarata), alterações no vítreo e massas brancas na retina podem ser cau- sas de anormalidade. Freqüentemente há assimetria ou ausência do reflexo vermelho sem presença de doença como a incidência da luz sobre o disco óptico, que pode causar reflexo esbranquiçado, e pequenos desvios na posição do olhar. Portanto, no exame do reflexo vermelho em recém-nascidos, não se deve alarmar os pais da criança pela simples falta de obtenção do reflexo normal, e sim orientá-los quanto à necessidade de exame mais detalhado por um oftalmologista. I. O Exame dos Reflexos Pupilares a. O Reflexo Pupilar à Luz O exame da reação das pupilas ao estímulo lumi- noso (reflexo fotomotor) é um valioso auxílio no diagnóstico topográfico da causa de diminuição da visão do paciente, principalmente nos casos em que esta é unilateral ou muito assimétrica. Como é de conhecimento geral, em ambientes iluminados, as pupilas se contraem e, em locais de pouca luz, elas se dilatam. Já menos difundi- do é o fato de que, quando se olha para perto, as pupilas se contraem (reação pupilar para perto). Normalmente, ambas as pupilas são do mesmo 40 Exame ocular cap. 02Exame das pupilas tamanho e apresentam reações simétricas à luz e para perto. i. A via do reflexo pupilar à luz Para se entender por que ocorre o reflexo pu- pilar e as doenças associadas às alterações de tal reflexo, é necessário entender a anatomia das vias pupilares (Figura 10). Figura 10: Via do reflexo pupilar à luz 41 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exame das pupilas A via aferente da inervação das pupilas inicia -se juntamente com a da visão, nos cones e bastonetes da retina, e a acompanha até o trato óptico. As fibras pupilares se separam das visuais no terço posterior do trato óptico. En- quanto as vias visuais vão fazer sinapse no corpo geniculado lateral, as fibras pupilares dirigem-se ao núcleo pré-tectal, no mesencéfalo posterior, onde fazem sinapse, hemidecussam ao redor do aqueduto e fazem nova sinapse no núcleo de Edinger-Westfall, o qual faz parte do núcleo oculomotor (III nervo craniano), onde se inicia a via eferente da contração da pupila e da acomoda- ção. As fibras eferentes trafegam no nervo oculomo- tor (III nervo craniano), que inerva também vários músculos extra-oculares (reto superior, reto in- ferior, reto medial, oblíquo inferior e músculo elevador da pálpebra). Ao nível da fissura orbi- tária superior, o nervo oculomotor separa-se em divisão superior e inferior, sendo que as fibras pupilares cursam na divisão inferior, da qual se separam para fazer sinapse no gânglio ciliar. Daí, via nervos ciliares curtos, penetram no globo ocular e inervam o músculo esfíncter da pupila (sistema parassimpático). Como o trajeto das fibras pupilares aferentes se dá juntamente com o da via visual até o trato óp- tico, nas lesões das vias visuais anteriores, haverá alteração nas respostas pupilares. Assim, doen- ças do nervo óptico ou afecções extensas dos fo- torreceptores retínicos provocam diminuição do reflexo fotomotor do lado acometido, o que não ocorre em alterações visuais decorrentes de alte- rações na córnea, no cristalino, no vítreo ou por lesões pequenas na retina ou na coróide. b. O Reflexo pupilar para perto (associação acomodação-convergência): Quando se olha para um objeto que está perto dos olhos, as pupilas se contraem. Essa contra- ção independe de modificações na iluminação;é associada à contração dos músculos retos mediais (convergência) e dos músculos ciliares (acomodação) e é influenciada por vias supra- nucleares ainda não bem conhecidas. Esse con- junto de efeitos serve para melhorar a imagem do objeto de interesse: a co-contração dos retos mediais leva a imagem para ambas as fóveas, os músculos ciliares focalizam a imagem e a contra- ção pupilar aumenta a profundidade de foco. c. O exame das pupilas O exame das pupilas deve ser realizado em am- biente pouco iluminado, quando estas ficam relativamente dilatadas. Pede-se ao paciente que olhe para objeto distante, a fim de que suas pupilas não se contraiam devido ao reflexo para perto. Deve-se avaliar se ambas as pu- pilas são do mesmo tamanho (isocoria) ou de tamanhos diferentes (anisocoria), se possuem contorno regular (isso é feito iluminando-se os olhos obliquamente, de baixo para cima), e se as íris têm a mesma coloração. Para se testar o reflexo à luz, ilumina-se um dos olhos com uma lanterna de luz intensa e lâm- pada pequena de luz focada. No indivíduo nor- mal, haverá contração tanto da pupila iluminada - reflexo pupilar direto - como da pupila do olho contralateral - reflexo pupilar consensual. Ilumi- nando-se então o outro olho, ocorre o mesmo fenômeno, na mesma intensidade (Figura 11). A pupila do olho contralateral se contrai junta- mente com a do olho iluminado por causa do cruzamento de cerca da metade das fibras afe- rentes no quiasma óptico. Assim, o estímulo lumi- noso em um dos olhos chega a ambos os núcleos pré-tectais de forma simétrica, e o estímulo eferente para a contração pupilar é igual nos dois olhos. Mesmo que um dos olhos do paciente seja cego, a pupila desse olho se contrairá com a mesma intensidade daquela do olho normal, quando é iluminado. 42 Exame ocular cap. 02Exame das pupilas Figura 11: Reflexos fotomotor direto e consensual normal Pupilas no escuro Iluminando-se um dos olhos, ambas as pupilas se contraem igualmente. O olho iluminado se contrai por causa do reflexo fotomotor direto. O mesmo ocorre quando se ilumina o outro olho. O olho não iluminado se contrai por causa do reflexo fotomotor consensual. 43 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exame das pupilas d. O Defeito aferente relativo Num paciente com baixa visual em um dos olhos por lesão extensa de retina ou de nervo óptico, o estímulo luminoso no olho afetado levará menos estímulos aferentes para ambos os núcleos pré- tectais, causando contração menos intensa das duas pupilas em comparação àquela que haveria se o estímulo fosse aplicado ao olho não afetado. Caso o olho iluminado seja completamente cego, não haverá transmissão do estímulo luminoso e nenhuma das pupilas se contrairá (Figura 12). Figura 12: Defeito aferente relativo à direita Iluminando-se o olho direito, este se contrai com menor intensidade que quando se ilumina o esquerdo. Caso o olho iluminado tenha ausência de percepção luminosa, a pupila iluminada não se contrairá. Dica: A pessoa cega de um dos olhos terá ambas as pupilas do mesmo tamanho (isoco- ria).* * se não houver alteração da íris nem lesão de nervo óptico. 44 Exame ocular cap. 02Exame das pupilas Para facilitar a comparação da intensidade da res- posta da contração pupilar de cada olho, utiliza- se o teste do swinging flash light: ilumina-se alter- nadamente um e outro olho. Se os dois olhos são normais, quando a luz incidir sobre um dos lados, ambas as pupilas se contrairão. Durante o tempo que se leva para mover a luz ao outro olho, am- bas as pupilas começarão a dilatar, por causa da retirada do estímulo. Quando o foco luminoso incidir sobre o olho contralateral, as pupilas vol- tarão a se contrair, porém com menor amplitude, pois não houve tempo para que se dilatassem completamente no período de transferência da luz de um olho para outro (Figura 13). Com a incidência da luz no olho afetado, ambas as pupilas se contraem menos do que quando a luz incide no olho nor- mal. Transferindo-se al- ternadamente a fonte luminosa de um olho para outro, as pupilas ora se dilatarão (olho afe- tado iluminado) ora se contrairão (olho normal iluminado). Figura 13: “Swinging flash light” 45 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exame das pupilas e. Dissociação Luz-Perto Caso a lesão na via visual seja no nível do quias- ma ou do trato óptico, haverá diminuição simé- trica do reflexo pupilar à luz. Se essa for significa- tiva, pode ser diagnosticada pela comparação da intensidade da contração pupilar ao estímulo lu- minoso com aquela que ocorre ao estímulo para perto: o estímulo para perto causará constrição pupilar maior que o estímulo luminoso dissocia- ção luz-perto. (Figura 14) Se houver lesão de um dos nervos ópticos, a in- tensidade da contração pupilar, quando a luz in- cidir no olho lesado, será menor se comparada àquela que haveria no caso da luz incidir no olho normal. Assim, transferindo-se a incidência lumi- nosa do olho normal para o afetado, haverá uma dilatação parcial da pupila, ao invés da contração esperada no caso de nervo óptico íntegro (Figura 13). Figura 14: Dissociação luz-perto As pupilas apresen- tam defeitos simétri- cos, portanto não há defeito aferente rela- tivo. Percebe-se que, com o estímulo do olhar para perto, as pupilas se contraem mais do que ao estímulo lumi- noso. 46 Exame ocular cap. 02Exame das pupilas Qualquer lesão de vias ópticas no nível do corpo geniculado lateral ou posterior cursará com re- flexos pupilares à luz absolutamente normais, pois ocorre após a separação das vias visual e pupilar (lembre-se que essa divisão ocorre na porção posterior do trato óptico). II. Anisocoria Porcentagem significativa da população normal (cerca de 20%) apresenta diferença clinicamente perceptível no tamanho das pupilas, anisocoria fisiológica, a qual não produz sintomas e não está associada a qualquer doença. Essa diferença é, na maioria dos casos, de até um milímetro de diâmetro. Tal diferença no diâmetro pupilar pode variar num mesmo indivíduo e mesmo trocar de lado. Todos os pacientes com anisocoria devem ser examinados em diferentes níveis de ilumina- ção ambiental, no claro e no escuro. Nas aniso- corias fisiológicas, o mesmo grau de diferença entre as pupilas persiste em todos os níveis de iluminação e também na reação para perto. Caso a anisocoria aumente ou diminua conforme se modifique a iluminação ambiente, deve ser considerada suspeita. Se a diferença entre os diâmetros pupilares for maior na obscuridade, presume-se que a pupila defeituosa é a menor (aquela que deveria ter dilatado). Se a diferença for maior na claridade, a pupila defeituosa é a maior (aquela que não se contraiu). Na avaliação das anisocorias, é importante o exame cuidadoso da íris (biomicroscopia). A pre- sença de irregularidades no contorno pupilar sugere a presença de alterações inflamatórias ou congênitas da íris, ou mesmo trauma e/ou cirur- gia ocular prévia, o que esclareceria o diagnósti- co. Diferença da coloração das íris também pode auxiliar no diagnóstico. A inervação eferente das pupilas se dá, pelo sistema parassimpático, ao músculo esfíncter da pupila (Figura 10), e pelo sistema simpático, que inerva o músculo dilatador da pupila (Figura 15). Nos casos em que a pupila defeituosa é a dila- tada (anisocoria maior no claro), deve-se pes- quisar a presença de defeitos da motilidade ex- trínseca concomitantes, pois as fibras pupilares parassimpáticas localizam-se no III par craniano (nervo oculomotor), divisão inferior, de onde se separam para fazer sinapse no gânglio ciliar e inervar o músculo esfíncter da pupila. No caso em que a pupila defeituosa é a menor (anisocoria maior no escuro), deve-se avaliar a simetria da posição das pálpebras e da coloração das íris. 47 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exame das pupilas Figura 15: Via pupilar simpática (para músculo dilatador da pupila) Fibras com estímulos do sistema nervososimpático chegam do hipotálamo (1º. neurônio) e fazem sinapse no Centro Cílio-Espinal de Budge, de C8 a T2 . (2º. neurônio). Daí saem fibras que passam pela porção posterior e superior do tórax e sobem pelo pescoço, relacionando-se com as artérias carótidas e fazendo sinapse no gânglio cervical posterior (3º. neurônio), que envia fibras que se relacionam com a artéria carótida interna e artéria oftálmica e entram na órbita com a divisão oftálmica do nervo Trigêmeo e, via nervos ciliares longos, inervam o músculo dilatador da pupila. 48 Exame ocular cap. 02Exame ocular externo Exame ocular externo Josenalva Cassiano da Silva O exame ocular externo compreende a inspeção e a palpação, detalhadas a seguir. a. Inspeção: b. Palpação: Figura16 Figura17 Avaliar: • Supercílios: posição, cicatrizes, lacerações/ ferimentos (Figura 16); • Margem orbitária/órbita: proptose (Figura 17) (projeção anterior do globo), enoftalmo (“afundamento” do globo ocular visto princi- palmente em fraturas orbitárias), tumorações; • Pálpebras: nodulações, pele, edema (Figura 18), ptose (Figura 19), malformações (colobo- mas); • Fenda palpebral: tamanho, assimetria entre os dois olhos; • Cílios: cor, quantidade, crostas, secreção, direção dos cílios (quando voltados para a córnea, denomina-se triquíase, normal- mente associada a outra alteração como entrópio, cicatrizes de tracoma, etc.); • Bulbo ocular: hiperemia, lacrimejamento, olho vermelho, turvação de meios (edema de córnea) (Figura 20), ferimentos perfurantes (Figura 21). • Lesões nodulares palpebrais (Figura 22); • Tumorações em topografia do aparelho lacrimal; • Crepitação de tecido subcutâneo em casos de trauma orbitário. 49 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exame ocular externo Figura 18 Figura 21 Figura 20 Figura 19 Figura 22 50 Exame ocular cap. 02Biomicroscopia Biomicroscopia Josenalva Cassiano da Silva O exame na lâmpada de fenda é o principal meio para o oftalmologista identificar e diagnosticar as diversas doenças oculares. Tal exame permite o estudo das estruturas oculares por meio do corte óptico, possibilitando a avaliação em este- reopsia, contorno e textura. O corte óptico feito com fenda luminosa forma imagem em paralelepípedo que permite o estu- do da estrutura em profundidade (Figura 23). Além do estudo das estruturas do segmento an- terior, a lâmpada de fenda permite também a re- alização de exames como tonometria, goniosco- pia e fundoscopia, sendo que os dois últimos necessitam do uso de lentes auxiliares. As lentes utilizadas podem ser pré-corneanas (como as de 78D e 90D) ou corneanas (do con- tato), como as lentes de Goldmann (gonioscopia e fundoscopia), de Sussman (gonioscopia), den- tre outras. O exame inicia-se com a observação das estru- turas do sentido mais externo ao mais interno, à procura das principais alterações e com avalia- ção anatômica: Figura 23 • Pálpebras: crostas, úlceras, hiperemia, trau- ma, edema; • Cílios: direção, número, posição, cor, crostas, secreção; • Episclera, esclera e conjuntiva: hiperemia (lo- calizada ou difusa), vascularização, nevus (Fi- gura 24), reação papilar/folicular; • Córnea: filme lacrimal, tamanho, forma, trans- parência, vascularização, pigmentação, espes- sura, endotélio, úlceras (Figura 25), cicatrizes; • Câmara anterior: profundidade, conteúdo, reação de câmara anterior, hifema, hipópio (Fi- gura 26), ângulo camerular (gonioscopia); • Íris: cor, posição, relevo, aderências (ou “siné- quias”), ausência da íris (aniridia); • Cristalino: localização, transparência (Figura 27), sinéquias com a íris (“sinéquias posterio- res”); • Corpo vítreo: transparência, conteúdo, re- ação, hemorragias, descolamento de vítreo posterior; • Fundoscopia: disco óptico, vasos, mácula e retina. 51 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Biomicroscopia Figura 25 Figura 27 Figura 24 Figura 26 52 Exame ocular cap. 02Avaliação da pressão intra-ocular Avaliação da pressão intra-ocular Josenalva Cassiano da Silva A pressão intra-ocular (PIO) resulta da relação en- tre o fluxo de produção e o de drenagem do hu- mor aquoso. Nas pessoas em geral, a PIO varia de 11 a 21mmHg. Entretanto, deve-se lembrar que pode existir dano glaucomatoso em pacientes com PIO inferior a 21mmHg, embora alguns in- divíduos apresentem PIO acima desse valor sem neuropatia. A PIO pode ser estimada de duas formas: subje- tiva ou objetiva. A medição subjetiva é realizada com os de- dos da mão (tensão óculo-digital) e, se existe diferença significativa da pressão entre os dois olhos do paciente, esta pode ser percebida mes- mo por examinador sem experiência (Figura 28). A consistência “pétrea” sugere PIO muito elevada e, associada a outros sintomas, pode ser indica- tiva de glaucoma. • Tonometria de Goldman A tonometria de Goldmann baseia-se no princípio de Imbert-Fick, em que, numa esfera ideal de paredes finas e secas, a sua pressão interna é igual à força necessária para aplanar uma superfície dividida pela área de aplana- ção. Na prática, observa-se que o olho huma- no não é uma esfera ideal, e que a rigidez da córnea interfere na aplanação. Por esse mo- tivo, córneas mais finas tendem a subestimar a PIO, enquanto com córneas mais espessas ocorre o contrário. O tonômetro de Goldmann é um instrumen- to que consiste em um prisma duplo, que, acoplado à lâmpada de fenda, permite a medição da PIO (Figura 29). Deve-se estar atento a erros que podem falsear a medição da PIO, principalmente entre inici- antes. Oclusão das pálpebras pelo paciente, tensão inadvertida sobre o olho no momento da medição, excesso de fluoresceína são al- guns exemplos de artefatos na medição da PIO. A medição objetiva da PIO é fornecida pela tonometria. Na prática clínica, a tonometria de Goldmann é o método Gold Standard para aferir a PIO. Figura 28 Figura 29 53 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Avaliação da pressão intra-ocular • Outros Tonômetros Além do tonômetro de Goldmann, existem outros disponíveis para medição da PIO, como: 1. Perkins: tonômetro manual que emprega o prisma de Goldmann acoplado a uma fonte de luz. Por ser portátil, permite avaliação de pa- cientes no leito. Entretanto, requer treinamento do examinador para obter-se medições con- fiáveis. 2. Tono-pen: tonômetro de contato, manual, tam- bém portátil. Na ponta da sonda localiza-se um transdutor que mede a força aplicada, enquanto um microprocessador calcula a medida da PIO. Tende a superestimar a PIO mais baixa e subesti- mar a PIO mais alta.Tem a vantagem de permitir a medição sobre lentes de contato. 3. Tonômetro de sopro: tonômetro de não conta- to baseado no princípio da aplanação, em que a porção central da córnea é aplanada por um jato de ar. Entretanto, apenas fornece medidas con- fiáveis em níveis médios e baixos de PIO. 4. Tonômetro de Pascal: também conhecido como tonômetro dinâmico de contorno (DCT), é aparelho digital que mede a PIO e a amplitude do pulso ocular que são flutuações pulsáteis causa- das na PIO pelos batimentos cardíacos na sístole e na diástole. A medição é baseada no princípio do contorno - o contorno do DCT é ajustado ao formato da córnea ou seja, a força aplicada à face interna da córnea pela PIO é igual à força da pressão medida na sua superfície externa. Dessa forma, tal aparelho parece ser menos influencia- do pelas propriedades corneanas. 54 Exame ocular cap. 02Gonioscopia Gonioscopia Josenalva Cassiano da Silva A gonioscopia é o exame que permite a avaliação anatômica do seio camerular, sendo considerado o melhor método para estudo dessa estrutura. No olho normal, não é possível a visualização direta do ângulo camerular, pois o reflexo lumi- noso oriundo da junção entre a íris e a córnea sofre reflexão total na interface entre o ar e o filme lacrimal. No entanto, em situações como alta miopia e ceratocone, o ângulo camerular pode ser visto diretamente. A gonioscopia pode ser feita com o auxílio de lentes diretas ou indiretas.As lentes diretas consistem em prismas e for- necem visualização direta do ângulo. Tais lentes dispensam o uso da lâmpada de fenda e o exame é feito com o paciente em decúbito dorsal hori- zontal. Dentre as lentes diretas, destacam-se a de Koeppe e a de Swan Jacob. As lentes indiretas consistem em espelhos e for- necem a imagem refletida do ângulo oposto. Tais lentes necessitam do auxílio da lâmpada de fen- da, conforme citado no item “BIOMICROSCOPIA”. As lentes indiretas, de acordo com a sua curva- tura, requerem o uso de substâncias viscoelás- ticas para preencher o espaço entre a córnea e a lente. O exame fundoscópico fica prejudicado após o uso de material viscoelástico. A lente de Goldmann é um exemplo de lente indireta que estabiliza bem o globo ocular, sendo útil para trabeculoplastia (Figura 30), embora com a des- vantagem de não permitir a indentação. As lentes de Zeiss (Figura 31), de Sussman e de Posner são exemplos de lentes indiretas em que apenas a lágrima já propicia material de contato e de lubrificação para a lente. Tais lentes pos- suem quatro espelhos, tornando possível visua- lizar o seio camerular (Figura 32) em toda a sua circunferência, fazem indentação, porém não es- tabilizam com segurança o globo ocular. Figura 30 Figura 31 Figura 32 55 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Gonioscopia Técnica do exame • Gonioscopia estática (sem indentação) • Gonioscopia dinâmica (indentação) Essa técnica deve ser efetuada após a gonioscopia estática, pressionando-se a lente contra a córnea. O humor aquoso é empurrado em direção ao ân- gulo, direcionando a raiz da íris para trás. Desse modo, pode-se observar a presença de goniossi- néquias, de fechamento angular aposicional ou sinequial. • Avisar o paciente que uma lente será encostada em seu olho • Instilar anestésico tópico em fórnice inferior • Posicionar a lente no centro da córnea, orientando o paciente a manter os dois olhos aber- tos, e olhando para frente. O contato deve ser suave para que o ângulo não seja artificialmente aberto • Iniciar com feixe de luz muito fino, na direção do ângulo, sem incidir sobre a pupila para que a miose também não abra o ângulo artificialmente. Desse modo, serão observados dois feixes de luz, um na face anterior e outro na face posterior da córnea. O encontro desses feixes corresponde à linha de Schwalbe, a partir da qual as outras estruturas do ângulo serão identificadas; • A partir da linha de Schwalbe, identificam-se as outras estruturas. Faz-se pequena fenda em paralelepípedo para observação, tomando-se ainda o cuidado de não iluminar a pupila. Após o exame de todos os quadrantes, precede-se a iluminação difusa sobre o seio camerular. 56 Exame ocular cap. 02Fundoscopia Fundoscopia Josenalva Cassiano da Silva A fundoscopia (oftalmoscopia) é o exame que permite a visualização da retina e seus compo- nentes: vasos, disco óptico e mácula (Figura 33). Pode ser direta ou indireta, de acordo com a téc- nica e aparelhos utilizados. A oftalmoscopia direta (Figura34) é feita com o auxílio do oftalmoscópio direto. O exame é feito pedindo-se para que o paciente fixe um ponto à sua frente, ao longe e o examinador deve se aproximar com o oftalmoscópio tão perto quan- to possível da pupila do paciente, procurando ver retina, vasos, disco óptico e mácula, ajustan- do o foco no botão lateral do aparelho. Tal exame pode ser realizado com ou sem dilatação pupilar, embora sob midríase facilite a visualização das estruturas do fundo de olho. O examinador obtém uma imagem amplificada. Identificando-se uma veia, deve-se seguir seu trajeto em direção proximal, localizando então, o disco óptico, local onde as veias retínicas saem do globo ocular. O disco óptico deve ser avali- ado quanto à coloração, à nitidez de seu limite, tamanho e aspecto da escavação central. O calibre venoso é cerca de uma vez e meia maior comparando-o às artérias que o acompanham. Pulsação da artéria central da retina é anor- mal, podendo ser vista em casos de aumento de pressão intra-ocular e em casos de estenose carotídea significativa, o que exige avaliação complementar sistêmica. Ao contrário, a pulsa- ção venosa é normal. A mácula situa-se lateral- mente ao disco óptico e possui brilho e colora- ção marrom, principalmente em jovens. A oftalmoscopia indireta pode ser feita à lâm- pada de fenda, como com o auxílio do capa- cete de Skepens. À lâmpada de fenda podem ser empregadas lentes de 60D, 78D ou 90D. A lente de 78D é a mais comumente usada. A lente de 90D é muito útil quando não há midríase ou quando as pupilas são pequenas. O capacete de Skepens (Figura 35) permite visualização ampliada da topografia retínica, não sendo muito útil, porém, para localizar al- terações mais sutis, como cruzamentos arterio- venosos anormais. Para tal exame, emprega-se a lente de 20D. Figura 33 Figura 34 57 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Fundoscopia Alterações mais comuns na fundoscopia incluem retinopatia diabética (Figura 36), oclusões vas- culares (Figura 37) e retinopatia hipertensiva. A presença de edema de disco óptico exige avalia- ção neurológica imediata (Figura 38). Figura 36 Figura 37 Figura 38 Figura 35 58 Exame ocular cap. 02Exames complementares Exames complementares Josenalva Cassiano da Silva I. Campo visual Campo visual é função visual que corresponde à extensão máxima de percepção visual do es- paço circundante, quando se dirige a fixação para algum ponto. “Campo visual binocular“ é a percepção com os dois olhos abertos, monocu- lar quando apenas um dos olhos está aberto. Na prática clínica, normalmente se realiza o exame do campo visual monocular de cada olho. Assim, oclui-se um dos olhos, e orienta-se o paciente a olhar para um ponto fixo. São apresentados es- tímulos aleatórios em diferentes localizações e o paciente deve registrar a percepção dos estímu- los. Vias Ópticas Tanto para a realização como para a interpreta- ção do exame de campo visual, é necessário co- nhecer a anatomia das vias visuais, e de retina até o córtex occipital (Figura 39a e 39b). 59 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exames complementares Figura 39a e 39b: Vias ópticas 60 Exame ocular cap. 02Exames complementares A retina temporal percebe os estímulos que se originam no campo nasal, a retina nasal do cam- po temporal, a retina inferior do campo superior. A fóvea é o ponto central do campo visual e o di- vide em nasal e temporal, e também em superior e inferior. As fibras que provêm da retina nasal cruzam no quiasma óptico, enquanto as provindas da retina temporal não cruzam. Após a decussação (cruzamento) das fibras no quiasma, é formada a via óptica pós-quiasmática que, dos tratos óp- ticos até o lobo occipital, trazem ao lado direito estímulos de imagens provenientes do lado es- querdo do espaço e, ao lado esquerdo, estímulos de imagens provindas do lado direito. • Defeitos Campimétricos Usa-se o exame do campo visual (também cha- mado de “campimetria” ou “perimetria”) para se diagnosticar o local da provável lesão anatômica na via visual, da retina ao lobo occipital. Porém, deve-se levar em conta que distúrbios na trans- parência das estruturas do globo ocular também causam anormalidades no exame, as quais de- vem ser diferenciadas daquelas provocadas por lesões nas vias visuais. Os defeitos de campo visual pré-quiasmáticos podem ser uni ou bilaterais, apresentam as mais variadas formas e não respeitam o meridiano vertical. Os defeitos campimétricos quiasmáticos são bi- laterais e bitemporais e apresentam-se como depressão, escotoma ou hemianopsia, sempre respeitando a linha média vertical. Isso ocorre porque as fibras que cruzam no quiasma (provin- das da retina nasal e, portanto, responsáveis pela representação do campo temporal) são as mais sensíveis a lesões compressivas. Já os defeitos pós-quiasmáticos (lesões no trato óptico, corpo geniculado lateral, radiações óp- ticas ou córtex occipital) são bilaterais homôni-mos, respeitam a linha média vertical e apare- cem no lado oposto ao local acometido. Assim, lesão no trato óptico esquerdo acarretará defeito no campo temporal do olho direito e no campo nasal do olho esquerdo, ou seja, o paciente terá perda visual no seu lado direito. Técnicas Há várias técnicas de exame do campo visual, das mais simples às mais sofisticadas, entre as quais se destacam: • campimetria de confrontação; • tela de Amsler; • campimetria manual; • campimetria computadorizada ou automatiza- da. a. Campimetria de Confrontação: A campimetria de confrontação é um método capaz de diagnosticar defeitos relevantes no campo visual, como hemianopsias, quadrantop- sias ou escotomas significativos. Por não neces- sitar do paciente acomodado em posição espe- cial, pode ser o único método possível em pa- cientes acamados, debilitados ou em crianças. É um método rápido, prático, sem necessidade de equipamentos especiais e que pode ser usa- do à beira do leito ou no consultório. Atenção: O que determina a divisão entre campo nasal e campo temporal é a fóvea e não o disco óptico! 61 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exames complementares Técnica da confrontação O examinador senta-se a cerca de um metro do paciente e pede a ele que oclua um dos olhos com a palma da mão e fixe o olhar no nariz ou no olho oposto do médico. O examinador então apresenta estímulos (dedo, brinquedo, caneta, foco luminoso, etc.) em várias posições periféricas do campo visual e pede ao paciente para reconhecê-los. O paciente pode responder ao estímulo de várias maneiras, como assinalando a presença ou a ausência do estímulo, contando os dedos apresentados, notando diferença de saturação da cor de objetos coloridos conforme a posição do campo em que eles são apresentados ou diri- gindo o olhar para o local onde está o estímulo. O teste campimétrico por confrontação deve in- cluir o exame dos quatro quadrantes do campo visual (Figura 40). Figura 40: Campo de confrontação - Técnica 62 Exame ocular cap. 02Exames complementares b. Tela de Amsler É um método que testa os 10º centrais do campo visual (Figura 41). Usa-se uma tabela de fundo preto com quadri- culado branco, colocada a cerca de 30cm de dis- tância dos olhos do paciente. Caso o paciente use óculos, deve- se fazer o exame com correção para perto. Pede-se ao paciente que olhe para o quadricu- lado e descreva os locais em que as linhas estão faltando (escotomas) ou estão distorcidas (meta- morfopsias). Pergunta-se ao paciente se ele enxerga o ponto branco no centro. Depois, pede-se para ele con- tinuar olhando em direção ao ponto central e para informar se os quatro cantos da tela são vi- síveis, se há áreas em que o padrão quadriculado está faltando ou se há linhas distorcidas. c. Campimetria manual e computadorizada Cada ponto do campo visual tem um limiar de sensibilidade, definido como o estímulo mais fraco possível de ser visto naquele ponto (Figura 42). O exame de campo visual consiste em deter- minar o limiar de sensibilidade à luz em pontos escolhidos dentro do campo visual, além de de- limitar os seus limites externos. Há dois métodos para a realização do exame, o cinético (manual) e o estático (computadorizado). Figura 41: Exame com Tela de Amsler Desenho feito pelo paciente indicando metamorfopsia inferiormente (local em que ele enxerga as linhas tortas) e esco- toma paracentral (superiormente). 63 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exames complementares • Campimetria manual (Perimetria de Gold- mann) O Perímetro de Goldmann é uma cúpula he- misférica branca onde se projeta um estímulo brilhante de intensidade luminosa e de tamanho controlável e variável. Com um dos olhos ocluído, o paciente fixa um ponto localizado no centro da cúpula e o exami- nador monitora a posição do olho por meio de um telescópio. Sua grande vantagem é a de poder ser utilizado para avaliação de toda a extensão do campo vi- sual, e não apenas a área central. No exame cinético (perimetria cinética), move-se estímulo de determinada intensidade da perife- ria em direção ao centro, até ele ser percebido pelo paciente (este deve ser orientado a apertar uma campainha no momento em que percebe o estímulo). O processo é repetido de várias direções, e o examinador toma nota dos locais em que o paciente comunicou ter visto o estímulo. A seguir, repete-se novamente o processo, com estímulos de outra intensidade, desenhando-se um mapa. A linha conectando todos os pontos de mesmo limiar de sensibilidade no campo visual é de- nominada “isóptera”. A isóptera é o limite entre as regiões em que o estímulo de determinada intensidade é percebido (supralimiar) e em que o estímulo não é visível (infralimiar). A fóvea é a região com o menor limiar de sensi- bilidade (maior sensibilidade) do campo visual e é representada no centro do mapa. Quanto mais longe da fóvea, maior a intensidade do estímulo necessário para ser percebido (maior o limiar de sensibilidade). Denomina-se “escotoma” a área não visível den- tro de uma área visível, ou seja, o local que, den- tro dos limites de uma isóptera, possui limiar de sensibilidade maior do que o da isóptera, isto é, necessita de um estímulo mais intenso do que o utilizado para ser percebido. Caso não haja intensidade de estímulo que o paciente possa perceber na região do escotoma, trata- se de um “escotoma absoluto”. Se, por outro lado, algum estímulo luminoso for ali percebido, trata-se de um “escotoma relativo”. No local onde está o disco óptico (nasalmente à fóvea) não existem fotorreceptores, e a repre- sentação dessa área no mapa do campo visual é a mancha cega, que representa escotoma ab- soluto. Figura 42: Campo visual: Ilha de Visão em Mar de Cegueira (Traquair) 64 Exame ocular cap. 02Exames complementares • Campimetria estática No exame estático (Figura 43) (perimetria estáti- ca), apresentam-se em vários pontos do campo visual estímulos de intensidades variáveis e de- termina-se o limiar de sensibilidade em cada um deles. O resultado é apresentado em gráfico numérico, no qual números maiores representam sensibili- dades mais altas, e em gráfico em tons de cinza, com os pontos de alta sensibilidade (baixo limi- ar) representados em tons mais claros que os de baixa sensibilidade (alto limiar). As vantagens da campimetria computadorizada são a uniformização de estratégias de exame, a possibilidade de avaliação quantitativa do campo visual e a existência de banco de dados que permite análise estatística do resultado do exame. A desvantagem é que tal exame avalia apenas os 30 graus centrais do campo visual e permite um menor grau de interação entre examinador e examinando em comparação às técnicas ante- riormente descritas (Figura 44). II. Teste de Rosa Bengala O rosa bengala é um corante com afinidade por células mortas ou desvitalizadas e por muco. Por essa característica, seu uso possibilita exame auxiliar no diagnóstico e no seguimento de olho seco. Esse material cora a conjuntiva bulbar exposta, evidenciando também filamen- tos corneanos e placas. Apresenta a desvanta- gem de causar irritação ocular que pode persistir por algumas horas, principalmente em olhos secos graves. Para realização do exame com rosa bengala, deve-se pingar uma pequena gota do material no saco lacrimal, e observar o padrão corado na lâmpada de fenda. A instilação prévia de colírio anestésico pode mostrar um resultado falso- positivo. Figura 43 Figura 44 65 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Exames complementares III. Teste de Schirmer É exame útil na suspeita de deficiência aquosa do filme lacrimal. Mede a umidade de um filtro de papel padronizado (Whatman nº41), de 35mm de comprimento por 5mm de largura. O teste pode ser realizado sem anestesia tópica (nesse caso, chamado de Schirmer 1), em que se mede a secreção basal e reflexa; ou realizado com anestesia (Schirmer 2), medindo a secreção basal. O exame é efetuado da seguinte forma (Figura45): A medida da quantidade de papel umedecido como resultado do exame é levemente menor quando se usa anestesia tópica. Medidas acima de 15mm indicam secreção dentro da normali- dade; entre 6 e 10mm, sugerem secreção di- minuída; e abaixo de 6mm, secreção debilitada. Figura 45 • O papel de filtro é dobrado a 5mm de uma das extremidades e colocado na pálpebra infe- rior, entre o terço médio e o temporal; • Deve-se orientar o paciente a manter os olhos abertos e piscar normalmente; • Após 5 minutos, remove-se o papel de fil- tro, medindo a quantidade umedecida, em milímetros. 66 Exame ocular cap. 02Auto-avaliação Auto-avaliação 1. Quanto à acuidade visual: a. só o especialista em oftalmologia tem condi- ções de avaliá-la. b. é possível ser avaliada em crianças pré-ver- bais. c. necessita de tabelas especiais para ser medi- da. d. é afetada em todas as doenças oftalmológi- cas. 2. Quanto ao exame externo do globo ocular: a. é dispensável, pois não permite uma boa visu- alização das estruturas oculares. b. permite o diagnóstico de doenças oculares mesmo sem o uso de aparelhos especiais. c. a palpação pode evidenciar dados que sugi- ram presença de fraturas orbitárias. d. há mais de duas alternativas corretas. 3. A tensão óculo-digital: a. somente pode ser realizada pelo especialista. b. não tem valor na prática clínica por não forne- cer valores exatos da pressão intra-ocular. c. não deve ser medida em pacientes abaixo de 10 anos. d. quando muito elevada pode sugerir glaucoma agudo dependendo de outros sinais e sintomas ao exame. 4. Considere as seguintes afirmações: I. O diâmetro da pupila de um olho cego é maior do que o do olho contralateral normal. II. Em pacientes normais, quando se ilumina um dos olhos, a pupila deste se contrai mais intensa- mente que a do olho não iluminado. III. Quando há diferença entre o diâmetro pupi- lar dos dois olhos, é fundamental a realização de exames de neuroimagem para afastar o diagnós- tico de tumores cerebrais. IV. A hemianopsia homônima ocorre em afec- ções posteriores ao quiasma óptico. a. Todas são verdadeiras b. Todas são falsas c. Somente IV é verdadeira d. I e II são verdadeiras 5. O exame biomicroscópico do globo ocular: a. é melhor que a simples inspeção porque mag- nifica as estruturas examinadas. b. é melhor que a simples inspeção porque per- mite a realização do corte óptico. c. é melhor que a simples inspeção porque per- mite melhor iluminação das estruturas examina- das. d. há mais de duas alternativas corretas. 67 cap. 02 Exame ocular cap. 02 Auto-avaliação 6. Quanto à tonometria de aplanação: a. se estiver entre 8mmHg e 21mmHg, não há pe- rigo de o paciente ser portador de glaucoma. b. se for maior que 25, o paciente é portador de glaucoma. c. também pode ser medida em pacientes abaixo de 10 anos. d. só é possível ser efetuada com o tonômetro de aplanação. 7. Considere as seguintes afirmações: I. O diâmetro da pupila de um olho cego pode ser maior do que o do olho contralateral normal. II. As drusas de papila constituem um desafio diagnóstico para o oftalmologista, por mimeti- zarem edema de papila. III. Um exame de campo visual de confrontação sem alterações dispensa a realização de campi- metria manual. IV. A gonioscopia dinâmica permite o diagnósti- co diferencial entre ângulo estreito aposicional e causado por sinéquias. a.Todas são verdadeiras. b. Todas são falsas. c. Somente III é falsa. d. Somente I e II são verdadeiras. 8. Quais antecedentes pessoais você conside- raria de extrema importância para a anamnese oftalmológica? a. Diabetes b. HIV c. Tuberculose d. Todas as anteriores 9. O exame realizado através da Tela de Amsler: a. É usado na pesquisa da neuropatia glaucoma- tosa. b. É usado para pesquisa de daltonismo. c. É usado para pesquisa de doenças maculares. d. É usado na pesquisa de erros refracionais. 10. Sobre a anisocoria: a. É rara, ocorrendo em aproximadamente 2% da população . b. Alterações da íris podem provocar anisocoria. c. A causa é sempre neurológica. d. A pupila defeituosa é sempre a menor. 11. O teste de Schirmer: a. é utilizado para avaliar integridade epitelial da córnea. b. é utilizado para avaliar isquemia da córnea. c. é utilizado para analisar o humor aquoso. d. é utilizado para avaliação clínica do olho seco. 69Erros de refração cap. 03 Introdução Figura 01: Diversos modelos de óculos do século XIV. Introdução Histórico Existem muitos relatos, ao longo da história, de tentativas de solucionar as alterações refrativas, sendo descritas desde medicações “miraculosas” até tratamentos cirúrgicos extremos. Durante muito tempo, na antigüidade, o indi- víduo portador de algum erro de refração im- portante, e de conseqüente baixa na acuidade visual, via-se limitado em suas possibilidades de exercício profissional. O primeiro relato conhecido de uso de auxílio óptico descreve uma “pedra de leitura”, com su- perfície clara e curva, utilizada por monges ao redor do ano 1000 d.C. Funcionava como uma lente de aumento, facilitando o ato de leitura aos idosos. Foram necessários séculos para que fosse desen- volvido o conceito de se criar um auxílio óptico prático, com lentes corretivas, e que pudesse ser usado em uma armação adaptada ao rosto de cada pessoa. Os óculos se tornaram extrema- mente úteis e populares, sendo que sua inven- ção foi creditada a Salvino D’Arnato, falecido em Florença, em 1317. O aprimoramento dos óculos vem ocorrendo desde então, com estudos que visam a melho- rar as muitas variáveis que existem em sua com- posição e manufatura. É notória a importância dessa criação, e sua con- tribuição à história da humanidade tem seu valor destacado desde o início, conforme comentou o monge dominicano, Frei Giordano de Pisa, no século XIV: “Ainda não faz 20 anos que a arte de fazer óculos foi descoberta, uma das mais úteis da terra...” (Figura 01). 70 Erros de refração cap. 03Introdução Figura 02: Luz, seu comprimento de onda e outros tipos de radiação. Luz A luz visível é uma forma de energia radiante, sendo composta por diferentes comprimentos de onda (de 390nm a 760nm), e capaz de gerar estímulo visual nos fotorreceptores retinianos. Outras formas de radiação não possuem essa propriedade por estarem fora do espectro detec- tável pela retina humana (p. ex. radiações ultra- violetas e infravermelhas) (Figura 02). Os raios de luz se propagam de forma retilínea, cada um deles de modo independente do outro. Podem se apresentar de 3 formas: paralelos, con- vergentes ou divergentes 71Erros de refração cap. 03 Introdução Figura 03: Tipos de lentes Convergentes (positivas) e Divergentes (negativas). Exprime-se a vergência de uma lente pelo in- verso de sua distância focal medida em metros. Corresponde ao poder que cada lente possui de mudar a trajetoria dos raios luminosos Dioptria = 1 Foco A representação gráfica das lentes apresenta os seguintes componentes: - Eixo principal: eixo onde estão o raio de curva- tura da lente, o centro óptico e o foco - Raio de curvatura: raio da circunferência da len- te - Centro óptico: porção central da lente - Foco: metade do raio de curvatura Os raios de luz que incidem sobre lentes esféri- cas possuem padrões conhecidos: - raio que incide no centro óptico não sofre mu- dança em sua trajetória. - raio que incide paralelo passa pelo foco. - raio que incide sobre o foco emerge paralelo De acordo com o tipo de lente, se positiva ou ne- gativa, a construção da imagem acontece como mostrado nas figuras abaixo (Figuras 04a, 04b, 04c). ponde à relação da velocidade de propagação da luz entre dois meios diferentes. O IR do ar é considerado padrão, tendo valor aproximado de 1 (um). Lentes esféricas são meios transparentes limita- dos por superfícies curvas ou plano-curvas. Há 2 tipos principais: convergentes e divergentes, conhecidas, respectivamente, como positivas e negativas (Figura 03). Princípios ÓpticosA luz que se propaga através de uma interface, separando dois meios ópticos diferentes (p. ex. água e ar), pode sofrer três tipos de fenômenos ópticos: reflexão, absorção ou refração. Denomina-se índice de refração a constante ori- ginada na relação entre o seno do ângulo de in- cidência e o seno do ângulo de refração. Corres- 72 Erros de refração cap. 03Introdução Figura 04b: Lentes Positivas (Objeto depois do foco): imagem virtual e direta. Figura 04c: Lentes Negativas: imagens virtuais e diretas. Figura 04a: - Lentes Positivas (Objeto do infinito ao foco): imagem real e invertida. 73Erros de refração cap. 03 Introdução Figura 06: Principais componentes refracionais do olho. Figura 05: Estruturas Anatômicas do Olho: Componentes que influenciam a trajetória da luz: Córnea (curvatura, espessura e índice de refração), Cristalino (curvatura e diâmetro), Humor Aquoso (índice de refração), Humor Vítreo (índice de refração) e Fóvea. Os principais componentes refrativos do olho são: córnea (tem o valor refrativo mais elevado), cristalino e diâmetro axial ocular (Figura 06). O Olho e seus componentes O olho é composto por diversas estruturas anatômicas que podem influenciar a trajetória da luz; existe uma alta complexidade óptica nesse órgão (Figura 05). 74 Erros de refração cap. 03Principais erros de refração e sua correção Figura 07: Olho emétrope: imagem formada sobre a fóvea. Principais erros de refração e sua correção Emetropia O olho é considerado emétrope quando, sem interferência da acomodação , recebe na fóvea (área central da retina) imagens nítidas de obje- tos situados no infinito. (Figura 07) Essa condição de emetropia depende da relação entre o poder refrativo do segmento anterior (da córnea e do cristalino, principalmente) e o diâ- metro ântero-posterior do olho. 75Erros de refração cap. 03 Principais erros de refração e sua correção Figura 08: Olho amétrope: imagem formada fora da retina. Figura 09a e 09b: Visão de olho emétrope (09a) e visão de olho amétrope (09b) Ametropia Condição em que o olho, quando sem inter- ferência da acomodação, não recebe na fóvea, imagens nítidas de objetos situados no infinito. (Figura 08). Pode ser de 3 tipos: miopia, hipermetropia e astigmatismo. 76 Erros de refração cap. 03Principais erros de refração e sua correção Figura 10: Olho míope: imagem anterior à retina. Miopia Condição em que objetos posicionados no in- finito têm suas imagens formadas anteriormente à retina (Figura 10). Pode acontecer por duas razões: 1. o poder de refração do olho é excessivo em relação a seu diâmetro ântero-posterior. 2. o diâmetro ântero-posterior é grande em rela- ção ao poder de refração ocular. A principal queixa relacionada à miopia é a dificuldade de ver nitidamente objetos distantes. 77Erros de refração cap. 03 Principais erros de refração e sua correção Figura 11: Olho hipermétrope: imagem posterior à retina. Hipermetropia Condição em que, sem interferência da acomo- dação, objetos posicionados no infinito têm suas imagens formadas posteriormente à retina. (Fig- ura 11). Pode acontecer por duas razões: 1. o poder de refração do olho é reduzido em relação a seu diâmetro ântero-posterior. 2. o diâmetro ântero-posterior é pequeno em relação ao poder de refração ocular. A principal queixa relacionada às hipermetropias médias e altas é a dificuldade em ver objetos próximos com nitidez e conforto visual. 78 Erros de refração cap. 03Principais erros de refração e sua correção Figura 12: Olho astigmata: imagem distorcida sobre a retina. Astigmatismo Em olhos com astigmatismo, os dois meridianos principais da córnea e/ou do cristalino têm cur- vaturas diferentes, portanto, poderes dióptricos diferentes, não permitindo a formação de ima- gem nítida sobre a fóvea, resultando na percep- ção de imagens distorcidas. (Figura 12). As principais queixas relacionadas ao astigma- tismo são: - astenopia (“cansaço visual”) - imagem “borrada” - cefaléia (dor de cabeça) - lacrimejamento 79Erros de refração cap. 03 Principais erros de refração e sua correção Classificações do Astigmatismo Há grande variedade de classificações possíveis ao astigmatismo. Para para compreendê-los, é necessário entender o conceito de meridianos principais, que correspondem aos que apresen- tam maior e menor raio de curvatura. Os astig- matismos são classificados: • Quanto à regularidade de cada córnea: Regular: Quando os meridianos principais da córnea estão posicionados de forma perpendi- cular entre si. Irregular: Quando não estão perpendiculares en- tre si. • Quanto à posição do meridiano mais curvo da córnea: A - favor - da - regra: o meridiano mais curvo si- tua-se a 90º ± 15º. Contra - a - regra: o meridiano mais curvo situa- se a 180º ± 15º. Oblíquo: o meridiano mais curvo situa-se fora dos valores anteriores. • Quanto à posição do meridiano mais curvo em ambos os olhos: Simétrico: quando ambos os meridianos são si- métricos em relação à linha média, por exemplo, um meridiano mais curvo de um olho a 45º e o outro olho a 135º. Assimétrico: quando assimétricos em relação à li- nha média, por exemplo, um olho a 45º e o outro não a 135º. • Quanto ao estado refrativo de cada olho: Simples: um dos meridianos da córnea é emétro- pe enquanto o que lhe é perpendicular é mais ou menos curvo. No primeiro caso, o astigmatismo é miópico simples e no segundo, hipermetrópico simples. Composto: os meridianos principais da córnea são amétropes desigualmente em valor. Quan- do as imagens desses meridianos são formadas anteriormente à retina trata-se de astigmatismo composto miópico;se posteriormente, astigma- tismo composto hipermetrópico. Misto: ambos os meridianos da córnea são amé- tropes, sendo um míope e outro hipermétrope. 80 Erros de refração cap. 03Principais erros de refração e sua correção Figura 13: Conóide de Sturm: Linhas Focais, Intervalo de Sturm e Círculo de Menor Confusão. Conóide de Sturm Trata-se da representação gráfica dos raios que atravessam um meio esferocilíndrico, por exem- plo um olho com astigmatismo. Como existe di- ferença de curvatura nos meridianos corneanos principais, não há um ponto focal único. Cada meridiano possui seu foco. O intervalo delimita- do pelos focos dos meridianos principais chama- se “intervalo de Sturm”. O “círculo de menor con- fusão”, representa a situação em que os focos dos meridianos principais (linhas focais) encontram- se igualmente equidistantes da retina. (Figura 13). 81Erros de refração cap. 03 Principais erros de refração e sua correção Figura 14: Lente negativa: focalizando imagem em olho míope. Corrigindo Ametropias Indica-se um tipo específico de lente para corri- gir cada tipo de ametropia: - Para miopia, lentes divergentes (ou negativas) (Figura 14) 82 Erros de refração cap. 03Principais erros de refração e sua correção Figura 15: Lente positiva: focalizando a imagem em olho hipermétrope. - Para hipermetropia, lentes convergentes (posi- tivas) (Figura 15) 83Erros de refração cap. 03 Principais erros de refração e sua correção Figura 16: Lente cilíndrica: focalizando imagem em olho astigmata. - Para astigmatismo, lentes cilíndricas ou esfero- cilíndricas. (Figura 16) 84 Erros de refração cap. 03Principais erros de refração e sua correção Na miopia, o objetivo é prescrever a lente de me- nor poder dióptrico que proporcione a melhor visão. Na hipermetropia, os objetivos são: • Prescrever uma correção que permita acomo- dação residual sem sintomas. • Prescrever a lente de poder dióptrico que per- mita a melhor visão com conforto. Para correção do astigmatismo, o tipo de lente é indicado conforme a classificação do mesmo: • astigmatismo simples, lentes cilíndricas • astigmatismo composto, lentes tóricas (associa- ção de lentes esféricas com lentes cilíndricas). O eixo do cilindro da lente que será prescrita é posicionado perpendicular ao meridiano que se pretende corrigir. Por exemplo:para um pacien- te que apresente o meridiano horizontal emé- trope e o meridiano vertical hipermétrope de +2,00D (astigmatismo hipermetrópico simples), prescreve-se lente cilíndrica de poder equivalen- te (+2,00D) posicionada no eixo de 180º. Equivalente Esférico O equivalente esférico corresponde ao valor de uma correção esférica simples que posiciona o círculo de menor confusão do conóide de Sturm sobre a retina, obtendo assim uma imagem mais nítida. É calculado somando-se a metade da correção cilíndrica à correção esférica. Exemplos: 1. plano / -3,00 DC = -1,50 DE 2. +2,00DE / -1,00DC x 180º = +1,50D 3. -1,50DE / -0,50DC x 130º = -1,75DE 85Erros de refração cap. 03 Tratamento convencional - correção Figuras 17a e 17b: Lentes de contato rígida e gelatinosa. Tratamento convencional - correção Auxílios Ópticos Para a correção clínica das ametropias, utilizam- se auxílios ópticos. Os principais tipos são: ócu- los, lentes de contato. Para a correção cirúrgica, dispõe-se da cirurgia refrativa e de lentes intra- oculares. Óculos Utilizam-se óculos com lentes corretivas dos seguintes tipos: convergentes (ou positivas) para hipermetropia; divergentes (ou negativas) para miopia; e cilíndricas para astigmatismo. Quando a miopia ou a hipermetropia ocorrem em associação ao astigmatismo, pode-se utilizar uma combinação de lentes esféricas (divergen- tes ou convergentes), com lentes cilíndricas. Lentes de Contato Lentes de contato são utilizadas diretamente sobre a córnea, e podem, assim como os óculos, corrigir ametropias. Existem, basicamente, 2 tipos: rígidas e gelatino- sas. (Figuras 17a e 17b) Suas principais indicações são: - Altas ametropias. - Anisometropias (situação em que existe dife- rença refracional entre os olhos) - Astigmatismos irregulares (que não obteriam boa acuidade visual com óculos) - Para a prática esportiva - Com finalidade estética 86 Erros de refração cap. 03Tratamento cirúrgico - prós e contras Figura 18: Catarata causando alteração na formação da imagem. Figura 19: Pós-operatório: Lente intra-ocular posicionada. Tratamento cirúrgico: prós e contra Cirurgia É possível corrigirem-se as ametropias por meio cirúrgico. Na maioria das vezes, a cirurgia refrativa é re- alizada com aplicação de energia laser para re- modelar a córnea, e pode ser uma opção de tratamento para alguns pacientes. Indicações: - Intolerância ao uso de lentes de contato - Anisometropias importantes (situação em que existe grande diferença refracional entre os o- lhos) - Esportistas - Com finalidade estética Outra possibilidade, quando há associação de ametropia e de catarata (opacificação do cris- talino), é a utilização de uma lente intra-ocular (que substitui o cristalino opaco removido), com poder dióptrico calculado calculado de modo a fazer com que o paciente fique emétrope (ou próximo da emetropia) no pós-operatório. (Figu- ras 18 e 19) 87Erros de refração cap. 03 Tratamento cirúrgico - prós e contras Cirurgia Refrativa A cirurgia refrativa compreende os procedimen- tos cirúrgicos que têm por finalidade diminuir e, se possível, eliminar os erros de refração (miopia, hipermetropia e astigmatismo). Há que se acres- centar a essa finalidade, corretiva, a de preservar a qualidade da visão. Esta modalidade cirúrgica está presente na prá- tica clínica de profissionais de oftalmologia há pelo menos uma década. O advento do exci- mer laser e o aumento dos níveis de segurança e eficácia das cirurgias refrativa tornaram esta técnica um procedimento cirúrgico previsível e confiável, o que a fez popularizar-se não só entre os profissionais da área como também entre os pacientes. Atualmente, a principal modalidade de cirurgia refrativa é a corneana, por meio do excimer laser, seja na superfície (PRK) ou lamelar (LASIK). Ob- serva-se a atual fase da cirurgia a laser persona- lizada, em que a correção baseia-se nas informa- ções fornecidas pela aberrometria, adequando a aplicação do laser às características particulares do olho de cada paciente. Com isso, procura-se aprimorar a qualidade óptica do resultado da ci- rurgia. Outra importante modalidade de cirurgia refra- tiva merece destaque: os implantes refrativos intraoculares. De um lado, os implantes fácicos, que podem ser de fixação angular, de fixação iriana e de câmara posterior. De outro, os im- plantes afácicos, em que se realiza a extração do cristalino transparente, com finalidade refra- tiva. Os procedimentos intraoculares podem ser reversíveis e, se não modificarem a superfície da córnea, melhoram a qualidade da visão. No entanto, apresentam os riscos inerentes a um procedimento intraocular e, ainda, são passíveis de questionamentos éticos. Ressalte-se que os avanços tecnológicos têm oferecido implantes e técnicas cirúrgicas cada vez mais delicados, previsíveis e seguros, antevendo-se um papel re- levante dessa modalidade técnica no futuro da cirurgia refrativa. Critérios de contra-indicação cirúrgica • Miopia ou astigmatismo composto: ametropia total acima de 12 D. • Hipermetropia acima de 5 D. • Astigmatismo superior a 6 D. • Ceratocone diagnosticado ou suspeito pela to- pografia. • Opacificação do cristalino com ou sem perda de acuidade visual. • Candidatos présbitas que não aceitam a pos- sibilidade de ter que usar correção óptica para perto após a cirurgia refrativa. • Candidatos com instabilidade refracional ou idade inferior a 18 anos. • Situação em que a relação risco/benefício da cirurgia parece não ser satisfatória para o candi- dato ou para o médico oftalmologista. Contra-indicações com base na paquimetria Teoricamente, a espessura mínima do leito resi- dual estromal deve ser de 250 micras após a ci- rurgia de LASIK e 340 após a PRK. Pacientes com córneas muito finas podem ser considerados de risco em função do desenvolvi- mento de ectasias no pós-operatório, recomen- dando-se valores mínimos pré-operatórios de 500 micras para a realização do procedimento. É importante lembrar que não existem medidas de segurança absoluta. Por isso é sempre neces- sário levar em consideração, juntamente com a espessura, a curvatura, a refração e a idade do paciente, avaliando cada caso individualmente. 88 Erros de refração cap. 03Tratamento cirúrgico - prós e contras Contra-indicações com base na topografia Para ablações miópicas, é ideal não ultrapassar o limite inferior de 35 dioptrias. Para cada dioptria corrigida aplana-se em média 0,70 dioptria. Para ablações hipermetrópicas, por sua vez, é ideal não ultrapassar o limite superior de 48,5 diop- trias. Para cada dioptria corrigida de hipermetro- pia, encurva-se em média 0,70 dioptria. As principais contra-indicações relacionadas à curvatura corneana referem-se aos casos de as- tigmatismos irregulares e assimétricos, represen- tando, muitas vezes, casos de ectasias subclíni- cas. Condições gerais Gravidez e lactação A cirurgia refrativa deve ser contra-indicada em pacientes grávidas até o término da gravidez. Ela também deve ser contra-indicada durante a fase de aleitamento materno, em função das flutua- ções visuais decorrentes das alterações nos hor- mônios encontradas nesse período, e das medi- cações tópicas e orais, que podem interferir no processo de amamentação. Perfil psicológico A relação médico-paciente é fundamental na ci- rurgia refrativa e qualquer comprometimento na mesma deve ser considerada uma razão suficien- te para postergar ou mesmo contra-indicar a ci- rurgia. Pacientes com perfil psicológico alterado ou em uso de psicotrópicos devem ter a cirurgia refrativa contra-indicada pelo menos durante a fase de tratamento. Pacientes com depressão e labilidade emocional tendem a se mostrar mais insatisfeitos no pós-operatório e dificultar a re- lação médico-paciente, bem como aqueles com grau de exigência ou tolerância acima da média, os quais devem ser analisados individualmente e com muita cautela. Histórico familiar de ectasia corneana Pacientes que possuemfamiliares com ectasia corneana precisam de um cuidado especial, pois a presença dos genes na mesma família é maior que na população geral. Na apresentação de qualquer alteração topográfica ou paquimétrica, a cirurgia deve ser contra-indicada. Entretanto, o histórico familiar de ectasia não representa ne- cessariamente uma contra-indicação para cirur- gia refrativa. Em caso de estabilidade refracional, exames pré- operatórios normais (após acompa- nhamento seriado) e idade superior a 25 anos, pode-se considerar a realização da cirurgia refra- tiva, preferencialmente com a técnica PRK. Presença de patologias oculares Na presença de patologias oculares prévias, é necessário um detalhado acompanhamento pré-operatório a fim de esclarecer a etiologia e o tratamento envolvidos. Ectasias corneanas O ceratocone clínico ou subclínico é considera- do uma contra-indicação para a realização da cirurgia refrativa, da mesma forma que outras ectasias corneanas, como degeneração marginal pelúcida e ceratoglogo. O herpes ocular representa uma contra-indica- ção clássica para a cirurgia refrativa, pois a luz ultravioleta emitida pelo excimer laser e a medi- cação pós-operatória podem gerar uma recidiva do quadro. Degenerações ou distrofias epiteliais corneanas ou da membrana basal epitelial representam te- oricamente uma contra-indicação para a LASIK. Nesses casos, deve ser indicada a PRK (com de- 89Erros de refração cap. 03 Tratamento cirúrgico - prós e contras sepitelização mecânica ou automática com ex- cimer laser no modo PTK), pois a realização de LASIK resulta em defeitos epiteliais no flap que interferem na cicatrização. Olho seco leve e moderado não representam contraindicações para a cirurgia refrativa, desde que sejam controlados adequadamente no pré- operatório. Nesse caso, é preferível a PRK, pois causa menor lesão das fibras nervosas, devido ao fato de a ablação ser mais superficial. O pro- cesso reparativo após a cirurgia refrativa requer lágrimas em quantidade e qualidade para a cica- trização adequada. Na avaliação pré-operatória, deve-se dar especial atenção para a avaliação do filme lacrimal. O olho seco previamente à ci- rurgia deve ser tratado com lágrimas artificiais, suplemento alimentar, inserção de plug lacrimal para retenção de lágrimas, e, em casos especiais, não prescindir do uso tópico de ciclosporina a 0,05%. Enquanto o controle clínico adequado do olho seco não for obtido, o procedimento refrati- vo não deve ser realizado. Olho seco grave deve ser considerado uma contra-indica- ção para ci- rurgia refrativa, mesmo com a PRK. O glaucoma é considerado uma contra-indica- ção para a cirurgia refrativa, pois irá interferir na medida da pressão intraocular no pós-operató- rio, dificultando o controle da mesma. Patologias retinianas Patologias retinianas não representam contra- indicação para cirurgia refrativa a laser. Preferen- cialmente, a PRK deve ser utilizada para minimi- zar a tração na base vítrea (especialmente em pacientes com descolamento de retina prévio). Em pacientes com faixa de silicone, a PRK deve ser a técnica de escolha em função da dificulda- de de se encaixar o microcerátomo. Não existem estudos com dados estatísticos suficientes para correlacionar as lesões retinianas com a LASIK. Razões relacionadas às doenças sistêmicas Devemos conhecer as condições de saúde do candidato, uma vez que certas doenças sistêmi- cas constituem contra-indicações relativas ou absolutas. Doenças autoimunes O lúpus eritematoso sistêmico, a artrite reuma- tóide e a fibromialgia, entre outras doenças, podem comprometer o sistema imune. Pesso- as com o sistema imune comprometido podem apresentar cicatrização pós-cirúrgica anormal. Por esta razão, toda doença sistêmica autoimune deve estar adequadamente controlada antes de se realizar o procedimento refrativo. Diabete A cirurgia refrativa pode estar contra-indicada para pacientes que sofrem de diabete. É neces- sário obter a estabilização da glicemia para men- surar com exatidão o erro refrativo a ser corri- gido. A presença de retinopatia diabética pode comprometer o ganho de visão por alterações retinianas. Quelóide Um estudo recente avaliou se as doenças autoi- munes do tecido conjuntivo-vascular, a doença intestinal inflamatória, o diabete e a formação de quelóide, constituíam contra-indicações re- lativas ou absolutas para a cirurgia refrativa. De acordo com este estudo, as técnicas LASIK e PRK podem ser realizadas com segurança se estes problemas estiverem adequadamente controla- dos nos pacientes. O sucesso da cirurgia refrativa depende, princi- palmente, de um correto preparo pré-operatório. A avaliação pré-operatória deve ser considerada em três níveis: médico, em que se selecionam os candidatos de menor risco médico-cirúrgico; psi- 90 Erros de refração cap. 03Tratamento cirúrgico - prós e contras cológico, em que se procuram adequar as expec- tativas do paciente à realidade de uma cirurgia eletiva, não isenta de complicações, em um olho normal; jurídico, em que se cumprem formalida- des éticas e legais com o intuito de agregar se- gurança à relação médico-paciente e à atividade profissional do cirurgião refrativo. 91Erros de refração cap. 03 Acomodação Figura 20: Emetropia X Acomodação: Conforme o objeto se aproxima, o cristalino se altera e consegue manter a imagem focalizada na retina (olho acomodado). Acomodação Acomodação É a capacidade do olho de focalizar na retina imagens de objetos situados a diferentes distân- cias. Conforme o objeto é aproximado do olho, o cris- talino altera sua morfologia, conseguindo assim manter a imagem focalizada na retina (olho aco- modado). (Figura 20) O estímulo que desencadeia o mecanismo de acomodação é uma leve turvação da imagem. As principais estruturas envolvidas no mecanis- mo de acomodação são: cristalino, zônula e mus- culatura ciliar. 92 Erros de refração cap. 03Acomodação Figura 21: Comparação na posição das estruturas envolvidas na acomodação: (A) olho não acomodado: - musculatura ciliar: relaxada - zônula: tensa - cristalino: curvatura menor (B) olho acomodado: - musculatura ciliar: contraída - zônula: relaxada - cristalino: curvatura maior Esse processo dinâmico ocorre de maneira fisio- lógica, pela mudança do formato do cristalino (Figura 21). 93Erros de refração cap. 03 Acomodação Figura22: idade e amplitude de acomodação (AC) Ponto Próximo de Acomodação: é a posição em que um objeto mais pode se aproximar do olho, mantendo ainda imagem nítida, momento em que está ocorrendo a máxima acomodação. Em olho emétrope, o inverso desta distância medida em metros corresponde à amplitude de acomo- dação em dioptrias. Ponto Remoto: é a maior distância em que um objeto pode ser colocado e ainda obter imagem nítida. Momento em que a acomodação está re- laxada. Infinito = 6m. Amplitude de Acomodação: é a variação máxima possível da acomodação. Corresponde à diferen- ça entre a Acomodação máxima e ausência da mesma. Vai-se reduzindo com o passar dos anos e é igual nos 2 olhos; caso contrário, indica exis- tência de déficit. Apresenta redução fisiológica com o tempo (Figura 22). Espasmo de Acomodação Condição em que há acomodação excessiva, fa- zendo com que a imagem formada na retina dei- xe de ser nítida. Ocorre principalmente em jovens (idade infe- rior a 30 anos), que utilizam a visão de perto por grandes períodos. Os principais sintomas são: flutuação da visão, cefaléia, desconforto visual e fotofobia. Ao exame nota-se ponto próximo de acomoda- ção reduzido e grande facilidade de aceitação de lentes negativas, sendo geralmente hipermétro- pes utilizando lentes negativas. O diagnóstico é feito pela refração sob ciclople- gia, excluindo-se, dessa maneira, a ação excessi- va da acomodação. Como tratamento, recomenda-se: - evitar o uso da visão para perto por longo tem- po; - “relaxar” a acomodação, olhando-se para longe; - uso das lentes as mais positivas que o pacientetolerar. Insuficiência de Acomodação Trata-se da redução (ou perda) prematura da amplitude de acomodação. Resulta, clinicamen- te, na impossibilidade de o paciente manter, de maneira confortável e por períodos razoáveis de tempo, a visão com nitidez para perto. As principais queixas costumam ser: desconforto visual, cefaléia após o ato de ler e incapacidade de manter o foco para perto. Seu diagnóstico é feito pela mudança (afasta- mento) do ponto próximo de acomodação. Condição geralmente associada à falta de ilumi- nação em ambiente de trabalho/leitura e/ou a doenças sistêmicas (anemia, diabetes, neuropa- tias, etc) ou oculares (catarata, uveite, etc.) O manejo consiste na realização de exame re- fracional minucioso, de constatação de melhora nas condições de iluminação locais (quando ne- cessário) e, se preciso, investigação de enfermi- dades sistêmicas. 94 Erros de refração cap. 03Presbiopia Figura 23: Olho Présbita: redução na capacidade de acomodação Figura 24: Visão de paciente présbita: falta de nitidez para objetos próximos. Presbiopia Corresponde à perda gradual e fisiológica da ca- pacidade de acomodação do olho com o decor- rer da idade. Tem início ao redor dos 40 anos, e se deve à di- minuição da elasticidade do cristalino (Figura 23). A principal queixa é a dificuldade de ver clara- mente objetos próximos. Outros sintomas podem ser fadiga aos esforços visuais e dificuldade de leitura em ambientes menos iluminados (Figura 24). 95Erros de refração cap. 03 Presbiopia Figura 25 Lentes Positivas focalizando a imagem em olho présbita. Para a correção da presbiopia, utilizam-se lentes positivas (convergentes), cujo poder dióptrico deverá ser aumentado conforme a idade do pa- ciente avança (“piora” fisiológica do quadro clíni- co; normalmente até +3,00 D) (Figura 25). 96 Erros de refração cap. 03Presbiopia Quando o paciente já utiliza óculos para corre- ção de erros refrativos pré-existentes, lentes po- sitivas serão “adicionadas”. Poderá utilizar então óculos específicos para leitura ou associá-los na forma de lentes bifocais ou lentes multifocais. O valor exato a ser adicionado é individual, de- vendo ser levadas em consideração as atividades habituais do paciente. Busca-se o menor valor possível, visto que valores maiores limitam a dis- tância focal de leitura. A adição, idealmente, deve ser igual em ambos os olhos, pois se busca igualar a distância focal bilateral. Seguem-se os passos para se obter a adição cor- reta para perto: • Determinar a “refração para longe” • Conforme a idade, orientar o valor aproximado da correção: 40 ANOS ADIÇÃO DE 0,50 D 45 ANOS ADIÇÃO DE 1,00 D 50 ANOS ADIÇÃO DE 1,50 D 55 ANOS ADIÇÃO DE 2,00 D 60 ANOS ADIÇÃO DE 2,50 D 65 ANOS ADIÇÃO DE 3,00 D • Testa-se a adição para perto, considerando-se as necessidades visuais de perto do paciente e refina-se, caso preciso. OBS: sempre perguntar a distância de visão pró- xima que o paciente necessita (p. ex. costureira, músico, usuário de computador, etc.) • prescrever valor mínimo de adição para perto necessária ao paciente. 97Erros de refração cap. 03 Presbiopia Figura 26: Lentes Bifocais em diferentes desenhos da película de adição para perto. Prescrição de Bifocais Existem vários modelos de lentes bifocais. (Figura 26). Cada uma apresenta indicações, que podem ser assim classificadas, para melhor compreensão: 1. Quanto ao estado refracional: • hipermetropia (moderada ou alta) - se adição maior que +1,50D = Kriptok - se adição menor que +1,50D = Ultex • miopia ou baixa hipermetropia - qualquer adição = Flap-top 2. Quanto à diferença do poder dióptrico para longe e adição: • longe menor que adição = Panoptik ou Flap-top • longe maior que adição = Ultex • longe igual à adição = Kriptok 3. Quanto ao astigmatismo: • valor do meridiano vertical maior que adição: Ultex • valor do meridiano vertical menor que adição: Biovis ou Panoptik • valor do meridiano vertical igual a adição: Krip- tok 4. Outras situações: • Afácicos: - Com iridectomia periférica - Panoptik ou Flap- top - Com iridectomia em setor – Ultex ou Kriptok 98 Erros de refração cap. 03Cicloplegia Efeito 1 gota 5/5min 2-3x - Aumento da PIO - Distúrbio de comportamento - Boca seca curta duração curta duração 4-10 hs 20-30 min 1 gota 10/10min 2-3x - Sonolência Efeitos colaterais raros: - agitação -alucinações -ataxia -convulções -psicose menos intensa média duração 12-24 hs 20-40 min 1 gota 8/8h 1 dia - Toxicidade sistêmica OBS: pelo maior risco de toxicidade e duração de efeito, não recomendada para exame de refração - Antídoto: prostigmine 5mg 1ml EV longa duração longa duração 10-15 dias 6-24 hs cicloplégico fenil-hidroxi-ciclo- acetil-dimetil-ami no-etanol antagonista da acetilcolina Ação Dose Ciclopentolato 1% Atropina 1%Tropicamida 1% Classe máximo total Midríase Cicloplegia Efeitos Colaterais (Freqüentes) Tabela: Drogas utilizadas para obterse cicloplegia ocular. Cicloplegia Corresponde à paralisação temporária da aco- modação, ou seja, da ação dos músculos ciliares. Está indicada em exames de refração, principal- mente em crianças, adolescentes e adultos jo- vens, uma vez que o resultado do exame assim feito poderá ser mais acurado. É realizada de maneira farmacológica, com o uso de colírios parassimpatolíticos. É importante diferenciá-la de “midríase”, que é a simples dilatação da pupila, sem mudança da acomodação, utilizada, por exemplo, para exame de fundo de olho. As principais drogas para cicloplegia e suas ca- racterísticas estão descritas na Tabela a seguir: 99Erros de refração cap. 03 Refração Figuras: 27: Refrator manual Figuras: 28: Caixa de prova e armação de prova Exame de refração ocular Para prescrever óculos, é preciso inicialmente fa- zer a refratometria, ou seja, medir o poder dióp- trico necessário da lente que corrija a alteração refracional do paciente. Pode ser feita de duas formas: subjetiva e obje- tiva. Na refratometria subjetiva, há participação ati- va do paciente para definir o poder dióptrico da correção. Ele próprio, durante o exame, informa qual a melhor opção de lente. Pode ser utilizado o refrator manual ou a caixa de prova (Figuras 27 e 28). 100 Erros de refração cap. 03Refração Figuras 29: Refrator automático Figuras 30: Retinoscópio Na refratometria objetiva, utilizam-se os seguin- tes equipamentos: retinoscópio e refrator de Green ou refrator automático. (Figuras 29 e 30) Não há participação ativa do paciente na deter- minação do erro refrativo que é mensurado pelo examinador ou pelo refrator automático. Após o resutado do exame objetivo, é recomendável realizar-se o exame subjetivo, com intuito de refinar o resultado final, a fim de prescrever len- tes que proporcionem melhor visão associada à maior conforto visual. 101Erros de refração cap. 03 Refração Figura 31: cilíndro cruzado: o poder do cilíndro na horizontal é de +0,25D e na vertical -0,25D. O eixo representado pelo cabo apresenta poder nulo e identifica o eixo em que o cilíndro cruzado é posicionado. Cilindro cruzado Trata-se de exame subjetivo que busca identifi- car o eixo e o poder do astigmatismo. Para realizar tal exame, é necessário utilizar o ci- líndro cruzado em conjunto com o refrator de Green ou com a caixa de prova. O cilíndro cruzado é uma lente que possui dois cilindros de valores opostos em posições per- pendiculares entre si. (Figura 31) O intuito do uso do cilíndro cruzado é atuar no intervalo de Sturm. Comparam-se duas posições do cilíndro cruzado, uma afastará as linhas focais dos eixos principais, aumentando o círculo de menor confusão, acar- retando uma pior imagem. Em contrapartida, a outra posição atuará de maneira oposta, aproxi- mando as linhas focais, diminuindo o círculo de menor confusão e assim melhorando a imagem. O exame busca o eixo em que há equilíbrio entre as duas posições, ambas com a mesma formação de imagem. Isso indicaque o cilíndro cruzado está no eixo correto para buscar a correção do astigmatismo. Uma vez definido o eixo, é necessário refinar-se o poder dióptrico do cilíndro que será utilizado. De maneira prática, esse exame pode ser reali- zado: 102 Erros de refração cap. 03Refração Figura 32: Difração da Luz. Identificação do eixo: é necessário, primeira- mente, definir qual cilíndro será usado (no nosso meio geralmente são utilizados cilindros negati- vos). Utilizando o cilíndro negativo, posicionar o cilíndro cruzado no eixo em que houve alteração de imagem na identificação do astigmatismo (à refração). Testar as duas posições. Caso não haja alteração, já se encontra posicionado no eixo exato. Se houver diferença, mover o eixo do ci- líndro no sentido do cilíndro cruzado negativo. Repetir o procedimento até posicionar o eixo de maneira que o paciente não perceba diferença na formação de imagem entre eles. Caso o pa- ciente relate melhora numa posição e, depois de nova tentativa, perceba melhora no sentido con- trário, o eixo final está na metade da distância entre os dois. Poder do cilíndro: o cilíndro cruzado é rodado a 45º da posição utilizada para o refinamento de eixo. Comparar as duas posições, a que adiciona poder e a que subtrai. Repetir esse procedimen- to até obter a melhor acuidade visual. Teste bicromático É um teste subjetivo que busca refinar o grau fi- nal da refração. Serve apenas para pequenas di- ferenças, em torno de 0,50D. Baseia-se no princípio da decomposição da luz e na aberração cromática do olho: quando um raio de luz branca passa por um prisma, sofre difra- ção, que é a decomposição da luz em diferentes comprimentos de onda, representados por um espectro de cores. Tal fenômeno também ocorre com a passagem da luz pelo olho. Além da difra- ção, ocorre também refração, ou seja, mudança na trajetória dos raios. Pela diferença de veloci- dade e de comprimento de onda, a luz verme- lha sofre menor refração, e a luz violeta, maior. (Figura 32). 103Erros de refração cap. 03 Refração Figura 33: Emetropia: luz amarela sobre a retina; nitidez semelhante entre fundo verde e vermelho. Figura 34: Miopia: luz vermelha mais próxima da retina. Para o exame, são padronizadas as cores verde e vermelha, pois estas apresentam desvios simé- tricos em relação à cor amarela, a qual é utilizada como referência, porque apresenta mais brilho na retina. Na situação de emetropia, quando o paciente olha para uma tabela com fundo verde e verme- lho, sua percepção de nitidez é a mesma para ambas as cores. (Figura 33). O míope percebe com mais nitidez as letras so- bre o fundo vermelho; o hipermétrope, sobre o fundo verde (Figura s 34 e 35). 104 Erros de refração cap. 03Refração Figura 35: Hipermetropia: luz verde mais próxima da retina. O exame deve ser realizado da seguinte maneira: • Uma vez corrigido o erro refracional, perguntar para o paciente quais optotipos são percebidos com melhor nitidez (mais negra); as possíveis si- tuações são: - optotipos vistos de igual maneira em ambos os fundos: exame refratomértico balanceado - visão melhor dos optotipos sobre o fundo ver- de: hipemétrope não corrigido ou míope hiper- corrigido. Nesse caso, adicionar lentes positivas até igualar a nitidez - visão melhor dos optotipos sobre o fundo ver- melho: míope não corrigido ou hipermétrope hi- percorrigido. Adicionar lentes negativas. Retinoscopia ou Esquiascopia É um exame objetivo com o intuito de obter o grau refracional do paciente. Possui extrema im- portância na prática clínica. Para realizá-lo é necessário utilizar o retinoscópio em conjunto com o refrator manual (Green) ou a caixa de prova. O exame consiste em projetar uma faixa de luz do retinoscópio no olho do paciente e observar as características da imagem formada na pupila. Dessa maneira, é possível guiar a adição ou a subtração de lentes corretivas e também identi- ficar e corrigir possíveis astigmatismos. Etapas do exame: - o retinoscópio deve estar com a luz em intensi- dade máxima, e a faixa apresentar a maior largu- ra possível. - posicionar o paciente atrás do Green e iniciar o exame com lentes planas. - o médico deve posicionar-se 0,5m anterior- mente ao Green. - incidir a faixa de luz no olho direito do pacien- te, posicionando-a no sentido vertical e movi- mentando-a no sentido horizontal (“varrendo” a 180º). - observar a imagem formada; os possíveis resul- tados são: a. a faixa e a imagem movimentam-se no mesmo sentido: trata-se de um estado de hipermetropia ou de miopia (até 2,00D). Adicionar lentes positi- vas. (Figuras 36a e 36b) 105Erros de refração cap. 03 Refração Figura 36a: Reflexo pupilar movimentando-se no mesmo sentido que a faixa. Figura 36b: Visibilização do reflexo pupilar pelo examinador 106 Erros de refração cap. 03Refração Figura 37a: Reflexo pupilar movimentando-se no sentido oposto da faixa. Figura 37b: Visibilização do reflexo pupilar pelo examinador. b. a faixa e a imagem movimentam-se no sentido oposto: trata-se de um estado de miopia acima de 2,00D. Adicionar lentes negativas. (Figuras 37a e 37b) 107Erros de refração cap. 03 Refração Figura 38: Neutralização: brilho pupilar. c. a faixa produz uma imagem estática, e há bri- lho pupilar: situação de neutralização da ametro- pia. (Figura 38) - incidir a faixa, posicionando-a no sentido ho- rizontal e movimentando-a no sentido vertical (“varrendo”a 90º). - realizar as mesmas etapas, buscando a neutrali- zação nesse eixo. - montar a cruz óptica baseada no resultado do exame. - prescrever a correção final obtida. O resultado é registrado na forma da cruz óptica, que é a representação gráfica dos eixos exami- nados. O modelo abaixo mostra como deve ser representado o resultado (Figura39): - seus valores transcritos (descontada a distância em que o exame foi realizado). - registro da posição dos eixos. A distância do exame é de fundamental impor- tância, pois influencia na formação da imagem a ser pesquisada e deve ser sempre descontada do valor final de cada eixo pesquisado. Por exemplo, para um exame realizado a 0,5m, deve-se des- contar 2,00D em cada eixo. A posição da faixa de luz é sempre perpendicular ao eixo a ser examinado (eixo de “varredura”). Astigmatismo É possível definir a presença de astigmatismo ao exame inicial caso haja diferença de valores en- tre os eixos e/ou se a inclinação da imagem for diferente da faixa de luz. O eixo do astigmatismo é encontrado da seguinte forma: - Se não houver inclinação da imagem e somen- te diferença de valores entre os eixos, conclui-se que o eixo encontra-se a 90º ou a 180º. - Se houver diferença de inclinação da imagem, é possível obter os eixos principais inclinando-se a faixa de luz até posicioná-la paralelamente ao reflexo. Para isso, utiliza-se a alavanca do apare- lho (Figura 40). Nesse momento, os eixos serão o coincidente com a faixa e o perpendicular a este. O poder do astigmatismo é encontrado pela di- ferença de valor entre os eixos. Para obter o resultado final da correção, basta se basear na cruz óptica obtida durante a retinosco- pia e seguir os passos abaixo: - definir inicialmente qual tipo de cilindro será utilizado (geralmente negativo). - definir a correção esférica: utilizando-se o ci- lindro negativo como base, partir do eixo com o valor mais positivo (caso se opte pelo positivo, partir do eixo mais negativo). - calcular o poder do cilindro negativo que será utilizado (valor encontrado pela diferença dos valores entre os eixos). - posicionar o cilindro negativo perpendicular- mente ao eixo em que estará atuando. 108 Erros de refração cap. 03Refração Meridiano Vertical Meridiano Vertical Meridiano Horizontal M er id ia no H or iz on ta l Figura 39: Cruz óptica. Figura 40: Retinoscopia e astigmatismo. 109Erros de refração cap. 03 Refração Miopização (Fogging) Esta técnica de exame é utilizada com o intuito de excluir o componente acomodativo em exa- merefracional dinâmico, ou seja, sem o uso de cicloplégicos. É baseada no conhecimento de que a acomo- dação é estimulada por pequena turvação na formação da imagem retiniana. Uma grande tur- vação da imagem suprime o estímulo acomoda- tivo. De maneira prática, o paciente é colocado em situação em que se adiciona lente de +3,00D à frente de um de seus olhos, que já estaria em si- tuação de emetropia (natural ou com uso de cor- reção). Uma vez suprimido o estímulo acomodativo, realiza-se o exame refratométrico do olho con- tralateral. Na etapa seguinte, trocar a adição de lado e re- fratar o outro olho. Lensômetro Este aparelho mede poder dióptrico de lentes corretivas. Caso o paciente já faça uso de ócu- los, é interessante começar o exame refracional por essa etapa. Sabendo-se o valor da correção em uso, pode-se utilizá-lo como referência para verificar se houve alteração. Pode ser feito com lensômetro manual ou automático Refrator automático É um equipamento que apresenta muita pratici- dade no dia-a-dia ambulatorial. Tem o intuito de fornecer um resultado aproximado do erro refra- cional do paciente por meio de exame objetivo. Existem modelos que permitem realizar refina- mento subjetivo (com participação ativa do pa- ciente) para um resultado mais apurado. Transposições de lentes É possível fazer a conversão de uma prescrição com cilindro positivo por negativo e vice-versa. Seguir os seguintes passos: - realizar a soma algébrica da correção esférica e cilíndrica - manter o valor do cilindro, porém modificar seu sinal - modificar o valor do eixo: somar 90º ao valor inicial; caso a soma do resultado ultrapasse 180º, subtrair 90º. Exemplos: 1. +0,50DE <> -1,00DC X 180º = - 0,50DE <> +1,00DC X 90º 2. -0,75DE <> -1,50DC X 80º = -2,25DE <> +1,50DC X 170º 3. Plano <> -0,50DC X 140º = -0,50DE <> +0,50 X 50º Mesmo após o resultado do exame objetivo, é recomendável realizar-se o exame subjetivo, com o intuito de refinar o resultado final, a fim de pres-crever lentes que proporcionem maior conforto visual. 110 Erros de refração cap. 03Refração Figura 41: Modelo de prescrição. Prescrição A prescrição de óculos deve conter os seguintes itens (Figura 41): 111Erros de refração cap. 03 Auto-avaliação Auto-avaliação 1. A prescrição apresentada pelo paciente é +3,00D<>-2,00DC X 70. Baseados nessa informa- ção, podemos afirmar que: a. Trata-se de um astigmatismo misto. b. Trata-se de um astigmatismo hipermetrópico composto. c. Trata-se de um astigmatismo hipermetrópico simples. d. Trata-se de um astigmatismo miópico com- posto. 2. Em relação ao teste verde e vermelho, conclui- se que: a. Um paciente míope hipercorrigido vê com maior nitidez a imagem em fundo vermelho. b. Um paciente míope hipocorrigido vê com maior nitidez a imagem em fundo verde. c. Um paciente hipermétrope hipocorrigido vê com maior nitidez a imagem em fundo vermelho. d. Um paciente hipermétrope hipercorrigido vê com maior nitidez a imagem em fundo vermelho. 3. Qual das alternativas abaixo corresponde ao equivalente esférico (EE) e à transposição de len- te (TRNSP) da seguinte correção: +1,00DE <> -5,00DC X 140º a. EE=-4,00DE / TRNSP= -1,00DE <> +5,00DC X 230º b. EE=-1,50DE / TRNSP= -4,00DE <> +5,00DC X 50º c. EE= -1,50DE / TRNSP = +5,00DE <> -1,00DC X 50º d. EE= -1,50DE / TRNSP= -4,00DE <> +5,00DC X 230º 4. Assinale a alternativa correta: a. Na miopia a imagem se forma atrás da retina e necessita, para sua correção, de lentes negativas. b. Na hipermetropia a imagem se forma antes da retina e para sua correção utilizam-se lentes ci- líndricas. c. Na miopia a imagem forma-se antes da retina e utilizam-se para sua correção lentes divergentes. d. Na hipermetropia a imagem se forma antes da retina e para sua correção utilizam-se lentes di- vergentes. 5. Assinale a alternativa correta: a. A midríase é ausência de acomodação, realiza- da por meios farmacológicos. b. A cicloplegia consiste simplesmente na dilata- ção da pupila. c. A cicloplegia está indicada na realização de exames de refração em jovens. d. A midríase representa o fechamento iriano e está relacionada a patologias de sistema nervoso central. 6. Quanto à presbiopia, podemos afirmar que: a. Para sua correção, é necessário prescrever len- tes com poder divergente. b. Trata-se do ganho fisiológico da capacidade acomodativa com o envelhecimento. c. Sua apresentação clínica se traduz pela dificul- dade de ver objetos a longas distâncias. d. Corresponde opticamente à perda da capaci- dade convergente do cristalino; deve-se prescre- ver nesses casos lentes positivas. 112 Erros de refração cap. 03Auto-avaliação 7. Quanto a refração, qual alternativa abaixo está correta: a. A refração subjetiva consiste no exame realiza- do sem a cooperação do paciente. b. A refração objetiva consiste no exame realiza- do com a participação do paciente de maneira ativa. c. Os principais equipamentos utilizados para re- alizar uma refração subjetiva são: refrator de gre- ens e a caixa de prova. d. A refração objetiva resulta na melhor correção, não havendo a necessidade de retestá-la. 8. Assinale a correta: a. Na presbiopia, o paciente perde a capacidade de dilatação pupilar. b. A presbiopia acontece pela perda gradual da acomodação e as lentes negativas são as indica- das para sua correção. c. O paciente présbita sem outros erros refracio- nais consegue visualizar imagens próximas com maior nitidez. d. Lentes convergentes são adicionadas à corre- ção refracional do paciente para melhorar a vi- são de perto de présbitas. 9. Sobre a cicloplegia, é correto: a. Colírio de atropina tem o efeito mais fugaz. b. Ciclopentolato é usado em crianças devido ao efeito mais rápido. c. Tropicamida é usada para midríase mas não tem efeito de cicloplegia. d. Ciclopentolato pode causar alucinações. 10. Assinale a correta: a. Pacientes afácicos usualmente necessitam de lentes negativas. b. Lentes de contato tem adaptação pior em ani- sometropias do que os óculos. c. Pacientes afácicos usualmente necessitam de lentes positivas. d. Sempre se prescreve o máximo de adição para o présbita. 11. A refracão na criança: a. sempre que possível deve ser feita de maneira objetiva e subjetiva. b. ciclopentolato é o colírio de escolha devido a sua segurança no uso pediátrico. c. o uso de correção adequada ajuda a prevenir e/ou tratar a ambliopia. d. há 2 respostas corretas. 114 Exame de fundo de olho cap. 04Fundo de olho normal Fundo de olho normal O exame de fundo de olho é o exame da retina, a qual é uma camada localizada na parte posterior do olho, formando a porção que cobre interna- mente toda a parede de trás. A retina é limita- da anteriormente pelo vítreo, e posteriormente pela coróide. Na embriologia, a retina é uma ca- mada derivada do tubo neural e é uma extensão do sistema nervoso central. Nela, os estímulos luminosos são transformados em impulsos ner- vosos para serem transportados para o cérebro. A imagem forma-se invertida para somente no cérebro ser interpretada da maneira correta. Ao exame, observa-se o nervo óptico, estrutura arredondada, de coloração amarelo-esbranqui- çada, com aproximadamente 1500µm de diâ- metro. Ele é formado por extensões das fibras nervosas que levam os estímulos nervosos para o cérebro. Também pelo nervo passam a artéria central da retina e a veia central da retina. A ar- téria central da retina é derivada da artéria oftál- mica, ramo da artéria carótida interna. A nutrição das camadas mais internas da retina é feita por essa artéria. A drenagem venosa é feita pela veia central da retina. As artérias se ramificam a partir do nervo óptico, em ramos nasal e temporal, e depois em menores derivados: superior e infe- rior. Os ramos temporais superior e inferior de- limitam o pólo posterior (Figura 01). No centro do pólo posterior está a mácula, região sempre temporal ao nervo óptico e um pouco inferior a ele, com 5mm de diâmetro. No centro desta está a fóvea,estrutura com 1500µm de diâme- tro, desprovida de bastonetes, e que é mais fina do que o restante da retina devido à perda das camadas internas da retina. No centro da fóvea encontra-se a fovéola, estrutura com 250µm de diâmetro, responsável pela visão de detalhes e onde acontece a fixação do olhar. As veias vor- ticosas podem ser observadas por transparência na região do equador da retina. A extrema peri- feria retiniana é delimitada pela ora serrata, loca- lizada a aproximadamente 4mm do limbo. A ora serrata tem coloração acinzentada, é desprovida de fotorreceptores, e faz a transição entre retina e corpo ciliar. A coloração da retina ao exame é vermelha por causa da coróide localizada atrás dela, mas a retina é transparente. A fóvea normal tem coloração um pouco mais escura do que o restante da retina, pela presença de pigmentos como melanina. Idade e raça influem na colora- ção da retina. Ao examinar a retina, deve-se ob- servar alterações de coloração, áreas elevadas, áreas deprimidas ou atróficas, além de alterações na cavidade vítrea. A visibilidade da retina de- pende também da transparência dos meios, da córnea, do cristalino e da cavidade vítrea. 115Exame de fundo de olho cap. 04 Fundo de olho normal Figura 02: Esquema das camadas da retina Figura 01: fundo de olho normal 116 Exame de fundo de olho cap. 04Fundo de olho normal A retina é formada por 10 camadas histoló- gicas, da mais interna para a mais externa: membrana limitante interna, camada de fibras nervosas, camada de células ganglionares, camada plexiforme interna, camada nuclear interna, camada plexiforme externa, camada nuclear externa, membrana limitante externa, fotorreceptores, epitélio pigmentado da reti- na. É na camada de fotorreceptores que se en- contram os pigmentos fotossensíveis. Existem dois fotorreceptores: os cones, responsáveis pela visão de cores e de visão de detalhes, e os bastonetes que são os predominantes fora da fóvea e os responsáveis pela visão de formas, funcionando mesmo em condições de menor luminosidade. Os seus segmentos são cerca- dos por extensões das células do epitélio pig- mentado da retina, que são responsáveis pela fagocitose dos segmentos externos destes, assim como pela regeneração dos pigmentos. Diversas células fazem parte do transporte da informação visual. As células horizontais fa- zem sinapses com as células dos fotorrecepto- res, transmitindo a informação horizontalmen- te entre as células fotorreceptoras e para as células bipolares, que transmitem o estímulo para a retina interna a partir da camada ple- xiforme interna. Células amácrinas fazem as conexões das células bipolares com as células ganglionares e lateralmente entre si mesmas. Finalmente, quando o estímulo chega às célu- las ganglionares pelas células amácrinas e bi- polares, é transportado pelos seus axônios ao cérebro. (Figura 02) O exame de fundo de olho pode ser feito com oftalmoscópio direto, com oftalmoscópio indire- to ou com biomicroscopia de fundo de olho, de acordo com a necessidade de cada caso. Para o exame adequado da retina, o paciente deve es- tar com as pupilas dilatadas. Na oftalmoscopia direta, observa-se principalmente o nervo ópti- co, para estudo de sua coloração, bordas e tama- nho. O aumento do tamanho da imagem é gran- de, impossibilitando o exame da periferia retinia- na com esse método. Na oftalmoscopia indireta usa-se o oftalmoscópio indireto ou Schepens e de lentes para observação do pólo posterior e da periferia da retina. A lente mais utilizada nesse exame é de 20 dioptrias. Quando o paciente olha diretamente para o examinador, este pode ver o nervo óptico, a mácula e as arcadas vasculares. Ao solicitar que o paciente olhe para cima, para baixo, para os lados e para posições diagonais, é possível examinar até o equador da retina. Para o exame da extrema periferia o examinador usa o depressor escleral. Na biomicroscopia de fundo de olho, usam-se lentes para aumentar o tama- nho da imagem e para estudo adequado de cada estrutura. Existem lentes para visão detalhada da mácula e do nervo como as de 78 ou 90D; exis- tem lentes para estudo da periferia como as len- tes de 3 espelhos que possibilitam até a observa- ção da ora serrata. O exame da periferia torna-se imprescindível em alguns casos como doenças que podem se manifestar primeiro na periferia ou na suspeita de buracos/roturas retinianas. A cavidade posterior do olho é preenchida pelo vítreo, que corresponde a 80% do volume do olho. É um gel composto de colágeno, ácido hia- lurônico e água. O vítreo é mais aderido no ner- vo óptico, na mácula, nos vasos retinianos e na ora serrata. Com a idade, acontece a liquefação do vítreo e o descolamento deste da retina. Em alguns casos, como nos paciente com miopia, a liquefação e o descolamento acontecem em pes- soas mais jovens. Quando esse processo ocorre, muitos pacientes referem o fenômeno de “mos- cas volantes”: o paciente percebe pontos pretos móveis no campo visual principalmente quando olha para um fundo branco. A maior preocupa- ção no descolamento de vítreo posterior é a for- mação de roturas retinianas nas regiões de maior 117Exame de fundo de olho cap. 04 Fundo de olho normal aderência vítrea quando acontece a separação entre vítreo e retina. Esses pacientes podem ter queixas de flashes luminosos. É importante fazer o diagnóstico nesses casos para o tratamento precoce da rotura, evitando assim, o descola- mento de retina. O exame de fundo de olho faz parte do exame do olho. Diversas doenças, desde degenerativas, metabólicas, genéticas, inflamatórias e infeccio- sas sistêmicas, podem atingir a retina. Na retina doente existem alterações mais características em algumas doenças. “Exsudatos duros” são le- sões amarelo-esbranquiçadas, intra-retinianas, resultado do extravasamento de lipídios; acumu- lam-se nas camadas mais profundas da retina. “Exsudatos algodonosos” são a conseqüência de isquemias, geralmente localizados nas camadas mais superficiais. “Hemorragias em chama da vela” são superficiais, e apresentam esse forma- to porque o sangue se acumula sobre a cama- da de fibras nervosas. “Hemorragias profundas” são pontos arredondados, situados nas camadas mais profundas da retina (Figura 03). Figura 03: Retinopatia Diabética não proliferativa com edema macular clinicamente significativo. Presença de exsudatos duros e he- morragias. 118 Exame de fundo de olho cap. 04Diabetes mellitus Diabetes Mellitus A retinopatia diabética é a principal causa de ce- gueira na população economicamente ativa nos países desenvolvidos. A prevalência e a severida- de da retinopatia estão relacionadas com a du- ração do diabetes. Após muitos anos de doença, praticamente todos os pacientes com diabetes tipo 1 e a maioria dos pacientes com o tipo 2, desenvolvem algum grau de retinopatia. O con- trole glicêmico rigoroso retarda o aparecimento de todas as doenças relacionadas ao diabetes, como retinopatia, nefropatia e neuropatia. Fisiopatologia A microangiopatia leva ao aumento da perme- abilidade vascular. Os capilares retinianos se obliteram, formando áreas de exclusão capilar e IRMAs (microangiopatia intra-retiniana, regiões com microaneurismas e vasos tortuosos) surgem ao redor. Classificação A retinopatia diabética é classificada em não proliferativa e proliferativa. Na retinopatia não proliferativa, há alterações intra-retinianas, formando microaneurismas, hemorragias, alterações venosas e alterações da permeabilidade vascular resultando em edema de mácula. Nessa fase, os pacientes são classifi- cados de acordo com a severidade da retinopatia não proliferativa; quanto mais severa a doença, maior a chance em se desenvolver a fase prolife- rativa. Exsudatos duros, exsudatos algodonosos ou edema macular podem estar presentes. Muito leve: apenas poucos microaneurismas. Leve: Microaneurismas e/ou hemorragias in- tra-retinianas leves em menos que 4 quadran- tes do olho.Moderada: Microaneurismas e/ou hemorra- gias intra-retinianas leves nos 4 quadrantes, ou severas em menos que 4 quadrantes. Severa: Usa-se a “regra do 4-2-1”: microaneu- rismas e/ou hemorragias intra-retinianas seve- ras nos quatro quadrantes, ensalsichamento venoso em 2 quadrantes ou IRMAs em 1 qua- drante. Muito severa: 2 ou mais características da reti- nopatia diabética não proliferativa severa. Nos pacientes em fase não proliferativa, a principal causa de baixa de acuidade visual é o edema de mácula (Figuras 04 e 05). Com o aumento da permeabilidade vascular, há extravasamento de fluido e de plasma para a retina (Figuras 06 e 07), causando o seu es- pessamento. O edema macular é considerado clinicamente significativo quando há: espes- samento da retina a 500µm do centro da má- cula, exsudatos duros a até 500µm do centro da mácula se associados a espessamento da retina ou com áreas de edema retiniano com 1 diâmetro de disco ou mais, e se qualquer par- te dele encontrar-se a 1 diâmetro de disco do centro macular. Na retinopatia proliferativa, neovasos crescem da retina ou do nervo óptico e na superfície reti- niana ou em direção à cavidade vítrea. A presença de 3 ou mais dos seguintes fato- res retinopatia diabetica de alto risco de per- da visual: presença de neovasos, localização dos neovasos sobre o nervo óptico ou a 1 di- Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 119Exame de fundo de olho cap. 04 Diabetes mellitus âmetro de disco do nervo, neovasos de disco (NVD) com extensão maior que 1/4 ou 1/3 na área do mesmo ou neovasos em outra localização (NVE, sigla em inglês para neovascularization elsewhere) com extensão maior ou igual à área de 1/2 do disco óptico e presença de hemorra- gia vítrea ou pré-retiniana. Os neovasos de retina são muito aderidos ao vítreo posterior, e a sua contração pode resul- tar em hemorragia vítrea e/ou pré-retiniana ou em descolamento de retina tracional. A grande maioria dos descolamentos de retina dessa natureza são fora da mácula, mas pode haver progressão; descolamento progressivo acontece com o passar do tempo. Prevenção Todos os pacientes com DM devem ser submeti- dos a exames de fundo de olho periodicamente. Diabéticos do tipo 1 devem ter o primeiro exa- me realizado 5 anos após o diagnóstico sistê- mico, enquanto aqueles com tipo 2 devem ser examinados logo ao diagnóstico. Pacientes com retinopatia muito leve podem ser examinados anualmente. Quando há retinopatia leve a mo- derada sem edema macular clinicamente signifi- cativo, os exames são semestrais. Na retinopatia diabética severa, exames podem ser espaçados a cada 3 ou 4 meses quando são pacientes aderen- tes ao acompanhamento. Tratamento Pacientes com diabetes devem ser orientados sobre a necessidade de controle ótimo da glice- mia. Flutuações constantes da glicemia estão as- sociadas a maior severidade da retinopatia. Pacientes com edema macular clinicamente sig- nificativo devem ser submetidos a laser focal ou grid macular. No laser focal, os microaneurismas são trata- dos diretamente, com tamanho de mira entre 50 a 100µm e tempo de exposição de 0,1s. O grid macular, para edema macular difuso, é feito quando não há áreas evidentes de vaza- mento; são queimaduras com 50 a 200µm de diâmetro, com intensidade leve. Efeitos adver- sos do tratamento com laser incluem perda de campo visual, neovascularização de coróide e fibrose sub-retiniana. Pacientes com retinopatia diabética não proli- ferativa muito severa ou proliferativa devem ser submetidos a panfotocoagulação com laser. São feitos ao todo entre 1500 a 2000 marcas de laser, com espaço de uma marca entre cada disparo de laser. O tamanho da marca será de 500µm de acordo com a lente escolhida, com duração de 0,1s, e pode ser de 200mw (Figura 08). Os pacientes com diabetes tipo 2 têm ain- da mais benefício quando tratados. Pacientes monoculares, grávidas, ou que serão submetidos a cirurgia de catarata ou capsu- lotomia devem ser tratados com laser preco- cemente, pelo maior risco de progressão da doença. Há indicação de vitrectomia em casos de re- tinopatia diabética proliferativa com descola- mento de retina tracional da mácula. A cirurgia requer experiência; o tecido tem componentes fibrosos e vasculares, a retina é muito friável, e é imprescindível fazer a dissecção cuidadosa da tração vitreorretiniana. Outra indicação de vitrectomia é a hemorragia vítrea que não cla- reia espontaneamente após um ano. 120 Exame de fundo de olho cap. 04Diabetes mellitus Figura 04: Retinopatia Diabética não proliferativa com edema macular clinicamente significativo. Hemorragias profundas e superficiais, exsudatos duros. Figura 05: Retinopatia Diabética não proliferativa com edema macular clinicamente significativo, em red free. Nota-se exsudatos duros, hemorragias e alterações vasculares. 121Exame de fundo de olho cap. 04 Diabetes mellitus Figuras 06 e 07: Fases precoce (6) e tardia (7) de angiofluoresceinografia mostram extravasamento tardio do contraste na área de edema macular, além de bloqueio causado pelas hemorragias. 122 Exame de fundo de olho cap. 04Diabetes mellitus Figura 08: Foto de fundo de olho mostra marcas de panfofocoagulação 123Exame de fundo de olho cap. 04 Hipertensão arterial sistêmica Hipertensão Arterial Sistêmica A hipertensão sistêmica afeta principalmente cé- rebro, coração, rins e olhos. É fator de risco para o aparecimento de oclusões vasculares da retina, para macroaneurismas, além de piorar uma reti- nopatia diabética pré-existente. Na maioria dos casos, as alterações de fundo de olho acontecem de maneira lenta e progressiva, sem afetar brus- camente a acuidade visual. Há vasoconstricção arteriolar generalizada da retina, com estreita- mento difuso dos vasos, além de espessamento da parede vascular alterando o reflexo desses va- sos. Numa fase posterior, com a degeneração da camada muscular dos vasos, há dilatação destes, causando quebra da barreira hematorretinia- na interna e extravasamento de substâncias de dentro dos vasos para a retina. Nesse momento surgem hemorragias superficiais e profundas, além de exsudatos duros e exsudatos algodo- nosos que podem levar a edema macular e a estrelas maculares (Figura 09). Eventualmente, sem o controle pressórico adequado, os vasos adquirem aspecto de fio de cobre, e num estágio mais avançado, ficam com aspecto de fio de pra- ta, quando a coluna de sangue nos vasos não é visível. Cruzamentos arteriovenosos patológicos surgem, como depressão da veia (sinal de Gunn) e deflexão da veia (sinal de Salus). A hipertensão sistêmica também pode afetar a coróide e o nervo óptico. As artérias da coróide sofrem vasoconstricção com o aumento da pressão, causando necrose fibrinóide da coriocapilar e epitélio pigmenta- do da retina. Áreas de EPR sobre a coriocapilar isquêmica ficam amareladas e são denomina- das “manchas de Elschnig agudas”. Posterior- mente, o EPR torna-se hiperpigmentado com apenas um halo hipopigmentado. Com a dis- função do EPR, descolamentos neurossenso- riais podem acontecer. A hipertensão severa também pode causar edema de papila, com dilatação e tortuosidade dos pequenos vasos do nervo. A diminuição da acuidade visual é causada por complicações relacionadas à hipertensão crôni- ca, como oclusões vasculares. Figura 09: Retinopatia hipertensiva. Exsudatos algodonosos, hemorragias e estreitamento arteriolar. 124 Exame de fundo de olho cap. 04Hipertensão arterial sistêmica Oclusões Vasculares Oclusão da artéria central da retina e oclusão de ramo da artéria central da retina Em pacientes com queixa de perda da acuidade visual abrupta, às vezes com história de amau- rose fugaz (perda repentina da visão com retor- no ao normal após poucos minutos), a acuidade visual está muito baixa, geralmente entre “conta dedos” e percepção luminosa. Ao exame ocular, o paciente pode apresentar defeito pupilarafe- rente (a pupila não mantém miose mesmo esti- mulada à luz). A retina apresenta danos irrever- síveis 1h30 após o início da oclusão. O fundo de olho aparece branco-amarelado, com exceção da fóvea. A fóvea tem irrigação independente do restante da retina, pela artéria cilio-retiniana, e assim, pode ainda manter a sua irrigação mesmo com a oclusão da artéria central. Ocasionalmen- te, um êmbolo pode ser visualizado na artéria. Essa opacificação retiniana pode se resolver em 4 a 6 semanas, resultando em vasos retinianos estreitados, em nervo óptico pálido e em altera- ção do reflexo do fundo de olho. Em aproximadamente 1 mês, 20% dos pacien- tes podem desenvolver neovascularização de íris, além de menor porcentagem de pacientes que podem desenvolver neovascularização de nervo óptico. Trombos, êmbolos, vasculite, es- pasmo são as principais causas da oclusão. Quando o ramo da artéria central da retina está ocluído, observa-se branqueamento da região irrigada por esta. Na grande maioria das vezes, o ramo obstruído é o temporal. Apesar de haver um defeito de campo residual, freqüentemente os pacientes preservam visão central. Oclusão de veia central da retina e oclusão de ramo da veia central de retina A oclusão de veia central da retina atinge ge- ralmente pacientes com mais de 65 anos. É ca- racterizada por perda súbita da visão, indolor. A acuidade visual na apresentação é importante fator prognóstico. Pacientes que têm acuidade visual melhor do que 20/40 na apresentação mantêm boa visão. O fundo de olho apresenta hemorragias superficiais e profundas nos quatro quadrantes, além de tortuosidade vascular. Com a evolução, as hemorragias diminuem, mas per- siste o edema macular. Alguns pacientes, após aproximadamente 100 dias da oclusão, podem desenvolver glaucoma, que acarreta aumento da pressão intra-ocular de difícil controle, além de complicações relacionadas a retinopatia pro- liferativa. Olhos que desenvolvem neovasculari- zação de íris ou de retina são tratados com pan- fotocoagulação. A oclusão de ramo venoso acomete pacientes da mesma faixa etária que na oclusão central, após 60 anos, envolvendo ambos os sexos na mesma proporção. Geralmente a obstrução acontece nos cruzamentos entre veia e artéria. No fundo de olho observam-se hemorragias na área do ramo ocluído. No seguimento, aparecem áreas de isquemia, dilatação de capilares, microaneu- rismas e vasos colaterais formando alças vascula- res. As complicações da oclusão de ramo incluem neovascularização de retina e edema macular, que são tratados por fotocoagulação. Macroaneurismas Macroaneurismas são dilatações arredondadas das arteríolas retinianas temporais (mais co- 125Exame de fundo de olho cap. 04 Hipertensão arterial sistêmica muns), mais freqüentes em mulheres e em hi- pertensos. Podem evoluir com hemorragias pré- retinianas, intra-retinianas, ou sub-retinianas, além de exsudação que pode envolver a mácula. O tratamento com laser é realizado naqueles ca- sos em que há comprometimento da mácula e conseqüentemente da visão. Buraco de mácula Causado por trauma ou idiopático, o buraco de mácula idiopático acomete mais o sexo feminino, a partir da 6ª década de vida. Observa-se buraco no centro da mácula, envolvendo assim a fóvea. A acuidade visual está diminuída, geralmente menor que 20/100. O tratamento é cirúrgico. Anemia Falciforme Na anemia falciforme, os pacientes sofrem de eventos vaso-oclusivos em todos os órgãos, principalmente em pulmão, rins, ossos, fígado e pele. A doença acomete mais freqüentemen- te a população pigmentada (principalmente a raça negra). Na retina, desenvolvem-se altera- ções periféricas típicas na fase não proliferativa como hemorragia em salmon patch (hemorragia pré-retiniana de coloração rosa), black sunburst (grânulos negros causados por hiperplasia de epitélio pigmentado), tortuosidade venosa, sinal da depressão macular (atrofia macular causada por oclusão vascular). Alguns pacientes desen- volvem oclusão de artéria central ou de ramo. Devido às complicações isquêmicas da anemia falciforme, os pacientes podem desenvolver áreas isquêmicas na retina e neovascularizações periféricas denominadas “seafan” (recebem esse nome devido à sua semelhança física com es- ponjas do mar). Coriorretinopatia Central Serosa Doença de causa indeterminada, atinge princi- palmente indivíduos do sexo masculino, com idade entre 30 a 50 anos. São pessoas com per- sonalidade do tipo A ou com história de uso de corticosteróide. A acuidade visual está diminuí- da e a visão é distorcida. Há um descolamento de retina seroso. É uma doença com resolução espontânea e bom prognóstico na maioria dos casos. Edema Cistóide de Mácula O edema cistóide de mácula pode estar asso- ciado a outras doenças já descritas como a re- tinopatia diabética e a degeneração macular relacionada a idade. Pode ser complicação de cirurgia de catarata, aparecendo 4 a 16 semanas depois do procedimento, mesmo em cirurgias sem complicações. A mácula tem um edema de aspecto petalóide. O tratamento é com anti-in- flamatórios não-hormonais tópicos e esteróides intra-vítreos. Descolamento de retina regmatogênico O paciente tem queixa de perda de campo, de escurecimento de um quadrante da visão (sen- sação de “cortina”) ou de perda da acuidade vi- sual. O descolamento pode estar relacionado com trauma, com alta miopia ou com doenças associadas a formação de roturas periféricas ou a alterações do vítreo, e a maior parte do casos ocorre espontaneamente. O tratamento pode ser: injeção de gás, introflexão escleral ou vitrec- tomia. 126 Exame de fundo de olho cap. 04Auto-avaliação Auto-avaliação 1. Assinale a alternativa incorreta: a. A retina é responsável por transformar os estí- mulos luminosos em impulsos elétricos para se- rem transportados para o cérebro. b. Na retina a imagem é formada invertida para somente no cérebro ser interpretada da maneira correta. c. A nutrição da retina e da coróide é feita pela artéria central da retina. d. A mácula está localizada temporalmente ao nervo óptico. e. Os ramos inferior e superior da artéria tempo- ral da retina delimitam o pólo posterior. 2. Assinale a alternativa incorreta: a. A retinopatia diabética é a principal causa de cegueira na população economicamente ativa. b. A principal causa de diminuição de visão na retinopatia diabética não proliferativa são as he- morragias. c. Hipertensão sistêmica arterial é fator de ris- co para oclusões vasculares, macroaneurismas, além de piorar retinopatia diabética pré-existen- te. d. Descolamentos de retina normalmente aco- metem olhos sem doença ocular prévia. e. Corrioretinopatia central serosa atinge princi- palmente o sexo masculino. 3. Assinale a alternativa com as afirmações cor- retas: I. No fundo de olho a imagem forma-se invertida. II. No fundo de olho, o nervo óptico encontra-se temporal a mácula. III. Há dois tipos de fotorreceptores, cones e bas- tonetes, que formam a camada mais anterior da retina. IV. Os bastonetes são os fotorreceptores presen- tes na fóvea. a. Todas as alternativas são corretas. b. Somente as alternativas II e III são corretas. c. Somente a alternativa II é correta. d. Somente a alternativa I é correta. e. Somente as alternativas II e IV são corretas. 4. Assinale a alternativa incorreta: a. Diabéticos do tipo 1 e 2 desenvolvem retino- patia depois de muitos anos de doença. b. A principal causa de diminuição da visão nos pacientes com retinopatia diabética não prolife- rativa é o edema de mácula. c. O único tratamento disponível para retinopa- tia diabética proliferativa é a cirurgia. d. Pacientes com diabetes tipo 1 devem realizar o primeiro exame de fundo de olho no máximo 5 anos após o diagnóstico da doença. e. Pacientes monoculares, grávidas, ou que serão submentidos a cirurgia de catarata ou capsulo- tomia devem ser tratados da retinopatia preco- cemente. 5. A hipertensão arterial sistêmica (HAS): a. Afeta principalmentecérebro, coração, rins e olhos. b. Causa alterações de fundo do olho precoce- mente, levando a queda abrupta de visão. c. Quando afeta o olho, causa lesão apenas da retina. d. Causa o aparecimento de fios de cobre e de prata no fundo do olho, nas fases iniciais da do- ença. e. Pode causar vasodilatação no exame de fundo de olho já no início da doença. 127Exame de fundo de olho cap. 04 Auto-avaliação 6. Assinale a alternativa correta: a. Na oclusão da artéria central da retina a acui- dade visual é ausência de percepção luminosa. b. Oclusão de artéria central de retina acomete mais o sexo masculino. c. Após a oclusão da artéria central, a retina intei- ra fica pálida. d. Alguns pacientes desenvolvem glaucoma neo- vascular 30 dias depois da oclusão da veia cen- tral da retina. e. A neovascularização de retina é tratada com panfotocoagulação. 7. Assinale a alternativa incorreta: a. Edema cistóide de mácula pode ser complica- ção de cirurgia de catarata. b. Coriorretinopatia central serosa é uma doença de causa indeterminada, que atinge mais comu- mente pessoas do sexo masculino, entre 30 e 50 anos. c. No descolamento de retina, os sintomas sur- gem somente depois que a retina descolou total- mente, causando diminuição da acuidade visual. d. Na anemia falciforme, os pacientes podem so- frer eventos vaso-oclusivos em diversos órgãos, entre eles pulmão, rins, ossos, fígado, olhos e pele. e. A acuidade visual nos pacientes acometidos por buraco de mácula está diminuida e o trata- mento é cirurgico. 8. São achados da retinopatia diabética não pro- liferativa: a. Microaneurismas, arteríolas em fio de prata, neovasos de disco. b. Hemorragias intrarretinianas, microaneuris- mas, neovasos de disco. c. Exsudatos duros, exsudatos algodonosos, he- morragias intrarretinianas. d. Microaneurismas, exsudatos algodonosos, neovasos de disco. 9. São considerados fatores de risco para retino- patia diabética, exceto: a. Raça amarela. b. Uso de insulina. c. Tempo de evolução do diabetes. d. Controle metabólico irregular. 10. São achados fundoscópicos que sugerem au- mento agudo da pressão arterial, exceto: a. Borramento da papila. b. Descolamento de retina exsudativo. c. Cruzamentos arterio-venosos patológicos. d. Exsudatos algodonosos. 11. É correto afirmar que: a. As principais alterações oculares da hiperten- são arterial sistêmica ocorrem na parte anterior do olho. b. O cruzamento arterio-venoso patológico na retina caracteriza a fase maligna da hipertensão arterial sistêmica. c. A hipertensão arterial sistêmica está associa- do a um risco aumentado de oclusão de ramo da veia central da retina. d. O edema de papila ocorre exclusivamente em doenças neurológicas. 129Perda visual aguda cap. 05 Introdução Introdução Ricardo Suzuki Entende-se como perda aguda da visão a redu- ção rápida e significativa da acuidade visual num curto espaço de tempo. Não existe na literatura uma classificação exata do tempo e da intensi- dade da redução da visão baseada nos métodos clássicos (como a Tabela de Snellen), caracteri- zando a perda aguda. Dessa forma, a anamnese é fundamental, pois através dela caracteriza-se o quadro clínico. Sempre é importante verificar se o episódio é uni ou bilateral; se é transitório ou não; se ocorreu subitamente ou manifestou-se em horas, dias ou semanas; se acometeu o centro da visão ou parte dela na periferia; se foi acom- panhado de algum fator desencadeante, como traumas; se existe alguma doença sistêmica as- sociada em descontrole, como HAS, diabetes; se acompanha dor ocular ou não. É interessante questionar o paciente se recentemente realizou algum exame oftalmológico, porque não são ra- ras as situações em que o paciente descobre a baixa acuidade visual antiga somente na ocasião da avaliação ao ocluir o melhor olho (diferenciar de ambliopia). De forma geral, trata-se de uma situação de ur- gência e, em alguns casos, de emergência clíni- ca, devendo, sempre que possível, ser iniciado o tratamento o quanto antes visando a total recu- peração da acuidade visual. Podemos classificar as causas mais freqüentes para a perda aguda de visão da seguinte forma: 1. Opacidades de meio 2. Doenças da retina 3. Traumas 4. Doenças de causa neuroftálmica 130 Perda visual aguda cap. 05Opacidade de meio Opacidade de meio Ricardo Suzuki Qualquer opacidade de meio que surge de uma forma repentina pode levar à redução rápida da visão. Iniciando pelo segmento anterior, o edema de córnea, independentemente de sua causa, deve sempre ser considerado. A depen- der da intensidade e da posição anatômica do edema, a perda visual será maior ou menor. Em geral, a queda da visão ocorre em algumas ho- ras, de maneira progressiva (durante a formação do edema), afetando a visão em toda sua ex- tensão. Descartando-se as causas traumáticas, deve-se lembrar das hipóxias, das infecções, das inflamações e dos aumentos súbitos da pressão intra-ocular como causas do edema corneano. O tratamento na maioria das vezes é clínico (colí- rios), dependendo de sua causa primária. Alguns colírios hiperosmolares ajudam a reduzir o ede- ma corneano por simples difusão, melhorando, assim, sua transparência. Edema corneano Uma das causas mais comum de edema corne- ano é o aumento súbito da pressão intra-ocu- lar (PIO), principalmente nos casos de glauco- ma agudo. A elevação abrupta da PIO leva a transudação de líquido através do endotélio corneano, refletindo por todas as camadas até atingir o epitélio formando o chamado edema microbolhoso. Ess e edema é reversível quan- do se reduz a PIO aos níveis normais. O uso inadequado das lentes de contato tam- bém pode levar ao edema corneano, seja por isquemia (quando as lentes rígidas são erro- neamente adaptadas de uma forma muito apertada) ou por algum processo infeccioso, como a úlcera corneana. Seja qual for o caso, é fundamental descontinuar o uso das lentes de contato, associando ou não o uso de antibióti- cos tópicos quando necessário. Qualquer infecção corneana, seja viral, bacte- riana ou fúngica que evolua para úlcera, pode mimetizar o edema corneano. O aspecto clíni- co, além dos exames laboratoriais, pode elu- cidar o agente etiológico e direcionar o trata- mento. Sangramentos extensos também levam à redu- ção abrupta da visão. Tanto no segmento anterior (hifemas) como no posterior (hemorragias vítre- as), de etiologias variadas, o resultado é sempre a perda súbita da visão. Nesses casos, a redução abrupta da visão também ocorre de alguns mi- nutos a horas. No caso dos hifemas, caracteriza- se como uma perda no setor inferior, podendo progredir superiormente; já nas hemorragias vítreas, nota-se uma perda difusa em todos os setores. Na grande maioria das vezes, a melho- ra da visão ocorre de forma espontânea com a absorção da hemorragia. Essa absorção ocorre mais rapidamente quando o sangramento é no segmento anterior, se comparado com os san- gramentos na cavidade vítrea. Assim, a acuidade visual tende a melhorar de forma mais precoce nos casos dos hifemas. Pode-se optar pela remo- ção cirúrgica da hemorragia quando for conve- niente (impregnação corneana, descolamentos da retina associados, etc.). Os hifemas podem ser originados de forma es- pontânea após uma cirurgia intra-ocular, após um trauma contuso e em olhos com neovas- cularização de íris (tumores, diabetes, oclusões venosas retinianas, doenças crônicas). Esse sangramento pode preencher toda a câmara anterior (hifemas totais ou “bola oito”) ou par- cialmente. Evidentemente, os hifemas totais vão provocar redução da acuidade visual mais significativa que os hifemas parciais. De qual- quer forma, a perda visual inicia-se na região inferior progredindo superiormente devido à 131Perda visual aguda cap. 05 Opacidade de meio própria ação gravitacional do sangue deposi- tado. A grande complicação dos hifemas é sua associação com a elevação da PIO levando ao glaucoma principalmente nos totais. O tratamentodeve ser inicialmente de prefe- rência clínico, podendo ser necessário cirurgia. Clinicamente, a administração de esteróides tópicos promove mais conforto e diminui qualquer processo inflamatório associado. Atropina tópica também é recomendada para diminuir a dor e facilitar o exame fundoscópi- co quando necessário. Alguns sugerem o uso de ácido amino-capróico com a finalidade de se evitar o ressangramento. O ácido amino-ca- próico previne a retração do coágulo de forma rápida permitindo o reparo do vaso sangüíneo lesado. É importante evitar qualquer medica- ção que tenha uma ação antiplaquetária como o AAS e antiinflamatórios não hormonais. Em casos de hifema pós-trauma, freqüentemente o ressangramento pode ocorrer em 1 a 2 dias após o trauma. Se ocorrer aumento da PIO as- sociado, drogas hipotensoras devem ser ini- ciadas. Lembrar que em casos de hifemas em portadores de anemia falciforme, as drogas hipotensoras com ação inibidora da anidrase carbônica devem ser evitadas por provocarem ou piorarem a crise de falcização. Cirurgicamente, devemos realizar a remoção do sangue da câmara anterior nas seguintes situações: casos em que esteja ocorrendo im- pregnação corneana; hifemas totais por mais de 2 dias ou parciais com grandes coágulos por 5 a 6 dias; e PIO descontrolada. Nesse últi- mo caso, além de se realizar a lavagem da câ- mara anterior com solução salina balanceada, deve-se realizar também algum tipo de cirur- gia filtrante. Uma alternativa cirúrgica menos invasiva é a injeção de TPA (fator ativador do plasminogênio tecidual) intracameral. O TPA é uma droga fibrinolítica de ação rápida que apresenta benefícios significativos em casos de hifemas parciais. Entretanto, deve ser usa- do com cautela por poder causar ressangra- mentos. As hemorragias vítreas também podem ser causadas por trauma contuso, mas freqüen- temente estão associadas às complicações de patologias retinianas. Qualquer retinopatia vascular pode levar ao sangramento para a cavidade vítrea. Como o sangramento geral- mente é difuso, a perda visual também o será. Dependendo do grau do sangramento, a visão pode diminuir desde a algumas linhas na Tabe- la de Snellen até a percepção luminosa. Nesses casos de sangramentos abundantes, é neces- sária a ultra-sonografia ocular para se avaliar a integridade das estruturas do pólo posterior. Desde que haja integridade das estruturas do pólo posterior, o tratamento pode ser con- servador. Pode-se aguardar a absorção dessa hemorragia naturalmente. Se houver compro- metimento retiniano (descolamentos), a cirur- gia deve ser prontamente considerada; ou em casos de olho único (quando o olho adelfo é cego), mesmo com integridade retiniana. En- tretanto, alguns indicam a cirurgia em todos os casos, pois acreditam evitar futuras compli- cações que o próprio sangramento eventual- mente possa provocar. A absorção do sangramento de forma natural ocorre mais rapidamente se o sangramento é no segmento anterior quando comparado com os sangramentos na cavidade vítrea. Des- sa forma, a acuidade visual tende a melhorar de maneira mais precoce nos casos dos hife- mas. 132 Perda visual aguda cap. 05Doenças da retina Doenças da retina Ricardo Suzuki A retina é uma das estruturas mais complexas e delicadas do aparelho ocular. É responsável pela captação da imagem e sua transformação em sinal elétrico, o qual será enviado pelo ner- vo óptico ao SNC (sistema nervoso central), onde será interpretado na forma de imagem. Portanto, qualquer alteração estrutural e/ou funcional da retina provoca perda visual, podendo ou não ser reversível. a. Descolamento da retina O descolamento da retina reduz abruptamente a visão. A queda da visão depende do setor da re- tina em que ocorreu o descolamento (central e/ ou periférico). Quando a retina desloca-se da sua posição natural, ou seja, quando perde o contato com a coróide, imediatamente perde sua função. Quanto maior o tempo que ela fica descolada, maior será sua lesão, comprometendo de ma- neira irreversível sua função, mesmo depois de tratada. Portanto, trata-se de uma situação de ur- gência, e o tratamento deve ser realizado o mais rápido possível. O descolamento pode ser classificado quanto a sua fisiopatologia: (Figura 01) 1. Regmatogênico: ocorre quando se forma es- pontaneamente um buraco na espessura da retina em sua totalidade, e por esse orifício um líquido penetra no espaço entre a coróide e a re- tina, levando ao descolamento desta. 2. Exsudativo: ocorre quando existe um proces- so inflamatório entre a coróide e a retina, o qual causa acúmulo de líquido resultante da inflama- ção (exsudação), o que leva ao descolamento da retina. 3. Tracional: ocorre quando existe uma prolifera- ção fibroelástica no vítreo, tracionando a retina, levando à formação de buracos nesta e seu des- colamento. O tratamento sempre é cirúrgico nos casos reg- matogênicos e tracionais,existindo diferentes técnicas a depender da natureza do descola- mento. 133Perda visual aguda cap. 05 Doenças da retina Figura 01 134 Perda visual aguda cap. 05Doenças da retina Nos casos de descolamentos exsudativos (p.ex. doença de Vogt-Koyanagi-Harada), ao se dimi- nuir o processo inflamatório, o descolamento tende a melhorar, não necessitando de interven- ção cirúrgica. Nos casos de descolamentos regmatogênicos, sem a associação de trações vítreoretinianas, é fundamental o exame detalhado da retina. O mapeamento da retina até o limite máximo possível da periferia é extremamente importan- te e tem como objetivo identificar a(s) rotura(s) existente(s) para um bom planejamento cirúrgi- co. Ao se identificar a rotura, planeja-se a cirur- gia. Se a rotura estiver localizada superiormente, a injeção de gás expansivo (SF 6 ou C 3 F 8 ) pode ser uma alternativa, minimizando o trauma cirúrgi- co. Como o gás é menos denso que o vítreo, ten- de a localizar-se na região superior, bloqueando a rotura pela própria tensão superficial. Assim, o líquido sub-retiniano naturalmente será absorvi- do, colocando a retina em sua posição original. Posteriromente, é necessário fotocoagular as bordas da rotura com laser de argônio ou diodo levando a reação inflamatória, selando a rotura. Em casos de roturas inferiores ou mais extensas, é necessário intervenção cirúrgica mais invasi- va. Realiza-se a introflexão escleral, ou seja, uma identação escleral em direção à cavidade vítrea com um anel de silicone no exato local da rotura retiniana. Desta forma, promove-se o bloqueio da rotura mecanicamente. Concomitantemente ao posicionamento do anel escleral, deve-se dre- nar o líquido sub-retiniano através da coróide e da esclera para fora do globo ocular. Indução da inflamação nas bordas da rotura deve ser realiza- da através da criocoagulação para selar a mesma. Finalmente, nos casos de descolamentos tracio- nais, utiliza-se a técnica de vitrectomia. Basica- mente, trata-se de uma “mini-laparoscopia” com microinstrumentos cirúrgicos com a finalidade de se remover todo o vítreo e as proliferações fibroelásticas que provocaram o descolamento. Em todos os casos, a recuperação visual irá de- pender da gravidade da lesão e, principalmente, do tempo em que foi iniciado o tratamento. 135Perda visual aguda cap. 05 Doenças da retina b. Doença macular relacionada à idade (DMRI) A doença macular relacionada à idade, ou DMRI, é caracterizada pela formação de vasos sangüí- neos anômalos no espaço sub-retiniano. Ocorre exsudação de substâncias que vão se localizar entre as camadas da retina e assim diminuir a vi- são. Trata-se de uma situação em que a perda vi- sual não é aguda, porém progressiva. Em alguns casos, pode haver um sangramento, e com isso, piora abrupta da visão. Pela sua localização ana- tômica, a redução da visão é na maior parte dos casos central. O tratamento atualmente ainda não é satisfató- rio, e a recuperação visual, quando ocorre, é bas- tante reservada. Este assunto será abordado detalhadamenteno tema “doença macular relacionada à ida- de” no capítulo “Perda Crônica da Visão”. c. Oclusões vasculares As oclusões vasculares podem ser divididas em: a. oclusão total ou parcial da artéria central da retina b. oclusão total ou parcial da veia central da re- tina As oclusões parciais apresentam um prognóstico melhor por afetarem áreas menores da retina. Os casos de oclusão arterial são mais graves por resultarem em isquemia total ou parcial da reti- na, levando à perda da função do local acometi- do. Dessa forma, pode-se notar a perda visual na região central ou em setores periféricos sempre de uma forma abrupta. A oclusão arterial pode ser causada pela migração de um trombo ou de um êmbolo, o que interrompe o fluxo sangüíneo para o tecido retiniano. Pode ocorrer também oclusão da artéria central por espasmo, devido ao aumento súbito e extremamente elevado da pressão intra-ocular, ou por compressão externa, decorrente de uma hemorragia retrobulbar. O achado fundoscópico típico é o aspecto es- branquiçado da retina acometida devido ao edema resultante da falta da irrigação sangüí- nea. Muitas vezes, a fóvea é preservada por ser irrigada por ramos independentes. Dessa forma, a coloração alaranjada é preservada, destacando-se em contraste com a região aco- metida (esbranquiçada) levando ao aspecto “em cereja”. Quando as artérias cílio-retinianas não são acometidas, a visão central pode ser preservada. O tratamento nem sempre é satisfatório, e de- pende da causa da oclusão. Se for por trombos, alguns sugerem o tratamento através de massa- gem ocular na expectativa de estimular a migra- ção do trombo e assim restabelecer a circulação sangüínea. Paracentese da câmara anterior pode ser efetuada para reduzir a PIO facilitando, assim, a reperfusão. Algumas horas podem fazer muita diferença em termos de prognóstico visual. Uso de acetazolamida via oral e paracentese da câmara anterior podem ser medidas a se- rem tomadas para se reduzir a PIO facilitando, assim, a reperfusão. As oclusões venosas levam a perda da visão por um mecanismo diferente das arteriais. Nesses ca- sos, ocorre um sangramento retiniano impedin- do a captação da imagem. Entretanto, da mes- ma forma que nas oclusões arteriais, as perdas visuais vão depender do setor da retina que foi acometido. Em geral, os sintomas também são percebidos de maneira bastante rápida. Em uma porcentagem menor, podem ocorrer, além do sangramento, episódios isquêmicos associados (esses casos têm um prognóstico mais reserva- do). 136 Perda visual aguda cap. 05Doenças da retina O achado fundoscópico característico é a pre- sença de hemorragias “em chama de vela”, as- sociadas às tortuosidades vasculares, exsuda- tos duros e algodonosos na região anterior à oclusão. O tratamento é mais conservador, devendo-se aguardar a absorção da hemorragia. Em casos de isquemia associada, é importante verificar perio- dicamente a estrutura retiniana, pois pode haver indução da formação de vasos anômalos, prolife- ração vítreoretiniana e descolamento da retina. As complicações mais importantes que uma oclusão de ramo venoso pode ocasionar são: edema macular crônico e neovascularização secundária na retina. 137Perda visual aguda cap. 05 Traumas Traumas Ricardo Suzuki Traumas em geral podem ser divididos em: pe- netrantes e não penetrantes. Os traumas não perfurantes podem causar redu- ção da acuidade visual por sangramentos (hife- mas ou hemorragias vítreas), edema corneano, descolamentos de retina, lesão do nervo óptico, das vias ópticas e do SNC. Quando ocorre perfu- ração, toda a estrutura lesada pode perder total ou parcialmente sua função, e a reconstrução do globo ocular cirurgicamente é fundamental para se tentar restabelecer a acuidade visual. Todas as penetrações (corneanas, esclerais, cristalinianas, retinianas) devem ser tratadas e deve-se afas- tar a possibilidade de haver corpos estranhos intraoculares. Dependendo da sua natureza, o simples contato do corpo estranho com as estru- turas oculares pode levar a prejuízos funcionais, devendo sempre ser retirados nessas ocasiões. O prognóstico irá depender da intensidade e da gravidade das lesões considerando o imediato pronto atendimento. Este tema será abordado com mais detalhes no capítulo 8 - Pronto Socorro em Oftalmolo- gia. 138 Perda visual aguda cap. 05Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica Mário Luiz Ribeiro Monteiro Introdução Perda súbita da visão é um quadro sindrômico extremamente importante de ser reconhecido. O seu diagnóstico diferencial é importante pela gravidade das afecções causadoras e pela neces- sidade de diagnóstico e tratamento precoces. A perda súbita e permanente da visão deve ser diferenciada de perda transitória da visão (amaurose fugaz), seja ela de um ou de ambos os olhos, e exige um diagnóstico diferencial diverso daquele que aqui discutiremos. Quando estamos diante de um quadro de per- da súbita da visão, de maneira geral, devemos considerar a perda súbita envolvendo um dos olhos e aquela que acomete os dois olhos, sendo o diagnóstico diferencial distinto nos dois casos. Perda súbita monocular da visão As causas de perda súbita e monocular da visão incluem afecções oculares como a oclusão da ar- téria central da retina, o descolamento de retina, a oclusão de veia central e outras doenças ocula- res. Do ponto de vista neuroftalmológico devem ser lembradas duas condições extremamente importantes que são a neuropatia óptica isquê- mica e a neurite óptica. Neuropatia óptica isquêmica A neuropatia óptica isquêmica representa o in- farto do nervo óptico e acomete indivíduos ido- sos. A afecção mais comumente acomete a por- ção anterior do nervo óptico, visível à oftalmos- copia, sendo denominada “neuropatia óptica is- quêmica anterior” (NOIA). Essa forma representa 90% dos casos de neuropatia óptica isquêmica. Menos comumente, lesões isquêmicas acome- tem as porções posteriores do nervo óptico, sen- do tal afecção denominada “neuropatia óptica isquêmica posterior” (NOIP). A NOIA pode ser classificada em NOIA arterítica (NOIA-A), geralmente causada por arterite tem- poral (mas também podendo ser manifestação de outras vasculites), que representa 10 a 20% dos casos, e NOIA não arterítica (NOIA-NA), que constitui a maioria dos casos. Tais pacientes ge- ralmente apresentam fatores de risco para arte- riosclerose como hipertensão arterial, diabetes, hipercolesterolemia, etc., mas a afecção também pode ocorrer em indivíduos idosos ou de meia idade, sem tais condições. Acredita-se que fato- res anatômicos predisponentes do disco óptico (discos pequenos) sejam importantes na sua gênese. Muitos desenvolvem a perda visual ao acordar e acredita-se que um dos fatores desen- cadeantes possa ser a hipotensão noturna. Ou- tras causas menos comuns de NOIA-NA são dis- túrbios hemodinâmicos e hematológicos como choque, hipertensão maligna, enxaqueca e vas- culopatia por irradiação. Tipicamente ocorre em pacientes acima de 50 anos que referem perda visual súbita e indolor acometendo a visão central ou partes do campo visual, em especial o campo visual inferior. Na maioria dos casos não há sintomas precedendo a perda visual, mas naqueles com arterite tempo- ral pode haver obscurecimentos transitórios da visão alguns dias antes da perda. A maioria dos pacientes tem perda súbita (geralmente ao acor- dar), embora em alguns possa haver progressão do déficit visual nas primeiras seis semanas. 139Perda visual aguda cap. 05 Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica Figura 02 Geralmente, na forma arterítica, a perda visual é mais grave do que na NOIA-NA. O exame do campo visual mostra defeito que geralmente é do tipo altitudinal (defeito que res- peita o meridiano horizontal, mais comumente acometendo o campo visual inferior). Outras al- terações campimétricas também são possíveis. Ao fundo de olho se observa,na fase aguda, ede- ma de papila usualmente associado a hemorra- gias peripapilares (Figura 02). O edema de papila geralmente cede após algu- mas semanas sendo substituído por atrofia ópti- ca em graus variáveis dependendo da gravidade do quadro isquêmico. A perda visual geralmente é permanente e a maior ênfase deve ser na de- tecção da arterite temporal e de fatores de ris- co para arteriosclerose no sentido de reduzir a chance de acometimento do olho contralateral. Quanto à fisiopatogenia, poucos são os estudos anatomopatológicos em pacientes com NOIA, os quais geralmente foram realizados em casos de arterite temporal. Vários autores demonstraram a presença de infarto do nervo óptico na região da lâmina cribriforme e retrolaminar e documen- taram o envolvimento inflamatório das artérias ciliares posteriores curtas, além de outras arté- rias orbitárias em pacientes com arterite tempo- ral. Acredita-se, portanto, que a NOIA-A seja cau- sada pela oclusão das artérias ciliares posteriores curtas. Por outro lado, a fisiopatogenia da NOIA- NA, não é conhecida na sua totalidade. Embora a oclusão das artérias ciliares posteriores curtas por trombo ou êmbolo seja possível, acredita-se que a hipoperfusão temporária dos vasos nu- trientes das porções anteriores do nervo óptico e coróide peripapilar seja o mecanismo fisiopa- togênico mais comum e que resulte em hipoper- fusão e isquemia da cabeça do nervo óptico. A doença parece multifatorial com fatores pre- disponentes sistêmicos e locais e fatores desen- cadeantes da afecção. Acredita-se que a doença possa ser desencadeada por episódios de hipo- tensão noturna e poderia também precipitada por episódios de apnéia obstrutiva. Os fatores predisponentes sistêmicos nessa afecção in- cluem: suprimento sangüíneo reduzido; defeito na auto-regulação do fluxo sangüíneo na cabe- ça do nervo óptico; alterações vasoespásticas; presença de arteriosclerose sistêmica; e diabetes mellitus. Acredita-se que exista também uma predisposição anatômica, geralmente discos óp- ticos pequenos. O tratamento da NOIA-A deve ser considerado uma emergência médica. A boa resposta ao corti- cóide e a melhora da evolução com o tratamento precoce tornam o início imediato e agressivo do tratamento como o objetivo a ser atingido após a realização do diagnóstico. A história natural da doença mostra que o acometimento do olho contralateral ocorre em 25 a 50% dos pacientes alguns dias ou semanas após o envolvimento do primeiro olho, se o tratamento adequado não for iniciado ou se o mesmo for suspenso enquanto a doença ainda está em atividade. Corticosteróides por via oral, habitualmente a prednisona na dosagem de 60 a 120 mg por dia (1 a 2 mg/kg/dia) devem ser iniciados de imedia- to, assim que se suspeita do diagnóstico e logo após a colheita dos exames laboratoriais (princi- 140 Perda visual aguda cap. 05Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica Figura 03 palmente o VHS e a proteína C reativa). A con- firmação através da biópsia da artéria temporal (Figura 03) deve ser realizada assim que possível, mas não deve retardar a introdução do corticói- de. O tratamento é feito na tentativa de se evitar a perda visual no olho contralateral e deve se pro- longar por vários meses, por vezes anos, devendo ser feito conjuntamente com o médico clínico.O tratamento pode também ser feito na forma de pulsoterapia com corticóide endovenoso (metil- prednisolona 1000 mg/dia) por 3 dias, seguido de prednisona por via oral, especialmente nos ca- sos de perda visual recente. Alguns autores obser- varam reversão do déficit visual após esse tipo de tratamento. Essa melhora no entanto é a exceção e na grande maioria das vezes o tratamento visa apenas a prevenir a perda visual contralateral. A terapia de manutenção deve ser mantida em doses de 1 a 2 mg/kg/dia por pelo menos 4 a 6 semanas até a normalização dos sintomas sistê- micos e dos marcadores laboratoriais e seguido de uma redução gradual ao longo de 12 a 18 meses, de início reduzindo aproximadamente 10 mg por mês e depois 5 mg por mês até atingir a dose de 10 a 15 mg por dia. Posteriormente, a redução deve ser muito lenta, sempre monito- rada pelos exames laboratoriais “velocidade de hemossedimentação” e “proteína C reativa”. Quanto ao tratamento da NOIA não-arterítica poucas são as evidências de que o tratamento clínico seja eficaz. Apesar disso a maioria dos au- tores utiliza prednisona por via oral na fase agu- da. O maior esforço diz respeito à tentativa de prevenção do acometimento do olho contralate- ral em indivíduos com NOIA-NA. Alguns estudos sugerem que a aspirina possa reduzir o risco de acometimento do olho contrateral. Habitualmente os pacientes devem ser avalia- dos quanto a fatores de risco para arterioscle- rose incluindo diabetes, hipertensão arterial, hipercolesterolemia etc. É importante tratar tais condições mas deve-se orientar o clínico para evitar tratamento agressivo da hipertensão arte- rial, especialmente com medicações que possam provocar hipotensão noturna, uma vez que vá- rios autores acreditam que este possa ser um dos eventos desencadeantes da NOIA-NA. Deve-se também pesquisar a presença de apnéia obstru- tiva do sono já que esta condição tem sido consi- derada como um dos possíveis desencadeantes da NOIA-NA. Neurite óptica Utiliza-se o termo “neurite óptica” para designar doenças causadas por inflamação, infecção ou desmielinização do nervo óptico e suas bainhas. A designação, portanto, engloba condições des- mielinizantes, imunomediadas, infecciosas, idio- páticas, decorrentes de inflamações de tecidos vizinhos (seios paranasais, cérebro, meninges e órbita), inflamações granulomatosas e infecções por extensão da retina. “Papilite” é o termo usa- do para a forma de neurite óptica que cursa com edema de papila. Quando o exame clínico indica neurite óptica e o fundo de olho é normal, o ter- mo “neurite óptica retrobulbar” é utilizado. A neurite óptica pode ser o resultado de proces- sos infecciosos e inflamatórios como sífilis e sar- 141Perda visual aguda cap. 05 Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica Figura 04 Figura 05 coidose, mas geralmente é de causa idiopática resultante de evento desmielinizante do nervo óptico. A forma idiopática da neurite óptica é um fator de risco bem conhecido para esclero- se múltipla. Mais de 50% desses casos evoluirão para esclerose múltipla, e a ressonância magné- tica pode ter um papel importante na identifica- ção dos pacientes mais susceptíveis. A neurite óptica é mais comum em mulheres com idade entre 18 e 40 anos. Os pacientes refe- rem perda visual que evolui ao longo de alguns dias. Em torno de 90% dos casos há dor perio- cular ou retro-ocular que precede ou acompa- nha a perda visual, muitas vezes piorando com a movimentação ocular. A perda visual pode ser discreta ou grave. O campo visual mostra vários tipos de defeitos, sendo o mais característico o escotoma central ou cecocentral. Ao fundo de olho observa-se edema de papila (Figura 04) ou aspecto normal dependendo de acometimento do nervo óptico ser anterior, próximo à esclera (papilite) ou envolver as porções mais posterio- res do nervo (neurite retrobulbar). Neurorretinite é uma variante de neurite óptica que pode ter perda visual semelhante à papilite e à neurite retrobulbar, mas o fundo de olho re- vela edema de papila com exsudatos maculares ou peripapilares (Figura 05). Muitos casos podem ser devidos a processos infecciosos tais como in- fecções virais, sífilis e doença da arranhadura do gato. O prognóstico visual geralmente é bom e o diagnóstico é importante uma vez que não há relação com doença desmielinizante. O diagnóstico da neurite óptica é feito com base na história e nos achados clínicos. Os pacien- tes referem uma perda aguda ou subaguda da visão, com dificuldade na percepção de cores (especialmente objetos vermelhos). Dor à mo- vimentação ocular é muito freqüente e, em ge- ral,precede a perda visual por alguns dias, mas pode se iniciar junto à perda da visão. A perda visual é geralmente unilateral, mas pode ser bi- lateral, especialmente em crianças e tipicamen- te progride até atingir um máximo após alguns dias. A acuidade visual pode ser normal (20/20), discretamente reduzida ou até haver ausência de percepção luminosa. A perda visual pode ser de evolução muito rápida (em poucas horas), em um a dois dias, em três a sete dias ou ainda evo- luir um pouco mais lentamente, até uma a duas semanas. O exame revela redução da acuidade visual, alteração na visão de cores, defeito de 142 Perda visual aguda cap. 05Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica Figura 06 campo visual e um defeito pupilar aferente rela- tivo. A perda do senso cromático, com diminui- ção da intensidade das cores saturadas, está qua- se sempre presente. O exame das pupilas revela um defeito pupilar aferente. O campo visual mostra defeitos característicos, principalmente os escotomas centrais ou ce- cocentrais. Outros tipos de defeito, no entanto, também podem estar presentes. Não é incomum observarmos defeitos difusos (depressão gene- ralizada dos 30 graus centrais) e defeitos focais. O fundo de olho pode ser normal em quase dois terços dos pacientes. Nesses casos, o paciente apresenta uma neurite retrobulbar. Quando o edema está presente o paciente apresenta uma papilite. Hemorragias são incomuns, e o edema de papila geralmente não é muito intenso. Ex- sudatos retinianos podem ocorrer nos pacien- tes com neurorretinite. Após algumas semanas o edema de papila tende a resolver, geralmen- te acompanhado de perda da camada de fibras nervosas e palidez de papila. Os exames de imagem são importantes no diag- nóstico da neurite óptica bem como no seu diagnóstico diferencial com outras neuropatias. A tomografia computadorizada (TC) é utilizada geralmente para afastar lesões compressivas da órbita ou do crânio. A imagem por ressonância magnética (IRM) pode exibir lesão hiperintensa nas seqüências enfatizando T2 (Figura 06). A visibilização das alterações é melhor com se- qüências que suprimem gordura e após a admi- nistração de gadolíneo. A obtenção da imagem com técnicas de supressão do sinal da gordura melhora a sensibilidade do exame para detec- ção das alterações nos nervos ópticos e permite visibilizar a alterações no nervo na maioria dos pacientes. A IRM é também importante para ve- rificar a associação com esclerose múltipla (EM). Cerca de 50% a 70% dos pacientes com neurite óptica isolada apresentam lesões desmielinizan- tes multifocais, hiperintensas em T2, no corpo caloso, na substância branca periventricular ou em outras partes do encéfalo, clinicamente as- sintomáticas. Observa-se que em torno de 56% dos pacientes com lesões à IRM desenvolvem EM após um ano, enquanto que apenas 16% daque- les sem lesões encefálicas apresentam tal afec- ção. Os estudos do líquido cerebrorraquiano (LCR) podem demonstrar aumento de celularidade e do conteúdo protéico, com níveis elevados de gamaglobulina e presença de bandas oligoclo- nais. Esses achados estão presentes particular- mente nos pacientes com neurite óptica associa- da a doença desmielinizante. O exame do LCR é importante porque pode dar informações a res- peito da associação com EM e pode também au- xiliar na diferenciação com outros diagnósticos. O tratamento da neurite óptica tem sido objeto de muita controvérsia ao longo dos anos. Obser- va-se, na grande maioria dos casos, uma tendên- cia a melhora espontânea. Corticosteróides, por via oral ou endovenosa, têm sido usados, mas discute-se a real eficácia dessa modalidade tera- pêutica. Um estudo multicêntrico realizado en- tre julho de 1988 e junho de 1991, nos Estados Unidos, denominado ONTT, comparou três gru- pos de pacientes: um recebeu prednisona por via oral (1 mg/kg/dia) por 14 dias; um segundo grupo recebeu metilprednisolona por via endo- 143Perda visual aguda cap. 05 Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica venosa (1 grama por dia) por 3 dias, seguido de prednisona por via oral (1 mg/kg/dia) por 11 dias; e um terceiro recebeu placebo por via oral por 14 dias. Esse estudo não mostrou qualquer benefício do tratamento com corticóide por via oral compa- rado com o grupo tratado com placebo. Além disso, observou-se uma maior taxa de recidiva de neurite óptica no grupo tratado com corticói- de por via oral em relação ao grupo tratado com placebo. Observou-se também que os pacien- tes tratados com corticóide por via endovenosa apresentaram recuperação visual mais rápida em especial nas primeiras duas semanas, compa- rado com o grupo tratado com placebo. Embora a diferença tenha diminuído com o tempo, seis meses após o tratamento o grupo tratado por via endovenosa ainda apresentava função visu- al melhor do que o grupo tratado com placebo. No entanto, um ano após o tratamento não havia diferença estatística entre qualquer dos três gru- pos quanto à função visual. Esse estudo observou também o efeito do trata- mento no desenvolvimento posterior de escle- rose múltipla nos pacientes dos três grupos. Foi observado que num seguimento de dois anos após o tratamento, encontrou-se que 16,7% dos pacientes tratados com placebo e 14,7% dos tra- tados com corticóide por via oral desenvolveram sinais de esclerose múltipla enquanto que ape- nas 7,5% dos pacientes tratados com corticóide por via endovenosa desenvolveram a doença. Essa diferença de evolução foi observada princi- palmente naqueles pacientes que apresentaram alterações significativas à imagem por ressonân- cia magnética. Num seguimento mais tardio, no entanto, essa diferença desapareceu. Três anos após o tratamento observou-se esclerose múlti- pla em 17,3% dos indivíduos tratados com corti- cóide endovenoso e 20,7% daqueles que recebe- ram placebo, e após quatro anos a incidência era de 24,7 e 26,9% respectivamente. Com base nesse estudo usamos o corticóide por via endovenosa nos casos de perda visual grave ou bilateral e também nos pacientes com neurite óptica e sinais de desmielinização intracraniana. Habitualmente se usa metilprednisolona 250 mg por via endovenosa a cada 6 horas. Alternativa- mente podem ser usadas 500 mg de 12/12 horas. Antiácidos por via endovenosa ou por via oral devem ser prescritos associadamente para pro- teger a mucosa gástrica. O corticóide endoveno- so é mantido por 3 dias e depois substituído por prednisona por via oral (1 mg/kg/dia) por mais 11 dias, sendo então reduzido gradualmente até a sua remoção completa. Deve ser lembrado que algumas formas de neu- rite óptica recidivantes exigem tratamento pro- longado com corticóides e imunossupressores. Isto ocorre particularmente na neuromielite óp- tica (Doença de Devic) e em algumas formas es- peciais de neurite óptica como a neurite óptica autoimune e a neurite óptica recorrente. Além disso, pacientes com diagnóstico estabelecido de esclerose múltipla muitas vezes necessitam de imunomodulação com interferon para reduzir as crises de desmielinização ao longo do tempo. Perda súbita binocular da visão Perda súbita binocular da visão, de causa neurof- talmológica por sua vez pode ser causada por: 1. Neuropatia óptica isquêmica anterior bilateral 2. Neurite óptica bilateral 3. Síndromes quiasmáticas agudas (apoplexia pi- tuitária) 4. Lesões isquêmicas da via retroquiasmática em especial dos lobos occipitais. 144 Perda visual aguda cap. 05Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica O acometimento por neuropatia óptica isquê- mica e neurite óptica bilateral é pouco comum e apresenta características que já foram discuti- das. A neuropatia óptica isquêmica anterior bi- lateral simultânea geralmente ocorre em casos de alterações hemodinâmicas do tipo anemia profunda, hipotensão grave, pós-parada cardí- aca ou choque, etc. Já a neurite óptica bilateral simultânea por vezes ocorre em crianças ou em casos secundários a processos infecciosos.A se- guir discutiremos as perdas visuais bilaterais por lesão quiasmática ou retroquiasmática. Perda súbita da visão nas síndromes quias- máticas A maioria das síndromes quiasmáticas é cau- sada por lesões compressivas, por tumores ex- trínsecos ao quiasma óptico como o adenoma hipofisário, os meningiomas, craniofaringiomas e aneurismas gigantes. Com raras exceções tais lesões produzem alteração visual de evolução lenta e progressiva. No entanto, ocasionalmente produzem perda súbita da visão, particularmen- te nos pacientes com apoplexia hipofisária. A característica principal das alterações quias- máticas é, portanto, de produzir defeitos de campo bitemporais. As fibras da metade nasal de cada uma das retinas cruzam-se no quiasma óp- tico de forma que as fibras nos tratos ópticos são aquelas da metade temporal de uma retina e da metade nasal da outra. Lesões compressivas que afetam o quiasma óptico, como os tumores da pituitária, causam predominantemente a lesão de fibras de ambas as hemiretinas nasais e pro- duzem hemianopsia heterônima, bi-temporal. Os defeitos podem ser discretos, moderados, do tipo quadrantopsias ou mais graves, como he- mianopsias temporais completas em cada olho. Deve ser lembrado ainda que lesões quiasmáti- cas mais avançadas ou graves podem produzir defeitos também nos campos nasais, que podem chegar à cegueira completa de um ou dos dois olhos, por acometimento também das fibras não cruzadas (provenientes da retina temporal e que correspondem ao campo nasal). O acometimento quiasmático agudo ocorre particularmente numa condição denominada “apoplexia hipofisária”. Nesse caso, ocorre uma hemorragia aguda na pituitária com aumento rá- pido do seu volume, comprimindo as estruturas vizinhas. Na maioria dos casos, existe um adeno- ma hipofisário prévio, e a apoplexia decorre de necrose no seu interior. No entanto, o quadro de apoplexia pode ocorrer sem que exista tumor hi- pofisário, como por exemplo na hemorragia pós- parto que pode se acompanhar de apoplexia hi- pofisária (síndrome de Sheeran). Além da perda visual, pacientes com apoplexia hipofisária po- dem apresentar paralisias oculomotoras (com- prometimento do seio cavernoso) e alterações do nível de consciência. O diagnóstico e o trata- mento devem ser feitos em caráter de urgência, geralmente necessitando de cirurgia. Perda súbita nas lesões retroquiasmáticas As lesões retroquiasmáticas se caracterizam por hemianopsias homônimas e podem ser causadas por lesões no trato óptico, no corpo geniculado lateral, nas radiações ópticas ou no lobo occipi- tal. A acuidade visual é normal nesses pacientes uma vez que apenas um lado do campo visual é acometido. A hemianopsia homônima pode ser completa ou incompleta. Quando os defeitos são incompletos podem ser congruentes (seme- lhantes nos dois olhos) ou incongruentes (mais acentuados em um dos olhos), e isso pode auxi- liar na sua localização. 145Perda visual aguda cap. 05 Perda súbita da visão de causa neuroftalmológica As lesões retroquiasmáticas se manifestam com perda súbita da visão no caso de afecções isquê- micas. A maior importância ocorre nas lesões localizadas nos lobos occipitais, embora outras estruturas menos comumente também possam ser acometidas por eventos de natureza vascular. A maioria das lesões são enfartes, principalmen- te por oclusão da artéria cerebral posterior com início agudo de perda visual e cefaléia. Em meta- de dos casos o defeito de campo visual é o único déficit, mas em outros casos ocorre também am- nésia e agnosia visual (dificuldade de interpreta- ção do que se vê). As causas mais freqüentes de isquemica são os êmbolos cardíacos e a doença oclusiva vertebrobasilar. Hemorragias decorren- tes de malformações vasculares também podem ser causas. Lesões retroquiasmáticas agudas podem tam- bém causar cegueira cortical completa, que pode ocorrer nas lesões bilaterais dos lobos occi- pitais, causadas por enfarte bilateral decorrente de causas embólicas, trombóticas, arterite verte- brobasilar e hipotensão grave como, por exem- plo, em pacientes que tiveram parada cardíaca e reanimação. Em um grupo pequeno (em torno de 10%) dos pacientes com cegueira cortical, o paciente não é consciente do seu déficit. Essa condição dra- mática é denominada “síndrome de Anton”. 146 Perda visual aguda cap. 05Auto-avaliação Auto-avaliação 1. Em relação à perda aguda da visão, podemos afirmar: a. Na maioria dos casos de perda da visão por descolamentos da retina, o tratamento conser- vador utilizando colírios pode ser a melhor al- ternativa, evitando, assim, o trauma cirúrgico e conseqüentemente a piora da lesão. b. Hemorragia em câmara anterior é uma das causas mais freqüentes e deve ser prontamente removidas cirurgicamente devido à toxicidade dos componentes do sangue. c. Nos casos de trauma penetrante devemos apenas nos preocupar em suturar a lesão assim que possível. d. Nenhuma das alternativas anteriores está cor- reta. 2. É correto afirmar, considerando as perdas agu- das da visão por opacidades de meio: a. Tanto os hifemas como as hemorragias vítreas devem ser tratados da mesma forma através da remoção cirúrgica. b. Os edemas corneanos podem ser causados pelo aumento súbito da pressão intra-ocular. c. Catarata é uma das causas mais importantes em nosso país. d. Nenhuma das alternativas anteriores está cor- reta. 3. Em relação às doenças da retina, é incorreto afirmar: a. A doença macular relacionada à idade geral- mente inicia-se com a perda periférica da visão. b. Os descolamentos exsudativos podem ser tra- tados clinicamente. c. A recuperação da visão em casos de descola- mentos da retina está diretamente relacionada com a precocidade do início do tratamento. d. As oclusões arteriais são geralmente mais gra- ves que as oclusões venosas. 4. A principal suspeita diagnóstica para um pa- ciente de 70 anos com perda súbita da visão de um dos olhos e edema de papila pálido ao exa- me de fundo de olho é : a. papilite b. tumor intracraniano c. neuropatia óptica isquêmica d. oclusão da veia central da retina 5. Assinale, dentre as alternativas abaixo, a causa mais provável de uma perda súbita da visão do hemicampo direito dos dois olhos de um pacien- te 65 anos e portador de hipertensão arterial. a. neurite óptica bilateral aguda b. descolamento parcial da retina c. adenoma hipofisário. d. acidente vascular cerebral do lobo occipital 147Perda visual aguda cap. 05 Auto-avaliação 6. Com relação à neurite óptica, assinale a alter- nativa correta a. pode ser causada por arterite temporal. b. geralmente acomete indivíduos idosos. c. na maioria dos casos leva a cegueira irreversí- vel. d. pode ser a primeira manifestação de esclerose múltipla. 7. A perda súbita e transitória da visão de um dos olhos, com duração de dois minutos e sem dor deve levar à suspeita de: a. embolização a partir das carótidas b. esclerose múltipla c. neuropatia óptica isquêmica d. descolamento seroso da retina 8. Sobre a neurite óptica: a.É mais comum em mulheres b. É mais comum em homens c. Tem incidência igual entre homens e mulheres d. Acomete mais frequentemente a faixa etária acima dos 70 anos 9. Sobre a neuropatia óptica isquêmica: a. O edema de papila pode evoluir com atrofia óptica b. A frequência maior é na população entre 18 e 40 anos c. É rara na cefaléia por arterite temporal d. Hipertensão noturna parece estar relacionada à doença 10. Assinale a correta: a. Trauma não penetrante não causa perda de vi- são aguda b. Hemorragia vítrea pode diminuir a visão até percepção luminosa c. Hifemas devem sempre ter resolução cirúrgica d. Hifema geralmente causa diminuição da pres- são ocular 11. Assinale a correta: a. Aumento agudo da pressão ocular geralmen- te causa edema de córnea b. Aumento crônico da pressão ocular geralmen- te causa edema de córnea c. O tratamento do edema corneano depende da sua causa d. há duas alternativas corretas 149Perda visual crônicacap. 06 Introdução Introdução Ana Carolina Pasquini Raiza Entre as principais causas de diminuição crônica da visão , podem ser citadas a catarata, o glau- coma e doenças retinianas, como a degeneração Macular Relacionada a Idade (DMRI), retinopatia diabética, além da seqüela de oclusões de vas- culares. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, a catarata é a principal causa de cegueira do mundo, seguida pelo glaucoma. Entretanto, sendo a catarata uma causa passível de tratamento eficaz, o glaucoma torna-se uma doença de preocupação em saúde pública por ser uma causa prevalente e, infelizmente, sem cura, sendo a primeira causa de cegueira irrever- sível do mundo. A DMRI tem tido grande impor- tância epidemiológica, devido ao aumento da expectativa de vida, já que é uma doença a qual acomete idosos. Neste capítulo serão abordados a catarata, o glaucoma e a degeneração macular relacionada a idade. Os outros temas serão descritos nos ca- pítulos subseqüentes. 150 Perda visual crônica cap. 06Catarata Catarata Ana Carolina Paquini Raiza Epidemiologia A catarata é a principal causa de cegueira no mundo. Entretanto, devido ao sucesso do trata- mento cirúrgico, tornou-se um dos procedimen- tos oftalmológicos mais freqüentemente realiza- dos, responsável por significativo benefício na qualidade de vida de idosos de todo o mundo. A catarata é um problema de saúde pública se considerarmos os elevados números de inci- dência e prevalência. Estima-se que a incidência da catarata seja de aproximadamente 20% da população mundial, anualmente. A prevalên- cia pode chegar a metade dos indivíduos acima de 65 anos. Com o envelhecimento da popula- ção mundial, projeções apontam para números ainda maiores: acredita-se que nos próximos 15 anos o número de portadores de catarata dobra- rá em relação à prevalência atual. Definição “Catarata” é a denominação dada para a perda da transparência do cristalino, impedindo que os feixes de luz cheguem à retina, onde serão per- cebidos pelos fotorreceptores. Em condições fisiológicas, o cristalino aloja-se imediatamente atrás da íris, podendo ser visto através da área pupilar, separando a câmara ví- trea do segmento anterior do olho. Sustentado pela fibras zonulares, as quais funcionam como uma conexão entre o cristalino e o corpo ciliar, essas três estruturas agem harmoniosamente num processo de relaxamento e contração, fun- damental para o processo de focalização das imagens sobre a retina. Esse fenômeno é “cha- mado” de acomodação. Juntamente ao processo de opacificação, o cristalino diminui progressi- vamente sua elasticidade e sua capacidade de acomodar. Assim, podemos entender por que o principal sintoma da catarata é a diminuição da visão. O comprometimento visual é dependente do tipo e da severidade da catarata. Além do mais, por ser um processo progressivo, a perda visual tam- bém é progressiva, mas de velocidade variável, não se tendo como prever nem interromper esse fenômeno. Fatores de risco Alguns autores mencionam a catarata como um processo natural de envelhecimento. Na verda- de, essa definição está parcialmente correta. A catarata pode ocorrer durante toda a vida: em todas as fases de desenvolvimento do cristalino na vida embrionária, com a formação do núcleo cristaliniano, durante o surgimento e o cresci- mento das fibras corticais ao redor do núcleo, durante a infância, na vida adulta e, mais comu- mente, na vida senil. As cataratas congênitas têm como principais causas as infecções congênitas, as doenças me- tabólicas e a associação com síndromes genéticas. Na vida adulta, uma série de transformações químicas no interior do olho serão responsáveis pelo processo de opacificação e enrijecimento do cristalino. Entretanto, situações diversas po- dem precipitar e acelerar a formação da catarata, como as inflamações intra-oculares (uveítes). O principal fator de risco para catarata é a idade. A literatura mostra que quanto maior a idade, maior o risco de se ter catarata. Associado a isso, fatores genéticos podem justificar por que pes- soas de mesma idade podem ter ou não catarata. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 151Perda visual crônica cap. 06 Catarata Além disso, a exposição a radiação ultravioleta, UV-B, também tem sido considerada uma impor- tante causa aceleradora da catarata, visto que populações residentes em áreas tropicais têm maior incidência de catarata e em idade mais precoce do que as que vivem em regiões geo- gráficas de climas frios. Hábitos de vida, como o tabagismo, e estado nutricional, também podem precipitar a formação da catarata. Doenças sistêmicas, sobretudo as que cursem com estado de hiperglicemia, como o diabetes mellitus, são fatores de risco para catarata. Os traumatismos, contusos ou penetrantes, tam- bém podem provocar a opacificação do cristali- no. As causas acidentais constituem significativo percentual de catarata entre jovens, freqüente- mente do sexo masculino, são trabalhadores ou vítimas da violência urbana, em suas duas princi- pais manifestações, as agressões físicas e os aci- dentes automobilísticos. Cirurgias intra-oculares, aplicação de laser, ou procedimentos invasivos podem ter como com- plicação a opacificação do cristalino. A seguir, encontram-se as principais causas de catarata. Yasmim Realce Yasmim Realce 152 Perda visual crônica cap. 06Catarata Fatores de risco Idade Distro�a Miotônica Dermatite Atópica Glaucoma Uveíte Tumores intra-oculares Retinose Pigmentar Cirurgias intra-oculares Laserterapia Medicações intra-oculares Contuso Penetrante Rubéola Galactosemia Síndrome de Down antiin�amatórios esteroidais Diabetes mellitus policromática “em árvore de natal” subcapsular anterior Todos os tipos, principalmente cortical Cortical e subcapsular Cortical Núcleo fetal ou embrionário, pólo posterior ou anterior Pontilhada - pontos azulados Subcapsular Cortical subcapsular posterior Nuclear, cortical e subcapsular Cortical, subcapsular e principalmente nuclear. Exposição ultravioleta Doenças sistêmicas Doenças oculares Procedimentos oftalmológicos Traumatismo ocular Medicamentoso Catarata congênita Tipo de catarata mais comum 153Perda visual crônica cap. 06 Catarata Figura 01: Visão normal Figura 02: Simulação da visão de um portador de catarata Sinais e Sintomas: O principal sintoma da catarata é a diminuição progressiva da visão, para longe e para perto, não melhorando com a correção refracional ade- quada. Além de uma perda quantitativa, o pa- ciente pode ter perda qualitativa, caracterizada por embaçamento e distorção dos objetos, fre- qüentemente referida pelo paciente como uma “nuvem” cobrindo a visão; além da diminuição da percepção de brilho, contraste e cores. No caso de cataratas avançadas, o paciente pode ter a impressão de que os objetos estão mais ama- relados. Outro sintoma comum é a dificuldade de en- xergar contra a luz, em geral quando a catarata atinge a porção central do cristalino, no eixo da visão. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 154 Perda visual crônica cap. 06Catarata Intensidade Biomicroscopia Denominação Esclerose Nuclear Verde amarelado Catarata Incipiente 1+/4 Amarelo claro Catarata Nuclear 1+ 2+/4 Amarelo intenso Catarata Nuclear 2+ 3+/4 Alaranjado Catarata Nuclear 3+ 4+/4 Acastanhado Catarata Nuclear 4+ Biomicroscopia A opacificação pode acometer todas as partes do cristalino, seja o núcleo, a córtex ou o saco capsular. Dependendo do tipo de catarata os sin- tomas podem ser característicos servindo como um sinal de qual parte do cristalino está compro- metida. Catarata nuclear O cristalino normal é transparente, com tom discretamente esverdeado. A catarata nuclear tem como característica a mudança da colora- ção do cristalino, o qual torna-se progressiva- mente amarelado, alaranjado,acastanhado e, em estágios bastante avançados, pode tornar-se acinzentado. A intensidade da catarata nuclear é medida em uma escala de cruzes entre 1 e 4. Catarata cortical A córtex do cristalino é formada por fibras alon- gadas que contornam o núcleo, adquirindo o formato de uma cunha, cujas extremidades in- terligam os dois pólos anterior e posterior do cristalino. Devido a essa característica anatômi- ca, a catarata cortical acompanha exatamente a conformação cuneiforme, como radiações sain- do de um eixo central. Opaca, a córtex torna-se progressivamente esbranquiçada, até que, em estágios avançados, toda a superfície do crista- lino torna-se branca, causando bloqueio intenso da passagem dos feixes luminosos. Evolutiva- mente a essa fase, a região cortical perde sua consistência, liquefazendo-se. Se o núcleo tam- bém tiver comprometimento avançado, perderá o apoio das fibras corticais e será deslocado infe- riormente. Trata-se da “catarata morganiana” ou “hipermadura”. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 155Perda visual crônica cap. 06 Catarata Figura 03: A. Catarata total; B. Catarata nuclear +++; C. Catarata polar; D. Catarata rubra; E. Catarata cortical +++/++++; F. Catarata cortical anterior Figura 04: A D B E C F Catarata subcapsular A opacificação pode ocorrer entre a córtex e a cápsula do cristalino; são as cataratas subcap- sulares. Recebem esse nome exatamente por situarem-se imediatamente abaixo do saco cap- sular. Esse tipo de catarata ocorre mais comu- mente na interface posterior do cristalino, sendo denominada “catarata subcapsular posterior”. Assim como nos outros tipos de catarata, o com- prometimento também pode ser quantificado segundo a severidade de 1 a 4, sendo represen- tado pela escala de cruzes. (1+ até 4+) Yasmim Realce Yasmim Realce 156 Perda visual crônica cap. 06Catarata Diagnóstico O diagnóstico da catarata é clínico. A primeira etapa, a anamnese, pode dar indícios da suspei- ta, pois o paciente pode referir diminuição da acuidade visual, embaçamento, distorção, perda do brilho e das cores. Não é infreqüente o porta- dor de catarata dizer que “o mundo está amare- lado”. A segunda etapa é o exame oftalmológico. O exame inicia-se com a aferição da acuidade visual, que na maioria das vezes estará diminuí- da. Em alguns casos, a catarata pode cursar com visão considerada normal. São os casos em que a miopização da catarata nuclear proporciona be- nefícios na refração final do paciente, principal- mente na visão de perto. Outra situação de visão normal ocorre nos casos de cataratas que aco- metem apenas o eixo visual. Nesses casos, com a pupila de tamanho normal, o eixo de visão está obstruído pela opacidade. Já com efeito da dila- tação, os feixe luminosos conseguem atravessar o cristalino, chegando à retina. Para o exame correto do cristalino, é necessário que o paciente esteja com a pupila dilatada. Tratamento O único tratamento existente para a catarata é a cirurgia. Antigamente, foi proposto tratamento farmacológico; entretanto, pesquisas científicas comprovaram a ineficácia desse tipo de trata- mento. O único tratamento existente para a ca- tarata é a remoção do cristalino. Na cirurgia, o núcleo e córtex critalino são extraídos, manten- do-se apenas a cápsula que envolve o cristalino, dentro da qual será implantada uma lente artifi- cial. Essa lente é chamada de “lente intra-ocular” (LIO) e terá poder refracional semelhante ao do cristalino. Existem lentes de diversos valores de dioptrias. O valor da LIO é calculado no pré-ope- ratório, tendo como objetivo aproximar o siste- ma óptico do indivíduo em um sistema equili- brado entre a córnea e o cristalino, ou seja tentar neutralizar eventuais erros refracionais existen- tes previamente à cirurgia. Entretanto, após a remoção do cristalino, mesmo com o implante da LIO, a acomodação não será possível, pois a LIO é uma lente estática, incapaz de relaxar ou contrair para mudar seu poder dióptrico e focali- zar objetos em diferentes distâncias. Por isso, no pré-operatório, o cálculo da lente deve levar em consideração a distância na qual se deseja deixar focado o sistema visual do paciente. Essa decisão deve ser tomada em conjunto, entre cirurgião e paciente, levando-se em consideração as neces- sidades individuais. De um modo geral, tem-se preferido deixar uma pequena miopia, a qual não comprometa a qualidade visual à distância e permita uma focalização razoável para distân- cias pequenas (aproximadamente 40 cm). Nem sempre é possível prever com precisão a refra- ção final, pois ela é dependente de inúmeros fa- tores como: regularidade corneana, a qual pode ser alterada pelas próprias incisões cirúrgicas, por menores que sejam; cicatrização da incisão cirúrgica; posicionamento da LIO tanto no eixo ântero-posterior, como centralização em relação ao eixo visual e pupilar. Desvios e inclinações da lente podem comprometer o resultado visual final. Atualmente, as LIO bifocais e multifocais estão conquistando satisfação entre expressivo número de pacientes por proporcionarem visão para perto e para longe, independentemente do uso de lentes corretivas (óculos) após a cirurgia. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 157Perda visual crônica cap. 06 Catarata Figura 05: Representação esquemática de uma Lente Intra Ocu- lar – LIO. A área central (1) corresponde a zona óptica, e as exten- sões periféricas na forma de arcos (2), são os hápticos que apóiam e estabiliam a lente no olho. Indicação cirúrgica A cirurgia de catarata tem como única indicação absoluta quando constituir risco potencial e ir- reversível à visão. Isso ocorre no caso dos glau- comas secundários ao aumento do cristalino ou por liberação de partículas cristalinianas no humor aquoso, ocasionando inflamação e ele- vação da pressão intra-ocular: são os chamados glaucomas “facomórficos” e “facolíticos”. Nesses casos, o aumento da pressão intra-ocular, secun- dária à catarata, quando não controlada pelo uso de medicações hipotensoras, torna o procedi- mento cirúrgico fundamental para a preservação da visão. Nos outros casos, a indicação cirúrgica não é absoluta, e sim determinada pelo grau de comprometimento visual, estando relacionados às necessidades individuais e ao estilo de vida. Tipos de Cirurgia Os primeiros relatos de cirurgia de catarata da- tam de 600 anos a.C. Naquela época, o cristalino opaco era empurrado em direção ao vítreo, com o objetivo de liberar o eixo visual e permitir que o paciente voltasse a ter visão. Em 1949, com o ad- vento da LIO e do microscópio e da redução da incisão ocular, Ridley descreveu a técnica de “fa- cectomia extracapsular” com implante secundá- rio de LIO. Entretanto, foi somente na década de 70 que essa técnica passou a ter reconhecimento e segurança, tornando-se um procedimento de significativo sucesso em relação às técnicas ante- riores. As principais características dessa técnica consistem inicialmente na realização de incisão córneo-escleral, penetração na câmara anterior, confecção de uma abertura na cápsula anterior do cristalino (capsulotomia), através da qual o núcleo será deslocado e extraído por inteiro do olho. Na seqüência o implante da LIO é realizado. Atualmente, essa técnica cirúrgica ainda é reali- zada, tendo como principal indicação as catara- tas avançadas, de núcleo duro, do tipo nuclear 4+ em 4+. Mas o tipo de cirurgia de catarata mais realiza- do é a “facoemulsificação”. Esse tipo de cirurgia tornou-se soberano devido às suas vantagens técnicas. As características mais marcantes são a redução do tamanha da incisão corneana para cerca de 3,0mm e a fragmentação do núcleo e do córtex, com subseqüente aspiração das par- tículas lisadas, ainda dentro do saco capsular. As novas gerações deLIO, de diâmetro menor e de material flexível, permitem que o implante seja realizado pela mesma abertura de 3,0mm, por onde o cirurgião realizou o restante do procedi- mento. Com toda essa evolução tecnológica, envolven- do equipamentos cirúrgicos (facoemulsificador e microscópio), além do material da LIO, a ten- dência é que as incisões sejam cada vez meno- res, proporcionando maior precisão com menor agressão. No futuro, provavelmente serão as ci- rurgias através de microincisões, com implante de lentes multifocais e preparadas para filtrar a radiação ultravioleta. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 158 Perda visual crônica cap. 06Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Figura 06: Drusas de coróides Figura 07: Tela de Amsler Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Walter Yukihiko Takahashi A degeneração macular relacionada à idade é a maior causa de cegueira legal acima de 65 anos de idade. Aos 65 anos, 10% da população cauca- siana apresentam a doença, e acima de 75 anos, 25%. Aparentemente afeta mais mulheres do que ho- mens. Caucasianos de pele e olhos claros são mais afetados comparados com negros, amare- los e hispânicos. Há um caráter familiar, sendo que indivíduos com casos na família têm maior risco de desenvolver a doença. Outros fatores de risco incluem o tabagismo, a hipertensão arterial e a obesidade. Os sintomas envolvem somente a visão. Os pa- cientes se queixam de perda visual lenta ou abrupta. Também chama a atenção a presença de metamorfopsia, que é a percepção de distor- ção das imagens. A perda de visão, progressiva, pode levar à cegueira legal. Os sinais correspondem a alterações exclusivas no fundo do olho, envolvendo quase sempre a região macular. Pode-se encontrar edema de retina, pigmentação anômala, hemorragias sub- retinianas, intra-retinianas, exsudatos duros, dru- sas de coróide. Drusas de coróide correspondem a depósitos laminares ao nível da coróide (Figura 06). Normalmente, o diagnóstico de DMRI é feito pela história, visão, detecção da metamorfopsia e exame de fundo de olho. A detecção ou com- provação da metamorfopsia é feita por meio de um quadro, a tela de Amsler. As linhas da tela, que deveriam ser retas, são distorcidas, princi- palmente ao redor da região central (Figura 07). Yasmim Realce Yasmim Realce 159Perda visual crônica cap. 06 Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Figura 09: Exame de angiografia com indocianina verde Figura 08: Fotografia colorida e angioluoresceinografia de mem- brana clássica Feito o diagnóstico clínico, é possível caracterizá- -la por meio de exames de imagem, sendo a mais utilizada a angiofluoresceinografia. Esse é um exame em que se injeta um corante na veia cubi- tal, e toda a árvore vascular e as estruturas da re- tina são percorridas pela fluoresceína (Figura 08). O exame de angiografia com indocianina verde implica na injeção do corante indocianina verde na veia cubital, e outras imagens são captadas, com características diferentes da angiofluores- ceinografia (Figura 09). 160 Perda visual crônica cap. 06Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Figura 10: Exame de tomografia de coerência óptica mostrando descolamento de epitélio pigmentado de retina Finalmente, a tomografia de coerência óptica (OCT) analisa a retina em cortes. É como se pu- déssemos fatiar a retina, vendo-a de perfil, de- São exames que servem para diagnóstico e con- trole de tratamento, e exemplos serão mostra- dos adiante. A DMRI é dividida em forma seca ou não exsuda- tiva e forma úmida ou exsudativa. A forma seca tem uma evolução lenta e insidiosa, com perda lenta e progressiva da visão. È caracterizada pela presença de drusas que, com o tempo, coalescem, tornando-se maiores, e atrofiam. A área de atro- fia aumenta progressivamente, sendo chamada de “atrofia geográfica” nas fases avançadas (Fi- gura 11), quando a visão é bastante reduzida, freqüentemente menor do que 10%. A forma úmida tem evolução mais dramática, com perda abrupta da visão. Também apresenta drusas de coróide em sua fase inicial, e a mudança aguda é decorrência do aparecimento de vasos anormais que crescem abaixo da retina e são chamados “neovascularizações de coróide” ou “membrana neovascular subretiniana”. Elas se iniciam na corói- de e crescem debaixo da retina, provocando ede- tectando-se edema de retina, descolamentos localizados, etc (Figura 10). Yasmim Realce 161Perda visual crônica cap. 06 Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Figura 11: Degeneração macular forma seca, em fase de atrofia Figura 12: Fotografia colorida e angiofluoresceinografia de membrana neovascular sub-retiniana clássica Figura 13: Fotografia colorida e angiofluoresceinografia de membrana neovascular sub-retiniana oculta ma de retina, hemorragias, exsudatos. A forma úmida ou exsudativa, por sua vez, pode ser sub- dividida naquelas em que a membrana neovas- cular é chamada clássica (Figura 12) e naquelas chamadas “ocultas” (Figura 13). É possível fazer a diferenciação com o exame de angiofluorescei- nografia. 162 Perda visual crônica cap. 06Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Figura 14: Membrana neovascular extrafoveal (a), logo após fotocoagulação (b, c) e após 6 meses, cicatrizada (d, e) a b c d e As membranas neovasculares também podem ser classificadas segundo a sua localização. Mem- branas extrafoveais estão situadas a uma distân- cia maior do que 200µ do centro da mácula (Fi- gura 14). Membranas justa foveais se localizam entre 1 e 199µ do centro da fóvea, são chamadas subfoveais. As membranas clássicas (Figura 08) apresentam margens bem definidas ao exame de angioflu- oresceinografia e têm grande extravazamento de corante nas fases avançadas do exame. As membranas clássicas são também chamadas “membranas do tipo 2”, pois crescem acima do epitélio pigmentado da retina (EPR) (entre o EPR e a retina neurosensorial). As membranas ocultas apresentam margens pouco definidas ao exame de angiofluoresceinografia e pobre extravaza- mento de corante nas fases tardias do exame. São também chamadas “membranas tipo 1”, pois crescem abaixo do EPR (Figura 13) Angiograficamente, existem as membranas mis- tas, com componente clássico e oculto na mes- ma lesão. Outras lesões que podem ser encon- tradas são: descolamento de epitélio pigmenta- do de retina (Figura 16), hemorragias e ruptura de coróide. Finalmente, nas fases avançadas da doença, as cicatrizes fibrosadas, chamadas de “ci- catrizes disciformes” (Figura 17). 163Perda visual crônica cap. 06 Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Figura 15: Membrana neovascular sub-retiniana clássica antes do tratamento combinado PDT e injeção intravítrea de trian- cinolona (a) e após 6 meses cicatrizado (b) (a) (b) 164 Perda visual crônica cap. 06Degeneração macular relacionada a idade - DMRI Figura 16: OCT demonstrando descolamento de epitélio pigmentado de retina Figura 17: Degeneração macular em fase disciforme, com fibrose macular A DMRI forma seca não tem tratamento. Entre- tanto, acredita-se que a oxidação dos tecidos provoque a formação de drusas, e a ingestão de substâncias antioxidantes como as vitaminas C e E, o zinco, a zeaxantina, a luteína e o ômega 3 poderiam ter o papel de retardar a evolução da doença. A DMRI forma úmida, por sua vez é tratável. Quando a membrana neovascular sub-retiniana está longe do centro da mácula, ela é destruída por meio da fotocoagulação com laser de argô- nio (Figura 14). Quando ela se situa na mácula, ou seja, quando é sub-macular, a fotocoagula- ção provoca destruição definitiva e irreversível da mácula, e nesse caso não se faz o tratamento com laser. As opções para tratamento das lesões sub-ma- culares de que se dispõe no momento é o laser “frio”, e a utilização de substâncias que promo- vem a atrofia da neovascularização: são as cha- madas “substânciasantiangiogênicas”. 165Perda visual crônica cap. 06 Degeneração macular relacionada a idade - DMRI O laser “frio” é a terapia fotodinâmica. Nessa moda- lidade de tratamento, injeta-se um corante, a verte- porfina, na veia cubital. O corante se adere especifi- camente no endotélio dos vasos neoformados que é em seguida bombardeado com um laser “frio”, o que destrói somente a membrana neovascular, pre- servando os tecidos retinianos; portanto, não destrói a mácula propriamente dita. Para uma melhor efici- ência desse tratamento, injeta-se no olho substân- cias que inibem e reduzem a inflamação promovida pela membrana neovascular. São drogas como cor- ticóides e substâncias antiangiogênicas (Figura 15). A terapia fotodinâmica, ou PDT como mono- terapia, não é mais utilizada, uma vez que ela trata somente a conseqüência. Para se reduzir a taxa de recidiva, é necessária a injeção intra- vítrea de corticóide ou de uma substância anti- angiogênica, que reduz a inflamação, e outra para eliminar o VEGF, anulando o estímulo para a neovascularização. O VEGF é uma proteína que estimula o crescimento neovascular. À as- sociação do PDT e de injeção intravítrea de dro- gas dá-se o nome de “tratamento combinado”. Outra alternativa ao tratamento combinado é a injeção de substâncias como o bevacizumab (Avastin) e o ranibizumab (Lucentis). Um dos es- quemas mais eficientes é aquele no qual se in- jeta a droga intravítrea mensalmente, num to- tal de três vezes. É a dose de ataque. O controle de cura é realizado com o OCT, a acuidade visual e eventualmente a angiofluoresceino- grafia. Ao menor sinal de recidiva da lesão, com recrudescimento do edema de retina, descola- mentos de retina neurosensorial, nova injeção intravítrea é realizada. E, assim, controles men- sais são realizados até a estabilização da lesão. Os antiangiogênicos inibem uma proteína, o VEGF (fator de crescimento vascular endotelial), que é responsável pelo aparecimento e cresci- mento dos neovasos. Os antiangiogênicos, de nomes como bevacizu- mab, ranibizumab, são injetados periodicamen- te no olho. São as injeções intravítreas. Tais inje- ções são realizadas até que haja a cicatrização da membrana neovascular. O controle de cura é feito com exames de an- giofluoresceinografia e/ou indocianina verde e/ ou tomografia de coerência óptica. Pode levar meses ou anos até que a membrana cicatrize. Se após a cicatrização, a visão é bastante útil, a sim- ples correção do defeito de refração (receita de óculos comuns) promove o retorno do paciente às suas atividades normais. Caso a cicatrização ocorra em um nível de visão baixo, recursos óp- ticos chamados de “telelupas” permitem ao pa- ciente voltar a ter condições de ler novamente. A mácula deverá ser mantida em constante vigilância. Esse monitoramento pode ser feito pelo próprio paciente fiscalizando-se com a tela de Amsler. A DMRI acomete pessoas de faixa etária mais ele- vada, freqüentemente aposentadas, e que exer- cem somente atividades como ler, assistir à TV, dirigir, fazer tricô. Se ambos os olhos são com- prometidos, tais atividades se tornam impos- síveis, tornando muito penosa a vida do idoso. A qualidade de visão e portanto a qualidade de vida ficam deterioradas. Aumentam casos de de- pressão, riscos de acidentes como tropeçar, cair e sofrer fraturas; tropeçam por não enxergar bem. Felizmente, com os novos tratamentos em voga, acima citados, pode-se evitar que o idoso che- gue a ficar legalmente cego. Leitura Sugerida • Takahashi, W.Y. – Degeneração Macular Relacionada à Idade, Cultura Médica, Rio de Janeiro, 2007 166 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma Glaucoma Remo Susanna Júnior O glaucoma é a segunda causa de cegueira irre- versível no mundo e a principal causa de ceguei- ra em negros. Aproximadamente 7.6 milhões de pessoas estão bilateralmente cegas por essa do- ença. Existem várias formas de glaucoma, sendo as principais: o glaucoma primário de ângulo aber- to, o glaucoma primário de ângulo fechado, o glaucoma congênito e de desenvolvimento e os glaucomas secundários. A forma mais comum de glaucoma é o primário de ângulo aberto, ocorrendo em aproximada- mente 2% a 4% da população acima de 40 anos e caracterizando -se pela tríade: • aumento da pressão intra-ocular (PIO) • alteração típica do nervo óptico • defeito de campo visual correspondente. Existe uma série de possíveis erros ao se tentar diagnosticar o glaucoma somente pela pressão intra-ocular. A medida da pressão intra-ocular depende da espessura corneana. Ela é hipoes- timada em córneas mais finas e hiperestimadas em córneas mais espessas. O outro fator impor- tante que pode induzir o médico a erro de avalia- ção é que a pressão intra-ocular apresenta gran- de flutuação durante o dia em pacientes glauco- matosos. Também os picos da PIO ocorrem en- tre 05:30h e 07:00h com o paciente em posição supina e, portanto, difíceis de serem detectados. Como complicador, existe o fato de suscetibilida- de individual a PIO ser variável, havendo pacien- tes que, com pressão elevada, não apresentam nenhum dano glaucomatoso e pacientes com pressão dentro da faixa da normalidade apre- sentando severo dano glaucomatoso (Glaucoma Normotensivo). Considerando-se o diagnóstico apenas pela PIO, 60% dos casos do glaucoma teriam a PIO dentro da normalidade quando medidas em horários de consultório. O aumento da PIO leva à compressão mecânica do nervo óptico bloqueando o fluxo axoplasmá- tico e cortando a conexão com o corpo genicula- do lateral. Com isso leva à morte as células gan- glionares da retina. Existem outras teorias, como a vascular, em que a etiologia seria uma diminui- ção do fluxo sangüíneo ao nível do nervo óptico primário ou secundário ao aumento da PIO, bem como a neurotoxicidade provocada pelo excesso de glutamato e radicais livre e fatores imunoló- gicos. Não há dúvida, contudo, que o fator mais importante e o único fator que se pode atuar no tratamento é a pressão intra-ocular. A pressão média da população normal é 15.9 mmHg com desvio padrão de +3.14mmHg. Entretanto, mes- mo os pacientes com pressão estatisticamente dentro da normalidade podem apresentar lesão glaucomatosa (Glaucoma Normotensivo). A perimetria (campo visual) avalia a função vi- sual do paciente, sendo a forma mais utilizada a perimetria branco / branco, também conhecida como convencional ou padrão. É um teste sub- jetivo, apresenta grande variabilidade e baixa sensibilidade. Há necessidade de 50% de perda células ganglionares para surgir um discreto de- feito de campo visual. Dessa forma, o paciente só apercebe–se da diminuição de campo nos estágios avançados da doença quando já hou- ve perda de aproximadamente 90% das células ganglionares. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 167Perda visual crônica cap. 06 Glaucoma Figura 18: Representação esquemática da perda de camada de fibras nervosas de retina inferiormente que ocasiona a perda do campo visual correspondente no hemicampo oposto (superiormente). 168 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma Figuras 19a (normal) e 19b (glaucoma): A presença de “notch” entalhe causado por uma perda localizada do anel neuro retiniano, neste caso inferior, é quase patognomônico da doença Figuras 20a (normal) e 20b (glaucoma): A presença de hemorragia em chama de vela no disco óptico é tambem quase patognômico da doença. Estas hemorragias duram em média 4 a 6 meses . É quase sempre indicativo da progressão da doença independentemente do nível pressórico A melhor forma de se diagnosticar o glaucoma é através do exame do nervo óptico, feito com o oftalmoscópio, com a biomicroscopia, e mesmo com as fotografias. Há também aparelhos digitais de imagem par avaliar tanto o nervo óptico como a camada de f. nervosas da retina. As principais alterações do nervo óptico no glaucoma são quase patognomônicas. Entre elas, as principais são: 169Perdavisual crônica cap. 06 Glaucoma Figura 21: Escavação vertical aumentada, sugerindo lesão glauco- matosa do disco Figuras 22a (olho direito) e 22b (olho esquerdo): A assimetria da relação E/D entre os dois discos de um mesmo individuo maior que 0,2 sugere alteração glaucomatosa no disco com maior relação E/D 170 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma É importante que o médico não oftalmologista saiba examinar o fundo de olho em especial o nervo óptico. Em assim o fazendo, aumentaria em muito a capacidade de detecção da doença e diminuiria a possibilidade do não diagnóstico da moléstia. Não seria necessário o diagnóstico de certeza, mas a suspeição da doença e seu en- caminhamento para o oftalmologista. Para o diagnóstico de glaucoma, além da detec- ção dos achados do disco óptico descritos acima, é fundamental que o médico tenha noção do ta- manho da escavação do disco. Isso é facilmente feito através da visualização do disco óptico através da oftalmoscopia. Divide- se o disco óptico subjetivamente em 10 partes (Figuras 23 , 24 , 25 e 26) Uma escavação de 0,4 significa que quatro décimos do disco óptico é ocupado pela escavação. Escavação de 0,6 signi- fica que seis décimos do nervo óptico são ocupa- dos pela escavação. É importante que o médico saiba que; • escavação menor ou igual a 0,5 provavel- mente é normal. • escavação entre 0,6 a 0,7 é possivelmente anormal ou seja, limítrofe. • escavação maior que 0,7 provavelmente é anormal. O médico também deve saber que a assimetria de escavação entre um olho e outro maior que 0,2 é muito provavelmente uma alteração glau- comatosa. A foto 4 mostra uma assimetria de es- cavação entre os dois olhos, típica de pacientes glaucomatosos. O tratamento do glaucoma consiste em retar- dar ou parar a progressão da doença através da redução da pressão intra-ocular. Para isso o mé- dico deve procurar atingir a PIO alvo para cada paciente. Essa pressão é a pressão que o médico estima para que a doença não progrida. Ela é cal- culada para cada paciente em função da severi- dade da lesão glaucomatosa, idade do paciente, velocidade de progressão e expectativa de vida. Esse conceito é extremamente importante, uma vez que não existe um nível pressórico ideal para todos os pacientes. Normalmente, tratamento do glaucoma primá- rio de ângulo aberto é inicialmente clínico atra- vés de colírios. Caso o tratamento clínico não seja suficiente, pode-se recorrer ao laser (tra- beculoplastia) e finalmente à cirurgia. Há casos, contudo, que esse paradigma não é obedecido. Em casos graves com grande comprometimento de campo visual ou com ameaça de perda da vi- são central, geralmente recorre-se à cirurgia sem se utilizar o laser. Entre as drogas mais utilizadas podemos dividir: aquelas que aumentam o escoamento do humor aquoso e aquelas que diminuem a sua produção. Entre as que aumentam o escoamento, temos a brimonidina, a pilocarpina e a prostaglandina. Entre as que diminuem a produção do humor aquoso estão a brimonidina, o timolol e os inibi- dores da anidrase carbônica, tópica ou sistêmica. Quando não há contra-indicações as prostaglan- dinas são as drogas de primeira escolha. As com- binações fixas de drogas, ou seja, duas drogas em um mesmo colírio, são também muito usa- das no tratamento do glaucoma, como drogas de primeira escolha, tendo em vista que em uma ou duas instilações de colírios se medica o pa- ciente com dois medicamentos. Com isso, reduz- se a quantidade de preservativos que existem nos colírios (cloreto benzalcônio) os quais têm efeito deletério sobre a superfície ocular. Deve- se salientar que nos glaucomas severos 40% dos pacientes necessitam, além da prostaglandina da adição de mais um colírio geralmente de uma combinação fixa. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 171Perda visual crônica cap. 06 Glaucoma Figura 23: Calcula-se a relação E/D imaginado-se o disco óptico dividido em 10 partes iguais 172 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma Figura 24: Da mesma forma o tamanho da escavação corresponde a 0.4 do tamanho do disco. 173Perda visual crônica cap. 06 Glaucoma Figura 25: Portanto a relação escavação/disco é de 0,4 ou, outra forma de se apresentar esse fato, é a de caracterizar a rima nervosa com a espessura de 0,6 do disco 174 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma Figura 26: Relação E/D igual a 0,5 175Perda visual crônica cap. 06 Glaucoma O tratamento cirúrgico de escolha é a trabecu- lectomia, que é uma fístula protegida, como se pode ver nas Figuras 28 e 29. Caso a trabecu- lectomia não possa ser realizada, ou se já tenha sido utilizada sem sucesso, pode-se recorrer à colocação de implantes de drenagem. Estes têm a finalidade de levar o humor aquoso da camada anterior para o reservatório do implante situado no equador do olho (Figura 30). Nos casos que também esse procedimento não resultou em redução suficiente da PIO, pode-se colocar um novo implante ou recorrer-se à destruição do corpo ciliar, órgão este responsável pela produ- ção do humor aquoso. Utiliza-se para tal os pro- cedimentos chamados “ciclos destrutivos”, sendo os mais usados a ciclocriocoagulação, a ciclofo- tocoagulação transescleral e a endociclofotoco- agulação. Entre estes, os mais utilizados e que apresentam menores complicações e resultados mais previsíveis são a ciclofotocoagulação tran- sescleral e a endociclofotocoagulação. O seguimento do paciente com glaucoma deve ser feito pela avaliação estrutural do disco ópti- co através de fotografia do nervo óptico ou de aparelhos computadorizados de imagem. As avaliações funcionais são feitas através de cam- pos visuais, principalmente a perimetria branco/ branco. A freqüência dos exames depende da severidade da doença, mas raramente as avalia- ções estruturais devem ser feitas com prazo su- perior a dois anos e as funcionais com mais de um ano. Em alguns casos, esta última deve ser feita a cada quatro meses dependendo do es- tado em que a doença se encontra, do risco de progressão e da expectativa de vida do paciente. A figura 31 mostra a progressão do disco óptico em cinco anos de seguimento. Na figura 32, ob- serva-se a progressão funcional pela perimetria branco/branco em um paciente que em apenas seis meses perdeu 11dB (mean deviation). Deve- se lembrar que uma perda de 24dB equivale à cegueira ou quase cegueira do paciente. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 176 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma Figura 27 177Perda visual crônica cap. 06 Glaucoma Figura 28: Desenho esquematizando a cirurgia. Delaminação escleral de aproximadamente 4 mm X 4 cm e retirada da porção profunda da esclera de 2mm juntamente com o trabeculado 178 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma Figura 29: Trabeculéctomia: iridectomia (para evitar o tamponamento do orifício criado com a remoção do trabeculado A seta branca mostra o trajeto do humor aquoso saindo da câmara posterior, passando pelo orifício da iridectomia e atingindo o espa- ço sub conjuntival através do orifício criado com a remoção do trabeculado no local e protegido por um retalho de esclera delaminada 179Perda visual crônica cap. 06 Glaucoma Figura 30: Esta figura mostra a placa do implante fixada no equador do olho, sub tenoniana e conjuntival e o tubo do implante inserido na câmara anterior de onde drenará o H aquoso Figura 31: Observa-se nítida piora do dano do nervo óptico neste paciente.Este slide mostra claramente a necessidade de documenta- ção do nervo óptico para se detectar a progressão da doença 180 Perda visual crônica cap. 06Glaucoma Progressão do campo visual 14/12/2004: -2.96 dB 02 meses: -6.09 dB 14/02/2005: -9.05 dB 04 meses: -4.91 dB 21/06/2005: -13.96 dB 14/12/2004 - 21/06/2005 06 meses: -11.00 dB Figura 32: Este paciente em apenas 6 meses apresentou uma piora de campo visual de 11dB. A perda visual na perimetria é medida em decibéis. Uma perda de 24 dB ocorrequando o paciente está legalmente cego ou quase cego Conclusão 1. O glaucoma é a segunda causa de cegueira irreversível no mundo, sendo assintomático em sua forma mais comum. 2. O diagnóstico de glaucoma é feito pelo aspec- to do nervo óptico. A pressão intra-ocular é o fa- tor de risco mais importante. 3. No seguimento da doença é fundamental a documentação dos aspectos estruturais do dis- co óptico através da fotografia ou de aparelhos digitais. O seguimento funcional é feito através da perimetria (campo visual). 4. O tratamento do glaucoma consiste em redu- zir a pressão intra-ocular a níveis que diminuam ou parem a progressão da doença, níveis estes calculados em função da severidade da doença, idade, risco de progressão e expectativa de vida do paciente. 5. Quando o controle com medicamentos é insa- tisfatório, pode-se recorrer a aplicações de laser ou a realizações de cirurgias. LITERATuRA SuGERIDA • Shields B.M; A study guide for glaucoma, Williams & Wilkins, Baltimore, 1982 • Frammer J; Glaucoma, Hans Huber, Bern, 2001 • Susanna Jr. R; Glaucoma, Cultura Médica, Rio de Janeiro, 1999 181Perda visual crônica cap. 06 Auto-avaliação Auto-avaliação 1. Quais os principais sintomas da catarata: a. Dor, Diminuição da visão e olho vermelho. b. Diminuição da visão e embaçamento visual e perda de contraste. c. Diminuição da visão, perda de campo visual e dor. d. Diminuição da visão, “moscas volantes” e olho vermelho. 2. Assinale a alternativa correta: a. O tratamento da catarata está indicado em todos os casos de comprometimento visual por opacidade do cristalino. b. Atualmente, o tratamento clínico da catarata é um método seguro e eficaz, representando uma alternativa para pacientes com contra-indica- ções clínicas para serem submetidos à cirurgia. c. O único tratamento disponível para a catarata é cirúrgico. d. Ao ser removido o cristalino, uma lente intra ocular é implantada e terá função semelhante à do cristalino, devolvendo ao paciente a capaci- dade de voltar a acomodar. 3. Assinale a alternativa incorreta: a. A catarata é a principal causa de cegueira do mundo, constituindo um problema de saúde pú- blica. b. A prevalência da catarata pode chegar a me- tade da população idosa, dependendo da faixa etária. c. A catarata pode acometer crianças, jovens e adultos. d. A cirurgia de catarata é uma medida dispensá- vel por não causar efeitos significativos na vida do idoso. 4. Entre as alternativas abaixo, assinale a alter- nativa que não contenha fatores de risco para o desenvolvimento de catarata: a. idade e uso esteróides tópicos. b. exposição à radiação ultravioleta e cirurgias intra-oculares. c. diabetes mellitus e trauma. d. uso de esteróides tópicos e doenças tireoide- anas. 182 Perda visual crônica cap. 06Auto-avaliação 5. A Biometria consiste em: a. Medida da biomicroscopia ocular. b. Biomicroscopia da medida ocular. c. Medida da espessura corneana. d. Medida do diâmetro axial ocular. 6. Em condições normais, a lente intra-ocular é implantada em que posição? a. Dentro do saco capsular. b. Na câmara anterior. c. Imediatamente atrás da cápsula anterior. d. Imediatamente à frente da cápsula anterior. 7. No glaucoma crônico de ângulo aberto: a. As alterações perimétricas aparecem precoce- mente na evolução da doença b. a medida da pressão intra-ocular é a melhor forma de diagnosticar a doença c. as alterações do nervo óptico e da camada de fibra nervosa aparecem tardiamente na evolu- ção do glaucoma d. a medida da pressão intra-ocular sofre influên- cia da espessura corneana e apresenta variações importantes durante as 24 horas do dia 8. No seguimento do glaucoma é importante: a. a medida da pressão intra-ocular periodica- mente b. a realização de campos visuais periodicamen- te c. a realização de fotografias do nervo óptico pe- riodicamente d. todas as acima 9. A queixa do paciente nas fases iniciais e mode- radas do glaucoma crônico simples é a. cefaléias hemicraneanas b. visão de halos coloridos c. a doença é assintomática d. turvação visual 10. No tratamento do glaucoma crônico simples: a. a pressão intra-ocular ideal é de 21 mmHg b. a pressão intra-ocular ideal é de 15 mmHg c. a pressão intra-ocular deve ser calculada em função da severidade da doença, idade, risco de progressão e expectativa de vida do paciente d. nenhuma das acima 184 Olho vermelho cap. 07Olho vermelho Olho vermelho O olho vermelho é o distúrbio ocular mais fre- qüentemente encontrado em um serviço de pronto-atendimento não oftalmológico. Embora suas causas mais comuns sejam relativamente benignas, existem situações graves com eleva- do risco de perda de visão. Nesse contexto, cabe ao médico generalista reconhecer os principais diferenciais dessa síndrome, bem como iniciar o tratamento adequado ou encaminhar o paciente para uma avaliação especializada quando neces- sário. O passo inicial no cuidado primário do paciente com olho vermelho é a obtenção de seu histó- rico. Busca-se nesse momento excluir situações consideradas de maior risco como dor ocular, di- minuição da acuidade visual, trauma, exposição a substâncias químicas, cirurgia intra-ocular re- cente e olho cronicamente vermelho. Embora um leve desconforto ocular, muitas ve- zes referido como sensação de “areia nos olhos”, esteja normalmente associado a condições me- nos graves, a presença de dor em olho vermelho sugere uma situação de alerta devido à maior gravidade dos diferenciais relacionados a esse sintoma. Da mesma forma, uma queda súbita de acuidade visual também é um sinal de maior gra- vidade. O relato de trauma ocular necessita de rápida avaliação por um médico oftalmologista devido ao risco de lesão de estruturas intra-oculares. Ex- posição a substâncias químicas seguida de dor e olho vermelho sugere queimadura química, sen- do necessário como primeira conduta irrigação e lavagem copiosa com soro fisiológico ou, na falta deste, com água corrente em abundância, para então submeter-se o paciente a uma avaliação oftalmológica cuidadosa. Pacientes no período pós-operatório recente merecem maior atenção para que um processo inflamatório normal dessa fase seja diferenciado de uma endoftalmite, infecção intra-ocular com elevada taxa de evolução para perda de visão. Quanto ao olho vermelho crônico, a avaliação of- talmológica especializada é essencial para iden- tificação e tratamento da patologia ocular de base. A Tabela 1 lista 10 sinais de alerta na síndro- me do olho vermelho a serem obrigatoriamente pesquisados à primeira avaliação do paciente. A Tabela 2 é formada pelos principais diferenciais da síndrome do olho vermelho e suas caracterís- ticas. Tabela 1 - Sinais de alerta · Dor ocular severa · Perda visual súbita · Exposição química · Trauma ocular · Presença de corpo estranho · Secreção purulenta · Anormalidades corneanas · Anormalidades da pupila · Cirurgia recente · Olho cronicamente vermelho Yasmim Realce Yasmim Realce 185Olho vermelho cap. 07 Olho vermelho H em or ra gi a Su bc on ju nt iv al Au se nt e Au se nt e Au se nt e Au se nt e Au se nt e H ia lin a Pu ru le nt a Aq uo sa o u Pu ru le nt a Co nj un tiv ite ag ud a vi ra l Co nj un tiv ite ag ud a ba ct er ia na Ú lc er a de có rn ea G la uc om a ag ud o pr im ár io U ve íte a nt er io r ag ud a Ep is cl er ite Es cl er ite Co ns er va da Ba ix a im po rt an te d e ac ui da de vi su al Ba ix a vi su al m od er ad a Co ns er va da Co ns er va da Co ns er va da o u le ve m en te di m in uí da Co ns er va da o u le ve m en te di m in uí da D im in uí da N or m al Tu rv a (e de m a de c ór ne a) Tr an sp ar en te N or m al N or m al N or m al o u in �l tr ad os N or m al Á re as op ac i� ca da s N or m al M éd io - m id ría se M io se N or m al N or m al N or m al N or m alN or m al N or m al Au se nt e N or m al o u di m in uí da N or m al N or m al N or m al N or m al N or m al Se to ria l, ve rm el ho -v iv o Pe ric er át ic a Pe ric er át ic a Lo ca liz ad a Lo ca liz ad a D ifu sa D ifu sa Pe ric er át ic a Au se nt e Se cr eç ão Vi sã o Có rn ea Pu pi la Re �e xo fo to -m ot or H ip er em ia D or In te ns a M od er ad a a se ve ra M od er ad a M od er ad a a se ve ra Se ns aç ão d e co rp o es tr an ho Se ns aç ão d e co rp o es tr an ho M od er ad a Ta b el a 2 – D ia gn ós tic o di fe re nc ia l d as c au sa s m ai s co m un s de o lh o ve rm el ho 186 Olho vermelho cap. 07Olho vermelho Hiposfagma Aparecimento súbito de sangramento sob a conjuntiva, podendo ser localizado ou difuso, unilateral ou bilateral. Pode ocorrer após alguns eventos como: trauma com lesão conjuntival; após esforço ou manobra de Valsalva (carregar objetos pesados, tosse, espirro, etc.) ou esponta- neamente, em pacientes idosos, em decorrência do comprometimento da estrutura vascular na arteriosclerose. Apresenta evolução benigna, com resolução es- pontânea em 2 a 3 semanas, não necessitando de tratamento específico. O paciente normalmente é assintomático ou pouco sintomático, poden- do referir discreta sensação de corpo estranho. Não há acometimento da visão. Como se trata de uma afecção ocular de resolução espontânea, não é necessário tratamento. Em casos em que as recidivas são freqüentes, distúrbios na coagu- lação e alterações nos níveis pressóricos devem ser investigados. Pinguécula Espessamento da conjuntiva devido à degene- ração hialina do tecido colágeno subepitelial da conjuntiva decorrente do envelhecimento ou da exposição crônica ao sol. Apresenta-se como de- pósitos branco-amarelados na conjuntiva bulbar adjacente ao limbo temporal ou nasal. Na maio- ria dos casos, o tratamento não é necessário, po- dendo-se prescrever lágrimas artificiais e orien- tar quanto ao uso de óculos de proteção solar. Quando há inflamação (pingueculite), o paciente apresenta hiperemia conjuntival e dor ocular. O tratamento nesses casos consiste em uso tópico de antiinflamatório esteroidal de baixa potência. Pterígio Crescimento fibrovascular subepitelial em for- mato triangular que avança sobre a córnea. Tem como fator causal principal a exposição solar crô- nica (irradiação UV). O pterígio muitas vezes está associado a quadro de irritação crônica, a distri- buição irregular do filme lacrimal na superfície corneana e a quadro intermitente de inflamação e de hiperemia. O tratamento se faz com uso de lágrimas artifi- ciais e, em alguns casos, esteróides fracos, por curto tempo. Conforme avança sobre a córnea, o pterígio pode induzir astigmatismo e, nos casos em que o eixo visual é comprometido, ou quan- do se deseja corrigir a parte estética, a aborda- gem cirúrgica é indicada. Blefarite Inflamação da margem palpebral de origem in- fecciosa ou não. Hiperemia da margem palpebral e conjuntival, crostas na base dos cílios, prurido, sensação de corpo estranho, lacrimejamento, filme lacrimal de aspecto espumoso, fotofobia leve, ardência, normalmente bilateral. Conduta: Orientar limpeza palpebral diária com xampu neutro (infantil) diluído e uso de lágrimas artifi- ciais. 187Olho vermelho cap. 07 Olho vermelho A blefarite crônica é uma afecção palpebral que pode cursar com hiperemia conjuntival além de outras alterações corneanas e conjuntivais devi- do à íntima relação da pálpebra com a superfície ocular. A blefarite pode ser de vários tipos: blefarite es- tafilocócica, seborréica e mista; seborréia meibo- miana e meibomite. A blefarite estafilocócica tem sua etiologia na infecção estafilocócica na qual os produtos tóxi- cos são irritantes e levam a quadro caracterizado pela hiperemia e por telangiectasias da margem palpebral anterior. É comum a formação de con- creções em torno da base dos cílios conhecidos por “colaretes”. Pode haver cicatrização com hi- pertrofia da margem palpebral e perda dos cílios (madarose), além de triquíase e poliose. A blefarite seborréica caracteriza-se por hipere- mia e oleosidade da margem palpebral junto aos cílios, formando crostas moles. O Corynebacte- rium acnes contribui na etiologia dessa afecção ao degradar quantidades excessivas de lipídeos neutros em ácidos graxos irritantes. Há correla- ção dessa afecção ocular com quadro de derma- tite seborréica, que pode acometer áreas extra- oculares como couro cabeludo e região retro- auricular, por exemplo. O tratamento envolve a higiene palpebral com uso de xampu neutro ou infantil diluído, por longo período, adequando- se a freqüência de acordo com a intensidade dos sintomas. Podem ser associados antibioticotera- pia tópica na margem palpebral, nos casos de fo- liculite aguda, e lágrimas artificiais, nos casos em que há instabilidade do filme lacrimal. A seborréia meibomiana é a afecção palpebral em que há secreção excessiva pelas glândulas de Meibomius. Pode ser visualizada nos óstios das glândulas de Meibomius a formação de gotícu- las de óleo. Geralmente está associado ao qua- dro um filme lacrimal de aspecto espumoso. Meibomite é a afecção palpebral em que há obs- trução dos orifícios das glândulas de Meibomius. Caracteriza-se pela hiperemia da margem palpe- bral, a qual apresenta inflamação difusa adjacen- te às glândulas meibomianas. 188 Olho vermelho cap. 07Olho vermelho Episclerite Forma mais comum de inflamação escleral. Co- mumente apresenta-se como uma inflamação circunscrita, geralmente segmentar e nodular da episclera, podendo ser unilateral ou bilateral. As veias episclerais tornam-se dilatadas, com dis- posição radial, associada à hiperemia conjunti- val nesse setor. A etiologia freqüentemente não pode ser identificada e, em alguns raros casos, pode-se relacioná-la a doenças sistêmicas (artri- te reumatóide, polimiosite, dermatomiosite, sífi- lis, por exemplo). Durante a investigação, pode ser instilada uma gota de colírio de fenilefrina a 10% com o intuito de se obter vasoconstrição dos vasos conjunti- vais. No caso da episclerite, os vasos conjuntivais se tornam constritos e os episclerais não, diferen- ciando esta de uma conjuntivite. A episclerite geralmente se resolve espontane- amente em 1 a 2 semanas, ainda que a forma nodular persista por período maior. No caso de sintomas mais expressivos, o uso de antiinflama- tórios tópicos não esteroidais ou esteroidais le- ves pode ser considerado. Entrópio Afecção na qual ocorre inversão da borda pal- pebral causando atrito dos cílios contra o bulbo ocular. O atrito constante dos cílios na córnea em pacientes com entrópio de longa duração pode causar irritação, erosões corneanas epite- liais ponteadas e, nos casos graves, ulceração e formação de pannus. Divide-se em formas congênita e adquirida. A forma congênita do entrópio é muito rara. É importante ficar atento quanto ao diagnóstico diferencial de epibléfaro, que representa uma dobra de pele, na maioria das vezes na pálpe- bra inferior, a qual empurra os cílios contra o bulbo ocular simulando o entrópio congênito. A correção do entrópio congênito e do epiblé- faro são cirúrgicas. O entrópio adquirido divide-se em dois gru- pos: involucional e adquirido. O entrópio involucional é a forma mais comum e afeta as pálpebras inferiores. A causa consis- te no envelhecimento e conseqüente flacidez dos tecidos, levando ao alongamento dos re- tratores da pálpebra inferior e à desinserção destes em relação ao tarso. O entrópio cicatricial é causado pela retração da lamela posterior da pálpebra (tarso e con- juntiva). Essa retração pode ocorrer em qua- dros que levem a cicatrização intensa da pál- pebra como tracoma, queimadura química, síndrome de Stevens-Johnson e penfigóide. O tratamento do entrópio adquirido é cirúrgi- co, com diversas técnicas existentes.Ectrópio Afecção em que ocorre eversão da margem pal- pebral. O ectrópio pode acarretar exposição da córnea e das conjuntivas bulbar e tarsal, levando a quadros de conjuntivite crônica, inflamação da borda palpebral, ceratite, dor e epífora. É dividido em duas formas: congênito e adqui- rido. O ectrópio congênito é causado por uma defi- ciência relativa da lamela anterior da pálpebra. Pode ser visto em pacientes portadores das seguintes síndromes: Down, Barber-Say, Neu- Laxova e Blefaro-cheilo-dontic. O tratamento é cirúrgico. Yasmim Realce Yasmim Realce 189Olho vermelho cap. 07 Olho vermelho O ectrópio adquirido pode ser dividido em in- volucional, cicatricial, mecânico e paralítico. O ectrópio involucional é o tipo mais freqüen- te. Apresenta-se inicialmente como uma flaci- dez de tecidos que evolui para o alongamento palpebral, para eversão da margem e, final- mente, para hipertrofia e queratinização da conjuntiva tarsal. O ectrópio cicatricial é o resultado do encur- tamento da lamela anterior palpebral. Pode ocorrer em casos de trauma (queimadura tér- mica ou química, seqüela de blefaroplastia com ressecção excessiva de pele) ou de pro- cesso inflamatório crônico da pele (eczema, dermatite atópica, leishmaniose e linfoma cutâneo de célula T). O ectrópio mecânico está relacionado à pre- sença de massa tumoral na margem palpebral. O ectrópio paralítico é causado pela parali- sia do VII par craniano (nervo facial). Além do ectrópio, a paralisia do VII par craniano leva a quadro de lagoftalmo e de ptose de supercílio ipsilateral, e até a lesão. Todos os tipos de ectrópio adquirido são de tratamento cirúrgico, através de diversas téc- nicas. Triquíase Afecção caracterizada pela alteração da direção do cílio que, emergindo normalmente do folhe- to palpebral anterior, encurva-se e toca o bulbo ocular. É importante frisar que o cílio triquiático tem cor e espessura semelhantes aos cílios nor- mais. É uma condição adquirida muito comum. A triquíase é basicamente uma condição de natureza cicatricial. Pode ser resultado de: pro- cessos inflamatórios que afetam a margem palpebral e os folículos pilosos (meibomites, blefarites crônicas, tracoma, conjuntivites crô- nicas, hordéolos); alterações dermatológicas que gerem retração da pele periorbital e alte- ração de convexidade de cílios; doenças con- juntivais cicatrizantes (Stevens-Johnson, pen- figóide ocular, conjuntivite lenhosa) as quais podem produzir retração cicatricial da con- juntiva tarsal, com conseqüente retração da margem palpebral e alteração da posição dos cílios; trauma cortante da margem palpebral; cirurgia palpebral com fratura de tarso; dimi- nuição da produção lacrimal, a qual freqüente- mente acarreta modificações conjuntivais. A maioria dos pacientes com triquíase encon- tra-se na faixa etária entre 60 e 70 anos de ida- de. Os sintomas são sensação de corpo estra- nho ocular, fotofobia, lacrimejamento e secre- ção seromucosa. O tratamento consiste em destruição dos cílios alterados com uso de eletrólise, de crioterapia ou de laser. Em casos muito severos, com gran- de quantidade de cílios acometidos, deve ser realizado procedimento cirúrgico. Yasmim Realce 190 Olho vermelho cap. 07Olho vermelho Figura 01: 191Olho vermelho cap. 07 Olho vermelho Ceratites superficiais Podem fazer parte do quadro clínico de diversas afecções oftalmológicas: síndrome de olho seco, blefarite, trauma, ceratite de exposição, toxici- dade por drogas de uso tópico, queimaduras, distúrbios relacionados ao uso de lentes de con- tato, ceratite ponteada superficial de Thygeson, corpo estranho, conjuntivite, triquíase, entrópio, ectrópio, síndrome de pálpebras frouxas, ceratite fotoelétrica, entre outras. O exame oftalmológico e a anamnese devem ser completos para o adequado diagnóstico do fator causal da ceratite superficial e para seu adequa- do tratamento. 192 Olho vermelho cap. 07Ceratites infecciosas Ceratites infecciosas Ceratites Bacterianas A ceratite bacteriana constitui causa importante de déficit visual, associando-se freqüentemente a situações em que ocorrem alterações nos me- canismos de defesa corneal. Diagnóstico e trata- mento imediatos podem limitar a perda de te- cido, minimizar a cicatrização e reduzir a neces- sidade de cirurgia futura. Neisseria gonorrhoeae e Haemophilus influenzae são as duas bactérias capazes de invadir o epitélio corneano intacto. As demais bactérias somente são capazes de produzir ceratite após o comprometimento da integridade epitelial. Pseudomonas sp., Staphylo- coccus sp. e Streptococcus pneumoniae são os agentes etiológicos mais freqüentes. Em cerati- te bacteriana associada a mau uso de lentes de contato, a Pseudomonas aeroginosa é o agente causador mais comumente isolado. No quadro clínico inicial, tipicamente há histó- ria de traumatismo ocular, de doença corneal pré-existente, de uso de lentes de contato ou de corticosteróide tópico. Sinais e sintomas in- cluem dor, lacrimejamento, fotofobia, diminui- ção de visão, edema palpebral, secreção puru- lenta e hiperemia conjuntival. Os sintomas po- dem ser mascarados ou retardados em usuários de lentes de contato. Ao exame oftalmológico, os sinais são injeção conjuntival e perilímbica, defeito epitelial associado a infiltrado ao redor da margem e na base da desepitelização cor- neal, aumento do infiltrado associado a edema estromal corneal, uveíte anterior estéril com hipópio. A progressiva ulceração pode causar perfuração corneal e endoftalmite bacteriana. Antes de se iniciar o tratamento, é imprescindí- vel coleta de material para citologia e cultura. O tratamento consiste basicamente em utilização de antibioticoterapia tópica efetiva contra um amplo espectro de bactérias Gram-positivas e Gram-negativas. Em úlceras corneanas de menor gravidade (pe- riféricas, superficiais e menores que 3 mm), é instituída monoterapia com fluorquinolonas tó- pica de 1 em 1 hora (ciprofloxacina 0,3%, ofloxa- cina 0,3%, monofloxacina 0,5% ou gatifloxacina 0,3%). Para úlceras graves, o tratamento consiste em utilização de dois antibióticos fortificados tó- picos para a cobertura de patógenos Gram-posi- tivos e Gram-negativos, de 1 em 1 hora (cefazo- lina fortificada 5% e gentamicina fortificada 2%). Uso de antibioticoterapia sistêmica com uso de fluorquinolonas estão indicados em casos com risco ou comprometimento escleral ou intra- ocular. A terapêutica inicial só deve ser modifica- da na existência de resistência demonstrada em cultura do organismo ao esquema terapêutico. Durante o tratamento, é importante não con- fundir dificuldade de reepitelização corneal por toxicidade medicamentosa com persistência da infecção. Ceratites Fúngicas As ceratites fúngicas são raras, porém podem evoluir com efeitos devastadores. Podem ser causadas por uma grande variedade de agentes. Os patógenos mais comuns são fungos filamen- tosos (Aspergillus spp. e Fusarium spp.) e Candida albicans. A ceratite causada por fungos filamen- tosos é mais prevalente em áreas de agricultu- ra e é tipicamente precedida por trauma ocular envolvendo matéria orgânica como madeira e plantas. A ceratite por Candida ocorre tipicamen- te em associação a doenças corneanas pré-exis- tentes ou em pacientes com comprometimento imunológico. A incidência de ceratite fúngica e o tipo de agente etiológico mais freqüente variam 193Olho vermelho cap. 07 Ceratites infecciosas conforme a região geográfica devido a diferen- tes condições de temperatura e umidade. Há as- sociação entre a ceratite fúngica por Fusarium sp. e o uso inadequado de lentes de contato. Os sintomas mais comuns das ceratites fúngicas são: sensação de corpo estranho, fotofobia, dimi- nuição de acuidade visual e secreção. Ao exame oftalmológico, há diversos achados inespecíficos como hiperemia conjuntival, defeitos epiteliais, reação de câmara anterior e edema corneal. Os achados específicos de infecção fúngica são: in- filtradosestromais com bordas mal definidas e margens hifadas, bordas elevadas, lesões satéli- tes digitiformes, infiltrados imunes em anel, pla- ca endotelial subjacente à úlcera e pigmentação acastanhada ou acinzentada. Antes de se iniciar a terapêutica, deve ser reali- zado raspado corneal, para reduzir a quantidade de fungos e aumentar a penetração dos agentes antifúngicos, além do envio de amostra a labora- tório para pesquisa e cultura de fungos. O tratamento é realizado através de antifúngi- cos tópicos em geral por tempo prolongado. Em fungos filamentosos, a terapia inicial é com na- tamicina a 5% tópica de 1 em 1 hora, podendo ser associados cetoconazol sistêmico 400-800 mg/dia ou miconazol subconjuntival 5-10 mg/ dia. Em fungos leveduriformes, a terapia inicial é com anfotericina B tópica a 0,15% de 1 em 1 hora, podendo ser associados cetoconazol 400- 800 mg/dia , fluconazol 200mg/dia sistêmico ou miconazol subconjuntival 5-10 mg/dia. Em casos de progressão da doença apesar da te- rapia clínica, devem ser indicadas a ceratoplastia penetrante ou recobrimento conjuntival. Ceratites Virais As ceratites virais representam um grupo de do- enças causadas na sua grande maioria por vírus do grupo herpes. Dentre os vírus desse grupo, a doença ocular é geralmente causada pelo her- pes simples (VHS) e pelo herpes varicela-zoster (HVZ). Ceratite pelo VHS A infecção ocular primária pelo VHS geralmente acomete crianças e pode estar associada a sinto- mas de virose sistêmica. Há o aparecimento de vesículas ao redor do olho com cicatrização em até duas semanas. Quando ocorre acometimen- to ocular na infecção primária (relativamente incomum), a infecção manifesta-se como con- juntivite folicular aguda unilateral associada a linfadenopatia pré-auricular. A ceratite herpética pelo VHS pode manifestar-se como ceratite epitelial, ceratite estromal necroti- sante e endotelite disciforme. A ceratite epitelial pelo VHS pode ocorrer em qualquer faixa etária. A apresentação inclui des- conforto ocular leve, lacrimejamento e turvação visual. Ao exame oftalmológico, manifesta-se por ceratite ponteada com posterior evolução para úlcera dendrítica (lesões lineares com rami- ficações de aspecto edemaciado característico – bulbos terminais), com diminuição de sensibi- lidade corneana. As úlceras dendríticas coram-se com aplicação tópica de fluoresceína e rosa ben- gala. A ceratite estromal necrotisante é uma entida- de rara, porém de alta morbidade. Apresenta- se como uma intensa e progressiva redução de 194 Olho vermelho cap. 07Ceratites infecciosas acuidade visual associada a dor e desconforto. Ao exame, há presença de infiltrado inflamatório esbranquiçado, edema, uveíte anterior com pre- cipitados ceráticos sob a área de infiltração es- tromal ativa, com presença ou não de neovasos. Pode evoluir com leucoma cicatricial vasculariza- do, ceratopatia lipídica ou perfuração corneal. A endotelite herpética disciforme apresenta-se com turvação visual gradual indolor, que pode estar associada a halos e glare ao redor de pontos luminosos. Ao exame, a região central corneal é acometida por edema epitelial, espessamento estromal, precipitados ceráticos (secundários a uveíte anterior associada), dobras da membrana de Descemet e redução de sensibilidade corneal. O tratamento inclui uso de agentes antivirais, com preferência pelo uso do aciclovir. Nos casos de infecção ocular primária, aplicação de aciclo- vir pomada a 3% sobre as lesões da pele (cinco vezes/dia por 2 a 3 semanas). No tratamento da ceratite deve ser ministrada pomada de aciclovir a 3% em fórnice conjuntival inferior (cinco ve- zes/dia por 2 a 3 semanas). Na presença de irite, acrescentar o uso de cicloplégicos e, em casos graves e disseminados, considerar uso de tera- pia antiviral sistêmica (aciclovir via oral 200 a 400 mg 5 vezes/dia durante 2 semanas). As ceratites estromais, as vasculites, a endotelite e a cera- touveíte devem ser tratadas com associação de corticosteróide tópico. O uso de corticosteróide está contra-indicado em casos com presença de ulceração corneal. Ceratite pelo HVZ O herpes zoster pode acometer o ramo oftál- mico do nervo trigêmeo em até 15% dos casos. Essa condição recebe o nome de “herpes zoster oftálmico”, independentemente da presença ou não do envolvimento ocular. É importante notar se há envolvimento pela doença do nervo nasal externo (sinal de Hutchinson), que inerva a asa do nariz, pois nesses casos há maior chance de ocorrer complicações oculares pela doença. A doença ocular mais comum é a ceratite, divi- dida em epitelial aguda, numular e disciforme; no entanto, pode haver casos de conjuntivite, episclerite, esclerite, uveíte anterior, além de complicações neurológicas com sintomas ocu- lares, como neurite óptica e paralisia de nervos cranianos (principalmente terceiro par – oculo- motor). O tratamento da doença ocular faz parte do tratamento da doença sistêmica (aciclovir via oral 800 mg 5 vezes/dia por 7 dias) associado ao uso de lubrificante tópico. O tratamento tópico com aciclovir pomada a 3% (5 vezes/dia por 2 se- manas) é controverso e deve ser reservado em casos de maior gravidade. Ceratite por Acanthamoeba A Acanthamoeba é um protozoário de vida livre presente em praticamente todos os ambientes e altamente resistente a condições inóspitas (re- siste a extremas condições de temperatura e pH, bem como ao cloro e a outros sistemas de desin- fecção). Os humanos são amplamente resistentes à infec- ção; no entanto, a ceratite pode se instalar após abrasão corneana mínima. Os usuários de lentes de contato estão sob maior risco, principalmente usuários que freqüentam piscinas sem a retirada das lentes. A apresentação geralmente tem progressão len- ta, com episódios de regressão e recidiva. O qua- dro inclui visão turva, lacrimejamento, fotofobia e dor intensa desproporcional aos sinais clínicos. 195Olho vermelho cap. 07 Ceratites infecciosas Dor desproporcional à lesão, infiltrado em forma de anel e história de uso de lentes de contato for- mam tríade muito sugestiva de ceratite por ame- ba. A lesão inicial é muito semelhante ao herpes simples. Achado característico da ceratite por Acanthamoeba é a ceratoneurite (infiltrados pe- rineurais radiais). Alguns casos podem progredir com complicações como afilamento corneal (até perfuração), infecção secundária ou associada, esclerite, entre outras. O diagnóstico pode ser realizado por isolamento da ameba derivado de raspado corneal ou bióp- sia. A doença é de difícil tratamento com utilização de amebicidas tópicos a cada 1-2 horas (pro- pamidina a 1%; hexamidina a1%; biguanida a 0,02%; clorexidine a 0,02%). Em certos casos, al- gum tipo de intervenção cirúrgica é necessária como opção terapêutica ou diagnóstica. 196 Olho vermelho cap. 07Conjuntivite Conjuntivite Ruth Miyuki Santo Conjuntivite é a inflamação da conjuntiva, po- dendo ocorrer em qualquer grupo etário, sem predileção por sexo. Pode ser classificada de vá- rias formas, por exemplo: 1. Considerando-se o tempo de início dos sin- tomas: a. Hiperaguda: menos de 12 horas b. Aguda: menos de 3 semanas c. Crônica: mais de 3 semanas d. Neonatal: do nascimento até 28 dias de vida 2. Considerando-se o agente causal: a. Infecciosa i. Bacteriana ii. Viral iii. Clamídea b. Alérgica c. Irritativa d. Tóxica e. Relacionada a alterações palpebrais (floppy eyelid, lagoftalmo) f. Associada a doenças sistêmicas (síndrome de Sjöegren, doença de Graves, Síndrome de Reiter, penfigóide, psoríase) 3. Considerando-se o tipo de resposta con- juntival: a. Papilar (Figura1) b. Folicular (Figura 2) c. Membranosa d. Cicatricial e. Granulomatosa f. Flictenular 4. Considerando-se a lateralidade: a. Unilateral b. Bilateral Geralmente, o processo, quando restrito à con- juntiva, costuma ser autolimitado, e a resolução não implica em seqüelas. Entretanto, em alguns casos de conjuntivite, pode haver comprometi- mento da córneacom perda permanente da vi- são, como na conjuntivite gonocócica, ou pode levar a uma morbidade ocular prolongada, como nos casos de ceratoconjuntivite adenoviral e nas ceratoconjuntivites atópica e primaveril. Principais sinais e sintomas: • Secreção: aquosa (lacrimejamento), mucóide, mucopurulenta ou purulenta • Prurido • Queimação • Sensação de corpo estranho • Hiperemia conjuntival • Edema da conjuntiva (quemose) • Edema palpebral e pseudoptose Outros sinais: linfadenopatia satélite (Síndrome oculoglandular de Parinaud, conjuntivites ade- novirais), hemorragias conjuntivais. Os pacientes com conjuntivite têm mais descon- forto e ardor do que propriamente dor. A dor não é um sintoma freqüente. Além disso, deve- mos pensar em outras causas de olho vermelho que não a conjuntivite. 197Olho vermelho cap. 07 Conjuntivite A anamnese do paciente com conjuntivite inclui: 1. Tempo de início dos sinais e sintomas 2. Presença de manifestações sistêmicas a. Infecção de vias aéreas superiores b. Alergia c. Uretrite d. Artrite (a associação de conjuntivite, uretrite e artrite sugere o diagnóstico de Síndrome de Rei- ter) e. Doenças reumatológicas, Síndrome de Sjöe- gren, doenças dermatológicas 3. Uso de lente de contato 4. Uso de medicação tópica ocular (colírios e po- madas) Ao exame oftalmológico, verificar: 1. Tipo de secreção 2. Tipo de reação conjuntival 3. Pálpebras, margens palpebrais e cílios a. Presença de vesículas b. Blefarite, canaliculite c. Dermatite seborréica d. Dermatite atópica 4. Padrão da hiperemia: na conjuntivite, a hipe- remia é difusa ou, às vezes, mais intensa nos fun- dos de saco e tarso (Figura 3) Quando o padrão for injeção ciliar (Figura 4), ou seja, congestão dos vasos na região do limbo, é necessário afastar outras causas de olho verme- lho, como uveíte, glaucoma agudo, fístula caró- tido-cavernosa, e que normalmente são unilate- rais. Na ceratoconjutivite límbica superior, a con- gestão vascular, como o próprio nome sugere, é restrita à região limbar superior. 5. Envolvimento da córnea: a. Ceratite superficial (ceratite ponteada) b. Infiltrados subepiteliais ou estromais c. Úlcera dendrítica d. Ceratite flictenular (manifestação imunoalér- gica na região do limbo e da córnea periférica, resultante da antigenicidade de certos agentes como o estafilococo e o bacilo da tuberculose) A investigação laboratorial não é necessária na maioria das vezes, exceto se o processo é crônico ou recidivante, ou se é fulminante. A pesquisa laboratorial inclui: 1. Exame citológico: a. Possibilita a identificação de tipos de células inflamatórias envolvidas (neutrófilos, linfócitos, eosinófilos) e de certas alterações celulares (cé- lulas multinucleadas); presença de inclusões nu- cleares sugerem infecção por herpesvírus). Colo- rações específicas auxiliam o diagnóstico: i. GRAM – classifica as bactérias ii. Giemsa – útil na suspeita de conjuntivite por clamídea; identifica os corpúsculos de inclusão intracitoplasmáticos iii. Imunofluorescência: uso de anticorpos fluo- rescentes específicos (clamídea e vírus) 2. Culturas a. Meios de ágar sangue ou chocolate (meios enriquecidos que favorecem o crescimento de bactérias) b. Neisseria: meio de Thayer Martin c. Vírus : pouco disponível 198 Olho vermelho cap. 07Conjuntivite Conjuntivite aguda Dentre as conjuntivites agudas, as mais freqüen- tes são as de etiologia viral, sobretudo as causa- das pelos adenovírus; em seguida, com freqüên- cia bastante menor, vêm as conjuntivites alérgi- cas agudas e as bacterianas. Conjuntivite aguda de origem infecciosa 1. Viral Febre faringo-conjuntival É causada por adenovírus dos tipos 3, 4 e 7, e caracteriza-se pela presença de faringite e de fe- bre. Presença de linfadenopatia pré-auricular é comum, e é mais freqüente em crianças. Na con- juntiva, a reação é do tipo folicular. Ceratoconjuntivite epidêmica Também é causada por uma variedade de cepas de adenovírus, incluindo os tipos 8 e 19. Inicial- mente há hiperemia conjuntival, quemose, lacri- mejamento, e é geralmente bilateral. Pode evo- luir com comprometimento da córnea a partir de uma semana, o qual é representado por infiltra- dos subepitelias (Figura 5). Os pacientes acome- tidos dessa patologia queixam-se de fotofobia, e, dependendo da intensidade dos infiltrados, há redução na acuidade visual. A reação conjunti- val é folicular, podendo cursar com formação de membrana ou de pseudomembrana. Pode haver linfadenopatia pré-auricular. Nas crianças, além do quadro ocular, pode haver febre e dor de garganta. Nas infecções por adenovírus não há tratamento específico. Estão indicados medidas de apoio e uso de lubrificantes oculares. Nos casos de for- mação de membrana e de ceratite com compro- metimento visual importante, corticóide tópico é indicado, porém com muita parcimônia. Importante lembrar que as conjuntivites adeno- virais, sobretudo a ceratoconjuntivite epidêmica, são altamente transmissíveis, devendo tomar-se todo o cuidado para evitar a disseminação. Os pacientes devem ser orientados a respeito das medidas preventivas de disseminação, como lavar as mãos antes e após a manipulação dos olhos e separar objetos de uso pessoal. Conjuntivite pelo herpes simples Forma mais rara de conjuntivite viral, acompa- nha a infecção primária pelo herpes simples. Ao exame, podemos encontrar vesículas herpéticas na pálpebra e nas margens, edema palpebral e eventualmente, ceratite com formação de den- dritos. Linfadenopatia pré-auricular dolorosa está quase sempre presente. O tratamento inclui o uso de medicação antiviral tópica (pomada de Aciclovir). O uso de corticóide é contra-indicado. 2. Bacterianas As bactérias mais freqüentes são: Staphylococcus aureus (em todas as faixas etárias), Streptococcus pneumoniae e Hemophilus influenza (mais co- muns em crianças). Sinais e sintomas: ardor, hiperemia, secreção mu- copurulenta leve a moderada, reação papilar. Exames laboratoriais não são necessários de for- ma rotineira e o tratamento inclui uso de colírio 199Olho vermelho cap. 07 Conjuntivite de antibiótico (atualmente o grupo mais usado é o das quinolonas, de amplo espectro), além das medidas de apoio, como limpeza e compressas frias com solução salina 0,9% (soro fisiológico) ou com água filtrada ou mineral. Não é recomen- dado o uso de água boricada (pode ser irritante e alergênica). Conjuntivite hiperaguda É uma conjuntivite de evolução rápida e, geral- mente, muito agressiva, podendo, se não tratada a tempo, levar à destruição da córnea. O prin- cipal agente desse grupo é a Neisseria; tanto a gonorrheae como a meningitidis podem causar conjuntivite, mas a gonocócica costuma ser mais grave. A conjuntivite gonocócica caracteriza-se pela presença de secreção purulenta abundante e exige tratamento imediato. É recomendável a obtenção de material para exame laboratorial. O não tratamento pode permitir a rápida evolução para perfuração corneana ou invasão da corren- te sangüínea pelos vasos da conjuntiva (conjun- tivite por N. meningitidis pode evoluir com me- ningite). O tratamento é sistêmico com Ceftriaxone 1g IM, dose única, ou cefotaxime 1g EV, a cada 8 horas. Além disso, indicam-se as medidas locais, como remoção periódica da secreção conjuntival com solução salina 0,9%. Conjuntivite crônica Conjuntivite com duração de mais de 3 semanas. Pode ser classificada de acordo com os agentes causais: · Infecciosa: - Bacteriana - Viral - Clamídea · Tóxica (drogas atropina, antivirais, presenvati- vos, aminoglicosídeos) · Alérgica ou inflamatória · Anormalidade das pálpebras (floppy eyelid, la- goftalmo) · Ceratoconjuntivite sicca 200 Olho vermelho cap. 07Conjuntivite mínimoPrurido mínimo intensomínimo a moderado moderadaHiperemia moderada moderadaintensa mucopurulenta ou purulenta Secreção mucopurulenta mucóide ou mucopurulenta aquosa ocasionalDor de garganta e febre ausente ausenteocasional bactérias PMN Citologia corpúsculos de inclusãocitoplasmáticos eosinó�loslinfócitos, efeitos citopáticos papilarReação conjuntival folicular e papilar papilarfolicular BACTERIANAACHADOS CLÍNICOS E CITOLOGIA CLAMÍDEA ALÉRGICAVIRAL Além de se basear na história, o diagnóstico tam- bém é baseado no aspecto morfológico ao exame biomicroscópico da conjuntiva: Conjuntivite papilar blefaroconjuntivite ceratoconjuntivite límbica superior floppy eyelid Conjuntivite papilar gigante Primaveril (alérgica) Lente de contato, sutura, prótese Folicular Clamídea (conjuntivite de inclusão do adulto, considerada uma doença sexualmente transmis- sível) e tracoma; nos estágios mais avançados, os folículos podem não ser mais observados, exis- tindo apenas extensa cicatrização conjuntival com presença da linha de Arlt e as fossetas de Herbert no limbo) Diferenciação das cinjuntivites Molusco contagioso (Vídeo) Microsporídeo: indivíduos imunocomprometi- dos Tóxica: atropina, antivirais, anestésico (preserva- tivos e aminoglicosídeos costumam resultar em con- juntivite papilar) Conjuntivite membranosa conjuntivite lenhosa Conjuntivite cicatricial: Penfigóide Síndrome de Stevens-Johnson Queimaduras químicas Conjutivite granulomatosa Sarcoidose Síndrome oculoglandular de Parinaud (doença da arranhadura de gato, esporotricose, tuberculose) 201Olho vermelho cap. 07 Conjuntivite Importante As conjuntivites são uma das principais causas de “olho vermelho”. Dentre elas, as de origem adenoviral são as mais freqüentes. Quando o processo está restrito à conjuntiva costuma ser autolimitado, e a resolução não implica em seqüelas. O diagnóstico é clínico, e exames laboratoriais não são necessários de forma ro- tineira. Nas infecções por adenovírus não há tratamento específico. O uso indiscriminado de colírios antibióticos, além de não ter efeito sobre a infecção viral, pode favorecer a seleção bacteriana. Importante lembrar que as conjuntivites ade- novirais, sobretudo a ceratoconjuntivite epi- dêmica, são altamente transmissíveis, deven- do tomar-se todo o cuidado para evitar a dis- seminação. Os médicos devem lavar as mãos após o exame de um paciente com suspeita de conjuntivite. Os pacientes devem ser orien- tados com medidas de prevenção da dissemi- nação: lavar as mãos antes e após a manipula- ção dos olhos, separar objetos de uso pessoal, trocar a toalha e a fronha diariamente, evitar beijos e cumprimento com as mãos, não to- mar banho de mar, de piscina ou de banheira. O afastamento do ambiente escolar ou de tra- balho é necessário nos casos de ceratoconjun- tivite epidêmica e deve ser fornecido atestado médico por oftalmologista. Conjuntivite neonatal As conjuntivites neonatais estão associadas à in- fecção ocular do recém-nascido quando de sua passagem pelo canal vaginal contaminado no momento de parto. Conjuntivite gonocócica Historicamente, a conjuntivite por Neisseria go- norrheae foi uma importante causa de cegueira. É uma conjuntivite hiperaguda que se desenvol- ve 2 a 4 dias após o nascimento. O uso da solu- ção de nitrato de prata 1% (manobra de Credé) diminuiu a ocorrência da infecção, mas não a er- radicou. A infecção ocasiona edema palpebral intenso, secreção purulenta, ulceração, podendo ocorrer perfuração corneana. Diagnóstico clínico e laboratorial (diplococo G- intracelular). Tratamento: visa a prevenir as lesões oculares e sistêmicas (artrite, pneumonia, meningite e sép- sis). Requer tratamento sistêmico com ceftriaxo- ne 125 mg IM, em dose única, ou cefotaxime 25 mg/kg EV ou IM, a cada 8 ou 12 horas/7 dias. Outras conjuntivites bacterianas Incluem infecções por Strepto pneumoniae, Sta- phylo aureus, Haemophilus, E. coli, Pseudomonas (prematuros). Tratamento com antibiótico tópi- co. Se houver suspeita de complicação como celuli- te orbitária, o tratamento deve ser por via endo- venosa. Conjuntivite química Devida à instilação do colírio de nitrato de prata, ocorre em geral ao nascimento ou 3 dias após. A secreção é discreta, aquosa, autolimitada. Em alguns serviços, o uso de colírio de eritromicina 1% ou de tetraciclina 1% é usado como alternati- va na profilaxia para a conjuntivite gonocócica e diminui a chance de conjuntivite química. 202 Olho vermelho cap. 07Conjuntivite 2 - 30 dias 1 - 3 dias 5 - 10 dias 2 - 4 dias 7 - 10 dias INÍCIO Outra bactérias Química Chlamydea Neisseria Herpes AGENTE ágar sangue/chocolate negativa ágar sangue/chocolate meio de Thayer-Martin cultura para vírus/PCR CULTURA G+ ou G- negativa corp. inclusão intracitoplasmático imunofluorecência diplococo G- intracelular céls. gigantes multinucleadas / incl. intranucleares CITOLOGIA Conjuntivite por Chlamydea Conjuntivite mucopurulenta, moderada a grave, que ocorre de 5 a 10 dias após o nascimento. Se não tratada pode resultar em pannus e em forma- ção de cicatriz corneana. Pode haver quadro sis- têmico com pneumonia, otite média, traqueíte, nasofaringite. Diagnóstico: clínico e laboratorial (presença de inclusões basofílicas intracitoplas- máticas à coloração por Giemsa, ou identificados por imunofluorescência). Tratamento: Tópico com pomada de eritromicina ou tetraciclina 4x ao dia, por 10 dias, e tratamen- to sistêmico deve ser feito nos pais e na criança. Suspensão de eritromicina 50mg/kg/dia, dividi- da em 4 doses por 14 dias. Conjuntivite por Herpes simplex (tipo II) Geralmente unilateral, ocorre 7 a 10 dias após o nascimento, ou mesmo mais tardiamente. Pro- voca uma conjuntivite com secreção aquosa; pode haver presença de vesículas nas margens palpebrais, ceratite difusa ou dendrítica (mas rara), coriorretinite, uveíte. Diagnóstico: clínico e laboratorial (ao exame citológico, pode haver presença de células gigantes multinucleadas e inclusões eosinofílicas intranucleares). Em pre- sença de lesão corneana, usa-se antiviral tópico na forma de pomada 5x ao dia, até a epitelização. 203Olho vermelho cap. 07 Esclerite Esclerite Pode ser anterior ou posterior ao equador do bulbo ocular, necrotizante ou não. É bem menos freqüente que a episclerite e acomete mais o sexo feminino e idades mais avançadas. Aproxi- madamente 50% dos casos de esclerite anterior estão associados com doenças sistêmicas auto- imunes ou reumatológicas. Já a esclerite pos- terior normalmente não apresenta associações com outras patologias. O tratamento consiste em instilação de colírios antiinflamatórios não esteroidais ou esteroidais e, em casos severos, corticoterapia sistêmica. 204 Olho vermelho cap. 07Olho seco Olho Seco Doença multifatorial da lágrima e da superfície ocular que resulta em sintomas de desconforto, distúrbios visuais e instabilidade do filme lacri- mal com potencial lesão da superfície ocular. O quadro é acompanhado por aumento de osmo- laridade do filme lacrimal e inflamação da super- fície ocular. A síndrome do olho seco pode ser classifica- da segundo sua etiologia em: evaporativa e por deficiência aquosa. A primeira divide-se em intrínseca (subdividida em: deficiência da glândula de Meibomius, distúrbios da abertu- ra palpebral, redução da freqüência dos pisca- mentos, e, secundariamente, uso de drogas) e extrínseca (subdividida em: deficiência de vitamina A decorrente de preservativos dos colírios, uso de lentes de contato e doença da superfície ocular, p.ex., alergia). Já o olho seco por deficiência aquosa é subdividido em olho seco associado à síndrome de Sjögren (primá- rio ou secundário) e olho seco sem síndrome de Sjögren (deficiência lacrimal, obstrução do ducto da glândula lacrimal, bloqueio reflexo e drogas de ação sistêmica). Ao exame ocular, nota-se redução do menisco do filme lacrimal, presença de debris no filme lacrimal pré-corneano, hiperemia conjuntival intermitente e ceratopatia ponteada. Em al- guns casos pode haver evolução para ceratite filamentar. Blefarite é um achado associado freqüente. A propedêutica subsidiária inclui teste de rosa bengala, análise do tempo de rompimento do filme lacrimal(BUT – break-up time) e teste de Schirmer. O tratamento baseia-se na utilização de lágri- mas artificiais. Casos mais graves podem ne- cessitar de oclusão do ponto lacrimal e tarsor- rafia. 205Olho vermelho cap. 07 Uveite Uveíte Inflamação do trato uveal cuja principal classifi- cação baseia-se em sua localização anatômica: uveíte anterior (envolvendo íris e/ou corpo ci- liar); intermediária (pars plana e extrema perife- ria da retina), posterior (atrás da borda posterior da base vítrea) e panuveíte (comprometimento de todo o trato uveal). A uveíte também é classi- ficada de acordo com a fase de estabelecimento e com o tempo de evolução em aguda ou crôni- ca. Ainda com base nas características fisiopato- lógicas, a uveíte pode ser dividida em granulo- matosa e não-granulomatosa. Os sintomas clássicos da uveíte são: fotofobia, dor ocular, hiperemia pericerática, redução da acuidade visual e lacrimejamento. Convém lem- brar que casos crônicos freqüentemente se apre- sentam com ausência de hiperemia e mínimos sintomas, mesmo na presença de inflamação ativa. O tratamento da uveíte envolve uso de esterói- des tópicos ou sistêmicos, de acordo com a seve- ridade do quadro. Além disso, é imprescindível a realização de investigação sistêmica para a defi- nição etiológica. Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce Yasmim Realce 206 Olho vermelho cap. 07Celulite orbitária Celulite Orbitária Trata-se de um processo infeccioso dos tecidos moles posteriores ao septo orbitário. A forma bacteriana é a mais comum e pode ser secun- dária a sinusite etmoidal, decorrente de infec- ção de estruturas adjacentes, pós-traumática e pós-cirúrgica. Apresenta-se com rápido desen- volvimento unilateral de quemose, hiperemia conjuntival, proptose e diplopia. Existe um risco de evolução para complicações intracranianas (meningite, abscesso cerebral, trombose do seio cavernoso) em cerca de 4% dos casos. 207Olho vermelho cap. 07 Glaucoma agudo primário Glaucoma agudo primário Roberto Freire Santiago Malta O glaucoma agudo primário (GAP) é uma das principais emergências oftalmológicas. Do ponto de vista epidemiológico, essa doença é comum na raça amarela, menos freqüente na população caucasiana e na negra. A prevalência do GAP é nitidamente maior nas mulheres (70%), com idade em torno de 65 anos, portadoras de hipermetropia. De modo geral, os olhos acometidos possuem diâmetro ântero-posterior reduzido, a câmara anterior é menor e mais rasa que a população normal e o cristalino tem diâmetro axial aumen- tado. Essas características anatômicas fazem com que o ângulo da câmara anterior seja estreito, propi- ciando o seu fechamento com conseqüente au- mento da pressão intra-ocular (PIO). Em relação à fisiopatogenia, observa-se uma di- ficuldade da passagem do humor aquoso da câ- mara posterior para a câmara anterior devido ao maior contato da face posterior da íris com a face anterior do cristalino. Esse evento é denominado “bloqueio pupilar” e ocorre durante uma eventu- al semimidríase pupilar. Essa dificuldade de trân- sito do aquoso faz com que o mesmo se acumu- le na câmara posterior, aumentando a pressão nesse local e empurrando a periferia da íris para frente, fechando o seio camerular ou o ângulo da câmara anterior. O fechamento angular impede a drenagem do aquoso acarretando súbito aumento da PIO. A pressão que, por exemplo, situa-se em torno de 15 mmHg, sobe, em questão de minutos, para 60 mmHg. Isso acarreta uma súbita isquemia do globo ocular e conseqüente quadro clínico asso- ciado. Na grande maioria dos casos, a crise aguda é unilateral, e clinicamente o paciente apresenta dor intensa no globo ocular, a qual pode irradiar para a cabeça e/ou para a hemiface acometida, e pode ser acompanhada de náuseas e vômitos. O olho acometido fica vermelho, de intensidade variável, acompanhado de lacrimejamento, foto- fobia, diminuição da acuidade visual e visualiza- ção de halos coloridos ao redor das lâmpadas. O exame ocular mostra que a PIO está bastante elevada. A pressão bidigital, realizada com os dois dedos indicadores através das pálpebras superiores com olhar direcionado para baixo, mostra nítida assimetria de tensão entre o olho normal e o olho com GAP. O exame realizado com lanterna apropriada ou o exame externo assinalam ausência de secre- ção mucopurulenta na presença de congestão acentuada dos vasos conjuntivais e episclerais. A córnea está edemaciada, perdendo, portanto, seu brilho e transparência, e a pupila está em se- mimidríase fixa. É importante acentuar que o exame com lanter- na deve ser realizado comparando-se o olho aco- metido com o olho normal, e isso evidenciará as diferenças dos achados entre um e outro olho. A crise de glaucoma agudo é uma das mais im- portantes urgências em oftalmologia, e o trata- mento deve ser instituído o mais rapidamente possível. A intensa isquemia produzida pela ele- vação aguda da PIO exige medidas de urgência as quais devem ser instituídas pelo médico espe- cialista. Assim sendo, o encaminhamento para o 208 Olho vermelho cap. 07Glaucoma agudo primário oftalmologista deve ser imediato. Inúmeras são as drogas de uso tópico e sistêmico que são utilizadas no tratamento da crise aguda, entretanto, elas não devem ser ministradas pelo médico generalista. Uma exceção é a acetazolamida, que é um inibi- dor da anidrase carbônica, comercializada com o nome de “Diamox”. A posologia é de 1 com- primido de 250 mg, via oral, de 6 em 6 horas. O uso dessa medicação fica prejudicado no caso da presença de vômitos, e a mesma deve ser utiliza- da com muito cuidado em portadores de gastri- te e de calculose renal. Enquanto aguardam atendimento especializado, os pacientes devem permanecer em decúbito horizontal dorsal, em quarto escuro. Vários são os diagnósticos diferenciais do glau- coma agudo primário. Entre eles, podemos in- cluir os glaucomas agudos secundários, a uveíte hipertensiva, os glaucomas neovasculares e os glaucomas facogênicos. Todos podem ser perfei- tamente confundidos com a crise de glaucoma agudo primário, e o diagnóstico diferencial so- mente será feito pelo médico especialista. As ce- ratites ou ceratoconjuntivites também estão as- sociadas ao olho vermelho dolorido, porém, po- dem ocorrer em qualquer idade ou sexo, têm um curso insidioso associado à presença de secreção e de dor, com sensação de corpo estranho. 209Olho vermelho cap. 07 Saiba mais Glaucoma de ângulo fechado Introdução O glaucoma de ângulo fechado, também deno- minado “glaucoma de ângulo estreito” ou “glau- coma de ângulo oclusível”, pode ser classificado como glaucoma primário ou secundário, e glau- coma agudo ou crônico. São inúmeros os me- canismos fisiopatológicos envolvidos em cada uma dessas entidades, de modo que os mesmos serão devidamente discutidos quando das suas respectivas apresentações. Glaucoma agudo primário Epidemiologicamente, o glaucoma agudo pri- mário é uma doença rara na população negra e pouco freqüente na população caucasiana. En- tretanto, essa é uma doença bastante comum nas populações dos esquimós, dos mongóis, na China, na Índia e no Vietnã. A prevalência do glaucoma agudo primário é ni- tidamente maior nas mulheres (70%), com idade em torno de 65 anos. Os doentes portadores de glaucoma agudo pri- mário apresentam características biométricas típicas que favorecem o aparecimento da crise congestiva. Assim sendo, os olhos acometidos apresentam diâmetro ântero-posterior reduzido e câmara anterior estreita. O cristalino apresenta tamanho axial aumen- tado, e a sua inserção em relação ao limbo está anteriorizada, favorecendo, portanto, o estreita- mento do ângulo da câmara anterior. Associadamente, a maioria desses olhos são hi- permétropes, e a ceratometria mostra uma cur- vatura corneana aumentada. Do ponto de vista fisiopatológico, todas essas condições anatômicasfavorecem o mecanismo de bloqueio pupilar, o qual desencadeia a crise de glaucoma agudo. O bloqueio pupilar nada mais é que a dificuldade de passagem do humor aquoso da câmara pos- terior para a câmara anterior Segundo Mapsto- ne, essa dificuldade é associada à drenagem si- multânea do aquoso ainda presente na câmara anterior. O esvaziamento da câmara anterior as- sociado à pressão aumentada na câmara poste- rior desloca o diafragma írido-cristaliniano para frente com conseqüentes fechamento do ângu- lo, interrupção da drenagem, aumento súbito da pressão intra-ocular e instalação do processo de isquemia do globo ocular. O desencadeamento do bloqueio pupilar é asso- ciado a semimidríase pupilar de origem autonô- mica desencadeada por inúmeros fatores (dro- gas, estresse, condições de iluminação, posição da cabeça, etc.). O paciente portador de glaucoma agudo primá- rio, clinicamente, apresenta dor intensa no globo ocular acompanhada de diminuição acentuada da acuidade visual, de visualização de halos co- loridos ao redor de lâmpadas, de náuseas e de vômitos. O exame ocular mostra que a pressão intra-ocu- lar está elevada (por volta de 50-60 mmHg), os vasos conjuntivais e episclerais estão conges- tos, a córnea está edemaciada, o humor aquoso apresenta flare e tyndall em grau variado e a câ- mara anterior está bastante rasa. 210 Olho vermelho cap. 07Saiba mais É fundamental a realização do exame gonioscó- pico, apesar da dificuldade induzida pelo edema corneano. O uso do colírio de glicerina pode fa- cilitar a visualização do ângulo, o qual, normal- mente, está totalmente fechado. A isquemia produzida no segmento anterior leva à isquemia da íris e do músculo esfíncter da íris. Conseqüentemente, a íris pode sofrer áreas de atrofia segmentar associada a atrofia do múscu- lo esfíncter, com deformação da área pupilar. As- sociadamente, ocorre dispersão generalizada de pigmentos irianos com deposição dos mesmos na camada de Henle, na face posterior da córnea, no seio camerular e na face anterior do cristalino. A aposição prolongada da íris no cristalino e da periferia da íris na esclera leva à formação de si- néquias írido-cristalinianas e de goniosinéquias. O cristalino sofre necrose do seu epitélio com conseqüente formação de opacidades subcap- sulares anteriores denominadas “glaukomfle- cken”. Tais opacidades podem ser puntiformes ou abranger áreas maiores do cristalino lembrando o aspecto de “leite derramado” sobre uma super- fície plana. O exame do nervo óptico é dificultado devido ao forte edema corneano, porém, de um modo geral, a papila está edemaciada durante a crise congestiva. A crise de glaucoma agudo é uma das mais im- portantes urgências em oftalmologia, e o trata- mento deve ser instituído o mais rapidamente possível. Diversas são as medicações e os procedimentos utilizados e, de um modo geral, são utilizados quase que simultaneamente. Assim sendo, os pacientes são posicionados em decúbito hori- zontal dorsal e são medicados com as seguintes drogas: agentes hiperosmóticos: manitol a 20% via in- travenosa - 2g/Kg de peso (3 a 5ml/minuto), de 8/8 horas, ou glicerina 50% via oral - 1,5g/Kg de peso, de 8/8 horas. inibidores da anidrase carbônica: acetazolamida 250 mg via oral, de 6 em 6 horas. pilocarpina a 2% colírio: 1 gota de meia em meia hora na primeira hora, 1 gota de hora em hora, na segunda e terceira hora, 1 gota de 6 em 6 ho- ras a seguir. maleato de timolol a 0,5% colírio: 1 gota de 12 em 12 horas. cortisona colírio (acetato de prednisolona): 1 gota de 2 em 2 horas nas primeiras 24 horas. Nos casos em que a pressão intra-ocular está muito elevada (em torno de 60-70 mmHg) ocor- re uma isquemia do músculo esfíncter da íris de modo que tal músculo não reage ao estímulo dos agentes mióticos. Portanto, com esses níveis de pressão, o início do uso de pilocarpina pode ser adiado por 1 ou 2 horas após a introdução das outras medicações e a conseqüente redução da pressão. Em relação aos agentes hiperosmóti- cos, deve-se levar em consideração que muitos desses pacientes apresentam náuseas e vômitos, o que impede o uso oral dessa droga. Um outro aspecto a ser considerado está relacio- nado com as condições físicas e cardiológicas do paciente a ser tratado.Várias dessas medicações podem alterar as condições hemodinâmicas de pacientes, muitas vezes idosos, de tal modo que uma monitorização clínica adequada é funda- mental. Associada ao tratamento medicamentoso, re- aliza-se a compressão central da córnea com o intuito de abrir-se o seio camerular. Esse procedi- 211Olho vermelho cap. 07 Saiba mais mento é indispensável no tratamento adequado do glaucoma agudo primário. Quando as pres- sões são extremamente elevadas, opta-se por se iniciar essa manobra após cerca de uma hora do início do uso das medicações, quando já houve uma diminuição parcial da pressão intra-ocular. Com o paciente em decúbito horizontal dorsal, faz-se uma compressão na área central da cór- nea, utilizando, de preferência, o prisma desta- cado do tonômetro de aplanação de Goldmann. A compressão deve ser realizada por 3 vezes du- rante 10 segundos, com intervalos de 10 segun- dos. Toda essa manobra pode ser repetida por mais de 2 ou 3 vezes, dependendo da resposta inicial. O tratamento adequado da crise de glaucoma agudo primário controla a pressão intra-ocular ou, pelo menos, aborta a crise congestiva em cerca de 90% dos casos, nas primeiras 12–24 ho- ras. Assim sendo, dá-se prosseguimento ao trata- mento com a realização da iridotomia, com a utilização do YAG-laser. Esse é um procedimen- to relativamente fácil em indivíduos sem edema de córnea e sem edema do estroma iriano. De um modo geral, um disparo de 6-8 mJ, em uma pseudocripta periférica, é suficiente para a reali- zação de um orifício que liga a câmara posterior com a câmara anterior, rompendo, portanto, o bloqueio pupilar. A iridotomia periférica adequada, rompendo esse bloqueio, impede o desenvolvimento de novas crises primárias, exceto se o paciente for portador de íris em platô, conforme será tratado a seguir. Entretanto, o paciente que teve uma cri- se de glaucoma agudo deve ser acompanhado de um modo muito regular, pois pode já ser por- tador de glaucoma crônico de ângulo estreito (sobre o qual se desenvolveu uma crise aguda), ou vir a apresentar um glaucoma crônico após crise aguda. Um outro aspecto fundamental na avaliação desses pacientes é o estudo do olho contrala- teral. Na grande maioria das vezes, o olho con- tralateral apresenta condições anatômicas mais ou menos semelhantes ao olho que teve a crise congestiva. Entretanto, podem ocorrer casos em que esse olho é míope e apresenta o ângulo da câmara anterior não oclusível. Essa informação é muito importante, pois pode levar ao tratamen- to profilático desnecessário do olho oposto. De um modo geral, está indicado o tratamento profilático em quase todos os olhos contralate- rais, com a realização de uma iridotomia com YAG-laser. 212 Olho vermelho cap. 07Saiba mais Figura 02: Glaucoma subagudo primário O glaucoma subagudo ou intermitente é uma condição clínica que ocorre em olhos com carac- terísticas biométricas semelhantes ao glaucoma agudo primário. Os pacientes apresentam qua- dro clínico semelhante ao do glaucoma agudo, porém, de menor intensidade. Os episódios de diminuição da acuidade visual com discreta dor e de visão de halos coloridos são de pequena du- ração e intensidade. Muitas dessas crises podem estar relacionadas com a atividade profissional ou com outras ativi- dades do paciente acometido. Costureiras profis- sionais, leitores contumazes, freqüentadores as- síduos de cinema podem, após essas atividades, desenvolver crises subagudas. No diagnóstico desses casos é fundamental a re- alização de uma anamnese bastante detalhada, assim como a realização do exame gonioscópico. Em vários desses pacientes observa-se a pre- sença de goniosinéquias ou de pontos isoladosde hiperpigmentação no seio camerular, o que pode sugerir o contato intermitente da íris sobre a parte escleral do ângulo da câmara anterior. 213Olho vermelho cap. 07 Saiba mais Muitos desses pacientes podem caminhar para uma crise congestiva completa e, independente- mente desse fato, devem ser tratados imediata- mente, com a realização da iridotomia. Síndrome da íris de platô A configuração da íris em platô caracteriza, do ponto de vista biomicroscópico, olhos com câ- mara anterior relativamente profunda na sua área central, e rasa na sua periferia, de tal modo que a dilatação da pupila provoca bloqueio an- gular pela obstrução da malha trabecular devido a aposição da íris na periferia do seio camerular. A realização da iridotomia é suficiente para re- mover a presença de um possível componente de bloqueio pupilar; porém, a midríase pupi- lar pode levar a um aumento súbito da pressão intra-ocular devido ao fechamento angular, defi- nindo o diagnóstico da síndrome da íris em pla- tô. A realização da gonioscopia adequada é funda- mental para o correto diagnóstico da íris com configuração em platô. Mais recentemente, a uti- lização da biomicroscopia ultra-sônica e do OCT Visante pode auxiliar na interpretação dessas al- terações anatômicas. Os pacientes devem ser tratados com mióticos fracos ou com iridoplastia periférica. Glaucoma crônico de ângulo estreito O glaucoma crônico de ângulo estreito é um glaucoma primário em que o ângulo da câmara anterior é estreito, ou seja, no qual as diferentes estruturas do seio camerular somente são obser- vadas, total ou parcialmente, através da realiza- ção da gonioscopia com manobras de identação. Do ponto de vista epidemiológico, na popu- lação acima de 40 anos, a prevalência do glau- coma crônico de ângulo estreito é de cerca de 80% considerando-se a população portadora de glaucoma de ângulo estreito, ou seja, do total dos indivíduos com glaucoma agudo, subagudo e crônico, cerca de 80 % têm manifestação crôni- ca da doença. Uma das poucas exceções a esse número são os esquimós do Alaska, onde a prevalência do glau- coma crônico de ângulo estreito, após os 40 anos de idade, é de 36%, ou seja, 64% dos pacientes com glaucoma de ângulo estreito apresentam crises de glaucoma agudo. Em relação à fisiopatogenia, esse tipo de glauco- ma pode ocorrer como conseqüência da dificul- dade da drenagem do humor aquoso através da malha trabecular resultante de repetidos fecha- mentos angulares, por provável bloqueio pupi- lar parcial, acompanhado ou não de goniossiné- quias e sem qualquer sinal ou sintoma compatí- vel com crise subaguda ou intermitente. Em alguns casos, principalmente nos olhos que formaram goniossinéquias de modo crônico, pode ocorrer um episódio de glaucoma agudo e, de modo contrário, olhos previamente normais, que foram acometidos por crise de glaucoma agudo, e devidamente tratados com iridotomia, podem evoluir no futuro, com aumento crônico da pressão intra-ocular. O glaucoma crônico de ângulo estreito tem evo- lução clínica muitas vezes semelhante à do glau- coma crônico simples. A doença é geralmente bilateral e assimétrica, as alterações campimétricas e do nervo óptico as- semelham-se ao do glaucoma de ângulo aberto, porém, as pressões intra-oculares podem cursar 214 Olho vermelho cap. 07Saiba mais com picos bastante elevados. Esses glaucomas devem ser tratados com a reali- zação de iridotomia com YAG-laser, associada ao tratamento medicamentoso se necessário. A cirurgia da trabeculectomia está indicada nos olhos submetidos à iridotomia, associada ao tra- tamento medicamentoso, sendo que os olhos continuam sem controle adequado da pressão intra-ocular. 215Olho vermelho cap. 07 Auto-avaliação Auto-avaliação 1. Paciente do sexo feminino, 30 anos, refere queixa de olho vermelho, associado à sensação de corpo estranho, dor ocular, lacrimejamento e diminuição de acuidade visual há 3 dias. Faz uso de lentes de contato. Nega trauma ou comorbi- dades clínicas. Diante desse quadro, assinale a alternativa que contém hipóteses diagnósticas possíveis e a conduta correta para o caso: a. Hiposfagma (hemorragia subconjuntival), con- juntivite bacteriana e glaucoma agudo. Lágrimas artificiais e encaminhamento ambulatorial ao of- talmologista. b. Hiposfagma, uveíte e meibomite. Encaminha- mento urgente ao oftalmologista. c. Ceratite, glaucoma agudo e uveíte. Encami- nhamento urgente ao oftalmologista. d. Hiposfagma, blefarite e pterígio. Encaminha- mento ambulatorial ao oftalmologista. 2. Paciente do sexo masculino, 50 anos, trabalha- dor rural, natural e procedente de Itapetinga-BA. Quadro de lesão avermelhada que recobre a re- gião nasal escleral de ambos os olhos se esten- dendo até próximo à região central corneana. Assinale a alternativa que contém um diagnós- tico possível: a. Conjuntivite. Encaminhamento urgente ao of- talmologista. b. Catarata. Encaminhamento ambulatorial ao oftalmologista. c. Glaucoma agudo. Encaminhamento urgente ao oftalmologista. d. Pterígio. Encaminhamento ambulatorial ao of- talmologista. 3. Os seguintes sinais e sintomas estão presentes na crise de glaucoma agudo primário: a. olho vermelho, secreção purulenta, diminui- ção da acuidade visual, sensação de corpo estra- nho, pupila em semimidríase b. olho vermelho, ausência de secreção, diminui- ção da acuidade visual, sensação de corpo estra- nho, pupila miótica c. olho vermelho, secreção mucóide, diminuição da acuidade visual, dor ocular, pupila miótica d. olho vermelho, ausência de secreção, diminui- ção da acuidade visual, intensa dor ocular, pupila em semimidríase 4. São características do glaucoma agudo primá- rio: a. acomete preferencialmente mulheres de ori- gem asiática, jovens, míopes, com câmara ante- rior rasa b. acomete preferencialmente mulheres cauca- sianas, jovens, hipermétropes, com câmara ante- rior rasa c. acomete preferencialmente mulheres de ori- gem asiática, da 3a idade, hipermétropes, com câmara anterior rasa d. acomete preferencialmente mulheres cauca- sianas, da 3a idade, hipermétropes, com câmara anterior rasa 5. As características anatômicas mais comuns nos olhos portadores de glaucoma agudo pri- mário são: a. Câmara anterior rasa, diâmetro ântero-poste- rior aumentado, cristalino anteriorizado b. Câmara anterior rasa, diâmetro ântero-poste- rior pequeno, cristalino anteriorizado c. Câmara anterior profunda, diâmetro ântero- posterior curto, cristalino não anteriorizado d. Câmara anterior profunda, diâmetro ântero- posterior aumentado e cristalino anteriorizado 216 Olho vermelho cap. 07Auto-avaliação 6. Epidemiologicamente, o glaucoma agudo pri- mário ocorre mais freqüentemente em: a. Homens negros e de meia-idade b. Mulheres brancas e jovens c. Homens de origem asiática e jovens d. Mulheres de origem asiática e de meia-idade 6. Paciente de 80 anos é encaminhado ao Pron- to Socorro da Oftalmologia com quadro de olho vermelho há 1 dia. Nega dor, baixa de acuidade visual ou história de trauma. Refere que trata ir- regularmente HAS e DM, além disso é usuário de AAS. Ao exame oftalmológico constatamos san- gramento sob a conjuntiva nasal de olho direito. Qual o diagnóstico e conduta? a. Uveíte anterior; colírios de corticóide e midri- ático. b. Hiposfagma; avaliação da pressão arterial e orientações. c. Esclerite; anti-inflamatório não hormonal via oral e colírio de corticóide. d. Hiposfagma; colírio de corticóide e orienta- ções. 7. Diante do quadro de uma conjuntivite neona- tal, qual a conduta mais certa: a. Tratar a criança com antibiótico tópico e sistê- mico e reavaliação diária; b. Tratar a criança com antibiótico tópico e sistê- mico, solicitar avaliação da pediatria para afastar outros diagnósticos (pneumonia, artrite, otite) e tratar os pais. c. Tratar a criança com antibiótico sistêmico e dar alta, já que se trata de quadro inocente, com bai- xa chance de complicação. d. Tratar a criança com antibiótico tópico e sistê- mico, solicitaravaliação da pediatria para afastar outros diagnósticos (pneumonia, artrite, otite), reavaliar o quadro ocular em poucos dias e tratar os pais. 8. Dentre os quadros abaixo, qual necessita de avaliação oftalmológica urgente: a. olho vermelho associado a lacrimejamento, sem baixa de visão, sem dor. b. Sensação de areia e coceira nos olhos há 3 me- ses. c. Pós-operatório de catarata recente, com baixa de acuidade visual e dor. d. Sangramento subconjuntival, sem dor ou bai- xa de visão. 9. Assinale a alternativa que contém os sinais e sintomas da úlcera de córnea: a. Dor intensa, fotofobia, baixa de visão, hipere- mia pericerática. b. Dor leve, sem baixa de visão, hiperemia difusa. c. Hiperemia localizada, baixa de visão leve, hife- ma e reação de câmara anterior. d. Sangramento subconjuntival, sem dor ou bai- xa de visão. 218 cap. 08Introdução Pronto-socorro em oftalmologia Introdução O pronto-socorro de Oftalmologia representa uma importante parcela do atendimento nos serviços especializados em emergência. No HCFMUSP, representa entre 13 e 15% do total de atendimentos. As causas mais freqüentes de procura por aten- dimento oftalmológico no pronto-socorro são: - Olho vermelho; - Dor ocular; - Baixa súbita da acuidade visual; - Traumas oculares; - Queimaduras oculares; - Diplopia. 219 cap. 08 Olho vermelho Pronto-socorro em oftalmologia Olho vermelho Úlcera corneana Celulite orbitaria Olho seco Blefarite Episclerite Corpo estranho Abrasãocorneana Uveíteanterior Esclerite Glaucoma agudo Entópio Ectópio Secreção Conjuntivite ausente ausenteausente presente presente intensa availiação urgente availiação eletiva moderada a intensa presente dordor leve leve Hemorragia subconjuntiva Olho vermelho Pela sua importância, variedade e prevalência essa entidade será discutida num capítulo à par- te (capítulo Olho Vermelho). Serão citadas breve- mente as principais causas de olho vermelho e apresentado organograma para referência rápi- da quanto à possível causa. As principais causas de olho vermelho são: • hiposfagma • conjuntivites • blefarites • entrópio/ectrópio • triquíase • ceratites/úlcera de córnea • esclerites/episclerites • pterígio/pinguécula • corpo estranho • olho seco • glaucoma agudo • uveíte • celulite orbitária 220 cap. 08Dor ocular Pronto-socorro em oftalmologia Dor ocular O paciente queixa-se de dor em várias situações e por diversas causas. Algumas situações podem ser interpretadas como dor, como por exemplo: prurido intenso, sensação de corpo estranho, ar- dor, cefaléia, astenopia e até diplopia. Dentro de cada situação, será discutida a ocorrência de dor e suas respectivas características. Na anamnese da dor ocular devem ser levados em considera- ção: • Tipo • Duração • Intensidade • Periodicidade • Fatores de melhora • Fatores de piora • Fatores desencadeantes • Fatores acompanhantes • Alteração de função • Melhora com medicação 221 cap. 08 Baixa da acuidade visual Pronto-socorro em oftalmologia Baixa da acuidade visual Perda súbita de visão Queixa muito freqüente no pronto socorro de of- talmologia, a perda súbita de visão tem um am- plo espectro de causas, tanto sistêmicas quanto oftalmológicas, com graus variados de gravida- de. A anamnese e o exame físico são fundamen- tais no diagnóstico diferencial. Nesta seção, as principais causas aparecem resu- midas, com um guia prático para o diagnóstico correto. O assunto é abordado em capítulo espe- cífico. 222 cap. 08Baixa da acuidade visual Pronto-socorro em oftalmologia C au sa s fu nc io na is D oe nç as V as cu la re s O cl us ão d a ve ia c en tr al d a re ti na O cl us ão d e ra m o d a ve ia c en tr al O cl us ão d a ar té ri a ce nt ra l d a re ti na O cl us ão d e ra m o d a ar té ria c en tr al D oe nç as d o ne rv o óp ti co N eu ri te ó p ti ca N eu ro p at ia ó p ti ca is q uê m ic a ar te ri ti ca N eu ro p at ia ó p ti ca is q uê m ic a nã o ar te ri ti ca O ut ra s D oe nç as O p ac id ad e d e m ei os Tr au m a D es co la m en to d e re ti na H em or ra g ia re ti ni an a N eu ro re ti ni te s C eg ue ir a C or ti ca l Re ti no p at ia d e Pu rt sc he r Sí nd ro m e d e Te rs on Le sã o d o SN C C au sa s or g ân ic as Ba ix a sú b it a d e vi sã o b ila te ra l un ila te ra l H is te ri a Si m ul aç ão 223 cap. 08 Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Figura 01 Trauma Ocular O trauma ocular representa importante capítulo dentro da oftalmologia. Tem grande importância por vitimar, na sua maioria, indivíduos jovens, em idade produtiva, representando grande prejuízo para o país. Nos Estados Unidos, são computa- dos dois milhões de casos de trauma todo ano. Como o tratamento inicial do trauma ocular pode ser o diferencial para o prognóstico da lesão desses pacientes, é fundamental que o primeiro atendimento seja realizado de maneira correta. Trauma contuso Os traumas contusos podem variar desde le- sões leves, acarretando apenas hemorragia sub- conjuntival ou hematoma palpebral, até lesões graves,com explosão do globo ocular. Quando há história de trauma e o paciente apre- sentar dor ocular, baixa de visão ou alteração de reflexos fotomotores, há necessidade de encami- nhamento do paciente para avaliação de urgên- cia com oftalmologista. Apresentaremos a seguir as principais manifes- tações de lesões por trauma contuso. Hemorragia subconjuntival ou hiposfagma (Fi- gura 1) - causado por traumas de intensidade variável, que pode, ocasionalmente, passar desa- percebido pelo paciente. Por ter uma aparência por vezes dramática, o paciente procura atendi- mento imediatamente. Se não há lesão de outras estruturas, não há alterações da acuidade visual. A hemorragia subconjuntival dificilmente está associada a condições sistêmicas. Formas de ma- nobra de Valsalva podem ocasionar seu apareci- mento (por exemplo: tosse, vômito e constipa- ção intestinal). É comum o paciente ser referen- ciado por suspeita de quadro hipertensivo, que raramente está associado a esta manifestação. Investigação é necessária quando há repetição do quadro. Fratura orbitária – as paredes ósseas da órbita protegem o olho de traumas diretos. As fraturas ocorrem com maior freqüência nas paredes infe- rior e medial, que são mais frágeis. São sinais de fratura, entre outros: dor à palpação do rebordo, enoftalmo, alteração da motilidade, diplopia, he- matoma periocular, enfisema subcutâneo com crepitação e epistaxe. A visão deve ser avaliada para descartar lesões do globo ocular ou do ner- vo óptico. 224 cap. 08Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Figura 02 Lesões corneanas – traumas contusos podem re- sultar em abrasões, edema, ruptura da membra- na de Descemet e lacerações córneo-esclerais, geralmente na região do limbo, que podem levar a baixa de visão, lacrimejamento, fotofobia e dor. Lesões pupilares – midríase pode ocorrer por rotura do esfíncter da íris ou lesões do III nervo craniano. Pode haver ainda midríase secundária a lesão de nervo óptico ou retiniana extensa. Uveíte traumática – o trauma pode levar ao apa- recimento de reação inflamatória no segmento anterior, com irite ou iridociclite, com quebra da barreira hemato-ocular. Aparece hiperemia pericerática, acompanhada de dor, fotofobia e ocasionalmente baixa da acuidade visual. Seu reconhecimento é importante por necessitar de tratamento, já que pode acarretar todas as com- plicações reconhecidas nestes processos infla- matórios, como sinéquias, glaucoma e catarata, entre outros. Uveíte traumática é geralmente associada à reação de câmara discreta e redução da pres- são intra-ocular. Em casos de disfunção trabe- cular, a pressão intra-ocular pode aumentar. O tratamento consiste em cicloplégicos e corti- costeróides. Hifema traumático– pode ocorrer hemorragia no segmento anterior, que é reconhecida como um nível de sangue na câmara anterior. Por ser sinal de trauma de maior intensidade, exige ava- liação especializada. 225 cap. 08 Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia O trauma ocular contuso causa um deslocamento do diafragma irido-cristaliniano e uma expansão escleral no plano equatorial que pode resultar no rompimento do círculo arterial da íris, dos ramos arteriais do corpo ciliar ou das artérias e veias da coróide. Na apresentação, mais de 50% dos hi- femas ocupam menos de um terço da altura da câmara anterior. Menos de 10% são totais. O prog- nóstico é bom em casos não complicados e não depende apenas do tamanho do hifema. Mesmo os hifemas totais podem resolver-se sem seqüe- las apesar das complicações secundárias que eles produzem. A presença do hifema por si só é sinal de um trauma de alta intensidade, podendo ha- ver lesões de outras porções do olho. É necessário cuidado especial em casos de hifema em crianças negras pela possibilidade de este ser causado por anemia falciforme. Quando houver suspeita, de- ve-se realizar a tipagem da hemoglobina. Uma grande preocupação nos casos de hifema traumático é o risco de ressangramento. As com- plicações associadas à hemorragia secundária incluem glaucoma, atrofia óptica e impregna- ção endotelial da córnea. A taxa de ressangra- mento varia de 3 a 30%. O ressangramento pode complicar qualquer hifema e ocorre com maior freqüência em 2 a 5 dias após o trauma. Estudos recentes mostram que o ressangramento está diretamente relacionado a um prognóstico visu- al ruim. Aproximadamente 50% dos ressangra- mentos estão associados ao aumento pressão in- tra-ocular que, combinado à disfunção endote- lial, predispõem à impregnação do endotélio da córnea. Essa impregnação pode perdurar anos, diminuindo a visão. Nas crianças pequenas, po- derá resultar em ambliopia. O desaparecimento ocorre de forma centrípeta iniciando-se na peri- feria da córnea. Abordagem Avançada Manejo - o objetivo do tratamento é diminuir a chance de ressangramento, controlar a pressão intra-ocular e evitar a impregnação da córnea. Repouso absoluto e reavaliações freqüentes dos pacientes são necessários. Internação pode ser uma alternativa para pacientes que não têm con- dições de retornarem com freqüência ou quan- do há suspeita de que não haverá colaboração do paciente quanto ao repouso. Corticóide tópico tem benefício nos casos com reação de câmara concomitante. Beta bloquea- dores, alfa agonistas e inibidores da anidrase car- bônica são os escolhidos para redução da pres- são intra-ocular. Para a utilização dos inibidores da anidrase deve-se descartar a possibilidade de traço ou de anemia falciforme, causa freqüente de hifema em crianças negras, pela possiblidade de indução de crise falcêmica secundária a aci- dose metabólica. O uso de agentes antifibrinolíticos como o aci- do aminocapróico (Amicar) vem sendo proposto para a redução da incidência de ressagramento. É utilizado na dose 30mg por kg por dia e um recente estudo randomizado nos EUA mostrou uma taxa de ressangramento de 7.1% contra uma taxa de 22 a 30% em indivíduos não tratados. Nas populações predominantemente brancas a redução do ressangramento é de 4.1 a 5.4 %. Os efeitos colaterais são náusea, vômitos, hipoten- são postural, espasmo muscular, sufusão conjun- tival, sangramento nasal, rash cutâneo,prurido, dispnéia, toxemia e arritmia. Por estes efeitos, deve-se monitorar o paciente, especialmente os mais idosos. Cirurgia - pode ser necessária para prevenir atrofia óptica e impregnação. O momento de indicação é controverso, porém é mandatória intervenção imediata assim que os primeiros sinais de impregnação surgirem. Pacientes com neuropatia pregressa ou hemoglobinopatias requerem intervenção precoce (PIO > 25mmHg nas primeiras 24 horas ou elevações transitórias > 30mmHg); 226 cap. 08Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Figura 03 Em resumo, a intervenção cirúrgica no hifema traumático pode ser indicada: - para prevenir neuropatia óptica –P IO > 50mmHg por 5 dias ou > 35mmHg por 7 dias; - para prevenir impregnação da córnea – PIO > 25 mmHg por 6 dias ou qualquer sinal precoce impregnação; -prevenir sinéquia periférica anterior – qual- quer hifema com mais de 5 dias de duração; -quando houver hifema total, utiliza-se como parâmetro para indicação da cirurgia: PIO > 60mmHgpor 3 dias ou PIO > 50 mmHg por 3 dias ou PIO > 35mmHg por 5 dias ou PIO > 25mmHg por 7 dias. Deslocamento do cristalino - o cristalino pode ser deslocado por traumas intensos, levando a baixa de visão secundária. Ocorre em lesões de alta energia, geralmente associadas a outras le- sões oculares. Hemorragia vítrea - à semelhança do sangra- mento que ocorre no segmento anterior, a por- ção posterior do olho pode ser acometida em lesões de maior intensidade. Pode acompanhar outras lesões do segmento posterior, como des- colamento de retina e explosão do globo ocular. Rotura do globo ocular - decorrente de lesões de alta intensidade, apresentam-se como quadro de baixa visual aguda, hipotonia, dor importan- te, hemorragia subconjuntival intensa, necessi- tando de correção cirúrgica. Traumas não perfurantes Laceração conjuntival - lesão da conjuntiva, le- vando a hemorragia externa ou subconjuntival. Deve-se descartar lesões de estruturas subjacen- tes. Se houver suspeita de perfuração, deve-se realizar a exploração cirúrgica do ferimento. A le- são da conjuntiva por si só não acarreta maiores complicações ou necessita de intervenção. Se na lâmpada de fenda permanecer qualquer dúvida quanto à possível perfuração ocular, o ferimento deve ser explorado na sala cirúrgica. Em geral as lacerações conjuntivais não reque- rem sutura. Utiliza-se antibioticoterapia profi- lática e lubrificantes para aliviar os sintomas. Corpo estranho conjuntival - são mais bem observados no exame à lâmpada de fenda, po- rém é possível reconhecê-los a olho nu. Podem se alojar no fundo de saco inferior ou na super- fície conjuntival abaixo das pálpebras. É impera- tivo everter a pálpebra superior para examinar o tarso em caso de historia que sugere presença de corpo estranho. Após a eversão do tarso, irri- gação copiosa deve ser realizada. Instilação de fluoresceína deve ser realizada para identificar abrasões finas e lineares verti- cais que são típicas da presença de corpo es- tranho na pálpebra superior. Se houver lesão corneana, utilizar antibiótico profilático e lu- brificante. 227 cap. 08 Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Corpo estranho de córnea - importante causa de trauma ocupacional, motiva um grande número de atendimentos oftalmológicos em serviço de emergência pela dificuldade de remoção sem a utilização de lâmpada de fenda. Pode-se tentar a irrigação, mas quando o corpo estranho perma- nece aderido o paciente deve ser encaminhado ao especialista. São identificados mais facilmente no exame da lâmpada de fenda. Após a remoção do corpo estranho deve-se avaliar o grau de penetração na córnea. Se há uma extensão até a câmara anterior presente ou suspeita, o corpo estra- nho deve ser removido numa sala cirúrgica. Se após a remoção de um corpo estranho profun- do ocorrer extravasamento de humor aquoso, o uso de lentes de contato ou o reparo cirúrgi- co devem ser providenciados. Qualquer frag- mento superficial encontrado deve ser remo- vido, porém os muito profundos e embebidos geralmente são inertes e podem ser mantidos no local. Cuidadosa gonioscopia deve ser rea- lizada para localizar pequenos fragmentos na íris e no ângulo da câmara anterior . Após a re- moção de fragmento metálico da córnea, um anel marrom-alaranjado permanece, deven- do ser removido o máximo possível para evi- tar inflamação e defeito epitelial persistentes. Ulceração corneana é uma rara complicação. Cicloplégicos e antibioticoterapia são reco- mendáveis. O usode lubrificantes reduz o desconforto. Não deve ser realizada a oclusão sempre que se suspeitar de infecção secundá- ria. Grande parte dos casos de corpo estranho de córnea que chegam ao pronto-socorro são aci- dentes ocupacionais, fazendo parte obrigató- ria do atendimento a conscientização do pa- ciente quanto à necessidade da utilização de protetores oculares no trabalho. Abrasão de córnea - geralmente associadas à dor imediata, sensação de corpo estranho, lacrime- jamento e desconforto decorrentes da perda do epitélio da córnea e conseqüente exposição das terminações nervosas. Podem ser causadas por unha ou borda de papel. Podem ser causadas por uso excessivo ou incorreto de lentes de contato. Infecção por herpes deve ser sempre excluída. O exame de lâmpada de fenda determina a presença, extensão e profundidade do defeito corneano. É muito importante distinguir en- tre uma abrasão de córnea, que geralmente é epitelial, de bordas bem definidas com pouca ou ausência de inflamação, de uma úlcera de córnea. É importante everter a pálpebra para examinar o fundo de saco. Pequenas abra- sões podem ser conduzidas com antibióticos tópicos ou somente pomadas, já as abrasões extensas geralmente requerem antibióticos tópicos, cicloplégicos e oclusão. Este último é contra-indicado em abrasões causadas por lente de contato, por favorecer infecção. Casos de desepitelização em usuários de lentes de contato devem sempre ser conduzidos com antibiótico, preferencialmente ciprofloxacino pela sua excelente ação contra pseudomonas, o principal agente infeccioso nestes casos. Abrasões causadas por materiais orgânicos re- querem acompanhamento rigoroso para mo- nitorar infecção. Laceração de pálpebra - lesão que pode ser re- solvida em pronto-socorro geral, desde que se conheça a técnica correta de sutura e se saiba descartar lesão do globo ocular. Para tanto, é obrigatória a busca por sinais de perfuração ocu- lar antes de iniciar a sutura. Para realização da sutura, deve-se seguir os pon- tos de reparo e os planos da pálpebra: linha cin- zenta (transição entre a pele e a conjuntiva), li- nha dos cílios, tarso, plano muscular e pele. 228 cap. 08Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Figura 04 Laceração de via lacrimal - lesões de canto me- dial necessitam de avaliação de vias lacrimais. Deve-se encaminhar ao oftalmologista, que rea- lizará avaliação na lâmpada de fenda, sondagem e irrigação das vias lacrimais. Hemorragia retrobulbar - Pode ocorrer em conse- qüência de diversos tipos de traumas orbitários e constitui emergência oftalmológica quando leva a aumento importante da pressão orbitária com conseqüente isquemia do globo ocular. O trata- mento visa diminuir a tensão intra-orbitária, por meio de cantotomia e uso de substâncias hipe- rosmóticas. Trauma perfurante ou penetrante Atendimento inicial - pacientes traumatizados, antes do encaminhamento ao oftalmologista, devem passar por avaliação geral e apenas após estabilização do quadro devem ser referencia- dos. No ATLS (Advanced Trauma Life Support), a avaliação do aparelho visual está na letra D do ABCDE (Airways, breathing, cardiologic system, disabilities, exposure). História - uma história detalhada deve ser reali- zada. A história da natureza da lesão pode nos fornecer fatores predisponentes para a perfura- ção ocular como ausência de proteção ocular, velocidade do projétil, composição metálica e alta energia de impacto no globo. A história pre- gressa ocular e sistêmica também é de funda- mental importância para o reconhecimento de lesões pré-existentes e prognóstico. Exame geral - a cuidadosa avaliação dos olhos e anexos permite o reconhecimento de lesões oculares ou sua suspeita. A proteção ocular e o encaminhamento correto podem salvar a visão do paciente. A avaliação do olho deve iniciar-se pela medida da acuidade visual, dos reflexos fotomotores e pela inspeção. Alterações da acuidade visual e dos reflexos foto- motores implicam em avaliação oftalmológica. Na inspeção, devemos observar: - tonicidade do olho, diminuída em casos de per- furação - presença de lesões corneanas ou esclerais - extrusão de conteúdo ocular (íris ou coróide) - desvios ou alterações da forma da pupila - assimetria de profundidade de câmara - deformidades do globo - hiposfagma denso Se algum destes sinais for detectado, deve-se realizar a proteção ocular com curativo oclu- sivo não compressivo, preferencialmente com protetor de plástico rígido ou com, por exem- plo, copinho de café. Não devemos utilizar medicações tópicas, tan- to colírios como pomadas nem realizar limpe- za do globo em caso de suspeita de perfura- ção. Quando a lesão for causada por material contaminado, deve-se realizar a profilaxia an- titetânica e iniciar antibioticoterapia sistêmica. 229 cap. 08 Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Figura 05 Exame oftalmológico - um exame oftalmológico completo e minucioso deve ser realizado. Todo o exame deve estar bem documentado, com aten- ção para o registro dos achados tanto para fins médicos como para fins legais. O exame deve ser iniciado, se possível, pela medida da acuidade vi- sual, a qual é o principal preditor da acuidade visu- al final de olhos traumatizados. Infelizmente, esta medida não é possível em indivíduos não contac- tuantes, desorientados ou em crianças pequenas. Em seguida, o reflexo pupilar deve ser testado. Com iluminação externa podemos realizar uma atenta avaliação, além de observar o formato da pupila. Esta avaliação inicial é de extrema impor- tância, inclusive para planejar os passos seguin- tes do exame. Na biomicroscopia, deve-se procurar lacerações de córnea, presença de tecido intra-oculares ex- postos, perda de conteúdo intra-ocular. Se hou- ver suspeita importante de perfuração, não utili- zar colírios. Se houver necessidade, deve ser uti- lizado um colírio estéril, sem conservante e novo. Algumas alterações são sugestivas de perfura- ção ocular: - laceração profunda de pálpebras - defeito de íris -desvio da pupila - quemose orbitária - hipotonia - hemorragia e laceração de conjuntiva - defeito cápsula cristalino - adesão focal íris-córnea - catarata aguda - rotura ou hemorragia de retina - câmara anterior rasa Outras são sinais diagnósticos de perfuração ocular: - exposição de úvea, vítreo e retina -extravazamento de conteúdo intra-ocular - sinal de Seidel positivo - corpo estranho intra-ocular (CEIO) observado ao raio-X ou USG A solicitação de exames complementares tais com tomografia computadorizada, raio-x e ecografia são úteis para avaliar extensão do dano orbitário, descolamento de retina e presença de CEIO de- vendo ser utilizados sempre que necessários. Conduta pré-operatória - quando o reparo ci- rúrgico for necessário, o ideal é realizar o reparo mais rapidamente o possível, apesar de, aparen- temente, não haver diferença no prognóstico se a cirurgia for realizada em até 36 horas. O pronto reparo pode minimizar diversas com- plicações tais como dor, prolapso de estruturas intra-oculares, hemorragia supra-coróidea, con- taminação bacteriana, migração epitelial e cata- rata. Enquanto o procedimento cirúrgico não é reali- zado, deve-se aplicar um curativo não compres- sivo. Nos casos de alto risco de contaminação, iniciar antibioticoterapia venosa (tobramicina com clindamicina ou vancomicina), profilaxia antitetânica e solicitar avaliação pré-anestésica. Ferimentos com presença de CEIO contami- nado por terra requerem atenção para o risco de endoftalmite por Baccillus, que pode levar à destruição ocular em 24 horas. Portanto, terapia intravítrea ou endovenosa com antibióticos efe- tivos contra esse agente tais como clindamicina ou vancomicina deve ser realizada. Quinolonas de quarta geração por via oral também podem ser uma alternativa, já que possuem boa pene- tração ocular. O reparo cirúrgico deve ser imedia- to nesses casos, incluindo vitrectomia se houver qualquer suspeita de infecção.Alguns traumas penetrantes são tão pequenos que não trazem repercussão para o meio intra- ocular. São chamadas “lesões auto-selantes”. Es- ses casos podem ser apenas observados e man- tidos com antibioticoterapia tópica. Se um feri- mento corneano está vazando, porém a câmara mantêm-se formada, pode-se optar por tratar com supressores da produção do humor aquoso tópico ou lente de contato terapêutica. Se essa conduta conservadora falhar em 3 dias, pode-se optar por cola de cianocrilato ou sutura. Abordagem Avançada Reparo cirúrgico - O objetivo principal da cirur- gia é restaurar a integridade do globo ocular, de- nominado “controle de dano”. O segundo objeti- vo é restaurar a visão por meio da reparação dos danos externos e internos do olho, que pode não ser obtido no primeiro tempo. Se o prognóstico desse paciente é muito sombrio, lembrando-se do risco de oftalmia simpática, deve-se propor a evisceração do globo. A evisceração primária do olho deve ser realizada somente se a lesão for tão severa e a restauração da anatomia do olho tornar-se inviável. O ideal é que o procedimento seja realizado em até 14 dias. A anestesia retrobulbar nos pacientes com trau- ma perfurante deve ser evitada pelo risco de aumento súbito da pressão intra-orbitária e au- mento do dano. A anestesia normalmente é ge- ral com agentes não despolarizantes musculares. 230 cap. 08Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Passos no reparo de um perfurante corneo- escleral 1. Anestesia geral 2. Irrigação abundante e remoção de corpos estranhos presentes na superfície 3. Remover fibrina e avaliar a viabilidade do te- cido uveal exposto 4. Excisar tecido necrótico exposto, especial- mente íris 5. Excisão do vítreo exposto anteriormente, de fragmentos de lente e de corpo estranhos transcorneanos 6. Reposicionamento da úvea e retina expos- tas anteriormente 7. Fechamento do componente de laceração corneana primeiramente no limbo 8.Completar o fechamento corneano (nylon 10-0), seguindo pontos de reparo 9. Peritomia que for necessária para explorar a esclera 10. Retirar o vítreo exposto posteriormente 11. Retirar a úvea e retina expostas posterior- mente 12. Fechar o componente escleral (vicryl 8-0 ou nylon 10-0) 13. Fechamento de conjuntiva 14. Reforma da câmara anterior e se possível, aspiração 15. Corticóide e antibióticos subconjuntivais Não se devem suturar músculos retos com um globo aberto. O reparo de lesões nos anexos, como pálpebras, não deve ser realizado antes e sim logo ao final da sutura do perfurante, pois podem levar ao aumento de pressão no globo e diminuir a exposição do globo perfurado. Ao excisar o vítreo exposto anteriormente deve-se tomar cuidado para não causar tração. O reposicionamento da retina e úvea expostas anteriormente deve ser realizado com ajuda de um viscoelástico para reformar a câmara anterior e reposicioná-la com a técnica de varredura atra- vés de uma incisão limbar. Somente nos casos de nítida necrose de úvea exposta, esta deve ser excisada. Quando a anatomia da ferida permite deve-se optar por um fechamento respeitando a topo- grafia da córnea. Deste modo, suturas mais lar- gas longas são utilizadas na periferia para apla- nar enquanto, centralmente, as suturas devem ser menores para aumentar a curvatura da cór- nea nesse local. A profundidade da sutura é de, aproximadamente, 90% do tecido corneano. Se uma laceração se estende por baixo de um músculo extra-ocular, este deve ser removido de sua inserção e reinserido após o reparo. Nenhu- ma tentativa deve ser feita na tentativa de su- turar músculos retos com um globo aberto. La- cerações muito posteriores por se encontrarem protegidas pela órbita não devem ser abordadas. Ao final da cirurgia, se houver lesão comprome- tendo vítreo por material contaminado, antibió- ticos intra-vítreos (vancomicina e ceftazidime ou amicacina) devem ser injetados. Após o reparo primário, avaliar se há indicação de uma segunda intervenção visando - remoção de CEIO - reparo de íris -cirurgia de catarata com lente intra-ocular -vitrectomia posterior ou anterior -crioterapia ou laserterapia para rotura de retina Conduta pós-operatória – após o reparo do fe- rimento perfurante a terapia é direcionada para a prevenção de infecção, combate à inflamação, controle da PIO e alívio da dor. Antibióticos endo- venosos são continuados por 3-5 dias e tópicos por 7 dias. As suturas corneanas que não cede- rem nos primeiros 3 meses devem ser removidas uma a uma nos próximos meses. Fibrose e vascu- larização são sinais de que é possível removê-las com segurança. 231 cap. 08 Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Obviamente, o olho traumatizado está em ris- co para descolamento de retina e essa avalia- ção deve ser rigorosa e freqüente. Se houver opacidade dos meios, utilizar a ecografia. Se for possível, realizar mapeamento da retina. Para se obter a melhor acuidade visual possível, todas as possibilidades devem ser esgotadas: refração, utilização de lentes de contato, especialmente as rígidas, implante de lente intra-ocular, entre ou- tras. Em crianças com risco de ambliopia e perda da fusão a reabilitação visual não pode ser pos- tergada. 232 cap. 08Traumas oculares Pronto-socorro em oftalmologia Queimaduras oculares Por sua gravidade e pela necessidade de medi- das imediatas por parte de quem presta o pri- meiro atendimento, independente de sua espe- cialidade ou formação, as queimaduras ocupam um capítulo à parte do trauma ocular. Lesões causadas por radiação e temperatura Queimaduras térmicas - Queimaduras diretas do globo ocular são raras graças ao reflexo de fecha- mento palpebral. O mais comum é a observação de lesões palpebrais. Se houver suspeita de cor- po estranho ou lesão direta do globo é necessá- rio o encaminhamento. Calor – A maior parte dos danos térmicos ocorre quando metal quente entra em conta- to com a córnea. Em geral o que se observa é queimadura da pálpebra, com perda dos cílios. Em casos de explosão, não esquecer a possibi- lidade da presença de corpo estranho tanto na superfície como no meio intra-ocular. O calor é o maior indutor de inflamação e ex- pressão de protease estromal e pode levar à destruição do colágeno, principal componen- te do estroma corneano, com conseqüente risco de perfuração ocular. Os principais ob- jetivos da terapia de queimaduras causados pelo calor são: - aliviar o desconforto -prevenir a inflamação secundária, ulceração e perfuração da córnea ou exposição causada pelo dano palpebral -minimizar a formação de escara palpebral com resultante má função palpebral Um agente cicloplégico pode ajudar a aliviar o desconforto do espasmo ciliar secundário ou da iridociclite. Antibioticoterapia profilática (geralmente tópica e ocasionalmente sistêmi- ca) pode ajudar a prevenir a infecção das pál- pebras queimadas e/ ou reduzir as chances de úlcera de córnea infectada. O debridamento de tecidos granulados e desvitalizados, enxer- tos de pele e tarsorrafia ajudam a minimizar a escarificação das pálpebras e o ectrópio. Refrigeração – Este tipo de lesão praticamen- te não é encontrado em nosso meio. Edema temporário de córnea induzido pelo frio tem sido relatado na literatura, especialmente em indivíduos com doença de Raynaud. Não é ne- cessário nenhum tratamento específico, com regressão do quadro após algum tempo. Queimadura fotoelétrica - o epitélio corneano é altamente susceptível ao dano da radiação UV. Sintomas ocorrem poucas horas após a exposi- ção. Apesar de muito dolorosa, essa condição é geralmente autolimitada e a córnea é reepiteli- zada em 24 horas. A causa mais comum de dano pela radiação ultravioleta é a exposição prolon- gada e sem proteção a solda elétrica ou ao sol. O tratamento consiste em lubrificação ou curativo oclusivo compressivo. 233 cap. 08 Queimaduras oculares Pronto-socorro em oftalmologia Radiação ionizante - a lesão aguda é muito rara em nosso meio, podendoocorrer nos casos de acidentes com radioisótopos e explosões. Em geral, a lesão ocorre muito mais pelo calor liberado do que pela radiação. Quando há le- são, geralmente é decorrente de doses repeti- tivas, cumulativas, que afetam principalmente o epitélio corneano e o limbo, onde a taxa de mitose é mais intensa e pode ser afetada por este tipo de radiação. Doses altas podem levar à formação de catarata e retinopatia isquêmi- ca. O tratamento geralmente é feito com lubri- ficantes e em casos graves pode haver neces- sidade de transplantes (limbo ou córnea), la- serterapia (retinopatia) e cirurgia de catarata. Lesões químicas O trauma químico do segmento anterior do olho é um problema comum. Pode variar em gravida- de: desde uma leve irritação até a completa des- truição do epitélio corneano, opacificação corne- ana , perda da visão e conseqüentemente perda do globo ocular. O material irritante pode estar em forma de líquido, sólido, pó, misto ou vapor. Boa parte dos traumas domésticos e, especial- mente, nas crianças ocorrem com substâncias facilmente encontradas, como detergentes, de- sinfetantes, solventes, cosméticos, limpadores de esgoto, limpadores de forno, amônia e outros produtos domésticos alcalinos. Fertilizantes e pesticidas são comuns no meio rural. Na indús- tria, cáusticos e solventes são as causas mais co- muns. Sempre que possível o material irritante deve ser identificado, uma vez que a gravidade do dano depende do ph, do volume e da duração do con- tato, além da toxicidade do material. Lesão por álcali - álcalis fortes aumentam o ph dos tecidos e provocam a saponificação dos áci- dos graxos nas membranas celulares, com de- gradação celular. Assim, o dano atinge estrutu- ras mais profundas produzindo, em geral, lesões mais graves. Uma vez que a superfície do epitélio está lesada, as soluções alcalinas penetram rapi- damente no estroma corneano, onde destroem os proteoglicanos e as fibras de colágeno da ma- triz estromal. Podem penetrar a câmara anterior, causando intensa inflamação e isquemia. O prognóstico depende da extensão da lesão no limbo (região que contém as células-tronco do epitélio corneano), do grau da opacificação da córnea e da lesão de estruturas intra-oculares. Lesão por ácido - os ácidos desnaturam e pre- cipitam as proteínas nos tecidos com os quais entram em contato. Soluções ácidas tendem a causar menor dano que álcalis devido a pouca penetração na câmara anterior. O prognóstico geralmente depende da lesão das células da região limbar e do grau de acometi- mento corneano. 234 cap. 08Queimaduras oculares Pronto-socorro em oftalmologia Manejo das lesões - O passo mais importan- te é a irrigação copiosa com água corrente ou solução salina, já no local do acidente ou pelo menos no local de primeiro atendimento. As pálpebras devem ser abertas, se possível, com blefarostato; instilar o colírio anestésico e remover quaisquer partículas ou resíduos do fundo do saco. A irrigação pode ser realizada com um equipo de soro e deve ser mantida até a normalização do ph do saco conjuntival (pode-se utilizar fitas para medida de ph uriná- rio). Se este teste não estiver disponível, irrigar abundantemente com, no mínimo, três litros de soro, preferencialmente do tipo Ringer lac- tato. As partículas químicas, principalmente de álcalis, devem ser removidas com cotonete tanto no fórnice superior quanto no inferior. O encaminhamento só deve ocorrer após es- tes cuidados iniciais, para não prolongar o contato das substâncias com a superfície ocu- lar, minimizando assim os danos. Abordagem avançada das queimaduras químicas Sempre iniciar o tratamento com irrigação abundante do olho, com atenção especial para o fundo de saco conjuntival, de onde quais- quer resíduos de substâncias tóxicas devem ser removidos. O pH deve ser controlado com do uso de fitas para este fim (pode-se utilizar fitas para medida do pH urinário). A irrigação deve ser feita com vários litros de soro, prefe- rencialmente tamponado (Ringer lactato). O uso do blefarostato garante uma boa abertura ocular. Em casos de lesão por álcalis, a medi- da do pH deve ser repetida após 30 minutos do final da lavagem pois com freqüência o pH mantém-se alterado pela parcela que pene- trou no olho. Quando há o contato com substâncias tóxicas com o olho, há rapidamente a alteração do pH no meio intra-ocular, especialmente no caso dos álcalis. Em questão de minutos pode-se detectar uma mudança brusca do pH no hu- mor aquoso. Porém a paracentese da câmara anterior e retirada de 0.1 a 0.2 ml de humor aquoso e lavagem com solução salina balan- ceada é reservada para casos graves, pois esta medida pode ocasionar mais inflamação e au- mentar o risco de infecção. A próxima etapa do manejo deve ser direcio- nada para a redução da inflamação, monito- rização da pressão intra-ocular e evitar a de- gradação da matriz de colágeno e promover a reepitelização da córnea. Os polimorfonucleares (PMN), em modelos animais, são atraídos por lesões com álcali e são a fonte de proteólise da matriz corneana. Corticóides são excelentes inibidores da fun- ção dos PMN e a administração tópica intensa é recomendada na primeira semana, com di- minuição após esse período por aumentar a susceptibilidade à infecção e retardar a reepi- telização. A deficiência de cálcio na membrana dos PMN inibe a sua habilidade em degranu- lar. Como as tetraciclinas orais (doxiciclina) são quelantes de cálcio extracelular podem trazer benefícios teóricos de modulação do processo cicatricial. Cicloplégicos são recomendados quando há reação de câmara anterior importante ou quando há dor. Inibidores da anidrase carbônica são utilizados quando a instilação tópica de hipotensores é dificultada por extenso dano epitelial. Nos ca- sos menos graves, podem ser utilizados quais- quer hipotensores, sendo que os que têm iní- cio de ação no período mais curto são os alfa- agonistas. 235 cap. 08 Queimaduras oculares Pronto-socorro em oftalmologia 236 cap. 08Queimaduras oculares Pronto-socorro em oftalmologia Queimadura severa por álcali em olhos de co- elho mostrou que a diminuição do ascorbato no humor aquoso estaria relacionada à ulce- ração e perfuração estromal. Altas doses de ácido ascórbico podem promover uma maior síntese de colágeno nesses olhos sendo reco- mendável o uso de 2g de vitamina C via oral. Essa terapia é extremamente tóxica para os rins, e é contra-indicada nos nefropatas. Lubrificação máxima e desbridamento de epi- télio necrótico são fundamentais para a reepi- telização. A tarsorrafia pode ser utilizada para proteger a área exposta a agentes infecciosos. O transplante autólogo de conjuntiva e lim- bo do olho contralateral não envolvido pode restaurar a integridade do epitélio corneano. O transplante tardio de córnea isolado tem prognóstico ruim e a vascularização estromal aumenta o risco de rejeição do procedimento. Lesões com vegetais - a seiva de diversas plantas tem características alcalinas, devendo ser trata- das como tal. O contato do látex de diversos tipos de plantas com a superfície ocular pode causar reações tóxicas manifestadas por ceratoconjuntivite, defeitos epiteliais e infiltração estromal. O ma- nejo inicial inclui a irrigação copiosa e a remo- ção dos restos de qualquer resto do material estranho. Pode haver apenas lesão traumática com de- sepitelização ou ocasionalmente perfuração ocular nos traumas com vegetais. Nestes ca- sos, há possibilidade de infecção tanto por bactérias como por fungos. Abordagem Avançada A administração de cicloplégicos e antibióti- cos profiláticos é reservada para casos mode- rados. Os corticosteróides devem ser utilizados com muito cuidado por diminuírem a imunidade e promoverem a infecção fúngica. Mais uma vez é necessário lembrar que ve- getais são fontes de ceratite fúngica. Portanto em pacientes vítimas de lesão grave na córnea com vegetais com ulceração e insucesso da te-rapia, a cultura e biópsia para pesquisa de fun- gos encontra-se indicada. 237 cap. 08 Diplopia Pronto-socorro em oftalmologia Diplopia Diplopia é a visibilização de um mesmo objeto em dois locais diferentes no espaço. Esta expe- riência ocorre quando a imagem de um objeto estimula simultaneamente a fóvea de um olho e um ponto extrafoveal do olho contralateral, ou seja pontos não correspondentes na retina de ambos os olhos. O paciente refere que a diplopia desaparece quando oclui um dos olhos. A diplopia pode ser constante ou intermitente, com separação das imagens horizontal, vertical ou inclinada e pode estar presente em todas as posições do olhar ou apenas em algumas destas posições. Ao exame físico é fundamental avaliar correta- mente o alinhamento dos olhos. Isto pode ser feito de uma maneira subjetiva com o teste do filtro vermelho ou de uma forma objetiva obser- vando-se o reflexo corneano a um foco luminoso ou de preferência usando-se o teste do “cover- uncover”. No teste do filtro vermelho um filtro vermelho é colocado na frente de um dos olhos e utilizan- do-se um foco luminoso se identifica a imagem daquele olho como vermelha enquanto que a do outro é branca. Ao fixar o foco luminoso o pa- ciente é solicitado a informar se vê uma ou duas imagens e qual a posição de cada uma delas. So- licitando a informação nas diferentes posições do olhar temos uma noção do desvio apresenta- do. É importante lembrar que quando o paciente informa que a imagem do olho com o filtro está acima do contralateral significa que aquele olho está desviado para baixo (a imagem é invertida na retina). Quando a imagem vermelha está à di- reita da branca, significa que o olho com o filtro se situa desviado à esquerda em relação ao outro e vice versa. Deve-se lembrar também que quan- do as imagens se encontram muito separadas (desvio grande) alguns pacientes ignoram uma delas o que pode levar a falsa impressão de que naquela posição do olhar não existe desvio dos olhos. No teste do “cover-uncover” o paciente deve fi- xar um objeto. Primeiramente um dos olhos (por exemplo, o olho direito) é ocluído e se observa o que ocorre no olho contralateral. Se o olho es- querdo não se mover, significa que ele estava fixando adequadamente o objeto e não estava desviado. Em seguida pedimos novamente para o paciente olhar ao objeto e ocluímos o outro olho (neste caso o esquerdo). Observamos então que o olho direito se move para olhar ao objeto assim que ocluímos o esquerdo. Isto significa que o olho direito estava desviado. O teste pode ser realizado também ocluindo-se alternadamente cada um dos olhos (geralmente torna o exame mais eficiente) observando o movimento dos olhos. Por fim podemos associar ao teste a colo- cação de lentes prismáticas (que neutralizam o desvio do olho) na frente de um dos olhos, de forma progressiva até que não haja movimento dos olhos durante o teste (quando não há movi- mento é porque estão alinhados). O teste é reali- zado nas diversas posições do olhar, para longe e para perto e permite medir com exatidão o des- vio apresentado pelo paciente. O teste é de fundamental no diagnóstico dife- rencial das diplopias, particularmente naquelas situações em que o desvio de um dos olhos não é óbvio ao exame externo. É claro que quando existe, por exemplo, uma paralisia completa do nervo abducente a caracterização do desvio é óbvia pela simples inspeção do paciente, obser- vando-se que o reflexo corneano a um foco lumi- noso não se situa no centro da pupila em um dos olhos. No entanto, inúmeras são as situações nas quais a definição do tipo de desvio só pode ser obtida pelo teste do cover-uncover, com auxílio de lentes prismáticas. Frente a um paciente com diplopia os testes sub- jetivos ou objetivos acima citados são utilizados procurando identificar inicialmente se o pacien- 238 cap. 08Diplopia Pronto-socorro em oftalmologia te apresenta um desvio dos olhos que é seme- lhante nas diferentes posições do olhar (desvio comitante) ou desigual nas diferentes posições do olhar (incomitante). Por exemplo, um pa- ciente que apresente o olho direito com des- vio interno de 20 dioptrias prismáticas no olhar para frente (posição primária) e cujo desvio tem a mesma magnitude no olhar à direita, no olhar à esquerda, para cima ou para baixo apresenta uma esotropia comitante. Os desvios comitantes na grande maioria das vezes são representados pelos estrabismos da infância que podem se ma- nifestar na idade adulta. Dados de história que facilitam tal suspeita diagnóstica são: o histórico de tratamentos ortópticos na infância, o uso de lentes corretoras, em especial as altas hiperme- tropias, e assimetrias importantes entre as lentes corretoras de um olho e o outro. Por outro lado sempre que o desvio varia em dife- rentes posições do olhar teremos um estrabismo incomitante. Desvios incomitantes apresentam os seguintes principais diagnósticos diferenciais: 1. Miopatia restritiva na órbita 2. Miastenia gravis 3. Miopatias oculares 4. Paralisias dos nervos oculomotor, troclear ou abducente 5. Oftalmoplegia internuclear 6. Desvio skew Todas estas condições devem ser consideradas. Após a caracterização de um desvio incomitante, deve-se considerar a possibilidade de uma mio- patia restritiva na órbita, que na grande maioria das vezes é causada pela orbitopatia da Doen- ça de Graves, embora possa ocorrer em outras síndromes de aderência da órbita, como por exemplo nas fraturas de assoalho da órbita, na miosite, na síndrome de Brown, entre outras. O teste diagnóstico mais importante nestes casos é o teste da ducção forçada, onde após a instilação de um colírio anestésico utilizamos uma pinça e com ela empurramos o olho na direção da limi- tação do olhar. Nos casos restritivos observa-se a resistência à este teste (dução forçada positiva). Vários outros dados semiológicos permitem au- xiliar nestes diagnósticos, tais como o achado de proptose, retração palpebral, hiperemia conjun- tival, dor orbitária etc. Excluídas as síndromes restritivas deve-se con- siderar a possibilidade de miastenia gravis, que apresenta inúmeras características clinicas, tais como ptose, fraqueza muscular, fadigabilidade da pálpebra, o sinal do “lid-twich” (sinal de Co- gan), etc. Do ponto de vista da caracterização da diplopia, no entanto observa-se uma grande variação durante o dia e de um dia para o outro e principalmente uma variação da posição da se- gunda imagem. Estes sinais, em especial a pre- sença de ptose palpebral com sinais de fadiga (após olhar para cima por 2 minutos) geralmente são suficientes para estabelecer o diagnóstico de miastenia. Quando isto não é possível podemos lançar mão do teste do cloreto de edrofônio, da prostigmina ou mesmo da eletromiografia para caracterizar o diagnóstico. Outra maneira de es- tabelecer o diagnóstico em casos duvidosos é a medida do desvio ocular nas diferentes posi- ções do olhar (com o uso de lentes prismáticas e o teste do cover-uncover) e comparar as medi- das com aquelas obtidas alguns dias depois. Na miastenia gravias a variação do desvio é muito dramática e isto pode ser suficiente para estabe- lecer o diagnóstico. Excluídas as miopatias restritivas e a miastenia gravis, as possibilidades diagnósticas incluem: paralisia oculomotora, paralisia abducente, pa- ralisia troclear, miopatia ocular, oftalmoplegia in- ternuclear e desvio skew. Todas estas condições devem ser consideradas e as características clíni- cas do desvio encontradas, bem como os acha- dos associados são geralmente suficientes para o estabelecimento do diagnóstico. 239 cap. 08 Auto-avaliação Pronto-socorro em oftalmologia Auto-avaliação 1. Sobre perda visual súbita pode-se afirmar: a. Causa de baixa de visão crônica, a DMRI tam- bém pode estar associada à baixa visual aguda. b. Descolamentos regmatogênicos simultâneos em ambos os olhos são bastante freqüentes e devem ser sempre lembrados em casos de baixavisual bilateral. c. Pacientes que sofreram AVC isquêmico no cór- tex parietal vão apresentar ao exame de fundo de olho palidez de papila bilateral. d. HAS e arteriosclerose são fatores de risco para oclusão de ramo da veia central da retina, porém não são fatores de risco para oclusão da veia cen- tral da retina. e. Nos casos de hemorragia vítrea não traumáti- ca, vitrectomia diagnóstica está indicada de ime- diato, inclusive nos casos onde a ultra-sonografia mostra retina colada em toda sua extensão. 2. Sobre trauma ocular pode-se afirmar, exceto: a. Quando há sinais de lesão corneana, porém não se visualiza o agente agressor, a eversão da pálpebra superior à procura do agente é impe- rativa. b. Em casos de hipotonia ocular com extensa hemorragia sub-conjuntival deve-se aventar a hipótese de perfuração escleral, mesmo que não seja possível visualizar material intra-ocular na área externa do globo. c. Em casos de trauma com vegetais deve-se pensar em contaminação por fungos. d. Na presença de hifema, abordagem cirúrgica está sempre indicada para retirar o sangue da câmara anterior. e. Traumas contusos podem causar baixa visão após o desenvolvimento de neuropatia óptica traumática. 3. Paciente de 75 anos, sexo feminino, chega ao PS de oftalmologia com queixa de baixa da acui- dade visual súbita, unilateral, indolor, associada a claudicação mandibular, dor no pescoço e es- pessamento da região fronto-temporal em am- bos os lados, referindo que nos últimos meses tem percebido perda de peso, astenia. Ao exame de fundo de olho apresenta papila edemaciada com hemorragias peridiscais. Sobre a principal hipótese diagnóstica dessa pa- ciente, é correto afirmar: a. Dor à movimentação ocular faz parte do qua- dro clássico dessa doença. b. A velocidade de hemossedimentação e a pro- teína C reativa têm pouco valor no auxílio diag- nóstico dessa patologia. c. Os achados sistêmicos não têm relação com a patologia ocular. d. O olho contralateral não está sob risco de ser acometido. e. Corticoterapia em altas doses está indicada nesses casos. 4. Quanto a queimaduras oculares é incorreto afirmar: a. Lesão por substâncias alcalinas é em geral mais grave que por ácidas. b. O acometimento das células limbares não afe- ta o prognóstico desses casos. c. Irrigação copiosa é medida fundamental no tratamento dessas lesões. d. Catarata e glaucoma podem ser complicações de uma queimadura. e. Em lesões por álcalis os proteoglicanos e as fi- bras colágenas da matriz são destruídos. 240 cap. 08Auto-avaliação Pronto-socorro em oftalmologia 5. Vítima de acidente moto x caminhão foi trazi- do ao Pronto Socorro com laceração extensa e de espessura total da pálpebra do olho direito. Após estabilização do quadro, você: a. Realiza sutura em três planos, usando fios de sutura absorvível (borda da pálpebra) e inabsor- vível (tarso); b. Realiza sutura apenas da pele com nylon 6.0 c. Encaminha o paciente para avaliação oftalmo- lógica, antes da realização da sutura da pálpebra, para descartar perfuração ocular. d. Não sutura a pálpebra; deixa cicatrizar por se- gunda intenção. 6. Pacientede 40 anos, vem ao PS com queixa de queda abrupta da pálpebra do olho esquerdo há 1 dia, associado a desvio ocular. Nega antece- dentes pessoais mórbidos. Refere ainda cefaléia e mal-estar desde então. Ao exame observamos ptose completa da pálpebra superior de olho esquerdo, associado a desvio divergente, limita- ção da motilidade ocular (não eleva, não abaixa e não aduz) deste olho. Pupila em midríase, com defeito aferente relativo deste lado. Sua suspeita e conduta é: a. Paralisia de VI par craniano; investigar doenças da microcirculação. b. Paralisia de III par craniano; realizar TC de crâ- nio para afastar causar compressivas (tumor ou aneurisma). c. Paralisia de III par craniano; solicitar glicemia de jejum. d. Lesão da via simpática; investigação do qua- dro com TC de crânio e pescoço. 7. Paciente de 20 anos estava martelando um prego, quando sentiu um pedaço de metal bater no olho. Você, ao fazer o atendimento deste pa- ciente no pronto-socorro geral, nota material de tonalidade marrom na cornea do paciente. Sua conduta será: a. Irrigação abundante b. Retirar o corpo estranho do olho com uma pin- ça c. Curativo e encaminhar urgente ao oftalmolo- gista para descartar perfuração ocular. d. Curativo compressivo, com pomada de antibi- ótico e encaminhar ao oftalmologista. 8. As paredes orbitárias mais susceptíveis a fra- tura são: a. Superior e inferior; b. Superior e lateral; c. Medial e lateral; d. Medial e Inferior. 242 Oftalmopediatria cap. 09Estrabismo e ambliopia Estrabismo e ambliopia Mariza Aparecida Polati A acuidade visual (AV) mede a visão do centro do campo visual, o que corresponde à parte mais central da retina, chamada “fovéola”, localizada dentro da área central, chamada “mácula”. Quan- do a criança nasce, a AV é muito baixa, ao redor de 0.03, porque a área macular não está desen- volvida e ainda não houve nenhuma estimula- ção das funções visuais. Ao nascimento, a fové- ola se assemelha em função à retina periférica, a qual, no adulto, tem AV muito mais baixa. Nas primeiras semanas de vida do recém-nasci- do, passa a ocorrer o desenvolvimento estrutural da área macular, e o resultado desse processo é o empacotamento de um maior número de “co- nes” (células sensoriais responsáveis pela visão nítida) na fovéola do que no restante da retina. Essa é a base estrutural para que se desenvolva AV normal. Ao mesmo tempo, nas primeiras semanas de vida, há um rápido desenvolvimento das vias vi- suais, por onde transitam os estímulos recebidos pela retina até o córtex, e do córtex visual, onde são armazenadas e processadas as informações recebidas. Os dendritos crescem para formar contacto com as outras células. Se os pontos de contacto – “sinapses” – são usados para transmi- tir a informação visual, sua função se desenvolve e torna-se permanente. Se a sinapse não é usada, e o volume de substâncias necessário para trans- mitir o estímulo permanece pequeno, o amadu- recimento do sistema não se processa normal- mente. Portanto, o uso da função é necessário para o desenvolvimento normal dos contactos celulares. Para fixar um objeto de interesse, os olhos pre- cisam fazer um movimento coordenado na sua direção. Ao nascimento, os movimentos oculares são muito mal controlados, em ressalto. Porém, já existe o “reflexo de fixação”, que está presen- te mesmo em prematuros após a 33a semana de gestação. O bebê fixa o objeto e tenta segui-lo se o movimento de deslocamento é lento, no plano horizontal. Os movimentos verticais surgem, em geral, ao redor da 4a-8a semana. Os movimentos se tornam mais suaves a partir do 2o mês de vida, mas o seguimento de objetos em movimento ainda não é perfeito no final do primeiro ano. Embora tenhamos dois olhos, somente uma ima- gem é vista. A informação visual dos dois olhos é fundida numa única imagem nas células cor- ticais que estão conectadas com as vias visuais dos dois olhos. A informação da metade direita da retina dos dois olhos é transmitida para a me- tade direita do córtex, e as esquerdas para a me- tade esquerda. Esse fenômeno de visão fundida chama-se “fusão”, e quando há fusão dizemos que há “visão binocular”. A fusão é uma função que se inicia no final do primeiro mês de vida e deve estar completa no final do sexto mês. As fases mais rápidas do desenvolvimento visual ocorrem no 1o ano, e os ajustes mais finos se es- tendem pelo período pré-escolar. A criança com um ano de idade já pode ter AV normal, sendo porém difícil medi-la. Diz-se então que existe um “período crítico” para o desenvolvimento de to- das as funções visuais, que é desde o nascimento até 5 anos de idade, aproximadamente. Portan- to, qualquer obstáculo à formação de imagem nítida na retina de um olho ou dos dois, pode prejudicar esse desenvolvimento. Se o obstáculo estiver presente já ao nascimento, o desenvolvi-mento nem sequer se inicia. Se surgir mais tarde, porém nesse período crítico, antes dos 5 anos, pode haver deterioração do que já havia sido conseguido. Assim, quanto mais cedo se instalar o obstáculo, mais profunda será a alteração, por- que mais imaturo estará o sistema visual. 243Oftalmopediatria cap. 09 Estrabismo e ambliopia Quando existe um obstáculo em um olho, en- quanto o outro evolui normalmente, as funções do olho afetado não se desenvolvem por não estarem sendo estimuladas de forma adequa- da. Se a visão não se desenvolve, o olho se torna “amblíope”, e ao fenômeno se dá o nome de “am- bliopia”, que é AV diminuída sem lesão orgânica aparente. Porém, se a privação de estimulação se estender por um período mais prolongado, du- rante o período crítico, pode ocorrer lesão neu- rológica representada por atrofia de neurônios do corpo geniculado lateral e do córtex estriado. Portanto, a ambliopia não é apenas uma altera- ção que ocorre por falta de aprendizado, mas também por alteração orgânica. Os olhos são mantidos paralelos principalmente à custa do equilíbrio das forças motoras, repre- sentadas pelos músculos extra-oculares e todo o sistema neuromotor e pela fusão. O estrabismo é um obstáculo ao normal de- senvolvimento das funções visuais porque, en- quanto um olho está dirigido para o ponto de interesse de fixação (chamado “olho fixador”), o outro está voltado para diferente ponto do es- paço (chamado “olho desviado”). O olho fixador recebe a imagem na fovéola, o que proporcio- na condições para o normal desenvolvimento da acuidade visual, mas o olho desviado recebe a imagem num ponto periférico da retina. Esse ponto não tem condições estruturais de formar imagem nítida, pois a concentração de cones é muito reduzida na retina periférica, e, além dis- so, este ponto vai projetar a imagem do objeto fixado em um ponto diferente do espaço, origi- nando a “diplopia”. “Diplopia” significa ver o mes- mo objeto em dois lugares diferentes do espaço, sendo uma imagem nítida, vista pela fovéola do olho fixador, e outra imagem borrada, vista pelo ponto periférico do olho desviado. 244 Oftalmopediatria cap. 09Estrabismo e ambliopia Figura 01a: Alinhamento ocular normal com as imagens projetadas em ambas as fóveas. Figura 01b: Estrabismo. O olho direito fixa a imagem que está alinhada com a fóvea direita, enquanto o olho está desviado e recebe a mesma imagem em um ponto fora da fóvea. 245Oftalmopediatria cap. 09 Estrabismo e ambliopia Figura 02: Os raios luminosos provenientes do objeto de fixação atingem a fovéola dos dois olhos na visão simultânea normal. Os objetos A e B são projetados em pontos correspondentes da retina. 246 Oftalmopediatria cap. 09Estrabismo e ambliopia Quando as imagens recebidas pelo córtex são desiguais, a criança pode usar os olhos alterna- damente ou usar apenas um dos olhos para fixar o olhar, desviando sempre o outro olho. Ocorre, então, um mecanismo ativo de “supressão corti- cal” do lado que recebe a imagem menos nítida pelo lado que recebe a imagem nítida, estabele- cendo-se o mecanismo de competição cortical. Se a rejeição da imagem menos nítida continua por um período de tempo mais prolongado, o processo de supressão pode levar à ambliopia. Quanto mais cedo na vida da criança ocorre o es- trabismo, maior é a possibilidade de ocorrer am- bliopia por causa da imaturidade de todo o sis- tema visual. A ambliopia está presente em 50% dos estrabismos convergentes congênitos. Todo esforço de combate à ambliopia deve ser feito antes dos 7 anos, pois a partir dessa idade a recuperação é muito mais difícil, porque já pode ter havido as alterações estruturais descritas. Po- rém, isso não significa que o tratamento não seja feito após essa idade: cada caso deve ser avalia- do isoladamente. Desde o nascimento até os 6 meses de idade, desvios esporádicos dos olhos são comuns e não são considerados anormais na maioria das vezes; tais desvios acontecem porque o reflexo da fusão ainda não está maduro. Nessa fase, o desvio deve ser considerado anormal quando é permanente ou muito freqüente. Após o 6o mês, qualquer tipo de desvio é anor- mal, porque a fusão já está desenvolvida. 247Oftalmopediatria cap. 09 Alterações palpebrais e lacrimais Alterações palpebrais e lacrimais Suzana Matayoshi I - Alterações palpebrais 1. Malformações da pálpebra e da fenda pal- pebral São pouco freqüentes as malformações palpe- brais, sendo que as mais observadas são os ca- sos de ptose palpebral. Nas linhas seguintes, são descritas as afecções que, embora mais raras, devem ser do conhecimento do graduando em medicina. Ptose palpebral Na posição normal da pálpebra superior, a mar- gem cobre 2 mm da córnea na posição de 12 horas. A ptose, ou blefaroptose, ocorre quando a pálpebra superior se encontra em posição mais baixa que a habitual. Pode ser de etiologia con- gênita ou adquirida. O paciente muitas vezes assume um olhar com o mento elevado, aparen- tando sono (Figura 3). Geralmente a ptose ocorre por uma falha no de- senvolvimento do músculo levantador da pálpe- bra, isolada ou associada a anomalias do múscu- lo reto superior. Pode ser uni ou bilateral, parcial ou completa. Nessa última circunstância, a pupila é completa- mente coberta pela pálpebra, e a visão só é pos- sível se o paciente olha para cima e usa o múscu- lo frontal. Blefarofimose A síndrome da blefarofimose tem herança do- minante e apresenta as seguintes características principais: blefarofimose (encurtamento vertical e horizontal das pálpebras); ptose; epicanto in- verso e telecanto (Figura 4). Epicanto É uma prega no canto medial da pálpebra. Nor- malmente ocorre pelo desenvolvimento incom- pleto dos ossos faciais, principalmente do dorso do nariz. Geralmente é bilateral e pode simular estrabismo (Figura 5). Coloboma Geralmente afeta a pálpebra superior. Pode apre- sentar-se como uma pequena falha ou até como ausência de todo o comprimento palpebral (Fi- gura 6). Quando o coloboma ocorre na pálpebra inferior, pode estar associado à fenda palatina e a malformações de vias lacrimais. Anquilobléfaro É a fusão de parte ou de toda margem palpebral. Uma variante é o anquilobléfaro filiforme adna- tum, em que as margens palpebrais são conecta- das por filetes de pele (Figura 7). O tratamento é cirúrgico, sendo feitas ressecção das “pontes” e sutura das margens. 2. Tumores congênitos da pálpebra Dermóides Existem três tipos de dermóides na órbita e nas pálpebras: dermóide epibulbar, cisto dermóide e dermolipoma subconjuntival. 248 Oftalmopediatria cap. 09Alterações palpebrais e lacrimais que formam a massa tumoral. O tumor pode ser pequeno ou invisível ao nascimento, começan- do a crescer muito rapidamente nos primeiros 6 meses de vida. Pode levar à ambliopia por depri- vação e por astigmatismo acentuado. Entre 6-12 meses de idade, o crescimento diminui, e há in- volução gradual. A maioria das lesões desapare- cem ao redor de 7 anos de idade em 80% dos casos. O nevus flammeus (mancha em vinho do Por- to) ocorre na Síndrome de Sturge Weber. Não se comporta como os hemangiomas descritos. Representa mais uma telengectasia do que um angioma (capilares dilatados sem proliferação endotelial). Linfangiomas Ocorrem em crianças menores de 5 anos. Podem ser difusos envolvendo órbita, conjuntiva e pál- pebras. Aumentam gradativamente. Não regri- dem. Caracterizam-se por episódios de proptose intermitente, por sinais de celulite pós-processos gripais e por hemorragia espontânea. Se o tumor for pequeno e assintomático, deve- se apenas observar; quando necessário, deve ser excisado. Neurofibromas São tumores não-capsulados, formados por cé- lulas de Schwann, por células perineurais e por axônios. Ocorrem em 13-30% dos pacientes com neurofibromatose. Podem se apresentar como neuromas plexiformes. São mais comuns na por- ção temporal da pálpebra superior onde dão a deformidade típica em “S”. Podem levar aectró- pio e a ptose (Figura 9). A correção é cirúrgica. O dermóide epibulbar geralmente se localiza no limbo, no quadrante externo do olho. Ocasional- mente é confinado à conjuntiva; nesse caso, está na conjuntiva temporal superior. Tumor sólido, consiste de tecido epitelial, ceratinizado ou não, além de tecido fibroso contendo cartilagem, dentes, cabelos, fibras musculares e gordura. De- pendendo da época em que se desenvolve, pode acometer todo o segmento anterior da córnea, toda sua espessura ou parte da córnea. O tratamento cirúrgico tem por objetivo corre- ção estética e/ou visual. O cisto dermóide da pele representa remanes- centes cutâneos. Principalmente encontrado na região temporal superior da pálpebra superior (Figura 8), pode ocorrer também na região me- dial. O cisto apresenta epitélio escamoso e con- tém secreção com aspecto de requeijão. Pode levar à erosão óssea por compressão. A remoção deve ser feita retirando-se todo o epitélio secre- tor; às vezes pode apresentar extensão orbitária. O dermolipoma, uni ou bilateral, é um tecido li- pídico subconjuntival que ocorre geralmente no lado temporal. Cerca de 30% dos casos têm as- sociação com colobomas, microftalmo e Síndro- me de Goldenhar. Pode conter estruturas como cabelo, fibras musculares, cistos sebáceos, etc. A indicação cirúrgica é cosmética. Muitas vezes a exérese cirúrgica não é total. Hemangiomas O hemangioma capilar é o tipo mais comum na criança. Pode variar entre uma marca mínima a massas grandes pedunculadas. Caracteriza-se histologicamente por capilares proliferados con- sistindo em células endoteliais e em pericitos. São as células endoteliais, mais do que os vasos, 249Oftalmopediatria cap. 09 Alterações palpebrais e lacrimais - Ptose: Se a pupila estiver ocluída, pode ocorrer a ambliopia, sendo que, para evitá-la, há necessidade de cirurgia corretiva precoce. Quando não há comprometimento de área pupilar, prefere-se aguardar a cirurgia até cer- ca de 4 anos de idade. - Coloboma palpebral: O tratamento depen- de do tamanho e da localização, bem como da sintomatologia do paciente. Existe urgência quando houver exposição corneana e risco de úlcera e perfuração. O tratamento é cirúrgico envolvendo utilização de retalhos e enxertos. - Hemangioma: Quando há ameaça de com- prometimento visual, o tratamento deve ser feito (Figura 10a e 10b). Pode-se aplicar corti- cóide intralesional. Corticóide sistêmico pode ser empregado nos casos severos. Deve-se atentar para os efeitos do corticóide no cres- cimento ósseo-articular da criança. Outros tra- tamentos: crioterapia, interferon, radiação e laser de CO2, cirurgia. LITErATurA SugErIDA • Katowitz, J. A. Pediatric Oculoplastic Surgery. New York , Springer, 2002. • Matayoshi, S; Forno, E. A.; Moura, E. M. Manual de Cirurgia Plástica Ocular. São Paulo, Ed. Roca, 2004. • Ranchold, T. M.; Frieden, I. J.; Frederick, D. R. “Corticostroid treatment of periorbital hemangioma of infancy: a review of the evidence”. Br J Ophthalmolol 2005; 89:1134-38. • Soares, E. J. C.; Moura, E. M.; Gonçalves, J. O. R. Cirurgia Plástica Ocular. São Paulo, Ed. Roca, 1997. Figuras Figura 04: Síndrome da blefarofimose: ptose, telecanto, epicanto inverso. Figura 03: Ptose palpebral esquerda levando à ambliopia de de- privação. 250 Oftalmopediatria cap. 09Alterações palpebrais e lacrimais Figura 08: Dermóide palpebral esquerdo. Figura 10a: Hemangioma. Figura 07: Anquilobléfaro: note-se a adesão entre as pálpebras. Figura 06: Coloboma de pálpebra superior de olho direito. Note- se que a pálpebra superior contralateral também apresenta um defeito menor. Figura 05: Epicanto e microftalmia à esquerda. Figura 09: Neurofibroma de pálpebra superior esquerda e ptose secundária. 251Oftalmopediatria cap. 09 Alterações palpebrais e lacrimais II - Alterações lacrimais A obstrução congênita do ducto lacrimonasal (OCDLN) é a afecção lacrimal mais comum na criança. O processo de canalização da via lacri- mal tem um papel fundamental na gênese da patologia. Embriologicamente, a via excretora la- crimal é formada pela invaginação ectodérmica a partir da conjuntiva cercada por mesoderme. Esse cordão maciço que se estende dos canalícu- los ao ducto lacrimonasal começa a se canalizar por volta da oitava semana de vida, de cima para baixo, sendo que o processo se completa até 8-9 meses, com o rompimento natural da membrana de Hasner (Figura 11). Trabalhos mostram que 52% das crianças no pri- meiro mês de vida apresentam OCDLN unilateral ou bilateral (1). Entretanto, só é sintomática em 5% das crianças nos primeiros 2 meses de vida. A patência do DLN resolve espontaneamente até os 13 meses de vida em até 90% dos casos (2). Clinicamente a OCDLN pode se manifestar de 4 formas: a. Obstrução simples Lacrimejamento e secreção variável (Figura 12). O ato de limpar freqüentemente os olhos pode levar à formação de fissuras cutâneas, de hipere- mia e de edema palpebral com infecção secun- dária. b. Dacriocistite crônica O paciente apresenta dilatação do saco lacrimal, facilmente perceptível como um abaulamento da região. A expressão digital faz com que haja refluxo de secreção pelos pontos lacrimais. c. Dacriocistite aguda É mais rara. A região do saco lacrimal se apre- senta hiperemiada, endurecida e dolorosa. Pode evoluir para celulite secundária. O paciente se torna agitado, com inapetência e febre. Os mi- croorganismos mais relacionados são os cocos Gram positivos (estreptococos e estafilococos). d. Fístula congênita do saco lacrimal É mais rara ainda (1:2000 nascimentos). Aparece um pequeno orifício na região do saco lacrimal, o qual comunica o saco lacrimal ou o canalículo comum à pele. Geralmente há relato de saída de lágrima pelo orifício fistuloso. Pode haver secre- ção ou não. e. Dacriocistocele congênita Conhecida como “mucocele” ou “amniotocele”, ocorre ao nascimento ou nos primeiros dias de vida como uma massa azulada na região do saco lacrimal. Ocorre por obstrução funcional ao nível da entrada do saco lacrimal, coexistindo com um bloqueio do DLN. O saco lacrimal é preenchido por material mucóide; pode haver infecção se- cundária (Figura 13). O diagnóstico de OCDLN é feito clinicamente pela história de epífora, de conjuntivite de repe- tição e de secreção ocular. Constata-se aumen- to de menisco lacrimal, presença de cílios gru- dados, secreção e eventualmente mucocele de saco lacrimal. Figura 10b: Após 2 aplicações de triancinolona na lesão. 252 Oftalmopediatria cap. 09Alterações palpebrais e lacrimais O teste de desaparecimento da fluoresceína é negativo, ou seja, não ocorre desaparecimento do corante após aplicação de 1 gota de fluores- ceína no fórnix inferior. Quando o paciente está normal/teste positivo, o corante é drenado pela via lacrimal, desaparecendo do fórnix inferior até 5 minutos. O corante pode ser visto na narina ou na orofaringe (teste de Jones 1); se isso não acontece, pode significar obstrução ou decor- rer da sensibilidade do teste (índice de 25% de falsos-negativos). A dacriocistografia é um exame complementar importante. Consiste na injeção de um contras- te radiopaco (à base de iodo) através dos pontos lacrimais. As radiografias demonstram o trajeto do contraste na via lacrimal, podendo indicar in- terrupção do fluxo lacrimal e demonstrar o local da obstrução (Figura 14). Na criança é necessário sedação para o exame. Tratamento clínico Conforme visto anteriormente, a OCDLN resol- ve-se espontaneamente em 90% dos casos em até 12-13 meses de idade. Durante esse período pode-se lançar mão da massagem de saco lacri- mal. Nessa manobra, comprime-se com o indica- dor a área dos canalículos enquanto o polegar é pressionado em direção inferior, criando-se uma força hidráulica para acelerar a perfuração da membrana de Hasner. A massagem pode ser realizada pelos pais diariamente, 2-3 vezes por dia, ou pelo próprio médico durante consultas