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1 
 
FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da Ditadura Militar: espionagem e 
polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001. 269 p. 
 
 
RESUMO 
 
 
Por Carlos Eduardo Batista dos Santos
1
 
 
 
Carlos Fico
2
 é bacharel em história pela UFRJ (1983), mestre em história pela UFF 
(1989), doutor em história pela USP (1996), onde também fez um estágio de pós-
doutoramento em 2006/2007. É professor associado da UFRJ e pesquisador do CNPq. 
Dedica-se ao ensino de teoria e metodologia da história e de história do Brasil republicano e 
desenvolve pesquisas para a história dos seguintes temas: ditadura militar no Brasil e na 
Argentina, historiografia brasileira, rebeliões populares no Brasil republicano e história 
política dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Criou o Centro Nacional de Referência 
Historiográfica na UFOP, juntamente com Ronald Polito, e coordenou o Programa de Pós-
graduação em História Social da UFRJ entre 2002 e 2006. Foi "Cientista do Nosso Estado" da 
FAPERJ entre 2003 e 2006. Recebeu o Prêmio Sergio Buarque de Holanda de Ensaio Social 
da Biblioteca Nacional em 2008. 
O autor Carlos Fico nos traz, com base em uma vasta pesquisa acerca da recente 
história da Ditadura Militar brasileira, um trabalho respaldado inúmeras fontes. Embora esse 
tema tenha sido abordado por vários autores, devido a sua importância histórica e 
complexidade, o autor inova, imergindo em documentos oficiais governamentais, procedentes 
da Divisão de Segurança e Informações (DSI), do Ministério da Justiça. Atualmente, esses 
documentos encontram-se guardados no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. 
Certamente, os documentos que foram utilizados na pesquisa realizada para embasar 
essa obra, apresentam inúmeras identidades de envolvidos direta ou indiretamente, nas mais 
 
1
 O autor é Oficial Superior da PMPB, Bacharel em Segurança Pública, Especialista em Segurança Pública, 
Especialista em Gestão e Tecnologias Educacionais, Especialista em Segurança Pública e Direitos Humanos, 
MBA em Gestão Estratégica de Pessoas na Administração Publica e Mestrando em Educação pela Universidad 
de Leon (Espanha). 
2
 Informações retiradas do Curriculum Lattes do autor da obra. 
2 
 
diversas ações governamentais. Mas, por razões éticas e legais, Carlos Fico decidiu resguardá-
las. 
Todavia, vale ressaltar que essa obra não está focada na totalidade do período 
ditatorial militar brasileiro. A principal atenção do autor está voltada para a estrutura e o 
funcionamento do sistema de segurança e informações governamental, que espionou e 
reprimiu aqueles que ousavam discordar dos que detinham o mando da nação. 
Sabe-se que a Ditadura Militar alternou períodos de maior e menor intensidade 
repressiva, tendo sido o seu auge entre os anos de 1960 e 1974. Pertence a essa época a 
consolidação do sistema nacional de segurança e informações. A época do domínio militar em 
nosso país iniciou-se com um golpe que deporia o então presidente João Goulart. Às 
primeiras horas do dia 2 de abril de 1964, ignorando um comunicado redigido às presas pelos 
assessores de Goulart, dando conta que este ainda se encontrava no país, o cargo de presidente 
da república foi declarado vago. 
Assumiu seu lugar, como mera formalidade, o presidente da Câmara dos Deputados. 
Pois enquanto isso, no Rio de Janeiro, o general Costa e Silva encabeçava o Comando 
Supremo da Revolução que decidiria os rumos do futuro governo militar. Em reunião no 
Ministério da Guerra, os militares revolucionários e a elite política que os apoiava indicavam 
Castelo Branco para ser o primeiro general presidente do Brasil. 
Costa e Silva resistiu à idéia de nomear Castelo Branco, mas acaba por ceder e ser 
nomeado para a pasta da Guerra do novo governo, aglomerando junto a si os militares mais 
radicais. A partir desse momento, grandes dificuldades enfrentaria Castelo Branco, 
pressionado pelas arbitrariedades e truculência dos militares denominados como linha dura. 
O amparo legal para os atos violentos dos militares que buscavam livrar a nação da 
suposta ameaça comunista, bem como da invasão da corrupção, veio da criação dos atos 
Institucionais. O primeiro desses, o AI-1, permitiu a abertura de inquéritos e processos, os 
quais se espalharam por todo território nacional, sendo, na sua maioria, dirigidos a revelia da 
lei, sob os ditames da vingança e da perseguição. 
Seguiu-se o período de radicalização da repressão inflamado pela entusiasmada 
retórica anticomunista e anticorrupção do governador Carlos Lacerda e pelo poder de 
liderança que Costa e Silva exercia sobre os militares. 
Dois dias antes de acabar o prazo para as cassações e suspensões dos direitos 
políticos, estipulado para 15 de junho de 1964, foi criado o Sistema Nacional de Informações 
(SNI). Temerosos que o SNI surgisse semelhante ao Departamento de Impressa e Propaganda, 
do governo getulista, as lideranças parlamentares resistiram em aprová-lo. Criação do general 
3 
 
Gobery do Couto e Silva, moderado da Escola de Guerra (ESG), o SNI teve a necessidade de 
sua criação estudada desde 1950. 
Mesmo já existindo um Sistema Federal de Informação e Contra-Informação 
(SFICI), desde o governo Kubitschek, relacionado com o Conselho Nacional de Segurança, o 
governo militar desejava criar um sistema de informações afinado com a doutrina de 
segurança nacional. A ideologia ou doutrina que embasava a segurança nacional sofreu, ao 
longo da ditadura Militar brasileira, a influência da diversidade que apresentava a composição 
do meio militar. Houve variações de visões políticas que ia desde os defensores de uma 
legislação democrática até os radicais de direita, como também desde os nacionalistas 
ferrenhos aos pouco crentes nas potencialidades do Brasil frente às grandes nações do mundo. 
De acordo com a ESG, berço do SNI, o Brasil possuía as características necessárias 
para inserir-se no contexto da Guerra Fria. Os expressivos números que contabilizavam sua 
extensão e população, a posição geográfica estratégica e a suposta fragilidade diante da 
influência da invasão ideológica dos comunistas internacionais eram citados como 
justificativas pelos defensores dessa idéia. 
Golbery foi o primeiro chefe do SNI, que apesar de ter sido criado, a princípio, como 
órgão de informação, passaria a ser mais fortemente conhecido pela história brasileira como 
mais uma ferramenta repressiva. 
As tensões entre Castelo Branco e os setores militares mais radicais, que buscavam 
autonomia para a prática de arbitrariedade nos Inquéritos Policiais Militares (IPMs), 
investigações, perseguições e punições que efetuavam, estavam cada vez mais acentuadas. 
Reconhecidamente, Costa e Silva figurava como ponte entre o governo e os radicais 
autonomistas, cujas ações já ganhavam publicidade nos jornais. Nas raras vezes que sofriam 
apurações, as arbitrariedades dos responsáveis pelos IPMs, que já mantinham coronéis 
investigadores até mesmo nas universidades, não sofreram sanções. Mesmo assim, estes 
militares não aceitavam serem contestados. 
A emissão de habeas corpus e a seleção de quais punições deveriam ser 
administradas, limitando os poderes punitivos dos militares radicais, além da não publicação 
de um livro, que comprometeria alguns militares com a subversão à Revolução, acirrou os 
ânimos, reafirmando a necessidade de um novo AI que garantisse a supremacia dos militares 
exaltados. 
Para acalmar os militares linha dura, que temiam a eleição de algum inimigo da 
Revolução, o governo desgastou-se, aprovando leis de inelegibilidade e incompatibilidade 
para a as próximas eleições. De nada adiantou, pois, por outro lado, uma grande enxurrada de 
4 
 
projeto de lei e atos arbitrários dos militares chegavam ao Ministro da Justiça, Mílton 
Campos, que prevendo a chegada de um novo AI pede exoneração. 
O sucessor de Carlos Lacerdaperde a eleição e militares descontentes com vitória de 
opositores pedem a volta da operação limpeza, a “caça às bruxas” contra os oposicionistas. Os 
radicais encaravam a manutenção das eleições diretas como um erro de Castelo Branco, 
apesar de ter sido em atendimento a Carlos Lacerda. Sem obter do Congresso Nacional o 
apoio legal para suas arbitrariedades dos radicais, Castelo Branco assina, em 27 de outubro, 
mesmo dia da convocação do novo Ministro da Justiça, Juracy Magalhães, o AI-2. 
Juntamente com a instituição das eleições indiretas, e da inelegibilidade de Castelo 
Branco o novo ato do governo possibilitaria a suspensão de direitos políticos,cassação de 
mandatos parlamentares, além de ampliar os poderes do presidente da República. Entre esses 
poderes estavam: extinguir partidos; decretar recesso do Congresso Nacional; legislar sobre 
decretos leis e foros especiais, para civis acusados de crimes contra segurança nacional e 
instituições militares. 
Entretanto, o AI-2 apesar de ceder a algumas das exigências dos radicais não 
impediu que muitos deles viessem a ser punidos, fazendo com que instigasse, ainda mais, a 
perseguição destes aos opositores eleitos. Isso fez com que várias manobras fossem tentadas 
pelos radicais, para impedir a posse dos “inimigos” da Revolução, buscando relacioná-los 
com os comunistas. Então, desprezando a legalidade o que lhes conferia uma distorcida 
autonomia, começa a formar-se um grupo de militares que desejava impingir suas idéias a 
qualquer custo, auxiliados pela omissão presidencial e pelo recrudescimento da linha dura. 
Sucedendo Castelo Branco, Costa e Silva, assume tendo seus poderes restringidos 
pela Constituição de 1967, aprovada dois meses antes. Essa nova carta Magna da nação 
incorporava arbitrariedades que constavam nos Atos Institucionais e propiciou a criação de 
um setor específico de repressão política. Os crimes contra a Segurança Nacional, previstos 
nessa Constituição foram tipificados na Lei de Segurança Nacional, elaborada por Carlos 
Medeiros, então Ministro da Justiça, e Ernesto Geisel. Sua forma final foi dada por Castelo 
Branco, que também foi responsável por especificar o conceito de guerra interna, o que 
municiou legalmente os radicais para perseguirem os civis descontentes, que a partir de então 
passaram a serem tidos como subversivos. A repressão passava a se constituir em um grupo, 
um sistema de segurança que investigava, caçava, prendia e interrogava comportando-se 
como “polícia política”. 
O cenário nacional tornava-se cada vez mais turbulento. Buscando maior apoio 
político, Lacerda se une a Goulart e Juscelino formando a Frente Ampla. 
5 
 
 A igreja se mostrava descontente, diferentemente do início do regime militar, 
levando a CNBB a formular um protesto contra o governo. O movimento estudantil ilegal 
identificava-se, cada dia mais, com a esquerda. Em março de 1968, a morte de secundaristas 
acirra os ânimos. Surgem mais violência, prisões, protestos e passeatas. 
Os comunistas, postos na clandestinidade desde 64, começam a se rearticular, 
incitados por Mariguela, grande entusiasta da luta armada. Grupamentos aderem à guerrilha, 
inspiradas no foquismo cubano. Os oposicionistas realizam assaltos a banco, roubos de armas 
de unidades militares, justiçamentos, seqüestro e guerrilha. Toda essa conjuntura fez com que 
o governo enxergasse apenas a saída do aumento do rigor do sistema de segurança, através da 
instituição do AI-5. 
As publicações daqueles que compunham a comunidade de informação 
governamental, durante a Ditadura Militar, abusavam do sensacionalista e da utilização de 
clichês. O exagero e a repetição de jargões, que traduziam os oposicionistas como uma 
terrível e iminente ameaça a segurança nacional, não raro serviam de chacota para a imprensa 
brasileira. 
Podemos citar como exemplo a denominação desta obra, Como eles agiam. Pois, esta 
foi inspirado no título com o qual circulou, um panfleto, supostamente, vazado do DSI e 
publicado no Jornal O Estado de São Paulo. O conteúdo dessa publicação rezava, 
distorcidamente, sobre a atuação do grupo de comunistas internacionais. Esse fato serviu á 
imprensa como exemplo da fragilidade do sigilo do DSI e da incapacidade governamental de 
debelar inimigos internos e externos, há tato tempo combatidos. 
Por sua vez, o governo começou a sentir a necessidade de uma censura que auxiliasse 
a resguardar a credibilidade das ações governamentais. Apesar dos erros e excessos cometidos 
na divulgação dos fatos, o SNI seguiu profissionalizando seus funcionários transformando-se 
em um importante e temido instrumento para a máquina repressora estatal. 
Próximo ao término da década de 1960, aguçada a luta entre governo e oposição, é 
criado o Sistema Nacional de Informações (SISNI), baseado no SNI, instituído em 1964. Esse 
órgão deveria atender à crescente demanda por informações acerca das ações subversivas, que 
se registrava, dia após dia. Mais do que manter o presidente bem informado, esse sistema viria 
a invadir a vida de milhares de brasileiros, até mesmo instituindo-lhes punições. Vidas 
públicas e privadas passaram a ser esquadrinhadas e as agressões físicas, morais e 
psicológicas, por parte das polícias políticas, tornaram-se mais veementes. 
Para normatizar a Política de Segurança Pública o Conselho de Segurança teve sua 
legislação atualizada e suas competências ampliadas. As linhas gerais dessa política foram 
6 
 
estabelecidas pelo documento intitulado Conceito Estratégico Nacional, elaborado pelo 
general Jayme Portella, chefe do gabinete militar de Costa e Silva. Ao alongar os poderes do 
Conselho de Segurança, Portella cuidou para que o SNI ficasse subordinado às Divisões de 
Segurança e Informação (DSI).Em 1970, as DSI passaram a serem subordinadas aos 
respectivos ministros de Estado, ficando também sob a superintendência e coordenação do 
Serviço Nacional de Informação. 
Importante para criação do Sistema Nacional de Informações foi o Plano Nacional de 
Informações (PIN), tendo como idealizador principal o general Fontoura, que recebeu 
colaboração até mesmo de civis. O PIN aglomerou informações advindas de todo país, dos 
mais diversos tipos e de vários ramos da sociedade. Baseados no PIN e na Doutrina Nacional 
de Informação, os planos setoriais do SISNI foram elaborados. 
O SISNI trabalhava com o conceito de informação, ao colher informes por todo o 
país, e contra-informação, ou seja, buscar cercear o sistema de informações daqueles tidos 
como inimigos da nação. Sua atuação dava-se externamente, através das embaixadas 
brasileiras, e internamente, fornecendo informações ao governo sobre os vários setores da 
sociedade brasileira. 
Tendo como centro o SNI, o SISNI era composto pelos Sistemas Setoriais de 
Informações dos Ministérios Civis, pelos Sistemas Setoriais de Informações dos Ministérios 
Militares, pelo Sistema de Informações Estratégicas Militares (SUSIEM), como também por 
outros órgãos setoriais. 
Com ampla ingerência em diversos assuntos, o SNI conferia a seu chefe status de 
ministro de Estado, assessor direto do presidente da República. Apesar de ser instituído para 
lidar com informação, evidências apontam para ele como colaborador em ações da polícia 
repressiva. 
Sua divisão administrativa apresentava além da chefia, a Agência Central, dividida 
em: Informações Estratégicas, Segurança Interna e operações Especiais. Havia também as 
Agências Regionais, que apresentavam funcionamento similar à Central. O número de 
funcionários do SNI chegou a 2500, bem treinados e especializados, conforme a mentalidade 
de informação do SISNI. Em 1971, como parte dos planos para desmilitarizar o SNI, aos 
moldes da CIA norte-americana, foi criada a Escola Nacional de Informação (EsNI), que 
formava anualmente cerca de 90 civis e 30 militares. 
As principais medidas de contra-informação emanavam da Agência Central, em 
Brasília,assessorada por 8 agências regionais, espalhadas pelo país, e alguns núcleos 
instalados por cidades estrategicamente escolhidas. Semanalmente, eram fornecidas Resenhas 
7 
 
com informações sobre temas variados, como: política, economia, subversão e atividades 
psicosociais. Ainda recebiam essas resenhas, o secretário do presidente, os chefes dos 
Gabinetes Militar e Civil, as agências regionais e os centros de informação militares. 
No ambiente civil, as autarquias, fundações e empresas estatais, ligadas aos 
ministérios, tinham uma Assessoria de Segurança de Informações (ASI) ou Assessoria 
Especial de Segurança e Informação (AESI), vinculadas à Divisão de Segurança e 
Informações (DSI), órgão central de informações dos ministérios. 
O monopólio das informações fez com que a influência das DSI aumentasse, 
começando a ameaçar a autoridade dos ministros civis. Apenas os Ministérios da Justiça, das 
Relações Exteriores e do Interior possuíam outros órgãos de informação. A princípio, o 
organograma das DSI, que contava apenas com uma diretoria, um assessor especial e as 
seções de informação, segurança e administração, foi se tornando maior e mais complexo. A 
ocupação de seus cargos constituía-se em um problema, tanto por causa do rigor da seleção, 
que incluía o sigilo e a disciplina, na lista de suas exigências, quanto pela má impressão que 
se tinha desse órgão perante a sociedade. 
Com os quadros de pessoal independente da SNI e necessitando de uma vultosa 
estrutura logística, os DSI apresentavam gastos substanciais. Os excessos financeiros levaram 
o presidente do Tribunal de Contas da União e o Ministro-Chefe do Gabinete Civil a tentar 
pressionar os ministros para que os controlassem. 
Nos ministérios militares, diferentemente das DSI, existiam os Sistemas Setoriais de 
Informação dos Ministérios Militares. Compostos pelos sistemas de informação específicos 
do Exército, Marinha e Aeronáutica produziam informações administrativas e relativas às 
operações militares. Essas últimas ficavam a cargo do Subsistema de Informações 
Estratégicas Militares (SUSIEM). 
Entre os militares, destacavam-se as siglas do Centro de Informações do Exército, 
CIE, o maior e mais forte destes, do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica, 
CISA, e a do Centro de Informações da Marinha, CENIMAR. Esses órgãos de informação 
militares, devido ao regime militar do governo, julgavam-se superior aos civis, quebrando a 
hierarquia existente entre eles. Diferentemente das DSI civis, passaram de órgãos de 
informação a executores, chegando a realizar prisões, interrogatórios e torturas, coordenados 
pelo Centro de Operações de Defesa Interna (CODI). 
Há época, várias assessorias de informação militares foram espalhadas na 
administração pública, nas estatais, nas fundações e autarquias, incluindo as universidades. Os 
cargos de chefia dessas assessorias eram reservados aos oficiais militares. Toda essa estrutura 
8 
 
auxiliava a imprimir em seus participantes um forte sentimento de lealdade e colaboração a 
favor da Segurança nacional, que ficavam conhecidos como integrantes da Comunidade de 
Informação. Ao conjunto de colaboradores não pertencentes aos quadros governamentais 
dava-se o nome de Comunidade Complementar de Informações. 
Para que o informe colhido, sob o formato de dados, notícias e esclarecimentos, se 
transformasse em informação, era preciso que este fosse julgado relevante, pela lógica do 
sistema de informações. A fidedignidade dessas informações variavam de A ao F e sua 
veracidade de nível 1 a 6, ambos em ordem crescente. O assunto podia ser externo, fora do 
país, ou interno, dentro deste. Os critérios para organizar as informações eram: geográficos, 
temporais, o alcance da ação investigada e o campo da ação governamental com a qual se 
relacionava. 
A produção das informações deveria seguir princípios como: objetividade, 
simplicidade, oportunidade, segurança, imparcialidade, entre outros. Mas, essas diretrizes, via 
de regra, esbarravam no ufanismo cego dos militares que insistiam em desprezá-las. 
Entretanto, alguns documentos produzidos ainda seguiam um formato pré-definido, como: 
Levantamento de Dados Biográficos, Ficha Conceitual, Prontuários e Juízo Sintético. Todas 
as informações eram processadas e armazenadas sob a égide do sigilo, classificadas como 
confidenciais, mantendo os órgãos de informação autoconvencidos de sua doutrina e 
retroalimentados. 
Em nome do combate ao comunismo, corrupção e subversão, o SISNI não poupava 
ninguém em suas investigações, espionando todos sob sistemática desconfiança, produzindo 
culpados através dos excessos cometidos nesse processo. Nessa dinâmica, na maioria das 
vezes, cabia aos militares subalternos o trabalho de sujar as mãos com as arbitrariedades das 
ações repressivas. 
Um simples indício era suficiente para produzir um futuro suspeito, incriminado 
como subversivo. Até mesmo a vida sexual, ou a suposta insanidade mental, serviam para 
desqualificar os inimigos do governo. Como forma de perpetuar a pressão exercida pelas 
comunidades de informação, os inquéritos se estendiam indefinidamente e novos inquéritos 
eram abertos, dia-a-dia. 
Todas as ações eram voltadas a reputar aos tidos como subversivos a culpa por toda 
violência e arbitrariedades que se assistia no país, sendo os militares postos como vítimas das 
circunstâncias. Toda a estrutura dos órgãos governamentais de informação buscava disfarçar 
seu envolvimento com o sistema repressivo da Ditadura Militar. Apesar disso, era notório o 
9 
 
fornecimento de informações distorcidas, que culminavam em julgamento e punições injustas 
e arbitrárias. 
Mas, para que o sistema repressivo obtivesse ainda mais sucesso era preciso melhor 
preparar as Secretarias de Segurança Públicas estaduais e a própria Polícia Federal, visto que 
a função do SNI era lidar com a informação e não ser executor. Isso deveria por fim às 
discordâncias entre os setores de informações, que executavam prisões e inquéritos 
arbitrários, e o setor de segurança, que sonegava informações, sobre suas ações, a estes 
primeiros. 
Insatisfeitos com o saldo dos inquéritos, alegando morosidade e limitações da 
Justiça, os militares radicais criaram um foro especial para julgar crimes políticos e 
suspenderam algumas garantias individuais, como os habeas corpus. Nesse momento surge o 
Sistema de Segurança Interna no País (SISSEGIN). 
Os ataques à democracia que vinham sendo realizados pelo governo, através dos 
instrumentos jurídicos como os Atos Institucionais, não foram considerados suficientes para 
os militares, que clamavam por um sistema de segurança nacional. Esse sistema teria a 
finalidade de constituir uma sociedade estática e livre da influência de ideologias tidas como 
perniciosas para a ordem social. O meio para conseguir tal intento seria o emprego da força 
dos policiais e dos militares, de forma rápida e sem reconhecer limites. 
Após a instituição do AI-5, marco decisório para efetivar o sistema de segurança, 
surge a Comissão geral de Inquérito policial Militar, responsável pela apuração de crimes 
contra segurança nacional ou a ordem política e social. Cria-se o novo Código de Processo 
Penal Militar e as Polícias Militares passaram a serem classificadas como força auxiliar do 
Exército. Tanto os comandos estaduais das Polícias Militares, quanto das Secretarias de 
Segurança Pública passaram a ser delegados a oficiais do Exército. 
Em julho de 1969, foi lançado, subordinado ao II Exército, a Operação Bandeirantes 
(OBAN), que não foi prevista nem legalizada por nenhuma norma jurídica da época. Seu 
objetivo era combater, mais eficientemente, a subversão terrorista em São Paulo e Mato 
Grosso. Para os idealizadores dessa operação, as Secretarias de Segurança não estavam 
suficientemente preparadas para essa tarefa, sendo preciso, para tanto, o trabalho coordenado 
de vários órgãos. 
AOBAN, além de trabalhar como órgão de informação, analisava a cena nacional, 
efetuava interrogatória e combatia, diretamente, a subversão. Tal modelo de atuação inspirou 
o surgimento do CODI-DOI. Devido ao sucesso da sistemática adotada pela OBAN na ação 
10 
 
repressiva, seu formato foi institucionalizado, em 1970, pela expedição da Diretriz 
Presidencial de Segurança Interna. 
Assim, estava constituído o SISSEGIN, sob bases confidenciais, emanadas do 
Conselho de Segurança Nacional, aprovada pelo presidente da República. Não surgiu, 
portanto, através de lei e regulamentos como os demais órgãos da Ditadura Militar. Seguem-
se, a partir desse momento, o surgimento de inúmeros decretos-secretos, que foram expedidos 
da forma que mais aprouvesse os mandatários da nação. 
Para que fosse implantado o SISSEGIN, os governadores e Secretário de Segurança 
estaduais foram devidamente instruídos, por meio de reuniões. Quanto aos comandos 
militares, criaram órgãos como: o Conselho de Defesa Interna (CONDI), o Destacamento de 
Operações de Informação (DOI) e o Centro de operação de Defesa Interna (CODI). 
O Brasil foi dividido em seis Zonas de Defesa Interna (ZDI), cada uma apresentando 
um CODI, um DOI e Um CONDI. As regiões que necessitavam de maior atenção do governo 
podiam contar com a criação de Áreas de Defesa Interna (ADI) ou Sub-Áreas de Defesa 
Interna (SADI). 
A implantação do CODI-DOI foi decisiva para a que os oficiais-generais, finalmente 
instituíssem o SISSEGIN, passando o Brasil a conhecer dias sombrios da atuação de uma 
polícia política extremamente violenta acobertada por uma Justiça corrupta. 
Os CONDI auxiliavam os comandantes das ZDI a coordenar as ações e a cooperação 
entre civis e militares, mas não apresentou um relevante funcionamento. Aos CODI cabia o 
planejamento, controle e execução de medidas de defesa interna, inspirado nos moldes da 
OBAN. 
Os DOI eram responsáveis pela função denominada de doutrinadores da segurança 
nacional, responsáveis por toda sorte de brutalidades policiais, forjando para os militares a 
herança de uma imagem pautada pela corrupção e violência desmedidas. Os DOI eram 
flexíveis, modificando-se conforme a necessidade de adaptarem seus materiais e pessoal ao 
combate contra os novos desenhos das guerrilhas urbanas. 
A estrutura desses órgãos contava com setores especializados em: operações 
externas, informações, contra informações, interrogatórios, análises, assessoria jurídica e 
policial e setores administrativos. A escala de serviço variava entre expedientes entre as 8 da 
manhã às 18 horas, ou plantões de 24 por 48 horas. 
Geralmente os comandantes dos DOI eram tenentes-coronéis, cujo perfil deveria 
abranger, entre outras características: discrição, familiaridade com informações, estar sempre 
11 
 
atento, conhecer os risco de sua função e ter experiência no trabalho envolvendo o campo 
psicossocial. 
Os componentes da Seção de Busca e Apreensão eram os que tinham contato com a 
população, responsáveis pelo trabalho externo, como: desarticular aparelhos, conduzir presos, 
apreender materiais e coletar dados. Os integrantes da Seção de Investigação trabalhavam em 
profundo sigilo, por vezes contando com o auxílio da Polícia feminina da PM e investigadores 
da secretária de Segurança Pública, contando com viaturas bem equipada para o serviço. 
Embora o efetivo que se tenha notícia informe um quantitativo de 250 pessoas, entre 
policiais civis e militares, membros do Exército, Marinha e Aeronáutica e Polícia Federal, 
estima-se o envolvimento com a repressão de dez vezes mais pessoas. Os militares eram 
gratificados, monetariamente, enquanto os civis recebiam promoções por serviços prestados. 
As informações obtidas e os depoimentos colhidos, sobre as ações subversivas, eram 
analisados e arquivados pelas Subseções de Análise e a função de Polícia Judiciária ficava a 
cargo da Assessoria Jurídica e Policial. 
Todos os integrantes das operações de informações obedeciam a uma rígida doutrina 
de segurança, trabalhavam obrigatoriamente sob codinomes, com vestimentas e cortes de 
cabelos civis, tendo suas vidas esquadrinhadas e observadas constantemente. O alto nível de 
stress verificado entre eles, devido a natureza das operações, era um forte causador de 
traumas, culminando em rodízio de funcionários e substituições. Havia também as 
divergências entre as Forças Armadas e os policiais militares e civis, aos quais rejeitavam, 
considerando-os incompetentes, incapazes, corruptos, desonestos e preguiçosos. Até mesmo 
os que eram formados na Escola Nacional de Informações não eram bem visto, pois esta fora 
criada para formar profissionais do SISNI e não, especificamente do SISSEGIN. 
Inicialmente, as operações do SISSEGIN eram voltadas aos militares considerados 
de esquerda, expostos, ordinariamente, às torturas físicas e psicológicas para entregar seus 
companheiros. Essas práticas eram negadas, peremptoriamente, negadas frente a denúncias de 
organismos internacionais como, Anistia Internacional ou Organização dos Estados 
Americanos (OEA). 
Houve, em 1970, a preparação de um dossiê, de onze volumes, que reiterava a 
negativa das prisões e processos por motivações políticas, além de afirmar que os esporádicos 
casos de tortura eram punidos exemplarmente. A suposta difamação dos agentes de 
informações era combatida, também, através da publicação das listas de agentes 
governamentais, mortos e feridos em nome da paz social. 
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 Com o passar do tempo, derrotada a luta armada, os comandantes dos ZDI passaram 
a focar seus esforços em ações mais qualificadas e limitadas, entre o período de 1970 a 1974, 
que tendiam para o cunho psicológico, com a utilização de agentes infiltrados entre os ditos 
subversivos, extensa propaganda a favor do governo e interrogatórios incluindo ameaças aos 
familiares e ao emprego dos presos. 
Tido como uma criação nacional e obtendo destaque em outros países como eficiente 
no combate a atividade subversiva o SISSEGIN foi copiado, com as devidas adaptações pelo 
Chile e Uruguai. 
Com o declínio da luta armada, a maior preocupação do SISSEGIN foi erigir 
ameaças contundentes à segurança nacional que justificassem a continuação da sua existência. 
Resistentes ao controle das esferas legais do Estado, respondendo apenas aos altos escalões do 
Poder Executivo, esse órgão possuía uma estrutura autonomista de operações, obtendo e 
circulando informações. O terror, que as agências governamentais de segurança e informação 
espalhavam pelo país, cumpria o propósito de ceder aos generais-presidentes o perfeito 
controle no mando da nação, fazendo com que estes últimos ficassem reféns dos primeiros. 
Desta forma, o amortecimento da repressão foi sufocado, durante bastante tempo, evitando o 
desmonte do SISSEGIN, mesmo depois do início da abertura política. 
para justificarem a necessidade da colocação de um militar, especificamente do 
Exército no poder, os linha dura utilizavam-se na justificativa de um discurso moralizador. 
Portanto, os civis não seriam capazes de lidar com o combate a corrupção trazida pelo 
subversivos comunistas, sendo eles um exemplo vivo de incapacidade e corrupção, dados ao 
improviso e à atitude sedentária. 
Visando caracterizar, punir e exterminar a corrupção, tida como mais nociva que a 
subversão, os militares criaram a Comissão Geral de Investigação (CGI), já nos primeiros 
momentos da Revolução. Com a edição do AI-5, houve a criação do Sistema CGI. Este 
sistema ficaria responsável por investigações de funcionários, que poderiam levar ao confisco 
de bens daquele cuja riqueza tivesse sido obtida por meios considerados corruptos. Essa 
função provocava animosidades entre os funcionários investigados e os investigadores, que 
sofriam represália e perseguições no exercício de suas funções. 
Os confiscos eram feitos como sob a justificativa de ressarcir ao Estado o que lhefora tirado, embora a maior parte das ações se voltasse para a prevenção dos atos de 
corrupção, resguardando o frágil e problemático sistema político e empresarial do país. Os 
militares acreditavam na força da repressão contra a corrupção, causadora dos males sociais. 
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Contudo a intenção de combater a corrupção por meio dos CGI fracassou, esbarrando 
em duas grandes dificuldades, além das divergências com os funcionários do governo. A 
corrupção dos seus próprios agentes, que ao deparar-se com afiliados do regime como 
investigados burlavam o processo em seu favor, era o primeiro entrave. O outro motivo era o 
despreparo dos investigadores, que construíam processos afetados por influências políticas, ou 
mal elaborados, passíveis de contestações jurídicas. Com o término do governo Geisel veio 
também a extinção da CGI. 
Vários assuntos eram tratados pelos três mais significativos órgãos da repressão, o 
SISNI, o SISSEGIN e a CGI gerando uma enorme quantidade de documentos. Duas grandes 
armas eram utilizadas pela repressão. A censura e propaganda política contra os subversivos, 
que atendiam aos anseios do sistema comunista internacional, prestes a atacar o Brasil com 
suas diretrizes pautadas na corrupção e imoralidade. Componentes dos meios de 
comunicação, artistas e intelectuais taxados como marxistas eram os principais atingidos pela 
perseguição dos repressores. Havia também sérias indisposições contra os religiosos, que 
passaram a ter membros do clero presos e contra os estudantes universitários de classe média, 
que ousavam ambicionavam mudar a realidade brasileira. 
Os países estrangeiros denunciavam os abusos contra os Direitos Humanos, enquanto 
os exilados eram acusados pelos repressores de difamar os governantes brasileiros. 
A censura, controlada pelo diretor-geral do Departamento de Polícia Federal (DPF), 
atingia os meios artístico e cultura com veemência. Nos jornais impressos, essa prática se fez 
mais notória e sistemática do que nos outros meios que possivelmente viessem a propagar 
ideais comunistas subversivos. 
Os jornais de cunho político ou revistas que atentavam contra a moral e bons sofriam 
censura prévia dos repressores. As orientações sobre o que deveria ser censurado vinham 
diretamente do Ministério da Justiça. Entretanto, existiam alguns assuntos que sempre 
deveriam estar sob os efeitos da censura, como: política, sexo, anistia, liberdade de imprensa, 
moral e bons costumes, entre outros. Esses temas constavam de uma lista que se denominou 
como proibições determinadas. 
Assim como a Presidência da República, cada ministério, como o da Saúde, da 
Educação e Cultura, da Previdência Social, do Exército e do trabalho tinham sua própria 
demanda quanto ao que deveria ser censurado, encaminhando suas reivindicações ao 
Ministério da Justiça. 
Igualmente à preocupação com a política, o cuidado com a preservação da ética nas 
notícias surgia entre os censores. Foram proibidas as publicações de fatos escabrosos, 
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obscenos ou deprimentes, geralmente referente à descrição de crimes. Assim como nas 
notícias escritas, o grotesco e os demais temas foram proibidos nas TVs, nos cinemas e nas 
apresentações teatrais, cujas obras eram analisadas, cortadas, suspensas ou terminantemente 
proibidas pelo Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP). 
 Enquanto a repressão seguia com censuras arbitrárias, inflamadas e fundamentadas 
em descabidas teorias de conspirações, os ditos subversivos buscavam as mais criativas 
formas de burlá-las. Apenas com a alardeada distensão do presidente Geisel, por volta de 
1974, a despeito dos que viam a censura e as torturas como necessárias e justificáveis, a 
perseguição dos censores começou, vagarosamente, a arrefecer. 
Ao passo que controlavam a imprensa e a TV, os repressores se utilizavam destas 
para alardear o milagre econômico da época como justificador de toda a postura adotada pelos 
governistas. Com o amortecimento da censura e a evidente os agentes das comunidades de 
informação passaram a temer, ainda mais, a suposta infiltração de comunistas na sociedade 
brasileira. Toda essa ação subversiva visaria difamar o governo, ameaçando a ordem social, 
religiosa e política, além da moral e bons costumes. Para combater os avanços da ameaça 
comunista o CENIMAR buscou aumentar sua ingerência junto a Associação Brasileira de 
Imprensa (ABI). Já o II Exército achou por bem cortar os gastos com a publicidade 
governamental, dos meios de comunicação que estivessem sob a suspeita de compactuarem 
com comunista. 
Os professores também mereciam atenção do sistema repressivo, visto serem 
fundamentais na formação dos jovens, tão susceptíveis às infiltrações comunistas. Temas 
como sexualidade e drogas, contrário a moral e bons costumes, poderiam se transformar em 
portas abertas para as ideologias subversivas. Aos professores considerados subversivos 
restavam a perseguição e a aposentadoria forçada. 
Quanto ao clero, a partir de 1971, o governo, por parte dos militares moderados, 
começou a buscar uma maior aproximação, o que era visto com maus olhos pelos agentes dos 
sistemas de segurança e informações. Até mesmo as Campanhas da Fraternidade, encabeçadas 
pela CNBB, eram investigadas com desconfiança pelo governo. A Igreja Católica era 
enxergada como um exército bem organizado, que mantinha relações suspeitas com países 
como Rússia e Hungria. 
Entre as preocupações da comunidade de segurança e informações estavam tanto a 
visão que outros países tinham de nosso país como o grande número de refugiados políticos 
argentinos, que vieram para o Brasil em 1976. Tais refugiados tinham sua entrada facilitada 
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pelo Alto Comissariado das Nações Unidas, instalado no Brasil, o que levou os representantes 
dos militares a planejar o cancelamento de sua autorização para funcionamento em nosso país. 
Contraditoriamente, o Brasil aceitava refugiados políticos estrangeiros, mesmo que 
sua influência fosse vista como perniciosa para a ordem social brasileira, enquanto punia e 
exilava os brasileiros contrários ao regime. Isso poderia ser visto como franqueza do regime, 
segundo a ótica dos radicais. 
Constituía-se em motivo de grande apreensão para os repressores o retorno a cena 
política nacional dos exilados brasileiros opostos ao regime militar, pois temiam responder 
pelas atrocidades que praticavam. De todas as denúncias sobre tortura, as da Anistia 
Internacional eram as que mais preocupavam o regime militar, que buscava descaracterizá-la 
como tendenciosa e comunista. 
Visando minorar os efeitos internacionais das notícias sobre tortura os militares 
idealizam a criação de uma Polícia Governamental de Comunicação Social no Campo 
Externo, para fiscalizar as notícias desabonadoras. Isso não fez com que cessassem as 
denúncias contra violações feitas pela Comissão Internacional de Direitos Humanos da OEA. 
Como essa tentativa fracassou, o governo, em outra estratégia, fez com que as informações 
sobre as ações dos governistas fossem enviadas apenas para o SISNI, que não respondia. 
A preocupação internacional fez com que fosse criado o Tribunal Bertand Russell, 
em Bruxelas, para julgar os crimes de tortura cometidos no Brasil, o que fez com que fossem 
refreadas algumas das ações dos militares. Também foram utilizadas a participação de várias 
entidades ligadas à área da comunicação, dentro e fora do país, e de estudos políticos, 
econômicos e sociais para amenizar a má impressão contra o governo. Contudo, todos os 
esforços foram em vão, e a Ditadura Militar continuou a ter suas ações alardeadas e julgadas 
pelos olhares internacionais. 
Com a chegada da distensão, no governo Geisel, surgiu a preocupação de controlar o 
sistema de segurança e informações, tolhendo-lhe as atividades ilícitas e arbitrárias. Para 
contraporem-se ao governo, os componentes das comunidades de segurança e informações 
arquitetarame executaram atentados terroristas desastrosos que vitimaram civis e militares. A 
ameaça da implantação de um Estado democrático não previa a continuação das atrocidades 
repressivas, o que consistia no maior temor dos militares radicais. 
Uma das atitudes mais enérgicas contra os desmandos da linha dura foi a demissão 
do comandante Ednardo D’Avilla Melo, devido a tortura e mortes de presos políticos. Mesmo 
descontentes, os militares aceitaram serem controlados, contanto que os órgãos repressores 
não fossem sumariamente extintos. Essa possibilidade se tornou maior depois do surgimento 
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de ações como a Campanha pela Anistia e o Movimento Paz e Justiça, que investigava os 
militares ligados à repressão. 
Expostos à observação, os repressores não podiam mais contar com a já derrotada 
ameaça comunista, para justificar seus desmandos. Assim, ficavam, cada dia mais, 
enfraquecidos e desacreditados, atribuindo constantemente seus fracassos à massiva 
campanha difamatória instituída no país pelos comunistas, a qual contaminou a opinião 
pública. 
A publicidade que passava a ser dada aos crimes de tortura, às prisões ilegais e aos 
desaparecimentos de presos políticos complicavam ainda mais a situação dos radicais. O 
SISSEGIN temendo assistir seus últimos momentos decidiu forjar uma tomada de poder dos 
comunistas, para provar serem necessários para a nação, mas não obteve êxito na farsa. 
Com a chegada do governo Figueiredo, apesar de se encontrar na fase final da 
abertura política o SNI receber reforços, na gestão do general Otávio Medeiros. Com o fim do 
governo Figueiredo encerra-se também a história do SISSEGIN. No governo Sarney, em 
meados da década de 1980, o SNI passa a ser designado para atuar apenas como órgão de 
informações, não mais voltado a cuidar da segurança da nação. 
A tão prezada autonomia dos órgãos repressores, que outrora havia sido motivo de 
supremacia, após a abertura política veio a servir de justificativa para que o governo se 
livrasse da responsabilidade de todas as atrocidades cometidas por eles. Para os líderes da 
nação tudo teria sido feito pelos repressores a revelia das autoridades, como se possível fosse 
o SISSEGIN e os CODI-DOI terem sidos criados, estruturados, mantidos e operacionalizados 
sem a anuência dos altos escalões do poder nacional. Usadas quando julgados necessários aos 
planos do governo de manter o comando da nação, descartados quando não mais adequados 
aos mesmos propósitos.