A JUS HUMANIZAÇÃO DAS REL. HUMANOS NO DIR. PRIVADO
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A JUS HUMANIZAÇÃO DAS REL. HUMANOS NO DIR. PRIVADO


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residencial estabelecida em lei especial. 
65 Dispõe o caput do artigo 1º do dispositivo legal: O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, 
é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra 
natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam, salvo nas 
hipóteses previstas nesta lei. 
 
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residência da família, impende que se mantenha a constrição sobre o bem 
de propriedade de pessoa solteira.66
As decisões supra-referidas, além de claros contornos 
normativistas, caracterizando um afivelar do juiz à letra da lei, situam-se 
nos domínios de uma perspectiva patrimonialista do direito civil, ao 
privilegiar o direito de crédito em detrimento do fundamental direito à 
moradia. 
Decerto que, nos quadros do que estamos a postular \u2013 a jus-
humanização das relações privadas \u2013 não há de haver concordância com o 
teor de tais julgamentos. Ao contrário, há de se buscar uma decisão cujo 
sentido radique materialmente na proteção da pessoa e na garantia das 
condições mínimas para uma vida digna. Por essa via, irradia-se sobre a 
normatividade jurídica a noção de depatrimonializzazione do direito civil.67
Os efeitos dessa irradiação alcançam o próprio manancial 
substantivo do direito civil, afirmando-se como uma disciplina orientada 
para o estabelecer e o concretizar dos princípios básicos do livre e amplo 
desenvolvimento da pessoa. E pessoa não em um sentido abstrato ou 
nucleada em uma matriz afirmativa de uma vontade individual. Mas, ao 
 
66 Apelação Cível 197282593. 8ª Câmara Cível. Tribunal de Alçada do Rio Grande do Sul. Relator: Doutor José 
Francisco Pellegrini. Julgado em 06/05/1998. No mesmo sentido: Penhora. Bem de Família. Executado solteiro. 
O bem que a Lei n. 8009/90 protege é o da família e não do devedor. Por isso, é penhorável o bem do executado 
solteiro. Agravo de Instrumento 598305761. 9ª Câmara Cível. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Relator: 
Doutor Tupinambá Pinto de Azevedo. Julgado em 23/02/1999. Bem de família. Não incidência da tutela legal. 
imóvel habitado por indivíduo só. Não enquadramento de sua condição na necessária entidade familiar. A 
circunstância de habitar só no imóvel não o habilita à tutela da legislação protetiva do bem de família, que visa à 
proteção da entidade familiar. Agravo de Instrumento 197125586. 7ª Câmara Cível. Tribunal de Alçada do Rio 
Grande do Sul. Relator: Doutor Roberto Expedito da Cunha Madrid. Julgado em 27/08/1997. Executado solteiro 
que mora sozinho. A Lei 8009/90 destina-se a proteger, não o devedor, mas a sua família. Assim, a 
impenhorabilidade nela prevista abrange o imóvel residencial do casal ou da entidade familiar, não alcançando o 
devedor solteiro, que reside solitário. STJ \u2013 Acórdão Resp. 169239/SP (199800226621), RE 384712, 12/12/2000, 
4ª Turma. Relator: Ministro Barros Monteiro. 
67 Cfe. a expressão de Pietro Perlingieri, op. cit. p. 55. Impende acentuar, de modo exemplificativo, nessa linha, os 
estudos promovidos no Brasil por autores como Gustavo Tepedino, Luiz Edson Facchin, Maria Celina Bodin de 
Moraes. 
 
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revés, pessoa como sujeito de e do direito, incorporada em uma ordem 
social ética, histórica e econômica.68
Sublinhe-se que a noção de despatrimonialização não implica a 
desconsideração plena dos aspectos patrimoniais e econômicos da vida 
civil. O que está em causa é a não subordinação absoluta das relações 
particulares aos valores patrimoniais, hipertrofiados pela concepção 
moderno-individualista. Em contrapartida, na órbita do direito civil eleva-se 
prioritariamente, como uma medida axiológica constante, a tutela de 
valores e elementos não econômicos. Não se negam os aspectos 
patrimoniais: apenas se os conjugam aos valores da personalidade 
humana, outorgando-se uma primazia destes em relação a aqueles. A 
despatrimonialização implica assumir como prius das relações jurídicas os 
valores atinentes à pessoa humana e ao pleno desenvolvimento de sua 
personalidade, sendo o patrimônio uma via para alcançar a destinação final 
da personalidade. Desde logo, tem-se, em síntese, que permeado pela 
despatrimonialização el Derecho Civil no actúa por y para el patrimonio, 
sino a través del patrimonio.69
De modo paradigmático, ilustrando a noção de 
despatrimonialização, recolhemos o exposto na decisão proferida pela 7ª 
Câmara Cível do Tribunal de Alçada do Estado de Minas Gerais (Apelação 
Cível nº 408.550-5, de 01/04/2004) que reconheceu ao filho o direito à 
indenização por danos morais em virtude de uma situação de abandono por 
parte de seu pai. Conforme a ementa, a dor sofrida pelo filho, em virtude 
do abandono paterno, que o privou do direito à convivência, ao amparo 
afetivo, moral e psíquico, deve ser indenizável, com fulcro no princípio da 
dignidade da pessoa humana. Como pano de fundo, está o reconhecimento 
de as relações familiares serem pautadas, antes e sobretudo, pelo princípio 
do afeto e da solidariedade, não se constituindo, pois, a família e as 
relações que dela derivam apenas como um instrumento para a satisfação 
 
68 Nesse sentido, ver Eugenio Llamas Pombo. Orientaciones sobre el concepto y el método del derecho civil. 
Buenos Aires: Rubinzal-Culzoni, s.d., p. 88 e seguintes. 
69 Llamas Pombo. op. cit. p. 110. 
 
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material e patrimonial de seus componentes.70 Encontramos nessa linha 
jurisprudencial \u2013 que segue, ao nosso sentir, a tendência de 
despatrimonialização do direito civil \u2013 uma tendência contemporânea 
caracterizadora do direito de família pós-moderno, salientada por ERIK 
JAYME: o regresso dos sentimentos, que se transformam em direito e, ao 
fim e ao cabo, como bem conclui o autor, embora possam parecer caótico, 
ameaçando a segurança jurídica, correspondem à complexidade da vida de 
hoje, e reflecte mais precisamente os desejos da sociedade actual.71
Ao fim e ao cabo, retornando à questão do bem de família, 
advogamos, portanto, que a proteção expressa pela Lei 8009/90 alcance a 
todas as pessoas, independente de seu estado civil ou modo de vida.72 Em 
 
70 Tudo, decerto, em harmonia com relevantes princípios ético-jurídicos, conforme extraímos da compreensão do 
próprio acórdão. Senão, vejamos: O princípio da afetividade especializa, no campo das relações familiares, o 
macroprincípio da dignidade da pessoa humana (artigo 1º, III, da Constituição Federal), que preside todas as 
relações jurídicas e submete o ordenamento jurídico nacional. (...). No que respeita à dignidade da pessoa da 
criança, o artigo 227 da Constituição expressa essa concepção, ao estabelecer que é dever da família assegurar-
lhe com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, 
à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-la à salvo 
de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Não é um direito 
oponível apenas ao Estado, à sociedade ou a estranhos, mas