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de direito fundamental da pessoa à protecção do seu estilo de vida. Pós-modernismo e direito da família, in Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol. LXXVIII, ano 2002, p.210. Esse entendimento decorre da inteligência das disposições normativas que tutelam a vida privada – tal-qualmente estabelece o inciso X, do artigo 5º da Constituição Federal brasileira. Assim, nasce o dever de reconhecer o estilo de vida decorrente das autônomas opções de cada pessoa – v. g. as opções sexuais –, afirmando-se o direito das minorias, amparando-o juridicamente e apartando das relações sociais quaisquer traços discriminatórios. Ilustrativo, na esteira do considerado, a seguinte decisão: União homossexual. Reconhecimento. Partilha do patrimônio. Meação paradigma. Não se permite mais o farisaísmo de desconhecer a existência de uniões entre pessoas do mesmo sexo e a produção de efeitos jurídicos derivados dessas relações homoafetivas. Embora permeadas de preconceitos, são realidades que o Judiciário não pode ignorar, (...), buscando-se sempre a aplicação da analogia e dos princípios gerais do direito, relevado sempre os princípios constitucionais da dignidade humana e da igualdade.(...). Agravo de Instrumento 70001388982. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Sétima Câmara Cível. Relator: Desembargador José Carlos Teixeira Giorgis. Data de julgamento: 14/03/2001. O reconhecimento do direito à diferença independe da aceitação social de uma maioria, pois decorre da própria autonomia pessoal e, em última sede, da dignidade humana. Assim, os comportamentos tidos por diferentes, refletindo as opções das minorias, desde que não ofensivos à ordem pública, devem receber a tutela das instâncias jurídicas, sob pena de o direito se transformar em uma barreira à projeção de novos valores na vida social, circunavegando nas paradas águas da insensibilidade. E, por fim, o direito à diferença não pode resultar em uma ... indiferença. Como bem observou o Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos, é bom lembrar, pois freqüentemente esquecido, a sociedade, o Estado e o Direito existem em função da pessoa humana, de sua felicidade e realização plenas, cuja efetivação só não pode realizar-se com o sacrifício do outro, individual ou coletivo. Embargos Infringentes 70000080325 – 4º Grupo de Câmaras Cíveis. Tribunal de Justiça do RS. Revista de Jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, 200/ junho de 2000. Texto fruto do Grupo de Pesquisa Prismas do Direito Civil-Constitucional da PUCRS. 22 A Jus-humanização das Relações Privadas: para além da constitucionalização do direito privado singulares e reais especificidades existenciais do titular do direito de personalidade ameaçado ou lesado.55 6 – CERTAS CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS DE PERSONALIDADE Os direitos de personalidade, distinguindo-se, pois, de outros direitos subjetivos, apresentam características próprias. Algumas dessas características são nominadas no próprio art. 11 do CCB.56 Isso posto, veremos, em duas ou três palavras, os seguintes elementos distintivos dos direitos de personalidade: a) Intransmissíveis: em razão da própria essência dos direitos de personalidade, segundo a qual os bens jurídicos da personalidade humana física e moral constituem o ser do seu titular,57 nasce uma incontornável vinculação dos próprios direitos com o seu titular – os direitos de personalidade não se separam de seu titular. Dessa forma, há, por princípio, a impossibilidade de se ceder, alienar, onerar, sub-rogar, transmitir ou outorgar um direito de personalidade. Inerente à idéia de transmissão, está a de uma pessoa pôr-se no lugar de outra. Logo, caso fosse possível a transmissão, o direito não seria personalidade,58 porquanto personalidade não se transmite, não havendo alteração de seu titular. b) Irrenunciáveis: do mesmo modo que a intransmissibilidade, a irrenunciabilidade é uma das características dos direitos de personalidade. Dada a sua essencialidade, não se pode renunciar aos direitos de personalidade; é dizer, não se pode desistir, nem eliminar os direitos de personalidade. Os direitos de personalidade não podem ser perdidos durante a existência de seu titular. Todavia, tanto a 55 Nesse diapasão, modelar a jurisprudência portuguesa que assim pronunciou: O julgador, ao aplicar a lei no âmbito do direito de personalidade, não deve atender a um tipo humano médio, ao conceito de cidadão normal e comum, antes deve ter em conta a especial sensibilidade do lesado, como é na realidade. apud Rabindranath Capelo de Sousa, op. cit., p. 117. 56 Dispõe o citado artigo: Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária. 57 Rabindranath Capelo de Sousa, op. cit., p. 402. 58 Cfe. Pontes de Miranda. Tratado de direito privado. Parte especial. Tomo VII, 3ª ed. Rio de Janeiro: Borsoi, 1971, p.07. Texto fruto do Grupo de Pesquisa Prismas do Direito Civil-Constitucional da PUCRS. 23 A Jus-humanização das Relações Privadas: para além da constitucionalização do direito privado intransmissibilidade quanto a irrenunciabilidade não obstam uma possível limitação voluntária ao exercício dos direitos de personalidade, desde que não se firam os princípios fundantes da ordem pública.59 c) Indisponíveis: Compreendida a natureza essencial dos direitos de personalidade, percebe-se que, por regra, a indisponibilidade os chancela. Assim, ao seu titular não será juridicamente possível estabelecer uma outra meta ou um outro rumo ao seu direito. Não obstante o afirmado, há uma abertura, inclusive de ordem legal, que possibilita o amenizar, o abrandar, dessa característica. Rigorosamente, poderíamos dizer que há uma indisponibilidade temperada, haja vista aquelas situações em que licitamente se possibilita ao sujeito ativo do direito de personalidade dispor sobre o objeto de seu direito, limitando-o. Tal possibilidade, desde que a disposição não seja ilícita ou contrária aos princípios instituintes da ordem jurídico-política, resulta da liberdade de autodeterminação pessoal, de uma razoável flexibilização que o próprio sujeito pode incorporar à sua personalidade. Assim, e. g., pode haver a concessão para uso de imagem, ou, ainda, a própria hipótese prevista no artigo 13 do CCB, dispondo acerca da doação de órgãos ou tecidos para fins de transplante que não importem diminuição permanente da integridade física. Ressalte-se, contudo, que isso não elide a indisponibilidade como elemento caracterizador e constituinte dos direitos da personalidade: a referida abertura não torna a indisponibilidade uma característica absoluta, tão-somente a modera. Ademais, a possibilidade de disposição há de ser sempre voluntária, consciente e livre de qualquer defeito. Conforme acima referimos, há algumas situações em que a própria legislação estabelece a licitude de uma certa disposição sobre os direitos de personalidade. Não há de se pretender que a lei as delimite exaustivamente. Advogamos que a indisponibilidade dos direitos de personalidade deve recair sobre aqueles bens jurídicos efetivamente essenciais e caracterizadores da condição ética da pessoa humana. 59 Nesse diapasão, ver Carlos Alberto da Mota Pinto, op. cit. p. 211 e seguintes. Texto fruto do Grupo de Pesquisa Prismas do Direito Civil-Constitucional da PUCRS. 24 A Jus-humanização das Relações Privadas: para além da constitucionalização do direito privado Destarte, não se coaduna com a intencionalidade e o sentido do direito um negócio jurídico no qual uma parte se