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1 Do Primitivismo ao Naturalismo A idéia de deuses - ou de Deus - deve ter surgido cedo na consciência do homem, como a de seres dotados de poderes sobrenaturais. Salvos os casos de causas manifestas (uma hemorragia em conseqüência de um ferimento, da mordida de uma fera, uma fratura causada por acidente ou pela agressão de um inimigo), atribuía-se a doença e a saúde à intervenção de seres sobrenaturais: deuses, semideuses, espíritos, demônios, etc. Os meios de ação desta medicina religiosa não podiam ser outros senão as preces e os sacrifícios em honra da divindade, para conseguir-lhe bênçãos e aplacar- lhes a cólera. Os próprios enfermos, ou indivíduos de uma classe especial, os sacerdotes, invocavam a divindade. I - A Concepção Religiosa de Saúde e Doença Na Antiga Grécia, dominava o conceito religioso de enfermidade. Isto não causa estranheza, uma vez que, entre os gregos antigos, tudo resultava da vontade divina. Os deuses participavam da vida diária, partilhavam com os homens o amor e a luta pelo poder, e estavam presentes na guerra. Ainda que todos os deuses pudessem causar doenças e curá-las, Apolo e sua irmã, Artemísia (ou Diana, na mitologia romana), distinguiam-se. Capazes de gerar padecimentos agudos e morte violenta com suas flechas; mas também dispunham de dardos mais suaves, que produziam a morte por senilidade. Um exemplo clássico de enfermidade sob forma de castigo divino encontra-se no Canto I da “Ilíada” de Homero (século X a.C.). Este longo poema narra a última e breve etapa do cerco de Tróia, cidade da Ásia Menor, imposto pela aliança de vários estados gregos, sob o comando de Agamenon, rei de Micenas. Homero conta que Agamenon havia raptado Criseida, uma bela donzela de Tebas, cujo pai, Crises, era sacerdote do deus Apolo. Quando Agamenon recusou o resgate de Crises por sua filha, o sacerdote se dirigiu a Apolo: ��������� �� ��� � ��� �� ������ ��� �� ���� ��� � � � ������ ����� � ������ �� ����� � ��� ������� �� � ����� � �� ������ ��� �� ���� ��� ����� ����� � ������� �� ��� � ��� � ����� ��������� �� � �� � �� ����� � ������ � �� ����� ! � ������ � � ��� ���� � ����� ��� ���� "# Ao escutar esta oração, Apolo irritou-se: � � ��$% �������� � � ����� � ���� � ����� & � ��� �� ����� � ��$� � ��������� � �� ����� � ��� � # !������������ ���� ��� � ���� ��� � �%� ��� �' �� � �� � � � ��( � � ���� � ��� ������ �� ���� � ���� � �)��������� � & ! � � �� ��� � ��� � ��� ��������� �)����� "# 2 Os gregos, dominados pelo medo, decidiram consultar Calcante, intérprete de sonhos, o melhor dos adivinhos. Este disse a Aquiles: �*���� ��� +����� � ������ �� ,�� � ��� �� ���� � ��� �� � ��� � ����� +� � � ��� � ��� �� ���� ������� # - � ����������. ����$% ��� �� � � ����# *� ���� ��� �� /��� ��� �� ���0 �� ��$% � � ��� ���$ 1& 2# 3� ����� +����� � �������� �� �� � �� ! �� ����� �� ����� � ��� �� ���� ������� ����� 1& 2# � � ��� � ������ ���% � �� � ���� ������� ������� 4% � ����� � � � �% ���� ������� ����� � � � ����� ���� �� � � ����� +����� � � �� ����� �� 5����� � �� � �% ��� ������� �� ���� �� 5����� ��������� ��# ! � � � ��� �� � ��� � �0 �� ��� 5������ +� � � �� ��� � 36�� �������� �5� ��� ����'��� 5����� � ���� �� ������� � ��� � � ����� �� ���� ��5������� �� ����'� � �� ��7�� ������"# Isto provoca a fúria de Agamenon, que luta com Aquiles. Finalmente, Criseida é devolvida ao pai e se realizam sacrifícios recomendados por Calcante, com o que Apolo se satisfaz e interrompe a praga. Este episódio ilustra a concepção religiosa da doença. O fato principal é que um deus, com um poder muito superior ao dos homens, pode mudar o curso dos acontecimentos, segundo sua vontade. Neste caso particular, Apolo desencadeia uma epidemia (epi + demos = as flechas de Apolo caem sobre o povo), como castigo pelo comportamento dos gregos e, depois, a suspende. Nesta concepção, é importante realçar que as ações do deus são influenciadas pelo comportamento dos homens. O conceito religioso de doença também se encontra, em sua forma pura, no Antigo Testamento, onde a enfermidade é expressão da ira de Deus, e se cura por meio de dolorosos castigos morais, rezas e sacrifícios. É Deus quem confere tanto a saúde quanto a doença, de acordo com sua misteriosa vontade. Muitos séculos depois, já na Idade Média, cada vez que a peste bubônica e outras doenças infecciosas epidêmicas apareciam na Europa, as pessoas se aglomeravam nas catedrais a pedir a Deus que perdoasse seus pecados e não lhes castigasse de maneira tão cruel. Este comportamento favorecia o contágio da doença e, em conseqüência, milhares de pessoas adoeciam e morriam. No século VII a.C., viveu Hesíodo, considerado o pioneiro da poesia didática. Escreveu os livros: “O Trabalho e os Dias” e “Teogonia” (“A Origem dos Deuses”). Neste último, Hesíodo narra a criação dos deuses e, entre outros, revela a origem de Asclépio. Na “Ilíada” já se mencionava Asclépio como tendo sido um médico da Tessália (região central da Grécia), de extraordinário saber, que teria aprendido sua arte com Quíron, exímio conhecedor de ervas medicinais. Dois filhos de Asclépio, Macaon e Podalírio, também médicos ilustres, combateram no exército grego em Tróia. Todavia, a lenda em breve se apoderou destas figuras. Quíron foi transformado em Centauro, o ser mitológico com cabeça e tronco de homem, o resto do corpo e as patas de cavalo. Diga-se, aliás, o mais nobre dos 3 centauros, sábio e generoso. Asclépio passou a ser filho de Apolo e da ninfa Coronis. Acusada, levianamente, de infidelidade por um corvo, encarregado por Apolo de a vigiar, a ninfa foi morta pelo arrebatado deus que, no entanto, salvou o filho. A arte de Asclépio tornou-se a cada dia mais admirável, e ele chegou a ressuscitar mortos. A pedido de Plutão, senhor dos infernos, que via seu reino desfalcado pela audácia de um mortal, o que de resto também não agradava aos outros deuses, Zeus fulminou-o com um raio. Logo, porém, arrependeu-se do gesto irrefletido, e Asclépio foi admitido na categoria dos deuses e venerado como tal. As filhas de Asclépio - Jaso, Higéia e Panacéia - especialmente as duas últimas, também se tornaram personagens importantes da medicina. Higéia representava a força curativa do próprio organismo, Panacéia, as forças externas, como os remédios. Seja por razões filosóficas, ou porque os gregos conheciam poucas substâncias terapêuticas (apenas as de origem vegetal), eles demonstravam clara predileção por Higéia. Encontram-se nos poemas homéricos algumas raras alusões ao uso “interno” de substâncias com o intuito medicamentoso. Importa salientar que a medicina é apresentada na “Ilíada” como uma arte natural, sem caráter mágico ou sacerdotal, exercida por pessoas conhecidas pelo seu saber. Já na “Odisséia”, posterior à “Ilíada”, aparecem referências a remédios e práticas mágicas, como a beberagem ministrada por Circe aos companheiros de Ulisses, que os leva a esquecer a pátria e os transforma em porcos. Só Ulisses escapou dessa sorte, pelas virtudes de uma erva de “raiz negra e flor branca como o leite”, que lhe havia sido ensinada por Hermes. Oriundo de sua terra natal (Tessália), o culto de Asclépio como divindade curadora se espalhou, pouco a pouco, a partir do século VI a.C., por toda a Grécia, onde se contaram mais de 200 templos destinados à sua devoção. Epidauro, Cós e Pérgamo foram principais centros de culto a Asclépio. O mais célebre, maior e mais belo de desses templos era o “Asklepeion” de Epidauro, que se dizia edificado sobre a sepultura do próprio deus. No ano 291 a.C., Asclépio (com o nomelatinizado de Esculápio) chegou a Roma, trazido de Epidauro para terminar com uma grave doença epidêmica que assolava a cidade há três anos. O deus tomou a forma de uma enorme serpente e, assim, viajou de barco com os emissários romanos até chegar ao rio Tibre, e rapidamente acabou com a epidemia. Em todo o mundo antigo havia mais de quatrocentos templos e santuários dedicados a Esculápio, e alguns tiveram vigor até o século VI d.C. A medicina exercida por Asclépio e seus seguidores era quase completamente religiosa. As curas eram, em sua imensa maioria, milagres realizados pelo deus ou por algum de seus animais favoritos, a serpente ou o cachorro. Os templos de Asclépio eram habitualmente edificados em lugares saudáveis e de grande beleza. Incluíam um santuário, uma fonte e um bosque sagrado. Havia também um lugar para os pacientes dormirem 4 o sono durante o qual haviam de ser curados. O paciente, depois de uma purificação preliminar mais ou menos longa, por meio de sacrifícios, abluções (cerimônia religiosa que consiste na purificação por meio de lavagens rituais) e jejuns, era admitido no templo e passava uma ou mais noites à espera do sonho profético em que o próprio Asclépio viria curá- lo ou, pelo menos, dar instruções que, interpretadas pelos sacerdotes, lhe permitiriam recuperar a saúde. A confiança no valor dos sonhos, muito antiga, veio provavelmente do Egito. Acreditava-se que, durante o sonho, a alma libertava-se, temporariamente, do corpo e podia entrar nas regiões divinas, e receber dos deuses avisos, conselhos ou ordens. Apagadas as luzes e convidados os pacientes ao silêncio e ao recolhimento, os sacerdotes visitavam os enfermos, davam-lhes indicações terapêuticas (que eles aceitavam como provenientes diretamente do deus), e talvez ministrassem medicamentos e até praticassem alguns atos cirúrgicos, como a incisão de abscessos. Conseguida a cura, ou o alívio dos males, cabia aos doentes manifestarem reconhecimento através de ofertas e dádivas. Longo tempo perdurou a peregrinação aos santuários de Asclépio, até o século IV ou V da Era Cristã, o deus mais importante no mundo greco-romano. Os templos de Asclépio em Epidauro e na ilha de Cós foram tão famosos como, em épocas anteriores, o templo de Apolo em Delfos. Mesmo Hipócrates de Cós será citado como sacerdote de Asclépio. Quando o cristianismo se impôs como movimento religioso, a prometer a cura das doenças e a redenção da alma, Asclépio foi o único deus pagão a competir com Jesus. Como podemos explicar, hoje, a eficácia curativa da medicina dos templos? Em certa parte, devia-se à influência das medidas higiênicas, do regime dietético, da hidroterapia, do repouso ou dos exercícios físicos, e do clima. Por outro lado, a densa atmosfera de sugestão criada no ambiente e a confiança no poder curativo da divindade tinham considerável significado. Não sabemos, no entanto, até que ponto os conhecimentos médicos dos sacerdotes de Asclépio contribuíam para a aplicação de medidas curativas mais decisivas. Porém, para além do valor ou da utilidade dos conhecimentos acumulados por outros povos, e dos quais os gregos tenham tirado proveito, distingue o gênio grego ter reconhecido claramente a necessidade de uma explicação racional e inteligível dos fenômenos da natureza. Assim, apesar do valor que possam ter atingido os conhecimentos médicos e a atuação dos sacerdotes, o alvorecer da medicina naturalista deve ser procurado nas escolas filosóficas da Antiga Grécia, e não no santuário de Asclépio. 5 II - O Nascimento da Concepção Naturalista de Saúde e Doença Os intelectuais gregos eram bastante céticos com relação à religião. Xenófanes (565 - 473 a.C.) comentava: “Os etíopes afirmam serem os seus deuses negros e os dos trácios têm olhos azuis e cabelos vermelhos; se os bois e os cavalos pudessem pintar e esculpir, teríamos deuses bovinos e eqüinos”. Assim, a tônica da “revolução grega”, encontrada no pensamento dos filósofos pré-socráticos, possui dois eixos principais: o ceticismo religioso e o naturalismo lógico. Isto é, a intenção de explicar a natureza (“physis”1) por meio da razão, sem recorrer a elementos localizados “além da natureza” - sobrenaturais. Em particular, os milesianos (de Mileto) proporcionaram o primeiro impulso nesta direção. Principalmente o fizeram pela natureza de suas respostas às perguntas mais básicas da vida. No entanto, filosofia grega parece começar com uma idéia absurda. Tales de Mileto (640 - 546 a. C.), um dos “sete sábios da Grécia”, é considerado o iniciador da ciência e da filosofia quando assinalou: “Todas as coisas são feitas de água”. Ora, por que valorizar uma afirmação, para nós, claramente desprovida de verdade? Sucede que, pela primeira vez na história conhecida da Humanidade, abandonava-se as explicações situadas além da “physis” (metafísicas) e se buscava nela mesma a razão dos fenômenos. De fato, foi a partir do séc. V a.C., que os 1 Na verdade, a “physis” grega não corresponde exatamente ao que chamamos de “natureza”. Na Grécia daqueles tempos, a “physis” era um conceito gregos começaram a acreditar na natureza. Depois de Tales, ao invés da água, outros filósofos atribuíram o papel de substância fundamental ao fogo, ao ar, à terra. Para nós, importa saber que, a partir deste naturalismo lógico, se construirá a base naturalista da medicina. Além do pensamento milesiano, outros pontos de vista diferentes se desenvolveram, de forma mais ou menos simultânea. O de maior interesse é o fundado por Pitágoras de Samos (570 - 489 a.C.), o primeiro filósofo que se admite ter sido também médico. A noção de harmonia, o sentido de balanço e equilíbrio, o ajuste e a complementariedade dos opostos, podem ser atribuídos a descobrimentos e idéias pitagóricas. Para Pitágoras e seus seguidores, os números são a essência de todas as coisas, nada pode ser concebido sem o número, o universo inteiro é harmonia e número. Não só os fenômenos se exprimem em números, mas os próprios números têm uma realidade material e são verdadeiros constituintes da matéria. O número surgiu como a essência de todas as coisas: a unidade (1) era a perfeição e representava a Deus; o 12 era o equivalente a todo o Universo material; o 4, a perfeição no fluir eterno da natureza, etc. Os pitagóricos estabeleceram uma tábua das qualidades dos números e das coisas, opostas duas a duas: o Infinito e o Finito; o Par e o Ímpar; O Múltiplo e o Uno; etc. A concordância das qualidades contrárias, totalizante, a englobar todos os seres vivos e todas 6 o acordo do que discorda, são realizados pela Harmonia. Também a vida e a saúde dependem da harmonia das diferentes qualidades dos componentes do corpo. Apesar de os pitagóricos serem gregos e de se terem desenvolvido dentro de uma sociedade aberta e livre, constituíam uma sociedade fechada, secreta e exclusiva, à qual só podiam pertencer aqueles que assinavam um compromisso voluntário. Esse documento incluía a solene promessa de não revelarem nenhum dos segredos mágicos e místicos, assim como a de renunciar a uma série de práticas que a sociedade grega considerava direitos natos e absolutos do homem livre, tais como o aborto, o suicídio, o amor entre adultos de ambos os sexos, conscientes e livres. Este juramento, com poucas modificações, é conhecido, há mais de 2000 anos, como Juramento Hipocrático. as coisas existentes. 7 • As Escolas Médicas de Cós e de Cnide Nestas duas escolas, apesar da proximidade geográfica das ilhas de Cós e Cnide, os conceitos que orientavam a medicina eram profundamente diferentes. EmCnide, procurava-se reconhecer e distinguir as doenças, umas das outras, pelos sintomas, e relacioná-las com os órgãos. Uma vez conhecidas as doenças e descoberta a maneira de tratá-las, seria possível ensinar e aprender a medicina como uma ciência. Em Cós, pelo contrário, dominava o conceito de doença como afecção geral do organismo. Seria vão tentar distinguir as “doenças”, umas das outras, pelos sintomas, umas vez que estes variam constantemente no decorrer de uma mesma doença. Cada dia o paciente teria uma “nova doença”, e o número de doenças seria infinito. Para a escola de Cós, a doença é uma abstração e o doente é o problema real. A medicina não pode deixar de ser a arte de tratar o homem enfermo, segundo as normas ditadas pela experiência e guiadas pela observação minuciosa e esclarecida. A Escola de Cós é dominada e “personificada” pela figura de Hipócrates. Estas duas tendências da Medicina - a do estudo do particular, do órgão doente, da doença como disfunção do órgão, da medicina como ciência; ou a do estudo do geral, do homem doente, da medicina como arte, embora baseada na observação e na experiência - simbolizadas por estas escolas são duas tendências permanentes em toda a história. Evidentemente, as premissas destas duas maneiras de entender a medicina, hoje, já não são válidas, pois o particular não se opõe ao geral, mas integra-se a ele, e a medicina deve ser uma só. III - Hipócrates e a Medicina Hipocrática Poucos dados biográficos seguros temos acerca de Hipócrates. Sabe-se que nasceu na ilha de Cós, filho de um médico, seu primeiro mestre. Os autores concordam em fixar o nascimento de Hipócrates cerca do ano 460 a.C.. Há divergências quanto à data de sua morte, mas não há dúvida de que morreu em idade avançada. Viveu, portanto, no famoso “século de Péricles”, quando Atenas era a primeira cidade da Grécia, o centro cultural, artístico e científico mais importante do seu tempo. Foi contemporâneo dos filósofos Sócrates e Platão, de historiadores como Heródoto e Tucídides, de escultores como Fídias, e de dramaturgos como Ésquilo, Sófocles e Aristófanes. É do tempo de Hipócrates a devastação de Cós, aliada de Atenas, pelos Espartanos, na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.). No entanto, a edificação do magnífico “Asklepeion”, na sua ilha natal, é posterior à sua morte. 8 • O Corpus Hippocraticum Os escritos atribuídos a Hipócrates e aos seus discípulos começaram a ser reunidos na Biblioteca de Alexandria, a partir do século III a.C.; o seu conjunto é designado Coleção Hipocrática. Trata-se de um conjunto de manuscritos, vários incompletos, formados pela reunião de textos originariamente distintos, a expressarem diferentes conceitos. Tais escritos não podem ser atribuídos a um só autor, nem a uma só escola, e nem sequer a uma mesma época. Assim, o valor dos cerca de 70 livros da Coleção é desigual, e que apenas alguns devem ser considerados representantes do pensamento médico hipocrático. • A Medicina Hipocrática: “A vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é fugaz, a experiência enganosa, o julgamento difícil”. (Aforismas, I, 1) A arte (“tekné”) da medicina aparece como um conjunto de noções, de teorias e de experiências; como um saber que permite tomar uma atitude e uma prática. Em síntese: uma técnica. Entretanto, nunca a teoria merece destaque. Ao contrário, é a descrição do “observado” que assume maior importância. Esta medicina também se distinguiu por reconhecer em todas as doenças uma causa natural, e por combater os ritos mágicos, a superstição e o charlatanismo. Hipócrates usava o raciocínio indutivo, a experimentação, e negava as atitudes mágicas perante a doença. Em “Dos ares, águas e lugares”, escreveu: �8��� �� �/�� ���� ����� ��� ����������� �� ��������� ���� �� ����� � �� �� ������� ������ ����� �� � ��� � � ��$9� � �� � �5��� ��� ���� ��� ���� �� ���# + ������ ���� � ��� � � 5�� � � ����������� �� �� ��������� �� � ��� � � � ��' � � �� 5��$% �� �� ������������� �� ���� � ��������# 3� �� �� �������� ����� ������ ����� � ��� ������ ���� � ���� � � ����� � ���� � � ������ �� � ������$% � � � � �0 ������� �� ����$% � ���� � � �. � ���� �� ��5��7���� �% � � �� �� �� � ��� � � ��� � � ��� � ������� � � � ����# 3���� � ���� ����������� � 0��� ��� ��������� � ��� � % ������ � � ������ � � ���� � �� �������� �� ������ ������ � � �� � ����� � % ������ � ���������� ���� � ������. � ������ � � � �� ��� � ��5������� �� 0���� � ��� ����� � ��� �� ��� �� 0���� � � � �0 �� �� ����� �� 5��� � 5����� � � � ������ � 5�� . � � � � � ����� ��������� � ���� % � �� ����$9� � � % ������ �� ������ � � ��� �� �)�� � ��� : ��� �7����� � � �������� �)���'�� � ������� "# Quanto à “doença sagrada”, a epilepsia, o autor hipocrático afirma com muita coragem: �!� � �� ������ � ��5�������� ������� � ������"# �� ����� ����% � �% � ��� ������ ��� ���� 9 � ��$� � ��% ��� ������ � ��� ��� � ������� �� �� �� �� ����� ������� � �0 �������� �� ��� �6���� � � ��� � � � ��� ��� �� ��� �� �������� ���0���"# São quatro os princípios da medicina hipocrática: 1 - primeiro, não lesar o paciente; 2 - abster-se do impossível: não procurar milagres; 3 - agir contra a causa da doença; 4 - crer na força curativa da natureza. Para bem cumprir estes quatro princípios, o médico hipocrático deveria aplicar as seguintes regras: - atacar a causa da doença pelo seu contrário; - ‘agir belamente’, ou agir com arte; - evitar o excesso de intervenção sobre o corpo e crer no poder de cura da natureza); - educar bem o doente; - individualizar o tratamento: tipo físico, sexo, idade, etc.; - aproveitar a ‘ocasião fugaz’, oportuna, para tratar; - tratar o doente como um todo; não tratar apenas uma parte (ou um órgão) doente; - agir guiado pela ética. • Conceitos Etiológicos As causas das doenças são procuradas na influência de fatores do ambiente (estações do ano, clima, modo de alimentação, regime de vida) e também na transmissão hereditária. A importância de descobrir a etiologia da enfermidade era permitir encontrar o remédio adequado que lhe seria, naturalmente, o oposto. • A observação clínica e a terapêutica. A importância do prognóstico. A observação era minuciosa, metódica: observava-se o aspecto do doente, sua posição no leito, a agitação, a quentura, etc. Se a doença é uma luta entre a força curativa da natureza, que tende a restabelecer o estado fisiológico, e as causas da moléstia que o perturbam, o verdadeiro agente da cura é a natureza, não o médico ou os remédios. A função do médico é auxiliar, por todos os meios ao seu alcance, a força natural a vencer a doença, é por o paciente nas condições mais favoráveis e cuidar para não perturbá-la por uma ação inadequada: “primeiro, não prejudicar o doente”, diz o preceito hipocrático. Cada doente é um caso individual. Assim, o diagnóstico da doença, como um quadro definido, não era possível e, aliás, tampouco fazia falta. A preocupação realmente importante era compreender o curso da doença, 10 prever-lhe a evolução e o modo de término, isto é, estabelecer-lhe o prognóstico. A capacidade de previsão do médico, sinal de sua compreensão do problema clínico e garantia do seu domínio dos meios próprios para debelar o mal, contribuía para aumentar a confiança do paciente na sua pessoa. Os meios terapêuticos de que Hipócrates podia dispor - caldo e papas de cevada, hidromel (mistura de água e mel), oximel (mistura de vinagre e mel), vinho, algumas plantas medicinais, purgativos, sangrias, banhose ungüentos, exercício físico ou repouso - parecem-nos modestos. Não devemos, porém, esquecer que a terapêutica, indistinguível da dietética, tinha por objetivo não o curar, mas o permitir que a natureza realizasse a cura. • Fisiopatologia A Teoria Humoral da Doença A patologia hipocrática baseava-se na doutrina dos quatro humores: sangue, fleugma ou pituíta, bílis amarela e bílis negra, que se pensava constituírem a própria natureza do corpo humano. Quando estes humores estão perfeitamente misturados, e guardam a devida proporção, uns em relação aos outros, a “crase” é normal – “eucrasia” - e o indivíduo goza de saúde. Se um desses elementos está em falta ou excesso, ou está isolado no corpo sem se combinar com todos os outros, sente-se dor, dá-se a “discrasia”. Em resumo, a Teoria Humoral da Doença consta de dois postulados básicos: a) o corpo humano contém (ou é formado) por um número variável, mas finito, quase sempre quatro, de líquidos ou humores diferentes; b) a saúde é o equilíbrio dos humores e a doença é o predomínio de algum humor sobre os demais. a) Os humores do corpo humano. Atribui-se a Empédocles de Agrigento (490- 435 a.C.), senão a criação, pelo menos a introdução na ciência da “Doutrina dos Quatro Elementos Fundamentais” que, isoladamente ou associados em diferentes proporções, constituiriam todos os corpos da natureza. Empédocles aceita que a matéria não pode provir do nada e que é indestrutível, mas busca uma explicação para a possibilidade do movimento e da transformação. Pensa serem os diferentes corpos constituídos por quatro princípios elementares: o fogo, o ar, a água e a terra, em proporções variadas. Por si mesmos são eternos, incriados e indestrutíveis. Misturados em diversas proporções formam todos os corpos e, da sua união ou da sua separação, resultam todas as transformações. Os elementos possuem quatro qualidades fundamentais, opostas duas a duas: o quente e o frio; o úmido e o seco. Cada elemento partilha duas destas qualidades: o fogo é quente e seco (como a bílis amarela); o ar é quente e úmido (como o sangue); a água é úmida e fria (como o fleugma); a terra é seca e fria (como a bílis negra). Assim, embora o conceito dos quatro humores do organismo se perca na Antigüidade, os primeiros enunciados da 11 Teoria Humoral da Doença só aparecem no final da era hipocrática, em um volume intitulado “A Natureza do Homem”, que tenta explicar a saúde e a doença através de alguns princípios gerais: �� � �� ����� � ���� ������ 5������� ���� ������� � ���� �����# � �� �� �6���� � � ������ � �������� �� �� ����� � �� ������ ���� � 5�� � � � �� 5���� �;��"# b) Os quatro humores, a saúde e a doença. A saúde é o equilíbrio dos humores e a doença resulta da perda deste equilíbrio. Isto foi enunciado, pela primeira vez, por Alcmeón de Crotona, médico que viveu no princípio do séc. V a.C. (em sua cidade natal surgiu a primeira escola de medicina da Grécia; as de Cnides e Cós surgiram meio século depois). A Teoria dos Opostos, de Alcmeón, se assemelha à dos pitagóricos, para a filosofia geral2 �+ ��� � ����� �� � � � ������ � ��� � ���� # + �;�� � � ��������� �� ������ �� 5��$9� ;��� � �� � 5�� �������� ����� �� �� � � �� � ����� . � ��� � �� � ��$� � ���� �'�� �� ��� �� �� ��� � ����� �������� ��� �/� ����� � ��� ��� ���� ����# + � ��$� � ����� : ���� � � ��� ��� � �������� � � �)�� �� ��� � � 5�� . : ���� � � ��� ��� � �)������ � � �)�� � ��5���7���� �� ������� # + �;�� � � �� ��� ���� �� � �� ��������� "# Em suma, a Teoria Humoral da Doença surgiu de dois conceitos distintos: o corpo humano contém quatro humores em equilíbrio, e doença ocorre quando este se perde. Entretanto, tal equilíbrio não seria um balanço puramente quantitativo; cada um dos humores possuía outras propriedades, cujo equilíbrio qualitativo era indispensável para conservar a saúde. Através da história, as propriedades de cada um dos quatro humores básicos se modificaram; além disso, a relação de cada um dos humores que compunham o corpo humano com os elementos que formavam o Universo também sofreu diversas mudanças. Com todos estes elementos, os médicos hipocráticos tiveram uma rede complexa de explicações para as diferentes enfermidades, embora sempre propusessem três tipos de tratamento: sangria (para eliminar os humores que se encontravam em excesso ou com propriedades patogênicas); purgante (para completar a eliminação dos humores causadores de doença); e dieta (para evitar que voltassem a se formar os maus humores). Os quatro elementos que participavam da teoria não eram puramente teóricos. O sangue possui uma existência objetiva indubitável; o fleugma é óbvio em pessoas com catarro nasal, com vômitos incoercíveis ou com diarréia mucosa; a bile amarela aparece ocasionalmente no vômito e a icterícia seria uma demonstração de sua existência no organismo; a bile negra é mais difícil de se explicar, mas derive da observação das matérias fecais de pacientes com hemorragia digestiva, ou do vômito de indivíduos com câncer gástrico. Apesar de sua evidente impropriedade para explicar os fenômenos, esta teoria dos humores obteve o maior êxito em toda a História da 12 Medicina, da Ciência e do modo de pensar de vários povos e gerações pois, sob diversas versões, sobreviveu durante quatorze séculos. Enunciada na idade de ouro da Grécia (século V a.C.) perdurou, com mínimas alterações, ao ocaso do mundo helênico (século I a.C.), à emergência, ao apogeu e à desaparição do Império Romano (séculos I a IV d.C.), às turbulências do Império Bizantino (séculos IV a XV d.C.), ao prolongado obscurantismo da Idade Média (séculos VI a XIII d.C.) e à aurora do Renascimento (séculos XIII a XVI d.C.). Como foi visto, os gregos centraram sua atenção no homem e na natureza. Para eles, a medicina era “peri physis anthropoe”, isto é, “acerca da natureza do homem”. Além disso, procuraram compreender, a ambos, com o uso exclusivo do entendimento e da razão, sem, no entanto, se utilizar de experimentos. Este método se, por um lado, mostrou-se útil para refutar explicações transcendentais, por outro, revelou-se quase estéril para produzir conhecimento. • A Ética Médica e o Juramento Hipocrático Pelo ano 400 a.C., Hipócrates escreveu seu Juramento, onde jura solenemente usar sua Arte unicamente em benefício dos pacientes. �<�� � � +� � ����� � � � + ����� � � � =������ � � !������� � � � � � ��� � � ��� � � � ���� � � � �� ������� � ��� ���������� ����� ��� � ��� � ����� ���% � ������� � � ������ ��� �� ��� �� �������� � � �� ���# +�������� ������ ���� ��� � � ���� � : ������ � ��� � ��� � � ��� ����������� � �� ������ ������ �������� ������� � ��� # + ������� ���� ������ �� ������ � ����� �� � � ����� � � ��������� ��� 5���� �������� ��� �% ���� ����� � ����# � � ������� ��������� ����� ���� � ����� ����# ������� �� ��� ����� ��/� � �$�� ����� � 5 �� �� ����� ����$% �� 5� � ��� � ��� � ��5��� : ���������� ������# �� �� ������� � � /������� � � 5���������� ��� �� �/� ��� � ��� 5��������� ����� ���� � � �� ����� �� 5� % � � ���� ���� ����� ����� � ��� . � ���� �� �5� ��� � ��5������ � � �������� � ���0�� "# 13 Referências Bibliográficas GRANT, M. 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