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A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO Professor Dr. Jackson Cordeiro de Almeida A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • A Europa, na Baixa Idade Média, vivenciou mudanças profundas provocadas pela intensificação dos contatos com o mundo oriental. O intercâmbio com islâmicos e com os espaços dominados pelo Império Bizantino (Império Romano no Oriente) forneceu referenciais para novas sensibilidades. O mundo material, até então pouco valorizado, passou a provocar o desejo por absorver conhecimentos. A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • Aos poucos, a Matemática, a Medicina, o Direito, a Química e outros campos desenvolvidos pelos orientais foram assimilados pelos europeus em centros de estudos, verdadeiras corporações de ensino medievais: as universidades. A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • Entre 1200 e 1400, foram instituídas cinquenta e duas universidades no continente europeu e, destas, vinte e nove estavam vinculadas diretamente ao papado romano. Isso revela que a Igreja era uma das principais interessadas nos conhecimentos dos antigos pensadores orientais. A leitura de Aristóteles era obrigatória e sua proposta de entendimento da física integrada à metafísica era um dos eixos dos debates acalorados. A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • Isso não significa dizer que todos os religiosos compartilhavam da ideia de que as universidades eram necessárias. São Bernardo, por exemplo, afirmava que a corporação universitária era um antro de corrupção do homem. Seu argumento vinha da possibilidade de se questionar a fé, pois, conforme Bernardo, se o homem desenvolvesse muito a razão, iria querer explicar tudo, e aquilo que não tivesse explicação seria colocado em dúvida. A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • Ora, a fé não se explica, “eis o mistério da fé”. Logo, os homens duvidariam da fé e o resultado seria a danação da humanidade. Se o papel da Igreja era salvar as almas, como faria isso se estimulava a criação das universidades? Seria esse um espaço em que a razão podia prosperar? A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • Percebe-se, então, que existiam os defensores e os detratores das universidades na Idade Média. Porém, apesar das oposições, elas foram preservadas e ampliadas no período. E qual a causa disso? A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • A resposta a essa pergunta passa necessariamente pela defesa, feita no círculo dos religiosos, de que era possível conciliar fé e razão. O nome dado a essa tentativa de conciliação é Escolástica. A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • Segundo Nicola Abbagnano, em seu Dicionário de filosofia, podemos compreender a Escolástica como: • (...) filosofia da escola. Como as formas de ensino medieval eram duas (lectio, que consistia no comentário de um texto, e disputatio, que consistia no exame de um problema através da discussão dos argumentos favoráveis e contrários), na Escolástica a atividade literária assumiu predominantemente a forma de comentários ou de coletâneas de questões. A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • O problema fundamental da Escolástica é levar o homem a compreender a verdade revelada. A Escolástica é o exercício da atividade racional (ou, na prática, o uso de alguma filosofia determinada, neoplatônica ou aristotélica) com vistas ao acesso à verdade religiosa, à sua demonstração ou ao seu esclarecimento nos limites em que isso é possível, apresentando um arsenal defensivo contra a incredulidade e as heresias. A ESCOLÁSTICA E O ARISTOTELISMO • A Escolástica, portanto, não é uma filosofia autônoma, como a filosofia grega: seu dado ou sua limitação é o ensinamento religioso, o dogma. • ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 344. TOMÁS DE AQUINO •Nascido em 1225, em Roccasecca, na Itália, Tomás de Aquino estudou na Universidade de Nápoles e ingressou na Ordem Dominicana (então, uma nova ordem de frades altamente intelectualizada) contra a vontade da família. Como noviço, estudou em Paris e depois em Colônia, com o teólogo Alberto Magno. TOMÁS DE AQUINO • Retornando a Paris, tornou-se mestre em teologia, lecionando por dez anos antes de viajar pela Itália. De maneira incomum, Aquino recebeu uma oferta para um segundo período como mestre em Paris. Morreu aos 49 anos e, em 1323, foi declarado santo pela Igreja Católica. • In: O livro da filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011. p. 90. TOMÁS DE AQUINO • O expoente do movimento em defesa das universidades e de seu papel na sociedade medieval foi São Tomás de Aquino. Discípulo de Alberto Magno, pensador da Universidade de Paris que defendia a chamada “ciência árabe- aristotélica”, Tomás de Aquino foi ensinado a associar os argumentos lógicos de Aristóteles ao pensamento cristão. TOMÁS DE AQUINO • De acordo com os estudiosos, ele acabou por cristianizar o pensamento de Aristóteles, defendendo a ideia de que a razão não negava a fé, mas era um caminho distinto que confluía para Deus da mesma forma que a fé. Se o homem era provido de razão, era porque Deus queria que ele o reconhecesse também pelo caminho da racionalidade. TOMÁS DE AQUINO • Mas a questão é: como Tomás de Aquino conciliou fé e razão em seu pensamento e convenceu a Igreja de que as universidades cumpriam um papel relevante para a vida cristã? Esta conciliação era possível? Ou melhor, ela é possível? TOMÁS DE AQUINO • Tomás de Aquino escreveu, entre outras obras, a Suma teológica, um tratado de lógica medieval que garante aos homens ser possível a união entre fé e razão. Nesse trabalho, Aquino desenvolve as teses lógicas sobre a existência de Deus, entre outros aspectos, e, para tanto, utiliza-se do pensamento de Aristóteles, transformando-o no maior filósofo, na base da Escolástica. TOMÁS DE AQUINO • A primeira consideração escolástica pode ser assim resumida: se o homem tem fé na existência de um Deus, a esta crença podem ser acrescidos argumentos lógicos, racionais? Diante de uma resposta afirmativa, o resultado será que razão não nega a fé, sendo apenas uma maneira diferente de chegar a Deus. TOMÁS DE AQUINO • Foi com este intuito de mostrar a compatibilidade da razão com a religião que Aquino apresentou as “provas lógicas” da existência de Deus, utilizando- se, para tanto, do pensamento aristotélico. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Uma das preocupações de Aristóteles era com o movimento, com a transformação que Platão havia considerado sinal do engano, da imperfeição do mundo material. O pensamento aristotélico contemplou o movimento como parte integrante da realização da verdade no mundo material, dizendo que o universo era movimento, sendo uma coisa “empurrada” por outra e por outra, sucessivamente. Daí surgiu o enfoque dos motores em Aristóteles. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Segundo o filósofo, deveria ter existido um primeiro motor que moveu tudo, mas, por ter sido o primeiro, logicamente não teria sido movido por nada, sendo, portanto, o primeiro motor imóvel. Ora, adaptando essa explicação da física aristotélica, São Tomás de Aquino afirmou que o primeiro motor imóvel moveu tudo e não foi movido por nada por uma única razão: por ter vontade própria. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Assim como Deus criou tudo e não foi criado por nada, o primeiro motor imóvel pode ser chamado de Deus, ou seja, Deus existe, pois sem ele nada teria existido. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Outro aspecto desenvolvido por Aristóteles correspondeu às relações entre as coisas num fluxo contínuo em que uma coisa era causa de outra e, esta, causa de outra, sucessivamente. Por raciocínio lógico, era possível dizer que uma causa causada levaria à necessidade de uma causa não causada, ou seja, uma causa primeira. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Se esta causa primeira não foi causada por nada, é devido ao fato de ser uma causa eficiente em si mesma. Seguindo o mesmo raciocínio, Deus representava a causa eficiente, pois, para existir, não precisou que nada o causasse. TESESLÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Além disso, havia a questão do Ser iniciada por Parmênides, como já estudado. Era possível, conforme Aristóteles, pensar em Ser Necessário e Ser Contingente. Como as coisas aparecem e desaparecem no tempo, isso significa dizer que não existiam e passaram a existir para, na sequência, desaparecer. Se tais coisas aparecem e desaparecem, é porque não são necessárias, visto que se fossem necessárias sempre teriam existido e nunca deixariam de existir. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Porém, para que tais coisas apareçam e desapareçam, deve haver algo necessário, algo que está fora do tempo, que é eterno, que não veio a existir e nunca deixará de existir. Assim, de acordo com a adaptação tomista, Deus é o Ser Necessário, e as outras coisas existentes no Universo são os Seres Contingentes. Deus é necessário para os seres contingentes, logo uma comprovação lógica de sua condição eterna e verdadeira. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Segundo Aristóteles, as coisas mudam por terem em si uma potência que transforma cada ato de si até que ato e potência se tornam iguais, expressão da verdade. Assim, tudo tem um sentido, e a mudança nada mais é do que a exigência de se cumprir o “destino” de cada coisa. Na adaptação tomista, a questão é a seguinte: se há uma ordem no Universo, se há uma regularidade definida pelos sentidos de cada coisa, não haveria um governo do Universo? TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Se existe uma regularidade cósmica, quem teria estabelecido o sentido de cada coisa senão Deus? Essa é mais uma prova de sua existência e de que a razão não nega a fé, mas é um percurso distinto da fé que nos leva a Deus. Um Deus desejoso de que o homem o reconhecesse nessa grandiosidade. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Isso não significava dizer que a razão humana pudesse abranger toda a verdade divina, toda a razão divina, afinal a razão humana não é perfeita como a de Deus. Aqui, mais uma vez Aristóteles foi utilizado. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • O filósofo havia realizado considerações acerca do Universo e afirmado a existência do mundo supralunar e do sublunar. O supralunar era constituído de éter e se encontrava na lua adiante. Já o sublunar era formado de quatro elementos, a saber: terra, fogo, água e ar. Como a propriedade do éter era conservar e a da água, decompor, o mundo supralunar era eterno, constante, permanente, enquanto o mundo sublunar era finito, daí as coisas mudarem. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Do nascimento à morte. Ora, se o homem era constituído de corpo e alma, o corpo informava a existência da água e da imperfeição. Assim, não seria possível ao homem ter uma inteligência pura, como era a inteligência dos anjos, mas, mesmo com sua razão imperfeita, poderia acessar parte da verdade divina. Com essas considerações, tornava-se possível conciliar a razão com a revelação divina. A revelação divina às vezes nos informa coisas que a razão não tem a capacidade de entender. TESES LÓGICAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS • Essa era uma forma inteligente de resolver as tensões provocadas na Europa em torno do conhecimento, conferindo espaço maior à razão. Tomás de Aquino se tornou o mais importante pensador escolástico, sendo seguido por inúmeros estudiosos da época. Seu trabalho intelectual, seu brilhantismo no trato com as palavras, valeu-lhe a manutenção das atividades universitárias e, adiante, sua canonização. OS LIMITES DA RAZÃO • De acordo com Tomás de Aquino, existiam certas verdades que a razão humana não conseguiria atingir, pois esta era imperfeita, não podendo abarcar coisas que só a revelação divina, que só a fé poderia abranger. Com o intuito de explicitar as limitações da razão humana, Aquino desenvolveu reflexões acerca do intelecto humano, dividindo-o em dois: o passivo e o ativo. OS LIMITES DA RAZÃO • O intelecto passivo era aquele que recebia, pelos órgãos dos sentidos (corpo), informações acerca do mundo, as quais se fixavam em um lado do cérebro. O intelecto ativo era aquele que não olhava para o mundo, mas para o que estava contido no passivo, organizando as informações, percebendo as regularidades, compreendendo uma lógica no Universo. OS LIMITES DA RAZÃO • Esse intelecto ativo era uma espécie de luz divina, uma fagulha a iluminar certos aspectos das verdades. Dessa forma, tudo o que fosse construído como conhecimento no jogo entre intelectos passivo e ativo era a verdade possível ao entendimento racional humano. OS LIMITES DA RAZÃO • Existiam, entretanto, coisas muito além deste entendimento que, ao homem, deveria ser atendido pela fé piedosa, pela revelação presente nas Sagradas Escrituras. Assim, as verdades da razão natural não poderiam contradizer as verdades da revelação, pois estas estavam muito além das considerações intelectuais humanas, mas todas as verdades da razão natural seriam, de forma lógica, não contrárias à fé. OS LIMITES DA RAZÃO • Em última instância, o que estava afirmado era a existência de um limite da razão natural. Tudo o que fosse construído pela razão natural estaria contido na verdade divina, mas a verdade divina, mais abrangente, poderia ser alcançada pela fé, pela revelação. OS LIMITES DA RAZÃO • O mérito de Tomás de Aquino foi o de garantir espaço para as discussões pautadas pela chamada razão natural. Esse foi um passo importante para o futuro desenvolvimento científico. Segundo o filósofo José Silveira da Costa: OS LIMITES DA RAZÃO • Tomás representa o apogeu da Escolástica medieval na medida em que conseguiu estabelecer o perfeito equilíbrio nas relações entre a fé e a razão, a teologia e a filosofia, distinguindo- as, mas não as separando necessariamente. Ambas, com efeito, podem tratar do mesmo objeto: Deus, por exemplo. Contudo, a filosofia utiliza as luzes da razão natural, ao passo que a teologia se vale das luzes da razão divina manifestada na revelação. • Assista ao vídeo que sintetiza a filosofia medieval cristã. Acesse: . OS LIMITES DA RAZÃO • Ao demonstrar a existência de Deus pelo princípio de causalidade, estabelecemos ao mesmo tempo que Deus é o criador do mundo. Já que é o existir absoluto e infinito, Deus contém virtualmente em si o ser e as perfeições de todas as criaturas; o modo segundo o qual todo o ser emana da causa universal se chama criação. Para definir essa ideia, convém prestar atenção em três coisas. OS LIMITES DA RAZÃO • Primeiramente, o problema da criação não se coloca para tal ou qual coisa particular, mas para a totalidade do que existe. Em segundo lugar, e precisamente porque se trata de explicar o aparecimento de tudo o que é, a criação não pode ser senão o próprio dom da existência: não há nada, nem coisas, nem movimento, nem tempo, e eis que a criatura aparece, universo das coisas, movimento e tempo. Dizer que a criação é a emanação totius esse (ser total), é dizer com isso que ela é ex nihilo (não surge do nada) . OS LIMITES DA RAZÃO • Em terceiro lugar, se a criação não pressupõe, por definição, nenhuma matéria, ela pressupõe, igualmente por definição, uma essência criadora que, por ser ela mesma o ato puro de existir, pode causar atos finitos de existir. OS LIMITES DA RAZÃO • Estando colocadas essas condições, concebe-se que uma criação seja possível e vê-se que ela deve ser livre. Com efeito, o Ato puro de existir não carece de nada se o mundo não existe e não aumenta em nada se o mundo existe. OS LIMITES DA RAZÃO • A existência das criaturas é, pois, radicalmente contin-gente em relação a Deus, e é o que se exprime dizendo-se que, se a criação se produz, ela é um ato livre. OS LIMITES DA RAZÃO • Ora, ela pode se produzir, porque, se colocarmos Deus como o Ato puro, não apenas do pensamento, como fazia Aristóteles, mas da própria existência de tudo o que é, trata-se, pois, de uma produção ex nihilo, e a causa dessa produção está na perfeição do existir divino. A relação entre a criaturae o criador, tal como resulta da criação, chama-se participação.