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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE ARTES SERGIO BRUCK DE MORAES Refletindo sobre processos criativos a partir da tradução de A linguagem da dança, de Mary Wigman Campinas 2019 SERGIO BRUCK DE MORAES Refletindo sobre processos criativos a partir da tradução de A linguagem da dança, de Mary Wigman Tese apresentada ao Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutor em Artes da Cena, na Área de Teatro, Dança e Performance. Orientadora: PROFA. DRA. ELISABETH BAUCH ZIMMERMANN Este trabalho corresponde à versão final da tese defendida pelo aluno Sergio Bruck de Moraes e orientada pela profa. Dra. Elisabeth Bauch Zimmermann Campinas 2019 Agência(s) de fomento e nº(s) de processo(s): Não se aplica. Ficha catalográfica Universidade Estadual de Campinas Biblioteca do Instituto de Artes Silvia Regina Shiroma - CRB 8/8180 Moraes, Sergio Bruck de, 1972- M791r Refletindo sobre processos criativos a partir da tradução de A linguagem da dança, de Mary Wigman / Sergio Bruck de Moraes. – Campinas, SP : [s.n.], 2019. Orientador: Elisabeth Bauch Zimmermann. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes. 1. Wigman, Mary, 1886-1973. 2. Dança moderna. 3. Dança - Técnica. 4. Dança - Estudo e ensino. 5. Processo criativo. I. Zimmermann, Elisabeth Bauch, 1946-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Artes. III. Título. Informações para Biblioteca Digital Título em outro idioma: Thinking about creative processes from the translation of Mary Wigman's The language of dance Palavras-chave em inglês: Wigman, Mary, 1886-1973 Modern dance Dance - Technique Dance - Study and teaching Creative process Área de concentração: Artes da Cena Titulação: Doutor em Artes da Cena Banca examinadora: Elisabeth Bauch Zimmermann [Orientador] Juliana Cunha Passos Ipojucan Pereira da Silva Marisa Martins Lambert Veronica Fabrini Machado de Almeida Data de defesa: 21-01-2019 Programa de Pós-Graduação: Artes da Cena Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a) - ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0001-9717-1583 - Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/7356207669319046 BANCA EXAMINADORA DA DEFESA DE DOUTORADO Sergio Bruck de Moraes Orientadora: profa. dra. Elisabeth Bauch Zimmermann MEMBROS: 1. Profa. Dra. Elisabeth Bauch Zimmermann 2. Prof. Dr. Ipojucan Pereira da Silva 3. Profa. Dra. Juliana Cunha Passos 4. Profa. Dra. Marisa Martins Lambert 5. Profa. Dra. Veronica Fabrini Machado de Almeida Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. A ata de defesa com as respectivas assinaturas dos membros da banca examinadora encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação/Tese e na Secretaria do Programa da Unidade. DATA DA DEFESA: 28.01.2019 AGRADECIMENTOS Agradeço ao grupo de estudo CEPECA/ECA/USP; à minha família e meus alunos; aos professores das bancas de qualificação e defesa, em especial às profas. dras. Cláudia Guimarães e Juliana Passos, e aos colegas de pós-graduação; às sras. Neusa e Letícia e demais funcionários do IA; aos profs. drs. João Azenha, Maria Lúcia Pupo, Leon Kossovitch, Marília Soares, Mariana Andraus e Marcelo Denny. Em especial, ainda agradeço à minha prima Heloísa, tradutora profissional, que me ajudou entre outras coisas a atualizar a linguagem, mantendo o espírito do texto, com dizem os tradutores; e à minha orientadora, que corajosamente acolheu um tema pouco ortodoxo e a quem dedico a tese. RESUMO A presente tese visa o estudo e tradução de A linguagem da dança de Mary Wigman (1886-1973). O livro se compõe de reflexões sobre a dança, ensino da técnica e sobretudo processos de criação de importantes solos, sendo traduzido a partir do alemão e inglês. Já no estudo apresentamos um texto teórico-prático sobre aspectos do processo criativo de Wigman, sua visão da dança e a prática artística do presente pesquisador em diálogo com a linguagem da dançarina. Deste modo, espera-se mostrar a importância deste livro tanto enquanto registro histórico da dança moderna, quanto inspirador de processos de criação em dança e teatro hoje. Palavras-chave: dança moderna, Mary Wigman, criação, teatro ABSTRACT This thesis aims to study and translate The language of dance by Mary Wigman (1886-1973). The book consists of reflections on dance, teaching technique and above all creation processes of important solos and was translated from German and English. In the study, we present a theoretical and practical text on aspects of the creative process of Wigman, her vision of dance and the artistic practice of the researcher in dialogue with the language of the dancer. Thus, it is hoped to show the importance of this book not only as a historical record of modern dance, but also as inspiring of creative processes in dance and theatre today. Keywords: modern dance, Mary Wigman, creation, theater SUMÁRIO 1. Introdução Elementos da pesquisa ............................................................................................................ 09 Meus sonhos de paixão. .......................................................................................................... 31 2. Tradução ......................................................................................................................................36 3. Refletindo sobre processos criativos Mary Wigman e suas contribuições. ................................................................................... 97 Breve apresentação de meu percurso artístico. ..............................................................107 4. Considerações finais Resultados da pesquisa no cenário artístico. .................................................................. 116 Resultados da pesquisa na minha prática ........................................................................ 123 5. Referências ............................................................................................................................... 137 Anexo A: texto original ...................................................................................................................... 139 Anexo B: sobre ensaiar ........................................................................................................................ 194 Anexo C: minhas ideias, práticas e espetáculos ........................................................................... 203 9 1. INTRODUÇÃO 1.1. Elementos da pesquisa Mary Wigman Monumento aos mortos 10 Apresento aqui os objetivos, procedimentos e motivação da pesquisa. Também contextualizo Mary Wigman e a dança expressionista. E depois destrincho elementos da leitura de A linguagem da dança que podem contribuir na minha prática. O objetivo não é a análise histórica ou estético-crítica da dança de Wigman, mas um estudo, numa perspectiva multifocal, de semelhanças e diferenças entre os processos criativos descritos pela dançarina em seu livro e minha própria prática; o que é feito em amostra. Com isso, pretendo averiguar a hipótese da atualidade deste livro, servindo ainda para processos criativos em dança e teatro contemporâneos, mostrando também a abertura do seu modo de proceder e operar. Wigman se utiliza de ferramentas como a sensaçãoe experiência, muito usadas ainda hoje. Não se trata de afirmar que ela foi a primeira ou única no período a usá-las. São na verdade princípios inerentes à evolução das artes, como se pode encontrar a título de exemplo na literatura simbolista ou no método teatral de Stanislavski. No começo do século passado, teatro e dança estavam bastante desenvolvidos em países como Rússia, Alemanha e Estados Unidos. Sobretudo entre os dois primeiros, há de se reconhecer certo intercâmbio. Sem adentrar aqui na questão, a sensação e experiência estão presentes no uso posterior da improvisação e ação física em Stanislavski. Também em Wigman é através de improvisações e conforme as exigências da coreografia que ela pode muitas vezes transformar uma experiência ou sensação num personagem, cena ou frase coreográfica cenicamente interessante. Mais recentemente, Barba (1995: 12) critica a separação no ocidente entre dança e teatro, causando danos a ambas as linguagens. Foi com o tempo que festivais franceses passaram por exemplo a acolher a dança, ao lado do teatro. Também o festival alemão de teatro e dança Euroscene, no qual já trabalhei, é exemplo de esforços focais para diminuir a separação entre ambas as linguagens. Wigman começou a dançar tarde, se comparado à idade com que normalmente se começa balé. Talvez esse seja um dos motivos que a levou a escolher a dança moderna, então emergente, como alternativa a seu modo de ver a dança. Pois enquanto o balé se preocupava sobretudo em preservar uma tradição cultural, exigindo um domínio técnico rigoroso em anos de formação dentro de um repertório corporal pré-codificado, a dança moderna buscou formas mais livres, que respeitassem a biomecânica e anatomia. 1 Em vez de sequências de passo coladas à música, a identidade do intérprete passou a transparecer nas escolhas durante a criação. Não se tratava mais de repetir as sequências até a execução perfeito do que o coreógrafo tinha em mente, mas de transformar o movimento humano em expressão de dança. Wigman ainda se destacou por introduzir elementos teatrais, criando coreografias a partir de 1 Me refiro ao balé da época de Wigman, sobretudo a partir dos anos 30 e posterior a A tarde de um fauno de Nijinski. 11 personagens. Mas já Laban 2 estabeleceu pela relação do corpo com o tempo e espaço diferentes modos de expressividade. Em Dança da bruxa, o caráter telúrico do personagem revela um modo expressivo. A experiência e sensação servem como material de criação e recurso na execução da dança. A primeira serve sobretudo para descobrir novos materiais a serem explorados no processo criativo e a segunda para refinar a atuação. Mas ambas atuam, indistintamente, em observações de campo, exercícios, ensaios e apresentações. Essas ferramentas ainda permitem uma apreensão da música como estímulo, criando diálogo ou contraponto com a movimentação. Essa relação de liberdade com o suporte musical ainda contribui para despertar a emoção do intérprete. Discutirei como Wigman relaciona improvisação, experiência e sensação, buscando sua atualidade. Dou o exemplo de Dança de Niobe, onde ela se vale da sua passagem num búnquer para traçar uma relação entre o mito grego e as mulheres que perderam seus filhos na guerra. E de Dança da bruxa, onde um experimento sensorial em sala de ensaio, com uma sensação das mãos querendo agarrar o chão, leva à criação do personagem. A ação ou movimentação do personagem é a forma dada ao intérprete para se expressar. Ainda em Sacrifício, se trata de uma relação inconsciente. Neste ciclo de danças já da fase madura da sua carreira, é só durante uma apresentação que ela adquire consciência da relação intrínseca entre as danças e uma visita feita pouco antes às Cataratas do Niágara; sobretudo a sensação de arrebatamento que esta visita lhe causou. O resgate da experiência decorre, de um lado, da estetização da vida e, do outro, do retorno a uma origem primitiva, como em danças satíricas na Grécia antiga. Essas características se apoiam numa valorização do indivíduo, em oposição ao rápido crescimento da indústria cultural e cultura de massa no período. Buscou-se dar um sentido de transcendência ao espaço da apresentação, com uma organicidade na movimentação entre centro e periferias do corpo que se opunha à visão mecanicista. Wigman teve papel ativo na renovação da dança, se interessando especialmente pela subjetividade de seus intérpretes. Está entre as primeiras coreógrafas a explorar a improvisação nos seus processos criativos. Se a coreografia era então geralmente só sequências de passos a partir de uma música escolhida, a improvisação traz novos padrões de composição, podendo-se alterná-la às frases coreográficas. Muitas vezes um gesto que nasce 2 Rudolf Laban (1879-1958) foi um professor, dançarino e coreógrafo, que estabeleceu as bases da dança- teatro na Alemanha. Também como estudioso do movimento, criou a chamada Análise Laban de Movimento, tendo ainda exercícios a partir do princípio do esforço aplicados em trabalhadores de fábricas inglesas. Wigman diz sobre ele por exemplo ter sido um guia que lhe abriu portas, lhe mostrando a dança como lugar onde ela escolheria viver e crescer (WIGMAN; SORELL, 1984: 30). 12 espontaneamente é mais significativo que outro pré-elaborado. Além disso, se considera aspectos técnicos e estéticos quando se improvisa, como o trabalho de grupo e valorização da expressão em detrimento da forma, propriamente; além da influência do teatro nas escolhas coreográficas da dançarina. 3 Técnicas de dança moderna ainda são praticadas com grande frequência, resultando em espetáculos contemporâneos. Nessa linha, Forsythe por exemplo se propõe a ampliar o repertório corporal e capacidade de improvisar a partir de princípios e exercícios específicos. Esse é o estado da arte da pesquisa. Ainda para entender as contribuições de Wigman na produção cênica atual, atualizando e divulgando sua dança, se buscou aqui praticar procedimentos improvisacionais com música, movimento e criação de personagem, numa metodologia aplicada à linguagem contemporânea. Assim, conceitos vindos da tradição são inseridos num processo atual. A dança moderna se referenciou inicialmente no caráter litúrgico e festivo da dança grega antiga, mas logo sistematizando e formalizando tal liberdade de movimento. Procedimentos de teatro e dança se entrecruzam, como mostra a busca expressiva de Wigman. A aproximação com o teatro é ainda posteriormente reforçada, como no uso reiterado de Pina Bausch da improvisação. Por exemplo, quando assisti Água senti que cenas mais teatrais, como de uma dançarina que contava no proscênio suas peripécias com uma cadeira, provocavam surpresa e reação do público, servindo de respiro a outras mais movimentadas com o grande elenco. A dança possibilita refletir sobre a vida, pois é dela afinal que retira seu material de criação. O que me parece caracterizar o bom espetáculo é acionar continuamente as próprias experiências de vida do espectador, num intercâmbio mútuo que modifica seus valores mais internos. Com isso, nem as imagens no palco são uma instância em si mesma, nem o artista é idolatrado como entidade. Sem dúvida, é próprio da imagem suscitar contemplação, mas sua atualidade advém antes da apreensão sensível que bagagem cultural do espectador. Ela tem efeito no nosso modo de viver na medida em que o ritmo dos movimentos do intérprete na música nos desperta para o sentido real dessas imagens. Ao inserir o cotidiano no palco, Bausch (2007b: [s.p.]) aproxima mais e mais a dança da vida. Partindo da relação entre experiência e reflexão, iniciei pela tradução do livro. Relato da prática da dançarina, ele é como que uma viagem pelos seus longos anos de trabalho. A dinâmica desse percurso, que não é só conhecimento vivido mas memória e atividade em grupo, se revela noseu estilo de contar sua história e criações. Pois, como se dá 3 Uso na tese dançarino ao me referir à dança moderna. Já na tradução do livro não faço diferenciação, usando sempre bailarino, termo de maior alcance. 13 o registro na dança? A primeira exigência dessa arte de narrar em palavras o próprio fazer e credo artístico é pensar em termos de imagem e movimento. O caráter autobiográfico é próprio da descrição de vivências singulares. O intérprete no palco codifica e comunica experiências a partir da própria sensibilidade. O conceito surge da prática. Em Wigman, sistema não tem sentido fechado e absoluto, mas enquanto rastreamento de exercícios e resultados. Se adotou como método inicial a Practice as research, que toma a prática como procedimento básico de investigação e o pensar concomitantemente ao fazer. Mais uma vez, não se trata da discussão exaustiva do pensamento e obra de Wigman, mas sim aplicação de alguns de seus procedimentos e ideias em estudo de casos. Cabe reforçar que a experiência e sensação não são conceitos definidos por Wigman em seu livro. E tal como são reconhecíveis nos procedimentos coreográficos da dançarina, eles também se encontram em outras áreas no período. Diferente por exemplo de Laban ou Graham, Wigman não se empenhou em sistematizar rigorosamente um vocabulário próprio de trabalho ou procedimentos técnicos à parte do processo criativo. Em por exemplo O nascimento da tragédia, Nietzsche destaca a importância não apenas da “intelecção lógica”, mas “certeza imediata da introvisão” na compreensão da origem da tragédia na Grécia antiga (NIETZSCHE, 1999: 27). Guardadas as devidas proporções, se combina aqui a leitura do livro com o entendimento da dança moderna e produção cênica de Wigman a partir da experiência e sensação. Assim, deduções obtidas na primeira tarefa servem de base não só para a “introvisão” de sua dança, como seu uso prático hoje. Por isso, considero aqui minha própria prática artística e aprendizado intelectual decorrente desta. Ainda ao tratar de O nascimento da tragédia em sua autobiografia, Nietzsche enfatiza a relação entre a história e sua experiência íntima, servindo a primeira de réplica para a segunda. Tem importância aqui o sentido pragmático do aprendizado, unindo a reflexão e sua aplicação (número/racional e fenômeno/empírico). Deste modo, dados coletados do livro traduzido e pesquisa bibliográfica não buscam só destacar os méritos artísticos da dançarina, a partir de informações mais facilmente à mão e sem relação com seu processo criativo. Tendo por base a assertiva de Nietzsche, adoto como critério aspectos mais recônditos que me aproximem das suas escolhas, explicitando o porquê e como criou certas coreografias. Metodologicamente, quanto à tradução do livro, foi feita a leitura atenta a partir da sua estrutura, parágrafo a parágrafo, com uso de estratégias básicas de tradução, como fluência, flexibilidade semântica e respeito ao espírito original do texto. O respeito à palavra de uma artista de tal grandeza exige o trabalho integrado da busca lexical precisa, estabelecendo a 14 relação da matriz gramatical com o desenvolvimento inevitável da linguagem. Quanto às bases teórica e prática, importa sobretudo a atualidade das ideias e procedimentos estudados. Além do cotejo entre o livro e produção cênica, uso exercícios da minha prática. Um exemplo é um exercício que explora experiências passadas. Primeiro, cada um conta três medos da infância. Depois, o grupo escolhe um ou dois desses medos e os encena. Este é um meio de levantar material cênico para criar a partir de depoimentos pessoais, comum no processo colaborativo. Além disso, o conceito só é buscado aqui quando há uma necessidade quanto ao entendimento do livro ou prática realizada ou estudada. Nunca o conceito só pelo conceito. Finalmente, foram adotados princípios pedagógicos de Bausch, com ênfase na improvisação voltada a levantar material para a cena. Considerando que o país é cada vez mais frequentado por companhias de dança- teatro internacionais, algumas de singular importância e herdeiras da tradição iniciada por Wigman e outros na Alemanha, a pesquisa se justifica não só pela escolha do objeto de estudo, mas por um momento oportuno para sua realização. Durante as comemorações do centenário da primeira montagem de A sagração da primavera com Nijinski há poucos anos na Alemanha, além de novas coreografias para a música de Stravinski, foi feita a reconstrução coreográfica da versão de Wigman. A pesquisa contribui, assim, para difundir a arte alemã no país, especialmente aquela já a partir do século passado, proporcionalmente pouco considerada. Também oferece ferramentas de criação não só para artistas, como professores, pesquisadores e outros profissionais da área. Finalmente, ela é coerente com meu perfil e percurso artístico-acadêmico enquanto pesquisador. Nesse sentido, considero o que de Wigman pode ser usado no teatro e dança contemporâneos. 4 Lembro como o modo de trabalhar de Bausch (2007b: [s.p.]) também de fatores externos que interferiram na criação. Por exemplo na coprodução com outros países, ela se deparou com o desconhecido, o traduzindo em dança. No meu caso, o que descobri de novo em Wigman? O que do seu método ou maneira de trabalhar se identifica com minha prática? Por exemplo, eu busco tonificar o centro do corpo, com leve contração do abdômen. 4 Além de Bausch, a prática de Wigman tem pontos de convergência com Forsythe. Este desenvolve propostas atuais, que dinamizam a aprendizagem do intérprete. Além de ampliar seu repertório de movimentos como já dito, desenvolve o rigor na improvisação. Usa, por exemplo, letras do alfabeto para criar frases coreográficas. Para Wigman, ter controle dos movimentos, incluindo seu conhecimento psicomotor, não tira mas sim contribui para a verdade da cena. Finalmente, cito o exercício dos pequenos vetores, que criei com Sabrina Cunha. Nesse exercício, você movimenta rapidamente as partes do corpo para diferentes direções da sala. Opõe-se uma parte à outra, como se uma seta saísse do cotovelo, depois cabeça, joelho etc. As articulações estão soltas e a respiração controlada. Durante o doutorado, esse exercício se desdobrou numa movimentação na diagonal, onde as várias articulações são movimentadas ao mesmo tempo em círculos. Esse exemplo mínimo reforça a pesquisa prática aqui realizada, podendo ser relacionada ao trabalho de Forsythe a partir do cubo de Laban, detalhado mais a frente. 15 Posso usar a imagem de um anjo que me puxa com uma corda pela lombar, ou penso que estou subindo o zíper da calça. A imagem tem especial utilidade no aprendizado técnico. Ela expressa o momento, evocando um conteúdo emocional e intelectual. A imagem faz parte do meu trabalho, tal como de Wigman. Como busco despertar a imaginação? Posso fazer perguntas: por que e quando eu danço? Pelo meu desejo como intérprete de criar belas imagens, por exemplo? Imaginar é ver com nosso olho interior. Além de nos possibilitar pensar livremente, nos leva a criar com autoridade. Ultrapassando a realidade, defrontamos com o desconhecido e o enfrentamos. É uma atividade tão necessária quanto ver ou comer, que pode ser amplamente desenvolvida. Quando nos é frequentemente solicitado imaginar, nos tornamos naturalmente mais criativos. Imaginando damos uma nova feição ao que nos é apresentado, servindo muitas vezes como propulsor do ensaio. Como algo latente que subjaz tanto à dança de Wigman como ao meu trabalho, a imagem deixa de ser só mental, se concretizando na cena. Tomo como exemplo meu trabalho durante a pesquisa sobre o trecho inicial de A metamorfose. Kafka e Wigman viveram em épocas e regiões próximas, se envolvendo de uma forma ou outra com as questões da guerra na Europa. Quanto a Wigman, voltarei constantemente a sua exploraçãodo tema da guerra. Já em Kafka, noto a presença da guerra na história de Gregor. No trecho inicial aqui encenado, se estabelece o conflito central, ocorrendo no final o reconhecimento onde uma nova situação leva a uma reviravolta na história. É quando Gregor abre a porta do seu quarto e sua família pode vê-lo transformado. De certo modo, a transformação de Gregor, que culmina com sua morte no final do livro, é um crime. Ainda que não haja qualquer referência direta, o clima opressor devido às tensões políticas durante a Primeira Guerra forma um pano de fundo ideal para a história. Nesse sentido, o comportamento dos Samsas restrito ao pequeno apartamento e sem qualquer luxo ou ambição é consequência da coerção social a que estão submetidos, sendo a transformação do protagonista emblema de uma vida oprimida. O instinto animal de Dança da bruxa de Wigman pode ser transformado aqui numa imagem de violência e primitivismo, em oposição mesmo ao raciocínio humano: quando a vida parece não oferecer mais oportunidade para expressar a sensibilidade para com o outro, a animalidade surge como única saída. Essa característica quase grotesca ultrapassa tratamentos às vezes excessivamente realistas que podem esconder meandros intricados e mesmo tumultuosos do inconsciente. Nesse sentido, o expressionismo foi um movimento que trouxe a tona os conteúdos interiores dos personagens, lhes dando uma expressão emocional e intencionalmente exagerada. A expressão é deformada, pois o interior do personagem está confuso. Em A metamorfose e Dança da bruxa, traços expressionistas possibilitam criar 16 imagens com certo despojamento. Também a criação de imagens elimina eventuais traços verborrágicos dos longos discursos internos de Gregor. Por exemplo, o personagem mostra sua própria imagem corporal na repulsa que sente inicialmente por seu corpo de barata. Pode- se finalmente dizer que a relação entre ficção e música na dança de Wigman adquire caráter universal, pois guia e conecta com uma dimensão superior da vida. O mito serve na cena de exemplo à nossa conduta. Além da imaginação, desenvolvo no meu trabalho o uso do espaço, através por exemplo das quatro direções: frente, trás, direita e esquerda. Perceber a região das costas pode trazer a visão de 360° necessária ao palco. Também, desenvolver o senso de direção e a coordenação motora é fundamental nas relações espaciais entre os intérpretes e entre estes e o palco ou cenário. Ainda o desenvolvimento da expressão serve aqui para transmitir o que sinto profundamente, meus mais sinceros sentimentos. Pesquiso ainda uma sensualidade que não se reduz ao assédio. Para tanto, é preciso primeiro desbloquear, destensionar e desmecanizar os movimentos. Trabalho o corpo com consciência, percebendo por exemplo as compensações de tensão. É preciso evitar o uso vicioso da técnica, onde o corpo só executa sem exprimir conteúdo. Também a expressão exige o domínio dos códigos de como se mover no palco, nas suas inúmeras variações. Reconhecendo as qualidades e deficiências desse modo de trabalhar, posso adaptá-lo ao que me é solicitado em cena. Importante é que a expressão seja lapidada pela repetição criteriosa. Proponho um modo de encaminhar processos criativos calcado nas possibilidades de descobrir, inventar e criar no palco. Imaginação e expressão são duas faces que se completam na total interiorização e exteriorização do intérprete. Ambas ao mesmo tempo em cena. 5 Em propostas como do teatro físico, onde a encenação é linguagem autônoma e o palco lugar de imagens, o teatro se afasta da literatura. É na mesma medida que se aproxima da dança. Em linguagens híbridas como a performance, estão incluídas expressões de dança, como em espetáculos de que participei a serem detalhados mais a frente. O que Wigman diz sobre a tarefa de coreografar tem uso no teatro. Ela diz: “É a visão interna em que se apresenta o tema? É o pensar enquanto composição espacial? O prazer artístico de modelar as figuras em movimento que povoam o palco? Ou é simplesmente uma comichão por um trabalho proposto; o estímulo a partir de uma dada música, que aciona o ímpeto criativo?” 5 Durante muito tempo, o corpo foi renegado como vício da carne ou fonte de erro. Mas aqui o caminho para ser sincero ao criar passa pelo corpo. Para Wigman, se trata de um momento “onde tudo que é físico parece suspenso e leva a uma espiritualização, que eleva a criação da dança ao nível do encantamento e transfiguração” (abaixo: 91) (A referência “abaixo” ou “acima” diz respeito à tradução do livro presente no corpo da tese.) Na verdade, corpo e mente devem trabalhar aí conjuntamente. Um bom exemplo é o body mind centering, técnica que busca o movimento orgânico, ocupando a mente com a percepção interna do corpo. 17 (abaixo: 53; Anexo C). Ainda outros fatores se atrelam a minha escolha do tema de pesquisa. Primeiro, lembro que o intérprete acorda trabalhando. Saudar o sol ou correr no quarteirão; sentir o ar entrando e saindo dos pulmões ou pensar no que do dia anterior pode ser aproveitado no espetáculo; perceber se o corpo está em condições para o trabalho ou lembrar de memória um texto que se está decorando ou frase coreográfica do último ensaio. Nem sempre o palco copia a vida. Uma simples cópia pode resultar num estereótipo, sem verdade própria. Também algo que julgamos errado na vida pode ser certo no palco e vice-versa. De todo modo, é vivendo cada momento que acumulamos experiências que nos permitem criar. E se alguns intérpretes buscam a espontaneidade do dia a dia, indo observar situações que se aproximam do que viverão no palco, outros se esmeram na disciplina da forma, se concentrando na repetição plástica em horas de ensaio. Estes são os dois aspectos do faz de conta de criar. Montar um espetáculo exige tempo. Entre quatro paredes, trabalhamos diligentemente numa direção até que algo especial surge. É diferente por exemplo da televisão, onde são mais comuns as decisões de momento. Talvez minha primeira lição de palco tenha sido no futebol. Ali, aprendi a me posicionar no campo, atento a qualquer contratempo, mantendo o fôlego por toda a partida e criando estratégias com os colegas do time. Estar em cena exige o mesmo grau de atenção, poder de ataque e paixão do futebol. A infância é o lugar das lembranças perenes, das brincadeiras antes do julgamento, como mãe-da-rua, passa-anel e corre-cotia. A criança não é só um adulto em miniatura. Como a bailarina na caixinha de joias, ela tem seu próprio encantamento. Seu mundo é o do círculo e seu pensamento do “por que não?”. Quantas técnicas não buscam recuperar tais qualidades, como sua capacidade de se maravilhar? Quantos exercícios não visam produzir o mesmo estado de excitação e descoberta? Lembrar as canções, histórias e brincadeiras que nos foram então ensinadas. Repetindo, imitando e desafiando as situações que vivencia, a criança dá sentido ao mundo. Lugar do presente e da lembrança, o palco não exige a mesma coerência lógica das decisões na vida. Aprendi com meu pai a gostar das coisas práticas da vida e com minha mãe a querer conhecer tudo que é novo e velho. Sentado na prancheta na pequena gráfica da família, gostava de desenhar autorretratos, enquanto não tinha de atender o telefone que tocava ou um cliente que chegava no balcão. Infeliz com as discussões sobre a diagramação da página, gramatura do papel e impressão colorida ou p&b, comecei a faculdade de teatro. Fiz iniciação científica sobre dança-teatro e depois mestrado voltado à improvisação. Especialmente no mestrado focado na criação para o palco de uma história de Kafka, pude adotar e comprovar 18 procedimentos que são aqui novamente utilizados. Mas ainda na graduação, li para as aulas de dança Dançar a vida, tomando contato com o trabalho de Wigman. Nesse livro, Roger Garaudy (1980:104) mostra que Quando Mary Wigman, durante a Primeira Guerra Mundial, estudou dança com Von Laban em Ancona, na Suíça, aprendeu com ele seu método de análise dos movimentos possíveis do homem, inscritos em formas geométricas estritas e contidos num icosaedro de cristal como numa gaiola mágica. Também que Mary Wigman estudou a “eurritmia” de Dalcroze em Hellereau, mas inverteu a concepção das relações entre a música e a dança. Para respeitar a especificidade da dança, a música deve, como a dança, nascer dos movimentos da vida. Mary Wigman chegava a dançar sem música alguma, sendo o ritmo de movimento marcado apenas pela percussão de seus pés descalços no chão. Ou então utilizava instrumentos orientais: instrumentos de sopro arcaicos, tambores hindus, gongos de Bali (id., id.: 108). Garaudy (id.: 118) aprofunda a origem do processo criativo de Wigman, mostrando seu contato com outros artistas e teóricos. Em relação a Laban, diz ainda que Como Mary Wigman, Von Laban é particularmente sensível aos limites dos movimentos. Uma de suas descobertas principais é a da relação entre as diversas orientações do movimento e a organização harmoniosa de suas seqüências no espaço. Suas leis da harmonia no espaço podem aplicar-se às proporções arquitetônicas, à plástica do escultor, à perspectiva do pintor, às estruturas musicais, porque incluem as regras da proporção, da plástica, da perspectiva e do ritmo. Ele cita Jooss, lembrando que este foi um dos que levaram à prática com mais força as teorias de Von Laban. Assistente e primeiro bailarino de Von Laban quando este, em 1921, dirigiu o Teatro Nacional de Mannheim, Kurt Jooss colaborou com ele no desenvolvimento da análise das leis físicas dos movimentos de dança. Convencido de que a dança era essencialmente teatro, de que ela deveria expressar a verdade profunda de uma época e ajudar essa verdade a se expandir e se afirmar, Kurt Jooss via no expressionismo, como Mary Wigman, a forma de dança correspondente às exigências da nossa época (id., id.: 120-1). Garaudy (id.: 125) ainda relaciona a dança de Wigman com a de Graham e Doris Humphrey, dizendo que Os gestos da vida não são transpostos para movimentos de dança somente porque são animados, do interior, pela força de uma civilização e de um mundo emergente, mas também porque o artista imprime a este movimento o ritmo voluntário de sua vida, criadora e militante, em favor do advento do homem humanizado. Martha Graham, Mary Wigman e Doris Humphrey conceberam este ritmo de três modos radicalmente diferentes. 19 O ritmo fundamental para Martha Graham é o ritmo respiratório, o do primeiro ato da vida biológica. O conflito, para ela, está dentro do homem. O ritmo fundamental para Mary Wigman é o ritmo emocional, que nasce de uma paixão domada, de motivações do gesto no esforço para livrar-se de uma realidade externa sufocante. O conflito está dentro do homem, mas em sua relação com um mundo exterior que o esmaga. O ritmo fundamental para Doris Humphrey é o ritmo motor, que se forma na relação entre o corpo e o espaço. O movimento primordial é, para ela, um esforço para resistir à gravidade, símbolo de todas as forças que ameaçam o equilíbrio do homem e sua segurança. O conflito é entre o homem e seu meio. Em suas danças, Wigman buscou usar e expressar essas e outras ideias. Por exemplo em Monotonia em giro e Dança da bruxa, mostra o “ímpeto descontrolado” que leva a um “sentimento de possessão”, seja na criação ou execução (id., id.: 109-10; abaixo: por ex. 57-8). Já em Chamado da morte e Ritmo de festa, a possessão surge da “noção da vida frente à morte” (GARAUDY, 1980: 110-11; abaixo: 51 e 66). Finalmente, Garaudy (1980: 150) destaca o caráter dramático de Hanya Holm, ex-discípula e amiga de Wigman. Apenas observo que não se tratava de ser discípulo no seu sentido tradicional, prestando total obediência a Wigman. O maior respeito que se pode ter por esta é se apropriar de seus ensinamentos e desenvolver sua própria dança. Nesse sentido, sua herança parece até hoje irrefutável, sendo revista aqui pelo estudo e tradução de A linguagem da dança. Tendo como objeto a linguagem, o livro trouxe novas formas de escrita do corpo no espaço, sobretudo pela interseção com o teatro. Este caráter híbrido tão presente na arte atual transparece, para além do enunciado, no próprio estilo do texto. Deste modo, espera-se contribuir para atualizar e difundir a arte desta grande dançarina. Wigman organizou e reelaborou várias anotações no período final da vida. Publicado dez anos antes da sua morte (a primeira edição é de 63, sendo usada aqui a de 86, conforme consta das referências), o livro é um dos resultados dessa sua atividade final. Nota- se que Wigman então não dançava mais, mas continuando a coreografar e dar aulas na sua escola. Sua última apresentação pública foi de fato em 42 com Adeus e obrigado, título do último dos capítulos do livro que são dedicados aos seus solos. Aliás, ela dá ali as razões que a levaram a deixar o palco. Dentro da tradição crítica sobre arte, pode-se também constatar que o livro se insere na produção escrita de grandes artistas que refletem sobre sua própria obra. O que a história classifica de fonte primária. Mais precisamente, encontramos no período tanto escritos autobiográficos pioneiros como de Nijinski e Isadora Duncan, calcados sobretudo nas suas próprias experiências de vida; como, no polo oposto, sistematizações metodológicas como de Stanislavski e Laban, preocupadas em fundamentar 20 uma nova linguagem e dar à arte estatuto científico. Sistematizando novos procedimentos de criação, essas metodologias trouxeram, pouco a pouco, a subjetividade para o próprio corpo, enquanto matéria básica de criação. Se iniciou um processo de revisão da tradição, onde teóricos e criadores buscaram definir parâmetros técnicos e de linguagem, sem contudo se fechar numa visão única que desse conta das muitas transformações trazidas pela modernidade. Se tratava de responder à sua época com formas artísticas que dialogassem entre si, mas respeitando suas próprias especificidades. Com o correr do tempo, surgiram novas publicações de artistas, mas sempre visando definir as tendências mais modernas em relação à tradição dominante. De modo geral, escrever sobre a própria obra pode ser uma maneira do artista clarear para si seu trabalho criativo, o que nem sempre é possível nas atividades do dia a dia, frente às exigências de ensaios e apresentações. Muitas vezes, ele tem uma percepção do seu trabalho que não corresponde à de um olhar externo, como de um pesquisador em artes. Nesse sentido, é sempre muito interessante confrontar o discurso de grandes artistas com sua prática. Antes de mais nada, o artista é uma pessoa. A partir de Duncan, a dança deixa cada vez mais a reprodução de padrões externos para contar histórias pessoais. Ela dizia dançar sua própria vida. Ao lado da forma, o fluxo da vida dá equilíbrio e amplia o espetáculo, encontrando na dança moderna um celeiro de expressão. Sobretudo a partir de Laban, a busca pela fluência do movimento é sistematizada (análise de fatores e qualidades) por meio da percepção consciente da ordem em que são acionadas as diferentes partes do corpo. Assim, corpo, tempo e espaço comunicam modos de expressividade. Com o fim da chamada Era de Goethe, sobretudo depois da segunda metade do século XIX, começam a aparecer na Alemanha propostas novas e variadas, que aproximam a arte do cotidiano e agregam elementos tidos como inferiores numa categoria das artes. Com novo projeto político-econômico mas conservadorismo social e cultural, a República de Weimar faz acirrar a oposição entre tradição e inovação. Frente a tal tensão, artistas alemães buscam pela simplificação das formas romper com princípios clássicos e românticos aindaoperantes, em especial um modo de representar a realidade preso à figuração de elementos ideais da sociedade (ou seja, uma representação da representação). Movimentos como expressionismo, Bauhaus e a própria dança moderna tentam recuperar o passo da história ao circunstanciar suas criações na mudança de valores trazida pela modernidade. Wigman morou e trabalhou em cidades próximas a Weimar, como Berlim e Dresden, vivendo de perto as mudanças promovidas tanto pelos republicanos como depois nazistas. Se a virada do século XIX já foi um período de grande efervescência de ideias, há 21 de se notar ainda a influência das duas Guerras Mundiais na arte da dançarina, desde a escolha dos temas até uma redução dos objetos de cena nas viagens. Mas a mudança na ordem política não alterou seus princípios. Se certos artistas, à maneira de Piscator e Brecht, criticavam a busca insana dos alemães por novos territórios (e segundo os historiadores foi sua perda territorial na Primeira Guerra que os levou à Segunda), Wigman parece ter se comportado mais como as mulheres depois de 45, que foram às ruas recuperar os tijolos debaixo dos escombros. Com essa imagem poética, pretendo apenas enfatizar os aspectos emocional e pessoal da sua dança, como em Adeus e obrigado. No capítulo por exemplo sobre Danças de outono, ela faz um balanço da sua vida, confirmando suas posições estéticas frente ao conturbado cenário da época. O pioneirismo e atualidade de Wigman podem ser mostrados ainda por sua preocupação em potencializar e dar forma ao conteúdo interior de seus intérpretes, enfatizando sua subjetividade, como é comum ao expressionismo. O expressionismo, que teve grande representação na pintura como oposição ao impressionismo, destacou elementos oníricos em cena: No palco, figuras humanas recortadas através de cones de luz, por vezes caricaturalmente, eram depois devolvidas à escuridão, numa tentativa de sugerir a projeção subjetiva a partir de uma consciência central (do artista) sob forte tensão emocional. E os elementos distorcidos da cenografia, além da maquiagem carregada deformando a expressão facial dos atores, reforçavam objetivamente essa projeção (MENDES, 1987: 62-3). Numa aproximação ao teatro, são características do expressionismo na dança: “o grotesco e a careta, sublinhados por tensão muscular e deformação dos traços do rosto, um exagerado sentido do patético ou de carga cômica” (id., id.: 63). Assim, “O que se impôs mesmo foi o elemento dramático, predominando sobre a própria dança. Como formas alternativas, utilizava-se música composta especialmente para dança, interpretada por orquestras em que prevaleciam instrumentos de percussão, ou simplesmente se rejeitava a música...” (id., id.: 64). A denominação “dança expressionista” tem só função didática, pois deve-se considerar as especificidades de Wigman, que não se restringiu a esse movimento. Por exemplo, pode-se reconhecer a vinculação entre os temas mais recorrentes (a guerra, morte, feminino, mitos ancestrais ou populares e outros temas alemães revisitados, como o campo e as estações do ano) e formas adotadas (dança solo, dança de grupo, dança coral e a dança na ópera, no teatro musical etc). De qualquer modo, Wigman não foi um acontecimento isolado. Aluna de Laban, fez uso de seus ensinamentos, ainda que de forma não sistemática. Publicou artigos e participou de debates, sua técnica foi divulgada em inúmeras escolas e foi diversas vezes 22 homenageada, não só em vida. Em suas inúmeras experimentações, pode-se reconhecer escolhas que a aproximam das vanguardas. Cito desde a união entre arte e vida (o que no seu caso não implica em dissolução uma na outra), a desinstitucionalização da cultura, até a preferência pelo pano solto nos figurinos, em diálogo com o expressionismo ou Bauhaus e total oposição ao tecido armado e supercosturado do balé. Cito como exemplo Face da noite e A celebração; sem falar na famosa Dança da bruxa, onde o tecido dá a forma cênica exata do personagem. Ainda que a dança hoje tenha se diversificado enormemente com o fluxo cada vez maior de linguagens, há de se notar a influência de Wigman nas gerações posteriores, em especial na dança-teatro alemã, e o pioneirismo do livro, não só no que se refere ao entendimento do movimento da dança moderna nas suas necessidades internas, como também para o desenvolvimento da composição coreográfica. Ao lado de Bausch, Wigman é talvez a maior dançarina e coreógrafa alemã. Antes e depois dela, houve sem dúvida outros grandes artistas de dança moderna e balé no país; mas ela se destacou ainda como figura da dança. O livro tem seu valor resguardado e seu conteúdo voltado na maior parte para seus processos de criação justifica uma aproximação tanto teórica como prática. A atualidade da sua dança é também atestada pela continuidade de suas propostas de linguagem e ensino da técnica. Diferente Bausch, Wigman foi uma artista independente, mantendo sua escola até poucos anos antes de morrer em 73. Como já dito, ela deixou muitos descendentes, que se utilizam ainda hoje de suas propostas, mesmo que de forma não ortodoxa. Passando por Laban, Jooss e Wigman, se reconhece, portanto, uma linha de continuidade, que se desenvolve em novas técnicas e modos de ver a dança e amplia cada vez mais o leque de expressão do intérprete. Por exemplo, pode-se encontrar semelhanças entre Wigman e Bausch, em especial o interesse mais pela personalidade do intérprete que por seus dotes físicos, um se deixar levar pela própria intuição durante os ensaios e o uso, é claro, da teatralidade. A intuição é uma percepção profunda, que muitas vezes nos leva a uma ideia, podendo ser desenvolvida através de exercícios e trabalho. Nota-se ainda a contribuição de Wigman para a composição coreográfica, que então ganhava força. Pelo menos na dançarina, a introdução de elementos teatrais na dança não significou na perda da especificidade desta última linguagem. Ou seja, o uso desses novos elementos visava para ela desenvolver seus próprios meios expressivos. Muitos artistas da época intercambiavam aleatoriamente nas suas criações princípios da música, artes plásticas e até cinema, bem como outras manifestações aparentadas mas menos representativas. Já Wigman se valia de outras artes para aumentar a expressão dos recursos próprios da dança, contribuindo nesse sentido para que sua arte, então 23 em desenvolvimento, não se descaracterizasse. Viajando o mundo sozinha ou com sua companhia, Wigman teve intenso contato com artistas estrangeiros, não chegando infelizmente a se apresentar no Brasil. Ao contrário de outros renovadores como Graham, Cunningham e Limón, sua técnica quase não é ensinada aqui. Pode-se perguntar com a morte de Bausch: qual é o futuro da dança-teatro? Sua continuidade depende não só da força e sintonia das novas composições com o presente, mas também a transmissão dessa tradição viva a partir de novas sistematizações. É desse modo que contemplo os ensinamentos e coreografias (ao menos as mais marcantes) de Wigman, contribuindo para organizar o pensamento sobre a dança dentro das políticas bilaterais entre Brasil e Alemanha. Por outro lado, pode-se dizer sem medo que o interesse crescente nas últimas décadas pela dança contemporânea, não só por parte dos artistas e pesquisadores como também do público brasileiro, tem resultado em produções mais e mais sofisticadas e bem fundamentadas, com destaque para a atuação dos coletivos independentes. A linguagem da dança é uma mistura de reflexão sobre a arte de dançar, trajetória artística, compêndio técnico e “livro do professor”. Numa definição sintética, pode-se dizer que seu objetivo é mostrar como a dança se torna linguagem: o que ela consegue através do estudo do equilíbrio entre forma e fluência do movimento, atestando sua dívida com Laban.Portanto, ele não é um mero registro e nem também uma análise estética que vise promover a obra da dançarina. Escrito de maturidade, se vale antes das coreografias para mostrar sua visão da dança, procedimentos de criação e de construção da linguagem; além da coerência do seu percurso profissional. Atrelado aos acontecimentos da sua carreira e período em que viveu, ele se revela como a transmissão de uma sabedoria, adquirida em longos anos de dedicação ao trabalho. Isso é evidente já no primeiro capítulo, onde a dançarina expõe não só o que pretende com ele, mas o que a levou a escrevê-lo e para quem está dirigido. Além disso, ela deixa claro não se tratar de um manual de preceitos para criar uma boa coreografia ou ser um grande intérprete. Na verdade, encontramos a cada capítulo descrições de procedimentos bastante variados, conforme o tema ou forma coreográfica escolhida. Mas, ao final da leitura, é possível subentender um conjunto de regras bem preciso, representando um salto em relação ao pensamento anterior sobre a dança. Relacionando o fazer artístico, acontecimentos que viveu, e evolução da técnica e pensamento da dança (incluindo a recepção pelo público), os elementos apresentados no livro são parte da própria trajetória artística da dançarina, representando uma ruptura em relação à produção anterior e servindo de inspiração para gerações futuras. Nessa perspectiva vinculada ao fazer, dedica maior atenção às criações coreográficas. Na maior parte, as escolhas nessas 24 criações consideram experiências vividas fora do palco ou então sensações provocadas pelo movimento corporal. A dança nasce do movimento corporal, recebendo tratamento estético que resulta num produto a ser apreciado pelo público. Permeada por sua sensibilidade, é a ação do artista que produz o espetáculo ao atribuir beleza ao objeto da vida. A transcendência desse objeto remete a um espaço e tempo de criação. Nos seus processos criativos, a experiência ainda impregna o corpo de sensações, que são retrabalhadas durante os ensaios para ganhar uma força que comova, e não consterne, o público. Se estabelece certa separação pela manipulação dos recursos cênicos e uso da luz, cenário, figurino, trilha sonora, maquiagem e a própria interpretação, sendo o material de criação poetizado e simbolicamente transformado. Permanecem no livro certas regras de procedimento, passíveis de serem reutilizadas por outros artistas. Resumidamente, Wigman começa expondo sua concepção da dança a partir da relação com a própria vida, apresentando as características desta linguagem e seu uso nas outras artes. Entre outras coisas, fala da importância do solo como a forma mais sintética da dança, passando a descrever a criação de alguns solos importantes da sua carreira. Por fim, dedica um capítulo à diferença entre dança coral e dança de grupo e reflete sobre sua experiência como professora. Permeando essas reflexões, encontramos exemplos que atestam sua profunda consciência da realidade da qual participava, evitando qualquer falso exotismo; tal como se vê por exemplo no capítulo sobre Dança de Niobe. Ainda, é possível encontrar em The Mary Wigman book diversos escritos onde a dançarina mostra preocupações bastante concretas, como a profissionalização do intérprete e sua responsabilidade com aquilo que comunica em cena, a culpa dos alemães frente às duas Guerras Mundiais, o papel da mulher na sociedade, o resgate da cultura alemã, a divulgação da sua técnica em escolas de dança dentro e fora da Europa (são significativas nesse caso as cartas trocadas com Hanya Holm), a “popularização” da dança moderna, o uso da dança em outras linguagens como a ópera e teatro musical, o intercâmbio com outros intérpretes e coreógrafos de dança moderna, entre várias outras; além de trechos de escritos que foram publicados na impressa ou apresentados em congressos. E sem falar ainda em anotações de ensaio onde revela sua quase obsessão pelo trabalho incansável. Leitura sobretudo para iniciados, A linguagem da dança trata da transformação do real em símbolo. Essa semente factual sobre o produto da fantasia marca o registro das palavras dessa criadora. Sua importância singular frente aos novos processos de criação e produção parece inesgotável, superando a tradição e influenciando procedimentos atuais. Calcado na memória, tal testemunho assume valor histórico fundamental enquanto documento 25 artístico, revelando o espírito de uma época, marcada ao mesmo tempo pela triste experiência da guerra e ideias efervescentes de grandes personalidades da história. No livro, os aspectos de uma vida dedicada à dança se unem à força renovadora das criações por ela descritas. Explorando a subjetividade e dotes instrumentais do intérprete, sua dança expressa a emoção, numa dramaticidade que ao mesmo tempo esconde e revela. Através da aguda observação do humano, ela destrincha a organização harmônica do movimento no espaço, sendo o corpo aí receptáculo de experiências codificadas na forma final do espetáculo. A compreensão do progresso dos seus processos criativos e de uma dança que é também vida reconstruída no palco não se desvincula de sua recepção estética. Wigman teve mais de uma vez sua própria companhia, frequentemente formada por ex-alunos, que transformaram suas ideias em obra de arte nas várias partes do mundo por onde se apresentaram. Ela conhecia as exigências do trabalho coletivo, sem medo de se aventurar em experimentações estilísticas. Num certo sentido, seu estilo se estabeleceu a partir do autoconhecimento e necessidade de ser fiel consigo (abaixo: 43). Esse conhecimento do artista enquanto pessoa implica para ela em aprender a criar e repetir por si mesmo, falando “sua própria língua” (id.: 88). Tais princípios refletem no seu trabalho como professora, que não reduz o ensino ao material de aula. É preciso também aprender a absorver os acontecimentos da vida, lhes reconhecendo seu sentido recôndito (id.: 90). Esse admirar as coisas como quem as vê pela primeira vez se aproxima da curiosidade e encantamento da criança. Unindo a pessoa e a obra, Wigman transforma o espetáculo em experiência artística. Quando o aluno ou intérprete encontra seu caminho na arte, a intuição atua como guia ao lado do conhecimento (id.: 43). Também é preciso entender o corpo como instrumento, onde a apropriação de dimensões como altura, profundidade, comprimento, largura, frente, trás, lados, horizontal e diagonal garante a dinâmica da composição coreográfica (id.: 46). Do mesmo modo, no teatro as forças dinâmicas do corpo viram sua segunda natureza. Entre os exercícios teatrais para tal fim, destaco o plateau de Lecoq. O equilíbrio espacial ainda depende do desenvolvimento das partes do espetáculo numa configuração estruturada. Wigman exemplifica essa tarefa na solução coreográfica para os coros masculino e feminino em Monumento aos mortos (id.: por ex. 81-2). Também a forma, luz e cor se relacionam com o espaço em perspectiva, promovendo a expressão dos movimentos no palco. Para atingir tal resultado, recursos são mobilizados durante os ensaios. O esforço do trabalho contínuo deve transformar o material de criação num conteúdo significativo e às vezes surpreendente (id.: 91). Para Wigman, o bom resultado do ensaio 26 depende do nível de comunicação entre o diretor ou coreógrafo e intérpretes (id.: 42). Também quanto à técnica, Wigman usa com eficácia em seus solos o recurso de um parceiro invisível; ou seja, um ser imaginário com quem se pode dividir a cena (id.: 51). Paralelamente, cito como recurso expressivo na minha prática a busca do ponto dramático da cena, proposto pelo prof. dr. Armando Silva (ECA/USP) (aulas nas disciplinas interpretação I e II no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994). Eu o apliquei quando dirigi um espetáculo de cenas teatrais commeus alunos em Mogi das Cruzes. Por exemplo, numa das cenas, do acerto de contas do casal central de Perdoa-me por me traíres, o ponto dramático estava pouco antes do seu final. Ou seja, quando este casal discutia antes de se reconciliar num abraço. É desse modo que ideias que me parecem essenciais em Wigman repercutem no meu trabalho. E na medida em que se universalizam enquanto referenciais, ganham relevância no esclarecimento de atributos e particularidades de espetáculos de que participei, seja pela similaridade ou contraste. Para mostrar como minhas reflexões a partir de A linguagem da dança se aplicam em outros contextos e enriquecem minhas próprias vivências profissionais, me deterei a seguir em pontos precisos do universo da dançarina: 1) a forma e fluência do movimento, processo aberto e autonomia na criação; 2) elementos cênicos na dança, como personagem, figurino, música, texto etc, e sua relação com outras artes, como a ópera e sobretudo o teatro; e 3) ferramentas da dança moderna que também são usadas na dança e teatro contemporâneos, como a improvisação, sensação corporal e experiência (essa inclui a personalidade do intérprete). Esses pontos, diluídos pela tese, serão exemplificados por coreografias de Wigman e espetáculos de que participei. É possível reconhecer na linguagem de Wigman um equilíbrio entre a forma e fluência dos movimentos no espaço, equalizando o problema da forma e fôrma, como molde que aprisiona. Isso pode ser observado na sua técnica e procedimentos como sendo uma característica da dança moderna. A linguagem da dança foi escrita de um ponto de vista interno, o ponto de vista do artista. Wigman não se concentra, como já dito, em desenvolver um vocabulário específico de trabalho, nem em sistematizar padrões rígidos de movimento para seus processos criativos. Na maior parte, trata no livro da criação de importantes solos e como desenvolve novas ferramentas de composição coreográfica, conforme as exigências de cada coreografia. Ao dizer que a forma não é um fim em si mesmo, mas se modifica durante os ensaios, ela defende a primazia da criação artística, cabendo ao espetáculo suas próprias necessidades. Assim, necessidades de ensaio frequentemente determinam os movimentos 27 coreográficos de suas danças. Em Figura de cerimônia, ao usar uma máscara sem orifício para os olhos, ela teve de se mover de modo muito contido. Contido também porque a máscara apresentava traços neutros, como uma figura neutra de cerimônia. Aqui a máscara determinou a forma do movimento do personagem. Também quanto a Monumento aos mortos, uma dança coral sobre soldados mortos na guerra, Wigman aponta problemas de ensaio na criação dos coros masculino e feminino, que se movem através de uma sonoplastia de ruídos. Nesse sentido, a batida de um tambor se tornou a solução para conduzir a evolução coreográfica do coro. Também o uso de cartas de guerras lidas por intérpretes criou empatia no público. Outras soluções para problemas de ensaio são a transferência de peso em Pastoral para criar a sensação do balanço das ondas do mar, situações de desequilíbrio com o corpo guiado pelo vento em Canto da tempestade, imagens criadas com o corpo no plano médio 6 do espaço para representar o touro em Ritmo de festa e oposições no corpo em Canção do destino para expressar o desespero e rebelião contra o destino. Em Wigman, ainda existe um hieratismo ligado à estetização do movimento, mesmo se este é inspirado numa experiência de vida. Na dança contemporânea, essa estetização geralmente decresce. Como na dança contemporânea, já é possível observar aqui características de um processo criativo aberto. Isto é, um processo onde a intuição ocupa um papel importante e o trabalho não segue um fim prévio. Por exemplo, o processo de Monotonia em giro começou com um som de gongo, resultando em movimentos rotatórios como se ela fosse sugada. É similar ao começo, quando ela se sentiu sugada ou hipnotizada pelo som do gongo. Geralmente nos seus processos criativos estímulos iniciais a guiam para uma nova criação. Outro exemplo é Dança da bruxa, onde se refere a um ímpeto criativo. Junto com características de um processo aberto, vale notar que a época de Wigman marca o surgimento da figura do encenador e a ênfase no aspecto visual do espetáculo, como imagem cênica no palco. Para ela, a dança atinge seu objetivo quando se amplia como imagem no espaço. Autonomia também é uma característica da dança de Wigman. Ela diz por exemplo que o jovem intérprete deve buscar sua própria expressão, sem se resignar a ser mero imitador. Dar autonomia não é só estimular os intérpretes a criarem por si mesmos, mas observar o que são capazes de fazer de modo a se tornarem responsáveis pelo que expressam no palco. Um exemplo em Wigman é mais uma vez Monumento aos mortos, onde cada intérprete teve de achar por si mesmo a postura para sua máscara. Na minha carreira, 6 Uso o termo plano como correspondente aos níveis de Laban. 28 desenvolver autonomia tem sido especialmente importante, desde meu trabalho com minha colega Sabrina Cunha. Também durante essa pesquisa, exercitei autonomia ao ressignificar as ideias de Wigman na minha prática. Finalmente, a autonomia se relaciona ainda à exploração da personalidade do intérprete no processo criativo, como mostrarei mais à frente. A dança hoje frequentemente inclui outras linguagens, além da música. Esse hibridismo já está presente na dança moderna. Wigman desenvolveu por exemplo coros coreografados em óperas. Em Alceste, criou o reino da morte através da dança. A musicalidade é especialmente importante para ela. Ela também criou danças no silêncio, mas muitas de suas danças usaram músicas de grandes compositores, música sacra (como em Canção seráfica) ou folclórica ou música composta por seus pianistas a partir da própria movimentação dos intérpretes. Num certo sentido, a música impulsiona fortemente a emoção do intérprete. Quando Wigman coreografou A sagração da primavera, pôs a música em primeiro plano; ou seja, esta deveria conduzir os movimentos. Como a música impulsiona a emoção é um procedimento adequado ao expressionismo, do qual Wigman participou. A música aqui estimula, criando diálogo ou mesmo contraponto com a movimentação do intérprete. Antes de mais nada, a técnica de movimento em Wigman é uma técnica expressiva, enfatizando uma vez mais a emoção e elementos teatrais. Esse recurso traz reconhecido impacto dramático para seus espetáculos. Isso também quer dizer investigar o próprio corpo e movimentos pessoais surgidos de conteúdos internos. Explorar a personalidade do intérprete é um novo método de criação, diferente por exemplo do balé, onde as habilidades físicas ocupam papel central. Ao expor sua personalidade no processo criativo, o intérprete na dança moderna potencializa e dá forma a conteúdos internos. Wigman critica o virtuosismo que leva ao narcisismo. A virtuosidade surge para ela do conhecimento dos músculos, articulações e respiração. Atualmente, a frase coreográfica é ainda muito praticada por muitos alunos, mas improvisar ajuda quando estes precisam criar movimentos novos e pessoais. Vencendo a resistência quando nos é cobrada autonomia e elaborando o material criativo, atingimos qualidade artística. Por exemplo ao usar pausas, damos cor à dança, ao invés de um movimento intermitente. De certo modo, esquematizamos conhecimentos da vida, sem nos fecharmos no preciosismo da forma perfeita. Isso exige, entre outras coisas, autodisciplina, talento, destreza física, noção do coletivo e prontidão criativa. Manipulando qualidades próprias e elementos de cena, podemos dar expressão a ideias às vezes muito subjetivas. Em Dança da bruxa, um tecido exótico e uma máscara 29 ajudaram Wigman a definir o personagem. Lembro que no palco, o personagemé uma pessoa, com suas próprias qualidades e defeitos. Em A celebração, um figurino geométrico compunha com a tridimensionalidade do corpo. E, como já mencionado, o texto foi usado em Monumento aos mortos. Para a dançarina coreografar é esculpir o corpo. Como o teatro nesse período insere tridimensionalidade nos espetáculos (no cenário bem como na interpretação), em Monotonia em giro e outras danças em giro a tridimensionalidade é central nos movimentos rotatórios. Essa diversidade no palco é ampliada pela dança e teatro contemporâneos. Mais e mais os intérpretes desenvolvem a criatividade, mesmo em exercícios técnicos, resultando em regras ou estruturas mais precisas que enfatizam a proximidade com outros colegas de cena e o público; além da inserção de associações pessoais na criação. A improvisação tem papel especial na técnica composicional de Wigman para solos e danças de grupo. Improvisar amplia os recursos da dança para ela. Por exemplo seu último solo, Adeus e obrigado, era uma dança muito pessoal, que mostrava seu sentimento de renunciar ao palco sem se resignar. Para expressar esse material subjetivo, ela usou movimentos livres, com uma parte do corpo acionando outra. Também em Canto da tempestade, ela usou movimentos livres nos planos alto, médio e baixo do espaço para expressar um corpo guiado pelo vento. Aqui a improvisação é direcionada para a construção da cena. Improvisar desenvolve especialmente a presença de palco, permitindo responder às propostas dos colegas. Isso é muito rico para o coreógrafo ou diretor, pois este pode ver o intérprete engajado na cena. É também verdade que Wigman explorou amplamente a frase coreográfica como ferramenta de composição, mas esta estava à disposição de sensações e experiências usadas na criação. Na vigorosa Dança da bruxa, frases coreográficas foram desenvolvidas de experimentos sensoriais em sala de ensaio. Aqui, a sensação causada pelas mãos agarrando o chão se transformaram num sentimento de excitação, que foi precisamente coreografado em movimentos centrais, como da bacia, e periféricos, como da cabeça. A sensação assim enriquece a movimentação. Também em Dança de Niobe, os punhos fechados batendo contra o peito lhe permitiram expressar indignação com a morte na guerra. Além da sensação corporal, experiências de vida como vivências são importantes estímulos na criação de movimentos, personagens ou cenas. Mais uma vez em Dança de Niobe, o horror de ter estado num abrigo antiaéreo a levou a uma dança onde uma mãe embala uma criança. Para Wigman, a dança não é só entretenimento, mas surge, entre outras coisas, do movimento humano e sua emoção, bem como observação da realidade. Observar uma tourada na Espanha, uma catarata de rio nos Estados Unidos e um cemitério na França 30 permitiram a ela usar associações pessoais no processo criativo. Wigman mostra profundo senso de observação da realidade na qual está inserida. A observação da realidade também tem sido importante no meu trabalho. Fiz espetáculos onde se discutiu a mecanização da vida moderna, a violência na sociedade e a cinestesia na cidade de São Paulo. A vida caótica de pessoas cheias de esperança. Como em Wigman, recursos são mobilizados conforme o tema do espetáculo, tendo a vida diária papel especial. Essa é uma característica do teatro e dança contemporâneos, onde se busca, mais que a justaposição de movimentos ou cenas, um processo de concentração e seleção através da repetição. A seguir explicito meu entendimento da dança e o sentido de estar no palco para mim. No capítulo Tradução, apresento a tradução integral do livro de Wigman, com uma nota inicial onde coloco dificuldades surgidas e exemplifico com termos centrais. O capítulo Refletindo sobre processos criativos está dividido em Mary Wigman e suas contribuições e Breve apresentação de meu percurso artístico. No primeiro subcapítulo, discuto dados biográficos de Wigman, seus processos criativos e trabalho como professora e figura da dança. E no segundo apresento brevemente minha carreira e discuto espetáculos de que participei. Já o capítulo Considerações finais está dividido nos resultados da pesquisa no cenário artístico e na minha prática. No primeiro subcapítulo, decanto a pesquisa a partir de elementos de Wigman presentes no teatro e dança da época e atuais. Finalmente no segundo discuto por exemplo o uso da improvisação e alguns elementos essenciais para criar e atuar no palco que comprovam a atualidade do livro. 31 1.2. Meus sonhos de paixão Wigman (abaixo: 44) define a dança como “uma linguagem viva que é falada pelo homem e diz respeito a ele: uma expressão artística que paira acima do plano da realidade, para falar num nível mais alto, em imagens e alegorias, das emoções mais interiores do homem e necessidade de comunicar”. Diria que a condição por trás desse trabalho é amar o homem sem subterfúgios e em tudo que lhe diz respeito. Não é tarefa tão fácil, que significa num certo sentido valorizar o sentimento de realização que vivemos de tempos em tempos. Já Bausch (2000: 11) diz: Certas coisas se podem dizer com palavras, e outras, com movimentos. Há instantes, porém, em que perdemos totalmente a fala, em que ficamos totalmente pasmos e perplexos, sem saber para onde ir. É aí que tem início a dança, e por razões inteiramente outras, não por razões de vaidade. Não para mostrar que os dançarinos são capazes de algo de que um espectador não é. Há de se encontrar uma linguagem com palavras, com imagens, movimentos, estados de ânimo que faça pressentir algo que está sempre presente. Esse é um saber bem preciso. 7 Numa imagem simples, a dança seria corpos em movimento. Essa imagem se efetiva ao dar ao corpo seu vigor consequente, como se dele emanasse substância existencial. Em cena nosso corpo se imola. Se essa imagem é um tanto abstrata é porque a dança depende de certa abstração. Às vezes precisamos pensar com a coluna ou respirar com o joelho. A imagem da dança é a imagem do movimento vivo, seja um dueto no palco, dois animais se acasalando, os planetas nas suas órbitas ou uma criança brincando. Ao ver o ator que acaba de entrar no seu castelo num “sonho de paixão”, se deixando mobilizar pela ficção, Hamlet esquece por um minuto o revés da sua vida e apenas admira o feito daquele artista à sua frente. 8 Também a imagem da dança pede que paremos por um tempo para admirar esse vigor consequente ou ainda “sonho de paixão”. Sem isso, tal movimento dos corpos sempre parecerá para nós desconexo. Quando começamos a improvisar, uma das primeiras coisas que aprendemos é a não querer explicar a cena que acaba de ser feita. Ela deve falar por si. Apenas ouvimos eventualmente os comentários dos colegas para melhorá-la numa próxima vez. Da mesma forma, hesitei aqui quanto a explicações iniciais. O que posso dizer é que não esperem uma cartografia histórica e crítica de Wigman, que estaria além das minhas capacidades. Então, 7 Numa aproximação linguística, a dança tem significado, estrutura e é dançada. Cada um dos três elementos totalmente dependente do outro (PRESTON-DUNLOP; LABAN CENTRE STAFF, 1979: 5). 8 Millôr Fernandes traduz “dream of passion” por “paixão fingida” (SHAKESPEARE, 2007: 63). Uso a célebre fala de Hamlet como uma referência também à dança, como algo que para Wigman está “acima do plano da realidade”. 32 como reter do seu mundo o que pode me ajudar na minha carreira como intérprete? Mesclei seus sonhos de paixão à minha admiração, buscando nessa referência sólida do passado respostas para minhas próprias inquietações artísticas. Para mim a arte é um artifício e o intérprete um fingidor. 9 Sei das muitas performances hoje que buscam apagar a fronteira entre ficção e realidade, entre eu e o outro. Mas encontrei em Wigman a reafirmaçãodo que penso ser a dança, como acabo de dizer. Sem necessidade de comunicar e de transformar, como posso estar no palco (abaixo: 44 e 52)? Nesse sentido, Nietzsche (1999: 27-30) defende que a arte é regida por dois impulsos opostos: o apolíneo e o dionisíaco. Um representa o sonho, medida e forma e o outro a embriaguez, autoexaltação e música. Esses impulsos em luta constante se reconciliam não só na tragédia grega como nas óperas de Wagner. Em Wigman, pode-se dizer que prepondera o impulso dionisíaco. De certo modo, seu trabalho intuitivo, como se observa por exemplo quando descreve o início e desenvolvimento de Monotonia em giro no capítulo sobre essa dança, se aproxima de um processo aberto e disponível, no sentido de Kerkhoven (1997: 18- 20). Ainda Nietzsche (1999: 125), ao atribuir energicamente à música a função de “vivificar o mundo plástico do mito”, parece ver a tragédia grega quase como um teatro dançado, tomando-se ainda as referências à dança em todo livro. O mais importante para ele é que o coro mantenha o caráter das danças sagradas a Dioniso, criando então o que se chamou coreografia. Essa ideia se acrescenta a Aristóteles, para quem a tragédia nasce da improvisação nos ditirambos (ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO, 2013: 23). Com esse seu novo modo de pensar, Nietzsche influencia as vanguardas europeias a partir do simbolismo. Para o último espetáculo de que participei antes de começar esse doutorado, 10 criei o refrão: “Canto desarmado, alma blindada / Deita dia a dia mil leões” (CARVALHO, 2010: [s.p.]). Quis expressar como me sentia no momento como artista em São Paulo. Era um espetáculo de rua, adaptado de uma lenda folclórica e mostrava as dificuldades do nordestino que chega nessa cidade. Eu passava então pelo dilema entre viver da minha profissão e manter em mim uma qualidade na interpretação que já tinha conseguido em alguns espetáculos anteriores. Como manter essa qualidade em apresentações em parques públicos na periferia de São Paulo, em condições mais rudimentares? Assim criei o refrão. Hoje vejo que ele também 9 Existe em estar em cena um desafio paradoxal, como do poeta que, segundo Fernando Pessoa, finge ser dor uma dor que realmente sente. O que me leva a perguntar como o intérprete que vive momentaneamente uma grande dor pessoal pode se apresentar, sem que isso lhe tire a eventual alegria do espetáculo? Ele deve se mostrar aí um verdadeiro instrumento de comunicação. 10 Bumba meu fusca, espetáculo apresentado em parques públicos em São Paulo, em 2009. Posteriormente, ele foi remontado com elenco modificado. 33 sintetizou meus dois pequenos personagens na peça: um capitão sonhador e uma prostituta destruída pelo asfalto. Se mobilizar de corpo inteiro é o que o palco exige do intérprete. Esse espetáculo de rua me deu grande prazer. Nem tanto por ele em si, mas por estar na rua, me apresentando gratuitamente, tentando manter o interesse daqueles que só passavam pelo local e cantando, dançando e interpetando sem perder o jogo de cena. Mas também quando erramos, devemos lembrar que o público vê o espetáculo pela primeira vez e não sabe o que vai acontecer. Com um pouco de jogo de cintura podemos corrigir a cena. Num espetáculo de dança muito preciso, isso pode ser mais difícil. Vi um espetáculo em que num certo momento um dançarino não amorteceu suficientemente a queda depois de um salto. O espetáculo continuou, mas na hora do intervalo avisaram que o programa teria de ser modificado, porque o dançarino tinha se machucado. Nesse caso o erro foi fatal. Quando nos divertimos com nossas ações e situações que dividimos com os outros em cena, cativamos o público para a história (a ficção), independentemente se triste ou alegre. Se divertir aqui não é só rir. É também chorar, ter medo, angústia, raiva, dúvida e qualquer outro sentimento que faz parte da nossa vida diária. A rua nos faz sentir certa liberdade. Além dos dois personagens, eu fazia cenas de grupo. Também alguns músicos participavam dessas cenas. Todos devíamos estar atentos às marcações, pois qualquer erro poderia destoar e atrapalhar os outros. Dividir uma cena nem sempre é fácil. Precisamos ouvir aquele com quem contracenamos, aceitar muitas vezes o que ele propõe e ainda perceber as mudanças de foco, sem querê-lo só para nós. Sempre que possível devemos nos dispor a melhorar a cena. E nesse sentido, me lembro ainda de nos ensaios aqui me divertir criando cenas de fundo, que passariam facilmente despercebidas para a maioria do público, mas que serviram de recheio à cena principal. Isso ainda me ajudava a me manter num personagem, mesmo fazendo figuração. Era um espetáculo colorido e alegre. Tínhamos de interpretar com certo exagero, falar e cantar bem alto para que mesmo o público mais longe entendesse grande parte do texto e também usar figurinos, adereços e maquiagens de fácil identificação. Competíamos com outras atrações do local. Me lembro do diretor nos ensaios pedir para que eu diminuísse as pausas na minha fala. Era importante manter o clima festivo durante todo espetáculo, mesmo que houvesse momentos mais densos. Como apresentávamos geralmente pela manhã, tinham muitos pais com crianças assistindo. Às vezes crianças bem pequenas. Pedíamos para elas acompanharem com palmas em certos momentos. Ainda que não fosse uma reação espontânea, isso as animava. Outro recurso era falar o texto diretamente para o público, 34 mesmo se a intenção fosse dirigida aos colegas de cena. O espetáculo não era longo e dificilmente levava o público a perder o interesse, como ocorre ocasionalmente mais ou menos na ¾ parte quando o espetáculo perde seu ritmo e aquele começa por exemplo a pensar nos seus próprios problemas, como quanto vai pagar de estacionamento ou o que tem para fazer no dia seguinte. Tivemos apresentações de grande empatia no público, pois o enredo simples tratava de problemas e inquietações muito próximos de quem nos assistia, às vezes pessoas bem simples do povo. Também evitamos cair no estereótipo ao abordar um tema tão regional. Aqui se explicitava a função social da arte. Que contribuição posso dar com meu trabalho como intérprete? Ver à frente, estar perto do meu povo e dividir o que aprendo na minha condição privilegiada de contato diário ou expressão de um pouco da cultura. Isso, nunca devo esquecer, é o que meu encontro com público me permite. Como um peixe, eu quero desbravar a água fria onde vivo. Quero ser um artista que pensa por si mesmo, sem ficar repetindo o que fulano ou beltrano disse. 11 Mas se digo coisas que outros antes de mim já disseram? Será que cheguei a alguma essência imutável? Prefiro antes acreditar que essas coisas são mais importantes para mim no momento que outras. Reaprender pode ser um modo de evitar fórmulas prontas. 12 Mesmo que tenha obtido várias respostas com Wigman, sei que algumas perguntas sempre voltam: estou pronto? Crio algo especial ou só o que qualquer um pode fazer? Me engajo nas minhas ações ou busco um paliativo? Criar exige coragem. Não podemos nos esconder atrás da profissão. Outras vezes ainda penso simplesmente: será que o público vai gostar? Mas enquanto crio não devo pensar nele. Sei que ninguém quer ver um espetáculo poluído, sem unidade e onde as ideias do diretor não se justificam cenicamente. Mas se o público é nosso termômetro, preciso antes ganhar confiança naquilo que estou fazendo. 13 Não crio só para satisfazer o gosto do espectador. Se acontecer, isso é uma consequência do trabalho. Sem dúvida, ele saiu de casa, comprou o ingresso e está sentado na poltrona, esperando qualidade. Mas nem por isso vou me vender a ele. Preciso vencer uma tendência natural de querer ser aceito. Depois de se apresentar pela última vez em público, cumprindo sua promessa de um dia parar de dançar, Wigman (abaixo: 78) confessa angustiada:“Minhas forças criativas 11 A autonomia presente no processo colaborativo fez parte da minha carreira já após a faculdade. Cunha (2002) por exemplo ressalta a importância da autoconfiança para adquirir autonomia. 12 Sobre ensinar, Wigman lembra que é “sempre a mesma coisa num conteúdo sempre novo e forma em mudança” (abaixo: 89). Como professor, eu também procuro manter o interesse dos alunos e uma curiosidade pelo que está sendo ensinado. 13 Primeiro existe a necessidade de fazer, onde não importa o público. Depois se alimenta o desejo de que os outros nos vejam e sintam prazer nisso. Também é só depois do trabalho pronto que devo perguntar o que eu quis ali, que função ele tem socialmente, entre outras coisas. 35 ainda pediam para se exprimir e a bailarina que eu era tão profundamente não queria ficar quieta”. O tempo que parei para escrever essa tese também deixou meu corpo inquieto. Será que ainda lembro as cinco posições de braços e pés do balé? 14 A recompensa seria cumprir o conselho de Wigman (id.: 88): transmitir aos próximos “seu entusiasmo, sua obsessão, sua fé e a persistência constante com que se trabalhou”. Além disso, esse doutorado me permitiu ver dança e teatro como artes irmãs. Me lembrei, por exemplo, da primeira vez que usei efetivamente recursos de dança numa criação teatral. Estava na faculdade e num fim de semana fiz um workshop sobre Laban. A professora mostrou como usar os fatores de movimento para criar um personagem. Então os apliquei na cena que ensaiava na faculdade. 15 Encontrei na cena dois momentos diferentes, que foram coloridos por movimentos lentos (quando meu personagem Orestes orava num templo) e rápidos (quando logo depois devia fugir das forças do mal que o perseguiam). Trabalhando o fator tempo, busquei exteriorizar o conflito do guerreiro entre a ação e autorreflexão, dando movimento a um teatro calcado sobretudo na voz, como a tragédia. Finalmente, da mesma forma que ao apresentar ou dar aulas na periferia tentei manter os mesmos princípios de quando trabalho num grupo profissional, busquei aqui trazer e talvez ampliar minha experiência artística ao estudar essa dançarina, que foi chamada de sacerdotisa da dança e para muitos a iniciadora da dança expressionista. E assim saúdo esta pesquisa: Sou da cidade de todas as estações Em meio à fumaça, tempero autorizado. Dou boas vindas a todos foliões Com as palavras desse canto apressado. 14 Wigman começou a dançar tarde e talvez por isso tenha escolhido a dança moderna como meio de expressão. Num certo sentido, a técnica rigorosa do balé prepara o corpo para diferentes estilos de dança. Mas Wigman se concentrou nos atributos da nova forma emergente, transformando a técnica de movimento numa técnica expressiva. Além disso, ela trabalhou com importantes diretores teatrais, como Rudolf Sellner (abaixo: por ex. 78). 15 Cena de As eumênides para a disciplina expressão vocal III no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994. Essa peça me pôs em contato com a pureza do teatro através da tragédia primitiva. Ali, a desfortuna do herói depois de matar a mãe centraliza os diálogos. 36 2. TRADUÇÃO 16 Figura de cerimônia (máscara) Pastoral 16 No Anexo A está inserido o texto original. 37 Dança da bruxa Adeus e obrigado 38 Nota: A linguagem da dança é o retorno da experiência vertical numa sociedade que presenciou o início da cultura de massa e, ainda hoje, pode causar espanto e reflexão. Escrito no período final da vida de Wigman (1963), documenta, fixando para a posteridade, seus longos anos de dedicação, alegrias e dificuldades, no universo da dança. Como é curioso constatar aí, por exemplo, o impulso original de cada coreografia até o resultado final e sua recepção pelo público! Suas contribuições, em especial para o estudo da composição coreográfica, apontaram tendências de vanguarda que buscam ser reavaliadas aqui pelo contato com a obra na sua atualidade. Pois, quanto sua leitura não pode ainda fomentar ideias e criações nas novas gerações? Nesta tradução, foi usada a edição de 1986 da editora Battenberg de Munique. Se traduzir é recriar o imaginário do autor numa outra língua e cultura, o estudo sensível da obra surge como estratégia paralela valiosa para resguardar sua força efetiva. A tradução do texto enquanto signo poético não é só intermediação de informação. Ela exige fidelidade, mas também fluência. O rigor à letra não deve comprometer o espírito original. Daí o domínio do objeto, sem juízo de valor que o reinterprete fora do contexto. Sim, o texto não é um único texto. Na leitura, o tradutor oferece sua própria experiência. O caso, no entanto, exige cuidados extras. Primeiro, se trata de uma artista já falecida e que não pude ver em cena. Além disso, a natureza técnica da reflexão sobre atuar, criar e ensinar dança me levou a propor apropriações cênicas enquanto exercícios de hermenêutica. O livro está colado à prática. Seu conceito-chave, a linguagem da dança, e suas implicações em Wigman é complementado pela reprodução e observação empírica, como pesquisador-participante. É deste modo que espero compreender melhor sua operação aqui de fazer transpor um signo cênico para o verbal. Essa tradução deve representar uma fonte para novas pesquisas. Durante sua realização, me ative ao seu valor (ou validade) e permanência (ou durabilidade), esperando atingir um maior número de artistas, estudantes, professores, pesquisadores e outros profissionais da área, sem comprometer o texto original. Traduções envelhecem. Para isso, foi preciso primeiro entender a reelaboração discursiva da linguagem corporal de Wigman. Além de dados históricos, que aparecem sobretudo nos capítulos dedicados às suas coreografias, foi dada especial atenção a trechos de compreensão mais difícil, que requerem um conhecimento das exigências dos ensaios e recursos de criação, de modo a visualizar a dança. Para descrever com mais precisão suas movimentações, Wigman se utiliza muitas vezes de verbos ou locuções preposicionadas (nem sempre encontradas no dicionário). Além disso, noto o uso frequente de substantivos e adjetivos compostos e/ou abstratos, sentenças longas e separadas 39 apenas por vírgulas ou travessões, e a inversão na ordem direta das orações. Um exemplo é o termo Aussage, que foi traduzido ora por mensagem, expressão, conteúdo ou mesmo forma. Tais características do alemão levam, na tradução para o português, ainda a uma atenção com a manutenção da fluência, sem comprometer a clareza e estilo originais. Aproveito para destacar a subjetividade de muitas experiências e pensamentos expressos no livro; cabe, assim, também a atenção à sonoridade nas reiterações e atualidade do sentido das palavras na nossa língua, bem como seu uso no meio da dança. Com isso, busquei resguardar imagens e impressões evocadas no texto, sem me desapegar da realidade do seu fazer artístico. Ainda evitei, na medida do possível, modificar a ordem direta das orações, o uso de substantivos abstratos e compostos, e excessivas reiterações – dadas as próprias diferenças do alemão e português. Além da tradução em inglês, também recorri às vezes a termos e expressões atualizadas, usadas no nosso meio da dança hoje, sem deturpar o sentido original alemão. Com isso, me esforcei para que a tradução não envelheça tão depressa, mas seja útil a um maior número de pessoas. Em O ator contemporâneo, discuto junto com Armando Silva o papel do talento. Nos referindo ao personagem de Shakespeare, dizemos: “Hamlet, que transpôsa capacidade de mobilização do ator para seus próprios dilemas, não soube lidar com a decisão de vingar a morte do rei seu pai. Pois a arte de bem-viver, que depende das nossas escolhas, é muito mais do que conhecimento adquirido” (BRUCK; SILVA, 2010: 145). Sobre termos importantes no livro, lembro que Wigman discute o talento como algo que não se adquire, mas se possui por si mesmo. Já no segundo capítulo do livro, Wigman discute a linguagem da dança a partir de três elementos essenciais: tempo, espaço e energia. Assim, a dança não é mera visualidade nem só esforço físico e virtuosismo corporal. O movimento cênico ou gesto do intérprete está preenchido por um conteúdo interior ou pensamento. São ambos, conjuntamente, que dão a força da imagem do palco. E como ferramentas mediadoras que potencializam gesto e pensamento, a dançarina usa por exemplo a experiência e sensação. Para ela ainda, aqueles três elementos essenciais transcendem na dança seu sentido usual, equivalendo a um meio- caminho entre gesto e pensamento. A energia não é só uma força que produz o movimento, mas também calor e sintonia entre os intérpretes. Energia é a tradução que escolhi para Kraft, uma palavra de uso extenso no alemão. Então, a energia é o elemento detonador da vida, como já aparece na cena de Fausto de Goethe, onde este busca traduzir o Velho testamento. O livro ainda mostra em muitos momentos como dar forma em dança para ideias e sentimentos precisos. Finalmente, a noção “Eros pedagógico” também encontra usos hoje, como em Anne 40 Bogart, que dialoga com a improvisação de movimento. 41 A LINGUAGEM DA DANÇA Conteúdo O segredo da dança Linguagem da dança Formas da dança Também como arte aplicada a dança cumpre sua função Figura de cerimônia Monotonia em giro Dança da bruxa Paisagem oscilante Clamor Face da noite Pastoral Ritmo de festa Dança de verão Canto da tempestade Canção seráfica Sacrifício Canção do destino Danças de outono Dança de Niobe Adeus e obrigado Dança de grupo e dança coral Pedagogia da dança: carta para um jovem bailarino 42 O segredo da dança Meus amigos gostariam que eu escrevesse um livro. Eles dizem que seria o “livro da minha vida”. O que devo contar? Minha vida? A vida plenamente vivida é algo redondo. É melhor deixá-la seguir e se completar, em vez de desmontá-la em vários pedaços como um bolo de aniversário. Hoje, sou uma mulher velha e, tirando as dores do corpo que sobrecarregam a vida diária, uma velha feliz. E esse é o tempo das “pequenas” alegrias. É doce sentar na escrivaninha, quieta e reconciliada, e deixar os pensamentos correrem livremente, resvalando em sonhos. Os seguindo longe até aí, como quem observa uma ponta de fumaça de cigarro meio azulada. E não mais. De repente, penso em Marcel Marceau, naquele seu estudo maravilhoso em que mostra diante de nós a vida humana em apenas um minuto, nas suas fases de mudança: a juventude, maturidade, velhice e morte. Experimentei todas elas, as estações da vida, e agora caminho para aquela onde no fim está a morte, como grande conclusão da vida. Não tenho medo dela. Porque sempre que a encontrei com sua grandeza imperiosa ou ameaça sombria e impaciente, estava sempre acompanhada pela magnitude do mais além e a majestade daquelas imensidões silenciosas, que nos fazem curvar; mesmo quando à sua mercê dilacerados de dor. Talvez tenha medo do que possa vir antes da morte, da doença e de ficar muito doente e ser um fardo para as outras pessoas. Mas isso também temos de suportar, como tivemos de suportar tantas coisas na vida, que sem dúvida não foram menos difíceis e, contudo, as superamos. Mas dessa última vez com a consciência reparadora de não ter finalmente de começar tudo de novo. Deus sabe, era bom esse ter sempre e poder recomeçar. Espero não sentir falta de nada que me foi tirado ou dado. Mesmo os erros que cometi não posso lamentar. Porque a vida sempre apresenta a conta no final. E a gente tem de pagá-la toda. Não, eu não tenho medo da morte. Ela não é a companhia mais fiel da velhice e sua hora a purificação final, que temos de passar? Olho no espelho. Ele mostra o rosto da minha idade, cheio de rugas e marcas, sulcado, gasto e confiável como uma paisagem, onde se reconhece a si mesmo e não se pergunta mais se lhe agrada ou não. Toda experiência deixou para trás seu rastro. O presente sempre recobriu a impressão anterior, camada sobre camada, e pôs tudo no seu lugar. É estranho pensar que mesmo meu rosto agora ainda vai mudar mais uma vez. E se viver até lá, como será o rosto de uma mulher muito velha? Enfim, estou aqui sentada na minha escrivaninha, tentando decidir o que mesmo devo contar. Viver e experimentar acontece só 43 uma vez. Olhar para trás para o passado, trazê-lo de volta na lembrança é olhá-lo através do espelho do presente e o reconhecer a partir daí. Sempre fui uma fanática pelo presente e apaixonada pelo momento. Por isso não é nada fácil para mim evocar o caminho da memória das imagens, visões e acontecimentos da minha vida. Meus amigos, devo lhes contar a história do “patinho feio”, que milagrosamente virou um cisne? Porque ninguém podia imaginar que aquela menininha sem graça iria virar um dia uma bailarina famosa no mundo todo. O que mais parece mesmo uma metamorfose, quase um milagre. Mas para mim esse amadurecimento não teve nada de milagroso. Para isso levou muito tempo, foi muito difícil, mas também muito consistente apesar de todos os desvios. É claro, eu adoro contar histórias. E poderia muito bem imaginar, quando me vem aqui na escrivaninha imagem depois de imagem, as memórias tão divertidas e coloridas que iriam surgir daí. Mas essa é minha tarefa? Não sou nenhuma escritora e não saberia nunca concentrar personagens e situações num enredo criado livremente e que merecesse um reconhecimento literário. No fundo, teve sempre só um tema em torno do qual meus pensamentos rodaram, como moscas em volta da luz: a dança. Pois a dança, sempre e mais a dança foi o meio de expressão que me foi dado. Aqui pude inventar e criar. Aqui fiz poesia, dei forma e feição para minhas visões, moldei e construí; e trabalhei duro junto ao homem, com ele e para ele. Talvez eu ame a dança tanto assim porque amo a vida: por causa da sua transformação e transitoriedade, sendo sempre capturada de novo pelo seu “morre e se transforma” incansável. Encarar a vida tal como nos aparece, aceitá-la mesmo quando parece insuportável, permanecer fiel a si mesmo e ajudar, sob a “lei que nos criou”, que as mudanças predestinadas no tempo, espaço e forma se realizem em nós – não é esse o amadurecimento que temos de seguir? Viver a vida e afirmá-la no ato criativo de dar forma, elevá-la, glorificá-la? É sobre isso que quero escrever. Para vocês meus amigos, meus alunos e os que virão depois de mim; e para todos vocês que amam a dança. E mesmo se sua mensagem, na singularidade da sua forma (que é revelação), não quer se deixar prender pela fala ou escrita – porque não precisa delas! -, mesmo assim pode-se passar algo daquela felicidade pura e profunda, com que o homem é abençoado, quando em momentos de total plenitude amplia e molda seu campo de experiência. Do mesmo modo que tentei toda minha vida unir a pessoa e a obra, também procurei abrir caminho aos meus alunos para eles próprios e trazê-los até o ponto onde conhecimento e intuição viram uma coisa só e a experiência e criatividade se interpenetram. E quando agora tento descrever algumas das etapas mais importantes do meu trabalho, não é para ser nenhuma cartilha. Mas talvez tenha 44 algo a dizer para um e outro, ajudando a conhecer mais o significado da dança. Seu segredo? Está escondido no sopro da vida, que é também o segredo da vida. A linguagemda dança 17 A dança é uma linguagem viva que é falada pelo homem e diz respeito a ele: uma expressão artística que paira acima do plano da realidade, para falar num nível mais alto, em imagens e alegorias, das emoções mais interiores do homem e necessidade de comunicar. Talvez mesmo a dança peça, acima de tudo, uma comunicação direta sem qualquer rodeio. Porque seu emissor e intermediário é o próprio homem e seu instrumento de expressão é o corpo humano, cujo movimento natural constitui o material da dança: o único material que é seu próprio e do qual dispõe. É por isso também que a dança e sua expressão são tão exclusivamente ligadas ao homem e sua capacidade de se mover com o corpo. Quando essa capacidade não existe mais, a dança se depara com os limites das suas possibilidades criativa e de execução. Parece pouco! Mas nesse pouco se assenta toda riqueza da sua linguagem, em todas suas manifestações variadas e que sempre podem mudar de novo. É certo que só o movimento do corpo não é ainda dança. Mas é sua base elementar e indiscutível, sem a qual ela não existiria. Quando a emoção de quem dança libera o impulso para tornar visíveis suas imagens até então invisíveis, é pelo movimento do corpo, num primeiro momento, que estas se manifestam. E com o movimento, o gesto projetado no espaço ganha sopro de vida na sua força rítmica pulsante. Tal movimento dá sentido e significado para a linguagem gestual, formada e estruturada artisticamente. Pois a dança só se torna inteligível quando respeita e preserva seu significado em relação à expressão natural do movimento humano. Além da interpretação pessoal, que sublinha o gestual do bailarino, está a responsabilidade e obrigação quanto ao seu significado universal, ultrapessoal, que ele não pode mudar à força nem substituir arbitrariamente, sem pôr em grande risco a validade geral da sua mensagem. Assim, não posso dizer “céu” se quero me referir à terra. Como a música, a dança também é chamada uma “arte temporal”. Isso é verdade quando nos referimos às passagens rítmicas mensuráveis, contáveis e que podem ser controladas no tempo. Mas não é tudo! E não seria mais do que teoria caduca querer determinar o ritmo da dança só pelo fator do tempo. 17 Uma versão anterior desse capítulo foi publicada numa revista acadêmica do Departamento de artes cênicas da UFBA. 45 É verdade, a contagem para nós bailarinos se escreve com letra maiúscula. Nós precisamos dela especialmente para coreografar, durante o processo de criação e ensaio de coreografias de grupo ou balés. Precisamos dela como recurso para dar conta da estrutura das duas linguagens artísticas em cooperação aqui, dança e música, e assim equalizá-las uma à outra no seu decurso temporal, as unindo numa compreensão harmônica. Precisamos dela para definir a pulsação, clarear as transições de um tema para outro, para dar os acentos necessários e futuros com precisão e pausas no movimento e respiração. Se conta para tudo! Os músicos contam e os bailarinos contam. E muitas vezes eles divergem na contagem, porque os músicos contam segundo a linha musical, enquanto os bailarinos contam a partir do ritmo do movimento corporal. Como o tempo, senão ainda mais incisivo, o elemento da energia também tem seu papel na dança: o se mover e ser movido dinâmico, em que pulsa a vida da dança. Também poderia chamá-la da respiração viva de dançar. Porque ela é o grande senhor misterioso, que opera, desconhecido e sem nome, por trás e em tudo: que comanda silencioso a função dos músculos e articulações; que sabe como animar e relaxar, excitar e reprimir; que estabelece as quebras na estrutura rítmica e domina o fraseado das passagens de movimento fluente; e que, além de tudo, regula as “têmperas” da expressão na mudança variada do seu colorido rítmico e melódico. Claro, isso não tem nada a ver com um modo de respirar que promova a saúde. O bailarino deve conseguir respirar em todas suas posições e situações corporais. E nisso, quase esquece a respiração orgânica; porque está sob a lei da sua força respiratória, dinâmica e propulsora, que se revela numa intensidade própria ao seu nível de tensão. Quando o bailarino cruza o espaço em passos solenes e medidos, sua respiração calma e profunda dá ao seu balanço e movimentação uma sensação de total autocontrole e plenitude. Já quando se põe, com a ajuda de um movimento ágil e sem pausa, baixando e levantando num estado de excitação febril que toma conta não só do seu corpo mas de todo ser, não tem mais para ele nenhum momento de respiração calma. Antes, ele respira na mesma vibração que o agita como todo. Em quase nenhum outro passo de dança, a força da respiração dinâmica e seu efeito (que intensifica a ação) podem ser tão sentidos como no salto. Quando o bailarino começa a pular, ele aciona rapidamente o fluxo da sua respiração de baixo para cima, subindo pelos pés através do corpo, para então prender o ar, do momento que deixa o chão até atingir o ponto mais alto do seu pulo e quase ultrapassá-lo. Nesses breves segundos de máximo empenho, retendo o ar, ele realmente desafia a gravidade, vira um ser alado e parece voar ou flutuar no espaço. Só na curva de descida, sua respiração volta a circular no corpo, que então 46 relaxa e volta para o chão depois do seu pequeno voo ao alto. Tempo, energia e espaço: esses elementos são a vida da dança. Mas desse trio de forças elementares, é o espaço o verdadeiro campo de atividade do bailarino, que lhe pertence porque ele que o cria. Não o espaço tangível, limitado e limitante da realidade concreta, mas o espaço imaginário e irracional da expansão na dança, que pode apagar os limites da corporalidade e dá ao gesto assim fluido uma aparência infinita, onde este se amplia como raios, torrente, respiro. Altura e profundidade, comprimento e largura, para frente, para o lado e para trás, a horizontal e a diagonal: esses não são só termos técnicos ou noções meramente teóricas para o bailarino. Ele os experimenta mesmo no próprio corpo. E eles viram sua experiência, porque através deles ele celebra sua união com o espaço. Só nessa irradiação espacial, a dança chega ao seu resultado final e decisivo. Só então seus signos fugidios são condensados numa escrita especular legível e durável, onde o conteúdo da dança vira aquilo que deveria e tem de ser: linguagem, a linguagem artística e viva da dança. E agora vamos abaixar um pouco a voz e ser cautelosos! Porque queremos entrar no campo da criatividade, o lugar onde a forma escondida e a forma procurada se circundam silenciosamente, se entrelaçam e esperam numa penumbra de sonho pela luz que chega para dar cor e contorno e torná-las uma “imagem” clara. Quem tivesse pressa em penetrar aqui com a lanterna ofuscante da curiosidade, não encontraria nada além de um torvelinho nebuloso. Porque esse lugar não admite intervenção direta. Ele não responde a exigências concretas. Não sabe nada ainda de estrutura, nem conhece nome ou número. Não se submete a nada nem obedece a nenhum comando. É o lugar da prontidão criativa e um santuário. Por isso vamos abaixar a voz e ouvir o bater e palpitar do próprio coração, o murmúrio e sussurro do próprio sangue, que é o som desse lugar. Ele quer virar canção! Mas suas asas ainda estão presas, ainda lhe falta força para desamarrá-las, levantar voo e se expressar. Então ele se afunda no abismo do anoitecer, se abastece das suas forças e volta, cheio de sonho e imagem, num nível onde pode ser compreendido e estruturado. A capacidade criativa faz parte tanto da esfera da realidade como do campo da fantasia. E têm sempre duas correntes, dois círculos de tensão, que se atraem magneticamente, incendeiam um ao outro e se unem, até que completamente de acordo se interpenetram inteiramente: a prontidão criativa que evoca a imagem e o desejo de agir vibrandoaté um ponto de obsessão, que se apodera da imagem e transforma sua matéria ainda tão fugaz em substância de trabalho maleável - para lhe dar forma final no cadinho de moldagem. Compor quer dizer construir. A obra de arte não cai pronta no colo do artista, nem a ideia aparece assim no sonho. O tema para uma dança pode ocorrer ao bailarino tanto no 47 tumulto da rua como sob a amplidão do céu. A ideia, mesmo na sua concepção, é um presente! Mas a obra de arte é criação, é o fazer artístico pelo qual seu criador tanto é responsável como testemunha. Não têm só os momentos embriagantes de criar imagem, mas também um êxtase do trabalho sério! Quantas coreografias não são abortadas! Talvez porque o minuto “abençoado” foi perdido, ou o querer dar forma logo se esgotou; ou ainda a imagem na imaginação era muito pálida e vaga para ser moldada em substância e tema. Mesmo quando, intoxicados de criatividade, nos acreditamos tão próximos da realização do que tínhamos na cabeça (próximos até que parece precisar só mais um respiro para capturá-lo definitivamente), pode acontecer que o esplendor da sua cachoeira luminosa se dissipe e a luz acesa em nós vira só um brilho efêmero e ilusório: que atrai, seduz, engana... até que some. E eu já não senti, vi e experimentei tudo isso? Me preenchia durante dias, semanas, meses! Atravessava minhas noites e me tomava de dia. Estava sempre lá, clandestino e presente. Não falava para ninguém: o guardava comigo como uma joia preciosa, protegida de qualquer perturbação. Será que era tudo ilusão? Por onde iria começar, como decidir? E se a primeira tentativa fracassa, e então? Manteria a coragem, conseguiria continuar apesar de tudo? Duvidamos e desesperamos de tudo, não menos de nós mesmos, e no fim dá certo. Porque tem uma força, que não para de nos impulsionar e uma voz que não descansa: “Você deve... você deve...” E não é isso também que você quer? Não são essas agitações e impulsos, essas lutas e conflitos sua maior glória, sua maior paixão? “- Eu não o deixo, a não ser que você me abençoe.” Pode acontecer que imagem e forma, experiência e estrutura inflamem uma à outra de modo tão radiante e se interpenetrem tão inteiramente que sua elaboração e trabalho não encontram qualquer obstáculo. Mas na maioria das vezes o material da dança assim fluido é ainda tão confuso na sua abundância tumultuosa, que não permite sua compactação sem atrito até a forma final da composição. E se permite, se a ideia que vem do conteúdo e tema se comprova na luz sóbria do estúdio; se às voltas com a forma é finalizada na composição, então a versão alcançada fica ainda sempre atrás da sua imagem original. O trabalho que se desprende do seu criador sempre deixa algo a desejar ao que foi concebido - e mesmo na alegria pura de criar tem por menor uma gota de melancolia. É triste... já durante o processo de ensaio tem a pergunta terrível: será que vai dar certo? Será que dessa única vez finalmente vai ficar perfeito? E se então é submetido ao público como uma confissão, poderá resistir a essa prova de fogo? Enquanto estiver dentro da esfera do estúdio, está sob minha proteção e é invulnerável! Mas quando foi dado o último 48 passo, quando o gesto definitivo descreve seu risco final e não me cabe mudar mais nada, mas ficar satisfeita com o que consegui - então não só me deparo com o trabalho artístico realizado, mas também sua imagem original pede contas e pergunta: “O que você fez comigo? Eu vim até você embrulhada em cem véus. Todos eles tinham sentido e significado. Você os teceu numa trama, que deveria ser meu símbolo e cópia? Virou a minha cópia?” E se a resposta também fosse um “sim”, hesitante ou mesmo despreocupado: teve de ser “sim”, porque a criatura da fantasia recém-nascida quer viver, deve viver e talvez mesmo possa viver. Então, ainda fica por trás a dura certeza: imperfeito, inacabado também dessa vez. Por outro lado, saber que cada espetáculo que fazemos só pode ser um passo no caminho da perfeição, mas nunca ela mesma, não é assim tão doloroso. Pois de uma camada ainda mais funda e interna surge a certeza na continuidade das forças criativas, que num próximo trabalho são de novo solicitadas, testadas e comprovadas. Diante do portão do paraíso da maior perfeição está o anjo com a espada de fogo e, na sua grandiosa incorruptibilidade, remete os homens que desejam entrar ao seu lugar apropriado na vida. Deveríamos lhe agradecer por isso! Porque seu “não” nos protege da pobreza de uma autossatisfação estúpida e narcisista, de estar cheio de um contentamento muito rápido de si e da megalomania. O desejo de perfeição faz parte de qualquer pessoa artisticamente criativa e acompanha todas as fases da sua vida e trabalho. É para ela um impulso e advertência, placa de sinalização e objetivo. Claro, também posso chegar a um objetivo que eu próprio estipulei. Mas é sempre só mais um, sempre só um através e nunca o objetivo final e definitivo. Se fôssemos super-homens ou mesmo deuses, não precisaríamos lutar pela perfeição. Nós a possuiríamos desde sempre e nem saberíamos. Mas será realmente permitido a um ser humano cruzar o limiar que o separa do território superior e inimaginável, onde se completa perfeitamente? Não sabemos. Nossa imaginação ainda não foi capaz de criar uma imagem visível e válida desse lugar. Como nos seria possível respirar aí, viver e mesmo trabalhar? Nossas estrelas brilham de longe e na escuridão. Elas não são milhões de vezes mais bonitas, sedutoras e misteriosas justamente porque inalcançáveis? O que seria da criação artística sem o desejo, uma grande vontade que não deixa estagnar e abre caminho para o movimento, onde sempre se transformando ela também sempre se renova? Chamamos Goethe de “o olímpico” e dizemos que Beethoven era um titã. Isso os faz quase deuses. Apesar disso, eles permaneceram humanos e seu trabalho não é guiado pelos deuses, mas confiado ao nosso cuidado tão humano. Demos mesmo traços humanos aos 49 deuses e a Prometeu, que acreditou arrogante com toda consciência da sua força criadora se igualar aos deuses, foi negada a realização do acontecimento perfeito. Têm tantas imagens emocionantes e grandiosas, tantos exemplos poéticos e filosóficos reconhecidos que mostram esse eterno desejo do homem pela expressão perfeita! E nunca paramos de questionar. Mas quanto mais nossas perguntas chegam à raiz de todas as coisas, mais e mais elas se tornam sucintas e hesitantes. E nenhum homem encontrou resposta aos seus companheiros para as perguntas finais. Porque nas portas do paraíso da perfeição ainda está o anjo com a espada de fogo, impedindo a entrada. E do seu lado, o gênio (tão bom para o homem), pondo o dedo no lábio com um sorriso inexplicável: até aqui e não mais... O que seria da criação artística se não houvesse o segredo? Por que o potencial criativo não foi igualmente distribuído entre todos os homens? Por que tão poucos são chamados e menos ainda escolhidos? Segredo! Deve-se aceitar e reverenciar isso. Mas no segredo está a promessa. E se o homem criativo sentisse, em algumas poucas mas plenas horas de toda sua longa vida, apenas um vestígio disso: eu acredito já seria abençoado. Formas da dança A dança faz parte das artes da representação. Nesse seu propósito teatral, é confiada ao seu intérprete legítimo, o bailarino. E tal como ele só pode se exprimir nos breves momentos da sua atuação viva, também a dança enquanto realização artística está limitada no tempo e subordinada ao presente. Quando cai o pano, não apenas desaparece o poder de projeção da apresentação de dança, mas o próprio espetáculo parece se dissolver e apagar diante dos olhos do espectador. Verdade, pode-se conservá-lo num filme. Mas mesmo assim não é, no fim das contas, mais do que só a repetição mais fraca da sua sequência cênica.Para relembrá-lo depois na sua concepção e estrutura de composição, não se pode nem ao menos consultar um livro, como se faz com uma peça teatral, ou a partitura e o arranjo para piano, como na ópera. A coreografia vira imediatamente recordação, que só pode ser evocada e preservada na mente até certo ponto - e então desaparece mais rápida ou lentamente conforme o nível do trabalho e qualidade da sua execução. Muitas vezes me perguntaram se a transitoriedade das minhas próprias coreografias não me é muito dolorosa. Bem, posso de qualquer modo olhar para trás para um número impressionante de solos, ciclos de dança, danças de grupo, coreografias teatrais e obras de dança coral, autenticamente compostas e apresentadas com sucesso. Mas tenho de admitir que nunca lamentei realmente sua perda. Elas simplesmente viraram passado! A 50 singularidade fugaz que receberam ao serem criadas e a transitoriedade, que está na própria essência da dança, sempre me pareceram como algo ditado e desejado pela natureza. Então nunca quis, por exemplo, dançar de novo mais tarde as danças da minha juventude e é provável também que jamais o pudesse. Porque coisas diferentes e mais essenciais tomaram seu lugar nas várias fases da minha vida, tornando desnecessário (na verdade supérfluo) voltar ao passado. A dança quer e deve ser vista. Só quando vista ela pode ser uma festa para os olhos e, na sua maior perfeição, uma experiência emocionante, sedutora e prazerosa. Não tenho de enfatizar que o primeiro de todos os pré-requisitos para tal impacto, arrebatador e de longo alcance, é o talento para dançar: um presente da natureza, que pode ser mesmo despertado, encorajado e desenvolvido, mas nunca forçado e menos ainda criado. Nem preciso dizer que se deve ter aprendido o ofício por completo e dominá-lo; tanto mais que as exigências de corpo e técnica impostas ao bailarino são extraordinariamente grandes. É certo, lá onde a técnica é adorada em si mesma, a arte deixa de existir. Terpsícore cobre a cabeça e abandona silenciosa a criança do seu amor, a quem recusa a partir de então a graça de seus dons. Os talentos na dança e as nuanças entre si são múltiplos. Em geral, pode-se reconhecer dois tipos de talento: a saber, o talento criativo e o instrumental. No caso ideal, ambos ocorrem numa pessoa, cuja fantasia criativa, sentido estrutural, destreza primorosa e irresistível habilidade de atuar acham sua sedimentação no caráter voluntarioso da sua escrita artística e pessoal. Também na dança vale o dito dos poucos que são chamados e dos menos ainda que são escolhidos. E realmente sempre se tem de novo as poucas personalidades extraordinárias, os muito talentosos e abençoados, que dão à dança, no resultado da sua força criativa e viva, os estímulos para que seu valor se renove, contribuindo para seu mudar de estilo e forma, que é sempre e de novo necessário. Olhando para trás para a história da dança europeia, brilham em cada uma de suas épocas como constelações de estrelas os nomes dos grandes e maiores bailarinos e coreógrafos; ao menos a partir de quando se passou a ver a dança como arte. Suas realizações, então cheias de vigor e ao mesmo tempo prenhes do futuro, viraram exemplo e medida frequentemente por gerações afora. E, contudo, a herança vinda da tradição teve por sua vez de ser remexida e desmantelada assim que surgiu uma personalidade da dança, sabendo dar ao até então conhecido o rosto remodelado da sua própria época. Têm bailarinos com talentos geniais, que encontram sua maior satisfação no solo. Isso não quer dizer pobreza nem limitação. Quando muito, mostra que não lhes é dado dirigir 51 seu potencial criativo para todas aquelas vias cheias de ramificações de que as grandes formas de dança se alimentam. Mas que riqueza o solista afortunado tem para dar! Quanta magia pode sair dele, quando consegue com seu programa uma interpretação arrebatadora e um fim cenicamente brilhante. O solo é a forma mais concentrada de expressão na dança. Se seu tema tem um caráter dramático, se diverte com alegria e riso, se formulado abstratamente ou definido pela pantomima, se contemplativo ou resignado, se cheio de grande júbilo ou triste até a morte: sempre parece se passar diante dos olhos do espectador algo como um diálogo, onde o bailarino conversa consigo mesmo e com um parceiro invisível. Experimentei essa parceria comigo mesma, na sua forma totalmente irracional, centenas de vezes e toda vez ela me fascinava de novo. Me perguntei muitas vezes no que realmente ela consiste e o que a suscita. Em algumas das minhas danças, como por exemplo Diálogo ou Canção de amor, estava claro que recorri de antemão a um parceiro, embora invisível absolutamente presente na minha imaginação: qual fosse, do amante ideal, que tomou o lugar do amante real. Ele estava lá também em Conversa com o demônio. Mas tinham outros temas e formas mais abstratas em que não se podia reconhecê-lo de primeira. Ainda assim ele estava lá. No quadro de um ciclo de solos, cujas seis danças foram reunidas sob o título Sacrifício, estava também Chamado da morte. Ao conceber essa dança, não parti de modo algum da ideia da morte! Essa relação (e com isso o título) só se estabeleceu na última fase da sua configuração. Apenas, que desde o começo tinha ali algo como um “ser chamado”, que vinha lá de longe, emergindo do fundo escuro numa exigência inexorável. Isso impelia o olhar a baixar para a profundidade, me fazendo estender os braços, tensos como uma barreira erguida contra uma força violenta. Quis me precipitar à frente, me lançar contra essa força! Mas logo depois dos primeiros passos, parei como se transpassada. Então veio uma suspensão, que me tomou quase como uma ordem mágica. O que era? Quem era que me chamava e não me deixava avançar? Uma voz, um personagem, uma lembrança? Nada disso. Mas tinha ali um polo oposto, um ponto no espaço, que retinha olhar e pé. Mas essa tensão, muito provavelmente criada por mim mesma e refletida no espaço, forçava o corpo num giro repentino, fazendo as costas curvarem numa profunda reverência e onde os braços se estendiam de novo - dessa vez sem ajuda e desesperançada. Então tal força se pôs sobre mim, se ampliando numa imensa sombra, frente à qual não tinha escapatória. Mas também nenhuma fraqueza! Pois não queria de modo algum deixá-la; mas sim penetrá-la, entende-la, conceitua-la e vivenciá-la. Faixas pretas e enormes começaram a acenar e farfalhar. Não eram nem sinistras nem ameaçadoras. Eram muito antes 52 de uma magnitude sóbria e flutuante, e sob seu ritmo os pés antes presos puderam evoluir em sequências de passos, que iam longe. Então a dança se desenvolveu numa troca de poses estáticas e monumentais e percursos por todo o espaço. Pergunta e resposta! E ambas vindo ao mesmo tempo de mim. Virei “aquele que chama” e “o que é chamado” numa pessoa. Num certo trecho da dança comecei a gelar. E de repente soube: aqui a morte fala com você. Não minha morte e nem a morte de uma outra pessoa. Era muito antes como se uma lei quisesse se impor sobre mim, com a qual nunca tinha me deparado até então. E cresceu em mim um primeiro entendimento daquilo que está por trás da vida. A primeira compreensão de tudo que é irrevogável, de tudo que busca um fim e extinção. E então a dança terminou na aceitação consciente e reconhecimento dessa grande lei, que paira sobre todos nós e chamamos de “morte”. Essa parceria invisível também funciona para a dança pantomímica e ainda aí continua sendo a mesma, quando, através da transformação do bailarino num personagem, que dá a este corpo e contorno claros e sólidos, sofre certa definição do meio e situação. Mas no momento em que o antagonista imaginário ganha forma e confronta o bailarino como realidade nasce o duo, a dança a dois. Isso desloca o evento da dança parao plano do enredo e destina a cada parceiro, nessa disputa de agora em diante personificada, a interpretação de um papel, que é para ele consequência do enredo. Evidentemente, essa parceria efetiva não precisa estar restrita ao duo. Pode-se ampliá-la para todas as formas da dança, da de câmara à de grupo. Os talentos instrumentais são no âmbito da dança a maioria. Quer seja sua capacidade de criar limitada, eles são para o coreógrafo e diretor o material plástico de mais alto valor, os instrumentos ideais de expressão, nos quais a configuração das suas ideias coreográficas se reflete de modo mais puro. Durante a comunicação direta de pessoa para pessoa, do criador para o executante da dança se dá algo de rara excitação. Embora a forma dada permaneça a mesma, embora sua significação em nada se altere, se experimenta sim no contra reflexo instrumental do bailarino uma transfiguração! Como por eco, que devolve palavra por palavra o apelo emitido. Só o timbre que se modificou e parece chegar de uma outra dimensão. Do mesmo modo, a concepção artística também muda na sua versão instrumental e vira em certa medida puro produto cênico, que faz esquecer quem é mesmo seu autor. Quantas vezes experimentei eu mesma esse processo fascinante! Quanto não sofri quando minhas próprias ideias ficavam aquém do que prometiam quando as concebi. Mas também quanto não me permiti festejar quando via que podiam se ampliar no espetáculo. 53 Tenho de agradecer profundamente aos inúmeros bailarinos que trabalharam comigo durante meu longo período criativo. Pois eles foram e são os que colaboram para a vida própria das minhas concepções coreográficas e justificam, em primeiro lugar, a obra como tal por suas interpretações abnegadas e inspiradoras. Também o trabalho coreográfico (a invenção, plasmação e montagem das grandes formas da dança) pressupõe um tipo especial de vocação. Apesar de possuí-lo eu mesma, quase não sei como o analisar. É a visão interna em que se apresenta o tema? É o pensar enquanto composição espacial? O prazer artístico de modelar as figuras em movimento que povoam o palco? Ou é simplesmente uma comichão por um trabalho proposto; o estímulo a partir de uma dada música, que aciona o ímpeto criativo? Ah! Essa necessidade de criar, tantas vezes amaldiçoada mas mais amada que tudo. E que parece às vezes estar secretamente à espreita como um predador - para então atacar de surpresa quando menos se espera! Em 99 de 100 casos, o coreógrafo é autor e diretor numa só pessoa. Sua função requer: conceber, planejar e construir – e isso sempre em vista da encenabilidade da obra, sua recriação pelos seres humanos dançantes, que viram sob sua condução uma orquestra de corpos em movimento. Na luta pela ideia e forma, mensurando as forças opostas que daí resultam está a verdadeira realização do coreógrafo. O fanatismo do seu querer artístico o compele a levá-la a cabo. E o feito alcançado lhe traz uma felicidade quase submissa, que acha sua glória na organização cênica na apresentação do trabalho. Solo, dança de grupo e dança coral: esses são os três grandes conjuntos de expressão e criação em que a dança se desenvolve e faz valer. Como gênero, eles são sem dúvida diferentes um do outro; mas na formulação dos temas em nada se diferem. Também isso experimentei em mim mesma mais de uma vez. Assim, tratei por exemplo do tema da “errância” numa gradação tripla: uma vez como solo, a partir da ideia do caminho predestinado de um homem solitário. Uma segunda vez como dança de grupo, pensando em muitas pessoas, individuais e diferentes umas das outras, que se encontram após terem iniciado seus caminhos independentemente, se unindo no que falta ainda percorrer. E uma terceira e última vez como evento coral, que remetia no seu simbolismo às experiências da guerra, em especial às do período pós-guerra – ao destino dos que não têm pátria, que foram postos todos juntos no seu duro vagar, suportado por uma crença inquebrantável que seguramente lhes promete uma nova pátria e novas raízes. Nem o número de bailarinos nem o próprio tema determinam a forma coreográfica. É muito mais a orientação interna do criador que dá à dança o caráter definitivo. Quando recebi a incumbência de montar A sagração da primavera (Le sacre du 54 printemps) de Stravinski, fiquei embevecida. Pois amava essa música mais que tudo e o material parecia também corresponder às minhas possibilidades criativas. Fui alertada, é verdade, das dificuldades da obra e seus fracassos coreográficos até então. Mas o que isso quer mesmo dizer quando se está “possuída”? E então me meti a trabalhar entusiasmada, criei personagens e cenas isoladas, me perdi em detalhes coreográficos interessantes e intrincados, que pareciam adequados e mesmo necessários tendo em vista a música. Mas quanto mais penetrava nesta, mais fui ficando incomodada. Até que me dei conta: quanto mais simples, melhor. Pois será que poderia dizer mais do que Stravinski já tinha expressado na sua grandiosa música? Com toda certeza, não! Assim, tive de deixar a condução para a própria música, submetendo a coreografia exclusivamente a ela. Isso, é claro, significou abandonar radicalmente qualquer forma de ilustrar com a dança as sutilezas e colorações da música. Mas o trabalho como um todo lucrou com isso. Pois ao simplificar a coreografia, resultando então numa grande dança coral, ela se coordenou à peça musical como sua estrutura espacial em movimento e onde ela pode agora viver e se afirmar como “evento cênico”. Também como arte aplicada a dança cumpre sua função A ópera, opereta e teatro usam a dança como entreato, como elemento que cria atmosfera ou ainda um complemento, que embeleza e areja a ação cênica. Só em alguns casos – como nas óperas de Gluck, que rompem com a tradição – a dança está prevista de antemão como parte orgânica do enredo musical estipulado. Como vendi minha alma à dança, me coube dar a ela um lugar em toda encenação musicada que fosse além do usual “interlúdio” dançado! Claro, não se pode generalizar. Mas as obras teatrais de Gluck, Händel e alguns outros compositores, que como tais tendem antes para o oratório cênico do que para a ópera popular, possibilitam um aprimoramento muito proveitoso das suas cenas por meio da dança. E então busquei, com efeito cênico extraordinário, passar o coro (cênico) de cantores do palco para o fosso da orquestra; e no seu lugar pus o coro dos bailarinos. Sua função: dar forma ao espaço e criar uma atmosfera. Sua mensagem: trazer ação ou contemplação. Os cantores solistas que sobraram no palco então se beneficiaram de um fundo dramático ou lírico em movimento, contra o qual se destacavam com mais força. Pois como personalidades com perfis individualizados criavam um contraste efetivo e conscientemente obtido com o caráter expressivo do coro, ritmicamente encadeado e acuradamente estilizado. No último ato da ópera Alceste de Gluck, o reino da morte foi construído só com meios da dança. Era um espaço infinitamente sombrio e ao mesmo tempo ameaçador, que recebeu sua estrutura arquitetônica através de imagens congeladas de bailarinos, como pedras 55 totalmente cinzas e vida rítmica dos grupos de figuras que se moviam feito sombras, atravessando e envolvendo aquele espaço como nevoeiro. Sua eficácia especial, que se deu só pelo uso da dança, se assentava na irrealidade da sua metamorfose, na solidão quase mortal de uma paisagem perdida ou esquecida, que se mantinha inexoravelmente distante de qualquer nível de realidade humana. Chamada e exortada por esse espaço de formas visionárias, Alceste cruza o limiar que a separa para sempre do domínio da vida. Admitida no seu reino pelo deus da morte, guiada por ele e protegida das sombras que a perseguem de todos os lados, é levada passo a passo e como numa crescentetransparência da corporalidade para seu destino: a extinção da sua própria vida, que ela sacrifica voluntariamente para salvar e preservar a de um outro, do homem que ama sem limites. Figura de cerimônia Trouxe para casa de uma turnê nos Balcãs uma canção, que um músico húngaro me deu depois de um sarau em Budapeste. Um cristal límpido e sonoridade caprichosa, que era totalmente dançante e pedia para ser coreografada. E como tão frequente, quando algo me ocupava a mente e queria ser expresso, me fechei no meu quarto dourado, deitei a cabeça no gongo côncavo siamês, que soava suavemente e escutei meu coração. Até que desse mergulho surgiu uma pose, que se resolveu no gesto estilisticamente correspondente e com ele um primeiro passo cuidadoso, que liberou o corpo agora desperto no espaço. Mesmo que o motivo encontrado fosse tão insignificante, ele se impunha. Comecei a trabalhar. Mas foram necessários desvios, até que do motivo básico e seu desenvolvimento através do movimento emergisse a “figura de cerimônia”. Assim, me incomodava que os pés pudessem se mover com toda liberdade. Então busquei um jeito de os restringir ao andar e ainda deixar o espaço, visivelmente limitado, que eles pediam. Algumas tentativas falharam. Até que tive a ideia de costurar um arco de madeira colorido, desses que as crianças usam na rua para brincar, na bainha da minha saia larga de ensaio. E olha só: se criou uma forma de sino e dentro dela o movimento ficou no tamanho certo. Cada passo por menor fazia o sino balançar. E tudo bem. Mas qualquer tipo de intensificação do passo o fazia balançar demais e isso já não era bom. Estava claro que o ritmo dos pés tinha de estar de acordo com a curva da forma de sino em movimento, que no seu crescendo foi a deixando mais e mais marcada. E dentro disso pose e gesto tiveram de se sincronizar. O personagem cerimonial começou a se desenhar e se rendeu a uma unidade de estilo sem compromisso. Aí eu não parecia mais ser uma força 56 modeladora, mas só o órgão executante. Que coação me impus! Que tortura me forçar a capacidade de expressão (que extravasava toda hora) a uma forma absoluta, que ganhava sua própria independência! E ainda assim a anulação da pessoa nunca era suficiente. Porque tinha também a fisionomia humana, que apesar da sua imobilidade disciplinada trazia os traços de Mary Wigman e não queria se subordinar assim de graça à regularidade que se impunha da “figura de cerimônia”. Que fazer? A única saída, o único exílio possível acabou sendo a máscara. Pedi ajuda para um jovem fabricante de máscara, que no meu grupo de alunos já tinha usado máscaras japonesas do nô. Todo dia ele sentava num canto do meu estúdio e observava a figura que surgia da dança. Ele como se projetava nela. Então sumiu nas florestas de Moritzburgo para procurar a madeira certa para o esculpir. A máscara que ele trouxe era como a tradução demoníaca do meu rosto. Me apaixonei logo à primeira vista. Mas quando pus, tive uma sensação estranha. Ela me incomodou ao invés de tranquilizar. Ela enfatizava minha pessoa, enquanto devia eliminá-la. Meu jovem fabricante sumiu de novo e me deixou cheia de apreensão. Como seria a segunda versão da máscara? Quando ele cuidadoso ma entregou, meu entusiasmo não conheceu limites. Aqui estavam as feições que a “figura de cerimônia” tanto esperara! A madeira de fibras muito delicadas, esculpida feito fina porcelana e encantada numa forma oblonga, que apenas sugeria os traços humanos. A boca e sobrancelhas em pinceladas cinza- azuladas sobre uma base em tons de marfim. Duas fendas estreitas para os olhos. Mais nada! Mas mesmo nessa abstração tinha ainda um traço do rosto pessoal da dança. Usar a máscara foi uma tortura. Ela ficava no rosto como uma tigela rasa, como uma segunda pele e suas feições tiradas da madeira ficaram marcadas no meu próprio semblante. Quando a tirei depois de dançar, tive de constatar que ela tinha se identificado comigo (ou eu com ela), a tal ponto que me veio um medo de não poder me livrar do meu rosto mascarado nunca mais. Para poder enfim respirar, tinha sempre de tirar a máscara do rosto durante o aperfeiçoamento da dança. Senão iria sufocar. Seu único orifício, o único suprimento de ar consistia nas duas fendas estreitas dos olhos, que não deixavam ver nada, mas só perceber se se movimentava no claro ou no escuro. Para não correr risco no palco, me vi forçada a circunscrever os trajetos espaciais, em si muito reduzidos, até uma exatidão de centímetros. Tortura também na total disciplina! Mas que alegria, que triunfo que se tenha conseguido depois de tudo e que a figura de dança, que se autoenaltecia, transbordando em exotismo, nobre e cumprimentando inacessível de longe, pôde se impor vitoriosa no palco! 57 Monotonia em giro O gongo chinês tinha seu próprio quarto, onde era o centro que controlava tudo. Tinha a forma de uma cuba de bronze, como uma barriga gorda, que não parecia ter poderes mágicos. Para descobrir seu segredo, você tinha de saber as palavras mágicas que o fariam soar. A sério! Tinha algo fascinante e encantador no gesto de mão humano que dava o tom, infinitamente cuidadoso, e devia ser conduzido aí com toda convicção. Não se produzia o tom batendo com a baqueta, mas através do movimento lento e em círculos contínuos de um bastão forrado de couro, tocando a parte interna da borda superpolida. O mesmo que fazemos quando queremos tirar som de uma taça de vinho. E tal como a taça só emite o tom quando ela toda vibra, também precisou de um tempo para que o rumor grave do gongo começasse a sair do seu prato de metal. Todo o quarto parecia esperar numa tensão peculiar pelo crescimento desse som. Eu também esperava com todos os sentidos, como se fosse aparecer um fantasma a qualquer momento. Mas então veio o inesperado! Não foi o corpo de bronze do gongo que começou a soar, mas o quarto que estremeceu. Foi como se a terra abrisse e abraçasse tudo com seu hálito quente. De todos os lados, em todas as direções me invadiram um cochicho e sussurro sedutores. O ar parecia vibrar, luzes opalescentes dançavam de um lado para outro e ondas de calor cobriram o quarto uma depois da outra. Senti que presenciava um momento de nascimento. Pois do murmurar e sussurrar, do zunir e tremeluzir surgiu o som, que livre de toda impureza vira tom. Ele seguiu seu caminho numa beleza impecável, se completando numa rotação sem fim. Cheio, quente e negro, era a voz do abismo, brincando viva em todas as modulações. Com uma insistência de tirar o fôlego, cresceu até sua força máxima; e virou bronze, que ressoa e adere de modo que a própria pulsação do sangue parecia determinar o ritmo das suas rotações vibrantes. As paredes rodavam, o teto rodava e o chão também rodava. O que era som, espaço ou movimento? E quem saberia as palavras mágicas que o fariam parar? De onde viria a libertação desse estado, que era dor e felicidade ao mesmo tempo? O tom por si saiu vitorioso. De repente, pareceu parar numa calma absoluta e a ordem natural das coisas, como sob pressão de um comando majestoso, voltou mais uma vez. E se pôde se reencontrar: respirar, sentir e ver de novo, e ser testemunha de um adeus comovente. Assim como apareceu, também foi embora. E talvez tenha sido isso o mais bonito: ver como o tom que nasce da terra some na porta secreta de onde saiu; como ele volta para o centro da terra, que se fecha sobre ele e o protege. O que ele deu de volta foi a suavidade e 58 doçura de um silêncio completo em si mesmo. Se quereria deitar aí, dormir e sonhar. Sei que essa experiência ressoou em mim um bom tempo e devo muito a ela – o que só vim a perceber depois. Também Monotonia em giro (um solo da coreografia de grupo A celebração) deve sua origem a essa experiência sonora, que o gongo chinês trouxe. Só muito depoisda sua concepção, percebi com certeza quão profundamente essa dança se enraizava nessa experiência. O solo me acompanhou em várias fases do meu desenvolvimento artístico de 1927 até 42 e virou de certo modo o antecessor de todas as danças em giro criadas depois por outros bailarinos e bailarinas. Nunca senti necessidade de modificá-lo nem o abandonar, o deixando para o passado. Estava tão segura dele, que mesmo arrancada do mais profundo sono poderia tê-lo dançado, sem erro nem hesitar sequer um minuto na sequência das formas complexas da dança. Apesar disso tinha medo dele! E sempre que me preparava para dançá-lo, nos segundos entre entrar no palco e o barulho das cortinas que se abrem, era tomada por um tremor que só com dificuldade conseguia acalmar. Será que a razão desse medo estava em saber que me entregaria de novo para morrer uma daquelas mortes, singularmente irreais, que a obra de arte que é dança e corpo exige do seu executante, o bailarino? Era como se tivesse de partir para um caminho perigoso, cujo fim não conhecia e de onde não sabia se iria conseguir voltar. Só depois do primeiro cumprimento solene, depois dos primeiros passos hesitantes e aquietados, me acalmava de novo e me vinha daí o sentimento de algo inevitável, que significava na sua própria lógica se livrar de uma carga de que tudo parecesse pessoal demais. A forma musical dessa dança era a mais simples possível. Se resumia ao acompanhamento das sequências coreográficas. Piano e tambor: um breve motivo orientalizado em constante repetição e caracterizado por dois acentos alongados. Junto disso, os toques, as batidas excitantes e sem intervalo, e a insistência da percussão abafada do tambor, monótonos, penetrantes - só mudando tempo e volume conforme o ritmo da dança. Sob as passadas largas e sobre os gestos dos braços em círculos ritmados, o grande círculo do espaço se estirava como um arco, se estreitando em espiral e se fechando sobre aquele um ponto, que foi chamado centro. E que se tornou e se manteve como centro. Aí não ocorreu mais nada além de um giro sem fim em volta do próprio eixo. Fixo naquele mesmo ponto e rodopiando na monotonia do movimento em giro. Se perdendo gradualmente nela até os giros parecerem se desprender do próprio corpo e o entorno começar a rodar. Não mais você próprio se movendo, mas sendo movido. Sendo o 59 próprio centro, o polo sereno no torvelinho das rotações. Arco e cúpula: nenhum céu aberto sobre mim - sem direção, sem objetivo. Circulando e rodando num subir e descer em espiral - sem começo nem fim. Um leve balanço, os braços estendidos - cheia de dor e alegria. Se intensificando de novo num desejo autodestrutivo, em fluxo e refluxo e retrocedendo - mais intenso e rápido, sempre mais rápido. O vórtice me tomou e as águas sobem. Sou arrastada para as profundezas. Ainda mais intenso e rápido, sendo perseguida, acossada e abatida. Nunca mais vai acabar? Por que ninguém diz as palavras de redenção, pondo fim a essa loucura? Numa última e desesperada exortação pôde-se retomar o controle do próprio querer. Um espasmo atravessa o corpo, o forçando a ficar quieto no instante da volta mais rápida. Esticado para cima, é elevado sobre a ponta dos pés com os braços levantados, agarrando um apoio que não existe. Uma pausa sem respirar por uma eternidade, mas que dura só uns segundos. E aí o se deixar ir repentino e a queda do corpo relaxado nas profundezas, só com uma sensação ainda viva: a de descorporização. E um desejo: nunca mais precisar levantar, poder ficar assim deitada por toda a eternidade. Mas lá estavam as pessoas, o público, aplaudindo depois de um breve silêncio, de um átimo. Tinha aprendido a me disciplinar. Se a sala girava; se minha cabeça zumbia, o coração batia feito louco e a respiração ofegava – no minuto em que a cortina voltou a subir, tive e quis estar ali de novo. E pude agradecer. Mais uma vez tinha me dado bem. Tinha escapado por um triz. Dança da bruxa Enquanto arrumava um armário na minha escola, me caiu nas mãos uma peça de brocado velha e surrada. Tinha servido de estudo de figurino para três gerações de alunos e agora mostrava todos os traços da sua desintegração final. Já ia a destruindo, quando de repente lembrei o que tinha sido uma vez: o figurino da Dança da bruxa, que fez parte de um dos “grandes” solos da minha carreira. Me vejo de novo na loja de seda suíça, olhando fascinada para o esplendor que radia diante de mim. Do fundo de seda vermelho acobreado, brilhavam em ouro e prata as formas esboçadas e arrojadas do ornamento de metal, atravessado por linhas pretas: provocante, selvagem, bárbaro. Fiquei como hipnotizada e comprei o tecido contra minha vontade. Pois custava uma pequena fortuna e sabia muito bem que não teria nenhum uso para ele. Só tive um pouco de remorso. E assim a peça de luxo foi para a gaveta de tecidos do meu armário de figurino, onde ficou escondida dos meus olhos 60 durante anos. Criei novas danças solo e de grupo, a série de personagens de Visões foi concebida e desenvolvida. O ímpeto criativo me tomava de novo. O que ele queria, para onde ia me levar não estava muito claro ainda. Tinha só uma inquietação e um tipo de voracidade diabólica nas mãos, que se afundavam feito garras no chão, como se quisessem criar ali raízes. Fiquei a ponto de explodir e perto do desespero. Mas parecia ser possível dar forma ao que me afligia tanto! Às vezes, me fechava à noite no estúdio e me provocava num delírio rítmico para me aproximar do personagem, que pouco a pouco se fazia sentir. Já dava para perceber como tudo apontava para uma figura de dança claramente definida. A riqueza das ideias rítmicas era esmagadora. Mas alguma coisa se opunha a sua clareza e ordem, e forçava o corpo mais e mais a uma posição sentada ou de cócoras, onde as mãos ávidas se apoderavam do chão. Quando voltei uma noite para meu quarto profundamente remexida, meu olhar encontrou o espelho. O que este refletiu foi a imagem de uma possuída, selvagem e dissoluta, repugnante e fascinante: o cabelo despenteado, os olhos bem fundos nas suas cavidades, a camisola desalinhada e o corpo parecendo quase sem forma. Ali estava ela: a bruxa. O ser arraigado à terra, em instinto desenfreado, numa sede de viver insaciável, fera e mulher juntos. Tremi diante da minha própria imagem, da exposição desse lado do meu eu que nunca tinha deixado aparecer com tal nudez desavergonhada. Mas no fim das contas não tem um pouco de bruxa escondido em todo ser 100% feminino, tenha essa origem a medida que tiver? Só precisava domar essa criatura elementar, moldá-la e trabalhá-la no próprio corpo como uma escultura. Era maravilhoso poder se entregar ao desejo pelo mal, se embeber de forças que só debilmente ousam se manifestar sob nossa fachada civilizada. Mas tudo isso deveria ser submetido à lei da criação, lei que tinha de se basear na essência e caráter da forma da dança, para defini-la de uma vez e para sempre numa inevitável correspondência àqueles. Tive de reconhecer isso e ser extremamente cuidadosa para não enfraquecer nem frear o impulso criativo original no processo de dar forma. A força, a grandiosidade de toda arte criativa não está nisso: de que ela própria sabe forçar mesmo o caos a uma forma? Forma que como ideia, símbolo e metáfora amadurece por assim dizer numa segunda natureza, para se afirmar como obra de arte e se elevar? A forma artística não é um fim em si mesmo, não é feita para deixar frio e rígido o material em fermentação de onde surge. Ela é o recipiente que se reaquece e incendeia sempre 61 num conteúdo vivo até a fusão recíproca estar completa. E a partir daí só o conjunto dos acontecimentos artísticos nos fala. Meu personagem da bruxa também teve de ser trazido até essa unidade e com isso ganhar seu perfil numa manifestaçãoplástica e exterior que era dele. Caí em mim: a peça de brocado! Ela não tinha na sua beleza bárbara, no seu despudor suntuoso algo que combinava com o caráter rebelde da dança? E além do mais tinha a primeira máscara de Figura de cerimônia, nunca usada, cujos traços eram a tradução demoníaca dos meus próprios. De repente, percebi que o tecido e a máscara se completavam; e por isso apenas tiveram de esperar tanto tempo para voltar do exílio e, como figurino e máscara, dar então à Dança da bruxa sua imagem característica e cênica. Sua criação foi mais rápida do que tinha imaginado. Os motivos encontrados se encaixaram sem brecha e resistiram às exigências de composição. Só a máscara me fez quebrar a cabeça. Totalmente oposta à máscara de Figura de cerimônia, que mantinha sua expressão neutra e intocável em todas as etapas da dança; oposta também às figuras em máscaras larvárias da Dança fúnebre (que apareceu mais tarde como dança de grupo), a máscara da Dança da bruxa tinha vida própria. Cada movimento do corpo evocava uma mudança na expressão do rosto; dependendo da posição da cabeça os olhos pareciam abrir ou fechar. De fato, mesmo em volta da boca (sugerida só por umas pinceladas do pincel) parecia às vezes se esboçar um sorriso, que na sua insondabilidade lembrava a figura da Esfinge. Também o corpo, oprimido pelo peso, tinha algo da qualidade de um animal de tocaia da imagem da Esfinge enigmática, mesmo se só por alusão. “Guarde o segredo...” Que descoberta! Pois incorporando esse elemento, que ficou claro pelo gesto de advertência cobrindo a boca, no jogo de pergunta e resposta entre um fundo distante na penumbra e a ação superiluminada em primeiro plano, o caráter da dança em si tumultuoso achou seu polo oposto correspondente, pelo qual eu tinha procurado em vão por tanto tempo. Só agora a Dança da bruxa estava realmente consumada. Acho que Dança da bruxa foi o único dos meus solos que não me fez tremer de medo do palco antes de dançar. Como amei minha excitação nesse mundo expressivo! Como tentei intensamente a cada nova apresentação me sentir de novo no estado criativo original, e daí executar sua forma estimulante, de onde ela tinha saído! Paisagem oscilante O céu ficou nublado. Tinha dado um forte temporal e as asas abertas num voo nas alturas pareciam querer perder envergadura. O que mais me abalou foi a dissolução da minha primeira companhia, cujos 62 integrantes sem exceção tinham passado pela minha escola, e que acabou sendo necessária. Em cinco anos de trabalho, consegui deles e com eles um corpo instrumental que se tornou exemplar em todos os aspectos. Tínhamos produzido juntos muitos e diferentes tipos de programa (o último e mais bonito foi A celebração) e estávamos incrivelmente entrosados uns com os outros. Tínhamos feito várias turnês, tínhamos passado juntos dias bons e ruins. E aonde íamos, dentro ou fora da Alemanha, preparávamos e conquistávamos terreno para a “nova dança alemã”. Agora, aqueles que me eram fiéis estavam espalhados aos quatro ventos e com eles também se foi meu acompanhante musical de tantos anos. Foi uma separação difícil, que ao mesmo tempo pôs fim aos meus primeiros dez anos de atividade como artista independente. E mais de uma vez quase perdi a coragem diante do trabalho duro de começar do zero de novo. Mas aí o céu pareceu querer clarear mais uma vez. A nova geração começava a mostrar resultado. Então pude ousar me atirar ao primeiro grande exercício coral da minha vida: a coreografia das cenas de dança, altamente dramáticas, de Monumento aos mortos - uma obra de Albert Talhoff, que seria apresentada um ano depois (1930) em Munique. Assinei o contrato para minha primeira grande turnê na América. Por meios oficiais e privados me foi assegurada uma grande quantia em dinheiro, que tornaria possível montar uma nova companhia. Tínhamos realizado com sucesso um curso “internacional” de verão em Dresden e os alunos da minha escola de nível avançado tinham todos sem exceção passado no exame final. Então podia sair de férias entusiasmada e sem qualquer preocupação. A viagem foi no carro de um amigo para o sul da França. O sol brilhava, o mundo era vasto e a vida maravilhosa! Era alta estação: o verão! Mesmo a bem leve melancolia, que antecipa uma despedida iminente (e também acompanha qualquer outra experiência de beleza), não significava tristeza. Muito antes se juntava para reforçar essa alegria de viver. E cada dia novo parecia confirmar esse sentimento. A paisagem se desdobrava: extensões planas com a faixa brilhante da estrada se desenrolando diante dos olhos; subidas e descidas íngremes; vales de rios em leve ziguezague; grandes lagos cercados por cadeias de montanhas; o golfo de Biscaia; os Pirineus; o jardim fértil da França: a Provença - Carcassone, Lourdes, Marselha; a costa do Mediterrâneo. Sempre em mudança, sempre em transformação, mas nunca sem descanso, nunca apressada. A solidão era tão boa como estar junto era harmônico. Estava muito feliz. Pois era o tempo das promessas e floração – também da minha floração. Paisagem oscilante: assim chamei o ciclo de solos que surgiu como resultado 63 imediato dessa viagem de verão. Imagem e forma se combinaram sem muito rodeio e ganharam a composição certa em rápida sucessão. As danças formaram um buquê de flores colorido, que captava e incorporava a luminosidade dos dias alegres de sol, o mistério das noites claras de estrelas, a doçura melancólica das horas de chuva e cobertas de nuvens. Clamor Lá estava, ereta e tensa e lançava o primeiro gesto de longo alcance. Braço e perna percorreram o espaço em arcos iguais, no mesmo ritmo. E viraram o motivo que definiu uma invocação, que apesar de toda domesticação contida ganhou o caráter do heroico. Foi a mesma emoção que tinha sentido sobre a ponte do Reno em Kehl, quando pisei pela primeira vez em solo francês depois da guerra perdida – a Primeira Guerra Mundial! Tinha tanta simpatia e admiração naquilo que a França significava para mim, a cultura e espírito francês. Mas também estava ali a consciência das minhas próprias raízes, de ser alemã e minha adesão a isso. Era como um encontro, era um chamado que ia longe e um ser chamado que vinha do outro lado. Agora o inexprimível, o indefinível queria virar “dança” e achou sua expressão bem sucedida e visível na coreografia que, como Clamor, constituiu a primeira dança do ciclo Paisagem oscilante. Por trás da segunda, Canção seráfica, atuaram como padrinhos a catedral de Estrasburgo e o altar de Isenheim em Colmar. Face da noite Mas quando me senti compelida a criar a terceira dança, não sabia de imediato que mais uma vez a guerra teria um papel importante. Dessa vez sombrio, apavorante, fantasmagórico e muito solitário. A dança já estava levantada e quase pronta nas suas linhas gerais, quando me dei conta de que a ideia fundamental sobre a qual estava construída tinha a forma de uma cruz em pé. E então revi a imagem desalentadora do cemitério de soldados alemães nos Vosges: cruz sobre cruz, toda uma encosta da montanha cheia de cruzes pretas. Os nomes nelas já quase apagados pelo mau tempo. E mais para cima as cruzes dos sem nomes, as valas comuns. “Cimetière de guerre des soldats allemands”: alguns marcos de pedra como delimitação, mais nada. Nenhuma figura humana que teria se curvado aqui de luto, nem mesmo uma flor murcha como testemunha de uma mão carinhosa. Nenhuma árvore, arbusto ou talo de grama! Mesmo a natureza parecia ter se calado diante desse lugar de silêncio inviolável e um desamparo sem medida. 64 O caráter terrível e definitivo da morte – aqui estava, nu e sem qualquer perdão. Ordenou à morte; alinhados para morrer, exterminados e esmagados pela captura indiscriminada da máquina da guerra, trabalhando mecanicamente. Mesmo o últimolugar de descanso construído estava agora ali, como se fora já há muito e muito tempo atrás atingido por uma catástrofe da natureza. E contudo era obra do homem. O sol de verão se estendia alto e quente no céu, mas tremi como numa caverna subterrânea. Só algumas voltas ladeira abaixo e estávamos na frente do cemitério dos soldados franceses. O mesmo quadro, só bem mais apaziguador. As cruzes eram brancas, em volta delas tinha um muro de proteção; foi construída uma capela, de onde chegava aos ouvidos a ladainha das rezas. Pessoas, sozinhas e em grupos, acompanhadas por padres; e flores, plantadas e cuidadas com carinho, na frente e próximas dos túmulos-cruzes. E mesmo esse quadro não era capaz de aliviar o horror que o cemitério esquecido dos soldados alemães tinha me provocado. Agora entendia porque Face da noite só pôde surgir da forma rígida da cruz. E entendi de onde tinham vindo as ideias, nas quais o tema da dança variou, sendo executado e finalizado sempre a partir da sua concepção fundamental. Ninguém precisava saber da experiência que estava por trás e provavelmente também ninguém sabia. Mas que a mensagem da dança era uma acusação, de onde falava o horror fantasmagórico da última solidão, ficou claro pela recepção que teve do público. Pastoral Estava deitada na praia num sentimento de total relaxamento: sem fazer nada, sem nada para pensar, sem nenhum compromisso e completamente entregue ao momento. Sobre mim o céu azul. Mas na sonolenta monotonia o barulho das ondas ressoava de novo e de novo. Longe, elas testavam sua força nas rochas calcárias cobertas de conchas e lançavam para o alto sua espuma em fontes prateadas, espirrando no ar cintilante. Num ímpeto, me deixava levar para cima e me atirava na rebentação reluzente das ondas - para me entregar de novo, revigorada e serena, à passividade que a praia candente de sol conferia. O braço, um pouco levantado, balançava no ar sem resistência, para cá e para lá e os dedos se agitavam alegremente no ritmo das ondas e da maré. Tudo era tão suave, tão cálido, tão envolvente e junto disso tinha o frescor de um dia amanhecendo. Uma pequena melodia me voltou à mente. Tinha a ouvido tocada numa flauta de pastor num planalto nos Pirineus. Ficou guardada em mim e me ocorreu de novo quando 65 comecei a coreografar a Pastoral. De fato virou o tema da dança. Uma flauta europeia, um gongo chinês, um sino duplo indiano, um tambor africano e um indígena: esses foram os instrumentos, que trazidos num uníssono harmônico acompanharam e sustentaram a estrutura melódico-rítmica da dança. O figurino azul claro era enfeitado com grandes adereços de prata ondulados, a saia forrada com um vermelho vivo. Era muito larga e cobria todo o personagem, deitado no chão numa postura descontraída, como a valva de uma concha cintilante. Se acomodava ao corpo. Ela copiava a agilidade dos ritmos dos pés e envolvia como ondas os gestos amplos e vibrantes. Como uma risada o vermelho se precipitava no azul, sobre o qual brilhava o prateado. A dança tinha um caráter declaradamente lírico. Sua linha melódica ganhou um leve acento rítmico em intervalos regulares. Num ninar suave, o corpo pouco a pouco saiu da sua posição de descanso e deixou os pés livres para brincar no chão. Cheios de prazer, eles se excediam em giros pequenos e rápidos, que iam de um pé para o outro; os fazendo deslizar longe como as delicadas cristas de espuma no refluxo das ondas. Se alastrando mais, os pés davam intensidade ao corpo, dançando no impulso dos grandes giros, evoluindo no espaço e depois recuando aos poucos para o descanso inicial, feliz e passivo, de ser ninado - até que este também desapareceu num último e leve respiro da mão. E a dança chegava ao fim. Ritmo de festa E o que poderia dizer de Ritmo de festa, a quinta dança da série cíclica? Para mim era a síntese de um feriado de verão, por trás do qual estava a experiência de uma tourada em Pamplona. Um dia de festa para os homens! Pois não se via quase nenhuma mulher espanhola, com exceção de algumas turistas, na multidão na praça do mercado e na aglomeração nas bancadas na arena. Apesar da excitação que crescia de forma monstruosa, quanto mais perto chegava a hora da luta, se mantinha uma compostura como nunca tinha visto antes em tais festas populares. Com o burburinho das vozes humanas, se misturava o rasgado cortante das guitarras e mandolins. Um canto gutural cresceu sobre isso, que foi ainda superado pelo toque estridente da música dos metais. Um barulho ensurdecedor, que apesar disso não era caótico, mas evoluía num ritmo elementar e uniforme. As blusas e cachecóis dos rapazes brilhavam de todas as cores: vermelho, amarelo, laranja, azul. Eles estavam reunidos em grandes buquês ou flutuavam como ilhas alegres sobre e entre o preto, que os homens mais velhos usavam. E 66 tudo isso: o colorido e o que flutuava, a alegria da cor e o escuro estavam em movimento (para cima e para baixo, para cima e para baixo) numa mesma vibração, que excitava e era excitada apaixonadamente. Eu também fui pega por essa excitação que prometia. Quase não conseguia mais assimilar as imagens que se ofereciam aos olhos. Ficar quieta no meio daquela agitação fervilhante e turbulenta virou um tormento. Abaixo de mim, ficava o círculo da arena, nu e vazio, mas participando da tensão que crescia até um ponto de ebulição. Então começou. Primeiro um pouco operístico, com um forte senso teatral – e a atitude extremamente garbosa dos competidores, que se exibiam nos trajes tradicionais dos seus papéis. O barulho tinha diminuído um pouco e sumiu completamente por um segundo, quando milhares de pares de olhos se voltaram numa expectativa febril para aquele portão, que acabava de ser aberto. O touro entrava em cena. O que para os espectadores espanhóis era um jogo, cujas regras todos conheciam e onde eles se exaltavam, se embriagavam e se entusiasmavam, me deixou em pânico: o confronto entre homem e animal. Não, não homem contra animal nem animal contra homem! Mas criatura contra criatura, de igual importância e aptidão, num jogo que era uma luta de vida e morte. A sombra do grande Pã emergiu e de agora em diante pairava sobre aquele evento, que ele definia. Força primitiva e demônio de instintos telúricos milenares estavam de um lado. As patas calcando a terra, a cabeça que baixava feroz com as curvas perigosas dos seus chifres poderosos, o corpo bojudo, o pelo preto e marrom brilhando de suor no sol e a faixa vermelha de sangue, que como se alimentada por uma fonte borbulhante cobria seu dorso e deixava um rastro na areia. Posições escarranchadas, onde sua força extraordinária era sempre renovada; o furor vingativo com que a fera acossada estava sempre pronta para atacar de novo; seus flancos pulsando e estremecendo quando se preparava traiçoeiro e ameaçador para o golpe mortal, sabendo e querendo por instinto só uma coisa: o extermínio do adversário. E do outro lado o homem, o toureiro, que adquiriu a superioridade intelectual das suas armas de guerra pelo domínio do corpo numa disciplina férrea. Na elegância do seu porte ereto, nos saltos elásticos, nos giros e voltas quase faceiros com que aparava a ofensiva, ele virou a imagem ideal de um bailarino varonil, elevando a total seriedade da luta ao nível do jogo. Orgulhoso no desafio, ágil como um lagarto ao se esquivar e encantador nos momentos empolgantes de parada, onde afrontava o ataque cego de fúria do oponente. A gritaria estridente da multidão (torcendo ou xingando, desdenhosa ou elogiosa) não fazia diferença entre ambos os combatentes. Eu receava pela vida do homem, mas tanto 67 quanto temia a do animal, que se defendeu até o fim com tudo que a natureza tinha lhe dado como arma. Isso tudo não era mais um espetáculo... e tocou um ladodo meu ser que até agora não conhecia. Tinham povos indígenas que elegiam o touro, o búfalo, enquanto o senhor original da pradaria, para ancestral da sua tribo. De repente, isso fez sentido para mim e o grande Pã sorriu... Então acabou e entramos no anoitecer, refrescando nossas têmporas em brasa e acalmando aos poucos o sangue que fervia. Vi logo que a experiência desse dia seria guardada e transformada numa dança. Quis aprender a lutar com espada, ter aulas de dança espanhola. Mas disso não saiu uma tourada nem uma “dança espanhola”. E sim Ritmo de festa, onde a paisagem candente de sol dançava junto; que contou com aquela atmosfera excitante da arena – e talvez misturada com uma gota do perfume que deu àquele dia o toque especial da Espanha. Tive de me esforçar muito para chegar à forma dessa dança, pois o tema tão amarrado não permitia nenhuma ampliação épica. Nem mesmo o final de um gesto que desaparecesse no silêncio. Era um cristal límpido nos contornos dos instantes de se posicionar, brilhante no escandir rítmico, sofisticada e meticulosa nas trocas rápidas das disposições espaciais. Irradiando vitória e ainda vibrando de excitação no menor detalhe, numa mistura de cores e formas e o calor impiedoso do sol do alto verão, que não lança qualquer sombra. Os pés plantados bem firmes no chão, correndo num repente em staccato ou num arco, que como a ponta de uma espada afiada os lança para frente. As pernas dobrando ou estendidas até o máximo, numa tensão extática que ampliava o torso. Os braços torcidos em gestos curtos e angulosos ou sem se mover, se estirando horizontalmente num estado de tensão. Eles pontuavam o ritmo dos gestos das pernas e pés, parecendo oferecer resistência ou animar. Horizontal contra vertical: uma luta de dimensões. Contudo, nenhuma luta e menos ainda a imitação de uma tourada. Disso saiu muito antes uma homenagem; uma canção de glória, que exaltava aquele dia festivo de verão vivido com tanto ardor. A dança foi tão extenuante - até a exaustão! - na sua concepção e realização; mas era tão lindo dançá-la na sequência do programa. Pois ficava como um desafio cintilante, como uma fanfarra entre a lírica Pastoral, que a antecedia e o capricho de Dança de verão, que a seguiu imediatamente na criação e também no programa. Dança de verão 68 Pessoalmente, Dança de verão era a minha favorita e curiosamente virou também a preferida do público americano, que sempre a pedia de novo. “Quem é o felizardo?” - assim tinha me perguntado alguém uma vez depois de um ensaio. Vá lá, era uma canção de amor e tinha nisso muita brincadeira carinhosa, seduzindo, se autonegando e consentindo. Mas era realmente dedicada toda a uma só pessoa? Não se referia num sentido ainda mais profundo ao verão, que a tinha soprado para mim; e então lhe foi devolvida, num cumprimento familiar como dizendo obrigado? Tinha nela uma afeição tão preciosa, satisfação e uma primeira e leve suspeita das mudanças predestinadas a acontecer. E também um pouco de troça de si mesmo. Pois de vez em quando escapulia através dos gestos como um sorriso zombeteiro, como querendo dizer: não nos leve tão a sério, não duraremos muito, somos só um dos reflexos no espelho da sua vida e só brilhamos enquanto o sol de verão está batendo. Como adorei o figurino dessa dança, cujo veludo sedoso me caía com tanta delicadeza: amarelo-ouro como um campo de trigo maduro sobre o brocado bordado em prata com primor, que ficava por baixo e começou a farfalhar fraquinho no contato com o calor do corpo; e que perdia a cor com o movimento - como o sol de verão, quando se confunde no seu brilho dourado com os raios da luz prata do meio-dia. A dança era um tango, cujo caráter foi tão reduzido até seu efeito ser só uma vibração sutil, ritmicamente organizada - e ganhou uma transparência em tudo o que é físico, trazida pela suave brisa do verão e na qual o erotismo se revolvia como uma borboleta mágica. Se sussurrava às escondidas e lançava no ar pequenas cabriolas dos gestos de mão, como palavras de amor quase inaudíveis. Era como uma papoula balançando no galho e na sua progressão um concerto de cigarras estridentes, quando no auge do dia parecem abafar todos os outros barulhos da natureza. Era como o instante do meio-dia, quando o ar parado começa a vibrar com o calor do verão e entumece os nervos, sem provocar outra coisa senão o abandono a uma felicidade que parece não ter fim, mas dura só uns minutos. Canto da tempestade Os pés correm sobre o chão. Em grandes curvas pelo espaço, vão ao encalço do corpo incitado pelo vento, levado pela tempestade. Às cegas, este se lança em ritmos que martelam sem dó. Buscando proteção, ele se encolhe, se deixa lançar e curvar (para cá e para lá, para cá e para lá), se empinando e caindo como uma árvore derrubada por um raio. Fica esbaforido nas pausas curtas de calmaria – para se entregar de novo ao violento temporal, que 69 o apanha e sacode, o empurra para frente e faz girar em volta do próprio eixo. Até a força acabar e um último golpe de vento o esparramar no chão numa apatia embotada. O figurino: uma capa de chiffon enorme, vermelho-fogo, que apagava os contornos do corpo até ficarem irreconhecíveis. O rosto também foi totalmente despersonalizado sob a máscara de véu vermelha. Sobre os gestos balançantes dos braços, o tecido leve se inflava e inchava, virando formas de nuvens, voando e flutuando – para cair de novo abrupto como uma enxurrada, se ondulando e alisando aos poucos, quando, nos breves momentos de pausa, o corpo que dançava readquiria suas proporções humanas e estremecia sob o choque da tempestade. Os timbales ribombaram, os bombos rufaram, martelaram, crepitaram, retumbaram. Um furioso, um bacanal, um grito cheio de prazer da criatura se abandonando aos elementos que se sucedem – experimentado em êxtase bem no alto, no topo da montanha. E agora reanimado e transformado em alegoria no processo criativo: um único facho vermelho e chamejante, o canto da tempestade. Com isso na verdade acabava o ciclo. Mas não estava ainda satisfeita. A riqueza era ainda grande demais. E então surgiram as três Melodias ciganas, como pondo um ponto de exclamação em tudo. Expressão da própria alegria de viver, cheias de energia, tecnicamente brilhantes e sempre mudando do prazer para a dor, da alegria para a melancolia; empolgando e contagiando na atuação. Era maravilhoso poder e saber dançar – sim – e maravilhoso também cativar outras pessoas para a dança. Nenhum dos meus programas solo foi levado tantas vezes ao palco como o de Paisagem oscilante. Dancei-o em Berlim, Viena, Zurique, Londres, Paris e Nova Iorque. Não tinha o impacto dramático de Sacrifício, o ciclo seguinte, nem a sabedoria serena das Danças de outono, que apareceram mais tarde ainda. Mas tinha uma abundância exuberante, uma força torrencial e irradiante, dada ao homem provavelmente só uma vez na vida: quando atinge, como o sol do alto verão, o zênite da sua força criativa no verão da sua própria vida... Canção seráfica 18 Duas experiências musicais, ambas (cada uma ao seu modo) levaram a criações na dança. Dois instrumentos e ao mesmo tempo dois universos sonoros, que se manifestam nos primeiros: um piano de vidro europeu e um gongo de prato chinês. Europa e Ásia. Música do 18 Apesar desta ser a segunda dança deste ciclo, ela foi posta no original no final, depois de Canto da tempestade. 70 céu e da terra. Quando o som desses instrumentos ressoou em mim pela primeira vez, achei que presenciava o momento de nascimento da música. Não seu nascimento como forma e estrutura, mas sua razão e origem essenciais; por assim dizer, o tom primal. No quarto revestido de madeira, criado especialmente para o piano de vidro, tinha uma atmosfera peculiar, que aguçava os ouvidos.Parecia não querer ser nada além de uma caixa de ressonância, amplificando e intensificando. Quando as duas mãos do músico tiraram a tampa do instrumento com cuidado quase terno, fiquei fascinada pela beleza dos sinos de vidro, o colorido suave da sua pintura e a graça da sua ordem rítmica. Mas não estava de modo algum pronta para o encantamento que me tomou já no toque das primeiras notas. Aconteceu algo que até então tinha vivido corporalmente só dançando: quando, em êxtase e totalmente entregues ao espaço aéreo, perdemos a sensação de peso e parecemos flutuar. O som desses sinos de vidro não era desse mundo. Era a voz do serafim, do anjo transbordante de luz, que se eleva com o trombone de prata nos lábios e some no éter. E então, se elevando, fica livre de qualquer limite, e de som vira luz e um andar suspenso em regiões resplandecentes. Alguns anos mais tarde, me pus diante da catedral de Estrasburgo e saudei a figura do anjo músico, que flutua lá no alto no seu esplendor pétreo: parte integrante da arquitetura, mas escapulindo dela, aspirando ao éter, que é a casa do seu ser e eco do seu canto. A claridade cintilante da tarde de verão dava às torres da catedral algo de irreal. E a sensação de irrealidade se acentuou quando entrei naquele lugar sagrado, que não se distinguia de início nenhum pouco como tal. Nada como a frescura da penumbra, quando a luz invade de todos os lados em raios, maços, rufos, atravessando tudo que é sólido e se diluindo numa movimentação oscilante. E foi aí que de repente soou de novo aquele som há muito esquecido, suave e finíssimo como vidro repuxado, celestial, seráfico, etéreo, como se me levando pela mão em passadas leves: me atraindo, compelindo, obrigando. Assim a Canção seráfica apareceu no ciclo Paisagem oscilante. Ao criá-la, lidei não só com uma ideia coreográfica e sua execução temática. Era sobretudo uma questão de trazer o tema de grande fôlego à sua forma mais concisa. E: essa simplificação não deveria significar pobreza! O andar e flutuar, a devoção e transfiguração, tudo deveria ser trazido na mesma medida. Sobre o abrir e farfalhar das asas transbordantes de luz, a figura e o canto fundidos deveriam se desenvolver e se elevar numa transparência vítrea, levados por um sopro. A forma musical dessa canção seráfica nasceu numa relação direta com a 71 coreografia. Deveria ser um acompanhamento e criar por sua vez uma atmosfera que se igualasse à mensagem da dança. Consistia só de alguns acordes de grande alcance e usados com economia, se ampliando num tipo de tema coral, que sublinhava e clareava os tímidos acentos do motivo principal da dança. Para iluminar e estender o som do piano, veio o toque dos sinos com suas sete notas bem afinadas, criando, como elemento flutuante e ao mesmo tempo aglutinador, um diálogo harmônico entre som e movimento, dança e música. Um canto espacial e único. Não sei dizer quanto me foi possível concretizar a imagem dessa ideia coreográfica e dar à linguagem gestual, amarrada ao corpo, algo da transparência daquelas ondas sonoras vibrantes de luz. E mesmo se se conseguisse um dia transpor aquele último vão que mantém o homem suspenso entre sua visão e materialização, não seria mérito seu. Mas dádiva de um momento abençoado, que ele teria com certeza de justificar numa luta honesta e dedicação apaixonada ao trabalho. Sacrifício Tinha voltado da minha primeira turnê na América e estava tomada por todas as impressões e interesses que esse outro continente tinha me despertado, com seu modo de vida completamente diferente, pessoas diferentes, cidades barulhentas e as extensões intermináveis das suas vastas paisagens. Foram meses impiedosos em que tudo de pessoal teve de ser sacrificado pelo trabalho. Meses de luta e de servir a dança, mas também um tempo de vitórias triunfais. Só uma única vez, durante só um dia, me permiti esquecer todas as obrigações profissionais e me entregar totalmente à experiência desse impetuoso drama primal, que a natureza criou na forma das cataratas do Niágara. Mais tarde então, na tranquilidade do estúdio no meu país, começou o trabalho para compor Sacrifício. Quase me apavorei com a violência com que me vi compelida a esse trabalho. Mas nem antes nem durante o processo de criação me veio qualquer conexão entre o tema coreográfico de Sacrifício e a experiência nas cataratas do Niágara. Numa batalha árdua com esse frágil material apareceu a combativa Canção da espada. Apareceu a solene e cerimoniosa Dança para o sol. Então veio o tema sombrio de Chamado da morte, cuja força dramática se precipitava em grandes gestos e percursos pela sala. E do prazer apaixonado pelo jogo instintivo das forças telúricas nasceu a Dança para a terra. E depois Lamento. Veio como um sonho lindo e inexplicável, onde tudo que dói se transfigurava numa entrega profunda e feliz. Vista da forma coreográfica, essa dança com 72 certeza não era interessante. Ela não brilhava e reluzia; também não oferecia qualquer oportunidade para explorar alguma habilidade técnica especial. Alguns passos lentos, um se curvar gentil e um mergulho sereno no chão: isso era tudo. E no entanto gostava tanto dela! Talvez porque sua forma singela era o primeiro passo em direção àquela simplicidade que é anseio e alvo da maturidade na criação artística. Todas essas danças tinham como característica comum esse apelo passional: mais uma vez ainda, uma última vez... E ao mesmo tempo todas elas tinham também um traçado espacial muito bem definido; até que este virou o tema dominante da última dança deste ciclo, Dança em direção à morte, na forma de uma grande diagonal que cruzava o espaço. Já tinha dançado Sacrifício mais de uma vez em público e sempre receava um pouco esta última dança. Porque toda vez, antes de dar o primeiro passo nessa diagonal (por assim dizer fatídica), era tomada por um sentimento de medo verdadeiramente físico diante da inevitabilidade dessa progressão coreográfica. Mas então aconteceu um dia que a cortina que tinha até aqui separado a criação da experiência de dançar se rompeu. Enquanto me preparava no palco ainda escuro para começar a última dança, para esse ser lançado dentro da diagonal coreográfica, senti e compreendi de repente com uma veemência que me arrebatou: “Você já viveu isso antes, num lugar bem diferente, mas exatamente isso.” E rápido como um raio, vieram as imagens daquele fenômeno da natureza, que tinha me hipnotizado sem eu perceber. Vi o rio na minha frente, correndo ali tão amplo, lento e tranquilo, como se seu curso estivesse selado para sempre; se dirigindo cheio de confiança e certeiro para sua queda violenta e mortal. Senti a força esmagadora da massa de água ao meu lado, em cima, em baixo e reapareceu aquela frase curta, que então tinha me dito, quando me vi estupefata diante de tal fenômeno: “As águas reclamam seu sacrifício...” Assim, o círculo em volta da origem e criação de Sacrifício estava completo. Canção do destino A dança foi composta em poucos dias, mas levou meses até virar a Canção do destino. O que eu tinha mesmo na cabeça e sentia em mim desde muito antes era uma Canção das Nornas, uma dança que deveria ter seu lugar numa coreografia maior de grupo: Hinos dançantes. “Tecemos a matéria do tempo”: essa frase verdadeiramente me atormentava e visualizei três figuras femininas, três idades: a mulher jovem, madura e velha. Eu as vi se mover sozinhas, a dois e a três; sentia os ritmos dos seus gestos de mão, atando os fios da 73 vida, os entrelaçando e cortando. Sabia que esses personagens tinham de usar máscaras. Primeiro para encobrir qualquer traço demais pessoal das bailarinas que os iriam interpretar; e depois também para dar à dança como aquele caráter atemporal, que na minha visão ela deveria ter. Um escultor jovem e talentosoquis confeccionar as máscaras para mim. E como então a experiência tinha me ensinado que era preciso ensaiar uma dança assim desde o início com as máscaras, esperei até que elas chegassem para começar a criar. Elas ficaram magníficas. Me pus diante da máscara da mulher jovem e compreendi: essas são feições de dança! A segunda máscara, que deveria trazer os traços da mulher madura, na flor da idade, me transtornou. Esse rosto mascarado já não era duro e amargo demais para justificar o gestual que tinha imaginado para tal personagem feminino? E diante da máscara da mulher velha, que eu mesma deveria usar, fiquei apavorada: porque aquilo que emergia daquele rosto eu não podia (não ainda) e talvez não pudesse nunca realizar. O personagem que portava essa máscara não era mais o símbolo de uma mulher velha. O que me olhava aqui era o rosto primitivo, milenar de uma criatura muito velha, de tal modo distante e desobrigada das coisas da vida que sua língua não poderia ser senão o silêncio e imobilidade. Essa mulher não poderia mais levantar o pé. E sua mão, totalmente esgotada, não poderia nem mesmo acabar o último e gentilmente simbólico ato, a ela destinado, de cortar os fios da vida. Procurei muitas vezes me movimentar com essa máscara e sempre achava que conseguiria ainda despertar nela a vida da dança. Mas em vão! Tive de reconhecer que essa máscara não poderia ser encantada por meio da dança e desistir da Canção das Nornas. E foi então que me veio a Canção do destino, assim tão de repente e inesperada, brotando de uma tensão cada vez mais insuportável de todo meu ser: minha mão agarrando o casaco, que se colava no corpo, o esticando para cima e empinando. Três passos largos tomando a sala vazia e escura, num ritmo que puxava meu braço para cima – assim nasceu o tema de movimento da Canção do destino. Gritava em mim um desespero, por trás do qual tinha sempre um “apesar de tudo” orgulhoso e desafiador, como uma revolta contra tudo que é ditado pelo destino e parecia insuportável. Mas também como o reconhecimento humilde de um poder superior, que mais sábio do que eu sabia muito bem o que era necessário e o que se podia suportar. Era uma luta entre dizer “sim” e “não”, onde o “sim” sai vencedor. Mal consegui esperar a manhã seguinte, quando poderia começar a trabalhar; o ofício de dar forma, estruturar, compor. A dança ficou pronta em poucos dias. Nunca precisei mudar nada nela. Mas era na verdade como se ela dormisse há muito dentro de mim e só tive de me abrir e dar vazão ao fluxo da criação. Como se essa dança tivesse só esperado por esse 74 momento para virar finalmente forma e realidade coreográfica. Mais tarde então me perguntei se poderiam ter sido as circunstâncias externas que de algum modo precipitaram a dança; ou se foi o caso de arcar com um compromisso – ainda que bem sucedido! Mas sei que não foi isso. Sei que a Canção do destino tinha de ser criada. Danças de outono Também o ciclo das Danças de outono nasceu de uma necessidade interna. Já o título indica que por trás da criação estava a experiência da estação do ano. Mas por que só tive e pude criar essas danças num ano tão preciso? Pois já não tinha vivido antes o outonar da natureza e com toda certeza não menos intensamente? E no entanto justamente dessa vez, o outono virou para mim uma revelação. Pois a experiência da natureza coincidiu com a consciência de que entrava agora no outono da minha própria vida. E esse outono era belo. O que a natureza teceu e cantou: a canção em louvor da última florada e amadurecimento; a leve advertência de que tudo é transitório; a claridade, a alegria e transparência, que viraram transfiguração; o esplendor em chamas das florestas e o cheiro forte da terra. Mas também o leve tremor quando o sol vai embora e o prazer selvagem na dança das folhas em redemoinho, quando a tempestade faz as árvores curvarem. As noites estreladas e o silêncio profundo, extremamente profundo, quebrado pelo balido do veado no cio: tudo isso também cantava e soava em mim, tão pleno, forte, ardente, que teve de se descarregar num hino. Assim surgiu a Dança da lembrança, como a primeira das cinco danças de outono. Era na verdade um agradecimento, uma saudação ao passado, reenviada àquele verão, que tinha custado a ir embora. Quanta riqueza não me tinha trazido aquele verão e a cornucópia das suas cores se derramou sobre mim. Agora ele tinha acabado e seu brilho quente começou a se configurar na beleza da transfiguração outonal. Amadurecimento e colheita! Uma benção parecia cair sobre tudo. E então também a segunda das danças de outono virou mais uma vez um agradecimento, dirigido aos frutos da terra. Não se era parte da benção da grande-mãe, a natureza, e não se era abençoado, pois vida e criação estavam em total comunhão uma com a outra? Mas aí veio A ventania, como um som forte, um acorde pleno que fazia tremer e trovejar. Era maravilhoso se lançar ainda mais uma vez na grande órbita. A larga saia de dança balançando para além dos limites do corpo, de modo a se inclinar e estufar como uma vela pega pelo vento. Que maravilhoso se deixar levar, se pondo em êxtase – movida pelo vento, desposada por ele, rodopiando no tumulto como uma folha que se desprende da árvore e chega em sossego ao chão, numa última ardência e último e leve respiro. 75 Posto sobre isso como uma fanfarra, o Canto da caça: uma batida animada em 6/8, com os pés se apressando rápidos sobre o chão e se detendo feito estátua num mirar e ouvir tensos. Ártemis, que perambula pelas florestas, interrompe sua caminhada prazerosa e expele o imperioso chamado da caça, que lança de volta seu eco. Como despedida Dança no silêncio: um caminhar sem ruído, uma imersão em si mesmo e seguir cauteloso o rastro do que está a escapar. Mas ao mesmo tempo também um tatear o futuro, frente a que só agora se começou a tirar devagar os véus de separação. Essas danças surgiram numa época de agitação política e externa. O anátema “arte degenerada” há muito me era atribuído. Tudo exigia cautela. Algo que nunca conheci antes no meu trabalho e seguia meu caminho como deveria. Mas ainda hoje me pergunto como as Danças de outono permaneceram totalmente ilesas frente a todas as tribulações externas e puderam preservar sua pureza em experiência e forma. Dança de Niobe Na Dança de Niobe, o personagem feminino da lenda grega me veio como símbolo da mãe sofredora, de quem os filhos são arrancados na sua floração, um depois do outro, pelas flechas mortais de deus. A saga conta que essa rainha de Tebas era uma mulher bonita e orgulhosa, que se gabava de uma felicidade de mãe como não era permitida a nenhuma outra mulher do reino. Concebidos, gestados, nascidos... Assim eles cresceram, meninos e meninas, numa beleza imaculada que ofuscava a própria rainha, como jovens deuses e deusas. Uma raça real, que perpetuava o seu sangue e onde ela se via imortal, muito além da sua própria vida. Quem podia rivalizar com ela? Ela não tinha direito à mesma adoração que as deusas do Olimpo? Então, quando as mulheres do seu país vieram dançar com adereços de festa em volta do altar da deusa da fertilidade, trazendo com amor e humildade oferendas de sacrifício, ela se rebelou. Com altivez irredutível desafiou a grande deusa-mãe: “Como ousa aceitar o que é meu? O que você tem para mostrar em feitos e doações que são vida e mais vida, se doando e procriando mais e mais? A mim e não a você pertence a coroa de louros que enfeita sua cabeça...” Mas a deusa a acusou e lhe rogou um castigo, o único que poderia abatê-la duramente até a morte: a morte de seus filhos inocentes. Na verdade, não foi a figura trágica de Niobe como tal que me impeliu para a criação. Provavelmente ela era só a roupagem, o ponto de partida numa vaga alusão, que me possibilitou expressar o que me afligiatão dura e profundamente: a arrogância louca, a afronta 76 sem medida, onde nós (impotentes e entregues) nos tornamos cúmplices da fatalidade que foi, na sua última fase, a guerra. A terrível noite vermelha, quando caiu sobre nós o inferno dos primeiros ataques terroristas. No abrigo antiaéreo, as pessoas amontoadas mal se conheciam, mas unidas por um destino comum. As duas velhas mulheres, que discutiam energicamente sobre bobagens do dia a dia até caírem as primeiras bombas – agora juntavam mão com mão, as cabeças abaixadas, movendo os lábios numa prece silenciosa. O pequeno Pedro, que acompanhava, com o rosto todo iluminado, cada explosão com um alegre “bum”! A mulher, numa gravidez avançada, se apoiando na parede do porão com a barriga pesada e protuberante e a respiração entrecortada: “Fica comigo, não me deixa sozinha... a criança pode nascer a qualquer momento... e meu marido... no fronte... não tenho notícias dele.” A morte estava atrás de cada um de nós. Mas ela tinha mudado, tinha perdido sua majestade, era só instrumento de uma arbitrariedade pavorosa, que não a reconhecia mais como seu senhor. Nós, que a experimentamos e sobrevivemos, ficamos marcados. Não podemos esquecê-la, não queremos nem devemos. A agonia, a miséria, o pesar, o medo, a espera sem descanso e um desespero mudo das mães na guerra. Era como se todas elas quisessem acalmar sua dor no meu colo, como se clamando para mim: “Diga você... nós não temos mais voz nem lágrimas!” Nunca vou esquecer como esse tema começou a me inquietar e atormentar; como me peguei muitas vezes apertando minhas mãos no próprio corpo num gesto de cuidado e proteção. Como me veio nos lábios o murmúrio de uma terna canção de ninar e me enchi de uma alegria orgulhosa, onde a angústia extravasava - o medo que ainda não tinha nome: até o olhar arregalar espantado, o grito preso na garganta e o corpo como se atingido por um raio sendo lançado no chão. Como o lamento cresceu e o pesar, que clamou por lágrimas de redenção. Como os braços ágeis quiseram abraçar aquela última criança e protegê-la do golpe da morte; como os punhos fechados bateram contra o próprio peito em autossacrifício: “Me leva, me leva, mas poupa esta criança, a última de todos nós!” Até que não sobrou mais nada, absolutamente nada, só um corpo que não me pertencia mais, um recipiente vazio e destruído. Toda vez que a dança acabava, parecia que tinha envelhecido muito, muito nos poucos minutos da sua duração e nunca mais acharia meu caminho de volta para a vida. E frequentemente antes de começar a dançar, me vinha uma timidez que até então não conhecia: não era audácia em me arriscar nesse tema? E sua criação simbólica era suficientemente pura e minha força espiritual suficientemente forte para aplacar a dor; ou ao invés disso não teria reaberto violentamente feridas quase fechadas? Quis clamar para aquelas mulheres 77 dilaceradas de dor: “Me perdoem se dançando canto sua dor e acreditem que o sangue do meu próprio coração jorra nessa dança. Pois seu pesar é o pesar de todos nós e para mim ele é sagrado.” Adeus e obrigado Um breve motivo me ocorreu sem esforço, passageiramente e logo sumiu, como tudo que nasce do momento. Aleida, que me acompanhava nos treinos, o captou e deu sua forma musical. Agora ele poderia ser repetido. Não era muito, mas caiu no corpo como uma luva. E toda vez que eu o retomava, era como se um raio de sol me tocasse. Um sorriso pairava sobre ele, um sorriso inteligente. Ou era um sorriso de resignação? Era um motivo dançante, repleto de grandes balanços, pronto a se dissipar no espaço num gesto esvoaçante em diagonal para cima. Mas no instante da sua pausa em suspensão foi capturado pelo impulso da perna e finalizado, numa retração quase imperceptível, pelo movimento de esquiva do quadril. Era na verdade como o canto de um pássaro, tal como pode-se encontrar ao anoitecer antes do sol se por. De um som pleno e mesmo assim um chamado da noite. Um dia percebi que meu motivo tinha substância dançante suficiente para conter a estrutura e desenvolvimento de toda uma dança. Assim virou o padrão básico, tematicamente definido, da dança que chamei Adeus e obrigado. A dança final do último programa solo em que me apresentei em público. Era 1942: guerra. Viajar virou um problema. Tambores e gongos tiveram de ser deixados em casa. Também não podiam mais ser usadas em viagem as grandes malas-baús. Os figurinos, sempre tratados com tanto amor e cuidado, tiveram de ser acomodados em valises, que poderiam ser levadas na mão. Trechos de ferrovias estavam obstruídos. Trens tiveram de ser desviados para linhas secundárias. Sentávamos e esperávamos, em silêncio e imóveis. Ouvíamos com o coração apertado o ronco dos motores dos aviões, voando alto no ar para um alvo que nos era desconhecido. Amigo ou inimigo? Existia tal diferença ainda? Aqueles bonitos pássaros de prata, criados tão só para cobrir distâncias e estabelecer comunicações! E agora não mais que ferramentas de destruição. Ficou frio nos compartimentos. O aquecimento não funcionava mais. Não tinha luz. E quando se apagou a brasa do último cigarro, toda vida parecia morrer no cômodo oprimido. Tremíamos não só de frio, mas também de pensar que não poderíamos mais chegar 78 a tempo ao destino da viagem. Estaríamos no próprio lugar pelo menos para o começo da apresentação? Talvez tudo isso tenha me ajudado a cumprir a promessa que tinha me feito; isto é, não esperar o início do declínio, mas me retirar no ápice das minhas capacidades pessoais. Mantive a promessa. Foi duro. Mais duro do que tinha imaginado, pois afinal estava em plena posse dos meus meios corporais. Minhas forças criativas ainda pediam para se exprimir e a bailarina que eu era tão profundamente não queria ficar quieta. E, no fim das contas, poder se expressar através da dança não é uma das felicidades mais fortes e profundas? Adeus e obrigado... A dança cumpria o que prometia o título. Meu breve motivo, que se repetia em intervalos rítmicos, deu a ela a ausência de peso e cada leve sorriso, onde se podia renunciar sem se resignar. Dança de grupo e dança coral Apenas, por que penso tanto esses dias em Monumento aos mortos? Foi há tanto tempo e em todos esses anos meus pensamentos mal o roçaram. Será que foram as questões e problemas que me ocuparam depois nas discussões sobre a encenação de Orfeu de Sellner e minha contribuição coreográfica, que, sem que eu fizesse nada, trouxeram de volta as imagens de Monumento aos mortos, a época em que surgiu e as condições sob as quais foi criado? Mas o que o Orfeu de Gluck tem a ver com Monumento aos mortos de Albert Talhoff? Um é uma obra-prima clássica do teatro lírico, o outro um experimento dos dias de hoje, que logo caiu no esquecimento. A única conexão que consigo estabelecer entre ambos é o fato de que em ambos os casos não os concebi sozinha. Quase tudo que foi criado antes de Monumento aos mortos e tudo que veio depois (até essa coreografia para Orfeu) cresceu sobre uma base própria e levou em tudo minha assinatura pessoal. 1928: congresso de dança em Essen, onde bailarinos alemães e estrangeiros se reuniram para medir suas forças e balé e dança moderna trocaram farpas sonoras. Numa sessão extraordinária, o poeta suíço Talhoff mostrou seu “coro ritual”: agrupamentos de figuras, que nos gestos e atitudes eram bem próximos de uma dança e, através de uma técnica acurada de luzes, foram trazidos para uma atmosfera de efeito quase místico. As possibilidades que se apresentavam aqui para a elaboração cênica do teatro-dança me fascinaram. E então desse breve encontro resultou uma troca de cartas, que logo depois levou a uma visita a Talhoff. No sótão da sua casa, tinha montado sua oficina de feitiçaria. Como um mágico, manipulava os manequins confeccionados,os deixando reluzir sozinhos ou em grupos e 79 mergulhar de novo na escuridão. Eles pareciam se mover e se iluminar do interior. Ganhavam o primeiro plano, para então se perder na indefinição espacial de um plano de fundo, sobre o qual se elevavam meio vacilantes e se extinguiam. Mas sua irrealidade, já por si só opressiva, foi ainda sublinhada por certa “sonoridade espacial”, se prolongando os acordes do harmônico e levando todo o entorno a soar. Impossível se furtar ao seu efeito! E então quando Talhoff começou a apresentar sua concepção para Monumento aos mortos, fiquei perdida. O que ele tinha planejado era uma grande obra coral para dança, som e palavra, onde a luz (tal como no seu “coro ritual”) deveria fazer parte da ação como elemento de jogo de igual importância. Mas a ideia em que se baseava a encenação de Talhoff era a de erguer um monumento vivo aos mortos da Primeira Guerra Mundial e concretizar essa ideia na composição e apresentação de Monumento aos mortos. Lugar do chamado e da contra chamada, lugar do esquecimento, lugar da devoção. O mundo de vivências das mulheres e mães: no aquietar e suportar o sofrimento imposto, na acusação indisciplinada e o desespero que emudece. A visão do espaço-catedral e sua divisão em colunas criadas pela luz vibrante – a visão das paredes de névoa, com os sinais luminosos as atravessando ritmicamente. Feições que, ainda acentuadas e exaltadas pela própria imaginação, clamavam imediatamente por forma e execução através dos seres humanos dançantes. Era como se fosse jogada numa torrente, em cujo vórtice não se pergunta mais pelo “para onde”. E como Talhoff soube inflamar a imaginação! Ele a incendiava, se pondo ele próprio em chamas. Qualquer dúvida quanto às possibilidades de concretizar tal empreitada foi imediatamente eliminada. Qualquer pergunta cética quanto à solução dos tão incríveis efeitos luminosos que deveriam permear o todo foi descartada: “Isso foi testado há tempos por Zeiss em Iena.” De novo em Dresden e cercada pela atmosfera clara e objetiva do trabalho no meu próprio estúdio de dança, pude me libertar do feitiço que a intensidade atordoante de Talhoff tinha me imposto. Pude ver com clareza minha tarefa e pensar com tranquilidade como se poderia solucioná-la. Os emaranhados fatores da verbalização (altares da fala, o coro ritual e o falante isolado) recuavam mais e mais. O que ficou foi a ideia das cenas de dança, elaboradas para espaços amplos e que deveriam ganhar forma. E mais que isso ficou a felicidade de que pela primeira vez então trabalharia em grande estilo. De que poderia juntar cinquenta bailarinos e bailarinas para entoar com eles o grande canto da vida e da morte. Aqui estava ele, pois, o exercício coral cujo resultado eu tinha aspirado há muito dentro de mim, sem dar realmente o último passo do grupo para o coro. Claro, tentativas rudimentares podiam ser encontradas em trabalhos anteriores, nos Hinos do espaço e 80 sobretudo em A celebração. Essa obra era provavelmente a mais madura e também mais rica em descobertas de todas as minhas coreografias para grupo até aqui. Foi toda construída de modo sinfônico. Era dança pura, sem precisar de qualquer ação de ligação. Suas três partes (em movimento solene, em movimento sombrio e exaltada em hino) só se distinguiam por sua motivação central e contrastavam uma com a outra nos modos como se apresentavam suas forças dinâmico-espaciais e plásticas. A primeira parte (chamada no programa de O templo) consistia de quatro danças, que se seguiam uma à outra sem interrupção e cujo caráter insistentemente monótono se assentava numa movimentação em passos compatível com seu conteúdo solene. Um tipo de ostinato, que a cada dança adquiria um outro matiz, outro andamento e uma nova variação nas divisões rítmicas. A modulação quádrupla de um tema, que atingia no seu conjunto o efeito de uma celebração, elevada ao culto. Mesmo no redemoinho extático da minha Monotonia em giro a solenidade ainda foi salvaguardada. Pois também aqui tinha novamente me engajado como solista; como voz única, que atravessava toda a trama como uma linha vermelha, a unindo. A parte sombria e agitada No signo do escuro foi totalmente estabelecida do elemento rítmico-dinâmico. Grupos bem perfilados, cuja estrutura sólida parecia quase arquitetônica e que foi trazida no uso de uma rítmica do pé exacerbada para soluções em larga escala e novas aglomerações compactas. O princípio diagonal dominava os trajetos pela sala. Ele se juntava nas posturas de perna amaneiradas com a rítmica subposta e precisa do pé, no deslocamento alinhado na horizontal e a fim de ser impelido para cima nos agrupamentos pela vertical adentro: rompendo o espaço, criando abismos, amontoando esse espaço para de novo explodi-lo. Conduzida contrapontisticamente, para então desembocar num tema composto como fuga e acabar no acorde total, que domina o espaço. De resto, à dominada tensão sob a escuridão opressora correspondiam ainda os figurinos dos dançantes: um preto embotado, brocado cinza chumbo, prata brilhante e um vermelho vinho, escuro e incandescente como única nódoa de cor. Essas eram as cores. O feitio: capas pelo joelho, caindo amplas sobre os ombros e acentuando o padrão de movimento guiado na horizontal. E se opondo, as figuras realçadas verticalmente na vestimenta justa, que uma capa estreita, de caimento longo e aberta na frente mal tapava. Até o dia de hoje não esqueci como o evento coreográfico se desdobrou de modo impressionante na sua coloração econômica, na sua austeridade quase espartana diante do ciclorama azul-escuro, ladeado de preto de ambos lados. E dificilmente me foi possível de novo uma harmonia total de cor, forma e linha e da cadência no corpo e espaço tão asseada 81 como nesse trabalho. Fim de festa, a terceira e última parte, teve sua introdução através de cinco bailarinas carregando pratos de metal, que se dirigiam para seu lugar nas voltas bruscas de um caminho em zigue-zague. Ficavam ali como colunas, subdividindo o espaço em disposição assimétrica para abrir o acontecimento festivo com o motivo rítmico de seus instrumentos, soando metálicos repentinamente. Elas formavam, por assim dizer, o momento estático no torvelinho da rápida animação, que percorria o espaço de dança criado dessa maneira: enramado como guirlandas no circular, tornear, pulo e impulso; no excitante subir e descer de um vibrato balanceado, que se deixava intensificar até o júbilo. Mas no começo de cada nova fase temática, as figuras estáticas mudavam para outro lugar num outro lado, de onde comunicavam o restabelecimento da agitação polifônica com o motivo de seu bater de pratos, rápido um depois do outro. Como fiquei feliz então com essa ideia! Me deu, pois, a possibilidade de efetuar a mudança do espaço de dança dentro do próprio evento coreográfico e assim proteger o decorrer restante de qualquer risco de ficar monótono, embaraçado e rígido. Essa mudança se deu três vezes, que no crescendo da sua última fase foi levada até um fortíssimo. E então, gradualmente superado, foi conduzido a um tema pastoral. Linhas, curvas, arcos e círculos dispersavam os dançantes e os uniam de novo, ajoelhados, sentados e reclinados, em grupos formados aleatoriamente. Só alguns poucos personagens se destacavam daí para se sobrepor à tranquilidade daquele espaço que então se ampliava - em encontros passageiros, no suave balanço dos corpos ou jogo sutil das mãos em movimento. A quietude depois da tempestade, em que foram também incluídas as estáticas figuras. Então soou mais uma vez o chamado da batida dos timbales. Mais uma vez o espaço virou a área de dança dividida em colunas, até terminar festivamente em uníssono com o grande jubileu de A celebração. Mas mesmo nessa grande obra, planejada para espaços amplos, prevalecia amodelagem das figuras isoladas nas suas relações mútuas, se cristalizando apenas em breves sequências até a ideia geral da expressão coral. Só um único passo do grupo de dança para o coro dançante! Mas que é decisivo e precisa ser dado. Pois aqui não se trata mais da disputa de forças para e contra uma à outra, que determinam a textura multicor da dança de grupo na sua expressão pessoal e ultrapessoal. Aqui a matéria eventual de conflito não se resolve mais dentro do próprio grupo. Aqui se trata muito antes da união de um grupo de pessoas num corpo móvel, que, representando junto o presente e a antecedência, é levado a partir de um ponto de vista único até um objetivo comum e reconhecido por todos. Não há mais a 82 separação em ações isoladas e o corpo de dançantes, participando ativamente, interfere no conflito do destino que se dá diante dos seus olhos. Ou ainda ele observa contemplativo tal conflito para integrá-lo ao nível do reconhecimento e experiência. Tem sempre nesse trabalho certa renúncia para o coreógrafo. Abrir mão do último uso possível do seu material coreográfico quanto ao desempenho especial e brilhantismo técnico. Pois a exigência mais implacável do princípio coral se chama simplicidade e outra vez simplicidade: nas estruturas espaciais, conteúdo rítmico, andar, postura e gestos; nas aglomerações, dispersões e progressões dinâmicas. Qualquer excesso ou detalhe demais complicado age como violação às noções de coro e deixa fraturas que mal pode-se reparar. Tal como a composição coral pede pelo antagonista (quer aparecendo na cena quer atuando como ideia temática sobre e por trás da ação), também em muitos casos se deve ter um líder, que é escolhido pelo coro e com poder de afirmação. Aquele que, amparado e levado pela unidade do coro, impulsiona a ideia temática e neste caso toma as decisões. Quando comecei a trabalhar em Monumento aos mortos, não tinha de modo algum noção dessas exigências especiais. Elas só vieram à tona durante o processo criativo e mais de uma vez as infringi. A cada vez significava retroceder com o trabalho realizado até o ponto onde a infração tinha se iniciado. Lutas difíceis que tivera de travar sozinha comigo mesma, pois não tinha ninguém que teria podido me ajudar nisso. Nas cenas de Monumento aos mortos tinham dois coros em oposição: as mulheres amantes, que no tormento da sua solidão avançam até a soleira da morte, para num delírio poder anular o caráter definitivo da separação e fazer os amados voltarem na sua aparência anterior. E do lado oposto, o coro fantasmagórico e imprevisível dos homens, que deveria simbolizar os mortos da guerra em figuras de tamanho maior que o natural. No silêncio mortal, na defesa penosa e passiva e finalmente se revoltando contra a invasão das mulheres àquele entorno crepuscular e tomado de sombras, que não lhes era mais permitido abandonar. Sim, a dança é bem capaz de dar feição e forma ao sobrenatural. Mas aqui me deparei com dificuldades totalmente inesperadas, com inibições que me tomaram e embaraçaram. Pois não se tratava mais só de esconjurar o fantasmagórico como tal. Tinha-se de preservar aqui a dignidade, o profundo respeito pela majestade da morte, que mesmo no seu ato mais incompreensível permanecia o guarda-selos incontestável deste reino. Medo, horror, pavor, dor e ameaça da morte: todas as imagens da guerra estavam impregnadas pela força dessas mulheres para se aventurar. Enquanto o coro masculino permanecia perdido, no reino do esquecimento em nada mais acessável. Aqui não tinha mais nenhum amor nem compreensão das necessidades humanas. E ainda não bastava dirigir este 83 coro até um nível onde seria só uma aparição. Apesar de toda lonjura, do ser retomado como sombra vaga e fantástica, ele precisava ser posto em ação, precisava virar antagonista. Tentei muitas vezes equilibrar realidade e ultrarrealidade, sem conseguir. Até que um dia lembrei aquela canção da Odisseia, em que o grande andarilho realiza o sacrifício expiatório e de sangue a fim de poder encontrar as almas incertas do reino da morte. E dialogando com elas, recompensar a perda do seu passado, padecido em longas viagens. Literalmente, vi como as sombras disformes readquiriam um pouco dos seus traços humanos no contato com o sangue ainda quente da vida. Como se tornavam reconhecíveis e disponíveis, embora se mantendo intocáveis. E ainda que essa visão não fosse diretamente aproveitável, acendeu uma luzinha que me ajudou a avançar, tateando num reino intermediário até então inacessível. Com exceção de um único personagem feminino, que caberia a mim mesma interpretar, todos os bailarinos de Monumento aos mortos deveriam usar máscaras. Perplexa, me pus diante dos cinquenta rostos talhados em madeira. Será que eles se ajustariam ao processo de abstração de uma criação coreográfica minuciosa? No tratamento em grandes linhas da superfície da madeira, na expressão dolorosa de severa rejeição e abandono, as máscaras masculinas se adaptavam mais a uma representação mantida no espectral. Ao passo que os rostos dilacerados das mulheres foram trazidos para um realismo radical, que também parecia os banir para o fantástico – mesmo que num outro nível. E foi assim que a primeira tentativa prática falhou, caindo no grotesco. E agora? Não sabia mais o que fazer. Mas tinha de ter uma saída para nos aproximar dessas máscaras. Tentamo-lo através de “exercícios de meditação”. As bailarinas se sentaram no chão, com as costas apoiadas na parede e olhando fixas para as máscaras pousadas no colo: um, dois, cinco minutos... Não se ouvia uma palavra! Só uma melodia, tocada suavemente no gongo, atravessava a sala. Na noite seguinte a mesma coisa. Só que dessa vez as bailarinas puseram as máscaras sobre o próprio rosto, se observando na imagem de um espelho que cada uma trazia consigo. Desse modo, fomos pouco a pouco nos apropriando do estilo e caráter das máscaras. Então passei a modelar as figuras isoladas. Deixei cada uma das bailarinas se aproximar do grande espelho no meu estúdio, para lhes indicar onde deveriam buscar a discrepância entre máscara e forma humana. Me lembro particularmente da bailarina que usava a máscara de uma velha. Seu corpo expressava franco desdém pelos traços da máscara, atormentados, enrugados e já estando em extinção. Até que com extremo cuidado foi possível então imprimir ao corpo jovem a decrepitude da velhice igualmente no andar, porte e trejeito. 84 Um trabalho de detalhe infinitamente penoso, no qual se tratava não só de afinar a máscara e sua portadora uma com a outra, senão também, em observância de suas dificuldades individuais, de também fixar isso estilisticamente e tipificar. Só então a cooperação de todos na forma coral pôde ser alcançada. Embora tenha se verificado que as “colunas de luz” de Talhoff no espaço-catedral do chamado não eram realizáveis, a primeira entrada do coro feminino atingiu um efeito extraordinariamente intenso. Da escuridão do plano de fundo uma figura feminina se desprendia depois da outra e entrava por um momento na jurisdição de um cone de luz, em cuja agudeza ela reluzia intensa, para resvalar de novo para a escuridão e dar lugar à próxima figura: a jovem trabalhadora com movimentos duros e bruscos abrindo caminho sem pensar; a cega com olhos mascarados e sem expressão, com passo instável e às apalpadelas; a jovem que atravessa feito criança o espaço à procura e mal consciente das mágoas sofridas; a louca numa falta de objetivos infundada e hesitante. A velha já débil; a mulher que se desfaz em lágrimas, e a petrificada; a resignada e a cheia de sentimento materno e pronta para consolar. A série de personagens parecia não acabar e passava diante dos olhos como uma visão de singular insistência. Senão agora as mulheres formaram juntas uma unidade coral, numa procissão emluto de muitos lamentos. E foi aqui que realmente começou minha luta pessoal para dominar a grande estrutura coral. Cada quebra na formação em bloco (quer com isso permitisse a expressão individual em movimentos ora paralelos ora opostos) devia se manter conectada ao evento como um todo. Devia o levar adiante e intensificar. Até que lamento, luto, saudade e revolta soaram juntos num único grito: a reivindicação desesperada pela volta dos mortos. Os corpos amontoados juntos e em cima uns dos outros e estremecendo de dor como um animal ferido, fazendo do coro feminino uma massa infinita de sofrimento, onde a visão dos mortos começava a sombrear. Como formando um órgão, igual a tubos socados ao lado e em cima uns dos outros, estes surgiram na luz pálida e espectral do fundo, levantando muito e muito devagar o braço direito para um gesto singular de defesa e recusa. Mas o coro das mulheres não resistiu. Aturdido de pavor se desfez. E de novo espalhadas e isoladas, elas se puseram em fuga diante da presença por si só incômoda daquelas figuras, que se mantinham fora do seu alcance. O palco escureceu e caiu no silêncio. Até que os coros falados (erguidos à direita e esquerda desde o proscênio até os altares) passaram a comentar o evento coreográfico através de perguntas e respostas, o encaminhando para a próxima cena. Os ensaios sob a direção de Talhoff nem sempre ocorriam sem atrito. Algumas vezes levavam mesmo a brigas sérias. Assim, por exemplo, a música de acompanhamento, já 85 criada em Dresden e inteiramente desenvolvida a partir da movimentação dos bailarinos, foi rejeitada e as cenas de dança submetidas a uma orquestra de ruídos rítmicos, que ele conduzia. Mas as sequências coreográficas, compostas até o menor detalhe, não admitiam qualquer arbitrariedade. E devido à dimensão que tinham adquirido, precisavam de um apoio seguro que as tornasse independentes de todos os outros elementos cênicos. Então, finalmente concordamos com a batida métrica de dois tambores africanos, cujo tom penetrante chegava até o último canto da grande área da cena, mas sem poder ser ouvido da plateia. Abrir mão da música coreograficamente independente foi duro, mas se mostrou como o correto. Pois as formulações rítmico-melódicas próprias de Talhoff não estavam no fundo direcionadas à dança. Elas tinham um caráter sonoro declaradamente pitoresco, que teria antes borrado do que realçado a nitidez das formas coreográficas. Os tambores africanos nos salvaram aí. Mesmo quando as extensas ondas sonoras ressoavam na cena, não podiam de modo algum invadir a estrutura coreográfica. Senão, pareciam cercá-la como com uma parede de sons, se agitando em si. As cenas de dança resistiram à provação das palavras e sons. Mesmo a renúncia, que por motivos técnicos se tornou necessária, ao uso da luz, ao aparecimento das colunas de luzes e às luzes sinalizadoras, pulsando numa condução rítmica (de cujo efeito eu tinha esperado tanto), isso em nada prejudicou as cenas. Forças demais e inconciliáveis entre si foram empregadas para que se tivesse podido realizar o sonho dourado de Talhoff em direção à obra artística total. Não obstante, Monumento aos mortos era uma façanha única, um grandioso e habilidoso estudo, cujo efeito não se podia negar. A impressão da obra era e se manteve perturbadora. Noite após noite, o enorme salão do festival, reformado especialmente para Monumento aos mortos, se enchia de pessoas, que ficavam profundamente emocionadas. Tinham lá aqueles momentos majestosos, em que, das galerias, alguns porta-vozes liam cartas de estudantes mortos na guerra. Momentos em que se retinha a respiração e um choro silencioso parecia tomar a sala. Tinha depois a marcha das mulheres, que, transfiguradas de dor e como se sublevando contra si mesmas, emergiam do fundo do fosso da orquestra como para conversar com seus mortos: no reino do esquecimento, que era também um lugar de afetuosa recordação. Seu caráter sepulcral ele adquiriu através das figuras do coro masculino. Lápides para si mesmas, elevadas na vertical através de praticáveis e coturnos e acolhidas como no silêncio de uma profunda paz. Nenhum se revoltar das mulheres dessa vez! Fervor, humildade, devoção ascendiam até as figuras e pareciam incitar a reação: numa volta da cabeça quase imperceptível, numa mão que se erguia bem de leve. Nenhuma ameaça dos homens. Só renúncia e o grande luto no reconhecimento do inevitável. 86 E tinha o lugar da “contra chamada”, onde o coro masculino se erguia, se defendendo do repetido assalto ao seu reino e protestando contra a guerra. Conforme a concepção de Talhoff, os bailarinos deviam romper o espaço como tamboreiros espectrais que agitam bandeiras e o preenchem de escuridão. Chamei Figura do espaço à dança que surgiu como estudo preliminar desta tarefa. Era tão extenuante fisicamente, que só pude incluí-la no meu programa solo por um período relativamente curto. Um pano duplo, composto de seda vermelha e veludo cinza-prata, foi trabalhosamente ajustado à saia de corte amplo do meu figurino. Ele tinha quatro metros de comprimento e estava preso na sua outra ponta a uma haste de madeira preenchida de chumbo, que me pesava nas mãos. Só assim foi possível subjugar e dominar coreograficamente esse material raro: o lançar no ar em grande curva; se envolver tão apertada nele que o corpo virava uma pilastra; e o desdobrar num movimento de profundidade que se desembaraçava longe e com força – feito asas pondo o espaço do ar e do chão em alvoroço. Era trabalho de homem, que ia na verdade muito além das minhas forças. Mas experimentada e versada, ele me pôs em condições de mediar os bailarinos de Monumento aos mortos na sua própria manipulação. Teria sido fácil deixar que a última cena virasse uma enorme algazarra: a investida de um inferno interpretado teatralmente, que afrontaria com ódio a realidade viva dos homens e a esmagaria cegamente. Mas era justo isso que não poderia ser. O critério usado em todas as outras cenas também tinha de valer aqui: o monumento aos soldados mortos na guerra erguido em ato solene, mas também a evocação aos vivos e sobreviventes. Outra vez as mulheres partiram em direção aos mortos. Outra vez pedido e oração soaram juntos num clamor ávido e amoroso. Mas então era como se o espaço quisesse explodir e se separar no estrondo abafado dos timbales, na batida firme dos toques do tambor, ainda amparado na orquestra pelos golpes ininterruptos da percussão. Se organizando em filas, no passo de marcha de andar pesado e que, contudo, ficava quase só no lugar, o espectral coro masculino parecia atacar. Parecia empurrar para o lado as mulheres estarrecidas de susto diante da violência dessa visão, as nivelando ao chão, para assim tomar posse do campo do experienciar humano. Sobre isso o estrepitar e desfraldar das bandeiras. Como as asas imensas dos anjos sombrios da morte, estas eram sempre de novo transportadas longe, no ar e sobre as cabeças. Rebelião dos mortos: se inflamou e desfez. Só o ronco dos passos era ainda audível, que, ficando cada vez mais fraco, sumiu na distância e envolveu a cena num vazio mudo. Uma pausa, um minuto de silêncio em que, deixada para trás sozinha, devia realizar o 87 último gesto que encerraria Monumento aos mortos. Tendo passado por todas as etapas de vivência das mulheres como líder do coro, minha função agora era reconciliar a esfera dos mortos, que tinha sido lançada no tumulto. Restituir-lhe aquele se preservar sereno, do qual o homem só tem direito de se aproximar em estado de devoção. Do alongamento máximo do corpo, deslizei devagar, infinitamente devagar para o grande arco da “ponte”. Em si nada de especial e familiar a todo bailarino! Mas no milimétrico ralentar, o corpo pareceu se romper e segundos viraram eternidades. Talvez um dos efeitos mais fascinantesda dança seja o de conseguir alcançar com seus meios meramente corporais uma total descorporificação na sua expressão. E foi isso que se deu nesse último gesto. Quanto mais as costas se curvavam, mais a cabeça se aproximava do chão. E os braços, recusando qualquer apoio, começaram a tremer no ar como galhos revoltos. Então mais e mais tomou conta de mim essa sensação de incorporalidade. Devoção? É, mas o tema a ser preenchido já estava ali atrás de mim. Dolorosa também ao passar de um estágio de profundidade para outro. Mas não isso que geralmente chamam de “expressão”. Aqui não tinha mais qualquer querer consciente nem qualquer possibilidade de abraçar a mensagem pessoal. Tinha só a consequência inexorável de uma ação, que num total altruísmo virou o gesto do sacrifício. O sangue pulsava frenético nas minhas têmporas, minhas orelhas zuniam e os olhos miravam o escuro. Mas jamais teve o menor indício de inconsciência. Era mais como se fosse movida para outra esfera de consciência, extratemporal e extrafísica, onde a própria terra tomava conta da existência física e pareceu sugá-la com uma estranha força de atração: devagar e sempre ainda mais devagar, mais fundo e sempre ainda mais fundo. Só quando então minha cabeça descansou no chão, a tensão quase sobre-humana pôde ser liberada. As costas cederam e os braços caíram frouxos. Com uma respiração profunda pude me livrar do feitiço autoimposto. As luzes apagaram. Monumento aos mortos tinha terminado. Pedagogia da dança Carta para um jovem bailarino Você faz muitas perguntas, meu caro amigo! E se eu fosse responder seu questionário como você gostaria (ponto por ponto e ainda em manchetes de jornal), seria o que eu nunca quis e ainda hoje não quero: instruções de aula, um manual de orientação técnica ou mesmo um método. Não, meu amigo, eu não tornaria as coisas tão fáceis. E se você me toma como conselheira, quando está começando sua própria atividade como professor, então não espere 88 resposta para perguntas que se referem quase exclusivamente a como lidar com coisas práticas, que se entende por si. Afinal, o total domínio do ofício em todos seus aspectos técnicos e funcionais é um pré-requisito para qualquer atividade artística. Então não esqueça – e não esqueça nunca! - que o ensino da dança é uma tarefa condicionada à arte. Além disso, você já experimentou no próprio corpo tudo isso que entendemos por técnica de dança. Você se apropriou dela, ela é o que você possui. E se posso dar um conselho é: redescubra tudo outra vez você mesmo e na sua relação viva e comunicação de uma pessoa para outra. Você quer se contentar com uma cópia? Fale sua própria língua e tente passar para seus alunos algo que o levou um dia para a dança: seu entusiasmo, sua obsessão, sua fé e a persistência constante com que se trabalhou como aluno. Tenha coragem de ser você mesmo e ajude também seus alunos a encontrar o caminho para eles mesmos. Mas talvez devêssemos falar mesmo do amor, dessa disponibilidade interna que diz respeito ao homem no bailarino, antes de se recorrer ao bailarino no homem: àquela criatura que é fermento e ebulição e ainda não tomou nenhuma decisão definitiva. Em quem mesmo o talento de dançar ainda não se manifestou de tal modo que possa servir de guia claro para tudo no futuro. Uma disponibilidade generosa, que não tem nada a ver com o amor do professor pelo seu aluno como indivíduo. E menos ainda com aquele amor romântico pela humanidade e seu próximo, que engana e obscurece, cria confusão ao invés de clarear e volta como um bumerangue para o ponto de onde saiu. Porque no fundo só visa a si. Poderia-se antes falar num “Eros pedagógico”, nessa condição flutuante de estar junto, onde movimento humano e obrigação artística se unem no nível de uma troca viva. E aluno e professor circulam, num movimento sempre renovado para e contra um ao outro, em volta daquele centro que no nosso caso se chama “dança”. Você pergunta pelo segredo do sucesso no ensino. E eu pergunto de volta: isso existe mesmo? Se o professor quisesse atribuir a si o sucesso e reconhecimento do seu aluno não seria um pedagogo. Antes, você poderia ter perguntado pelo segredo do talento para ensinar. Ele é como todo talento um presente, que não se pode ganhar nem adquirir pelo trabalho: um dom sem dúvida, que exige ainda mais de quem o tem, porque lhe impõe uma responsabilidade que vai além de si e envolve outras pessoas. O que seria da criação artística se não houvesse o segredo da seleção! Por que o talento foi dado a um e negado a outro? 89 Tentamos explicar tudo. E quase tudo mesmo se deixa explicar. Se não conseguimos mais no jargão profissional, uma comparação pode ajudar. Mas quando se acredita ter dito e esclarecido tudo, então se chega num ponto por trás do qual se põem as grandes interrogações, por trás do qual conceitos e imagens começam a se encobrir; e tudo que pode ser ensinado e aprendido é substituído pelo que se pode adivinhar. De onde vem o prazer de compor e moldar e o amor do jardineiro pelo que cresce vivo? Pois o desejo de ensinar - mais ainda a necessidade! - não nasce da mesma fonte que o impulso para a criação artística? Eles podem se acomodar de modo um pouco diferente. Mas não está por trás o mesmo impulso indomável de comunicar e o impulso igualmente indomável de dar forma? Só posso ver a educação na dança como uma tarefa formativa, além da qual, como acento mais forte, está o homem na sua corporalidade. Então, formação do corpo? É, pois se trata de um processo de crescimento, onde movimento físico, mobilidade espiritual e agilidade mental devem ser equilibrados para realizar a transformação do corpo, de carne em instrumento. Mostrar para o jovem bailarino toda enorme gama das suas possibilidades de movimento, o aproximar da mensagem cumprida, que ressoa como um acorde inteiro. Isso é que é. Num certo sentido, é um trabalho de esculpir, onde sob os olhos atentos do pedagogo o corpo em movimento vira instrumento da dança, vibrante de sensibilidade e perfeitamente dominado. Um recipiente que se ilumina na sua transparência, onde o conteúdo agitado e móvel da dança se mistura e condensa na forma purificada. É isso! E se esforçar por isso (e se possível também consegui-lo) é tarefa e objetivo que professor e aluno têm de resolver e realizar juntos num acordo tácito. Uma aventura maravilhosa, descobertas fascinantes em que você ajuda seu aluno entra ano sai ano; sempre a mesma coisa num conteúdo sempre novo e forma em mudança. Já vão quase cinquenta anos que vivo essa aventura e nunca me cansei. Todo começo é difícil, mas também todo começo é bonito. Como amo as primeiras revelações balbuciantes que o jovem tira do seu corpo, ainda despreocupado e desonerado dos problemas do estudo do movimento corporal e expressão na dança, das leis do ritmo e dinâmica e compreensão analítica e funcional. Não prive seus alunos da experiência dos seus primeiros começos! Pois nestes eles encontram a si mesmos. E assim você os conhece melhor e mais rápido, porque aqui eles falarão de si e dirão a verdade. Os alunos vêm e vão. Você os aceita e assim que eles começam a estar um pouco mais seguros sobre os próprios pés, você os deixa partir. Esse é o destino pedagógico. Não 90 espere nenhum obrigado dos seus alunos, meu amigo! Eles estão demais ocupados com eles mesmos para poder entender e perceber claramente, durante o pouco tempo de estudo, como foram guiados e o que receberam. A gratidão, o tributo conscientemente pago vem dez anos depois. Esteja certo disso. Ensine seus alunos a ver e também absorver com olhos despertos a profusão de acontecimentos da sua vida diária. Ela tem mais para dizer e dar do que se acredita entender apenas os deixando passar. Os ensine a pensar com conceitos amplos. As relações espaciaisna dança não admitem qualquer limitação no pensamento. Elas exigem uma expansão espiritual, na mesma medida que o gesto busca o espaço distante. Ensine seus alunos a trabalhar, concentrados e infatigáveis. Os fortaleça na luta para serem duros com eles mesmos. A profissão da dança é inexorável nas suas exigências e o jovem bailarino não tem tempo a perder. O tempo de sua habilidade pessoal para atuar lhe é limitado. Ele pode se superar, mas não pode pôr seu trabalho no gelo, para recuperá-lo depois de um tempo fresco e pronto para o uso. O tempo passou para ele. Precisa paciência, meu amigo, muita paciência – e não esqueça também o humor, que melhor do que qualquer outro recurso pode desanuviar aqueles momentos pesados, em que professor e aluno começam a se desentender num exercício de aula não resolvido. Uma risada liberadora purifica o ar e restaura imediatamente o andamento normal do trabalho. Claro, também faz parte um pouco de conhecimento do homem e uma mão cuidadosa, que numa condução quase imperceptível contribui para atualizar a formação do jovem ser humano. Dar aula e ensinar não é sempre a mesma coisa e um bom instrutor também não é sempre um pedagogo. A análise e controle da sucessão do movimento são parte da profissão e o pão de todo dia do bailarino. Agora, ensinar é investigar o material de aula de todos os lados, transmiti-lo tanto nos aspectos funcionais quanto da penetração espiritual e experiência emocional. A dança não é uma linguagem cotidiana, embora seu material seja o mesmo movimento que o homem usa na sua expressão diária. Como a poesia e a música, ela é o concentrar e adensar de muitas e muitas oscilações, se empenhando uma na direção da outra para se cristalizar no crescimento e moldagem da forma. E aquilo que está “nas entrelinhas” não caracteriza menos a forma do que qualquer coisa claramente expressa. Mesmo na pureza nua do gesto abstrato, acompanha em insinuação vibrante o fundo espiritual e mental; e lhe dá o traço especial, o colorido, onde luz e sombra jogam uma com a outra e através do qual a coreografia ganha vida no espaço e vira um acontecimento artístico. É maravilhoso quando o 91 suor do trabalho pinga, os corpos exalam vapor e os rostos queimam. Quando a realização física ultrapassa tudo que se imaginou possível e o esforço vira alegria. Mas também experimentei como um grupo de jovens começa a brilhar por dentro e emite uma força radiante, onde tudo que é físico parece suspenso e leva a uma espiritualização, que eleva a criação da dança ao nível do encantamento e transfiguração. “Um pé que sorri, uma mão que pode chorar”: bem, a dança não é só uma arte do tempo e espaço; é também a arte do momento pleno e inteiramente vivido, sem diferença da sala de aula para o palco. A divisão do programa de ensino no estudo da postura e movimento, do espaço e estrutura só tem validade como princípio de ordem. Pois onde está faltando só uma das qualidades elementares, o todo já não vai bem. Mantenha os sentidos despertos em você e em seus alunos para a experiência do momento criativo, onde a fonte de vida borbulha. Nada contra a virtuosidade! Nós a esperamos de todo bailarino de porte. Mas o bailarino que só se destaca pelo brilhantismo da sua técnica tão treinada e gira no palco num vazio mecânico não está entre os “escolhidos”. E aqueles outros que o tempo todo só pensam em si, num exibicionismo narcisista e não percebem mais que se movem sobre a superfície polida da solidão, onde nada de vivo pode mais respirar: para eles também é negada a chispa divina. Eles próprios se bloqueiam. E aqui nos vemos no limite das possibilidades do ensino se efetivar. Porque aqui a natureza está trabalhando e não deixa que tomem seu segredo. Com certeza, podemos muito formando e moldando, cuidando, fomentando e desenvolvendo. Mas não está no nosso poder criar o grande talento, que muitas vezes é tão ardentemente desejado. Não podemos sequer determinar o grau e tipo de talento. Porque se a própria natureza não pôs no homem o combustível do talento artístico, nenhuma força, desejo ou vontade pode acender a chama naquela intensidade luminosa em que o potencial criativo transborda, a linguagem da dança sublima em obra de arte e o bailarino vira portador e mensageiro da arte de dançar. O talento é uma benção. E também o talento para ensinar dança. Mas nossa função é servir: servir a dança, servir o trabalho, servir o homem e servir a vida. Proteja o fogo da arte de se extinguir, caro amigo – mantenha a tocha erguida! MW. Coreografias criadas e apresentadas publicamente por Mary Wigman 1914 – 1961 Danças solo 1914 Dança da bruxa I Lento Um dia de elfos 1917 O jogral de Nossa Senhora 1918/19 Marcha oriental: scherzo, serenata, yaravi Danças extáticas 1. Prece 2. Sacrifício 3. Idolatria 4. Dança do templo Quatro danças húngaras (segundo Brahms) Heroica Valsa 1920 Polonesa (Liszt) Suíte de danças (Dvorak) 1. Prelúdio 2. Jogo 3. Valsa 4. Alegro com brio Quatro danças sobre motivos orientais 1. Arabesco 2. O impulso 3. O sinal 4. O meio Danças da noite 92 a. Sombra b. Sonho A aparição Visão 1920/23 Ritmos dançantes I a. Triste b. O chamado Ritmos dançantes II a. Canção da espada b. Lamento c. Zamacueca Suíte ao estilo antigo 1. Polonesa 2. Gavota 3. Sarabanda 4. Rigodão Suíte espanhola 1. Canción 2. Alegro airoso 3. Malaguenha Duas danças do silêncio Sequência de danças sobre cantos russos O grito O caminho Variações sobre um tema heroico Outras duas danças para Suíte espanhola a. Romança b. Seguidilha 1923/24 Appassionato Duas canções dançantes Dois ritmos dançantes Dança final da Rapsódia (Liszt) a. alla marcia b. all’improvisato c. alegreto zingarese 1924 As danças do anoitecer (três elegias) 1925 Outras duas danças para Suíte espanhola Para a série de personagens de Visões visão I: Figura de cerimônia visão II: Figura vendada visão III: Figura espectral 1926 Prelúdio festivo Dança rapsódica Duas monotonias a. contida b. em giro Para a série de personagens de Visões visão IV: Dança da bruxa (dança mascarada) 1927 Canção dançante para A celebração II Oscilações brilhantes 1. com grande vigor 2. suave a fluir 3. leve a brincar Para a série de personagens de Visões visão V: Figura onírica Quatro danças sobre canções balcânicas Balada I Para a série de personagens de Visões visão VI: Figura solene visão VII: Figura fantasmagórica 1928 93 Para a série de personagens de Visões visão VIII: Figura do espaço (estudo preliminar para Monumento aos mortos) 1929 Paisagem oscilante (ciclo) 1. Clamor 2. Canção seráfica 3. Face da noite 4. Pastoral 5. Ritmo de festa 6. Dança de verão 7. Canto da tempestade Melodias ciganas (três canções dançantes) 1930 Dança da dor 1931 O sacrifício (ciclo) 1. Canção da espada 2. Dança para o sol 3. Chamado da morte 4. Dança para a terra 5. Lamento 6. Dança em direção à morte Polonesa Rondó Quatro danças sobre canções populares húngaras 1934 Dança maternal Dança da alegria silenciosa (para o ciclo Danças das mulheres) 1935 Canção do destino Canto da lua (para o ciclo Hinos 94 dançantes) Suíte de danças (Bizet) 1937 1. Intermezzo Danças de outono (ciclo) 2. Minueto 1. Dança da lembrança 3. Farândola 2. Benção Dance macabre (Saint-Saëns) 3. Ventania Grotesco 4. Canto da caça Dois ritmos dançantes 5. Dança no silêncio A fuga 1938/41 As sete danças da vida Balada II Poema dançado para solo e pequeno grupo de Mary Jogo Wigman. Música: HeinzPringsheim Dança da rainha luminosa Estreia: Teatro de ópera, Frankfurt/Main. sequência das danças: Prelúdio Dança da rainha obscura Dança da saudade O chamado Dança do amor Três danças sobre canções polonesas Dança do prazer Diálogo Dança da dor 1942 Dança do demônio Fique calmo, meu coração Dança da morte Se alegre, meu coração Dança da vida Dança de Brunilda 1923/24 Dança de Niobe Obras para grande grupo Adeus e obrigado danças avulsas: Marcha Mary Wigman termina sua carreira como Polonesa I Rapsódia II (Liszt) bailarina solo Polonesa II Danças de grupo Silhuetas (Arensky) Cenas de um drama dançado 1920/23 1. Apelo Obras para solo e pequeno grupo 2. Peregrinação A celebração I 3. Círculo 1. Saudação 4. Triângulo 2. O feitiço 5. Caos 3. A consagração 6. A viragem 4. Canção 7. Visão 8. Encontro 9. Saudação 1925 Canto grupal Um conto de fadas dançado figuras: a lua três moças transformadas em flores o moço os guardas o grande demônio o mágico o mágico superior os tamboreiros 1926 Dança fúnebre (dança mascarada) Hinos do espaço 1. Prelúdio festivo 2. Série balançante 3. O raio 4. Ritmo Suíte para cantos e ritmos russos 1. Passagem escura 2. O bloco 3. Canção dançante 4. Variações sobre um tema rítmico 1927 A celebração II (primeira versão) parte 1: O templo parte 2: No signo do escuro parte 3: a. Polonesa b. Canção dançante c. Tarantela 1928 95 A celebração (versão definitiva) parte 1: O templo (quatro monotonias) parte 2: No signo do escuro parte 3: Fim de festa 1929 Movimento coral (três estudos) 1930 O monumento aos mortos Criação e ensaio das cenas coreográficas e dramáticas baseadas no poema e partitura geral de Albert Talhoff. Representação do personagem principal da dança. 1932 O caminho (ciclo) 1. Abertura heroica 2. Canto noturno (solo M.W.) 3. Pássaros de sonho 4. Sombras (sombras ameaçadora e recuada) 5. Pastoral 6. Fim heroico 1934 Danças das mulheres (ciclo) 1. Ciranda de casamento (em três partes) 2. Dança maternal 3. Lamento fúnebre 4. Dança da alegria silenciosa 5. A profetisa 6. Dança da bruxa 1935 Hinos dançantes 1. Canção de louvor 2. Canção do destino 3. Procissão 4. Canto da lua 5. Dança do fogo 6. Dança de homenagem 1936 Lamento fúnebre Realização para grande coro no âmbito do festival da Olimpíada juvenil. Estádio Olímpico, Berlim. 1943 Coreografia e arranjo cênico de Carmina Burana de Orff 1946 Três estudos corais: Da miséria da época 1. A fuga 2. Os que buscam 3. Em afetuosa recordação Apresentados pelos alunos da Escola Wigman, Leipzig. 1947 Encenação e coreografia da ópera Orfeu e Eurídice de Gluck Ópera Municipal, Leipzig 1952 Estudos corais Os que esperam Os desterrados Queixa e acusação Apresentados pelos alunos do Estúdio Mary Wigman, Berlim. 1953 Danças de grupo Sarabanda de despedida (segundo Honegger) Lamento a Orfeu (segundo Stravinski) Ritmo extático (segundo Honegger) Ritmo das mênades (segundo Borries) 96 Estúdio Mary Wigman, Berlim Cenas corais 1. Profetisa 2. O templo 3. A rua a. Meia-luz b. Passos estrondosos c. Perigo d. Aparição 4. O caminho Estúdio Mary Wigman, Berlim Apresentações: Berlim e Festivais Recklinghausen 1954 Encenação e coreografia do oratório cênico Saul de Händel Teatro Nacional, Mannheim 1955 Encenação geral e coreografia de Catulli Carmina e Carmina Burana de Orff Teatro Nacional, Mannheim 1957 Encenação e coreografia de Le sacre du printemps de Stravinski Ópera Municipal, Berlim, Semanas festivas berlinenses 1958 Encenação e coreografia da ópera Alceste de Gluck Teatro Nacional, Mannheim 1961 Coreografia para a ópera Orfeu e Eurídice de Gluck na encenção de G. R. Sellner Ópera Alemã, Berlim, Semanas festivas berlinenses 97 3. REFLETINDO SOBRE PROCESSOS CRIATIVOS 3.1. Mary Wigman e suas contribuições Canção do destino Alceste 98 Dança de Niobe Canção seráfica 99 Pode-se dizer que a dança é um artifício, uma fabricação de artífices, que causa ou não prazer naquele que assiste. Na família ou em eventos comunitários, cria comunhão entre os participantes, celebrando e reverenciando uma data. Mas tal magia nem sempre implica em sensações agradáveis; ou seja, nem sempre a dança deve apresentar imagens bonitas e plásticas. Antes de tudo, ela capta o movimento da vida na sua multiplicidade. Wigman, por exemplo, buscou nas suas coreografias os mais diferentes matizes, provocando ora alegria e jovialidade (como em Dança de verão), ora circunspeção e gravidade (como em Face da noite) (WIGMAN, 1986). Sobre Dança de verão diz Wigman (acima: 68): “A dança era um tango, cujo caráter foi tão reduzido até seu efeito ser só uma vibração sutil, ritmicamente organizada - e ganhou uma transparência em tudo o que é físico, trazida pela suave brisa do verão e na qual o erotismo se revolvia como uma borboleta mágica”. Já sobre Face da noite diz que “a mensagem da dança era uma acusação, de onde falava o horror fantasmagórico da última solidão” (id.: 64). O livro A linguagem da dança foi escrito em 1963, quando Wigman já tinha encerrado sua carreira como dançarina, continuando a coreografar e dar aulas na sua escola. Ele é testemunho dos seus longos anos de dedicação à dança e contém reflexões sobre a arte de dançar, descrição dos principais solos, trajetória artística e ensino da técnica. O primeiro capítulo traz uma introdução, onde ela define sua intenção com o livro e para quem está dirigido (WIGMAN, 1986). Ela foi uma das maiores dançarinas de sua época e também uma das mais produtivas, com uma extensa obra, sobretudo de solos e coreografias para sua companhia. Além de dançarina, ela foi coreógrafa, diretora de sua companhia e espetáculos, professora, proprietária de escola e produtora. Como veremos, sua importância foi tanto para a expressão da dança como o ensino. Da mesma forma, Laban estabeleceu uma metodologia que foi incorporada por muitos artistas. Ele reconhece uma cinesfera, o espaço em volta do corpo no qual nos movemos. Ali determina três planos principais: da porta, da mesa e da roda. Também a partir dos fatores de movimento tempo, espaço, peso e fluência, Laban estabelece as 8 ações básicas de esforço: torcer, pressionar, chicotear, socar, flutuar, deslizar, pontuar e sacudir. Além dessas ferramentas, que aprendi quando fiz um workshop sobre Laban conforme já mencionado, outra contribuição para a técnica coreográfica é a notação Laban, usada para registrar graficamente o movimento. 19 Assim, Wigman faz parte do grupo que revolucionou a linguagem da dança na 19 Hoje esse trabalho é feito sobretudo pela função vídeo dos celulares ou filmadoras. De qualquer modo, o que Laban propôs foi uma partitura de movimento à maneira da notação musical. 100 primeira metade do século passado, colocando-a ao lado das demais artes, que vinham sendo redelineadas pelas vanguardas. Do mesmo modo, o livro é pioneiro no estudo da composição coreográfica, em especial pela interseção com o teatro. E indiretamente, ao apresentar um retrato claro do artista no período (seu pensamento, motivações, acontecimentos vividos e posições), interessa não só a profissionais da área mas ao leitor leigo. Como é riconotar a evolução da sua trajetória, das primeiras investigações e arrojo das formas até as marcas da experiência e segurança depois de uma vida de dificuldades ou sucessos artísticos! Nesse sentido, Wigman serve de modelo a gerações futuras, sendo homenageada por grandes artistas posteriores. Ela influenciou Kreutzberg, Palucca, Gelewski e Forsythe, entre muitos outros. Para Wigman, a dança é uma arte do tempo e espaço. 20 Esses elementos se interrelacionam, dando a dimensão do evento artístico. O tempo na dança não é o mesmo do cotidiano, da vida no seu suceder cronológico. E o espaço também é outro. Muitas coreografias foram criadas a partir de temas espirituais, que pediam um tempo ritualizado. Essa noção alterada ou relativizada do tempo pode ser notada, por exemplo, quando um segundo se torna para a dançarina uma eternidade. Concomitantemente, não se utilizou só do caráter solene do ritual, mas também o festivo (WIGMAN, 1986). E aí encontramos o prazer em se movimentar, que cria um jogo de formas no espaço. Se, por um lado, se aproxima de uma dança primitiva, o que buscou foi sobretudo valorizar o movimento próprio do corpo. Em termos históricos, se via no balé, a grande expressão da época, sinais de decadência. Pois, ainda que contasse com coreógrafos extraordinários, caía muitas vezes em gestos estereotipados ao buscar uma forma perfeita. Se tornou então urgente encontrar alternativas, que recuperassem o sentido original da dança. E nisso Wigman segue Isadora Duncan, que já se inspirara em antigas danças gregas (GARAUDY, 1980). A escolha por temas espirituais, porém, não significa que vivesse num espaço restrito, voltada só para si mesma. 21 Ela não buscou com isso um falso exotismo. Sua preocupação estava em comunicar, evitando o hermetismo. Ao negar a tradição, muitos artistas se fecham em formas cerebrais, que não têm qualquer interesse para o público. Mas em vários trechos do livro, se vê seu esforço em inserir na dança a realidade da qual participava. 22 Além disso, suas danças cobriram vários outros temas e formas. Se a natureza 20 Aqui, importa sobretudo o sentido da dança para Wigman, mas já em Laban tempo e espaço são elementos básicos (PRESTON-DUNLOP, 1990: xviii). 21 Quanto aos temas orientalizados, a profa. dra. Marília Soares (IA/UNICAMP) me chamou a atenção para o interesse crescente na época pela cultura oriental, consequência do estreitamento das fronteiras desde o período das colônias. Assim, existiram já na virada do século XIX feiras na Europa com artesanatos, artigos alimentícios e apresentações artísticas vindas do oriente. 22 Wigman viajou constantemente dentro e fora da Alemanha, usando suas experiências de viagem para criar. 101 foi sem dúvida uma de suas maiores fontes de inspiração, também criou a partir de materiais absolutamente ínfimos e delicados, como uma sensação corporal ou experiência pessoal. O que ressalta exatamente a cada capítulo é a sutileza quase misteriosa de seus processos de criação (WIGMAN, 1986). Por exemplo, a criação de Dança da bruxa, que foi um dos seus primeiros grandes sucessos. Nessa coreografia, ela usou uma máscara, que tinha na verdade sido confeccionada muito antes para outro solo. E um tecido, que comprou sem muita razão numa viagem ao exterior. Sua origem, porém, foi um experimento sensorial, que levou a posições do corpo no plano baixo do espaço. A partir daí desenvolveu um personagem, que foi complementado pelos objetos de cena e novas imagens. Cabe destacar que não impôs o tecido e a máscara; estes atendiam como a uma solicitação do personagem. Além disso, o grande esforço nessa coreografia foi, como ela mesma diz, recuperar a cada apresentação a sensação muito particular obtida naquele experimento inicial (id., id.; 1998). O que se vê aí para além do espetáculo é o interesse que surgia então pelo processo criativo. É verdade que criou certas coreografias em poucas semanas. Mas a descoberta de novas ferramentas de pesquisa resultou naturalmente em processos mais longos. De qualquer jeito, independente da duração dos ensaios ou mesmo de quanto sua riqueza pode definir o produto, se tem sempre a consciência, como o pintor que dá a última pincelada, de que num certo momento o trabalho está pronto e deve ser apresentado ao público. E então é a este que cabe julgar se o objetivo foi atingido. Pois o que é o final de um espetáculo? Se termina de forma reflexiva ou ao contrário festiva, o que o espectador leva é um conjunto de impressões, sensações e opiniões que forma durante a apresentação. Enquanto ele pode depois discutir ou não esse material, relacionando-o à sua própria experiência, ao intérprete é dado tempo para se esvaziar daquilo que é próprio do espetáculo e não faz parte da sua vida diária. Apresentar-se num certo sentido é um mergulho no escuro; uma viagem onde se busca trazer à tona tudo que foi conquistado durante os ensaios. Mas independentemente se resolve por si as questões que coloca ou se as deixa em aberto para serem ressignificadas em novos contextos, o espetáculo deve causar reflexão e mudança. Além dessas sutilezas da criação, a descrição das coreografias revela sua visão da cena: o desenho no espaço, a concepção do movimento, o uso de diferentes formas para comunicar um determinado tema ou ideia. Por exemplo no primeiro parágrafo do capítulo Também manteve contato pessoalmente e por carta com vários artistas e teóricos da dança da época, escrevendo ainda artigos e dando palestras em eventos ou entrevistas na imprensa. Finalmente, buscou ampliar o espaço de atuação da dança, com inserção de elementos populares e diálogo com outras linguagens, como poesia, teatro e ópera. 102 Canto da tempestade, Wigman (acima: 68-9) diz: Os pés correm sobre o chão. Em grandes curvas pelo espaço, vão ao encalço do corpo, incitado pelo vento, levado pela tempestade. Às cegas, este se lança em ritmos que martelam sem dó. Buscando proteção, ele se encolhe, se deixa lançar e curvar (para cá e para lá, para cá e para lá), se empinando e caindo como uma árvore derrubada por um raio. Fica esbaforido nas pausas curtas de calmaria – para se entregar de novo ao violento temporal, que o apanha e sacode, o empurra para frente e faz girar em volta do próprio eixo. Até a força acabar e um último golpe de vento o esparramar no chão numa apatia embotada. Aí temos a evolução de uma sequência de movimentos que possibilita reconhecer a fluência e uso dos diferentes planos do corpo e espaço, conforme procedimentos da dança moderna. No balé, o chão é sempre só uma passagem. 23 Essa linguagem se desenvolveu num esforço muscular para vencer a gravidade, com estiramento total da coluna. Daí o rigor no domínio técnico. Já na dança moderna, o dançarino se alterna entre os três planos (alto, médio e baixo), preservando certa liberdade de movimento. Enquanto o balé usa sobretudo posições bidimensionais, valorizando a periferia do corpo com movimento dos membros (braços e pernas), aqui se começou a explorar a tridimensionalidade, concentrando o esforço no centro do corpo e grande uso do torso. Como consequência, a dança ganhou novas dinâmicas e maior vocabulário corporal. Além disso, ao fazer amplo uso da respiração e imaginação, trouxe padrões de movimento mais naturais e meios para exprimir conteúdos mais próximos da realidade que se vivia na época. 24 Como exemplo, tomemos sua descrição de um salto no subcapítulo que dá título ao livro. Ali, a dançarina mostra como a respiração altera o desempenho do dançarino, contribuindo para o efeito do movimento (acima: 45-6). Em termos físicos, é o mesmo procedimento do balão de ar: se os pulmões estão cheios de ar quente, o corpo fica mais leve. E com isso se vê como a dança moderna diminui o esforço muscular. Por fim, voltando ao parágrafo sobre Cantoda tempestade, vemos a importância dada à imaginação. De um lado, ela estabelece uma linha de condução e justifica os movimentos dentro do tema, de modo que 23 Garaudy (1980: 36) caracteriza o balé como “negação da terra”. Essa é uma diferença básica em relação à dança moderna. Lembro que nas minhas primeiras aulas de dança moderna na escola de Magaly Bueno fazia muitos exercícios no chão. Já a técnica Graham tem várias sequências no chão, que preparam muitas vezes para o centro e diagonal. Por exemplo, os pliés, que são feitos no centro e não na barra como no balé, são antes preparados no chão junto com trabalhos de braço. Assim, pelo menos, a técnica me foi passada na escola de Penha de Souza. 24 Quando fui aluno de Renée Gumiel, fazíamos improvisações a partir de um tema ou música, com uso da imaginação. As improvisações eram sobretudo individuais e Gumiel explorava a movimentação a partir da articulação coxofemoral, recolhimento e expansão do movimento, espiral da coluna e força abdominal, num desdobramento da sua formação em dança moderna. Ela conduzia pontualmente as improvisações a partir de um estímulo inicial, mostrando depois o que lhe parecia mais interessante. 103 o próprio corpo vira a tempestade. Mas também ela aprimora o movimento do dançarino, na medida em que a técnica se torna instrumento para se chegar a uma imagem. Imaginar não só ajuda a concretizar ideias ou percepções muitas vezes abstratas. Também dá vida e autenticidade ao movimento, pois o dançarino encontra um motivo que insere sua ação numa situação: aqui a queda abrupta provocada por uma força externa descomunal; ou simplesmente o raio que derruba uma árvore. E nesse momento teatro e dança se entrecruzam. Observando o percurso de outras de suas criações coreográficas, se vê como também a experiência vira fonte de inspiração. Em Dança de Niobe, por exemplo, o mito da rainha grega é apenas um pretexto para falar do horror vivido num búnquer durante a Segunda Guerra. Essa experiência de viagem, impregnada no corpo, é retrabalhada nos ensaios para se tornar um hino de indignação às mulheres que perderam seus filhos na guerra. À certa altura do capítulo sobre essa dança, ela descreve o medo de uma mãe diante da possível morte do filho como olhos que arregalam e um grito preso na garganta. Essa situação, que atinge um climax no corpo sendo lançado no chão e o desejo de se extravasar em lágrimas, dá a representação precisa de um sentimento até então vago: o “desespero mudo” no búnquer das mulheres, tal como teria sido a dor de Niobe diante da morte dos filhos. 25 É desse modo que o estado do corpo leva a formas que comovem o público. Pois a experiência é transformada artisticamente para que a dor da perda não resulte em patética comiseração. No último parágrafo desse capítulo, ela reflete sobre o esforço para transformar essa experiência tão dura naquele búnquer em expressão artística: Toda vez que a dança acabava, parecia que tinha envelhecido muito, muito nos poucos minutos da sua duração e nunca mais acharia meu caminho de volta para a vida. E frequentemente antes de começar a dançar, me vinha uma timidez que até então não conhecia: não era audácia em me arriscar nesse tema? E sua criação simbólica era suficientemente pura e minha força espiritual suficientemente forte para aplacar a dor; ou ao invés disso não teria reaberto violentamente feridas quase fechadas? Quis clamar para aquelas mulheres dilaceradas de dor: “Me perdoem se dançando canto sua dor e acreditem que o sangue do meu próprio coração jorra nessa dança. Pois seu pesar é o pesar de todos nós e para mim ele é sagrado” (acima: 76-7). Já em Face da noite, do ciclo Paisagem oscilante, a guerra aparece de forma inconsciente. 26 Depois de uma viagem de férias à França, decide transformar essa experiência num ciclo de danças. Ao terminar a terceira coreografia, Face da noite, percebe a recorrência 25 No mito grego, os deuses matam os filhos da rainha, como punição pelo orgulho desmedido da própria prole. 26 Sobre esse ciclo ela diz: “Paisagem oscilante: assim chamei o ciclo de solos que surgiu como resultado imediato dessa viagem de verão” (id.: 62-3). 104 à forma de uma cruz em pé. Então, se dá conta de que a dança remetia à visita a um cemitério de soldados mortos na Primeira Guerra, nos Vosges. Essa experiência ficou tão marcada no corpo que até mesmo o público pôde perceber no tema da noite a solidão e morte provocadas pela guerra (id.: 64). Se a guerra era então um tema esperado, dado o período em que viveu, em outras coreografias encontramos temas muito variados, que por sua vez pedem outros procedimentos. Ao abordar por exemplo manifestações populares, não reproduziu meramente suas formas, inserindo-as como um adendo na narrativa do espetáculo. Antes, buscou sua essência, recriando-a para seu estilo e o que pretendia expressar. Outras coreografias desenvolveu a partir de elementos opostos e complementares, estímulos musicais ou mesmo obras de outros artistas. Para alguns temas foi preciso estabelecer primeiro uma base; enquanto outros se revelaram inicialmente irrealizáveis, mas levando a desdobramentos absolutamente originais. O que vale observar é como cada mote fundamental evolui no processo criativo até ganhar sua forma final. Com isso se confirma sua intenção ao escrever a obra. Não transformá-la num “livro de receitas”, um manual de como criar uma boa coreografia ou ser um grande dançarino. Se por um lado não é o mero registro das danças, também não pretende a análise estética da sua produção. Muito antes se trata da transmissão de uma sabedoria, adquirida em anos de trabalho. Mas mesmo que recorra a imagens que rapidamente esclarecem suas ideias ou conceitos que explicam com precisão um procedimento de composição, sua leitura infelizmente não pode compensar a falta de não tê-la visto no palco. Pois a dança como arte do tempo e espaço não se reduz à expressão escrita. Wigman tinha plena consciência dessa limitação. Se nunca cai na elocubração vazia, busca em outros trechos o caráter mesmo anedótico. E, deste modo, mostra com esse livro não o mérito das suas realizações, mas a riqueza de camadas da linguagem da dança. Por fim, gostaria de chamar atenção para seu comportamento enquanto artista. Para ela, não existe vaidade. O dançarino é um instrumento a serviço da dança. 27 Ao ensinar a técnica, buscou transmitir todos os aspectos da profissão. Se o dançarino não é um mero executante de uma sequência de passos na música, também o material de aula não se restringe a exercícios motores para um desempenho excepcional. Além da técnica, ele desenvolve uma inteligência própria de cena, com qualidades rítmicas, expressivas e espaciais. Ou seja, mais do que domínio da técnica, o dançarino aprende a como usar o corpo com consciência e 27 Wigman diz que “nossa função é servir: servir a dança, servir o trabalho, servir o homem e servir a vida” (acima: 91). 105 autonomia para atingir seu objetivo. Se exigia disciplina e concentração, ela também esperava entrega ao que estava sendo proposto. Para isso, considerou cada dançarino individualmente, nas suas necessidades, interesses, modo de pensar e lidar com os obstáculos. Em Monumento aos mortos por exemplo, embora se tratasse de uma dança coral com 50 dançarinos, pôs todas dançarinas, uma a uma, diante do espelho com seu personagem e máscara para que elas próprias percebessem o que não se ajustava e deveria ser modificado. Ali, os sofisticados recursos cênicos foram combinados com o compromisso com o coletivo para se chegar ao efeito esperado (acima: por ex. 81-2). Em poucas palavras, Wigman buscou explorar, “com uma mão carinhosa” como diz, o potencial expressivo próprio de cada um. Não se esgota aqui a análise do livro. A dançarina discuteainda muitos outros aspectos: como a solução de problemas que surgem durante os ensaios, o uso de recursos para se atingir determinado efeito cênico, o calor e entrosamento que se cria entre os dançarinos no palco, a escolha da música (já composta ou criada a partir da movimentação dos próprios dançarinos) e até o uso da dança na ópera. Se não esconde circunstâncias inesperadas que interferem na criação (de uma simples máscara que não se adequa ao personagem, colaboradores que vão embora e até o efeito da guerra na escolha por objetos de cena mais leves), o que se sobressai é o entendimento da dança como linguagem, dotada de pensamento e procedimentos próprios (id.: por ex. 53). Wigman se desafiou constantemente e nunca parou de se questionar. Buscou novos personagens, formas, temas e meios para exprimir suas necessidades em cada fase da carreira. Se se manteve coerente ao seu modo de ver a dança, também enfrentou críticas, nem sempre abertas às suas coreografias às vezes pouco digestiva ou a temas quase esotéricos. Num certo sentido, o que parece ter buscado foi trazer beleza para o mundo conturbado em que viveu. Se não teve receio de se debruçar durante a vida sobre assuntos muitas vezes espinhosos (desde a guerra até a situação da mulher na sociedade, a profissionalização do dançarino ou os dilemas entre balé e dança moderna), sua maior preocupação, do que pode-se aferir da leitura do livro, estava na investigação das possibilidades do corpo e da construção da cena (WIGMAN, 1986; 1998). Talvez não atribuísse à arte o poder transformador que via, por exemplo, Brecht. Mas Wigman era uma artista menos cerebral. Como lidar com um mundo assolado pela guerra e injustiça? Se por um lado manteve sua decisão de não deixar a Alemanha, também conseguiu, à sua maneira, grande eficácia em coreografias como a já citada Dança de Niobe, onde extravasa a dor e culpa diante da guerra. De qualquer modo, não nos cabe aqui conjeturas. Muitas questões só são esboçadas no livro. Além do mais, a artista como vimos não foi um acontecimento isolado. 106 Muito antes, usufruiu do solo firme semeado por Laban e outros estudiosos do movimento. Se muitas vezes o novo não é logo compreendido, a insistência para formar o olhar pode levar à consagração unânime. A dança moderna substituiu a representação muitas vezes afetada da época pela investigação do corpo a partir do interior do dançarino. E com isso a qualidade da movimentação caminhou no sentido de uma expressão mais livre e pessoal, onde aquele não deveria ilustrar ou demonstrar, mas viver os sentimentos - tal como no teatro, segundo Stanislavski, Salvini vivia cada emoção. Curiosamente, a crítica que se fez por certo tempo a estes foi exatamente de terem retirado a emoção, pois não se entendia como a beleza da expressão poderia estar na sua proximidade com a vida. Zola por exemplo acreditava que devemos controlar os sentimentos na criação. Como Stanislavski, ele admirava o talento de Salvini, registrando assim a passagem da companhia do ator italiano por Paris: “O público parece não existir para eles... Davam as costas para a orquestra, entravam, diziam o que queriam dizer e saíam naturalmente, sem o menor esforço para chamar a atenção sobre si. Isso não parece grande coisa, mas é enorme para nós na França” (ZOLA apud CARLSON, 1995: 271). Afora a fruição do espectador, cabe ainda notar que mais tarde Stanislavski substituiu a memória emotiva pela ação física no trabalho do intérprete. Também a dança moderna ampliou os meios expressivos do dançarino para “contar as histórias” da sua própria época. Se de um lado o balé absorveu alguns dos seus princípios, a radicalização de muitas propostas abriu o leque da dança para inúmeras possiblidades que vemos hoje. A linguagem da dança apresenta, através de um quadro de exemplos, diferentes maneiras de se criar uma coreografia. Mas não só isso, ainda que se reconheça a singularidade de cada criação, permite extrair um conjunto ordenado de preceitos, onde o dançarino ocupa posição central como portador da emoção. Diferente de Graham, que também coreografou dança moderna mas veio um pouco depois, Wigman não estabeleceu uma padronagem própria de movimentos a serem combinados conforme as necessidades do espetáculo. Antes, buscou gestualidades específicas para aquilo que desejava expressar em cada coreografia. Sua contribuição para a composição coreográfica está em potencializar e dar forma ao conteúdo interior do dançarino. Porém a subjetividade desse material, que se constitui não só de movimentos mas também de imagens, sensações e experiências, lhe exigiu um compromisso com a comunicação. 28 A partir daí, a dança enquanto linguagem recorre a um estudo da cena: para dar ao 28 Nesse sentido, se nota a recorrência no texto à noção de Aussage. 107 espaço a forma adequada ao tema, o coreógrafo usa recursos e procedimentos que criam relações entre os dançarinos e os organizam (literalmente, como um órgão) num conjunto significativo. Não se trata mais da mera distribuição harmônica dos corpos, nos termos de um ilusionismo pictórico. Às regras do espaço, se une o domínio da expressão corporal, que refina o jogo entre os dançarinos e com isso o produto final. É o que se pode ver tanto na descrição de criações como a já citada Monumento aos mortos, como em diversos croquis que desenhou para seus espetáculos. Por outro lado, se tem a gama de diferentes procedimentos, temas e formas, que dá a sua dança o caráter camaleônico. Se o livro mostra seu envolvimento quase sagrado (o que não quer dizer religioso) com esse trabalho, também oferece, ao se ver a dança sob o olhar da criadora, novas chaves para entender a criação artística, não só dentro do seu quadro histórico mas a partir das suas necessidades internas (WIGMAN, 1986). Concluindo, cito o capítulo introdutório, onde Wigman (acima: 43) destaca seu esforço para virar dançarina: Meus amigos, devo lhes contar a história do “patinho feio”, que milagrosamente virou um cisne? Porque ninguém podia imaginar que aquela menininha sem graça iria virar um dia uma bailarina famosa no mundo todo. O que mais parece mesmo uma metamorfose, quase um milagre. Mas para mim esse amadurecimento não teve nada de milagroso. Para isso levou muito tempo, foi muito difícil, mas também muito consistente apesar de todos os desvios. 3.2. Breve apresentação de meu percurso artístico Nasci num bairro tranquilo na cidade de São Paulo, onde o asfalto se confundia com as quaresmeiras. Comecei fazendo ginástica olímpica e balé, técnicas que exigem condicionamento físico e precisão. Ainda tive a sorte de estudar na frente da escola onde Renée Gumiel dava aulas, com quem estudei entre 1992 e 93. Graças a uma conversa com Patrícia Zuppi, comecei depois a praticar o método Penha de Souza, que trabalha a consciência corporal em ação. Ainda num workshop de teatro, pratiquei a vigília e círculo neutro, exercícios sobretudo corporais e no silêncio. Ali, criei uma cena a partir de um texto de Guimarães Rosa, onde recuperei a lembrança de passeios de férias com minha avó. O importante era quão viva podia ser essa lembrança. Também fiz um estágio na época da faculdade numa montagem de Mary Stuart de Gabriel Villela. Ele foi importante sobretudo para observar a criação de personagens. Renata Sorrah me parece ser uma atriz que busca sempre se identificar com o personagem. Nessa peça, ela fazia a própria rainha Stuart. Observando-a trabalhar, vi como se aproximava do personagem, se imbuindo da fé católica. Isto lhe serviu para suportar a situação dolorosa do personagem, contrapondo-se à sua rival Elizabeth. Ela usava um crucifixo no peito, que manipulava em momentos de tensão até ser 108 finalmente decapitada. Me graduei em teatro em 1998 e terminei o mestrado em letras em 2004, ambospela USP. Fui professor de teatro em Mogi das Cruzes entre 1998 e 99 e atuei em cerca de 30 espetáculos de dança, teatro, performance e outros eventos. Participei do programa Multiplicador cultural do Instituto Goethe em Berlim em 1999 e fui finalista do Prêmio Nascente/USP em 2001. Atuei ao lado de diferentes profissionais e grupos, como XPTO, Minik Momdó, Antonio Abujamra, Francisco Medeiros, Célia Gouveia, Mariana Muniz, Luis de Abreu, Patrícia Werneck, Neyde Veneziano, Débora Dubois, Cássio Scapin, Deborah Serretiello, Renato Cohen, Sabrina Cunha, Ednaldo Freire, Helena Albergaria, Arô Ribeiro e Beth Lopes. Acredito que nunca estamos realmente formados, por isso tento sempre que possível transformar o trabalho em aprendizado. Se na minha carreira, não tive uma única formação corporal, por sorte encontrei profissionais que se preocuparam de uma forma ou outra com o crescimento pessoal ao lado da técnica. Assim, pratiquei já na faculdade técnicas de terapia corporal. Vinha de espetáculos amadores onde aprendi danças de salão como charleston e rock para O baile e valsa e sapateado para um musical inglês. 29 Ainda, à noite como já disse fazia dança moderna na escola de Magaly Bueno. Mas o estudo na faculdade desenvolveu em mim uma irritação com espetáculos conservadores, que curiosamente intensificou minha vocação artística, ainda pendente para me tornar gráfico. Foi quando criei uma cena de performance e uma pequena coreografia. 30 Também numa montagem na EAD/USP, 31 onde fiz assistência de direção e uma ponta, dancei numa coreografia da profa. Silvia Bittencourt (EAD/USP) para a cena da romaria. Lembro que na cena, que acontece já mais para o fim da peça, devíamos entrar cantando e dançando em procissão. Mas nas apresentações a romaria adquiriu uma excitação que acabou superando a marcação coreográfica. Antes de entrar no palco, eu ficava na dúvida se continuava mantendo a marcação de Bittencourt ou não. Achava bonito ver alguns intérpretes correndo à frente e cantando alegres. Até que decidi que ficaria mais atrás, sem perder de todo a ideia da procissão (LORCA; MONTEIRO, 1996). Estava aprendendo a resolver meus problemas de palco e foi que logo em seguida me arrisquei a dirigir. Em Leonce 29 O baile, espetáculo apresentado no teatro da Oficina cultural Mazaroppi em São Paulo, em 1991. Half a sixpence, espetáculo apresentado no teatro da Cultura Inglesa Pinheiros em São Paulo, também em 1991. Ali se privilegiava os musicais e também ensaiei coreografias como de Cats, com uma coreógrafa que tinha dançado na Broadway. 30 Cena a partir de Woyzeck para a disciplina direção teatral I e coreografia da música Ne me quitte pas para a disciplina técnica de dança II, ambas no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994. 31 Yerma, espetáculo apresentado no teatro do Departamento de artes cênicas da ECA/USP em São Paulo, em 1996. 109 e Lena, 32 o aquecimento privilegiou o contato com o chão. Ao me profissionalizar, passei a conviver com técnicas corporais diferentes, sobretudo de dança. Nos trabalhos com Sabrina Cunha, procuramos técnicas novas. Tive contato com os exercícios de Pilates e do grupo Lume. Mas depois que nos separamos, percebi que em cada nova produção muito provavelmente aprenderia ou praticaria uma técnica diferente. E foi assim que para Kit 33 fizemos até dança indiana, que para o diretor era importante para criar personagens de macacos. Depois, no grupo XPTO, a preparação corporal não era tão importante ou direcionada, mas fiz ioga e contato-improvisação. Sobretudo em produções mais experimentais, se pratica muitas vezes exercícios de consciência corporal e manutenção do tônus para atuar. Então, com Maria Mommensohn criamos por exemplo toda uma cena a partir de andadas do rastejar para quatro apoios e até os dois apoios do bípede, tiradas da técnica body mind centering (MOMMENSOHN et al., 2007). Finalmente, as preparações corporais para Bumba meu fusca e Os possessos 34 me puseram em contato ainda com outras técnicas e estilos de dança; além de descobrir a importância da limpeza e precisão plástica das cenas. Essa longa explicação não é só filigranas. Exemplifica o trabalho corporal variado a que intérpretes profissionais muitas vezes estão sujeitos ao longo da carreira. Mas apesar dessas experiências, sei que por mais que aprenda, estarei sempre começando de novo e, ao lado do conhecimento, está ainda a responsabilidade por aquilo que comunico. Das minhas experiências recentes, destaco uma aula que dei no IA/UNESP-SP, onde pude testar elementos de escuta e atenção na improvisação. Finalmente, numa das disciplinas cursadas no doutorado, apresentei uma cena sobre um moleque pilantra, onde sua dramaturgia resultou do texto corporal descoberto durante a criação e relação com a cenografia e objetos de cena. Atualmente, ensaio O contrabaixo de Patrick Süskind. No início dessa peça, ao falar do seu desempenho na orquestra à qual pertence, meu personagem, um músico, ressalta seu grupo de contrabaixistas (SÜSKIND, 1984: 7-8). Ve-se aí como a força do conjunto é importante para as artes coletivas, onde o trabalho se dá em equipe. Ainda tenho aprendido com minha irmã, que é professora de geografia, a observar a beleza dessa força na natureza, como em rios. Os rios, que para alguns podem parecer frios e distantes, me ensinam a amar 32 Leonce e Lena, espetáculo apresentado no teatro do Departamento de artes cênicas da ECA/USP em São Paulo, em 1998. 33 Kit, espetáculo apresentado no Sesc Belenzinho e depois no Centro cultural São Paulo em São Paulo, respectivamente em 2000 e 2003. 34 Os possessos, espetáculo apresentado no teatro da Funarte em São Paulo, em 2008. 110 não só o quente e próximo. Isso me ajudou a entender e respeitar os vários lados de Wigman, uma artista que não vi pessoalmente no palco e se posicionou de maneira bem particular em várias questões do ofício. Ao escolher falar desse tema, vi sobretudo a possibilidade de aprender sobre um modo de ver e dançar diferente do que me foi passado. Sei, é claro, de artistas que veem seu trabalho com a mais profunda reverência. Como uma oportunidade de realmente explorar algo que nunca poderiam conhecer na sua vida diária. E isso me toca. Nas minhas primeiras aulas de balé, ainda adolescente, lembro que me sentia como que dentro de uma fôrma de bolo. Não conseguia entender muito bem porque aqueles pés abertos ou aquele braço sempre junto com aquela perna. Sabia só que era assim e, quase sempre sem conseguir, dava tudo de mim para fazer igual ao que aquelas jovens meigas e delicadas ao meu lado faziam tão bem! Sem dúvida, a dança moderna trouxe uma grande mudança no modo de se ver a dança. Recuperou de um lado sua origem ritual. Mas principalmente ampliou o leque de expressão do intérprete. Wigman foi uma das iniciadoras do que hoje muitos chamam de dança-teatro. Busco aqui entender à luz de uma leitura pessoal de Wigman minhas escolhas e procedimentos. Com isso, reconheço apenas que estes se justificam caso a caso. Também apresento princípios que norteiam minha prática. Além de considerações que levarei para trabalhos futuros, me interesso ainda em aprofundar meu entendimento da dança-teatro. Para isso, me embebedei um pouco da atmosfera de algumas danças de Wigman. Primeiro, noto que o sentido de mudança provoca questionamentos não só na arte. Será que as coisas se dissolvem no seu contrário ou existem de forma múltipla? Os acontecimentos num espetáculo podem ser tomados sucessivamente numa ordem prevista ou como aquilo que preenche o palco durante o tempo em que este transcorre na frente do espectador. Diretor e intérpretes criam imagens num tempo e espaço de ficção, lhes dando sentidos transcendentes sem retirar de todo sua substância. A mudança trazida por ações, mesmo que contrárias, me parece exigênciado futuro do palco ou, pelo menos, uma forma de lidar com contradições às vezes inevitáveis. Mas não só a sociedade influencia arte, como esta pode influenciar aquela. Mesmo como artistas da corte, os intérpretes da época de Shakespeare improvisavam a partir do texto que este lhes entregava. Tratava-se de um conhecimento tácito numa prática consciente das exigências do palco. Hoje, quando se observa rápidas mudanças na sociedade com intenso intercâmbio de informações, troca e diálogo se intensificam em cena. Numa entrega verdadeira, diretor e intérpretes se valem do instante criativo para dar forma a suas ideias durante os ensaios, selecionando do material levantado o que carrega maior força expressiva. Isso os concentra 111 dentro de um funcionamento de trabalho. Concentração aqui não é ensimesmamento. Nas minhas reflexões a partir de A linguagem da dança, busco como disse estabelecer um diálogo com meus processos criativos. Não se trata só de criar pontes com a cena contemporânea, mas uma forma de reciclar minha prática. O que ainda me move a estar no palco? Minha pesquisa, iniciada ainda na graduação mas mais desenvolvida no mestrado, esteve primeiro voltada à criação do texto a partir da improvisação. O texto é antes material de trabalho, com usos diversos. A preparação corporal, exercícios de improvisação e ações de troca serviram de recurso para desenvolver sinceridade e espontaneidade no intérprete. Isso elimina exageros interpretativos e traz prontidão para reagir a diferentes estímulos. O intérprete está aí no centro do processo criativo e apresentação, se devendo eliminar elementos supérfluos da cena (MORAES, 2004). Improvisar passou cada vez mais a fazer parte do meu trabalho. Dois elementos importantes são a imaginação e ações feitas pelos intérpretes para verdadeiramente “viver” o que acontece na cena. Também musicas com ou sem letras, figurinos de ensaio, novos textos criados nos ensaios, objetos de cena e cenários improvisados são ricos estímulos, que sensibilizam o intérprete mais e mais para a criação. Dentro de universos ficcionais específicos, explorei por exemplo com alunos como casar trechos de poemas a movimentos livres, incorporando e trazendo vitalidade às palavras. Wigman, por exemplo, dançou no silêncio a partir da escuta do corpo e guiada por um sentido de improvisação. Nas Considerações finais, volto ao tema da improvisação, mostrando sua importância como procedimento criativo que aproxima Wigman da cena contemporânea. Pois improvisar possibilita tanto encontrar gestos adequados a um texto a ser dito, desenvolver o jogo e timing da cena, dar forma a situações da vida, descobrir a lógica consecutiva das ações do personagem, como criar a própria dramaturgia. Acredito que mesmo numa atuação detalhada, existe uma dose de improviso. Olhamos muitas vezes de forma crítica e criteriosa, mas também olhar distraidamente pode trazer descobertas. Essa tese também poderia ser chamada Olhar para a criação, pois as apresentações podem assumir relevância até sobre o processo. Então, lançarei a seguir um olhar sobre meu trabalho num velho espetáculo de performance e no grupo XPTO, no intuito de exemplificar diretrizes práticas até agora descritas. Dramatizar nos é algo natural, mas só o domínio de técnicas e códigos nos auxilia a chegar à forma desejada e do modo que nos parece o mais adequado. Isso nos obriga a estar presente, reconhecendo e cumprindo o que a cena pede, sem nos sentirmos inibidos ou pressionados por um resultado preconcebido. Mostro como a série de tarefas, que originam cada um dos espetáculos abaixo, 112 dinamizam os ensaios e guiam a criação para as soluções cênicas almejadas pelo diretor. Primeiro, observo que durante uma montagem, questões técnicas e de produção podem redirecionar, às vezes positivamente, a concepção do espetáculo. O aspecto visual de um espetáculo não deve ser menosprezado. O que ouvimos no palco não se separa do que vemos. 35 Assim, se o personagem fala das dificuldades do seu dia a dia, como pode só usar roupas novas de uma loja? Por outro lado, mesmo um figurino propositalmente rasgado deve, tanto quanto possível, ser de um material de boa qualidade. É o tratamento que recebe que o torna verossímil no espetáculo. Essas questões já me vieram à tona no meu primeiro trabalho profissional, um espetáculo de performance apresentado num grande saguão no subsolo de um centro cultural. 36 Era baseado em ideias do futurismo russo e não tinha propriamente uma história. Eu fazia um guardião, além de outras pequenas participações. O elenco era formado por atores, dançarinos e uma modelo. Todos servíamos à atmosfera criada pelos elementos cênicos, numa postura um tanto hierática. A única exceção era de um personagem que ligava as cenas. O espetáculo tinha forte apelo visual, com projeções de imagens e vídeo e luz requintada, terminando com uma sequência de movimentos do elenco como um exército, que se repetia no vídeo (COHEN, 1995). Apesar de ter recebido uma crítica negativa de Nelson de Sá, Haroldo de Campos, que estava na plateia, destacou a fidelidade ao futurismo russo. Por exemplo, duas dançarinas com figurinos geométricos, tais como também usados por Wigman em certo período, faziam sequências de dança moderna. Comparativamente, Wigman também se aventurou em Monumento aos mortos ao uso de novos efeitos cênicos, embora as “colunas de luz” de Talhoff tenham sido deixadas de lado (acima: 84). A performance é um evento num tempo vertical, tal como tempo do princípio nos rituais de tribos arcaicas. Ela soma teatro, dança, artes plásticas, música etc, numa comunicação mediada que une intérpretes e espectadores. Segundo o programa do espetáculo, o tema aqui era a imortalidade e a vitória sobre o tempo e a morte. O diretor ou coreógrafo é alguém que aprende a se realizar através do outro. Ao mesmo tempo que deve estar perto daqueles por quem zela, ele age de modo a lhes despertar interesse pelo que está sendo realizado. É uma meia-medida entre liberdade e autoridade e, como quem governa uma pequena cidade, detém o comando e é sua a palavra final. Professor e intelectual, o diretor dessa performance partiu da noção de work in progress. Também usou referências do 35 A própria palavra espetáculo traz uma referência à visão. Este é em síntese a ação de alguém chamado intérprete na frente de outro, seu espectador. A visão põe o espectador em contato direto com o intérprete, devendo a cena ser de alugm modo plasticamente atraente. Por fim, pode-se dizer que o espetáculo não vira só colírio para os olhos, mas remédio para a alma. 36 Vitória sobre o sol, espetáculo apresentado no Centro cultural São Paulo em São Paulo, em 1995. Foi dirigido por Renato Cohen. 113 futurismo russo como técnicas, imagens e conceitos. Houve encontros com o prof. dr. Jacó Guinsburg (ex-ECA/USP) e Nelson Ascher, entre outros. Foram usadas, por exemplo, a música Sheherazade de Rimsky-Korsakov e poemas de Khlébnikov e Maiakovski. Outras referências foram Gurdjieff e Ouspenski. Por exemplo, meu personagem se movia no espaço a partir de uma sequência de movimentos de meditação. Ainda participei de dois espetáculos para o público infantil e infanto-juvenil onde manipulávamos objetos e bonecos. 37 Embora de linguagem com elementos circenses, esses espetáculos tinham uma tal exigência corporal, que se aproximavam de um teatro dançado. Usava-se objetos e bonecos pequenos e grandes, que provocavam reações bem diferentes, como de ternura e surpresa. Durante os ensaios, tivemos contato com sua confecção, assim como de parte dos cenários. O diretor se preocupava com a descoberta de novos materiais e efeitos, usando por exemplo conduítes, polietileno e plástico queimado. O polietileno deixou os bonecos mais leves e o plástico queimado criou textura no cenário sob a luz.Foram produções requintadas, apresentadas não só para o público em geral como para escolas. Em ambos os espetáculos, o foco não estava no intérprete mas na parafernália que criava toda a ambientação. De todo modo, isso não significava um tratamento visual gratuito. Aprendi ali a dar vida própria aos bonecos e objetos em cena. Abordamos temas modernos, como os problemas e alegrias da vida na cidade grande ou o desejo de um mundo melhor. Como intérprete, eu devia estar atento a todos os meus pertences na coxia. Me lembro de reservar um tempo para fazer reparos nos meus objetos cenográficos, que eventualmente se deterioravam com a temporada. Também numa das cenas de A infecção, entrávamos com carrinhos com vassouras nas laterais, limpando o chão do palco de plásticos jogados numa cena anterior. Numa apresentação, a armação de vassouras do carrinho de um colega se quebrou. Então, enquanto ele criou uma pequena evolução com as vassouras, me encarreguei de limpar as áreas que faltavam. Assim, deve-se saber que imprevistos técnicos podem ser mais frequentes em produções mais complexas. Apresentado quase sempre com casa lotada, este foi um sucesso de um grupo reconhecido. O credito em parte ao cuidado com a produção. A correção dos detalhes não era ali só exercício de preciosismo. Sabia-se que tudo em cena deve ter sua importância, senão é melhor eliminá-lo. Com isso, o diretor quis ainda levar o espetáculo para festivais. E vivi por uns meses uma imersão no teatro, numa variedade de estilos, mais próximos ou distantes da dança. 37 A infecção sentimental contra-ataca, espetáculo apresentado no Teatro popular do Sesi em São Paulo, em 2001 e Utopia, terra de dragões, espetáculo apresentado num projeto da SMC/SP no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo, em 2003. Este espetáculo foi posteriormente remontado com elenco modificado. Ambos foram dirigidos por Osvaldo Gabrieli. 114 Algumas vezes ainda em A infecção, precisei estar atento para não me deixar levar por uma excitação quase histérica da plateia de adolescentes em cenas de maior apelo. Além das apresentações para escolas durante a semana pela manhã, fazíamos as apresentações gratuitas de fim de semana. A inquietação dos estudantes antes da apresentação ainda me colocava uma dupla responsabilidade. Muitos ali assistiam pela primeira vez uma grande produção. Assim, além de cumprir todas as minhas marcações, que me exigiam aliás muito física e expressivamente, também não queria decepcioná-los na sua primeira experiência no teatro. Várias vezes me lembrei não só de quando menor ia ao teatro com meus pais, mas também do meu primeiro curso de teatro, antes de entrar na faculdade. De quando descobri que existiam vários exercícios e técnicas, quase sempre tão estimulantes, que “ensinavam” a estar no palco. Concluindo, busquei nesse relato final discutir problemas que os intérpretes enfrentam aqui e ali na sua carreira. Mas talvez caiba aqui considerar um trabalho que escrevi como conclusão de uma das disciplinas cursadas (Anexo B). Ele é parte dessa pesquisa e mostra o início de ideias que são desenvolvidas na tese, clareando seu processo. Também exemplifica como costumo ensaiar, alimentando a imaginação e escuta do próprio corpo. Existe algo de anormal em querer ser outra pessoa. Acho a leitura dramática uma boa oportunidade para exercitar estilos de interpretação, como uma não identificação. Participei da leitura dramática de uma peça de Thomas Bernhard, onde fazia o filho do personagem central, a quem se refere o título. 38 Foi uma leitura simples e austera, onde a palavra ganhava o aveludamento que lhe cabia, seguindo a contenção do texto e sem excessos psicológicos. Ainda assim, tantos nós, intérpretes, como o público estávamos próximos da história e personagens. Quando ensaio, observo como o corpo se comporta e pouco a pouco incluo outros elementos cênicos. Busco não chegar ao ensaio com a marcação na cabeça, mas esperar que o próprio intérprete se organize e encontre sua expressão. Como ele descobre um gesto em fuga ou como sua fala complementa e se segue ao gesto e não o contrário, sem atropelar um com o outro. Isso valoriza ambos. Como se posiciona no palco deixando o rosto visível, sobretudo em momentos de maior tensão ou como usa os braços sem escondê-lo. E como se posiciona em relação aos demais intérpretes, seja numa distribuição em triângulo ou trapézio. Essa distribuição é dinâmica, visando garantir o equilíbrio espacial como numa bandeja. 39 38 Leitura de O fazedor de teatro, apresentada no teatro da Funarte em São Paulo, em 2008. 39 Num exercício de Lecoq, o palco é visto como uma superfície móvel, com um único apoio no centro e oscilando entre os quatros cantos, num princípio semelhante ao da gangorra. Já Wigman diz sobre as noções 115 Esses são artifícios que diretor e intérprete exploram juntos, conforme surgem as necessidades. Para isso o diretor dá tempo ao intérprete, mas estando sempre ao seu lado, pensando e resolvendo junto com ele os problemas de cena. Não só para interpretar, mas também para dirigir existe uma técnica e é dessa maestria que fala ainda A linguagem da dança. 40 Como disse na Introdução, não se pretendeu aqui uma cartografia do trabalho de Wigman, mas uma inspiração e chave para compreender meus processos criativos, unindo arte e vida através da lapidação do material bruto do diário de bordo. 41 E se por vezes apresenta a fragmentação própria da vida no seu devir, nem por isso a tese ignorou sua unidade geral quanto à linguagem e poética da cena. Concluo com as palavras: Esse espaço mágico do palco, Abraço num instante fugaz. E de ser eu mesmo me desfalco, Com o sonho do público por trás. espaciais do intérprete: “Altura e profundidade, comprimento e largura, para frente, para o lado e para trás, a horizontal e a diagonal: esses não são só termos técnicos ou noções meramente teóricas para o bailarino. Ele os experimenta mesmo no próprio corpo” (acima: 46). 40 No capítulo Dança de grupo e dança coral por exemplo, Wigman discute os problemas na direção das cenas com os coros masculino e feminino (acima: por ex. 84-5). 41 Wigman diz: “Do mesmo modo que tentei toda minha vida unir a pessoa e a obra, também procurei abrir caminho aos meus alunos para eles próprios e trazê-los até o ponto onde conhecimento e intuição viram uma coisa só e a experiência e criatividade se interpenetram” (acima: 43). 116 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 4.1. Resultados da pesquisa no cenário artístico Wigman e alunos Monotonia em giro 117 A celebração A infecção sentimental contra-ataca 118 Como já disse na Introdução, tive meu primeiro contato com Wigman quando fiz a faculdade de teatro. Caberia aqui também destacar que nesse período ainda me interessei algum tempo pela atriz Cacilda Becker. Para mim, Becker se entregou com a mesmo intensidade ao teatro que Wigman à dança. Foram artistas contemporâneas, que se aproximaram em certas questões artísticas. Em Esperando Godot por exemplo, Becker buscou a expressão metafórica como resposta a uma condição politicamente cerceada. Também Wigman buscou se expressar metaforicamente frente a uma política coercitiva, sendo como Becker criticada às vezes por se alienar de seu tempo (acima: 75). Wigman (id.: 43) negaria essa crítica ao dizer por exemplo: “Sempre fui uma fanática pelo presente e apaixonada pelo momento”. Na política desse longo período, a Alemanha é marcada primeiro pelo nazismo e depois a separação entre a parte orientale ocidental e o Brasil pelas ditaduras Vargas e depois militar. Diferente de Brecht por exemplo, Wigman não buscou com seus espetáculos criticar os valores de uma sociedade burguesa, usando o palco para transmitir ideias. Para aquele, o intérprete deve tomar uma posição crítica frente às ações do seu personagem, levando o público a se distanciar e refletir sobre o que vê. Apesar da ficção, o público nunca esquece ali que vê um espetáculo. Semelhante a Wigman, Becker no período do TBC e depois com sua própria companhia enfatizou antes o repertório eclético, alto acabamento na produção, aprimoramento técnico e qualidade nas interpretações. Mas fora do palco ambas ofereceram, à sua maneira, resistência aos desmandos políticos (WIGMAN, 1998; MORAES, 1995). Minhas interpretações também não têm seguido a linha política ou social, com exceção apenas dos espetáculos Bumba meu fusca e Bonitinha, mas ordinária. 42 Neste, tirando Alírio fiz um Nepomuceno mendigo. Já quando fiz Vladimir de Esperando Godot, se enfatizou os diálogos nebulosos e existenciais da peça, mas sem perder de vista o fato de Vladimir e Estragon serem mendigos. 43 Na verdade, o tema ali é o próprio ato de esperar. A espera é sem sentido, pois um dia é sempre igual ao outro. Mas tal como se espera, também se tem alguma esperança de melhoria da condição social dos dois mendigos. De todo modo, o sentimento geral é de perplexidade. Mas independente disso, Wigman e Becker eram artistas que punham a ética junto da arte. No espetáculo já citado Os possessos, meu personagem, um seminarista, participava de um crime, onde nenhum dos revolucionários poderia trair a causa defendida (ABUJAMRA, 2008). Também a arte pode nos pôr frente a grandes exigências e se 42 Bonitinha, mas ordinária, espetáculo apresentado no teatro do Departamento de artes cênicas da ECA/USP em São Paulo, em 1998. 43 Cena de Esperando Godot para a disciplina interpretação I e II no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994. 119 estar no palco não é uma luta a qualquer preço sem atenção a carências básicas, se torna para grandes artistas uma missão. Sobre Wigman, lembro que ela manteve contato com artistas importantes do período: além de Graham, Hanya Holm, Kreutzberg, Dore Hoyer e Doris Humphrey; essa expoente ao lado de Graham do significativo movimento da dança moderna americana. Mais precisamente, Hoyer foi uma importante representante da dança expressionista, ao lado de Gret Palucca e Harald Kreutzberg. Ela participou por exemplo de danças de câmara de Wigman e outros coreógrafos. Por ocasião de sua morte, Wigman diz numa carta que ela era a última grande dançarina moderna na Europa, sua aluna e integrante de sua companhia (WIGMAN; SORELL, 1984: 194). Já Palucca, se distanciava um pouco da dança expressionista, se destacando pela agilidade. Sobre ela diz Wigman ser um excelente temperamento para a dança com habilidade para saltos (id., id.: 62). Finalmente, Kreutzberg foi um dançarino muito apreciado do público, que dançou também no Brasil. Sobre ele diz Wigman ter podido ajudá-lo a se tornar um verdadeiro dançarino (id., id.: 65). Entre os alunos de Wigman, estavam ainda Max Terpis, Yvonne Georgi e Margarita Wallmann (SCHAFFNER, 2012: 36-7). Hanya Holm, que dirigiu a Escola Mary Wigman em Nova Iorque, diz que Wigman deu uma grande contribuição no que se refere ao espaço, usando-o como se fosse algo vivo (WIGMAN; SORELL, 1984: 161). A dança expressionista durou de 1900 a 33, representando uma primeira fase da produção artística de Wigman (SCHAFFNER, 2012: 27). Rolf Gelewski também foi aluno de Wigman, vindo a morar no Brasil a convite do reitor da Universidade da Bahia para dirigir a escola de dança. Atuou ali de 60 a 75, estruturando o primeiro curso superior de dança do país. Assim, se destacou por atividades múltiplas, como de dançarino e professor. Criou vários métodos didáticos para o estudo da forma, espaço, rítmica métrica, improvisação e percepção musical. Foi também diretor e coreógrafo do Grupo de Dança Contemporânea da Universidade Federal da Bahia durante mais de 10 anos. Além de Wigman, conviveu com Marianne Vogelsang, outro nome importante do período. Faleceu em 88. Usei um exercício seu de percepção musical na parte prática desta pesquisa a partir de A metamorfose. Como curiosidade, ele publicou em 64 na imprensa um trecho que traduziu de A linguagem da dança (id., id.: 62-73). Numa perspectiva mais ampla, Kurt Jooss é uma figura a ser sempre lembrada. Ele enfatizou elementos teatrais na dança, colaborando para sistematizar novos padrões de movimento como diretor da Folkwangschule. Tratava-se, de certo modo, de unir e equilibrar técnica e criação, 120 incentivando a investigação do próprio corpo. 44 Finalmente, Wigman influenciou posteriormente artistas distintos, como Kazuo Ohno, Forsythe, Susanne Linke e Sasha Waltz. Nota-se que a modernização da linguagem da encenação sensibilizou o espectador para imagens poéticas no palco. Para além dos recursos tecnológicos, a encenação se centra no corpo móvel e vivo do intérprete. Hoje no Brasil, o cenário da dança, que não sofre tanto com o peso da tradição do balé, se diversifica, atestando, junto com o aumento do público, o vigor das novas produções (sobretudo pela interseção com as mídias digitais). Já a partir da década de 80, vimos o intercâmbio cultural crescente entre Brasil e Alemanha, que consolida o interesse pela dança-teatro com a primeira vinda de Bausch ao país. Mas o diretor ou coreógrafo passa pouco a pouco a se interessar mais por estimular e selecionar o material criado pelo próprio intérprete. Algumas características da dança de Wigman reverberam nos dias de hoje. Primeiro, meu interesse pelo depoimento pessoal e poética do cotidiano encontra eco na união entre arte e vida, característica já das vanguardas artísticas. Tal união tem sido levada até o limite em procedimentos híbridos da atualidade. Na minha prática, busco a pessoalidade na atuação, que atribui maior autoria à criação. E já em Wigman transparece tal característica no cruzamento entre acontecimentos reais e projeto estético. Se fundem fatos da vida com o corpo vivo em cena. A experiência viva do corpo recupera ali a origem ritualística da dança. Já a evolução do coro grego introduziu na tragédia o jogo agônico de ritmos gesticulados. A dança dionisíaca de Wigman, enquanto meio de êxtase e entusiasmo, seduz não pelo virtuosismo estéril, mas a expressão dramática presente na união da técnica e linguagem. Seu intérprete não é mero executante de uma sequência de passos na música, mas portador da emoção. A responsabilidade por aquilo que comunica acrescenta à dimensão espiritual uma atitude social e política. Wigman, que também lutou pela profissionalização na dança, teve sua própria companhia, formada na maior parte por ex-alunos. Para eles, elaborou uma prática pedagógica que acolhesse também deformações possíveis pela alteração das próprias funções biológicas. As habilidades a serem desenvolvidas aí, que incluíam além de noções de espacialidade e musicalidade a elaboração corporal a partir da respiração e fantasia, eram afirmação de valores humanos. As qualidades de cena são também humanas. Wigman se preocupava com o que interessava a cada um de seus alunos e o que eram capazes de fazer. Assim, a dançarina já percebera que o jogo entre o belo e o feio na desconstrução do corpo só é possível pela 44 A título de comparação, talvez caiba apontar que a “parte plástica e estética” abandonava no teatro da época um “caráter de entreato” para virar uma “linguagem diretamente comunicativa” (ARTAUD, 1978: 103). 121 união consciente de sensorialidade e corporeidade. Para Boucier (2001: 298-9), O destino trágico do homem e da humanidade é o tema das grandes composições de Wigman. Não busca no assuntoo brilho e a leveza, mas, ao contrário, a concentração, o poder da expressão. Sua atitude característica no palco é o contato íntimo com o chão até a reptação: esmagamento ou retomada de contato com a terra mãe. Quando de pé, a cabeça e os ombros tombam, o que, desde Delsarte, denota a expressão do terror, da solidão. Se ergue os braços, não é com o objetivo de se abrir para acolher de braços abertos, mas para se opor, para lutar. Ela, de certa forma, se escora contra as forças que se opõem à vida para se tornar responsável pela evolução da humanidade, que leva do caos primitivo à vida espiritual. Em propostas contemporâneas, o uso do chão se intensifica, como em aulas de floor work technique. Cria-se aí uma relação de proximidade. Por exemplo, o trabalho de pressionar o chão com as várias partes do corpo, o tocando inclusive com regiões do pescoço, lombar e axilas. Além disso, a valorização da força vital aparece numa preocupação com a saúde do organismo e conhecimento da anatomia e fisiologia. Boucier (id.: 299) ainda diz que Formar o dançarino é, portanto, torná-lo consciente dos impulsos obscuros que estão dentro dele. Nada de sistemas preestabelecidos, menos ainda adestramento corporal. É preciso se pôr à escuta de si mesmo, onde se pode ouvir a repercussão do eco do mundo. Então os vislumbres de conhecimento que começam a brotar exprimem-se por esboços de gestos que contribuem para a conscientização das pulsões internas. Ao final de um longo caminho, o artista conseguirá, ao mesmo tempo, conhecer suas forças criadoras e adquirir os meios corporais para exprimi-las. Wigman quer abandonar a dança à impulsão mais profunda, à ubris dionisíaca. Portanto, o autoconhecimento é a via para se realizar na dança. Se a forma final de coreografias de Wigman é resultado de como ela desenvolveu cada ensaio, segundo o que queria expressar e os procedimentos que julgava mais adequados no momento, esses princípios também são buscados na minha prática. Busquei reinterpretar as ideias e procedimentos de Wigman, não a partir de uma reconstrução histórica, mas enquanto estímulo para a criação contemporânea. Perceber como o intérprete pode reter e ressignificar padrões artísticos da tradição, os revisitando e contemporaneizando. E para que o espetáculo atinja tal eficácia, devo ser capaz de uma criação nova e, na medida do possível, simbólica e universal. Para isso, é importante atentar para como a paisagem do corpo se desenha a partir da assimilação técnica. A gramática da linguagem é o resultado plástico-estético da pesquisa de movimento e uma expressividade do corpo que promove sua teatralidade. O instrumento corporal, preparado através de princípios e aquisição de um nível de tônus muscular, habilita a extração de matrizes corporais, conforme o diálogo que estabeleço nesta pesquisa com a 122 linguagem de Wigman. Então, devo considerar ainda o uso da música, desenho do corpo, sentido do conjunto, deslocamento no espaço, desenvolvimento temático, encadeamento do movimento e das formas na frase coreográfica, combinação dessas frases e montagem das cenas com a inserção dos elementos técnicos (luz, figurino, cenário e trilha sonora). Resultados dessas apropriações práticas foram mostrados na qualificação e defesa. Sobre a música em Wigman, Boucier (id.: id.) diz que Para ela, a música é o meio indispensável de uma união indissociável entre o ritmo corporal e o ritmo mental – como em Dalcroze. Mas, em nenhum caso, o ritmo sonoro deve comandar o ritmo mental. Exceto na última parte de sua vida, Wigman desconfia da música preexistente; a princípio, dança sem música; na Hexentanz, o ritmo é marcado apenas pelo bater dos pés no chão. Mais tarde ela preferirá instrumentos de percussão, gostando particularmente do gamelão. O uso de música composta a partir da movimentação dos intérpretes também é comum em montagens contemporâneas, como ocorreu por exemplo em A infecção sentimental contra-ataca. Já sobre a técnica, destaca-se o uso do torso. Observo que mais tarde o “c” da coluna, a partir da relação entre cóccix e topo da cabeça, ganha destaque por exemplo na técnica nova dança. Boucier (id.: id.) diz que No plano técnico, Mary Wigman, assim como a escola americana, faz com que o movimento parta do tronco. Trabalha então prioritariamente o torso e a bacia para obter pouco a pouco a mobilização do corpo inteiro, se quisermos, uma ondulação oriental, mas, com maior probabilidade, uma preparação ao transe que comanda a atitude ora escorregada em contato com o chão, ora projetada e vibrante no espaço. Finalmente, o uso do plano inclinado, recurso de encenação presente na versão de Wigman de A sagração da primavera, se torna ainda mais frequente em montagens contemporâneas, sobretudo na Europa, onde a cenotécnica avançada dos teatros inclui por exemplo palcos giratórios. Aqui, Cláudia de Souza em Sete e a mesa, mostrou vários usos de uma mesa, incluindo o plano inclinado, num rico desafio à lei da gravidade. Como curiosidade, muitos ainda pensam que Graham teria tido aulas com Wigman na Alemanha. Mas ela preferiu na verdade usar a bolsa que recebera para estudar no México (GRAHAM, 1993). No capítulo final do livro, Wigman ainda define a dança de modo muito atual, na sua relação com a poesia e música (acima: 90). Sob o ponto de vista da criação, o trabalho se divide em etapas, assegurando a qualidade do produto final. Depois de levantar material até um nível satisfatório de qualidade, se passa à seleção, conforme o efeito desejado e obtido. A formalização implica no ajuste dos detalhes, com o produto ganhando estofo nas repetições 123 até sua feição final. Abaixo, tratarei mais especificamente da minha prática. Mas noto brevemente aqui como outros elementos da dança de Wigman encontram eco nos espetáculos de que participei. O trabalho conceitual de Vitória sobre o sol se aproxima de Monumento aos mortos. Já no XPTO, o cuidado com a cena, com a aplicação habilidosa da carpintaria cênica, remete a grandes criações de grupo de Wigman, como as realizadas no fim de sua vida. Dentro das novas formas de dança, cito ainda o vídeo-dança Dentro do movimento. Nesse novo suporte, o corpo expressa estados interiores numa teatralidade minimizada, como em ações diárias de fazer um bolo e o torpor e incômodo de uma mulher na cama (PAULA; WERNECK, 2004). A história é a progressão da ação do homem no tempo, formada não só pelos grandes acontecimentos, mas também aqueles menores da nossa vida diária. Ao pesquisar Wigman teórica e praticamente, espero ter buscado as ideias em fatos, antes de fatos em ideias. Mas também admito que, ao lado da dança moderna ou contemporânea, as sequências de balé podem ser bons exercícios para o intérprete. Movimentos coordenados nos planos baixo, médio e alto se encaixam em determinada música, trabalhando ao mesmo tempo agilidade, graça, força física, postura, equilíbrio e sincronicidade. E com isso o intérprete aprende a se movimentar harmonicamente, ao desenvolver direções no espaço e relação entre as partes do corpo (cabeça, tronco, braços e pernas). 4.2. Resultados da pesquisa na minha prática Impossível dizer quanto fui influenciado por Wigman. Quando começamos é verdade que tudo conta ponto: você canta, dança e sapateia. Mas pouco a pouco se definem as afinidades e escolhemos aqueles com quem preferimos trabalhar, bem como a linguagem em que queremos nos expressar. Sei que levarei para meus próximos trabalhos muitos aprendizados dessa pesquisa. Se busquei aqui sobretudo mostrar aproximações da minha prática com a de Wigman, também reconheço muitas diferenças. Ninguém vive isolado para sempre. Diria antes que, como um colonizado, me sinto inevitavelmente influenciado por referenciais artísticos europeuse americanos. Parece que sempre temos uma dívida com algo ou alguém do passado. Mas criar também implica numa traição, onde transgredimos tendências e mesmo valores que nos foram transmitidos. Eu busco conhecer tudo que acontece na dança, sem perder de vista formas como a dança de salão e folclórica, incluindo as danças dramáticas e populares tradicionais do Brasil. Mas também, quando posso, evito influências, preferindo nem mesmo rever meus próprios trabalhos. A influência, assim, não é só buscar voluntariamente aqueles com quem queremos 124 dialogar. É também algo involuntário, que nos toma independente do nosso querer, como músicas que nem gostamos muito, mas às vezes não nos saem da cabeça. Assim, tudo que aprendo deve ter seu lugar. Para mim, é importante desde o começo da dança, quando ela pertencia aos rituais aos deuses, seja no ocidente ou oriente. O balé é sem dúvida uma grande referência. Como a linguagem de dança mais codificada do ocidente, se desenvolveu em várias escolas: russa, italiana, francesa, inglesa e cubana. Ali, os movimentos geralmente se adéquam à música, compondo com seu andamento e melodia. Os passos são ensaiados até o mínimo detalhe. Só assim os braços da bailarina da “morte do cisne” adquirem a desenvoltura para expressar um estado de agonia. Meu interesse é sobretudo pela ação do corpo em situações urbanas, me levando, além da atuação no palco, à participação de demonstrações de trabalho, leituras dramáticas, paradas de rua e outras formas de democratizar esse conhecimento, seja em companhias, coletivos menores ou como artista independente. Também a participação em festivais em outros estados, fora do eixo Rio-São Paulo, me possibilitou ampliar o debate de inquietações que já vinha discutindo como professor. Antes de mais nada, tratou-se de buscar um entendimento mais científico do corpo, ainda que sem excessos de racionalização. Nosso corpo tem um equilíbrio biologicamente constituído para o movimento. Ele não é o meio onde se dão nossos conflitos, mas seu próprio centro. Eu não tenho um corpo, mas “sou um corpo” com sua própria memória. A memória do que aprendemos por nós mesmos, sem medo do desconhecido. E se o corpo tem movimentos internos além da aparência, ele será mesmo para um cego sempre palpável. Muitos intérpretes praticam exercícios que, além do aprimoramento técnico, visam à saúde e bem-estar do organismo, como estender a língua nas várias direções, piscar para lubrificar os olhos ou só perceber as partes do corpo que tocam ou não tocam o chão quando deitados. Aprendemos ainda a reconhecer a forma e dimensão dessas partes do corpo e a lhe dar volume pelo toque em squeeze. E nos tocarmos ainda expressa afetividade, permitindo nos conhecermos de uma outra forma. Além disso, reconhecemos o eixo corporal, distribuindo seu peso pelos três apoios em triângulo do pé, com leve tensão para frente. Exercitamos a musculatura da boca no beijo, riso ou bocejo. E o enrolar e desenrolar da coluna vértebra por vértebra, percebendo suas curvas naturais. São pequenos exercícios e dicas, que nos ajudam no nosso convívio permanente com a dor. Nossa dor ou a dor dos outros é um sinal. Uma dor muscular pode significar que o músculo está sendo exercitado. Mas também dores em articulações delicadas, como do joelho e nuca, exigem cuidados especiais. Também os pés são sempre lembrados, seja os fletindo, alongando ou rotando. Eles 125 são um tesouro, que sustenta e muitas vezes guia o intérprete no palco. 45 Menos lembrada, ainda a voz deve ser exercitada, mesmo se num simples exercício de sibilar em “s” ou fazer vibrar a campainha da garganta. E junto de cuidados básicos com esta, há os exercícios de respiração, como inspirar e expirar de 1 a 8 tempos, permanecendo em apneia ainda de 1 a 8 tempos. Isso nos faz ver como a voz é única em cada pessoa, preenchendo toda a sala de espetáculo quando bem usada. Ela vira, junto do corpo, depositária de nossa história. Uma voz ao mesmo tempo sólida e maleável, que se multiplica em muitas vozes dentro de nós. Já o corpo passa se resolver sozinho, por exemplo, numa situação de queda. Mostrando os anos de auge da força física do intérprete e a posterior manutenção da qualidade na movimentação quando se continua a praticar, ele ganha o sabor singular do vinho envelhecido. Esse contato direto e permanente com o corpo ainda nos ensina a perceber se nos movemos simétrica ou assimetricamente e se adotamos uma postura mais fechada, voltada para nós mesmos ou aberta, voltada para o espaço. Reconhecemos se nos cabe trabalhar resistência, força ou tração num exercício de musculatura, ou dobras e alavancas se nos concentramos na ossatura. São ideias e procedimentos que aplico nas minhas aulas e criações, reforçando a cena clean e o estado de estar aí, usados por exemplo na cena a partir de A metamorfose. E também outros procedimentos aprendidos têm me levado a reformular princípios de dramaturgia corporal estudados no meu mestrado. Nos casos analisados no final do capítulo anterior, noto que usei de diferentes maneiras experiências estimuladas em ensaios ou recuperadas de momentos da vida. Também sensações vindas de músicas, da própria situação dramática e outras foram e são aproveitadas. Esses recursos incrementam o trabalho criativo e foram possíveis por um desenvolvimento do teatro e da dança, que pode ser observado também em Wigman. Gosto muito de improvisar e se faço uma aula de dança hoje, sei que muitos alunos ainda preferem as frases coreográficas. Mas praticar improvisação ajuda na hora de criar a usar movimentos novos e pessoais, saindo de padrões de movimento já conhecidos. Na época de Wigman improvisar era uma prática ainda iniciante, mas já usada pela dançarina. E se só no século passado começa a ser sistematicamente aplicada na criação de espetáculos, ela é até hoje discutida com vistas à sua melhor efetividade no trabalho artístico. A improvisação é praticada hoje de inúmeras formas e em inúmeros estilos de dança e teatro. Apesar de usar a improvisação em detrimento mesmo da técnica de movimento, Wigman ainda segue moldes da composição coreográfica, onde a autonomia do 45 Como Rosetta em Leonce e Lena, que busca esquecer sua dor, dançando para o irônico Leonce (BÜCHNER, 1998: [s.p.]). 126 intérprete é relativa. De certo modo, a estética do movimento ainda está em primeiro plano em Wigman. É só na dança contemporânea que o cotidiano se insere nos movimentos no palco, rompendo com o hieratismo de épocas anteriores. Claro que se trata de uma evolução e o cotidiano está sempre transformado e não na sua forma bruta. 46 Se Wigman, que foi aluna de Laban, usou princípios como a tridimensionalidade do corpo e o centro abdominal como origem do movimento (ao lado das cinturas escapular e pélvica), como se vê em danças como Monotonia em giro e Dança da bruxa (WIGMAN, 1998, 1975: 36, 43-5), muitos anos depois, esses e outros princípios são remodelados, levando a improvisar com maior precisão. Por exemplo, se desloca o centro para qualquer parte do corpo. (Forsythe, 2012: item “escrevendo”; aulas na disciplina mímica I no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994). O deslocamento do centro permite ainda criar frases coreográficas passando por diferentes partes do corpo. Assim, você pode começar o movimento pela cabeça, passar para a bacia e terminar num dos pés. Quanto ao espaço, se opõe com as partes do corpo as direções de Laban no cubo. Assim, cada parte do corpo pode se direcionar para qualquer extremidade do cubo, tirando do intérprete movimentos surpreendentes e até desconfortáveis (Forsythe, 2012: item “reorganizando”). 47 Não é de modo algum absurdo falar de precisão na improvisação, considerando que depois dela ser detalhada deixa simplesmente de ser improvisação. Improvisações livres correm o risco decair num círculo vicioso. No início, produzem uma sensação de liberdade. Mas mesmo quando atingem resultados surpreendentes, elas são difíceis de serem repetidas pois não se sabe como se chegou a tais resultados. Ainda poderia-se lembrar a commedia 46 Numa cena de A coroa de orquídeas (espetáculo de que participei, apresentado no teatro do Departamento de artes cênicas da ECA/USP em São Paulo, em 1998), meu personagem, o Amigo, fala no telefone. É um exemplo de como se transforma teatralmente o cotidiano. A cena é a seguinte: “Os amigos saem. No proscênio à esquerda, conversam no telefone. Amigo – Juventino, sou eu. Já estou na floricultura e queria consultá-lo sobre um assunto delicado. Veja bem... Amiga (tomando o telefone nas mãos) – A coroa pode ser de orquídeas? Juventino – Quê... Pode, por quê não? Amigo – É puxado. Juventino – Quanto? Amigo – Quinhentos. Juventino – Ladrões! Onde já se viu? Faz o seguinte: orquídea é flor besta, sofisticada. Arranja outra mais em conta. Amigo – Tá certo. Só não sei se fica aquelas coisas...” (LOPES et al., 1998: [s.p.]) Nota-se aqui como o linguajar habitual retira teatralidade de uma situação particular. Trata-se de um realismo não propriamente regionalista, mas urbano. 47 Diria que isso me lembra um amigo que uma vez me disse: “Se você espera conforto, não faça teatro”. O mesmo serve para a dança. Ainda, em disciplina cursada durante o doutorado, assisti um exercício de aula de um aluno que estuda Forsythe. A música escolhida alternava momentos rápidos e lentos e o aluno escolheu movimentos improvisados para os primeiros e coreografados para o segundo. A escolha me pareceu acertada, pois a música era às vezes tão rápida que seria impossível coreografar num exercício de aula. E mesmo assim me parece que ele conseguiu certa precisão ao improvisar, explorando suas habilidades rítmicas e o volume do corpo no espaço. 127 dell’arte, onde a improvisação segue regras da máscara, como triangulação, frontalidade e tipificação com exagero das posturas (aulas na disciplina teatro de animação I no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994; aulas de commedia dell’arte no ex Estúdio nova dança). No meu trabalho de improvisação, o estado de estar aí ou simplesmente estar aí é a predisposição para se relacionar com qualquer coisa que acontece enquanto se improvisa; inclusive acontecimentos externos à cena. Isso exige certo descompromisso e leveza e ao mesmo tempo excitação. Estar aí é aceitar como se está no momento, sem julgar a si mesmo. A palavra improvisação quer literalmente dizer aquilo que não pode ser previsto. Mas ainda que haja uma dose de acaso, improvisar não é anarquia. Mesmo em situações caóticas existe uma ordem interna. As ações podem ser inusitadas, o elemento surpresa preponderante e a presença do intérprete total. Mas quem assiste reconhece códigos de comunicação, características do jogo ficcional e convenções de linguagem. Costumo dizer que a cena é prevista na sua imprevisão. Na técnica de Viola Spolin, baseada em jogos teatrais, a observação e instrução do professor são fundamentais, conduzindo de fora a improvisação para seus objetivos. Spolin usa regras claras para improvisar, como um local onde se passa a cena, personagens ainda que rudimentares e um verbo de ação, que representa uma orientação para o intérprete se manter em ação. Quanto ao local, ele é primeiro imaginário mas depois pode-se construir uma planta no papel com os objetos cenográficos que se tem à disposição. E quanto aos personagens, Spolin lembra a importância de se ter um bom guarda-roupa, com peças teatrais e variadas com chapéus e outros adereços. Deve-se, porém, tomar cuidado com o excesso de regras. Ela propõe por exemplo uma sinalização específica para representar um sofá ou abajur na planta. Mas quando aprendi a técnica, lembro que criamos nossos próprios sinais para ganhar tempo, indo logo escolher bons objetos cenográficos (aulas das disciplinas improvisação I e II no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994; PUPO, 1997). Wigman não sistematizou propriamente jargões técnicos para seu trabalho, nem regras tão claras. Além de seus exercícios pedagógicos, ela lembra a importância do profissionalismo, quando diz que “o total domínio do ofício em todos seus aspectos técnicos e funcionais é um pré-requisito para qualquer atividade artística” (acima: 88). 48 Ainda, em 1997, eu, Sabrina Cunha e mais duas colegas começamos a ensaiar um espetáculo de improvisação. Os ensaios não duraram muito, pois não tínhamos um argumento forte para sustentar as improvisações, mas eles foram para mim a primeira tentativa de um 48 A arte em si não é ciência. Para a ciência importa a verdade, mas na arte há uma verdade sensível, diferente para cada um. Mas regras e métodos podem fazer a arte mais científica e o intérprete vira aí “cientista” da expressão humana. E mesmo quando a regra é descartada como veremos, nem por isso o trabalho deve ser menos rigoroso e preciso. 128 trabalho conjunto e pessoal. Improvisamos sem medo. Ali aprendi que deveria sair de cena quando me sentisse vazio ou sem conseguir achar sentido no que estava fazendo. Deveria me aquietar internamente e quando me sentisse impulsionado voltar a improvisar. Também sofri a carga de criar continuamente, controlando a ansiedade para deixar que as ideias nascessem do momento. Tentávamos não criar externamente por estereótipos, mas nos escutando profundamente. Essa carga de criar está presente por exemplo na improvisação com máscara (como a commedia dell´arte), onde à improvisação se une a preocupação com o ritmo da cena. Outras possibilidades para iniciar ensaios além da improvisação são imagens como fotos pessoais e de revista e textos curtos como poemas. Esse é o ponto de ataque da criação, sobre o qual diz Wigman (acima: 47): “Por onde iria começar, como decidir? E se a primeira tentativa fracassa, e então? Manteria a coragem, conseguiria continuar apesar de tudo? Duvidamos e desesperamos de tudo, não menos de nós mesmos, e no fim dá certo”. Ainda participei de algumas jam sessions de dança, fazendo algumas vezes duo com o dançarino Celso Carvalho Lima, além de trios e quadras com mais outros intérpretes. Nós dois criamos uma intimidade e me lembro de uma vez conseguir prever para onde ia se movimentar e eu o acompanhei. Apesar desse domínio da técnica de improvisação, ainda me valia, para compensar, da imaginação. Técnica e imaginação se complementam. Improvisar é sempre um risco, pois lidamos com o imprevisto, aprendendo a responder a ele. Quando se criou certa intimidade entre os intérpretes, depois de bastante prática no grupo, até se pode eventualmente prever o que o colega de cena vai fazer, como disse. Mas não funciona criar antes uma história “maravilhosa” na cabeça, pois em cena o que vale é a relação. Aceitando o que o outro propõe e eventualmente o modificando, dividimos nossas intenções. E nesse contato com o outro, também modificamos a nós mesmos. Nesse sentido, o espetáculo não acontece propriamente no palco, mas entre os intérpretes e o público. Nesse espaço intermediário e de comunhão, é reservado a cada um uma função: de agir ou estar diante da ação. E com isso, o público se une aos intérpretes, participando do espetáculo não só com sua presença, mas sensibilidade e raciocínio. Para isso é importante também criar comunhão e receptividade já nos ensaios. Um dos recursos é a superaceitação, quando dizemos inicialmente sim ao que o outro propõe, o adaptando depois às nossas necessidades. Estar em relação é um modo de não se perder em gestos estereotipados e mesmo sem sentido. Devo perceber as necessidades da própria cena, sem me ater aqui a um padrão de certo ou errado. Por outro lado, respondendo a estímulos e propostas dos outros, às vezes me 129 engano, pois talvez me predispusa reagir muito prontamente. 49 Mas se a cena permite posso ainda voltar atrás. Por exemplo, se deixo aparecer um lado negativo meu, posso compensar mostrando outro positivo, como ao ajudar a desenvolver uma ideia do colega, servindo de escada em cena como fazem os palhaços. Para improvisar, não posso ter medo de me expor, criando, errando e consertando se possível. No XPTO, participei por exemplo de um espetáculo de circo para um evento fechado de lançamento de um novo carro da Fiat em 2001. Também nessa época dei um workshop no Teatro Municipal de Mogi das Cruzes, onde exercitei o recurso da escada. Cito um exercício onde dois intérpretes caminham em diagonais opostas do fundo da sala em direção ao centro. Quando se encontram, improvisam uma ceninha. Então se despedem e voltam a caminhar para a frente, cada um por si. Por exemplo, eles não devem agir aqui como quem tira proveito um do outro, deixando o outro de calças curtas e indo embora. É importante sem dúvida criar um problema, para que a cena tenha um conflito. Mas na medida do possível, o conflito deve ser resolvido antes deles se despedirem. Assim, improvisar não é fazer qualquer coisa. Existem regras para garantir o andamento do jogo de cena. Estas também ajudam a definir a linguagem, refinar a comunicação e aumentar a imprevisibilidade e ousadia. Pois a boa regra aprofunda as situações vividas em cena. Ela não aprisiona, mas é ao contrário uma base firme que proporciona liberdade. Me sinto seguro para me arriscar mais. Mas se permite aventurar no desconhecido, a regra também não é uma verdade absoluta. E se por vezes atrapalha a criação, eu deixo de usá-la. Pois o mais importante é o que é justo para cena, o que funciona aos olhos de quem nos assiste. A regra pode ser só o ponto de partida que possibilita criar obstáculos, guiando nosso desempenho no sentido de superá-los. Assim, se a técnica deve ser praticada, criar prescinde de modelo. E improvisar é criar enquanto se atua. Os obstáculos nos desafiam e motivam. Eles nos obrigam a nos readaptarmos, sem que ultrapassemos o respeito pela cena e os colegas. Ousamos mantendo a integridade. Deve-se tomar cuidado ainda para não criar uma atmosfera altamente competitiva, mas sim de participação mútua. 50 O gesto espontâneo é sem dúvida um valioso resultado de uma improvisação bem conduzida. Mas ele não pode direcionar toda a improvisação. É preciso também buscar ali a precisão. Na criação de espetáculos a partir da improvisação, esta é repetida diversas vezes, a reconstruindo e 49 É também bonito ver essa ingenuidade no intérprete, de dizer sim para o outro sem pensar nas consequências. De certo modo, é um trabalho de tentativa e erro. 50 O ensaio também traz um sentido de festa, uma confraternização de um grupo quase como uma família. Devemos ter algo para partilhar com os outros, mesmo que seja só confiança ou descontração. 130 editando. Aproveitando o que funciona para o espetáculo, pouco a pouco se deixa de improvisar, fixando e formalizando a cena. Como exemplo, participei na faculdade da encenação de um poema de João Cabral de Melo Neto formado por monólogos. 51 A diretora viu nisso uma teatralidade boa para o palco. Eu fazia João, que tinha uma doçura e ponderação que se identificavam comigo. Estava no começo da faculdade, sem muita tarimba de palco. Como não foi feita nenhuma modificação no texto, tivemos de nos esforçar para que a cena não parecesse só um jogral. Era uma criação bem simples, onde os ensaios atendiam ao sentido do texto. Mas gestos que surgiram nas improvisações com objetos serviram para aprofundar nosso modo de dizê-lo. Por outro lado, participei muito depois de uma homenagem a Lygia Clark. 52 Tinha um caráter performático, onde alguns materiais do universo da artista plástica, como sacos, pedras e fios foram usados em improvisações dirigidas. Mesmo se depois formalizado numa apresentação, resultou nesse caso num trabalho despojado, onde improvisamos também na apresentação. Existe um bom senso entre improvisar e comunicar. Quando bem feita, o público gosta da cena improvisada, pois lhes dá certa sensação de ver os bastidores. Cito finalmente como curiosidade um espetáculo de dança de que participei, onde atuávamos não só no palco, mas na plateia e o próprio saguão do teatro. 53 Ali por exemplo fazíamos cenas individuais, onde manipulávamos até recursos de iluminação. Sei que nem sempre o público está disposto à experimentação e me lembro numa apresentação, quando estava bem perto do público, de ouvir alguém comentar: “Mas eles não vão dançar?” Existiu um estranhamento, pois não se podia encontrar ali os movimentos e posições mais conhecidos da dança ou balé. A técnica não deve ser posta à frente quando estou no palco. 54 Tem intérpretes que se escondem atrás da técnica, no início até por vergonha. Isso porém lhes tira empatia com o público. O que desperta mesmo o interesse deste é estarmos envolvidos com a ação em cena. Se o intérprete desvia a atenção do que está fazendo, talvez por desprezar ou se preocupar demais com a técnica, a magia que comunga com o público arrefece. Não devo esquecer que não atuo para mim e sim em relação com os colegas de cena e o público. Estar em cena é generosamente dar e receber, agir e reagir, envolvendo desde o instinto mais básico ao raciocínio mais sofisticado. O trabalho geralmente se dá em grupo e na relação com o outro. Como já expresso na velha palavra trupe, um trabalho de grupo não é só 51 Os três mal amados, cena para a disciplina direção teatral I no curso de artes cênicas da ECA/USP, em 1994. 52 Espetáculo apresentado no saguão de entrada do Centro cultural São Paulo em São Paulo, em 2008. 53 Oco, espetáculo apresentado no Teatro Itália (ex Teatro de dança) em São Paulo, em 2009. 54 Wigman diz:“É certo, lá onde a técnica é adorada em si mesma, a arte deixa de existir” (acima: 50). 131 um grupo de trabalho. As diferenças fazem a força, mas o empenho é de todos. 55 Em cenas consecutivas ou paralelas se formam na improvisação por um tempo mais longo ou curto esses solos, duos, trios, quadras e grupos maiores. Isso pode aumentar a complexidade do trabalho. Quase sempre surgem líderes, que detêm então o foco. O resultado muitas vezes vem de um trabalho onde cada um domina a técnica através de exercícios específicos. Dessa forma, a improvisação vira um rico recurso para manter a vivacidade das cenas criadas, se desenvolvendo em espetáculos criativos e definindo por vezes sua concepção final. Improvisações, assim, sobre um tema ou personagens podem servir para trabalhar deficiências momentâneas do espetáculo que se está criando. Mas essas escolhas se vinculam ao andamento dos próprios ensaios. Quando o espetáculo já está levantado na sua estrutura, exercícios, jogos e improvisações ainda podem ser utilizados, complementando ensaios parciais de cenas. Por fim, os ensaios gerais são importantes para que o espetáculo ganhe ritmo e os ensaios técnicos ajudam a resolver problemas de coxia, como a circulação dos intérpretes e colocação e retirada de cenário. Há diretores que ensaiam seguindo um planejamento claro onde a improvisação, quando usada, tem função pontual e outros que criam de forma mais caótica. Bausch (2007a: 10) no seu espetáculo Fritz planejou meticulosamente os ensaios. Mas a partir daí se envolveu em trabalhos sem saber como iriam se desenrolar. Isso se coaduna ao seu interesse mais pela personalidade de seus dançarinos do que dotes virtuosísticos. Ela dizia que não se interessava por como as pessoas se movem, mas o que as move e usou esse princípio nas improvisações que conduzia com seu elenco a partir de materiais pessoais que lhe eram mostrados. Mas Bausch foi sobretudo uma encenadora, vinculada à rotina de trabalho num teatro estatal. Por isso para ela a cenografia é tão importante.Soluções cenográficas, por exemplo, redirecionam a própria direção de seus espetáculos (em encontro com Bausch no Instituto Goethe São Paulo em 2000). A cenografia ainda vem acompanhada da luz, sendo fundamental o diálogo entre cenógrafo e iluminador para que torres de luz, por exemplo, não apenas iluminem mas realcem os cenários, criando até diferentes ambientes. Nesse sentido, Bausch (2007a: 9) cita os enormes crocodilos em Lenda da castidade. Não se tratava ali de um cenário só funcional para o intérprete. Poderia também lembrar o espetáculo já citado Os possessos. A luz eficiente de 55 Wigman diz: “Mas também experimentei como um grupo de jovens começa a brilhar por dentro e emite uma força radiante, onde tudo que é físico parece suspenso e leva a uma espiritualização, que eleva a criação da dança ao nível do encantamento e transfiguração” (acima: 91). Apesar de ser um grupo, ainda se preserva a diferença e potencialidades de cada um, canalizadas para um objetivo comum. Mesmo que o gerenciamento, funcionamento e manutenção de um grupo tenha hoje uma nova logística, a origem está nos grupos mambembes, como o retratado por Shakespeare em Hamlet. 132 Wagner Pinto e estagiários criava ali os ambientes para a história que se passava na frente de uma plotagem de uma famosa pintura russa e ao mesmo tempo realçava, por sua simplicidade, o texto dito pelos intérpretes. Por sua vez, Wigman também encaminhou ensaios sem saber para onde eles a levavam, explorando a subjetividade do intérprete (acima: por ex. 60). Mas ao contrário de Bausch, ela foi uma artista independente, produzindo seus próprios solos, dando aulas e criando para sua companhia ou sob encomenda, seja para teatros estatais ou através de iniciativa privada. Também, nunca deixou de se preocupar com o sentido artesanal da dança, mantendo sua escola até poucos anos antes de morrer. Participei ainda na minha carreira de processos abertos como com Maria Mommensohn, onde realizava às vezes tarefas nos ensaios tentando visualizar a cena final, que envolveria aparatos cenográficos. Ao improvisar não se fixa geralmente um fim. Posso determinar um tempo ou até mesmo situação para ela acabar, a partir do que observo. Isso pode dinamizar a cena, sem a deixar correr frouxa. O importante é que todos em cena terminem juntos. 56 E às vezes nem preciso encaminhá-la para o fim, dando instruções externas. Os próprios intérpretes o percebem ou ainda algum evento especial traz esse fim, com clímax e desfecho juntos. Mas para ganhar tal percepção é que treinamos improvisar. Por exemplo, focando no movimento, podemos ainda fazer exercícios partindo das partes do corpo (cabeça, tronco, braços e pernas), isolada ou conjuntamente. Aqui é importante buscar movimentos novos, sem permanecer no repertório já conhecido. 57 Num dado momento, ou nos renovamos ou começamos a nos repetir. Uma forma de se surpreender é: ao pensar num movimento, realizar imediatamente o movimento oposto. Também na improvisação, podemos “gastar” movimentos que estamos acostumados a repetir, de modo que surjam outros novos. Longas improvisações são uma oportunidade para investigar a si mesmo. Mas o mais importante é o grau de sinceridade e entrega: faça o que fizer, deve ser feito com todo coração. Só um coração aberto nos permite viver com inteireza as situações criadas. Também quando se improvisa, se deve prestar atenção em tudo que acontece em cena. Você nota quando alguém entra ou sai de cena e percebe, tanto quanto possível, o que cada um em geral faz. Isso exige ainda esforço e não se deve ter preguiça quanto a manter os sentidos despertos. 58 A fim de perceber cada pequena mudança, o intérprete deve se manter 56 Em improvisações de movimento, como em jam sessions, o fim implica geralmente num aquietar do corpo. Também, quando necessário, pode existir uma instrução de fora, que conduza a este aquietar. 57 Tal como a criação de partituras nos tira dos nossos gestos mais comuns, também a voz deve ganhar novas modulações e colorido com a partitura vocal. O cuidado na partiturização é de não perder a justificativa do movimento ou voz, o tornando só uma solução estética. A origem aí está na notação das partes vocal e instrumental, que registra por completo a música a ser tocada. 58 Wigman diz: “Mantenha os sentidos despertos em você e em seus alunos para a experiência do momento 133 sempre presente na improvisação. Isso ainda conforme se divide a atenção ao improvisar entre si mesmo e o espaço ao redor. Às vezes você se volta mais para si e outras vezes para os outros, numa gradação dos olhos fechados à total percepção do que acontece na sala, segundo o que está sendo pedido. 59 No caso de se usar música, gravada ou ao vivo como em jam sessions, esta muitas vezes se impõe rapidamente. Claro que aí não preciso necessariamente seguir seu ritmo. Posso até me opor a ele. Também às vezes o andamento da improvisação como que pede um tipo de música, conforme ainda o que se tem à disposição. O importante é que a música esteja a serviço da cena e não o contrário. Outra possibilidade também é improvisar no silêncio, mas manter internamente o pulso da música. Essas são algumas entre muitas formas de trabalhar. Elas se vinculam a tradições que privilegiam ora a forma ora a continuidade do movimento. Nesse equilíbrio que dimensiona o espetáculo, a criação depende também das diferentes formações do intérprete na sua via de profissionalização. Sempre a disciplina e concentração têm um papel e problemas externos não devem interferir no andamento de aulas e ensaios. Como já disse, não sei quanto é possível realmente ensinar alguém a ser artista. De todo modo, acho que a formação do intérprete deve estar sempre direcionada à sua arte. Wigman (acima: 88) por exemplo diz, como pedindo: “Então não esqueça – e não esqueça nunca! - que o ensino da dança é uma tarefa condicionada à arte”. Entendo como a formação do corpo para atuar em cena, pois ela também diz: Só posso ver a educação na dança como uma tarefa formativa, além da qual, como acento mais forte, está o homem na sua corporalidade. Então, formação do corpo? É, pois se trata de um processo de crescimento, onde movimento físico, mobilidade espiritual e agilidade mental devem ser equilibrados para realizar a transformação do corpo, de carne em instrumento (id.: 89). 60 Trata-se de uma técnica formativa, que inclui o domínio de funções como dos músculos e articulações. É essa técnica que deve garantir ainda ao intérprete o condicionamento físico para momentos de exaustão, presentes na dança da dançarina (id.: por ex. 67). Sem dúvida, grandes companhias pelo mundo apresentam nas suas criações sempre mais ágeis e complexas o que um corpo pode ser capaz pelo aprumo técnico. Mas também o fluxo das linguagens busca trazer novos modos de produzir e criar. Por exemplo em espetáculos multimídia, é fácil encontrar a mistura de elementos da dança, teatro, ópera, artes criativo, onde a fonte de vida borbulha” (acima: 91). 59 Com Sabrina Cunha, trabalhei por exemplo a improvisação visando ganhar criatividade e prontidão corporal, sendo o outro muito importante. 60 Em Grotowski (1987: 170-1) é uma formação psicofísica, mas onde o corpo se engaja todo na ação. Unindo a ação física às associações pessoais, ele como dá ao corpo uma força energética e simbólica. 134 plásticas, vídeo, circo, música, performance, literatura ou mesmo arquitetura. Wigman na sua época comungou dessa possibilidade. Mas ela se valia de outras artes para aumentar a expressão dos recursos próprios da dança. Pois naquele momento talvez fosse importante primeiro assegurar as características de uma dança moderna ainda não totalmente formada. Nesse sentido, Wigman dá o exemplo do coro de figuras do Hades na sua coreografia para a ópera Alceste (acima: 54).Também em Monumento aos mortos, a escolha pela batida de tambores africanos se torna indispensável para sustentar sua coreografia em meio às sonoridades propostas pela direção (id.: 85). E ainda no subcapítulo que dá título ao livro, ela reflete sobre a necessidade de combinar dança e música (id.: 45). Bausch (2007a: 15-6) também reflete sobre a interação destas linguagens. Para ela, a música ocupa os sentidos, fazendo parar de pensar e começar a sentir. Primeiro, ela cria sem música. Quando a música entra, traz uma nova visão e escuta. A seleção dessas músicas e sua conexão com o que acontece no palco é um trabalho difícil. Por isso tinha assistentes só para escolher as músicas de seus espetáculos. Ela ainda ressalta que, das muitas músicas que ouve, só uma se encaixa para cada cena. Mas depois da música escolhida, ainda evita usá-la nos ensaios para não desgastá-la. Mantendo o espírito especulativo, concluiria voltando ao início. Se o que sei é viver “sonhos de paixão” e me cabe, como diz Hamlet, mudar meu sentimento através da transformação num personagem, também me cabe como professor entender melhor sua admiração por esse se transformar, que compartilho aqui e ali em horas do meu trabalho ou lazer. 61 Alimentar tal admiração é para mim especialmente importante quando preciso reverter uma rotina viciosa de aulas, ensaios e apresentações. Então, longe das salas de teatro e locais de ensaio em São Paulo, na frente do computador no interior ao lado da minha família e ouvindo os pássaros que cantam no jardim, busco as palavras para sintetizar minha tese. Acho que fui, tanto quanto pude, fiel a Wigman e às aulas, ensaios e apresentações que recolhi aqui da correria do meu dia a dia. Através de exemplos práticos, quis mostrar como o livro dessa dançarina, que morreu (ou simplesmente “se purificou”, como ela se refere a morrer) só um ano depois que nasci, é atual pelo uso por exemplo de sensações e experiências (acima: 42). 62 A dançarina mostra neste livro muitas formas de trabalhar e criar, sendo o parceiro invisível um exemplo aqui pequenino mas bem concreto. Essas muitas formas se justificam se nos 61 Hamlet fala em “forçar a alma a sentir o que ele (o ator) quer” através de uma transformação, pois “seu (do ator) rosto empalidece,/Tem lágrimas nos olhos, angústia no semblante,/A voz trêmula, e toda sua aparência/Se ajusta ao que ele pretende” (SHAKESPEARE, 2007: 63; acima: 52). 62 Por sensação entendo o material que obtemos por nossos cinco sentidos e por experiência tanto o que adquirimos individualmente ao longo da vida, como vivências produzidas em grupo, como entre intérpretes numa sala de ensaio. A experiência tem assim um sentido passivo no primeiro caso e ativo no segundo. 135 damos conta da variedade de referências que usou para coreografar, como se constata ao ler sua produção artística no final do livro (id.: 92-6). Se traduzir me possibilitou conhecer mais o trabalho de coreografar, ao aplicar suas ideias em estudo de casos, visei ajudar para que tais ideias possam também ser usadas por outros intérpretes, sejam de dança, teatro ou dança- teatro, com certa flexibilidade pertinente na criação artística e sem se prender a rótulos. 63 Termino então com essas palavras: O rio da vida, que segue fluindo Deixa aqui um sinal temporário. E já me despeço admitindo: Nada amanhã me será originário. Antes de listar as referências, noto que essa é uma pesquisa teórico-prática, projetada para ser realizada sobretudo em sala de ensaio. Isso significou buscar o conceito a partir da prática e não o contrário. Os livros condensam fatos e experiências, nos dando respostas que muitas vezes não conseguimos formular por nós mesmos. Eles apresentam em palavras algo que podemos até intuir, mas para o qual não encontramos a melhor expressão. No sentido mais imediato, são simples sinais tipográficos, mas que representam experiências de vida. Abrir um livro é entrar num mundo particular, onde vemos espelhadas tanto nossas crenças como dúvidas. Não esqueço quando tive de ler Vidas secas na escola. “Aquelas pessoas passam a vida em busca de água”, disse então para minha mãe. A senhora precisa ler esse livro! E assim deixando um pouco de lado as obrigações da nossa vida urbana, olhamos com assombro ou pena reiterada para o sofrimento daqueles irmãos de uma parte até hoje tão pouco lembrada do nosso país. “O artista é aquele que expressa outras vidas, recriando seu próprio sentimento”, pensei talvez por um segundo. Desde então livros e outras mídias me acompanham nas minhas aventuras dentro e fora do palco. Cada intérprete tem sua própria biblioteca, seu arquivo que aciona quando começa a ensaiar um novo espetáculo. Muitos livros nos deixam imagens que nos inspiram ao criar um personagem ou cena. Também um texto curto como um poema pode às vezes nos instigar a improvisar e criar. O mundo muitas vezes abstrato da poesia ativa nossa imaginação, nos permitindo gestos e ações desapegados da realidade mais crua. Também as falas de uma peça ou outro texto instigam nosso mundo interior, nos levando a gestos e entonações inusitados. Damos corpo e voz tanto ao que os diálogos mostram explicitamente da aparência e modo de pensar ou sentir do personagem, 63 Um conceito às vezes me é um importante estímulo, mas sem que vire uma prisão. No fim das contas, a verdadeira matéria da arte é a vida. Bausch (2007a: 1) se refere a um saber muito prático, sendo por exemplo a dança uma linguagem adequada para pressentir tal saber. Para ela, a dança não se refere só à arte e o conhecimento puro, mas à vida e um modo de achar uma expressão para esta. O fogo simboliza esse outro conhecimento. Na prática do diretor-pedagogo, na qual incluo Bausch, o processo criativo é centrado no aprendizado do intérprete, sendo aplicado tanto dentro como fora das instituições de ensino. 136 como do seu comportamento e o que este esconde de suas intenções. Ainda os impulsos do nosso corpo se direcionam para “viver” durante algumas horas tal como o personagem. Começamos muitas vezes com o texto, o deixamos aqui e ali de lado e voltamos sempre que necessário a ele. O texto do espetáculo não é só a peça teatral. Também não é só o texto dito pelos intérpretes, dramático ou não. O próprio espetáculo tem uma dramaturgia, a partir dos elementos inseridos durante os ensaios. Assim, se é importante saber que o dramaturgo escolheu essas e não outras palavras e o que digo em cena é coerente com o que no geral a peça pretende, diretor e intérpretes também criam suas próprias associações. Sei o que o dramaturgo quer e partir daí crio minha concepção do espetáculo, que pode ou não respeitar a peça escrita. Pois há muitas maneiras de relacionar o texto com a cena, conforme sua importância para a linguagem do espetáculo. Posso ou não direcionar a criação a partir de características da peça, quer políticas, sociais, psicológicas, históricas ou literárias. Posso, é certo, lançar mão de uma frase de livro numa aula ou ensaio. Ela pode ser uma chave para uma certa situação, pode nos inspirar e modificar. Mas a base do trabalho permanece sendo prática. O uso excessivo da teoria nos aprisiona, inibindo a intuição e conhecimentos que já temos guardados dentro de nós, que só precisam de um estímulo para vir à tona. É a partir da precisão técnica que uma nova teoria pode surgir. Mas quando, durante o trabalho, a prática não encontra suas respostas, um conceito pode ser de grande ajuda. Um discurso maravilhoso não quer dizer necessariamente uma prática eficiente. Uma palavra pode ser trocada, mas a experiência é insubstituível. Só a verdadeira experiência nos põe diante dos obstáculos que nos fazem crescer. Claro que o estudo do texto também representa uma oportunidade de se conhecer mais. O texto, ou melhor seu autor, nos possibilita ver o que não podemos ver sozinhos,dizer aquilo para o qual não encontramos palavras. Mas é uma exigência do palco que isso que está mais no fundo de nós venha à tona, que nosso eu profundo se exteriorize. E esse é um saber da vida. A própria Wigman reconhece os limites da escrita na relação com o complexo ato de criar. Em A linguagem da dança, vemos como a dançarina nunca esquece a realidade ao descrever seu fazer, evitando o malabarismo com as palavras. Escrever é paradoxalmente liberar de si e extratificar no papel uma perspectiva ou interpretação, que pode logo não dar mais conta da realidade sempre em mudança. Mais que todo nosso conhecimento intelectual, vale o que aplicamos. Essa nota visa justificar a bibliografia reduzida, uma vez que dei preferência aqui às descobertas, mesmo se pequeninas, no exercício do fazer, testando e mesmo errando, como o cientista no seu laboratório. Mas espero que relatando meus erros, outros tenham aprendido a evitar os seus. 137 5. REFERÊNCIAS ABUJAMRA, A. Os possessos. São Paulo: CAT/Funarte, 2008 – xerox de ensaio ARAP, F. A paixão segundo G.H.. Sala preta, São Paulo, v. 3: 86-105, 2003 ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética clássica. São Paulo: Cultrix, 2013 ARTAUD, A. Oeuvres complétes IV. Paris: Gallimard, 1978 ASSIS, M. Contos de Machado de Assis. São Paulo: Melhoramentos, 2012 BARBA, E. Introdução. In BARBA, E.; SAVARESE, N. (ed.) A arte secreta do ator. São Paulo/Campinas: Hucitec/Ed. 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Middletown:Wesleyan university press, 1984 139 ANEXO A: texto original DIE SPRACHE DES TANZES Das Geheimnis des Tanzes 140 141 Sprache des Tanzes 142 143 144 145 146 Formen des Tanzes 147 148 149 150 151 152 Auch als angewandte Kunst erfüllt der Tanz seine Aufgabe 153 Zeremonielle Gestalt 154 155 Dreh-Monotonie 156 157 158 Hexentanz 159 160 Schwingende Landschaft 161 Anruf 162 Gesicht der Nacht 163 Pastorale 164 Festlisches Rhytmus 165 166 Sommerlicher Tanz 167 Sturmlied 168 Seraphisches Lied 169 170 Opfer 171 Schicksalslied 172 173 Herbstliche Tänze Tanz der Niobe 174 Tanz der Niobe 175 176 Abschied und Dank 177 Gruppentanz und chorischer Tanz 178 179 180 181 182 183 184 185 186 187 Tanzpädagogik – Brief an einem jungen Tänzer 188 189 190 191 192 193 194 ANEXO B: sobre ensaiar Diretor e intérprete numa sala de ensaio. Diretor – Foi bom. Você quer repetir? Intérprete – Achei que estava meio desconcentrado. Diretor – O começo do espetáculo é sempre importante. Você precisa fazer o público entrar na história. Veja, como começa Hamlet? Intérprete - Com a troca da guarda. Diretor - O que mais? Intérprete - Eles estão preocupados com o aparecimento do fantasma do rei. Diretor – Já aí existe uma grande tensão! Se a primeira cena não é boa, todo o espetáculo pode estar comprometido. Intérprete – Num solo, então, toda a atenção recai sobre um mesmo intérprete. Diretor – A sua entrada em cena precisa ter mais força, pois o personagem está se apresentando pela primeira vez e o público está curioso. Intérprete - Eu sei. Também já li peças, onde se cria expectativa até a entrada do protagonista. Diretor - É como o cantor, que entra na nota certa sem titubear. Uma vez assistia uma apresentação de dança e vi que um intérprete não amorteceu suficientemente a queda depois de um salto. O espetáculo continuou, mas na hora do intervalo vieram avisar que o programa teria de ser alterado, pois um dos intérpretes tinha se machucado. Isso é só para ilustrar como gesto deve ser preciso. Intérprete – Eu estava nervoso. Diretor – O solo exige tarimba e ainda assim corre o risco de ficar monótono. É importante você não se sentir preso à forma, mas também não adianta querer “consertar” o movimento. Omelhor aí é tentar prever onde se vai chegar. Intérprete - Sinto que quando estava ocupado com uma ação, a cena fluía. 64 Diretor – É verdade, se você se desvia do seu objetivo ou mesmo fica tenso, o público percebe na hora. Na estreia, por exemplo, o intérprete geralmente está tenso, porque ainda não está acostumado com a marcação. Intérprete - E quando o espetáculo já foi apresentado muitas vezes, ele precisa renovar seu interesse para não repetir feito robô. Diretor - Além disso, você precisa preencher melhor o espaço. Pense sempre num “parceiro imaginário”. 65 Isso significa que você não deve se sentir sozinho em cena, mas se aproveitar do contato com o ar, o chão ou um objeto, focando aí sua atenção ou sensação. 64 Stanislavski diz que o personagem tem um objetivo, que o acompanha por toda a peça. 65 Termo usado, por exemplo, pelo diretor Francisco Medeiros. Wigman fala num “parceiro invisível”. 195 Intérprete - E na apresentação, tem ainda o público. Diretor - Isso. Nunca faça só para você. E não esqueça também que a ação não é só deslocamento no espaço. Os personagens podem estar só sentados conversando, mas solucionando conflitos do espetáculo. Intérprete – Porque a ação depende ainda de um preenchimento interno, não é? Diretor – Sim. O público também percebe se o intérprete não tem convicção naquilo que está fazendo. Intérprete – Eu acho que, às vezes, não conseguia manter as características que criei para o personagem. Diretor – É, acontece; mas para isso existem outros elementos, como o figurino. Afinal, o hábito não faz o monge? (sorri) Bem, experimenta esse casaco. O intérprete põe o casaco. Diretor – O figurino não é uma embalagem, que você coloca na estreia para o personagem ficar mais bonito. Ele faz parte do personagem e é pensado junto com o espetáculo. Você pode até lavar o figurino antes da estreia para ele perder o ar de novo. Intérprete – Vi um espetáculo, onde o figurino era tão bonito que ninguém prestava atenção na interpretação. Diretor – Na dança, é importante que ele dê maleabilidade para o intérprete. Mas primeiro tente só perceber o que ele lhe provoca. Sinta sua textura na pele, temperatura. 66 Ele começa a fazer gestos de medo, mas meio estereotipados. Diretor – Não finja, mas seja Gregor. Se ajudar, pense em alguém que você conhece. Ele continua se movimentando, mas já há uma mudança no eixo do corpo. Diretor – Bom! Através de improvisações, pode-se criar espetáculos, onde os intérpretes se diferenciam pelos personagens. E onde as ações destes acabam determinando as cenas. Dança e teatro são artes irmãs e suas linguagens hoje se entrelaçam. Veja aqui: quem é essa pessoa? Intérprete - ... Diretor – Não diga, só perceba! Defina suas características. Mostre como ela é. Os movimentos ficam mais maleáveis e também mais apurados. Diretor – Muito bom, agora eu posso vê-la. Numa peça de teatro, muitas vezes o dramaturgo dá indicações precisas sobre o personagem. Às vezes, ele descreve os personagens com detalhes, inclusive físicos. Isso porque autores convivem com seus personagens durante a criação, quase como pessoas reais. Também ao estudar o texto, o intérprete colhe outros traços 66 Exercício trazido da França por Maria Lúcia Pupo (ECA/USP). 196 da sua personalidade. Intérprete – Kafka acho que fala pouco sobre as características de Gregor e não tenho ainda uma boa noção do personagem. Diretor – Isso não importa. Siga o que você lembra... Não temos pressa. Intérprete – Preferiria olhar o texto... Diretor - Não! Eu entendo. Quando eu estava na escola e o professor pedia para escrever uma redação, também achava mais fácil se ele já determinava o tema. Sei que mais tarde você vai se assustar com a quantidade de informações que o texto fornece sobre o personagem e que você não tinha percebido. Mas existem muitas formas diferentes de criá-lo no palco. Por exemplo, têm cantores que criam um personagem para uma música que vão cantar. O intérprete volta a se movimentar com mais naturalidade. Intérprete – Sinto que agora o personagem está mais solto. Diretor – Improvisar ajuda quando estamos com dificuldade de achar o personagem. Muitos intérpretes constroem uma história maravilhosa na cabeça e quando vão contracenar, se perdem em gestos artificiais e sem sentido. Outros decoram lindamente o texto sozinhos em casa, mas na hora de atuar não conseguem lembrar de quase nada. Intérprete – Verdade, uma das regras da máscara é não ficar premeditando, mas deixar que o movimento aconteça. Diretor - Você consegue se observar enquanto improvisa? Intérprete – Não sei, muitas vezes acho que não tenho uma ideia clara de mim. Talvez por isso tenha dificuldade de recuperar movimentos que criei. Diretor – Improvisação é prática. Sem dúvida, o diretor pode dar indicações preciosas, mas é importante você tentar perceber, por exemplo, quando sente prazer nas ações, se seus movimentos são plásticos ou quando acha que está comunicando. Também preste atenção no seu entorno: como é a sala de ensaio; ouça os sons do ambiente. É importante manter essa dupla atenção para não se fechar só em você. Agora, continue improvisando, mas tente também repetir alguns movimentos que mais gosta. Ele prossegue. Diretor - Apenas cuidado para não enrijecer o que já conquistou. Intérprete – Eu sei, às vezes tendo a perder o que adquiri, quando o diretor dá uma nova instrução. Diretor – Sim, é um processo cumulativo. Vamos fazer assim: escolha os três movimentos que mais lhe agradaram. Ele retoma alguns movimentos, os fixando. 197 Diretor – Depois dê um nome para eles. Isso vai ajudá-lo a não os esquecer. E também deixar claro o que quer comunicar. Alguma dúvida? Pense se você não está se enganando em algum momento. Não preciso dizer que o mais importante é ser honesto com você mesmo. Intérprete – Não é fácil! Diretor – Não desanime! Minha função é criar obstáculos, mas você tem liberdade para discordar e propor outra coisa. Bom, agora gostaria de trabalhar com a mala. O intérprete pega a mala. Diretor – Para! Você já tem uma ação. Como ele pega a mala? Já sei! Vamos trabalhar primeiro as mãos. Como são as mãos desse personagem? Muitos intérpretes não sabem o que fazer com as mãos e usam o objeto como uma muleta em cena. Mas as mãos podem ser muito expressivas. 67 Na dança indiana, os mudras contam toda uma história! Como você pode trabalhá-las aqui? Ele experimenta movimentos com as mãos, sem esquecer o resto do corpo. Diretor – É bom, mas explore mais cada movimento, sem passar tão depressa de um para o outro. 68 (depois de um tempo) Isso! Agora, pega a mala. Lembre que o intérprete dá vida para o objeto. Ele é uma extensão do seu corpo e você deve dominá-lo. Ensaiando o manuseio, o intérprete pode deleitar o público com a familiaridade com o objeto. Aqui, você pode usá-lo de diferentes maneiras, transformando-o. Intérprete – Posso transformá-lo... Diretor – Isso! Você pode usá-lo como um banco para descansar. Sei lá! Se ajudar, crie uma situação, em casa ou no trabalho. O intérprete usa a mala de várias maneiras, como um prato, banheira, espelho... Diretor – Gostei, você usou diferentes planos no espaço, dinâmicas, direções. E o foco às vezes estava em você e às vezes no objeto. Claro que nem todas as situações vão ser aproveitadas, mas é bom levantar material para depois ir selecionando. Só não esqueça o olhar. Você pode criar uma relação com o objeto só pelo olhar. Vamos então experimentar com a música? Não se assuste! Confie em mim! Ensaiar é um pouco como cozinhar: a gente vai experimentando diferentes ingredientes. O diretor põe o Réquiem de Mozart e o intérprete começa a dançar de imediato. Diretor – Calma, escuta primeiro a música! Muitas vezes ouvimos, masnão escutamos; quer dizer, não prestamos atenção de verdade. Ele dança devagar, inserindo, pouco a pouco, os movimentos que descobriu nas outras 67 Por exemplo, Wigman fala de uma “mão que pode chorar” (acima: 91). 68 Desde o teatro grego, valoriza-se dramaturgicamente a unidade de ação, com começo, meio e fim. 198 improvisações. Enquanto isso, o diretor dá novas instruções. Diretor - Se deixe envolver pela música, mas não precisa seguir seu ritmo. Você pode, por exemplo, se contrapor a ela. O intérprete começa a colorir suas ações, encontrando novos estímulos. Mas de repente o diretor tira a música. 69 Diretor – Não pare! Você não é escravo da música. (o intérprete continua) Consegue dizer o que está sentindo? Intérprete – Parece que meu corpo tem uma vibração própria. Diretor – O que mais? Intérprete – É como se o personagem fosse o casaco e a mala juntos. Diretor - Isso! E como ficaria se juntasse as ações que fez com o casaco e as com a mala? Tente. A música volta e o intérprete se movimenta com mais desembaraço. Mas de repente escorrega. Intérprete – Droga! Diretor – Não se maltrate! Errar faz parte. Se acontecer na apresentação, lembre que o público não sabe o que vai acontecer. Então, o mais importante é “não perder o rebolado”. Você ficou com medo, por isso caiu. Mas foi bom, porque se desafiou. Têm intérpretes que se acomodam com sua posição e passam o resto da vida interpretando o mesmo personagem. Para mim, o artista precisa se surpreender em coisas novas, senão recua. Intérprete - É por isso que muitos o comparam ao guerreiro. Diretor – Ao mesmo tempo, cuidado para não transformar o esforço físico só em exercício muscular, entende? O trabalho corporal visa também o bem estar e deve ser feito com consciência. Intérprete – Eu sei, dança não é ginástica. Diretor – Por exemplo, por que “ser ou não ser” é um desafio para qualquer intérprete? Hamlet era um bom esgrimista, mas não propriamente um guerreiro! Intérprete – Na verdade, era um estudante universitário. Diretor – Sim. E como chega então a pensamentos tão sublimes? Intérprete – Ou será que é Shakespeare que está falando na voz do personagem? Diretor - Questões infindáveis... Para nós, importa que as ações não devem ser planas, mas ter volume. Por que você não pensa num estado de espírito para o personagem nesse momento? Também busque oposições com as partes do corpo. 69 Exercício de aula de Ana Spyer (EAD/USP). 199 Intérprete – Como as torções numa escultura grega! Diretor – Isso! Essa tensão dá qualidade para o movimento e também presença de palco. Além disso, use a respiração ou a voz, se quiser. Muitos bailarinos têm vergonha de usar a voz, mas ela também faz parte do corpo! O intérprete retoma a improvisação, buscando incluir as novas indicações. Diretor – Congela! Ele para imediatamente. Diretor – Perceba o que mudou na cena. Como está seu corpo? O que você ia fazer? Será que era nesse lugar da sala que você realmente queria estar? Continua. 70 Ele continua. Diretor – Muito bem! Comece a pensar na limpeza, precisão e desenho dos movimentos. Você não deve ser exibicionista, mas precisa ter desenvoltura para passar de uma ação para outra. Tente. Ele cria ligações entre uma ação e outra, dando à sua movimentação já o aspecto de uma coreografia. Diretor – Já está ficando com cara de espetáculo! Intérprete – Será que o público vai gostar? Diretor (sorri) – Boa pergunta! Sem dúvida, o público é a razão do espetáculo. Afinal, ele saiu de casa, comprou o ingresso e está sentado na poltrona, esperando qualidade. Mas você não pode criar só em função dele. Acho que antes precisa ganhar mais confiança no seu trabalho. Intérprete – É, às vezes fico na defensiva. Diretor – Normal, é uma exposição! Pouco a pouco, aprende a se deixar observar, sem perder a qualidade no que está fazendo. Por enquanto, pense que seu público sou eu. Troque comigo! Intérprete – Acho que tenho uma necessidade de aceitação. Diretor – Pode ser, mas não fique ansioso. Em cena, se se divertir, você naturalmente vai envolver a plateia. Existe um magnetismo pela figura do artista no palco. Também, muitos diretores costumam fazer ensaios abertos, o que é uma maneira de ter um feedback do trabalho antes da estreia. Intérprete – Outros estão sempre fazendo correções durante a temporada. Diretor – Agora, pense só o que você pode fazer para cativar meu olhar. O intérprete faz uma voz de conquistador, imitando os antigos galãs de Hollywood. Diretor (ri) – Ótimo! Acho que todo vendedor é um pouco conquistador! O que vemos no palco é um recorte da vida do personagem. Sem dúvida, a dança hoje está mais próxima do 70 Instruções de jogo, a partir de Viola Spolin e Tica Lemos. 200 cotidiano. Mas é preciso entender que para a arte o cotidiano puro e simples não interessa. Às vezes, ações simples e mesmo indecisas revelam decisões sendo tomadas, que podem determinar o destino dos personagens. Intérprete – Entendo. Quando vemos alguém em prantos por causa da morte de um ente querido, isso nos consterna porque nos identificamos com sua perda. Mas no palco é preciso um tratamento plástico, para que esse sentimento não se reduza a uma patética comiseração. 71 Diretor – Depois, podemos até chamar alguém para assistir. De qualquer modo, quando construímos um espetáculo, é importante tentarmos justificar nossas ideias em cena. Intérprete – É, acho horrível quando o espetáculo está poluído, com excesso de elementos, sem unidade e o público fica perdido. Aí, ele não pode fazer nenhuma leitura. Diretor – Sim, muita ação às vezes confunde o espectador. Devemos ter o cuidado de não querer encher o palco só de ideias. Intérprete – Também já vi espetáculos onde os intérpretes tinham estilos completamente diferentes. Eu, pessoalmente, perco logo o interesse. Diretor – Pode ser... Também quando atuam como se o público não existisse, incapazes de qualquer piscada além do script. Ou então se não querem sair do proscênio, achando que carisma é apelo popular. Claro que o intérprete não vai se esconder atrás do abajur, mas quando se vende para a plateia, não existe mais troca e o espetáculo perde a sua dialética. 72 Intérprete – Quando estou em cena, só tento perceber se estão me acompanhando. Diretor – Sim, aí existe uma suspensão no ar. Nunca queira adivinhar o que o público está pensando, pois ele percebe coisas que a gente nem imagina! Confie apenas no seu poder de síntese. Intérprete – E é bom quando ficam com uma pulga atrás da orelha, não? Diretor – Mostra que quem entrou na sala de espetáculo não é mais o mesmo que está saindo. Intérprete – Por isso, tudo o que fazemos em cena é importante. Diretor – Até mais, é definitivo. No cinema, sempre que se refaz uma tomada, o intérprete pode melhorar o seu desempenho. Mas aqui é um salto no escuro. Intérprete – Entendo. Diretor - Pois no cinema a câmera dirige o olhar e aqui se está livre para olhar o que quiser. Intérprete - Até a barata que passa do lado da rotunda enquanto dançamos! Diretor (ri) – Verdade, já vi acontecer! Mas isso não significa que tudo tem o mesmo peso. Se 71 Cabe lembrar que os gregos chamavam o ator de hipócrita, por despertar a compaixão com seus gestos e falas. 72 Brecht acreditava que o público não deve ser passivo. Para isso, cabia ao espetáculo produzir uma tomada de consciência. 201 você colocar num gráfico, vão ter sempre momentos de pico e outros de respiro. Intérprete – Às vezes, acho que o silêncio é menosprezado. Diretor – Sem dúvida, ele é importante até na comédia. Intérprete - A chamada pausa cômica. Diretor – O intérprete sabe alternar uma pausa curta com outra longa ou média. Intérprete – Também o diretor tem de estar atento ao ritmo do espetáculo,sendo importante nos ensaios finais cada minuto que se ganha, não? Diretor - É um erro achar que, por exemplo, a música é para dar clima. O clima surge da tensão entre os intérpretes. Intérprete – A música deve ser um estímulo para a interpretação. Fico imaginando como vai ficar com o resto das coisas! Diretor – Num espetáculo, cenário, luz, música, figurino, objetos e maquiagem dialogam entre si e compõem com a cena. Por isso uma trilha sonora não pode ser só uma sequência de músicas agradáveis, uma depois da outra. A música aqui está a serviço do intérprete e não pode rivalizar com ele. Intérprete – É, mas a música é sempre muito envolvente e facilmente toma conta do ambiente. Diretor – É quando engole a cena e a “velhinha surda” da última fila nem sabe mais quem está falando! Intérprete (ri) – Já no musical, a música conta a história. Diretor – Mas mesmo aí, ela não aparece gratuitamente. No cinema americano, houve uma grande evolução quando se começou a colocar ganchos no enredo antes do intérprete começar a cantar. Intérprete – E cabe ao diretor harmonizar todos esses elementos. Diretor – Sim, até cada coisa achar seu lugar no espetáculo. E por isso nós, diretores, também desenvolvemos uma técnica. Intérprete – Claro! E não só para satisfazer o público, mas porque o espetáculo deve comunicar. Diretor - Espetáculos herméticos geralmente são chatos. Você acha que nosso espetáculo poderá causar o mesmo impacto que a visão das cataratas do Iguaçu, por exemplo? Intérprete – Meus Deus, acho que essa possibilidade me estimula! Diretor (ri) – Para mim, o mérito de um bom espetáculo é criar imagens que permaneçam na mente do espectador. Quem pode esquecer Julieta na sacada do quarto sonhando com seu amado? Intérprete – É uma imagem antológica, que já faz parte do nosso imaginário. Diretor – Pois 202 ultrapassam nossa compreensão. Intérprete - E para chegar nisso não existe receita. Diretor - Eu, de um lado, sigo minha intuição; e do outro, tento lembrar de tudo que adquiri com a experiência. Por exemplo, de modo geral, se você constrói bem uma cena, as seguintes são mais fáceis. Também quando se tem uma data de estreia já marcada, é bom levantar primeiro um esqueleto, para depois ir ajustando cada momento. Mas, sobretudo, acho que quando existe critério nas escolhas durante os ensaios, as chances de um bom resultado sem dúvida aumentam. Intérprete – E isso inclui também equalizar agendas, cachês e até os temperamentos do elenco... Na verdade, acho que até gosto de toda essa pressão! Diretor – Uma estreia pré-agendada é um horizonte definido. Mas só com a repetição, um espetáculo fica homogêneo. Quando não se tem tempo, é bom esquematizar o que der, mas deve-se saber que tudo pode mudar depois de um ensaio. Bem, acabamos discutindo outras coisas e esquecemos um pouco o trabalho... Intérprete - Mas foi bom porque já vejo um outro sentido no que estou criando. Diretor - Existem muitas outras coisas ainda que podemos fazer. Agora que os movimentos já estão esboçados, podemos repeti-los, sobrepô-los, intercalá-los... Intérprete – Amanhã então a gente aprofunda cada momento. Diretor – Têm coreógrafos que criam a sequência na cabeça, depois põem a música e o bailarino fica repetindo até realizá-la com perfeição. Mas acho que a dança pode ser outra coisa! Intérprete – Para mim, dançar é jogo, forma, movimento. Diretor – É verdade que muitas pessoas passam a vida sem ver nenhum espetáculo de dança. Mas se olharmos de outro modo, a dança está em todo lugar, de forma mais caótica ou organizada. Não falam na dança do acasalamento em alguns animais? Intérprete - Acho até que o próprio Big bang já foi uma apoteose coreográfica! Diretor - ... Intérprete – É, às vezes olho o meu filho brincando na sala e para mim ele está dançando! Diretor (ri) – Amanhã então a gente continua. Intérprete – Pode indo, que eu apago a luz. 203 ANEXO C: minhas ideias, práticas e espetáculos Um espetáculo não surge só de regras racionais, mas muitas vezes das nossas vivências. São sim regras racionalizadas a partir daquilo que se experimenta no campo da sensibilidade, nos diversos âmbitos do trabalho. O espetáculo é condição subjetiva de intuições, sensações e sentimentos que se objetivam na apresentação, sendo eterno quando se universaliza. A imagem singular da dança, por natureza efêmera, retira sua força do meio- caminho entre gesto e pensamento. O gesto, assentado no domínio técnico como uma segunda natureza, libera a criação simbólica, que revela o interior profundo do intérprete. Seu corpo então se torna texto universal. Função do espaço e tempo presentes, a dança, porém, carece de registros que captem sua prática evanescente e apenas recentemente usufrui da popularidade dos diferentes meios de gravação digital, que recuperam, ainda que parcialmente, o impacto e brilho da apresentação. O aumento da produção crítica, sobretudo nas últimas décadas, trouxe sem dúvida estatuto científico à dança. Estudos interdisciplinares, especialmente no que se refere à integração dos processos mental e corporal, mostram a preocupação com o desenvolvimento da sua linguagem e técnica. Esse interesse crescente de artistas, pesquisadores e público aponta para seu lugar frente aos novos parâmetros do mundo moderno. Na repetição de horas de ensaio, o corpo é memória. Mais do que a reprodução fiel de ações ou passos codificados pela mente do diretor ou coreógrafo, se trata aqui de uma articulação harmônica e dialética da precisão do gesto no espaço íntimo do intérprete. A criação das formas interiorizadas depende, por um lado, da técnica de reestruturação do movimento, e, do outro, a escuta do corpo em situação. O corpo pensa. A pedagogia que quebra com a biomecânica previsível do cotidiano e traz pessoalidade à linguagem é que permitiu a Wigman a configuração sensível e inteira da obra. A prática pedagógica aqui não se dissocia da criação: uma cognição não a partir da sequência imposta e meramente técnica de “como fazer”, mas enquanto processo de apropriação da experiência até a obtenção de resultados efetivos de linguagem. O espetáculo é produto desse aprendizado e sua apreensão sensorial pelo espectador é também um ato de conhecer. Esses procedimentos, assim, se completam com sua mediação e recepção, a partir da competência comunicativa na troca de experiências entre os intérpretes na apresentação. Um elemento essencial nessa competência é o jogo de cena. Tirando o conhecimento estritamente técnico, dos códigos universalmente aceitos de como se movimentar ou usar a voz no palco nas suas inúmeras variações, dançar explora a sensibilidade do intérprete. Mas até que ponto se pode transmitir sutilezas subjetivas da profissão? Dançar se lapida com a repetição. Nos vendo num trabalho de criação, 204 reconhecemos nossas reais deficiências e qualidades. Isso implica em criar, inventar e descobrir continuamente, por vias nem sempre reconhecíveis. Sobre a experiência e sensação, no que se refere às nossas relações com as outras pessoas e a realidade, a experiência pode ser entendida em dois sentidos principais: a) enquanto memória, se refere ao conhecimento que acumulamos ao longo da vida (por exemplo, a experiência de vida dos velhos); e b) enquanto atividade comum, se refere a algum acontecimento marcante vivido com outras pessoas (por exemplo, a experiência da guerra ou uma vivência estimulada “artificialmente” numa dinâmica de grupo). Se trata de um conhecimento que não vem dos livros e que está além da mera informação. Se tradicionalmente a experiência se opõe à apercepção intelectual como conhecimento adquirido por via discursiva, num sentido mais amplo ambas se complementam. Na prática artística, nos valemos do conceito sobretudo no segundo sentido (um sentido mais ativo e coletivo),ainda que o primeiro (mais passivo e pessoal) não seja menosprezado. Se o segundo sentido possibilita reconhecer sua força e utilidade para a criação do intérprete, o primeiro revela como seu uso sistemático pode com os anos se transformar numa “técnica” ou modelo, mesmo para espetáculos muito diferentes. Já a sensação tem diversos sentidos, sendo de especial importância a sensação corporal pela visão, tato e audição; diferindo, portanto, do sentimento (um exemplo de exercício de sensação é imaginar que se está pisando na areia quente, na lama, na neve etc). Quando estava na faculdade de teatro, meus professores de improvisação viam a aula como espaço de experimentação. Para eles, era importante o aluno acumular experiências, criando como uma biblioteca pessoal. Nessa biblioteca, o aluno guardaria as experiências de aula onde pôde experimentar coisas novas e diferentes, que jamais viveria na sua vida. Tive então a oportunidade de explorar sensações e transformar e ampliar minhas próprias experiências. Cito ainda como curiosidade uma improvisação numa aula de Lu Favoreto. Quando a improvisação estava para acabar, tive a ideia de manter um pequeno movimento depois que todos tinham se deitado no chão. Senti que expressava uma certa mecanização, na qual aqui e ali caímos na rotina das aulas e ensaios. Favoreto apenas indicou gentilmente que seria melhor eu ir parando pouco a pouco. Mas acredito que o efeito foi obtido e depois expliquei a ela minha ideia, que aceitou com relutância. A improvisação na dança dialoga com o teatro, que a partir do início do século passado começa a usar amplamente este recurso. Assim, ao lado de técnicas da dança como improvisação de movimento, existem os códigos e convenções do teatro usados ao se criar espetáculos. Na realidade brasileira, na primeira parte do século passado, se improvisava muito pouco. Por exemplo no teatro, existia a comédia ligeira, uma forma onde se podia criar 205 uma nova frase no texto durante a apresentação, ou mesmo interpretar de modo bem diferente do dia anterior. Mas isso era mais traquejo para ter o público na mão do que propriamente uma técnica de improvisação. Só posteriormente, com a influência europeia, a improvisação passou a ser usada, sendo encaminhada conforme as necessidades do ensaio e a objetivando para criar o espetáculo. Atualmente, muito da dança-teatro retira procedimentos de teatro e dança conforme necessidades imediatas de criação, podendo a improvisação, mais uma vez, ser usada de forma perniciosa e aleatória. Antes, os exercícios de improvisação devem visar uma assimilação da técnica, expansão do vocabulário corporal e também estudo da linguagem cênica. Deve-se buscar ainda elementos que contribuem na montagem de um espetáculo, como figurino, música e texto. A importância desse trabalho está em desenvolver a imaginação, memória, espacialidade, musicalidade, além de outras habilidades de palco. Também improvisando, dinamizamos os ensaios e enriquecemos o produto final. Improvisar e atuar estão às vezes mais próximas e às vezes mais distantes uma da outra no trabalho do intérprete. Mas mesmo a atuação mais detalhada é num certo grau improvisada. Desenvolvo o “estado de estar aí” ou prontidão para reagir a diferentes estímulos e uma “cena clean”, sem elementos supérfluos. Busco alternar ações ou movimentos livres e fixos. Gestos nascidos espontaneamente podem ser mais significativos que aqueles pré-elaborados, menos naturais. Também o texto e as instruções do diretor são importantes. Tempo, espaço e ação enquadram o trabalho do intérprete, focando no desenvolvimento de um conflito. Ao se aprofundar na situação do personagem, o intérprete também aprende sobre si mesmo. Além disso, o diretor pode guiar a energia compartilhada entre os intérpretes nos ensaios, evitando movimentos mecânicos. A improvisação se vinculou ao resurgimento do teatro de grupo no começo do século XX. Ao improvisar o intérprete pode se preparar para atuar no espetáculo. Pode vivenciar intensamente as situações da peça, criando seu personagem com liberdade e segundo suas próprias motivações. Além disso, ele pode recriar suas falas e explorar detalhes de caracterização. Portanto, improvisar é um meio efetivo para o intérprete se aproximar de aspectos centrais da peça, possibilitando ainda reescrever cenas ao lado de dramaturgos que assistem aos ensaios. Stanislavski propõe que os intérpretes improvisem, depois da primeira leitura, situações da peça como as lembram. Ele acreditava que os intérpretes podem lembrar bem mais do que imaginam depois de apenas uma leitura, especialmente quando improvisam e se ajudam em cena. Dois elementos importantes nessas improvisações são a imaginação e ações feitas pelos intérpretes para verdadeiramente “viver” o que acontece na peça (Stanislavski as chamou de ações físicas). Improvisar também permite aos intérpretes incluir 206 associações pessoais nas suas criações para o palco, ajudando a clarear as rubricas da peça. Em alguns casos, os diretores eliminam as rubricas, ensaiando só a partir dos diálogos. Deste modo, o intérprete cria com o diretor suas próprias intenções e marcações. Técnicas de improvisação e interpretação ajudam a definir a postura, andar e movimento no espaço, seja do coro ou personagem. O que chamo de “estado de estar aí” (ou simplesmente “estar aí”) insere jogo em textos ensaiados ou criados através de improvisações. Além disso, a “cena clean” mostra como o intérprete está no centro do processo criativo e apresentação. Assim, improvisar serve como procedimento de união das falas e gestualidade, conduzindo criativamente os ensaios até o produto final. Para peças prontas, a improvisação traz vitalidade às falas do intérprete e, como ferramenta na criação de novos textos, ela ajuda a dar forma para situações vivas, de modo a se encontrar as soluções cênicas mais adequadas. Finalmente, faço referência o uso das question words “como”, “onde” e “o que” nos jogos de Spolin, que permitem obter séries consecutivas de ações em certo tempo e espaço. A memória e imaginação devem ser constantemente exploradas e aprimoradas aqui. Nesse sentido, dizemos que a técnica pode despertar a imaginação. Além disso, musicas com ou sem letras, figurinos de ensaio, novos textos criados nos ensaios, objetos de cena e cenários improvisados são ricos estímulos, que sensibilizam o intérprete mais e mais para a criação. Improvisar prepara o intérprete para estar no palco. É uma ferramenta criativa que lhe permite expor sua personalidade nos ensaios, dando sentido aos seus movimentos. Lembro que Grotowski dá numa palestra o seguinte exemplo. Alguém lhe faz uma pergunta. Então, ele pega seu cachimbo e, enquanto o enche de fumo, pensa na sua resposta. É o exemplo de uma ação cheia de intenção. As ações do intérprete em cena devem estar preenchidas e vivas. Também para superar situações dramáticas, o personagem de Meryl Streep na adaptação cinematográfica da peça Agosto, chamada aqui Álbum de família, mostra intenções dúbias entre o carisma e severidade. Voltando a outro exemplo de Grotowski, tomo um personagem que deve matar sua mãe numa peça. O intérprete deve fazer uso indireto da sua experiência. Ele pode, por exemplo, se perguntar se já matou um animal. Se já, ele deve então buscar detalhes concretos desse fato. É como voltar a essa memória. Mas num outro exemplo, se o personagem deve matar um animal na peça, só a memória do intérprete desse fato não será suficiente. Ele deve buscar a memória de momentos de clímax físico intenso, tão íntimos que ele não deseja dividir com ninguém. Aqui, o intérprete cria associações pessoais, que no processo colaborativo servem para dar autoria à interpretação. Também para criar gestos naturais, é importante a verdade no palco, onde a entrega, tanto a exercícios como improvisações, Improvisar é importantetanto no que diz respeito à 207 concepção do movimento ou como a transpor as ideias para a cena, permitindo levantar materiais novos e criativos. Permite não só desenvolver a linguagem, como ampliar a experiência de palco. É útil por exemplo quando esqueço eventualmente minha ação ou movimento em cena. Improvisando, posso mais confortavelmente encontrar uma solução até que lembre de novo do que devo fazer. Isto porque aprendo a ouvir meus colegas de cena, estando pronto a reagir e me expressar. Com isso, a improvisação se estabelece como técnica de palco, ajudando o intérprete a tornar verdadeiro ou concretizar em cena o que ele então imaginou. Ainda outras ferramentas que relacionam improvisação e interpretação são os viewpoints temporais, espaciais e vocais, desenvolvidos por Anne Bogart e Tina Landau. Observo ainda como improvisar lida com o tempo presente. Isto quer dizer que, enquanto improviso, devo ainda me ater ao que acontece por acaso. Por exemplo, quando uma ideia começa a se desenvolver até que todos tomem parte nela. O tempo então é suspenso. Tal característica levou Brook a aproximar os velhos happenings de um teatro sagrado. Ao improvisar, devo ainda prestar atenção a tudo que acontece em cena. Noto se alguém entra ou sai de cena e, na medida do possível, o que cada um em geral faz. Isso exige esforço e não devo ter preguiça de manter meus sentidos despertos. Para notar qualquer pequena mudança, devo estar presente durante toda a improvisação. Trata-se de uma presença cênica, que deve ser física e mentalmente estimulada. Isso não é tão fácil, se considero que uma improvisação pode durar, em casos extremos, mais de hora. Estar presente quer dizer estar pronto para responder ao que os outros propõem durante a improvisação. Quando o intérprete apresenta tal disposição, posso senti-lo engajado na cena, capturando a atenção de quem o assiste. Ao observar o intérprete atuando de modo presente, o diretor tem à mão um rico material a partir do qual criar. Noto que o intérprete precisa se sentir estimulado. Numa improvisação que dura mais de hora, o diretor deve propor breves paradas, quando dá novas instruções. Ele fornece estruturas ou objetivos para focar a atenção do intérprete e o estimular a criar. Ele deve ainda observar atentamente tudo que acontece, de modo a poder selecionar o que vai efetivamente interessar ao espetáculo que é criado. Em sumo, diria que improvisar serve durante os ensaios para estabelecer uma estrutura dramática, onde as cenas são posteriormente ligadas uma a outra, resultando num espetáculo formalizado. Afora isso, existem hoje muitos espetáculos com cenas improvisadas, que mudam conforme o público ou outros recursos disponíveis. Se é verdade que posso improvisar livremente sem regras ou qualquer direcionamento, também não vejo nisso grande contribuição. Pode ser um exercício inicial que serve para relaxar ou introduzir um tema, mas deve depois ser direcionado segundo alguma diretriz do espetáculo. 208 A emoção, sensação, imagem e experiência servem como diretrizes ao se explorar conteúdos internos de uma improvisação ou interpretação. Se por um lado devo discutir direções básicas antes de improvisar, por outro não devo planejá-la excessivamente, com risco de perder a espontaneidade. As diretrizes acima me ajudam, por exemplo, a encontrar sensações ligadas às ações do meu personagem. Ainda, treinando continuamente improvisação, consigo criar mais facilmente gestos ou movimentos novos, me adaptando às necessidades do espetáculo. Improvisar ajuda ainda a encontrar um tema, personagem ou quando uso determinado objeto ou figurino. Estrutura e dinamiza os ensaios, me permitindo tanto criar meu próprio texto, como improvisar durante a própria apresentação. Nas diferentes maneiras de ensaiar no teatro e na dança quase sempre se inclui um aquecimento prévio, de modo a evitar lesões. Deve-se aquecer as articulações, alongar a musculatura e também sensibilizar a percepção. Ainda a voz faz parte do corpo e não deve ser esquecida. Com tempo, cada um descobre os aquecimentos que prefere, possíveis de serem feitos quando o aquecimento é individual. É importante não fazer só os exercícios que são agradáveis, mas também os que são importantes para si e o momento, conforme o trabalho que será realizado e dando atenção especial a regiões de acúmulo de tensão, como maxilar e ombros. Devemos cuidar do corpo, pois é nosso meio de comunicação. E quanto propriamente ao ensino do intérprete, diria que a boa formação ajuda por exemplo a evitar vícios de interpretação no futuro. Os movimentos diários são, de certo modo, os mesmos para a maioria das pessoas, como fechar uma porta à chave, girar a direção do carro ou pegar no garfo e faca. É um repertório relativamente restrito, que cada qual realiza à sua maneira. Trabalhando conscientemente o corpo, nos sensibilizamos para as partes dos músculos, ossos e articulações mobilizados em cada um desses e outros movimentos, ampliando tal repertório. Também quando deito no chão para iniciar um trabalho de consciência corporal, pode acontecer da mente acelerar. Me passam os mais diferentes pensamentos, muitas vezes sem qualquer relação com o trabalho que será iniciado. Posso simplesmente deixá-los passar, até que pouco a pouco a mente se aquieta. A mente também pode impedir que solte todo o peso do corpo se sou manipulado. Posso então pensar em algo que gosto muito, como comer um pedaço de bolo, despistando a mente. Até que passo só a observar ser manipulado. Essa consciência é importante por exemplo para criar personagens não só a partir de textos, mas de gestos, movimentos e ações, representando um diferencial para o intérprete. Ela nos desbloqueia de meios de defesa adquiridos no dia a dia. Aprendi, após vários espetáculos, a respeitar os momentos em que o intérprete precisa 209 estar só para criar ou simplesmente se assegurar do que já foi criado. Acho que são momentos importantes mesmo para intérpretes mais extrovertidos, que preferem se distrair com qualquer coisa antes de entrar em cena. Trabalhando em alguns grupos, além da minha interpretação, comumente assumia ainda outras responsabilidades. Sabe-se que manter um grupo envolve diversas tarefas paralelas de seus integrantes, sendo as decisões geralmente coletivas. Respeitando as etapas da criação do espetáculo, vejo como importante não só os momentos de criação, mas a preparação para eles. O trabalho de consciência corporal é um modo de preparar o corpo para criar. Por exemplo, você deixa de se movimentar em bloco, separando a cabeça dos ombros e fortalece ainda sua autoimagem. Se usado com consciência, o corpo apresenta muitas possibilidades. Por outro lado, sei que também é importante aprender a criar sem preparação, sem medo da berlinda e pronto para quando o diretor precisar de mim. De todo modo, cabe àquele dosar os momentos, diria, de aconchego. Não devemos esquecer que o espetáculo não envolve o público só intelectualmente, mas também pela sensação e sentimento. Ele não é só válvula de escape da monotonia do dia a dia, mas faz pensar sobre a própria vida, relação com outras pessoas e problemas da sociedade. Ainda, aprendemos a tirar proveito da pressão inevitável da profissão. Uma data de estreia é também um horizonte definido. Mesmo que implique em pouco tempo, ajuda a objetivar os ensaios. Nos últimos dias antes de uma estreia, ensaiamos às vezes intensamente, com o sentimento de que nada sairá errado e o espetáculo ficará como sonhávamos. Pode acontecer da estreia ser um sucesso. Mas e o segundo dia? A preocupação diminuiu e uma “maldição” insiste que o segundo dia não é um bom dia. Se estamos cansados e ao mesmo tempo relaxados demais isso pode se confirmar. Talvez simplesmente não vemos nessa apresentação o brilho da estreia. Até pode acontecer de alguns intérpretes conseguiremreverter o cansaço, mas é suficiente? E o resto do elenco? Melhor seria, então, se pudéssemos ensaiar menos ou simplesmente descansar. Acho que o ideal é não ensaiar na véspera de uma estreia. Mas para isso os ensaios devem ser muito acertados ou o diretor assume o que foi possível até ali. E, caso o espetáculo fique em cartaz, ele então marca depois ensaios na semana para melhorar o que não ficou bom. A sala de espetáculo é o lugar aonde se vai para ver algo. Mas não qualquer coisa. Aquele que deixa a sala não deve ser o mesmo que entrou. Se o bom espetáculo faz pensar, ele também modifica seu público pelas palavras e imagens, pelo que se entende e vê, através da mistura de cores, sons, formas e movimentos. Também ao criar podemos misturar esses elementos, buscando por exemplo o som do nosso movimento. Essa tese é sobretudo resultado de experiências e a prática em sala de ensaio, mas não esqueço 210 livros que me acompanham desde a faculdade de teatro e muitas vezes fazem da própria história da minha profissão. Claro que lemos sempre de tempo em tempo peças de teatro em busca de novos temas para montar. Nesse sentido, não posso esquecer materiais e fontes de informação específicos para cada espetáculo de que participei. Primeiro, vi várias vezes o filme O baile para sua montagem teatral. Ele era originalmente um espetáculo de uma companhia francesa. Para uma cena de A dama das camélias, onde fiz Armando, vi o filme A idade da inocência e vi várias vezes o filme Sociedade dos poetas mortos, quando participei da sua adaptação teatral. Já na montagem de Mary Stuart, tivemos uma palestra com Edélcio Mostaço e em Vitória sobre o sol palestras com Jacó Guinsburg e outros. Nos ensaios de que participei de Édipo de Tabas, tivemos uma conversa com Vera Felício e em Yerma com Eduardo Peñuela. Quando dirigi Leonce e Lena, li um texto de Anatol Rosenfeld que prefaciava uma edição da peça. Em A coroa de orquídeas, li o conto de Nelson Rodrigues e em Quase par trechos de histórias de amor, como de Werther de Goethe. Para a criação de cenas de peças clássicas e modernas com alunos, lemos trechos dos livros já citados de Peter Brook e Grotowski. Também com o diretor do XPTO, discuti soluções encontradas por Peter Brook para sua montagem de A tempestade e relatadas em livro. Ainda li um capítulo de Dom Quixote, quando participei da criação de uma cena de commedia dell’arte a partir da famosa história do bálsamo de Ferrabrás. Continuando, em Kit li Macacos de Drauzio Varella. Em Estação Cubo, houve palestras com Marcelo Rubens Paiva e outros. Antes de escolhermos montar Conto alexandrino, lemos vários outros contos de Machado de Assis. O projeto no qual estava inserido esse espetáculo contemplava uma discussão sobre o teatro narrativo e lemos ainda textos como O narrador de Walter Benjamin. Foi um bálsamo ler um texto que coloca a função de narrar no alto grau da transmissão de experiências. Ainda na homenagem a Lygia Clark, usamos várias fotos de suas obras em livros. Em Os possessos, tivemos palestras com Boris Schnaiderman e outros. Finalmente, cito de novo A linguagem da dança de Wigman, que me serviu por exemplo para uma demonstração de trabalho, que apresentei no Tusp. Todo esse material transparece aqui e ali nas minhas reflexões. Me permito ainda algumas palavras sobre Shakespeare, que nos ensina tanto sobre a vida e estar no palco. Romeu e Julieta é uma peça passional, onde a poesia de amor mais sublime convive com tolices e insultos, que parecem debochar das decisões ora precipitadas dos protagonistas. Já Otelo mistura o amor à política, se alicerçando na força do antagonista. Ainda, a figura grotesca de Ricardo III e a série sucessiva de mortes no drama histórico de Shakespeare mostram que este não escreveu só para agradar a corte. Mesmo se causando aversão, acompanhamos com interesse e mesmo simpatia a mente doentia daquele vilão. Na tragédia, comédia ou drama histórico, Shakespeare sintetiza mundos opostos ao acolher tanto 211 o admirado como o execrado pela sociedade. São peças, onde mesmo os personagens secundários despertam o interesse do intérprete. Ainda interpretei num curso o Duque de Noite de reis. Foram só duas ou três improvisações da cena inicial, mas que me puseram em contato com este nobre humano e fragilizado pelo amor. Reitero que todo esse material não foi diretamente citado, mas está por trás das reflexões que trouxe aqui sobre minha profissão e espetáculos. Ainda aqui e em outras ocasiões, me refiro a Hamlet, em especial seu retrato pungente de um grupo de teatro mambembe. Da minha carreira, guardo sobretudo o trabalho com colegas profissionais e dedicados, com quem tenho dividido tanto aplausos longos como apresentações canceladas por falta de público. De todo modo, acho que por exemplo os livros ajudam a direcionar os interesses do intérprete iniciante. E num sentido mais amplo são lições de vida. Finalmente, podem ajudar também vídeos atuais e disponíveis na internet, com entrevistas, gravações de ensaios e trechos de espetáculos de um sem número de bons artistas. Na minha carreira, professores universitários me ofereceram oportunidades muito significativas de trabalho. Trabalhei com Renato Cohen a linguagem da performance, então pouco difundida em São Paulo. Através de Neyde Veneziano, pude conhecer os diálogos tão ricos de poesia de Yerma. Essa peça tão agarrada à vida dos camponeses de Andaluzia e ao mesmo tempo tão simbólica para o universo feminino! Trouxe um pouco do meu interesse pelo teatro social nos ensaios de Eduardo Vendramini de O país do sol: uma peça cheia de personagens, que traça um painel da imigração italiana, evento tão importante para nossa história e de estados como o de São Paulo. Na minha direção de Leonce e Lena, contei com a tradução feita por Ingrid Koudela. A coroa de orquídeas e Bonitinha, mas ordinária foram dirigidas por Beth Lopes. Que oportunidade para viver personagens tão característicos da sociedade carioca! Pude refinar minha técnica de interpretação com traços psicológicos e um humor ácido. Trabalhei mais intensamente com Sabrina Cunha, que se tornaria professora universitária. Foi o trabalho que mais me trouxe presença cênica. Colaborei com Sabrina desde Água-viva, pequeno espetáculo de uma beleza crua. Maria Mommensohn, com quem fiz dois espetáculos, refletiu sobre a verdade dos nossos corpos na criação: como o corpo pensa, sente e decide ao lado do nosso racional. Também da universidade lembro o breve grupo de leituras de peças de teatro organizado pelo Ruy Cortez, onde lemos por exemplo Fala comigo doce como a chuva. Quanto essa peça curta não me disse na época! Me identifiquei com a esperança dos personagens de vencer suas fraquezas e sua busca cheia de vida para conquistar a felicidade. Para mim, a peça extravasa ao mesmo tempo dor, ternura e alegria, mostrando os às vezes tortuosos caminhos do relacionamento amoroso. 212 Pude conhecer colegas como Helena Albergaria, com quem fiz Os três mal-amados e o famoso prólogo de Fausto de Goethe. Eles me proporcionaram o prazer de dizer o texto. O primeiro um mergulho tão íntimo que quase me coagia a balbuciar. Mais que interpretar, eu e os dois outros intérpretes da cena buscamos abrir a porta e convidar quem nos assistia para conhecer nossas tristezas amorosas. E o prólogo de Fausto, que é uma pequena metáfora do teatro. O poeta que reflete sobre seu ato de escrever, o diretor de teatro que quer tanto alegrar seu público e aquela pessoa alegre, um palhaço, que olha meio ingenuamente, mas tão sensível e empenhado em ajudar os amigos. Tantas pessoas e momentos de realização no trabalho! Convivendo com tantos artistas e professores, sei que me influencio pelas ideias discutidas nos ambientes que frequento. A revisão dos ideais comunistas que fez parte de uma nova ordem. A concepção rizomática