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UnisulVirtual Palhoça, 2016 Marketing Universidade Sul de Santa Catarina Créditos Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul Reitor Sebastião Salésio Herdt Vice-Reitor Mauri Luiz Heerdt Pró-Reitor de Ensino, de Pesquisa e de Extensão Mauri Luiz Heerdt Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional Luciano Rodrigues Marcelino Pró-Reitor de Operações e Serviços Acadêmicos Valter Alves Schmitz Neto Diretor do Campus Universitário de Tubarão Heitor Wensing Júnior Diretor do Campus Universitário da Grande Florianópolis Hércules Nunes de Araújo Diretor do Campus Universitário UnisulVirtual Fabiano Ceretta Campus Universitário UnisulVirtual Diretor Fabiano Ceretta Unidade de Articulação Acadêmica (UnA) – Ciências Sociais, Direito, Negócios e Serviços Amanda Pizzolo (coordenadora) Unidade de Articulação Acadêmica (UnA) – Educação, Humanidades e Artes Felipe Felisbino (coordenador) Unidade de Articulação Acadêmica (UnA) – Produção, Construção e Agroindústria Anelise Leal Vieira Cubas (coordenadora) Unidade de Articulação Acadêmica (UnA) – Saúde e Bem-estar Social Aureo dos Santos (coordenador) Gerente de Operações e Serviços Acadêmicos Moacir Heerdt Gerente de Ensino, Pesquisa e Extensão Roberto Iunskovski Gerente de Desenho, Desenvolvimento e Produção de Recursos Didáticos Márcia Loch Gerente de Prospecção Mercadológica Eliza Bianchini Dallanhol Livro didático UnisulVirtual Palhoça, 2016 Designer instrucional Marina Melhado Gomes da Silva Marketing Janaína Baeta Neves Rodrigo Carioni Livro Didático Copyright © UnisulVirtual 2016 Professores conteudistas Janaína Baeta Neves Rodrigo Carioni Designer instrucional Marina Melhado Gomes da Silva Projeto gráfico e capa Equipe UnisulVirtual Diagramador(a) Fernanda Fernandes Marina Broering Righetto Revisora Diane Dal Mago ISBN 978-85-506-0051-2 e-ISBN 978-85-506-0050-5 Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universitária da Unisul N42 Neves, Janaína Baeta Marketing : livro didático / Jánaína Baeta Neves, Rodrigo Carioni ; design instrucional Marina Melhado Gomes da Silva. – Palhoça : UnisulVirtual, 2016. 118 p. : il. ; 28 cm. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-506-0051-2 e-ISBN 978-85-506-0050-5 1. Marketing. I. Carioni, Rodrigo. II. Silva, Marina Melhado Gomes da. III. Título. CDD (21. ed.) 658.8 Sumário Introdução | 7 Capítulo 1 Marketing: definições, conceitos e contexto | 9 Referências 33 Capítulo 2 Ambiente externo e interno de marketing | 35 Referências 50 Capítulo 3 O Composto de Marketing (4 Ps) | 51 Capítulo 4 Comportamento do consumidor e segmentação de mercado | 99 Referências 113 Considerações Finais | 115 Sobre os Professores Conteudistas | 117 Introdução O termo “marketing” tem sido repetido nos mais diversos contextos. Embora muitas vezes com conceito distorcido, faz parte do nosso dia a dia, seja na política, nas mídias, na internet, nas novelas, nas organizações grandes e pequenas, e até mesmo no camelô da esquina. Nosso propósito aqui, portanto, é compreender que o marketing tem, em sua essência, o atendimento de excelência ao cliente, a antecipação às suas necessidades e desejos e a superação de suas expectativas. Com o conhecimento dos mais diversos temas relacionados ao marketing, tais como a evolução histórica e conceitual da área de gestão de marketing, o entendimento de seus aspectos centrais, a análise dos ambientes externos e internos, o estudo do comportamento do consumidor, a observação das segmentações de mercado, entre outros — será possível dominar uma relevante base conceitual para que se possa sugerir estratégias de marketing em sintonia com os problemas ou oportunidades organizacionais, compreender e dominar diretrizes éticas da área de marketing, bem como conhecer os direitos e os deveres desse “novo” consumidor contemporâneo e das empresas que comercializam produtos e/ou serviços. Dessa forma, entendidas as funções e os fundamentos do marketing como ferramenta geradora de competitividade para as empresas, vocês irão aprender como instrumentalizá-lo para o cumprimento de sua função. Sigam, agora, para adentrar um pouquinho mais nessa importante área do conhecimento humano que é o marketing. Procurem tirar o maior proveito possível de tudo que vocês irão ver. Tentem, sempre, vislumbrar uma situação prática, um exemplo do dia a dia. Temos certeza de que isso facilitará o entendimento teórico. Esperamos que vocês fiquem fascinados com o que vão conhecer e, se já conhecem, pela oportunidade de relembrar. Bons estudos! Profa. Janaína Baeta Neves. 9 Capítulo 1 Marketing: definições, conceitos e contexto Seção 1 Afinal, o que é marketing? Você deve estar cansado de escutar coisas como “Ah, fulano fez aquilo só como estratégia de marketing” ou “É tudo jogada de marketing.”. Ou ler em algum canto que a empresa tal gastou milhões de reais em marketing, mas nunca explicando o conceito de marketing. A verdade é que há muita confusão sobre o que seja marketing, sua real utilidade e, até, em relação ao seu caráter. Para começar uma boa defesa, pode-se dizer: marketing não é “algo” bom ou ruim, não tem personalidade nem vontade própria, e por isso não deveria ser acusado tão frequentemente pelo mau uso que fazem dele. A verdade é que, algumas vezes, certos profissionais fazem uso indevido do marketing e a culpa é transferida para ele. É como se, por exemplo, numa eleição, determinado candidato fosse “vendido” pelos seus assessores como algo maravilhoso, honesto e competente, e logo depois das eleições o sujeito mostrasse que nada daquilo que falaram dele é verdade. De quem é a culpa, do candidato ou de seus assessores, que em busca da eleição prometeram e mentiram (ou omitiram) as verdades sobre o sujeito? Para reforçar esse raciocínio, acompanhe ainda a seguinte analogia: uma espingarda pode ter várias utilidades, como servir para caçar — e com isso matar a fome de várias pessoas, para proteção de uma propriedade, ou para a prática de esportes. Se alguém faz uso da arma para o crime, a culpa não pode ser transferida para a espingarda, mas sim para quem fez mau uso dela. 10 Capítulo 1 Então, expiadas as culpas do marketing, vamos entender como ele pode ser definido. Segundo Kotler (1994, p. 25), um dos mais respeitados autores da área, Marketing é um processo social e gerencial pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam através da criação, oferta e troca de produtos de valor com outros. A American Marketing Association, de acordo com Kotler e Keller (2013, p. 3), oferece a seguinte definição: “o marketing é a atividade, o conjunto de conhecimentos e os processos de criar, comunicar, entregar e trocar ofertas que tenham valor para consumidores, clientes, parceiros e sociedade como um todo”. Para entender o papel do marketing, pense que as pessoas têm desejos e necessidades e buscam, o tempo todo, satisfazê-los. A função do marketing é justamente buscar conhecer o que as pessoas querem e precisam e, com base nisso, oferecer os meios para atendê-las. Desejos, necessidades e tipos de demanda Para facilitar o entendimento sobre essas diferenças, primeiro pense em algumas necessidades básicas que as pessoas têm. Todos nós precisamos comer e beber, por exemplo. E também precisamos nos vestir, não é mesmo? Pois é, se você pensar em como satisfazer essas necessidades básicas, poderia pensar em um prato de arroz e feijão com um pedaço de carne, para matar a fome. Para matar a sede, um copo de água. Já para nos vestir, bastariam alguns pedaços de pano costurados que tanto protegessem nosso corpo do frio, quanto cobrissem nossa nudez. E assim já estaríamos satisfazendo nossas necessidades. Agora, se ao invés de comer arroz com feijão e carne, eu desejasse algo mais sofisticado, mais elaborado? E ao invés de água para beber, eu preferisse algumacoisa com “mais sabor”, como um refrigerante, um suco, um espumante ou uma cerveja importada? E para vestir? Não seria bom poder usar roupas de uma grife tal, reconhecida pelas belas roupas que produz? Se você entendeu o que quero dizer, saiba que se está tratando da realização de desejos, ou seja, algo mais elaborado que as necessidades. E é aí que as ações e estratégias de Marketing podem entrar e atuar junto aos consumidores. Necessidade de comunicação, por exemplo, todo mundo tem, mas se será via sinal de fumaça, telégrafo, carta, e-mail ou smartphone de última geração, aí é o consumidor que vai decidir e o profissional de marketing influenciar. 11 Marketing O que existe, na verdade, quanto às necessidades, é uma hierarquização, isso vai se sofisticando até se transformarem em desejos. Quem primeiro explicou essa hierarquia foi Maslow, por meio de uma pirâmide reproduzida na Figura 1.1. Figura 1.1 – Pirâmide de Maslow Fisiológicas Segurança Social Estima Autorrealização Fonte: Adaptada de Gobe et al., 2004, p. 53. Segundo Maslow, as necessidades humanas estão organizadas e dispostas em níveis, em hierarquia de importância e de influência, numa pirâmide, em cuja base estão as necessidades mais baixas (necessidades fisiológicas) e no topo, as necessidades mais elevadas (as necessidades de auto realização). Kotler (1994) comentou que a teoria de Maslow pode ajudar o profissional de marketing a entender como vários produtos se ajustam aos planos, metas e vidas dos consumidores. Em resumo, entenda que para Kotler (1994): • necessidade é um estado de privação de alguma satisfação básica; • desejo é uma carência por satisfações específicas para atender a necessidades mais profundas. O que os profissionais de marketing fazem, muitas vezes, é buscar reconhecer quais são os desejos que as pessoas têm e, de posse dessa informação, passam a agir de maneira a transformar tais desejos em necessidades. Mas, como é possível fazer isso? 12 Capítulo 1 Não nos esqueçamos que vivemos numa sociedade de consumo exacerbado, somos ensinados, desde pequenos, a consumir mais e mais sempre. Muitas vezes, pessoas são julgadas pelo que elas têm e não pelo que elas são. Assim, alguns bens que até pouco tempo eram tratados como supérfluos, hoje fazem parte do dia a dia de todos nós. Quer um exemplo? Vivemos anos e anos bem sem o celular, não é verdade? Hoje, porém, a maioria de nós “incorporou” de tal forma o celular que, quando esquece em casa ou o celular fica sem bateria, sentimo-nos perdidos, sem rumo, sem saber como entrar em contato com o “mundo”. Desse modo, é importante para os profissionais do marketing identificar essas demandas (demandas = desejos e/ou necessidades) existentes no mercado, para poder atendê-las de maneira satisfatória e eficaz — do ponto de vista dos clientes e consumidores —, e de maneira racional e rentável — do ponto de vista da empresa. Kotler e Keller (2006) dizem que os gerentes de marketing devem administrar a demanda, buscando influenciar o nível, a oportunidade e a composição da demanda para atender aos objetivos da organização. Dessa forma, são possíveis oito estados de demanda: 1. Demanda negativa: os consumidores não gostam do produto ou serviço e podem até mesmo pagar para evitá-lo. (Exemplos: vacinas, tratamento odontológico, filas no Detran etc.). O papel dos profissionais de marketing é analisar por que o mercado não gosta do produto/serviço, mostrar os benefícios, e redesenhá-lo, se for o caso. 2. Demanda inexistente: os consumidores não conhecem o produto ou não estão interessados. (Exemplos: novos aplicativos de celular, um curso de física quântica etc.). A tarefa do marketing é sintonizar os benefícios do produto/serviço com as reais necessidades dos consumidores. 3. Demanda latente: os consumidores têm necessidades que não podem ser satisfeitas por nenhum produto/serviço existente no mercado. (Exemplos: carros super seguros, combustível barato e eficaz, remédio para o câncer etc.). O papel do marketing é medir o tamanho da demanda e se for viável e possível, desenvolver produtos para satisfazer os consumidores. 4. Demanda em declínio: consumidores compram menos ou deixam de comprar o produto/serviço. (Exemplos: carros que consomem muito combustível, máquinas fotográficas, vitrolas etc.). Há que se identificar as causas do declínio, estudar e desenvolver estratégicas mercadológicas para reverter a situação, se valer a pena. 13 Marketing 5. Demanda irregular: compras sazonais, podendo variar de acordo com o mês, semana, dia, horário etc. (Exemplos: salão de beleza na sexta e no sábado, pousadas e hotéis no Réveillon etc.). Buscam- se estratégias para modificar o padrão de demanda, com preços mais flexíveis e descontos, promoções etc., para os dias de pouco movimento, para assim sincronizar a demanda. 6. Demanda plena: todos os produtos colocados no mercado são vendidos. (Exemplos: pacotes de internet, uma determinada cervejaria artesanal etc.). O profissional de marketing deverá manter o nível da demanda e ficar de olho nas mudanças do comportamento dos clientes. 7. Demanda excessiva: há mais consumidores interessados em comprar o produto do que o disponível no mercado. (Exemplos: ingresso para determinado show ou partida final de campeonato de futebol, vacina contra determinada doença etc.). Sugere-se desencorajar os clientes menos rentáveis a adquirir o produto/ serviço, aplicar um aumento de preços e reduzir as promoções. 8. Demanda indesejada: os consumidores se sentem atraídos por produtos/serviços que tem consequências sociais indesejadas. (Exemplos: consumo de álcool, drogas, armas de fogo etc.). A tarefa do marketing é fazer com que as pessoas que apreciam o produto deixem de consumi-lo. As ferramentas utilizadas vão desde mensagens aterradoras, mostrando os impactos negativos, até preços elevados e disponibilidade reduzida dos produtos/serviços. Criando relações duradouras: o papel do marketing As pessoas vivem em busca de sua realização, por meio da satisfação de suas necessidades — lembre-se da pirâmide de Maslow, vista na seção anterior — e para isso elas realizam trocas. Trocam seu trabalho por um salário, que lhes dá condição de consumo e realização; trocam seu afeto e dedicação pela dedicação e afeto de alguém para com elas; trocam sua capacidade intelectual por aprendizado e cultura, de modo a permitir sua própria evolução pessoal e realização; e por aí vai. Então, se as pessoas buscam trocas, é justo imaginar que queiram estabelecer relacionamentos que lhes permitam a condição de troca sempre que necessária, da maneira mais razoável possível. 14 Capítulo 1 Desse modo, as empresas também servem às pessoas por meio da oferta de produtos que tenham condições de suprir seus estados de carência. E é essa condição que possibilita às empresas manterem-se atuantes no mercado. Mas o que é mercado? Segundo Kotler e Keller (2013, p. 6), antigamente um “mercado” era um local físico onde compradores e vendedores se reuniam para comprar e vender seus produtos. Atualmente, os economistas descrevem um mercado como um conjunto de compradores e vendedores que efetuam transações relativas a determinado produto ou classe de produto (mercado imobiliário ou de grãos, por exemplo). Para que ocorram essas trocas, é necessário que haja a concordância das partes quanto ao valor das coisas que são demandadas e ofertadas, simultaneamente. As empresas enxergam valor na retribuição financeira que os consumidores proporcionam-lhes por meio de um preço, que é a expressão monetária de quanto alguém tem de abrir mão de sua renda para fazer frente à despesa para aquisição de um produto. Já as pessoas percebem valor por meio da interpretação de quanto benefício poderão usufruir por meio da aquisição e utilização daquele produto. Além disso, é importante que haja confiança quanto ao que está sendo entregue, no sentido de que correspondaàs expectativas de quem necessita ou deseja algo. E por que o marketing busca criar relações duradoras? Porque é muito mais fácil você satisfazer adequadamente aquele que você conhece, assim como é muito mais fácil você confiar na oferta de quem já o conhece também. Esse é o motivo de o marketing esforçar-se por criar e manter relacionamentos duradouros. Afinal, é muito mais fácil, seguro e barato as empresas atenderem satisfatoriamente os clientes e consumidores que já conhece. E qual a diferença entre marketing e vendas? 15 Marketing É bom lembrar que ainda hoje há muita confusão entre marketing e vendas. Mas, aos poucos, as pessoas já conseguem distinguir com maior facilidade a diferença funcional entre elas. As vendas, tradicionalmente, estavam mais centradas na questão quantitativa das relações entre empresas e consumidores, enquanto o marketing se preocupava com aspectos qualitativos dessas relações. Explicando melhor, enquanto o primeiro se preocupava com quanto vender, considerando o fechamento da venda e o coroamento de seus esforços, o segundo sempre se preocupou em criar condições para que a venda fosse permanente e contínua, ou seja, que houvesse uma relação estável e duradoura. O marketing visto como uma filosofia Muito já foi discutido sobre a função do marketing dentro das organizações, em especial sobre sua inter-relação com as demais áreas funcionais (contabilidade, produção, compras, logística, vendas, financeira etc.) e, ainda, a quem e onde subordiná-lo dentro da estrutura organizacional. Essa discussão pode levar a muitos lugares e, ao mesmo tempo, a lugar nenhum. O entendimento de que o marketing pode ser considerado uma “filosofia” corresponde à necessidade de situá-lo como algo que permeie a organização, fazendo parte de seus objetivos de maneira tão clara que fique entendido por qualquer personagem corporativo a razão de ser de seu negócio: o cliente. Se o objetivo de uma empresa é auferir lucros por meio do estabelecimento de relações duradouras com o mercado, não basta somente ter pessoas ou áreas funcionais para guardarem a responsabilidade por essas relações com clientes. Isso deve ser uma preocupação constante de todo e qualquer colaborador, uma vez que disso depende a sobrevivência e prosperidade da empresa. Ao marketing pode e deve caber a atribuição relativa ao planejamento da utilização de capacidades, recursos e esforços para o pleno atendimento das necessidades dos clientes; e para que ele possa fazer isso, necessita de: • recursos financeiros, e aí entra a área financeira; • definição dos produtos, seus atributos e características, e então precisará da área de desenvolvimento de produtos ou produção; • capital humano para gerar e gerir produtos, trocas e relações, devendo interagir com a área responsável pela captação e desenvolvimento de pessoas; 16 Capítulo 1 • preocupação em fazer que os produtos cheguem às mãos dos consumidores, o que necessitará da área de logística; e por aí vai, pois poderíamos achar várias e importantes inter-relações. O importante disso tudo é que o marketing seja encarado como algo vital para a continuidade da empresa, uma vez que ele pode facilitar, e muito, o sucesso das relações a serem mantidas com os participantes de seus mercados, diminuindo os riscos e aumentando a assertividade. Seção 2 Marketing: de onde vem e para onde vai? Na seção anterior, um dos assuntos estudados tratou de trocas, que ocorrem entre pessoas e pessoas, pessoas e empresas e entre empresas e empresas. Você observou que todas as partes buscam satisfação por meio de trocas; as pessoas procuram satisfazer suas necessidades e seus desejos, e as empresas buscam o lucro como forma de promover sua continuidade. Mas há também trocas anteriores a essas, que é o que você irá acompanhar a partir de agora. As relações de consumo ao longo da história Há quem diga que a Igreja foi a primeira instituição a utilizar-se do marketing de maneira sistematizada. Existia uma certa uniformidade em seus templos e rituais (ao menos entre aquelas da mesma linha doutrinária); o discurso era basicamente o mesmo, traduzindo a oferta de salvação espiritual, que nada mais era do que o benefício procurado pelos fiéis; e possuíam elementos que permitiam a sua identificação onde quer que estivessem instaladas — dizem, também, que a cruz foi o primeiro símbolo a representar uma “marca”. Nessa relação de troca, que persiste até hoje, guardadas algumas mudanças e rachas ocorridas no decorrer dos anos, além de alguns dogmas que são características próprias das religiões, a busca de ambas as partes era um pouco diversa das que ocorrem predominantemente entre pessoas e instituições hoje em dia: as pessoas, os fiéis, buscavam a salvação eterna; e as igrejas, o aumento de seu “rebanho” e a continuidade da própria instituição. Avançando um pouco no tempo, chegamos à época em que a atividade comercial começou a ser praticada de maneira embrionária em relação ao que conhecemos hoje. Segundo Costa (1987, p. 14), 17 Marketing Durante longo período da história, o comércio foi forma bastante rudimentar. O mercado era restrito, de âmbito local, resultado da autossuficiência das cidades e vilas que produziam tudo que necessitavam consumir. A produção era sob encomenda, resultante do baixo poder de compra do mercado, e o processo de produção era artesanal. Havia a identificação produtor-comerciante, pois a mesma pessoa que produzia era a responsável pela comercialização dos produtos. Assim, se uma pessoa precisasse de um par de sapatos, ia até o sapateiro, que providenciava as medidas e produzia o calçado. Não havia intermediários, ou seja, quem produzia era quem vendia. Dois acontecimentos, porém, marcaram o início da mudança desse tipo de relação entre produtor-comerciante e consumidor: • O ciclo dos grandes descobrimentos; • A Revolução Industrial. Alguns países europeus (Portugal, Espanha e Inglaterra, principalmente) começaram a promover grandes viagens marítimas em busca de novas terras e, consequentemente, novos mercados. Houve uma primeira e substancial mudança na maneira de enxergar o comércio. As trocas de especiarias, pedras e metais preciosos, por meio de escambo, começaram a ser praticadas entre povos, e houve a busca do estabelecimento de relações comerciais que permitissem a sistemática e contínua troca entre as partes. O Ocidente e as Américas passaram, com isso, a constituir novos mercados. Já a Revolução Industrial, deflagrada na Inglaterra no século XVII, constituiu- se no maior impulso ao sistema capitalista: a introdução da máquina no processo produtivo determinaria, senão o fim da atividade artesanal, a redução substancial de sua importância na geração de riquezas e na movimentação da economia. O filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin (EUA, 1936), retrata esse período e é uma dura crítica ao capitalismo e aos maus tratos que os empregados passaram a receber na época da Revolução Industrial. Com base nessas mudanças, foi necessário repensar as relações entre produtores e consumidores, por uma razão bastante singular: a tecnologia agregada ao processo produtivo aumentou exponencialmente a capacidade produtiva, gerou excedentes de produção, ou seja, já se produzia mais do que a capacidade de consumo. 18 Capítulo 1 Algumas alternativas passaram a regular essa nova forma de relacionamento com o mercado, a saber: • criação de marcas que permitissem identidade própria e identificação aos produtos; • utilização de canais alternativos de distribuição para fazer os produtos chegarem aos consumidores quando necessário e em condições adequadas; • criação de mecanismos de comunicação para informar sobre a existência e as características dos produtos. Como vocês podem observar, ao longo do tempo mudaram bastante as relações entre os produtores e comerciantes. Aos poucos já podemos, portanto, vislumbrar algumas atividadesde marketing em sua fase inicial. As etapas da evolução do marketing Tendo em vista o que se falou até aqui sobre as mudanças nas relações comerciais, entenda agora porque, por muito tempo (erroneamente), tratou-se como sinônimo de marketing a área de vendas. A evolução do marketing, segundo Schewe (apud COSTA, 1987), pode ser descrita em três grandes momentos: • a era da produção; • a era de vendas; • a era do marketing. A visão apresentada na seção anterior mostra a evolução do que se pode chamar de era da produção, ou seja, os esforços convergiam para as possibilidades de aumento da eficiência produtiva, fazendo produtos em quantidade para um mercado que — ao menos se imaginava —, estava ávido e em condições de comprá-lo. Quando se percebeu que, além de não dispor das condições necessárias para absorver integralmente a produção, o mercado ainda padecia de falta de capacidade para fazer escolhas entre aquilo que lhe era colocado à disposição, imaginou-se que seria necessário criar mecanismos de escoamento dos produtos. Por volta de 1930, nos Estados Unidos, as vendas passaram a ser percebidas como a alternativa mais racional para a comercialização da produção industrial, por meio da capacitação de vendedores e do incremento de atributos nos produtos que pudessem, aos olhos dos consumidores, parecer atraentes. Estava em vigor a era das vendas. 19 Marketing Somente na década de 1950, também nos Estados Unidos, é que se tem início a compreensão de que a alternativa para o sucesso comercial das empresas passa pela observação das expectativas dos consumidores e, consequentemente, pela oferta de produtos de acordo com as suas necessidades e seus desejos. Estava iniciada a era do marketing. Segundo Kotler e Keller (2013), a tarefa não é mais encontrar os clientes certos para seus produtos, mas sim os produtos certos para seus clientes. Os autores citam como exemplo a Dell, que, para eles, não prepara um computador perfeito para seu mercado-alvo. Em vez disso, oferece plataformas de produtos sobre as quais cada cliente personaliza os recursos que desejar em seu computador. Numa retrospectiva minuciosa sobre a evolução do marketing nos Estados Unidos, Costa (1987) ainda oferece preciosas informações: em 1904, a disciplina de marketing foi ministrada pela primeira vez numa universidade; em 1930, surgem os primeiros supermercados, inaugurando um novo conceito na forma de comercialização; e em 1960 é que o marketing assume sua posição nas empresas, entendido como função gerencial e filosofia organizacional. Henri Ford: símbolo da produção em massa Você certamente já ouviu falar em Henri Ford, um americano obcecado pela ideia de produzir carros. Engenheiro, percebeu que os automóveis era um tipo de produto que as pessoas gostariam de comprar em razão da mobilidade que oferecia, além de representar o sinônimo de modernidade para o início dos anos 1900. Havia um porém: o preço de venda de um automóvel era proibitivo para a grande maioria da população daquela época, em razão dos altos custos de produção e do baixo poder aquisitivo, o que tornava praticamente impossível popularizá-lo. E foi então que ele teve a ideia de estudar uma alternativa para baixar os custos de produção e oferecer seus carros a um preço acessível a uma maior parcela da população. Para isso, bolou algo que entraria definitivamente no repertório das escolas de Administração: a linha de produção. A base de sua ideia consistia em produzir automóveis em série, de maneira a otimizar os recursos e equipamentos empregados na produção, forçando pela escala o rebaixamento de custos. Seu esforço foi tão extremado que o modelo desenvolvido dentro dessa filosofia, o Ford T (conhecido no Brasil como Ford Bigode), era disponibilizado em apenas uma cor, o preto, uma vez que a oferta de um leque maior de cores acabaria por encarecer o processo produtivo, impedindo a produção em massa. Foi então que Ford cunhou sua máxima, pronunciada até hoje nas escolas de Administração e Marketing: “Você pode ter um carro (Ford T) de qualquer cor, desde que seja preto!”. (O motivo disto era que a tinta na cor preta secava mais rápido e os carros poderiam ser montados mais rapidamente). 20 Capítulo 1 A verdade é que Ford é mais conhecido pela criação da produção em série, enquanto seu maior feito foi, na verdade, criar condições para que os consumidores satisfizessem seu desejo de adquirir um automóvel. Por outro lado, segundo Seth (2008), em 1931 a GM ultrapassou a Ford em vendas de automóveis, e em 1954 era responsável por mais da metade das vendas de automóveis nos EUA. A General Motors flexibilizou a sua produção e seu modelo de gestão, lançando diversos modelos de veículos, várias cores e adotando um sistema de gestão profissionalizado. Fonte: Seth, 2008. Churchill Jr. e Peter (2007) destacam que há algumas limitações para a orientação para marketing, pois ao centrar-se nos clientes, ela pode incentivar as organizações a dar atenção insuficiente a outros grupos importantes, tais como fornecedores e colaboradores. Além disso, acaba ignorando a capacidade dos concorrentes satisfazerem as necessidades e os desejos de modo mais efetivo. Sendo assim, uma extensão da orientação para marketing que procura superar esses aspectos e oferecer valor superior para os clientes é o marketing voltado para o valor. Veja alguns princípios que sustentam essa abordagem: • Princípio do cliente: as empresas devem compreender seus clientes, saber o que pensam, o que sentem, compram e usam. Devem criar relacionamento duradouro com os clientes, sabendo o nome, se possível, entre outras informações relevantes. • Princípio do concorrente: os profissionais de marketing devem observar se o produto da empresa tem valor superior ao da concorrência. Não se descarta também a realização de parcerias com os concorrentes. • Princípio proativo: as empresas podem e devem ser proativas e mudar mercados e ambientes para melhorar sua posição competitiva. • Princípio interfuncional: O marketing voltado para valor reconhece a necessidade de que o pessoal de marketing interaja continuamente com outros grupos funcionais (pesquisa & desenvolvimento, engenharia, finanças etc.) • Princípio da melhoria contínua: as empresas devem trabalhar continuamente para melhorar suas operações, processos, estratégias e produtos/serviços. 21 Marketing • Princípio do stakeholder: considera o impacto das atividades sobre outros públicos interessados na organização: financiadores, órgãos governamentais, comunidades locais, ONGs, concorrentes, colaboradores e sociedade em geral. Os autores Churchill Jr. e Peter (2007) ressaltam que há problemas inerentes em centrar-se apenas nos clientes e ignorar os outros públicos, afinal, o cliente pode querer, por exemplo, carros feitos com determinados metais, mas se esses causarem doenças nos colaboradores ou poluírem os rios, torna-se inviável a produção. Esses autores (p. 13) ressaltam que o “marketing voltado para o valor é baseado numa visão simples do motivo que leva clientes a comprar produtos e serviços.” Valor para o cliente é a diferença entre a percepção quanto aos benefícios e custos, conforme a figura abaixo: Figura 1.2 – Relação entre valor, benefícios e custos valor para o cliente benefícios percebidos custos percebidos Fonte: Churchill Jr. e Peter, 2007. Tipos comuns de benefícios: 1. Funcionais (são tangíveis; por exemplo: quando se compra um carro, o benefício funcional é que o automóvel leva você de casa ao trabalho etc.); 2. Sociais (dizem respeito à resposta positiva de outras pessoas; por exemplo: o vizinho admira e elogia seu novo automóvel); 3. Pessoais (estão relacionados aos bons sentimentos experimentados; no exemplo do carro, pode ser a satisfação por uma grande conquista após anos de economia); 4. Experimentais (dizem respeito aos prazeres sensoriais; por exemplo, o prazer de ter o conforto e a maciezdo banco de couro, sentir o cheirinho de carro novo etc.) 22 Capítulo 1 Tipos de custos: 1. Monetários (estão relacionados à quantidade de dinheiro empregada na compra do bem. O carro (mais IPVA, seguro etc.) custou R$ X); 2. Temporais (dizem respeito ao tempo gasto na compra; suponhamos que para comprar o carro houve fila de espera de 2 meses. Observe que tempo é cada vez mais valioso e o cliente nem sempre está disposto a esperar); 3. Psicológicos (envolvem a energia mental e a tensão que podem ocorrer principalmente em compras mais complexas; é bastante estressante comprar o carro mas não saber se ele terá o desempenho esperado, se valerá a pena); 4. Comportamentais (é a energia física dispendida para ir em busca do carro novo; pois houve deslocamentos por diversas concessionárias, caminhou-se pelos feirões etc.). De acordo com Churchill Jr. e Peter (2007, p. 18), Os profissionais de Marketing podem aumentar o valor para o clientes trabalhando em um, no outro ou em ambos lados da equação de valor. Como há vários benefícios e custos diferentes, existem muitas combinações de estratégias para criar um valor superior para o cliente(...). A oferta de um valor superior para o cliente pode deixá-los satisfeitos ou mesmo encantados. Isso pode conduzir à fidelidade, o que é desejável, uma vez que manter os clientes atuais é muito mais eficiente do que atrair novos clientes. Por fim, a fidelidade dos clientes leva a relações duradouras e lucrativas entre clientes e empresas. Em suma, o marketing voltado para o valor é projetado para oferecer uma melhor orientação para as organizações alcançarem seus objetivos. (Grifo da autora). Por fim, o marketing voltado para valor tem algumas premissas: • não vê os clientes como máquinas que calculam precisamente a soma de todos os benefícios e subtraem desse número a soma de todos os custos de uma transação; • pressupõe que os clientes variam em suas percepções de valor: diferentes clientes podem avaliar o mesmo produto de maneiras diferentes; 23 Marketing • pressupõe que a avaliação de valor dos clientes pode mudar ao longo do tempo e em diferentes situações. No livro “Marketing 3.0,” escrito por Kotler, Hermawan e Iwan (2010, p. 6) os autores corroboram as ideias apresentadas acima e traçam um comparativo muito interessante em relação ao que eles chamam de Marketing 1.0, 2.0 e 3.0. (Quadro 1.1). Quadro 1.1- Comparação marketing 1.0, 2.0 e 3.0 Marketing 1.0 Centrado no Produto Marketing 2.0 Voltado ao consumidor Marketing 3.0 Voltado para os valores Objetivo Vender produtos Satisfazer e reter consumidores Fazer do mundo um lugar melhor Forças propulsoras Revolução Industrial TI Novas ondas em TI Como as empresas veem o mercado Compradores de massa, com necessidades físicas Consumidor inteligente, dotado de coração e mente Ser humano pleno, com coração, mente e espírito Conceito de marketing Desenvolvimento de produto Diferenciação Valores Diretrizes de marketing da empresa Especificação do produto Posicionamento do produto e da empresa Funcional, emocional e espiritual Proposição de valor Funcional Funcional e emocional Funcional, emocional e espiritual Interação com consumidores Um para um Um para um Colaboração Um para muitos Fonte: Kotler, Hermawan e Iwan, 2010, p. 6. Em síntese, a era do Marketing 3.0 é uma forma mais sofisticada da era centrada no consumidor, em que o consumidor demanda abordagens de marketing mais colaborativas, culturais e espirituais. Dessa forma, a colaboração deve ser entendida como um dos bens mais valiosos da empresa que começa em sua missão, seus valores, atingindo seus funcionários, até chegar ao cliente. Marketing no Brasil Em relação à “chegada” do marketing no Brasil, segundo Richers (1994), esse desembarcou dos EUA numa época muito oportuna: nos dourados anos 1950, num país diferente: bem mais simples, com pouco trânsito e praticamente sem assaltos e poluição. 24 Capítulo 1 As mercadorias eram poucas e as lojas também, a maioria da população vivia de produtos agrícolas e havia bem menos consumidores. As paredes dos quartos femininos estavam repletas de fotos de Marlon Brando e de James Dean. O rock “explodiu”; bebia-se rum com Coca-Cola em danceterias agitadas; era o que se convencionou chamar “anos dourados”. Havia esperança, e a sensação de que o país estava indo para a frente e seria sempre assim. A Europa estava se recuperando das feridas da II Guerra Mundial, a África ia ganhando mais liberdade e muitos países da Ásia se preparavam para virar “tigres” no mercado. Foi nesse ambiente de euforia que surgiu, em São Paulo, o primeiro curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas; de forma modesta mas com muita expectativa e entusiasmo. O texto a seguir não é novo (1998), mas faz uma excelente descrição sobre a recorrente confusão e falta de informação em relação ao termo “marketing” no Brasil. ASTIGMATISMO Na era do hedonismo, o marketing ganha interesse pelos motivos errados Um sujeito precisou fazer uma bateria de exames clínicos. Só então percebeu que seu plano de saúde não cobria a metade do que era necessário. Disse, ressentido: — O plano dessa companhia é uma bomba! Na hora de vender, pode tudo. Depois, não pode nada. É tudo marketing. Vou cancelar minha participação. Naquele instante, em lugares diferentes da costa leste americana, Theodore Levitt, o homem que criou o clássico conceito de “miopia em marketing”, e Philip Kotler sentiram um mesmo arrepio gelado lhes descendo a espinha. Não é para menos. A ideia de fechar o negócio a qualquer custo, ludibriando o freguês se for necessário, de forma a pura e simplesmente fazer o caixa tilintar, filia-se a uma lógica de vendas orientada para o curto prazo. Não gera clientes. Gera compradores de uma compra só. Desafetos que espalham suas bílis pelo mercado. Enfim, é uma ideia que nada tem a ver com a lógica de marketing, exceto pelo fato de ser a sua antítese. Se tudo naquela companhia de planos de saúde fosse marketing, o sujeito estaria satisfeito e a empresa estaria mantendo mais um cliente em carteira. A ideia de marketing como mentira, como maquilagem exuberante que atrai para uma armadilha de vendas; ou pelo menos como uma atividade vazia, desprovida de tutano e seriedade, tem imperado no Brasil. Temos a certeza equivocada de que marketing é uma propaganda metida à besta, que trocou a agência pela corporação e as artes finais pelo crachá eletrônico. Costumamos pensar, ainda, que quanto melhor o marketing maior o hype — palavra do inglês que define a promessa que não se cumpre; o exagero que deliberadamente conquista para depois frustrar. Em bom português: empulhação. 25 Marketing Para o marketing, entretanto, a propaganda é apenas o meio mais eficiente de comunicar os benefícios de um produto ou serviço a públicos de interesse. É evidente que ações de comunicação visam sempre ressaltar os pontos positivos e omitir o que não interessa mostrar. Assim funciona a propaganda — que almeja, ainda, ser divertida, surpreendente, marcante. Não é assim que funciona o marketing, processo que transcende em muito as ações publicitárias. Enquanto para a propaganda é suicídio a admissão de pontos fracos (imagine o contrassenso de um anúncio de sabão em pó alertando para o desgaste que ele impinge às roupas ou para a poluição que causa ao meio-ambiente), para o marketing é fundamental o reconhecimento dos desempenhos sofríveis, estejam eles no produto ou na própria empresa. Para o marketing, suicídio seria não admitir os pontos fracos dos processos que ele representa: o sabão em pó que desistir de tratar cada vez melhor as roupas do consumidor ou fingir que não vê que precisa reduzir seu impacto ambiental, estará fora do mercado em um par de anos. O interesse pelo marketing no Brasil, consolidado na última década, parece estar ancorado naquela visão errônea da profissão como uma salada vistosa que envolve ações decomunicação, promoções criativas e gravatas menos conservadoras. É o marketing compreendido como uma atividade de apoio a vendas, como organização de eventos, como uma ocupação confinada ao meio publicitário. Esse conjunto de percepções confunde o que é periférico com aquilo que é central; o instrumento com a inteligência que o conduz. De todo modo, é fato que o apelo do marketing no Brasil tem sido sua pretendida superficialidade e o glamour que dela decorre. Enxerga-se o marketing como uma atividade da moda, pouco convencional, divertida, feita para jovens criativos. Se fosse um arremesso de basquete, essa visada não daria aro. De início, nada do que ela propõe é definidor. Nada do que ela diz rompe a superfície. Marketing é, essencialmente, compreender o mercado e tornar eficiente e mutuamente lucrativa a relação entre a oferta de uma companhia e a demanda dos consumidores. O resto são coquetéis e happy hours. Quem precisa do marketing para atendê-los? Diagnosticando o quadro de astigmatismo, impõe-se uma pergunta: por que viemos a enxergar o marketing no Brasil dessa forma equivocada? Há duas explicações cabíveis. A primeira é que os empresários nacionais, há 20 ou 30 anos, tornaram o novo conceito de pela sua aparência. Reduziram-no (se é que o chegaram a compreender de fato), esvaziando-o à medida que o adotavam. Dessa forma, puderam se dizer a par com as últimas tendências internacionais (nosso flair global costuma ser frívolo; nosso espírito, colonial), sem precisarem operar as inflexões de gerenciamento que a lógica de marketing imporia a seus negócios, O resultado foi uma adaptação do conceito de marketing ao mercado brasileiro, ambiente em que o cliente é tradicionalmente um insignificante. Importou-se o verniz do marketing mas teve-se o cuidado de deixar de fora sua medula. Cristalizou-se, com os anos, a compreensão do marketing pela perfumaria que a ele se assacou. 26 Capítulo 1 O outro suporte para o astigmatismo que olhamos o marketing é a época mesmo em que vivemos. Esse final de século tem sido um tanto filistino. Vivemos uma era em que a aparência é tudo. Antes de ser, o sujeito precisa parecer que é. Um profissional é muito mais o que ele jacta, do aquilo que ele realmente acrescenta, pensa ou faz (por isso há tantos politiqueiros bem-sucedidos no mundo corporativo brasileiro. Gente que não produz nada, não agrega valor algum ao negócio, mas que tem a epiderme bem trabalhada, o sorriso adequado, a pose certa). Na medida em que o marketing é visto como a disciplina do superficial, do brilho fácil, do embuste recheado de charme, ele se torna a disciplina do nosso tempo. E chegamos à contradição suprema de um consumidor insatisfeito enunciar “isso é puro marketing”, usando o nome da doutrina que o toma como a causa e a consequência de um negócio, para denotar as situações em que se sente enganado, usurpado por mercadores estultos. Marketing, quem diria, sendo apontado como o pivô da insatisfação de consumidores. Uma realidade brasileira, específica, absurda. Superficialidade hegemônica – Em economias fundadas na competição, ofertas que forem geradas em um processo de marketing autêntico e bem conduzido são necessariamente satisfatórias para os clientes e lucrativas para as companhias. As que não forem não serão outra coisa por muito tempo. No Brasil, de modo geral, imagina-se que a ideia de empresa lucrativa não é compatível com a de consumidores satisfeitos. Acredita-se que ou se tem uma coisa ou se tem a outra. A obviedade não vista é que os dois cenários são indissociáveis, contíguos e interdependentes. As hordas de marqueteiros que entram todo ano no mercado não contribuem muito para a alteração desse cenário no Brasil. Pelo contrário, atraídos exatamente pelo que é oco e veleidoso, esses novos profissionais só fazem reproduzir velhos pontos de vista carregados de astigmatismo. São — somos todos — filhos dessa era em que a superficialidade é hegemônica, em que a ordem de tudo é ser fácil, digerível. O hedonismo pouco ilustrado de nosso tempo teve seu início, é muito provável, com a expansão americana no Pós-Guerra. A cultura europeia, em geral, e a francesa, em particular, de tradição elitista e paladar pedregoso, sucumbiram à ascensão dos Estados Unidos como o novo emissor de padrões de comportamento e de atitude para o mundo. A tradição filosófica francesa, que ensinara o planeta a pensar, começou a soar insuportável. Raciocinar virou esporte de gente chata. Analisar com discernimento passou a ser coisa de desmancha-prazeres. Sartre e suas palavras refinadas, arquitetadas em sentenças sinuosas, longas e belamente construídas, foi suplantado pelos romances policiais. E seus termos toscos. E suas frases curtas. Tudo o que era denso tornou-se fugaz. A alta cultura virou cultura pop. Óperas de audiência seleta viraram concertos para milhares. A grande literatura virou cinema de entretenimento. Enfim, tudo que era francês desmanchou-se no ar. 27 Marketing E veio ainda a velocidade. Substituiu-se a perenidade dos bosques europeus pela aceleração das highways americanas. E o tempo que as pessoas se davam para sentar em um café parisiense, ler um livro e viver, pela refeição fast food. Hoje, nada é feito para durar muito. Tudo é descartável. E veio o kitsch como validação estética da baixa erudição (a cultura americana legitima a ignorância média do cidadão desde que essa se recubra de boa dose de charme e ande a mais de 100 quilômetros por hora). Mediocrizou-se a classe média. E denegriu-se todo ato humano que não fosse eminentemente divertido. O brilho da casca, enfim, passou a valer mais do que o miolo. Abaixo a cultura americana, então, porque ela é má, destruiu nossos melhores valores e, como se não bastasse, ainda ajudou a desvirtuar o entendimento de marketing no país? Que nada. Se há cancros no hedonismo laico da cultura pop, há muitos mais no pedantismo academicista da cultura clássica. Aos versos de Caetano, que sabem elogiar em meio à crítica: “... os americanos são responsáveis por grande parte da alegria existente nesse mundo”. Hoje somos todos mais horizontais, democráticos, liberais e bem-humorados por conta da expansão cultural dos Estados Unidos no Pós-Guerra. Há apenas que filtrar, sem nacionalismos bocós, o que não nos serve. Por exemplo, as possíveis entronização do fútil e pasteurização da inteligência que habitam o cerne do american way of life. Há também, por outro lado, que apreender aquilo que nos interessa. Por exemplo, o senso americano de conveniência e o sentido de praticidade e eficiência que lhes rege a vida. E ainda, mais que tudo, compreender e consolidar por aqui o grande emprego do marketing que eles fazem por lá. Fonte: SILVA, Adriano. Revista Exame, 3 de junho de 1998. pg. 48-50. Miopia de marketing é um conceito de 1960 mas continua sendo difundido, pois é bastante atual. Em 1960, Theodore Levitt, professor de Harvard, escreveu o artigo que se tornou um clássico da literatura de gestão, no qual sublinhou os perigos do marketing de vistas curtas. Essa miopia consiste na atitude de concentração nos produtos da empresa, sem atender aos mercados e à concorrência. Levitt ilustrou essa postura com o exemplo das companhias de trem norte-americanas, bastante poderosas no início do século passado, mas que posteriormente agonizaram no segmento de transportes de passageiros. Elas não compreenderam que a grande ameaça estava no desenvolvimento das autoestradas e dos transportes aéreos, e não no apuro técnico dos comboios. Faltou aos empresários olhar além da mercadoria, um erro comum a muitas companhias”. Ou seja, muitas empresas até hoje lançam seus produtos e serviços no mercado mas não verificam se é isso mesmo que o cliente quer e precisa. (BRANCO, 2009). Veja mais a respeito em: <http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/ miopia-em-marketing/40851/>. http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/miopia-em-marketing/40851/http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/miopia-em-marketing/40851/ 28 Capítulo 1 O marketing na atualidade e no futuro Os tempos em que vivemos são bem diferentes dos que viveram nossos pais e avós. Hoje tudo acontece mais rápido — alguns até acreditam que o tempo passa mais rápido! A verdade é que vivemos numa época em que os costumes se modificam com uma velocidade enorme; as transformações, em todas as dimensões da existência humana, são tão frequentes e céleres que muitos nem conseguem percebê-las; a quantidade de informação a que somos submetidos em curtos espaços de tempo equivale ao volume que algumas pessoas recebiam a vida toda, há alguns anos. Isso nos faz mais críticos, mais conscientes, mais exigentes. Desse modo, se a função do marketing é criar relações estáveis e duradouras que permitam reais condições para a realização de trocas. Assim, fica fácil perceber a magnitude do papel do marketing hoje em dia, não é mesmo? A verdade é que a dinâmica da vida moderna levou a mudanças tão radicais que se tornou imperativo para a sobrevivência de qualquer empresa estar constantemente monitorando o mercado, em busca de indícios do que possam representar as demandas dos consumidores. E essa competência faz parte das competências que o marketing possui e funcionalmente estão sob sua responsabilidade. Para o exercício de suas funções, os avanços tecnológicos auxiliam o marketing, permitindo o contato com os mercados de maneira cada vez mais próxima, mesmo que estejamos em tempos de exacerbação do individualismo. Permite-lhe ouvir o que cada um dos clientes e consumidores tem a dizer, mesmo que eles sejam em um número tão grande que não caberiam nem mesmo num estádio de futebol. E permite-lhe uma comunicação tão personalizada que cada um dos ouvintes pensa que aquelas palavras foram-lhe destinadas com exclusividade, mesmo que tenham sido repartidas com milhares de outras pessoas. Mas, como fazer tudo isso? A verdade é que os consumidores são dotados de características e perfis particularíssimos, o que os torna únicos. Ao contrário do que ocorria há alguns anos, o crescimento das cidades acabou por levar a um distanciamento entre as pessoas, que vivem suas vidas em busca da sobrevivência e de sua própria felicidade. Enquanto as antigas mercearias e “vendinhas”, por exemplo, possibilitavam uma relação mais próxima entre vendedores e consumidores, as atuais estruturas de comercialização obrigam a manutenção de relações impessoais, o que acaba por transformar a própria condição ideal para a criação e manutenção de relações estáveis e duradouras. 29 Marketing O papel do marketing, nesse contexto, é presentar as empresas e/ou as pessoas alternativas para a formação de redes relacionais, mas sem que isso ocorra de maneira fria e visivelmente artificial. Eis aí a razão dos cartões de fidelidade, dos e-mails e mensagens via celular de felicitação nos aniversários e datas comemorativas, da criação de gerentes de relacionamento dentro de algumas empresas, entre outras ações. A verdade é que, às vezes, ao marketing cabe o difícil papel de resgate de um passado no qual, apesar do conforto, da comodidade e da abundância de opções proporcionadas pela tecnologia ainda não estarem presentes, as pessoas se conheciam e se chamavam pelo nome. Qual o futuro do marketing? Para você pensar sobre o futuro do marketing, não precisa de nenhuma bola de cristal, túnel do tempo ou qualquer outro tipo de apetrecho importado dos filmes de ficção científica. Porém, é preciso atentar para a necessidade de aprender como observar as tendências que se desenham nas relações comerciais e sociais, em como evoluem as relações de uma pessoa consigo mesma e com os outros, e em como a sociedade incorpora o novo e refuga o velho. Você precisa, em resumo, saber ver, ouvir e sentir. A verdade é que as pessoas vão continuar a sentir desejos e a manifestar vontade de satisfação às suas necessidades e, por isso, continua a necessidade de profissionais especializados para atender essas pessoas. E ao profissional de marketing caberá essa função. Enquanto houver trocas e a busca de benefícios que se traduzam em valor, o marketing terá um papel a cumprir. Você também pode pensar e achar novas aplicações para o marketing. Nas suas próprias relações pessoais, com os seus amigos e companheiros. Lembre-se de que já foi citado como as pessoas estão sempre em busca de algo, algo esse que às vezes elas nem sabem bem o que é. Kotler e Keller (2013) ressaltam que, atualmente, forças sociais importantes criaram novos comportamentos, oportunidades e desafios de marketing. A seguir, listamos essas doze “forças”: 1. Rede de tecnologia da informação: com a era da informação, os níveis de produção estão mais precisos, a comunicação mais direcionada etc.; 30 Capítulo 1 2. Globalização: os avanços nessa área facilitaram a vida dos consumidores e das organizações; também há cada vez mais gente se deslocando pelo mundo, seja a trabalho ou lazer; 3. Desregulamentação: leis de comercialização de produtos e serviços mais flexíveis em muitos países; 4. Privatização: aumento da eficiência; 5. Concorrência ampliada: crescente concorrência na maioria dos mercados; novas marcas, marcas estrangeiras etc.; 6. Convergência setorial: novas oportunidades de intersecção entre os setores; 7. Transformação no varejo: as lojas físicas muitas vezes sofrem a concorrência da venda pela internet, por catálogos etc.; 8. Desentermediação: alguns varejistas, agências de viagem etc., observam como ocorre o consumo sem a utilização desses serviços/locais; 9. Maior poder de compra do cliente: este também pode comparar preços com mais facilidade, comprar 7 dias por semana, durante 24 horas etc.; 10. Informação ao consumidor: sempre crescente; 11. Participação do consumidor: o cliente dá palpite sobre o que deseja nos produtos, comente, elogia e reclama nas redes sociais; 12. Resistência do consumidor: menos céticos em relação às propagandas etc. Esses importantes fatores sociais criaram desafios complexos para as equipes de marketing; mas, para esses autores, também geram um novo e poderoso conjunto de competências e oportunidades para ajudar as empresas a lidar com eles; veja: • Uso da internet como um poderoso canal de comunicação, pesquisa e vendas; • Uso das mídias e redes sociais para amplificar a mensagem de sua marca; • Facilitação e aceleração da comunicação entre clientes internos e externos; • Envio de material promocional, cupons, amostras, informações etc., a clientes que os requisitaram e/ou autorizaram a empresa a enviá-los; 31 Marketing • Maior alcance de consumidores em trânsito com o mobile marketing; • Venda de produtos personalizados; • Aperfeiçoamento dos seus processos de compras, recrutamento, custos, treinamento etc. Cabe a nós observarmos as tendências, os movimentos de consumidores e organizações e os rumos do mercado, tudo isso com a cabeça aberta, com vontade de aprender, com um olhar acolhedor, mas também crítico, para o novo. Seção 3 Atribuições, perfil e áreas de atuação do profissional de marketing Acreditamos que quem atua na área de marketing não pode ter preconceito. Ou seja, deve ler um pouco de tudo, viajar — inclusive para outros países, e ficar sempre de “orelha em pé”, — ouvir todo tipo de emissora de rádio, estar por dentro do que faz sucesso em termos de música, filmes, estilo etc., acessar conteúdos diversos e assistir a programas de TV e na internet (inclusive os que não lhe agradam pessoalmente), conversar com todo tipo de pessoa, conhecer as redes sociais. Enfim, ter o olhar voltado para o outro, para o mercado, para as tendências. Churchill Jr. e Peter (2007, p. 576) ressaltam que para se destacar, o profissional geralmente apresenta as seguintes características, que muitas empresas buscam como diferencial: • Capacidade para trabalhar bem com outraspessoas; • Ter abordagem criativa e proativa na resolução de problemas; • Autoconfiança e automotivação; • Disposição para assumir riscos calculados; • Capacidade para vislumbrar tendências e antecipar-se a elas; • Prazer em trabalhar em um ambiente de ritmo acelerado e intenso (quase “alucinante”) de trabalho. 32 Capítulo 1 O gerente de marketing de categoria do Boticário, Ricardo Gritsch, e o professor do programa Certificate in Marketing Management do Insper, Giancarlo Greco, em entrevista a Vieira (2016), destacam que o profissional de marketing deve: • Ser comunicativo e transitar bem entre as áreas: as pessoas que trabalham na área de marketing transitam bastante entre os setores da empresa. É interessante, portanto, que seja uma pessoa que se comunique e se relacione bem; • Ser curioso e observador: o profissional de marketing não “desliga”. Uma ida ao mercado ou um passeio ao shopping certamente tornam-se fontes de observação de tendências e comportamentos; • Desenvolver familiaridade com os números: ter capacidade de mensurar tudo relacionado ao impacto das campanhas nas redes sociais, por exemplo, e justificar suas ideias em números; • Falar bem pelo menos um outro idioma: “marketing” não ganhou tradução do inglês em português, assim como outras que aparecem no cotidiano desse profissional, tais como “briefing”, “brainstorm”, “marketplace”, “mailing”, “branding”, “franchising” etc. A lista de expressões usadas em inglês é infinita. Trata-se de uma comunicação quase bilíngue, e isso é tão natural, que o profissional, às vezes, nem percebe que está falando em outro idioma. Portanto, ter fluência em inglês é quase uma obrigação para esse profissional. Mas o que faz o gestor de marketing no dia a dia? Para Khauaja (apud ZUINI, 2011), essa é a dúvida de muitos empresários que não sabem se devem contratar alguém para gerenciar a área de marketing e o que exatamente essa pessoa deve fazer depois. Para responder essa pergunta, é importante lembrar que o gestor de marketing deve começar obtendo informações, já que se o objetivo do marketing é a criação, a comunicação e a entrega de valor para os clientes; e para isso é preciso conhecer esses clientes para poder cumprir o objetivo. O gestor deve, ainda, analisar fatores tais como as tendências da economia, da política e da demografia. Além disso, deve ficar atento aos avanços tecnológicos, às mudanças culturais e ao ambiente ecológico ou natural, que também podem causar forte impacto no mercado em que atua e na sua própria organização. 33 Marketing Além do ambiente externo, o gestor de marketing deve analisar o mercado no qual está inserido, levando em conta os fornecedores, concorrentes, intermediários (varejistas, por exemplo) e clientes. Com relação ao comportamento do consumidor potencial, o profissional deve se inteirar dos fatores que influenciam o processo de compra do consumidor. E ainda, definir o segmento-alvo e o posicionamento, e tomar decisões em relação às variáveis controláveis de marketing, ou seja, aquilo sobre o que ele pode interferir: produto, preço, promoção e praça. Em resumo, o profissional de marketing mapeia oportunidades no mercado, antecipa-se e atende às necessidades e desejos do consumidor. Atua na criação de produtos, na distribuição, em vendas, na área de marketing digital (produção de conteúdo: blogs e conteúdos ricos, gestão de redes sociais, otimização para ferramentas de busca, links patrocinados/tráfego pago, e-mail marketing, análise de resultados etc.). Também realiza o pós-venda, delineia e executa estratégias para conquistar o público-alvo, coordena pesquisas de mercado, coletando e analisando dados sobre o perfil do consumidor e o ambiente socioeconômico, bem como estima o impacto do custo das ações de promoção e propaganda sobre o preço final do produto. Portanto, está presente em todo e qualquer tipo e tamanho de organização, seja como gerente da empresa, consultor ou empreendedor; atuando em seu próprio negócio ou em institutos de pesquisa e órgãos públicos. Referências BRANCO, Diego. Miopia em marketing. 28 mar. 2009. Disponível em: <http:// www.administradores.com.br/artigos/marketing/miopia-em-marketing/40851/>. Acesso em: 15 jan. 2013. CARIONI, Rodrigo. Gestão de marketing I: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2006. CHURCHILL JR., Gilbert A., PETER, J. Paul. Marketing: criando valor para o cliente. São Paulo: Saraiva, 2007. COSTA, Jane Iara Pereira da. Marketing: noções básicas. Florianópolis: Imprensa Universitária, 1987. GOBE, A. C. et al. Gerência de produtos. São Paulo: Saraiva, 2004. KOTLER, Kotler; HERMAWAN, Kartajaya; IWAN, Setiawan. Marketing 3.0: As forças que estão definindo o novo marketing centrado no ser humano. 2010. http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/miopia-em-marketing/40851/ http://www.administradores.com.br/artigos/marketing/miopia-em-marketing/40851/ 34 Capítulo 1 Disponível em: < http://www.elsevier.com.br/kotler/complementar/downloads/ marketing_3.0.pdf>. Acesso em: 02 jun. 2016. KOTLER, P. Administração de Marketing: análise, planejamento e controle. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 1994. KOTLER, Philip; KELLER, Kevin L. Administração de marketing. 14. ed. 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Acesso em: 21 maio. 2016. http://www.elsevier.com.br/kotler/complementar/downloads/marketing_3.0.pdf http://www.elsevier.com.br/kotler/complementar/downloads/marketing_3.0.pdf https://www.napratica.org.br/cinco-competencias-essenciais-em-um-profissional-de-marketing/ https://www.napratica.org.br/cinco-competencias-essenciais-em-um-profissional-de-marketing/ https://www.napratica.org.br/cinco-competencias-essenciais-em-um-profissional-de-marketing/ http://exame.abril.com.br/pme/noticias/o-que-faz-um-gestor-de-marketing http://exame.abril.com.br/pme/noticias/o-que-faz-um-gestor-de-marketing 35 Capítulo 2 Ambiente externo e interno de marketing O nível de competitividade de uma empresa depende do ambiente no qual ele opera. Inúmeras variáveis têm influência na condução dos negócios. Enquanto, sobre algumas delas, a empresa tem algum tipo de controle, por se encontrarem no seu ambiente interno, sobre outras não existe essa possibilidade, em razão de elas estarem no ambiente externo à organização. As variáveis internas, aquelas sobre as quais a organização têm algum controle, são controladas e monitoradas a partir da análise do ambiente interno, que permite detectar pontos fortes e fracos. Já as variáveis que fogem ao controle da organização podem ser traduzidas em ameaças ou oportunidades, localizadas a partir da análise do macroambiente. Para que as organizações possam ter sucesso na identificação e no atendimento das expectativas do mercado, é necessário que monitorem todas as variáveis, procurando capitalizar aquelas que se mostrarem favoráveis e eliminar, ou ao menos reduzir, a influência daquelas que podem prejudicá-las. Seção 1 Análise do ambiente externo Conforme já visto aqui, a função do marketing é promover a interação das empresas com o mercado, permitindo o atendimento das necessidades dos consumidores por meio da oferta de bens e serviços. Sendo assim,é muito importante que haja uma constante preocupação em identificar situações no mercado, atuais ou futuras, que podem ou poderão mostrar-se favoráveis — e, por isso, devem ser aproveitadas — ou desfavoráveis 36 Capítulo 2 — e que, por essa razão, devem levar a empresa a precaver-se quanto a impactos negativos em seu desempenho. A análise do macroambiente considera as variáveis externas que impactam na condução dos negócios de uma empresa. Uma empresa com práticas mercadológicas sadias se preocupa constantemente em monitorar seu ambiente externo em busca da identificação de tendências que possam ter influência significativa na condução de seus negócios. Trata-se de monitorar a existência de forças incontroláveis para as quais há necessidade de resposta. O que são oportunidades e ameaças para uma organização? Situações potencialmente favoráveis que se apresentam no mercado e cujo aproveitamento possa contribuir de forma significativa para a realização dos objetivos de uma empresa são chamadas de oportunidades. Já situações potencialmente desfavoráveis que, dada sua relevância e grande probabilidade de ocorrência, poderão enfraquecer a posição competitiva da empresa e restringir sua capacidade de atingir seus objetivos, são chamadas de ameaças. Variáveis ambientais Algumas variáveis ambientais que precisam ser avaliadas, em busca de oportunidades e/ou ameaças, são (KOTLER; KELLER, 2013): • Ambiente demográfico: diz respeito à análise de tendências relativas às características da população, que podem ter implicação na definição ou atingimento de objetivos futuros do negócio. Exemplo: A tendência de um aumento significativo de idosos no Brasil faz com que devam ser avaliadas as oportunidades referentes à oferta de produtos direcionados às demandas dessas pessoas e de suas famílias. Por outro lado, pode representar ameaça para empresas cujas ofertas sejam direcionadas ao atendimento de necessidade ou desejos da população infantil, por exemplo. 37 Marketing • Ambiente econômico: trata-se de variáveis econômicas que podem afetar a oferta e a demanda por bens e serviços, como tendências da curva de inflação, aumento ou diminuição do PIB, do desemprego, de níveis de poupança ou de fluxo de capitais estrangeiros. Exemplo: uma situação clara que pode exercer influência no desempenho de uma organização é a flutuação do dólar. As companhias aéreas brasileiras importam o combustível, e como esse é um item muito importante nos custos da empresa, refletem diretamente no preço das passagens para os consumidores finais. • Ambiente político-legal: leis, códigos, instituições legais, organizações não governamentais, predominância de ideologias etc., podem afetar os negócios à medida que representam restrições, normalizações ou incentivos ao estabelecimento de posturas entre as relações que se dão no mercado. Exemplo: As leis e medidas provisórias que ora proíbem o funcionamento dos bingos no Brasil, ora liberam, deixam as empresas que trabalham no setor inseguras e com perdas relevantes. • Ambiente natural: a deterioração do ambiente natural é uma grande preocupação global hoje em dia. Em muitas cidades e regiões do planeta a poluição do ar e da água atinge níveis muito perigosos. Especialistas, organizações e a população em geral tem pressionado os governos a implantarem regulamentações ambientais mais duras. Exemplo: em épocas de seca, as contas de energia elétrica têm subido muito e também há racionamento de água, forçando muitas empresas a reverem seus processos. • Ambiente sociocultural: os costumes, crenças e valores internalizados em grupos sociais sofrem mudanças ao longo do tempo, isso dever ser observado pelas empresas participantes dos mercados que atendem tais grupos. Exemplo: a mudança de paradigma dos cônjuges na instituição familiar, pois, a partir de 2011, no Brasil, foi declarado possível o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Dessa forma, é reconhecido juridicamente que os parceiros tenham os mesmos direitos de um casamento entre homem e mulher: pensões, heranças, imigração, propriedade conjunta etc. 38 Capítulo 2 • Ambiente tecnológico: fatores, tendências e condições gerais que afetam a competitividade, principalmente quando se trata de tecnologia sujeita a inovações, ou seja, tecnologia dinâmica e de futuro imprevisível. Exemplo: à medida que não haja o acompanhamento e a incorporação de tecnologias por parte de determinada empresa, enquanto isso ocorre pelos concorrentes que atuam no mesmo segmento de mercado, estará ocorrendo uma defasagem em relação à competitividade, representando riscos à continuidade do negócio. Monitoramento do macroambiente É importante ressaltar que as forças que atuam no macroambiente agem, constantemente, de maneira interdependente no que tange ao seu impacto como ameaça ou oportunidade para as empresas. Pode-se afirmar que, de acordo com as características predominantes de cada negócio (quais mercados são atendidos, necessidades desses mercados são atendidas, e por meio de quais tecnologias ocorre tal atendimento), a dinâmica de cada conjunto de forças (referentes a um ou mais ambientes) se fará mais ou menos presente. Da mesma forma, é salutar que haja uma sistemática própria para cada organização, no que diz respeito à maneira pela qual é realizado o monitoramento do mercado, respeitadas suas características e particularidades. A avaliação constante e regular das tendências presentes no macroambiente no qual a empresa opera, permite-lhe criar condições favoráveis ao processo de tomada de decisão, minimizando riscos e aumentando, consideravelmente, a assertividade dos rumos traçados. Aqui vale lembrar da dinâmica do processo de planejamento de qualquer organização, tomando-o como um processo contínuo de “pensar” e “repensar” os rumos tomados, se têm a correta dimensão da importância de avaliações das forças que impactam a busca por resultados por parte das empresas. O papel do profissional de marketing é estar constantemente perscrutando o mercado em busca de sinalizações indicativas de tendências e mudanças. Um exercício interessante constitui a leitura de jornais, revistas e o acesso a sites nos quais haja a análise de conjunturas e tendências, exercitando o poder de realizar extrapolações para o próprio ambiente familiar, profissional e pessoal, https://pt.wikipedia.org/wiki/Tecnologia 39 Marketing para depois enxergar a si próprio como um componente do mercado e, por fim, entender sua importância para as empresas que o atendem como consumidor. As empresas dispõem, para o desempenho de tais atividades, de sistemas de informação de marketing, cujo papel é gerar inteligência mercadológica com base em dados e informações esparsas, traduzindo tudo em insumos capazes de auxiliar os gestores a tomar decisões que representem o caminho mais adequado para atingir os objetivos organizacionais. Fatores conjunturais que afetam empresas e consumidores Para facilitar ainda mais a sua compreensão sobre os fatores relacionados ao ambiente externo, veja, nos quadros a seguir, de que maneira algumas situações conjunturais influenciam o comportamento do consumidor e a própria reação das empresas. Serão considerados aspectos relacionados aos cenários econômicos (período de prosperidade, instabilidade e retomada econômica), a capacidade de consumo da população (nível de renda baixo, médio e alto) e o ambiente de marketing (homogêneo x heterogêneo). Quadro 2.1 – Cenários econômicos Otimista (prosperidade) Recessão (instabilidade) Recuperação (retomada) • Produção e emprego atingem níveis mais altos. • Cresce a demanda por produtos e serviços, tanto básicos como de luxo. • Diminui, em especial nas classes média e alta, a sensibilidade a preços. • A comunicação tende a utilizar principalmente a propaganda persuasiva – para o desenvolvimento de uma demanda seletiva – além de enfatizar os benefíciospessoais (pela propriedade) e/ou experimentais (prazer sensorial). • Pode-se introduzir versões “premium”, de luxo, para os produtos existentes. • Diminuição da atividade econômica e dos níveis de produção, com conseqüente aumento do desemprego. • Consumidores passam a ser mais seletivos, críticos quanto às suas necessidades e desejos (demanda). • Prioridade ao básico e à busca do melhor negócio. • Propício ao oferecimento de marcas próprias e genéricas, com boa qualidade e por um preço menor que o das marcas tradicionais. • Comunicação reforça o “melhor preço” – sua redução ou mesmo manutenção. Busca estabelecer a confiança do consumidor, demonstrando “solidariedade” com a situação dos consumidores. Há espaço para a propaganda comparativa (comparando com os concorrentes). • Aumento dos níveis de produção e de emprego. • Consumidores ainda relutam em aumentar suas compras, pela lembrança do que passaram recentemente. • Valorização da poupança e do baixo endividamento. • Utilização da propaganda: - de produto (para criar demanda); - institucional (promoção do nome e da imagem da empresa); - de lembrança (ter o produto em mente). Fonte: Carioni, 2006. 40 Capítulo 2 Quadro 2.2 – Capacidade de consumo (renda) Baixa Média Alta • Grande sensibilidade a preços. • Procuram o maior benefício possível por unidade consumida – mais por menos (maior benefício pelo menor preço). • Privilégios às marcas próprias e genéricas. • Comunicação centrada no oferecimento máximo de benefício por unidade oferecida. Ênfase nos benefícios funcionais. • Distribuição massificada, explorando ao máximo canais populares. • Relativa sensibilidade a preços – mais pelo mesmo ou o mesmo por menos (computadores “clonados”, p.ex.). • Há um dilema: enquanto experimentam a necessidade de conciliar o orçamento doméstico com as despesas correntes, há o sentimento de progressão econômica que leva o consumo por status, estilo de vida, grupos de referência e papéis e/ou posições sociais. • Comunicação deve enfatizar os benefícios sociais (respostas positivas que os consumidores recebem de outras pessoas por comprar/usar determinado produto) e os pessoais (bons sentimentos que os consumidores experimentam pela posse ou uso de um bem ou serviço). • Distribuição seletiva, segmentada de acordo com fatores sócio-demográficos dos públicos- alvo. • Praticamente inexiste sensibilidade a preços. • Necessidade inequívoca de compatibilizar preço alto com alta qualidade – mais por mais (maior custo para cobrir alta qualidade) –, facilmente distinguíveis. • Comunicação ressaltando benefícios experimentais (prazer sensorial que os clientes obtêm com produtos e serviços). • Distribuição “exclusiva”, compatível com o que se espera de produtos “premium”. Fonte: Carioni, 2006. . Quadro 2.3 – Ambiente homogêneo x ambiente heterogêneo Elemento do composto Homogêneo Heterogêneo Produto Produtos standard, sem grande diferenciação. A produção está preocupada em oferecer benefícios funcionais que atendam o maior número possível de consumidores. Produtos customizados, levando em conta as características das demandas de cada segmento identificado. Preço Praticamente padrão, com pouca variação, em virtude da uniformidade dos custos de produção. Variáveis, de acordo com os valores agregados aos produtos, quem busca a satisfação de demandas individuais. Promoção Composto promocional reconhece a homogeneidade e trabalha com mídias e mensagens padrão, sem nenhum tipo de particularização. Mensagens e mídias próprias a cada segmento, considerando as características de consumo próprias a cada grupo de consumidores. Distribuição Mais abrangente possível, disponibilizando os produtos no maior número possível de pontos de venda. Seletiva, adaptadas ao perfil dos diversos grupos previamente identificados, respeitando suas características determinantes. Fonte: Carioni, 2006. 41 Marketing Posto isso, faz-se relevante agora estudar um outro grupo fundamental na vida de qualquer organização: a concorrência. Análise da concorrência: grupos estratégicos de concorrência Para que se possa analisar a concorrência de uma empresa, primeiro é preciso que cada empresa defina qual é a sua concorrência, ou seja, quem, dentro do setor em que ela atua, realmente concorre diretamente com ela. Assim, mesmo que uma empresa atue na área de alimentação, trabalhando com sucos e sanduíches (tipo hambúrguer), ela pode não ser concorrente direta de um McDonald´s, em razão de haver diferenças significativas na sua maneira de atuar. Então, o que você precisa considerar são aspectos relacionados às estratégias que elas empregam para atingir seu público consumidor. Porter (2004) chama esses concorrentes diretos de grupo estratégico de concorrentes, pois, segundo ele, “estão seguindo uma estratégia idêntica ou semelhante ao longo das dimensões estratégicas” (p.135). Grupos estratégicos de concorrentes, portanto, são conjuntos de empresas que estão seguindo estratégias idênticas ou semelhantes em termos de dimensões estratégicas (produto/serviços, qualidade, promoção, preço, distribuição/entrega, recursos etc.) Já as dimensões estratégicas são aspectos que caracterizam determinadas opções de natureza estratégica, cuja adoção varia de empresa para empresa dentro de um setor. As dimensões de uma empresa formam, em geral, um conjunto internamente consistente. Em função de suas estratégias parecidas, as empresas pertencentes a um grupo estratégico específico tendem a ter parcelas de mercados semelhantes, além de serem afetadas e reagirem de forma semelhante a acontecimentos externos ou a movimentos competitivos. Exemplificando: se todas as empresas de um setor seguirem as mesmas estratégias, visarem aos mesmos segmentos de mercado e operarem com as mesmas linhas de produtos, haverá só um grupo estratégico. O mais comum, porém, é que haja um pequeno número de grupos estratégicos em cada setor. Leia, a seguir, as principais dimensões estratégicas que devem ser analisadas para saber quem pertence a qual grupo estratégico: 1. Especialização: o grau em que uma empresa concentra seus esforços em termos de segmentos de mercado, áreas geográficas atendidas e amplitude de linhas de produtos/serviços; 42 Capítulo 2 2. Identificação de marcas: o quanto a empresa reforça sua marca, tentando evitar, sobretudo, a competição por preço; 3. Política e seleção de canais de distribuição: como a empresa coloca seus produtos ou serviços no mercado (por meio de distribuidores, representantes etc., ou se o faz diretamente) e como ela se relaciona com esses canais; 4. Qualidade dos produtos ou serviços: qual o nível de qualidade perseguido; 5. Liderança tecnológica: se a empresa procura sempre estar “na ponta” em termos de tecnologia, lançando as novidades ou se é uma seguidora ou imitadora; 6. Posição com relação a custo: até que ponto a empresa prioriza buscar economias na produção e na distribuição de seus produtos ou serviços; 7. Atendimento: o quanto a empresa investe em atendimento pré e pós-venda, garantia, assistência técnica, apoio on-line etc.; 8. Política de preços: qual a posição relativa da empresa dentro da estrutura de preços do setor, se ela opera com preços premium (preços sempre superiores aos demais concorrentes), na média do mercado ou se destaca por seus preços baixos. Além dos pontos acima relacionados, para cada setor a ser estudado pode haver características especiais, que devem ser incluídas nas dimensões estratégicas a serem analisadas. Nem sempre é possível conhecer detalhes aprofundados da concorrência, o que valoriza a necessidade de haver uma busca constante por informações que possam traduzir as dimensões pelas quais operam os nossos concorrentes, de maneira a nos tornar competitivos, ao antecipar nossa reação às movimentações no mercado. Voltando ao exemplo do sanduíche já apresentado,imagine que você, ao iniciar um planejamento de marketing para uma lanchonete de bairro chamada “Pães e Ovos”, deseja definir quais são seus grupos estratégicos de concorrentes. Será que a Pães e Ovos concorre com o McDonald´s? Ou com o Bob´s? Nós diríamos que nem com um e nem com outro, apesar de, numa simplificação grosseira, alguém poder argumentar que todas elas vendem sanduíches. Mas, se você olhar os pontos relacionados anteriormente, pode ver que, em termos de especialização (notadamente em relação aos segmentos de mercado atendidos e às áreas geográficas atendidas), de identificação de marcas, de distribuição de seus produtos e de liderança tecnológica, percebe-se que o McDonald´s e o 43 Marketing Bob´s operam com outras dimensões estratégicas, razão pela qual não são concorrentes diretos do nosso feliz empresário do ramo alimentício proprietário da Pães e Ovos! Quando se chega à definição do(s) grupo(s) estratégico(s) de concorrentes, é preciso, então, avaliar cada um dos componentes de cada grupo, conforme suas principais características; bem como de que forma cada um pode representar uma ameaça ou uma oportunidade para a nossa empresa. Mais um exemplo: imagine que a empresa na qual você trabalha (“Nossa Saúde”) opera na prestação de serviços de saúde e identificou seu grupo estratégico de concorrentes. Para esta situação foi possível elaborar um quadro para análise da seguinte maneira: Quadro 2.4 – Exemplo empresa Nossa Saúde Grupo Características Oportunidades* Ameaças* Diretos Podem operar estruturas dentro das empresas, ou por meio de convênios. Têm facilidade para oferecer serviços, tomar decisões diretamente relacionadas aos interesses dos profissionais que representam ou assistem. Serviço pago, com diversos níveis de custo. Alguns dos serviços cobrados podem ter preços muito competitivos. Qualidade e credibilidade do serviço prestado variável, porém, pelo perfil dos mantenedores, podem oferecer for te apelo de valor. Interrupções de atendimento são muito raras, com baixa incidência de greves. Materiais e instalações variáveis, assim como perfil dos profissionais envolvidos. A Nossa Saúde pode buscar parcerias. A Nossa Saúde dispõe de qualificação suficiente para fazer frente às ofer tas desses concorrentes. Temos capacidade para formatar serviços de acordo com o interesse do cliente. É possível priorizar os seus interesses. Têm postura pró- ativa e agressiva para ampliar sua par ticipação de mercado. Podem se adaptar para conquistar acesso ao nosso mercado, ampliando suas áreas de interesse. Cooperativas médicas, clínicas par titulares e fundações mantidas por empresas. 44 Capítulo 2 Grupo Características Oportunidades* Ameaças* Indiretos Serviço gratuito. Qualidade e credibilidade do serviço variável de acordo com a localidade. Sujeito a interrupções (greves). Sujeito a falta de medicamentos e material para exames. Número de profissionais insuficiente para o atendimento, além de qualificação variável conforme a localidade e precariedade em muitas das instalações. A Nossa Saúde é especializada no atendimento ambulatorial, profilático e na realização de exames de rotina. Nossas instalações são adequadas, com projeto customizado para as nossas atividades. Nossos profissionais são altamente qualificados, com atualização constante e com remuneração acima da media do mercado, notadamente aos do sistema público de saúde. Temos capacidade de atendimento perfeitamente planejada de acordo com as demandas das regiões onde atuamos. Pela gratuidade dos serviços prestados, é previsível um aumento da demanda por conta da queda de renda média da população. O governo vem investindo na melhoria dos serviços. Cooperativas médicas, clínicas par titulares e fundações mantidas por empresas. * Oportunidades e ameaças que os concorrentes oferecem para a própria empresa. Fonte: Carioni, 2006. . Aqui nós concluímos o estudo da análise do macroambiente e da concorrência. A seguir, vamos analisar o outro lado da “moeda”, o ambiente interno. 45 Marketing Seção 2 Análise do ambiente interno As variáveis internas são aquelas que, como diz Costa (1987), podem ser controladas de acordo com os interesses da empresa. Entre elas, estão as características e funcionalidades relativas ao produto, as políticas de preço, as estratégias de comunicação adotadas e os meios utilizados para colocar o produto ao alcance dos consumidores. Na análise desse ambiente busca-se identificar: • Pontos fortes – características positivas da organização, que a tornam mais competitiva frente a seus concorrentes, ou podem torná-la, se bem explorados e fortalecidos; • Pontos fracos – características que já prejudicam o desempenho da empresa, ou podem vir a prejudicá-la, se não forem eliminados ou minimizados. A diferença, então, entre o ambiente interno e externo, é que, nas situações percebidas no ambiente externo às organizações (ameaças e oportunidades), não há possibilidade de ingerência, de interferência por parte dos gestores do negócio. Considerando, por exemplo, uma empresa em que a variação cambial produz efeitos diretos sobre a sua competitividade, a brusca e frequente variação do dólar, apesar de potencialmente perigosa ou favorável, não pode ser objeto de ação dessa empresa, já que sua ocorrência não dependerá dela. O que pode ser feito, efetivamente, é a busca de alternativas à dependência cambial, de maneira a minimizar os impactos sobre seu negócio. Já os pontos fortes e fracos são características distintivas próprias a cada empresa, ou seja, depende delas próprias a capitalização de suas forças e a minimização ou supressão de suas fraquezas. Num ambiente de forte competição, um exemplo de um ponto fraco seria a demora por parte de uma empresa em interpretar os desejos de seus consumidores, ou mesmo a dificuldade em gerar comunicação favorável e persuasiva para seus públicos-alvo. Já como um ponto forte pode-se considerar uma estrutura de custos que lhe permita cobrar preços mais baixos sem prejuízo à funcionalidade de seus produtos ou mesmo aos benefícios oferecidos. Para descobrir quais são os pontos fortes da empresa, algumas perguntas- chave são feitas: 46 Capítulo 2 • Quais características essa empresa têm que a torna diferente, no sentido positivo, de sua concorrência?; • O que ela possui que a destaca positivamente frente a seus clientes, consumidores e usuários?; • Por que alguém compra seus produtos, em detrimento dos produtos de sua concorrência? Quanto aos pontos fracos, a questão principal é: • Quais aspectos internos à empresa tornam seus produtos/ serviços menos atraentes frente aos cliente/consumidor/usuário em comparação à concorrência? Uma avaliação de pontos fortes e fracos de uma empresa pode, à primeira vista, parecer mais fácil de realizar do que uma avaliação do ambiente externo (ameaças e oportunidades). Isso porque a análise do macroambiente demanda informações nem sempre facilmente disponíveis, o que depende da identificação de fontes (primárias e secundárias) e da elaboração de cenários em cima de conjecturas. Contudo, existe uma certa dificuldade por parte das empresas na avaliação de seu ambiente interno, uma vez que se torna necessária a adoção de uma postura crítica ao lançar vistas para si própria, ou seja, é preciso uma boa dose de humildade. Afinal, não é fácil para ninguém enxergar seus “defeitos”, mas, sim, suas qualidades. Tal dificuldade é ressaltada quando a administração do negócio é familiar, ou a cultura corporativa muito “fechada”, dando a entender uma espécie de autossuficiência organizacional. Para resolver isso, uma alternativa é envolver tanto os colaboradores como os fornecedores, clientes e consumidores ou, até mesmo, consultores externos à organização, de maneira a enriquecer a avaliação e o debate com outras opiniões. Por fim, é importanteentendermos que nem todos os pontos fortes são relevantes e necessitam receber atenção, o mesmo ocorrendo com os pontos fracos. É preciso considerar se tais forças representam diferenciais que fortaleçam a competitividade da empresa ou, no caso de fraquezas, se significam, de alguma forma, perda de capacidade estratégica do negócio. 47 Marketing O Composto de Marketing Entre as variáveis internas, estão alguns elementos que merecem atenção diuturna por parte dos profissionais de marketing, em razão de sua influência na capacidade de a empresa responder às expectativas do mercado consumidor. Esses elementos são o composto de marketing (também conhecido como composto mercadológico e marketing mix), tradicionalmente relacionados aos 4Ps. Os 4Ps foi um termo cunhado na década de 1960 pelo professor Jerome McCarthy — e popularizado por Kotler (1994) —, que procurou classificar os elementos de uma maneira que permitisse facilidade de lembrança e popularização de seu conceito. Os 4Ps, expressos no original inglês como product, price, promotion e place, são: • o produto; • o preço; • a promoção; • a praça (ou ponto de venda). A seguir, acompanhe em detalhe cada elemento: 1. O produto consiste na disponibilização de algo, por parte da empresa, que possa suprir os estados de carência de seus consumidores, que lhes ofereça benefícios, aquilo que eles buscam para troca; 2. O preço é a expressão monetária que serve à função de parametrizar o quanto cada uma das partes vai precisar disponibilizar para que haja a troca pretendida. Se falarmos de dinheiro, é quanto o consumidor vai precisar entregar para receber o que está querendo; 3. A promoção (ou comunicação) diz respeito a todo o aspecto comunicacional que se estabelece entre a empresa e seus mercados. São as propagandas, promoções de venda, entre outros meios utilizados para informar sobre a existência do produto, suas características e utilidades, seus diferenciais, o que o torna conhecido e lembrado; 48 Capítulo 2 4. A praça (ou ponto de venda), refere-se a todas as atividades desenvolvidas pela empresa para colocar os produtos à disposição dos consumidores, na hora e lugar desejados e, sobretudo, em condições ideais para consumo. A administração do composto de marketing (figura a seguir) é de responsabilidade dos profissionais de marketing, por tratar do gerenciamento de ferramentas que estão a serviço da própria empresa, permitindo-lhe ser eficiente e eficaz nas iniciativas em busca da satisfação de seus consumidores. Figura 2.1 - Os 4 Ps do mix de marketing Fonte: Adaptado de Kotler e Keller, 2013. De acordo com Kotler e Keller (2013), em virtude da abrangência, complexidade e riqueza do marketing nos dias de hoje, os 4 Ps não mais representam integralmente o cenário do marketing moderno. Para esses autores, há que se incluir as pessoas, processos, programas e performance. As pessoas refletem o ambiente interno (colaboradores) e os consumidores (mas não somente como alguém que compra e consome produtos; as empresas devem ver os consumidores como pessoas e compreender suas vidas em toda a 49 Marketing sua amplitude). Já os processos refletem toda a criatividade, a disciplina e a estrutura incorporadas à administração de marketing. Os programas representam todas as atividades da empresa direcionadas ao consumidor. Eles englobam os 4 Ps e quaisquer outras atividades — que devem sempre estar integradas — de marketing. Já a performance captura o leque de possíveis indicadores de resultados que tenham implicações financeiras e não financeiras, e implicações que transcendem a própria empresa (responsabilidade social, no contexto jurídico, ético e comunitário). Para efeitos dos nossos estudos aqui, falaremos apenas dos 4 Ps, mas agora com o conhecimento dos outros quatro. Inter-relações e visão integrada do composto de marketing O importante é, primordialmente, conhecer ao máximo o perfil e as características dos consumidores a quem se pretende atingir para, então, determinar a formulação adequada de cada um dos elementos do composto de marketing. A administração do composto de marketing, conforme visto, dá condições à empresa de atender satisfatoriamente seus consumidores. Sendo variáveis do ambiente interno, a principal responsabilidade de seus gestores deve ser equilibrá-las plenamente nos seus “pontos de contato” ou interações com os clientes, de maneira a integrá-los funcional e comercialmente. Veja o exemplo a seguir: 50 Capítulo 2 Se a intenção é ocupar um lugar de destaque no mercado de alto luxo, o produto tem de estar de acordo com as expectativas de qualidade do público-alvo, ou seja, dos consumidores de alta renda; o preço deve transmitir o valor relativo à qualidade sinalizada, sendo fixado num nível acima da média do mercado; a propaganda e todas as outras formas de comunicação com os consumidores devem conter elementos que incorporem a linguagem própria àquele perfil de público; e os locais onde o produto vai estar disponível devem estar de acordo com o perfil do consumidor desejado, apresentando luxo, sofisticação e exclusividade. Além disso, de nada adianta ter um bom produto se o preço cobrado não permite sua aquisição por parte dos consumidores pretendidos. Também seria difícil obter êxito oferecendo produtos populares em locais onde há concentração de pessoas com alto poder aquisitivo. Da mesma maneira, a utilização de uma linguagem sofisticada para apresentar e provocar desejo de consumo em produtos destinados a crianças. É relevante, portanto, que sempre se leve em conta que a tomada de decisão em relação a qualquer variável integrante do composto de marketing gera impacto sobre todas as demais. Eswsa visão integrada faz parte da visão do marketing como uma filosofia, que impregna toda a organização, de maneira a gerar comprometimento em todos os seus níveis. Referências CARIONI, Rodrigo. Gestão de marketing I: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2006. COSTA, Jane Iara Pereira da. Marketing: noções básicas. Florianópolis: Imprensa Universitária, 1987. KOTLER, P. Administração de Marketing: análise, planejamento e controle. 4a. ed. São Paulo: Atlas, 1994. KOTLER, Philip; KELLER, Kevin L. Administração de marketing. 14. ed. São Paulo - SP: Pearson Education do Brasil Ltda, 2013. PORTER, Michael E. Estratégia competitiva: técnicas para análise de indústrias e da concorrência. 2ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1986. PORTER, Michael E. Estratégia competitiva: técnicas para análise de indústrias e da concorrência. 2ª ed., 7ª reimpressão. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. 51 Capítulo 3 O Composto de Marketing (4 Ps) Seção 1 Produto Você estudou que as pessoas têm necessidades e desejos e que a função de uma empresa orientada para o mercado é justamente atender a essas pessoas da melhor maneira possível. Por isso ela busca conhecer o perfil de seus consumidores, de maneira a lhes oferecer algo de valor que seja traduzido em benefícios. O que a empresa tem à disposição para oferecer são os seus produtos e serviços, os quais representam aquilo que vai dar condições à sua sobrevivência, por meio da sua comercialização(troca) com os consumidores, gerando-lhes lucros. Ou seja, produto é aquilo que é entregue ao consumidor e que gera satisfação na medida em que é consumido, apreciado ou utilizado. Como você já estudou, as trocas são as possibilidades que as pessoas têm de encontrar sua realização, desde as necessidades mais básicas ligadas à fisiologia até as mais sofisticadas, relacionadas à autorrealização. E justamente nesse espaço propício a trocas é que as empresas encontram meios para criar distinção de sua imagem ou de seus produtos, buscando o estabelecimento de relações estáveis e duradouras com seus consumidores. Os atributos básicos não permitem, no entanto, uma diferenciação suficiente para que os consumidores decidam entre uma ou outra oferta. Eis o motivo pelo qual as empresasbuscam constantemente o aperfeiçoamento de seus produtos, de maneira a gerar singularidade na oferta para, com isso, tornarem-se os preferidos por parte dos consumidores. É a tentativa de encantar os consumidores, oferecendo agregação de valor por meio da marca, da embalagem, de serviços ou de atributos de desempenho. 52 Capítulo 3 No coração de uma grande marca está um grande produto. O produto é um elemento essencial na oferta de mercado. Para obter liderança de mercado, as empresas devem oferecer bens e serviços de qualidade superior que ofereçam valor insuperável ao cliente. (KOTLER; KELLER, 2013, p. 347). Características e classificação dos produtos De acordo com Kotler e Keller (2013), o produto inclui bens físicos, serviços, experiências, eventos, pessoas, lugares, propriedades, organizações, informações e ideias. Ao planejar sua oferta ao mercado, o profissional de marketing, segundo esses autores, deve pensar em cinco níveis de hierarquia. A cada nível o valor aumenta; é a chamada hierarquia de valor para o cliente, conforme ilustração na Figura 3.1. • O benefício central do produto é o serviço ou benefício que o consumidor está de fato comprando, como, por exemplo: a compradora de um shampoo está comprando um “cabelo limpo”. • No próximo nível, o profissional de marketing deve transformar o benefício central em um produto básico. Ou seja, o shampoo tem perfume, detergentes para tirar a gordura do couro cabeludo etc. • No nível 3, é preparado um produto esperado: vários atributos e condições que os compradores normalmente esperam encontrar: shampoo cheiroso, com sal na medida certa, que limpe de forma adequada os cabelos. • O nível quatro é o produto ampliado, que excede as expectativas do cliente; que entrega como resultado um cabelo macio, sedoso, bem tratado, glamouroso. • E o quinto e último nível é o produto potencial, que abrange todos os incrementos e transformações a que o produto ou a oferta devem ser submetidos no futuro. Posto isso, cabe a cada empresa e aos seus profissionais de marketing observar o seu público-alvo e seu sistema de consumo, além de descobrir em qual(is) nível(is) atuar e competir. 53 Marketing Figura 3.1 – Hierarquia de valor para o cliente Benefício central Produto básico Produto esperado Produto ampliado Produto potencial Fonte: Adaptação de Kotler e Keller, 2013, p. 348. Classificação dos produtos Os produtos, para Kotler e Koller (2013), são classificados de acordo com suas características de durabilidade/tangibilidade e uso (consumo ou industrial); e cada situação vai exigir uma estratégia diferente. a) Em relação à durabilidade/tangibilidade: 1. Bens não duráveis: são normalmente bens tangíveis que são usados uma ou poucas vezes, como um litro de refrigerante, uma esponja de lavar louça etc. Como são consumidos relativamente em pouco tempo e comprados com certa frequência, devem estar disponíveis em muitos locais e as margens de lucros costumam ser baixas. 2. Bens duráveis: são normalmente bens tangíveis usados por período considerável, como carros, roupas e eletrodomésticos. De modo geral, demandam venda pessoal e serviços, trabalham com margens de lucro maiores e requerem mais garantia das fábricas. 3. Serviços: são intangíveis, inseparáveis, variáveis e perecíveis e “normalmente exigem mais controle de qualidade, credibilidade e adaptabilidade” (KOTLER; KELLER, 2013, p. 349). Exemplos: manicure, conserto de aparelhos, terapias etc. 54 Capítulo 3 Os bens, conforme você viu, são tangíveis e podem ser tocados, estocados, têm fisicalidade. Exemplos: livro, TV, camisa, garrafa de água etc. Já os serviços são intangíveis, não podem ser tocados e nem estocados. Exemplos: uma peça de teatro, uma consulta médica, um corte de cabelo etc. Apesar disso, muitas vezes, na produção desses serviços, também há o envolvimento de produtos, tais como serviço de restaurante, oficina mecânica etc. Algumas das diferenças básicas entre bens e serviços, segundo Lovelock e Wright (2000) são: • os clientes não obtêm propriedade dos serviços: extraem valor dos serviços sem obter propriedade permanente de qualquer elemento tangível; • os produtos gerados pelos serviços são realizações intangíveis: ao contrário dos bens, nos quais os benefícios provêm de atributos físicos, nos serviços os benefícios advêm da natureza da realização, ou seja, os consumidores não podem tocar, embrulhar ou carregar a realização do serviço; • há maior envolvimento dos clientes no processo de produção: clientes e/ou os bens do cliente e o prestador de serviços devem estar presentes. Reside aí a “inseparabilidade”. O “show” só acontece se cantor e público estiverem no mesmo local; assim como o conserto do carro, que só acontecerá se o carro (bem do cliente) e o mecânico estiverem juntos; • outras pessoas podem fazer parte do produto: uma viagem aérea, por exemplo, é um serviço no qual o passageiro usufrui o benefício ao mesmo tempo que os demais passageiros. Já voltando ao exemplo do item anterior, a peça de teatro, as pessoas compartilham a realização da peça ao mesmo tempo que outras pessoas o fazem; • há maior variabilidade nos insumos e produtos operacionais: o fato de haver pessoas envolvidas na prestação do serviço — tanto na produção quanto no consumo — faz com que se torne difícil controlar a variação nos resultados. Essa variabilidade pode ser observada na recepção de um hotel, por exemplo: quando você se hospeda, ao meio dia, encontra um recepcionista extrovertido, que logo começa a bater papo e a falar das atrações da cidade. À noite, você encontra outro recepcionista, que embora tenha recebido o mesmo treinamento do primeiro e também seja atencioso e simpático, é totalmente introvertido e só responde ao que lhe é questionado. Nesse exemplo, essa variabilidade pode ter o lado 55 Marketing bom: dependendo do cliente, o hotel pode disponibilizar um ou outro recepcionista. E pode ter o lado ruim, que é a perda do padrão de atendimento, o que pode ser resolvido com mais treinamento. • os serviços são de difícil avaliação pelos clientes: os clientes precisam efetivamente contratar a realização do serviço para saberem se o resultado sairá ou não a contento. Ao contrário da aquisição de uma roupa, que o cliente pode provar e verificar sua adequação ao seu tamanho e gosto, um cliente só vai saber se a cirurgia plástica que ele contratou sairá de acordo com sua expectativa, após submeter-se ao bisturi do cirurgião; • ausência de estoques: o cliente não pode estocar os serviços, ou seja, não dá para o cliente comprar um atendimento dentário, estocar e depois usar. Ele precisa “consumir o serviço”, ou seja, deve receber o tratamento na hora marcada. Da mesma forma, a companhia aérea que não pode, por exemplo, estocar um assento não vendido na sexta-feira de manhã para vendê-lo na sexta à noite, quando a procura é maior; • o fator tempo é relativamente importante: como existe a necessidade da presença do cliente no momento da oferta do serviço, há um limite de tempo que quem está recebendo o serviço está disposto a dedicar. Sendo o tempo um fator muito importante para todos hoje em dia, é importante que a expectativa do cliente não seja ultrapassada, sob risco de gerar insatisfação e impossibilitar o estabelecimento de uma relação com a empresa; • sistemas de entrega podem envolver canais eletrônicos e físicos: muitos prestadores de serviço podem combinar meios eletrônicos para a entrega do benefício. Assim, um banco, por exemplo, além das agências, prestam serviços por meio de canais eletrônicos, como internet e caixas eletrônicos. O entendimento dos conceitos, características e peculiaridades do setor de serviços torna-se cada vez mais relevante à medida que o setor cresce no Brasil e no mundo, contribuindo para a geração de empregos e crescimento da economia. Há quem diga que “vender” serviços é muito mais difícil que bens.Isso porque, na maioria das vezes, a contratação de um serviço assemelha-se a uma promessa, pois não há certeza que o que se vai receber será 100% igual ao que se espera. Alguns autores dizem que o desafio dos profissionais do marketing, em relação aos serviços, é conseguir “tangibilizar” (tornar palpável) o intangível (aquilo que não se pode tocar). Um exemplo poderia ser investir na fachada, limpeza e no estacionamento de uma oficina mecânica para impressionar o cliente que pouco ou nada sabe daquela oficina. 56 Capítulo 3 b) Em relação ao uso: 1. Bens de consumo: são adquiridos para uso próprio ou da família. Podem ser classificados, em termos de hábitos de compra, como: · Bens de conveniência: aqueles que o consumidor compra com frequência, imediatismo e um mínimo de esforço; tais como: caneta, sabonete, biscoito etc. Os básicos são aqueles comprados com regularidade (ex.: ketchup Heinz). Os bens de impulso são adquiridos sem nenhum planejamento ou esforço de busca (ex.: chocolates, revistas). E os bens de emergência são comprados quando surge uma questão urgente (ex.: sombrinha em dia de chuva); · Bens de compra comparada: são aqueles que o cliente costuma comparar em relação à qualidade, preço, modelo etc. Exemplos: móveis, carros, roupas etc. · Bens de especialidade: possuem caraterísticas e/ou identificação de marca singulares e únicas e há um número suficiente de consumidores que está disposto a fazer um esforço extra (tempo, energia, dinheiro) de compra. Uma Ferrari, por exemplo, pode ser classificada como bem de especialidade, pois não envolverá comparações e há consumidores dispostos a se esforçarem para comprá-la. · Bens não procurados: são aqueles que o consumidor não conhece ou não tem interesse ou pensa em comprar. Exemplos: jazidos, seguro de vida etc. 2. Bens industriais: são adquiridos para uso da organização e podem ser divididos em materiais e peças; bens de capital (instalações, equipamentos etc.); suprimentos e serviços empresariais (exemplos: tinta, pregos, vassoura, serviços de manutenção, reparo, consultoria jurídica etc.). Composto de produtos e linhas de produto A maior parte das organizações comercializa mais de um produto. O conjunto completo de produtos oferecidos para venda por uma organização é conhecido como composto de produtos da organização, variedade de produtos ou portfólio de produtos. (CHURCHILL JR. e PETER, 2007, p. 251). A Figura 3.2 mostra um exemplo de composto de produtos da loja Tok & Stok. 57 Marketing Figura 3.2 – Composto de produtos Tok & Stok Quarto Banquinho Bubu 1º Carrinho Rock Cama Rock Porta-retratos Olga Luminária Girassol Baú Feliz Pinch Criado Mudo Escritório Luminárias Cestos Roller Tubo CDs Chapa perfurada Clean recados Porta-lápis Linha Lótus Linha Dix Sala Sofá Home Luminária Pilar Poltrona Sofia Tapetes variados Linha Manilla Estante Fort Estante Fortify Mesa Dart Fonte: Churchill Jr. e Peter, 2007, p. 252. Segundo esses autores, um portfólio de produtos pode ser composto por várias linhas de produto, ou seja, grupos de produtos que possuem os mesmos tipos de características, canais, clientes ou usos comuns. A Figura 3.3 apresenta algumas linhas de produtos da empresa Parmalat: biscoitos, leite longa vida, massas etc. Os profissionais de marketing avaliam um composto de produtos considerando: • Extensão: diz respeito ao número de linhas de produtos comercializados pela empresa. No exemplo da Parmalat há cinco linhas de produtos. Observa-se que uma estratégia de variar as ofertas dentro de uma linha de produtos é torná-la mais profunda, ou seja, “estica-se” a linha de produtos, variando normalmente os sabores, modelos, tamanhos. Essa estratégia é chamada “extensão de linha”. Ao longo do tempo, os profissionais de marketing da empresa podem escolher continuar com as linhas de produtos, modificar produtos ou até linhas inteiras, adicionar novos produtos ou até mesmo linhas inteiras e remover produtos e linhas. • Profundidade: diz respeito ao número de produtos em cada linha de produtos. No exemplo da Parmalat, a linha de biscoitos possui uma profundidade de treze. • Consistência: refere-se à similaridade das linhas de produto em relação à matéria-prima (farinha, produtos agrícolas), aos requisitos de produção (mistura de ingredientes alimentícios) e aos canais de distribuição (supermercados) etc. 58 Capítulo 3 Figura 3.3 – Linhas de produto Parmalat Biscoito de leite com recheio de chocolate vitaminado Biscoito de leite com coco vitaminado Recheado vitaminado morango Wafer morango/wafer chocolate Palitos de chocolate Coberto de chocolate Biscoito água e sal Maria vitaminado Biscoito maizena vitaminado Parmalat integral Parmalat semi-desnatado Parmalat desnatado Parmalat dietalat Parmalat light Parmalat lactose reduzida Alimba semi-desnatado Alimba desnatado Spaghetti Spaghettini Fettuccini Cavatappi Farfalle Fusilli Penne Rigate Rigatoni Cereal de milho com chocolate Choco Bol Cereal de aveia com marshmallows Corn Flakes Polpa de tomate Molho de tomate Tomate sem pele em pedaços Derivados de tomateCereais ParmalatMassasLeite longa vidaBiscoitos EXTENSÃO PR O FU N D ID AD E Fonte: Churchill Jr. e Peter, 2007. As estratégias de composto de produtos devem de estar de acordo com os objetivos da organização, seu posicionamento e as necessidades dos consumidores. Em muitos casos, à empresa interessa trabalhar com baixa amplitude em razão da especificidade dos produtos para os quais mantém capacidade produtiva. Em outros, a profundidade demonstra que os consumidores têm um perfil afeito às inovações, e por esse motivo é conveniente que a empresa tenha várias opções de um mesmo produto para atendê-los. Ciclo de vida do produto Tal qual as pessoas, os produtos nascem, crescem e morrem. A verdade é que alguns demoram muito tempo para desaparecer do mercado (a Coca-Cola, por exemplo, está há mais de 100 anos no mercado, mostrando fôlego para outros tantos), enquanto outros têm uma vida extremamente breve (caso de algumas modas, em que um produto tem uma vida restrita a uma estação do ano). É importante que a empresa promova frequentes avaliações quanto ao estágio do ciclo de vida de cada um dos produtos de seu portfólio, para fins de definição das estratégias mais adequadas a cada um deles. De acordo com Dias et al. (2004), o ciclo de vida de um produto possui quatro estágios: introdução, crescimento, maturidade e declínio. A seguir, acompanhe as principais características de cada estágio. 1. Na introdução, em razão dos altos custos relacionados à pesquisa e desenvolvimento e às despesas de lançamento, os lucros são praticamente inexistentes, ou muito baixos. As vendas crescem 59 Marketing lentamente, pelo desconhecimento do produto por parte do mercado. Há quatro possíveis estratégias para esse estágio: · Desnatamento lento: significa lançar o produto a um preço elevado e com pouco investimento em divulgação. Aplica-se a situações nas quais o mercado é limitado, os consumidores possuem expectativa em relação ao produto e não há iminência de concorrência; · Desnatamento rápido: consiste em lançar o produto a um preço elevado com muito investimento em divulgação. É utilizado quando o mercado está ansioso por experimentar o produto, sem importar-se com o preço e com a concorrência potencial; · Penetração lenta: significa lançar o produto a um preço baixo e com poucos recursos gastos em divulgação. É utilizada quando há concorrência potencial, o mercado é amplo e os consumidores são sensíveis a preço (se importam com o preço) e altamente conscientes da existência do produto; · Penetração rápida: consiste em lançar o produto a um baixo preço e com muita promoção. Utiliza-se quando há forte concorrência, o mercado é amplo e desconhece o produto. Neste estágio do ciclo de vida, a preocupação básica é estabelecer um mercado para o produto, persuadindo os consumidores a comprá-lo. Paraisso, a empresa procura proporcionar qualidade compatível com a expectativa do consumidor e selecionar uma boa marca. A política de preços vai obedecer aos objetivos de marketing pré-definidos, como você acompanhou acima. As mensagens veiculadas na propaganda ou em outras ferramentas de comunicação são voltadas para a instrução do uso do produto, e os canais de distribuição são em número limitado, uma vez que há necessidade de controle das vendas e não existe tanto interesse do intermediário por tratar-se de produto novo. 2. No estágio de crescimento, ocorre uma rápida expansão das vendas, uma vez que os adotantes iniciais aprovaram o produto e a maioria dos consumidores começa a comprá-lo. A concorrência começa a surgir, com produtos semelhantes, mas com a introdução de várias características que buscam a distinção entre eles. A empresa vê a necessidade de continuar investindo em divulgação, para fortalecer a imagem da marca, defender- 60 Capítulo 3 se da concorrência e sustentar o bom volume de vendas que se prenuncia. Os lucros aumentam significativamente por causa da diminuição dos custos de produção motivados pela experiência da empresa na fabricação e pelas possibilidades de ganho em escala. Para sustentar o crescimento das vendas, a empresa passa a adotar estratégias, como a introdução de atributos que gerem diferenciação no produto, o acréscimo de novos modelos e a busca de novos segmentos de mercado, a procura do maior número possível de canais de distribuição, de modo a ampliar a capilaridade da oferta, e passa a investir na comunicação que enfatize a relação do produto com os consumidores, buscando a sua preferência em detrimento de outros. O objetivo principal neste estágio é aumentar as vendas e a participação de mercado por meio do desenvolvimento da preferência pela marca. Busca-se, também, acrescentar serviços para aumentar o valor da oferta, o que ocorre, ainda, pelo incremento da qualidade. Em razão da alta demanda, é possível cobrar um preço médio elevado, o que deve ser conjugado à procura do maior número possível de locais para a disponibilização do produto. E a comunicação segue centrada nos benefícios oferecidos pela marca. 3. No estágio de maturidade, a curva de vendas do produto se estabiliza. Em função disso, o volume de produção começa a tornar-se superior à demanda, o que faz com que haja um acirramento da concorrência e uma consequente queda de preços. Torna-se necessário sustentar a propaganda, o que, associado à queda de preços, começa a corroer a lucratividade da empresa. As estratégias para esse estágio são, segundo Kotler (1994): · a modificação do mercado, por meio da conversão de não usuários em usuários, pela entrada em novos segmentos de mercado e pela conquista de consumidores dos concorrentes; · a modificação do produto, por meio da melhoria da qualidade, de características e de estilo; a modificação do composto de marketing, de maneira a adequá-lo à realidade e aos novos tempos (redução/aumento de preço, canais de distribuição novos/ alternativos, promoção de vendas, aumento do número/ qualidade da venda pessoal, acréscimo/criação de serviços). 61 Marketing Em resumo, o que se procura neste estágio é a defesa de participação de mercado e a procura de crescimento por meio da incorporação de clientes novos e da concorrência. Para isso, a empresa conta com a possibilidade de melhorar a qualidade do que é oferecido, acrescentando recursos que tornem sua oferta diferente da concorrência. Isso acaba por forçar uma queda de preços, reflexo da intensificação da concorrência, e uma busca do maior número possível de canais de distribuição que trabalhem em parceria, estimulados por incentivos oferecidos. Já a comunicação é centrada na busca de diferenciação da concorrência. 4. Por último, no estágio de declínio o que ocorre é a queda pronunciada do volume de vendas e, consequentemente, dos lucros. As razões do declínio podem ser por avanços tecnológicos (surgimento de novas ou melhores tecnologias), por fatores demográficos (diminuição do número de nascimentos, aumento da escolaridade, envelhecimento da população) ou socioculturais (mudanças de valores, de crenças ou gostos). Sob responsabilidade da empresa, é necessário limitar os custos e procurar maneiras de reverter a situação de queda das vendas. Há a possibilidade de continuar oferecendo qualidade, de modo a sustentar uma posição superior para a marca, ou até de inovar o produto, mudando-lhe aspectos funcionais e atributos. O preço a ser praticado pode ser baixo, para “queimar” o estoque, ou alto, se voltado ao atendimento de um nicho. Os gastos em comunicação serão limitados, retratando a fase de declínio nas vendas e contingenciamento de custos. Estrategicamente, as decisões resumem-se à busca da identificação de pontos fracos no produto, para alterá-los na procura da oferta de atratividade para os consumidores, ou simplesmente abandonar o produto, cuidando para que seu descarte não melindre potenciais clientes (mesmo que poucos). Segundo Kotler e Keller (2013), a maioria das curvas do ciclo de vida do produto assume a forma de sino, conforme a Figura 3.4. 62 Capítulo 3 Figura 3.4 – Ciclo de vida do produto Fonte: Kotler e Keller, 2013, p. 331. Esses autores, no entanto, ressaltam que o conceito de CVP (ciclo de vida do produto) pode ser usado para analisar não só um produto (biscoito, por exemplo), mas também uma categoria de produtos (alimentos, por exemplo), uma marca (Aymoré) etc. Afirmam, ainda, que nem todos os produtos exibem um CVP em forma de sino, existindo outros três padrões comuns, conforme Figura 3.5. Figura 3.5 - Padrões comuns de ciclo de vida do produto Fonte: Kotler e Keller, 2013, p. 331. Diferenciação e posicionamento Em razão da vigorosa movimentação da concorrência observada em todos os setores da atividade econômica, às empresas compete a definição de diferenciais que constituam uma vantagem competitiva sustentável; representem, efetivamente, valor para o consumidor, e que sejam de difícil imitação por parte dos concorrentes. 63 Marketing A combinação desses diferenciais é que permite a criação de uma estratégia robusta de competição. Segundo Porter (apud KOTLER, 2000, p. 22), se uma empresa desempenha as mesmas atividades que seus concorrentes, simplesmente um pouco melhor, ela não tem de fato uma estratégia, é simplesmente mais eficaz em termos operacionais. O que se vê, pois, é que a função do marketing assume uma posição destacada pela responsabilidade que lhe compete no auxílio à compreensão do que seja valor para o mercado consumidor e, acima de tudo, na sua sinalização por meio de um posicionamento adequado. E o que é posicionamento? Ries e Trout (2003) definem posicionamento como a maneira pela qual as empresas são vistas pelo mercado e, mais importante, qual o lugar que ocupam na mente dos consumidores. É a batalha por um lugar distinto na mente dos consumidores. Exemplos de posicionamento bem-sucedidos existem muitos: Gilette virou sinônimo de lâmina de barbear; Cotonete, de hastes flexíveis; Coca-Cola, de refrigerante; Bombril, de palha de aço, e assim por diante. Na busca de um posicionamento, a empresa deve preocupar-se em, além de criar uma estratégia de competição, transmitir ao mercado consumidor a sua proposta de valor, que justifique sua escolha em detrimento dos demais concorrentes. Porter (1986) diz que a estratégia de competição representaria o posicionamento amplo da organização, ou seja, determinada característica distintiva própria ao seu negócio. Desde que haja uma clara definição de qual o posicionamento amplo a ser adotado, compatível com os objetivos e capacidades da empresa, é necessário que haja a definição de um posicionamento específico que, para Kotler (2000, p. 78), serve para “apresentar a seu mercado um benefício ou razão concreta para a compra”. Um posicionamento específico pode considerar várias fontesrepresentativas de vantagens para os consumidores (KOTLER, 1994): • Por atributo: atributo significa característica. É um termo bastante utilizado na área mercadológica. Comumente se diz, por exemplo, que o celular Nokia C3 tem os seguintes atributos: cor cinza 64 Capítulo 3 chumbo, visor de tantas polegadas, acesso à internet etc. Outro exemplo: o iogurte Activia possui o bacilo Dan Regularis; • Por benefício: como o próprio nome já diz, sugere um benefício que o produto ou serviço proporciona ao consumidor. Exemplo: O iogurte Activia auxilia o sistema digestivo; • Por uso/aplicação: uso específico para um determinado fim ou para alguma situação. Exemplo: Gatorade é para ser consumido após atividade física; • Por usuário: tipos específicos de pessoas que usam (ou devem usar) o produto: o plano empresarial Vip da TIM (exemplo fictício) é desenhado especialmente para empresas com 10 a 30 gerentes; • Contra concorrente: posição em relação a outro produto concorrente. Exemplo: Brastemp, como o slogan diz, é a única que é “assiiiiiim uma Brastemp”; • Por categoria: posiciona o produto em relação a uma determinada categoria. Exemplo: o tênis Asics é o melhor para corrida em solo asfáltico; • Por preço/qualidade: como a empresa se posiciona em relação a esse “dueto”: preço X qualidade. Exemplo: Leite Condensado Moça x Leite Condensado Mococa. E o que é diferenciação? A diferenciação consiste em oferecer algo único, de valor superior, de maneira que isso seja perceptível e permita a cobrança de um preço maior, baseado no valor extra percebido e entregue aos clientes. (RIES; TROUT, 2003). Tão importante como definir diferenciais competitivos que sinalizem ao mercado singularidade da oferta e entrega de valor é adotar um posicionamento compatível e coerente com a imagem que a empresa deseja agregar ao produto. Assim, se a empresa determina que “qualidade” é um fator determinante que justifica e sinaliza claramente valor aos seus clientes e consumidores, a adoção de uma política de preços baixos pode comprometer a aceitação do posicionamento pretendido, uma vez que é comum a associação de preço baixo à qualidade inferior. Da mesma forma, alegar um benefício a que poucos clientes dão valor, ou que crie dúvidas quanto à capacidade da empresa em responder, é uma demonstração de inconsistências nas definições estratégicas de qualquer empresa. 65 Marketing Quanto maior forem os níveis de concorrência no setor em que a empresa está inserida, maior deve ser sua preocupação quanto à definição de estratégias capazes de gerar vantagens competitivas sustentáveis e verdadeiramente geradoras de valor que, por fim, levem-na a uma posição acima da média da indústria em termos de rentabilidade. Para se destacar, uma empresa pode optar por diferenciar: • seu produto – características, qualidade de desempenho, qualidade de conformidade, durabilidade, confiabilidade, facilidade de conserto e estilo; • seus serviços – entrega, consertos, instalação, treinamento aos consumidores, consultoria; • seus recursos humanos – competência, cortesia, credibilidade, confiabilidade, responsabilidade e comunicação; • sua imagem – identidade, símbolos, atmosfera e eventos. Seja qual for o caminho adotado em relação à oferta de produtos e serviços, o importante é que haja clareza, por parte da empresa, dos objetivos de marketing estabelecidos e das expectativas dos consumidores. Caso isso não seja observado, os prejuízos são quase certos e incalculáveis e, acima de tudo, de difícil reversão. Marca, embalagem, rotulagem e garantias Esses elementos: marca, embalagem, rotulagem e garantias, compõem o produto e conferem valor e diferenciação a ele. Marca Marca é uma letra, uma palavra, um símbolo ou qualquer combinação desses elementos, adotada para identificar produtos e serviços de um fornecedor específico. (DIAS et al., 2004). Para Kotler (1998), a marca pode englobar até quatro níveis de significados: 1. Benefícios: resultados esperados com o uso do produto. Por exemplo: um carro oferece não apenas o benefício funcional do transporte, mas também status, conforto, segurança etc. 2. Atributos: Características estéticas e funcionais do produto. No exemplo do carro, os atributos (características) serão a cor, a potência, o tamanho, a durabilidade etc. 66 Capítulo 3 3. Valores associados à marca: são reconhecidos, identificados e valorizados pelo público-alvo. Exemplo: a marca pode transmitir valores associados à família, igualdade social, preservação ambiental etc. 4. Personalidade: a marca atrai o público cuja autoimagem real ou projetada se encaixa na imagem percebida da marca; isto é, os traços de personalidade associados à marca pela propaganda, como modernidade, autonomia, independência, ética, maturidade etc. O valor de uma marca, ou branding equity, é o resultado do grau de lembrança ou conscientização da marca pelo público mais o grau de fidelidade dos seus clientes e a força da imagem associada a ela. O valor da marca é expresso pelo seu valor de venda. Por exemplo, marcas como Coca-Cola e Apple têm, por si só, um valor de venda superior ao do total de ativos da empresa. (DIAS et al., 2004). Em relação à escolha da marca, os autores supracitados ressaltam que o nome dela deve ser escolhido com base nos seguintes fatores: • sugerir os benefícios ofertados pelo produto; • ser positivo, distinto e fácil de falar e lembrar; • ser coerente com a imagem do produto ou da organização; • ser registrado legalmente. Segundo os autores, as alternativas de construção da marca devem observar os conceitos a seguir: • Marca nominal: aquela que designa um produto e pode ser expressa em palavras (exemplo: Nescafé, Passatempo etc.); • Marca de família: uso da mesma marca nominal para toda a linha de produtos. (Exemplos: Ninho – Leite em pó Ninho, biscoito recheado Ninho, biscoito wafer Ninho etc.); • Marca de fabricante: usar o nome da empresa fabricante. Exemplo: Leite Cotochés. (Cotochés é o nome da empresa); • Marca própria: estratégia utilizada pelas empresas distribuidoras ou varejistas para vender produtos fabricados por terceiros, com o objetivo de fidelização dos clientes e para barganhar em relação a outras grandes marcas. (Exemplo: farinha de trigo Carrefour); • Marca de terceiros ou licenciada: uso de uma marca conhecida — de um artista ou personalidade (Ayrton Senna); personagens de filmes (O Rei Leão) etc., por meio de contrato de licenciamento para designar um produto; 67 Marketing • Símbolo de marca: parte de uma marca que não pode ser expressa em palavras. Exemplos: Embalagem A embalagem pode ser definida como o conjunto de atividades de design e produção do recipiente que envolve um produto. Segundo eles, a embalagem pode incluir até três níveis de materiais: a embalagem primária (embalagem plástica ou de papel do sabonete Boticário, por exemplo), a embalagem secundária (caixa onde vai um conjunto de três sabonetes) e embalagem de remessa (caixa de papelão contendo 24 caixas de sabonete). (KOTLER; KELLER, 2013). Você certamente conhece embalagens que são famosas no mundo todo, tais como as garrafas de Coca-Cola e Vodka Absolut e as latas de Creme Nívea e Red Bull. Pois bem, a embalagem costuma ser o primeiro contato do comprador com o produto. Se for eficiente, irá atrair o consumidor e estimular a compra do produto, podendo, inclusive, funcionar como um comercial de alguns segundos. E continua provocando efeitos, quando o produto pode ficar exposto em casa (uma garrafa de uma bebida fina, por exemplo) ou quando se abre/usa o produto. Além de fortalecer a imagem da marca, atrair, informar e despertar desejo de compra, segundo Dias et al. (2004), as embalagens devem também desempenhar as seguintes funções: • Proteger o produto e preservar a qualidade durante a sua vida útil; • Despertar a atenção do cliente pelo design e material; • Comunicar os benefíciose atributos do produto; • Ser coerente com a imagem desejada para o produto e empresa; • Atender aos requisitos legais. Para Kotler e Keller (2013), vários fatores contribuem para cada vez mais as embalagens serem utilizadas como ferramenta de marketing, quais sejam: • Autosserviço: cada vez mais produtos são vendidos na forma de autosserviço, como por exemplo produtos do tipo “faça você mesmo” (materiais de construção, materiais para casa etc.). Tendo 68 Capítulo 3 em vista que grande parte das decisões de compra é tomada dentro das lojas, as embalagens ganham cada vez mais relevância; • Poder aquisitivo do consumidor: quando há aumento do poder aquisitivo do consumidor, normalmente ele está disposto a pagar um pouco mais pela conveniência, confiança e prestígio da embalagem; • Imagem da marca e da empresa: as embalagens contribuem para o reconhecimento da empresa e da marca. Na loja, podem produzir o efeito de um outdoor, por exemplo; • Oportunidade de inovação: embalagens inovadoras (que melhoram a segurança, a praticidade, o armazenamento etc.) podem trazer benefícios para os consumidores e lucros para as empresas. Para atingir os objetivos de marketing da marca e satisfazer os desejos dos consumidores, os componentes estéticos e funcionais da embalagem devem ser escolhidos corretamente. Quanto à estética, é preciso analisar tamanho, forma, materiais, cores, texto e ilustrações. Há uma série de fatores e critérios em cada um desses quesitos. (KOTLER; KELLER, 2013, p. 368). Dessa forma, com todos os elementos definidos e o projeto em andamento, a embalagem deve ser testada para verificar se há problemas de segurança, diagnosticar se o texto e as cores estão legíveis e harmoniosos, assegurar se os distribuidores estão satisfeitos e, principalmente, saber se despertará a vontade do consumidor em levá-la para casa. Há, ainda, uma questão relativamente nova, mas que vem crescendo e virando tendência: o uso das chamadas “ecobags”; das embalagens recicláveis e de materiais alternativos; comercialização de embalagens retornáveis e em forma de refis; enfim, embalagens que tentam minimizar um pouco os impactos ao meio ambiente. De acordo com o site da Associação Cearense de Supermercados (ACESU, 2013), pesquisas realizadas pela Tetra Pak — fabricante de caixas longa vida — mostram que cerca de 90% da população brasileira entende que as empresas devem tomar medidas ambientalmente responsáveis, como utilizar insumos e matérias-primas ecológicas em toda a cadeia produtiva. De outro lado, há as empresas que tentam, por meio da “maquiagem verde”, enganar o cliente com falsos apelos, tais como produto “amigo do meio ambiente”, “ecológicos” etc., mas pouco ou nada fazem nesse sentido (esse é um exemplo daquela visão distorcida de marketing que já estudamos aqui.). Segundo o blog do Sebrae/MS (2012), a embalagem é um ícone de consumo e fator crucial na decisão de compra. Fábio Mestriner, presidente da ABRE (Associação Brasileira de Embalagem), diz que 69 Marketing de acordo com pesquisa da ABRE, o cliente não compra escolhendo preço, mas valor agregado à marca ou ao produto. Daí a importância da embalagem que, segundo os próprios consumidores, é um fator relevante”. “Caixas no lugar de sacos, novas facas de corte para impressão e embalagens lúdicas são exemplos de inovação. O leite Moça, da Nestlé, estava no mercado desde 1921 e era líder. Eu trabalhava na empresa fornecedora de embalagens e resolvemos criar uma lata com as curvas de uma moça. A inovação aumentou ainda mais as vendas. Figura 3.6 – Leite Moça & a evolução do design Fonte: Ruaappia, 2012. Rotulagem O rótulo, segundo Kotler e Keller (2013), pode ser uma simples etiqueta — como um adesivo colado a uma “maçã argentina” — ou um projeto gráfico elaborado — com inúmeras informações e gráficos sobre um solvente tóxico perigoso — que fará parte da embalagem e que pode trazer o nome de marca e informações diversas; no rótulo, por mais simples que seja, deverão estar muitas vezes os itens (validade, composição etc.) obrigatórios por lei. As funções exercidas pelos rótulos são: • Identificação do produto ou marca; • Classificação do produto, quando pertinente (exemplo: Leite tipo A); • Descrição do produto (quem, onde e quando foi fabricado; o que contém, como usá-lo etc.); • Promoção do produto com ilustrações e cores atraentes, chamando atenção para os seus benefícios. “Redatores habilidosos de rótulos escolhem as palavras com cuidado para promover os benefícios do produto, e não apenas para listar as suas características”. (CHURCHILL JR.; PETER, 2007, p. 277). 70 Capítulo 3 As informações do rótulo podem ser úteis tanto para os revendedores — com possibilidades de identificação do produto por lote, tamanho, peso, preço etc. — quanto para os clientes finais, que conseguem tomar decisões e até mesmo usar os produtos com base nas informações ali disponibilizadas. Para muitos produtos, há exigências legais do que pode ou não ser publicado, como informações sobre o que de fato é “light” ou “diet”; “natural”; “sem colesterol” etc. Garantias Todas as empresas que vendem algo são legalmente responsáveis pela satisfação das expectativas dos compradores. Segundo Kotler e Keller (2013), as garantias de funcionamento são declarações formais feitas pelo fabricante e estão relacionadas ao desempenho esperado do produto. Os produtos que apresentem problemas e estão dentro da garantia podem ser devolvidos para o fabricante ou encaminhado para a assistência técnica para que sejam consertados, trocados ou para que o cliente seja reembolsado. Já a garantia estendida e contratos de serviço podem ser bastante lucrativos para fabricantes e varejistas; e os consumidores adquirem certa “paz de espírito”. De uma forma ou de outra, as garantias reduzem o risco percebido pelo comprador. Elas sugerem que o produto é de alta qualidade, e a empresa e seus serviços, confiáveis. São eficazes quando a empresa ou o produto não é conhecido ou quando a qualidade do produto é superior à da concorrência. (KOTLER; KELLER, 2013, p. 371). Seção 2 Preço O preço é o único elemento do mix de marketing que gera receita; os outros elementos geram custos. Os preços talvez sejam o elemento mais fácil de ajustar do plano de marketing; características do produto, canais de distribuição e até mesmo as ações de comunicação demandam mais tempo. O preço também informa ao mercado o posicionamento de valor pretendido pela empresa para seu produto ou marca. Um produto bem desenvolvido e comercializado pode cobrar um preço superior e 71 Marketing colher altos lucros. Mas a nova realidade econômica levou muitos consumidores a economizar até mesmo trocados; com isso, muitas empresas tiveram que rever cuidadosamente suas estratégias de determinação de preços. (KOTLER; KELLER, 2013, p. 411). A importância da fixação de um preço adequado para a venda de determinado produto é definitivo para o sucesso de uma organização. Se ela cobrar mais que o devido, corre o risco de não ver ninguém procurando sua oferta. Se cobrar menos, pode ser vista como uma fornecedora de produtos de qualidade inferior. Como se define preço? É possível definir preço como uma expressão monetária de quanto um indivíduo tem de abrir mão de sua renda para adquirir a satisfação de uma necessidade ou desejo que possui. Além disso, serve para parametrizar se ele pode ou não adquirir determinado bem ou serviço, servindo, portanto, como um parâmetro. Na definição de Dias et al. (2003, p. 254), “Preço é o montante de dinheiro pago em troca do uso de um benefício proporcionado por um produto ou serviço”. Não podemos nos esquecer de que as pessoas consomem em busca da satisfação de suas carências, e não pelo simples fato de poder adquirir um objeto ou um serviço. E o preço pode transmitir-lhe informações relacionadas à qualidade da oferta, ao total de benefício oferecido, esobre a sua própria capacidade de fazer frente a uma despesa. Se você deseja algo, além de verificar as ofertas disponíveis no mercado que cumpram a função que procura, vai procurar aquela que, além de melhor atender as suas necessidades, tem um preço compatível com a sua renda e com sua capacidade de pagamento. O preço, como um elemento central do composto de marketing, tem a responsabilidade de proporcionar à empresa padrões de lucratividade adequados aos seus objetivos, ou de aumentar sua participação no mercado. Assim, constitui-se em uma importante ferramenta estratégica. As decisões de preço estão entre as mais sensíveis a serem tomadas pelos profissionais de marketing. É por meio dele que uma empresa remunera o capital investido no negócio, honra seus compromissos com fornecedores e prestadores de serviço, paga os salários de seus colaboradores e define os meios que serão utilizados para atingir seus consumidores por meio de estratégias de comunicação. Vamos ver de que maneira o preço se presta a tudo isso. 72 Capítulo 3 Definição da determinação de preço De acordo com Kotler e Keller (2013), uma empresa deve estabelecer um preço pela primeira vez ao desenvolver um produto, ao introduzir seu produto em um novo canal ou área geográfica, ou participar de licitações. Para esses autores, a organização precisa considerar muitos fatores ao estabelecer sua política de determinação de preços, entre eles: 1. Estabelecendo objetivos de preços Os objetivos de preço são determinados em sintonia com os objetivos estabelecidos para determinado produto. Quando é desenhada uma estratégia de tornar um produto reconhecido pela sua qualidade superior, o indicado é que o preço seja suficiente para transparecer os benefícios de maior valor a que farão jus os compradores. Se, ao contrário, o almejado pela empresa é arregimentar participação de mercado de maneira intensiva, a política de preços praticada deve ser direcionada a um preço convidativo para os consumidores, de modo a ser mais atrativo que os da concorrência, mesmo sabendo que isso poderá corroer as margens de lucro da empresa. Veja, no Quadro 3.1, a seguir, os possíveis objetivos que podem ser alcançados por meio do preço. Quadro 3.1 – Objetivos de preço Objetivo de preço Descrição Sobrevivência Empregado quando há concorrência intensa e os produtos da empresa enfrentam desvantagem em relação às ofertas da concorrência. Tal objetivo se presta à aplicação de curto prazo, para enfrentar situações transitórias nas quais apenas o retorno do capital investido se justifica. (Exemplo: liquidação de inverno no fim da estação). Maximização do lucro atual Muitas empresas tentam determinar um preço que maximize o lucro atual. Essa estratégia pressupõe que a empresa conheça sua demanda e seus custos. Ao enfatizar o desempenho financeiro corrente, pode acabar sacrificando o desempenho de longo prazo, ignorando os efeitos de outras variáveis do mix de marketing, as reações dos concorrentes e as limitações legais em relação aos preços. (Exemplo: venda de um carro novo com preço alto, objetivando maximizar lucro, mas que com o passar do tempo não se sustenta). 73 Marketing Objetivo de preço Descrição Liderança de qual idade A empresa deseja posicionar seu produto como de alta qualidade, sinalizando maior valor pela cobrança de preço maior. Pode ser praticado quando os consumidores imaginam haver grande disparidade entre as ofertas no mercado, além de predominantemente não haver sensibilidade a preço. (Exemplo: Marcas como BMW, Starbuck´s e Absolut conseguiram se posicionar como líderes em qualidade em suas categorias, combinando qualidade, luxo e preços-premium com uma base de clientes fiel). Maximização da part ic ipação de mercado Consiste em, geralmente, praticar preços baixos para alcançar o maior número de consumidores, sem importar-se com as margens de lucro. Aconselhável em mercado no qual haja saturação da concorrência. Desnatamento máximo de mercado Empresas que lançam tecnologias novas preferem determinar preços altos para maximizar o desnatamento do mercado. (Imagine que a “nata” do mercado é aquela parcela da população que pode pagar muito para adquirir um produto. “Desnatar” significa atingir as camadas inferiores desse mercado). A Sony é praticante frequente dessa estratégia: os preços começam altos e vão sendo reduzidos gradualmente ao longo dos anos. Fonte: Adaptação de Kotler e Keller, 2013. Para que os objetivos de preço possam ser eficientemente atingidos, é necessário que sejam considerados, também, os métodos disponíveis para a determinação dos custos e da demanda. 2. Realizar a seleção do método de estabelecimento de preço A fixação de preço parte da consideração dos custos de fabricação do produto a ser oferecido e da elasticidade da demanda. Assim, se o custo de fabricação de uma caneta é R$ 1,00, o mínimo que o fabricante poderia pedir seria R$ 1,00; caso contrário, estaria logo tendo problemas quanto à continuidade do seu negócio. Os custos envolvidos na produção podem ser fixos e variáveis. Os custos fixos são aqueles que não sofrem alteração, independentemente da quantidade produzida (aluguel de instalações, equipamentos, salários dos executivos, etc.). Já os custos variáveis são aqueles que variam proporcionalmente ao volume produzido, ou seja, quanto maior a quantidade 74 Capítulo 3 produzida, maior eles serão (mão de obra, matéria-prima etc.). Os custos totais são a soma dos custos fixos e dos custos variáveis. 3. Estimação da demanda Para estimar a demanda, pode-se utilizar uma proporção denominada elasticidade-preço. Ela expressa a variação da quantidade demandada conforme varia o nível de preço. Para melhor compreensão, imagine que uma empresa suba o preço de seu produto em 10% e verifique que ocorre uma variação no volume de vendas da ordem de 15%. Observando essa variação, pode-se afirmar que a demanda é elástica, uma vez que o percentual da variação verificada é superior ao percentual da majoração de preço. Para calcular a elasticidade da demanda, utiliza-se a seguinte fórmula: Elasticidade-preço da demanda = % de variação na quantidade demanda % da variação de preço Ou seja, a elasticidade-preço será de -1,5 (o sinal negativo em função da relação inversa entre preço e demanda). Quanto menor for a variação elasticidade-preço (mais próximo a zero), mais a empresa poderá aumentar seu preço sem que haja grandes variações no volume de vendas. Se uma empresa altera seus preços e ocorre variação da demanda, diz-se que a demanda é elástica. Por exemplo: se o preço da carne bovina aumentar muito, provavelmente a demanda diminuirá bastante, havendo menos churrasco no final de semana e outros tipos de carne na mesa do consumidor. Já se a demanda não se alterar com a variação do preço cobrado, diz-se que é inelástica. Sal é um produto que costumamos usar como exemplo: mesmo se o preço do sal baixar muito, dificilmente a demanda aumentará, e vice versa. 4. Métodos de estabelecimento de preço Kotler (1994) os divide nas seguintes categorias: • Preço de markup: conhecido o custo total de um produto, acrescenta-se uma margem padrão por sobre esse custo. Por exemplo: os advogados, muitas vezes, cobram um percentual como honorários sobre determinada causa defendida; • Preço de retorno-alvo: é quando a empresa determina o preço que assegura sua taxa de retorno sobre o investimento pretendido; • Preço de valor percebido: de maior complexidade para determinação, por este método a empresa fixa seu preço de acordo com a percepção de valor que os consumidores têm de seus produtos. Significa a utilização do conceito “mais valor por um preço maior”; 75 Marketing • Preço de valor: ao contrário do anterior, sua lógica reside na suposta oferta de “mais valor pelo mesmo preço” ou “mais valor por um preço menor”. Sua adoção depende de uma rigorosa administração de custos, mantendo-os semprebaixos; • Preço de mercado: esse método pressupõe a adoção de um preço balizado pelas práticas da concorrência. Assim, a empresa poderia adotar um preço superior ou inferior sem tanto considerar variações da demanda ou estruturas de custos, mas, sim, como estão os preços da concorrência. A demanda é que manda no preço? Ou o preço é que manda na demanda? Não é fácil responder a essas perguntas, porque, na verdade, um depende do outro. Da mesma forma como você viu as inter-relações existentes entre os elementos do composto mercadológico, o mesmo vale para a relação entre a demanda e o preço. A situação ideal para as empresas (concorde que não muito justa), seria entregar um mínimo de funcionalidade e atributos num produto – que, por isso, teria um baixo custo de produção – pelo maior preço possível, auferindo grandes lucros. Já para os consumidores, o melhor seria receber o máximo possível pagando o mínimo possível. Mas isso é utópico, não é mesmo? O que as empresas precisam compreender é que elas necessitam dos consumidores para se manterem vivas. Já os consumidores precisam das empresas para que sejam atendidas suas necessidades e seus desejos. Dentro dessa lógica, nada mais justo que sejam criadas condições favoráveis a ambas as partes nas trocas, gerando a possibilidade de continuidade nos processos de compra e venda. Adequação do preço e preço psicológico Para fechar essa seção, falaremos sobre a adequação do preço em relação à localização geográfica, aos descontos e concessões, às promoções e preços discriminatórios; e também sobre a psicologia do consumidor e a determinação dos preços. Segundo Kotler e Keller (2013), as empresas, de modo geral, não determinam um preço único, mas sim uma estrutura de preços que reflete as variações 76 Capítulo 3 geográficas na demanda, nos custos, nas exigências de segmentação de mercado, nos níveis de pedidos, na frequência de entrega, nas garantias etc. Observe algumas dessas estratégias: • Preço geográfico: significa estabelecer preços diferentes para diferentes clientes, em diferentes locais e países; • Preço com descontos e concessões: muitas empresas dão descontos e concessões por pagamento antecipado, compras em grandes volumes ou compras fora de temporada; no entanto, é preciso observar se os lucros não serão muito menores que o planejado; • Preço promocional: as empresas podem usar diversas técnicas para estimular as compras antecipadas: desconto na compra em dinheiro, prazos mais longos para pagamento, preço para clientes especiais (clientes que possuem um cartão de fidelidade, por exemplo, pagam menos) etc.; • Preço discriminatório: as empresas ajustam seus preços básicos para acomodar diferentes tipos de clientes, locais, produtos etc. Por exemplo: em eventos culturais pessoas com mais de 60 anos pagam menos; preço dependendo da versão do produto; preço por período (cinema mais barato no meio da tarde). De qualquer forma, para que haja essas diferenciações de preço, a empresa precisa ter isso claro em suas estratégias mercadológicas e observar sempre as leis em cada país e região. Sobre a psicologia do consumidor em relação a preços, esses autores acreditam que as decisões de compra se baseiam em como os consumidores percebem a qualidade, se têm ou não um limite do que é um preço aceitável, se consideram os preços recompensadores etc. O exemplo a seguir é interessante para refletirmos sobre preços diferentes para o mesmo produto: uma camiseta preta. 77 Marketing Uma camiseta preta feminina parece algo muito comum. Na verdade, não há muita diferença entre uma camiseta preta vendida pela Gap e outra pela rede sueca de desconto H&M. Ainda assim, as camisetas Armani custam US$ 275,00, enquanto a mesma peça Gap custa US$ 14,90 e a da H&M US$ 7,90. Os clientes que adquirem camisetas Armani pagam por uma peça feita 70 % de náilon, 25 % de poliéster e 5 % de elastano, enquanto as camisetas Gap e H&M são feitas, principalmente, de algodão. É verdade que a camiseta Armani tem um corte um pouco mais elegante do que as outras duas e ostenta uma etiqueta “Made in Italy”, mas o que justifica a etiqueta de preço de US$ 275,00? Marca de luxo, a Armani é conhecida, principalmente, por ternos, bolsas e vestidos de gala vendidos por milhares de dólares. Nesse contexto, ela pode vender suas camisetas por um preço mais alto. Mas, considerando-se que não há muitos compradores para camiseta de US$ 275,00, a Armani não fabrica muitas, o que acaba reforçando o apelo para aqueles que procuram status e gostam da ideia de ter uma camiseta de “edição limitada”. “O valor não diz respeito somente à qualidade, função, utilidade, canal de distribuição”, diz Arnold Aroson, diretor-geral de estratégias de varejo da Kurt Salmon Associates e ex-CEO da Saks Fifth Avenue; trata-se também da percepção de um cliente sobre a conotação de luxo de uma marca. Fonte: Kotler e Keller, 2013, p. 415. Entender como os consumidores chegam às suas percepções de preço, portanto, é uma prioridade para marketing. Veja alguns aspectos que podem afetar essas percepções: • Preços de referência: os consumidores costumam usar vários “preços de referência”, tais como: o que pagaram na última compra, preços dos concorrentes, preço que “pareça” justo conforme sua percepção própria etc. • Inferências preço-qualidade: muitos consumidores, ainda hoje, usam o preço como indicador de qualidade; • Preço com número “quebrado”: muitas empresas acreditam que o consumidor que vê um produto a R$ 289,00 acredita que esse produto está na faixa dos R$ 200, e não dos R$ 300,00; e que preços terminados em “9” passam a ideia de pechincha, de desconto. 78 Capítulo 3 Seção 3 Promoção (comunicação) As definições de comunicação são inúmeras, esse é um assunto complexo e amplo; no entanto, podemos começar pela origem da palavra em latim: communis, que, segundo Galindo (2002), significa o compartilhamento de informações, ideias, atitudes e opiniões. A ideia central, portanto, é participar, envolver-se, fazer-se comum, fazer-se participante. Toda manifestação entre os seres humanos, entre esses e o meio ambiente, pode ser denominada comunicação; e dependendo do ponto de vista, essa pode ter vários significados. Gestos, palavras, fotografias, voz, sinais, ruídos e rituais, tudo pode ser comunicação, é um processo recíproco e envolve vários elementos. (LUPETTI, 2003). Bordenave (1983, p. 9), ao descrever a comunicação como processo, o faz de maneira quase poética, porém, não menos profunda: Processo tão natural como beber água ou caminhar, a comunicação é a força que dinamiza a vida das pessoas, e das sociedades: a comunicação excita, ensina, vende, distrai, entusiasma, dá status, constrói mitos, destrói reputações, orienta, desorienta, faz rir, faz chorar, inspira, narcotiza, reduz a solidão e — num paradoxo digno de sua infinita versatilidade — produz até incomunicação. No nosso caso específico, estamos focando a comunicação mercadológica, ou o P de promoção, do Composto de Marketing. Sendo assim, os elementos do processo de comunicação ― emissor, receptor, canal, mensagem, ruído e feedback — devem ser observados no contexto de marketing. Afinal, o processo de comunicação torna-se bem mais relevante quando analisado sob essa ótica, pois uma falha em qualquer uma dessas etapas pode representar ruído na comunicação da mensagem e o consumidor poderá não comprar o produto (LUPETTI, 2003). Veja a Figura 3.7: 79 Marketing Figura 3.7 – Elementos do processo de comunicação Emissor (Organização) Codificação (Símbolos, sinais etc.) Mensagem (Mídias) Decodificação (Leitura/visão) Receptor (Consumidor) Ruído Feedback Fonte: Adaptação de Lupetti (2003) e Kotler (1998). Vejamos então cada um desses elementos: • Emissor: pode ser uma organização (com ou sem fim lucrativo, de qualquer natureza) que vai selecionar uma mensagem para ser enviada; • Codificação: essa mensagemque a empresa pretende enviar será transformada em um código qualquer: símbolos, palavras, cores, sinais, sons, imagens etc.; • Mensagem: essa mensagem (já codificada) vai ser transmitida por um meio de comunicação, ou seja, por uma mídia: televisão, jornal, carro de som, panfleto, outdoor, revista, rádio etc.; • Decodificação: a mensagem vai ser lida, vista, ouvida etc.; e vai ser entendida (ou não) pelas pessoas; • Receptor: são as pessoas para as quais a mensagem foi destinada; nesse caso, o consumidor dos produtos e serviços oferecidos pela organização; • Ruído: no processo de comunicação pode ocorrer uma série de ruídos. Por exemplo: se o emissor não usar os códigos apropriados para o seu receptor, ou ainda, se o receptor não conseguir entender a mensagem, houve ruído. O ruído pode, também, assumir a forma de um chiado no rádio, uma distorção na impressão do anúncio da revista ou mesmo uma imagem ruim na TV. Podemos dizer que há ruído também quando há intensa concorrência de outras mensagens sendo transmitidas. Pense, por exemplo, numa rodovia repleta de 80 Capítulo 3 anúncios em suas marginais: dificilmente, o consumidor conseguirá entender as mensagens de forma completa e satisfatória; • Feedback: é a resposta que o receptor (consumidor) vai dar ao emissor (organização). Normalmente, espera-se que esse feedback seja a compra do produto, o conhecimento da marca do emissor ou a fixação dessa marca etc. Sendo assim, segundo Kotler (1998), para uma mensagem ser eficaz, o processo de codificação deve ser engrenado com o processo de decodificação, pois será mais fácil o receptor entender os sinais que lhe são familiares. Há, portanto, uma grande responsabilidade do emissor, que deve saber que receptores deseja atingir, quem são esses receptores e que respostas espera dos mesmos. De certa forma, a comunicação de marketing representa a voz da marca e é o meio pelo qual ela estabelece um diálogo e constrói relacionamentos com os consumidores. Esses podem conhecer ou ver como e por que um produto ou serviço é usado, por qual tipo de pessoa, quando e onde; podem receber informações sobre quem o fabrica e o que a empresa e a marca representam, e, ainda, podem receber um incentivo ou recompensa pela experiência ou uso. A comunicação de marketing permite às organizações conectar suas marcas a outras pessoas, lugares, eventos, marcas, experiências, sensações e objetos. A boa comunicação de marketing, no entanto, não é acidental. Ela é resultado de planejamento e execução cuidadosos. As práticas de comunicação de marketing estão sendo continuamente refinadas e reformuladas para aumentar as chances de sucesso. Mas a excelência em comunicação promocional é uma conquista árdua e um desafio constante. Há, ainda, uma tensão permanente entre o lado formal, ou seja, dos resultados, e o lado criativo. Planejamento da promoção O plano de comunicação de marketing é parte integrante do plano estratégico de marketing e, portanto, deve ser coerente com os objetivos de mercado e com as outras estratégias do composto de marketing, ou seja, as estratégias de produto, preço e praça (ou distribuição) (LIMEIRA, 2004). A seguir, você confere, na visão de Kotler (1998) e Kotler e Keller (2006), cada uma das etapas do desenvolvimento de uma comunicação. 81 Marketing Figura 3.8 – Etapas no desenvolvimento de uma comunicação eficaz Identificação da audiência-alvo Determinação dos objetivos Elaboração da comunicação Seleção dos canais de comunicação Estabelecimento do orçamento Decisão sobre o mix de comunicação Mensuração dos resultados da comunicação Gerenciamento da comunicação integrada de marketing (CIM) Fonte: Adaptado de Kotler e Keller, 2006. Etapa 1 – Identificação do público-alvo O processo deve ser iniciado com o comunicador de marketing definindo claramente quem é o seu público-alvo (ou audiência-alvo). Esse público-alvo pode ser formado por compradores potenciais dos produtos da empresa, usuários atuais, pessoas que decidem ou influenciam; sejam indivíduos, grupos específicos ou o público em geral. O público-alvo, portanto, exerce uma influência crucial nas decisões do comunicador sobre o que, como, quando, onde e para quem dizer. Etapa 2 – Determinação dos objetivos Uma vez identificado o mercado-alvo e suas características, o comunicador de marketing poderá decidir sobre a resposta desejada da audiência. As repostas finais normalmente são a compra dos produtos pelos consumidores, a alta satisfação deles, e a comunicação boca a boca favorável. O comunicador de marketing precisa conduzir as suas ações de modo a mover a audiência-alvo para estados mais elevados possíveis de disposição de compra. 82 Capítulo 3 Etapa 3 – Elaboração da comunicação O comunicador de marketing deve desenvolver uma mensagem eficaz. Idealmente, a mensagem deve atrair a Atenção, manter o Interesse, despertar o Desejo e conduzir à Ação. É o que chamamos de modelo AIDA. O processo de elaboração da comunicação para que se obtenha a resposta desejada requer a solução de três problemas: o que dizer (conteúdo da mensagem), como dizer (estrutura e formato da mensagem), e quem deve dizê-la (fonte da mensagem). Etapa 4 – Seleção dos canais de comunicação A seleção de canais eficientes para a transmissão da mensagem se torna cada vez mais difícil à medida que os canais de comunicação se mostram mais fragmentados e congestionados. Planejar bem essa etapa, portanto, é cada vez mais fundamental para qualquer organização. Os canais de comunicação podem ser de dois tipos: pessoal e impessoal e se dividem em muitos sub canais: • Canais de comunicação pessoais: envolvem duas ou mais pessoas, comunicando-se diretamente uma com a outra, seja pessoalmente — em forma de diálogo ou de exposição para uma plateia ―, seja pelo telefone ou por e-mail. Muitas empresas também estão dando conta do poder do ‘velho e bom’ boca a boca e do buzz marketing, também chamado de ´marketing de burburinho´; • Canais de comunicação impessoais: os canais não pessoais são comunicações direcionadas para mais de uma pessoa e incluem a mídia (TV, jornal, outdoor, panfleto, revista etc.), as promoções de vendas, os eventos, entre outros. Etapa 5 – Estabelecimento do orçamento Comumente se diz que uma das decisões mais difíceis de marketing é definir quanto gastar em promoção. O investimento em comunicação varia muito de setor para setor e de empresa para empresa, e, mesmo dentro de um determinado setor, há empresas que gastam mais e as que gastam menos. De acordo com Lupetti (2003), existem vários métodos para definição da verba de comunicação da empresa anunciante. Não existe um método correto ou incorreto, mais eficiente ou menos eficaz; as organizações definirão o método que melhor lhes convier, dependendo de seus objetivos, da fase que atravessam etc. Etapa 6 – Decisão sobre o mix de comunicação As organizações normalmente distribuem o orçamento promocional entre seis principais ferramentas de comunicação: propaganda; relações públicas, publicidade e assessoria de imprensa; promoção de vendas; eventos e experiências; vendas pessoais; e marketing direto. Diversos fatores vão influenciar essa escolha: 83 Marketing • o tipo de mercado e de produto, • a disposição do consumidor em relação àquela compra, • o estágio do ciclo de vida do produto, • entre outros. Vejamos cada uma das ferramentas: a. Propaganda Atividade paga, de apresentação não pessoal e promocional de ideias, bens ou serviços por um patrocinador identificado. Os objetivos da propaganda devem resultar de decisões anteriores sobre o mercado-alvo, o posicionamento da marca e o programa de marketing. Os objetivos da propaganda são informar, persuadir, lembrar, agregar valor, entre outros. O Quadro 3.2 mostra o perfil dos principais tipos de mídia. Quadro 3.2 – Perfil dos tipos de mídia Meio Vantagens Limitações Jornais Flexibilidade; timing; boa cobertura;ampla aceitação; alta credibilidade. Vida curta; baixo nível de qualidade de reprodução; público circulante pequeno. Televisão Combinação de visão, som e movimento; apelo aos sentidos; alto nível de atenção, ampla cobertura. Custo absoluto alto; elevada saturação de comunicação; exposição transitória; menor grau de seletividade do público. Mala direta Seletividade de público; flexibilidade; ausência de concorrência dentro do mesmo veículo; personalização. Custo relativamente alto; imagem de “correspondência inútil”. Rádio Uso em massa; alto grau de seletividade geográfica e demográfica; baixo custo. Apresentação apenas sonora; menor grau de atenção do que a televisão; tarifas não tabeladas; exposição transitória. Revistas Alto grau de seletividade geográfica e demográfica; credibilidade e prestígio; alta qualidade de reprodução; vida longa; boa circulação de leitores. O espaço precisa ser comprado com muita antecedência; certo desperdício de circulação. 84 Capítulo 3 Meio Vantagens Limitações Outdoor Flexibilidade; alto grau de exposição; baixo custo; baixa concorrência. Seletividade de público limitada; limitações criativas. Páginas amarelas Excelente cobertura local; alta credibilidade; ampla cobertura; baixo custo. Alta concorrência; o espaço precisa ser comprado com muita antecedência; limitações criativas. Newsletters Seletividade muito alta; controle total; oportunidades interativas; custos relativos baixos. Os custos podem fugir ao controle. Folhetos Flexibilidade; controle total; oportunidades interativas; custos relativos baixos. A produção excessiva pode levar ao descontrole dos custos. Telefone Muitos usuários; oportunidade de dar um toque pessoal. Custo relativo alto; resistência crescente por parte dos consumidores. Internet Alta seletividade; possibilidades interativas; custo relativamente baixo. Saturação crescente. Fonte: Kotler e Keller, 2013, p. 550. Somente com a proliferação das faculdades de Comunicação Social é que cada vez mais pessoas no Brasil têm falado de publicidade e propaganda como duas coisas diferentes. Mas nem sempre foi assim. Não é difícil localizar as origens de tal confusão. De um lado, as centenas de professores improvisados lendo originais e traduções de textos ingleses, nos quais, efetivamente, adversiting é uma coisa (a propaganda paga) e publicity é outra (a divulgação gratuita de informações com valor de notícia). De outro, a compreensível cautela com que certos veículos — os mais idôneos — identificam matérias e reportagens pagas, eufemisticamente, como “Informe Publicitário”. Para completar a confusão, os profissionais de propaganda (ou publicidade) fazem absoluta questão de serem chamados de publicitários e não de propagandistas — o que os associaria a outra classe profissional, não menos digna, cuja principal atividade consiste em visitar médicos com o objetivo de divulgar os produtos dos laboratórios farmacêuticos. Ditos publicitários, todavia, reúnem-se em entidades com os nomes de Associação Paulista de Propaganda ou Associação Brasileira de Propaganda. 85 Marketing O que dirá mestre Aurélio? Vamos a ele: publicidade (calcado no francês publicité) é a “arte de exercer uma ação psicológica sobre o público com fins comerciais ou políticos; propaganda”. Propaganda (do latim propaganda) é a “propagação de princípios, ideias, conhecimentos ou teorias; o mesmo que publicidade”. Embora ache que o mestre escorregou, ao caracterizar propaganda como arte e circunscrevê-la à ação psicológica, suas definições não deixam dúvida quanto ao fato de que, em nossa língua, ambas as palavras podem ter significados idênticos. Quanto à atividade que os americanos denominam de Publicity, ela também existe, naturalmente no Brasil e é, em geral, desenvolvida pelas empresas de Relações Públicas e Assessorias de Imprensa com maior ou menor sucesso. Os profissionais que cuidam desse setor referem-se a ela como divulgação para a imprensa, informes jornalísticos ou usam a expressão publicity mesmo, em inglês. Fonte: Adaptação de Penteado, 1990. b. Relações públicas (RP), publicidade e assessoria de imprensa Relações públicas “é a atividade e o esforço deliberados, planejados e contínuos para estabelecer e manter a compreensão mútua entre uma instituição pública ou privada e os grupos de pessoas a que esteja direta ou indiretamente ligada” (ABRP – Associação Brasileira de Relações Públicas apud LUPETTI, 2003, p. 94). As relações públicas (RP) englobam o conjunto de atividades de comunicação com outros públicos direta ou indiretamente interessados nas atividades da empresa, os chamados stakeholders, como órgãos públicos, representantes de governos, legisladores, ativistas políticos, organismos de representação social, legisladores, ativistas políticos, organismos de representação social, líderes de opinião, artistas e a comunidade em geral, visando a criar imagem e atitudes favoráveis à marca do produto e às atividades da empresa. (LIMEIRA, 2004). Segundo Kotler e Keller (2006), as relações públicas (RP) envolvem uma série de programas desenvolvidos para promover ou proteger a imagem de uma empresa ou de seus produtos em particular. As equipes de RP procuram aconselhar a alta gerência a adotar programas positivos e a eliminar práticas questionáveis, a fim de evitar publicidade negativa. O termo publicidade tem sua origem derivada de “público” ― do latim, publicus ―, que significa a qualidade daquilo que é público, ou seja, tornar público um fato, uma ideia, objetivando induzir ou convencer o público a uma atitude favorável a determinada ideia. (RIZZO, 2003, p. 63). 86 Capítulo 3 A publicidade pode se manifestar em uma diversidade de formas, sendo as mais comuns as reportagens da imprensa sobre novos produtos ou sucessos e fracassos de organizações. Outros tipos de cobertura da mídia, segundo Churchill Jr. e Peter (2007), incluem resenhas (por exemplo, sobre um hotel, um restaurante, um CD, um carro esportivo etc.) e transmissões de entrevistas. Para obter cobertura de mídia, os profissionais de marketing podem utilizar comunicados à imprensa (press-releases), entrevistas coletivas e outros eventos destinados a chamar a atenção. No entanto, embora seja “propaganda gratuita”, a divulgação pode ter seu lado negativo. O gerente de marketing dispõe de pouco ou nenhum controle sobre o que é dito e sobre o público que recebe a informação. Como normalmente a equipe de marketing não participa do processo de editar as reportagens, nas entrevistas coletivas ou resenhas, certos comentários podem ser retirados do contexto, gerando confusão, mal-entendidos ou uma visão distorcida sobre a empresa e seus produtos e serviços. Por outro lado, justamente pelo fato de os profissionais de marketing não controlarem o conteúdo da publicidade, o público fica mais propenso a crer que as informações são verídicas. Desse modo, para uma empresa nova, pequena, ou sem fins lucrativos, com o orçamento de comunicação apertado, a publicidade favorável pode ser crucial para a promoção de produtos e serviços. Assessoria de imprensa Assessoria de imprensa é o trabalho de criar um relacionamento com os representantes dos meios de comunicação, que são formadores de opinião, visando promover uma atitude favorável à marca do produto e à empresa. (LIMEIRA, 2004, p. 302). De acordo com Lupetti (2003), todas as informações que a organização quiser divulgar podem ser trabalhadas por um jornalista (assessor de imprensa), cuja atividade mais primária é o release. O comunicado à imprensa é um artigo ou uma matéria cujo destino são os jornalistas da mídia em geral: TV, rádio, jornais etc. Pode-se enviar, também, fotos, vídeos ou qualquer outro material que auxilie na ilustração da matéria escrita e que, nesse caso, recebe o nome de press-kit ou kit- imprensa. Ao receber o release (ou o press-kit), o jornalista dessas mídias analisará a matériae decidirá se irá publicá-la ou não. Caso decida fazê-lo, não haverá custos para a empresa. É por isso que se diz que a assessoria de imprensa não é paga, mas, claro que o assessor é pago, mas a matéria publicada, não. 87 Marketing c. Promoção de vendas Segundo Kotler e Keller (2006), a promoção de vendas é um ingrediente-chave nas campanhas de marketing e consiste em um conjunto de ferramentas de incentivo ― a maioria de curto prazo ― para estimular a compra mais rápida ou em maior quantidade de produtos ou serviços pelos consumidores. Sendo assim, enquanto a propaganda oferece uma razão para comprar, a promoção de vendas oferece um incentivo. As ferramentas utilizadas podem ser para promoção de consumo (amostras, cupons, descontos, brindes, recompensas, testes gratuitos, prêmios, garantias, demonstrações etc.); promoção de comércio (descontos, bonificações, amostra grátis etc.) e promoção setorial e para equipe de vendas (feiras comerciais e convenções, concursos para vendedores etc.). d. Eventos e experiências Os eventos e as experiências possibilitam que as empresas prolonguem o contato dos seus clientes com as suas marcas e que o façam, de preferência, numa situação de entretenimento e lazer. Os eventos, nesse sentido, são uma oportunidade para que as pessoas sintam, toquem e tenham a experiência do contato com os produtos. De acordo com Kotler e Keller (2006), hoje em dia se atinge um percentual bem mais baixo da população com um anúncio em horário nobre do que nos anos oitenta, e assim grandes e pequenas empresas têm seguido uma tendência de adotar caminhos menos óbvios e menos caros, voltados para patrocínios, eventos e geração de experiências. Esses autores dizem que, do ponto de vista das empresas, há uma série de motivos para patrocinar eventos e promover experiências, tais como: criar identificação com um mercado-alvo ou com um estilo de vida específico; aumentar a conscientização do nome da empresa ou do produto; criar ou reforçar as percepções do consumidor quanto a associações-chave com a imagem da marca; aperfeiçoar as dimensões da imagem corporativa; criar experiências e provocar sensações; expressar compromisso com a comunidade ou com questões sociais; entreter os principais clientes ou recompensar funcionários- chave; permitir oportunidades de divulgação ou promoções. Os autores supracitados, no entanto, salientam que apesar das vantagens potenciais, existem desvantagens ligadas ao patrocínio de eventos e experiências. O sucesso do evento pode ser imprevisível e estar fora do controle do patrocinados. Há, também, uma ideia dúbia sobre o patrocínio, tendo em vista que muitas pessoas valorizam o fato de a empresa oferecer suporte financeiro a um evento, no entanto, outras pessoas podem se ressentir do caráter comercial que ele possui. O patrocínio bem-sucedido, portanto, passa pela escolha dos eventos apropriados, pela criação do programa de patrocínio ideal para o evento e pela avaliação dos efeitos que ele produz. 88 Capítulo 3 e. Vendas pessoais Shimp (2002) diz que, para a sabedoria popular empresarial, tudo começa com a venda e esta é então o ‘empurrão’ necessário para fazer com que os clientes usem novos produtos e aumentem as quantidades adquiridas. Miguel (2004) destaca que, como antes de comprar o cliente desenvolve várias expectativas ― provocadas por propagandas, mensagens publicitárias, experiências anteriores, entre outros, ― o vendedor, com cortesia, simpatia e outras habilidades específicas, precisa traduzir essas expectativas e oferecer produtos e serviços adequados a esses consumidores. Sendo assim, uma boa equipe de vendas que incorpore qualidades positivas é essencial para o sucesso de uma empresa. A venda pessoal é uma forma de comunicação pessoa a pessoa na qual um vendedor trabalha com potenciais compradores e tenta influenciar suas necessidades de compras em direção aos produtos e serviços de sua empresa. A característica mais importante dessa definição é a ideia de que a venda pessoal envolve interação pessoal. Isso contrasta com outras formas de comunicação de marketing nas quais o público normalmente consiste em muitas pessoas, algumas vezes milhões (no caso da propaganda na mídia de massa). (SHIMP, 2002, p. 496). f. Marketing direto É o conjunto de atividades de comunicação pessoal e direta, sem intermediários, entre a empresa e o cliente, por correio, fax, telefone, Internet e outros meios diretos de comunicação, visando obter uma resposta imediata do cliente e, por fim, a venda do produto. É também uma estratégia de comunicação e comercialização de produtos e serviços diretamente ao cliente, sem intermediação de meios ou canais de terceiros. (LIMEIRA, 2004, p. 300). De acordo com Churchill Jr. e Peter (2007), até algum tempo atrás o marketing direto limitava-se a folhetos e catálogos enviados pelo correio para os consumidores, solicitando uma resposta direta do cliente, resultando, em geral, na venda por telefone. Hoje em dia, no entanto, também inclui telefonemas, revistas, emissoras de rádio, televisão e computadores. Limeira (2004) esclarece que atualmente o vendedor, o telemarketing, as televendas, a internet e o call center (centrais de atendimento telefônico) são os meios de execução do marketing direto. E ferramentas como o CRM e database marketing (ou datamining) proporcionam maior eficácia para o marketing direto. 89 Marketing Etapa 7 – Mensuração dos resultados da comunicação Depois de implementar o plano de comunicação, as empresas precisam avaliar o impacto no público-alvo. Deve-se perguntar para as pessoas se elas reconhecem ou lembram da mensagem, quantas vezes a viram e o que sentiram em relação a ela, que detalhes lhes vêm à mente e quais são suas atitudes anteriores e atuais em relação ao produto e à empresa. Há que se fazer um levantamento também de quantas pessoas compraram o produto, se gostaram dele, se falaram a respeito para outras pessoas etc. Afinal, o que se quer hoje é uma comunicação de resultados. Portanto, a preocupação em controlar detalhadamente orçamentos, execução e resultados com comunicação é, hoje, generalizada. Etapa 8 – Gerenciamento da comunicação integrada de marketing O gerenciamento da comunicação integrada de marketing ― também chamada de CIM ―, de acordo com Shimp (2002), é uma das mais importantes tendências na área de marketing nos últimos anos. Segundo ele, no passado, as empresas normalmente tratavam os elementos da comunicação como atividades separadas, enquanto que a filosofia atual de marketing sustenta que a integração é absolutamente imperativa para o sucesso, como sintetizado pela citação a seguir: O profissional de marketing bem-sucedido no novo ambiente será aquele que coordenar o mix de comunicação de forma tão rigorosa que você pode olhar de veículo (propaganda) para veículo, de evento de programa para evento de programa e verá instantaneamente que a marca está falando uma única linguagem. (PLAVOUKAS, 1990 apud SHIMP, 2002). Seção 4 Praça (ponto de venda/distribuição) Nesta seção, vamos estudar sobre a praça, mas talvez você concorde que o termo não é muito convidativo para ser associado a uma das funções do marketing, não é mesmo? Por isso, eventualmente utilizaremos os termos ponto de venda e distribuição, que muitas vezes têm a denominação mais apropriada sobre sua utilidade: distribuir os produtos pelo mercado, permitindo o seu consumo. 90 Capítulo 3 A função da distribuição é garantir que o produto esteja disponível para os consumidores em local apropriado, em condições ideais de consumo, na hora em que eles precisarem ou quiserem. A responsabilidade por fazer com que isso aconteça de forma eficaz é dos profissionais de marketing, os quais têm que reconhecer as expectativas dos consumidores sobre a melhor maneira de dispor sobre determinado produto e executar essa função em consonância com os objetivos da organização. Para você entender melhoressa função do marketing, considere a seguir algumas situações hipotéticas: Imagine que o consumidor, depois de assistir uma bem produzida propaganda de um produto na televisão, resolve comprá-lo para experimentá-lo. No dia seguinte, vai a inúmeras lojas de sua cidade, mas não encontra o produto. Volta para casa frustrado, de mãos abanando e ainda com vontade de consumir, mas logo essa vontade se transforma em frustração e, logo mais, em desprezo por aquela determinada marca que o convidou à diversão, mas na verdade não deixou brincar. Em outra situação, conceba um outro consumidor que vê um anúncio na sua revista, falando de um novo restaurante que acabou de abrir a poucas quadras de sua casa, dizendo tratar-se de um local refinado e de padrão internacional, com cozinha de primeira e ambiente moderno e aconchegante. Pois o nosso hipotético comensal resolve levar toda a família no final de semana para conhecer o lugar, mas chegando lá, tem uma bruta decepção! Além de estar instalado numa casa velha, dá para ver que o ambiente foi improvisado, sem nenhuma preocupação com o bem-estar dos clientes, apenas com mesas e cadeiras, amontoadas em espaços minúsculos com pouca condição de circulação e nenhuma de ventilação. O cheiro dos banheiros se mistura com o da cozinha, e em alguns momentos parece haver uma guerra prestes a estourar, tal a correria de garçons por entre os apertados corredores que se formam entre as mesas. As soluções para os problemas de marketing aqui relatados fazem da administração de canais uma responsabilidade também dos profissionais de marketing. De acordo com Kotler e Keller (2013), a maioria dos fabricantes não vende diretamente para os consumidores finais; há vários intermediários realizando essa tarefa. Esses intermediários constituem os canais de marketing (canais comerciais, ou canais de distribuição). Alguns intermediários, tais como atacadistas e varejistas, compram, adquirem direito sobre os produtos e os revendem. Outros — corretores, representantes dos fabricantes, representantes de vendas —, buscam clientes e às vezes negociam em nome do fabricante, sem, 91 Marketing no entanto, possuir direito sobre os produtos; são os representantes. Há ainda as transportadoras, armazéns independentes, bancos etc. que dão apoio ao processo de distribuição, mas não têm direito sobre os produtos e nem negociam compras ou vendas; são os facilitadores. Para Dias et al. (2004), a política e o sistema de distribuição visam ao longo prazo. As empresas não costumam mudar periodicamente a maneira de distribuir seus produtos e serviços. Assim, como a longevidade do sistema costuma ser uma praxe, antes de operacionalizá-lo há que se analisar e decidir sobre alguns aspectos, quais sejam: • Quais os objetivos de penetração e ocupação de mercado pretendidos? • Qual o nível de risco que se tem em mente? Será que é preferível ter poucos clientes que representam uma parcela importante do faturamento ou, ao contrário, ter muitos clientes e não permitir que nenhum deles signifique mais que um percentual definido do faturamento previsto? • Qual o posicionamento desejado para a marca/produto? • Como compatibilizar posicionamento com os canais de distribuição? • Qual o objetivo de prestação de serviços aos nossos clientes? Natureza dos canais Tendo em vista as definições de canais de marketing acima, as empresas devem decidir entre a utilização de canais diretos, indiretos ou mistos. A seguir, acompanhe a descrição de cada um deles: • Dá-se o nome de canal direto (ou próprio) quando o processo de distribuição está sob responsabilidade do próprio fabricante, que dispensa qualquer outra pessoa ou organização da responsabilidade de fazer seus produtos chegarem ao mercado; • Canal indireto (ou terceirizado) é quando a empresa opta por entregar a terceiros a distribuição de seus produtos, concentrando seus esforços e recursos na produção; • Há, ainda, a possibilidade de a empresa confiar parte da distribuição a terceiros e ficar com a outra parte sob sua responsabilidade direta. A essa logística chamamos canal misto. A Figura 3.9 ilustra os canais para bens de consumo. 92 Capítulo 3 Figura 3.9 - Canais para bens de consumo Produtor Produtor Produtor Produtor Agentes Atacadistas Atacadistas Varejistas Varejistas Varejistas Consumidores Consumidores Consumidores Consumidores Canal direto Canais indiretos Fonte: Churchill Jr. e Peter, 2007, p. 371. Obviamente, a escolha por cada uma das modalidades vai depender das características do produto comercializado, bem como dos objetivos e estratégias definidas pela empresa. Cada uma dessas modalidades tem vantagens e desvantagens. O Quadro 3.3 mostra as vantagens e desvantagens dos tipos de canais. Quadro 3.3 – Vantagens e desvantagens dos canais Tipos de canais Vantagens Desvantagens Diretos Permitem maior controle sobre o fluxo de distribuição. Também proporcionam um maior relacionamento (em termos de proximidade) com os varejistas. É preferível quando houver concentração geográfica dos clientes e quando o produto for muito complexo e demanda um acompanhamento mais próximo. Além disso, torna-se inexistente o risco de conflito de interesses, por exemplo, com o canal. É desaconselhável quando o produto distribuído é perecível, uma vez que demanda agilidade na entrega, o que nem sempre o canal próprio pode oferecer na mesma proporção que os intermediários. Quando há necessidade de formar estoque, os custos associados a isso acabam por trazer ônus à empresa. Além disso, faz com que seja preciso a empresa despender tempo e dinheiro na administração de um sistema de distribuição. 93 Marketing Tipos de canais Vantagens Desvantagens Indiretos Dão condições à empresa de focar seu principal negócio (produção e gestão de marca). Permitem, na maioria das vezes, uma maior capilarização do mercado (presença física ou virtual, em um local, que possibilite acesso do consumidor ao produto). Com a utilização de canais terceirizados, a empresa passa a necessitar da criação de mecanismos de controle dos canais, de maneira a permitir a monitoração de suas operações. Há riscos potenciais de surgirem conflitos por conta de divergências em relação a objetivos. O que, por fim, estabelece-se, é uma relação que gera compromissos nem sempre fáceis de serem desfeitos. Fonte: Sandhusen, 2003. A definição dos canais é, pois, uma decisão crítica a ser tomada pela empresa. Seleção e administração dos canais Saber fazer a escolha dos canais é uma ação crítica pelo fato que serão esses mesmos canais que representarão, em última instância, a empresa para a qual prestam serviços. O canal torna-se, na verdade, a “cara” da empresa para o mercado, ou seja, aquela que será vista e estará próxima aos consumidores. E é por essa razão que a seleção de canais mostra-se uma ação complexa, uma vez que ela estabelece uma relação de confiança e que pode ser duradoura entre duas partes. Ela assume as características tal qual um casamento: é importante que ambas as partes se deem a conhecer e se explorem em profundidade, de modo a saber se há real afinidade e convergência de princípios e propósitos entre elas para estabelecerem um contrato de parceria. Sendo o canal um intermediário entre produtor (a empresa) e os usuários finais (consumidores), os conflitos de canal podem ocorrer em duas dimensões: entre o produtor e o intermediário e entre os próprios intermediários. Quais os conflitos mais comuns? 94 Capítulo 3 As razões de conflitos podem ser várias. Entre produtores e intermediários, as causas mais comuns são divergências entre: • remuneração; • falta de autonomia; • sobre o empenho para a realização de vendas. Já entre os próprios intermediários, as diferenças podem ser: • disputas de territórios; • práticas competitivas; • políticas de preços; • concorrência desleal. Por mais que seja importante a funçãodo canal de fazer o produto chegar às mãos dos consumidores, concomitante a isso ele pode ter e exercer outras utilidades. Funções dos canais Pela proximidade do consumidor com que opera, o canal pode servir de valioso aliado na busca de maiores informações e na tarefa de proporcionar a satisfação dos consumidores. Como extensão ou representante da empresa, seu papel é interagir com os mercados, buscando sua integração aos esforços da empresa. Por conta disso, ele pode desempenhar funções transacionais, funções logísticas e funções de facilidade. Acompanhe o quadro que segue. 95 Marketing Quadro 3.4 – Funções dos canais FUNÇÕES TRANSACIONAIS Comprar Promover Riscos Comprar produtos a fim de revendê-los. Promover produtos para clientes e solicitar pedidos. Assumir os riscos comerciais da propriedade de bens que podem se deteriorar, danificar ou tornar-se obsoletos. FUNÇÕES LOGÍSTICAS Concentração Armazenamento Organização Distribuição física Trazer bens de vários lugares para um único ponto de venda. Manter estoques e proteger os bens de maneira que satisfaça as necessidades dos clientes. Comprar bens em quantidade e dividi-los em volumes desejados pelos clientes, o que inclui: · acumulação: reunir bens similares de múltiplas fonte num estoque maior e homogêneo; · distribuição: dividir um estoque homogêneo em lotes menores; · combinação: construir um sortimento de produtos a partir de várias fontes; · classificação: dividir um estoque heterogêneo em estoques separados, relativamente homogêneos. Mover bens fisicamente de onde eles foram fabricados para onde eles são comprados ou usados; inclui transporte, armazenamento, administração de estoques e processamento de pedidos. FUNÇÕES DE FACILITAÇÃO Financiamento Graduação Pesquisa de marketing Proporcionar crédito ou fundos para facilitar uma transação. Inspecionar produtos e classificá-los em categorias com base em qualidade. Reunir e transmitir informações sobre condições do mercado, vendas esperadas, tendências dos consumidores e forças competitivas. Fonte: Adaptação de Churchill Jr.; Peter, 2007, p. 369. 96 Capítulo 3 Grau de cobertura do mercado De acordo com os objetivos de marketing da empresa, com as características de seu produto e com o perfil de seus consumidores, o marketing deve definir qual o grau de cobertura a ser adotado, ou seja, aspectos quantitativos e qualitativos a respeito do ponto de venda. As possibilidades de cobertura do mercado são as seguintes: • Distribuição intensiva: são usados todos os pontos de venda à disposição da empresa, com a intenção de atingir o maior número possível de consumidores. Útil para produtos como sabão, pães, jornais e leite, os quais o consumo é frequente e torna-se necessário estarem amplamente disponíveis; • Distribuição seletiva: serve para produtos cuja frequência de compra não é tão grande, mas os consumidores apreciam a possibilidade de um contato para conhecê-los, aliada à possibilidade de comprá-los em vários locais. Mesmo que a amplitude de pontos de venda seja razoavelmente elevada, já enseja um maior cuidado na seleção, de maneira a não permitir incompatibilidade entre o posicionamento da marca com o do intermediário. Como exemplo podemos citar eletrodomésticos, alguma roupas e cosméticos; • Distribuição exclusiva: destina-se a produtos de posicionamento premium, cuja exclusividade na distribuição reforça a imagem de sofisticação e o cuidado extremado com a qualidade e o valor entregue. É o caso de grifes como Armani e automóveis como Mercedes e Ferrari. Lembre-se sempre que um bom produto, vendido a um preço compatível com a capacidade de consumo de um mercado-alvo, anunciado de maneira atraente e sedutora, precisa estar em condições de consumo quando os consumidores decidirem por fazê-lo. 97 Marketing Referências ACESU- Associação Cearense de Supermercados. Produção de embalagens “ecologicamente corretas” ganha corpo no Brasil, com alta na demanda. 2013. Disponível em: <http://www.acesu.com.br/index.php/imprensa/noticias/247- producao-de-embalagens-ecologicamente-corretas-ganha-corpo-no-brasil-com- alta-na-demanda>. Acesso em: 29 jun. 2016. BORDENAVE, Juan Díaz. Além dos meios e mensagens. Rio de Janeiro: Vozes, 1983. CARIONI, Rodrigo. Gestão de marketing I: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2006. CHURCHILL JR., Gilbert A.; PETER, J. Paul. Capítulo 9. Administrando produtos existentes. In: Marketing: criando valor para o cliente. São Paulo: Saraiva, 2007. Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/10223503/>. Acesso em: 29 jun. 2016. DIAS, Sérgio Roberto; et al. Gestão de Marketing. Professores do Departamento de Mercadologia da FGV-EAESP e Convidados. São Paulo: Editora Saraiva, 2004. GALINDO, Daniel. Propaganda inteira & ativa. São Paulo: Futura, 2002. KOTLER, P. Marketing para o século 21: como criar, conquistar e dominar mercados. 5ª ed. São Paulo: Futura, 2000. KOTLER, Philip. 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E isso nem sempre é tarefa fácil, pois são muitas as variáveis que criam motivação ou repulsa em relação à compra de produtos. Eis que entender um pouco o que se passa na cabeça das pessoas deixou de ser um sonho para os profissionais de marketing, passando a representar uma necessidade para o sucesso do exercício de suas funções. Para que o marketing seja bem sucedido, as empresas devem se conectar plenamente com seus clientes. Adotar o conceito de marketing holístico significa entendê-los — adquirir uma visão de 360 graus tanto do cotidiano como nas mudanças que ocorrem ao longo do ciclo de vida deles para assegurar que os produtos certos estão sendo comercializados para os clientes certos de maneira certa. (KOTLER; KELLER, 2013, p. 163). As relações de consumo passaram por mudanças ao longo dos tempos. Relações muito estreitas, nas quais o próprio fabricante se fazia, às vezes, de vendedor, começaram a ocorrer em larga escala, fruto da evolução dos meios de produção e de distribuição. 100 Capítulo 4 Essa evolução acelerada que o mundo experimentou ao longo do século 20 trouxe à luz uma despersonalização dos contatos, fazendo com que as pessoas perdessem sua identidade e tornando-as números e estatísticas. Isso passou a ser resgatado em meados da década de 1990, quando o consumidor, imbuído de sua individualidade, passou a ver sua importância e a sucessão de esforços para conhecê-lo melhor, no período em que ficou conhecido como a Era do Consumidor. A partir daí — muito em razão da emergência de tecnologias que davam condições de realizar uma espécie de “customização em massa”, ou seja, atender a um grande número de clientes com particularidades próprias a cada um —, houve uma inversão de foco e o marketing passou a privilegiar toda e qualquer possibilidade que permitisse adentrar na cabeça e no coração dos integrantes de seus mercados. Processo decisório de compra “Ser consumidor é ser humano. Ser consumidor é alimentar-se, vestir-se, divertir-se... é viver”. (KARSAKLIAN, 2000, p. 11). As pessoas são dotadas de individualidade, mas em função do meio em que vivem e das ocupações a que se dedicam, acabam recebendo influências e perdendo um pouco dessa condição de indivíduo. A maneira como um indivíduo enxerga determinadas oportunidades pode representar uma inominável ameaça para o seu amigo, assim como alguém pode reagir favoravelmente a uma propaganda enquanto, para outro, ela pode merecer nada além da indiferença. As razões que levam as pessoas a consumirem diferem muito, em função de fatores circunstanciais e da própria construção de suas realidades subjetivas. Imagine alguém que foi criado em uma família com poucos recursos, com sérias limitações de ordem financeira, que impediam o desfrute de alguns prazeres bem básicos. A realidade da vida dessa pessoa certamente vai determinar-lhe a postura frente às relações de consumo, em razão das privações a que foi submetida. Se, ao contrário, as pessoas tiverem acesso a condições financeiras extremamente favoráveis que as permitam apropriar-se de produtos cuja necessidade nem sempre era tão premente, o comportamento dela frente ao consumo vai ser por esse passado determinado. Contudo, graças à mobilidade social, ou seja, à possibilidade de as pessoas transitarem entre diferentes classes sociais, ambos os indivíduos antes considerados podem ter semelhante comportamento de consumo, tendo chegado a eles, porém, por razões e caminhos diversos. 101 Marketing Para Karsaklian (2000), o ato de compra não surge do nada. Seu ponto de partida é a motivação, que vai conduzir a uma necessidade, a qual, por sua vez, despertará um desejo. Com base nesse desejo, surgem as preferências por determinadas formas específicas de atender à motivação inicial, preferências que estarão diretamente relacionadas ao autoconceito: o consumidor tenderá a escolher um produto que corresponde ao conceito que ele tem ou gostaria de ter de si mesmo. As empresas inteligentes, de acordo com Kotler e Keller (2013), tentam compreender plenamente o processo de decisão de compra dos seus clientes. Engel, Miniard e Blacwell (2000) apresentam um modelo de etapas para o processo de decisão de compra. Embora nem todos os consumidores passem por todas as etapas em todas as suas aquisições, podendo inclusive pularem ou inverterem algumas das etapas, a figura a seguir fornece um bom parâmetro para entendimento do assunto, pois pode captar a ampla gama de considerações que surgem quando o consumidor se vê, por exemplo, diante de uma nova compra. Figura 4.1- Processo decisório de compra do cliente final Reconhecimento de necessidade Busca Avaliação de alternativa pré-compra Compra Consumo Avaliação pós-consumo Despojamento Fonte: Adaptação de Engel, Miniard e Blacwell, 2000. Veja cada uma das etapas: 1. Reconhecimento de necessidades: surge quando o consumidor se vê privado de condições para o atendimento das suas necessidades. Pode ocorrer, por exemplo, quando ele percebe que está sem roupas para uma festa, sem comida para preparar seu jantar, quando o seu notebook está desatualizado e dando inúmeros defeitos etc. Pode ser, também, uma necessidade provocada por estímulos externos, quando uma pessoa admira 102 Capítulo 4 o carro novo de um amigo ou vê uma propaganda de férias em Fernando de Noronha na TV, o que desencadeia ideias sobre a possibilidade de fazer uma compra. Trata-se, em resumo, do despertar para um “ problema” que precisa de alternativa de solução. 2. Busca de informação: normalmente ocorre a chamada “busca interna” — ou seja, na memória, em relação a experiências passadas, dicas de amigos etc., — e a “busca externa”, que se dá por meio de consulta a familiares, revistas, catálogos, internet, visita a lojas e supermercados etc. 3. Avaliação de alternativa pré-compra: é como o consumidor processa as informações de cada marca e faz o seu julgamento final. Kotler e Keller (2013) salientam que não existe um processo único usado por todos os consumidores. Normalmente, os aspectos a serem avaliados são a marca, a loja, a quantidade, a forma de pagamento, entre outros. Por outro lado, muitas vezes os consumidores podem decidir poupar aquele recurso, comprar outro produto, ou, ainda, comprar em outra ocasião, quando certamente haverá chances de liquidações. 4. Compra: é a ação propriamente dita; ocorre normalmente em um ponto de venda físico ou virtual, na porta de casa etc. Acontece aí a transferência de posse. 5. Consumo: essa etapa, tradicionalmente, não atraía muito o interesse das empresas, cujo objetivo principal era vender. Há algumas décadas, no entanto, com o crescimento da concorrência, houve uma grande mudança em direção à satisfação e retenção do cliente, e hoje em dia é impossível esquecer dessa fase do processo decisório. Em São Paulo, na sala do cafezinho da filial da Unilever, uma das maiores empresas do mundo nos ramos de alimentação e limpeza, o pessoal do escritório tem uma televisão sintonizada o tempo todo num reality show. As estrelas são os integrantes de uma família de classe média, com destaque para a dona-de-casa em seus afazeres: lavar, passar e cozinhar. Câmeras instaladas pela Unilever na casa de uma consumidora transmitem ao vivo essa programação. Há outras residências em que o mesmo tipo de vigilância é exercido cara a cara por um funcionário do grupo Pão de Açúcar que acompanha a família do café-da-manhã aofutebol pela TV, à noite, anotando cada item consumido, toda referência a algum produto, a emissora de rádio sintonizada, qualquer movimento que se relacione com compras. Essas bisbilhotices – com o consentimento dos bisbilhotados – são 103 Marketing duas das técnicas coordenadas pelos departamentos de marketing de grandes empresas na tentativa de mapear os hábitos do consumidor, para depois ter ideias sobre como vender com maior eficiência. “Já não basta saber o que fazem ou dizem que fazem os consumidores”, explica Maristela Guimarães, professora de comportamento de compras e consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing, de São Paulo. “As grandes companhias agora estão empenhadas em descobrir o desejo íntimo do consumidor, como se entrassem em sua alma.” Analistas dos hábitos das pessoas em relação a consumo há muito concluíram que nem sempre elas conseguem definir o que desejam. Daí a importância de vigiá-las, estudá-las, para descobrir como seduzi- las. (NEGREIROS, 2003, p. 102). 6. Avaliação pós-consumo: espera-se que o consumidor fique satisfeito e que essa experiência positiva retroalimente o processo decisório de compra. Mas pode acontecer o contrário também; ou seja, o consumidor pode ficar insatisfeito, desejar devolver o produto, reclamar nas redes sociais etc. Dessa forma, o trabalho dos profissionais de marketing não acaba quando o produto é comprado. Há que se monitorar a satisfação, as ações e a utilização em relação ao produto depois do consumo. 7. Despojamento: de acordo com Kotler e Keller (2013) os profissionais de marketing devem monitorar como os compradores usam e descartam os produtos. Além disso, em muitos setores há obrigação legal de encaminhar para aterros sanitários os lixos criados ou utilizados. Algumas empresas fazem o que chamamos de “logística reversa”, ou seja, as empresas devem coletar os seus produtos após serem descartados pelos consumidores. Quem produz e vende celulares, por exemplo, deve se responsabilizar pelo recolhimento dos aparelhos descartados pelos consumidores. E, para encerrar o estudo dessa última etapa, acompanhe na Figura 4.2 como os clientes usam e descartam os produtos. 104 Capítulo 4 Figura 4.2 - Como os clientes usam ou descartam os produtos Produto Descartam temporariamente Descartam permanentemente Mantêm Alugam Emprestam Usam para servir ao propósito original Transformam para servir a um novo propósito Guardam Trocam Vendem Jogam fora Doam A ser (re)vendido Direto ao consumidor Por meio de intermediários Ao intermediário A ser usado Fonte: Kotler e Keller, 2013, p. 185. Fatores que influenciam o comportamento do consumidor Um consumidor tem suas razões para ter determinado tipo de comportamento em relação ao consumo. Muito diz respeito a aspectos relacionados à sua criação e formação, mas também há muita relevância nas posições que ocupa e no meio em que circula. Os fatores que influenciam o comportamento do consumidor podem ser divididos em três categorias, conforme mostra a Figura 4.3. Figura 4.3 – Influências sobre o comportamento do consumidor Influências sociais Influências de marketing Influências situacionais - Cultura - Subcultura - Classe social - Grupos de referência - Família - Produto - Preço - Praça (distribuição) - Promoção - Ambiente físico - Ambiente social - Tempo - Tarefa - Condições momentâneas Processo de compra do consumidor Fonte: Churchill Jr.; Peter, 2007, p. 153. 105 Marketing Veja a seguir como se apresenta cada um dos tipos de influência sobre o consumidor no momento da compra. As influências sociais se dividem em cultura, subcultura, classe social, grupos de referência e família. Acompanhe a descrição de cada uma delas: Quadro 4.1 – Influências sociais Cultura Representa um conjunto de valores e comportamentos que se espraiam por uma sociedade, representando um referencial quanto a padrões esperados de conduta. Subcultura Compreende um segmento dentro da cultura disseminada de maneira geral, tornando-se um estrato distinto e cujo somatório com outras subculturas compõem a cultura em si. Classe social Refere-se a uma hierarquização capaz de dividir uma sociedade com base em poder econômico e político, capacidade intelectual e bagagem cultural. Grupos de referência Constituem-se de pessoas que influenciam o comportamento do indivíduo por meio da convivência. Podem ser divididos em primários (amigos e família), nos quais ocorrem relações com maior intensidade, e secundários (organizações e associações), nos quais a interação não é tão frequente e vinculativa. Família Constitui-se de relações com determinado grau de intimidade, podendo ser dividida em família de orientação, formada pelos pais, e a família de procriação, composta pelo cônjuge e filhos. Fonte: Carioni, 2006, p.103. As influências de marketing são representadas pelo Composto de Marketing, ou 4 Ps (produto, preço, promoção e praça), tratando da forma como cada elemento influencia o comportamento de consumo a partir dos estímulos de marketing. 106 Capítulo 4 Quadro 4.2 – Influências de marketing Produto Tem relevância uma vez que suas características e funcionalidade sinalizarão valor ao consumidor, permitindo-lhe vislumbrar os seus benefícios e perceber a sua adequação às necessidades a serem atendidas. Preço Serve como parametrizador ao informar ao consumidor o quanto ele vai ter de abrir mão de sua renda para fazer frente àquela aquisição. Pode tornar- se um facilitador (no caso de corresponder à capacidade financeira do consumidor) ou fator restritivo (quando é superior à sua capacidade financeira ou não representa, aos olhos do consumidor, o valor por ele percebido). Promoção Depende da capacidade de influenciar positivamente o consumidor e nele despertar o desejo de consumo, por meio da utilização de recursos comunicacionais apropriados e persuasivos. Praça Diz respeito à capacidade da empresa de disponibilizar o produto na hora, local e quantidade certos e, ainda, em condições adequadas. Fonte: Carioni, 2006, p.103. As influências situacionais envolvem o ambiente físico, o ambiente social, a função, a tarefa e as condições momentâneas. 107 Marketing Quadro 4.3 – Influências situacionais Ambiente físico Diz respeito às condições em que o ponto de venda é acessado e utilizado pelo consumidor, ou seja, localização, disposição física do ambiente, atmosfera e condições de estadia. Ambiente social Revela as condições de convívio com outras pessoas a que será submetido o consumidor. Tais condições têm de ser ajustadas para o perfil do mercado que se está atendendo, o qual delimita o acesso a indivíduos com certa similaridade de expressão. Tempo Compreende a observação de aspectos relacionados ao tempo que o consumidor terá para fazer suas compras e, também, ao período de funcionamento de determinado estabelecimento. Função Diz respeito ao papel para o qual produto vai prestar-se, ou seja, a razão objetiva de consumo de algo. Condições momentâneas Influenciam o comportamento de compra por corresponderem ao estado físico, emocional e psicológico próprios ao consumidor quando da decisão de compra, influenciando significativamente na capacidade de reagir a estímulos que lhe foram e serão dirigidos. Fonte: Carioni, 2006, p.104. O estudo do comportamento do consumidor, portanto, tenta compreender os pensamentos, sentimentos e ações dos consumidores e as influências exercidas sobre eles. Cabe aos profissionais de marketing obter informações e uma dose de sensibilidade para fazer essa “leitura” e tomar decisões. 108 Capítulo 4 Seção 2 Segmentação de mercado As empresas não podem atender a todos os clientes em mercados amplos ou diversificados. Mas podem dividir tais mercados em grupos de consumidores ou segmentos com diferentes necessidades e desejos. Uma empresa precisa, então, identificar os segmentos de mercado em que poderá atender com eficácia.Essa decisão requer um profundo entendimento do comportamento do consumidor e uma análise estratégica cuidadosa. Para desenvolver os melhores planos de marketing, os gerentes precisam entender o que distingue cada segmento. Identificar e satisfazer os segmentos de mercado costumam ser a chave para o sucesso de marketing. (KOTLER; KELLER, 2013, p. 227). Para Churchill Jr. e Peter (2007), uma das histórias mais antigas sobre a necessidade de segmentação de mercado diz respeito ao início da indústria automobilística. Como foco na linha de produção em massa, Ford desenvolveu o modelo T como um carro destinado a satisfazer a todos. Ao contrário dele, Sloan Jr., da GM, pediu aos engenheiros que criassem modelos que atendessem as necessidades e gostos de diversos grupos de clientes diferentes. O aprendizado que ficou é que dificilmente um único composto de marketing é adequado para atender desejos e necessidades de todo o mercado de um determinado produto. Observa-se, então, que clientes diferentes costumam comprar em locais diferentes (em um bazar, shopping, loja de grife etc.), são estimulados por mídias e informações diversas, além de preços diferentes. Dessa forma, as empresas devem usar as informações sobre o tamanho e o perfil dos segmentos de mercado existentes e suas tendências para, com base nelas, decidir quem vai atender de forma mais lucrativa e eficaz, e traçar, assim, suas estratégias. A segmentação de mercado é a ação de identificar e classificar grupos distintos de compradores que podem exigir produtos e/ou compradores de marketing separados. Já a escolha de mercado-alvo é a seleção de um ou mais segmentos de mercado para penetrar; e posicionamento de mercado é o ato de estabelecer e comunicar os principais benefícios dos produtos ao mercado. Churchill Jr. e Peter (2007) salientam que há alguns modos básicos para uma organização servir aos mercados; veja o quadro a seguir. 109 Marketing Quadro 4.4 – Abordagens para os mercados servidos Abordagem Descrição Exemplos Marketing de massa Um único composto de marketing para todo o mercado Coca-Cola Marketing por segmentos Um único composto de marketing para um segmento de mercado Compostos de marketing separados para dois ou mais segmentos de mercado Produto de beleza para mulheres negras McDonald´s (McLanche Feliz para crianças, Big Mac para adolescentes e adultos) Marketing individual Um composto de marketing personalizado para um indivíduo ou organização Lazer personalizado para clientes assíduos dos hotéis Ritz-Carlton. Fonte: Adaptação de Churchill Jr. e Peter, 2007, p. 205. Observa-se que o marketing de massa cria maior potencial de mercado, leva a custos menores que, por sua vez, representam preços mais baixos. Já o marketing de segmento oferece uma oferta mais ajustada e normalmente cobra por isso. Entende que há diferença nos desejos, no poder de compra, nas localizações geográficas, atitudes, hábitos de compra etc. Em relação ao chamado marketing de nicho (nichos são subsegmentos), tipicamente atrai empresas menores e com poucos concorrentes. As principais características desse tipo de marketing são um conjunto específico e completo de necessidades; consumidores dispostos a pagar mais; grande potencial de tamanho, lucro e crescimento do nicho. Vantagens da segmentação de mercado São muitas as vantagens de segmentação de mercados. Dias e outros autores (2004) apresentam algumas: • Conhecendo melhor seu cliente, a empresa poderá servi-lo melhor. Quanto mais detalhado for esse conhecimento, melhor será o ajuste das variáveis de marketing; • Conhecendo bem os clientes e se eles estiverem agrupados, mais fácil será para quantificá-los; 110 Capítulo 4 • Quando se sabe quem são, onde estão e quantos são os clientes, fica mais fácil definir o tipo e a intensidade da distribuição do mercado; • Conhecendo as características dos grupos de clientes-alvo, seus hábitos e costumes, será mais fácil a empresa se comunicar com eles; • Fica mais objetiva a tarefa de pesquisar o mercado; • Fica mais fácil identificar oportunidades para novos lançamentos de produtos. Bases para segmentação de mercados De acordo com Kotler e Keller (2013) e Churchill Jr. e Peter (2007), são inúmeras as maneiras de segmentar mercados de consumo; e os profissionais de marketing podem usar diversas abordagens, combiná-las ou usar outras bases que ajudam a criar valor para os consumidores de forma lucrativa. Normalmente, são dois os grupos de variáveis: 1º grupo – Características do consumidor: a. Variáveis geográficas: países, regiões, estados, cidades, bairros, concentração da população (rural, urbana), clima (quente, frio) etc. b. Variáveis demográficas: faixa etária, tamanho da família, ciclo de vida da família, sexo, renda, ocupação, formação educacional, religião, geração, nacionalidade, classe social, raça etc. c. Variáveis psicográficas: estilos de vida (objetivos, extravagantes, intelectuais, tradicional, sofisticado, esportivo etc.), tipos de personalidade (independentes, impulsivos, atentos às mudanças, ambiciosos, autoritários, econômicos, gregários, agressivo, distante etc.); atitudes em relação ao produto/serviço (positivo, neutro, negativo). 2º grupo – Respostas dos consumidores: a. Variáveis comportamentais: ocasião de compra (normal, especial). Ex.: compra de bombons para presentear e compra de bombons para o consumo da família. Provavelmente, serão compras diferenciadas: para presentear a embalagem é mais importante, a marca etc. Podem ser benefícios esperados do produto (qualidade, rapidez, economia etc.); tipos de usuário (não usuários, usuários, usuários potenciais etc.); estágio de aptidão do comprador em relação ao produto (informados, interessados, desejosos etc.). 111 Marketing Requisitos para a segmentação eficaz Para Kotler e Armstrong (1995), há muitas maneiras para segmentar um mercado, entretanto, nem todas as segmentações são eficazes. Às vezes, a variável selecionada não é relevante para determinada compra; ou, ainda, há mercados que são poucos “segmentáveis” do ponto de vista de marketing. Para serem úteis, os segmentos de mercado devem ser: • Mensuráveis: o tamanho, o poder de compra e as características dos segmentos devem ser possíveis de serem medidos; • Substanciais: os segmentos são grandes e rentáveis o suficiente para serem atendidos? Um segmento deve ser o mais homogêneo possível para justificar a adoção de um programa de marketing sob medida. Por exemplo, não valeria a pena para um fabricante de automóveis desenvolver carros para pessoas com menos de 1,25m de altura; • Acessíveis: os segmentos podem ser eficazmente atingidos e atendidos; • Diferenciáveis: os segmentos são conceitualmente distinguíveis e respondem diferentemente a diferentes elementos do composto de marketing e a programas de marketing. Se mulheres casadas ou descasadas responderem igualmente a uma venda de casacos de pele, por exemplo, não constituem segmentos separados; • Acionáveis: programas eficazes podem ser formulados para atrair e atender aos segmentos. Seleção de segmentos de mercado Após avaliar os diferentes segmentos, a empresa deve decidir quais e quantos deles atender, considerando os seguintes aspectos (KOTLER, 1998): • Concentração em segmento único É o caso mais simples, quando a empresa seleciona um único mercado. Exemplo: Uma editora concentra seu alvo no mercado de livros-textos para as áreas de economia e administração. Neste caso: 1. Por meio de marketing concentrado, a empresa alcança uma forte posição de mercado no segmento de cujas necessidades possui maior conhecimento, e pode, com isso, obter reputação especial; 112 Capítulo 4 2. Pode desfrutar de economia de escala pela especialização em produção, distribuição e promoção; 3. Entretanto, pode envolver riscos além dos normais: um segmento específico pode não ser mais atraente; um concorrente pode “invadir” o segmentoetc. • Especialização seletiva A empresa seleciona alguns segmentos, todos devidamente atraentes e apropriados, conforme os recursos e objetivos definidos. Neste caso: 1. Pode haver pouca ou nenhuma sinergia entre os segmentos, mas cada um deles promete ser fonte de lucro; 2. Apresenta a vantagem de diversificar o risco da empresa (mesmo se um segmento tornar-se não atraente, a empresa pode continuar ganhando $ nos outros). • Especialização por produto Aqui a empresa concentra-se na fabricação de um produto vendido a diversos segmentos. Exemplo: Um fabricante de microscópios que vende a laboratórios universitários, público em geral e industriais. (A empresa fabrica microscópios diferentes para estes grupos, mas evita fabricar outros instrumentos usados por laboratórios). Neste caso: 1. A empresa pode desenvolver forte reputação na área específica do produto; 2. Haveria risco se os microscópios fossem suplantados por uma tecnologia totalmente nova. • Especialização por mercado Aqui, a empresa concentra-se em atender a muitas necessidades de um grupo específico de consumidores. Exemplo: Uma empresa que vende um sortimento de produtos para reparos domésticos: chave de fenda, martelo, prego, parafusos, furadeiras etc. Neste caso: 1. A empresa pode obter maior reputação ao especializar-se no atendimento desse grupo de clientes, tornando-se um canal para todos os novos produtos que forem lançados; 2. Há risco se esse mercado sofrer uma baixa repentina. 113 Marketing • Cobertura ampla de mercado Nesse caso, a empresa tenta atender a todos os grupos de consumidores em todos os produtos que possam necessitar. Apenas as grandes empresas podem adotar uma estratégia de cobertura ampla de mercado. Exemplos: A IBM (mercado de computadores), Volkswagen (mercado de veículos), Coca-Cola (mercado de bebidas). As grandes empresas podem cobrir um mercado amplo de duas maneiras: por meio de marketing indiferenciado ou marketing diferenciado. Veja as explicações sobre eles no quadro a seguir. Quadro 4.5 – Marketing indiferenciado x diferenciado Marketing indiferenciado Foca nas necessidades dos compradores, em vez das diferenças entre eles. Desenvolve produto e programa de marketing que atrairá um número mais amplo de compradores. Confia na distribuição e propaganda de massa. O programa de propaganda indiferenciado mantém os custos de divulgação baixos. Quando várias empresas praticam marketing indiferenciado, o resultado é uma competição intensa nos segmentos de mercado maiores e insatisfação naqueles menores. Marketing diferenciado A empresa opera em diversos segmentos de mercado e desenvolve diferentes programas para cada segmento. A General Motors faz isso quando afirma que produz um carro para cada “bolso, propósito e personalidade”. Tipicamente, marketing diferenciado cria maior volume de vendas do que marketing indiferenciado. Entretanto, também aumenta os custos do negócio. Fonte: Adaptação de Kotler, 1998. Neste capítulo você teve a oportunidade de estudar sobre o comportamento do consumidor: como age; quem e o que o influencia; como escolhe, compra e usa os produtos e serviços etc. Tendo em vista que consumidores somos todos nós (podemos ser mais ou menos consumistas, ter mais ou menos condições financeiras, mas no mundo contemporâneo no qual vivemos essa é uma atividade corriqueira), esse é um assunto relativamente fácil, pois podemos, e no caso do profissional de marketing, devemos, observar ao nosso redor e perceber as composições familiares se modificando, os valores da sociedade se transformando e novas gerações chegando. Tudo isso é palpável, sendo primordial a observação/ação diária por parte das empresas, pois significa sobrevivência no mercado. Prestando atenção nos consumidores, várias organizações vão segmentando-os e oferecendo produtos e serviços específicos, personalizados, muitas vezes até inusitados. Nessa última seção, portanto, você estudou sobre a segmentação de mercado, sua importância, as bases para segmentação e a seleção de segmentos de mercado. Enfim, o cliente mais uma vez como razão de ser das empresas e do marketing, como ator principal; não o percamos de vista jamais! Referências CARIONI, Rodrigo. Gestão de marketing I: livro didático. Palhoça: UnisulVirtual, 2006. CHURCHILL JR., Gilbert A.; PETER, J. Paul. Marketing: criando valor para o cliente. São Paulo: Saraiva, 2007. DIAS, Sérgio Roberto; et al. Gestão de Marketing. Professores do Departamento de Mercadologia da FGV-EAESP e Convidados. São Paulo: Editora Saraiva, 2004. ENGEL, James F; MINIARD, Paul W.; BLACKWELL, Roger D. Comportamento do consumidor. 8. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2000. KARSAKLIAN, Eliane. Comportamento do consumidor. São Paulo: Atlas, 2000. KOTLER, Philip. Administração de Marketing – análise, planejamento, implementação e controle. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1998. KOTLER, Philip; ARMSTRONG, Gary. Princípios de Marketing. 7. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1995. KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de marketing. 14. ed. São Paulo - SP: Pearson Education do Brasil Ltda, 2013. NEGREIROS, Adriana. É você na fita. Revista Veja, edição 1833, 17 dez. 2003. 115 Considerações Finais Aqui você teve a oportunidade de aprender sobre os fundamentos do marketing, além de conhecer algumas ferramentas estratégicas muito importantes e valiosas para os profissionais das diversas áreas. Além disso, pôde observar que ainda, nos dias de hoje, há interpretações errôneas em relação ao conceito de marketing; e pôde compreender que marketing não se faz a partir de um “setor” ou “departamento”, mas a partir de cada colaborador, desde aquele que serve o cafezinho ao mais alto gerente. Sabemos que as empresas estão inseridas em um ambiente normalmente competitivo e muitas vezes desleal e hostil. Dessa forma, conhecer esse ambiente, antecipar-se às mudanças e conseguir se destacar pela competição justa e cordial no mercado é uma conquista para a vida toda. Para tal, o planejamento auxilia, pois constitui-se em um processo em que a empresa avalia com rigor e profundidade suas interações nos ambientes onde opera, traçando objetivos e estratégias, para poder, então, decidir para onde ir e como agir. Conhecer o seu público alvo, fazer uma leitura sensível daquilo que ele precisa e espera, oferecer um produto de qualidade, a um preço digno, com uma comunicação eficaz e no lugar certo parece simples, mas nem sempre as organizações logram êxito nessa tarefa. A partir de agora, portanto, esperamos que você esteja pronto para esse desafio e possa compreender e utilizar melhor o marketing. E, ao utilizá-lo, pode ter certeza que você tomará decisões de marketing com muito mais segurança e assertividade. Esperamos, também, que esse estudo tenha despertado em você a vontade de conhecer cada vez mais essa fascinante área do conhecimento. Continue em sintonia com os problemas da sociedade e agindo sempre de acordo com as diretrizes do código de ética da área e com os direitos do consumidor. 117 Sobre os Professores Conteudistas Rodrigo Carioni É administrador pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Marketing pela UDESC/ESAG e mestre em Administração pela Unisul. Ocupou várias funções executivas em empresas públicas e privadas. Atua como consultor de marketing, com ênfase em planejamento de marketing. Já foi professor de disciplinas da área de marketing da Unisul. Janaína Baeta Neves É técnica em Informática Industrial pela Escola Técnica Federal de Ouro Preto (MG), bacharel em Administração pela Universidade Federal de Viçosa (MG) e mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (SC). Desde 2001 leciona na Unisul ― e na Unisul Virtual desde 2005 ― diversas disciplinas da área de Marketing e da área de Tecnologia e Sistemas de Informação, entre outras, na graduação e na pós-graduação. Hoje em dia, dedica-se integralmente ao magistério superior, sendotambém Coordenadora dos Cursos de Tecnologia em Marketing (desde 2009) e Tecnologia em Gestão Comercial da Unisul Virtual (desde 2013). w w w. u n i s u l . b r Introdução Capítulo 1 Marketing: definições, conceitos e contexto Referências Capítulo 2 Ambiente externo e interno de marketing Referências Capítulo 3 O Composto de Marketing marketing (4 Ps) Capítulo 4 Comportamento do consumidor e segmentação de mercado Referências Considerações Finais Sobre os Professores Conteudistas