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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Marketing em shopping centers / [organização Abrasce - Associação Brasileira e Shopping Centers]. -- São Paulo : Editora Casa Nova, 2012. -- (Gestão em shopping centers) ISBN 978-85-65100-10-6 1. Centros comerciais - Administração 2. Marketing - Administração 3. Marketing - Shopping center 4. Shopping centers I. Abrasce - Associação Brasileira e Shopping Centers. II. Série. 12-14337 CDD-658.87 Índices para catálogo sistemático: 1. Marketing em shopping centers : Administração 658.87 Publicar um livro sobre gestão de marketing é sempre um grande desafio. Isso porque o marketing é uma das práticas mais dinâmicas de mercado. A cada nova tecnologia, a cada novo meio de comunicação, a cada rede social na qual se engajam milhões de pessoas, ele se reinventa. E precisa ser assim, mesmo que os objetivos dessa “ciência” – que faz parte do universo da comunicação – sejam sempre os mesmos. Na definição da American Marketing Association (AMA), eles são: criar, comunicar, distribuir e efetuar a troca de ofertas que tenham valor para consumidores, clientes, parceiros e a sociedade como um todo. Parece bem subjetivo, mas, ao longo do tempo, “fazer marketing”, a princípio tão intuitivo, passou a ser científico. Foram criados procedimentos, ferramentas, pesquisas, enfim, todo um arcabouço técnico para sustentar uma atividade que existe desde a Antiguidade, provavelmente desde o primeiro momento em que uma pessoa desejou vender algo à outra. Hoje, o marketing ganhou uma sofisticação incrível. Aos atos combinados de comunicar para vender foram agregados muitos valores. Atualmente, fala-se em experiência de compra, em emoção de consumo, em transmissão de valores das marcas. Conceitos inimagináveis que, mesmo em curto espaço de tempo, ganharam status de estratégicos para a sobrevivência dos negócios. Vender passou a ser transmitir valores. As empresas que não conseguem fazê-lo fidelizarão cada vez menos, agradarão a poucos e, provavelmente, não conseguirão sobreviver no longo prazo. No vasto mundo dos shoppings brasileiros, há evidências de que transmitir valores é cada vez mais importante. Isso se revela no discurso dos gestores, em palavras como “identidade do empreendimento”, “DNA do shopping”, “foco no público real do mall”, entre tantas outras, que aparecerão ao longo dos capítulos deste livro. Com o lançamento de mais uma obra da série “Gestão em Shopping Centers”, a Abrasce reforça o empenho em cumprir uma de suas missões: a de colaborar no desenvolvimento da indústria nacional de shopping centers. O conteúdo foi todo formulado pela Associação, com a participação de grandes especialistas do setor que, como sempre, se dispuseram a contribuir. A eles, o meu agradecimento, com a certeza de que suas assinaturas garantem a qualidade do conteúdo que, agora, chega às mãos dos leitores. LUIZ FERNANDO PINTO VEIGA PRESIDENTE DA ABRASCE PREFÁCIO Foi em casa que aprendi a pensar fora da caixa, a inovar, a não ter medo de ousar. Eu nasci e cresci respirando marketing. Na década de 1950, meu pai apostou no crescimento da TV e para chegar à frente da concorrência comprou uma grande quantidade de aparelhos nos Estados Unidos para sua loja. O resultado foi que praticamente todo o estoque encalhou. Era um produto novo e caro numa época em que a programação da TV era praticamente zero. Só que ele acreditava no negócio. E acreditava tanto que fez o que um competente homem de marketing faria: viu lá adiante, viu longe e não pensou pequeno. Produziu e patrocinou um programa de TV com o objetivo de impulsionar as vendas. Na verdade, o que ele fez foi comprar com seu próprio dinheiro os equipamentos necessários para montar um estúdio de televisão. Ele equipou a TV Rio com todo o material necessário – luzes, câmeras, microfones, mesas de som, todo o material que um bom estúdio deveria ter. Em pouco tempo “Noite de Gala” era um grande sucesso. Três anos depois, quando o Brasil erguia a taça da Copa do Mundo pela primeira vez, cerca de 200 mil famílias já possuíam televisores em suas casas. Outra história que mostra bem o pioneirismo e a inovação que aprendi em casa é a questão da “linha branca”. Em todas as lojas, geladeiras, fogões e lavadoras tinham a cor branca. Foi o bastante para que meu pai resolvesse mudar tudo. Ele criou as primeiras geladeiras e máquinas de lavar coloridas do País e foi vender a ideia a presidentes de empresas como a Brastemp e a GE. Riram dele, é claro. É linha branca porque é branco! Percebendo que ninguém iria comprar sua ideia, meu pai alugou um depósito na rua do Riachuelo e, por conta própria, mandou pintar toda uma linha. Fez mais! Para lançar a novidade, publicou o primeiro anúncio em cores no jornal O Globo com a sua linha colorida. O resultado foram filas nas lojas. Todo mundo queria geladeiras vermelhas, fogões amarelos; todo mundo queria a novidade. Diante do sucesso, as indústrias passaram a investir na “linha branca” com cor e o velho ganhou exclusividade de vendas durante um tempo, ficando ainda mais forte no mercado. Esse caráter visionário e ousado foi a minha escola. Já na Artplan, essa busca pela inovação, por trabalhar fora da caixa, só fez aumentar. Chamei grandes nomes do cinema, como Carlos Manga, Arnaldo Jabor e Bruno Barreto, para dirigir atores internacionais como David Niven e Frank Sinatra em comerciais de TV. Aliás, foi um projeto criado e desenvolvido pela agência para um programa de TV que fez do lançamento de um empreendimento em São Paulo um grande sucesso. O conceito de mall era inteiramente novo. Ninguém entendia ainda muito bem a diferença entre shopping center e centro comercial. Esse era o desafio. Como lançar o Shopping Ibirapuera e ao mesmo tempo explicar o que era o empreendimento? Não seria com uma campanha tradicional. A agência, então, criou um projeto, gravou depoimentos em países onde já se conheciam as vantagens de um shopping, apresentou tudo ao cliente, buscou a parceria da Rede Globo e criou um Globo Repórter sobre o tema. Em pouco tempo, foi ao ar A Revolução do Consumo, com entrevistas e depoimentos que não deixavam dúvidas sobre as vantagens do novo conceito – um lugar climatizado e seguro, com um mix de lojas planejado, um lugar que reúne compras e entretenimento, preparado para receber seus clientes com conforto e sofisticação. E se na década de 1970 foi difícil para o pessoal de propaganda explicar que shopping center era algo bem diferente de centro comercial, hoje o conceito está totalmente consolidado. Só o Brasil tem mais de 400 empreendimentos. E as novidades não param de surgir. Agora já se fala em power centers, gigantescos centros de entretenimento e consumo com imensas áreas a céu aberto. E mesmo quando a tecnologia coloca à nossa disposição o conforto das compras on-line, entregues em casa com total segurança, nada supera o prazer de caminhar entre vitrines, experimentar o produto e ter várias opções de compras num mesmo lugar. Na década de 1990, fizemos uma verdadeira revolução na comunicação dos malls com promoções pioneiras que geraram um espetacular retorno de vendas. Com mecânicas simples de troca de notas fiscais por cupons, durante o período do Natal, os consumidores concorriam a um carro por dia, a viagens internacionais, promoções que aumentavam consideravelmente o tráfego de consumidores e o volume das vendas. No Natal de 1998 decoramos um shopping com o maior castelo da Cinderela já construído fora dos parques da Disney – uma estrutura de ferro de 120 toneladas, com 67 metros de altura e iluminado com 250 mil watts, em seis diferentes cores. Na área lateral, em uma arena de 3 mil m² com capacidade para 8 mil pessoas, havia três apresentações diárias com os famosos personagens da Disney. É sabido que a Artplan faz da propaganda um acontecimento. Isso faz parte do DNA da agência. Para incrementar as vendas da Seagram’s, trouxe Frank Sinatra ao Brasil para um show que entrou para o Guinness WorldRecords como o de maior público para um só cantor. Para aproximar a marca Brahma do público jovem, fiz o Rock in Rio. Hoje, ele é top of mind no Brasil, em Portugal e na Espanha. Em 12 edições, mais de 6 milhões de pessoas estiveram nas Cidades do Rock. É o maior do mundo também nas redes sociais, com 5 milhões de seguidores. Tem gente que acha que ele é um festival de rock, mas o Rock in Rio é uma poderosíssima plataforma de comunicação. E já que o assunto é quebrar paradigmas, certo dia, almoçando com o presidente da Bradesco Seguros e conversando sobre a próxima campanha de Natal, desenhei no guardanapo de papel uma árvore. Mas não era uma árvore comum. Era para emocionar, para flutuar na lagoa Rodrigo de Freitas com milhões de lâmpadas e aproximar ainda mais a marca Bradesco Seguros da população da cidade. Hoje, 16 anos depois, ela transformou o Natal da cidade. Outro exemplo? Dia 2 de janeiro de 2007, para mostrar quão próximo o Banco do Brasil era de seus clientes, uma ação de marketing criada pela Artplan substituiu a fachada de 300 agências em todo o País. O Banco do Brasil virou Banco do Cláudio, do João, da Letícia. E não foram só as agências físicas – a transformação também aconteceu na internet. Num momento em que o grande assunto mundial é a crise, pensar fora da caixa, conhecer o mercado e buscar soluções inovadoras sempre vai impactar positivamente o público. E, quando você ousa, mais que impactar, você tem tudo para surpreender. ROBERTO MEDINA PRESIDENTE DO GRUPO ARTPLAN SUMÁRIO HISTÓRIA DO MARKETING BRANDING Atributos e Percepções Personalidade da Marca Shopping: Além do Consumo Evolução das Marcas Identidade e Posicionamento Manutenção da Marca PLANO DE MARKETING O marketing como parte do negócio Reinvenção do Marketing Lojistas e Consumidores Finais Posicionamento Mensuração de resultados e promoções Comunicação Visual A) PESQUISA Pesquisas estratégias de marketing Maximizando o aproveitamento dos frequentadores de um shopping Entendendo as peculiaridades do consumidor brasileiro Entendendo como o consumidor reage às ações de comunicação Particularidades do uso de pesquisa do Brasil Pesquisa com os lojistas Pesquisas e o comércio eletrônico B) TIPOS DE PESQUISA Pesquisa de Opinião Combinação de pesquisas Outros tipos de pesquisa Interpretação dos dados Universo da pesquisa C) PESQUISA GEOMARKETING Geomarketing e o potencial de consumo Atração ao consumidor Questões urbanas que interferem no sucesso do mall Princípios de localização COMUNICAÇÃO: PÚBLICO EXTERNO A) EVENTOS Parcerias Segmentação por público e classes sociais Eventos Temáticos Exposições Comunicação e divulgação do evento B) AÇÕES PROMOCIONAIS Tipos de promoção Liquidação Cupons de desconto Comunicação Meios alternativos Envolvimento e sensibilização dos lojistas Como avaliar dos resultados C) CAMPANHAS PUBLICITÁRIAS Mídia Externa (e compra de espaço nos grandes veículos) Mídias próprias Aferição de resultados e pós-venda D) MARKETING DIGITAL Redes Sociais Contéudo e linha editorial Métricas e avaliação de resultados Promoções em rede sociais Uso das redes como SAC Pós-venda e pesquisa Redes alternativas Site Blog Celular e mobile marketing Newsletter Ações tecnológicas no shopping E) ASSESSORIA DE IMPRENSA E RELAÇÕES COM A MÍDIA Encontrar pautas no shopping Avaliação de resultados Assessoria terceirizada Manual de atendimento à imprensa Formação de porta-vozes Técnicas de entrevistas para cada um dos meios/situações F) RELACIONAMENTO COM O FREQUENTADOR Fidelização e programas de relacionamentos Relacionamento com o público infantil Relacionamento com adolescentes Turistas Público adulto Famílias Terceira Idade SAC Equipe do SAC F1) LIFETIME VALUE F2) SERVIÇOS ESPECIAIS •Concierge •Valet •Fraldário •Amenities •Personal Shopper •Escolha e capacitação de funcionários F3) LUXO G) MARKETING SOCIAL E SUSTENTABILIDADE Campanhas com temáticas “verdes” Ações com lojistas, fornecedores e funcionários Ações sociais com a comunidade Cuidados ao fazer marketing ambiental H) MERCHANDISING, PATROCÍNIOS E PARCERIAS A força da marca Promoções COMUNICAÇÃO: PÚBLICO INTERNO A) ENDOMARKETING Comunicação e diálogo internos Transparência Integração e confraternização Boas instalações Eventos ao longo do ano Canais internos de comunicação Intranet E-mail, impressos e outros meios digitais Avaliação dos resultados Público terceirizado e orgânico B) RELACIONAMENTO COM OS LOJISTAS Melhores formas de se relacionar Construindo um caminho comum a todos Valores: entendendo a alma do shopping Causa Posicionamento Essência competitiva A direção da essência competitiva A essência competitiva passo a passo Metas Índices de performance Desenvolvimento dos lojistas Liderança em 12 passos Ações para lojistas Off-ouvir Off-fazer Off-falar Canais de comunicação com os lojistas Erros mais comuns na relação com o lojista ANEXO 1 - POLÍTICA DE COMUNICAÇÃO DE SHOPPINGS DA MESMA REDE ANEXO 2 - MIX DE LOJAS ANEXO 3 - DECORAÇÃO DE NATAL ANEXO 4 - A RELAÇÃO ENTRE O DEPARTAMENTO DE MARKETING COM AS ÁREAS COMERCIAL/MIX, JURÍDICA, FNANCEIRA E DE OPERAÇÕES E SEGURANÇA RELAÇÃO MARKETING-JURÍDICO RELAÇÃO MARKETING-COMERCIAL RELAÇÃO MARKETING-MIX RELAÇÃO MARKETING-ADMINISTRATIVO/FINANCEIRO RELAÇÃO MARKETING-OPERAÇÕES E SEGURANÇA Um shopping center “fala” com seus frequentadores. Essa pode parecer uma afirmação esquisita quando se pensa que o ato de falar é prerrogativa dos seres humanos. As “coisas” não falam. Mas não é desse aspecto que a afirmação trata. Um shopping “fala” no sentido de que transmite informações o tempo todo a quem interage com ele. E não só por meio de eventuais mensagens escritas em fachadas, vídeos em monitores instalados em elevadores, banners e sinalização ambiental. Desde o momento em que entra no empreendimento, ou mesmo em suas vias de acesso, o frequentador passa a receber informações diretas e indiretas. Imediatamente, ele toma contato com propagandas nas cancelas, por exemplo; percebe o volume de tráfego no estacionamento, se há vagas disponíveis, onde elas estão. Depois de estacionar, dirige-se ao interior do mall. Na porta automática, além de eventuais avisos, sente o odor perfumado, característico de cada empreendimento, geralmente aspergido nos locais de entrada. Já na área interna, ele é impactado por muitos elementos – a mistura entre luzes artificial e natural, a dimensão dos corredores, o pé-direito, a decoração e o paisagismo, o apelo das vitrines e das ofertas de produtos e serviços, e muito mais. Durante toda a permanência, o visitante recebe estímulos. Em cada praça, banco, lounge. No cinema ou nos banheiros, nota o quanto o local está limpo, a qualidade dos equipamentos e, principalmente, a cordialidade e eficiência das pessoas responsáveis pela segurança, recepção e manutenção. Em um shopping, cada detalhe comunica, sempre com o objetivo de transmitir as qualidades que consolidaram o setor tão fortemente no Brasil: em um único lugar, seguro e confortável, as pessoas podem atender a todas as suas necessidades. Enfim, nos shoppings, tudo é marketing. E, justamente por residir em cada detalhe do empreendimento, o mall extrapolou o nível de “departamento” e ganhou uma dimensão muito mais universal e complexa. A segurança tem relação com o marketing, a manutenção também. O departamento financeiro é importante para a identidade do shopping, assim como o jurídico e o comercial o são. O marketing tornou-se atividade transversal e assunto estratégico. Mesmo que intuitivamente, todos estão envolvidos na transmissão da mensagem que o empreendimento quer passar. Cada sorriso, cada gesto, cada conversa é extremamente importante. Por conta disso, o treinamento dos colaboradores deve contemplar o objetivo de traduzir a “identidade do shopping” em todas as atividades. Identidade, aliás, que deve ser clara e concreta, construída ao longo do tempo e baseada nas informaçõestrazidas pelos próprios frequentadores. Os ambientes devem seguir o mesmo princípio. Cada canto do shopping precisa ajudar a compor o “DNA do empreendimento”. Nada pode destoar. Tudo tem de estar atavicamente interligado e servindo à percepção que se quer passar: a mensagem, o recado. Há muito de subjetivo no ato de comunicar. Todas as formas são válidas quando os objetivos são justos e os métodos, éticos. Em um ambiente de shopping center, as ferramentas são várias. Com o advento de novas tecnologias, o número de “meios” ou “mídias”, como preferem os especialistas, ampliou-se explosivamente. As redes sociais assumiram um lugar de destaque e oferecem possibilidades maravilhosas de relacionamento com todos os tipos de públicos- alvo. Para o varejo, a cada dia que passa, o meio digital está consolidando-se como parte integrante da “experiência de consumo”, algo extremamente desejado pelos consumidores modernos. O nada modesto desafio de centros de compras e lojas é exatamente este: oferecer experiência de consumo, relação com as marcas, possibilidade de adesão a um estilo de vida, sensação de pertencimento. O sucesso dos negócios está – e a cada momento estará mais – atrelado à capacidade de construção de vínculos com os consumidores, para quem não basta mais apenas o produto. Eles desejam conceitos, informações, conhecimento e engajamento. Foi-se o tempo em que se vendia um par de tênis. Atualmente, a marca do calçado precisa estar em sintonia com as aspirações do consumidor. E, além disso, o ambiente de venda (físico ou virtual) tem que traduzir os mesmos conceitos da marca. Por fim, o comprador necessita sentir que faz parte do mundo daquela determinada marca na hora em que está comprando. Essa é a tal experiência. Toda a complexidade que atingiu o universo do marketing teve sua gênese em atos muito mais diretos e simples e certamente remonta à Antiguidade. É provável que, no primeiro momento em que um ser humano quis trocar algo com outro, o marketing tenha tomado algum lugar na relação. Daí para frente, ele foi evoluindo, ganhando corpo, técnicas, abordagens e meios. Virou ciência por necessidade de uma sociedade que produz e consome riquezas, além de um número cada vez maior de bens e serviços, que precisam ser “marqueteados”. No universo dos shoppings brasileiros, essa história é muito mais recente, até porque a indústria comemorou, em 2011, o seu 45º aniversário. Mesmo assim, é extremamente rica em fatos, protagonistas e detalhes. O mais intrigante, no princípio, foi o fato de que não bastava falar sobre comodidade e segurança e informar as lojas e marcas que participavam dos primeiros empreendimentos. Foi necessário comunicar, explicar o que era um shopping center, para um público acostumado apenas ao varejo de rua e, quando muito, à existência de centros comerciais. Sobre isso, um dos pioneiros da indústria nacional e presidente da Multiplan, José Isaac Peres, afirma que “o primeiro grande desafio foi construir, junto a investidores e lojistas, o próprio conceito de shopping center. Ideias que hoje estão consolidadas, como tenant mix e fundo de promoção, e o próprio contrato diferenciado de locação, não faziam parte das culturas comercial e imobiliária na década de 1970. Foi necessário pavimentar esse caminho junto aos nossos parceiros naquela nova empreitada”. No que diz respeito ao público consumidor, Peres lembra que “os primeiros shopping centers exerciam uma verdadeira fascinação, mas também havia algumas armadilhas que precisavam ser desarmadas, principalmente a ideia de que shopping era um lugar suntuoso e caro”. Segundo o empresário, graças aos investimentos dos empreendedores e aos fundos de promoção, com participação dos lojistas, os shoppings foram criando calendários de eventos e atrações voltados para toda a família. “Investimos pesado também em eventos geradores de tráfego, associados a temas de destaque em cada período. Lembro quando mostramos carros de Fórmula 1 em Belo Horizonte, numa época em que o Brasil estava sempre no pódio; quando trouxemos o espetáculo dos Golfinhos de Miami; quando montamos o Castelo da Disney e o Cirque du Soleil.” Outra estratégia vencedora foi o lançamento, em 1981, da Liquidação do Lápis Vermelho. “Na época anunciamos: ‘São 101 liquidações em um só lugar’. Permanece atrativa há mais de 30 anos”, orgulha-se ele. Com o tempo vieram novos desafios. “Hoje damos uma importância grande aos programas de fidelização, por meio de benefícios aos nossos clientes especiais. Com o tempo, desenvolveu-se uma relação de cumplicidade entre o shopping e seus frequentadores, que precisamos preservar e alimentar”, acrescenta. Carlos Jereissati Filho, presidente da Iguatemi Empresa de Shopping Centers (IESC), que tem em seu portfólio o primeiro shopping brasileiro – o Iguatemi São Paulo, inaugurado em 1966 –, concorda que explicar o conceito foi o primeiro grande entrave a ser superado e justifica assim o grande sucesso do novo modelo nas cidades brasileiras: “Uma coisa de que o Brasil não se dá muito conta é que o modelo de negócios dos shoppings centers teve e tem de respeitar o modelo das cidades em que eles são instalados. É da ordenação das cidades que nascem determinados tipos de produtos, que funcionam ou não. Exemplo clássico são as cidades medievais europeias, intramuros, com grande sistema de transporte público, em que as ruas e a segurança foram moldadas com locais de comércio diretamente ligados às residências. Isso facilitou muito a existência do comércio de rua, interligado ao próprio tecido urbano da cidade. Já nas cidades brasileiras, por falta de planejamento ou até por um zoneamento que privilegia o isolamento entre as áreas residenciais e comerciais, separadas supostamente para que as pessoas tenham tranquilidade para morar, houve a quebra do modelo europeu e abriu-se a possibilidade de se desenvolver um novo conceito. No Brasil, por questões urbanísticas, as pessoas tinham a tendência a adotar o modelo norte-americano, mas não se tinha a exata dimensão do quanto ele iria funcionar no País. O fato é que, pela questão do adensamento das cidades, com falta de transporte público, as pessoas foram obrigadas a morar próximas às áreas comerciais, mas separadas delas pelo zoneamento. Pela não criação do tecido urbano misto, o shopping center ganhou enorme destaque.” Os gestores de shoppings foram percebendo que fazer marketing de um novo modelo era uma dificuldade, mas também trazia oportunidades fascinantes. Nesse sentido, surgiram iniciativas em forma de campanhas e eventos, que ajudaram a arraigar o universo dos shoppings no cotidiano dos brasileiros. Peres conta que, “quando lançamos o BarraShopping, no Rio de Janeiro, faziam muito sucesso a novela Dancing Days e o grupo de cantoras conhecido como As Frenéticas, que apresentava a música de abertura da novela. Fizemos com elas o jingle da campanha de inauguração do shopping, e até hoje aquela música é o nosso tema. Depois disso já promovemos grandes shows musicais, festivais de teatro e cinema. Para o lançamento de nosso shopping mais recente, o VillageMall do Rio de Janeiro, a garota-propaganda foi a atriz americana Nicole Kidman. Uma contribuição especial, que nos orgulha muito, diz respeito à profissionalização da indústria da moda no Brasil. Para valorizar os estilistas e toda a cadeia da moda, promovemos os primeiros grandes desfiles: a Semana de Moda BarraShopping, o Belo Horizonte Fashion Week e o Morumbi Fashion, que cresceu tanto que se tornou um dos cinco eventos mais importantes do circuito mundial, como São Paulo Fashion Week. Para nós foi muito bom, porque isso associou nossos shoppings a um conceito de qualidade e estilo; para a indústria da moda brasileira, foi o início de uma nova fase, como arte e como oportunidade econômica em escala mundial”. Há peculiaridades técnicas que fizeram do marketing nos shoppings um grande vencedor. Jereissati diz que “a questão de o shopping ter um gestor único, capaz de balancear o mix de lojas, foi fundamental. Isso mantevea dinâmica. Nas grandes ruas do mundo, a valorização imobiliária as acaba matando. O aluguel aumenta de tal maneira que as boas lojas não conseguem mais pagá-lo. Daí, entram lojas que não são tão boas, mas são populares e faturam muito. O resultado é a perda da qualidade do espaço. No caso dos shoppings, sempre houve um aprendizado conjunto – do empreendedor, do lojista e do consumidor. Por meio de pesquisas, entendemos o negócio. Gerenciamos a comunicação com inteligência. As pessoas foram aprendendo a usar os shoppings e quem estava por trás foi entendendo as necessidades dessas pessoas e atendendo-as. O tempo fez com que nos transformássemos no equipamento público mais bem avaliado do Brasil”. A manutenção do modelo shopping, assim como a valorização das marcas dos grupos e empreendimentos, também foi aprendida com o caminhar da história do setor. Aceitar as dinâmicas e a volubilidade do mercado e dos consumidores – e não brigar com elas – continua sendo a tônica entre empreendedores e gestores de shoppings Brasil afora. E é nesse sentido que Peres afirma que a indústria só pode evoluir com o aumento da qualidade da informação aferida e transmitida: “Nossas ações de marketing devem caminhar para uma compreensão maior dos desejos e anseios do cliente, para assegurar a satisfação que ele procura. Esse, no fundo, é o foco do nosso trabalho. Atualmente, o interesse dos consumidores por serviços e entretenimento praticamente equivale àquele pelo comércio de bens de consumo. Os shoppings estão se tornando centros de convivência, onde pessoas procuram não apenas comprar alguma coisa, mas se sentir bem. Para atender melhor a esse consumidor, o marketing direto é o maior aliado. Estamos utilizando a tecnologia e as ferramentas de comunicação direta para compreender, analisar e entregar o que cada um precisa”. Mas a adesão às novas tecnologias e a processos de comunicação e marketing deve sempre ser cercada de cuidados. É esse o alerta de Jereissati ao dizer que “o segredo é ‘ouvir’ sempre de forma científica, entender o que está acontecendo, discutir com as pessoas que têm a competência para isso. Temos de ser relevantes naquilo que fazemos. Não acredito em fazer por fazer. Então, não vou entrar só porque todo mundo está fazendo. Se for irrelevante, se não tiver importância e se não tiver uma justificativa para o consumidor, pode dizer o que quiser, mas o Iguatemi não faz só porque todo mundo está fazendo”. Utilizando-se em maior ou menor grau de novas tecnologias para “marquetear” os shoppings, a indústria nunca perdeu o foco no atendimento ao frequentador. Atender bem é o que norteia as estratégias. E esse é um conceito que jamais se perderá, sofra essa indústria as transformações que sofrer. Não importa. A profissionalização caminha para satisfazer cada vez mais um consumidor que evolui e amadurece com o manancial de informações disponíveis. Atender bem, portanto, é o objetivo imutável, que, para ser cumprido, ganha novas ferramentas todos os dias. É uma espécie de paradigma moderno, que Jereissati descreve com simplicidade: “Eu aprendi marketing na consideração que minha mãe tem pelas pessoas. Hoje, este conceito tem que permear toda a companhia. Todos devem fazer o exercício diário de saber que tudo comunica. A maneira como você é, a maneira como você fala, a maneira como se veste, a decoração desse escritório, tudo passa uma mensagem. Eu sei que esse foi o grande segredo da formação da marca Iguatemi. Tudo o que fazemos contempla a comunicação, a consolidação da imagem. Tudo, tudo, tudo tem uma relevância enorme. Nada é insignificante do ponto de vista do marketing”. Para definirmos o conceito de branding, é necessário entendermos o significado de marca. A marca é um sinal que colocamos em um produto ou serviço para identificá-lo. Branding é um termo em inglês para definir gestão da marca. Ao pesquisar sobre a origem das marcas, descobre-se que o branding é algo que tem origem em épocas remotas. Na História Antiga, as pessoas já marcavam o gado, por exemplo, para determinar de quem era o animal, ou o tijolo de uma construção, para dizer qual era a procedência. Do ponto de vista do comércio, o branding passou a ser mais relevante como sinal de qualidade ou procedência à medida que o consumidor deixou de comprar o leite do dono da vaca, o legume ou a fruta do dono do pomar. Tradicionalmente, o branding surgiu para sinalizar a procedência e a qualidade do produto ou serviço. Não é à toa que, até pouco tempo atrás, em seus slogans, as marcas falavam exatamente sobre isso: “Se é Bayer, é bom”, “Knorr é melhor”, “Volkswagen, você conhece, você confia”. A marca servia para avalizar a qualidade do produto ou serviço. Atualmente, o que se percebe é a evolução desse conceito de branding a partir da proliferação de marcas e também da fluidez das informações. Hoje, o consumidor não precisa mais da marca para obter informações a respeito do fabricante. Há um número enorme de marcas para escolher e, muitas vezes, essas marcas revelam a mesma performance. ✻ ATRIBUTOS E PERCEPÇÕES Quando as pessoas pensam em marcas, ainda é comum que as associem a um produto específico. Na verdade, a marca vai além do produto: é um conjunto de atributos e associações ligadas a um nome. A marca é formada por uma série de percepções que residem na mente das pessoas. Entre os componentes que constroem essa percepção estão o próprio produto, a embalagem, a imagem do fabricante, o preço, a distribuição, o perfil dos consumidores, a história e a comunicação daquela marca, entre outros elementos. Uma das marcas mais valiosas e um dos trabalhos de marketing mais benfeitos da história é a Coca-Cola. Quando se fala em Coca-Cola, isso evoca o refrigerante em si, o gosto que ele tem. O design da garrafa (embalagem) foi projetado por Andy Warhol, com a intenção de que, mesmo partida em pedaços, ela pudesse ser reconhecida por todos. E por suas curvas a embalagem da Coca- Cola produz esse efeito. Além disso, a Coca-Cola está intimamente ligada, por exemplo, ao Natal. Uma das versões que existe é que o Papai Noel veste a roupa vermelha das tradições natalinas atuais por causa da empresa. Não é à toa ela contratou um desenhista que criou as vestes do Papai Noel com as cores da empresa e concebeu a imagem do velhinho bonachão, com bochechas rosadas e barbas brancas. Assim, o Papai Noel sempre esteve, ao longo da história, associado à Coca-Cola. Trata- se, portanto, de um conjunto de percepções que, de uma maneira integrada, gera uma imagem na cabeça das pessoas. Portanto, a marca é muito mais ampla e mais profunda do que simplesmente um produto. ✻ PERSONALIDADE DA MARCA Considerando uma abordagem mais ampla, como é a anatomia de uma marca? Se a imaginarmos sendo formada por três grandes círculos concêntricos, o mais externo deles é formado pelos atributos da marca; o intermediário, pelos benefícios decorrentes desses atributos; e no centro de tudo está a personalidade. É aí que está o grande segredo. Cada vez mais, as pessoas se relacionam com as marcas como se relacionam com os amigos. E escolhemos nossos amigos por afinidade. Quase sempre atribuímos às marcas características humanas. Há a marca simpática, a arrogante, a sofisticada, a popular, a divertida e a atlética. São conceitos pessoais que atrelamos às marcas e que produzem maior ou menor identificação das pessoas com elas. No início da indústria dos shopping centers, quase que obrigatoriamente, era preciso falar dos atributos para atrair o consumidor: um local seguro, climatizado, com várias lojas reunidas, aumentando o leque de opções de compras em um só lugar. Ainda hoje, em cidades onde esse tipo de empreendimento é uma novidade, é necessário falar desses e de outros atributos básicos para atrair os clientes. Mas em cidades como São Paulo, onde o conceito de shopping já é bem conhecido, basear o posicionamento de marketing apenas nos atributos é desnecessário e insuficiente para diferenciar um mall dos demais. Alguns shoppings já começaram a focara comunicação nos benefícios que esses atributos podem oferecer ao consumidor. A segurança, o conforto, a presença de gente bonita e o estacionamento fácil são elementos que trazem bem-estar e sensação de felicidade às pessoas, por exemplo. Ou seja, bem-estar e felicidade são benefícios derivados desses atributos, mas bem poucos empreendimentos investem na questão da personalidade, de trabalhar a identificação dos centros de compras com as pessoas. Para trabalhar essa identificação é preciso ter claro qual é a personalidade do próprio empreendimento. Isso deixa muitos empreendedores preocupados, porque, ao mesmo tempo em que essa personalidade os aproxima de determinados públicos, os afasta de outros – afinal, ninguém é amado por todos. Trata-se de uma equação complicada, pois os shoppings têm a pretensão de agradar a todos, o que é cada vez menos lógico em um ambiente de proliferação de centros comerciais, de hipercompetição de mercado. Isso é um obstáculo para a implantação do branding na indústria de shopping centers. ✻ SHOPPING: ALÉM DO CONSUMO Atualmente, o mall está assumindo, cada vez mais, no mundo todo, um papel que vai além do consumo nas suas lojas. O shopping hoje é um lugar onde as pessoas se sentem bem, aonde vão para socializar. Elas vão ao shopping para ver gente, porque o ambiente é mais alegre, vão encontrar amigos, comer na praça de alimentação ou assistir a um filme no cinema. Algumas vezes, o empreendimento se assemelha a uma galeria de arte e em outras funciona como a rede social off-line. Quando passeia diante das vitrines das lojas, nem sempre o consumidor está procurando algo para comprar, mas olha as novidades, informa- se, atualiza-se, conecta-se com o novo, com o mundo e com outras pessoas. Nessa linha, o consumidor vai ao shopping com o qual mais se identifica, aquele que acredita ter seu estilo, que é frequentado pelas pessoas que mais têm a ver com ele. Há quem goste de um ambiente mais clean; outros, de algo mais aconchegante, ou de um mais moderno, ou daquele mais tradicional. Essas são percepções emocionais ligadas não a atributos físicos ou objetivos, mas à personalidade dos empreendimentos, que nasce dos benefícios que esses atributos trazem. Desse modo, o consumidor, muitas vezes inconscientemente, acaba escolhendo seu shopping por meio desse processo de identificação. Hoje em dia, as pessoas estão muito mais propensas a escolher suas marcas em função de valores, ambiente, crenças, causas, fatores mais subjetivos. O mesmo ocorre com os malls. No entanto, os shoppings no Brasil nasceram como empreendimentos imobiliários e a maioria deles ainda mantém esse posicionamento. Tanto é assim que o nome, via de regra, inclui a sua localização geográfica. O Shopping Pátio Paulista, por exemplo, chama-se assim porque está em São Paulo próximo à avenida Paulista; o Shopping Morumbi, porque está no bairro do Morumbi; o VillaLobos, porque está perto do parque de mesmo nome. Ou seja, todas eles têm referências geográficas. O interessante é que esse posicionamento geográfico também se reflete no slogan do empreendimento. Por isso, apesar de o branding ainda ser uma ferramenta pouco utilizada pelos shoppings, há muito potencial para esse uso. ✻ EVOLUÇÃO DAS MARCAS Hoje em dia, em todo o planeta, as marcas começam a deixar de falar sobre atributos e começam a falar sobre crenças. O slogan do sabão em pó Omo, por exemplo, no passado, era: “Omo lava mais branco”. Hoje, o Omo fala que “se sujar faz bem”, como quem diz: “Deixe a criança se sujar à vontade e depois você usa o Omo para lavar a roupa dela”. Desse modo, a marca passou a abraçar uma causa familiar de deixar a criança ser criança, divertir-se, brincar. No varejo brasileiro, por exemplo, muitas empresas passaram a abraçar o conceito da felicidade, como o Pão de Açúcar e o Magazine Luiza, cujo slogan é: “Vem ser feliz”. As campanhas da Coca-Cola, que é um grande exemplo de marca, deixam claro o seu posicionamento em termos de marketing. A empresa de bebidas propõe ao consumidor: “Viva positivamente”. Outro exemplo é a marca Dove, cujas campanhas convidam as consumidoras a apreciar a “real beleza”, em vez de exaltar a perfeição. Com isso ela promove identificação com as mulheres comuns, explorando a abordagem mais emocional do que racional. Nesse sentido, é necessário que os shoppings evoluam. Existe campo para isso. Há espaço para os empreendimentos no Brasil e no mundo evoluírem no sentido de promover essa identificação, e não apenas falar dos seus atributos, porque, afinal, eles já são bem semelhantes entre si. Precisam, portanto, adotar um posicionamento que os diferencie, de preferência fundamentado em estilo de vida, crenças, causas e valores. ✻ IDENTIDADE E POSICIONAMENTO A identidade de uma marca não se cria. A marca já possui uma identidade. Ela pode até não expressá-la, mas sua identidade existe e é formada pela soma de suas origens, sua história e suas relações. O primeiro passo desse processo de branding é revelar a identidade da marca. Para isso, é importante pesquisar sua trajetória e conversar com pessoas de diversas áreas para ouvir como elas se relacionam com a empresa, como enxergam essa identidade. No caso de um shopping, devem ser entrevistados desde a equipe gerencial até funcionários, consumidores e lojistas. A identidade da marca será expressa em um documento, tanto por meio de uma declaração formal de visão, missão e valores quanto de um discurso de marca mais descontraído. Esse documento deve definir todo o trabalho de posicionamento da marca. É importante ressaltar a diferença entre posicionamento e imagem. Posicionamento é como eu, enquanto marca, desejo ser percebido pelas pessoas. Imagem é como sou realmente percebido por elas. Aproximar a percepção existente do posicionamento desejado é o trabalho mais importante do marketing. A chave para um trabalho benfeito de posicionamento é não criar uma imagem artificialmente, mas entender a cultura da empresa, a maneira como ela se manifesta e como ela atua na sociedade, para extrair dessa reflexão um posicionamento que seja relevante do ponto de vista emocional, em relação ao consumidor. Quando o shopping investe em branding, ele fortalece sua identidade perante todos os seus stakeholders: consumidores, lojistas, fornecedores, imprensa, entre outros públicos – e gera credibilidade e valor. O trabalho de branding é interessante porque, muitas vezes, ele acontece à revelia dos malls. Isso ocorre porque as pessoas constroem uma imagem positiva ou negativa sobre as marcas, mesmo que as empresas não utilizem de forma sistemática o branding. Os consumidores constroem uma imagem a partir das relações que estabelecem com os shoppings que frequentam no seu cotidiano. Mesmo que o empreendimento não faça um trabalho estruturado de branding, as pessoas desenvolvem percepções em relação a ele. Dessa maneira, é melhor que o mall possa administrar esse processo em vez de deixar que ele ocorra sem controle. A proliferação de shopping centers tende a modificar a dinâmica do mercado, fazendo com que os brasileiros tenham muitas opções de escolha, ao contrário do que acontecia no passado. Tendo em vista que a arquitetura e o mix de lojas são quase sempre semelhantes entre os centros nacionais, a questão de identificação ganhará importância, fazendo com que haja mais projetos de branding nesse setor. ✻ MANUTENÇÃO DA MARCA Já foi dito que as pessoas se relacionam com as marcas como se relacionam com amigos. No campo das relações interpessoais não basta conquistar um amigo, ou mesmo uma esposa – é preciso alimentar esse relacionamento. O mesmo acontece no mundo das marcas. Além disso, as pessoas mudam e as marcas precisam evoluir junto com os consumidores. Uma marca que não entende o seu consumidor, que, em lugar de tentar compreender sua trajetória, anseios e desejos, prefere olhar para si mesma desenvolve uma espécie de autismo empresarial. Isso, infelizmente, ainda é muito comum. No caso dos shoppings, quando as empresas colocam todo o focona busca da rentabilidade sem levar em consideração as motivações dos consumidores, correm o risco de obter um resultado oposto. Quando desenham o projeto ou definem o tenant mix com base em suas próprias convicções ou conveniências, desconsiderando a opinião dos potenciais usuários, também assumem um risco desnecessário. É preciso lembrar que o consumidor é um ser em constante movimento. A sociedade da informação faz com que a comunicação seja mais rápida e isso acelera também as mudanças. Quando uma pessoa está dirigindo o seu carro à noite, numa estrada que não conhece e com chuva, a falta de informações faz com que ela dirija mais devagar. Mas numa estrada iluminada pelo sol, conhecida, com o tempo claro, essa pessoa tende a andar mais rapidamente. A informação faz acelerar a trajetória. Com o bombardeio de informações atual, o consumidor se movimenta mais rapidamente e os shoppings têm que evoluir com ele. Esse é mais um desafio para as marcas. Elas devem manter a sua essência, os seus valores, mas devem manifestar-se de acordo com o momento. As marcas tradicionais, que foram adaptando-se ao mercado, mantêm-se bem-sucedidas. As campanhas de automóveis, que não falam só sobre velocidade e durabilidade dos veículos, mas abordam também estilo, design e sociabilidade, são exemplos. A sociedade atual é muito diferente da de 20 anos atrás. O objetivo de visita ao empreendimento está mudando também. O consumidor não busca apenas abastecer-se de produtos, mas viver bons momentos. O shopping funcional passa a ser menos relevante do que aquele onde você passa momentos felizes. Hoje em dia, a concorrência dos sites de compras na internet é muito forte e se os empreendimentos fundamentarem suas estratégias apenas em compras enfrentarão mais dificuldades. Por outro lado, o mall pode oferecer um ambiente agradável, experiências de compra e sensação de bem-estar, dificilmente comparáveis com a compra em lojas de rua ou pela internet. Isso tudo precisa estar embalado por uma comunicação emocional, recheada de causas e valores. O branding pode ajudar nesse desafio. A reputação de um empreendimento é parte de seu patrimônio intangível, algo que, embora não possa ser medido precisamente, tem fundamental importância. A marca de um shopping tradicional em São Paulo pode valer bilhões de reais. Já a marca de um empreendimento pequeno numa cidade do interior pode valer R$ 50 mil. Isso significa que ninguém vai querer pegar o nome do empreendimento da cidade pequena e colocar em um shopping já consolidado, pois ninguém mais irá lá. Agora, se colocar o nome do mall tradicional no shopping da cidade pequena, muda completamente a reputação dele e sua atratividade. A marca vale muito dinheiro. Toda vez que os empreendedores se deparam com problemas relacionados às crises, há um ataque ao valor da marca. Esse ataque é feito por meio de agressões à imagem e à reputação. Imagem é a fotografia do momento. Um mall pode estar com a imagem ruim por uma série de problemas, como pessoas reclamando do estacionamento, da segurança, por exemplo. Então, o empreendedor consegue resolver o problema criando mais vagas ou trocando o administrador do serviço, e o problema de imagem acaba. Agora, considere um shopping que tem a reputação de ser chique, com as melhores lojas do Brasil. É uma reputação positiva: o consumidor vai lá porque sabe que tem as melhores marcas e os melhores produtos. A partir do momento em que ele começa a sofrer assaltos, o consumidor passa a pensar duas vezes antes de ir ou deixar o filho ir. Começa a reputação de um lugar inseguro. E essa reputação começa a afetar o valor de marca. Posso ter vários tipos de reputação, que são sempre monocromáticas. São brancas ou pretas. O shopping é limpo ou é sujo. É careiro ou barato. É seguro ou inseguro. A reputação é sempre formada com sim ou não. É branco ou preto, e não cinza. A imagem é multifacetada. Pense em um globo espelhado usado no teto em festas. Ela depende de quem olha e a partir de onde olha. Eu o acho bonito; tem gente que o acha feio. Na construção da imagem, há os dois extremos e, no meio, divergências de opinião. O morador de uma cidade pequena acha o shopping local muito bom, até que vai a um empreendimento maior, em uma capital, e muda de opinião. “Ele era tão pequeno e eu não sabia”, irá pensar o frequentador. É possível melhorar a imagem por meio de ações como campanhas sociais. Só que a boa reputação leva muito tempo para ser construída, mas pode ser perdida rapidamente por conta de um determinado aspecto. Uma marca de carros tinha fama de fazer automóveis que quebravam fácil e tinham manutenção cara. Ela levou 30 anos para mudar isso. Já a imagem se muda mais facilmente. Toda a experiência positiva que se tem em um shopping é compartilhada, normalmente, com outra pessoa. Cada momento negativo é contado para dez pessoas. A reputação é passada por meio da comunicação, no boca a boca ou pelo que é contado pela propaganda. Um carro de luxo vira o sonho de consumo e sinônimo de qualidade para milhões de pessoas que jamais o viram de perto ou o testaram. O primeiro contato é pela imagem, mas dali para a frente o consumidor passa a ser alimentado pela informação boca a boca, fatos positivos ou negativos. Os negativos vão, aos pouquinhos, detonando a eventual imagem positiva formada antes. A reputação existe para pessoas, empresas, cidades e países Toda entidade social tem uma reputação. O plano de marketing é o primeiro grande passo para uma estratégia de marketing bem-sucedida. Na fase de planejamento, cabe ao profissional ou à equipe responsável pela área antever e planejar aonde se quer chegar e como atingir determinado objetivo para a empresa. Por isso, alguns questionamentos são necessários: qual o objetivo do negócio? Para onde a empresa deseja caminhar? Definidos os objetivos do empreendimento, é o momento de todas as áreas da companhia, entre elas o marketing, desdobrarem-se para que as metas sejam atingidas. No caso dos shopping centers, um bom plano de marketing contempla diversas variáveis. A primeira delas, e fundamental, é identificar e analisar quem é o seu cliente. Por isso, a aplicação constante de pesquisas é essencial para conhecer o perfil do consumidor. Porém, não basta amparar-se em pesquisas. Mesmo que elas sirvam como um bom parâmetro e ofereçam elementos para o norteamento das ações, o profissional de marketing não deve contentar-se com os números e as planilhas das sondagens quantitativas e qualitativas. Para conhecer o consumidor, ele deve conversar com os lojistas, estar informado sobre as notícias do Brasil, entender e analisar a macroeconomia (que vai ter reflexos diretos e indiretos no empreendimento), participar de eventos que possam agregar informações etc. Ou seja, conhecer as tendências de mercado e o contexto sociofinanceiro do País. Se a economia brasileira vai mal, é possível que haja uma queda nas vendas, o que vai exigir ações em todas as áreas administrativas. As pesquisas oferecem um retrato do momento, mas para a execução de um bom plano de marketing é necessário um conjunto de informações que abranja desde dados macro até os mais segmentados, como análises da concorrência e equipamentos existentes na região – parques de diversões, hotéis etc. O empreendimento também concorre com outras opções de lazer e entretenimento, como viagens e restaurantes. O bom plano de marketing deve levar em consideração que o mall, hoje em dia, não é apenas um centro de compras. É o lugar do passeio, do mundo mágico, onde tudo é colorido e dá certo, nada pode dar errado. Podemos fazer uma analogia com as férias, quando tudo deve acontecer conforme o planejado – hotéis, passeios, clima, refeições etc. O planejamento de marketing exige a análise de todas essas variáveis (macro e micro) e, a partir daí, o desenvolvimento de um plano que encaixe o empreendimento nesse contexto. Atualmente, a mudança de interesses vem transformando os hábitos de compra dos consumidores e o mall deve, sempre, acompanhar asmudanças e tendências. De maneira geral, um plano de marketing deve responder às seguintes questões: – Aonde a empresa quer chegar (visão)? – Qual o objetivo do marketing? – Como fazer para que os resultados sejam atingidos? – Quais informações são necessárias? A projeção do futuro depende também do acúmulo de experiências adquiridas no passado. É comum os gerentes de marketing não avaliarem as ações feitas anteriormente e os erros e acertos cometidos em projetos já realizados. Uma reflexão e a análise detalhada dos trabalhos anteriores permitem discernir o que vale a pena repetir – e aprimorar – e o que deve ser abolido. Em geral, os departamentos administrativos entram em um novo ano com novas ideias, sem mensurar as iniciativas executadas no ano anterior. Quando não há essa reflexão, a probabilidade de que sejam cometidos os mesmos erros é muito grande, já que o profissional pode ter o feeling para os projetos, mas está desprovido de informações que podem auxiliar e dar embasamento às decisões a serem tomadas no futuro. Com a concorrência cada vez mais acirrada, em especial nos grandes centros urbanos, os shopping centers precisam, cada vez mais, estimular os colaboradores para que sejam criados diferenciais em relação aos concorrentes. A partir dessa criatividade é que serão construídos modelos que tornem a experiência do consumidor algo memorável, cativando o cliente. A diferenciação vai ter reflexos positivos nas vendas. ✻ O MARKETING ENQUANTO PARTE DO NEGÓCIO Historicamente, as equipes e os profissionais responsáveis pelas áreas de marketing dos shoppings raramente, ou nunca, comprometeram-se com os resultados globais do empreendimento. O compromisso sempre foi muito mais focado e restrito a eventos, à área de comunicação. A preocupação concentra-se em boas campanhas promocionais nas datas de varejo, campanhas institucionais e com uma bonita decoração de Natal. Nos últimos anos, essa visão estreita tem mudado. Se antes o departamento de marketing resumia-se à parte de comunicação e eventos, hoje em dia o marketing em shopping centers é voltado para a área de negócios. Trata-se de um executivo que está sentado na cadeira do marketing. É um profissional que tem uma visão global do empreendimento e trabalha na criação de experiências que aumentem a interação da marca com o consumidor em diferentes momentos, com resultados positivos. Para gerar esses resultados, o gerente de marketing tem que contar com um ingrediente importante: a criatividade nas ações estratégicas e táticas de marketing, mas também a participação em decisões macro, importantes para o negócio. Diante da concorrência cada vez mais acirrada, não é exagero afirmar que, nos próximos anos, se destacarão apenas os empreendimentos que tiverem um bom equipamento, com um mix de lojas diversificado, que vá ao encontro dos anseios dos frequentadores, além de um diferencial relevante. Esse diferencial tem a ver com o fato de que o mix, por mais diversificado que seja, muitas vezes é semelhante ao do mall vizinho. O que muda é a experiência do consumidor no local, a atmosfera, o atendimento, o serviço prestado etc., ou seja, o que se faz de diferente. São questões que geram o “encantamento”, além de aumentar a frequência. ✻ REINVENÇÃO DO MARKETING O departamento de marketing deve desenvolver ações amparadas em dois pontos: – Utilizar a criatividade para criar uma boa experiência para o consumidor (o encantamento). – Como essa boa experiência vai refletir-se no desempenho do empreendimento como um todo. O plano de marketing, que antes era focado apenas em ações de comunicação, necessita de outro tipo de construção e aplicação, focado em números, metas, expectativas de resultados e conhecimento global do mercado de shopping centers. Mais uma vez, é necessário estar amparado em pesquisas que forneçam as informações necessárias para um plano consistente e que balizem as decisões a serem tomadas. Um bom projeto deve levar em consideração: – Conhecimento da situação socioeconômica do País e da região onde o shopping está inserido. – Como o entretenimento faz parte do cotidiano das pessoas. – Como desenvolver e levar novas experiências para os consumidores, com propostas criativas e que criem um diferencial em relação à concorrência. – Mensuração dos resultados: utilização de pesquisas para saber se a meta inicial foi atingida ou não. ✻ LOJISTAS E CONSUMIDORES FINAIS O plano de marketing deve levar em consideração os dois públicos-alvo: os lojistas e os consumidores finais. Cada vez mais, os lojistas são considerados parceiros estratégicos no empreendimento, deixando no passado a imagem de um inquilino comercial que vive de fazer queixas à administração. Por estar em contato direto com o consumidor, o lojista é uma importante fonte de informações sobre os hábitos e o perfil do cliente, tornando-se um componente importante no embasamento técnico do plano de marketing. ✻ POSICIONAMENTO Uma das matrizes básicas necessárias para a construção do marketing é o posicionamento do shopping center. Não é raro que muitos gerentes de marketing desconheçam o real posicionamento do mall, muitas vezes traduzido apenas como “de classe A ou B”. Só essa informação não basta para entender o posicionamento, que depende de outras variáveis, como perfil do consumidor, localização, composição do mix de lojas e relação entre lojistas e consumidores. Alinhado com outras áreas administrativas, o marketing desempenha um papel importante no trabalho de posicionamento, já que é o departamento que mais conhece e lida com o público no cotidiano – o que realça o papel da área no empreendimento como um todo. Por isso, os empreendedores devem abrir um espaço cada vez maior para o setor de marketing na administração do shopping. Por outro lado, os profissionais devem ampliar suas experiências e a base de conhecimento, utilizando-o para conquistar resultados para o negócio. No geral, os shoppings ainda estão atrasados em relação a outros segmentos, no que diz respeito ao planejamento de marketing, ainda muito concentrado em eventos pontuais. ✻ MENSURAÇÃO DE RESULTADOS E PROMOÇÕES As pesquisas são elementos importantes para a mensuração de resultados de ações desenvolvidas no plano de marketing. Trata-se de ferramentas importantes, em uma fase em que é necessário, cada vez mais, otimizar os recursos destinados ao setor. Há casos de empreendimentos que gastam muito dinheiro em ações que não são relevantes, pelo simples fato de não medirem o resultado de vendas e fluxo. Bons exemplos são as promoções. Estudos revelam que é baixa a relação entre a promoção e o aumento de público frequentador e das vendas, ou seja, uma promoção de distribuição de cupons para sorteios de carros contribui muito pouco para o aumento real de frequentadores. Diante disso, por que os administradores continuam realizando as promoções? Em primeiro lugar, porque os resultados delas são pouco mensurados pelos shoppings. Em segundo lugar, a extinção desse tipo de ação pode provocar uma reação negativa por parte dos lojistas, geralmente resistentes às mudanças. Caso eles vendam menos em uma data comemorativa em que não tenha ocorrido um sorteio de grande porte, como no Dia das Mães ou dos Pais, será alta a probabilidade de o comerciante creditar os resultados negativos à falta de promoções. Finalmente, uma promoção denota uma mensagem grande em termos de marca do shopping. Quando há o sorteio de uma BMW ou de um carro popular, são duas mensagens diferentes para o consumidor. A promoção, em termos institucionais, contribui para a formação e consolidação da marca. Ela pode não resultar em aumento do fluxo e das vendas, mas ajuda na construção da marca e no posicionamento do empreendimento. O grande desafio, nesse caso, é encontrar alternativas para substituir as ações tradicionais e que sejam capazes de aumentar vendas e fluxo de pessoas e veículos. ✻ COMUNICAÇÃO VISUAL O plano de marketing deve contemplar uma linha de comunicação consistente e alinhada ao seupúblico. É inaceitável que, a cada temporada, a linha criativa mude radicalmente, gerando uma grande confusão na cabeça do consumidor. Deve haver uma evolução e adaptação, como fazem os grandes bancos de varejo, que, apesar de atualizarem constantemente suas campanhas, jamais mudam as cores. O Bradesco é identificado pela cor vermelha. O Itaú, pela laranja e azul. E assim por diante. Cada vez mais é necessário que o gerente de marketing profissionalize-se e participe das discussões sobre o mall como um todo. Além de produzir um bom plano de marketing, o profissional deve auxiliar na definição do mix de lojas e das prioridades nos investimentos de infraestrutura, entre outras atribuições. Se um empreendimento quer posicionar-se como sustentável e ambientalmente correto, é importante ter em seu mix as marcas que lidem com produtos naturais. E isso deve ser apontado pelo marketing. Diante disso, conclui-se que a profissionalização e a interação com outras áreas é essencial para os planos e departamentos de marketing nos shoppings brasileiros. O gerente do departamento deve, cada vez mais, comportar-se como um executivo e menos como um profissional da comunicação. Caso contrário, a gestão de marketing em shoppings continuará restrita às ações pontuais sem necessariamente gerar resultado para o negócio. De acordo Peter Drucker, especialista, considerado o “pai” do marketing moderno: “O objetivo do marketing é conhecer seus consumidores com tanta profundidade que, quando seus clientes potenciais depararem com seu produto, se ajustarão tão bem a eles que se venderão sozinhos.” ✻ PESQUISAS E ESTRATÉGIAS DE MARKETING A pesquisa pode ser entendida como um processo de construção do conhecimento que tem como metas principais gerar novos conhecimentos e/ou corroborar ou refutar algum conhecimento preexistente. A pesquisa, como atividade regular, também pode ser definida como o conjunto de atividades orientadas e planejadas para a busca de um conhecimento. Elas são importantes para a gestão global do empreendimento, no qual o marketing é uma das ferramentas de trabalho à disposição dos gestores. Do ponto de vista estratégico, podemos dizer que a pesquisa subsidia a definição e a direção a ser seguida por um empreendimento. Ao marketing cabe a operacionalização dessa estratégia. Um dos maiores desafios atuais dos shopping centers é trabalhar o processo de segmentação de marcas e o posicionamento dos diferentes empreendimentos. Durante anos, não era necessário aos shoppings um posicionamento de marca diferenciado para atrair o público. Afinal, havia poucas marcas e a concorrência entre os malls era pequena. Hoje em dia, municípios de porte médio e que até algum tempo atrás possuíam apenas um shopping hoje têm três ou quatro. Nas grandes cidades, a distância entre os novos empreendimentos é cada vez menor; portanto, a simples ocupação geográfica do espaço vai deixando de ser suficiente, o que torna necessário oferecer diferenciais para atrair o público em uma mesma área de influência. Aqui se encontra uma das grandes contribuições da pesquisa de mercado ao negócio de shopping centers, trabalhando questões como: – Definição do posicionamento diferencial do empreendimento. – Alinhamento das marcas presentes no mall ao posicionamento. – Retenção dos consumidores no shopping. –Maximização da satisfação dos consumidores. –Aproveitamento do fluxo de consumidores para as diferentes lojas do shopping. –Maximização da performance de vendas das lojas e categorias dentro de um empreendimento. –Áreas quentes e frias da loja e do mall. –Produtos/marcas que são carros-chefe, ímãs, de nicho e reposicionáveis de cada categoria. –Influências do merchandising e das promoções no processo de compra do consumidor. É necessário salientar que a busca pela compreensão do consumidor e dos seus desejos passa necessariamente pelo conhecimento de como ele funciona, isto é: –Biologicamente: o corpo, a mente, a capacidade intelectual etc. –Socialmente: como ele interage com as outras pessoas e convive em diferentes culturas e sociedades. Muitas análises são feitas erroneamente, pela falta de conhecimento de como os indivíduos funcionam. Outras vezes o erro se dá em função da contaminação por pressupostos. Alguns profissionais de pesquisas acreditam que não estão sob as mesmas leis biológicas, sociais e psicológicas dos consumidores. ✻ MAXIMIZANDO O APROVEITAMENTO DOS FREQUENTADORES DE UM SHOPPING Estudos específicos revelam o grau de satisfação do consumidor e a correlação entre os números apresentados. As estatísticas mostram que há uma correlação de 95% de clientes encantados com o fato de que pretendem voltar ao shopping center. Na outra ponta, 98% dos clientes insatisfeitos (de um universo de 100% de insatisfeitos) não pretendem voltar e não recomendam o mall em questão. Por isso, é importante identificar os elementos que impactam na satisfação do consumidor, o peso de cada um na opinião dos frequentadores e como agir de maneira corretiva, de modo a melhorar os índices de satisfação. Identificar os elementos que impactam a satisfação e qual o peso de cada um deles é importante para que o shopping tenha informações para estabelecer as prioridades e aplicar os recursos, inclusive os do marketing. ✻ ENTENDENDO AS PECULIARIDADES DO CONSUMIDOR BRASILEIRO As pesquisas aplicadas no País pecam por fazerem uma abordagem excessivamente literal do consumidor em uma realidade em que, culturalmente, as pessoas são excessivamente flexíveis. Em comparação com o europeu, por exemplo, o brasileiro tende a ser mais complacente e menos rigoroso nas respostas. Isso exige do pesquisador critérios rígidos para selecionar o que é ou não importante nas respostas e informações fornecidas pelos entrevistados, pois há o perigo da não discriminação correta do que é relevante ou não. Em relação a outros povos, o brasileiro é considerado tolerante, complacente e cordial quando responde às pesquisas. No Brasil, os números pouco falam. Justamente pela natureza cordial e gentil da população, que tende a ser tolerante quando perguntada sobre a satisfação pessoal. Um bom exemplo é o caso do executivo alemão de uma multinacional que, ao desembarcar no Brasil, encomendou uma pesquisa para avaliar a atratividade de novos produtos para os consumidores. Ao se defrontar com índices entre 60% e 70% de pessoas que demonstraram intenção de comprá-los, o executivo acreditava, literalmente, ter descoberto a América. Mas a alta receptividade aparente escondia outra realidade. No Brasil, em média, quando se faz uma pesquisa de intenção de compra, 65% dos entrevistados dizem que pretendem comprar, independentemente de quererem mesmo adquirir a mercadoria ou não. Por isso, quando o índice de intenção de compra exibido na pesquisa é de 70%, podemos interpretar que, na verdade, apenas 5% realmente pretendem comprar aquele produto. Testes realizados sobre extensas bases de dados mostram que, em uma escala de 0 a 10, é necessário levar em consideração apenas as notas extremas para medir a real satisfação dos clientes. Logo, apenas quem forneceu nota 10 pode ser considerado satisfeito, enquanto os insatisfeitos normalmente são aqueles que dão notas de 0 a 7. ✻ ENTENDENDO COMO O CONSUMIDOR REAGE ÀS AÇÕES DE COMUNICAÇÃO As pesquisas são, também, importantes ferramentas para auxiliar o departamento de marketing a desenvolver estratégias de comunicação para atrair e reter o público no mall. Nos últimos anos, o varejo brasileiro tem desenvolvido atividades de comunicação com baixa diferenciação, excessivamente “comoditizadas”. Nesse ambiente, como captar a atenção dos consumidores com ações de comunicação? Em uma época em que as pessoas são bombardeadas, todos os dias, por um excesso de informações de diversos tipos, em todas as áreas (jornalismo, publicidade, internet etc.), como diferenciar a comunicação dos diversos shoppings? As pesquisas – quantitativas, qualitativas ou de outros tipos – são ferramentas extremamente importantes nesseprocesso. É importante entender o que muitas vezes os números não dizem explicitamente para compreender os elementos que traduzem realmente o desejo e as motivações dos consumidores. Técnicas de análise multidimensionais podem ajudar extremamente a perceber o não dito, o não verbalizado, ao permitirem depreender a estrutura íntima das informações obtidas. ✻ PARTICULARIDADES DO USO DE PESQUISA NO BRASIL Diante dessas questões, como deve ser a análise correta das estatísticas? –Nas escalas, para medir a aderência a uma ideia ou a satisfação de clientes, devem-se levar em consideração apenas as notas máximas (o ponto 10 da escala). –Use técnicas de estatísticas e análises mais sofisticadas, que analisem toda a estrutura de resposta dos indivíduos simultaneamente, nunca a fragmentação das tabulações tradicionais de dados. As referidas análises multidimensionais são fundamentais nas diferentes aplicações de pesquisa de mercado em shopping centers no Brasil. –Há algo ainda mais relevante que o uso de escalas corretas, técnicas estatísticas avançadas e as suas interpretações: o grande desafio nas pesquisas está na interpretação dos dados associada à compreensão da dinâmica e do modelo do negócio shopping. Não adianta ser pesquisador, é preciso entender do negócio. É frequente o pesquisador ser um alienígena no negócio. Isso provoca voos rasantes, superficiais, sem a profundidade necessária para assessorar o gestor. O negócio de shopping centers evoluiu, sofisticou-se. Os gestores ganharam experiência e maturidade. O pesquisador não pode pecar pela superficialidade. ✻ PESQUISAS COM OS LOJISTAS A realização de pesquisas junto aos lojistas deve levar em consideração algumas diferenças em relação ao público em geral. A principal delas é que o lojista se apresenta como um entrevistado mais crítico do que o comprador. Não é raro ele enxergar o empreendimento como um “inimigo” por causa de questões e problemas relacionados ao dia a dia do convívio entre as lojas e o centro de compras. No caso específico, a postura do entrevistador e a análise dos resultados obtidos devem procurar diferenciar as questões e queixas relevantes de um simples “resmungo” do lojista. Outro fato que merece atenção é aquele em que o lojista usa a pesquisa apenas como um meio de negociação para obter benefícios, destacando problemas ou questões que são bem menos graves do que os colocados na pesquisa. Assim como em uma empresa, onde raramente funcionários tecem elogios à corporação, os lojistas de shoppings tendem a ser mais críticos em suas opiniões. Por isso, a exemplo das sondagens junto ao público em geral, é importante: –Criar parâmetros de avaliação com índices claros de resultados e que sejam os mais próximos possíveis da realidade. –Compreender os elementos diferenciais nas análises feitas com o varejo (endomarketing). ✻ PESQUISAS E O COMÉRCIO ELETRÔNICO As pesquisas podem, também, subsidiar os shopping centers diante das mudanças recentes ocorridas no varejo. Estudos mostram que, enquanto o varejo tradicional cresceu de maneira muito tímida nos últimos anos, o comércio eletrônico avança cada vez mais. O consumidor, muitas vezes, vai até a loja para conhecer e escolher a mercadoria desejada, mas depois efetua a compra pela internet. Novas e constantes pesquisas são necessárias para que os gestores descubram maneiras para aumentar e reter o público consumidor nos malls nos próximos anos. Entre os desafios que se colocam para o futuro dos empreendimentos e que devem ser analisados por meio de pesquisas estão: –Como os malls podem atrair o consumidor nos próximos anos? –Como atrair os jovens para os espaços físicos? –Como deve ser composto o mix de lojas e dos espaços de lazer? O desafio atual do marketing de shopping centers é estruturar-se para um futuro cada vez mais presente. Será necessário lidar menos com as questões táticas do dia a dia e mais com as estratégicas. Também será necessário pensar em como defender esse “asset” físico fantástico dos empreendimentos, diante da virtualização do mercado consumidor. Qual o papel a ser desempenhado pelos equipamentos físicos no novo mundo que se avizinha? Essa é uma questão estratégica crítica para qual a pesquisa de mercado pode ser um excelente instrumento. ✻ PESQUISAS DE OPINIÃO A importância das pesquisas de mercado não se restringe ao marketing. Elas interessam ao empreendedor de forma muito mais ampla, desde o planejamento até a manutenção das operações. Afinal, toda e qualquer sondagem nasce a partir de dúvidas que devem ser esclarecidas a partir da fase de planejamento do empreendimento, tais como: qual deve ser a localização do futuro shopping center? A que público ele será dirigido e como deve ser o mix de lojas? Muitas das questões relativas ao potencial de mercado são analisadas por meio do geomarketing (um dos temas deste capítulo que será detalhado na sequência). As pesquisas, no caso da gestão do marketing, devem ser aplicadas para o conhecimento e norteamento das ações realizadas nos famosos “quatro Ps”: produto, preço, pontos de venda e propaganda. Aos quatro pode-se acrescentar um quinto “P”: o público. Ele também constitui força de atração do mall, já que, muitas vezes, a escolha de determinado destino de compras se dá pela sensação de pertencimento que os consumidores esperam vivenciar ao frequentar os mesmos ambientes que seu target aspiracional de indivíduos. Na fase operacional, as pesquisas de opinião pública são essenciais para orientar os rumos do mall a partir da opinião dos lojistas e, principalmente, dos frequentadores. É necessário compreender que o mercado é dinâmico, os públicos mudam ao longo dos anos e as próprias regiões onde os empreendimentos estão instalados sofrem transformações urbanas, o que interferirá na frequência e no perfil do público. E as pesquisas são importantes para detectar e acompanhar essas mudanças. Em grandes cidades como São Paulo, antigos galpões de fábricas, por exemplo, cedem espaço a torres de escritórios ou prédios residenciais, transformando as antes regiões industriais em áreas comerciais, residenciais e de uso misto, algumas vezes de alto padrão. A consequência direta é a mudança do perfil do público que passa a frequentar aquele shopping center, o que exige constantes pesquisas de opinião para acompanhar as demandas dos frequentadores e lojistas. Um bom exemplo de mudança estratégica ocorreu na zona sul de São Paulo (SP), com o Shopping SP Market. Na época em que foi planejado, no final do século passado, a proposta inicial era que ele funcionasse como um outlet. As mudanças urbanas ocorridas na região em que ele está instalado – avenida das Nações Unidas (região de Interlagos), importante polo de desenvolvimento imobiliário da cidade de São Paulo – tornou obrigatório o reposicionamento para atender a um público mais exigente, oriundo dos diversos novos bairros que se desenvolveram em sua zona de abrangência. Um levantamento da área de influência também é importante para o planejamento do marketing. Mais uma vez o geomarketing é uma ferramenta útil e necessária para uma radiografia da região em questão. Dessa maneira, a área de influência pode ser maior ou menor da que a imaginada inicialmente, por questões como sistema viário local, oferta de transporte coletivo etc. Regiões com alta concentração de escritórios costumam apresentar trânsito ruim nos horários de pico, o que dificulta a atração de frequentadores de outras regiões. Por outro lado, o trânsito pesado acaba abrindo oportunidades de negócios, como restaurantes e bares para happy hour, cinemas e academias de ginástica. São atividades que podem se beneficiar da espera por uma melhor fluidez do trânsito. A separação mais clássica é a que divide pesquisas em quantitativas e qualitativas. A pesquisa quantitativa é aquela que está mais preocupada com porcentuais. Os produtos finais são as tabelas com porcentagens de respostas sobre o assunto abordado. Os resultados são mais objetivos e superficiais, com menor aprofundamentodos temas. Geralmente são utilizadas para captação de informações como dados demográficos, classes sociais do público pesquisado etc. Caso o empreendedor queira compreender melhor as motivações, opiniões e desejos dos frequentadores, vai recorrer às pesquisas qualitativas. O objetivo dessas sondagens é aprofundar temas de interesse do shopping junto ao consumidor, tais como: por que ele faz determinada escolha, quais os desejos reais de consumo, como ele seleciona os produtos que deseja adquirir e como são escolhidos os locais de compras. As pesquisas qualitativas podem ser divididas da seguinte maneira: –Dinâmica de grupo : é selecionado um grupo com características homogêneas (classe social, faixa etária, renda familiar) que vai responder e discutir determinada questão proposta pelo moderador, como a satisfação com o mix de lojas do shopping. As dinâmicas realizadas pelos institutos de pesquisa são muito comuns e devem ser conduzidas por um entrevistador experiente, para que sejam conquistados os resultados esperados e as respostas para as questões propostas. –Entrevista com profundidade : é feita uma entrevista individual, geralmente utilizando-se um gravador. Nesse caso, as questões apresentadas pelo empreendedor serão debatidas em profundidade com o entrevistado. Mesmo com a riqueza de informações geradas, seja nas dinâmicas ou nas entrevistas individuais, as pesquisas também estão sujeitas a interpretações errôneas e que desviem o foco do objetivo inicial. Daí a importância de um moderador experiente e bem preparado para conduzir as questões do grupo e evitar possíveis dispersões dos assuntos analisados ou a perda do objetivo. É comum, por exemplo, que em determinadas dinâmicas apareça ao menos um entrevistado com opiniões contundentes e que, portanto, sejam mais hábeis para influenciar e conduzir a opinião dos demais entrevistados. Eles podem tornar-se “líderes”, cujas opiniões influenciam a dos outros, colocando em risco a imparcialidade e a espontaneidade das respostas dos demais entrevistados. Um bom exemplo é uma pesquisa feita há algum tempo para o mercado imobiliário. Um dos integrantes do grupo da pesquisa qualitativa era uma pessoa conhecida da mídia. Logo, o que ele respondia ou discutia na dinâmica acabava, naturalmente, tendo uma ressonância maior na opinião dos demais colegas de grupo. ✻ COMBINAÇÃO DE PESQUISAS No geral, as duas técnicas clássicas de pesquisas (quantitativas e qualitativas) são boas e apresentam resultados bastante satisfatórios. O ideal é que, sempre que possível, haja uma combinação dos dois tipos: a qualitativa, para que emerjam questões mais profundas, e a quantitativa, para mensurar e tabular estatísticas sobre os assuntos. Há certa tendência entre os pesquisadores a considerar que a pesquisa qualitativa deve anteceder a quantitativa. No caso, a qualitativa seria uma sondagem que forneceria informações detalhadas que, em um segundo momento, serviriam como base de informações para a construção de um questionário a ser aplicado na pesquisa quantitativa. Esse método, porém, às vezes não é eficiente. Para evitar problemas e alcançar os resultados desejados, deve-se considerar sempre que a pesquisa quantitativa serve para quantificar resultados e produzir índices. Já a qualitativa é muito eficiente para a análise de questões comportamentais. ✻ OUTROS TIPOS DE PESQUISA Observacional: o pesquisador não conversa com ninguém. Ele passa horas ou dias em um determinado lugar – no caso, um shopping center ou um setor dele (praça de alimentação, por exemplo) – apenas observando o comportamento dos frequentadores. Ele deve ter uma grande habilidade e capacidade de observação para, durante o trabalho, mensurar questões como: –Por quanto tempo as pessoas circulam pelos corredores do mall ? –Onde entram? Quais as vitrines que chamam mais a atenção? –Qual o roteiro médio traçado pelos frequentadores? –Como utilizam as dependências comuns? Quais as áreas mais visitadas etc.? Neurociência: os pesquisados são submetidos a situações reais ou de laboratório e as sinapses do cérebro são analisadas de acordo com os estímulos cerebrais. Nesse caso, o entrevistado não fala muito, pois suas reações são monitoradas e analisadas em laboratórios. Esse tipo de monitoramento é muito utilizado na indústria de consumo de massa, como o setor de alimentação. No varejo, ainda é pouco difundido, mas conquista um espaço cada vez maior. Uma das vantagens desse tipo de sondagem é que ele não está sujeito às mentiras, mesmo que involuntárias, do entrevistado. Observacional por câmeras: a dinâmica é a mesma da observacional. A diferença é que as reações do consumidor são analisadas por meio de câmeras estáticas instaladas em locais estratégicos. ✻ INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Uma das fases mais difíceis de uma pesquisa é a elaboração do questionário ou do roteiro de perguntas. Uma pergunta mal elaborada pode provocar uma resposta inútil ou desnecessária, que não contemplará os objetivos da sondagem. Também é recomendável que o analista participe de todas as etapas do levantamento, para evitar a formação de uma “colcha de retalhos” na construção das informações. Também é necessário que haja uma interpretação isenta dos resultados. Há casos em que o comprador da pesquisa já tem em mente o resultado que ele quer e contrata o instituto para funcionar apenas como um “ventríloquo” e corroborar a ideia já formada, o que é um grande erro. O empreendedor deve ter sempre o compromisso com a informação isenta, até porque ela repercutirá junto aos lojistas, ao público, aos fornecedores, à concorrência etc. ✻ UNIVERSO DA PESQUISA Um dos equívocos mais comuns em pesquisas é errar na amostra, que deve sempre representar o universo de frequentadores. Essa amostra precisa ser homogênea e representar todos os perfis do público que circula pelas dependências do mall. É a teoria da sopa: a pessoa não precisa tomar todo o prato de sopa para saber se ela está bem temperada. Basta uma colher do alimento, desde que ela esteja homogênea. No caso, o desafio é identificar todos os tipos de público e representá-los na amostra de entrevistados. O departamento de marketing, ao contratar uma pesquisa, também deve evitar qualquer tipo de preconceito em relação aos entrevistados. Por exemplo: achar que apenas os jovens gostam de novidades eletrônicas e tecnológicas, ou então que apenas os mais velhos gostam de silêncio ou música clássica. É necessário compreender que o mercado consumidor é cada vez mais dinâmico e exige uma criatividade sempre maior dos empresários do setor varejista. A pesquisa, porém, não deve ser vista como a única maneira de melhorar um empreendimento. Ela é uma ferramenta que vai nortear as ações, mas a inovação depende de um trabalho em equipe das mais diversas áreas do shopping, inclusive o marketing. Geomarketing é a área da mercadologia que relaciona o fator geográfico às estratégias de mercado. O próprio termo, resultado da união das palavras – geografia e mercado –, nos permite defini-lo como “geografia dos mercados”. A localização do empreendimento é importante quando pensamos no comportamento dos consumidores ao realizarem suas compras. O esforço de deslocamento para consumir bens de consumo duráveis (eletrodomésticos, móveis, aparelhos de informática etc.), via de regra, será sempre maior do que a compra de bens de conveniência (alimentos e roupas, por exemplo). Com base nisso, as pessoas acabam por rotular determinadas localizações como “longe demais”, “fora de mão”, “com um caminho complicado”. Em algumas atividades, o ponto (um dos quatro Ps que sustentam o denominado marketing-mix) tem uma importância preponderante para o sucesso do negócio. Enquanto os outros três elementos (preço, produto e promoção) podem sofrer ajustes e ser reorientados de maneira tática, a localização é permanente, imutável. É justamente essa inflexibilidade que explicita a sua importância estratégica no varejo. A decisão de investir milhões de reais em um empreendimento do portede um shopping center deve ser objeto de análise apoiada em informações consistentes. Apesar de o conceito ter surgido em épocas mais recentes, o geomarketing sempre existiu na humanidade. Afinal, questões referentes à localização sempre foram uma preocupação dos povos desde o início das civilizações. As tribos, grupos ou mesmo as cidades sempre surgiram e se estabeleceram próximos a lugares com água potável em abundância (rios ou lagos), com facilidade para a navegação, boa topografia, boa qualidade do solo e clima favorável, entre outras características físicas. Com o avanço da tecnologia, o geomarketing passou a ter aplicações em outras atividades. No caso do Brasil, são mais de 5 mil municípios com diferentes portes e estruturas de consumo. O próprio tamanho das cidades exige estudos diferentes para a tomada de decisões dos governantes e isso tem implicações no varejo. Um município com 1 milhão de habitantes possui características e prioridades diferentes de outros com 10 mil. Em relação ao comércio, o geomarketing está ligado à localização do empreendimento, para que ele se torne economicamente rentável. No caso de uma padaria, por exemplo, o raio de ação pode ser calculado em cerca de 300 metros, já que as pessoas geralmente vão comprar o pão fresco a pé. Se não houver público suficiente nesse perímetro, é muito provável que ela não tenha sucesso. No caso dos shopping centers, quando o assunto é a área de influência, podemos estar falando de toda uma cidade ou mesmo de uma região dentro da metrópole. Assim, o geomarketing é um dos primeiros – se não o primeiro – estudos a serem realizados para avaliar a implantação do futuro centro. A localização é essencial para o sucesso. Se não houver uma análise correta da geografia de consumo, a viabilidade comercial pode ser comprometida. Quando o primeiro shopping foi aberto no Brasil, na década de 1960, os estudos de geomarketing eram mais restritos. Afinal, tratava-se de uma novidade no setor varejista e a área de influência do empreendimento era muito maior, já que não havia tantos concorrentes. Aliás, a concorrência direta era o comércio de rua, que, nos anos seguintes, ficaria comprometido pelos próprios problemas das cidades, como abandono das ruas pelo poder público, trânsito, falta de transporte e de estacionamentos, segurança etc. Ao longo das décadas, o número de shoppings cresceu e, por isso, diversos fatores geográficos devem ser levados em consideração quando se decide pela construção de um novo mall. Nas grandes metrópoles, é necessário verificar a real área de influência do futuro centro de compras, a distância a ser percorrida pelos consumidores-alvo por categoria de produto, o perfil dos concorrentes etc. Nas cidades médias, onde atualmente ocorre uma forte expansão dos shoppings, a área de influência do futuro mall pode incluir não apenas a cidade, mas vários municípios vizinhos, principalmente quando a cidade é sede de uma região e um polo regional. Por isso, é importante analisar não apenas a socioeconomia local, mas a de todo o entorno. ✻ GEOMARKETING E O POTENCIAL DE CONSUMO Definida a região, o estudo socioeconômico também vai orientar a diversidade do mix de lojas do futuro empreendimento. A análise é importante para entender os diversos públicos existentes e definir o perfil desejado dos frequentadores e, consequentemente, a variedade e as características do mix. Nesse caso, deve ser analisado o índice de potencial de consumo. Esse índice pode ser medido de acordo com as características geográficas locais. Por exemplo: é possível saber que no bairro da Lapa, em São Paulo, o consumo médio de vestuário pelos moradores é de tantos reais. E nesse mesmo universo de consumidores o grupo que pertence à “classe A” tem um gasto médio de “x” reais, e o grupo que pertence à “classe C”, outros tantos reais, em média. De posse dos dados referentes ao perfil socioeconômico de uma cidade ou região, é possível verificar as oportunidades para um novo shopping na área. O índice de potencial de consumo também contribuirá na orientação do perfil do mix de lojas ideal para atender aquela parcela da população. Fica claro que estudos ligados ao geomarketing são realizados ainda na fase de concepção do projeto do futuro shopping center. Nessa fase ele tem basicamente duas situações práticas: –Estudo de seleção do local Determinada marca pretende construir um novo empreendimento para a sua rede em algum ponto do território nacional. Qual é o local com as melhores características para um novo empreendimento da rede? Qual região concentra a parcela do público que ele pretende atingir e que ainda não possui opções de malls – ou ainda não tem sua demanda atendida pelos shoppings que existem? Em que estados, cidades ou mesmo bairros de uma metrópole haverá maior sucesso de público de acordo com as características do mall que será construído? –Quando o terreno já existe A partir do momento em que já existe uma área predeterminada, estudos de geomarketing vão avaliar a viabilidade de se implantar um empreendimento naquela área e, também, orientar as suas características. São análises referentes ao tipo do mall a ser construído, de acordo com o perfil socioeconômico da população local, a vocação regional e os equipamentos já existentes que podem contribuir positivamente para o movimento (aeroportos, parques, hotéis etc.). O perfil comercial do entorno também vai influenciar no diferencial do empreendimento. É preciso entender as ofertas já existentes e aquelas demandas não atendidas pelo varejo, as quais, assim, afetarão a composição do mix. ✻ ATRAÇÃO AO CONSUMIDOR O geomarketing também é utilizado no entendimento das diferentes atratividades exercidas pelos estabelecimentos varejistas e, assim, na determinação das respectivas viabilidades de implantação naquele shopping center em estudo. Dentro desse escopo, a composição e a distribuição do mix deverão considerar as diferentes atrações que produtos/serviços exercem sobre os consumidores num dado momento de compra, a saber: –Atração geradora É o motivo do deslocamento do consumidor até o mall. Por exemplo: lojas de ternos para homens. A pessoa vai até o shopping para comprar um terno de que está precisando. –Atração por vizinhança É aquela que se beneficia pela atração geradora. Por exemplo: lojas de sapatos. A pessoa precisa de um terno, vai ao empreendimento comprá-lo e, na ocasião, aproveita para adquirir um par de sapatos novos. Vale registrar que os sapatos também podem assumir a função geradora, caso tenham sido o motivo da ida ao shopping. –Suscetibilidade Está muito ligada ao impulso da compra. Por exemplo: lojas de doces. Dificilmente alguém vai a um shopping center apenas para comer doces, o que classifica esse tipo de loja com baixo índice de atração geradora. Mas, a partir do momento em que a pessoa está lá e passa pelo local, sente-se estimulada a consumir. Por isso, muitas vezes, é melhor para uma franquia de doces instalar- se dentro de um shopping do que no comércio de rua. Entender os hábitos de consumo e o comportamento da população local – uma das atribuições do geomarketing – é importante para a determinação correta do mix de lojas. O estudo do comportamento e as características da região permitem entender por que determinada faixa do público frequenta e outra faixa não frequenta o mall, obrigando o empreendedor a repensar o modelo. É importante, então, salientar que um dos desafios é ter fluxo de frequentadores no shopping durante todos os dias e em seus diversos horários. Assim, a determinação do mix e a constante preocupação em oferecer lojas que melhor atendam aos anseios dos consumidores levarão também a maximizar os resultados. Portanto, é fundamental o entendimento do potencial de consumo da região e a correta composição do mix de lojas do empreendimento. A título de ilustração, em 1990, um shopping localizado na zona sul da capital paulista quase foi inviabilizado após a inauguração, por ter sido construído em uma região que, na época,era pouco habitada e inviável do ponto de vista comercial para um empreendimento daquele tamanho. Além disso, o perfil não era compatível com a realidade socioeconômica da população da região. Até hoje esse empreendimento sofre por conta do acesso, da falta de espaço para ampliação e consequentemente da impossibilidade de composição do mix. ✻ QUESTÕES URBANAS QUE INTERFEREM NO SUCESSO DO MALL Zoneamento e uso do solo: compreender e obedecer à legislação do uso e ocupação do solo de uma cidade é vital para o funcionamento do empreendimento. Afinal, caso o local não esteja de acordo com as especificações legais, poderá ser autuado e até mesmo impedido de funcionar. Como o zoneamento e a lei de ocupação do solo determinam o que deve e o que não deve ser feito em determinada área, a leitura e a compreensão da legislação são imperativos para a construção e operação do shopping center. Sistema viário e meios de transporte: essas análises são de fundamental importância para saber como as pessoas se deslocam e como poderão chegar ou sair do empreendimento. Os “gargalos” no trânsito podem, inclusive, definir a implantação ou não de um shopping. Aqui, o geomarketing deve trabalhar com o conceito de isócronas (curvas de tempo). É evidente que, quanto melhor o acesso ao mall, maiores serão as áreas cobertas pelas isócronas (por exemplo, de 10, 15 e 20 minutos) e, consequentemente, maior a área de influência e, assim, mais público. Afinal, como construir um shopping de porte em um local de difícil acesso, tanto pelo transporte individual como pelo coletivo? ✻ PRINCÍPIOS DE LOCALIZAÇÃO A lista de princípios que devem ser verificados no geomarketing, conhecidos como Princípios de Richard Nelson, sintetiza os passos que precisam ser seguidos em relação à geografia de mercados. Podemos destacar no caso dos shoppings: –Adequação do potencial de área: análise da região de influência prevista, contabilizando-se o volume de renda e de gastos, para determinar o potencial volume de negócios. –Acesso: é importante para garantir e maximizar a acessibilidade dos frequentadores, para que o volume de negócios seja ampliado e não seja prejudicado pelo fato de as pessoas não conseguirem chegar ao local para consumir. –Potencial de crescimento: o empreendimento deve estar em uma região em que a população e a renda estejam crescendo, para que, além de entregar bons resultados, o shopping propicie futuras ampliações. É necessário lembrar que grandes empreendimentos, como um shopping center, têm impacto sobre a ocupação do solo de toda a vizinhança, o que tende a determinar valorização imobiliária. –Minimizar riscos causados pela concorrência: escolher uma região onde haja mínima interceptação de clientes pelos concorrentes e considerar os locais que apresentem esse risco. Avaliar a concorrência local na fase de execução do projeto é uma arte de difícil elaboração, mas de fundamental importância para selecionar uma boa localização. Ter em mente que o entendimento das estratégias de localização dos concorrentes facilitará a determinação da estratégia em si, tanto em termos ofensivos como em eventuais posições defensivas. –Interceptação de negócios: implantar o mall entre o local em que as pessoas moram e o em que elas tradicionalmente compram, de forma a conquistar os clientes na trajetória para o local de consumo. –Compatibilidade do varejo: a distribuição do mix de lojas em um mall deve ser pensada para aumentar o número de visitas e o intercâmbio de clientes entre lojas. Assim como no comércio de rua, a padaria próxima ao açougue e à banca de jornal estimula as vendas de todos (o cliente vai ao açougue e aproveita para passar na padaria e comprar a revista). Dessa mesma forma deve ser planejada a localização interna das lojas, nos diversos corredores e andares do mall . Um exemplo gritante de incompatibilidade: a implantação de uma joalheria ao lado de uma peixaria não é muito recomendável. –Cumulatividade: em determinadas situações, estar perto da “concorrência” pode ser a melhor estratégia. Isso se aplica aos bens com forte apelo de compra comparada. A título de exemplo, podem ser citadas as ruas com comércio especializado (ferramentas, equipamentos musicais, eletroeletrônicos) e também shopping centers como os de automóveis e móveis/decoração. Nesses locais, o consumidor depara-se com diversidade de modelos, marcas, design s, formas de pagamento, prazos de entrega, qualidade, entre outros atributos. As opções fazem com que os consumidores venham de longe – pois sabem que encontrarão o que querem, ou até mesmo que terão outras ideias sobre os produtos –, aumentando consideravelmente a área de influência do polo e os resultados para os empreendedores. Em linhas gerais, na lógica do mercado, levando-se em consideração os quatro “Ps” do marketing – preço, ponto, produto e promoção –, a questão geográfica tem caráter de perenidade. Caso a localização do empreendimento seja equivocada, comprometerá os demais elementos do marketing-mix, determinando alterações no mix de produtos/lojas, redução de preços e acréscimo nos gastos com promoção. Tudo isso na busca incerta de atrair consumidores, mas isso acarretará impactos negativos nos resultados do shopping center. O sucesso de um evento está diretamente ligado ao seu planejamento, ao estudo de cada detalhe, aos objetivos e à estratégia utilizada. Dentre os objetivos mais comuns, estão aumentar o número de frequentadores, trazer novos clientes, fidelizar o público e ajudar o mall a estabelecer-se na fase de maturação e, assim, aumentar as vendas dos lojistas. O evento começa a ser planejado, com todos os seus detalhes, muitos meses antes da realização, desde a logomarca que será usada até o kit ou brinde que o cliente poderá levar para casa depois de participar. O trabalho precisa ser pensado em conjunto entre a equipe de marketing, a agência de comunicação e os lojistas, para que o resultado final encante o frequentador. Quando ele se encanta, ele é fidelizado. O varejo tem datas tradicionais, como Dia das Mães, dos Pais, das Crianças e o Natal. Nelas, o ideal é combinar campanhas com eventos, sendo que o Natal é o que proporciona resultados de vendas mais efetivos. Por essa razão, necessita de atenção especial. Se levarmos em conta apenas os dias comemorativos, teremos cerca de dez possibilidades por ano. No entanto, o fundo de promoção de um shopping dificilmente suportará os custos de uma dezena de grandes eventos a mais. A quantidade de eventos planejados em cada empreendimento deve variar de acordo com os recursos do orçamento. É melhor optar por um número menor de eventos, com mais qualidade, do que fazer vários, mas de forma precária. Os consumidores estão muito habituados a frequentar shoppings e percebem se um evento foi montado com qualidade e preocupação ou não. O tempo médio de realização de um evento é de três finais de semana, o que representa um período em torno de 17 dias corridos. Há ações menores, para datas como o Dia Internacional da Mulher, que podem durar uma semana. O prazo depende muito dos objetivos e pode ser estendido, caso haja interesse extraordinário por parte do público. ✻ PARCERIAS A participação de lojistas nos eventos é fundamental. É obrigação dos shoppings avisá-los, formalmente, que um evento será realizado. Durante o planejamento, os lojistas devem ser chamados para reuniões de apresentação do projeto, ressaltando a importância da participação de todos. Os lojistas que mais se envolvem são justamente os que obtêm melhores resultados. Nesses encontros, é acertada a participação de cada um, os gastos com cada item e como o evento será divulgado. O lojista, normalmente, é o maior colaborador do fundo de promoção, portanto, cabe à administradora mostrar que a participação dele pode ajudá-lo ainda mais a incrementar suas vendas. Durante o evento, o lojista precisa deixar a vitrine organizada e atrativa. Gerentes e vendedores têm de estar preparados para atender o público que virá. Como exemplo dessa participação,podemos citar os desfiles de moda de lançamento de coleções. É comum que os lojistas cedam as roupas que serão usadas na passarela. Com isso, cria-se a oportunidade para que eles chamem seus clientes para prestigiar o evento, ofereçam um coquetel na loja e aumentem as vendas. Empresas e entidades de fora do empreendimento também podem participar. Uma exposição sobre a França pode ser montada em parceria com o consulado francês, por exemplo. Já uma atividade com foco na sustentabilidade abre caminho para a colaboração de entidades que abraçam a causa. ✻ SEGMENTAÇÃO POR PÚBLICO E CLASSES SOCIAIS A primeira coisa a ser considerada ao planejar um evento é o objetivo de trazer um público de qualidade e alinhado com o perfil do empreendimento. Não adianta fazer um show gratuito para um público de classe C se o shopping é voltado para a classe A. O local ficará cheio de gente, mas as visitas não gerarão vendas. Portanto, é indispensável ter claro o público que o mall pretende atingir com o evento: público A, B ou C. Os locais frequentados pelos clientes A não são os mesmos do público C. Essa segmentação é feita de acordo com o target do empreendimento. As informações sobre quem são esses clientes podem ser encontradas na pesquisa anual (ou bianual) realizada com os frequentadores (veja mais sobre pesquisa no capítulo 3 – Plano de Marketing). Sem esses dados em mãos, o evento terá grandes chances de fracassar. Os clientes da classe A têm refinamento e exigências maiores, apreciam ações ligadas à sofisticação e à cultura. Os frequentadores das classes B e C preferem ações voltadas para toda a família, como música ao vivo na praça de alimentação, aulas de artesanato e culinária para as mulheres ou uma peça de teatro infantil. A linguagem desses eventos precisa adequar-se a cada público, assim como fazem as atrações da TV. O apresentador de um debate sobre assuntos gerais, em uma emissora fechada, usa um tom completamente diferente do de um apresentador de programas de auditório em TV aberta. Em cidades grandes, é cada vez mais difícil atrair pessoas de outras regiões, devido aos problemas de trânsito, e trabalha-se cada vez mais o entorno. Já em shoppings regionais, os frequentadores podem vir de cidades a dezenas de quilômetros de distância. ✻ EVENTOS TEMÁTICOS Esse tipo de evento, obviamente, trabalha com um tema específico. O tipo mais comum em shoppings é ligado à moda, como desfiles e lançamento de coleções. Outro exemplo: um shopping de móveis e decoração criou um grande evento para lançar novas coleções. Como estratégia, foi contratado um renomado produtor de moda. As vitrines foram trabalhadas, o projeto de iluminação era diferenciado e pelos corredores do empreendimento foram colocados aromas diversos. Foi um sucesso, tanto de aceitação dos clientes quanto de aumento de vendas. Um tema pode servir como base para diversos eventos ao longo de determinado tempo. No Rio de Janeiro, um shopping fez uma grande ação com o tema “Ano da França no Brasil”. Durante todo o ano, diversos eventos culturais tiveram como base a relação entre Brasil e França. Foram realizados diversos desfiles de moda, exposições de fotografias, pré-estreia de cinema e atrações gastronômicas e de beleza, entre outros. Embora cada evento tenha sido realizado em uma ocasião diferente, a comunicação foi integrada em uma mesma identidade visual: criação de um logo, cores e estratégia única, dando a sensação de um evento contínuo. ✻ EXPOSIÇÕES Uma exposição bem elaborada e pensada em todos os detalhes chama a atenção não só das pessoas, mas também da mídia, que, por meio da divulgação, ajuda a despertar a curiosidade do público, de escolas e de associações com interesse no tema, em especial. Para isso, ela precisa ter uma montagem minuciosa e ser valorizada. Não dá para colocar um tapete vermelho no meio do corredor e espalhar alguns itens e painéis. Os consumidores percebem quando se trata de algo sério e retribuem prestigiando e consumindo em cada visita ao shopping. Os eventos com temas ligados à educação e à cultura, como mostras científicas ou históricas, podem originar parcerias com órgãos públicos, como as secretarias de Educação estaduais ou municipais. Esse caráter educativo ajuda a conseguir espaço no noticiário local, o que traz grande visibilidade e aumento de público. ✻ COMUNICAÇÃO E DIVULGAÇÃO DO EVENTO A divulgação de um evento começa a ser feita dentro do próprio shopping. Para eventos maiores, a equipe de marketing pode criar um logo próprio, que converse com a marca do empreendimento, e uma identidade visual, com cores e símbolos específicos, para usar em todo o material de comunicação. Em alguns casos, utilizar a fachada é uma excelente opção. Após a participação no evento, o cliente pode receber um cartão de agradecimento, um brinde ou mesmo um tag no carro com um “obrigado pela visita”. Esses itens fazem com que o consumidor leve o logo do shopping ou do evento para casa e possa continuar em contato com a marca. O planejamento de um evento ou campanha deve levar em conta as pesquisas realizadas e as necessidades dos lojistas e do próprio mall. A preparação deve ter objetivos muito claros para que a estratégia adotada resulte em benefícios para o empreendimento, alavancando vendas e consolidando a sua imagem. As ações promocionais, também chamadas de marketing promocional, não estão apenas ligadas a descontos e preço, mas fazem parte da estratégia do mall para impactar diretamente a venda dos lojistas e reforçar a imagem da marca, entre outros objetivos. Trata-se de uma “comunicação de marca com objetivo de incrementar a percepção de seu valor por meio de técnicas promocionais e pontos de contato que ativem a compra, o uso, a fidelização ou a experiência de produtos ou serviços”, segundo definição da Ampro (Associação de Marketing Promocional). Dentro do planejamento estratégico do shopping e da sua política de marketing está o composto promocional, que combina as promoções de venda e as formas de divulgá-las. Nesse composto, estão as ações como sorteios, descontos e outras formas de estimular as vendas, junto com os canais de comunicação que serão usados para levá-las ao conhecimento do público. Assim como outras ações direcionadas aos clientes, o planejamento das promoções tem como base a pesquisa feita a cada um ou dois anos, sobre quem são os frequentadores do mall. A pesquisa irá dizer a qual classe social o público pertence e outros indicadores importantes, como idade, origem, expectativas, necessidades, experiências culturais e estado emocional, de modo que o shopping possa ter informações precisas e detalhadas sobre seus frequentadores. As promoções se inserem no plano anual de marketing, elaborado pelo empreendimento, e costumam seguir as datas tradicionais do varejo: Dia das Mães, dos Namorados, dos Pais, das Crianças e Natal, entre outras. A escolha de quais datas terão ações menores ou maiores varia de acordo com a experiência do empreendimento, o dinheiro em caixa e possíveis eventos internos, como a inauguração de uma expansão. Nesse caso, podem-se fazer ações menores durante alguns meses para guardar recursos e ter a possibilidade de uma promoção de maior impacto para lançar a nova fase do shopping. Escolhidas as ocasiões do ano que terão promoções, começa o planejamento para realizar cada uma delas. O trabalho é iniciado entre seis meses e até um ano antes da data. Os passos principais são a avaliação dos resultados da última ação, a aferição da verba disponível, a definição do tema e dos prêmios, a busca de parcerias, todo o aspecto operacional, assessoria jurídica, criação de campanha, logística de entrega de brindes, desenvolvimento do balcão e/ou posto de troca, sistemas de informática e, no caso de sorteio, regulamentação e aprovação junto aos órgãos federais. Dependendo do caso, as promoções são feitas em conjunto com vários empreendimentos da mesma rede ou de forma independente. O trabalho em conjunto unifica os passos acima e gera economia de tempoe dinheiro, mas é recomendado apenas para empreendimentos que tenham públicos com as mesmas características. O planejamento pode ainda sofrer alterações ao longo do ano. Além das pesquisas, o comando do shopping, que acompanha o dia a dia do empreendimento e da concorrência, consegue identificar se o fluxo teve queda nos últimos meses ou se a baixa do movimento de vendas tem se concentrado em um ou mais dias da semana. A variação pode ser causada por fatores externos, como a economia do País crescendo menos do que o estimado ou a concorrência lançando um novo shopping. A fim de reverter a situação negativa, uma promoção pode ser antecipada ou ter seu porte ampliado. Nas ações criadas a partir de um diagnóstico pontual, torna-se ainda mais importante levar em conta o tempo necessário para conseguir autorização dos órgãos fiscalizadores – visando à realização de sorteios – e para que os fornecedores possam entregar os prêmios. A parte conceitual da promoção é tão ou mais importante do que a ação em si. Ocasiões como os Jogos Olímpicos não são motivo suficiente para criar um evento ou promoção, sem que haja uma base conceitual para eles. A época das Olimpíadas é a mesma das férias e do inverno. As crianças estão em casa, com energia para gastar. O frio faz com que as pessoas queiram ficar próximas umas das outras e as deixa mais propensas a assistir às disputas e fazer as atividades em grupo. Surge daí a possibilidade de criar algum evento ou ação dentro do mall, com o tema ligado às Olimpíadas, e alguma premiação, pensados, porém, a partir de conceitos pertinentes. Outra variável a ser considerada é o tempo de operação do mall. Um shopping recente precisa atrair um público que ainda não o conhece, enquanto um centro de compras inaugurado há décadas, que tenha bom fluxo, precisa continuar o processo de fidelização e pode trabalhar para aumentar o tíquete médio de seus clientes. Nas grandes capitais e metrópoles, onde há um número maior de shoppings, as ações da concorrência precisam ser acompanhadas com atenção. As promoções realizadas nesses mercados têm apelo prioritariamente local, devido à dificuldade de deslocamento gerada pelo trânsito carregado. Em cidades menores, há mais facilidade para atrair gente com as promoções, embora haja uma disputa com o comércio de rua. Ali, o mall precisa mostrar que é a melhor opção de compras da cidade ou da região. As promoções são questionadas pela capacidade de fidelizar os clientes. Os frequentadores habituais não costumam ir sempre ali porque há itens mais baratos, mas sim pela localização, mix de lojas e tudo mais que o shopping oferece. O trabalho precisa ser contínuo. Um empreendimento recém-inaugurado consegue atrair muitas pessoas com um sorteio de grande porte, mas esse novo público precisa ter motivos para voltar, como o mix de lojas, o bom atendimento, um ambiente adequado e preços interessantes. As ações promocionais dão a oportunidade de um primeiro contato, que, se o cliente encontrar outras razões para voltar ao mall, pode representar o começo de um longo relacionamento. ✻ TIPOS DE PROMOÇÃO Sorteio – A modalidade em que um ou mais prêmios de grande valor são sorteados atinge um grande número de pessoas, mas o apelo varia, na medida do interesse do público em ganhar aqueles prêmios. Os prêmios precisam estar um passo à frente da realidade do cliente. Para as pessoas da classe C, já é comum viajar de avião, mas quase sempre dentro do Brasil ou até Buenos Aires. Passagens para Paris ou para a Disney são um sonho. Entretanto, para a classe A, que viaja com frequência para os Estados Unidos e a Europa, esses destinos não trazem novidade alguma. Esse público se interessa por lugares mais distantes, como Taiti ou Bali, onde, supostamente, ainda não estiveram. Para essa categoria, viver uma experiência única importa muito mais do que o destino em si. Dessa forma, a viagem precisa ter valor agregado, como proporcionar a participação em um evento exclusivo ou de grande importância. Em um caso emblemático, foram sorteadas passagens e hospedagens para o São Paulo Fashion Week, entre clientes de shoppings de diversos estados do País. Os vencedores puderam assistir aos desfiles, ficaram hospedados no mesmo hotel de vários modelos e estilistas e ganharam vales-compra no empreendimento, além de produção completa para ir aos desfiles. A ação foi voltada a frequentadores interessados em moda, que entendiam a importância do SPFW e tinham o sonho de participar do evento. Sortear carros é uma opção frequente, pois podem ser trocados por dinheiro, o que é uma vantagem. Há veículos que mal chegam às mãos dos ganhadores e são vendidos. Os automóveis atraem todas as classes: para o público A, um modelo de alto luxo pode ser um sonho de consumo ainda não realizado. Para a classe C, é a chance de trocar o seu veículo antigo ou embolsar o valor. Em shoppings de perfil mais popular, o número de prêmios é um atrativo. Neles, é melhor sortear cinco carros 1.0 do que um importado de alta potência. O modelo de automóvel sorteado ajuda ainda a deixar claro o posicionamento do empreendimento. Se o prêmio é um carro realmente luxuoso, o mall reforça a imagem de que atende ao público A. Com o sorteio de carros mais baratos, reafirma a vocação popular. De olho no sonho da casa própria, são feitos até sorteios de apartamentos. Embora o custo do prêmio seja bastante elevado, a atratividade provocada nos frequentadores geralmente consegue compensar o investimento necessário. Um aspecto dessa forma de promoção, questionado por alguns especialistas, é o pequeno número de ganhadores. Já que a maioria dos participantes não ganha um carro ou uma casa, e boa parte não conhece alguém que tenha sido premiado, os clientes começam a achar que não têm sorte e, aos poucos, perdem o interesse em colocar seus cupons nas urnas. Para esses especialistas, o modelo de troca de notas por prêmios de menor valor traz mais vantagens, pois o número enorme de contemplados faz do prêmio um benefício tangível. O sorteio permite aos shoppings criarem um cadastro dos clientes com base nas informações preenchidas nos cupons ou fornecidas aos atendentes nos quiosques de troca de notas fiscais. Com esses dados, o mall consegue aprimorar o gerenciamento do relacionamento com os consumidores (CRM, na sigla em inglês), com o objetivo de fidelizá-los e oferecer atrativos adequados ao perfil de cada um. Em uma base de 20 mil clientes cadastrados, por exemplo, o shopping pode selecionar um grupo de 1.500 mulheres com mais de 50 anos e comunicar- se por meio de e-mail ou envio de mala direta, para informá-las sobre os lançamentos das lojas que trazem produtos para esse público específico. Assim, o departamento de marketing do shopping não saturará o cliente com o envio de materiais desinteressantes para ele. Comprou, ganhou – A troca de um valor em notas por um prêmio tem a vantagem de que o item é entregue na mesma hora e alavanca diretamente as vendas das lojas. Entretanto, os presentes precisam ser interessantes, para motivar as trocas. Itens muito baratos podem encalhar se os clientes não enxergarem algum tipo de valor neles. Esse tipo de promoção precisa de ajustes em duas variáveis: o valor agregado dos brindes e o gasto em compras necessário para a troca. Um prêmio barato pode fazer sucesso em um shopping popular, se o tíquete médio for muito baixo. Mas, se o cliente gasta um valor pequeno, a promoção terá pouco impacto no resultado das lojas. A determinação do valor necessário para a troca pelo brinde (ou cupom, no caso de sorteios) é feita com base no tíquete médio de cada centro de compras. Caso o valor seja de R$ 500, por exemplo, o gasto para participar da promoção será de R$ 600 ou mais, para levar os clientes a consumirem um pouco além do que costumam. A escolha dos prêmios também varia de acordo com o perfil do shopping. Em empreendimentos de perfil popular, uma compra de R$ 100 dá direito a um brinde de valor agregado mais baixo, por exemplo. Brindes infantis são uma opçãointeressante, pois costumam agradar às crianças com facilidade. Os pequenos ficam com vontade de ganhar e até o público adulto se interessa, dependendo dos personagens envolvidos. Em um empreendimento que entregou uma coleção de bonecos da Turma da Mônica, os brindes se esgotaram na metade do período estipulado para a promoção e foi preciso providenciar um novo lote às pressas. É um risco constante nesse tipo de promoção o dimensionamento errado do número de brindes. Os itens não precisam necessariamente durar até o último dia da ação, mas o ideal é que os clientes possam fazer a troca com certa tranquilidade. Outro cuidado necessário é a agilidade na troca das notas. Uma fila grande no balcão desestimula os clientes a participar. Um shopping voltado à classe alta sorteou um colar de uma joalheria famosa, entre os clientes que gastaram R$ 1.500 ou mais em compras. O prêmio tinha um grande valor agregado e uma aura de exclusividade, diferente dos bonecos citados no exemplo anterior, e esse valor foi passado ao público na comunicação da campanha. O colar era apenas um e não faria sentido encomendar mais. Prêmios ligados à cultura e ao lazer, como ingressos para cinema e espetáculos de música e teatro, são opções interessantes. Concurso cultural – O cliente envia uma frase ou redação e as avaliadas como melhores por uma comissão do mall levam o prêmio. Esse modelo traz a desvantagem de não poder ser vinculado às compras, pois precisa ser aberto a qualquer interessado. A avaliação e a escolha dos vencedores é outro ponto delicado, por ser subjetiva; na maioria dos casos, gera algum ruído. ✻ LIQUIDAÇÃO Uma ação combinada entre as lojas para reduzir os preços, durante um curto período de tempo, é uma das ações com maior poder de atrair pessoas aos shoppings. Entretanto, traz alguns desafios antes de ser realizada. O principal deles é o alinhamento com os lojistas. Nas datas tradicionais do varejo, como Dia das Mães e Natal, todas as lojas planejam e realizam ações nas mesmas épocas. Já para queimar seus estoques, cada unidade tem uma estratégia própria, muitas vezes baseada em um calendário de abrangência nacional ou internacional, criado pela matriz. Isso impede que o shopping desenvolva uma estratégia que, talvez, fosse mais adequada a ele. É necessária uma boa negociação. As liquidações atuais são concentradas no segmento de moda. As lojas dessa categoria lançam suas coleções aos poucos, ao longo do ano, e não mais, como antes, quando as coleções de verão e inverno chegavam de uma vez e ficavam meses nas prateleiras. Esse novo modelo é pensado para que o cliente encontre novidades nas lojas todas as semanas. Principalmente nas cidades das regiões Sul e Sudeste, onde as estações do ano são razoavelmente bem definidas, há a possibilidade de fazer as trocas de coleção com liquidações. Então, o shopping tenta acertar uma data com todos os lojistas e fazer uma ação de grande porte. Cada empreendimento tem uma forma diferente de criar e divulgar as liquidações, de acordo com seu posicionamento e público. Em linhas gerais, nos shoppings voltados para a classe C, costuma ser feito um grande barulho, e os anúncios destacam o tamanho da queima de estoque e a queda dos preços. Para a classe A, a comunicação é mais sutil, mas também bastante presente, e destaca a oportunidade de adquirir produtos únicos, por um preço menor. As liquidações em cidades menores e capitais que não são grandes metrópoles têm muito impacto nas respectivas regiões. Nesses locais, a presença mais numerosa do público permite que até a praça de alimentação e os cinemas ofereçam descontos nos períodos de liquidação. ✻ CUPONS DE DESCONTO A troca de cupons encartados em revistas ou panfletos, por descontos, na hora das compras, faz sucesso no exterior, mas no Brasil tem pouco apelo. Isso é atribuído pelos especialistas aos anos de inflação e à grande variação do preço de alguns itens nas lojas. Segundo eles, o cliente no Brasil não tem a noção exata do preço das coisas. Uma camiseta básica não custa sempre o mesmo valor. Uma peça cujo preço médio é R$ 20 pode sair por R$ 30 em uma semana e por R$ 35, alguns dias antes da promoção. Nesse cenário, um desconto de 30% perde o sentido, já que a base de cálculo não pode ser facilmente identificada. ✻ COMUNICAÇÃO Algumas empresas de shopping centers preferem investir mais na divulgação das promoções do que na compra dos prêmios. Esses grupos acreditam que o sucesso das promoções está diretamente ligado à exposição que elas têm na mídia e ao número de pessoas que tomam conhecimento das ações. Nesse modelo, os custos gerados com locação de equipamentos, informática, profissionais de atendimento e prêmios são enxugados ao máximo. Em média, do investimento total, 25% vão para os prêmios, 10% para o operacional e 65% para a divulgação. Os valores não são fixos e sofrem reajuste de acordo com o porte das ações da concorrência. Mesmo com verba percentual menor, o brinde precisa ser atraente. Um prêmio inusitado, como o passeio em um carro de Fórmula 1, atrai a atenção das pessoas e da imprensa, gerando mídia espontânea. O departamento de marketing pode escolher algo novo ou seguir o tipo de prêmio que faz sucesso no mercado naquele momento, dependendo da estratégia e dos indicadores. A divulgação tem de ser feita com base em um mix de ações, pensadas em fidelizar o público atual e atrair novos frequentadores. Os clientes de longa data precisam se sentir prestigiados, perceber que têm valor para o shopping e que recebem atrativos exclusivos. As redes sociais e a comunicação interna do mall agem principalmente com esse público. Uma boa agência de publicidade ajuda a avaliar o potencial de cada mídia de massa e adequá-las à estratégia do shopping. Os veículos e meios que serão usados para divulgar a promoção serão determinados pelo plano de marketing. Recomenda-se que se tenha claro qual é o perfil do público e que os investimentos sejam feitos em ações segmentadas. Há empreendimentos que recebem público de 60 mil, 70 mil e até100 mil pessoas por dia. Esse volume de pessoas cria um grande número de oportunidades de divulgação das promoções dentro do próprio empreendimento, pois é muito importante que o cliente que faz suas compras ali saiba dos benefícios as quais tem direito. O grande fluxo de pessoas faz com que o shopping seja uma ótima mídia, inclusive para outras marcas. De acordo com gestores de comunicação dos malls, são avaliadas outras opções de mídia, como anúncios em rádio, TV, jornais e outdoors (nas cidades onde são permitidos). Fora do eixo Rio-São Paulo e de algumas outras capitais, ainda se consegue comprar espaço nos grandes veículos, como um anúncio no intervalo do horário nobre da TV, pois os custos não são tão altos como nos grandes mercados. O uso dessas ferramentas varia muito de acordo com o que o shopping pretende: se o plano é comunicar-se com a grande massa ou com um determinado público. Outra opção bastante usada é o anúncio em revistas específicas, como as de moda e decoração. Um anúncio feito para a grande massa atinge um número enorme de pessoas, e parte delas irá receber a informação, mas não fará nada com ela. O uso desse tipo de mídia gera bons resultados nas cidades menores. Em cidades com diversos shoppings, um comercial na TV pode representar um desperdício de dinheiro, pois atingirá pessoas que moram muito longe e têm outras opções próximas dos malls para frequentar. As redes sociais permitem uma divulgação mais focada no público que já possui certo interesse e uma relação estabelecida com o shopping, com custo menor do que nas mídias convencionais. Na maioria dos casos, as empresas combinam o uso de ferramentas de divulgação on-line e off-line. Como parte da estratégia, algumas empresas e shoppings optam por não fazerem mais anúncios em dias próximos às datas comemorativas, como nas revistas semanais que irão circular na semana do Dia dos Namorados, por exemplo. Uma edição como essa estará repleta de anúncios de empreendimentos como mesmo tema, e os clientes não farão muita diferenciação entre os shoppings. Eles podem, inclusive, comparar qual promoção traz o melhor custo-benefício: aqui eu posso gastar R$ 300 e concorrer a um carro, no outro eu gasto R$ 200 e ganho uma caneca. Esses shoppings geralmente optam por anunciar sempre algumas semanas antes da data. Com um número menor de anúncios de shoppings na mídia naquele momento, garante-se maior visibilidade e atenção dos espectadores ou leitores. ✻ MEIOS ALTERNATIVOS A distribuição de catálogos com ofertas de produtos à venda nos shoppings traz resultados bastante positivos. O material é entregue nas residências (via mala direta) ou encartado em revistas, jornais e outras mídias. O lançamento de coleções e ofertas são os principais temas desses catálogos, que costumam ser pedidos pelos próprios lojistas. A entrega de panfletos nas ruas ou em semáforos é uma ação de apelo popular que não costuma ser muito efetiva. O mais comum é a distribuição dentro dos pontos de venda, ao lado do caixa de pagamento, como mais uma forma de divulgação feita dentro do shopping. Banners, cartazes e monitores eletrônicos são formas de se comunicar com os clientes habituais nos centros de compras e os estimulam a levar mais itens do que pretendiam inicialmente. Um anúncio bem posicionado, que atinge às pessoas na hora certa, é o material afixado nas entradas e na cancela do estacionamento. Os clientes vão ao mall interessados em fazer compras e, ao chegarem, já ficam sabendo das vantagens as quais têm direito se gastarem determinada quantia. Nas cidades menores, os shoppings fazem ações só com jornais locais, nos quais são encartados folhetos com as ofertas para os fins de semana. Eventos em parques ou espaços de lazer próximos também trazem bons resultados. ✻ ENVOLVIMENTO E SENSIBILIZAÇÃO DOS LOJISTAS As equipes de vendedores nas lojas são os maiores divulgadores das promoções junto aos clientes. São eles que convencem os consumidores a gastar um pouco mais, para ganharem um cupom e poderem concorrer aos prêmios ou trocá-los por brinde. Uma forma de incluir esses profissionais é premiá-los também: o vendedor que atendeu ao consumidor que ganhou um carro pode ganhar um presente. Isso os estimula a trazerem mais clientes para a promoção. Assim, não faz sentido o shopping elaborar uma grande campanha se seus lojistas não souberem do que se trata e não informarem nem treinarem seus funcionários adequadamente. Eles precisam ser avisados de que, naquele período, o centro de compras estará em destaque na mídia e terá um fluxo maior de pessoas. Uma forma de comunicar a promoção a esse público interno é fazer um pequeno evento de lançamento, como um café da manhã para as equipes. Seguranças e recepcionistas também devem ser incluídos, pois costumam ser procurados pelos frequentadores para tirar dúvidas simples, como saber onde é feita a troca dos cupons. ✻ COMO AVALIAR OS RESULTADOS A avaliação dos resultados das promoções é feita principalmente pelo impacto no tíquete médio registrado pelos lojistas. Outras métricas importantes são o total de cupons ou brindes trocados, volume de vendas, número de novos clientes e de participantes e um comparativo com os resultados das promoções anteriores. Toda promoção fornece a informação do tíquete médio e o número de pessoas que trocaram os cupons ou brindes. Esses indicadores mostram possíveis falhas, como um número menor de itens para troca do que a procura e se o gasto em compras necessário para troca deveria ter sido maior ou menor do que efetivamente foi. O crescimento das vendas precisa ser comparado com a evolução do varejo como um todo e a de outros empreendimentos do grupo, e a variação da inflação no período deve ser descontada, para se ter a confirmação de que o ganho foi gerado de fato pela promoção. A variação do fluxo de clientes nos corredores é outra métrica, que costuma ter crescimento maior em cidades onde a concorrência é menor. Os cupons preenchidos para sorteios trazem a informação de onde os participantes moram e permitem saber quais regiões o mall conseguiu impactar. Como os cupons fiscais são entregues, a administração consegue saber tudo sobre as compras: que lojas tiveram maior procura, que produtos o cliente levou e quanto gastou em cada nota. Todos esses itens têm de ser analisados para uma avaliação completa dos resultados da promoção. O sucesso das ações de comunicação é avaliado pelo êxito da promoção em si. Se muitos cupons foram trocados, é porque um grande número de pessoas foi atingido. O cadastro feito na troca de cupons informa ainda quantos consumidores vieram ao empreendimento pela primeira vez. Se o total de novos clientes é considerável, a divulgação foi eficiente, pois trouxe pessoas que não conheciam aquele shopping ou não tinham o hábito de frequentá-lo. Alguns grupos fazem pesquisas durante a promoção para complementar a análise. Nelas, são avaliados itens como a atratividade do brinde, a eficiência da comunicação e por qual meio o cliente ficou sabendo da ação. Outra forma de fazer essa verificação é pela percepção geral. Um shopping anunciou neste ano em jornal e TV e no ano passado usou jornal e rádio. Se este ano vieram mais clientes novos, é sinal de que o rádio trouxe melhor resultado. No caso de catálogos ou outros materiais enviados por mala direta, fica mais fácil comprovar a eficácia: os lojistas podem informar se os produtos que anunciaram tiveram maior procura. As campanhas são o conjunto de anúncios feitos pelos shoppings para divulgarem suas ações, promoções, produtos, serviços e a própria marca, de modo a atrair frequentadores. Esse conjunto precisa estar inserido em um único planejamento e ter peças publicitárias inspiradas em um mesmo conceito ou tema. Os anúncios podem estar presentes nas mídias de massa, como rádio, TV, jornais e revistas de interesse geral, e em meios segmentados, como publicações de moda ou decoração, ou em material entregue diretamente aos consumidores por mala direta ou nas lojas. A escolha de quais meios serão utilizados é feita com base no planejamento da campanha, originado na pesquisa de mercado que identifica quem são os consumidores. As principais campanhas são indispensáveis na ocasião de lançamento dos empreendimentos e nas datas do varejo. O centro de compras forma muito de sua imagem nas épocas de Dia das Mães, Namorados, Pais, Crianças, Natal e lançamento de coleções. Entretanto, a realização de campanhas nessas datas depende do perfil de cada empreendimento, do planejamento anual e da verba disponível. Caso o shopping já tenha um bom fluxo de público, uma promoção pode ser suficiente, pois o importante no caso é converter a presença dos clientes em vendas, e não atrair mais gente. ✻ MÍDIA EXTERNA (E COMPRA DE ESPAÇO NOS GRANDES VEÍCULOS) As mídias externas permitem atingir um número enorme de pessoas, mas boa parte do público impactado por meios como a TV aberta mora e trabalha longe do mall. Nas metrópoles, há grande oferta de centros de compras e dificuldades para percorrer longas distâncias, o que inviabiliza a visita a shoppings de bairros distantes. A saída, nesses casos, é trabalhar a área de influência primária e fazer uma escolha criteriosa das mídias utilizadas. Esses passos evitam o desperdício do dinheiro investido e facilitam a segmentação, de acordo com o público. De modo geral, a melhor aposta é anunciar em revistas segmentadas, como as femininas e de celebridades, e em canais de TV por assinatura voltados ao público infantil, de moda, femininos ou masculinos. A negociação para a compra de anúncios deve ser feita sempre por intermédio da agência de propaganda. O próprio mercado exige isso e ser assessorado por quem tem expertise faz toda a diferença. O empreendimento sabe montar uma estratégia, mas a escolha do espaço publicitário na mídia é uma questão técnica, que deve ser delegada aos especialistas das agências, sob supervisão e comando do shopping. Comercializar espaço publicitário não deve ser função doadministrador dos centros de compras ou de sua equipe de marketing. É possível conversar com os principais jornais e fechar conjuntos de anúncios, com assessoria da agência. Em uma praça onde os veículos são bastante segmentados, pode-se fechar um pacote anual de anúncios, por exemplo. ✻ MÍDIAS PRÓPRIAS O espaço de circulação dos shoppings é uma mídia, pois possui um grande fluxo de público. Há casos de empreendimentos que recebem 100 mil frequentadores por dia. Cartazes, telas de LCD e totens espalhados pelas áreas comuns são opções interessantes de divulgação. Em ações grandes, todo o centro de compras pode ser coberto pelas cores e identidade visual da campanha, inclusive a fachada e as laterais do edifício. Para o uso de monitores, há a dificuldade de instalação, já que os malls têm poucas paredes disponíveis devido aos corredores serem cobertos pelas fachadas das lojas. Há ainda a necessidade de mensagens curtas, pois os clientes geralmente estão de passagem. Locais interessantes para receberem as telas são a praça de alimentação e os elevadores, onde os consumidores ficam parados e podem prestar mais atenção. O ideal é que cada mensagem um grande número de palavras possível junto a uma imagem impactante. Preparar uma revista ou jornal próprios, como é tradição em alguns shoppings, pode não ser vantajoso. A prática, muito usada em anos anteriores, hoje não tem mais apelo. O custo de produção de um veículo impresso no Brasil é elevado, e a dificuldade de elaboração de um mailing de qualidade compromete a distribuição de forma abrangente, o que pode levar a um custo-benefício desvantajoso. Um empreendimento que recebe 100 mil pessoas/dia consegue ter verba para elaborar no máximo 15 mil exemplares, número inexpressivo para o total de frequentadores. ✻ AFERIÇÃO DE RESULTADOS E PÓS-VENDA O papel do gerente de marketing do shopping é muito importante para o sucesso das campanhas. Quando o setor chegou ao País, há mais de 40 anos, esse profissional cuidava basicamente das promoções, e sua principal habilidade era saber executar eventos. Na última década, houve uma evolução em suas funções. O gerente de marketing precisa ter a visão ampla e estratégia do negócio. Ele precisa entender por que está perdendo clientes, como o lojista atende os consumidores e observar o varejo como um todo. Deve estar envolvido na área operacional, opinar sobre as instalações físicas que o shopping oferece e poder apontar se é hora de fazer uma obra ou evento, que afetará o resultado dos lojistas, por exemplo. O gerente tem que saber quais segmentos registram melhores vendas e quais requerem mais investimentos. Não basta cumprir o calendário de varejo: trata-se de uma observação constante de como o shopping está. É preciso saber quem é o público, a que classe social ele pertence e se houve mudanças na composição. Essas informações são dadas pela pesquisa anual (ou bianual) e também pela observação. As ações precisam impactar os indicadores de fluxo de clientes e aumentar a visitação (os frequentadores muitas vezes não consomem nada, mas podem voltar e comprar depois) e as vendas dos lojistas, o que gera receita para manter o shopping. A avaliação dos resultados das campanhas publicitárias é feita, ainda, pela aferição da própria mídia, como indicadores de circulação de jornais e revistas, de audiência de rádio e TV e de cliques e visualização das páginas, no caso do meio on-line. Marketing digital é muito mais do que site, blog e redes sociais. A tecnologia cada vez mais faz parte do dia a dia das pessoas e já é quase onipresente. Até mesmo durante um passeio pelo mall o celular com acesso à internet está ao alcance das mãos. O grande desafio da área de marketing dos shoppings é conseguir colocar a tecnologia efetivamente a serviço do consumidor, tanto para facilitar o acesso às informações de que ele precisa quanto para proporcionar uma experiência de consumo intensa e ampliar o relacionamento com as marcas. O planejamento das ações on-line não pode estar dissociado do que é feito no mundo físico, ou off-line, já que o negócio dos shoppings é no chamado “mundo real”. E, quando a ação é off-line, a sua continuidade também deverá ser no espaço on-line. Não como mera repetição, mas uma continuação, um complemento. Por serem complementares, formam uma experiência da marca em diferentes plataformas. Qualquer planejamento on-line precisa integrar todas as ferramentas digitais: o site costuma funcionar como a base de tudo e deve ter integração com as redes sociais, blogs e conteúdos no celular, tanto em termos de identidade visual quanto de posicionamento e linha editorial do conteúdo. A internet passou por diversas mudanças nos últimos anos e uma das principais é o abandono das páginas estáticas, com conteúdo fixo, e a substituição por outras com atualização constante. Os usuários simplesmente gastam a maior parte de seu tempo on-line em páginas como as redes sociais, que trazem conteúdo novo o tempo todo, algumas vezes até a cada minuto. Outra tendência é o aumento da presença de fotos e vídeos. Com smartphones no bolso e conexão de alta velocidade sempre por perto, é fácil produzir imagens e postá-las em instantes. No marketing digital, o conteúdo publicado tem papel fundamental. É ele que motivará as interações com a marca do empreendimento e a sua divulgação para os amigos, seja por recomendação nas redes sociais ou mesmo pessoalmente. Contudo, a facilidade de publicar coisas na internet gera uma avalanche de informações que atinge as pessoas por todos os meios, o dia inteiro. O shopping precisa atentar para o que irá compartilhar com o público, pelos canais digitais. Esse conteúdo não precisa necessariamente ser enviado para o cliente, mas estar disponível de forma atualizada nas redes e ser fácil de encontrar. Nas próximas páginas, estão elencados os principais canais usados pelo marketing digital e a opinião dos especialistas sobre como o conteúdo deve ser trabalhado, em cada um deles, para cumprir a função fundamental de todas as ações digitais: trazer o cliente para dentro do mall e aprimorar a experiência ali. Para os shoppings, é no mundo real que se ganha o jogo. ✻ REDES SOCIAIS As ferramentas necessárias para entrar nas redes sociais são gratuitas. Criar uma fanpage no Facebook, um perfil corporativo no Twitter e um blog benfeito não tem custo. O que exige investimento é o conteúdo postado ali, quem o produzirá, e como se dará o relacionamento com o público nesses canais. Para isso, traça-se uma estratégia que definirá o que o shopping pretende ao entrar nas redes, como aumentar o fluxo de pessoas em seus corredores, promover branding experience, interação com a marca ou se aproximar dos frequentadores para conhecê-los melhor, por exemplo. Os objetivos precisam estar claros para o gerente de marketing, responsável por implantar e acompanhar as ações. É recomendável ter um responsável na área de marketing e o apoio de uma agência especializada em mídias sociais para auxiliar no processo de elaboração e implementação da estratégia. As mídias sociais propagam informações com muita rapidez, por isso são capazes de mudar o negócio e aumentar ou diminuir as vendas E a empresa não precisa criar um perfil para avaliar o que se fala dela nas redes. Diversas ferramentas gratuitas, como Twaazup (http://www.twazzup.com/) e Addict-o-matic (http://addictomatic.com) permitem acompanhar em tempo real o que está sendo falado de cada empreendimento, em diversas redes sociais, nos blogs e vídeos do YouTube. No caso do Twitter, só é possível analisar as postagens dos últimos sete dias, pois os arquivos são apagados do site. Apenas ferramentas pagas conseguem pesquisar além desse prazo. Na maioria dos casos, basta o shopping fazer um acompanhamento por certo número de dias e avaliar o material com base no que é positivo, negativo ou neutro. As mídias sociais ainda estão em constante mudança, de modo que não existem manuais prontos ou regras sobre como tratar os problemas. ✻ CONTEÚDOE LINHA EDITORIAL As redes sociais são como uma série de pessoas sentadas em volta de uma fogueira conversando. Se alguém chega a essa roda com desejo de apenas vender, fica um clima chato. Da mesma forma, o perfil de uma empresa de comércio que tem como objetivo apenas oferecer produtos não terá uma boa aceitação. É preciso primeiro conversar para depois vender. Uma das formas de criar esse diálogo é levar serviços para as pessoas. A presença nas redes sociais precisa ser útil para a pessoa com quem a empresa se relaciona. Pesquisas mostram que o fator mais importante para as pessoas se engajarem às empresas nas redes são informações que sejam relevantes para a vida delas. Para o morador dos arredores de um shopping é interessante saber o que está acontecendo nele: quais serão as próximas estreias de cinema, as lojas em liquidação, novos produtos e promoções exclusivas. Relacionamento com a comunidade, interesses comuns, conversa e sentimento de reciprocidade são outros fatores que levam ao engajamento. Surge então a necessidade de analisar as informações sobre as pessoas que frequentam o shopping e falam sobre ele na internet. Dados como o bairro onde moram e os assuntos que comentam ajudam o empreendimento a escolher os conteúdos mais interessantes. O mall de um município de menor porte, que seja o único da região, pode passar informações sobre o que acontece em toda a cidade, como alterações no trânsito e o clima, desde que haja necessidade desse tipo de informação naquele lugar. Certa vez, a pedido de um frequentador, um shopping divulgou em seu perfil no Facebook a imagem de um cachorro que havia se perdido perto do centro de compras. O animal foi encontrado com a ajuda da publicação, em um exemplo de como a presença das empresas nas redes sociais pode ser útil em níveis local e comunitário. Por fim, outro item desejável nas postagens é a linguagem informal e descontraída, desde que refinada e de bom tom, não escrachada, que faça piada em cima de alguma minoria ou personalidade que passa por uma campanha difamatória naquele momento. É possível pegar carona nos chamados “memes” (frases feitas, imagens ou trechos de vídeos que viram febre entre os usuários por algum tempo), desde que seja com bom senso e de forma positiva. Essa linha editorial é um processo vivo, que precisa ser reconsiderado com frequência. Começa-se a falar de um assunto, ele perde a relevância e passa-se a falar de outro. As ferramentas de monitoramento ajudam a acompanhar o desempenho, assim como a percepção de quem mexe com as redes. O planejamento de conteúdo define, ainda, como as postagens serão distribuídas ao longo do dia. No Brasil, o horário em que mais pessoas acessam a internet é entre 20h30 e meia-noite. Ferramentas gratuitas, como Tweetdeck (www.tweetdeck.com) e Hootsuite (www.hootsuite.com) permitem deixar posts programados para entrar em horários específicos mais tarde ou nos próximos dias. Para o Facebook, a recomendação é de no máximo três atualizações em média diariamente, dependendo do assunto. No Twitter, o número ideal é entre cinco e dez, espalhadas durante o dia e desde que haja assunto. Textos repetidos cansam os usuários, assim como um grande número de posts do mesmo perfil, em pouco tempo. Esse comportamento leva os seguidores a desistirem de acompanhar o shopping. Conteúdos frios, que podem ser usados em qualquer data e hora, são boas opções para alimentar a programação de postagens ao longo do dia. Postagens ligadas a algum tipo de ativismo são polêmicas e podem gerar efeito contrário. No entanto, se o mall inaugurou um bicicletário, por exemplo, pode passar a levantar a bandeira do uso de bicicletas e do trânsito mais eficiente para uma cidade melhor, desde que isso não se transforme em algum tipo de enfrentamento. As pessoas esperam das empresas ações positivas, e não críticas vazias. ✻ MÉTRICAS E AVALIAÇÃO DE RESULTADOS Para avaliar os resultados da presença do empreendimento nas redes, estipulam- se as chamadas chaves de performance, ligadas diretamente aos objetivos que motivaram a criação dos perfis. Os shoppings, de modo geral, trabalham para aumentar o fluxo de pessoas em seus estabelecimentos e criar relacionamento com os clientes. Os modos mais comuns de medição são o número de fãs ou seguidores e a interação gerada por eles, como comentários e compartilhamentos. Um grande volume de interação só acontece quando existe uma base abrangente de seguidores. No entanto, se 1 milhão de pessoas seguem a marca, mas só 1% interage, algo está errado. Existem diversos tipos de métricas, como o tráfego gerado para o site via redes sociais, mudanças no ranking das ferramentas de busca e menções em blogs. Diversas ferramentas ajudam nessa tarefa e registram dados como a localização dos usuários, o alcance que tiveram as mensagens compartilhadas e as pessoas que deixaram de seguir a marca. Uma lista delas, elaborada pelo professor Gil Giardelli, pode ser encontrada no link http://bit.ly/medicao. ✻ PROMOÇÕES EM REDES SOCIAIS “Repasse esta mensagem para seus seguidores e concorra a um ingresso de cinema.” Promoções como essa trazem uma armadilha: geram falso engajamento. Parte das pessoas que passam a seguir ou curtem aquela página o fazem apenas para disputar o prêmio, mesmo que mal conheçam o shopping, e depois não irão interagir com ele. Sem esse engajamento, a relação entre a empresa e o novo seguidor não trará resultados. Os esforços trarão retorno maior ao empreendimento se o prêmio for destinado aos seguidores que realmente se relacionam com o shopping. Uma grife de roupas percebeu, ao monitorar as redes, que uma menina estava fazendo uma campanha entre seus amigos: se cada seguidor seu desse para ela um dólar, a garota conseguiria comprar uma blusa daquela marca. Sem avisar, a empresa enviou um moletom de presente para a garota, pois percebeu que se tratava de uma pessoa influente entre seus amigos e realmente engajada com a marca. Um meio de evitar a atração de pessoas sem afinidades com o perfil do shopping é dar prêmios alinhados com o gosto dos clientes (e seguidores). Um centro de compras com forte presença cultural pode distribuir convites para uma pré- estreia de cinema para os fãs do Facebook que mandarem as melhores frases sobre o que mais gostam no shopping ou por que querem ver determinado filme, por exemplo. A relação entre o mall e seus fãs virtuais precisa ser pautada por conteúdo interessante e prêmios ocasionais, e não puramente no interesse dos seguidores em receber presentes. É importante lembrar que vários canais, como o Facebook, possuem suas respectivas regras para divulgar as promoções, sob pena de o usuário ser retirado do site. ✻ USO DAS REDES COMO SAC Transformar a conta do Facebook ou do Twitter em uma espécie de serviço de atendimento ao consumidor (SAC) é uma alternativa, mas traz riscos. Dependendo do problema, a repercussão atinge proporções inimagináveis, à medida que outras pessoas se solidarizam e passam a compartilhar o caso em suas redes. As queixas precisam ser analisadas caso a caso. Uma reclamação sobre a demora na fila do cinema tem repercussão diferente se comparada a um assédio no banheiro, gerando o interesse de mídias de massa como TV e jornais. Para evitar situações como essas, as empresas costumam manter um monitoramento das redes com o objetivo de encontrar queixas e resolvê-las rapidamente. Essa estrutura deve ter conexão com o sistema corporativo de gestão de crise. A experiência do empreendimento em lidar com crises no dia a dia precisa ser aprimorada também nas redes sociais e gerar um planejamento das ações. Em muitos locais, as redes sociais, por um lado, se tornaram uma espécie de SAC de luxo, onde as demandas que entram por esse canal têm prioridade sobre todas as outras. Por outro, as reclamações nas redes estimulam os shoppings a melhorar seus serviços, atendimento e qualidade da operação como um todo. Um usuário que reclama daquele local faz isso de modo que todos possam ver, diferentemente de uma ligaçãotelefônica ou e-mail enviado. Algumas empresas com maior volume de queixas criaram perfis exclusivos para atender aos clientes com problemas. É uma estratégia mais apropriada, pois o tipo de postagem será diferente e não irá impactar quem não tem nada a ver com o problema. Para alguns especialistas, direcionar as demandas para as redes sociais ajuda a cortar custos com o SAC, pois a longo prazo há economia com a manutenção do serviço de teleatendimento, já que uma reclamação enviada pelo Twitter representa uma ligação a menos na central. A preocupação com o atendimento às críticas não pode diminuir o cuidado com os outros seguidores. De cada cem citações de marcas nas redes sociais, 97 têm caráter positivo ou neutro e apenas três são negativas. Essas pessoas que curtem e repassam todos os dias o que o shopping posta merecem ser valorizadas. É comum as empresas realizarem muito mais esforços para atender os descontentes e acabarem esquecendo esses fãs que muitas vezes até defendem as marcas com seus posts, mesmo sem ganhar nada com isso. ✻ PÓS-VENDA E PESQUISAS Pela própria natureza das redes sociais, vale mais a pena coletar os comentários dados aleatoriamente pelo público do que sair perguntando a opinião dele sobre o shopping. Pesquisas podem ser feitas algumas vezes, mas com questões mais abertas ou postagens que não necessariamente sejam perguntas. Posta-se um tema, e as pessoas ficam à vontade para dizer o que acham dele. As redes sociais são um recurso a mais para realizar uma pesquisa de pós-venda, no entanto geram o risco da exposição às críticas negativas. Ao perguntar o que os clientes acharam de uma promoção que dava ingressos de teatro a cada R$ 500 gastos em compras, podem surgir reclamações sobre a demora da fila da troca, que idosos não tiveram preferência ou que o valor era muito alto. Em um caso já clássico, uma fabricante de refrigerantes de baixo preço perguntou aos seus seguidores o que eles achariam se a marca lançasse uma cerveja. Eles responderam com uma série de piadas sobre a qualidade duvidosa que a nova bebida teria. A brincadeira cresceu muito e se tornou o assunto mais falado do Twitter por vários dias. Nessa situação, uma pergunta mais adequada seria: o que significa cerveja para vocês? A partir das respostas, a empresa poderia ter ideias para criar e lançar seu produto. Se o cliente quiser falar mal, ele irá falar. ✻ REDES ALTERNATIVAS As redes sociais podem ser divididas em dois tipos: as chamadas metrópoles, como Facebook e Twitter, que concentram a grande maioria dos usuários e recebem muitos tipos de postagens, e outras menores, usadas para propósitos mais específicos. Confira mais sobre algumas delas: –Pinterest : o usuário compartilha fotos e imagens da internet que chamam a sua atenção. Os itens podem ser divididos em álbuns, que formam diversos murais. A rede é mais usada pelo público feminino e tem ligação com o consumo: é usual o compartilhamento de fotos de produtos desejados, como roupas e sapatos. Com poucos cliques, a imagem pode ser “copiada” para o mural do usuário e compartilhada, de forma semelhante à recomendação de notícias no Facebook. Isso estimula a divulgação de links (e produtos) entre os internautas. –Tumblr: rede social em formato parecido ao de blog s, que permite aos usuários repassar postagens de que gostam (a exemplo do retweet , do Twitter) e montar com elas sua própria página. A maioria dos posts é de fotos, gifs (sequência de imagens que causam a impressão de movimento) e vídeos. O Tumblr é indicado para campanhas de marketing. O mall pode criar uma conta nessa rede, pedir que os clientes postem fotos do shopping, premiar as melhores e repostá-las no seu perfil ou então divulgar produtos em destaque com o uso de fotos. –Google+ : grande aposta do Google em mídias sociais, trata-se de uma rede com aparência e funcionalidades bastante semelhantes ao Facebook. O usuário cria um perfil e compartilha informações pessoais e conteúdos da internet com os amigos. Possui ferramentas específicas para a criação de páginas de empresas. –Instagram : o aplicativo para smartphones que aplica filtros nas fotos que as deixam mais bonitas também é uma rede social em si. Muito usada durante passeios, como idas ao shopping, essa rede gera oportunidades para concursos e promoções. As imagens podem ser compartilhadas em outras redes, como Twitter e Facebook. –Foursquare : trata-se da rede que mais oferece possibilidades de uso pelos clientes enquanto eles estão no shopping, pois permite que eles contem que frequentam aquele espaço para todos os amigos. A ideia da rede é registrar cada lugar visitado (ação chamada de check-in ) e compartilhar a informação com os amigos. Trata-se de um jogo social: quem der mais check-ins e conhecer mais lugares diferentes recebe mais pontos e fica na frente de seus contatos. Com o uso da tecnologia do GPS, o Foursquare informa quais amigos estão próximos ou já visitaram lojas, restaurantes e atrações ao redor e traz as avaliações dadas para cada estabelecimento. Lojas e shoppings podem realizar ações promocionais dentro do Foursquare e dar desconto ou brinde para quem der check-in em determinado horário, marcar que está em uma nova loja ou trazer um determinado número de amigos para dar check-in ao mesmo tempo. Redes sociais baseadas em geolocalização, como o Foursquare, têm ganhado espaço no exterior, acompanhando o crescimento do uso de smartphones e acesso à internet móvel. No Brasil, essas redes são mais usadas pelas classes com maior poder aquisitivo, o que as torna uma opção interessante para shoppings com público A e AAA. Nos Estados Unidos, foi criada uma rede chamada PoorSquare, que registra promoções e descontos das lojas de Nova York e é voltada, como sugere o nome, para quem quer economizar ou está sem dinheiro. –YouTube : um dos sites mais acessados da internet mundial, a página que reúne um gigantesco acervo de vídeos é mais um espaço virtual onde os malls podem marcar presença. Para gerar repercussão ali, é preciso ter vídeos de qualidade e com conteúdo relevante para seu público. As redes em que o shopping decidir entrar serão como novas vitrines: precisarão ser atualizadas para gerar interesse. A escolha de quais delas contarão com perfis do empreendimento tem de estar alinhada com a estratégia e os objetivos estabelecidos para as mídias sociais. Se a entrada for feita de forma errada, ficará difícil consertar depois. O processo de surgimento das redes e abandono delas por parte dos usuários é dinâmico. O Orkut, por exemplo, que foi líder absoluto no País por alguns anos, se esvaziou à medida que os usuários migraram para o Facebook e chegou a ser considerado sinônimo de rede social com pessoas indesejadas. Essa mudança ocorreu em um período de dois anos. Há ainda redes que concentram grande crescimento no número de usuários em pouco tempo, mas depois saem de moda e deixam de ser usadas após algumas semanas pela maioria do público. ✻ SITE O site é uma espécie de sede da empresa no mundo virtual. Seu conteúdo possui velocidade e perfil diferentes das redes sociais. Enquanto as redes dão informações mais instantâneas, o site tem conteúdo mais completo, como se fosse um mural onde ficam afixadas todas as informações necessárias sobre o mall para serem consultadas pelo público sempre que necessário. Estão lá o endereço do shopping, mapa de acesso, telefones, nomes das lojas, serviços disponíveis, horários de funcionamento, das sessões de cinema e os destaques do empreendimento. Contudo, páginas com conteúdo puramente estático perderam espaço nos últimos anos para aquelas que contam com novidades e atualização frequente, o que tem aproximado os sites corporativos do formato dos blogs. ✻ BLOG Ferramenta complementar (e muitas vezes integrada) ao site, os blogs estão em um meio-termo entre a página oficial e as redes sociais. Eles permitem um registro mais completo dos eventos e novidades do shopping, em comparação com as redes sociais, e são o espaço para a comunicaçãoem um tom mais informal, comparado ao site. O blog tem caráter pessoal, o que torna difícil adaptá-lo para ser a voz de uma empresa. Por ter linguagem mais próxima de um diário, é usado na maioria das vezes por pessoas comuns, celebridades ou formadores de opinião que querem dividir novidades e conteúdos. Personalidades podem ser convidadas para ter um blog no site do shopping. Uma pessoa conhecida e respeitada como especialista em moda na região ou entre o público do empreendimento pode manter um blog associado ao shopping e comentar as tendências, dar dicas de como escolher roupas ou apenas palpitar sobre o que achar relevante, por exemplo. O modelo do blog permite ainda o uso para divulgação de produtos à venda nas lojas. Um fabricante de produtos esportivos criou uma página como essa para divulgar suas novas chuteiras, com o uso principalmente de fotos e vídeos, em uma ação direcionada para fãs de futebol ao redor do mundo. Foi usada uma ferramenta gratuita para hospedar e desenvolver o blog, e o custo principal foi para produzir os vídeos. Alguns serviços gratuitos de criação e hospedagem de blogs são Blogspot (www.blogspot.com), Wordpress (www.wordpress.com) e Tumblr (www.tumblr.com). Essas ferramentas permitem criar ainda sites completos, com diversas seções e domínio próprio (um endereço como www.shopping.com.br, e não http://shopping.wordpress.com). Algumas das funções exigem pagamento. ✻ CELULAR E MOBILE MARKETING Quando se fala em mobile marketing, não se trata apenas de smartphones, mas de qualquer dispositivo móvel com conexão à internet, como notebooks e tablets, que permitam interagir com a marca. Já existem mais celulares do que seres humanos no planeta, e a tendência é de aumento do uso desses aparelhos para acessar dados e se relacionar com o mundo, inclusive durante as visitas ao empreendimento. Uma das ferramentas ainda pouco exploradas pelos centros de compras é o uso de aplicativos próprios. Já existem programas como esses que ajudam o cliente a se localizar no shopping enquanto passeia pelos corredores, da mesma forma que um aparelho GPS automotivo. Outra função registra o local exato onde o carro foi estacionado e depois orienta o motorista a encontrá-lo na hora de ir embora. Os aplicativos podem ainda servir para realizar transações no celular, como o pagamento do valor do estacionamento por meio de débito em conta corrente. Na hora das compras, o aplicativo é capaz de listar as opções de lojas do empreendimento e os produtos vendidos em cada uma. O consumidor que procura um chocolate fino, por exemplo, terá como saber em quais lojas o produto está disponível e comparar os preços entre elas na hora. Da mesma forma, o cliente que deseja jantar com a família pode acessar o cardápio de todos os restaurantes e as opções da praça de alimentação, antes mesmo de sair de casa. De acordo com as lojas e os produtos pesquisados, o aplicativo ou app pode sugerir promoções e descontos de modo customizado. Em versões mais simples, os apps informam em que piso fica cada loja, os horários do cinema e promoções para o público em geral. Embora os aplicativos ofereçam a oportunidade de divulgar anúncios dos próprios lojistas do shopping, é preciso cuidado para não saturar o cliente de informação. Novidade cada vez mais presente, os QR codes dão acesso direto a páginas com mais informações sobre promoções, catálogos de coleções, vídeos e músicas. Com seu smartphone, o cliente fotografa esses códigos e o aparelho o direciona para um site da internet sem que seja necessário digitar o endereço. Se o site do shopping for criado com base em ferramentas como Wordpress e Tumblr, a página está automaticamente adaptada para funcionar bem em celulares. Outra função que pode ser usada nos malls são as mensagens de texto, presentes até nos modelos mais simples. No dia de seu aniversário, o cliente pode receber parabéns por Short Message Service (SMS), ou torpedo, como é popularmente conhecido, e um cupom de desconto para usar no empreendimento. ✻ NEWSLETTER Com o volume de mensagens recebidas por e-mail diariamente, as newsletters têm grande chance de passarem despercebidas pelos destinatários. Esse canal se torna interessante à medida que atende aos interesses do consumidor e consegue criar uma expectativa para seu recebimento e o hábito de sua leitura. A periodicidade de envio tem de ser menor e o conteúdo relevante e criativo. Precisa trazer informações e notícias do shopping, e não apenas produtos. Algumas semanas antes do início das férias, o mall pode divulgar as atrações pensadas para as crianças nesse período, junto com as lojas que irão promover liquidações de inverno. ✻ AÇÕES TECNOLÓGICAS NO SHOPPING Por mais que exista o e-commerce e a possibilidade de comparar preços e visualizar detalhes dos produtos, o cliente quer interagir, ter contato humano e poder levar o produto na mesma hora. Esses são grandes diferenciais das lojas físicas. O comércio eletrônico é um concorrente que merece atenção e irá obrigar os shoppings a se reinventarem com relação à experiência do consumidor. No entanto, a mesma tecnologia que traz esse desafio também oferece ferramentas para que os shoppings possam inovar. O uso da tecnologia nos shoppings se divide entre os itens que trazem facilidades, como os casos especificados em “mobile marketing”, e os que ampliam a qualidade da experiência de consumo. Duas novas ferramentas para isso são as etiquetas RFID e a realidade aumentada. As etiquetas de identificação por radiofrequência (RFID, na sigla em inglês) são localizadas a distância por sensores eletrônicos e informam aos computadores os detalhes daquele produto. Uma loja que conta com esse sistema coloca etiquetas como essa nas roupas e, quando o cliente entra no provador, um sensor detecta exatamente quais peças foram escolhidas. O computador pode, então, selecionar outros modelos parecidos e exibi-los ao cliente em uma tela dentro do provador. As tarjas RFID podem ainda ser usadas em experiências de realidade aumentada (RA). Caso não queira provar fisicamente a roupa, o cliente pode tirar uma foto no equipamento da loja, apresentar a etiqueta RFID, e o sistema irá mostrar uma montagem de como ele ficará ao vestir aquela e outras opções de camisetas, calças e demais peças. Nas experiências de realidade aumentada, os elementos são projetados em 3D e apresentados em tempo real às pessoas. Fora das lojas, a RA pode incrementar exposições e atividades ligadas à cultura. Um evento de lançamento de um filme de ação pode colocar os super-heróis ao lado do cliente. Nos corredores e elevadores, os banners no interior dos shoppings são trocados pouco a pouco por monitores de TV que combinam notícias, informações e anúncios. Levar essas tecnologias para o mall nem sempre é barato, mas elas associam ao shopping a imagem de inovador. Com o tempo, esses sistemas se tornam mais baratos, e cabe ao empreendimento decidir tirar proveito deles enquanto são novidade ou aderir quando seu uso já tiver se tornado uma aposta com retorno garantido. A comunicação está completamente integrada, de modo que não existe mais separação entre as áreas de Relações com a Mídia (RM) e Relações Públicas (RP). Todas as ações devem contemplar e impactar os diversos públicos, por meio de plataformas diferenciadas. Algumas empresas de comunicação já adotaram esse formato há um bom tempo e, inclusive, mudaram o nome do serviço de Assessoria de Imprensa para Relações com a Mídia (RM), pois seu relacionamento com esse universo é muito estreito, o que ajuda a entender o que realmente a imprensa deseja e precisa. Além disso, atualmente, os universos on- line e off-line recebem atenção semelhante na maioria dos casos. Os blogueiros estão entre os principais influenciadores de tendências e merecem atenção e aproximação da mesma forma que a imprensa e os diversos stakeholders. As agências de comunicação têm papel fundamental no universo dos shoppings. Precisam estar alinhadas com os diferentes públicos: visitantes,lojistas, colaboradores, comunidade, imprensa (regional, nacional e do segmento de negócios), redes sociais e formadores de opinião. Toda a comunicação deve atender ao público-alvo de forma objetiva, clara e criativa. O trabalho de relacionamento com a mídia para os shoppings é focado em criação, desenvolvimento e atuação, sendo que o objetivo é divulgar as ações de marketing do empreendimento (como campanhas e promoções) e os acontecimentos institucionais (reformas, ampliações, mudanças etc.) e disseminar informações relevantes das lojas (promoções, inaugurações e eventos) e serviços e facilidades disponíveis no complexo. Outras ações feitas pela equipe de relacionamento com a mídia são: preparar agendas positivas de relacionamento; atuar no mantra da comunicação reforçando as key messages (mensagens-chave do empreendimento, como segurança, boa localização etc.), blindar e orientar o cliente diante de crises; acompanhar e divulgar os eventos dos shoppings e treinar os porta-vozes sobre como se comunicarem com os diferentes públicos. O contato constante e ativo com as diversas partes que compõem o centro de compras é muito importante para que o trabalho seja produtivo, pois se trata de um negócio dinâmico e repleto de eventos simultâneos. Para realizar todas as suas funções com eficiência, a equipe de Relações com a Mídia deve investir no relacionamento com o departamento de marketing do mall com os lojistas e com a superintendência e gerência de operações para alinhamento das ações e apresentação de novas possibilidades e caminhos que agreguem valor às ações do empreendimento. ✻ ENCONTRAR PAUTAS NO SHOPPING Em um trabalho proativo, a equipe de relacionamento com a mídia monitora tendências que possam agregar valor ao centro de compras e sugere ações diferenciadas para maximizar a exposição nos veículos de comunicação (sem que haja a necessidade de compra de anúncios), trabalho conhecido como mídia espontânea. Produção de moda, gastronomia, entretenimento, cultura, negócios, empreendedorismo e sustentabilidade são alguns dos temas que podem servir de base para ações desse tipo. É importante que o time de Relações com a Mídia esteja em sintonia com tendências do segmento e que tenha um excelente relacionamento com as interfaces do shopping. Esses aspectos favorecem o surgimento de novas ideias e são a garantia de que haverá um alinhamento entre as expectativas do shopping e as da equipe de comunicação. A disputa por espaço na imprensa nas principais datas do varejo, como Dia das Mães, dos Pais e Natal é muito acirrada, pois são diversas ações acontecendo ao mesmo tempo. Sendo assim, opções gastronômicas diferentes, novos serviços para o público, abertura de operações de marcas famosas e ações diferenciadas nos cinemas costumam atrair bastante interesse nessas ocasiões e tendem a apresentar resultados ainda melhores fora do calendário comemorativo. As ações culturais e serviços focados no público infantil são os assuntos que mais agradam e interessam as diferentes mídias, pois os shoppings são vistos como grandes centros de lazer, alimentação e cultura, e não apenas como opção de compras. Os temas que menos atraem a atenção da imprensa estão relacionados às promoções “compre e ganhe” e concursos culturais, que são tradicionais e se tornam desinteressantes por estarem atrelados a ações de marketing que, na maioria das vezes, não oferecem novidades. Carros, motos e viagens são alguns dos prêmios sorteados com frequência por todos os empreendimentos deste segmento e não despertam interesse dos jornalistas. ✻ AVALIAÇÃO DE RESULTADOS Todo o trabalho de relacionamento com a mídia deve ter ferramentas para verificar a sua eficácia e taxa de retorno. Entretanto, as ações podem ter focos e objetivos distintos, sendo essencial determinar de antemão o objetivo que se pretende atingir. No caso dos shoppings, as ações podem buscar o engajamento em torno da marca, chamar a atenção para o centro de compras, garantir identificação de um público-alvo específico, influenciar na decisão de compra, obter fidelidade do frequentador, gerar disseminação das práticas, garantir sustentabilidade e proteger-se de ações nocivas, entre outros atributos. A eficácia dessas medidas pode ser mensurada de diversas maneiras, de acordo com os interesses do gestor de comunicação, do grau de maturação das ações empreendidas em comunicação ou até do nível de detalhamento e foco estipulado pelo planejamento. Uma forma de avaliar a imagem do empreendimento nas diversas mídias é por meio de uma pesquisa conhecida como media audit, feita junto aos veículos de comunicação. Este estudo identifica as opiniões de jornalistas, colunistas e editores sobre a imagem do shopping, bem como a propensão e receptividade a novas informações. Esse tipo de pesquisa parte de uma amostragem planificada, que distribui os entrevistados em categorias como faixa etária, nível de conhecimento do assunto, tipos de mídia onde atuam e experiência na área, entre outras variáveis. Utiliza-se um questionário misto (perguntas abertas e fechadas) com premissas técnicas bem fundamentadas. O resultado do levantamento permite construir objetivos e trabalhá-los de forma mais eficiente no que diz respeito aos meios de comunicação. Cada vez mais gestores de comunicação utilizam também ferramentas de mensuração qualitativa, o que permite uma visão ampla sobre o retorno das ações empreendidas junto a seus stakeholders. Estas ferramentas fogem da subjetividade e do caráter raso da mera qualificação por teor ou pela relação de valoração tradicional (espaço ocupado versus tabela publicitária), mas levam em consideração sistemáticas de engajamento, público atingido, grau de destaque da mensagem, nível de aderência aos objetivos do shopping. Uma dessas ferramentas é o IDM (Índice de Desempenho na Mídia), que permite fixar metas de melhoria e acompanhar evolução de objetivos e práticas da comunicação. O retorno do investimento também é feito a partir dessa ferramenta, fugindo da armadilha do mero espaço ocupado. A avaliação é feita a partir de critérios ponderados, com pesos distintos e submetidos a escrutínio constante: tipo de mídia, veículo, jornalista, presença de elementos ilustrativos, destaque na capa, grau de destaque do shopping no material e grau de destaque da matéria. Além disso, todas as mensagens são analisadas a partir de temas e mantras determinados pela equipe da comunicação, para se aferir a medida de sua relação com os objetivos atingidos. Com isso, verifica-se mais apropriadamente a diferença concreta entre sair em um jornal segmentado ou ter uma matéria exibida com destaque em telejornal de grande audiência. A análise revela qual aparição foi mais efetiva e fixou melhor a imagem e o conceito que se pretende passar. ✻ ASSESSORIA TERCEIRIZADA As vantagens em ter uma assessoria externa são inúmeras e começam no networking e vão até a realização de brainstorms internos. Além disso, essas agências possuem um estreito relacionamento com jornalistas e fácil acesso às redações. As empresas de comunicação realizam treinamentos periódicos sobre novas tecnologias – como releases multimídia que também podem ser compartilhados nas redes sociais e ferramentas que facilitam o acesso dos clientes e jornalistas via smartphones. Também promovem palestras com jornalistas e formadores de opinião, além de contar com especialistas que podem contribuir para melhorar desempenho, criatividade e resultados. Uma agência de comunicação tem jornalistas, relações-públicas, publicitários e outros profissionais especializados em diferentes segmentos trabalhando juntos em sua sede. Essa diversidade permite avaliar de forma mais abrangente as pautas que podem render exposição positiva para o shopping, e, em um ambiente de redação, os contatos são compartilhados com o intuito de ampliar a rede de relacionamentos. Atuar fisicamente fora do mall é importante ainda para ter melhor visão do cenário do setor e da imprensa e, assim, visualizar as possibilidades com maisclareza. A vantagem em ter uma assessoria interna é que o atendimento terá 100% o DNA do empreendimento. Contudo, automaticamente, a equipe acaba limitando as possibilidades de divulgação e acesso aos assuntos que estão sendo trabalhados pela imprensa, seja por falta de criatividade, expertise ou até mesmo por não se relacionar com profissionais de outras áreas. O investimento das agências de comunicação em cursos, palestras, discussões em grupo, tecnologia, tendências de mercado, estímulo de criatividade, entre outros também representa grande diferença entre esses profissionais, fazendo com que a equipe de assessoria interna tenha menos vantagens. ✻ MANUAL DE ATENDIMENTO À IMPRENSA Trata-se de um material estratégico para reforçar a reputação e a imagem institucional do empreendimento. No manual pode ser encontrada uma síntese das normas e procedimentos que devem ser adotados quando a empresa ou cada shopping é abordado pela imprensa, quem são os porta-vozes autorizados a falar, o papel da assessoria/agência de comunicação, objetivos e premissas da relação com a mídia. O mais importante para o manual de atendimento à imprensa é deixar claro quais são os profissionais que devem sempre atender aos jornalistas e que os demais não devem nunca se posicionar se não receberem tal orientação. Os shoppings podem ser considerados pequenas cidades que abrigam um “mundo” com um ritmo bem particular. O perigo de ter centenas ou milhares de pessoas trabalhando no mesmo espaço é a variação de discurso, que pode prejudicar a imagem do empreendimento, principalmente diante de crises. É muito importante que o contato com a imprensa seja sempre realizado pelo departamento de comunicação, que está preparado para atender às mais diversas demandas e direcioná-las de forma correta. O manual traz ainda as orientações práticas de como agir ao dar entrevista para cada tipo ou meio de comunicação. ✻ FORMAÇÃO DE PORTA-VOZES Os porta-vozes são os representantes dos shoppings (ou do grupo) na imprensa. São pessoas que transmitem ideias, projetos e mensagens aos jornalistas e, consequentemente, à população. Para que os porta-vozes tenham desempenho eficiente, é fundamental treiná-los. Esse preparo é dado pelo media training (ou treinamento de mídia). O objetivo dessa ação é basicamente oferecer conhecimentos teóricos e práticos que possam ajudar o executivo a sentir-se confortável no contato com a imprensa e apresentar bom desempenho durante entrevistas. Todo porta-voz principal deve ter um substituto – um segundo responsável que poderá ser acionado quando o titular estiver impossibilitado de conceder uma entrevista por motivo de férias, viagem ou afastamento temporário. Empresas com unidades em mais de uma cidade precisam ter porta-vozes regionais preparados para se pronunciarem em caso de ocorrências locais de pequeno ou médio porte, dependendo da estratégia adotada em cada companhia. Importante ressaltar que todas as entrevistas concedidas devem ser acompanhadas por um profissional do setor de comunicação do shopping ou assessoria contratada. ✻ TÉCNICAS DE ENTREVISTAS PARA CADA UM DOS MEIOS/SITUAÇÕES As orientações abaixo são destinadas diretamente aos porta-vozes das empresas e detalham os cuidados a serem tomados antes e durante a conversa com os jornalistas. –Entrevista presencial ou por telefone Esse tipo de entrevista é usado geralmente por veículos que irão publicar as informações em texto, como jornais, revistas e sites de notícias. Ao iniciar o encontro, anote o nome do profissional entrevistador. Prepare-se antes de falar com a imprensa, definindo as mensagens-chave. Destaque os pontos fundamentais do assunto, chamando a atenção do jornalista para eles. Tenha em mãos todos os dados do assunto sobre o qual falará para facilitar a busca de informações que porventura precisem ser checadas no momento. Uma lista com os principais números evitará equívocos. Tenha certeza de haver entendido perfeitamente a pergunta antes de respondê-la. Anote todas as dúvidas que não conseguir responder para encaminhar as respostas posteriormente – e não deixe de fazer isso. Respostas longas tendem a reduzir a atenção de quem está ouvindo. Procure iniciar frases com uma síntese da ideia que descreverá em seguida. Procure anotar os pontos principais (especialmente números) que passar ao jornalista durante a entrevista, caso ele retorne a alguma pergunta. Sempre que possível, coloque-se à disposição para esclarecer dúvidas que o jornalista venha a ter depois da conversa. Quando indagado sobre alguma informação estratégica ou confidencial, explique isso ao jornalista, justificando o motivo pelo qual os dados não poderão ser revelados. Se a pergunta for relacionada a outro departamento, peça que o entrevistador entre em contato com a agência ou o responsável pela comunicação, que fará a ponte com a fonte autorizada a passar tais informações. Utilize uma linguagem simples, didática e acessível. Afinal, a imprensa interage com todos os públicos. Evite expressões ou siglas de uso interno. Se precisar usá-las, explique seu significado ao repórter. –Entrevistas em rádio O rádio também é um importante meio de comunicação de massa, tanto em grandes cidades quanto em pequenas praças. Para uma entrevista em rádio, que pode ser feita inclusive por telefone, é importante utilizar uma linguagem coloquial, de fácil entendimento ao grande público. É recomendável, também, que o entrevistado converse antes com o entrevistador para saber como o assunto será abordado. Quando a entrevista for ao vivo, é preciso responder logo em seguida à pergunta. Silêncio em rádio não existe; como não há imagem, o som é a única forma de comunicação com o ouvinte. Frases curtas funcionam como um truque para não perder a linha de raciocínio. –Entrevistas para TV A preparação para entrevistas na televisão começa no vestuário. Roupas escuras passam a impressão de seriedade e maturidade. Peças claras transmitem leveza, participação, transparência. Avalie a imagem que deseja transmitir. Roupas com listras finas, quadrados pequenos e com grandes áreas brancas ou vermelhas devem ser evitadas, pois provocam efeitos visuais desagradáveis e desviam a atenção do telespectador. Assuma postura ereta, porém sem ser inflexível. Jamais largue o corpo ou coloque as mãos no bolso ou às costas. Não se apresente curvado, dando a impressão de estar derrotado ou de ser culpado. Entretanto, não seja autoconfiante demais, pois presunção causa antipatia. Gesticule muito moderadamente, porque a imagem de TV tende a ampliar os movimentos. A TV, assim como o rádio, não admite respostas prolixas e complicadas. Use frases curtas, diretas e objetivas. Na gravação, procure pronunciar objetivamente o que gostaria de ver transmitido na matéria. Resuma sua resposta em três ou quatro frases, porque a TV trabalha com depoimentos objetivos e precisos. Tente fazer uma declaração sintética, com o recado que gostaria de dar, para facilitar a edição. Explicações não devem ser gravadas. Uma entrevista longa, ao ser gravada, permite edições de declarações descontextualizadas e que podem dar outro sentido à notícia. Lembre-se de que, com exceção de programas segmentados, a TV fala com um público extremamente heterogêneo e que nem sempre domina os jargões de sua atividade. Informe-se com o repórter sobre a forma adotada pela emissora: olho no repórter, olho na câmera, ou a movimentação natural de um para o outro. No caso de participação em programas de entrevistas (talk-shows), olhe para a câmera, de modo a demonstrar interesse pelos telespectadores. Quando o apresentador estiver falando, olhe para ele. A presença dos shopping centers no País já se tornou muito forte, em especial nas grandes cidades, onde a proximidade com a concorrência é cada vez maior. Nesse cenário, a condição primordial para atrair e fidelizar o público é oferecer opções diferentes, da maneira mais variada possível, e atender os clientes com qualidade impecável. Além da disputa dentro do própriosetor, há outros concorrentes fortes. A oferta de opções de compra está hoje muito maior do que a demanda: os clientes têm mais alternativas do que precisam e elas estão disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, todos os dias do ano. Com a internet, a procura por produtos, a pesquisa de preço e as compras são feitas de qualquer lugar, a qualquer hora, de um jeito fácil e conveniente. Desse modo, o preço, isoladamente, não é um fator capaz de levar os clientes a escolher um shopping como opção para fazer as suas compras. Em primeiro lugar está a localização: o empreendimento mais perto de casa ou do trabalho se torna atraente pela facilidade de acesso. Em seguida, vem o mix de lojas. No entanto, grande parte das marcas está presente em quase todos os concorrentes diretos de cada centro de compras. Assim, não adianta ter boas promoções sem que haja serviços e atendimento de qualidade. Promoção todo mundo faz, e lojas todo mundo tem. A diferença está na experiência que aquele lugar oferece. Se o shopping é muito frio, os seguranças atendem mal e a comunicação visual é confusa, o cliente simplesmente não ficará ali e deixará de frequentá-lo. Já quando o cliente se sente confortável, ele é automaticamente fidelizado. A sensação de conforto tem origem muito mais no aspecto emocional do que no racional. Essa impressão surge de itens como a qualidade do ambiente, da limpeza, da manutenção e higiene dos banheiros e do atendimento das pessoas. O cuidado nos detalhes é o que faz com que as pessoas vão para o mall e se sintam bem e à vontade ali. Dessa forma, todas as equipes que entram em contato com o consumidor precisam ser bem preparadas e passar por treinamento constante, no que se incluem o recepcionista, o caixa do estacionamento, o atendente do elevador e o vendedor da loja. Para formar os funcionários, é fundamental o treinamento em quesitos como postura, asseio, higiene pessoal, o posicionamento do shopping e os scripts que são inerentes à função. Essa atenção faz com que o cliente tenha a certeza de que será sempre bem atendido e ajuda a construir a imagem de um mall, valorizando sua marca. O ambiente precisa ser protegido contra a poluição visual e ter boa iluminação, sem vitrines ou luzes muito fortes que possam causar dor de cabeça. Da mesma forma, aromas e som ambiente precisam ser adequados, de forma a agradar e não causar desconforto. Como nos corredores e demais espaços do shopping, a satisfação dos frequentadores com as lojas depende de um bom ambiente e da qualidade do atendimento, sendo este último muito mais importante. Oitenta por cento das decisões de consumo acontecem no ponto de venda. O papel essencial do lojista é entender o cliente e como ele deseja ser atendido. Existem consumidores que buscam a consultoria de um vendedor, e outros que preferem não ser incomodados enquanto olham os produtos. Se a loja não entende seus consumidores e como eles se comportam, dificilmente conseguirá prestar um bom atendimento. O vendedor deve se aproximar do cliente apenas uma vez, se apresentar com um sorriso e depois deixar a pessoa ter o contato com o produto. Se for preciso, ele será chamado novamente. A compra de produtos e serviços é motivada por necessidade ou desejo, duas sensações que se misturam à medida que o cliente se sente bem. Se a compra é por necessidade e a experiência excede as expectativas, surge o desejo de repetir aquela ação. A concorrência com o e-commerce se dá principalmente nos itens cujo conteúdo o cliente já conhece, como um livro ou celular (que pode ter sido visto pela primeira vez na vitrine ou estante durante um passeio no shopping). Já roupas, perfumes, maquiagem e alimentação precisam, preferencialmente, ser avaliados pessoalmente. O consumidor tem a tendência de querer ver se a calça fica bem, sentir o cheiro do perfume e dividir esses momentos com pessoas próximas. A busca por alimentação nos malls reflete outro desejo dos frequentadores: a procura não por produtos e serviços, mas por soluções. Se não quero cozinhar em casa, no shopping posso encontrar comida pronta e rápida. Da mesma forma, ir ao cinema gera uma experiência de interação com outras pessoas que não é vivenciada por quem baixa filmes da internet e assiste no computador. Compra- se solução para resolver questões afetivas, de lazer, necessidade, desejo, segurança e comodidade. ✻ FIDELIZAÇÃO E PROGRAMAS DE RELACIONAMENTO Além de oferecer serviço e atendimento de qualidade, o empreendimento pode fidelizar seus clientes por meio de programas de relacionamento, que serão trabalhados com um grupo de clientes fiéis do shopping. Entre os benefícios possíveis estão as pré-estreias de cinema, os convites para coquetéis e eventos especiais. A relação de troca de pontos por benefícios tangíveis ou experiências as quais o consumidor não teria acesso são o diferencial de um programa de fidelidade. Nesses programas, o consumidor se cadastra, recebe um cartão e passa a poder trocar suas notas por pontos, que darão direito aos benefícios. O shopping deve avaliar qual a estrutura necessária para atender os clientes, desde a facilidade para trocar as notas até as áreas de atendimento exclusivas para os integrantes desses programas. Alguns lojistas também oferecem recompensas para clientes frequentes. As livrarias dão descontos em parte de seus produtos para consumidores cadastrados e, a cada compra, se acumulam pontos. Quando se chega a determinado total, o pedido pode sair de graça. O cliente é avisado na hora do pagamento e tem a surpresa positiva de levar o que queria sem precisar pagar. Os cartões precisam ser oferecidos como solução. A pessoa que já tem uma dezena deles na bolsa não entenderá por que precisa de mais um. “Quer ganhar 30% de desconto na sua próxima compra? Basta fazer o cartão” é uma abordagem interessante para ser feita no caixa. E o cartão em si é algo simbólico: o cliente pode participar das promoções sem ter de apresentá-lo. Basta dizer o número de algum documento. Os dados dos clientes coletados durante as promoções, como o que foi comprado em suas últimas visitas, permitem segmentar os frequentadores com base em sua frequência, o que adquirem, quando compram e quanto gastam em média. Com essas informações, o shopping mapeia as decisões de consumo. O banco de dados do programa de fidelidade é seu principal ativo, e é imprescindível que a confiança dos clientes em relação à confidencialidade de suas informações não seja quebrada. ✻ RELACIONAMENTO COM O PÚBLICO INFANTIL Recreação, segurança, personagens, interatividade e educação são as palavras- chave para atrair e receber bem as crianças nos shoppings. O relacionamento bem-sucedido com elas gera automaticamente a satisfação dos pais, que podem muitas vezes até ser incluídos nas brincadeiras. Além de atrair as crianças, eventos infantis aumentam a presença de famílias. As mães deixam os filhos na sala de atividades e vão circular pelos corredores. No caminho, consomem na praça de alimentação e nas lojas e identificam serviços. Os pequenos podem ter atividades de lazer divididas por faixa etária, desde bebê até a pré-adolescência. Nas ações e espaços criados pelo shopping, é interessante dar algum tipo de mimo, como um balão ou um pequeno lanche. Quando se trata desse público, a maior preocupação é a segurança. Os pais precisam ter a certeza de que seus filhos não correrão nenhum tipo de risco ao participar das atividades. Para isso, todos os eventos e ações devem ter como prioridade a garantia de que todas as regras de segurança estão sendo cumpridas. Trata-se de algo que parece básico, mas é sempre importante reforçar. Encontrar os personagens dos desenhos da TV ou do cinema no mall é motivo de grande alegria. Um grupo que administra diversos shoppings pode fechar parceria com um canal infantil de TV a cabo e conseguir levar personagens que são conhecidos por todas as crianças para ações em vários empreendimentos de sua rede. Isso gera maior capacidade de veiculação dos eventos na mídia televisiva,que é muito forte. Além dos comerciais do evento, as crianças se lembrarão do empreendimento quando assistirem ao desenho com o personagem que conheceram ou com o qual realizaram atividades durante o passeio. Os personagens escolhidos precisam ter conceitos e posicionamentos em sintonia com os objetivos do shopping, com aspectos positivos que possam ser trabalhados. Um ponto essencial em ações infantis é que elas tenham um conceito educacional envolvido. O pequeno cientista dos desenhos animados pode ensinar crianças mais velhas a fazer pequenas experiências num laboratório e mostrar alguns conceitos básicos de química, por exemplo. Já outro personagem pode ensinar a atravessar a rua com segurança ou como funciona a reciclagem. As crianças gostam de interagir com as coisas, e não apenas contemplá-las. Desenhar, escrever, pintar, jogar bola ou participar de um pequeno jogo são aliados fundamentais de uma atividade educativa no shopping. A criança gasta energia, encontra seu personagem, aprende e se diverte. As ações infantis promovem ainda a integração entre filhos e pais. Como os adultos têm cada vez menos tempo, passar um período agradável com as crianças é muito importante para a relação entre os dois. As atividades podem ser pensadas para que os pais brinquem junto com os filhos. Em um desfile de bonecas que ocorreu em um empreendimento, a mãe ajudava a filha a escolher as roupinhas que o brinquedo iria vestir. Havia um momento em que a criança se vestia como uma personagem, e a mãe a ajudava. Depois, elas tiravam fotos juntas. Há ainda personagens e histórias que marcaram gerações anteriores e hoje convivem com as crianças em versões repaginadas, como o Pequeno Príncipe. Neste caso, busca-se trazer conceitos interessantes para pais e filhos. Pode ser algo que remeta ao passado, à infância desse adulto. Para os pais é legal mostrar para o filho que ele cresceu ouvindo aquela história a que hoje o filho assiste na TV e comparar detalhes. Com a interatividade, a relação entre pais e filhos consegue se intensificar e proporciona um momento bem-aproveitado, que será lembrado por eles. Há especialistas que sugerem a realização de atividades em parceria com as lojas. Na área de lazer, as crianças podem experimentar um trenzinho ou brincar com uma boneca que estão à venda na loja de brinquedos, ou ter contato com filmes, desenhos e livros fornecidos pela livraria do mall. Já outros entendem que é preciso muito cuidado para que as atrações infantis não tenham caráter promocional ou de divulgação de produtos. Para eles, os eventos devem evitar relação com qualquer apelo ao consumo de produtos infantis. Um empreendimento do Rio de Janeiro que estava com pouco movimento acabou dando a volta por cima ao investir para atrair crianças e suas famílias. Havia um parquinho no shopping, e ele passou a ser bem cuidado. De olho nesse público, a administração passou a focalizar eventos infantis. Um deles, inspirado no filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, colocou os pequenos para montar biscoitos com brigadeiro e confeitos. Aliado a uma campanha de divulgação benfeita, o público alcançado no primeiro dia chegou ao que era esperado para uma semana. Após uma série de outros eventos para crianças, o mall passou a ser visto como um local para ações infantis. Aos poucos, foi-se agregando mais valor ao mix de lojas para crianças e ao shopping como um todo, que conseguiu se revitalizar, mesmo estando em uma região com muitos concorrentes. ✻ RELACIONAMENTO COM ADOLESCENTES Os adolescentes são também um público consumidor, que compra roupas, livros, filmes, lanches e vai ao cinema, seja com o próprio dinheiro, seja com o dos pais ou em forma de presente. Os empreendimentos devem encontrar a melhor forma de atendê-los, pois sempre há a preocupação com o fator comportamental. Por um lado, grupos de adolescentes podem gerar desconforto a alguns públicos, como famílias e idosos. Por outro, se forem bem trabalhados, esses jovens podem ser transformados em consumidores fiéis no futuro. Em um centro de compras localizado próximo a uma escola, era comum que os estudantes não fossem à aula para passar o dia nos corredores do shopping, gerando transtornos. Isso levou parte dos clientes a evitar o local nesses horários. A saída encontrada foi colocar música clássica como som ambiente, o que afastou os jovens de lá. A melhor saída, num caso como esse, é achar o equilíbrio entre o interesse dos jovens e o dos demais públicos, com ações inteligentes que evitem o atrito sem deixar de fidelizar os adolescentes. Para jovens entre 12 e 15 anos, uma opção interessante são ações ligadas a colégios. Pelo fato de os adolescentes estarem com a escola, as atividades são mais específicas. Viagens à Disney, notebooks e videogames são prêmios que interessam muito a esta faixa etária. Dentre os eventos temáticos possíveis, uma loja de esportes pode trazer um jogador de futebol para dar autógrafos, o cinema pode fazer uma sessão especial para lançar um filme muito esperado etc. Shows são atrativos, mas precisam de cuidados tanto na escolha do artista quanto do local onde serão realizados. A praça de alimentação não comporta grandes shows: o ideal é realizá-los no estacionamento. Apresentações musicais são bem-vindas especialmente no momento em que o shopping está na fase de maturação. Se aquele é o primeiro empreendimento da cidade, shows ali levarão os moradores a se sentirem mais próximos do centro de compras. Em vez de shows, os empreendimentos podem ainda oferecer música de maneiras diferentes. Uma delas é por meio de downloads para os celulares. Por meio de tecnologias como Bluetooth ou Wi-Fi, os jovens podem ter acesso a músicas, sons, imagens e vídeos de cantores, bandas e filmes que estão em alta. Quando se traz para o jovem um conteúdo com interatividade, que não incite qualquer tipo de violência ou algum tema desagregador, o shopping está no rumo certo. Trata-se de um público muito ligado à tecnologia, portanto, atividades relativas ao tema são ótimas opções. Em um shopping de São Paulo, um evento permite aos clientes montar seu visual em uma espécie de vitrine digital. Como se fosse um grande tablet, o jovem (ou qualquer outro consumidor) usa as mãos para passear entre diversas opções de roupas das lojas, monta o seu look, imprime e depois vai às lojas. Na internet, redes sociais como o Facebook permitem realizar promoções direcionadas aos adolescentes. Um exemplo: os cem primeiros que tirarem foto no shopping dentro de um provador usando uma roupa específica irão ganhá-la. Trata-se de um exemplo de promoção de nicho, diferente de uma ação massificada. O jovem de hoje é o consumidor de amanhã e precisa ser formado. Muita gente tem lembranças de ter crescido frequentando um determinado empreendimento, onde ia ao cinema, almoçava, passeava pelas rampas, encontrava os amigos. Trata-se ainda de um público que adora dar sua opinião e avaliar as coisas. O mall pode coletar essas opiniões por meio das redes sociais. Ao perguntar e questionar o que agrada e o que falta, o empreendimento faz com que os jovens se sintam importantes e considerados. Desse processo, que é gratuito, costumam surgir respostas surpreendentes. ✻ TURISTAS Tudo depende do potencial da cidade. Em regiões menos turísticas, o shopping tem menos turistas e menos ações destinadas a eles. Nas grandes metrópoles, a atenção aos frequentadores de outras cidades e países costuma ser maior. Os turistas buscam no empreendimento rapidez e conveniência, já que seu tempo costuma ser limitado para o número de opções a serem conhecidas. Além de oferecer serviços e opções de compra, os shoppings muitas vezes funcionam como um local onde o turista consegue saber mais sobre outras atrações da cidade. O balcão de informações ajuda nos dois casos: a encontrar tanto a loja que vende determinado produto quanto um ponto turístico local. Shoppings em áreas nobres de cidades com grande fluxo de pessoas de fora, como São Paulo e Rio de Janeiro, contam com um serviçode concierge com profissionais bilíngues, que fazem indicações de restaurantes, museus, roteiros gastronômicos, de vinhos e a programação da cidade, entre outros. Neles, há um trabalho para que o turista considere o mall como um ponto de referência e apoio durante sua estadia. Parcerias com hotéis permitem ao viajante usar salas de reunião ou o espaço lounge do empreendimento para tratar de negócios durante o tempo em que está na cidade. Algumas vezes, ele precisa apenas de algo mais simples, como um local para deixar a mala enquanto resolve pendências. Alguns empreendimentos fazem divulgação em hotéis próximos e oferecem um serviço de translado para trazer e levar os turistas de volta ao local de hospedagem. Há casos de shoppings que fazem visitas guiadas pelo centro de compras para turistas que chegam em grupo e agendam previamente. A administração negocia com os lojistas algum pequeno presente para ser entregue aos visitantes durante o passeio. Dependendo da localização, da necessidade e da quantidade de visitantes estrangeiros, placas informativas podem trazer sua comunicação em mais de um idioma. No atendimento, o mais comum é que apenas os atendentes do balcão e do concierge sejam bilíngues. Os demais profissionais, como os seguranças, são treinados para orientar a quem fala outra língua a procurar o balcão de informações. O turista não terá o mesmo nível de relacionamento com o shopping do que o público local. No entanto, se for bem-atendido, poderá indicar o lugar para outros turistas ou mesmo retornar quando voltar a visitar aquela cidade. Grupos de turistas ou empresários em viagens de negócios devem ser atendidos da mesma forma, pois geram vendas e podem se tornar potenciais lojistas ou investidores. ✻ PÚBLICO ADULTO As pessoas com idade entre 25 e 55 anos são os principais consumidores de um shopping. Entre elas, há pessoas com gostos e perfis muito variados. Para atendê-los, a estratégia precisa estar amarrada ao posicionamento do mall. Há empreendimentos que marcam posição na cultura, em eventos de família ou em lazer, por exemplo. Um shopping com ligação forte com a cultura irá promover a arte e patrocinar desfiles de moda, exposições e mostras de cinema, sendo que muitas vezes esses eventos irão acontecer no próprio centro de compras, como forma de atrair o público. Outra maneira é o lançamento de coleções nas lojas, em eventos fechados para consumidores convidados, com coquetel e desfiles. O empreendimento pode trazer conteúdos que estão atrelados aos seus lojistas e vincular pequenas promoções. A joalheria pode oferecer uma palestra sobre a história do diamante ou a agência de viagens pode convidar um especialista para falar sobre os destinos que irão ser destaque no próximo verão. É um pouco do chamado conceito Disney: ao sair da atividade, encontra-se uma lojinha com os itens abordados em promoção. Nesse tipo de ação, o empreendimento fecha o ciclo: convida o cliente, faz relacionamento, proporciona conteúdo e o fideliza, trazendo-o para o seu próprio lojista, que vai dar alguma vantagem para o consumidor. Todos saem ganhando. ✻ FAMÍLIAS A presença de uma família no shopping representa a chance de venda para todos do grupo. A mulher vai ao cabeleireiro, o homem compra material esportivo, o filho quer um brinquedo, a filha mais velha quer uma roupa. Abre-se a possibilidade para atrair e fidelizar todos esses tipos de clientes. As atrações podem reunir duas gerações em uma mesma atividade. O evento de Dia das Mães pode incluir a filha. Se a mãe tem direito a uma maquiagem especial, a menina pode ganhar algum pequeno cuidado com o cabelo, como uma trança. No Dia dos Pais, o filho pode chutar a bola e o pai tentar defendê-la. Toda vez que o shopping promove a interação entre pais e filhos, agrega a família ao empreendimento. ✻ TERCEIRA IDADE Trata-se de um segmento muito especial, que possui bastante tempo livre e, muitas vezes, recursos, mas que carece de ações específicas nos malls. Antes de montar ações para a terceira idade, é preciso saber o tipo de idoso que frequenta o shopping. Eles estão interessados em compras, serviços ou apenas em passar algumas horas agradáveis? Os idosos procuram oportunidades para exercitar o corpo e a mente, encontrar outras pessoas e cuidar da saúde. Há shoppings que promovem caminhadas pelos corredores do próprio empreendimento, antes de as lojas iniciarem seu funcionamento, o que fideliza o cliente para o resto do dia. Aulas de alongamento, tai chi chuan e ioga prana (versão mais leve da modalidade) também são indicadas. Há uma longa lista de opções de atividades de lazer que podem ocorrer no empreendimento, como tardes e noites culturais, troca de livros, dança de salão, jogos de cartas, confraternizações, bingo valendo presentes, aulas de artesanato, tricô, crochê, bordado, pintura e música. As atividades, como para todos os outros tipos de público, precisam estar alinhadas com o perfil dos frequentadores de cada empreendimento. Na área de saúde, o shopping pode oferecer medição regular de glicose e pressão arterial de forma preventiva. Essas iniciativas farão com que os consumidores da terceira idade conheçam pessoas novas, se distraiam e façam compras ali. E podem ainda trazer os amigos: em vez de marcar um chá ou sarau em casa e ter de limpar tudo depois, podem combinar o encontro no mall. Os corredores e instalações precisam ter boas condições de acessibilidade, mas sempre com o cuidado de que o idoso não seja tratado de forma desrespeitosa. As pessoas gostam e devem se sentir importantes e respeitadas. O shopping deve deixar claro que elas podem encontrar ali momentos especiais e levá-las a se surpreender com as atividades. ✻ SAC O serviço de atendimento ao cliente do empreendimento, feito de forma presencial ou por telefone, pode ser dividido em dois níveis. O primeiro deles responde a dúvidas simples, como o telefone de uma loja e horários de funcionamento. Já o segundo nível trata de problemas que precisam de ações efetivas, como queixas sobre uma loja, um cliente que se machucou no meio do shopping ou a reclamação de um motorista que teve seu carro riscado no estacionamento. Os casos que se enquadram nesse nível devem ser encaminhados para o setor responsável, sob o cuidado do gerente da área. Se a questão envolve a manutenção, a pessoa que responde pelo setor irá informar as providências tomadas ao cliente. Caso o consumidor tenha retirado um cupom e não sabia que a promoção iria acabar, a reclamação vai direto para a gerência de marketing, por exemplo. Nesse modelo, todo o processo é centralizado no SAC, e o atendente deve acompanhar a reclamação e checar se a resposta do gerente foi adequada e veio no prazo. As regras e prazos podem se basear em uma política de acordo de nível de serviço, conhecida pela sigla em inglês SLA. Esse acordo estipula os padrões de qualidade e metas que o atendimento deve atingir, além das responsabilidades de cada uma das partes envolvidas. A divisão em dois níveis, adotada por uma empresa de shoppings de São Paulo, foi criada a partir da experiência do grupo com o atendimento. Foram mapeados os tipos e o volume de perguntas recebidas. A partir desse estudo, criaram-se as regras que definem em quais momentos o atendente responde, com base em um script, e quando a demanda é encaminhada para o segundo nível. Entretanto, essa linha do SAC é muito tênue. O cliente liga no shopping para reclamar de uma loja, mas poderia ligar diretamente para o lojista. O empreendimento pode se recusar a receber a reclamação, mas um grupo de malls de São Paulo trabalha com a determinação de receber e tratar as reclamações destinadas aos lojistas. Em vez de apenas repassar a demanda para o dono da loja, é feita uma reunião. Nela, a administração do shopping aponta as reclamações recebidas e questiona qual o plano de ação que o lojista irá executar para resolvê-las e evitar transtornos futuros aos clientes. Depois, esse plano de ação é acompanhado pelo empreendimento para se ter a certezade que foi cumprido e garantir que o consumidor seja atendido. Embora seja comum o uso de scripts com respostas prontas, os atendentes precisam ser treinados para saber quando podem sair deles e dar um passo a mais para ajudar o cliente. Certa vez, uma senhora ligou para saber a programação de cinema e perguntou se um determinado filme era bom. O atendente procurou algumas resenhas dos jornais e as leu para a senhora. O atendente não precisava dar esse nível de atendimento, mas o fez porque era uma cliente do shopping. Os profissionais daquela empresa têm a liberdade para entender quando é possível ir um pouco além e são treinados para ter este tipo de discernimento. Cada shopping pode ter um SAC independente ou um grupo pode montar uma central única responsável por atender o público de diversos empreendimentos. Os funcionários podem ser orgânicos ou terceirizados. No aspecto legal, o SAC é regulado pelo Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.708/90). ✻ EQUIPE DE SAC Para trabalhar no atendimento, o primeiro requisito é gostar de gente. Um especialista em recursos humanos pode ajudar a identificar candidatos com esse perfil. O SAC é uma porta de entrada na empresa, o que atrai pessoas que estão estudando e querem crescer. A partir do SAC, o profissional pode ser promovido a coordenador de atendimento e, em seguida, a outros cargos da administração. Há shoppings que priorizam funcionários que vieram de equipe de piso, pois eles estão acostumados com o dia a dia do negócio e sabem que faz diferença dar uma informação completa para o cliente. E também conhecem o sorriso de agradecimento de quem conseguiu encontrar o que precisava. Uma sugestão para preencher vagas de atendimento é contratar pessoas da terceira idade. São profissionais com muita paciência, que adoram ter um emprego e se sentem importantes por isso. Além de ter sabedoria e experiência de vida, os idosos não costumam ser mal-humorados e inspiram confiança. Para manter a equipe motivada e feliz, o salário não basta. Uma premiação ou elogio público a cada problema bem resolvido estimula todos a trabalharem melhor. Pessoas felizes produzem mais e serão capazes de atender os clientes da melhor forma possível. Cada consumidor tem um valor específico, que varia conforme seu tempo de relação com o shopping e de vida. O investimento nos clientes feito com base no longo prazo permite construir relações duradouras com eles e aproveitar o chamado lifetime value, métrica de marketing que procura estabelecer o valor de cada cliente ao longo de sua vida. De acordo com essa medida, a pessoa irá tomar decisões de consumo para si mesma e para os outros ao seu redor por um período médio de 58 anos. O único grupo que não tem poder de decisão na hora das compras é o de bebês até seis meses de idade. A partir daí, eles passam a ficar seletivos. Se não gostam de uma papinha, simplesmente se negam a comê-la e será preciso adquirir um novo sabor. Até os animais ajudam a decidir sobre o consumo ao preferir uma ou outra ração ou brinquedo. Um cliente satisfeito irá indicar o shopping para outras pessoas e trazer novos consumidores. Mesmo que essa pessoa tenha um tíquete médio baixo, isso pode ser compensado pelas compras de diversas outros amigos que passaram a comprar naquele empreendimento nos últimos anos por recomendação dela. Consegue-se então um lucro indireto muito maior do que aquele calculado com base apenas nas compras daquele frequentador. Crianças, jovens, adultos e terceira idade têm poder para decidir sobre as compras e em qual empreendimento eles e a família irão. Como vimos, essa decisão se dará com base no atendimento, na qualidade e no conforto do ambiente e também nas novidades e atrações destinadas a cada um desses públicos. Na internet, os sites são visitados à medida que tenham sempre informações novas. No mundo do comércio físico, acontece da mesma forma: se os frequentadores não encontram novidades, podem ir procurá-las em outros lugares. Os serviços especiais são o conjunto de facilidades oferecidas pelos shoppings para tornar a visita do cliente a mais prática e confortável possível. Esses serviços diferenciados são inspirados na hotelaria e variam de acordo com o perfil de cada empreendimento, sendo mais comuns em estabelecimentos voltados para o público de alta renda. O objetivo dessas ações é fazer com que o cliente tenha a certeza de estar recebendo o melhor tratamento possível. Para isso, o atendimento segue rígidos padrões de qualidade e é feito de forma personalizada, mas sem invadir a privacidade ou ser inconveniente. Em um cenário onde cada concorrente direto possui mix de lojas bastante parecido, esses serviços são um diferencial capaz de fazer o cliente se sentir mais próximo do shopping e, com isso, influenciar significativamente na hora de ele decidir onde as compras serão feitas. Muitos brasileiros subiram de classe social nos últimos anos. Clientes que viajavam pouco agora têm facilidade em sair do País e se hospedar em hotéis de qualidade. Com isso, começaram a descobrir confortos que antes não eram usufruídos e desenvolveram a expectativa de receber um atendimento diferenciado em outros lugares, como nos malls. A seguir, vamos detalhar alguns tipos de serviços especiais: concierge, valet, fraldário, amenities e personal shopper. ✻ CONCIERGE O concierge é a pessoa que presta serviços de conciergerie. O nome deriva da palavra francesa que designava o funcionário responsável por guardar as chaves das portas dos castelos nos séculos 15 e 16. Nessas construções, praticamente todos os cômodos eram interligados por portas, e o concierge tinha o poder de abri-las e dar acesso. O termo concierge vem sendo usado de maneira um tanto indiscriminada pelos empreendimentos, que o confundem com o balcão de informações. São coisas diferentes: o balcão passa orientações sobre localização de lojas, serviços e outros aspectos do próprio shopping. Já o concierge tem papel mais amplo e se propõe a ajudar o cliente a encontrar informações sobre produtos e lugares de fora do empreendimento, da cidade e até mesmo do País. Há alguns anos, um senhor de meia-idade chegou ao concierge de um shopping de São Paulo e pediu ajuda para comemorar seu aniversário de casamento. Ele pretendia levar a esposa para celebrar a data em Paris, no mesmo restaurante onde iniciaram a vida de casados, e precisava saber como fazer a reserva. O concierge encontrou o estabelecimento, fez a reserva para o casal e passou endereço e contatos. Chegada a data, os dois viajaram a Paris e jantaram no restaurante, como planejado. Ao fim da refeição, o garçom trouxe um petit gateau de presente, como cortesia enviada pelo shopping de São Paulo. O cliente ficou surpreso com a gentileza adicional e toda a atenção que recebeu e veio pessoalmente agradecer por tudo após voltar ao Brasil. Essa é uma prova de como é possível criar uma relação pessoal, e não só personalizada, com o cliente. Quando ele tiver de escolher novamente um shopping para ir, vai pensar imediatamente naquele que o ajudou a realizar um momento marcante de sua vida. Assim como reservas em restaurantes, o concierge pode ajudar na busca de passagens aéreas, ingressos para espetáculos ou passeios e indicar opções de lazer. No entanto, embora o serviço de concierge seja uma cortesia, o pagamento pelas atrações e eventuais taxas de serviço sempre ficam a cargo do cliente. Para atuar como concierge, o interessado precisa dominar o inglês, saber encontrar informações na internet com agilidade e conhecer rotinas de compra de passagens aéreas e pacotes de turismo, lugares interessantes e ter bons conhecimentos de geografia. Por esses requisitos, é recomendável a contratação de estudantes ou graduados em Turismo. A escolaridade mínima recomendada é ensino médio completo, com preferência para quem estuda no ensino superior. Embora o salário possa não ser tão atrativo para quem possui nível universitário, pode-se oferecer a oportunidade de um plano de carreira no shopping, como a chancede promoção para a área de marketing. Não é necessário contratar uma empresa terceirizada para prestar o serviço, pois os requisitos da função são relativamente simples. A contratação direta dos funcionários gera economia considerável nos gastos. ✻ VALET O valet hoje é considerado caro. Mas as coisas não são caras ou baratas pelo seu preço: dependem da forma como os usuários enxergam valor nelas. Quem usa o valet quer ser bem tratado e não se aborrecer ao perder tempo procurando vagas. Os manobristas devem ficar posicionados o mais próximo possível da entrada do shopping. Não faz sentido rodar 300 metros para encontrá-los. Quem irá receber o veículo precisa transmitir confiança e credibilidade. Ao parar o carro, o profissional, que pode ser um capitão porteiro, abre a porta e cumprimenta a todos, educadamente. O motorista é tratado com respeito, educação e presteza. Há clientes que entregam na mão do manobrista veículos que podem custar R$ 500 mil ou mais. Se o cliente olhar para o funcionário e vir que ele está com a barba por fazer, palito na boca e for tratado com gírias, pode preferir ele mesmo estacionar seu carro. Confiança nesse serviço significa agregar valor. A área destinada ao valet precisa ter conforto. O cliente não pode esperar o carro a céu aberto, com risco de pegar chuva ou sol. Na saída, é necessário um caixa exclusivo para fazer o pagamento, sem filas. Podem ser oferecidos brindes, como água, doces para as crianças ou café. Uma sala climatizada, bem decorada e confortável, deve ser colocada à disposição do cliente para o caso de espera. Mesmo que a espera seja em um ambiente agradável, o carro precisa ser devolvido rapidamente. Se o local está cheio por ser alguma data comemorativa, o cliente irá entender, mas saberá avaliar se os profissionais estão sendo ágeis ou não. Contudo, agilidade é diferente de correria. Falta de cuidado, como manobras bruscas, assusta e gera impactos na credibilidade do serviço. Caso o carro precise ser mandado para conserto devido a algum erro por parte do valet, o cliente deve receber outro veículo similar para usar enquanto aguarda o reparo. Ele não ficará um dia sem automóvel, e precisa ter a opção de usar um táxi pago pelo shopping para ir embora após o acidente. Por contrato, a responsabilidade por qualquer dano é da empresa que opera o serviço. No entanto, se houver algum problema, mesmo que seja um arranhão, o shopping precisa assumir a responsabilidade junto ao cliente. Jamais se deve dizer que o serviço é terceirizado e jogar a responsabilidade pelo erro para a empresa, como se o empreendimento não tivesse nada a ver com isso. Para evitar golpes, caso um cliente reclame que seu carro foi arranhado enquanto estava estacionado, podem ser buscadas imagens gravadas pelo circuito interno de TV. Elas irão comprovar se o veículo já tinha ou não o problema ao passar pela cancela. Em caso positivo, o frequentador é gentilmente informado de que se enganou e pode ver as imagens se quiser. A escolha da empresa que irá prestar o serviço de valet precisa ser muito seletiva. Não é recomendável considerar apenas o melhor preço, mas sim buscar o custo-benefício mais atrativo. Na estrutura do empreendimento, é importante possuir um coordenador de estacionamento, responsável por acompanhar a atuação da contratada e se relacionar com os clientes em caso de problemas. Os funcionários não devem ser estimulados a aceitar gorjetas. Em caso de insistência, o frequentador pode ser convidado a dar um presente ao shopping, que será sorteado entre todos os empregados. O mesmo vale para presentes ou dinheiro oferecidos por lojistas. ✻ FRALDÁRIO Nesse espaço, tudo precisa ser descartável e de graça. As fraldas e demais produtos de higiene para as crianças têm de ser de primeira linha. Apenas comida para os bebês não é oferecida, pois se trata de algo muito pessoal. Outras estruturas indispensáveis são forno de micro-ondas para esquentar mamadeira e uma cadeira confortável em um espaço reservado para que a mãe possa se sentar ao amamentar. Uma babá fica à disposição, mas irá ajudar somente se for chamada, pois algumas mães não gostam que outras pessoas mexam em seu filho. ✻ AMENITIES Outro item que veio da hotelaria para os shoppings são as chamadas amenities. Trata-se dos pequenos itens que costumam ser deixados na pia dos hotéis: pequenos frascos com xampu, sabonete, enxaguante bucal, absorvente, limpador de sapatos e kits de costura para reparos rápidos, como uma troca de botões. Esses itens ficam disponíveis nos banheiros dos malls e podem ser solicitados à camareira. Placas no local informam os clientes dessa disponibilidade. ✻ PERSONAL SHOPPER Alguns empreendimentos oferecem os serviços de um personal shopper. Um especialista em moda e estilo pode ser chamado para acompanhar o cliente pelas lojas e ajudá-lo a escolher as melhores roupas e itens para seu perfil. Não basta apenas deixar um personal shopper à disposição. O cliente pode pensar que se trata de uma pessoa sem função. A iniciativa tem de estar ligada a alguma proposta, com hora marcada em alguns dias da semana, de modo a valorizar o profissional. ✻ ESCOLHA E CAPACITAÇÃO DE FUNCIONÁRIOS Funcionários de serviços como limpeza, segurança e atendimento lidam com o público o tempo todo, em corredores, banheiros, praça de alimentação ou balcões, e são a cara do empreendimento. Gerentes e superintendentes não falam com o público, mas essas pessoas, sim, e são parte fundamental para um shopping que deseja atender os clientes com qualidade. De modo geral, as empresas de shopping se adaptam a um modelo oferecido pelos prestadores de serviço para contratar esses profissionais. Por exemplo, na limpeza: como a tarefa não exige grandes conhecimentos, contrata-se qualquer pessoa disposta a limpar, que começa a trabalhar após um treinamento mínimo. O shopping precisa criar seu próprio modelo, que começa pelos critérios de seleção. Ele pode impedir o terceiro de contratar interessados que não saibam ler ou que tenham problemas dentais, por exemplo, e exigir que todo funcionário tenha plano odontológico e de saúde por um custo acessível. Outros critérios sugeridos: os candidatos passarem também por uma entrevista com o coordenador de qualidade ou gerente de operações do shopping, para avaliar se têm o perfil desejado para o time. Um fator importante é morar próximo: uma pessoa que leva horas para chegar vai trabalhar cansada, pois o acesso em si só já é exaustivo. Durante a seleção, os interessados não costumam ser questionados sobre suas expectativas de desenvolvimento na carreira. Voltando ao exemplo da limpeza: o setor tem várias categorias, como o responsável por lavar banheiros, outro que cuida da praça de alimentação e a camareira, que atende os clientes nos sanitários. Há uma variação de salário entre as funções, para estimular os empregados a querer subir de cargo. Depois da contratação, é hora de investir em preparo, motivação e boas condições de trabalho, como um vestiário confortável, semelhante ao que os clientes encontram nas academias de ginástica. O mesmo vale para itens como refeitório e uniformes. Para que haja comprometimento, é fundamental que sejam oferecidos esses quesitos. Trate bem o seu funcionário para que ele trate bem o seu cliente. E estamos falando de terceirizados, que precisam vestir a camisa do shopping, e não só da empresa que o contratou diretamente. O treinamento é fundamental e precisa ser realizado com frequência, pois a rotatividade é muito grande nesses serviços. Em dois anos, 50% do time de um shopping pode ter sido trocado. A preparação precisa ter consistência para manter o time o tempo todo ajustado aos padrões de excelência que são esperados. Uma empresa pode ser contratada para ensinar os funcionários a atender os clientes como se fossem hóspedes de um hotel cinco estrelas. O cliente precisa se sentir em casa ao estar no mall. Não se trata de bajular o cliente ou ficar atrás dele oferecendo coisas. É tratá-lo com respeito, presteza e cordialidade.É o que todos esperam no dia a dia. Os shopping centers vivem no Brasil um momento muito particular, de renovação completa. Eles surpreendem seus clientes com movimentos de inovação em mix de lojas, serviços e detalhes em geral e, com, isso, vão ao encontro das expectativas dos clientes propensos ao consumo de luxo. Esse público espera encontrar empreendimentos que sejam impecáveis no design, na composição do mix de marcas e, principalmente, nos serviços oferecidos. É preciso que haja uma harmonia capaz de impactar e encantar o consumidor. A escolha do mix de lojas é o aspecto mais forte, e em muitos casos o essencial, para a atração do público interessado em luxo. São as marcas que definem o tipo de consumidor que o shopping terá. Nos últimos anos, grandes grifes internacionais passaram a inaugurar lojas no Brasil, e parte delas abriu suas primeiras unidades no País em shoppings. Contudo, a presença de lojas ou atrações que não estejam alinhadas ao mundo do luxo no mix do empreendimento é fator determinante para afastar os clientes que buscam sofisticação. Outros fatores que levam os apreciadores de luxo a deixar de frequentar determinado shopping são serviços prestados com baixo nível de qualidade e que frustram as expectativas. Na estrutura dos centros de compras, o ponto mais sensível é o estacionamento. Se o sistema é precário e sofre de falta de vagas, filas para pagamento na hora da saída e há grande espera para que os manobristas devolvam o carro, o cliente irá pensar duas vezes antes de voltar ali. A ausência de programas de relacionamento especiais é mais um aspecto desestimulante. O trabalho de fidelização dos clientes de luxo deve começar com um estudo aprofundado capaz de mostrar quem é esse público que demanda atenção e serviços diferenciados. Essa análise dará a base para que os consumidores possam ser classificados de forma estratégica e recebam convites para participar de programas de relacionamento feitos sob medida para eles. No mundo do luxo, as ações promocionais com o objetivo de fidelização devem proporcionar experiências genuínas que criem surpresas agradáveis. Essas experiências podem estar associadas ao lado lúdico ou emocional dos consumidores. Ingressos para apresentações especiais de concertos e musicais, convites para pré-estreias de cinema, hospedagens em hotéis cinco estrelas, almoço ou jantar em restaurantes refinados, cuidados de beleza em spas e clínicas de renome são alguns dos benefícios oferecidos nesses programas. Shoppings que não foram inaugurados com o foco exclusivo em luxo podem se transformar para atender a esse segmento à medida que forem feitas alterações no mix de lojas, paisagismo e elevação do nível de qualidade dos serviços. Cidades como São Paulo e Rio de Janeiro possuem exemplos de empreendimentos que passaram por essa mudança ao longo dos anos. Entretanto, esses centros de compras já estavam localizados em bairros nobres, regiões onde os moradores possuem alto poder aquisitivo. A preocupação ambiental e social não é apenas uma bandeira, mas algo capaz de agregar valor ao negócio e trazer benefícios financeiros. O trabalho voltado à sustentabilidade faz com que a empresa mostre sua preocupação com o futuro, a valorização de suas propriedades, como os edifícios, e o uso eficiente de seus recursos. Para as companhias com ações na bolsa de valores, todas as certificações e políticas de sustentabilidade têm peso positivo na carteira de investidores. Lojistas, fornecedores e clientes também reconhecem essa preocupação como um diferencial de uma administradora de shoppings. Para fazer uma campanha de marketing sustentável, não adianta apenas um discurso vazio ou uma ação pontual sem que haja uma política ambiental e social por parte da empresa capaz de difundir esses valores por todos os empreendimentos administrados. No setor de shopping centers, esse cuidado começa na escolha e compra do terreno onde será feita a obra. Nessa fase, estudos aprofundados dão a certeza de que não haverá nenhuma implicação ambiental ao construir o mall naquele local e permitem solucionar eventuais problemas com antecedência. Elaborado de forma adequada, o projeto do shopping permite torná-lo mais eficiente no uso de recursos como água e energia. Uma série de padrões e certificações internacionais ajuda a elaborar o projeto de acordo com critérios ambientalmente corretos. Alguns deles são: –Leed (Leadership in Energy and Environmental Design) – padrão americano que fornece selos para os chamados edifícios verdes ( green buildings ) e é focado na economia de recursos energéticos. –Breeam (BRE Environmental Assessment Method) – certificação inglesa mais abrangente, que considera também o cuidado com o solo. –Casbee (Comprehensive Assessment System for Built Environment) – equivalente japonês do padrão Leed. –GBTool (Green Build Tool) – sistema informatizado que analisa os aspectos da construção e fornece um total de pontos ao projeto de acordo com o nível de sustentabilidade. Os critérios ambientais do shopping podem ser divididos entre críticos e não críticos. Os críticos precisam ser implantados obrigatoriamente por todos os empreendimentos. Uma regra da matriz pode exigir que todos os novos aparelhos de ar condicionado sejam os mais eficientes do mercado, por exemplo. Já os não críticos têm sua viabilidade avaliada para cada unidade, que tem liberdade de adotá-los ou não, como a determinação de estimular o uso de ciclovias e transportes coletivos, que pode variar de acordo com as condições de cada local. A adoção dos critérios ambientais nas obras como meta corporativa é um meio de avaliar os gerentes dos projetos de cada shopping a ser construído ou readequado. Isso gera uma competição saudável entre eles para ver quem consegue cumpri-la com mais precisão. Ao iniciar a construção do empreendimento, surgem novas demandas, como o cuidado na contratação dos operários e a prevenção de acidentes de trabalho, de modo a evitar passivos trabalhistas futuros. Nessa etapa, ocorre a busca por duas outras certificações: a ISO 14001, referente à gestão ambiental, e OHSAS 18001, que atesta a eficiência da segurança do trabalho. Quando o empreendimento é inaugurado, muda-se novamente o foco das ações, pois começa o relacionamento com público, lojistas e fornecedores de serviços como manutenção, segurança e limpeza. Isso altera o escopo das normas ISO 14001 e OHSAS 18001. As certificações permitem quantificar e comprovar o trabalho ambiental realizado e podem ser usadas no trabalho de marketing. Há ainda um reconhecimento por parte dos próprios funcionários, que, ao terem melhores condições de trabalho, passam a registrar menor número de faltas e afastamentos. O planejamento para evitar riscos ambientais pode levar em conta ainda o fim do ciclo de vida de um shopping. Caso ele deixe de operar e precise ser demolido, haverá um registro de quais materiais estão aptos a serem reaproveitados em outras obras ou reciclados. ✻ CAMPANHAS COM TEMÁTICAS “VERDES” Os períodos de liquidação e datas comemorativas, como o Natal, são boas oportunidades para realizar ações de educação ambiental. O cliente vai às compras e leva junto uma mensagem, justamente em um momento em que está pensando apenas em consumir. Uma ação ambiental ligada a uma liquidação tem três pilares: econômico, social e ambiental. Obviamente, a campanha precisa ter apelo comercial, mas pode ao mesmo tempo mobilizar a comunidade e levar o consumidor a repensar seus hábitos. Em uma atividade feita por um shopping, os consumidores recebiam uma espécie de régua para avaliar seu gasto pessoal de água. Com ela, registravam quanto tempo durava o banho e se a torneira ficava aberta durante a escovação dos dentes, por exemplo. De acordo com as respostas, o material informava se o consumo estava elevado e dava dicas de como reduzi-lo, diminuindo o desperdício e o gasto com a conta de água. Quando sente no bolso, o consumidor reconsidera suas atitudes. Em outra campanha, foi criado um manifestopela atitude “verde”. A cada R$ 100 em compras, o lojista entregava ao comprador um cupom. Este deveria ser levado pelo cliente até o local do shopping onde estava a urna do manifesto, o que representava um esforço para realizar a ação. A cada cupom entregue, foi plantada uma árvore em áreas desmatadas, em parceria com a organização S.O.S. Mata Atlântica. No total, foram plantadas 22 mil árvores nativas. Durante um período em que as sacolinhas plásticas estavam sendo banidas, uma promoção feita em conjunto com uma liquidação distribuiu sacolas reutilizáveis. O frequentador entregava toda embalagem recebida nas lojas e recebia uma ecobag em troca. Outra ação estimulou os compradores a recusar o excesso de embalagens extras nos pontos de venda, como o papel de seda usado no embrulho de itens que não eram para presente. A sustentabilidade pode marcar presença até nas luzes de Natal. Há administradoras de shoppings que deixaram de aceitar lâmpadas incandescentes na decoração natalina e passaram a usar apenas iluminação por LED, que consome menos energia. Entretanto, o custo dessa tecnologia é maior. Para ajudar a equilibrar a conta, passou-se a contratar um único fornecedor para todos os shoppings da rede. Isso facilitou a negociação e fez com que o gasto com iluminação não sofresse alterações. Outras mudanças foram a adoção de madeiras certificadas e tintas à base de água para compor a decoração natalina. Parte dos materiais foi produzida por presidiárias, por meio de uma parceria entre a administradora e uma fundação social. Houve ainda atenção redobrada às normas de segurança do trabalho para os profissionais terceirizados que montam a decoração de Natal. Ao serem instaladas, árvores que podem chegar a 20 metros de altura geram risco de quedas, choque elétrico e princípio de incêndio. Por exigência da administradora Sonae Sierra Brasil, os funcionários tiveram um curso sobre a NR-10, que trata de segurança em trabalhos com eletricidade. O fornecedor que consegue atender a exigências desse tipo sai na frente, pois fica preparado para trabalhar com materiais e tecnologias que serão incorporados por outros clientes mais à frente. No sorteio de Natal, os prêmios também podem estar alinhados aos temas ambientais. A escolha foi um carro compacto, por exemplo, feito de fibra de material reciclável, que consome menos combustível e ocupa menos espaço nas ruas. As ações promocionais podem ter suas emissões de gases neutralizadas. Uma empresa especializada é capaz de calcular o consumo de diesel dos caminhões que trouxeram os materiais e o de energia elétrica para estimar a emissão total de gás carbônico, através de um inventário completo dos itens que emitem gases de efeito estufa. A poluição é compensada por ações como o plantio de árvores, e o evento passa a ter o selo de carbono zero. Atitudes como essas são reconhecidas pelos clientes. Uma administradora que faz ações contínuas ligadas à sustentabilidade fez uma pesquisa entre os frequentadores dos seus shoppings e detectou que a preocupação com o meio ambiente e com a comunidade é um atributo já conquistado por 80% dos centros de compras. ✻ AÇÕES COM LOJISTAS, FORNECEDORES E FUNCIONÁRIOS Os lojistas são parte fundamental do negócio e indispensáveis a um plano que pretenda tornar o empreendimento ambientalmente correto. Esse plano pode gerar valor para os próprios lojistas, e não apenas do ponto de vista da imagem. Ao reduzir o consumo de água e de energia nos pontos de venda, as contas serão menores. Fornecer embalagens que usam menos matéria-prima é outra forma de obter economia. Campanhas para lojistas, como maratonas de reciclagem e de economia de água, estimulam diretamente a geração de resíduos e a redução do consumo. Premiações para as lojas com maior preocupação com o meio ambiente e com a segurança dos seus colaboradores são ferramentas poderosas de estímulo. Uma empresa que realiza uma disputa entre as lojas de seus shoppings em todo o Brasil notou, de um ano para outro, um grande aumento do interesse em participar do concurso. Inicialmente, apenas as lojas mais estruturadas participavam. Algum tempo depois, as unidades menores passaram a procurar a administração para aprender como adaptar seus processos e aumentar as chances de ganhar o prêmio. Com o passar do tempo e de forma gradual, os lojistas acabam disseminando as práticas ambientais para outras unidades de sua rede. Os fornecedores também podem se beneficiar: se um prestador de serviços de limpeza e segurança se adapta para atender a um centro de compras que possui a norma OHSAS 18001 e passa por auditoria naquele local, pode ser um importante passo para conseguir uma certificação para sua empresa posteriormente. Um ponto sensível na vida dos trabalhadores das grandes cidades é a demora para chegar ao trabalho. Uma empresa de shoppings realizou uma pesquisa em suas unidades e encontrou funcionários que gastavam até duas horas e meia para chegar, o que totaliza cinco horas por dia no trânsito. A partir dessa constatação, foi criado o shopping office. Parte dos colaboradores pode trabalhar no escritório dentro do empreendimento do grupo mais próximo de sua residência, e exercer a distância suas funções em alguns dias da semana. Há também projetos de educação continuada que oferecem cursos supletivos para os funcionários que não concluíram o ensino fundamental ou médio. São atendidos colaboradores do mall, de fornecedores e de lojistas e moradores do entorno. ✻ AÇÕES SOCIAIS COM A COMUNIDADE A relação com a comunidade próxima precisa ser trabalhada mesmo antes da chegada do shopping, e pode ser incluída entre as metas corporativas. Ao reunir moradores, representantes de escolas próximas, da polícia, da prefeitura e de entidades de classe, é possível perceber qual a expectativa que cada grupo tem em relação ao empreendimento e identificar pontos de atrito, a fim de evitar problemas futuros e resguardar a imagem corporativa. Depois do início da operação, esse relacionamento continua necessário. Além dos encontros, ações sociais aproximam o shopping desse público. Essas atividades abrem oportunidades para parcerias com outras empresas e o engajamento dos colaboradores e lojistas. Em uma ação de saúde para ensinar crianças carentes a cuidar dos dentes, a administração pode pedir ajuda a uma farmácia para saber como conseguir escovas e creme dental com desconto. Em outro exemplo de iniciativa, empregados e lojistas de um shopping foram a instituições que cuidam de idosos para realizar atividades de prevenção contra o mal de Alzheimer, orientados pela associação brasileira de combate a essa doença. Foram distribuídas revistas com passatempos que estimulam a atividade cerebral e cartilhas para as famílias ajudarem os mais velhos a evitar problemas de memória. Parte das publicações foi doada por uma editora especializada em palavras cruzadas. ✻ CUIDADOS AO FAZER MARKETING AMBIENTAL O uso de temas ambientais e sociais nas ações de marketing precisa ser dosado. Uma campanha de Natal feita com foco na sustentabilidade exagerou na abordagem “verde” e ofuscou o clima de magia do fim de ano, segundo avaliação posterior do próprio centro de compras que a realizou. Metas e conceitos de avaliação internacionais precisam ser aplicados com base na realidade brasileira. Adotar um padrão que determine forte redução do uso de ar-condicionado pode gerar desconforto em cidades quentes. Os clientes deixarão de frequentar o mall caso ele se torne um lugar abafado. Numa situação como esta, o conforto é mais importante do que a sustentabilidade. Shoppings mais antigos requerem maior trabalho para se adequar aos novos padrões ambientais e podem demandar prazos mais longos. No entanto, as alterações são percebidas mais rapidamente pelos clientes. Prêmios ligados a causas ambientais não funcionam necessariamente para todos os públicos. Uma campanha que sorteie bicicletas não faz sentido em uma região sem ciclovias nem parques e onde a cultura do uso do carro é muito forte. O discursoambiental é bastante aceito, mas não é unanimidade entre todos os clientes. Para não intimidar aqueles que não gostam do tema, pessoas que sabem falar do assunto de forma agradável podem ser chamadas para conduzir as atividades, e o discurso a ser adotado precisa passar por muitos testes antes de chegar ao público. Dessa forma, as campanhas sustentáveis não gerarão registros de feedbacks negativos. O merchandising está incluído no cardápio de ações do departamento de marketing dos shopping centers. Em primeiro lugar, devemos separar claramente merchandising das propagandas do mall. Os shoppings possuem diversas propriedades que podem ser comercializadas a terceiros para exploração publicitária (merchandising) ou os próprios empreendimentos podem utilizá-las como pontos de divulgação do conteúdo interno (comunicação de marketing). Nesse segundo caso, trata-se das comunicações de marketing não remuneradas. Do ponto de vista comercial, a venda desses espaços tem importância crucial para os empreendimentos, que podem participar com uma fatia relevante da receita total do mall. Do ponto de vista de marketing, a utilização das propriedades internas tem valor estratégico, na medida em que são veículos absolutamente direcionados ao seu público-alvo (não poderia ser diferente, já que estão dentro do próprio shopping), com custos muito menores do que a contratação de veículos e mídia de terceiros (jornais, revistas e televisão). É necessário salientar que mídias interna e externa não se substituem plenamente, mas são perfeitamente complementares dentro dos planejamentos de mídia dos empreendimentos. Em relação ao merchandising, não há uma fórmula mágica sobre como deve ser o direcionamento dos mecanismos disponíveis – veiculações na mídia, folhetos, patrocínios esportivos etc. A utilização de uma propriedade ou outra de mídia depende da estratégia de comunicação que haja por trás da ação. Folhetos no estacionamento costumam funcionar bem para ações promocionais, seja do shopping ou anunciantes. A utilização de grandes banners internos tem valor institucional pela qualidade do material e pelo impacto. Patrocínios são um capítulo completamente à parte. Há poucos casos de grandes patrocínios esportivos feitos por shopping centers. Por outro lado, há alguns movimentos semelhantes voltados para a moda, tal como desfiles. ✻ A FORÇA DA MARCA Existem várias maneiras de envolver os lojistas nas ações de marketing dos shoppings, principalmente porque estas têm como objetivo principal fortalecer o relacionamento com os clientes finais e proporcionar, em última análise, mais vendas para as lojas. Dessa forma, é importante que haja sempre um relacionamento próximo entre o departamento de marketing e a associação de lojistas e que na medida das possibilidades sejam realizadas ações que destaquem diretamente as lojas (principalmente promoções) e, mais recentemente, por meio de uma dinâmica contínua de utilização das mídias digitais e redes sociais, fatos relevantes das lojas para os clientes finais. ✻ PROMOÇÕES A eficácia das promoções tem sido bastante discutida nos últimos anos, no que diz respeito ao retorno institucional e ao aumento das vendas. De acordo com especialistas, estatisticamente, o número de participantes, de notas trocadas e de valor adicionado às compras em função das promoções tem baixa representatividade nos números globais de vendas e fluxo de clientes do mall. Há uma falsa impressão de que as promoções conseguem mudar a curva de vendas e o tráfego do shopping, mesmo que por um período curto de tempo, mas isso quase nunca é verdade. Existem outras ações de marketing mais eficientes para atrair público e realmente mexer com as vendas no longo prazo. Contudo, isso não significa que as promoções sejam ruins e que não devam ser realizadas. Elas podem ter um grande valor estratégico caso sirvam a outros objetivos que não simplesmente o aumento de vendas ou de tráfego. Por exemplo, podem servir como base de uma campanha de marketing em que se reforça a imagem desejada para o mall. Se é desejável falar que o shopping é hi- tech, pode ser interessante fazer uma promoção que dê computadores. Nesse caso, a promoção servirá de plataforma para a construção da campanha publicitária. O trabalho de endomarketing não pode ser enxergado como algo pequeno e pontual que se resume ao envio de newsletters e à realização de festinhas de confraternização. Enxergar o endomarketing como algo que se concentra apenas em formas de se comunicar com seu funcionário é uma visão distorcida. A comunicação tem papel importante nessa prática, mas seu ponto fundamental é vender um produto, uma ideia e/ou um posicionamento para o funcionário. É envolver os colaboradores de maneira que eles se sintam realmente parte da empresa, aliados ao negócio e responsáveis pelo sucesso da companhia. Cada pessoa contratada precisa sentir-se respeitada e motivada e saber que a função dela é muito importante para o resultado da empresa. Entendimento e alinhamento passam a ser fundamentais na relação empresa–colaborador. Dessa forma, o endomarketing está completamente ligado à necessidade de um alinhamento entre todos os colaboradores e os objetivos corporativos. Para isso utiliza-se uma série de ações, técnicas e procedimentos com a finalidade de envolvê-los na cultura, na missão, na visão e nos valores da empresa. Os pilares desse trabalho são treinamento, comunicação, transparência, integração e confraternização. As ações são planejadas e executadas geralmente por um comitê de endomarketing, composto por representantes de diferentes áreas da empresa. Para atingir sucesso em qualquer negócio, ele precisa passar pelas pessoas, que são os colaboradores. Por isso, o trabalho do endomarketing representa parceria entre os departamentos de recursos humanos e o de marketing. O raciocínio é simples: se as equipes estiverem felizes, sentindo-se respeitadas e motivadas, vão fazer um bom trabalho e estarão mais engajadas. Os consumidores serão bem atendidos com serviços eficazes e ficarão satisfeitos e propensos a continuar frequentando aquele shopping, o que conduz a empresa a um resultado financeiro favorável. ✻ COMUNICAÇÃO E DIÁLOGO INTERNOS O trabalho de comunicação é necessário para envolver o colaborador na história e na razão de existir da empresa. Todos os funcionários precisam conhecer o objetivo e também as dificuldades para chegar a esse norte. Há muitos fatores para envolver o colaborador e deixá-lo motivado. Esse trabalho começa com o foco da empresa de shoppings em valorizar as pessoas. A Ancar Ivanhoe, uma companhia que adota essa postura, tem entre seus valores o pensamento de que “somos gente que gosta de gente” e conta com profissionais de recursos humanos, marketing e comunicação dentro de cada empreendimento do grupo e na sede, para realizar esse trabalho em time. Entretanto, isso não significa ser condescendente com erros e desculpar falhas por falta de comprometimento, porém as falhas não intencionais fazem parte do aprendizado e servem para tirar lições. Busca-se ter produtividade e aproveitar o melhor dos colaboradores, mas as relações humanas são valorizadas acima de tudo, por meio de feedbacks, transparência e comunicação constantes, e não de ações pautadas apenas por eventos específicos durante o ano. Esse diálogo precisa ser diário, com alguns momentos em que é oficializado. O papel da comunicação vai além de informes, relatórios e reuniões formais. São necessárias conversas diárias, troca de ideias e respeito pela opinião. O alto escalão e os gerentes devem ter um intercâmbio diário de informações com suas equipes para que os problemas possam ser realmente resolvidos nos detalhes e não cresçam e atinjam um patamar alto, quando se tornará muito difícil reverter o quadro. Uma das formas de melhorar o relacionamento é a descentralização como estratégia integrada ao modelo de gestão. Nesse modelo, os colaboradores têm poder maior para tomar decisões, em comparação com o modelo de comando e controle,no qual os chefes mandam e os subordinados obedecem. Em uma administração descentralizada, os funcionários são livres para ser o melhor que podem ser e contribuir com toda a estratégia. Não se trata de autorizar cada um a fazer o que quiser, e sim dar poder às pessoas para a tomada de decisão, gerando um ambiente de inovação, participação e de alta performance. A empresa deve criar e manter canais de comunicação, ações e eventos para possibilitar e estimular o contato entre os próprios colaboradores, as diversas áreas e a dos subordinados com a direção. ✻ TRANSPARÊNCIA A relação com os colaboradores tem de ser pautada pela transparência, sem romper o limite das informações confidenciais e estratégicas. É estabelecida uma espécie de filtro, que separa as informações em categorias e estipula quais grupos terão acesso a cada nível de dados. Entretanto, é sempre recomendável que os objetivos principais sejam conhecidos por todos. Existem diversas formas de torná-los públicos. Em muitos casos, não é necessário falar uma cifra exata para toda a companhia, mas se pode mencionar um objetivo ou o percentual de crescimento desejado. O principal foco de transparência deve ser com relação à avaliação dos funcionários e aos dados de seu desempenho. A relação com os subordinados precisa ser pautada pela honestidade e clareza. O líder tem de informar os pontos exatos pelos quais o desempenho não está dentro do esperado, como problemas de agilidade e precisão ao realizar tarefas. O comando precisa abrir espaço para que o colaborador possa dizer se há algum problema que o impede de realizar suas funções. É preciso, também, se dispor a ajudar, se possível, e deixar claro que, caso persista a situação negativa, será gerado um problema sério capaz de causar até uma eventual demissão. Após uma conversa séria, transparente e direta, o empregado pode dar uma reviravolta completa e ter novamente bons indicadores, ou perceber que aquela função não é mais interessante para ele. Algumas vezes, um problema pessoal pode ter derrubado a produtividade, por exemplo. Quando o chefe pergunta se pode fazer algo diferente para ajudá-lo a melhorar, demonstra humildade e a confiança de que todos em sua equipe podem mudar e melhorar. Passado algum tempo da conversa, é hora de um novo encontro de feedback. Se houve melhora considerável, o colaborador merece receber os parabéns e saber em quais aspectos evoluiu e quais ainda precisam de aperfeiçoamento. Em caso contrário, o gestor pode dizer, com todas as letras, que houve uma conversa e nada mudou, de modo que o desligamento da empresa se tornou inevitável. Dessa forma, a dispensa só acontece após serem fornecidos todos os feedbacks possíveis. Todo o trabalho é feito para eliminar a chance de surpresa, de modo que o ex-funcionário não poderá falar que não foi avisado sobre seus problemas de desempenho ou de atitude. Além do diálogo constante, existem os canais oficiais, como a avaliação de desempenho. Essa análise é comunicada formalmente por meio de um encontro, que acontece uma vez ao ano. O líder registra nessa avaliação tudo o que foi conversado com o colaborador ao longo dos meses e faz um balanço dos pontos em que o funcionário se destacou e os itens a serem melhorados. ✻ INTEGRAÇÃO E CONFRATERNIZAÇÃO O objetivo de integrar e o conceito de equipe devem ser muito fortes em um trabalho de endomarketing, cujas ações são criadas e/ou avaliadas por profissionais da área de recursos humanos. As pessoas precisam entender que não trabalham sozinhas, e sim em um time, e que ninguém é melhor do que o outro. Não pode haver espaço para melindres e vaidade, pois o conjunto funciona de forma mais eficiente do que cada um agindo individualmente. Assim, quanto maior for a integração e a ajuda de uns aos outros, melhor para os resultados do shopping. O trabalho em conjunto tem de ser feito também entre as áreas. O método em que cada um cuida apenas de seu departamento e deixa de apontar e tentar resolver problemas quando o assunto não compete à sua área precisa ser revertido. As diferentes seções necessitam de uma estrutura na qual possam ajudar e eventualmente ser críticas umas às outras, com o objetivo de melhorar o conjunto e os resultados da empresa. Nas datas mais importantes do varejo, a equipe de administração dos shoppings da Ancar Ivanhoe vai para os corredores vestindo uma camisa com a frase “Posso ajudar?”. Ela se disponibiliza a auxiliar os consumidores em qualquer frente, como responder perguntas, sinalizar pontos de troca e passar informações diversas. Os times do setor administrativo e operacional misturam-se, sem distinções. O shopping center é um negócio de varejo, e todas as ações desse setor lidam com gente. Portanto, é importante que todos na empresa saibam como atender bem o público. Em um modelo de treinamento, feito duas vezes por ano, os funcionários da área administrativa atuam por uma hora em algum cargo operacional do shopping, como o recolhimento de bandejas, fiscalização do estacionamento ou atuação na segurança. O exercício de se colocar no lugar do outro tem como objetivo estimular o aperfeiçoamento profissional e pessoal e ainda fazer com que o gerente perceba pontos que podem ser aprimorados ao executar aquela função e possa dar sugestões de melhoria. Essa troca permite ainda que o comando da empresa passe a conhecer mais o funcionamento do negócio, além de ser um dos exemplos de descentralização. Quando a companhia realiza essa atividade, nota que cada vez mais as pessoas interessam-se em participar e elogiam a prática. O café da manhã com o superintendente é um meio de colocar os funcionários em contato direto com o comando do shopping. Nessa proposta, todos os colaboradores terão a oportunidade de conversar formalmente com o superintendente ao menos uma vez por ano, mas a proximidade entre as pessoas é estimulada diariamente. O departamento de recursos humanos separa as pessoas em grupos de mais ou menos dez pessoas e agenda os encontros, nos quais há liberdade para tirar dúvidas e oferecer sugestões. Em algumas redes, parte dos funcionários simplesmente desconhece quem é o superintendente. Essa iniciativa faz com que os funcionários sintam-se extremamente valorizados, pois sabem que o executivo que ocupa o mais alto cargo do empreendimento está disponível para ouvir coisas boas e ruins, sugestões, exemplos e casos de melhores práticas. Essas sugestões são reunidas e transformadas em um documento que ficará exposto em um mural do shopping. O painel informa os funcionários das ideias que foram colocadas em prática ou transformadas em projetos. Os trabalhadores que cumprem o turno da madrugada, como vigilantes e equipes de limpeza, acabam tendo pouco contato com a equipe administrativa do shopping, uma vez que os demais departamentos geralmente funcionam em horário comercial. Em um programa de integração, os executivos visitam essas equipes durante a noite e passam a madrugada com elas, para ouvir, valorizar e integrar as pessoas que atravessam as noites em serviço. Nessas ocasiões, é feita uma refeição em conjunto e criado um momento para que os colaboradores possam falar sobre os trabalhos que executam e dar suas sugestões, recomendações, os pontos positivos e negativos da empresa e de suas funções. Nos shoppings do grupo, uma das práticas é que o colaborador não trabalha no dia do seu aniversário, de modo que possa escolher como irá passá-lo e ter melhor qualidade de vida. Para que a pessoa possa folgar naquele dia, ela se organiza, adianta o que pode e deixa um esquema pronto com a distribuição de suas tarefas entre os colegas, de modo que o serviço do departamento não seja afetado. Essa folga especial causa um imenso impacto positivo nos colaboradores. Eles valorizam a oportunidade de passar o dia do aniversário com os filhos, pais, familiares e amigos. Eventualmente, alguns deles até vão almoçar com os colegas de trabalho e depois vão embora para casa. Essa ação, à primeira vista, poderia causar um enorme problema devidoà falta de pessoal, mas o planejamento impede que haja impactos negativos para o shopping e a prática resulta em grande alegria para o colaborador. O aniversário precisa cair em um dia útil para dar direito à folga. Se a data ocorrer no fim de semana ou feriados, não há a possibilidade de compensação. Se fazer a diferença nas comunidades é um dos valores da empresa, os colaboradores podem ser envolvidos nos programas sociais que a companhia apoia. Como muitas vezes esses programas requerem voluntários, o shopping convida seus funcionários a participar, sempre de livre e espontânea vontade. Dar uma pequena aula ou ajudar a reformar as salas de uma escola pública e participar de campanhas de doação são alguns exemplos. ✻ BOAS INSTALAÇÕES A empresa não pode exigir nada do colaborador se ele não conta com um ambiente de trabalho adequado, em que esteja bem instalado e sinta-se bem. Esse cuidado deve ser estendido tanto ao departamento administrativo quanto ao operacional. Uma das tendências é a instalação de vestiários nos shoppings, para que os colaboradores possam vir de bicicleta e tomar um banho antes de iniciar seu expediente. Essa mudança traz impacto direto na qualidade de vida, assim como as salas de convivência, espaços onde as opções de lazer são variadas. Geralmente, os espaços contam com mesa de sinuca, TV e DVD, computador, biblioteca e um pequeno bar, para que as pessoas de fato se integrem, interajam e tenham um momento de escape. Nessas salas, são realizadas sessões de filmes, com um debate em seguida ou simplesmente para lazer, e campeonatos de sinuca. Trata-se de um ambiente que valoriza as relações humanas e cria momentos para se conhecer melhor os companheiros de trabalho. A presença de áreas de lazer nos shoppings para os funcionários deve estar presente também nas bases, locais onde ficam as equipes operacionais, como segurança, limpeza e manutenção. Este time precisa de refeitórios e vestiários adequados, além de ter a sua sala de convivência e de descanso, como também é conhecida. ✻ EVENTOS AO LONGO DO ANO O comitê de endomarketing deve definir um calendário de datas que serão celebradas pela empresa, junto aos funcionários, com eventos, prêmios ou outro tipo de atividade. Um exemplo é a comemoração de todos os aniversários do mês ou do trimestre em um único dia. Cada evento pode ser tematizado de acordo com a época do ano e ser também uma festa de carnaval, Páscoa ou junina. Esse momento não é uma ocasião apenas para cantar parabéns e homenagear os aniversariantes, mas para estimular a integração, a diversão e a descontração. Um colaborador que toca violão pode trazer o instrumento e apresentar-se, por exemplo. Outras sugestões: na festa de Natal, os funcionários podem trazer seus filhos para uma festa na empresa, na qual os pequenos irão ganhar presente e conhecer o ambiente de trabalho dos pais. No Dia Internacional da Mulher, a empresa pode oferecer um serviço de maquiagem para as colaboradoras dentro do local do trabalho e fazer fotos em seguida. Assim, elas ficarão mais bonitas no seu dia e levarão uma lembrança para casa. Já o Dia dos Pais é uma oportunidade para um programa de beleza voltado aos homens, que ofereça corte de cabelo, barba e tratamento de pele. Em ações integrantes de um programa de qualidade de vida, palestras e encontros com especialistas podem abordar diversos temas, como sedentarismo, nutrição e saúde dentária, de modo a informar com profundidade os funcionários sobre esses temas com impacto direto em seu bem-estar. Eventualmente, um médico pode ser chamado para fazer avaliações individuais. O conjunto dessas ações ajuda ainda a melhorar a qualidade do clima organizacional, que precisa ser muito valorizado por ser a saúde do funcionário dentro da empresa, no sentido de qualidade de vida, benefícios oferecidos, e de um bom ambiente de trabalho, estrutura física adequada e também da convivência agradável. Tanto os funcionários dos diversos shoppings do grupo quanto os de seu escritório central devem ter a certeza de que trabalham para uma mesma empresa. O comando corporativo da empresa não pode ser visto como algo separado de seus shoppings, mas cada colaborador deve se sentir parte do grupo. Todas essas ações fazem com que as pessoas criem vínculos com a empresa. Ela deixa de ser apenas o local de trabalho e se torna praticamente uma extensão da casa do colaborador. Um bom trabalho de endomarketing tem este objetivo: que no ambiente corporativo as pessoas tenham conforto, confiança entre si e o sentimento de fazer parte de um time trabalhando em equipe com metas claras e bem comunicadas. ✻ CANAIS INTERNOS DE COMUNICAÇÃO Os canais de comunicação internos podem ser padronizados para todos os shoppings da mesma rede, com as informações corporativas, e cada unidade pode ficar livre para adotar os veículos próprios que achar mais conveniente. Os meios mais comuns são a intranet, comunicados por e-mail, painéis e periódicos impressos. ✻ INTRANET A intranet, ferramenta virtual que reúne as informações da empresa como notícias, documentos, comunicados e procedimentos, tem passado por mudanças. Projetos elaborados em conjunto pelas áreas de recursos humanos, marketing e tecnologia da informação procuram torná-la mais atrativa e menos dura, de modo a estimular os funcionários a acessá-la. Esse trabalho de modernização tem envolvido o layout e o tipo de informação inserido ali. O objetivo é que o colaborador encontre todas as informações da empresa de que precisa para o seu dia a dia ao acessar a intranet, e que esse uso se torne algo corriqueiro. Os novos modelos de intranet permitem, ainda, que os colaboradores postem informações e dúvidas em áreas específicas, como fóruns de debate interno. Assim como os consumidores vivem uma onda de valorização da interatividade com as empresas, o público interno também quer participar e sentir que faz a diferença. A Ancar Ivanhoe espalhou grandes quadros em cada escritório, nos quais as pessoas podiam passar avisos e escrever livremente, e sinos, que são tocados quando havia alguma notícia importante a ser compartilhada. Como os espaços de trabalho no grupo são formados por baias abertas, sem divisórias, e com poucas salas privadas, todos podiam ouvir os avisos. A ausência de separações físicas entre a diretoria e as demais pessoas do administrativo deixava todos com livre acesso para trocar informações até com o presidente da empresa, se necessário. Formou-se um canal totalmente aberto que hoje funciona maravilhosamente bem, segundo avaliação da empresa que o adotou. ✻ E-MAIL, IMPRESSOS E OUTROS MEIOS DIGITAIS Os comunicados gerais encaminhados por e-mail estão entre as formas mais comuns de envio de informações da administração para os funcionários. Algumas empresas começaram a usar grupos fechados em redes sociais como o Facebook. Uma ferramenta on-line chamada Ning permite criar uma rede social customizada e exclusiva para os funcionários das empresas trocarem informações sobre assuntos corporativos. O serviço oferece a possibilidade de postagens, comentários, conversas em tempo real e facilidade para compartilhar fotos e vídeos, entre outros itens. A decisão de ter ou não um veículo impresso dedicado a informar os acontecimentos internos costuma ficar a cargo dos shoppings, já que cada empreendimento conhece sua realidade e sabe o que pode funcionar melhor. Dentre as opções, há os jornais mensais, mais enxutos, as publicações com periodicidade e conteúdo maiores, newsletters e blogs corporativos. Esse é mais um exemplo de descentralização. ✻ AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS O sucesso do trabalho de endomarketing é avaliado pelos próprios colaboradores e pelo mercado. Os funcionários são consultados por meio de uma pesquisa feita de forma confidencial, o que estimula a sinceridade. O questionário, extenso e detalhado, permite que sejam apontados todos os itens do relacionamento com o público interno nos quais a empresa acertou e errou, na opinião dos colaboradores. Instituições nacionaise estrangeiras também avaliam as condições de trabalho das empresas e o nível de conforto dos funcionários para criar os rankings das melhores companhias para trabalhar. Esses prêmios anuais servem como reconhecimento de um trabalho bem-sucedido junto aos colaboradores e ao mercado. ✻ PÚBLICO TERCEIRIZADO E ORGÂNICO A Ancar Ivanhoe acredita no princípio de que apenas com funcionários orgânicos é possível trabalhar bem as questões de endomarketing, como treinamento, capacitação, envolvimento e alinhamento. Esse grupo entende que não é viável aplicar as ações a funcionários terceirizados, devido à grande rotatividade e à dificuldade de o profissional ter claro se pertence ao shopping ou à empresa que o contratou, o que configura uma situação ambígua. Em qualquer relação entre duas pessoas, em algum momento, um problema acaba surgindo. Afinal, até em vínculos fraternais ou conjugais problemas existem. O mesmo acontece no trato entre shopping e lojistas. O que faz as parcerias serem duradouras é a predisposição para construí-las e mantê-las. O maior problema que ocorre nas empresas é a falta de integração entre as áreas. Isso acontece nas companhias que compreendem todos os funcionários sob uma única hierarquia e comando e também entre empreendimento e lojistas, cujo contato é regido por regras muito diferentes e mais tênues. A relação entre shopping e lojista precisa ser shopping + lojista. Essa combinação requer um planejamento muito intenso, que contemple o período anterior à abertura do empreendimento, o dia a dia após a inauguração e as situações de crise, que certamente poderão acontecer. A indústria de shoppings se desenvolve todos os dias. Muitos indicadores são controlados diariamente, como vendas e tráfego. Entretanto, com a evolução, chegou o tempo de se pensar na variável que mais garante o tráfego sustentável: a reputação. “Porque é perto”, por exemplo, é um motivo para visita ao mall que não gera resultados a longo prazo. Reputação é construída com muita competência sistemática. É algo que começa com relacionamento e é fomentado por confiança mútua. O resultado final é gerar orgulho na comunidade por frequentar aquele empreendimento. O shopping é uma entidade voltada para o serviço, que envolve o investidor, os administradores, os executivos, os lojistas, os prestadores de serviço, os funcionários do empreendimento, terceirizados e das lojas. Todos esses personagens envolvidos precisam trabalhar pela mesma reputação. O empreendimento pode ser comparado a uma colmeia. A novidade é que a única abelha-rainha é o consumidor. Os outros participantes da colmeia são abelhas operárias. Dessa forma, a maneira mais sustentável de construir reputação é o shopping ter lojas excelentes em atendimento. E este deve ser motivado pela qualidade de relacionamento do empreendimento com o lojista. Outro fator importante é, obviamente, o trabalho que o lojista tem que fazer. O exemplo de relacionamento deve partir do investidor. Empreendimentos não podem imaginar que são entidades financeiras, nem empresas imobiliárias. São organizações de relacionamento. Um shopping deve ter, depois da índole de relacionamento genuíno, uma cultura que garanta esse clima desde a inauguração, em cada expansão e para a vida toda. Com uma cultura explícita e dominante, a comunicação com os lojistas se faz proativa, presente, preventiva. Ela não pode ficar concentrada nos momentos de crise. Uma pesquisa divulgada em convenção recente da federação nacional de varejistas dos Estados Unidos, conhecida pela sigla NRF, mostrou que o valor das ações das empresas que trabalham o relacionamento interno cresce nove vezes mais do que as que não se debruçam sobre esse aspecto. Os lojistas são os verdadeiros guerreiros da manutenção da reputação e dos resultados dos shoppings. Os geradores do ouro. Por isso, os empreendimentos precisam cuidar deles muito bem, sem querer extrair todo o ouro de uma vez. Os malls que respeitarem o lojista terão o respeito dele e todo o esforço que ele puder fazer para honrar o fato de pertencer àquele empreendimento. A administração deve escolher seus lojistas pela competência na operação e em servir. Hoje são muito valorizadas as lojas-âncora, que reforçam o mix e das quais se cobram luvas baratas ou nem se cobram. Essas novas marcas, que são as grandes lojas especializadas de renome, são sempre a bola da vez em concessões. ✻ MELHORES FORMAS DE SE RELACIONAR Ao contrário do que muitos acreditam, o que constrói um bom relacionamento não é o Gerenciamento da Relação Convencional com os clientes (Customer Relationship Management, CRM na sigla em inglês). Quem aposta nessa fórmula entende melhor seus clientes. O modelo ideal é a combinação de Team Relationship Management com Trade Relationship Management. Gerenciamento da Relação do Time x Gerenciamento da Relação com o Varejo constrói CRM de verdade: TRM x TRM = CRM. As pessoas mais importantes para a marca são as equipes. Todas, unidas e integradas em torno de uma causa que irá levar a marca com muita força e intensidade até o cliente final. E trazer de volta para a matriz o impacto positivo ou negativo que a marca teve na ponta, para comemorar sempre que possível e corrigir sempre que necessário. Isso tudo flui numa comunidade de servir que constrói uma espécie de rede neural, que faz a marca percorrer sinapse a sinapse até chegar ao cliente final. Essa comunidade de servir vai construir experiências inesquecíveis – boas, é claro – para os clientes. Passo a passo. De uma área da matriz para a outra, e vice-versa. Da matriz integrada para os administradores de cada shopping que estão perto dos prestadores de serviços e lojistas. E quem está perto do cliente, que recebeu esse tratamento com competência, ânimo e muito carinho, passa para o cliente final com a mesma competência, ânimo e carinho. Que vai comparar, gostar, recomendar e elogiar. Este modelo é diferente do CRM que vem sendo praticado. Não se trata apenas de falar que o cliente é importante e ir de vez em quando à central de atendimento ou à loja ouvi-lo. Isso deve ser feito constantemente por todos na organização. Team Relationship Management, como é isso mesmo? Vale repetir, foco no cliente e em gente começa pelo dono, pelo CEO, que primeiro cuida da equipe próxima a ele, busca gente competente constantemente e é exigente ao contratar. Ele forma, informa e educa seu pessoal o tempo todo e dedica grande parte do seu tempo para ativar as relações intra-áreas. Ajuda a construir ou restaurar diálogos, identificar conflitos e ativar motivações latentes. Pela motivação que tais ações geram, ganha-se muito tempo e dinheiro com a melhoria sistemática de processos. Depois de cuidar do time mais próximo, esse líder sai do seu feudo ou, se tiver poderes para isso, começa a propor a destruição destes. Não por meio de ameaças, mas de desafios. O trabalho é feito por acordos de serviços baseados em duas perguntas: o que vou lhe entregar e o que você vai me entregar? Integrar a matriz e as relações entre esta e os escritórios regionais é condição fundamental para o atendimento virar estratégia de marca. Líderes que percebem a importância de gerenciar ativamente as relações entre os times saem dos seus redutos e começam a comandar o movimento de juntar todo mundo em torno da causa de atendimento. Enquanto muitos preferem cortar custos, esses líderes fazem com que as pessoas consigam dar o seu melhor. O Trade Relationship Management pode ser resumido em uma frase: ou eu cuido das relações com quem leva o meu produto até o cliente, ou estou morto. Não se trata de trade marketing convencional, que usa a gerência de categoria para conquistar mais espaço em gôndola. Esse modelo propõe que todos trabalhem para conquistar torcida a favor de quem vende a marca para o cliente final e dos intermediários: prestadores de serviços e lojistas e quem mais esteja no meio do caminho. E isso é uma reação em cadeia. Do CEO ou do dono, passando por todo mundo, o segurança, o faxineiro, todos.Cuidar do trade é garantir que o funcionário lá na ponta estará fazendo o que você espera e combinou que era para ele realizar, mesmo quando não houver ninguém olhando ou mandando. E isso é o que vai deixar o cliente muito feliz com a marca. Só se consegue o Trade Relationship Management depois de praticar muito Team Relationship Management. Fazer é fácil? Claro que não. É sair de um ambiente de mudança de cultura eventual para um ambiente de cultura de mudança pura. A cada ação de algum cliente, interno ou externo, o shopping tem que mudar. O colega do lado, você, o chefe, o chefe do chefe. Todos têm que agir e reagir para que tudo aconteça na direção e na velocidade planejadas. É diferente de um processo guiado apenas pelos relatórios. Quando se buscam resultados pobres, o relatório dá os sinais de que é preciso cobrar ou pressionar alguém para melhorar. Num processo TRM x TRM = CRM todos se cobram e se ajudam. O tempo todo. Todo mundo se cobrar é muito menos dolorido que um chefe, num dia de reunião, dar uma bronca. E mais eficaz. Propicia evolução constante. E constrói resultado nobre, duradouro e sustentável. Resultado este, que estabelece em cada ponto de contato da construção da marca. ✻ CONSTRUINDO UM CAMINHO COMUM A TODOS: O NORTE ÚNICO COMPARTILHADO (NUC) Relacionamento precisa ter estratégia e implementação. O principal problema das estratégias das empresas é não chegar até a ponta e muito menos integração de todos no foco do que tem que ser feito. O conceito de Norte Único Compartilhado ajuda muito a criar estratégias que mobilizem todos para construir reputação que agregue relacionamentos duradouros capazes de gerar resultados. E para os shoppings, em que a relação com os lojistas é tênue, ter NUC é fundamental, de modo que ele permeie todos os participantes da comunidade de servir. O Norte Único é a formalização da alma do mall, seus caminhos e a direção que ela quer seguir. Norte é direção. Único porque tem foco e porque deve ser absolutamente diferenciado. Ao ser compartilhado, todos no shopping sabem para onde o empreendimento vai. Se todos tiverem propriedade sobre o NUC e entenderem quais benefícios terão ao chegar lá, a probabilidade de uma melhor implementação das estratégias é muito maior. A descrição do Norte Único Compartilhado compreende diagnosticar os valores, definir ou confirmar a causa do shopping, definir o posicionamento, explicitar a essência competitiva ou os focos estratégicos aos quais o empreendimento tem que se dedicar e estruturar as metas a serem atingidas. O objetivo de todas as instituições, principalmente as de varejo, é que haja comportamento coletivo na direção de conquistar e manter clientes para sempre. Esta, afinal, é a única maneira de conseguir resultados. ✻ VALORES: ENTENDENDO A ALMA DO SHOPPING A base de qualquer estratégia é entender em que o shopping acredita –D E ONDE SURGEM OS VALORES O shopping tem vida e alma. O empreendedor do mall lhe imprime um caráter que todos os que se relacionam com empreendimento reconhecem. Funcionários, fornecedores, clientes, concorrentes, todos que dependem do mall ou de quem ele depende sabem responder o que o shopping é. Esse caráter é representado por todos os comportamentos que o empreendimento incentiva seus funcionários a ter. Empresas conservadoras não admitem atitudes em que haja alto nível de risco. Ficar como está é prioritário para elas. Sócios com foco têm empresa com foco. Sócios estruturados têm empresas estruturadas, assim como donos grosseiros têm empresas grosseiras. Quando o shopping cresce, o empreendedor sai da operação e tem seu papel de influenciador diminuído, sobram os resquícios da sua personalidade, a menos que ele coloque alguém para representá-lo com personalidade muito diferente da sua e que tenha coragem de impor o seu estilo. –V ALORES E A COMPETÊNCIA EM CONQUISTAR E MANTER CLIENTES E RESULTADOS Qualquer empresa de varejo tem que se preocupar em vender produtos de grande utilidade cujo valor o cliente se dispõe a pagar. Mas isso não é suficiente. Produtos são comparados por todos em qualquer lugar. Fica cada vez mais difícil conseguir diferenciação. Hoje o cliente só compara produtos se o nível de serviços e atendimento que ele recebe é absolutamente adequado ao preço que ele pagou. Senão haverá pelo menos mais dez concorrentes na área mais próxima em que ele possa comparar o produto. Quem realiza serviços e atendimento em qualquer empresa são as pessoas. Para atingir um nível competente de serviços, deve-se ter na estrutura pessoas que sintam prazer em fazer com excelência o que precisa ser feito. Para isso a base é um mall que acredite e se comporte de maneira a atrair e manter profissionais motivados. Um shopping que acredite que liderança é inspiração, mais que comando. Que construa continuamente um ambiente em que as pessoas se sintam bem trabalhando. Pessoas com descrença no ambiente em que trabalham geram descrença nos clientes aos quais atendem. Quem confia na estrutura para a qual trabalha gera confiança. E só pessoas entusiasmadas podem vir a despertar entusiasmo. Varejo e serviço andam de mãos dadas. Não há hoje nenhuma possibilidade de perenizar qualquer negócio de varejo sem que o serviço percebido pelo cliente seja absolutamente diferenciado. As poucas coisas diferenciadas que se fizerem serão o convite para a volta do cliente. ✻ CAUSA: POR QUE TODOS SE ESFORÇARÃO PARA CONSTRUIR O FUTURO DO SHOPPING –Integrando sonhos Definir claramente onde está o sonho de quem dirige o shopping e como esse gestor pode gerar orgulho em quem trabalha no empreendimento A melhor empresa, com os melhores valores para motivar pessoas, sempre terá um clima de apreensão e ansiedade que vem do ser humano em realizar seus desejos e suas necessidades. A aflição está sempre presente nas empresas. Fica então a dúvida: como canalizar essa vontade de realizar desejos e necessidades? Construindo uma causa para desafiar o shopping. A causa é a única maneira de transformar em esperança a ansiedade sempre presente nas empresas. E esperança misturada com orgulho é o principal combustível que movimenta as grandes organizações. Dois pedreiros empilhavam tijolos em uma construção. O primeiro, cumprindo seu papel de maneira adequada, nem sequer reparava quando algum reboque escorria e tornava sujo o trabalho que realizava. O outro, mais cuidadoso, retirava qualquer resto de reboque e não deixava que a pressa tirasse do prumo qualquer tijolo que empilhava. Perguntado sobre o que estava fazendo, o primeiro disse que empilhava tijolos. O segundo, quando questionado, respondeu prontamente: construindo a nossa catedral. Aí está a diferença. Quem consegue colocar na cabeça e no coração das pessoas uma catedral virtual a ser construída construiu a causa do shopping. –Causa passo a passo A causa é a definição do que o empreendimento quer ser quando crescer. A causa é um sonho a ser atingido num tempo mais ou menos determinado. Na verdade, o tempo não é o fator decisivo na definição da causa. O mais importante é a energia que a causa contém. Essa energia é tão forte que todos os envolvidos na construção da causa se orgulham de contar cada passo dado em sua direção. A causa funciona como um regulador das energias empregadas no shopping. Qualquer estratégia definida que não contribua para chegar mais perto do sonho deve ser deixada de lado. Ao contrário, estratégias dirigidas para a causa são a essência do trabalho e das prioridades do shopping. Empresas com causa medíocre só poderão atingir resultados igualmente medíocres. Então a causa deve conter um forte componente de ambição e incremento de competência. Os mercados estão se fortalecendo, e o jogo pela preferência do consumidor fica cada vez mais difícil de ganhar. Para que a causa geral do mall possa ser atingida, cada área do shopping deve ter claramente visualizada a sua própria meta. Pensar sobre onde cada área vai estar daqui a um tempo é vital. Isso vai moldar o nível de exigência de todos. A discussão aberta dos sonhosprofissionais vai ajudar na integração e contribuir para a compreensão das relações dentro do shopping. Vale a pena aprofundar um pouco o conceito de causa em oposição à missão. Afinal, estamos em épocas em que obedecer não é a energia que alguém pratica. Só se segue alguém se essa pessoa nos ajudar a construir o futuro da nossa vida. –Resultados alavancados por causas empresariais Mais que um motivo para abrir um negócio, qualquer dono de empresa precisa ter um propósito para abri-la ou mantê-la. Propósito transcende o porquê. É para quê? A resposta a essa pergunta dá origem ao DNA da empresa, que pode ser pobre ou nobre. Uma primeira empresa será movida e vai crescer com foco no denominador do negócio. Custos, processos, racionalização. O DNA dela é pobre. Já a segunda empresa, além de sobrevivência e evolução, realiza sonhos, quer construir marca, conquistar reputação, ser falada, querida, preferida e recomendada. Essa tem o DNA nobre. Empresa grandiosa, que vai se tornar referência no mercado, tem DNA nobre. Nessa companhia, o empreendedor realiza seus sonhos. Nas outras, logo depois de abrir ele começa a tocar a empresa como se fosse empregado dela. Pior, um empregado que não gosta de onde trabalha. Próximo passo: o desafio nas empresas de DNA nobre é conseguir repassar o gene do sonho de quem construiu a empresa para todos que trabalham nela. Quanto maior a empresa, mais difícil é repassar esse gene a todos. Um lugar- comum é definir a missão da empresa. Escreve-se a missão, prega-se na parede e espera-se que todos a cumpram. Nada disso. Deve-se transformar o propósito nobre da empresa numa causa que todos considerem bom seguir todos os dias. Missão lembra exército ou cruzada na qual quem ganha nunca é quem luta. Na causa todos ganham. Quem luta, quem lidera e quem convive. Numa empresa movida a causas, não existem as frases “ganhei por minha causa” ou “perdi por sua causa”. Todos perdem e ganham por nossa causa. Na natureza os animais têm quatro atitudes diferentes para se manter vivos e perpetuar a existência de suas espécies. O animal é predador, competitivo, parasita ou simbiótico. Dentro da empresa, qual desses comportamentos é mais construtivo? Poucos predadores sobrevivem por muito tempo, a não ser que a empresa tenha DNA pobre. O predador jamais constrói causas. Os parasitas são destruidores silenciosos. Causas para eles são mentiras defendidas, mas não praticadas. São mais traiçoeiros que os predadores. Os competitivos dentro da empresa aparentemente constroem resultados, mas minam o ambiente. Ser competitivo dentro da empresa é contra construir espírito de equipe. A melhor forma de se portar dentro da empresa, portanto, é ser simbiótico. Ajudar alguém e ser ajudado. Em uma empresa movida a causa, a direção que esta dá é o alimento da ação. Todos são voluntários da causa. E contaminam quem chega perto. A bússola da causa sempre está apontada para o que o cliente e os funcionários precisam. O farol aponta para os caminhos dos atalhos perigosos da redução de custos exagerada, da venda feita a qualquer custo, incentivos em dinheiro substituindo a motivação genuína da liderança, focar no cliente sem considerar o funcionário. Farol é direção negativa. Nas empresas com DNA nobre, esses atalhos nunca são percorridos, sob pena de prejudicar a reputação e de não honrar a causa que todos defendem. Se a direção é clara, as pessoas se integram. Se elas estão integradas em torno de um ideal, nunca reclamam dos processos. Redefinem-nos. E o mais importante: numa empresa movida pela causa, primeiro vem a satisfação de quem atende o cliente. E também, a satisfação de quem atende ao cliente. Quando todos estão muito satisfeitos, irão assegurar que o cliente prefira e recomende a marca. E essas serão as empresas que atingirão o melhor resultado pelo maior tempo possível. ✻ POSICIONAMENTO: ASSUMINDO UM, E SÓ UM, PAPEL NO MERCADO – Estruturar a cara que o shopping quer ter no mercado para seus clientes Empresas com valores fortes e causas bem definidas têm que decidir o que querem ser para seus clientes e, assim, determinar o seu posicionamento. Parece fácil, afinal é uma simples escolha. Mas talvez essa tarefa seja a mais difícil para qualquer negócio. Posicionar lembra diminuir possibilidade de vender. Posicionar é foco, é delimitar estreitar o público. Toda a possibilidade de sucesso de um shopping está atrelada à demarcação de um posicionamento competente. Ao procurar um produto, o cliente se lembra mais facilmente de quem é especialista em fornecer aquele tipo de produto. O cliente tem que perceber o que queremos ser. Quem quer ser tudo para todos é nada para ninguém, e um mau posicionamento alcança a rejeição de muitos clientes. Definir posicionamento é escolher entre o melhor preço e a melhor qualidade. Mais sortimento ou melhor mix de produtos. O melhor atendimento ou autosserviço. O que não dá para fazer é parar no meio. Meio preço e meia qualidade não levam ninguém a nada. O início de qualquer definição de posicionamento estratégico passa pela análise do tamanho do mercado do qual quer participar. Geralmente, há grandes oportunidades se, em relação ao tamanho do mercado, o número de concorrentes potenciais não se mostrar maior que o de oportunidades existentes. Se alguém não é o primeiro em algum conceito, tem que inventar um em que seja o pioneiro. A distinção no conceito quase sempre tem a ver com serviços diferenciados, já que dificilmente os produtos vão permanecer exclusivos por tempo suficiente para que a sua reputação seja consolidada. Além de definir o que o mall quer ser, é fundamental tentarmos identificar e limitar o público para o qual queremos vender. Errar na definição do público- alvo pode invalidar completamente todo o trabalho de execução do conceito do shopping. Produtos para a classe C devem ser vendidos para a classe C. Produtos para a classe A só podem ser pagos pela classe A. Exposição massiva ajuda a aumentar o valor para a classe C. Gerar ideia de exclusividade ajuda a vender produtos para a classe A. ✻ ESSÊNCIA COMPETITIVA Pensar em como colocar o shopping na direção do sucesso é um trabalho difícil, mas varejo tem que ser arquitetado e construído pedaço a pedaço. Apesar de pequeno, o negócio de varejo só pode ser perenizado se os seus criadores levarem sete dias ou mais para criá-lo. Mas quem entende do setor sabe que instituir um negócio é até fácil, o difícil é o dia a dia. A manutenção pode ser a alegria ou a desgraça de quem está nele. As poucas pessoas que fazem parte de um negócio como este têm que estar preocupadas com os mesmos assuntos. Excelência é o objetivo de todas as empresas. Mas não existem sete dias seguidos de empresa suprindo excelência para o cliente. Então se deve racionalizar e tentar fazer a essência. Alocar esforços na direção que vai fazer o shopping ganhar o jogo faz com que os custos sejam minimizados e a estrutura quase sempre pequena de varejo se supere e alavanque resultados e reputação de maneira quase inesperada. ✻ A DIREÇÃO DA ESSÊNCIA COMPETITIVA Definir essência competitiva é pensar no cliente, apesar de muitas empresas, ao definir suas direções, pensarem apenas no que os concorrentes fazem. O que os concorrentes fazem pode não ter nada a ver com vencer na preferência dos clientes. Daí a importância de o varejista ter nas mãos a autoconfiança que pode levá-lo a dirigir o mercado, e não se submeter a ele. Empresas podem copiar alguém no mercado e até ter sucesso ou definir que serão pioneiras naquilo que fazem. As duas têm que mudar rapidamente. As primeiras porque o pioneiro decidiu por elas. As últimas porque decidiram. ✻ A ESSÊNCIA COMPETITIVA PASSO A PASSO Sabendo de novo qual é a vocação do mall, fica mais fácil definir onde concentrar as energias. Como decidir? Primeiro, o número de focos possíveis não pode passar de cinco. Empresas com mais de cinco focos estratégicos não têm, na verdade, nenhum. Cada negócio possui cinco focos diferentes. Para pensar quais são os cinco pontosa serem estruturados, é importante entender por que os clientes escolheriam o seu shopping para visitar se resolvessem comprar algum produto que você vende e, principalmente, por que voltariam a comprar lá. Pense nisso, decida os focos e mantenha-se absolutamente fiel a eles. Só a consistência em realizar a essência competitiva vai levá-lo à vitória na guerra do mercado. ✻ METAS Quando você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho é longe. Gerar sonho é papel da causa do empreendimento. Mas só atinge o sonho quem, além de definir a causa, quantifica os resultados a serem atingidos num determinado espaço de tempo. A definição dos objetivos do shopping deve ser sempre compartilhada. Equipe que participa da definição de objetivos se torna proprietária deles e luta muito mais para atingir todos os itens predefinidos. As metas têm que ser atingíveis, porém precisam ser alcançadas por meio de um grande esforço. Metas inatingíveis são a grande causa de desânimo na maioria das empresas. As metas devem avaliar resultados financeiros e também o reconhecimento dos clientes à prática da essência competitiva. ✻ ÍNDICES DE PERFORMANCE Para que as metas sejam atingidas, o shopping deve dispor de itens de avaliação fáceis de serem acompanhados no dia a dia, não só para o cliente final, mas nas relações entre os departamentos que, integrados, produzem a satisfação dos clientes. Os índices de performance ficam dos dois lados da competência do mall: satisfação do cliente (quanto ele reconhece que cumprimos o que prometemos) e produtividade (quanto custa para fazermos o que prometemos). Empresas que consideram apenas um desses dois lados acabam não existindo por muito tempo. ✻ DESENVOLVIMENTO DOS LOJISTAS Um shopping competente entende que os lojistas precisam de treinamento e que isto não é uma palestra no cinema escuro de vez em quando. Todos os lojistas precisam de um auxílio, e não apenas os de redes pequenas. A grande maioria dos franqueados necessitam de auxílio além da que o franqueador dá. E os funcionários das grandes redes também apreciam a colaboração de um treinamento diferente dos que eles têm nas suas companhias de vez em quando. Os shoppings têm que enxergar – os lojistas também – que treinamento e desenvolvimento são a única maneira de sobreviver e evoluir. Os shoppings investem milhões para atrair o consumidor à marca, mas se esquecem de que quem entrega a promessa da marca é o vendedor, que trabalha com o varejista e que faz o contato final com o querido consumidor. A competência no varejo pequeno tem dois lados. O primeiro é aumentar o profissionalismo. Aí é que o empreendimento deve entrar e ajudar a responder algumas perguntas: como o varejista pode se profissionalizar? Onde ele poderia buscar formação? Como encorajar o varejista a sair da rotina para se renovar? Como evitar investir em soluções que não me darão resultados impactantes? Como medir os resultados, e, principalmente, quem pode me ajudar? A evolução do varejo é o foco a ser desenvolvido. Mais lucro e mais valor agregado na hora da venda do seu produto. Afinal, o varejo competente e satisfeito tem o outro lado da competência muito forte: amadorismo, que é amor àquilo que se faz. E o cliente gosta muito mais de comprar de quem ama o que faz. O foco principal deve ser a formação dos líderes. O trabalho do shopping precisa ser formar líderes que descubram e formem vendedores. Eles são o futuro do comércio. ✻ LIDERANÇA EM 12 PASSOS O conceito de liderança é muito mais simples do que parece. Contudo, implementá-lo é complicado. Liderar é, em princípio, servir àqueles que você quer liderar. E aí começa a nascer a simplicidade do conceito. A menos que você esteja disposto a primeiro servir àqueles que irá liderar, é impossível ser um líder. (1) Líderes são exemplo da ação desejada Líderes de fato agem mais do que falam. Na ação e no dia a dia, exalam as atitudes que esperam que todos tenham. Abaixam-se para pegar coisas que estão no chão sujando o ambiente, não mandam que alguém se abaixe. Se não consegue comunicar seu ponto de vista ou seus pensamentos pelo exemplo, você provavelmente não conseguirá liderar nem a si mesmo. O exemplo dos líderes faz com que as pessoas lideradas confiem neles inteiramente. O bom líder é “nós” e não “eu” em qualquer situação. Exceto nas crises, quando pode assumir e dizer “eu errei”. O maior exemplo que um líder pode dar é o de integridade, demonstrado nas mínimas atitudes. Dizer “bom-dia” ao cruzar o corredor; “obrigado”, quando alguém o ajudar; “eu errei”, quando se equivocar e “desculpa” quando reconhecer. São gotas de integridade que acabam contaminando quem convive sob uma grande liderança. (2) Líderes ouvem generosamente A maior sabedoria do líder está em ouvir generosamente. Ouvir é premissa para entender as reais necessidades de quem depende de nós e daqueles de quem dependemos. O líder que ouve generosamente fica mais perto do que acontece na empresa. Não deixa criar lacunas de percepção da verdade nem conta apenas com os fofoqueiros de plantão para saber o que se passa na empresa. E acaba sendo percebido como alguém que realmente se importa com o que está se passando com seu pessoal. O princípio de ouvir generosamente se espalha pelo ambiente até chegar ao consumidor final. Com isso, as equipes de contato passarão a ser ouvintes que vão captar, dos diálogos com os clientes, as melhorias prioritárias para manter a qualidade da empresa. Um bom líder deve pensar positivamente sobre si mesmo. Isso dá a ele a coragem e a abertura para ouvir tudo o que se tem para dizer. Inclusive sobre ele próprio. (3) Líderes patrocinam a inovação Atrever-se a ser diferente é a qualidade mais importante que possuem os líderes interessados nos clientes. Ser diferente implica em patrocinar gente que queira fazer coisas novas de um jeito inexplorado. O resultado desse incentivo é que todos são inspirados a cultivar o terreno fértil que o líder aduba todos os dias. E ideias acabam sendo plantadas por todos. O produto final é uma empresa absolutamente criativa, que anda na frente em tudo que seja bom para o cliente e na qual as pessoas mais opinam sobre o que deveria ser feito do que sobre o que pode dar errado se for realizado. Nessas empresas, com esses líderes, o medo dá lugar a uma coragem sem igual. A coragem leva a empresa a uma permanente atitude não conformista. A inovação às vezes virá do ato de sacar as pessoas da zona de conforto. Os líderes então não podem ser complacentes e sempre devem achar que pode haver melhores maneiras de fazer as coisas, descobrindo rapidamente que há oportunidades adicionais. Um dilema a mais que surge no processo inovador: a organização tem que gostar de errar. É uma característica humana não querer falhar, e todos os empregos e expectativas do mundo são apontados para não haver falhas. É difícil conseguir ter estômago para reconhecer a importância de errar no processo. Erros na direção da inovação são muito bem-vindos. Mudanças, então, são mais bem- vindas ainda. E a fonte maior de inovação? Ouvir quem está perto do cliente. O que é uma “filosofia de consultar as bases”? É aquela que acredita simplesmente que quase todas as boas ideias surgem de pessoas nas lojas e nos pontos de contato com o cliente final. Os líderes da empresa devem sair, coletar todas essas ideias, agradecer as que não irão funcionar a quem as teve, justificando o porquê da negativa, mas implementar as que são promissoras. A “filosofia de consultar as bases” reconhece que todos têm boas ideias. Você deve selecioná-las e ficar com as melhores. Essa é a atitude mais positiva que acaba envolvendo a organização e gera o tipo de ambiente que você deseja para criar uma empresa realmente inovadora. (4) Líderes educam seu pessoal Os líderes nem sempre têm o direito de contratar todas as pessoas com quem vão trabalhar. Então o melhor que podem fazer com aquelas que os cercam é começar por educá-las, no sentido mais profundo da palavra educar. Líder que é líder não se recusaa fazer papel de pai e de professor quando necessário. No entanto, sempre deve ser respeitada a dignidade de quem se está ajudando. (5) Líderes formam o seu pessoal Cada um de nós tem que programar sua formação. Foi-se o tempo em que as empresas prometiam planos de carreira. Em pesquisas, as pessoas dizem que o que mais querem desse emprego é aprender para o próximo. O maior papel que um líder deve desempenhar no seu dia a dia é o de formador. Nem sempre ele precisa educar seu pessoal, mas formar é fundamental. Afinal, se aprender é a lei, quem melhor para me ensinar do que meu líder? Foi-se o tempo que quem ensinava o pessoal da empresa era a área de recursos humanos. (6) Líderes informam tudo que sabem para seu pessoal As melhores empresas são aquelas que informam por meio da liderança tudo o que afeta o trabalho. Como alguém pode motivar plenamente sua equipe se ela não sabe os fatos que impactam seu desempenho? Líderes de fato fazem o papel que as empresas desavisadas esperam que o endomarketing cumpra: levar a comunicação até o nível mais próximo do consumidor da rede de serviços. Informar tem que ser como batata quente. Passe para o próximo da fila rapidinho senão sua mão vai queimar. Queimar a mão nesse caso é não compartilhar a emoção que a informação traz. A rede de serviços vive da emoção que flui por ela. (7) Líderes integram pessoas e recursos A força da integração na empresa nasce e se dissemina a partir da liderança. Se não houver essa força, cada um vai fazer a sua parte e nada vai acontecer plenamente. Os e-mails são o maior sinal disso. Eles viraram uma maneira de as pessoas conseguirem registrar suas necessidades. E pronto. Registrei e acabou. Se alguém vai resolver, virou problema alheio. Se não há causa comum regida pela liderança que mobiliza quem participa do projeto, a informação simplesmente não flui. Níveis hierárquicos atrapalham a integração da empresa e falta de pactos e acordos pré-combinados entre departamentos e filiais, também. (8) Líderes repassam autonomia para o seu pessoal Líderes com foco no cliente repassam a suas equipes o processo decisório e lhes delegam autonomia para agir. Entretanto, há bons líderes que preparam seu pessoal muito bem nas fases acima e mesmo assim são incapazes de delegar o processo decisório ou liberá-lo. Repassar é a melhor forma de amplificar seu poder. Isso motiva as pessoas, e a autonomia para decidir as desenvolve. Líderes que pensam que fazem melhor do que todos e retêm o poder limitam o crescimento da empresa ao seu próprio tamanho. (9) Líderes dão suporte sempre que seu pessoal precisa É muito difícil delegar num nível avançado. Mas é mais difícil ainda quem recebeu a delegação começar a usar a autonomia e autoridade que recebeu. Se, no entanto, os delegados souberem que vão ter alguém dando suporte no caso de dúvidas ou mesmo de tomada errada de decisão, a situação muda. As equipes acabam se encorajando e exercitando a autonomia com competência, desde que a liderança esteja acompanhando e não “detone” o pessoal que recebeu autonomia se alguma coisa sair errado. O processo de dar autonomia é mais ou menos como aprender a andar de bicicleta. Quem ensina segura a bicicleta até a criança se sentir confiante para continuar sozinha. Dar suporte é, no caso de queda, o pai ajudar com os curativos e dizer que é assim que se aprende. (10) Líderes que “chegam junto” quando a situação aperta O líder que delega sabe que às vezes a situação aperta. E vai lá ver como está, ajudar no que puder e não se esconde de ter que fazer as tarefas que delegou. Líderes que “chegam junto” são vistos como muito menos arrogantes e reforçam o conceito de exemplo. Se eles dão tão duro quando é necessário, como a equipe vai ser menos que muito batalhadora? (11) Líderes desafiam e patrocinam a evolução constante Os líderes devem tirar seus funcionários da zona de conforto quase todos os dias e desafiar muito seus colaboradores sem nunca ultrapassar a barreira da ameaça, pois ela paralisa, enquanto o desafio acelera. À medida que os desafios são cumpridos com sucesso, o funcionário deve ser recompensado e reconhecido. (12) Líderes não param de acompanhar seu pessoal Talvez aqui tenha sido abordada demais a importância de acompanhar. Mas, depois de falar de desafios, dureza e justiça, é preciso voltar ao acompanhamento. Nada do que foi dito até aqui sobre o que o líder deveria fazer substitui o acompanhamento. Ao fazer isso, conflitos são percebidos e soluções, encontradas. O líder sempre redireciona alguém que estiver se afastando da causa, reconhece quem faz bem e recompensa quem “veste” a causa. Ninguém que merece e faz por onde vive sem reconhecimento e recompensa. Acompanhe seu pessoal. Reforçando, estar presente é o melhor presente que o líder pode dar para sua equipe. Sempre. Eles sempre terão a energia que você repassar para eles. ✻ AÇÕES PARA LOJISTASA Todo empreendimento se esforça para o cliente ficar ligado na sua marca. ON total. Entretanto, para manter o cliente ON, o shopping tem de ficar OFF. E não se trata de se manter desligado. A sigla OFF significa Ouvir, Fazer e Falar. Nos esforços de se aproximar do cliente, muita gente não faz nada, fala sem fazer, faz sem ouvir e o resultado não pode ser outro. ✻ OFF – OUVIR É muito comum falar, falar e não parar para ouvir. Ou o que é pior: certas organizações ouvem muito apenas um personagem – o acionista. Ele nem fala muito, mas o certo é que os sistemas de remuneração de executivos se atrofiaram para valorizar principalmente resultados a curto prazo. E isso é quase surdez. No esforço desenfreado para mudar, algumas companhias se dão conta da importância de ouvir. E param. Mas, quando param, tentam ouvir todo mundo ao mesmo tempo e não escutam nada. Listen, ouvir em inglês, tem as mesmas letras que silent, silencioso também em inglês. Ouça quieto. E aproveite o mar de informações que aparecerão. A ordem abaixo mostra todos os públicos que precisamos ouvir: –Funcionários Os funcionários, principalmente os que estão em contato com os clientes, são os porta-vozes deles. Há muita informação sobre o que o cliente gosta e não gosta. Devem ser os primeiros a serem ouvidos. Vão apontar o que pode mudar internamente para ser mais lucrativo, mais humano e melhor de modo geral. –Ex-funcionários É um risco ouvi-los. Pode doer. Eles podem revelar um lado bem ruim da alma do shopping. O que desmotiva as pessoas que estão lá dentro, o que experimentaram e não foi bom no que a liderança fez para eles. –Fornecedores Muita gente acaba se esquecendo de ouvi-los, mas são parte da comunidade de servir e muito fundamentais para a força do negócio. Ouvir os fornecedores é grande fonte de construção de inovação. Os fornecedores sabem antes do tempo o que o cliente vai comprar. Então, por que não ser nota dez com eles? Dessa forma, o fornecedor poderá implantar tendências no shopping. –Clientes Até porque virou moda, isso é obrigação do dia a dia. É preciso ouvir os clientes sempre. Saber o que eles querem, acham e esperam. Senão, como saber o que eles pensam sobre o shopping e sobre os competidores? Apenas ouvir os clientes já os faz gostar mais do empreendimento. –Ex-clientes Como os ex-funcionários, dói ouvi-los, mas é deles que saem as rotas para correção dos rumos, as decisões e as execuções erradas. –Não clientes Há uma mania de começar por eles, mas eles não precisam ser os primeiros. Pesquisas estruturadas são fundamentais porque não clientes não fazem parte do dia a dia. Ouvir sistemicamente é muito importante. O conjunto de ações para ouvir ajuda a construir o plano estratégico “reverso” do shopping. Não o que foi planejado, mas o que aconteceu depois disso. Fontes de renovação de pensamento que deveriam ser o motor de (re)planejar a vida. Todos no shopping precisam saber ouvir. Não apenas o SAC. Muitos empreendimentos já repartiram em dois o cargo de gerente de marketing. Comunicação para fora do mall e comunicação para dentro. Mais do que necessário. Alguémcom quem se possa falar por ofício é a base de uma comunicação proativa e estruturada. Mas isso não exime ninguém de ouvir e falar com lojistas e clientes. ✻ OFF – FAZER Depois de ouvir, é hora de agir. Oriente-se para que as ações gerem o maior impacto possível. Primeiro é preciso corrigir os erros, pois as falhas apontadas impedem o shopping de ser reconhecido como competente. Priorize os erros de alto impacto e fácil resolução. Depois, vá para os de alto impacto e difícil resolução. Ou, se preferir, trabalhe primeiro os de baixo impacto e fácil resolução para encorajar o pessoal. Agora chegou o momento de realmente alimentar o principal indicador: elogios. De vez em quando, é preciso surpreender o cliente com uma coisa que ele nem sonharia em receber. É essa constante sensação de surpresa que faz o cliente voltar. E aí vem a fase mais difícil e mais marcante. No mercado em que atuo, o que ainda não foi feito? Essa resposta irá garantir a surpresa do cliente. ✻ OFF – FALAR Após ser reconhecido, o cliente vai falar daquela marca. Mas não custa dar uma força, caso ele não fale o quanto é preciso para a marca ficar conhecida. Na hora de falar, a ordem dos fatores definitivamente altera o resultado. Geralmente, a comunicação tem mais foco no público externo do que no interno. No entanto, a comunicação deve ser feita de dentro para fora. As companhias insistem em tentar construir uma bela imagem externa, mas se esquecem de que essa só vai ser convincente se tiver uma identidade sólida por trás. A imagem é entregue ou não pela identidade sólida. Identidade que causa orgulho constrói imagem que gera elogios. Caso contrário, o discurso fica vazio, soa falso e ninguém o leva a sério. Com uma identidade bem-construída, a imagem vem como consequência natural. Veja abaixo a ordem ideal em que os públicos devem ser considerados e para quem a comunicação deve ser direcionada: –Para dentro do shopping A primeira coisa a fazer ao falar é dividir com todo mundo o que está sendo feito. Compartilhar objetivos, multiplicar a cultura, mostrar os ideais. Assim, todos irão caminhar juntos e na mesma direção. Quando chegar lá na ponta, no encontro com o cliente, o pessoal vai falar como se fosse o próprio dono do shopping. Vão se esforçar para fazer o melhor atendimento da vida do cliente. –Para quem ajuda a vender nossos produtos e serviços Esse pessoal quase nunca usa o crachá do mall, mas entra em contato direto com o cliente e, com uma comunicação forte voltada para eles, irá buscar a reputação da marca em cada contato. Faça com que se sintam parte do shopping. –Para os clientes atuais Estes são privilegiados na nossa comunicação. Qualquer novidade, seja ela lançamento de produto, liquidação, alguma promoção especial, não importa: primeiro para eles, que devem sentir que o seu empreendimento os privilegia. –Para os ex-clientes Conte para eles as mudanças que ocorreram no mall e o que chegou de novidades positivas e chame-os para conferir a diferença. –Para os futuros clientes Agora, sim, chega a hora de falar com eles. O ideal seria que nem fosse preciso, que só o boca a boca já falasse por si. Aliás, essa é a melhor comunicação que existe. É nela que qualquer pessoa mais confia e dá atenção. Saia do convencional, pense novo. Atinja o cliente quando ele menos espera. ✻ CANAIS DE COMUNICAÇÃO COM LOJSTAS Quem ouviu de verdade o cliente deve ter percebido a maior oportunidade que um shopping tem de construir uma relação com os lojistas. A associação de lojistas é uma forma de instituir um diálogo organizado com eles. Todavia, a associação não substitui a comunicação fluida com todos. O administrador do mall pode ser o grande líder desse contato. Quando ele tem a força das grandes redes, mais ainda. Ele pode atrair fornecedores das lojas e negociar em nome delas condições especiais para seus operadores. Ele tem a força de uma cooperativa e escala para tratar com operadoras de cartão de crédito, financeiras e provedoras de telecomunicações, que podem se beneficiar do número de lojas e economizar esforço comercial. Processos contínuos de capacitação muitas vezes são inatingíveis para lojistas individuais. Muitos shoppings já perceberam isso e contratam empresas para ajudar seus lojistas e vendedores, mas ainda em nível superficial. Planos de saúde, de pensão e clubes de relacionamento de vendedores são outras oportunidades. ✻ ERROS MAIS COMUNS NA RELAÇÃO COM O LOJISTA Há cinco erros principais muito comumente cometidos na relação lojista + shopping (1) Síndrome mútua da pequena autoridade: administradores de empreendimentos e/ou lojistas, por insegurança ou defesa, ficam muito resistentes a qualquer interação. Isso começa um ciclo de bloqueio que não leva a nada. Administradores que se aproximam mais dos lojistas ganham sua confiança e, no mínimo, tornam-se seus interlocutores. Quem se afasta não ouve, não ganha confiança e acaba fazendo um trabalho ausente. O mesmo vale para lojistas que se afastam e não falam o que pensam para o empreendimento. (2) Shoppings sem NUC: sem estratégia nada vai acontecer na direção da construção de reputação. Ou, pior, cada um vai fazer algo diferente. Além dos planos de comunicação, os shoppings devem compartilhar causas de atendimento. Só assim se gerará orgulho em todos os participantes da comunidade de servir, até chegar ao cliente final. (3) Achar que atendimento se constrói com campanhas de incentivo e cliente oculto: atendimento só é construído com muita capacitação motivada por uma causa de construir uma reputação maravilhosa e relacionamento em toda a comunidade de servir. Campanhas de incentivo e clientes ocultos servem apenas para sedimentar a construção de atendimento. O combustível verdadeiro é a liderança. (4) Não entender para quem se trabalha no shopping: todos trabalham em qualquer empreendimento para as pessoas mais humildes que lá estão: o pessoal da segurança, da limpeza, quem dá o sangue vendendo nas lojas e prestando suporte. Esse pessoal é o motivo de tudo. O cliente só será bem atendido se esse pessoal for bem contratado e bem tratado para repassar essa felicidade para o cliente. (5) Pirâmide invertida: o shopping deve ser visto como uma colmeia em que todos são inspirados pela energia que vem do topo da pirâmide. Na verdade, a pirâmide do shopping é invertida: o investidor está embaixo, dando suporte e inspirando todos a tratar o cliente com excelência. A instituição responsável por administrar uma rede de shoppings precisa ser uma facilitadora que auxilie cada empreendimento a conquistar seu brilho próprio. O corporativo tem a função de preparar a retaguarda, elaborar os guias de como a marca será utilizada (guides de marca), estabelecer padrões e ajudar na obtenção de resultados efetivos em suas ações. A administradora busca otimizar os gastos por meio dos ganhos em escala. Isso vale desde a contratação de bens e serviços comuns, como compra de premiação (carros, por exemplo) e decoração de Natal, até a gravação de comerciais de TV e compra de mídia. Unificar o trabalho de comunicação entre os empreendimentos da mesma rede traz ganhos financeiros consideráveis, mas cada caso precisa ser avaliado individualmente para que não haja comprometimento do posicionamento e da imagem de cada shopping. Os empreendimentos têm um local de atuação e precisam de ações regionais para se comunicarem com o público e se relacionarem com as instituições do entorno, como escolas, parques, universidades e teatros. Dessa forma, não há como todas as ações serem decididas a distância pela matriz. Uma empresa que administra vários shopping centers no Brasil testou diversos modelos de ações unificadas de marketing até chegar ao que considerou ideal. Primeiramente, tentou fazer uma campanha única para todos os empreendimentos, com identidade visual, mensagens e prêmios semelhantes. Esse processo começou na escolha de uma única agência para realizar todo o serviço, em lugar de cada mall contratar a sua, como era feito antes. Esse grupotrabalha com diversos tipos de empreendimentos, como shoppings considerados líderes regionais que atendem diversos públicos, unidades voltadas para a classe C e para o público A. Devido a essa diversidade, unificar a campanha não trouxe os resultados esperados. Num segundo momento, os centros de compras dessa companhia foram divididos de acordo com o perfil e agrupados em clusters, como empreendimentos familiares, fashion, shoppings de bairro etc. Cada um desses clusters passou a ter uma campanha unificada, cujo material era adaptado a cada empreendimento. Depois de mais algum tempo, a mesma administradora optou por deixar a formação dos grupos mais flexível. A cada ação, formam-se parcerias para a realização de campanhas, de acordo com o objetivo e a situação de cada mall naquele momento. Se três unidades do grupo voltadas para o público de alta renda pretendem fazer uma campanha de Natal com foco institucional enquanto outra prefere investir mais na realização de um sorteio, as três primeiras podem pensar numa ação em conjunto, e a quarta pode fazer a promoção sozinha, por exemplo. Tudo negociado caso a caso, sem deixar de lado os benefícios das ações compartilhadas. Segundo Laureane Cavalcanti, se o grupo decide distribuir o mesmo prêmio em todos os seus empreendimentos, pode se deparar com duas questões: a logística e a preferência de cada público. No caso de carros, pode-se sortear o mesmo veículo em diferentes regiões, mas em quantidades diferentes de acordo com o perfil de renda que cada shopping atende. A executiva da Sonae Sierra Brasil explica que para contornar essas diferenças, uma alternativa é buscar distinções na forma de comunicar a promoção, que enfatizem em um mesmo item aspectos diferentes que sejam mais atraentes para cada público. Um carro de luxo pode ser destacado pelo seu conforto e beleza ou simplesmente pelo seu valor monetário, por exemplo. Laureane relata que o grupo notou que em alguns lugares do País, a preferência do frequentador era de ganhar motos em vez de carros. Em Manaus, houve o caso mais curioso: detectou-se que o prêmio dos sonhos era um jet ski. Por outro lado, a diferença regional traz vantagens logísticas. Se o shopping decide sortear o mesmo modelo de carro em vários estados do País, precisará arcar com os custos de entrega dos veículos em cidades muito distantes umas das outras, o que anularia os ganhos de sinergia em alguns casos. Ou a negociação poderá ser feita isoladamente, com concessionários locais, mantendo, assim, os ganhos em escala obtidos na produção da campanha publicitária. Tudo precisa ser conferido na ponta do lápis. Prêmios como viagens, que podem ser compradas em uma única agência e não possuem custo de frete, podem ser negociados em conjunto, com destinos diferentes de acordo com o interesse de cada localidade. A unificação de contratos com agências de publicidade permite reduzir custos, já que um modelo de campanha pode ser replicado em vários locais, ao mesmo tempo ou em épocas diferentes. O mesmo vale para a produção das peças publicitárias, como comerciais de TV, que podem ser preparados em lote por uma mesma produtora, com algumas modificações de acordo com o público- alvo. O desconto é ainda mais interessante para a preparação de material impresso: as gráficas reduzem o valor de acordo com o volume de impressão e cobram menos quando o material para toda a rede é impresso de uma vez. A compra de mídia em jornais, rádios e TVs segue a mesma lógica: ao negociarem juntos, os shoppings conseguem preços melhores e opções para comprar pacotes com vários anúncios ao longo de um determinado tempo, por valores menores. A otimização de recursos acontece também na hora de contratar eventos. Com uma lista de vários empreendimentos, é possível fechar uma série de apresentações de artistas ou eventos ligados a personagens licenciados. Quando se trata de um projeto educativo, aumenta o interesse da grande imprensa, pois a ação será realizada em vários estados e estará à disposição de um público maior. ✻ IDENTIDADE ENTRE A MESMA REDE Usar ou não o nome do grupo em todos os shoppings da rede é uma escolha estratégica, feita com base em diversas variáveis. Alguns grupos têm suas marcas corporativas associadas pelos clientes a um padrão de qualidade superior. Esse conceito é criado pela identidade visual semelhante, mas mantido e reforçado a cada dia pelo nível de atendimento e dos serviços, do mix de lojas e pelo conforto proporcionado. A definição de quais malls assinam com o nome da empresa ou não segue estratégias de posicionamento e a maturidade de cada um, e os detalhes são definidos para cada empresa. Alguns itens considerados são o número de shoppings existentes na cidade, se aquele é o principal empreendimento da região ou não e se há outros da mesma rede que já usam a marca e até mesmo a estratégia de crescimento da empresa. Além do logo e do nome, outro item que pode trazer a assinatura do grupo de empreendimentos é a arquitetura semelhante entre os empreendimentos, como pé-direito, iluminação, cores e desenho das fachadas dos edifícios, espaço dos corredores, tom do piso, qualidade dos banheiros e identidade visual das placas de orientação dentro do empreendimento. Mesmo que as unidades não tenham o mesmo nome, esses elementos visuais em comum podem ser adotados como sinais de identificação, para que o cliente consiga saber que está em um shopping daquela empresa assim que adentrar o espaço. No negócio de shopping centers, é mais comum que os empreendimentos sejam a sustentação das marcas corporativas, e não o contrário. Ou seja: a marca de cada empreendimento é mais forte para seus clientes do que a marca do grupo. O cliente que conhece o shopping “XYZ São Paulo” e encontra o “XYZ Bahia” imagina encontrar nesse segundo a mesma qualidade que conheceu na unidade de São Paulo. Nesse exemplo, a marca “XYZ” faz sentido por refletir a excelência de seus shoppings. Cada centro de compras tem conhecimento sobre o mercado onde atua e algumas vezes precisa fazer ações mais ou menos agressivas para se adaptar ao cenário local. Esses empreendimentos precisam ter autonomia para diferenciar suas ações das do resto da rede, desde que essas decisões sejam aprovadas pela matriz, de modo a garantir o posicionamento e o cumprimento da estratégia de marketing da empresa. O mix de lojas, de alguma maneira, deve atender às necessidades e aos desejos do consumidor. Como o sucesso do empreendimento depende da satisfação dos seus frequentadores, o papel do planejador ou do administrador é promover a composição e seleção das lojas, restaurantes e equipamentos de lazer e serviços que serão instalados no local. A composição do mix de lojas começa ainda na fase de planejamento do empreendimento, quando se define o público-alvo que aquele projeto deverá atingir, se entendem as suas preferências e como ele será atendido em relação à diversidade do varejo. Nessa fase, estudos e pesquisas, especialmente na área do geomarketing (ver capítulo específico), irão revelar o perfil socioeconômico e as demandas de consumo dos futuros frequentadores. Esses levantamentos são as primeiras ferramentas para a ocupação da Área Bruta Locável (ABL). A partir daí serão estudados as necessidades e os comportamentos da cidade ou região do novo empreendimento. Serão analisadas, por exemplo, as demandas por produtos regionais ou até aqueles muito específicos, como equipamentos náuticos, no caso de uma cidade litorânea. Outro fator importante refere-se à identificação e à presença ou ausência na cidade ou região das principais marcas de varejo nacional e sua relação com o mercado consumidor local. Isso não significa, necessariamente, que determinada marca deva ou não estar presente no futuro shopping, mas pode ser um indicador de oportunidade para a atração do consumidor local. ✻ DISTRIBUIÇÃO DO MIX O principal aspecto a ser considerado para a composição do mix de lojas de um determinado shopping é a diversidade. A partir do conhecimento do conjuntode demandas de um determinado mercado consumidor, o objetivo do trabalho de planejamento é proporcionar a distribuição dos espaços entre as diversas atividades, de forma a promover a melhor aderência possível entre a oferta de produtos e a demanda do mercado. Nessas condições, é de fundamental importância que o mix de lojas compreenda o maior número possível de atividades varejistas, atendendo, assim, à maioria das demandas de seus consumidores por bens e serviços. Além da diversidade de segmentos, também é necessário lidar com o conceito de profundidade: oferecer variedade de opções ao consumidor em relação a um mesmo produto. O cliente quer sempre o maior número possível de opções para que possa comparar preços e produtos. Não basta oferecer uma loja de sapatos, de eletroeletrônicos ou mesmo de vestuário. O mesmo acontece na praça de alimentação. Se não houver suficiente variedade de opções, o conjunto de alimentação não vai conseguir atrair o público de forma recorrente e crescente. A localização das atividades pelas diversas áreas do projeto deve atender a alguns requisitos básicos. O principal deles é garantir a circulação mais homogênea possível dos frequentadores por todo o mall. Não é desejável que existam espaços “apagados” e “desertos” pela falta de consumidores transitando pelo local. É necessária uma distribuição eficiente dos comerciantes, que garanta a irrigação de pessoas por todo o empreendimento. Mais recentemente tem-se perseguido a identificação de oportunidades de vendas cruzadas (cross selling), promovendo uma maior sinergia entre os segmentos, através da localização conjugada de atividades varejistas complementares para o consumidor. Uma loja de artigos para bebês, por exemplo, deve estar próxima à de roupas para gestantes ou brinquedos. ✻ O POSICIONAMENTO E O LOJISTA O empreendimento, em todos os momentos da sua existência, deve ser um objeto de desejo não apenas para os clientes finais, mas também para os lojistas. Na fase pré-operacional, é necessário demonstrar as vantagens competitivas do empreendimento, os aspectos positivos de sua localização, as qualidades do projeto e a credibilidade do grupo empreendedor. Esse conjunto de fatores será essencial para convencer o comerciante ou o grupo varejista a investir no novo projeto. Na fase operacional, a dinâmica não muda muito. O shopping deve dedicar atenção especial ao consumidor final e estabelecer um diálogo constante para medir os níveis de satisfação e de aderência de seu produto às expectativas do mercado. Após a inauguração, além dos conhecimentos e ferramentas de pesquisa utilizados durante a fase de planejamento, o administrador passa a dispor de um volume importante de informações para orientar o seu trabalho. A partir daí, o shopping começa a ter números reais para basear suas ações e, através da análise competente desses números, captados em pesquisas periódicas, é possível: –Perceber oportunidades de melhorar ainda mais o segmento que não está satisfazendo os consumidores. –Identificar, por meio das pesquisas, as marcas que despertam desejo nos consumidores e que integram ou não o mix de lojas. –Ajustar o mix de lojas de acordo com as novas tendências do mercado de varejo. Um bom exemplo, nesse caso, refere-se ao conceito de alimentação, que tem passado por uma série de transformações nos últimos anos. A praça de alimentação clássica, atendida apenas por operações de autoatendimento, começa a ceder um espaço cada vez maior para lanchonetes e restaurantes mais sofisticados, inclusive com serviço nas mesas. Na fase operacional, o administrador deve estar permanentemente atento ao consumidor, identificando suas necessidades e desejos no leque de opções de consumo à sua disposição. Tendo como horizonte a maximização dos resultados, o administrador consegue, com mais segurança, estudar a eficiência do mix de lojas, o que foi acertado e aquilo que é necessário ajustar. Sob o ponto de vista da definição do posicionamento mercadológico que o shopping deverá ocupar, o administrador deverá sempre considerar a importância da atratividade para o lojista. O desejo de um varejista participar de um determinado empreendimento está associado evidentemente ao seu potencial de vendas e de penetração em um mercado específico, mas também, de forma menos objetiva, à sua capacidade de agregar valor à sua marca. Há casos em que comerciantes preferem pagar um aluguel mais alto para estarem estabelecidos em um shopping com maior credibilidade e/ou tradição no município ou mesmo no bairro. ✻ OPERAÇÕES ESTRUTURADORAS E DE DIFERENCIAÇÃO A instalação de marcas conhecidas nacionalmente é importante para a consolidação do mix de lojas. São lojas de redes que atraem o público por seu conceito, pela força de sua marca e por sua presença e destaque no cenário nacional. Essas marcas acabam estando presentes na maioria dos shoppings, muitas vezes ancorando o empreendimento. Entre as principais representantes desse conceito, podemos destacar as lojas de vestuário de grande superfície, empresas de serviços, redes de franquias e operações de fast food com capilaridade nacional. Essas redes, que geralmente ocupam grandes espaços, são as marcas estruturadoras de um mall e que garantem ao consumidor o preenchimento da maioria de suas necessidades básicas. Há também as chamadas marcas de diferenciação. São aquelas encontradas em apenas um lugar. Por exemplo: um determinado varejista vai atrair um grande público de um determinado mercado àquele shopping center porque só ali o consumidor vai encontrar aquele produto. O cliente valoriza a diferenciação e, especialmente em um mercado mais competitivo, tende a preferir um empreendimento que não possua apenas as marcas comuns a todos os outros centros de compras que ele tem à sua disposição. Mais recentemente, as atividades ligadas ao entretenimento têm atraído um público diferenciado e qualificado. São os casos, por exemplo, de megalivrarias, conjuntos de cinema com salas de alta tecnologia e restaurantes com serviço. É possível relacionar o nível de diferenciação necessário ao sucesso de um empreendimento às características do mercado que ele almeja atender. Mercados mais democráticos, direcionados à população de renda situada no patamar intermediário da pirâmide social, requerem um conjunto de atividades com uma característica mais voltada às opções de redes estruturadoras, como os magazines citados acima. Esse perfil de consumidor busca a inclusão e procura o ingresso no mercado consumidor através da associação com marcas já consagradas. No caso de mercados em que o consumidor tenha um perfil mais direcionado às camadas superiores da pirâmide social, torna-se necessária a presença de lojas e redes mais exclusivas e que ofereçam artigos menos disponíveis em outros endereços. Nesse caso, o cliente busca diferenciação e exclusividade. Em qualquer caso, é de grande importância a consistência entre o posicionamento proposto e o conjunto de marcas presentes no shopping. Um determinado mall que se posicione de uma maneira mais exclusiva não pode surpreender o seu público com operações de varejo orientadas ao segmento mais popular, sob pena de frustrar a expectativa do consumidor. Em contrapartida, se um shopping tem seu posicionamento mais democrático, não poderá deixar de disponibilizar ao seu consumidor as marcas que o atendam adequadamente, seja em termos de preço, crediário ou comunicação. ✻ REVISÃO DO MIX Problemas de gestão podem fazer com que o empreendimento se distancie das oportunidades de mercado. Quando isso acontece, é necessário um trabalho de recondução de rota, que envolve todos os setores da administração, inclusive o seu mix de lojas. Nessa circunstancia é necessário retornar ao princípio e realizar novas pesquisas de mercado, captar o que não está agradando o cliente e começar um trabalho de reposicionamento. Nesse ponto, o marketing deve estar atento às oportunidades e auxiliar no trabalho de reposicionamento. Em muitos casos ainda, há um erro de concepção, emque o posicionamento mercadológico proposto inicialmente para o shopping não encontra êxito no mercado em que está inserido. Em determinadas situações, o projeto voltado para um segmento da população é mais aceito por outro segmento, exigindo uma requalificação do mix de lojas, de forma a ampliar a penetração nesse outro segmento, melhorando o desempenho de vendas e, consequentemente, de aluguéis. ✻ EXPANSÃO DO SHOPPING A fase de expansão ou reforma de um shopping é um excelente momento para ajustes, renovação, adequação e atualização do mix de lojas e do reposicionamento do empreendimento no mercado local. É necessário lembrar que o consumidor não é estático e seus desejos de consumo mudam e se atualizam ao longo dos anos. E o empreendimento deve acompanhar essa atualização e as mudanças no comportamento do público. No momento em que é concebida a expansão, o próprio mercado varejista já pode ter mudado em relação à época da inauguração. Atualmente, grande parte dos novos empreendimentos é inaugurada já contemplando um projeto futuro de expansão. Nesses casos, o conceito básico da expansão é definido antecipadamente, mas o detalhamento do projeto será efetuado na ocasião da efetiva execução, de forma a possibilitar a melhor compreensão das necessidades do consumidor nesse momento e permitir a captura das novas tendências. Quando a reforma acontece, consolidando a oportunidade de corrigir o mix de lojas, adequando-o às novas necessidades e desejos do público frequentador, é importante que o projeto arquitetônico seja uniforme e harmônico. Nos últimos anos, houve uma série de mudanças em relação ao mercado de shopping centers. Uma das mais notáveis é a ampliação das operações de lazer e entretenimento. Se antes os malls eram considerados apenas centros de compras, hoje são espaços eleitos pelas pessoas para seus momentos de lazer e descontração. Diante disso, um processo de ampliação pode dedicar maior atenção às áreas de entretenimento e gastronomia. Outra área que ganha espaço no mix de lojas do mall é a de serviços. Academias de ginástica, pet shops e operações de serviços em geral ganham um espaço cada vez maior, muitas vezes em consequência das transformações ocorridas nas próprias cidades. Se antigamente a pessoa frequentava uma academia de ginástica próxima à sua casa, hoje em dia ela pode frequentar a do shopping próximo ao seu trabalho, para evitar o trânsito pesado do final ou do começo do dia. ✻ RETORNO SOBRE O INVESTIMENTO Por derradeiro e não menos importante, importa destacar que a composição do mix de lojas também deve levar em consideração a taxa de retorno desejada pelos empreendedores, obtida, principalmente, pela locação dos espaços para as lojas. As tradicionais lojas-âncora, de alta relevância para a consolidação de grande parte dos novos empreendimentos, tendo em vista a composição de sua margem operacional, demandam o pagamento de valores de locação inferiores à média geral do mercado. Essa menor remuneração deve ser compensada pela sua capacidade de atrair consumidores, pela força de sua marca e de seu sistema de crediário, objetivando aumentar e qualificar a frequência de clientes no empreendimento e, consequentemente, beneficiar todo o conjunto de varejistas ali instalados. O empreendimento deve ser viabilizado do ponto de vista financeiro sem deixar de ser atraente pela diversidade e atratividade das lojas. Nesse contexto, é necessário desenvolver um mix de lojas que tenha qualidades para atrair o público através das marcas mais relevantes e das lojas-âncora, sem prejuízo do retorno financeiro, para os empreendedores do mall. A receita do aluguel das lojas deve ser, portanto, equilibrada, de forma a oferecer retorno financeiro ao investimento inicial e garantir a manutenção do funcionamento do shopping. A época de Natal é uma das mais importantes no calendário de eventos dos shopping centers. Em alguns casos, estima-se que os meses de novembro e dezembro respondem por até 40% do total de vendas anuais dos lojistas. Por isso, a decoração natalina nos espaços comuns exige atenção redobrada dos gestores, em especial do departamento de marketing, que geralmente é o responsável pelas ações de Natal. Diferentemente de outras datas importantes, como o Dia das Mães, dos Pais e dos Namorados, as comemorações de fim de ano exigem cuidados redobrados dos gestores em relação aos adereços e eventos característicos da época, como os sorteios e promoções. Nos primeiros anos dos shoppings no Brasil, a decoração de Natal seguia a tradição do comércio de rua: apenas uma lembrança ao cliente de que o fim do ano tinha chegado e que era o momento de ir às compras. Com o crescimento e a evolução do mercado, o amadurecimento do setor e dos consumidores e a concorrência entre os malls, em especial nas grandes metrópoles, os gestores passaram a valorizar fortemente o assunto, que geralmente é responsabilidade do departamento de marketing. O que era apenas uma “decoração de Natal” passou a ser uma “experiência de Natal” ou “atração de Natal”. É justamente essa atração responsável pelo diferencial entre um empreendimento e outro que se transformou em uma complexa ação promocional de marketing e comunicação integrada, cujo objetivo final é aumentar o público frequentador e as vendas, além do retorno institucional. Para atingir essa meta, é necessário que as ações consigam: –Reter o público fiel. –Conquistar novas fatias de frequentadores por meio de experiências que atraiam pessoas que normalmente vão a outros shoppings. O sucesso de uma experiência de Natal depende de um bom planejamento, que começa muito antes das festas. Apesar do curto período em que fica instalada, a decoração natalina é um processo que dura praticamente o ano inteiro. Em fevereiro, as empresas especializadas já colocam à disposição dos clientes as novidades e as tendências do setor e os primeiros projetos começam a ser desenvolvidos. No período, os fornecedores também já estão a par das novidades referentes a decorações no mercado internacional e as colocam à disposição dos malls, para a elaboração das propostas. A partir do briefing com o cliente, são elaborados o projeto arquitetônico, as cenografias, os prazos para a montagem etc. Quanto mais o shopping demora para se decidir e colocar em prática seu plano de Natal – o que inclui o orçamento previsto –, mais dificuldades encontrará para apresentar a decoração ao público, no final do ano. Em maio, as empresas especializadas já estão na fase de execução dos projetos, que inclui a construção de maquetes, casas do Papai Noel, castelos, personagens etc. Uma decoração completa tem, em média, de 3.500 a 4.000 itens, desde um simples castiçal na mesa do Papai Noel até o castelo do conto de fadas. O processo de montagem em si começa em outubro e vai até o começo de novembro, quando geralmente as decorações são inauguradas. Diante da importância da data para os lojistas e do aumento das vendas no período, a tendência nos próximos anos é que a decoração seja entregue ao público cada vez mais cedo. Em alguns casos, o calendário de festas começa já no mês de outubro, de forma a estimular o consumidor a fazer suas primeiras compras. Durante todo esse período, é necessário ao gestor de marketing um planejamento sério e um cronograma rigoroso, já que a logística, em todas as etapas, é complexa e geralmente com prazos curtos, em especial na montagem. Além disso, muitas vezes o instalador se depara com problemas como subdimensionamento do espaço, problemas na distribuição de energia elétrica e falta de comunicação entre o departamento de marketing e outros setores, como a segurança – geralmente os cenários são montados fora do horário comercial, sempre madrugada adentro. ✻ A DECORAÇÃO NATALINA ENQUANTO DIFERENCIAL Atualmente, há cerca de 70 shopping centers instalados apenas na capital paulista e cidades da Grande São Paulo, onde se encontram alguns dos principais players de decoração natalina. Além da distância, quais outros fatores são relevantes para opúblico diferenciar um estabelecimento do outro? Se a experiência for boa, uma parcela do público começa a raciocinar da seguinte maneira: “Vou até aquele shopping porque lá tem uma experiência de Natal bacana, com personagens que minha família gosta. Quando fui lá ver a decoração natalina, descobri que o mix de lojas é bom e atende às minhas necessidades”. Dessa maneira, um novo cliente foi conquistado. Isso vale tanto para as pessoas que frequentavam apenas os locais próximos à sua residência, por uma questão de comodidade, como para aqueles que deixavam de ir a um shopping perto de casa ou do trabalho por achar que ele não se encaixava no seu perfil, sem ao menos conhecê-lo. ✻ USO DA TECNOLOGIA E PATROCÍNIOS A tecnologia avançada está cada vez mais presente no dia a dia das pessoas. Isso também vale para os projetos de decoração. Há algum tempo, os projetos apostam na interação e nas novidades tecnológicas, que integrem e/ou acrescentem aos elementos clássicos do Natal efeitos especiais, robótica, iluminação LED e outras inovações. Por isso, uma atração não pode se restringir à decoração tradicional, mas interagir com o público de alguma maneira, para que seja uma verdadeira experiência de Natal. Não podemos perder de vista que o shopping, mais do que um centro de compras, é um lugar de grande interação social. Em uma sociedade em que a internet e o mundo virtual são preponderantes, o mall é uma das pontes para o “mundo real” e a interação física entre pessoas e grupos. Brinquedos tradicionais, como o pula-pula, o trenzinho e o escorregador, continuam sendo grandes atrativos para as crianças menores, de até sete anos de idade. A partir daí, o público infantil, em especial nos dias de hoje, solicita algum tipo de inovação tecnológica, resultado da forte influência da internet e dos videogames. Ao contrário do que acontecia antigamente, atividades e instalações como rodas-gigantes, escorregadores e outros aparelhos de parques de diversões, por si sós, não atraem as crianças mais velhas e os adolescentes, que preferem “emoções mais fortes”, proporcionadas pelos games. Contudo, os brinquedos atraem todos os tipos de público. A interatividade e a inovação tecnológica também são instrumentos importantes para que sejam realizadas parcerias entre os gestores do shopping e as empresas privadas. Uma fabricante de computadores, por exemplo, pode patrocinar o projeto de decoração natalina que trabalhe os conceitos clássicos do Natal com as tecnologias modernas. Um exemplo possível é a construção de um Papai Noel que utilize um notebook para conferir a lista de presentes pedidos pelas crianças. Nesse caso, dois conceitos são trabalhados em conjunto: o tradicional personagem e a tecnologia como elemento importante no dia a dia das pessoas. A parceria, além de apresentar novidades ao público, também tem um retorno financeiro, já que pelo menos parte dos gastos da experiência de Natal será custeada pelo patrocinador, otimizando os recursos do fundo de promoções à disposição do marketing. Ou seja, utilizando uma frase popular, é possível fazer mais com menos dinheiro. Em geral, os departamentos de marketing costumam utilizar cerca de 30% da verba anual do fundo de promoções com o chamado “pacote de Natal”, que inclui o pagamento das campanhas de divulgação, a decoração e as promoções, como sorteios de carros e brindes. ✻ PÚBLICO O projeto de decoração de Natal tem como foco principal atingir a família, em especial as crianças. Afinal, se a proposta consegue atingi-las, é muito provável que toda a família seja conquistada e as chances de sucesso são maiores. Nunca é demais lembrar que o Natal é um período com um forte aspecto emocional, que geralmente nos remete às lembranças da infância e à união da família. Por isso, se a campanha como um todo atingir o filho, é muito provável que os pais também sejam conquistados e a experiência de Natal seja um sucesso. Em grandes shoppings, em especial os mais populares, geralmente voltados para as famílias, onde o público é extremamente necessário, uma decoração que valorize muito a interatividade com as crianças e os adolescentes, jogos, brincadeiras e atrações culturais são importantes para cativar e aumentar a satisfação do cliente. ✻ CONSTRUÇÃO DE MARCA Quando um empreendimento promove uma experiência de Natal diferente e atraente a cada ano, ele passa a construir uma identidade junto ao consumidor, que associa o estabelecimento ao conceito desejado. Por exemplo: se a decoração traz elementos modernos, ligados às novidades tecnológicas, com exibições em 3D, o shopping passa a ser conhecido como um local que investe em inovação. O mesmo vale para o estabelecimento que investe em uma imagem clássica, em um processo igualmente positivo, assim como os resultados, conforme o público desejado pelo estabelecimento. Um conceito que cresce cada vez mais é o da sustentabilidade ambiental. Um projeto pode, por exemplo, inserir conceitos como a reciclagem e a racionalização do uso da água e da energia. ✻ PARTICIPAÇÃO DOS LOJISTAS Antigamente, a participação dos lojistas na seleção e escolha da decoração era mais intensa. Hoje, essa participação tende a ser menor. Com a profissionalização cada vez maior da gestão do shopping, cabe ao departamento de marketing preparar-se para assumir a função, até porque conta com profissionais especializados. ✻ EQUÍVOCOS Como em todo projeto, o gestor está sujeito a cometer equívocos no planejamento e na execução dos projetos de decoração natalina, em conjunto com as empresas especializadas no setor. Para evitar problemas, é necessário ficar atento aos tipos de erro mais comuns. São eles: –Fazer uma decoração meramente contemplativa, sem qualquer tipo de movimento, efeito especial ou interação . Quando se fala em interação, deve- se pensar em brincadeiras como escaladas, passar embaixo da árvore de Natal e outras atividades. Os especialistas do setor alertam que é importante, porém, não confundir a decoração meramente contemplativa com a tradicional e clássica, ainda muito em voga, em especial nos shoppings menores, mais voltados para o público de maior poder aquisitivo, adulto e menos eclético. –Esquecer ou deixar em segundo plano os elementos básicos do Natal . Os valores do Natal, como a árvore e o Papai Noel, devem estar sempre presentes. A ousadia na coreografia e nos adereços é permitida, mas com limites que não descaracterizem as imagens e as figuras, para não provocar insatisfação do público. O Papai Noel, por exemplo, pode ser moderno, interativo e ter outros elementos, mas a essência do personagem deve permanecer intacta. Algumas vezes, recebemos pedidos de decoração com personagens licenciados e precisamos tomar extremo cuidado para não descaracterizar o tema principal do Natal, que realmente é o Papai Noel, e também os principais ícones dessa data tão importante e esperada. – Deixar a execução do projeto para a última hora. Como foi dit anteriormente, as decorações natalinas devem ser planejadas e contratadas com meses de antecedência. As empresas especializadas trabalham com um cronograma rígido, para atender todos os clientes, e podem recusar contratos de última hora por problemas de agenda. – Basear-se em outro empreendimento para fazer a decoração de Natal. A experiência de Natal deve ser única. O que é bom para um determinado tipo de estabelecimento pode não ser bom para outro. Por exemplo: um shopping cuja arquitetura receba muita iluminação natural deve evitar excesso de branco nos adereços natalinos. Esse tipo de adereço é melhor em prédios cuja iluminação predominante seja artificial. – Deixar o gosto pessoal do gestor dominar o projeto. O gestor de marketing é preparado para atender às necessidades e aos desejos do público, com embasamento técnico. ✻ CARACTERÍSTICAS REGIONAIS As diferenças e costumes regionais podem estar presentes na decoração natalina. Mas, com o processo de globalização, a massificação da informação simultânea e o avanço da tecnologia, isso é cada vez mais raro. Umapessoa de Fortaleza, no Ceará, hoje em dia tem praticamente os mesmos hábitos de um morador de São Paulo (SP) ou Porto Alegre (RS). Na região Nordeste, até alguns anos atrás era imprescindível a presença de um presépio na decoração de fim de ano, em virtude da religiosidade da população. Hoje em dia, a montagem do presépio é menos frequente, mas, mesmo assim, ela é muito apreciada. Outro fator a ser levado em consideração é que as grandes redes de shoppings atuam em praticamente todo o País, o que provoca, mesmo de maneira indireta, certa padronização no conceito a ser utilizado nas decorações. E a tendência é que essa uniformidade seja cada vez mais acentuada, por causa dos ganhos em escala. Uma rede com 50 malls espalhados pelo território nacional aproveita a demanda em escala para negociar com fornecedores, mão de obra etc. É importante destacar que, apesar dessa tendência à uniformidade, os shoppings não podem perder sua individualidade e a diferenciação em relação à concorrência. ✻ MENSURAÇÃO DOS RESULTADOS Não há um método científico e exato para mensurar os benefícios de uma decoração de Natal no contexto dos resultados do mall como um todo – algo como “quanto a decoração resultou em lucro?”. O que é possível, no momento, é comparar resultados com números dos anos anteriores. Por exemplo: em um ano, o número de frequentadores entre o começo de novembro e o dia 6 de janeiro foi de 1 milhão de pessoas. No ano seguinte, no mesmo período, o público saltou para 1,2 milhão de pessoas. Ou seja, houve um acréscimo de 20%. Também é possível comparar resultados de vendas junto aos lojistas. Mas, mesmo assim, é necessário salientar que são comparações genéricas e desprovidas de caráter científico. Também é difícil comprovar cientificamente, e de maneira exata, o quanto a decoração de Natal influenciou nas vendas e qual o retorno financeiro de uma ação notabilizada como institucional. Até porque não é conhecido o caso de algum shopping center que não tenha investido em nenhuma ação ou ao menos um enfeite de Natal. Mesmo em cidades onde há apenas um empreendimento, o estabelecimento investe em decorações natalinas. ✻ PROMOÇÕES DE FIM DE ANO Além da decoração especial, sempre há uma expectativa em relação às promoções de fim de ano, como sorteio de veículos e/ou distribuição de brindes. Há certo consenso de que as promoções têm muito mais efeitos na relação entre o shopping e os lojistas do que nos resultados em si – aumento de público e incremento nas vendas. Não há pesquisas exatas que demonstrem que o sorteio de um carro aumentou o número de frequentadores ou das vendas nas lojas. Porém, é uma maneira de incrementar as ações de Natal. A partir do momento em que o gestor decidiu pela promoção – sorteio de um carro, por exemplo – o ideal é que o departamento de marketing esteja atento para que a ação seja complementar ao projeto de decoração, até por uma questão de divisão do espaço. Como inserir um carro no contexto da decoração? Onde ele deve ficar, de modo a não ofuscar a decoração e vice-versa? Até a escolha do veículo pode ser integrada ao projeto de decoração. Em um tema anual que seja mais ligado a aventuras, por exemplo, poderá haver o sorteio de um jipe, em vez de um modelo tradicional. O “casamento” entre as promoções e as decorações também é importante, para potencializar as ações de Natal, evitando discrepâncias e criando um cenário em que um complementa o outro. O sorteio de uma Ferrari, por exemplo, pode ter muito mais efeito em uma decoração baseada em tons vermelhos, para remeter à famosa marca de automóveis, criando-se um clima conjunto e harmônico e um impacto visual para o frequentador. Outro mote muito utilizado atualmente é o das datas comemorativas do próprio centro de compras. O calendário de promoções do departamento de marketing sempre trabalha com datas especiais, como o aniversário do empreendimento. Efemérides como “dez anos do shopping tal” costumam complementar, ou até ancorar, as festividades de fim de ano. ✻ FACHADAS As fachadas também merecem atenção especial no conjunto de ações natalinas. Nesse caso, os projetos criam um fator positivo não só para o centro de compras, mas para todo o bairro e até para a cidade, o que também estimula a mídia espontânea gratuita e positiva. Nesses casos, empresas especializadas desenvolvem projetos de acordo com as características da região. Trata-se de um serviço altamente complexo, principalmente por causa das características climáticas de fim de ano. Nas regiões Sul e Sudeste, é uma época de muitas chuvas, o que exige um planejamento técnico detalhado e complexo, para evitar problemas e não prejudicar os efeitos especiais. Além das chuvas, é uma época de verão, quando os dias são mais longos, prejudicando os efeitos especiais elaborados com lâmpadas. Uma campanha eficiente de Natal é uma boa oportunidade para o shopping em termos de marketing e retorno institucional. Decorações antológicas permanecem na mente das pessoas, criando uma experiência positiva do consumidor em relação ao local, que passa a ser lembrado de maneira interessante, como aquele lugar “que tem neve artificial”, “monta um presépio maravilhoso” ou “apresenta um belo coral”. Até hoje, os frequentadores mais antigos se lembram do grande presépio montado pelo Shopping Iguatemi de São Paulo. Ou da queda de neve artificial do Shopping West Plaza, também em São Paulo. Além de aumento das vendas, bons projetos costumam render outras compensações, como mídia espontânea e gratuita. Nessa época, os jornais costumam fazer longas reportagens sobre o assunto e até realizar concursos para eleger a decoração mais bonita, o que resulta em uma promoção do mall junto ao público. Para que tudo ocorra conforme o planejado, é importante ao gestor de marketing estar em sintonia e conhecer as outras áreas administrativas e a própria estrutura do empreendimento. É necessário compreender e lidar com uma logística complexa, cuja estrutura – geralmente de grandes dimensões – tem de ser montada e desmontada em poucos dias, geralmente fora do horário de funcionamento das lojas. Ele também deve acompanhar as visitas técnicas dos fornecedores, realizadas meses antes, durante as quais serão mapeadas e discutidas questões como o fornecimento de energia elétrica, normas de segurança contra incêndio etc. Mesmo com o apoio prestado pelos fornecedores e pelas empresas especializadas em decoração natalina, é desejável que o gestor de marketing, no mínimo, tenha noções sobre as especificidades técnicas que envolvem a operação Natal, antevendo problemas e propondo soluções rápidas. Uma atividade transversal, mais complexa e diretamente ligada à estratégia do negócio, o marketing ultrapassa as delimitações de um único departamento. Para cumprir seu papel com excelência, necessita manter estreita sinergia com as demais áreas dos centros de compras, especialmente para alinhar questões jurídicas, financeiras, comerciais, operacionais e de segurança. Daí a pertinência deste anexo. Em formato de perguntas e respostas, são apresentadas as entrevistas mediadas pelo consultor Luiz Alberto Marinho com profissionais de destacada atuação nas suas respectivas áreas. Luiz Alberto Marinho: Vamos discutir um pouco em quais situações o marketing influencia diretamente na atividade de vocês. Dilene: Muitas vezes, para o marketing poder se pronunciar – por exemplo, na hora de dar uma entrevista para prestar um esclarecimento, seja numa situação de crise, seja numa situação de comemoração de uma vitória qualquer, ou mesmo de um assunto polêmico, como a cláusula de raio, por exemplo – é importante a atuação do marketing e do jurídico em conjunto, porque as questões técnicas precisam ser adequadamente esclarecidas para que o marketing possa adotar a melhor conduta junto à assessoria de imprensa. Esse é um flanco do nosso dia a dia em que essas duas áreas atuam muito conjuntamente. A atuação coordenada também ocorre em situações específicas, como as que envolvem o Cade [Conselho Administrativode Defesa Econômica - orgão governamental que regula e fiscaliza a atividade econômica], em que o interesse da indústria está em questão. Assim como a situação que vivenciamos hoje, com as fiscalizações que estão acontecendo em todos os shoppings de São Paulo. Enfim, é comum a imprensa ter interesse e isso acaba envolvendo o marketing, mas são demandas que também têm um cunho jurídico, porque ou as decisões estão amparadas em uma legislação que precisa ser esclarecida ou em um processo judicial, que também tem aspectos técnicos que precisam ser adequadamente explicados para que se possa fazer um pronunciamento correto. Agora, se pensarmos numa campanha, e nem só em uma campanha, mas em qualquer conduta – uma contratação de agência, por exemplo - o apoio do jurídico é no sentido técnico. No caso de campanhas publicitárias específicas, no que é preciso pensar juridicamente? Como pode ser um sorteio? Se envolver a questão de sorte, é necessário submeter ao Ministério Público? O que precisa para ser aprovado? Como o regulamento deve ser feito? Esse é o apoio jurídico técnico que damos para todas as áreas, inclusive a de marketing. Marinho: O shopping, muitas vezes, é confundido com as lojas no seu interior. Existem situações de marketing dos lojistas que terminam provocando questões nas quais o jurídico precisa intervir de alguma forma – quer por desobediência à regulamentação do próprio shopping, quer por infração à lei . Quanto o shopping é corresponsável pelas campanhas de varejistas? Dilene: Um assunto que precisamos ficar em cima, especificamente em São Paulo, ocorreu por ocasião da Lei Cidade Limpa. Até então, não havia restrições importantes sobre a publicidade na fachada, que passaram a existir. Tivemos que interceder junto aos lojistas. Marinho: A Lei Cidade Limpa vale para dentro do shopping? Dilene: Não é a mesma coisa. O lojista tem que recolher as taxas municipais, mas as regras variam de cidade para cidade. Nós o apoiamos na medida da necessidade, mas geralmente o lojista tem o aparato jurídico e conta com ele para operar em situação regular. Maristela: O empreendimento é composto por diversas lojas, que acabam sendo influenciadas pelo nome do shopping. Por isso, o shopping muitas vezes é chamado para responder a alguma ação ou omissão do lojista. Evidentemente, existe um regramento no contrato de locação de diversos itens que os lojistas são obrigados a observar, mas cada loja tem a sua política. Dilene: Até porque são diversos segmentos. Uma loja que atua no ramo de alimentação tem que observar uma legislação diversa de uma que vende óculos. Logo, cada uma no seu segmento deve atender a determinadas especificidades. Todo mundo, em princípio, tem que andar de acordo com o que a lei determina. É possível que em algumas situações haja dificuldade de compreensão – especialmente se for o caso de um lojista novo, pequeno, que não está tão profissionalizado. Maristela: Tivemos apenas um caso, sobre o qual, na verdade, não precisamos tomar nenhuma medida. Foi em um ano em que uma marca fez uma campanha do Dia dos Namorados na qual ela veiculou vários desenhos simulando um contato mais íntimo entre um homem e uma mulher. Quando vimos, discutimos se iríamos notificar ou não. Mas o próprio Ministério Público ficou sabendo, tomou as medidas e a rede tirou essa campanha do ar. E era uma campanha nacional. Dilene: Isso pode acontecer com grandes redes. Se pensarmos na situação específica do shopping, é difícil ocorrer, porque a campanha quem faz é o próprio empreendimento. Existe o fundo de promoções para o qual o lojista contribui. A campanha é sempre muito focada naquela coletividade. É difícil um lojista fazer uma campanha que seja individual ou que destoe da imagem que o shopping vende. Eu estou aqui há nove anos e essa foi a única situação em que algo assim ocorreu. Maristela: E mais: a campanha era nacional. Não era nada que se vinculasse ao shopping. Marinho: Do ponto de vista operacional, quem demanda mais de quem? O jurídico do marketing ou o contário? Dilene: É muito mais o marketing demandante do jurídico. Maristela: Apesar de ser uma área informal, em que as coisas ocorrem muito rapidamente, o marketing acaba nos consultando, porque tem de fazer os contratos. Existe uma formalidade da própria empresa. Dilene: Ou quando há necessidade de se fazer qualquer pronunciamento. Raras são as vezes em que o Iguatemi vai para a imprensa e o jurídico não está ao lado, não dá uma revisada no material, no briefing. Só se for um assunto puramente publicitária, aí não há necessidade. Mas, se tiver qualquer componente da nossa área, um pronunciamento por qualquer questão mais polêmica, ou legislação, o jurídico é acionado. Marinho: O Iguatemi tem uma característica que é o fato de ter uma marca única para os shoppings da rede. Como funciona a defesa dessa marca? Dilene: É uma marca importante, vinculada ao negócio. Temos uma política muito forte de proteção das nossas marcas – principalmente da marca Iguatemi – seja no Inpi [Instituto Nacional de Propriedade Industrial], seja em relação ao uso na internet, e temos uma pessoa específica para cuidar disso. Ou seja, nós temos uma política, um regramento muito claro com uma conduta estabelecida, porque a nossa marca é, para nós, um importante ativo. Ela é reconhecida no mercado e tem um valor agregado bastante importante. Por conta disso, temos uma política bem agressiva de defesa e proteção dela. Marinho: E no que consiste, pelo menos as linhas básicas, essa política de proteção? Como ela funciona? Dilene: Para que o nome Iguatemi possa ser utilizado, é necessário todo um aparato jurídico de proteção. Sempre se estabelece um prazo específico para utilização da marca, uma justificativa; há todo um regramento do símbolo usado, da forma como usá-lo, até a eventual necessidade de nos avisar sobre o mau uso, para que adotemos as medidas necessárias. Fora isso tem todo um critério com os prazos de validade junto ao Inpi, para que possamos fazer os pagamentos das taxas e as renovações nos prazos. Existe uma regra, não só de como eventualmente permitir o uso por terceiros, mas também para que a marca não fique descoberta. Marinho: Quem são os terceiros que podem utilizar a marca? Dilene: Por exemplo: vendemos o Boulevard Iguatemi Rio. A negociação foi concluída e existe um período de transição para os compradores cessarem o uso do nome, bem como a forma de utilizá-lo nesse período. Esse é um exemplo de licenciamento de uso para um terceiro, mas isso cada vez é mais restrito. Era uma política do passado, que foi revista. Atualmente, isso ocorre eventualmente em casos como os de empreendimentos de uso misto, em que pode haver uma torre em que o nome será atrelado ao nosso, por alguma razão. Marinho: Ao que parece, a empresa caminha para uso exclusivo? Dilene: É isso mesmo. Tudo porque o nome tem que estar atrelado ao grupo nacionalmente e qualquer uso indevido acaba contaminando os empreendimentos próprios. Se alguém fizer uso da marca Iguatemi, será comum o nosso consumidor acreditar que aquele negócio é nosso. Fazemos todo o esforço para que isso não aconteça, para que não haja qualquer possibilidade de uso indevido e de vinculação ao nosso nome com negócios que não sejam nossos. Marinho: Há um tempo o grupo abriu o capital e isso normalmente faz com que as políticas de comunicação mudem bastante. São introduzidos períodos de silêncio, existem as restrições da CVM. Como funciona isso e como vocês fizeram para realizar essa transição: trazer a cultura do capital aberto para o marketing do shopping center? Dilene: Não sei se isso tem alguma mudança em virtude somente da abertura do capital. Essa questão da proteção do nome era uma política que já existia; ela foi apenas intensificada. Até porque temos interesse em garantir ao nosso acionista esse cuidado também. Talvez o pessoal do marketing tenha condição de responder isso com mais propriedade. No aspecto jurídico os cuidados sempre existiram. Marinho: Mas existia a necessidadeda prestação de contas e resultados, da forma como é hoje? Dilene: Tivemos que nos adequar à política do novo mercado. Fazemos apresentações com a frequência que a lei exige, em um canal aberto, assim como nossos concorrentes também fazem. Com certeza, essas obrigações que advêm da lei foram 100% atendidas. Maristela: Na verdade, temos uma forma de gestão que é bem regrada. Conforme a situação muda, criamos normas para adequação à nova filosofia. Uma vez que se abriu o capital e havia novas regras a serem observadas, isso foi colocado dentro de uma norma interna que sempre deve ser observada, estabelecendo as áreas que deverão ser envolvidas. Dilene: E hoje existe a equipe de R.I., que é Relacionamento com o Investidor e atende a todas essas políticas, essas imposições de regramento do novo mercado. Caso seja necessário publicar um fato relevante, quando e como fazer, a empresa tem uma equipe que atua em conjunto com o jurídico. Marinho: E nos períodos de silêncio obrigatório? Maristela: Quando estamos no período de silêncio, as áreas também são informadas, inclusive o marketing. Isso também depende da área que lidera aquele determinado processo e o jurídico sempre entra mais como apoio. Marinho: Para terminar, existe uma área sensível, que é a da relação com os governos. Em um caso de crise que envolve o poder público, como vocês atuam? Quem lidera? O marketing, o jurídico ou a de Relação com o Investidor? Maristela: Não sei se existe uma liderança tão distinta. Cada um lidera o seu pedaço e as áreas interagem. Por exemplo, é óbvio que as condutas junto ao Poder Judiciário, se necessárias, são adotadas pelo jurídico, que, por sua vez, compartilha com o marketing o que foi feito e o que se espera com aquilo. Tudo para que o marketing, liderando sua área, atue junto aos diversos meios de comunicação – seja comunicação interna, externa, com imprensa, com assessoria. Assim, ele está “brifado” de uma forma adequada pela área que está adotando a conduta. Dilene: Discutimos o que vai para a imprensa, porque normalmente a assessoria recebe as informações do marketing e prepara um comunicado, mas isso sempre volta para o jurídico, para ser conferido. Maristela: O trabalho é feito em conjunto. Se deixar na mão do jurídico existe o risco de sair uma nota que ninguém entende, porque há componentes técnicos e, normalmente, falamos uma linguagem que não é de fácil compreensão. Fazemos esse compartilhamento justamente para executar esse tipo de adequação. Entramos com a parte técnica, a forma adequada de prestar aquele esclarecimento, pois o processo é público, ou seja, as pessoas têm acesso a ele. É muito importante que a comunicação seja fiel ao que está acontecendo e que não haja nenhuma distorção. Ao mesmo tempo, ela não pode ser técnica a ponto de ninguém entender o que você está falando. Fazemos esse bate-bola entre as áreas. Luiz Alberto Marinho: Vamos começar pelo mix da Aliansce e a sua visão. Como ele é trabalhado e quais as mudanças em relação ao passado? Ricardo: Hoje, temos dois modelos. Primeiro, o mix é feito quando o shopping vai inaugurar, e também se faz o plano de comercialização. Temos as nossas tabelas, em que é estabelecido, de acordo com a metragem do empreendimento, e monta-se o mix desejado. Colocamos na tabela Mix Desejado quantos teremos de lojas amplas e quais são essas lojas, o segmento, todas as satélites, divididas por setor. Isso é a realidade de quando se monta o negócio, é o ideal. Quando se vai trabalhar, nem sempre se consegue – principalmente em um greenfield [mercado ainda não explorado], porque se trabalha sempre com vistas no prazo para inaugurar. Existe aquela situação de espera, de lançamento. Normalmente trabalhamos para corrigir erros depois que o shopping inaugura. Portanto, o mix é baseado na pesquisa inicial – sempre fazemos, tanto em shoppings novos como nos antigos. Mantemos as ferramentas atualizadas para entender o perfil do público, a densidade demográfica do entorno, quem são essas pessoas, para que seja adequado o mix ao produto, se o shopping vai ser mais voltado para a classe A, B ou C. A partir disso, todos os varejistas são informados e um plano de ação é formulado – isso em qualquer shopping. Tanto no greenfield como, por exemplo, em um shopping tradicional como o West Plaza, onde foi feito exatamente isso: um estudo na região da zona oeste de São Paulo, para identificarmos quais as necessidades que aquele público tinha, entender os moradores do entorno e também saber quem são as pessoas que trabalham no mall. A partir disso, elencamos dentro das necessidades do varejo que lojas teríamos. O trabalho era melhorar o mix para deixá-lo completo - desde alimentação e vestuário até serviços e bancos, por exemplo. Marinho: Quais são as principais mudanças que você tem observado, ao longo do tempo, no mix dos shoppings? O que cresce em importância e o que está perdendo importância? Ricardo: Mudou muito o segmento do shopping center e do varejo. Quando eu comecei, há alguns anos, havia poucos empreendimentos, então existia “o shopping”. Basicamente, avaliando São Paulo - que é uma cidade muito grande, com uma quantidade de shoppings que não têm 1 km de distância de um para o outro - a cidade, o trânsito e o estilo de vida das pessoas fizeram com que elas mudassem até a forma de viver. É preciso adequar o shopping a essa realidade, porque as pessoas hoje fazem tudo dentro do mall. Atualmente, tudo o que a pessoa pode fazer na vida ela faz dentro daquele ambiente. Talvez nas cidades menores, do interior, isso até seja um pouco diferente. Mas, nos grandes centros – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador –, isso acontece. Hoje, o lazer é muito importante. Antes, duas salinhas de cinema dentro do shopping bastavam; atualmente, temos esses cinemas enormes. Isso é outra mudança muito grande: o segmento de lazer crescendo e o empreendimento acompanhando, porque é uma necessidade. A parte de alimentação também não era muito grande no passado. Havia as praças de alimentação, que atendiam a um determinado púbico. Hoje, existe uma demanda por restaurantes muito grande, com serviços bem adequados ao público que vem ao shopping. O Porcão vai abrir uma operação de 2 mil metros quadrados no West Plaza. A região é empresarial, grande e está crescendo muito. Novos prédios estão surgindo e isso faz com que se tenha uma demanda muito grande nesse shopping. E a parte de serviços também, cada vez mais completa, cada vez com mais coisas, para que a pessoa venha e faça tudo, de banco a cabeleireiro, unha, loja, spa, tudo dentro do mall. Marinho: Isso é verdade tanto para uma cidade como São Paulo como para uma do interior? Ricardo: Em Bauru, por exemplo, as características são um pouco diferentes. Trata-se de uma cidade em que as pessoas ainda almoçam em casa. Portanto, há uma dificuldade de ter restaurantes de porte no shopping. A praça de alimentação foi comercializada em quatro dias. Estão lá grandes redes de fast- food. Só que essas grandes empresas ainda não veem aquela praça como uma grande oportunidade de negócios, porque as pessoas ainda almoçam em casa. O fato é que ocorre um fluxo baixo, justamente na hora do almoço, mesmo que o empreendimento esteja em área empresarial, pois o deslocamento da pessoa para casa nessas cidades é muito rápido. Os custos de manutenção de operação no mall, às vezes, para o investidor, não valem a pena. Pode ser que ele até tente um jantar um pouco melhor, mas o grande movimento será nos finais de semana – sábado, domingo à noite –, mas ainda não encontramos um equilíbrio. Marinho: Que outras características um shopping de interior teria de diferente em relação a um da capital no que diz respeito a mix? Ricardo: Existe diferença básica nas operações que ainda preferem os grandes centros. Lógico que no interior é possível encontrar pessoas que estão interessadas em franquias, mas existem alguns operadores que não franqueiam as suas lojas. Quando se quer montar um mix com moda masculina, feminina, talveznão se consigam todos os operadores, facilmente. Lógico que, nas cidades grandes de interior, é mais fácil – Campinas e Ribeirão Preto, por exemplo, que são cidades muito ricas. Para Bauru até conseguimos levar um mix bem interessante. A dificuldade que encontramos é que existem marcas que já estão instaladas em outro shopping ou na rua e, para elas, não é interessante ter um segundo ponto de venda. Por isso, precisamos correr atrás, levar novidades que não existem na cidade. Mas o mix, o composto, é basicamente o mesmo. Marinho: As pesquisas de viabilidade são basicamente quantitativas. Elas pegam potencial de consumo, demografia. Mas tem um dado mais fino, mais sutil, que é o dado do comportamento, que muda muito de uma região para a outra. Como vocês trabalham essas diferenças sutis, mas certamente relevantes, de mercados como São Paulo e Florianópolis? Ricardo: Trabalhamos tudo na pesquisa qualitativa. Entendemos muito qual é o gosto das pessoas, o comportamento do consumo. Temos shoppings em Porto Alegre e em Belém do Pará. São completamente diferentes, até a estação do ano é diferente – quando em Belém é verão, em Porto Alegre é inverno. Temos essa dificuldade. Por exemplo, a Zara, quando se instalou no Nordeste - região em que não ocorrem invernos rigorosos -, teve que se adequar. A Farm, quando foi para Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, teve que aprender, porque ela é do Rio e, como lá não tem um inverno rigoroso, ela não tinha uma coleção de inverno que justificasse o funcionamento durante quatro meses de frio. Se for no Shopping Moinhos, por exemplo, que é um empreendimento estritamente voltado para pessoas de poder aquisitivo muito elevado e de idade elevada, e pelo bairro ser mais tradicional, mais antigo, o público é basicamente de pessoas acima dos 40 anos. Existem as características regionais, da cidade, de cada população: o gaúcho é muito diferente do catarinense, apesar de estar muito próximo geograficamente, que é muito diferente do paulista. Paulista e carioca são totalmente antagônicos. Fazemos uma análise, entendendo a pesquisa qualitativa e muito do feeling do que é a região, e é por isso existem peculiaridades em todos os shoppings. Em São Paulo, o Shopping West Plaza é muito diferente do Shopping Taboão, porque o segundo está localizado na Grande São Paulo. O shopping está sempre cheio – com 42 mil metros quadrados de ABL (Área Bruta Locável) - faremos uma expansão e ampliaremos a ABL para 60 mil metros quadrados. É um shopping em que vivemos o dia a dia das pessoas, para entender o que elas gostam e transformar o mall em um grande atrativo, porque, como não existe outro na região, ele é querido. É um empreendimento muito bonito, bem cuidado. Isso é um diferencial e já podemos constatar nas pesquisas. Em Blumenau, por exemplo, foi feito um conselho com 12 senhoras da cidade. Elas vão uma vez por mês ao mall e nos dizem tudo o que tem de bom, de ruim, do que gostam, que loja desejam, qual tipo de evento. Lá é uma cidade pequena onde já temos dois concorrentes e precisamos entender o que o frequentador de Blumenau gostaria. E, como é um shopping voltado para o público AB, as senhoras que fazem as pesquisas são empresárias, donas de casa, arquitetas, pessoas de perfis diferentes. Elas dão o feedback e, assim, agregamos mais valor ao empreendimento, aos eventos, às sessões e a tudo. Marinho: Gostaria de voltar ao Shopping Taboão, porque ele é um empreendimento de classe BC. Foi lançado antes dessa onda de valorização do consumidor emergente e sempre foi bem-sucedido ao falar com essa população. Que ensinamentos esse e outros shoppings com os quais vocês trabalharam trouxeram em relação ao mix desejado pelo consumidor emergente? Ricardo: Quando o Shopping Taboão inaugurou - há 10 anos - ele ficava em uma região muito carente, onde não havia nada. O shopping, inclusive, foi dimensionado, na época, para agregar aquele potencial de consumo. Porém, a cidade cresceu muito. Houve um avanço do poder aquisitivo – porque o Taboão era um shopping estritamente classe C –, ancorado pelo Carrefour, que tem o perfil para esse público, e conseguimos levar a C&A, a Riachuelo, e fizemos um mix de praça de alimentação. Levamos um bom cinema – que já era muito moderno em relação aos que existiam até mesmo aqui na cidade de São Paulo – e fizemos um mix de classe C. Naquela época eram lojas bem populares e regionais. O poder aquisitivo da população foi crescendo, a cidade de Taboão da Serra também e o Morumbi “colou” no Taboão. Virou a extensão do bairro do Morumbi. Com isso, fizemos a primeira expansão do shopping, cinco anos atrás. Conseguimos inaugurar várias lojas já para um público de maior poder aquisitivo. Houve um desenvolvimento imobiliário muito grande e conseguimos acompanhar todo esse desenvolvimento do município e o crescimento da população. Hoje você vai ao mall e vê lojas adequadas também para consumidores de classe BC, além de Kopenhagen, Hering, M.Officer e Centauro, só para dar alguns exemplos. Os frequentadores começaram a entender que não precisavam mais sair da cidade e se deslocar para fazer compras em outros empreendimentos concorrentes. No estudo realizado no Taboão houve uma diminuição muito grande no consumo nos shoppings de São Paulo e um aumento lá. Diminuiu a migração. As pessoas entenderam que o Shopping Taboão é um empreendimento onde elas conseguem comprar produtos e serviços. É por isso que agora partiremos para mais uma expansão de 18 mil metros quadrados de ABL. Marinho: Você acha que o consumidor popular tem o anseio das mesmas marcas que o consumidor AB, por exemplo? Ricardo: Mais ou menos. Ele tem o anseio, mas existem características diferentes. Isso vemos em estudos da classe C. A Aliansce e seus shoppings, na maioria, atendem à classe BC . No comportamento, elas não querem mais fazer parte da classe A, não querem imitar o que ela faz. Elas querem ser da classe BC, com características diferentes. Lógico que talvez desejem marcas, sim, mas elas têm muitas das características que trazem da sua realidade. Conseguimos trazer algumas marcas, algumas de desejo, mas são marcas voltadas para um público de classe BC. Hoje, a Arezzo atende todo mundo. Tem a M.Officer, que é uma marca que já se posiciona para a classe BC, apesar de estar em shoppings de classe A, mas é uma marca de desejo para essas pessoas. Existe a Hering, que é um grande fenômeno de vendas para as classes A, B, C, D e para todo mundo. A Taco inaugurou recentemente, está vendendo o que pode e o que não pode. São marcas voltadas para esse público, que têm uma linha completa de produtos, que têm design de loja, atendimento diferenciado. E elas estão lá e as pessoas estão consumindo bastante. As pessoas estão satisfeitas. A Kopenhagen é um sucesso de vendas no Taboão. Marinho: O ambiente de um shopping popular é diferente? Tem que ser diferente ou pode ser igual ao de um shopping classe A? Ricardo: Ele é diferente no tipo de produto que você coloca, mas ele tem que ser igual no que oferece. No Taboão tem fraldário, lounge, café do mall, mesinha, SAC. E isso tem que ser igual. Lógico que um lounge de um shopping de classe A pode ser diferente na aparência, mas os serviços são exatamente os mesmos. O público quer, o público deseja, e é isso que torna o Taboão diferente dos shoppings da região. Temos um trabalho voltado para isso. O paisagismo é cuidado, muito benfeito; toda a parte de mall, em que a gente coloca os lounges, as plantas, a comunicação. O fraldário é tão bonito quanto o fraldário do Shopping Leblon ou do Shopping Moinhos, por exemplo. O atendimento, o treinamento que as pessoas recebem, a segurança, a equipe de SAC. O conjunto de benefícios é exatamente o mesmo. Marinho: A estética é diferente? Ricardo: Não, nem digo a estética. A linguagem é diferente. Lógico, porque você fala com uma senhora dessas que frequentam o Moinhos e uma senhora que frequenta o Taboão, e as características delas são diferentes. Às vezes um é um pouco mais sofisticado. Por exemplo, um shoppingpara a classe A é um pouco mais rebuscado, conta com um atendimento diferenciado. Lá você tem que falar aquela linguagem que as pessoas falam. Não vou colocar um porteiro abrindo porta de carro no Taboão, porque não é a característica do público. Não cabe. Já no fraldário você tem exatamente o mesmo serviço. A mãe de classe A ou de classe B quer cuidado, quer carinho, quer atenção, e isso fazemos, tanto no Moinhos como no Taboão. É a única mudança. Algumas características mudam. Por exemplo, no Shopping Leblon você contrata arquitetos super-renomados para fazer os lounges, com poltronas de design. O Taboão tem um lounge muito bonito, com poltronas boas, robustas, cadeiras grandes, confortáveis, com ambientação, com mesinha, com flor, com tudo. Só que sem a assinatura dos arquitetos do Leblon. Então é tudo a mesma coisa. Marinho: Falando um pouquinho sobre diferenciação de mix. Com a multiplicação de shoppings existe o risco de eles ficarem muito parecidos uns com os outros. O que vocês fazem para chegar a um mix com alguma característica distinta? Ricardo: Isso tem sido abordado em vários treinamentos, várias palestras e congressos. Percebe-se que grande parte das lojas são as mesmas. Às vezes você consegue operações exclusivas em um shopping e não em outro. Mas a grande maioria é composta das mesmas. O diferencial básico é o atendimento. As opções de lazer que o empreendimento oferece, a arquitetura são diferenciais muito grandes. Recentemente, em entrevista para a revista Shopping Centers, que destacava a arquitetura dos shoppings, falamos da arquitetura de um empreendimento de Belo Horizonte, que é novo, muito bonito. Essas coisas fazem a diferença. O que faz as pessoas de Belo Horizonte nos escolherem, se existem as mesmas lojas no shopping A, no shopping B e no shopping C? E Belo Horizonte é um mercado bem carregado. A resposta é: elas elegerão o empreendimento mais bonito, em que o atendimento é mais cortês, o local com os banheiros mais limpos e bonitos. Falo de detalhes como uma orquídea dentro do banheiro, um kit de primeiras necessidades oferecido, com cotonete, absorvente, pasta de dente, flúor, enxaguante bucal, essas coisas, que são pequenos mimos que criamos para agradar. Quem frequentar aquele shopping tem que achar que ele é o melhor e saber que não precisa ir a outro. Então, o cuidado com a estética, com o serviço que você presta é o mais importante. Esse é o grande diferencial. Aí vamos para as grandes cidades. Temos falado bastante dos espaços de convivência, dos centros de lazer. Uma vez, assistindo a uma palestra da Costanza Pascolato, que não é uma pessoa do setor, ouvi que os shoppings são as grandes praças e eu achei isso muito bacana. Eu até brinquei e disse que parecia que tínhamos pedido para ela dizer isso. Ela falou que os shoppings são as grandes praças de antigamente, aonde as pessoas iam arrumadas para passear e encontrar outras pessoas. Temos que nos apropriar disso. O Moinhos, por exemplo, que é um exemplo que eu gosto muito de usar, é perto de um parque, só que no inverno as pessoas não ficam andando no parque. Elas vão andar no shopping, vão se encontrar lá, vão tomar café. Marinho: Qual é a participação que o departamento de marketing tem em todas essas estratégias de mix ou de ambientação? Ele se envolve de alguma maneira, é ouvido, participa de algum modo ou isso é uma coisa totalmente afastada do escopo do marketing de hoje? Ricardo: É totalmente participativo. Eu digo que tudo no shopping acaba no marketing. Não adianta o departamento de marketing fazer uma campanha maravilhosa, um grande evento, levar uma enorme quantidade de pessoas para o mall, qualificando o público – e é função do departamento de marketing entender que público o shopping quer – e ao chegarem, os frequentadores percebem que a segurança é ruim, o local não está limpo. O marketing vende uma coisa e toda a administração tem que entregar aquilo que o marketing vende, porque fazer apenas campanha na TV é um método ultrapassado. O objetivo é trazer para dentro do shopping as pessoas certas, que vão consumir nas lojas. Portanto, tudo é marketing. Não adianta o frequentador ser maltratado pelo funcionário do estacionamento, porque ele vai dizer: “Puxa, nunca mais eu volto aqui”. Chegar ao banheiro e encontrar sujeira. Tem que ser um trabalho conjunto e o marketing participa de tudo. No planejamento comercial é preciso entender o público que o shopping quer atingir, o que a população quer, porque os responsáveis pelas pesquisas são as pessoas do marketing. Marinho: Quem comenta e apresenta a pesquisa é o marketing, no caso da Aliansce? Ricardo: Toda a pesquisa é feita por meio do marketing e ele diz o que o público quer. O comercial vai fazer um planejamento em cima do que o público quer, dos anseios da população, de quem vai ao shopping. O marketing e o comercial funcionam de mãos dadas. Nos shoppings da Aliansce, o gerente de marketing é o gerente comercial, porque muitos empreendimentos já estão redondos e têm boa dinâmica. Ele já está de mãos dadas com ele mesmo, pois já sabe, via pesquisas, o que tem que fazer, qual loja deve trazer. É um caminho em que eu acho que todo mundo anda junto. Marinho: Quais são as fontes de informação para se poder observar as tendências, tipos de loja ou segmentos de varejo que estão emergindo e que deveriam estar no shopping? Qual é o processo de obtenção dessas informações? Ricardo: Buscamos essas informações no mercado. Primeiro, com material específico: pesquisas de comportamento de consumo, varejo, empresas especializadas. Procuramos dar o máximo de informação, de conteúdo, para os colaboradores, por meio de viagens para o exterior, para os Estados Unidos, para a NRF [National Retail Federation], para que eles entendam e acompanhem as tendências. Atualmente, o segmento do varejo é muito dinâmico. Existem milhões de possibilidades de acesso à informação e estudos. Procuramos, assim, dar o máximo de informação para que as pessoas entendam, conheçam, saibam o que existe de novidade nacional e internacional, quais são as marcas locais importantes. É uma pesquisa diária que fazemos, até mesmo em revistas e jornais. Marinho: Falando em marcas que vêm de fora, existe alguma política ou estratégia específica para atrair essas marcas para os shoppings do grupo? Ricardo: Temos pessoas específicas que tratam do assunto. Tirando o Shopping Leblon, o grande interesse dessas marcas internacionais primeiro foi por São Paulo; elas fizeram uma cadeia começando por São Paulo e agora estão na fase do Rio de Janeiro e começaram a abrir lojas fora desse eixo. Até então, em São Paulo não tínhamos shopping que tivesse características para receber essas marcas – no Rio de Janeiro, o Leblon. Agora temos essa profissional que trabalha prospectando essas marcas e vendo a possibilidade de trazê-las para os nossos malls. Marinho: Mas é a pessoa que está subordinada ao comercial ou à diretoria? Ricardo: Subordinada diretamente à diretoria. Marinho: É uma área estratégica? Ricardo: Sim. Marinho: Como vocês têm sentido a receptividade dessas marcas? De que maneira elas podem mudar o perfil dos shoppings a médio e longo prazos? Ricardo: A chegada delas ao Brasil já mudou um pouco as características dos shoppings. Essas marcas têm exigências muito grandes, principalmente as voltadas ao público de classe A. Essas marcas dão um DNA diferente ao empreendimento. Elas trazem um público diferente. Quando se fala de classe A no Brasil, normalmente, pensa-se nessas marcas. Mas a classe A não é só quem consome marcas internacionais, o público de classe A tem outras características e compra outras marcas. Por conta da economia mundial, o Brasil tornou-se um país atraente. A população brasileira é uma das que mais consomem marcas de luxo. É um grande mercado para elas e a tendência é que venha um número maior de marcas e precisamos preparar os shoppings. Vemos marcas como a H&M, por exemplo, que não é marca de luxo, vindo para shoppings de luxo. A Topshop é uma das que cabemem muitos shoppings brasileiros. Marinho: Topshop, H&M e Zara, que têm um preço acessível lá fora, aqui, por imposto e outros fatores, acabam chegando mais caras… Ricardo: Mas a Zara hoje consegue estar em vários empreendimentos. Marinho: Quanto o e-commerce influencia diretamente na mudança do mix e no relacionamento de vocês com o varejo? Ricardo: O e-commerce é uma realidade. O shopping, por sua vez, tem de ser o lugar da experiência. Uma compra no e-commerce é muito mais rápida, prática e objetiva, mas não existe a experiência de sair de casa, passear, entrar nas lojas que se queira, experimentar várias roupas, marcar com um amigo, tomar um vinho, assistir a um filme, levar o filho para brincar. O que temos de fazer é transformar o shopping em praça, centro de convivência. Oferecer experiências que justifiquem sair de casa para fazer compras. Isso é basicamente o que muda. As pessoas desejam os shoppings por questão de segurança, conforto, facilidade de estacionar, como um lugar agradável em que você faz tudo, inclusive comprar. Marinho: Qual é o papel estratégico do mix de lojas no shopping center na sua visão e na do grupo Iguatemi? Satomi: Tudo começou na área de marketing, quando o Carlos Jereissati Filho assumiu a parte de shopping centers do grupo. A primeira funcionária que ele contratou fui eu. Passei a trabalhar com a irmã dele, a Érika, na época gerente-geral do Market Place. Contávamos com uma área comercial bastante atuante e uma pessoa, a Vera Alves, fazia o mix de lojas. Ela pegava as plantas e pintava manualmente com canetinha colorida, dizendo: “Aqui é moda feminina, aqui é calçada etc.”. Vendo aquilo, pensei: “Que bacana!”. A Érika me disse que a composição do mix era muito importante para o sucesso de um shopping center. Até então, eu pensava que o mais importante era o marketing … Conversando com o Carlos, decidimos organizar uma estrutura, um departamento dedicado a esse tema. E assim passamos a ter a área de mix, na qual inicialmente trabalhávamos a Érika e eu. Ela respondia também pela área comercial e começamos a estabelecer as primeiras regras: todo lojista interessado deveria conversar primeiro conosco, para entendermos o produto, visitarmos a loja, vermos se a experiência era boa, se o preço estava de acordo. Inicialmente elaboramos alguns relatórios simples e buscamos conhecer a experiência do grupo Tallman, benchmark da época. Eles tinham uma equipe grande, com uma pessoa em cada shopping, assim como hoje também temos. Contamos com uma gerente para cada grupo de shopping centers, uma diretora e uma vice-presidência. No Iguatemi a área de mix e varejo é muito importante. Começamos a atuar desde o início de cada projeto, na fase de aquisição do terreno, discutindo sobre a compra e uma eventual parceria com o dono da área. O meu departamento vai primeiro ao local, estuda a cidade, o terreno e o empreendimento, para analisar qual será a ABL, quais serão as principais âncoras e assim por diante. Marinho: A análise de viabilidade hoje é também responsabilidade dessa área? Satomi: Também. Atuamos juntamente com as equipes de planejamento e novos negócios, identificando, inclusive, os hábitos de vida da comunidade. Tudo para certificar a conveniência de instalar ali um shopping, pensar as características dele, o tamanho, quais serão os lojistas parceiros. Depois disso é que entram as outras áreas. Da mesma forma, nos shoppings em funcionamento, atuamos na análise das possíveis expansões, ao lado dos responsáveis por checar a viabilidade financeira e contratar pesquisas. A intenção é pensarmos: “Como será essa expansão?”. Podemos optar mais por marcas internacionais ou não, focar mais na área de entretenimento e assim por diante? Marinho: Quais ferramentas são utilizadas para chegar a essas conclusões? Elas são fruto da experiência ou vocês trabalham também com pesquisas de mercado? Satomi: Muita pesquisa. Contratamos empresas para estudar a demanda, hábitos de consumo da comunidade, assim como consultorias estrangeiras especializadas em tendências, por exemplo. Temos uma área que cuida de projetos mais sofisticados. A visão da empresa é ter os melhores 20 shoppings do Brasil, até 2015, mas já estamos pensando em como eles serão em 2018, 2020. As âncoras mudaram, não dá mais pensar apenas em ter grandes lojas de departamentos. Restaurante hoje em dia também pode ser âncora. Apostamos em algo diferente, como o terraço do JK Iguatemi, porque a experiência como um todo também atua como âncora. Antigamente o shopping era escuro, hoje é aberto – o JK é inteirinho aberto, tem dois terraços. Buscamos responder: “O que falta na cidade?”, interpretar as necessidades e proporcionar alternativas utilizando o universo do shopping center. Marinho: O Iguatemi é muito conhecido pelos shoppings na capital paulista, mas possui empreendimentos fora de São Paulo e está investindo no interior do estado. O que muda de uma região para outra e como medir o interesse das pessoas de acordo com cada localidade? Satomi: A interpretação muda; a metodologia, não. Temos 13 shoppings e mais de 5 projetos novos. Em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, fizemos muita pesquisa qualitativa. Na cidade não há muitos players de peso. As mulheres são formadoras de opinião e comentam: “Gostamos de Louis Vuitton, mas sabemos que não cabe uma em Rio Preto”. Também sabemos disso, porque elas nos dizem. A pergunta é: como traduzir essa Louis Vuitton para aquela localidade? É essa conversa que vamos amadurecendo. Marinho: É isso que você chama de metodologia? Satomi: São recursos para entendermos os hábitos e desejos das pessoas daquela localidade. Toda cidade quer um center, mas será que todas querem Lojas Americanas, C&A, Outback ou McDonald’s? Para saber a resposta usamos diversas ferramentas. E aí há muita inteligência emocional. Não é para qualquer um. Não dá para deixar na mão do departamento financeiro ou do corretor a responsabilidade pela condução desse processo. Marinho: Quais características precisa ter esse profissional e o que você define como inteligência emocional aplicada à estratégia de mix? Satomi: Tudo começa com as competências, porque fazer um projeto inovador, ter uma ideia bacana, depende de atitude. Iguatemi é uma marca bacana, de prestígio, para a qual muita gente quer trabalhar. Mas como seleciono essa pessoa com sensibilidade para ajudar a fazer algo diferente? A questão é identificar quais competências o profissional ou a equipe deve ter. É necessário fazer muitas entrevistas. Muitas vezes tem o perfil adequado a pessoa que gosta de sair, badalar, viajar; que tem muitos amigos, que não diz apenas o óbvio – pensa antes de falar. Não é fácil encontrar o profissional com atitude e as competências. O nosso desafio é selecionar a pessoa correta. Marinho: Estamos assistindo a uma certa padronização no mix dos shoppings que leva à falta de diferenciação. Diante disso, buscar uma customização do mix é mesmo uma prioridade? Satomi: É. Há um percentual do igual em todos os lugares, porque é bem- aceito e vende bem. Todo mundo gosta de hambúrguer, mas posso ter o produto do McDonald’s, do Burger King ou um hambúrguer feito no próprio restaurante. Qual será o melhor parceiro? Vamos para o mercado conversar: “Olha, temos um projeto novo em tal lugar”. E o interlocutor diz: “Tenho interesse”. Pronto, arranjei o melhor parceiro. Ou então a pessoa não tem interesse e preciso desenvolver alguém. Chego a um lojista bacana, meu parceiro, e digo: “Você tem experiência no varejo. Topa fazer um projeto diferente comigo, dessa maneira?”. Desenvolvemos novos players – e acho que o Iguatemi faz isso muito bem. Um exemplo é a Tok&Stok, que tem lojas enormes; a primeira compact foi um desafio que o Iguatemi propôs. A primeira express foi uma ideia desenvolvida com o pessoal da Tok&Stok e que partiu do Iguatemi. Marinho: A Tok&Stok Express existe em outros shoppings. O Iguatemi nesse tipo de parceria negocia para que essa loja fique exclusiva algum tempo? Satomi: Não é umaregra. O ideal seria que ficasse, mas o fato é que estamos gerando tantos empreendimentos, fazendo um relacionamento tão bacana, que todas as vezes falamos: “Estamos indo para certo lugar, com um projeto tal. Você vem?”. Os lojistas aceitam. Isso é bem legal, há confiança. A inovação vem dessa atitude, de aceitar a provocação. Marinho: Qual a importância de ter uma loja exclusiva e como vocês perseguem isso hoje? Satomi: Temos um indicador que diz que é bom ter um percentual de lojas exclusivas em relação aos concorrentes. Às vezes, você vai para uma determinada região e tem a loja de rua, mas não tem a loja em shopping. Não considero a loja de rua, apenas loja em shopping center. Marinho: Qual é o seu percentual hoje? Satomi: Depende de cada mercado. Tem um percentual de lojas exclusivas, que perseguimos; outro de lojas que são novidade na cidade, que é interessante ter. Mas dizemos que o conjunto é o importante. Posso até ter o mesmo percentual de lojas que são novidade ou exclusividade do concorrente que já está estabelecido na região, mas vamos com um projeto inovador, com serviços diferenciados na parte de marketing, de concierge, que o concorrente não tem. É sempre um pacote. Marinho: Esses serviços diferenciados partem da área de mix ou de marketing? Satomi: É marketing. Temos uma área de marketing de relacionamento, que cuida de concierge, fraldário e o Lounge One. Esse último permite, inclusive, que o cliente One do Iguatemi de São Paulo usufrua dos benefícios se for ao JK, aos shoppings do interior. O serviço pode ser usado em outros lugares. Marinho: A bola da vez são as marcas internacionais. Na sua avaliação, é correto o peso que se está dando para elas no mix do shopping center? Satomi: De novo estamos falando em produto. Nosso negócio é promover a valorização desse produto. No caso do JK tínhamos a preocupação de não afetar o bom desempenho do Iguatemi, e ser diferente dos shoppings concorrentes da região. Concluímos que o JK seria um bom shopping porque ele foi concebido em cascata. Envolvemos a área de tecnologia, a equipe operacional inteira, o time de manutenção, de estacionamento, para pensar: “O que podemos fazer de diferente em um shopping diferente?”. A área de TI pediu: “Quero um shopping altamente tecnológico”. A área de marketing disse: “Para ter um shopping de tecnologia tenho de trabalhar mídias sociais, que é onde você junta marketing com tecnologia”. E o mix disse: “Se vai juntar marketing e tecnologia, temos de entrar com marcas que não estão no Brasil ainda”. Não tinha alternativa. Somos muito procurados pelas marcas internacionais. Há 15 anos íamos atrás, batíamos à porta e dizíamos: “Oi, somos do Brasil”. E ninguém atendia; agora é o contrário. Eles sempre dizem ter medo das taxações, da burocracia de abrir uma empresa no Brasil, da alfândega, das leis trabalhistas, mas mesmo assim acreditam que valha a pena vir. Portanto, tínhamos de ter um percentual de marcas internacionais. Como o bairro, o Itaim Bibi, tem muitos prédios e, em cada um deles, 3, 4, 5 mil funcionários, pensamos em como atendê-los. É um perfil diferente, não é só aquela moça bacana que vem ao shopping consumir. O horário do almoço é muito forte e com públicos diferentes. Há o frequentador jovem, que mora sozinho; o casal recém-casado e sem filhos. O mix tinha de ser assim: marcas internacionais, mas de forma mais democrática. Tinha de atender à expectativa de experiência, mas mais moderna, porque lá todo mundo é muito jovem. Fomos desdobrando até chegar ao mix. Marinho: Quão importante é trazer as marcas internacionais para dentro do grupo? Satomi: A estratégia não é “temos de buscar marcas internacionais”, e sim “temos de ter o melhor produto na praça”. O que as pessoas querem? Estamos vendo que tem capitais que ainda não comportam essas marcas internacionais. As pessoas viajam, mas não adianta só conhecer. Não basta só ter dinheiro. Tem de ter a cultura de consumo. Tem de saber valorizar uma bolsa da Chanel. Não perseguimos marcas internacionais, mas o melhor produto da região, sempre. Marinho: Você falou desses comitês multidisciplinares, que não são comuns em todas as empresas. De que maneira o departamento de marketing participa da definição do mix? Satomi: Para um projeto específico, há diversas etapas, com a definição de vários comitês. O marketing participa e dá palpite. Mostramos a planta, o desenho, o perfil do shopping, quais âncoras achamos necessárias e os profissionais de marketing vão concordando ou não. Marinho: As pesquisas comportamentais, por exemplo, não são contribuição do marketing nesse papel? Satomi: Nesse momento, não. As pesquisas ainda são da minha área. “Brifamos” os institutos, recebemos, sentamos e analisamos. Depois, voltamos à cidade para conversar com as pessoas. Há lugares a que chegamos para analisar se vale a pena ter um shopping ou não e algumas pessoas não conhecem a Zara, por exemplo, mas outros dizem que precisam de Louis Vuitton. Nesse momento pensamos: “Uma não conhece a Zara e a outra diz que precisa de Louis Vuitton. Tem alguma coisa errada. Vamos continuar investigando”. Trazemos essas informações para dividi-las com os demais envolvidos. É um processo demorado. Mas, no final, o resultado é rico. Marinho: Nesse caso, o marketing é um colaborador em um processo liderado pelo mix? O mix convoca o comitê multidisciplinar? Satomi: Quem convoca é a área de novos negócios, o mix é uma das engrenagens. A parte de estúdio, de como vai ficar a cara do shopping, entretanto, nós lideramos, assim como a divisão do mix de lojas, do tamanho do shopping. Marinho: Qual a participação de vocês no paisagismo, na arquitetura, nas experiências oferecidas ao cliente? Isso não é exatamente mix, mas é produto também… Satomi: Tem uma equipe grande de arquitetura, de engenharia na empresa e também há os consultores, as empresas de arquitetura. Por exemplo, o projeto do JK foi feito por uma empresa de fora, com muita luminosidade. Nós fomos recheando com outras coisas. Como é que poderíamos nos diferenciar? Em qualquer pesquisa, o cliente diz que sente falta de cultura, de um teatro. E questionamos, para entender: quantos shoppings têm teatros que deram certo? Quantas companhias hoje conseguem se manter? Vamos traduzir um pouco o que é que significa isso? O que é cultura para essas pessoas? Temos feito alguns testes que têm dado certo. No JK, por exemplo, foram compradas obras de arte para serem colocadas dentro do mall. E haverá um rodízio entre as peças, que são contemporâneas. É uma experiência bacana, de levar cultura aos frequentadores. Marinho: Isso já não é arquitetura? Satomi: É mais arquitetura. Compra-se uma obra de arte para colocar naquele espaço e se obtém retorno. Isso dá mídia, nos diferencia da concorrência. Do pouco dinheiro que temos para campanhas, uma parte é colocada nisso. Marinho: Aquela velha tabela de referência de um mix ideal ainda é referência ou vocês começam a partir do zero em cada mercado? Satomi: Do zero em cada mercado. Não tem um número mágico. Depende de cada mercado, dos players, das parcerias, das provocações que conseguimos fazer, porque sempre tem de ter algo provocador. Às vezes, sentamos com várias pessoas, mas ninguém está preparado para isso e temos que abrir mão. Marinho: O Iguatemi é conhecido pela atuação no mercado de luxo, embora nem todos os shoppings do grupo sejam desse segmento. Isso é um fator que ajuda ou atrapalha ao montar um mix de um shopping que não é como o JK e o Iguatemi de São Paulo, que são mais do segmento de luxo? Satomi: Ajuda mais do que atrapalha. Vamos para um projeto novo, em uma cidade nova, por exemplo. Daí, a pessoa pensa: “Nossa, vai vir um Iguatemi. Que chique!”. Ela tem sempre a imagem do Iguatemi de São Paulo. “Ah, mas vocês vão vir assim e assado?” Dizemos: “Não, provavelmente, para cá viremos de outro jeito”. Mesmo assim, essa imagem é tão forte que para essa pessoa o próprio McDonald’s do nosso empreendimento é mais luxuoso do que o que ela está acostumada aver. A provocação que fazemos a cada lojista que vai para esses lugares é pedir um projeto de loja diferente, um mix de produtos diferente. Pedir às vezes uma vitrine diferenciada. Daí vem a sensação do frequentador de estar em um shopping de luxo. São as mesmas marcas, mas elas têm algo diferente. Marinho: E os lojistas estão sendo mais sensíveis a esses pedidos? Satomi: Por incrível que pareça, estão. Às vezes, pensamos em uma loja de lingerie e ela está em todos os lugares. Mas sempre conversamos e falamos: “Olha, estamos com um projeto diferente. Vai ser o melhor shopping da cidade. O que você pode fazer de diferente?”. As pessoas têm a sensação de que o Iguatemi é luxo. Mesmo quando se deparam com um mix de lojas democráticas, têm a sensação de que estão em um universo de luxo, o que para nós é bom. Marinho: Como você avalia a estratégia de mix no mercado brasileiro? Satomi: Todo mundo está caminhando parecido. O que muitas vezes ajuda e atrapalha é a questão do retorno financeiro, que nem sempre se consegue mensurar de imediato. Gasto mais para ter um shopping maior, gasto mais para ter melhores lojas – e em quanto tempo isso vai voltar? É difícil medir mas, no geral, todo mundo tem caminhado na mesma direção. Às vezes, visitamos outros shoppings pelo Brasil e vemos que também pensam na mesma coisa. Todo mundo está abrindo uma parte grande de gastronomia, cobrindo os seus estacionamentos, colocando muito verde dentro do shopping. O interessante é estarmos na frente. Sobre lounges antigamente se pensava: “Imagina se vou colocar lounges dentro do shopping. Gastar dinheiro com sofá…”. Hoje há vários lounges com cadeiras ou poltronas chiquérrimas. Marinho: Falando do lojista, uma pessoa responsável por estratégias de mix deve entender muito de varejo, acompanhar não só o movimento dos shoppings, mas o comportamento das pessoas, dos consumidores. Como monitorar isso, manter-se informada sobre os movimentos do varejo? Satomi: Primeiro, deve-se ler tudo. Hoje tem muita coisa on-line sobre varejo. Focamos muito no que é tendência, no que está sendo publicado sobre moda no mundo inteiro, o que publica-se sobre o varejo em geral. O que foi dito sobre comportamento? Quem são os novos estilistas que estão fazendo a diferença? A tecnologia é muito importante. Temos o Instagram, o Pinterest. Marinho: Não há um responsável por consolidar todas essas coisas ou todo mundo navega? Satomi: Todo mundo navega, mas o que fazemos é um rodízio. Tem sempre alguém para coletar informações. Fazemos muitos workshops internos; trabalho com muita gente jovem, isso também faz a diferença. São pessoas ligadas. Elas sempre estão seguindo alguém ou alguma coisa pelas redes sociais. E são pessoas muito curiosas. Basicamente é assim: pegar a informação, que hoje tem em quantidade, e saber filtrar. É muita informação. Marinho: De que maneira, além das pesquisas que já fazem, vocês monitoram as tendências globais e os movimentos locais? Satomi: Em cada região tenho uma consultora que faz o filtro. Ela recebe o que o mundo inteiro está passando e analisa onde aquilo se aplica. Geralmente, essas consultoras são meninas que circulam em todos os meios, têm bom gosto e são cultas. Tentamos filtrar antes de apresentar algo ao mercado. Marinho: Os shoppings estão aprendendo a entender para depois atender à chamada nova classe média brasileira. De que maneira vocês estão olhando para esse novo segmento da população e considerando a influência desse consumidor no mix do shopping? Satomi: Não temos a arrogância de achar que sabemos tudo. Fora as informações reunidas e o apoio das consultoras em cada região, contamos com pessoas convidadas, que são referências para nós. Quisemos entender essa classe C emergente e chamamos uma equipe da Editora Abril, que tem revistas de mulheres para esse segmento e ela fez uma apresentação para nós. Conversamos também com uma empresa de consultoria que tinha feito um estudo para esse público. Eles trouxeram vídeos. Um deles, inclusive, de uma mulher que dizia que antes nem podia comprar na Renner e hoje tem orgulho de comprar nessa loja. Começamos a entender que o aspiracional dessa mulher é a Renner. Ela levou a consultora para casa, mostrou a cozinha com os eletrodomésticos comprados, os vários eletrônicos sobre a cama. O marido dela queria um carro e estava feliz, porque conseguiu comprar um de quatro portas. Buscamos entender essas mudanças de situação e comportamento. Marinho: Como traduzir tudo isso em um mix para essa população? Vocês estão trabalhando em shoppings mais voltados para esse público? Satomi: Ainda não. Focamos a classe AB, mas estamos sempre atentos a necessidades específicas. No interior descobrimos a Lívia Cosméticos, que as mulheres amam. O que se traduz aqui em São Paulo como Drogaria Iguatemi, no interior esse papel é da Lívia Cosméticos. A Drogaria Iguatemi é um sucesso? Sim, mas para São Paulo. Como traduzir isso no interior paulista, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre? É essa resposta que procuramos. Marinho: Muitas pessoas utilizam o shopping como lazer, mas também como conveniência. Você vislumbra algum aumento no mix de serviços ou do jeito que está ele atende bem esse tipo de consumidor? Satomi: Tem muito suor por trás disso. Acompanhamos as vendas de todas as lojas, de todas as categorias. Comparamos o tempo inteiro, analisando quem está crescendo. Vemos se há alguma diferença entre shoppings, entre regiões, entre categorias. Cada vez mais tem crescido a área de serviços, concentrados ou dispersos no mall. Depende de como são as características do empreendimento. Salão de cabeleireiros, por exemplo, é uma das categorias de serviços que têm crescido. E aí tem outros desdobramentos, como depilação a laser, manicure express. Diversificamos enquanto foi aumentando a oferta nessa área. E há, ainda, a parte de caixas eletrônicos, valet. Isso também cresce? Sim, mas é conveniência. Não estou muito preocupada com o fato de todo shopping ter que ter caixa eletrônico, bancos, chaveiros. O que mais preciso ter? O que é diferente? Marinho: Como foi o case da C&A do Iguatemi? Satomi: Vou contar o que me passaram, pois eu não estava aqui ainda. A C&A estava ultrapassada e foram realizadas reuniões para apontar o seguinte: “O que é que falta no shopping e seria bom ter dentro da C&A?”. Foram listadas várias marcas nacionais e internacionais. O pessoal da C&A recebeu tudo isso e voltou com um projeto, dizendo: “Queremos colocar tudo que vocês pediram e precisamos de espaço”. Dissemos: “O público do Iguatemi São Paulo é mulher. Não adianta fazer coisa para homem, não dá certo”. Eles então tiraram o masculino, mantiveram o infantil e ampliaram o feminino, só com tendências. Tem uma área grande de Havaianas – porque ainda não tenho loja da Havaianas. Eles compraram a ideia, deu muito certo. Marinho: Eles ofereceram a vocês exclusividade nesse modelo? Satomi: Não, nem pedimos exclusividade. O fato é que não haveria esse retorno em todos os casos. Em outros lugares é importante ter o masculino, a área de calçados grande. Sei que o tíquete médio daqui é maior. Marinho: Esse modelo é interessante, porque é o mais próximo de uma H&M, Topshop nacionais. Você vai à Topshop do JK e à C&A do Iguatemi e a diferença não é tão grande assim… Satomi: E o investimento deles foi grande. A parte de arquitetura, iluminação, a loja é um show. Os equipamentos, os cabides são superinteressantes. Muita tecnologia envolvida também. Sei que o custo dessa loja foi alto, não dá para reproduzir em vários lugares. Queria reproduzir essa loja em outros shoppings nossos, justamente para ser diferente. E a própria C&A diz: “É impagável, porque o investimento foi muito grande”. Sabemos por pesquisas que a nossa clientela do Iguatemi São Paulo é completamente fora da curva. Não dá para reproduzir. Marinho: Existe uma frase célebre do Ildo Tacard: “Marketing é importante demais para ser responsabilidade exclusiva do departamento de marketing”. De que maneira você, como responsável