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Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital Autor: Alexandre Vastella Aula 23 6 de Agosto de 2020 Aulas 23 e 24 - Política Internacional - Organização das Nações Unidas - Parte II Introdução ao PDF ................................................................................................................................. 1 Organização das Nações Unidas ........................................................................................................ 2 ONU – Evolução e Reforma ...................................................................................................................... 2 Mudanças de representação da China e da Rússia ................................................................................ 2 Mudanças pós- Guerra Fria – Secretários Boutros Ghali (1992 – 1997) e Kofi Annan (1997 – 2007) ....... 3 Mudanças pós- Guerra Fria – Década das Conferências – qualidade de vida passou a ser importante .. 4 Terrorismo, segurança, burocracia e administração: mudanças debatidas no século XXI ..................... 6 Propostas de reformas do Conselho de Segurança ............................................................................. 13 Unidos pela Reforma: As “mudanças radicais” de António Gutierrez (2017 – 2021) ............................ 14 O Brasil e a ONU ..................................................................................................................................... 15 Operações de paz: peacekeeping, peacemaking e peacebuilding .......................................................... 18 Peacekeeping – manutenção da paz após o conflito ........................................................................... 19 Peacemaking – fazer a paz durante o conflito ..................................................................................... 20 Peacebuilding – construir a paz por uma lógica social, não somente militar. ...................................... 21 INTRODUÇÃO AO PDF Na aula de hoje, vamos continuar estudando sobre a Organização das Nações Unidas (ONU), focando principalmente nas suas mudanças, propostas e desafios – e também, como isso afetará o Brasil. Primeiramente, estudaremos a evolução e reforma da organização, focando: nas mudanças de representação da China e da Rússia; nas transformações pós-Guerra Fria personificadas pelos Secretários Boutros Ghali e Kofi Annan; nas mudanças de direcionamento da para abranger maior qualidade de vida; nas propostas de reforma do Conselho de Segurança; e, por fim, nos desafios do século XXI – em especial terrorismo, segurança nuclear e questões administrativas. No último item, ainda estudaremos os diferentes tipos de operação de paz – peacekeeping, peacemaking e peacebuilding. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 2 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS ONU – Evolução e Reforma As Nações Unidas foram concebidas em 1945, em um contexto de final de Segunda Guerra Mundial, emergência dos Estados Unidos como potência e início de Guerra Fria. Nessa mesma época foram estabelecidos marcos importantes como o sistema financeiro de Bretton Woods, o GATT e demais organizações e tratados internacionais que mantivessem a paz e a ordem global sob diversos aspectos. No entanto, após mais de setenta anos, o contexto de 1945 não existe mais e a ONU se vê diante do desafio de adequar sua estrutura e atuação à realidade do século XXI. Nesse longo período, muita coisa aconteceu: houve a multiplicação dos atores internacionais; o crescimento dos países em desenvolvimento; o final da Guerra Fria e a emergência da ordem multipolar; o crescimento da China; a recuperação do Japão e da Alemanha após a Guerra e da Rússia após a falência da União Soviética; a relativização do sistema de Bretton Woods; a globalização e a integração das cadeias globais de produção; a intensificação do terrorismo mundial; o avanço expressivo das técnicas e tecnologias nas mais diversas áreas e o encurtamento das distâncias; entre outros muitos aspectos. Nas linhas abaixo, veremos como as Nações Unidas têm lidado com as transformações no cenário mundial. Mudanças de representação da China e da Rússia Mudanças de representação no Conselho de Segurança 1971 – China nacionalista para China comunista 1991 – União Soviética para Rússia República da China República Popular da China União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Federação Russa Representava a China até 1971. Passou a representar a China a partir de 1971. Representava a Rússia até 1991. Passou a representar a Rússia a partir de 1991. Por que mudou? Porque os EUA passaram a apoiar a China comunista na intenção de evitar uma eventual aproximação desta com a URSS. Por que mudou? Porque a União Soviética veio à falência com o final da Guerra Fria e alguém precisava ocupar o lugar dela no Conselho de Segurança. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 3 Durante o seu longo tempo de vigência, foram feitas alterações importantes na ONU. Em 1971, a República Popular da China (Pequim) assumiu os direitos da República da China (Taiwan). A partir desse momento, portanto, a China comunista tomou o lugar da China nacionalista. Conforme vimos anteriormente – e por mais estranho que possa parecer – a aproximação da China comunista com a ONU foi apoiada pelos Estados Unidos. Isso porque Washington temia que a China comunista se aliasse à União Soviética, tornando o comunismo invencível. O Brasil foi contra essa mudança, mas depois acabou aceitando. Em 1991, o lugar da União Soviética no Conselho de Segurança e nos demais órgãos da ONU passou a ser ocupado pela Federação Russa como Estado sucessor – embora a antiga URSS fosse formada por vários países. Mudanças pós- Guerra Fria – Secretários Boutros Ghali (1992 – 1997) e Kofi Annan (1997 – 2007) Apesar das mudanças de representação da China e da Rússia, foi somente a partir do final da Guerra Fria – já na década de 1990 – que as transformações na ONU começaram a ser efetivamente discutidas pelos seus Secretários. Nesse contexto de mudanças, destacaram-se os nomes de Boutros Ghali (1992 – 1997) e Kofi Annan (1997 – 2007), conforme veremos no quadro abaixo: Mudanças debatidas por Boutros Ghali e Kofi Annan Secretários Boutros Ghali (1992 – 1997) (dir.) e Kofi Annan (1997 – 2007) (esq.) tentaram adequar a ONU à nova realidade pós-Guerra Fria. Boutros-Ghali (1992 – 1997) inicia o debate sobre reformas, que culminou na Agenda para a Paz. – Cinco pilares: diplomacia preventiva, peacemaking, peacekeeping, peace enforcement e peacebuilding. Em 1992, o secretário geral Boutros-Ghali (1992 – 1997) iniciou o debate sobre as reformas, o que culminou na assinatura da Agenda para a Paz (1992). Nesse documento, Ghali defendeu que a ONU funcionasse com cinco pilares: – Diplomacia preventiva; – Promoção da paz (peacemaking); – Manutenção da paz (peacekeeping); – Imposição da paz (peace enforcement); e Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 4 – Construção da paz (peacebuilding). Estudaremos esses conceitos em outro momento da aula. Por enquanto, é necessário apenas saber que Boutros Ghali tentou empoderar as Nações Unidas, dando-lhes mais força, em uma época de grande otimismo em contexto pós-Guerra Fria. Contexto de pós-Guerra Fria: – Grande otimismo. – Temas até então secundários, passaram a ganhar destaque (Década das Conferências). – Preocupação com unilateralidade norte- americana. Nesse momento de pós-GuerraFria, a ONU passou a se preocupar com questões que até então estavam sendo relegadas a segundo plano: meio ambiente, direito das crianças, direitos humanos, etc. Não por acaso, a década de 1990 ficou conhecida como “Década das Conferências”. Boutros Ghali se legitimava pelo argumento de que a ONU havia sobrevivido mesmo com décadas de Guerra Fria, mantendo-se coesa e conseguindo evitar um conflito direto entre duas potências. Portanto, já havia provado sua eficácia e legitimidade. Além disso, nesse novo cenário de unipolaridade, havia o temor de que os Estados Unidos pudessem agir unilateralmente de forma desequilibrada. Diante dessa preocupação, as Nações Unidas procuravam atrair para o âmbito multilateral temas delicados como a paz internacional e o desenvolvimento, tentando incluir os países subdesenvolvidos e os demais atores internacionais. Kofi Annan (1997 – 2007) continua as tentativas de reforma de Boutros Ghali. – Documento “Renovar as Nações Unidas: um programa para a Reforma”. – Painel de Alto Nível e Relatório Cardoso. Conselho de Segurança ainda ficou intacto, provocando o descontentamento do Brasil. O Secretário Geral Kofi Annan (1997 – 2007) deu prosseguimento às tentativas de reformas de Boutros-Ghali (1992 – 1997). Perceba que estes dois secretários, juntos, ficaram 15 anos no poder. Kofi Annan, no entanto, recebeu atenção midiática bem maior que seu antecessor. Por isso, há uma chance maior de que vocês o conheçam, ou pelo menos tenham ouvido falar. Logo no início de seu mandato, Kofi Annan publicou o documento "Renovar as Nações Unidas: um programa para a Reforma". Nesta ocasião, foi criado o Painel de Alto Nível e o Relatório Cardoso. Grosso modo, tratava-se de documentos que deixavam claro a intenção de reformar a ONU, sendo um projeto de reestruturação do organismo. No entanto, essas reformas não agradaram o Brasil, pois o país continuou fora do Conselho de Segurança e sem a tão sonhada representatividade. Mudanças pós- Guerra Fria – Década das Conferências – qualidade de vida passou a ser importante Tradicionalmente, por conta das tensões da Guerra Fria e do consequente risco de guerra nuclear –que poderia simplesmente destruir a humanidade – o foco da ONU sempre foi a segurança. Tanto é que sistema de segurança coletiva ainda hoje é núcleo das Nações Unidas, tendo como principal objetivo garantir a paz mundial. Contudo, com o final da Guerra Fria, o afrouxamento das preocupações com a guerra nuclear possibilitou que a ONU tivesse energia para trabalhar com outros temas. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 5 No mais, com a falência de todos os modelos políticos alternativos ao liberalismo – vide “fim da história” de Francis Fukuyama – havia um consenso de que a democracia liberal era o único caminho para a prosperidade. Um período de grande otimismo, portanto. Nesse sentido, assuntos que até então eram considerados secundários começaram a ganhar os holofotes: meio ambiente, direito das crianças, desenvolvimento, qualidade de vida das populações, igualdade de gênero, etc. ONU – Pós-Guerra Fria – Década das Conferências 1990 Conferência sobre o Direito das Crianças Nova York, EUA. 1992 Conferência sobre o Meio Ambiente Rio de Janeiro, Brasil. 1993 Conferência sobre Direitos Humanos Viena, Áustria. 1994 Conferência sobre Populações Cairo, Egito. 1995 Conferência sobre Desenvolvimento Copenhague, Dinamarca 1996 Conferência sobre Assentamentos Humanos Istambul, Turquia. Nesse novo contexto, administrada pelos secretários Boutros-Ghali (1992 – 1997) e Kofi Annan (1997 – 2007), a ONU promoveu uma mudança de postura baseada em maior foco na qualidade de vida das populações além da tradicional concepção sobre segurança. Foi nesse contexto, por exemplo, que foi estabelecido o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um indicador utilizado justamente para medir a qualidade de vida das populações por meio de saúde, educação e renda. Bônus retirado do PDF de Geografia: como é calculado IDH? Educação Saúde/Longevidade Renda Taxa de Alfabetização Taxa de escolarização Expectativa de vida ao nascer Produto Interno Bruto per capita (PIB per capita) Calcula quantas pessoas são alfabetizadas no país após a idade de 15 anos. Calcula quantas pessoas estão matriculadas em cursos (básico ou superior) Calcula quantos anos um indivíduo viveria nas condições demográficas observadas ao nascer. Calcula a soma de todos os valores produzidos num país (PIB) dividido pela quantidade de habitantes do mesmo (PIB per capita). Além disso, com a multiplicação de atores internacionais, os Estados subdesenvolvidos – até então situados em segundo plano – começaram a levar suas demandas de desenvolvimento para a ONU. Nesse momento, por conta do processo de descolonização ocorrido nos anos 1960 e 1970, o número de países periféricos era bem maior do que em 1945, o que possibilitou maior força às pautas terceiro- mundistas. Como exemplo desse maior protagonismo, podemos citar o discurso, proferido por parte dos Estados subdesenvolvidos, que vincula o desarmamento ao desenvolvimento. Basicamente, trata-se da ideia de que caso os países mais ricos poupassem os gastos com corrida militar, sobraria dinheiro para Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 6 investir nos países mais pobres e isso tornaria o mundo mais pacífico – algo semelhante ao discurso 3D de Araújo Castro. Durante as longas décadas de Guerra Fria, a ONU precisou lidar como risco de guerra nuclear. Ainda que alguns afirmem que a lógica de destruição mútua assegurada tenha contribuído para a paz mundial (a ideia de que Estados Unidos e União Soviética não se enfrentavam porque tinham a certeza que ambos seriam destruídos), o fato é que a ONU se fortaleceu com o final da Guerra Fria, pois havia triunfado em seu objetivo de evitar um conflito generalizado. Se durante o período de tensões, a guerra nuclear foi evitada, havia um grande otimismo de que seria mais fácil evita-la em um mundo unipolar. Ou seja, havia uma quase certeza de que a paz e a cooperação substituiriam a corrida armamentista. Terrorismo, segurança, burocracia e administração: mudanças debatidas no século XXI No século XXI, a ONU consolidou essa nova postura voltada à qualidade de vida – ainda que não tivesse abandonado a segurança coletiva. Contudo, as transformações globais desse início de século fez surgir novos desafios. Há debates, por exemplo, sobre as funções do extinto Conselho de Tutela, sobre da implantação do Comissão de Estado Maior; sobre o risco dos países nucleares não signatários do TPN; sobre a reforma do Conselho de Segurança; sobre o avanço do terrorismo global; sobre a crise de legitimidade da organização; e, também, sobre mudanças administrativas e burocráticas. Veremos essas mudanças e propostas abaixo: Mudanças debatidas na ONU Após a independência do paradisíaco arquipélago de Palau (1994) (imagens acima) – o último dos territórios tutelado pela ONU – o Conselho de Tutela foi desativado. Alguns países, como o Brasil, defendem que o órgão reformule sua função passando a ajudar os países em desenvolvimento. Conselho de Tutela está superado. Existem discussões sobre o que fazer com o Conselho de Tutela, desativado desde 1994 com a independência de Palau, um pequeno território na Oceania – a última área tutelada pela ONU. Enquanto alguns países defendem a sua extinção definitiva, outros, como o Brasil, defendem que o órgão mude de função, passando a englobar, por exemplo, o desenvolvimento dos países periféricos. Artigos que versam sobre uma “Comissão Atualmente, várias mudanças estão sendo debatidas na ONU. Uma dessasmudanças diz respeito à ampliação dos poderes da Comissão de Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 7 de Estado-Maior”, que nunca foi concretizada. Estado-Maior, um órgão destinado a orientar e assistir o Conselho de Segurança. No entanto, isso nunca foi implantado. Melhorar a administração: – Melhor suporte às operações de paz. – Diminuição da burocracia Há também, debates para melhorias administrativas da ONU como, por exemplo, melhorias no suporte às operações de paz e diminuição da burocracia. Quanto à burocracia, não necessariamente significa diminuir o número de funcionários, mas sim, aumentar a eficiência otimizando o processo administrativo. Combater de forma global o terrorismo. – Dificuldades para definir terrorismo. – Todas as potências são contra o terror, mas o conceito de “terror” varia de país para país. Um dos pontos mais polêmicos diz respeito ao combate global ao terrorismo. Embora haja um consenso de que o terrorismo é ruim, há divergências do que seria considerado “terrorismo” – um termo muito vinculado ao avanço de causas políticas, religiosas, ideológicas e afins. Os Estados Unidos, por exemplo, justificaram a invasão do Iraque alegando que o país financiaria o terrorismo, o que foi contestado pela ONU. Do mesmo modo, a Rússia fez a mesma justificativa – combate ao terrorismo – para aumentar a sua presença no Cáucaso, especialmente na Geórgia; uma atitude que foi amplamente contestada no cenário internacional. É verdade que todas as potências combatem o terrorismo, mas há divergências do que deve e do que não deve ser combatido, o que dificulta a abordagem da questão em nível global. Aumentar a capacidade para a diplomacia preventiva, mediação, criação e construção da paz. Há a busca pelo aumento da diplomacia preventiva; ou seja, a mediação, a criação e a construção da paz. Há, portanto, a tentativa de prevenir os conflitos por meio da solução pacífica de controvérsias, não apenas construindo a paz, mas mantendo-a também. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 8 Revitalizar a agenda de desarmamento e não-proliferação. Nos anos 1990, conforme já vimos, houve o colapso da lógica da Guerra Fria, pondo fim ao o sistema bipolar e fazendo surgir a unipolaridade dos Estados Unidos – uma grande potência que passou a se sobressair perante todas as outras. Com o fim do perigo de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, o debate sobre o desarmamento avançou na ONU; afinal,, em um mundo mais pacífico, não faria sentido ter um arsenal nuclear tão poderoso. Reforma do Conselho de Segurança. Em 2007, dez anos após o documento Renovar as Nações Unidas (1997), havia a expectativa de que finalmente o Conselho de Segurança seria reformado, porém, as expectativas foram frustradas. A verdade é que as grandes potências, detentoras do poder de veto, não aprovavam a ampliação do CSNU: a China, por exemplo, barrou a ascensão do Japão; já a França, barrou a ascensão da Alemanha. Com a falta de consenso, a reforma do Conselho de Segurança foi enterrada. Mesmo assim, o Brasil, descontente com o congelamento das negociações, ainda continua buscando essa reforma. Veremos com mais detalhes esse assunto ainda na aula de hoje. ONU – Os desafios do século XXI Após os ataques de 11 de setembro de 2001 (imagem), a ONU se viu desafiada a lidar com a nova realidade do terrorismo. Na esteira desses acontecimentos, outras questões de segurança ganharam novo impulso como, por exemplo, a questão nuclear. Reflexos dos ataques de 11 de setembro de 2001: – Kofi Annan estabelece um grupo de trabalho sobre terrorismo para examinar como a ONU deveria lidar com o fenômeno Após os ataques de 11 de setembro de 2001, Kofi Annan estabeleceu um grupo de trabalho sobre terrorismo para examinar como a ONU deveria lidar com o fenômeno. Porém, conforme já adiantamos, houve poucos resultados devido às divergências entre os Estados sobre o conceito de terrorismo. Alguns países árabes, por exemplo, acharam injusto alguns “grupos políticos” sediados em seus territórios serem classificados como terroristas. Do mesmo modo, a Rússia tentou rotular como “terroristas” grupos que os Estados Unidos acreditavam ser “ativistas pelos direitos humanos”. Por conta de vários desencontros dessa Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 9 natureza, pouco se avançou. Em 2006, AGNU adota a UN Global Conter-Terrorism Strategy: – Permite que a ONU adote uma abordagem mais coordenada no combate ao terrorismo construindo capacidade estatal. – Papel importante desempenhado pelo Conter-Terrorism Task Force (CTTF). Não obstante o fracasso do grupo de estudos sobre terrorismo, a Assembleia Geral da ONU resolveu adotar a Estratégia Global de Contraterrorismo – UN Global Conter-Terrorism Strategy. Essa estratégia permite que a ONU adotasse uma abordagem coordenada no combate ao terrorismo. Apesar das divergências em muitos aspectos, houve consenso entre os países de que o terrorismo proliferava em Estados incapazes de administrarem seus próprios territórios. Quando o Estado se ausentava das obrigações de garantir a integridade física dos limites territoriais e a segurança doméstica, grupos terroristas surgiam se aproveitando da fraqueza estatal. Havia, por exemplo (e ainda há), países na África e no Oriente Médio incapazes de controlar seus próprios territórios, o que abre margem para a ascensão de grupos violentos. Tendo em vista essa constatação, a ONU promoveu a Força-Tarefa de Implementação do Contraterrorismo (CTITF) – The Counter-Terrorism Implementation Task Force (CTITF) – visando capacitar os Estados, principalmente os que falhavam em garantir com a segurança interna, para combater com o terrorismo. Portanto, uma espécie de tutoria para que os Estados melhorassem sua capacidade de gestão. Papel da ONU no regime de não-proliferação nuclear: – ONU servindo como fórum de negociação entre Estados. – Primeiro Comitê da Assembleia Geral – Conferência sobre Desarmamento: não é formalmente parte da ONU, porém se reporta a AGNU e possui oficiais da ONU no seu corpo burocrático. A ONU continua assumindo um papel crucial no que diz respeito ao regime de não proliferação nuclear, sendo o fórum principal das discussões entre os Estados. Para lidar com a questão, a ONU instalou o Primeiro Comitê da Assembleia Geral e também, a Conferência sobre Desarmamento. Embora essa conferência não seja formalmente parte da organização, é fortemente auxiliada pelos seus assessores, o que garante o avanço dos debates. Apesar dos esforços, houve mais avanços no âmbito da não-proliferação do que no desarmamento. Ou seja, os Estados até concordaram em limitar seus programas nucleares, mas foram irredutíveis em eliminá-los. Por isso, o mundo continua tendo muitas armas nucleares em circulação (veremos esse assunto posteriormente, em aula específica sobre segurança). Nas linhas abaixo, vejamos como anda a situação do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TPN), assinado em 1968: Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 10 ONU e o Tratado de Não Proliferação-Nuclear (TPN) Países que não se aderiram: Índia, Paquistão e Israel Mesmo após cinquenta anos da assinatura do TPN, Índia, Paquistão e Israel ainda não aderiram – o Brasil, apesar dos problemas diplomáticos da época, aderiu posteriormente, nos anos 1990. É interessante notar que, guardadas às devidas proporções, Índiae Paquistão possuem uma lógica de garantia mútua de destruição semelhante à disputa bipolar entre Estados Unidos e União Soviética. Embora sejam inimigos declarados e disputem a região da Caxemira, tanto Índia quanto Paquistão sabem que, em caso de conflito nuclear, ambos seriam destruídos. O caso de Israel é um pouco diferente. Apesar de não afirmar diretamente que possui armas nucleares, todos sabem que Israel é um Estado nuclear. Um dos motivos para essa certeza é justamente o fato do país não ter aderido ao TPN. 2003: Retirada da Coreia do Norte Em 2003, a Coreia do Norte se retirou do TNP, gerando uma grande repercussão internacional. Apesar de terem armas nucleares, Israel, Índia e Paquistão possuem um bom histórico de diálogo com a ONU e com os fóruns multilaterais, articulação que minimiza a preocupação do Conselho de Segurança. A Coreia do Norte, ao contrário, gera preocupação porque é um país isolado, ditatorial e imprevisível; sendo assim, é um grande desafio para a comunidade internacional. Ao invés de ser tratada no âmbito da ONU, a questão nuclear da Coreia do Norte está sendo resolvida bilateralmente com os Estados Unidos, entre Kim Jong Un e Donald Trump. Apesar da recente aproximação, ainda não há acordos definitivos. Monitoramento feito pela AIEA verifica se os materiais e atividades nucleares não estão sendo usados para fins militares. Há um consenso sobre o monitoramento da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na inspeção de instalações nucleares. A fiscalização da organização verifica periodicamente os materiais e as atividades militares para certificar que o urânio e os demais elementos radioativos realmente estão sendo utilizados para fins pacíficos. Sobre a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) Foi estabelecida em 1957, com sede em Viena, Áustria, como uma agência autônoma das Nações Unidas. Possui como objetivo “acelerar e ampliar a contribuição da energia atômica para a paz, saúde e prosperidade por todo o mundo”; assegurando, o quanto for capaz, que o auxílio prestado pela agência ou sob sua supervisão ou controle não será usado para qualquer propósito militar [fonte]. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 11 Estados não nucleares abrem mão de armas nucleares em troca de tecnologia nuclear para fins pacíficos. Recentemente também, podemos ressaltar o poder de barganha exercido pelos Estados nucleares no âmbito da ONU. Há, por parte desses países, a proposta de abrir mão de armas nucleares em prol de tecnologia nuclear para fins pacíficos – energéticos, medicinais, etc. Veremos mais detalhes na aula específica sobre segurança. Estados nuclearmente armados devem reduzir seus arsenais com o objetivo final de desarmamento total. Apesar do consenso na inspeção da AIEA, há um polêmico ponto de inflexão: para que haja o desarmamento total, Estados nuclearmente armados devem reduzir seus arsenais, o que não ocorre. Um dos pontos que aparece na literatura teórica é de os Estados até poderiam concordar em eliminar totalmente seu arsenal, mas em algum momento, um desses Estados poderia se rearmar, reiniciando a lógica da desconfiança novamente. Seria como, por exemplo, se Estados Unidos e Rússia se desarmassem, mas a Coreia do Norte, secretamente, se mantivesse armada. Justamente por conta desses problemas, essa ideia não avança na ONU. Visando resolver as tensões nucleares, a ONU colabora com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e trabalha em conjunto com a Organização para a Proibição de Armas Químicas e com a Comissão Preparatória para a Organização do Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares (CTBTO). Quando pensamos em “ensaios nucleares” devemos pensar em testes nucleares. O problema é que esses testes normalmente são feitos em locais ermos de países subdesenvolvidos. Há, por exemplo, testes feitos no Oceano Pacífico, por parte das grandes potências, que afetam o mar territorial de pequenos países. Por meio da Comissão Preparatória para a Organização do Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares (CTBTO), esses pequenos Estados conseguiram levantar esse debate na ONU e barrar – ou pelo menos diminuir significativamente – a realização desses testes. Os testes também são problemáticos porque violam a soberania dos países. A Coreia do Norte, por exemplo, embora tenha falhado em alguns ensaios, costuma invadir o espaço aéreo de outros países, como Coreia do Sul e Japão, gerando sérios impasses internacionais. Apesar da Rússia e EUA serem os líderes absolutos em armas nucleares (mapa acima), o que mais preocupa são os países não-signatários do TNP e politicamente instáveis como a Coreia do Norte, por exemplo. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 12 Além dos testes nucleares, outro grande problema é a utilização de armas químicas, como ocorreu recentemente na Guerra da Síria, por parte do governo de Bashar Al Assad. Aliás, esse foi exatamente o argumento que os Estados Unidos utilizaram para invadir o Iraque, o vizinho sírio, em 2003. Por falar em Iraque, em 1991, após a derrota do país na Guerra do Golfo, a ONU aprovou a Resolução 687, obrigando o Iraque a declarar seus programas e instalações de armas de destruição em massa. Também foram estabelecidos mecanismos de inspeção como o UN Spetial Commission. Em 1998, alegando interferência da CIA – a agência de inteligência norte-americana, Saddam Hussein baniu operações da AIEA e da UN Spetial Comission em seu território, aumentando exponencialmente a desconfiança dos Estados Unidos com a suposta produção de armas químicas e destruição em massa no país. Se valendo dessas medidas e envoltos em contexto pós-11 de setembro, os Estados Unidos procuraram na ONU a legitimidade necessária para a invasão. Inclusive, membros do governo norte- americano acusaram os funcionários da UN Monitoring, Verification and Inspection Commission de estarem recebendo dinheiro ilegal para fazerem vista grossa ao estoque de armas iraquiano, o que complicou ainda mais a situação. Mais tarde, quando constatado que o Iraque realmente não possuía armas de destruição em massa, houve um quase consenso de que a inteligência dos Estados Unidos havia falhado. No entanto, os representantes diplomáticos de Washington se defenderam alegando que as armas foram transportadas para a Síria, o país vizinho, tanto que foram posteriormente utilizadas na Guerra da Síria e que sendo assim, os Estados Unidos estavam certos em sua desconfiança. O fato é que com a intervenção não autorizada dos Estados Unidos no Iraque, houve questionamentos sobre a eficácia do sistema de segurança coletivo da ONU. Não estava claro, a esta altura, como que uma organização internacional, mesmo de dimensão universal como a ONU, poderia frear uma grande potência como os Estados Unidos. Ou ainda, como a ONU poderia puni-la sendo que grande parte de seu financiamento vem justamente de Washington. A mesma lógica se aplica à Rússia. Como frear e eventualmente punir o expansionismo de Moscou no Cáucaso, na Crimeia e em determinadas intervenções? Até agora, ninguém chegou a uma resposta satisfatória. Tendo em vista os “problemas” com a ONU, os Estados Unidos frequentemente levam suas decisões ao âmbito da OTAN, onde costuma lograr mais sucesso, obtendo legitimidade para suas ações. Atualmente, embora funcione na maioria dos casos, a ONU está passando por uma crise de legitimidade que engloba basicamente dois eixos: os Estados-membros e o corpo burocrático profissional: Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 13 Naprimeira dimensão, estão os Estados-membros. Em grande parte da história, os Estados Unidos foram vistos como um ator garantidor da paz e da segurança, mas isso foi quebrados com a invasão ao Iraque; afinal, ficou constatado que quando os interesses dos Estados Unidos se chocam com os interesses dos fóruns multilaterais, eles simplesmente agem à margem destes. Recentemente, há novos fatos que corroboram essa perda de confiança como, por exemplo, com a denúncia de Donald Trump a acordos travados no âmbito da ONU, sobretudo em relação às questões climáticas. Ou seja, há uma ausência de liderança dos Estados Unidos. Outra dimensão da crise da ONU é o corpo burocrático profissional. Há o questionamento sobre a eficácia do financiamento, feito em grande parte por grandes potências como Estados Unidos e Japão, aos burocratas da ONU – sem esse aporte de recursos, a ONU seria pouco operacional. Propostas de reformas do Conselho de Segurança Além de problemas com Estados-membros e burocratas, há o desafio de reformar o Conselho de Segurança, uma pauta veementemente defendida pelo Brasil. Atualmente, o CSNU possui 5 membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) e 10 membros não-permanentes eleitos pela Assembleia Geral por um mandato não-consecutivo de dois anos. Dentro das possibilidades de reforma, há dois modelos em discussão. Vamos ao primeiro: De acordo com esse primeiro modelo, apoiado pelo Brasil, seriam criados 6 novos assentos permanentes, mas sem poder de veto. Com a mudança, o Conselho ficaria com 11 membros permanentes, sendo 5 com poder de veto e 6 sem poder de veto. Desses, seriam: 2 para a África (possivelmente África do Sul e Nigéria); 2 para Ásia/Pacífico (possivelmente Japão e Austrália); 1 para Europa (possivelmente Alemanha); e, 1 para América (possivelmente Brasil). Há resistências com esse modelo porque a França não apoia o ingresso da Alemanha e a China não apoia o ingresso do Japão. No caso sino-japonês, a divergência é ainda mais expressiva, tendo raízes históricas, conforme vimos na Aula 16. Além disso, também seriam criados mais 3 assentos não-permanentes para a Ásia e o Pacífico. Essa especificidade geográfica é justificada devido ao fato da região estar atualmente pouco representada no Conselho de Segurança e por ter crescido muito nas últimas décadas. Com essa nova configuração, seriam 13 membros não-permanentes e 11 membros permanentes, sendo 5 com poder de veto. Vejamos o outro modelo de reforma: Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 14 Nesse caso, seriam criados 8 novos assentos de nova categoria (nem permanente e nem não- permanente) com mandatos de 4 anos renováveis, sendo 2 para cada região (2 para América, 2 para África, 2 para Europa e 2 para Ásia/Pacífico). Também seria criado mais 1 assento não-permanente. Com essa nova configuração, o Conselho teria 5 membros permanentes com poder de veto (como é atualmente), 11 membros não-permanentes e 8 membros de nova categoria. Nesse sistema, caso o Brasil realmente tenha a representatividade que diz ter no sistema internacional, poderia ser facilmente eleito e reeleito indefinidamente para essa nova posição. Embora não tivesse poder de veto, poderia estar presente de forma constante no CSNU – desde que, evidentemente, fosse reeleito. Atualmente, o mandato de membro não-permanente é de apenas dois anos e eles não podem ser consecutivos. Apesar das vantagens da segunda proposta, o Brasil tende a apoiar a primeira proposta, pois teria status de membro permanente. Ainda que não tivesse poder de veto, não precisaria contar com reeleição para continuar atuando no Conselho. Nesse caso, o Brasil elevaria seu status internacional, não apenas no âmbito da ONU, mas no sistema internacional como um todo. Conforme vimos nas aulas anteriores, o Brasil defende o multilateralismo como peça-chave da política externa do país. O chanceler Celso Amorim, por exemplo, chegou a afirmar que o multilateralismo seria a expressão legítima, o sustentáculo, de um sistema internacional multipolar. Porém, se existem múltiplas formas de poder, devem existir sistemas multilaterais que representem de fato todas essas formas de poder. Ou seja, se o mundo de fato é multipolar, a ONU deve se adequar à nova realidade, e não ficar presa ao contexto de 1945. O Brasil, portanto, defende aberta e intensamente a readequação da ONU ao sistema internacional atual. Unidos pela Reforma: As “mudanças radicais” de António Gutierrez (2017 – 2021) Diante de todos esses problemas, o novo secretário António Gutierrez está empenhado em promover “mudanças radicais” na estrutura das Nações Unidas. Conforme o quadro abaixo, cujo texto foi literalmente retirado do site oficial da organização, as mudanças se concentrarão no desenvolvimento, na gestão e na segurança: Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 15 Unidos pela reforma das Nações Unidas “O secretário-geral da ONU, António Guterres, apresentou propostas para reformar as Nações Unidas desde o início do seu mandato, em janeiro de 2017.” “Para melhorar a realização do nosso mandato, as Nações Unidas estão promovendo mudanças radicais nas seguintes áreas:” Desenvolvimento “A Agenda 2030 exigirá mudanças ousadas no sistema de desenvolvimento das Nações Unidas para o surgimento de uma nova geração de equipes de trabalho nos países, centrada em uma Estrutura Estratégica de Assistência ao Desenvolvimento das Nações Unidas e liderada por um coordenador imparcial, independente e empoderado.” Gestão. “Um novo paradigma de gestão para o Secretariado e para as Nações Unidas que capacita gestores e funcionários, simplifica os processos, aumenta a transparência e melhora a execução de nossos mandatos.” Paz e segurança. “Os objetivos primordiais da reforma são priorizar a prevenção e sustentar a paz; Reforçar a eficácia e a coerência das operações de manutenção da paz e missões políticas especiais e avançar para um pilar único e integrado da paz e segurança.” De acordo com o próprio Guterres, em pronunciamento feito em novembro de 2018: “o objetivo da reforma é uma ONU do século 21, focada mais em pessoas e menos em processos, mais em entrega e menos em burocracia. O verdadeiro teste da reforma será medido em resultados tangíveis nas vidas das pessoas que servimos – e na confiança daqueles que apoiam nosso trabalho.” Nota-se, portanto, uma boa perspectiva de mudanças. O Brasil e a ONU O Brasil é um dos membros fundadores da ONU, sendo sempre o primeiro Estado a discursar na Assembleia Geral – uma espécie de prêmio de consolação por não ter conseguido a vaga de membro permanente do CSNU em 1945. Já foi eleito dez vezes para o Conselho de Segurança e juntamente com o Japão – que também foi eleito dez vezes – é o país com mais participações. O número só não é superior porque no governo militar – dentro daquela estratégia de autonomia pela distância – o Brasil deixou de se candidatar por várias vezes, promovendo um boicote ao Conselho de Segurança por conta do “congelamento de poder” denunciado pelo Itamaraty em protesto ao TNP. Caso tivesse se candidatado, o Brasil certamente passaria o Japão e seria o país com mais participações no CSNU. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 16 Presidentes brasileiros discursam na Assembleia Geral das Nações Unidas. Como prêmio de consolação por ter perdido o assento permanente no Conselho de Segurança em 1945, o Brasil é sempre o primeiro a falar. O Brasil e a ONU – Membro fundador da ONU. – Primeiro Estado a discursar nas Assembleias-Gerais. –Já foi eleito 10 vezes para o Conselho de Segurança, mas ficou ausente entre 1968 e 1988. – Engajado na reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança. – Realizou uma aliança com Alemanha, Japão e índia em busca de um assento permanente no Conselho de Segurança. – Membro ativo nas operações de paz: participou de 33 operações e com mais de 27 mil em tropas. – Lidera a MINUSTAH e a UNIFIL. – É o décimo maior contribuinte para o orçamento regular da ONU. O Brasil é um dos países mais engajados na reforma do Conselho de Segurança, sendo autoproclamado representante dos países em desenvolvimento – sobretudo no contexto latino- americano – e também, sendo responsável por alianças com Japão, Alemanha e Índia em busca de um assento permanente, formando assim, o famoso G4. Para que o Brasil tenha êxito, é necessário convencer os cinco membros permanentes: Como cada membro permanente vê o pleito brasileiro pela reforma do CSNU? Estados Unidos Incerteza no apoio. Nunca expressaram apoio oficial ao pleito brasileiro. O presidente Obama, em visita ao Brasil, em 2011, disse que a reivindicação do Brasil é legítima, mas não afirmou se concordava ou não. China Apoia o pleito brasileiro, mas há ressalvas. Apoia o pleito brasileiro pela reforma do CSNU, mas fica profundamente incomodada com a concertação entre o Brasil e o Japão. Embora apoie o Brasil, a China é radicalmente contra a entrada do Japão. Alguns analistas, inclusive, apontam que o Brasil errou ao se aproximar do Japão, pois os grupos de articulação com a China – BRICS, BASIC, entre outros – poderiam viabilizar a reforma. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 17 Rússia Apoia o pleito brasileiro. Apoia o pleito brasileiro pela reforma do CSNU. Também apoia a inclusão de países africanos e demais subdesenvolvidos. França Apoia o pleito brasileiro. Apoia oficialmente o pleito brasileiro, pois há grande convergência de interesses e cooperações importantes entre Brasil e França. Reino Unido Apoia o pleito brasileiro. Apesar do baixo fluxo comercial entre os dois países, o Reino Unido apoia oficialmente o pleito brasileiro, ainda que em 1945 tivesse barrado a entrada do Brasil. O Brasil, para “vender seu peixe” no pleito da reforma do Conselho de Segurança, costuma apelar para os êxitos nas operações de paz. “O Brasil já participou de mais de 50 operações de paz e missões similares, tendo contribuído com mais de 50 mil militares, policiais e civis”. Há a priorização de “operações em países com os quais mantemos laços históricos e culturais mais próximos, como nas missões realizadas em Angola, Moçambique e Timor-Leste”, e, mais recentemente, no Haiti e no Líbano. A “participação do Brasil em operações de manutenção da paz é condicionada à observância dos princípios que regem tais missões de paz: consentimento das partes em conflito, imparcialidade e não uso da força (exceto em autodefesa ou defesa do mandato)” [fonte]. Operações de paz que o Brasil atualmente faz parte: MINURSO (Saara Ocidental) MINUSCA (República Centro-Africana) MINUSTAH (Haiti) UNFICYP (Chipre) UNIFIL (Líbano) MONUSCO (República Democrática do Congo) UNISFA (Abyei) UNMISS (Sudão do Sul) Embora em 2015 tenha ficado em débito com a organização por conta da crise doméstica, o Brasil é o décimo maior contribuinte da ONU. Em 2016, com a mudança de chancelaria, houve tentativa exitosa por parte de José Serra e Aloysio Nunes, de quitar a dívida com as Nações Unidas. Como eram políticos de carreira – e ainda são – utilizaram de seus prestígios para angariar verbas no Congresso para esse fim. O Brasil é um membro fundador tanto da Liga das Nações quanto das Nações Unidas, o que dá certa legitimidade histórica em suas reivindicações. Além disso, apesar de ter um grande território, o Brasil não costuma se envolver em guerras – a última foi há mais de cem anos, no Paraguai. Isso evidencia uma grande habilidade diplomática em mediar e solucionar conflitos sem apelar para a força. Evidentemente, esse argumento histórico é largamente utilizado pelo Itamaraty para defender a legitimidade do Brasil no sistema internacional. Inclusive, há a tentativa de manter o país longe de conflitos. Os governos Lula e Dilma, por exemplo, relutaram em usar a força em questões que Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 18 prejudicaram o Brasil como a nacionalização de instalações da Petrobrás na Bolívia. Atualmente, o mesmo argumento é utilizado contra uma eventual invasão na Venezuela, uma situação que poderia destruir imediatamente a imagem de “país apreciador da diplomacia e da multilateralidade”. Principais missões de paz que o Brasil participou/participa [fonte]. Apesar de se manter pacífico, o Brasil costuma agir proativamente em várias situações. Não somente a partir do século XXI, mas em diversos momentos da história. No início do século XX, por exemplo, o Brasil atuou junto à Liga das Nações para arbitrar uma disputa fronteiriça entre Peru e Colômbia. Já naquela época, muito antes da ONU ser criada, o Brasil buscava um assento permanente no Conselho de Segurança da Liga das Nações e para que isso fosse viabilizado, tentava se mostrar como um país digno de resolver controvérsias internacionais. e nos dias de hoje, o Brasil costuma criticar a legitimidade e a representatividade das Nações Unidas; antigamente, costumava criticar o modelo eurocentrista e excludente da Liga das Nações – uma organização excessivamente focada na Europa e pouco preocupada com as demais regiões, como a América. Operações de paz: peacekeeping, peacemaking e peacebuilding Para encerrarmos a aula, veremos os três tipos de operações de paz das Nações Unidas: peacekeeping (manutenção da paz), peacemaking (fazer a paz) e beacebuilding (construção da paz). Antes de falarmos especificamente de cada uma, veremos as principais diferenças: Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 19 Tipos de operações de paz Peacekeeping Do inglês keep = manter. Manter a paz. Manutenção da paz após o término do conflito, quando ambas as partes já destruídas pela guerra concordam com a intervenção. Por isso, não há violação de soberania. Por conta da ação pós-cessar fogo, há a utilização apenas de armas leves. Peacemaking Do inglês make = fazer Fazer a paz. Nesse caso, a ONU não espera pelo cessar-fogo (como ocorre no peacekeeping), mas age durante o conflito justamente para fazer a paz. Nesse caso, há a violação de soberania, pois as forças da ONU nem sempre são autorizadas. Por conta da atuação em guerra, há a utilização de armas pesadas. Peacebuilding Do inglês build = construir. Construir a paz. O peacebuilding é uma evolução do peacemaking. Ao invés de fazer a paz pelo uso de forças militares (peacemaking), o peacebuilding constrói a paz. Isso significa que as operações de peacebuilding não somente enviam tropas, mas também, médicos, psicólogos, engenheiros, assistentes sociais, etc. Nesse caso, há uma responsabilidade em construir a paz, algo que não é feito somente utilizando a força, mas também, pela ação social. Veremos agora, cada uma dessas categorias com o devido detalhamento: Peacekeeping – manutenção da paz após o conflito O primeiro tipo de operação de paz é o peacekeeping. São operações para a manutenção da paz (do inglês keep = manter) que ocorrem após o cessar-fogo, quando ambas as partes do conflito chegam a um consenso e conseguem pelo menos obter um armistício. Por conta disso, respeitam a soberania dos Estados, atuando quase sempre a pedido de ambas as partes. Nessecaso, não se trata de mediar o conflito, mas de garantir que as condições de paz, já existentes, sejam mantidas. Por isso, o termo “keep”, de manter uma estabilidade que já existe. Por conta de já atuarem em um cenário de paz, as operações de peacekeeping contam com a utilização de armas leves como, por exemplo, fuzis, metralhadoras, pistolas, lança-granadas. É evidente que para nós, todo esse arsenal parece muito grande, mas em contexto de guerra serve apenas para a autodefesa das tropas e não para o conflito em si – a ideia é apenas garantir a sobrevivência do efetivo militar. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 20 Um exemplo de peacekeeping foi a operação realizada em Israel e Palestina em 1948, imediatamente após o Plano de Partilha que delimitou os territórios de cada lado. Nesse caso, houve a tentativa de garantir e manter a paz após as novas fronteiras. Peacemaking – fazer a paz durante o conflito O peacemaking ocorre durante o conflito para fazer, criar ou promover a paz (do inglês, make = fazer). Diferentemente do peacekeeping que acontece somente após o cessar-fogo ou o armistício, o peacemaking acontece no meio do conflito, quando ambas as partes estão sob fogo cruzado. Por isso, é mais agressivo, pró-ativo e arriscado que o anterior. O Secretário Geral Boutros Ghali (1992 – 1997) costumava apoiar esse tipo de operação. Por agir durante o conflito, o peacemaking viola a soberania dos Estados, porque não necessariamente acontece sob o consentimento das partes. Inclusive, ao contrário do peacekeeping, há a utilização de armamento pesado, tais como: aviões, tanques, navios e demais equipamentos militares. Portanto, se no peacekeeping, armamentos leves são utilizados defensivamente; no peacemaking, armamentos pesados são utilizados ofensivamente. Nesse caso, o objetivo é derrotar uma das partes para que a paz seja estabelecida. O principal critério para o estabelecimento de uma operação de peacemaking é quando o Estado não consegue gerenciar seu próprio território, seja por conta de conflitos internos (Estado falido) ou por conta de desrespeito sistemático aos direitos humanos (Estado tirano). Em ambos os casos, o peacemaking é justificado. Sendo assim, as operações de peacekeeping são justificadas pela responsabilidade de proteger (responsability to protect – R2P). Um exemplo de peacemaking foi a intervenção da ONU na Líbia em 2011. Na ocasião, foi estabelecida uma zona de exclusão aérea para que as forças do governo líbio parassem de atacar as forças rebeldes. A operação foi encerrada em 2011, com a morte de Muammar Gaddafi. . Embora apoie operações de peacekeeping e peacebuilding, o Brasil é contra operações de peacemaking por violar a soberania dos países e por trazer instabilidades às regiões em que é implantado A presidente Dilma Rousseff (2010 – 2016), por exemplo, em discurso na Assembleia Geral em 2011 devido ao contexto da crise na Líbia, criticou as operações de paz da organização. Segundo ela, não basta que a ONU tenha a responsabilidade de proteger (responsability to protect) que sustentam as operações de peacemaking. Na verdade, a ONU deveria ter a responsabilidade ao proteger, não somente promovendo a paz, mas também, ajudando na reconstrução do país. Portanto, indo além: Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 21 Visão brasileira de responsabilidade “de proteger” e “ao proteger”. Responsabilidade de proteger A ONU, buscando os direitos fundamentais, acaba por muitas vezes, acirrando as instabilidades em um determinado país. E, por muitas vezes, piora a situação. No caso da Líbia, por exemplo, a operação de peacemaking depôs Gaddafi, mas não resolveu a situação dramática do país. Responsabilidade ao proteger Por isso, além de buscar os direitos fundamentais – ou seja, além da responsabilidade de proteger – a ONU deveria buscar a responsabilidade ao proteger, tomando mais cuidado com situações que possam gerar instabilidades. caso, a ONU deveria não somente ter deposto Gaddafi, mas também, ajudado na reconstrução do país. Isso sim seria responsabilidade ao proteger. Por isso, o Brasil geralmente é contra as operações de peacemaking que envolvam a responsabilidade de proteger (responsability to protect). Ao invés disso, o Brasil costuma apoiar operações baseadas na responsabilidade ao proteger (responsability while protecting) que não somente fazem a paz, mas que também ajudem na reconstrução de um cenário devastado pela guerra, tanto em aspectos sociais quanto econômicos. Por essa perspectiva, enviar médicos, policiais, bombeiros, psicólogos, entre outros, é tão importante quanto enviar militares às operações de paz, o que caracteriza o peacebuilding. Peacebuilding – construir a paz por uma lógica social, não somente militar. Como evolução e alternativa ao peacemaking, há o peacebuilding (do inglês built = construir). Nesse caso, não se busca apenas fazer a paz, mas construí-la. Enquanto as operações de peacemaking possuem uma lógica puramente militar – afinal, basta intervir em um determinado país para fazer a paz – as operações de peacebuilding vão além da lógica militarista, possuindo também, ações complexas de longo prazo que visem melhorias sociais e econômicas. Ao invés de apenas soldados e comandantes, há também pesquisadores, educadores, assistentes sociais, técnicos de diversas áreas, engenheiros, etc. Peacemaking Lógica militar: Para fazer a paz (peacemaking), é preciso exército. Peacebuilding Lógica militar e social: Para construir uma paz que seja duradoura e definitiva (peacebuilding), além de exército, é preciso educadores, pesquisadores, assistentes e técnicos de diversas áreas. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 22 O maior exemplo de operação de peacebuilding é a MINUSTAH, a operação de paz no Haiti coordenada pelo Brasil. Além do envio de forças militares, houve grande atuação de engenheiros, professores, sanitaristas, médicos, policiais, pesquisadores que de algum modo tentaram resolver os diversos problemas do Haiti, não somente aqueles vinculados a segurança, mas a diversos aspectos da vida humana. Houve, inclusive, técnicos da EMBRAPA trabalhando no país. Portanto, o peacebuilding parte do pressuposto de que uma sociedade com boa educação, boa saúde, boas oportunidades e boa infraestrutura está menos propensa a fazer guerras. Em outras palavras, a estabilidade só pode ser atingida plenamente caso além das ações militares, também haja ações no âmbito técnico e social. Peacekeeping Operação de paz após cessar-fogo. Peacemaking Operação de paz antes do cessar-fogo, puramente militar. Peacebuilding Operação de paz não somente militar, mas também social. Durante a Guerra Fria, as Nações Unidas foram instrumentalizadas pelas grandes potências, especialmente Estados Unidos e União Soviética. Logo após a criação da ONU, por exemplo, foi aprovada a Resolução 377 de 1950, chamada United for Peace ou, Unidos pela Paz. Basicamente, seu texto permitia levar para a Assembleia Geral algumas decisões em termos de operação da paz, diminuindo o poder do Conselho de Segurança – um ambiente do qual a União Soviética poderia vetar as decisões dos Estados Unidos. Um exemplo de utilização da Resolução 377 foi a invasão da Coreia do Norte pelos Estados Unidos, em 1950. A ação foi justificada pelo fato da Coreia do Norte ter violado o paralelo 38º – a linha geográfica que divide os dois países – adentrando assim, no território da Coreia do Sul. Na época, o Conselho de Segurança aprovou a invasão, mas apenas porque a União Soviética estava o boicotandodevido ao não reconhecimento da China comunista. Nos primeiros anos, quando a maioria dos membros da ONU era aliada dos Estados Unidos, Washington levava a maior parte das questões à Assembleia Geral, se valendo da Resolução 377. No entanto, esse apoio foi sendo minado a partir dos anos 1970, quando os processos de descolonização, multiplicação de atores estatais e crescimento dos terceiro-mundistas diminuiu significativamente o apoio aos Estados Unidos na Assembleia Geral. Por fim, antes de encerrarmos a aula, é importante mencionar que essas operações são gerenciadas pela ONU e não por determinados Estados. Mesmo que os comandantes ou os soldados sejam cedidos pelos Estados, não estão representando seus respectivos países, mas sim, representando as Nações Unidas. Quando o Brasil comandou as operações de paz no Haiti, por exemplo, exerceu o controle militar da situação, mas não o controle político. É muito importante saber essa diferença. Cespe/UNB (CACD/2009) – A Organizações das Nações Unidas celebrou em 2008 os 60 anos de suas operações de manutenção de paz, que tiveram início em 1948, com o envio de observadores militares para a Palestina. Visto que a expressão manutenção da paz não é encontrada na Carta das Nações Unidas, Dag Hammarskjold, o segundo Secretário-Geral da ONU, sugeriu que essas operações pertenceriam ao “Capitulo Seis e Meio” da Carta. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 23 Com relação a ONU, a seus órgãos e operações de paz, assinale a opção correta. 1) Desde sua criação, em 1945, o Conselho de Segurança da ONU é composto por 5 membros permanentes e 10 não-permanentes. Comentários No início, o Conselho de Segurança da ONU tinha apenas 6 membros não-permanentes. Foi somente após reformas em 1963 que passou a ter os atuais 10 membros não- permanentes. O número expresso na questão está correto, mas não foi assim “desde a sua criação”. Gabarito: Errado. 2) Devido à ausência de previsão expressa no texto da Carta da ONU, o Brasil tem por princípio não participar de operações de paz da ONU ou de só fazê-lo com autorização do Congresso Nacional. Comentários O Brasil participou de 33 operações de paz, inclusive, coordenando algumas delas – como, por exemplo, no caso do Haiti. Ao contrário do afirmado na questão, quando o Brasil atua nessas operações de paz NÃO está indo contra seus princípios. Os princípios da Política Externa Brasileira, na verdade, convergem com os princípios da Carta da ONU. Gabarito: Errado. 3) As operações de manutenção de paz, desde sua origem até os dias de hoje, podem ser empregadas apenas em situações de conflito entre Estados, não sendo autorizada sua adoção, pelo Conselho de Segurança, para situações de conflitos internos ou guerras civis, o que seria considerado ação intervencionista. Comentários Operações de manutenção de paz (peacekeeping), são autorizadas quando os Estados estão falidos ou quando não conseguem administrar suas situações internas. A assertiva está errada porque não há nenhum tipo de restrição em relação a conflitos internos. Muito pelo contrário, é justamente nesse caso que costumam ocorrer com mais frequência. Gabarito: Errado. 4) Consenso das partes, imparcialidade e proibição do uso da força- a não ser em legítima defesa e em defesa do mandato, são os três princípios básicos das operações de manutenção da paz da ONU. Comentários Quando a questão fala em “manutenção da paz”, ela se refere às operações de “peacekeeping” que ocorrem após o término do conflito, quando ambas as partes já acalmaram. Conforme afirmado na questão, há realmente o consenso das partes, a Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 24 imparcialidade e a proibição do uso da força (ao menos que seja para defesa e com armas leves). Caso a questão estivesse se referido a peacemarking ou a peacebuilding, estaria errada, mas ela descreve perfeitamente o que é o peacekeeping. Gabarito: Certo. 5) Devido ao uso recorrente do direto de veto por alguns de seus membros, o Conselho de Segurança com base no capítulo VII da Carta da ONU (Ação relativa a ameaças à paz, ruptura da paz e atos de agressão), jamais autorizou o emprego de força militar contra um país em nome da segurança coletiva. Comentários O Conselho de Segurança AUTORIZOU SIM o uso de força militar, várias vezes em sua história. De acordo com a Carta das Nações Unidas, trata-se de uma atribuição perfeitamente concernente ao Conselho de Segurança. Gabarito: Errado. Cespe/UNB (CACD/2007) 1) Com o fim da Guerra Fria, as missões de paz perderam sua conotação ideológica, o que permitiu ao Brasil delas participar, pela primeira vez, com o envio de observadores militares e policiais civis ao Timor Leste. Comentários Ao contrário do afirmado, o Brasil participa de missões de paz da ONU há muitos anos, muito antes do fim da Guerra Fria, tendo integrado mais de 30 operações. Uma evidência disso é a participação brasileira na Primeira Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF-1) para a estabilização da crise no Egito em 1956 por conta da nacionalização do Canal de Suez. Gabarito: Errado. 2) Em consonância com os princípios norteadores de sua política externa e de sua tradição diplomática, o Brasil privilegia o engajamento em missões que objetivam coibir graves violações dos direitos humanos, prevenir genocídios e prestar assistência em crises humanitárias. Comentários Essa questão é complicada! Pode induzir o candidato ao erro! Na primeira leitura, parece correto afirmar que o “Brasil privilegia o engajamento em missões que objetivam coibir graves violações dos direitos humanos, prevenir genocídios e prestar assistência em crises humanitárias”. No entanto, isso é a definição de peacemaking, operação do qual o Brasil é contra. Para o Brasil, não basta “coibir graves violações dos direitos humanos, prevenir genocídios e prestar assistência em crises humanitárias”, é necessário também que haja uma responsabilidade ao proteger, indo além. Considerando o peacemaking insuficiente, o Brasil é um entusiasta do peacebuilding. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br 25 Uma evidência disso é a liderança brasileira na operação do Haiti (MINUSTAH), no qual procurou não somente “coibir violações” e “prestar assistência”, mas também, realizar uma ampla reforma no país, inclusive ajudando a convocar novas eleições. Gabarito: Errado. 3) O exercício do comando político e militar da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (a MINUSTAH) consolida a liderança e a participação brasileira em missões de paz. Comentários Outra pegadinha. A participação do Brasil no Haiti não “consolidou a LIDERANÇA e a participação brasileira em missões de paz”. O Brasil, embora tivesse o comando MILITAR da operação, não tinha o comando POLÍTICO. Isso porque a MINUSTAH era coordenada efetivamente pelas Nações Unidas e não pelo Brasil. Gabarito: Errado. 4) Com o fim da Guerra Fria, a participação brasileira nas missões de paz da ONU intensificou-se em relação as décadas anteriores e tornou-se mais diversificada quanto as formas de colaboração prestada e as responsabilidades assumidas. Comentários Como durante a Guerra Fria o Itamaraty procurava agir à margem da lógica Leste-Oeste, o Brasil participou de poucas operações de paz. A partir dos anos 1990, com o final da Guerra Fria, já em novo contexto, ainda que o Itamaraty resistisse ao peacemaking, o número de operações com participação brasileira aumentou significativamente. Gabarito: Certo. 5) O Brasil restringe sua participação a missões conduzidas em países em que não existamquaisquer interesses brasileiros em questão. Comentários A questão está afirmando que o Brasil apenas participa de operações de paz quando o país-alvo é de seu interesse, o que está errado. No caso do Haiti, por exemplo, o Brasil não estava procurando petróleo, nem procurando mercados, nem tentando se aproximar do governo haitiano. Nada disso. Não há interesses brasileiros no Haiti. O Brasil participa das operações da paz para mostrar ao mundo que é um ator proativo que tem muito a contribuir e assim, se tornar um candidato mais forte para ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU – esse sim, o verdadeiro interesse do Brasil. Em Resumindo, os interesses do Brasil estão em reformar o sistema internacional e não em atuar especificamente nos países em que participa das operações de paz. Gabarito: Errado. Alexandre Vastella Aula 23 Política Internacional p/ CACD (Diplomata) Primeira Fase - Com Videoaulas - Pós-Edital www.estrategiaconcursos.com.br