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1 2 SUMÁRIO 1 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE HISTÓRIA- A HISTÓRIA NO ENSINO FUNDAMENTAL .................................................................................. 3 2 O CONHECIMENTO HISTÓRICO: CARACTERÍSTICAS E IMPORTÂNCIA SOCIAL .................................................................................. 22 3 OBJETIVOS DA HISTÓRIA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL .... 29 3 1 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE HISTÓRIA- A HISTÓRIA NO ENSINO FUNDAMENTAL Fonte: www.google.com.br Nem sempre está claro para os educadores por que a História faz parte do currículo escolar e qual a importância da sua aprendizagem na formação do jovem. Mas essas questões são fundamentais quando se pretende refletir, repensar ou posicionar-se em relação ao ensino de História praticado. Na intenção de auxiliar o professor na reflexão sobre os pressupostos históricos e pedagógicos de concepções de ensino e sobre as abordagens e conteúdos selecionados para os estudos escolares, apresenta-se na sequência um histórico da área no Brasil sem pretender esgotar o seu elenco de problemáticas. Esse histórico pretende contribuir para que o professor se posicione diante do ensino de História, especialmente quanto às suas finalidades e possibilidades de transformações. De modo geral, o ensino de História pode ser caracterizado a partir de dois grandes momentos. O primeiro teve início na primeira metade do século 4 XIX, com a introdução da área no currículo escolar. Após a Independência, com a preocupação de criar uma genealogia da nação, elaborou-se uma história nacional, baseada em uma matriz europeia e a partir de pressupostos eurocêntricos. O segundo momento ocorreu a partir das décadas de 30 e 40 deste século, orientado por uma política nacionalista e desenvolvimentista. O Estado também passou a realizar uma intervenção mais normativa na educação e foram criadas as faculdades de filosofia no Brasil, formando pesquisadores e professores, consolidando-se uma produção de conhecimento científico e cultural mais autônoma no país. Fonte: www.aliancaeabc.com.br A História como área escolar obrigatória surgiu com a criação do Colégio Pedro II, em 1837, dentro de um programa inspirado no modelo francês. Predominavam os estudos literários voltados para um ensino clássico e humanístico e destinados à formação de cidadãos proprietários e escravistas. A História foi incluída no currículo ao lado das línguas modernas, das ciências naturais e físicas e das matemáticas, dividindo espaço com a História Sagrada, a qual tinha o mesmo estatuto de historicidade da História Universal ou Civil, pois ambas estavam voltadas para a formação moral do aluno. Esta dava exemplos dos grandes homens da História, com prevalência para o estudo do 5 espaço do Oriente Médio, berço do monoteísmo, e da Antiguidade clássica, grega e romana. Já aquela concebia os acontecimentos como providência divina e fornecia as bases de uma formação cristã. Nas salas de aula, existiam, porém divergências nas abordagens e na importância atribuída à Igreja na História, dependendo da formação dos professores (laicos ou religiosos) e do fato de as escolas serem públicas ou de ordens católicas. Fonte: www.google.com.br A este programa acrescentou-se a História do Brasil seguindo o modelo da História Sagrada. As narrativas morais sobre a vida dos santos foram substituídas por ações realizadas por heróis considerados construtores da nação, especialmente governantes e clérigos. No quadro da época, cabia à História Universal dimensionar a nação brasileira no mundo ocidental cristão. Os objetivos da inserção da História do Brasil no currículo estavam voltados para a constituição da ideia de Estado Nacional laico, mas articulado à Igreja Católica. O Estado brasileiro organizava-se politicamente e necessitava de um passado que legitimasse a sua constituição. Os acontecimentos históricos ensinados iniciavam com a história portuguesa a sucessão de reis em Portugal e seus respectivos governos e, na sequência, introduzia-se a história brasileira as capitanias hereditárias, os governos gerais, as invasões estrangeiras ameaçando a integridade nacional. Os conteúdos culminavam com os grandes https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0ahUKEwj60erVtcbMAhWBlJAKHRMTDNkQjhwIBQ&url=http%3A%2F%2Fdeolhonovestibular.blogspot.com%2F2011%2F01%2Findicacoes-de-livros-para-vestibulandos.html&psig=AFQjCNFL9nkoolOjAiLBwyVKBVIBDwO0Ag&ust=1462657424395167 6 eventos da Independência e da Constituição do Estado Nacional, responsáveis pela condução do Brasil ao destino de ser uma grande nação. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), criado no mesmo ano do Colégio Pedro II, produziu uma série de trabalhos que gerou consequências para o ensino da História nacional. Seus membros lecionavam no colégio e foram responsáveis pela formulação dos programas, elaboração de manuais e orientação do conteúdo a ser ensinado nas escolas públicas. Nas escolas confessionais, mantinha-se o ensino da História Universal e da História Sagrada. A primeira proposta de História do Brasil elaborada pelo Instituto e que repercutiu no ensino de História destacava a contribuição do branco, do negro e do índio na constituição da população brasileira. Apesar de valorizar a ideia de miscigenação racial, ela defendia a hierarquização que resultava na ideia da superioridade da raça branca. Privilegiava o Estado como o principal agente da história brasileira, enfatizando alguns fatos essenciais na constituição do processo histórico nacional as façanhas marítimas, comerciais e guerreiras dos portugueses, a transferência e o desenvolvimento das instituições municipais portuguesas no Brasil, o papel dos jesuítas na catequese e as relações entre a Igreja e o Estado. A História era relatada sem transparecer a intervenção do narrador, apresentada como uma verdade indiscutível e estruturada como um processo contínuo e linear que determinava a vida social no presente. Fonte: aeb.edu.br 7 Na educação brasileira, o final do século XIX foi marcado por embates envolvendo reformulações curriculares. Projetos continuavam a defender o currículo humanístico, com ênfase nas disciplinas literárias, tidas como formadoras do espírito. Outros desejavam introduzir um currículo mais científico, mais técnico e prático, adequado à modernização a que se propunha ao país. Tanto no currículo humanístico como no científico a História, entendida como disciplina escolar, mantinha sua importância para a formação da nacionalidade. Nas últimas décadas do século XIX, mesmo antes do advento da República, começaram a surgir críticas à redução da História a uma classificação cronológica de dinastias ou a um catálogo de fatos notáveis dos dois Reinados. No discurso republicano, inspirado em ideias positivistas, a escola e o ensino deveriam denunciar os atrasos impostos pela monarquia e assumir o papel de regenerar os indivíduos e a própria nação, colocando o país na rota do progresso e da civilização. Como consequência, o ensino de História passou a ocupar no currículo um duplo papel: o civilizatório e o patriótico. Ao lado da Geografia e da Língua Pátria, ela deveria fundamentar a nova nacionalidade projetada pela República e modelar um novo tipo de trabalhador, o cidadão patriótico. Nesse contexto, a História Universal foi substituída pela História da Civilização, completando o afastamento entre o laico e o sagrado e deslocando o estudo dos acontecimentos da religião para o processo civilizatório. O Estado, sem a intervenção da Igreja, permaneceu como o principal agente histórico, visto agoracomo o condutor da sociedade ao estágio de civilização. Abandonou-se a identificação dos Tempos Antigos com o tempo bíblico da criação e o predomínio do sagrado na História. A periodização, ainda construída com base no currículo francês, continuou a privilegiar o estudo da Antiguidade do Egito e da Mesopotâmia, momento histórico relacionado, no novo contexto, à gênese da Civilização e associado ao aparecimento do Estado forte e centralizado e à invenção da escrita. A História Nacional identificava-se com a História Pátria, cuja missão, juntamente com a História da Civilização, era integrar o povo brasileiro à moderna civilização ocidental, reforçando a visão linear, determinista e eurocêntrica da História. Na sua especificidade, a História Pátria era entendida como o alicerce da pedagogia do cidadão e seus conteúdos deveriam enfatizar as tradições do passado homogêneo de lutas 8 pela defesa do território e da unidade nacional e os feitos gloriosos de personagens identificados com ideais republicanos. É no contexto do final do século XIX que são construídos alguns mitos da História brasileira, presentes até hoje no ensino (bandeirantes como Raposo Tavares e Borba Gato, militares como Duque de Caxias, mártires como Tiradentes etc.). Fonte: www.google.com.br A moral religiosa foi absorvida pelo civismo, orientando a ideia de que os conteúdos da História Pátria não deveriam ficar restritos ao âmbito específico da sala de aula. Práticas e rituais cívicos, como festas, desfiles, eventos comemorativos e celebrações de culto aos símbolos da Pátria, foram desenvolvidos para envolver o conjunto da escola e estabelecer o ritmo do cotidiano escolar. Esperava-se que o estudante recebesse uma formação moral cristã atrelada a uma consciência patriótica, sustentada na ideologia da ciência, do progresso e da ordem. Apesar dos discursos e das sucessivas reformas, os governos republicanos das primeiras décadas do século XX pouco fizeram para alterar a situação da escola pública, mantendo-se a já precária formação de professores, geralmente autodidatas. Mesmo assim ou por isso mesmo, o período constituiu- se em momento de fortalecimento do debate dos problemas educacionais. Surgiram propostas alternativas ao modelo oficial de ensino, logo reprimidas pelo governo republicano, como as escolas anarquistas, com currículo e métodos de https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0ahUKEwjtt9bptcbMAhUCfZAKHVmMCwQQjhwIBQ&url=http%3A%2F%2Fwww.atividadesparacolorir.com.br%2F2014%2F03%2Fimagens-de-professores-com-alunos.html&bvm=bv.121099550,d.Y2I&psig=AFQjCNEcGI4LHRAh9PcmJg_KV11hyv8KaQ&ust=1462657469652554 9 ensino próprios, nos quais a História deixava de enfocar a hierarquia entre povos e raças, para identificar-se com os principais momentos das lutas sociais, como a Revolução Francesa, a Comuna de Paris, a Abolição etc. A partir de 1930, com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública e a Reforma Francisco Campos, acentuou-se o fortalecimento do poder central do Estado e o controle sobre o ensino. Com a criação das universidades inicia-se a formação do professor secundário. Ao mesmo tempo amplia-se e consolida-se, ainda que com dificuldades, um campo cultural autônomo com a expansão do cinema e do rádio. Nesse contexto, a História Geral e do Brasil foram integradas em uma única área, História da Civilização. A História brasileira era unicamente uma continuidade da História da Europa ocidental. Permanecia a identidade do Brasil com a civilização europeia e enfatizava-se, contraditoriamente, a população brasileira como mestiça. No caso da História do Brasil, mantinha-se a ênfase na formação do Estado Nacional brasileiro. As mudanças históricas eram consequência de ações de governantes e de heróis moldados pela República para legitimá-la. A periodização obedecia a uma cronologia política marcada por tempos uniformes, sucessivos e regulares, sem rupturas ou descontinuidades. O ensino de História era um instrumento de desenvolvimento do patriotismo e da unidade étnica, administrativa, territorial e cultural da nação. Com o processo de industrialização e urbanização, repensou-se sobre o papel da população brasileira na História. Enquanto alguns estudos continuavam a identificar as razões do atraso do país no predomínio de um povo mestiço, outros apontavam a necessidade de se buscar conhecer a identidade nacional, sua especificidade cultural em relação a outros países, como meio de assegurar condições de igualdade na integração da sociedade brasileira à civilização ocidental. No debate educacional na década de 30, tornou-se vitoriosa a tese da democracia racial expressa em programas e livros didáticos de ensino de História. Por esta tese, na constituição do povo brasileiro predominavam a miscigenação e a total ausência de preconceitos raciais e étnicos. O povo brasileiro era estudado como descendente de brancos portugueses, índios e negros, e, a partir dessa tríade, de mestiços. Nessa perspectiva, todos conviviam 10 harmonicamente em uma sociedade multirracial e caracterizada pela ausência de conflitos. Cada etnia colaborava, com seu heroísmo ou com seu trabalho, para a grandeza e riqueza do país. Legitimando o discurso da democracia racial, o ensino de História representava o africano como pacífico diante do trabalho escravo e como elemento peculiar para a formação de uma cultura brasileira; estudava os povos indígenas de modo simplificado, na visão romântica do bom selvagem, sem diferenças entre as culturas desses povos, mencionando a escravização apenas antes da chegada dos africanos e não informando acerca de suas resistências à dominação europeia. E projetava os portugueses como àqueles que descobriram e ocuparam um território vazio, silenciando sobre as ações de extermínio dos povos que aqui viviam. Fonte: mestreacasa.gva.es Em meados dos anos 30, por inspiração da pedagogia norte-americana, a educação brasileira começou a adotar propostas do movimento escolanovista, entre as quais a que propunha a introdução dos chamados Estudos Sociais no 11 currículo escolar, em substituição a História e Geografia, especialmente para o ensino elementar. A intenção era, com Estudos Sociais, superar o conteúdo livresco e decorativo que caracterizava o ensino das duas áreas. Apesar de o movimento escola novista propor abordagens e atividades diferenciadas, que foram adotadas por professores e por escolas que inovaram métodos e conteúdos, de modo geral permaneceram os procedimentos de ensino até então vigentes. Nas salas de aula ainda era prática comum os alunos recitarem as lições de cor, com datas e nomes dos personagens considerados os mais significativos da História. A partir de 1942, o ensino secundário passou por novas reformas conduzidas pelo ministro Gustavo Capanema. A Lei Orgânica do Ensino Secundário estabeleceu três cursos: inicialmente o primário, com quatro anos de escolaridade; depois o ginasial, com quatro anos também; e o clássico ou científico, com três anos. Equivalentes a eles foram criados os ginásios e os colégios profissionais. A formação docente foi sendo igualmente estruturada. As Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, criadas nos primeiros anos da década de 30, encarregaram-se neste momento, além da formação de pesquisadores, da profissionalização do magistério. Em meio a debates e ampliação da produção acadêmica, a política educacional da época limitou o currículo. No contexto do Estado Novo, a História tinha como tarefa enfatizar o ensino patriótico, capaz de criar nas gerações novas a consciência da responsabilidade diante dos valores maiores da pátria, a sua independência, a sua ordem e o seu destino. A carga horária de História no ginásio aumentou consideravelmente e História Geral e História do Brasil passarama ser áreas distintas, saindo privilegiada a História brasileira. Os conteúdos ditados pela tradição foram reforçados ainda pela produção didática e pela preocupação de garantir um bom desempenho dos estudantes nos exames finais de admissão ao ginásio ou ao ensino superior. A leitura que o Estado Novo fez dos métodos escolanovistas acabou por enfatizar a comemoração de heróis em grandes festividades cívicas. Nos anos imediatos ao pós-guerra e no contexto da democratização do país com o fim da ditadura Vargas, a História passou a ser novamente objeto de debates quanto às suas finalidades e relevância na formação política dos alunos. Tornou-se uma disciplina significativa na formação de uma cidadania para a paz. 12 A UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura passou a interferir na elaboração de livros escolares e nas propostas curriculares, indicando possíveis perigos na ênfase dada às histórias de guerras, no modo de apresentar a história nacional e nas questões raciais, em especial na disseminação de ideias racistas, etnocêntricas e preconceituosas. A História deveria revestir-se de um conteúdo mais humanístico e pacifista, voltando-se ao estudo dos processos de desenvolvimento econômico das sociedades, bem como dos avanços tecnológicos, científicos e culturais. Fonte: www.cursoderedacao.net Sob inspiração do nacional-desenvolvimentismo, nas décadas de 50 e 60 o ensino de História voltou-se especialmente para as temáticas econômicas. O reconhecimento do subdesenvolvimento brasileiro levou ao questionamento da predominância da produção agrícola-exportadora e à valorização do processo de industrialização. Enfatizou-se o estudo dos ciclos econômicos, sua sucessão linear no tempo, cana-de-açúcar, mineração, café e industrialização e, exclusivamente, a História de cada centro econômico regional que era hegemônico em cada época. A ordenação sucessiva e linear indicava a 13 determinação histórica de que o desenvolvimento só seria alcançado com a industrialização. Ao mesmo tempo, a presença norte-americana na vida econômica nacional fortaleceu o lugar da História da América no currículo, com a predominância da História dos Estados Unidos, inserindo-se na meta da política da boa vizinhança norte-americana. A formação de professores em cursos superiores afetou o ensino de História gradativamente. A formação intelectual e científica dos alunos de graduação passou a integrar os objetivos das propostas curriculares, como no caso da produção didática chamada História Nova, do início dos anos 60, com estudos baseados nos modos de produção, sob a influência da historiografia marxista, que enfatizava transformações econômicas e conflitos entre as classes sociais, contrariamente à História que valorizava o político e a trajetória vitoriosa da classe burguesa na consolidação harmoniosa do mundo moderno. Nessa tendência, apesar da ênfase atribuída às classes sociais como agentes das transformações históricas, predominou no ensino uma abordagem estruturalista na qual a História era estudada como consequência de estágios sucessivos e evolutivos. Nesta época, além da constatação da importância do ensino de História na formação do cidadão político, ele passou a ser considerado também fundamental para a formação intelectual do estudante. Incorporou objetivos para promover o seu pensamento crítico. O período que vai da Segunda Guerra Mundial até o final da década de 70 caracterizou-se por dois momentos significativos na implantação dos Estudos Sociais. O primeiro ocorreu no contexto da democratização do país com o fim da ditadura Vargas e o segundo durante o governo militar depois de 1964. A política educacional brasileira após 1945 foi marcada por um prolongado debate sobre a educação nacional, que resultou, em 1961, na Lei 4.024, de Diretrizes e Bases. Por essa lei, o sistema continuou a ser organizado segundo a legislação anterior, sendo suprimida a prescrição do currículo fixo e rígido para todo o território brasileiro. Prevaleceu, inclusive, a abertura para estados e estabelecimentos de ensino anexarem áreas optativas ao currículo mínimo prescrito pelo Conselho Federal de Educação. Essa flexibilidade vinha de encontro à emergência do regionalismo, das propostas desenvolvimentistas e das políticas que incorporavam noções de centro e periferia. Tal abertura no currículo possibilitou, 14 por exemplo, o desenvolvimento de experiências educacionais alternativas, como foi o caso das escolas vocacionais e das escolas de aplicação em algumas regiões do Brasil. Sob influência norte-americana e de uma difusa concepção tecnocrática, em pleno contexto de Guerra Fria, desvalorizaram-se as áreas de Humanas, em favor de um ensino técnico para a formação da mão-de-obra da indústria crescente. História e Geografia acabaram, nesse período, tendo suas cargas horárias reduzidas, perdendo espaços significativos nas grades curriculares. A partir de então, intensificou-se o embate sobre a permanência da História e da Geografia no currículo e o avanço dos Estudos Sociais elaborados como área de integração e articulação dos diferentes saberes das Ciências Humanas. Contudo, esse debate foi interrompido com o golpe de 1964. Fonte: www.google.com.br Em 1971, os conteúdos escolares foram reunidos em núcleos comuns concebidos e modo diferente para cada série, a partir do tratamento metodológico que deveriam receber. O núcleo de Estudos Sociais visava, segundo resolução da época, ao ajustamento crescente do educando ao meio cada vez mais amplo e complexo, em que deve não apenas viver, como conviver, dando-se ênfase ao conhecimento do Brasil na perspectiva atual do seu desenvolvimento. Nas primeiras cinco séries do primeiro grau, o núcleo de Estudos Sociais assumia a forma de atividades de integração social, isto é, estudos das experiências vividas. Nas séries seguintes, passou a ser tratado como área de estudo, integrando conteúdos das Ciências Humanas. No segundo https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&ved=0ahUKEwjVn7CYtsbMAhWMiJAKHUS3BSUQjhwIBQ&url=http%3A%2F%2Fmarketingcombrunomarinho.com.br%2F10-dicas-de-livros-de-midias-sociais-para-pequenas-empresas%2F&bvm=bv.121099550,d.Y2I&psig=AFQjCNGyl_0ZlIZPeIQ_ue9fkxq0ilqiIw&ust=1462657564076933 15 grau, subdividia-se nas áreas de História, Geografia e Organização Social e Política Brasileira (OSPB). Os governos militares, referendando uma série de medidas tomadas após 1964, permitiram a proliferação dos cursos de Licenciatura Curta. Contribuíram, assim, para o avanço das entidades privadas no ensino superior e para uma desqualificação profissional do docente. Principalmente na década de 1970, algumas faculdades passaram a formar professores licenciados em Estudos Sociais, com programas de formação para o desempenho de atividades puramente escolares, desconsiderando preocupações e temas de conhecimentos específicos. A Licenciatura Curta em Estudos Sociais contribuiu, em parte, para um afastamento entre universidades e escolas de primeiro e segundo graus e prejudicou o diálogo entre pesquisa acadêmica e o saber escolar, dificultando a introdução de reformulações do conhecimento histórico e das ciências pedagógicas no âmbito da escola. Principalmente a partir da Lei no 5.692/71, ao lado da Educação Moral e Cívica (EMC) e da Organização Social e Política Brasileira (OSPB), os Estudos Sociais esvaziaram, diluíram e despolitizaram os conteúdos de História e de Geografia e, novamente, foram valorizados conteúdos e abordagens de um nacionalismo de caráter ufanista, agora destinados a justificar o projeto nacional de o governo militar após 1964. Os Estudos Sociais contemplavam os chamados pré-requisitos de aprendizagem, apresentando a necessidade da aquisição de noções e de conceitos relacionadosàs Ciências Humanas. Para compreender a realidade social, o aluno deveria dominar, em princípio, entre outras noções, a de tempo histórico. Mas, o desenvolvimento dessa noção limitava-se a atividades de organização do tempo cronológico e de sucessão: datações, calendário, ordenação temporal, sequência passado-presente-futuro. A linha do tempo, amarrada a uma visão linear, foi sistematicamente utilizada como referência para organizar progressivamente os acontecimentos e os períodos históricos. 16 Fonte: noticias.universia.edu.pe A ênfase no estudo de noções e conceitos gerais das Ciências Humanas levou ao esvaziamento da dimensão histórica no ensino. Conceitos como o de trabalho e de sociedade foram tratados como categorias abstratas e universalizantes, perdendo suas dimensões temporais e espaciais. O agente histórico das mudanças continuou a ser o Estado, estando ele agora corporificado abstratamente na humanidade e sendo ele responsável pela transformação da natureza, pelo bem-estar de todos e pela construção dos caminhos do progresso, sinônimo da época de conquistas tecnológicas. As transformações ocorridas durante o governo militar não se limitaram aos currículos e métodos de ensino. O fim do exame de admissão e o ensino obrigatório de oito anos da escola de primeiro grau afetaram significativamente o aproveitamento do público escolar. À medida que eram ampliadas as oportunidades de acesso à escola para a maioria da população, ocorria paradoxal deterioração na qualidade do ensino público. O ensino de História conviveu com contradições. Uma parcela significativa de professores continuou a ter formação universitária específica em História com habilitação para lecionar também Estudos Sociais, Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira. Professores com licenciatura plena, apesar de assumirem as cargas horárias das disciplinas cívicas, na sala de aula ensinavam na realidade conteúdos de seu domínio, isto é, História. No decorrer dos anos 70 e 80, as lutas de profissionais, desde a sala de aula até a universidade, ganharam maior expressão com o crescimento das 17 associações de historiadores e geógrafos, que se abriram aos docentes de primeiro e segundo graus e ampliaram a batalha pela volta de História e Geografia aos currículos escolares e a extinção dos cursos de Licenciatura de Estudos Sociais. Fonte: noticias.universia.com.br No processo de democratização dos anos 80, os conhecimentos escolares passaram a ser questionados e redefinidos por reformas curriculares dos estados e municípios. Simultaneamente, as transformações da clientela composta por vários grupos sociais que viviam um intenso processo de migração, do campo para as cidades, e entre os estados, com acentuada diferenciação econômica, social e cultural, também forçaram mudanças na educação. As novas gerações de alunos habituaram-se à presença de novas tecnologias de comunicação, especialmente o rádio e a televisão, que se expandiam como importantes canais de informação e de formação cultural. Entrava pelas portas das escolas uma nova realidade que não poderia ser mais ignorada. O currículo real forçava mudanças no currículo formal. Diversos agentes educacionais passaram a discutir e desenvolver novas possibilidades de ensino. Neste contexto, os professores tiveram papel importante na constituição do saber escolar, diminuindo o poder dos chamados técnicos educacionais. 18 Na época foi reforçado o diálogo entre pesquisadores e docentes do ensino médio, ao mesmo tempo em que se assistia à expansão dos cursos de pós-graduação em História, com presença expressiva de professores de primeiro e segundo graus. Essa nova produção acadêmica foi absorvida parcialmente pela expansão editorial na área do ensino de História e de historiografia. As propostas curriculares passaram a ser influenciadas, também, pelo debate entre as diversas tendências historiográficas. Os historiadores voltaram- se para novas problemáticas e temáticas de estudo, sensibilizados por questões ligadas à história social, cultural e do cotidiano, sugerindo possibilidades de rever, no ensino fundamental, o formalismo das abordagens históricas sustentadas nos eventos políticos e administrativos dos estados ou exclusivamente nas análises econômicas estruturais. Fonte: www.australiago.com A apresentação do processo histórico num eixo espaço-temporal eurocêntrico, seguindo um processo evolutivo, sequencial e homogêneo, foi denunciada como produto pronto e acabado, redutor da capacidade de o aluno se sentir na condição de sujeito comum, parte integrante e agente da História, e restritivo ao discernimento da diferença entre o conhecimento histórico produzido por estudiosos e as ações dos homens realizadas no passado. Introduziu-se, na mesma época, a preocupação em desenvolver nos estudantes domínios procedimentais de pesquisa histórica no espaço escolar e atitudes intelectuais de desmistificação das ideologias, da sociedade de consumo e dos meios de comunicação de massa. 19 O debate gerou a reavaliação no ensino de História ilustrado pelas múltiplas abordagens históricas possíveis. Nas décadas de 80 e 90, alguns professores começaram a denunciar a impossibilidade de transmitir o conhecimento de toda a história da humanidade em todos os tempos. Outros questionaram se deveriam iniciar o ensino pela História do Brasil ou pela Geral, optando alguns por uma ordenação sequencial e processual, que intercalasse os conteúdos num processo contínuo da Antiguidade até nossos dias. Partindo da crítica à abordagem eurocêntrica, alguns iniciaram estudos pela ótica dos povos da América. Outros introduziram conteúdos relacionados à história local e regional. Outra parcela optou por trabalhar com temas e, nessa perspectiva, desenvolveram-se as primeiras propostas curriculares por eixos temáticos. Para os que optaram por esta última via, iniciou-se um debate ainda em curso, sobre questões relacionadas ao tempo histórico, revendo concepções de linearidade e progressividade, noções de decadência e de evolução. Paralelamente, ocorreram novos estudos no âmbito das ciências pedagógicas, especialmente no campo da psicologia cognitiva e social. Difundiram-se reflexões sobre o processo de ensino e aprendizagem, nos quais os alunos passaram a ser considerados como participantes ativos do processo de construção do conhecimento, uma perspectiva que interfere nas terminologias utilizadas para definir os objetivos de ensino de História. Verbos como identificar, descrever, caracterizar, ordenar foram sendo complementados com outros, que explicitam a preocupação em valorizar atitudes intelectuais nos estudantes, como comparar, analisar e relacionar. Em consonância com a visão de alguns educadores sobre propostas pedagógicas construtivistas, valorizaram- se também as atitudes ativas dos alunos como sujeitos construtores de sua história. Nessa linha, na defesa da ideia de que os acontecimentos não podem ser estudados isoladamente e que é preciso ensinar o estudante a pensar/refletir historicamente, alguns professores passaram a ensinar métodos de pesquisa histórica, retomando parte do debate das décadas de 50 e 60. Compreendendo a História como movimento social e memória difundida socialmente, cujo discurso é construído sobre o passado e o presente, outros docentes incorporaram aos métodos de ensino a confrontação de diferentes versões históricas, de memórias diferenciadas de grupos sociais e a valorização do 20 saber, das vivências e das interpretações dos alunos. Alguns passaram a usar diferentes fontes de informação, principalmente como recurso didático para fazer aflorar tradições e discursos variados sobre um mesmo tema. Os métodos tradicionais de ensino memorização e reprodução passaram a ser questionadoscom maior ênfase. Os livros didáticos difundidos amplamente e enraizados nas práticas escolares foram criticados nos conteúdos e nos exercícios propostos. A simplificação dos textos, os conteúdos carregados de ideologias, os testes ou exercícios sem exigência de nenhum raciocínio foram apontados como comprometedores de qualquer avanço no campo curricular formal. Fonte: plus.google.com/ Por isso, o ensino está em processo de mudanças substantivas nos objetivos, conteúdos e métodos. Parte dessas mudanças é decorrente da ansiedade em diminuir distâncias entre o que é ensinado na escola fundamental e a produção universitária, isto é, entre o saber histórico escolar e as pesquisas e reflexões que acontecem no plano do conhecimento acadêmico. A tentativa de aproximação entre estas duas realidades, nas quais o saber histórico está presente, faz com que a escola se envolva a seu modo no debate historiográfico atual, incorporando parte de suas tensões e contradições. Paralelamente, nas últimas décadas, passaram a ser difundidas percepções diferentes do processo de aprendizagem, do papel que os materiais didáticos desempenham, dos instrumentos e significados das avaliações e das https://plus.google.com/117782194040655402252 21 funções sociais e culturais atribuídas à escola e ao professor. Essas novas percepções, hoje desenvolvidas por docentes e pesquisadores, têm levado a reflexões profundas quanto à interação entre teoria e prática no espaço escolar e às relações estabelecidas entre o currículo formal elaborado por especialistas e instituições e o currículo real que, efetivamente, se concretiza na escola e na sala de aula. A escola vive hoje contradições fundamentais. Seus agentes lutam simultaneamente por mudanças e pela manutenção de tradições escolares. Mantêm articulações com esferas políticas e institucionais, incorporam expectativas provocadas por avaliações de desempenho do sistema educacional brasileiro, orientam-se por avaliações para ingresso no ensino médio ou superior, buscam contribuições de pesquisas e experiências acadêmicas e procuram atender parte das expectativas sociais e econômicas das famílias, dos alunos e dos diferentes setores da sociedade. Fonte: www.google.com.br A constatação dessas contradições fortalece, cada vez mais, a convicção de que o saber escolar está relacionado a uma diversidade de tradições próprias da história da educação brasileira e mantém relações com poderes e valores diversificados da realidade social. Impõe a necessidade de valorizar o professor como um trabalhador intelectual ativo no espaço escolar, responsável junto com seus iguais pela clareza e definição dos objetivos e dos conteúdos para a http://www.google.com.br/ 22 disciplina que leciona. Aponta para o fato de que a transformação da prática do docente só acontece quando, no exercício de seu trabalho, ele coloca em discussão suas ações, explicita seus pressupostos, problematiza a prática, busca e experimenta alternativas de abordagens e de conteúdos, desenvolve atividades interdisciplinares, faz escolhas diversificadas de recursos didáticos, analisa dificuldades e conquistas, compartilha experiências e relaciona a prática com a teoria. 2 O CONHECIMENTO HISTÓRICO: CARACTERÍSTICAS E IMPORTÂNCIA SOCIAL Fonte: www.google.com.br Desde que foi incorporada ao currículo escolar, a História ensinada tem mantido uma interlocução com o conhecimento histórico. De longa data, muitos dos profissionais que atuam no ensino e/ou produzem material didático são pesquisadores e produtores de conhecimento historiográfico. Apesar de em certos momentos da história da educação brasileira algumas políticas públicas romperem com os vínculos diretos entre o que se ensina na escola e a produção histórica específica ou, ainda, estimularem a formação de docentes para reproduzirem um saber puramente escolar, permanecem as lutas de professores/historiadores para aproximarem o ensino de História das questões, das abordagens e dos temas desenvolvidos pela pesquisa teórica e científica. 23 Nas últimas décadas, por diferentes razões, nota-se uma crescente preocupação dos professores do ensino fundamental em acompanhar e participar do debate historiográfico, criando aproximações entre o conhecimento histórico e o saber histórico escolar. Reconhece-se que o conhecimento científico tem seus objetivos sociais e é reelaborado, de diversas maneiras, para o conjunto da sociedade. Na escola, ele adquire, ainda, uma relevância específica quando é recriado para fins didáticos. O saber histórico tem desse modo, possibilitado e fundamentado alternativas para métodos de ensino e recursos didáticos, principalmente para valorizar o aluno como sujeito ativo no processo de aprendizagem. Por outro lado, ao constatarem que as abordagens e os conteúdos escolares não explicam as problemáticas sociais contemporâneas nem as transformações históricas a elas relacionadas, professores e educadores buscam outros modos de compreender a relação presente/passado e de historiar as questões do cotidiano. Além disso, os profissionais da escola têm procurado manter relações e compromissos mais estreitos com a realidade social, propondo uma melhor compreensão dessa realidade e encarando-a como diversificada, múltipla, conflituosa, complexa e descontínua. Considerando as indagações e as problemáticas atuais do conhecimento e do ensino de História são apresentadas, na sequência, linhas gerais de algumas tendências e reflexões de pesquisadores e estudiosos da História. Como em muitas outras áreas de conhecimento, a História é um campo de pesquisa e produção de saber em permanente debate que está longe de apontar para um consenso. Novas abordagens iluminam as análises políticas de instituições, de líderes governamentais, de partidos, de lutas sociais e de políticas públicas. Ao mesmo tempo, novos temas sociais e culturais ganham relevância. É o caso de pesquisas destinadas a aprofundar e revelar as dimensões da vida cotidiana de trabalhadores, mulheres, crianças, grupos étnicos, velhos e jovens e das pesquisas que estudam práticas e valores relacionados às festas, à saúde, à doença, ao corpo, à sexualidade, à prisão, à educação, à cidade, ao campo, à natureza e à arte. Nesse propósito, continua sendo utilizada como fonte de pesquisa a documentação escrita e institucional, enquanto são considerados 24 também documentos de diferentes linguagens textos, imagens, relatos orais, objetos e registros sonoros. Na pesquisa histórica podem ser encontradas diferentes abordagens teórico-metodológicas. Entre elas, tendem a se esgotar as que procuram explicar a vida social e a dinâmica de seu movimento no tempo por meio de teorias globalizantes, fazendo uso de categorias teóricas abstratas e de métodos hipotético-dedutivos. Têm sido fortalecidas, por outro lado, diferentes abordagens que enfatizam a problematização do social, procurando ora nos grandes movimentos coletivos, ora nas particularidades individuais, de grupos e nas suas inter-relações, o modo de viver, sentir, pensar e agir de homens, mulheres, trabalhadores, que produzem, no dia-a-dia e ao longo do tempo, as práticas culturais e o mundo social. Nesta última tendência, que não deixa de abrigar diferentes modelos analíticos e conceituais, as obras de arte, as articulações de poderes religiosos, os rituais, os costumes, as tradições, os desvios de comportamento, as resistências cotidianas, os valores presentes em imagens e textos, as relações e papéis interpessoais e intergrupais, são abordados em suas particularidades, em suas inter-relações ou na perspectiva de suas permanências e transformações no tempo. Tais estudos têm contribuído para revelar dimensões da história cultural, mentalidades e práticas de construção de identidades socioculturais.Têm solicitado, por sua vez, outras metodologias e teorias capazes de iluminar os significados simbólicos das representações sociais e as relações que as práticas cotidianas mantêm com os processos históricos. Demandam, ainda, abordagens capazes de lidar com a ideia de permanência na História, estimulando debates sobre o tempo e suas durações. A ampliação de temas de estudo e de possibilidades teórico- metodológicas tem auxiliado o pesquisador a refletir cada vez mais sobre os fatores que interferem na construção do conhecimento histórico. Os estudos da cultura e das representações alertam, por exemplo, para o fato de que, assim como as obras de arte, os artefatos, os textos e as imagens estão repletos de significações complementares e contraditórias, as obras historiográficas, do mesmo modo, possuem seu tempo, seu lugar, seus valores e suas ideologias. O tema de estudo, as fontes, as análises, as interpretações, como também o estilo e a estrutura textual, expressam a historicidade do conhecimento, a sua 25 legitimidade científica e a sua inserção em um contexto histórico mais amplo. Assim, alguns historiadores preocupam-se com a explicitação de que também as suas escolhas fazem parte de momentos históricos específicos, de processos contínuos e descontínuos e de diálogos com outros estudiosos e com as realidades vividas e estudadas. O historiador tem igualmente refletido sobre as relações que estabelece com o seu objeto de estudo. Fica-se clara a distinção entre o sujeito e o objeto de investigação nas abordagens teórico-metodológicas de caráter científico e racionalista, que enfatizam a objetividade como meio de aproximação da realidade histórica, essa distinção se dilui quando são interpretados os indícios de valores e mentalidades das representações construídas historicamente. No segundo caso, cabe efetivamente ao pesquisador, a partir de sua formação e de seus domínios cognitivos, identificar, relacionar e interpretar tais indícios simbólicos como expressões de vivências e de modos de pensar contraditórios de uma realidade social e cultural representada. Isso não significa que o conhecimento histórico abandonou o domínio da racionalidade, mas que, assim como outras disciplinas, busca uma nova racionalidade. Tais reflexões têm fortalecido a consciência do historiador de que exerce um papel ativo na elaboração do conhecimento e de que as formas de estudar o passado são plurais. Reconhece que o produto final de seu trabalho decorre da sua abordagem teórica, da escolha da metodologia de pesquisa, de suas hipóteses iniciais, da sua escolha do tema, da sua sensibilidade para estabelecer relações entre problemáticas de sua época e problemáticas históricas, das fontes de pesquisa que escolhe analisar, de suas interpretações e do estilo de texto que opta para organizar o seu trabalho. Essa diluição das distâncias e a interpenetração entre o sujeito e o objeto de estudo instigou alguns historiadores a assumirem plenamente uma subjetividade interpretativa, questionando a dimensão do real e o comprometimento do conhecimento histórico com a verdade em termos de vínculos com a realidade social. Nessas dimensões, a especificidade e a cientificidade do conhecimento histórico foram redimensionadas. A referência passou a ser o diálogo que o historiador estabelece com seus iguais, a coerência de sua abordagem teórico-metodológica e a organização do conhecimento por meio de uma formalização da linguagem científica da História. 26 Essa diversidade de temas e abordagens tem sido alimentada e fundamentada pelo diálogo da História com outras áreas de conhecimento das Ciências Humanas a Filosofia, a Economia, a Política, a Geografia, a Sociologia, a Psicologia, a Antropologia, a Arqueologia, a Crítica Literária, a Linguística e a Arte. Em diferentes momentos do século XX é possível identificar a convergência de abordagens e temáticas entre as diferentes humanidades, ora predominando estudos histórico-sociais, histórico-geográficos, histórico-culturais, histórico- políticos, histórico-econômicos, histórico-literários, ora existindo a procura de uma história total. Nesse diálogo, diferentes campos das Ciências Humanas introduziram, também, preocupações próprias da História, como no caso da valorização do estudo das transformações das culturas, das significações e dos valores no tempo. A aproximação da História com as demais Ciências Humanas conduziu aos estudos de povos de todos os continentes, redimensionando o papel histórico das populações não europeias. Orientou estudos sobre a diversidade de vivências culturais, estimulou a preocupação com as diferentes linguagens. A investigação histórica passou a considerar a importância da utilização de outras fontes documentais e da distinção entre a realidade e a representação da realidade expressa nas gravuras, desenhos, gráficos, mapas, pinturas, esculturas, fotografias, filmes e discursos orais e escritos. Aperfeiçoou, então, métodos para extrair informações de diferentes naturezas dos vários registros humanos já produzidos, reconhecendo que a comunicação entre os homens, além de escrita, é oral, gestual, figurada, musical e rítmica. O aprofundamento de estudos culturais, principalmente no diálogo da História com a Antropologia, tem contribuído, ainda, para um debate sobre os conceitos de cultura e de civilização. Alguns historiadores rejeitam o conceito de civilização por considerá-lo impregnado de uma perspectiva evolucionista e otimista face aos avanços e domínios tecnológicos, isto é, com uma culminância de etapas sucessivas em direção a uma cultura superior antecedida por períodos de selvageria e barbárie. Nessa linha, valorizam a ideia de diversidade cultural e multiplicam as concepções de tempo. A ideia de um tempo apenas contínuo e evolutivo, igual e único para toda a humanidade, também é confrontada com o esforço de perceber e iluminar a descontinuidade das mudanças, evidenciando, por exemplo, a convivência, na mesma época, de povos que utilizam diferentes 27 tecnologias, como no caso de sociedades coletoras que são contemporâneas de nações que dominam recursos tecnológicos capazes de explorar o planeta Marte. Muitas reflexões inerentes à pesquisa histórica são significativas para o ensino na escola fundamental. As abordagens teóricas que problematizam a realidade social e identificam a participação ativa de pessoas comuns na construção da História nas suas resistências, divergência de valores e práticas, reelaboração da cultura instigam, por exemplo, propostas e métodos de ensino que valorizam os alunos como protagonistas da realidade social e da História e sujeitos ativos no processo de aprendizagem. O diálogo da História com as demais Ciências Humanas tem favorecido, por outro lado, estudos de diferentes problemáticas contemporâneas em suas dimensões temporais. Por meio de trabalhos interdisciplinares, novos conteúdos podem ser considerados em perspectiva histórica, como no caso da apropriação, atuação, transformação e representação da natureza pelas culturas, da relação entre trabalho e tecnologia e das políticas públicas de saúde com as práticas sociais, além da especificidade cultural de povos e das inter-relações, diversidade e pluralidade de valores, práticas sociais, memórias e histórias de grupos étnicos, de sexo e de idade. A consciência de que o conhecimento histórico é sempre fruto de seu tempo sugere, também, outros trabalhos didáticos. As obras de cunho histórico, textos historiográficos, artigos de jornais e revistas, livros didáticos, são estudadas como versões históricas que não podem ser ensinadas como prontas e acabadas nem confundidas com a realidade vivida pelos homens no passado. Fonte: encrypted-tbn3.gstatic.com 28 Considera-se, por exemplo, a importância da identificação e da análisede valores, intencionalidades e contextos dos autores; a seleção dos eventos e a relevância histórica atribuída a eles; a escolha dos personagens que são valorizados como protagonistas da história narrada; e a estrutura temporal que organiza os eventos e que revela o tempo da problemática inicial e dos contextos históricos estudados. Trabalhos nessa linha possibilitam para o docente, entre outras coisas, reconhecer sua atuação na construção do saber histórico escolar, na medida em que é ele que seleciona, avalia e insere a obra em uma situação didática e tal obra adquire novos significados ao ser submetida aos novos interlocutores (ele e alunos). Fonte: www.google.com.br As pesquisas históricas desenvolvidas a partir de diversidade de documentos e da multiplicidade de linguagens têm aberto portas para o educador explorar diferentes fontes de informação como material didático e desenvolver métodos de ensino que, no tocante ao aluno, favorecem a aprendizagem de procedimentos de pesquisa, análise, confrontação, interpretação e organização de conhecimentos históricos escolares. Essas são experiências e vivências importantes para os estudantes distinguirem o que é realidade e o que é representação, refletirem sobre a especificidade das formas de representação e comunicação utilizadas hoje e em outros tempos e aprenderem a extrair informações de documentos (das suas formas e conteúdos) para o estudo, a reflexão e a compreensão de realidades sociais e culturais. Os diálogos entre o ensino de História e o conhecimento científico redimensionam, assim, a importância social da área na formação dos estudantes. Sinalizam e fundamentam possibilidades de estudos e atividades 29 que valorizam as atitudes intelectuais dos alunos, o seu envolvimento nos trabalhos e o desenvolvimento de sua autonomia para aprender. Instigam, também, a reflexão crítica na escola e na sala de aula sobre suas práticas, seus valores e seus conhecimentos, aprofundando as relações do seu cotidiano com contextos sociais específicos e com processos históricos contínuos e/ou descontínuos. 3 OBJETIVOS DA HISTÓRIA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL Os Parâmetros Curriculares Nacionais indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos sejam capazes de: . Compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia- a-dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito; . Posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas; . Conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noção de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinência ao país; . Conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais; . Perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente, identificando seus elementos e as interações entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente; . Desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, ética, estética, de inter- 30 relação pessoal e de inserção social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania; . Conhecer o próprio corpo e dele cuidar, valorizando e adotando hábitos saudáveis como um dos aspectos básicos da qualidade de vida e agindo com responsabilidade em relação à sua saúde e à saúde coletiva; . Utilizar as diferentes linguagens verbal, musical, matemática, gráfica, plástica e corporal como meio para produzir, expressar e comunicar suas ideias, interpretar e usufruir das produções culturais, em contextos públicos e privados, atendendo a diferentes intenções e situações de comunicação; . Saber utilizar diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos para adquirir e construir conhecimentos; . Questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolvê- los, utilizando para isso o pensamento lógico, a criatividade, a intuição, a capacidade de análise crítica, selecionando procedimentos e verificando sua adequação. 31 REFERÊNCIAS ARANTES, A. A. (Org.). Produzindo o passado: estratégias de construção do patrimônio cultural. Condephaat. 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Prof. Dr. Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária. 05508-000 São Paulo – SP – Brasil.marcossilva.usp@uol.com.br IIUniversidadeFederal de Uberlândia, Campus Santa Mônica – Instituto de História. Bloco H – Sala 1H49. 38400-902 Uberlândia – MG – Brasil. Pesquisadora de Produtividade do CNPq. selva.guimaraes@uol.com.br RESUMO Este artigo analisa tradições de debate sobre Ensino de História no Brasil desde a ditadura de 1964-1984. Ele discute as mudanças, permanências, conquistas e perdas na história da disciplina. Destaca a importância da cultura escolar, a necessária continuidade da escola como instituição e o diálogo com formas não escolares de ensino. Palavras-chave: ensino de História; cultura escolar; formas não escolares de ensino. mailto:marcossilva.usp@uol.com.br mailto:selva.guimaraes@uol.com.br 34 O ensino de História na educação básica brasileira foi objeto de intenso debate, lutas políticas e teóricas no contexto de resistências à política educacional da ditadura civil-militar brasileira (1964-1984). Isso significou refletir sobre o estado do conhecimento histórico e do debate pedagógico, bem como combater a disciplina "Estudos Sociais" e a desvalorização da História, os currículos fragmentados, a formação de professores em Licenciaturas Curtas e os conteúdos dos livros didáticos difundidos naquele momento, processo articulado às lutas contra as políticas de precarização da profissão docente. O encerramento daquela experiência ditatorial não significa a inexistência de novas e velhas dificuldades a serem enfrentadas no cotidiano do ensino de História. Algumas tendências nesse campo específico se fortaleceram a partir daquela conjuntura e de sua superação em termos políticos gerais. O crescimento da indústria editorial e das escolas privadas, nos vários níveis de ensino, simultaneamente ao recuo de sindicatos e outras entidades associativas, marcam certa inflexão do debate das políticas educacionais para o ensino de História desde a década de 1990, com a perda ou o recuo de lutas coletivas. Ao mesmo tempo, cresceu a pesquisa científica cujo objeto de estudo é o ensino e a aprendizagem de História; passou-se a valorizar, cada vez mais, a cultura escolar, os saberes e as práticas educativas, desenvolvidos em diferentes lugares por docentes e outros atores do processo educativo. Essa foi uma conquista importante porque reafirmou, entre nós, a concepção de que ensinar História não é apenas repetir, reproduzir conhecimentos eruditos produzidos noutros espaços: existe também uma produção escolar. As culturas escolares, dotadas de especificidades, mantêm laços, diálogos permanentes com outros espaços culturais, desde a formação dos professores nas universidades, passando pela produção erudita continuada (artigos, livros, exposições) e pela divulgação (livros didáticos, cursos) elaborada a partir desses mesmos espaços. Registram-se, na década de 1990, as edições dos Eventos Nacionais na área do Ensino de História: o "Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História", promovido pela primeira vez na Universidade de São Paulo em 1988, e o "Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História", em 1993, na Universidade Federal de Uberlândia. Tais eventos passaram a ser realizados de dois em dois anos em diferentes cidades 35 do Brasil, tornando-se importantes espaços de formação continuada, trocas de experiências científicas e didáticas. A produção acadêmica e as publicações sobre ensino de História se ampliaram, assim como muitas problematizações relevantes sobre Ensino e História, por diferentes agentes e instituições, procurando responder a questões emergentes nesse campo de análise. Objetivamos, nos limites deste espaço textual, refletir criticamente sobre o lugar, o papel, os objetivos e a importância da História na educação básica, mais especificamente, no ensino fundamental. Na construção da análise, trataremos de novos e velhos temas, percursos e documentos, sugestões curriculares e produções textuais, frutos de políticas públicas, movimentos sociais e experiências de ensino e pesquisa. Discutiremos dimensões do ensino de História no Brasil contemporâneo, focalizando as "novas necessidades e possibilidades de conhecimento, sem perder de vista o que se conquistou na área ao longo das últimas décadas" do século XX.1 É importante enfrentarmos, neste debate, alguns fetiches que passaram a marcar o debate sobre Ensino de História nas últimas três décadas: 1. O fetiche dos "Novos objetos", inspirado na Nova História francesa: a inovação derivaria de explorar temas nunca dantes navegados (fósforos queimados, fraldas descartáveis, calos nas cordas vocais...). Sem problematizações, esse fetiche conduz a um ensino sobre eventuais exotismos e à perda de questões gerais de conhecimento histórico. 2. O fetiche do dernier cri (última palavra ou moda mais recente), aparentado ao anterior, com leve variação de fonte inspiradora – autores ingleses, norte-americanos, italianos, poloneses... Já foi História dos vencidos, História da vida privada... A novidade do argumento surge como um bem em si, sem reflexão sobre sua efetiva importância. E aqueles campos de saber correm o risco de descarte quando não são mais novidades: a velhice da Nova História... 3. O fetiche da cultura escolar isolada de outras culturas (universitária, industrial, não escolar, tradições populares). A escola se vê reduzida a uma ilha fora da História. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt01 36 4. O fetiche da Academia como único lugar do saber: ele tem como consequência a desqualificação de professores e alunos da escola fundamental e média, mais a sociedade inclusiva. 5. O fetiche da lei ou do Estado que tudo salva, ignorando vontades intelectuais e políticas de professores, alunos e outros atores sociais envolvidos no Ensino de História. A história da disciplina História, na educação escolar no Brasil, tem sido objeto de vários estudos, tanto no âmbito das pesquisas e publicações acadêmicas, como no da produção de diretrizes curriculares, livros didáticos e paradidáticos, de programas e projetos de formação de professores. Análises da produção, na área do ensino e da aprendizagem, evidenciam preocupações recorrentes com o papel da História como disciplina escolar; os currículos, critérios/modos de organização e seleção curricular; livros didáticos e paradidáticos; metodologias e práticas de ensino consideradas adequadas, críticas ou formativas. Cartografias da produção2 demonstram que esse terreno é controverso, habitado por disputas, interesses, consensos e dissensos teóricos e políticos. Em diferentes contextos da história do Brasil, é possível dimensionar a preocupação do Estado com a institucionalização de currículos e programas de História para a educação básica. No caso específico da disciplina História, a partir do século XIX, identificam-se dezoito programas de Ensino relativos às reformas curriculares entre os anos de 1841 e 1951. Esses programas foram organizados pelo Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, de acordo com as diretrizes das várias reformas curriculares ocorridas naquele período.3 Os textos dos documentos curriculares "prescritos" são reveladores de objetivos, posições políticas, questões teóricas que configuram não apenas o papel formativo da História como disciplina escolar, mas também estratégias de construção/manipulação do conhecimento histórico escolar. Isso nos remete às primeiras perguntas: Tudo é História? Se tudo é História, por que às escolas de Educação básica são endereçados determinados conteúdos específicos, selecionados, elaborados em diferentes lugares de produção? Por que, nas diferentes realidades escolares, na construção curricular cotidiana, outros http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt02 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt0337 conhecimentos são selecionados e ensinados? De quais formas os currículos de História, "prescritos e vividos" operam no sentido de selecionar para quê, o quê e como ensinar em História? As respostas a essas questões não são simples. Certamente, dependem de nossas (professores, pesquisadores) posições políticas e escolhas teóricas e metodológicas. No caso específico da área de História, as buscas por respostas a essas perguntas sugerem outras questões: "o que fazem os professores de História quando ensinam História?"; "quais os temas, as fontes, os materiais, os problemas que escolhemos para fazermos as mediações entre o passado e o presente vivido por nós?"; "como nos relacionamos com o passado, quando ensinamos, hoje, História às crianças e aos jovens brasileiros?". Ora, como bem sabemos, a história ensinada é sempre fruto de uma seleção, um "recorte" temporal, histórico. As histórias são frutos de múltiplas leituras, interpretações de sujeitos históricos situados socialmente. Assim como a História, o currículo escolar não é um mero conjunto neutro de conhecimentos escolares a serem ensinados, apreendidos e avaliados. Conforme define Goodson, inspirado em Hobsbawm, o currículo é "sempre parte de uma tradição seletiva, um perfeito exemplo de invenção da tradição".4 Pensar nos lugares, nos papéis, na importância formativa da História no currículo da Educação básica requer concebê-la como conhecimento e prática social, em permanente (re)construção, um campo de lutas, um processo de inacabamento. Um currículo de História é, sempre, produto de escolhas, visões, interpretações, concepções de alguém ou de algum grupo que, em determinados espaços e tempos, detém o poder de dizer e fazer. Os currículos de História – sejam aqueles produtos das políticas públicas ou da indústria editorial, sejam os currículos construídos pelos professores na experiência cotidiana da sala de aula – expressam visões e escolhas, revelam tensões, conflitos, acordos, consensos, aproximações e distanciamentos. Nessa perspectiva, o lugar ocupado pela História, após 14 anos da implantação (LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação – Lei 9.394/96) e 13 anos da divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais pelo Ministério da Educação, está, intimamente, imbricado às intencionalidades educativas5 expressas na política educacional implementada na década de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt04 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt05 38 1990, no contexto político de globalização da economia, de desenvolvimento de novas tecnologias e de consolidação da democracia no Brasil. Esse lugar deriva de mudanças na política educacional e no ensino de História, conquistadas no processo de lutas na década de 1980 e, também, a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988. Destacamos algumas realidades dos anos 1990: a extinção das disciplinas EMC (Educação Moral e Cívica), OSPB (Organização Social e Política) e EPB (Estudos dos Problemas Brasileiros); os cursos superiores de Licenciatura Curta em Estudos Sociais também, paulatinamente, foram extintos; e, a partir de 1994, a avaliação dos livros didáticos dos quatro anos iniciais do ensino fundamental. Esse processo foi institucionalizado, ampliado e desenvolvido de forma sistemática nos governos posteriores. Além disso, depois da LDB de 1996 foram desenvolvidos programas e projetos de formação docente pelos governos federal, estaduais e municipais, com ênfase na titulação universitária dos professores das séries iniciais do ensino básico e fundamental. O texto da LDB, Lei 9.394/95, apontou diretrizes que podem se configurar como respostas do Estado às perguntas feitas anteriormente. Em forma de lei, o documento oficial expressa o que da cultura e da História que o Estado brasileiro considerava necessário transmitir aos alunos por meio da disciplina obrigatória "História". O documento reitera a ênfase no estudo da História do Brasil, por meio da tríade: "as matrizes indígena, africana e europeia na formação do povo brasileiro", conforme exposto no Parágrafo 4º do Artigo 26 da LDB.6 Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), implantados em 1997, também nos respondem. Em primeiro lugar, deve-se registrar que eles oficializaram, em âmbito nacional, a separação das disciplinas "História e Geografia" nos anos iniciais do ensino fundamental, após anos de lutas e críticas à sua fusão, predominante nos currículos escolares durante e após o governo da Ditadura Civil-Militar (é importante ressaltar que a fusão é anterior a 1964). Essa mudança curricular já havia sido realizada em alguns estados da Federação, como Minas Gerais e São Paulo, no movimento de reforma curricular da década de 1980. A estrutura do ensino fundamental, definida pelos PCNs, em 1997, pôs fim aos Estudos Sociais como componente curricular, fosse como área ou como disciplina. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt06 39 Com relação às intencionalidades educativas, ao papel e à importância da disciplina, o Documento, em consonância com o movimento acadêmico e político, reforçou o caráter formativo da História na constituição da identidade, da cidadania, do (re)conhecimento do outro, do respeito à pluralidade cultural e da defesa do fortalecimento da democracia. Em relação aos conteúdos (o que ensinar), aos saberes históricos selecionados, o documento curricular propõe uma organização em torno de eixos temáticos, desdobrados em subtemas. Para os quatro anos iniciais do Ensino fundamental, o estudo de dois eixos temáticos: I) História local e do cotidiano, subdividida em dois subitens: localidade e comunidades indígenas; II) História das organizações populacionais, subdividida em: deslocamentos populacionais, organizações e lutas de grupos sociais e étnicos, e organização histórica e temporal. Para os anos finais do Ensino fundamental, os PCNs propõem outros dois eixos temáticos: I) História das relações sociais, da cultura e do trabalho, subdividida em: as relações sociais, a natureza e a terra e as relações de trabalho; II) História das representações e das relações de poder, desdobrada, também, em dois subitens: nações, povos, lutas, guerras e revoluções; cidadania e cultura no mundo contemporâneo. Além disso, o documento curricular estabeleceu os temas transversais (para todas as disciplinas): Ética, Saúde, Meio Ambiente, Orientação Sexual, Pluralidade Cultural, Trabalho e Consumo. Muitos desses tópicos fazem parte de pautas debatidas por movimentos sociais. Incorporá-los aos horizontes curriculares não significa esvaziar a continuada capacidade de reflexão crítica e o direito à voz no processo educativo daqueles movimentos. A opção por eixos temáticos a partir de problematizações amplas é fruto do intenso debate curricular ocorrido no Brasil, na década de 1980, em diálogo com experiências europeias. É exemplar o debate ocorrido em torno da Proposta Curricular da SEE/Cenp no estado de São Paulo.7 Tal proposição constituía uma busca, uma resposta às críticas à estrutura curricular tradicional, que privilegiava a organização cronológica linear, por meio de fatos, marcos da história europeia integrados, quando possível, aos fatos/marcos da história da nação brasileira, sob o signo da ideologia do progresso. Era, assim, uma resposta crítica ao "quadripartismo francês" (tão bem analisado pelo historiador Jean Chesneaux e radicalmente incorporado no Brasil), formatando e engessando currículos e livros http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt07 40 didáticos. A opção por eixos temáticos representava uma insubordinação "ao império do fato", "ponto de localização de significações e lugar onde é entrevista a realização daHistória", como bem analisou Carlos Vesentini em A teia do fato.8 Na referida obra, Vesentini nos alertou: "alguns fatos são difundidos, impondo-se no conjunto do social antes da possibilidade de qualquer reflexão específica voltar-se para o seu exame" (p.19). Assim, a organização curricular por eixos temáticos, intensamente discutida a partir da década de 1980, passou a ser um desafio teórico e metodológico, uma postura crítica ante as tramas da produção e da difusão do conhecimento histórico. A ênfase dos PCNs no ensino e na aprendizagem de temas e problemas da História do Brasil, desde os anos iniciais do ensino fundamental, veio enfrentar velhos problemas em muitas realidades escolares. Dentre eles, destacamos o fato de o aluno concluir essa fase da escolaridade sem ter contato com a história do Brasil. Os antigos programas de ensino de Estudos Sociais, em geral, encerravam o ciclo dos quatro anos do então ensino de 1º grau (hoje ensino fundamental) com o estudo da história regional, do município e/ou do estado (unidade da Federação em que vive o aluno), de forma estanque e fragmentada, perdendo de vista a reflexão sobre local e não local (nacional e mesmo mundial). Assim, no estado de Minas Gerais, por exemplo, as crianças, que estudavam seguindo o Programa de Estudos Sociais da Secretaria de Estado da Educação9 e os livros didáticos elaborados à semelhança do Programa chegavam ao final da 4ª série, hoje 5º ano, sem ter noções mínimas, básicas, de História do Brasil. O mesmo ocorria com os estudos de Geografia. Levando em conta que grande parte dos alunos brasileiros não ultrapassava, naquele período, os limites da 4ª ou 5ª série, em razão dos elevados índices de evasão e repetência, muitos encerravam ou interrompiam a escolaridade sem conhecer, no espaço escolar, aspectos significativos da História e da Geografia do Brasil. Aqueles que prosseguiam os estudos chegavam, via de regra, à então 5ª série (6º ano) sem uma base conceitual e temática das disciplinas, sem conhecimentos mínimos sistematizados de História e Geografia do Brasil. O texto curricular dos PCNs, ao propor um tema amplo para os dois últimos anos da primeira fase do ensino fundamental e em consonância com debates e experiências anteriores, possibilitou a professores http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt08 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt09 41 e alunos problematizarem e compreenderem importantes dimensões da História do Brasil.10 Ao revisitar a problemática da disciplina na história dos últimos anos do século XX e da primeira década do século XXI, outro movimento relevante merece ser registrado e analisado: as demandas dos grupos sociais. Como é amplamente conhecido da sociedade brasileira, a partir da década de 1970 intensificou-se entre nós, de modo particular, a mobilização de mulheres, negros e indígenas, entre outros grupos, contra o racismo, os preconceitos, a marginalização e as diversas práticas e formas de dominação e exclusão. Esses movimentos foram conquistando espaços por meio de lutas específicas no campo da cultura, da educação e da cidadania. Nesse contexto, almejaram vitórias expressivas no processo constituinte na década de 1980 e, em decorrência da Nova Constituição Federal de 1988, vários projetos de políticas foram implantados, tais como delegacias de mulheres, demarcação de terras indígenas, ações afirmativas para a população de afrodescendentes, implementação de cotas, projetos de inserção do negro no mercado de trabalho e ações específicas na área da cultura e da educação de afrodescendentes e indígenas. Debates em entidades associativas e culturais de profissionais de História, como a Anpuh, salientavam a importância de estudos dedicados à África para aprofundamento da História do Brasil. Assim, em 2003 foi sancionada pelo presidente da República a Lei Federal 10.639, de 9 de janeiro, determinando a inclusão obrigatória, no currículo da rede de ensino, do estudo da "História e Cultura Afro-Brasileira" e outras providências. Em 2004 foram aprovadas, pelo Conselho Nacional de Educação, as "Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana", bem com Resolução nº 1 do CNE, de 7 de junho de 2004, que instituiu as Diretrizes. Essas proposições provocaram alterações na Lei Federal 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) –, com o acréscimo de dois artigos referentes ao ensino de História: Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro- Brasileira. (Incluído pela Lei 10.639, de 9 jan. 2003) http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt10 42 Parágrafo 1º – O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política, pertinentes à História do Brasil. (Incluído pela Lei 10.639, de 9 jan. 2003) Parágrafo 2º – Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras; (Incluído pela Lei 10.639, de 9 jan. 2003) Art. 79-A. (VETADO); (Incluído pela Lei 10.639, de 9 jan. 2003) Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como "Dia Nacional da Consciência Negra". (Incluído pela Lei 10.639, de 9 jan. 2003) O artigo 26-A, ao determinar a obrigatoriedade do ensino da História eCultura da África e Afro-Brasileira, define "o que ensinar", "o conteúdo programático", "resgatando" a importância do estudo da luta dos africanos e afro- brasileiros, da História e da cultura desses povos. O parágrafo 2º estabelece que os conteúdos devam ser objeto de todas as disciplinas, em especial, Educação Artística, Literatura Brasileira e História Brasileira. O artigo 79-B das "Disposições Gerais" da LDB incluiu, no calendário escolar, a data cívica "dia 20 de novembro" como o "Dia da Consciência Negra". Trata-se de uma referência à memória (dia da morte) de Zumbi dos Palmares, um dos principais líderes da luta dos escravos, no Quilombo dos Palmares, contra o regime escravista colonial. A inclusão da data no calendário escolar foi considerada por lideranças dos movimentos sociais e por historiadores como um importante contraponto à memória oficial da nação. No calendário escolar mais tradicional, comemora-se o dia 13 de maio, data da Lei Áurea, marco da abolição da escravatura, fato herdado, que traz a ideia de libertação como dádiva e consagra a princesa Isabel como a Redentora dos Escravos. É importante registrar que essa memória se faz presente também em setores de Cultura Popular, como Congadas e outras manifestações artísticas, que incluem Isabel como personagem, junto a Nossa Senhora Aparecida, evidenciando laços 43 afetivos e valorização da Abolição que não se reduzem à ideologia conservadora. Nesses percursos de mudanças nas políticas sociais, atreladas ao movimento acadêmico multicultural crítico, surgiu a Lei Federal 11.645, de 10 de março de 2008. A referida Lei alterou a Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabeleceu as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir, no currículo oficial da rede de ensino, a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena". Foram feitas alterações e modificações no artigo 26-A e respectivos parágrafos, que passarama ter esta redação: Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. (Redação dada pela Lei 11.645, de 2008) § 1ºO conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. (Redação dada pela Lei 11.645, de 2008) § 2ºOs conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. (Redação dada pela Lei 11.645, de 2008) As modificações inseridas na LDB pela Lei Federal 11.645, de 10 de março de 2008, não invalidaram nem revogaram as leis anteriores, mas acrescentaram a obrigatoriedade dos estudos referentes à questão indígena – vale lembrar que as grandes comemorações pelo quinto centenário da colonização portuguesa na América abrangeram exposições monumentais que incluíam africanos e indígenas na formação do país ao mesmo tempo em que manifestações de representantes desses grupos, em Porto Seguro, foram violentamente reprimidas. Esse complemento refere-se ao conteúdo, uma vez que vários outros aspectos relativos à educação escolar indígena possuíam regulamentação. 44 Pesquisas em desenvolvimento na rede escolar de ensino público e privado11 têm evidenciado contradições e dificuldades dos professores em ministrar tais conteúdos. As razões teóricas, políticas e pedagógicas, narradas pelos professores são múltiplas. No entanto, há pontos em comum. Primeiro, a lacuna existente na formação inicial. Grande parte dos cursos de Licenciatura em Pedagogia e História, no Brasil, ainda não preparava, em 2008, os professores para o estudo das temáticas no ensino fundamental. Somam-se a isso as dificuldades para obtenção de material didático pertinente. Logo, mais um consenso foi produzido: a necessidade de implantação e desenvolvimento de projetos de formação continuada para suprir tais lacunas teóricas e metodológicas, além da revisão dos currículos das Licenciaturas e o incremento de livros e materiais didáticos no que concerne a essas problemáticas. Trata-se, evidentemente, de debate necessário e até tardio. Ao mesmo tempo, é preciso evitar sua redução a tópico temático isolado, sem reflexão crítica nem articulações com outros universos de etnia e problemáticas de conhecimento. Pensar em africanos e indígenas na formação do Brasil significa também indagar sobre ligações desses grupos com outras etnias, formação de novas culturas híbridas, sociabilidades que, longe de idealizações, possuem caracteres muito diferentes daqueles observados noutras partes do mundo (ausência de impedimentos legais para casamentos, modalidades de racismo sutis, mas de grande violência, redução daqueles grupos à pobreza etc.). Africanos e indígenas não são realidades humanas do passado, estão no presente do Brasil como ação de grupos e de seus descendentes, e se renovam através de outras ondas de imigração e dinâmicas de sobrevivência dos ameríndios, sem esquecer a grande importância da África no cenário mundial do presente e de diferentes passados. E um perturbador silêncio ainda se manifesta: os descendentes de diferentes etnias e nacionalidades asiáticas no Brasil e os múltiplos significados do continente asiático e de seus povos na História mundial do passado e do presente. E mais os imigrantes latino- americanos e também europeus do antigo bloco soviético no Brasil. Não se trata apenas, portanto, de "matrizes indígena, africana e europeia na formação do povo brasileiro": as identidades nacionais e outras são História em aberto, elas continuam seu permanente fazer-se e exigem explicações críticas. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt11 45 É necessário registrar outra mudança na política educacional que tem implicações no lugar ocupado pelo ensino de História no currículo. Referimo-nos à alteração na estrutura do ensino fundamental brasileiro. Em 2006, o Governo Federal, por meio da Lei 11.274/2006, alterou a redação dos artigos 29, 30, 32 e 87 da LDB, ampliando para nove anos a duração do Ensino fundamental, com matrícula obrigatória a partir de 6 anos. O artigo 5º dessa Lei estabelece que os municípios, estados e o distrito federal terão prazo até 2010 para implantar a obrigatoriedade para o Ensino de 9 anos. Desde então, passaram a ser discutidas novas diretrizes curriculares nacionais no âmbito do Conselho Nacional de Educação (CNE), e, em 9 de julho de 2010, foi publicado o texto do Parecer e o Projeto de Resolução12 aprovado pelo CNE e homologado pelo ministro da Educação. O texto das novas diretrizes reitera a definição das três etapas da educação básica: educação infantil; o ensino fundamental obrigatório e gratuito, com duração de nove anos, organizado e tratado em duas fases: a dos 5 anos iniciais e dos quatro anos finais; e o ensino médio, com duração mínima de 3 anos. Em relação à estrutura curricular que deve integrar a base comum nacional, os ensinos de História e Geografia estão contemplados no Item C do artigo 14, que estabelece como componente curricular: "o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígenas.13 Essa configuração reafirma as diretrizes anteriores recorrentes na produção curricular e historiográfica escolar. Dentre os vários aspectos e ângulos, objetos das Diretrizes, merecedores de cuidadosa reflexão da área de ensino de História, destacamos o "foco central na alfabetização, ao longo dos três primeiros anos" como um dos objetivos da formação básica da criança, definido no Item II, artigo 24.14 Questionamos se esse privilégio não pode vir a representar na prática, mais uma vez, a desvalorização do ensino e da aprendizagem da História nos anos iniciais, após lutas históricas e conquistas como o retorno das disciplinas História e Geografia na década de 1990. Estudos indicam que, em muitas realidades escolares, ainda estão presentes concepções e práticas pedagógicas que separam, rigidamente, o processo de alfabetização da História, da Geografia e demais saberes que dão significado de experiências humanas à http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt12 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt13 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt14 46 aprendizagem.15 Muitos educadores ainda acreditam que, primeiro, é preciso ensinar a ler e a escrever, para depois ensinar e aprender História. O "foco na alfabetização", todavia, não pode perder de vista as diversas dimensões que o processo envolve, pois, como nos ensinou Paulo Freire, ler é ler o mundo:16 não podemos aprender a ler as palavras sem a busca da compreensão do mundo, da História, da Geografia, das experiências humanas, construídas nos diversos tempos e lugares. Isso requer de nós outra concepção de aprendizagem da Língua Portuguesa e da História. Assim como identifica Aisenberg17 ao analisar as relações entre a leitura e a aprendizagem da História na Argentina, aqui também, em geral, nas salas de aula de História, não ensinamos a ler, simplesmente usamos a leitura. Alguns professores dos anos finais do ensinofundamental, médio e até superior reclamam das dificuldades de ensinar História aos alunos semialfabetizados. À pergunta de muitos: "é possível ensinar História sem antes alfabetizar?", respondemos com outra questão: "é possível alfabetizar sem a História?". É necessário, sim, alfabetizar as crianças, ensinando e aprendendo História. Aprender História é ler e compreender o mundo em que vivemos e no qual outros seres humanos viveram. Ao Ensino de História cabe um papel educativo, formativo, cultural e político, e sua relação com a construção da cidadania perpassa diferentes espaços de produção de saberes históricos. Desse modo, no atual debate da área, fica evidente a preocupação em localizar, no campo da História, questões problematizadoras que remetam ao tempo em que vivemos e a outros tempos, num diálogo crítico entre a multiplicidade de sujeitos, tempos, lugares e culturas. Portanto, a(s) configuração(ões) da(s) história(s) vivida(s) e ensinada(s) pelos professores, entre as quatro paredes da sala de aula e, também, fora dos limites dos territórios escolares, bem como das histórias que os alunos aprendem nesses e noutros espaços, é bem mais complexa do que muitos supõem. As dimensões curriculares ora se aproximam, se mantêm, ora se distanciam, ora se contrapõem num movimento real, dinâmico, dialético, logo, histórico. Para refletir sobre as abordagens da história ensinada, optamos pela análise, ainda que sintética, do principal veículo de difusão da história na sociedade brasileira contemporânea: o livro didático destinado ao ensino fundamental. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt15 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt16 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt17 47 Certamente, uma das políticas públicas mais antigas do Estado brasileiro (data de 1929) e mais exitosas é o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que prevê a aquisição e a distribuição gratuita de livros para os alunos da rede pública de ensino. Desde o início do século XXI, em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1997, o PNLD passou a exigir nos Editais de Livros Didáticos para os anos iniciais a inscrição, avaliação e aquisição de volumes distintos para as duas disciplinas: História e Geografia. Mas nem sempre foi assim. Os currículos prescritos pelas Secretarias Estaduais e Municipais de diversas regiões do Brasil, a partir da década de 1970, pós-Lei 5.692/71, contribuíram de forma marcante para a diluição dos objetos de ensino de História e Geografia, com forte tempero de moral e civismo ditatoriais na fusão "Estudos Sociais" apresentado nos livros didáticos. Em relação ao perfil dos livros didáticos de Estudos Sociais adotados nesse período histórico, e distribuídos para os alunos das séries iniciais das escolas públicas brasileiras pelo PNLD, faz-se necessário registrar um importante trabalho realizado pelo MEC/FAE (Fundação de Assistência ao Educando) em 1993. Em meio a inúmeras denúncias sobre vários problemas do PNLD (execução, distribuição) e aos graves aspectos relacionados à qualidade dos livros didáticos – identificados por educadores e pesquisadores não só brasileiros como também estrangeiros –, o MEC criou um grupo de trabalho formado por especialistas das diversas áreas, indicados pelas seguintes entidades: União Nacional de Dirigentes Municipais da Educação (Undime), Conselho Nacional de Secretários da Educação (Consed), Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (Anped), Secretaria de Educação Fundamental (SEF) e FAE/MEC. A comissão foi, oficialmente, criada em 1993 com o objetivo de definir parâmetros de qualidade e avaliar a produção destinada às séries iniciais. A comissão da Área de Estudos Sociais e das demais disciplinas realizou o trabalho no período de outubro de 1993 a março de 1994, e o relatório foi entregue ao ministro da Educação em abril de 1994. Foi analisado um conjunto de oitenta livros de Estudos Sociais, que correspondiam aos dez títulos mais utilizados e solicitados pelos professores à FAE no ano de 1991. Os avaliadores concluíram que as obras caracterizavam-se pela "fragmentação, a simplificação", "não estimulam a prática da investigação, do debate, do 48 desenvolvimento da criatividade e da criticidade". Em alguns textos, "a linguagem é pobre e os textos se assemelham aos panfletos distribuídos em praças públicas" (p.72). Assim, segundo essa avaliação, os livros didáticos mais utilizados pelas escolas brasileiras no início da década de 1990 ainda eram marcados pelos objetivos dos Estudos Sociais. Eram livros de "Estudos Sociais", apesar de a divisão das disciplinas História e Geografia ter ocorrido, conforme já mencionado, em muitos estados e municípios e de forma paulatina desde 1982. Algumas das principais características das obras eram a "generalização e a simplificação" dos conteúdos. Isso dificultava a percepção e a compreensão, por professores e alunos, do objeto da História, que aparecia subsumido, diluído, pulverizado ao longo dos textos e atividades de Estudos Sociais. O corpo de conhecimentos e de conceitos históricos específicos, o objeto do ensino de História para esse nível de ensino, não era explicitado como tal. As marcas da exclusão social, dos preconceitos e estereótipos, evidentes na chamada História tradicional escolar, eram implícitas e explícitas nos textos e imagens. Além disso, segundo o documento, os livros não contribuíam para o desenvolvimento das linguagens oral e escrita nem para o processo de alfabetização. O referido documento evidencia de forma clara como os conteúdos, as imagens e as atividades dos livros de Estudos Sociais dificultavam o processo de compreensão da realidade social, histórica, econômica e cultural. Os conceitos histórico-geográficos, quando abordados, eram de tal forma fragmentados e naturalizados que mascaravam as contradições e não possibilitavam o desenvolvimento de habilidades e competências como criticidade, criatividade, reflexão e compreensão. Desde então, o PNLD foi aperfeiçoado e ampliado. De modo particular, ressalta-se o processo permanente de avaliação dos livros didáticos, organizado e sistematizado pelo MEC a partir de 1995. Na atualidade, o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e o recente Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM) têm, basicamente, a mesma forma de execução, e dentre as principais ações de execução da política destacam-se: Lançamento dos Editais; Inscrição das editoras; Triagem/Avaliação dos Livros; Elaboração e divulgação dos Guias; Escolha dos livros pelas escolas; Aquisição; Produção; 49 Distribuição e Recebimento dos livros pelas escolas públicas de diferentes lugares do Brasil. As características das obras atuais de História para os anos iniciais, após mais de uma década de avaliações sistemáticas, distanciam-se daquelas registradas no Documento de 1994. São divulgadas e podem ser apreendidas no documento "Guia de Livros Didáticos – PNLD 2010 – História". O texto traz, além dos critérios, as conclusões gerais sobre a avaliação dos livros de História, o perfil da produção apresentada (43 coleções e 72 livros regionais) e as resenhas específicas das 32 coleções e 36 livros regionais aprovados (MEC, 2009).É evidente a melhoria do padrão qualitativo dos livros didáticos – não apenas de História e Geografia –, conforme demonstrado pelos Guias do Livro Didático – publicados pelo MEC, os quais contêm os resultados das avaliações – e por estudos e pesquisas.1 Ressaltamos que na "Ficha de Avaliação do PNLD 2010 – História" há um conjunto de critérios avaliativos que propiciam diagnosticar não só a linguagem da obra, mas também as potencialidades de desenvolvimento de capacidadese competências de leitura, vocabulário, compreensão de gêneros textuais e produção de textos. Enfim, são avaliadas as possibilidades apresentadas pelos livros de História (anos iniciais) de aprendizagem histórica relacionada ao domínio da leitura e escrita da língua portuguesa. Portanto, os PCNs e as Avaliações contribuíram, decisivamente, para a construção de um novo perfil de livros didáticos de História e Geografia dirigidos aos alunos dos anos iniciais. Resta enfatizar que nem tudo é livro didático, que o ensino se dá por múltiplos caminhos e que a produção de materiais didáticos, de forma descentralizada e vinculada a realidades específicas de aprendizagem, deve ser apoiada e valorizada. Em relação ao Livro de História destinado aos finais do ensino fundamental, a avaliação dos livros didáticos de História, publicada pelo Guia 2008, evidenciou uma tendência que se consolida na atualidade. Segundo o Guia 2008, foi possível reunir as 19 coleções "em quatro blocos, de acordo com a organização de conteúdos: história temática (4 coleções); história integrada (7); história intercalada (7) e história convencional (1 coleção)". Os avaliadores concluíram 50 Que a maior parte das coleções inscritas neste PNLD-2008 foi elaborada seguindo a organização curricular dos conteúdos que aborda, concomitantemente, as Histórias da América, do Brasil e História Geral, sendo que metade por meio da abordagem denominada "História Integrada" e a outra metade pela "História Intercalada", o que permite a conclusão de que esta é a tendência atual da área. Após três anos, o "Guia de Livros Didáticos PNLD 2011 – História, anos finais do ensino fundamental" informa que foram avaliadas 25 coleções, sendo dezesseis aprovadas e nove reprovadas. Quanto às abordagens norteadoras, a perspectiva curricular dominante no universo de coleções avaliadas, a Comissão concluiu que podem ser agrupadas em dois blocos: 94% das coleções aprovadas priorizam a chamada "História Integrada", e 6%, a "História Temática". Segundo o Guia, Por História Integrada identificamos as coleções cujo agrupamento pauta- se pela evocação da cronologia de base europeia, integrando-a quando possível, à abordagem de temas relativos à História brasileira, africana e americana ... A organização em torno de uma proposta de História temática ocorre quando os volumes são apresentados não em função de uma cronologia linear, mas por eixos temáticos que problematizarão as permanências e transformações temporais, sem, contudo, ignorar a orientação temporal assentada na cronologia. Assim, evidenciamos, nas avaliações dos livros didáticos de História para os últimos anos do ensino fundamental, registradas no Guias do PNLD 2008 e 2011, que a perspectiva curricular dominante, no universo das obras didáticas aprovadas pelo MEC, legitima a concepção didática da História chamada "integrada", pelo critério temporal, linear, com base na cronologia da História europeia, articulada, quando possível, à História do Brasil, da América e da África. Revela-se, assim, a força de uma concepção tendencialmente conservadora de História e de organização curricular em nossas escolas, no contexto de revisão e críticas historiográficas e pedagógicas. O conjunto dos autores/editores/obras que opta pela proposta temática é minoritário, a despeito das sugestões e diretrizes dos PCNs e de propostas curriculares institucionais de vários estados e municípios. Esse dado é também evidenciado em pesquisas sobre escolha, recepção e usos de livros didáticos nesse nível de ensino e 51 também sobre outras fontes didáticas, bastante utilizadas, como as famosas "apostilas" em redes de ensino público e privado – presentes também em algumas redes públicas na forma de fascículos.21 As apostilas usadas na rede estadual de São Paulo no final da primeira década do século XXI, além de má qualidade (muito inferiores aos melhores livros didáticos), também representam extrema centralização na produção desses materiais (padronização), excluindo os próprios professores de uma tarefa importante e malbaratando fundos públicos, pois materiais frequentemente melhores são oferecidos pelo PNLD – e ignorados, nesse caso – sem custos adicionais. Indicadores representativos demonstram que a opção/concepção dominante entre os professores brasileiros não é pelo viés dos "eixos temáticos", mas pelo "cronológico", seja na versão "integrada" ou na "intercalada" da História Geral das civilizações, articuladas à História do Brasil, da América e da África. Isso nos remete a duas indagações: "como se dá a formação dos professores?" e "quais as relações entre a opção curricular e as condições de trabalho nas escolas?". Não se trata de, novamente, culpabilizar o professor e o livro didático pelas escolhas e eventuais problemas do ensino de História. O livro didático é uma fonte útil para a cultura escolar desde que não mais seja considerado o lugar de toda a História. Submetido à leitura crítica, com a ajuda interpretativa do professor e colocado em diálogo com outras fontes de estudo – acervos de museus e arquivos, livros não didáticos, produção literária e artística, por exemplo –, ele pode contribuir de modo significativo para a aprendizagem da História. Na década de 1980, Vesentini nos advertiu de que as "falhas" dos livros didáticos também se faziam presentes na historiografia considerada erudita (Vesentini, 1985). A contrapartida dessa conclusão é que as conquistas da historiografia também podem ser incorporadas e preservadas em bons livros didáticos, dependendo do "engenho e arte" de seus autores e de seus usuários (Silva; Fonseca, 2007). Em sala de aula, eles precisam ser ampliados, complementados, criticados, revistos. O professor deve ter uma relação crítica, nunca de submissão ao livro de História, que, como todo texto, toda fonte, merece ser questionado, problematizado e amplamente explorado com os alunos. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#nt21 52 Os debates sobre Ensino de História, no Brasil, desde os anos de luta contra a ditadura e de inquietações e movimentos anteriores, contribuíram para um alargamento diversificado nas/das concepções sobre esse campo de pensamento e trabalho. Exemplo disso pode ser apreendido nos Anais do último Encontro Nacional "Perspectivas do Ensino de História", realizado na Universidade Federal de Uberlândia em novembro de 2009. O campo do ensino de História, como um componente curricular, não é mais uma instância burocrática e repetitiva de soluções prévias, inclusive das mais refinadas. As respostas para suas necessidades são formuladas de muitas maneiras, com base nas concepções de História, escola, ensino e mundo de cada professor, autor, debatedor, pesquisador. A despeito da força e do poder diretriz dos currículos prescritos, precisamos atentar para o fato de que as disciplinas não são meros espaços de vulgarização de saberes, nem tampouco de adaptação, transposição das ciências de referência, mas são produtos dos espaços, das culturas escolares e mesmo inclusivas. Os professores têm alguma autonomia ante as demandas do Estado, da sociedade e dos meios de comunicação; assim, podem questionar, criticar, subverter os saberes e as práticas no cotidiano escolar. Perpassando os currículos prescritos e os vividos nas aulas de História há diversas mediações entre os sujeitos (alunos e professores), saberes de diferentes fontes (livros didáticos, fontes de época, imprensa, textos, filmes, literatura e outros), práticas institucionais, burocráticas e comunitárias em contextos muito diferenciados. Nessa trama relacional, a valorização do papel, da autonomia, da formação e das condições de trabalho dos docentes é imprescindível. É o professor quem planeja cursos, escolhe os materiais básicos de trabalho e asatividades a serem desenvolvidas, orienta o conjunto dessas atividades e avalia o aproveitamento dos alunos. Se o professor desenvolve uma prática democrática de pensamento e trabalho, partilha tarefas com colegas que lecionam outras disciplinas, além de dialogar sobre elas com os alunos, seus pais e outros setores da sociedade. Mas o papel articulador é dele. Para isto formou-se e continua a se formar profissionalmente, é contratado e pago – para atuar no processo educativo. Para nós, a concepção, hoje bastante difundida, de que o ensino e a aprendizagem de História, bem como o processo educativo em geral, abrangem 53 qualquer momento e qualquer lugar não merece nem pode ser desdobrada num abandono da escola como lugar descartável. Ao contrário, a escola continua a ser um espaço de enorme importância para amplos setores da população que não possuem biblioteca, laboratório e computadores em casa – a maior parte da população... Além disso, a escola se mantém como local para convívio multidisciplinar em torno dos saberes, garantindo oportunidades para a exposição e a solução de dúvidas, assim como para a apresentação de conquistas alcançadas por professores e alunos (Silva; Fonseca, 2007). Grande parte das escolas continua aquém de suas potencialidades. Estado, professores, alunos e comunidade em geral precisarão trabalhar para que esses limites sejam ocupados e ultrapassados. Ao mesmo tempo, é necessário destacar o peso e a importância do ensino não escolar, representado por diferentes linguagens artísticas (Literatura, Teatro, Cinema, Música etc.), publicações de difusão, jogos e outros materiais associados à informática na formação de uma cultura histórica. Seria muito fácil descartar esse universo como mera ideologia. Cabe reconhecer sua multiplicidade qualitativa e intelectual (dos excelentes filmes de Luchino Visconti a alguns sites lastimáveis na Internet), estabelecendo diálogos reflexivos com os conteúdos que esse universo ajuda a consolidar como consciência histórica. É um universo ainda pouco explorado pelo ensino escolar de forma sistemática, e o reconhecimento de seu peso ajudará a superar confusões entre procedimentos e consequências indesejadas na formação de referências temáticas e interpretativas. Tantas décadas de debate permitiram um alargamento infinito de temas, problemas e materiais para a realização do ensino de História. Agora, precisamos garantir sujeitos e recursos clássicos para serem aliados àquela liberdade: professores, salas de aula e de leitura, bibliotecas. Os desafios e as perspectivas do ensino e aprendizagem de História convergem no sentido de assegurar que seja uma experiência gratificante para professores e alunos nas diferentes realidades escolares. Nesse universo de ampliação de temas, problemas e fontes, devemos estar atentos para o fato de que ninguém poderá aprender nem ensinar tudo de tudo, o trabalho de selecionar é uma exigência permanente, e, nele, a figura do professor possui enorme importância (Silva; Fonseca, 2007). 54 No final da primeira década do século XXI, pesquisadores, formadores, gestores e professores possuem uma clara compreensão de que a escola constitui espaço complexo de disputas políticas, debates intelectuais, fontes históricas e diferentes propostas de saber. A escola pode constituir um espaço democrático, onde diversas possibilidades de ensinar e aprender estão presentes. Nesse sentido, a concepção de História como disciplina formativa aponta para a construção de novas práticas e possibilidades metodológicas que potencializam, indicam outras relações educativas no ensino de História, desde o processo de alfabetização da criança nos primeiros anos de escolaridade. O professor não está sozinho perante os saberes. Ele se relaciona com alunos que trazem consigo saberes, valores, ideias, atitudes. A consciência histórica do aluno começa a ser formada antes mesmo do processo de escolarização e se prolonga no decorrer da vida, fora da escola, em diferentes espaços educativos, por diferentes meios. É nas relações entre professores, alunos, saberes, materiais, fontes e suportes que os currículos são, de fato, reconstruídos. Assim, devemos valorizar, permanentemente, na ação curricular, as vozes dos diferentes sujeitos, o diálogo, o respeito à diferença, o combate à desigualdade e o exercício da cidadania. Professores e alunos fazem história! NOTAS 1 SILVA, Marcos A.; FONSECA, Selva G. Ensinar História no século XXI: em busca do tempo entendido. Campinas (SP): Papirus, 2007, p.7 2 FONSECA, Selva G. (Org.). O ensino de História na produção das IES Mineiras (19932008). Uberlândia (MG): Fapemig, 2010. 3 VECHIA, Ariclê; LORENZ, Karl. M. (Org.). Programa de Ensino da Escola Brasileira 1850-1951. Curitiba: Ed. Do Autor, 1998, p.VIII. 4 GOODSON. Ivor F. Currículo: teoria e história. Petrópolis (RJ): Vozes, 1995, p.27. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx01 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx02 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx03 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx04 55 5 ARAUJO, J. C. As intencionalidades como diretrizes da práxis pedagógica. In: VEIGA, I. P. A.; CASTANHO, M. E. (Org.). Pedagogia universitária. Campinas (SP): Papirus, 2000, p.91-114. 6 BRASIL. MEC. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997. 7 SILVA, Marcos A.; ANTONACCI, Maria A. Vivências da contramão. Revista Brasileira de História, São Paulo: Anpuh; CNPq; Marco Zero, v.9, n.19, p.9-29, set. 1989-fev. 1990; FONSECA, Selva G. Caminhos da História ensinada. Campinas (SP): Papirus, 1993. 8 CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tabula rasa do passado? São Paulo: Ática, 1995; VESENTINI, Carlos A. A teia do fato. São Paulo: Hucitec, 1997. A escola e o livro didático. In: SILVA, Marcos A. Repensando a História. São Paulo: Anpuh; Marco Zero, 1985. 9 MINAS GERAIS. SEE. Programa de Ensino de Primeiro Grau: Estudos Sociais. Belo Horizonte, 1975. 10 BRASIL. MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais: História e Geografia. Edição citada. 11 PAULA, Benjamin Xavier de. O ensino de História e Cultura da África e Afro- Brasileira: da experiência e reflexão. In: FONSECA, Selva G. (Org.). Ensinar e aprender História: formação, saberes e práticas educativas. Campinas (SP): Átomo & Alínea, 2009, p.171-1998. SIMONINI, Gizelda C. S. O estudo da História e cultura africana e afro- brasileira no ensino fundamental (6º ao 9º ano): historiografia, currículos, formação e prática docente. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, 2010 (em desenvolvimento). 12 BRASIL. MEC. CNE. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica – Parecer 7/2010. Brasília: Diário Oficial da União, 9 jul. 2010, seção 1, p.10. 13 BRASIL. MEC. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica – Parecer 7/2010, cit., .66. 14 Ibidem, p.69. 15 FONSECA, Selva G. É possível alfabetizar sem história, ou como alfabetizar ensinando História. In: _______. (Org.). Ensino fundamental: conteúdos, http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx05 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx06 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx07 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx08 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx09 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx10 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx11http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx12 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx13 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx14 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx15 56 metodologias e práticas. Campinas (SP): Átomo & Alínea, 2009, p.241- 266. 16 FREIRE, P. Carta de Paulo Freire aos professores. Estudos Avançados, São Paulo, v.15, n.42, maio-ago. 2001. 17 AISENBERG, Beatriz. Una aproximación a la relación entre la lectura y el aprendizaje de la história. In: JARA, Miguel A. (Comp.). Enseñanza de la história: debates e propuestas. Comahue: Comuca, 2008, p.17-27. 18 Disponível em: http://www.mec.gov.br; acesso em: 25 maio 2010. 19 OLIVEIRA, Margarida M. D.; STAMATTO, Maria Inês S. (Org.). O livro didático de História: políticas educacionais, pesquisa e ensino. Natal: Ed. UFRN, 2007. [ Links ] 20 BRASIL. MEC. Guia de livros didáticos: PNLD 2010: História. Brasília, 2009. 21 CARVALHO, A. B. dos S. Leituras e usos do livro didático de História: relações professor-livro didático nos anos finais do ensino fundamental. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia (MG), 2009. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx16 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx17 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx18 http://www.mec.gov.br/ http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx19 javascript:void(0); http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx20 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882010000200002#tx21