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Filosofia Moderna
Principal objetivo: servir-se unicamente da
razão como narrativa normativa e da ordem
para o homem.
Rogério Jolins Martins
Pensamento filosófico: Descartes (racionalismo)
Pensamento científico: Francis Bacon e Galileu
Pensamento político: Nicolau Maquiavel
Pensamento jurídico: Hugo Grotius
NICOLAU MAQUIAVEL
(1469-1527)
• Considerado o fundador do pensamento
político moderno.
• Idade Antiga: Política relacionada à ética.
• Idade Média: acrescem-se os valores
cristãos.
• Havia na época de Maquiavel um
distanciamento entre o ideal de Política e a sua
realidade.
Ele escreveu O Príncipe (1513-1515).
Tratou da Política, tal como ela se dá.
Procurou compreender e esclarecer a
Política real:
• Sempre há tensão entre poderosos
e povo. É ilusão o “bem comum” para
ambos.
• O poder político regula essas
tensões.
“Muita gente imaginou repúblicas e principados que nunca se
viram nem jamais foram reconhecidos como verdadeiros. Faz
tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se
deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria
fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria, do
que o modo de se preservar; e um homem que quiser fazer
profissão de bondade é natural que se arruíne entre tantos que
são maus. Assim, é necessário a um príncipe, para se manter,
que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-
se disso segundo a necessidade.”
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Abril Cultural,
1973. p. 69. (Coleção Os Pensadores)
Virtú
Significa “virtude”, no sentido grego de força, valor, qualidade
de lutador e guerreiro viril. Príncipes de virtù são governantes
especiais, capazes de realizar grandes obras e provocar
mudanças na história.
Não se trata, portanto, do príncipe virtuoso conforme
preceitos da moral cristã (bondade e justiça, por exemplo),
mas daquele que tem a capacidade de perceber o jogo de
forças da política para então agir com energia, a fim de
conquistar e manter o poder.
(p. 338)
Fortuna
Significa “ocasião”, “acaso”, “sorte”: Para agir bem, o
príncipe não deve deixar escapar a ocasião oportuna.
De nada adiantaria ser virtuoso, se o príncipe não
soubesse ser ousado, mas precavido para aguardar a
ocasião propícia, aproveitando o acaso ou a sorte das
circunstâncias, como observador atento do curso da
história.
16/11/2021 9Thomas Hobbes -1588-1679
Ética hobbesiana
Thomas Hobbes
O ser humano em seu estado natural, objetivando a sua preservação,
é individualista, egoísta e violento. Não poderá haver paz e
segurança enquanto perdurar o estado natural.
No estado natural não há espaço para o bem e o mal objetivos e,
portanto, para os valores morais.
Com efeito, o bem é aquilo para o qual tendemos e o mal aquilo do
qual fugimos; mas como alguns homens desejam algumas coisas e
outros desejam outras, e como alguns fogem de algumas coisas e
outros não, daí decorre que bem e mal é algo relativo - relativo à
pessoa, ao local, ao tempo e às circunstâncias.
16/11/2021 10
Ética hobbesiana
Não havendo valores absolutos, como é possível construir uma moral
e uma vida social? Como é possível a convivência dos homens em
sociedade?
O De Cive e o Leviatã
Não havendo valores absolutos não existe uma justiça e uma injustiça
naturais. Desse modo, os valores são frutos de convenções
estabelecidas pelos próprios homens. Desse modo, o egoísmo e o
convencionalismo são pontos-chaves para nova ética e política.
Liberdade e Igualdade → iguais para todos os seres humanos.
16/11/2021 11
Ética hobbesiana
“... na natureza do homem encontramos três causas
principais de discórdia. Primeiro, a competição;
segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória”.
16/11/2021 12
Ética hobbesiana
Como proceder para assegurar a paz?
O próprio homem reconhece a necessidade de renunciar o direito
natural, especialmente para garantir sua defesa. Isso será possível
somente por meio de um Pacto.
Em meio a relatividade de todos os bens encontramos um bem
primeiro e originário: a vida e sua conservação. O primeiro mal a
evitar é a morte.
Homens – existem contendas, ódios, invejas, insurreições, motins,
revoltas
≠ 
Animais – apetite comum (não percebem o defeito de sua sociedade =
abelhas).
16/11/2021 13
Ética hobbesiana
Não havendo limites impostos pela natureza, nasce, assim, a
predominância de uns sobre os outros = homo homini lupus.
Em decorrência disso, o Estado não é natural, mas artificial.
Leviatã = 19 regras fundamentais para a vida social:
1ª regra: ordena que o homem se esforce por buscar a paz;
2ª regra: impõe que se renuncie ao direito sobre tudo;
3ª regra: que se cumpram os acordos feitos, etc.
Em si mesmas as leis não bastam para constituir a sociedade. É preciso
um poder que obrigue os homens a respeitá-las. Portanto, é preciso que
todos os homens transfiram a um único homem (ou a uma assembleia) o
poder de os governar.
16/11/2021 14
Ética hobbesiana
Esse pacto não é firmado pelos súditos com o
soberano, mas, sim, pelos próprios súditos. O
soberano fica fora do pacto, permanecendo
como único a manter todos os direitos
originários. O poder do soberano é indivisível e
absoluto.
16/11/2021 15
16/11/2021 16
HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de uma
República Eclesiástica e Civil. Tradução de João Paulo Monteiro
e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p.
108.
16/11/2021 17
Grotius - 1583-1645
Ética Moderna
Para a convivência humana, os homens têm como
fundamentos a razão e a natureza, que coincidem entre
si.
Por isso, o “direito natural” traz em sua raiz um
fundamento racional e natural, ou seja, traz a marca da
estabilidade e da imutabilidade: os princípios do direito
natural seriam válidos mesmo que se quisesse supor que
Deus não existisse, pois o que é perfeito não muda.
16/11/2021 18
Ética Moderna
Tem-se assim, a passagem para o jusnaturalismo – doutrina
segundo a qual há uma lei inata a todo homem (direito
natural), reconhecendo em cada indivíduo a existência de
direitos naturais.
Este direito é anterior e superior ao direito positivo (humano) e,
em caso de conflito, é ele que deve prevalecer.
16/11/2021 19
Ética Moderna
O jusnaturalismo do séc XVII e XVIII reconheceu em cada
indivíduo a existência de direitos naturais, o que moldou
doutrinas políticas e éticas de tendência individualista e
liberais.
Em conformidade com o jusnaturalismo, a autoridade
política deve respeitar os direitos inatos do indivíduo, e o
próprio Estado deve ser concebido como uma livre criação
dos indivíduos, em busca da defesa dos seus direitos
individuais.
16/11/2021 20
Ética Moderna
Séc XIX – enfraquecimento do jusnaturalismo (caiu em
descrédito). Nasce a ideia racional e liberal de leis e
normas, que se harmonizava com as tendências
iluministas. Emerge o juspositivismo como tentativa de
superar os problemas da metafísica do jusnaturalismo.
Passa a ter valor somente as orientações e construções da
razão humana.
16/11/2021 21
Ética Moderna
Contudo, o jusnaturalismo ainda marca:
1. A Declaração da Independência dos Estados Unidos da
América;
2. A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do
Cidadão (Rev. Francesa);
3. A Declaração Universal dos Direitos Humanos.
16/11/2021 22
Ética Moderna: a razão em busca de 
liberdade
 Com todas as revoluções e mudança
políticas do período entre os séculos
XVI a XVIII, disseminou-se a ideia
de que a razão, a ciência e a
tecnologia tinham condições de
impulsionar o trem da história, numa
marcha contínua em direção a
verdade e ao progresso humano.
 Todo esse pensamento, culminou no
desenvolvimento do movimento
cultural denominado Iluminismo
(Ilustração ou Filosofia das Luzes).
Montesquieu (1689-1755)
Formula a separação do
Estado em três poderes:
Executivo, Legislativo e
judiciário, como forma de
evitar abusos dos
governantes e de proteger
as liberdades individuais.
Voltaire (1694-1778)
 Destacou-se pelas críticas que
fez ao clero e a prepotência dospoderosos. Mas concordava
com a necessidade social de
haver crença em Deus.
 Defendeu a monarquia, mas em
seu ponto de vista (como
respeitosa das liberdades
individuais), governada por um
soberano esclarecido.
Diderot ( 1713-1784)
D’Alembert (1717-1783)
 Foram os organizadores de uma
enciclopédia (ficaram conhecidos
como os enciclopedistas).
 Influenciaram muito o pensamento
burguês, defendendo em linhas gerais,
o racionalismo, a independência do
Estado em relação a igreja e a
confiança no progresso humano.
D’Alembert
Diderot
Rousseau (1712-1778)
 Defende a ideia de que o
soberano do Estado deve seguir
a vontade geral de seu povo,
sempre tendo em vista o
atendimento do Bem Comum.
 Ele glorificava os valores da vida
natural e atacava a corrupção da
sociedade civilizada.
 Defendeu a ideia do Estado de
Natureza e o Bom Selvagem.
Adam Smith (1723-1790)
 Principal representante do
liberalismo econômico.
 Para ele a economia deveria
ser regida pelo jogo livre da
oferta e da procura de
mercado. O mercado se auto-
regularia, dando conta das
necessidades sociais, desde
que deixado em paz consigo
mesmo.
Rogério Jolins Martins
PUC MINAS
O “projeto iluminista” transformou o homem
em senhor do Universo e instrumentalizou a
razão humana a serviço do progresso infinito, a
qualquer preço.
- Aufklarung -
16/11/2021 2
Kant: “... Só podemos conhecer o pensamento ou
a consciência que temos das coisas”.
A condição última do processo de conhecer é a
existência do EU como princípio de
consciência, ou seja, é a existência do sujeito
como centro (o EU) que torna possível e da
forma ao conhecimento: razão + percepções.
16/11/2021 3
Idealismo:
Johann Fichte - tomou o “EU” de Kant e o
transformou em princípio criador de toda a
realidade. Desse modo, a realidade objetiva não
passa de um produto do espírito humano. Fichte
chegou a referir-se às coisas da realidade, ao que é
exterior ao homem, como o não-Eu criado pelo Eu.
F. Schelling – discorda de Fichte. Afirma que existe
um único princípio exterior ao EU, ou uma
Inteligência/Espírito que rege todas as coisas. Essa
Inteligência se manifesta de forma visível em todos
os níveis da natureza até alcançar o seu nível mais
alto: o homem ou a razão.
16/11/2021 4
A razão humana e a busca por critérios
normativos.
Razão instrumental = operacionalização das
ideias iluministas
16/11/2021 6
O otimismo da ciência moderna gerou a certeza
do progresso do conhecimento ilimitado, e a
capacidade humana de organizar a sociedade
humana pela razão.
Pilares socioculturais:
 progresso de industrialização;
 desenvolvimento científico;
 desenvolvimento tecnológico.
16/11/2021 7
Hegel - 1770-1831
G. Hegel – Necessidade de entender a Realidade
como Espírito. Entender a Realidade como
Espírito é entendê-la não apenas enquanto
Substância, mas também como Sujeito, isto é, a
Realidade como processo, movimento (e não
somente como coisa).
A Realidade, enquanto Espírito, possui vida
própria, um movimento dialético – que se dá
por embates e superação de contradições
(momentos sucessivos/contraditórios).
16/11/2021 9
“Tudo que é real é racional e tudo o que racional é 
real”
O Movimento do Real, ou do Espírito se dá em três
momentos: 1º) “ser-em-si”; 2º) “ser-fora-de-si”; 3º)
“ser-para-si” = tese → anti-tese → síntese.
Ex: Planta.
Compreender a realidade da Razão exige um trabalho
árduo da Razão, que deve se afastar do
entendimento comum e se colocar no ponto de
vista do Absoluto, ou seja, a consciência que
alcança o saber absoluto atinge a Razão.
A absoluta superioridade do Espírito se explica por
três momentos:
16/11/2021 11
Espírito Subjetivo – se refere ao indivíduo e à
consciência individual;
Espírito Objetivo – se refere às instituições e aos
costumes historicamente produzidos pelos
homens;
Espírito Absoluto – se manifesta na arte, na religião e
na filosofia.
A História é o desdobramento do Espírito Objetivo. O
Espírito Objetivo é a realização da Liberdade na
Sociedade, e se manifesta no Direito, na Moral e na
Ética.
16/11/2021 12
O Espírito Subjetivo, por sua vez, se realiza na
Família, na Sociedade Civil e no Estado. O Estado
político é o momento mais elevado do Espírito
Objetivo, de forma que o indivíduo só existe
enquanto membro do Estado.
Ao formalismo vazio kantiano do dever pelo dever,
Hegel, passou a dar conteúdo concreto.
Reconhecer que o bem a que o “dever” visa está
nas instituições reais que normatizam os
comportamentos individuais e institucionais: a
família, a sociedade civil e o Estado.
A família – é a síntese dos interesses contraditórios entre seus
membros;
A sociedade civil – é a síntese que supera as divergências entre as
diversas famílias. É a esfera intermediária entre a família e o
Estado;
O Estado – representa a unidade final, a síntese mais perfeita que
supera as contradições existentes entre os vários interesses
privados. É a esfera dos interesses públicos e universais, pois cada
um tem a clara consciência de agir em busca do bem coletivo.
Hegel foi considerado por muitos como um teórico do absolutismo
cujas ideias serviram para justificar o totalitarismo no século XX.
Sistema hegeliano:
Ética: A ética hegeliana parece ser uma forma de ética
deontológica na qual os deveres assumem forma
objetiva na existência das instituições éticas.
L. Fueuerbach – qualificou o pensamento
hegeliano como “especulação vazia”, que não
trata do ser real, das coisas reais e dos homens
concretos.
Propôs que a filosofia deveria partir do concreto,
do ser humano considerado como ser natural e
social – perspectiva considerada materialista.
Influência sobre Marx.
Marx – 1818 -1883
Marx tem como pressuposto que o homem é
essencialmente um ser histórico e social,
marcado pela produção de sua existência na
sociedade. O homem não pode ser entendido
de forma abstrata e isolada. Escreve: “nós
conhecemos somente uma única ciência: a
ciência da história”.
Contrapõe-se às ideias liberais em que a
propriedade privada é considerada um direito
natural e moralmente legítimo - fundada na
liberdade.
16/11/2021 18
Para Marx, o jeito humano de pensar é determinado
pelas relações sociais de produção = materialismo
dialético. O materialismo marxista se opõe ao
idealismo de Hegel que considera que são as ideias
que movem o mundo (considerado utópico).
Na condição de seres sociais, somos decorrência da
práxis, da ação, dos conflitos históricos. Por serem
históricas, a sociedade, a religião, a política, a
linguagem, etc. não são naturalmente dadas. Ao
contrário, nascem e dependem da ação concreta
dos seres humanos situados no tempo.
16/11/2021 19
A sociedade é comparada com um edifício com
suas estruturas políticas, religiosas, jurídicas,
econômicas, instituições nas quais as relações
sociais, as ideias e os costumes estão
inteiramente interligadas às forças produtivas,
sendo estas as determinantes.
16/11/2021 20
Partindo do pressuposto de que as ações humanas se
desenvolvem mediante o conflito de classes,
temos que a história não é retilínea, um progresso
linear, uma sequencia determinada de causa e
efeitos, mas dialética.
Assim, a história é processual, marcada por
transformações sociais determinadas pelas
contradições entre os meios de produção e as
forças produtivas.
“O Manifesto Comunista”: “A história de toda
sociedade passada é a história da luta de classes”.
16/11/2021 21
O Materialismo dialético (Capitalismo) é
resultante de um processo de exploração do
patrão x operário.
Mais-valia o fundamento deste sistema.
EX: um trabalhador precisa apenas de 4 horas por
dia para produzir bens no valor do seu salário
mensal. O lucro obtido com o seu trabalho nas
horas restantes vai para o seu patrão = mais-
valia.
Alienação vem de alienare (latim), e significa tornar-se
alheio a si mesmo, estranho a si, pertencente a um
outro.
A alienação acontece na medida em que um objeto é
alheio ao sujeito criador. Dessa forma, o operário
se nega (é negado) no objeto criado. É o processo
de objetificação,coisificação.
Milton Santos: necessidade de promover a negação
da negação. Ora, se a negação é alienação, a
negação da negação é a desalienação, a libertação
= Revolução?
16/11/2021 23
Ideias Ideias
↓ ↑
HEGEL MARX
↓ ↑
Realidade Realidade
Utilitarismo
J. Bentham 1748-1832 e J. Stuart Mill 1806-1873.
Ingleses
Discussões sobre a:
Necessidade de Reforma social, entre os liberais;
e
Necessidade de Revolução entre os socialistas.
Neste contexto: “teoria utilitarista”, visando
estender os benefícios a todas as pessoas com o
menor custo.
De modo geral, trata-se de uma “teoria
teleológica”, que visou dar centralidade ao
princípio da utilidade, cujo objetivo “maximizar
maior felicidade para o maior número de
pessoas possível” por meio da razão e da lei,
livrando-se dos prejuízos e das superstições
do passado – naturalismo e metafísica.
Bentham na busca por um instrumento de
renovação social, abandonou a teoria do direito
natural sustentada pelos filósofos
contratualistas anteriores.
Desenvolveu as ideias utilitaristas que, cujo
princípio básico, afirmava a Utilidade como
critério para orientar o legislador a criar leis e
promover a felicidade para o maior número de
cidadãos.
Para a teoria utilitarista, a verdade depende dos
resultados práticos alcançados pela ação.
Consequência prática: tal “corrente ética” propõe,
primeiro, um fim a ser seguido e, depois, julga
certas ou erradas as ações em relação à capacidade
delas perseguirem ou não esse fim –
consequencialismo.
Desse modo, uma proposição é verdadeira quando
“funciona”, isto é, permite que nos orientemos por
ela.
Instrumento: “O Panóptico”
16/11/2021 31
Panoptico:
Capacitar para a indústria;
Princípio x Arquitetura.
Bentham define a utilidade como:
“a propriedade de todo objeto por meio da qual ele tende
a produzir benefício, vantagem, prazer, bem ou
felicidade (neste contexto todas se equivalem) ou evitar
que se verifique aquela perda, dor, mal ou infelicidade
(de novo, todas as coisas se equivalem) para aquela
parte cujo interesse se toma em consideração: se aquela
parte é a comunidade em geral, então o interesse da
comunidade, se é indivíduo em particular, então o
interesse daquele indivíduo”.
BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação.
16/11/2021 33
Para Bentham o utilitarismo representa a melhor teoria do agir moral
pois está fundada em características simples, e de fácil
compreensão e aplicabilidade de suas regras. A escolha moral
como um problema se reduz a um cálculo não mais complicado
como os fatores metafísicos e teológicos.
Uma ética utilitarista é entendida como “arte de dirigir as ações dos
homens para a produção da maior quantidade possível de felicidade
para aqueles cujo interesse se tem na mira”.
As características principais da ação humana (intencionalidade,
motivação, disposição, etc.) são examinadas detalhadamente por
cálculo: Maior Felicidade = Maior Bem-estar.
16/11/2021 34
Utilitarismo: Uma forma de naturalismo hedonista, segundo o
qual a natureza pôs o homem sob o domínio de dois supremos
senhores: a dor e o prazer. São eles que nos indicam o que
deveremos fazer e determinam o que faremos e de nada serve
tentar subtrair esse jogo.
Critério normativo: cálculo – para calcular a moralidade de
condutas alternativas basta observar as consequências em
termos de prazer e de dor e escolher a ação com maior saldo
líquido de prazer. Trata-se de um cálculo quantitativo de
felicidade.
16/11/2021 35
Exemplo de raciocino utilitarista: “é lícito ou não matar um hóspede
que dorme em sua casa para apoderar de seu dinheiro?”.
Conclusão lógica: tudo passa por um balanço da utilidade ou do
prejuízo.
Outro exemplo: Consideração moral dos limites:
“Um cavalo ou um cão adulto são animais incomparavelmente mais
racionais, e mais sociáveis, que um neonato de um dia ou de uma
semana, ou até de um mês”.
16/11/2021 36
Princípio básico do utilitarismo:
O bem: maior bem-estar físico, moral, etc.
16/11/2021 37
As Consequências: Não se interessa pelos agentes
morais, mas pelas ações/cálculo. Ao não interessar
pelas qualidades do “agente”: generoso, perverso,
etc., o utilitarismo apresenta um método que pode
ser moral ou imoral, a depender se suas
consequências.
“O fim justifica os meios”
Corporação: Leva-se em conta o maior benefício
dos indivíduos afetados numa ação. O que
conta é a quantidade global de bem-estar
produzida. Com efeito, considera-se moral
sacrificar uma minoria a fim de aumentar o
bem-estar geral.
PUC MINAS
Ética: Immanuel Kant
Rogério Jolins Martins
Ética kantiana
Conhecimento 
Moral
16/11/2021 2
Ética kantiana
Kant (1724-1804) – Konigsberg/Alemanha
Kant manifesta todo seu otimismo acerca
das possibilidades do homem, através de
sua razão, passar a construir o próprio
destino, guiando a própria vida com
autonomia, superando a velha
dependência em relação às crenças,
opiniões e decisões alheias.
16/11/2021 3
Ética kantiana
“Tribunal da Razão”: Racionalismo X Empirismo.
Tais disputas só serão superadas se forem submetidas ao 
Juízo.
1) Conhecimento: o que podemos conhecer?
No âmbito do conhecimento Kant atribuiu ao sujeito um
papel determinante no ato de conhecer. O ato de
conhecer já não mais se concebe como uma adequação
do sujeito a uma realidade exterior; mas, ao contrário, de
uma construção mental do próprio sujeito.
16/11/2021 4
Ética kantiana
Como conciliar experiência e razão?
O nosso conhecimento provém da experiência, mas estes nos
chega de forma desordenada, fragmentada. Existem em
nós, a priori, isto é, antes de qualquer experiência, algumas
formas de nossa sensibilidade que nos ajudam a organizar
o que vem desorganizado da experiência.
Que formas são essas?
São as formas tempo e espaço, que existem em nós, a priori,
que nos possibilitam organizar as impressões que nos veem
dos sentidos.
16/11/2021 5
Ética kantiana
Kant distingue o mundo dos fenômenos
(realidade de nossa experiência) do mundo
noumenon (realidade em si), o que podemos
pensar, mas não conhecer, pois o que
conhecemos não é o real, “a coisa em si”, mas
sempre o real em relação com o sujeito do
conhecimento.
Ex: “A intuição sem conceitos é cega, os
conceitos sem intuição são vazios”.
Kant. Analítica transcendental.
16/11/2021 6
Ética kantiana
Sobre as possibilidades e os limites da razão
humana, Kant concluiu que é impossível
conhecer as coisas tais como elas são em si
mesmas, em sua essência (noumenon), mas
apenas podemos conhecer a forma como a nós
aparecem (fenômeno/aparência).
As realidades metafísicas (ex. imortalidade da
alma, existência de Deus), nada se pode afirmar.
É o limite da razão.
16/11/2021 7
Ética kantiana
A originalidade de Kant está em afirmar
que o conhecimento não é reflexo do
objeto exterior, mas é construído pelo
espírito humano. Assim, conhecer não é
adequar-se a algo que exista fora, no
exterior; ao contrário, conhecer é
construir significado.
16/11/2021 8
Ética kantiana
2) Moral: como devo agir? Analisa o problema da
ação humana, que envolve problemas morais e
jurídicos (âmbito da filosofia prática).
Razão, Liberdade, Dever
16/11/2021 9
Ética kantiana
Liberdade: valor mais importante. Como garantir e
realizar a liberdade? Para garantir a liberdade, o
homem livremente cria leis. Essas leis, por
provirem da liberdade e serem universalizáveis, são
expressão da moralidade. Assim, quando o homem
obedece às leis morais, ele obedece a si próprio.
Portanto, apesar de agir por dever, o homem é
livre, pois deve seguir a lei que ele próprio criou.
Assim, liberdade e dever, que pareciam
contraditórios, são, em verdade, expressão de uma
mesma realidade.
16/11/2021 10
Ética kantiana
Kant aponta a razão humana como razão legisladora,
capaz de elaborar normas universais, uma vez que a
razão é um predicado universal dos homens.Kant tem como pressuposto que todos nós nascemos com
o dom natural de distinguir o certo do errado. Assim, há
em todo ser humano uma lei moral e inata orientando a
ação de todos os homens.
Esta lei moral consiste em princípios práticos e em
princípios imperativos:
16/11/2021 11
Ética kantiana
Princípios práticos: regras subjetivas que determinam sobre
questões particulares. Ex: respeitar leis, pagar salário
justo, etc.
Princípios imperativos: são regras objetivas que estendem a
todos os seres humanos, e são de duas ordens:
a) Hipotéticos/condicionais – valem desde que se realizem
em certas condições: “se queres ser engenheiro, deves
começar estudas engenharia”.
b) Categóricos/absolutos – visam determinar a vontade
geral em cumprir a lei moral, cumprir o dever pelo
dever.
16/11/2021 12
Ética kantiana
Imperativos Categóricos: 
a) “Age de tal modo que a máxima de tua vontade
seja sempre válida, ao mesmo tempo, como
princípio de lei universal”;
b) “Age de tal modo que consideres a humanidade,
tanto em tua pessoa como na pessoa de todos os
outros, sempre como um fim e nunca como um
meio”.
16/11/2021 13
Ética kantiana
Para Kant, se nossa ação não puder ser universalizada, a
mesma não será moralmente correta e só poderá ser
realizada como exceção, nunca como regra.
E por que realizamos atos contrários ao dever e, portanto,
contrários à razão?
Kant dirá que é porque nossa vontade é também afetada
pelas inclinações, que são os desejos, as paixões, os
medos, e não apenas pela razão. Por isso, ele afirma que
devemos educar a vontade para alcançar a boa vontade,
que seria a vontade guiada unicamente pela razão.
16/11/2021 14
Ética kantiana
A lei moral é uma regra objetiva universalmente
válida que determina a priori o querer.
Para Kant, só pode ser considerado um ato moral
aquele ato praticado de forma autônoma,
consciente, e por dever. Com isso, ele acentua o
reconhecimento do dever como uma expressão
da racionalidade humana, única fonte legítima da
moralidade.
16/11/2021 15
Ética kantiana
Projeto: “sapere aude!
Em seu texto “O que é a ilustração”, bem traduz o tema
do Iluminismo: “tenha a coragem e ousadia de usar o
próprio entendimento”.
Kant, a cultura Ocidental ainda traz as marcas da infância
da humanidade, na medida em que as orientações para a
ação não provêm da razão e da consciência pessoal
autônoma. A menoridade humana está ligada à religião
que impede a formação do homem autêntico, livre e
autônomo.
16/11/2021 16
16/11/2021 17I. Kant
i
i
i
i
i
i
i
i
www.lusosofia.net
Resposta à pergunta: “O que é o Iluminismo?”
I. KANT
Tradutor:
Artur Morão
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Apresentação
O opúsculo de I. Kant Resposta à pergunta: Que é o iluminismo? (1784)
é, como se sabe, um texto clássico. Por razões várias.
- É um dos manifestos mais ‘interessantes’ da Ilustração europeia. Como
tal, figura não só como um dos mais contundentes apelos ao exercício autó-
nomo da razão, à liberdade de pensamento, mas constitui ainda uma expressão
sintomática de um momento fundamental na estruturação da consciência mo-
derna, com o seu afâ de novidade, de expansão e conquista do mundo e da
natureza, de destruição da ordem estática das sociedades, mas também com o
seu desprezo da tradição, com a vertigem do solipsismo.
- É, por outro lado, um texto-alvo no recente debate sobre o projecto da
modernidade e a reacção pós-moderna (assim na obra de M. Foucault e de J.
Habermas, entre outros).
- Propõe ainda, de certo modo, um ideal imperativo e inatingível – pre-
cisamente a consecução da genuína e plena ilustração intelectual – e disso
Kant parece dar-se conta no final do ensaio, embora permaneça, contra o que
promove, enredado nos preconceitos da sua época, a saber, uma versão algo
abstracta da razão arrancada ao húmus da história, encarada sem os nexos re-
lacionais que ligam os seres humanos no seu destino; a inatenção ao papel
quase transcendental da linguagem na estruturação do pensamento; a falta de
consideração do vínculo entre razão e autoridade (nas suas múltiplas formas),
além da pedante convicção de que as idades anteriores aos tempos modernos
mergulhavam na ‘menoridade culpada’.
Estas observações, e muitas outras que se poderiam aduzir, não serão um
obstáculo para apreciar a luminosidade deste opúsculo, merecidamente fa-
moso; mesmo apesar dos seus limites, encerra ainda uma exigência moral de
auto-iluminação, que nunca é bastante.
Artur Morão
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[A481] Resposta à pergunta: “Que é o
Iluminismo?”
(1784)
(3 Dez., 1783, p. 516)∗
I. KANT
lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é
culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem
a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa
não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem
em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a cora-
gem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do
Iluminismo.
A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte,
após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter mai-
orennes),[482] continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a
vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É
tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim,
um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um mé-
dico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me
esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; ou-
tros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria
dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade
difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a
seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido
∗A indicação da página da “Berlinische Monatsschrift” refere-se à seguinte nota na frase:
“Será aconselhável ratificar posteriormente o vínculo conjugal por meio da religião?” do Sr.
Preg. Zöllner: “Que é o Iluminismo?” Esta pergunta, quase tão importante como esta “Que é
a Verdade?”, deveria receber uma resposta antes de se começar a esclarecer! E, no entanto, em
nenhum lugar a vi ainda respondida”.
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os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pa-
cíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram,
mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozi-
nhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender
muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor
perante todas as tentativas ulteriores.
É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele
se tomou [483] quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora re-
almente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se
lhe permitiu fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos
mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são
os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só
daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habitu-
ado ao movimento livre. São, pois, muito poucos apenas os que conseguiram
mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar
então um andamento seguro.
Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça.
Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sem-
pre haverá, de facto, alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabe-
lecidos da grande massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade,
espalharão à sua volta o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e
da vocação de cada homem para pensar por si mesmo. Importante aqui é que
o público, antes por eles sujeito a este jugo, os obriga doravante a permanecer
sob elequando por alguns dos seus tutores, pessoalmente incapazes de qual-
quer ilustração, é a isso [484] incitado. Semear preconceitos é muito danoso,
porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, ou os seus predecessores,
foram os seus autores. Por conseguinte, um público só muito lentamente con-
segue chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez se possa levar a
cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora,
mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos,
justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de
pensamento.
Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro
está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a
de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. Agora, porém,
de todos os lados ouço gritar: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines,
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Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?” 3
mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines, paga! E
o clérigo: não raciocines, acredita! (Apenas um único senhor no mundo diz:
raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes, mas obedecei!) Por
toda a parte se depara com a restrição da liberdade. Mas qual é a restrição que
se opõe ao Iluminismo? Qual a restrição que o não impede, antes o fomenta?
Respondo: o uso público da própria razão deve sempre ser livre e só ele pode,
entre os homens, levar a cabo a ilustração [485]; mas o uso privado da razão
pode, muitas vezes, coarctar-se fortemente sem que, no entanto, se entrave as-
sim notavelmente o progresso da ilustração. Por uso público da própria razão
entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande
público do mundo letrado. Chamo uso privado àquele que alguém pode fa-
zer da sua razão num certo cargo público ou função a ele confiado. Ora, em
muitos assuntos que têm a ver com o interesse da comunidade, é necessário
um certo mecanismo em virtude do qual alguns membros da comunidade se
comportarão de um modo puramente passivo com o propósito de, mediante
uma unanimidade artificial, serem orientados pelo governo para fins públicos
ou de, pelo menos, serem impedidos de destruir tais fins. Neste caso, não
é decerto permitido raciocinar, mas tem de se obedecer. Na medida, porém,
em que esta parte da máquina se considera também como elemento de uma
comunidade total, e até da sociedade civil mundial, portanto, na qualidade de
um erudito que se dirige por escrito a um público em entendimento genuíno,
pode certamente raciocinar sem que assim sofram qualquer dano os negó-
cios a que, em parte, como membro passivo, se encontra sujeito. Seria, pois,
muito pernicioso se um oficial, a quem o seu superior ordenou algo, quisesse
em serviço sofismar em voz alta [486] acerca da inconveniência ou utilidade
dessa ordem; tem de obedecer, mas não se lhe pode impedir de um modo
justo, enquanto perito, fazer observações sobre os erros do serviço militar e
expô-las ao seu público para que as julgue. O cidadão não pode recusar-se a
pagar os impostos que lhe são exigidos; e uma censura impertinente de tais
obrigações, se por ele devem ser cumpridas, pode mesmo punir-se como um
escândalo (que poderia causar uma insubordinação geral). Mas, apesar disso,
não age contra o dever de um cidadão se, como erudito, ele expuser as suas
ideias contra a inconveniência ou também a injustiça de tais prescrições. Do
mesmo modo, um clérigo está obrigado a ensinar os instruendos de catecismo
e a sua comunidade em conformidade com o símbolo da Igreja, a cujo ser-
viço se encontra, pois ele foi admitido com esta condição. Mas, como erudito,
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tem plena liberdade e até a missão de participar ao público todos os seus pen-
samentos cuidadosamente examinados e bem-intencionados sobre o que de
erróneo há naquele símbolo, e as propostas para uma melhor regulamentação
das matérias que respeitam à religião e à Igreja. Nada aqui existe que possa
constituir um peso na consciência. Com efeito, o que ele ensina em virtude da
sua função, como ministro da Igreja, expõe-no como algo em relação [487]
ao qual não tem o livre poder de ensinar segundo a sua opinião própria, mas
está obrigado a expor segundo a prescrição e em nome de outrem. Dirá: a
nossa Igreja ensina isto ou aquilo; são estes os argumentos comprovativos de
que ela se serve. Em seguida, ele extrai toda a utilidade prática para a sua co-
munidade de preceitos que ele próprio não subscreveria com plena convicção,
mas a cuja exposição se pode, no entanto, comprometer, porque não é de todo
impossível que neles resida alguma verdade oculta. De qualquer modo, po-
rém, não deve neles haver coisa alguma que se oponha à religião interior, pois
se julgasse encontrar aí semelhante contradição, então não poderia em cons-
ciência desempenhar o seu ministério; teria de renunciar. Por conseguinte, o
uso que um professor contratado faz da sua razão perante a sua comunidade é
apenas um uso privado, porque ela, por maior que seja, é sempre apenas uma
assembleia doméstica; e no tocante a tal uso, ele como sacerdote não é livre
e também o não pode ser, porque exerce uma incumbência alheia. Em con-
trapartida, como erudito que, mediante escritos, fala a um público genuíno,
a saber, ao mundo, por conseguinte, o clérigo, no uso público da sua razão,
goza de uma liberdade ilimitada de se servir da própria razão e de falar em seu
nome próprio. É, de facto, um absurdo, que leva à perpetuação dos absurdos,
que os tutores do povo [488] (em coisas espirituais) tenham de ser, por sua
vez, menores.
Mas não deveria uma sociedade de clérigos, por exemplo, uma assembleia
eclesiástica ou uma venerável classis (como a si mesma se denomina entre os
Holandeses) estar autorizada sob juramento a comprometer-se entre si com
um certo símbolo imutável para assim se instituir uma interminável supertu-
tela sobre cada um dos seus membros e, por meio deles, sobre o povo, e deste
modo a eternizar? Digo: isso é de todo impossível. Semelhante contrato, que
decidiria excluir para sempre toda a ulterior ilustração do género humano, é
absolutamente nulo e sem validade, mesmo que fosse confirmado pela auto-
ridade suprema por parlamentos e pelos mais solenes tratados de paz. Uma
época não se pode coligar e conjurar para colocar a seguinte num estado em
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Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?” 5
que se tornará impossível a ampliação dos seus conhecimentos (sobretudo os
mais urgentes), a purificação dos erros e, em geral, o avanço progressivo na
ilustração. Isso seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação
original consiste justamente neste avanço. E os vindouros têm toda a legiti-
midade para recusar essas resoluções decretadas de um modo incompetente
e criminoso. A pedra de toque [489] de tudo o que se pode decretar como
lei sobre um povo reside na pergunta: poderia um povo impor a si próprio
essa lei? Seria decerto possível, na expectativa, por assim dizer, de uma lei
melhor, por um determinado e curto prazo, para introduzir uma certa ordem.
Ao mesmo tempo, facultar-se-ia a cada cidadão, em especial ao clérigo, na
qualidade de erudito, fazer publicamente, isto é, por escritos, as suas observa-
ções sobre o que há de erróneo nas instituições anteriores; entretanto, a ordem
introduzida continuaria em vigência até que o discernimento da natureza de
tais coisas se tivesse de tal modo difundido e testado publicamente que os ci-
dadãos, unindo as suas vozes (embora não todas), poderiam apresentar a sua
proposta diante do trono a fim de protegerem as comunidades que, de acordo
com o seu conceito do melhor discernimento, se teriam coadunado numa or-
ganização religiosa modificada, sem todavia impedir os que quisessem ater-se
à antiga. Mas é de todo interdito coadunar-se numa constituição religiosa per-
tinaz, por ninguém posta publicamente em dúvida, mesmo só durante o tempo
de vida de um homem e destemodo aniquilar, por assim dizer, um período de
tempo no progresso da humanidade para o melhor e torná-lo infecundo e pre-
judicial para a posteridade. Um homem, para a sua pessoa, [490] e mesmo
então só por algum tempo, pode, no que lhe incumbe saber, adiar a ilustração;
mas renunciar a ela, quer seja para si, quer ainda mais para a descendência,
significa lesar e calcar aos pés o sagrado direito da humanidade. O que não
é lícito a um povo decidir em relação a si mesmo menos o pode ainda um
monarca decidir sobre o povo, pois a sua autoridade legislativa assenta pre-
cisamente no facto de na sua vontade unificar a vontade conjunta do povo.
Quando ele vê que toda a melhoria verdadeira ou presumida coincide com a
ordem civil, pode então permitir que em tudo o mais os seus súbditos façam
por si mesmos o que julguem necessário fazer para a salvação da sua alma.
Não é isso que lhe importa, mas compete-lhe obstar a que alguém impeça à
força outrem de trabalhar segundo toda a sua capacidade na determinação e
fomento da mesma. Constitui até um dano para a sua majestade imiscuir-se
em tais assuntos,ao honrar com a inspecção do seu governo os escritos em que
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6 I. KANT
os seus súbditos procuram clarificar as suas ideias, quer quando ele faz isso
a partir do seu discernimento superior, pelo que se sujeita à censura ‘Caesar
non est supra grammaticos’ 1 quer também, e ainda mais, quando rebaixa o
seu poder supremo a ponto de, no seu Estado, apoiar o despotismo espiritual
de alguns tiranos [491] contra os demais súbditos.
Se, pois, se fizer a pergunta – Vivemos nós agora numa época esclarecida?
– a resposta é: não. Mas vivemos numa época do Iluminismo. Falta ainda
muito para que os homens tomados em conjunto, da maneira como as coisas
agora estão, se encontrem já numa situação ou nela se possam apenas vir a pôr
de, em matéria de religião, se servirem bem e com segurança do seu próprio
entendimento, sem a orientação de outrem. Temos apenas claros indícios de
que se lhes abre agora o campo em que podem actuar livremente, e diminuem
pouco a pouco os obstáculos à ilustração geral ou à saída dos homens da
menoridade de que são culpados. Assim considerada, esta época é a época
do Iluminismo, ou o século de Frederico.
Um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada
prescrever aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena li-
berdade, que, por conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efec-
tivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela poste-
ridade como aquele que, pela primeira vez, libertou o género humano da me-
noridade, pelo menos por parte do governo, e concedeu a cada qual a liberdade
de se [492] servir da própria razão em tudo o que é assunto da consciência.
Sob o seu auspício, clérigos veneráveis podem, sem prejuízo do seu dever mi-
nisterial e na qualidade de eruditos, expor livre e publicamente ao mundo para
que este examine os seus juízos e as suas ideias que, aqui ou além, se afastam
do símbolo admitido; mas, mais permitido é ainda a quem não está limitado
por nenhum dever de ofício. Este espírito de liberdade difunde-se também no
exterior, mesmo onde entra em conflito com obstáculos externos de um go-
verno que a si mesmo se compreende mal. Com efeito, perante tal governo
brilha um exemplo de que, no seio da liberdade, não há o mínimo a recear pela
ordem pública e pela unidade da comunidade. Os homens libertam-se pouco
a pouco da brutalidade, quando de nenhum modo se procura, de propósito,
conservá-los nela.
1“César não está acima dos gramáticos.”
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Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?” 7
Apresentei o ponto central do Iluminismo, a saída do homem da sua me-
noridade culpada, sobretudo nas coisas de religião, porque em relação às artes
e às ciências os nossos governantes não têm interesse algum em exercer a tu-
tela sobre os seus súbditos; por outro lado, a tutela religiosa, além de ser mais
prejudicial, é também a mais desonrosa de todas. Mas o modo de pensar de
um chefe de Estado, que favorece a primeira, vai ainda mais além e discerne
que mesmo no tocante à sua legislação [493] não há perigo em permitir aos
seus súbditos fazer uso público da sua própria razão e expor publicamente
ao mundo as suas ideias sobre a sua melhor formulação, inclusive por meio
de uma ousada crítica da legislação que já existe; um exemplo brilhante que
temos é que nenhum monarca superou aquele que admiramos.
Mas também só aquele que, já esclarecido, não receia as sombras e que,
ao mesmo tempo, dispõe de um exército bem disciplinado e numeroso para
garantir a ordem pública – pode dizer o que a um Estado livre não é permi-
tido ousar: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes; mas
obedecei! Revela-se aqui um estranho e não esperado curso das coisas hu-
manas; como, aliás, quando ele se considera em conjunto, quase tudo nele é
paradoxal. Um grau maior da liberdade civil afigura-se vantajosa para a liber-
dade do espírito do povo e, no entanto, estabelece-lhe limites intransponíveis;
um grau menor cria-lhe, pelo contrário, o espaço para ela se alargar segundo
toda a sua capacidade. Se a natureza, sob este duro invólucro, desenvolveu
o germe de que delicadamente cuida, a saber, a tendência e a vocação para
o pensamento livre, então ela actua também gradualmente sobre o modo do
sentir do povo (pelo que este se tornará cada vez mais [494] capaz de agir
segundo a liberdade) e, por fim, até mesmo sobre os princípios do governo
que acha salutar para si próprio tratar o homem, que agora é mais do que uma
máquina, segundo a sua dignidade2
Königsberg na Prússia, 30 de Setembro de 1784.
I. Kant
2Na publicação semanal Notícias de Büsching de 13 de Setembro, leio hoje, dia 30 do
mesmo mês, o anúncio da “Berlinische Monatsschrift” deste mês, onde se inseriu a resposta do
senhor Mendelssohn à mesma pergunta. Esta ainda não me chegou às mãos; de outro modo,
teria retido a presente resposta que, agora, apenas se pode encontrar aqui como tentativa de
mostrar até que ponto o acaso originou uma coincidência dos pensamentos.
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8 I. KANT
[Nota do Tradutor]
O número entre parêntesis recto indica a página da edição alemã. O texto
original pode encontrar-se nos electro-sítios seguintes:
– http://www2.fh-augsburg.de/ Harsch/germanica/Chronologie/18Jh/Kant/kan_aufk.html
– http://gutenberg.spiegel.de/?id=5&xid=1366&kapitel=1
– http://wings.buffalo.edu/litgloss/kant/text.shtml
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Empirismo
As principais vertentes do pensamento modernos
 Empirismo: a origem do
conhecimento está na experiência
sensível.
 Racionalismo: Além do
conhecimento pela experiência, há
principalmente o conhecimento pela
razão.
 A filosofia cartesiana comprovou a
importância da racionalidade humana,
mas não se desligou da experiência –
haja visto o método cartesiano.
Empirismo: 
A experiência Sensível é fundamental
 A conhecimento, com a filosofia
moderna, passou a ser
desenvolvido com bases no
questionamento dos critérios e
métodos, em busca de um
conhecimento verdadeiro.
O empirismo como base de prova
 A evolução na forma de conceber
o conhecimento, tempo, e a
soma de fatores (contexto) fez
emergir a empeiria.
 O empirismo se firmou
inicialmente na Inglaterra, em
meados do século XVII.
 Por mais que pareça estranho,
recebeu grande influência da
ascensão da burguesia (pois
possuía a tutoria da experiência
comercial prática do período).
Galileu Galilei: Um mundo sem encantamentos, 
expresso na linguagem matemática
 Nasceu na cidade de Pisa (1564-1642).
 Contrariou a visão tradicional do
mundo (Teoria Heliocêntrica de
Copérnico) e foi obrigado a escolher
entre a morte na fogueira ou sua
retratação. Escolheu a retratação.
 Filósofo que desenvolveu o método
matemático-experimental (Galileu
pretendiainvestigar a natureza
diretamente, com base nos dados
fornecidos pelos sentidos, isto é, na
observação e na experiência empírica.
Por outro lado, considerava necessário
conhecer a matemática para conhecer
a linguagem em que estava escrito o
“Grande Livro do Mundo”: Universo.
Método matemático-experimental
 Galileu (professor de
matemática) com o estudo
experimental da natureza
alcançou grandes realizações
como:
1. A lei da queda livre dos corpos.
2. Construção e aperfeiçoamento
de um telescópio.
Método matemático-experimental
 Mas, além de suas descobertas e
criações, ficou conhecido como
o fundador de uma nova
postura de investigação
científica baseada:
1. Na observação minuciosa dos
fenômenos naturais.
2. Realização de experiências
para comprovar uma tese.
3. Uso da matemática para
enunciar as regularidades
observadas.
Método indutivo de investigação
 Para combater os erros, Bacon
desenvolveu as etapas do método
indutivo de investigação:
1. Observação da natureza para a
coleta de informações.
2. Organização racional dos dados
recolhidos empiricamente.
3. Formulação de explicações gerais
(hipóteses) para compreender os
fenômenos estudados.
4. Comprovação da Hipótese
formulada mediante
experimentações repetidas, em
novas circunstâncias.
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John Locke - 1632-1704
JOHN LOCKE: A EXPERIÊNCIA SENSÍVEL COMO 
FONTE DAS IDEIAS.
 John Locke (1632-1704).
 Em sua obra “Ensaio acerca do
entendimento humano”, ele
combate a ideia de que o
homem possui ideias inatas.
Para ele, nossa mente, no
instante em que nascemos, é
como um tábula rasa , um papel
em branco, sem nenhuma
informação prévia.
John Locke: A experiência sensível como tábula rasa
John Locke
Considerado importante por tentar construir um caminho
seguro para a ciência, desvinculado da metafísica. “Meu
trabalho é como o de um ajudante de jardinagem,
preparando o terreno e removendo o entulho que atrapalha
o caminho do conhecimento”.
A mente é como uma folha em branco (“tábula rasa”). O
conhecimento não é inato e o poder também não.
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John Locke: A experiência sensível como 
tábula rasa
 Assim, Locke retoma as ideias
empiristas, que afirmam que
nada existe em nossa mente que
não tenha provindo dos
sentidos.
 Para ele, tudo que formamos só
pode ser adquirido ao longo da
vida, mediante o exercício da
experiência sensorial e da
reflexão.
Locke: Experiência Sensorial e Reflexão
 Sendo assim, temos em Locke:
1. Experiência sensorial: Nossas
primeiras sensações que se apresentam
em nossa mente através dos sentidos.
Ex: Quente, frio, mole, amarelo...
1. Reflexão: A mente desenvolve uma
série de ideias que, segundo Locke, não
poderiam ser obtidas das coisas
externas.
Ex: Pensamento...
Locke: Experiência Sensorial e Reflexão
A teoria de Locke assumiu algumas das funções da 
religião, e a tabula rasa tornou-se a religião secular da 
ética moderna.
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George Berkeley: Tudo se reduz a percepção
 George Berkeley (1685-1753).
 Propõe que aquilo que
conhecemos do mundo exterior,
resume-se àquilo que captamos
pelos sentidos.
 Mas afirma também que: a
existência das coisas, nada mais é
do que a percepção que temos
dessa existência. Ou seja: “Ser é
perceber e ser percebido”.
George Berkeley: Tudo se reduz a percepção
 Para Berkeley, toda realidade 
depende da ideia que fazemos 
das coisas.
 Quando se pensa em reflexão 
de fé, Berkeley afirma que há 
também uma imaterialidade 
do mundo (ex. quando pensa 
em Deus e no ato de pensar).
 Resumo da tese de Berkeley: O 
mundo resume-se ao EU e SUA 
PRÓPRIA CONSCIÊNCIA.
DAVID HUME: A FORÇA DO HÁBITO EM NOSSAS 
IDEIAS
 David Hume (1711-1776).
 Hume dividiu tudo aquilo que
percebemos em impressões e
ideias:
1. Impressões: Referem-se aos
dados oferecidos pelos
sentidos.
2. Ideias: Referem-se as
representações mentais
(memória, imaginação...)
derivadas das impressões.
DAVID HUME: A FORÇA DO HÁBITO EM NOSSAS 
IDÉIAS
 Para Hume, toda ideia é uma re-(a)presentação de
alguma impressão. Essa representação pode possuir
diferentes graus de fidelidade e verdade.
 Ex: Um cego de nascença jamais poderá ter uma ideia
de cor; e mesmo dizendo, ainda não será uma ideia
muito fiel.
16/11/2021 20Do padrão do gosto
René Descartes: 
“Nova Razão” ↔ “moral provisória”
Rogério Jolins Martins
PUC MINAS
Problema: o conhecimento
As principais vertentes
• Racionalismo: Ideias
Inatas. Ex.: matemáticas,
etc
• Empirismo: a origem do
conhecimento está na
experiência sensível.
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Descartes - 1596 – 1650
Antropologia e ethos modernos
Descartes: Nova Razão → “Moral Provisória”
↓
Imanência X transcendência
↓ ↓
Mecanicista Cogito
(res-extensa) (res-cogitans) 
↓ 
Sentidos
↓Ethos da empeiria
Ethos da razão = 
“moral perfeita”
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Nova hermenêutica sobre o homem
↓
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Lição de anatomia do Dr. Van der Meer. Michel Jansy Mierevelt, 1617. Museu de Delft
Antropologia e ethos modernos
Referências:
• Meditações;
• Discurso do método;
• Carta-prefácio;
• Das paixões da alma.
Antropologia e ethos modernos
1ª e 2ª Meditações Metafísicas
Graus da dúvida:
1º argumento: contra a ilusão dos sentidos; 
2º argumento: ilusão das nossas percepções 
(sonhos);
3º argumento: hipótese de um “gênio 
maligno”.
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Antropologia e ethos modernos
Seus pensamentos decorreram na
sua célebre conclusão:
Cogito ergo sum ou Penso logo
sou.
Para Descartes, o cogito seria uma
verdade absolutamente firme, certa
e segura, e por isso deveria ser
adotada como princípio básico de
toda sua filosofia.
Contra as incertezas e indecisões:
Podemos destacar quatro regras básicas para o desenvolvimento do Espírito na
busca pela verdade:
1. Regra da evidência: Só aceitar algo que seja evidente.
2. Regra da análise: Dividir as dúvidas, em cada passo para resolvê-las melhor.
3. Regra da síntese: Ir dos problemas mais simples para os mais complexos.
4. Regra da enumeração: Verificar para se ter certeza de que nada do problema
foi omitido.
A evidência é tido como critério decisivo de verdade. Sem a clareza e a distinção
não há verdade racional.
DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 27.
16/11/2021 10
Antropologia e ethos modernos
Em Descartes, o pensamento é algo mais certo
que a própria matéria corporal. É a partir do
“ser pensante” que se concebe “existir”.
Baseado nessa ideia, Descartes é definido
como filósofo racionalista.
Baruch Espinoza: 1632 - 1677
Antropologia e ethos modernos
Questões fundamentais:
Até que ponto as nossas ideias (relatos mentais)
correspondem ao que se passa na realidade?
Como a verdade é possível?
Como é possível conhecer?
16/11/2021 13
Espinoza e o racionalismo absoluto
De acordo com Espinoza, a
fonte de toda superstição é a
imaginação incapaz de
compreender a verdadeira
ordem do universo.
Como é incapaz de conhecer
a verdade, o supersticioso
define tudo em um Deus
transcendental, que não era
em quem ele acreditava.
Para combater essas
superstições, Espinosa
propõe a ideia da
demonstração geométrica,
donde Deus se manifesta
em todas as coisas, assim
ele deixa de ser um Deus
distante e passa a ser um
Deus presente (Deus
imanente).
Portanto, tudo que existe é
necessário existir.
União Corpo e Alma
O ser humano não é a composição de duas substâncias, como
pensou Descartes.
A ontologia monista espinoziana consiste em afirmar que alma e
corpo são modos distintos da mesma e única substância (Deus
ou Natureza).
Não há entre alma e corpo uma relação hierárquica, mas
exprimem a mesma atividade com os atributos substanciais de
potência e realidade equivalentes.
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Filósofos: “Deus criador”
Espinoza: Deus = Natureza = Panteísmo.
↓
Deus é a substância que constitui o Universo inteiro e não
se separa de tudo o que produziu.
Neste sentido, Deus é causa imanente,e não transcendente, dos seus modos,
entre os quais se encontra o homem.
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Deus não criou as coisas de forma arbitrária, sem
regras, leis ou critérios. Como Deus é uma substância
perfeita, as coisas feitas por ele têm um caráter
necessário.
As coisas seguem as leis divinas naturais e a elas estão
subordinadas.
Que leis naturais ou divinas são essas?
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As leis naturais são como decretos de Deus que expressam uma
ordem necessária.
Como se explica essa ordem?
A ordem divina é a ordem geométrica. Assim como as
proposições geométricas estão vinculadas entre si, por um
sistema, da mesma maneira Deus possui vinculação entre si.
Elas não estão soltas e isoladas, mas conectadas formando
uma unidade e uma ordem necessária.
16/11/2021 19
Deus está presente em toda manifestação extensa e pensante.
Propôs que havia uma ordem causal nas manifestações do
pensamento, ou seja, a causa de uma ideia está em outra ideia
e sucessivamente.
Espinoza não deu espaço para tragédias e nem para mistérios:
tudo se tornaria compreendido pela razão. A filosofia seria o
conhecimento racional de Deus. Não haveria livre-arbítrio,
uma vez que Deus se identifica com a natureza universal (ser
necessário).
16/11/2021 20
Dessa forma, um conhecimento superior atinge-se quando a
razão apreende a ordem imutável das coisas, sejam elas ideias
(pensamento) ou corpo (extensão). Tudo deve ser tratado de
forma geométrica, inclusive as emoções, os desejos e as ações
humanas.
Espinoza analisa os afetos, os desejos e as ações como se tratasse
de linhas, superfícies, volumes, construindo uma geometria da
afetividade humana. Por isto, ele é interpretado como
determinista, nega a liberdade humana. A liberdade consistiria
na consciência dessa natureza determinada.
16/11/2021 21
Não nega a liberdade, mas a defende como
autodeterminação. Para explicar isso ele usa o
conceito de conatus (esforço físico ou moral),
mas no sentido de uma tendência natural e
espontânea de conservação:
“Toda a coisa se esforça, enquanto está em si,
por perseverar no seu ser”.
16/11/2021 22
“Perseverar no seu ser” significa que se quer existir de
acordo com a natureza e não contra ela.
A razão nos permite distinguir os desejos verdadeiros
(próprios da natureza) daqueles que nos afastam dela.
Apenas com o conhecimento adequado de nós
mesmos poderemos nos tornar livres. Os falsos
desejos são provenientes de um conhecimento
inadequado e constituem fontes de fantasias e
ilusões.
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O lugar do Corpo:
Os afetos que nos escravizam são os que nos tornam “estranhos a nós mesmos”, e
com isto, impedem a expressão plena da natureza humana.
Quando o desejo se realiza conforme a natureza, sentimos alegria. Quando ele é
contrariado, sentimos tristeza. Alegria ou Tristeza são dimensões afetivas.
Alegria é a passagem do ser humano de uma perfeição menor para uma maior.
Tristeza é a passagem do ser humano de uma perfeição maior para uma menor.
A tristeza afasta o homem, cada vez mais, da sua potência de agir, é geradora de
ódio, aversão, temor, desespero, indignação, crueldade, ressentimento,
melancolia, remorso, vingança, etc.
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O lugar da alma
Esta consiste na atividade de pensar, conhecer. Portanto, sua
fraqueza é a ignorância. Quando a alma se empreende em
produzir ideias, passa a uma perfeição maior e é afetada pela
Alegria. Mas, se em alguma situação a alma não alcança esse
entendimento, sua impotência provoca-lhe o sentimento de
diminuição do ser, e consequentemente, Tristeza. Fica numa
espécie de passividade da alma.
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VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Escritos de
filosofia: introdução à ética filosófica. São
Paulo: Loyola, p. 281-291.
PUC MINAS
Antropologia e ethos renascentista
Rogério Jolins Martins
16/11/2021
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Bacon - 1561-1626
Antropologia e ethos renascentista
Francis Bacon = “Fé na Ciência”: critica o pensamento
filosófico anterior que tão pouco proveito trouxe para a
vida humana. Os filósofos antigos não deram devida
atenção à natureza, que deve ser ouvida e interpretada.
O conhecimento científico tem por finalidade servir o
homem e dar-lhe poder sobre a natureza. Desse modo,
a “ciência é poder”, e deve ser superada toda visão de
ciência (filosofia escolástica) sem vínculo com a vida
prática, pois é concebida como estéril e sem nenhum
resultado prático para a vida do homem.
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“Saber é Poder”
Antropologia e ethos renascentista
Tarefa da Filosofia: Esse novo conhecimento (prático)
somente será alcançado através da eliminação e
purificação de uma série de preconceitos, ilusões ou
supertições que Bacon denominou de ídolos.
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Teoria dos ídolos
Antropologia e ethos renascentista
1) Ídolos da tribo – recebe esse nome porque a família
humana, tribo, se dirige de forma inadequada sobre a
natureza. A ação humana é influenciada pelo afeto e
pelas vontades humanas que corrompem a ciência;
2) Ídolos da caverna – cada pessoa possui sua própria
caverna particular, que interpreta e distorce a luz da
natureza. Recordando a Alegoria da Caverna, cada
pessoa, no interior de sua caverna, tem sua crença,
sua verdade particular como única e indiscutível.
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Antropologia e ethos renascentista
3) Ídolos do foro – trata-se dos ídolos do mercado, da
feira, do contexto, das relações que os homens
estabelecem entre si. A comunicação acontece
mediante palavras, convenções que acabam
atrapalhando e perturbando o intelecto na busca da
verdade;
4) Ídolos do teatro – não proporcionam um retrato fiel do
Universo. Penetram no espírito humano por causa das
péssimas regras de demonstração e devido às
falaciosas doutrinas filosóficas pouco fundamentadas.
Bacon se refere aos dogmas (fábulas, falácias...).
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Antropologia e ethos renascentista
 Para combater os erros, Bacon
desenvolveu as etapas do método
indutivo de investigação:
1. Observação da natureza para a
coleta de informações.
2. Organização racional dos dados
recolhidos empiricamente.
3. Formulação de explicações gerais
(hipóteses) para compreender os
fenômenos estudados.
4. Comprovação da Hipótese
formulada mediante
experimentações repetidas, em
novas circunstâncias.
16/11/2021
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Grotius - 1583-1645
Antropologia e ethos renascentista
Hugo Grotius – Para a convivência humana, os homens
têm como fundamentos a razão e a natureza, que
coincidem entre si.
Por isso, o “direito natural” traz em sua raiz um
fundamento racional e natural, ou seja, traz a marca da
estabilidade e da imutabilidade: os princípios do direito
natural seriam válidos mesmo que se quisesse supor que
Deus não existisse, pois o que é perfeito não muda.
16/11/2021
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Antropologia e ethos renascentista
Tem-se assim, a passagem para o jusnaturalismo – doutrina segundo
a qual há uma lei inata a todo homem (direito natural),
reconhecendo em cada indivíduo a existência de direitos naturais.
Este direito natural tem validade em si mesmo.
Este direito é anterior e superior ao direito positivo (humano) e, em
caso de conflito, é ele que deve prevalecer.
O jusnaturalismo é bem diferente do atual positivismo jurídico, para
o qual só há um direito, o estabelecido pelo Estado, cuja
validade independe de qualquer referência a valores éticos.
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Antropologia e ethos renascentista
O jusnaturalismo do séc XVII e XVIII reconheceu em cada
indivíduo a existência de direitos naturais, o que moldou
doutrinas políticas e éticas de tendência individualista e
liberais.
Em conformidade com o jusnaturalismo, a autoridade política
deve respeitar os direitos inatos do indivíduo, e o próprio
Estado deve ser concebido como uma livre criação dos
indivíduos, em busca da defesa dos seus direitos individuais.
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Antropologia e ethos renascentista
Séc XIX – enfraquecimento do jusnaturalismo (caiu em
descrédito). Nasce a ideia racional e liberal de leis e normas,
que seharmonizava com as tendências iluministas. Emerge o
juspositivismo como tentativa de superar os problemas da
metafísica do jusnaturalismo. Passa a ter valor somente as
orientações e construções da razão humana.
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Antropologia e ethos renascentista
Contudo, o jusnaturalismo ainda marca:
1. A Declaração da Independência dos Estados Unidos
da América;
2. A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do
Cidadão (Rev. Francesa);
3. A Declaração Universal dos Direitos Humanos.
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Thomas Hobbes -1588-1679
Antropologia e ethos renascentista
O ser humano em seu estado natural, objetivando a sua preservação,
é individualista, egoísta e violento. Não poderá haver paz e
segurança enquanto perdurar o estado natural.
No estado natural não há espaço para o bem e o mal objetivos e,
portanto, para os valores morais.
Com efeito, o bem é aquilo para o qual tendemos e o mal aquilo do
qual fugimos; mas como alguns homens desejam algumas coisas e
outros desejam outras, e como alguns fogem de algumas coisas e
outros não, daí decorre que bem e mal é algo relativo - relativo à
pessoa, ao local, ao tempo e às circunstâncias.
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Antropologia e ethos renascentista
Não havendo valores absolutos, como é possível construir uma moral
e uma vida social? Como é possível a convivência dos homens em
sociedade?
O De Cive e o Leviatã
Não havendo valores absolutos não existe uma justiça e uma injustiça
naturais. Desse modo, os valores são frutos de convenções
estabelecidas pelos próprios homens. Desse modo, o egoísmo e o
convencionalismo são pontos-chaves para nova ética e política.
Liberdade e Igualdade → iguais para todos os seres humanos.
16/11/2021
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Antropologia e ethos renascentista
“... na natureza do homem encontramos três causas
principais de discórdia. Primeiro, a competição;
segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória”.
16/11/2021
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Antropologia e ethos renascentista
Nesta situação, como proceder para assegurar a paz?
O próprio homem reconhece a necessidade de renunciar o direito
natural, especialmente para garantir sua defesa. Isso será possível
somente por meio de um Pacto.
Em meio a relatividade de todos os bens encontramos um bem
primeiro e originário: a vida e sua conservação. O primeiro mal a
evitar é a morte.
16/11/2021
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Antropologia e ethos renascentista
Não havendo limites impostos pela natureza, nasce, assim, a
predominância de uns sobre os outros = homo homini lupus.
Em decorrência disso, o Estado não é natural, mas artificial.
Leviatã = 19 regras fundamentais para a vida social:
1ª regra: ordena que o homem se esforce por buscar a paz;
2ª regra: impõe que se renuncie ao direito sobre tudo;
3ª regra: que se cumpram os acordos feitos, etc.
Em si mesmas as leis não bastam para constituir a sociedade. É preciso
um poder que obrigue os homens a respeitá-las. Portanto, é preciso que
todos os homens transfiram a um único homem (ou a uma assembleia)
o poder de os governar.
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Antropologia e ethos renascentista
Esse pacto não é firmado pelos súditos com o
soberano, mas, sim, pelos próprios súditos. O
soberano fica fora do pacto, permanecendo
como único a manter todos os direitos
originários. O poder do soberano é indivisível e
absoluto.
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NICOLAU MAQUIAVEL
(1469-1527)
• Considerado o fundador do pensamento
político moderno.
• Idade Antiga: Política relacionada à
ética.
• Idade Média: acrescem-se os valores
cristãos.
• Havia na época de Maquiavel um
distanciamento entre o ideal de Política e a
sua realidade.
Ele escreveu O Príncipe (1513-1515).
Tratou da Política, tal qual ela se dá.
Procurou compreender e esclarecer a
Política real:
• Sempre há tensão entre
poderosos e povo. É ilusão o “bem
comum” para ambos.
• O poder político regula essas
tensões.
Chamamos pejorativamente de “maquiavélica” a
pessoa sem escrúpulos, traiçoeira, astuciosa, que, para
atingir seus fins, usa de má-fé (...). Como expressão dessa
conduta, costuma-se atribuir a Maquiavel, de maneira
descontextualizada, a famosa máxima: “Os fins justificam
os meios.
“Muita gente imaginou repúblicas e principados que nunca
se viram nem jamais foram reconhecidos como verdadeiros.
Faz tanta diferença entre o como se vive e o modo por que
se deveria viver, que quem se preocupar com o que se
deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína
própria, do que o modo de se preservar;
e um homem que quiser fazer profissão de bondade é
natural que se arruíne entre tantos que são maus. Assim, é
necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a
poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso
segundo a necessidade.”
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Abril
Cultural, 1973. p. 69. (Coleção Os Pensadores)
Virtú
Significa “virtude”, no sentido grego de
força, valor, qualidade de lutador e
guerreiro viril. Príncipes de virtù são
governantes especiais, capazes de realizar
grandes obras e provocar mudanças na
história.
(p. 338)
Virtú
Não se trata, portanto, do príncipe virtuoso
conforme preceitos da moral cristã
(bondade e justiça, por exemplo), mas
daquele que tem a capacidade de
perceber o jogo de forças da política para
então agir com energia, a fim de conquistar
e manter o poder.
(p. 338)
Fortuna
Significa “ocasião”, “acaso”, “sorte”: Para agir
bem, o príncipe não deve deixar escapar a
ocasião oportuna. De nada adiantaria ser virtuoso,
se o príncipe não soubesse ser ousado, mas
precavido para aguardar a ocasião propícia,
aproveitando o acaso ou a sorte das circunstâncias,
como observador atento do curso da história.
Moral
A ação política não deve orientar-se por qualquer
hierarquia de valores dada a priori, como até então
era proposto na concepção grega do “bom
governante”. Ao contrário, a nova ética política
analisa as ações tendo em vista as consequências, ou
seja, os resultados que serão alcançados na busca do
bem comum.
Referências
MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da
complexidade. Belo Horizonte: PAX; A vida é mais,
2010.
PUC MINAS
Antropologia e ethos
renascentista
Rogério Jolins Martins
16/11/2021
2
Sistema Medieval
O homem: de criatura para “criador” (das artes, etc.) – demirugo.
Criação Do Homem, Dedo Deus, Michelangelo, 1508-1512
Antropologia e ethos renascentista
“medieval” ⇔ RENASCENÇA ⇔ “moderna” 
↓
“Transição” →
↓
Séc. XII e XVI
Foi origem de ampla e 
profundas mudanças.
Antropologia e ethos renascentista
Base: “humanismo”
Antropologia e ethos renascentista
Patrística: “Dignidade da Pessoa Humana”.
Tomás de Aquino: lex divina, aeterna, naturalis, 
humanae.
Antropologia e ethos renascentista
“Que obra de arte é o homem: tão nobre no
raciocínio; tão vário na capacidade; em forma e
movimento, tão preciso e admirável, na ação é
como um anjo; no entendimento é como um
Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos
animais”.
Hamlet, William Shakespeare
Antropologia e ethos renascentista
Nasce na Itália (séc. XV) e dissemina-se pelo norte da
Europa, sobretudo:
• França,
• Inglaterra,
• Países Baixos,
• Renânia,
como expressão de: 
• novas ideias,
• novas sensibilidades , →
• e novos ideais humanos.
Resgate das dimensões constitutivas do
homem: emoção/sentimentos e razão.
O conhecimento se constrói na
articulação da experiência e da razão.
Antropologia e ethos renascentista
Contexto:
• Poder da Igreja: espiritual e temporal – questionado, sobretudo por
parte dos intelectuais;
• Grave crise político-institucional (modelo feudal) e surgimento da
burguesia e de uma civilização urbana e seus desdobramentos na
economia mercantil, na política e nas ideias.
• Novas fronteiras geográficas.
Antropologia e ethos renascentista
Surgimento das primeiras universidades: Paris,
1150; Oxford, 1167; Saler (Itália), 1173; Montpellier
(França), 1181; Bolonha (Itália), 1185; Vicenza
(Itália), 1204; Cambridge, 1209; Palência
(Espanha),1212.
Novo corpo de saberes diferente do medieval: Do
método da disputatio para os studia humanitatis no
qual a filosofia assumiu significação prática.
Platão e Aristóteles relidos na Renascença em
perspectiva diversa de Agostinho e Tomás de
Aquino.
Antropologia e ethos renascentista
Enquanto Paris enfatizava as “artes do trívio”
(gramática, retórica e dialética), Oxford voltava-se
para as “artes do quadrívio” (aritmética,
geometria, música e astronomia), donde emergiu
as primeiras manifestações mais significativas da
filosofia empírica da natureza.
Estudou e foi professor de Oxford, o dominicano
Roberto Grossatesta determinou o rumo assumido
pelos estudos físicos nos séc XIII e XIV. Foi ele
quem iniciou o naturalismo em Oxford.
Antropologia e ethos renascentista
Discípulo de Grossotesta foi Roger Bacon,
franciscano, que empreendeu nos estudos sobre
a refração da luz. Estudou como as lentes
poderiam estar dispostas para a construção de
óculos e telescópios. Intuiu o voo, o emprego de
explosivos, a circunavegação do globo, a
propulsão da mecânica e outros estudos.
Com Grossotesta e Roger Bacon no séc XIII
assistiu-se ao nascimento e lento
desenvolvimento de uma vertente matemática e
empeiria no interior da escolástica.
Antropologia e ethos renascentista
Duns Scotus, franciscano, da escola de Oxford,
empreendeu uma concepção extremamente rigorosa
de “procedimento demonstrativo”.
Propõe uma clara distinção entre filosofia e teologia:
A filosofia se ocupa do ente enquanto tal e de tudo o
que é redutível a ele ou dele dedutível. A filosofia
segue o procedimento demonstrativo e detém uma
“lógica natural”.
A teologia se ocupa dos “objetos da fé” e seu
procedimento é persuasivo. Move-se pela “lógica
sobrenatural”.
Antropologia e ethos renascentista
Scotus propõe submeter a análise crítica todos os
conceitos complexos afim de se obter conceitos
simples, com os quais se deve proceder para
obter a construção de um discurso filosófico
fundamentado.
É convencido da inteligência como categoria
humana específica deste. Por isto, diante da
questão do objeto primeiro do intelecto, responde
que são os sentidos = ou seja, o ente unívoco ou
o ente enquanto ente.
Antropologia e ethos renascentista
Guilherme de Ockam, franciscano, contrapôs a
Tomás (realista) para quem os conceitos
universais seriam apenas signos ou palavras que
representam ou designam a multiplicidade das
coisas. Ex: conceitos “homem”, “árvore”, etc.
“Nenhuma coisa fora da alma, nem por si, nem por
algo que se agrega, real ou irracional e de
qualquer maneira que se considere e se entenda,
é universal, já que é impossível que uma coisa
fora da alma seja universal de algum modo...”
Antropologia e ethos renascentista
Pico della Mirandola 900 teses – proposta do
universalismo moral.
Nicolau de Cusa: A ideia de homo universalis, ou
seja, a consciência da universalidade e
igualdade da natureza humana para além das
fronteiras religiosas, culturais, políticas e
geográficas que encerravam o homem medieval
(De docta ignorantia).
Antropologia e ethos renascentista
No aspecto científico
Johannes Kepler, Nicolau Copérnico (astronomia),
Nostradamus (Medicina).
Giordano Bruno: radicalizou o valor da natureza,
concebida como toda penetrada pelo princípio
divino, “mente de todas as coisas”, mas que
permanece incognoscível para nós. Defende que
Deus está presente em todas as coisas – ideia
imanentista de Deus (panteísmo).
Antropologia e ethos renascentista
No aspecto artístico 
Michelangelo, Rafael Sânzio, Leonardo da Vinci:
1) pentagrama: símbolo que representa a
consciência humana sobre os quatro elementos
inferiores: terra, fogo, água e ar; 2) a natureza
tem uma ordem mecanicista, necessária e
derivada de Deus. Esta ordem podemos estudar
através da experiência e da razão, uma vez que
a linguagem do Universo é matemática, entre
outros tantos.
“Homem Vitruviano”,
Leonardo da Vinci, 1490,
faz menção às proporções
perfeitas do homem. Este é
o ideal humano: homem
divino. Suas proporções
estão em consonância com
as figuras geométricas.
Relação do homem com o
micro e macrocosmo.
Renascença: Humanismo
Monalisa, Leonardo da Vinci, 1503-1506.
Técnica: “Sfumato”
Antropologia e ethos renascentista
No aspecto literário
Dante Alighieri, “A Divina Comedia”; Miguel de
Cervantes, “D. Quixote de La Mancha”; Luís de
Camões, “Os Lusíadas; William Shakespeare,
“Romeu e Julieta”, “Hamlet”, “Otelo” e várias
outras.
Antropologia e ethos renascentista
Modelo de ethos que emerge da Renascença:
Razão do homem”, no século, (secularização), ou
seja, do homem que vive na terra -
“antropocentrismo/autonomia”.
Ascensão do homo politicus ao primeiro plano da
cena histórica.
Exploração experimental da natureza.
Moral burguesa: ênfase no indivíduo/vida privada.
Humanismo
Referência:
VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Escritos de filosofia IV: introdução à
ética filosófica. São Paulo: Loyola, 2006, p. 257-265.
MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da complexidade. Belo
Horizonte: Pax Editora, 2010, p. 261-284.
PUC MINAS
Tomás de Aquino: verticalização da ética
Rogério Jolins Martins
De 1225-1274 - frade dominicano:
intérprete do pensamento aristotélico.
Santo Tomás de Aquino
Tomás de Aquino: verticalização da ética
Tomás se serviu de duas fontes: Traduziu o
conceito de ser metafísico (Aristóteles) e a
Revelação cristã.
Duas formas de se chegar à verdade:
Fé e Razão
↓ ↓
Sobrenatural Natural
↓ ↓
Além da razão Experiência sensível 
↓ 
Trata-se de um composto da mesma natureza humana
Tomás de Aquino tratou sistematicamente:
Conhecimento: Fé e Razão
Ética:
• Comentários dos Livros das Sentenças; 
• Suma Contra Gentiles;
• Questões Disputadas;
• Comentários do Livro da Ética a Nicômaco;
• Suma Teológica I-II.
1. A Filosofia é um preâmbulo da fé.
2. A verdadeira ciência é a Teologia,
que fala e esclarece sobre a
salvação.
3. A graça não suplanta, mas
aperfeiçoa a natureza.
As Cinco Vias para provar a existência de Deus:
1ª – Primeiro Motor
Tudo o que se move é movido por alguém. E este
alguém não pode ser algo imóvel. Logo, há que ter
um primeiro motor que deu início ao movimento
existente, e que por ninguém foi movido.
2ª – Causa Eficiente
Causa eficiente: É necessário que haja uma causa
primeira que por ninguém tenha sido causada.
Então, esta causa primeira, ou este efeito primeiro é
Deus.
3ª – Ser Necessário
Tudo o que existe agora pode deixar de existir. Houve, portanto, um
momento em que nada existia. É preciso admitir que um Ser deu
existência às coisas. Este ser tinha quer ser eterno e ser a causa
necessária de tudo que existe este Ser é Deus.
4ª - Ser Perfeito
Verifica-se que há graus de perfeição nos seres. Uns são mais perfeitos
que outros, são mais belos, são mais verdadeiros. Conclui-se que deve
existir um ser que tenha o padrão máximo de perfeição. Este ser,
então, é Deus.
5ª –Inteligência Ordenadora
Existe uma ordem no universo, em que cada coisa está cumprindo uma
função, um objetivo, uma finalidade. No entanto, não se chega à
ordem pelo acaso e nem pelo caos. Logo, há um ser inteligente que
dispôs o universo na forma ordenada e que dirige todas as coisas para
que cumpram seu objetivo. Este ser é Deus.
Ética
A ética é ciência moral, ou seja, ciência dos costumes e é
conhecimento especulativo-prático:
é especulativo, na medida em que nasce da ordem que a
própria razão procura estabelecer, a partir dos seus
princípios, nos atos da vontade;
é prático, na medida em que é ciência dos costumes e dos
atos humanos, que são sempre circunstanciais, singulares e
práticos.
Enfim, a Ética, enquanto ciência, pretende dirigir os atos
livres ao bem perfeito/fim último.
Temas da ética em Tomás: o homem, o mundo, a
felicidade, a lei natural, o bem e a justiça.
A moralidade consiste em amar a verdade, a
bondade e a beleza de Deus estampadasnas
criaturas, ou seja, o homem é (imago Dei) sem
deixar de ser (homo naturalis). Esta imagem é
verdadeira, boa e bela enquanto espelham os
atributos divinos.
Sua ética “trata das coisas humanas” - a
condição humana e os comportamentos
humanos sob a ótica da natureza humana.
À diferença da natureza animal, confinada em
sua mesmidade, a natureza humana é aberta
ao infinito por quatro razões: é uma natureza
material, racional, eficiente e dotada de
finalidade.
O homem dispõe da luz da Razão e da Fé, como
parte da imagem de Deus, de onde saiu
(criado). Cabe a ele encontrar o caminho de
volta.
Ele é inteiramente livre para procurá-lo ou não;
seguir em frente no rumo certo, ou voltar para
trás.
As paixões da alma: as paixões são os movimentos dos
apetites sensíveis, pela imaginação do bem ou do mal.
A alma humana, dita racional ou intelectiva, possui as
faculdades: intelectiva que possui duas potências - a
razão que se ordena à verdade e a vontade que, sendo
apetite do intelecto, se ordena ao bem; sensitiva que
possui duas potências - a concupiscível que move a
alma para a busca de bens sensíveis e evita os males
sensíveis e a irascível que move a alma para a busca de
bens sensíveis difíceis de conseguir e evitar os males
sensíveis difíceis de evitar; e a vegetativa que move a
alma humana na consecução e realização de suas
funções inferiores correlatas ao corpo, como
crescimento e diminuição.
O fim último do homem: todo ato humano
procede da vontade livre (Sum. Theo. I-II), age
em vista de um fim último, que é a felicidade e
é impossível que se dirija simultânea e
absolutamente a muitos fins últimos, pois a
exceção do último, todos os demais são
imperfeitos e só o último satisfaz plena e
perfeitamente todo o apetite do homem.
O ato voluntário: O ato voluntário pode ser
livre ou necessário, em si ou em causa,
positivo ou negativo. Dentre as coisas que
influenciam o voluntário contamos:
a concupiscência - o movimento do apetite
sensitivo ao bem prazeroso; o medo - paixão
causada pela eminência de um mal difícil de
evitar; a violência - que viola o uso livre do
princípio intrínseco; a ignorância - que tolhe o
conhecimento devido.
O ato moral: O ato humano moralmente mau é
denominado pecado. Por ação moral entende-
se aquela ação voluntária, portanto livre,
acerca de um bem ou mal. O ato humano que
é sempre individual nunca é indiferente
moralmente.
A lei moral - O homem apresenta
predisposição natural para conhecer os
princípios das ações boas; contudo, ele pode
deliberadamente rejeitá-los, pecando. A lei “é
uma determinação da razão em vista do bem
comum, promulgada por quem tem o encargo
na comunidade” (S. Theo, Iª-IIª).
Espinha dorsal da ética tomista: o agir com base
nas virtudes em vista de um supremo bem.
Virtudes morais básicas dos gregos: justiça,
prudência, temperança e coragem. A virtude
da justiça é o centro da ética, pela qual o
indivíduo se torna cidadão. A justiça abre a
pessoa aos outros.
Para Tomás, a justiça é importante mas
insuficiente. A felicidade plena se dá na
comunidade de fé.
A justiça é a ponte que une a comunidade de fé
e a sociedade política, é tida como o ponto
central da ética.
Lex Divina – é a que procede de Deus.
Lex aeterna – é o plano racional de Deus. É o
plano concebido desde toda a eternidade,
para levar as criaturas ao seu Fim Supremo.
Lex naturalis – é aquela que Deus promulga
através da natureza. A lei natural pode ser
também moral, quando coincide com as
normas morais que o homem pode conhecer
mediante a luz da razão. Ex.: não matar, etc.
Lex humanae – é a que os homens escrevem no
exercício da autoridade que Deus lhes
transmite.
Virtudes Cardeais: 
justiça, prudência, temperança e coragem
Virtudes teologais: 
fé, esperança e caridade
As virtudes morais: cardeais e teologais
Tomás de Aquino: verticalização da ética
Tomás comentou as virtudes humanas gregas (Ética
a Nicômaco) e acrescentou a essas as virtudes
teologais explicitadas nas sagradas escrituras: fé,
esperança e caridade.
Quadro de Prudente Nery
Referências
REALE, G. ANTISERI, D. História da Filosofia I.
MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da
complexidade. Belo Horizonte: PAX; A vida é
mais, 2010.
NERY, Prudente. Ética Medieval: vícios e virtudes
(publicação interna).
Antropologia e Ética Medieval
Rogério Jolins Martins
Precedentes:
1. Fílon de Alexandra (25 a.C.-50 d.C.), judeu,
aproximou a Filosofia da leitura alegórica da
Bíblia.
2. Para Fílon: o logos é um princípio divino, o
qual Deus criou e com o qual governa o mundo.
3. Para o apóstolo Paulo o cristianismo era
universal: religião destinada a todos os povos.
4. Houve a expansão do cristianismo através
das “eklesias”, assembleias (a Igreja).
1. Kerigma e apologia (defesa da fé).
2. Contra as heresias.
3. São Justino, mártir: “o cristianismo é a
verdadeira Filosofia”.
4. Alexandria: Neoplatonismo, Clemente de
Alexandria (120-215) e Orígenes (184-254).
5. A Patrística circunscreve-se no fim da
Idade Antiga: Padres da Igreja, gregos e latinos.
6. O maior expoente da Patrística foi Santo
Agostinho de Hipona.
Santo Agostinho:
Nascido em 354 – Tagaste ( 
Argélia)
Morreu em 430 – Hipona
aos 75 anos.
Influências:
1 – Mani
2 – Platão
3 - Santo Ambrósio
Séc. I e II – Propagação e defesa da fé
Séc. III – Propagação, defesa, escritas da fé
Séc. IV – VI – Propagação, defesa, escritas e síntese da fé:
Época dos grandes Concílios
No primeiro período da Idade Média, o
Império Romano esfacelou-se em diversos
reinos bárbaros. O desejo de unidade de
poder, de restauração da unidade perdida,
expressou-se no fortalecimento e na
difusão do cristianismo, que passou a
representar o ideal de Estado universal.
(p. 330)
1. Queda do Império Romano do Ocidente (invasão/
transmigração bárbara).
Obra: “Cidade de Deus” – Natureza do Estado e Natureza
da Igreja.
2. Tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos.
Confissões
Autobiografia de Agostinho: relato antes e após sua conversão 
(“Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”).
Trindade
Conceito de Pessoa
O livre-arbítrio
Natureza do bem e do mal
Cidade de Deus e cidade dos homens
Cidade perfeita e cidade imperfeita.
Carta sobre a felicidade
(a Meneceu)
Epicuro envia suas saudações a Meneceu
Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de 
fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou 
demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de 
dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se 
dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse 
modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está 
envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas 
que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas 
que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a 
felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos 
para alcançá-la. Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te 
transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para 
uma vida feliz.
Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-
aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela 
nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua 
bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe 
felicidade e imortalidade.
Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a 
imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não 
costumam preservar a noção que têm dos deuses, ímpio não é quem rejeita 
os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos 
juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses 
não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de 
que eles causam os maiores malefíciosaos maus e os maiores benefícios 
aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a
convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja 
diferente deles.
Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e 
todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das 
sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós 
proporciona a fruição da vida efémera, sem querer acrescentar-lhe tempo 
infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para cjuem está perfeitamente convencido 
de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter 
medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque 
o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não 
deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.
Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, 
justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; 
ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A 
morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que 
para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no 
entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos 
males, ora a deseja como descanso dos males da vida.
O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver 
não é um fardo e não-viver não é um mal.
Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do 
mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que 
breve.
Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um 
tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque 
se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em 
honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter 
nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas 
do Hades.
Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre 
para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, 
foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.
Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, 
nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se 
estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não 
estivesse por vir jamais.
Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais 
e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e 
outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são 
fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, 
ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a dire-
cionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade 
do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim 
praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.
Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se 
aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem 
procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De 
fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao 
contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.
É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida 
feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser 
humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele 
chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.
Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos 
qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles 
nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos 
muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de 
suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um 
bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; 
do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre 
evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo 
com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem 
como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.
Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos 
satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não 
tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a 
abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de 
conseguir; difícil é tudo o que é inútil.
Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais 
requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água 
produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.
Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não 
só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios 
para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que 
conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor 
aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.
Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos 
prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como 
acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam 
com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de 
sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem 
banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos 
peixes ou das outras iguarias de urna mesa farta que tomam doce uma 
vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda 
escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em 
virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. 
De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão 
pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que 
originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe 
vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe 
prudência, beleza e justiça sem felicidade.
Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é 
inseparável delas.
Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem 
um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo 
absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade 
da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis 
de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos 
leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já 
que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade 
nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa 
vontade é livre, razão pela qual nos acompanhara a censura e o louvor?
Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do desino dos 
naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses 
através das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma 
necessidade inexorável.
Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas 
acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não 
crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam 
fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de 
grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e 
sábio, a ser afortunado e tolo; na prática,é melhor que um bom projeto não 
chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.
Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, 
contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, 
quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. 
Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive 
entre bens imortais.
Tradução baseada na edição de Arrighetti. Epicuro. Opere. Torino, 1973.
©2007 CEFA e Portal Brasileiro da Filosofia
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