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Filosofia Moderna Principal objetivo: servir-se unicamente da razão como narrativa normativa e da ordem para o homem. Rogério Jolins Martins Pensamento filosófico: Descartes (racionalismo) Pensamento científico: Francis Bacon e Galileu Pensamento político: Nicolau Maquiavel Pensamento jurídico: Hugo Grotius NICOLAU MAQUIAVEL (1469-1527) • Considerado o fundador do pensamento político moderno. • Idade Antiga: Política relacionada à ética. • Idade Média: acrescem-se os valores cristãos. • Havia na época de Maquiavel um distanciamento entre o ideal de Política e a sua realidade. Ele escreveu O Príncipe (1513-1515). Tratou da Política, tal como ela se dá. Procurou compreender e esclarecer a Política real: • Sempre há tensão entre poderosos e povo. É ilusão o “bem comum” para ambos. • O poder político regula essas tensões. “Muita gente imaginou repúblicas e principados que nunca se viram nem jamais foram reconhecidos como verdadeiros. Faz tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar; e um homem que quiser fazer profissão de bondade é natural que se arruíne entre tantos que são maus. Assim, é necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer- se disso segundo a necessidade.” MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 69. (Coleção Os Pensadores) Virtú Significa “virtude”, no sentido grego de força, valor, qualidade de lutador e guerreiro viril. Príncipes de virtù são governantes especiais, capazes de realizar grandes obras e provocar mudanças na história. Não se trata, portanto, do príncipe virtuoso conforme preceitos da moral cristã (bondade e justiça, por exemplo), mas daquele que tem a capacidade de perceber o jogo de forças da política para então agir com energia, a fim de conquistar e manter o poder. (p. 338) Fortuna Significa “ocasião”, “acaso”, “sorte”: Para agir bem, o príncipe não deve deixar escapar a ocasião oportuna. De nada adiantaria ser virtuoso, se o príncipe não soubesse ser ousado, mas precavido para aguardar a ocasião propícia, aproveitando o acaso ou a sorte das circunstâncias, como observador atento do curso da história. 16/11/2021 9Thomas Hobbes -1588-1679 Ética hobbesiana Thomas Hobbes O ser humano em seu estado natural, objetivando a sua preservação, é individualista, egoísta e violento. Não poderá haver paz e segurança enquanto perdurar o estado natural. No estado natural não há espaço para o bem e o mal objetivos e, portanto, para os valores morais. Com efeito, o bem é aquilo para o qual tendemos e o mal aquilo do qual fugimos; mas como alguns homens desejam algumas coisas e outros desejam outras, e como alguns fogem de algumas coisas e outros não, daí decorre que bem e mal é algo relativo - relativo à pessoa, ao local, ao tempo e às circunstâncias. 16/11/2021 10 Ética hobbesiana Não havendo valores absolutos, como é possível construir uma moral e uma vida social? Como é possível a convivência dos homens em sociedade? O De Cive e o Leviatã Não havendo valores absolutos não existe uma justiça e uma injustiça naturais. Desse modo, os valores são frutos de convenções estabelecidas pelos próprios homens. Desse modo, o egoísmo e o convencionalismo são pontos-chaves para nova ética e política. Liberdade e Igualdade → iguais para todos os seres humanos. 16/11/2021 11 Ética hobbesiana “... na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória”. 16/11/2021 12 Ética hobbesiana Como proceder para assegurar a paz? O próprio homem reconhece a necessidade de renunciar o direito natural, especialmente para garantir sua defesa. Isso será possível somente por meio de um Pacto. Em meio a relatividade de todos os bens encontramos um bem primeiro e originário: a vida e sua conservação. O primeiro mal a evitar é a morte. Homens – existem contendas, ódios, invejas, insurreições, motins, revoltas ≠ Animais – apetite comum (não percebem o defeito de sua sociedade = abelhas). 16/11/2021 13 Ética hobbesiana Não havendo limites impostos pela natureza, nasce, assim, a predominância de uns sobre os outros = homo homini lupus. Em decorrência disso, o Estado não é natural, mas artificial. Leviatã = 19 regras fundamentais para a vida social: 1ª regra: ordena que o homem se esforce por buscar a paz; 2ª regra: impõe que se renuncie ao direito sobre tudo; 3ª regra: que se cumpram os acordos feitos, etc. Em si mesmas as leis não bastam para constituir a sociedade. É preciso um poder que obrigue os homens a respeitá-las. Portanto, é preciso que todos os homens transfiram a um único homem (ou a uma assembleia) o poder de os governar. 16/11/2021 14 Ética hobbesiana Esse pacto não é firmado pelos súditos com o soberano, mas, sim, pelos próprios súditos. O soberano fica fora do pacto, permanecendo como único a manter todos os direitos originários. O poder do soberano é indivisível e absoluto. 16/11/2021 15 16/11/2021 16 HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de uma República Eclesiástica e Civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 108. 16/11/2021 17 Grotius - 1583-1645 Ética Moderna Para a convivência humana, os homens têm como fundamentos a razão e a natureza, que coincidem entre si. Por isso, o “direito natural” traz em sua raiz um fundamento racional e natural, ou seja, traz a marca da estabilidade e da imutabilidade: os princípios do direito natural seriam válidos mesmo que se quisesse supor que Deus não existisse, pois o que é perfeito não muda. 16/11/2021 18 Ética Moderna Tem-se assim, a passagem para o jusnaturalismo – doutrina segundo a qual há uma lei inata a todo homem (direito natural), reconhecendo em cada indivíduo a existência de direitos naturais. Este direito é anterior e superior ao direito positivo (humano) e, em caso de conflito, é ele que deve prevalecer. 16/11/2021 19 Ética Moderna O jusnaturalismo do séc XVII e XVIII reconheceu em cada indivíduo a existência de direitos naturais, o que moldou doutrinas políticas e éticas de tendência individualista e liberais. Em conformidade com o jusnaturalismo, a autoridade política deve respeitar os direitos inatos do indivíduo, e o próprio Estado deve ser concebido como uma livre criação dos indivíduos, em busca da defesa dos seus direitos individuais. 16/11/2021 20 Ética Moderna Séc XIX – enfraquecimento do jusnaturalismo (caiu em descrédito). Nasce a ideia racional e liberal de leis e normas, que se harmonizava com as tendências iluministas. Emerge o juspositivismo como tentativa de superar os problemas da metafísica do jusnaturalismo. Passa a ter valor somente as orientações e construções da razão humana. 16/11/2021 21 Ética Moderna Contudo, o jusnaturalismo ainda marca: 1. A Declaração da Independência dos Estados Unidos da América; 2. A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (Rev. Francesa); 3. A Declaração Universal dos Direitos Humanos. 16/11/2021 22 Ética Moderna: a razão em busca de liberdade Com todas as revoluções e mudança políticas do período entre os séculos XVI a XVIII, disseminou-se a ideia de que a razão, a ciência e a tecnologia tinham condições de impulsionar o trem da história, numa marcha contínua em direção a verdade e ao progresso humano. Todo esse pensamento, culminou no desenvolvimento do movimento cultural denominado Iluminismo (Ilustração ou Filosofia das Luzes). Montesquieu (1689-1755) Formula a separação do Estado em três poderes: Executivo, Legislativo e judiciário, como forma de evitar abusos dos governantes e de proteger as liberdades individuais. Voltaire (1694-1778) Destacou-se pelas críticas que fez ao clero e a prepotência dospoderosos. Mas concordava com a necessidade social de haver crença em Deus. Defendeu a monarquia, mas em seu ponto de vista (como respeitosa das liberdades individuais), governada por um soberano esclarecido. Diderot ( 1713-1784) D’Alembert (1717-1783) Foram os organizadores de uma enciclopédia (ficaram conhecidos como os enciclopedistas). Influenciaram muito o pensamento burguês, defendendo em linhas gerais, o racionalismo, a independência do Estado em relação a igreja e a confiança no progresso humano. D’Alembert Diderot Rousseau (1712-1778) Defende a ideia de que o soberano do Estado deve seguir a vontade geral de seu povo, sempre tendo em vista o atendimento do Bem Comum. Ele glorificava os valores da vida natural e atacava a corrupção da sociedade civilizada. Defendeu a ideia do Estado de Natureza e o Bom Selvagem. Adam Smith (1723-1790) Principal representante do liberalismo econômico. Para ele a economia deveria ser regida pelo jogo livre da oferta e da procura de mercado. O mercado se auto- regularia, dando conta das necessidades sociais, desde que deixado em paz consigo mesmo. Rogério Jolins Martins PUC MINAS O “projeto iluminista” transformou o homem em senhor do Universo e instrumentalizou a razão humana a serviço do progresso infinito, a qualquer preço. - Aufklarung - 16/11/2021 2 Kant: “... Só podemos conhecer o pensamento ou a consciência que temos das coisas”. A condição última do processo de conhecer é a existência do EU como princípio de consciência, ou seja, é a existência do sujeito como centro (o EU) que torna possível e da forma ao conhecimento: razão + percepções. 16/11/2021 3 Idealismo: Johann Fichte - tomou o “EU” de Kant e o transformou em princípio criador de toda a realidade. Desse modo, a realidade objetiva não passa de um produto do espírito humano. Fichte chegou a referir-se às coisas da realidade, ao que é exterior ao homem, como o não-Eu criado pelo Eu. F. Schelling – discorda de Fichte. Afirma que existe um único princípio exterior ao EU, ou uma Inteligência/Espírito que rege todas as coisas. Essa Inteligência se manifesta de forma visível em todos os níveis da natureza até alcançar o seu nível mais alto: o homem ou a razão. 16/11/2021 4 A razão humana e a busca por critérios normativos. Razão instrumental = operacionalização das ideias iluministas 16/11/2021 6 O otimismo da ciência moderna gerou a certeza do progresso do conhecimento ilimitado, e a capacidade humana de organizar a sociedade humana pela razão. Pilares socioculturais: progresso de industrialização; desenvolvimento científico; desenvolvimento tecnológico. 16/11/2021 7 Hegel - 1770-1831 G. Hegel – Necessidade de entender a Realidade como Espírito. Entender a Realidade como Espírito é entendê-la não apenas enquanto Substância, mas também como Sujeito, isto é, a Realidade como processo, movimento (e não somente como coisa). A Realidade, enquanto Espírito, possui vida própria, um movimento dialético – que se dá por embates e superação de contradições (momentos sucessivos/contraditórios). 16/11/2021 9 “Tudo que é real é racional e tudo o que racional é real” O Movimento do Real, ou do Espírito se dá em três momentos: 1º) “ser-em-si”; 2º) “ser-fora-de-si”; 3º) “ser-para-si” = tese → anti-tese → síntese. Ex: Planta. Compreender a realidade da Razão exige um trabalho árduo da Razão, que deve se afastar do entendimento comum e se colocar no ponto de vista do Absoluto, ou seja, a consciência que alcança o saber absoluto atinge a Razão. A absoluta superioridade do Espírito se explica por três momentos: 16/11/2021 11 Espírito Subjetivo – se refere ao indivíduo e à consciência individual; Espírito Objetivo – se refere às instituições e aos costumes historicamente produzidos pelos homens; Espírito Absoluto – se manifesta na arte, na religião e na filosofia. A História é o desdobramento do Espírito Objetivo. O Espírito Objetivo é a realização da Liberdade na Sociedade, e se manifesta no Direito, na Moral e na Ética. 16/11/2021 12 O Espírito Subjetivo, por sua vez, se realiza na Família, na Sociedade Civil e no Estado. O Estado político é o momento mais elevado do Espírito Objetivo, de forma que o indivíduo só existe enquanto membro do Estado. Ao formalismo vazio kantiano do dever pelo dever, Hegel, passou a dar conteúdo concreto. Reconhecer que o bem a que o “dever” visa está nas instituições reais que normatizam os comportamentos individuais e institucionais: a família, a sociedade civil e o Estado. A família – é a síntese dos interesses contraditórios entre seus membros; A sociedade civil – é a síntese que supera as divergências entre as diversas famílias. É a esfera intermediária entre a família e o Estado; O Estado – representa a unidade final, a síntese mais perfeita que supera as contradições existentes entre os vários interesses privados. É a esfera dos interesses públicos e universais, pois cada um tem a clara consciência de agir em busca do bem coletivo. Hegel foi considerado por muitos como um teórico do absolutismo cujas ideias serviram para justificar o totalitarismo no século XX. Sistema hegeliano: Ética: A ética hegeliana parece ser uma forma de ética deontológica na qual os deveres assumem forma objetiva na existência das instituições éticas. L. Fueuerbach – qualificou o pensamento hegeliano como “especulação vazia”, que não trata do ser real, das coisas reais e dos homens concretos. Propôs que a filosofia deveria partir do concreto, do ser humano considerado como ser natural e social – perspectiva considerada materialista. Influência sobre Marx. Marx – 1818 -1883 Marx tem como pressuposto que o homem é essencialmente um ser histórico e social, marcado pela produção de sua existência na sociedade. O homem não pode ser entendido de forma abstrata e isolada. Escreve: “nós conhecemos somente uma única ciência: a ciência da história”. Contrapõe-se às ideias liberais em que a propriedade privada é considerada um direito natural e moralmente legítimo - fundada na liberdade. 16/11/2021 18 Para Marx, o jeito humano de pensar é determinado pelas relações sociais de produção = materialismo dialético. O materialismo marxista se opõe ao idealismo de Hegel que considera que são as ideias que movem o mundo (considerado utópico). Na condição de seres sociais, somos decorrência da práxis, da ação, dos conflitos históricos. Por serem históricas, a sociedade, a religião, a política, a linguagem, etc. não são naturalmente dadas. Ao contrário, nascem e dependem da ação concreta dos seres humanos situados no tempo. 16/11/2021 19 A sociedade é comparada com um edifício com suas estruturas políticas, religiosas, jurídicas, econômicas, instituições nas quais as relações sociais, as ideias e os costumes estão inteiramente interligadas às forças produtivas, sendo estas as determinantes. 16/11/2021 20 Partindo do pressuposto de que as ações humanas se desenvolvem mediante o conflito de classes, temos que a história não é retilínea, um progresso linear, uma sequencia determinada de causa e efeitos, mas dialética. Assim, a história é processual, marcada por transformações sociais determinadas pelas contradições entre os meios de produção e as forças produtivas. “O Manifesto Comunista”: “A história de toda sociedade passada é a história da luta de classes”. 16/11/2021 21 O Materialismo dialético (Capitalismo) é resultante de um processo de exploração do patrão x operário. Mais-valia o fundamento deste sistema. EX: um trabalhador precisa apenas de 4 horas por dia para produzir bens no valor do seu salário mensal. O lucro obtido com o seu trabalho nas horas restantes vai para o seu patrão = mais- valia. Alienação vem de alienare (latim), e significa tornar-se alheio a si mesmo, estranho a si, pertencente a um outro. A alienação acontece na medida em que um objeto é alheio ao sujeito criador. Dessa forma, o operário se nega (é negado) no objeto criado. É o processo de objetificação,coisificação. Milton Santos: necessidade de promover a negação da negação. Ora, se a negação é alienação, a negação da negação é a desalienação, a libertação = Revolução? 16/11/2021 23 Ideias Ideias ↓ ↑ HEGEL MARX ↓ ↑ Realidade Realidade Utilitarismo J. Bentham 1748-1832 e J. Stuart Mill 1806-1873. Ingleses Discussões sobre a: Necessidade de Reforma social, entre os liberais; e Necessidade de Revolução entre os socialistas. Neste contexto: “teoria utilitarista”, visando estender os benefícios a todas as pessoas com o menor custo. De modo geral, trata-se de uma “teoria teleológica”, que visou dar centralidade ao princípio da utilidade, cujo objetivo “maximizar maior felicidade para o maior número de pessoas possível” por meio da razão e da lei, livrando-se dos prejuízos e das superstições do passado – naturalismo e metafísica. Bentham na busca por um instrumento de renovação social, abandonou a teoria do direito natural sustentada pelos filósofos contratualistas anteriores. Desenvolveu as ideias utilitaristas que, cujo princípio básico, afirmava a Utilidade como critério para orientar o legislador a criar leis e promover a felicidade para o maior número de cidadãos. Para a teoria utilitarista, a verdade depende dos resultados práticos alcançados pela ação. Consequência prática: tal “corrente ética” propõe, primeiro, um fim a ser seguido e, depois, julga certas ou erradas as ações em relação à capacidade delas perseguirem ou não esse fim – consequencialismo. Desse modo, uma proposição é verdadeira quando “funciona”, isto é, permite que nos orientemos por ela. Instrumento: “O Panóptico” 16/11/2021 31 Panoptico: Capacitar para a indústria; Princípio x Arquitetura. Bentham define a utilidade como: “a propriedade de todo objeto por meio da qual ele tende a produzir benefício, vantagem, prazer, bem ou felicidade (neste contexto todas se equivalem) ou evitar que se verifique aquela perda, dor, mal ou infelicidade (de novo, todas as coisas se equivalem) para aquela parte cujo interesse se toma em consideração: se aquela parte é a comunidade em geral, então o interesse da comunidade, se é indivíduo em particular, então o interesse daquele indivíduo”. BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. 16/11/2021 33 Para Bentham o utilitarismo representa a melhor teoria do agir moral pois está fundada em características simples, e de fácil compreensão e aplicabilidade de suas regras. A escolha moral como um problema se reduz a um cálculo não mais complicado como os fatores metafísicos e teológicos. Uma ética utilitarista é entendida como “arte de dirigir as ações dos homens para a produção da maior quantidade possível de felicidade para aqueles cujo interesse se tem na mira”. As características principais da ação humana (intencionalidade, motivação, disposição, etc.) são examinadas detalhadamente por cálculo: Maior Felicidade = Maior Bem-estar. 16/11/2021 34 Utilitarismo: Uma forma de naturalismo hedonista, segundo o qual a natureza pôs o homem sob o domínio de dois supremos senhores: a dor e o prazer. São eles que nos indicam o que deveremos fazer e determinam o que faremos e de nada serve tentar subtrair esse jogo. Critério normativo: cálculo – para calcular a moralidade de condutas alternativas basta observar as consequências em termos de prazer e de dor e escolher a ação com maior saldo líquido de prazer. Trata-se de um cálculo quantitativo de felicidade. 16/11/2021 35 Exemplo de raciocino utilitarista: “é lícito ou não matar um hóspede que dorme em sua casa para apoderar de seu dinheiro?”. Conclusão lógica: tudo passa por um balanço da utilidade ou do prejuízo. Outro exemplo: Consideração moral dos limites: “Um cavalo ou um cão adulto são animais incomparavelmente mais racionais, e mais sociáveis, que um neonato de um dia ou de uma semana, ou até de um mês”. 16/11/2021 36 Princípio básico do utilitarismo: O bem: maior bem-estar físico, moral, etc. 16/11/2021 37 As Consequências: Não se interessa pelos agentes morais, mas pelas ações/cálculo. Ao não interessar pelas qualidades do “agente”: generoso, perverso, etc., o utilitarismo apresenta um método que pode ser moral ou imoral, a depender se suas consequências. “O fim justifica os meios” Corporação: Leva-se em conta o maior benefício dos indivíduos afetados numa ação. O que conta é a quantidade global de bem-estar produzida. Com efeito, considera-se moral sacrificar uma minoria a fim de aumentar o bem-estar geral. PUC MINAS Ética: Immanuel Kant Rogério Jolins Martins Ética kantiana Conhecimento Moral 16/11/2021 2 Ética kantiana Kant (1724-1804) – Konigsberg/Alemanha Kant manifesta todo seu otimismo acerca das possibilidades do homem, através de sua razão, passar a construir o próprio destino, guiando a própria vida com autonomia, superando a velha dependência em relação às crenças, opiniões e decisões alheias. 16/11/2021 3 Ética kantiana “Tribunal da Razão”: Racionalismo X Empirismo. Tais disputas só serão superadas se forem submetidas ao Juízo. 1) Conhecimento: o que podemos conhecer? No âmbito do conhecimento Kant atribuiu ao sujeito um papel determinante no ato de conhecer. O ato de conhecer já não mais se concebe como uma adequação do sujeito a uma realidade exterior; mas, ao contrário, de uma construção mental do próprio sujeito. 16/11/2021 4 Ética kantiana Como conciliar experiência e razão? O nosso conhecimento provém da experiência, mas estes nos chega de forma desordenada, fragmentada. Existem em nós, a priori, isto é, antes de qualquer experiência, algumas formas de nossa sensibilidade que nos ajudam a organizar o que vem desorganizado da experiência. Que formas são essas? São as formas tempo e espaço, que existem em nós, a priori, que nos possibilitam organizar as impressões que nos veem dos sentidos. 16/11/2021 5 Ética kantiana Kant distingue o mundo dos fenômenos (realidade de nossa experiência) do mundo noumenon (realidade em si), o que podemos pensar, mas não conhecer, pois o que conhecemos não é o real, “a coisa em si”, mas sempre o real em relação com o sujeito do conhecimento. Ex: “A intuição sem conceitos é cega, os conceitos sem intuição são vazios”. Kant. Analítica transcendental. 16/11/2021 6 Ética kantiana Sobre as possibilidades e os limites da razão humana, Kant concluiu que é impossível conhecer as coisas tais como elas são em si mesmas, em sua essência (noumenon), mas apenas podemos conhecer a forma como a nós aparecem (fenômeno/aparência). As realidades metafísicas (ex. imortalidade da alma, existência de Deus), nada se pode afirmar. É o limite da razão. 16/11/2021 7 Ética kantiana A originalidade de Kant está em afirmar que o conhecimento não é reflexo do objeto exterior, mas é construído pelo espírito humano. Assim, conhecer não é adequar-se a algo que exista fora, no exterior; ao contrário, conhecer é construir significado. 16/11/2021 8 Ética kantiana 2) Moral: como devo agir? Analisa o problema da ação humana, que envolve problemas morais e jurídicos (âmbito da filosofia prática). Razão, Liberdade, Dever 16/11/2021 9 Ética kantiana Liberdade: valor mais importante. Como garantir e realizar a liberdade? Para garantir a liberdade, o homem livremente cria leis. Essas leis, por provirem da liberdade e serem universalizáveis, são expressão da moralidade. Assim, quando o homem obedece às leis morais, ele obedece a si próprio. Portanto, apesar de agir por dever, o homem é livre, pois deve seguir a lei que ele próprio criou. Assim, liberdade e dever, que pareciam contraditórios, são, em verdade, expressão de uma mesma realidade. 16/11/2021 10 Ética kantiana Kant aponta a razão humana como razão legisladora, capaz de elaborar normas universais, uma vez que a razão é um predicado universal dos homens.Kant tem como pressuposto que todos nós nascemos com o dom natural de distinguir o certo do errado. Assim, há em todo ser humano uma lei moral e inata orientando a ação de todos os homens. Esta lei moral consiste em princípios práticos e em princípios imperativos: 16/11/2021 11 Ética kantiana Princípios práticos: regras subjetivas que determinam sobre questões particulares. Ex: respeitar leis, pagar salário justo, etc. Princípios imperativos: são regras objetivas que estendem a todos os seres humanos, e são de duas ordens: a) Hipotéticos/condicionais – valem desde que se realizem em certas condições: “se queres ser engenheiro, deves começar estudas engenharia”. b) Categóricos/absolutos – visam determinar a vontade geral em cumprir a lei moral, cumprir o dever pelo dever. 16/11/2021 12 Ética kantiana Imperativos Categóricos: a) “Age de tal modo que a máxima de tua vontade seja sempre válida, ao mesmo tempo, como princípio de lei universal”; b) “Age de tal modo que consideres a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de todos os outros, sempre como um fim e nunca como um meio”. 16/11/2021 13 Ética kantiana Para Kant, se nossa ação não puder ser universalizada, a mesma não será moralmente correta e só poderá ser realizada como exceção, nunca como regra. E por que realizamos atos contrários ao dever e, portanto, contrários à razão? Kant dirá que é porque nossa vontade é também afetada pelas inclinações, que são os desejos, as paixões, os medos, e não apenas pela razão. Por isso, ele afirma que devemos educar a vontade para alcançar a boa vontade, que seria a vontade guiada unicamente pela razão. 16/11/2021 14 Ética kantiana A lei moral é uma regra objetiva universalmente válida que determina a priori o querer. Para Kant, só pode ser considerado um ato moral aquele ato praticado de forma autônoma, consciente, e por dever. Com isso, ele acentua o reconhecimento do dever como uma expressão da racionalidade humana, única fonte legítima da moralidade. 16/11/2021 15 Ética kantiana Projeto: “sapere aude! Em seu texto “O que é a ilustração”, bem traduz o tema do Iluminismo: “tenha a coragem e ousadia de usar o próprio entendimento”. Kant, a cultura Ocidental ainda traz as marcas da infância da humanidade, na medida em que as orientações para a ação não provêm da razão e da consciência pessoal autônoma. A menoridade humana está ligada à religião que impede a formação do homem autêntico, livre e autônomo. 16/11/2021 16 16/11/2021 17I. Kant i i i i i i i i www.lusosofia.net Resposta à pergunta: “O que é o Iluminismo?” I. KANT Tradutor: Artur Morão 1 i i i i i i i i i i i i i i i i Apresentação O opúsculo de I. Kant Resposta à pergunta: Que é o iluminismo? (1784) é, como se sabe, um texto clássico. Por razões várias. - É um dos manifestos mais ‘interessantes’ da Ilustração europeia. Como tal, figura não só como um dos mais contundentes apelos ao exercício autó- nomo da razão, à liberdade de pensamento, mas constitui ainda uma expressão sintomática de um momento fundamental na estruturação da consciência mo- derna, com o seu afâ de novidade, de expansão e conquista do mundo e da natureza, de destruição da ordem estática das sociedades, mas também com o seu desprezo da tradição, com a vertigem do solipsismo. - É, por outro lado, um texto-alvo no recente debate sobre o projecto da modernidade e a reacção pós-moderna (assim na obra de M. Foucault e de J. Habermas, entre outros). - Propõe ainda, de certo modo, um ideal imperativo e inatingível – pre- cisamente a consecução da genuína e plena ilustração intelectual – e disso Kant parece dar-se conta no final do ensaio, embora permaneça, contra o que promove, enredado nos preconceitos da sua época, a saber, uma versão algo abstracta da razão arrancada ao húmus da história, encarada sem os nexos re- lacionais que ligam os seres humanos no seu destino; a inatenção ao papel quase transcendental da linguagem na estruturação do pensamento; a falta de consideração do vínculo entre razão e autoridade (nas suas múltiplas formas), além da pedante convicção de que as idades anteriores aos tempos modernos mergulhavam na ‘menoridade culpada’. Estas observações, e muitas outras que se poderiam aduzir, não serão um obstáculo para apreciar a luminosidade deste opúsculo, merecidamente fa- moso; mesmo apesar dos seus limites, encerra ainda uma exigência moral de auto-iluminação, que nunca é bastante. Artur Morão i i i i i i i i i i i i i i i i [A481] Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?” (1784) (3 Dez., 1783, p. 516)∗ I. KANT lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a cora- gem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo. A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter mai- orennes),[482] continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um mé- dico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; ou- tros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido ∗A indicação da página da “Berlinische Monatsschrift” refere-se à seguinte nota na frase: “Será aconselhável ratificar posteriormente o vínculo conjugal por meio da religião?” do Sr. Preg. Zöllner: “Que é o Iluminismo?” Esta pergunta, quase tão importante como esta “Que é a Verdade?”, deveria receber uma resposta antes de se começar a esclarecer! E, no entanto, em nenhum lugar a vi ainda respondida”. i i i i i i i i 2 I. KANT os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pa- cíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozi- nhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores. É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou [483] quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora re- almente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habitu- ado ao movimento livre. São, pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro. Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sem- pre haverá, de facto, alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabe- lecidos da grande massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem para pensar por si mesmo. Importante aqui é que o público, antes por eles sujeito a este jugo, os obriga doravante a permanecer sob elequando por alguns dos seus tutores, pessoalmente incapazes de qual- quer ilustração, é a isso [484] incitado. Semear preconceitos é muito danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, ou os seus predecessores, foram os seus autores. Por conseguinte, um público só muito lentamente con- segue chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento. Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. Agora, porém, de todos os lados ouço gritar: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines, www.lusosofia.net i i i i i i i i Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?” 3 mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita! (Apenas um único senhor no mundo diz: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes, mas obedecei!) Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade. Mas qual é a restrição que se opõe ao Iluminismo? Qual a restrição que o não impede, antes o fomenta? Respondo: o uso público da própria razão deve sempre ser livre e só ele pode, entre os homens, levar a cabo a ilustração [485]; mas o uso privado da razão pode, muitas vezes, coarctar-se fortemente sem que, no entanto, se entrave as- sim notavelmente o progresso da ilustração. Por uso público da própria razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado. Chamo uso privado àquele que alguém pode fa- zer da sua razão num certo cargo público ou função a ele confiado. Ora, em muitos assuntos que têm a ver com o interesse da comunidade, é necessário um certo mecanismo em virtude do qual alguns membros da comunidade se comportarão de um modo puramente passivo com o propósito de, mediante uma unanimidade artificial, serem orientados pelo governo para fins públicos ou de, pelo menos, serem impedidos de destruir tais fins. Neste caso, não é decerto permitido raciocinar, mas tem de se obedecer. Na medida, porém, em que esta parte da máquina se considera também como elemento de uma comunidade total, e até da sociedade civil mundial, portanto, na qualidade de um erudito que se dirige por escrito a um público em entendimento genuíno, pode certamente raciocinar sem que assim sofram qualquer dano os negó- cios a que, em parte, como membro passivo, se encontra sujeito. Seria, pois, muito pernicioso se um oficial, a quem o seu superior ordenou algo, quisesse em serviço sofismar em voz alta [486] acerca da inconveniência ou utilidade dessa ordem; tem de obedecer, mas não se lhe pode impedir de um modo justo, enquanto perito, fazer observações sobre os erros do serviço militar e expô-las ao seu público para que as julgue. O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos; e uma censura impertinente de tais obrigações, se por ele devem ser cumpridas, pode mesmo punir-se como um escândalo (que poderia causar uma insubordinação geral). Mas, apesar disso, não age contra o dever de um cidadão se, como erudito, ele expuser as suas ideias contra a inconveniência ou também a injustiça de tais prescrições. Do mesmo modo, um clérigo está obrigado a ensinar os instruendos de catecismo e a sua comunidade em conformidade com o símbolo da Igreja, a cujo ser- viço se encontra, pois ele foi admitido com esta condição. Mas, como erudito, www.lusosofia.net i i i i i i i i 4 I. KANT tem plena liberdade e até a missão de participar ao público todos os seus pen- samentos cuidadosamente examinados e bem-intencionados sobre o que de erróneo há naquele símbolo, e as propostas para uma melhor regulamentação das matérias que respeitam à religião e à Igreja. Nada aqui existe que possa constituir um peso na consciência. Com efeito, o que ele ensina em virtude da sua função, como ministro da Igreja, expõe-no como algo em relação [487] ao qual não tem o livre poder de ensinar segundo a sua opinião própria, mas está obrigado a expor segundo a prescrição e em nome de outrem. Dirá: a nossa Igreja ensina isto ou aquilo; são estes os argumentos comprovativos de que ela se serve. Em seguida, ele extrai toda a utilidade prática para a sua co- munidade de preceitos que ele próprio não subscreveria com plena convicção, mas a cuja exposição se pode, no entanto, comprometer, porque não é de todo impossível que neles resida alguma verdade oculta. De qualquer modo, po- rém, não deve neles haver coisa alguma que se oponha à religião interior, pois se julgasse encontrar aí semelhante contradição, então não poderia em cons- ciência desempenhar o seu ministério; teria de renunciar. Por conseguinte, o uso que um professor contratado faz da sua razão perante a sua comunidade é apenas um uso privado, porque ela, por maior que seja, é sempre apenas uma assembleia doméstica; e no tocante a tal uso, ele como sacerdote não é livre e também o não pode ser, porque exerce uma incumbência alheia. Em con- trapartida, como erudito que, mediante escritos, fala a um público genuíno, a saber, ao mundo, por conseguinte, o clérigo, no uso público da sua razão, goza de uma liberdade ilimitada de se servir da própria razão e de falar em seu nome próprio. É, de facto, um absurdo, que leva à perpetuação dos absurdos, que os tutores do povo [488] (em coisas espirituais) tenham de ser, por sua vez, menores. Mas não deveria uma sociedade de clérigos, por exemplo, uma assembleia eclesiástica ou uma venerável classis (como a si mesma se denomina entre os Holandeses) estar autorizada sob juramento a comprometer-se entre si com um certo símbolo imutável para assim se instituir uma interminável supertu- tela sobre cada um dos seus membros e, por meio deles, sobre o povo, e deste modo a eternizar? Digo: isso é de todo impossível. Semelhante contrato, que decidiria excluir para sempre toda a ulterior ilustração do género humano, é absolutamente nulo e sem validade, mesmo que fosse confirmado pela auto- ridade suprema por parlamentos e pelos mais solenes tratados de paz. Uma época não se pode coligar e conjurar para colocar a seguinte num estado em www.lusosofia.net i i i i i i i i Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?” 5 que se tornará impossível a ampliação dos seus conhecimentos (sobretudo os mais urgentes), a purificação dos erros e, em geral, o avanço progressivo na ilustração. Isso seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste justamente neste avanço. E os vindouros têm toda a legiti- midade para recusar essas resoluções decretadas de um modo incompetente e criminoso. A pedra de toque [489] de tudo o que se pode decretar como lei sobre um povo reside na pergunta: poderia um povo impor a si próprio essa lei? Seria decerto possível, na expectativa, por assim dizer, de uma lei melhor, por um determinado e curto prazo, para introduzir uma certa ordem. Ao mesmo tempo, facultar-se-ia a cada cidadão, em especial ao clérigo, na qualidade de erudito, fazer publicamente, isto é, por escritos, as suas observa- ções sobre o que há de erróneo nas instituições anteriores; entretanto, a ordem introduzida continuaria em vigência até que o discernimento da natureza de tais coisas se tivesse de tal modo difundido e testado publicamente que os ci- dadãos, unindo as suas vozes (embora não todas), poderiam apresentar a sua proposta diante do trono a fim de protegerem as comunidades que, de acordo com o seu conceito do melhor discernimento, se teriam coadunado numa or- ganização religiosa modificada, sem todavia impedir os que quisessem ater-se à antiga. Mas é de todo interdito coadunar-se numa constituição religiosa per- tinaz, por ninguém posta publicamente em dúvida, mesmo só durante o tempo de vida de um homem e destemodo aniquilar, por assim dizer, um período de tempo no progresso da humanidade para o melhor e torná-lo infecundo e pre- judicial para a posteridade. Um homem, para a sua pessoa, [490] e mesmo então só por algum tempo, pode, no que lhe incumbe saber, adiar a ilustração; mas renunciar a ela, quer seja para si, quer ainda mais para a descendência, significa lesar e calcar aos pés o sagrado direito da humanidade. O que não é lícito a um povo decidir em relação a si mesmo menos o pode ainda um monarca decidir sobre o povo, pois a sua autoridade legislativa assenta pre- cisamente no facto de na sua vontade unificar a vontade conjunta do povo. Quando ele vê que toda a melhoria verdadeira ou presumida coincide com a ordem civil, pode então permitir que em tudo o mais os seus súbditos façam por si mesmos o que julguem necessário fazer para a salvação da sua alma. Não é isso que lhe importa, mas compete-lhe obstar a que alguém impeça à força outrem de trabalhar segundo toda a sua capacidade na determinação e fomento da mesma. Constitui até um dano para a sua majestade imiscuir-se em tais assuntos,ao honrar com a inspecção do seu governo os escritos em que www.lusosofia.net i i i i i i i i 6 I. KANT os seus súbditos procuram clarificar as suas ideias, quer quando ele faz isso a partir do seu discernimento superior, pelo que se sujeita à censura ‘Caesar non est supra grammaticos’ 1 quer também, e ainda mais, quando rebaixa o seu poder supremo a ponto de, no seu Estado, apoiar o despotismo espiritual de alguns tiranos [491] contra os demais súbditos. Se, pois, se fizer a pergunta – Vivemos nós agora numa época esclarecida? – a resposta é: não. Mas vivemos numa época do Iluminismo. Falta ainda muito para que os homens tomados em conjunto, da maneira como as coisas agora estão, se encontrem já numa situação ou nela se possam apenas vir a pôr de, em matéria de religião, se servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento, sem a orientação de outrem. Temos apenas claros indícios de que se lhes abre agora o campo em que podem actuar livremente, e diminuem pouco a pouco os obstáculos à ilustração geral ou à saída dos homens da menoridade de que são culpados. Assim considerada, esta época é a época do Iluminismo, ou o século de Frederico. Um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena li- berdade, que, por conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efec- tivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela poste- ridade como aquele que, pela primeira vez, libertou o género humano da me- noridade, pelo menos por parte do governo, e concedeu a cada qual a liberdade de se [492] servir da própria razão em tudo o que é assunto da consciência. Sob o seu auspício, clérigos veneráveis podem, sem prejuízo do seu dever mi- nisterial e na qualidade de eruditos, expor livre e publicamente ao mundo para que este examine os seus juízos e as suas ideias que, aqui ou além, se afastam do símbolo admitido; mas, mais permitido é ainda a quem não está limitado por nenhum dever de ofício. Este espírito de liberdade difunde-se também no exterior, mesmo onde entra em conflito com obstáculos externos de um go- verno que a si mesmo se compreende mal. Com efeito, perante tal governo brilha um exemplo de que, no seio da liberdade, não há o mínimo a recear pela ordem pública e pela unidade da comunidade. Os homens libertam-se pouco a pouco da brutalidade, quando de nenhum modo se procura, de propósito, conservá-los nela. 1“César não está acima dos gramáticos.” www.lusosofia.net i i i i i i i i Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?” 7 Apresentei o ponto central do Iluminismo, a saída do homem da sua me- noridade culpada, sobretudo nas coisas de religião, porque em relação às artes e às ciências os nossos governantes não têm interesse algum em exercer a tu- tela sobre os seus súbditos; por outro lado, a tutela religiosa, além de ser mais prejudicial, é também a mais desonrosa de todas. Mas o modo de pensar de um chefe de Estado, que favorece a primeira, vai ainda mais além e discerne que mesmo no tocante à sua legislação [493] não há perigo em permitir aos seus súbditos fazer uso público da sua própria razão e expor publicamente ao mundo as suas ideias sobre a sua melhor formulação, inclusive por meio de uma ousada crítica da legislação que já existe; um exemplo brilhante que temos é que nenhum monarca superou aquele que admiramos. Mas também só aquele que, já esclarecido, não receia as sombras e que, ao mesmo tempo, dispõe de um exército bem disciplinado e numeroso para garantir a ordem pública – pode dizer o que a um Estado livre não é permi- tido ousar: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes; mas obedecei! Revela-se aqui um estranho e não esperado curso das coisas hu- manas; como, aliás, quando ele se considera em conjunto, quase tudo nele é paradoxal. Um grau maior da liberdade civil afigura-se vantajosa para a liber- dade do espírito do povo e, no entanto, estabelece-lhe limites intransponíveis; um grau menor cria-lhe, pelo contrário, o espaço para ela se alargar segundo toda a sua capacidade. Se a natureza, sob este duro invólucro, desenvolveu o germe de que delicadamente cuida, a saber, a tendência e a vocação para o pensamento livre, então ela actua também gradualmente sobre o modo do sentir do povo (pelo que este se tornará cada vez mais [494] capaz de agir segundo a liberdade) e, por fim, até mesmo sobre os princípios do governo que acha salutar para si próprio tratar o homem, que agora é mais do que uma máquina, segundo a sua dignidade2 Königsberg na Prússia, 30 de Setembro de 1784. I. Kant 2Na publicação semanal Notícias de Büsching de 13 de Setembro, leio hoje, dia 30 do mesmo mês, o anúncio da “Berlinische Monatsschrift” deste mês, onde se inseriu a resposta do senhor Mendelssohn à mesma pergunta. Esta ainda não me chegou às mãos; de outro modo, teria retido a presente resposta que, agora, apenas se pode encontrar aqui como tentativa de mostrar até que ponto o acaso originou uma coincidência dos pensamentos. www.lusosofia.net i i i i i i i i 8 I. KANT [Nota do Tradutor] O número entre parêntesis recto indica a página da edição alemã. O texto original pode encontrar-se nos electro-sítios seguintes: – http://www2.fh-augsburg.de/ Harsch/germanica/Chronologie/18Jh/Kant/kan_aufk.html – http://gutenberg.spiegel.de/?id=5&xid=1366&kapitel=1 – http://wings.buffalo.edu/litgloss/kant/text.shtml www.lusosofia.net Empirismo As principais vertentes do pensamento modernos Empirismo: a origem do conhecimento está na experiência sensível. Racionalismo: Além do conhecimento pela experiência, há principalmente o conhecimento pela razão. A filosofia cartesiana comprovou a importância da racionalidade humana, mas não se desligou da experiência – haja visto o método cartesiano. Empirismo: A experiência Sensível é fundamental A conhecimento, com a filosofia moderna, passou a ser desenvolvido com bases no questionamento dos critérios e métodos, em busca de um conhecimento verdadeiro. O empirismo como base de prova A evolução na forma de conceber o conhecimento, tempo, e a soma de fatores (contexto) fez emergir a empeiria. O empirismo se firmou inicialmente na Inglaterra, em meados do século XVII. Por mais que pareça estranho, recebeu grande influência da ascensão da burguesia (pois possuía a tutoria da experiência comercial prática do período). Galileu Galilei: Um mundo sem encantamentos, expresso na linguagem matemática Nasceu na cidade de Pisa (1564-1642). Contrariou a visão tradicional do mundo (Teoria Heliocêntrica de Copérnico) e foi obrigado a escolher entre a morte na fogueira ou sua retratação. Escolheu a retratação. Filósofo que desenvolveu o método matemático-experimental (Galileu pretendiainvestigar a natureza diretamente, com base nos dados fornecidos pelos sentidos, isto é, na observação e na experiência empírica. Por outro lado, considerava necessário conhecer a matemática para conhecer a linguagem em que estava escrito o “Grande Livro do Mundo”: Universo. Método matemático-experimental Galileu (professor de matemática) com o estudo experimental da natureza alcançou grandes realizações como: 1. A lei da queda livre dos corpos. 2. Construção e aperfeiçoamento de um telescópio. Método matemático-experimental Mas, além de suas descobertas e criações, ficou conhecido como o fundador de uma nova postura de investigação científica baseada: 1. Na observação minuciosa dos fenômenos naturais. 2. Realização de experiências para comprovar uma tese. 3. Uso da matemática para enunciar as regularidades observadas. Método indutivo de investigação Para combater os erros, Bacon desenvolveu as etapas do método indutivo de investigação: 1. Observação da natureza para a coleta de informações. 2. Organização racional dos dados recolhidos empiricamente. 3. Formulação de explicações gerais (hipóteses) para compreender os fenômenos estudados. 4. Comprovação da Hipótese formulada mediante experimentações repetidas, em novas circunstâncias. 16/11/2021 9 John Locke - 1632-1704 JOHN LOCKE: A EXPERIÊNCIA SENSÍVEL COMO FONTE DAS IDEIAS. John Locke (1632-1704). Em sua obra “Ensaio acerca do entendimento humano”, ele combate a ideia de que o homem possui ideias inatas. Para ele, nossa mente, no instante em que nascemos, é como um tábula rasa , um papel em branco, sem nenhuma informação prévia. John Locke: A experiência sensível como tábula rasa John Locke Considerado importante por tentar construir um caminho seguro para a ciência, desvinculado da metafísica. “Meu trabalho é como o de um ajudante de jardinagem, preparando o terreno e removendo o entulho que atrapalha o caminho do conhecimento”. A mente é como uma folha em branco (“tábula rasa”). O conhecimento não é inato e o poder também não. 16/11/2021 11 John Locke: A experiência sensível como tábula rasa Assim, Locke retoma as ideias empiristas, que afirmam que nada existe em nossa mente que não tenha provindo dos sentidos. Para ele, tudo que formamos só pode ser adquirido ao longo da vida, mediante o exercício da experiência sensorial e da reflexão. Locke: Experiência Sensorial e Reflexão Sendo assim, temos em Locke: 1. Experiência sensorial: Nossas primeiras sensações que se apresentam em nossa mente através dos sentidos. Ex: Quente, frio, mole, amarelo... 1. Reflexão: A mente desenvolve uma série de ideias que, segundo Locke, não poderiam ser obtidas das coisas externas. Ex: Pensamento... Locke: Experiência Sensorial e Reflexão A teoria de Locke assumiu algumas das funções da religião, e a tabula rasa tornou-se a religião secular da ética moderna. 16/11/2021 14 16/11/2021 15 George Berkeley: Tudo se reduz a percepção George Berkeley (1685-1753). Propõe que aquilo que conhecemos do mundo exterior, resume-se àquilo que captamos pelos sentidos. Mas afirma também que: a existência das coisas, nada mais é do que a percepção que temos dessa existência. Ou seja: “Ser é perceber e ser percebido”. George Berkeley: Tudo se reduz a percepção Para Berkeley, toda realidade depende da ideia que fazemos das coisas. Quando se pensa em reflexão de fé, Berkeley afirma que há também uma imaterialidade do mundo (ex. quando pensa em Deus e no ato de pensar). Resumo da tese de Berkeley: O mundo resume-se ao EU e SUA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA. DAVID HUME: A FORÇA DO HÁBITO EM NOSSAS IDEIAS David Hume (1711-1776). Hume dividiu tudo aquilo que percebemos em impressões e ideias: 1. Impressões: Referem-se aos dados oferecidos pelos sentidos. 2. Ideias: Referem-se as representações mentais (memória, imaginação...) derivadas das impressões. DAVID HUME: A FORÇA DO HÁBITO EM NOSSAS IDÉIAS Para Hume, toda ideia é uma re-(a)presentação de alguma impressão. Essa representação pode possuir diferentes graus de fidelidade e verdade. Ex: Um cego de nascença jamais poderá ter uma ideia de cor; e mesmo dizendo, ainda não será uma ideia muito fiel. 16/11/2021 20Do padrão do gosto René Descartes: “Nova Razão” ↔ “moral provisória” Rogério Jolins Martins PUC MINAS Problema: o conhecimento As principais vertentes • Racionalismo: Ideias Inatas. Ex.: matemáticas, etc • Empirismo: a origem do conhecimento está na experiência sensível. 16/11/2021 4 Descartes - 1596 – 1650 Antropologia e ethos modernos Descartes: Nova Razão → “Moral Provisória” ↓ Imanência X transcendência ↓ ↓ Mecanicista Cogito (res-extensa) (res-cogitans) ↓ Sentidos ↓Ethos da empeiria Ethos da razão = “moral perfeita” 16/11/2021 5 Nova hermenêutica sobre o homem ↓ 16/11/2021 6 Lição de anatomia do Dr. Van der Meer. Michel Jansy Mierevelt, 1617. Museu de Delft Antropologia e ethos modernos Referências: • Meditações; • Discurso do método; • Carta-prefácio; • Das paixões da alma. Antropologia e ethos modernos 1ª e 2ª Meditações Metafísicas Graus da dúvida: 1º argumento: contra a ilusão dos sentidos; 2º argumento: ilusão das nossas percepções (sonhos); 3º argumento: hipótese de um “gênio maligno”. 16/11/2021 8 Antropologia e ethos modernos Seus pensamentos decorreram na sua célebre conclusão: Cogito ergo sum ou Penso logo sou. Para Descartes, o cogito seria uma verdade absolutamente firme, certa e segura, e por isso deveria ser adotada como princípio básico de toda sua filosofia. Contra as incertezas e indecisões: Podemos destacar quatro regras básicas para o desenvolvimento do Espírito na busca pela verdade: 1. Regra da evidência: Só aceitar algo que seja evidente. 2. Regra da análise: Dividir as dúvidas, em cada passo para resolvê-las melhor. 3. Regra da síntese: Ir dos problemas mais simples para os mais complexos. 4. Regra da enumeração: Verificar para se ter certeza de que nada do problema foi omitido. A evidência é tido como critério decisivo de verdade. Sem a clareza e a distinção não há verdade racional. DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 27. 16/11/2021 10 Antropologia e ethos modernos Em Descartes, o pensamento é algo mais certo que a própria matéria corporal. É a partir do “ser pensante” que se concebe “existir”. Baseado nessa ideia, Descartes é definido como filósofo racionalista. Baruch Espinoza: 1632 - 1677 Antropologia e ethos modernos Questões fundamentais: Até que ponto as nossas ideias (relatos mentais) correspondem ao que se passa na realidade? Como a verdade é possível? Como é possível conhecer? 16/11/2021 13 Espinoza e o racionalismo absoluto De acordo com Espinoza, a fonte de toda superstição é a imaginação incapaz de compreender a verdadeira ordem do universo. Como é incapaz de conhecer a verdade, o supersticioso define tudo em um Deus transcendental, que não era em quem ele acreditava. Para combater essas superstições, Espinosa propõe a ideia da demonstração geométrica, donde Deus se manifesta em todas as coisas, assim ele deixa de ser um Deus distante e passa a ser um Deus presente (Deus imanente). Portanto, tudo que existe é necessário existir. União Corpo e Alma O ser humano não é a composição de duas substâncias, como pensou Descartes. A ontologia monista espinoziana consiste em afirmar que alma e corpo são modos distintos da mesma e única substância (Deus ou Natureza). Não há entre alma e corpo uma relação hierárquica, mas exprimem a mesma atividade com os atributos substanciais de potência e realidade equivalentes. 16/11/2021 16 Filósofos: “Deus criador” Espinoza: Deus = Natureza = Panteísmo. ↓ Deus é a substância que constitui o Universo inteiro e não se separa de tudo o que produziu. Neste sentido, Deus é causa imanente,e não transcendente, dos seus modos, entre os quais se encontra o homem. 16/11/2021 17 Deus não criou as coisas de forma arbitrária, sem regras, leis ou critérios. Como Deus é uma substância perfeita, as coisas feitas por ele têm um caráter necessário. As coisas seguem as leis divinas naturais e a elas estão subordinadas. Que leis naturais ou divinas são essas? 16/11/2021 18 As leis naturais são como decretos de Deus que expressam uma ordem necessária. Como se explica essa ordem? A ordem divina é a ordem geométrica. Assim como as proposições geométricas estão vinculadas entre si, por um sistema, da mesma maneira Deus possui vinculação entre si. Elas não estão soltas e isoladas, mas conectadas formando uma unidade e uma ordem necessária. 16/11/2021 19 Deus está presente em toda manifestação extensa e pensante. Propôs que havia uma ordem causal nas manifestações do pensamento, ou seja, a causa de uma ideia está em outra ideia e sucessivamente. Espinoza não deu espaço para tragédias e nem para mistérios: tudo se tornaria compreendido pela razão. A filosofia seria o conhecimento racional de Deus. Não haveria livre-arbítrio, uma vez que Deus se identifica com a natureza universal (ser necessário). 16/11/2021 20 Dessa forma, um conhecimento superior atinge-se quando a razão apreende a ordem imutável das coisas, sejam elas ideias (pensamento) ou corpo (extensão). Tudo deve ser tratado de forma geométrica, inclusive as emoções, os desejos e as ações humanas. Espinoza analisa os afetos, os desejos e as ações como se tratasse de linhas, superfícies, volumes, construindo uma geometria da afetividade humana. Por isto, ele é interpretado como determinista, nega a liberdade humana. A liberdade consistiria na consciência dessa natureza determinada. 16/11/2021 21 Não nega a liberdade, mas a defende como autodeterminação. Para explicar isso ele usa o conceito de conatus (esforço físico ou moral), mas no sentido de uma tendência natural e espontânea de conservação: “Toda a coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser”. 16/11/2021 22 “Perseverar no seu ser” significa que se quer existir de acordo com a natureza e não contra ela. A razão nos permite distinguir os desejos verdadeiros (próprios da natureza) daqueles que nos afastam dela. Apenas com o conhecimento adequado de nós mesmos poderemos nos tornar livres. Os falsos desejos são provenientes de um conhecimento inadequado e constituem fontes de fantasias e ilusões. 16/11/2021 23 O lugar do Corpo: Os afetos que nos escravizam são os que nos tornam “estranhos a nós mesmos”, e com isto, impedem a expressão plena da natureza humana. Quando o desejo se realiza conforme a natureza, sentimos alegria. Quando ele é contrariado, sentimos tristeza. Alegria ou Tristeza são dimensões afetivas. Alegria é a passagem do ser humano de uma perfeição menor para uma maior. Tristeza é a passagem do ser humano de uma perfeição maior para uma menor. A tristeza afasta o homem, cada vez mais, da sua potência de agir, é geradora de ódio, aversão, temor, desespero, indignação, crueldade, ressentimento, melancolia, remorso, vingança, etc. 16/11/2021 24 O lugar da alma Esta consiste na atividade de pensar, conhecer. Portanto, sua fraqueza é a ignorância. Quando a alma se empreende em produzir ideias, passa a uma perfeição maior e é afetada pela Alegria. Mas, se em alguma situação a alma não alcança esse entendimento, sua impotência provoca-lhe o sentimento de diminuição do ser, e consequentemente, Tristeza. Fica numa espécie de passividade da alma. 16/11/2021 25 VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Escritos de filosofia: introdução à ética filosófica. São Paulo: Loyola, p. 281-291. PUC MINAS Antropologia e ethos renascentista Rogério Jolins Martins 16/11/2021 2 Bacon - 1561-1626 Antropologia e ethos renascentista Francis Bacon = “Fé na Ciência”: critica o pensamento filosófico anterior que tão pouco proveito trouxe para a vida humana. Os filósofos antigos não deram devida atenção à natureza, que deve ser ouvida e interpretada. O conhecimento científico tem por finalidade servir o homem e dar-lhe poder sobre a natureza. Desse modo, a “ciência é poder”, e deve ser superada toda visão de ciência (filosofia escolástica) sem vínculo com a vida prática, pois é concebida como estéril e sem nenhum resultado prático para a vida do homem. 16/11/2021 3 16/11/2021 4 “Saber é Poder” Antropologia e ethos renascentista Tarefa da Filosofia: Esse novo conhecimento (prático) somente será alcançado através da eliminação e purificação de uma série de preconceitos, ilusões ou supertições que Bacon denominou de ídolos. 16/11/2021 5 Teoria dos ídolos Antropologia e ethos renascentista 1) Ídolos da tribo – recebe esse nome porque a família humana, tribo, se dirige de forma inadequada sobre a natureza. A ação humana é influenciada pelo afeto e pelas vontades humanas que corrompem a ciência; 2) Ídolos da caverna – cada pessoa possui sua própria caverna particular, que interpreta e distorce a luz da natureza. Recordando a Alegoria da Caverna, cada pessoa, no interior de sua caverna, tem sua crença, sua verdade particular como única e indiscutível. 16/11/2021 7 Antropologia e ethos renascentista 3) Ídolos do foro – trata-se dos ídolos do mercado, da feira, do contexto, das relações que os homens estabelecem entre si. A comunicação acontece mediante palavras, convenções que acabam atrapalhando e perturbando o intelecto na busca da verdade; 4) Ídolos do teatro – não proporcionam um retrato fiel do Universo. Penetram no espírito humano por causa das péssimas regras de demonstração e devido às falaciosas doutrinas filosóficas pouco fundamentadas. Bacon se refere aos dogmas (fábulas, falácias...). 16/11/2021 8 Antropologia e ethos renascentista Para combater os erros, Bacon desenvolveu as etapas do método indutivo de investigação: 1. Observação da natureza para a coleta de informações. 2. Organização racional dos dados recolhidos empiricamente. 3. Formulação de explicações gerais (hipóteses) para compreender os fenômenos estudados. 4. Comprovação da Hipótese formulada mediante experimentações repetidas, em novas circunstâncias. 16/11/2021 10 Grotius - 1583-1645 Antropologia e ethos renascentista Hugo Grotius – Para a convivência humana, os homens têm como fundamentos a razão e a natureza, que coincidem entre si. Por isso, o “direito natural” traz em sua raiz um fundamento racional e natural, ou seja, traz a marca da estabilidade e da imutabilidade: os princípios do direito natural seriam válidos mesmo que se quisesse supor que Deus não existisse, pois o que é perfeito não muda. 16/11/2021 11 Antropologia e ethos renascentista Tem-se assim, a passagem para o jusnaturalismo – doutrina segundo a qual há uma lei inata a todo homem (direito natural), reconhecendo em cada indivíduo a existência de direitos naturais. Este direito natural tem validade em si mesmo. Este direito é anterior e superior ao direito positivo (humano) e, em caso de conflito, é ele que deve prevalecer. O jusnaturalismo é bem diferente do atual positivismo jurídico, para o qual só há um direito, o estabelecido pelo Estado, cuja validade independe de qualquer referência a valores éticos. 16/11/2021 12 Antropologia e ethos renascentista O jusnaturalismo do séc XVII e XVIII reconheceu em cada indivíduo a existência de direitos naturais, o que moldou doutrinas políticas e éticas de tendência individualista e liberais. Em conformidade com o jusnaturalismo, a autoridade política deve respeitar os direitos inatos do indivíduo, e o próprio Estado deve ser concebido como uma livre criação dos indivíduos, em busca da defesa dos seus direitos individuais. 16/11/2021 13 Antropologia e ethos renascentista Séc XIX – enfraquecimento do jusnaturalismo (caiu em descrédito). Nasce a ideia racional e liberal de leis e normas, que seharmonizava com as tendências iluministas. Emerge o juspositivismo como tentativa de superar os problemas da metafísica do jusnaturalismo. Passa a ter valor somente as orientações e construções da razão humana. 16/11/2021 14 Antropologia e ethos renascentista Contudo, o jusnaturalismo ainda marca: 1. A Declaração da Independência dos Estados Unidos da América; 2. A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (Rev. Francesa); 3. A Declaração Universal dos Direitos Humanos. 16/11/2021 15 16/11/2021 16 Thomas Hobbes -1588-1679 Antropologia e ethos renascentista O ser humano em seu estado natural, objetivando a sua preservação, é individualista, egoísta e violento. Não poderá haver paz e segurança enquanto perdurar o estado natural. No estado natural não há espaço para o bem e o mal objetivos e, portanto, para os valores morais. Com efeito, o bem é aquilo para o qual tendemos e o mal aquilo do qual fugimos; mas como alguns homens desejam algumas coisas e outros desejam outras, e como alguns fogem de algumas coisas e outros não, daí decorre que bem e mal é algo relativo - relativo à pessoa, ao local, ao tempo e às circunstâncias. 16/11/2021 17 Antropologia e ethos renascentista Não havendo valores absolutos, como é possível construir uma moral e uma vida social? Como é possível a convivência dos homens em sociedade? O De Cive e o Leviatã Não havendo valores absolutos não existe uma justiça e uma injustiça naturais. Desse modo, os valores são frutos de convenções estabelecidas pelos próprios homens. Desse modo, o egoísmo e o convencionalismo são pontos-chaves para nova ética e política. Liberdade e Igualdade → iguais para todos os seres humanos. 16/11/2021 18 Antropologia e ethos renascentista “... na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória”. 16/11/2021 19 Antropologia e ethos renascentista Nesta situação, como proceder para assegurar a paz? O próprio homem reconhece a necessidade de renunciar o direito natural, especialmente para garantir sua defesa. Isso será possível somente por meio de um Pacto. Em meio a relatividade de todos os bens encontramos um bem primeiro e originário: a vida e sua conservação. O primeiro mal a evitar é a morte. 16/11/2021 20 Antropologia e ethos renascentista Não havendo limites impostos pela natureza, nasce, assim, a predominância de uns sobre os outros = homo homini lupus. Em decorrência disso, o Estado não é natural, mas artificial. Leviatã = 19 regras fundamentais para a vida social: 1ª regra: ordena que o homem se esforce por buscar a paz; 2ª regra: impõe que se renuncie ao direito sobre tudo; 3ª regra: que se cumpram os acordos feitos, etc. Em si mesmas as leis não bastam para constituir a sociedade. É preciso um poder que obrigue os homens a respeitá-las. Portanto, é preciso que todos os homens transfiram a um único homem (ou a uma assembleia) o poder de os governar. 16/11/2021 21 Antropologia e ethos renascentista Esse pacto não é firmado pelos súditos com o soberano, mas, sim, pelos próprios súditos. O soberano fica fora do pacto, permanecendo como único a manter todos os direitos originários. O poder do soberano é indivisível e absoluto. 16/11/2021 22 NICOLAU MAQUIAVEL (1469-1527) • Considerado o fundador do pensamento político moderno. • Idade Antiga: Política relacionada à ética. • Idade Média: acrescem-se os valores cristãos. • Havia na época de Maquiavel um distanciamento entre o ideal de Política e a sua realidade. Ele escreveu O Príncipe (1513-1515). Tratou da Política, tal qual ela se dá. Procurou compreender e esclarecer a Política real: • Sempre há tensão entre poderosos e povo. É ilusão o “bem comum” para ambos. • O poder político regula essas tensões. Chamamos pejorativamente de “maquiavélica” a pessoa sem escrúpulos, traiçoeira, astuciosa, que, para atingir seus fins, usa de má-fé (...). Como expressão dessa conduta, costuma-se atribuir a Maquiavel, de maneira descontextualizada, a famosa máxima: “Os fins justificam os meios. “Muita gente imaginou repúblicas e principados que nunca se viram nem jamais foram reconhecidos como verdadeiros. Faz tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar; e um homem que quiser fazer profissão de bondade é natural que se arruíne entre tantos que são maus. Assim, é necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade.” MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 69. (Coleção Os Pensadores) Virtú Significa “virtude”, no sentido grego de força, valor, qualidade de lutador e guerreiro viril. Príncipes de virtù são governantes especiais, capazes de realizar grandes obras e provocar mudanças na história. (p. 338) Virtú Não se trata, portanto, do príncipe virtuoso conforme preceitos da moral cristã (bondade e justiça, por exemplo), mas daquele que tem a capacidade de perceber o jogo de forças da política para então agir com energia, a fim de conquistar e manter o poder. (p. 338) Fortuna Significa “ocasião”, “acaso”, “sorte”: Para agir bem, o príncipe não deve deixar escapar a ocasião oportuna. De nada adiantaria ser virtuoso, se o príncipe não soubesse ser ousado, mas precavido para aguardar a ocasião propícia, aproveitando o acaso ou a sorte das circunstâncias, como observador atento do curso da história. Moral A ação política não deve orientar-se por qualquer hierarquia de valores dada a priori, como até então era proposto na concepção grega do “bom governante”. Ao contrário, a nova ética política analisa as ações tendo em vista as consequências, ou seja, os resultados que serão alcançados na busca do bem comum. Referências MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da complexidade. Belo Horizonte: PAX; A vida é mais, 2010. PUC MINAS Antropologia e ethos renascentista Rogério Jolins Martins 16/11/2021 2 Sistema Medieval O homem: de criatura para “criador” (das artes, etc.) – demirugo. Criação Do Homem, Dedo Deus, Michelangelo, 1508-1512 Antropologia e ethos renascentista “medieval” ⇔ RENASCENÇA ⇔ “moderna” ↓ “Transição” → ↓ Séc. XII e XVI Foi origem de ampla e profundas mudanças. Antropologia e ethos renascentista Base: “humanismo” Antropologia e ethos renascentista Patrística: “Dignidade da Pessoa Humana”. Tomás de Aquino: lex divina, aeterna, naturalis, humanae. Antropologia e ethos renascentista “Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais”. Hamlet, William Shakespeare Antropologia e ethos renascentista Nasce na Itália (séc. XV) e dissemina-se pelo norte da Europa, sobretudo: • França, • Inglaterra, • Países Baixos, • Renânia, como expressão de: • novas ideias, • novas sensibilidades , → • e novos ideais humanos. Resgate das dimensões constitutivas do homem: emoção/sentimentos e razão. O conhecimento se constrói na articulação da experiência e da razão. Antropologia e ethos renascentista Contexto: • Poder da Igreja: espiritual e temporal – questionado, sobretudo por parte dos intelectuais; • Grave crise político-institucional (modelo feudal) e surgimento da burguesia e de uma civilização urbana e seus desdobramentos na economia mercantil, na política e nas ideias. • Novas fronteiras geográficas. Antropologia e ethos renascentista Surgimento das primeiras universidades: Paris, 1150; Oxford, 1167; Saler (Itália), 1173; Montpellier (França), 1181; Bolonha (Itália), 1185; Vicenza (Itália), 1204; Cambridge, 1209; Palência (Espanha),1212. Novo corpo de saberes diferente do medieval: Do método da disputatio para os studia humanitatis no qual a filosofia assumiu significação prática. Platão e Aristóteles relidos na Renascença em perspectiva diversa de Agostinho e Tomás de Aquino. Antropologia e ethos renascentista Enquanto Paris enfatizava as “artes do trívio” (gramática, retórica e dialética), Oxford voltava-se para as “artes do quadrívio” (aritmética, geometria, música e astronomia), donde emergiu as primeiras manifestações mais significativas da filosofia empírica da natureza. Estudou e foi professor de Oxford, o dominicano Roberto Grossatesta determinou o rumo assumido pelos estudos físicos nos séc XIII e XIV. Foi ele quem iniciou o naturalismo em Oxford. Antropologia e ethos renascentista Discípulo de Grossotesta foi Roger Bacon, franciscano, que empreendeu nos estudos sobre a refração da luz. Estudou como as lentes poderiam estar dispostas para a construção de óculos e telescópios. Intuiu o voo, o emprego de explosivos, a circunavegação do globo, a propulsão da mecânica e outros estudos. Com Grossotesta e Roger Bacon no séc XIII assistiu-se ao nascimento e lento desenvolvimento de uma vertente matemática e empeiria no interior da escolástica. Antropologia e ethos renascentista Duns Scotus, franciscano, da escola de Oxford, empreendeu uma concepção extremamente rigorosa de “procedimento demonstrativo”. Propõe uma clara distinção entre filosofia e teologia: A filosofia se ocupa do ente enquanto tal e de tudo o que é redutível a ele ou dele dedutível. A filosofia segue o procedimento demonstrativo e detém uma “lógica natural”. A teologia se ocupa dos “objetos da fé” e seu procedimento é persuasivo. Move-se pela “lógica sobrenatural”. Antropologia e ethos renascentista Scotus propõe submeter a análise crítica todos os conceitos complexos afim de se obter conceitos simples, com os quais se deve proceder para obter a construção de um discurso filosófico fundamentado. É convencido da inteligência como categoria humana específica deste. Por isto, diante da questão do objeto primeiro do intelecto, responde que são os sentidos = ou seja, o ente unívoco ou o ente enquanto ente. Antropologia e ethos renascentista Guilherme de Ockam, franciscano, contrapôs a Tomás (realista) para quem os conceitos universais seriam apenas signos ou palavras que representam ou designam a multiplicidade das coisas. Ex: conceitos “homem”, “árvore”, etc. “Nenhuma coisa fora da alma, nem por si, nem por algo que se agrega, real ou irracional e de qualquer maneira que se considere e se entenda, é universal, já que é impossível que uma coisa fora da alma seja universal de algum modo...” Antropologia e ethos renascentista Pico della Mirandola 900 teses – proposta do universalismo moral. Nicolau de Cusa: A ideia de homo universalis, ou seja, a consciência da universalidade e igualdade da natureza humana para além das fronteiras religiosas, culturais, políticas e geográficas que encerravam o homem medieval (De docta ignorantia). Antropologia e ethos renascentista No aspecto científico Johannes Kepler, Nicolau Copérnico (astronomia), Nostradamus (Medicina). Giordano Bruno: radicalizou o valor da natureza, concebida como toda penetrada pelo princípio divino, “mente de todas as coisas”, mas que permanece incognoscível para nós. Defende que Deus está presente em todas as coisas – ideia imanentista de Deus (panteísmo). Antropologia e ethos renascentista No aspecto artístico Michelangelo, Rafael Sânzio, Leonardo da Vinci: 1) pentagrama: símbolo que representa a consciência humana sobre os quatro elementos inferiores: terra, fogo, água e ar; 2) a natureza tem uma ordem mecanicista, necessária e derivada de Deus. Esta ordem podemos estudar através da experiência e da razão, uma vez que a linguagem do Universo é matemática, entre outros tantos. “Homem Vitruviano”, Leonardo da Vinci, 1490, faz menção às proporções perfeitas do homem. Este é o ideal humano: homem divino. Suas proporções estão em consonância com as figuras geométricas. Relação do homem com o micro e macrocosmo. Renascença: Humanismo Monalisa, Leonardo da Vinci, 1503-1506. Técnica: “Sfumato” Antropologia e ethos renascentista No aspecto literário Dante Alighieri, “A Divina Comedia”; Miguel de Cervantes, “D. Quixote de La Mancha”; Luís de Camões, “Os Lusíadas; William Shakespeare, “Romeu e Julieta”, “Hamlet”, “Otelo” e várias outras. Antropologia e ethos renascentista Modelo de ethos que emerge da Renascença: Razão do homem”, no século, (secularização), ou seja, do homem que vive na terra - “antropocentrismo/autonomia”. Ascensão do homo politicus ao primeiro plano da cena histórica. Exploração experimental da natureza. Moral burguesa: ênfase no indivíduo/vida privada. Humanismo Referência: VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Escritos de filosofia IV: introdução à ética filosófica. São Paulo: Loyola, 2006, p. 257-265. MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da complexidade. Belo Horizonte: Pax Editora, 2010, p. 261-284. PUC MINAS Tomás de Aquino: verticalização da ética Rogério Jolins Martins De 1225-1274 - frade dominicano: intérprete do pensamento aristotélico. Santo Tomás de Aquino Tomás de Aquino: verticalização da ética Tomás se serviu de duas fontes: Traduziu o conceito de ser metafísico (Aristóteles) e a Revelação cristã. Duas formas de se chegar à verdade: Fé e Razão ↓ ↓ Sobrenatural Natural ↓ ↓ Além da razão Experiência sensível ↓ Trata-se de um composto da mesma natureza humana Tomás de Aquino tratou sistematicamente: Conhecimento: Fé e Razão Ética: • Comentários dos Livros das Sentenças; • Suma Contra Gentiles; • Questões Disputadas; • Comentários do Livro da Ética a Nicômaco; • Suma Teológica I-II. 1. A Filosofia é um preâmbulo da fé. 2. A verdadeira ciência é a Teologia, que fala e esclarece sobre a salvação. 3. A graça não suplanta, mas aperfeiçoa a natureza. As Cinco Vias para provar a existência de Deus: 1ª – Primeiro Motor Tudo o que se move é movido por alguém. E este alguém não pode ser algo imóvel. Logo, há que ter um primeiro motor que deu início ao movimento existente, e que por ninguém foi movido. 2ª – Causa Eficiente Causa eficiente: É necessário que haja uma causa primeira que por ninguém tenha sido causada. Então, esta causa primeira, ou este efeito primeiro é Deus. 3ª – Ser Necessário Tudo o que existe agora pode deixar de existir. Houve, portanto, um momento em que nada existia. É preciso admitir que um Ser deu existência às coisas. Este ser tinha quer ser eterno e ser a causa necessária de tudo que existe este Ser é Deus. 4ª - Ser Perfeito Verifica-se que há graus de perfeição nos seres. Uns são mais perfeitos que outros, são mais belos, são mais verdadeiros. Conclui-se que deve existir um ser que tenha o padrão máximo de perfeição. Este ser, então, é Deus. 5ª –Inteligência Ordenadora Existe uma ordem no universo, em que cada coisa está cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade. No entanto, não se chega à ordem pelo acaso e nem pelo caos. Logo, há um ser inteligente que dispôs o universo na forma ordenada e que dirige todas as coisas para que cumpram seu objetivo. Este ser é Deus. Ética A ética é ciência moral, ou seja, ciência dos costumes e é conhecimento especulativo-prático: é especulativo, na medida em que nasce da ordem que a própria razão procura estabelecer, a partir dos seus princípios, nos atos da vontade; é prático, na medida em que é ciência dos costumes e dos atos humanos, que são sempre circunstanciais, singulares e práticos. Enfim, a Ética, enquanto ciência, pretende dirigir os atos livres ao bem perfeito/fim último. Temas da ética em Tomás: o homem, o mundo, a felicidade, a lei natural, o bem e a justiça. A moralidade consiste em amar a verdade, a bondade e a beleza de Deus estampadasnas criaturas, ou seja, o homem é (imago Dei) sem deixar de ser (homo naturalis). Esta imagem é verdadeira, boa e bela enquanto espelham os atributos divinos. Sua ética “trata das coisas humanas” - a condição humana e os comportamentos humanos sob a ótica da natureza humana. À diferença da natureza animal, confinada em sua mesmidade, a natureza humana é aberta ao infinito por quatro razões: é uma natureza material, racional, eficiente e dotada de finalidade. O homem dispõe da luz da Razão e da Fé, como parte da imagem de Deus, de onde saiu (criado). Cabe a ele encontrar o caminho de volta. Ele é inteiramente livre para procurá-lo ou não; seguir em frente no rumo certo, ou voltar para trás. As paixões da alma: as paixões são os movimentos dos apetites sensíveis, pela imaginação do bem ou do mal. A alma humana, dita racional ou intelectiva, possui as faculdades: intelectiva que possui duas potências - a razão que se ordena à verdade e a vontade que, sendo apetite do intelecto, se ordena ao bem; sensitiva que possui duas potências - a concupiscível que move a alma para a busca de bens sensíveis e evita os males sensíveis e a irascível que move a alma para a busca de bens sensíveis difíceis de conseguir e evitar os males sensíveis difíceis de evitar; e a vegetativa que move a alma humana na consecução e realização de suas funções inferiores correlatas ao corpo, como crescimento e diminuição. O fim último do homem: todo ato humano procede da vontade livre (Sum. Theo. I-II), age em vista de um fim último, que é a felicidade e é impossível que se dirija simultânea e absolutamente a muitos fins últimos, pois a exceção do último, todos os demais são imperfeitos e só o último satisfaz plena e perfeitamente todo o apetite do homem. O ato voluntário: O ato voluntário pode ser livre ou necessário, em si ou em causa, positivo ou negativo. Dentre as coisas que influenciam o voluntário contamos: a concupiscência - o movimento do apetite sensitivo ao bem prazeroso; o medo - paixão causada pela eminência de um mal difícil de evitar; a violência - que viola o uso livre do princípio intrínseco; a ignorância - que tolhe o conhecimento devido. O ato moral: O ato humano moralmente mau é denominado pecado. Por ação moral entende- se aquela ação voluntária, portanto livre, acerca de um bem ou mal. O ato humano que é sempre individual nunca é indiferente moralmente. A lei moral - O homem apresenta predisposição natural para conhecer os princípios das ações boas; contudo, ele pode deliberadamente rejeitá-los, pecando. A lei “é uma determinação da razão em vista do bem comum, promulgada por quem tem o encargo na comunidade” (S. Theo, Iª-IIª). Espinha dorsal da ética tomista: o agir com base nas virtudes em vista de um supremo bem. Virtudes morais básicas dos gregos: justiça, prudência, temperança e coragem. A virtude da justiça é o centro da ética, pela qual o indivíduo se torna cidadão. A justiça abre a pessoa aos outros. Para Tomás, a justiça é importante mas insuficiente. A felicidade plena se dá na comunidade de fé. A justiça é a ponte que une a comunidade de fé e a sociedade política, é tida como o ponto central da ética. Lex Divina – é a que procede de Deus. Lex aeterna – é o plano racional de Deus. É o plano concebido desde toda a eternidade, para levar as criaturas ao seu Fim Supremo. Lex naturalis – é aquela que Deus promulga através da natureza. A lei natural pode ser também moral, quando coincide com as normas morais que o homem pode conhecer mediante a luz da razão. Ex.: não matar, etc. Lex humanae – é a que os homens escrevem no exercício da autoridade que Deus lhes transmite. Virtudes Cardeais: justiça, prudência, temperança e coragem Virtudes teologais: fé, esperança e caridade As virtudes morais: cardeais e teologais Tomás de Aquino: verticalização da ética Tomás comentou as virtudes humanas gregas (Ética a Nicômaco) e acrescentou a essas as virtudes teologais explicitadas nas sagradas escrituras: fé, esperança e caridade. Quadro de Prudente Nery Referências REALE, G. ANTISERI, D. História da Filosofia I. MEIER, Celito. Filosofia: por uma inteligência da complexidade. Belo Horizonte: PAX; A vida é mais, 2010. NERY, Prudente. Ética Medieval: vícios e virtudes (publicação interna). Antropologia e Ética Medieval Rogério Jolins Martins Precedentes: 1. Fílon de Alexandra (25 a.C.-50 d.C.), judeu, aproximou a Filosofia da leitura alegórica da Bíblia. 2. Para Fílon: o logos é um princípio divino, o qual Deus criou e com o qual governa o mundo. 3. Para o apóstolo Paulo o cristianismo era universal: religião destinada a todos os povos. 4. Houve a expansão do cristianismo através das “eklesias”, assembleias (a Igreja). 1. Kerigma e apologia (defesa da fé). 2. Contra as heresias. 3. São Justino, mártir: “o cristianismo é a verdadeira Filosofia”. 4. Alexandria: Neoplatonismo, Clemente de Alexandria (120-215) e Orígenes (184-254). 5. A Patrística circunscreve-se no fim da Idade Antiga: Padres da Igreja, gregos e latinos. 6. O maior expoente da Patrística foi Santo Agostinho de Hipona. Santo Agostinho: Nascido em 354 – Tagaste ( Argélia) Morreu em 430 – Hipona aos 75 anos. Influências: 1 – Mani 2 – Platão 3 - Santo Ambrósio Séc. I e II – Propagação e defesa da fé Séc. III – Propagação, defesa, escritas da fé Séc. IV – VI – Propagação, defesa, escritas e síntese da fé: Época dos grandes Concílios No primeiro período da Idade Média, o Império Romano esfacelou-se em diversos reinos bárbaros. O desejo de unidade de poder, de restauração da unidade perdida, expressou-se no fortalecimento e na difusão do cristianismo, que passou a representar o ideal de Estado universal. (p. 330) 1. Queda do Império Romano do Ocidente (invasão/ transmigração bárbara). Obra: “Cidade de Deus” – Natureza do Estado e Natureza da Igreja. 2. Tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos. Confissões Autobiografia de Agostinho: relato antes e após sua conversão (“Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”). Trindade Conceito de Pessoa O livre-arbítrio Natureza do bem e do mal Cidade de Deus e cidade dos homens Cidade perfeita e cidade imperfeita. Carta sobre a felicidade (a Meneceu) Epicuro envia suas saudações a Meneceu Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz. Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem- aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade. Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses, ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefíciosaos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles. Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efémera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade. Não existe nada de terrível na vida para cjuem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado. Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida. O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal. Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades. Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem. Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais. Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a dire- cionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo. Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir. É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor. Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem. Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita. Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte. Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de urna mesa farta que tomam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas. Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanhara a censura e o louvor? Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do desino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável. Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática,é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau. Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais. Tradução baseada na edição de Arrighetti. Epicuro. Opere. Torino, 1973. ©2007 CEFA e Portal Brasileiro da Filosofia Page 1 Page 2 Page 3 Page 4 Page 5 Page 6 Page 7 Page 8 Page 9 Page 10 Page 11 Page 12 Page 13 Page 14 Page 15 Page 16 Page 17 Page 18 Page 19 Page 20 Page 21 Page 22 Page 23 Page 24 Page 25 Page 26 Page 27 Page 28 Page 29 Page 30 Page 31 Page 32 Page 33 Page 34 Page 35 Page 36 Page 37 Page 38 Page 39 Page 40 Page 41 Page 42 Page 43 Page 44 Page 45 Page 46 Page 47 Page 48 Page 49 Page 50 Page 51 Page 52 Page 53 Page 54 Page 55 Page 56 Page 57