OK_Pneumonia na infância
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Pneumonia na Infância 
 
Autor(es) 
Paulo Augusto Moreira Camargos1 
Paulo José Cauduro Maróstica2 
Out-2009 
 
1 - Quais são as características epidemiológicas das pneumonias comunitárias na 
infância? 
Dada à maior vulnerabilidade dos menores de cinco anos, as análises epidemiológicas tendem 
a concentrar nesta faixa etária. Estimativas mundiais recentes dão conta que a região das 
Américas concentra cerca de 1/3 dos 750 mil óbitos anuais por pneumonia pneumocócica em 
menores de 5 anos. Isso equivale a dizer que a taxa média de mortalidade no continente situa-
se em torno de 30/100.000. Sem deixar de levar em consideração a possibilidade de 
subenumeração dos óbitos, estatísticas nacionais revelam que a taxa de mortalidade nesse 
grupo vem reduzindo continuamente, por volta de 2% ao ano. Entretanto, como mostra o 
gráfico da figura 1, em capitais como Belo Horizonte, a redução é de aproximadamente 10% ao 
ano. 
Contribuem para o êxito letal nos países em desenvolvimento fatores de risco que devem ser 
levados em conta pelo profissional de saúde quando do atendimento a casos de pneumonia. 
Os principais são: 
1- Fatores relacionados à condição socioeconômica 
a- baixa renda; 
b- analfabetismo ou semi-analfabetismo do chefe da família; 
c- deficiências na habitação, sobretudo aquelas associadas à aglomeração e 
poluição intra-domiciliar; 
d- acesso aos serviços de saúde. 
2- Fatores relacionados às características clínicas da criança 
a- menor idade; 
b- prematuridade; 
c- baixo peso; 
d- desnutrição moderada a grave; 
e- tempo reduzido de aleitamento materno; 
f- déficit de vitamina A; 
g- doenças subjacentes como cardiopatias, imunodeficiências congênitas ou 
adquiridas. 
 
1 Professor Titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de 
Minas Gerais. 
 
2 Professor do Departamento de Pediatria e Puericultura da UFRGS. 
 
 
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Figura 1 - Redução da mortalidade por pneumonia em menores de 5 anos em BH. 
 
2 - Qual o impacto financeiro das pneumonias no Sistema Único de Saúde? 
Um problema de tal magnitude epidemiológica também repercute nos gastos do Sistema Único 
de Saúde. Taxas de mortalidade elevadas também correspondem a um número elevado de 
hospitalizações, parte delas, de fato, desnecessárias. O número de hospitalizações também 
tem reduzido em cerca de 3% ao ano, totalizando, na atualidade, entre 330 a 390 mil 
hospitalizações. Claro está que a prioridade na assistência ambulatorial, ou a almejada 
"desospitalização", passa pela pesquisa científica e adoção de esquemas terapêuticos simples, 
eficazes e de baixo custo, adaptados às características etiológicas, epidemiológicas, clínicas, 
radiológicas e laboratoriais. 
3 - Qual o perfil etiológico das pneumonias comunitárias na infância? 
O conhecimento do perfil etiológico das pneumonias num serviço ou numa dada região 
geográfica é indispensável para balizar a terapêutica. Apesar da considerável melhoria 
verificada nos últimos 10 anos e em virtude das dimensões continentais do país, os dados 
etioepidemiológicos disponíveis ainda não chegam a fornecer um retrato fidedigno de todas as 
regiões geográficas. Contribui para esta deficiência o fato de não estar consolidada entre nós a 
realização rotineira da hemocultura e mesmo da cultura do líquido pleural, que, ainda que com 
baixo índice de isolamento e identificação, propiciam a identificação do agente causal e o perfil 
de susceptibilidade aos antimicrobianos. Apesar da inexistência de pesquisas neste sentido, a 
relação custo-benefício do diagnóstico etiológico, pelo menos em serviços de referência, 
parece compensar o dispêndio com a antibioticoterapia inadequada, muitas vezes com 
antibióticos onerosos e de largo espectro. 
Pioneiramente entre nós, estudo realizado em Salvador (BA) entre 2003-2005, com 184 
crianças menores de cinco anos hospitalizadas por pneumonia, nas quais foram pesquisados 
16 agentes etiológicos ,demonstrou, em 144 pacientes (78% do total), a presença isolada vírus 
(60%) ou bactéria (42%) ou infecção concomitante pelos dois agentes (28%). A tabela 1 mostra 
as proporções em que os diferentes agentes foram isolados. 
 
 
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Tabela 1. Proporção dos agentes etiológicos de pneumonia com necessidade de 
internação, em crianças menores de 5 anos (Salvador \u2013 2003-05) 
Vírus Bactérias 
\u2022 Rinovírus: 21%; 
\u2022 Parainfluenza:17%; 
\u2022 Sincicial respiratório: 15%; 
\u2022 Influenza A ou B: 9%; 
\u2022 Enterovírus: 5%; 
\u2022 Adenovírus: 3%. 
S. pneumoniae: 21%
H. influenzae: 8%
M. pneumoniae: 8%
C. trachomatis: 4%
M. catarrhalis: 3%
C. pneumoniae: 1% 
Ademais, apenas o S. pneumoniae foi isolado em 5% das 173 hemoculturas realizadas. 
Embora esses resultados se apliquem à população assistida pelo serviço onde ele foi 
conduzido, eles destacam a importância dos vírus e do S. pneumoniae e, evidentemente, 
fornecem valiosas informações para a abordagem terapêutica das pneumonias no nosso meio. 
É interessante salientar que trabalho realizado na Finlândia com 201 pacientes com média de 
idade de 5,6 anos chegou a algumas semelhanças e diferenças com o perfil etiológico de 
Salvador. Entre os 133 pacientes em que foi possível estabelecer a etiologia por métodos 
sorológicos (66% do total), os vírus estiveram envolvidos em 25% dos casos, enquanto as 
bactérias foram responsáveis por 51% dos quadros. Nos 24% restantes foi identificada etiologia 
mista, predominando a associação entre bactérias. Nos 201 pacientes com pneumonia 
comprovada radiologicamente, o S.pneumoniae foi identificado em 28% deles, o M. 
pneumoniae em 22%, a Chlamydia sp em 14%, o H.influenzae em 6% e a Moraxella catarrhalis 
em 2%. O vírus respiratório sincicial respondeu pela maior parte (21%) dos agentes virais 
identificados. Além da menor participação viral, que contrariou as expectativas, chama atenção 
no perfil etiológico encontrado neste estudo o predomínio do pneumococo e do Mycoplasma 
pneumoniae e a relativamente discreta participação do H. influenzae. 
4 - Existem outras informações disponíveis sobre o perfil epidemiológico das 
pneumonias em crianças no Brasil? 
O estudo mais expressivo, que visou exclusivamente a participação de bactérias, foi realizado 
em São Paulo e avaliou 102 crianças de um mês a 11,5 anos de idade com pneumonia aguda. 
Utilizou-se o aspirado pulmonar como espécime para a semeadura. A positividade final foi de 
61,8%, na qual o S. pneumoniae figurou 24 vezes (23,5%) e o H. influenzae sp 16 vezes, ou 
seja, 15,6% do total de casos. Além da preponderância do pneumococo, cabe ainda destacar 
que bacilos gram-negativos foram mais prevalentes (9,8%) que o Staphylococcus aureus (1% 
do total). 
Dois outros estudos nacionais, que recrutaram 37 e 60 pacientes, obtiveram uma relação 
pneumococo/H. influenzae sp de 5:1 e 2:1, respectivamente, muito tempo antes da era da 
vacinação anti-Hib. Em ambos, a participação do S. aureus também foi marginal, sugerindo 
talvez que sua participação atinja principalmente lactentes menores de três a quatro meses. 
Interessante notar que as poucas informações disponíveis para Belo Horizonte apontam para 
uma direção semelhante e reafirmam a necessidade e a importância da realização de estudos 
etiológicos. Em um ensaio clínico no qual a hemocultura foi realizada em 90 crianças de dois a 
12 anos com pneumonia lobar ou segmentar, o índice de isolamento foi apenas de 6,7%, mas 
em todos os seis casos houve apenas crescimento de S. pneumoniae. Cabe ainda salientar 
que, nesta investigação, o índice geral de cura para todas as 176 crianças tratadas com a 
penicilina benzatina ou com a procaína, antibióticos ineficazes para o H. influenzae, foi cerca 
de 94%, o que sugere, de forma indireta, o papel menos expressivo deste microrganismo. Em 
um outro levantamento, a relação entre pneumococo e o H. influenzae tipo b foi de 9:1 na 
hemocultura de 21 pacientes com pneumonia