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S. BECKER, Howard. Outsiders: Estudos da Sociologia do Desvio. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. Howard Saul Becker, sociólogo americano, nascido em 1938, que muito contribuiu com a sociologia, principalmente no que tange aos desvios vinculados à sociedade. Ao iniciar da carreira, mal sabia o grande sociólogo que seus estudos acabariam por colocá-lo na direção que o levaria a publicar, em 1963, o seminal Outsiders, no qual apresenta uma de suas inúmeras contribuições para as ciências sociais, o estudo de labeling, ou a “teoria dos rótulos” que marcou as diversas pesquisas de sua carreira – desde artigos relacionando os aspectos desviantes de usuários de drogas até os estudos sobre artistas e suas estratégias para tocar juntos. Graduado na Universidade de Chicago, Becker é considerado parte da segunda Escola de Sociologia de Chicago, que também inclui o famoso antropólogo Erving Goffman e Anselm Strauss. Outsider é considerada uma obra revolucionária e, em relação à teoria de rotulação (labeling theory) é uma das principais abordagens usadas em estudos de “conflito”, “violência” e “comportamento desviante”. O livro trata-se de uma construção empírica, acerca de como esse processo se sucede: de que maneira podem-se reconhecer outsiders? E, ainda, que concepções cercam a ideia de que atos impróprios estão relacionados com características de personalidade e situações específicas? O autor, desde o início, deixa clara a restrita concordância com a afirmação de que os agentes relacionados à pratica de desvios tendem a pertencer a uma determinada classificação ou rótulo em comum com as demais que compartilham das mesmas regras. Entretanto, pode-se perceber que, para além da visão estereotipada já disseminada, Becker sugere a existência de uma essência de desvio dentro das 2 pessoas que faz com que elas ajam de tal modo que venham a ser, posteriormente, consideradas como outsider. Logo na introdução, Becker questiona: “O que, então, as pessoas que têm sido rotuladas como desviantes têm em comum?” A resposta, não menos do que esperada, é de que por compartilharem o rótulo e a experiência de serem rotuladas é que as classificam como tal. Nesse viés, levando em conta que qualquer forma de organização social há a elegibilidade de inúmeras regras, algumas, como expõe o autor, promulgadas na forma de lei, gerando policiamento, e outras realizadas por acordos informais que podem vir-á-ser desconsideradas por falta de imposição, todas elas, enfim, deixam lacunas, pois de que forma posso concordar com condutas que não fazem parte do meu meio social e que, particularmente, aparentam graves violações? Dessa forma, com enfoque no processo pelo qual as pessoas infringem e outras impõem regras, acredita-se na premissa de que há algo inerentemente desviante (qualitativamente distinto) em atos que infringem (ou, ao menos, aparentam) infringir. Sabe-se que diferentes grupos consideram diferentes coisas desviantes, por isso, o sociólogo alerta acerca da importância de valorizar o processo de julgamento em torno dos atos impróprios cometidos por particulares. Assim, faz-se necessário, em primeiro lugar, analisar quem julga e, em adição, o processo pelo qual se chega ao julgamento e a situação que o ato é feito, já que, de fato, como bem exposto, a execução do julgamento e as circunstâncias estão intimamente envolvidas no fenômeno. Dentro dessa perspectiva, se ignorar o caráter variável do processo de julgamento, limitadas estará as teorias que poderão pairar sobre os desvios das regras organizacionais. Além disso, o tipo de compreensão que se pode alcançar também estará comprometido. Analisando o pressuposto de que grupos sociais criam desvios ao fazer as regras cujas infrações constituem desvios nos deparamos com a seguinte dúvida: o agente que vê determinada conduta como desvio e assim a constitui, estaria sendo desviante também, ao passo que, uma maioria a considera como correta? Nesse contexto, o autor nos indaga acerca das pessoas rotuladas de desviantes que nunca se quer infringiram regra alguma, como proceder? Por exemplo, se a polícia se depara com um aglomerado de jovens delinquentes negros, já reconhecidos como tal, e, por coincidência, ao lado passa um garoto negro, classe baixa, também, que assovia para o seu cachorro que está à longa distância, na mesma hora, supostamente, os agentes policiais entendem como um alerta aos meninos delinquentes e questionam o garoto acerca de sua 3 conduta de forma violenta. Fica-nos a seguinte conclusão: o desvio não é qualidade que reside no próprio comportamento, mas na interação entre as pessoas que cometem um ato e aquelas que reagem a ele, bem como, o grau em que um ato será tratado como desviante depende, também, de quem o comete e de quem se sente prejudicado por ele. Se, no lugar do garoto negro que por ali passava, estivesse passando um menino branco, bem vestido, aparentando classe alta, e, nas mesmas condições, sinalizasse para o animal, provavelmente, a conduta dos policiais não seria da mesma forma. Por analogia, tem-se o sistema carcerário brasileiro, que mais prende pessoas pretas e pardas, resultando em uma verdadeira esteriotipação repressora. Ainda, cabe ressaltar que pessoas de classe média/ alta tendem a fazer parte de um processo legal mais rápido quando comparadas à população mais pobre, de periferia e, principalmente, pardos e pretos. Torna-se evidente, portanto, a existência de diferentes concepções de desviantes, elencadas essencialmente uma por uma pelo autor. A primeira, referente à estatística, traz a noção de que desviantes são todos aqueles que variam excessivamente ou escassamente em relação à média, ou seja, os medianos seriam o comum, e, diferente do comum, surgiriam os atos impróprios. Com relação a essa concepção, um exemplo metafórico exposto são os canhotos, já que a maioria da população é destra, quem se identifica em realizar a maioria das funções com a mão esquerda estaria fugindo dos medianos, do “comum”. A segunda concepção faz referência ao que é essencialmente patológico, digamos que o desvio seria a espécie de uma “doença” presente em um organismo, que, assim, passa a não funcionar corretamente. De modo metafórico, o que esse ponto de vista tem a nos acrescentar é que, de modo prático, o desviante é o “ruim” no meio dos demais, prejudicando o bom funcionamento do corpo social. Além disso, de acordo com essa teoria, não há concordância quanto ao que se constitui como comportamento saudável, ocasionando em uma lacuna. Já a terceira proposta desviante está relacionada às noções médicas de saúde e doença, elaborada por sociólogos, a teoria revela a existência de alguns processos em curso que tendem a diminuir a estabilidade da organização social, como citado pelo autor, verdadeiros “sintomas de desorganização social” que buscam apontar as áreas de possível perturbação em uma sociedade de que as pessoas poderiam não estar cientes das regras. Por fim, a última concepção relaciona-se aos desvios cometidos em relação às falhas em obedecer às regras de determinado grupo, inegavelmente, inúmeros atos que parecem aos olhos de uma determinada associação ou conjuntura como errados, aos olhos do grupo de onde surgiu tal prática é comum. O uso de detectores de radar, por exemplo, em terras brasileiras é proibido, entretanto, nos Estados 4 Unidos só é ilegal no estado da Virgínia e em algumas bases militares. Certamente, pode-se concluir que um brasileiro ao utilizar o aparelho detector dentro do seu veículo em algum estado, autorizado, dos Estados Unidos, não estaria cometendo um desvio. Por fim, com base nos argumentos, exposições, exemplos e opiniões é possível concluir que o autor, de forma ríspida e um tanto preconceituosa em relação aos homossexuais e suas mais diversas abrangências, abordou temas complexos e dignos de reflexão por toda a população, aindamais, no universo acadêmico com ênfase nos processos de formação de ideologias. Vale destacar, também, o contexto em que o livro foi desenvolvido, década de 60, ascensão do movimento hippie, comportamento de contracultura coletivo, formado, majoritariamente, por jovens que criticavam, principalmente, questões de imposições de regras de convivência em sociedade. Posteriormente, a cultura Punk, movimento artístico de contracultura, disseminado, acima de tudo, pela música e da sua ideologia que defendia o antiautoritarismo, a liberdade anárquica, a oposição ao consumismo, sarcasmo niilista e a subversão da cultura. É de suma importância ressaltar o fato de que ambos os grupos, contrários à maioria das regras da sociedade daquela época, fazem-nos refletir acerca das suposições de Howard Becker, pois aqueles que infringem as regras podem pensar que seus juízes são outsiders por considerar o que, para os dois movimentos, eram formas de reivindicar interesses e manifestar contra a conjuntura política e social atual, já para os juízes, deveriam ser formas de manifestações que teriam que ser penalizadas. Da mesma forma, em diversas passagens do texto, como anteriormente citado, o autor filia-se a ideia de que os homossexuais fogem da “normalidade” e que, por esta razão, encontram dificuldades para conseguir emprego, exemplificativamente, já que “empregadores responsáveis” não admitiriam em seu estabelecimento os que não se reconhecem como “normais”. Destarte, teriam que renunciar a quem realmente são por não corresponder às expectativas dos empregadores, já que a não correspondência obriga a tentar maneiras diferentes de alcançar resultados para a “pessoa normal.” Em vista dos argumentos apresentados, o livro trouxe uma excelente reflexão em torno dos rótulos que eu tanto me questiono, elucidando que a única diferença entre hippies, punks, bandidos, policiais, políticos, etc. é, justamente, a maneira que cada um viola regras habituais. Apesar de não concordar com alguns posicionamentos do autor, o livro é fantástico!