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Lenina Castellari - LII Desordens Hemodinâmicas (ROBBINS - PATOLOGIA BÁSICA - CAP. 3) HIPEREMIA, CONGESTÃO, HEMORRAGIA - pág. 2 EDEMA E INSUFICIÊNCIA CARDÍACA - pág. 12 ATEROSCLEROSE - pág. 24 TROMBOSE - pág. 37 EMBOLIA - pág. 49 INFARTO - pág. 56 CARDIOPATIA ISQUÊMICA - pág. 68 CHOQUE - pág. 85 29/06 Hiperemia, Congestão, Hemorragia e Choque Introdução O grupo de doenças que mais mata são as doenças cardiovasculares, englobadas em desordens hemodinâmicas. Essas doenças são as principais causas de morbidade e mortalidade no mundo atual. Em 2016, as maiores causas de morte na população mundial foram infarto agudo do miocárdio (doença cardíaca isquêmica) e AVCs (acidentes vasculares cerebrais). Sistema Circulatório Nas desordens hemodinâmicas vamos estudar alterações no Sistema Circulatório, composto por: Sangue - é composto por células ou elementos figurados (hemácias, leucócitos e plaquetas) e plasma (fatores de coagulação, íons, água etc). Coração - duas bombas independentes que funcionam lado à lado. O VE ejeta o sangue pela artéria aorta, para que ele faça a circulação sistêmica. O sangue circula pelos vasos do corpo e retorna para o coração pelo AD, vai para o VD e é ejetado aos pulmões - circulação pulmonar. Vasos Sanguíneos - são divididos em: ● Artérias Elásticas: possuem muito tecido elástico na túnica média, o que permite sua dilatação durante a sístole e sua contração durante a diástole. Por exemplo: aorta, tronco braquiocefálico, subclávia, carótida comum, ilíacas etc; ● Artérias Musculares: possuem médio calibre e distribuem o sangue de acordo com a necessidade fisiológica do órgão; ● Arteríolas: podem ser chamadas de vasos de resistência, pois possuem uma parede muscular espessa e atuam como reguladores da pressão arterial sistêmica. A contração delas aumenta a resistência vascular, o que aumenta a pressão arterial - e vice-versa; ● Capilares: são ramificações das arteríolas, onde ocorrem trocas entre células e o sangue; ● Vênulas (pós capilares): recebem sangue dos capilares e são o ponto de maior permeabilidade do sistema, onde predomina a diapedese de células brancas - por exemplo; ● Veias (de médio e grande calibre): são uniões de vênulas pós capilares e devolvem o sangue ao coração. Definição Desordens hemodinâmicas são quaisquer alterações locais de circulação, sanguínea ou linfática. Uma vez comprometida a circulação, compromete-se a troca entre vasos e células do tecido adjacente, que ficam prejudicadas. Isso pode provocar hipóxia e outras situações lesíveis, levando à lesão celular - reversível ou irreversível. Temas Gerais - edema, hiperemia e congestão, hemorragia, trombose, embolia, infarto e choque hemorrágico. Temas Específicos - insuficiência cardíaca, aterosclerose e cardiopatia isquêmica. 29/06 Hiperemia Vem do grego hiper (muito) e haimos (sangue), ou seja, hiperemia é o aumento do volume sanguíneo no interior de arteríolas, capilares e vênulas (microcirculação) de um tecido ou órgão. Esse é um processo ativo, havendo gasto energético (ATP) para vasodilatação da arteríola. A arteríola trás para o capilar sangue arterial, se a dilatarmos ocorre aumento da “porta de entrada” para a microcirculação, o que leva ao aumento de sangue nesse sistema. Isso leva ao aumento do fluxo do sangue arterial (rico em oxigênio e nutrientes) nos capilares, acelerando a remoção de catabólitos da área afetada. Obs.: esse processo sempre é localizado, nunca sistêmico. Quando temos um território vascular acometido por hiperemia, o tecido irrigado por esse sistema adquire uma cor vermelho vivo - cor de sangue arterial. Isso é chamado eritema. Obs.: lesões eritematosas são lesões em que há dilatação de vasos locais, levando à coloração vermelha da pele. Fisiológica A hiperemia pode ser fisiológica, quando o indivíduo pratica exercício físico - por exemplo. Nesse caso, o músculo sai de seu estado metabólico basal, precisando de muito mais ATP e nutrientes para manter a função. Para tal, deve haver maior circulação de sangue nesse músculo: o SNA Simpático promove dilatação das arteríolas do sistema local, fazendo com que se estabeleça um aumento de fluxo sanguíneo arterial e o processo de hiperemia. Por isso, pessoas que praticam exercício físico ficam avermelhadas. O rubor facial de quando uma pessoa sente vergonha também é um exemplo de hiperemia fisiológica: na região malar ocorre dilatação das arteríolas por ação do SNA Simpático, promovendo maior fluxo sanguíneo e dando à região tal cor característica. Patológica Esse processo também pode ser patológico, por exemplo em inflamações agudas. O processo de inflamação aguda pode ser resumido em resposta vascular e resposta celular. Parte da resposta vascular é dada pela vasodilatação, que ocorre mediante a liberação de histamina pelos mastócitos, também promotora de aumento da permeabilidade vascular. Entretanto, também ocorre vasodilatação a partir de mediadores lipídicos (como PGI2). Esses mediadores são obtidos a partir da retirada de fosfolipídeos de membrana pela fosfolipase A2 e seu posterior processamento, por ciclooxigenases. Além disso, leucotrienos também aumentam a permeabilidade vascular e causam vasodilatação. Por outro lado, as lipoxinas inibem a inflamação, atuando como antagonistas dos outros fatores citados. Obs.: tanto o processo de degranulação de mastócitos, quanto o processamento de fosfolipídeos de membrana, gastam ATP e por isso são processos ativos. Primeira imagem: a parte branca do olho chama-se esclera e é revestida pela mucosa conjuntival. Na imagem, essa mucosa apresenta área com vasos dilatados (telangiectasia), o que leva à maior circulação de sangue na região e causa hiperemia conjuntival. A segunda imagem mostra uma pústula (acúmulo de exsudato purulento) com região em vermelho ao redor, chamada de halo hiperêmico, onde há dilatação de arteríolas e aumento de fluxo sanguíneo arterial. 29/06 As imagens ao lado mostram superfícies de serosa com hiperemia, ou seja, serosas hiperemiadas. Na primeira imagem isso pode ser observada hiperemia de apêndice indicada por setas vermelhas. Na segunda imagem, do mesmo órgão, em verde vê-se a coloração normal; em vermelho estão indicados vasos dilatados (telangiectasia); e em amarelo estão indicadas regiões de hiperemia. Na histologia, observa-se dilatação generalizada de vasos sanguíneos e seu preenchimento por grandes quantidadesde sangue. Na primeira imagem: M indica a túnica muscular externa do apêndice e S sua serosa. É possível ver que os vasos da serosa estão dilatados e totalmente preenchidos por hemácias. É importante dizer que, histologicamente, não é possível diferenciar hiperemia de congestão. Por isso, ao ver uma lâmina com essas características, deve-se saber a causa a fim de diferenciá-la em um dos dois processos, por exemplo: a lâmina é de apendicite aguda, um processo inflamatório, logo é com certeza mostra hiperemia. Na segunda imagem vê-se um vaso (mais superior) preenchido por hemácias. Ele está associado a um processo inflamatório, evidenciado pelo rolamento e adesão de neutrófilos (células circuladas) do vaso para o tecido (abaixo), por isso é hiperemia. Congestão Congestão também é o aumento da quantidade de sangue na microcirculação de um tecido ou órgão, mas difere da hiperemia pois é um processo passivo (sem gasto de ATP). Também difere da hiperemia no que diz respeito a sua causa: ao invés de ser causada por vasodilatação da arteríola, é causada por redução do retorno venoso - estreitamento da “porta de saída”, que leva ao represamento do sangue no leito capilar. O sangue que se acumula é venoso, pois já fez trocas com o tecido adjacente, por isso pode causar hipóxia nos tecidos. Além disso, o represamento do sangue eleva a pressão hidrostática local, o que favorece a saída de plasma para o líquido intersticial e a formação de edema. Esse processo difere da hiperemia também no que diz respeito a sua localização, visto que pode ser localizado ou sistêmico, afetando todo o corpo. Por fim, a congestão pode ser aguda ou crônica. Macroscopia: como o sangue represado é venoso, pobre em oxigênio, ele possui cor mais escura, por isso o tecido pode ficar vinhoso, arroxeado ou enegrecido - processo chamado de cianose. A superfície do órgão é brilhante, devido ao edema. Além disso, ao cortar o órgão congesto ocorre “escorrimento” de sangue - como no brônquio da imagem. Microscopia: muito semelhante a da hiperemia, com vasos dilatados e preenchidos por sangue. Além disso, vê-se separação das fibras em relação à MEC, devido ao edema, e rotura de capilares, ou seja, o extravasamento de hemácias causado pela ruptura do vaso (devido à elevada pressão hidrostática). Assim, são vistas hemácias na luz do alvéolo e macrófagos com hemossiderina, em casos crônicos. 29/06 Congestão Aguda Localizada Pode ser causada pela obstrução de ramos venosos, por exemplo: infarto intestinal devido à obstrução da veia mesentérica. À esquerda vê-se a cianose do órgão e sua superfície brilhante devido ao edema. Já à direita vê-se que a mucosa foi pega pelo peristaltismo, formando uma cabeça de invaginação, e arrastada dentro da luz do intestino. Nessa imagem o tecido apresenta-se vermelho escuro, o que denota congestão devido à compressão dos ramos venosos (pela cabeça de invaginação). Congestão Aguda Generalizada Ocorre devido à falência do VE, por exemplo. Essa falência leva ao represamento retrógrado de sangue, isto é, o sangue fica represado no AD e retorna às veias pulmonares, ficando represado na circulação pulmonar. Então toda a circulação pulmonar torna-se congesta devido à disfunção do VE. Essa disfunção pode ocorrer devido ao tamponamento, ou seja, devido ao acúmulo de líquido no espaço pericárdico. Isso impede a dilatação cardíaca durante a diástole, impede o preenchimento cardíaco e a ejeção do sangue pelo VE para a circulação sistêmica - leva ao represamento retrógrado (dali para trás). Na primeira imagem vê-se a superfície brilhante do pulmão e sua cor escurecida. Na segunda imagem observa-se a dilatação e preenchimento por hemácias dos vasos pulmonares. Já na terceira imagem vê-se a mesma dilatação e preenchimento, acompanhada por hemácias na luz do alvéolo. Ou devido à falência do VD. Uma das principais causas dessa falência é a embolia pulmonar, que obstrui a artéria pulmonar e impede a ejeção de sangue do VD para o pulmão. De maneira retrógrada o sangue é represado, primeiro no AD e depois nas veias cavas e toda a circulação sistêmica. Um dos exemplos de local em que ocorre congestão devido à falência do VD é o fígado. Isso pode ser confirmado, na primeira imagem, pela cor enegrecida devido ao acúmulo de hemácias e pela superfície brilhante devido ao edema. A segunda imagem mostra um corte histológico em menor aumento, evidenciando áreas avermelhadas que se coram mais intensamente pela eosina - áreas de congestão da zona III acinar (região perto da veia centrolobular). Obs.: ver mais sobre histologia hepática no final deste tópico. Congestão Crônica Generalizada Ocorre devido à insuficiência do VE, por exemplo. O enfraquecimento do VE leva ao represamento retrógrado do sangue: primeiro no AE, depois nas veias pulmonares e nos capilares pulmonares. A congestão é comprovada, na primeira imagem, pela observação da superfície brilhante do pulmão e sua coloração escurecida - como nas imagens anteriores. No entanto, nessa imagem também estão presentes regiões castanhas que correspondem a depósitos de hemossiderina - indicam caráter crônico do processo. Na segunda imagem, vê-se - ao cortar o órgão, a drenagem do sangue até então represado. 29/06 Na histologia, esse tipo de congestão é notado pelo preenchimento de capilares dos septos interalveolares por hemácias e pelo extravasamento de hemácias para a luz dos alvéolos. Além disso, como o processo é crônico, observa-se o preenchimento dos alvéolos pulmonares por macrófagos (células castanhas) que fagocitaram hemácias e converteram a hemoglobina em hemossiderina. Esses macrófagos são típicos de congestão crônica decorrente de insuficiência cardíaca esquerda, por isso podem ser chamados de células da insuficiência cardíaca. Por fim, devido à cronicidade do processo, pode haver espessamento fibroso dos septos interalveolares, que ficam mais grossos devido à deposição de tecido conjuntivo. Ou devido à insuficiência cardíaca direita, por exemplo. O enfraquecimento do VD impede que ele bombeie o sangue adiante, o que leva ao represamento retrógrado: primeiro para o AD, depois para as veias cavas e para as veias sistêmicas. Os dois órgãos que mais sofrem com essa congestão sãoo fígado e o baço. As imagens abaixo mostram os efeitos da congestão hepática crônica. É possível ver o aspecto mosqueado, com áreas mais escurecidas (congestas) entremeadas por áreas amareladas (normais). A área congesta é a zona III, já a área normal é a zona I. Obs.: ver mais de histologia hepática no final desse tópico. Na histologia, esse tipo de congestão é visto por sinusóides dilatados e preenchidos por hemácias; necrose coagulativa de hepatócitos da zona III (ao redor das “bolas” brancas na primeira imagem); possível esteatose na zona I (na segunda imagem); e deposição de hemossiderina nos hepatócitos centrolobulares e células de Kupffer (na terceira imagem). 29/06 Além da insuficiência cardíaca direita, a hipertensão portal também pode levar à congestão esplênica crônica. Isso provoca esplenomegalia, com aumento do peso e tamanho do órgão. Ao cortá-lo, também pode-se observar uma superfície muito avermelhada, devido ao acúmulo de sangue (na segunda imagem). Como ocorre represamento do sangue, a hemocaterese se intensifica no local, o que passa a remover células viáveis além de células defeituosas - provoca deficiência de elementos figurados. Isso pode levar à anemia (hemácias), leucopenia (glóbulos brancos) e plaquetopenia (plaquetas). Além disso, a cápsula esplênica apresenta áreas de fibrose, com placas elevadas, brilhantes e esbranquiçadas - periesplenite pseudocolágena ou pseudocartilaginosa (visto na primeira imagem). Na histologia, o normal é que o baço apresente regiões de polpa branca e vermelha em uma mesma proporção. Na primeira imagem vê-se a redução da polpa branca, região basófila, e uma grande região de polpa vermelha, o que denota congestão. Na segunda imagem, vê-se que os sinusóides estão dilatados e preenchidos por hemácias. Obs.: quando é crônica pode haver macrófagos marrons. Histologia Hepática O lóbulo hepático clássico hexagonal possui uma veia central e 6 tríades portais nos vértices. As TPs são formadas por ramos da veia porta, artéria hepática e ducto biliar. Obs.: o sangue flui de TP para a VC, já a bile flui no caminho oposto. Em bege estão simbolizados os cordões de hepatócitos e entre eles, os sinusóides. No tecido hepático, 75% do sangue é venoso e chega pela veia porta, a partir do intestino, baço e pâncreas. Os outros 25% são arteriais e chegam pela artéria hepática. Ocorre mistura desses dois sangues, o que faz com que sua oxigenação seja mais baixa. Isso submete os hepatócitos a um gradiente de distribuição de O2 e glicose, formando o ácino hepático losangular. Nele os vértices são duas TP (menor eixo) e duas VC (maior eixo). Assim, os hepatócitos recebem mais glicose e O2 na região azul (zona III), média quantidade na região roxa (zona II), e pouco na região vermelha (zona I), que é a mais frágil e mais facilmente lesada. Obs.: as zonas I e III podem também ser chamadas de zonas periportal e centrolobular, respectivamente. 29/06 Hemorragia É sinônimo de sangramento, ou seja, é a perda de sangue do interior do Sistema Circulatório. Pode ser classificada em externa, caso o sangue seja perdido para o meio externo, ou interna, caso o sangue seja perdido para cavidades ou tecido conjuntivo, permitindo sua reutilização. Obs.: caso o sangue caia na luz de órgãos cavitários que se comunicam com o meio externo, como órgãos do TGI, SR e SU, considera-se a hemorragia como externa, visto que o sangue será perdido e não reaproveitado. Hemorragias Cutâneas Quando as hemorragias acontecem na pele ou mucosas, seu nome varia de acordo com o tamanho, como a seguir: Petéquia - são hemorragias pequenas (1 a 2 mm), puntiformes e múltiplas. Normalmente, elas associam-se à defeitos plaquetários como a plaquetopenia, pois têm origem em capilares. Púrpura - são hemorragias maiores (até 2 cm), múltiplas, planas ou discretamente elevadas. Normalmente, esse tipo de hemorragia associa-se à defeitos na cascata de coagulação ou vasculites. Equimose - esse tipo de hemorragia é bem maior (2 cm ou mais), normalmente associadas à traumas. É importante lembrar que as equimoses não comprimem os tecidos adjacentes, ou seja, não exercem efeito de massa. Hematoma - ocorre em casos de hemorragias muito grandes, em que há grande acúmulo de sangue e formação de neocavidades (cavidades que, até então, não existiam). Também associa-se a traumas, mas - diferente da equimose - o hematoma exibe efeito de massa e comprime os tecidos adjacentes, como uma “tumoração”. 29/06 Colorações Devido à variedade de produtos do metabolismo da hemoglobina, existe uma grande variedade de cores que uma hemorragia na pele (ou mucosas) pode assumir. Por exemplo: uma equimose assim que surge costuma ser avermelhada e, conforme o O2 da hemoglobina é consumido, ela adquire uma coloração mais arroxeada. A partir daí a hemoglobina é metabolizada e tem início o acúmulo de biliverdina, o que faz com que surja uma cor azul-esverdeada, da periferia para o centro. A seguir, surge a bilirrubina e a equimose fica amarelo-ouro, até que suma. Hemorragias em Cavidades Hemotórax (hemorragia na cavidade pleural) - é causado, normalmente, por algum trauma, levando ao acúmulo de sangue entre as duas camadas da pleura e impedindo a expansão pulmonar durante a inspiração (provoca atelectasia). Hemopericárdio (hemorragia no saco pericárdico) - o acúmulo de sangue se dá entre as lâminas visceral e parietal do pericárdio seroso, normalmente devido à perfuração nos ventrículos, aorta etc. O sangue acumulado impede a dilatação do coração durante a diástole. Hemoperitônio (hemorragia na cavidade abdominal) - na imagem observa-se um útero com dilatação da extremidade distal da tuba uterina, comum em gestações ectópicas. Isso leva à ruptura da tuba, causando hemorragia na cavidade abdominal, podendo causar dor e até sinais de choque hipovolêmico. Principais Causas de Hemorragia Lesão de Paredes Vasculares - sempre que houver esse tipo de lesão, a parede do vaso pode se romper e causa hemorragia. Essas lesões têm como principais causas: ● Fragilidade da Parede: causada por condições genéticas como a Síndrome de Marfan, em que não há produção de colágeno. Esse enfraquecimento também pode levar ao surgimentode aneurismas; 29/06 ● Hipertensão Arterial Sistêmica: leva ao enfraquecimento das paredes, via arterioloesclerose hialina (deposição de proteínas plasmáticas nas paredes de arteríolas e vasos de pequeno calibre, facilitando sua ruptura); ● Traumas: pois rompem as paredes vasculares; ● Vasculites: também enfraquecem as paredes vasculares, levando a sua ruptura e ao surgimento de púrpuras; ● Ulcerações: os processos inflamatórios agudos podem levar à ulceração de membranas mucosas. Se esse processo se der em regiões de vasos, pode haver ruptura de suas paredes como consequência da expansão da úlcera. Na imagem 1 vemos o Polígono de Willis, na base do cérebro, com formação de aneurisma indicado em amarelo. Na imagem 2 vemos um AVC hemorrágico, área escurecida na região do tálamo, causado pelo aumento de pressão arterial. Na imagem 3 vemos uma microscopia de vaso com necrose fibrinóide, indicada em verde, que é uma evidência da vasculite. Na imagem 4 vemos uma endoscopia estomacal que mostra uma úlcera que ocorreu acima de uma artéria da submucosa, o que levou à ruptura de sua parede e à hemorragia (vista pelo “esguicho” de sangue em vermelho). Distúrbios da Hemostasia Primária - hemostasia primária é a primeira resposta à lesão vascular, que culmina em agregação plaquetária. Por isso, pode ser usado como sinônimo a expressão “defeito plaquetário”. Esses distúrbios costumam se manifestar sob a forma de petéquias e, normalmente, ocorrem por: ● Trombocitopenia: ou plaquetopenia, que é a redução do número de plaquetas disponíveis para agregação e desencadeamento da coagulação; ● Uso de AAS: por exemplo aspirina. Essas substâncias inibem a ciclooxigenase, impedindo a produção de TXA2 e a agregação plaquetária; ● Doença de Von Willebrand: é um defeito genético que prejudica a síntese do fator de Von Willebrand, o que impede a adesão plaquetária e a coagulação. Distúrbios da Hemostasia Secundária - hemostasia secundária é a cascata de coagulação com todos os seus fatores, por isso pode-se usar como sinônimo a expressão “distúrbios de coagulação”. Normalmente, esses distúrbios decorrem de: ● Hemofilia A: é a deficiência do fator XVIII, da via comum de coagulação, o que provoca hemorragias de grande monta por traumas mínimos. Por exemplo: hemorragias intra articulares; epistaxes volumosas etc; ● Uso de Anticoagulantes: por exemplo warfarina. Essas substâncias inibem a cascata de coagulação; ● Deficiência de Vitamina K: a vitamina K funciona como cofator na ativação de vários dos fatores de coagulação, por isso sua ausência inibe a cascata; ● Insuficiência Hepática: com a função hepática prejudicada, a produção de fator IX, X, XVI e pró-trombina é diminuída, o que dificulta a coagulação. 29/06 Principais Consequências de Hemorragia As consequências de uma hemorragia são variáveis e dependem de: 1. Volume e Velocidade do Sangramento Em indivíduos jovens e saudáveis, uma perda de até 20% do volume sanguíneo de forma aguda tem poucas consequências, no máximo apresentando-se como uma elevação de frequência cardíaca. Se esse indivíduo perder mais de 20% do volume sanguíneo de forma aguda, tem origem um choque hipovolêmico. Já indivíduos que perdem sangue de forma lenta e contínua, mas externa, costumam apresentar anemia ferropriva (pouco ferro). Esse tipo de hemorragia é comum quando em sangramentos de órgãos ocos, e a perda diária é medida em mls. Por fim, se o sangue for perdido de forma lenta para o interior de cavidades corporais ou tecidos conjuntivos, o indivíduo não apresenta anemia, então os macrófagos fagocitam as hemácias e reaproveitam o ferro. As imagens acima ilustram situações em que há perda lenta e contínua de sangue: na primeira vemos uma lesão ulcerada de tumor gástrico; na segunda vemos uma lesão ulcerada infiltrativa de tumor colorretal. Esses tumores levam à perda de pequenas quantidades de sangue ao longo de meses, o que se manifesta como anemia. É possível que o sangue saia mascarado nas fezes, muitas vezes sem que o indivíduo perceba. 2. Localização do Sangramento Normalmente, sangramentos para tecidos moles são pouco significativos, podendo ocasionar dor local e apresentando baixa gravidade. Por outro lado, sangramentos para o interior do saco pericárdico são mais importantes, provocando tamponamento cardíaco e obstrução ventricular, o que é conhecido como choque obstrutivo e pode levar à morte do indivíduo. Além disso, sangramentos cerebrais também são importantes: como a calota craniana é rígida e não apresenta espaço extra, o acúmulo de sangue aumenta a pressão intracraniana e comprime o encéfalo contra a calota e os orifícios cranianos. Isso pode levar à herniação do encéfalo através do forame magno, comprimindo o centro respiratório no bulbo e podendo levar à morte. Da mesma forma, uma hemorragia intraocular, que acomete a câmara vítrea do olho, pode causar descolamento de retina e cegueira permanente. Choque O choque é um estado sistêmico em que há desequilíbrio entre a perfusão e as demandas celulares. Então sempre que a perfusão é inferior à necessária para suprir as demandas metabólicas celulares, tem-se um estado de choque. Nesses momentos, a oferta de O2 e nutrientes é reduzida, enquanto ocorre acúmulo de produtos metabólicos como ácido láctico e CO2. Como consequência do choque, todos os órgãos do indivíduo são submetidos à hipóxia, o que pode levar à lesão celular - inicialmente reversível, mas que pode progredir para lesões irreversíveis e para a morte celular. Obs.: o choque é um estágio final comum de várias doenças. Esse mecanismo pode ser desencadeado de duas formas: redução da perfusão, quando as células estão consumindo seus substratos de forma normal, porém a taxa em que os recebem está reduzida. Ou aumento da demanda, quando embora a taxa de perfusão se mantenha normal, a taxa de consumo celular é superior ao normal. Ver mais na última aula de Distúrbios Hemodinâmicos!! 29/06 Edema e Insuficiência Cardíaca O edema também relaciona-se à microcirculação, estando associado com o extravasamento de líquidos em regiões de leitos capilares e de vênulas. Já a insuficiência cardíaca, é um tipo de desordem hemodinâmica relacionada com origens mais específicas da patologia. Ela será abordada nessa aula pois é uma condição patológica que está relacionada com a formação de edemas. MicrocirculaçãoA composição da microcirculação é feita por diversos tipos diferentes de vasos, dentre os quais: Arteríola - vaso de resistência, possuindo parede muscular espessa e contínua. Ao contrair, esse tipo de vaso reduz o calibre da luz, aumentando a resistência vascular e a pressão. Ao relaxar, provoca uma diminuição da resistência vascular e da pressão arterial. Assim, exerce função de ponto de controle da pressão arterial. Desse vaso originam-se outros dois: metarteríolas e shunt. Metarteríola - canal que comunica a arteríola com a vênula, apresentando parede muscular incompleta, o que resulta na formação de anéis musculares denominados de “esfíncteres pré-capilares”. Esses esfíncteres atuam regulando o fluxo de sangue dentro dos capilares sanguíneos: se o esfíncter se relaxar, ele abre e o sangue flui para os capilares. Já se esse esfíncter se contrai, ele fecha e o sangue passa direto da arteríola para a vênula, sem fluir nos capilares. Capilares - representam os locais de trocas entre o sangue e os tecidos, sendo que é o ponto que há passagem de oxigênio e nutrientes para as células e o ponto onde vai sendo recolhido os resíduos metabólicos desse tecido. Vênulas - recolhem todo o sangue que já foi “trocado” no leito capilar, de modo que podem ser chamadas também de vênulas pós capilares, levando o sangue em direção às veias e, posteriormente ao átrio direito. É importante lembrar que a vênula pós capilar é o vaso de maior permeabilidade do sistema circulatório, atuando como local de diapedese dos leucócitos. Shunt ou Desvio Arteriovenoso - vaso que sai da arteríola e vai para a vênula, mas diferentemente da metarteríola, ele não origina capilares, atuando como um desvio completo do sangue sem que ele circule nos capilares. Na imagem: canal direto = shunt. 29/06 Relação Área x Fluxo Quanto menor for a área de secção transversal total dos vasos, maior será a velocidade de fluxo, enquanto que quanto maior for a área de secção transversal total dos vasos, menor será a velocidade de fluxo. As artérias como um todo apresentam uma área total baixa (estão em um número mais reduzido quando comparadas os capilares) fazendo com que o sangue flua de maneira mais rápida, gerando aumento de pressão no interior dessas artérias. Já arteríolas, capilares e vênulas apresentam áreas muito grandes, portanto, a velocidade do fluxo nessas áreas tende a ser muito mais lenta, o que é importante para que haja a troca na região dos capilares. Por fim, as veias apresentam uma área pequena também, de modo que esse fluxo sanguíneo será mais veloz do que na microcirculação, mas nunca tanto quanto nas artérias. Mecanismos de Troca Os mecanismos de troca que se estabelecem entre os capilares e os tecidos dependem, fundamentalmente, de três mecanismos: Difusão - mecanismo determinado pelo gradiente de concentração da substância, correspondendo a passagem de soluto do meio mais concentrado para o meio menos concentrado, por meio da membrana plasmática semipermeável. Esse mecanismo é utilizado pelos gás O2 e CO2. Essa transferência ocorre até que as concentrações se igualem entre o tecidos e os capilares. Transcitose - é um tipo de transporte em bloco de moléculas maiores, como as proteínas. Ele ocorre por meio de vesículas que transitam de uma extremidade para a extremidade oposta da célula, onde sofrem exocitose. Geralmente ocorre em capilares contínuos, pois não existem poros entre as células endoteliais para facilitar a passagem de moléculas maiores. Fluxo de Massa - é o transporte de uma quantidade de líquido que segue um gradiente de pressão, de modo que o que está dissolvido no líquido é transportado junto. Na extremidade arterial do capilar predomina a força de filtração, que faz com que o líquido saia do capilar para o interstício. Na extremidade venosa predomina a força de absorção, que força o retorno do líquido do interstício para o interior do capilar. Por ser o mecanismo de troca mais relevante no assunto, temos um aprofundamento abaixo. Trocas por Fluxo de Massa Essas trocas são reguladas pelo que chamamos de forças de Starling, que são caracterizadas como duas pressões diferentes que agem sobre a parede do vaso: ● Pressão Hidrostática (PH): força do líquido contra a parede do capilar, forçando sua saída do interior do vaso para o meio extracelular e favorecendo o processo de filtração. Ela é maior nas arteríolas e vai diminuindo em direção às vênulas, pois conforme o líquido vai saindo, há menos líquido para exercer essa pressão. ● Pressão Osmótica (PO): também chamada Pressão Coloidosmótica ou Pressão Oncótica. Ela é determinada pela concentração de substâncias dissolvidas no plasma, sendo que o que mais confere pressão osmótica são as proteínas plasmáticas grandes, principalmente a albumina. Essa pressão promove a entrada de líquido do meio extracelular para o interior do capilar, favorecendo a força de absorção. Ela é constante desde a extremidade arterial até a extremidade venosa, pois as proteínas são muito grandes para sofrerem transporte. Ao mesmo tempo que a PO é constante, há uma diminuição significativa de líquido dentro do capilar em razão da PH. Isso aumenta a concentração dentro do vaso, o que favorece a recepção de líquido dos tecidos. É importante lembrar que essas pressões nunca se anulam totalmente, de modo que, a pressão hidrostática tende a ser um pouco maior, o que culmina na formação do líquido intersticial, resultando em um volume de, aproximadamente 3L por dia. 29/06 Sistema Linfático Surge como uma série de capilares em fundo cego que atua coletando líquido e proteínas do interstício e transportando por capilares e vasos até restituir esse líquido ao sistema circulatório. O fluxo do interstício para o sistema linfático é unidirecional, ou seja, só flui no sentido interstício → vaso linfático. Além disso, ele também é unidirecional dentro dos próprios vasos linfáticos. Esses vasos linfáticos irão coletando linfa de todas as partes do corpo e sobem para o átrio direito, onde esse conteúdo será despejado na circulação sanguínea novamente. Esse processo ocorre por meio de duas vias principais: Ducto Torácico - coleta a linfa de membro superior esquerdo, do abdômen e dos membros inferiores, desembocando no sistema circulatório.Ducto Linfático Direito - coleta a linfa da cabeça, do pescoço e do membro superior direito, devolvendo isso ao sistema circulatório. Em situações normais e fisiológicas, a filtração é maior do que a absorção, de modo que sobram líquido saindo dos capilares. Parte desse líquido é coletada pelo sistema linfático, sobrando uma parcela que forma o líquido intersticial (água de solvatação), o que precisa existir e ser mantido constante para que haja um meio apropriado para as reações bioquímicas que acontecem nos tecidos. Se acontece um desbalanço das forças podem gerar o acúmulo de líquidos no interstício ou a falta de líquido, gerando condições patológicas. Edema É definido como acúmulo de líquido no interstício ou nas cavidades corporais. Obs.: quando esse líquido se acumula nessas cavidades, ele pode ser chamado de efusão ou derrame. Um dos locais que mais demonstra o edema é o tecido adiposo subcutâneo ou hipoderme, principalmente em membros inferiores. É normal que edemas, na região acometida, uma superfície de aspecto brilhante. Além disso, em alguns casos, eles podem ser depressíveis, ou seja, forma-se um sinal de cacifo quando há digitocompressão, pois essa pressão força o líquido a entrar no sistema linfático. Obs.: a presença ou não desse sinal pode alterar o diagnóstico da causa desse edema. Exemplo 1: nessa imagem vemos um derrame pleural ou hidrotórax, com acúmulo de líquido entre as pleuras visceral e parietal. Isso comprime o pulmão e dificulta sua expansão durante a inspiração, podendo causar problemas de insuficiência respiratória grave. 29/06 Exemplo 2: a imagem mostra um derrame pericárdico ou hidropericárdio, com acúmulo de líquido entre os folhetos visceral e parietal do pericárdio seroso, o que gera tamponamento cardíaco. Assim, há compressão cardíaca, o que dificulta o enchimento dos ventrículos na diástole e pode levar ao choque obstrutivo. Exemplo 3: essa imagem mostra ascite ou hidroperitônio, com acúmulo de líquido entre o peritônio parietal e o peritônio visceral. A ascite se manifesta como uma grande distensão abdominal com superfície brilhante e é comum em pacientes com algum tipo de insuficiência hepática, como a cirrose. Classificação dos Edemas 1. De Acordo com a Composição É possível que sejam classificados de acordo com a sua composição química, em dois subtipos: Transudato (edema não inflamatório) - é um líquido rico em água, eletrólitos e pobre em células e proteínas. Ele se origina por um desbalanço nas forças de Starling, ou seja, aumento da pressão hidrostática ou redução da pressão osmótica. Geralmente, está associado a patologias como a insuficiência cardíaca (aumento da pressão hidrostática), insuficiência hepática (diminui a pressão osmótica), síndrome nefrótica (gera alterações nas duas forças) e desnutrição (gera redução da pressão osmótica). O líquido de um transudato costuma ser incolor ou amarelo citrino (amarelo claro). Exsudato (edema inflamatório) - é um líquido rico em células inflamatórias e proteínas plasmáticas, que saíram do vaso pelo aumento da permeabilidade vascular resultante de processos inflamatórios. Acontece em qualquer inflamação aguda, nos traumas (lesão de paredes vasculares que permitem a saída de células e proteínas) e em neoplasias malignas (esse tipo de tumor consegue romper as paredes vasculares, permitindo a saída de células e proteínas). Esse líquido tem aspecto turvo quando observado macroscopicamente. Sinal de Cacifo A classificação pode ser auxiliada pelo sinal de cacifo. Quando o edema subcutâneo é do tipo transudato, ele é amolecido e depressível, ou seja, ao comprimir uma região desse edema, eu observo o sinal de cacifo. Já quando o edema subcutâneo é do tipo exsudato, ele adquire uma consistência mais firme e não depressível ou muito pouco depressível, de modo que não deixa o sinal de cacifo. Isso ocorre, porque há muita proteínas segurando aquele líquido ou porque há obstrução do sistema linfático. 2. De Acordo com a Localização Localizado - está ligado ao aumento da pressão hidrostática; obstrução linfática; ou aumento da permeabilidade vascular - todos os fatores em sua versão localizada. Generalizado - está ligado ao aumento da pressão hidrostática generalizada; aumento da pressão osmótica; ou retenção de sódio e água. ● Anasarca: é um tipo de edema generalizado. Porém, além do acúmulo de líquido em todo o corpo, tem que ter derrame em cavidades serosas (pleural, pericárdico e/ou ascite). 29/06 Mecanismos Fisiopatológicos do Edema Aumento da Pressão Hidrostática - quando a pressão hidrostática se torna muito maior do que a pressão osmótica, ocorre mais filtração e maior saída de líquido do capilar para o interstício. O aumento da pressão hidrostática está relacionada com o aumento da pressão na extremidade venosa do capilar, ou seja, está relacionado com a diminuição do retorno venoso, por bloqueio de veias. Diminuição da Pressão Osmótica - quando a pressão osmótica é muito menor do que a pressão hidrostática, ocorre diminuição da reabsorção e pouco líquido volta do interstício para o capilar. Isso tem a ver, geralmente, com a redução da quantidade de proteínas plasmáticas para induzir a volta desse líquido. Retenção de Sódio e Água - tanto aumenta a pressão hidrostática quanto reduz a pressão osmótica, associando os dois mecanismos acima. Obstrução Linfática - acontece um diminuição do recolhimento da linfa, gerando um acúmulo de líquido no interstício sem que a drenagem seja feita corretamente. Aumento da Permeabilidade Vascular - gera edema pelo aumento da saída de líquidos e proteínas - que passam pelos espaços vasculares criados com o aumento da permeabilidade vascular. Composição Química e Presença ou Ausência do Sinal de Cacifo ● Aumento da pressão hidrostática: maior saída de líquido sem alterar as proteínas. Isso causa edemas do tipo transudato, portanto há sinal de cacifo. ● Redução da pressão osmótica: diminuição da reabsorção, então volta menos líquido para o vaso. Isso gera acúmulo no interstício e, como o líquido é pobre em proteínas e células, o edema é do tipo transudato, portanto há sinal de cacifo. ● Retenção de sódio e água: redução da pressão osmótica e um aumento da pressão hidrostática, combinando os dois casos acima. Ainda assim é um edema do tipo transudato, apresentandosinal de cacifo. ● Obstrução linfática: parada na reabsorção da linfa e das proteínas do interstício, então o edema é rico em células e proteínas. Por isso ele é do tipo exsudato e o sinal de cacifo é negativo. ● Aumento na permeabilidade vascular: saída de líquido, células e proteínas, portanto é um edema do tipo exsudato e o sinal de cacifo é negativo. Distribuição Anatômica dos Edemas Aumento da Pressão Hidrostática - acontece geralmente por bloqueio venoso ou diminuição do retorno venoso, portanto, é possível bloquear uma veia em um território localizado. Contudo, na insuficiência cardíaca, por exemplo, há uma diminuição generalizada no retorno venoso, portanto, esse tipo de edema também pode ser generalizado. Diminuição da Pressão Osmótica - acontece, geralmente, em casos que envolvem a perda de proteínas, de modo que essa perda é impossível que seja localizada em uma única região do corpo. Desse modo, esse tipo de edema é sempre do tipo generalizado. Retenção de Sódio - acontece nos rins, desse modo, a retenção é sistêmica também, pois é impossível reter o sódio somente para determinada parte do corpo. Portanto, esse tipo de edema é sempre generalizado. Obstrução Linfática - é sempre localizada, porque é praticamente impossível obstruir todos os vasos linfáticos ou os dois ductos linfáticos principais ao mesmo tempo. Aumento da Permeabilidade Vascular - ocorre por um processo inflamatório e é, via de regra, localizado, pois a permeabilidade aumenta em uma determinada região. 29/06 Principais Causas de Edema 1. Aumento da Pressão Hidrostática São causados por disfunções que dificultam ou bloqueiam o retorno venoso, levando a um aumento da pressão hidrostática na extremidade venosa dos capilares. Pode ocorrer por meio de quatro mecanismos principais: Obstruções Venosas - trombose venosa profunda (TVP), compressão externa por massas (por exemplo: síndrome da veia cava superior quando há algum tumor comprimindo a veia cava superior, reduzindo o retorno venoso para o átrio), inatividade de membros inferiores. Trombose Venosa Profunda É uma obstrução de um ramo venoso localizado por um trombo que bloqueia a luz da veia dificultando ou impedindo completamente a passagem do fluxo sanguíneo. Nessa veia, esse sangue vai sendo represado, elevando a pressão hidrostática das veias e das extremidades venosas associadas. Provoca um edema localizado, tipo transudato e com sinal de cacifo. Esse edema se manifesta, principalmente, nos membros inferiores, sendo um edema assimétrico, que afeta uma das pernas, estando associado a dor no membro afetado. Insuficiência Cardíaca - explicada mais adiante. Cirrose Hepática - aumenta a pressão hidrostática e diminui a pressão osmótica. Melhor explicada adiante. Pericardite Constritiva - fibrose com calcificação do pericárdio, o que acaba comprimindo o coração e gerando disfunção ventricular, represando o sangue de forma retrógrada, aumentando a pressão hidrostática das veias de forma generalizada, causando edema. Obs.: todos são do tipo transudato, com cacifo positivo, porque mexem somente com o acúmulo de líquidos, sem alterar as proteínas. As obstruções venosas causam edemas locais, enquanto que os demais processos causam edema generalizado. 2. Diminuição da Pressão Osmótica É um tipo de edema causado pela perda das proteínas plasmáticas como a albumina, o fibrinogênio e as globulinas (alfa, beta e gama). Existem quatro causas principais: Enteropatias Perdedoras de Proteínas - esse grupo é caracterizado por uma disfunção da mucosa intestinal que gera uma perda de proteínas de maneira muito acentuada. Pode ocorrer por questões de ordem genética (perda do glicocálix) ou outras questões que reduzem a absorção protéica, promovendo uma redução da pressão osmótica. Doenças inflamatórias intestinais também entram nesse grupo, pois as mucosas inflamadas perdem papel de absorção. Síndrome Nefrótica - é uma condição clínica caracterizada por três alterações: edema, proteinúria e hipoalbuminemia. Ocorre uma perda da função de barreira nos glomérulos renais, que se tornam permeáveis a proteínas e geram proteinúria. Essa perda de proteínas na urina provoca diminuição das proteínas no plasma, causando hipoalbuminemia. Assim, acontece o que conhecemos como “teoria do underfilling”, ou seja, a pressão osmótica cai e há redução da absorção de líquido na extremidade venosa, provocando edema. Como consequência, ocorre redução do volume intravascular pela perda de líquido, o que leva à ativação do sistema RAA, promovendo uma retenção de água e sódio - chamada “teoria do overflow”. Essa retenção de sódio e água provoca maior diluição das proteínas plasmáticas, o que reduz ainda mais a pressão osmótica, piorando o edema. Essa síndrome apresenta várias causas, podendo ser primárias ou secundárias. As primárias estão relacionadas com as questões renais de disfunções nos glomérulos e as secundárias não, sendo normalmente: diabetes, lúpus, artrite reumatóide, neoplasias de tumores sólidos, uso de medicamentos, infecções como HIV e hepatites. Esse edema é generalizado, pois a perda de proteínas não se dá em um só local, do tipo transudato e com cacifo positivo. Ele costuma predominar em regiões de tecidos frouxos, como: periorbitais, sacral e membros inferiores, sempre bilateral. Obs.: nessa síndrome também ocorrem derrames cavitários, então pode receber a nomenclatura de anasarca. 29/06 Cirrose Hepática - é um estágio comum para várias doenças inflamatórias do fígado que culminam em fibrose hepática, distorcendo a arquitetura hepática e prejudicando a função dos hepatócitos. Existem dois componentes que explicam o edema da cirrose hepática: a insuficiência hepatocelular e a hipertensão portal. A insuficiência hepatocelular apresenta inúmeras manifestações clínicas: ● diminuição da eliminação da bilirrubina na bile, causando aumento da bilirrubina e icterícia; ● redução nas síntese da albumina, levando ao edema e a ascite; ● redução dos fatores de coagulação (pró trombina, VIII, IX e X), sendo que na ausência dessa produção, o paciente fica exposto a fenômenos hemorrágicos. Já a hipertensão portal ocorre porque os nódulos resultantes da cirrose hepática no fígado irão comprimir os sinusóides hepáticos e a circulação hepática. Assim, o sangue que vem da veia porta tenha dificuldade de passar pelo fígado, o que provocaum represamento retrógrado nas veias abdominais, acometendo intestino, baço e esôfago. Isso acarreta um aumento da pressão hidrostática e edema; ascite; varizes esofágicas; esplenomegalia; circulação colateral pela parede abdominal. Assim, o edema presente na cirrose hepática pode ser explicado pela existência de dois componentes: a redução da pressão osmótica causada pela insuficiência hepatocelular e o aumento da pressão hidrostática pelo componente de hipertensão portal. Contudo, chama mais atenção o componente da insuficiência hepatocelular. Esse edema pode ser classificado como generalizado, do tipo transudato e com sinal de cacifo positivo. Ele se manifesta, principalmente, de maneira bilateral nos membros inferiores e por meio da ascite. Desnutrição - principalmente, uma forma de desnutrição conhecida por kwashiorkor, que corresponde a uma desnutrição protéica muito grave. Era comum em regiões do continente africano onde as mulheres tinham partos muito próximos, assim quando o filho mais novo nascia era feito um desmame do filho mais velho, acarretando nele algum grau de deficiência proteica. Quando é diminuída a ingestão de proteínas, não há aminoácidos suficientes para que o hepatócito possa produzir albumina suficiente para manter a pressão osmótica. Assim, esse edema será do tipo generalizado, também do tipo transudato, compressível e com sinal cacifo positivo. Esse edema costuma acontecer em locais como o abdômen e os membros inferiores, sendo classificado como gravitacional. A falta de proteínas também se manifesta em outros locais do corpo: a pele se torna descamativa e de pigmentação irregular. O cabelo perde parcialmente ou totalmente sua cor, havendo mescla de fios claros e escuros. Ocorre um prejuízo na formação de quilomícron, o que prejudica o transporte dos triglicerídeos e gera acúmulo hepático, o que converge para a esteatose hepática. Por fim, os anticorpos também são produzidos a partir de aminoácidos, com a deficiência proteica ocorre uma deficiência de imunoglobulinas. 3. Retenção de Sódio A retenção de sódio acaba provocando a retenção de água. Isso expande o volume do líquido intravascular, gerando aumento da pressão hidrostática - um dos fatores causais do edema. Além disso, o acúmulo de água leva à diluição maior das proteínas plasmáticas, o que reduz a pressão osmótica - também atuando na formação do edema. Esse tipo de edema pode ser causado por: Ingestão Excessiva de Sal - em pacientes que apresentam algum tipo de insuficiência renal. Diminuição da Perfusão Renal - em qualquer condição de diminuição da perfusão renal, ocorre ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (RAA), o que pode ocorrer em condições de insuficiência cardíaca. A ativação desse sistema leva à secreção de aldosterona, que diminui a eliminação de água e sódio e aumenta a pressão hidrostática, aumentando a filtração e causando edema. Síndrome Nefrítica - caracterizada por edema, hematúria e por hipertensão. 4. Obstrução do Sistema Linfático Esse tipo de edema é denominado linfedema, sendo sempre um edema do tipo localizado e não compressível, pois sempre deixa acumuladas as proteínas no interstício. Assim, o sinal de cacifo é negativo e o tipo de edema é classificado como exsudato. Geralmente esses edemas liberam fatores de crescimento no local, estimulando a síntese da MEC e a proliferação celular, com fibrose da derme, hiperplasia e espessamento da epiderme - levam ao endurecimento da pele como um todo, fazendo com que, com o tempo, a pele adquira um aspecto verrucoso (cheio de verrugas). 29/06 Uma das causas para esse tipo de edema é a filariose, por Wuchereria bancrofti, que se instala no interior dos vasos linfáticos gerando a obstrução. Outra causa de linfedema é a infiltração ou embolização por neoplasias malignas que se infiltram no sistema linfático: quando as células neoplásicas invadem os vasos linfáticos, tem-se uma linfangite carcinomatosa, gerando obstrução deles. O próprio tratamento do câncer também é um fator causador de linfedema: na retirada de um tumor mamário ou parte dele, o linfonodo axilar sentinela costuma ser retirado junto, para saber se há metástase e se há ou não necessidade de esvaziamento axilar. Quando o esvaziamento ocorre, há destruição dos vasos linfáticos que suprem o membro superior daquele lado e a mulher desenvolve linfedema crônico pelo acúmulo de líquido nos tecidos. Além disso, pode haver obstrução decorrente de fibrose após inflamação crônica, após várias inflamações agudas seguidas numa mesma região ou após tratamentos radioterápicos. 5. Aumento da Permeabilidade Vascular É causado por processos inflamatórios, principalmente, inflamação aguda. Nela ocorre a liberação de histamina pelos mastócitos, causando contração das células endoteliais e espaçamento entre elas. Isso promovendo um extravasamento de plasma e de proteínas que conseguem passar por esse espaço. Como o extravasado é composto por líquido e proteínas, o edema será do tipo exsudato, será firme e não compressível (sinal de cacifo negativo) e localizado, pois não é possível que haja um aumento de permeabilidade vascular no corpo inteiro ao mesmo tempo. Por exemplo: herpes labial e calázio (obstrução das glândulas tarsais). Alterações Morfológicas do Edema Macroscopicamente, o edema faz com que as superfícies serosas adquiram aspecto brilhante. Já microscopicamente ele é percebido de maneira mais sutil, sendo visto como uma separação ou clareamento da MEC: as fibras (principalmente o colágeno) se encontram mais separadas e existem espaços em branco aumentados. Legenda: cólon acometido por edema. Nela o líquido do edema não se cora pela eosina, portanto ele não rico em proteínas, sendo do tipo transudato. Legenda: corte de pele com a derme papilar apresentando espaçamentos maiores entre as fibras de colágeno, o que evidencia a presença de edema do tipo transudato. Legenda: o mesmo que na imagem 2, mas em maior aumento. Legenda: microscopia de pólipo nasal, projeção na mucosa nasal devido à alergias de repetição. Essas projeções possuem tecido conjuntivo edematoso, com fibras colágenas bem separadas por líquido não corado por eosina (transudato). 29/06 1. Particularidades do Edema Cerebral Os capilares cerebrais e da parte central do sistemanervoso são muito pouco permeáveis por causa da barreira hematoencefálica. Ela é constituída por células endoteliais com numerosas junções de oclusão, pela membrana basal dessas células contínua e pelos pés vasculares dos astrócitos, que reforçam a barreira. Portanto, o fluxo de massa é muito pequeno, ou seja, há pouco extravasamento de líquido em condições normais, tanto que não existe sistema linfático no SNC. Edema Vasogênico - é um edema resultante de uma lesão na microcirculação, sendo o tipo de edema cerebral mais comum. Quando esse vaso é lesado, ele passa a realizar muita transcitose e suas junções de oclusão afrouxam, aumentando a permeabilidade, fazendo com que o líquido extravase e se acumule no espaço intercelular do tecido neural. Esse processo é melhor observado na substância branca. Ele pode ser causado por traumas na calota craniana, inflamação do tecido neural, hemorragias e tumores crescendo nesses locais adjacentes. Edema Citotóxico (menos comum) - é um edema intracelular, ou seja, esse líquido se acumula no interior das células. Acontece em situações de hipóxia, que causa redução na síntese de ATP, diminuindo a atividade da bomba de sódio-potássio-ATPase e de outros canais iônicos que funcionam de maneira ativa. Assim, ocorre um aumento de sódio no meio intracelular pela disfunção da bomba e a água tende a entrar nessas célula, causando edema. Esse processo é melhor visto nos astrócitos (imagem a seguir). Esse edema também pode ocorrer devido à encefalopatia hepática, lesão tóxica pelo acúmulo de amônia. Legenda: circulado em vermelho vemos um astrócito com citoplasma cheio de líquido de edema. É possível visualizar esses edemas cerebrais por meio de exames de imagem, aparecendo com regiões esbranquiçadas (imagens a seguir). Eventualmente, o edema pode apresentar efeito de massa, ou seja, pode causar algum tipo de deslocamento das estruturas do encéfalo ou do sistema nervoso central. Macroscopicamente esse tipo de edema é percebido por um alargamento e achatamento dos giros cerebrais e um estreitamento dos sulcos cerebrais. O edema pode provocar, ainda, o desvio da linha média e outras estruturas. A calota craniana é rígida e não complacente, de modo que o aumento do volume provocado pelo edema resulta em um deslocamento das estruturas desse parênquima cerebral através de forames, podendo levar a herniação e morte. Já microscopicamente esse edema cerebral pode ser visto como nas próximas imagens: Legenda: a primeira imagem mostra uma microscopia normal, com células da glia (circulada em vermelho) e seus prolongamentos (asterisco). A segunda imagem mostra a acentuação do espaço perivascular, com espaço em branco ao redor dos vasos. Já a terceira imagem mostra o tom mais claro que o tecido adquire devido à separação dos prolongamentos celulares. 29/06 2. Particularidades do Edema Pulmonar Existem dois mecanismos que ocorrem e que explicam essa especificidade do edema pulmonar: Aumento súbito na pressão das veias pulmonares - é causada pela falência aguda cardíaca das câmaras cardíacas (principalmente, do ventrículo esquerdo). Isso ocorre em casos de infarto agudo do miocárdio no ventrículo esquerdo, miocardite, lesão valvar mitral aguda, que resultam em um represamento de sangue no átrio esquerdo e nas veias pulmonares, provocando um aumento rápido da pressão hidrostático. Esse aumento causa uma saída de líquido dos capilares para o interstício pulmonar e para o interior dos alvéolos, fazendo com que os alvéolos adquiram um aspecto de preenchimento por transudato. Aumento da Permeabilidade Capilares - é causado por infecções, aspirações de conteúdos gástricos ou traumas sobre o pulmão. Nesse caso, como a origem é inflamatória, a formação de líquido é classificada como exsudato. Clinicamente, o edema pulmonar causa uma dispneia intensa e a eliminação de um fluido pela boca e narinas quando o paciente tosse, sendo ele róseo e com bolhas de ar - chamado “água de carne”. Legenda: na radiografia de tórax os pulmões edematosos aparecem como áreas esbranquiçadas, conhecidas como áreas radiopacas. Macroscopicamente, os pulmões edematosos apresentam um aumento muito grande de peso e volume (chegando ao dobro ou ao triplo), costumando estar associado ao processo de congestão culminando no aparecimento de coloração vinhosa e superfície de aspecto brilhante - primeira imagem. Além disso, o corte costuma desprender líquido, que pode ser róseo ou sanguinolento por conta da congestão mas com bolhas de ar - segunda imagem. Legenda: um alvéolo normal apresenta um fundo branco por estar preenchido por ar (indicado em vermelho). Contudo, quando há edema os alvéolos se encontram preenchidos pelo líquido róseo característico (indicado em amarelo) Insuficiência Cardíaca Essa patologia aparece como uma das principais causas de edema, podendo ser chamada de insuficiência cardíaca congestiva. Essa síndrome é caracterizada pela incapacidade do coração em bombear sangue em quantidades suficientes para atender demandas teciduais ou, ainda, consegue bombear o sangue em quantidade suficiente, mas somente às custas de uma alta pressão de enchimento. A insuficiência cardíaca aparece como um estágio final comum para várias cardiopatias crônicas. Suas principais causas são: doenças cardíaca isquêmica (infarto do miocárdio), cardiopatia hipertensiva (espessamento acentuado e concêntrico do ventrículo esquerdo) e as valvopatias (como estenose valvar) - respectivamente abaixo: 29/06 A insuficiência cardíaca é uma condição progressiva, ou seja, uma vez instalada, ela vai piorando com o tempo, sendo muito comum na prática clínica e afetando cerca de 2% da população. O prognóstico da insuficiência cardíaca é muito ruim, uma vez que 50% dos pacientes morrem em até 5 anos dessa insuficiência. Mecanismos de Compensação A patogenia dessa síndrome está relacionada a sobrecarga de trabalho desse coração, podendo ocorrer por inúmeras razões. O trabalho aumentado aumenta o estresse sofrido pelos cardiomiócitos, o estiramento das células e promove uma dilatação inicial, aumentando o volume de enchimento durante a diástole, o que inicialmente aumenta a força de contração e o volume de ejeção desse coração, melhorando o débitocardíaco. Porém, esse mecanismo não pode ser mantido de maneira permanente, de modo que, com o passar do tempo, a sobrecarga de trabalho ativa genes que estimulam a síntese de proteínas anormais pelos cardiomiócitos, gerando hipertrofia e remodelamento do ventrículo por fibrose intersticial. Além disso, com o tempo, ocorre uma ativação das catecolaminas pela parte simpática do sistema nervoso, gerando uma aumento da frequência cardíaca. Ocorre uma ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, de modo que a angiotensina irá contribuir para a fibrose desse interstício, prejudicando o coração com o passar do tempo. Os mecanismos de compensação provocam dois tipos de disfunção cardíaca: 1. Disfunção Sistólica Acontece uma perda da função de contração do miocárdio, causando uma redução da fração de ejeção desse coração, o que, consequentemente, faz com que os tecidos não recebam sangue na quantidade necessária para suprir as demandas. 2. Disfunção Diastólica Incapacidade da câmara cardíaca (do ventrículo) de se expandir adequadamente e de ser preenchida adequadamente na diástole, ou de precisar de pressões de enchimento ventricular muito altas para que isso ocorra. Tem a ver com a diminuição da complacência ventricular devido à fibrose do miocárdio. Alterações Morfológicas da Insuficiência Legenda: macroscopicamente ocorre uma cardiomegalia, ou seja, um coração muito aumentado em tamanho e de em peso, uma hipertrofia de câmaras cardíacas evidenciadas pelo aumento do espessamento das paredes ventriculares. O corte central é normal, já os cortes laterais mostram o espessamento ventricular inicialmente concêntrico (à esquerda) e posteriormente excêntrico (à direita). Legenda: na microscopia ocorre hipertrofia dos cardiomiócitos (indicado em vermelho) e uma variabilidade no tamanho e forma dos núcleos, chamada anisocariose (indicada em amarelo). Além disso, ocorre fibrose intersticial, com deposição de colágeno e aumento da visualização desse interstício. 29/06 Principais Causas da Insuficiência No ventrículo esquerdo - cardiopatia isquêmica (infarto agudo do miocárdio), hipertensão arterial sistêmica, valvopatias mitral e aórtica, miocardiopatias. No ventrículo direito - esse tipo de insuficiência cardíaca é provocado pela insuficiência cardíaca esquerda, pela geração de alterações pulmonares que irão culminar na insuficiência direita. Insuficiência cardíaca direita não associada à esquerda - essa condição é chamada de cor pulmonale, sendo causada por alterações primárias dos pulmões. Por exemplo: hipertensão arterial pulmonar, esclerose sistêmica que leva a fibrose, tromboembolismo pulmonar crônico e a doença pulmonar obstrutiva crônica. Todos levam a um aumento das veias e artérias pulmonares, gerando sobrecarga no ventrículo direito por sobrecarga pressórica. Consequências da Insuficiência Cardíaca No ventrículo esquerdo - promove o represamento do sangue para o átrio esquerdo e para a circulação pulmonar, gerando congestão pulmonar e edema pulmonar, adquirindo aspecto de capilares preenchidos por hemácias (macrófagos com hemossiderina e hemácias na luz dos alvéolos se for um processo crônico) e de alvéolos preenchidos por líquido. No ventrículo direito - promove o represamento de sangue para o átrio direito e para as veias cavas superior e inferior. Como consequência, acontece congestão em todos os territórios sistêmicos (congestão hepática crônica, esplenomegalia), gerando hipertensão portal com ascite, derrame pericárdico e derrame pleural. Acontece também a presença de edema de membros inferiores. Edema na Insuficiência Cardíaca Em estágios iniciais, o edema é localizado nos membros inferiores, sendo mais gravitacional e vespertino (aparece no fim do dia quando esse coração já trabalhou o dia todo e o líquido foi se acumulando), geralmente desaparece durante as horas de sono, para ser refeito no dia seguinte. É um edema do tipo transudato porque é causada pela dificuldade de retorno venoso e pelo aumento da pressão hidrostática. Com a progressão dessa doença, os sistemas de compensação são ativados, por exemplo, o sistema renina-angiotensina-aldosterona, que se ativa quando há redução do fluxo plasmático renal pela piora do débito cardíaco, o que leva a retenção de sódio e água, aumentando a pressão hidrostática e reduzindo a pressão osmótica. Esse mecanismo piora o edema, pois relaciona-se a uma redução ainda maior do retorno venoso e do débito cardíaco. Isso faz com que o edema suba por todo o membro inferior até chegar a região sacral e a fazer derrames cavitários, quando esse edema se torna uma anasarca. Portanto, em estágio terminal, esse edema é um edema generalizado. Obs.: mesmo em estágios iniciais o edema é capaz de acometer os dois membros inferiores simultaneamente, diferentemente do edema da TVP. Lenina Castellari - LII Aterosclerose Sistema Circulatório Artérias Elásticas: também chamadas de artérias de grande calibre, sendo elas: aorta, ilíacas comuns, ilíacas internas, ilíacas externas, tronco braquiocefálico, subclávia e carótida comum esquerda. Elas têm em comum um grande número de lamelas elásticas em sua túnica média, o que faz com que tenham bastante elasticidade para dilatarem-se durante a sístole - recebem sangue em alta pressão. Além disso, durante a diástole, o recuo elástico das lamelas propulsiona o sangue para os vasos seguintes a estes. Artérias Musculares: também chamadas de artérias de médio calibre, sendo todas as demais artérias do sistema. Na túnica média dessas artérias predominam células musculares lisas, responsáveis por regular o fluxo sanguíneo regional. Isto é: distribuem o sangue de acordo com a necessidade fisiológica dos órgãos que suprem. Elas se ramificam em vasos de calibre cada vez menor, até chegarmos nas arteríolas. As arteríolas são consideradas vasos de resistência, pois possuem paredes espessas de diâmetro maior que o diâmetro da luz. Por meio da contração das células musculares lisas de sua túnica média, podem aumentar a resistência periférica e controlar o calibre da luz. A partir das arteríolas entramos na microcirculação: elas dão origem ao leito capilar, cujo conteúdo é recolhido por vênulas. As vênulas têm como característica principal ser o vaso de maior permeabilidade do sistema, sendo o principal ponto de passagem de leucócitos entre o sangue e os tecidos. Após estes vasos temos as vênulas musculares, querecolhem o sangue de vênulas pós capilares e levam-no às veias de médio calibre e, por fim, às veias de grande calibre. A partir daí, o sangue chega ao coração. Obs.: para a aula de aterosclerose o interesse fica restrito às artérias elásticas e artérias musculares. Estrutura Básica Legenda: na primeira imagem vemos a estrutura das artérias musculares. Já na segunda, temos a estrutura das artérias elásticas à direita e artérias musculares à esquerda. No caso das artérias musculares, faltou indicar nas duas imagens a lâmina elástica externa e o nervi vascularis. Lenina Castellari - LII Morfologia Microscópica Normal Legenda: na primeira imagem vemos um corte da parede de uma artéria elástica, corada em HE. De cima para baixo, indicadas pelas chaves, temos: túnica íntima, muito delgada e com poucos detalhes, sendo composta por células endoteliais (seta vermelha), uma pequena quantidade de tecido conjuntivo subendotelial frouxo e pela lâmina elástica interna (círculo verde), que separa essa túnica da próxima. Abaixo da túnica íntima, temos a túnica média, com poucas células musculares lisas e muitas lamelas elásticas - fibras horizontais de aspecto ondulado e mais acidófilas que o restante do material. Por fim, temos a túnica adventícia, composta por tecido conjuntivo denso não modelado, com presença de vasa vasorum (canto inferior direito). Na segunda imagem vemos o mesmo, mas corado em orceína - coloração que evidencia material elástico. Em vinho vemos as lamelas elásticas que, embora pareçam ser fibras elásticas, são de fato redes elásticas que circundam a luz do vaso. Essas estruturas sofrem expansão durante a sístole, para receber o sangue em alta pressão, e sofrem recuo elástico durante a diástole, propulsionando o sangue à diante. Legenda: na primeira imagem vemos o corte da parede de uma artéria muscular, corada em HE. De cima para baixo, vemos: túnica íntima, média e adventícia. Na segunda imagem vemos o mesmo corte, em maior aumento. De cima para baixo, vemos: túnica íntima, na qual evidencia-se CE - células endoteliais - abaixo das quais existe uma pequena quantidade de tecido conjuntivo subendotelial frouxo (não é possível ver direito). Além disso, indicado por MLEI, vemos a lâmina elástica interna (linha rósea escura da imagem) responsável por separar as túnica íntima e média. Já na túnica média, têm destaque as células musculares lisas em formato alongado, com citoplasma acidófilo, sem estrias e com núcleo que acompanha o formato celular. Nessa região existe certa quantidade de material elástico (indicado pela seta preta), sob a forma de fibras elásticas dispersas de aspecto ondulado e mais róseo/acidófilo, mas não sob a forma de lamelas. Separando as túnicas média e adventícia temos a lâmina elástica externa, indicada por MLEE. Por fim, na túnica adventícia, temos tecido conjuntivo denso não modelado com presença de vasa vasorum e nervi vascularis. Lesões das Paredes Vasculares A aterosclerose é, resumidamente, um processo inflamatório em resposta à lesões da parede vascular. O funcionamento do vaso como um todo, depende das células endoteliais e musculares lisas, simultânea e coordenadamente. Lenina Castellari - LII Célula Endotelial A célula endotelial faz o revestimento interno dos vasos e, embora sejam semelhantes nos cortes histológicos, são muito diversas do ponto de vista funcional - de acordo com o órgão em que se encontram. Por exemplo: no cérebro as células endoteliais possuem muitas junções de oclusão, originando um endotélio altamente impermeável que constitui a barreira hematoencefálica. Diferente do fígado, em que as células endoteliais formam o endotélio descontínuo dos sinusóides, altamente permeável para que haja maior quantidade de trocas entre o sangue e hepatócitos. Em um estado normal, ou seja, com sangue fluindo em normotensão, fluxo laminar e na presença de fatores de crescimento, o endotélio secreta substâncias que mantêm a superfície endotelial não trombogênica - mantém o sangue líquido. Para que isso ocorra, a quantidade de substâncias anticoagulantes deve ser superior à quantidade de substâncias pró-coagulantes. Além disso, a expressão de moléculas de adesão para leucócitos é quase nula - os leucócitos praticamente não se aderem à superfícies endoteliais normais. Porém, se o endotélio for agredido, o que pode ocorrer devido a uma infinidade de fatores, ocorre ativação endotelial. Dessa forma, a expressão de substâncias pró-coagulantes passa a superar a de anticoagulantes, e a expressão de moléculas de adesão se eleva, possibilitando adesão, rolamento e diapedese de leucócitos. Além disso, a célula endotelial passa a secretar fatores de crescimento e fatores pró-inflamatórios. Assim, ocorrem mudanças na superfície endotelial, o que faz com que ela se torne trombogênica. Obs.: Fatores de Agressão ao Endotélio - fluxo turbulento, hipertensão arterial sistêmica, citocinas pró-inflamatórias, ativação do SC, presença de microrganismos, substâncias tóxicas, excesso de lipídios, excesso de glicose, hipóxia, acidose etc. Além dessas funções, a célula endotelial também é responsável por modular o tônus vascular, pois produz endotelina (estimula a contração das células musculares lisas da túnica média) e óxido nítrico (relaxa a musculatura da túnica média); pelo crescimento e desenvolvimento das células musculares, pois produz fatores de crescimento; pelo metabolismo de hormônios, como a conversão de angiotensina I em II pela ECA dos capilares pulmonares; pela regulação da inflamação, pois liberam citocinas pró-inflamatórias. Legenda: na primeira imagem vemos, circulada em vermelho, uma célula endotelial pavimentosa e de cromatina condensada, dando aspecto mais corado ao núcleo. Na segunda imagem vemos um processo inflamatório, em que as células endoteliais, também circuladas em vermelho, apresentam maior quantidade de citoplasma, com núcleo menos achatado - sendo quase um epitélio cúbico. As células endoteliais, a partir de estímulos externos de agressão, são induzidas a saírem de um estado basal para se tornarem ativadas. Ativadas elas secretam citocinas pró-inflamatórias, fatores de crescimento (por exemplo: fator de crescimento derivado de plaquetas, que induz a proliferação da musculatura lisa da túnica média e recruta célulasdessa túnica para a túnica íntima), moléculas vasoativas (que promovem vasodilatação e aumento da permeabilidade endotelial), fatores coagulantes (podem induzir a trombose local) e aumentam a expressão de moléculas de adesão (por exemplo: integrinas, que permitem adesão, rolamento e diapedese leucocitária). A propriedade pró-inflamatória e trombogênica das células endoteliais ativadas está presente e é a base de diversas doenças comuns na prática clínica. Essas alterações são normalmente chamadas de disfunção endotelial. Isto é: embora o endotélio não tenha alterações morfológicas, ele possui funções alteradas: secreção de citocinas pró-inflamatórias, fatores de crescimento, moléculas vasoativas e aumento da secreção de moléculas de adesão. Lenina Castellari - LII Legenda: o processo de alteração funcional tem início rápido e curto, por meio da contração de células endoteliais devido à ação da histamina. Isso provoca o surgimento de espaços intercelulares, circulados em vermelho na primeira imagem, que permitem o aumento da permeabilidade vascular e saída de líquido, gerando edema. A seguir, ocorre uma resposta lenta e prolongada, que envolve a expressão gênica e síntese de diversas proteínas, como moléculas de adesão e citocinas pró-inflamatórias. Isso pode ser visto na segunda imagem, que mostra um capilar da serosa do apêndice cecal com inflamação aguda. Nessa imagem, indicadas pelas setas vermelhas, vemos células endoteliais com fenótipo ativado e, circulados em vermelho, leucócitos realizando marginalização e adesão ao endotélio. Célula Muscular Lisa As células musculares lisas dos vasos podem ser encontradas sob dois fenótipos: célula muscular lisa propriamente dita ou miofibroblasto. O primeiro fenótipo ocorre quando a célula está saudável e está envolvida com contração e regulação hemodinâmica, ou seja, aumentando ou diminuindo a resistência vascular para regular a hemodinâmica. Esse fenótipo funcional pode mudar quando é necessário, por exemplo, reparar os vasos. Nesse caso, as células musculares passam por um processo de ativação gênica e adquirem fenótipo de miofibroblasto, em um estado sintético. Assim, elas passam a produzir proteínas da MEC (colágeno, elastina, glicosaminoglicanas etc), se proliferam, aumentam em número e passam a secretar fatores de crescimento e citocinas pró-inflamatórias. Resposta Estereotipada à Lesão da túnica íntima As lesões endoteliais podem ser estruturais, com perda ou destacamento de células, ou funcionais, devido aos fatores citados anteriormente. Isso faz com que células endoteliais adjacentes se proliferem e migrem para a região lesada, ou que surjam a partir de diferenciação de células precursoras, a fim de substituir as células danificadas. Já a células musculares lisas sofrem recrutamento a partir da túnica média, em direção à túnica íntima - estímulo por fatores de crescimento liberados por células endoteliais, por exemplo: fator de crescimento derivado das plaquetas. Na túnica íntima, essas células passam ao fenótipo de miofibroblastos, de caráter sintético. Com isso, endotélio vascular que era associado a uma pequena quantidade de tecido conjuntivo subendotelial frouxo, passa a ser associado a muito tecido conjuntivo - produzido pelos miofibroblastos. Dessa forma, a túnica íntima sofre espessamento, formando a chamada neoítima. Como consequência disso, temos a redução do calibre da luz do vaso, o que leva a diversas implicações clínicas. Lenina Castellari - LII Aterosclerose ver mais na página 352 do pdf do Robbins, 9ª ed. Arteriosclerose: endurecimento da parede vascular. Essa doença engloba três processos distintos: ✓ Arteriolosclerose: deposição de proteínas na túnica média das arteríolas, durante a hipertensão arterial sistêmica. Isso faz com que a túnica média (e a túnica íntima, em menor grau) fique hialinizada, corada fortemente por eosina, e rígida - causa enrijecimento do vaso como um todo; ✓ Esclerose de Monckeberg: calcificação da túnica média de artérias de médio calibre, o que leva ao seu enrijecimento. Essa esclerose não costuma ter implicações clínicas, pois não altera o diâmetro da luz do vaso, apenas o endurecimento de suas paredes. Exceto se ocorrer na artéria braquial, vaso em que se afere a pressão, onde causará falsa hipertensão arterial; ✓ Aterosclerose: é o tipo mais frequente e importante de arteriolosclerose, pois é uma grande causa de morbidade e mortalidade na população mundial. Esse tipo está presente como várias doenças clínicas, por exemplo: Doença Cardíaca Isquêmica Doença Cerebral Vascular Doença Vascular Periférica Ocorre quando a aterosclerose se dá nas artérias coronárias. Nesse caso, podem ocorrer diversas manifestações clínicas, desde angina estável, à angina instável e ao infarto agudo do miocárdio. Ocorre quando a aterosclerose se dá em alguma das artérias que irrigam o encéfalo. Sua manifestação clínica mais frequente é o acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico. Ocorre quando a aterosclerose se dá nas artérias femoral, tibial, poplítea etc. Sua manifestação clínica mais frequente é a insuficiência arterial periférica, em que há deficiência de irrigação do membro, podendo evoluir à gangrena e amputação. Características Gerais Definição: é uma lesão da túnica íntima, que afeta artérias de grande e médio calibre, sendo caracterizadas pela formação de placas de ateroma (ou ateroscleróticas, ou ateromatosas). Essas lesões apresentam-se elevadas, como saliências na luz do vaso, contendo duas regiões: centro lipídico (ou necrolipídico) e cápsula fibrosa. Legenda: atenção à imagem, para o que está contido em cada região da placa. É importante dizer que a aterosclerose é caracterizada por lesões focais da túnica íntima, não envolvendo os 360º da circunferência do vaso. Muitas vezes, essas lesões são chamadas de excêntricas e envolvem apenas um segmento da parede vascular. como visto na imagem ao lado - em branco. A formação de saliências na luz dos vasos determina uma obstrução mecânica do fluxo sanguíneo local, o que submete os órgão subsequentes a um menor fluxo. Na maioria dos órgãos, a partir de uma obstrução significativa (> 80%), pode-se originar isquemia, cujo grau se relaciona diretamente ao grau de obstrução, por exemplo: uma placa que obstrui apenas 20% da luz do vaso pode, muitas vezes, ser assintomática e nunca ser descoberta pelo paciente. Além disso, a nutrição da parede vascular depende da difusão de nutrientes e O2 a partir da luz,passando por todas as camadas. Como a aterosclerose espessa a parede vascular, ela restringe essa difusão: a região intermediária*** da parede deixa de receber nutrientes e O2 em quantidades adequadas. Essa isquemia da parede do vaso leva ao seu enfraquecimento, podendo levar à complicações. Lenina Castellari - LII ***Obs.: a região intermediária é a mais afetada pois as regiões próximas a luz ainda conseguem receber nutrientes e as regiões mais distantes da luz (túnica adventícia) podem ser nutridas por vasa vasorum. Por fim, a placa pode sofrer ruptura e trombose, nesse último caso ocorre obstrução total da luz do vaso, levando à expressão clínica da doença. Legenda: na primeira imagem temos um corte transversal do coração, da base para o ápice. Na parede do VE, indicada em verde, vemos hipertrofia e, indicada em azul, vemos uma região de coloração amarelada, pálida e de palpação amolecida, correspondente a uma região de infarto agudo do miocárdio. Na segunda imagem vemos uma peça de encéfalo, com região cavitada de aspecto cístico - circulada em vermelho. Essa região corresponde a uma zona de AVC isquêmico antigo, em que houve necrose liquefativa do parênquima cerebral e perda de tecido. Na última imagem vemos necrose que envolve diferentes tipos de tecido (hipoderme, derme, tecido adiposo, tecido muscular e até tecido ósseo), podendo ser então chamada de gangrena. A aterosclerose é uma doença multifatorial, ou seja, ocorre em indivíduos que - geralmente - possuem suscetibilidade genética, que interage com fatores ambientais de risco e resultam, após anos, na sua expressão clínica. É importante dizer que seu caráter ambiental se sobressai. Esses fatores podem ser divididos da seguinte forma: Fatores Constitucionais Não podem ser modificados. Histórico Genético Familiar É comum que, em famílias, quando um indivíduo apresenta aterosclerose, constate-se que diversos familiares também possuem condições clínicas relacionadas a essa doença. Herança Poligênica A herança que provoca aterosclerose se deve à diversas mutações genéticas distintas, que interagem e aumentam a predisposição. Outras Alterações Genéticas Por exemplo: hipercolesterolemia familiar, explicação na primeira imagem da próxima página. Essa doença aumenta o risco de aterosclerose, de forma que torna possível infartos precoces (aos 20 anos). Idade Desenvolvimento inicia-se na infância, como estrias adiposas, e pode progredir formando placas, com pico de manifestação clínica entre 40 e 60 anos. Gênero É mais comum no sexo masculino, pois as mulheres são protegidas pela ação do estrógeno, que melhora o perfil lipídico. No entanto, após a menopausa, aumenta a incidência no sexo feminino. Fatores Adquiridos Podem ser modificados. Hiperlipidemia (principalmente hipercolestero- lemia) ↑ LDL e ↑ consumo de colesterol e AGs saturados (aumenta formação de LDL) + ↓ HDL e↓ consumo de AGs poliinsaturados (baixa formação de HDL) estão associados à aterosclerose, pois fazem com que a tendência de deposição de colesterol supere seu transporte reverso. Hipertensão Arterial Acelera o processo de formação da placa, pois atua como fator de agressão ao endotélio. Além disso, potencializa as complicações: pacientes com hipertensão e aterosclerose têm 60% a mais de chance de ter doença cardíaca isquêmica Tabagismo Substâncias do tabaco são lesíveis ao endotélio, por isso o tabagismo induz e acelera a formação de placas de aterosclerose. Diabetes Também causa danos e disfunção endotelial, colaborando para formação de placas e aumentando a chance de complicações (IAM, AVC, gangrena etc). Lenina Castellari - LII Legenda: (1) síntese do receptor de LDL em ribossomos do REG; (2) passagem pelo Complexo de Golgi; (3) transporte até a MP. Quando a LDL passa próxima ao receptor, ocorre ligação entre os dois, o que provoca endocitose seletiva da LDL - processo que necessita de clatrina. Assim forma-se uma vesícula levada ao fagolisossomo, a fim de que o LDL seja clivado e haja aproveitamento do colesterol. Em indivíduos sem o receptor de LDL não há captação de colesterol da dieta pelas células, o que é interpretado como carência desse lipídio. Assim, a célula estimula enzimas produtoras de colesterol endógeno, levando ao seu excesso - hipercolesterolemia. Essa doença pode ser homozigota (dois alelos alterados), em que a expressão clínica é mais acentuada, e heterozigota (um alelo alterado), em que a expressão clínica é mais branda. Legenda: os lipídios são absorvidos no intestino delgado sob a forma de quilomícrons nascentes, que caem no sistema linfático e chegam ao sangue. No sangue ocorre retirada de AGs (via lipase lipoproteica) e sua absorção pelo músculo estriado e adiposo, onde ficam armazenados. Após a lipólise o quilomícron passa a ser chamado remanescente e vai até o fígado, onde é internalizado e participa da síntese de LDL e HDL, as principais lipoproteínas de transporte são. O LDL é responsável pelo transporte de colesterol e ésteres de colesterol do fígado para os tecidos periféricos e vasos. Já o HDL é responsável pelo transporte reverso do colesterol dos tecidos periféricos e vasos para o fígado, onde ele é eliminado via bile e fezes. Patogenia da Aterosclerose É entendida como uma resposta do vaso à lesão endotelial. É uma resposta inflamatória crônica que ativa vias de reparo da parede vascular e que leva à formação da placa de aterosclerose. Por isso, temos como participantes do processo: células endoteliais, células musculares lisas, células inflamatórias e lipoproteínas. Esse processo todo depende dos fatores a seguir: 1. Lesão e Disfunção das Células Endoteliais Esse é o pilar central da aterosclerose. Geralmente, essas lesões não são mecânicas, em que há destacamento do endotélio, mas funcionais - como citado mais anteriormente. As células endoteliais disfuncionais permitem maior permeabilidade da superfície endotelial (melhor explicado 4 págs. atrás), o que permite a entrada do colesterol na túnica íntima do vaso - principalmente LDL. Esse endotélio disfuncional aumenta a expressão de proteínas de adesão, por exemplo a integrina, permitindo também a entrada de leucócitos. A aterosclerose é mais comum em locais de fluxo sanguíneo turbulento, normalmente em pontos de ramificação do sistema vascular. Por quê? Quando um vaso se ramifica, existe um turbilhonamento natural do fluxo sanguíneo. No entanto, o turbilhonamento por si só provoca lesões funcionais nas células endoteliais, tornando esses pontos mais frágeis e mais suscetíveis à aterosclerose. Por conta disso, é mais comum observar aterosclerose aórtica em sua parte abdominal, pois dela originam-se muitosramos. Lenina Castellari - LII Além das células endoteliais, os lipídios também possuem papel central na aterosclerose, principalmente quando há dislipoproteinemias, ou seja, anormalidades das lipoproteínas transportadoras de lipídios. As anormalidades mais relacionadas à aterosclerose são: aumento do LDL, redução do HDL e aumento da lipoproteína A (variante do LDL que possui apoproteína-A, permitindo ligação à fibrina e inibindo sua degradação - aumenta chance de trombose), que causam hiperlipidemia crônica. Essa condição aumenta a tendência de deposição de lipídios (explicação na pág. anterior) e leva à: ✓ produção de EROs, resultante do metabolismo do colesterol fagocitado por macrófagos na túnica íntima. Esses radicais livres induzem a peroxidação lipídica, danificando membranas celulares; modificação de proteínas, levando ao seu mal dobramento ou clivagem e gerando estresse do RE e lesão celular; e danos ao DNA celular, podendo provocar mutações; ✓ redução do NO local, provocando vasoespasmos. Dessa forma, podemos ver que a disfunção endotelial que permitiu a entrada de lipídios na túnica íntima é piorada por sua fagocitose e degradação pelos macrófagos, formando um ciclo vicioso que permite que cada vez mais lipídio se deposite e mais resposta inflamatória seja gerada. 2. Acúmulo de Lipoproteínas na Parede Vascular Inicialmente ocorre lesão das células endoteliais, que se torna trombogênico e pró-inflamatório, passando a liberar diversas substâncias e aumentar a expressão de proteínas de adesão. Dessa forma, são recrutados monócitos, que sofrem diapedese, chegam à túnica íntima e tornam-se macrófagos. Uma vez na túnica íntima, essas células passam a fagocitar colesterol, adquirindo um citoplasma de aspecto espumoso, com “bolinhas” brancas (vacúolos com lipídio), e passando a ser chamados de células espumosas. O endotélio disfuncional permite adesão de plaquetas à superfície e sua agregação, formando microtrombos. Essas plaquetas liberam citocinas pró-inflamatórias e fator de crescimento derivado de plaquetas. Esse fator de crescimento recruta, a partir da túnica média, as células musculares lisas. Ao chegar na túnica íntima elas se proliferam e também fagocitam o colesterol, tornando-se também células espumosas. O acúmulo inicial de células espumosas na túnica íntima forma estrias gordurosas, que podem ficar estacionadas e nunca evoluir, podem regredir e voltar ao endotélio normal, ou podem progredir e formar a placa aterosclerótica de fato. 3. Inflamação Supondo que ocorra progressão. A fagocitose e metabolismo do LDL por macrófagos e células musculares lisas (células espumosas) leva à produção de citocinas pró-inflamatórias, que pioram a disfunção endotelial - como visto ao lado - permitindo maior entrada de colesterol (via LDL) na túnica íntima. Como dito anteriormente, por meio da ação do fator de crescimento derivado de plaquetas (secretado tanto pelo epitélio quanto pelas plaquetas), as células musculares lisas são recrutadas da túnica média para íntima. Nessa túnica se proliferam e adquirem fenótipo de miofibroblasto, passando a sintetizar grande quantidade de colágeno, elastina e proteoglicanas - ou seja, MEC. Isso induz a proliferação da placa, que aumenta de tamanho. Lenina Castellari - LII Legenda: resumo do processo, página 356 do pdf do Robbins, 9ª ed. Lenina Castellari - LII Aspectos Morfológicos Estrias Gordurosas São estrias amareladas alongadas, com 1 cm ou mais de comprimento, resultantes do acúmulo de células espumosas na túnica íntima. Legenda: à esquerda temos uma artéria aorta com tonalidade amarelada em corte longitudinal, em que estão circuladas em vermelho as estrias gordurosas. Essas estrias são depósitos de colesterol dentro de células espumosas da túnica íntima, sendo ainda planas. À direita temos a túnica íntima espessada (indicada em vermelho), com células espumosas em azul. Placas Ateroscleróticas Apresentam-se como placas elevadas, branco-amareladas e de tamanhos variáveis (dificilmente excedem 1 cm). Elas podem coalescer, ou seja, se emendar e formar massas irregulares. Normalmente acometem apenas um segmento da parede vascular, crescendo em direção à luz e de modo a diminuir seu diâmetro. A placa é formada por uma capa fibrosa superficial, composta por células musculares lisas e colágeno, e um núcleo lipídico, composto por células espumosas, cristais de colesterol e fragmentos celulares necróticos. Além disso, nessa região pode haver neovascularização e células inflamatórias. Os vasos mais acometidos normalmente são, de forma decrescente, a artéria aorta abdominal inferior (principalmente das artérias renais até as artérias ilíacas), artérias coronárias, artérias poplíteas, artérias carótidas internas e vasos da base do encéfalo (polígono de Willis). Legenda: à esquerda temos uma artéria aorta de tonalidade amarelada em corte longitudinal, com sua superfície endotelial visível. Nessa artéria vemos essas placas (em vermelho). Às vezes essas placas se unem e causam complicações, como as ulcerações indicadas em azul. À direita temos um corte transversal de coronária com placa ateroscleróticas causando acometimento do diâmetro da luz e podendo provocar fenômenos isquêmicos. Legenda: à esquerda temos a aorta abdominal (em cima) e a aorta torácica (abaixo). O segmento abdominal tem muito mais lesões, por ser o local mais frequentemente acometido, principalmente em sua porção mais inferior, abaixo das artérias renais. À direita temos o Polígono de Willis, com presença de placas. É possível ver que a carótida comum também possui placas de aterosclerose. Lenina Castellari - LII Legenda: à esquerda temos uma artéria cortada transversalmente. Na parede inferior temos a placa, cuja porção menos corada é o lipídio, envolvido pela fibrose mais corada. À direita temos a coloração com orceína para evidenciar o tecido elástico da túnica média, que pode sofrer atrofia devido à presença da placa. Legenda: nas duas imagens temos um maior aumento do núcleo lipídico, ou necro lipídico. Nelas podemos ver o depósito de LDL e de células espumosas (macrófagos ou células musculares lisas, que fagocitaram o colesterol). Se essas células sofrem morte celular por necrose, o colesterol extravasa para o MEC e forma os cristais de colesterol. A capa fibrosa, possui células musculares lisas modificadas com fenótipo de miofibroblastos e deposição de MEC, principalmente com o colágeno. Ademais, temos neovascularização e célulasinflamatórias, como os linfócitos. Alterações da Placa Aterosclerótica As principais alterações que uma placa aterosclerótica pode sofrer são: Calcificação Distrófica: a necrose expõe radicais dos fosfatos da membrana, o que estimula a calcificação por meio da deposição de cristais de cálcio. Isso dá um aspecto bem endurecido à placa. Ulceração: regiões em que houve a perda do revestimento da placa acabam tendo perda de continuidade superficial, o que as pré predispõem à outras ulcerações. Trombose: sobre os focos de ulceração ainda pode ocorrer trombose, pois a exposição de colágeno subendotelial às plaquetas desencadeia mecanismos de coagulação. Embolização: a fragmentação da placa aterosclerótica pode levar à embolia, ou seja, formação de um corpo estranho que é transportado pela corrente sanguínea. As artérias diminuem progressivamente de tamanho, até que o êmbolo fique preso em alguma delas, obstruindo-a e impedindo o fluxo sanguíneo. Isquemia: tanto o crescimento excessivo das placas quanto sua embolização podem levar à obstrução da luz de vasos, o que interrompe o fornecimento de sangue ao órgão e causa isquemia, podendo levar à necrose. Aneurismas: a diminuição da passagem do sangue pelo vaso diminui o fornecimento de nutrientes e O2 à suas paredes, o que as enfraquece. Isso pode levar ao enfraquecimento da túnica média, que acaba formando “bolsas” de sangue (dilatações) - aneurismas. Lenina Castellari - LII Legenda: à esquerda temos um corte transversal de uma artéria de médio calibre. Nessa placa temos o núcleo e a capa fibrosa. O núcleo possui as células espumosas, cristais e debri celular (células em necrose). A cápsula possui as células musculares lisas modificadas e MEC. A presença desse material altamente basofílica são os cristais de cálcio, bem basófilos. À direita temos a ulceração. Legenda: À direita temos uma aorta abdominal longitudinal com o aneurisma. A aterosclerose espessa e reduz a difusão. A parede do vaso sofre isquemia, provocando o enfraquecimento (com perda de fatores de resistência), dilatando por conta da pressão sanguínea. À esquerda temos a ateroembolia, com cristais de colesterol obstruindo a luz da artéria. Legenda: na primeira imagem vemos que a cápsula fibrosa da placa foi destacada, o que levou à ulceração.Já na segunda (em cima) e terceira imagens vemos que a luz do vaso foi obstruída por um trombo, gerado a devido à exposição de colágeno subendotelial da túnica íntima à presença de plaquetas. Lenina Castellari - LII Placa Estável x Instável Placa Estável: possui baixo risco de ruptura ou complicações. Possui um núcleo lipídico pequeno, com uma cápsula espessa. Possui baixa quantidade de células inflamatórias. Placa Instável: possui o núcleo grande e a cápsula delgada, o tornando frágil e rompendo com fragilidade. Ademais, temos mais células inflamatórias, que destroem a MEC pelas metaloproteinases. Quando tratamos essa placa por fatores ambientais, estamos tentando deixar as placas estáveis. Manifestações Clínicas Lenina Castellari - LII Trombose Hemostasia Normal Antes de discutir sobre trombose, devemos relembrar o conceito de hemostasia. Por definição, hemostasia é a coagulação do sangue, apenas em locais de lesão vascular. Esse processo é crucial para a sobrevivência do organismo, uma vez que, ao longo do dia, diversos micropontos de lesão vascular surgem e devem ser combatidos. A primeira etapa do processo é a vasoconstrição local. Em regiões de lesão vascular ocorre desnudamento da superfície endotelial, o que provoca sinalização dos nervos do próprio vaso, estimulando contração de sua musculatura lisa subjacente. Além disso, a lesão faz com que a célula endotelial secrete substâncias vasoconstritoras, como endotelina, que atuam nesse processo. Essa vasoconstrição permite a redução do sangramento e menor perda sanguínea, até que a cascata de coagulação e as plaquetas possam atuar no local. Além disso, ela é importante pois concentra esses agentes coagulantes no local onde são necessários, tornando sua atuação mais intensa e rápida. Hemostasia Primária Uma vez que ocorre a vasoconstrição, tem origem o processo de hemostasia primária, ou seja, atuação das plaquetas para a formação de um tampão plaquetário. Adesão: na região de lesão, ocorre exposição do colágeno do tecido conjuntivo subendotelial. Assim, as plaquetas podem sofrer adesão à essa proteína, por meio do fator de von Willebrand. Legenda: na imagem vemos a plaqueta (P) se ligando ao fator de von Willebrand (fvW) por meio de uma proteína de membrana Ib. E, por meio desse fator, ocorre a adesão plaquetária ao colágeno exposto (C) devido à lesão do endotélio (E). Alterações Conformacionais: após a adesão, a plaqueta sofre alterações em seu formato, passando de uma forma discóide à uma forma de estrela, com prolongamentos que aumentam a superfície de membrana e facilitam a adesão ao endotélio e às plaquetas vizinhas. Degranulação: durante o processo de mudança conformacional, a plaqueta sofre degranulação, isto é, libera diversos grânulos - contendo ADP, TXA2, fatores de coagulação, trombina, fatores de crescimento etc. O TXA2 auxilia na adesão entre as plaquetas; os fatores de coagulação e a trombina atuam na coagulação; os fatores de crescimento atuam na reparação do endotélio lesado; e o ADP auxilia na mudança conformacional e no recrutamento de mais plaquetas para o processo. Lenina Castellari - LII Agregação Plaquetária: com o recrutamento cada vez mais plaquetas chegam ao local da lesão e, por meio de complexos glicoprotéicos IIb-IIIa ligados ao fibrinogênio, elas passam a se unir umas às outras e formam o tampão plaquetário. Legenda: nessa imagem vemos a agregação plaquetária, em que complexos glicoprotéicos IIb-IIIa (CG) da membrana plaquetária se ligam ao fibrinogênio (F), que funciona como ponte para a agregação entre plaquetas (P). Hemostasia Secundária Após formado o tampão plaquetário, ele precisa ser estabilizado, o que ocorre nessa segunda parte. Para isso, há ativação da cascata de coagulação, envolvendo diversos fatores de coagulação, a fim de formar uma rede de fibrina que aprisiona os elementos figurados do sangue em cima do tampão plaquetário, estabilizando-o. Início da Cascata: a lesão endotelial leva à expressão de fator tecidual, por plaquetas, células endoteliais, fibroblastos e células musculareslisas. Esse fator se une ao fator VII, do plasma, ativando-o (VIIa) - via Extrínseca. O complexo fator tecidual + fator VIIa, ativa o fator IX. O fator IXa, por sua vez, se une ao fator VIIIa e, juntos, ativam o fator X. Ativação da Trombina: o complexo fator Xa + fator Va - via Comum - leva à clivagem da protrombina em trombina. A trombina tem duas ações principais: converte o fibrinogênio do sangue (agregação plaquetária) em fibrina, que se polimeriza e estabiliza o trombo plaquetário; e ativa os fatores V, VIII e XI (XIa ativa o fator IX) - via Intrínseca - permitindo a formação de mais trombina. Importante: via Extrínseca = ativação do fator VII pelo fator tecidual; via Intrínseca = ativação dos fatores V, VIII e XI (e IX, por consequência) pela trombina; via Comum = restante. Importância da Trombina: ela atua conversão do fibrinogênio em fibrina; na ativação dos fatores V, VIII e XI da coagulação; se liga à receptores da membrana plaquetária (receptores ativados por protease), induzindo a agregação e recrutamento plaquetário; aumenta a expressão de moléculas pró-inflamatórias pelo endotélio lesado (por exemplo: moléculas de adesão leucocitária); aumenta a expressão de citocinas pró-inflamatórias e fatores de crescimento pelos leucócitos, a fim de iniciar o reparo tecidual; ativa a expressão de ativador de plasminogênio tecidual, pelo endotélio, que ativa a fibrinólise e controla a coagulação. Lenina Castellari - LII Sistema Fibrinolítico Esse sistema é desencadeado pela própria trombina e atua na limitação da coagulação, restringindo-a ao local de lesão. Além disso, provoca lise do tampão plaquetário após a reparação do tecido, quando não há mais necessidade dele. Como ele atua? No plasma existe a molécula de plasminogênio, uma enzima inativa que também adere ao tampão plaquetário durante sua estabilização. Quando a trombina age sobre a célula endotelial, após a estabilização do tampão, a célula libera t-PA (ativador de plasminogênio tecidual). Essa molécula cliva uma das extremidades do plasminogênio, ativando-o sob a forma de plasmina. A plasmina, por sua vez, possui atividade enzimática proteolítica e degrada a fibrina, dissolvendo o coágulo. Com a clivagem da fibrina, ocorre a liberação de produtos de degradação no plasma. Um desses produtos é o D-dímero, cuja dosagem é feita para verificação da hemostasia do paciente: quando sua concentração está elevada (acima de 500 ng/dl), pode-se suspeitar de distúrbios de coagulação, como TVP ou TEP. Regulação dos Processos O balanço entre os processos citados é feito, principalmente, pelo endotélio. A partir das ações desse tecido, pode haver formação, propagação ou dissolução dos tampões, por meio dos processos a seguir: Inibição da Agregação Plaquetária: a célula endotelial é uma barreira física, que evita o contato das plaquetas com o colágeno subendotelial e impede a adesão, via fator von Willebrand. A célula endotelial também faz a produção de prostaciclina (PGI2) e óxido nítrico (NO), que inibem a agregação das plaquetas, e adenosina difosfatase, que cliva o ADP e também inibe a agregação. Além disso, o endotélio pode alterar a atividade da trombina, podendo inativá-la por meio de receptores de membrana. Efeitos Anticoagulantes: a célula endotelial atua também como barreira física entre os fatores de coagulação e o fator tecidual do tecido conjuntivo subendotelial, impedindo a ativação da cascata de coagulação. Essa célula faz também a produção de trombomodulina, que liga-se à trombina e forma um complexo que altera a função da trombina. Isso leva à ativação da proteína C que, unida à proteína S (cofator), inibe os fatores Va e VIIIa e impede a coagulação. Por fim, essa célula realiza a síntese de moléculas como a heparina (e suas semelhantes), que se ligam à antitrombina III formando um complexo que inativa a trombina e os fatores IX e X. Efeito Fibrinolítico: a liberação do ativador de plasminogênio tecidual (t-PA) pelas células endoteliais cliva o plasminogênio em plasmina, que atua na dissolução do trombo - explicado melhor anteriormente. Efeitos Pró-Coagulantes: todos os citados nos processos de hemostasia primária e secundária, dependentes da lesão tecidual. Lenina Castellari - LII Trombose Definição: é o contrário da hemostasia, ou seja, é a ativação da cascata de coagulação, provocando a formação de uma massa sólida de sangue (trombo) no interior do sistema circulatório em um organismo vivo, não necessariamente em local de lesões. Assim, pode-se dizer que esse é um processo de ativação anormal da cascata de coagulação. Onde? Dentro do coração (intracardíacos), artérias, veias, arteríolas, capilares e vênulas. Como? A etiopatogênese da trombose pode ser explicada pela tríade de Virchov, ou seja, três anormalidades básicas que predispõem à trombose → lesão endotelial, fluxo sanguíneo anormal e hipercoagulabilidade. É importante dizer que a existência de uma dessas bases pode desencadear as demais. Legenda: Lesão Endotelial: hipercolesterolemia, inflamação; Fluxo Sanguíneo Anormal: estase (p.e.: fibrilação atrial, repouso no leito) ou turbulência (p.e.: estreitamento em vaso aterosclerótico); Hipercoagulabilidade: hereditária ou adquirida. Lesão Endotelial Por Desnudamento: normalmente devido à traumas, o que provoca remoção de células endoteliais do vaso e exposição do colágeno subendotelial, permitindo a adesão plaquetária. Por Disfunção: devido à alteração de funções normais, provocadas por processos discutidos na aula anterior. Isso provoca secreção reduzida de trombomodulina, que deixa de inibir a trombina; redução da proteína C, que deixa de inibir fatores de coagulação; e liberação de PAI (inibidores do ativador de plasminogênio), que impede sua conversão em plasmina e a dissolução dos trombos. Legenda: na primeira imagem, vemos a superfície interna (endotelial) de uma artéria aorta aberta longitudinalmente. Seu aspecto normal é liso e brilhante, no entanto vemos que nessa peça existem lesões firmes, elevadas e de cor branco-amarelada (placas de aterosclerose). Na parte superior da imagem, vemos que houve perda de continuidade superficial, ou seja, ulceração e rotura das placas ateroscleróticas. Isso faz com que haja exposição do colágeno subendotelial, permitindo a adesão plaquetária, sua mudança conformacionale sua agregação, formando um tampão. Na segunda imagem vemos a microscopia de hipoderme com vasculite, ou seja, processo inflamatório contra a parede vascular. Podemos observar, circulado em preto, célula endoteliais ativadas (endotélio disfuncional) e a presença de neutrófilos, indicados pelas setas. Isso desencadeia a coagulação, formando um trombo de fibrina, material róseo (acidófilo/eosinofílico) indicado pelo asterisco em azul, que causa necrose fibrinóide vascular. Lenina Castellari - LII Fluxo Sanguíneo Anormal O fluxo sanguíneo normal dentros dos vasos deve ser laminar, ou seja, várias lâminas concêntricas que fluem de forma paralela. Esse tipo de fluxo é dividido em central, mais rápido, e periférico, mais lento. Além da diferença de velocidades, temos a diferença em “conteúdo”: a porção central carrega os elementos figurados, enquanto a porção periférica carrega apenas plasma. Por conta desses fatores, o atrito gerado pelo contato com as paredes vasculares é mínimo, o que diminui a chance de lesão endotelial. Turbulência: é o primeiro tipo de alteração do fluxo, que faz com que ele assuma forma de redemoinho. Isso faz com que haja maior contato dos elementos figurados com as paredes vasculares, causando aumento do atrito e da chance de lesão endotelial. Esse fator predomina nas câmaras cardíacas e nas artérias. Estase: é o segundo tipo de alteração do fluxo, que faz com que o sangue fique parado, ou seja, ocorre ausência de fluxo. Esse processo predomina nas veias, quando há redução do retorno venoso e represamento do sangue e o contato das plaquetas com o endotélio aumente, ou em dilatações de vasos e câmaras cardíacas, devido à aneurismas principalmente. As principais condições clínicas relacionadas às alterações de fluxo sanguíneo são: aterosclerose, aneurismas, estenoses, policitemia e anemias. Legenda: é comum que placas ateroscleróticas - primeira imagem - estejam relacionadas às alterações de fluxo sanguíneo. Essas placas estreitam a luz dos vasos, fazendo com que o fluxo se torne turbulento e haja atrito, causando disfunção endotelial e favorecendo a trombose. Outra condição comum são os aneurismas, frequentemente na porção abdominal da aorta, abaixo da inserção das artérias renais. Na segunda imagem vemos essa aorta, com dilatação central maior que 50% do calibre do vaso, causando aneurisma. Isso leva à estase sanguínea, concentrando os fatores de coagulação e permitindo o contato das plaquetas com o endotélio, favorecendo a formação de trombos (vistos na terceira imagem). Além da trombose, a formação de aneurismas é perigosa, pois ele pode se romper e causar extensas hemorragias. Legenda: na imagem à esquerda vemos um corte transversal do coração, com hipertrofia das paredes ventriculares e do septo IV. Como a hipertrofia está em toda a extensão do órgão, é provável que se deva à hipertensão ou insuficiência cardíaca. Na região do septo IV vemos uma área de mosqueamento avermelhado, característica de IAM entre 24h e 48h de ocorrência. Nessa área ocorre necrose coagulativa, com morte celular e interrupção da contração, causando imobilidade da parede cardíaca e estase sanguínea. Lenina Castellari - LII Legenda: é comum também que alterações de fluxo sanguíneo estejam relacionadas aos aneurismas de ponta, ou seja, aneurismas na região do extremo dos ventrículos. Na doença de Chagas ou após IAM do ápice cardíaco, é comum que a parede cardíaca se torne adelgaçada e fragilizada. Com a elevada pressão do VE, ocorre dilatação dessa região, formando o tal aneurisma (indicado pela seta branca) e causando estase sanguínea. Legenda: condições clínicas como estenose da valva também se relacionam à alteração de fluxo. Estenoses são condições em que há dificuldade de abertura das valvas. Na imagem à esquerda vemos a valva mitral, com folhetos espessados e endurecidos devido à fibrose, causando dificuldade em sua abertura. Isso forma uma obstrução, represando sangue no AE e provocando sua dilatação, que causa estase sanguínea - principalmente na região das aurículas cardíacas. Na imagem à direita vemos a valva tricúspide, que causa represamento de sangue no AD e culmina também em estase e aumento da chance de formação de trombos (massa em vinho na porção superior direita da imagem). Legenda: por fim, condições relacionadas ao sangue em si, também influenciam o fluxo sanguíneo. Na policitemia vera (primeira imagem), uma neoplasia mieloproliferativa, ocorre aumento do hematócrito (células vermelhas), acima de 40 a 50%. O excesso de hemácias faz com que o sangue se torne mais espesso, provocando hiperviscosidade e dificultando o fluxo, principalmente na microcirculação, podendo causar estase sanguínea. Já na anemia falciforme (segunda imagem), ocorre perda do formato normal da hemácia, que assume formato de foice. Isso também causa estase na microcirculação. Hipercoagulabilidade Também pode ser chamada de trombofilia e corresponde a uma predisposição à formação de trombos. Ela pode ser classificada em primária e secundária, como a seguir. Primária (Genética) Comum (> 1% da pop.): mutação do fator V ou da protrombina. Rara: deficiência de antitrombina III, proteína C e proteína S. Muito Rara: defeitos do sistema fibrinolítico e homocistinúria homozigótica. Lenina Castellari - LII Secundária (Adquirida) Alto Risco: repouso ou imobilização no leito; infarto do miocárdio; fibrilação atrial; lesões teciduais (cirurgias, fraturas, queimaduras); câncer; valvas cardíacas prostéticas; síndrome do anticorpo antifosfolipídico. Baixo Risco: miocardiopatia; síndrome nefrótica; estados hiperestrogênicos (gravidez e pós-parto); uso de contraceptivo oral; tabagismo. Morfologia dos Trombos Macroscopia São massas de sangue solidificado, de coloração parda clara, acastanhados ou até enegrecidos, principalmente após muito tempo no formol. É importante dizer que sempre estão aderidos à superfície endotelial onde se formaram. Normalmente são opacos, ou seja, não refletem a luz, são inelásticos e friáveis, isto é, se fragmentam ao toque. Legenda: a primeira imagem mostra um átrio bastante dilatado, com massa solidificada de cor parda clara e aderida ao endotélio cardíaco. A segunda imagem mostra a superfície endotelial de uma aorta abdominal aberta em corte longitudinal. Nela vemos numerosas placas ateroscleróticas, sendo que algumas sofreramulceração e levaram ao surgimento de trombos. Nesse caso, os trombos são vistos como massas sólidas também, mas de cor mais acastanhada. Legenda: nessas imagens vemos dissecações de veias dos membros inferiores, em cujo interior podemos ver massas de sangue solidificado, de cor castanha escura quase enegrecida, aderidos à parede vascular. Por se formarem sempre aderidos ao endotélio, podemos dividir os trombos em regiões. A porção fixa chamamos de cabeça, a porção intermediária é o corpo, e a porção final é a cauda. Essa cauda pode sofrer adesão sucessiva de lamelas, sempre em direção ao coração, compostas por plaquetas, fibrina e elementos figurados do sangue. Com isso, são formadas estrias de Zahn: as mais claras têm predomínio de fibrina e plaquetas, enquanto que as mais escuras têm predomínio de hemácias. Legenda: nas duas imagens vemos aneurismas de aorta abdominal, na primeira em corte longitudinal e na segunda, transversal. Na primeira imagem vemos placas ateroscleróticas, que provavelmente enfraqueceram a parede vascular e provocaram o surgimento do aneurisma, levando à estase sanguínea e formação de trombos. Na segunda imagem vemos a luz do vaso reduzida e um trombo volumoso aderido à sua parede. Nas duas imagens é possível ver as estrias de Zahn. Lenina Castellari - LII De acordo com a coloração, podemos classificar os trombos em brancos, de cor mais clara e geralmente formados nas artérias, onde o fluxo sanguíneo é mais rápido e ocorre menor deposição de hemácias; e vermelhos, de cor mais escura e geralmente formados nas veias, onde o fluxo sanguíneo é mais lento e permite maior aprisionamento de hemácias. É importante dizer que ambos possuem estrias de Zahn, que são mais facilmente visualizadas nos trombos brancos devido à coloração mais clara. Legenda: à esquerda vemos um trombo mais claro, portanto arterial. À direita vemos trombos mais escuros, portanto venosos. De acordo com sua morfologia, alguns trombos podem receber nomenclaturas especiais. Por exemplo, os trombos que se formam nas valvas cardíacas, gerando protuberâncias chamadas de vegetações. Legenda: as imagens mostram dois tipos de vegetações. Na primeira, temos uma vegetação infecciosa, associada à endocardite, em que microrganismos infectam a valva, causam lesão endotelial e levam à trombose. Na segunda, temos uma vegetação estéril, sem relação com endocardite, mas à hipercoagulabilidade. Nesse caso, o metal da valva prostética estimula a formação de trombos, quando não há administração de anticoagulantes. Trombo x Coágulo Pós-Morte Os trombos são formados por alterações na coagulação, normalmente sendo considerados a causa mortis do paciente. Já os coágulos pós-morte são formados após a morte do paciente, por conta da ausência de fluxo sanguíneo. Legenda: à esquerda vemos um trombo, à direita vemos um coágulo pós-morte. Os trombos possuem aspecto opaco, seco e, se pressionados, não aumenta de tamanho e se fragmenta - por ser inelástico e friável. Se dissecados, podemos observar neles a existência das estrias de Zahn. Além disso, o trombo é aderido à parede do vaso, por isso sua remoção revela uma superfície áspera, rugosa e sem brilho. Os coágulos possuem aspecto gelatinoso e, se pressionados, aumentam de tamanho, pois são elásticos. Essa estrutura não possui estrias, pois foi formado na ausência de fluxo sanguíneo, desse modo é liso e possui aparência brilhante. Além disso, o coágulo está solto na luz do vaso, podendo ser removido facilmente, revelando uma superfície endotelial preservada, portanto lisa e brilhante. Lenina Castellari - LII Microscopia Legenda: à esquerda vemos um corte transversal de artéria, com formação de trombo, sendo possível ver seu aspecto estriado. À direita vemos as estrias em maior aumento: as áreas róseas mais escuras (mais acidófilas) são onde predominam hemácias; já as áreas róseas mais claras (menos acidófilas), de aspecto reticular, são onde predominam plaquetas e fibrina. Legenda: à esquerda vemos outro corte transversal de artéria. Circulada em preto temos a túnica íntima do vaso, e em azul, o ponto de adesão entre vaso e trombo. A região central rósea corresponde ao trombo em si, sendo que é possível ver algumas estriações. À direita vemos o mesmo corte, porém a extremidade oposta da parede. O espaço em branco entre a parede e o trombo mostra que não há adesão, portanto essa região deve ser a cauda. Destinos dos Trombos Propagação Propagação é o crescimento progressivo do trombo, por meio da adesão sucessiva de lamelas. Legenda: à esquerda vemos um trombo oclusivo, ou seja, que obstrui totalmente a luz do vaso. À direita vemos um trombo semi oclusivo, ou seja, que obstrui parcialmente a luz do vaso. Embolização Embolização é a fragmentação do trombo, com posterior transporte pela corrente sanguínea. Nesse caso, pode-se chamar a massa de trombo-êmbolo, pois trata-se de um êmbolo de origem em trombo. Se surgir no coração ou nas artérias, ele é transportado pelo fluxo arterial. Com a ramificação dos vasos, as artérias diminuem progressivamente de calibre, até chegar em algum vaso cuja luz seja pequena demais para o êmbolo. Isso obstrui o fluxo sanguíneo e compromete a irrigação dos tecidos adjacentes. Se surgir nas veias, ele é transportado pelo fluxo venoso. Com a ramificação das veias, ocorre seu aumento de calibre, até chegar ao coração. A partir daí, o Lenina Castellari - LII êmbolo passa pelo AD e VD, indo para a artéria pulmonar. Nos pulmões, essa artéria se ramifica e forma vasos de calibre reduzido, até que ocorra a obstrução de algum desses vasos. Legenda: o X indica origem de trombos arteriais, que causam obstruções nas regiões circuladas em amarelo. Já o Y indica origem de trombos venosos, que causam obstruções nas regiões circuladas em verde. Dissolução ou Lise Consiste na clivagem enzimática do trombo, através do sistema fibrinolítico, levando a sua redução em tamanho ou ao seu desaparecimento por completo. Esse processo pode ser utilizado como opção terapêutica para tratamento de AVC isquêmico e IAM, em até 4h de ocorrência: a administração de agentes fibrinolíticos atuam do mesmo modo que a fibrinólise natural. Organização ou Recanalização É a formação de canais através do trombo, ou seja, formação de capilares que passam pelomeio dos trombos. Como ocorre? O trombo aprisiona leucócitos, que liberam enzimas líticas que realizam a digestão de pequenos trechos. A partir daí, as células musculares lisas, endoteliais e fibroblastos realizam proliferação, a partir da parede vascular, migrando através desses pequenos trechos. É importante dizer que isso não restabelece o fluxo sanguíneo total, mas impede que a circulação seja zero. Legenda: na imagem vemos um corte transversal de trombo. Em lilás vemos a migração de células musculares lisas, células endoteliais e fibroblastos para o interior do trombo, onde realizam angiogênese e a recanalização do fluxo sanguíneo. Lenina Castellari - LII Tipos de Trombose Trombose em Veias Superficiais Veias superficiais são aquelas localizadas acima da fáscia muscular. Esse tipo de trombose costuma ocorrer em veias varicosas de ramos da safena ou na vigência de vasculites. Legenda: como consequência desse tipo de trombose, temos a formação de vasos dilatados (como vistos na primeira imagem), com uma porção endurecida, que corresponde ao trombo. A obstrução do fluxo leva à congestão local e ao edema, por aumento da pressão hidrostática local, e pode levar ao surgimento de sinais inflamatórios, como hiperemia (segunda imagem) e dor. Como costuma ocorrer em vasos pequenos, esse tipo de trombose dificilmente cursa com embolização. O comum é que ocorram úlceras e infecções locais. Legenda: na imagem vemos um caso de infecção local. A obstrução do fluxo causa acúmulo de sangue venoso, o que submete os tecidos à hipóxia e pode levar à necrose, com formação de úlceras que funcionam como porta de entrada à infecção. Trombose Venosa Profunda (TVP) É a trombose que ocorre nas veias localizadas abaixo da fáscia muscular. Esse tipo de trombose está muito associado à imobilidade, traumas, cirurgias de grande porte e hipercoagulabilidade. Quando esse tipo de trombose ocorre abaixo do nível do joelho, a chance de embolia é menor, pois o calibre dos vasos é reduzido e os trombos são pequenos. Quando ocorre acima do nível do joelho, nas ilíacas ou veias das coxas, a chance de embolização é maior, devido ao maior calibre dos vasos. As veias obstruídas pela formação dos trombos são bloqueadas, o que provoca congestão local, edema (devido ao aumento da pressão hidrostática) e dor à palpação. Esse tipo de trombose é perigosa, pois pode existir de maneira assintomática, devido à presença de ramos colaterais que realizam o desvio do retorno venoso. No entanto, a qualquer momento esse trombo pode se embolizar, levando à embolia pulmonar e suas complicações. Trombose Arterial A principal causa desse tipo de trombose é a aterosclerose, que pode sofrer rotura ou ulceração, expondo o colágeno subendotelial e originando um trombo. Lenina Castellari - LII Legenda: à esquerda vemos um corte transversal do coração. Na área do septo IV temos uma área de mosqueamento acastanhado, correspondente a um IAM de 24h a 48h de evolução. Já na parede póstero-lateral, é possível ver uma área esbranquiçada, que corresponde à fibrose de um IAM antigo, com mais de 2 meses de evolução. À direita temos a visão externa do coração, com destaque para o ramo interventricular anterior da coronária esquerda (circulado em amarelo). Em sua porção superior podemos ver uma área mais escura (circulada em azul), que corresponde ao trombo. Ele bloqueia a passagem do sangue, provocando isquemia de parte do coração, podendo evoluir para IAM (infarto agudo do miocárdio, que é a necrose coagulativa resultante dessa isquemia). Além disso, trombos originados nas artérias carótidas, aorta e no coração podem sofrer embolização, levando à circulação de êmbolos que causam infartos no cérebro, rins, baço e intestino. Legenda: à esquerda vemos um corte coronal do cérebro. No hemisfério direito podemos ver região de amolecimento, com perda de delimitação entre substância cinzenta e branca. Essa região corresponde a uma área acometida por AVC isquêmico, com possível origem em trombo da porção cervical da artéria carótida interna. À direita vemos um corte de rim, com camada cortical mais pálida e camada medular mais corada. A região piramidal, amarelada e bem delimitada corresponde a um infarto renal com 3 a 5 dias de evolução, provavelmente causado por trombos originados no coração ou na aorta, que obstruíram a artéria renal. Legenda: à esquerda vemos um baço, cuja porção avermelhada corresponde à polpa e a porção branca inferior, à cápsula. Na polpa vemos o predomínio de polpa vermelha, com alguns pontos de polpa branca. Na porção superior do baço, região subcapsular, vemos uma região bem delimitada, de cor branco-amarelada, que corresponde a um infarto esplênico. Esse infarto está, provavelmente, associado à formação de trombos no coração ou aorta, com obstrução da artéria esplênica. À direita vemos um intestino delgado, cuja porção normal é vista em róseo. A porção vinhosa-enegrecida de aspecto congesto corresponde a uma porção de infarto hemorrágico do intestino, provavelmente causado por trombo originado no coração ou aorta, que obstruiu o tronco celíaco ou a artéria mesentérica. Lenina Castellari - LII Embolia É a presença de qualquer massa intravascular (sólida, líquida ou gasosa), não miscível ao sangue, formando um corpo estranho que pode ser transportado pela circulação sanguínea, desde sua origem até um local distante. Como consequência, temos a obstrução de vasos sanguíneos de calibre menor do que o do corpo estranho, provocando parada da oxigenação por bloqueio da passagem do sangue. Esse processo leva à morte das células irrigadas por este vaso, o que chamamos de infarto. Êmbolos Sólidos Embolia Pulmonar A patologia mais comum relacionada à embolia, é a embolia pulmonar. Para que um êmbolo obstrua um vaso pulmonar, ele deve se originar em veias de grande calibre ou nas câmaras cardíacas direitas. A partir destes locais, os êmbolos seguem o fluxo sanguíneo até os pulmões, onde ocorre progressiva diminuição de calibre dos vasos, até que algum deles seja obstruído. A origem mais comum desse tipo de êmbolo, são fragmentos de trombos que se originam nas veias profundas dos membros inferiores. Por isso, diz-se que a embolia pulmonar está associada à trombose venosa profunda (TVP).Como este êmbolo surge de um trombo, chama-se tromboêmbolo, e o processo pelo qual se forma, tromboembolia. Essa é uma doença muito comum na prática clínica, com ocorrência de 2 a 4 casos para cada mil internações. Esse número não é tão alto porque, para todo paciente internado por longos períodos, há prescrição profilática de fármacos que evitam a TVP. Mesmo assim, essa doença causa cerca de mil óbitos ao ano. Além disso, o quadro clínico é extremamente variável, de acordo com o calibre do vaso e a lesão prévia que o pulmão possui: ● Dispnéia, Dor Torácica e Hemoptise: obstrução de vasos lobares. ● Morte Súbita: obstrução de vasos na região próxima ao hilo pulmonar. ● Silencioso: obstrução de vasos periféricos em pulmões sem histórico de doenças agravantes. Obs.: Hemoptise - tosse com sangue; ocorre em casos em que há infarto pulmonar. Legenda: obstrução na bifurcação da artéria pulmonar, em sua entrada no hilo, formando um êmbolo a cavaleiro. Essa obstrução bloqueia totalmente a entrada de sangue no pulmão, sendo então uma embolia maciça. O sangue parado eleva subitamente a pressão do VD, provocando choque obstrutivo e insuficiência cardíaca direita aguda, o que culmina em morte súbita pelo aumento brusco da pressão. Legenda: aqui vemos êmbolos menores, que passaram pelo hilo e obstruem ramos arteriais lobares. Eventualmente estes êmbolos são múltiplos, por isso recebem a denominação de chuva de êmbolos. Essa obstrução pode causar isquemia, o que causa necrose coagulativa do parênquima pulmonar (região escura à direita). Essa região de necrose adquire cor castanho-avermelhada pois sofre hemorragia secundária. Lenina Castellari - LII Legenda: geralmente o infarto pulmonar possui formato piramidal ou triangular, sendo que a base fica na região pleural, e o ápice, na região do vaso obstruído. Isso pode ser visto de forma muito clara na imagem à direita. Vemos também que o infarto tem borda bem definida, consistência firme e coloração castanho-escura à avermelhada, devido à hemorragia secundária. Legenda: como esses vasos são muito pequenos e a área que deixa de receber fluxo é também muito pequena, perto da área total, esses casos costumam ser assintomáticos no momento agudo em que ocorre a embolia. No entanto, esse tipo de embolia torna-se perigosa se for crônica, ou seja, se o pulmão receber múltiplos êmbolos ao longo de meses. Esses êmbolos alojados ou sofrem recanalização parcial, ou são incorporados à parede da artéria, constituindo um bloqueio parcial. Isso aumenta a pressão no interior desses vasos, o que é transmitido ao VD, causando sobrecarga pressórica. O VD é muito adaptado à sobrecarga de volume, mas é incapaz de lidar com sobrecargas pressóricas sem que haja lesão. Assim, ocorre insuficiência cardíaca direita. À esquerda vemos uma artéria pulmonar periférica com obstrução. Nela podem ser notadas placas amareladas, ateroscleróticas, que só se formam devido ao aumento da pressão no sistema sanguíneo pulmonar. À direita vemos um coração que sofreu de cor pulmonale. Nele vemos um VD dilatado e hipertrófico. Obs.: insuficiência cardíaca direita provocada por causas primárias pulmonares são chamadas de cor pulmonale. Embolia Paradoxal O esperado para êmbolos originados no sistema venoso ou do lado direito do coração é que provoquem embolia pulmonar. Assim como espera-se que êmbolos originados no sistema arterial ou do lado esquerdo do coração provoquem embolia em órgãos, que não o pulmão. No entanto, na existência de shunts cardíacos (comunicação entre câmaras cardíacas), de forma que o sangue seja desviado do coração direito para o coração esquerdo, pode acontecer de êmbolos originados no sistema venoso chegarem ao lado esquerdo, causando embolia sistêmica. O contrário também pode ocorrer: êmbolos originados no sistema arterial podem passar para o lado direito, causando embolia pulmonar. Legenda: na imagem vemos um coração. A seta indica o forame oval patente, que não se fechou e comunica os dois átrios, constituindo um shunt. Nesse caso, pode ocorrer embolia paradoxal. Lenina Castellari - LII Ateroembolia São êmbolos originados por fragmentação de placas ateroscleróticas após rotura ou ulceração. Esses êmbolos obstruem ramos múltiplos, em uma mesma região normalmente. Esse tipo de embolia pode provocar livedo, ou seja, alterações na cor da pele (coexistindo palidez e cianose), devido à diminuição do aporte sanguíneo; alterações na temperatura da pele, que se torna mais fria devido à diminuição do fluxo sanguíneo; insuficiência renal aguda, quando há necrose tubular aguda dos rins devido à obstrução de seus vasos; e rabdomiólise, quando há necrose das fibras musculares esqueléticas devido à obstrução de vasos que as irrigam. Legenda: à esquerda vemos livedo nos dedos do pé. À direita vemos uma artéria obstruída por ateroêmbolo. No meio do êmbolo vemos regiões em branco, que correspondem aos cristais de colesterol que faziam parte da placa de ateroma que originou este êmbolo. Êmbolo Neoplásico Quando uma neoplasia maligna cursa com invasão vascular, sanguínea ou linfática, ela é transportada por estes vasos, podendo obstruí-los à distância. Geralmente, as obstruções são microscópicas e, dificilmente, o êmbolo neoplásico é grande o suficiente para causar algo parecido com a tromboembolia. No entanto, existem casos de grandes êmbolos de metástase de carcinoma hepatocelular ou carcinoma de células claras do rim, que tem tropismo pela veia renal. Legenda: à esquerda vemos um corte histológico de pulmão. Nele vemos ramos de vasos sanguíneos preenchidos por neoplasia (regiões em roxo). À direita vemos a mesma lâmina, mas em maior aumento. Nela vemos um adenocarcinoma que cresce em padrão cribriforme, originado de um carcinoma gástrico - não é possível ver isso a partir da imagem, esta é uma informação que o patologista recebe de fora. Ao redor da disseminação neoplásica (em roxo), vemos o endotélio do vaso que ela obstrui (em róseo). Quando essa obstrução torna-se muito extensa, tem-se uma carcinomatose linfática ou linfangite carcinomatosa, em que muitos êmbolos obstruem a circulação linfática e sanguínea do pulmão - comum em neoplasias avançadas. Lenina Castellari - LII Embolia de Medula Óssea Esse tipo de embolia ocorre apósfraturas em ossos longos que contêm medula óssea vermelha. Nesse caso, a pressão da cavidade medular do osso força a passagem do tecido hematopoiético para dentro da circulação, fazendo com que ele seja transportado pela corrente sanguínea. Legenda: cortes histológicos de pulmão, em que vemos ramos da artéria pulmonar preenchidos por blocos de células (em roxo). Na imagem da direita, maior aumento, vemos o interior do êmbolo. Nele vemos adipócitos (bolas brancas), mas a maioria das células são hematopoiéticas (bolinhas roxas). É possível ver, por exemplo, eritroblastos organizados em colônias formadoras de hemácias (circulado em vermelho embaixo); células da linhagem granulocítica (circulado em vermelho à esquerda). O comprometimento do pulmão provoca dispnéia, uma vez que há baixa perfusão alveolar. Para compensar, o corpo desencadeia taquipnéia e taquicardia. Já o comprometimento do cérebro provoca irritabilidade e confusão mental, com início de 1 a 3 dias após a fratura que originou o êmbolo. Êmbolos Líquidos Embolia Gordurosa Ocorre quando alguma substância lipídica ou gordurosa é transportada na corrente sanguínea. O exemplo mais comum é após fratura de ossos longos que contêm medula óssea amarela, rica em tecido adiposo e pobre em células hematopoiéticas. A gordura dos adipócitos lesados no trauma é forçada a passar para corrente sanguínea, pela pressão da cavidade medular, originando o êmbolo gorduroso. Esse tipo de êmbolo afeta dois órgãos: pulmões e cérebro. Legenda: à esquerda vemos um corte de pulmão em HE. No interior dos capilares dos septos interalveolares vemos bolas brancas, que correspondem às imagens negativas de lipídio. À direita vemos um corte de pulmão congelado e corado por Sudan. Nessa imagem, tudo que possui origem lipídica cora-se em vermelho. O quadro clínico desse tipo de embolia é o mesmo quadro da embolia de medula óssea. Lenina Castellari - LII Legenda: os êmbolos, sejam de medula óssea vermelha ou de gordura, são forçados na circulação e chegam ao cérebro. Lá, obstruem múltiplos vasos na substância branca, causando uma chuva de êmbolos, que provoca múltiplas hemorragias diminutas (pontinhos escuros na imagem). Esses focos de hemorragia causam lesões isquêmicas no parênquima cerebral. A embolia gordurosa tem se tornado mais comum, não pelo aumento no número de acidentes, mas pelo aumento no número de procedimentos estéticos, principalmente os que envolvem a injeção de silicone (gorduroso). Além disso, é comum a ocorrência desse tipo de embolia após preenchimentos para remoção de rugas na região periocular. Nesse procedimento a injeção de líquidos pode levar à obstrução da artéria retiniana, provocando cegueira permanente. Embolia de Líquido Amniótico É uma complicação rara da gestação (um a cada 50 mil partos). Nela, ocorre passagem de líquido amniótico para a circulação materna após laceração das membranas placentárias ou ruptura de veias uterinas, causando obstrução de vasos pulmonares. Além disso, o líquido amniótico é trombogênico e causa coagulação intravascular disseminada. Esse tipo de embolia causa 10% de mortalidade e déficit neurológico em 85% dos sobreviventes, devido à lesão cerebral. Legenda: as imagens são cortes histológicos de pulmão, em que vemos congestão (de capilares alveolares e artérias pulmonares) e células epidérmicas fetais - a queratina é vista como riscos roxos nas duas imagens. Isso provoca lesão alveolar difusa, com prejuízo na hematose - semelhante às lesões por Covid-19. Êmbolos Gasosos A embolia gasosa é comum na síndrome de descompressão, sofrida por mergulhadores. Ela ocorre quando bolhas de ar coalescem (se unem) e obstruem vasos sanguíneos, sendo necessários 100ml de ar para tal. Conforme o mergulhador submerge, ele é submetido à maiores pressões, o que permite a solubilização do N2, o que não ocorre ao nível do mar. Em caso de emersão rápida, há despressurização brusca e o N2 solúvel retorna à forma gasosa, formando bolhas promovendo a obstrução de vasos. Além disso, esse tipo de embolia é vista em procedimentos cirúrgicos: com o uso de alguns equipamentos que utilizam ar, pode ocorrer passagem do ar atmosférico para o sistema vascular e provocar embolização. Essa é a forma mais comum de embolia gasosa na atualidade (iatrogênica). Legenda: no cérebro da imagem vemos bolhas de ar nos vasos da meninge. Lenina Castellari - LII Doença Cerebrovascular Neurônios são células que necessitam de um aporte contínuo e elevado de oxigênio e nutrientes para manter sua fisiologia. Embora o cérebro corresponda de 1 a 2% do peso corporal adulto, ele consome 15% do débito cardíaco e 20% de todo o oxigênio corporal. Como o neurônio está gerando constantemente impulsos nervosos e isso ocorre às custas de transporte ativo, ele necessita de grande quantidade de oxigênio e nutrientes. Além disso, são células que não possuem nenhuma forma de reserva, assim, se perdem o aporte de oxigênios eles são rapidamente lesados. Por exemplo: um neurônio sofre morte celular em aproximadamente 3 minutos de hipóxia. Legenda: a pressão de perfusão cerebral é mantida constante pela autorregulação vascular. Indivíduos normotensos (em amarelo) suportam grandes variações de PA média, conseguindo manter constante a pressão de perfusão cerebral. Só há elevação da pressão intracraniana a partir de alterações muito grandes de PA média, enquanto o cérebro só sofrerá hipóxia para PA média abaixo de 50 mmHg. Já indivíduos hipertensos (em laranja), possuem alterações das paredes vasculares (arteríolo-esclerose hialina), que fazem com que a curva desloque-se para direita. Assim, quedas menores no aporte sanguíneo tornam-se suficientes para provocar isquemia e hipóxia nesses pacientes, tornando-os mais suscetíveis à ocorrência de AVCs e AVS. Acidente Vascular Encefálico Ou Acidente Vascular Cerebral ou Derrame. É qualquer déficit neurológico focal, ou seja, com perda de função de uma região do cérebro, de instalação súbita, duração de mais de 24h e de causa vascular. É importante dizer que não consideram-se eventos traumáticos, ou seja, a alteração primária do AVC deve sempre ser vascular. Essa é a terceira causa mais frequente de óbitos os países desenvolvidos, perdendo apenas para o infarto agudo do miocárdio e o câncer. Podem ser divididos em: Isquêmico Hemorrágico Causados poruma parada completa de circulação, ou seja, infarto cerebral. Causados por ruptura da parede vascular, que origina hemorragia. Essa hemorragia pode ser intraparenquimatosa (dentro da substância branca) ou subaracnóidea (entre a aracnóide e a pia máter). O AVC isquêmico pode causar déficit: ● Focal: relacionado com a ateroembolia ou a tromboembolia ● Global: relacionado à hipóxia generalizada, devido à falência aguda da bomba cardíaca ou falência da circulação pulmonar - não relaciona-se à aula. AVC Isquêmico Focal Ocorre pela redução ou interrupção do fluxo sanguíneo para uma área localizada do encéfalo. Esse fenômeno pode ter como causas a ateroembolia ou a tromboembolia. A primeira, é quando uma placa de aterosclerose da artéria carótida comum ou da artéria carótida interna na região cervical sofre ulceração e fragmentação, fazendo com que o Êmbolo formado suba para o cérebro e bloqueie um vaso. A segunda é quando um fragmento de um tromboèmbolo ascende na circulação por meio da artéria carótida interna e bloqueia um vaso do Polígono de Willis. Isso é comum em trombos que se originam na própria placa de aterosclerose da carótida ou nas câmaras cardíacas esquerdas (cardioembolia). Lenina Castellari - LII A parada do fluxo sanguíneo provoca isquemia e necrose liquefativa do parênquima cerebral, levando ao infarto cerebral. As células mortas sofrem digestão enzimática e formam uma massa líquida e viscosa. Causas Embólicas: mais comum → Cardioembolia Legenda: na imagem vemos um AE com trombo mural. Com a passagem do sangue, este trombo pode originar um tromboêmbolo, que passa para o VE e segue pela artéria aorta. Daí, pode seguir pelo tronco braquiocefálico (direita) ou pela carótida comum esquerda, subindo pela carótida interna e bloqueando vasos do Polígono de Willis. A região mais afetada por estes êmbolos costuma ser o território da artéria cerebral média, que possui maior fluxo sanguíneo. Alterações Agudas do AVC: Legenda: na região superior esquerda da 1ª imagem vemos as características normais do córtex cerebral: substância branca interna, substância cinzenta externa, delimitação nítida. Na mesma região, mas da 2ª imagem, vemos um AVC isquêmico: a região do infarto é bem delimitada e nela há perda das características normais do córtex cerebral. Entre 2 a 10 dias, essa região torna-se progressivamente gelatinosa e friável, até que (entre 10 dias e 3 semanas) seja convertida em uma massa líquida (necrose liquefativa). Legenda: na primeira imagem, a região circulada em azul mostra o aspecto normal do córtex cerebral, com substância branca em rosa claro, cinzenta em rosa escuro e nítida delimitação entre as duas. Já na região circulada em vermelho há perda dessa delimitação nítida, o que é característico do AVC isquêmico. Na segunda imagem, vemos o mesmo corte em maior aumento. Nela é possível ver espaçamento das fibras do neurópilo (espaços em branco em grande quantidade por toda a imagem), causado por edema vasogênico decorrente de aumento da pressão hidrostática dos vasos cerebrais. Além disso, vemos neurônios necróticos (corados em vermelho/rosa), com aumento acentuado de acidofilia citoplasmática e perda do núcleo (cariólise). Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Infarto Introdução Definição de Infarto: área localizada de necrose, que geralmente possui suas bordas bem definidas, é uma área bastante circunscrita. Essa necrose foi provocada pela isquemia, que é redução ou parada completa do fluxo sanguíneo secundária a obstrução do suprimento arterial daquele órgão. Ou em casos mais específicos pela obstrução da drenagem venosa. Essa obstrução vascular que gera isquemia, vai submeter aquela área ou aquele órgão que era irrigado por aquele vaso à hipóxia (redução do suprimento de oxigênio) ou à anóxia (parada completa do suprimento de oxigênio). Essas alterações vão levar a uma lesão celular irreversível, a morte celular por necrose. Obs.: área de necrose que advém da isquemia é uma área de infarto por definição. Epidemiologia: na população em geral, é uma causa bastante comum de mortalidade: infarto agudo do miocárdio e o AVC isquêmico (infarto cerebral). Legenda: gráfico de taxas de morte em pessoas com mais de 65 anos. A causa mais comum é a doença cardíaca e uma de suas formas é o infarto agudo do miocárdio. A terceira causa mais comum é o AVC, que tem o infarto cerebral como um de seus representantes. Então, concluímos que o infarto tem sua parcela em 2 das 3 causas mais comuns de mortalidade nessa faixa etária. Causas de Infarto Trombose Arterial in Situ Trombose de uma artéria que fica no próprio local do infarto. Legenda: imagem macroscópica de um coração, miocárdio em marrom no canto direito superior, em amarelo logo abaixo do miocárdio, vemos o pericárdio, espessado as custas de muito tecido adiposo (provavelmente era o coração de uma pessoa obesa). Mais ao centro vemos um ramo de artéria coronária: redonda, ao redor dessa artéria temos a sua parede, em um rosa claro (cor normal); em amarelo na parte superior dessa artéria temos a placa de aterosclerose, essa placa provavelmente gerou uma complicação que originou um trombo, que vemos em uma cor escura no centro da artéria. Esse trombo é ocludente, pois fechou 100% da luz dessa artéria, o que provoca isquemia do miocárdio que é irrigado por ela. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: imagem do correspondente histológico. Corte histológico transversal da artéria coronariana corada pelo tricrômico. Redondo e avermelhado (eu vejo roxo) vemos a túnica média, dessa cor pelo predomínio de músculo liso. Em azul claro, vemos o espessamento do túnica íntima, onde fica a placa de aterosclerose. “O verde cora a cápsula fibrosa e pela imagem negativa vemos os cristais de colesterol”. Embolia Arterial Nesse caso, um êmbolo obstrui uma artéria. Pode ser por tromboembolia, quando esses êmbolos são fragmentos de um trombo, ou por ateroembolia, quando os êmbolos são fragmentos de placas de aterosclerose. Como dito na aula passada, êmbolos que se originam no sistema venoso obstruem artérias pulmonares, podem provocar infarto pulmonar, e êmbolos que se originam do lado esquerdo do coração ou em uma artéria, bloqueiam uma artéria sistêmica, podendo provocar infarto do rim, pâncreas, baço, membros inferiores, etc. Legenda: no centro da imagem, mais escuro,vemos uma massa de sangue coagulado, que é um trombo intracardíaco. Essa massa encontra-se presa no endocárdio do coração. Provavelmente essa massa se formou por estase, já que vemos um átrio bastante dilatado, o que propicia o maior contato entre as plaquetas e o endocárdio. Uma vez que esse trombo intracardíaco se solta, ele forma um trombo-êmbolo que pode ocluir qualquer artéria sistêmica, normalmente de menor calibre. Os ateroembolos são formados pela fragmentação da própria placa de aterosclerose. Quando ela sofre fissuras ou ulcerações, seus fragmentos podem obstruir artérias de calibre menor. Se acontecesse isso com a A. carótida interna, o ateroembolo obstruiria uma artéria do polígono de Willis, causando infarto cerebral. Obs.: trombose arterial in situ e embolia arterial, são as causas mais comuns, agora vamos ver causas menos comuns. Vasoespasmo Local Contração rigorosa da túnica média da artéria daquele local, essa contração pode levar ao bloqueio da passagem de sangue pois esse espasmo fecha a luz da artéria. Legenda: temos um exemplo da artéria coronariana que pode sofrer um espasmo. Isso é uma causa de infarto agudo do miocárdio em pessoas jovens usuárias de cocaína - que tem um potente efeito vasoconstritor. Hemorragia em Placa Quando se forma a placa de ateroma, ocorre uma neovascularização no local. Se algum dos vasos dentro da placa se romper, ocorre o vazamento de sangue no interior da placa, esse sangramento aumenta o volume da placa. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: Temos uma artéria coronária aberta longitudinalmente, que possui placas de aterosclerose como podemos ver nas regiões amareladas. Na região em vermelho ocorreu uma hemorragia dentro da placa. A hemorragia, por aumentar rapidamente o volume dessa placa pode levar ao fechamento da luz do vaso, originando isquemia, anóxia e infarto. Compressão Extrínseca do Vaso por Neoplasias: não comentou. Síndrome Compartimental É uma complicação que pode surgir após trauma de membros inferiores. Para entender, temos que lembrar da anatomia que nossos músculos ficam envoltos pela fáscia muscular e entre esses grupos de músculos temos os vasos sanguíneos (imagem ao lado). Quando ocorre trauma nos membros inferiores, pode ocorrer o edema acentuado dos músculos esqueléticos, que comprimem os vasos entre eles. Como os vasos estão fixos entre as fáscias, o aumento de pressão leva ao bloqueio do fluxo sanguíneo. Isso leva a isquemia e pode levar a necrose dos tecidos. Sendo os nervos as estruturas mais vulneráveis à necrose seguidos pela musculatura esquelética. Quando ocorre essa síndrome compartimental, o tratamento é a fasciotomia - que consiste na abertura da pele, tecido adiposo subcutâneo e das fáscias, deixando expostos os músculos esqueléticos até que o edema seja controlado. É a única maneira de controlar a pressão exercida sobre os vasos. Torção ou Compressão Vascular É uma causa de infarto que ocorre com uma certa frequência nos intestinos. Temos que lembrar que os intestinos delgado e grosso possuem suas arcadas vasculares, respectivamente, no mesentério e no mesocólon. Sendo assim, quando ocorre uma torção em um deles, também está torcida uma artéria, e a alça que era suprida por ela está submetida a isquemia. Vólvulo Intestinal: é quando uma alça roda em torno dela mesma, e com isso pode ocorrer a torção do pedículo vascular, que torna toda a alça torcida isquêmica, o que pode resultar em infarto. Isso também pode ocorrer em hérnias, umbilicais ou inguinais, quando o intestino se projeta para fora, dentro do saco herniário, e não consegue voltar para a cavidade abdominal. Com p peristaltismo, essa alça se torce e torce o seu pedículo vascular, levando a isquemia e posterior infarto. Eventualmente, durante cirurgias, abre-se orifícios no mesentério, no omento - estruturas que não possuíam orifícios naturalmente. Essas aberturas são chamadas de hérnias internas e pode permitir o mesmo mecanismo de torção de hérnias umbilicais/inguinais e gerar infartos. Torção Anexial ou Torção Testicular: esse mesmo mecanismo de torção pode gerar infarto nas gônadas. Por exemplo, quando ocorre torção nos anexos uterinos, tanto a tuba uterina quanto o ovário, que possuem apenas uma artéria nutrindo eles. Se o ovário torcer o seu eixo vascular ele pode causar isquemia dele mesmo e da tuba uterina. Legenda: tuba uterina a esquerda e ovário a direita, ambos com superfície vinhosa, o que indica um infarto hemorrágico. Eles torceram o próprio pedículo vascular, o que é comum quando há cistos no ovário, que pelo aumento de volume, permite melhor torções. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: testículo com funículo espermático - por onde chega a artéria testicular e sai a veia testicular. Como a irrigação é única, se esse funículo se torce, e comprimir essas estruturas vasculares ocorre o infarto do testículo, que foi o que ocorreu nesse caso. Como esse testículo está com a superfície enegrecida, demonstra um infarto hemorrágico. Como o testículo e o funículo possuem suas extremidades fixas, esse tipo de infarto não é muito comum, apenas ocorre quando existe uma falha e uma parte o funículo fica “solta” que foi o caso da foto. Trombose Venosa É uma causa rara, pode acontecer principalmente em locais que possuem apenas uma veia eferente. Dificilmente locais que possuem duas veias eferentes vão infartar quando uma das veias sofrer trombose. Porém, órgãos que possuem apenas uma veia, se ela for bloqueada, todo o retorno venoso é bloqueado, ocorrendo acúmulo de sangue venoso naquele órgão. Esse quadro é mais comum em pacientes que possuem doenças autoimunes, como lúpus e trombosam veias únicas, como a mesentérica, testicular, etc. Fatores que Influenciam o Desenvolvimento de um Infarto Mesmo que o órgão seja submetido a uma dessas causas de infarto, comuns ou não, não necessariamente ele vai infartar, alguns fatores tornam os órgãos mais vulneráveis ou mais resistentes ao infarto. Anatomia do Suprimento Vascular Via de regra, órgãos que possuem irrigação terminal (possuem apenas uma artéria fazendo a irrigação) são muito vulneráveis ao infarto. Por exemplo: rins - apenas uma artéria segmentar por segmento. Jà órgãos que possuem duas ou mais artérias para irrigação são mais resistentes ao infarto,pois se uma é obstruída, tem outras fontes de suprimento. Por exemplo: pulmões (artérias pulmonares e artéria brônquica) e fígado (artéria hepática e veia porta). Velocidade da Oclusão Uma oclusão rápida e súbita causa maior chance de infarto, pois não dá tempo do órgão reagir. Já uma oclusão de desenvolvimento lento, leva a abertura de ramos colaterais, o que pode dar conta de suprir a irrigação do órgão e assim, a chance de ocorrer um infarto é menor. Vulnerabilidade à Hipóxia Cada célula aguenta um determinado tempo de hipóxia antes de sofrer uma lesão celular irreversível. Esse tempo está diretamente relacionado a sua taxa metabólica basal e às suas inclusões citoplasmáticas de reserva energética. Por exemplo: o fibroblasto aguenta horas, possui taxa metabólica basal baixa pode entrar em estado de dormência se necessário. A célula muscular estriada cardíaca, possui taxa metabólica mais alta mas possui uma certa reserva energética e se for submetida a anóxia aguenta de 20 a 30 minutos. Já neurônios aguentam poucos minutos, possuem alta taxa metabólica e não conseguem entrar em repouso se necessário nem possuem reserva citoplasmática. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Condições Sistêmicas - Hipoxemia Hipoxemia é a baixa concentração de oxigênio no sangue. Isso aumenta a probabilidade do infarto ocorrer e quando ocorre, aumenta a extensão do infarto. Normalmente são infartos em áreas limítrofes da vascularização (“terras de ninguém”). Seriam áreas entre as áreas de irrigação de vasos específicos, que no caso de hipoxemia, infartam mais rápido. Alterações Celulares Consequências da Isquemia Alterações Bioquímicas que se Sucedem: fornecimento escasso de oxigênio (mais crítico que escassez de nutrientes)→ diminuição da fosforilação oxidativa→ queda nos estoques de ATP → 1, 2 e 3. 1. Tentativa de aumento da glicólise anaeróbica: com isso ela depleta os estoques de glicogênio, gera muito ácido lático, causando acidose metabólica. Com a queda do pH intracitoplasmático, ocorre a condensação da cromatina nuclear - núcleo picnótico, sinal de necrose nas lâminas. 2. Destacamento dos ribossomos do REG e queda na síntese de proteínas. 3. Falência da bomba de Sódio e Potássio, já que ela é dependente de ATP. Influxo acentuado de água e sódio, despolarizando a célula, abrindo canais iônicos dependentes de voltagem. Com isso ocorre o influxo de cálcio para a célula. Também ocorre o efluxo de potássio pela falência da bomba. Toda essa desregulação gera tumefação do RE, tumefação celular e perda das microvilosidades. Até aqui a lesão celular é reversível, a partir de algum ponto ela se torna irreversível. Uma das teorias do ponto de irreversibilidade é o influxo de cálcio. Esse cálcio pode surgir de três formas: do meio extracelular, como consequência da falência da bomba de sódio e potássio, das mitocôndrias e do RE liso. O cálcio, como é um cofator enzimático, sai ativando muitas enzimas: ● Fosfolipases: destroem os fosfolipídeos de membrana. ● Proteases: que destroem proteínas do citoesqueleto e da membrana. - ambas gerando dano à membrana celular, característica da irreversibilidade. ● Endonucleases: gerando dano ao núcleo. ● ATPase: mais depleção de ATP. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Classificação do Infarto Quanto à Cor Temos dois tipos de infarto de acordo com essa classificação, o infarto vermelho, relacionado a hemorragia, e o infarto branco, que é sinônimo de anemia. Infarto Vermelho ou Infarto Hemorrágico: seu nome se dá devido a região afetada que adquire coloração avermelhada vinhosa ou enegrecida pela hemorragia secundária que acontece na área do infarto. Ou seja, além do infarto temos a hemorragia (extravasamento de sangue). Esses infartos estão associados à oclusão venosa ou oclusão arterial em órgãos com circulação dupla ou circulação colateral exuberante. ● Oclusão Venosa: bloqueia o retorno venoso, represando o sangue nesse tecido e submetendo ele a isquemia, permitindo que aquele sangue represado extravase para o interstício após a lesão celular do infarto. ● Oclusão Arterial: se tivermos circulação colateral ou dupla, o sangue ainda chega pelo ramo colateral ou pela outra artéria que irriga a região - também extravasando o sangue para o interstício. É típico em órgãos com estroma frouxo, o que permite o acúmulo de sangue. Por exemplo: o rim é bem tenso, com os túbulos, que são estruturas epiteliais justapostas, tendo pouquíssimo estroma para o acúmulo de sangue em um infarto hemorrágico. Já o pulmão tem interstício entre os alvéolos e o espaço alveolar, que permite o acúmulo de sangue no infarto hemorrágico. Assim, bastante interstício e estroma propricipia o infarto vermelho. Além disso, é comum em órgãos previamente congestos por retorno venoso insuficiente. Uma vez lesada a área de maneira irreversível, o sangue acaba extravasando para o interstício. Esse tipo de infarto relaciona-se à lesão de isquemia-reperfusão, isto é, toda oclusão arterial seguida tentativa de restabelecimento do fluxo sanguíneo. Como o ramo arterial estava bloqueado, havia isquemia. Mas como abriu com uma terapia esse ramo arterial obstruído, há reperfusão. Isso causa perda de células adicionais, mesmo abrindo o vaso e restabelecendo o fluxo sanguíneo. Quais são os órgãos que sofrem com esse infarto? intestinos (tanto o delegado quanto o grosso), pulmões e gônadas (testículos, ovários e tubas uterinas). Legenda: infarto pulmonar (ou necrose coagulativa) é causada por obstrução vascular. Geralmente são áreas bem delimitadas, com margens bem definidas e bordas bem evidentes. Na peça macroscópica temos o parênquima pulmonar normal, uma área subpleural bem definida. Tem um formato piramidal, com o ápice apontado para o vaso obstruído (artéria pulmonar) e base para o lado contrário (nesse caso a pleura). A cor é intensamente avermelhada fibrosa ou enegrecida (sangue fixado pelo formol). Na microscopia temos os achados básicos de necrose: aumento de acidofilia citoplasmática; núcleos passando por picnose (condensado e corado pela hematoxilina), cariorrexe (fragmentação nuclear), cariólise (desaparecimento por completo). Vemos os septos interalveolares, apenas os esboços, com o aumento da acidofilia e cariólise. Como a necrose vem de um vaso obstruído, as denominamos de infarto. O sangue que estava nos capilares extravasa e deposita na luz alveolar, dando a cor avermelhada damacroscopia. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: infarto intestinal (ou necrose coagulativa), em que naturalmente existe uma circulação colateral. Temos uma artéria principal, mas ela faz umas arcadas vasculares no mesentério ou no mesocólon. Assim, mesmo que obstrua um ramo outro ainda vai levar sangue a área, permitindo a hemorragia. Na imagem à esquerda temos a circulação colateral. Na imagem à direita, temos o infarto do intestino delgado. A cor normal da superfície serosa é rose. Temos a transição em uma área bem definida para a área vinhosa e enegrecida da maioria da peça. O infarto tem congestão, hemorragia e edema (superfície brilhante). O sangue também se acumula na luz do intestino (extravasa ao cortarmos a luz). A parede vai se adelgaçando, e as pregas e vilosidades vão sendo perdidas com a hemorragia - mucosa careca. Legenda: à esquerda, o infarto é transmural, acometendo as 4 camadas: mucosa (apenas o arcabouço de vilosidades já necróticas), submucosa (sem núcleos dos fibroblastos), muscular (uma vez que as células musculares lisas perderam os seus núcleos), e na serosa (sem núcleos de fibroblasto do tecido conjuntivo ou do mesotélio). Todas as camadas tem aumento da acidofilia citoplasmática. À direita temos um infarto mais precoce, ainda só na túnica mucosa. Na mucosa, as vilosidades já perderam seus enterócitos, com o eixo de sustentação necrosada, sendo mais vulneráveis. Já algumas glandulas intestinais residuais estão vivas por serem mais resistente. Começa a morrer primeiro a célula mais vulnerável ao infarto, sendo primeira a da vilosidade e depois a região mais profunda da glândula. Graças ao infarto, houve um extravasamento de sangue dos vasos ao interstício, com a lâmina própria e o resto da parede com sangue. Infarto ainda não transmural, núcleos na camada muscular e na submucosa, acometendo apenas a mucosa por enquanto. Legenda: infarto testicular (ou necrose coagulativa) está relacionado com a torção do funículo espermático quando tem um segmento livre longo que permite essa torção, comprimindo a artéria testicular e as veias do plexo pampiniforme. Como é um órgão com veia única, isso permite com que a região se torne congesta, além de ter um estroma frouxa, com a sangue extravasado. Macroscopicamente, temos um testículo cortado ao meio. Na região superior e inferior temos a cabeça do epidídimo e a cauda do epidídimo. Tanto o parênquima quanto o epidídimo tem as características de um infarto hemorrágico. Na histologia, temos os túbulos seminíferos com as células já em estado avançado de necrose: acidofilia e cariólise (estão dissolvendo gradualmente até desaparecer). Este estroma está preenchido por hemácias, dando a cor. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Infarto Branco ou Infarto Anêmico: a região afetada adquire coloração mais clara (branca ou amarelada) que o parênquima normal do órgão, inicialmente esbranquiçada progredindo a um amarelado. O tipo de circulação determina esse infarto: a oclusão arterial em órgãos com circulação terminal (uma única artéria leva o sangue para a área) ou escassa circulação colateral. Ele costuma ocorrer em tecidos densos - várias estruturas epiteliais lado a lado - que limitam a penetração do sangue. Quais são os órgãos que sofrem com esse infarto? típico dos rins, baço, encéfalo como um todo e coração. Legenda: infarto renal (ou necrose coagulativa). Na macroscopia, temos o parênquima externo ainda preservado, sendo o córtex mais claro que a medula (dividido em pirâmides). Vemos uma área bem delimitada (majoritariamente no córtex, mas também na medula) em formato de pirâmide. O ápice aponta para o vaso ocluído na região do hilo renal, e a base para a cápsula renal. Fica delimitado a zona que é irrigada pelo vaso obstruído, o que está do lado já é outro vaso que irriga. Na microscopia, vemos que várias estruturas do córtex renal exibem sinais de necrose. Parte contorcida do túbulo proximal, corpúsculo renal (glomérulo e cápsula de Bowman) e vasos sanguíneos. Todas as três estruturas exibem perda dos núcleos, com a cariólise, e acidofilia. Legenda: infarto esplênico (ou necrose coagulativa). Na microscopia temos o parênquima normal do baço avermelhado graças a polpa vermelha. Essas áreas bem delimitadas, de cor amarelada, são as áreas de infarto. Está relacionado a obstrução de ramos da artéria esplênica ou condições hematológicas que vão permear o baço e destruir os sinusóides, como a anemia falciforme ou leucemia. Na histologia, a porção esquerda está viva, tendo os núcleos tanto na polpa vermelha quanto na polpa branca. A direita o parênquima perde os detalhes, vemos apenas uma massa corrida, com o aumento da acidofilia e perda de núcleos. Legenda: infarto agudo do miocárdio (ou necrose coagulativa). Na macroscopia, vemos o ventrículo esquerdo, o septo interventricular e o começo do ventrículo direito apenas. A parede do ventrículo esquerdo possui uma região que começa no subendocárdio ate a metade do miocárdio, sendo a zona de infarto braço de 4 a 7 dias de evolução. Na histologia, temos o aumento da acidofilia citoplasmática das fibras musculares esqueléticas e cariólise. Temos aindo um fantasma do núcleo que vai se esvaecendo e algumas células já perderam completamente. Como essa morte celular é uma necrose, ela leva a uma inflamação secundário, representada por neutrófilos. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: infarto cerebral (ou necrose liquefativa) - exemplo de AVC isquêmico. Na macroscopia, temos um hemisférios preservado (direito) com a substância branca central e a substância cinzenta periférica. Já no hemisfério esquerdo, temos uma área bem delimitada onde observamos a perda da separação da substância branca com a substância cinzenta. Também vemos que o tecido começa a se amolecer, pois vai se liquefazer. Na histologia, observamos os neurônios vermelhos (corpos celulares dos axônios com o aumento de acidofilia e perda dos núcleos, assim como a perda do ergastoplasma/ substância de Nissl - todas as substâncias sofrem, assim como os polirribossomos livres, que se desassociam e são degradados, sobrando apenas as proteínas citoplasmáticas,com cor acidófilo). O neurópilo está afastado com espaços em branco, demonstrando o edema vasogênico, junto ao infarto. Infarto do Miocárdio após Terapêutica Trombolítica ou Angioplastia para Restabelecimento do Fluxo Sanguíneo: artéria fechada, restabeleço o fluxo sanguíneo, isso causa uma lesão adicional na parede do vaso, por uma série de causas: 1. Estresse oxidativo da área que antes estava isquêmica e anoxia, levando sangue para mitocôndrias e organelas lesadas, além de locais inflamatórias - provoca a formação de ERO´s ou radicais livres, convertendo o infarto branco em vermelho, acomete as células endoteliais, permitindo que o sangue sai dos capilares e caia no interstício. 2. Sobrecarga de cálcio, que vai permear as células, sendo liberados em grande quantidade das organelas, piorando a lesão celular e provocando morte de células adicionais. 3. Área de necrose leva a inflamação secundária. Os neutrófilos liberam enzimas líticas, que lesam células adicionais, convertendo o infarto em vermelho. 4. Sistema complemento ativado na região, pois se precipita IgM que ativa o C1Q, que gera o complexo de ataque as membranas, que matam essas células e passam o sangue para o interstício. Assim, o infarto branco pode ser convertido em vermelho, caso seja restabelecido o fluxo. Isso causa lesões adicionais de células pelo estresse oxidativo, inflamação, sistema complemento e sobrecarga de cálcio. O infarto com certo tamanho, aumenta um pouco pela lesão de isquemia perfusão. Apesar de inicialmente aumentar o tamanho da lesão, isso não é negativo, pois caso continuasse sem o fluxo sanguíneo, o tamanho do infarto branco seria muito maior no final, salvando toda uma área. Esse infarto em questão tem início com uma trombose coronariana in situ, que fecha a luz da coronária. Se fizemos o cateterismo ou dissolvem o trombo por um fibrinolítico, o sangue volta a percorrer por essa área. Isso leva a células adicionais e provoca o extravasamento de sangue. Legenda: na macroscopia, vemos duas lesão diferentes. Uma área esbranquiçada fibrótica que é uma cicatriz de um infarto aguda, de mais de 2 meses. Na parede posterior, no septo e na parede anterior do ventrículo esquerdo temos o infarto hemorrágico, após a conversão. Na histologia, vemos a alteração de necrose, com o cardiomiócito acidófilo e perda do núcleo, mas o interstício tem várias hemácias extravasadas. Com hemácias = infarto vermelho e sem hemácias = infarto branco. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: infarto cerebral após terapêutica trombolítica ou angioplastia para restabelecimento do fluxo sanguíneo - AVC. Na macroscopia vemos essa área escura, que iniciou com um infarto branco, que após o fibrinolítico, gera uma hemorragia com hemácias extravasadas na substância branca e cinzenta. Quanto à Presença de Infecção Infarto Asséptico: sem infecção associada, então optamos por dar a classificação por coloração. Infarto Séptico: omitimos a coloração. A necrose é liquefativa sempre, associada a formação de uma cavidade preenchida por exsudato purulento, formando um abcesso. É comum que este tipo de infarto esteja associado à endocardite infecciosa, quando ocorre embolização de fragmentos da vegetação. Como? Há infecção inicial do endocárdio e formação de vegetação na superfície endotelial das válvulas - que são trombos com bactérias (imagem abaixo). Com a passagem do sangue eles podem se fragmentar formando êmbolos sépticos. Se forem parar no miocárdio ou no pulmão, causam um infarto séptico e causam necrose liquefativa com formação de abscesso. Legenda: na periferia da imagem temos o miocárdio. Aqui vemos um coração com um abcesso. Essa área é preenchida por neutrófilos íntegros , fragmentados e debri celular, que são fragmentos de células necróticas. Evolução do Infarto As alterações morfológicas do infarto vão depender da evolução temporal, desde o início da morte celular até o tempo atual. Essa morte celular, ou necrose, ocorre minutos após a oclusão vascular, dependendo da vulnerabilidade da célula que está sob isquemia. Por exemplo: neurônio em 3 minutos; fibroblasto em algumas horas. Essas alterações são inicialmente funcionais: desde a fase de lesão reversível, a célula vai perdendo sua função normal e, quando a lesão se torna irreversível, essa função é perdida completamente. A partir daí, têm início alterações bioquímicas, que podem ser dosadas no sangue periférico do paciente. Por exemplo: enzimas intracelulares circulando no sangue periférico relacionam-se à perda da integridade estrutural da membrana plasmática, que permite o extravasamento dessas proteínas para o plasma. Após isso, surgem alterações ultraestruturais, observadas na microscopia eletrônica. Apenas após estas alterações surgem as mudanças visíveis em microscopia de luz, que são alterações histológicas que podem ser vistas em cortes. Isso geralmente demora de 4 a 12 horas para ocorrer, tempo baseado no estudo do infarto agudo do miocárdio. Por fim, para que sejam vistas alterações macroscópicas, são necessárias no mínimo 12 horas após o infarto. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Como a causa do infarto é uma obstrução vascular, as células necrosadas são removidas da periferia para o centro. Por isso, existe um afluxo de neutrófilos, a partir da periferia, que liberam enzimas líticas que liquefazem as células mortas. Isso provoca quimiotaxia de monócitos, que deixam os vasos sanguíneos, caem no tecido conjuntivo e tornam-se macrófagos, fagocitando as células necróticas até sua remoção completa. A evolução do infarto também depende do tipo de tecido com que estamos lidando: ● tecido lábil (ótima capacidade mitótica) sofre regeneração; ● tecido estável ou permanentes sofrem fibrose por deposição de tecido conjuntivo. Obs.¹: alguns tecidos estáveis, como o hepático, possuem capacidade mitótica elevada, por isso também sofrem regeneração. Obs.²: no sistema nervoso, a fibrose é substituída por gliose reparativa, em que as células neuronais lesadas são substituídas por células gliais. Fibrose Reparativa Legenda: peça macroscópica de rim. A região lisa à esquerda corresponde à superfície renal normal. Esse rim foi acometido por infarto, área mais clara no terço médio da peça. Nessa peça ocorreu reparação, após meses do infarto. Como o parênquimarenal é estável e possui capacidade mitótica limitada, a cura acontece por fibrose reparativa. Essa fibrose pode ser vista como uma cicatriz larga e irregular na região do córtex. Legenda: a peça mostra um corte de coração. A partir da região direita para esquerda, vemos o VD, septo interventricular e VE. No VE existe hipertrofia, pois possui paredes com mais de 1 cm de espessura. Além disso, na região inferior (e no septo interventricular) vemos uma área esbranquiçada, que corresponde a uma fibrose madura, com mais de dois meses de evolução. Como o cardiomiócito é uma célula permanente, ele é incapaz de fazer mitose, então a região é reparada por fibrose, por meio da deposição de tecido conjuntivo. Isso resulta em afilamento da parede ventricular. Legenda: essa imagem mostra microscopia da peça anterior. Tudo que é cardiomiócito cora-se em vermelho e tudo que é colágeno (tecido conjuntivo) cora-se em esverdeado. Então a área grande em que só há colágeno corresponde à região da cicatriz, em que aconteceu um infarto e houve cura por fibrose reparativa. Gliose Reparativa Na parte central do sistema nervoso só existe tecido conjuntivo nos envoltórios e ao redor dos vasos. Portanto, não é possível que haja fibrose reparativa e a reparação se dá por gliose. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: a região à esquerda, mais escura, corresponde à região de perda tecidual, onde não há mais parênquima cerebral. Esta região coincide com a topografia de irrigação da artéria cerebral média. A estrutura restante que podemos ver é a meninge, recobrindo uma cavidade cística (buraco) que torna-se preenchida por líquor. A periferia que faz limite do parênquima normal e da área cística sofre gliose reparativa. Legenda: a imagem mostra o corte histológico da região de gliose reparativa da peça acima. Nela vemos a proliferação de núcleos escuros, de astrócitos, correspondendo ao processo de gliose. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Cardiopatia Isquêmica Já discutimos os aspectos gerais do infarto, agora vamos discutir especificamente a doença cardíaca isquêmica ou cardiopatia isquêmica, para exemplificar ainda mais o tema. A partir daqui, adentramos a patologia sistêmica ou patologia especial, então esse tema não será abordado em Patologia II. Características Gerais É um grupo de doenças composto por várias entidades clínicas distintas, que possuem em comum a causa: desequilíbrio entre a perfusão miocárdica e a demanda cardíaca por sangue oxigenado. Por isso, nessas doenças teremos sempre perfusão diminuída ou demanda aumentada. ● Consequências: limita e reduz a síntese de ATP; reduz a disponibilidade de nutrientes para o miocárdio; impede a remoção de produtos lesivos do metabolismo celular, que se acumulam. Obs.: o miocárdio possui reserva energética sob a forma de gotículas lipídicas. No entanto, após 20 ou 30 minutos sem nutrientes, a reserva acaba e ocorre lesão celular irreversível (necrose). A cardiopatia isquêmica pode também ser chamada doença arterial coronariana (DAC), muito usada pela clínica. A maior parte dos casos dessa doença têm como causa a aterosclerose, que obstrui artérias coronarianas e reduz a perfusão do miocárdio, enquanto a demanda tecidual é mantida. Obs.: existem também os chamados infartos do tipo II, em que a perfusão está mantida e a demanda miocárdica eleva-se, o que é muito comum em casos de sepse. Esse caso será discutido em aulas futuras. Inicialmente, a DAC é silenciosa, pois a placa de aterosclerose inicia sua formação durante a infância ou adolescência, progredindo lentamente - ao longo de décadas - até que os sintomas se iniciem, geralmente na meia idade (40 ou 45 anos). A partir daí, os sintomas tornam-se mais incidentes de acordo com o avanço da idade do paciente. Anatomia das Artérias Coronárias Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Artéria Coronária Direita: sai da porção ascendente da Aorta e se ramifica, dando origem ao: ● Ramo Marginal Direito: que desce e irriga a porção anterior do miocárdio do VD. ● Ramo Interventricular Posterior: que vai para posterior e irriga a parede posterior do VD e da região posterior do septo interventricular. ** ● Ramo Atrioventricular Anterior Direito: nutre os feixes de Hiss (feixes atrioventriculares). ● Ramo do Nó Atrioventricular: nutre os feixes do nó atrioventricular. ● Ramo do Nó Sinoatrial: nutre os feixes do nó sinoatrial. Obs.: por isso, em casos de obstrução que cause isquemia da AC Direita, o nó sinoatrial deixa de receber oxigênio, o que pode levar o coração a sofrer de arritmias. Artéria Coronária Esquerda: sai da base a Aorta e se ramifica, dando origem ao: ● Ramo Circunflexo: que vai para posterior e irriga a porção mais alta da base cardíaca na parede posterior. ● Ramo Marginal Esquerdo: que vai para lateral e irriga a parede lateral do VE. ● Ramo Interventricular Anterior: irriga a parede anterior do VE e do septo interventricular. ** Obs.: os ramos interventriculares (**) sofrem anastomoses no ápice cardíaco, de tal forma que o sangue que chega por um desses ramos pode levar ao enchimento do outro, mas de maneira sutil e não suficiente para restabelecer o fluxo em casos de obstrução completa de algum dos ramos. Manifestações da Cardiopatia Isquêmica A DAC tem como manifestações várias doenças diferentes, que possuem em comum a diminuição da perfusão em relação à demanda miocárdica, já que a causa é aterosclerose coronariana. A placa aterosclerótica cresce progressivamente e só origina sintomas a partir do ponto em que provoca uma obstrução significativa, maior que 75% da área transversal da artéria ocluída (arredonda-se para 80% para ficar mais fácil de lembrar). Algumas das manifestações da DAC são: Angina Estável: é uma dor isquêmica que acontece na região precordial, sempre que o paciente realiza esforços físicos (correr, caminhar, subir escadas) ou passe por estresse emocional, que aumenta a FC e a demanda por oxigênio. Angina Variante: ou angina de Prinzmetal. Essa angina acontece por vasoespasmos coronarianos: quando a coronária sofre uma contração vigorosa ocorre diminuição de sua luz, o que pode causar dor precordial. Normalmente essa angina acontece em indivíduos jovens. Angina Instável: possui clínica muito semelhante à do IAM (infarto agudo do miocárdio), com dor precordial relacionada ao estresse emocional ou atividadefísica, porém de característica mais prolongada, enquanto a dor da angina estável é mais pontual. Assim, em pacientes com angina instável, mesmo após o fim da atividade física ou do estresse emocional, a dor permanece. Para esse tipo de angina é importante ter como diagnóstico diferencial o IAM. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII IAM: relaciona-se à alterações agudas de placas ateroscleróticas. Essa placa pode sofrer trombose, hemorragia, ou qualquer outro fenômeno que diminua acentuadamente sua luz. Isso gera isquemia miocárdica e causa a dor típica do infarto, culminando em morte celular por necrose. A partir do infarto, dado que o paciente sobreviva, a cura ocorre por fibrose reparativa: há cicatrização do miocárdio e remodelação do ventrículo, por meio da hipertrofia das fibras residuais (para compensar as fibras perdidas), o que dá origem à cardiopatia isquêmica crônica, que se manifesta como insuficiência cardíaca. Morte Súbita Cardíaca: corações com cardiopatia isquêmica, que tornam-se muito hipertróficos e que passam a pesar mais de 500 g, podem gerar arritmias e parada súbita de funcionamento, o que leva o paciente à morte súbita por causa cardíaca. Infarto do Miocárdio Definição: é a morte celular por necrose de cardiomiócitos, devido à isquemia grave e prolongada (mais de 30 minutos). Principal manifestação da cardiopatia isquêmica. Incidência e Fatores de Risco São muito semelhantes aos da aterosclerose, uma vez que essa é a causa do infarto em 95% ou mais dos casos. Os pacientes mais acometidos têm mais de 40 anos e a incidência aumenta com a idade. O principal fator de risco é o tabagismo, uma vez que os milhares de constituintes presentes na fumaça do tabaco causam lesões endoteliais funcionais, sendo a base da aterosclerose. O segundo fator de risco mais importante é a hiperlipidemia, principalmente quando há aumento do LDL e diminuição do HDL. Além disso, algumas doenças genéticas, como a hiperhomocisteinemia, aumentam muito a chance de IAM. Por fim, a obesidade é outro fator de risco importante. Também são importantes fatores de risco: o diabetes mellitus, que potencializa a aterogênese e causa lesão da microvasculatura devido à glicosilação de células endoteliais; hipertensão arterial sistêmica, que também acelera a aterogênese; e histórico familiar, devido à carga genética. Além disso, é importante lembrar que, assim como na aterosclerose, inicialmente o infarto é mais comum em homens, pois as mulheres possuem o efeito protetor do estrógeno. Após a menopausa, com a perda do estrógeno, a incidência no sexo feminino cresce até que, praticamente, se iguala à incidência nos homens. Patogenia Corresponde ao mecanismo pelo qual a aterosclerose gera morte celular por necrose. Inicialmente ocorre uma alteração aguda em placa aterosclerótica, por exemplo: hemorragia, que expande o volume da placa de forma acentuada até causar oclusão luminal; erosão, ulceração, fissura ou ruptura, que levam à descontinuidade do revestimento endotelial. A partir da ruptura da placa aterosclerótica ocorre perda de revestimento endotelial nessa região, o que expõe o tecido conjuntivo subendotelial ao sangue. Assim, o fator de von Willebrand e o fator tecidual são expostos, dando início ao processo de trombose nesse local. O fator de von Willebrand permite que a plaqueta sofra adesão ao local, via glicoproteínas de membrana. A partir disso, a plaqueta sofre alterações conformacionais, realiza degranulação e atrai outras plaquetas, que se agregam e formam um tampão plaquetário. Ao mesmo tempo, o fator tecidual ativa a cascata de coagulação, permitindo a conversão do fibrinogênio em fibrina e a constituição de um trombo. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Esse trombo surge exatamente no ponto de ruptura da placa e cresce pela adição sucessiva de plaquetas e fibrina, aumentando seu volume até que realize oclusão completa da artéria coronariana, causando isquemia miocárdica. Assim, há redução (ou até suspensão) do fornecimento de oxigênio e nutrientes, enquanto deixa de haver remoção de produtos de refugo do metabolismo. Isso causa todas as alterações bioquímicas discutidas no início da aula, culminando em lesão celular irreversível por necrose. Causa do Infarto: oclusão arterial coronariana, devido à trombose arterial in situ. Legenda: a primeira imagem mostra uma artéria coronariana correndo no epicárdio, com placa de aterosclerose que sofreu ruptura e com trombose ocludente (região bem escura). A segunda imagem mostra essa artéria fatiada transversalmente. Os segmentos à direita são anteriores à oclusão, pois possuem luz livre e acometimento excêntrico e focal da parede vascular. Já os segmentos à esquerda são posteriores, pois estão ocluídos. Resposta à Isquemia A partir do momento da oclusão coronariana, a célula cardíaca é submetida, inicialmente, a uma lesão reversível. Então, uma vez que deixa de receber oxigênio e nutrientes, usa suas inclusões citoplasmáticas e as processa, via anaerobiose. Uma das formas desse processo é a glicólise, por isso, com o passar do tempo, os níveis de lactato nessa célula sobem (devido à lise da glicose) e os níveis de ATP descem (geração inferior ao consumo). Após 20 ou 30 minutos, essa lesão torna-se irreversível. A partir daí, ocorre perda progressiva de células do miocárdio, de maneira centrífuga (do centro para periferia) em relação ao vaso que sofreu oclusão. Além disso, o infarto se inicia com a morte de células da região subendocárdica, progredindo para região intermediária e, por fim, acometendo a região epicárdica. Por isso, com o passar do tempo ocorre afilamento do miocárdio, de maneira progressiva. Desse modo, quanto mais rápido a artéria for reaberta, mais cardiomiócitos serão salvos e melhor será o prognóstico do paciente. Após cerca de 12h não há como “salvar” essas células, por isso o infarto deve ser tratado antes disso, preferencialmente antes de 6h após sua ocorrência, quando o número de células salvas é maior. Legenda: essas imagens correspondem às alterações reversíveis sofrida por cardiomiócitos, nos primeiros 20 minutos após o infarto. A primeira região a ser lesada é a subendocárdica, pois possui menor perfusão sanguínea. Por isso, nessa região, nos primeiros 20 minutosapós o infarto, ocorre degeneração hidrópica (ou balonização), vista na primeira imagem. Esse processo consiste na depleção de ATP, levando à falência da bomba de sódio-potássio-ATPase, impedindo seu funcionamento. Com isso, há efluxo de potássio e influxo de sódio, provocando Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII influxo de água e edema intracelular. Isso resulta em cardiomiócitos de volume muito aumentado, com dissipação das miofibrilas. Na microscopia eletrônica vemos miofibrilas cortadas na transversal, as mitocôndrias entre elas e um espaço em branco. Nesse espaço deveriam estar localizadas as inclusões de glicogênio e lipídio, que foram consumidas por anaerobiose para tentar manter vivos os cardiomiócitos, em um primeiro momento após o infarto. Além disso, podemos observar que as mitocôndrias (M) estão tumefeitas, ou seja, inchadas e com perda de ultraestrutura normal (sem cristas mitocondriais evidentes), resultante da degeneração hidrópica. Quando a isquemia ocorre por mais de 20 a 30 minutos, desencadeia uma lesão irreversível, levando à morte celular por necrose. Com isso há perda da integridade das membranas das organelas e formação de corpos elétron-densos. Isso não acontece apenas nas membranas das organelas, também se manifesta como lesões, poros na membrana plasmática, de maneira que há extravasamento de moléculas intracelulares para o plasma, em sequência cronológica de elevação da concentração no sangue: ● mioglobina; ● fração MB da creatinoquinase (CK-MB); ● troponina: ● podem ser dosadas no sangue como marcador de infarto agudo do miocárdio, principalmente a CK-MB e a troponina. Para o diagnóstico de infarto precisa-se de dois de três fatores: história clínica compatível; alteração de eletrocardiograma; marcadores enzimáticos no plasma. Legenda: eletromicrografias de células em processo de necrose: célula mantida em isquemia por mais de 20 minutos, progredindo para lesão irreversível. Sinal ultraestrutural de lesão irreversível: depósitos elétron-densos provavelmente por íons cálcio no interior das organelas (circulados em vermelho à esquerda). Observa-se também lesões na membrana celular (imagem à direita): mitocôndria apresentando tumefação (maior que o normal, sinal que aparece na fase reversível), com a perda de cristas mitocondriais e o surgimento de depósitos elétron-densos (sinal de irreversibilidade), além da perda da continuidade da membrana mitocondrial externa (na porção esquerda da organela). Os danos físicos à estrutura da organela indicam um processo de lesão irreversível, necrose. Progressão da Área de Infarto Em termos anatômicos, a necrose progride de maneira ordenada, como a seguir: Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII 1. Infarto primeiramente da área diretamente irrigada pela artéria coronária em que houve um ponto de obstrução, começando na região central e migrando para a periferia (movimento centrífugo); 2. Em relação às camadas do coração, tem-se que o epicárdio é mais rapidamente irrigado que o endocárdio devido à proximidade anatòmica com a artéria coronária. Quando ocorre oclusão de um ponto dessa artéria, a primeira área a ser afetada pela isquemia e que passa a apresentar necrose é o endocárdio, progredindo para o terço médio do miocárdio e posteriormente para o terço externo (subepicárdico); 3. A progressão ocorre, então, em uma direção centrífuga e do endocárdio em direção transmural. Padrões de Infarto Infarto Transmural: acomete toda a espessura da parede ventricular. Relaciona-se com processo de aterosclerose coronariana, em que quando há alteração aguda placa de ateroma forma-se um trombo na coronária mas não se faz uma intervenção terapêutica a tempo. A zona de necrose (que progride do endocárdio em direção ao epicárdio) envolve metade da espessura do miocárdio em 2 a 3h após o infarto e toda a espessura em 6h, de maneira que a intervenção terapêutica deve ser realizada em até 6h. No caso de indivíduos que, ao longo dos anos que levaram até a oclusão total da artéria coronária, desenvolveram uma circulação colateral mais significativa, tem-se que a evolução desse quadro é mais lenta, atingindo toda a espessura da parede em até 12h. O tempo e a dor são os marcadores clínicos do infarto: se passadas as 6h e a pessoa não sente mais dor na região, é indicativo de que todas as células morreram por necrose e não há tratamento. Infarto Subendocárdico: o endocárdio corresponde à área menos perfundida pela circulação coronariana, sendo a última a ser perfundida, de maneira que é a mais vulnerável à isquemia. Esse tipo de infarto relaciona-se com: ● Trombose coronariana: sobre a qual houve uma intervenção terapêutica precoce, de maneira que o infarto acomete apenas o terço interno do miocárdio e de forma focal (apenas o centro do infarto sofre a necrose). ● Hipotensão arterial: queda brusca da pressão arterial que se mantenha. Compromete a perfusão tecidual (de todos os órgãos, não somente do coração) e provoca necrose em todo o terço interno miocárdio (de forma circunferencial, não apenas um foco). ● Choque: ocorre aumento da demanda do miocárdio mas a perfusão encontra-se normal, gerando um comprometimento do miocárdio e morte desse tecido. Todo o terço interno do miocárdio sofre o aumento de demanda, de modo que também não se observa apenas um foco, mas, sim de maneira circunferencial. ● Hipóxia: alteração pulmonar com hipoxemia acentuada, de modo que a totalidade do terço interno do miocárdio sofre infarto, de maneira circunferencial. Infarto Transmural x Infarto Subendocárdico Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Transmural Subendocárdico Relacionados à trombose das artérias coronarianas não seguidas de terapias para o restabelecimento do fluxo sanguíneo normal (acomete toda a espessura da parede). Trombose no: Ramo interventricular anterior da artéria coronária esquerda, de maneira que o infarto acomete a porção anterior do ventrículo esquerdo e do septo interventricular. Ramo circunflexo esquerdo, culminando em uma área de infarto na parede lateral do ventrículo esquerdo. Ramo interventricular posterior da artéria coronária direita, causando um infarto na parede posterior do ventrículo esquerdo e do septo interventricular. Ocorrem por: Trombose de artérias coronarianas de maneiraparcial ou oclusiva total seguida por terapia de reperfusão sanguínea (em menos de 6h do infarto): infarto focal, apenas subendocárdico e com o comprometimento de uma porção da parede. Hipotensão ou choque: circulação do organismo prejudicada como um todo, observando-se uma isquemia em toda a região subendocárdica do ventrículo, de maneira que o infarto subendocárdico é circunferencial e toda essa faixa morre por necrose. Oclusão de pequenos vasos intramurais (microinfartos): ocorre de maneira puntiforme e isolada no miocárdio, após a oclusão de vasos da microcirculação (como arteríolas, capilares e vênulas), por doenças que levam a essa oclusão, como: coagulação intravascular disseminada; anemia falciforme. Apresentação Clínica Sinal: dor torácica de forte intensidade desencadeada por esforço físico ou estresse emocional. ● Características da Dor: queimação, aperto ou constrição; mal delimitada; irradiação para regiões cervical ou mandibular, membros superiores (mais comum para o membro superior esquerdo, mas também pode irradiar para o direito), epigástrio; associada à diaforese (sudorese intensa), náuseas e vômitos; muito comum nos meses de inverno (maior vasoconstrição). Apresentação Eletrocardiogŕafica Normal Onda P: despolarização atrial. Complexo QRS: despolarização ventricular. Onda T: repolarização ventricular. Segmento ST: o ponto J, que antecede a onda T, deve estar no mesmo nível que a linha de base de SR, que sucede a onda P. Infarto com Supra Infarto agudo do miocárdio (IAM) com supradesnivelamento do segmento ST. Nesse caso, o ponto J encontra-se acima da linha de de base (após a onda P). Em geral são infartos transmurais. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Infarto sem Supra Infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST. Nesse caso, existem diversas características distintas que não seguem um único padrão de eletrocardiografia e não podem ser resumidas em uma única figura: ● infradesnivelamento do ponto J; ● bloqueio de ramo direito; ● bloqueio de ramo esquerdo. Em geral, esses são infartos subendocárdicos. Alterações Morfológicas Até 2hrs Alterações exclusivamente bioquímicas, por exemplo: elevação de CK-MB ou troponina. Nesse momento, as alterações ultraestruturais só podem ser vistas na MET e tanto macroscopia quanto microscopia de luz são normais. Legenda: na microscopia eletrônica observa-se perda de glicogênio; tumefação das mitocôndrias (maiores que o normal e perda da organização); densidades mitocondriais (circuladas em vermelho); ruptura do sarcolema (poros apontados em roxo). De 2 a 4hrs Surgem alterações na microscopia de luz com uso de histoquímica, porém na macroscopia ainda não existem alterações. Legenda: a área do infarto pode ser ressaltada com o uso do cloreto de trifeniltetrazoíto (histoquímica), que se impregnam no miocárdio viável, ressaltando-o em uma cor avermelhada intensa. A área onde não houve impregnação (amarela, apontada pela seta em preto) corresponde à área de infarto. Já a área esbranquiçada indica tecido cicatricial antigo, um infarto anterior com mais de 2 meses de evolução. Legenda: ondulação dos cardiomiócitos (deveriam estar dispostas de maneira retilínea), é o sinal mais precoce, antes de acidofilia do citoplasma e perda de núcleo. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: na metade superior da imagem, vê-se fibras estriadas cardíacas normais (dispostas de maneira retilínea). Já na metade inferior, observa-se uma área de infarto agudo do miocárdio recente, com fibras mais eosinófilas em onduladas (apontadas em verde). De 4 a 24hrs Nesse momento têm início as alterações macroscópicas, principalmente mosqueamento escuro, devido ao sangue aprisionado pela vasoplegia. Legenda: na imagem vemos um corte transversal de coração. Nela vemos um VE hipertrófico (mede mais de 1cm), apontado em azul. Injetou-se tinta azul no sistema venoso e tinta vermelha no arterial. Em um ramo de artéria coronária, vê-se que não foi preenchido por nenhuma das tintas e está ocluído por um trombo (circulado em verde), provavelmente da artéria interventricular anterior. Acometendo a parede anterior do septo interventricular, vê-se uma área de coloração mais acastanhada, provocada pelo aprisionamento do sangue no momento do infarto pois os vasos se tornam plégicos, param de conduzir o sangue (apontado em vermelho). Se a área não for fixada, o material tem uma cor mais avermelhada. Legenda: infarto recente e extenso (deixa de ocupar apenas a parede anterior na região da base e vai se tornando circunferencial à medida que desce para o ápice). Infarto reconhecido pela região de mosqueamento escuro (apontada pela seta em vermelho). Legenda: área de mosqueamento escuro na parede anterior e septo interventricular (apontada em vermelho). Ventrículo esquerdo à esquerda (apontado em preto) e direito à direita (apontado em branco). Vaso provavelmente lesado corresponde ao ramo interventricular anterior da artéria coronária esquerda. Legenda: a microscopia de luz apresenta alterações típicas de necrose de coagulação, como citoplasma intensamente acidófilo e picnose nuclear. Na imagem à esquerda vemos uma área de transição de uma musculatura cardíaca normal (porção acima e à direita na imagem) e uma porção acometida por necrose, com aumento da eosinofilia citoplasmática e perda dos núcleos da região. Na imagem à direita vemos um maior aumento da área de transição entre a Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII musculatura normal e e necrótica, observando-se maior acidofilia e cariólise (perda completa dos núcleos). Legenda: edema caracterizado pelo aumento do espaçamento entre as fibras musculares, a maior quantidade de líquido presente (imagem negativa na ML) e um afluxo de neutrófilos (liberam as enzimas líticas que digerem as células mortas para que sejam posteriormente liberadas pelos macrófagos). Na necrose coagulativa, o aspecto que se observa deve-se pela coagulação pela desnaturação proteica: as próprias enzimas celulares estão desnaturadas e são incapazes de digerir a própria célula (estão presentes como um arcabouço e são removidas pelas células inflamatórias). De 1 a 3 dias Mais difícil histologicamente de se diferenciar daqueles achados de até 24h, pois se confundem. No entanto, a macroscopia orienta melhor os achados. Legenda: nesse momento, a microscopia de luz mostra sinais avançados de necrose de coagulação (cariólise) e aumento do infiltrado neutrofílico.Legenda: na macroscopia a área do infarto torna-se amolecida progressivamente e de cor amarelada do centro para a periferia (características típicas de um infarto branco anêmico). Nessa imagem vemos diferentes faixas de corte do coração: inicialmente, na base, acomete a parede e o septo interventricular anteriores. A área amarelada e amolecida do infarto (apontadas pelas setas em vermelho). Legenda: área do infarto acometendo a parede anterior do ventrículo e o septo interventricular, com uma região amarela e amolecida ao toque no centro (apontada em azul) e uma periferia ainda com aspecto de mosqueamento escuro (apontado em vermelho). Legenda: infarto transmural, que pega toda a espessura da parede ventricular anterior e septo interventricular (apontado em vermelho). Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII De 3 a 7 dias Nesse momento, a microscopia de luz mostra o início da desintegração dos cardiomiócitos necróticos e fagocitose por macrófagos. As células cardíacas se fragmentam em restos de células necróticas e começa-se a se perceber o afluxo de macrófagos que irão fagocitá-las. Legenda: na imagem à esquerda vê-se fibras onduladas, com aumento da acidofilia citoplasmática e perda dos núcleos (alterações de infartos mais recentes) na porção superior da imagem. Na porção inferior da imagem, observa-se uma área de infarto mais avançada, com fragmentação dos cardiomiócitos e sua conversão em uma massa amorfa eosinofílica pela liberação de enzimas pelas células inflamatórias. Áreas com morfologias de infarto cronologicamente diferentes indicam a possibilidade de que o paciente possa ter reinfartado. Já na imagem à direita (maior aumento) vê-se fragmentos celulares (apontados pelas setas em preto) e infiltrados de macrófagos (apontados pela cabeça de seta), os quais são células com citoplasma amplo, acidófilo e núcleo reniforme. De 7 a 14 dias A macroscopia mostra amolecimento máximo da área de infarto, com margens deprimidas: a periferia fica rebaixada no plano de corte pois já houve liquefação das células mortas pela enzima das células inflamatórias. Além disso, há início da tentativa de reparação tecidual, com formação do tecido de granulação. Já a microscopia mostra fagocitose avançada dos cardiomiócitos (que já estão fragmentados) e início da deposição do tecido de granulação. Legenda: na região posterior do ventrículo esquerdo, vemos uma área bem delimitada de infarto transmural (indicado em azul), que já está começando a adquirir uma cor tendendo a ser esbranquiçada. Observa-se que a área de infarto está deprimida em relação à área viável. Legenda: na primeira imagem vemos células musculares cardíacas viáveis (lado direito do tracejado) e área de tecido de granulação (lado esquerdo do tracejado). Na segunda imagem o tecido de granulação apresenta edema (espaço claro entre os seus constituintes indicado em azul), células inflamatórias (já predominam os macrófagos). Os macrófagos já estão no fim do processo de fagocitose, portanto, vemos alguns resquícios de células musculares estriadas cardíacas (indicadas em vermelho). Além disso, nesse tecido, vemos o início de uma deposição de colágeno jovem e delgado (fibras bem delicadas no meio indicada pela seta preta). Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: a imagem mostra detalhe em maior aumento da área de infarto. Vemos resíduos citoplasmáticos de cardiomiócitos (em azul) que já estão em processo avançado de fagocitose. No meio dessas células, vemos o tecido de granulação: apresenta edema (em vermelho), células inflamatórias em roxo (predominantemente macrófagos, que estão terminando a fagocitose) e proliferação de fibroblastos em verde (células fusiformes e de núcleos alongados), que começaram a depositar o colágeno jovem e delicado (em laranja) no meio, para dar origem a uma cicatriz colágena que vai fazer a reparação tecidual dessa área por fibrose. De 2 a 8 semanas Na macroscopia vemos cicatriz branco-acinzentada da periferia para o centro. Obs.: a remoção das células necróticas também acontece da periferia para o centro. As alterações macroscópicas estão relacionadas com o processo de deposição de tecido conjuntivo: formação da cicatriz. Já na microscopia vemos diminuição da celularidade, pois as células inflamatórias já foram eliminadas por apoptose, e aumento da deposição de colágeno pelos fibroblastos. Legenda: a imagem à esquerda mostra um Infarto (em azul) acometendo metade anterior do septo interventricular e parede anterior do ventrículo esquerdo. A área do infarto está deprimida (como víamos de 7 a 14 dias) e está começando a adquirir uma coloração acinzentada pela deposição de colágeno. Conforme isso progride, adquire uma cor cada vez mais esbranquiçada. A imagem à direita mostra a progressão do infarto: o centro está mais acinzentado e deprimido (tracejado branco), indicando que o processo está começando a ocorrer. Na periferia (em verde), a cor esbranquiçada indica uma fibrose mais avançada. Portanto, a fibrose começou na periferia e está progredindo em direção ao centro. Legenda: as imagens mostram uma comparação de um tecido de granulação mais jovem (à esquerda) e um tecido na fase de 2 a 8 semanas. O tecido de granulação mais jovem (esquerda) é mais celularizado (cheio de células inflamatórias); está começando a progredir para a fase de 2 a 8 semanas; possui material róseo (colágeno) entre as células está começando a ficar mais evidente. Já o tecido na fase de 2 a 8 semanas (direita) possui fibras colágenas, coradas em azul pelo tricrômico, estão bem evidentes; e possui pouquíssimos núcleos de células Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII inflamatórias (pois já foram eliminadas por apoptose após cumprirem a sua função de fagocitose. Mais de 2 meses A partir daí podemos ver, na macroscopia, uma cicatriz completa, bem formada, de cor esbranquiçada. Obs.: essa forma se mantém a partir dessas alterações. Na microscopia essa cicatriz é vista como uma região densa e espessa, de grande deposição de colágeno. Legenda: na primeira imagem, na parede posterior, há uma área esbranquiçada (cicatriz consolidada). Houve, inclusive, adelgaçamento da parede ventricular pela substituição completa do infarto transmural por fibrose. Há áreas de fibrose também no septo interventricular e um pouco na região anterior que, provavelmente,são outras áreas de isquemia que esse paciente já apresentou. Já na segunda imagem, há uma área esbranquiçada no ventrículo esquerdo na região mais anterior. Na região posterior, há uma segunda área esbranquiçada de aspecto fibrótico e liso, que corresponde a uma cicatriz madura/consolidada. A cicatriz madura da fibrose reparativa pode ser vista, por exemplo, na superfície epicárdica e na superfície endocárdica, principalmente, se o infarto for transmural. Legenda: á direita, vemos a superfície epicárdica do coração com área de fibrose (cicatriz consolidada). Portanto, quando cortarmos esse coração, provavelmente, encontraremos a área de infarto antigo. À esquerda, vemos uma fibrose endocárdica, processo secundário à reparação tecidual por fibrose de um infarto prévio. Legenda: à esquerda vemos cardiomiócitos residuais (indicados em vermelho) hipertróficos (citoplasma amplo, largo e variabilidade no formato e no tamanho dos núcleos - anisocariose). Assim, eles se hipertrofiaram para compensar a perda de células musculares estriadas cardíacas. No meio da imagem, há uma cicatriz por deposição de colágeno → infarto acima de dois meses curado por fibrose reparativa. À direita vemos, em coloração pelo tricrômico, o colágeno se cora em verde ou em azul, enquanto os cardiomiócitos remanescentes se coram em vermelho. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Reperfusão Alterações Morfológicas Como já discutido, a reperfusão pode causar a conversão do infarto branco (ou anêmico) em infarto vermelho ou hemorrágico. Por exemplo: paciente sofreu um infarto agudo do miocárdio e foi submetido a terapia fibrinolítica ou cateterismo na tentativa de abrir a coronária que se fechou: ocorre a conversão do infarto. Legenda: vemos que o paciente já apresentou previamente um infarto que se consolidou em cicatriz colágena (mais de 2 meses). Além disso, ele tem uma área intensamente enegrecida (infarto vermelho ou infarto hemorrágico do miocárdio) no septo interventricular e na parede posterior do ventrículo esquerdo. À direita, detalhe da 4ª fatia: na parede anterior, destaca-se o infarto do miocárdio antigo (com mais de 2 meses de evolução) em que há uma cicatriz consolidada; na parede do septo interventricular e na parede posterior, destaca-se o infarto do tipo vermelho ou hemorrágico - área intensamente vinhosa, tendendo ao enegrecido. Provavelmente, esse paciente passou por terapia de reperfusão. Devido ao grande afluxo de cálcio para células com membranas danificadas, após o restabelecimento do fluxo sanguíneo, surgem faixas ou bandas de contração (sarcômeros intensamente contraídos). O cálcio se liga ao aparelho de contração muscular e provoca uma contração muito intensa dos sarcômeros, formando as bandas longitudinais intensamente acidófilas/eosinofílicas. Como o sarcômero está danificado, ele contrai e permanece como está, sem relaxar. Legenda: à esquerda, vemos as bandas longitudinais intensamente acidófilas/eosinofílicas (bandas de contração), que são evidência de um tratamento pregresso. À direita, vemos uma coloração pelo tricrômico. Destaque para a diferença de coloração entre a cor esperada para o citoplasma dos cardiomiócitos e as faixas intensamente vermelhas (que correspondem às bandas de contração). Efeitos na Viabilidade e Função do Miocárdio Oclusão Total Permanente (Não Tratada): a função do miocárdio é esgotada em poucos minutos de isquemia, já a viabilidade vai caindo progressivamente após 20-30 minutos, quando a lesão se torna irreversível. A cada minuto que passa, mais células vão morrendo: progressão do centro da área de irrigação para a periferia e da região subendocárdica para a região epicárdica. Após 6 horas, praticamente, todo o miocárdio foi perdido. Oclusão Temporária com Reperfusão: restabelecimento do fluxo sanguíneo (por cateterismo ou por terapia fibrinolítica). Esperaria-se que no ponto do restabelecimento do fluxo houvesse formação de um platô (linha tracejada horizontal em vermelho). Mas a reperfusão causa lesão de isquemia-reperfusão, pelo influxo de cálcio, pela ativação do sistema complemento, pela liberação de citocinas pró-inflamatórias pelas células inflamatórias e pela produção de espécies reativas de oxigênio. Portanto, há perda de células adicionais pela lesão de reperfusão, o que resulta em um platô um pouco mais baixo (linha cheia horizontal em vermelho). A função do miocárdio vai se recuperando lentamente, podendo levar dias para voltar à função correspondente das células vivas. Eventualmente, o miocárdio demora Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII muito para voltar a essa função, condição denominada "miocárdio atordoado" (o miocárdio está vivo, mas não consegue recuperar sua função, pois vai demorar muito até se restabelecer). Complicações do Infarto do Miocárdio Arritmia Ocorre de forma precoce, nas primeiras horas após o infarto, e é a principal causa de óbito por IM. Existem duas principais arritmias, que prejudicam o funcionamento do coração como bomba e provocam óbito de forma precoce: Fibrilação Ventricular: é um ritmo cardíaco acelerado, com risco de vida, que se inicia nas câmaras inferiores do coração. Como o coração não bombeia adequadamente durante a fibrilação ventricular, a FV sustentada pode causar diminuição da pressão arterial, perda de consciência ou morte. Taquicardia Ventricular Sustentada: é definida como um evento com um mínimo de três complexos ventriculares, com duração superior a 30 segundos e/ou acompanhada de instabilidade hemodinâmica. Disfunção Contrátil Ocorre nas primeiras horas após o infarto, normalmente devido à insuficiência do ventrículo esquerdo, causada por congestão e edema pulmonar. Além disso, a insuficiência cardíaca pode ser aguda, por perda da função ventricular, sendo denominada choque cardiogênico e relacionando-se a infartos extensos acometendo mais de 40% do VE (70% de mortalidade). Legenda: à esquerda vemo um pulmão com superfície pleural muito brilhante por causa do edema. Aos cortes, sai do parênquima pulmonar um líquido espumoso contendo bolhas de ar e de cor rósea ou avermelhada (semelhante à cor de água de carne) pela hemorragia intra alveolar. À direita vemos congestão acentuada dos capilares dos septos interalveolares. Assim, os alvéolos deveriam ter ar (cor branca), serão preenchidos por um líquido róseo (cor rósea). Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e ViniPienna - LII Ruptura do Miocárdio Ocorre após alguns dias, mais comum entre 2 a 4 dias. Surge como uma complicação de infartos transmurais (acometeram toda a espessura da parede ventricular) e relaciona-se com a fase avançada da necrose, lise do interstício e dos cardiomiócitos do miocárdio pela liberação de enzimas líticas - como a área necrosada será liquefeita, essa parede fica mole e pode ser perfurada facilmente. A ruptura da parede livre causa tamponamento cardíaco: se houver perfuração da parede livre do ventrículo esquerdo (principalmente, da parede anterior), o sangue que se encontra dentro da câmara cardíaca extravasa para o saco pericárdico, fazendo um tamponamento cardíaco e um choque do tipo obstrutivo, que leva à morte. Legenda: áreas de perfuração do ventrículo esquerdo (em vermelho), que permitem o extravasamento de sangue para o saco pericárdico. Essa perfuração está relacionada com o enfraquecimento da parede ventricular pela lise das células e do interstício. Legenda: à esquerda, vemos a perfuração da parede ventricular no corte macroscópico, indicada pela seta preta superior. Infere-se que o infarto (seta preta inferior) tem, pelo menos, 3 a 7 dias de evolução, por causa da cor amarelada bem definida. Nessa etapa, há o amolecimento máximo da parede pela necrose avançada das células e lise dos cardiomiócitos e do interstício, o que permite com que a pressão perfure a parede ventricular. À direita, vemos a consequência da perfuração da parede ventricular: grande acúmulo de sangue no saco pericárdico, que comprime o coração, impedindo que ele se encha de sangue na diástole e que não consiga ejetar nada na sístole, o que caracteriza o choque obstrutivo, condição que leva à óbito. Ruptura de Músculo Papilar Acontece do 2º ao 4º dia por enfraquecimento máximo da parede do miocárdio e decorre da necrose que acontece nessa região: o músculo papilar (ponto de inserção das valvas no miocárdio) se rompe → a valva não vai ter conexão com o miocárdio e não vai mais se abrir ou fechar. Se a valva não se fechar, isso provoca uma regurgitação do sangue do ventrículo para o átrio durante a sístole. Portanto, ao invés do sangue sair pela aorta, ele volta para o átrio, o que causa uma insuficiência cardíaca aguda (choque cardiogênico) e leva o paciente à óbito. Ju Correia, Lari Lemes, Nina, Mari Guedes e Vini Pienna - LII Legenda: músculo papilar íntegro e ponto de inserção das valvas cardíacas (indicado em vermelho). Músculo papilar que sofreu rotura pelo infarto (indicado em azul). Pericardite Fibrinosa ou Síndrome de Dressler É uma complicação pouco comum e tem sido muito rara na atualidade, pois é necessário um infarto muito extenso para que isso aconteça. Relaciona-se com um processo inflamatório subjacente, que envolve um infarto transmural com inflamação da membrana serosa (epicárdio) e acúmulo de depósitos de fibrina. Legenda: área bem delimitada de cor avermelhada (hiperemiada). Se pudéssemos olhar bem de perto, veríamos a deposição de um material fibrilar (fibrina), que caracteriza a pericardite fibrinosa. Adelgaçamento Parietal com Formação de Trombo Mural Ocasionado pela fibrose que se sucede. Legenda: nesse adelgaçamento parietal, que foi totalmente substituído por fibrose (indicada pela seta branca), a parede é acinética (não se movimenta). Então, há estase do sangue e permite-se o maior contato das plaquetas com o endotélio → situação propícia para formação de um trombo intraluminal aderido à parede acinética. Portanto, o trombo mural é uma das complicações do infarto na sua fase mais crônica. Vale destacar que, se o trombo se encontrar no lado esquerdo do coração, ele pode gerar tromboêmbolos, que vão obstruir qualquer vaso da circulação sistêmica. Então, pode causar infarto cerebral (AVC), renal, esplênico, intestinal ou até isquemia de membros inferiores. Aneurisma Ventricular Relacionado com a fibrose e com o adelgaçamento da parede do ventrículo esquerdo: a parede adelgaçada sofrendo a pressão do sangue no interior se dilata e causa o aneurisma. As duas principais causas de aneurisma cardíaco são: ● Infarto Agudo: aneurisma acontece na região acometida; ● Doença de Chagas: aneurisma acontece mais no ápice cardíaco (ponta). Legenda: paredes ventriculares bem adelgaçadas (em azul) por fibrose, que se dilataram para fora = aneurisma cardíaco. Lenina Castellari - LII Choque Definição: é um estado sistêmico no qual a perfusão tecidual é insuficiente para atender as demandas teciduais. Por isso, caracteriza-se por um desequilíbrio entre oferta e demanda por O2 e nutrientes, além do acúmulo de produtos do metabolismo. ● O principal produto que acumula-se é o ácido lático, pois durante o choque ocorre um desvio da fosforilação oxidativa para glicólise anaeróbica, causando este acúmulo. Causas: diminuição da perfusão tecidual, com manutenção da demanda basal. Ou perfusão tecidual mantida, com elevação da demanda celular. No estágio de choque, todos os órgãos do corpo são submetidos à hipóxia e, portanto, podem ser lesados de maneira irreversível, causando morte celular e necrose. Além disso, esse estado é a via final de muitas doenças comuns na prática clínica. Conceitos Importantes Perfusão Tecidual A perfusão tecidual determina o quanto de O2 e nutrientes as células recebem. Por sua vez, a perfusão é determinada pela pressão de enchimento do leito capilar, que sofre influência da pressão arterial sistêmica. Assim, estados de hipotensão levam à diminuição da pressão de enchimento capilar e, consequentemente, diminuem a perfusão tecidual gerando choque. É importante lembrar que a pressão arterial sistêmica é influenciada pelo débito cardíaco e pela resistência vascular periférica. Dessa forma, ao analisar todos os fatores de influência, é possível visualizar quais são os pontos de alteração que causam choque: Débito Cardíaco: é influenciado pelo volume sistólico e pelos próprios fatores da contração cardíaca, como frequência e força. Resistência Vascular Periférica: sofre regulação por fatores neurais, pela parte Simpática e Parassimpática do SNA; por fatores humorais, tanto endócrinos quanto fatores locais produzidos pelas células endoteliais; e por fatores locais. Lenina Castellari - LII Débito Cardíaco Indica o quanto de sangue é ejetado do coração por intervalode tempo. Ele é obtido pelo produto da frequência cardíaca e do volume sistólico final. Frequência Cardíaca: é quantas vezes o coração bate em um certo tempo. Ela é determinada pelo SNA, cuja parte simpática a eleva e a parte parassimpática, a diminui. Volume Sistólico Final: é o volume máximo que o coração pode ejetar a cada sístole. Ele é determinado pela força de contração do miocárdio, que sofre influência da contratilidade (o quanto as células do tecido podem se contrair) e do volume diastólico final (quanto de sangue é ofertado para as células). Esse volume, por sua vez, depende do retorno venoso, ou seja, do quanto de sangue retorna ao coração após a circulação. Esse retorno é estimulado pela constrição da musculatura lisa venosa, pela contração da musculatura esquelética e pelas incursões respiratórias. Obs.: normalmente o choque não é causado por queda da FC, mas por queda do volume sistólico final. Resistência Vascular Periférica Depende de fatores como a vasoconstrição e a vasodilatação, que podem ser alterados por fatores neurais ou humorais (como os descritos na imagem). A vasoconstrição provoca aumento da RVP, enquanto a vasodilatação provoca sua queda. Lenina Castellari - LII Classificação do Choque Hipovolêmico: nesse tipo a diminuição da oferta de O2 é causada por redução do volume circulante, o que diminui o volume diastólico final e, por consequência, diminui o débito cardíaco, causando o choque. Cardiogênico: este é provocado por alterações do miocárdio, como falência ventricular, o que leva à diminuição da contratilidade e, por consequência, diminui o débito cardíaco, causando o choque. Obstrutivo: é quando ocorre uma obstrução extrínseca ao miocárdio, por exemplo um tamponamento cardíaco. Isso reduz a quantidade de sangue que preenche o coração da diástole, reduzindo o volume diastólico final e o débito cardíaco, causando o choque. Distributivo: neste ocorrem alterações do leito capilar, gerando diminuição da resistência periférica por vasodilatação sistêmica e causando o choque. Não séptico: anafilático + neurogênico Choque Hipovolêmico O choque hipovolêmico ocorre devido à redução acentuada da volemia (mais de 20% do total) de forma aguda. Isso pode ocorrer devido à: hemorragias graves; vômitos e diarreia; queimaduras graves; perda de líquido para o interstício ou para luz de órgãos. Esses fatores levam à queda do volume circulante, o que reduz a pré carga (volume diastólico final) e, por consequência, reduz o débito cardíaco. Este, por sua vez, reduz a perfusão tecidual e a oferta de O2 às células, instalando o estado de choque. Obs.: um choque hipovolêmico causado por hemorragia pode também ser chamado de choque hemorrágico. No início do choque, o organismo determina mecanismos a fim de compensá-lo (abaixo). No entanto, esses mecanismos são limitados e, quando tornam-se insuficientes, o choque se instala de fato e causa lesão celular. Lenina Castellari - LII Choque Cardiogênico O choque cardiogênico acontece por uma falência aguda da bomba cardíaca, causando perda de cardiomiócitos ventriculares ou sua disfunção, por exemplo: insuficiência aguda de VE. Para que ele ocorra, é necessário que essa perda supere 40% da massa miocárdica ou 80% do débito cardíaco. Quais são as causas mais comuns? Infarto agudo do miocárdio extenso; miocardite aguda (mais comum após infecções virais); ruptura de músculos papilares ou de valvas cardíacas. Todos esses fatores causam redução do débito cardíaco, determinando o choque. A mesma tentativa de compensação do choque hipovolêmico acontece para o choque cardiogênico: a queda do débito cardíaco é percebida por vários tipos de receptores, na aorta e nas carótidas principalmente, levando à liberação de adrenalina pela parte simpática do SNA. Assim, ocorre aumento da FC e tentativa de aumento da força de contração, no entanto, isso ocorre sobre um miocárdio lesado (isquêmico, inflamado ou com ruptura). Por conta disso, ocorre aumento da demanda energética do miocárdio, sendo que ele já está submetido à isquemia e hipóxia. Dessa forma, esse mecanismo de compensação acaba agravando o quadro de choque cardiogênico, o que faz com que ele atinja a fase progressiva. Choque Obstrutivo Esse tipo de choque ocorre quando há restrição à circulação, causada por bloqueio mecânico da circulação pulmonar, sistêmica ou cardíaca. Com esse bloqueio ocorre restrição do enchimento das câmaras cardíacas, assim não há sangue para ejeção na sístole, o que reduz o débito cardíaco. Ele é muito causado por embolia pulmonar, em que há bloqueio da artéria pulmonar, não chega sangue ao AE e não há sangue suficiente para ejeção no VE; por hemopericárdio, em que há compressão do coração e não há dilatação correta na diástole, impedindo a ejeção correta na sístole; e por pneumotórax hipertensivo, que atua do mesmo modo que o hemopericárdio. Choque Distributivo É um grupo de choques que envolve a redistribuição do sangue dentro do sistema circulatório, geralmente ficando represado na microcirculação. Para isso, acontece uma vasodilatação arteriolar periférica e o sangue fica represado nas arteríolas e vênulas. Além disso, a vasodilatação causa queda na resistência periférica e queda da pressão de enchimento capilar, o que diminui a perfusão tecidual e submete essas células à hipóxia. Obs.: o débito cardíaco, nas fases iniciais desse choque, encontra-se preservado, mas com a progressão do choque ocorre redução do débito. Uma das maneiras de compensar o choque era ativar a parte simpática do SNA, para que ocorresse contração da vascularização periférica, a fim que aumentar sua resistência. No entanto, no choque distributivo esse mecanismo não funciona, pois já existe vasodilatação, que não sofre resposta do SNA. Portanto, esse é o tipo de choque com pior prognóstico e maior mortalidade. São vários os subtipos de choque distributivo, sendo os principais: choque anafilático, neurogênico, séptico e endócrino (crise adrenal). Choque Anafilático Há exposição das membranas mucosas a uma molécula de alérgeno (antígeno), que é reconhecido por células dendríticas ou linfócitos B. Se reconhecido pelo LB, ele diretamente torna-se um plasmócito e passa a produzir anticorpos IgE. Já se for reconhecido pela célula dendrítica, ocorre apresentação dele para oLT, que se diferencia em LTH2 e estimula a diferenciação do LB em plasmócito, para secreção de IgE. O IgE secretado de ambos os jeitos, prende-se à MP dos mastócitos, via receptores da porção Fc, desencadeando a sensibilização decorrente do primeiro contato. Em futuras exposições ao mesmo alérgeno, contato desencadeante, o antígeno liga-se diretamente ao IgE da membrana dos mastócitos, causando sua degranulação e liberação maciça de histamina e outros mediadores químicos. Lenina Castellari - LII A histamina provoca vasodilatação sistêmica, ou seja, venosa e arterial, causando estase sanguínea e diminuição do retorno venoso; e levando à queda da resistência vascular - respectivamente. Além disso, essa substância provoca aumento da permeabilidade capilar, causando edema generalizado. Já os outros mediadores provocam broncoespasmo, por meio da contração da musculatura lisa de brônquios e bronquíolos, e aumento da resistência das vias aéreas, prejudicando a hematose. Legenda: contato desencadeante. Legenda: resumo do processo do choque. Lenina Castellari - LII Legenda: na primeira imagem vemos edema generalizado, principalmente nas regiões em que o tecido conjuntivo é mais frouxo: região periocular, sacral, tibial etc. Na segunda imagem vemos uma laringe com edema de glote, que dificulta a passagem de ar e pode levar à óbito. Choque Neurogênico O tônus vascular é mantido pelo centro vasomotor, localizado no tronco encefálico, na região da medula oblonga. É este centro que comanda tanto a parte simpática quanto parassimpática do SNA, mantendo um tônus vascular basal que permite a manutenção da estrutura dos vasos sanguíneos. Além disso, é este centro que recebe informações do corpo carotídeo e de outros barorreceptores da aorta e dos vasos, promovendo a modulação de respostas, contraindo ou dilatando de acordo com a necessidade. Se esse centro sofrer lesão, por exemplo por anestesias gerais, overdose (medicamentosa ou de drogas de abuso), isquemia (AVC), trauma, ocorre perda do controle sobre o tônus vascular, principalmente da parte simpática. Desse modo, ocorre vasodilatação, que reduz a resistência vascular periférica, induzindo a redistribuição do líquido para microcirculação, onde fica estagnado e causa choque. Choque Endócrino Ele acontece quando há perda da função do córtex da suprarrenal, com deficiência na produção de todos os hormônios corticais. Uma das principais causas é a síndrome de Waterhouse-Friderichsen (necrose hemorrágica), que acontece na vigência de infecções que levam, geralmente, à choque séptico, e que necrosam as suprarrenais. Além disso, ela pode ser causada por uso crônico de glicocorticóides ou defeitos congênitos da esteroidogênese, por déficit enzimático. Legenda: nas imagens vemos suprarrenais com hemorragia. Desse modo, ocorre perda de função do cortisol e da aldosterona. A aldosterona causa retenção de sódio e água, sendo responsável por manter o tônus vascular por meio do controle da volemia. Já o cortisol, além de ser necessário para manter o trofismo do córtex da suprarrenal, ele possui efeito permissivo sobre as catecolaminas. Ou seja, se há perda do cortisol, os vasos tornam-se insensíveis à adrenalina e noradrenalina, causando vasodilatação sistêmica, hipotensão e redução da pressão de enchimento capilar. Tudo isso culmina no choque. Choque Séptico É o tipo mais comum de choque distributivo e de todos os subtipos de choque. Ele é decorrente de infecções graves, geralmente quando a infecção ganha a corrente sanguínea e é transmitida para todo o organismo. Nele ocorre Resposta Imune exagerada e deletéria, que resulta em disfunção de órgãos e sistemas, colocando o paciente em risco de óbito. O esquema da próxima página resume a patogenia do choque séptico. Como este choque relaciona-se à infecções, há presença de PAMPs: ácido teicóico e lipoteicóico (bactérias gram positivas); ou lipopolissacarídeos (bactérias gram negativas). Esses PAMPs ativam o fator XII da coagulação, aumentando a formação de trombos; ativam o SC, gerando ativação das células endoteliais; e causam lesão endotelial, gerando também ativação de células endoteliais. A ativação de células endoteliais leva à alteração de sua superfície, que adquire características pró-inflamatórias e pró-trombogênicas. Então há exposição do fator tecidual, dando origem à cascata de coagulação, e aumento dos inibidores de plasminogênio, de função antifibrinolítica. Com isso pode acontecer coagulação intravascular Lenina Castellari - LII disseminada, com formação de trombos na microcirculação, que geram isquemia tecidual em diversos órgãos. Outra função dos PAMPs é a ativação dos leucócitos, principalmente neutrófilos e monócitos, que liberam diversas citocinas pró-inflamatórias. O TNF-α causa aumento da disfunção endotelial já existente. As IL-6, IL-8, NO e EROs causam vasodilatação, diminuindo a resistência periférica, a pressão de enchimento capilar e a perfusão dos órgãos; e causam aumento da permeabilidade vascular, provocando edema e agravando o choque. Além disso, as interleucinas possuem efeitos sistêmicos, como a contratilidade reduzida do miocárdio, causando redução do débito cardíaco e piorando o choque. Isso é somado à função imunossupressora de outras citocinas, como IL-10, causando falência de múltiplos órgãos e sistemas, com morte celular por necrose. Legenda: resumo do processo descrito acima. Estágios do Choque Fase Não Progressiva Essa é a fase em que os mecanismos neuro-humorais estão em pleno funcionamento e tentam compensar o choque. Os barorreceptores da aorta e dos corpos carotídeos passam a informação de queda da resistência periférica ao centro vasomotor, o que leva à ativação simpática. Assim, ocorre liberação de adrenalina e noradrenalina, que contraem a musculatura lisa das veias, aumentando o retorno venoso e aumentando a pré carga. Além disso, essas substâncias possuem efeito cronotrópico e inotrópico positivo, elevando a FC e a força de contração do miocárdio, respectivamente. Por fim, a liberação dessas substâncias causa vasoconstrição de arteríolas, causando aumento da resistência periférica. Esses barorreceptores também detectam queda de volume efetivo circulante, promovendo a liberação de ADH pela neuro-hipófise, a fim de aumentar a reabsorção renalde água e elevar o volume efetivo. Além disso, células da mácula densa dos rins detectam a hipotensão de filtração glomerular, levando à ativação do SRAA. A renina é produzida pelas células justaglomerulares e realiza a conversão de angiotensinogênio (hepático) em angiotensina I. Essa substância viaja pela corrente sanguínea e, em locais em que há presença de ECA (capilares pulmonares, principalmente), é convertida em angiotensina II. A angio II possui várias funções, na tentativa de melhorar o volume intravascular, como: 1. absorção de sódio e água; 2. estímulo à liberação de aldosterona pela suprarrenal, que auxilia em 1; 3. constrição da musculatura lisa das arteríolas, a fim de aumentar a resistência periférica; 4. estímulo à secreção de ADH, aumentando a reabsorção de água. Tudo isso visa aumentar o volume circulante efetivo, para compensar o choque. Lenina Castellari - LII Sinais Clínicos Típicos ● aumento da FC (taquicardia); ● pele fria e pegajosa; ● aumento do tempo de enchimento capilar (imagem abaixo). Fase Progressiva Mesmo que o corpo tente compensar, isso não é suficiente para neutralizar o choque. Por isso, ele entra na fase progressiva do choque, que é caracterizada por uma hipoperfusão tecidual e hipóxia generalizada. O déficit de O2 causa substituição da fosforilação oxidativa (gera muito ATP), por glicólise anaeróbica (gera pouco ATP), submetendo às células a um estado de depleção do ATP. Essa glicólise produz ácido lático, cujo excesso provoca acidose, que diminui a resposta vasomotora, piorando a vasodilatação sistêmica e causando acúmulo de sangue na microcirculação. Além disso, a própria acidose possui efeito deletério sobre o miocárdio, deprimindo sua função e piorando o débito cardíaco. Assim, menos sangue oxigenado é ofertado aos tecidos, provocando lesão por hipóxia dos órgãos e do endotélio, causando disfunção endotelial generalizada. Fase Irreversível A fase progressiva do choque, se não tratada, pode progredir à lesão irreversível de células e tecidos, levando à morte celular e necrose. Lesões Teciduais Sistema Nervoso Legenda: áreas de irrigação das artérias encefálicas. Em casos de hipóxia ocorre necrose em faixa nas áreas limítrofes de irrigação arterial (“terra de ninguém”). Estas são áreas bastante vulneráveis: em casos de queda de perfusão, o centro das áreas de irrigação ainda mantém certo grau de perfusão. No entanto, isso não ocorre para as áreas limítrofes, que sofrem hipóxia. Dentro dessas áreas, a hipóxia atinge primeiro os tipos celulares mais frágeis, sendo eles: células dos núcleos da base, hipocampo e região anterior do mesencéfalo (crianças) ou células piramidais corticais e células de Purkinje cerebelares (adultos). Lenina Castellari - LII Legenda: à esquerda vemos infartos laminares, presentes como uma região mais avermelhada de aspecto hemorrágico, na transição da substância cinzenta para branca. Além disso, essa é uma área de transição da artéria cerebral anterior para média. À direita: com a progressão do processo do choque, temos uma área mais bem definida de infarto. Temos uma descoloração parda, afetando a área de transição da artéria cerebral anterior para média, com perda da distinção córtico-medular. Coração A circulação coronariana vai do epicárdio em direção ao endocárdio, sendo esta a região menos perfundida. Por isso, em casos de choque, há isquemia e perda de cardiomiócitos da região subendocárdica, preferencialmente. Isso ocorre de maneira circunferencial. Legenda: na imagem, vemos uma área de mosqueamento escura, acometendo toda a região subendocárdica. Nela temos um infarto subendocárdico circunferencial, que ocorre no choque. Pulmões Nos pulmões, o choque se apresenta sob a forma de dano alveolar difuso, mas esse dano não é exclusivo do choque, podendo acontecer em pneumonias virais, microaspiração, trauma pulmonar etc. Legenda: na primeira imagem vemos um pulmão aumentado de tamanho e peso, às custas de edema. Esse edema também implica que a superfície fique brilhante e vinhosa, firme à palpação. Na segunda imagem vemos a microscopia desse pulmão: pode existir edema intra-alveolar, não é visto nessa imagem. Além disso, vemos a perda do revestimento alveolar, que é substituído por membranas hialinas (bem coradas em rosa ao redor dos “buracos” brancos). O interstício está alargado, pela presença de edema e células inflamatórias. Legenda: essa imagem mostra um maior aumento da microscopia anterior. Nela vemos a presença de edema (espaço claro entre as fibras do tecido conjuntivo); presença de células de inflamação crônica (bolinhas roxas), como linfócitos, plasmócitos e macrófagos. Além disso, vemos dentro dos alvéolos, uma certa quantidade de líquido (edema intra-alveolar) e que houve perda do revestimento por pneumócitos I, substituídos por membrana hialina (rósea) - composta por fibrina e células necróticas dessa região, impedindo a hematose (junto com o edema). Lenina Castellari - LII Rins Nos rins podemos observar áreas de necrose na região subcapsular, mais frágil e menos irrigada. Legenda: as regiões amareladas no córtex renal correspondem à áreas de necrose. Além disso, podemos observar regiões avermelhadas, que correspondem à áreas hemorrágicas. Legenda: se não ocorrer necrose, pode se desenvolver o rim de choque, que é um rim com o aspecto da primeira imagem: palidez cortical associada à hiperemia na base das pirâmides renais. Na histologia, isso é visto como uma necrose tubular aguda, ou seja, necrose das células epiteliais dos túbulos renais. Nessa imagem vemos o parênquima cortical renal, com túbulos distais (luz grande) e túbulos proximais com alteração de necrose: aumento de eosinofilia citoplasmática, núcleos em processo de desaparecimento e células destacadas da membrana basal, soltas bloqueando a luz do túbulo. Clinicamente, essa necrose se manifesta como lesão renal aguda ou insuficiência renal aguda (creatinina elevada e perda de função de filtração). Fígado A hipóxia no fígado vai culminar em necrose da região centrolobular. Lembrando da vascularização do lóbulo hepático clássico: esse lóbulo possui formato hexagonal, sendo delimitado por seis tríades portais (veia porta, artéria hepática e ducto biliar) e possuindo uma veia centrolobular em seu centro. Por conta dessa distribuição, temos a região mais próxima das artérias hepáticas (zona1) com melhor perfusão, a região mais ao centro (zona 3) com pior perfusão, e a região intermediária (zona 2) com média perfusão. Dessa forma, em casos de lesão hipóxica ou isquêmica, a zona 3 é a primeira a apresentar características lesivas. Legenda: na porção superior da imagem vemos uma tríade portal, com ramo da veia porta (bola rosa), ducto biliar (contorno roxo e centro branco) e ramo da artéria hepática (bola rosa pequena). Indo dessa tríade na direção esquerda, um pouco para baixo, vemos uma veia centrolobular. Na região ao redor dessa veia, vemos que houve necrose coagulativa dos hepatócitos (células mais claras que no restante da imagem). Lenina Castellari - LII Baço O baço submetido à hipóxia também culmina em múltiplos infartos esplênicos subcapsulares. Legenda: todas as regiões amareladas correspondem à áreas de infarto branco ou anêmico, com necrose. Sistema Digestório Nesse sistema a isquemia e a hipóxia culminam em ulcerações da mucosa, muito pronunciadas no estômago. Por quê? É necessária a perfusão correta, para que os vasos sanguíneos carreguem bicarbonato ao estômago, a fim de proteger suas paredes da acidez do suco gástrico. Essa ulceração ocorre também no intestino delgado e no intestino grosso. Em um intestino bem perfundido, a superfície da mucosa intestinal é bem vedada (por junções de oclusão), impedindo a passagem de qualquer substância ou molécula por entre as células. Uma vez que a célula torna-se isquêmica, as junções de oclusão de afrouxam, o que permite a passagem de bactérias da luz intestinal para a corrente sanguínea - translocação bacteriana, podendo piorar o choque (se for séptico) ou dar vigência à infecção (em outros choques). Legenda: na imagem vemos um estômago aberto, com destaque para as rugas gástricas. Na região central é possível ver uma lesão ulcerada. Coagulação Intravascular Disseminada É uma ativação generalizada da cascata de coagulação, que leva à formação de trombos na microcirculação. Esses trombos são classificados como hialinos, pois são formados, basicamente, por plaquetas e fibrina. Essa coagulação possui duas fases: 1. Trombótica: como há lesão endotelial devido ao choque, o endotélio torna-se pró-coagulante e ocorre a formação dos trombos de fibrina, havendo consumo exagerado dos fatores de coagulação (principalmente fibrinogênio), que ficam em falta. 2. Hemorrágica: a cascata de coagulação é ativada em todo o organismo e, junto dela, ocorre a ativação do sistema fibrinolítico, dando início à essa segunda fase. O sistema fibrinolítico começa a dissolver os trombos formados na fase anterior, enquanto ocorre a falta de fatores de coagulação (devido ao seu consumo excessivo na fase anterior). Desse modo, ocorre uma coagulopatia de consumo, dando origem à petéquias e púrpuras na pele do paciente. Obs.: os órgãos mais lesados são rins, pulmões, encéfalo, coração e glândulas endócrinas. Legenda: nas imagens vemos glomérulos renais com trombos de fibrina no interior de seus capilares. Na primeira imagem, corada em HE, vemos os trombos como manchas roxas maiores. Já na segunda imagem, corada por tricrômico de Masson, vemos os trombos bem avermelhados.