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Caro aluno Ao elaborar o seu material inovador, completo e moderno, o Hexag considerou como principal diferencial sua exclusiva metodologia em pe- ríodo integral, com aulas e Estudo Orientado (E.O.), e seu plantão de dúvidas personalizado. O material didático é composto por 6 cadernos de aula e 107 livros, totalizando uma coleção com 113 exemplares. O conteúdo dos livros é organizado por aulas temáticas. Cada assunto contém uma rica teoria que contempla, de forma objetiva e transversal, as reais necessidades dos alunos, dispensando qualquer tipo de material alternativo complementar. Para melhorar a aprendizagem, as aulas possuem seções específicas com determinadas finalidades. A seguir, apresentamos cada seção: No decorrer das teorias apresentadas, oferecemos uma cuidadosa seleção de conteúdos multimídia para complementar o repertório do aluno, apresentada em boxes para facilitar a compreensão, com indicação de vídeos, sites, filmes, músicas, livros, etc. Tudo isso é en- contrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos temas estudados – há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até sugestões de aplicativos que facilitam os estudos, com conteúdos essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica, em uma seleção realizada com finos critérios para apurar ainda mais o conhecimento do nosso aluno. multimídia Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu distanciamento da realidade cotidiana, o que dificulta a compreensão de determinados conceitos e impede o aprofundamento nos temas para além da superficial memorização de fórmulas ou regras. Para evitar bloqueios na aprendizagem dos conteúdos, foi desenvolvida a seção “Vivenciando“. Como o próprio nome já aponta, há uma preocupação em levar aos nossos alunos a clareza das relações entre aquilo que eles aprendem e aquilo com que eles têm contato em seu dia a dia. vivenciando Sabendo que o Enem tem o objetivo de avaliar o desempenho ao fim da escolaridade básica, organizamos essa seção para que o aluno conheça as diversas habilidades e competências abordadas na prova. Os livros da “Coleção Vestibulares de Medicina contêm, a cada aula, algumas dessas habilidades. No compilado “Áreas de Conhecimento do Enem” há modelos de exercícios que não são apenas resolvidos, mas também analisados de maneira expositiva e descritos passo a passo à luz das habilidades estudadas no dia. Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a apurar as questões na prática, a identificá-las na prova e resolvê- -las com tranquilidade. áreas de conhecimento do Enem Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Por isso, cria- mos para os nossos alunos o máximo de recursos para orientá-los em suas trajetórias. Um deles é o ”Diagrama de Ideias”, para aque- les que aprendem visualmente os conteúdos e processos por meio de esquemas cognitivos, mapas mentais e fluxogramas. Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo da aula. Por meio dele pode-se fazer uma rápida consulta aos prin- cipais conteúdos ensinados no dia, o que facilita sua organização de estudos e até a resolução dos exercícios. diagrama de ideias Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é ela- borada, a cada aula e sempre que possível, uma seção que trata de interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares atuais não exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos conteúdos de cada área, de cada disciplina. Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como Bio- logia e Química, História e Geografia, Biologia e Matemática, entre outras. Nesse espaço, o aluno inicia o contato com essa realidade por meio de explicações que relacionam a aula do dia com aulas de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizan- do temas da atualidade. Assim, o aluno consegue entender que cada disciplina não existe de forma isolada, mas faz parte de uma grande engrenagem no mundo em que ele vive. conexão entre disciplinas Herlan Fellini De forma simples, resumida e dinâmica, essa seção foi desenvol- vida para sinalizar os assuntos mais abordados no Enem e nos principais vestibulares voltados para o curso de Medicina em todo o território nacional. incidência do tema nas principais provas Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos de cada coleção tem como principal objetivo apoiar o aluno na resolução das ques- tões propostas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, com- pletos e organizados. Além disso, contam com imagens ilustrativas que complementam as explicações dadas em sala de aula. Qua- dros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados e compõem um conjunto abrangente de informações para o aluno que vai se dedicar à rotina intensa de estudos. teoria Essa seção foi desenvolvida com foco nas disciplinas que fazem parte das Ciências da Natureza e da Matemática. Nos compilados, deparamos-nos com modelos de exercícios resolvidos e comenta- dos, fazendo com que aquilo que pareça abstrato e de difícil com- preensão torne-se mais acessível e de bom entendimento aos olhos do aluno. Por meio dessas resoluções, é possível rever, a qualquer momento, as explicações dadas em sala de aula. aplicação do conteúdo © Hexag Sistema de Ensino, 2018 Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2020 Todos os direitos reservados. Autores Lucas Limberti Murilo Almeida Gonçalves Pércio Luis Ferreira Diretor-geral Herlan Fellini Diretor editorial Pedro Tadeu Vader Batista Coordenador-geral Raphael de Souza Motta Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica Hexag Sistema de Ensino Editoração eletrônica Arthur Tahan Miguel Torres Matheus Franco da Silveira Raphael de Souza Motta Raphael Campos Silva Projeto gráfico e capa Raphael Campos Silva Imagens Freepik (https://www.freepik.com) Shutterstock (https://www.shutterstock.com) ISBN: 978-65-88825-04-4 Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o ensino. Caso exista algum texto a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à dis- posição para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições. O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não repre- sentando qualquer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora. 2020 Todos os direitos reservados para Hexag Sistema de Ensino. Rua Luís Góis, 853 – Mirandópolis – São Paulo – SP CEP: 04043-300 Telefone: (11) 3259-5005 www.hexag.com.br contato@hexag.com.br SUMÁRIO ENTRE LETRAS GRAMÁTICA Aulas 9 e 10: Advérbios 6 Aulas 11 e 12: Pronomes pessoais 10 Aulas 13 e 14: Pronomes demonstrativos e possesivos 14 Aulas 15 e 16: Pronomes relativos, interrogativos e indefinidos 16 Aulas 9 e 10: Quinhentismo e Barroco 36 Aulas 11 e 12: Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno 47 Aulas 13 e 14: Padre Antônio Vieira 54 Aulas 15 e 16: Arcadismo em Portugal: Bocage 62 LITERATURA ENTRE TEXTOS: INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS Aula 5: Figuras de linguagem I 20 Aula 6: Figuras de linguagem II 25 Aula 7: Figuras de linguagem III 29 Aula 8: Figuras de linguagem IV 32 Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação considerando a função socialdesses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali- dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional. Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público-alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como intimidação, sedução, comoção, chan- tagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar, pela análise de suas linguagens, as tecnologias de comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem. GRAMÁTICA: Incidência do tema nas principais provas UFMG No vestibular da Unesp, exige-se o conheci- mento das classes gramaticais. O uso correto dos pronomes tem sua parcela de importân- cia. Em relação aos advérbios, a prova pode destacar elementos adverbiais e pedir ao aluno que defina o significado deles dentro de um contexto. A prova da Unifesp apresenta exigências que dizem respeito às funções gramaticais dos pronomes e dos advérbios. Em outras palavras, a prova exige o uso correto das classes adverbiais e pronominais, além do reconhecimento dos valores coesivos desses elementos no ambiente textual. O vestibular da Unicamp aborda o uso dos pronomes e dos advérbios de modo amplo: pode ser exigido do aluno o conhecimento da função de um pronome ou advérbio em um ambiente textual que configure linguagem verbal e não verbal, ou mesmo identificar em determinado texto o valor coesivo de um termo. Esse vestibular exige conhecimentos sobre a especificidade de cada classe gramatical. É relevante que o aluno saiba reconhecer como a aplicação de um advérbio pode modificar termos presentes no texto e como os pronomes podem interagir com outros elementos textuais de modo coesivo. Nesse vestibular, questões acerca das classes gramaticais e suas especificidades são uma cons- tante. Portanto, sobre aquelas que são objeto de estudo neste caderno, convém saber reconhecer em quais situações elas se aplicam e qual o significado delas para o contexto em que se encontram. O vestibular da PUC-Campinas aborda os diversos sentidos dos advérbios, exigindo que o aluno saiba identificá-los e compreender os seus aspectos em determinado contexto. Os pronomes surgem em questões que pedem o reconhecimento dos termos a que podem se referir no cômpito de um texto apresentado. A objetividade característica do vestibular da Santa Casa dá margem para questões bastante diretas sobre as classes gramaticais e suas corre- tas utilizações. Por isso, exige-se o conhecimento dos diferentes sentidos de um mesmo advérbio, além da compreensão do referente de um pronome. Dentre os temas abordados neste caderno, o de maior incidência no Enem é o uso de tem- pos verbais. Os demais temas são de aplicação bastante esporádica. A Fuvest exige a compreensão dos pronomes como elementos constitutivos de um sentido textual. É importante que o estudante saiba identificar o valor de um termo pronominal inserido em um contexto, ou seja, além de compreender o referente de um pronome, deve-se reconhecê-lo como parte de um todo. Na prova da Uerj, podem surgir questões sobre os ter- mos aos quais os advérbios se referem em certo con- texto, além de ser exigido que se identifique os seus aspectos no ambiente textual. Quanto aos pronomes, exige-se a identificação do referente e, em alguns casos, as possibilidades de substituição deles por outros termos. A abordagem desse vestibular ampara-se na atenção aos diferentes usos dos pronomes e dos advérbios. Por isso, o reconhecimento das carac- terísticas de um determinado advérbio ou das funções coesivas de um pronome no cerne de um texto é relevante para resolver as questõesdessa prova. Bastante direto, esse vestibular apresenta muitas questões a respeito de conhecimentos sobre as classes gramaticais. É importante que o aluno tenha domínio sobre as condições gramaticais em que os pronome e advérbios devem ser utilizados obrigatória ou facultativamente. Esse vestibular costuma abordar questões que se atentem aos elementos coesivos de que um texto se vale para a sua composição. Assim, convém estar seguro sobre o uso correto dos pronomes. A propósito dos elementos adverbiais, é conveniente considerar os seus diversos signifi- cados relacionados ao contexto. No vestibular da UFPR, a relação entre linguagem verbal e linguagem não verbal é uma constante. Propagandas e charges acabam sendo fonte para questões que exigem a compreensão de termos coesivos e elementos modificadores, como pronomes e advérbios, no âmbito contextual. O vestibular da UEL apresenta textos constituídos por linguagem verbal e não verbal. Como elas se relacionam para a composição de um sentido, essa prova pode apresentar questões que exigem do aluno saber identificar os referentes não verbais de um pronome e sua função para o aspecto semântico do texto. 6 Advérbios CompetênCias: 1 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, e 27 AULAS 9 e 10 1. Advérbios Os advérbios formam uma classe de palavras invariáveis que se associam a verbos, a adjetivos ou a outros advér- bios, cada qual com intenções bastante específicas. § Associam-se a verbos para indicar com maior precisão as circunstâncias da ação verbal. Exemplo: Paula viajou ontem. (O advérbio “ontem” indica com maior precisão quando Paula viajou.) § Associam-se a adjetivos para intensificar o adjetivo já apresentado. Exemplo: Roberto ficou bastante preocupado. (O advérbio “bastante” intensifica o adjetivo pre- ocupado.) § Associam-se a advérbios para intensificar outro advér- bio já apresentado. Exemplo: O jogador do Corinthians está se recuperando muito bem. (O advérbio “muito” intensifica o outro advérbio “bem”.) 1.1. Classificação dos advérbios Os advérbios e as locuções adverbiais estabelecem diferen- tes relações semânticas, que são as seguintes: § De lugar: aqui; antes; dentro; ali; adiante; fora; acolá; atrás; além; lá; detrás; aquém; cá; acima; onde; perto; aí; abaixo; aonde; longe; debaixo; algures; defronte; ne- nhures; adentro; afora; alhures; aquém; embaixo; exter- namente; a distância; a distância de; de longe; de perto; em cima; à direita; à esquerda; ao lado; em volta, etc. § De tempo: hoje; logo; primeiro; ontem; tarde; outro- ra; amanhã; cedo; depois; ainda; antigamente; antes; doravante; nunca; então; ora; jamais; agora; sempre; já; enfim; afinal; amiúde; breve; constantemente; imediata- mente; primeiramente; provisoriamente; sucessivamente; às vezes; à tarde; à noite; de manhã; de repente; de vez em quando; de quando em quando; a qualquer momen- to; de tempos em tempos; em breve; hoje em dia, etc. § De modo: bem; mal; assim; melhor; pior; depressa; de- balde; devagar; às pressas; às claras; às cegas; à toa; à vontade; às escondidas; aos poucos; desse jeito; desse modo; dessa maneira; em geral; frente a frente; lado a lado; a pé; de cor; em vão; e a maior parte dos que termi- nam em ”–mente”: calmamente; tristemente; proposi- tadamente; pacientemente; amorosamente; docemente; escandalosamente; bondosamente; generosamente, etc. § De afirmação: sim; certamente; realmente; decerto; efetivamente; certo; decididamente; deveras; indubita- velmente, etc. § De negação: não; nem; nunca; jamais; de modo algum; de forma alguma; tampouco; de jeito nenhum, etc. § De dúvida: acaso; porventura; possivelmente; provavel- mente; talvez; casualmente; por certo; quem sabe, etc. § De intensidade: muito; demais; pouco; tão; em ex- cesso; bastante; mais; menos; demasiado; quanto; quão; tanto; que (quão); tudo; nada; todo; quase; de todo; de muito; por completo; extremamente; inten- samente; grandemente; bem (aplicado a propriedades graduáveis), etc. § Interrogativos: onde; aonde; donde; quando; como; por que; empregados em interrogações diretas ou indi- retas – entende-se por interrogações diretas aquelas em que as palavras em destaque iniciam uma frase interro- gativa. As interrogações indiretas, por sua vez, são aque- las em que os termos destacados não iniciam a frase. Interrogação direta Interrogação indireta Como isso aconteceu? Queria saber como isso aconteceu. Onde ela mora? Precisava saber onde ela mora. Por que ela não veio? Quero entender por que ela não veio. Aonde você vai? Quero saber aonde você vai. Donde vem esse rapaz? Necessito entender don- de vem esse rapaz. Quando que chega a carta? Quero saber quando chega a carta. 1.2. Palavras denotativas que se assemelham aos advérbios Existem algumas palavras e locuções que se assemelham a advérbios. Elas recebem o nome de advérbios impró- prios ou palavras com sentido denotativo. 7 § Advérbios de exclusão: apenas; exclusivamente; salvo; senão; somente; simplesmente; só; unicamente. Exemplo: Todos se foram pela manhã; somen- te ele quis partir mais tarde. § Advérbios de inclusão: ainda; até; mesmo; inclusi- vamente; também. Exemplo: Todos se foram pela manhã, até ele que queria partir mais tarde. § Advérbios de ordem: depois; primeiramente; ulti- mamente. Exemplo: Primeiramente, gostaria de agra- decer a todos os que estiveram presentes. 1.3. Locuções adverbiais Locuções adverbiais são expressões formadas a partir de duas ou mais palavras que exercem função adverbial. Em geral, são constituídas por uma preposição seguida de ou- tra palavra, como substantivo, advérbio ou verbo, que seja capaz de indicar a circunstância. § De lugar: à esquerda; à direita; de longe; de perto; para dentro; por aqui, etc. § De afirmação: por certo; sem dúvida, etc. § De modo: às pressas; passo a passo; de cor; em vão; em geral; frente a frente, etc. § De tempo: à noite; de dia; de vez em quando; à tarde; hoje em dia; nunca mais, etc. 1.4. Graus dos advérbios Por definição, os advérbios são palavras invariáveis (não sofrem alterações de gênero ou número). Entretanto, ocor- rem algumas variações de grau. 1.4.1. Grau comparativo É formado da mesma maneira que o comparativo do adjetivo: § De igualdade: tão + advérbio + quanto (como) Exemplo: Sara pulou tão alto quanto Patrícia. § De inferioridade: menos + advérbio + que (do que) Exemplo: Ana fala menos alto do que João. § De superioridade: mais + advérbio + que (do que) Exemplo: Ana fala mais alto do que João. 1.4.2. Grau superlativo Intensifica a característica de uma coisa ou pessoa. § Superlativo analítico: vem acompanhado de outro advérbio. Exemplo: O rapaz falava muito alto. (”muito” é advérbio de intensidade; ”alto”, de modo) § Superlativo sintético: é formado por sufixos. Exemplo: O rapaz falava altíssimo. (advérbio de modo formado pelo acréscimo do sufixo) Observação: na linguagem afetiva e popular, certos advérbios são empregados no diminutivo com valor de superlativo. Exemplos: O homem caminhava devagarinho. Amanhã precisarei acordar cedinho. Ela mora pertinho daqui. 1.5. O advérbio aplicado ao texto Em relação aos advérbios aplicados ao texto, existe uma gradação semântica entre os advérbios frásicos e advérbios extrafrásicos, além da distribuição de advérbios modais (terminados em –mente). § Advérbios frásicos: são aqueles que se relacionam com um elemento específico da frase. Não apresentam mar- cas de deslocamento (vírgulas). Exemplo: O veículo corre muito. § Advérbios extrafrásicos: são aqueles exteriores à frase, que estão no âmbito da enunciação e, geralmente, des- locados por vírgula. Exemplo: Ele, infelizmente, não jogou bem hoje. Observação: os advérbios extrafrásicos atuam como elementos de avaliação do enunciador acerca do conteúdo enunciado. § Distribuição textual de advérbios modais (mais de um advérbio terminado em “–mente”) Quando ocorre uma fraseque congrega mais de um advérbio terminado em “–mente”, deve-se fazer a con- tração dos advérbios centrais (retirar o termo “– men- te”) e preservar apenas o último advérbio flexionado. Errado: Ele saiu calmamente, sorrateira- mente e rapidamente. Certo: Ele saiu calma, sorrateira e rapidamente. 8 (Manuel Bandeira) Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestu- oso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando... – Humildemente pensando na vida e nas mu- lheres que amei. Procure encontrar os advérbios no poema e na canção abaixo. Poema só para Jaime Ovalle multimídia: poema • poesia (noel rosa) Não espero mais você, pois você não aparece Creio que você se esquece das promessas que me faz E depois vem dar desculpas, inocentes e banais É porque você bem sabe Que em você desculpo Muitas coisas mais O que sei somente É que você é um ente Que mente inconscientemente Mas finalmente Não sei por que Eu gosto imensamente De você Invariavelmente, sem ter o menor motivo Em um tom de voz altivo Você quando fala mente Mesmo involuntariamente, faço cara de inocente Pois sua maior mentira é dizer à gente que você não mente. Você Só... Mente multimídia: poema • poesia 9 FORMAÇÃO DE PALAVRAS CLASSES DE PALAVRAS PREPOSIÇÃO INTERJEIÇÃO NUMERALADVÉRBIO CLASSES INVARIÁVEIS CLASSE VARIÁVEL GRAMÁTICA NORMATIVA DIAGRAMA DE IDEIAS 10 Pronomes PessoAis CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 18 e 27 AULAS 11 e 12 1. Pronome Pronome é a palavra variável que identifica os participantes da interlocução (pessoas do discurso), os seres e objetos no mundo, além de eventos ou situações aos quais o dis- curso faça referência. Em geral, os pronomes, operam em conjunto com os subs- tantivos (nomes), podendo substituí-los, referenciá-los ou, ainda, acompanhá-los em um processo qualificativo. Ob- serve alguns exemplos: O rapaz estava bravo, mas ele tinha toda a ra- zão. (O termo ele substitui o substantivo rapaz.) Essa é a moça que processou o gerente da loja. (O termo que faz referência ao substantivo moça.) Aquele rapaz é bastante irritante. (O termo aquele acompanha e qualifica/especifica o ter- mo rapaz.) Por meio desses exemplos, é possível notar que os prono- mes são uma classe de palavras que não possuem signifi- cações predeterminadas. Seus significados são, na maioria dos casos, dependentes de contextos que permitirão ao leitor recuperar as referências dos pronomes utilizados nos processos comunicativos. Tecnicamente, os pronomes exercem algumas relações se- mânticas condizentes às pessoas do discurso. Essas funções são conhecidas como anafóricas (retomada de termos anteriormente mencionados), catafóricas (prenuncia algo que será mencionado/dito) ou dêiticas (apontamento de coisas/pessoas que estão no mundo). Essas funções são exercidas por todas as classes de pronomes, com exceção dos pronomes interrogativos e indefinidos. A seguir, será demonstrado como realizar as classificações iniciais en- tre pronomes de tipo substantivo e pronomes de tipo adjeti- vo; também serão estudados os pronomes pessoais. 1.1. Pronomes substantivos x pronomes adjetivos § Pronomes substantivos são aqueles que substi- tuem um substantivo ao qual fazem referência. Exemplo: Aquilo o deixou constrangido. = A situação o deixou constrangido. § Pronome adjetivos são aqueles que acompanham um substantivo atribuindo-lhe características. Exemplo: Este carro é bastante potente. Observação: A classificação dos pronomes em substan- tivos ou adjetivos não exclui as classificações de origem (pessoal, demonstrativo, possessivo, relativo, indefinido e interrogativo) desses elementos. 1.2. Pronomes pessoais Os pronomes pessoais são aqueles que substituem os substantivos. Eles se caracterizam por evidenciar as três pessoas do discurso. Para designar a pessoa que fala (1ª pessoa), são usados os pronomes eu (singular) e nós (plu- ral). Para marcar a pessoa com quem se fala (2ª pessoa), são utilizados os pronomes tu (singular) e vós (plural). Por fim, para apontar a pessoa de quem se fala (3ª pessoa), são utilizados ele(s) e ela(s). De acordo com o posicionamento nos processos sintáticos, os pronomes pessoais podem funcionar como: § Caso reto: são pronomes pessoais que, em uma cons- trução sintática, ocupam a posição de sujeito ou de predicativo do sujeito. Exemplos: Eu fiquei bastante chateado. (sujeito) O encarregado do projeto sou eu. (predicativo do sujeito) Observe a seguir o quadro de pronomes do caso reto em português: 1ª pessoa do singular eu 2ª pessoa do singular tu 3ª pessoa do singular ele / ela 1ª pessoa do plural nós 2ª pessoa do plural vós 3ª pessoa do plural eles / elas Observação 1: Como é possível observar no quadro, ape- nas os pronomes pessoais retos de 3ª pessoa variam em gê- 11 nero. Os demais possuem uma única forma para masculino e feminino. Observação 2: Em Língua Portuguesa, é comum a omis- são dos pronomes do caso reto, sem prejuízo do entendi- mento da frase. Isso ocorre devido ao fato de as desinências verbais serem capazes de designar as pessoas que estão sendo utilizadas na construção. Exemplo: (Eu) Fiquei bastante chateado. (É pos- sível localizar o “eu” pela desinência do verbo.) § Caso oblíquo: são pronomes pessoais que, em uma construção sintática, ocupam a posição de comple- mento verbal (objeto direto ou indireto) ou complemento nominal. Exemplo: Compraram-nos alguns presentes. (O pronome é complemento do verbo comprar.) Observe a seguir o quadro de pronomes do caso oblíquo em português: § Pronomes oblíquos átonos Os pronomes oblíquos átonos são aqueles que possuem acentuação (tonicidade) fraca em relação às palavras que os acompanham. Esses pronomes não são precedidos de qualquer preposição. Pessoa Pronome oblíquo átono Equivalente no caso reto 1ª pessoa do singular me eu 2ª pessoa do singular te tu 3ª pessoa do singular se / o / a / lhe ele / ela 1ª pessoa do plural nos nós 2ª pessoa do plural vos vós 3ª pessoa do plural se / os / as / lhes eles / elas Observação 1: Os pronomes o(s) e a(s) funcionam ex- clusivamente como substitutos de objetos diretos. Observação 2: O pronome lhe funciona exclusivamente como substituto de complementos preposicionados. Observação 3: Os pronomes me, te, nos e vos funcio- nam tanto como substitutos de objetos diretos como de objetos indiretos. 1.2.1. Casos especiais de uso dos pronomes átonos Os pronomes o(s) e a(s) podem assumir formas espe- ciais quando acompanhados de verbos que possuem as terminações -z, -s ou -r. Nesses casos, eles aparecem como lo(s) e la(s). Exemplos: traz + o = trá-lo empurrastes + o = empurraste-lo beijar + a = beijá-la Em casos de verbos que apresentam terminação com som nasal, os pronomes o(s) e a(s) assumem as formas no(s) e na(s). Exemplos: compram + o = compram-no põe + a = põe-na detém + os = detém-nos tem + as = tem-nas § Pronomes oblíquos tônicos Os pronomes oblíquos tônicos são aqueles que possuem acentuação (tonicidade) forte em relação às palavras que os acompanham. Esses pronomes são precedidos por preposição (em especial a, para, de e com). Pessoa Pronome oblíquo tônico Equivalente no caso reto 1ª pessoa do singular mim / comigo eu 2ª pessoa do singular ti / contigo tu 3ª pessoa do singular ele / ela ele / ela 1ª pessoa do plural nós / conosco nós 2ª pessoa do plural vós / convosco vós 3ª pessoa do plural eles / elas eles / elas Observação: Em composições que exijam o uso da gra- mática normativa, as preposições nunca podem introduzir pronomes pessoais do caso reto. Exemplos: Não há mais nada entre mim e ti (certo) Não há mais nada entre eu e ti. (errado) Estão todos contra mim. (certo) Estão todos contra eu. (errado) Não vá sem mim. (certo) Não vá sem eu. (errado)Atenção: Essa regra sofre uma alteração no caso de haver, depois do pronome, um verbo no infinitivo. Nesse caso, o pronome estará funcionando como sujeito do verbo. Como já foi visto, são os pronomes do caso reto que ocupam a posição de sujeito na oração. Exemplo: Arrumaram um monte de encrencas para eu resolver. 1.2.2. Pronome reflexivo Os pronomes pessoais oblíquos podem atuar como prono- mes reflexivos. Nesse caso, indicam que o sujeito pratica 12 e também sofre a ação verbal. Note que a forma reflexiva apresenta três formas próprias (se, si e consigo), que são utilizadas tanto na 3ª pessoa do singular quanto na 3ª pes- soa do plural. Pessoa Pronome Equivalente no caso reto 1ª pessoa do singular me eu 2ª pessoa do singular te tu 3ª pessoa do singular se / si / consigo ele / ela 1ª pessoa do plural nos nós 2ª pessoa do plural vos vós 3ª pessoa do plural se / si / consigo eles / elas Observe alguns exemplos: 1. Eu não me incomodo com esse barulho. 2. Conhece-te a ti mesmo. 2. Eles falam sempre de si. 3. Pedro já refletiu consigo mesmo a respeito da briga. 4. Presenteamo-nos naquele dia. 5. Vós vos banhastes naquele rio. 6. Eles se beijaram de maneira apaixonada. 1.2.3. Pronomes de tratamento Os pronomes de tratamento são utilizados em relações pes- soais de comunicação e obedecem a uma regra de utilização bem específica, conhecida como segunda pessoa indire- ta, regra na qual os pronomes indicam a pessoa a quem se fala (2.a pessoa), mas concordam com a 3ª pessoa. Observe a tabela com os principais pronomes de tratamento: Vossa Majestade V.M. reis, imperadores Vossa Alteza V.A. príncipes, ar- quiduques, duques Vossa Senhoria V.S.ª tratamento cerimonioso Vossa Santidade V.S. papa grandes autorides e oficiais-generaisVossa Excelência V. Ex.ª Vossa Eminência V. Em.a cardeais Vossa Reverendíssima V. Rev.ma sacerdotes e bispos Observação 1: As formas o senhor, a senhora e você(s) também são pronomes de tratamento. As duas primeiras for- mas são empregadas no tratamento mais respeitoso (em ge- ral, com pessoas mais velhas); a forma “você(s)” é utilizada em tratamentos informais ou entre amigos (pessoas que já se conhecem, de idade próxima ou que sejam mais novas). Observação 2: Como dito anteriormente, embora os pronomes de tratamento marquem 2ª pessoa (vossa), a concordância deve ser feita com verbo em 3ª pessoa. Exemplo: Lembre-se que Vossa Reverendíssima estará no evento litúrgico desta noite. Observação 3: A gramática normativa exige que se man- tenha uma congruência entre os pronomes de tratamento usados em composições textuais. Assim, se o texto come- çar tratando a pessoa por “tu”, deve-se distribuir (e man- ter) as formas de tratamento correspondentes ao longo do texto (“teu” e “tua”). Exemplos: Quando você chegar, eu te buscarei na estação. (errado) Quando tu chegares, eu te buscarei na estação. (certo) Quando você chegar, eu a buscarei na estação. (certo) Ela disse adeus (Now the deed is done As you blink she is gone Let her get on with life Let her have some fun) Ela disse adeus, e chorou Já sem nenhum sinal de amor Ela se vestiu, e se olhou Sem luxo, mas se perfumou Lágrimas por ninguém Só porque é triste o fim Outro amor se acabou Ele quis lhe pedir pra ficar De nada ia adiantar Quis lhe prometer melhorar E quem iria acreditar Ela não precisa mais de você Sempre o último a saber Ela disse adeus (Paralamas do Sucesso) multimídia: letra e música Observe os pronomes da canção abaixo e pro- cure identificar a razão de seus empregos. 13 PRONOMES PRONOMES SUBSTANTIVOS E PRONOMES ADJETIVOS MORFOLOGIA DIAGRAMA DE IDEIAS PRONOMES PESSOAIS 14 Pronomes demonstrAtivos e Possessivos CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 18 e 27 AULAS 13 e 14 1. Pronomes Possessivos São pronomes que acrescentam à pessoa gramatical a ideia de posse sobre algo. Exemplo: Este dinheiro é meu. Pessoa Pronomes possessivos Equivalente no caso reto 1ª pessoa do singular meu(s) / minha(s) eu 2ª pessoa do singular teu(s) / tua(s) tu 3ª pessoa do singular seu(s) / sua(s) ele / ela 1ª pessoa do plural nosso(s) / nossa(s) nós 2ª pessoa do plural vosso(s) / vossa(s) vós 3ª pessoa do plural seu(s) / sua(s) eles / elas 1.1. Algumas relações semânticas dos possessivos § Pode funcionar como um marcador de indefinição de um substantivo. Exemplo: A empresa tem lá seus problemas, mas ainda oferece um bom salário. § Pode indicar conjectura numérica (especulação sobre algum número). Exemplo: Ele já deve ter seus 50 anos. § Pode indicar afetividade. Exemplo: Olha aí! É o meu guri. (Chico Buarque) Observação: Há casos em que o pronome oblíquo lhe funciona como pronome possessivo (quando puder ser substituído por seus/suas). Exemplo: Vão lhe roubar as joias. = Vão roubar suas joias. 2. Pronomes demonstrAtivos Os demonstrativos são utilizados para situar, no espaço e no tempo, a pessoa ou a coisa designada. O aspecto funda- mental dos pronomes demonstrativos é sua capacidade de indicar um objeto sem nomeá-lo. Também evidenciam o po- sicionamento de uma palavra em relação a outras palavras ou em relação a um contexto. Esses processos ocorrem em relações espaciais, temporais e sintáticas. § Os pronomes demonstrativos dividem-se em dois gru- pos: os variáveis e os invariáveis. § Variáveis: este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s). § Invariáveis: isto, isso, aquilo. 2.1. Relações espaciais § Os pronomes este, esta e isto indicam que o item/ objeto está perto de quem fala. Exemplo: Usarei este lápis (aqui) mesmo. § Os pronomes esse, essa e isso indicam que o item/ objeto está perto da pessoa a quem se fala. Exemplo: Usarei esse lápis (aí) mesmo. § Os pronomes aquele, aquela e aquilo indicam que o item/objeto está afastado tanto de quem fala como da pessoa a quem se fala. Exemplo: Usarei aquele lápis (ali) mesmo. 2.2. Relações temporais § O pronome este e suas variantes são utilizados para indicar tempo presente em relação ao momento em que se fala. Exemplo: Esta noite eu vou ao shopping / Neste mês chove bastante. § O pronome esse e suas variantes são utilizados para indicar tempo futuro ou passado recente em relação ao momento em que se fala. Exemplo (futuro): Nessa reunião definiremos os parâmetros de venda. Exemplo (passado): Esse aumento da crise ocorreu em todos os países da América do Sul. § O pronome aquele e suas variantes são utilizados para indicar tempo passado distante em relação ao momento em que se fala. 15 Exemplo: Naquela época ainda havia telefones de rua, chamados de orelhões. / Aquelas praças costumavam ser seguras. 2.3. Relações Sintáticas § O pronome este e suas variantes são utilizados para anunciar/adiantar o que será dito na sequência frasal ou para remeter a um termo imediatamente anterior (recém-mencionado). Exemplo (anunciando informação): O maior problema está neste relatório: ele não dá conta de explicar todos os problemas. Exemplo (retomando termo recente): Não sei se eu adquiro uma moto ou um carro. Acho que este (último = carro) é um pouco mais seguro. § O pronome esse e suas variantes são utilizados para retomar um termo, uma ideia ou uma oração já men- cionados. Exemplo: Duas vezes por ano, o Sol atinge sua maior declinação em latitude. Esse fenômeno é conhecido como solstício. § O pronome aquele e suas variantes são utilizados para retomar um termo mais distante entre dois apresenta- dos em uma sentença (em geral, ele é trabalhado em conjunto com o pronome este, que retomará o item mais próximo). Exemplo: Na empresa há dois funcionários que se destacam: Pedro e Rogério. Este pela sua or- ganização, e aquele pela sua eficiência. multimídia: sites https://www.brasiliarios.com/colunas/66-mar- cos-bagno/578-este-ou-esse-tanto-faz PRONOMES PRONOMES SUBSTANTIVOS E PRONOMES ADJETIVOS MORFOLOGIA DIAGRAMA DE IDEIAS PRONOMES POSSESSIVOS PRONOMES DEMONSTRATIVOS 16Pronomes relAtivos, interrogAtivos e indefinidos CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 18 e 27 AULAS 15 e 16 1. Pronomes indefinidos Os pronomes indefinidos fazem referência à 3a pessoa do discurso, dando-lhe caráter indeterminado, vago ou impreciso. Exemplo: Alguém quebrou os copos da minha cristaleira. Nota-se que o termo alguém refere-se a uma terceira pes- soa (de quem se fala), mas não é possível atribuir identi- dade a essa pessoa, pois a informação é vaga e imprecisa. 1.1. Classificação dos pronomes indefinidos Os pronomes indefinidos podem ser classificados como variáveis ou invariáveis. Variáveis Singular Plural Masculino Feminino Masculino Feminino algum nenhum todo outro muito pouco certo vário tanto quanto alguma nenhuma toda outra muita pouca certa vária tanta quanta alguns nenhuns todos outros muitos poucos certos vários tantos quantos algumas nenhumas todas outras muitas poucas certas várias tantas quantas qualquer quaisquer Invariáveis alguém ninguém outrem tudo nada algo cada 2. Pronomes relAtivos Pronomes relativos são aqueles que se referem a nomes anteriormente mencionados (antecedentes), estabele- cendo com eles relação. Exemplo: A escola tem um calendário que pos- sui muitos feriados. No exemplo apresentado, o pronome “que” recupera o substantivo calendário (o antecedente). 2.1. Classificação dos pronomes relativos Os pronomes relativos apresentam formas variáveis e invariáveis. O livro surge da problemática do que é “pro- nome”, geralmente utilizado para referir a diferentes conjuntos de itens, tais como: os pronomes pessoais, demonstrativos, interro- gativos, indefinidos, relativos, entre outros, mas cuja definição tradicional é considerada insatisfatória. Com o objetivo principal de con- tribuir com as discussões sobre pronome, o volume reúne trabalhos sobre os mais diversos aspectos dessa categoria gramatical, sendo fruto de pesquisas desenvolvidas nos últimos anos por persquisadores ligados à área, ver- sando acerca de aspectos morfossintáticos e semânticos da categoria pronome, em suas principais e mais recentes vertentes do estudo, além de aspectos relacionados ao processos de percepção pelo falante-ouvinte e das rela- ções socioculturais dos pronomes. Pronomes: morfossintaxe e semânti- ca - Daniel Carvalho e Dorothy Brito multimídia: livros 17 Variáveis Invariáveis Masculino Feminino o qual cujo quanto os quais cujos quantos a qual cuja as quais cujas quantas que quem onde Observação 1: Os pronomes que, o qual, os quais, a qual e as quais são equivalentes; no entanto, o pronome que é invariável, cabendo em qualquer circunstância, enquanto os demais necessitam de um substantivo já determinado. Exemplo: Esta é a garota com a qual conversei. Observação 2: Para evitar ambiguidades e outros pro- blemas de sentido, o pronome relativo onde deve ser uti- lizado para recuperar lugares físicos/localidades (regiões, cidades, ambientes, etc.). Exemplo: Este é o armazém onde estocamos os produtos. Observação 3: O pronome relativo cujo não realiza a re- cuperação de um antecedente, mas aponta para uma rela- ção de posse com o consequente. Exemplo: A mulher cuja casa foi invadida já está em segurança. Observação 4: O pronome quem faz referência a pesso- as e ocorre sempre precedido de preposição. Exemplo: Aquele é o sujeito a quem devo mui- to dinheiro. 3. Pronomes interrogAtivos Os pronomes interrogativos são utilizados nas formulações de perguntas diretas ou indiretas. Fazem referência direta aos pronomes de 3ª pessoa. Os principais pronomes in- terrogativos são que, quem, qual e quanto (e suas va- riações). Entende-se como pergunta direta aquela em que o pronome interrogativo aparece no início do questiona- mento (há sinal de interrogação no fim da pergunta). A pergunta indireta, por sua vez, é aquela em que o pronome interrogativo aparece em outra posição na frase, e não no início (não há sinal de interrogação). Pergunta direta Pergunta indireta Quanto custou a reforma da casa? Gostaria de saber quanto custou a reforma da casa. PRONOMES PRONOMES SUBSTANTIVOS E PRONOMES ADJETIVOS MORFOLOGIA DIAGRAMA DE IDEIAS PRONOMES INDEFINIDOS PRONOMES INTERROGATIVOS PRONOMES RELATIVOS 19 ENTRE TEXTOS – INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS: Incidência do tema nas principais provas UFMG A prova da Unesp trabalha a interpretação de texto em paralelo aos textos literários. É importante compreender as figuras de linguagem para que o exercício de leitura não seja prejudicado. Boa parte das questões da frente de linguagem da Unifesp diz respeito à interpretação. Uma vez que a interpretação não ocorre isolada, é preciso que o aluno associe os recursos linguísticos, como as figuras de linguagem, aos textos que serão apresentados. Um vestibular crítico. Textos críticos e literários serão colocados em discussão, bem como textos comuns ao cotidiano do estudante. Ter em mente que as figuras de linguagem são partes essenciais do seu conhecimento sobre os textos poderá fazer a diferença no mo- mento de resolução da prova. Conhecer as figuras de linguagem não bastará na prova do Eistein. Haja vista que a ideia de aplicar o conhecimento é chave nessa prova, o aluno terá que trabalhar e desenvolver o seu exercício de leitura para a resolução das questões. No vestibular em questão, a interpretação de texto pode ser a chave para um bom resultado. Os recursos linguísticos ligados à produção de textos, como as figuras de lingua- gem, não devem ser esquecidos no momento da leitura. É uma prova conceitual. A interpretação de textos ocorre de maneira direcionada, focada, sobretudo, nos recursos linguísticos (como figuras de linguagem e funções linguísticas). Trabalhar de forma atenta, lembrando e aplicando os conceitos aprendidos em aula será fundamental. De forma geral, o vestibular da Santa Casa equilibra bem as frentes da área de Português, de modo que as questões de interpretação se tornam bastante direcionadas. Não por menos, conhecimentos basilares, como as figuras de lin- guagem, deverão ser internalizados ao processo de leitura do aluno. O exame do Enem é conhecido por ser essen- cialmente interpretativo. Assim, a compreensão sobre as figuras de linguagem é essencial para a leitura de textos literários e não literários. As aulas presentes neste caderno servirão, portanto, como conhecimento basilar às re- soluções das questões. No vestibular Fuvest, a interpretação de texto acontece de forma mais prática. Muitas vezes ligada aos textos literários ou críticos, a com- preensão dos conceitos que definem cada uma das figuras de linguagem pode ser a chave para resolver uma questão. Além do senso crítico apurado, o vestibular da UERJ demandará do candidato conhecimento sobre os conceitos fundamentais da interpre- tação. Saber reconhecer as figuras de lingua- gem, dentro de uma leitura naturalmente crítica e avaliativa, poderá ser um grande diferencial. Exame majoritariamente interpretativo, exigirá do aluno conhecimento sobre os recursos linguísticos fundamentais. Compreender bem as figuras de linguagem auxiliará o aluno na resolução de questões que envolvem textos em variados gêneros, literários ou não. A interpretação de texto é a chave para resolução da grande maioria das questões. Desse modo, uma leitura atenta e crítica, aliada aos conhecimentos que serão trabalhados neste caderno, as figuras de linguagem, renderá ao aluno um maior aprovei- tamento da prova e do tempo de resolução. O exame CMMG é objetivo. Exige do candidato uma capacidade leitora fundamental, exigindo dele aptidão em reconhecer as figuras de lingua- gem e seus modos de operação dentro dos textos. Foco e atenção. Além de conhecer os recursos lin- guísticos, sobretudo os recursos basilares, como as figuras de linguagem, é importante lembrar que uma leitura atenta pode render ao candidato pontos em questões não apenas naárea de Português, mas nas variadas áreas do conhecimento. A prova da UEL alinha a interpretação de texto às obras literárias que costuma exigir na sua lista obrigatória de leitura. Assim, conhecer de forma ampla as figuras de linguagem é ampliar o potencial de leitura e interpretação que o aluno levará à prova. 20 1. figurAs de linguAgem i 1.1. Figuras de palavra Também conhecidas como tropos (figuras em que ocorrem mudanças internas ou externas de significado), as figuras de palavra funcionam a partir da “realização de um em- préstimo“ de uma determinada palavra ou expressão que, por uma aproximação de sentidos, funciona de maneira específica dentro de um contexto determinado. A seguir, temos as principais figuras de palavra do português: 1. Metáfora; 2. Comparação ou símile; 3. Catacrese; 4. Metonímia; 5. Antonomásia ou perífrase; 6. Sinestesia. 1.1.1. Metáfora A metáfora é uma figura que transporta a palavra (ou ex- pressão) do seu sentido literal/denotativo para o sentido figurado/conotativo. Ela pode ter como base uma ideia afirmativa (em que não existe a presença de termos ou expressões comparativas como, por exemplo, “como“ ou “tal qual“) ou ser motivada pelo conhecimento prévio que temos de determinado assunto. Vejamos alguns exemplos: Exemplo 1 (metáfora de afirmação): Você é a escada da minha subida Você é o amor da minha vida É o meu abrir de olhos ao amanhecer Verdade que me leva a viver No exemplo apresentado, há várias marcas de afirmação (...é a escada da minha subida) que remetem a conheci- mentos prévios do leitor. Exemplo 2 (metáfora de conhecimento prévio): “Achamos a chave do problema“ No exemplo apresentado, a metáfora reside em um conhe- cimento prévio por parte do leitor a respeito da semântica de alguns termos. Por exemplo, a ideia de que “problema“ é algo negativo e de que “chave“ seria algo como uma “resolução“ para o problema. 1.1.2. Comparação ou símile Ocorre quando é estabelecida entre palavras ou expres- sões uma relação marcada pela presença explícita de termos comparativos. No português, os principais ter- mos que estabelecem relações de comparação são: como, assim como, tal como, igual a, que nem, entre outros. Esse processo também pode se dar por meio de verbos como “parecer-se” e “assemelhar-se”. Vejamos alguns exemplos de comparação: Exemplos: “Essa pirâmide é alta como um arranha-céu.” “A família está novamente reunida, que nem na noite de Natal.” “O motorista daquele ônibus parece um cantor famoso.” 1.1.3. Catacrese Consiste no emprego de palavra com um sentido di- ferente do literal para suprir a falta de um termo adequado. Trata-se de um “empréstimo” de um termo que, por se tornar recorrente em um sistema linguístico, já não se consegue mais perceber que se trata de um empréstimo (o termo se enraíza na língua). Alguns estu- diosos chamam a catacrese de “metáfora obrigatória”, uma vez que seu uso é, muitas vezes, inevitável dentro de um sistema linguístico. Exemplos: “Embarcar no avião/ no trem/ no ônibus“ (origi- nalmente, embarcar diz respeito a entrar em um barco; mas atualmente se refere à entrada em vários tipos de transporte) “Braço da cadeira“ (braço é uma parte do corpo humano que é associada a uma cadeira) figurAs de linguAgem i CompetênCias: 1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29 AULA 5 21 “Árvore genealógica“ (a árvore genealógica não é necessariamente uma árvore, mas um desenho esquemático que lembra uma árvore). 1.1.4. Metonímia A metonímia é um mecanismo de substituição de uma palavra por outra que respeita uma relação objetiva entre elas. A relação metonímica pode ser qualitativa (manipula referencias materiais) ou quantitativa (manipula elementos que se pode contar). Alguns estudiosos da língua portuguesa costumam tomar a relação metonímica quantitativa como uma figura de linguagem à parte, que recebe o nome de sinédoque. Já outros, consideram essa distinção irrelevante (uma vez que o conceito de metonímia já abarcaria o de sinédoque). § Metonímia qualitativa Uso da matéria em lugar do objeto: Exemplo: “Tem gente que passa a vida corren- do atrás do vil metal.” (vil metal = dinheiro) Uso do autor em lugar da obra: Exemplo: “Gosto de ler Machado de Assis desde que era jovem.” (Machado de Assis = ler os livros de Machado de Assis) Uso da marca em lugar do produto: Exemplo: “Lave a louça com Bombril e não se esqueça de esfregar bem!” (Bombril = palha de aço) Uso do proprietário em lugar da propriedade: Exemplo: “Vamos dar uma passadinha lá na Bete para tomar um café.” (Bete = casa da Bete) § Metonímia quantitativa (sinédoque) Uso da parte em lugar do todo: Exemplo: “Muitas cabeças contribuíram para a elaboração desse projeto.” (cabeças = pessoas que usam a cabeça) Uso do singular em lugar do plural: Exemplo: “Nossas autoridades precisam dar mais atenção à mulher” (mulher = mulheres como um todo) Uso do gênero em lugar da espécie: Exemplo: “O homem cada vez cuida mais mal do planeta terra.” (homem = ser humano) 1.1.5. Antonomásia ou perífrase É uma figura de linguagem que realiza a substituição de um termo ou expressão curta por uma expressão mais lon- ga que serve para transmitir a mesma ideia. As expressões empregadas como substitutas são bastante conhecidas e facilmente associadas às que foram substituídas, operando a partir da noção de “celebridade“ (o que torna algo ou alguém famoso ou conhecido). Exemplos: “Admiro a obra do poeta dos escravos.” (po- eta dos escravos = Castro Alves) “Quero jogar igual ao rei do futebol.” (rei do futebol = Pelé) “Ainda esse ano eu volto para a cidade mara- vilhosa.” (cidade maravilhosa = Rio de Janeiro) Atenção: a antonomásia/perífrase é um recurso de coe- são textual que deve ser usado para evitar repetições de um mesmo nome/termo; no entanto, deve ser usado com parcimônia, tendo o cuidado de verificar se o termo peri- frástico é realmente adequado. 1.1.6. Sinestesia Trata-se a sinestesia de uma combinação de palavras que remetem a diferentes sentidos percebidos pelo corpo hu- mano. Cuida de observar expressões em que se misturem, por exemplo, sensações visuais com auditivas ou audição com tato, entre outras possibilidades. Exemplo: “Não gosto de perfumes muito doces.” (perfume é um estímulo olfativo enquan- to doces se referem ao paladar). 22 VIVENCIANDO Pintura - Vladimir Kush As metáforas são figuras de linguagem que encontramos não apenas em textos verbais mas também nos não-verbais. As magnificas obras do pintor surrealista russo Vladimir Kush (53 anos) aproximam figuras de diferentes origens, criando imagens metafóricas surpreendentes, que jogam com o imag- inário do espectador. Música das Madeiras MetaMorfose ii 23 VIVENCIANDO Pintura - Vladimir Kush Partida do navio alado diário de descoBertas 24 DIAGRAMA DE IDEIAS FIGURAS DE PALAVRA EMPRÉSTIMO DE PALAVRA OU EXPRESSÃO POR APROXIMAÇÃO DE SENTIDOS METÁFORA METONÍMIA COMPARAÇÃO SINÉDOQUE CATACRESE ANTONOMÁSIA 25 1. figurAs de linguAgem ii 1.1. Figuras de sintaxe O objetivo das figuras sintáticas é dar maior expressivida- de ao significado geral de uma frase. As principais figuras sintáticas do português são as seguintes: 1. Hipérbato; 2. Anáfora; 3. Pleonasmo; 4. Catáfora; 5. Elipse; 6. Zeugma; 7. Silepse; 8. Anacoluto; 9. Polissíndeto; 10. Assíndeto; 11. Hipálage. 1.1.1. Hipérbato O hipérbato é um rompimento da ordem direta dos ter- mos da oração. Também conhecido como processo de inversão frásica (ou sintática). Trata-se de uma figura de linguagem que quebra o que chamamos de ordem canô- nica do português; ou, em termos mais claros, a ordem com que nos comunicamos mais habitualmente, que é a sequência SUJEITO > VERBO > OBJETO > MARCAS CONJUNTIVAS OU ADVERBIAIS. Toda vez que fazemos a quebra dessa ordem (colocando, por exemplo, o sujeito após o objeto; ou deslocando as marcas adverbiais para o início da oração), temos uma inversão sintática.Exemplos: “Dos meus problemas cuido eu!” (sujeito “eu” colocado no final da frase) “Dança, à noite, o casal de apaixonados no clube.” (verbo intransitivo “dançar” e adjunto “à noite” estão deslocados para o início da frase) 1.1.2. Anáfora A anáfora consiste na repetição enfática de uma ou mais palavras no início de orações, períodos ou versos sucessi- vos. É um recurso linguístico utilizado com maior frequên- cia em poemas e letras de canções (sendo, portanto, uma marca de estilo). Vejamos alguns exemplos: Se você gritasse Se você gemesse, Se você tocasse a valsa vienense Se você dormisse, Se você cansasse, Se você morresse... Mas você não morre, Você é duro José! (carlos druMMond de andrade) Quando não tinha nada, eu quis Quando tudo era ausência, esperei Quando tive frio, tremi Quando tive coragem, liguei (À PriMeira vista – chico césar) É possível perceber nos dois exemplos apresentados que há uma repetição sistemática de certos elementos que estão no começo de cada verso. No caso do poema de Carlos Drum- mond de Andrade, a repetição da marca se parece querer reforçar o caráter instável e flutuante do indivíduo. Já na can- ção de Chico César, a retomada do termo quando reforça o trajeto temporal pelo qual os eventos vão ocorrendo na música. É possível dizer que se trata de um recurso enfático. 1.1.3. Pleonasmo O pleonasmo consiste no emprego de diferentes termos que possuem o mesmo sentido, com o objetivo de realçar uma ideia ou deixá-la ainda mais clara. Em alguns casos, a redundância dos termos utilizados pode se tornar des- necessária. Por esse motivo, alguns estudiosos dividem o pleonasmo em dois tipos: § Pleonasmo literário: consiste no uso de palavras redundantes com o objetivo de enfatizar o que está sendo dito. Exemplos: Chovia uma triste chuva de resignação. (Ma- nuel Bandeira) figurAs de linguAgem ii CompetênCias: 1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29 AULA 6 26 Me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã. (Chico Buarque) § Pleonasmo vicioso: acontece quando palavras re- dundantes são utilizadas sem nenhuma função. Exemplos: “Todos subiram em cima do palco.” “Paguei um mês de mensalidade.” 1.1.4. Catáfora Trata-se a catáfora de um termo (geralmente pronominal), ou locução que introduz uma especificação/explicação de alguma informação que foi mencionada anteriormente. Ve- jamos alguns exemplos: Exemplos: “Minha vida se resume a isto: trabalhar, traba- lhar e trabalhar.” (O pronome “isto” introduz a informação que resume a vida do enunciador.) “Muitas CPIs acabam em pizza, ou seja, não dão em nada e são arquivadas.” (O termo “ou seja” introduz explicação sobre o que significa “acabar em pizza”.) 1.1.5. Elipse A elipse é um processo no qual se omite uma palavra ou expressão em uma oração, podendo ser facilmente identifi- cada por elementos gramaticais, ou pelo contexto. O termo omitido fica subentendido e sua ausência na oração não prejudica a compreensão do que está sendo dito. Seguem alguns exemplos: Exemplos: “Não fosse sua carona, eu ainda estaria no meio do caminho.” (É possível perceber que há a pos- sibilidade de encaixarmos no início da frase uma condicional “se” – “Se não fosse sua carona...”.) “Chegaremos amanhã cedo.” (É possível perce- ber, pela desinência do verbo “chegar”, (–mos), que há um sujeito elíptico, “nós”.) 1.1.6. Zeugma Trata-se de um caso particular de elipse em que ocorre a omissão de palavras ou expressões anteriormente expres- sas no período. A repetição do termo fica subentendida, sem que isso prejudique a compreensão da sentença. Ve- jamos um exemplo. Exemplos: “Eu chego cedo sempre, só não quando estou sem carro.” (Notamos que é o verbo “chegar” poderia ser recuperado mais adiante na oração – “só não chego quando es- tou sem carro” – mas é mantido elíptico.) Atenção1: Se na repetição houver flexão verbal diferente da palavra explícita de origem, teremos um caso que é cha- mado de zeugma complexo. Exemplos: “Meus amigos adoram praia, e eu também.” (Notamos que a possível retomada do verbo adorar no decorrer do período alteraria sua flexão em termos de pessoa – “e eu adoro tam- bém” – nesse caso temos zeugma complexo.) Atenção2: Muitos vestibulares não levam em conside- ração a nomenclatura do Zeugma, entendendo qualquer omissão de termos como elipse. Isso significa que, em mui- tos casos, mesmo havendo Zeugma, as instituições que elaboram as provas o tratarão simplesmente por elipse. 1.1.7. Silepse Trata-se de palavra que estabelece concordância com o sentido ideológico, ao invés de concordar com a estrutura gramatical. Há no português três tipos de silepse: de gê- nero, de número e de pessoa. § Silepse de gênero Exemplo: “Vossa excelência está preocu- pado.” (A formação pronominal “vossa ex- celência” pelas normas gramaticais, concorda com adjetivos femininos, no entanto o adjetivo está no masculino, dando a entender que a tal excelência é um homem.) § Silepse de número Exemplo: “A população chegou agitada ao co- mício, gritavam com todo o ímpeto.” (O termo “população” está no singular mas tem como concordância ideológica um verbo no plural, pois entende-se que população é um grande número de pessoas.) § Silepse de pessoa Exemplo: “A questão é que os três queremos comemorar o aniversário no mesmo dia.” (O ter- mo “os três” deveria estabelecer concordância com o pronome “eles” (os três – eles – querem), mas por conta da intenção de inclusão do pró- prio falante na oração, como um dos que tam- bém querem comemorar o aniversário no mesmo dia, ele se inclui com o pronome “nós”.) 1.1.8. Anacoluto Ocorre quando a estrutura sintática de uma oração é interrompida e um termo ou expressão que parecia ser 27 essencial à sentença acaba ficando solto. Também conhe- cido menos tecnicamente como processo de “quebra de frase”. Vejamos a seguir: Exemplos: “Esse chapéu que está na moda, você que gosta de chapéu devia comprar um.” (Esse cha- péu que está a moda = termo sintaticamente solto/deslocado.) “Eu, toda vez que chego, você me chama pra conversar.” (Eu = termo sintaticamente solto/ deslocado.) 1.1.9. Polissíndeto É uma figura caracterizada pela repetição enfática dos co- nectivos. Vejamos alguns exemplos: Exemplos: “Não canto nem danço, nem escrevo, nem de- senho.” (Repetição sistemática de conjunções aditivas enfatiza o fato de que o enunciador não realiza muitas atividades.) “Ou você dá a festa, ou viaja, ou faz o curso.” (Repetição sistemática de conjunções alternati- vas enfatiza as possibilidades de alternância.) 1.1.10. Assíndeto É uma figura caracterizada pela omissão das conjunções coordenativas. Vejamos a seguir: Exemplos: “Tem que ser selado, registrado, carimbado, ava- liado, rotulado, se quiser voar” (Carimbador ma- luco – Raul Seixas). Percebe-se que há uma sequência de elementos burocráticos que são apresentados na música, mas não verificamos nenhum tipo de conjunção estabelecendo entre eles relações de conexão. 1.1.11. Hipálage A hipálage é uma figura de linguagem caracterizada pela atribuição de uma característica de algum ser ou de algum objeto a outro ser ou objeto que se encontra próximo ou relacionado com ele. Mais tecnicamente é atribuído um ad- jetivo a um substantivo quando na realidade esse adjetivo se refere logicamente a outro substantivo presente no perí- odo. A hipálage produz uma mudança na estrutura básica (natural) da oração, provocando um desajuste entre o sen- tido e a função da palavra na frase. Trata-se de um recurso muito usado na literatura com o objetivo de aumentar a expressividade da mensagem; mas também é encontrado em expressões comuns. Exemplos: “Esse sapato não entra no meu pé!” “Deitado na rede, Ricardo lia um livro sonolento.” “Fumando um pensativo cigarro.” (Eça de Queirós) “O silêncio desaprovador dos meus colegas.” (Camilo Castelo Branco). Este livro reúne 20 das mais significativas entrevistas realizadas por Luiz Costa Pereira Junior paraa revista Língua Portuguesa. Em conversas com Saramago, Millôr Fernandes, Mia Couto, entre outros, mostra que pensar a vida ao pensar o idioma pode ser mais fecun- do e brotar lugares mais inesperados do que, a princípio, se imagina; e muito do que se pensa sobre linguagem pode estar fora dos muros de quem a pesquisa. Figuras da linguagem – Luiz Costa Pereira Junior multimídia: livros 28 DIAGRAMA DE IDEIAS FIGURAS DE SINTAXE DÃO MAIOR EXPRESSIVIDADE AO SIGNIFICADO GERAL DA FRASE HIPÉRBATO CATÁFORA SILEPSE ANÁFORA ELIPSE ANACOLUTO PLEONASMO ZEUGMA POLISSÍNDETO ASSÍNDETO HIPÁLAGE 29 1. figurAs de linguAgem iii 1.1. Figuras de som ou de harmonia As figuras de som ou de harmonia são aquelas formadas a partir de parâmetros sonoros da língua. São divididas da seguinte forma: 1. Aliteração; 2. Assonância; 3. Paronomásia; 4. Onomatopeia. 1.1.1. Aliteração A aliteração consiste na repetição de mesmo som conso- nantal. É uma figura de linguagem muito comum em tex- tos literários e letras de canções. Vejamos um exemplo: “Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.” (violões que choraM – cruz e souza) No poema apresentado verificamos uma repetição siste- mática da consoante “V”, com a intenção de imitar o som das batidas do violão. Vejamos um exemplo em prosa: “Boi bem bravo. Bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...“ (o Burrinho Pedrês – GuiMarães rosa) O trecho apresentado, retirado do conto “O burrinho pe- drês” de Guimarães Rosa, realiza repetição de algumas consoantes em alguns trechos do conto (“B”, “D” e “V”) com o objetivo claro de tentar reproduzir os sons que ocor- rem durante a caminhada dos animais (sons de passos sobre areia ou grama). Atenção: sendo recurso estilístico, não se recomenda o uso de aliterações fora de contexto, para que não haja pre- juízos ao enunciado. 1.1.2. Assonância A assonância consiste na repetição de mesmo som vocálico. Assim como a aliteração, é figura de linguagem muito co- mum em textos literários e letras de canções. Salvo o que o vago e incógnito desejo De ser eu mesmo de meu ser me deu. (hoje que a tarde é calMa e o céu tranquilo – fernando Pessoa) Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão E vamos botar água no feijão (feijoada coMPleta – chico Buarque) Nos dois exemplos apresentados há repetições constantes de vogais (“O” e “E” no poema de Fernando, Pessoa e “I” e “U” na canção de Chico Buarque). A esse processo chamamos assonância. Atenção: assim como a aliteração, a assonância é recurso estilístico, por isso não se recomenda o seu uso fora de contexto, para que não haja prejuízos ao enunciado. 1.1.3. Paronomásia A paronomásia é uma figura estilística que trabalha com palavras parônimas (palavras muito parecidas no som e na escrita, mas com significados diferentes) para alcançar trocadilhos nas construções. Os trocadilhos acionados pela paronomásia constituem recurso retórico muito usado no humor e na publicidade; criam um efeito inesperado na recepção da informação, aproveitando a sonoridade muito similar que existe entre algumas palavras. Vejamos alguns tipos de paronomásia. Exemplos: Você tem que ler muito, sobretudo se quiser escrever sobre tudo. “Exportar é o que importa.” (Delfim Netto) “Quem casa, quer casa”. 1.1.4. Onomatopeia A onomatopeia é uma tentativa, na escrita, de se reproduzir efeitos sonoros da realidade. Não se trata de uma reprodu- ção fiel do som ou ruído, mas sua interpretação aproximada, usando sons existentes em determinada língua. Trata-se de figura de linguagem muito comum em quadrinhos, por conta da necessidade de atribuir sons a certos estímulos visuais. Vejamos alguns exemplos: figurAs de linguAgem iii CompetênCias: 1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29 AULA 7 30 Percebemos que é comum nos quadrinhos a tentativa de reprodução de sons da realidade. Não existem sons defini- tivos para os eventos/acontecimentos. Cada autor repre- senta o som da maneira que lhe é preferível. A poesia trabalha constantemente com figu- ras de linguagem. Por esse motivo, é necessá- rio que o vestibulando esteja atento ao tema, quando aplicado nesse gênero literário. O poema “Lixo Luxo”, de Augusto de Campos, se constrói a partir da figura da paronomásia. multimídia: poema • poesia multimídia: poema • poesia De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. O “Soneto da separação”, de Vinícius de Mo- raes, se articula a partir de antíteses. Soneto da separação multimídia: sites https://www.figurasdelinguagem.com/ 31 DIAGRAMA DE IDEIAS FIGURAS DE SOM FIGURAS CONSTITUÍDAS A PARTIR DE PARÂMETROS SONOROS ALITERAÇÃO PARONOMÁSIA ASSONÂNCIA ONOMATOPEIA 32 1. figurAs de linguAgem iv 1.1. Figuras de pensamento As figuras de pensamento são formadas a partir do empre- go de termos conotativos, contrariando a expectativa do ouvinte. As principais figuras de pensamento são: 1. Antítese; 2. Paradoxo ou oximoro; 3. Eufemismo; 4. Ironia; 5. Hipérbole; 6. Prosopopeia ou personificação; 7. Apóstrofe; 8. Gradação; 9. Quiasmo; 10. Preterição. 1.1.1. Antítese A antítese é a aproximação de palavras de sentido oposto a fim de destacar uma ideia ou conceito. É importante frisar que a antítese apenas “expõe“ as palavras opostas, sem cruzá-las. Vejamos alguns exemplos: “Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida” (natal – ruBeM BraGa) Em tristes sonhos morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. (À instaBilidade das cousas do Mundo – GreGório de Matos) É possível perceber nos exemplos que há a evidenciação de imagens contrárias que detêm o mesmo valor na constru- ção da antítese (morte × vida e tristezas × alegrias). 1.1.2. Paradoxo ou oximoro O paradoxo é uma figura que “funde” conceitos opos- tos num mesmo enunciado. A junção de ideias entendi- das como contraditórias costuma provocar um efeito de estranhamento. Exemplos: “Quanto mais trabalhamos mais temos dificulda- des financeiras.” “Esse garoto parece que dorme acordado.” 1.1.3. Eufemismo Trata-se de uma figura em que se empregam determinadas palavras com o objetivo de operar uma suavização de uma mensagem ruim a ser passada. Vejamos os exemplos: Exemplos: “A testemunha faltou com a verdade” = mentiu “O vigia passou desta para melhor” = morreu 1.1. 4. Ironia A ironia consiste no emprego de uma palavra ou expressão em um sentido contrário do que se está pensando, pro- duzindo efeito humorístico, satírico e até mesmo crítico. A ironia é uma figura de linguagem que não deixa transpare- cer imediatamente a intenção por trás do que foi expresso. Exemplos: Que rapaz “educado”! Entrou sem cumprimen- tar ninguém. (Imaginando que a pessoa tenha entrado no recinto sem cumprimentar ninguém no local). Essa reunião foi “pura diversão” (imaginando uma reunião que tenha sido extremamente de- sagradável). Atenção: na escrita, os termos que expressam a ironia são habitualmente marcados com aspas. 1.1.5. Hipérbole A hipérbole é uma figura de linguagem utilizada para pro- vocar um exagero intencional na sentença. É importante frisar que a hipérbole não é um exagero gratuito. Seu ob- jetivo é realçar a ideia original colocada na expressão. Em alguns casos se trata de uma construção já “enraizada” no sistema linguístico. figurAs de linguAgem iv CompetênCias:1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29 AULA 8 33 Exemplos: “Faz umas dez horas que essa menina entrou no banho.” “Faria isso milhões de vezes se fosse preciso.” “Estou morrendo de sede.” 1.1.6. Prosopopeia É uma figura por meio da qual se atribui atitudes, senti- mentos, qualidades e linguagem próprios de um ser huma- no a seres inanimados ou irracionais. Exemplos: “Essa máquina não está traba- lhando direito.” 1.1.7. Apóstrofe Trata-se de um movimento de interrupção de um discurso para que seja “invocada”, para o interior do texto, algu- ma coisa personificada. Se realiza por meio de vocativo. A apóstrofe interrompe a sequência natural do período para dar destaque à entrada daquilo que foi invocado, podendo ser uma entidade imaginária, ou mesmo o interlocutor do texto que está sendo lido. Vejamos alguns exemplos: Exemplos: Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal. (fernando Pessoa) “Seu garçom, faça o favor de me trazer depres- sa/ Uma boa média que não seja requentada.” (noel rosa) 1.1.8. Gradação Consiste em um processo de encadear ideias por meio de palavras, remetendo a uma operação sequencial crescente ou decrescente. O processo de gradação pode acontecer com palavras sinônimas ou não. É um recurso muito usado em textos literários para trabalhar as noções semânticas de “clímax” e “anticlímax”. Exemplos: De repente o problema se tornou menor, um grão, um cisco, um quase nada. Minha irmã sempre se achou bonita, linda, des- lumbrante. 1.1.9. Quiasmo É uma figura de linguagem que faz um cruzamento entre fra- ses ou versos de um poema, de modo que os termos que estão no início de um passam para o final de outro, e os do final para o início. Esse movimento em forma de “X” tem o objetivo de dar a esses termos um maior destaque. Vejamos um exemplo: Exemplos: Melhor é merecê-los sem os ter, Que possuí-los sem os merecer. (os lusíadas, Xi, 93) “De certos homens, dizia Sócrates, que não co- miam para viver, mas só viviam para comer.“ (Pe. antônio vieira) 1.1.10. Preterição Trata-se de uma figura de linguagem de utilização mais rara, por meio da qual o narrador/personagem finge que não vai tratar um determinado assunto, mas vai falando dele aos poucos, seja para alcançar um efeito de ironia, ou mesmo de realce. Esta estratégia tem o objetivo de tentar anular a possibilidade de réplica do ouvinte à teoria que está sendo exposta: Em todo processo de comunicação visamos a demonstrar, a provar, a deleitar, a agradar, a emocionar, a comover: em suma, queremos persuadir. Com a linguagem, buscamos levar os outros a fazer determinadas coisas, a crer em determinadas ideias, a sentir determinadas emoções, a ter determinados estados de alma, a construir uma boa imagem de nós. Para isso, precisamos gerenciar a atenção do outro. Então, sublinhamos certas ideias, chamamos atenção para determinada passagem, enfa- tizamos dadas expressões. Este livro, numa perspectiva nova nos estudos de retórica, tra- balha as figuras como operações enunciativas que, intensificando ou atenuando o sentido, possam realizar a persuasão. Figuras de Retórica – José Luiz Fiorin multimídia: livros 34 DIAGRAMA DE IDEIAS FIGURAS DE PENSAMENTO FIGURAS FORMADAS A PARTIR DE ELEMENTOS CONOTATIVOS ANTÍTESE IRONIA APÓSTROFE PARADOXO HIPÉRBOLE GRADAÇÃO EUFEMISMO PROSOPOPEIA QUIASMO PRETERIÇÃO Exemplos: Sem querer falar de suas mentiras, mas já fa- lando [...]. Não pretendo aqui lembrar que o réu ajudou muitas pessoas carentes [...]. “Não vos direi, pois, senhores, quão grandes e quão afortunados foram seus feitos na paz e na guerra, por terra e por mar [...].“ 35 LITERATURA: Incidência do tema nas principais provas UFMG Como a Unesp não possui uma lista obrigatória de livros, as questões contemplam o conhecimento acerca das escolas literárias, bem como de seus principais representan- tes. Neste livro, estão presentes questões sobre Quinhentismo, Barroco e Arcadismo. Como a Unifesp não possui uma lista obrigatória de livros, as questões contemplam o conhecimento das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. Neste livro, estão presentes questões sobre Quinhentismo, Barroco e Arcadismo. A maior parte das questões de literatura da Uni- camp refere-se às obras de leitura obrigatória. Neste livro, encontram-se algumas questões sobre as estéticas do Barroco e do Arcadismo, além de exercícios sobre o padre Antônio Vieira, um dos autores cuja obra é exigida por esse exame. Parte das questões de literatura dessa prova se baseia nas obras de leitura obrigatória da FUVEST. Entretanto, também é comum aparecer questões que cobrem o conhecimento do aluno sobre as caracte- rísticas específicas dos movimentos literários. Nesse livro, há exercícios sobre o Arcadismo e o Romantismo no Brasil. A maior parte das questões de literatura dessa prova se refere às obras de leitura obrigatória. Entretanto, para melhor compreender essas obras, é importante que o aluno conheça os movimentos literários, bem como seus principais representantes. Neste livro, estão presentes questões sobre Qui- nhentismo, Barroco e Ar- cadismo. Como a PUC de Campinas não possui uma lista obrigatória de livros, as questões contem- plam o conhecimento acerca dos diferentes gêneros literários e das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. A prova da Santa Casa exige seus conheci- mentos acerca dos gêneros literários e dos movimentos literários no Brasil e em Portugal. Neste livro, estão presentes questões sobre a estética barroca e árcade. A prova do ENEM exige que o aluno tenha conhecimento a respeito das escolas literárias e de seus principais representantes. Neste caderno, você encontra algumas questões sobre Quinhentismo, Barroco e Arcadismo, conteúdos que já foram cobrados pelo exame. A maior parte das questões de literatura se refe- re às obras de leitura obrigatória. Neste livro, encontram-se algumas questões sobre Gregório de Matos, um dos autores cuja obra é exigida por esse exame, bem como sobre as estéticas barroca e árcade. Como a UERJ não possui uma lista obrigatória de livros, as questões contemplam o conhecimento acerca dos diferentes gêneros literários e das es- colas literárias, bem como de seus principais repre- sentantes. Nesse caderno, você encontra algumas questões acerca do Quinhentismo e do Barroco no Brasil. Como a Ungranrio não possui uma lista obrigatória de livros, as questões contemplam o conhecimento acerca dos diferentes gêneros literários e das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. A Souza Marques exige seus conhecimentos acerca dos gêneros literários e dos movimen- tos literários brasileiros. Neste livro, estão presentes questões sobre a estética barroca e sobre seus principais representantes. A maior parte das questões de literatura se refere às obras de leitura obrigatória. Entretanto, para melhor compreender essas obras, é importante que o aluno conheça os movimentos literários, bem como seus principais representantes. Neste livro, estão presentes questões sobre a estética barroca e árcade. A maior parte das questões de literatura da UFPR se refere às obras de leitura obrigatória. Entretanto, para melhor compreender essas obras, é importante que o aluno conheça os movimentos literários, bem como seus principais representantes. Neste livro, estão presentes questões sobre Quinhen- tismo, Barroco e Arca- dismo. A maior parte das questões de literatura da UEL se refere às obras de leitura obrigatória. Neste livro, estão presentes questões sobre o Barroco, movimento do qual faz parte Gregório de Matos, um dos autores cuja obra é exigida por esse exame. 36 Observe, na tabela a seguir, os períodos literários do Brasil Colônia. Quinhentismo (1500-1601) Barroco (1601-1768) Neoclassicismo (1768-1836) O primeiro documento escrito foi a Cartade Pero Vaz de Caminha, destinada a Dom Manuel, rei de Portugal. Publicação do poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira. Publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Man- uel da Costa. Florescimento da chamada literatura de informação, cujo objetivo era descrever para a Corte portuguesa a terra descoberta. Poesias lírica, religiosa e satírica, de Gregório de Matos, em Salvador, Bahia. Atuação do Grupo Mineiro em Vila Rica, Minas Gerais. Desenvolvimento da literatura de catequese com a finalidade de doutri- nar os indígenas. Oratória doutrinária do padre Antônio Vieira, em Salvador, Maranhão, e outras áreas do Nordeste brasileiro. Poesia árcade de Cláudio Manuel da Costa (sonetos). Textos de teatro com teor catequético. Sermões, do padre Antônio Vieira. Tomás Antônio Gonzaga escreve Marília de Dirceu. Produção de poesia religiosa. Conceptismo e cultismo. Poesia épica indianista: O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. José de Anchieta é o principal expoente da literatura catequética. Contexto de reformas religiosas. A natureza é a base temática. 1. Quinhentismo ou literAturA coloniAl 1.1. A literatura brasileira floresceu em duas fases O período é didaticamente denominado Quinhentismo bra- sileiro. Os documentos produzidos durante esse tempo não são considerados literatura artística, mas manifestações lite- rárias, uma vez que não são criações de caráter artístico, mas produtos de observações ora objetivas, ora subjetivas. Esse período inicial da história da literatura brasileira começou em 1500, ano em que Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvarez Cabral, enviou a Dom Manuel I a famosa Carta. Ela comunica ao soberano o “achamento” (esse era o termo usado na época) das terras brasileiras. No século XVI, os textos produzidos no Brasil ligam-se a duas necessidades práticas da empresa colonizadora portuguesa: fornecer informação sobre a nova terra e converter os indígenas ao cristianismo. Nes- sa literatura de valor principalmente documental, encon- tram-se elementos importantes para a compreensão das origens históricas e literárias do Brasil. descoBriMento, de cândido Portinari (1956). A primeira fase corresponde ao período do Brasil co- lonial, durante os séculos XVII e XVIII. Naquela época, uma da primeiras vozes da literatura brasileira foi a do poeta Gregório de Matos e Guerra, instalado em Salva- dor, no século XVII. Durante o século XVIII, Minas Gerais Quinhentismo e bArroco CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17 AULAS 9 e 10 37 acompanhou a produção de poetas sediados em Vila Rica (atual Ouro Preto), Mariana e São João Del-Rei, localidades vinculadas ao ciclo do ouro e de pedras preciosas. A segunda fase da literatura brasileira surgiu na época do Brasil independente, a partir de 1822. Como característica do país naquele período, não se pode falar em literatura “do Brasil”, mas em literatura “no Brasil”. Uma literatura ligada ao Brasil, que denota as ambições e as intenções do homem europeu. Nesse sentido, divide-se em literatura informativa e literatura jesuítica. O Quinhentismo serviu de inspiração literária para alguns poetas e escritores do Romantismo – Gonçalves Dias, José de Alencar – e do Modernismo – Oswald de Andrade, Murilo Mendes. 1.2. Literatura de informação A expansão ultramarina europeia levou inúmeros viajantes às terras recém-descobertas ou exploradas da Ásia, África e América com a missão de produzir relatórios informativos sobre essas terras e os aspectos de seus habitantes. Esses relatórios, denominados “crônicas de viagem”, possuem caráter mais histórico do que literário, e a linguagem é pre- dominantemente referencial ou denotativa. Considerada o primeiro documento da literatura no Brasil, a Carta, de Pero Vaz de Caminha, inaugurou a chamada literatura informativa: manifestações literárias de consi- derável valor histórico e profundo caráter documental so- bre o Brasil, escritas por cronistas e viajantes. Descrevem e informam sobre a nova colônia portuguesa, salientando a conquista material e a exaltação da terra nova. Esses relatos tinham o intuito de satisfazer a curiosidade e a imaginação dos europeus. índio taPuia. eckhout, a. (1610-1666) Na literatura informativa, encontram-se documentos, car- tas e relatórios de navegantes, administradores, missio- nários e autoridades eclesiásticas. Descrevem e exaltam a flora, a fauna e os índios do Brasil, bem como o exotismo e a exuberância de um mundo tropical. Também predo- mina o registro referencial da linguagem, que reflete o louvor à terra com o emprego exagerado de adjetivos no superlativo e o emprego de modelos clássicos e renascen- tistas que tendem à erudição. Os textos informativos constituem um painel da vida dos anos iniciais do Brasil Colônia, apresentando notícias dos primeiros contatos entre os europeus e a realidade da nova terra. A opulência da flora e da fauna impressionou viva- mente o colonizador, enquanto o modo de vida dos indí- genas foi motivo de muita curiosidade e de incompreensão – os colonizadores nunca abandonaram sua concepção de que eram donos de uma cultura superior no interior do próprio sistema colonial. Acima de tudo, esses textos cum- priam uma finalidade prática. § Carta, de Pero Vaz da Caminha, escrita em 1500; § Diário de navegação, de Pero Lopes de Souza, escrito entre 1530 e 1532, durante a expedição de Martim Afonso de Sousa; § História da Província de Santa Cruz e Tratado da Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gandavo, ou Gândavo, publicados, respectivamente, em 1576 e 1826; § Tratado descritivo do Brasil em 1587 ou Notícias do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, publicado em 1851. § Diálogos das grandezas do Brasil (1618), atribuídos a Ambrósio Fernandes Brandão, e a História do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador, publicados no sé- culo XVII. Para a história da literatura brasileira, a literatura informa- tiva adquire importância principalmente como fonte de temas e formas para momentos literários posteriores: o Romantismo e o Modernismo. 1.2.1. Pero Vaz de Caminha Escrivão oficial da frota de Pedro Álvares Cabral, Caminha escreveu a Dom Manuel, rei de Portugal, no dia 1.o de maio de 1500, a Carta – de inestimável valor histórico e de razoável valor literário –, em que comunica o “desco- brimento” do Brasil. Lendo a Carta A Carta enviada ao rei Dom Manuel é uma espécie de “certidão de nascimento” do Brasil, pois foi o primeiro do- cumento escrito nas novas terras. É o texto que marca o princípio da literatura brasileira. (Cícero) 38 A Carta de Caminha, embora escrita nos primórdios da colonização (1500), só veio a ser impressa em 1817, na Corografia Brasílica, pela imprensa Régia do Rio de Janeiro. § Primeiro trecho Senhor, posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e as- sim os outros Capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta vossa terra nova, que nesta navega- ção agora se achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar e falar – o saiba pior que todos faze! [...] Tome Vossa Alteza, porém, minha igno- rância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu. [...] Então seguimos nosso caminho por este mar de longo até terça-feira de Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, quando topamos alguns sinais de terra [...] a saber: Em primeiro lugar um monte grande, muito alto e redondo e outras serras mais baixas ao sul dele; e terra rasa, com grandes arvoredos. Ao mesmo monte alto pôs o Capitão o nome de Monte Pascoal; e à terra – Terra de Vera Cruz. carta oriGinal de Pero vaz de caMinha. § Segundo trecho Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por che- garem primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das nausa esta nau do Ca- pitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de provei- to, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de pe- nas de ave, compridas, com uma copazinha de penas verme- lhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar. [...] § Terceiro trecho A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mos- trar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo fura- dos e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como um furador. Metemnos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encai- xado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e ra- pados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de ca- beleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar. O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma ca- deira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós ou- tros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Tamb ém olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e no- vamente para o castiçal como se lá também houvesse prata. caMinha, Pero vaz de. carta ao rei d. Manuel. in: voGt, carlos; leMos, j.a. GuiMarães de. ironistas e viajantes. são Paulo: aBril educação, s.d. (coleção literatura coMentada.) 39 O Brasil de Pero Vaz caminha - Direção: Bru- no Laet 2011 Vencedor do Prêmio SESC Rio de Fomento à Cultura, em 2010 – na categoria Novos Talentos, Cinema Documentário –, O Bra- sil de Pero Vaz caminha se baseia naquele que é considerado o primeiro documento histórico e literário do Brasil: a carta de Pero Vaz de Caminha. multimídia: vídeo 1.2.2. Pero de Magalhães Gândavo Gândavo foi o autor de O Tratado da Terra do Brasil e da História da Província de Santa Cruz, obras compostas em louvor ao clima, à terra e à paisagem, e que estimulam a imaginação do leitor. Observe um trecho de sua História da Província de Santa Cruz: Uma planta se dá também nesta Província, que da ilha de São Tomé, com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas a sustentar a terra. Esta planta é mui tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas folhas que serão seis ou sete palmos de comprido. A fruita dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepinos, criam-se em cachos. Esta fruita é mui saborosa, e das boas, que há na terra: tem uma pele como de figo (ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora quando a querem comer: mas faz dano à saúde e causa febre a quem se desmanda nela. Gândavo, Pero de MaGalhães.história da Província de santa cruz. Leia também outro trecho da História da Província Santa Cruz e observe que Gândavo traz aqui uma divertida noção sobre a língua dos indígenas, além de fazer uma descrição minuciosa sobre o tipo físico do silvícola. § História da Província Estes índios são de cor baça, e cabelo corredio; têm o ros- to amassado, e algumas feições dele à maneira de chinês. Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de boa esta- tura; gente mui esforçada, e que estima pouco morrer, temerária na guerra, e de muito pouca consideração: são desagradecidos em grande maneira, e mui desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos por extremo. Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamen- tos senão comer, beber, e matar gente, e por isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo conseguinte tor- nam a emagrecer, e muitas vezes pode deles tanto a ima- ginação que se algum deseja a morte, ou alguém lhe mete em cabeça que há de morrer tal dia ou tal noite não passa daquele termo que não morra. São mui inconstantes e mudáveis: creem de ligeiro tudo aquilo que lhes persuadem por dificultoso e impossível que seja, e com qualquer dissuasão facilmente o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados à sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se neles não houvera razão de homens: ainda que todavia em seu ajuntamento os ma- chos e fêmeas têm o devido resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha. A língua de que usam, toda pela costa, é uma: ainda que em certos vocábulos difere n’algumas partes; mas não de maneira que se deixem uns aos outros de entender: e isto até a altura de vinte e sete graus, que daí por diante há outra gentilidade, de que nós não temos tanta notícia, que falam já outra língua diferente. Esta de que trato, que é geral pela costa, é mui branda, e a qualquer nação fácil de tomar. Alguns vocábulos há nela de que não usam senão as fême- as, e outros que não servem senão para os machos: carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei e desta maneira vivem desordenadamente sem terem além disto conta nem peso, nem medida. Gândavo, Pero de MaGalhães. in: voGt, carlos; leMos. j. a. GuiMarães de, oP. cit. ilustração que retrata Pero MaGalhães de Gândavo descrevendo aniMais novos. 1.3. Literatura de formação ou jesuítica Ao lado da prosa informativa, ocorreram manifestações em poesia e teatro escritas por jesuítas, com a finalida- de de catequizar os índios. Essa produção é denomina- da literatura de formação, em decorrência do aspecto didático que apresenta. 40 1.3.1. Padre José de Anchieta (1534-1597) Padre josé de anchieta Nessa categoria, merece destaque José de Anchieta, pa- dre jesuíta que veio ao Brasil para desenvolver o trabalho missionário de converter os índios ao Cristianismo. Em 1554, fundou a cidade de São Paulo. Escreveu poemas, crônicas, sermões e textos teatrais, ora didáticos, ora lí- rico-religiosos. Anchieta dominava bem latim, espanhol, português e tupi. Sua linguagem era simples e direta. Escreveu cartas, ser- mões, poesias e peças de teatro, tornando-se representan- te do Teatro Jesuítico no Brasil. Além disso, escreveu a pri- meira gramática tupi-guarani: Arte de gramática da língua mais usada na costa brasileira. Entre suas obras, destacam-se os autos Quando no Espírito Santo, se recebeu uma relíquia das onze mil Virgens; Na Vila de Vitória; Auto deSão Lourenço; e o poema De Beata Vir- gine Dei Madre Maria (À beata Virgem Maria Mãe de Deus). Anchieta veio ao Brasil com a segunda leva de jesuítas na esquadra de Duarte da Costa, segundo Governador-Geral do Brasil. Em 1554, participou da fundação do colégio, onde também foi professor, na Vila de São Paulo de Pira- tininga, núcleo da futura cidade que receberia o nome de São Paulo. Entre os anos de 1577 e 1587, exerceu o cargo de provincial dos jesuítas. A obra de Anchieta é considerada a primeira manifestação literária em terras brasileiras. A coleção das obras completas do padre é dividida em três gêneros: poesia, prosa e obras sobre Anchieta, que somam um total de dezessete volumes. Leia a seguir A Santa Inês, um dos poemas mais conheci- dos de José de Anchieta. Cordeirinha linda, como folga o povo porque vossa vinda lhe dá lume novo! Cordeirinha santa, de Jesus querida, Vossa santa vinda o diabo espanta Por isso vos canta, com prazer, o povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo. Nossa culpa escura fugirá depressa, pois vossa cabeça vem com luz tão pura. Vossa formosura honra é do povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo. Virginal cabeça pela fé cortada com vossa chegada, já ninguém pereça. Vinde mui depressa ajudar o povo, pois com vossa vinda lhe dais lume novo. Vós sois, cordeirinha, de Jesus formoso, mas o vosso esposo já vos fez rainha, Também padeirinha sois de nosso povo, pois, com vossa vinda, lhe dais lume novo. Portela, eduardo (orG.). josé de anchieta: Poesia. rio de janeiro: aGir, 1959. § Bosques Leia a seguir um trecho em que Anchieta relata suas im- pressões sobre a natureza em terras brasileiras: Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvores nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxi- nóis, pintassilgos, colorinos, e canários de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. Há muitas árvores de cedro, áquila, sândalos e outros paus de bom olor e várias cores e tantas diferenças de folhas 41 e flores que para a vista é grande recreação e pela muita variedade não se cansa de ver josé de anchieta. cartas, inforMações, fraGMentos históricos e serMões. inforMação da Província do Brasil Para nosso Padre – 1585. rio de janeiro: civilização Brasileira, 1933, P. 430-431. Padre anchieta, óleo soBre tela, de cândido Portinari (1954). O texto revela uma visão exuberante da natureza do Brasil, semelhante à manifestada na Carta, de Pero Vaz de Cami- nha. Os aspectos destacados contemplam a flora e a fauna, a grandeza e a variedade do arvoredo e o encantamento pelos pássaros. A riqueza e a vitalidade do Brasil contrastam com as paisagens de Portugal. Entre as riquezas do Brasil descritas no texto, apenas o sândalo, originário da Índia, provavelmente não existia aqui. O deslumbramento pela natureza do Novo Mundo marcou época tanto no período Brasil Colônia quanto no período pós-Independência. Com bastante simplicidade, o poema manifesta o confron- to entre o bem e o mal. A chegada de Santa Inês espanta o diabo e, graças a ela, o povo revigora sua fé. Os versos de cinco sílabas (redondilha menor) dão ritmo ligeiro ao texto, retomando a métrica das cantigas medievais. A lin- guagem é clara, as ideias são facilmente compreensíveis e o ritmo traz musicalidade ao poema, o que contribui para envolver o leitor/ouvinte, bem como sensibilizá-lo para a mensagem religiosa. 1.3.2. Padre Manuel da Nóbrega A pedido de Dom João III, o padre Manuel da Nóbrega integrou a escala de Tomé de Sousa, primeiro Governador Geral do Brasil. O padre chefiou o primeiro grupo de jesuí- tas vindos ao Brasil, em 1549. Defensor da liberdade dos índios, favoreceu os aldeamen- tos, cultivou a música como auxiliar da evangelização, pro- moveu o ensino primário nas escolas de ler e escrever e fundou pessoalmente os colégios de Salvador, Pernambuco e São Paulo, origem da futura cidade, e do Rio de Janeiro, onde exerceu o cargo de reitor. Depois de colaborar com a expulsão dos estrangeiros da baía de Guanabara, contri- buiu para a valorização do poder central e para a unifica- ção política do território nacional. Seus pensamentos estão expressos nas Cartas, nos Apon- tamentos e, sobretudo, no Diálogo sobre a conversão do Gentio. 2. bArroco ou seiscentismo a dúvida de são toMé, de caravaGGio. 2.1. Contexto 2.1.1. Os embates religiosos O movimento denominado Barroco ou Seiscentismo floresceu no segundo período clássico e designou generi- camente todas as manifestações artísticas produzidas no século XVII até meados do século XVIII. O estilo barroco sucede o movimento religioso conhecido como Reforma Protestante, liderado pelo teólogo alemão Martinho Lutero (1483-1546). A Reforma Protestante foi um movimento refor- mista cristão iniciado em 1517 por Martinho Lutero. Ele apresentou 95 teses, nas quais protestava contra a Igreja Católica. À luz delas, propôs uma reforma ba- seada em cinco princípios: 1. somente a fé; 2. somente a Escritura; 3. somente Cristo; 4. somente a graça; e 5. somente a glória de Deus. Lutero denunciou os abusos e equívocos do catolicis- mo da época, entre eles atos de corrupção, como ven- da de indulgências a troco do perdão dos pecados e da salvação eterna. 42 Dividido em duas seções, “Concepções Bar- rocas” e “Experiências Barrocas”, o volume examina esse fenomêno de arte notadamente nos séculos XVII e XVIII, sem esconder do lei- tor observações realmente novas e sugestivas concernentes ao estilo, que muitos reputam ser de glória, outros digno de períodos de decadência, mas que, todavia, emprestou às cidades históricas de Minas o seu fausto e o ar sempiterno que ressumam. O barroco - Victor Lucien Tapié multimídia: livros A proposta de reforma dos ensinos teológicos e compor- tamentais da Igreja, baseados exclusivamente no ensino bíblico, provocou a reação da Igreja católica. A Reforma dividiu os cristãos. Na tentativa de evitar a perda de fiéis, a Igreja fortaleceu o Tribunal da Inquisição, que passou a investigar crimes contra a fé católica e deu início à Con- trarreforma, com a fundação da Companhia de Jesus pelo espanhol Inácio de Loyola. Nas artes, em reação ao primeiro período clássico que re- volucionou o teocentrismo medieval, à luz e sob inspiração dos valores terrenos e humanistas da Antiguidade greco- -romana, triunfou o Barroco, que se opôs ao Humanismo Renascentista em busca do elo perdido da tradição cristã. 2.1.2. O contexto português: a união da península Ibérica Em 1578, o rei português Dom Sebastião desapa- receu na batalha de Alcácer-Quibir, na África, sem deixar descendentes diretos. Em 1580, Portugal foi anexado à Espanha. O rei espanhol Felipe II, um dos pa- rentes mais próximos de Dom Sebastião, foi proclama- do monarca dos lusitanos e deu início à dinastia Filipina em Portugal, que se estendeu até 1640. Na Europa seiscentista, Portugal e Espanha configura- ram o modelo de absolutismo católico, que patrocinou a Contrarreforma, intensificou a perseguição aos infiéis pela Inquisição e exigiu obediência ao Index Librorum Prohibitorum, uma relação de livros proibidos publicada pela Igreja Católica. Três reis espanhóis adotaram sucessivamente o nome Felipe (I, II e III). Em dezembro de 1640, Portugal re- tomou sua independência, quando o duque de Bra- gança foi coroado rei, com o nome de Dom João IV, e cujo reinado durou até 1656. Sob dominação filipina, o Barroco português foi significa- tivamente influenciado pelo espanhol, principal foco irra- diador dessa estética que expressa a espiritualidade e o teocentrismo medievais misturados ao racionalismo e ao antropocentrismo herdadosdo Renascimento. 2.2. A arte barroca a ceia eM eMaús, de caravaGGio. O barroco português floresce em uma Europa impactada pelas grandes navegações dos anos 1500, pelas grandes conquistas, pela explosão da Reforma Protestante e pelo poder monárquico absolutista. Ele traduz o drama do ho- mem “entre o céu e a Terra”, atormentado pela fé, pela existência após a morte e pelo julgamento de atos pratica- dos durante o “trânsito terreno”. No final do século XVI e início do século XVII, convivem dois modos de ver o mundo: o paganismo renascentista em decadência e a religiosidade barroca emergente. A ex- pressão plástica barroca caracteriza-se pela exacerbação dos tons mais altos e mais coloridos e das texturas mais ricas: mais decoração, mais luz e sombra em busca deli- berada de efeitos. Na literatura, duas tendências de estilo manifestam-se no Barroco: o cultismo e o conceptismo. O cultismo é mais próprio da poesia, e o conceptismo, da prosa, sem, contudo, excluírem-se no conjunto da criação literária. Uma mesma obra pode tanto pender para uma delas quanto apresentar traços de ambas as tendências. 2.2.1. Cultismo Trata-se da preferência pelo rebuscamento formal da lingua- gem por meio de jogos de palavras, figuras de linguagem, 43 vernáculo preciosista, efeitos sensoriais – cor, som, forma, volume, sonoridade, imagens eloquentes e fantasiosas. Co- nhecer é descrever mediante sensações nada econômicas. Metáforas, antíteses, sinestesias, trocadilhos, dicotomias e hi- pérbatos compõem os textos barrocos. A realidade é retrata- da de forma indireta através da habilidade verbal do escritor. A tendência do Barroco cultista também recebeu o nome de gongorismo, cujo escritor mais eloquente foi o poeta espanhol Luis de Góngora. O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga que é parte sendo todo. Em todo sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em parte todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo. Gregório de Matos Caravaggio - Direção: Derek Jarman - 1986 A curta vida do pintor italiano Michelan- gelo Merisi da Caravaggio (Nigem Terry) desde a infância e decepções do início da carreira até os ultimos sucessos, a amizade com um cardeal e a relação destrutiva com um lutador (Sean Bean) e sua namorada (Tilda Swinton). multimídia: vídeo 2.2.2. Conceptismo (do espanhol concepto, ideia) Trata-se de linguagem pautada no raciocínio e no pensamen- to lógico. Os argumentos são centrados na inteligência e na razão em busca da concisão e da coesão, sempre disciplina- dos pela lógica e seus mecanismos oferecidos por analogias, silogismos e sofismas. Essa tendência também recebeu o nome de quevedismo, graças ao estilo marcante do poeta espanhol Francisco Gómez de Quevedo. [...] Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que pas- se dos setes anos [...] nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade, febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixara de variar, se for firme, mas não deix ara de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o enten- dimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Padre antonio vieira. serMão do Mandato 2.3. Características do Barroco literário O Barroco se caracteriza como uma arte tensa que oscila entre opostos, marcada por uma crise de valores e pelas contradições entre o espírito cristão, antiterreno e teocên- trico e o espírito renascentista, antropocêntrico, racionalis- ta e mundano. 2.3.1. Conflitos e descontentamentos existenciais No Barroco, a indefinição entre o divino e o terreno se traduz em conflito e descontentamento existencial humano. São co- muns os temas pessimistas, as advertências sobre a brevida- de da vida e a ênfase na dor e na vergonha de permanecer em pecado. A relação com a vida terrena é pessimista, só amenizada com a crença na vida celeste. O tema da penitên- cia é constantemente destacado pelo martírio da dor. 2.3.2. Ideias em confronto No Barroco, predomina o gosto pela aproximação de reali- dades em oposição; a submissão e a vida recatada propostas pela Igreja contrarreformista em contraposição aos desejos humanos e materiais. Nesse sentido, à possibilidade de as- censão social, propiciada pelo momento histórico, contra- põe-se a impossibilidade da estrutura social fechada. Proli- feram temas constantemente contraditórios, oscilantes entre matéria e amor, carne e espírito, amor ideal e amor humano. 44 cristo Bailarino. Madeira coM vestíGios de PolicroMia. aleijadinho (1781-1790) 2.3.3. Tendência ao dualismo e ao culto do contraste Com a intenção de aproximar opostos, a visão do universo dualista é, simultaneamente, mística e sensual, religiosa e erótica, espiritual e humana. O homem vive em confli- to com o mundo. Para representar esse conflito, abundam antíteses, metáforas, sinestesias e hipérboles. detalhe Preciosista de iGreja Barroca. O estilo barroco europeu do século XVII recebeu denomi- nações particulares em cada país: § Espanha – gongorismo, originado do nome do poeta Luis de Góngora (1561-1627). § Inglaterra – eufuísmo, derivado do nome da obra Euphues, or the anatomy of wit, do escritor John Lyly (1554-1606). § Itália – marinismo, derivado do nome de Gianbattista Marino (1569-1625). § França – preciosismo, em razão do exagero da forma preciosista, afetada e extremamente rebuscada na cor- te do rei Luis XIV. § Alemanha – silesianismo, estilo característico dos es- critores da região da Silésia. 2.4. O Barroco em Portugal Durante o período Barroco, Portugal vivia uma crise de identidade, uma vez que estava sob o domínio político da Espanha. Dois aspectos caracterizam a produção literária desse período: o esforço dos portugueses de preservar sua cultura e língua e a Contrarreforma, que deu à produção literária amplo caráter religioso, como as obras do padre Antônio Vieira, principal escritor português do século XVII. Em 1580, dois fatos significativos marcaram a vida cultu- ral e política de Portugal: a morte de Camões e a passa- gem do país para o domínio espanhol (1580-1640). A literatura e as artes portuguesas foram impactadas pelas manifestações culturais espanholas, que conheceram nesse período o “século de ouro” – Cervantes, Góngora, Queve- do, Lope de Vega e Calderón de La Barca são escritores fundamentais desse período. O florescimento do Barroco em Portugal não ocorreu com a mesma intensidade como na Espanha. Os escritores portugueses procuraram preser- var a língua e a cultura lusitanas como uma maneira de resistência política ao domínio espanhol. Assumiram uma postura saudosista, valorizando personagens e escritores do passado heroico recente: Vasco da Gama, Dom Sebas- tião, Camões, etc. No contexto da Contrarreforma, o Barroco português tam- bém ganhou fortes matizes religiosos. A atuação da Com- panhia de Jesus e do Tribunal da Inquisição, instaurado em Portugal em meados do século XVI, completaram o quadro cultural lusitano daquele período religioso e austero. 2.5. O Barroco no Brasil O ano de 1601 indica o marco inicial do Barroco brasi- leiro, quando Bento Teixeira publicou o poema épico Prosopopeia, com estrofes em oitava rima e versos decas- sílabos, tal qual Os Lusíadas, de Camões, cujo modelo ele seguiu de perto. Ainda que naquela época não houvesse um público leitor significativo no Brasil, a poesia barroca ganhou impulso com a fundaçãode várias academias literárias entre os anos de 1720 e 1750. Perduraram por todo o século XVII e início do século XVIII, mas foram sufocadas pela fundação, em 1768, da academia Arcádia Ultramarina e pela as- censão da poesia árcade. 2.5.1. Peculiaridades do Barroco brasileiro Embora o Barroco brasileiro esteja ligado aos modelos lusi- tano e espanhol, ele possui algumas peculiaridades. Durante todo o século XVII, sob o domínio da coroa es- panhola, continuavam a chegar ao Brasil imigrantes – portugueses e demais europeus – atraídos pela riqueza e interessados na exploração da terra. Foi o caso dos franceses, que tentaram dominar o Maranhão no come- ço do século XVII. 45 Entretanto, a presença estrangeira mais marcante foi a dos holandeses. O general de origem alemã Johann Maurits, conhecido como conde Maurício de Nassau, enviado pela Companhia das Índias Ocidentais com o fim de controlar o comércio do açúcar nordestino, desembarcou no Brasil, em Recife, em 1637, quando já se estabilizara o domínio holandês nas colônias portuguesas, iniciado em 1624. Nassau trouxe consigo uma equipe cultural com pintores, arquitetos, escritores, naturistas, médicos, astrólogos, entre outros, com o objetivo de documentar as terras ocupadas pela Holanda e conseguir investimentos europeus para a produção açucareira. Com Nassau, Recife sofreu uma verdadeira reformulação urbana: foram construídos jardins, lagos e um palácio para a acomodação de Nassau na ilha de Antônio Vaz. A cida- de inteira foi modelada a seu gosto. A cidade Maurícia, ao lado de Recife, entre a foz do rio Capibaribe e Beberibe, emergiu sob sua administração. As características desse período ficaram registradas em pinturas e desenhos de Frans Post, encarregado das paisa- gens e feitos do Governador-Geral, e Albert Eckout, respon- sável pelo registro dos tipos humanos, da fauna e da flora da “Nova Holanda”, nome de Pernambuco naquela época. Frans Post tinha apenas 24 anos quando chegou ao Bra- sil. Morador de Recife entre 1637 e 1644, acompanhou a movimentada campanha do governador, documentando a paisagem e registrando portos e fortificações do Mara- nhão à Bahia. aleijadinho. 2.5.2. Um Barroco miscigenado O mundo colonial brasileiro do século XVII não foi influen- ciado apenas pelo Barroco português. Foi, sobretudo, pres- sionado economicamente, graças à imensa exploração de riquezas naturais, principalmente de ouro. Em função disso, o Barroco brasileiro tornou-se uma manifestação miscige- nada das culturas europeia, negra e nativa. Os espaços do Brasil colonial que lhe serviram de cenário foram principal- mente o Nordeste e o estado de Minas Gerais. Ligado ao ciclo da cana-de-açúcar, o Barroco nordestino aproximou-se da aristocracia rural, exuberante e pomposa, e refletiu-se na riqueza das construções eclesiásticas e nas amplas acomodações das casas-grandes. A cidade de Salvador, na Bahia, ainda conta com cerca de 80 igrejas e vários solares e casarões inspirados no Barroco. No século XVIII, o Barroco mineiro sobrepujou o da metrópole portuguesa, notadamente nas cidades auríferas de Minas Gerais. Naquela região, sobressaíram as notáveis obras do escultor e arquiteto Antonio Fran- cisco Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho, cujo trabalho pautou-se pela experiência com materiais locais – pe- dra-sabão e madeira. O pintor Manuel da Costa Ataíde (1762-1830) deixou mostras de seu talento em pinturas e afrescos nos tetos e laterais de igrejas mineiras. 1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO Vinte anos da vida de Colombo, desde quando se convenceu de que o mundo era redondo, passando pelo empenho em conseguir apoio financiero da Coroa espanhola para sua expedição, o desco- brimento em si da América, o desastroso comportamento que os europeus tiveram com os habitantes do Novo Mundo e a luta de Colombo para colonizar um con- tinente que descobriu por acaso, além de sua decadência na velhice. multimídia: vídeo 46 DIAGRAMA DE IDEIAS BARROCO QUINHENTISMO PERO VAZ DE CAMINHA E JOSÉ DE ANCHIETA USO DE ANTÍTESES E PARADOXOS CULTISMO E CONCEPTISMO LITERATURA DE INFORMAÇÃO E LITERATURA JESUÍTICA MOVIMENTO VINCULADO A CONFLITOS DE CUNHO RELIGIOSO HUMANISMO CLASSICISMO ...TROVADORISMO IDADE MÉDIA IDADE MODERNA Dividido em duas seções, “Concepções Bar- rocas” e “Experiências Barrocas”, o volume examina esse fenomêno de arte notadamente nos séculos XVII e XVIII, sem esconder do lei- tor observações realmente novas e sugestivas concernentes ao estilo, que muitos reputam ser de glória, outros digno de períodos de decadência, mas que, todavia, emprestou às cidades históricas de Minas o seu fausto e o ar sempiterno que ressumam. O barroco - Victor Lucien Tapié multimídia: livros Em capítulos que vão de Anchieta à indústria cultural, Alfredo Bosi, o conceituado autor da clássica História concisa da Literatura Brasi- leira, persegue com sensibilidade as formas históricas que anlaçaram colonização, culto e cultura. Dialética da colonização é o resultado deste percurso sui generis na história do pen- samento brasileiro. Dialético da colonização - Alfredo Bosi multimídia: livros 47 gregório de mAtos guerrA, o bocA do inferno CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17 AULAS 11 e 12 1. o Primeiro PoetA brAsileiro: AdeQuAção e irreverênciA Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta bar- roco brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e sa- tírica no Brasil. Nasceu em Salvador, estudou no Colégio dos Jesuítas e depois em Coimbra (Portugal), onde cursou Direito, tornou-se juiz e ensaiou seus primeiros poemas sa- tíricos. De volta ao Brasil, em 1681, exerceu os cargos de tesoureiro-mor e de vigário-geral, apesar de sempre ter se recusado a vestir-se como clérigo. Graças às suas sátiras, foi perseguido pelo governador baiano Antônio de Souza Menezes, o “Braço de Prata”. Depois de se casar com Maria dos Povos e exercer a advo- cacia, saiu pelo Recôncavo baiano como cantor itinerante, dedicando-se às sátiras e aos poemas erótico-irônicos, o que lhe custou alguns anos de exílio em Angola. Voltou doente ao Brasil e, impedido de entrar na Bahia, morreu em Recife. Ao contrário do padre Antônio Vieira, Gregório foi de encontro a uma tendência generalizadora da época, alas- trando-se e acolhendo a poesia religiosa, os costumes e a reflexão moral. Em relação aos temas, convivem em seus poemas um de- senfreado sentimento de sensualismo, erotismo e paixão idealizada. Seus poemas são dados ao gosto pelo jogo de palavras e das brincadeiras. 1.1. Cronologia biográfica Gregório de Matos viveu durante o ciclo da cana-de-açúcar e fez parte da elite, à qual ele mesmo se contrapôs, ao se indignar com o atraso da sociedade patriarcal brasileira depois de voltar de Portugal. Ele nada publicou em vida. Depois de sua morte, seus ma- nuscritos foram reunidos em um códice, cuja capa trazia o brasão da Coroa portuguesa com a seguinte insígnia: Inéditas poezias do doutor Gregório de Mattos Guerra. § 1636 – Em 20 de dezembro, Gregório de Matos Guerra nasce em Salvador, Bahia. § 1650 – Viaja para Lisboa aos 14 anos. § 1652 – Incentivado pelo pai, matricula-se na Uni- versidade de Lisboa. § 1661 – Forma-se na universidade e casa-se com dona Michaela de Andrade. § 1662 – Conclui o bacharelado em Coimbra. § 1663 – Nomeado juiz de fora em Alcácer do Sal, no Alentejo. § 1672 – Nomeado procurador da cidade da Bahia. § 1674 – Deixa o cargo de procurador. § 1678 – Fica viúvo. § 1691 – Casa-se, pela segunda vez, com Maria dos Povos. § 1694 – Degredado para Angola. § 1696 – Morre no estado de Pernambuco, porque foi proibido de voltar a Salvador. ilustração de caryBé Para o livro Bahia: iMaGens da terra e do Povo. 48 1.2. O “língua de trapo” Gregório de Matos primou pela irreverência ao afrontar os valores e a falsa moral da sociedade baiana de seu tempo, cujo comportamento era considerado indecoroso. Irreverente como poeta lírico, seguiu e rompeu ao mesmocom os modelos barrocos europeus. Como poeta satírico, denunciou as contradições da sociedade baiana de século XVII, alvejando os grupos sociais – governantes, fidalgos, comerciantes, escravos, mulatos etc. A linguagem empregada agrega ao código da língua por- tuguesa vocábulos indígenas e africanos, bem como pala- vras de baixo calão. Pelo fato de não ter publicado nenhuma obra em vida, seus poemas foram transmitidos oralmente, até meados do século XIX, quando então foram reunidos em livro por Varnhagen. Esse trabalho enfrentou alguns problemas de natureza autoral. Os copistas não necessariamente obedeceram a critérios científicos para tal. Há controvérsias sobre a au- toria de alguns poemas atribuídos a ele e é comum que um mesmo texto apresente variações de vocabulário ou de sintaxe, dependendo da edição consultada. Apesar disso, a obra de Gregório de Matos vem sendo re- conhecida como a que iniciou uma tradição entre nós, bem como superou os limites do próprio Barroco. Em pleno século XVII, o poeta chegou a ser um dos precursores da poesia moderna brasileira do século XX. Exemplo desse pioneiris- mo é a semelhança do poema “Ao mesmo desembargador Belchior da Cunha Brochado” com o poema “Rosa tumultu- ada”, de Manuel Bandeira (poeta do século XX). 1. Erobo: mitologia, nome das trevas infernais, “onde nun- ca chega o dia”. Entenda-se: já que tanto garbo tanta energia são gentil glória desta terra, que sejam também alegria da terra mais remota (isso é, o Erebo). PoeMas escolhidos de GreGório de Matos. seleção e Prefácio de josé MiGuel Wisnik. são Paulo: coMPanhia das letras, 2010, P. 205. Em pleno século XVII, surge na Bahia o poeta Gregório de Mattos (Waly Salomão), que com sua obra e vida trágicas anuncia o perfil tenso e dividido do povo brasileiro. Com sua produção literária, o poeta cria situações desconfortáveis aos poderosos da época, que passam a combatê-lo até transformar sua vida em um verdadeiro inferno. fonte: youtuBe multimídia: vídeo GREGÓRIO DE MATTOS Aborda os poemas satíricos de Gregório de Matos, tratados retóricos da época e documentos históricos, como as delações de pecados e heresias ao Santo Ofício e as atas da Câmara de Salvador. Analisa a sátira de Gregório de Matos a partir da tradição retórica do século XVII, em que a obscenidade e a maledicência estão previstas por regras precisas. Convida o leitor a um fascinante mergulho na poética clássica de Aristóteles e Quintiliano e na barroca de Gracián e Tesauro. A sátira e o engenho - Gregório de Matos e a Bahia do século XVII multimídia: livros 49 Manuel Bandeira. estrela da tarde. 3. ed. são Paulo: GloBal, 2012, P. 139. Foi apelidado de Boca do Inferno, graças à sua poesia satírica, dirigida aos governantes corruptos, a religiosos li- cenciosos e às hipocrisias da sociedade. Seus mais de 700 poemas de todos os gêneros e estilos poéticos (exceto o épico) permaneceram inéditos até o século XX. Entre os anos de 1923 e 1933, a Academia Brasileira de Letras or- ganizou e publicou seis volumes deles: I. Poesia sacra; II. Poesia lírica; III. Poesia graciosa; IV e V. Poesia satírica; e VI. Últimas. 1.3. Poesia satírica Não poupa aspecto algum do sistema e do poder, o que faz dele um poeta maldito. Provoca os políticos e ridiculariza os que viviam para bajular e louvar os poderosos, traços que contribuíram para o “abrasileiramento” do Barroco importado da Europa. Crítico social mordaz, vive em uma sociedade de compe- tição, na qual vence quem for mais esperto ou desonesto. Este soneto vem precedido da seguinte explicação: “Contemplando nas coisas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com seu ápage, como quem a nado escapou da tormenta.” Neste mundo é mais rico o que mais rapa: Quem mais limpo se faz, tem mais carepa Com sua língua, ao nobre o vil decepa: O velhaco maior sempre tem capa. Mostra o patife da nobreza o mapa: Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa: Quem menos falar pode, mais increpa: Quem dinheiro tiver, pode ser Papa. A flor baixa se inculca por tulipa: Bengala hoje na mão, ontem garlopa: Mais isento se mostra o que mais chupa. Para a tropa do Trapo vazo a tripa, E mais não digo, porque a Musa topa Em apa, epa, ipa, opa, upa. caricatura de GreGório de Matos Salvador, final do século XVII. Nessa cidade de desmandos e devassidão, desenrola-se a trama do Boca do Inferno, recriação de uma época turbulenta centrada na feroz luta pelo poder que opôs o governador Antonio de Souza Menezes, o temível Braço de Prata, à facção liderada por Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam parte o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos. Boca do Inferno - Ana Miranda multimídia: livros Numa interpretação totalizadora dos múltiplos aspectos que se conjugam estética e historicamente no fenômeno do Barroco e sobretudo de sua manifestação brasileira, O lúdico e as projeções do mundo barroco, de Affonso Ávila, procura não só especificar o papel do Barroco na formação da singularidade nacional, como iluminar criticamente a nossa faixa na aldeia de McLuhan e, a partir daí, aferir a dimensão da nossa presença na galáxia da modernidade. O lúdico e as projeções do mundo barroco - Affonso Ávila, Perspectiva, 1971 multimídia: livros 50 ápage: desaprovação, raiva; carepa: caspa, sujeita; vil: reles, ordinário; decepa: destrói; increpa: censura; inculca: finge, insinua; garlopa: trabalhador braçal “Para a tropa do trapo vazo a tripa é uma expressão idiomática que se aproxima de não quero mais dar importância a esse bando de miseráveis”. Wisnik, josé MiGuel. PoeMas escolhidos de GreGório de Matos. são Paulo: cultriX, 1976. No poema a seguir, há uma crítica impiedosa à incompe- tência, à promiscuidade e à desonestidade. O poema vem precedido da seguinte explicação: “Torna a definir o poeta os maus modos de obrar na go- vernança da Bahia, principalmente naquela universal fome, que padecia a cidade.” Epílogo Que falta nesta cidade?... Verdade. Que mais por sua desonra?... Honra. Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Nesta cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. [...] E que justiça a resguarda?... Bastarda. É grátis distribuída?... Vendida. Que tem, que a todos assusta?... Injusta. Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça, Que anda a justa na praça Bastarda, vendida, injusta. [...] O açúcar já se acabou?... Baixou. E o dinheiro se extinguiu?... Subiu. Logo já convalesceu?... Morreu. À Bahia aconteceu O que a um doente acontece, Cai na cama, o mal lhe cresce, Baixou, subiu, morreu. A câmara não acode?... Não pode. Pois não tem todo o poder?... Não quer. É que o governo a convence?... Não vence. Quem haverá que tal pense, Que uma câmara tão nobre, Por ver-se mísera e pobre, Não pode, não quer, na vence. diMas, antônio. GreGório de Matos. são Paulo: aBril educação, 1981. 1.4. Poesia lírica: sacra e amorosa A poesia lírica de Gregório de Matos é idealista, às vezes emocional, às vezes conceitual, mas frequentemente preocupada em entender contradições, como ensina o professor Antonio Candido. A lírica sacra ressalta o senso do pecado ao lado do desejo do perdão. A Jesus Cristo Nosso Senhor Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque, quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido: Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida e já cobrada Glória tal e prazer tão repentinho Vos deu, como afirmais na Sacra História: Eu sou, senhor, a ovelha desgarrada, Cobrai-a; e a não queirais, Pastor divino, Perder na vossa ovelha a vossa glória. despido: despeço; delinquido: cometido delito; empenhado: comprometido Wisnik, josé MiGuel. PoeMas escolhidos de GreGório de Matos. são Paulo: cultriX, 1976. O lirismo amoroso é contraditório, marcado pela ambigui- dade da mulher, vista como umadualidade entre matéria e espírito. No soneto abaixo, dedicado à dona Ângela de Souza Paredes, o eu lírico está diante do dilema: qual a finalidade da beleza, se ela leva à perdição? Que papel tem o anjo (a mulher admirada), se causa a desventura? Não vira em minha vida a formosura, Ouvia falar dela a cada dia E ouvida, me incitava e me movia A querer ver tão bela arquitetura: Ontem a vi, por minha desventura Na cara, no bom ar, na galhardia De uma mulher, que em Anjo se mentia De um Sol, que se trajava em criatura: Matem-me, disse eu vendo abrasar-me, Se esta a coisa não é, que encarecer-me Sabia o mundo e tanto exagerar-me: Olhos meus, disse então por defender-me, Se a beleza heis de ver para matar-me, Antes olhos cegueis, do que eu perder-me 1.5. Poesia lírica filosófica A lírica filosófica de Gregório de Matos revela um poeta que, tal qual os clássicos, transmite um forte senso do “desconcerto do mundo”, ocupa-se com a transitoriedade da vida, o escoamento do tempo e a fragilidade do homem. À instabilidade das coisas no mundo Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se é tão formosa a Luz, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia? 51 CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS Artes Plásticas frans Post, 1612-1680. Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza, Na formosura não se dê constância, E na alegria sinta-se tristeza. Começa o mundo enfim pela ignorância, E tem qualquer dos bens por natureza A firmeza somente na inconstância. Matos, GreGório de. oBra coMPleta. são Paulo: cultura, 1943. O tema desse soneto detém-se no estado transitório da condição humana. A antítese repete-se na tentativa de aproximação entre duas ideias naturalmente opostas. Na segunda estrofe, todos os versos interrogam o eu poético, bem como o deixam perplexo diante do mistério do universo. Essa é uma visão de mundo que corresponde à arte bar- roca: o homem é um ser instável em face da realidade que lhe faz apelos dirigidos aos sentidos, dirigidos ao espírito. Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM 15 Habilidade Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade analítica básica a arte literária (contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a história e as relações sociais e políticas nela impressas. Esta relação entre o texto literário e o contexto político requer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso: “política não se discute”, pois no Enem não só se discute, como serve de base para resolução das questões de Literatura. 52 Modelo (Enem) Quando Deus redimiu da tirania Da mão do Faraó endurecido O Povo Hebreu amado, e esclarecido, Páscoa ficou da redenção o dia. Páscoa de flores, dia de alegria Àquele povo foi tão afligido O dia, em que por Deus foi redimido; Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia. Pois mandado pela Alta Majestade Nos remiu de tão triste cativeiro, Nos livrou de tão vil calamidade. Quem pode ser senão um verdadeiro Deus, que veio estirpar desta cidade o Faraó do povo brasileiro. (daMasceno, d. Melhores PoeMas: GreGório de Matos. são Paulo: 2006) Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de Matos apresenta temática expressa por a) visão cética sobre as relações sociais. b) preocupação com a identidade brasileira. c) crítica velada à forma de governo vigente. d) reflexão sobre dogmas do Cristianismo. e) questionamento das práticas pagãs na Bahia. Análise expositiva: O poema de Gregório de Matos estabelece uma intertextualidade com as Sagradas Escrituras: “Quando Deus redimiu da tirania/Da mão do Faraó endurecido”. Entender as características do escritor é premissa básica para a resolução da questão. Gregório de Matos, conhecido como o “Boca do Inferno” utilizava sua literatura como meio de criticar a sociedade de sua época, ainda que o fizesse por meio de metáforas, como ocorre no texto acima: “Deus, que veio estirpar desta cidade/o Faraó do povo brasileiro.” Alternativa C C 53 O BOCA DO INFERNO GREGÓRIO DE MATOS GA- NHOU O APELIDO DE “BOCA DO INFERNO” POR CONTA DE SUAS POESIAS SATÍRICAS E SUA CRITÍCAS AO GOVERNO BAIANO. O BARROCO É TAMBÉM CONHECIDO COMO SEISCENTISMO. DE FAMÍLIA RICA, GREGÓRIO DE MATOS GUERRA NASCEU NA BAHIA NO ANO 1636. ESTUDOU NO COLÉGIO DOS JESUÍTAS E SEGUIU PARA COIMBRA, ONDE SE FORMOU EM DIREITO EM 1661. POR CONTA DE SUA PERSONALIDADE SATÍRICA E DE SUA VIDA BOÊMIA, GREGÓRIO FOI DEPORTADO PARA ANGOLA. ALGUM TEMPO DEPOIS VOLTOU AO BRASIL COM O APOIO DO GOVERNADOR, MAS FOI PROIBIDO DE VOLTAR À BAHIA DESEMBARCANDO EM PERNAMBUCO. MORREU OBSCURAMENTE NO RECIFE NO ANO 1696 E FOI ENTERRADO NA CAPELA DO HOSPÍCIO DE NOSSA SENHORA DA PENHA. POUCO TEMPO DEPOIS A CAPELA FOI DEMOLIDA E NÃO EXISTEM VESTÍGIOS DE SEUS RESTOS MORTAIS. OS POEMAS DE GREGÓRIO DE MATOS PODEM SER CLASSIFICADOS COMO LÍRICO-FILOSÓFICOS, RELIGIOSOS E SÁTIROS. DIAGRAMA DE IDEIAS GREGÓRIO DE MATOS 21 4 5 3 54 PAdre Antônio vieirA CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17 AULAS 13 e 14 1. PAdre Antônio vieirA e o convencimento dA fé cristã Antônio Vieira (1608-1697) é a principal expressão do Barroco em Portugal. Sua obra pertence tanto à literatu- ra portuguesa quanto à brasileira. Compreende um vasto campo temático que vai da religião à política, passando pela diplomacia num desfile de sua mais interessante ca- pacidade: a de orador e pregador da fé cristã. Português de origem, Vieira tinha sete anos quando veio com a família para o Brasil. Na Bahia, estudou com os jesu- ítas e espontaneamente ingressou na Companhia de Jesus, iniciando seu noviciado com apenas 15 anos. A maior parte de sua obra foi escrita no Brasil. Desempenhou várias ati- vidades como religioso, conselheiro de Dom João IV, rei de Portugal, e como mediador de Portugal em conflitos eco- nômicos e políticos com outros países. 1.1. O homem de ação e lábia Embora religioso, Vieira nunca restringiu sua atuação à pregação religiosa. Seus sermões estiveram a serviço das causas políticas que abraçava e defendia, o que o levou a se indispor com muita gente: pequenos comerciantes que escravizavam índios e até com a Inquisição. Atacava os se- nhores de escravos, bem como cobrava de Lisboa as deter- minações que tolhiam a liberdade dos índios; questionava os capitães-mor pela desobediência às determinações reli- giosas. Isso e muito mais foram fatores determinantes para sua expulsão, bem como a de outros jesuítas do Brasil. Valendo-se do púlpito – único meio de propagação de ideias às multidões no Nordeste brasileiro do século XVII –, Vieira pregou a índios, brancos, negros, brasileiros, afri- canos, portugueses, dominadores e dominados. Suas ideias políticas impregnavam a catequese jesuíta em defesa do índio e do domínio português sobre a colônia por ocasião da invasão holandesa. Di sp on íve l e m: <h ttp :// ww w. co leg iow eb .co m. br > PreGação de vieira História do padre Antônio Vieira, nascido em Portugal, em 1608, e que morreu em Salvador, Bahia, em 1697. Considerado um dos maiores escritores portugueses, mestre na retórica, ele foi perseguido e executado pela Inquisição por sua posição contra a escravidão e o colonialismo, as- sim como por sua simpatia aos judeus. fonte: youtuBe multimídia: vídeo Sermões - a história de Antônio Vieira 55 Medalha do Padre antônio vieira, esculPida Por dorita castelo Branco. Embora Vieira defendesse os índios da escravidão, seus ser- mões eram reticentes em relação à escravização dos negros. Limitavam-se a descrever a situação a que eram submetidos os negros e a apontar a perspectiva de uma pós-morte que compensasse os sofrimentosem vida. “A realidade na qual Vieira procura interferir não é diretamente a exterior, mas a interior, tentando mudar as convicções tanto dos negros como dos brancos. Por isso, nestes sermões ele se dirige aos dois, ora a um, ora a outro, sabendo que o ouvem continua- mente” comenta o historiador Luiz Roncari (Literatura brasi- leira – dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp/FDE, 1995. p. 167). Observe tal postura neste fragmento do “Sermão Vigésimo Sétimo”. “Umas religiões são de descalços, outras de calçados; a vossa é de descalços e despidos. O vosso hábito é da mesma cor; porque não vos vestem as peles das ovelhas e camelos, como a Elias, mas aquelas com que vos cobriu ou descobriu a natu- reza, expostos aos calores do sol e frios das chuvas. A vossa pobreza é mais pobre que a dos menores, e a vossa obediên- cia mais sujeita dos que nós chamamos mínimos. As vossas abstinências mais merecem nome de fome, que de jejum, e as vossas vigílias não são de uma hora à meia-noite, mas de toda a noite sem meio. A vossa regra é uma ou muitas, porque é a vontade e vontades de vosso senhores. Vós estais obrigados a eles, porque não podeis deixar o seu cativeiro, e eles não estão obrigados a vós, porque vos podem vender a outro, quando quiserem. Em uma só religião se acha este contrato, para que também a vossa seja nisto singular. Nos nomes do vosso tratamento não falo, porque não são de re- verência nem de caridade, mas de desprezo e afronta. Enfim, toda a religião tem fim e vocação, graça particular. A graça da vossa são açoutes e castigos” [...]. 1.2. Padre visionário Vieira também foi sonhador e profeta, chegou a escrever três obras nesse sentido: História do futuro, Esperança de Portugal e Clavis Prophetarum. Baseado em textos bíblicos e nos textos proféticos do po- eta português Bandarra, ele acreditava na ressurreição do rei Dom João IV, seu protetor, morto em 1656. Essas ideias constam em Esperança de Portugal. Em razão delas, entre 1665 e 1667, foi processado e preso pela Inquisição e teve cassado seu direito à palavra em Portugal. vieira na redução das triBos de Marajó, 1657. theodoro BraGa (1917). Constam desse processo também acusações de envolvimen- to com cristãos-novos – judeus convertidos ao cristianismo por medo de perseguição. Em vez de atacar os judeus, como se fazia nos países católicos pressionados pela Inquisição, Vieira defendia a permanência e a entrada deles em Portugal como forma de estimular o comércio naquele país. Paralela- mente, prevendo um “Terceiro Estado” da Igreja, tinha inte- resse em fazer um acordo teológico secreto com os judeus. antônio vieira 56 1.3. O orador As qualidades de Vieira como orador são incomparáveis. Dotado de boa formação jesuítica à estética barroca em voga, pronunciou sermões que se tornaram ao mesmo tempo a expressão máxima do Barroco em prosa sacra e uma das principais expressões ideológicas e literárias da Contrarreforma. Pregou no Brasil, em Portugal e na Itália, sempre com grande repercussão. Entre sua vasta produção de mais de duzentos sermões e quinhentas cartas, destacam-se: § Sermão da sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, cujo tema é a arte de pregar. § Sermão pelo bom sucesso das armas de Por- tugal contra as de Holanda, proferido na Ba- hia, em 1640, posiciona-se contra à invasão holandesa. § Sermão de Santo Antônio (aos peixes), proferi- do no Maranhão, em 1654, ataca a escravização de índios. § Sermão do mandato, proferido na Capela Real de Lisboa, em 1645, desenvolve o tema do amor místico. PúlPito da iGreja de nossa senhora da ajuda, eM salvador (Ba), de onde vieira PreGou. 1.3.1. Sermão da sexagésima Metalinguagem Proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, é tam- bém conhecido como Sermão da Palavra de Deus. A arte de pregar é seu tema. Com o objetivo de analisar “por que não frutifica a Palavra de Deus na Terra?”, pro- põe-se a demonstrar que os verdadeiros culpados são os pregadores que usam da palavra apenas com um objetivo ornamental, sem desenvolver eficazmente uma argumen- tação capaz de frutificar nos ouvintes. “Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pre- gador e do ouvinte, por qual deles devemos entender a falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?”. Excluindo a culpa de Deus e inocentando os ouvintes, a culpa recai nos pregadores, conforme se percebe no desen- rolar da argumentação: “Primeiramente, por parte de Deus, não falta e nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definidas no Concílio Tridentino e no nosso Evangelho a temos.” [...] “Os pregadores deitam a culpa nos ouvintes, mas não é assim. Se for por parte dos ouvintes, não fizera a Palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.” [...] “Sabeis, cristãos, por que não faz fruto a Palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que não faz fruto a Palavra de Deus? Por culpa nossa.” Leia com atenção alguns trechos do “Sermão da sexagésima”. Trecho I Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão Em 1663, o padre Antônio Vieira é chamado a Coimbra para comparecer diante do Tribunal do Santo Ofício, a terrível Inquisição. As intrigas da corte e uma desgraça passageira enfraquecem a sua posição de célebre pregador jesuíta e amigo íntimo do falecido rei D. João VI. fonte: youtuBe multimídia: vídeo Palavra e Utopia 57 afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser mui- to natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear: [...] Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte; caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. ‘Caía o trigo nos espinhos e nascia’ [...] ‘Caía o trigo nas pedras e nascia’ [...] ‘Caía o trigo na terra boa e nasci’. Ia o trigo caindo e ia nascendo. Trecho II [...] o pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrinha ou azuleja. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, de outra há de estar negro; se de uma parte está dia, de outra há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? [...] Trecho III Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter var- iedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão de nascer diversos ramos, que soa diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discur- sos hão de ser vestidos e ornados de palavras. [...] Trecho IV Mas dir-me-eis: padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? – esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a Palavra de Deus. O Sermão da sexagésima é a peça maior da oratória do padre Vieira, mas outros também se destacaram. 1.3.2. Sermão pelo bomsucesso das armas de Portugal contra as de Holanda O Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda foi proferido na Bahia, na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em 1640. O orador chama o povo ao combate contra os holandeses, desenhando a figura dos flamengos, protestantes, como hereges. A Bahia estava para cair sob o jugo dos holandeses. interior da iGreja de nossa senhora da ajuda, eM salvador (Ba), onde o Padre vieira Proferiu o serMão contra os holandeses. Trecho I (...) Pequei, que mais Vos posso fazer? E que fizestes vós, Job, a Deus em pecar? Não Lhe fiz pouco; porque Lhe dei ocasião a me perdoar, e perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-Lhe-ei a Ele, como a causa, a graça que me fizer; e Ele dever-me-á a mim, como a ocasião, a glória que alcançar. (...). Em castigar, vencei-nos a nós, que somos criaturas fracas; mas em perdoar, vencei-Vos a Vós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de Vós, porque só vossa justiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia; e sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Trecho II Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens, mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. 1.3.3. Sermão de Santo Antônio (aos peixes) Sermão de Santo Antônio, também chamado de Ser- mão aos peixes, foi pregado em São Luís do Maranhão, em 1654, e refere-se a colonos que aprisionavam indígenas. Três dias antes do embarque escondido para Lisboa, na festa de Santo Antônio – 13 de junho de 1654 –, em São Luís do Maranhão, Vieira causou surpresa: em vez de tema- tizar os milagres de Santo Antônio, detona a situação que estava vivendo, a pressão contra sua pessoa e alerta aos ouvintes que se não quisessem ouvi-lo que fossem como Santo Antônio, pregaria aos peixes, que estavam ali a pou- cos passos. Os vícios e as virtudes dos homens são elen- cados na busca por uma legislação mais justa aos índios. 58 O sermão exalta as qualidades dos peixes, como a obediên- cia, e critica a soberba e o oportunismo. O principal defeito que ele aponta é a intensidade e a voracidade, uma vez que os peixes devoram uns aos outros, especialmente os maiores, que devoram os menores. Vieira exalta os peixes que, por sua natureza, não podem ser sacrificados vivos a Deus e sacrifi- cam-se então, em respeito e reverência. Trecho I Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repre- ender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto perten- ce só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: ’Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar.’ Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores ‘recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus’: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo re- preender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos. Trecho II Este é, peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, e a felicidade de que vos dou o parabém, não sem inveja. Descendo ao particular, infinita matéria fora se houvera de discorrer pelas virtudes de que o Autor da natureza a dotou e fez admirável em cada um de vós. De alguns somente farei menção. E o que tem o primeiro lugar entre todos, como tão celebrado na Escritura, é aquele santo peixe de Tobias a quem o texto sagrado não dá outro nome que de grande, como ver- dadeiramente o foi nas virtudes interiores, em que só consiste a verdadeira grandeza. Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acompanhava, e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio, eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em ação de que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, por- que lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e pergun- tando que virtude tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar, respondeu o anjo que o fel era bom para sarar da cegueira e o coração para lançar fora os demônios: Cordis eius particulam, si super carbones ponas, fumus eius extricat omne genus daemoniorum: et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabuntur. Assim o disse o anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque, sendo o pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um peque- no do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demônio, chamado Asmodeu, morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu dali o Demônio e nunca mais tornou. De sorte que o fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os demônios de casa a Tobias, o moço. Um peixe de tão bom coração e de tão proveitoso fel, quem o não louvará mais? Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo António. Trecho III Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irre- gularidade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que tomá-lo indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor que a minha razão e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade. Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para o servir a ele, e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente, porque o não ofendestes; eu espero que o hei de ver; mas com que rosto hei de aparecer diante do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender? Ah que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós, pois de um homaem que tinha as mesmas obrigações, disse a Suma Verdade, que ‘melhor lhe fora não nascer homem‘: Si natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos, peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso. 59 Neste volume, estão reunidas reflexões de especialistas na obra de padre Antônio Vieira, orador sacro do Barroco português/brasileiro, às quais se juntam estudos de mestrandos e doutorandos, apresentados em evento come- morativo realizado pelo Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros da PUC-Minas. Padre Antônio Vieira - 400 Anos Depois - Lelia Parreira Duarte e Maria Thereza Abelha Alves multimídia: livros Entre 13 de março e 18 de outubro de 2008, o Instituto de Estudos Portugueses (IdEP) (agora Grupo de Investigação Interdisciplinar de Estu- dos Portugueses, do Centro de História da Cul- tura) organizou um conjunto de atividades que decorreram na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, para comemorar o IV Centenário do Nascimento do Padre Antônio Vieira. Padre Antônio Vieira – O tempoe seus hemisférios multimídia: livros CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS Artes Plásticas eM oBra do século Xviii, o Padre antônio vieira aParece sendo eXPulso Por revoltosos no Maranhão. (fundação BiBlioteca nacional) 60 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM 15 Habilidade Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade analítica básica a arte literária (contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a história e as relações sociais e políticas nela impressas. Esta relação entre o texto literário e o contexto político requer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso: “política não se discute”, pois no Enem não só se discute, como serve de base para resolução das questões de Literatura. Modelo (Enem) Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um en- genho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. vieira, a. serMões. toMo Xi. Porto: lello & irMão, 1951 (adaPtado). O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e a) a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros. b) a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana. c) o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios. d) o papel dos senhores na administração dos engenhos. e) o trabalho dos escravos na produção de açúcar. Análise expositiva:O consagrado sermão apresentado por Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre o sofrimento de cristo crucificados e as condições de maus tratos sofridos pelos escravos nos enge- nhos de açúcar. Este pressuposto embasa a habilidade 15 cobrada pelo Enem que deseja que o estudante entenda sua denúncia para com o martírio vivido pelos cativos na sociedade colonial. Um trecho do texto que confirma esta proposição é: “Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”. Alternativa E E 61 O PADRE ANTÔNIO VIEIRA NASCEU EM LISBOA NO DIA 6 DE FEVEREIRO DE 1608. VEIO PARA O BRASIL COM SUA FAMÍLIA HUMILDE, DESEMBARCANDO NA BAHIA COM SEIS ANOS DE IDADE. SEU PAI FOI NO- MEADO ESCRIVÃO DOS AGRAVOS E APELAÇÕES DA RELAÇÃO DA BAHIA. FEZ SEUS PRIMEIROS ESTUDOS COM SUA MÃE, E DEPOIS NO COLÉGIO DOS JESUÍTAS. VIEIRA FEZ SEU PRIMEIRO SERMÃO EM PORTUGAL NO DIA 1º DE JANEIRO DE 1642. “OS HOMENS SÃO COMO OS OLHOS: VENDO TUDO NÃO SE VEEM A SI PRÓPRIOS”. PADRE ANTÔNIO VIEIRA DIAGRAMA DE IDEIAS PADRE ANTÔNIO VIEIRA 1 2 3 62 ArcAdismo em PortugAl: bocAge CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17 AULAS 15 e 16 1. o século dAs luzes Di sp on íve l e m: <h ttp :// vig ne tte 2.w iki a.n oc oo kie .ne t> No século XVIII ocorreram diversas transformações cultu- rais e sociopolíticas na Europa, como a ascensão da bur- guesia e a decadência da aristocracia, a ruptura definitiva com o mundo medieval e o surgimento do Iluminismo. Nesse contexto, para acompanhar o desenvolvimento das grandes nações europeias e satisfazer os interesses da bur- guesia, Portugal empreendeu diversas reformas econômi- cas, políticas, culturais e educacionais. No Brasil, por sua vez,, as manifestações da estética ar- cádica tiveram início na segunda metade do século XVIII. A atividade mineradora – já intensa desde 1700 – deter- minara mudanças na organização e na dinâmica da vida brasileira. Houve um aumento considerável na circulação de mercadorias e uma dinamização das regiões que abas- teciam com gado as Minas Gerais (Sul e Nordeste). Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, tornou-se centro eco- nômico e gerador de cultura, e o Rio de Janeiro se trans- formou em polo de produção e divulgação de ideias na Colônia, substituindo Salvador. A descoberta de ouro em Minas Gerais coincidiu com o declínio da lavoura da cana-de-açúcar, e o deslocamento do centro econômico do Nordeste para a região mineira provocou importantes mudanças sociais. Uma delas foi a substituição da vida rural pela urbana. Desenvolveu-se uma camada média da população influen- ciada pelos ideais burgueses. A atividade mineradora, ex- plorada pelos portugueses e mantenedora da riqueza de Portugal, foi a responsável pela “derrama”, cobrança que levaria alguns exploradores a organizarem o movimento da Inconfidência. A “derrama” era a cobrança imediata e única de impostos determinada pela Corte portuguesa à Colônia, referente à extração de ouro. © C ar los Ju liã o/ W iki me dia C om mo n eXtração de diaMantes. aquarela, 1776, carlos julião. Bocage. Direção: Leitão de Barros, 1936 A figura do grande poeta português do século XVIII, nascido em Setúbal em 1765 e falecido em Lisboa em 1805, de que a tradição popular irresistivelmente se apossou, é focada através de um esboço histórico da autoria de Rocha Martins, tendo também para o efeito, escrito os diálogos que comentavam a ação e feito os versos Gustavo de Matos Sequeira e Pereira Coelho. fonte: youtuBe multimídia: vídeo 63 Com o crescimento das cidades, surgiu no Brasil o trabalho não escravo, desvinculado das atividades agrícolas e da mi- neração. Eram artesãos, burocratas, profissionais liberais, lite- ratos, entre outros, ou seja, o esboço de uma classe média que, disposta a defender seus próprios interesses, adotou a ideologia liberal burguesa vinda da França: o Iluminismo. A difusão do pensamento iluminista – que defendia a liber- dade de propriedade e a igualdade de poderes, criticando o Estado Absolutista – tinha como palavras de ordem: liber- dade, igualdade, e fraternidade. Em 1789, esse espírito culminou na Revolução Francesa, que modificou o con- ceito de classe social e levou os burgueses ao topo do poder. 2. ArcAdismo A partir da segunda metade do século XVIII, junto às pro- fundas transformações sociais e econômicas que anun- ciavam revoluções intelectuais nas sociedades europeias, desenvolve-se um novo estilo literário, o Arcadismo, que propunha um retorno à natureza e à vida simples do cam- po, reverenciando o bucolismo. Em oposição aos dilemas, exageros e rebuscamentos do Barroco, o Arcadismo retornou aos modelos greco-latinos e à sua mitologia em busca de simplicidade e harmonia. A palavra “arcadismo” foi inspirada em Arcádia, uma len- dária região grega habitada por pastores que cultivavam a poesia e a música, viviam de modo simples e espontâneo e celebravam o amor à natureza. Os poetas do Arcadismo adotavam pseudônimos pastoris em homenagem à vida simples dos pastores da Arcádia. O Arcadis- mo foi chamado também de Neoclassicismo, um novo Clas- sicismo, em decorrência dessa retomada dos modelos clássicos O Arcadismo foi inaugurado na Itália com a fundação da Arcádia Romana, em 1690, com a finalidade de combater o Barroco. Da Itália difundiu-se para outros países, inclusi- ve Portugal, e da Metrópole portuguesa chegou à Colônia. Em Portugal, a data inicial do Arcadismo é 1756, ano da fundação da Arcádia Lusitana; seu encerramento ocorreu em 1825, ano da publicação do poema “Camões”, de Al- meida Garrett, que deu início ao Romantismo. 2.1. Arcadismo em Portugal © H us on d/ W iki me dia C ommo n Palácio de queluz, onde vivia a faMília real PortuGuesa durante o verão (século Xviii). Depois que Portugal alcançou o apogeu entre os séculos XV e XVI, o país viveu um período de declínio político, econômico e cultural que se estendeu por todo o século XVII. Entretanto, com o surgimento das ideias iluministas no século XVIII, Por- tugal se renovou e se modernizou. Na literatura, a figura mais expressiva foi Manuel Maria Barbosa du Bocage, um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. As ideias iluministas, ao chegarem a Portugal nas primeiras décadas do século XVIII, entusiasmaram intelectuais, artis- tas e até mesmo os reis D. João V e seu sucessor, D. José I, que desejavam modernizar o país. Foi posto em prática um projeto de reformas políticas, eco- nômicas, educacionais e culturais voltado tanto a satisfazer os interesses da burguesia mercantil e colonialista quanto a equiparar Portugal novamente às grandes nações euro- peias. À frente desse projeto esteve (na condição de minis- tro e com amplos poderes) o marquês de Pombal, também adepto das ideias iluministas. Bocage - A Vida Apaixonada de um Genial Libertino Depois do imenso fascínio que os seus romances anteriores – O claustro do silêncio, O terramoto de lisboa e a invenção do mundo e O amor infinito de Pedro e Inês – exerceram junto do público, Luis Rosa volta a encantar-nos com um romance inspirado que nos seduz pela riqueza da personalidade que evoca – Manuel Maria Barbosa du Bocage. Um homem tumultuado, no que coabitam o sublime e o prosaico, um espírito minado por inquietações vorazes que só na poesia e no amor se apazigua. E é essa duplicidade do poeta e da época em que lhe foi dado viver que o autor tão bem soube captar e deixar impressa nestas páginas que nos falam de um gênio irremediavelmente embriagado com a sensualidade, o amor e a vida. multimídia: livros 64 3. iluminismo Português 3.1. Pombal e Verney: a missão de racionalizar Portugal Pombal contou com o apoio de diversos intelectuais e cien- tistas portugueses com formação estrangeira. Nesse grupo, destacou-se o padre Luis Antônio Verney, cujo projeto de reforma pedagógica, aplicado parcialmente por Pombal, al- terou de modo significativo o cenário científico português. As ideias de Verney foram expostas na obra Verdadeiro método de estudar, publicada em 1746. Nela, o escritor ataca a orientação que os jesuítas impunham à educação e condena a arte de Camões, em cujas antíteses identificava traços da estética barroca. Essas críticas provocaram um amplo debate sobre a neces- sidade de renovação da cultura portuguesa. Foram publi- cados inúmeros tratados abordando a questão estética da literatura e envolvendo temas como o belo e a verdade na arte. Em decorrência desse período de efervescência cultu- ral, foi fundada a Arcádia Lusitana, em 1756, considerada o marco inicial do Arcadismo no país. 4. ArcádiAs As Arcádias eram academias literárias, espécies de agre- miações que tinham por objetivo promover debates perma- nentes sobre a criação artística, avaliar criticamente a pro- dução de seus filiados e facilitar a publicação de suas obras. Em Portugal existiram duas importantes academias árca- des: a Arcádia Lusitana, que efetivamente deu início ao movimento árcade em Portugal, e a Nova Arcádia (1790), da qual participou o maior poeta português do sé- culo XVIII: Bocage. © Th om as C ole /W iki me dia C om mo n sonho de arcádia. óleo soBre tela. thoMas cole, 1838. A poesia foi o gênero literário predominante durante o Ar- cadismo português, embora tenha havido criação em todos os gêneros. Apesar da vasta produção do período, poucas são as obras que ainda interessam ao leitor contemporâneo. 5. mAnuel mAriA bArbosA du bocAge 1765 – Nasce em Setúbal, Portugal, Manuel Maria Barbosa du Bocage. 1775 – Morre sua mãe. 1781 – Foge de casa e se torna soldado. 1783 – Muda-se para Lisboa, onde se engaja na Armada Real Portuguesa e participa da vida boêmia da cidade. 1786 – Depois de uma viagem em que passou pelo Brasil, chega a Goa, na Índia, uma das colônias portuguesas. 1790 – Volta para Portugal. 1791 – Publica Rimas. É convidado para participar da Nova Arcádia. 1797 – Depois de preso sucessivamente, é ibertado e transferido para o Convento dos Oratorianos, onde foi, aparentemente, levado ao abandono da irreverência. 1799 – Publica sua segunda obra de poesias, também com o título de Rimas. 1804 – Publica uma terceira série de Rimas, com apoio e elo- gios da marquesa de Aloma, que passou a protegê-lo. 1805 – Trabalhando como tradutor, morre em 21 de dezembro. Di sp on íve l e m: <h ttp :// qu ad rog iz. blo gs po t.c om .br > Manuel Maria BarBosa du BocaGe A trajetória de vida do poeta português Bocage (1765- 1805) é semelhante à de Camões. Envolveu-se em polê- micas e em aventuras, dedicou-se à vida boêmia, cultivou grandes amores e ingressou na carreira militar, embora tenha desertado e fugido para a China. Bocage entrou para a história da literatura portuguesa como um poeta erótico, embora sua poesia lírica árcade seja considerada superior. A obra Rimas, de 1791, valeu-lhe o convite para a Nova Arcádia, onde usava o pseudônimo Elmano Sadino (Elmano é um anagrama de Manoel, e Sadino refere-se ao rio Sado, que corta a cidade de Setúbal, onde o escritor nasceu). A produção literária de Bocage revela a ânsia pelo locus amoenus (lugar ameno), que simboliza a fuga da vida 65 citadina (fugere urbem). Prende-se aos valores literários do Arcadismo, cuja presença feminina é marcante com constantes citações de Marílias, Ritálias, Márcias, Gertrú- rias. Há pesquisadores que apontam Maria Margarida Rita Constâncio Alves como a grande paixão do poeta e a quem são atribuídos os dois primeiros pseudônimos pastoris: Marília e Ritália. Por outro lado, é possível iden- tificar outra figura muito presente em sua obra, Gertrúria, na verdade, Gertrudes Homem de Noronha, conterrânea de Setúbal e a quem o poeta dedica muitos versos, o que leva a crer que tenha sido ela o grande amor de sua vida. Idílios marítimos, Rimas (três volumes) e Parnaso bocagia- no reúnem a produção literária de Bocage. Os sonetos de Rimas são o ponto alto de sua produção, e alguns estudio- sos chegam a compará-lo a Camões. A solidão, a desilu- são amorosa, o sentimento de desamparo e a dor de viver impactaram de tal maneira sua poesia que ela acabou se afastando da estética árcade – racional e pouco dramática – para se enveredar pelo campo dramático e confessional, fato que inseriu Bocage num contexto pré-romântico. Magro, de olhos azuis, carão moreno, Bem servido de pés, meão de altura, Triste de facha, mesmo de figura, Nariz alto no meio e não pequeno; ................................................................. Devoto incensador de mil deidades (Digo, de moças mil) num só momento, E somente no altar amando os frades. herMâni cidade. BocaGe – a oBra e o hoMeM. 3. ed. lisBoa: arcádia, 1978. P. 25-26. deidade: deusa facha: rosto meão: mediano Nesses versos, o poeta procura descrever a si mesmo. No- ta-se um aspecto marcante da vida e da obra do autor: “Devoto incensador de mil deidades”, ou seja, bajulador ou conquistador de mil moças. Além das inúmeras experiências amorosas, Bocage também viveu aventuras nas colônias portuguesas da Índia (Goa) e da China (Macau). Como o autor de Os Lusíadas, Bocage também se incorporou em companhias militares, lutou na guerra, naufragou, amou muitas mulheres, foi preso e mor- reu na miséria. Consciente dessas coincidências, Bocage per- seguia o modelo da vida e da obra de seu mestre. Camões, grande Camões, quão semelhante Acho teu fado ao meu, quando os cotejo! ................................................................. Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!... Se te imito nos transes da Ventura, Não te imito nos dons da natureza. herMâni cidade. oB. cit., P. 149. fado: sorte, destino ventura: sorte, destino Foi na lírica,particularmente nos sonetos, que Bocage atin- giu o ponto alto de sua obra, embora também tenha se destacado como poeta satírico e erótico. Bocage, O Triunfo do Amor. Direção: Djalma Limongi Batista, 1997 Filme inspirado na vida, obra e lenda do poeta português Manoel Maria Barbosa du Bocage, símbolo libertário da sexualidade dos países de língua portuguesa. Em um painel que abrange poemas de todos os gêneros, o filme abre com o episódio baseado no poema que conta a história da bela e requintada cortesã Manteigui que, ao apaixonar-se pelo poeta indomável, acaba redimindo-se no amor. fonte: youtuBe multimídia: vídeo 5.1. Bocage e a transição Bocage é considerado o maior escritor português do sé- culo XVIII. É um dos três maiores sonetistas de toda a literatura portuguesa, ao lado de Camões e de Antero de Quental. Entretanto, o título de melhor escritor da época não significa que Bocage tenha sido o mais perfeito árca- de, papel que talvez caiba a Filinto Elísio. A importância conferida à obra de Bocage advém principalmente da tradução do momento transitório em que o escritor viveu, um período marcado por mudanças profundas, como a Revolução Francesa e o florescimento do Romantismo. Na totalidade, sua obra não é árcade nem romântica. É uma obra de transição, que apresenta ao mesmo tempo aspectos de ambos os movimentos literários. 5.1.1. Lírica Arcádica: A fase inicial da poesia de Bocage é marcada por for- mas e temas próprios do Arcadismo: o ambiente bucólico (fugere urbem ), o ideal de vida simples e alegre (aurea mediocritas ), a simplicidade e a clareza das ideias e da linguagem, etc. 66 Já se afastou de nós o Inverno agreste Já se afastou de nós o Inverno agreste Envolto nos seus húmidos vapores; A fértil Primavera, a mãe das flores O prado ameno de boninas veste: Varrendo os ares o subtil nordeste Os torna azuis: as aves de mil cores Adejam entre Zéfiros, e Amores, E torna o fresco Tejo a cor celeste; Vem, ó Marília, vem lograr comigo Destes alegres campos a beleza, Destas copadas árvores o abrigo: Deixa louvar da corte a vã grandeza: Quanto me agrada mais estar contigo Notando as perfeições da Natureza! 5.1.2. Lírica pré-romântica Na lírica pré-romântica, não se observa o convencionalis- mo amoroso e o racionalismo dos árcades. Ao contrário, essa fase da poesia de Bocage apresenta certa subjetivi- dade e emoções que serão próprias do movimento literário posterior: o Romantismo. No poema a seguir, é possível notar um “eu lírico” que, não correspondido pela “cruel” amada, fala abertamente de seus sentimentos em relação à morte, compondo um quadro macabro, que é completado pelos demais “mem- bros” da corte noturna – corujas e fantasmas – e habitado também pelo “eu lírico”, num gesto de total desespero e descontrole emocional. Oh retrato da morte, oh noite amiga Oh retrato da morte, oh noite amiga Por cuja escuridão suspiro há tanto! Calada testemunha do meu pranto, De meus desgostos secretária antiga! Pois manda Amor que a ti somente os diga, Dá-lhes agasalho no teu manto; Ouve-se, como costumas, ouve, enquanto Dorme a cruel, que a delirar me obriga. E vós, oh cortesãos da escuridade, Fantasmas vagos, mochos piadores, Inimigos, como eu, da claridade! Em bandos acudi aos meus clamores; Quero a vossa medonha sociedade, Quero fartar meu coração de horrores. herMâni cidade. oB. cit., P.141-142. Mocho: coruja Pio: piedoso No poema a seguir, observa-se um painel oposto ao universo claro e equilibrado do Arcadismo. Em vez do equilíbrio, despon- tam o pessimismo e a morte como saída para a angústia de viver; em vez de racionalismo, tem-se o predomínio absoluto da emoção; em vez de objetividade, evidencia-se o subjetivismo. Meu ser evaporei na lida insana Meu ser evaporei na lida insana Do tropel das paixões que me arrastava; Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava Em mim quase imortal a essência humana. De que inúmeros sóis a mente ufana Existência falaz me não dourava! Mas eis sucumbe a natureza, escrava Do mal que a vida em sua origem dana. Prazeres, sócios meus e meus tiranos! Esta alma que sedenta em si não coube, No abismo vos sumiu desenganos. Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube, Ganhe um momento o que perderam anos, Saiba morrer o que viver não soube. hernâni cidade. oB. cit., P. 113. falaz: enganoso lida: luta ufano: orgulhoso 5.1.3. Poesia Satírica A produção satírica de Bocage foi uma das que mais se po- pularizou, embora seja considerada inferior à poesia lírica. Foi por meio dessa poesia que o poeta recebeu a alcunha de “poeta maldito”, uma vez que tratava de temas de na- tureza grosseira, vulgar e obscena. Soneto do epitáfio La quando em mim perder a humanidade Mais um daqueles, que não fazem falta, Verbi-gratia — o teólogo, o peralta, Algum duque, ou marques, ou conde, ou frade: Não quero funeral comunidade, Que engrole “sub-venites” em voz alta; Pingados gatarrões, gente de malta, Eu também vos dispenso a caridade: Mas quando ferrugenta enxada idosa Sepulcro me cavar em ermo outeiro, Lavre-me este epitáfio mão piedosa: “Aqui dorme Bocage, o putanheiro; Passou vida folgada, e milagrosa; Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”. 67 VIVENCIANDO Bocage, em painel de azulejos BocaGe, eM Painel de azulejos, desenho de louro de alMeida e roGério chora (1979), eM setúBal (centro coMercial do BonfiM) Verbi-gratia: por exemplo Engrolar: enrolar Sub-venites: salmos Gatarrão: gato Gente de malta: gente de má fama, ralé Outeiro: Colina, monte. Dicas! § Valorização da vida no campo (bucolismo) § Crítica à vida urbana § Objetividade § Idealização da mulher amada § Inutilia truncat (cortar o inútil) § Locus amoenus (lugar agradável) § Convencionalismo amoroso § Aurea mediocritas (mediocridade áurea ou ouro medíocre) § Linguagem simples § Emprego frequente de pseudônimos § Pastoralismo § Fugere urbem § Carpe diem 68 O ARCADISMO ESTÁ NO PERÍODO HISTÓRICO DO ILUMINISMO E PODE SER CHAMADO DE NEOCLASSICISMO. BOCAGE VIVEU NA ÍNDIA DE 1786 A 1790, PASSANDO POR GOA, DAMÃO E MACAU, EM FUNÇÃO DE UMA VIDA POUCO REGRADA, SUA SAÚDE DEBILITOU-SE RAPIDAMENTE NO SEU ÚLTIMO ANO DE VIDA (1805). O POETA FOI ENCARCERADO NO LIMOEIRO, ACUSADO DE CRIME DE LESA-MAJESTADE POR ENTREGAR PANFLETOS APOLOGISTAS A REV. FRANCESA BEM COMO POEMAS ERÓTICOS. COMO ERA CARACTERÍSTICO DOS ÁRCADES, BOCAGE USAVA UM PSEUDÔNIMO: ELMANO SADINO. REFERÊNCIA A UM ANAGRAMA DE SEU PRIMEIRO NOME E AO RIO SADO QUE CORTA A PROVÍNCIA DE SETÚBAL, SUA CIDADE NATAL. DIAGRAMA DE IDEIAS ARCADISMO PORTUGAL –BOCAGE 1 3 5 4 2