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Caro aluno 
Ao elaborar o seu material inovador, completo e moderno, o Hexag considerou como principal diferencial sua exclusiva metodologia em pe-
ríodo integral, com aulas e Estudo Orientado (E.O.), e seu plantão de dúvidas personalizado. O material didático é composto por 6 cadernos 
de aula e 107 livros, totalizando uma coleção com 113 exemplares. O conteúdo dos livros é organizado por aulas temáticas. Cada assunto 
contém uma rica teoria que contempla, de forma objetiva e transversal, as reais necessidades dos alunos, dispensando qualquer tipo de 
material alternativo complementar. Para melhorar a aprendizagem, as aulas possuem seções específicas com determinadas finalidades. A 
seguir, apresentamos cada seção:
No decorrer das teorias apresentadas, oferecemos uma cuidadosa 
seleção de conteúdos multimídia para complementar o repertório 
do aluno, apresentada em boxes para facilitar a compreensão, com 
indicação de vídeos, sites, filmes, músicas, livros, etc. Tudo isso é en-
contrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos 
temas estudados – há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até 
sugestões de aplicativos que facilitam os estudos, com conteúdos 
essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica, 
em uma seleção realizada com finos critérios para apurar ainda mais 
o conhecimento do nosso aluno.
multimídia
Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu 
distanciamento da realidade cotidiana, o que dificulta a compreensão 
de determinados conceitos e impede o aprofundamento nos temas 
para além da superficial memorização de fórmulas ou regras. Para 
evitar bloqueios na aprendizagem dos conteúdos, foi desenvolvida 
a seção “Vivenciando“. Como o próprio nome já aponta, há uma 
preocupação em levar aos nossos alunos a clareza das relações entre 
aquilo que eles aprendem e aquilo com que eles têm contato em 
seu dia a dia.
vivenciando
Sabendo que o Enem tem o objetivo de avaliar o desempenho ao 
fim da escolaridade básica, organizamos essa seção para que o 
aluno conheça as diversas habilidades e competências abordadas 
na prova. Os livros da “Coleção Vestibulares de Medicina contêm, 
a cada aula, algumas dessas habilidades. No compilado “Áreas de 
Conhecimento do Enem” há modelos de exercícios que não são 
apenas resolvidos, mas também analisados de maneira expositiva 
e descritos passo a passo à luz das habilidades estudadas no dia. 
Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a 
apurar as questões na prática, a identificá-las na prova e resolvê-
-las com tranquilidade.
áreas de conhecimento do Enem
Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Por isso, cria-
mos para os nossos alunos o máximo de recursos para orientá-los 
em suas trajetórias. Um deles é o ”Diagrama de Ideias”, para aque-
les que aprendem visualmente os conteúdos e processos por meio 
de esquemas cognitivos, mapas mentais e fluxogramas.
Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo da 
aula. Por meio dele pode-se fazer uma rápida consulta aos prin-
cipais conteúdos ensinados no dia, o que facilita sua organização 
de estudos e até a resolução dos exercícios.
diagrama de ideias
Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é ela-
borada, a cada aula e sempre que possível, uma seção que trata 
de interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares atuais não 
exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos 
conteúdos de cada área, de cada disciplina.
Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem 
conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como Bio-
logia e Química, História e Geografia, Biologia e Matemática, entre 
outras. Nesse espaço, o aluno inicia o contato com essa realidade 
por meio de explicações que relacionam a aula do dia com aulas 
de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizan-
do temas da atualidade. Assim, o aluno consegue entender que 
cada disciplina não existe de forma isolada, mas faz parte de uma 
grande engrenagem no mundo em que ele vive.
conexão entre disciplinas
Herlan Fellini
De forma simples, resumida e dinâmica, essa seção foi desenvol-
vida para sinalizar os assuntos mais abordados no Enem e nos 
principais vestibulares voltados para o curso de Medicina em todo 
o território nacional.
incidência do tema nas principais provas
Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos de cada coleção 
tem como principal objetivo apoiar o aluno na resolução das ques-
tões propostas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, com-
pletos e organizados. Além disso, contam com imagens ilustrativas 
que complementam as explicações dadas em sala de aula. Qua-
dros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados 
e compõem um conjunto abrangente de informações para o aluno 
que vai se dedicar à rotina intensa de estudos.
teoria
Essa seção foi desenvolvida com foco nas disciplinas que fazem 
parte das Ciências da Natureza e da Matemática. Nos compilados, 
deparamos-nos com modelos de exercícios resolvidos e comenta-
dos, fazendo com que aquilo que pareça abstrato e de difícil com-
preensão torne-se mais acessível e de bom entendimento aos olhos 
do aluno. Por meio dessas resoluções, é possível rever, a qualquer 
momento, as explicações dadas em sala de aula.
aplicação do conteúdo
© Hexag Sistema de Ensino, 2018
Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2020
Todos os direitos reservados.
Autores
Lucas Limberti
Murilo Almeida Gonçalves
Pércio Luis Ferreira
Diretor-geral
Herlan Fellini
Diretor editorial
Pedro Tadeu Vader Batista 
Coordenador-geral
Raphael de Souza Motta
Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica 
Hexag Sistema de Ensino
Editoração eletrônica
Arthur Tahan Miguel Torres
Matheus Franco da Silveira
Raphael de Souza Motta
Raphael Campos Silva
Projeto gráfico e capa
Raphael Campos Silva
Imagens
Freepik (https://www.freepik.com)
Shutterstock (https://www.shutterstock.com)
ISBN: 978-65-88825-04-4
Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo 
o ensino. Caso exista algum texto a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à dis-
posição para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos 
direitos sobre as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições.
O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não repre-
sentando qualquer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora.
2020
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SUMÁRIO
ENTRE LETRAS
GRAMÁTICA
Aulas 9 e 10: Advérbios 6
Aulas 11 e 12: Pronomes pessoais 10
Aulas 13 e 14: Pronomes demonstrativos e possesivos 14
Aulas 15 e 16: Pronomes relativos, interrogativos e indefinidos 16
Aulas 9 e 10: Quinhentismo e Barroco 36
Aulas 11 e 12: Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno 47
Aulas 13 e 14: Padre Antônio Vieira 54
Aulas 15 e 16: Arcadismo em Portugal: Bocage 62
LITERATURA
ENTRE TEXTOS: INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS
Aula 5: Figuras de linguagem I 20
Aula 6: Figuras de linguagem II 25
Aula 7: Figuras de linguagem III 29
Aula 8: Figuras de linguagem IV 32
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para 
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação considerando a função socialdesses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras 
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora 
da identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para 
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e 
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante 
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali-
dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional.
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público-alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como intimidação, sedução, comoção, chan-
tagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização 
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida 
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, 
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar, pela análise de suas linguagens, as tecnologias de comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem.
 GRAMÁTICA: Incidência do tema nas principais provas
UFMG
No vestibular da Unesp, exige-se o conheci-
mento das classes gramaticais. O uso correto 
dos pronomes tem sua parcela de importân-
cia. Em relação aos advérbios, a prova pode 
destacar elementos adverbiais e pedir ao 
aluno que defina o significado 
deles dentro de um 
contexto.
A prova da Unifesp apresenta exigências que dizem 
respeito às funções gramaticais dos pronomes e dos 
advérbios. Em outras palavras, a prova exige o uso 
correto das classes adverbiais e pronominais, além 
do reconhecimento dos valores coesivos desses 
elementos no ambiente textual. 
O vestibular da Unicamp aborda o uso dos 
pronomes e dos advérbios de modo amplo: pode 
ser exigido do aluno o conhecimento da função de 
um pronome ou advérbio em um ambiente textual 
que configure linguagem verbal e não verbal, ou 
mesmo identificar em determinado 
texto o valor coesivo de 
um termo. 
Esse vestibular exige conhecimentos sobre a 
especificidade de cada classe gramatical. É 
relevante que o aluno saiba reconhecer como a 
aplicação de um advérbio pode modificar termos 
presentes no texto e como os pronomes podem 
interagir com outros elementos 
textuais de modo 
coesivo.
Nesse vestibular, questões acerca das classes 
gramaticais e suas especificidades são uma cons-
tante. Portanto, sobre aquelas que são objeto de 
estudo neste caderno, convém saber reconhecer 
em quais situações elas se aplicam e qual o 
significado delas para o contexto 
em que se encontram.
O vestibular da PUC-Campinas aborda os diversos 
sentidos dos advérbios, exigindo que o aluno saiba 
identificá-los e compreender os seus aspectos em 
determinado contexto. Os pronomes surgem em 
questões que pedem o reconhecimento dos termos 
a que podem se referir no cômpito de 
um texto apresentado. 
A objetividade característica do vestibular da 
Santa Casa dá margem para questões bastante 
diretas sobre as classes gramaticais e suas corre-
tas utilizações. Por isso, exige-se o conhecimento 
dos diferentes sentidos de um mesmo advérbio, 
além da compreensão do referente 
de um pronome.
Dentre os temas abordados neste caderno, o 
de maior incidência no Enem é o uso de tem-
pos verbais. Os demais temas são de aplicação 
bastante esporádica.
A Fuvest exige a compreensão dos pronomes como 
elementos constitutivos de um sentido textual. É 
importante que o estudante saiba identificar o valor 
de um termo pronominal inserido em um contexto, 
ou seja, além de compreender o referente de 
um pronome, deve-se reconhecê-lo 
como parte de um 
todo.
Na prova da Uerj, podem surgir questões sobre os ter-
mos aos quais os advérbios se referem em certo con-
texto, além de ser exigido que se identifique os seus 
aspectos no ambiente textual. Quanto aos pronomes, 
exige-se a identificação do referente e, em alguns 
casos, as possibilidades de substituição 
deles por outros termos.
A abordagem desse vestibular ampara-se na 
atenção aos diferentes usos dos pronomes e dos 
advérbios. Por isso, o reconhecimento das carac-
terísticas de um determinado advérbio ou das 
funções coesivas de um pronome no cerne de 
um texto é relevante para resolver 
as questõesdessa 
prova. 
Bastante direto, esse vestibular apresenta 
muitas questões a respeito de conhecimentos 
sobre as classes gramaticais. É importante que 
o aluno tenha domínio sobre as condições 
gramaticais em que os pronome e advérbios 
devem ser utilizados obrigatória 
ou facultativamente.
Esse vestibular costuma abordar questões que se 
atentem aos elementos coesivos de que um texto 
se vale para a sua composição. Assim, convém 
estar seguro sobre o uso correto dos pronomes. A 
propósito dos elementos adverbiais, é conveniente 
considerar os seus diversos signifi-
cados relacionados ao 
contexto.
No vestibular da UFPR, a relação entre 
linguagem verbal e linguagem não verbal é uma 
constante. Propagandas e charges acabam sendo 
fonte para questões que exigem a compreensão 
de termos coesivos e elementos modificadores, 
como pronomes e advérbios, no 
âmbito contextual.
O vestibular da UEL apresenta textos constituídos 
por linguagem verbal e não verbal. Como elas se 
relacionam para a composição de um sentido, essa 
prova pode apresentar questões que exigem do 
aluno saber identificar os referentes não verbais 
de um pronome e sua função para 
o aspecto semântico 
do texto.
6
 Advérbios
CompetênCias: 1 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, e 27
AULAS 
9 e 10
1. Advérbios
Os advérbios formam uma classe de palavras invariáveis 
que se associam a verbos, a adjetivos ou a outros advér-
bios, cada qual com intenções bastante específicas.
 § Associam-se a verbos para indicar com maior precisão 
as circunstâncias da ação verbal.
Exemplo: Paula viajou ontem. (O advérbio 
“ontem” indica com maior precisão quando 
Paula viajou.)
 § Associam-se a adjetivos para intensificar o adjetivo já 
apresentado.
Exemplo: Roberto ficou bastante preocupado. 
(O advérbio “bastante” intensifica o adjetivo pre-
ocupado.)
 § Associam-se a advérbios para intensificar outro advér-
bio já apresentado. 
Exemplo: O jogador do Corinthians está se 
recuperando muito bem. (O advérbio “muito” 
intensifica o outro advérbio “bem”.)
1.1. Classificação dos advérbios
Os advérbios e as locuções adverbiais estabelecem diferen-
tes relações semânticas, que são as seguintes:
 § De lugar: aqui; antes; dentro; ali; adiante; fora; acolá; 
atrás; além; lá; detrás; aquém; cá; acima; onde; perto; 
aí; abaixo; aonde; longe; debaixo; algures; defronte; ne-
nhures; adentro; afora; alhures; aquém; embaixo; exter-
namente; a distância; a distância de; de longe; de perto; 
em cima; à direita; à esquerda; ao lado; em volta, etc.
 § De tempo: hoje; logo; primeiro; ontem; tarde; outro-
ra; amanhã; cedo; depois; ainda; antigamente; antes; 
doravante; nunca; então; ora; jamais; agora; sempre; já; 
enfim; afinal; amiúde; breve; constantemente; imediata-
mente; primeiramente; provisoriamente; sucessivamente; 
às vezes; à tarde; à noite; de manhã; de repente; de vez 
em quando; de quando em quando; a qualquer momen-
to; de tempos em tempos; em breve; hoje em dia, etc. 
 § De modo: bem; mal; assim; melhor; pior; depressa; de-
balde; devagar; às pressas; às claras; às cegas; à toa; à 
vontade; às escondidas; aos poucos; desse jeito; desse 
modo; dessa maneira; em geral; frente a frente; lado a 
lado; a pé; de cor; em vão; e a maior parte dos que termi-
nam em ”–mente”: calmamente; tristemente; proposi-
tadamente; pacientemente; amorosamente; docemente; 
escandalosamente; bondosamente; generosamente, etc.
 § De afirmação: sim; certamente; realmente; decerto; 
efetivamente; certo; decididamente; deveras; indubita-
velmente, etc. 
 § De negação: não; nem; nunca; jamais; de modo algum; 
de forma alguma; tampouco; de jeito nenhum, etc. 
 § De dúvida: acaso; porventura; possivelmente; provavel-
mente; talvez; casualmente; por certo; quem sabe, etc. 
 § De intensidade: muito; demais; pouco; tão; em ex-
cesso; bastante; mais; menos; demasiado; quanto; 
quão; tanto; que (quão); tudo; nada; todo; quase; de 
todo; de muito; por completo; extremamente; inten-
samente; grandemente; bem (aplicado a propriedades 
graduáveis), etc.
 § Interrogativos: onde; aonde; donde; quando; como; 
por que; empregados em interrogações diretas ou indi-
retas – entende-se por interrogações diretas aquelas em 
que as palavras em destaque iniciam uma frase interro-
gativa. As interrogações indiretas, por sua vez, são aque-
las em que os termos destacados não iniciam a frase.
Interrogação direta Interrogação indireta
Como isso aconteceu? Queria saber como isso aconteceu.
Onde ela mora? Precisava saber onde ela mora.
Por que ela não veio?
Quero entender por 
que ela não veio.
Aonde você vai? Quero saber aonde você vai.
Donde vem esse rapaz?
Necessito entender don-
de vem esse rapaz.
Quando que chega a carta? Quero saber quando chega a carta.
1.2. Palavras denotativas que 
se assemelham aos advérbios
Existem algumas palavras e locuções que se assemelham 
a advérbios. Elas recebem o nome de advérbios impró-
prios ou palavras com sentido denotativo.
7
 § Advérbios de exclusão: apenas; exclusivamente; 
salvo; senão; somente; simplesmente; só; unicamente.
Exemplo: Todos se foram pela manhã; somen-
te ele quis partir mais tarde. 
 § Advérbios de inclusão: ainda; até; mesmo; inclusi-
vamente; também.
Exemplo: Todos se foram pela manhã, até ele 
que queria partir mais tarde.
 § Advérbios de ordem: depois; primeiramente; ulti-
mamente. 
Exemplo: Primeiramente, gostaria de agra-
decer a todos os que estiveram presentes.
1.3. Locuções adverbiais
Locuções adverbiais são expressões formadas a partir de 
duas ou mais palavras que exercem função adverbial. Em 
geral, são constituídas por uma preposição seguida de ou-
tra palavra, como substantivo, advérbio ou verbo, que seja 
capaz de indicar a circunstância.
 § De lugar: à esquerda; à direita; de longe; de perto; 
para dentro; por aqui, etc. 
 § De afirmação: por certo; sem dúvida, etc. 
 § De modo: às pressas; passo a passo; de cor; em vão; 
em geral; frente a frente, etc.
 § De tempo: à noite; de dia; de vez em quando; à tarde; 
hoje em dia; nunca mais, etc.
1.4. Graus dos advérbios
Por definição, os advérbios são palavras invariáveis (não 
sofrem alterações de gênero ou número). Entretanto, ocor-
rem algumas variações de grau. 
1.4.1. Grau comparativo 
É formado da mesma maneira que o comparativo do adjetivo:
 § De igualdade: 
tão + advérbio + quanto (como) 
Exemplo: Sara pulou tão alto quanto Patrícia.
 § De inferioridade: 
menos + advérbio + que (do que) 
Exemplo: Ana fala menos alto do que João. 
 § De superioridade: 
mais + advérbio + que (do que) 
Exemplo: Ana fala mais alto do que João.
1.4.2. Grau superlativo
Intensifica a característica de uma coisa ou pessoa. 
 § Superlativo analítico: vem acompanhado de outro 
advérbio.
Exemplo: 
O rapaz falava muito alto. (”muito” é advérbio 
de intensidade; ”alto”, de modo)
 § Superlativo sintético: é formado por sufixos.
Exemplo: 
O rapaz falava altíssimo. (advérbio de modo 
formado pelo acréscimo do sufixo)
Observação: na linguagem afetiva e popular, 
certos advérbios são empregados no diminutivo 
com valor de superlativo. 
Exemplos:
O homem caminhava devagarinho. 
Amanhã precisarei acordar cedinho. 
Ela mora pertinho daqui.
1.5. O advérbio aplicado ao texto
Em relação aos advérbios aplicados ao texto, existe uma 
gradação semântica entre os advérbios frásicos e advérbios 
extrafrásicos, além da distribuição de advérbios modais 
(terminados em –mente).
 § Advérbios frásicos: são aqueles que se relacionam com 
um elemento específico da frase. Não apresentam mar-
cas de deslocamento (vírgulas).
Exemplo: O veículo corre muito.
 § Advérbios extrafrásicos: são aqueles exteriores à frase, 
que estão no âmbito da enunciação e, geralmente, des-
locados por vírgula.
Exemplo: Ele, infelizmente, não jogou bem hoje. 
Observação: os advérbios extrafrásicos atuam 
como elementos de avaliação do enunciador 
acerca do conteúdo enunciado.
 § Distribuição textual de advérbios modais (mais de um 
advérbio terminado em “–mente”) 
Quando ocorre uma fraseque congrega mais de um 
advérbio terminado em “–mente”, deve-se fazer a con-
tração dos advérbios centrais (retirar o termo “– men-
te”) e preservar apenas o último advérbio flexionado.
Errado: Ele saiu calmamente, sorrateira-
mente e rapidamente.
Certo: Ele saiu calma, sorrateira e rapidamente.
8
(Manuel Bandeira)
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestu-
oso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro 
e fiquei pensando...
– Humildemente pensando na vida e nas mu-
lheres que amei.
Procure encontrar os advérbios no poema e 
na canção abaixo.
Poema só para Jaime Ovalle
multimídia: poema • poesia
(noel rosa)
Não espero mais você, pois você não aparece
Creio que você se esquece das promessas que 
me faz
E depois vem dar desculpas, inocentes e banais
É porque você bem sabe
Que em você desculpo
Muitas coisas mais 
O que sei somente
É que você é um ente
Que mente inconscientemente
Mas finalmente
Não sei por que
Eu gosto imensamente
De você 
Invariavelmente, sem ter o menor motivo
Em um tom de voz altivo
Você quando fala mente
Mesmo involuntariamente, faço cara de inocente
Pois sua maior mentira é dizer à gente que você 
não mente.
Você Só... Mente
multimídia: poema • poesia
9
FORMAÇÃO DE
 PALAVRAS
CLASSES DE 
PALAVRAS
PREPOSIÇÃO INTERJEIÇÃO NUMERALADVÉRBIO
CLASSES
INVARIÁVEIS
CLASSE
VARIÁVEL
GRAMÁTICA 
NORMATIVA
 DIAGRAMA DE IDEIAS
10
 Pronomes PessoAis
CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 18 e 27
AULAS 
11 e 12
1. Pronome
Pronome é a palavra variável que identifica os participantes 
da interlocução (pessoas do discurso), os seres e objetos 
no mundo, além de eventos ou situações aos quais o dis-
curso faça referência.
Em geral, os pronomes, operam em conjunto com os subs-
tantivos (nomes), podendo substituí-los, referenciá-los ou, 
ainda, acompanhá-los em um processo qualificativo. Ob-
serve alguns exemplos:
O rapaz estava bravo, mas ele tinha toda a ra-
zão. (O termo ele substitui o substantivo rapaz.)
Essa é a moça que processou o gerente da loja. 
(O termo que faz referência ao substantivo moça.)
Aquele rapaz é bastante irritante. (O termo 
aquele acompanha e qualifica/especifica o ter-
mo rapaz.)
Por meio desses exemplos, é possível notar que os prono-
mes são uma classe de palavras que não possuem signifi-
cações predeterminadas. Seus significados são, na maioria 
dos casos, dependentes de contextos que permitirão ao 
leitor recuperar as referências dos pronomes utilizados nos 
processos comunicativos.
Tecnicamente, os pronomes exercem algumas relações se-
mânticas condizentes às pessoas do discurso. Essas funções 
são conhecidas como anafóricas (retomada de termos 
anteriormente mencionados), catafóricas (prenuncia algo 
que será mencionado/dito) ou dêiticas (apontamento de 
coisas/pessoas que estão no mundo). Essas funções são 
exercidas por todas as classes de pronomes, com exceção 
dos pronomes interrogativos e indefinidos. A seguir, 
será demonstrado como realizar as classificações iniciais en-
tre pronomes de tipo substantivo e pronomes de tipo adjeti-
vo; também serão estudados os pronomes pessoais.
1.1. Pronomes substantivos 
x pronomes adjetivos
§ Pronomes substantivos são aqueles que substi-
tuem um substantivo ao qual fazem referência.
Exemplo: Aquilo o deixou constrangido. = A 
situação o deixou constrangido.
§ Pronome adjetivos são aqueles que acompanham
um substantivo atribuindo-lhe características.
Exemplo: Este carro é bastante potente.
Observação: A classificação dos pronomes em substan-
tivos ou adjetivos não exclui as classificações de origem 
(pessoal, demonstrativo, possessivo, relativo, indefinido e 
interrogativo) desses elementos.
1.2. Pronomes pessoais
Os pronomes pessoais são aqueles que substituem os 
substantivos. Eles se caracterizam por evidenciar as três 
pessoas do discurso. Para designar a pessoa que fala (1ª 
pessoa), são usados os pronomes eu (singular) e nós (plu-
ral). Para marcar a pessoa com quem se fala (2ª pessoa), 
são utilizados os pronomes tu (singular) e vós (plural). Por 
fim, para apontar a pessoa de quem se fala (3ª pessoa), são 
utilizados ele(s) e ela(s).
De acordo com o posicionamento nos processos sintáticos, 
os pronomes pessoais podem funcionar como:
§ Caso reto: são pronomes pessoais que, em uma cons-
trução sintática, ocupam a posição de sujeito ou de
predicativo do sujeito.
Exemplos: Eu fiquei bastante chateado. (sujeito)
O encarregado do projeto sou eu. (predicativo do 
sujeito)
Observe a seguir o quadro de pronomes do caso reto em 
português:
1ª pessoa do singular eu
2ª pessoa do singular tu
3ª pessoa do singular ele / ela
1ª pessoa do plural nós
2ª pessoa do plural vós
3ª pessoa do plural eles / elas
Observação 1: Como é possível observar no quadro, ape-
nas os pronomes pessoais retos de 3ª pessoa variam em gê-
11
nero. Os demais possuem uma única forma para masculino 
e feminino.
Observação 2: Em Língua Portuguesa, é comum a omis-
são dos pronomes do caso reto, sem prejuízo do entendi-
mento da frase. Isso ocorre devido ao fato de as desinências 
verbais serem capazes de designar as pessoas que estão 
sendo utilizadas na construção. 
Exemplo: (Eu) Fiquei bastante chateado. (É pos-
sível localizar o “eu” pela desinência do verbo.)
§ Caso oblíquo: são pronomes pessoais que, em uma
construção sintática, ocupam a posição de comple-
mento verbal (objeto direto ou indireto) ou
complemento nominal.
Exemplo: Compraram-nos alguns presentes. (O 
pronome é complemento do verbo comprar.)
Observe a seguir o quadro de pronomes do caso oblíquo 
em português:
§ Pronomes oblíquos átonos
Os pronomes oblíquos átonos são aqueles que possuem 
acentuação (tonicidade) fraca em relação às palavras que 
os acompanham. Esses pronomes não são precedidos 
de qualquer preposição.
Pessoa
Pronome 
oblíquo átono
Equivalente 
no caso reto
1ª pessoa do singular me eu
2ª pessoa do singular te tu
3ª pessoa do singular se / o / a / lhe ele / ela
1ª pessoa do plural nos nós
2ª pessoa do plural vos vós
3ª pessoa do plural se / os / as / lhes eles / elas
Observação 1: Os pronomes o(s) e a(s) funcionam ex-
clusivamente como substitutos de objetos diretos.
Observação 2: O pronome lhe funciona exclusivamente 
como substituto de complementos preposicionados.
Observação 3: Os pronomes me, te, nos e vos funcio-
nam tanto como substitutos de objetos diretos como de 
objetos indiretos.
1.2.1. Casos especiais de uso 
dos pronomes átonos
Os pronomes o(s) e a(s) podem assumir formas espe-
ciais quando acompanhados de verbos que possuem as 
terminações -z, -s ou -r. Nesses casos, eles aparecem 
como lo(s) e la(s).
Exemplos: 
traz + o = trá-lo
empurrastes + o = empurraste-lo
beijar + a = beijá-la
Em casos de verbos que apresentam terminação com 
som nasal, os pronomes o(s) e a(s) assumem as formas 
no(s) e na(s).
Exemplos: 
compram + o = compram-no
põe + a = põe-na
detém + os = detém-nos
tem + as = tem-nas
§ Pronomes oblíquos tônicos
Os pronomes oblíquos tônicos são aqueles que possuem 
acentuação (tonicidade) forte em relação às palavras 
que os acompanham. Esses pronomes são precedidos 
por preposição (em especial a, para, de e com).
Pessoa
Pronome 
oblíquo tônico
Equivalente 
no caso reto
1ª pessoa do singular mim / comigo eu
2ª pessoa do singular ti / contigo tu
3ª pessoa do singular ele / ela ele / ela
1ª pessoa do plural nós / conosco nós
2ª pessoa do plural vós / convosco vós
3ª pessoa do plural eles / elas eles / elas
Observação: Em composições que exijam o uso da gra-
mática normativa, as preposições nunca podem introduzir 
pronomes pessoais do caso reto. 
Exemplos: 
Não há mais nada entre mim e ti (certo)
Não há mais nada entre eu e ti. (errado)
Estão todos contra mim. (certo)
Estão todos contra eu. (errado)
Não vá sem mim. (certo) 
Não vá sem eu. (errado)Atenção: Essa regra sofre uma alteração no caso de haver, 
depois do pronome, um verbo no infinitivo. Nesse caso, o 
pronome estará funcionando como sujeito do verbo. Como 
já foi visto, são os pronomes do caso reto que ocupam a 
posição de sujeito na oração.
Exemplo: Arrumaram um monte de encrencas para eu 
resolver.
1.2.2. Pronome reflexivo
Os pronomes pessoais oblíquos podem atuar como prono-
mes reflexivos. Nesse caso, indicam que o sujeito pratica 
12
e também sofre a ação verbal. Note que a forma reflexiva 
apresenta três formas próprias (se, si e consigo), que são 
utilizadas tanto na 3ª pessoa do singular quanto na 3ª pes-
soa do plural.
Pessoa Pronome
Equivalente 
no caso reto
1ª pessoa do singular me eu
2ª pessoa do singular te tu
3ª pessoa do singular se / si / consigo ele / ela
1ª pessoa do plural nos nós
2ª pessoa do plural vos vós
3ª pessoa do plural se / si / consigo eles / elas
Observe alguns exemplos:
1. Eu não me incomodo com esse barulho.
2. Conhece-te a ti mesmo.
2. Eles falam sempre de si.
3. Pedro já refletiu consigo mesmo a respeito 
da briga.
4. Presenteamo-nos naquele dia.
5. Vós vos banhastes naquele rio.
6. Eles se beijaram de maneira apaixonada.
1.2.3. Pronomes de tratamento
Os pronomes de tratamento são utilizados em relações pes-
soais de comunicação e obedecem a uma regra de utilização 
bem específica, conhecida como segunda pessoa indire-
ta, regra na qual os pronomes indicam a pessoa a quem se 
fala (2.a pessoa), mas concordam com a 3ª pessoa. Observe 
a tabela com os principais pronomes de tratamento:
Vossa Majestade V.M. reis, imperadores
Vossa Alteza V.A.
príncipes, ar-
quiduques, duques
Vossa Senhoria V.S.ª tratamento cerimonioso
Vossa Santidade V.S. papa
grandes autorides e 
oficiais-generaisVossa Excelência V. Ex.ª
Vossa Eminência V. Em.a cardeais
Vossa Reverendíssima V. Rev.ma sacerdotes e bispos
Observação 1: As formas o senhor, a senhora e você(s) 
também são pronomes de tratamento. As duas primeiras for-
mas são empregadas no tratamento mais respeitoso (em ge-
ral, com pessoas mais velhas); a forma “você(s)” é utilizada 
em tratamentos informais ou entre amigos (pessoas que já 
se conhecem, de idade próxima ou que sejam mais novas).
Observação 2: Como dito anteriormente, embora os 
pronomes de tratamento marquem 2ª pessoa (vossa), a 
concordância deve ser feita com verbo em 3ª pessoa. 
Exemplo: Lembre-se que Vossa Reverendíssima 
estará no evento litúrgico desta noite.
Observação 3: A gramática normativa exige que se man-
tenha uma congruência entre os pronomes de tratamento 
usados em composições textuais. Assim, se o texto come-
çar tratando a pessoa por “tu”, deve-se distribuir (e man-
ter) as formas de tratamento correspondentes ao longo do 
texto (“teu” e “tua”).
Exemplos: 
Quando você chegar, eu te buscarei na estação. 
(errado)
Quando tu chegares, eu te buscarei na estação. 
(certo)
Quando você chegar, eu a buscarei na estação. 
(certo)
Ela disse adeus
(Now the deed is done
As you blink she is gone
Let her get on with life
Let her have some fun)
Ela disse adeus, e chorou
Já sem nenhum sinal de amor
Ela se vestiu, e se olhou
Sem luxo, mas se perfumou
Lágrimas por ninguém
Só porque é triste o fim
Outro amor se acabou
Ele quis lhe pedir pra ficar
De nada ia adiantar
Quis lhe prometer melhorar
E quem iria acreditar
Ela não precisa mais de você
Sempre o último a saber
Ela disse adeus (Paralamas do Sucesso)
multimídia: letra e música
Observe os pronomes da canção abaixo e pro-
cure identificar a razão de seus empregos. 
13
PRONOMES
PRONOMES SUBSTANTIVOS 
E PRONOMES ADJETIVOS
MORFOLOGIA
 DIAGRAMA DE IDEIAS
PRONOMES 
PESSOAIS
14
 Pronomes demonstrAtivos e Possessivos
CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 18 e 27
AULAS 
13 e 14
1. Pronomes Possessivos
São pronomes que acrescentam à pessoa gramatical a 
ideia de posse sobre algo.
Exemplo: Este dinheiro é meu.
Pessoa
Pronomes 
possessivos
Equivalente 
no caso reto
1ª pessoa do singular meu(s) / minha(s) eu
2ª pessoa do singular teu(s) / tua(s) tu
3ª pessoa do singular seu(s) / sua(s) ele / ela
1ª pessoa do plural nosso(s) / nossa(s) nós
2ª pessoa do plural vosso(s) / vossa(s) vós
3ª pessoa do plural seu(s) / sua(s) eles / elas
1.1. Algumas relações 
semânticas dos possessivos
 § Pode funcionar como um marcador de indefinição de 
um substantivo.
Exemplo: A empresa tem lá seus problemas, 
mas ainda oferece um bom salário.
 § Pode indicar conjectura numérica (especulação sobre 
algum número).
Exemplo: Ele já deve ter seus 50 anos.
 § Pode indicar afetividade.
Exemplo: Olha aí! É o meu guri. (Chico Buarque)
Observação: Há casos em que o pronome oblíquo lhe 
funciona como pronome possessivo (quando puder ser 
substituído por seus/suas).
Exemplo: Vão lhe roubar as joias. = Vão roubar 
suas joias.
2. Pronomes demonstrAtivos
Os demonstrativos são utilizados para situar, no espaço e 
no tempo, a pessoa ou a coisa designada. O aspecto funda-
mental dos pronomes demonstrativos é sua capacidade de 
indicar um objeto sem nomeá-lo. Também evidenciam o po-
sicionamento de uma palavra em relação a outras palavras 
ou em relação a um contexto. Esses processos ocorrem em 
relações espaciais, temporais e sintáticas.
 § Os pronomes demonstrativos dividem-se em dois gru-
pos: os variáveis e os invariáveis.
 § Variáveis: este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), 
aquela(s).
 § Invariáveis: isto, isso, aquilo.
2.1. Relações espaciais
 § Os pronomes este, esta e isto indicam que o item/
objeto está perto de quem fala.
Exemplo: Usarei este lápis (aqui) mesmo. 
 § Os pronomes esse, essa e isso indicam que o item/
objeto está perto da pessoa a quem se fala.
Exemplo: Usarei esse lápis (aí) mesmo. 
 § Os pronomes aquele, aquela e aquilo indicam que 
o item/objeto está afastado tanto de quem fala 
como da pessoa a quem se fala.
Exemplo: Usarei aquele lápis (ali) mesmo. 
2.2. Relações temporais
 § O pronome este e suas variantes são utilizados para 
indicar tempo presente em relação ao momento em 
que se fala.
Exemplo: Esta noite eu vou ao shopping / Neste 
mês chove bastante. 
 § O pronome esse e suas variantes são utilizados para 
indicar tempo futuro ou passado recente em relação ao 
momento em que se fala.
Exemplo (futuro): Nessa reunião definiremos 
os parâmetros de venda.
Exemplo (passado): Esse aumento da crise 
ocorreu em todos os países da América do Sul. 
 § O pronome aquele e suas variantes são utilizados 
para indicar tempo passado distante em relação ao 
momento em que se fala.
15
Exemplo: Naquela época ainda havia telefones 
de rua, chamados de orelhões. / Aquelas praças 
costumavam ser seguras. 
2.3. Relações Sintáticas
 § O pronome este e suas variantes são utilizados para 
anunciar/adiantar o que será dito na sequência frasal 
ou para remeter a um termo imediatamente anterior 
(recém-mencionado).
Exemplo (anunciando informação): O maior 
problema está neste relatório: ele não dá conta 
de explicar todos os problemas.
Exemplo (retomando termo recente): Não 
sei se eu adquiro uma moto ou um carro. Acho que 
este (último = carro) é um pouco mais seguro. 
 § O pronome esse e suas variantes são utilizados para 
retomar um termo, uma ideia ou uma oração já men-
cionados.
Exemplo: Duas vezes por ano, o Sol atinge sua 
maior declinação em latitude. Esse fenômeno é 
conhecido como solstício. 
 § O pronome aquele e suas variantes são utilizados para 
retomar um termo mais distante entre dois apresenta-
dos em uma sentença (em geral, ele é trabalhado em 
conjunto com o pronome este, que retomará o item 
mais próximo).
Exemplo: Na empresa há dois funcionários que 
se destacam: Pedro e Rogério. Este pela sua or-
ganização, e aquele pela sua eficiência.
multimídia: sites
https://www.brasiliarios.com/colunas/66-mar-
cos-bagno/578-este-ou-esse-tanto-faz
PRONOMES
PRONOMES SUBSTANTIVOS 
E PRONOMES ADJETIVOS
MORFOLOGIA
 DIAGRAMA DE IDEIAS
PRONOMES 
POSSESSIVOS
PRONOMES 
DEMONSTRATIVOS
16Pronomes relAtivos, 
interrogAtivos e indefinidos
CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 18 e 27
AULAS 
15 e 16
1. Pronomes indefinidos
Os pronomes indefinidos fazem referência à 3a pessoa 
do discurso, dando-lhe caráter indeterminado, vago ou 
impreciso.
Exemplo: Alguém quebrou os copos da minha 
cristaleira.
Nota-se que o termo alguém refere-se a uma terceira pes-
soa (de quem se fala), mas não é possível atribuir identi-
dade a essa pessoa, pois a informação é vaga e imprecisa.
1.1. Classificação dos 
pronomes indefinidos
Os pronomes indefinidos podem ser classificados como 
variáveis ou invariáveis.
Variáveis
Singular Plural
Masculino Feminino Masculino Feminino
algum
nenhum
todo
outro
muito
pouco
certo
vário
tanto
quanto
alguma
nenhuma
toda
outra
muita
pouca
certa
vária
tanta
quanta
alguns
nenhuns
todos
outros
muitos
poucos
certos
vários
tantos
quantos
algumas
nenhumas
todas
outras
muitas
poucas
certas
várias
tantas
quantas
qualquer quaisquer
Invariáveis
alguém
ninguém
outrem
tudo
nada
algo
cada
2. Pronomes relAtivos
Pronomes relativos são aqueles que se referem a nomes 
anteriormente mencionados (antecedentes), estabele-
cendo com eles relação.
Exemplo: A escola tem um calendário que pos-
sui muitos feriados. 
No exemplo apresentado, o pronome “que” recupera o 
substantivo calendário (o antecedente).
2.1. Classificação dos 
pronomes relativos
Os pronomes relativos apresentam formas variáveis e 
invariáveis.
O livro surge da problemática do que é “pro-
nome”, geralmente utilizado para referir a 
diferentes conjuntos de itens, tais como: os 
pronomes pessoais, demonstrativos, interro-
gativos, indefinidos, relativos, entre outros, 
mas cuja definição tradicional é considerada 
insatisfatória. Com o objetivo principal de con-
tribuir com as discussões sobre pronome, o 
volume reúne trabalhos sobre os mais diversos 
aspectos dessa categoria gramatical, sendo 
fruto de pesquisas desenvolvidas nos últimos 
anos por persquisadores ligados à área, ver-
sando acerca de aspectos morfossintáticos e 
semânticos da categoria pronome, em suas 
principais e mais recentes vertentes do estudo, 
além de aspectos relacionados ao processos 
de percepção pelo falante-ouvinte e das rela-
ções socioculturais dos pronomes.
Pronomes: morfossintaxe e semânti-
ca - Daniel Carvalho e Dorothy Brito
multimídia: livros
17
Variáveis
Invariáveis
Masculino Feminino
o qual
cujo
quanto
os quais
cujos
quantos
a qual
cuja
as quais
cujas
quantas
que
quem
onde
Observação 1: Os pronomes que, o qual, os quais, a qual 
e as quais são equivalentes; no entanto, o pronome que é 
invariável, cabendo em qualquer circunstância, enquanto os 
demais necessitam de um substantivo já determinado.
Exemplo: Esta é a garota com a qual conversei.
Observação 2: Para evitar ambiguidades e outros pro-
blemas de sentido, o pronome relativo onde deve ser uti-
lizado para recuperar lugares físicos/localidades (regiões, 
cidades, ambientes, etc.).
Exemplo: Este é o armazém onde estocamos 
os produtos.
Observação 3: O pronome relativo cujo não realiza a re-
cuperação de um antecedente, mas aponta para uma rela-
ção de posse com o consequente.
Exemplo: A mulher cuja casa foi invadida já 
está em segurança.
Observação 4: O pronome quem faz referência a pesso-
as e ocorre sempre precedido de preposição.
Exemplo: Aquele é o sujeito a quem devo mui-
to dinheiro.
3. Pronomes interrogAtivos
Os pronomes interrogativos são utilizados nas formulações 
de perguntas diretas ou indiretas. Fazem referência direta 
aos pronomes de 3ª pessoa. Os principais pronomes in-
terrogativos são que, quem, qual e quanto (e suas va-
riações). Entende-se como pergunta direta aquela em que 
o pronome interrogativo aparece no início do questiona-
mento (há sinal de interrogação no fim da pergunta). A 
pergunta indireta, por sua vez, é aquela em que o pronome 
interrogativo aparece em outra posição na frase, e não no 
início (não há sinal de interrogação). 
Pergunta direta Pergunta indireta
Quanto custou a 
reforma da casa?
Gostaria de saber quanto 
custou a reforma da casa.
PRONOMES
PRONOMES SUBSTANTIVOS 
E PRONOMES ADJETIVOS
MORFOLOGIA
 DIAGRAMA DE IDEIAS
PRONOMES 
INDEFINIDOS
PRONOMES 
INTERROGATIVOS
PRONOMES 
RELATIVOS
19
 ENTRE TEXTOS – INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS: 
Incidência do tema nas principais provas
UFMG
A prova da Unesp trabalha a interpretação 
de texto em paralelo aos textos literários. 
É importante compreender as figuras de 
linguagem para que o exercício de leitura não 
seja prejudicado.
Boa parte das questões da frente de linguagem 
da Unifesp diz respeito à interpretação. Uma vez 
que a interpretação não ocorre isolada, é preciso 
que o aluno associe os recursos linguísticos, como 
as figuras de linguagem, aos textos que serão 
apresentados.
Um vestibular crítico. Textos críticos e literários 
serão colocados em discussão, bem como textos 
comuns ao cotidiano do estudante. Ter em 
mente que as figuras de linguagem são partes 
essenciais do seu conhecimento sobre os textos 
poderá fazer a diferença no mo-
mento de resolução 
da prova.
Conhecer as figuras de linguagem não bastará 
na prova do Eistein. Haja vista que a ideia de 
aplicar o conhecimento é chave nessa prova, 
o aluno terá que trabalhar e desenvolver o 
seu exercício de leitura para a resolução das 
questões.
No vestibular em questão, a interpretação 
de texto pode ser a chave para um bom 
resultado. Os recursos linguísticos ligados à 
produção de textos, como as figuras de lingua-
gem, não devem ser esquecidos no momento 
da leitura.
É uma prova conceitual. A interpretação de 
textos ocorre de maneira direcionada, focada, 
sobretudo, nos recursos linguísticos (como figuras 
de linguagem e funções linguísticas). Trabalhar 
de forma atenta, lembrando e aplicando os 
conceitos aprendidos em aula será 
fundamental.
De forma geral, o vestibular da Santa Casa 
equilibra bem as frentes da área de Português, 
de modo que as questões de interpretação se 
tornam bastante direcionadas. Não por menos, 
conhecimentos basilares, como as figuras de lin-
guagem, deverão ser internalizados 
ao processo de leitura 
do aluno.
O exame do Enem é conhecido por ser essen-
cialmente interpretativo. Assim, a compreensão 
sobre as figuras de linguagem é essencial para a 
leitura de textos literários e não literários. As aulas 
presentes neste caderno servirão, portanto, 
como conhecimento basilar às re-
soluções das questões.
No vestibular Fuvest, a interpretação de texto 
acontece de forma mais prática. Muitas vezes 
ligada aos textos literários ou críticos, a com-
preensão dos conceitos que definem cada uma 
das figuras de linguagem pode ser a chave 
para resolver uma questão.
Além do senso crítico apurado, o vestibular da 
UERJ demandará do candidato conhecimento 
sobre os conceitos fundamentais da interpre-
tação. Saber reconhecer as figuras de lingua-
gem, dentro de uma leitura naturalmente 
crítica e avaliativa, poderá ser um 
grande diferencial.
Exame majoritariamente interpretativo, exigirá 
do aluno conhecimento sobre os recursos 
linguísticos fundamentais. Compreender bem 
as figuras de linguagem auxiliará o aluno na 
resolução de questões que envolvem textos 
em variados gêneros, literários 
ou não.
A interpretação de texto é a chave para resolução 
da grande maioria das questões. Desse modo, uma 
leitura atenta e crítica, aliada aos conhecimentos 
que serão trabalhados neste caderno, as figuras de 
linguagem, renderá ao aluno um maior aprovei-
tamento da prova e do tempo de 
resolução. 
O exame CMMG é objetivo. Exige do candidato 
uma capacidade leitora fundamental, exigindo 
dele aptidão em reconhecer as figuras de lingua-
gem e seus modos de operação dentro dos textos.
Foco e atenção. Além de conhecer os recursos lin-
guísticos, sobretudo os recursos basilares, como 
as figuras de linguagem, é importante lembrar 
que uma leitura atenta pode render ao candidato 
pontos em questões não apenas naárea de 
Português, mas nas variadas áreas 
do conhecimento.
A prova da UEL alinha a interpretação de texto 
às obras literárias que costuma exigir na sua 
lista obrigatória de leitura. Assim, conhecer de 
forma ampla as figuras de linguagem é ampliar o 
potencial de leitura e interpretação que o aluno 
levará à prova.
20
1. figurAs de linguAgem i
1.1. Figuras de palavra
Também conhecidas como tropos (figuras em que ocorrem 
mudanças internas ou externas de significado), as figuras 
de palavra funcionam a partir da “realização de um em-
préstimo“ de uma determinada palavra ou expressão que, 
por uma aproximação de sentidos, funciona de maneira 
específica dentro de um contexto determinado. A seguir, 
temos as principais figuras de palavra do português:
1. Metáfora;
2. Comparação ou símile;
3. Catacrese;
4. Metonímia;
5. Antonomásia ou perífrase;
6. Sinestesia.
1.1.1. Metáfora
A metáfora é uma figura que transporta a palavra (ou ex-
pressão) do seu sentido literal/denotativo para o sentido 
figurado/conotativo. Ela pode ter como base uma ideia 
afirmativa (em que não existe a presença de termos ou 
expressões comparativas como, por exemplo, “como“ ou 
“tal qual“) ou ser motivada pelo conhecimento prévio que 
temos de determinado assunto. Vejamos alguns exemplos:
Exemplo 1 (metáfora de afirmação):
Você é a escada da minha subida
Você é o amor da minha vida
É o meu abrir de olhos ao amanhecer
Verdade que me leva a viver
No exemplo apresentado, há várias marcas de afirmação 
(...é a escada da minha subida) que remetem a conheci-
mentos prévios do leitor.
Exemplo 2 (metáfora de conhecimento prévio):
“Achamos a chave do problema“
No exemplo apresentado, a metáfora reside em um conhe-
cimento prévio por parte do leitor a respeito da semântica 
de alguns termos. Por exemplo, a ideia de que “problema“ 
é algo negativo e de que “chave“ seria algo como uma 
“resolução“ para o problema.
1.1.2. Comparação ou símile
Ocorre quando é estabelecida entre palavras ou expres-
sões uma relação marcada pela presença explícita de 
termos comparativos. No português, os principais ter-
mos que estabelecem relações de comparação são: como, 
assim como, tal como, igual a, que nem, entre outros. 
Esse processo também pode se dar por meio de verbos 
como “parecer-se” e “assemelhar-se”. Vejamos alguns 
exemplos de comparação:
Exemplos: 
“Essa pirâmide é alta como um arranha-céu.”
“A família está novamente reunida, que nem na 
noite de Natal.”
“O motorista daquele ônibus parece um cantor 
famoso.”
1.1.3. Catacrese
Consiste no emprego de palavra com um sentido di-
ferente do literal para suprir a falta de um termo 
adequado. Trata-se de um “empréstimo” de um termo 
que, por se tornar recorrente em um sistema linguístico, 
já não se consegue mais perceber que se trata de um 
empréstimo (o termo se enraíza na língua). Alguns estu-
diosos chamam a catacrese de “metáfora obrigatória”, 
uma vez que seu uso é, muitas vezes, inevitável dentro 
de um sistema linguístico.
Exemplos: 
“Embarcar no avião/ no trem/ no ônibus“ (origi-
nalmente, embarcar diz respeito a entrar em um 
barco; mas atualmente se refere à entrada em 
vários tipos de transporte)
“Braço da cadeira“ (braço é uma parte do corpo 
humano que é associada a uma cadeira)
figurAs de linguAgem i
CompetênCias: 1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29
AULA 
5
21
“Árvore genealógica“ (a árvore genealógica não 
é necessariamente uma árvore, mas um desenho 
esquemático que lembra uma árvore).
1.1.4. Metonímia
A metonímia é um mecanismo de substituição de uma 
palavra por outra que respeita uma relação objetiva entre 
elas. A relação metonímica pode ser qualitativa (manipula 
referencias materiais) ou quantitativa (manipula elementos 
que se pode contar).
Alguns estudiosos da língua portuguesa costumam tomar 
a relação metonímica quantitativa como uma figura de 
linguagem à parte, que recebe o nome de sinédoque. Já 
outros, consideram essa distinção irrelevante (uma vez que 
o conceito de metonímia já abarcaria o de sinédoque). 
 § Metonímia qualitativa
Uso da matéria em lugar do objeto:
Exemplo: “Tem gente que passa a vida corren-
do atrás do vil metal.” (vil metal = dinheiro)
Uso do autor em lugar da obra:
Exemplo: “Gosto de ler Machado de Assis 
desde que era jovem.” (Machado de Assis = ler 
os livros de Machado de Assis)
Uso da marca em lugar do produto:
Exemplo: “Lave a louça com Bombril e não 
se esqueça de esfregar bem!” (Bombril = palha 
de aço)
Uso do proprietário em lugar da propriedade:
Exemplo: “Vamos dar uma passadinha lá na 
Bete para tomar um café.” (Bete = casa da Bete) 
 § Metonímia quantitativa (sinédoque)
Uso da parte em lugar do todo:
Exemplo: “Muitas cabeças contribuíram para 
a elaboração desse projeto.” (cabeças = pessoas 
que usam a cabeça)
Uso do singular em lugar do plural:
Exemplo: “Nossas autoridades precisam dar 
mais atenção à mulher” (mulher = mulheres 
como um todo)
Uso do gênero em lugar da espécie:
Exemplo: “O homem cada vez cuida mais mal 
do planeta terra.” (homem = ser humano)
1.1.5. Antonomásia ou perífrase
É uma figura de linguagem que realiza a substituição de 
um termo ou expressão curta por uma expressão mais lon-
ga que serve para transmitir a mesma ideia. As expressões 
empregadas como substitutas são bastante conhecidas e 
facilmente associadas às que foram substituídas, operando 
a partir da noção de “celebridade“ (o que torna algo ou 
alguém famoso ou conhecido).
Exemplos: 
“Admiro a obra do poeta dos escravos.” (po-
eta dos escravos = Castro Alves)
“Quero jogar igual ao rei do futebol.” (rei do 
futebol = Pelé)
“Ainda esse ano eu volto para a cidade mara-
vilhosa.” (cidade maravilhosa = Rio de Janeiro)
Atenção: a antonomásia/perífrase é um recurso de coe-
são textual que deve ser usado para evitar repetições de 
um mesmo nome/termo; no entanto, deve ser usado com 
parcimônia, tendo o cuidado de verificar se o termo peri-
frástico é realmente adequado.
1.1.6. Sinestesia
Trata-se a sinestesia de uma combinação de palavras que 
remetem a diferentes sentidos percebidos pelo corpo hu-
mano. Cuida de observar expressões em que se misturem, 
por exemplo, sensações visuais com auditivas ou audição 
com tato, entre outras possibilidades.
Exemplo: “Não gosto de perfumes muito 
doces.” (perfume é um estímulo olfativo enquan-
to doces se referem ao paladar).
22
VIVENCIANDO
Pintura - Vladimir Kush
As metáforas são figuras de linguagem que encontramos não apenas em textos verbais mas também 
nos não-verbais. As magnificas obras do pintor surrealista russo Vladimir Kush (53 anos) aproximam 
figuras de diferentes origens, criando imagens metafóricas surpreendentes, que jogam com o imag-
inário do espectador.
Música das Madeiras
MetaMorfose ii
23
VIVENCIANDO
Pintura - Vladimir Kush
Partida do navio alado
diário de descoBertas
24
 DIAGRAMA DE IDEIAS
 
FIGURAS DE PALAVRA
EMPRÉSTIMO DE PALAVRA OU EXPRESSÃO 
POR APROXIMAÇÃO DE SENTIDOS
METÁFORA
METONÍMIA
COMPARAÇÃO
SINÉDOQUE
CATACRESE
ANTONOMÁSIA
25
1. figurAs de linguAgem ii
1.1. Figuras de sintaxe
O objetivo das figuras sintáticas é dar maior expressivida-
de ao significado geral de uma frase. As principais figuras 
sintáticas do português são as seguintes:
1. Hipérbato;
2. Anáfora;
3. Pleonasmo;
4. Catáfora;
5. Elipse;
6. Zeugma;
7. Silepse;
8. Anacoluto;
9. Polissíndeto;
10. Assíndeto;
11. Hipálage.
1.1.1. Hipérbato
O hipérbato é um rompimento da ordem direta dos ter-
mos da oração. Também conhecido como processo de 
inversão frásica (ou sintática). Trata-se de uma figura de 
linguagem que quebra o que chamamos de ordem canô-
nica do português; ou, em termos mais claros, a ordem 
com que nos comunicamos mais habitualmente, que é 
a sequência SUJEITO > VERBO > OBJETO > MARCAS 
CONJUNTIVAS OU ADVERBIAIS. Toda vez que fazemos a 
quebra dessa ordem (colocando, por exemplo, o sujeito 
após o objeto; ou deslocando as marcas adverbiais para 
o início da oração), temos uma inversão sintática.Exemplos: 
“Dos meus problemas cuido eu!” (sujeito “eu” 
colocado no final da frase)
“Dança, à noite, o casal de apaixonados no 
clube.” (verbo intransitivo “dançar” e adjunto “à 
noite” estão deslocados para o início da frase)
1.1.2. Anáfora
A anáfora consiste na repetição enfática de uma ou mais 
palavras no início de orações, períodos ou versos sucessi-
vos. É um recurso linguístico utilizado com maior frequên-
cia em poemas e letras de canções (sendo, portanto, uma 
marca de estilo). Vejamos alguns exemplos:
Se você gritasse
Se você gemesse,
Se você tocasse
a valsa vienense
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro José! 
(carlos druMMond de andrade)
Quando não tinha nada, eu quis
Quando tudo era ausência, esperei
Quando tive frio, tremi
Quando tive coragem, liguei
(À PriMeira vista – chico césar) 
É possível perceber nos dois exemplos apresentados que há 
uma repetição sistemática de certos elementos que estão no 
começo de cada verso. No caso do poema de Carlos Drum-
mond de Andrade, a repetição da marca se parece querer 
reforçar o caráter instável e flutuante do indivíduo. Já na can-
ção de Chico César, a retomada do termo quando reforça 
o trajeto temporal pelo qual os eventos vão ocorrendo na 
música. É possível dizer que se trata de um recurso enfático.
1.1.3. Pleonasmo
O pleonasmo consiste no emprego de diferentes termos 
que possuem o mesmo sentido, com o objetivo de realçar 
uma ideia ou deixá-la ainda mais clara. Em alguns casos, 
a redundância dos termos utilizados pode se tornar des-
necessária. Por esse motivo, alguns estudiosos dividem o 
pleonasmo em dois tipos:
 § Pleonasmo literário: consiste no uso de palavras 
redundantes com o objetivo de enfatizar o que está 
sendo dito.
Exemplos: 
Chovia uma triste chuva de resignação. (Ma-
nuel Bandeira)
 figurAs de linguAgem ii
CompetênCias: 1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29
AULA 
6
26
Me sorri um sorriso pontual e me beija com a 
boca de hortelã. (Chico Buarque) 
 § Pleonasmo vicioso: acontece quando palavras re-
dundantes são utilizadas sem nenhuma função.
Exemplos: 
“Todos subiram em cima do palco.”
“Paguei um mês de mensalidade.”
1.1.4. Catáfora
Trata-se a catáfora de um termo (geralmente pronominal), 
ou locução que introduz uma especificação/explicação de 
alguma informação que foi mencionada anteriormente. Ve-
jamos alguns exemplos:
Exemplos: 
“Minha vida se resume a isto: trabalhar, traba-
lhar e trabalhar.” (O pronome “isto” introduz a 
informação que resume a vida do enunciador.)
“Muitas CPIs acabam em pizza, ou seja, não 
dão em nada e são arquivadas.” (O termo “ou 
seja” introduz explicação sobre o que significa 
“acabar em pizza”.)
1.1.5. Elipse
A elipse é um processo no qual se omite uma palavra ou 
expressão em uma oração, podendo ser facilmente identifi-
cada por elementos gramaticais, ou pelo contexto. O termo 
omitido fica subentendido e sua ausência na oração não 
prejudica a compreensão do que está sendo dito. Seguem 
alguns exemplos: 
Exemplos: 
“Não fosse sua carona, eu ainda estaria no meio 
do caminho.” (É possível perceber que há a pos-
sibilidade de encaixarmos no início da frase uma 
condicional “se” – “Se não fosse sua carona...”.)
“Chegaremos amanhã cedo.” (É possível perce-
ber, pela desinência do verbo “chegar”, (–mos), 
que há um sujeito elíptico, “nós”.)
1.1.6. Zeugma
Trata-se de um caso particular de elipse em que ocorre a 
omissão de palavras ou expressões anteriormente expres-
sas no período. A repetição do termo fica subentendida, 
sem que isso prejudique a compreensão da sentença. Ve-
jamos um exemplo.
Exemplos: “Eu chego cedo sempre, só não 
quando estou sem carro.” (Notamos que é o 
verbo “chegar” poderia ser recuperado mais 
adiante na oração – “só não chego quando es-
tou sem carro” – mas é mantido elíptico.)
Atenção1: Se na repetição houver flexão verbal diferente 
da palavra explícita de origem, teremos um caso que é cha-
mado de zeugma complexo.
Exemplos: “Meus amigos adoram praia, e eu 
também.” (Notamos que a possível retomada do 
verbo adorar no decorrer do período alteraria sua 
flexão em termos de pessoa – “e eu adoro tam-
bém” – nesse caso temos zeugma complexo.)
Atenção2: Muitos vestibulares não levam em conside-
ração a nomenclatura do Zeugma, entendendo qualquer 
omissão de termos como elipse. Isso significa que, em mui-
tos casos, mesmo havendo Zeugma, as instituições que 
elaboram as provas o tratarão simplesmente por elipse.
1.1.7. Silepse
Trata-se de palavra que estabelece concordância com o 
sentido ideológico, ao invés de concordar com a estrutura 
gramatical. Há no português três tipos de silepse: de gê-
nero, de número e de pessoa.
 § Silepse de gênero
Exemplo: “Vossa excelência está preocu-
pado.” (A formação pronominal “vossa ex-
celência” pelas normas gramaticais, concorda 
com adjetivos femininos, no entanto o adjetivo 
está no masculino, dando a entender que a tal 
excelência é um homem.)
 § Silepse de número
Exemplo: “A população chegou agitada ao co-
mício, gritavam com todo o ímpeto.” (O termo 
“população” está no singular mas tem como 
concordância ideológica um verbo no plural, 
pois entende-se que população é um grande 
número de pessoas.)
 § Silepse de pessoa
Exemplo: “A questão é que os três queremos 
comemorar o aniversário no mesmo dia.” (O ter-
mo “os três” deveria estabelecer concordância 
com o pronome “eles” (os três – eles – querem), 
mas por conta da intenção de inclusão do pró-
prio falante na oração, como um dos que tam-
bém querem comemorar o aniversário no mesmo 
dia, ele se inclui com o pronome “nós”.)
1.1.8. Anacoluto
Ocorre quando a estrutura sintática de uma oração é 
interrompida e um termo ou expressão que parecia ser 
27
essencial à sentença acaba ficando solto. Também conhe-
cido menos tecnicamente como processo de “quebra de 
frase”. Vejamos a seguir:
Exemplos: 
“Esse chapéu que está na moda, você que 
gosta de chapéu devia comprar um.” (Esse cha-
péu que está a moda = termo sintaticamente 
solto/deslocado.)
“Eu, toda vez que chego, você me chama pra 
conversar.” (Eu = termo sintaticamente solto/
deslocado.) 
1.1.9. Polissíndeto
É uma figura caracterizada pela repetição enfática dos co-
nectivos. Vejamos alguns exemplos:
Exemplos:
“Não canto nem danço, nem escrevo, nem de-
senho.” (Repetição sistemática de conjunções 
aditivas enfatiza o fato de que o enunciador não 
realiza muitas atividades.)
“Ou você dá a festa, ou viaja, ou faz o curso.” 
(Repetição sistemática de conjunções alternati-
vas enfatiza as possibilidades de alternância.)
1.1.10. Assíndeto
É uma figura caracterizada pela omissão das conjunções 
coordenativas. Vejamos a seguir:
Exemplos: 
“Tem que ser selado, registrado, carimbado, ava-
liado, rotulado, se quiser voar” (Carimbador ma-
luco – Raul Seixas).
Percebe-se que há uma sequência de elementos 
burocráticos que são apresentados na música, 
mas não verificamos nenhum tipo de conjunção 
estabelecendo entre eles relações de conexão.
1.1.11. Hipálage
A hipálage é uma figura de linguagem caracterizada pela 
atribuição de uma característica de algum ser ou de algum 
objeto a outro ser ou objeto que se encontra próximo ou 
relacionado com ele. Mais tecnicamente é atribuído um ad-
jetivo a um substantivo quando na realidade esse adjetivo 
se refere logicamente a outro substantivo presente no perí-
odo. A hipálage produz uma mudança na estrutura básica 
(natural) da oração, provocando um desajuste entre o sen-
tido e a função da palavra na frase. Trata-se de um recurso 
muito usado na literatura com o objetivo de aumentar a 
expressividade da mensagem; mas também é encontrado 
em expressões comuns. 
Exemplos:
“Esse sapato não entra no meu pé!”
“Deitado na rede, Ricardo lia um livro sonolento.”
“Fumando um pensativo cigarro.” (Eça de Queirós)
“O silêncio desaprovador dos meus colegas.” 
(Camilo Castelo Branco).
Este livro reúne 20 das mais significativas 
entrevistas realizadas por Luiz Costa Pereira 
Junior paraa revista Língua Portuguesa. Em 
conversas com Saramago, Millôr Fernandes, 
Mia Couto, entre outros, mostra que pensar a 
vida ao pensar o idioma pode ser mais fecun-
do e brotar lugares mais inesperados do que, a 
princípio, se imagina; e muito do que se pensa 
sobre linguagem pode estar fora dos muros de 
quem a pesquisa.
Figuras da linguagem – Luiz 
Costa Pereira Junior
multimídia: livros
28
 DIAGRAMA DE IDEIAS
 
FIGURAS DE SINTAXE
DÃO MAIOR EXPRESSIVIDADE AO 
SIGNIFICADO GERAL DA FRASE
HIPÉRBATO
CATÁFORA
SILEPSE
ANÁFORA
ELIPSE
ANACOLUTO
PLEONASMO
ZEUGMA
POLISSÍNDETO
ASSÍNDETO HIPÁLAGE
29
1. figurAs de linguAgem iii
1.1. Figuras de som ou de harmonia
As figuras de som ou de harmonia são aquelas formadas 
a partir de parâmetros sonoros da língua. São divididas da 
seguinte forma:
1. Aliteração;
2. Assonância;
3. Paronomásia;
4. Onomatopeia.
1.1.1. Aliteração
A aliteração consiste na repetição de mesmo som conso-
nantal. É uma figura de linguagem muito comum em tex-
tos literários e letras de canções. Vejamos um exemplo:
“Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”
(violões que choraM – cruz e souza)
No poema apresentado verificamos uma repetição siste-
mática da consoante “V”, com a intenção de imitar o som 
das batidas do violão. Vejamos um exemplo em prosa:
“Boi bem bravo. Bate baixo, bota baba, boi berrando... 
Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito...
Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...“
(o Burrinho Pedrês – GuiMarães rosa)
O trecho apresentado, retirado do conto “O burrinho pe-
drês” de Guimarães Rosa, realiza repetição de algumas 
consoantes em alguns trechos do conto (“B”, “D” e “V”) 
com o objetivo claro de tentar reproduzir os sons que ocor-
rem durante a caminhada dos animais (sons de passos 
sobre areia ou grama).
Atenção: sendo recurso estilístico, não se recomenda o 
uso de aliterações fora de contexto, para que não haja pre-
juízos ao enunciado.
1.1.2. Assonância
A assonância consiste na repetição de mesmo som vocálico. 
Assim como a aliteração, é figura de linguagem muito co-
mum em textos literários e letras de canções.
Salvo o que o vago e incógnito desejo 
De ser eu mesmo de meu ser me deu.
(hoje que a tarde é calMa e o céu tranquilo – fernando Pessoa)
Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
E vamos botar água no feijão
(feijoada coMPleta – chico Buarque)
Nos dois exemplos apresentados há repetições constantes 
de vogais (“O” e “E” no poema de Fernando, Pessoa e 
“I” e “U” na canção de Chico Buarque). A esse processo 
chamamos assonância.
Atenção: assim como a aliteração, a assonância é recurso 
estilístico, por isso não se recomenda o seu uso fora de 
contexto, para que não haja prejuízos ao enunciado.
1.1.3. Paronomásia
A paronomásia é uma figura estilística que trabalha com 
palavras parônimas (palavras muito parecidas no som e 
na escrita, mas com significados diferentes) para alcançar 
trocadilhos nas construções. Os trocadilhos acionados 
pela paronomásia constituem recurso retórico muito usado 
no humor e na publicidade; criam um efeito inesperado na 
recepção da informação, aproveitando a sonoridade muito 
similar que existe entre algumas palavras. Vejamos alguns 
tipos de paronomásia.
Exemplos: 
Você tem que ler muito, sobretudo se quiser 
escrever sobre tudo.
“Exportar é o que importa.” (Delfim Netto)
“Quem casa, quer casa”.
1.1.4. Onomatopeia
A onomatopeia é uma tentativa, na escrita, de se reproduzir 
efeitos sonoros da realidade. Não se trata de uma reprodu-
ção fiel do som ou ruído, mas sua interpretação aproximada, 
usando sons existentes em determinada língua. Trata-se de 
figura de linguagem muito comum em quadrinhos, por conta 
da necessidade de atribuir sons a certos estímulos visuais. 
Vejamos alguns exemplos:
 figurAs de linguAgem iii
CompetênCias: 1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29
AULA 
7
30
Percebemos que é comum nos quadrinhos a tentativa de 
reprodução de sons da realidade. Não existem sons defini-
tivos para os eventos/acontecimentos. Cada autor repre-
senta o som da maneira que lhe é preferível.
A poesia trabalha constantemente com figu-
ras de linguagem. Por esse motivo, é necessá-
rio que o vestibulando esteja atento ao tema, 
quando aplicado nesse gênero literário.
O poema “Lixo Luxo”, de Augusto de Campos, 
se constrói a partir da figura da paronomásia.
multimídia: poema • poesia
multimídia: poema • poesia
De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 
De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 
De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 
Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.
O “Soneto da separação”, de Vinícius de Mo-
raes, se articula a partir de antíteses. 
Soneto da separação 
multimídia: sites
https://www.figurasdelinguagem.com/
31
 DIAGRAMA DE IDEIAS
 
FIGURAS DE SOM
FIGURAS CONSTITUÍDAS A 
PARTIR DE PARÂMETROS SONOROS
ALITERAÇÃO
PARONOMÁSIA
ASSONÂNCIA
ONOMATOPEIA
32
1. figurAs de linguAgem iv
1.1. Figuras de pensamento
As figuras de pensamento são formadas a partir do empre-
go de termos conotativos, contrariando a expectativa do 
ouvinte. As principais figuras de pensamento são:
1. Antítese;
2. Paradoxo ou oximoro;
3. Eufemismo;
4. Ironia;
5. Hipérbole;
6. Prosopopeia ou personificação;
7. Apóstrofe;
8. Gradação;
9. Quiasmo;
10. Preterição.
1.1.1. Antítese
A antítese é a aproximação de palavras de sentido oposto 
a fim de destacar uma ideia ou conceito. É importante frisar 
que a antítese apenas “expõe“ as palavras opostas, sem 
cruzá-las. Vejamos alguns exemplos:
“Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida” 
(natal – ruBeM BraGa)
Em tristes sonhos morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
(À instaBilidade das cousas do Mundo – GreGório de Matos)
É possível perceber nos exemplos que há a evidenciação de 
imagens contrárias que detêm o mesmo valor na constru-
ção da antítese (morte × vida e tristezas × alegrias).
1.1.2. Paradoxo ou oximoro
O paradoxo é uma figura que “funde” conceitos opos-
tos num mesmo enunciado. A junção de ideias entendi-
das como contraditórias costuma provocar um efeito de 
estranhamento.
Exemplos: 
“Quanto mais trabalhamos mais temos dificulda-
des financeiras.”
“Esse garoto parece que dorme acordado.”
1.1.3. Eufemismo
Trata-se de uma figura em que se empregam determinadas 
palavras com o objetivo de operar uma suavização de uma 
mensagem ruim a ser passada. Vejamos os exemplos:
Exemplos: 
“A testemunha faltou com a verdade” = 
mentiu
“O vigia passou desta para melhor” = morreu
1.1. 4. Ironia
A ironia consiste no emprego de uma palavra ou expressão 
em um sentido contrário do que se está pensando, pro-
duzindo efeito humorístico, satírico e até mesmo crítico. A 
ironia é uma figura de linguagem que não deixa transpare-
cer imediatamente a intenção por trás do que foi expresso.
Exemplos: 
Que rapaz “educado”! Entrou sem cumprimen-
tar ninguém. (Imaginando que a pessoa tenha 
entrado no recinto sem cumprimentar ninguém 
no local).
Essa reunião foi “pura diversão” (imaginando 
uma reunião que tenha sido extremamente de-
sagradável).
Atenção: na escrita, os termos que expressam a ironia são 
habitualmente marcados com aspas.
1.1.5. Hipérbole
A hipérbole é uma figura de linguagem utilizada para pro-
vocar um exagero intencional na sentença. É importante 
frisar que a hipérbole não é um exagero gratuito. Seu ob-
jetivo é realçar a ideia original colocada na expressão. Em 
alguns casos se trata de uma construção já “enraizada” no 
sistema linguístico.
 figurAs de linguAgem iv
CompetênCias:1, 6 e 9 Habilidades: 1, 3, 4,18 e 29
AULA 
8
33
Exemplos: 
“Faz umas dez horas que essa menina entrou 
no banho.”
“Faria isso milhões de vezes se fosse preciso.”
“Estou morrendo de sede.”
1.1.6. Prosopopeia
É uma figura por meio da qual se atribui atitudes, senti-
mentos, qualidades e linguagem próprios de um ser huma-
no a seres inanimados ou irracionais.
Exemplos: “Essa máquina não está traba-
lhando direito.”
1.1.7. Apóstrofe
Trata-se de um movimento de interrupção de um discurso 
para que seja “invocada”, para o interior do texto, algu-
ma coisa personificada. Se realiza por meio de vocativo. A 
apóstrofe interrompe a sequência natural do período para 
dar destaque à entrada daquilo que foi invocado, podendo 
ser uma entidade imaginária, ou mesmo o interlocutor do 
texto que está sendo lido. Vejamos alguns exemplos:
Exemplos: 
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal.
(fernando Pessoa)
“Seu garçom, faça o favor de me trazer depres-
sa/ Uma boa média que não seja requentada.”
(noel rosa)
1.1.8. Gradação
Consiste em um processo de encadear ideias por meio de 
palavras, remetendo a uma operação sequencial crescente 
ou decrescente. O processo de gradação pode acontecer 
com palavras sinônimas ou não. É um recurso muito usado 
em textos literários para trabalhar as noções semânticas de 
“clímax” e “anticlímax”.
Exemplos: 
De repente o problema se tornou menor, um 
grão, um cisco, um quase nada.
Minha irmã sempre se achou bonita, linda, des-
lumbrante. 
1.1.9. Quiasmo
É uma figura de linguagem que faz um cruzamento entre fra-
ses ou versos de um poema, de modo que os termos que estão 
no início de um passam para o final de outro, e os do final para 
o início. Esse movimento em forma de “X” tem o objetivo de 
dar a esses termos um maior destaque. Vejamos um exemplo:
Exemplos: 
Melhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.
(os lusíadas, Xi, 93)
“De certos homens, dizia Sócrates, que não co-
miam para viver, mas só viviam para comer.“ 
(Pe. antônio vieira)
1.1.10. Preterição
Trata-se de uma figura de linguagem de utilização mais 
rara, por meio da qual o narrador/personagem finge que 
não vai tratar um determinado assunto, mas vai falando 
dele aos poucos, seja para alcançar um efeito de ironia, ou 
mesmo de realce. Esta estratégia tem o objetivo de tentar 
anular a possibilidade de réplica do ouvinte à teoria que 
está sendo exposta:
Em todo processo de comunicação visamos 
a demonstrar, a provar, a deleitar, a agradar, 
a emocionar, a comover: em suma, queremos 
persuadir. Com a linguagem, buscamos levar 
os outros a fazer determinadas coisas, a crer 
em determinadas ideias, a sentir determinadas 
emoções, a ter determinados estados de alma, 
a construir uma boa imagem de nós. Para 
isso, precisamos gerenciar a atenção do outro. 
Então, sublinhamos certas ideias, chamamos 
atenção para determinada passagem, enfa-
tizamos dadas expressões. Este livro, numa 
perspectiva nova nos estudos de retórica, tra-
balha as figuras como operações enunciativas 
que, intensificando ou atenuando o sentido, 
possam realizar a persuasão.
Figuras de Retórica – José Luiz Fiorin
multimídia: livros
34
 DIAGRAMA DE IDEIAS
 
FIGURAS DE PENSAMENTO
FIGURAS FORMADAS A PARTIR DE 
ELEMENTOS CONOTATIVOS
ANTÍTESE
IRONIA
APÓSTROFE
PARADOXO
HIPÉRBOLE
GRADAÇÃO
EUFEMISMO
PROSOPOPEIA
QUIASMO
PRETERIÇÃO
Exemplos: 
Sem querer falar de suas mentiras, mas já fa-
lando [...].
Não pretendo aqui lembrar que o réu ajudou 
muitas pessoas carentes [...].
“Não vos direi, pois, senhores, quão grandes e 
quão afortunados foram seus feitos na paz e na 
guerra, por terra e por mar [...].“
35
 LITERATURA: Incidência do tema nas principais provas
UFMG
Como a Unesp não possui uma lista 
obrigatória de livros, as questões contemplam 
o conhecimento acerca das escolas literárias, 
bem como de seus principais representan-
tes. Neste livro, estão presentes questões 
sobre Quinhentismo, Barroco e 
Arcadismo. 
Como a Unifesp não possui uma lista obrigatória 
de livros, as questões contemplam o conhecimento 
das escolas literárias, bem como de seus principais 
representantes. Neste livro, estão presentes questões 
sobre Quinhentismo, Barroco e Arcadismo. 
A maior parte das questões de literatura da Uni-
camp refere-se às obras de leitura obrigatória. 
Neste livro, encontram-se algumas questões 
sobre as estéticas do Barroco e do Arcadismo, 
além de exercícios sobre o padre Antônio 
Vieira, um dos autores cuja obra 
é exigida por esse 
exame.
Parte das questões de literatura dessa prova se 
baseia nas obras de leitura obrigatória da FUVEST. 
Entretanto, também é comum aparecer questões que 
cobrem o conhecimento do aluno sobre as caracte-
rísticas específicas dos movimentos literários. Nesse 
livro, há exercícios sobre o Arcadismo 
e o Romantismo no 
Brasil. 
A maior parte das questões de literatura dessa prova 
se refere às obras de leitura obrigatória. Entretanto, 
para melhor compreender essas obras, é importante 
que o aluno conheça os movimentos literários, bem 
como seus principais representantes. Neste livro, 
estão presentes questões sobre Qui-
nhentismo, Barroco e Ar-
cadismo.
Como a PUC de Campinas não possui uma 
lista obrigatória de livros, as questões contem-
plam o conhecimento acerca dos diferentes 
gêneros literários e das escolas literárias, bem 
como de seus principais representantes.
A prova da Santa Casa exige seus conheci-
mentos acerca dos gêneros literários e dos 
movimentos literários no Brasil e em Portugal. 
Neste livro, estão presentes questões sobre a 
estética barroca e árcade. 
A prova do ENEM exige que o aluno tenha 
conhecimento a respeito das escolas literárias 
e de seus principais representantes. Neste 
caderno, você encontra algumas questões 
sobre Quinhentismo, Barroco e Arcadismo, 
conteúdos que já foram cobrados 
pelo exame. 
A maior parte das questões de literatura se refe-
re às obras de leitura obrigatória. Neste livro, 
encontram-se algumas questões sobre Gregório 
de Matos, um dos autores cuja obra é exigida 
por esse exame, bem como sobre as estéticas 
barroca e árcade.
Como a UERJ não possui uma lista obrigatória de 
livros, as questões contemplam o conhecimento 
acerca dos diferentes gêneros literários e das es-
colas literárias, bem como de seus principais repre-
sentantes. Nesse caderno, você encontra algumas 
questões acerca do Quinhentismo e 
do Barroco no Brasil. 
Como a Ungranrio não possui uma lista 
obrigatória de livros, as questões contemplam 
o conhecimento acerca dos diferentes gêneros 
literários e das escolas literárias, bem como de 
seus principais representantes.
A Souza Marques exige seus conhecimentos 
acerca dos gêneros literários e dos movimen-
tos literários brasileiros. Neste livro, estão 
presentes questões sobre a estética barroca e 
sobre seus principais representantes.
A maior parte das questões de literatura se refere 
às obras de leitura obrigatória. Entretanto, para 
melhor compreender essas obras, é importante 
que o aluno conheça os movimentos literários, 
bem como seus principais representantes. Neste 
livro, estão presentes questões sobre 
a estética barroca e 
árcade. 
A maior parte das questões de literatura da UFPR se 
refere às obras de leitura obrigatória. Entretanto, para 
melhor compreender essas obras, é importante que o 
aluno conheça os movimentos literários, bem como 
seus principais representantes. Neste livro, estão 
presentes questões sobre Quinhen-
tismo, Barroco e Arca-
dismo. 
A maior parte das questões de literatura da UEL 
se refere às obras de leitura obrigatória. Neste 
livro, estão presentes questões sobre o Barroco, 
movimento do qual faz parte Gregório de Matos, 
um dos autores cuja obra é exigida por esse 
exame. 
36
Observe, na tabela a seguir, os períodos literários do Brasil Colônia.
Quinhentismo (1500-1601) Barroco (1601-1768) Neoclassicismo (1768-1836)
O primeiro documento escrito foi a Cartade Pero Vaz de Caminha, destinada a Dom 
Manuel, rei de Portugal.
Publicação do poema épico Prosopopeia, de 
Bento Teixeira.
Publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Man-
uel da Costa.
Florescimento da chamada literatura de 
informação, cujo objetivo era descrever 
para a Corte portuguesa a terra descoberta.
Poesias lírica, religiosa e satírica, de 
Gregório de Matos, em Salvador, Bahia.
Atuação do Grupo Mineiro em Vila Rica, 
Minas Gerais.
Desenvolvimento da literatura de 
catequese com a finalidade de doutri-
nar os indígenas.
Oratória doutrinária do padre Antônio 
Vieira, em Salvador, Maranhão, e outras 
áreas do Nordeste brasileiro.
Poesia árcade de Cláudio Manuel da Costa 
(sonetos).
Textos de teatro com teor catequético. Sermões, do padre Antônio Vieira.
Tomás Antônio Gonzaga escreve Marília de 
Dirceu.
Produção de poesia religiosa. Conceptismo e cultismo.
Poesia épica indianista: O Uraguai, de 
Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita 
Durão.
José de Anchieta é o principal expoente da 
literatura catequética.
Contexto de reformas religiosas. A natureza é a base temática.
1. Quinhentismo ou 
literAturA coloniAl
1.1. A literatura brasileira 
floresceu em duas fases
O período é didaticamente denominado Quinhentismo bra-
sileiro. Os documentos produzidos durante esse tempo não 
são considerados literatura artística, mas manifestações lite-
rárias, uma vez que não são criações de caráter artístico, mas 
produtos de observações ora objetivas, ora subjetivas.
Esse período inicial da história da literatura brasileira 
começou em 1500, ano em que Pero Vaz de Caminha, 
escrivão da frota de Pedro Álvarez Cabral, enviou a Dom 
Manuel I a famosa Carta. Ela comunica ao soberano o 
“achamento” (esse era o termo usado na época) das 
terras brasileiras. No século XVI, os textos produzidos no 
Brasil ligam-se a duas necessidades práticas da empresa 
colonizadora portuguesa: fornecer informação sobre a 
nova terra e converter os indígenas ao cristianismo. Nes-
sa literatura de valor principalmente documental, encon-
tram-se elementos importantes para a compreensão das 
origens históricas e literárias do Brasil.
descoBriMento, de cândido Portinari (1956).
A primeira fase corresponde ao período do Brasil co-
lonial, durante os séculos XVII e XVIII. Naquela época, 
uma da primeiras vozes da literatura brasileira foi a do 
poeta Gregório de Matos e Guerra, instalado em Salva-
dor, no século XVII. Durante o século XVIII, Minas Gerais 
 Quinhentismo e bArroco
CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17
AULAS
9 e 10
37
acompanhou a produção de poetas sediados em Vila Rica 
(atual Ouro Preto), Mariana e São João Del-Rei, localidades 
vinculadas ao ciclo do ouro e de pedras preciosas.
A segunda fase da literatura brasileira surgiu na época do 
Brasil independente, a partir de 1822.
Como característica do país naquele período, não se pode 
falar em literatura “do Brasil”, mas em literatura “no Brasil”. 
Uma literatura ligada ao Brasil, que denota as ambições e as 
intenções do homem europeu. Nesse sentido, divide-se em 
literatura informativa e literatura jesuítica. O Quinhentismo 
serviu de inspiração literária para alguns poetas e escritores 
do Romantismo – Gonçalves Dias, José de Alencar – e do 
Modernismo – Oswald de Andrade, Murilo Mendes.
1.2. Literatura de informação
A expansão ultramarina europeia levou inúmeros viajantes 
às terras recém-descobertas ou exploradas da Ásia, África 
e América com a missão de produzir relatórios informativos 
sobre essas terras e os aspectos de seus habitantes. Esses 
relatórios, denominados “crônicas de viagem”, possuem 
caráter mais histórico do que literário, e a linguagem é pre-
dominantemente referencial ou denotativa.
Considerada o primeiro documento da literatura no Brasil, 
a Carta, de Pero Vaz de Caminha, inaugurou a chamada 
literatura informativa: manifestações literárias de consi-
derável valor histórico e profundo caráter documental so-
bre o Brasil, escritas por cronistas e viajantes. Descrevem 
e informam sobre a nova colônia portuguesa, salientando 
a conquista material e a exaltação da terra nova. Esses 
relatos tinham o intuito de satisfazer a curiosidade e a 
imaginação dos europeus.
índio taPuia. eckhout, a. (1610-1666)
Na literatura informativa, encontram-se documentos, car-
tas e relatórios de navegantes, administradores, missio-
nários e autoridades eclesiásticas. Descrevem e exaltam a 
flora, a fauna e os índios do Brasil, bem como o exotismo 
e a exuberância de um mundo tropical. Também predo-
mina o registro referencial da linguagem, que reflete o 
louvor à terra com o emprego exagerado de adjetivos no 
superlativo e o emprego de modelos clássicos e renascen-
tistas que tendem à erudição. 
Os textos informativos constituem um painel da vida dos 
anos iniciais do Brasil Colônia, apresentando notícias dos 
primeiros contatos entre os europeus e a realidade da nova 
terra. A opulência da flora e da fauna impressionou viva-
mente o colonizador, enquanto o modo de vida dos indí-
genas foi motivo de muita curiosidade e de incompreensão 
– os colonizadores nunca abandonaram sua concepção 
de que eram donos de uma cultura superior no interior do 
próprio sistema colonial. Acima de tudo, esses textos cum-
priam uma finalidade prática. 
 § Carta, de Pero Vaz da Caminha, escrita em 1500;
 § Diário de navegação, de Pero Lopes de Souza, escrito 
entre 1530 e 1532, durante a expedição de Martim 
Afonso de Sousa;
 § História da Província de Santa Cruz e Tratado da Terra 
do Brasil, de Pero de Magalhães Gandavo, ou Gândavo, 
publicados, respectivamente, em 1576 e 1826;
 § Tratado descritivo do Brasil em 1587 ou Notícias do 
Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, publicado em 1851.
 § Diálogos das grandezas do Brasil (1618), atribuídos 
a Ambrósio Fernandes Brandão, e a História do Brasil 
(1627), de Frei Vicente do Salvador, publicados no sé-
culo XVII.
Para a história da literatura brasileira, a literatura informa-
tiva adquire importância principalmente como fonte de 
temas e formas para momentos literários posteriores: o 
Romantismo e o Modernismo.
1.2.1. Pero Vaz de Caminha
Escrivão oficial da frota de Pedro Álvares Cabral, Caminha 
escreveu a Dom Manuel, rei de Portugal, no dia 1.o de 
maio de 1500, a Carta – de inestimável valor histórico e 
de razoável valor literário –, em que comunica o “desco-
brimento” do Brasil.
Lendo a Carta
A Carta enviada ao rei Dom Manuel é uma espécie de 
“certidão de nascimento” do Brasil, pois foi o primeiro do-
cumento escrito nas novas terras. É o texto que marca o 
princípio da literatura brasileira.
(Cícero)
38
A Carta de Caminha, embora escrita nos primórdios da 
colonização (1500), só veio a ser impressa em 1817, na 
Corografia Brasílica, pela imprensa Régia do Rio de Janeiro.
 § Primeiro trecho
Senhor, posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e as-
sim os outros Capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia 
do achamento desta vossa terra nova, que nesta navega-
ção agora se achou, não deixarei de também dar disso 
minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, 
ainda que – para o bem contar e falar – o saiba pior que 
todos faze! [...] Tome Vossa Alteza, porém, minha igno-
rância por boa vontade, e creia bem por certo que, para 
aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo 
que vi e me pareceu.
[...]
Então seguimos nosso caminho por este mar de longo até 
terça-feira de Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de 
abril, quando topamos alguns sinais de terra [...] a saber: 
Em primeiro lugar um monte grande, muito alto e redondo 
e outras serras mais baixas ao sul dele; e terra rasa, com 
grandes arvoredos. Ao mesmo monte alto pôs o Capitão 
o nome de Monte Pascoal; e à terra – Terra de Vera Cruz.
carta oriGinal de Pero vaz de caMinha.
 § Segundo trecho
Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de 
sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por che-
garem primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes, e 
vieram logo todos os capitães das nausa esta nau do Ca-
pitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou 
em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E 
tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia 
homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, 
ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte 
homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes 
cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas 
setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes 
fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. 
Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de provei-
to, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete 
vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e 
um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de pe-
nas de ave, compridas, com uma copazinha de penas verme-
lhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal 
grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer 
de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda a 
Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e 
não poder haver deles mais fala, por causa do mar. [...]
 § Terceiro trecho
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, 
de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem 
nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mos-
trar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em 
mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo fura-
dos e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de 
comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso 
de algodão, agudos na ponta como um furador. Metemnos 
pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre 
o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encai-
xado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no 
falar, no comer ou no beber.
Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de 
tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e ra-
pados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo 
da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de ca-
beleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento 
de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço 
e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, 
com uma confeição branda como cera (mas não o era), de 
maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e 
mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma ca-
deira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao 
pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, 
Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós ou-
tros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela 
alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram 
sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. 
Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de 
acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como 
que nos dizendo que ali havia ouro. Tamb ém olhou para um 
castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e no-
vamente para o castiçal como se lá também houvesse prata.
caMinha, Pero vaz de. carta ao rei d. Manuel. 
in: voGt, carlos; leMos, j.a. GuiMarães de. ironistas e viajantes. 
são Paulo: aBril educação, s.d. (coleção literatura coMentada.)
39
O Brasil de Pero Vaz caminha - Direção: Bru-
no Laet 2011
Vencedor do Prêmio SESC Rio de Fomento 
à Cultura, em 2010 – na categoria Novos 
Talentos, Cinema Documentário –, O Bra-
sil de Pero Vaz caminha se baseia naquele 
que é considerado o primeiro documento 
histórico e literário do Brasil: a carta de 
Pero Vaz de Caminha. 
multimídia: vídeo
1.2.2. Pero de Magalhães Gândavo
Gândavo foi o autor de O Tratado da Terra do Brasil e da 
História da Província de Santa Cruz, obras compostas em 
louvor ao clima, à terra e à paisagem, e que estimulam a 
imaginação do leitor. Observe um trecho de sua História da 
Província de Santa Cruz:
Uma planta se dá também nesta Província, que da ilha de 
São Tomé, com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas 
a sustentar a terra. Esta planta é mui tenra e não muito 
alta, não tem ramos senão umas folhas que serão seis ou 
sete palmos de comprido. A fruita dela se chama banana. 
Parecem-se na feição com pepinos, criam-se em cachos. 
Esta fruita é mui saborosa, e das boas, que há na terra: 
tem uma pele como de figo (ainda que mais dura) a qual 
lhe lançam fora quando a querem comer: mas faz dano à 
saúde e causa febre a quem se desmanda nela.
Gândavo, Pero de MaGalhães.história da Província de santa cruz.
Leia também outro trecho da História da Província Santa 
Cruz e observe que Gândavo traz aqui uma divertida noção 
sobre a língua dos indígenas, além de fazer uma descrição 
minuciosa sobre o tipo físico do silvícola.
 § História da Província
Estes índios são de cor baça, e cabelo corredio; têm o ros-
to amassado, e algumas feições dele à maneira de chinês. 
Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de boa esta-
tura; gente mui esforçada, e que estima pouco morrer, 
temerária na guerra, e de muito pouca consideração: são 
desagradecidos em grande maneira, e mui desumanos e 
cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos por extremo.
Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamen-
tos senão comer, beber, e matar gente, e por isso engordam 
muito, mas com qualquer desgosto pelo conseguinte tor-
nam a emagrecer, e muitas vezes pode deles tanto a ima-
ginação que se algum deseja a morte, ou alguém lhe mete 
em cabeça que há de morrer tal dia ou tal noite não passa 
daquele termo que não morra.
São mui inconstantes e mudáveis: creem de ligeiro tudo 
aquilo que lhes persuadem por dificultoso e impossível que 
seja, e com qualquer dissuasão facilmente o tornam logo a 
negar. São mui desonestos e dados à sensualidade, e assim 
se entregam aos vícios como se neles não houvera razão 
de homens: ainda que todavia em seu ajuntamento os ma-
chos e fêmeas têm o devido resguardo, e nisto mostram ter 
alguma vergonha.
A língua de que usam, toda pela costa, é uma: ainda que 
em certos vocábulos difere n’algumas partes; mas não de 
maneira que se deixem uns aos outros de entender: e isto 
até a altura de vinte e sete graus, que daí por diante há 
outra gentilidade, de que nós não temos tanta notícia, que 
falam já outra língua diferente. Esta de que trato, que é geral 
pela costa, é mui branda, e a qualquer nação fácil de tomar. 
Alguns vocábulos há nela de que não usam senão as fême-
as, e outros que não servem senão para os machos: carece 
de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem 
R, coisa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem 
Lei, nem Rei e desta maneira vivem desordenadamente sem 
terem além disto conta nem peso, nem medida.
Gândavo, Pero de MaGalhães. in: voGt, carlos; 
leMos. j. a. GuiMarães de, oP. cit.
ilustração que retrata Pero MaGalhães de 
Gândavo descrevendo aniMais novos.
1.3. Literatura de formação ou jesuítica
Ao lado da prosa informativa, ocorreram manifestações 
em poesia e teatro escritas por jesuítas, com a finalida-
de de catequizar os índios. Essa produção é denomina-
da literatura de formação, em decorrência do aspecto 
didático que apresenta.
40
1.3.1. Padre José de Anchieta (1534-1597)
Padre josé de anchieta
Nessa categoria, merece destaque José de Anchieta, pa-
dre jesuíta que veio ao Brasil para desenvolver o trabalho 
missionário de converter os índios ao Cristianismo. Em 
1554, fundou a cidade de São Paulo. Escreveu poemas, 
crônicas, sermões e textos teatrais, ora didáticos, ora lí-
rico-religiosos.
Anchieta dominava bem latim, espanhol, português e tupi. 
Sua linguagem era simples e direta. Escreveu cartas, ser-
mões, poesias e peças de teatro, tornando-se representan-
te do Teatro Jesuítico no Brasil. Além disso, escreveu a pri-
meira gramática tupi-guarani: Arte de gramática da língua 
mais usada na costa brasileira.
Entre suas obras, destacam-se os autos Quando no Espírito 
Santo, se recebeu uma relíquia das onze mil Virgens; Na Vila 
de Vitória; Auto deSão Lourenço; e o poema De Beata Vir-
gine Dei Madre Maria (À beata Virgem Maria Mãe de Deus).
Anchieta veio ao Brasil com a segunda leva de jesuítas na 
esquadra de Duarte da Costa, segundo Governador-Geral 
do Brasil. Em 1554, participou da fundação do colégio, 
onde também foi professor, na Vila de São Paulo de Pira-
tininga, núcleo da futura cidade que receberia o nome de 
São Paulo. Entre os anos de 1577 e 1587, exerceu o cargo 
de provincial dos jesuítas. 
A obra de Anchieta é considerada a primeira manifestação 
literária em terras brasileiras. A coleção das obras completas 
do padre é dividida em três gêneros: poesia, prosa e obras 
sobre Anchieta, que somam um total de dezessete volumes.
Leia a seguir A Santa Inês, um dos poemas mais conheci-
dos de José de Anchieta.
Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
de Jesus querida,
Vossa santa vinda
o diabo espanta
Por isso vos canta,
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.
Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
pela fé cortada
com vossa chegada,
já ninguém pereça.
Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.
Vós sois, cordeirinha,
de Jesus formoso,
mas o vosso esposo
já vos fez rainha,
Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo.
Portela, eduardo (orG.).
 josé de anchieta: Poesia. rio de janeiro: aGir, 1959.
 § Bosques
Leia a seguir um trecho em que Anchieta relata suas im-
pressões sobre a natureza em terras brasileiras: 
Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se 
vê em todo o ano árvores nem erva seca. Os arvoredos se 
vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedade 
de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça 
é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e 
variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxi-
nóis, pintassilgos, colorinos, e canários de Portugal e fazem 
uma harmonia quando um homem vai por este caminho, 
que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos 
que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. 
Há muitas árvores de cedro, áquila, sândalos e outros paus 
de bom olor e várias cores e tantas diferenças de folhas 
41
e flores que para a vista é grande recreação e pela muita 
variedade não se cansa de ver
josé de anchieta. cartas, inforMações, fraGMentos históricos e 
serMões. inforMação da Província do Brasil Para nosso Padre – 
1585. rio de janeiro: civilização Brasileira, 1933, P. 430-431.
Padre anchieta, óleo soBre tela, de cândido Portinari (1954).
O texto revela uma visão exuberante da natureza do Brasil, 
semelhante à manifestada na Carta, de Pero Vaz de Cami-
nha. Os aspectos destacados contemplam a flora e a fauna, 
a grandeza e a variedade do arvoredo e o encantamento 
pelos pássaros. A riqueza e a vitalidade do Brasil contrastam 
com as paisagens de Portugal. Entre as riquezas do Brasil 
descritas no texto, apenas o sândalo, originário da Índia, 
provavelmente não existia aqui. O deslumbramento pela 
natureza do Novo Mundo marcou época tanto no período 
Brasil Colônia quanto no período pós-Independência.
Com bastante simplicidade, o poema manifesta o confron-
to entre o bem e o mal. A chegada de Santa Inês espanta 
o diabo e, graças a ela, o povo revigora sua fé. Os versos 
de cinco sílabas (redondilha menor) dão ritmo ligeiro ao 
texto, retomando a métrica das cantigas medievais. A lin-
guagem é clara, as ideias são facilmente compreensíveis e 
o ritmo traz musicalidade ao poema, o que contribui para 
envolver o leitor/ouvinte, bem como sensibilizá-lo para a 
mensagem religiosa.
1.3.2. Padre Manuel da Nóbrega
A pedido de Dom João III, o padre Manuel da Nóbrega 
integrou a escala de Tomé de Sousa, primeiro Governador 
Geral do Brasil. O padre chefiou o primeiro grupo de jesuí-
tas vindos ao Brasil, em 1549.
Defensor da liberdade dos índios, favoreceu os aldeamen-
tos, cultivou a música como auxiliar da evangelização, pro-
moveu o ensino primário nas escolas de ler e escrever e 
fundou pessoalmente os colégios de Salvador, Pernambuco 
e São Paulo, origem da futura cidade, e do Rio de Janeiro, 
onde exerceu o cargo de reitor. Depois de colaborar com a 
expulsão dos estrangeiros da baía de Guanabara, contri-
buiu para a valorização do poder central e para a unifica-
ção política do território nacional.
Seus pensamentos estão expressos nas Cartas, nos Apon-
tamentos e, sobretudo, no Diálogo sobre a conversão 
do Gentio.
2. bArroco ou seiscentismo
a dúvida de são toMé, de caravaGGio.
2.1. Contexto
2.1.1. Os embates religiosos 
O movimento denominado Barroco ou Seiscentismo 
floresceu no segundo período clássico e designou generi-
camente todas as manifestações artísticas produzidas no 
século XVII até meados do século XVIII. O estilo barroco 
sucede o movimento religioso conhecido como Reforma 
Protestante, liderado pelo teólogo alemão Martinho 
Lutero (1483-1546).
A Reforma Protestante foi um movimento refor-
mista cristão iniciado em 1517 por Martinho Lutero. 
Ele apresentou 95 teses, nas quais protestava contra 
a Igreja Católica. À luz delas, propôs uma reforma ba-
seada em cinco princípios:
1. somente a fé;
2. somente a Escritura;
3. somente Cristo;
4. somente a graça; e
5. somente a glória de Deus.
Lutero denunciou os abusos e equívocos do catolicis-
mo da época, entre eles atos de corrupção, como ven-
da de indulgências a troco do perdão dos pecados e da 
salvação eterna. 
42
Dividido em duas seções, “Concepções Bar-
rocas” e “Experiências Barrocas”, o volume 
examina esse fenomêno de arte notadamente 
nos séculos XVII e XVIII, sem esconder do lei-
tor observações realmente novas e sugestivas 
concernentes ao estilo, que muitos reputam 
ser de glória, outros digno de períodos de 
decadência, mas que, todavia, emprestou às 
cidades históricas de Minas o seu fausto e o ar 
sempiterno que ressumam.
O barroco - Victor Lucien Tapié
multimídia: livros
A proposta de reforma dos ensinos teológicos e compor-
tamentais da Igreja, baseados exclusivamente no ensino 
bíblico, provocou a reação da Igreja católica. A Reforma 
dividiu os cristãos. Na tentativa de evitar a perda de fiéis, 
a Igreja fortaleceu o Tribunal da Inquisição, que passou a 
investigar crimes contra a fé católica e deu início à Con-
trarreforma, com a fundação da Companhia de Jesus 
pelo espanhol Inácio de Loyola.
Nas artes, em reação ao primeiro período clássico que re-
volucionou o teocentrismo medieval, à luz e sob inspiração 
dos valores terrenos e humanistas da Antiguidade greco-
-romana, triunfou o Barroco, que se opôs ao Humanismo 
Renascentista em busca do elo perdido da tradição cristã.
2.1.2. O contexto português: 
a união da península Ibérica
Em 1578, o rei português Dom Sebastião desapa-
receu na batalha de Alcácer-Quibir, na África, sem 
deixar descendentes diretos. Em 1580, Portugal foi 
anexado à Espanha. O rei espanhol Felipe II, um dos pa-
rentes mais próximos de Dom Sebastião, foi proclama-
do monarca dos lusitanos e deu início à dinastia Filipina 
em Portugal, que se estendeu até 1640.
Na Europa seiscentista, Portugal e Espanha configura-
ram o modelo de absolutismo católico, que patrocinou 
a Contrarreforma, intensificou a perseguição aos infiéis 
pela Inquisição e exigiu obediência ao Index Librorum 
Prohibitorum, uma relação de livros proibidos publicada 
pela Igreja Católica.
Três reis espanhóis adotaram sucessivamente o nome 
Felipe (I, II e III). Em dezembro de 1640, Portugal re-
tomou sua independência, quando o duque de Bra-
gança foi coroado rei, com o nome de Dom João IV, e 
cujo reinado durou até 1656.
Sob dominação filipina, o Barroco português foi significa-
tivamente influenciado pelo espanhol, principal foco irra-
diador dessa estética que expressa a espiritualidade e o 
teocentrismo medievais misturados ao racionalismo e ao 
antropocentrismo herdadosdo Renascimento.
2.2. A arte barroca
a ceia eM eMaús, de caravaGGio.
O barroco português floresce em uma Europa impactada 
pelas grandes navegações dos anos 1500, pelas grandes 
conquistas, pela explosão da Reforma Protestante e pelo 
poder monárquico absolutista. Ele traduz o drama do ho-
mem “entre o céu e a Terra”, atormentado pela fé, pela 
existência após a morte e pelo julgamento de atos pratica-
dos durante o “trânsito terreno”.
No final do século XVI e início do século XVII, convivem 
dois modos de ver o mundo: o paganismo renascentista 
em decadência e a religiosidade barroca emergente. A ex-
pressão plástica barroca caracteriza-se pela exacerbação 
dos tons mais altos e mais coloridos e das texturas mais 
ricas: mais decoração, mais luz e sombra em busca deli-
berada de efeitos. 
Na literatura, duas tendências de estilo manifestam-se no 
Barroco: o cultismo e o conceptismo. O cultismo é mais 
próprio da poesia, e o conceptismo, da prosa, sem, contudo, 
excluírem-se no conjunto da criação literária. Uma mesma 
obra pode tanto pender para uma delas quanto apresentar 
traços de ambas as tendências.
2.2.1. Cultismo
Trata-se da preferência pelo rebuscamento formal da lingua-
gem por meio de jogos de palavras, figuras de linguagem, 
43
vernáculo preciosista, efeitos sensoriais – cor, som, forma, 
volume, sonoridade, imagens eloquentes e fantasiosas. Co-
nhecer é descrever mediante sensações nada econômicas. 
Metáforas, antíteses, sinestesias, trocadilhos, dicotomias e hi-
pérbatos compõem os textos barrocos. A realidade é retrata-
da de forma indireta através da habilidade verbal do escritor.
A tendência do Barroco cultista também recebeu o nome 
de gongorismo, cujo escritor mais eloquente foi o poeta 
espanhol Luis de Góngora.
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte sendo todo.
Em todo sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em parte todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
Gregório de Matos
Caravaggio - Direção: Derek Jarman - 1986
A curta vida do pintor italiano Michelan-
gelo Merisi da Caravaggio (Nigem Terry) 
desde a infância e decepções do início da 
carreira até os ultimos sucessos, a amizade 
com um cardeal e a relação destrutiva com 
um lutador (Sean Bean) e sua namorada 
(Tilda Swinton).
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2.2.2. Conceptismo (do 
espanhol concepto, ideia)
Trata-se de linguagem pautada no raciocínio e no pensamen-
to lógico. Os argumentos são centrados na inteligência e na 
razão em busca da concisão e da coesão, sempre disciplina-
dos pela lógica e seus mecanismos oferecidos por analogias, 
silogismos e sofismas. Essa tendência também recebeu o 
nome de quevedismo, graças ao estilo marcante do poeta 
espanhol Francisco Gómez de Quevedo.
[...]
Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que pas-
se dos setes anos [...] nunca chega à idade de uso da 
razão. Usar de razão e amar são duas coisas que não 
se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma 
vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é 
o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista 
uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. 
Ninguém teve a vontade, febricitante, que não tivesse o 
entendimento frenético. O amor deixara de variar, se for 
firme, mas não deix ara de tresvariar, se é amor. Nunca o 
fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o enten-
dimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não 
houvesse fraqueza no juízo.
Padre antonio vieira. serMão do Mandato
2.3. Características do Barroco literário
O Barroco se caracteriza como uma arte tensa que oscila 
entre opostos, marcada por uma crise de valores e pelas 
contradições entre o espírito cristão, antiterreno e teocên-
trico e o espírito renascentista, antropocêntrico, racionalis-
ta e mundano. 
2.3.1. Conflitos e descontentamentos 
existenciais
No Barroco, a indefinição entre o divino e o terreno se traduz 
em conflito e descontentamento existencial humano. São co-
muns os temas pessimistas, as advertências sobre a brevida-
de da vida e a ênfase na dor e na vergonha de permanecer 
em pecado. A relação com a vida terrena é pessimista, só 
amenizada com a crença na vida celeste. O tema da penitên-
cia é constantemente destacado pelo martírio da dor.
2.3.2. Ideias em confronto
No Barroco, predomina o gosto pela aproximação de reali-
dades em oposição; a submissão e a vida recatada propostas 
pela Igreja contrarreformista em contraposição aos desejos 
humanos e materiais. Nesse sentido, à possibilidade de as-
censão social, propiciada pelo momento histórico, contra-
põe-se a impossibilidade da estrutura social fechada. Proli-
feram temas constantemente contraditórios, oscilantes entre 
matéria e amor, carne e espírito, amor ideal e amor humano.
44
cristo Bailarino. Madeira coM vestíGios de 
PolicroMia. aleijadinho (1781-1790)
2.3.3. Tendência ao dualismo 
e ao culto do contraste
Com a intenção de aproximar opostos, a visão do universo 
dualista é, simultaneamente, mística e sensual, religiosa 
e erótica, espiritual e humana. O homem vive em confli-
to com o mundo. Para representar esse conflito, abundam 
antíteses, metáforas, sinestesias e hipérboles.
detalhe Preciosista de iGreja Barroca.
O estilo barroco europeu do século XVII recebeu denomi-
nações particulares em cada país:
 § Espanha – gongorismo, originado do nome do poeta 
Luis de Góngora (1561-1627).
 § Inglaterra – eufuísmo, derivado do nome da obra 
Euphues, or the anatomy of wit, do escritor John Lyly 
(1554-1606).
 § Itália – marinismo, derivado do nome de Gianbattista 
Marino (1569-1625).
 § França – preciosismo, em razão do exagero da forma 
preciosista, afetada e extremamente rebuscada na cor-
te do rei Luis XIV.
 § Alemanha – silesianismo, estilo característico dos es-
critores da região da Silésia.
2.4. O Barroco em Portugal
Durante o período Barroco, Portugal vivia uma crise de 
identidade, uma vez que estava sob o domínio político da 
Espanha. Dois aspectos caracterizam a produção literária 
desse período: o esforço dos portugueses de preservar sua 
cultura e língua e a Contrarreforma, que deu à produção 
literária amplo caráter religioso, como as obras do padre 
Antônio Vieira, principal escritor português do século XVII.
Em 1580, dois fatos significativos marcaram a vida cultu-
ral e política de Portugal: a morte de Camões e a passa-
gem do país para o domínio espanhol (1580-1640).
A literatura e as artes portuguesas foram impactadas pelas 
manifestações culturais espanholas, que conheceram nesse 
período o “século de ouro” – Cervantes, Góngora, Queve-
do, Lope de Vega e Calderón de La Barca são escritores 
fundamentais desse período. O florescimento do Barroco 
em Portugal não ocorreu com a mesma intensidade como 
na Espanha. Os escritores portugueses procuraram preser-
var a língua e a cultura lusitanas como uma maneira de 
resistência política ao domínio espanhol. Assumiram uma 
postura saudosista, valorizando personagens e escritores 
do passado heroico recente: Vasco da Gama, Dom Sebas-
tião, Camões, etc.
No contexto da Contrarreforma, o Barroco português tam-
bém ganhou fortes matizes religiosos. A atuação da Com-
panhia de Jesus e do Tribunal da Inquisição, instaurado em 
Portugal em meados do século XVI, completaram o quadro 
cultural lusitano daquele período religioso e austero.
2.5. O Barroco no Brasil
O ano de 1601 indica o marco inicial do Barroco brasi-
leiro, quando Bento Teixeira publicou o poema épico 
Prosopopeia, com estrofes em oitava rima e versos decas-
sílabos, tal qual Os Lusíadas, de Camões, cujo modelo ele 
seguiu de perto.
Ainda que naquela época não houvesse um público leitor 
significativo no Brasil, a poesia barroca ganhou impulso 
com a fundaçãode várias academias literárias entre os 
anos de 1720 e 1750. Perduraram por todo o século XVII e 
início do século XVIII, mas foram sufocadas pela fundação, 
em 1768, da academia Arcádia Ultramarina e pela as-
censão da poesia árcade.
2.5.1. Peculiaridades do Barroco brasileiro
Embora o Barroco brasileiro esteja ligado aos modelos lusi-
tano e espanhol, ele possui algumas peculiaridades.
Durante todo o século XVII, sob o domínio da coroa es-
panhola, continuavam a chegar ao Brasil imigrantes – 
portugueses e demais europeus – atraídos pela riqueza 
e interessados na exploração da terra. Foi o caso dos 
franceses, que tentaram dominar o Maranhão no come-
ço do século XVII.
45
Entretanto, a presença estrangeira mais marcante foi a dos 
holandeses. O general de origem alemã Johann Maurits, 
conhecido como conde Maurício de Nassau, enviado pela 
Companhia das Índias Ocidentais com o fim de controlar 
o comércio do açúcar nordestino, desembarcou no Brasil, 
em Recife, em 1637, quando já se estabilizara o domínio 
holandês nas colônias portuguesas, iniciado em 1624.
Nassau trouxe consigo uma equipe cultural com pintores, 
arquitetos, escritores, naturistas, médicos, astrólogos, entre 
outros, com o objetivo de documentar as terras ocupadas 
pela Holanda e conseguir investimentos europeus para a 
produção açucareira.
Com Nassau, Recife sofreu uma verdadeira reformulação 
urbana: foram construídos jardins, lagos e um palácio para 
a acomodação de Nassau na ilha de Antônio Vaz. A cida-
de inteira foi modelada a seu gosto. A cidade Maurícia, ao 
lado de Recife, entre a foz do rio Capibaribe e Beberibe, 
emergiu sob sua administração.
As características desse período ficaram registradas em 
pinturas e desenhos de Frans Post, encarregado das paisa-
gens e feitos do Governador-Geral, e Albert Eckout, respon-
sável pelo registro dos tipos humanos, da fauna e da flora 
da “Nova Holanda”, nome de Pernambuco naquela época.
Frans Post tinha apenas 24 anos quando chegou ao Bra-
sil. Morador de Recife entre 1637 e 1644, acompanhou a 
movimentada campanha do governador, documentando 
a paisagem e registrando portos e fortificações do Mara-
nhão à Bahia.
aleijadinho.
2.5.2. Um Barroco miscigenado
O mundo colonial brasileiro do século XVII não foi influen-
ciado apenas pelo Barroco português. Foi, sobretudo, pres-
sionado economicamente, graças à imensa exploração de 
riquezas naturais, principalmente de ouro. Em função disso, 
o Barroco brasileiro tornou-se uma manifestação miscige-
nada das culturas europeia, negra e nativa. Os espaços do 
Brasil colonial que lhe serviram de cenário foram principal-
mente o Nordeste e o estado de Minas Gerais.
Ligado ao ciclo da cana-de-açúcar, o Barroco nordestino 
aproximou-se da aristocracia rural, exuberante e pomposa, 
e refletiu-se na riqueza das construções eclesiásticas e nas 
amplas acomodações das casas-grandes.
A cidade de Salvador, na Bahia, ainda conta com cerca de 
80 igrejas e vários solares e casarões inspirados no Barroco.
No século XVIII, o Barroco mineiro sobrepujou o da 
metrópole portuguesa, notadamente nas cidades 
auríferas de Minas Gerais. Naquela região, sobressaíram 
as notáveis obras do escultor e arquiteto Antonio Fran-
cisco Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho, cujo trabalho 
pautou-se pela experiência com materiais locais – pe-
dra-sabão e madeira. O pintor Manuel da Costa Ataíde 
(1762-1830) deixou mostras de seu talento em pinturas 
e afrescos nos tetos e laterais de igrejas mineiras.
1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO
Vinte anos da vida de Colombo, desde 
quando se convenceu de que o mundo 
era redondo, passando pelo empenho 
em conseguir apoio financiero da Coroa 
espanhola para sua expedição, o desco-
brimento em si da América, o desastroso 
comportamento que os europeus tiveram 
com os habitantes do Novo Mundo e a 
luta de Colombo para colonizar um con-
tinente que descobriu por acaso, além de 
sua decadência na velhice.
multimídia: vídeo
46
 DIAGRAMA DE IDEIAS
BARROCO
QUINHENTISMO
PERO VAZ DE CAMINHA E
JOSÉ DE ANCHIETA
USO DE ANTÍTESES
E PARADOXOS
CULTISMO E 
CONCEPTISMO
LITERATURA DE INFORMAÇÃO
E LITERATURA JESUÍTICA
MOVIMENTO VINCULADO A
CONFLITOS DE CUNHO RELIGIOSO
HUMANISMO CLASSICISMO ...TROVADORISMO
IDADE MÉDIA IDADE MODERNA
Dividido em duas seções, “Concepções Bar-
rocas” e “Experiências Barrocas”, o volume 
examina esse fenomêno de arte notadamente 
nos séculos XVII e XVIII, sem esconder do lei-
tor observações realmente novas e sugestivas 
concernentes ao estilo, que muitos reputam 
ser de glória, outros digno de períodos de 
decadência, mas que, todavia, emprestou às 
cidades históricas de Minas o seu fausto e o ar 
sempiterno que ressumam.
O barroco - Victor Lucien Tapié
multimídia: livros
Em capítulos que vão de Anchieta à indústria 
cultural, Alfredo Bosi, o conceituado autor da 
clássica História concisa da Literatura Brasi-
leira, persegue com sensibilidade as formas 
históricas que anlaçaram colonização, culto e 
cultura. Dialética da colonização é o resultado 
deste percurso sui generis na história do pen-
samento brasileiro.
Dialético da colonização - Alfredo Bosi
multimídia: livros
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 gregório de mAtos guerrA, 
o bocA do inferno
CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17
AULAS 
11 e 12
1. o Primeiro PoetA brAsileiro: 
AdeQuAção e irreverênciA
Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta bar-
roco brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e sa-
tírica no Brasil. Nasceu em Salvador, estudou no Colégio 
dos Jesuítas e depois em Coimbra (Portugal), onde cursou 
Direito, tornou-se juiz e ensaiou seus primeiros poemas sa-
tíricos. De volta ao Brasil, em 1681, exerceu os cargos de 
tesoureiro-mor e de vigário-geral, apesar de sempre ter se 
recusado a vestir-se como clérigo.
Graças às suas sátiras, foi perseguido pelo governador 
baiano Antônio de Souza Menezes, o “Braço de Prata”. 
Depois de se casar com Maria dos Povos e exercer a advo-
cacia, saiu pelo Recôncavo baiano como cantor itinerante, 
dedicando-se às sátiras e aos poemas erótico-irônicos, o que 
lhe custou alguns anos de exílio em Angola. Voltou doente 
ao Brasil e, impedido de entrar na Bahia, morreu em Recife.
Ao contrário do padre Antônio Vieira, Gregório foi de 
encontro a uma tendência generalizadora da época, alas-
trando-se e acolhendo a poesia religiosa, os costumes e a 
reflexão moral.
Em relação aos temas, convivem em seus poemas um de-
senfreado sentimento de sensualismo, erotismo e paixão 
idealizada. Seus poemas são dados ao gosto pelo jogo de 
palavras e das brincadeiras.
1.1. Cronologia biográfica
Gregório de Matos viveu durante o ciclo da cana-de-açúcar 
e fez parte da elite, à qual ele mesmo se contrapôs, ao 
se indignar com o atraso da sociedade patriarcal brasileira 
depois de voltar de Portugal.
Ele nada publicou em vida. Depois de sua morte, seus ma-
nuscritos foram reunidos em um códice, cuja capa trazia 
o brasão da Coroa portuguesa com a seguinte insígnia: 
Inéditas poezias do doutor Gregório de Mattos Guerra.
 § 1636 – Em 20 de dezembro, Gregório de Matos 
Guerra nasce em Salvador, Bahia.
 § 1650 – Viaja para Lisboa aos 14 anos.
 § 1652 – Incentivado pelo pai, matricula-se na Uni-
versidade de Lisboa.
 § 1661 – Forma-se na universidade e casa-se com 
dona Michaela de Andrade.
 § 1662 – Conclui o bacharelado em Coimbra.
 § 1663 – Nomeado juiz de fora em Alcácer do Sal, 
no Alentejo.
 § 1672 – Nomeado procurador da cidade da Bahia.
 § 1674 – Deixa o cargo de procurador.
 § 1678 – Fica viúvo.
 § 1691 – Casa-se, pela segunda vez, com Maria 
dos Povos.
 § 1694 – Degredado para Angola.
 § 1696 – Morre no estado de Pernambuco, porque 
foi proibido de voltar a Salvador.
ilustração de caryBé Para o livro Bahia: iMaGens da terra e do Povo.
48
1.2. O “língua de trapo”
Gregório de Matos primou pela irreverência ao afrontar 
os valores e a falsa moral da sociedade baiana de seu 
tempo, cujo comportamento era considerado indecoroso. 
Irreverente como poeta lírico, seguiu e rompeu ao mesmocom os modelos barrocos europeus. Como poeta satírico, 
denunciou as contradições da sociedade baiana de século 
XVII, alvejando os grupos sociais – governantes, fidalgos, 
comerciantes, escravos, mulatos etc.
A linguagem empregada agrega ao código da língua por-
tuguesa vocábulos indígenas e africanos, bem como pala-
vras de baixo calão.
Pelo fato de não ter publicado nenhuma obra em vida, seus 
poemas foram transmitidos oralmente, até meados do século 
XIX, quando então foram reunidos em livro por Varnhagen.
Esse trabalho enfrentou alguns problemas de natureza 
autoral. Os copistas não necessariamente obedeceram a 
critérios científicos para tal. Há controvérsias sobre a au-
toria de alguns poemas atribuídos a ele e é comum que 
um mesmo texto apresente variações de vocabulário ou de 
sintaxe, dependendo da edição consultada.
Apesar disso, a obra de Gregório de Matos vem sendo re-
conhecida como a que iniciou uma tradição entre nós, bem 
como superou os limites do próprio Barroco. Em pleno século 
XVII, o poeta chegou a ser um dos precursores da poesia 
moderna brasileira do século XX. Exemplo desse pioneiris-
mo é a semelhança do poema “Ao mesmo desembargador 
Belchior da Cunha Brochado” com o poema “Rosa tumultu-
ada”, de Manuel Bandeira (poeta do século XX).
1. Erobo: mitologia, nome das trevas infernais, “onde nun-
ca chega o dia”. Entenda-se: já que tanto garbo tanta 
energia são gentil glória desta terra, que sejam também 
alegria da terra mais remota (isso é, o Erebo).
PoeMas escolhidos de GreGório de Matos. seleção e Prefácio de josé 
MiGuel Wisnik. são Paulo: coMPanhia das letras, 2010, P. 205.
Em pleno século XVII, surge na Bahia o poeta 
Gregório de Mattos (Waly Salomão), que 
com sua obra e vida trágicas anuncia o perfil 
tenso e dividido do povo brasileiro. Com sua 
produção literária, o poeta cria situações 
desconfortáveis aos poderosos da época, 
que passam a combatê-lo até transformar 
sua vida em um verdadeiro inferno.
fonte: youtuBe
multimídia: vídeo
GREGÓRIO DE MATTOS
Aborda os poemas satíricos de Gregório 
de Matos, tratados retóricos da época e 
documentos históricos, como as delações 
de pecados e heresias ao Santo Ofício e 
as atas da Câmara de Salvador. Analisa a 
sátira de Gregório de Matos a partir da 
tradição retórica do século XVII, em que 
a obscenidade e a maledicência estão 
previstas por regras precisas. Convida o 
leitor a um fascinante mergulho na poética 
clássica de Aristóteles e Quintiliano e na 
barroca de Gracián e Tesauro.
A sátira e o engenho - Gregório de Matos e a 
Bahia do século XVII
multimídia: livros
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Manuel Bandeira. estrela da tarde. 3. ed. 
são Paulo: GloBal, 2012, P. 139.
Foi apelidado de Boca do Inferno, graças à sua poesia 
satírica, dirigida aos governantes corruptos, a religiosos li-
cenciosos e às hipocrisias da sociedade. Seus mais de 700 
poemas de todos os gêneros e estilos poéticos (exceto o 
épico) permaneceram inéditos até o século XX. Entre os 
anos de 1923 e 1933, a Academia Brasileira de Letras or-
ganizou e publicou seis volumes deles: I. Poesia sacra; II. 
Poesia lírica; III. Poesia graciosa; IV e V. Poesia satírica; e 
VI. Últimas.
1.3. Poesia satírica
Não poupa aspecto algum do sistema e do poder, o que faz 
dele um poeta maldito. Provoca os políticos e ridiculariza 
os que viviam para bajular e louvar os poderosos, traços 
que contribuíram para o “abrasileiramento” do Barroco 
importado da Europa.
Crítico social mordaz, vive em uma sociedade de compe-
tição, na qual vence quem for mais esperto ou desonesto. 
Este soneto vem precedido da seguinte explicação:
“Contemplando nas coisas do mundo desde o seu retiro, 
lhe atira com seu ápage, como quem a nado escapou da 
tormenta.”
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa:
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa:
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do Trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
caricatura de GreGório de Matos
Salvador, final do século XVII. Nessa cidade 
de desmandos e devassidão, desenrola-se 
a trama do Boca do Inferno, recriação de 
uma época turbulenta centrada na feroz 
luta pelo poder que opôs o governador 
Antonio de Souza Menezes, o temível 
Braço de Prata, à facção liderada por 
Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam 
parte o padre Antonio Vieira e o poeta 
Gregório de Matos.
Boca do Inferno - Ana Miranda
multimídia: livros Numa interpretação totalizadora dos 
múltiplos aspectos que se conjugam 
estética e historicamente no fenômeno do 
Barroco e sobretudo de sua manifestação 
brasileira, O lúdico e as projeções do 
mundo barroco, de Affonso Ávila, procura 
não só especificar o papel do Barroco 
na formação da singularidade nacional, 
como iluminar criticamente a nossa faixa 
na aldeia de McLuhan e, a partir daí, 
aferir a dimensão da nossa presença na 
galáxia da modernidade.
O lúdico e as projeções do mundo barroco - 
Affonso Ávila, Perspectiva, 1971
multimídia: livros
50
ápage: desaprovação, raiva; carepa: caspa, sujeita; vil: reles, 
ordinário; decepa: destrói; increpa: censura; inculca: finge, 
insinua; garlopa: trabalhador braçal
“Para a tropa do trapo vazo a tripa é uma expressão idiomática 
que se aproxima de não quero mais dar importância a esse 
bando de miseráveis”.
Wisnik, josé MiGuel. PoeMas escolhidos de GreGório 
de Matos. são Paulo: cultriX, 1976.
No poema a seguir, há uma crítica impiedosa à incompe-
tência, à promiscuidade e à desonestidade. O poema vem 
precedido da seguinte explicação:
“Torna a definir o poeta os maus modos de obrar na go-
vernança da Bahia, principalmente naquela universal fome, 
que padecia a cidade.”
Epílogo
Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Nesta cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
[...]
E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justa na praça
Bastarda, vendida, injusta.
[...]
O açúcar já se acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.
À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, morreu.
A câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o governo a convence?... Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, na vence.
diMas, antônio. GreGório de Matos. 
são Paulo: aBril educação, 1981.
1.4. Poesia lírica: sacra e amorosa
A poesia lírica de Gregório de Matos é idealista, às vezes 
emocional, às vezes conceitual, mas frequentemente 
preocupada em entender contradições, como ensina o 
professor Antonio Candido. A lírica sacra ressalta o senso 
do pecado ao lado do desejo do perdão.
A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentinho
Vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e a não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
despido: despeço; delinquido: cometido delito; 
empenhado: comprometido 
Wisnik, josé MiGuel. PoeMas escolhidos de GreGório 
de Matos. são Paulo: cultriX, 1976.
O lirismo amoroso é contraditório, marcado pela ambigui-
dade da mulher, vista como umadualidade entre matéria 
e espírito. No soneto abaixo, dedicado à dona Ângela de 
Souza Paredes, o eu lírico está diante do dilema: qual a 
finalidade da beleza, se ela leva à perdição? Que papel tem 
o anjo (a mulher admirada), se causa a desventura?
Não vira em minha vida a formosura,
Ouvia falar dela a cada dia
E ouvida, me incitava e me movia
A querer ver tão bela arquitetura:
Ontem a vi, por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma mulher, que em Anjo se mentia
De um Sol, que se trajava em criatura:
Matem-me, disse eu vendo abrasar-me,
Se esta a coisa não é, que encarecer-me
Sabia o mundo e tanto exagerar-me:
Olhos meus, disse então por defender-me,
Se a beleza heis de ver para matar-me,
Antes olhos cegueis, do que eu perder-me
1.5. Poesia lírica filosófica
A lírica filosófica de Gregório de Matos revela um poeta 
que, tal qual os clássicos, transmite um forte senso do 
“desconcerto do mundo”, ocupa-se com a transitoriedade 
da vida, o escoamento do tempo e a fragilidade do homem.
À instabilidade das coisas no mundo
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
51
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS
Artes Plásticas
frans Post, 1612-1680.
Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
Matos, GreGório de. oBra coMPleta. são Paulo: cultura, 1943.
O tema desse soneto detém-se no estado transitório da 
condição humana. A antítese repete-se na tentativa de 
aproximação entre duas ideias naturalmente opostas.
Na segunda estrofe, todos os versos interrogam o eu poético, 
bem como o deixam perplexo diante do mistério do universo.
Essa é uma visão de mundo que corresponde à arte bar-
roca: o homem é um ser instável em face da realidade que 
lhe faz apelos dirigidos aos sentidos, dirigidos ao espírito.
Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, 
social e político.
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM
15
Habilidade
Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade analítica básica a arte literária 
(contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a história e as relações sociais e políticas nela impressas. Esta 
relação entre o texto literário e o contexto político requer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso: 
“política não se discute”, pois no Enem não só se discute, como serve de base para resolução das questões de Literatura.
52
Modelo
(Enem)
Quando Deus redimiu da tirania
Da mão do Faraó endurecido
O Povo Hebreu amado, e esclarecido,
Páscoa ficou da redenção o dia.
Páscoa de flores, dia de alegria
Àquele povo foi tão afligido
O dia, em que por Deus foi redimido;
Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.
Pois mandado pela Alta Majestade
Nos remiu de tão triste cativeiro,
Nos livrou de tão vil calamidade.
Quem pode ser senão um verdadeiro
Deus, que veio estirpar desta cidade
o Faraó do povo brasileiro.
(daMasceno, d. Melhores PoeMas: GreGório de Matos. são Paulo: 2006)
Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de 
Matos apresenta temática expressa por
a) visão cética sobre as relações sociais.
b) preocupação com a identidade brasileira.
c) crítica velada à forma de governo vigente.
d) reflexão sobre dogmas do Cristianismo.
e) questionamento das práticas pagãs na Bahia.
Análise expositiva: O poema de Gregório de Matos estabelece uma intertextualidade com as Sagradas Escrituras: 
“Quando Deus redimiu da tirania/Da mão do Faraó endurecido”. 
Entender as características do escritor é premissa básica para a resolução da questão. Gregório de Matos, conhecido como 
o “Boca do Inferno” utilizava sua literatura como meio de criticar a sociedade de sua época, ainda que o fizesse por meio de 
metáforas, como ocorre no texto acima: “Deus, que veio estirpar desta cidade/o Faraó do povo brasileiro.”
Alternativa C
C
53
O BOCA DO 
INFERNO
GREGÓRIO DE MATOS GA-
NHOU O APELIDO DE “BOCA 
DO INFERNO” POR CONTA DE 
SUAS POESIAS SATÍRICAS E SUA 
CRITÍCAS AO GOVERNO BAIANO.
O BARROCO É TAMBÉM 
CONHECIDO COMO 
SEISCENTISMO.
DE FAMÍLIA RICA, GREGÓRIO DE MATOS 
GUERRA NASCEU NA BAHIA NO ANO 
1636. ESTUDOU NO COLÉGIO DOS 
JESUÍTAS E SEGUIU PARA COIMBRA,
 ONDE SE FORMOU EM DIREITO EM 1661.
POR CONTA DE SUA PERSONALIDADE 
SATÍRICA E DE SUA VIDA BOÊMIA, GREGÓRIO 
FOI DEPORTADO PARA ANGOLA. ALGUM TEMPO 
DEPOIS VOLTOU AO BRASIL COM O APOIO DO 
GOVERNADOR, MAS FOI PROIBIDO DE VOLTAR 
À BAHIA DESEMBARCANDO EM PERNAMBUCO. 
MORREU OBSCURAMENTE NO RECIFE NO ANO 
1696 E FOI ENTERRADO NA CAPELA DO HOSPÍCIO 
DE NOSSA SENHORA DA PENHA. POUCO 
TEMPO DEPOIS A CAPELA FOI DEMOLIDA E NÃO 
EXISTEM VESTÍGIOS DE SEUS RESTOS MORTAIS.
OS POEMAS DE GREGÓRIO 
DE MATOS PODEM SER 
CLASSIFICADOS COMO 
LÍRICO-FILOSÓFICOS, 
RELIGIOSOS E SÁTIROS.
 DIAGRAMA DE IDEIAS
GREGÓRIO 
DE MATOS
21
4 5
3
54
 PAdre Antônio vieirA
CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17
AULAS
13 e 14
1. PAdre Antônio vieirA e o 
convencimento dA fé cristã
Antônio Vieira (1608-1697) é a principal expressão do 
Barroco em Portugal. Sua obra pertence tanto à literatu-
ra portuguesa quanto à brasileira. Compreende um vasto 
campo temático que vai da religião à política, passando 
pela diplomacia num desfile de sua mais interessante ca-
pacidade: a de orador e pregador da fé cristã.
Português de origem, Vieira tinha sete anos quando veio 
com a família para o Brasil. Na Bahia, estudou com os jesu-
ítas e espontaneamente ingressou na Companhia de Jesus, 
iniciando seu noviciado com apenas 15 anos. A maior parte 
de sua obra foi escrita no Brasil. Desempenhou várias ati-
vidades como religioso, conselheiro de Dom João IV, rei de 
Portugal, e como mediador de Portugal em conflitos eco-
nômicos e políticos com outros países.
1.1. O homem de ação e lábia
Embora religioso, Vieira nunca restringiu sua atuação à 
pregação religiosa. Seus sermões estiveram a serviço das 
causas políticas que abraçava e defendia, o que o levou a 
se indispor com muita gente: pequenos comerciantes que 
escravizavam índios e até com a Inquisição. Atacava os se-
nhores de escravos, bem como cobrava de Lisboa as deter-
minações que tolhiam a liberdade dos índios; questionava 
os capitães-mor pela desobediência às determinações reli-
giosas. Isso e muito mais foram fatores determinantes para 
sua expulsão, bem como a de outros jesuítas do Brasil.
Valendo-se do púlpito – único meio de propagação de 
ideias às multidões no Nordeste brasileiro do século XVII 
–, Vieira pregou a índios, brancos, negros, brasileiros, afri-
canos, portugueses, dominadores e dominados. Suas ideias 
políticas impregnavam a catequese jesuíta em defesa do 
índio e do domínio português sobre a colônia por ocasião 
da invasão holandesa.
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PreGação de vieira
História do padre Antônio Vieira, nascido em 
Portugal, em 1608, e que morreu em Salvador, 
Bahia, em 1697. Considerado um dos maiores 
escritores portugueses, mestre na retórica, ele foi 
perseguido e executado pela Inquisição por sua 
posição contra a escravidão e o colonialismo, as-
sim como por sua simpatia aos judeus.
fonte: youtuBe
multimídia: vídeo
Sermões - a história de Antônio Vieira
55
Medalha do Padre antônio vieira, esculPida Por dorita castelo Branco.
Embora Vieira defendesse os índios da escravidão, seus ser-
mões eram reticentes em relação à escravização dos negros. 
Limitavam-se a descrever a situação a que eram submetidos 
os negros e a apontar a perspectiva de uma pós-morte que 
compensasse os sofrimentosem vida. “A realidade na qual 
Vieira procura interferir não é diretamente a exterior, mas 
a interior, tentando mudar as convicções tanto dos negros 
como dos brancos. Por isso, nestes sermões ele se dirige aos 
dois, ora a um, ora a outro, sabendo que o ouvem continua-
mente” comenta o historiador Luiz Roncari (Literatura brasi-
leira – dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. 
São Paulo: Edusp/FDE, 1995. p. 167).
Observe tal postura neste fragmento do “Sermão Vigésimo 
Sétimo”.
“Umas religiões são de descalços, outras de calçados; a vossa 
é de descalços e despidos. O vosso hábito é da mesma cor; 
porque não vos vestem as peles das ovelhas e camelos, como 
a Elias, mas aquelas com que vos cobriu ou descobriu a natu-
reza, expostos aos calores do sol e frios das chuvas. A vossa 
pobreza é mais pobre que a dos menores, e a vossa obediên-
cia mais sujeita dos que nós chamamos mínimos. As vossas 
abstinências mais merecem nome de fome, que de jejum, e 
as vossas vigílias não são de uma hora à meia-noite, mas 
de toda a noite sem meio. A vossa regra é uma ou muitas, 
porque é a vontade e vontades de vosso senhores. Vós estais 
obrigados a eles, porque não podeis deixar o seu cativeiro, 
e eles não estão obrigados a vós, porque vos podem vender 
a outro, quando quiserem. Em uma só religião se acha este 
contrato, para que também a vossa seja nisto singular. Nos 
nomes do vosso tratamento não falo, porque não são de re-
verência nem de caridade, mas de desprezo e afronta. Enfim, 
toda a religião tem fim e vocação, graça particular. A graça da 
vossa são açoutes e castigos” [...].
1.2. Padre visionário
Vieira também foi sonhador e profeta, chegou a escrever 
três obras nesse sentido: História do futuro, Esperança de 
Portugal e Clavis Prophetarum.
Baseado em textos bíblicos e nos textos proféticos do po-
eta português Bandarra, ele acreditava na ressurreição do 
rei Dom João IV, seu protetor, morto em 1656. Essas ideias 
constam em Esperança de Portugal. Em razão delas, entre 
1665 e 1667, foi processado e preso pela Inquisição e teve 
cassado seu direito à palavra em Portugal.
vieira na redução das triBos de Marajó, 1657. theodoro BraGa (1917).
Constam desse processo também acusações de envolvimen-
to com cristãos-novos – judeus convertidos ao cristianismo 
por medo de perseguição. Em vez de atacar os judeus, como 
se fazia nos países católicos pressionados pela Inquisição, 
Vieira defendia a permanência e a entrada deles em Portugal 
como forma de estimular o comércio naquele país. Paralela-
mente, prevendo um “Terceiro Estado” da Igreja, tinha inte-
resse em fazer um acordo teológico secreto com os judeus.
antônio vieira
56
1.3. O orador
As qualidades de Vieira como orador são incomparáveis. 
Dotado de boa formação jesuítica à estética barroca em 
voga, pronunciou sermões que se tornaram ao mesmo 
tempo a expressão máxima do Barroco em prosa sacra e 
uma das principais expressões ideológicas e literárias da 
Contrarreforma. Pregou no Brasil, em Portugal e na Itália, 
sempre com grande repercussão.
Entre sua vasta produção de mais de duzentos sermões e 
quinhentas cartas, destacam-se:
 § Sermão da sexagésima, proferido na Capela 
Real de Lisboa, em 1655, cujo tema é a arte 
de pregar. 
 § Sermão pelo bom sucesso das armas de Por-
tugal contra as de Holanda, proferido na Ba-
hia, em 1640, posiciona-se contra à invasão 
holandesa.
 § Sermão de Santo Antônio (aos peixes), proferi-
do no Maranhão, em 1654, ataca a escravização 
de índios.
 § Sermão do mandato, proferido na Capela Real 
de Lisboa, em 1645, desenvolve o tema do 
amor místico.
PúlPito da iGreja de nossa senhora da ajuda, eM 
salvador (Ba), de onde vieira PreGou.
1.3.1. Sermão da sexagésima
Metalinguagem
Proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, é tam-
bém conhecido como Sermão da Palavra de Deus. 
A arte de pregar é seu tema. Com o objetivo de analisar 
“por que não frutifica a Palavra de Deus na Terra?”, pro-
põe-se a demonstrar que os verdadeiros culpados são os 
pregadores que usam da palavra apenas com um objetivo 
ornamental, sem desenvolver eficazmente uma argumen-
tação capaz de frutificar nos ouvintes.
“Ora, suposto que a conversão das almas por meio da 
pregação depende destes três concursos: de Deus, do pre-
gador e do ouvinte, por qual deles devemos entender a 
falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou 
por parte de Deus?”.
Excluindo a culpa de Deus e inocentando os ouvintes, a 
culpa recai nos pregadores, conforme se percebe no desen-
rolar da argumentação:
“Primeiramente, por parte de Deus, não falta e nem 
pode faltar. Esta proposição é de fé, definidas no 
Concílio Tridentino e no nosso Evangelho a temos.” [...]
“Os pregadores deitam a culpa nos ouvintes, mas não é 
assim. Se for por parte dos ouvintes, não fizera a Palavra 
de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto 
e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.” [...]
“Sabeis, cristãos, por que não faz fruto a Palavra de Deus? 
Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que não 
faz fruto a Palavra de Deus? Por culpa nossa.”
Leia com atenção alguns trechos do “Sermão da sexagésima”.
Trecho I
Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um 
estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão 
Em 1663, o padre Antônio Vieira é chamado a 
Coimbra para comparecer diante do Tribunal do 
Santo Ofício, a terrível Inquisição. As intrigas da 
corte e uma desgraça passageira enfraquecem a 
sua posição de célebre pregador jesuíta e amigo 
íntimo do falecido rei D. João VI.
fonte: youtuBe
multimídia: vídeo
Palavra e Utopia
57
afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a 
natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser mui-
to natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear: 
[...] Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é 
uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras 
artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na 
arquitetura tudo se faz por regra, na aritmética tudo se faz 
por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear 
não é assim. É uma arte sem arte; caia onde cair. Vede como 
semeava o nosso lavrador do Evangelho. ‘Caía o trigo nos 
espinhos e nascia’ [...] ‘Caía o trigo nas pedras e nascia’ 
[...] ‘Caía o trigo na terra boa e nasci’. Ia o trigo caindo e 
ia nascendo.
Trecho II
[...] o pregar há de ser como quem semeia, e não como 
quem ladrinha ou azuleja. Não fez Deus o céu em xadrez de 
estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de 
palavras. Se de uma parte está branco, de outra há de estar 
negro; se de uma parte está dia, de outra há de estar noite; 
se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; 
se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. 
Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras 
em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu 
contrário? [...]
Trecho III
Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter var-
iedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma 
matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com 
os olhos? Ora vede. Uma árvore tem raízes, tem tronco, tem 
ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há 
de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de 
ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de 
ter um só assunto e tratar uma só matéria; deste tronco hão 
de nascer diversos ramos, que soa diversos discursos, mas 
nascidos da mesma matéria e continuados nela; estes ramos 
hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discur-
sos hão de ser vestidos e ornados de palavras. [...]
Trecho IV
Mas dir-me-eis: padre, os pregadores de hoje não pregam do 
Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não 
pregam a palavra de Deus? – esse é o mal. Pregam palavras de 
Deus, mas não pregam a Palavra de Deus.
O Sermão da sexagésima é a peça maior da oratória do 
padre Vieira, mas outros também se destacaram.
1.3.2. Sermão pelo bomsucesso das 
armas de Portugal contra as de Holanda
O Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal 
contra as de Holanda foi proferido na Bahia, na igreja 
de Nossa Senhora da Ajuda, em 1640. O orador chama 
o povo ao combate contra os holandeses, desenhando a 
figura dos flamengos, protestantes, como hereges. A Bahia 
estava para cair sob o jugo dos holandeses.
interior da iGreja de nossa senhora da ajuda, eM salvador (Ba), 
onde o Padre vieira Proferiu o serMão contra os holandeses.
Trecho I
(...) Pequei, que mais Vos posso fazer? E que fizestes vós, Job, a 
Deus em pecar? Não Lhe fiz pouco; porque Lhe dei ocasião a me 
perdoar, e perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-Lhe-ei 
a Ele, como a causa, a graça que me fizer; e Ele dever-me-á a 
mim, como a ocasião, a glória que alcançar. (...). Em castigar, 
vencei-nos a nós, que somos criaturas fracas; mas em perdoar, 
vencei-Vos a Vós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só 
esta vitória é digna de Vós, porque só vossa justiça pode pelejar 
com armas iguais contra vossa misericórdia; e sendo infinito o 
vencido, infinita fica a glória do vencedor.
Trecho II
Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens, 
mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a 
vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão.
1.3.3. Sermão de Santo Antônio (aos peixes)
Sermão de Santo Antônio, também chamado de Ser-
mão aos peixes, foi pregado em São Luís do Maranhão, 
em 1654, e refere-se a colonos que aprisionavam indígenas.
Três dias antes do embarque escondido para Lisboa, na 
festa de Santo Antônio – 13 de junho de 1654 –, em São 
Luís do Maranhão, Vieira causou surpresa: em vez de tema-
tizar os milagres de Santo Antônio, detona a situação que 
estava vivendo, a pressão contra sua pessoa e alerta aos 
ouvintes que se não quisessem ouvi-lo que fossem como 
Santo Antônio, pregaria aos peixes, que estavam ali a pou-
cos passos. Os vícios e as virtudes dos homens são elen-
cados na busca por uma legislação mais justa aos índios.
58
O sermão exalta as qualidades dos peixes, como a obediên-
cia, e critica a soberba e o oportunismo. O principal defeito 
que ele aponta é a intensidade e a voracidade, uma vez que 
os peixes devoram uns aos outros, especialmente os maiores, 
que devoram os menores. Vieira exalta os peixes que, por sua 
natureza, não podem ser sacrificados vivos a Deus e sacrifi-
cam-se então, em respeito e reverência.
Trecho I
Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, 
filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em 
vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo 
para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham 
as pregações do vosso pregador Santo António, como também 
as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, 
outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repre-
ender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto perten-
ce só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. 
Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere 
solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et 
quae prosequenda sunt imitatione: ’Não só há que notar, diz o 
Santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e 
louvar.’ Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, 
Sagenae missae in mare, diz que os pescadores ‘recolheram os 
peixes bons e lançaram fora os maus’: Elegerunt bonos in vasa, 
malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que 
louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos 
com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: 
no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo re-
preender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos 
às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que 
experimentá-las depois de mortos. 
Trecho II
Este é, peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, 
e a felicidade de que vos dou o parabém, não sem inveja. 
Descendo ao particular, infinita matéria fora se houvera de 
discorrer pelas virtudes de que o Autor da natureza a dotou 
e fez admirável em cada um de vós. De alguns somente farei 
menção. E o que tem o primeiro lugar entre todos, como tão 
celebrado na Escritura, é aquele santo peixe de Tobias a quem 
o texto sagrado não dá outro nome que de grande, como ver-
dadeiramente o foi nas virtudes interiores, em que só consiste 
a verdadeira grandeza. Ia Tobias caminhando com o anjo S. 
Rafael, que o acompanhava, e descendo a lavar os pés do 
pó do caminho nas margens de um rio, eis que o investe um 
grande peixe com a boca aberta em ação de que o queria 
tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o anjo lhe disse que 
pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; 
que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, por-
que lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e pergun-
tando que virtude tinham as entranhas daquele peixe que lhe 
mandara guardar, respondeu o anjo que o fel era bom para 
sarar da cegueira e o coração para lançar fora os demônios:
Cordis eius particulam, si super carbones ponas, fumus eius 
extricat omne genus daemoniorum: et fel valet ad ungendos 
oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabuntur. Assim o disse o 
anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque, sendo o 
pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um peque-
no do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demônio, 
chamado Asmodeu, morto sete maridos a Sara, casou com 
ela o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do coração, 
fugiu dali o Demônio e nunca mais tornou. De sorte que o 
fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou 
os demônios de casa a Tobias, o moço. Um peixe de tão bom 
coração e de tão proveitoso fel, quem o não louvará mais? 
Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com 
uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo António.
Trecho III
Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irre-
gularidade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas 
mãos, que tomá-lo indignamente! Em tudo o que vos excedo, 
peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é 
melhor que a minha razão e o vosso instinto melhor que o 
meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as 
palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com 
a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o 
entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a 
vontade. Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, 
e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me 
para o servir a ele, e eu não consigo o fim para que me criou.
Vós não haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele 
muito confiadamente, porque o não ofendestes; eu espero 
que o hei de ver; mas com que rosto hei de aparecer diante 
do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender? Ah 
que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós, 
pois de um homaem que tinha as mesmas obrigações, disse 
a Suma Verdade, que ‘melhor lhe fora não nascer homem‘: Si 
natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens, 
respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento, 
contentai-vos, peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso.
59
Neste volume, estão reunidas reflexões de 
especialistas na obra de padre Antônio Vieira, 
orador sacro do Barroco português/brasileiro, 
às quais se juntam estudos de mestrandos e 
doutorandos, apresentados em evento come-
morativo realizado pelo Centro de Estudos 
Luso-afro-brasileiros da PUC-Minas.
Padre Antônio Vieira - 400 Anos Depois - Lelia 
Parreira Duarte e Maria Thereza Abelha Alves
multimídia: livros
Entre 13 de março e 18 de outubro de 2008, o 
Instituto de Estudos Portugueses (IdEP) (agora 
Grupo de Investigação Interdisciplinar de Estu-
dos Portugueses, do Centro de História da Cul-
tura) organizou um conjunto de atividades que 
decorreram na Faculdade de Ciências Sociais e 
Humanas, para comemorar o IV Centenário do 
Nascimento do Padre Antônio Vieira.
Padre Antônio Vieira – O tempoe seus 
hemisférios
multimídia: livros
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS
Artes Plásticas
eM oBra do século Xviii, o Padre antônio vieira aParece sendo eXPulso 
Por revoltosos no Maranhão. (fundação BiBlioteca nacional)
60
Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto 
histórico, social e político.
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM
15
Habilidade
Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade analítica básica a arte literária 
(contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a história e as relações sociais e políticas nela impressas. Esta 
relação entre o texto literário e o contexto político requer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso: 
“política não se discute”, pois no Enem não só se discute, como serve de base para resolução das questões de Literatura.
Modelo
(Enem) Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o 
mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um en-
genho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de 
escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia 
sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; 
Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de 
tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. 
vieira, a. serMões. toMo Xi. Porto: lello & irMão, 1951 (adaPtado).
O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e
a) a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros.
b) a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana.
c) o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios.
d) o papel dos senhores na administração dos engenhos.
e) o trabalho dos escravos na produção de açúcar.
Análise expositiva:O consagrado sermão apresentado por Padre Antônio Vieira estabelece uma relação 
entre o sofrimento de cristo crucificados e as condições de maus tratos sofridos pelos escravos nos enge-
nhos de açúcar. Este pressuposto embasa a habilidade 15 cobrada pelo Enem que deseja que o estudante 
entenda sua denúncia para com o martírio vivido pelos cativos na sociedade colonial. Um trecho do texto 
que confirma esta proposição é: “Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em 
um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”. 
Alternativa E
E
61
O PADRE ANTÔNIO VIEIRA NASCEU EM LISBOA NO 
DIA 6 DE FEVEREIRO DE 1608. VEIO PARA O BRASIL 
COM SUA FAMÍLIA HUMILDE, DESEMBARCANDO NA 
BAHIA COM SEIS ANOS DE IDADE. SEU PAI FOI NO-
MEADO ESCRIVÃO DOS AGRAVOS E APELAÇÕES DA 
RELAÇÃO DA BAHIA. FEZ SEUS PRIMEIROS ESTUDOS 
COM SUA MÃE, E DEPOIS NO COLÉGIO DOS JESUÍTAS.
VIEIRA FEZ SEU PRIMEIRO 
SERMÃO EM PORTUGAL NO 
DIA 1º DE JANEIRO DE 1642.
“OS HOMENS SÃO COMO OS 
OLHOS: VENDO TUDO NÃO 
SE VEEM A SI PRÓPRIOS”. 
PADRE ANTÔNIO VIEIRA
 DIAGRAMA DE IDEIAS
PADRE ANTÔNIO
 VIEIRA
1
2 3
62
 ArcAdismo em PortugAl: bocAge
CompetênCia: 5 Habilidades: 15, 16 e 17
AULAS
15 e 16
1. o século dAs luzes
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No século XVIII ocorreram diversas transformações cultu-
rais e sociopolíticas na Europa, como a ascensão da bur-
guesia e a decadência da aristocracia, a ruptura definitiva 
com o mundo medieval e o surgimento do Iluminismo.
Nesse contexto, para acompanhar o desenvolvimento das 
grandes nações europeias e satisfazer os interesses da bur-
guesia, Portugal empreendeu diversas reformas econômi-
cas, políticas, culturais e educacionais.
No Brasil, por sua vez,, as manifestações da estética ar-
cádica tiveram início na segunda metade do século XVIII. 
A atividade mineradora – já intensa desde 1700 – deter-
minara mudanças na organização e na dinâmica da vida 
brasileira. Houve um aumento considerável na circulação 
de mercadorias e uma dinamização das regiões que abas-
teciam com gado as Minas Gerais (Sul e Nordeste).
Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, tornou-se centro eco-
nômico e gerador de cultura, e o Rio de Janeiro se trans-
formou em polo de produção e divulgação de ideias na 
Colônia, substituindo Salvador.
A descoberta de ouro em Minas Gerais coincidiu com o 
declínio da lavoura da cana-de-açúcar, e o deslocamento 
do centro econômico do Nordeste para a região mineira 
provocou importantes mudanças sociais. Uma delas foi a 
substituição da vida rural pela urbana.
Desenvolveu-se uma camada média da população influen-
ciada pelos ideais burgueses. A atividade mineradora, ex-
plorada pelos portugueses e mantenedora da riqueza de 
Portugal, foi a responsável pela “derrama”, cobrança que 
levaria alguns exploradores a organizarem o movimento 
da Inconfidência.
A “derrama” era a cobrança imediata e única de impostos 
determinada pela Corte portuguesa à Colônia, referente à 
extração de ouro.
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eXtração de diaMantes. aquarela, 1776, carlos julião.
Bocage. Direção: Leitão de Barros, 1936
A figura do grande poeta português do 
século XVIII, nascido em Setúbal em 1765 
e falecido em Lisboa em 1805, de que 
a tradição popular irresistivelmente se 
apossou, é focada através de um esboço 
histórico da autoria de Rocha Martins, 
tendo também para o efeito, escrito os 
diálogos que comentavam a ação e feito 
os versos Gustavo de Matos Sequeira e 
Pereira Coelho.
fonte: youtuBe
multimídia: vídeo
63
Com o crescimento das cidades, surgiu no Brasil o trabalho 
não escravo, desvinculado das atividades agrícolas e da mi-
neração. Eram artesãos, burocratas, profissionais liberais, lite-
ratos, entre outros, ou seja, o esboço de uma classe média 
que, disposta a defender seus próprios interesses, adotou a 
ideologia liberal burguesa vinda da França: o Iluminismo. 
A difusão do pensamento iluminista – que defendia a liber-
dade de propriedade e a igualdade de poderes, criticando o 
Estado Absolutista – tinha como palavras de ordem: liber-
dade, igualdade, e fraternidade. Em 1789, esse espírito 
culminou na Revolução Francesa, que modificou o con-
ceito de classe social e levou os burgueses ao topo do poder.
2. ArcAdismo
A partir da segunda metade do século XVIII, junto às pro-
fundas transformações sociais e econômicas que anun-
ciavam revoluções intelectuais nas sociedades europeias, 
desenvolve-se um novo estilo literário, o Arcadismo, que 
propunha um retorno à natureza e à vida simples do cam-
po, reverenciando o bucolismo.
Em oposição aos dilemas, exageros e rebuscamentos do 
Barroco, o Arcadismo retornou aos modelos greco-latinos 
e à sua mitologia em busca de simplicidade e harmonia.
A palavra “arcadismo” foi inspirada em Arcádia, uma len-
dária região grega habitada por pastores que cultivavam a 
poesia e a música, viviam de modo simples e espontâneo e 
celebravam o amor à natureza.
Os poetas do Arcadismo adotavam pseudônimos pastoris em 
homenagem à vida simples dos pastores da Arcádia. O Arcadis-
mo foi chamado também de Neoclassicismo, um novo Clas-
sicismo, em decorrência dessa retomada dos modelos clássicos
O Arcadismo foi inaugurado na Itália com a fundação da 
Arcádia Romana, em 1690, com a finalidade de combater 
o Barroco. Da Itália difundiu-se para outros países, inclusi-
ve Portugal, e da Metrópole portuguesa chegou à Colônia. 
Em Portugal, a data inicial do Arcadismo é 1756, ano da 
fundação da Arcádia Lusitana; seu encerramento ocorreu 
em 1825, ano da publicação do poema “Camões”, de Al-
meida Garrett, que deu início ao Romantismo.
2.1. Arcadismo em Portugal
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Palácio de queluz, onde vivia a faMília real 
PortuGuesa durante o verão (século Xviii).
Depois que Portugal alcançou o apogeu entre os séculos XV 
e XVI, o país viveu um período de declínio político, econômico 
e cultural que se estendeu por todo o século XVII. Entretanto, 
com o surgimento das ideias iluministas no século XVIII, Por-
tugal se renovou e se modernizou. Na literatura, a figura mais 
expressiva foi Manuel Maria Barbosa du Bocage, um dos 
maiores poetas portugueses de todos os tempos. 
As ideias iluministas, ao chegarem a Portugal nas primeiras 
décadas do século XVIII, entusiasmaram intelectuais, artis-
tas e até mesmo os reis D. João V e seu sucessor, D. José I, 
que desejavam modernizar o país. 
Foi posto em prática um projeto de reformas políticas, eco-
nômicas, educacionais e culturais voltado tanto a satisfazer 
os interesses da burguesia mercantil e colonialista quanto 
a equiparar Portugal novamente às grandes nações euro-
peias. À frente desse projeto esteve (na condição de minis-
tro e com amplos poderes) o marquês de Pombal, também 
adepto das ideias iluministas.
Bocage - A Vida Apaixonada 
de um Genial Libertino 
Depois do imenso fascínio que os seus 
romances anteriores – O claustro do 
silêncio, O terramoto de lisboa e a 
invenção do mundo e O amor infinito 
de Pedro e Inês – exerceram junto do 
público, Luis Rosa volta a encantar-nos 
com um romance inspirado que nos 
seduz pela riqueza da personalidade 
que evoca – Manuel Maria Barbosa du 
Bocage. Um homem tumultuado, no que 
coabitam o sublime e o prosaico, um 
espírito minado por inquietações vorazes 
que só na poesia e no amor se apazigua. 
E é essa duplicidade do poeta e da época 
em que lhe foi dado viver que o autor 
tão bem soube captar e deixar impressa 
nestas páginas que nos falam de um 
gênio irremediavelmente embriagado 
com a sensualidade, o amor e a vida.
multimídia: livros
64
3. iluminismo Português
3.1. Pombal e Verney: a missão 
de racionalizar Portugal
Pombal contou com o apoio de diversos intelectuais e cien-
tistas portugueses com formação estrangeira. Nesse grupo, 
destacou-se o padre Luis Antônio Verney, cujo projeto de 
reforma pedagógica, aplicado parcialmente por Pombal, al-
terou de modo significativo o cenário científico português.
As ideias de Verney foram expostas na obra Verdadeiro 
método de estudar, publicada em 1746. Nela, o escritor 
ataca a orientação que os jesuítas impunham à educação e 
condena a arte de Camões, em cujas antíteses identificava 
traços da estética barroca.
Essas críticas provocaram um amplo debate sobre a neces-
sidade de renovação da cultura portuguesa. Foram publi-
cados inúmeros tratados abordando a questão estética da 
literatura e envolvendo temas como o belo e a verdade na 
arte. Em decorrência desse período de efervescência cultu-
ral, foi fundada a Arcádia Lusitana, em 1756, considerada 
o marco inicial do Arcadismo no país.
4. ArcádiAs
As Arcádias eram academias literárias, espécies de agre-
miações que tinham por objetivo promover debates perma-
nentes sobre a criação artística, avaliar criticamente a pro-
dução de seus filiados e facilitar a publicação de suas obras. 
Em Portugal existiram duas importantes academias árca-
des: a Arcádia Lusitana, que efetivamente deu início 
ao movimento árcade em Portugal, e a Nova Arcádia 
(1790), da qual participou o maior poeta português do sé-
culo XVIII: Bocage. 
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sonho de arcádia. óleo soBre 
tela. thoMas cole, 1838.
A poesia foi o gênero literário predominante durante o Ar-
cadismo português, embora tenha havido criação em todos 
os gêneros. Apesar da vasta produção do período, poucas 
são as obras que ainda interessam ao leitor contemporâneo.
5. mAnuel mAriA bArbosA du bocAge
1765 – Nasce em Setúbal, Portugal, Manuel Maria Barbosa 
du Bocage.
1775 – Morre sua mãe.
1781 – Foge de casa e se torna soldado.
1783 – Muda-se para Lisboa, onde se engaja na Armada 
Real Portuguesa e participa da vida boêmia da cidade.
1786 – Depois de uma viagem em que passou pelo Brasil, 
chega a Goa, na Índia, uma das colônias portuguesas.
1790 – Volta para Portugal.
1791 – Publica Rimas. É convidado para participar da 
Nova Arcádia. 
1797 – Depois de preso sucessivamente, é ibertado e 
transferido para o Convento dos Oratorianos, onde foi, 
aparentemente, levado ao abandono da irreverência.
1799 – Publica sua segunda obra de poesias, também 
com o título de Rimas.
1804 – Publica uma terceira série de Rimas, com apoio e elo-
gios da marquesa de Aloma, que passou a protegê-lo.
1805 – Trabalhando como tradutor, morre em 21 de dezembro.
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Manuel Maria BarBosa du BocaGe
A trajetória de vida do poeta português Bocage (1765-
1805) é semelhante à de Camões. Envolveu-se em polê-
micas e em aventuras, dedicou-se à vida boêmia, cultivou 
grandes amores e ingressou na carreira militar, embora 
tenha desertado e fugido para a China.
Bocage entrou para a história da literatura portuguesa como um 
poeta erótico, embora sua poesia lírica árcade seja considerada 
superior. A obra Rimas, de 1791, valeu-lhe o convite para a Nova 
Arcádia, onde usava o pseudônimo Elmano Sadino (Elmano 
é um anagrama de Manoel, e Sadino refere-se ao rio Sado, que 
corta a cidade de Setúbal, onde o escritor nasceu).
A produção literária de Bocage revela a ânsia pelo locus 
amoenus (lugar ameno), que simboliza a fuga da vida 
65
citadina (fugere urbem). Prende-se aos valores literários 
do Arcadismo, cuja presença feminina é marcante com 
constantes citações de Marílias, Ritálias, Márcias, Gertrú-
rias. Há pesquisadores que apontam Maria Margarida 
Rita Constâncio Alves como a grande paixão do poeta 
e a quem são atribuídos os dois primeiros pseudônimos 
pastoris: Marília e Ritália. Por outro lado, é possível iden-
tificar outra figura muito presente em sua obra, Gertrúria, 
na verdade, Gertrudes Homem de Noronha, conterrânea 
de Setúbal e a quem o poeta dedica muitos versos, o que 
leva a crer que tenha sido ela o grande amor de sua vida. 
Idílios marítimos, Rimas (três volumes) e Parnaso bocagia-
no reúnem a produção literária de Bocage. Os sonetos de 
Rimas são o ponto alto de sua produção, e alguns estudio-
sos chegam a compará-lo a Camões. A solidão, a desilu-
são amorosa, o sentimento de desamparo e a dor de viver 
impactaram de tal maneira sua poesia que ela acabou se 
afastando da estética árcade – racional e pouco dramática 
– para se enveredar pelo campo dramático e confessional, 
fato que inseriu Bocage num contexto pré-romântico.
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão de altura,
Triste de facha, mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;
.................................................................
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades. 
herMâni cidade. BocaGe – a oBra e o hoMeM. 3. ed. 
lisBoa: arcádia, 1978. P. 25-26.
deidade: deusa
facha: rosto
meão: mediano 
Nesses versos, o poeta procura descrever a si mesmo. No-
ta-se um aspecto marcante da vida e da obra do autor: 
“Devoto incensador de mil deidades”, ou seja, bajulador 
ou conquistador de mil moças.
Além das inúmeras experiências amorosas, Bocage também 
viveu aventuras nas colônias portuguesas da Índia (Goa) e 
da China (Macau). Como o autor de Os Lusíadas, Bocage 
também se incorporou em companhias militares, lutou na 
guerra, naufragou, amou muitas mulheres, foi preso e mor-
reu na miséria. Consciente dessas coincidências, Bocage per-
seguia o modelo da vida e da obra de seu mestre.
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
.................................................................
Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da natureza.
herMâni cidade. oB. cit., P. 149. 
fado: sorte, destino
ventura: sorte, destino
Foi na lírica,particularmente nos sonetos, que Bocage atin-
giu o ponto alto de sua obra, embora também tenha se 
destacado como poeta satírico e erótico.
Bocage, O Triunfo do Amor. 
Direção: Djalma Limongi Batista, 1997
Filme inspirado na vida, obra e lenda do 
poeta português Manoel Maria Barbosa du 
Bocage, símbolo libertário da sexualidade 
dos países de língua portuguesa. Em um 
painel que abrange poemas de todos 
os gêneros, o filme abre com o episódio 
baseado no poema que conta a história da 
bela e requintada cortesã Manteigui que, 
ao apaixonar-se pelo poeta indomável, 
acaba redimindo-se no amor.
fonte: youtuBe
multimídia: vídeo
5.1. Bocage e a transição
Bocage é considerado o maior escritor português do sé-
culo XVIII. É um dos três maiores sonetistas de toda a 
literatura portuguesa, ao lado de Camões e de Antero de 
Quental. Entretanto, o título de melhor escritor da época 
não significa que Bocage tenha sido o mais perfeito árca-
de, papel que talvez caiba a Filinto Elísio. A importância 
conferida à obra de Bocage advém principalmente da 
tradução do momento transitório em que o escritor viveu, 
um período marcado por mudanças profundas, como a 
Revolução Francesa e o florescimento do Romantismo. 
Na totalidade, sua obra não é árcade nem romântica. É 
uma obra de transição, que apresenta ao mesmo tempo 
aspectos de ambos os movimentos literários.
5.1.1. Lírica Arcádica:
A fase inicial da poesia de Bocage é marcada por for-
mas e temas próprios do Arcadismo: o ambiente bucólico 
(fugere urbem ), o ideal de vida simples e alegre (aurea 
mediocritas ), a simplicidade e a clareza das ideias e da 
linguagem, etc. 
66
Já se afastou de nós o Inverno agreste
Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste:
Varrendo os ares o subtil nordeste
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros, e Amores,
E torna o fresco Tejo a cor celeste;
Vem, ó Marília, vem lograr comigo 
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo:
Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!
5.1.2. Lírica pré-romântica
Na lírica pré-romântica, não se observa o convencionalis-
mo amoroso e o racionalismo dos árcades. Ao contrário, 
essa fase da poesia de Bocage apresenta certa subjetivi-
dade e emoções que serão próprias do movimento literário 
posterior: o Romantismo.
No poema a seguir, é possível notar um “eu lírico” que, 
não correspondido pela “cruel” amada, fala abertamente 
de seus sentimentos em relação à morte, compondo um 
quadro macabro, que é completado pelos demais “mem-
bros” da corte noturna – corujas e fantasmas – e habitado 
também pelo “eu lírico”, num gesto de total desespero e 
descontrole emocional.
Oh retrato da morte, oh noite amiga
Oh retrato da morte, oh noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha do meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor que a ti somente os diga,
Dá-lhes agasalho no teu manto;
Ouve-se, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.
herMâni cidade. oB. cit., P.141-142.
Mocho: coruja
Pio: piedoso
No poema a seguir, observa-se um painel oposto ao universo 
claro e equilibrado do Arcadismo. Em vez do equilíbrio, despon-
tam o pessimismo e a morte como saída para a angústia de 
viver; em vez de racionalismo, tem-se o predomínio absoluto da 
emoção; em vez de objetividade, evidencia-se o subjetivismo.
Meu ser evaporei na lida insana
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel das paixões que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a natureza, escrava
Do mal que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu desenganos.
Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
hernâni cidade. oB. cit., P. 113.
falaz: enganoso
lida: luta
ufano: orgulhoso
5.1.3. Poesia Satírica
A produção satírica de Bocage foi uma das que mais se po-
pularizou, embora seja considerada inferior à poesia lírica. 
Foi por meio dessa poesia que o poeta recebeu a alcunha 
de “poeta maldito”, uma vez que tratava de temas de na-
tureza grosseira, vulgar e obscena.
Soneto do epitáfio
La quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marques, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade,
Que engrole “sub-venites” em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”.
67
VIVENCIANDO
Bocage, em painel de azulejos
BocaGe, eM Painel de azulejos, desenho de louro de alMeida e roGério chora (1979), 
eM setúBal (centro coMercial do BonfiM)
Verbi-gratia: por exemplo
Engrolar: enrolar
Sub-venites: salmos
Gatarrão: gato
Gente de malta: gente de má fama, ralé
Outeiro: Colina, monte.
Dicas!
 § Valorização da vida no campo (bucolismo)
 § Crítica à vida urbana
 § Objetividade
 § Idealização da mulher amada
 § Inutilia truncat (cortar o inútil)
 § Locus amoenus (lugar agradável)
 § Convencionalismo amoroso
 § Aurea mediocritas (mediocridade áurea ou ouro 
medíocre)
 § Linguagem simples
 § Emprego frequente de pseudônimos
 § Pastoralismo
 § Fugere urbem
 § Carpe diem
68
O ARCADISMO ESTÁ NO PERÍODO 
HISTÓRICO DO ILUMINISMO E PODE 
SER CHAMADO DE NEOCLASSICISMO.
BOCAGE VIVEU NA ÍNDIA DE 
1786 A 1790, PASSANDO POR 
GOA, DAMÃO E MACAU, 
EM FUNÇÃO DE UMA VIDA 
POUCO REGRADA, SUA SAÚDE 
DEBILITOU-SE RAPIDAMENTE NO 
SEU ÚLTIMO ANO DE VIDA (1805).
O POETA FOI ENCARCERADO NO LIMOEIRO, 
ACUSADO DE CRIME DE LESA-MAJESTADE POR 
ENTREGAR PANFLETOS APOLOGISTAS A REV. 
FRANCESA BEM COMO POEMAS ERÓTICOS.
COMO ERA CARACTERÍSTICO DOS ÁRCADES, BOCAGE USAVA 
UM PSEUDÔNIMO: ELMANO SADINO. REFERÊNCIA A UM 
ANAGRAMA DE SEU PRIMEIRO NOME E AO RIO SADO QUE 
CORTA A PROVÍNCIA DE SETÚBAL, SUA CIDADE NATAL.
 DIAGRAMA DE IDEIAS
ARCADISMO 
PORTUGAL –BOCAGE
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