Prévia do material em texto
1
Caro aluno
O Hexag Medicina é, desde 2010, referência na preparação pré-vestibular de candidatos às
melhores universidades do Brasil.
Ao elaborar o seu Sistema de Ensino, o Hexag Medicina considerou como principal diferen-
cial em relação aos concorrentes sua exclusiva metodologia em período integral, com aulas
e Estudo Orientado (E.O.), e seu plantão de dúvidas personalizado.
Você está recebendo o livro Estudo Orientado. Com o objetivo de verificar se você aprendeu
os conteúdos estudados, este material apresenta nove categorias de exercícios:
• Aprendizagem: exercícios introdutórios de múltipla escolha para iniciar o processo de fixa-
ção da matéria dada em aula.
• Fixação: exercícios de múltipla escolha que apresentam um grau de dificuldade médio,
buscando a consolidação do aprendizado.
• Complementar: exercícios de múltipla escolha com alto grau de dificuldade.
• Dissertativo: exercícios dissertativos seguindo a forma da segunda fase dos principais ves-
tibulares do Brasil.
• Enem: exercícios que abordam a aplicação de conhecimentos em situações do cotidiano,
preparando o aluno para esse tipo de exame.
• Objetivas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp): exercícios de múltipla escolha das universi-
dades públicas de São Paulo.
• Dissertativas (Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp): exercícios dissertativos da segunda fase
das universidades públicas de São Paulo
• Uerj (exame de qualificação): exercícios de múltipla escolha que possibilitam a consolida-
ção do aprendizado para o vestibular da Uerj.
• Uerj (exame discursivo): exercícios dissertativos que possibilitam a consolidação do apren-
dizado para o vestibular da Uerj.
Visando a um melhor planejamento dos seus estudos, os livros de Estudo Orientado rece-
berão o encarte Guia de Códigos Hierárquicos, que mostra, com prático e rápido manuseio,
a que conteúdo do livro teórico corresponde cada questão. Esse formato vai auxiliá-lo a
diagnosticar em quais assuntos você encontra mais dificuldade. Essa é uma inovação do
material didático 2020. Sempre moderno e completo, trata-se de um grande aliado para seu
sucesso nos vestibulares.
Bons estudos!
Herlan Fellini
2
SUMÁRIO
ENTRE LETRAS
GRAMÁTICA
LITERATURA
Aulas 45 e 46: Ortografia 4
Aulas 47 e 48: Funções de "a", "que" e "se 20
Aulas 49 e 50: Pontuação I 37
Aulas 51 e 52: Pontuação II 59
Aulas 45 e 46: Modernismo no Brasil: 2.ª fase – poesia 80
Aulas 47 e 48: Modernismo no Brasil: 2.ª fase – prosa 102
Aulas 49 e 50: Modernismo no Brasil: 3.ª fase 119
Aulas 51 e 52: Concretismo, Marginália, Contemporânea e outras literaturas lusófonas 134
3
GRAMÁTICA
4
OrtOgrafiaAULAS
45 e 46
CompetênCias: 1 e 5 Habilidades: 1, 2, 3 e 17
E.O. AprEndizAgEm
1. (IFSP) De acordo com a norma padrão da Língua Por-
tuguesa, assinale a alternativa em que todas as palavras
devam ser acentuadas de acordo com a mesma regra de
acentuação do vocábulo sublinhado na placa abaixo.
a) Facil/animo (substantivo)/apendice
b) Ingenuo/varzea/magoa (substantivo)
c) Virus/alcoolatra/unico
d) Alibi/antibiotico/monossilabica
e) Album/maniaco/amidala
2. (UTFPR) O texto abaixo apresenta inadequações, de
acordo com a norma padrão. A(s) questão(ões) a seguir
analisa(m) alguns desses problemas.
No caminho de Montevideo, dirigindo pela rota beira-
-mar obrigatóriamente voce vai passar pelo porto de
Montevideo, lá existe um mercado muito sofisticado com
ótimos restaurantes. Vale [à pena] uma parada para al-
moçar no El Palenque, um dos melhores restaurantes do
Uruguai para comer carnes, é incrivel lá dentro! Paramos
para conhecer, mas não almoçamos no El Palenque dessa
vez, pois estavamos com o almoço marcado na Bodega
Bousa e depois a visita a vinicola. Seguimos viagem pela
rota 5 em direção a Bodega Bousa (fique atento as pla-
cas, pois voce pode passar despercebido por elas).
(Disponível em: http://cozinhachic.com/Diario-De-viagemmonteviDeo-
vinicolas-e-restaurantes. acesso em 16/01/2017).
No texto há algumas palavras com erro de acentuação
gráfica. Assinale a alternativa que registra todas elas
com os erros corrigidos.
a) Obrigatoriamente, você, incrível, estávamos, viní-
cola, você.
b) Montevidéo, obrigatóriamente, você, pôrto, está-
vamos, você.
c) Você, incrível, estávamos, você, pôrto.
d) Você, incrível, estávamos, vinícola, você.
e) Montevidéo, obrigatoriamente, você, incrível, viní-
cola, você.
3. (COL. Naval) Aumenta o número de adultos que não
consegue focar sua atenção em uma única coisa por
muito tempo. São tantos os estímulos e tanta a pressão
para que o entorno seja completamente desvendado
que aprendemos a ver e/ou fazer várias coisas ao mes-
mo tempo. Nós nos tornamos, à semelhança dos com-
putadores, pessoas multitarefa, não é verdade?
Vamos tomar como exemplo uma pessoa dirigindo.
4Ela precisa estar atenta aos veículos que vêm atrás,
ao lado e à frente, à velocidade média dos carros por
onde trafega, às orientações do GPS ou de programas
que sinalizam o trânsito em tempo real, 6às informações
de alguma emissora de rádio que comenta o trânsito,
ao planejamento mental feito e refeito várias vezes do
trajeto que deve fazer para chegar ao seu destino, aos
semáforos, faixas de pedestres etc.
Quando me vejo em tal situação, eu me lembro que di-
rigir, após um dia de intenso trabalho no retorno para
casa, já foi uma atividade prazerosa e desestressante.
O uso da internet ajudou a transformar nossa maneira
de olhar para o mundo. Não mais observamos os deta-
lhes, por causa de nossa ganância em relação a novas e
diferentes informações. Quantas vezes sentei em frente
ao computador para buscar textos sobre um tema e, de
repente, me dei conta de que estava em temas que em
nada se relacionavam com meu tema primeiro.
Aliás, a leitura também sofreu transformações pelo nos-
so costume de ler na internet. Sofremos de uma ten-
tação permanente de pular palavras e frases inteiras,
apenas para irmos direto ao ponto. O problema é que
alguns textos exigem a leitura atenta de palavra por
palavra, de frase por frase, para que faça sentido. 5Aliás,
não é a combinação e a sucessão das palavras que dá
sentido e beleza a um texto?
3Se está difícil para nós, adultos, focar nossa atenção,
imagine, caro leitor, para as crianças. Elas já nasceram
neste mundo de 8profusão de estímulos de todos os
tipos; elas são exigidas, desde o início da vida, a dar
conta de várias coisas ao mesmo tempo; elas são esti-
muladas com diferentes objetos, sons, imagens etc.
Aí, um belo dia elas vão para a escola. Professores e
pais, a partir de então, querem que as crianças prestem
atenção em uma única coisa por muito tempo. E quando
elas não conseguem, reclamamos, levamos ao médico,
5
arriscamos hipóteses de que sejam portadoras de sín-
dromes que exigem tratamento etc.
A maioria dessas crianças sabe focar sua atenção, sim.
Elas já sabem usar programas complexos em seus apa-
relhos eletrônicos, brincam com jogos desafiantes que
exigem atenção constante aos detalhes e, se deixarmos,
passam horas em uma única atividade de que gostam.
Mas, nos estudos, queremos que elas prestem atenção
no que é preciso, e não no que gostam. E isso, caro lei-
tor, exige a árdua aprendizagem da autodisciplina. Que
leva tempo, é bom lembrar.
As crianças precisam de nós, pais e professores, para co-
meçar a aprender isso. Aliás, boa parte desse trabalho é
nosso, e não delas.
Não basta mandarmos que elas prestem atenção: isso
de nada as ajuda. 13O que pode ajudar, por exemplo, é
analisarmos o contexto em que estão 7quando precisam
focar a atenção e organizá-lo para que seja favorável a
tal exigência. E é preciso lembrar que não se pode espe-
rar toda a atenção delas por muito tempo: o ensino desse
quesito no mundo de hoje é um processo lento e gradual.
(saYÃo, roselY. profusÃo De estímulos.
folha De s. paulo, 11 fev. 2014.)
Assinale a opção em que as palavras destacadas rece-
bem, respectivamente, a mesma classificação quanto à
acentuação gráfica queas palavras sublinhadas em “Se
está difícil para nós, adultos [...]. Elas já, nasceram neste
mundo de profusão de estímulos[...].” (ref. 3).
a) “Ela precisa estar atenta aos veículos que vêm
atrás, ao lado e à crente, à velocidade média dos car-
ros [...].” (ref. 4)
b) “Aliás, não é a combinação e a sucessão das pala-
vras que dá sentido a um texto?” (ref. 5)
c) “[...] às informações de alguma emissora de rádio
que comenta o trânsito, ao planejamento mental
[...].” (ref. 6)
d) “[...] quando precisam focar a atenção e organizá-
-lo para que seja favorável a tal exigência. E é preciso
lembrar [...].“ (ref. 7)
e) “[...] profusão de estímulos [...]; elas são exigidas,
desde o início da vida, a dar conta de várias coisas
[...].” (ref. 8)
4. (CFTSC) PRETO E BRANCO
Perdera o emprego, chegara a passar fome, sem que
6ninguém soubesse: por constrangimento, afastara-se
da roda 7boêmia escritores, jornalistas, um sambista de
cor que vinha a ser o seu mais velho que antes costuma-
va frequentar companheiro de noitadas.
De repente, a salvação lhe apareceu na forma de um
americano, que lhe oferecia um emprego numa agência.
Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade, vale
dizer, ao americano, para garantir na sua nova função
uma relativa estabilidade.
E um belo dia vai seguindo com o chefe pela rua 10Mé-
xico, já distraído de seus passados tropeços, mas trope-
çando obstinadamente no inglês com que se entendiam
– quando vê do outro lado da rua um preto agitar a
mão para ele.
Era o sambista seu amigo.
Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia pa-
recer estranha tal amizade, e mais ainda incompatível
com a ética ianque a ser mantida nas funções que pas-
sara a exercer. Lembrou-se num átimo que o americano
em geral tem uma coisa muito séria chamada precon-
ceito racial e seu critério de julgamento da capacidade
funcional dos subordinados talvez se deixasse influir
por essa odiosa deformação. Por via das dúvidas corres-
pondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais
discreta que lhe foi possível, mas viu em pânico que ele
atravessava a rua e vinha em sua direção, sorriso aberto
e braços prontos para um abraço.
Pensou rapidamente em se esquivar – não dava tempo: o
americano também se detivera, vendo o preto aproximar-se.
Era seu amigo, velho companheiro, um bom sujeito,
dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais
chegara sequer a se lembrar que se tratava de um pre-
to? Agora, com o gringo ali a seu lado, todo branco e
sardento, é que percebia pela primeira vez: não podia
ser mais preto. Sendo assim, tivesse paciência: mais tar-
de lhe explicava tudo, haveria de compreender. Passar
fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsun,
lidos depois do jantar, e sem credores à porta. Não teve
mais dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou
e fingiu que não o via, que não era com ele.
E não era mesmo com ele.
Porque antes de 9cumprimentá-lo, talvez ainda sem
8tê-lo visto, o sambista abriu os braços para acolher o
americano – também seu amigo.
(saBino, fernanDo. a mulher Do vizinho. 7. eD.
rio De Janeiro: recorD, 1962. p.163-4.)
Assinale a alternativa correta relativamente à acentua-
ção gráfica das palavras sublinhadas no texto.
a) O pronome ninguém (ref. 6) recebe acento por ser
uma monossílaba tônica terminada em em.
b) O substantivo boêmia (ref. 7) é acentuado por ser
palavra proparoxítona.
c) A combinação da forma verbal ter com o pronome
oblíquo o, resultou em tê-lo (ref. 8), que é acentuado
por se tratar de paroxítona terminada em o.
d) A forma verbal cumprimentá (ref. 9) é acentuada
porque, ao associar-se ao pronome o, perdeu o r final,
tornando-se uma oxítona terminada em a.
e) O substantivo México (ref. 10) recebe acento por-
que é uma palavra importada, que precisa manter o
acento original.
5. (IFAL) Assinale a alternativa em que as palavras, que
completam a frase abaixo, estão acentuadas correta-
mente.
Os tabloides que eles __________, __________ man-
chetes curtas que todos __________.
a) leem – tem – veem
b) lêm – teem – vêm
c) leem – têm – veem
d) leem – têm – vêm
e) lêm – tem – veem
6
6. (COL. Naval) Em que opção a acentuação do termo
destacado está correta?
a) A prática da leitura constrói cidadãos capazes de
entender criticamente a realidade.
b) De acordo com o texto, pessoas que lêem, desen-
volvem o raciocínio e falam melhor.
c) Quando o conferencista enfatizou a importância da
leitura, foi ovacionado pela platéia.
d) A ignorância prepotente deforma por estagnação,
pois o indivíduo pára de questionar.
e) Se os livros são fundamentais na formação das
pessoas, é bom que se averigúem as causas da dimi-
nuição da leitura.
7. (IFSUL) A partir da entrada em vigor do Acordo Orto-
gráfico, a palavra assembleia passou a ser grafada sem
acento agudo. Qual é a alternativa em que um ou mais
vocábulos, segundo as regras do Acordo Ortográfico,
foi(ram) acentuado(s) INDEVIDAMENTE?
a) estóico – proíbe – vôo
b) hotéis – usuário – volátil
c) troféus – retórico – hífen
d) herói – alcoólico – têm
8. (IFAL) Cientistas americanos apresentaram ontem re-
sultados preliminares de uma vacina contra o fumo. O
medicamento impede que a nicotina – componente do
tabaco que causa dependência – chegue ao cérebro. Em
ratos vacinados, até da nicotina injetada deixou de
atingir o sistema nervoso central.
(o gloBo,18/12/99.)
Analise as afirmativas a seguir:
I. A palavra “cérebro” é paroxítona.
II. “Cientistas” é, no texto, uma palavra masculina, haja
vista a concordância do adjetivo que a acompanha.
III. A palavra “até” é monossílabo tônico.
IV. A palavra “até” é oxítona terminada em “e”, por isso
é acentuada.
V. No texto, há três palavras oxítonas que não são acen-
tuadas graficamente: deixou, atingir e central.
Estão corretas.
a) apenas II e IV.
b) apenas II, IV e V.
c) apenas I e III.
d) apenas III e V.
e) apenas IV e V.
9. (IFSC)
Com relação à acentuação gráfica das palavras no texto, é CORRETO afirmar:
a) A palavra por (quinto quadrinho) deveria ter recebido acento diferencial por se tratar de uma forma verbal.
b) A palavra parabéns (terceiro quadrinho) recebe um acento diferencial porque está no plural.
c) A palavra ótima (terceiro quadrinho) recebe acento por ser proparoxítona.
d) A palavra me (primeiro quadrinho) deveria ter recebido acento, por ser monossílabo tônico terminado em e.
e) O acento na palavra é (terceiro quadrinho) pode ser classificado como diferencial, porque não há regra que justifique seu uso.
10. (UTFPR) Em qual alternativa todas as palavras em negrito devem ser acentuadas graficamente?
a) Atraves de uma lei municipal, varias pessoas recebem ingressos gratis para o cinema.
b) É dificil correr atras do prejuizo sozinho.
c) Aqui, em Foz do Iguaçu, a dengue esta sendo um grande problema de saude publica.
d) O bisneto riscou os papeizinhos com o lapis.
e) O padrão economico do juiz é elevado.
E.O. FixAçãO
1. (IMED)
ADIANTE SEGUIU A JUSTIÇA
maria Berenice Dias
Durante séculos, ninguém titubeava em responder: fa-
mília, só tem uma – a 2constituída pelos sagrados laços
do matrimônio. Aos noivos era imposta a obrigação de
se multiplicarem até a morte, mesmo na tristeza,
na pobreza e na doença. Tanto que se falava em
débito conjugal.
Esse modelito se manteve, ao menos na aparência, _____
expensas da integridade física e psíquica das mulheres,
que se mantinham dentro de casamentos esfacelados,
pois assim exigia a sociedade. Tanto que o casamento
era indissolúvel. As pessoas até podiam se desquitar, mas
não podiam se casar de novo. Caso encontrassem um par,
tornavam-se concubinos e alvos de punições.
7
As mudanças foram muitas: vagarosas, mas significativas.
As causas, incontáveis. No entanto, o resultado foi um 10só.
O conceito de família mudou, se esgarçou. O casamento
perdeu a sacralidade e permanecer dentro dele deixou de
ser uma imposição social e uma obrigação legal.Veio o 11divórcio. Antes, porém, o 12purgatório da sepa-
ração, que exigia que se identificassem causas, punin-
do-se os culpados. A liberdade total de casar e descasar
chegou somente no ano de 2006.
A lei regulamentava exclusivamente o casamento. Punia
com o silêncio toda e qualquer modalidade de estrutu-
ras familiares que se afastasse do modelo “oficial”.
E foi assumindo a responsabilidade de julgar que os
14juízes começaram a alargar o conceito de família. As
mudanças chegaram _____ Constituição Federal, que
enlaçou no conceito de família, outorgando-lhes espe-
cial proteção, outras estruturas de convívio. Além do
casamento, trouxe, de forma exemplificativa, a união
estável entre um homem e uma mulher e a chamada
família parental: um dos pais e seus filhos.
Adiante ainda seguiu a Justiça. Reconheceu que o rol
constitucional não é exaustivo, e continuou a reconhe-
cer como família outras estruturas familiares. Assim
as famílias anaparentais, constituídas somente pelos
filhos, sem a presença dos pais; as famílias parentais,
decorrentes do convívio de pessoas com vínculo de pa-
rentesco; bem como as famílias homoafetivas, que são
as formadas por pessoas do mesmo sexo.
O reconhecimento da homoafetividade como união
estável foi levado _____ efeito pelo Supremo Tribunal
Federal no ano de 2011, em decisão unânime e históri-
ca. Agora esta é a realidade: homossexuais casam, têm
filhos, ou seja, podem constituir família.
Ativismo judicial? Não, interpretação da Carta Consti-
tucional segundo um punhado de princípios fundamen-
tais. É a Justiça cumprindo o seu papel de fazer justiça,
mesmo diante da lacuna legal.
Da inércia, passou o Legislativo, dominado por autointi-
tulados profetas religiosos, a reagir.
Não foi outro o intuito do Estatuto da Família, que aca-
ba de ser aprovado pela comissão especial na Câmara
dos Deputados (PL 6.583/2013). Tentar limitar o concei-
to de família à união entre um homem e uma mulher,
além de afrontar todos os princípios fundantes do Es-
tado, impõe um retrocesso social que irá retirar direitos
de todos aqueles que não se encaixam neste conceito
limitante e limitado.
Mas _____ mais. Proceder ao cadastramento das en-
tidades familiares e criar Conselhos da Família é das
formas mais perversas de excluir direito à saúde, à
assistência psicossocial, à segurança pública, que são
asseguradas somente às entidades familiares reconhe-
cidas como tal. Limitar acesso à Defensoria Pública e à
tramitação prioritária dos processos à entidade familiar
definida na lei, às claras tem caráter punitivo.
O conceito de família mudou. E onde procurar a sua de-
finição atual? Talvez na frase piegas de Saint-Exupéry:
na responsabilidade decorrente do afeto.
(zero hora, caDerno proa, 27-09-2015.)
Sobre o uso de acento gráfico em vocábulos do texto,
analise as afirmações que seguem:
I. Em constituída (ref. 2) e juízes (ref. 14), a letra i recebe
acento gráfico por razões distintas.
II. aparência (ref. 3) e purgatório (ref. 12) recebem acen-
to gráfico em virtude da mesma regra.
III. As palavras só (ref. 10) e divórcio (ref. 11) são acentu-
adas a fim de marcar a sonoridade da vogal o.
Quais estão INCORRETAS?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e II.
e) Apenas I e III.
2. (IFPE) UMA REVISÃO DE DADOS RECENTES SOBRE A
MORTE DE LÍNGUAS
Linguistas preveem que metade das mais de mil línguas
faladas no mundo desaparecerá em um século – uma
taxa de extinção que supera as estimativas mais pessi-
mistas quanto à extinção de espécies biológicas. (...)
Segundo a Unesco, 96% da população mundial falam só
4% das línguas existentes. E apenas 4% da humanidade
partilha o restante dos idiomas, metade dos quais se
encontra em perigo de extinção. Entre 20 e 30 idiomas
desaparecem por ano – uma média de uma língua a
cada duas semanas. (...)
A perda de línguas raras é lamentável por várias razões.
Em primeiro lugar, pelo interesse científico que des-
pertam: algumas questões básicas da linguística estão
longe de estar inteiramente resolvidas. E essas línguas
ajudam a saber quais elementos da gramática e do vo-
cabulário são realmente universais, isto é, resultantes
das características do próprio cérebro humano.
A ciência também tenta reconstruir o percurso de anti-
gas migrações, fazendo um levantamento de palavras
emprestadas, que ocorrem em línguas sem qualquer
parentesco. Afinal, se línguas não aparentadas parti-
lham palavras, então seus povos estiveram em contato
em algum momento.
Um comunicado do Programa das Nações Unidas para o
Meio Ambiente (Pnuma) diz que “o desaparecimento de
uma língua e de seu contexto cultural equivale a queimar
um livro único sobre a natureza”. Afinal, cada povo tem
um modo único de ver a vida. Por exemplo, a palavra rus-
sa mir significa igualmente “aldeia”, “mundo” e “paz”. É
que, como os aldeões russos da Idade Média tinham de fu-
gir para a floresta em tempos de guerra, a aldeia era para
eles o próprio mundo, ao menos enquanto houvesse paz.
(Disponível em: <http://revistalingua.com.Br/textos/116/a-
morte-anunciaDa-355517-1.asp>. acesso em 28 set. 2015.)
No início do texto, aparece a forma verbal “preveem”,
que perdeu o acento circunflexo após o último acordo
ortográfico.
Assinale a única alternativa em que todas as palavras
seguem o padrão de acentuação determinado pelo re-
ferido acordo.
8
a) Eu fui à feira e comprei cinco pêras e três maçãs.
b) A sonda espacial acabou de descobrir um novo
asteróide.
c) Joana d’Arc é uma mártir da Guerra dos Cem anos.
d) Ele, estranhamente, saiu sem cumprimentar a platéia.
e) O Brasil acabou de enviar uma equipe de pesquisa
ao pólo Sul.
3. (COL. Naval) Assinale a opção na qual as palavras fo-
ram acentuadas pelo mesmo motivo que “aritméticos”,
“prioritária”, “cálculos” e “Taubaté”, respectivamente.
a) rotatória, cólica, vermífugo, Maringá.
b) hebdomadário, ausência, andrógino, Itajaí.
c) farmacêutico, ípsilon, síndrome, Piauí.
d) alaúde, húngaro, déspota, Grajaú.
e) anêmona, glúten, nômade, Tribobó.
4. (IFSC) Texto 1: Livro
Eu me livro daquele garoto chato
Com um livro enfiado no meu nariz
Fingindo achar a história feliz.
(maria, selma. isso isso. sÃo paulo: peirópolis, 2010. s/p.)
Texto 2
Considerando a posição da sílaba tônica e as regras de
acentuação das palavras, assinale a alternativa CORRETA:
a) As palavras “garoto”, “história”, “feliz” e “nariz”, do texto
1, são palavras proparoxítonas, e “livro”, “dicionário”, “ter-
minar” e “nunca”, do texto 2, são palavras oxítonas.
b) As palavras “história”, do texto 1, e “dicionário”, do
texto 2, não deveriam estar acentuadas, porque os acen-
tos agudos não fazem mais parte do português brasileiro.
c) A palavra “história”, do texto 1, é uma palavra pa-
roxítona e está corretamente acentuada; e “você”, do
texto 2, é uma palavra oxítona e deve ser acentuada
da mesma forma que “café”, “dendê”.
d) As palavras “história”, do texto 1, e “dicionário”, do
texto 2, foram acentuadas corretamente, mas possuem
regras de acentuação diferentes, porque a primeira é
considerada paroxítona e, a segunda, proparoxítona.
e) As palavras “nariz” e “feliz”, do texto 1, deveriam
estar acentuadas assim como as palavras “terminar”,
“ler”, “grosso” e “nunca”, do texto 2, que deveriam
receber acento circunflexo.
5. (IFSC)
Sobre o texto apresentado na tirinha é CORRETO
afirmar que:
a) O pronome “vocês”, no primeiro quadrinho, é acen-
tuado por ser uma palavra paroxítona terminada em s.
b) A forma verbal “é”, que aparece no segundo e quin-
to quadrinhos, é acentuada com base na regra que
manda acentuar as palavras monossílabas tônicas ter-
minadas em e (no quarto quadrinho não tem é).
c) O substantivo “país”, no segundo quadrinho, recebe
acento porque é uma palavra oxítona terminada em is.
d) O substantivo “país”, no segundo quadrinho, rece-
be acento diferencial para não ser confundido com o
adjetivo “pais”.
e) A regra que justificao acento no pronome “nin-
guém”, que aparece no segundo e terceiro quadri-
nhos, também justifica que se acentue o advérbio
“ontem”, opcionalmente.
6. (IFSC) ASSALTO
Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados con-
tra o preço do chuchu:
– Isto é um assalto!
Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Al-
guém, correndo, foi chamar o guarda. Um minuto de-
pois, a rua inteira, atravancada, mas provida de admi-
rável serviço de comunicação espontânea, sabia que se
estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que ban-
co? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do
contrário como poderia ser assaltado?
– Um assalto! Um assalto! – a senhora continuava a
exclamar, e quem não tinha escutado escutou, multipli-
cando a notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas
e legumes era como a própria sirene policial, documen-
tando, por seu uivo, a ocorrência grave, que fatalmente
se estaria consumando ali, na claridade do dia, sem que
ninguém pudesse evitá-la.
Moleques de carrinho corriam em todas as direções,
atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mer-
cadorias que transportavam. Não era o instinto de pro-
priedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo
transporte. E no atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se,
9
melancias rolavam, tomates esborrachavam-se no as-
falto. Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de
qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões
de assalto, quem é que vai reclamar uma penca de ba-
nanas meio amassadas?
– Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!
O ônibus na rua transversal parou para assuntar. Pas-
sageiros ergueram-se, puseram o nariz para fora. Não
se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador, um
passageiro advertiu:
– No que você vai a fim de ver o assalto, eles assaltam
sua caixa.
Ele nem escutou. Então os passageiros também acha-
ram de bom alvitre abandonar o veículo, na ânsia de
saber, que vem movendo o homem, desde a idade da
pedra até a idade do módulo lunar.
Outros ônibus pararam, a rua entupiu.
– Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles
não podem dar no pé.
– É uma mulher que chefia o bando!
– Já sei. A tal dondoca loura.
– A loura assalta em São Paulo. Aqui é a morena.
– Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi.
– Minha Nossa Senhora, o mundo tá virado!
– Vai ver que está é caçando marido.
– Não brinca numa hora dessas. Olha aí sangue
escorrendo!
– Sangue nada, tomate.
Na confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora
a uma joalheria, as vitrinas tinham sido esmigalhadas a
bala. E havia joias pelo chão, braceletes, relógios. O que
os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto
de saque popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e
três estavam gravemente feridas.
Barracas derrubadas assinalavam o ímpeto da convul-
são coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo.
No rumo do assalto, para ver, e no rumo contrário, para
escapar. Os grupos divergentes chocavam-se, e às ve-
zes trocavam de direção: quem fugia dava marcha à ré,
quem queria espiar era arrastado pela massa oposta.
Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas por-
tas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que
pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o pelo e contem-
plar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de mora-
dores, que gritavam:
– Pega! Pega! Correu pra lá!
– Olha ela ali!
– Eles entraram na kombi ali adiante!
– É um mascarado! Não, são dois mascarados!
Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhado-
ra, a pequena distância. Foi um deitar-no-chão geral, e
como não havia espaço, uns caíam por cima de outros.
Cessou o ruído. Voltou. Que assalto era esse, dilatado no
tempo, repetido, confuso?
– Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a
gente com dor de barriga, pensando que era metralhadora!
Caíram em cima do garoto, que soverteu na multidão. A
senhora gorda apareceu, muito vermelha, protestando
sempre:
– É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verda-
deiro assalto!
(anDraDe, carlos DrummonD. assalto. in: para gostar
De ler. vol. 3. sÃo paulo: Ática, 1979. p. 12-14.)
Em relação à acentuação gráfica, leia e analise as se-
guintes afirmações:
I. As palavras notícias, relógio, ânsia e contrário são
acentuadas por serem paroxítonas e terminarem em
ditongo.
II. Os vocábulos pé, lá, aí e já recebem acento tônico por
serem monossílabos tônicos.
III. As palavras veículo, módulo, ímpeto e ônibus rece-
bem acento gráfico por serem proparoxítonas.
Assinale a alternativa CORRETA.
a) Apenas as afirmações I e III são verdadeiras.
b) Apenas a afirmação II é verdadeira.
c) Apenas as afirmações I e II são verdadeiras.
d) Apenas as afirmações II e III são verdadeiras.
e) Todas as afirmações são verdadeiras.
7. (UFRGS) No século XV, viu-se a Europa invadida por
uma raça de homens que, vindos ninguém sabe de
onde, se espalharam em bandos por todo o seu terri-
tório. Gente inquieta e andarilha, deles afirmou Paul
de Saint-Victor que era mais fácil predizer o ........ das
nuvens ou dos gafanhotos do que seguir as pegadas da
sua invasão. Uns risonhos despreocupados: passavam a
vida esquecidos do passado e descuidados do futuro.
Cada novo dia era uma nova aventura em busca do es-
casso alimento para os manter naquela jornada. Trajo?
No mais completo ........: ........ sujos e puídos cobriam-
-lhes os corpos queimados do sol. Nômades, aventurei-
ros, despreocupados – eram os boêmios.
Assim nasceu a semântica da palavra boêmio. O nome
gentílico de 9Boêmia passou a aplicar-se ao 8indivíduo
despreocupado, de existência irregular, relaxado no ves-
tuário, vivendo ao 11deus-dará, à toa, na vagabundagem
alegre. 12Daí também o substantivo boêmia. Na defini-
ção de Antenor Nascentes: vida despreocupada e ale-
gre, vadiação, estúrdia, vagabundagem. Aplicou-se de-
pois o termo, especializadamente, à vida desordenada
e sem preocupações de artistas e escritores mais dados
aos prazeres da noite que aos trabalhos do dia. Eis um
exemplo clássico do que se chama degenerescência se-
mântica. De limpo gentílico – natural ou habitante da
Boêmia – boêmio acabou carregado de todas essas co-
notações desfavoráveis.
A respeito do substantivo boêmia, vale dizer que a forma
de uso, ao menos no Brasil, é boemia, acento tônico em
-mi-. E é natural que assim seja, considerando-se que -ia é
sufixo que exprime condição, estado, ocupação. Conferir:
alegria, anarquia, barbaria, rebeldia, tropelia, pirataria...
Penso que sobretudo palavras como folia e orgia devem
ter influído na fixação da tonicidade de boemia. Notar
10
também o par abstêmio/abstemia. Além do mais, a pro-
sódia boêmia estava prejudicada na origem pelo nome
10próprio Boêmia: esses boêmios não são os que vivem
na Boêmia...
(luft, celso peDro. Boêmios, Boêmia e Boemia. in: o romance
Das palavras. sÃo paulo: Ática, 1996. p. 30-31.)
Considere os pares de palavras abaixo.
1. puídos (ref. 7) e indivíduo (ref. 8)
2. Boêmia (ref. 9) e próprio (ref. 10)
3. deus-dará (ref. 11) e Daí (ref. 12)
Em quais pares as palavras respeitam a mesma regra de
acentuação ortográfica?
a) Apenas 1.
b) Apenas 2.
c) Apenas 3.
d) Apenas 1 e 2.
e) Apenas 1 e 3.
8. (COL. Naval) Quando a rede vira um vício
Com o titulo “Preciso de ajuda”, fez-se um desabafo aos
integrantes da comunidade Viciados em Internet Anô-
nimos: “Estou muito dependente da web, Não consigo
mais viver normalmente. Isso é muito sério”. Logo ob-
teve resposta de um colega de rede. “Estou na mesma
situação. Hoje, praticamente vivo em frente ao compu-
tador. Preciso de ajuda.” O diálogo dá a dimensão do
tormento provocado pela dependência em Internet, um
mal que começa a ganhar relevo estatístico, à medida
que o uso da própria rede se dissemina. Segundo pesqui-
sas recém-conduzidas pelo Centro de Recuperação para
Dependência de Internet, nos Estados Unidos, a parcela
de viciados representa, nos vários países estudados, de
5% (como no Brasil) a 10% dos que usam a web – com
concentração na faixa dos 15 aos 29 anos. Os estragossão enormes. Como ocorre com um viciado em álcool
ou em drogas, o doente desenvolve uma tolerância que,
nesse caso, o faz ficar on-line por uma eternidade sem se
dar conta do exagero. Ele também sofre de constantes
crises de abstinência quando está desconectado, e seu
desempenho nas tarefas de natureza intelectual despen-
ca. Diante da tela do computador, vive, aí sim, momentos
de rara euforia. Conclui uma psicóloga americana: “O vi-
ciado em internet vai, aos poucos, perdendo os elos com
o mundo real até desembocar num universo paralelo – e
completamente virtual”.
Não é fácil detectar o momento em que alguém deixa de
fazer uso saudável e produtivo da rede para estabelecer
com ela uma relação doentia, como a que se revela nas
histórias relatadas ao longo desta reportagem. Em todos
os casos, a internet era apenas “útil” ou “divertida” e foi
ganhando um espaço central, a ponto de a vida longe
da rede ser descrita agora como sem sentido. Mudança
tão drástica se deu sem que os pais atentassem para a
gravidade do que ocorria. “Como a internet faz parte do
dia a dia dos adolescentes e o isolamento é um compor-
tamento típico dessa fase da vida, a família raramente
detecta o problema antes de ele ter fugido ao controle”,
diz um psiquiatra. A ciência, por sua vez, já tem bem ma
peados os primeiros sintomas da doença. De saída, o
tempo na internet aumenta – até culminar, pasme-se,
numa rotina de catorze horas diárias, de acordo com o
estudo americano. As situações vividas na rede passam,
então, a habitar mais e mais as conversas. É típico o apa-
recimento de olheiras profundas e ainda um ganho de
peso relevante, resultado da frequente troca de refeições
por sanduíches – que prescindem de talheres e liberam
uma das mãos para o teclado. Gradativamente, a vida
social vai se extinguindo. Alerta outra psicóloga: “Se a
pessoa começa a ter mais amigos na rede do que fora
dela, é um sinal claro de que as coisas não vão bem”.
Os jovens são, de longe, os mais propensos a extrapolar
o uso da internet. Há uma razão estatística para isso –
eles respondem por até 90% dos que navegam na rede,
a maior fatia –, mas pesa também uma explicação de fun-
do mais psicológico, à qual uma recente pesquisa lança
luz. Algo como 10% dos entrevistados (viciados ou não)
chegam a atribuir à internet uma maneira de “aliviar os
sentimentos negativos”, tão típicos de uma etapa em que
afloram tantas angústias e conflitos. Na rede, os adoles-
centes sentem-se ainda mais à vontade para expor suas
ideias. Diz um outro psiquiatra: “Num momento em que
a própria personalidade está por se definir, a internet
proporciona um ambiente favorável para que eles se ex-
pressem livremente”. No perfil daquela minoria que, mais
tarde, resvala no vicio se vê, em geral, uma combinação
de baixa autoestima com intolerância à frustração. Cerca
de 50% deles, inclusive, sofrem de depressão, fobia social
ou algum transtorno de ansiedade. É nesse cenário que os
múltiplos usos da rede ganham um valor distorcido. Entre
os que já têm o vicio, a maior adoração é pelas redes de
relacionamento e pelos jogos on-line, sobretudo por aque-
les em que não existe noção de começo, meio ou fim.
Desde 1996, quando se consolidou o primeiro estudo
de relevo sobre o tema, nos Estados Unidos, a depen-
dência em internet é reconhecida – e tratada – como
uma doença. Surgiram grupos especializados por toda
parte. “Muita gente que procura ajuda ainda resiste à
ideia de que essa é uma doença”, conta um psicólogo.
O prognóstico é bom: em dezoito semanas de sessões
individuais e em grupo, 80% voltam a níveis aceitá-
veis de uso da internet. Não seria factível, tampouco
desejável, que se mantivessem totalmente distantes
dela, como se espera, por exemplo, de um alcoólatra
em relação à bebida. Com a rede, afinal, descortina-se
uma nova dimensão de acesso às informações, à produ-
ção de conhecimento e ao próprio lazer, dos quais, em
sociedades modernas, não faz sentido se privar. Toda a
questão gira em torno da dose ideal, sobre a qual já
existe um consenso acerca do razoável: até duas horas
diárias, no caso de crianças e adolescentes. Quanto an-
tes a ideia do limite for sedimentada, melhor. Na avalia-
ção de uma das psicólogas, “Os pais não devem temer
o computador, mas, sim, orientar os filhos sobre como
usá-lo de forma útil e saudável”. Desse modo, reduz-se
drasticamente a possibilidade de que, no futuro, eles
enfrentem o drama vivido hoje pelos jovens viciados.
(silvia rogar e JoÃo figueireDo. in: revista veJa, 24 De março De 2010.)
11
Assinale a opção cujas palavras são, respectivamente,
acentuadas pela mesma justificativa das que aparecem
destacadas em “Na avaliação de uma das psicólogas,
‘os pais não devem temer o computador, mas, sim,
orientar os filhos sobre como usá-lo de forma útil e sau-
dável’.” (4° parágrafo)
a) Família, incluí-lo, saída.
b) Prognóstico, atrás, fútil.
c) Plausível, alguém, factível.
d) Alcoólatra, razoável, vício.
e) Múltiplos, amá-la, intolerância.
9. (UFRGS) Darwin passou quatro meses no Brasil, em
1832, durante a sua 2célebre viagem a bordo do Beagle.
Voltou impressionado com o que viu: “5Delícia é um ter-
mo 17insuficiente para exprimir as emoções sentidas por
um naturalista a 8sós com a natureza em uma floresta
brasileira”, escreveu. O Brasil, 11porém, aparece de for-
ma menos 21idílica em seus escritos: “Espero nunca mais
voltar a um 12país escravagista. O estado da enorme po-
pulação escrava deve preocupar todos os que chegam ao
Brasil. Os senhores de escravos querem ver o negro romo
outra espécie, mas temos todos a mesma origem.”
Em vez do gorjeio do 6sabiá, o que Darwin guardou
nos ouvidos foi um som 3terrível que o acompanhou
por toda a vida: “13Até hoje, se eu ouço um grito, lem-
bro-me, com dolorosa e clara memória, de quando
passei numa casa em Pernambuco e ouvi urros 14ter-
ríveis. Logo entendi que era algum pobre escravo que
estava sendo torturado,”
Segundo o 4biólogo Adrian Desmond, “a viagem do Be-
agle, para Darwin, foi menos 41importante pelos 15es-
pécimes coletados do que pela 16experiência de teste-
munhar os horrores da escravidão no Brasil. De certa
forma, ele escolheu focar na descendência comum do
homem justamente para mostrar que todas as raças
eram iguais e, desse modo, enfim, objetar àqueles que
insistiam em dizer que os negros pertenciam a uma
espécie diferente e inferior à dos brancos”. Desmond
acaba de lançar um estudo que mostra a paixão aboli-
cionista do cientista, revelada por seus 7diários e cartas
pessoais. “A extensão de seu interesse no combate à
ciência de cunho racista 9é surpreendente, e pudemos
detectar um ímpeto moral por 10trás de seu trabalho
sobre a evolução humana – uma crença na ‘irmandade
racial’ que tinha origem em seu ódio ao escravismo e
que o levou a pensar numa descendência comum.”
(haag, c. o elo perDiDo tropical. pesquisa
fapesp, n. 159, p. 80 - 85, maio 2009.)
Assinale a alternativa em que as três palavras são
acentuadas graficamente pela mesma razão.
a) célebre (ref. 2) - terrível (ref. 3) - biólogo (ref. 4)
b) Delícia (ref. 5) - sabiá (ref. 6) - diários (ref. 7)
c) sós (ref. 8) - é (ref. 9) - trás (ref. 10)
d) porém (ref. 11) - país (ref. 12) - Até (ref. 13)
e) terríveis (ref. 14) - espécimes (ref. 15) - experiência
(ref. 16)
10. (EPCAR) QUARTO DE DESPEJO
“O grito da favela que tocou a consciência do mundo
inteiro”
2 de MAIO de 1958. Eu não sou indolente. Há tempos
que eu pretendia fazer o meu diario. Mas eu pensava
que não tinha valor e achei que era perder tempo.
...Eu fiz uma reforma para mim. Quero tratar as pessoas
que eu conheço com mais atenção. Quero enviar sorriso
amavel as crianças e aos operarios.
...Recebi intimação para comparecer as 8 horas da noite
na Delegacia do 12. Passei o dia catando papel. A noite
os meus pés doiam tanto que eu não podia andar.
Começou chover. Eu ia na Delegacia, ia levar o José Car-
los. A intimação era para ele. OJosé Carlos tem 9 anos.
3 de MAIO. ...Fui na feira da Rua Carlos de Campos, ca-
tar qualquer coisa. Ganhei bastante verdura. Mas ficou
sem efeito, porque eu não tenho gordura. Os meninos
estão nervosos por não ter o que comer.
6 de MAIO. De manhã não fui buscar agua. Mandei o
João carregar. Eu estava contente. Recebi outra intima-
ção. Eu estava inspirada e os versos eram bonitos e eu
esqueci de ir na Delegacia. Era 11 horas quando eu re-
cordei do convite do ilustre tenente da 12ª Delegacia.
...o que eu aviso aos pretendentes a política, é que o
povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para
saber descrevê-la.
Estão construindo um circo aqui na Rua Araguaia, Circo
Theatro Nilo.
9 de MAIO. Eu cato papel, mas não gosto. Então eu pen-
so: Faz de conta que estou sonhando.
10 de MAIO. Fui na Delegacia e falei com o Tenente. Que
homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amavel,
eu teria ido na Delegacia na primeira intimação.
(...) O Tenente interessou-se pela educação dos meus
filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propen-
so, que as pessoas tem mais possibilidades de delinquir
do que tornar-se util a patria e ao país. Pensei: se ele
sabe disso, porque não faz um relatorio e envia para
os politicos? O Senhor Janio Quadros, o Kubstchek, e o
Dr Adhemar de Barros? Agora falar para mim, que sou
uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas
dificuldades.(...) O Brasil precisa ser dirigido por uma
pessoa que já passou fome. A fome tambem é profes-
sora. Quem passa fome aprende a pensar no proximo e
nas crianças.
11 de MAIO. Dia das mães. O céu está azul e branco. Pa-
rece que até a natureza quer homenagear as mães que
atualmente se sentem infeliz por não realizar os desejos
de seus filhos. (...) O sol vai galgando. Hoje não vai cho-
ver. Hoje é o nosso dia. (...) A D. Teresinha veio visitar-me.
Ela deu-me 15 cruzeiros. Disse-me que era para a Vera
ir no circo. Mas eu vou deixar o dinheiro para comprar
pão amanhã, porque eu só tenho 4 cruzeiros.(...) Ontem
eu ganhei metade da cabeça de um porco no frigorifi-
co. Comemos a carne e guardei os ossos para ferver. E
com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre
com fome. Quando eles passam muita fome eles não são
exigentes no paladar. (...) Surgiu a noite. As estrelas
12
estão ocultas. O barraco está cheio de pernilongos. Eu
vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes.
É assim que os favelados matam mosquitos.
13 de MAIO. Hoje amanheceu chovendo. É um dia sim-
patico para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemo-
ramos a libertação dos escravos. Nas prisões os negros
eram os bodes expiatorios. Mas os brancos agora são
mais cultos. E não nos trata com desprezo.
Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam
feliz. (...) Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal.
A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos
para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva para
mim ir lá no Senhor Manuel vender os ferros. Com o di-
nheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva
passou um pouco. Vou sair. (...) Eu tenho dó dos meus fi-
lhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada: Viva
a mamãe!. A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi
o habito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais
comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gor-
dura a Dona Ida. Mandei-lhe um bilhete assim:
“Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouquinho
de gordura, para eu fazer sopa para os meninos. Hoje
choveu e não pude catar papel. Agradeço. Carolina”
(...) Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E no inverno
a gente come mais. A Vera começou a pedir comida. E
eu não tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com
dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha
para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a
Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da
noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a
escravatura atual – a fome!
(De Jesus, carolina maria. quarto De DespeJo.)
Pode-se afirmar que um recorrente problema encontra-
do no texto, no que se refere ao uso da língua padrão,
está relacionado à acentuação gráfica. Assinale a alter-
nativa em que esse fato NÃO ocorre.
a) “...as pessoas tem mais possibilidades de delinquir...”
b) “Pretendia comprar um pouco de farinha para fa-
zer um virado.”
c) “Nas prisões os negros eram os bodes expiatorios.”
d) “...os meus pés doiam tanto que eu não podia andar.”
E.O. COmplEmEntAr
1. (IFSUL) Crônica parafraseada de uma Síria em guerra
Ela abre os olhos. Não fosse o cheiro horrível de morte,
o silêncio seria até agradável, mas o olfato a lembra
que não há paz – nem pessoas, vizinhos, crianças. A tré-
gua na manhãzinha não traz esperança. Tão somente
lhe permite descansar o corpo, mas não a mente. As
lembranças da noite anterior ainda produzem sobres-
saltos. Bombas, casas caindo e soldados gritando.
Levanta-se, bebe o pouco da água que restou do copo
ao lado da cama. Já não é tão limpa, nem farta como
antes. Sempre um gosto amargo misturado com
Abre a geladeira, e só encontra comida enlatada e con-
gelada. E mesmo não tão congelada assim, já que os cor-
tes diários de eletricidade derretem as camadas de gelo.
Os sobrinhos ainda dormem, e ela tenta orar. Não con-
segue. A mente desconcentra-se facilmente. Em uma
prece fragmentada, pede a Deus descanso e trégua. E
faz a oração sem pensar muito. Não precisa; é a mesma
oração das últimas semanas.
Ela não quer sair de casa. Não é teimosia, é falta de op-
ção. “Para onde ir?”, pergunta, com uma voz desesperan-
çosa. Está tão confusa que não consegue imaginar saídas.
Nem a piedade de enterrar os mortos o governo per-
mite. Cadáveres estão espalhados pelas ruas. As for-
ças de Assad 3impediram de sepultar ou mesmo remo-
ver os restos mortais. Ou seja, mesmo viva, ela não
tem como fugir da morte escancarada diante de seus
olhos. Não é fácil acreditar na vida, quando a realida-
de grita o contrário.
Se não podem sepultar os mortos, os sobreviventes
tentam ao menos ajudar a curar as feridas dos machu-
cados. Não podem levá-los aos hospitais da cidade, já
que há um medo generalizado de que o governo pren-
da os feridos como se fossem prisioneiros de guerra.
Resta improvisar atendimento nos campos. Não bas-
tasse a precariedade do atendimento, não há medica-
mentos suficientes.
Rebeca, de 32 anos, é trabalhadora autônoma. Ou me-
lhor, 4era. Agora já não sabe mais o que é e o que faz em
sua cidade Damasco, capital da Síria.
Crônica parafraseada do depoimento de uma mora-
dora da capital da Síria (identificada apenas pela le-
tra “R”) ao jornal Folha de São Paulo, de quarta-feira,
dia 25. A Síria está em revolta há 16 meses contra
a ditadura de Bashar al-Assad. Nos últimos dias, o
confronto contra os rebeldes se acirrou e as mortes
aumentaram.
(Disponível em: <http://ultimato.com.Br/sites/
fatosecorrelatos/2012/07/26/cronica-parafraseaDa-De-
uma-siria-em-guerra/>. acesso em: 14 set. 2015.)
Sobre a acentuação gráfica, são feitas as seguintes
afirmações:
I. As palavras horrível, agradável e fácil seguem a regra
de acentuação gráfica das oxítonas.
II. Os vocábulos só, há e já recebem acento gráfico em
decorrência de regras distintas.
III. A presença ou a ausência do acento gráfico na pa-
lavra e é determinante para a classificação gramatical
desse vocábulo.
IV. As palavras levá-las, diários, contrário seguem a re-
gra de acentuação gráfica das paroxítonas.
Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s)
a) I, III e IV apenas.
b) II e IV apenas.
c) I, II, III e IV.
d) III apenas.
13
2. (ESPCEX) Assinale a alternativa cujo vocábulo só pode
ser empregado com acento gráfico.
a) Diálogo
b) Até
c) Análogo
d) É
e) Música
3. (IFAL) À beira da extinção, ave saíra-apunhalada tem
rara chance de se recuperar na natureza
A saíra-apunhalada (o nome faz referência à mancha
vermelha no peito do pássaro, que se assemelha a
uma “punhalada”) é uma ave simpática de dez cen-tímetros, com plumagem branca e cinza. A alcunha,
que na origem só fazia referência ao visual da espécie,
agora serve bem como indicação simbólica do perigo
pelo qual passa a saíra: estimativas indicam que só
existem 50 delas na natureza. Para protegê-la, ONGs
e órgãos ambientalistas do governo lutam para que
seja criada uma reserva florestal de 5 mil hectares na
região serrana capixaba.
A saíra-apunhalada vive em bandos e se alimenta de
pequenos insetos e frutos. Ela vive no alto de florestas
da Mata Atlântica, e está aí a sua maior fraqueza, já que
dessa vegetação foi destruída pelo homem. A ave, que
também era encontrada em Minas Gerais, hoje só pode
ser vista no Espírito Santo.
“A extinção está associada à destruição secular da Mata
Atlântica, porque a espécie só sobrevive em florestas mui-
to bem conservadas”, diz o biólogo Edson Ribeiro Luiz,
coordenador de projetos da SAVE Brasil, ONG ligada
à Bird Life International, que tem como foco a prote-
ção das aves brasileiras. “Em território capixaba, onde
existe apenas um bloco de vegetação preservado, elas
tendem a ficar ilhadas.”
A luta para proteger a ave ganhou força no mês pas-
sado, quando aconteceu no Estado o Avistar, principal
evento de observação de pássaros do país. Tendo na
saíra-apunhalada o seu símbolo, a festa foi o incentivo
que faltava para que o Instituto Estadual de Meio Am-
biente (IEMA) estabelecesse o prazo de março de 2016
para a constituição da reserva. A decisão final, porém,
continua nas mãos do governo.
(Disponível em: <http://veJa.aBril.com.Br/noticia/ciencia/
amBientalistaspressionam- governo-capixaBa-a-proteger-
ave-sairaapunhalaDa>. acesso em: 13/11/2015.)
Quanto à acentuação das palavras, assinale a afirmação
verdadeira.
a) Os vocábulos “é”, “já” e “só” recebem acento por
constituírem monossílabos tônicos fechados.
b) As palavras “saíra”, “destruída” e “aí” acentuam-
-se pela mesma razão.
c) Acentuam-se “simpática”, “centímetros”, “simbó-
lica” porque todas as paroxítonas são acentuadas.
d) A palavra “tendem” deveria ser acentuada grafica-
mente, como “também” e “porém”.
e) O nome “Luiz” deveria ser acentuado graficamen-
te, pela mesma razão que a palavra “país”.
4. (IFSUL)
Texto 1
O PREÇO DE SER DE VERDADE
fernanDa pinho
Acabei de ler um livro que me marcou bastante. Cha-
ma-se “A Extraordinária Garota Chamada Estrela”, do
autor Jerry Spinelli. Estrela tem um rato de estimação,
fica feliz quando seu time faz cesta no basquete (mas
quando o outro time pontua, também), distribui cartões
de aniversários para desconhecidos, usa as roupas de
que gosta (e isso pode ser um vestido que esteve na
moda duzentos anos atrás), tenta trazer um pouco de
alegria tirando canções de seu ukulele que leva sempre
a tiracolo. Num primeiro momento, junto com o impac-
to de sua chegada à escola nova, Estrela desperta sim-
patias. Afinal, este livro nada mais é que uma delicada e
verdadeira metáfora da vida.
E a princípio somos assim. Grandes admiradores da au-
tenticidade. Capazes de fazer discursos inflamados de-
fendendo a liberdade de cada um fazer o que quiser, res-
peitar as próprias convicções, seguir o que seu coração
manda, persistir nos seus sonhos, manter relações com
quem se sente à vontade, construir seu próprio caminho.
Lindo, maravilhoso. Se ficar só no discurso, melhor ainda.
Porque, em algum momento, Estrela vai levantar sus-
peitas. “Ninguém pode ser tão legal assim”. E da sus-
peita para a rejeição se passa num piscar de olhos. Por
que ninguém pode ser “tão legal assim”? Porque ser
legal demais implica ser diferente e a gente pode até
admirar pessoas que fazem tudo o que “dá na telha”,
desde que mantenham uma distância de segurança de
nós, por favor. E, veja bem, quando eu falo de gente que
faz tudo o que “dá na telha”, eu não estou me referin-
do a nada que possa machucar ou prejudicar o outro
de alguma forma. Estou falando de atitudes inocentes,
mas que, por sair da previsibilidade, são tratadas quase
como se fossem atos imperdoáveis.
Gente que dança como se ninguém estivesse olhando,
que ignora a uniformização das vitrines e faz a própria
moda, que se recusa a fazer social em ambientes inóspi-
tos, que fala a verdade quando questionada, que dá abra-
ços de dez minutos, que ri na hora que tem vontade de rir,
que chora na hora que tem vontade de chorar, que fala
“eu te amo” quando sente que ama, que escolheu não
perder tempo com quem lhe faz mal, que muda o rumo
da própria vida, que ignora as etiquetas e as convenções.
Sabe essa gente louca, sem noção, desvairada, sem juízo,
perturbada? Então, elas não são nada disso. São apenas
pessoas autênticas e verdadeiras, que se respeitam muito
(e só quem se respeita muito é capaz de respeitar o ou-
tro). Elas não estão fazendo nada de mau. Nada que irá
prejudicar você ou quem quer que seja. E por que te inco-
modam tanto? Bom, apenas optaram optaram por fazer
o que tinham vontade, e não o que você, preso em seu
mundo limitado e previsível, esperava.
(Disponível em: <http://www.cronicaDoDia.com.Br/2014/10/o-preco-
De-ser-De-verDaDe-fernanDa-pinho.html>. acesso em: 7 aBr. 2015.)
14
Texto 2
COMO NASRUDIN CRIOU A VERDADE
nasruDin (KhawaJah nasr al-Din)
– As leis não fazem com que as pessoas fiquem melho-
res – disse Nasrudin ao rei.
– Elas precisam, antes, praticar certas coisas de manei-
ra a entrar em sintonia com a verdade interior, que se
assemelha apenas levemente à verdade aparente. O
rei, no entanto, decidiu que ele poderia, sim, fazer com
que as pessoas observassem a verdade, que poderia
fazê-las observar a autenticidade – e assim o faria. O
acesso a sua cidade dava-se através de uma ponte. So-
bre ela, o rei ordenou que fosse construída uma forca.
Quando os portões foram abertos, na alvorada do dia
seguinte, o chefe da guarda estava a postos em frente
de um pelotão para testar todos os que por ali passas-
sem. Um edital fora imediatamente publicado: “Todos
serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu
ingresso na cidade permitido. Caso mentir, será enforca-
do". Nasrudin, na ponte entre alguns populares, deu um
passo à frente e começou a cruzar a ponte.
– Aonde o senhor pensa que vai? – perguntou o chefe
da guarda.
– Estou a caminho da forca – respondeu Nasrudin, cal-
mamente. – Não acredito no que está dizendo!
– Muito bem, se eu estiver mentindo, pode me enforcar.
– Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que
aquilo que disse seja verdade!
– Isso mesmo – respondeu Nasrudin, sentindo-se vito-
rioso. – Agora vocês já sabem o que é a verdade: é ape-
nas a sua verdade.
(Disponível em: <http://metaforas.com.Br/como-nasruDin-
criou-a-verDaDe>. acesso em: 14 aBr.2015.)
Nos textos 1 e 2, aparecem várias palavras acentuadas
graficamente.
Em que alternativa as palavras seguem a regra de acen-
tuação das oxítonas?
a) terá, juízo, ninguém.
b) fazê-las, através, será.
c) vocês, construída, previsível.
d) imperdoáveis, metáfora, você.
5. (IFAL) COMO PREVENIR A VIOLÊNCIA DOS ADOLECENTES
“(...) Quando deparo com as notícias sobre crimes he-
diondos envolvendo adolescentes, como o ocorrido com
Felipe Silva Caffé e Liana Friedenbach, fico profunda-
mente triste e constrangida. Esse caso é consequência
da baixa valorização da prevenção primária da violência
por meio das estratégias cientificamente comprovadas,
facilmente replicáveis e definitivamente muito mais ba-
ratas do que a recuperação de crianças e adolescentes
que comentem atos infracionais graves contra a vida.
Talvez seja porque a maioria da população não se deu
conta e os que estão no poder nos três níveis não este-
jam conscientes de seu papel histórico e de sua respon-
sabilidade legal de cuidar do que tem de mais impor-
tante à nação: as crianças e os adolescentes, que são o
futuro do país e do mundo.
A construção da paz e a prevenção da violência depen-
dem de como promovemos o desenvolvimento físico,
social, mental, espiritual e cognitivo das nossas criançase adolescentes, dentro do seu contexto familiar e co-
munitário. Trata-se, portanto, de uma ação intersetorial,
realizada de maneira sincronizada em cada comunida-
de, com a participação das famílias, mesmo que estejam
incompletas ou desestruturadas (...)”
“(...) Em relação às crianças e adolescentes que come-
teram infrações leves ou moderadas – que deveriam ser
mais bem expressas – seu tratamento para a cidadania
deveria ser feito com instrumentos bem elaborados e
colocados em prática, na família ou próxima dela, com
acompanhamento multiprofissional, desobstruindo as
penitenciárias, verdadeiras universidades do crime. (...)”
“(...) A prevenção primária da violência inicia-se com a
construção de um tecido social saudável e promissor,
que começa antes do nascer, com um bom pré-natal,
parto de qualidade, aleitamento materno exclusivo até
seis meses e o complemento até mais de um ano, vaci-
nação, vigilância nutricional, educação infantil, princi-
palmente propiciando o desenvolvimento e o respeito
à fala da criança, o canto, a oração, o brincar, o andar, o
jogar; uma educação para a paz e a nãoviolência.
A pastoral da criança, que em 2003 completa 20 anos,
forma redes de ação para multiplicar o saber e a soli-
dariedade junto às famílias pobres do país, por meio de
mais de 230 mil voluntários, e acompanhou no terceiro
trimestre deste ano cerca de 1,7 milhão de crianças me-
nores de seis anos e 80 mil gestantes, de mais de 1,2
milhão de famílias, que moram em 34.784 comunidades
de 3.696 municípios do país.
O Brasil é o país que mais reduziu a mortalidade infantil
nos últimos dez anos; isso, sem dúvida, é resultado da or-
ganização e universalização dos serviços de saúde pública,
da melhoria da atenção primária, com todas as limitações
que o SUS possa ainda possuir, da descentralização e mu-
nicipalização dos recursos e dos serviços de saúde. A in-
tensa luta contra a mortalidade infantil, a desnutrição e
a violência intrafamiliar contou com a contribuição dessa
enorme rede de solidariedade da Pastoral da Criança. (...)”
“(...) A segunda área da maior importância nessa pre-
venção primária da violência envolvendo crianças e
adolescentes é a educação, a começar pelas creches,
escolas infantis e de educação fundamental e de nível
médio, que devem valorizar o desenvolvimento do ra-
ciocínio e a matemática, a música, a arte, o esporte e a
prática da solidariedade humana.
As escolas nas comunidades mais pobres deveriam ter
dois turnos, para darem conta da educação integral
das crianças e dos adolescentes; deveriam dispor de
equipes multiprofissionais atualizadas e capacitadas a
avaliar periodicamente os alunos. Urgente é incorporar
os ministérios do Esporte e da Cultura às iniciativas da
educação, com atividades em larga escala e simples,
baratas, facilmente replicáveis e adaptáveis em todo o
território nacional. (...)”
15
“(...) Com relação à idade mínima para a maioridade pe-
nal, deve permanecer em 18 anos, prevista pelo Estatu-
to da Criança e do Adolescente e conforme orientações
da ONU. Mas o tempo máximo de três anos de reclusão
em regime fechado, quando a criança ou o adolescente
comete crime hediondo, mesmo em locais apropriados
e com tratamento multiprofissional, que urgentemen-
te precisam ser disponibilizados, deve ser revisto. Três
anos, em muitos casos, podem ser absolutamente in-
suficientes para tratar e preparar os adolescentes com
graves distúrbios para a convivência cidadã. (...)”
(zilDa arns neumann, 69, méDica peDiatra e sanitarista; foi
funDaDora e coorDenaDora nacional Da pastoral Da criança.
puBlicaDo em: folha De s. paulo, 26/11/2003.).
Foram retiradas do texto as seguintes palavras acen-
tuadas: ministérios, replicáveis, adaptáveis, máximo,
distúrbios, convivências.
Assinale a alternativa que melhor justifica a acentu-
ação gráfica.
a) De todas as palavras destacadas, somente “máximo”
não se insere na mesma regra de acentuação gráfica.
b) Todas as palavras mencionadas seguem o mesmo
padrão ou regra de acentuação gráfica.
c) Com exceção de “máximo” e “convivência”, que
são proparoxítonas, as demais palavras são acentua-
das pelo mesmo motivo.
d) Três regras de acentuação contemplam as palavras su-
pracitadas: a das proparoxítonas, a das paroxítonas termi-
nadas em ditongos e as que terminam em hiato, que, no
caso em análise, trata-se da palavra “convivência”.
e) Todas são proparoxítonas.
E.O. dissErtAtivO
1. (FGV) O artista Juan Diego Miguel apresenta a exposi-
ção Arte e Sensibilidade, no Museu Brasileiro da Escultura
(MUBE) de suas obras que acabam de chegar no país.
Seu sentido de inovação tanto em temas como em ma-
teriais que elege é sempre de uma sensação extraordi-
nária para o espectador.
Juan Diego sensibiliza-se com os materiais que nos ro-
deam e lhes da vida com uma naturalidade impressio-
nante, encontrando liberdade para buscar elementos
no fauvismo de Henri Matisse, no cubismo de Pablo Pi-
casso e do contemporâneo de Juan Gris. Uma arte que
está reservada para poucos.
(exposiçÃo: De 03 De agosto à 02 De setemBro Das 10 às 19h.)
Explique a importância da regra do acento diferencial,
baseando-se na frase – Juan Diego sensibiliza-se com
os materiais [...] e lhes da vida com uma naturalidade
impressionante.
2. (Fgv) Leia o texto.
"Cuidado com as palavras
Uma moça se preparou toda para ir ao ensaio de uma
escola de samba.
Chegando lá, um rapaz suado pede para dançar e, para
não arrumar confusão, ela aceita.
Mas o rapaz suava tanto que ela já não estava supor-
tando mais. Assim, ela foi se afastando e disse:
– Você sua, hein!!!
Ele puxou-a, lascou um beijo e respondeu:
– Também vô sê seu, princesa!!!"
(www.munDoDaspiaDas.com/arquivo/2006-2-1.html. aDaptaDo)
a) Tendo como base a frase da moça, explique o que
ela quis dizer e o que o rapaz entendeu.
b) Explique, do ponto de vista fonológico, o que gerou
a interpretação do rapaz.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
E dizem que rola um texto na internet com minha assi-
natura baixando o pau no “Big Brother Brasil”.
Não fui eu que escrevi.
Não poderia escrever nada sobre o “Big Brother Brasil”,
a favor ou contra, porque sou um dos três ou quatro
brasileiros que nunca o acompanharam.
O pouco que vi do programa, de passagem, zapeando
entre canais, só me deixou perplexo: o que, afinal, atraía
tanto as pessoas – além do voyeurismo* natural da es-
pécie – numa jaula de gente em exibição?
Também me dizem que, além de textos meus que nunca
escrevi, agora frequento a internet com um Twitter.
Aviso: não tenho tuiter, não recebo tuiter, não sei o que
é tuiter.
E desautorizo qualquer frase de tuiter atribuída a mim a
não ser que ela seja absolutamente genial. Brincadeira,
mas já fui obrigado a aceitar a autoria de mais de um
texto apócrifo (e agradecer o elogio) para não causar
desgosto, ou até revolta. Como a daquela senhora que
reagiu com indignação quando eu inventei de dizer que
um texto que ela lera não era meu:
— É sim.
— Não, eu acho que...
— É sim senhor!
Concordei que era, para não apanhar. O curioso, e o as-
sustador, é que, em textos de outros com sua assinatura
e em tuiters falsos, você passa a ter uma vida paralela
dentro das fronteiras infinitas da internet.
É outro você, um fantasma eletrônico com opiniões pró-
prias, muitas vezes antagônicas, sobre o qual você não
tem nenhum controle,
— Olha, adorei o que você escreveu sobre o “Big Bro-
ther”. É isso aí!
— Não fui eu que...
— Foi sim!
(luiz fernanDo veríssimo, http://ogloBo.gloBo.
com, 30.01.2011. aDaptaDo.)
* voyeurismo: forma de curiosidade mórbida com rela-
ção ao que é privativo, privado ou íntimo.
16
3. (UFTM)
a) O que o contraste das grafias Twitter e tuiter, em
destaque no texto, revela sobre o ponto de vista do
autor acerca desse meio de comunicação virtual?
b) É correto afirmar que o autor reage com bom humor
e resignação diante do fato de lhe atribuírem a autoria
de textos que não escreveu? Justifique, transcrevendo
e comentandoum ou mais trechos do texto.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
COMPOSIÇÕES INFANTIS
O comportamento
O comportamento é uma coisa que a mamãe diz que
não suporta o meu mas eu é que não entendo o dela.
Uma hora ela me dá uma porção de beijinhos, outra
hora ela me põe de castigo o dia todo. Uma vez ela diz
que eu sou tudo lá na vida dela, outra vez ela grita:
"Que menino mais impossível, você vai ver só quando
seu pai chegar!" Tem umas ocasiões que ela chora mui-
to porque não sabe mais o que fazer comigo e outras eu
ouvo ela dizendo pras visitas que "o meu, felizmente, é
muito bonzinho e muito carinhoso." Eu já desconfio que
a mamãe é a médica e a monstra.
http://www.memoriaviva.com.Br/ocruzeiro/ o
cruzeiro, 3 maio 1959. acesso: aBril 2007.
4. (UFMG) REESCREVA esse texto, fazendo as adapta-
ções necessárias para ajustá-lo à norma padrão da lín-
gua escrita.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
O artista Juan Diego Miguel apresenta a exposição
Arte e Sensibilidade, no Museu Brasileiro da Escultura
(MUBE) de suas obras que acabam de chegar no país.
Seu sentido de inovação tanto em temas como em ma-
teriais que elege é sempre de uma sensação extraordi-
nária para o espectador.
Juan Diego sensibiliza-se com os materiais que nos ro-
deam e lhes da vida com uma naturalidade impressio-
nante, encontrando liberdade para buscar elementos
no fauvismo de Henri Matisse, no cubismo de Pablo Pi-
casso e do contemporâneo de Juan Gris. Uma arte que
está reservada para poucos.
exposiçÃo: De 03 De agosto à 02 De setemBro Das 10 às 19h.
5. (FGV) Nossa língua registra as palavras "espectador"
e "expectador". Explique a diferença de sentido dessas
palavras.
E.O. dissErtAtivAs
(UnEsp, FUvEst, UniCAmp E UniFEsp)
1. (Unifesp) O Museu da Língua Portuguesa foi inau-
gurado em São Paulo, em março de 2006. Na ocasião,
houve um erro num painel, conforme a imagem:
Sobre isso, Pasquale Cipro Neto escreveu:
"Na última segunda-feira, foi inaugurado o Museu da
Língua Portuguesa. Na terça, a imprensa deu destaque
a um erro de acentuação presente num dos painéis do
museu (grafou-se 'raiz' com acento agudo no 'i'). Va-
mos ao que conta (e que foi objeto das mensagens de
muitos leitores): por que se acentua 'raízes', mas não se
acentua 'raiz'?"
(www2.uol.com.Br/linguaportuguesa/artigos.)
a) Considerando o contexto social, cultural e ideológi-
co, por que o erro do painel teve grande repercussão?
b) Responda à pergunta que foi enviada ao professor
Pasquale por seus leitores.
2. (Unesp) A questão toma por base uma passagem do
romance Canaã, de Graça Aranha (1868-1931), e uma
tira de Henfil (1944-1988).
CANAÃ
– Hoje – disse Milkau quando chegaram a um trecho
desembaraçado da praia –, devemos escolher o local
para a nossa casa.
– Oh! não haverá dificuldade, neste deserto, de talhar o
nosso pequeno lote... – desdenhou Lentz.
– Quanto a mim, replicou Milkau, uma ligeira inquieta-
ção de vago terror se mistura ao prazer extraordinário
de recomeçar a vida pela fundação do domicílio, e pelas
minhas próprias mãos... O que é lamentável nesta soleni-
dade primitiva é a intervenção inútil do Estado...
– O Estado, que no nosso caso é o agrimensor Felicíssimo...
– Não seria muito mais perfeito que a terra e as suas coisas
fossem propriedade de todos, sem venda, sem posse?
– O que eu vejo é o contrário disto. É antes a venalida-
de de tudo, a ambição, que chama a ambição e espraia
o instinto da posse. O que está hoje fora do domínio
amanhã será a presa do homem. Não acreditas que
o próprio ar que escapa à nossa posse será vendido,
mais tarde, nas cidades suspensas, como é hoje a ter-
ra? Não será uma nova forma da expansão da conquis-
ta e da propriedade?
– Ou melhor, não vês a propriedade tornar-se cada dia
mais coletiva, numa grande ânsia de aquisição popular,
que se vai alastrando e que um dia, depois de se apos-
sar dos jardins, dos palácios, dos museus, das estradas,
se estenderá a tudo?... O sentimento da posse morrerá
com a desnecessidade, com a supressão da ideia da de-
fesa pessoal, que nele tinha o seu repouso...
17
– Pois eu – ponderou Lentz –, se me fixar na ideia de
converter-me em colono, desejarei ir alargando o meu
terreno, chamar a mim outros trabalhadores e fundar
um novo núcleo, que signifique fortuna e domínio... Por-
que só pela riqueza ou pela força nos emanciparemos
da servidão.
– O meu quinhão de terra – explicou Milkau – será o
mesmo que hoje receber; não o ampliarei, não me
abandonarei à ambição, ficarei sempre alegremente
reduzido à situação de um homem humilde entre gen-
te simples. Desde que chegamos, sinto um perfeito en-
cantamento: não é só a natureza que me seduz aqui,
que me festeja, é também a suave contemplação do
homem. Todos mostram a sua doçura íntima estampada
na calma das linhas do rosto; há como um longínquo
afastamento da cólera e do ódio. Há em todos uma re-
signação amorosa... Os naturais da terra são expansivos
e alvissareiros da felicidade de que nos parecem os por-
tadores... Os que vieram de longe esqueceram as suas
amarguras, estão tranquilos e amáveis; não há grandes
separações, o próprio chefe troca no lar o seu prestígio
pela espontaneidade niveladora, que é o feliz gênio da
sua raça. Vendo-os, eu adivinho o que é todo este País –
um recanto de bondade, de olvido e de paz. Há de haver
uma grande união entre todos, não haverá conflitos de
orgulho e ambição, a justiça será perfeita; não se imo-
larão vítimas aos rancores abandonados na estrada do
exílio. Todos se purificarão e nós também nos devemos
esquecer de nós mesmos e dos nossos preconceitos,
para só pensarmos nos outros e não perturbarmos a
serenidade desta vida...
(graça aranha. canaÃ, 1996.)
Tomando como referência o sistema ortográfico, expli-
que por que o cartunista Henfil, ao aportuguesar, com
intenção irônica, a expressão inglesa my brother, colo-
cou o acento agudo em Bróder.
3. (Unesp)
O QUE EU LHE DIZIA
Não sei se é certo ou não o que eu li outro dia,
Onde, já não me lembra, ó minha noiva amada:
– “A posse faz perder metade da valia
À cousa desejada.”
Não sei se após haver saciado no meu peito,
Quando houver de possuir-te, esta ardente paixão,
Eu sentirei em mim, de gozo satisfeito,
Menor o coração.
Sei que te amo, e a teus pés a minh’alma abatida
Beija humilde e feliz o grilhão que a tortura;
Sei que te amo, e este amor é toda a minha vida,
Toda a minha ventura.
Talvez haja entre mim que os passos te acompanho,
E a abelha que a zumbir vai procurar a flor,
– Alma ou asas movendo – o mesmo fluido estranho,
seja instinto ou amor;
Talvez o que eu presumo irradiação divina,
Minha nobre paixão, meu fervoroso afeto,
Por sua vez o sinta o verme da campina,
O inseto ao pé do inseto...
(alBerto De oliveira. poesias - segunDa série.
rio De Janeiro: h. garnier, 1906, p. 20-21.)
No terceiro verso da quarta estrofe, o eu-poemático escreve
“o mesmo fluido estranho”. Considerando que o vocábulo
“fluido” foi adequadamente empregado, explique por que
o poeta não poderia ter usado a forma acentuada “fluído”.
4. (Unesp) O acolhimento que dispensou aos seus pro-
jetos o excelentíssimo senhor ministro do Fomento Na-
cional, animou o russo a improvisar novos processos que
levantassem a pecuária no Brasil. Xandu, com o cotovelo
direito sobre a mesa e a mão respectiva na testa, conside-
rava Bogóloff com espanto e enternecido agradecimento.
– Ah! Doutor! disse ele. O senhor vai dar uma glória
imortal ao meu ministério.
– Tudo isso, Excelência, é fruto de longos e acurados
estudos.
Xandu continuava a olhar embevecido o russo admirá-
vel; e este aduziu com toda convicção:
– Por meio da fecundação artificial, Excelência, injec-
tando germens de uma em outra espécie, consigo ca-
britos que são ao mesmo tempo carneiros e porcos que
são cabritos ou carneiros, à vontade.
Xandu mudou de posição, recostou-se na cadeira; e,
brincando com o monóculo, disse:
– Singular! O doutor vai fazer uma revolução nos méto-
dos de criar! Não haverá objecções quanto à possibili-dade, à viabilidade?
– Nenhuma, Excelência. Lido com as últimas descober-
tas da ciência e a ciência é infalível.
18
– Vai ser uma revolução!...
– É a mesma revolução que a química fez na agricultu-
ra. Penso assim há muitos anos, mas não me tem sido
possível experimentar os meus processos por falta de
meios; entretanto, em pequena escala já fiz.
– O quê?
– Uma barata chegar ao tamanho de um rato.
– Oh! Mas... não tem utilidade.
– Não há dúvida. Uma experiência ao meu alcance, mas,
logo que tenha meios...
– Não seja essa a dúvida. Enquanto eu for ministro, não
lhe faltarão. O governo tem muito prazer em ajudar to-
das as tentativas nobres e fecundas para o levantamen-
to das indústrias agrícolas.
– Agradeço muito e creia-me que ensaiarei outros pla-
nos. Tenho outras ideias!
– Outras? fez em resposta o Xandu.
– É verdade. Estudei um método de criar peixes em seco.
– Milagroso! Mas ficam peixes?
– Ficam... A ciência não faz milagres. A cousa é simples.
Toda a vida veio do mar, e, devido ao resfriamento dos
mares e à sua concentração salina, nas épocas geológi-
cas, alguns dos seus habitantes foram obrigados a sair
para a terra e nela criarem internamente, para a vida de
suas células, meios térmicos e salinos iguais àqueles em
que elas viviam nos mares, de modo a continuar per-
feitamente a vida que tinham. Procedo artificialmente
da forma que a cega natureza procedeu, eliminando,
porém, o mais possível, o factor tempo, isto é: provoco
o organismo do peixe a criar para a sua célula um meio
salino e térmico igual àquele que ele tinha no mar.
– É engenhoso!
– Perfeitamente científico.
Xandu esteve a pensar, a considerar um tempo perdido,
olhou o russo insistentemente por detrás do monóculo
e disse:
– Não sabe o doutor como me causa admiração o arrojo
de suas ideias. São originais e engenhosas e o que tisna
um pouco essa minha admiração, é que elas não partam
de um nacional. Não sei, meu caro doutor, como é que nós
não temos desses arrojos! Vivemos terra à terra, sempre
presos à rotina! Pode ir descansado que a República vai
aproveitar as suas ideias que hão de enriquecer a pátria.
Ergueu-se e trouxe Bogóloff até à porta do gabinete,
com o seu passo de reumático.
Dentro de dias Grégory Petróvitch Bogóloff era nomea-
do diretor da Pecuária Nacional.
(afonso henriques De lima Barreto. numa e a ninfa.)
O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS
Sim, o mundo seria um lugar mais interessante se hou-
vesse UFOS escondidos nas águas profundas, perto das
Bermudas, devorando os navios e os aviões, ou se os
mortos pudessem controlar as nossas mãos e nos escre-
ver mensagens. Seria fascinante se os adolescentes fos-
sem capazes de tirar o telefone do gancho apenas com o
pensamento, ou se nossos sonhos vaticinassem acurada-
mente o futuro com uma frequência que não pudesse ser
atribuída ao acaso e ao nosso conhecimento do mundo.
Esses são exemplos de pseudociência. Eles parecem usar os
métodos e as descobertas da ciência, embora na realidade
sejam infiéis à sua natureza – frequentemente porque se
baseiam em evidência insuficiente ou porque ignoram pis-
tas que apontam para outro caminho. Fervilham de creduli-
dade. Com a cooperação desinformada (e frequentemente
com a conivência cínica) dos jornais, revistas, editoras, rá-
dio, televisão, produtoras de filmes e outros órgãos afins,
essas ideias se tornam acessíveis em toda parte.
(...)
Não é preciso um diploma de nível superior para co-
nhecer a fundo os princípios do ceticismo, como bem
demonstram muitos compradores de carros usados que
fazem bons negócios. A ideia da aplicação democrática
do ceticismo é que todos deveriam ter as ferramentas
essenciais para avaliar efetiva e construtivamente as
alegações de quem se diz possuidor do conhecimento. O
que a ciência exige é tão somente que façamos uso dos
mesmos níveis de ceticismo que empregamos ao com-
prar um carro usado ou ao julgar a qualidade dos anal-
gésicos ou da cerveja pelos seus comerciais na televisão.
Mas as ferramentas do ceticismo em geral não estão à
disposição dos cidadãos de nossa sociedade. Mal são
mencionadas nas escolas, mesmo quando se trata da
ciência, que é seu usuário mais ardoroso, embora o ce-
ticismo continue a brotar espontaneamente dos desa-
pontamentos da vida diária. A nossa política, economia,
propaganda e religiões (Antiga e Nova Era) estão inun-
dadas de credulidade. Aqueles que têm alguma coisa
para vender, aqueles que desejam influenciar a opinião
pública, aqueles que estão no poder, diria um cético,
têm um interesse pessoal em desencorajar o ceticismo.
(carl sagan. o munDo assomBraDo pelos Demônios.
traDuçÃo De rosaura eichemBerg.)
PREOCUPAÇÃO COM CIGARRO.
QUE FAZER?
Quando você acende um cigarro, acende também uma
preocupação?
Bem, se você anda preocupado mas gosta muito de fu-
mar, quem sabe você muda para um cigarro de baixos
teores de nicotina e alcatrão?
Quer uma ideia? Century.
Century é diferente dos outros cigarros de baixos teo-
res, por motivos fundamentais.
Century jogou lá embaixo a nicotina e o alcatrão, mas
não acabou com seu prazer de fumar.
Isto só foi possível, evidentemente, graças a uma cui-
dadosa seleção de fumos do mais alto grau de pureza
e suavidade.
E à competência do filtro especial High Air Dilution,
consagrado internacionalmente.
Não é o cigarro sob medida para você também?
Pense nisto.
(texto De puBliciDaDe De cigarros De início Da DécaDa De 1980.)
19
No quinto parágrafo do texto de Lima Barreto ocorre
a palavra “germens”, paroxítona terminada em “-ns”,
que aparece grafada corretamente sem nenhum acento
gráfico. Tomando por base esta informação,
a) explique a razão pela qual se escreve no plural
“germens” sem acento gráfico, enquanto a forma do
singular “gérmen” recebe tal acento.
b) apresente outro vocábulo de seu conhecimento em
que se observa essa mesma diferença de acentuação
gráfica entre a forma do singular e a forma do plural.
gAbAritO
E.O. Aprendizagem
1. B 2. A 3. D 4. D 5. C
6. A 7. A 8. B 9. C 10. A
E.O. Fixação
1. E 2. C 3. E 4. C 5. B
6. A 7. B 8. B 9. C 10. B
E.O. Complementar
1. D 2. C 3. B 4. B 5. A
E.O. Dissertativo
1. A falta de acento na forma tônica dá (verbo dar) leva o leitor
a ler a preposição "de" contraída com o artigo "a", o que gera
obscuridade e incoerência no texto e obriga o leitor a reler o
trecho, buscando descobrir-lhe o sentido.
2.
a) A moça quis dizer que o rapaz transpirava muito. O rapaz
entendeu que ela estava manifestando o desejo de ser dele.
b) O rapaz entendeu a frase da moça - "Você sua" –
como se fosse "Vou ser sua". A confusão fonológica
deveu-se ao fato de o rapaz ter tomado a frase da
moça pela pronúncia popular.
3.
a) O destaque do termo “tuiter” enfatiza a falta de
prática do autor na rede social a que está associada a
palavra inglesa “twitter” provocada pelo desinteresse
que o autor nutre por esse tipo de comunicação.
b) Sim, Luís Fernando Veríssimo reage com bom humor e
resignação à autoria incorreta que lhe é atribuída. O fato de
afirmar que concordou só para não ser submetido a violên-
cia física executada por uma senhora confere humor ao tex-
to e demonstra a submissão do autor perante a situação.
4. COMPOSIÇÕES INFANTIS
Comportamento
Minha mãe diz que não suporta o meu comportamento, mas eu
é que não entendo o dela. Uma hora, ela me dá uma porção de
beijinhos; outra hora, põe-me de castigo. Em algumas ocasiões, ela
fala que eu sou tudo na vida dela, no entanto, em outras, ela grita
comigo, fala que sou um menino impossível e que, quando o meu
pai chegar, verei que me acontecerá. Há umas ocasiões nas quais
ela chora muito por não saber o que fazer comigo; em outras, eu a
ouço dizer às visitas que sou muito bonzinho e carinhoso. Por isso,
desconfio que a minha mãe seja a médica e a monstra.
5. ESPECTADOR é substantivo; denomina aquele que presencia
um fato, que observa algo ou assiste a um espetáculo.
EXPECTADOR é adjetivo ou substantivo; refere-se àquele que semantém na expectativa, à espera de algo.
E.O. Dissertativas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1.
a) Por se tratar do museu da língua portuguesa.
b) A palavra "raiz" não deve ser acentuada por ser
uma oxítona terminada em "Z." – ra-iz.
No caso de raízes, há o acento por haver um "i" tôni-
co, formando hiato, sozinho na sílaba - ra-í-zes.
2. A colocação de acento agudo na palavra “bróder” obedece à
regra de acentuação das palavras paroxítonas terminadas em “r”.
3. A forma acentuada da palavra fluído caracteriza o particípio
do verbo fluir, e sua utilização não é adequada ao contexto do
poema. Além disso, o texto é formado por quartetos rigorosa-
mente metrificados, com estrofes de três versos alexandrinos (ou
dodecassílabos) e um hexassílabo. Para manter a regularidade
métrica, o poeta utilizou o substantivo “fluido” (com um ditongo,
o que o caracteriza como uma palavra de duas sílabas). Dessa
maneira, o verso apresenta a seguinte escansão:
Al/ma ou/a/sas/mo/ven/do o/mes/mo/flui/do es/tra/nho
4.
a) Acentuam-se as palavras paroxítonas termindadas
em “-n” ; por isso, acentua-se gérmen. As palavras
terminadas em “-ns”, porém, acentuam-se quando
são oxítonas (parabéns, por exemplo). Observe-se
que as palavras terminadas em “-ens” são quase
sempre formas de plural das palavras que, no singu-
lar, terminam em “-em”. A regra de acentuação das
oxítonas manda que elas sejam acentuadas quando
terminadas em “-em” seguido ou não de “-s”. Con-
clusão: a regra para acentuar gérmen é uma e a que
faz com que não se acentue germens é outra.
b) Hífen - hifens.
20
funções de "a", "que" e "se"AULAS
47 e 48
CompetênCia: 1 Habilidades: 1, 2 e 3
E.O. AprEndizAgEm
1. (CFTMG) Com o balanço do trem, seu quimono vo-
ejava suavemente por sobre o jornal de Opalka, que,
irritado, revirava os olhos a cada vez que o tecido se
sobrepunha ao texto que lia.
stigger, veronica. opisanie Œwiata. sÃo paulo: sesi-sp, 2018. p. 37.
O termo destacado acima apresenta sentido sintático
equivalente à sua ocorrência no trecho
a) “Bopp ensaiou falar, mas percebeu que Opalka
não estava prestando atenção.” (p. 36).
b) “Seu ombro encostou no ombro de Opalka, que o
olhou de esguelha.” (p. 37).
c) “Era a primeira vez que Opalka se via sozinho em
toda a viagem.” (p. 133).
d) “Olhou para os próprios sapatos e viu que tam-
bém estavam gastos.” (p. 135).
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) abaixo refere(m)-se ao texto a seguir.
Um muro para pichar
Em frente da minha casa existe um muro enorme, todo
branco. No Facebook, uma postagem me chama aten-
ção: é um muro virtual e a brincadeira é pichá-lo com
qualquer frase que vier à cabeça. Não quero pichar o
mundo virtual, quero um muro de verdade, igual a este
de frente para a minha casa. Pelas ruas e avenidas, vou
trombando nos muros espalhados pelos quarteirões,
repletos de frases tolas, xingamentos e erros de portu-
guês. Eu bem poderia modificar isso.
“O caminho se faz caminhando”, essa frase genial, tão
forte e certeira do poeta espanhol Antonio Machado,
merece aparecer em diversos muros. Basta pensar um
pouco e imaginar; de fato, não há caminho, o caminho
se faz ao caminhar.
De repente, vejo um prédio inteiro marcado por riscos
sem sentido e me calo. Fui tentar entender e não me
faltaram explicações: é grafite, é tribal, coisas de difí-
cil compreensão. As explicações prosseguem: grafite é
arte, pichar é vandalismo. O pequeno vândalo escon-
dido dentro de mim busca frases na memória e, então,
sinto até o cheiro da lama de Woodstock em letras gar-
rafais: “Não importam os motivos da guerra, a paz é
muito mais importante”.
Feito uma folha deslizando pelas águas correntes do rio
me surge a imagem de John Lennon; junto dela, outra
frase: “O sonho não acabou”, um tanto modificada pela
minha mão, tornando-se: o sonho nunca acaba. E minha
cabeça já se transforma num muro todo branco.
Desde os primórdios dos tempos, usamos a escrita
como forma de expressão, os homens das cavernas
deixaram pichados nas rochas diversos sinais. Num
ato impulsivo, comprei uma tinta spray, atravessei a
rua chacoalhando a lata e assim prossegui até chegar
à minha sala, abraçado pela ansiedade aumentada a
cada passo. Coloquei o dedo no gatilho do spray e fi-
quei respirando fundo, juntando coragem e na mente
desenhando a primeira frase para pichar, um tipo de
lema, aquela do Lô Borges: “Os sonhos não envelhe-
cem” – percebo, num sorrir de canto de boca, o quanto
os sonhos marcam a minha existência.
Depois arriscaria uma frase que criei e gosto: “A lagarta
nunca pensou em voar, mas daí, no espanto da meta-
morfose, lhe nasceram asas...”. Ou outra, completamen-
te tola, me ocorreu depois de assistir a um documentá-
rio, convencido de que o panda é um bicho cativante,
mas vive distante daqui e sua agonia não é menor das
dos nossos bichos. Assim pensando, as letras duma
nova pichação se formaram num estalo: “Esqueçam os
pandas, salvem as jaguatiricas!”.
No muro do cemitério, escreveria outra frase que gosto:
“Em longo prazo estaremos todos mortos”, do John Ke-
ynes, que trago comigo desde os tempos da faculdade.
Frases de túmulos ganhariam os muros; no de Salvador
Allende está consagrado, de autoria desconhecida: “Al-
guns anos de sombras não nos tornarão cegos.” Sempre
apegado aos sonhos, picharia também uma do Charles
Chaplin: “Nunca abandone os seus sonhos, porque se
um dia eles se forem, você continuará vivendo, mas terá
deixado de existir”.
Claro, eu poderia escrever essas frases num livro, num
caderno ou no papel amassado que embrulha o pão da
manhã, mas o muro me cativa, porque está ao alcance
das vistas de todos e quero gritar para o mundo as frases
que gosto; são tantas, até temo que me faltem os muros.
Poderia passar o dia todo pichando frases, as linhas vão
se acabando e ainda tenho tanto a pichar... “É preciso
muito tempo para se tornar jovem”, de Picasso, “Há um
certo prazer na loucura que só um louco conhece”, de
Neruda, “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me
bem devagarzinho”, cravada por Mário Quintana...
Encerro com Nietzsche: “Isto é um sonho, bem sei, mas
quero continuar a sonhar”, que serve para exemplificar o
que sinto neste momento, aqui na minha sala, escreven-
do no computador o que gostaria de jogar nos muros lá
21
fora, a custo me mantendo calmo, um olho na tela, outro
voltado para o lado oposto da rua. Lá tem aquele muro
enorme, branco e virgem, clamando por frases. Não sei
quanto tempo resistirei até puxar o gatilho do spray.
aDaptaDo De: alvez, a. l. um muro para pichar. correio Do
estaDo, fev 2018. Disponível em <https://www.correioDoestaDo.
com.Br/opiniao/leia-acronica-De-anDre-luiz-alvez-um-muro-
para-pichar/321052/> acesso em: ago. 2018.
2. (ITA) Assinale a alternativa em que o item sublinhado
NÃO é pronome relativo.
a) a brincadeira é pichá-lo com qualquer frase que
vier à cabeça
b) ou no papel amassado que embrulha o pão da
manhã
c) são tantas, até temo que me faltem os muros
d) há um certo prazer na loucura que só um louco
conhece
e) que serve para exemplificar o que sinto neste
momento
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
Política pública de saneamento básico: as bases do sa-
neamento como direito de cidadania e os debates so-
bre novos modelos de gestão
ana lucia Britto
professora associaDa Do prourB-fau-ufrJ
pesquisaDora Do inct oBservatório Das metrópoles
A Assembleia Geral da ONU reconheceu em 2010 que
o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário
é indispensável para o pleno gozo do direito à vida. É
preciso, para tanto, fazê-lo de modo financeiramente
acessível e com qualidade para todos, sem discrimina-
ção. Também obriga os Estados a eliminarem progres-
sivamente as desigualdades na distribuição de água e
esgoto entre populações das zonas rurais ou urbanas,
ricas ou pobres.
No Brasil, dados do Ministério das Cidades indicam que
cerca de 35 milhões de brasileiros não são atendidos
com abastecimento de águapotável, mais da metade
da população não tem acesso à coleta de esgoto, e ape-
nas 39% de todo o esgoto gerado são tratados. Aproxi-
madamente 70% da população que compõe o déficit de
acesso ao abastecimento de água possuem renda do-
miciliar mensal de até 1/2 salário mínimo por morador,
ou seja, apresentam baixa capacidade de pagamento, o
que coloca em pauta o tema do saneamento financei-
ramente acessível.
Desde 2007, quando foi criado o Ministério das Cida-
des, identificam-se avanços importantes na busca de
diminuir o déficit já crônico em saneamento e pode-se
caminhar alguns passos em direção à garantia do aces-
so a esses serviços como direito social. Nesse sentido
destacamos as Conferências das Cidades e a criação da
Secretaria de Saneamento e do Conselho Nacional das
Cidades, que deram à política urbana uma base de par-
ticipação e controle social.
Houve também, até 2014, uma progressiva ampliação de
recursos para o setor, sobretudo a partir do PAC 1 e PAC
2; a instituição de um marco regulatório (Lei 11.445/2007
e seu decreto de regulamentação) e de um Plano Nacio-
nal para o setor, o PLANSAB, construído com amplo de-
bate popular, legitimado pelos Conselhos Nacionais das
Cidades, de Saúde e de Meio Ambiente, e aprovado por
decreto presidencial em novembro de 2013.
Esse marco legal e institucional traz aspectos essenciais
para que a gestão dos serviços seja pautada por uma
visão de saneamento como direito de cidadania: a) arti-
culação da política de saneamento com as políticas de
desenvolvimento urbano e regional, de habitação, de
combate à pobreza e de sua erradicação, de proteção
ambiental, de promoção da saúde; e b) a transparên-
cia das ações, baseada em sistemas de informações e
processos decisórios participativos institucionalizados.
A Lei 11.445/2007 reforça a necessidade de planeja-
mento para o saneamento, por meio da obrigatorie-
dade de planos municipais de abastecimento de água,
coleta e tratamento de esgotos, drenagem e manejo de
águas pluviais, limpeza urbana e manejo de resíduos
sólidos. Esses planos são obrigatórios para que possam
ser estabelecidos contratos de delegação da prestação
de serviços e para que possam ser acessados recursos
do governo federal (OGU, FGTS e FAT), com prazo final
para sua elaboração terminando em 2017. A Lei reforça
também a participação e o controle social, através de
diferentes mecanismos como: audiências públicas, de-
finição de conselho municipal responsável pelo acom-
panhamento e fiscalização da política de saneamento,
sendo que a definição desse conselho também é condi-
ção para que possam ser acessados recursos do gover-
no federal.
O marco legal introduz também a obrigatoriedade da
regulação da prestação dos serviços de saneamento,
visando à garantia do cumprimento das condições e
metas estabelecidas nos contratos, à prevenção e à re-
pressão ao abuso do poder econômico, reconhecendo
que os serviços de saneamento são prestados em cará-
ter de monopólio, o que significa que os usuários estão
submetidos às atividades de um único prestador.
fonte: aDaptaDo De http://www.assemae.org.Br/artigos/
item/1762-saneamento-Basico-como-Direito-De-ciDaDania
3. (Espcex) Em “ A Assembleia Geral da ONU reconhe-
ceu em 2010 que o acesso à água potável (...)”, a pala-
vra “QUE” encontra emprego correspondente em
a) “(...) os serviços de saneamento são prestados em
caráter de monopólio, o que significa (...)”
b) “Esses planos são obrigatórios para que possam
ser estabelecidos (...)”
c) “(...) o que significa que os usuários estão submeti-
dos às atividades de um único prestador.”
d) “(...) 70% da população que compõe o deficit de
acesso ao abastecimento (...)”
e) “(...) e do Conselho Nacional das Cidades, que de-
ram à política urbana (...)”
22
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Como prevenir a violência dos adolescentes
“(...) Quando deparo com as notícias sobre crimes he-
diondos envolvendo adolescentes, como o ocorrido com
Felipe Silva Caffé e Liana Friedenbach, fico profunda-
mente triste e constrangida. Esse caso é consequência
da baixa valorização da prevenção primária da violência
por meio das estratégias cientificamente comprovadas,
facilmente replicáveis e definitivamente muito mais ba-
ratas do que a recuperação de crianças e adolescentes
que comentem atos infracionais graves contra a vida.
Talvez seja porque a maioria da população não se deu
conta e os que estão no poder nos três níveis não este-
jam conscientes de seu papel histórico e de sua respon-
sabilidade legal de cuidar do que tem de mais impor-
tante à nação: as crianças e os adolescentes, que são o
futuro do país e do mundo.
A construção da paz e a prevenção da violência depen-
dem de como promovemos o desenvolvimento físico,
social, mental, espiritual e cognitivo das nossas crianças
e adolescentes, dentro do seu contexto familiar e co-
munitário. Trata-se, portanto, de uma ação intersetorial,
realizada de maneira sincronizada em cada comunida-
de, com a participação das famílias, mesmo que estejam
incompletas ou desestruturadas (...)”
“(...) Em relação às crianças e adolescentes que come-
teram infrações leves ou moderadas – que deveriam ser
mais bem expressas – seu tratamento para a cidadania
deveria ser feito com instrumentos bem elaborados e
colocados em prática, na família ou próxima dela, com
acompanhamento multiprofissional, desobstruindo as
penitenciárias, verdadeiras universidades do crime. (...)”
“(...) A prevenção primária da violência inicia-se com a
construção de um tecido social saudável e promissor,
que começa antes do nascer, com um bom pré-natal,
parto de qualidade, aleitamento materno exclusivo até
seis meses e o complemento até mais de um ano, vaci-
nação, vigilância nutricional, educação infantil, princi-
palmente propiciando o desenvolvimento e o respeito
à fala da criança, o canto, a oração, o brincar, o andar, o
jogar; uma educação para a paz e a nãoviolência.
A pastoral da criança, que em 2003 completa 20 anos,
forma redes de ação para multiplicar o saber e a soli-
dariedade junto às famílias pobres do país, por meio de
mais de 230 mil voluntários, e acompanhou no terceiro
trimestre deste ano cerca de 1,7 milhão de crianças me-
nores de seis anos e 80 mil gestantes, de mais de 1,2
milhão de famílias, que moram em 34.784 comunidades
de 3.696 municípios do país.
O Brasil é o país que mais reduziu a mortalidade infantil
nos últimos dez anos; isso, sem dúvida, é resultado da or-
ganização e universalização dos serviços de saúde pública,
da melhoria da atenção primária, com todas as limitações
que o SUS possa ainda possuir, da descentralização e mu-
nicipalização dos recursos e dos serviços de saúde. A in-
tensa luta contra a mortalidade infantil, a desnutrição e
a violência intrafamiliar contou com a contribuição dessa
enorme rede de solidariedade da Pastoral da Criança. (...)”
“(...) A segunda área da maior importância nessa pre-
venção primária da violência envolvendo crianças e
adolescentes é a educação, a começar pelas creches,
escolas infantis e de educação fundamental e de nível
médio, que devem valorizar o desenvolvimento do ra-
ciocínio e a matemática, a música, a arte, o esporte e a
prática da solidariedade humana.
As escolas nas comunidades mais pobres deveriam ter
dois turnos, para darem conta da educação integral
das crianças e dos adolescentes; deveriam dispor de
equipes multiprofissionais atualizadas e capacitadas a
avaliar periodicamente os alunos. Urgente é incorporar
os ministérios do Esporte e da Cultura às iniciativas da
educação, com atividades em larga escala e simples,
baratas, facilmente replicáveis e adaptáveis em todo o
território nacional. (...)”
“(...) Com relação à idade mínima para a maioridade pe-
nal, deve permanecer em 18 anos, prevista pelo Estatu-
to da Criança e do Adolescente e conforme orientações
da ONU. Mas o tempo máximo de três anos de reclusão
em regime fechado, quando a criança ou o adolescente
comete crimehediondo, mesmo em locais apropriados
e com tratamento multiprofissional, que urgentemen-
te precisam ser disponibilizados, deve ser revisto. Três
anos, em muitos casos, podem ser absolutamente in-
suficientes para tratar e preparar os adolescentes com
graves distúrbios para a convivência cidadã. (...)”
zilDa arns neumann, 69, méDica peDiatra e sanitarista;
foi funDaDora e coorDenaDora nacional Da pastoral
Da criança. (folha De s paulo, 26/11/2003.)
4. (IFAL) Na frase: “A intensa luta contra a mortalidade
infantil...” (7º parágrafo), em relação às palavras que
a constituem, temos presente, respectivamente, as se-
guintes classes ou categorias gramaticais:
a) artigo, substantivo, substantivo, verbo, artigo, subs-
tantivo, adjetivo.
b) artigo, adjetivo, substantivo, preposição, artigo,
substantivo, adjetivo.
c) pronome, adjetivo, substantivo, verbo, artigo, subs-
tantivo, adjetivo.
d) artigo, substantivo, verbo, preposição, artigo, subs-
tantivo, adjetivo.
e) pronome pessoal oblíquo, adjetivo, substantivo.
5. (Ufal) Seria necessário QUE todos SE pusessem a agir
e SE fizessem os reparos necessários.
Na frase anterior, as partículas QUE e SE classificam-se,
respectivamente, como
a) pronome relativo - conjunção condicional - conjun-
ção integrante
b) conjunção integrante - pronome oblíquo - partícula
apassivadora
c) pronome relativo - pronome oblíquo - conjunção
integrante
d) conjunção integrante - conjunção condicional -
partícula apassivadora
e) pronome relativo - pronome oblíquo - partícula
apassivadora
23
6. (Mackenzie) "Na ata da reunião, registraram-se to-
das as opiniões dos presentes."
Assinale a alternativa que apresenta corretamente a
classificação da partícula SE, na frase acima.
a) índice de indeterminação do sujeito
b) pronome reflexivo (objeto direto)
c) partícula apassivadora
d) conjunção subordinativa integrante
e) palavra de realce
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
O desgaste das palavras
Sou um tonto. Dia destes recebi um recado na secretá-
ria eletrônica pedindo retorno urgente. Liguei.
Era um corretor de imóveis querendo me vender um
lançamento.
− Qual era a urgência? − perguntei, irritado.
− Bem... Estamos selecionando alguns clientes e...
Conversa mole. As pessoas usam a palavra “urgente”
em mensagens de todo tipo. Ainda sou daqueles que se
assustam de leve com um e-mail “urgente” para, logo
depois, descobrir que se trata de um assunto muito cor-
riqueiro. A palavra está perdendo a força. Daqui a pou-
co não vai significar mais nada.
A mesma coisa acontece com o verbo “revelar”. Abro uma
revista e vejo: atriz “revela” que vai pintar o cabelo de loiro.
Isso é revelação que se preze? Resultado: quando se quer
realmente revelar algo se usa “denuncia” ou “confessa”.
E vip? A sigla surgiu como abreviação de “very impor-
tant people”. Os vips tinham acesso preferencial a fes-
tas e eventos de todo tipo. Obviamente, todo mundo
quis ser tratado como vip. Alguns shows e camarotes
carnavalescos ficam lotados por manadas de vips. Para
diferenciar “vips” entre si, nos lugares mais disputados
surgiram chiqueirinhos para os “supervips” ou “vips
dos vips”. Em resumo: “vip” não significa absoluta-
mente coisa nenhuma − somente que a pessoa é rápida
para descolar um convite com pulseirinha.
Os anúncios imobiliários são pródigos em detonar pa-
lavras. “Exclusivo” é um exemplo. Quase todos falam
em “condomínio exclusivo”, “espaço exclusivo” (e não
havia de ser, se o proprietário está pagando?). De tão
comum, “exclusivo” deixou de ser “exclusivo”. Veio o
“diferenciado”. Ou “único”. Mas como um apartamen-
to pode ser “diferenciado” ou “único” se está em um
prédio com mais cinquenta iguais?
A palavra “amigo” é incrível. Implica uma relação es-
pecial, mas a maioria fala em “amigos” referindo-se a
conhecidos distantes. O mesmo ocorre com “abraço”.
Terminar a mensagem com um “abraço” era suficiente,
pois era uma forma de oferecer nosso carinho à pessoa.
Foi tão banalizado que agora se usa “grande abraço”,
“forte abraço”, mas agora é pouco, pois já surgiu o
“beijo no coração”. A seguir, o que virá?
Por que deixar que as palavras se desgastem? Se o que têm
de mais belo é justamente sua história e o sentimento que
contêm? Enfim, tudo o que lhes dá realmente significado.
(walcYr carrasco, veJa sp, 13.08.2008. aDaptaDo)
7. (IFSP) Considere as frases.
I. Ainda sou daqueles que se assustam de leve com um
e-mail “urgente”...
II. ... para, logo depois, descobrir que se trata de um
assunto muito corriqueiro.
III. Isso é revelação que se preze?
Assinale a alternativa em que o pronome proclítico está
antes do verbo porque há, como partícula atrativa, um
pronome relativo.
a) I, apenas.
b) II, apenas.
c) I e III, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III.
8. (Mackenzie)
I. "O velho sorriu-SE, deixando apenas escapar em tom
de dúvida um significativo - Qual..."
II. "Nada (...) SE conseguiu com a receita; o mal continuou."
III. - "- Só lhe direi, respondeu a comadre depois de
alguma hesitação, SE me prometerdes guardar todo o
segredo, que o caso é muito sério."
IV. "As três velhas conversaram por largo tempo, não
porque muitas coisas SE tivessem a dizer..."
Aponte a sequência correta quanto à classificação mor-
fológica da palavra SE nessas frases de Manuel Antônio
de Almeida.
a) I - partícula expletiva, II - partícula apassivadora, III
- conjunção subordinativa condicional, IV - pronome
reflexivo.
b) I - partícula apassivadora, II - partícula expletiva, III
- conjunção subordinativa condicional, IV - pronome
reflexivo.
c) I - pronome reflexivo, II - partícula apassivadora,
III - conjunção subordinativa integrante, IV - pronome
reflexivo.
d) I - partícula expletiva, II - partícula reflexivo, III -
conjunção subordinativa condicional, IV - pronome
reflexivo.
e) I - partícula apassivadora, II - partícula apassiva-
dora, III - conjunção subordinativa condicional, IV -
partícula apassivadora.
9. (Espcex) Em “Há também o que vai para se entregar, ser
um com o Arpoador, mil-partido.” a palavra “o”, grifada, é
a) termo essencial da oração.
b) termo acessório da oração.
c) palavra expletiva.
d) termo integrante da oração.
e) pronome de interesse.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Uma visão do futuro
1 Estamos ÀS PORTAS de um milênio 2miraculoso. A
pessoa tem a mão decepada por uma serra elétrica,
e os médicos conseguirão fazer crescer uma 3nova
24
no mesmo lugar. Casas e carros serão feitos de 4ma-
teriais que podem consertar-se a si próprios. Um ali-
mento em pó incolor com 90% de proteína em sua
fórmula poderá ser modificado para ter o sabor que
se deseje. As previsões acima podem parecer 1ousa-
das, mas, no fundo, são até conservadoras. Membros
reimplantáveis? Os cientistas começaram a regenerar
a pele humana ainda nos anos 70, e atualmente alguns
laboratórios conseguem produzir válvulas cardíacas
com base em algumas poucas células. O dia chegará
em que substituir órgãos humanos defeituosos será
rotina. No campo dos materiais, já existe um metal, o
nitinol, que consegue desamassar sua própria super-
fície sem esforço. Basta aplicar um pouco de calor. A
comida milagrosa? Já existe. É um 5derivado da soja
produzido pela empresa Archer Daniels Midland desde
meados dos anos 80.
2 Pouca coisa se pode dizer sobre o futuro. Não
sabemos se nossos bisnetos vão passear ou, um
dia, viver em Marte. Também não sabemos se será
possível reanimar alguém que já morreu. Não sabe-
mos quando teremos robôs, escravos, máquinas de
orgasmo ou naves para viajar no tempo. Sabemos
apenas que, sejam quais forem os milagres que o
próximo milênio trouxer, eles serão possíveis graças
ao mesmo gênio: o computador.
3 Estamos chegando bem próximos de uma época em
que os computadores serão capazes de desenhar cópias
de si mesmos. Ou seja, eles não precisarão da ajuda hu-
mana para se reproduzir. Assustador? Talvez. Será uma
época em que, pelaprimeira vez na história da huma-
nidade, não seremos os seres mais inteligentes sobre a
face do planeta. Para alguns cientistas, estaremos en-
trando no paraíso. Para outros, no inferno. Todos con-
cordam que estamos cruzando rapidamente a fronteira
do desconhecido. Computadores já ensaiam formas pri-
mitivas de pensamento autônomo.
4 Alguns 6cientistas já se preocupam em garantir que
os robôs do futuro tragam em sua programação um
chip da bondade que 7os impeça de fazer mal à hu-
manidade. Assumem, assim, que não nos será possível
sequer desligá-los8. Talvez estejam apenas sonhando.
Talvez, não.
[aDaptaDo De] especial Do milênio (parte integrante Da
veJa, ano 31, nº 51, 23 Dez. 1998, p.126.)
10. (UFRN) Na estrutura
Também não sabemos SE será possível reanimar al-
guém que já morreu.
o vocábulo destacado corresponde, morfológica e sin-
taticamente, ao que se encontra em destaque na opção:
a) Pouca coisa SE pode dizer com certeza sobre o futuro.
b) Será uma época em QUE (...) não seremos os seres
mais inteligentes (...)
c) Alguns cientistas já SE preocupam em garantir (...)
d) Assumem, assim, QUE não nos será possível sequer
desligá-los.
E.O. FixAçãO
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
SOBRE ARTES E ARTISTAS
"Uma coisa que realmente não existe é aquilo a que se
dá o nome de Arte. Existem somente artistas. Outrora,
eram homens que apanhavam terra colorida e modela-
vam toscamente as formas de um bisão na parede de
uma caverna; hoje, alguns compram suas tintas e dese-
nham cartazes para os tapumes; eles faziam e fazem mui-
tas outras coisas. Não prejudica ninguém chamar a todas
essas atividades arte, desde que conservemos em mente
que tal palavra pode significar coisas muito diferentes,
em tempos e lugares diferentes, e que Arte com A maiús-
culo não existe. Na verdade, Arte com A maiúsculo pas-
sou a ser algo de um bicho-papão e de um fetiche. Pode-
mos esmagar um artista dizendo-lhe que o que ele acaba
de fazer pode ser muito bom no seu gênero, só que não
é "Arte". E podemos desconcertar qualquer pessoa que
esteja contemplando com prazer um quadro, declarando
que aquilo de que ela gosta não é Arte, mas algo muito
diferente. Na realidade, não penso que existam quais-
quer razões erradas para se gostar de um quadro ou de
uma escultura. Alguém pode gostar de uma paisagem
porque ela lhe recorda seu berço natal, ou de um retrato
porque lhe lembra um amigo. Nada há de errado nisso.
(...) Somente quando alguma recordação irrelevante nos
torna parciais e preconceituosos, quando instintivamen-
te voltamos as costas a um quadro magnífico de uma
cena alpina porque não gostamos de praticar alpinismo,
é que devemos perscrutar o nosso íntimo para desvendar
as razões da aversão que estraga um prazer que de ou-
tro modo poderíamos ter. Há razões erradas para não se
gostar de uma obra de arte."
e. h. gomBrich
1. (Ita) Nas orações "e QUE Arte com A maiúsculo não
existe" e "o QUE ele acaba de fazer...", as palavras em
maiúsculo funcionam respectivamente como:
a) conjunção integrante e pronome relativo
b) pronome relativo e pronome relativo
c) conjunção integrante e conjunção integrante
d) pronome relativo e conjunção integrante
e) conjunção aditiva e pronome demonstrativo
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
Política pública de saneamento básico: as bases do sa-
neamento como direito de cidadania e os debates so-
bre novos modelos de gestão
ana lucia Britto
professora associaDa Do prourB-fau-ufrJ
pesquisaDora Do inct oBservatório Das metrópoles
A Assembleia Geral da ONU reconheceu em 2010 que
o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário
é indispensável para o pleno gozo do direito à vida. É
preciso, para tanto, fazê-lo de modo financeiramente
25
acessível e com qualidade para todos, sem discrimi-
nação. Também obriga os Estados a eliminarem pro-
gressivamente as desigualdades na distribuição de
água e esgoto entre populações das zonas rurais ou
urbanas, ricas ou pobres.
No Brasil, dados do Ministério das Cidades indicam que
cerca de 35 milhões de brasileiros não são atendidos
com abastecimento de água potável, mais da meta-
de da população não tem acesso à coleta de esgoto,
e apenas 39% de todo o esgoto gerado são tratados.
Aproximadamente 70% da população que compõe o
déficit de acesso ao abastecimento de água possuem
renda domiciliar mensal de até 1/2 salário mínimo por
morador, ou seja, apresentam baixa capacidade de pa-
gamento, o que coloca em pauta o tema do saneamento
financeiramente acessível.
Desde 2007, quando foi criado o Ministério das Cida-
des, identificam-se avanços importantes na busca de
diminuir o déficit já crônico em saneamento e pode-se
caminhar alguns passos em direção à garantia do aces-
so a esses serviços como direito social. Nesse sentido
destacamos as Conferências das Cidades e a criação da
Secretaria de Saneamento e do Conselho Nacional das
Cidades, que deram à política urbana uma base de par-
ticipação e controle social.
Houve também, até 2014, uma progressiva ampliação de
recursos para o setor, sobretudo a partir do PAC 1 e PAC
2; a instituição de um marco regulatório (Lei 11.445/2007
e seu decreto de regulamentação) e de um Plano Nacio-
nal para o setor, o PLANSAB, construído com amplo de-
bate popular, legitimado pelos Conselhos Nacionais das
Cidades, de Saúde e de Meio Ambiente, e aprovado por
decreto presidencial em novembro de 2013.
Esse marco legal e institucional traz aspectos essenciais
para que a gestão dos serviços seja pautada por uma
visão de saneamento como direito de cidadania: a) arti-
culação da política de saneamento com as políticas de
desenvolvimento urbano e regional, de habitação, de
combate à pobreza e de sua erradicação, de proteção
ambiental, de promoção da saúde; e b) a transparên-
cia das ações, baseada em sistemas de informações e
processos decisórios participativos institucionalizados.
A Lei 11.445/2007 reforça a necessidade de planeja-
mento para o saneamento, por meio da obrigatorie-
dade de planos municipais de abastecimento de água,
coleta e tratamento de esgotos, drenagem e manejo de
águas pluviais, limpeza urbana e manejo de resíduos
sólidos. Esses planos são obrigatórios para que possam
ser estabelecidos contratos de delegação da prestação
de serviços e para que possam ser acessados recursos
do governo federal (OGU, FGTS e FAT), com prazo final
para sua elaboração terminando em 2017. A Lei reforça
também a participação e o controle social, através de
diferentes mecanismos como: audiências públicas, de-
finição de conselho municipal responsável pelo acom-
panhamento e fiscalização da política de saneamento,
sendo que a definição desse conselho também é condi-
ção para que possam ser acessados recursos do gover-
no federal.
O marco legal introduz também a obrigatoriedade da
regulação da prestação dos serviços de saneamento,
visando à garantia do cumprimento das condições e
metas estabelecidas nos contratos, à prevenção e à re-
pressão ao abuso do poder econômico, reconhecendo
que os serviços de saneamento são prestados em cará-
ter de monopólio, o que significa que os usuários estão
submetidos às atividades de um único prestador.
fonte: aDaptaDo De http://www.assemae.org.Br/artigos/
item/1762-saneamento-Basico-como-Direito-De-ciDaDania
2. (Espcex) “Nesse sentido destacamos as Conferências
das Cidades e a criação da Secretaria de Saneamento e
do Conselho Nacional das Cidades, que deram à política
urbana uma base de participação e controle social”.
No fragmento, o pronome relativo exerce a função
sintática de
a) objeto direto e introduz uma explicação.
b) objeto direto e introduz uma restrição.
c) objeto indireto e introduz uma explicação.
d) sujeito e introduz uma restrição.
e) sujeito e introduz uma explicação.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
O CORPO DA MULHER
Coisa mais difícil é ser mulher. Não bastassem as sur-
presas que a fisiologia lhes impõe, as sociedades criam
regras para cercear-lhesa liberdade de ir e vir e padrões
rígidos de comportamento e moralidade que não se
aplicam aos homens.
De todas as imposições sociais, a mais odiosa é a apro-
priação indébita do corpo feminino.
Não é por outra razão que cidadãos de mais de 20 países
se dão o direito de mutilar os genitais de suas filhas, na
mais tenra idade. São cirurgias cruentas, sem anestésicos
nem assepsia, a que o mundo assiste em silêncio acovar-
dado, em nome do respeito às “tradições culturais”.
Nós, que nos intitulamos “civilizados”, não chegamos a
esse nível de barbárie, no entanto, repreendemos a me-
nina de dois anos quando leva a mão ao sexo ou senta
com as pernas abertas.
Na piscina de um condomínio de classe média alta, em
Cleveland, nos Estados Unidos, minha filha foi admoes-
tada pela encarregada da segurança por deixar minha
neta sem a parte de cima do biquíni. O argumento? Pro-
vocar os homens presentes. Uma criança de cinco anos?
Na puberdade, com o cérebro inundado pela testoste-
rona, jamais alguém ousou sugerir que iniciação sexual
levasse em conta o amor, sentimento que mães e pais
que se consideram avançados exigem das adolescen-
tes. Sexo casual exalta a condição masculina, enquanto
mancha a reputação da mulher. Não é preciso gradua-
ção em filosofia pura para expor o paradoxo.
Aos 12 ou 13 anos, idades em que o corpo ensaia com
graça os primeiros passos em direção mulher adulta,
os interesses da indústria e da publicidade sexualizam
com minishorts e camisetas decotadas, o modo de ves-
tir das meninas.
26
Quando saem às ruas com as roupas da moda exibidas
na TV e nas revistas, elas são acusadas de provocadoras,
portanto sujeitas às grosserias e ao risco de se torna-
rem vítimas dos instintos masculinos mais bestiais.
Ao ficar adultas, são forçadas a atender a um padrão es-
tético que privilegia a magreza doentia das top models.
Sem levar em conta os caprichos da genética, a mulher
moderna deve ser magra, sobretudo. A exigência de exi-
bir a ossatura acaba por lhes distorcer a autoimagem.
Passam a implicar com o pequeno acúmulo de gordura,
com rugas insignificantes e com celulites só visíveis em
posições acrobáticas sob o foco de luz.
No passado, demonstrar interesse por uma mulher era
elogiar sua beleza; hoje, dizer que está
mais magra é meio caminho andado.
Nós, homens, somos complacentes com a autoimagem.
O sujeito com 20 quilos a mais sai do banho enrolado
na toalha, para na frente do espelho, bate no abdômen
avantajado e se vangloria: “tô simpático, tô bonitão”.
Está para nascer mulher com tamanha autoconfiança.
Mas é na gravidez que fica demonstrada a superiorida-
de fisiológica do organismo feminino.
Produzem apenas um óvulo, enquanto nos obrigam a
ejacular 300 milhões de espermatozoides, para que se
deem ao luxo de escolher o mais apto. Daí em diante,
por conta própria, constroem uma criança de três qui-
los, sem qualquer participação masculina.
Na gravidez nosso papel é tão desprezível que precisa-
mos fazer exame de DNA para comprovar a paternidade.
Apesar da irrelevância, no entanto, nós é que aprovamos as
leis que as consideram criminosas em caso de abortamento
provocado. O sofrimento e as mortes das jovens submeti-
das a procedimentos realizados nas condições mais desu-
manas que possamos imaginar não nos sensibilizam.
Depois de passar décadas espremidas em trajes incô-
modos e de andar mal equilibradas em saltos de um
palmo de altura, só lhes restam duas saídas: a cirurgia
plástica ou o suicídio, providências nem sempre exclu-
dentes. Antes operar o rosto, aspirar a gordura abdomi-
nal ou partir deste mundo do que envelhecer.
Às que ficam mais velhas não sobram alternativas: se
deixam os cabelos embranquecer são rotuladas de ve-
lhas, se decidem pintá-los de preto ficam com cara de
senhoras, se os tingem de loiro são xingadas de exibi-
das. Se vestem roupas em tons discretos são antiqua-
das, se acompanham a moda das mais jovens são ridí-
culas, sem noção.
As leitoras que me perdoem, mas na próxima encarna-
ção prefiro nascer homem, outra vez.
Drauzio varella. www1.folha.uol.com.Br/colunas/
Drauziovarella/2017/06/1891661-o-corpo-Da-
mulher.shtml. acessaDo em 28-06-2017
3. (FCMMG) Assinale a alternativa cujo termo destaca-
do NÃO é um elemento coesivo.
a) “... se acompanham a moda das mais jovens são
ridículas, sem noção.”
b) “... se deixam os cabelos embranquecer são rotu-
ladas de velhas...”
c) “... se decidem pintá-los de preto ficam com cara
de senhoras...”
d) “... se dão o direito de mutilar os genitais de suas
filhas...”
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto abaixo e responda à(s) questão(ões).
A PIPOCA
Rubem Alves
A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até
atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competen-
te com as palavras que com as panelas. Por isso tenho
mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me
a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”.
Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo
da cozinha: cebolas, ora-pro-nóbis, picadinho de carne
com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas,
churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um
livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme
A festa de Babette, que é uma celebração da comida
como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limita-
ções e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi
como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a
culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam
a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretan-
to, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer so-
nhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca,
milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma
simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimen-
sões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás,
conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca.
E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas
ideias começaram a estourar como pipoca. Percebi, en-
tão, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pen-
sar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que
estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca
se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto
poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu
pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles
das pipocas dentro de uma panela.
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca
tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, reli-
giosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e
o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque
vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho
devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir
juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a
Mãe Stella, sábia poderosa do candomblé baiano: que a
pipoca é a comida sagrada do candomblé...
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse
eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos
graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu fi-
caria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é
que, sob o ponto de vista do tamanho, os milhos da
pipoca não podem competir com os milhos normais.
Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que hou-
ve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e
27
colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que
assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
Havendo fracassado a experiência com água, tentou a
gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter
imaginado. Repentinamente os grãos começaram a es-
tourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira.
Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os
grãos duros quebra-dentes se transformavam em flo-
res brancas e macias que até as crianças podiam comer.
O estouro das pipocas se transformou, então, de uma
simples operação culinária, em uma festa, brincadeira,
molecagem, para os risos de todos, especialmente as
crianças. É muito divertido ver o estouro daspipocas!
E o que é que isso tem a ver com o candomblé? É que
a transformação do milho duro em pipoca macia é sím-
bolo da grande transformação porque devem passar os
homens para que eles venham a ser o que devem ser.
O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser
aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pi-
poca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para
comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente,
nos transformar em outra coisa − voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a
ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com
a gente. As grandes transformações acontecem quando
passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do
mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mes-
mice e dureza assombrosas. Só que elas não percebem.
Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos
lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode
ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar
doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo
de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofri-
mentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos
remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui.
E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela,
lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua
hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura,
fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino
diferente. Não pode imaginar a transformação que está
sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que
ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a
grande transformação acontece: pum! − e ela aparece
como uma outra coisa, completamente diferente, que
ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante
e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está
representado pela morte e ressurreição de Cristo: a
ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso
deixar de ser de um jeito para ser de outro. “Morre e
transforma-te!” − dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre
os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que
seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha,
que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a
me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento
da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estou-
rar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisa-
dor da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou
cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com
certeza ele tem uma explicação científica para os piruás.
Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não
valem. Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá
às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, pas-
sada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho
que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás
são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente,
se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa
mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o
dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á.” A
sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que
não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida
inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não
vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre
da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não ser-
vem para nada. Seu destino é o lixo. Quanto às pipocas que
estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que
sabem que a vida é uma grande brincadeira...
Disponível em http://www.releituras.com/ruBemalves_pipoca.asp.
acessaDo em 31 De mai. 2016.
Obs.: O texto foi adaptado às regras do Novo Acordo
Ortográfico.
4. (Efomm) Analisando os mecanismos de coesão, assi-
nale a opção em que o termo sublinhado NÃO retoma
o termo antecedente, mas funciona como elemento se-
quencial ou de conexão.
a) Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culi-
nária literária".
b) Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia
em que a pipoca iria me fazer sonhar.
c) Um bom pensamento nasce como uma pipoca que
estoura, de forma inesperada e imprevisível.
d) Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que
simbolizam o corpo e o sangue de Cristo (...)
e) Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
Mais velho, poucos amigos?
Um curioso estudo divulgado na última semana mos-
trou que a redução do número de amigos com a idade,
tão comum entre os humanos, pode não ser exclusivo
da nossa espécie. 1Aparentemente, macacos também
passariam por processo semelhante em suas redes de
contatos sociais, o que poderia sugerir um caráter evo-
lutivo desse fenômeno.
2No trabalho desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa
com Primatas em Göttingen, Alemanha, se identificou
uma redução de grooming (tempo dedicado ao cuidado
com outros indivíduos, como limpar o pelo e catar pio-
lhos) entre os macacos mais velhos da espécie Macaca
sylvanus. 3Além disso, eles praticavam grooming em um
número menor de “amigos” ou parentes.
4Fazer grooming está para os macacos mais ou me-
nos como o “papo” para nós. 5Da mesma forma que
28
o “carinho” humano, ele parece provocar a liberação
de endorfinas. 6Geram-se, dessa forma, sensações de
bem-estar tanto em homens como em outros animais.
Na pesquisa, publicada pelo periódico New Scientist, os
cientistas perceberam que macacos de 25 anos tiveram
uma redução de até do tempo de grooming quando
comparados com adultos de cinco anos. 7Se esse fenô-
meno acontece em outros primatas, ele também pode
ter chegado a nós ao longo do caminho de formação da
nossa espécie. 8Se chegou, qual teria sido a vantagem
evolutiva?
9Durante muito tempo se especulou que esse “encolhi-
mento” social em humanos seria, na verdade, resultado
de um processo de envelhecimento, em que depressão,
morte de amigos, limitações físicas, vergonha da apa-
rência e menos dinheiro poderiam limitar as novas co-
nexões. 10Mas, pesquisando os idosos, se percebeu que
ter menos amigos era muito mais uma escolha pessoal
do que uma consequência do envelhecer.
Uma linha de investigação explica que essa redução dos
amigos seria, na verdade, uma seleção dos mais velhos de
como usar melhor o tempo. Mas outros especialistas de-
fendem a ideia de que os mais velhos teriam menos recur-
sos e defesas para lidar com estresse e ameaças e, assim,
11escolheriam com mais cautela as pessoas com quem se
sentem mais seguros (os amigos) para passar seu tempo.
Bouer, J. Jornal o estaDo De sÃo paulo, caDerno
metrópole, Domingo, 26 Jun. 2016, p. a23. aDaptaDo.
5. (FMP) No trecho “Se esse fenômeno acontece em ou-
tros primatas, ele também pode ter chegado a nós ao lon-
go do caminho de formação da nossa espécie.” (ref. 7), a
palavra destacada exerce a mesma função textual que em:
a) “No trabalho desenvolvido pelo Instituto de Pes-
quisa com Primatas em Göttingen, Alemanha, se
identificou uma redução de grooming” (ref. 2)
b) “Se chegou, qual teria sido a vantagem evolu-
tiva?” (ref. 8)
c) “Durante muito tempo se especulou que esse ”en-
colhimento” social em humanos seria, na verdade,
resultado de um processo de envelhecimento” (ref. 9)
d) “Mas, pesquisando os idosos, se percebeu que ter
menos amigos era muito mais uma escolha pessoal
do que uma consequência do envelhecer.” (ref. 10)
e) “escolheriam com mais cautela as pessoas com
quem se sentem mais seguros (os amigos) para pas-
sar seu tempo.” (ref. 11)
6. (Fmp) No trecho “Geram-se, dessa forma, sensações
de bem-estar tanto em homens como em outros ani-
mais.” (ref. 6) a forma verbal foi utilizada no plural, por
respeito às exigências da norma-padrão da língua por-
tuguesa. Essa mesma flexão deve ser aplicada ao verbo
destacado em:
a) Com o aumento da depressãoem pessoas de dife-
rentes idades, é necessário que se procedam a no-
vos estudos sobre medicamentos mais eficazes.
b) Os estudos recentes desenvolvidos em institutos
de pesquisa permitem que se suspeitem das causas
prováveis do “encolhimento” social.
c) Apesar de a imprensa divulgar constantemente
novos medicamentos, desconfiam-se dos métodos
utilizados nas pesquisas sobre obesidade.
d) Para detectar os reflexos mais prejudiciais do “en-
colhimento” social em humanos, necessitam-se de
estudos com maior número de indivíduos.
e) Os pesquisadores concordam que é preciso que se
empreguem muitos esforços para investigar os pro-
cessos relativos ao envelhecimento.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Eu, Etiqueta
carlos DrummonD De anDraDe
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
(...)
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça até o bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordem de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solitário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar, ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
(...)
29
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
7. (CP2) No poema, nos versos “Em minha calça está
grudado um nome / que não é meu de batismo ou de
cartório”, a palavra “que” evita repetição (versos 1 e 2).
Marque a alternativa em que essa palavra esteja fazen-
do o mesmo.
a) “Em minha camiseta, a marca de cigarro / que não
fumo, até hoje não fumei.” (versos 6-7)
b) “É doce estar na moda, ainda que a moda / seja
negar minha identidade,” (versos 26-27)
c) “Com que inocência demito-me de ser” (verso 31)
d) “peço que meu nome retifiquem.” (verso 43)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
REDES SOCIAIS E COLABORAÇÃO EXTREMA: O FIM DO
SENSO CRÍTICO?
eugênio mira
Conectados. Essa palavra nunca fez tanto sentido quan-
to agora. 1Quando se discutia no passado sobre como
os homens agiriam com o advento da aldeia global (...)
não se imaginava o quanto esse processo seria rápido
e devastador.
(...) quando McLuhan apresentou o termo, em 1968, 2ele
sequer imaginaria que não seria a televisão a grande
responsável pela interligação mundial absoluta, e sim
a internet, que na época não passava de um projeto
militar do governo dos Estados Unidos.
3A internet mudou definitivamente a maneira como nos
comunicamos e percebemos o mundo. Graças a ela te-
mos acesso a toda informação do mundo à distância
de apenas um toque de botão. 4E quando começaram
a se popularizar as redes sociais, 5um admirável mundo
novo abriu-se ante nossos olhos. Uma ferramenta cola-
borativa extrema, que possibilitaria o contato imediato
com outras pessoas através de suas afinidades, fossem
elas políticas, religiosas ou mesmo geográficas. Proje-
tos colaborativos, revoluções instantâneas... 6Tudo seria
maior e melhor quando as pessoas se alinhassem na ór-
bita de seus ideais. 7O tempo passou, e essa revolução
não se instaurou.
Basta observar as figuras que surgem nos sites de humor
e outros assemelhados. Conhecidos como memes (termo
cunhado pelo pesquisador Richard Dawkins, que repre-
sentaria para nossa memória o mesmo que os genes
representam para o corpo, ou seja, uma parcela mínima
de informação), 8essas figuras surgiram com a intenção
de demonstrar, de maneira icônica, algum sentimento ou
sensação. 9Ao fazer isso, a tendência de ter uma reação
diversa daquelas expressas pelas tirinhas é cada vez me-
nor. Tudo fica branco e preto. 10Ou se aceita a situação, ou
revolta-se. Sem chance para o debate ou questionamento.
(...)
A situação é ainda mais grave quando um dos poucos
entes criativos restantes na internet produz algum co-
mentário curto, espirituoso ou reflexivo, a respeito de
alguma situação atual ou recente... Em minutos pipocam
cópias da frase por todo lugar. 11Copia-se sem o menor
bom senso, sem créditos. Pensar e refletir, e depois falar,
são coisas do passado. O importante agora é 12copiar e
colar, e depois partilhar. 13As redes sociais desfraldaram
um mundo completamente novo, e o uso que o homem
fará dessas ferramentas é o que dirá o nosso futuro cul-
tural. 14Se enveredarmos pela partilha de ideias, gestan-
do-as em nossas mentes e depois as passando a outros,
será uma estufa mundial a produzir avanços incríveis em
todos os campos de conhecimento. Se, no entanto, as
redes sociais se transformarem em uma rede neural de
apoio à preguiça de pensar, a humanidade estará fada-
da ao processo antinatural de regressão. O advento das
redes sociais trouxe para perto das pessoas comuns os
amigos distantes, os ídolos e as ideias consumistas mais
arraigados, mas aparentemente está levando para longe
algo muito mais humano e essencial na vida em socieda-
de: o senso crítico. Será uma troca justa?
http://oBviousmag.org/archives/2011/09/reDes_sociais_e_
colaBoracao_extrema_o_fim_Do_senso_critico-.
htm. aDaptaDo. acesso em: 21 fev 2017.
8. (Epcar (Afa) 2018) O vocábulo se exerce, na língua
portuguesa, várias funções. Observe seu uso nos excer-
tos a seguir.
I. “Copia-se sem o menor bom senso...” (ref. 11)
II. “...um admirável mundo novo abriu-se ante nossos
olhos.” (ref. 5)
III. “Ou se aceita a situação ou revolta-se.” (ref. 10)
IV. “O tempo passou, e essa revolução não se instaurou”.
(ref. 7)
Assinale a análise correta.
a) Em I, o “se” é uma partícula expletiva ou de realce.
b) Em II, o “se” é uma partícula integrante do verbo.
c) Em III, o “se” foi utilizado para flexionar o verbo na
voz passiva sintética em ambas as ocorrências.
d) Em IV, o “se” classifica-se como pronome apassivador.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o conto “A cartomante”, de Lima Barreto (1881-
1922), para responder à(s) questão(ões).
Não havia dúvida que naqueles atrasos e atrapalhações
de sua vida, alguma influência misteriosa preponderava.
Era ele tentar qualquer coisa, logo tudo mudava. Esteve
quase para arranjar-se na Saúde Pública; mas, assim que
obteve um bom “pistolão1”, toda a política mudou. Se jo-
gava no bicho, era sempre o grupo seguinte ou o anterior
que dava. Tudo parecia mostrar-lhe que ele não devia ir
para adiante. Se não fossem as costuras da mulher, não
sabia bem como poderia ter vivido até ali. Há cinco anos
que não recebia vintém de seu trabalho. Uma nota de
dois mil-réis, se alcançava ter na algibeira por vezes, era
obtida com auxílio de não sabia quantas humilhações,
apelando para a generosidade dos amigos.
30
Queria fugir, fugir para bem longe, onde a sua miséria
atual não tivesse o realce da prosperidade passada;
mas, como fugir?
Onde havia de buscar dinheiro que o transportasse, a
ele, a mulher e aos filhos? Viver assim era terrível! Pre-
so à sua vergonha como a uma calceta2, sem que ne-
nhum código e juiz tivessem condenado, que martírio!
A certeza, porém, de que todas as suas infelicidades vi-
nham de uma influência misteriosa, deu-lhe mais alen-
to. Se era “coisa feita”, havia de haverpor força quem a
desfizesse. Acordou mais alegre e se não falou à mulher
alegremente era porque ela já havia saído. Pobre de sua
mulher! Avelhantada precocemente, trabalhando que
nem uma moura, doente, entretanto a sua fragilidade
transformava-se em energia para manter o casal.
Ela saía, virava a cidade, trazia costuras, recebia dinhei-
ro, e aquele angustioso lar ia se arrastando, graças aos
esforços da esposa.
Bem! As coisas iam mudar! Ele iria a uma cartomante e
havia de descobrir o que e quem atrasavam a sua vida.
Saiu, foi à venda e consultou o jornal. Havia muitos
videntes, espíritas, teósofos anunciados; mas simpa-
tizou com uma cartomante, cujo anúncio dizia assim:
“Madame Dadá, sonâmbula, extralúcida, deita as car-
tas e desfaz toda espécie de feitiçaria, principalmente
a africana. Rua etc.”.
Não quis procurar outra; era aquela, pois já adquirira
a convicção de que aquela sua vida vinha sendo traba-
lhada pela mandinga de algum preto-mina3, a soldo do
seu cunhado Castrioto, que jamais vira com bons olhos
o seu casamento com a irmã.
Arranjou, com o primeiro conhecido que encontrou, o
dinheiro necessário, e correu depressa para a casa de
Madame Dadá.
O mistério ia desfazer-se e o malefício ser cortado. A
abastança voltaria à casa; compraria um terno para
o Zezé, umas botinas para Alice, a filha mais moça; e
aquela cruciante vida de cinco anos havia de lhe ficar
na memória como passageiro pesadelo.
Pelo caminho tudo lhe sorria. Era o sol muito claro e
doce, um sol de junho; eram as fisionomias risonhas dos
transeuntes; e o mundo, que até ali lhe aparecia mau e
turvo, repentinamente lhe surgia claro e doce.
Entrou, esperou um pouco, com o coração a lhe saltar
do peito.
O consulente saiu e ele foi afinal à presença da pitonisa4.
Era sua mulher.
(contos completos, 2010.)
1pistolão: recomendação de pessoa influente; indivíduo
que faz essa recomendação.
2calceta: argola de ferro que, fixada no tornozelo do pri-
sioneiro, ligava-se à sua cintura por meio de corrente
de ferro.
3preto-mina: indivíduo dos pretos-minas (povo que ha-
bita a região do Grand Popo, no Sudoeste da África).
4pitonisa: profetisa.
9. (UEFS 2018) Em “Onde havia de buscar dinheiro que
o transportasse, a ele, a mulher e aos filhos?” (3º pa-
rágrafo), o termo sublinhado refere-se ao substantivo
“dinheiro” e exerce a função sintática de
a) sujeito.
b) objeto direto.
c) objeto indireto.
d) adjunto adnominal.
e) adjunto adverbial.
10. (G1) Na oração "Contam-se casos curiosos sobre os
índios.", o SE é:
a) pronome pessoal oblíquo;
b) índice de indeterminação do sujeito;
c) pronome apassivador;
d) pronome reflexivo;
e) pronome possessivo.
E.O. COmplEmEntAr
1. (CPS 2019) Observe as passagens:
I. “Candidato, me ajuda a comer, candidato!”
II. “Mas é claro que te ajudo! Tem aí um sanduíche para a gente dividir?”
Assinale a alternativa que apresenta a análise correta da função morfológica dos termos destacados nas passagens.
I. II.
ME A MAS QUE AÍ A
a) Pronome pessoal Preposição Conjunção Conjunção Advérbio Artigo
b) Pronome indefinido Artigo Preposição Pronome relativo Advérbio Preposição
c) Pronome reflexivo Conjunção Conjunção Pronome relativo Advérbio Pronome pessoal
d) Pronome pessoal reto Preposição Preposição Pronome relativo Pronome pessoal Artigo
e) Pronome pessoal Pronome pessoal Conjunção Conjunção Pronome
demonstrativo
Preposição
31
2. (Espcex) Assinale a alternativa que apresenta a cor-
reta classificação da partícula “se”, na sequência em
que aparece no período abaixo.
O maquinista se perguntava se a próxima parada seria
tão tumultuada quanto a primeira, com aquelas pes-
soas todas se debatendo, os bilhetes avolumando nas
mãos do cobrador, os reclamos que se ouviam dos mais
exaltados.
a) objeto indireto – conectivo integrante – parte do
verbo – partícula apassivadora
b) objeto direto – conectivo integrante – pronome
reflexivo – partícula apassivadora
c) objeto direto – conjunção integrante – pronome
recíproco – indeterminação do sujeito
d) objeto indireto – conjunção integrante – pronome
reflexivo – partícula apassivadora
e) objeto direto – conectivo integrador – pronome
oblíquo – partícula apassivadora
3. (Mackenzie) Aponte a alternativa que contém um
QUE classificado morfologicamente como partícula ex-
pletiva (ou de realce).
a) "A vida é tão bela que chega a dar medo."
b) "Havia uma escada que parava de repente no ar."
c) "Oh! Que revoada, que revoada de asas!"
d) "O vento que vinha desde o princípio do mundo /
Estava brincando com teus cabelos..."
e) "Nós / é que vamos empurrando, dia a dia, sua
cadeira de rodas."
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Quando a rede vira um vício
Com o titulo "Preciso de ajuda", fez-se um desabafo
aos integrantes da comunidade Viciados em Internet
Anônimos: "Estou muito dependente da web, Não con-
sigo mais viver normalmente. Isso é muito sério". Logo
obteve resposta de um colega de rede. "Estou na mes-
ma situação. Hoje, praticamente vivo em frente ao com-
putador. Preciso de ajuda." Odiálogo dá a dimensão do
tormento provocado pela dependência em Internet, um
mal que começa a ganhar relevo estatístico, à medida
que o uso da própria rede se dissemina. Segundo pes-
quisas recém-conduzidas pelo Centro de Recuperação
para Dependência de Internet, nos Estados Unidos, a
parcela de viciados representa, nos vários países estu-
dados, de 5% (como no Brasil) a 10% dos que usam a
web — com concentração na faixa dos 15 aos 29 anos.
Os estragos são enormes. Como ocorre com um viciado
em álcool ou em drogas, o doente desenvolve uma tole-
rância que, nesse caso, o faz ficar on-line por uma eter-
nidade sem se dar conta do exagero. Ele também sofre
de constantes crises de abstinência quando está desco-
nectado, e seu desempenho nas tarefas de natureza in-
telectual despenca. Diante da tela do computador, vive,
aí sim, momentos de rara euforia. Conclui uma psicólo-
ga americana: "O viciado em internet vai, aos poucos,
perdendo os elos com o mundo real até desembocar
num universo paralelo — e completamente virtual".
Não é fácil detectar o momento em que alguém deixa de
fazer uso saudável e produtivo da rede para estabelecer
com ela uma relação doentia, como a que se revela nas
histórias relatadas ao longo desta reportagem. Em todos
os casos, a internet era apenas "útil" ou "divertida" e foi
ganhando um espaço central, a ponto de a vida longe da
rede ser descrita agora como sem sentido. Mudança tão
drástica se deu sem que os pais atentassem para a gravi-
dade do que ocorria. "Como a internet faz parte do dia a
dia dos adolescentes e o isolamento é um comportamen-
to típico dessa fase da vida, a família raramente detecta
o problema antes de ele ter fugido ao controle", diz um
psiquiatra. A ciência, por sua vez, já tem bem mapeados
os primeiros sintomas da doença. De saída, o tempo na
internet aumenta — até culminar, pasme-se, numa ro-
tina de catorze horas diárias, de acordo com o estudo
americano. As situações vividas na rede passam, então,
a habitar mais e mais as conversas. É típico o apareci-
mento de olheiras profundas e ainda um ganho de peso
relevante, resultado da frequente troca de refeições por
sanduíches — que prescindem de talheres e liberam uma
das mãos para o teclado. Gradativamente, a vida social
vai se extinguindo. Alerta outra psicóloga: "Se a pessoa
começa a ter mais amigos na rede do que fora dela, é um
sinal claro de que as coisas não vão bem".
Os jovens são, de longe, os mais propensos a extrapolar
o uso da internet. Há uma razão estatística para isso —
eles respondem por até 90% dos que navegam na rede,
a maior fatia —, mas pesa também uma explicação de
fundo mais psicológico, à qual uma recente pesquisa
lança luz. Algo como 10% dos entrevistados (viciados
ou não) chegam a atribuir à internet uma maneira de
"aliviar os sentimentos negativos", tão típicos de uma
etapa em que afloram tantas angústias e conflitos. Narede, os adolescentes sentem-se ainda mais à vontade
para expor suas ideias. Diz um outro psiquiatra: "Num
momento em que a própria personalidade está por se
definir, a internet proporciona um ambiente favorável
para que eles se expressem livremente". No perfil da-
quela minoria que, mais tarde, resvala no vicio se vê,
em geral, uma combinação de baixa autoestima com
intolerância à frustração. Cerca de 50% deles, inclusive,
sofrem de depressão, fobia social ou algum transtorno
de ansiedade. É nesse cenário que os múltiplos usos da
rede ganham um valor distorcido. Entre os que já têm o
vicio, a maior adoração é pelas redes de relacionamen-
to e pelos jogos on-line, sobretudo por aqueles em que
não existe noção de começo, meio ou fim.
Desde 1996, quando se consolidou o primeiro estudo
de relevo sobre o tema, nos Estados Unidos, a depen-
dência em internet é reconhecida — e tratada — como
uma doença. Surgiram grupos especializados por toda
parte. "Muita gente que procura ajuda ainda resiste à
ideia de que essa é uma doença", conta um psicólogo.
O prognóstico é bom: em dezoito semanas de sessões
individuais e em grupo, 80% voltam a niveis aceitá-
veis de uso da internet. Não seria factível, tampouco
desejável, que se mantivessem totalmente distantes
dela, como se espera, por exemplo, de um alcoólatra
em relação à bebida. Com a rede, afinal, descortina-se
32
uma nova dimensão de acesso às informações, à produ-
ção de conhecimento e ao próprio lazer, dos quais, em
sociedades modernas, não faz sentido se privar. Toda a
questão gira em torno da dose ideal, sobre a qual já
existe um consenso acerca do razoável: até duas horas
diárias, no caso de crianças e adolescentes. Quanto an-
tes a ideia do limite for sedimentada, melhor. Na avalia-
ção de uma das psicólogas, "Os pais não devem temer
o computador, mas, sim, orientar os filhos sobre como
usá-lo de forma útil e saudável". Desse modo, reduz-se
drasticamente a possibilidade de que, no futuro, eles
enfrentem o drama vivido hoje pelos jovens viciados.
silvia rogar e JoÃo figueireDo, veJa, 24 De março De 2010. aDaptaDo.
4. (col. naval) Assinale a opção em que a palavra que
não faz referência a um termo que a antecede.
a) "[...] um mal que começa a ganhar relevo estatísti-
co [...]". (1° parágrafo)
b) "[...] o doente desenvolve uma tolerância que, nes-
se caso [...]".(1° parágrafo)
c) "[...] resultado da frequente troca de refeições
por sanduíches - que prescindem de talheres [...]".
(2° parágrafo)
d) "No perfil daquela minoria que, mais tarde, resvala
no vício se vê [...]".(3° parágrafo)
e) "Não seria factível, tampouco desejável, que se
mantivessem totalmente [...]".(4° parágrafo)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
CINZAS DA INQUISIÇÃO
1 Até agora fingíamos que a Inquisição era um episódio
da história europeia, que tendo durado do século XII ao
século XIX, nada tinha a ver com o Brasil. No máximo,
se prestássemos muita atenção, íamos ouvir falar de um
certo Antônio José - o Judeu, um português de origem
brasileira, que foi queimado porque andou escrevendo
umas peças de teatro.
2 Mas não dá mais para escamotear. Acabou de se rea-
lizar um congresso que começou em Lisboa, continuou
em São Paulo e Rio, reavaliando a Inquisição. O ideal
seria que esse congresso tivesse se desdobrado por to-
das as capitais do país, por todas as cidades, que tivesse
merecido mais atenção da televisão e tivesse sacudi-
do a consciência dos brasileiros do Oiapoque ao Chuí,
mostrando àqueles que não podem ler jornais nem fre-
quentar as discussões universitárias o que foi um dos
períodos mais tenebrosos da história do Ocidente. Mas
mostrar isso, não por prazer sadomasoquista, e sim
para reforçar os ideais de dignidade humana e melho-
rar a debilitada consciência histórica nacional.
.......................................................................................
3 Calar a história da Inquisição, como ainda querem al-
guns, em nada ajuda a história de instituições e países.
Ao contrário, isto pode ser ainda um resquício inqui-
sitorial. E no caso brasileiro essa reavaliação é inesti-
mável, porque somos uma cultura que finge viver fora
da história.
4 Por outro lado, estamos vivendo um momento pri-
vilegiado em termos de reconstrução da consciência
histórica. Se neste ano (1987) foi possível passar a
limpo a Inquisição, no ano que vem será necessário
refazer a história do negro em nosso país, a propósito
dos cem anos da libertação dos escravos. E no ano se-
guinte, 1989, deveríamos nos concentrar para rever a
"república" decretada por Deodoro. Os próximos dois
anos poderiam se converter em um intenso período de
pesquisas, discussões e mapeamento de nossa silen-
ciosa história. Universidades, fundações de pesquisa e
os meios de comunicação deveriam se preparar para
participar desse projeto arqueológico, convocando a
todos: "Libertem de novo os escravos", "proclamem
de novo a República".
5 Fazer história é fazer falar o passado e o presente
criando ecos para o futuro.
6 História é o anti-silêncio. É o ruído emergente das lu-
tas, angústias, sonhos, frustrações. Para o pesquisador, o
silêncio da história oficial é um1 silêncio ensurdecedor.
Quando penetra nos arquivos da consciência nacional,
os dados e os feitos berram, clamam, gritam, sangram
pelas prateleiras. Engana-se, portanto, quem julga que
os arquivos são lugares apenas de poeira e mofo. Ali
está pulsando algo. Como num vulcão aparentemente
adormecido, ali algo quer emergir. E emerge. Cedo ou
tarde. Não se destrói totalmente qualquer documenta-
ção. Sempre vai sobrar um herege que não foi queima-
do, um judeu que escapou ao campo de concentração,
um dissidente que sobreviveu aos trabalhos forçados
na Sibéria. De nada adiantou aquele imperador chinês
ter queimado todos os livros e ter decretado que a his-
tória começasse com ele.
7 A história recomeça com cada um de nós, apesar dos
reis e das inquisições.
(Affonso R. de Sant'Anna. A RAIZ QUADRADA DO AB-
SURDO. Rio de Janeiro, Rocco, 1989, p. 196-198.)
5. (Cesgranrio) "O ideal seria QUE esse congresso ti-
vesse se desdobrado por todas as capitais do país, por
todas as cidades, QUE tivesse merecido mais atenção
da televisão e tivesse sacudido a consciência dos bra-
sileiros do Oiapoque ao Chuí, mostrando àqueles QUE
não podem ler jornais nem frequentar as discussões
universitárias o que foi um dos períodos mais tenebro-
sos da história do Ocidente."
Assinale a classificação CORRETA das palavras em des-
taque, respectivamente:
a) pronome relativo / conjunção integrante / conjun-
ção integrante.
b) pronome relativo / conjunção integrante / conjun-
ção consecutiva.
c) conjunção integrante / conjunção integrante / pro-
nome relativo.
d) conjunção integrante / conjunção consecutiva /
conjunção comparativa.
e) conjunção consecutiva / pronome relativo / prono-
me relativo.
33
E.O. ObjEtivAs
(UnEsp, FUvEst, UniCAmp E UniFEsp)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira
(1608-1697), para responder à(s) questão(ões) a seguir.
Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa arma-
da pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse
trazido à sua presença um pirata, que por ali andava
roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexan-
dre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era
medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor,
que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós,
porque roubais em uma armada, sois imperador?”. As-
sim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é gran-
deza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar
com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem
distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a
uns e outros, definiu com o mesmo nome: [...] Se o rei de
Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão
e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo
lugar, e merecem o mesmo nome.
Quando li isto em Sêneca, não meadmirei tanto de
que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma
tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais
me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos
oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos,
ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a
mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que
mais ofendem os reis com o que calam que com o que
disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal
que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cau-
tela com que se cala é argumento de que se ofenderão,
porque lhes pode tocar. [...]
Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não
são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de
sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque
a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado
[...]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao
Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato,
são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera
[...]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Mag-
no], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão
banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais
própria e dignamente merecem este título são aqueles
a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o
governo das províncias, ou a administração das cidades,
os quais já com manha, já com força, roubam e despo-
jam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, es-
tes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo
do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se
furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.
(essencial, 2011.)
1. (Unesp 2018) “[...] os ladrões de que falo não são
aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua for-
tuna condenou a este gênero de vida [...].” (3º parágrafo)
Os termos destacados constituem, respectivamente,
a) um artigo, uma preposição e uma preposição.
b) uma preposição, um artigo e uma preposição.
c) um artigo, um pronome e um pronome.
d) um pronome, uma preposição e um artigo.
e) uma preposição, um artigo e um pronome.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o conto “A moça rica”, de Rubem Braga (1913-
1990), para responder à(s) questão(ões) a seguir.
A madrugada era escura nas moitas de mangue, e eu
avançava no 1batelão velho; remava cansado, com um
resto de sono. De longe veio um 2rincho de cavalo; de-
pois, numa choça de pescador, junto do morro, tremulou
a luz de uma lamparina.
Aquele rincho de cavalo me fez lembrar a moça que eu
encontrara galopando na praia. Ela era corada, forte.
Viera do Rio, sabíamos que era muito rica, filha de um
irmão de um homem de nossa terra. A princípio a olhei
com espanto, quase desgosto: ela usava calças compri-
das, fazia caçadas, dava tiros, saía de barco com os pes-
cadores. Mas na segunda noite, quando nos juntamos
todos na casa de Joaquim Pescador, ela cantou; tinha
bebido cachaça, como todos nós, e cantou primeiro
uma coisa em inglês, depois o Luar do sertão e uma
canção antiga que dizia assim: “Esse alguém que logo
encanta deve ser alguma santa”. Era uma canção triste.
Cantando, ela parou de me assustar; cantando, ela dei-
xou que eu a adorasse com essa adoração súbita, mas
tímida, esse fervor confuso da adolescência – adoração
sem esperança, ela devia ter dois anos mais do que eu. E
amaria o rapaz de suéter e sapato de basquete, que cos-
tuma ir ao Rio, ou (murmurava-se) o homem casado, que
já tinha ido até à Europa e tinha um automóvel e uma co-
leção de espingardas magníficas. Não a mim, com minha
pobre 3flaubert, não a mim, de calça e camisa, descalço,
não a mim, que não sabia lidar nem com um motor de
popa, apenas tocar um batelão com meu remo.
Duas semanas depois que ela chegou é que a encontrei
na praia solitária; eu vinha a pé, ela veio galopando a
cavalo; vi-a de longe, meu coração bateu adivinhando
quem poderia estar galopando sozinha a cavalo, ao lon-
go da praia, na manhã fria. Pensei que ela fosse passar
me dando apenas um adeus, esse “bom-dia” que no in-
terior a gente dá a quem encontra; mas parou, o animal
resfolegando e ela respirando forte, com os seios agita-
dos dentro da blusa fina, branca. São as duas imagens
que se gravaram na minha memória, desse encontro: a
pele escura e suada do cavalo e a seda branca da blusa;
aquela dupla respiração animal no ar fino da manhã.
E saltou, me chamando pelo nome, conversou comigo.
Séria, como se eu fosse um rapaz mais velho do que ela,
um homem como os de sua roda, com calças de “palm-
-beach”, relógio de pulso. Perguntou coisas sobre peixes;
fiquei com vergonha de não saber quase nada, não sa-
bia os nomes dos peixes que ela dizia, deviam ser peixes
de outros lugares mais importantes, com certeza mais
bonitos. Perguntou se a gente comia aqueles cocos dos
34
coqueirinhos junto da praia – e falou de minha irmã, que
conhecera, quis saber se era verdade que eu nadara des-
de a ponta do Boi até perto da lagoa.
De repente me fulminou: “Por que você não gosta de
mim? Você me trata sempre de um modo esquisito...”
Respondi, estúpido, com a voz rouca: “Eu não”.
Ela então riu, disse que eu confessara que não gostava
mesmo dela, e eu disse: “Não é isso.” Montou o cavalo,
perguntou se eu não queria ir na garupa. Inventei que
precisava passar na casa dos Lisboa. Não insistiu, me deu
um adeus muito alegre; no dia seguinte foi-se embora.
Agora eu estava ali remando no batelão, para ir no Seve-
rone apanhar uns camarões vivos para isca; e o relincho
distante de um cavalo me fez lembrar a moça bonita e
rica. Eu disse comigo – rema, bobalhão! – e fui remando
com força, sem ligar para os respingos de água fria, cada
vez com mais força, como se isto adiantasse alguma coisa.
(os melhores contos, 1997.)
1batelão: embarcação movida a remo.
2rincho: relincho.
3flaubert: um tipo de espingarda.
2. (Unesp 2018) “Duas semanas depois que ela chegou
é que a encontrei na praia solitária; eu viajava a pé, ela
veio galopando a cavalo”(4º parágrafo)
Os termos sublinhados constituem, respectivamente,
a) artigo, preposição, artigo.
b) artigo, preposição, preposição.
c) pronome, artigo, artigo.
d) pronome, preposição, preposição.
e) pronome, artigo, preposição.
3. (Fuvest) "É da história do mundo que (1) as elites
nunca introduziram mudanças que (2) favorecessem a
sociedade como um todo. Estaríamos nos enganando
se achássemos que (3) estas lideranças empresariais te-
riam motivação para fazer a distribuição de rendas que
(4) uma nação equilibrada precisa ter."
O vocábulo que está numerado em suas quatro ocorrên-
cias, nas quais se classifica como conjunção integrante e
como pronome relativo. Assinalar a alternativa que re-
gistra a classificação correta em cada caso, pela ordem:
a) 1. pronome relativo, 2. conjunção integrante, 3.
pronome relativo, 4. conjunção integrante;
b) 1. conjunção integrante, 2. pronome relativo, 3.
pronome relativo, 4. conjunção integrante;
c) 1. pronome relativo, 2. pronome relativo, 3. conjun-
ção integrante, 4. conjunção integrante;
d) 1. conjunção integrante, 2. pronome relativo, 3.
conjunção integrante, 4. pronome relativo;
e) 1. pronome relativo, 2. conjunção integrante, 3.
conjunção integrante, 4. pronome relativo.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
As questões a seguir tomam por base o seguinte frag-
mento do diálogo Fedro, de Platão (427-347 a.C.). Fedro
SÓCRATES: – Vamos então refletir sobre o que há pouco
estávamos discutindo; examinaremos o que seja recitar
ou escrever bem um discurso, e o que seja recitar ou
escrever mal.
FEDRO: – Isso mesmo.
SÓCRATES: – Pois bem: não é necessário que o orador
esteja bem instruído e realmente informado sobre a
verdade do assunto de que vai tratar?
FEDRO: – A esse respeito, Sócrates, ouvi o seguinte: para
quem quer tornar-se orador consumado não é indispen-
sável conhecer o que de fato é justo, mas sim o que pa-
rece justo para a maioria dos ouvintes, que são os que
decidem; nem precisa saber tampouco o que é bom ou
belo, mas apenas o que parece tal – pois épela aparência
que se consegue persuadir, e não pela verdade.
SÓCRATES: – Não se deve desdenhar, caro Fedro, da pa-
lavra hábil, mas antes refletir no que ela significa. O que
acabas de dizer merece toda a nossa atenção.
FEDRO: – Tens razão.
SÓCRATES: – Examinemos, pois, essa afirmação.
FEDRO: – Sim.
SÓCRATES: – Imagina que eu procuro persuadir-te a
comprar um cavalo para defender-te dos inimigos, mas
nenhum de nós sabe o que seja um cavalo; eu, porém,
descobri por acaso uma coisa: “Para Fedro, o cavalo é o
animal doméstico que tem as orelhas mais compridas”...
FEDRO: – Isso seria ridículo, querido Sócrates.
SÓCRATES: – Um momento. Ridículo seria se eu tratasse
seriamente de persuadir-te a que escrevesses um pane-
gírico do burro, chamando-o de cavalo e dizendo que
é muitíssimo prático comprar esse animal para o uso
doméstico, bem como para expedições militares; que
ele serve para montaria de batalha, para transportar
bagagens e para vários outros misteres.
FEDRO: – Isso seria ainda ridículo.
SÓCRATES: – Um amigo que se mostra ridículo não é
preferível ao que se revela como perigoso e nocivo?
FEDRO: – Não há dúvida.
SÓCRATES: – Quando um orador, ignorando a natureza
do bem e do mal, encontra os seus concidadãos na mes-
ma ignorância e os persuade, não a tomar a sombra de
um burro por um cavalo, mas o mal pelo bem; quando,
conhecedor dos preconceitos da multidão, ele a impele
para o mau caminho,
– nesses casos, a teu ver, que frutos a retórica poderá
recolher daquilo que ela semeou?
FEDRO: – Não pode ser muito bom fruto.
SÓCRATES: – Mas vejamos, meu caro: não nos teremos
excedido em nossas censuras contra a arte retórica?
Pode suceder que ela responda: “que estais a tagarelar,
homens ridículos?
Eu não obrigo ninguém – dirá ela – que ignore aver-
dade a aprender a falar. Mas quem ouve o meu con-
selho tratará de adquirir primeiro esses conhecimen-
tos acerca da verdade para, depois, se dedicar a mim.
Mas uma coisa posso afirmar com orgulho: sem as
minhas lições a posse da verdade de nada servirá
para engendrar a persuasão”.
35
FEDRO: – E não teria ela razão dizendo isso?
SÓCRATES: – Reconheço que sim, se os argumentos usu-
ais provarem que de fato a retórica é uma arte; mas, se
não me engano, tenho ouvido algumas pessoas atacá-la
e provar que ela não é isso, mas sim um negócio que
nada tem que ver com a arte. O lacônio declara: “não
existe arte retórica propriamente dita sem o conheci-
mento da verdade, nem haverá jamais tal coisa”.
(platÃo. DiÁlogos. porto alegre: eDitora gloBo, 1962.)
4. (Unesp) “... para quem quer tornar-se orador consu-
mado não é indispensável conhecer o que de fato é justo,
mas sim o que parece justo para a maioria dos ouvintes,
que são os que decidem; nem precisa saber tampouco o
que é bom ou belo, mas apenas o que parece tal...”
Neste trecho da tradução da segunda fala de Fedro,
observa-se uma frase com estruturas oracionais recor-
rentes, e por isso plena de termos repetidos, sendo no-
tável, a este respeito, a retomada do demonstrativo o
e do pronome relativo que em o que de fato é justo, o
que parece justo, os que decidem, o que é bom ou belo,
o que parece tal. Em todos esses contextos, o relativo
que exerce a mesma função sintática nas orações de
que faz parte. Indique-a.
a) Sujeito.
b) Predicativo do sujeito.
c) Adjunto adnominal.
d) Objeto direto.
e) Objeto indireto.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o trecho extraído do artigo “Cosmologia, 100”, de
Antonio Augusto Passos Videira e Cássio Leite Vieira,
para responder à(s) questão(ões) a seguir.
“Vou conduzir o leitor por uma estrada que eu mesmo
percorri, árdua e sinuosa.” A frase – que tem algo da es-
sência do hoje clássico A estrada não percorrida (1916),
do poeta norte-americano Robert Frost (1874-1963) –
está em um artigo científico publicado há cem anos,
cujo teor constitui um marco histórico da civilização.
Pela primeira vez, cerca de 50 mil anos depois de o
Homo sapiens deixar uma mão com tinta estampada
em uma pedra, a humanidade era capaz de descrever
matematicamente a maior estrutura conhecida: o Uni-
verso. A façanha intelectual levava as digitais de Albert
Einstein (1879-1955).
Ao terminar aquele artigo de 1917, o físico de origem
alemã escreveu a um colega dizendo que o que pro-
duzira o habilitaria a ser “internado em um hospício”.
Mais tarde, referiu-se ao arcabouço teórico que havia
construído como um “castelo alto no ar”.
O Universo que saltou dos cálculos de Einstein tinha
três características básicas: era finito, sem fronteiras e
estático – o derradeiro traço alimentaria debates e tra-
ria arrependimento a Einstein nas décadas seguintes.
Em “Considerações Cosmológicas na Teoria da Relativi-
dade Geral”, publicado em fevereiro de 1917 nos Anais
da Academia Real Prussiana de Ciências, o cientista
construiu (de modo muito visual) seu castelo usando as
ferramentas que ele havia forjado pouco antes: a teoria
da relatividade geral, finalizada em 1915, esquema teó-
rico já classificado como a maior contribuição intelectu-
al de uma só pessoa à cultura humana.
Esse bloco matemático impenetrável (mesmo para fí-
sicos) nada mais é do que uma teoria que explica os
fenômenos gravitacionais. Por exemplo, por que a Terra
gira em torno do Sol ou por que um buraco negro devo-
ra avidamente luz e matéria.
Com a introdução da relatividade geral, a teoria da gra-
vitação do físico britânico Isaac Newton (1642-1727)
passou a ser um caso específico da primeira, para si-
tuações em que massas são bem menores do que as
das estrelas e em que a velocidade dos corpos é muito
inferior à da luz no vácuo (300 mil km/s).
Entre essas duas obras de respeito (de 1915 e de
1917), impressiona o fato de Einstein ter achado tem-
po para escrever uma pequena joia, “Teoria da Relati-
vidade Especial e Geral”, na qual populariza suas duas
teorias, incluindo a de 1905 (especial), na qual mostra-
ra que, em certas condições, o espaço pode encurtar, e
o tempo, dilatar.
Tamanho esforço intelectual e total entrega ao raciocí-
nio cobraram seu pedágio: Einstein adoeceu, com pro-
blemas no fígado, icterícia e úlcera. Seguiu debilitado
até o final daquela década.
Se deslocados de sua época, Einstein e sua cosmologia
podem ser facilmente vistos como um ponto fora da
reta. Porém, a historiadora da ciência britânica Patri-
cia Fara lembra que aqueles eram tempos de “cosmo-
logias”, de visões globais sobre temas científicos. Ela
cita, por exemplo, a teoria da deriva dos continentes, do
geólogo alemão Alfred Wegener (1880-1930), marcada
por uma visão cosmológica da Terra.
Fara dá a entender que várias áreas da ciência, naque-
le início de século, passaram a olhar seus objetos de
pesquisa por meio de um prisma mais amplo, buscando
dados e hipóteses em outros campos do conhecimento.
folha De s. paulo, 01.01.2017. aDaptaDo.
5. (Unesp) Em “Vou conduzir o leitor por uma estrada
que eu mesmo percorri, árdua e sinuosa.” (1º parágra-
fo), o termo destacado exerce a mesma função sintática
do trecho destacado em:
a) “[...] o derradeiro traço alimentaria debates e
traria arrependimento a Einstein nas décadas seguin-
tes.” (4º parágrafo)
b) “Ela cita, por exemplo, a teoria da deriva dos
continentes [...].” (10º parágrafo)
c) “[...] o cientista construiu (de modo muito visual)
seu castelo usando as ferramentas que ele havia for-
jado pouco antes [...].” (5º parágrafo)
d) “Seguiu debilitado até o final daquela déca-
da.” (9º parágrafo)
e) “Se deslocados de sua época, Einstein e sua
cosmologia podem ser facilmente vistos como um
ponto fora da reta.” (10º parágrafo)
36
gAbAritO
E.O. Aprendizagem
1. B 2. C 3. C 4. B 5. B
6. C 7. C 8. A 9. D 10. D
E.O. Fixação
1. A 2. E 3. D 4. B 5. B
6. E 7. A 8. D 9. A 10. C
E.O. Complementar
1. A 2. A 3. E 4. E 5. C
E.O. Objetivas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. B 2. D 3. D 4. A 5. B
37
POntuaçãO iAULAS
49 e 50
E.O. AprEndizAgEm
TEXTO PARA A PRÓXIMAQUESTÃO:
UM DOADOR UNIVERSAL
Tomo um táxi e mando tocar para o hospital do Ipase.
Vou visitar um amigo que foi operado. O motorista vol-
ta-se para mim:
- O senhor não está doente e agora não é hora de visi-
ta. Por acaso é médico? Ultimamente ando sentindo um
negócio esquisito aqui no lombo...
- Não sou médico.
Ele deu uma risadinha.
- Ou não quer dar uma consulta de graça, hein, doutor?
É isso mesmo, deixa para lá. Para dizer a verdade, não
tem cara de médico. Vai doar sangue.
- Quem, eu?
- O senhor mesmo, quem havia de ser? Não tem mais
ninguém aqui.
- Tenho cara de quem vai doar sangue?
- Para doar sangue não precisa ter cara, basta ter san-
gue. O senhor veja o meu caso, por exemplo. Sempre
tive vontade de doar sangue. E doar mesmo de graça,
ali no duro. Deus me livre de vender meu próprio san-
gue: não paguei nada por ele. Escuta aqui uma coisa,
quer saber o que mais, vou doar meu sangue e é já.
Deteve o táxi à porta do hospital, saltou ao mesmo
tempo que eu, foi entrando:
- E é já. Esse negócio tem de ser assim: a gente sente
vontade de fazer uma coisa, pois então faz e acabou-se.
Antes que seja tarde: acabo desperdiçando esse sangue
meu por aí, em algum desastre. Ou então morro e nin-
guém aproveita. Já imaginou quanto sangue desperdi-
çado por aí nos que morrem?
- E nos que não morrem? - limitei-me a acrescentar.
- Isso mesmo. E nos que não morrem! Essa eu gostei.
Está se vendo que o senhor é moço distinto. Olhe aqui
uma coisa, não precisa pagar a corrida.
Deixei-me ficar, perplexo, na portaria (e ele tinha razão,
não era hora de visitas) enquanto uma senhora recla-
mava seus serviços:
- Meu marido está saindo do hospital, não pode andar
direito...
- Que é que tem seu marido, minha senhora?
- Quebrou a perna.
- Então como é que a senhora queria que ele andas-
se direito?
- Eu não queria. Isto é, queria... Por isso é que estou dizen-
do - confundiu- se a mulher. - O seu táxi não está livre?
- O táxi está livre, eu é que não estou. A senhora vai me
desculpar, mas vou doar sangue. Ou hoje ou nunca.
E gritou para um enfermeiro que ia passando e que nem
o ouviu:
- Você aí, ô, branquinho, onde é que se doa sangue?
Procurei intervir:
- Atenda a freguesa... O marido dela...
- Já sei: quebrou a perna e não pode andar direito.
- Teve alta hoje. - acudiu a mulher, pressentindo simpatia.
- Não custa nada – insisti. - Ele precisa de táxi. A esta
hora...
- Eu queria doar sangue - vacilou ele. - A gente não pode
nem fazer uma caridade, poxa!
- Deixa de fazer uma e faz outra, dá na mesma.
Pensou um pouco, acabou concordando:
- Está bem. Mas então faço o serviço completo: vai de
graça. Vamos embora. Cadê o capenga?
Afastou-se com a mulher, e em pouco passava de novo
por mim, ajudando-a a amparar o marido, que se arras-
tava, capengando.
- Vamos, velhinho: te aguenta aí. Cada uma!
Ainda acenou para mim, de longe, se despedindo.
saBino, fernanDo. um DoaDor universal. Disponível em: <<http://
www.otempo.com.Br/opini%c3%a3o/fernanDo-saBino/fernanDo-
saBino-um-DoaDor-universal-1.538>>. acesso: 08 maio 2017.
1. (IFPE) Releia os excertos seguintes, extraídos do
texto:
I. Não sou médico.
II. Ou não quer dar uma consulta de graça, hein, doutor?
III. Para dizer a verdade, não tem cara de médico.
IV. Para doar sangue não precisa ter cara.
V. Ele tinha razão, não era hora de visitas.
Atentando para o uso da vírgula, assinale a única al-
ternativa que preserva o sentido original expresso pela
frase no texto.
a) Ele tinha razão, não, era hora de visitas.
b) Ou, não, quer dar uma consulta de graça, hein, doutor?
c) Para dizer a verdade, não, tem cara de médico.
d) Para doar sangue, não, precisa ter cara.
e) Sou médico, não.
CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 4, 18, 27 e 29
38
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) a seguir estão relacionadas ao
texto abaixo.
André Devinne procura cultivar a ingenuidade – uma
defesa contra tudo 1o que 2não entende. 3Pressente: há
alguma coisa irresolvida que 4está em parte alguma,
mas os nervos sentem- 1. Quem sabe seja uma espé-
cie de vergonha. Quem sabe o medo enigmático dos
quarenta anos. Certamente não é a angústia de se ver
lavando o carro numa tarde de sábado5, um homem de
sua posição. É até com delicadeza que se entrega ao sol
das três da tarde, agachado, sem camisa, esfregando o
pano sujo no pneu, num ritual disfarçado em que evita
formular seu tranquilo desespero. Assim: ele está numa
guerra, mas por acaso6; de onde está, submerso na in-
genuidade, 7à qual 8se agarra sem saber, não consegue
ver o inimigo. 9Talvez não haja nenhum.
10– Filha, não fique aí no sol sem camisa.
A menina recuou até a sombra. Agachou-se, olhos ne-
gros no pai.
11– Você vai pra praia hoje?
André Devinne contemplou o pneu lavado: um bom tra-
balho.
12– Não sei. Falou com a mãe?
– Ela está pintando.
A filha tem o mesmo olhar da mãe, 13quando Laura, da
janela do ateliê, observa o mar da Barra, transforman-
do aquela estreita faixa de azul acima da Lagoa, numa
outra faixa, de outra cor, mas igualmente suave, na tela
em branco. Um olhar que investiga sem ferir – que pa-
rece, de fato, ver o que está lá.
Devinne espreguiçou-se esticando as pernas14. Largou o
pano imundo no balde, sentou-se e olhou o céu, o hori-
zonte, as duas faixas de mar, o azul da Lagoa, vivendo
momentaneamente o prazer de proprietário. Lembrou-
-se da lição de inglês – It’s a nice day, isn’t it? – e tentou
2 de imediato, mas era tarde: o corpo inteiro se povoou
de lembrança e ansiedade, exigindo explicações. Esta-
va indo bem, a professora era uma mulher competente,
agradável, independente. Talvez justo por isso, ele te-
nha cometido aquela estupidez. Sem pensar, voltou a
cabeça e acenou para Laura, que do janelão do ateliê
respondeu- 3 com um gesto. A filha insistiu:
– Pai, você vai pra praia?
Mudar todos os assuntos.
– Julinha, o que é, o que é? Vive casando 15e está sem-
pre solteiro?
Ela riu.
– Ah, pai. Essa é fácil. O padre!
tezza, c. o fantasma Da infância. rio De
Janeiro: eD. recorD, 2007. p. 9-10.
2. (UFRGS) Considere as seguintes propostas de altera-
ção de sinais de pontuação no texto.
I. Substituição da vírgula da referência 5 por ponto e
vírgula.
II. Substituição do ponto e vírgula da referência 6 por
ponto final.
III. Substituição do ponto final da referência 14 por vírgula.
Desconsiderando eventuais ajustes no emprego de
letras maiúsculas e minúsculas, quais propostas estão
corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e II.
d) Apenas II e III.
e) I, II e III.
3. (Espcex) Leia os versos abaixo e assinale a alterna-
tiva que apresenta o mesmo emprego das vírgulas no
primeiro verso.
“Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,”
(olavo Bilac)
a) “E, ao vir do sol, saudoso e em pranto”
b) “O alvo cristal, a pedra rara,/ O ônix prefiro.”
c) “Acendeu um cigarro, cruzou as pernas, estalou as
unhas,...”
d) “Uns diziam que se matou, outros, que fora para
o Acre.”
e) “Mocidade ociosa, velhice vergonhosa.”
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A MAÇÃ DE OURO
A Apple supera a Microsoft em valor de mercado, pre-
miando o espírito visionário e libertário de Steve Jobs
12A Microsoft e a Apple vieram ao mundo praticamen-
te ao mesmo tempo, em meados dos anos 1970, criadas
na garagem de jovens estudantes. Mas as empresas não
trilharam caminhos paralelos. A Microsoft desenvolveu
o sistema operacional mais popular do mundo e rapi-
damente se tornou uma das maiores corporações ame-
ricanas, rivalizando com gigantes da velha indústria. A
Apple, ao contrário, demorou a decolar. 14Fazia produtos
inovadores, mas que vendiam pouco. 4Isso começou a
mudar quando Steve Jobs, um de seus fundadores, 6que
fora afastado nos anos 80, assumiu o comando criativo
da empresa, em 1996. 11A Apple estava à beira da falên-
cia e só ganhou sobrevida porque recebeu um 10aporte
de 150 milhões de dólares de Microsoft. Jobs iniciou o
lançamento de produtos 8genuinamenterevolucionários
nas áreas que mais crescem na indústria de tecnologia.
Primeiro com o iPod e a loja virtual iTunes. Depois vieram
o iPhone e, agora, o iPad. Desde o início de 2005, o pre-
ço das ações da empresa foi multiplicado por oito. 3Na
semana passada, a Apple alcançou o cume. 15Tornou-se
a companhia de tecnologia mais valiosa do mundo, su-
perando a Microsoft. 13Na sexta-feira, a empresa de Jobs
tinha valor de mercado de 233 bilhões de dólares, contra
226 bilhões de dólares da companhia de Bill Gates.
2A Marca, para além da disputa pessoal entre os 7maio-
res gênios da nova economia, coroa a estratégia defi-
39
nida por Jobs. Quando ele retornou à Apple, tamanha
era a descrença no futuro da empresa que Michael Dell,
fundador da Dell, afirmou que o melhor a fazer era fe-
char as portas e devolver o dinheiro a 5seus acionistas.
Hoje, a Dell vale um décimo da Apple. 1O mérito de Jobs
foi ter a 9presciência do rumo que o mercado tomaria.
Barrucho, luís guilherme & tsuBoi, larissa. a maçà De
ouro. in: revista veJa, 02 De Jun. 2010, p.187. aDaptaDo.
4. (Epcar (Afa) Assinale a alternativa em que o uso da
vírgula se dá pela mesma razão da que se percebe no
trecho abaixo.
“A Microsoft e a Apple vieram ao mundo praticamente
ao mesmo tempo, em meados dos anos 1970, criadas
na garagem de jovens estudantes.” (ref. 12)
a) “A Marca, para além da disputa pessoal entre os
maiores gênios da economia, coroa a estratégia defi-
nida por Jobs.” (ref. 2)
b) “Na sexta-feira, a empresa de Jobs tinha valor de
mercado de 233 bilhões de dólares, contra 226 bi-
lhões de dólares...” (ref. 13)
c) “... Fazia produtos inovadores, mas que vendiam
pouco.” (ref. 14)
d) “Tornou-se a companhia de tecnologia mais valio-
sa do mundo, superando a Microsoft.” (ref. 15)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
CAPÍTULO 48
Conclusão feliz
[...]
Passado o tempo indispensável do luto, o Leonardo, em
uniforme de Sargento de Milícias, recebeu-se na Sé com
Luisinha, assistindo à cerimônia a família em peso.
Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Se-
guiu-se a morte de Dona Maria, a do Leonardo-Pataca,
e uma enfiada de acontecimentos tristes que poupare-
mos aos leitores, fazendo aqui o ponto final.
almeiDa, manuel antonio De. memórias De um sargento
De milícias. rio De Janeiro: eDiouro, p. 121.
5. (Udesc) Nas alterações da frase “o Leonardo, em uni-
forme de Sargento de Milícias, recebeu-se na Sé com
Luisinha”, uma das alternativas apresenta incorreção
quanto ao emprego formal da vírgula, bem como alte-
ração de sentido em relação à frase original. Assinale-a.
a) Em uniforme de Sargento de Milícias, o Leonardo
encontrou-se na Sé com Luisinha.
b) O Leonardo, encontrou-se na Sé com Luisinha em
uniforme de Sargento de Milícias.
c) Encontrou-se na Sé, e em uniforme de Sargento de
Milícias, o Leonardo com Luisinha.
d) Na Sé, e em uniforme de Sargento de Milícias, o
Leonardo encontrou-se com Luisinha.
e) Encontrou-se o Leonardo, em uniforme de Sargen-
to de Milícias, na Sé com Luisinha.
6. (Espm) Assinale a frase que apresente o melhor uso
das vírgulas:
a) Com o desenvolvimento econômico a participação
dos serviços sofisticados, aumenta e, em consequên-
cia, a participação da indústria de transformação cai.
b) Com o desenvolvimento econômico, a participação
dos serviços sofisticados aumenta, e em consequên-
cia, a participação da indústria de transformação cai.
c) Com o desenvolvimento econômico, a participação
dos serviços sofisticados aumenta, e, em consequên-
cia, a participação da indústria de transformação cai.
d) Com o desenvolvimento econômico, a participação
dos serviços sofisticados aumenta, e, em consequên-
cia a participação da indústria de transformação cai.
e) Com o desenvolvimento econômico, a participação
dos serviços sofisticados aumenta e em consequên-
cia, a participação da indústria de transformação, cai.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) a seguir está(ao) relacionada(s) ao
texto abaixo.
É preciso estabelecer uma distinção radical entre um
“brasil” escrito com letra minúscula, nome de um tipo
de madeira de lei 1ou de uma feitoria interessada em
explorar uma terra como outra qualquer2, 3e o Brasil
que designa um povo, uma 4nação, um conjunto de va-
lores, escolhas e ideais de vida. O “brasil” com b minús-
culo é apenas um objeto sem vida5, pedaço de coisa que
morre e não tem a menor condição de 6se reproduzir
como sistema. 7Mas o Brasil com B maiúsculo é algo
muito mais complexo.
Estamos interessados em responder esta pergunta: afi-
nal de contas, o que faz o brasil, BRASIL? Note-se que
se trata de uma pergunta relacional que, tal como faz
a própria sociedade brasileira, quer juntar e não dividir.
Queremos, 8isto sim, descobrir como é que eles se ligam
entre 9si10; como é que cada um depende do outro; e
11como os dois formam uma realidade única que existe
concretamente naquilo que chamamos de “12pátria”.
13Se a condição humana determina que todos os ho-
mens devem comer, dormir, trabalhar, reproduzir-se e
rezar, essa determinação não chega ao ponto de especi-
ficar também qual comida ingerir, de que modo produ-
zir e para quantos deuses 14ou espíritos rezar. É precisa-
mente aqui, nessa espécie de zona indeterminada, mas
necessária, que nascem as diferenças e, nelas, os estilos,
os modos de ser e estar; os “15jeitos” de cada grupo
humano. 16Trata-se, sempre, da questão de identidade.
Como se constrói uma identidade social? Como um povo
se transforma em Brasil? 17A pergunta, 18na sua discreta
singeleza, permite descobrir algo muito importante. É
que, no meio de uma multidão de experiências dadas
a todos os homens e sociedades, algumas necessárias
à própria sobrevivência – como comer, dormir, morrer,
reproduzir-se etc. – outras acidentais ou históricas –, 19o
Brasil ter sido descoberto por portugueses e não por
chineses, a geografia do Brasil ter certas características,
falarmos 20português e não 21francês, a família real ter
se transferido para o Brasil no início do século XIX etc.
40
–, cada sociedade (e cada ser humano) apenas se utiliza
de um número limitado de “22coisas” (e de experiên-
cias) 23para se construir como algo único.
24Nessa perspectiva, a chave para entender a 25socie-
dade brasileira é uma 26chave dupla. 27E, 28para mim, a
capacidade relacional — do antigo com o moderno – ti-
pifica e singulariza a sociedade brasileira. Será preciso,
29portanto, discutir o Brasil como uma 30moeda. Como
algo que tem dois lados. 31E mais: como uma realida-
de que nos tem 32iludido, precisamente porque 33nunca
lhe propusemos esta questão relacional e reveladora:
afinal de contas, como se ligam as duas faces de uma
mesma moeda? O que faz o 34brasil, 35Brasil?
aDaptaDo De: Damatta, r. o que faz o Brasil,
Brasil? a questÃo Da iDentiDaDe.
in:_____. o que faz o Brasil, Brasil? rio De
Janeiro: rocco, 1986. p. 9-17.
7. (Ufrgs) Considere as seguintes propostas de altera-
ção de sinais de pontuação no texto.
I. Supressão da vírgula na referência 2.
II. Substituição da vírgula na referência 5 por travessão.
III. Substituição do ponto e vírgula na referência 10 por
ponto final.
Desconsiderando eventuais ajustes no emprego de
letras maiúsculas e minúsculas, quais propostas estão
corretas, no contexto do parágrafo em que ocorrem?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e III.
d) Apenas II e III.
e) I, II e III.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto abaixo e responda à(s) questão(ões).
Leitura - leituras: quando ler (bem) é preciso
“[...] Alguns leitores ao lerem estas frases (poesia cita-
da) não compreenderam logo. Creio mesmo é impossível
compreender inteiramente à primeira leitura pensamen-
tos assim esquematizados sem uma certa prática.”
mÁrio De anDraDe – artista
“Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.”
mÁrio De anDraDe – lunDuDo escritor Difícil
No eterno criar e recriar da atividade verbal, a criati-
vidade, a semanticidade, a intersubjetividade, a mate-
rialidade e a historicidade são propriedades essenciais
da linguagem, indispensáveis a todos os atos da fala,
sejam eles presente, passados ou futuros.
Porém, é a atividade semântica que intermedeia a co-
nexão dos seres humanos com o mundo dos objetos, es-
tabelecendo a relação entre o EU e o Universo, e, junto
com a alteridade (relação do EU com o Outro, de cará-
ter interlocutivo), permite a identificação da linguagem
como tal, pois a linguagem existe não apenas para sig-
nificar, mas significar alguma coisa para o outro.
A semanticidade possibilita o indivíduo conceber e re-
velar as coisas pertencentes ao mundo do real e da ima-
ginação. Logo, é ao mesmo tempo significação, modo
de conceber, ou melhor, uma configuração linguística de
conhecimento, uma organização verbal do pensamento,
e designação ou referência, aplicação dos conceitos às
coisas extralinguísticas. [...].
No processo de leitura do texto, para que o leitor se apro-
prie desse(s) sentido(s), é necessário que ele domine não
apenas o código linguístico, mas também compartilhe
bagagem cultural, vivências, experiências, valores, corre-
lacione os conhecimentos construídos anteriormente (de
gênero e de mundo, entre outros) com as novas informa-
ções expressas no texto; faça inferências e comparações;
compreenda que o texto não é uma estrutura fechada,
acabada, pronta; perceba as significações, as intenciona-
lidades, os dialogismos, o não dito, os silêncios.
Em resumo, é fundamental que, por meio de uma série
de contribuições, o interlocutor colabore para a constru-
ção do conhecimento. Assim, ler não significa traduzir um
sentido já considerado pronto, mas interagir com o outro
(o autor), aceitando, ou não, os propósitos do interlocutor.
profª marina cezar – revista villegagnon.
ano iv. nº 4. 2009 – texto aDaptaDo.
8. (Esc. Naval) No trecho a seguir.
“No eterno criar e recriar da atividade verbal, a criativi-
dade, a semanticidade, a intersubjetividade, a materia-
lidade e a historicidade são propriedades essenciais da
linguagem [...]” (1º parágrafo)
Assinale a opção em que o comentário acerca do uso
dos sinais de pontuação está correto, tendo em vista a
norma-padrão.
a) A primeira vírgula separa o sujeito do restante da
frase, as demais separam os apostos.
b) As vírgulas separam, respectivamente, um adjunto
adverbial a termos de mesma função sintática.
c) Todas as vírgulas poderiam ser retiradas, pois não
há necessidade de pausas no trecho.
d) É igualmente correto usar ponto e vírgula no lugar
de cada vírgula presente no trecho.
e) Pode-se usar um travessão no lugar da primeira
vírgula e manter as demais sem prejuízo.
9. (Espcex (Aman)) Marque a opção que justifica a colo-
cação do ponto e vírgula e da vírgula utilizados por José
de Alencar no período.
“Depois Iracema quebrou a flecha homicida; deu a haste
ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.”
a) O ponto e vírgula indica citação e a vírgula indica
locução.
b) O ponto e vírgula separa oração coordenada e a
vírgula separa oração reduzida.
41
c) O ponto e vírgula indica citação e a vírgula separa
termos da oração.
d) O ponto e vírgula separa oração coordenada e a
vírgula marca mudança de sujeito.
e) O ponto e vírgula indica enumeração e a vírgula
separa termos da oração.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
O homem deve reencontrar o Paraíso...
Rubem Alves
Era uma família grande, todos amigos. Viviam como to-
dos nós: moscas presas na enorme teia de aranha que
é a vida da cidade. Todos os dias a aranha que é a vida
da cidade. Todos os dias a aranha lhes arrancava um
pedaço. Ficaram cansados. Resolveram mudar de vida:
um sonho louco: navegar! Um barco, o mar, o céu, as
estrelas, os horizontes sem fim: liberdade. Venderam o
que tinham, compraram um barco capaz de atravessar
mares e sobreviver tempestades.
Mas para navegar não basta sonhar. É preciso saber.
São muitos os saberes necessários para se navegar.
Puseram-se então a estudar cada um aquilo que teria
de fazer no barco: manutenção do casco, instrumentos
de navegação, astronomia, meteorologia, as velas, as
cordas, as polias e roldanas, os mastros, o leme, os pa-
rafusos, o motor, o radar, o rádio, as ligações elétricas,
os mares, os mapas... Disse cero o poeta: Navegar é
preciso, a ciência da navegação é saber preciso, exige
aparelhos, números e medições. Barcos se fazem com
precisão, astronomia se aprende com o rigor da geome-
tria, velas se fazem com saberes exatos sobre tecidos,
cordas e ventos, instrumentos de navegação não infor-
mam mais ou menos. Assim, eles se tornaram cientistas,
especialistas, cada um na sua – juntos para navegar.
Chegou então o momento de grande decisão – para
onde navegar. Um sugeria as geleiras do sul do Chile,
outro os canais dos fiordes da Noruega, um outro que-
ria conhecer os exóticos mares e praias das ilhas do
Pacífico, e houve mesmo quem quisesse navegar nas
rotas de Colombo. E foi então que compreenderam que,
quando o assunto era a escolha do destino, as ciências
que conheciam para nada serviam.
De nada valiam, tabelas, gráficos, estatísticas. Os com-
putadores, coitados, chamados a dar seu palpite, fica-
ram em silêncio. Os computadores não têm preferên-
cias – falta-lhes essa sutil capacidade de gostar, que é a
essência da vida humana. Perguntados sobre o porto de
sua escolha, disseram que não entendiam a pergunta,
que não lhes importava para onde se estava indo.
Se os barcos se fazem com ciência, a navegação faz-se
com sonhos. Infelizmente a ciência, utilíssima, especia-
lista em saber como as coisas funcionam, tudo ignora
sobre o coração humano. É preciso sonhar para se decidir
sobre o destino da navegação. Mas o coração humano,
lugar dos sonhos, ao contrário da ciência, é coisa precio-
sa. Disse certo poeta: Viver não é preciso. Primeiro vem
o impreciso desejo. Primeiro vem o impreciso desejo de
navegar. Só depois vem a precisa ciência de navegar.
Naus e navegação têm sido uma das mais poderosas
imagens na mente dos poetas. Ezra Pound inicia seus
Cânticos dizendo: E pois com a nau no mar/ assestamos
a quilho contra as vagas... Cecília Meireles: Foi, desde
sempre, o mar! A solidez da terra, monótona/ parece-nos
fraca ilusão! Queremos a ilusão do grande mar / multipli-
cada em suas malhas de perigo. E Nietzsche: Amareis a
terra de vossos filhos, terra não descoberta, no mar mais
distante. Que as vossas velas não se cansem de procurar
esta terra! O nosso leme nos conduz para a terra dos nos-
sos filhos... Viver é navegar no grande mar!
Não só os poetas: C. Wright Mills, um sociólogo sábio,
comparou a nossa civilização a uma galera que navega
pelos mares. Nos porões estão os remadores. Remam
com precisão cada vez maior. A cada novo dia recebem
novos, mais perfeitos. O ritmo da remadas acelera. Sa-
bem tudo sobre a ciência do remar. A galera navega cada
vez mais rápido. Mas, perguntados sobre o porto do des-
tino, respondem os remadores: O porto não nos importa.
O que importada é a velocidade com que navegamos.
C Wright Mills usou esta metáfora para descrever a nos-
sa civilização por meio duma imagem plástica: multipli-
cam-se os meios técnicos e científicos ao nosso dispor,
que fazem com que as mudanças sejam cada vez mais
rápidas; mas não temos ideia alguma de para onde na-
vegamos. Para onde? Somente um navegador louco ou
perdido navegaria sem ter ideia do para onde. Em re-
lação à vida da sociedade, ela contém a busca de uma
utopia. Utopia, na linguagem comum, é usada como so-
nho impossível de ser realizado. Mas não é isso. Utopia
é um ponto inatingível que indica uma direção.
Mário Quintana explicou a utopia com um verso: Se as
coisas são inatingíveis... ora!/ não é um motivo para
não querê-las... Que tristes os caminho, se não fora/ A
mágica presença das estrelas! Karl Mannheim, outro
sociólogo sábio quepoucos leem, já na década de 1920
diagnosticava a doença da nossa civilização: Não temos
consciência de direções, não escolhemos direções. Fal-
tam-nos estrelas que nos indiquem o destino.
Hoje, ele dizia, as únicas perguntas que são feitas, de-
terminadas pelo pragmatismo da tecnologia (o impor-
tante é produzir o objeto) e pelo objetivismo da ciência
(o importante é saber como funciona), são: Como pos-
so fazer tal coisa? Como posso resolver este problema
concreto em particular? E conclui: E em todas essas
perguntas sentimos o eco intimista: não preciso de me
preocupar com o todo, ele tomará conta de si mesmo.
Em nossas escolas é isso que se ensina: a precisa ciência
da navegação, sem que os estudantes sejam levados a
sonhar com as estrelas. A nau navega veloz e sem rumo.
Nas universidades, essa doença assume a forma de pes-
te epidêmica: cada especialista se dedica com paixão e
competência, a fazer pesquisas sobre o seu parafuso,
sua polia, sua vela, seu mastro.
Dizem que seu dever é produzir conhecimento. Se fo-
rem bem-sucedidas, suas pesquisas serão publicadas
em revistas internacionais. Quando se lhes pergunta:
Para onde seu barco está navegando?, eles respondem:
Isso não é científico. Os sonhos não são objetos de co-
nhecimento científico.
42
E assim ficam os homens comuns abandonados por
aqueles que, por conhecerem mares e estrelas, lhes po-
deriam mostrar o rumo. Não posso pensar a missão das
escolas, começando com as crianças e continuando com
os cientistas, como outra que não a da realização do
dito poeta: Navegar é preciso. Viver não é preciso.
É necessário ensinar os precisos saberes da navegação
enquanto ciência. Mas é necessário apontar com impre-
cisos sinais para os destinos da navegação: A terra dos
filhos dos meus filhos, no mar distante... Na verdade,
a ordem verdadeira é a inversa. Primeiro, os homens
sonham com navegar. Depois aprendem a ciência da na-
vegação. É inútil ensinar a ciência da navegação a quem
mora nas montanhas.
O meu sonho para a educação foi dito por Bachelard: O
universo tem um destino de felicidade. O homem deve
reencontrar o Paraíso. O paraíso é o jardim, lugar de fe-
licidade, prazeres e alegrias para os homens e mulheres.
Mas há um pesadelo que me atormenta: o deserto. Hou-
ve um momento em que se viu, por entre as estrelas, um
brilho chamado progresso. Está na bandeira nacional...
E, quilha contra as vagas, a galera navega em direção
ao progresso, a uma velocidade cada vez maior, e nin-
guém questiona a direção. E é assim que as florestas
são destruídas, os rios se transformam em esgotos de
fezes e veneno, o ar se enche de gases, os campos se
cobrem de lixo – e tudo ficou feio e triste.
Sugiro aos educadores que pensem menos nas tecnolo-
gias do ensino – psicologias e quinquilharias – e tratem
de sonhar, com os seus alunos, sonhos de um Paraíso.
Obs.: O texto foi adaptado às regras do Novo Acordo
Ortográfico.
10. (Efomm 2018) Nos fragmentos que se seguem, é
possível a presença de uma vírgula, EXCETO no frag-
mento da alternativa
a) É necessário ensinar os precisos saberes da nave-
gação enquanto ciência.
b) Infelizmente a ciência, utilíssima, especialista em
saber ‘como as coisas funcionam’, tudo ignora sobre
o coração humano.
c) Em nossas escolas é isso que se ensina: a precisa
ciência da navegação, sem que os estudantes sejam
levados a sonhar com as estrelas.
d) Primeiro, os homens sonham com navegar. Depois
aprendem a ciência da navegação.
e) Todos os dias a aranha lhes arrancava um pedaço.
Ficaram cansados.
E.O. FixAçãO
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Noruega como Modelo de Reabilitação de Criminosos
O Brasil é responsável por uma das mais altas taxas
de reincidência criminal em todo o mundo. No país, a
taxa média de reincidência (amplamente admitida, mas
nunca comprovada empiricamente) é de mais ou menos
70%, ou seja, 7 em cada 10 criminosos voltam a come-
ter algum tipo de crime após saírem da cadeia.
Alguns perguntariam "Por quê?". E eu pergunto: "Por
que não?" O que esperar de um sistema que propõe
reabilitar e reinserir aqueles que cometerem algum tipo
de crime, mas nada oferece, para que essa situação re-
almente aconteça? Presídios em estado de depredação
total, pouquíssimos programas educacionais e laborais
para os detentos, praticamente nenhum incentivo cul-
tural, e, ainda, uma sinistra cultura (mas que diverte
muitas pessoas) de que bandido bom é bandido morto
(a vingança é uma festa, dizia Nietzsche).
Situação contrária é encontrada na Noruega. Considerada
pela ONU, em 2012, o melhor país para se viver (1º no
ranking do IDH) e, de acordo com levantamento feito pelo
Instituto Avante Brasil, o 8º país com a menor taxa de ho-
micídios no mundo, lá o sistema carcerário chega a rea-
bilitar 80% dos criminosos, ou seja, apenas 2 em cada 10
presos voltam a cometer crimes; é uma das menores taxas
de reincidência do mundo. Em uma prisão em Bastoy, cha-
mada de ilha paradisíaca, essa reincidência é de cerca de
16% entre os homicidas, estupradores e traficantes que
por ali passaram. Os EUA chegam a registrar 60% de rein-
cidência e o Reino Unido, 50%. A média europeia é 50%.
A Noruega associa as baixas taxas de reincidência ao
fato de ter seu sistema penal pautado na reabilitação
e não na punição por vingança ou retaliação do crimi-
noso. A reabilitação, nesse caso, não é uma opção, ela
é obrigatória. Dessa forma, qualquer criminoso poderá
ser condenado à pena máxima prevista pela legislação
do país (21 anos), e, se o indivíduo não comprovar estar
totalmente reabilitado para o convívio social, a pena
será prorrogada, em mais 5 anos, até que sua reintegra-
ção seja comprovada.
O presídio é um prédio, em meio a uma floresta, decora-
do com grafites e quadros nos corredores, e no qual as
celas não possuem grades, mas sim uma boa cama, ba-
nheiro com vaso sanitário, chuveiro, toalhas brancas e
porta, televisão de tela plana, mesa, cadeira e armário,
quadro para afixar papéis e fotos, além de geladeiras.
Encontra-se lá uma ampla biblioteca, ginásio de espor-
tes, campo de futebol, chalés para os presos receberem
os familiares, estúdio de gravação de música e oficinas
de trabalho. Nessas oficinas são oferecidos cursos de
formação profissional, cursos educacionais, e o traba-
lhador recebe uma pequena remuneração. Para contro-
lar o ócio, oferecer muitas atividades, de educação, de
trabalho e de lazer, é a estratégia.
A prisão é construída em blocos de oito celas cada (al-
guns dos presos, como estupradores e pedófilos, ficam
em blocos separados). Cada bloco tem sua cozinha. A
comida é fornecida pela prisão, mas é preparada pelos
próprios detentos, que podem comprar alimentos no
mercado interno para abastecer seus refrigeradores.
Todos os responsáveis pelo cuidado dos detentos de-
vem passar por no mínimo dois anos de preparação
para o cargo, em um curso superior, tendo como obriga-
ção fundamental mostrar respeito a todos que ali estão.
Partem do pressuposto que, ao mostrarem respeito, os
outros também aprenderão a respeitar.
43
A diferença do sistema de execução penal norueguês em
relação ao sistema da maioria dos países, como o bra-
sileiro, americano, inglês, é que ele é fundamentado na
ideia de que a prisão é a privação da liberdade, e pautado
na reabilitação e não no tratamento cruel e na vingança.
O detento, nesse modelo, é obrigado a mostrar progres-
sos educacionais, laborais e comportamentais, e, dessa
forma, provar que pode ter o direito de exercer sua li-
berdade novamente junto à sociedade.
A diferença entre os dois países (Noruega e Brasil) é a
seguinte: enquanto lá os presos saem e praticamente
não cometem crimes, respeitando a população, aqui os
presos saem roubando e matando pessoas. Mas essas
são consequências aparentemente colaterais, porque
a população manifesta muito mais prazer no massacre
contra o preso produzido dentro dos presídios (a vin-
gança é uma festa, dizia Nietzsche).
luiz flÁvio gomes, Jurista,Diretor-presiDente Do instituto
avante Brasil e coeDitor Do portal atualiDaDesDoDireito.
com.Br. estou no BlogDolfg.com.Br.
** colaBorou flÁvia mestriner Botelho, socióloga
e pesquisaDora Do instituto avante Brasil.
fonte: aDaptaDo De http://institutoavanteBrasil.com.Br/
noruega-como-moDelo-De-reaBilitacao-De-criminosos/.
acessaDo em 17 De março De 2017.
1. (Espcex (Aman) 2018) Assinale a alternativa em que
o emprego da vírgula é opcional.
a) "Partem do pressuposto que, ao mostrarem respei-
to, os outros também aprenderão a respeitar."
b) "O detento é obrigado a mostrar progressos, para
provar que pode ser reincluído na sociedade."
c) "Os EUA chegam a registrar 60% de reincidência,
o Reino Unido, 50%."
d) "Para controlar o ócio, oferecer muitas atividades
de educação é a estratégia."
e) "Cada bloco contém uma cozinha, comida forneci-
da pela prisão e preparada pelos presos."
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
Com a expressão vita activa, pretendo designar três ati-
vidades humanas fundamentais: 1labor, trabalho e ação.
Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma
delas corresponde uma das condições básicas mediante
as quais a vida foi dada ao homem na Terra.
O labor é a atividade que corresponde ao processo
biológico do corpo humano, 2cujos crescimento espon-
tâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com
as necessidades vitais produzidas e introduzidas pelo
labor no processo da vida. A condição humana do la-
bor é a própria vida.
3O trabalho é a atividade correspondente ao artificia-
lismo da existência humana, existência esta não neces-
sariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e
cuja mortalidade não é compensada por este último. O
trabalho produz um mundo “artificial” de coisas, nitida-
mente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro
de suas fronteiras habita cada vida individual, embora
esse mundo se destine a sobreviver e a transcender to-
das as vidas individuais. A condição humana do traba-
lho é a mundanidade.
A ação, única atividade que se exerce diretamente entre
os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, cor-
responde à condição humana da pluralidade, ao fato de
que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o
mundo. Todos os aspectos da condição humana têm algu-
ma relação com a política; mas esta pluralidade é especifi-
camente a condição – não apenas a conditio sine qua non,
mas a conditio per quam – de toda a vida política. Assim,
o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que
conhecemos – empregava como sinônimas as expressões
“viver” e “estar entre os homens” (inter homines esse),
ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter
homines esse desinere). Mas, em sua forma mais elemen-
tar, a condição humana da ação está implícita até mesmo
em Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos
que esta versão da criação do homem diverge, em prin-
cípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou
o Homem (adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a
pluralidade dos seres humanos vem a ser o resultado da
multiplicação4. A ação seria um luxo desnecessário, uma
caprichosa interferência com as leis gerais do comporta-
mento, se os homens não passassem de repetições inter-
minavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas
dotadas da mesma natureza e essência, tão previsíveis
quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de
sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que nin-
guém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha
existido, exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm ínti-
ma relação com as condições mais gerais da existência
humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mor-
talidade. O labor assegura não apenas a sobrevivência
do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e seu
produto, o artefato humano, emprestam certa perma-
nência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao
caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida
em que se empenha em fundar e preservar corpos po-
líticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para
a história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm
também raízes na natalidade, na medida em que sua ta-
refa é produzir e preservar o mundo para o constante
influxo de recém-chegados que vêm a este mundo na
qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais
intimamente relacionada com a condição humana da
natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento
pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-
-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto
é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades
humanas possuem um elemento de ação e, portanto, de
natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode
constituir a categoria central do pensamento político, em
contraposição ao pensamento metafísico.
44
A condição humana compreende algo mais que as
condições nas quais a vida foi dada ao homem. Os ho-
mens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual
eles entram em contato torna-se imediatamente uma
condição de sua existência. O mundo no qual transcor-
re a vita activa consiste em coisas produzidas pelas
atividades humanas; mas, constantemente, as coisas
que devem sua existência exclusivamente aos homens
também condicionam os seus autores humanos. Além
das condições nas quais a vida é dada ao homem na
Terra e, até certo ponto, a partir delas, os homens
constantemente criam as suas próprias condições que,
a despeito de sua variabilidade e sua origem huma-
na, possuem a mesma força condicionante das coisas
naturais. O que quer que toque a vida humana ou en-
tre em duradoura relação com ela, assume imediata-
mente o caráter de condição da existência humana. É
por isso que os homens, independentemente do que
façam, são sempre seres condicionados. Tudo o que
espontaneamente adentra o mundo humano, ou para
ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da
condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como
força condicionante. A objetividade do mundo – o seu
caráter de coisa ou objeto – e a condição humana
complementam-se uma à outra; por ser uma existên-
cia condicionada, a existência humana seria impossí-
vel sem as coisas, e estas seriam um amontoado de
artigos incoerentes, um não mundo, se esses artigos
não fossem condicionantes da existência humana.
arenDt, hannah. a conDiçÃo humana. traDuçÃo
De roBerto raposo: eDitora Da universiDaDe De sÃo
paulo, 1981. pp. 15-17 (texto aDaptaDo).
4Quando se analisa o pensamento político pós-clás-
sico, muito se pode aprender verificando-se qual das
duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é tí-
pico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de
Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo
a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis
1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde
o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), en-
quanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que
a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para
o homem”, embora em seguida atenue um pouco a
dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mu-
lher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica
muito mais que uma atitude diferente em relação ao
papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente re-
lacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se,
antes de mais nada, com a salvação. Especialmente in-
teressante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei
xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que
é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o
homem e o animal no fato de ter sido o homem criado
unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais
que “passassem a existir vários de uma só vez” (plu-
ra simul iussit existere). Para Agostinho,a história da
criação constitui boa oportunidade para salientar-se
o caráter de espécie da vida animal, em oposição à
singularidade da existência humana.
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo
para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar
sentado quase sem se mexer por duas horas. Se pergun-
tado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou
fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque
os espertos só se lembram de sair por meio da esperte-
za, e 1o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe
vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os esper-
tos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos
_____I_____ espertezas alheias que se descontraem
diante dos bobos, e estes os veem como simples pesso-
as humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para
viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto,
muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
_____II_____ desvantagem, obviamente. Uma boba,
por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido
para _____III_____ compra de um ar refrigerado de se-
gunda mão: ele disse que o aparelho era novo, pratica-
mente sem uso porque se mudara para a Gávea onde
é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo se-
quer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estra-
gado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar
outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo
é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo,
enquanto o esperto não dorme à noite com medo de
ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estôma-
go. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem:
pode receber uma punhalada de quem menos espera.
É uma das tristezas que o bobo não prevê. César termi-
nou dizendo a célebre frase: "2Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar
todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria
morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fa-
zem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como
toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não con-
seguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros.
Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventura-
dos os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie.
Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais _____IV_____ pessoas
serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo,
com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo.
Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
3Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por
cima das casas. É quase impossível evitar o excesso de
amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de
excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
lispector, clarice. Das vantagens De ser BoBo.
Disponível em: http://www.revistapazes.com/Das-vantagens-
De-ser-BoBo/. acesso em 10 De maio De 2017.
originalmente puBlicaDo no Jornal Do Brasil em 12 De setemBro De
45
2. (IME 2018) Marque a opção em que a regra usada
para a colocação das vírgulas é a mesma encontrada no
trecho abaixo destacado:
(…) cujos crescimento espontâneo, metabolismo e
eventual declínio têm a ver com as necessidades vitais
produzidas e introduzidas pelo labor no processo da
vida (A condição humana, referência 2).
a) (…) labor, trabalho e ação (A condição humana,
referência 1).
b) O trabalho é a atividade correspondente ao arti-
ficialismo da existência humana, existência esta não
necessariamente contida no eterno ciclo vital da es-
pécie (…) (A condição humana, referência 3).
c) o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe
vem a ideia (Das vantagens de ser bobo, referência 1).
d) Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por
cima das casas (Das vantagens de ser bobo, referência 3).
e) "Até tu, Brutus?" (Das vantagens de ser bobo, re-
ferência 2).
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia este texto para responder à(s) questão(ões) a seguir.
SAUDADE DE ESCREVER
Apesar da concorrência (internet, celular), a carta conti-
nua firme e forte. Basta uma folha de papel, selo, caneta
e envelope para que uma pessoa do Rio Grande do Norte,
por exemplo, fique por dentro das fofocas registradas por
um amigo em São Paulo, dois dias depois. “Adoro receber
cartas, fico super ansiosa para descobrir o que está escri-
to”, conta Lívia Maria, de 9 anos. Mas ela admite que faz
tempo que não escreve nenhuma cartinha. “As últimas fo-
ram para a Angélica e para um dos programas do Gugu.”
Isabela, de 9 anos, lembra que, quando morava em
Curitiba, no Paraná, trocava correspondência com sua
amiga Raquel, que vive em Belo Horizonte, Minas Ge-
rais. “Eu ficava sabendo das novidades e não gastava
dinheiro com telefonemas.”
Já Amanda, de 10 anos, também gosta de receber car-
tinhas, mas prefere enviar e-mails. “Atualmente estou
conversando com meu primo que está nos Estados Uni-
dos via computador, já que a mensagem chega mais
rápido e não pago interurbano.”
tourrucco, Juliana. sauDaDe De escrever. o estaDo De
sÃo paulo, p.5, 25 Jul.1998. suplemento infantil.
3. (ifal 2018) O adjunto adverbial vem, normalmente,
no final da frase, mas ele pode aparecer em outra po-
sição, basta que se indique esse deslocamento com a
vírgula. A colocação inadequada do adjunto adverbial,
porém, poderá prejudicar a compreensão da frase. É o
que acontece na fala da Amanda, no texto. Das cinco
reestruturações apresentadas nas alternativas a seguir,
uma continua com problema. Marque-a.
a) Atualmente, via computador, estou conversando
com meu primo que está nos Estados Unidos.
b) Atualmente estou, via computador, conversando
com meu primo que está nos Estados Unidos.
c) Atualmente estou conversando, via computador,
com meu primo que está nos Estados Unidos.
d) Atualmente estou conversando com meu primo, via
computador, que está nos Estados Unidos.
e) Via computador, atualmente estou conversando
com meu primo que está nos Estados Unidos.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) refere(m)-se ao texto a seguir:
TEXTO
Proibido para menores de 50 anos. Nos últimos meses,
em meio ao debate sobre as reformas na Previdência,
um ponto acabou despertando a atenção. Afinal, existem
empregos para quem tem mais de 50 anos? Pendurar as
chuteiras nem sempre é fácil. Às vezes, pode significar
uma quebra tão grande na rotina que afeta até mesmo o
emocional. Foi a partir de uma experiência familiar nes-
ta linha que o paulistano Mórris Litvak criou a startup
MaturiJobs. Trata-se de uma agência virtual de empregos,
especializada em profissionais com mais de 50 anos.
(revista isto é Dinheiro. mercaDo De traBalho. maio/2017. p. 6.)
4. (Ita 2018) “Nos últimos meses, em meio ao deba-
te sobre as reformas na Previdência, um ponto acabou
despertando a atenção.” Na frase transcrita, as vírgulas
foram utilizadas para
a) realçar a escrita formal em contraste à escrita informal.
b) separar um termo complementar da oração principal.
c) marcar a sobreposição de várias informações in-
tercaladas.
d) indicar o deslocamento da informação secundária
em relação à principal.
e) antecipar o tempo e o espaço físico da informação
principal.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) a seguir está(ão) relacionada(s) ao
texto abaixo.
1– Temos sorte de viver no Brasil – dizia meu pai, depois
da guerra. – Na Europa 2mataram 3milhões de judeus.
Contava as 4experiências que 5os médicos nazistas fa-
ziam com os prisioneiros. Decepavam-lhes as cabeças,
faziam-nas encolher – à maneira, li depois, dos índios
Jivaros. 6Amputavam pernas e braços. Realizavam es-
tranhos transplantes: uniam a metade superior de um
homem _____1_____ metade inferior de uma mulher,
ou aos quartos traseiros de um bode. 7Felizmente 8mor-
riam 9essas atrozes quimeras; 10expiravam como seres
humanos, não eram obrigadas a viver como aberrações.(_____2_____ essa altura eu tinha os olhos cheios de
lágrimas. Meu pai pensava 11que a descrição das malda-
des nazistas me deixava comovido.)
12Em 1948 13foi proclamado 14o Estado de Israel. Meu
pai abriu uma garrafa de vinho – o melhor vinho do
armazém –, brindamos ao acontecimento. E não saía-
mos de perto do rádio, acompanhando _____3_____
46
notícias da guerra no Oriente Médio. Meu pai estava
entusiasmado com o novo Estado: em Israel, explicava,
vivem judeus de todo o mundo, judeus brancos da Eu-
ropa, judeus pretos da África, judeus da Índia, isto sem
falar nos beduínos com seus camelos: tipos muito es-
quisitos, Guedali.
Tipos esquisitos – aquilo me dava ideias. Por que não
ir para Israel? 15Num país de gente tão estranha – e,
16ainda por cima, em guerra – eu certamente não cha-
maria a atenção. Ainda menos como combatente, entre
a poeira e a fumaça dos incêndios. Eu me via correndo
pelas ruelas de uma aldeia, empunhando um revólver
trinta e oito, atirando sem cessar; eu me via caindo,
17varado de balas. 18Aquela, sim, era a 19morte que eu
almejava, morte heroica, esplêndida justificativa para
uma vida miserável, de monstro 20encurralado. E, caso
não morresse, poderia viver depois num kibutz . Eu, que
conhecia tão bem a vida numa fazenda, teria muito a
fazer ali. Trabalhador dedicado, os membros do kibutz
terminariam por me aceitar; numa nova sociedade há
lugar para todos, mesmo os de patas de cavalo.
aDaptaDo De: scliar, m. o centauro no JarDim.
9. eD. porto alegre: l&pm, 2001.
5. (Ufrgs 2018) Assinale a proposta de mudança no em-
prego de vírgula que mantém a correção e o sentido do
enunciado original.
a) Colocação de vírgula imediatamente após expe-
riências (ref. 4).
b) Colocação de vírgula imediatamente após Feliz-
mente (ref. 7).
c) Colocação de vírgula imediatamente após que (ref. 11).
d) Colocação de vírgula imediatamente após país
(ref. 15).
e) Colocação de vírgula imediatamente após morte
(ref. 19).
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Texto 1
HÁ ESCRITORES QUE SE QUEIXAM, MAS ESCREVER SÓ
ME TRAZ ALEGRIA
Passei dois anos escrevendo o livro que acabo de termi-
nar. 1A tarefa não foi realizada em tempo integral, mas
nos momentos livres que ainda me restam.
Há escritores que precisam de silêncio, solidão e am-
biente adequado para a prática do ofício. 2Se fosse
esperar por essas condições teria demorado 20 anos
para publicá-lo, tempo de vida de que não disponho,
infelizmente.
Por força da necessidade, aprendi a escrever em qual-
quer lugar em que haja espaço para sentar com o com-
putador.
Por exemplo, nas salas de embarque durante as viagens
de bate-e-volta que sou obrigado a fazer. Consigo me
concentrar apesar das vozes esganiçadas que anunciam
os voos, os atrasos, as trocas de portões, a ordem nas
filas, os nomes dos retardatários.
Os avisos vêm aos berros como se fossem destinados
a uma horda de deficientes auditivos; mal termina
um, começa outro. Suspeito de uma conspiração das
companhias aéreas contra a integridade dos tímpa-
nos dos passageiros.
3Embora com dificuldade, sou capaz de escrever no
meio daqueles idiotas que xingam as secretárias pelo
celular, alguns dos quais o fazem andando nervosamen-
te de um lado para outro, 4com a intenção declarada
de atazanar o maior número possível de circunstantes.
São executivos de terno que empregam adjetivos for-
tes: incompetente, burra, ignorante. Escutei um deles
dizer: "Contratei você para cumprir ordens, se fosse
para pensar escolhia outra pessoa". Nunca os ouvi
chegar perto desse tom ao falar com o chefe, ocasiões
identificáveis pela voz melosa e submissa.
Mal o avião levanta voo, puxo a mesinha e abro o com-
putador. Estou nas nuvens, às portas do paraíso celes-
tial. O telefone não vai tocar, ninguém me cobrará o
texto que prometi, a presença na palestra para a qual
fui convidado, os e-mails atrasados, nenhum ser huma-
no me pedirá para apoiar um projeto e não descobrirei
que me incluíram num grupo de WhatsApp em que os
300 participantes dão bom dia uns aos outros.
Já escrevi por 13 horas consecutivas num voo de volta
da Ásia. Num retorno de Salvador, escrevi uma coluna
como está sentado na primeira fila, ao lado de um bebê
com dor de ouvido que chorou sem dar um minuto de
trégua. Só ficou quietinho, quando o comandante anun-
ciou que o pouso em Guarulhos fora autorizado.
Minha carreira de escritor começou com "Estação Ca-
randiru", publicado quando eu tinha 56 anos. Foi tão
grande o prazer de contar aquelas histórias, que senti
ódio de mim mesmo por ter vivido meio século sem
escrever livros.
A dificuldade vinha da timidez e da autocrítica. Para
mim, o que eu escrevesse seria fatalmente comparado
com Machado de Assis, Gógol, Faulkner, Joyce, Pushkin,
Turgenev, Dante Alighieri. Depois do que disseram esses
e outros gênios, que livro valeria a pena ser escrito?
A resposta encontrei em "On Writing", que reúne en-
trevistas e textos de Ernest Hemingway sobre o ato de
escrever. Em conversa com um estudante, Hemingway
diz que ao escritor de nossos tempos cabem duas alter-
nativas: escrever melhor do que os grandes mestres já
falecidos ou contar histórias que nunca foram contadas.
De fato, se eu escrevesse melhor do que Machado de As-
sis, poderia recriar personagens como Dom Casmurro ou
descrever com mais poesia o olhar de ressaca de Capitu.
Restava a outra alternativa: a vida numa cadeia com
mais de 7.000 presidiários, na cidade de São Paulo, nas
últimas décadas do século 20, não poderia ser descrita
por Tchékhov, Homero ou pelo padre Antonio Vieira. O
médico que atendia pacientes no Carandiru havia dez
anos era quem reunia as condições para fazê-lo.
Seguindo o mesmo critério, publiquei outros livros. Às
cotoveladas, a literatura abriu espaço em minha agen-
da. Há escritores talentosos que se queixam dos tor-
mentos e da angústia inerentes ao processo de criação.
Não é o meu caso, escrever só me traz alegria.
47
Diante da tela do computador, fico atrás das palavras, en-
contro algumas, apago outras, corrijo, leio e releio até sen-
tir que o texto está pronto. Às vezes, ficou melhor do que
eu imaginava. Nesse momento sou invadido por uma sen-
sação de felicidade plena que vai e volta por vários dias.
Drauzio varella
Disponível em:http://www1.folha.uol.com.Br/colunas/
Drauziovarella/2017/05/1883616-ha-escritores-que-se-queixam-
mas-escrever-so-me-traz-alegria.shtml acesso em 18 De ago 2017.
TEXTO 2
Nove manias adotadas por grandes autores mundiais
na hora de escrever
Antonio Prata, escritor e colunista da Folha, precisa de
silêncio. E prefere digitar numa cadeira dobrável, com o
notebook no colo. Quando viaja, inclusive, despacha o
apetrecho nas bagagens. Mas quando o transporte não
é possível... “Eu escrevo em qualquer canto, desde que,
sim, haja algum silêncio”.
(...)
Uma vez começado um livro, o escritor francês Alexan-
dre Dumas, autor de clássicos como “Os Três Mosque-
teiros”, trabalhava dia após dia, noite após noite, sem
cessar, até ver concluído o trabalho. Também não admi-
tia interrupção, fosse lá de quem fosse...
(...)
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.Br/
ilustraDa/2016/07/1795149-no-Dia-nacional-Do-
escritor-conheca-manias-e-costumes-De-granDes-
autores.shtml acesso em 20 De ago De 2017.
6. (ifsul 2018) As vírgulas nos períodos abaixo foram
empregadas pelo mesmo motivo, EXCETO em:
a) Consigo me concentrar apesar das vozes esgani-
çadas que anunciam os voos, os atrasos, as trocas de
portões, a ordem nas filas, os nomes dos retardatários.
b) São executivos de terno que empregam adjetivos
fortes: incompetente, burra, ignorante.
c) O telefone não vai tocar, ninguém me cobrará o
texto que prometi, a presença na palestra para a qual
fui convidado, os e-mails atrasados, nenhum ser hu-
mano me pedirá para apoiar um projeto e não desco-
brirei que me incluíram num grupo de WhatsApp em
que os 300 participantes dão bom dia uns aos outros.
d) Num retorno de Salvador, escreviuma coluna como
está sentado na primeira fila, ao lado de um bebê com
dor de ouvido que chorou sem dar um minuto de trégua.
7. (Espcex (Aman) Marque a alternativa correta quan-
to ao emprego da vírgula, de acordo com as normas
gramaticais.
a) Ele pediu, ao motorista que parasse no hotel.
b) A vida como diz o ditado popular é breve.
c) Da sala eu vi sem ser visto todo o crime acontecendo.
d) Atletas de várias nacionalidades, participarão da
maratona.
e) Meus olhos, devido à fumaça intensa, ardiam muito.
8. (ESPM) A reivindicação do massacre na Charlie Hebdo
pela facção da al-Qaeda na Península Arábica recoloca
em primeiro plano um movimento afastado da mídia pe-
los sucessos militares da Organização do Estado Islâmico.
le monDe Diplomatique Brasil, 04.02.2016.
Das afirmações abaixo sobre o uso da vírgula, assinale
a única correta:
a) o segmento “pela facção da al-Qaeda na Penínsu-
la Arábica” é um adjunto adnominal e deveria estar
entre vírgulas.
b) poderia haver uma vírgula após o sujeito “A reivin-
dicação do massacre na Charlie Hebdo”.
c) deveria haver uma vírgula após o objeto direto “um
movimento afastado”.
d) deveria haver uma vírgula após a forma verbal “re-
coloca”.
e) o segmento “em primeiro plano” é um adjunto
adverbial intercalado e poderia estar entre vírgulas.
9. (EEAR) De acordo com o significado de cada senten-
ça, marque a opção que apresenta erro em relação à
presença ou ausência da vírgula.
a) Eu que não sou o dono da verdade sei que o se-
nhor está certo.
b) Maria foi a pessoa rara que escolheu a casa dos
pais.
c) Meu avô Tobias, que foi meu modelo de pai, fale-
ceu quando eu era menino.
d) Dona Jorgina, que dedicou-se inteiramente ao
trabalho aos outros, era muito respeitada pelos mais
novos da família.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto abaixo e responda à(s) questão(ões).
A PIPOCA
ruBem alves
A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até
atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competen-
te com as palavras que com as panelas. Por isso tenho
mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me
a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”.
Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo
da cozinha: cebolas, ora-pro-nóbis, picadinho de carne
com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas,
churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um
livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme
A festa de Babette, que é uma celebração da comida
como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limita-
ções e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi
como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – porque a
culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam
a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretan-
to, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer so-
nhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca,
milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma
48
simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimen-
sões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás,
conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca.
E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas
ideias começaram a estourar como pipoca. Percebi, en-
tão, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pen-
sar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que
estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca
se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto
poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu
pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles
das pipocas dentro de uma panela.
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca
tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, reli-
giosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e
o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque
vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho
devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir
juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a
Mãe Stella, sábia poderosa do candomblé baiano: que a
pipoca é a comida sagrada do candomblé...
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse
eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos
graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu fi-
caria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é
que, sob o ponto de vista do tamanho, os milhos da
pipoca não podem competir com os milhos normais.
Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que hou-
ve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e
colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que
assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
Havendo fracassado a experiência com água, tentou a
gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter
imaginado. Repentinamente os grãos começaram a es-
tourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira.
Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os
grãos duros quebra-dentes se transformavam em flo-
res brancas e macias que até as crianças podiam comer.
O estouro das pipocas se transformou, então, de uma
simples operação culinária, em uma festa, brincadeira,
molecagem, para os risos de todos, especialmente as
crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E o que é que isso tem a ver com o candomblé? É que
a transformação do milho duro em pipoca macia é sím-
bolo da grande transformação porque devem passar os
homens para que eles venham a ser o que devem ser.
O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser
aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pi-
poca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para
comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente,
nos transformar em outra coisa − voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a
ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com
a gente. As grandes transformações acontecem quando
passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do
mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mes-
mice e dureza assombrosas. Só que elas não percebem.
Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos
lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode
ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar
doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo
de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofri-
mentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos
remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui.
E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela,
lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua
hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura,
fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino
diferente. Não pode imaginar a transformação que está
sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que
ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a
grande transformação acontece: pum! − e ela aparece
como uma outra coisa, completamente diferente, que
ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante
e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está
representado pela morte e ressurreição de Cristo: a
ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso
deixar de ser de um jeito para ser de outro. “Morre e
transforma-te!” − dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando so-
bre os piruás com os paulistas descobri que eles igno-
ram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era go-
zação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a
ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu
conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que
se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário
professor-pesquisador da Unicamp, especializou-se em
milhos, e desvendou cientificamente o assombro do es-
touro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação
científicapara os piruás. Mas, no mundo da poesia as
explicações científicas não valem. Por exemplo: em Mi-
nas “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não
conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta,
lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder me-
tafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas
pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam
a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais
maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito
de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á.” A sua
presunção e o seu medo são a dura casca do milho que
não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras
a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca
macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o
estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os
piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que
voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma
grande brincadeira...
Disponível em http://www.releituras.com/ruBemalves_pipoca.asp.
acessaDo em 31 De mai. 2016.
Obs.: O texto foi adaptado às regras do Novo Acordo
Ortográfico.
10. (Efomm) Em todos os períodos que se seguem há a
possibilidade de colocação de vírgula, EXCETO em
49
a) A sua presunção e o seu medo são a dura casca do
milho que não estoura.
b) Repentinamente os grãos começaram a estourar,
saltavam da panela com uma enorme barulheira.
c) Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está
representado pela morte e ressurreição de Cristo (...)
d) Com certeza ele tem uma explicação científica para
os piruás.
e) De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar.
E.O. COmplEmEntAr
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
MAIS QUE ORWELL, HUXLEY PREVIU NOSSO TEMPO
hélio gurovitz
Publicado em 1948, o livro 1984, de George Orwell, saltou
para o topo da lista dos mais vendidos (...) 1A distopia de
Orwel, mesmo situada no futuro, tinha um endereço certo
em seu tempo: o stalinismo. (...) 2O mundo da “pós-verda-
de”, dos “fatos alternativos” e da anestesia intelectual
nas redes sociais mais parece outra distopia, publicada
em 1932: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.
3Não se trata de uma tese nova. Ela foi levantada pela
primeira vez em 1985, num livreto do teórico da comu-
nicação americano Neil Postman: Amusing ourselves to
death (4Nos divertindo até morrer), relembrado por seu
filho Andrew em artigo recente no The Guardian. “Na vi-
são de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão
para despojar a população de autonomia, maturidade ou
história”, escreveu Postman. “Ela acabaria amando sua
opressão, adorando as tecnologias que destroem sua
capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibi-
riam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para
proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse
lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de infor-
mação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que sería-
mos reduzidos à passividade e ao egoísmo. 5Orwell temia
que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse
afogada num mar de irrelevância.”
6No futuro pintado por Huxley, (...) não há mães, pais ou
casamentos. O sexo é livre. A diversão está disponível
na forma de jogos esportivos, cinema multissensorial e
de uma droga que garante o bem-estar sem efeito cola-
teral: o soma. Restaram na Terra dez áreas civilizadas e
uns poucos territórios selvagens, onde 7grupos nativos
ainda preservam costumes e tradições primitivos, como
família ou religião. “O mundo agora é estável”, diz um
líder civilizado. “As pessoas são felizes, têm o que dese-
jam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se
bem, estão em segurança; nunca adoecem; 8não têm
medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão
e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e
mães; 9não têm esposas, nem filhos, nem amantes por
quem possam sofrer emoções violentas; são condicio-
nadas de tal modo que praticamente não podem deixar
de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa
andar mal, há o soma.”
10Para chegar à estabilidade absoluta, foi necessário abrir
mão da arte e da ciência. “A felicidade universal mantém
as engrenagens em funcionamento regular; a verdade e a
beleza são incapazes de fazê-lo”, diz o líder. “Cada vez que
as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais
que a verdade e a beleza, o que importava.” A verdade é
considerada uma ameaça; a ciência e a arte, perigos pú-
blicos. Mas não é necessário esforço totalitário para con-
trolá-las. Todos aceitam de bom grado, fazem “qualquer
sacrifício em troca de uma vida sossegada” e de sua dose
diária de soma. “Não foi muito bom para a verdade, sem
dúvida. Mas foi excelente para a felicidade.”
No universo de Orwell, a população é controlada pela
dor. No de Huxley, pelo prazer. “Orwell temia que nossa
ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que
amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz
ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença
entre discurso sério e entretenimento. (...) O alvo de Post-
man, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter
imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz
de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da
palavra impressa. 11O computador só engatinhava, e Post-
man mal poderia prever como celulares, tablets e redes
sociais se tornariam – bem mais que a TV – o soma con-
temporâneo. Mas suas palavras foram prescientes: “O que
afligia a população em Admirável mundo novo não é que
estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam
do que estavam rindo, nem tinham parado de pensar”.
aDaptaDo, revista época nº 973 – 13 De fevereiro De 2017, p. 67.
Distopia = Pensamento, filosofia ou processo discursivo
caracterizado pelo totalitarismo,
autoritarismo e opressivo controle da sociedade, repre-
sentando a antítese de utopia.
(Bechara, e. DicionÁrio Da língua portuguesa. 1ª eD. rio
De Janeiro: eDitora nova fronteira, 2011, p. 533).
1. (Epcar (Afa) 2018) Assinale a alternativa em que a
análise dos termos presentes no excerto abaixo está de
acordo com o que prescreve a Gramática Normativa da
Língua Portuguesa.
“A distopia de Orwell, mesmo situada no futuro, tinha
um endereço certo em seu tempo: o stalinismo.” (ref. 1)
a) O período é composto por três orações, sendo duas
subordinadas e uma coordenada.
b) “... mesmo situada no futuro...” é classificada
como oração subordinada adverbial temporal redu-
zida de particípio.
c) “... o stalinismo” é um aposto que se refere ao
termo imediato que o antecede – “seu tempo”.
d) As vírgulas servem para isolar a oração subordinada
adverbial que está inserida em sua oração principal.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto a seguir e responda à(s) questão(ões).
PROMESSA CONTRA SINAIS DA IDADE
1O tempo passa, e com ele os sinais da idade vão se
espalhando pelo nosso organismo. Entre eles, os mais
50
evidentes 2ficam estampados em nossa pele, e rostos,
na forma de rugas, flacidez e perda de elasticidade. Um
estudo publicado ontem no periódico científico Journal
of Investigative Dermatology, no entanto, identificou
um mecanismo molecular em células da pele que pode
estar por trás deste processo, abrindo caminho para o
desenvolvimento de novos tratamentos para, se não
impedir, pelo menos retardar o envelhecimento delas e,
talvez, as de outros tecidos e órgãos do corpo.
Na pesquisa, cientistas da Universidade de Newcastle,
no Reino Unido, analisaram amostras de células da pele
de vinte e sete doadores com entre seis e anos, tiradas
de locais protegidos do Sol, para determinar se havia
alguma diferença no seu comportamento com a idade.
3Eles verificaram que, quanto mais velha a pessoa, me-
nor era a atividade de suas mitocôndrias, as “4usinas
de energia” de nossas células. 5Essa queda, porém, 6era
esperada, já que há décadas a redução na capacidade
de geração de energia por essas 7organelas celulares e
na sua eficiência neste trabalho com otempo é uma das
principais vertentes nas teorias sobre envelhecimento.
/.../
Baima, césar. o gloBo, 27 De fev. 2016, p. 24.
2. (Epcar (Afa)) Observe o uso da vírgula nos trechos
abaixo destacados:
I. “O tempo passa, e com ele os sinais da idade vão se
espalhando...” (ref. 1)
II. “... ficam estampados em nossa pele, e rostos, na for-
ma...” (ref. 2)
III. “Eles verificaram que, quanto mais velha a pessoa,
menor era a atividade de suas mitocôndrias...” (ref. 3)
IV. “Essa queda, porém, era esperada...” (ref. 5)
V. “... era esperada, já que há décadas a redução na ca-
pacidade de geração de energia...” (ref. 6)
Assinale a opção que apresenta uma análise correta.
a) No fragmento I, o uso da vírgula é facultativo, ten-
do em vista que introduz uma oração coordenada
sindética aditiva.
b) A vírgula foi utilizada nos excertos II e III pelo mes-
mo motivo: isolar termos explicativos.
c) O uso da vírgula, em IV, justifica-se pela presença
de um termo interferente.
d) A presença de oração subordinada adverbial, no
fragmento V, justifica o uso da vírgula.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A doença do amor
Luiz Felipe Pondé
Existe de fato amor romântico? Esta é uma pergunta
que ouço quando, em sala de aula, estamos a discutir
questões como literatura romântica dos séculos 18 e
19. 1Quando o público é composto de pessoas mais
maduras, a tendência é um certo ceticismo, muitas ve-
zes elegante, apesar de trazer nele a marca eterna do
desencanto.
Quando o público é mais 2jovem há uma tendência
maior de crença no amor romântico. 3Alguns diriam que
4essa crença é típica da idade jovem e inexperiente, as-
sim como crianças creem em Papai Noel.
Mas, em matéria de amor romântico, melhor ainda do
que ir em busca da literatura dos séculos 18 e 19 é ir 5à
fonte primária 6: a literatura europeia medieval, verda-
deira fonte do amor romântico. A literatura conhecida
como amor cortês.
Especialistas no assunto, como o suíço Denis de Rouge-
mont, suspeitavam que a literatura medieval criou uma
verdadeira expectativa neurótica no Ocidente sobre o
que seria o amor romântico em nossas vidas concre-
tas, fazendo com que 7sonhássemos com algo que, na
verdade, nunca existiu como experiência universal. 8Dos
castelos da Provence francesa do século 12 ao cinema
de Hollywood, teríamos perdido o verdadeiro sentido
do amor medieval, que seria uma doença da qual deve-
mos fugir como o diabo da cruz.
Para além dos céticos e crentes, a literatura medieval de
amor cortês é marcante pela sua descrição do que seria
esse pathos amoroso. Uma doença, uma verdadeira des-
graça para quem fosse atingindo em seu coração por ta-
manha tristeza. André Capelão, autor da época (Tratado
do Amor Cortês, ed. Martins Fontes), sintetiza esse amor
como sendo uma 9"doença do pensamento". Doença
essa que podemos descrever como uma forma de obses-
são em saber o que ela está pensando, o que ela está
fazendo nessa exata hora em que penso nela, com o que
ela sonha à noite, como é seu corpo por baixo da roupa
que a veste, o desejo incontrolável de ouvir sua voz, de
sentir seu perfume. Mas a doença avança: sentir o gosto
da sua boca, beijá-10la por horas a fio.
11Mas, quando em público, jamais deixe ninguém saber
que se amam. Capelão chega a supor que desmaios fe-
mininos poderiam ser indicativos de que a infeliz es-
taria em presença de seu desgraçado objeto de amor
inconfessável. A inveja dos outros pelos amantes, ape-
sar de 12condenados a 13tristeza pela interdição sempre
presente nas narrativas (casados com outras pessoas,
detentores de responsabilidades públicas e privadas),
se dá pelo fato que se trata de uma doença encantado-
ra quando correspondida.
Nada é mais forte do que o desejo de estar com alguém
a quem você se sente ligado, mesmo que a milhares de
quilômetros de distância, sem poder trocar um único
olhar ou toque com ela.
O erro dos modernos românticos teria sido a ilusão de
que esses medievais imaginariam o amor romântico
numa escala universal e capaz de 14conviver com um
apartamento de dois quartos, pago em cem anos.
Não, o amor cortês seria algo que deveríamos temer
justamente por seu caráter intempestivo e avassalador.
Sempre fora do casamento, teria contra ele a condena-
ção da norma social ou religiosa que, aos poucos, 15le-
varia as suas vítimas à destruição, psicológica ou física.
Para os medievais, um homem arrebatado por esse
amor tomaria decisões que destruiriam seu patrimônio.
A mulher perderia sua reputação. Ambos viriam, neces-
51
sariamente, a morrer por conta desse amor, fosse ele
em batalha, por obrigação de guerreiro, fosse fugindo
do horror de trair seu melhor amigo com sua até en-
tão fiel esposa. Ela morreria eventualmente de tristeza,
vergonha e solidão num convento, buscando a paz de
espírito há muito perdida. A distância física, social ou
moral, proibindo a realização plena desse desejo inces-
sante como tortura cotidiana.
O poeta mexicano Octavio Paz, que dedicou alguns tex-
tos ao tema, entendia que a literatura medieval descre-
via o embate entre virtude e desejo, sendo a desgraça
dos apaixonados a maldição de ter que 16pôr medida
nesse desejo 17(nesse amor fora do lugar), em meio à
insuportável culpa de estar doente de amor.
texto aDaptaDo. foi puBlicaDo em 16 De maio De
2016 na folha De s. paulo. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.Br/colunas/
luizfelipeponDe/2016/05/1771569-a-Doenca-Do-
amor.shtml>. acesso em: 21 set. 2016.
3. (ifsul) No que diz respeito ao emprego dos sinais de
pontuação, é correto afirmar que
a) falta uma vírgula depois de jovem (ref. 2) para separar
a oração subordinada adverbial anteposta à principal.
b) os dois-pontos presentes na referência 6 têm por
finalidade sinalizar uma enumeração de itens.
c) as aspas utilizadas na expressão doença do pensa-
mento (ref. 9) indicam ironia.
d) os parênteses presentes na referência 17 isolam
um exemplo de desejo pelo amado.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
O anjo Rafael
machaDo De assis
Cansado da vida, descrente dos homens, desconfiado
das mulheres e aborrecido dos credores, 1o dr. Antero
da Silva determinou um dia despedir-se deste mundo.
Era pena. O dr. Antero contava trinta anos, tinha saúde,
e podia, se quisesse, fazer uma bonita carreira. Verdade
é que para isso fora necessário proceder a uma comple-
ta reforma dos seus costumes. Entendia, porém, o nosso
herói que o defeito não estava em si, mas nos outros;
cada pedido de um credor inspirava-lhe uma apóstrofe
contra a sociedade; julgava conhecer os homens, por ter
tratado até então com alguns bonecos sem consciência;
pretendia conhecer as mulheres, quando apenas havia
praticado com meia dúzia de regateiras do amor.
O caso é que o nosso herói determinou matar-se, e para
isso foi à casa da viúva Laport, comprou uma pistola e
entrou em casa, que era à rua da Misericórdia.
Davam então quatro horas da tarde.
O dr. Antero disse ao criado que pusesse o jantar na mesa.
– A viagem é longa, disse ele consigo, e eu não sei se há
hotéis no caminho.
Jantou com efeito, tão tranquilo como se tivesse de ir
dormir a sesta e não o último sono. 2O próprio criado
reparou que o amo estava nesse dia mais folgazão que
nunca. Conversaram alegremente durante todo o jantar.
No fim dele, quando o criado lhe trouxe o café, Antero
proferiu paternalmente as seguintes palavras:
3– Pedro, tira de minha gaveta uns cinquenta mil-réis
que lá estão, são teus. Vai passar a noite fora e não vol-
tes antes da madrugada.
– Obrigado, meu senhor, respondeu Pedro.
– Vai.
Pedro apressou-se a executar a ordem do amo.
O dr. Antero foi para a sala, estendeu-se no divã, abriu
um volume do Dicionário filosófico e começou a ler.
Já então declinava a tarde e aproximava-se a noite. A lei-
tura do dr. Antero não podia ser longa. Efetivamente daí a
algum tempo levantou-se o nosso herói e fechou o livro.
Uma fresca brisa penetrava na sala e anunciava uma
agradável noite. Corria então o inverno, aquele benigno
invernoque os fluminenses têm a ventura de conhecer
e agradecer ao céu.
4O dr. Antero acendeu uma vela e sentou-se à mesa para
escrever. 5Não tinha parentes, nem amigos a quem dei-
xar carta; entretanto, não queria sair deste mundo sem
dizer a respeito dele a sua última palavra. Travou da
pena e escreveu as seguintes linhas:
Quando um homem, perdido no mato, vê-se cercado de
animais ferozes e traiçoeiros, procura fugir se pode. De
ordinário a fuga é impossível. Mas estes animais meus
semelhantes tão traiçoeiros e ferozes como os outros,
tiveram a inépcia de inventar uma arma, mediante a
qual um transviado facilmente lhes escapa das unhas.
É justamente o que vou fazer.
Tenho ao pé de mim uma pistola, pólvora e bala; com
estes três elementos reduzirei a minha vida ao nada.
Não levo nem deixo saudades. Morro por estar enjoado
da vida e por ter certa curiosidade da morte.
Provavelmente, quando a polícia descobrir o meu cadá-
ver, os jornais escreverão a notícia do acontecimento, e
um ou outro fará a esse respeito considerações filosó-
ficas. Importam-me bem pouco as tais considerações.
Se me é lícito ter uma última vontade, quero que estas
linhas sejam publicadas no Jornal do Commercio. Os ri-
madores de ocasião encontrarão assunto para algumas
estrofes.
O dr. Antero releu o que tinha escrito, corrigiu em al-
guns lugares a pontuação, fechou o papel em forma de
carta, e pôs-lhe este sobrescrito: Ao mundo.
Depois carregou a arma; e, para rematar a vida com um
traço de impiedade, a bucha que meteu no cano da pis-
tola foi uma folha do Evangelho de S. João.
Era noite fechada. O dr. Antero chegou-se à janela, res-
pirou um pouco, olhou para o céu, e disse às estrelas:
– Até já.
E saindo da janela acrescentou mentalmente:
– Pobres estrelas! Eu bem quisera lá ir, mas com certeza
hão de impedir-me os vermes da terra. Estou aqui, e
estou feito um punhado de pó. É bem possível que no
futuro século sirva este meu invólucro para macadami-
zar a rua do Ouvidor. Antes isso; ao menos terei o prazer
de ser pisado por alguns pés bonitos.
52
Ao mesmo tempo que fazia estas reflexões, lançava
mão da pistola, e olhava para ela com certo orgulho.
6– Aqui está a chave que me vai abrir a porta deste cár-
cere, disse ele.
7Depois sentou-se numa cadeira de braços, pôs as per-
nas sobre a mesa, à americana, firmou os cotovelos, e
segurando a pistola com ambas as mãos, meteu o cano
entre os dentes.
Já ia disparar o tiro, quando ouviu três pancadinhas à
porta. Involuntariamente levantou a cabeça. Depois de
um curto silêncio repetiram-se as pancadinhas. O ra-
paz não esperava ninguém, e era-lhe indiferente falar
a quem quer que fosse. Contudo, por maior que seja a
tranquilidade de um homem quando resolve abandonar
a vida, é-lhe sempre agradável achar um pretexto para
prolongá-la um pouco mais.
O dr. Antero pôs a pistola sobre a mesa e foi abrir a porta.
4. (IFCE) Em “Não tinha parentes, nem amigos a quem
deixar carta; entretanto, não queria sair deste mundo
sem dizer a respeito dele a sua última palavra” (referên-
cia 5), o uso do ponto e vírgula se justifica porque
a) indica um esclarecimento, resultado ou resumo do
que se disse.
b) trata de sujeitos diferentes.
c) anuncia uma enumeração.
d) alonga a pausa de conjunções adversativas, substi-
tuindo, assim, a vírgula.
e) separa orações coordenadas não unidas por con-
junção, que guardem relação entre si.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Entre as situações linguísticas que o português já viveu
em seu contato com outras línguas, cabe considerar
uma situação que se realiza em nossos dias: 4aquela em
que ele é uma língua de emigrantes. 9Para o leitor brasi-
leiro, 18soará talvez estranho que falemos 5aqui do por-
tuguês como uma língua de EMIGRANTES, pois o Brasil
foi antes de mais nada um país para 6o qual se dirigiam
em massa, durante mais de dois séculos, pessoas nasci-
das em vários países europeus e asiáticos; assim, para a
maioria dos brasileiros, a 19representação mais natural
é a da convivência no Brasil com IMIGRANTES vindos de
outros países. Sabemos, 10entretanto, que, nos últimos
cem anos, muitos falantes do português foram buscar
melhores condições de vida, 11partindo não só de Portu-
gal para o Brasil, mas 12também desses dois países para
a América do Norte 13e para vários países da Europa: em
certo momento, na década de 1970, viviam na região
parisiense mais de um milhão de portugueses – uma
população superior 21à 7que tinha então a cidade de Lis-
boa. Do Brasil, têm 1__________ nas últimas décadas
muitos jovens e trabalhadores, 20dirigindo-se aos qua-
tro cantos do mundo.
A existência de comunidades de imigrantes é sempre
uma situação delicada 22para os próprios imigrantes e
23para o país que os recebeu: 14normalmente, os imi-
grantes vão a países que têm interesse em 15usar sua
força de trabalho, mas qualquer oscilação na economia
faz 24com que os nativos 2__________ 8sua presença
como indesejável; as diferenças na cultura e na fala po-
dem alimentar preconceitos e desencadear problemas
reais de diferentes ordens.
16Em geral, proteger a cultura e a língua do imigrante
não 17é um objetivo prioritário dos países hospedeiros,
mas no caso do português tem havido 3__________.
Em certo momento, o português foi uma das línguas
estrangeiras mais estudadas na França; e, em algumas
cidades do Canadá e dos Estados Unidos, um mínimo
de vida associativa tem garantido a sobrevivência de
jornais editados em português, mantidos pelas próprias
comunidades de origem portuguesa e brasileira.
aDaptaDo De: ilari, roDolfo; Basso, renato. o português como
língua De emigrantes. in:___. o português Da gente: a língua que
estuDamos a língua que falamos. sÃo paulo: contexto, 2006. p. 42-43.
5. (Ufrgs) Desconsiderando questões de emprego
de letra maiúscula, assinale a alternativa em que se
sugere um deslocamento de adjunto adverbial que
preservaria tanto a correção quanto o sentido do
segmento original.
a) Colocação de Para o leitor brasileiro (ref. 9) entre
vírgulas, imediatamente após aqui (ref. 5).
b) Deslocamento de entretanto (ref. 10) para imedia-
tamente após partindo (ref. 11).
c) Passagem de também (ref. 12) para imediatamente
após e (ref. 13).
d) Deslocamento de normalmente (ref. 14) para ime-
diatamente após usar (ref. 15).
e) Colocação de Em geral (ref. 16) entre vírgulas, ime-
diatamente após é (ref. 17).
E.O. dissErtAtivO
1. (PUC-RJ) Os filósofos chineses viam a realidade, a
cuja essência primária chamaram tao, como um proces-
so de contínuo fluxo e mudança. Na concepção deles,
todos os fenômenos que observamos participam desse
processo cósmico e são, pois, intrinsecamente dinâmi-
cos. A principal característica do tao é a natureza cíclica
de seu movimento incessante; a natureza, em todos os
seus aspectos – tanto os do mundo físico quanto os dos
domínios psicológico e social –, exibe padrões cíclicos.
Os chineses atribuem a essa ideia de padrões cíclicos
uma estrutura definida, mediante a introdução dos
opostos yin e yang, os dois polos que fixam os limites
para os ciclos de mudança: “Tendo yang atingido seu
clímax, retira-se em favor do yin; tendo o yin atingido
seu clímax, retira-se em favor do yang”.
Na concepção chinesa, todas as manifestações do tao
são geradas pela interação dinâmica desses dois polos
arquetípicos, os quais estão associados a numerosas
imagens de opostos colhidas na natureza e na vida so-
cial. É importante, e muito difícil para nós, ocidentais,
entender que esses opostos não pertencem a diferen-
tes categorias, mas são polos extremos de um único
todo. Nada é apenas yin ou apenas yang. Todos os fenô-
menos naturais são manifestações de uma contínua os-
53
cilação entre os dois polos; todas as transições ocorrem
gradualmente e numa progressão ininterrupta. A ordem
natural é de equilíbrio dinâmico entre o yin e o yang.
capra, fritJof. o ponto De mutaçÃo. sÃo paulo: eDitora
cultrix. 1982. traDuçÃo De Álvaro caBral, pp. 32-33.Mantendo o sentido dos trechos em destaque, reescre-
va-os atendendo ao que é solicitado. Faça as modifica-
ções necessárias.
a) Não use gerúndio:
“Tendo yang atingido seu clímax, retira-se em favor do yin;
tendo o yin atingido seu clímax, retira-se em favor do yang”.
b) Inicie por “A interação”.
“Na concepção chinesa, todas as manifestações do
tao são geradas pela interação dinâmica desses dois
polos arquetípicos.”
c) Proponha uma nova pontuação para o trecho abai-
xo, substituindo apenas o sinal de ponto e vírgula e
os travessões.
“A principal característica do tao é a natureza cíclica
de seu movimento incessante; a natureza, em todos os
seus aspectos – tanto os do mundo físico quanto os dos
domínios psicológico e social –, exibe padrões cíclicos.”
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto para responder à(s) questão(ões) a seguir.
Muitos anos mais tarde, Ana Terra costumava sentar-se na
frente de sua casa para pensar no passado. E no pensa-
mento como que ouvia o vento de outros tempos e sentia
o tempo passar, escutava vozes, via caras e lembrava-se
de coisas... O ano de 81 trouxera um acontecimento triste
para o velho Maneco: Horácio deixara a fazenda, a contra-
gosto do pai, e fora para o Rio Pardo, onde se casara com
a filha dum tanoeiro e se estabelecera com uma pequena
venda. Em compensação nesse mesmo ano Antônio ca-
sou-se com Eulália Moura, filha dum colono açoriano dos
arredores do Rio Pardo, e trouxe a mulher para a estância,
indo ambos viver num puxado que tinham feito no rancho.
Em 85 uma nuvem de gafanhotos desceu sobre a lavou-
ra deitando a perder toda a colheita. Em 86, quando Pe-
drinho se aproximava dos oito anos, uma peste atacou
o gado e um raio matou um dos escravos.
Foi em 86 mesmo ou no ano seguinte que nasceu Rosa,
a primeira filha de Antônio e Eulália? Bom. A verdade
era que a criança tinha nascido pouco mais de um ano
após o casamento. Dona Henriqueta cortara-lhe o cor-
dão umbilical com a mesma tesoura de podar com que
separara Pedrinho da mãe.
E era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se
sumia, a lua passava por todas as fases, as estações iam
e vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra, nas
coisas e nas pessoas.
E havia períodos em que Ana perdia a conta dos dias.
Mas entre as cenas que nunca mais lhe saíram da me-
mória estavam as da tarde em que dona Henriqueta
fora para a cama com uma dor aguda no lado direito,
ficara se retorcendo durante horas, vomitando tudo o
que engolia, gemendo e suando de frio.
érico veríssimo. o tempo e o vento, “o continente”, 1956.
2. (Fgv) Observe o emprego da vírgula nas passagens
destacadas a seguir e responda ao que se pede.
- “Foi em 86 mesmo ou no ano seguinte que nasceu Rosa,
a primeira filha de Antônio e Eulália?” (3º parágrafo)
- “E era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e
se sumia, a lua passava por todas as fases, as estações
iam e vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra,
nas coisas e nas pessoas.” (4º parágrafo)
a) O que justifica o emprego da vírgula na passagem
do 3º parágrafo?
b) Que diferença há nas duas construções do 4º pará-
grafo para explicar o emprego das vírgulas?
3. (Fgv) Leia o texto.
Amorim, pede pra sair
O fracasso das negociações comerciais de Doha ecoa a
falência verbal que levou o ministro das Relações Exte-
riores, Celso Amorim, a entrar nas reuniões com o pé es-
querdo e a sair delas com a autoridade destroçada por
duas declarações de natureza intrinsecamente perversa.
("veJa", 06.08.2008)
a) Explique o título do texto, associando-o às infor-
mações apresentadas.
b) Se fosse retirada a vírgula do título do texto, ha-
veria alteração de sentido? Justifique a sua resposta.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
PRIMEIRO ATO
Amelinha - (Virando-se para a mãe) 6Edmundo está ino-
cente. Sem culpa.
Valdelice - (Fazendo-a calar) Não repita 30essa asneira.
(Pausa) 13Temos de pressioná-lo, minha filha. 14Você não
tem idade para perceber a ruindade dos homens. Você
foi 12se-du-zi-da.
Amelinha - (Sentando-se) 3Seduzida?! Mas eu sei que
não é verdade!
Valdelice - A história tem de ser diferente... Trate de se
convencer 31disso.
[...]
Amelinha - 9Não me sinto bem em dizer o que não fiz...
Agente - Aprenda 21a primeira lição: 2às vezes a verdade
não é a que se conhece, mas a outra... (Pausa) É ir por
mim. (Notando o laço de fita da moça) Pra que este laço?
Amelinha - Foi ideia da mamãe.
Valdelice - Não a quero desgraciosa diante da autoridade.
Agente - (Compenetrado) Nada de 1lacinho de fita! Você
não é anjo de procissão. (Tom) Quem perde a honra não
se interessa por enfeite. (Ríspido) 15Tire-o.
Amelinha - (Indecisa) 10Mas eu... eu...
Agente - (Arrebata-lhe o laço) Bobagem! (Pausa).
22Retire também 35o ruge, o batom... 28Tenho de pre-
pará-la para impressionar o delegado, o juiz, todo
mundo. Do contrário, ninguém defenderá você. (Tom)
Assanhe os cabelos.
54
SEGUNDO ATO
Benedito - 29(À Amelinha, que continua assustada, mas
impressionada com a situação que vive). Então, você
acabou sendo enganada? (Ela aquiesce) 11Levou-a no
caminhão da entrega sistemática, não foi? (Ela confir-
ma) Vá ver que era um caminhão Ford. (Ao Permanente)
Ford! A influência nefasta do capitalismo internacional!
(Pausa) E os botijões? Balançavam? Sacudiam? (Pausa)
Estavam cheios... ou vazios?
Amelinha - (Num sopro) Vazios...
Benedito - (Eufórico) Vazio! (Pausa, em explosão) Vi-
bravam, não? (Dramatizando) Imagino como não eram
ruidosos! (T) Tática de cinema americano, "noir", de
péssima qualidade. (Pausa) E o carro? Corria veloz? E
você, gritava?
Amelinha - (Voz débil, a confirmar) Gritava.
[...]
Benedito - (A Amelinha) Então estavam vazios os boti-
jões (Ela concorda) Vazios... E o carro corria, em dispara-
da, não? (Ela aquiesce) E fazia aquele ruído...
Amelinha - (Que vai aderindo, qual participasse de um
jogo...) 4Um ruído terrível...
Benedito - Ah, eu imagino! (T.) 26E o seu desespero?
Hem, moça?
Amelinha - Ah, como eu sofri dentro do caminhão...
Valdelice - (Surpresa, à filha) Você nunca me falou antes
em caminhão. Que carro é esse?
Amelinha - (Indiferente) O caminhão, mãe... Caminhão Ford.
[...]
Benedito - 25E depois? Hem? Depois?
Amelinha - (Enlevada, mais fantasiosa) Ele me apertava
em seus braços fortes, sem mais querer me soltar. (Tom)
Meu Deus, era bom, mas eu sofria. (Pausa) Eu me sen-
tia tonta, desfalecida, principalmente pelo som infernal
dos botijões... E por cima de tudo, eu tinha medo de
morrer.
Benedito - (Animando-a) Mais, mais, vai para a primeira
página.
Amelinha - Paramos num lugar distante, como se diz
mesmo? ... ermo... (Pausa) Onde era? Onde? Ainda hoje
me pergunto, sem resposta... (Pausa. T.) Nem sei direito.
23Mas sei que havia uma árvore muito frondosa, e tinha
um rio largo, perto... e... acho que havia também uma
cabana. Um velho pescador estava sentado, longe, lon-
ge, numa pedra...
Valdelice - 17Minha filha, você está descrevendo o calen-
dário da sala de jantar!
[...]
Benedito - E depois, e depois?
Amelinha - 7Ele começou a puxar o zíper do meu vestido.
Valdelice - 18Mas você não tem vestido de zíper!!!
Benedito - Vá contando, me agrada! É matéria de pri-
meira página.
Amelinha - 8Por fim, rasgou minha combinação de "nylon".
Valdelice - "Nylon"?! Você nunca usou 32isso!
[...]
Valdelice - (Como se tudo fosse um sonho) Agora que
você está mais calma, me diga mesmo como é a história
do caminhão, dos botijões vazios... Onde você conse-
guiu 33tudo isso?
Amelinha - E eu sei, mamãe?! 27Simpatizei com o moço,
e dei de imaginar tudo. (Pausa. T) Será que o meu retra-
to vai sair bonito no jornal?
[...]
Edmundo - (Principia a falar com indecisão, procuran-
do achar as palavras) 24Amelinha, eu... queria que você
compreendesse... Por favor, 16conte ao Delegado o que
em verdade se passou 19entre nós dois... Sei que você é
direita... (Pausa) Fale.
Amelinha - (Em tom indefinido, como se na verdade vi-
vesse outro personagem) 5Será que você já esqueceu?
Edmundo - Esqueceu o quê? Não compreendo.Amelinha - Oh, Edmundo... Vocês, homens, esquecem
tão ligeiro!
Edmundo - 20Mas não esqueci nada! Lembro que você
me chamou à sua casa. E me abraçava, me queria... E eu
então não pude resistir.
[...]
Amelinha - Oh, ao menos hoje, não seja cínico! O ca-
minhão, os botijões vazios! Vamos, não diga que não
se lembra! Você me carregou, eu não queria... Me con-
vidou para ver os enfeites da boleia, e, de repente,
acionou o motor, partiu veloz. Ah. Foi quando eu gritei,
gritei: 34Não faça isso. Edmundo! Pare! Pare! E você cor-
rendo, nem me deu atenção!
Edmundo - (Ao Delegado) Isso não! Ao menos a verdade!
campos, eDuarDo. a Donzela DesprezaDa. in:________. três
peças escolhiDas. fortaleza: eDições ufc, 2007, p.187-221.
4. (UFC) Dentre algumas funções, A VÍRGULA é empre-
gada para separar:
(1) Vocativo;
(2) Repetições;
(3) Termos coordenados;
(4) Oração adjetiva de valor explicativo;
(5) Orações coordenadas aditivas proferidas com pausa.
Observe, nas passagens do texto transcritas a seguir, o
emprego das vírgulas, identifique a razão pela qual fo-
ram utilizadas e, em seguida, de acordo com o código
apresentado, preencha os parênteses, estabelecendo a
correlação adequada entre o uso e a regra.
1. ( ) "E depois, e depois?" (ref. 25).
2. ( ) "E o seu desespero? Hem, moça?" (ref. 26).
3. ( ) "Temos de pressioná-lo, minha filha" (ref. 13).
4. ( ) "Simpatizei com o moço, e dei de imaginar
tudo" (ref. 27).
5. ( ) "Tenho de prepará-la para impressionar o de-
legado, o juiz, todo mundo" (ref. 28).
6. ( ) "(À Amelinha, que continua assustada, mas
impressionada com a situação que vive.)" (ref. 29).
55
5. (Ufc) A VÍRGULA também é empregada para isolar ad-
juntos adverbiais. Com base nesse conhecimento, transcre-
va, da fala de Benedito, uma frase em que a vírgula está
empregada para isolar um adjunto adverbial de modo.
E.O. ObjEtivAs
(UnEsp, FUvEst, UniCAmp E UniFEsp)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o trecho extraído do artigo “Cosmologia, 100”, de
Antonio Augusto Passos Videira e Cássio Leite Vieira,
para responder à(s) questão(ões) a seguir.
“Vou conduzir o leitor por uma estrada que eu mesmo
percorri, árdua e sinuosa.” A frase – que tem algo da es-
sência do hoje clássico A estrada não percorrida (1916),
do poeta norte-americano Robert Frost (1874-1963) –
está em um artigo científico publicado há cem anos,
cujo teor constitui um marco histórico da civilização.
Pela primeira vez, cerca de 50 mil anos depois de o
Homo sapiens deixar uma mão com tinta estampada
em uma pedra, a humanidade era capaz de descrever
matematicamente a maior estrutura conhecida: o Uni-
verso. A façanha intelectual levava as digitais de Albert
Einstein (1879-1955).
Ao terminar aquele artigo de 1917, o físico de origem
alemã escreveu a um colega dizendo que o que pro-
duzira o habilitaria a ser “internado em um hospício”.
Mais tarde, referiu-se ao arcabouço teórico que havia
construído como um “castelo alto no ar”.
O Universo que saltou dos cálculos de Einstein tinha
três características básicas: era finito, sem fronteiras e
estático – o derradeiro traço alimentaria debates e tra-
ria arrependimento a Einstein nas décadas seguintes.
Em “Considerações Cosmológicas na Teoria da Relativi-
dade Geral”, publicado em fevereiro de 1917 nos Anais
da Academia Real Prussiana de Ciências, o cientista
construiu (de modo muito visual) seu castelo usando as
ferramentas que ele havia forjado pouco antes: a teoria
da relatividade geral, finalizada em 1915, esquema teó-
rico já classificado como a maior contribuição intelectu-
al de uma só pessoa à cultura humana.
Esse bloco matemático impenetrável (mesmo para fí-
sicos) nada mais é do que uma teoria que explica os
fenômenos gravitacionais. Por exemplo, por que a Terra
gira em torno do Sol ou por que um buraco negro devo-
ra avidamente luz e matéria.
Com a introdução da relatividade geral, a teoria da gra-
vitação do físico britânico Isaac Newton (1642-1727)
passou a ser um caso específico da primeira, para si-
tuações em que massas são bem menores do que as
das estrelas e em que a velocidade dos corpos é muito
inferior à da luz no vácuo (300 mil km/s).
Entre essas duas obras de respeito (de 1915 e de 1917),
impressiona o fato de Einstein ter achado tempo para
escrever uma pequena joia, “Teoria da Relatividade Es-
pecial e Geral”, na qual populariza suas duas teorias,
incluindo a de 1905 (especial), na qual mostrara que,
em certas condições, o espaço pode encurtar, e o tem-
po, dilatar.
Tamanho esforço intelectual e total entrega ao raciocí-
nio cobraram seu pedágio: Einstein adoeceu, com pro-
blemas no fígado, icterícia e úlcera. Seguiu debilitado
até o final daquela década.
Se deslocados de sua época, Einstein e sua cosmologia
podem ser facilmente vistos como um ponto fora da
reta. Porém, a historiadora da ciência britânica Patri-
cia Fara lembra que aqueles eram tempos de “cosmo-
logias”, de visões globais sobre temas científicos. Ela
cita, por exemplo, a teoria da deriva dos continentes, do
geólogo alemão Alfred Wegener (1880-1930), marcada
por uma visão cosmológica da Terra.
Fara dá a entender que várias áreas da ciência, naque-
le início de século, passaram a olhar seus objetos de
pesquisa por meio de um prisma mais amplo, buscando
dados e hipóteses em outros campos do conhecimento.
folha De s. paulo, 01.01.2017. aDaptaDo.
1. (Unesp) Emprega-se a vírgula para indicar, às vezes, a
elipse do verbo: “Ele sai agora: eu, logo mais.”
Evanildo Bechara. Moderna gramática portuguesa,
2009. Adaptado.
Verifica-se a ocorrência de vírgula para indicar a elipse
do verbo no seguinte trecho:
a) “Entre essas duas obras de respeito (de 1915 e
de 1917), impressiona o fato de Einstein ter achado
tempo para escrever uma pequena joia [...]” (8º pa-
rágrafo)
b) “[...] em certas condições, o espaço pode encurtar,
e o tempo, dilatar.” (8º parágrafo)
c) “[...] a teoria da relatividade geral, finalizada em
1915, esquema teórico já classificado como a maior
contribuição intelectual de uma só pessoa à cultura
humana.” (5º parágrafo)
d) “[...] Einstein adoeceu, com problemas no fígado,
icterícia e úlcera.” (9º parágrafo)
e) “Ela cita, por exemplo, a teoria da deriva dos conti-
nentes, do geólogo alemão Alfred Wegener [...]” (10º
parágrafo)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A essência da teoria democrática é a supressão de
qualquer imposição de classe, fundada no postulado
ou na crença de que os conflitos e problemas humanos
— econômicos, políticos, ou sociais — são solucioná-
veis pela educação, isto é, pela cooperação voluntária,
mobilizada pela opinião pública esclarecida. Está claro
que essa opinião pública terá de ser formada à luz dos
melhores conhecimentos existentes e, assim, a pesquisa
científica nos campos das ciências naturais e das cha-
madas ciências sociais deverá se fazer a mais ampla, a
mais vigorosa, a mais livre, e a difusão desses conheci-
mentos, a mais completa, a mais imparcial e em termos
que os tornem acessíveis a todos.
anísio teixeira, eDucaçÃo é um Direito. aDaptaDo.
56
2. (Fuvest) Dos seguintes comentários linguísticos so-
bre diferentes trechos do texto, o único correto é:
a) Os prefixos das palavras “imposição” e “impar-
cial” têm o mesmo sentido.
b) As palavras “postulado” e “crença” foram usadas
no texto como sinônimas.
c) A norma-padrão condena o uso de “essa”, no tre-
cho “essa opinião”, pois, nesse caso, o correto seria
usar “esta”.
d) A vírgula empregada no trecho “e a difusão desses
conhecimentos, a mais completa” indica que, aí, ocor-
re a elipse de um verbo.
e) O pronome sublinhado em “que os tornem” tem
como referente o substantivo “termos”.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia uma passagem do livro A vírgula, do filólogo Celso
Pedro Luft (1921-1995).
A vírgula no vestibular de português
“Mas, esta, não é suficiente.”
“Porque, as respostas, não satisfazem.”
“E por isso, surgem as guerras.”
“E muitas vezes, ele não se adapta ao meio emque vive.”
“Pois, o homem é um ser social.”
“Muitos porém, se esquecem que...”
“A sociedade deve pois, lutar pela justiça social.”
Que é que você acha de quem vírgula assim?
Você vai dizer que não aprendeu nada de pontuação quem
semeia assim as vírgulas. Nem poderá dizer outra coisa.
Ou não lhe ensinaram, ou ensinaram e ele não apren-
deu. O certo é que ele se formou no curso secundário.
Lepidamente, sem maiores dificuldades. Mas a vírgula é
um “objeto não identificado”, para ele.
Para ele? Para eles. Para muitos eles, uma legião. Amanhã
serão doutores, e a vírgula continuará sendo um objeto
não identificado. Sim, porque os três ou quatro mil me-
nos fracos ultrapassam o vestíbulo... Com vírgula ou sem
vírgula. Que a vírgula, convenhamos, até que é um obstá-
culo meio frágil, um risquinho. Objeto não identificado?
Não, objeto invisível a olho nu. Pode passar despercebido
até a muito olho de lince de examinador...
— A vírgula, ora, direis, a vírgula...
Mas é justamente essa miúda coisa, esse risquinho, que
maior informação nos dá sobre as qualidades do ensino
da língua escrita. Sobre o ensino do cerne mesmo da lín-
gua: a frase, sua estrutura, composição e decomposição.
Da virgulação é que se pode depreender a consciência,
o grau de consciência que tem, quem escreve, do pensa-
mento e de sua expressão, do ir-e-vir do raciocínio, das
hesitações, das interpenetrações de ideias, das sequên-
cias e interdependências, e, linguisticamente, da frase e
sua constituição.
As vírgulas erradas, ao contrário, retratam a confusão
mental, a indisciplina do espírito, o mau domínio das
ideias e do fraseado.
Na minha carreira de professor, fiz muitos testes de
pontuação. E sempre ficou clara a relação entre a ma-
neira de pontuar e o grau de cociente intelectual.
Conclusão que tirei: os exercícios de pontuação consti-
tuem um excelente treino para desenvolver a capacidade
de raciocinar e construir frases lógicas e equilibradas.
Quem ensina ou estuda a sintaxe — que é a teoria da
frase (ou o “tratado da construção”, como diziam os
gramáticos antigos) — forçosamente acaba na impor-
tância das pausas, cortes, incidências, nexos, etc., ele-
mentos que vão se espelhar na pontuação, quando a
mensagem é escrita.
Pontuar bem é ter visão clara da estrutura do pensamen-
to e da frase. Pontuar bem é governar as rédeas da frase.
Pontuar bem é ter ordem, no pensar e na expressão.
3. (Unesp) As frases abaixo correspondem a tentativas
de corrigir o erro de virgulação apontado por Celso Pe-
dro Luft na série de exemplos que apresenta.
I. “Porque as respostas não satisfazem.”
II. “E, muitas vezes, ele não se adapta ao meio em que
vive.”
III. “Pois o homem é, um ser social.”
IV. “A sociedade deve, pois, lutar pela justiça social.”
As frases em que o problema de virgulação foi resolvi-
do adequadamente estão contidas apenas em:
a) I e II.
b) I e III.
c) I, II e III.
d) I, II e IV.
e) II, III e IV.
4. (Fuvest) Em qual destas frases a vírgula foi emprega-
da para marcar a omissão do verbo?
a) Ter um apartamento no térreo é ter as vantagens
de uma casa, além de poder desfrutar de um jardim.
b) Compre sem susto: a loja é virtual; os direitos, reais.
c) Para quem não conhece o mercado financeiro, pro-
curamos usar uma linguagem livre do economês.
d) A sensação é de estar perdido: você não vai encontrar
ninguém no Jalapão, mas vai ver a natureza intocada.
e) Esta é a informação mais importante para a preser-
vação da água: sabendo usar, não vai faltar.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Viei-
ra (1608-1697), para responder à(s) questão(ões) a seguir.
Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa arma-
da pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse
trazido à sua presença um pirata, que por ali andava
roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexan-
dre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era
medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor,
que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós,
porque roubais em uma armada, sois imperador?”. As-
57
sim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é gran-
deza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar
com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem
distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a
uns e outros, definiu com o mesmo nome: [...] Se o rei de
Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão
e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo
lugar, e merecem o mesmo nome.
Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de
que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma
tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais
me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos
oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos,
ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a
mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que
mais ofendem os reis com o que calam que com o que
disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal
que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cau-
tela com que se cala é argumento de que se ofenderão,
porque lhes pode tocar. [...]
Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não
são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de
sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque
a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado
[...]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao
Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato,
são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera
[...]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Mag-
no], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão
banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais
própria e dignamente merecem este título são aqueles
a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o
governo das províncias, ou a administração das cidades,
os quais já com manha, já com força, roubam e despo-
jam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, es-
tes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo
do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se
furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.
(essencial, 2011.)
5. (Unesp) Verifica-se o emprego de vírgula para indicar
a elipse (supressão) do verbo em:
a) “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma bar-
ca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada,
sois imperador?” (1º parágrafo)
b) “O ladrão que furta para comer não vai nem leva
ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu
trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta
esfera [...].” (3º parágrafo)
c) “O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grande-
za: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar
com muito, os Alexandres.” (1º parágrafo)
d) “Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer
o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o
rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo
nome.” (1º parágrafo)
e) “Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam
cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco,
estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são
enforcados: estes furtam e enforcam.” (3º parágrafo)
gAbAritO
E.O. Aprendizagem
1. E 2. D 3. C 4. B 5. B
6. C 7. B 8. B 9. B 10. A
E.O. Fixação
1. B 2. A 3. D 4. D 5. B
6. D 7. E 8. E 9. A 10. A
E.O. Complementar
1. D 2. D 3. A 4. D 5. E
E.O. Dissertativo
1.
a) Considerando que o gerúndio está no verbo “tendo” que apare-
ce duas vezes no período, a reescrita ficaria: “Quando yang atinge
seu clímax, retira-se em favor do yin; quando o yin atinge o seu clí-
max, retira-se em favor do yang” ou “A partir do momento em que
o yang atinge seu clímax, retira-se em favor do yin; a partir do mo-
mento em que o yin atinge seu clímax, retira-se em favor do yang”.
b) Considerando que “a interação dinâmica entre os dois polos
arquetípicos” é o agente do período na voz passiva, ao passar
esse termo para o início da oração, pode-se formar um período
na voz ativa, tornando o agente da passiva agora sujeitoda ativa:
“A interação dinâmica desses dois polos arquetípicos gera todas
as manifestações do tao na concepção chinesa”.
c) O ponto e vírgula pode ser substituído por um ponto final,
indicando o fim de uma ideia e início de outra, agora em novo
período. Os travessões cumprem a função de agregar uma in-
formação, assim como os parênteses. Dessa forma, pode-se re-
escrever assim: “A principal característica do tao é a natureza
cíclica de seu movimento incessante. A natureza, em todos os
seus aspectos (tanto os do mundo físico quanto os dos domínios
psicológico e social), exibe padrões cíclicos.
2.
a) No 3º parágrafo, ocorre um aposto: a expressão “a primeira
filha de Antônio e Eulália” explica o termo antecedente (“Rosa”),
daí a obrigatoriedade do emprego da vírgula.
b) No 4º parágrafo, o primeiro trecho é formado por um encade-
amento de orações coordenadas, com elementos que indicam o
modo pelo qual “o tempo se arrastava”: por intermédio de uma
gradação, “o sol nascia e se sumia”, “a lua passava por todas
as fases” e, de forma mais ampla, “as estações iam e vinham”.
Já o segundo trecho é um encadeamento de termos com mes-
ma função sintática, uma série de adjuntos adverbiais.
3.
a) O título do texto remete ao filme "Tropa de Elite", que foi um
fenômeno de popularidade em 2007.
58
No filme, sempre que o personagem Capitão Nascimento
queria tirar do seu grupo um integrante incompetente, gritava:
"Pede pra sair!". Sugere-se, dessa forma, a incompetência do
mencionado ministro, que teria demonstrado inépcia ao fazer
declarações que teriam comprometido sua autoridade nas ne-
gociações de Doha.
b) Sim, pois, da maneira como o título foi apresentado, entende-
-se uma exortação para que Celso Amorim peça para sair - das
negociações de Doha ou do Ministério. Sem usar a vírgula, o
verbo deixaria de estar no imperativo (pede, segunda pessoa do
singular) e passaria a ser uma forma do presente do indicativo
(terceira pessoa do singular); Amorim, por sua vez, deixaria de ser
um vocativo e passaria a sujeito de pede. Assim, a frase deixaria
de ser exortativa e passaria a ser declarativa.
4.
(2) - (1) - (1) - (5) - (3) - (4).
5.
"E o carro corria, em disparada, não?"
E.O. Objetivas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. B 2. D 3. D 4. B 5. C
59
POntuaçãO iiAULAS
51 e 52
E.O. AprEndizAgEm
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto para responder à(s) questão(ões) a seguir.
ECONOMIA COMPORTAMENTAL LEVA O NOBEL
Norte-americano Richard H. Thaler diz que ‘para fazer
uma boa análise em economia deve-se ter em mente
que as pessoas são humanas’
Richard H. Thaler recebeu o Prêmio Nobel de Economia
pelas suas contribuições no campo da economia com-
portamental. O professor Thaler, nascido em 1945, em
East Orange, New Jersey (EUA), trabalha na Faculdade
de Administração da Universidade Booth de Chicago.
Segundo o comitê do Nobel, ao anunciar o prêmio em
Estocolmo, Thaler é pioneiro na aplicação da psicologia
ao comportamento em economia e em explicar como as
pessoas tomam decisões econômicas, às vezes, rejeitan-
do a racionalidade.
Sua pesquisa, disse o comitê, levou o campo compor-
tamental em economia, de um papel secundário, para
a corrente principal da pesquisa acadêmica e mostrou
que o fator tinha importantes implicações para a polí-
tica econômica.
Thaler disse, nesta segunda-feira, 9, que a premissa bási-
ca de suas teorias é a seguinte: “Para fazer uma boa aná-
lise em economia deve-se ter em mente que as pessoas
são humanas”. Quando lhe perguntaram como gastaria
o dinheiro (cerca de US$ 1,1 milhão) do prêmio, respon-
deu: “Esta é uma pergunta bem divertida”. E acrescentou:
“Tentarei gastá-lo da forma mais irracional possível”
O prêmio de Economia foi criado em 1968 em memória
de Alfred Nobel e é concedido pela Academia Real de
Ciências da Suécia.
As linhas principais de estudos econômicos em grande
parte do século 20 basearam-se na hipótese simplificada
de que as pessoas se comportavam racionalmente. Os
economistas entendiam que isso não era literalmente
real, mas argumentaram que estava bem próximo disso.
O professor Thaler desempenhou um papel central ao
se distanciar desse pressuposto. Ele não só defendeu
que os seres humanos são irracionais, o que é algo ób-
vio, mas também de pouca ajuda. Em vez disso, ele
mostrou que as pessoas saem da racionalidade de ma-
neiras coerentes, portanto seu comportamento ainda
pode ser antecipado.
O comitê do Nobel descreveu como a teoria de Thaler
sobre “contabilidade mental” explica de que forma as
pessoas simplificam as decisões financeiras, concen-
trando-se no impacto limitado de cada decisão e não
no seu efeito mais geral. Ele também mostrou como a
aversão a uma perda pode explicar por que as pessoas
valorizam muito mais o mesmo item quando são pro-
prietárias do que quando não o são, fenômeno chama-
do “efeito de doação”.
As teorias de Thaler explicam, ainda, porque as reso-
luções de ano-novo podem ser difíceis de se manter e
analisam a tensão entre o planejamento de longo prazo
e a ação no curto prazo. Sucumbir à tentação de curto
prazo é uma razão importante pela qual muitas pesso-
as fracassam em seus planos de poupar para quando
forem idosas, ou fazer escolhas de estilo de vida mais
saudáveis, de acordo com a pesquisa de Thaler. Ele tam-
bém demonstrou o quanto mudanças aparentemente
pequenas na forma como os sistemas funcionam, ou
como um “empurrãozinho” (“nudging”) – termo que
ele inventou – pode ajudar as pessoas a exercer melhor
o autocontrole quando, por exemplo, estão economi-
zando para a aposentadoria.
O professor Thaler teve uma rápida participação no
filme A Grande Aposta, ao lado da atriz e cantora
Selena Gomez, no qual ele usou a economia com-
portamental para ajudar a explicar as causas da cri-
se financeira. Quando perguntaram a ele sobre sua
“curta carreira em Hollywood”, brincou se dizendo
desapontado pelo fato de suas façanhas como ator
não terem sido mencionadas no resumo de suas rea-
lizações quando o prêmio foi anunciado.
Por que o trabalho de Thaler foi importante? Seu traba-
lho forçou os economistas a lidarem com as limitações
da análise tradicional com base no pressuposto de que
as pessoas são atores racionais. Ele também tem sido
excepcionalmente bem-sucedido ao influenciar direta-
mente políticas públicas. Uma das contribuições mais im-
portantes é a sua influência sobre a mudança dos planos
de aposentadoria nos quais os funcionários se inscrevem
automaticamente e nas apólices que oferecem aos fun-
cionários a opção de aumentar as contribuições ao longo
do tempo. Ambos refletem a visão de Thaler de que a
inércia pode ser usada para moldar resultados benéficos
sem impor limites à escolha humana.
appelBaum, BinYamin. Disponível em: <http://economia.estaDao.
com.Br/noticias/geral,noBel-De-economia-2017-vai-para-um-
Dos-funDaDores-Da-economia-comportamental,7000203479>.
acesso em: 11 out. 2017. aDaptaDo.
CompetênCias: 1, 6 e 8 Habilidades: 1, 2, 3, 4, 18, 27 e 29
60
1. (ifpe 2018) As aspas são amplamente utilizadas no
texto, mas não pelas mesmas razões. Analise o uso das
aspas nas passagens abaixo e assinale o caso em que
tal uso indica ironia.
a) Thaler disse [...] que a premissa básica de suas te-
orias é a seguinte: “Para fazer uma boa análise em
economia deve-se ter em mente que as pessoas são
humanas”. (3º parágrafo).
b) Quando lhe perguntaram como gastaria o dinhei-
ro (cerca de US$ 1,1 milhão) do prêmio, respondeu:
“Esta é uma pergunta bem divertida”. (3º parágrafo).
c) Quando perguntaram a ele sobre sua “curta carrei-
ra em Hollywood”, brincou se dizendo desapontado
pelo fato de suas façanhas como ator não terem sido
mencionadas no resumo de suas realizações quando
o prêmio foi anunciado. (9º parágrafo).
d) [...] (“nudging”) – termo que ele inventou – pode
ajudar as pessoas a exercer melhor o autocontrole
quando, por exemplo, estão economizando para a
aposentadoria. (8ºparágrafo).
e) O comitê do Nobel descreveu como a teoria de
Thaler sobre “contabilidade mental” explica de que
forma as pessoas simplificam as decisões financeiras,
concentrando-se no impacto limitado de cada deci-
são e não no seu efeito mais geral. (7º parágrafo).
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Era digital desafia exercício profissional
“A medicina não sobreviverá ao velho método do médi-
co de família, mas terá que se adaptar”. A afirmação é do
desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal
e Territórios (TJDFT), Diaulas Costa Ribeiro, proferida du-
rante a mesa-redonda “Panorama atual das mídias so-
ciais e aplicativos na medicina contemporânea”. Para ele,
as novas tecnologias trazem desafi os que precisam ser
colocados em perspectiva para garantir a ética e o sigilo.
“Possivelmente vamos chegar a uma medicina sem
gosto, distanciada, mas que também funciona. Talvez
este não seja o fim, mas um recomeço”, ponderou Ri-
beiro. Segundo ele, antes de gerar um novo modelo de
atendimento médico, o “dr. Google” – termo que utili-
zou para indicar as buscas por informações médicas na
internet – gerou um novo tipo de paciente, que passou
a conhecer mais sobre as doenças e, por isso, exige um
novo relacionamento com seu médico.
O desembargador ainda reforçou a necessidade de se
rediscutir questões como o uso da internet nessa re-
lação médico-paciente e a segurança do sigilo médi-
co neste cenário. “Precisamos refletir sobre algumas
questões importantes. Quem guardará o sigilo? Ou não
haverá sigilo? O sigilo médico será mantido ou valerá
o direito público à informação? Os conflitos serão rein-
ventados ou serão os mesmos? A solução para os pro-
blemas será a de sempre?”, indagou.
Ética – Na perspectiva do médico legista e professor da
Universidade de Brasília (UnB), Malthus Galvão, embo-
ra acredite que algumas mudanças serão inevitáveis e
necessárias, é preciso defender os princípios fundamen-
tais instituídos pelo Código de ética médica (CEM).
“As novas mídias devem ser entendidas como um siste-
ma de interação social, de compartilhamento e criação
colaborativa de informação nos mais diversos formatos
e não podemos perder essa oportunidade”, destacou.
Ele lembra, por exemplo, que desde a Resolução CFM
1.643/2002, que define e disciplina a prestação de ser-
viços através da telemedicina, alguns avanços colabo-
rativos já foram possíveis.
Galvão apresentou ainda preceitos da Resolução
CFM 1.974/2011 e também da Lei do Ato Médico
(12.842/2013), chamando a atenção para alguns cui-
dados que o médico deve ter ao divulgar conteúdo de
forma sensacionalista. “Segundo o CEM, é vedada a di-
vulgação de informação sobre assunto médico de forma
sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico.
A internet deve ser usada como um instrumento de pro-
moção da saúde e orientação à população”, reforçou.
eDitorial Do Jornal meDicina – puBlicaçÃo oficial Do conselho
feDeral De meDicina (cfm). Brasília, Jul. 2017, p. 7.
2. (Fac. Albert Einstein - Medicin 2018) No primeiro pa-
rágrafo do editorial do CFM, as aspas são empregadas,
respectivamente, para demarcar
a) críticas tanto ao Tribunal de Justiça quanto à mesa-
-redonda de Diaulas Costa Ribeiro.
b) o dizer tal e qual foi proferido por Diaulas Costa
Ribeiro e o título da mesa-redonda.
c) o velho método do médico de família e o estado
das mídias sociais na medicina atual.
d) o uso de modernas tecnologias na medicina e a
fala do desembargador do TJDFT.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
De Caetano a Guimarães Rosa, veja as referências de
Cármen Lúcia
em seu discurso de posse
por luma poletti | 13/09/2016 10:00
Ao longo de seu discurso de posse, a ministra Cármen
Lúcia, que assumiu a presidência do Supremo Tribunal
Federal nesta segunda-feira (12), citou trechos de can-
ções de Caetano Veloso, Titãs, além de versos de Cecília
Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes
Campos e fez menção a Riobaldo, personagem de Gran-
de Sertão: Veredas, clássico de Guimarães Rosa e uma
das mais. A escolha das referências musicais da minis-
tra dá pistas sobre sua visão acerca do atual momento
sociopolítico. Citando o cantor e compositor Caetano
Veloso, presente na sessão – que interpretou em voz e
violão o hino nacional – Cármen Lúcia concordou que
"alguma coisa está fora da ordem".
"Caetanos e não caetanos deste Brasil tão plural con-
cluem em uníssono: alguma coisa está fora de ordem,
fora da nova ordem mundial", disse a ministra. "O que
nos cumpre, a nós servidores públicos em especial, é
questionar e achar resposta: de qual ordem está tudo
fora...", acrescentou.
61
O cantor já se posicionou contra o governo do presiden-
te Michel Temer, nos bastidores da cerimônia de abertu-
ra das Olimpíadas de 2016.
A nova presidente do STF também citou a música "Co-
mida", da banda Titãs. "Cumpre-nos dedicar-nos de for-
ma intransigente e integral a dar cobro ao que nos é
determinado pela Constituição da República e que de
nós é esperado pelo cidadão brasileiro, o qual quer saú-
de, educação, trabalho, sossego para andar em paz por
ruas, estradas do país e trilhas livres para poder sonhar
além do mais. Que, como na fala do poeta da música po-
pular brasileira, ninguém quer só comida, quer também
diversão e arte".
Um dos compositores da canção citada é Arnaldo Antu-
nes, que também se posicionou contra o impeachment
de Dilma Rousseff nas redes sociais.
Versos
Cármen Lúcia também citou versos da escritora Cecí-
lia Meireles, ao dizer que "liberdade é um sonho que
o mundo inteiro alimenta" – da obra Romanceiro da
Inconfidência, lançada em 1953.
"Se, no verso de Cecília Meireles, a liberdade é um so-
nho, que o mundo inteiro alimenta, parece-me ser a
Justiça um sentimento, que a humanidade inteira aca-
lenta", discursou a ministra.
Mais adiante em seu discurso, Cármen Lúcia fez menção
a um personagem do livro Grande Sertão: Veredas, do
escritor mineiro (tal como a ministra) Guimarães Rosa.
"Riobaldo afirmava que 'natureza da gente não cabe
em nenhuma certeza'. Mas parece-me que a natureza
da gente não se aguenta em tantas incertezas. Especial-
mente quando o incerto é a Justiça que se pede e que
se espera do Estado", disse a nova presidente do STF.
Em seguida, outro escritor mineiro foi lembrado por
Cármen Lúcia. "Em tempos cujo nome é tumulto escrito
em pedra, como diria Drummond, os desafios são maio-
res. Ser difícil não significa ser impossível. De resto, não
acho que para o ser humano exista, na vida, o impossí-
vel", disse a ministra, em referência ao poema "Nosso
tempo", do escritor mineiro.
A sucessora de Ricardo Lewandowski concluiu o discur-
so citando um terceiro escritor mineiro: Paulo Mendes
Campos. "O Judiciário brasileiro sabe dos seus compro-
missos e de suas responsabilidades. Em tempo de dores
multiplicadas, há que se multiplicarem também as espe-
ranças, à maneira da lição de Paulo Mendes Campos",
disse Cármen Lúcia, em referência "Poema Didático",
de Paulo Mendes Campos.
Disponível em: http://congressoemfoco.uol.com.Br/
noticias/De-caetano-a-guimaraes-rosa-veJaas-referencias-
De-carmen-lucia-em-seu-Discurso-De-posse/.
acesso em: 26 set.2016. [aDaptaDo]
3. (PUC-SP) "Riobaldo afirmava que 'natureza da gente
não cabe em nenhuma certeza'. Mas parece-me que a
natureza da gente não se aguenta em tantas incertezas.
Especialmente quando o incerto é a Justiça que se pede
e que se espera do Estado".
Nesse trecho do terceiro parágrafo da parte Versos,
Luma Poletti emprega as aspas simples dentro das as-
pas duplas para
a) identificar com as simples o texto de Guimarães
Rosa e as duplas a fala de Riobaldo.
b) evidenciar com as simples o discurso de Cármen
Lúcia e com as duplas pensamento de Riobaldo.
c) assinalar com as simples o dizer de Riobaldo e com
as duplas o discurso da ministra.
d) indicar com as simples a natureza da gente e com
as duplas o discurso de Cármen Lúcia.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
TEXTO DE REFERÊNCIAPARA A(S) QUESTÃO(ÕES) SE-
GUINTE(S).
O que você faz com o seu tempo?
Estudo mostra que 35% dos brasileiros se dizem es-
cravos das rotinas. Novas tecnologias e acúmulo de
tarefas dão a sensação de mais velocidade. O estudo
analisou, pela primeira vez, como os brasileiros fazem
uso e como se relacionam com o tempo, destacando
diferenças regionais e determinando perfis com base
nas entrevistas.
Foram identificados dois tipos de pessoas: aquelas
que se relacionam com o tempo observando a passa-
gem na vida e outros que interagem diretamente com
o cotidiano.
“A pessoa que se sente escrava é aquela que está sem-
pre correndo atrás do tempo perdido. Geralmente, acu-
mula muitas tarefas sem conseguir se planejar para a
execução”, explica Silvia Cervellini, diretora executiva
de negócios do Ibope Inteligência.
Mas o tempo está passando mais rápido hoje do que
na época de nossos avós? O que mudou, diz Lauro Luiz
Samojeden, chefe do Departamento de Física da UFPR,
é que, com a celeridade das informações e o acúmulo
de tarefas, a sensação é de que o tempo está passando
com mais velocidade.
Foram as máquinas e as novas tecnologias que deram
um novo ritmo ao uso do tempo pelos homens, explica
o professor de Filosofia da PUCPR, Jelson Oliveira. Para
ele, as máquinas surgiram com a promessa de abreviar
o tempo de produção, mas essa estratégia deu mais
tempo para que fossem acumuladas novas tarefas – a
pesquisa mostra que 22% dos brasileiros dizem reali-
zar atividades simultâneas, índice que na Região Sul é
de 43,5%.
“A tecnologia abreviou o tempo, mas fez com que as
pessoas estejam conectadas sempre, ampliando a sen-
sação de mais tarefas e menos tempo. Esse novo ritmo
está moldando as relações humanas, incluindo nos rela-
cionamentos uma desculpa pronta: a falta de tempo”,
acrescenta Oliveira.
fonte: iBope inteligência. infografia: faBiane lima/
gazeta Do povo (acessaDo em 23.03.2014)
62
4. (UTFPR) Em relação ao texto, considere as seguintes
afirmativas sobre a pontuação:
I. No segundo parágrafo, os dois pontos (:) foram usa-
dos para introduzir uma explicação.
II. No terceiro parágrafo, as aspas são empregadas para
indicar uma citação.
III. No quarto parágrafo, o ponto de interrogação pode
ser substituído pelo ponto de exclamação sem prejuízo
para o sentido do texto.
Está(ão) correta(s) apenas:
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
5. (CFTRJ) O recurso expressivo usado na tirinha está
corretamente explicado na alternativa:
a) A gíria “joça” carrega valor apreciativo.
b) A onomatopeia “Primm! Primm!” reproduz o som
da televisão ligada.
c) As reticências em “Perdi tudo...” reforçam a tristeza
da personagem.
d) As exclamações em “Atende essa joça!!!” expres-
sam euforia da personagem.
6. (UFPR) Observe a pontuação do trecho a seguir:
Faz alguma diferença lavar a cabeça duas vezes como
indicam as embalagens de xampu?
Não fique de cabelo em pé, mas você já deve ter gas-
to litros de produto à toa. Na prática, o que importa é
o tempo de permanência do xampu nos fios, e não a
quantidade de aplicações. A ação dos princípios ativos
deve durar 3 minutos 1– o que também não depende da
espuma, que apenas dá a sensação de limpeza. Quando
começou essa orientação 2(na década de 50), até havia
uma razão para repetir, já que não se lavava a cabe-
ça com frequência. Só que os novos xampus são mais
eficientes e ninguém passa mais de uma semana sem
usá-los 3(quer dizer, espero que você não passe). (...)
(galileu, Jul. 2011, p. 21.)
Sobre a pontuação do trecho acima, considere as se-
guintes afirmativas:
1. Se substituíssemos o travessão (ref.1) por parênteses
– fechados depois da palavra “limpeza” – não haveria
prejuízo de sentido nem de adequação à norma.
2. Os parênteses da referência 2 inserem uma explica-
ção ou especificação do que foi dito.
3. Os parênteses da referência 3 são usados com inten-
ção de fazer uma síntese do que foi dito anteriormente.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente a afirmativa 1 é verdadeira.
b) Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
c) Somente a afirmativa 3 é verdadeira.
d) Somente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras.
e) As afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A queda do poderoso machão
Paula Cesarino Costa
OMBUDSMAN* da Folha de S.Paulo
folha De s.paulo, 09/04/2017
Em janeiro de 2016, a Folha anunciou a estreia de blog
voltado à discussão das questões de gênero e do cha-
mado empoderamento feminino. Nascido do movimen-
to #Agora É Que São Elas, em que mulheres ocuparam o
espaço de colunistas homens nos jornais, o blog homô-
nimo se somava a dezenas de outros. Interpretei como
saudável a oferta de novos temas aos leitores do jornal.
Neste espaço, já alertara de que os tempos de redes
sociais turbulentas sinalizavam a hora de reinventar as
páginas de opinião. Contabilizava, em agosto de 2016,
32 mulheres entre os 130 colunistas do jornal.
Na madrugada da sexta, 31 de março, o #Agora É Que
São Elas publicou um post de potencial arrebatador nas
redes sociais. O post "José Mayer me assediou" foi co-
locado no ar à 0h45. Nele, a figurinista Susllem Tonani
acusava o ator de tê-la assediado durante oito meses
na TV Globo. De manhã, o texto já era lido e comparti-
lhado nas redes sociais. Por volta das 10h, a Folha tirou-
-o do ar sem dar explicação.
Cobrei do jornal, na crítica interna que circula em torno
das 12h30, a obrigação de prestar satisfação ao leitor.
Só às 14h22 foi publicada a justificativa para o sumiço
do post: "O conteúdo foi retirado do ar porque des-
respeitou o princípio editorial da Folha de só publicar
63
acusação após ouvir e registrar os argumentos da parte
acusada, salvo nos casos em que isso não for possível".
Às 17h30, o texto voltou a ficar disponível, ao mesmo
tempo em que era publicada reportagem que resumia
as acusações da figurinista e ouvia o ator. Ele negava o
que lhe havia sido imputado. A TV Globo dizia não co-
mentar assuntos internos, mas assegurava que haveria
apuração rigorosa, "ouvidos todos os envolvidos, em
busca da verdade".
Houve mobilização de funcionárias da emissora, que cul-
minou em manifesto, cujo título se tornaria emblemático
em camisetas e posts: "Mexeu com uma, mexeu com to-
das". Três dias depois do post original, a emissora divul-
gou a decisão de suspender José Mayer. Em carta, o ator
assumiu ter errado e pediu desculpas. Tropeçou ao resu-
mir o episódio como "brincadeira" e tentar dividir sua
culpa com a geração de homens acima de 60 anos, como
se fossem vítimas de uma catequese única e perversa.
A polêmica alcançou o topo das redes sociais, chegando
a estar entre os dez assuntos mais comentados do mun-
do no Twitter. A retirada do ar do post pela Folha, sem
explicação imediata, mas deixando rastros digitais, ge-
rou reclamações e suscitou a elaboração de conjecturas:
"Acredito que a Folha precisa explicar o que motivou
a retirada. Se está compactuando com uma operação
abafa por parte da Globo ou se apurou erros no relato",
registrou um leitor. O editor-executivo da Folha, Sérgio
Dávila, diz que a Direção foi surpreendida com o con-
teúdo e determinou sua retirada temporária até que o
outro lado fosse ouvido. "Nesse intervalo, uma reporta-
gem foi publicada para explicar o que havia acontecido.
Não foi, portanto, sem qualquer explicação", afirma.
Para Dávila, no caso concreto, não havia impeditivo
para que o procedimento-padrão de ouvir o outro lado
não fosse respeitado.
A Folha tem hoje 124 colunistas e 48 blogs. Grande par-
te dos leitores não diferencia uns de outros. Mas, na
estrutura interna do jornal, blogueiros e colunistas são
tratados de forma diferenciada. Todos os colunistas são
lidos por editores ou pelos secretários de Redação an-
tes que seus textos sejam publicados.
Os blogs são acompanhados a posteriori, pela própria
natureza de "diário" que a modalidade comporta. Os
autores cuidam diretamenteda publicação dos textos.
Argumenta Dávila que todos os que escrevem na Fo-
lha, incluindo blogueiros, devem submeter quaisquer
acusações de prática ilegal aos seus editores antes
de publicá-las.
É dever das titulares de um blog feminino e feminista tra-
zer a público, sabendo ser verdadeira, uma denúncia de
prática machista. É dever do jornal trabalhar tal informa-
ção e dar voz àquele que é acusado do que quer que seja.
O correto teria sido a publicação do texto original no
blog, com remissão simultânea para reportagem pro-
duzida pelo corpo editorial da Folha, submetida aos
padrões exigidos pelo Manual de Redação de isenção,
transparência e equilíbrio. A retirada do ar explicitou
falhas de comunicação e procedimento.
Um poderoso machão sucumbiu. Os tempos são outros.
Uma leitora, no entanto, lembrou a ombudsman de que
nesta semana a Ilustrada ganhou três novos colunistas
de humor. Eles dividirão espaço com o consagrado José
Simão. Todos são homens. Também não há mulheres, por
exemplo, no quadrado da charge da página 2 da Folha.
*Ombudsman é uma expressão de origem sueca que
significa "representante do cidadão". A palavra é
formada pela união de "ombuds" (representante) e
"man" (homem). O termo surgiu em 1809, nos países
escandinavos, para designar um Ouvidor-Geral do Par-
lamento, responsável em mediar e tentar solucionar as
reclamações da população junto ao governo.
Hoje em dia, o ombudsman se transformou em uma
profissão presente em quase todas as grandes e mé-
dias empresas, sejam públicas ou privadas. A função do
búds, como também são conhecidos, é a de enxergar os
problemas e pontos negativos de determinada empre-
sa ou instituição, a partir da ótica do consumidor/cida-
dão, e tentar solucionar as crises de maneira imparcial.
Dentro da imprensa, o ombudsman é o intermediador
entre a editoria do jornal, por exemplo, e seus leitores.
Nos Estados Unidos, a função de ombudsman surgiu
nos anos 1960. No Brasil, o cargo existe desde 1989,
quando o jornal Folha de S. Paulo publicou a primeira
editoria do seu ombudsman, que ficaria responsável em
ser o porta-voz dos leitores, solucionando e transmitin-
do as suas reclamações para o jornal.
Em muitas empresas o ombudsman é ligado ao depar-
tamento de Serviços Jurídicos.
Disponível em: https://www.significaDos.com.Br/omBuDsman/.
acesso em: 13 maio 2017. [aDaptaDo para fins De vestiBular.]
7. (Pucsp) Indique em qual passagem as aspas são em-
pregadas para assinalar o pronunciamento do jornal:
a) “José Mayer me assediou” [terceiro parágrafo]
b) “O conteúdo foi retirado do ar porque desrespeitou
o princípio editorial da Folha de só publicar acusação
após ouvir e registrar os argumentos da parte acu-
sada, salvo nos casos em que isso não for possível”
[quarto parágrafo]
c) (...) “ouvidos todos os envolvidos, em busca da ver-
dade” [quinto parágrafo]
d) “Mexeu com uma, mexeu com todas” [sexto parágrafo]
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
OGX poderá ficar com campos em caso de recuperação
“A OGX está bastante avisada que, em meio a tudo isso
que ela está vivendo, ela tem que ter uma fiel obser-
vância ao contrato, tem que estar atenta para o cum-
primento das cláusulas contratuais”, afirmou Magda
Chambriard, diretora-geral da ANP.
Entre outras, as cláusulas abrangem fornecimento de
garantias, realização dos planos de desenvolvimento,
realização dos planos de avaliação, “enfim, todas as
obrigações dos contratos que ela tem, essa uma condi-
ção ‘sine qua nom’”, completou Magda.
(folha De sp, 17.10.2013)
64
8. (Espm) Ainda se referindo à expressão “sine qua
nom”, o fato de haver no texto aspas simples antes e
aspas triplas depois se justifica por:
a) ocorrer uma transgressão gramatical (falha do jornal).
b) tratar-se de uma expressão estrangeira no interior
de uma citação.
c) destacar uma expressão idiomática combinada
com uma citação.
d) estar sendo empregado o sentido irônico da expressão.
e) tratar-se de um discurso direto dentro de uma citação.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Texto para a(s) questão(ões) a seguir
Eram tempos menos duros aqueles vividos na casa de
Tia Vicentina, em Madureira, subúrbio do Rio, onde Pau-
linho da Viola podia traçar, sem cerimônia, um prato de
feijoada - comilança que deu até samba, "No Pagode do
Vavá". Mas como não é dado a saudades (lembre-se: é o
passado que vive nele, não o contrário), Paulinho aceitou
de bom grado a sugestão para que o jantar ocorresse em
um dos mais requintados italianos do Rio. A escolha pela
alta gastronomia tem seu preço. Assim que o sambista
chega à mesa redonda ao lado da porta da cozinha, for-
ma-se um círculo de garçons, com o maître à frente. [...]
Paulinho conta que cresceu comendo o trivial. Seu pai
viveu 88 anos à base de arroz, feijão, bife e batata fri-
ta. De vez em quando, feijoada. Massa, também. "Mas
nada muito sofisticado."
Com exceção de algumas dores de coluna, aos 70 anos,
goza de plena saúde. O músico credita sua boa forma
ao estilo de vida, como se sabe, não dado a exageros e
grandes ansiedades.
t. carDoso, valor, 28/06/2013. aDaptaDo.
9. (Fgvrj) Considere estas afirmações sobre elementos
linguísticos presentes no texto:
I. O verbo “traçar” pertence a um registro linguístico
diverso do que predomina no texto.
II. No trecho "um dos mais requintados italianos do
Rio”, ocorre elipse de um substantivo.
III. Com as aspas em "Mas nada muito sofisticado", o au-
tor do texto imprime, a essa expressão, um tom irônico.
Tendo em vista o contexto, está correto apenas o que
se afirma em
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
TURISMO NA FAVELA: E OS MORADORES?
Água morro abaixo, fogo morro acima e invasão de tu-
ristas em favelas pacificadas são difíceis de conter. Algo
precisa ser feito para que a positividade do momento
não transforme esses lugares em comunidades “só pra
inglês ver”. As favelas pacificadas tornaram-se alvo de
uma volúpia consumidora poucas vezes vista no Rio de
Janeiro. O momento em que se instalaram as Unidades
de Polícia Pacificadora em algumas favelas foi como se
tivesse sido descoberto um novo sarcófago de Tutanka-
mon, o faraó egípcio: uma legião de turistas, pesquisado-
res, empresários, comerciantes “descobriram” as favelas.
O Santa Marta, primeira favela a ter uma UPP ao longo
dos seus quase 80 anos, sempre recebeu, na maioria das
vezes de forma discreta, visitantes estrangeiros. E, em
alguns casos, ilustres: Rainha Elizabeth, Senador Kenne-
dy, Gilberto Gil. Até mesmo Michael Jackson, quando
gravou seu clipe na favela, não permitiu a presença da
mídia. A partir de 2008, iniciou-se a era das celebrida-
des e a exposição da favela para o mundo.
Algumas perguntas, porém, precisam ser feitas e res-
pondidas no momento em que o poder público pensa
em investir nesse filão: o que é uma favela preparada
para receber turistas? Que “maquiagem1” precisa ser
feita para que o turista se sinta bem? Que produtos os
turistas querem encontrar ali? O comércio local deve
adaptar-se aos turistas ou servir aos moradores? Se o
Morro não é uma propriedade particular, se não tem um
dono, todo e cada morador tem o direito de opinar so-
bre o que está se passando com o seu lugar de moradia.
Essas e outras questões devem pautar o debate entre
moradores e gestores públicos sobre o turismo nas fa-
velas pacificadas. Se os moradores não se organizarem
e se não assumirem o protagonismo das ações de turis-
mo e de entretenimento no Santa Marta, vamos assistir
aos nativos — os de dentro — servindo de testa de
ferro para empreendimentos e iniciativas dos de fora,
às custas de uma identidade local que aos poucos vai
perdendo suas características.
Tomar os princípios do turismo comunitário — integri-
dade das identidades locais, protagonismo e autonomia
dos moradores — talvez ajude-nos a encontrar estraté-
gias para receber os de fora sem sucumbir às regras
violentas de um turismo mercadológico.
itamarsilva é presiDente Do grupo eco — santa marta e
Diretor Do instituto Brasileiro De anÁlises sociais e econômicas
(iBase). aDaptaDo De: Jornal o Dia, 31/01/2013.
10. (cftrj) Quando escrevemos, dispomos, entre outros
recursos, de vários sinais gráficos: as aspas são exem-
plos disso. No texto, elas foram empregadas em “ma-
quiagem” (ref. 1) com a intenção de destacar que essa
palavra sofreu uma alteração de natureza:
a) semântica.
b) sintática.
c) morfológica.
d) fonética.
E.O. FixAçãO
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A VOZ SUBTERRÂNEA
Às vezes ouvia-se um canto surdo,
que parecia vir debaixo da terra.
65
Até que os homens da superfície,
para desvendar o mistério,
puseram-se a fazer escavações.
Sim! eram os homens das minas,
que um desabamento ali havia aprisionado.
E ninguém suspeitava da sua existência,
porque já haviam passado três ou quatro gerações!
Mas a luz forte das lanternas não os ofuscou:
eles estavam cegos
– todos, homens, mulheres, crianças.
Eles estavam cegos... e cantavam!
quintana, mario. Baú De espantos. 1. eD.
rio De Janeiro: oBJetiva, 2014.
1. (PUC-PR 2018) Os sinais de pontuação são importantes
elementos de expressividade em textos de caráter poético.
Assim, em “A voz subterrânea”, é CORRETO afirmar que
a) os pontos de exclamação nos versos 6 e 9 têm a
mesma finalidade, a saber, rechaçar a incredulidade
do autor frente os eventos apresentados.
b) os dois-pontos usados no verso 10 servem para in-
troduzir uma elucidação sobre a afirmação feita antes
desse sinal, no mesmo verso.
c) o travessão do verso 12 introduz um diálogo meta-
fórico, por isso pode também ser entendido como um
elemento de realce.
d) as reticências do verso 13 pervertem o momento
de maior tensão do texto, criando um paradoxo entre
as duas orações do mesmo verso.
e) a vírgula do verso 6 possibilita a ordem indireta da
oração adjetiva do verso 7, pois introduz uma explica-
ção quando uma restrição era esperada.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) a seguir refere(m)-se ao texto abaixo.
Menino do Acre talvez seja uma das maiores empulha-
ções da história “mística” do Brasil
O estudante de Psicologia de 25 anos é produto de uma
grande jogada de marketing que nem precisou de um
Washington Olivetto para criá-la
O “Menino do Acre” talvez fique na história como uma
das grandes empulhações brasileiras, e a mídia, certa-
mente para obter audiência e acesso, se não está en-
dossando diretamente, está sendo conivente com as
trapalhadas e enganações do 1estudante de Psicologia
Bruno Borges, de 25 anos.
2A Argentina tem Jorge Luis Borges. O Brasil contenta-se
com Bruno Borges, o 3pós-adolescente fujão, que ficou
desaparecido durante algum tempo, alegando que es-
tava em busca do conhecimento. (...) Suas ideias sobre
filosofia e alquimia são lorota pura. Ao desaparecer, 4o
que o jovem estava buscando? “Busquei o autoconhe-
cimento. Na alquimia, dizemos que o operador procede
em busca da pedra filosofal”, afirma. O que isso quer
dizer? Nada. 5É pura platitude, embromação. 6Qualquer
livro primário discute o assunto de maneira mais densa.
Bruno Borges diz que está articulando um projeto para
mudar a vida das pessoas. Porém, não explica o que é,
exceto que se trata de “despertar para o mundo do co-
nhecimento” e para a “investigação da verdade”. O po-
eta Goethe, 7que se considerava alquimista, e o filósofo
Nietzsche são precisos 8ao discutir temas sobre os quais
o estudante apenas roça, possivelmente depois da lei-
tura, não de livros científicos, e sim de obras místicas
– talvez de terceira categoria ou sem categoria alguma.
Questionado, Bruno Borges, o nosso Borges “détraqué”,
sustenta que seu projeto é “uma missão”. O projeto e
a missão, a rigor, não são expostos de maneira cabal
(anticientífico, ele avalia que não é preciso demons-
trar)9; eventualmente, o Menino do Acre trata do tema
de maneira elíptica, como se não soubesse do que está
falando ou então 10estaria sonegando alguma coisa de
caráter seminal, que ainda não pode ser dita, sobretudo
para os não iniciados.
Espécie de Policarpo Quaresma da filosofia, vá lá, ou da
alquimia, vá lá, Bruno Borges sugere que está buscando
“a verdade da vida”. Entretanto, suas frases são ocas, as
ideias são uma mistureba de frases de efeito e “concei-
tos” mal digeridos. (...) O que dizer de um garoto que diz
que conseguiu “lapidar a pedra filosofal”? A única coisa
que parece ter lapidado de verdade foi a paciência de
jornalistas e de leitores e telespectadores e sua própria
cara de pau. (...) Ele fala em fé, o que sugere que é, claro,
um místico – e não um cientista precoce, ao estilo de Da-
rwin e Richard Dawkins. 11Mas certamente não chega aos
pés de Antônio Conselheiro e do Padre Cícero.
Há místicos que buscam o autoconhecimento duran-
te anos e, às vezes, nada encontram. Pois o Menino do
Acre, em apenas dois meses e sem pesquisas detidas e
rigorosas, alcançou seus objetivos, sua realização espiri-
tual. Você leu certo: dois meses! 12O garoto deveria ser
preparado pelos grandes laboratórios para 13“descobrir”
um medicamento que “cure” os pacientes que têm Aids.
14Seria um portento. É possível que, depois de quatro me-
ses, o Menino do Acre poderia se candidatar ao Prêmio
Nobel de Medicina ou, 15quem sabe, de Literatura – tal o
poder de sua imaginação. Ou seja, se ele terminar os dias
escrevendo autoajuda ou ficção científica, nem Paulo Co-
elho, o esperto-expert em tudo, ficará surpreso. (...)
16O Quase-Adulto do Acre revela: “Alguns livros”, dos 14,
“talvez mereçam permanecer ocultos”. Certos livros de-
veriam ser qualificados como terrorismo ecológico – um
atentado às florestas –, então, talvez seja melhor que fi-
quem ocultos. 17O Menino do Acre talvez seja 18a jogada
de marketing mais bem urdida dos últimos anos, e 19sem
a colaboração de Duda Mendonça e Washington Olivetto.
(...) No final da entrevista, 20tão impressionado quanto
um conto de Borges é impressionante, o bom, o da
Argentina, o Menino do Acre ensina aquilo que nem
Marilena Chauí (...) é capaz de ideologizar: “Por mais que
as pessoas não percebam, a partir de agora, o conhe-
cimento será mais valorizado. Quanto mais conheci-
mento você tiver, mais influente será na sociedade”.
Ora, o que surpreende é que o Menino do Acre parece
não ter conhecimento algum, ao menos de maneira
consistente e sistemática, e, mesmo assim, está se
66
tornando tremendamente influente, inclusive conce-
dendo entrevista ao “Fantástico”, da TV Globo, e à maior
revista semanal do país, a “Veja”. Não é pouca coisa, não.
(...)
Fico na dúvida, filosófica: o Menino do Acre fica melhor
no papel de alienista, de alienado ou os dois? Ah, o modo
como mesmerizou o país, 21atraindo jornalistas de todas
as plagas, alienados mesmo somos nós, que, quem sabe,
esperamos o Messias, ainda que na forma de um Borges
piorado e sem “O Aleph”. Borges, o “Adulto Portenho”,
talvez esteja certo ao ecoar Marco Polo: “O real não é
mais verdade do que o inventado”.
(Belém, euler De frança. menino Do acre talvez seJa uma Das
maiores empulhações Da história “mística” Do Brasil. Disponível
em: https://www.Jornalopcao.com.Br/colunas-e-Blogs/imprensa/
menino-Do-acre-talvez-seJa-uma-Das-maiores-empulhacoes-Da-historia-
mistica-Do-Brasil-102864/. aDaptaDo. acesso em 01 set. 2017)
2. (UPF 2018) No que concerne a aspectos semântico-sin-
táticos do texto, está correto o que se afirma em:
a) As vírgulas que separam a oração “que se considera-
va alquimista” (referência 7) justificam-se porque evi-
denciam uma oração restritiva ligada ao nome Goethe
que a antecede.
b) No período “quem sabe, de Literatura – tal o poder
de sua imaginação” (referência 15), o sinal de travessão
poderia ser substituído por dois-pontos, sem que o sentido
do texto e sua correção gramatical fossem prejudicados.
c) Dada a posição que ocupa na oração, “A Argentina”
(referência 2), caracterizada como termo adverbial, deve-ria estar isolada por vírgula, se atendido o rigor gramatical.
d) As informações e a correção gramatical do texto se-
riam preservadas, caso, sem que fossem feitas outras al-
terações, a conjunção coordenativa “Mas”(referência 11)
fosse substituída pela conjunção aditiva “e”, grafada em
letra minúscula, e o ponto final que a antecede fosse subs-
tituído por vírgula.
e) O uso do ponto e vírgula (;) na referência 9 poderia
ser substituído por um ponto final (.) sem prejuízo à
compreensão da ideia, uma vez que separa orações
independentes.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
O MITO DO TEMPO REAL
O descompasso entre a velocidade das máquinas e a
capacidade de compreensão de seus usuários leva a um
quadro de ansiedade social sem precedentes. Em blogs,
redes sociais, podcasts e mensagens eletrônicas diver-
sas todos pedem desculpas pela demora em responder
às demandas de seus interlocutores, impacientes como
nunca. E-mails que não sejam atendidos em algumas
horas acabam encaminhados para outras redes, em um
apelo público por uma resposta.
No desespero por contato instantâneo, telefones cha-
mam repetidamente em horas impróprias, mensagens de
texto são trocadas madrugada adentro, conversas mul-
tiplicam-se por comunicadores instantâneos e toda oca-
sião – do trânsito ao banheiro, do elevador à cama, da
hora do almoço ao fim de semana – parece uma lacuna
propícia para se resolver uma pendência.
[...]
A resposta imediata a uma requisição é chamada tec-
nicamente de “tempo real”, mesmo que não haja nada
verdadeiramente real nem humano nessa velocidade. O
tempo imediato, sem pausas nem espera, em que tudo
acontece num estalar de dedos é uma ficção. Desejá-lo
não aumenta a eficiência. Pelo contrário, pode ser extre-
mamente prejudicial.
Muitos combatem a superficialidade nas relações digi-
tais pelos motivos errados, questionando a validade dos
“amigos” no Facebook ou “seguidores” no Twitter ao
compará-los com seus equivalentes analógicos. O pro-
blema não está na tecnologia, mas na intensidade dis-
pensada em cada interação. Seja qual for o meio em que
ele se dê, o contato entre indivíduos demanda tempo, e
nesse tempo não é só a informação pura e simples que
se troca. Festas, conversas, leituras, relacionamentos, mú-
sicas e filmes de qualidade não podem ser acelerados
ou resumidos a sinopses. Conversas, ao vivo ou media-
das por qualquer tecnologia, perdem boa parte de sua
intensidade com a segmentação. O tempo empenhado
em cada uma delas é muito valioso; não faz sentido eco-
nomizá-lo, empilhá-lo ou segmentá-lo. O tempo humano
(que talvez seja irreal, se o “outro” for provado real) é
bem mais lento. Nossas vidas são marcadas tanto pela
velocidade quanto pela lentidão.
[...]
Essa quebra da sequência histórica faz com que muitos
processos pareçam herméticos ou misteriosos demais.
Quando não há uma compreensão das etapas com-
ponentes de um processo, não há como intervir nelas,
propondo correções, adaptações ou melhorias. Tal impo-
tência leva a uma apatia, em que as condições impostas
são aceitas por falta de alternativa. Escondidos seus pro-
cessos industriais, os produtos adquirem uma aura quase
divina, transformando seus usuários em consumidores
vorazes, que se estapeiam em lojas à procura do último
aparelho eletrônico que se proponha a preencher o vazio
que sentem.
Incapazes de propor alternativas ou sugerir mudanças,
os consumidores são estimulados pela publicidade a
um gigantesco hedonismo e pragmatismo. A facilidade
de acesso à abundância leva a uma passividade e a um
pensamento pragmático que defende a ideia de “vamos
aproveitar agora, pois quando acontecer um problema
alguém terá descoberto a solução”, visível na forma com
que se abordam problemas de saúde, obesidade, consu-
mo, lixo eletrônico, esgotamento de recursos e poluição
ambiental. Em alta velocidade há pouco espaço para a
reflexão. Reduzidos a impulsos e reflexos, corremos o ris-
co de deixar para trás tudo aquilo que nos diferencia das
outras espécies.
(luli raDfahrer. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.Br/
colunas/luliraDfahrer/1191007-o-mito-Do-tempo-real.shtml.)
3. (utfpr) Em relação à pontuação do texto, considere as
afirmativas a seguir.
I. No segundo parágrafo, o travessão foi empregado para
isolar a explicação da expressão anterior.
67
II. No terceiro parágrafo, as aspas foram empregadas para
ressaltar o valor significativo da expressão “tempo real”.
III. No quarto parágrafo, os parênteses são emprega-
dos para introduzir uma generalização para a expres-
são anterior.
Está(ão) correta(s) apenas:
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto para responder à(s) questão(ões).
CHUVA FORA DE ÉPOCA DÁ SÓ 18 DIAS DE ALÍVIO ÀS
REPRESAS DA GRANDE SP
As primeiras duas semanas de setembro trouxeram chu-
vas acima da média e ampliaram em 50 bilhões de litros
as reservas das principais represas da Grande São Paulo.
Todo esse volume, porém, representa apenas um ligeiro
alívio nos agonizantes mananciais e deverá ser todo con-
sumido num intervalo de apenas três semanas de estiagem
– como aconteceu nos últimos 18 dias do mês de agosto.
E é justamente essa a previsão dos climatologistas para a
próxima semana. Segundo essas previsões, a região me-
tropolitana e seu entorno, onde estão os seis principais
reservatórios, terá bastante calor e quase nenhuma chuva.
Setembro é o último mês da estação seca, iniciada em
abril. A expectativa do governo Geraldo Alckmin (PSDB)
é que as chuvas em grande volume voltem a partir de ou-
tubro – na última estação chuvosa, porém, elas só vieram
em fevereiro e março.
A Grande SP vive hoje a mais grave seca já registrada.
faBrício loBel (Disponível em http://www1.folha.uol.
com.Br/cotiDiano. acesso em 15.09.2015)
4. (utfpr ) Sobre o texto, identifique como verdadeiras (V)
ou falsas (F) as seguintes afirmativas:
( ) A conjunção porém, no segundo parágrafo, intro-
duz uma ideia de oposição às informações do primei-
ro parágrafo.
( ) No segundo parágrafo, o travessão ( – ) foi empregado
para introduzir um esclarecimento à informação anterior.
( ) No terceiro parágrafo, o pronome indefinido onde foi
empregado para retomar o lugar, citado anteriormente .
( ) No título da notícia, a palavra alívio recebe acento por
ser uma paroxítona terminada em - a.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta,
de cima para baixo.
a) F – V – F – V.
b) F – F – V – V.
c) F – V – V – F.
d) V – V – F – F.
e) V – F – F – V.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
TEXTO
1José Leal fez uma reportagem na Ilha das Flores, onde
ficam os imigrantes logo que chegam. E falou dos equí-
vocos de nossa política imigratória. 2As pessoas que ele
encontrou não eram agricultores e técnicos, gente capaz
de ser útil. Viu músicos profissionais, bailarinas austría-
cas, cabeleireiras lituanas. Paul Balt toca acordeão, Ivan
Donef faz coquetéis, Galar Bedrich é vendedor, Serof Ne-
dko é ex-oficial, Luigi Tonizo é jogador de futebol, Ibolya
Pohl é costureira. Tudo 15gente para o asfalto, “para entu-
lhar as grandes cidades”, como diz o repórter.
6O repórter tem razão. 3Mas eu peço licença para ficar
imaginando uma porção de coisas vagas, ao olhar essas
belas fotografias que ilustram a reportagem. Essa linda
costureirinha morena de Badajoz, essa Ingeborg que faz
fotografias e essa Irgard que não faz coisa alguma, esse
Stefan Cromick cuja única experiência na vida parece ter
sido vender bombons 11– não, essa gente não vai aumen-
tar a produção de batatinhas e quiabos nem 16plantar
cidades no Brasil Central.
7É insensato importar gente assim. Mas o destino das pes-
soas e dos países também é, muitas vezes, insensato: prin-
cipalmente da gente nova e países novos. 8A humanidade
não vive apenas de carne, alface e motores. Quem eram os
pais de Einstein, eu pergunto; e se o jovem Chaplin quises-
se hoje entrar no Brasil acaso poderia? Ninguém sabe que
destino terão no Brasilessas mulheres louras, esses ho-
mens de profissões vagas. Eles estão procurando alguma
coisa12: emigraram. Trazem pelo menos o patrimônio de
sua inquietação e de seu 17apetite de vida. 9Muitos se per-
derão, sem futuro, na vagabundagem inconsequente das
cidades; uma mulher dessas talvez se suicide melancolica-
mente dentro de alguns anos, em algum quarto de pen-
são. Mas é preciso de tudo para 18fazer um mundo; e cada
pessoa humana é um mistério de heranças e de taras. Aca-
so importamos o pintor Portinari, o arquiteto Niemeyer, o
físico Lattes? E os construtores de nossa indústria, como
vieram eles ou seus pais? Quem pergunta hoje, 10e que
interessa saber, se esses homens ou seus pais ou seus avós
vieram para o Brasil como agricultores, comerciantes, bar-
beiros ou capitalistas, aventureiros ou vendedores de gra-
vata? Sem o tráfico de escravos não teríamos tido Macha-
do de Assis, e Carlos Drummond seria impossível sem uma
gota de sangue (ou uísque) escocês nas veias, 4e quem nos
garante que uma legislação exemplar de imigração não
teria feito Roberto Burle Marx nascer uruguaio, Vila Lobos
mexicano, ou Pancetti chileno, o general Rondon cana-
dense ou Noel Rosa em Moçambique? Sejamos humildes
diante da pessoa humana: 5o grande homem do Brasil
de amanhã pode descender de um clandestino que nes-
te momento está saltando assustado na praça Mauá13, e
não sabe aonde ir, nem o que fazer. Façamos uma política
de imigração sábia, perfeita, materialista14; mas deixemos
uma pequena margem aos inúteis e aos vagabundos, às
aventureiras e aos tontos porque dentro de algum deles,
como sorte grande da fantástica 19loteria humana, pode
vir a nossa redenção e a nossa glória.
(Braga, r. imigraçÃo. in: a BorBoleta amarela.
rio De Janeiro, eDitora Do autor, 1963)
68
5. (Ita) De acordo com as normas gramaticais de pon-
tuação,
I. o travessão da referência 11 serve para realçar uma
conclusão do que foi dito anteriormente.
II. os dois pontos da referência 12 podem ser substituí-
dos por ponto e vírgula.
III. a vírgula, em “está saltando assustado na praça
Mauá, e não sabe”, referência 13, pode ser excluída.
IV. o ponto e vírgula da referência 14 pode ser substitu-
ído por ponto final.
Estão corretas apenas
a) I, II e III.
b) I, III e IV.
c) II e III.
d) II, III e IV.
e) III e IV.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto abaixo para responder à(s) questão(ões).
RENÚNCIA
Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura...
A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...
BanDeira, manuel. a cinza Das horas. in: estrela Da viDa
inteira. rio De Janeiro: nova fronteira, 1993, p. 75.
6. (ifal) A pontuação contribui para a produção dos
efeitos de sentido no texto. Sobre esse assunto, marque
a alternativa que apresenta uma afirmação incorreta,
levando-se em consideração as regras de pontuação
previstas na gramática normativa.
a) No trecho “E pede humildemente a Deus que a
faça”, admitir-se-ia o uso da vírgula para intercalar o
termo “humildemente”.
b) O ponto, em versos como “Só a dor enobrece e é
grande e é pura.”, encerra ideias categóricas para as
quais não se preveem contra-argumentações.
c) Do ponto de vista pragmático, o sinal dois pontos, no
segundo verso, serve para expressar uma explicação.
d) As reticências ao longo do texto criam uma atmos-
fera intimista, sugestiva e de convite à reflexão.
e) No verso “A vida é vã como a sombra que pas-
sa...”, poder-se-ia inserir uma vírgula após a palavra
“vida”, sem prejuízo sintático e semântico do texto.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia este texto e responda à(s) questão(ões) a seguir.
ORAÇÃO
– “Ave Maria cheia de graça...”
A tarde era tão bela, a vida era tão pura,
as mãos de minha mãe eram tão doces,
havia lá, no azul, um crepúsculo de ouro... lá longe...
– “Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita!
Bendita!”
Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos menores
meus
brinquedos, a casaria branca de minha
terra, a burrinha do vigário pastando
junto à capela... lá longe...
Ave cheia de graça
– “bendita sois entre as mulheres, bendito é o fruto do
vosso ventre...”
E as mãos do sono sobre meus olhos,
e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho,
e as estampas de meu catecismo
para o meu sonho de ave!
E isso tudo tão longe... tão longe...
(lima, Jorge De. poemas. rio; sÃo paulo: recorD, 2004, p. 39)
7. (ifal) Quanto à pontuação no poema, indique a única
alternativa correta.
a) As reticências reforçam no texto o caráter seletivo,
parcial e vacilante da memória, bem como imprimem
no poema um tom ainda mais saudosista e polissêmico.
b) As aspas que se põem antes e depois de algumas
frases marcam a fala da mãe.
c) As vírgulas presentes nos versos de dois a quatro
servem para separar orações coordenadas.
d) A julgar pelo que ensina a gramática, no excerto “Cheia
de graça, o Senhor é convosco” a vírgula é opcional.
e) Embora as exclamações que aparecem no texto não
se vinculem à emoção do eu lírico, elas denunciam seu
estado de espírito enquanto recorda o passado.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
VELHO MARINHEIRO
homenagem aos marinheiros
De sempre... e para sempre.
28Sou marinheiro porque um dia, muito jovem, estendi
meu braço diante da bandeira e jurei lhe dar minha vida.
Naquele dia de sol a pino, com meu novo uniforme
branco, 21senti-me homem de verdade, como se estives-
se dando adeus aos tempos de garoto. 29Ao meu lado,
as vozes de outros jovens soavam em uníssono com a
minha, vibrantes, e terminamos com emoção, de peitos
estufados e orgulhosos. 5Ao final, minha mãe veio em
minha direção, apressada em me dar um beijo. 20Acari-
ciou-me o rosto e disse que eu estava lindo de unifor-
me. 6O dia acabou com a família em festa; 11eu lembro-
-me bem, fiquei de uniforme até de tarde...
69
Sou marinheiro, porque aprendi, naquela Escola, o signi-
ficado nobre de companheirismo. 7Juntos no sofrimento
e na alegria, um safando o outro, leais e amigos. Aprendi
o que é civismo, respeito e disciplina, no princípio, exigi-
dos a cada dia; depois, como parte do meu ser e, assim,
para sempre. 23A cada passo havia um novo esforço espe-
rando e, depois dele, um pequeno sucesso. 26Minha vida,
agora que olho para trás, foi toda de pequenos sucessos.
A soma deles foi a minha carreira.
19No meu primeiro navio, logo cedo, percebi que era no-
vamente aluno. Todos sabiam das coisas mais do que eu
havia aprendido. Só que agora me davam tarefas, incum-
bências, e esperavam que eu as cumprisse bem. 2Pouco a
pouco, passei a ser parte da equipe, a ser chamado para
ajudar, a ser necessário. 8Um dia vi-me ensinando aos no-
vatos 12e dei-me conta de que me tornara marinheiro, de
fato e de direito, um profissional! 32O navio passou a ser
minha segunda casa, onde eu permanecia mais tempo, às
vezes, do que na primeira. Conhecia todos, alguns mais
até do que meus parentes. Sabia de suas manhas, cacoe-
tes, preocupações e de seus sonhos. Sem dar conta, meu
mundo acabava no costado do navio.
9A soma de tudo que fazemos e vivemos, pelo navio, 14é
uma das coisas mais belas, que só há entre nós, em mais
nenhum outro lugar. 24Por isso sou marinheiro, porque
sei o que é espírito de navio.
Bons tempos aqueles das viagens, dávamos um duro
danado no mar, em serviço, postos de combate, ades-
tramento de guerra, dia e noite. 30O interessante é que
em toda nossa vida, 15quando buscamos as boas recor-
dações, elas vêm desse tempo, das viagens e dos navios.
16Até 13as durezas por que passamos são saborosas 1ao
lembrar, talvez porque as vencemos e fomos adiante.
É aquela história dos pequenossucessos.
A volta ao porto era um acontecimento gostoso, sempre
figurando a mulher. Primeiro a mãe, depois a namorada,
a noiva, a esposa. Muita coisa a contar, a dizer, surpre-
sas de carinho. A comida preferida, o abraço apertado,
o beijo quente... e o filho que, na ausência, foi ensinado
a dizer papai.
31No início, eu voltava com muitos retratos, principal-
mente quando vinha do estrangeiro, depois, com o
tempo, eram poucos, até que deixei de levar a máquina.
10Engraçado, 22vocês já perceberam que marinheiro ve-
lho dificilmente baixa a terra com máquina fotográfica?
Foi assim comigo.
34Hoje os navios são outros, os marinheiros são outros -
sinto-os mais preparados do que eu era - mas a vida no
mar, as viagens, os portos, a volta, estou certo de que
são iguais. Sou marinheiro, por isso sei como é.
Fico agora em casa, querendo saber das coisas da Ma-
rinha. E a cada pedaço que ouço de um amigo, que leio,
que vejo, me dá um orgulho que às vezes chega a en-
talar na garganta. 4Há pouco tempo, voltei a entrar em
um navio. Que coisa linda! 35Sofisticado, limpíssimo, nas
mãos de uma tripulação que só pode ser muito com-
petente para mantê-lo pronto. 33Do que me mostraram
eu não sabia muito. Basta dizer que o último navio em
que servi já deu baixa. 17Quando saí de bordo, parei no
portaló, voltei-me para a bandeira, inclinei a cabeça... e,
minha garganta entalou outra vez.
Isso é corporativismo; não aquele enxovalhado, que sig-
nifica o bem de cada um, protegido à custa do desmere-
cimento da instituição; mas o puro, que significa o bem
da instituição, protegido pelo merecimento de cada um.
27Sou marinheiro e, portanto, sou corporativista.
Muitas vezes 25a lembrança me retorna aos dias da ati-
va e morro de saudades. 18Que bom se pudesse voltar
ao começo, vestir aquele uniforme novinho — até um
pouco grande, ainda recordo — Jurar Bandeira, ser bei-
jado pela minha falecida mãe...
3Sei que, quando minha hora chegar, no último instante,
verei, em velocidade desconhecida, o navio com meus
amigos, minha mulher, meus filhos, singrando para sem-
pre, indo aonde o mar encontra o céu... e, se São Pedro
estiver no portaló, direi:
– Sou marinheiro, estou embarcando.
autor DesconheciDo. in: língua portuguesa: leitura e proDuçÃo De texto.
rio De Janeiro: marinha Do Brasil, escola naval, 2011. p. 6-8)
Glossário
- Portaló: abertura no casco de um navio, ou passagem
junto à balaustrada, por onde as pessoas transitam
para fora ou para dentro, e por onde se pode movimen-
tar carga leve.
8. (Esc. Naval) Que opção analisa corretamente o uso
das reticências em “O dia acabou com a família em fes-
ta; eu lembro-me bem, fiquei de uniforme até de tar-
de...” (ref. 6)?
a) Destacam a interrupção de uma ideia do locutor,
para exprimir considerações acessórias.
b) Marcam a suspensão da voz do autor, para assina-
lar inflexões de natureza emocional.
c) Indicam que a ideia que o autor quer exprimir deve
ser preenchida com a imaginação do leitor.
d) Cortam a frase do locutor pela interferência de ou-
tras informações que dão continuidade ao texto.
e) Assinalam que foram suprimidas possíveis refe-
rências do autor, com a intenção de realçar a última
ideia enunciada.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
QUERO VOLTAR A CONFIAR
Fui criado com princípios morais comuns. Quando eu
era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos
eram autoridades dignas de respeito e consideração.
Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. 23Ini-
maginável responder de forma mal educada aos mais
velhos, professores ou autoridades... 24Confiávamos nos
adultos, porque todos eram pais, mães ou familiares
da nossa rua, do bairro ou da cidade. Tínhamos medo
16apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror10...
22Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que
perdemos. Tudo que os meus netos um dia enfrentarão.
Pelo medo no olhar das crianças, dos velhos, dos jovens e
70
dos adultos. Direitos humanos para os criminosos, deve-
res ilimitados para os cidadãos honestos. Não levar van-
tagem em tudo significa ser idiota. 25Trabalhador digno e
cumpridor dos deveres virou otário. Pagar dívidas em dia
é ser tonto – anistia para corruptos e sonegadores.
O que aconteceu conosco4? Professores maltratados
nas salas de aula14; comerciantes ameaçados por tra-
ficantes15; grades em nossas janelas e portas. 1Que
valores são esses5? Automóveis que valem mais que
abraços. 26Filhas querendo uma cirurgia como presente
por passarem de ano. Filhos esquecendo o respeito no
trato com pais e avós. No lugar de senhor, senhora, fi-
cou 12“oi cara”, ou “como está, coroa”6? Celulares nas
mochilas de crianças. “O que vais querer em troca de
um abraço7?” – “A diversão vale mais que um diploma.”
– “Uma tela gigante 20vale mais que uma boa conver-
sa.” – “21Mais vale uma maquiagem do que um sorve-
te.” – 13“Aparecer do que ser.” Quando foi que tudo de-
sapareceu ou se tornou ridículo8?
Quero arrancar as grades da minha janela para poder
tocar nas flores11... Quero me sentar na varanda e dor-
mir com a porta aberta nas noites de verão. Quero a
honestidade como motivo de orgulho. Quero a retidão
de caráter, a cara limpa e o olhar “olho no olho”. Quero
sair de casa sabendo a hora em que estarei de volta, sem
medo de assaltos ou balas perdidas. Quero a vergonha
na cara e a solidariedade. 2Onde a palavra valia mais que
um documento assinado. Quero a esperança, a alegria,
a confiança de volta. Quero calar a boca de quem diz:
“temos que estar 3ao nível de” ao falar de uma pessoa.
E viva o retorno da verdadeira 19vida, simples como a chu-
va, limpa como o céu de primavera, leve como a brisa da
manhã. E 17definitivamente 18bela como cada amanhecer.
27Quero ter de volta o meu mundo simples e comum,
onde existam o amor, a solidariedade e a fraternidade
como bases. 28Vamos voltar a ser gente. A ter indigna-
ção diante da falta de ética, de moral, de respeito. Cons-
truir um mundo melhor, mais justo e mais humano, onde
as pessoas respeitem as pessoas.
Utopia9?
Quem sabe.
Precisamos tentar.
arnalDo JaBor. Disponível em: http://www.pensaDor.uol.com.Br/
textos_De_arnalDo_JaBor/2/. Data De acesso: 30/04/2011.
9. (epcar (Cpcar)) Assinale a alternativa em que há uma
afirmação correta sobre a pontuação no texto.
a) Das seis interrogações presentes no texto, (ref. 4,
5, 6, 7, 8, 9), apenas duas delas são meramente re-
tóricas, ou seja, visam induzir o leitor a uma reflexão.
b) As reticências (ref. 10 e 11), em ambas as ocorrên-
cias, têm a mesma função: indicar a supressão de ele-
mentos que não são citados devido a sua irrelevância.
c) As aspas que aparecem nas referências 12 e 13 in-
dicam citação direta e expressões estranhas à língua,
respectivamente.
d) O ponto e vírgula, nas ref. 14 e 15, é usado para
enumerar constatações feitas pelo locutor em relação
à realidade atual.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) a seguir refere(m)-se ao texto abaixo.
UM PAPA QUE ERA MULHER
Em plena Idade Média, na noite de 28 de janeiro do
ano 814, nascia em uma família de camponeses, na
aldeia alemã de Ingelheim, uma menina chamada Jo-
ana. Quando adulta, ela seria a única mulher a exercer
a função de papa na história da humanidade. Filha de
um missionário da Igreja Católica, a menina foi criada
sob os rígidos ditames da religião, que naquela época
reservava às mulheres poucos direitos e lhes impunha
muitas proibições, como a alfabetização. Joana viveu
questionando os cânones de seu tempo, aprendeu o la-
tim e o grego antes dos 10 anos de idade e aos 16 ado-
tou a identidade do irmão morto numa batalha. Tudo
isso para assumir funções eclesiásticas num monastério
beneditino. Tornou-se papa entre 851 e 853 e morreu ao
dar à luz uma criança quando tinha 42 anos.
A sua curiosa e desconhecida trajetória já foi levada às
telas na década de 1970 em um filme protagonizado pela
atriz Liv Ullman. Agora, volta com mais apelo em uma
produção alemã dirigida pelo cineastaSonke Wortmann.
O filme baseia-se no livro “Papisa Joana”, da escritora
inglesa Donna Woolfolk Cross, que acaba de ser lançado
no Brasil. A autora construiu um romance sustentado por
informações obtidas em arquivos da Igreja e reconstituiu
a vida de Joana. Segundo a autora, a história da papisa
era considerada uma realidade até o século XVII, quando
disputas religiosas teriam levado o Vaticano a ordenar a
destruição das provas de sua existência. Na obra, Donna
Cross lança mão da criatividade, mas garante que conte-
ve os seus “saltos imaginativos”.
rangel, n. Disponível em: https://istoe.com.Br/15441.
acesso em: 02 ago. 2018. (aDaptaDo).
10. (cftmg 2019) Na última oração do texto, o emprego
das aspas em “saltos imaginativos” tem a função de
a) sinalizar a coloquialidade da expressão.
b) atribuir a ação à autora do romance.
c) enfatizar uma intenção irônica.
d) introduzir uma citação direta.
E.O. COmplEmEntAr
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
DESCOLADOS E BACANAS ADOTAM VIRA-LATAS E PE-
DEM HÓSTIA 'GLUTEN FREE'
A tipologia humana contemporânea chama a atenção
pelo ridículo. Descolados e bacanas são pessoas que
têm hábitos, afetos e disposições de alma mais avança-
dos do que os "colados" e os "canas".
Estes são gente que não consegue acompanhar os pro-
gressos sociais e se perdem diante das novas formas de
economia, de sociabilidade e de direitos afetivos. Veja-
mos alguns exemplos dessa tipologia dos descolados e
71
bacanas. Se você não se enquadrar, não chore. Ser um
"colado" ou "cana" um dia poderá ascender à condi-
ção vintage, semelhante ao vinil ou ao filtro de barro.
A busca de uma alimentação saudável é um traço de
descolados e bacanas. Um modo rápido e preciso de
identificá-los é usar a palavra "McDonald's" perto de-
les. Se a pessoa começar a gritar de horror ou demons-
trar desprezo, você está diante de um descolado e ba-
cana. Se você não entender o horror e o desprezo dela
pelo McDonald's, você é um "colado" e um “cana”.
Essa busca pela alimentação segura bateu na porta de
Jesus, coitado. A demanda dos católicos descolados e
bacanas é que o corpo de Cristo venha sem glúten. Uma
hóstia "gluten free". O papa, seguramente uma pes-
soa desocupada, teve que se preocupar com o corpo
de Cristo sem glúten. A commoditização da religião, ou
seja, a transformação da religião em produto, um dia
chegaria a isso: que Jesus emagreça seus fiéis.
Um segundo tipo de descolado e bacana é aquele pai
que fica lambendo o filho pra todo mundo achar que ele
é um "novo homem". Esse "novo homem" é, na verdade,
um mito pra cobrir a desarticulação crescente das rela-
ções entre homem e mulher. Homens cuidam de filhos há
décadas, mas agora pai que cuida de filho virou homem
descolado e bacana, com direito à licença-paternidade
de 40 dias, dada por empresas descoladas e bacanas.
Além de tornar o emprego ainda mais caro (coisa que a
lei trabalhista faz, inviabilizando o emprego no país), a
sorte dessas empresas é que as pessoas cada vez mais
se separam antes de ter filhos. As que não se separam,
por sua vez, ou têm um filho só ou um cachorro. Logo,
fica barato posar de empresa descolada e bacana. Que-
ria ver se a moçada fosse corajosa como os antigos e
tivesse cinco filhos por casal. Com o crescimento da
cultura pet, logo empresas descoladas e bacanas darão
licença de uma semana quando o cachorro do casal fi-
car doente. E esse "direito" será uma exigência do capi-
talismo consciente. Aliás, descolados e bacanas adotam
cachorros vira-latas para comprovar seu engajamento
contra a desigualdade social animal.
Um terceiro tipo de gente descolada e bacana é o pra-
ticante de formas solidárias de economia. Este talvez
seja o tipo mais descolado e bacana dos descritos até
aqui nessa tipologia de bolso que ofereço a você, a fim
de que aprenda a se mover neste mundo contemporâ-
neo tão avançado em que vivemos.
Uma nova "proposta" (expressões como "proposta" e
"projeto" são essenciais se você quer ser uma pessoa
descolada e bacana) é oferecer sua casa "de graça"
para pessoas morarem com você. Calma! Se o leitor for
alguém minimamente inteligente, desconfiará dessa pro-
posta. Algumas dessas propostas ainda vêm temperadas
com um discurso de "empoderamento" das mulheres
que colaborariam umas com as outras. Explico.
Imagine que uma mãe single ofereça um quarto na casa
dela para outra mulher em troca de ela cuidar do ma-
ravilhoso e criativo filho pequeno dessa mãe single. En-
tendeu? Sim, trabalho escravo empacotado pra presente.
Gourmetizado dentro de um discurso de "solidariedade
feminina" e economia colaborativa. Na prática, você tra-
balharia em troca de casa e comida. Essa proposta é ainda
mais ridícula do que aquela em que você, jovem, recebe a
"graça" de trabalhar de graça pra um marca famosa que
combate a fome na África em troca de experiência e para
enriquecer seu "book". Na China eles são mais solidários
do que isso, você ganharia pelo menos um dólar.
Sim, o mundo contemporâneo é ridículo de doer. Com suas
modinhas e terminologias chiques. Coitada da esquerda
que abraça essas pautas criativas. Saudades do Lênin?
(por luiz felipe ponDé. folha De s. paulo, 31 De Julho De
2017). fonte: http://www1.folha.uol.com.Br/colunas/
luizfelipeponDe/2017/07/1905751-DescolaDos-eBacanas-
aDotam-vira-latas-e-peDem-hostia-gluten-free.shtml
1. (Unioeste 2018) Considerando as palavras entre as-
pas no texto, assinale a alternativa em que estas NÃO
criam efeito de ironia sobre os termos aspeados:
a) “E esse ‘direito’ será uma exigência do capitalismo
consciente”.
b) “Uma nova ‘proposta’ é oferecer sua casa ‘de gra-
ça’ para pessoas morarem com você”.
c) “Expressões como ‘proposta’ e ‘projeto’ são essenciais
se você quer se tornar uma pessoa descolada e bacana”.
d) “Essa proposta é ainda mais ridícula do que aquela
em que você, jovem, recebe a ‘graça’ de trabalhar de
graça para uma marca famosa”.
e) “Algumas dessas propostas ainda vêm temperadas
com um discurso de ‘empoderamento’ das mulheres”.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto a seguir e responda à(s) questão(ões).
O promotor de justiça Alexandre Couto Joppert foi
afastado temporariamente da banca examinadora de
um concurso para o Ministério Público do Estado do Rio
de Janeiro e será alvo de uma investigação da própria
Promotoria. Examinador de Direito Penal, durante uma
prova oral, ele narrou um caso hipotético de estupro
coletivo e disse que o criminoso que praticou a conjun-
ção carnal “ficou com a melhor parte, dependendo da
vítima”. A prova é aberta ao público e algumas pessoas
gravaram a afirmação do promotor. “Um (criminoso) se-
gura, outro aponta a arma, outro guarnece a porta da
casa, outro mantém a conjunção – ficou com a melhor
parte, dependendo da vítima – mantém a conjunção
carnal e o outro fica com o carro ligado pra assegurar a
fuga”, narrou o promotor. Divulgada em redes sociais,
a afirmação causou revolta. Muitas pessoas acusam o
promotor de difundir a cultura do estupro. Em nota,
o procurador-geral de Justiça do Estado do Rio de Ja-
neiro, Marfan Martins Vieira, informou ter instaurado
inquérito para apurar a conduta do promotor, além de
afastá-lo da banca examinadora “até a conclusão da
apuração dos fatos”. Autor de livros jurídicos, Joppert
atua na Assessoria de Atribuição Originária em Maté-
ria Criminal do Ministério Público, setor subordinado à
Subprocuradoria-Geral de Justiça de Assuntos Institu-
cionais e Judiciais. O promotor divulgou nota em que
afirma ter sido mal interpretado, já que se referia ao
ponto de vista do criminoso. “Ao me referir ao fato do
72
executor do ato sexual coercitivo ter ficado com a me-
lhor parte”, estava tratando da “opinião hipotética do
próprio praticante daquele odioso crime contra a digni-
dade sexual”.
aDaptaDo De: grellet, f. polêmica soBre estupro afasta
promotor. folha De lonDrina. 24 Jun. 2016. geral. p. 7.
2. (UEL) Com relação aos termos sublinhados no texto,
considereas afirmativas a seguir.
I. As aspas usadas ao longo do texto marcam o discurso
direto do promotor Alexandre Couto Joppert.
II. O termo “que” pertence à mesma classe gramatical
nas duas ocorrências apresentadas.
III. A expressão “além de” reforça o caráter aditivo pre-
sente no período.
IV. O termo “mal” modifica a palavra “interpretado”,
atribuindo-lhe ideia de modo.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas I e IV são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
O MITO DO TEMPO REAL
O descompasso entre a velocidade das máquinas e a
capacidade de compreensão de seus usuários leva a um
quadro de ansiedade social sem precedentes. Em blogs,
redes sociais, podcasts e mensagens eletrônicas diver-
sas todos pedem desculpas pela demora em responder
às demandas de seus interlocutores, impacientes como
nunca. E-mails que não sejam atendidos em algumas
horas acabam encaminhados para outras redes, em um
apelo público por uma resposta.
No desespero por contato instantâneo, telefones cha-
mam repetidamente em horas impróprias, mensagens
de texto são trocadas madrugada adentro, conversas
multiplicam-se por comunicadores instantâneos e toda
ocasião – do trânsito ao banheiro, do elevador à cama,
da hora do almoço ao fim de semana – parece uma la-
cuna propícia para se resolver uma pendência.
[...]
A resposta imediata a uma requisição é chamada tec-
nicamente de “tempo real”, mesmo que não haja nada
verdadeiramente real nem humano nessa velocidade. O
tempo imediato, sem pausas nem espera, em que tudo
acontece num estalar de dedos é uma ficção. Desejá-lo
não aumenta a eficiência. Pelo contrário, pode ser ex-
tremamente prejudicial.
Muitos combatem a superficialidade nas relações di-
gitais pelos motivos errados, questionando a validade
dos “amigos” no Facebook ou “seguidores” no Twitter
ao compará-los com seus equivalentes analógicos. O
problema não está na tecnologia, mas na intensidade
dispensada em cada interação. Seja qual for o meio
em que ele se dê, o contato entre indivíduos demanda
tempo, e nesse tempo não é só a informação pura e
simples que se troca. Festas, conversas, leituras, relacio-
namentos, músicas e filmes de qualidade não podem
ser acelerados ou resumidos a sinopses. Conversas, ao
vivo ou mediadas por qualquer tecnologia, perdem boa
parte de sua intensidade com a segmentação. O tempo
empenhado em cada uma delas é muito valioso; não
faz sentido economizá-lo, empilhá-lo ou segmentá-lo.
O tempo humano (que talvez seja irreal, se o “outro”
for provado real) é bem mais lento. Nossas vidas são
marcadas tanto pela velocidade quanto pela lentidão.
[...]
Essa quebra da sequência histórica faz com que mui-
tos processos pareçam herméticos ou misteriosos de-
mais. Quando não há uma compreensão das etapas
componentes de um processo, não há como intervir
nelas, propondo correções, adaptações ou melhorias.
Tal impotência leva a uma apatia, em que as condições
impostas são aceitas por falta de alternativa. Escondi-
dos seus processos industriais, os produtos adquirem
uma aura quase divina, transformando seus usuários
em consumidores vorazes, que se estapeiam em lojas à
procura do último aparelho eletrônico que se proponha
a preencher o vazio que sentem.
Incapazes de propor alternativas ou sugerir mudanças,
os consumidores são estimulados pela publicidade a
um gigantesco hedonismo e pragmatismo. A facilida-
de de acesso à abundância leva a uma passividade e
a um pensamento pragmático que defende a ideia de
“vamos aproveitar agora, pois quando acontecer um
problema alguém terá descoberto a solução”, visível na
forma com que se abordam problemas de saúde, obesi-
dade, consumo, lixo eletrônico, esgotamento de recur-
sos e poluição ambiental. Em alta velocidade há pouco
espaço para a reflexão. Reduzidos a impulsos e reflexos,
corremos o risco de deixar para trás tudo aquilo que
nos diferencia das outras espécies.
(luli raDfahrer. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.Br/
colunas/luliraDfahrer/1191007-o-mito-Do-tempo-real.shtml.)
3. (utfpr) Em relação à pontuação do texto, considere
as afirmativas a seguir.
I. No segundo parágrafo, o travessão foi empregado
para isolar a explicação da expressão anterior.
II. No terceiro parágrafo, as aspas foram empregadas para
ressaltar o valor significativo da expressão “tempo real”.
III. No quarto parágrafo, os parênteses são empre-
gados para introduzir uma generalização para a
expressão anterior.
Está(ão) correta(s) apenas:
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.
4. (UFU) Uma barra: na era das mensagens de texto e
das descrições de perfis no Twitter, ela se tornou um
sinal de pontuação universal para aqueles que querem
73
descrever rapidamente suas atividades sociais (jantar/
drinques), as ambições de carreira (trabalho/diversão) e
até mesmo os arranjos amorosos (amigo/amante).
Mas, para alguns integrantes da geração Y (aqueles nas-
cidos entre 1980 e 2000), ela se transformou em uma
espécie de marcador de identidade (advogada/atriz; re-
lações públicas/DJ; executiva/cozinheira) para aqueles
que trabalham em dois (ou mais) mundos diferentes.
Ao contrário de legiões de americanos que têm vários
empregos por necessidade, esses jovens escolhem se
esticar entre várias atividades. Enquanto um trabalho
geralmente paga as contas, outro permite algo mais cria-
tivo. Eles consideram esse coquetel de atividades essen-
cial para o bem-estar e consideram que se concentrar em
apenas uma coisa para o resto da vida é antiquado.
“Uma coisa para o resto da minha vida? Absolutamente
não”, diz Maxwell Hawes 4º, 25, que atualmente se alter-
na entre uma companhia de tecnologia para publicidade
em San Francisco e uma start-up (empresa iniciante) e de
vestuário masculino. “Eu não imagino como seria isso”.
folha De s. paulo, 28 De DezemBro De 2014.
A citação, entre aspas, presente no fim do texto relacio-
na-se à ideia desenvolvida no parágrafo anterior com o
objetivo de apresentar um(a)
a) argumento de autoridade.
b) estratégia de persuasão.
c) exemplificação como prova.
d) interlocução direta.
5. (Fac. Pequeno Príncipe - Medici) Leia o texto a seguir:
The Edge, do U2, faz história ao se apresentar na Ca-
pela Sistina
VATICANO – The Edge, guitarrista da banda irlandesa
U2, se tornou o primeiro roqueiro a tocar na Capela Sis-
tina, local que descreveu como "o salão paroquial mais
bonito do mundo".
O músico, cujo nome de batismo é David Evans, cantou
quatro músicas na noite de sábado para um público de
200 médicos, pesquisadores e filantropos que partici-
param de uma conferência sobre medicina regenerativa
no Vaticano.
Acompanhado por um coral de sete jovens irlandeses
e vestindo o gorro preto que é sua marca registrada,
ele tocou violão e cantou um cover de “If it be your
Will”, de Leonard Cohen, além de versões das músicas
“Yahweh”, “Ordinary Love” e “Walk on”, do U2.
The Edge, cujo pai morreu de câncer no mês passado e
cuja filha superou uma leucemia, faz parte do conselho
de fundações que trabalham para a prevenção do câncer.
Disponível em: <http://ogloBo.gloBo.com/cultura/musica/the-
eDge-Do-u2-faz-historia-ao-se-apresentar-na-capela-sistina>.
acesso em: 01/05/2016.
Os sinais de pontuação, quando bem empregados, contri-
buem para a expressividade dos textos e podem modifi-
car o sentido das informações nele apresentadas. Sobre
a pontuação empregada na notícia a respeito do músico
The Edge, é CORRETO somente o que se afirma em:
a) A inserção de uma vírgula antes do pronome relativo
“que” em “que participaram de uma conferência (...)”
é facultativa e não promove alteração de sentido.
b) O excerto “guitarrista da banda irlandesa U2”, no
1º parágrafo, está entre vírgulas para separar o voca-
tivo dos demais termos.c) A inserção de uma vírgula antes da conjunção “e”
em “e vestindo o gorro preto”, no penúltimo parágra-
fo, marcaria a mudança de sujeito.
d) Os segmentos “cujo nome” e “cujo pai”, no 2º e
último parágrafo, respectivamente, introduzem expli-
cações intercaladas no período, por isso são marca-
dos por vírgulas.
e) emprego das aspas no 1º e 3º parágrafos do texto
marca a isenção do periódico que publicou a notícia
em relação às informações marcadas por esse sinal
de pontuação.
E.O. dissErtAtivO
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
GERAÇÃO CANGURU
gilBerto Dimenstein
Ao mapear novas tendências de consumo no Brasil, pu-
blicitários acreditam ter detectado a "Geração Cangu-
ru". São jovens bem-sucedidos profissionalmente, têm
entre 25 e 30 anos de idade e vivem na casa dos pais. O
interesse neles é óbvio: compõem um nicho de consu-
midores com alto poder aquisitivo.
Ainda na "bolsa" da mãe, eles mostram que mudaram as
fronteiras entre o jovem e o adulto. Até pouquíssimo tem-
po atrás, um marmanjão de 30 anos, enfiado na casa dos
pais, seria visto como uma anomalia, suspeito de algum
desequilíbrio emocional que retardou seu crescimento.
O efeito "canguru" revela que pais e filhos estão mu-
tuamente mais compreensivos e tolerantes, capazes
de lidar com suas diferenças. Para quem se lembra dos
conflitos familiares do passado, marcados pelo choque
de gerações, os "cangurus" até sugerem um grau de
civilidade. Não é tão simples assim.
Estudos de publicitários divulgados nas últimas sema-
nas indicam um lado tumultuado – e nem um pouco
saudável – dessa relação familiar. Por trás das frias es-
tatísticas sobre tendência do mercado, a pergunta que
aparece é a seguinte: até que ponto os brasileiros mais
ricos estão paparicando a tal ponto seus filhos que pro-
duzem indivíduos com baixa autonomia?
Ao investigar uma amostra de 1.500 mães e filhos, no Rio
e em São Paulo, a TNS InterScience concluiu que 82% das
crianças e dos adolescentes influenciam fortemente as
compras das famílias. A pressão é especialmente intensa
nas classes A e B, cujas crianças, segundo os pesquisa-
dores, empregam cada vez mais a estratégia das birras
públicas para ganhar, na marra, o objeto de desejo.
74
Com medo das birras, as mães tentam, segundo a pes-
quisa, driblar os filhos e não levá-los às compras, espe-
cialmente nos supermercados, mas, muitas vezes, aca-
bam cedendo. Os responsáveis pelo levantamento da
InterScience atribuem parte do problema ao sentimen-
to de culpa. Isso porque, devido ao excesso de traba-
lho, os pais ficam muito tempo longe de casa e querem
compensar a ausência com presentes.
Uma pesquisa encomendada pelo Núcleo Jovem da Abril
detectou que muitos dos novos consumidores vivem
uma ansiedade tamanha que nem sequer usufruem o
que levam para casa. Já estão esperando o produto que
vai sair. É ninfomania consumista. Jovens relataram que
nunca usaram, nem mesmo uma vez, roupas que adqui-
riram. Aposentam aparelhos eletrodomésticos compra-
dos recentemente porque já estariam defasados.
Psicólogos suspeitam que essa atitude seja uma fuga
para aplacar a ansiedade e a carência, provocadas, em
parte, pela falta de limite. Imaginando-se modernos,
pais tentam ser amigos de seus filhos e, assim, desfa-
z-se a obrigação de dizer não e enfrentar o conflito. O
resultado é, no final, uma desconfiança, explicitada pe-
los entrevistados, ainda maior em relação aos adultos.
Outro estudo, desta vez patrocinado pela MTV, detectou
um início de tendência entre os jovens de insatisfação
diante de pais extremamente permissivos. Estão deman-
dando adultos mais pais do que amigos. Para complicar
ainda mais a insegurança das crianças e dos adolescen-
tes, a violência nas grandes cidades leva os pais, com-
preensivelmente, a pilotar os filhos pelas madrugadas,
para saber se não sofreram uma violência. Brincar nas
ruas está desaparecendo da paisagem urbana, ajudando
a formar seres obesos, presos ao computador.
Há pencas de estudo mostrando como a brincadeira,
dessas em que nos sujamos, ralamos o joelho na árvore,
ajuda a desenvolver a criatividade, o senso de autonomia
e de cooperação. É um espaço de estímulo à imaginação.
Todos sabemos como é difícil alguém prosperar, com
autonomia, se não souber lidar com a frustração. Muito
se estuda sobre a importância da resiliência – a capa-
cidade de levar tombos e levantar como um elemento
educativo fundamental.
Professores contam, cada vez mais, como os alunos
não têm paciência de construir o conhecimento e de-
sistem logo quando as tarefas se complicam um pou-
co. Por isso, entre outras razões, os alunos decepcio-
nam-se rapidamente na faculdade que exige mais foco
em poucos assuntos.
Os educadores alertam que muitos jovens têm dificulda-
de de postergar o prazer e buscam a realização imediata
dos desejos; respondem exatamente ao bombardea-
mento publicitário, inclusive na ingestão de álcool, como
vamos testemunhar, mais uma vez, nas propagandas de
cerveja neste verão. Daí o risco de termos "cangurus"
que fiquem cada vez mais na bolsa (e no bolso) dos pais.
P.S. – Em todos esses anos lidando com educação comu-
nitária, posso assegurar que uma das melhores coisas
que as escolas de elite podem fazer por seus alunos é
estimulá-los ao empreendedorismo social. É um notável
treino para enfrentar desafios. Enfrentam-se em asilos,
creches e favelas os limites e as carências. Conheci ca-
sos e mais casos de alunos problemáticos que mudaram
sua cabeça ao desenvolver uma ação comunitária e pas-
saram, até mesmo, a valorizar o aprendizado curricular.
http://www1.folha.uol.com.Br/folha/Dimenstein/colunas/gD121205.htm
1. (UFJF) Leia novamente:
“São jovens bem-sucedidos profissionalmente, têm en-
tre 25 e 30 anos de idade e vivem na casa dos pais. O
interesse neles é óbvio: compõem um nicho de consu-
midores com alto poder aquisitivo.”
a) Com base na leitura do texto, identifique 3 fatores
que justificam o fato de esses jovens apresentarem
alto poder aquisitivo.
b) Qual é a função sintático-semântica do uso dos
dois pontos na última oração do período acima des-
tacado?
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
ISRAEL, O BEM E O MAL
Denis russo Burgierman
Enquanto o país fundado pelas vítimas do Holocausto
transformou-se em vilão, a pátria de Hitler virou exem-
plo de fofura. Afinal, os israelenses são bons ou maus? E
os alemães? A resposta não está neles: está no ambiente.
Se um viajante do tempo saísse de 1950 e viesse bater
em 2014, e calhasse de lhe cair em mãos a pesquisa da
BBC que mede a popularidade dos países, talvez achasse
que os dados estavam de cabeça para baixo. Segundo
a pesquisa, realizada com 25 mil pessoas de 24 países,
a nação mais popular que existe, vista por das pesso-
as como “uma influência positiva” para o planeta, é a
Alemanha. Já os países mais malvistos, considerados por
mais da metade dos terráqueos como uma “influência
negativa”, são Irã, Paquistão, Coreia do Norte e… Israel.
O viajante do tempo não entenderia nada. Os alemães,
portadores da mesma carga genética da nação que
elegeu e apoiou Hitler no mais horripilante projeto de
genocídio industrial da história, transformaram-se nos
fofos do mundo (e olha que a pesquisa foi realizada an-
tes da Copa de 2014). E Israel, fundado em 1948, em
nome da liberdade, da justiça e da paz, pelas próprias
vítimas do nazismo, com amplo apoio dos progressistas,
disputa, hoje, a lanterna da vilania global apenas com
ditaduras fundamentalistas (e olha que a pesquisa foi
realizada antes que bombardeios israelenses matassem
crianças palestinas brincando em Gaza).
Se as pessoas que vivem em Israel e na Alemanha pos-
suem os mesmos genes e as mesmas tradições de seus
avós, que passaram pela guerra encarnando, respecti-
vamente, “o bem” e “o mal”, o que mudou em meros
70 anos? Nosso viajante, se quisesse descobrir a respos-
ta, poderia ajustar sua máquina do tempo para as 10
horas do dia 14 de agosto de 1971.
Naquela manhã de sol, a tranquilidade da rica cidadezi-nha californiana de Palo Alto foi subitamente quebrada
75
por uma visão rara: policiais algemando um estudante
branco e conduzindo-o firmemente ao banco de trás da
viatura, sob o olhar assustado dos vizinhos. Aquele seria
o primeiro de nove jovens levados presos.
Nenhum dos nove tinha cometido crime algum – eram
estudantes saudáveis e comuns que tinham se volunta-
riado para uma pena de duas semanas numa prisão si-
mulada, montada num porão da Universidade Stanford,
em troca de por dia. Os guardas dessa prisão seriam 15
rapazes tão saudáveis e comuns quanto os prisioneiros,
contratados pelo mesmo salário. O autor da pesquisa,
o psicólogo Philip Zimbardo, definiu por sorteio quem
seria guarda e quem seria prisioneiro. A partir daí, os
prisioneiros seriam tratados apenas por números, e fo-
ram obrigados a referir-se aos guardas como “senhor
oficial correcional”. Nada de nomes.
Apenas seis dias depois, o Stanford Prison Experiment
teve que ser encerrado prematuramente, após vários
prisioneiros sofrerem colapsos nervosos. A convivência
entre os dois grupos de rapazes comuns tinha degrin-
golado para a hostilidade aberta. Os guardas abusaram
de torturas, humilhações e atos de crueldade gratuita.
Já os prisioneiros sentiam-se impotentes, deprimidos e
se tornaram dissimulados e amargos.
Ao fim do experimento, havia desaparecido qualquer
sinal de empatia entre um lado e outro. Um guarda
resumiu como uns viam os outros: “esqueci que os
prisioneiros eram gente”. Esse fenômeno é conheci-
do pelos psicólogos como “desumanização”. Segundo
Zimbardo, a desumanização desliga nosso senso mo-
ral. Em seu livro O Efeito Lúcifer, ele explica que, quan-
do isso acontece, pessoas comuns tornam-se capazes
de cometer atrocidades.
Para que a desumanização ocorra, é importante apagar a
individualidade de quem está do outro lado. É o que re-
velou um outro experimento clássico, realizado em 1963
por Stanley Milgram, na Universidade Yale. Nesse estudo,
os sujeitos de pesquisa tinham a tarefa de administrar
choques elétricos em voluntários vistos através de um
vidro (os voluntários na verdade eram atores fingindo
estrebuchar). Em alguns dos testes, uma pessoa na sala
comentava de passagem que os sujeitos tomando cho-
ques eram “legais”. Em outros, o comentário era: “eles
parecem animais”. Embora os atores fingindo levar cho-
que fossem sempre os mesmos, os sujeitos da pesqui-
sa estavam muito mais dispostos a eletrocutar o outro
quando ele era descrito como “animal”.
É que o primeiro passo para a desumanização é rotular
o sujeito do outro lado. A partir do momento em que
acreditamos que o outro não é um ser humano, mas um
animal, tornamo-nos capazes de basicamente tudo. Um
ambiente onde há uma grande desigualdade de poder –
como uma prisão – é o lugar perfeito para que ocorra ro-
tulagem e, portanto, desumanização. É exatamente o que
existe hoje no Oriente Médio, onde, na prática, todo um
povo (os palestinos) virou prisioneiro de um país (Israel).
O que as pesquisas mostram é que, nessas situações, não
adianta procurar culpados. Não interessa saber quem co-
meçou a briga ou quem tem mais razão – o que interessa
é o ambiente. Enquanto os dois povos se relacionarem
como se estivessem numa prisão, é inevitável que um
não enxergue a humanidade do outro. Os mais pode-
rosos tendem a perder a compaixão pelo outro lado, e
acabam achando normal ser brutal. Os menos poderosos
tendem a acreditar que seus rivais são todos maus e pre-
cisam ser destruídos. A única solução para uma situação
assim é mudar o ambiente. Foi o que a Alemanha fez nas
últimas três décadas, quando uma sociedade tolerante,
igualitária e largamente desmilitarizada foi instituída.
Nós humanos fomos geneticamente programados para
acreditar que há pessoas boas e más, e que um abis-
mo separa umas das outras. A realidade é que o mal
mora em cada um de nós. O primeiro passo para libe-
rá-lo é acreditar que os inimigos são animais – ou al-
gum outro rótulo, como “reacionários”, “comunistas”,
“petralhas”, “tucanalhas”, “macacos”, “argentinos”,
“feminazis”, “falocratas”, “talibikers”, “burgueses”,
“evangélicos”, “judeus”, “terroristas”.
Isso dito, nosso viajante do tempo, depois de ter pre-
senciado a carnificina da Segunda Guerra Mundial,
talvez se assustasse ao ver o tom desumanizador dos
comentários no Facebook de 2014.
Burgierman, Denis russo. superinteressante. Disponível
em:<http://super.aBril.com.Br>. acesso em: 29 ago. 2014.
2. (Ufjf-pism 3) “Já os países mais malvistos, conside-
rados por mais da metade dos terráqueos como uma
‘influência negativa’, são Irã, Paquistão, Coreia do Norte
e… Israel.”
a) O autor empregou as reticências para causar que
efeito argumentativo?
b) Reescreva a frase, mantendo o mesmo efeito argu-
mentativo, porém sem empregar as reticências.
3. (Ufu 2018) As interrupções frequentes e o tom quase
irônico dos congressistas deixavam claro que estávamos
assistindo ao mais bem produzido “puxão de orelha” da
história da internet. A imagem do jovem empresário acu-
ado, sendo constrangido perante os “representantes do
povo”, é poderosa: algo está sendo feito.
O prazer quase sádico que se sente com a reprimenda
é justificável: em sua saga para tornar o mundo mais
“aberto e conectado”, o Facebook já errou muito. Com
os erros, costumam vir as desculpas e, com elas, algu-
mas mudanças. O que não muda é o modelo de negó-
cios da empresa que, graças à coleta massiva de dados
de usuários, pode oferecer sofisticadas ferramentas de
direcionamento de anúncios, serviço esse que é respon-
sável por grande parte de sua invejável receita de US$
40,6 bilhões, só em 2017.
O que parece não ter ficado claro é que Zuckerberg não
construiu tudo isso sozinho. O Facebook só existe – e con-
tinuará existindo – da forma como ele é porque o Con-
gresso dos EUA nunca implementou um modelo regu-
latório que protegesse satisfatoriamente a privacidade
dos usuários de internet. Sempre que surgiram propostas
nesse sentido, elas foram sumariamente rechaçadas.
antonialli, DennYs. auDiencias De zucKerBerg no congresso Dos
eua foram teatro De cúmplices. o estaDo De s. paulo. 12 aBr. 2018.
Disponível em: <https://goo.gl/rp447u>. acesso em: 12 aBr. 2018.
76
Considerando-se o emprego das aspas no texto, dis-
corra sobre a opinião do autor com relação aos temas
abaixo. Indique outros elementos, retirados do texto,
que justifiquem sua resposta.
a) Facebook.
b) Congresso norte-americano.
4. (Fgv) Leia o texto e, em seguida, atenda ao que se pede.
ESPIGAS CHEIAS OU CHOCHAS
Este é o momento de cair na real. Não há muita saída para
o drama da hora, senão consertar o que está quebrado.
A economia vive de ciclos, curtos e longos. Disso já se
sabia desde José do Egito, filho de Jacó, que avisou o
faraó de que sete anos de vacas magras e de espigas
chochas sucederiam a sete anos de vacas gordas e es-
pigas cheias.
Para enfrentar caprichos do setor produtivo desse tipo
é que a humanidade aprendeu a fazer estoques, a em-
pilhar reservas e criar fundos de segurança, também
desde José do Egito ou desde o escravo grego Esopo, o
autor da fábula da cigarra e da formiga.
Um dos grandes problemas da economia brasileira é o
de que enfrenta agora brutal crise fiscal sem que ad-
ministradores previdentes tenham previsto a tragédia
nem se preparado para enfrentá-la.
celso ming, http://economia.estaDao.com.Br, 04/05/2016.
a) Tendo em vista o assunto desenvolvido no texto,
o que existe de comum entre a fábula de Esopo e a
história bíblica de José do Egito?
b) Entendido em seu sentido literal, o trecho “sem
que administradores previdentes tenham previsto”
contém uma incoerência. O emprego de aspas em
uma das palavras desse trecho, conferindo a ela um
sentido especial, eliminaria a incoerência? Justifique.
5. (Ufu) O dino está nu
Coloquem penas nesse velociraptor
“Se ele não tivesse dito que atualizaria os dinossauros,
tudo bem”, reclama Maurilio Oliveira, um dos mais reno-mados paleoartistas brasileiros. Ele, no caso, é Colin Trevor-
row, o americano que assina a direção de Jurassic World,
quarto filme da franquia inaugurada em 1993 por Steven
Spielberg. “E quando ele fez essa promessa, anos atrás,
toda a comunidade paleontológica sentiu um bem-estar”.
As expectativas submergiram quando saiu a divulgação
do filme, semanas atrás. “Garanto que no Brasil fui um
dos primeiros a assistir ao trailer. Como fã, quero estar
na primeira fila da primeira sessão. Mas como paleo-
artista, alguém cujo trabalho é traduzir em imagens a
visão científica dos dinossauros, tenho sérias reservas.”
A decepção começou já na cena inicial em que surgem
os protagonistas. “Aqueles bichos correndo junto com
humanos, os raptores” – ele se refere aos bípedes es-
verdeados de bracinhos inúteis que trotam ao lado de
um jipe de safári –, “aqueles bichos tinham penas”.
Informações como essa surpreendem o leigo incauto
que conhece o Mesozoico apenas por intermédio de
Hollywood e ainda reluta em acreditar que dinossau-
ros – de 60 milhões de anos atrás – nunca perseguiram
homens das cavernas de 6 milhões.
Duarte, Douglas. o Dino estÁ nu. piauí. sÃo paulo,
ano 9, n. 100, p. 13, Jan. 2015. (fragmento)
Com base na leitura do texto, explique
a) qual é a função das aspas empregadas ao longo do texto.
b) qual é o posicionamento do autor do texto em re-
lação aos dizeres colocados entre aspas, indicando
outro elemento textual que contribuiu para que você
reconhecesse a opinião do autor sobre o tema tratado.
E.O. ObjEtivAs
(UnEsp, FUvEst, UniCAmp E UniFEsp)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
A(s) questão(ões) a seguir focalizam uma passagem da
comédia O juiz de paz da roça do escritor Martins Pena
(1815-1848).
JUIZ (assentando-se): Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.
ESCRIVÃO (lendo): Diz Francisco Antônio, natural de
Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com
Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora,
acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o
meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o
dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como
o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães,
e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um
filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho
entregar-me o filho da égua que é de minha mulher”.
JUIZ: É verdade que o senhor tem o filho da égua preso?
JOSÉ DA SILVA: É verdade; porém o filho me pertence,
pois é meu, que é do cavalo.
JUIZ: Terá a bondade de entregar o filho a seu dono,
pois é aqui da mulher do senhor.
JO SÉ DA SILVA: Mas, Sr. Juiz...
JUIZ: Nem mais nem meios mais; entregue o filho,
senão, cadeia.
(martins pena. coméDias (1833-1844), 2007.)
1. (Unifesp) O emprego das aspas no interior da fala do
escrivão indica que tal trecho
a) reproduz a solicitação de Francisco Antônio.
b) recorre a jargão próprio da área jurídica.
c) reproduz a fala da mulher de Francisco Antônio.
d) é desacreditado pelo próprio escrivão.
e) deve ser interpretado em chave irônica.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Leia o texto para responder a(s) questão(ões).
Você conseguiria ficar 99 dias sem o Facebook?
Uma organização não governamental holandesa está
propondo um desafio que muitos poderão considerar
77
impossível: 1ficar 99 dias sem dar nem uma “olhadi-
nha” no Facebook. O objetivo é medir o grau de felici-
dade dos usuários longe da rede social.
O projeto também é uma resposta aos experimentos psi-
cológicos realizados pelo próprio Facebook. A diferença
neste caso é que o teste é completamente voluntário.
Ironicamente, para poder participar, o usuário deve tro-
car a foto do perfil no Facebook e postar um contador
na rede social.
Os pesquisadores irão avaliar o grau de satisfação e fe-
licidade dos participantes no 33º dia, no 66º e no último
dia da abstinência.
Os responsáveis apontam que os usuários do Facebook
gastam em média 17 minutos por dia na rede social. Em
99 dias sem acesso, a soma média seria equivalente a
mais de 28 horas, 2que poderiam ser utilizadas em “ati-
vidades emocionalmente mais realizadoras”.
(http://coDigofonte.uol.com.Br. aDaptaDo.)
2. (Unifesp) Considere o enunciado a seguir:
[...] ficar 99 dias sem dar nem uma “olhadinha” no Fa-
cebook. (ref. 1)
[...] que poderiam ser utilizadas em “atividades emocio-
nalmente mais realizadoras”. (ref. 2)
Nos dois trechos, utilizam-se as aspas, respectivamen-
te, para
a) indicar o sentido metafórico e marcar a fala coloquial.
b) enfatizar o discurso direto e marcar uma citação.
c) marcar o sentido pejorativo e enfatizar o sentido me-
tafórico.
d) assinalar a ironia e indicar a fala de uma pessoa.
e) realçar o sentido do substantivo e indicar uma trans-
crição.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Ossian o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
É monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som das ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda;
Fibra de amor e Deus que um sopro agita:
Se desmaia de amor a Deus se volta,
Se pranteia por Deus de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo,
Parece-me que vou perdendo o gosto,
(...)
(Álvares De azeveDo, "lira Dos vinte anos")
3. (Fuvest) "Fibra de amor e Deus que um sopro agita:"
(verso 7)
Os dois pontos no final deste verso introduzem uma
a) citação.
b) explicação.
c) enumeração.
d) gradação.
e) concessão.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
SINAL FECHADO
(...)
- Me perdoe a pressa,
é a alma dos nossos negócios...
- Oh, não tem de quê,
eu também só ando a cem...
(...)
- Tanta coisa que eu tinha a dizer,
mas eu sumi na poeira das ruas...
- Eu também tenho algo a dizer,
mas me foge à lembrança...
- Por favor, telefone, eu preciso beber
alguma coisa rapidamente...
- Pra semana...
- O sinal...
- Eu procuro você...
- Vai abrir! Vai abrir!
- Prometo, não esqueço...
- Por favor, não esqueça...
- Não esqueço, não esqueço...
- Adeus...
paulinho Da viola.
4. (Fuvest) O uso reiterado das reticências na letra da
canção denota o propósito de marcar, na escrita,
a) as interrupções que ocorreram na breve e apres-
sada conversa.
b) a ausência de interesse das personagens em dialogar.
c) a supressão de falas que poderiam parecer agressivas.
d) a enumeração de acontecimentos que deram ori-
gem ao encontro.
e) as omissões de fatos relevantes que as persona-
gens decidem ocultar.
5. (Fuvest) As aspas marcam o uso de uma palavra ou
expressão de variedade linguística diversa da que foi
usada no restante da frase em:
a) Essa visão desemboca na busca ilimitada do lucro,
na apologia do empresário privado como o "grande
herói" contemporâneo.
b) Pude ver a obra de Machado de Assis de vários ân-
gulos, sem participar de nenhuma visão "oficialesca".
c) Nas recentes discussões sobre os "fundamentos"
da economia brasileira, o governo deu ênfase ao
equilíbrio fiscal.
d) O prêmio Darwin, que "homenageia" mortes estú-
pidas, foi instituído em 1993.
e) Em fazendas de Minas e Santa Catarina, quem
aprecia o campo pode curtir o frio, ouvindo "causos"
à beira da fogueira.
78
gAbAritO
E.O. Aprendizagem
1. C 2. B 3. C 4. D 5. C
6. D 7. B 8. B 9. D 10. A
E.O. Fixação
1. B 2. E 3. D 4. D 5. B
6. E 7. A 8. E 9. D 10. B
E.O. Complementar
1. C 2. C 3. D 4. C 5. D
E.O. Dissertativo
1.
a) Trata-se de jovens bem-sucedidos profissionalmente, que
pertencem a uma classe social sem problemas econômicos
e que, apesar de adultos, ainda não moram em espaço pró-
prio. A ausência de responsabilidades com a sobrevivência
do cotidiano, facilitada pelo excessivo protecionismo de
pais, permite que grande parte do salário, auferido pelo bom
desempenho profissional, seja direcionado para a aquisição
de produtos oferecidos constantemente em propagandas.
b) O emprego dosdois-pontos é usado para indicar
que tudo o que estiver adiante dele detalha ou expli-
ca a frase anterior.
2.
a) O uso das reticências cria o efeito argumentativo
de quebra de expectativa, como se demarcasse uma
exclamação com o sentido de “pasme!”, “surpreen-
dentemente”, pois Israel é um país que tem um povo
que historicamente foi visto como vítima, sobretudo
por conta do Holocausto, mas que hoje em dia inte-
gra o ranking dos países mais malvistos no mundo.
b) Já os países mais malvistos, considerados por mais da
metade dos terráqueos como uma “influência negati-
va”, são Irã, Paquistão, Coreia do Norte e, surpreenden-
temente/por incrível que pareça/acredite/pasme, Israel.
3.
a) Considerando-se o emprego irônico das aspas e relacio-
nando-as com outros elementos referenciados no texto, in-
fere-se que o autor, mesmo reconhecendo o caráter "aberto
e conectado" da rede social Facebook, critica a sequência
de erros e de mudanças que enfatizam "a coleta massiva
de dados de usuários" como "modelo de negócios".
b) O autor discorre sobre a posição ambígua do Congres-
so Norte-americano partindo do princípio que a represália
("puxão de orelha") não passava de uma encenação pelo
fato de "os representantes do povo" norte-americano
nunca terem implementado um "modelo regulatório”
que protegesse a privacidade dos usuários de internet, o
que facilitou a coleta de dados realizada pelo Facebook.
4.
a) Tanto a fábula quanto a história bíblica mencionam
a alternância entre períodos de fartura e de escassez,
assim como a consequente necessidade de preparação
para enfrentamento dos momentos de dificuldades. Esse
apontamento pode ser verificado a partir da menção de
José do Egito, “filho de Jacó, que avisou o faraó de que
sete anos de vacas magras e de espigas chochas suce-
deriam a sete anos de vacas gordas e espigas cheias”
e da fábula, de conhecimento geral, segundo a qual a
formiga trabalha ao longo do verão, preparando-se para
o momento do inverno, o que não é feito pela cigarra.
b) O emprego das aspas em “previdentes” elimina-
ria a incoerência, pois a expressão passaria a ser lida
como ironia: aqueles que deveriam ter se preparado
para enfrentar uma situação difícil (os administrado-
res “previdentes”) não o foram.
5.
a) No texto, as aspas indicam a ocorrência de discurso di-
reto: referem-se às falas do entrevistado pela revista Piauí.
b) O autor do texto concorda com o posicionamento
do entrevistado. O paleoartista aponta disparidades
entre o resultado dos estudos a respeito dos dinos-
sauros e a forma como eles são representados pela
indústria cinematográfica; a partir disso, o jornalista
emprega vocabulário que aponta a essa mesma dire-
ção, como “reclama”, “submergiram” e “decepção”.
E.O. Objetivas
(Unesp, Fuvest, Unicamp e Unifesp)
1. A 2. E 3. B 4. A 5. E
79
LITERATURA
80
ModernisMo no Brasil:
2.ª fase – poesia
AULAS
45 e 46
E.O. AprEndizAgEm
Texto para a próxima questão.
Mãos dadas
“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os ho-
mens presentes,
A vida presente.”
ANDRADE, CARlos DRummoND DE. REuNião. 6ª ED.
Rio DE JANEiRo: José olympio, 1974. p. 55.
1. O poema “Mãos dadas” reflete um traço constante
na obra de Drummond, que pode ser caracterizado por:
a) apresentar como tema uma poesia intimista, volta-
da para o amor físico.
b) uma linguagem por intermédio da qual representa
constantemente a sensualidade feminina.
c) uma visão do mundo na qual não há espaço para ilusões.
d) uma tentativa de representar o mundo sem criticar
a realidade.
e) uma visão onírica do seu mundo e do seu tempo.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Leia o poema Legado, de Carlos Drummond de Andra-
de, abaixo.
“Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso na vida, res-
tará, pois o resto se esfuma, uma pedra que havia em
meio do caminho.”
2. Considere as seguintes afirmações sobre o poema.
I. No primeiro quarteto, o poeta pergunta pelo legado
que deixará para o país a que deve tudo o que lhe é
caro; no segundo quarteto, há uma invocação um tanto
irônica do mundo, não se trata mais apenas do país: há
uma ampliação da referência que atravessaria os limi-
tes geográficos para lidar com o mundo/realidade.
II. A forma soneto e a referência a Orfeu, o mitológi-
co poeta grego capaz de encantar a todos com o som
da sua lira, revelam que o modernismo de Drummond
agora se associa com o parnasianismo, o que permite
ao poeta reivindicar uma posição fixa na tradição, em
contraste com Orfeu, perplexo entre o talvez e o se.
III. No último terceto, o poeta alega que, da sua traje-
tória um tanto instável, restará uma pedra que havia
em meio do caminho, o que equivale a uma paráfrase,
agora em registro formal e sério, dos versos do célebre
poema do início de sua carreira modernista: No meio
do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio
do caminho (...).
Quais estão corretas?
a) Apenas II.
b) Apenas III.
c) Apenas I e II.
d) Apenas I e III.
e) I, II e III.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES
A(s) questão(ões) a seguir refere(m)-se ao livro Nova
Antologia Poética, de Vinicius de Moraes.
3. (Cefet-MG) POÉTICA (II)
“Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
CompetênCias: 2, 5 e 6 Habilidades: 5, 15, 16 e 17
81
Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
− Entrai, irmãos meus!”
Rio, 1960
Nesse poema, Vinicius de Moraes NÃO caracteriza sua
poética como:
a) tradução da modernidade.
b) busca de religiosidade.
c) experiência do corpo.
d) registro do cotidiano.
e) espaço de encontro.
4. (Cefet-MG)
SONETO DE SEPARAÇÃO
“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.”
oCEANo AtlâNtiCo, A boRDo Do HigHlAND pAtRiot, A
CAmiNHo DA iNglAtERRA, sEtEmbRo DE 1938.
Sobre os recursos de linguagem empregados na cons-
trução do poema, afirma-se:
I. As semelhanças sonoras entre palavras como “espal-
madas” e “espanto”, “branco” e “bruma” exemplifi-
cam o uso de aliterações no texto.
II. A repetição, ao longo do poema, da expressão “de
repente”, acentua a ideia do espanto trazido pela se-
paração.
III. O uso de algumas antíteses no texto demonstra o con-
traste entre os momentos antes e depois da separação.
IV. No primeiro verso da segunda estrofe, a palavra “ven-
to” metaforiza a tranquilidade anterior à separação.
Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e II.
b) I e IV.
c) III e IV.
d) I, II e III.
e) II, III e IV.
5. (Cefet-MG)Vinicius de Moraes, ao longo de sua traje-
tória de poeta, permitiu-se aderir a diferentes tendências
estéticas, sejam anteriores ou contemporâneas à sua obra.
NÃO apresentam os traços da estética indicada os ver-
sos transcritos em:
a) “E dentro das estruturas/ Via coisas, objetos/ Pro-
dutos, manufaturas./ Via tudo o que fazia/ O lucro do
seu patrão/ E em cada coisa que via/ Misteriosamente
havia/ A marca de sua mão.” – PARNASIANISMO
b) “O teu perfume, amada – em tuas cartas/ Renasce
azul...– são tuas mãos sentidas!/ Relembro-as bran-
cas, leves, fenecidas/ Pendendo ao longo de corolas
fartas.” – ROMANTISMO
c) “Ah, jovens putas das tardes/ O que vos aconteceu/
(...) Em vossas jaulas acesas/ Mostrando o rubro das
presas/ Falando coisas do amor/ E às vezes cantais ui-
vando/ Como cadelas à lua/ Que em vossa rua sem
nome/ Rola perdida no céu” – NATURALISMO
d) “– Era uma vez um poeta/ No morro do Cavalão/
Tantas fez que a dor-de-corno/ Bateu com ele no
chão/ Arrastou ele nas pedras/ Espremeu seu coração/
Que pensa usted que saiu?/ Saiu cachaça e limão” –
MODERNISMO
e) “Tensos/ Pela corda luminosa/ Que pende invisível/
E cujos nós são astros/ Queimando nas mãos/ Suba-
mos à tona/ do grande mar de estrelas/ Onde dorme
a noite/ Subamos” – SIMBOLISMO
6. (UFRN)O livro A Rosa do Povo, de Carlos Drummond
de Andrade, publicado em 1945, é considerado uma das
obras mais notáveis de sua produção poética. Nessa obra,
Drummond atinge seu mais alto nível literário, inclusive
sem descuidar do momento histórico em que está inse-
rido. Os textos abaixo são fragmentos dos poemas “O
medo” e “Nosso tempo”, respectivamente:
“Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
Vadeamos.”
(o mEDo, p. 35)
“O poeta
Declina de toda responsabilidade
Na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.”
(“Nosso tEmpo”, p. 45)
Da leitura dos versos acima, afirma-se que essa obra
poética:
82
a) funciona como instrumento de militância socio-
política, que alerta os homens sobre os riscos do
Socialismo.
b) reflete sobre os problemas do mundo, manifestan-
do-os numa espécie de ação pelo testemunho.
c) assume uma função política, orientando os homens
a evitar os perigos da vida em sociedade.
d) serve como testemunho do pavor gerado no mun-
do capitalista, que descuida da natureza.
E.O. FixAçãO
1. (UFSM) Observe as seguintes estrofes do poema “Co-
ração numeroso”, de Carlos Drummond de Andrade:
“Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis cho-
raram.
O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.”
Nos versos citados, a relação entre o eu lírico e o seu
entorno é estreita – o que é confirmado pelas expres-
sões sublinhadas. A partir de tais observações, pode-se
afirmar que a aproximação estabelecida entre o sujeito
e a cidade conota:
a) a comoção do sujeito poético, cuja sensibilidade
é despertada pela vitalidade que movimenta a urbe.
b) a desumanização do sujeito poético, cujo cotidiano
frenético repete o ritmo do espaço urbano.
c) a soberba do eu lírico, que se supõe tão grandioso
e fascinante quanto a cidade.
d) a degradação do sujeito lírico que, assim como a cidade,
está “doente” por não receber a atenção das pessoas.
e) a apatia do eu lírico que, assim como a cidade, segue
o seu rumo, imune ao caos urbano.
2. (PUC-RS) Leia o excerto do poema “Nosso tempo”,
de Carlos Drummond de Andrade, publicado na obra A
Rosa do Povo, em 1945.
“Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir. [...]”
Todas as afirmativas estão corretamente associadas ao
poema e seu contexto, EXCETO:
a) É perceptível, a partir da análise das imagens do
poema, a influência de um tempo de guerra.
b) A forma fragmentada, com versos livres e esquema
irregular de rimas, espelha imagens de um homem
igualmente dilacerado, em crise.
c) Ainda que viva em um mundo em crise, o eu lírico
não se indaga sobre a sua condição neste mundo, o
que confere a esse sujeito um caráter de alienação
frente ao tempo no qual está inserido.
d) O verso Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos traz
uma ambiguidade marcante: ao mesmo tempo em que
apresenta imagens que residem num plano concreto,
do cotidiano, também aponta para o campo metafó-
rico, da batalha.
e) A necessidade do levante do eu lírico se materializa,
na última estrofe, numa imagem bélica: a explosão.
3. (UPF) Leia as seguintes afirmações sobre Carlos
Drummond de Andrade.
I. Em seus poemas, há lugar para o lirismo e o sentimen-
talismo, mas não para o humor e a ironia.
II. Na obra Alguma Poesia, há poemas em que as descrições
são espelhos da vida cotidiana que, por vezes, assumem a
condição de símbolo.
III. Desde sua estreia, com Alguma poesia, o escritor se
afirmou como poeta moderno por valorizar o prosaico
e o irônico.
Está CORRETO apenas o que se afirma em:
a) I.
b) II.
c) I e III.
d) I e II.
e) II e III.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO.
TEXTO 1
CANÇÃO DO TAMOIO
“(...) Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do imigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranquilo nos gestos,
83
Impávido, audaz.
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão. (...)”
(goNçAlvEs DiAs)
TEXTO 2
BERIMBAU
“Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem.
Quem diz muito que vai não vai
E, assim como não vai, não vem.
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém,
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem,
Capoeira que é bom não cai
E, se um dia ele cai, cai bem!”
(viNiCius DE moRAEs E bADEN powEll)
4. (Insper) O modo como a morte é figurativizada no
fragmento de Gonçalves Dias é semelhante ao seguinte
verso da canção de Vinicius e Baden:
a) “O amor que lhe quer seu bem”.
b) “Vai morrer sem amar ninguém”.
c) “O dinheiro de quem não dá”.
d) “É o trabalho de quem não tem”.
e) “E, se um dia ele cai, cai bem!”.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
A FELICIDADE
“Tristeza não tem fim felicidade sim.
A felicidade é como a pluma
que o vento vai levando pelo ar,
voa tão leve, mas tem a vida breve
precisa que haja vento sem parar.
A felicidade do pobre
parece a grande ilusão do carnaval
a gente trabalha o ano inteiro
por um momento de sonho
pra fazer a fantasia
de rei ou de pirata ou jardineira
pra tudo se acabar na quarta-feira.
A felicidade é como a gota de orvalho
numa pétala de flor,
brilha tranquila
depois de leve oscila
e cai como uma lágrima de amor.
A minha felicidade
está sonhando nos olhos
da minha namorada
É como esta noite, passando,
passando em busca da madrugada
Fale baixo por favor
pra que ela acorde
alegre com o dia
oferecendo beijos de amor.”
moRAEs, viNiCius E Jobim, tom. As mAis bElAs sEREstAs bRAsilEiRAs.
9ª ED. bElo HoRizoNtE: