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2
Sumário
Capa
Rosto
Autor
Conselhos de pai
A primeira tempestade
Uma nova experiência
Escravo!
Liberdade arriscada
Mistérios e perigos
Brasil
Levado pelo destino
Mar em fúria
Sozinho
Nova vida
Terremoto
Explorando a ilha
O tempo passa
Surpresa na praia
Sinal de perigo
Um encontro inesperado
Um companheiro
Uma nova vida
Deus?
Um rei e seus súditos
Um novo plano
Ataque
A notícia tão esperada
Um mundo diferente
Coleção
Créditos
3
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D
 
aniel Defoe nasceu em 1660 e faleceu em 1731. Foi escritor, jornalista e
panfletário político. Sua obra mais famosa é a história do homem náufrago
contada em Robinson Crusoé (1719). Publicou centenas de trabalhos e ensaios em
publicações periódicas que editava.
Era filho de Alice e James Foe (mudou seu nome para Defoe em 1703). Seu pai
era um negociante bem sucedido e membro da Companhia de Açougueiros. O
puritanismo fanático do pai frequentemente transparece em seus escritos. Eram uma
família de “dissidentes”: protestantes não anglicanos.
Defoe formou-se na Academia Charles Morton, em Londres. Seu pai queria que
ele se dedicasse à religião, mas ele preferiu a política e os negócios, viajando pela
Europa. Arriscou-se em diversos empreendimentos, mas se deu muito mal em todos
eles e acumulou dívidas que duraram até o final da vida.
Em 1684, casou-se com Mary Tuffley, com quem teve dois filhos e cinco filhas.
Em 1685, envolveu-se na rebelião contra James II. Enquanto estava escondido
numa igreja, notou o nome Robinson Crusoé esculpido numa pedra e guardou-o em
sua memória até a criação de seu mais famoso personagem. Apoiando William III,
juntou-se ao exército em 1688, conquistando fama de mercenário. De 1695 a 1699,
fez a contabilidade dos comerciantes de vidro e depois entrou como sócio numa
fábrica de tijolos e telhas, que faliu em 1703.
Em 1702, Defoe escreveu seu panfleto mais famoso, sobre a dissidência
protestante e a cobiça anglicana, expondo o plano sangrento que pretendia eliminar
todos os dissidentes. Por causa disso, foi preso em 1703, mas cumpriu a pena
prestando serviços de escritor a Robert Harley, o primeiro Earl de Oxford. Enquanto
cumpria a pena, escreveu um poema zombando do regime. O texto se tornou muito
popular e era lido em voz alta nas ruas.
Era considerado jornalista e escritor diabólico, e publicava sob inúmeros
pseudônimos, entre eles “Testemunha”, “T. Taylor” e “Andrew Morton,
comerciante”. Para publicar suas críticas políticas, usava o nome “Heliostrapolis,
secretário do Imperador da Lua”.
Defoe foi o primeiro a escrever histórias em situações tão realísticas que pudessem
ser plausíveis. Sua fama como escritor nasceu em abril de 1719, quando publicou
Robinson Crusoé. A primeira edição foi publicada por W. Taylor, um editor de livros
populares, e não trazia a assinatura do autor. Defoe teve dificuldades em encontrar
alguém que quisesse publicar o manuscrito e chegou a receber uma oferta de 10 libras
para vendê-lo.
O livro foi baseado parcialmente em suas memórias de viagem e na história de
William Selkirk, filho de um comerciante escocês, que tomou um navio em 1704 e,
durante a viagem, pediu para ser colocado (ou, de acordo com alguns relatos, punido
4
por insubordinação) na ilha de Juan Fernandez, no oceano Pacífico, a centenas de
milhas da costa do Chile. A ilha não era habitada e ele ficou ali durante quatro anos e
quatro meses, até ser resgatado, em 1709, pelo capitão Woodes Rogers. Selkirk
afirmou que a experiência fez dele um “cristão melhor”. Como jornalista, Defoe
certamente leu essa história e possivelmente entrevistou Selkirk, que nunca voltou à
ilha, ao contrário de Robinson Crusoé, que teve mais duas aventuras.
As sequências Outras Aventuras de Robinson Crusoé (1719), que relata sua visita
à ilha e a morte de Sexta-Feira pelas mãos dos selvagens, e Reflexões Profundas de
Robinson Crusoé (1729) não tiveram tanto sucesso.
O narrador em primeira pessoa e as aparentemente genuínas aventuras do
protagonista foram inovações que marcaram a história da literatura inglesa e mundial.
O relato de um marinheiro náufrago era uma reflexão sobre a necessidade humana de
sociedade e o clamor pela liberdade individual. Também mostrava o sonho de um
reino privado, uma utopia inventada por uma mente que se julgava autossuficiente,
sem amarras políticas, sociais ou religiosas. Esse tema mítico trazido à vida real
conquistou vários leitores importantes, entre eles Robert Louis Stevenson e Júlio
Verne.
Aos 62 anos, Defoe publicou Moll Flanders, outro livro de grande sucesso, que
tinha como protagonista uma mulher que, após uma desilusão amorosa, transforma-se
numa prostituta ladra que consegue conquistar fama e poder.
No final da vida, Defoe deixou de lado as controvérsias políticas e escreveu
diversos livros de história e guias de viagem, além de relatos de encontros com o
sobrenatural.
Defoe morreu em 1731 e é hoje considerado um dos criadores do moderno
romance ocidental.
5
N
CONSELHOS DE PAI
asci no ano de 1632, na cidade de York, de uma boa família. Meu pai tinha um
negócio lucrativo quando se casou com minha mãe, de uma respeitável família
na região, cujo nome era Robinson. Mas, como é costume na Inglaterra de hoje,
somos chamados, e assinamos nossos documentos, Crusoé. Assim me chamavam
todos os meus amigos.
Eu tinha dois irmãos mais velhos; um deles era tenente coronel de um regimento
inglês em Flanders, e foi morto pelos espanhóis. O que aconteceu com meu outro
irmão eu nunca soube. Meu pai e minha mãe também nunca souberam o que
aconteceu comigo.
Sendo o terceiro filho da família e não tendo aprendido nenhum ofício, minha
cabeça começou a ficar cheia de ideias muito cedo. Meu pai, que já era bem idoso,
tinha me educado bem - tanto quanto se podia educar alguém em casa - e me
colocado no caminho da lei. Mas eu não pensava em mais nada a não ser no mar, e
essa convicção me colocou diretamente contra meu pai e minha mãe, que tinham
certeza de que uma vida de miséria esperava por mim.
Meu pai, um homem sábio e sério, me aconselhou sobre minha decisão. Uma
manhã, me chamou até seu quarto, onde se encontrava confinado devido à doença e à
velhice, e teve uma calorosa conversa comigo sobre esse assunto. Ele me perguntou
que razões me levavam a deixar para trás a casa de meu pai e meu país, onde tinha
boas chances de fazer fortuna e ter uma vida fácil de prazeres. Ele me disse que eram
homens desesperados, ou que buscavam ainda mais fortuna, que escolhiam uma vida
de aventuras. Eu não era nem um extremo nem outro: não tinha sido exposto às
misérias da vida nem ao luxo que causava inveja. Meu pai disse que o que as pessoas
invejavam na vida alheia era a felicidade, e que até mesmo reis já tinham se
lamentado pela grandeza de suas posições e desejado encontrar uma posição
intermediária entre os que não tinham nada e os que tinham tudo. Até os sábios
falavam que a felicidade verdadeira não estava nem na pobreza nem na riqueza.
Ele me disse para observar isso e notar que as calamidades da vida sempre eram
compartilhadas pelos grandes e pequenos, mas constantemente as evitavam os que
estavam entre eles, que deslizavam suavemente pelo mundo, saboreando a doçura da
vida sem o gosto amargo do final, e aprendendo com as experiências diárias como
aguçar a sensibilidade.
Depois disso, me pressionou, da maneira mais afetuosa possível, a não ser imaturo
a ponto de me deparar com algumas misérias de que a Providência me poupou ao me
fazer nascer naquela família. Não precisava correr atrás de comida e provisões e
herdaria o fruto de seu trabalho. Para me desincentivar ainda mais, lembrou-me de
meu irmão, que com tanta obstinação buscou a vida militar, apenas para morrer
6
jovem e sem herdeiros.
Essa última parte do discurso, que tinha sido até mesmo profética, embora meu pai
não soubesse, foi dita entre muitas lágrimas, especialmente quando ele se referiu à
morte de meu irmão. Depois ele me disse que seu coração estava tão aflito que
preferia parar de falar.
Eu fui sinceramente afetado pelaconversa. Como poderia não ser? Resolvi não
viajar mais e ficar em casa, como era o desejo de meu pai; mas, infelizmente, alguns
poucos dias mudaram minha cabeça e, em algumas semanas, decidi ir para longe e
me afastar dele e de suas palavras. Mas não agi impulsivamente. Antes conversei com
minha mãe sobre estar decidido a sair pelo mundo, e preferia fazê-lo com o
consentimento de meu pai a ir sem ele. Já tinha 18 anos: tarde demais para aprender
um ofício; o único remédio era viajar pelo menos uma vez. Se eu voltasse para casa
tendo odiado a experiência, prometia despender o tempo que fosse para resgatar o
tempo perdido.
Minha mãe sabia que não adiantaria falar com meu pai e se surpreendeu com o
pedido de consentimento depois da conversa que tive com ele. Aliás, não teria nem
mesmo o consentimento dela.
Embora ela tivesse se negado a conversar com meu pai, fiquei sabendo depois que
ela comentou sobre a conversa que tivemos, e que ele disse:
– Esse garoto poderia ser feliz se ficasse em casa; lá fora, terá uma vida miserável.
Não posso consentir nisso!
7
F
A PRIMEIRA TEMPESTADE
oi quase um ano depois que consegui me libertar, mantendo-me surdo a qualquer
proposta de negócio e frequentemente discutindo com meus pais sobre por que
eram tão determinados a ir contra minhas inclinações e desejos. Um dia, estava em
Hull quando, casualmente, um de meus amigos estava partindo para Londres no navio
de seu pai. Sem consultar meu pai nem minha mãe, sem nem ao menos avisá-los, sem
considerar circunstâncias ou consequências, numa hora maldita, como Deus sabe, no
dia primeiro de setembro de 1651, embarquei no navio que ia para Londres.
Acredito que nenhum jovem aventureiro teve tanto azar por tanto tempo quanto
eu. O navio acabara de passar ao mar aberto quando o vento soprou forte e as ondas
quebraram de maneira assustadora. Nunca tinha visto o mar antes e estava muito mais
amedrontado do que enjoado. Comecei a refletir seriamente sobre o que tinha feito,
saindo de casa sem avisar, desconsiderando o desejo e pedido de meu pai e
abandonando meu dever, e como seria justo se os Céus resolvessem me punir dessa
forma. As lágrimas de meu pai e os conselhos de minha mãe estavam nítidos em
minha mente, e minha consciência agora me atacava.
Enquanto isso, a tempestade aumentava e o mar crescia. A cada onda, esperava ser
engolido, e cada vez que o navio balançava, achava que não conseguiríamos nos
recuperar. Com essa agonia em mente, jurei a Deus que, se ele me salvasse a vida e
eu voltasse mais uma vez a colocar os pés em terra firme, nunca mais deixaria a casa
de meu pai e nunca mais embarcaria num navio. Ouviria os conselhos dele sobre
levar uma vida sossegada e confortável, nem de altos nem de baixos. Jurei voltar para
casa, como o filho pródigo.
Esses pensamentos sábios e sóbrios continuavam, assim como a tempestade, e,
assim como ela partiu no dia seguinte, os pensamentos também se fizeram menos
audíveis. Uma linda paisagem se abriu diante de meus olhos na manhã do dia
seguinte: o sol brilhando no mar calmo, a brisa suave, tudo perfeitamente claro.
Embora ainda estivesse um pouco enjoado, pensei que aquilo era a coisa mais linda
que eu já tinha visto.
Dormi bem, à noite, e o enjoo passou. Fiquei feliz, embasbacado pelo mar, tão
terrível na noite anterior, tão calmo e agradável tão pouco tempo depois.
– Bem, Bob – disse meu amigo, o que tinha me convidado a embarcar. – Como
você está depois da tempestade? Ficou com medo, não ficou?
– Ora, foi uma tempestade terrível...
– Tempestade? Chama aquilo de tempestade? Aquilo não foi nada! Venha, vamos
beber!
E lá fomos nós e, como dois bons marujos, bebemos até cair. Afoguei minhas
resoluções, minhas reflexões, minhas promessas, juras e todo o meu futuro. O mar
8
continuou calmo e todos os meus desejos de partir voltaram. Mas sabia que poderia
pagar por ter jurado e não cumprido.
Seis dias haviam se passado quando lançamos âncora em nossa primeira parada,
Yarmouth. Tivemos que ficar ali por oito dias, por causa do vento contrário, que não
nos deixava partir. No oitavo dia, uma terrível tormenta nos alcançou e tivemos que
juntar todos os marinheiros para segurar o mastro. Foi quando vi o medo no rosto de
todos. Ouvi até mesmo o capitão, quando entrava e saía de sua cabine, repetindo
“Senhor, tende piedade de nós!”. Dois navios ao nosso lado tiveram seus mastros
quebrados ao meio e afundaram, outros dois perderam a âncora e foram levados ao
mar aberto. Apenas os mais leves e menores conseguiram escapar, mas não sem
consequências: nosso mastro ficou bem danificado, e tivemos que cortá-lo. Isso fez
com que nosso convés ficasse aberto, e o barco, instável.
Como jovem marujo, já tinha vivido experiências muito desagradáveis, mas não
sabia que o pior ainda estava por vir. Durante a noite, a tempestade ficou ainda mais
violenta, e nosso navio, embora fosse resistente, estava muito carregado, e todos os
marinheiros rezavam para que ele não afundasse. De madrugada, como se não
tivéssemos problemas suficientes, um dos marinheiros veio do porão gritando que
havia um vazamento e que a água já estava quase lhe cobrindo a cabeça. Todos
deveriam descer e ajudar a esvaziar e consertar o vazamento. Senti meu coração
gelar, mas consegui juntar coragem e ajudar os homens. O capitão ordenou que
disparassem o canhão como aviso. Levei um susto tão grande que desmaiei. Nessas
horas, cada um cuida apenas de sua própria vida, e fui deixado de lado, tido como
morto. Levei muito tempo para acordar.
Todos trabalhavam, mas parecia inútil: a água no porão subia rapidamente e o
navio balançava tanto que afundar parecia a sequência natural. O capitão continuava a
disparar os tiros de socorro, e uma pequena embarcação atendeu nosso pedido. Com
muito esforço, usando cordas, conseguimos nos aproximar, e todos os homens
passaram de um barco para o outro.
Pouco depois, vimos que nosso navio tinha perdido a âncora e começava a se
afastar para o mar aberto. Estávamos havia apenas quinze minutos em segurança
quando vimos nosso navio afundar. Foi uma visão terrível, senti medo e meu coração
parecia ter morrido dentro de mim. Uma pequena multidão se formou no cais para
assistir à nossa luta contra as ondas. Conseguimos chegar até a terra, e, então, só nos
restava encontrar alguém que nos levasse a Londres ou de volta até Hull.
9
S
UMA NOVA EXPERIÊNCIA
e eu tivesse tido o bom senso de retornar a Hull e voltar para casa, teria sido
feliz, e meu pai teria me recebido de braços abertos. A notícia de que o navio
onde eu tinha embarcado tinha afundado devia chegar logo, e não havia nenhuma
confirmação de que eu não havia me afogado.
Mas o destino me fez persistir, e, embora tivesse ouvido os altos gritos da minha
razão para que voltasse para casa, não conseguia resistir ao chamado do mar. Era o
chamado da minha própria destruição, mas era impossível resistir.
Meu companheiro, filho do comandante, encontrou-se comigo alguns dias depois
e me apresentou ao seu pai. O velho lobo do mar, já conhecendo a minha história,
apressou-se em sugerir que eu reconsiderasse e visse a tempestade e o naufrágio
como um aviso. Tinha sido minha primeira viagem, e os Céus me deram a resposta
quanto a se deveria ou não continuar no mar. Diante da minha persistência e negativa,
ele foi claro:
– No meu navio, você não embarca mais. Não ficaria no mesmo navio que você
nem por um milhão de libras! E, jovem, esteja certo: se você não voltar para casa, não
encontrará nada além de desastres e decepções, até que as palavras de seu pai se
cumpram.
Depois disso, não nos vimos mais, e eu nem sei para onde ele foi. Quanto a mim,
tinha algum dinheiro e decidi voltar a Londres por terra. No caminho, pensaria na
trajetória da minha vida, se deveria voltar para casa ou para o mar.
Se eu voltasse para casa, pensei que imediatamente seria motivo de chacota dos
vizinhos e teria muita vergonha de todos. Não conseguiria encarar meu pai e minha
mãe. Se decidisse por uma vida de aventuras, ainda teria que descobrir qual seria omeu caminho.
A influência maligna que me afastou do meu pai da primeira vez continuava a me
acompanhar, e embarquei num navio que navegaria a costa da África ou, como
disseram os marinheiros, seguiria caminho para a Guiné.
Nunca embarquei como marinheiro nessas minhas aventuras, pois tinha dinheiro e
navegava confortavelmente. Isso foi ainda pior para mim, pois poderia ter aprendido
bastante no trabalho e chegado a chefe de convés ou até mesmo capitão.
Mas tive a sorte de encontrar bons camaradas em Londres, sendo que um deles já
tinha estado na Guiné e pretendia voltar, pois tinha sido muito bem sucedido na
viagem e nos negócios. Ouvindo minha conversa sobre a vontade de conhecer o
mundo, convidou-me a embarcar com ele, sem nenhuma despesa, como companheiro
de aventuras.
Aceitei calorosamente a oferta, ficando amigo desse capitão, que era um homem
10
honesto e justo. Gastei cerca de 40 libras nessa aventura, comprando as lembranças
exóticas que o capitão indicava a cada parada. Meu dinheiro vinha das
correspondências que mantinha com meus familiares, e tenho certeza de que meu pai
e minha mãe também contribuíram nessa minha primeira jornada.
Essa foi a única viagem bem sucedida de todas as minhas aventuras, graças à
integridade e honestidade do meu amigo capitão, com quem também aprendi
matemática e as regras da navegação: manter o curso do navio, observar, saber o que
tinha que saber como marinheiro. Ele adorava ensinar, e eu adorei aprender. Essa
viagem me fez marinheiro e comerciante, e ainda lucrei um pouco de ouro, que em
Londres transformou-se em 300 libras. Tudo isso me encheu de entusiasmo. Esse
mesmo entusiasmo me levaria à ruína.
Mesmo nessa maravilhosa viagem tive alguns infortúnios: estava sempre enjoado
e fiquei com febre devido ao calor constante. Meu amigo capitão também não teve
muita sorte e morreu assim que chegamos. Mas eu já me considerava um comerciante
e navegador, por isso embarquei rapidamente no mesmo navio rumo à Guiné, cujo
capitão seria um de nossos companheiros de viagem. Deixei 200 libras com a viúva
de meu amigo, que era muito bondosa, e carregava apenas 100 libras para negociar.
Entretanto, foi uma viagem ruim para todos.
11
P
ESCRAVO!
erto das Ilhas Canárias, ou melhor, ao longo da costa da África, fomos
surpreendidos numa manhã por um navio pirata turco. Ele nos perseguiu com
toda a potência que tinha, e nós içamos todas as velas para tentar fugir. Mas os piratas
estavam cada vez mais próximos, e nos preparamos para lutar. Nosso navio tinha
doze canhões e dezoito homens. Por volta das três horas da tarde, atiramos contra
eles, que se afastaram um pouco, mas logo revidaram com outro tiro. Nenhum de nós
ficou ferido e nos preparamos para atirar novamente, quando sessenta piratas pularam
em nosso convés. Partimos para o ataque corpo a corpo, atirando e esfaqueando. Mas
para encurtar essa parte triste da história, eram duzentos piratas, e três dos nossos
foram mortos, oito, feridos, e fomos obrigados a nos render. Fomos levados
prisioneiros para Sallee, um porto que pertencia aos mouros.
O tratamento que recebi ali não foi tão ruim quanto esperava. Não fui levado à
presença do rei, na corte, como os outros, mas fui feito escravo e mantido como o
prêmio particular do capitão pirata, já que eu era jovem e capaz de executar suas
ordens. Em vista dessa mudança surpreendente de minha situação – de mercador a
escravo –, fiquei perplexo; recordava-me a todo instante do discurso profético de meu
pai, de quanto eu seria miserável, de quanto estaria sozinho e desesperado. Já
considerava que isso nunca ocorreria e agora eu estava ali, à mercê da vontade de
Deus, um desobediente sem redenção. Mas, infelizmente, isso era apenas uma
pequena parte da miséria que me esperava.
Meu novo senhor e mestre me levou para a casa dele. Eu ainda nutria a esperança
de voltar ao mar, assim que ele embarcasse novamente, e talvez ver sua embarcação
ser tomada por algum navio de guerra espanhol ou português. Se isso acontecesse, eu
seria liberto. Mas minhas esperanças logo desapareceram: ele voltou ao mar, mas me
deixou encarregado de cuidar de seu pequeno jardim e fazer o trabalho pesado na
casa. Quando ele voltava para casa, me fazia dormir na cabine, para cuidar do navio.
Nessas noites eu não fazia nada além de planejar minha fuga. Mas não sabia nem
por onde começar. Não conhecia ninguém, não conseguia me comunicar com
ninguém, não havia um inglês, irlandês ou escocês ou alguém que falasse inglês por
ali, a não ser eu mesmo.
Por dois anos contentei-me em imaginar a liberdade, mas nunca nem ao menos
tentei consegui-la. Mas um dia apresentou-se uma situação favorável que fez renascer
em mim o desejo de fuga. Meu patrão, descansando além da hora de costume,
costumava nos mandar sair para pescar. Eu e outro escravo íamos, junto a um mouro
da corte real, no pequeno bote salva-vidas do grande navio, navegar em águas menos
profundas para pescar e sempre nos divertíamos muito.
Certa manhã, havia uma névoa tão intensa que a poucos metros da praia já não
12
conseguíamos ver o cais. Trabalhamos o dia todo e a noite toda, mas, pela manhã,
vimos que, em vez de navegar em direção à praia, tínhamos ido parar no mar aberto.
Remamos com muito esforço, sem parar para pensar no perigo, e conseguimos
encontrar nosso caminho de volta. Estávamos esgotados e com muita fome.
Depois disso, nosso patrão resolveu que não sairíamos mais sem bússola e
provisões. Ele ordenou ao carpinteiro do navio, outro prisioneiro inglês, que
construísse uma pequena cabine num bote mais longo, além de um pequeno leme.
Instalou, também, uma pequena mesa e um lugar para dormir, onde caberiam três
pessoas apertadas. Havia também um armário de bebidas e alimentos.
Saíamos com esse bote frequentemente para pescar. Numa ocasião, meu patrão
convidou dois ou três mouros da corte para passear e pescar nesse barco. Por conta
disso, encheu o pequeno armário com muito mais bebida e comida que de costume,
além de três armas carregadas. Enquanto preparava tudo, meu patrão chegou e disse
que seus convidados não poderiam vir, mas que eu e o outro escravo deveríamos ir
pescar, pois receberia os homens para o jantar naquela noite.
Nesse momento, a ideia da fuga me ocorreu imediatamente, já que teria uma
pequena embarcação ao meu comando, pronta para partir. Quando meu patrão foi
embora, abasteci ainda mais o bote, para a jornada mais longa possível. Não sabia
para onde estava indo, só sabia que estava indo para o mais longe possível dali.
Tratei de convencer o mouro a levar ainda mais comida a bordo, já que ele tinha
concordado comigo que não deveríamos tocar na comida do capitão. Ele
providenciou uma cesta grande com pães e biscoitos, além de três jarros de água
fresca. Também carreguei as garrafas de bebida do capitão enquanto o mouro estava
na praia, além de quase 50 quilos de cera, corda, uma machadinha, um serrote e um
martelo, que foram muito úteis mais tarde – especialmente a cera, para fazer velas.
Também enganei Moely (esse era o apelido que tinha dado ao mouro, que depois
descobri chamar-se Ismael), pedindo que levasse mais munição para as armas que
estavam a bordo. Ele levou bastante pólvora e algumas balas. Também recolhi
pólvora na cabine mestra do capitão.
Com tudo pronto, partimos. Do castelo de meu patrão, dava para ver para onde
navegávamos, mas não havia ninguém vigiando. O vento soprava na direção contrária
a que eu queria, pois, se soprasse o vento Sul, sabia que poderia chegar à Espanha, ou
pelo menos ao porto de Cádiz. Mas estava decidido a desafiar até mesmo o vento e
sair daquele lugar horrível, deixando o resto nas mãos do destino.
13
D
LIBERDADE ARRISCADA
epois de pescarmos por um tempo sem conseguir nada (eu tinha conseguido
algumas mordidas, mas não os tirei da água), disse ao mouro que deveríamos ir
um pouco mais longe para conseguir o jantar. Ele concordou e, estando no comando
do barco, içou as velas enquanto eu manobrava o leme. O barco se afastou quase uma
légua adiante. Entreguei oleme ao outro escravo, um garoto, fui em direção ao mouro
e, pegando-o de surpresa, consegui empurrá-lo para fora do barco. Ele emergiu
imediatamente, pois nadava muito bem, e me chamou, implorando que eu o levasse
com ele, que iria por todo o mundo comigo. Ele nadou tanto atrás do barco que teria
me alcançado bem depressa, caso o vento estivesse um pouco mais fraco. Eu corri até
a cabine e peguei uma das armas:
– Eu não quero lhe causar nenhum mal – disse a ele. – Você nada bem e o mar
está calmo. Volte até a praia e eu não lhe farei nenhum mal. Se alcançar o barco, serei
obrigado a atirar. E atirarei para matar, pois estou decidido a conquistar minha
liberdade.
Ele então se virou e nadou para a praia; tenho certeza de que chegou são e salvo,
pois era um excelente nadador. Eu podia ter recolhido o mouro, mas não podia me
dar ao luxo de confiar nele. Quando o mouro sumiu de vista, deparei-me com o
garoto, que se chamava Xury, e disse:
– Xury, se for leal a mim, farei de você um grande homem. Jure por Maomé,
senão terei de atirá-lo no mar.
O garoto sorriu e falou com tanta inocência que não consegui desconfiar dele. Ele
jurou lealdade e disse que iria pelo mundo comigo.
Ainda permaneci, por um pouco, perto dali, já que podia ser visto de longe e ainda
podia ser detido se outras embarcações saíssem para me capturar. Mas assim que
anoiteceu, mudei meu curso e rumei para o sul e logo depois para o leste. O vento
estava fresco e forte, e o mar estava calmo. No dia seguinte já estava a 150 milhas de
Sallee, muito além dos domínios do imperador marroquino ou de qualquer outro rei,
pois estávamos em outras terras.
Estava com tanto medo de ser apanhado novamente pelos mouros ou de ser feito
escravo novamente que, mesmo vendo terra, continuava a aproveitar o vento e
navegava sem ancorar. Navegamos por cinco dias, e o vento mudou de direção, nos
levando mais ao sul. Percebi que, se havia alguém em nosso encalço, também seria
prejudicado pela mudança dos ventos e provavelmente desistiria. Com isso em mente,
me aventurei a ancorar perto da nascente de um pequeno rio, sem saber onde estava.
Não sabia a altitude, a longitude, que país ou nação ou até mesmo que rio era aquele.
Também não vi nem queria ver ninguém. A única coisa que queria era água fresca.
Chegamos nesse riacho à noitinha, decididos a nadar por ele e descobrir em que país
14
estávamos assim que a noite ficasse mais escura.
Estava bem escuro quando começamos a escutar os mais terríveis sons vindos da
mata: latidos, rugidos e uivos de criaturas selvagens e desconhecidas. O pobre garoto
estava quase morrendo de medo e me implorou para que ficássemos no barco até o
amanhecer.
– Bem, Xury, haverá homens aqui durante o dia e eles serão tão perigosos quanto
leões.
– Nós podemos atirar neles! – respondeu, Xury, rindo. – Eles vão sair correndo!
Xury conseguia se comunicar comigo de tanto conviver com escravos ingleses.
Fiquei contente de ver o garoto tão animado e o presenteei com uma das garrafas do
armário do capitão. Afinal, ele tinha me dado um bom conselho, e eu o aceitei.
Baixamos nossa pequena âncora e ficamos ali durante a noite. Não dormimos: o
desfile de criaturas imensas que vieram beber água, se lavar e refrescar durante a
noite nos manteve acordados. Nunca tinha ouvido tantos uivos e rugidos como
aqueles.
Xury estava morrendo de medo, e eu também. Mas ficamos apavorados quando
uma dessas criaturas monstruosas mergulhou e nadou até o nosso barco. Xury achou
que era um leão. Ele me implorou para levantarmos âncora e nos afastarmos da praia.
Percebi que a criatura nadava rápido demais e estava cada vez mais perto. Corri até a
cabine e peguei uma das armas. Atirei contra a criatura (não faço ideia do que poderia
ser), que imediatamente recuou e nadou de volta para a praia.
É impossível descrever os sons horríveis, os gritos e os uivos pavorosos que foram
ouvidos desde a praia até o coração da mata quando disparei a arma. Acredito que as
bestas nunca tinham escutado som parecido. Isso me convenceu a não ir para a praia
no escuro, mas desembarcar no dia seguinte também era perigoso, pois cair na mão
de selvagens era tão ruim quanto cair na mão de feras.
A necessidade de água fresca nos obrigaria a aportar mais cedo ou mais tarde, pois
não havia mais nenhuma gota a bordo. Quando e onde conseguiríamos água? Xury
disse que se eu o deixasse ir até a praia com alguns jarros, ele encontraria água.
– Mas por que você deve ir, e não eu mesmo? – perguntei a ele.
A resposta que ele me deu fez com que ficássemos ainda mais próximos.
– Porque se os selvagens me pegarem, você conseguirá fugir.
– Bem, Xury, então iremos nós dois. Se os selvagens vierem, não conseguirão nos
dominar e nós atiraremos neles.
Então, dei a ele um pedaço de pão e um garrafa de bebida do armário do capitão,
como já mencionei antes, e navegamos até a praia, até onde era seguro. Pulamos na
água e caminhamos até a terra, com nossas armas e os jarros para água.
15
Deixei o barco para trás, perdendo-o de vista, sem imaginar que os selvagens
poderiam vir em canoas pelo riacho. O garoto corria de um lado para o outro e
conseguiu caçar um animal que parecia uma lebre, mas tinha pernas bem mais longas.
Ficamos muito felizes em poder comer carne. Xury também estava bem feliz, pois
tinha encontrado água e nenhum selvagem.
Depois, descobrimos que não era necessário ter nos arriscado tanto por água, já
que um pouco acima, no riacho onde navegávamos, havia água fresca quando a maré
baixava. E assim enchemos nossos jarros e nos refestelamos com a carne. Não vimos
nenhum rastro animal nem humano em nosso caminho.
Já havia estado nessa costa antes, em outra viagem, e sabia que tanto as Ilhas
Canárias quanto o arquipélago de Cabo Verde não estavam tão distantes de nós. Mas
não tinha nenhum instrumento para me indicar a distância, ou mesmo medir a
longitude e latitude. Se tivesse mais dados, teria conseguido facilmente navegar até
uma dessas ilhas. Minha esperança era continuar navegando em direção à rota dos
navios ingleses até que um deles pudesse nos resgatar.
Pelos meus cálculos, estávamos agora em um país desabitado, a não ser pelas
feras. Era um dos países de onde os negros tinham fugido por medo dos mouros, e
estes não se interessaram em povoá-lo por não haver ali nada que se pudesse
aproveitar. Os mouros apareciam ali apenas para caçar, com um exército de dois ou
três mil homens, que se aventuravam atrás dos muitos tigres, leões, leopardos e outras
criaturas furiosas. Por cerca de 100 milhas desde a praia, era um país desabitado
durante o dia e repleto de uivos e rugidos à noite.
Uma ou duas vezes durante o dia, acreditei ter enxergado o Pico do Tenerife, nas
Ilhas Canárias, e tentei a todo custo chegar até lá, mas o vento me empurrava na
direção contrária, e o mar estava alto demais para minha pequena embarcação. Então,
resolvi seguir meu primeiro plano: navegar ao longo da costa.
Muitas vezes, fui obrigado a atracar em busca de água, e por dez ou doze dias
vivemos racionando nosso alimento. Meu desejo era encontrar algum navio europeu,
pois não sabia para onde ir, a não ser tentar o caminho para as ilhas ou perecer entre
os africanos. Sabia que todos os navios que partiam da Europa passavam por ali, a
caminho da Guiné, do Brasil ou das Índias. Em suma, apostei todas as minhas fichas
nesse pedaço do oceano: ou encontraria algum navio ou morreria.
16
D
MISTÉRIOS E PERIGOS
urante esse tempo, a maioria dos lugares por onde passamos estava deserta mas
havia alguns negros em algumas praias que paravam para nos ver. Eu queria
muito desembarcar nesses lugares, mas Xury sempre insistia que não deveríamos ir.
Quando chegava mais perto, eles sempre corriam e desapareciam mata adentro. Não
portavam armas, a não ser um deles, que Xury disse portar uma grande lança, que
podia ser lançada a uma grande distância se tivessem boa pontaria. Por causa disso,
sempre me mantive a uma distância segura, mas tentava me comunicar com sinais,
mostrando que queria algo para comer. Numaocasião, pediram que eu chegasse mais
perto e ancorasse, pois iriam me trazer um pouco de carne. Baixei minhas velas e vi
que dois deles saíram correndo e voltaram rapidamente com dois pedaços de carne
seca e um pouco de milho. Não sabíamos o que era aquilo, mas aceitamos. Eles
puseram os mantimentos na areia e se afastaram, observando-nos enquanto descíamos
do barco, pegávamos as provisões e voltávamos.
Fizemos sinais de agradecimento, mas não pudemos dar nada em troca, pois não
tínhamos nada de valor para eles. Mas uma excelente oportunidade se ofereceu logo
em seguida. Duas grandes criaturas passaram correndo pela praia, aparentemente
brigando por algo, o que encheu os nativos de pânico. O homem da lança não atirou,
mas todos os outros dispararam pequenas lanças sobre os monstros, o que os fez
correr para a água, em direção ao nosso barco. Percebendo o que acontecia, peguei
uma das armas e esperei que uma das criaturas chegasse perto o suficiente para que
eu não errasse o tiro. De fato, consegui mirar bem e acertei-o bem na cabeça. Ele
afundou, mas ainda lutava por sua vida, emergindo diversas vezes e tentando chegar
na areia. Mas o ferimento e a luta o mataram antes que conseguisse alcançar a praia.
É impossível descrever o espanto que causei nos nativos. Ter conseguido matar
um animal tão poderoso, o barulho do tiro e o fogo do disparo quase os mataram de
medo. Mas quando viram o cadáver da criatura boiando e os meus gestos para que se
aproximassem, tomaram coragem e foram até a praia. Consegui ver onde estava o
animal pelo sangue na água e amarrei uma corda para que todos ajudassem a puxá-lo
até a praia. Quando o tiramos da água, vimos que era um leopardo, muito bonito, todo
pintado. Os negros levantaram as mãos, admirados.
A outra criatura nadou até as montanhas, de onde tinham vindo, e, como estava
distante, não consegui saber o que era. Os negros tinham a intenção de comer o
animal abatido, e eu sinalizei que era um presente meu para eles, o que os deixou
muito agradecidos. Logo depois de limpar rapidamente a carne com um pedaço de
madeira muito mais afiado que uma faca, me ofereceram um pedaço, que recusei,
mas indiquei que aceitaria a pele, que me ofereceram de bom grado, além de mais
alguns mantimentos.
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Em seguida, mostrei a eles que um de meus jarros de água estava vazio. Eles
chamaram algumas mulheres, que chegaram carregando grandes jarros de barro
queimado cheios de água. Xury trouxe nossos três jarros e enchemos todos com água
fresca. As mulheres estavam totalmente nuas, assim como os homens.
Nossa despensa estava agora cheia de raízes e milho, além da água. Deixei para
trás meus amigos negros e prossegui viagem por mais onze dias sem atracar. Após
esse tempo, deparei-me com uma faixa de mar calmo entre dois pedaços de terra.
Concluí que havíamos chegado a Cabo Verde. Mas não sabia o que fazer, pois ainda
tinha um bom pedaço a navegar e, se algum vento na direção contrária nos pegasse,
talvez não conseguiria chegar a nenhuma das duas ilhas em frente.
Nesse dilema, entrei na cabine para pensar, quando ouvi Xury gritar:
– Mestre, um navio! Um navio!
O pobre garoto ficou apavorado, acreditando ser um dos navios do capitão, que
tinha saído em nossa captura, mas eu sabia que já tínhamos despistado nossos
possíveis perseguidores. Saí da cabine e vi o navio, que era português e estava
navegando a costa à procura de negros. Mas vi que estavam rumando ao mar aberto e
saí em seu encalço.
Mesmo com toda a potência que podia dar, não consegui alcançá-los. Entrei em
desespero e dei um tiro de alerta, mas percebi que eles tinham me avistado pelo
binóculo e, certamente, deduziram tratar-se de um barco europeu que podia ter
pertencido a algum navio perdido. Eles também me disseram posteriormente que
viram a fumaça, mas não ouviram o tiro de alerta. Mesmo assim, navegaram até mim
e, em 3 horas, me resgataram.
Eles me perguntaram quem eu era em português, espanhol e francês, mas não
entendi nada. Finalmente, um marinheiro escocês chamou por mim, e eu pude dizer
que era inglês e que tinha escapado da escravidão. Eles me convidaram a embarcar e
me receberam muito bondosamente, além de recolher todos os meus bens.
Fiquei tão comovido com o resgate, pois estava numa situação desesperançosa e
miserável, que ofereci tudo o que tinha ao capitão. Mas ele não aceitou.
– Eu o salvei pelo mesmo motivo que gostaria de ser salvo. Gostaria que me
salvassem caso me encontrasse na mesma situação – o capitão me disse. – Além
disso, se eu o deixasse no Brasil, um lugar tão distante de sua pátria, sem os seus
bens, tiraria a vida que acabei de salvar. Não, não, senhor Inglês, eu o salvei por
caridade e tudo o que é seu o ajudará a comprar a sua passagem de volta para casa.
Ele recolheu todos os meus bens em sua cabine e elaborou um inventário, dando
ordens aos marujos para que ninguém tocasse no que era meu. Também comprou de
mim (eu insisti em lhe dar e ele insistiu em pagar) meu barco e ofereceu dinheiro pelo
garoto, Xury. Hesitei muito em aceitar essa proposta, pois não queria vender a
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liberdade de Xury, que tanto tinha me ajudado a conquistar a minha própria. O
capitão, sabendo disso, me fez uma proposta: libertaria Xury em dez anos, se ele
concordasse em se converter ao cristianismo. Xury concordou e eu o entreguei ao
capitão.
Tivemos uma viagem muito agradável até o Brasil e chegamos à Bahia de Todos
os Santos vinte dias depois. Agora estava novamente sozinho e tinha que pensar em
como ia me virar. O capitão foi muito generoso comigo: comprou a maioria das
coisas que eu tinha e estava disposto a vender, como a pele de leopardo, algumas
garrafas de bebida, duas armas e um pedaço de cera. O que eu decidi manter comigo,
o capitão fez com que me entregassem organizadamente. Assim desembarquei na
costa brasileira.
19
O
BRASIL
capitão tinha me recomendado um amigo em solo brasileiro que tinha um
engenho de açúcar. Eu o encontrei e vivi em sua fazenda por um tempo,
aprendendo sobre como trabalhavam os fazendeiros e os escravos no processamento
de cana-de-açúcar. Vendo como enriqueciam rapidamente, decidi obter uma licença
para me estabelecer ali, ao mesmo tempo que tentava reaver o resto do meu dinheiro,
que tinha ficado em Londres. Para obter uma espécie de carta de naturalização,
comprei o máximo de terras que consegui e fiz o planejamento para o plantio e a
produção, que faria assim que recebesse o dinheiro vindo da Inglaterra.
Eu tinha um vizinho, seu nome era Wells, um português de Lisboa cujos pais eram
ingleses, que estava numa situação muito parecida com a minha. Sua plantação era ao
lado da minha, e sempre nos encontrávamos socialmente. Por dois anos, conseguimos
plantar apenas algo para comer, pois não tínhamos dinheiro para cana. No terceiro
ano, conseguimos plantar tabaco e já nos preparamos para plantar cana no ano
seguinte. Mas não tínhamos escravos e precisávamos de mais homens para a
produção. Nesse momento me arrependi de ter vendido Xury.
Mas não tinha outro jeito a não ser continuar. Tinha chegado ao ponto a que meu
pai disse que chegaria, de cansaço e remorso. Poderia estar trabalhando em qualquer
lugar da Inglaterra, entre amigos e familiares, em vez de ter percorrido 5000 milhas e
agora estar entre selvagens e estranhos, sem ter notícias de ninguém que pudesse
querer saber de mim.
Assim, sempre olhava para minha condição com o mais terrível remorso. Não
tinha ninguém para conversar, a não ser, de vez em quando, esse vizinho. Tudo que
podia ser feito, tinha que ser feito com minhas próprias mãos. Estava vivendo como
um homem isolado numa ilha deserta. Mas não sabia que tudo isso podia ficar pior e
garanto que, se tivesse continuado a trabalhar naquelas condições, estaria agora rico e
próspero.
Meu amigo capitão português ainda estava abastecendo o navio para a viagem de
retorno quando comecei a plantar, e ficou ali por quase três meses. Eu conversei com
ele sobre o dinheiro que tinha deixado em Londres e ele me deu este sábio e sincero
conselho:
– Senhor Inglês– ele sempre me chamava assim. – Se o senhor me fizer uma
procuração, posso contatar a pessoa que está com seu dinheiro em Londres e resgatá-
lo. Mas não pegue todo o seu dinheiro, já que a viagem é longa e insegura. Se o
senhor o perder, perderá apenas metade. E se a primeira metade chegar em segurança,
poderá pedir o resto.
Era um conselho muito perspicaz que aceitei imediatamente. Escrevi a carta para a
viúva de meu amigo, que tinha ficado com meu dinheiro, e relatei a ela todas as
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minhas aventuras, além de descrever a boa índole do capitão português. Escrevi
também a procuração que dava a ele poder sobre meu dinheiro.
O capitão levou a carta e a procuração e, assim que chegou a Lisboa, procurou um
mercador de sua confiança que ia para a Inglaterra e explicou a ele toda a situação. O
mercador foi ao encontro da viúva e não só entregou a ela a carta e a procuração,
como também descreveu em detalhes toda a minha história, que tinha sido contada a
ele pelo capitão português. A viúva ficou tão comovida que entregou meu dinheiro e
um pouco de dinheiro de seu próprio bolso para o capitão, por sua conduta honesta.
O mercador, em Londres, sabendo para quê seria o dinheiro, tomou a liberdade de
comprar vários utensílios agrícolas para me ajudar na plantação, que foram de
extrema utilidade para mim posteriormente.
Quando a carga chegou, acreditei que estava com minha fortuna em mãos,
tamanha a minha felicidade. O capitão usou as cinco libras que tinha recebido da
viúva para me comprar um escravo com um contrato de seis anos. Não aceitou nada
em troca, a não ser um pouco de tabaco de minha própria produção.
E não foi só isso: tudo o que possuía, roupas, lãs, a toalha para mesa de jogos, era
feito na Inglaterra, e por isso tinha muito valor no Brasil. Vendi tudo com muito
lucro. Isso me colocou em grande vantagem em relação ao meu vizinho, pois, com
esse dinheiro, que era praticamente quatro vezes o valor do carregamento vindo da
Inglaterra, comprei um escravo negro e outro europeu, além daquele que o capitão
trouxera de Lisboa.
No ano seguinte, colhi mais tabaco do que imaginava e já comecei a exportar meu
produto para Lisboa. Aumentando minha produção e minha riqueza, minha mente
começou a encher-se de projetos que iam além da minha capacidade, o que,
geralmente, antecede a ruína dos negociantes.
Se eu tivesse continuado nesse mesmo ritmo, receberia em alguns anos a
recompensa que meu pai sonhara para mim: uma vida calma e tranquila, como
deveria ser entre a juventude e a velhice. Mas prestava atenção em outras coisas e
continuaria a me tornar o agente de minha própria miséria. Tudo estava relacionado
ao meu desejo incontrolável de partir pelo mundo.
21
D
LEVADO PELO DESTINO
a mesma forma que deixei para trás meus pais e minha herança, também deixei
para trás a imagem feliz do fazendeiro próspero, para perseguir um desejo
insensato de enriquecer mais rápido do que as forças da natureza.
Já vivia no Brasil havia quatro anos e era um fazendeiro bem-sucedido. Havia
aprendido a falar português e tinha vários amigos - fazendeiros como eu ou os
mercadores do porto de São Salvador - com quem sempre conversava relatando
minhas aventuras na costa da Guiné, onde era fácil encontrar todo o tipo de coisa,
desde dentes de elefante, pó de ouro e grãos, e até negros para o trabalho escravo.
Todos ouviam minhas histórias com muita atenção, especialmente em relação aos
negros, pois só era possível trazê-los com a permissão do rei da Espanha ou do rei
português, e não era um negócio para qualquer um. Havia, assim, pouquíssimos
escravos para muito trabalho.
Aconteceu um dia, na companhia de mercadores e fazendeiros, quando contava
mais uma vez as histórias da Guiné, que três deles me disseram que estavam
pensando muito sobre esse assunto e queriam me fazer uma proposta em segredo.
Disseram que queriam preparar um navio para a Guiné, pois tinham plantações, assim
como eu, e sofriam com a falta de trabalhadores. Não poderiam vender os negros
quando chegassem aqui, então fariam apenas uma viagem, trariam os negros
escondidos e os dividiriam entre as plantações. Propunham que eu os ajudasse nas
negociações entre os negros, podendo ter minha cota de escravos, que seriam
divididos entre os fazendeiros.
Era uma proposta interessante, mas que eu poderia ter recusado, pois ainda
receberia a outra metade do meu dinheiro que estava na Inglaterra e que me serviria
muito bem, a ponto de não precisar de mais nada. Mas, como nasci para ser meu
próprio destruidor, não resisti. Disse que iria se eles providenciassem alguém para
cuidar de minha plantação durante minha ausência. Todos concordaram e começaram
a elaborar os contratos. Fiz um testamento formal, fazendo com que o capitão
português que me salvou a vida fosse o herdeiro universal de todos os meus bens e
terras, para que ele usufruísse de metade de tudo e se encarregasse de transformar a
outra metade em dinheiro, que seria enviado para a Inglaterra.
Tomei todas as medidas possíveis para preservar meus bens e cuidar da minha
plantação. Deveria ter usado metade dessa prudência para preservar o que estava
dando certo e meditar sobre o que deveria ou não deveria fazer. Se tivesse feito isso,
nunca teria deixado para trás um negócio tão próspero por uma viagem tão cheia de
perigos.
Mas eu me apressei e obedeci cegamente aos meus desejos, ao invés da minha
razão. Embarquei no dia 1º de setembro de 1659, o mesmo primeiro de setembro
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maldito da minha primeira viagem, que me afastou para sempre de meus pais em
Hull.
Nosso navio estava carregado com 120 toneladas de carga, seis canhões e catorze
homens, além do capitão, seu assistente e eu. Não levávamos muito além dos objetos
que iríamos trocar por escravos: espelhos, tesouras, vidro, contas e outras coisas.
23
Q
MAR EM FÚRIA
uando partirmos, fazia tempo excelente, apenas quente demais, por toda a costa,
até chegarmos à altura do Cabo de Santo Agostinho e desviarmos até Fernando
de Noronha, onde um violento tornado nos apanhou. A fúria dos ventos durou doze
dias, e nenhum dos homens a bordo esperava escapar daquela tormenta com vida.
Perdemos um homem doente, e um homem e o assistente do capitão foram jogados
ao mar.
Depois do 12º dia, o capitão conseguiu se localizar com dificuldade, e percebemos
que estávamos apenas um pouco acima do rio Amazonas. O navio estava num estado
deplorável, e ele me sugeriu que voltássemos à costa brasileira. Eu fui totalmente
contra isso e insisti que fôssemos até as ilhas do Caribe.
O destino, porém, estava traçado: uma segunda tormenta nos pegou e nos tirou
completamente do rumo. De manhã cedo, do meio do aguaceiro e ventania, um dos
homens gritou:
– Terra à vista!
Saímos da cabine para ver onde no mundo poderíamos estar, quando o navio bateu
num banco de areia e rangeu de tal forma que achamos que ia rachar ao meio e matar
a todos. Corremos até a cabine para nos proteger.
A consternação era geral: não sabíamos onde estávamos, que terra era aquela, se
era uma ilha ou um continente, habitada ou não. Apenas esperávamos que o vento,
que estava muito forte, mas não tanto quanto da primeira vez, não despedaçasse o
navio. Estávamos todos sentados olhando uns para os outros, esperando a morte. Mas
o navio não se despedaçou, e, como por milagre, o vento começou a enfraquecer.
Nesse momento, embora o vento tivesse dado uma trégua, estávamos encalhados
no banco de areia, e nossa situação ainda era extremamente perigosa. Um dos nossos
barcos tinha desaparecido e o outro era bem mais difícil de colocar na água. Mas não
tínhamos escolha, já que o navio poderia se partir em pedaços a qualquer momento e
alguns marinheiros já diziam que o navio estava condenado.
Descemos o barco com muita dificuldade e nós todos, onze homens no total,
embarcamos, entregando nossas vidas às mãos de Deus e ao mar violento, pois
embora a tempestade tivesse se acalmado consideravelmente, as ondas ainda eram
muito maiores do que o normal.
Percebemos nesse momento que o mar destruiria com facilidadenossa pequena
embarcação e que iríamos todos nos afogar. Remamos com nossas próprias mãos,
apressando nossa ruína, em direção à terra. Quanto mais nos aproximávamos, mais
apavorante parecia a praia, pois não tinha como sabermos se era de terra ou de pedras,
ou mesmo se encontraríamos ali águas mais calmas.
24
Já tínhamos conseguido remar por mais de uma légua quando uma onda
gigantesca nos engolfou, destruindo o barco e separando-nos uns dos outros. Foi
apenas o tempo de gritar por Deus, e fomos engolidos pelo mar.
Embora seja um excelente nadador, o desespero era tanto que não consegui vencer
as ondas. A mesma onda que me afundou, me levou até a praia e voltou para o mar,
deixando-me ali na areia, quase morto. Mas sabia que ali não estava seguro, pois as
águas ainda me alcançavam, então reuni todas as forças que ainda me restavam e
levantei-me, buscando abrigo mais longe do mar. Mas isso se provou inútil, já que as
ondas eram como montanhas furiosas atacando o inimigo. A única forma de
sobreviver era respirar fundo e ter fôlego suficiente para me manter na superfície,
indo e voltando ao sabor das ondas.
Meu maior medo era ser tragado novamente de volta ao oceano, já que a mesma
força que me levava para a praia também me puxava rumo às águas profundas e
violentas. Duas vezes mais as ondas me puxaram e me devolveram à praia. Consegui,
depois disso, escalar, entre uma onda e outra, um penhasco, e ficar ali em segurança,
longe do alcance das águas, onde pude descansar sobre a grama da terra firme.
Ali agradeci a Deus, que tinha salvo minha vida quando não havia mais esperança.
Andei pela praia e, percebendo que todos os outros tinham se afogado, ergui as mãos
e agradeci pela minha vida muitas outras vezes. Nunca mais vi aqueles homens, nem
qualquer sinal deles, a não ser três chapéus, um quepe e dois sapatos que não
compunham par.
Olhei para o mar e vi nosso navio lá longe, pequeno perto da vastidão do mar.
Como consegui chegar até a praia, meu Deus, estando tão longe?
25
D
SOZINHO
epois que suspirei de alívio pela minha condição, comecei a olhar em volta para
avaliar em que tipo de lugar tinha vindo parar e o que devia fazer agora. Logo
percebi que estava ensopado e sem roupas secas para me trocar, sem comida nem
água. Também tinha grandes chances de morrer de inanição ou ser devorado por
algum animal selvagem, e não tinha nenhuma arma para me defender. Minhas únicas
posses eram uma faca, um cachimbo e um pouco de tabaco numa caixa. Comecei a
correr em círculos, desesperado, pois a noite já estava caindo e era a hora em que eu
poderia ser abatido por algum animal selvagem.
O jeito foi subir e ficar sentado numa árvore cujo tronco era cheio de espinhos, e,
durante a noite, meditar sobre o tipo de morte que eu teria. Antes disso, andei pela
praia em busca de água fresca, que felizmente consegui achar a alguns passos da
praia. Fiquei feliz por ter encontrado pelo menos isso e, pondo um pouco de tabaco
na boca para enganar a fome, subi na árvore e me ajeitei para não cair se dormisse.
Também cortei um galho para me defender. Mesmo naquelas condições, peguei no
sono e dormi profundamente, já que estava fatigado da minha luta com o oceano.
Quando acordei, o sol já estava alto. O céu estava claro, e a tempestade tinha
desaparecido. O que mais me impressionou foi ver o navio ancorado no banco de
areia, tão alto em relação à água quanto o penhasco que me abrigara. Desejei nadar
até ele, já que ali estavam provisões que me ajudariam a sobreviver.
Um pouco depois do meio-dia, o mar ficou muito calmo e a maré baixa me deixou
andar quase até nosso navio. Fiquei muito abalado ao perceber que, se tivéssemos
continuado dentro dele, estaríamos agora todos vivos e salvos. Essa constatação me
fez chorar.
Decidi nadar até o navio. Tirei minha jaqueta, pois estava muito calor, e pulei na
água. Quando cheguei até o navio, não sabia como conseguiria subir a bordo, pois a
embarcação estava ancorada no banco de areia, muito mais alta do que a água. Dei
duas voltas ao seu redor. Percebi, na segunda volta, uma corda que não tinha visto
antes e, com muita dificuldade, consegui subir a bordo.
O convés estava cheio de água, mas como a proa estava mergulhada na água, a
popa estava seca. Era ali que eram estocadas a comida e as provisões, e tudo estava
intacto. Enchi meus bolsos com biscoitos e ia comendo enquanto fuçava tudo, pois
não tinha tempo a perder. Também encontrei rum na cabine do capitão e dei um
grande gole para me preparar para o que me esperava. Agora, tudo o que eu queria
era um bote para levar comigo para a terra o que era necessário.
Com pedaços de madeira e cordas, construí uma pequena embarcação, que me
serviria de transporte e abrigo. A jangada ficou firme e forte, e comecei a carregá-la
com meus mantimentos e bebidas. Enquanto trabalhava, percebi que a maré começou
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a subir, embora o mar estivesse muito calmo.
Procurei avidamente pela arca do carpinteiro, que era muito mais valiosa para
mim naquele momento do que uma arca de ouro, e consegui encontrá-la. Também
carreguei armas e munição.
Pus a jangada a navegar rumo à terra, procurando um lugar seguro para aportar.
Como imaginava, descobri um pequeno rio que desembocava na praia, mas a corrente
que me levou até ali era um pouco violenta para minha improvisada embarcação, e,
mesmo segurando as caixas e baús com toda a minha força, perdi alguns itens pelo
caminho. Não queria ficar muito longe da praia, pois tinha que estar atento a qualquer
navio que passasse por aquela rota.
Havia uma pequena caverna no lado direito do riacho, e, com muito esforço e
dificuldade, consegui guiar a jangada até lá. Minha carga estaria a salvo ali.
A próxima etapa era explorar o local e encontrar um lugar para me abrigar e
guardar meus mantimentos, algum lugar que estivesse longe da água. Ainda não sabia
onde estava, se era continente ou ilha, se era habitado ou não, se havia animais
perigosos. Havia uma colina bem alta perto de onde eu estava. Decidi pegar uma das
armas e munição e subir ali para olhar em volta. Para minha grande aflição, estava
numa ilha rochosa e não havia nada por perto, a não ser duas outras ilhas bem
menores e um rochedo distante.
Também deduzi que a ilha era desabitada, a não ser pelos animais selvagens, que
ainda não tinha visto. Havia muitas aves, mas não conhecia nenhuma das espécies, e
nem quando as matei para comer consegui descobrir. Aliás, quando dei o primeiro
tiro, foi tamanha a algazarra dos pássaros que acredito que era o primeiro tiro que
ouviam desde a criação do mundo.
Passei o resto do dia descarregando minha carga, sem saber ainda onde ia dormir,
pois temia que algum monstro selvagem me devorasse durante a noite, medo que
mais tarde se mostrou infundado. Ergui uma barricada com os baús para me proteger
durante o sono e para resguardar os mantimentos. Não sabia quanto tempo teria que
racionar a comida, embora já tivesse visto animais parecidos com lebres correndo
pela mata, além dos pássaros, que podiam me servir de alimento.
No dia seguinte, resolvi tirar do navio o máximo que conseguisse, já que temia
que uma segunda tormenta pudesse acabar de vez com a embarcação. Voltei e
resgatei mais ferramentas, armas e munições, roupas e lençóis.
Estava apreensivo quanto às coisas que tinha deixado na praia, mas não havia
nenhum sinal de algum visitante, a não ser um felino, que estava em cima de um dos
baús. Quando ele me viu, correu a uma certa distância e sentou-se um pouco mais
longe, me observando. Tirei minha arma, mas o animal continuava imóvel, olhando-
me nos olhos. Peguei, então, um dos biscoitos e ofereci a ele, que o devorou com
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gosto e olhou-me, aparentemente pedindo mais. Não podia desperdiçar comida, por
isso, agradeci a visita e espantei-o.
Construí uma pequena barraca com a vela que tirei do navio e abriguei ali tudo
que pudesse estragar exposto ao tempo, como os barris de pólvora. Fiz uma porta
com tábuas e encaixei um baú vazio para segurá-las em pé. Com duas armas ao lado
da minha cabeça eoutra ao lado do corpo, pela primeira vez deitei-me como em uma
cama e dormi a noite toda, cansado que estava desde a noite do naufrágio e de todo o
trabalho que tivera naquele dia.
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M
NOVA VIDA
eus dias eram ocupados com a retirada dos mantimentos do navio quando a
maré baixava. Na minha sexta viagem, ainda me surpreendi ao encontrar
açúcar, rum e outras bebidas, além de pão e farinha, que ainda não tinham sido
tocados pela água. Também peguei quanta madeira consegui cortar e transportar do
navio: os mastros, cabos e cordas, que me seriam úteis, além de metais e ferramentas
pesadas. Levava tudo para a praia com a ajuda das correntes marítimas favoráveis.
Já estava havia treze dias naquela praia e tinha feito onze viagens ao navio
encalhado, trazendo para a ilha tudo que um homem sozinho é capaz de carregar. Se
o tempo tivesse continuado firme e claro, acredito que teria conseguido transportar
todo o navio, pedaço por pedaço. Entre os muitos itens que havia coletado para minha
sobrevivência, algo me fez sorrir: havia muito dinheiro a bordo, algumas libras,
outras moedas europeias, algumas moedas brasileiras, ouro e prata. “Para que servem
agora?”, me perguntei, irônico.
No momento em que resgatava o dinheiro, o céu ficou encoberto. Foi o tempo de
conseguir nadar até a praia; o vento aumentou com tamanha intensidade que já era
uma tempestade. Minha pequena barraca provou-se um abrigo seguro, e ali fiquei
durante a tempestade, que durou a noite toda.
Na manhã seguinte, assim que olhei para fora, percebi que o navio tinha
desaparecido. Fiquei um pouco chocado, mas me recompus rapidamente, pois não
tinha cedido à preguiça e trabalhara o quanto pude durante o tempo que tive. Não
havia mais nada, ou havia muito pouco, que restasse ali e pudesse me ser útil. Não
pensei mais no navio, a não ser quando via pequenos pedaços do destroço do
naufrágio, que tinham pouca serventia.
Meus pensamentos agora se concentravam em me proteger de selvagens, se
aparecessem, ou de animais, se houvesse algum na ilha. Decidi que aperfeiçoaria
minha barraca e ainda encontraria uma caverna onde pudesse me abrigar.
Remontei a barraca na parte alta e gramada da ilha, onde poderia avistar algum
navio, pois não havia abandonado a esperança de ser resgatado. Mas, dessa vez,
reforcei todas as defesas, de modo que não pudesse ser invadida nem por homens
nem por animais. Era, em suma, minha fortaleza, e me consumiu dias de trabalho
exaustivo. Escolhi o lugar perfeito, pois havia um grande muro rochoso me
protegendo, o qual preparei como uma caverna, ou melhor, um porão para minha
casa. Ali era minha despensa.
Depois de tudo pronto, passei quinze dias embalando a pólvora dos barris em
pequenas porções para usar nas caçadas. As aves, especialmente, eram muito
importantes na minha alimentação, pois tinha que poupar o pão e os biscoitos o
quanto conseguisse.
29
Com o tempo, fui aperfeiçoando minha casa e instalando regalias, como uma
pequena lareira. Mas minha mente constantemente me atordoava, lembrando-me que
seria ali, naquela solidão e desamparo, que acabariam meus dias. Nessa desolação,
chorava copiosamente e perguntava à Providência por que tinha me poupado, pois
não podia chamar aquilo de vida.
A única forma de não cometer o pecado de pensar em morrer era ocupando
minhas mãos. Ampliava cada vez mais minha barraca, de modo que fosse espaçosa e
confortável, na medida do possível. Construí uma cadeira e uma mesa usando
pedaços de madeira do navio. Ali, sentava e me ocupava em escrever um diário,
relatando tudo que fazia durante o dia. Eis um exemplo de relato:
Set. 30: Depois que fui à praia, em vez de agradecer a Deus por ter me poupado a vida, corri pela areia,
esticando os braços, gritando e chorando até me cansar e deitar, ou melhor, desmaiar, exausto, no chão.
A tinta acabou, e fui forçado a parar de escrever. Sempre subia na colina mais alta
e ficava procurando pelas águas um navio, qualquer navio, que pudesse me resgatar.
Enquanto isso, trabalhava exaustivamente, dedicando-me a reforçar a parede que
segurava minha casa. A chuva às vezes durava semanas. A noite chegava logo, por
volta das sete horas, e eu era obrigado a ir dormir. Tentei fabricar uma lâmpada
rústica usando gordura, mas não tinha o brilho regular de uma vela de cera, como as
que se costumava fabricar na costa da África.
Enquanto trabalhava, encontrei um pequeno saco que certamente continha milho
para as aves que viajaram conosco. Os ratos já tinham dado cabo de tudo, então
joguei as migalhas do lado de fora da barraca e utilizei o saco para guardar pólvora.
Qual não foi minha surpresa quando notei, meses mais tarde, pequenos brotos de
milho nascendo. Sem cuidado nenhum, sem cultivo, naquela terra que parecia
inóspita. Não pensava muito em Deus nessa época, mas não pude deixar de acreditar
que fora ele quem fizera essas sementes germinarem. Isso tocou meu coração e me
fez chorar. E fiquei ainda mais espantado quando percebi, um pouco mais adiante,
pés de arroz, que já tinha visto crescer na África.
Mas foi apenas depois de quatro anos que consegui colher milho suficiente para
um prato, e ainda assim uma porção bem pequena. Cultivava o arroz com o mesmo
cuidado do milho, e também consegui comer pequenas porções cozidas, como
aprendi a fazer.
 
30
N
TERREMOTO
essa mesma época, um evento quase destruiu todo o meu trabalho e minha vida.
Estava dentro da minha barraca, quando senti um abalo e ouvi o barulho de
pedras deslizando. Olhei para cima e percebi que pedras enormes rolavam montanha
abaixo. Abriguei-me junto à parede dos fundos, temendo que minha casa fosse
destruída, e eu, soterrado. Corri para fora e sentei-me num lugar descampado, onde
estaria seguro. Em dez minutos, o chão tremeu tão violentamente que me deixou
zonzo. Pedras gigantescas rolavam como se fossem leves e caíam no mar com ruídos
tão estrondosos que parecia o fim do mundo. O mar estava tão agitado que só pude
concluir que a agitação que sentia estava ainda pior embaixo das águas.
Fiquei assustado e paralisado, mas o barulho das pedras me tirou do torpor.
Quando o terceiro tremor passou, me pus a repetir: “Senhor, tende piedade de mim!”.
Fiquei sentado, desolado, à espera do que ia acontecer a seguir, quando percebi as
nuvens escuras no céu e, em minutos, começou o furacão mais violento que já vi. O
mar ficou instantaneamente coberto de espuma, a maré subiu a ponto de cobrir toda a
areia da praia e as árvores foram arrancadas com suas raízes. Isso durou três horas, e,
pelas duas horas seguintes, o mar acalmou-se. Depois disso, começou a chover
intensamente.
Quando percebi que o furacão e a chuva foram consequência do terremoto que já
havia passado, aventurei-me de volta para a minha barraca. Mas a chuva continuava
tão forte que temi que a construção caísse sobre mim; então ousei abrigar-me em
minha caverna, mesmo com medo de que as pedras caíssem sobre a minha cabeça.
Essa chuva me obrigou a construir um dreno para a água que ficou empossada
dentro da minha fortaleza. Ainda sentia alguns ecos do terremoto, mas não fiquei tão
apavorado. Para levantar meu ânimo, tomei um pequeno gole de rum, que reservava
apenas para ocasiões especiais.
A chuva continuou por toda a noite e por boa parte do dia seguinte. Percebendo
que a ilha era assolada por terremotos, concluí que uma caverna não seria o ideal para
mim. Com isso em mente, nos dois dias seguintes procurei um lugar descampado
onde pudesse construir uma cabana.
Cerca de dez dias mais tarde, quando a maré baixou, percebi algo boiando perto da
praia. Era um barril de pólvora do meu navio, que o furacão tinha levado à praia.
Como tinha sido estragado pela água, o pó estava duro como pedra, mas o resgatei
mesmo assim e coloquei-o meio enterrado na areia.
Continuei a procurar mais destroços e encontrei o casco do navio. A cada dia
chegavam mais partes dos destroços, violentamente rasgados pela ira do vento. Tudo
isso me distraiu e não continuei em meu projeto de mudança, mas achava importante
31
coletar quantas partesde madeira e destroços eu pudesse, pois sabia que me seriam
úteis, mais cedo ou mais tarde.
Foi por volta dessa época que caí doente, com muita febre, tremedeira e dores de
cabeça. Temi pela minha vida e, pela primeira vez desde a tempestade em Hull, orei,
sem saber o que dizer. Minha mente delirava, eu suava e depois tremia. Estava fraco
demais para ir atrás de comida ou água. Ficava o dia todo deitado. Dias depois,
consegui sair e matar um ganso, que cozinhei e comi. Mas não havia nada para beber.
Gritava: “Senhor, tenha piedade de mim!”, e: “Senhor, olhe para mim!”, durante
horas, e voltava a dormir. Dormi por dois dias e tive um sonho terrível.
No meu sonho, estava sentado no chão, no mesmo lugar onde me sentei durante a
tempestade depois do furacão, quando vi um homem descer dos céus numa grande
nuvem negra. Ao redor dele, brilhava uma chama de fogo tão brilhante que quase não
conseguia abrir os olhos para vê-lo. Sua expressão era tão terrível que não encontraria
palavras para descrevê-la. Quando ele pisou no chão, a terra tremeu como um
terremoto e o ar pareceu se encher de faíscas fumegantes.
Assim que pousou sobre a terra, ele andou até mim, apontando-me uma grande
lança. E com uma voz aterrorizante me disse:
– Se todas essas coisas não o fizeram se arrepender, você merece morrer – e
apontou a lança para me matar.
Mesmo depois de acordar e perceber que tinha sido um sonho, não consegui me
acalmar. Não me lembrava do que tinha aprendido com meu pai e, desde que o deixei
lá na Inglaterra, não tinha em nenhuma ocasião feito uma oração sincera nem
agradecido ou temido a Deus. Não imaginava que poderia receber uma punição
divina por meu comportamento rebelde, pelos meus pecados e pelo curso iníquo da
minha vida. Em nenhum momento pedi a ajuda sincera de Deus durante tempestades
ou quando estava perdido na costa da África. Não desejei que Deus dirigisse meus
passos ou guiasse meus caminhos para me afastar do perigo. Não agradeci quando fui
resgatado ou quando sobrevivi. O milho ter nascido daquele jeito teve um pequeno
efeito sobre mim, mas logo me acostumei e parei de pensar naquilo como um ato
divino, e atribuí o feito às forças da natureza. O terremoto, que podia julgar como
uma manifestação do poder divino, também não me fez mais temente.
Lembrei-me das palavras do meu pai e chorei. Lembrei-me do sonho e tremi.
“Senhor, ajude-me, por favor! Minha situação é desesperadora!” Essa foi minha
primeira oração sincera em muitos anos. Comecei a acreditar, naquele momento, que
Deus estava me ouvindo.
Enquanto procurava por tabaco no grande baú, encontrei alguns livros, entre eles
uma Bíblia. Peguei o tabaco e a Bíblia e sentei-me à mesa. Não tinha nenhuma
vontade de abrir o livro, mas provei o tabaco. Era verde e forte e quase me sufocou.
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Tomei uma dose de rum e fui dormir. Mas antes, li um pequeno trecho que ficou
guardado em minha mente entorpecida pelo tabaco e pelo álcool: “Procure-me no dia
da tua aflição e eu o libertarei, e tu me glorificarás”.
Quando acordei, estava tão bem disposto e alegre que me senti forte para
trabalhar. Estava com fome e saí para caçar. Ainda mastiguei o tabaco e tomei a dose
de rum nos três dias seguintes, e descobri que era um excelente remédio. Uma
semana depois, estava completamente curado.
33
J
EXPLORANDO A ILHA
á estava havia dez meses nessa ilha infeliz, sem nenhuma esperança de resgate e
acreditando piamente que nenhum homem jamais havia pisado ali. Já que minha
casa estava acabada e segura, decidi sair para explorar a ilha. Setembro e outubro
foram meses muito chuvosos, mas as chuvas de verão eram ainda mais perigosas,
com raios e trovoadas que sacudiam o chão. Por isso, tinha que ficar atento. Em
julho, mais precisamente dia 15, saí para andar pela ilha.
Fui até o riacho que desembocava no mar, decidido a navegá-lo para ir para o
interior da ilha. Surpreendentemente, o riacho era calmo, apesar da correnteza, e as
águas eram cristalinas e limpas. A atmosfera era fresca e agradável. Pude notar que a
margem estava seca em alguns pontos, já que estávamos na estação mais seca. O
riacho percorria savanas e planícies cobertas de grama. Fiquei surpreso ao avistar pés
graúdos de tabaco crescendo livremente entre plantas desconhecidas e outras
familiares, como cana-brava (a versão não cultivada da cana-de-açúcar). Fiquei
contente com minhas descobertas nesse dia e voltei para casa imaginando que poderia
pesquisar as plantas que não conhecia e descobrir seus gostos e utilidades. Mas
mesmo antes de chegar em minha tenda, abandonei essa ideia, pois mesmo quando
estava no Brasil não tinha me dedicado ao estudo, e agora não poderia experimentar
nada que pudesse me fazer mal, pois estava carente de todo tipo de cuidado.
No dia seguinte, dia 16, fiz novamente o mesmo caminho e fui além do que tinha
percorrido no dia anterior. O riacho e as planícies deram lugar a uma floresta. Ali,
encontrei diversas árvores frutíferas e frutas rasteiras, como melão e uva, cujos
vinhedos subiam pelas árvores como trepadeiras. Os cachos estavam fartos e
maduros. Fiquei muito feliz, mas não comi muitas uvas, pois me lembrei dos ingleses
que perdemos na costa da África que, depois de terem comido até se fartar, caíram
com febre e diarréia. Colhi muitas uvas para pendurá-las ao sol e fazer uvas passas
para que, quando o tempo de uva passasse, eu ainda tivesse uma boa porção para
comer.
Passei toda a tarde ali e, pela primeira vez, à noite não voltei para minha casa.
Dormi muito bem sob uma árvore e, logo pela manhã, continuei andando até os
limites do vale. Depois de percorrer toda a extensão plana, deparei-me com uma fonte
de água fresca ao lado de uma montanha. Estava tudo tão verde, tão fresco, tão
florido que parecia um jardim cultivado.
Passeava por esse lugar delicioso com um prazer secreto misturado aos
sentimentos aflitivos da solidão. Era o rei e senhor daquelas terras. Havia milhares de
coqueiros, laranjeiras, limoeiros e outras árvores carregadas de frutos. Algumas limas
eu usei para fazer um suco fresco e refrescante. Outras recolhi para levar para casa e
estocar, para me manter durante a estação das chuvas, que eu sabia que se
34
aproximava.
Quando cheguei em casa (pensava em minha tenda realmente como minha casa
naquele momento), vi que algumas uvas que tinha recolhido acabaram estragando,
mas as limas estavam perfeitas. No dia seguinte, voltei ao vale para recolher mais
uvas e fiquei muito surpreso ao perceber que as vinhas, tão fartas e perfeitas no dia
anterior, estavam todas arruinadas e espalhadas pelo chão. Concluí que aquilo devia
ser obra de alguma fera que eu ainda não tinha visto.
Recolhi e pendurei os cachos em galhos para que ficassem intactos e já ficassem
prontos para a secagem. Quando deixei o vale para trás, admirei a linda paisagem e
reconheci que o lugar arenoso e cheio de pedras que escolhi para montar minha
habitação era o pedaço mais feio da ilha. Mas era o único lugar perto do mar, de onde
poderia vir minha salvação. Portanto, embora pensamentos de montar minha casa
naquele paraíso me ocorressem de vez em quando, nunca concretizei a mudança.
Estava tão fascinado com esse vale que passava meus dias ali. Fiz uma espécie de
cabana com galhos secos, que cerquei com uma forte cerca, e me abrigava ali à noite,
às vezes duas ou três noites seguidas.
As chuvas chegaram e eu tive que deixar meu pequeno refúgio e voltar para minha
casa, onde era mais seguro ficar durante as terríveis tempestades. No começo de
agosto, um pouco antes das chuvas, as uvas já tinham secado e eu fiquei feliz com as
passas de excelente qualidade. Choveu quase ininterruptamente até meados de
outubro, e eu saí pouco de minha tenda. Ocasionalmente, tinha que caçar. Mas
racionava a comida para que durasse o máximo possível. Durante esse confinamento,
trabalhei muito em minha casa, abrindo uma segunda entrada na lateral. Embora não
tivesse porta, não tinha medo de ficar desprotegido, pois, até então, o maior animal
que tinha visto pela ilha era um bode. Logo depoisde as chuvas terem cessado,
percebi que já estava na ilha havia 365 dias.
As estações eram bem definidas para mim, a das chuvas e a seca, e eu aprendi a
me preparar para elas. Plantava, caçava e recolhia as frutas no pomar sempre verde do
vale. Entre as flores e árvores, capturei um papagaio para ensiná-lo a falar. Alguns
anos se passariam antes que ele me chamasse pelo nome, de uma maneira bem
familiar. Tinha também um cachorro e um bode, o qual tinha capturado para começar
uma criação, pois minha munição não duraria para sempre; mas ele era tão manso que
acabou fazendo parte da família. Também encontrei animais que se pareciam com
lebres e raposas, embora não como eu os conhecia. Na praia do outro lado da ilha
havia uma infinidade de espécies de aves que nunca tinha visto. E inúmeras tartarugas
passeavam livremente.
Foi na volta dessa jornada que eu me perdi, e vaguei por uma mata fechada por
três ou quatro dias sem ver o sol. Tive que andar até a praia e dar toda a volta para
poder me localizar. Fiquei tão cansado que foi um alívio deitar na minha cama
35
novamente.
36
A
O TEMPO PASSA
estação das chuvas chegara novamente ao fim no dia 30 de setembro. Era meu
segundo aniversário na ilha. Eu comecei a me sentir feliz com a vida que levava
ali, muito mais feliz do que no passado. Não sentia mais o desconforto da solidão,
não chorava mais. Meus prazeres vinham de novos pensamentos e da fé. Lia sempre a
Bíblia. Um dia, estava muito triste e, quando abri o livro sagrado, me deparei com
estas palavras: “Eu nunca, nunca o deixarei, nem me esquecerei de ti”. Senti que
aquelas palavras eram para mim. Então tentei começar a ser feliz ali e agradecer a
Deus pela minha vida todos os dias.
Com essa disposição e mentalidade, comecei meu terceiro ano. Minha rotina era
basicamente a mesma: caçar, ler a Bíblia, cozinhar, comer, cuidar da minha
plantação, dormir... O calor era insuportável. Quando chovia, eu não conseguia sair
de casa. Mas foi nessa época que consegui modelar jarras de argila e, colocando-as ao
sol, consegui que secassem e aguentassem até mesmo o calor do fogo. Eram meus
primeiros utensílios de cozinha.
Não sentia necessidade de mais nada. A natureza me oferecia tudo, e eu só pegava
o que poderia usar ou consumir. Aprendi que estocar demais ou matar demais era
completamente inútil. Tudo que não estava sendo utilizado apodrecia. Eu aprendi a
silenciar meus desejos e simplesmente agradecer a Deus pela comida, olhar o lado
confortável da minha situação e não deixar minha mente se entorpecer de
desesperança. O lado bom era que eu estava vivo e tinha conseguido providenciar
uma habitação segura. Não estava sendo caçado por homens ou animais selvagens.
Estava bem. Era uma vida solitária dada pela misericórdia. Refletindo sobre isso,
pensava em como Deus tinha sido benevolente comigo, e como eu tinha vivido toda a
minha vida até aquele momento de maneira tão inconsequente. Não fiquei mais triste
depois desse dia.
As provisões que tinha conseguido retirar do navio já estavam praticamente
acabadas: a tinta, o pão, os biscoitos e as roupas, que já estavam em farrapos, embora
a maior parte do tempo o calor me fizesse vestir apenas uma camiseta. Mas ainda
havia baús cheios de camisas e casacos que retirei do navio, além do couro dos
animais que tinha abatido para comer.
Depois de cinco anos nessas condições, estava resignado e vivendo
confortavelmente na vontade de Deus, quando uma coisa extraordinária aconteceu.
Durante todo esse tempo, construí uma canoa, que posteriormente se converteu numa
embarcação um pouco mais resistente, com mastro e vela, com a qual pretendia
navegar até a civilização. De vez em quando me aventurava a navegar, mas nunca me
aventurava a ir muito longe do pequeno riacho que desembocava no mar.
Um dia, porém, abasteci meu barco com comida, minha arma e um casaco e me
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propus a dar a volta ao redor da ilha, meu pequeno reino. Na primeira curva, minha
descoberta foi um recife de pedras, a mais ou menos duas milhas de distância da
praia, e um banco de areia um pouco além.
Quando voltei, percebi, do alto da montanha onde costumava subir para ver o mar,
que uma forte correnteza me levaria para longe da terra se eu passasse pelo recife.
Mesmo assim, num dia de mar muito calmo e com pouco vento, me aventurei a
navegar. Foi o pior erro que cometi. Meu barco foi pego pela forte correnteza e quase
fui levado a mar aberto, apesar de todos os meus esforços. Foi apenas pela mão de
Deus que consegui escapar e acabar na praia, exausto. Caí na areia em sono profundo
e fui acordado pelo meu papagaio, chamando meu nome. Agradeci a segunda chance
que tive de manter minha vida e por muitos dias sentei e refleti sobre o perigo que
tinha passado, e decidi que não voltaria a me arriscar. Era meu sexto ano ali, e
convenci-me novamente, estava feliz: tinha me tornado um excelente carpinteiro,
tinha conseguido fabricar potes e utensílios, tinha tudo o que precisava para viver.
No aniversário de onze anos na ilha, já tinha conseguido montar uma pequena
fazenda de criação com um rebanho de mais de quarenta cabras, além de minha
plantação. Também aumentei muito minha casa e fortaleza, em segurança e conforto.
Minha pequena “família” também se beneficiou do aumento do número de quartos:
Poll, o papagaio, o cão, que já estava bem velho, e meus dois gatos. Minha família
sempre se sentava unida para comer.
Continuava a navegar com meu barco, mas apenas por diversão e em percursos
relativamente curtos e seguros. O terror daquele dia em que quase me vi perdido em
alto mar demorou a deixar minha lembrança, e, como eu sempre repetia em minha
mente, estava feliz e vivo, e não deveria brincar com a dádiva que recebera.
38
U
SURPRESA NA PRAIA
m dia, com o sol a pino, fui até meu barco e me surpreendi com uma marca de
pé humano na areia. Fiquei paralisado, como se tivesse visto um fantasma.
Olhei em volta, não havia nada. Não ouvi nada. Procurei por outras pegadas, mas só
havia uma. Examinei o rastro: era realmente uma pegada humana, com todos os
detalhes dos dedos e calcanhar. E muito menor do que meu próprio pé. Saí correndo
para minha fortaleza atordoado e completamente aterrorizado. Não dormi naquela
noite e demorei vários dias para tomar coragem e sair novamente.
Por dois ou três dias, voltei à praia e não encontrei mais nada. Mesmo assim, me
preveni e aumentei a segurança da minha fortaleza, construindo um muro de pedras
muito grosso e reforçando portas e cercas. Essa reforma me consumiu dois anos.
Estava em busca de outro lugar para montar um posto avançado de provisões -
especialmente por causa da pólvora, pois não gostava de deixá-la em casa - quando
resolvi explorar a parte oeste da ilha, que ainda não tinha tido curiosidade de
vasculhar. Cheguei ao ponto mais alto, olhei o mar e achei que havia um navio muito
longe da praia. Não tinha levado meu binóculo, então não pude ter certeza se era
apenas uma ilusão provocada pelo sol. Desci a montanha e desisti de tentar me
certificar se era real ou não.
Assim que desci, percebi que uma pegada humana não era uma coisa tão incomum
nessa ilha, como eu tinha imaginado. A Providência Divina tinha me colocado no
lado seguro da terra, onde os selvagens não iam. Eles aportavam naquele lado depois
de batalhas nas águas, e lá comiam os derrotados, pois eram canibais!
Não será possível expressar o horror em minha mente quando me deparei com
caveiras, esqueletos e outros ossos humanos. Observei que haviam feito uma fogueira
ali, que certamente havia sido usada para assar a carne humana.
Fiquei tão aterrorizado ao ver aquilo que vomitei violentamente e, assim que me
recompus, corri o mais rápido que podia até a montanha onde tinha estado, para poder
encontrar o caminho até minha casa.
No caminho, senti que lágrimas brotavam dos meus olhos enquanto agradecia a
Deus por não ter tido aquele destino. Os selvagens não iam até a ilha por não
encontrar ali o que queriam e não sabiam nada sobre mim. Eu apenas tinha que
continuar me escondendo. Por maisdois anos, quase não saí do meu círculo de
segurança, que abrangia meu castelo, minhas plantações e minha fazenda de gado.
Também não fui mais navegar.
Continuei vivendo como antes, um pouco mais precavido, porém, e atento. Tinha
cuidado em não disparar muito minha arma, cuja munição já estava acabando, para
que, se os selvagens estivessem na ilha, não escutassem. Também não caçava mais,
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pois já tinha minha criação, e não ia mais à floresta e às planícies. Encontrei uma
pequena caverna para cozinhar, já que não queria que a fumaça indicasse o local da
minha casa.
Com o tempo, comecei a pensar em observar e estudar esses bárbaros e também
em arranjar meios de eliminá-los. Comecei a montar armadilhas onde percebia sinais
da passagem deles. Encontrei um lugar alto de onde podia observar sem ser visto
quando eles viessem para a praia. Preparei meus mosquetes e carregava munição
sempre que saía. Mas graças a Deus não cometi nenhum assassinato, já que por mais
de um ano mantive minha vigília e nada encontrei.
Um dia, na caverna onde cozinhava, percebi um galho muito grosso que escondia
uma entrada para uma outra caverna, ainda menor e mais escura. Mesmo com muito
medo, juntei coragem suficiente para afastar o galho e iluminar a entrada do lugar
com uma tocha. Lá dentro, ouvi na escuridão um suspiro e uma respiração ofegante,
como a de um homem com dor. Lá estava um bode muito grande e muito velho. Ele
tinha se escondido ali para morrer de velhice, como deduzi. Tentei tirá-lo de lá, e ele
até mesmo tentou ensaiar algum movimento, mas não consegui, pois ele era muito
pesado. A caverna parecia ser exatamente o que eu procurava para guardar minha
pólvora: seca e bem escondida. As paredes também estavam cobertas de pedras
brilhantes. Não sei se eram diamantes ou pedras preciosas.
Voltei no dia seguinte com algumas velas (tinha conseguido fabricar velas muito
boas com gordura de bode) a fim de preparar a caverna para meu uso. O animal que
tinha encontrado no dia anterior estava morto, e eu o enterrei perto dali.
Era meu 23° ano na ilha, e estava vivendo tão bem ali que ficaria contente em
morrer em paz como o velho bode. Poll, o papagaio, ficou comigo por 26 anos, mas
acredito que ainda esteja lá, gritando por meu nome. Meu cachorro morreu de velhice
depois de 16 anos. Os gatos também se foram. Tive outros animais, cabras e pássaros,
que sempre me agradaram muito. Como eu disse, estava muito feliz, a não ser pelo
medo dos selvagens.
40
N
SINAL DE PERIGO
o dia 23 de dezembro do 23° ano, enquanto fazia minha colheita, fiquei
surpreso ao perceber fumaça subindo da praia. Para minha grande aflição, a
fumaça estava do meu lado da ilha. Fiquei apavorado ao perceber que, se vissem
minha plantação e minha criação, certamente concluiriam que havia alguém ali e não
descansariam até me encontrar. Rezei por proteção divina enquanto preparava meus
mosquetes e armas dentro da caverna onde guardava munição, pronto para cair
lutando.
Esperei por algumas horas, mas nada aconteceu. Subi na montanha de onde tinha
visto o sinal dos bárbaros e, com o binóculo, deitei-me no chão e comecei a observar.
Havia nove selvagens nus sentados ao redor de uma fogueira, que certamente não
tinha sido feita para os aquecer, pois fazia muito calor, mas para cozinhar
barbaramente a carne humana de sua presa viva ou morta.
Duas canoas estavam encostadas na areia, e percebi que eles estavam apenas
aguardando a virada da maré. Fiquei confuso e perplexo ao vê-los assim, tão perto de
mim. Mas concluí que eles só vinham para este lado da ilha quando a maré estava
alta, e consegui me acalmar e voltar ao topo da montanha. De lá, vi outras canoas
voltando para a ilha remota de onde vinham. Voltei à praia e vi as marcas do horror
que deixaram para trás: ossos roídos e restos de carne humana.
Embora percebesse que eles nunca vinham durante as chuvas e que, depois dessa
visita ao meu lado da praia, só voltaram 15 meses mais tarde (se estiveram ali antes,
não os vi nem ouvi), minha vida começou a perder a paz. Ficava ansioso e com medo
de um dia cair nas mãos dessas criaturas cruéis. Quase não saía mais de casa e dormia
mal, tendo pesadelos terríveis.
No meu 24° ano, no dia 16 de maio (ou perto disso, pois meu impreciso calendário
era feito com marcas em um poste), caiu uma grande tempestade, com muitos raios e
trovões. Estava em minha casa lendo a Bíblia, quando ouvi um canhão ser disparado
no mar. Levantei--me, desesperado, achando que um navio em dificuldades estivesse
por perto, disparando tiros de aviso.
A noite estava mais escura que o normal, e o navio estava tão longe que, mesmo
do ponto mais alto e com o binóculo, não consegui distinguir de onde exatamente
partira o tiro nem de qual tipo de embarcação.
Juntei uma grande pilha de madeira seca no topo da montanha mais alta e ateei
fogo. O vento estava relativamente forte, e tenho certeza de que um navio poderia ter
avistado meu sinal com clareza. E eles certamente avistaram, pois assim que a
fumaça subiu, ouvi outro tiro e outros depois desse.
No dia seguinte, o ar ficou um pouco mais limpo e pude enxergar uma
embarcação muito ao longe. Estava ancorada, pelo que pude perceber, pois não se
41
movia. Peguei minha arma e corri até a praia em que a correnteza tinha me deixado
depois do naufrágio.
Mas lá pude ver: não era um navio, mas um naufrágio, no mesmo lugar onde o
meu tinha naufragado 24 anos atrás. Acredito que os homens, tendo visto meu sinal
de fumaça, tinham se arriscado a vir para a ilha num bote, mas a correnteza deve tê-
los levado mar afora, onde estariam morrendo de sede e fome. Só pude agradecer
novamente a Deus, pensando na condição desses pobres homens e na minha vida
confortável. Não pude sequer supor que algum deles tivesse escapado com vida.
Pela primeira vez em muito tempo, desejei que uma única alma tivesse escapado
da morte e pudesse me fazer companhia. Seria tão bom poder conversar com outro
ser humano! Um, apenas um! Mas o meu destino, ou o deles, não tinha nos reservado
essa sorte. Alguns dias mais tarde, a maré trouxe o corpo de um garoto até a praia.
Suas roupas eram as de um marinheiro comum, e não tinha nada que indicasse sua
nacionalidade. Tinha em seu bolso um pouco de dinheiro e, agradeci a Deus, um
cachimbo.
Logo pensei que poderia ir até o naufrágio com meu bote e, quem sabe, encontrar
uma vida ali e salvá-la, além de salvar a minha da extrema solidão em que vivia.
Preparei tudo para essa pequena, porém perigosa viagem: me abasteci com pão,
água, um compasso para me guiar, uma garrafa de rum (ainda tinha muitas garrafas) e
uma cesta cheia de uvas passas, além do leite e queijo de cabra. Além das provisões,
também peguei meu guarda-chuva, embora não fosse a época das monções. Orei a
Deus para que me guiasse e pus o barco no mar, aproveitando a maré. Teria de
navegar por um bom tempo antes de chegar ao local do naufrágio, e não podia deixar
que os ventos ou as correntezas me tirassem do caminho e da segurança da minha
rota. Meus remos funcionaram contra a corrente, que não estava tão violenta, e, em
duas horas, cheguei ao navio.
Era uma visão triste. O navio, que era espanhol, estava preso entre duas rochas. A
metade traseira estava esmagada, e o mastro principal, quebrado ao meio, tal tinha
sido a violência da batida. A parte da frente, entretanto, estava razoavelmente
conservada. Quando cheguei perto, apareceu um cachorro que, quando me viu,
começou a latir e ganir desesperadamente. Eu o peguei e coloquei no meu barco e,
vendo que estava quase morto de sede e fome, lhe dei um pedaço de pão, que ele
comeu como um lobo selvagem, e um pouco de água.
Depois de alimentar o cão, subi a bordo e vi dois homens afogados, lado a lado,
perto da porta da cozinha, onde ainda havia um pouco de água. Havia muitas garrafas
de bebida, vinho ou brandy, não tive certeza, já que a água estragara os rótulos. Havia
também muitos baús, que provavelmente eram de propriedade dos marujos. Levei
dois comigo para o barco, sem abri-los. Pelo tanto de riqueza abordo, conclui que
este navio deveria ter partido de Buenos Aires, passado pelo Brasil, e deveria seguir
42
para Havana ou mesmo para a Espanha. Também peguei a munição que estava na
cabine, mas deixei ali as armas, já que não precisava de mais mosquetes. Peguei
alguns utensílios de cozinha e um pote para fazer chocolate.
Com essa carga, e o cachorro, parti de volta para a ilha. Já estava muito escuro
quando cheguei à praia, extremamente cansado.
No dia seguinte, transportei a carga à minha caverna-depósito, não ao meu castelo.
Depois de tomar um banho, sentei-me para separar e examinar a carga. Nos baús
havia bebida, roupas e lenços, que foram muito bem-vindos, nos dias de calor, para
limpar o rosto. Havia também muito ouro, que não tinha nenhuma utilidade para mim
naquele momento, mas guardei os valores na minha casa, assim como tinha feito com
o dinheiro que estava a bordo do meu navio.
Com isso, vivi sossegadamente por mais dois anos. Mas minha cabeça sempre
estava às voltas com planos para sair da ilha. Visitei o navio que tinha naufragado
muitas outras vezes, não apenas para pilhá-lo, mas para tentar conceber uma ideia que
me acalentava: se eu tivesse ali o mesmo barco que tinha na minha fuga de Sallee,
conseguiria sem dúvida voltar à civilização.
 
 
43
E
UM ENCONTRO INESPERADO
stava mais rico do que nunca e mais organizado, com minhas terras e criações,
do que nunca antes na minha vida. Tinha escapado de tantos perigos, o mais
recente deles, os canibais, que não tinha como não agradecer à Providência, todos os
dias, pela minha vida. Nunca pensei em considerar o que faria se caísse nas mãos
desses selvagens ou mesmo o que seria de mim quando ficasse velho e incapaz de
trabalhar.
Mas tinha um pensamento recorrente de como conseguir alguém para me ajudar a
navegar para longe dali: ir até a ilha principal, onde viviam os selvagens, e pegar um
deles como refém. Podia pegar um dos prisioneiros deles como refém. Claro que isso
só seria possível se eu atacasse e matasse um grupo grande desses homens, e meu
coração tremia com a possibilidade de derramar tanto sangue.
Depois de tanto lutar comigo mesmo e com meus pensamentos confusos e
contraditórios, decidi que ia buscar minha salvação a qualquer custo. Montei guarda
para observá-los, preparando-me para atacar assim que a oportunidade se
apresentasse.
Por muitos dias, nenhum sinal dos selvagens ou de suas canoas. Fiquei muito
aflito: quanto mais tempo demorava, mais ansioso eu ficava. Se no começo eu temia a
presença deles, agora estava ávido para encontrá-los. Pensei também em dominar
dois ou três selvagens para transformá-los em escravos.
Depois de um ano e meio de vigília, surpreendi-me ao ver cinco canoas no meu
lado da praia. Estavam vazias, e as pessoas que vieram nelas, longe da minha vista.
Calculando que sempre navegavam de quatro a seis homens por canoa, não sabia o
que me aguardava. Esperei por um bom tempo em posição de ataque, no alto da
colina, escondido, com minha arma na mira, antes de ver o grupo com meu binóculo:
eram pelo menos 30 homens, e dançavam com seus gestos selvagens ao redor do
fogo, onde queimava uma carne que não consegui distinguir o que era.
Enquanto observava a cena, percebi outros dois miseráveis sendo arrastados dos
barcos, sem dúvida para servir de sacrifício. Um deles caiu imediatamente após levar
um golpe de clava na cabeça. Dois outros selvagens começaram o ritual macabro de
cortá-lo e abri-lo, enquanto a outra vítima esperava sua vez. Naquele momento, a
esperança da vida falou mais alto no coração do que ainda aguardava a morte, e o
pobre infeliz aproveitou que os demais selvagens estavam ocupados preparando a
vítima recém-abatida para devorá-la e saiu correndo na direção da minha habitação.
Fiquei aterrorizado quando o vi correr na minha direção e, obviamente, ser
seguido por um grande grupo de canibais. Consegui respirar fundo e manter a calma,
e foi por isso que consegui perceber que apenas três homens continuavam a persegui-
lo. Ele corria tão rápido que logo deixou todos para trás e, certamente, dentro de uma
44
meia hora, conseguiria despistá-los, escapando.
O fugitivo entrou pelo canal onde era minha caverna-depósito e nadou
alucinadamente. Dos três homens que o seguiam, apenas dois continuaram, pois o
terceiro certamente não sabia nadar. Quando vi que o fugitivo saiu do outro lado, na
mata, percebi que chegara meu momento de ter um servo ou companheiro, e que era
meu dever divino salvar aquela pobre criatura da morte. Peguei minhas duas armas,
desci correndo pela montanha por um atalho e coloquei-me entre o perseguido e os
perseguidores, gritando para que o fugitivo continuasse fugindo, pois ele havia
parado para me observar, com tanto medo quanto sentia dos selvagens. Avancei
devagar até um dos dois homens nus e, com um golpe rápido na cabeça, derrubei-o.
Não queria disparar para não chamar a atenção dos demais, embora àquela distância
não sei se teriam conseguido ouvir alguma coisa; por outro lado, poderiam ter visto a
fumaça.
Vendo o companheiro no chão, o segundo parou, com medo. Avancei um passo
em direção a ele e percebi que estava armado com arco e flecha, pronto para atirar.
Então, rapidamente, decidi atirar e matei-o com um único tiro.
O selvagem que estava fugindo continuava paralisado. Gritei e gesticulei para que
ele chegasse perto, mas ele estava com medo de ter o mesmo destino dos que agora
jaziam mortos aos meus pés. Mas eu sorri, e ele continuou chegando perto, agora de
joelhos, agradecendo por eu ter lhe salvado a vida. Quando chegou perto de mim,
beijou meus pés e encostou a cabeça neles, gesto que entendi como sendo de
juramento de eterna servidão.
Enquanto isso, o primeiro dos perseguidores, que tinha caído, retomava a
consciência do golpe levado. Meu selvagem começou a falar e, embora eu não
entendesse nenhuma palavra, fiquei muito feliz em ouvir uma voz humana pela
primeira vez em 25 anos. Ele apontava para a espada em minha cintura. Entreguei-a a
ele, que andou resolutamente até o homem, que agora estava sentado e um pouco
zonzo, e decepou-lhe a cabeça num só golpe. Achei extraordinário que um selvagem
que só tivesse manejado uma espada de madeira conseguisse dar um golpe tão
preciso quanto um experiente soldado.
Depois disso, ele voltou para o meu lado, sorrindo triunfante. Devolveu-me a
espada, gesticulando e falando muito, e colocou a cabeça do selvagem aos meus pés.
Também foi até o outro, que tinha levado o tiro, e observou-o por um longo tempo,
provavelmente espantado por eu ter conseguido matá-lo mesmo estando longe. O
ferimento a bala não sangrava muito, mas ele estava realmente morto. Meu selvagem
pegou o arco e as flechas e voltou para o meu lado. Gesticulei para que ele me
seguisse, explicando que outros viriam.
Eu o levei até o abrigo que havia servido para vigília durante todo aquele tempo e
dei-lhe pão e uvas passas, além de água, já que o pobre coitado estava ofegante da
45
correria. Depois, apontei uma cama com um cobertor, onde eu mesmo costumava
dormir. Ele entendeu e logo já estava dormindo.
46
E
UM COMPANHEIRO
ra um sujeito forte e saudável, de uns 26 anos. Tinha um rosto másculo, mas seu
sorriso o deixava com um aspecto simpático. Os cabelos eram longos e negros, e
a pele tinha um tom amarelado muito bonito e brilhante. Seu rosto era redondo e seu
nariz pequeno, e entre os lábios finos viam-se dentes brancos como marfim.
Depois de um cochilo de mais ou menos meia hora, ele saiu da caverna e me viu
tirando o leite das minhas cabras. Ele correu até mim e prostrou-se novamente aos
meus pés, fazendo gestos de agradecimento e devoção. Ele pegou um dos meus pés e
o colocou sobre a cabeça, num sinal claro de que seria meu servo pela vida toda. Eu
fiquei muito feliz com ele. Comecei a ensiná-lo a falar comigo, e a primeira coisa que
quis que ele aprendesse foi seu nome: Sexta-Feira, que tinha sido o dia em que sua
vida fora salva. Também o ensinei a me chamar de “senhor” e de Robinson, além de
explicar o significado de “sim”e “não”. Ele sempre se mostrava muito satisfeito com
a comida e as provisões que tínhamos.
Logo no dia seguinte, dei algumas roupas para ele, pois andava completamente nu,
e ele ficou muito contente. Fomos até o lugar onde estavam os dois homens mortos, e
ele os enterrou. Enquanto fazia umas marcações no chão, eu perguntei a ele para que
serviam, e ele me explicou que seria para depois conseguirmos saber onde estavam os
corpos para desenterrá-los e comê-los. Ao ouvir isso, fiquei muito bravo e fiz sinais
de que vomitaria só de pensar nisso. Mandei que me seguisse para longe dali, e ele
assim o fez, muito submisso. Subimos até o alto da montanha, onde tinha montado
guarda no dia anterior, e vimos que as canoas tinham partido. Com meu binóculo, vi
que o lugar onde tinham feito a fogueira estava agora deserto. Todos tinham ido
embora, deixando para trás os dois companheiros, agora mortos, sem nem ao menos
terem saído em busca deles.
Mas eu não estava satisfeito apenas com essa descoberta. Agora, mais corajoso e
curioso, junto a Sexta-Feira, que levava arco e flechas nas costas, além de carregar
uma das minhas armas, somadas às duas que eu estava levando comigo, andei até o
lugar onde aquelas criaturas tinham estado. Queria pesquisar e observar mais.
Quando cheguei ali, meu sangue congelou nas veias, e senti o coração pesado no
peito. Sexta-Feira pareceu não se importar. O lugar estava cheio de ossos humanos, o
chão, manchado de sangue, pedaços de carne aqui e ali, metade devorados, rasgados e
despedaçados. Todos os sinais de um banquete diabólico e triunfante, indicando
vitória sobre os inimigos. Havia três caveiras, cinco mãos e os ossos de três ou quatro
pernas, e um grande número de pedaços que não consegui identificar. Sexta-feira me
disse por sinais que eles haviam sacrificado e devorado três homens, e que ele seria o
quarto. Tinha acontecido uma grande batalha entre eles, e o futuro rei e os perdedores
tinham sido levados ali para serem executados e devorados.
47
Mandei que Sexta-Feira recolhesse os ossos e toda a carne que estava espalhada
ali, e, depois de fazermos uma grande fogueira, queimamos tudo. Percebi que Sexta-
Feira ainda desejava alguns pedaços da carne e que ainda era de sua natureza ser
canibal, mas fiz questão de aparentar tamanha repulsa por tudo aquilo que o mataria
se ele comesse ou me oferecesse carne.
Depois disso, voltamos ao meu castelo, e eu o presenteei com uma jaqueta de pele
de cabra que eu mesmo tinha feito, pois tinha me tornado um belo alfaiate, e calças de
linho que tinha encontrado no baú resgatado do segundo naufrágio. Ele ficou muito
contente de estar quase tão bem vestido quanto seu mestre, embora demorasse um
pouco para se acostumar com as calças, e a jaqueta só tenha servido propriamente
depois de ter sido amaciada pelo uso.
No dia seguinte, depois do almoço, comecei a pensar em onde ele iria viver.
Montei para ele uma cabana dentro da minha propriedade, com uma porta que dava
acesso à minha casa. Também coloquei uma cerca e uma porta que podia ser fechada
por mim, para minha segurança. As armas sempre ficavam comigo durante a noite.
Mas eu não precisava ter me precavido tanto, já que nunca um homem teve
companheiro mais fiel, amoroso e sincero. Éramos como pai e filho, e tenho certeza
de que ele daria a vida por mim. Comecei a ensiná-lo tudo que podia ser útil naquela
situação. Ele era um aprendiz extremamente aplicado, sempre feliz e diligente.
Mesmo quando ele não me entendia ou quando eu não conseguia entendê-lo, adorava
estar na sua companhia. Meus dias começaram a ficar tão leves e agradáveis que
pensei que, se acabassem meus dias ali, ficaria feliz.
Para acabar com o terrível apetite por carne humana que Sexta-Feira ainda sentia,
quis que ele se acostumasse a comer outra carne. Para isso, planejei matar um de
meus carneiros. Sexta-Feira foi comigo, e eu pedi que observasse. Logo que atirei
num carneiro a distância, o pobre selvagem, que já tinha visto um homem morrer
daquela forma, mas não sabia nem conseguia imaginar como acontecia aquilo, ficou
tremendamente surpreso, chocado e até mesmo tremeu, de tão espantado.
Imediatamente, ele se prostrou aos meus pés, e pude interpretar aquilo como uma
súplica para que eu não o matasse.
Eu ri e o peguei pela mão, levando-o até o animal morto, instruindo-o para pegá-
lo. Ele, ainda perplexo, me olhou com o animal nas mãos, e teria me adorado se eu
não o tivesse impedido. Por muitos dias, ele evitou tocar a arma, mas falava com ela,
como se pedindo que ela não o matasse.
Quanto ao carneiro, eu retirei o couro naquela mesma noite e fervi a carne com
água, fazendo uma sopa muito gostosa. Comi um pouco e ofereci a Sexta-Feira. Ele
gostou muito, mas detestou o gosto do sal. No dia seguinte, fizemos carne assada, da
qual ele pareceu gostar ainda mais. De todos os jeitos que conseguia se comunicar,
me disse que, depois daquela carne, nunca mais comeria carne humana.
48
No dia seguinte, colhemos um pouco de milho, que separei para fazer pão. Fiz
com que me observasse e aprendesse, e, de fato, em pouco tempo, ele conseguia fazer
todo o processo sozinho, tão bem quanto eu mesmo.
49
C
UMA NOVA VIDA
omecei a pensar que, agora que tinha duas bocas para alimentar, seria prudente
aumentar minha plantação. Marquei um pedaço maior ao redor da plantação e
comecei a cercá-la. Sexta-Feira trabalhava bastante, com muita boa vontade e alegria,
especialmente depois que disse a ele que estava aumentando a plantação de milho
para fazer mais pão, agora que éramos eu e ele.
Foi o melhor ano que passei ali naquela ilha. Sexta-Feira começou a falar muito
bem e a entender os nomes de quase tudo. Agora, podia conversar novamente e ser
entendido. Comecei a ter grande afeição por Sexta-Feira, cuja honestidade e
dedicação apareciam mais a cada dia. Ele, por sua vez, amava-me mais do que seria
capaz de amar qualquer outra coisa.
Uma vez que ele já estava entendendo e falando tão bem minha língua, comecei a
satisfazer minha curiosidade quanto à sua nação. Perguntei se ela já tinha sido
conquistada numa batalha, e ele me respondeu que sempre lutavam para serem os
melhores. Prossegui a conversa, perguntando como ele tinha sido feito prisioneiro.
– Inimigo muito maior. Quando eu não estar, minha nação bateu muitos mil. Mas,
naquele dia, eles muito mais – disse Sexta-feira.
– Por que ninguém foi resgatá-lo? – perguntei.
– Eles correr e me fazer entrar na canoa. Minha nação não canoa naquele tempo.
– O que sua nação faz com os homens que vocês capturam?
– Minha nação comer homem também.
– Onde vocês os levam?
– Aqui, na ilha, lá – disse ele, apontando para a direção onde eu costumava ver os
selvagens.
Depois que ele disse isso, percebi que Sexta-Feira era um dos homens que tinha
visto desembarcando na ilha do outro lado, participando do mesmo festim canibal.
Um dia, tomei coragem e levei-o até lá comigo, e ele confirmou que ali tinham
comido vinte homens, duas mulheres e uma criança.
Depois disso, perguntei a ele se a ilha de onde vinha era muito longe e se as
canoas chegavam lá em segurança. Ele disse que não tinha perigo nenhum e que
nenhuma canoa nunca tinha se perdido. Havia sempre uma correnteza e um vento
soprando na direção certa pela manhã e à tarde, quando voltavam.
Perguntei a Sexta-feira milhares de questões sobre o lugar de onde vinha, os
habitantes, o mar, a costa e a nação. Ele me contou abertamente tudo o que sabia.
Disse que o nome da nação era Caribe e, pela localização, ficava entre o rio
Oroonoko e as Guianas. Ele disse também que no oeste do país habitavam homens de
barbas brancas como as minhas, e que muitos dos seus tinham sido mortos por eles.
50
Concluí que ele falava dos espanhóis, cujas crueldades se espalharam por muitos
países e passaram de geração em geração.
Perguntei se eu conseguiria ir até aquela ilha e encontrar aqueles homens brancos.
– Sim, sim, duas canoas pode ir.
Não entendi o que ele queria dizer com "duas canoas", mas depois de muito tentar,
deduzi que ele queria dizer umbarco tão grande quanto duas canoas.
Depois de ouvir isso, minhas esperanças foram renovadas. Era a oportunidade que
eu esperava para escapar desse lugar, e esse pobre selvagem poderia me ajudar.
 
51
M
DEUS?
esmo depois de tanto tempo comigo, não tinha conversado com ele sobre
religião nem queria colocar qualquer tipo de obrigação religiosa em sua
mente. Um dia, perguntei a ele quem tinha sido seu criador, e a pobre criatura não me
entendeu absolutamente. Reformulei a pergunta e quis saber quem tinha feito o mar, a
terra e os animais. Ele me disse que tinha sido uma grande pessoa, chamada
Benamuckee, que vivia acima de tudo e todos. Perguntei para onde iam as pessoas
que morriam, e ele respondeu que iam para junto de Benamuckee.
– E aqueles que vocês comem?
– Sim, eles também.
Depois dessa conversa, comecei a ensiná-lo sobre a fé cristã; que o nosso Deus
pode fazer tudo por nós, pode tirar tudo de nós, e que nossa vida depende dele.
Apontava o céu e dizia que Deus estava lá, observando. Um dia, Sexta-Feira me disse
que se meu Deus conseguia ouvir e ver tudo, então era maior do que Benamuckee,
que não ouvia os mais jovens, nem os que estavam no mar ou no alto da montanha.
Ele dizia que as petições eram feitas aos mais velhos, que oravam ao grande
Benamuckee e depois voltavam com a resposta que ele tinha dado. Percebi que até os
mais ignorantes pagãos têm uma aristocracia religiosa que privilegia o clero e
continua cegando as pessoas mais simples. Veneração de pessoas não acontece
somente em Roma, mas também em todas as religiões do mundo, até entre os mais
brutos e bárbaros selvagens.
Depois disso, disse a ele sobre o inimigo de Deus, o diabo. E que o diabo era
muito poderoso e vivia tentando os homens para que se desviassem de Deus. Ele me
perguntou se Deus, sendo mesmo poderoso, poderia matar o diabo e livrar os homens
desse mal. Fiquei surpreso com a lógica dessa pergunta. Já era um homem idoso e
não soube o que responder. Apenas acabei com o assunto, dizendo que Deus perdoa a
todos e que sempre dá uma chance aos que erram, sejam eles humanos ou não.
Quando percebi que ele me entendia bem e também tinha uma comunicação
fluente, embora confusa, contei a ele minha história, por que estava ali e de onde eu
vinha. Descrevi a Europa e principalmente a Inglaterra, minha terra natal. Também
descrevi em detalhes todas as terras por onde tinha passado. Contei-lhe do naufrágio e
mostrei o lugar onde o navio tinha ficado encalhado. Mostrei algumas ruínas do
navio, que agora estavam muito deterioradas. Sexta-Feira observou por alguns
minutos e depois falou:
– Mim ver barco assim chegar na minha nação.
Então um navio tinha aportado por ali. Pedi detalhes, e ele disse:
– Nós salvar homem branco de se afogar. Muitos. Eles vivem agora na minha
52
nação.
Imaginei imediatamente que esses homens eram os tripulantes do navio que
afundara há alguns anos. Certamente, esses homens tinham fugido de barco e
desembarcado no lado selvagem da ilha. Sexta-Feira me garantiu que eles viviam ali
havia quatro anos.
– Mas por que vocês não os mataram? – eu quis saber.
– Nós ficar irmãos. Só comer carne de homens quando guerra.
Muito tempo depois dessa conversa, Sexta-feira estava olhando do outro lado da
ilha e começou a pular e a gritar, me chamando.
– Oh, alegria! Oh, feliz! Ver minha terra! Minha nação!
Observei que seus olhos brilhavam de contentamento, e sua expressão revelou
como ele queria voltar para os seus. Claro que, se Sexta-Feira voltasse para sua
nação, não somente esqueceria sua fé cristã, mas também toda a sua obrigação
assumida comigo. Tive ciúme, que mais tarde se mostrou irracional, pois o homem
era honesto e não mudou os modos gentis com os quais me tratava.
Enquanto estava com essa crise de desconfiança e ciúme, achei que ele daria um
jeito de escapar e voltar depois com mais cem ou duzentos homens para fazer um
banquete da minha carne. Isso me tirou o sono por vários dias, até que perguntei a
ele:
– Sexta-Feira, você quer voltar para o seu povo?
– Sim, ficar feliz voltar.
– O que você faria lá? Você voltaria a comer carne humana e ser o selvagem que
era antes?
Ele pareceu ficar preocupado com essa pergunta e respondeu, balançando a
cabeça:
– Não, não. Sexta-Feira fala para eles viver bem. Orar a Deus. Comer carne cabra,
pão milho. Nunca carne homens.
– Se você disser isso, eles o matarão – respondi.
Ele ficou sério.
– Não, eles não matar. Eles aprender amar.
Com isso, perguntei se ele queria voltar. Ele sorriu e disse que não conseguia
nadar tão longe.
– Eu posso fazer um barco para você.
– Eu vou com você.
– Eles vão me matar e me comer se eu for! – respondi.
– Não, não. Eu fazer eles amar. Não vão comer.
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Com isso, entendi que ele diria aos outros que eu tinha salvado sua vida e matado
dois inimigos. Além disso, me contou como tinham tratado bem os homens brancos,
ou homens barbados, como os chamava.
Pensei que, se estivesse junto desses homens, que deviam ser espanhóis ou
portugueses, podíamos todos juntos pensar numa forma de sair dali.
Levei Sexta-Feira até o barco escondido no regato perto da praia, e ele se mostrou
extremamente hábil em navegá-lo. Enquanto preparávamos o barco, ele me olhou e
disse que só iria se eu fosse junto. Ele estava verdadeiramente disposto a morrer se eu
não fosse com ele, tamanha era sua afeição.
Durante dois meses, preparamos o barco, refazendo algumas partes do casco que
tinham sido deterioradas pelo sol e pela água, recolocando um novo mastro e velas.
Depois disso, ensinei a Sexta-Feira os princípios da navegação, já que ele seria meu
assistente.
Tinha acabado de entrar no 27º ano na ilha, sendo que, nos últimos três, estive na
companhia dessa criatura dócil e humana. Continuava a cuidar da plantação e da
criação, fazendo agora os planos para a viagem que poderia significar minha
salvação.
 
54
N
UM REI E SEUS SÚDITOS
uma manhã, Sexta-Feira voltou correndo da praia, gritando:
– Oh, mestre! Oh, senhor! Oh, ruim! Um, dois, três canoas! Um, dois, três
canoas!
– Fique calmo, Sexta-Feira. Vamos nos preparar para lutar.
– Eu atirar!
Dei a ele uma arma carregada, mas disse-lhe para apenas assustar os homens e não
os matar. Levava comigo duas pistolas carregadas, além de minha espada.
Pelo binóculo, consegui ver vinte e um selvagens em três canoas, trazendo três
prisioneiros. Era mais um banquete canibal. Decidi que desceria até ali e mataria
todos os selvagens. Sexta-Feira animou-se e me disse que morreria comigo. Entrei
silenciosamente na floresta, Sexta-Feira atrás de mim, seguindo cada passo. Parei
perto de uma árvore, e pedi que Sexta-feira fosse um pouco mais à frente e voltasse
para me contar o que estava acontecendo. Ele foi e voltou correndo, dizendo que já
estavam comendo um dos homens, sendo que o próximo estava amarrado na areia,
perto deles. Fui até o ponto de onde Sexta-Feira tinha observado e, com meu
binóculo, pude ver claramente o homem na areia: era um europeu e estava vestido.
Eu e Sexta-Feira chegamos um pouco mais perto e nos escondemos atrás de
alguns arbustos. Naquele momento, vi que dezenove dos selvagens estavam sentados
ao redor do fogo, e os outros dois tinham ido matar o pobre cristão e esquartejá-lo.
Naquele momento, anunciei:
– Agora, Sexta-Feira! Faça tudo exatamente como eu pedir!
– Sim, senhor!
Peguei uma das armas e mirei nos selvagens. Sexta-Feira gostou de me observar e
fazer o mesmo.
– Você está pronto?
– Sim.
– Então atire!
Começamos a atirar, e os selvagens correram em todas as direções, pois não
sabiam de onde estava vindo o ataque. Quando vimos que eles corriam para as
canoas, corremos até a praia gritando, para assustá-los. Eu fui direto até a vítima que
estava amarrada na areia, e Sexta-Feira correu atrás deles, atirando e acertando os que
já estavam dentro da canoa.
O homem amarrado era um espanhol, como descobri depois de falar com ele em
português. Estava muito fraco, e eu lhe dei água e pão, que ele consumiu
rapidamente. Continuei atirando nos outros, enquanto o espanhol pegou a espadaque
55
eu levava na cintura, correu na direção de seu quase carrasco e golpeou-o com tal
fúria que o dividiu em dois. Partiu para o outro, igualmente assustado e surpreso com
o ataque, e liquidou-o facilmente.
Todos os selvagens estavam assustadíssimos com o barulho de nossas armas, e foi
fácil matá-los. Matamos sete, e os outros correram, mas eu e Sexta-feira os
perseguimos. Matamos todos que fugiram para a mata, que conhecíamos bem. Mas
quatro escaparam no bote, sendo que um deles estava muito ferido, e não sabemos se
sobreviveu.
Sexta-Feira queria muito persegui-los com nossa canoa e atirou da praia várias
vezes, embora acredito que não tenha conseguido acertar nenhum. Eu concordei, e
saímos em perseguição numa das canoas deixadas por eles. Fiquei surpreso ao
encontrar um outro preso lá dentro, quase morto de medo, não entendendo o que
estava acontecendo porque não podia enxergar. Ele estava amarrado com tanta força
nas pernas e braços, havia tanto tempo, que não tive certeza se conseguiria
sobreviver.
Imediatamente, cortei as cordas que o amarravam e ajudei-o a se levantar. Ele não
conseguia falar, apenas gemia, acreditando que ainda seria morto e devorado.
Sexta-Feira chegou perto e tentou explicar que ele estava sendo salvo. Eu lhe dei
um pouco de água, e ele se sentou, agora entendendo que não corria mais perigo. O
sentimento de salvação pareceu lhe devolver a vida. Sexta-feira beijou-o, cantou e
abraçou-o com tanta força e alegria que demorou um tempo até que eu pudesse falar
com ele. Quando conseguiu, ele me disse que era o pai de Sexta-Feira.
É difícil descrever a alegria entre o encontro de pai e filho, e como esse momento
me emocionou. O filho abraçava o pai, que tinha sido resgatado da morte, e o mais
velho beijava as mãos do moço. Isso fez com que Sexta-Feira se esquecesse
completamente de perseguir a canoa que fugira com os quatro homens. Dei-lhe um
pouco de pão e uvas passas. Sexta-Feira correu sem me dizer para onde estava indo e
voltou como um raio com um jarro de água fresca, que seu pai bebeu desesperado.
Mesmo depois de comer, o pobre homem estava tão fraco que não conseguia se
levantar. Olhou-me com uma expressão de profunda gratidão, enquanto Sexta-Feira
lhe massageava os tornozelos, que estavam muito inchados por terem ficado
amarrados por um longo tempo. O espanhol não estava melhor: depois de juntar as
últimas forças para matar os que o executariam, ele também não conseguia andar.
Sexta-Feira e eu pegamos um pedaço de pano grande e improvisamos uma maca.
Colocamos os dois homens ali e os levamos para o meu castelo. Mas não
conseguiríamos colocar todos lá dentro, então nós fizemos uma nova tenda, além de
dois novos colchões de palha e cobertores.
Minha ilha estava agora povoada, e eu pensei que era o homem mais rico dali,
56
afinal estavam todos sob meus domínios. Eu era o rei e tinha três súditos.
57
D
UM NOVO PLANO
epois que coloquei os feridos para descansar, ordenei que Sexta-Feira matasse
um bode para cozinharmos. Depois que fizemos um caldo com a carne,
cozinhei arroz e cevada. Levei os pratos até a tenda deles, e comemos todos juntos.
Sexta-feira servia de intérprete para o pai e também para o espanhol, que falava a
língua dos selvagens muito bem.
Depois de comermos, ordenei que Sexta-Feira enterrasse os corpos que ficaram na
praia e os restos do festim canibal. Não queria acompanhá-lo, não conseguiria
suportar. Sexta-Feira fez uma limpeza tão perfeita que quase não consegui saber onde
tinha sido a pequena batalha que travamos.
Comecei a interrogar os recém-chegados. Perguntei ao pai de Sexta-Feira se ele
esperava que mais selvagens voltassem. Ele disse que, pela tempestade que cairia
naquela noite, eles morreriam ou seriam levados para o lado oposto da ilha, onde
certamente seriam mortos pelos da sua nação. Mas, mesmo se conseguissem escapar,
teriam medo de voltar depois daquele ataque e diriam que as pessoas foram mortas
por raios e trovões, não por homens. Ele tinha ouvido os homens falando uns com os
outros dessas coisas extraordinárias: um homem fazendo fogo com as mãos e
matando sem precisar chegar perto.
O velho selvagem estava certo. Depois disso, os selvagens não voltaram mais à
ilha. Parece que o relato dos sobreviventes (sim, tenho certeza agora de que eles
escaparam) tinha sido aterrorizante o suficiente para que todos acreditassem que
somente o fogo dos deuses poderia destruir o que habitava essa ilha encantada. Mas
antes de saber disso, fiquei um bom tempo apreensivo, mantendo a guarda, eu e meu
pequeno exército de quatro homens. Com o tempo, o cuidado começou a ceder, e
retomei meus planos de viajar até a nação de Sexta-Feira.
Conversei muito com o espanhol e fiquei sabendo que havia dezesseis europeus
ali, todos espanhóis, com exceção de um português, e estavam todos vivendo em paz,
mas com muitas necessidades. Sua viagem fracassada tinha como destino Havana.
Ele me disse que também havia algumas armas com eles, mas não tinham munição.
Perguntei se eles tinham planejado escapar dali, e ele me informou que isso foi
conversado entre eles, mas como não tinham nem navio nem ferramentas para
construir um, seus planos sempre acabavam em lágrimas e desespero.
Perguntei se os homens não estariam dispostos a se juntar a mim para planejar e
executar a fuga, navegando para o Brasil ou qualquer costa espanhola. Ele me
agradeceu por propor a fuga daquela condição miserável, e disse que iria até o grupo
com o pai de Sexta-Feira, para perguntar o que fariam e voltaria com a resposta. Da
parte dele, entretanto, nunca me abandonaria, pois me devia a vida.
Ele me disse que eram um grupo de homens honestos e civilizados, mas
58
esfarrapados e famintos, já destituídos de toda dignidade, e que, se ouvissem essa
proposta e vislumbrassem o fim daquele sofrimento, iriam viver e morrer por mim.
Fiquei muito satisfeito por vislumbrar minha partida depois de 27 anos.
Quando estavam de partida, fiz com que o espanhol me garantisse que só traria os
homens que jurassem que não iam lutar, ferir nem atacar a pessoa que estava na ilha,
e que iriam defendê-lo e obedecer-lhe, pois seria ele quem providenciaria a
libertação. O espanhol e o pai de Sexta-feira partiram numa das canoas usadas pelos
selvagens. Dei a cada um uma arma e munição, mas os instruí que não as usassem, a
não ser que fosse estritamente necessário.
Oito dias depois da partida deles, aconteceu algo muito estranho e surpreendente.
Estava dormindo quando Sexta-Feira chegou correndo e gritando:
– Mestre, eles chega! Eles chega!
Eu dei um pulo e, não me importando com o perigo, corri deixando minhas armas
para trás. Quando cheguei ao lugar onde Sexta-Feira estava, vi um navio a cerca de
uma légua da praia. Chamei Sexta-Feira e disse que era para ele tomar cuidado, pois
não eram as pessoas que estávamos esperando, e não sabíamos se eram inimigos ou
amigos. Fui pegar o binóculo e subi até a montanha mais alta. Vi, então, que o navio,
que estava ancorado, era inglês. E um barco se aproximava da ilha.
Não consigo expressar a confusão mental que tomou conta de mim. A felicidade
de ver um navio, e ainda mais inglês, era maior do que eu pensava que sentiria. Mas
senti uma ponta de desconfiança quando comecei a imaginar o que esse navio estaria
fazendo ali, naquela parte do mundo. Não foram desviados por uma tempestade, e
aquela rota não era comum aos navios de sua majestade. Se ali estavam, era por
algum motivo obscuro. Preferia continuar como estava a cair nas mãos de ladrões e
assassinos.
Continuei observando e vi quando o barco se aproximou da areia, longe da minha
propriedade. Quando desembarcaram, confirmei mais uma vez que se tratava de
ingleses. Eram onze homens, sendo que três estavam amarrados e foram levados para
a praia como prisioneiros. Um deles estava visivelmente desesperado, e os outros dois
pareciam igualmente preocupados, mas não tão suplicantes.
– Mestre, homens inglês comer prisioneiro como selvagem – disse Sexta-Feira,
observando a cena.
– Não, Sexta-Feira – respondi.– Acho que eles vão matar esses homens, mas não
vão comê-los.
– Sim – continuou Sexta-Feira. – Eles vão comer.
Observei, horrorizado, que um dos homens ergueu a espada e estava pronto para
abater um dos outros. Naquele momento, desejei que o espanhol e o outro selvagem
estivessem ali para me ajudar a abater os carrascos e resgatar os três homens. Decidi
59
esperar para ver o que aconteceria. Os três prisioneiros ficaram na praia, enquanto os
outros saíram para explorar a ilha. Nenhum deles tomou o caminho em direção ao
meu castelo, e foi bom para eles, já que os teria matado sem hesitar.
À noite, quando percebi que os prisioneiros estavam sozinhos na praia e os outros
não estavam por perto, coloquei meu casaco de pele de bode, duas armas e minha
espada na cintura, e fui até eles, seguido de perto por Sexta-Feira.
Cheguei o mais perto que pude e gritei em espanhol, antes de ser visto:
– Quem são vocês, senhores?
Eles se assustaram e percebi que iam fugir. Então, refiz a pergunta em inglês e
eles responderam prontamente que eu deveria ser uma ajuda divina, já que a condição
em que se encontravam estava além de qualquer ajuda humana.
Um dos homens, com lágrimas nos olhos e trêmulo, me contou que era capitão
daquele navio e que havia acontecido um motim a bordo. Ele, junto a seu assistente e
um passageiro, estavam sendo deixados naquela ilha para morrerem.
Pedi que me acompanhassem floresta adentro para resolvermos aquela situação.
Quando estávamos longe da vista dos outros homens, perguntei:
– Se eu os libertar, você, como capitão, pode me prometer duas coisas?
– Eu e meu navio serão seus, e eu morrerei por você em qualquer parte do mundo
– foi sua resposta antes mesmo que eu falasse.
– Quero obediência e lealdade quando estiverem de posse das minhas armas. E
quero que me leve, junto a meu servo Sexta-Feira, de volta à Inglaterra.
Ele concordou prontamente, acrescentando que me devia a vida e que sempre
estaria em débito comigo.
– Bem, então aqui estão armas para vocês, com munição.
60
C
ATAQUE
ombinamos que atiraríamos neles enquanto dormiam e que, se algum deles
sobrevivesse, daríamos a ele a chance de se arrepender. E que Deus guiasse
nossos tiros. O capitão me disse que dois deles tinham sido os líderes do motim,
assassinos sanguinários, e que, se fossem mortos, ele estava certo de que o resto do
grupo se entregaria pacificamente.
Naquele momento, escutamos alguns homens acordarem e observamos, protegidos
pelo mato. O capitão disse que os que acordaram não eram os líderes, e que a
Providência devia tê-los acordado.
Miramos nossas armas, e o assistente do capitão e o passageiro fizeram um pouco
de barulho. Isso acordou os homens e um deles gritou. Mas era tarde demais: os tiros
foram certeiros. Um dos líderes morreu na hora; o outro ficou gravemente ferido e,
ajoelhado, começou a pedir perdão. O capitão, porém, não se comoveu, e disse que
ele agora deveria pedir perdão diretamente a Deus, nocauteando-o com o cabo da
arma. Os outros três, que ficaram feridos, começaram a clamar por misericórdia. O
capitão fez com que jurassem lealdade e que o ajudariam a recuperar o navio e levá-lo
de volta à Jamaica, para onde estavam indo. Eles fizeram todas as juras que
conheciam; o capitão acreditou neles e lhes poupou a vida. Mas eu fiz com que seus
pés e mãos ficassem amarrados, pelo menos enquanto estavam na ilha.
Contei ao capitão minha história e mostrei a ele meu castelo. Ele ficou fascinado
com toda a minha fortuna, digamos assim. Depois me disse que ainda havia vinte e
seis a bordo, que estavam envolvidos com a conspiração e que certamente não
desistiriam tão facilmente, sabendo que, se fossem levados para a Inglaterra ou
qualquer colônia, seriam enforcados.
Nesse momento, ouvimos um tiro de canhão, sinalizando para que o barco que
estava na ilha voltasse. Como o barco não retornou, vi com o binóculo que eles
prepararam outro barco para vir à ilha.
Assim que chegaram, viram o outro bote ali, vazio e com um grande furo
embaixo, que tínhamos feito para inutilizá-lo. Começaram a gritar, chamando pelos
outros. Como não viram ninguém, voltaram correndo para o barco e se puseram a
caminho do navio. O capitão teve quase certeza de que ali perderíamos todas as
esperanças, e que o grupo iria embora, deixando os outros para trás. Mas nos
surpreendemos um pouco mais tarde, quando o barco voltou com todos os homens,
menos três, que ficaram a bordo para tomar conta do navio.
Essa parecia ser a oportunidade perfeita, mas tínhamos que nos certificar de que
iríamos conseguir escapar em segurança, já que não podíamos enfrentar mais de vinte
homens armados.
Assim que os homens puseram o pé na ilha, embrenharam-se pela mata, gritando e
61
chamando. Seguiram diretamente na direção do meu castelo, mas não o encontraram,
pois estavam em busca de um lugar alto para que pudessem observar todo o lugar. Lá
em cima, gritaram e observaram com binóculos por um longo tempo. Em segurança,
observávamos de perto, sem sermos vistos.
Logo depois, não ouvindo nem vendo nada, aparentemente, foram tomados por
um temor de coisas sobrenaturais ou selvagens, e seguiram apressadamente para o
barco, dessa vez, sem dúvida, para irem embora para sempre. Vendo isso, instruí
Sexta-Feira e o assistente do capitão para que fossem do outro lado da ilha, onde os
selvagens costumavam fazer seus festins canibais, e gritassem o mais alto que
podiam.
Assim o fizeram, e os marinheiros, ao ouvirem os gritos, correram na direção
oposta, como previsto. Dois homens tomavam conta do barco na praia, e o capitão e
eu os surpreendemos. Havia mais um na areia, bêbado ou sonolento, e o capitão o
abateu. Os outros receberam ordens de renderem-se ou morreriam. Eles não só se
renderam, como aceitaram se juntar a nós.
Enquanto isso, Sexta-Feira e o assistente confundiam os outros homens, gritando e
mudando constantemente de lugar. Ficaram assim até o anoitecer, quando se juntaram
a nós na praia. Combinamos um plano para atacá-los no escuro, quando não saberiam
quantos homens estavam ali. Éramos agora oito. Os prisioneiros foram desamarrados
e armados, lutando ao nosso lado.
Quando chegaram à praia, exaustos, viram que os dois que tinham ficado
montando guarda tinham desaparecido, assim como um dos barcos, que tínhamos
escondido dentro da minha caverna de suprimentos. Começaram a gritar em
desespero, acreditando terem pisado numa ilha encantada ou amaldiçoada.
Aproveitamos esse momento de confusão para atacar. Fiz com que o marinheiro
que estava de vigia chamasse cada um deles por nome e desse a todos a oportunidade
de rendição, para poupar o maior número de vidas possível.
– Tom Smith! – chamou ele.
– Quem é? É você, Robinson?
– Sim, sou eu. Pelo amor de Deus, entreguem suas armas e se rendam, ou serão
todos mortos.
– A quem devemos nos render?
– Ao capitão e aos cinquenta homens que o acompanham. O líder está morto, Will
Frye está ferido e eu sou um prisioneiro. Se vocês não se renderem, morreremos
todos.
– Se nos rendermos, manteremos a vida? – quis saber o homem.
– Aqui quem fala é o capitão! Se vocês prometerem se render, suas vidas serão
poupadas, exceto a de Will Atkins.
62
– Pelo amor de Deus, capitão! – gritou Will Atkins. – Poupe-me a vida! Não fiz
nada além do que os outros também fizeram!
Se isso era verdade ou não, não sei. Tudo que sabia é que Will Atkins tinha sido o
responsável por amarrar e maltratar o capitão. Depois, o capitão decidiu mantê-lo
vivo e deixar que o governador (que era como ele me chamava) decidisse o que fazer.
Todos baixaram as armas, penitentes, implorando pela vida. Todos, com exceção
de Will e de outros dois com má fama, ficaram livres para nos ajudar no trabalho e no
reparo do barco. Will e os outros foram amarrados e colocados dentro da caverna,
perto da praia.
Com esses homens, o capitão fez um acordo: não os mandaria para a prisão ou
para a morte na Inglaterra se ajudassem a recuperar o navio. Todos aceitaram
prontamente. Havia, porém, outro acordo: cinco prisioneiros ficariam refénsaté que o
navio estivesse em segurança. Caso a tentativa de recuperação fosse frustrada, mais
uma vez devido a traição, esses cinco seriam enforcados na praia. O governador,
como o capitão se referia a mim, seria o responsável pela execução.
 
63
O
A NOTÍCIA TÃO ESPERADA
capitão, seu assistente, os dois prisioneiros da primeira leva, os dois que
guardavam o barco e os cinco da última turma se puseram a caminho do navio.
Sexta-Feira e eu ficamos para cuidar dos prisioneiros na ilha, sete no total. Todas as
vezes que eu ia ver os presos, dizia que era um representante do governador e que
estaria ali para manter a ordem. Eles tinham que continuar acreditando que estavam
sendo vigiados por um pequeno exército.
O capitão não teve dificuldade em dominar os poucos homens que estavam no
navio. No meio da noite, desembarcaram no convés e apontaram armas, exigindo a
rendição dos três vigias, que não hesitaram em baixar armas. O “novo capitão” estava
dentro da cabine e também foi dominado facilmente, já que estava dormindo e
desarmado. Ele levou um tiro, que o matou imediatamente. Ninguém mais foi morto.
O capitão disparou sete tiros de canhão, que era o sinal de vitória e de que o navio
estava novamente sob seu comando. Eram quase duas da manhã e eu fui dormir
tranquilo na praia.
Pouco depois, fui acordado com um grito de “Governador!”. Era o capitão. Ele me
abraçou e disse:
– Meu querido amigo e libertador! Ali está seu navio e sua tripulação!
Olhei e vi o navio a meia milha da praia, ancorado. O mar estava calmo e o clima
agradável, por isso fizeram questão de trazer o navio até minha porta. Quase desmaiei
com essa surpresa, pois senti que a minha libertação tinha sido colocada em minhas
mãos. Perdi a voz e minhas pernas tremeram tanto que teria caído no chão se o
capitão não tivesse me segurado.
Ele me deu um pouco de bebida, como que para fazer um brinde, e, sentado ali na
areia da praia, eu chorei, agradecendo a misericórdia da Providência e a bondade
desse homem que cruzou o meu caminho.
Comemos todos juntos, naquela noite, um grande e farto jantar de comemoração.
Também discutimos o que fazer com os prisioneiros amotinados. Os cinco homens
continuavam na caverna, e Sexta-Feira foi buscá-los.
Ao lado do capitão, apresentei-me a eles como governador da ilha, já que agora
estava vestido com as roupas de gala presenteadas pelo capitão. Disse que sabia que o
capitão tinha lhes prometido a vida, mas eu considerava um motim uma injúria tão
infame que não poderia lhes dar a mesma misericórdia. Mas, por respeito ao capitão,
não os mataria; deixaria-os ali, na ilha, pois tinha decidido partir com todos os meus
homens no navio que tinha me acolhido. Eles me agradeceram, já que preferiam ficar
ali com suas vidas a voltar para a Inglaterra para serem enforcados.
Pedi ao capitão um dia para arrumar minhas coisas. Enquanto ele foi aprontar o
64
navio, contei aos cinco homens que ficariam ali como tinha organizado tudo e como
eles poderiam viver tranquilamente. Contei também a história da minha vida e relatei
o encontro com os espanhóis, para quem deixei uma carta e instruções para que
fossem bem acolhidos.
Depois de ter feito tudo o que precisava, subi a bordo. Mas o navio não zarpou
imediatamente, pois não tínhamos vento. Na manhã seguinte, dois dos cinco homens
chegaram nadando e implorando para serem levados dali, jurando absoluta lealdade, e
que prefeririam ser enforcados imediatamente a ser deixados ali. O capitão os acolheu
e, depois de um severo açoitamento, os homens se mostraram honestos e dignos de
permanecer a bordo.
Partimos, Sexta-Feira e eu, no dia 19 de dezembro de 1686, depois de 28 anos,
dois meses e dezenove dias de cativeiro. De lembrança, levei minha pele de bode,
meu guarda-chuva e um papagaio, além de todo o dinheiro coletado nos dois
naufrágios, o que vivi e o outro, que presenciei. Cheguei à Inglaterra no dia 11 de
junho de 1687, depois de trinta e cinco anos de ausência.
65
A
UM MUNDO DIFERENTE
ssim que cheguei, estranhei a civilização, como se nunca tivesse visto aquela
sociedade. A viúva que tinha ficado com meu dinheiro ainda estava viva, e,
como recompensa por sua lealdade, deixei com ela o dinheiro que era meu, pois a
pobre mulher tinha tido muitos sofrimentos na vida.
Voltei a Yorkshire. Meus pais estavam mortos, e minha família tinha
desaparecido. Encontrei, porém, dois filhos de um de meus irmãos, que também tinha
morrido, e minhas duas irmãs. Como eu já tinha sido dado como morto fazia muito
tempo, não tinha nada reservado para mim como herança. Fiquei muito feliz ao
receber uma quantia razoável de dinheiro do capitão que me salvara, pela recuperação
do barco e pelo livramento dos seus marujos.
Decidi ir a Lisboa para saber o que tinha acontecido com minhas terras no Brasil.
Ali, encontrei o capitão que me levara para lá na minha primeira viagem. Muito
velho, ele já tinha abandonado o mar, mas seu filho ainda fazia a rota do Brasil. Ele
sabia que meu encarregado, sabendo do naufrágio, cuidou de minhas terras como se
fossem dele e agora estava próspero e riquíssimo. Esse encarregado era um homem
bom e honesto, e certamente não hesitaria em passar para mim toda a sua fortuna e
propriedade, já que era meu nome que constava nos registros.
Não tinha ideia de quão rico estava até receber a carta enviada pelo encarregado
de minhas terras no Brasil. Sabendo da minha sobrevivência, ele me enviou 1200
baús de açúcar, 800 de tabaco e baús cheios de ouro. Havia, também, investimentos
feitos por ele em bancos, que agora acumulavam juros. Minha fortuna era pelo menos
cinco vezes maior do que meus mais ambiciosos sonhos.
Naquele momento, parei para pensar que direção tomaria na vida. Não pretendia
voltar ao Brasil, por isso escrevi cartas aos meus caros amigos ali e ao meu
encarregado, instruindo-o a continuar a me enviar os lucros devidos e esperar mais
detalhes. Incluí presentes junto à mensagem: sedas italianas e rendas de Flandres para
sua mulher e as filhas.
Voltei à Inglaterra. A primeira vez que Sexta-Feira viu neve ficou realmente
impressionado. Lá vivemos muito bem; me casei e tive dois filhos e uma filha. Minha
esposa morreu pouco depois, e decidi visitar minha colônia, a ilha no Caribe. Era o
ano de 1694.
Nessa viagem, descobri que os espanhóis voltaram à ilha, foram insultados,
brigaram, reconciliaram-se e continuaram uma história de conflitos violentos e
momentos pacíficos. Também conseguiram trazer da ilha dos canibais onze homens e
cinco mulheres, sendo que a população tinha agora vinte e uma crianças.
Fiquei vinte dias ali, vendo como tinham organizado tudo. Era, afinal, o dono de
tudo e não poderia deixar de exercer minhas funções de governador. Passei ainda um
66
tempo no Brasil, onde recolhi mantimentos, gado e sementes, além de sete mulheres
que se dispuseram a partir para a ilha e se tornarem esposas. Ao deixar as mulheres e
as provisões ali, prometi aos ingleses que levaria algumas mulheres inglesas para lhes
fazer companhia e constituir família.
Mas todas essas outras coisas, além do relato da invasão dos trezentos, que
destruíram as plantações, e da grande tempestade que arruinou as canoas, e minhas
novas aventuras, dez anos mais tarde, serão contadas, talvez, numa outra ocasião.
67
COLEÇÃO ENCONTRO COM OS CLÁSSICOS
• Aventuras de Robinson Crusoé (As), Daniel Defoe, adaptação de Douglas Tufano e
Renata Tufano Ho
• Corcunda de Notre-Dame (O), Victor Hugo, adaptação de Douglas Tufano e Renata
Tufano Ho
• Divina comédia (A), Dante Alighieri, adaptação de Lino de Albergaria
• Fausto, Johann Wolfgang von Goethe, adaptação de Douglas Tufano e Renata
Tufano Ho
• Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (O), Miguel de Cervantes Saavedra, adaptação
de Lino de Albergaria
• Guerra e paz, Leon Tolstói, adaptação de Douglas Tufano e Renata Tufano Ho
• Ilha do tesouro (A), Robert Louis Stevenson, adaptação de Douglas Tufano e Renata
Tufano Ho
• Lusíadas (Os), Luís de Camões, adaptação de Lino de Albergaria
• Médico e o monstro (O), Robert Louis Stevenson,adaptação de Douglas Tufano e
Renata Tufano Ho
• Miseráveis (Os), Victor Hugo, adaptação de Júlio Emílio Braz
• Orgulho e preconceito, Jane Austen, adaptação de João Pedro Roriz
• Príncipe e o mendigo (O), Mark Twain, adaptação de Lino de Albergaria
• Razão e sensibilidade, Jane Austen, adaptação de Douglas Tufano e Renata Tufano
Ho
• Retrato de Dorian Gray (O), Oscar Wilde, adaptação de Douglas Tufano e Renata
Tufano Ho
• Sonho de uma noite de verão, William Shakespeare, adaptação de Douglas Tufano e
Renata Tufano Ho
68
 
Direção editorial:
Zolferino Tonon
Coordenação editorial:
Alexandre Carvalho
Coordenação de desenvolvimento digital:
Erivaldo Dantas
Revisão:
Caio E. de Lima Pereira
Cícera Gabriela Sousa Bezerra
Ilustração da capa:
Matheus Souza
Capa:
Marcelo Campanhã
Conversão EPUB:
PAULUS
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Tufano, Douglas
As aventuras de Robinson Crusoé [livro eletrônico]; / Daniel Defoe [organizador];
[adaptação de Douglas Tufano, Renata Tufano Ho]. — São Paulo: Paulus, 2012. —
(Coleção Encontro com os clássicos)
990Kb; ePUB
Título original: The life and strange surprizing adventures of Robinson Crusoe.
1. Literatura infantojuvenil I. Defoe Daniel, 1660-1731. II. Ho, Renata Tufano. III.
Título. IV. Série.
11-10000 - CDD-028.5
Índices para catálogo sistemático:
1. Literatura infantojuvenil 028.5
2. Literatura juvenil 028.5
© PAULUS – 2013
69
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 São Paulo (Brasil)
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eISBN 978-85-349-3461-9
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71
Scivias
de Bingen, Hildegarda
9788534946025
776 páginas
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Scivias, a obra religiosa mais importante da santa e doutora da Igreja
Hildegarda de Bingen, compõe-se de vinte e seis visões, que são
primeiramente escritas de maneira literal, tal como ela as teve, sendo, a
seguir, explicadas exegeticamente. Alguns dos tópicos presentes nas visões
são a caridade de Cristo, a natureza do universo, o reino de Deus, a queda do
ser humano, a santifi cação e o fi m do mundo. Ênfase especial é dada aos
sacramentos do matrimônio e da eucaristia, em resposta à heresia cátara.
Como grupo, as visões formam uma summa teológica da doutrina cristã. No
fi nal de Scivias, encontram-se hinos de louvor e uma peça curta,
provavelmente um rascunho primitivo de Ordo virtutum, a primeira obra de
moral conhecida. Hildegarda é notável por ser capaz de unir "visão com
doutrina, religião com ciência, júbilo carismático com indignação profética, e
anseio por ordem social com a busca por justiça social". Este livro é
especialmente significativo para historiadores e teólogas feministas. Elucida
a vida das mulheres medievais, e é um exemplo impressionante de certa
forma especial de espiritualidade cristã.
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73
Santa Gemma Galgani - Diário
Galgani, Gemma
9788534945714
248 páginas
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Primeiro, ao vê-la, causou-me um pouco de medo; fiz de tudo para me
assegurar de que era verdadeiramente a Mãe de Jesus: deu-me sinal para me
orientar. Depois de um momento, fiquei toda contente; mas foi tamanha a
comoção que me senti muito pequena diante dela, e tamanho o
contentamento que não pude pronunciar palavra, senão dizer, repetidamente,
o nome de 'Mãe'. [...] Enquanto juntas conversávamos, e me tinha sempre
pela mão, deixou-me; eu não queria que fosse, estava quase chorando, e
então me disse: 'Minha filha, agora basta; Jesus pede-lhe este sacrifício, por
ora convém que a deixe'. A sua palavra deixou-me em paz; repousei
tranquilamente: 'Pois bem, o sacrifício foi feito'. Deixou-me. Quem poderia
descrever em detalhes quão bela, quão querida é a Mãe celeste? Não,
certamente não existe comparação. Quando terei a felicidade de vê-la
novamente?
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75
DOCAT
Youcat, Fundação
9788534945059
320 páginas
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Dando continuidade ao projeto do YOUCAT, o presente livro apresenta a
Doutrina Social da Igreja numa linguagem jovem. Esta obra conta ainda com
prefácio do Papa Francisco, que manifesta o sonho de ter um milhão de
jovens leitores da Doutrina Social da Igreja, convidando-os a ser Doutrina
Social em movimento.
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Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição
Pastoral
Vv.Aa.
9788534945226
576 páginas
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A Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição Pastoral oferece um texto
acessível, principalmente às comunidades de base, círculos bíblicos,
catequese e celebrações. Esta edição contém o Novo Testamento, com
introdução para cada livro e notas explicativas, a proposta desta edição é
renovar a vida cristã à luz da Palavra de Deus.
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79
A origem da Bíblia
McDonald, Lee Martin
9788534936583
264 páginas
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Este é um grandioso trabalho que oferece respostas e explica os caminhos
percorridos pela Bíblia até os dias atuais. Em estilo acessível, o autor
descreve como a Bíblia cristã teve seu início, desenvolveu-se e por fim, se
fixou. Lee Martin McDonald analisa textos desde a Bíblia hebraica até a
literatura patrística.
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Índice
Rosto 2
Autor 4
Conselhos de pai 6
A primeira tempestade 8
Uma nova experiência 10
Escravo! 12
Liberdade arriscada 14
Mistérios e perigos 17
Brasil 20
Levado pelo destino 22
Mar em fúria 24
Sozinho 26
Nova vida 29
Terremoto 31
Explorando a ilha 34
O tempo passa 37
Surpresa na praia 39
Sinal de perigo 41
Um encontro inesperado 44
Um companheiro 47
Uma nova vida 50
Deus? 52
Um rei e seus súditos 55
Um novo plano 58
Ataque 61
A notícia tão esperada 64
Um mundo diferente 66
Coleção 68
Créditos 69
81
	Rosto
	Autor
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	Uma nova experiência
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	Explorando a ilha
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