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2 Índice Prefácio Considerações preliminares Introdução PRIMEIRA PARTE: Os onze primeiros capítulos do Gênesis - O projeto de Deus para a humanidade 1. Alguns instrumentos para compreender bem Gênesis 1-11 A) Os dois autores de Gênesis 1-11 B) As semelhanças com relatos míticos mesopotâmicos C) A experiência histórica de Israel na fonte da composição 2. Interpretação de Gênesis 1-11 A) Gênesis 1: O sentido da narrativa da criação em seis dias B) Interpretação do relato do jardim do Éden ou do paraíso C) Gênesis 3-11: o significado do “pecado”, dos episódios de Caim e Abel, do dilúvio e da torre de Babel – O mal observável – O mal interior 1 – Gênesis 3: “ser como deuses” 2 – Gênesis 4: “o pecado à porta” 3 – Gênesis 6-9: “o coração malvado” 4 – Gênesis 11: “querer atravessar os céus” – As forças do mal D) Síntese geral de Gênesis 1-11 SEGUNDA PARTE: De Gênesis 12 aos livros de Samuel - As promessas a Abraão e a Davi 1 - GÊNESIS 12-50 A) A história dos patriarcas de Israel B) As promessas e o seu desenvolvimento na Bíblia 1 – As promessas, de Abraão a Josué (1850-1200 a. C.) 2 – As promessas de acordo com os Profetas (1000-500 a.C.) 3 – As promessas de acordo com os Sábios (500 a.C. – 0) 4 – As promessas para Jesus 5 – As promessas para nós 2 - O Êxodo A) A fuga do Egito 1 – A situação de Israel 2 – O nascimento e o início da vida de Moisés 3 3 – O chamado e a missão 4 – A revelação do nome de Deus 5 – As “pragas” do Egito 6 – A Páscoa 7 – A passagem pelo mar 8 – O cântico de Moisés B) A caminhada no deserto (Ex 15-18) 1 – A nuvem que guia e cobre com sua sombra 2 – O maná 3 – A água que brota da rocha C) A Aliança no Sinai (Ex 19-40) 1 – O encontro com Deus: Israel é escolhido povo de Deus (Ex 19-24) 2 – O dom dos dez mandamentos (Ex 20) 3 – A Tenda da Reunião e a Arca da Aliança (Ex 25-40) 3 - O livro de Josué A) A conquista da Terra Prometida (Js 1-12) 1 – Raab e os espiões de Josué em Jericó (Js 2) 2 – A passagem do Jordão (Js 3-4) 3 – A celebração da Páscoa e o fim do maná (Js 5,10-12) 4 – A conquista de Jericó (Js 6-12) 5 – Josué e Jesus B) A partilha da terra entre as tribos (Js 13-21) C) O fim da carreira de Josué (Js 22-24) 4 - O livro dos Juízes 5 - Os livros de Samuel A) A figura de Davi B) As três promessas a Davi e o desenvolvimento delas na Bíblia 1 – As promessas no tempo de Davi e Salomão (1000-931 a.C.) 2 – As promessas de acordo com os Profetas (1000-500 a.C.) 3 – As promessas de acordo com os Sábios (500 a.C.-0) 4 – As promessas para Jesus 5 – As promessas para nós Conclusão Geral 4 Sinceros agradecimentos Ao senhor Jean-Paul Desbiens, marista, ex-diretor geral do campus Notre-Dame-de-Foy por suas reflexões e seus encorajamentos e ao senhor Raymond Boutin, marianista, emérito professor de francês do campus Notre-dame-de-Foy pela revisão do texto. 5 E, começando por Moisés e por todos os Profetas, [Jesus] interpretou- lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito. (Lc 24,27) 6 PREFÁCIO A PRESENTE OBRA se configura como um guia de leitura do Antigo Testamento. Por volta de 1996, Gilles Drolet me pediu para ler os trechos deste livro, à medida que ele os escrevia. Periodicamente, ele me entregava 10 a 20 páginas de seus manuscritos, para que eu os comentasse. Sua atitude demonstra uma grande humildade, e, no final das contas, tudo foi proveitoso para mim em tal processo. Este guia de leitura assume, em alguns trechos, a aparência de um manual. Ora, um manual possui o mérito de guiar pela mão, como é sugerido por seu próprio nome; o guia acompanha, passo a passo, o explorador que se arriscou em um país desconhecido, mal conhecido ou não muito bem mapeado. É próprio do guia demarcar o caminho, ao mesmo tempo em que se preserva, como afirma o escritor Alain, da funesta preocupação de ser completo, o que estraga tantos livros. Para minha geração, e a fortiori para as gerações precedentes, a Bíblia era um livro “fechado”. Nas últimas décadas, as pesquisas têm sido tão abundantes e sábias, que voltamos a ter a impressão de que a Bíblia está reservada aos especialistas. Consideremos aqui as palavras do cardeal Joseph Ratzinger, que se tornaria o Papa Bento XVI: Por meio da pesquisa histórico-crítica, a Sagrada Escritura voltou a ser um livro “aberto”, mas igualmente um livro “fechado”. Um livro “aberto”: graças aos trabalhos de exegese, nós percebemos a palavra da Bíblia de um modo novo, em sua originalidade histórica, na variedade de uma história em constante devir e em expansão, repleta daquelas tensões e contradições que constituem ao mesmo tempo sua riqueza incalculável. Mas, conseqüentemente, a Escritura voltou a ser um livro “fechado”: ela se tornou objeto de especialistas; o leigo e até mesmo o Teólogo que não é exegeta não podem mais se aventurar a opinar sobre ela. De fato, parece que a Bíblia foi retirada da leitura e reflexão dos fiéis, pois o que resultasse de tal leitura seria considerado reflexão “de amador”. A ciência dos especialistas ergue uma cerca ao redor do jardim das Escrituras, tornada inacessível ao leitor não especializado.1 A obra de Gilles Drolet possibilita a compreensão do Antigo Testamento, sem desviar seu foco de abordagem da pessoa de Cristo, seu cerne e seu alvo. Dito isso, é necessário nos prevenirmos de uma objeção: Gilles Drolet cita abundantemente vários autores. De fato, podemos citar outros textos, para marcar um desacordo ou apresentar uma opinião favorável: “Eu não saberia me expressar melhor em tão poucas palavras”. Assinar um prefácio significa autorizar uma obra. Repito simplesmente o que já disse repetidas vezes ao autor: a leitura destes textos foi extremamente enriquecedora para mim. Jean-Paul Desbiens 7 1 RATZINGER, Joseph. Entretien sur la foi. Paris, Fayard, 1985, p. 87 [versão brasileira: RATZINGER, Joseph & MESSORI, Vittorio. A fé em crise?. São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, 1985]. 8 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES A SEDE ESPIRITUAL, ou a busca de sentido, habita o homem desde que ele é homem. É incontestável, entretanto, num mundo pluralista como o nosso, que essa sede busque saciar-se em qualquer que seja a fonte. Como prova disso, podemos citar a abundância de seitas, de gurus, falsos profetas... Contudo, a humanidade em geral e os cristãos em particular dispõem da fonte de água viva, dentro deste grande livro que chamamos a Bíblia, considerada a Palavra de Deus. Mas a Bíblia assusta, particularmente o Antigo Testamento. Para muitos, o que ela inspira é um medo do próprio Deus, que para eles é visto como um Deus severo, o Juiz impiedoso que devemos temer. Basta colocarmos uma Bíblia sobre a carteira de um estudante de Ensino Médio ou nas mãos da maioria de nossos contemporâneos para constatarmos esse fato. Além disso, para a maioria das pessoas, o Antigo Testamento representa um livro arcaico e ultrapassado ou extremamente denso e complicado para que se possa aventurar em sua leitura. Será que este guia de leitura conseguirá mostrar a simplicidade da Bíblia, assim como sua profundidade e incrível atualidade? Grande pretensão... No entanto, a Bíblia foi certamente feita para ser lida e entendida. E por todos: A Bíblia, por ser rústica, é um livro do povo, e continuará sendo. Sabemos a que nível ela promoveu os pequeninos, os “pobres”: ao nível da preferência de Deus. Por esse e por outros motivos, ela se dirige verdadeiramente a todos os homens e pode ser compreendida pelos homens mais diferentes.1 Felizmente, nossos predecessores no caminho da fé já nos mostraram o nobre caminho para a compreensão dos textos bíblicos. Os Atos dos Apóstolos relatam o episódio de um alto funcionário etíope, o qual, tendo vindo em peregrinação a Jerusalém, ao voltar para casa, sentado em sua carruagem, lia o profeta Isaías: Filipe perguntou-lhe: “Entendes o que lês?”. “Como o poderia”, disse ele, “se alguém não me explicar?”. Abrindo então a boca e partindo deste trecho da Escritura, Filipe anunciou-lhe a Boa Nova de Jesus (At 8,30-31.35). Esse exemplo nos revela que nossosmelhores guias a nos ajudar na compreensão do Antigo Testamento serão aqueles que testemunharam a Ressurreição de Jesus. Poderemos vislumbrar, com eles, como o projeto de Deus, que havia se tornado promessa, cumpriu-se plenamente em Jesus Cristo e permanece atual no meio de nós. Dito isso, é hora de indicar as etapas deste estudo. A introdução justificará a divisão do Antigo Testamento em quatro partes: 9 1) Os onze primeiros capítulos do Gênesis 2) Do capítulo 12 do Gênesis até os livros de Samuel 3) Os profetas 4) Os sábios Essa divisão permite compreender o movimento de fundo de todo o Antigo Testamento. O projeto de Deus aparece na primeira parte e as promessas, na segunda. A presente obra diz respeito, mais especificamente, a essas duas partes, que vão do Gênesis até os livros de Samuel. Os profetas e os Sábios, sem ser estudados sistematicamente, serão, entretanto, evocados e indicarão o aprofundamento e a compreensão final do projeto e das promessas de Deus. E todo esse conteúdo de revelação convergirá em direção ao Novo Testamento, em que se encontrará o cumprimento das promessas do Antigo Testamento, na pessoa de Jesus Cristo. Poderemos assim apreciar a riqueza dos primeiros livros da Bíblia, que se desenvolverá de maneira contínua até as últimas páginas do Apocalipse. Ao mesmo tempo, poderemos admirar a impressionante pedagogia de Deus e seu domínio absoluto da História humana. 1 AUZOU, Georges. La parole de Dieu, 3.ª ed. Paris, Éditions de l’Orante, 1960, p. 162. 10 INTRODUÇÃO Algumas chaves de leitura para abrirmos a Bíblia O ANTIGO TESTAMENTO representa uma massa impressionante de documentos que foram traduzidos, examinados, comentados, rezados há aproximadamente 3.000 anos. Contudo, encontramo-nos freqüentemente despreparados perante todas essas páginas que, além do mais, podem nos parecer ultrapassadas, enraizadas num tempo ultrapassado. “É história antiga!”, diz-se. No entanto, bastam apenas algumas chaves de leitura para nos situarmos na compreensão da Bíblia e, mais ainda, para descobrirmos nela nosso presente e nosso futuro. Esta é a proposta deste trabalho: dar uma explicação de conjunto do Antigo Testamento, colocando em evidência alguns termos importantes, palavras que se aprofundam sem cessar ao longo da narração e que ressoam até as últimas páginas do Apocalipse, o derradeiro livro da Bíblia. Pois este é o movimento característico do Antigo Testamento: as palavras postas no início assumem constantemente um sentido novo e atingem finalmente um alcance infinito. Interessar-se por essa progressão torna possível a percepção da unidade e da simplicidade da Bíblia, sem a necessidade de nos perdermos nos detalhes. Como dizia meu antigo professor, Évode Beaucamp, a quem este livro deve bastante: “Há especialistas que olham tanto para os talos de planta com a lupa, que não percebem as montanhas!”. Por certo, a estrutura dos textos, seu autor ou a tradição que os produziu, o significado preciso das palavras, os dados históricos, geográficos, arqueológicos... Tudo isso é útil e importante, mas não é suficiente: Não é correto pensar que, para nos iniciarmos na leitura da Bíblia, seja suficiente lermos, além de sua tradução, as notas literárias e históricas que colocarão em evidência o que os primeiros leitores serão capazes de compreender nesses textos. As notas podem ser perfeitamente ortodoxas, sem por outro lado responder ao que esperamos delas: encontraremos nelas tudo, menos o essencial.1 Em nosso tempo, marcado ao mesmo tempo pela ignorância religiosa e pela abundância da literatura religiosa, podemos nos espantar, especialmente no meio católico, pelo lugar insignificante que se dá à explicação da Bíblia. É sem dúvida por essas razões que ainda hoje alguns se perguntam se nossos primeiros pais de fato comeram uma maçã no paraíso terrestre, ou se Jonas poderia permanecer três dias no ventre de uma baleia... 11 Três grandes chaves de leitura Três chaves de leitura são indispensáveis para uma boa compreensão dos textos da Bíblia. Elas provêm de três constatações simples: a Bíblia forma um todo, a Bíblia é uma biblioteca, e a Bíblia veicula palavras importantes, constantemente retomadas e aprofundadas, que culminam nas duas últimas páginas do Apocalipse. Primeira chave: a Bíblia como um todo Pode parecer elementar recordar que a Bíblia se divide em duas grandes partes: o Antigo e o Novo Testamento. Em conseqüência disso, pode-se afirmar que: em primeiro lugar, o período de composição do Antigo Testamento (1.000 anos) é muito mais longo que o do Novo Testamento (50 anos); em segundo lugar, muitas pessoas são colocadas em evidência no Antigo Testamento, ao passo que no Novo Testamento, somente uma o é: Jesus. Além disso, uma tendência à unidade se manifesta de um Testamento a outro, sendo ela pontuada pelas promessas e profecias que caminham em direção a uma plena realização. Essa tendência à unidade é coroada pelo anúncio do Messias, “aquele que deve vir”. Por fim, o Antigo Testamento conhece uma progressão constante até a afirmação final de uma ressurreição dos mortos, profecia que Deus cumpre no Novo Testamento, com a Ressurreição de Jesus. Visualizemos estes dados capitais: Essa visão de conjunto nos apresenta perspectivas muito fecundas! Já sabemos que o Antigo Testamento progride, que seu ponto culminante reside na afirmação da ressurreição dos mortos e que a ressurreição de Jesus o consagra como Messias e representa a assinatura de Deus em todas as profecias. Pode-se dizer que o coração pulsante da Bíblia é a ressurreição dos mortos, já inaugurada pela ressurreição de um homem! É ele quem dá sentido à vida! 12 height=" Se, ao explicar a Bíblia, não falamos da ressurreição, “vazia é a nossa pregação” (1Cor 15,14). Logo, as pessoas buscarão em outros lugares o sentido último da vida: reencarnação, nirvana, corpo estelar, fusão com o Grande Todo etc. É evidente que, no desenrolar da explicação, nós iremos explorar a chave de leitura por excelência, ou seja, a pessoa de Jesus de Nazaré, que hoje vive. O Antigo Testamento nos fala dele. De fato, é bastante significativo que o Ressuscitado, ele mesmo, caminhando com os discípulos de Emaús, tenha retomado todo o Antigo Testamento, aplicando-o a si próprio, como Ressuscitado: “Começando por Moisés [a Lei, o Gênesis] e percorrendo todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 24,27). Isso significa que as profecias que anunciavam o Messias continuam a descrevê- lo, hoje, em sua Ressurreição. Assim, para apreciar toda a riqueza de Cristo, nós precisamos não somente do Novo Testamento, mas igualmente do Antigo Testamento. O ressuscitado continua a dizer: “Era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44). Logo, é necessário tudo compreendermos em sua relação ao Cristo Ressuscitado, por meio de cuja luz “a mente se abre ao entendimento das Escrituras” (Lc 24,45) e o coração se torna ardente ao ouvi-lo falar (Lc 24,32). Albert Gelin tinha razão ao escrever: “O Antigo Testamento é uma imensa profecia, da qual é preciso encontrar as estruturas mestras; uma terra misteriosa na qual se discernem caminhos sagrados que desembocam em Cristo”.2 Procedendo desta maneira, nós iremos seguir a linha diretriz do Concílio Vaticano II: Como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita, não menos atenção se deve dar, na investigação do reto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé. Foi por isso que Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs tão sabiamente as coisas, que o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo. Pois, apesar de Cristo ter estabelecido uma nova Aliança no seu sangue (cf. Lc. 22,20; 1Cor 11,25), os livros do Antigo Testamento, ao serem integralmente assumidos na pregação evangélica, adquireme manifestam a sua plena significação no Novo Testamento (cf. Mt 5,17; Lc 24,27; Rm 16,25-26; 2 Cor 3,14-16), que por sua vez iluminam e explicam. 3 Assim, sem uma visão de conjunto, corremos o risco de omitir o essencial: Existe um significado bíblico de conjunto que atravessa, une e ultrapassa o significado dos livros considerados em separado. A miopia, em toda leitura e compreensão de texto, é causa freqüente de engano. Se quisermos alcançar o significado correto da Bíblia, será preciso compreendê-la como um todo.4 Segunda chave: a Bíblia, uma coleção de livros diferentes 13 Basta estar atento para constatar que a Bíblia ainda é lida e interpretada ao pé da letra. Tudo é considerado praticamente como uma narrativa histórica. Certamente, Deus pode ir ao encontro das pessoas por meio desse tipo de leitura, dita fundamentalista, porém, não devemos colocar a fé lá onde ela não é de forma alguma requerida. Por exemplo, a propósito da cena de Gênesis 3, alguns se perguntam se uma serpente pode realmente ter falado a uma mulher. Alguns responderão: “Não há nada impossível a Deus!”. Uma resposta como essa pode testemunhar uma certa fidelidade a Deus e a sua Palavra, mas Deus não espera de nós esse tipo de fé. Da mesma maneira, com respeito ao relato do dilúvio, é demonstração de um bom espírito crítico perguntar-se sobre a possibilidade de um homem poder reunir machos e fêmeas de todas as espécies de seres vivos, para os embarcar num enorme navio fabricado por ele. A Bíblia é uma coleção de livros bem diversos. Eis alguns exemplos de escritos diferentes: – Um poema: a criação em seis dias (Gn 1). – Uma narrativa simbólica: Deus passeia pelo jardim do Éden (Gn 2). – Uma epopéia (na qual se exagera um acontecimento): a travessia do mar (Ex 14). – Um texto legislativo: o livro do Levítico. – Um relato histórico: a tomada da cidade de Hasor por Josué (Js 11). – Arquivos ou anais: os dois livros dos Reis. – Orações: os Salmos. – Oráculos: os Profetas. – Um conto humorístico: Jonas. – Aconselhamentos: Provérbios. – Uma peça de teatro ou uma tragédia: o livro de Jó. – Um poema de amor: o Cântico dos Cânticos. – Reflexões: Eclesiastes. – Revelações: o livro de Daniel e o Apocalipse de São João. – Cartas: as epístolas de São Paulo. – Testemunhos sobre Jesus: os Evangelhos. Cada um desses textos possui uma característica própria e manifesta um gênero literário: simbólico, histórico, poético, épico, apocalíptico... Daí procede a chave de leitura capital, qualificada em 1943 como regra suprema pelo papa Pio XII, que autorizava finalmente os católicos a não tomarem literalmente os textos da Bíblia: A regra suprema para a interpretação dos textos sagrados é descobrir e definir aquilo que o escritor quis dizer e prestar atenção aos gêneros de discurso que ele utiliza (Encíclica Divino affante Spiritu). Portanto, é preciso fazer uma distinção entre a mensagem e a maneira pela qual ela é expressa. Em verdade, a Palavra de Deus se encarnou. Deus respeitou a liberdade de 14 cada escritor, que pôde se exprimir segundo seu jeito próprio de ver, seu plano, sua arte, seu estilo e o gênero de escrita que ele julgou o mais apropriado para transmitir sua mensagem. Encontramos, portanto, uma variedade de livros na Bíblia, que consiste numa pequena biblioteca. Terceira chave: as palavras importantes, presentes no fim do Apocalipse Se “muitos ficam imóveis diante da Bíblia como na entrada de uma floresta impenetrável”,5 é porque as pistas necessárias e os pontos de referência não lhes foram indicados. O caminho, no entanto, é bem demarcado. Ora, para alcançar um pouco de altitude, nada pode nos ser tão vantajoso quanto nos transportarmos ao final da Bíblia. De fato, as últimas páginas de um livro são sempre importantes. Nelas podemos reencontrar as palavras inauguradas na introdução, além de percebermos o ponto de convergência e o ponto de chegada dos grandes temas. Aquilo que aparecia até então de modo velado ou inacessível, até mesmo incompreensível, manifesta então todo o seu significado. Esse é o caso da Bíblia. Embora Deus tenha escrito por intermédio de numerosos escritores, num período de mais de mil anos, todo o seu pensamento parte do Gênesis, desenvolvendo-se em cada um dos livros, para finalmente culminar nos dois últimos capítulos do Apocalipse, os capítulos 21 e 22. O autor está consciente, ao cabo dessas duas páginas, que a revelação está concluída: “Não acrescentem nada, nem retirem nada das palavras deste livro” (Ap 22,18-19). Uma análise do final da Bíblia nos permitirá encontrar as palavras importantes que formam a trama de todo o Antigo Testamento. Teremos assim a confirmação, desde o início deste estudo, de que estamos seguindo as boas pistas. Salientemos que esses textos do Apocalipse se caracterizam como uma literatura de gênero fantástico, fabuloso. Será possível, como nessas duas páginas, exprimir de modo tão poético os desejos humanos mais profundos? Apocalipse 21 1 Vi então um céu novo e uma nova terra – pois o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já não existe. 2 Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, uma Jerusalém nova, pronta como uma esposa que se enfeitou para seu marido. 3 Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia: “Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com- eles, será o seu Deus. 4 Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!”. 5 O que está sentado no trono declarou então: “Eis que eu faço novas todas as coisas”. E continuou: “Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras”. 6 Disse-me ainda: “Elas se realizaram! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim; e a quem tem sede eu darei gratuitamente da fonte de água viva. 7 O vencedor receberá esta herança, e eu serei seu Deus e ele será meu filho. 8 Quanto aos covardes, porém, e aos infiéis, aos corruptos, aos assassinos, aos impudicos, aos magos, aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua porção se encontra no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda 15 morte”. 9 Depois, um dos sete Anjos das sete taças cheias com as sete últimas pragas veio até mim e disse-me: “Vem! Vou mostrar-te a Esposa, a mulher do Cordeiro!” 10 Ele então me arrebatou em espírito sobre um grande e alto monte, e mostrou-me a Cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, 11 com a glória de Deus. Seu esplendor é como o de uma pedra preciosíssima, uma pedra de jaspe cristalino. 12 Ela está cercada por muralha grossa e alta, com doze portas. Sobre as portas há doze Anjos e nomes inscritos, os nomes das doze tribos de Israel. 14 A muralha da cidade tem doze alicerces, sobre os quais estão os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro. 22 Não vi nenhum templo nela, pois o seu templo é o Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro. 23 A cidade não precisa do sol ou da lua para a iluminar, pois a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro. 24 As nações caminharão à sua luz, e os reis da terra trarão a ela sua glória; 25 suas portas nunca se fecharão de dia – pois ali já não haverá noite – 26 e lhe trarão a glória e o tesouro das nações. 27 Nela jamais entrará algo de imundo, e nem os que praticam abominação e mentira. Entrarão somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro. Apocalipse 22 1 Mostrou-me depois um rio de água da vida, límpido como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. 2 No meio da praça, de um lado e do outro do rio, há árvores da vida que frutificam doze vezes, dando fruto a cada mês; e suas folhas servem para curar as nações. 3 Nunca mais haverá maldições. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e seus servos lhe prestarão culto; 4 verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. 5 Já não haverá noite: ninguém mais precisará da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e eles reinarão pelos séculos dos séculos. 6 Disse-me então: “Estaspalavras são fiéis e verdadeiras, pois o Senhor Deus, que inspira os profetas, enviou o seu Anjo para mostrar aos seus servos o que deve acontecer muito em breve. 7 Eis que eu venho em breve! Feliz aquele que observa as palavras da profecia deste livro. 8 Eu, João, fui o ouvinte e a testemunha ocular dessas coisas. Tendo-as ouvido e visto, prostrei-me para adorar o Anjo que me havia mostrado tais coisas. 9 Ele, porém, me impediu: “Não! Não o faças! Sou servo como tu e como teus irmãos, os profetas, e como aqueles que observam as palavras deste livro. É a Deus que deves adorar!” 10 E acrescentou: “Não retenhas em segredo as palavras da profecia deste livro, pois o Tempo está próximo. 11 Que o injusto cometa ainda a injustiça e o sujo continue a sujar-se; que o justo pratique ainda a justiça e que o santo continue a santificar-se. 12 Eis que eu venho em breve, e trago comigo o salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho. 13 Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. 14 Felizes os que lavam suas vestes para terem poder sobre a árvore da Vida e para entrarem na Cidade pelas portas. 15 Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira.” 16 Eu, Jesus, enviei meu Anjo para vos atestar estas coisas a respeito das Igrejas. Eu sou o rebento da estirpe de Davi, a brilhante Estrela da manhã. 17 O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!” Que aquele que ouve diga também: “Vem!” Que o sedento venha, e quem o deseja receba gratuitamente água da vida. 18 A todo o que ouve as palavras da profecia deste livro, eu declaro: “Se alguém lhes fizer algum 16 acréscimo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. 19 E se alguém tirar algo das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará também a sua parte da árvore da Vida e da Cidade santa, que estão descritas neste livro!” 20 Aquele que atesta estas coisas, diz: “Sim, venho muito em breve!” Amém! Vem, Senhor Jesus. 21 A graça do Senhor Jesus esteja com todos! Amém (Ap 21,1-27; 22,1-21). Tais visões podem nos deixar um pouco espantados e mesmo confusos. Em princípio, uma linguagem como essa pode parecer insólita para nossa mentalidade racional e científica... No entanto, essas visões têm um alcance incomparável: elas nos desvendam um futuro absolutamente impenetrável, buscando representar o outro mundo... Por esse motivo, o apelo à poesia e à linguagem simbólica era indispensável. Nós que somos tão apegados ao nosso mundo e tão sujeitos ao tempo, eis que somos subitamente arrebatados de nosso planeta e transportados para além do tempo. Essas páginas nos revelam que a história humana caminha em direção a um desfecho, um futuro luminoso. Nossa história tem um sentido, segue uma direção. Somos convidados a voltar nosso olhar para o futuro. Entretanto, se o autor nos revela “as coisas que deverão acontecer depois destas” (Ap 1,19), e “muito em breve” (Ap 1,1; 22,6), é para nos interpelar em nossa vida presente, neste último período da história que se estende da Ascensão de Cristo até o seu retorno (Ap 1,18). Em diversas passagens, está escrito que esse retorno está para acontecer “em breve” (Ap 22,7.12.20). Logo, a vida presente se define por uma característica extremamente séria: ela é o lugar de uma batalha da qual é preciso sair “vencedor” (Ap 21,7). Cabe a cada um tomar sua própria decisão diante de Deus, de modo a estabelecer seu futuro pessoal. Aquele que não quiser se relacionar com Deus conhecerá “a segunda morte” (Ap 21,8), pior que a morte física. Ele mesmo causará seu distanciamento de Deus e acabará ficando sozinho. Deus o respeitará. Esse é o significado destas duras palavras: “Quanto aos covardes, porém, e aos infiéis, aos corruptos, aos assassinos, aos impudicos, aos magos, aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua porção se encontra no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte” (Ap 21, 8); “Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira” (Ap 22,15). Cada um receberá “o salário conforme o seu trabalho” (Ap 22,12). Trata-se de um apelo à conversão, apelo que ecoa por toda a Bíblia. O próprio Jesus mudou o foco do nosso olhar, orientando-o ao futuro, interpelando-nos em nossa vida presente: “O Reino de Deus está próximo! Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Consideremos as palavras-chave dessas páginas que significam a grande esperança do fim dos tempos. No capítulo 21, mencionam-se, antes de tudo, um novo céu e uma nova terra. Essas palavras lembram o primeiro versículo do Gênesis e o projeto inicial de Deus: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Portanto, o anúncio de uma criação perfeita é retomado no Apocalipse. 17 No capítulo 22, o autor faz referência ao rio de água da vida, no meio da praça; em seguida, à árvore da Vida (22,1.2.14.19). Tais expressões remetem dessa vez ao segundo capítulo do Gênesis, ao relato do jardim do Éden que também expõe o projeto de Deus: “Iahweh Deus fez crescer a árvore da vida no meio do jardim. Um rio saía do Éden para regar o jardim” (Gn 2,9-10). As duas últimas páginas da Bíblia retomam, assim, as duas primeiras! Elas reafirmam o projeto que Deus havia concebido desde o princípio: o projeto de uma criação em que tudo é bom e o projeto do paraíso. Encontramos nelas as mesmas características do Gênesis: “Ele habitará com eles. Ele enxugará toda lágrima de seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor haverá mais” (21,3-4). Essas primeiras e últimas páginas revelam a vontade de Deus. O que Deus quer é um mundo no qual tudo seja bom, um paraíso em que não haja sofrimento nem morte. Essas são as mais belas páginas da Bíblia: no princípio, assim como no fim, não existe o mal, “nunca mais haverá maldições” (Ap 22,3); tudo é novo, tudo é como Deus sempre quis. Em dois momentos, é mencionado que “o primeiro céu e a primeira terra se foram, [que] as coisas antigas se foram” (Ap 21,1.4). Esse mundo antigo é o mundo atual, corrompido pelo mal, cuja descrição se inicia em Gênesis 3 e se estende até Apocalipse 20. Desse modo, somos colocados diante do grande enigma das forças do mal, que aparecem no princípio, por sob a imagem da serpente astuciosa (Gn 3,1) e que desaparecem no final, quando “o Diabo [é] lançado no lago de fogo e de enxofre, onde já se achavam a Besta e o falso profeta. E serão atormentados dia e noite, pelos séculos dos séculos” (Ap 20,10). Assim, o novo céu e a nova terra coincidem com o paraíso. Trata-se de uma esperança decisiva, certa: “Estas palavras são fiéis e verdadeiras”, o que se repete por duas vezes (Ap 21,5; 22,6). Se nós de fato tomássemos consciência de que esse novo universo um dia existirá, nossa vida seria envolvida por uma grande luz. Eis as primeiras palavras-chave: criação perfeita e paraíso. Elas, por si mesmas, expressam e contêm o projeto de Deus. A quem estão destinados esse novo céu e essa nova terra? O início da Bíblia nos responde: ao homem e à mulher; portanto, à humanidade inteira. O Apocalipse o confirma: Deus quer habitar “com os homens” (Ap 21,3). Ora, no mesmo versículo, os homens são designados como sendo seu povo. Eis uma outra expressão capital: “Eles serão o seu povo” (Ap 21,3). 18 Tratando-se de todos os homens, esse povo é formado pelo povo de Israel, evocado por meio da referência às “doze tribos de Israel” (Ap 21,12), e também formado pela Igreja, evocada pela referência a “Igrejas” e pela menção dos “nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro” (22,16; 21,14). Os escritores da Bíblia haviam percebido, desde o início, que Deus não podia ser exclusividade de um só povo. O autor do Apocalipse sela essa perspectiva afirmando que as folhas da árvore da vida podem curar “as nações” (22,2), ou seja, os pagãos. Onde viverá esse povo? Na nova terra. Essa expressão, que ainda há pouco designava a nova criação, compreende igualmente a realidade da terra prometida. Essa terra é sempre anunciada como uma terra derepouso. Nela encontramos a paz, a segurança, como é o caso neste versículo: “(...) nem clamor e nem dor haverá mais” (21,4). Nessa nova terra, Deus está em relação com o homem e o homem em relação com Deus. Trata-se da aliança, outra palavra fundamental da Bíblia: Deus é amigo do homem e seu aliado. Ele está com o homem. As diversas fórmulas da aliança se encontram aqui: “Eis a tenda de Deus com os homens; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus” (21,3). Essa aliança é expressa de maneira ainda mais pessoal pela seguinte promessa: “Eu serei seu Deus e ele será meu filho” (21,7). Nós a encontramos igualmente por trás das magníficas imagens da “esposa que se enfeitou para seu marido” (21,2), e da “mulher do Cordeiro” (21,9). Eis três outras palavras importantes: povo, terra e aliança. Ora, essas três palavras aparecem na Bíblia a partir de Gênesis 12 e remetem a três promessas que Deus dirige a Abraão: este terá numerosos descendentes, que habitarão a terra prometida, e Deus estará com eles. Essas promessas retomam o grande projeto de Deus anunciado em Gênesis 1-2, em que toda a humanidade, dentro de uma criação perfeita, está em relação com Deus. Assim as palavras criação, paraíso, terra prometida se unem. Nessa nova terra é construída uma cidade: a nova Jerusalém. Esta também se confunde com o paraíso! De fato, como no meio do jardim do Éden, “o rio de água da vida, saía (...) no meio da praça” (Ap 22,1-2). É lá que se encontra igualmente a árvore da vida, de modo que assim está escrito: “[eles terão] poder sobre a árvore da Vida e [entrarão] na Cidade pelas portas” (22,14). Menciona-se igualmente, lado a lado, “a parte da árvore da Vida e da Cidade santa” (22,19). A nova Jerusalém é o paraíso. Nessa cidade, “não [se vê] nenhum templo, pois o seu templo é o Senhor, e o Cordeiro” (21,22). O templo era o sinal da presença de Deus em Jerusalém. Aqui, esse sinal não é mais necessário, pois se verá a face de Deus (22,4). Todo sinal é substituído pela presença concreta de Deus. A nova Jerusalém é “a tenda de Deus” (21,3). Estamos no “céu”, na “Cidade de Deus” (21,2). O universo inteiro está repleto de sua presença. Enfim, nessa Cidade se encontra “o trono de Deus e do Cordeiro” (22,3). Deus é 19 efetivamente o rei, “o Deus Todo-poderoso” (21,22), “o que está sentado no trono” (21,3.5). Ele reina por meio de Jesus, o Ressuscitado, “o rebento da estirpe de Davi” (22,16). A nova Jerusalém corresponde, portanto, ao Reino de Deus! Estas são as três últimas palavras-chave: uma cidade, um templo, um rei. Ora, essas três palavras aparecem na Bíblia nos livros de Samuel e estão em relação com três promessas que Deus dirige a Davi: em Jerusalém, Deus habitará o templo, e um descendente de Davi será rei para sempre. Podemos notar, mais uma vez, que essas três promessas correspondem ao projeto de Deus expresso em Gênesis 1-2, segundo o qual Deus havia criado um lugar ideal para morar com o homem e a mulher, e para ser seu rei e protetor. As duas últimas páginas do Apocalipse, escritas em linguagem muito simples, retomam o projeto de Deus para toda a humanidade, projeto que se tornou promessa na história de Israel, por meio daquelas promessas dirigidas a Abraão e a Davi. Eis por que, desde o início de seu Evangelho, São Mateus escreve: “Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1). O Evangelista designa os dois homens do Antigo Testamento aos quais Deus dirigiu as promessas. Eis aqui uma ótima chave de interpretação. As palavras do Apocalipse que sintetizam o Antigo Testamento são carregadas de um simbolismo que jamais terminaremos de desvendar: criação perfeita, paraíso, nova terra, nova Jerusalém, Reino de Deus, morada/tenda de Deus com os homens, aliança eterna... Por sua própria simplicidade, elas aludem a uma realidade que sempre nos arrasta para além daquilo que experimentamos. Agrupemos agora as expressões do Apocalipse analisadas e reparemos como elas se implicam mutuamente: Projeto para toda a humanidade Uma criação perfeita Vi então um céu novo e uma nova terra (21,1). O primeiro céu e a primeira terra se foram (21,1). Nunca mais haverá choro... (21,4). As coisas antigas se foram (21,4). Eis que eu faço novas todas as coisas (21,5). O paraíso Deus habitará com eles (21,3). Nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais (21,4). Mostrou-me depois um rio de água da vida (22,1). No meio da praça (...), há árvores da vida (22,1-2). Nunca mais haverá maldições (22,3). [Terão] poder sobre a árvore da Vida (22,14.19). Promessas a Abraão 20 Um povo Uma esposa que se enfeitou para seu marido (21,2). Deus com os homens (21,3). Eles serão o seu povo (21,3). Ele será meu filho (21,7). A mulher do Cordeiro (21,9). Os nomes das doze tribos de Israel (21,12). Os doze apóstolos do Cordeiro (21,14). As nações (21,24). Os que estão inscritos no livro da vida (21,27). As nações [dos pagãos] (22,2). As Igrejas (22,16). Uma terra Vi então uma nova terra (21,1). A primeira terra se foi (21,1). Uma aliança Como uma esposa que se enfeitou para seu marido (21,2). Deus com os homens (21,3). Ele habitará com eles (21,3). Eles serão seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus (21,3). Eu serei seu Deus, e ele será meu filho (21,7). A mulher do Cordeiro (21,9). Seu nome estará sobre suas frontes (22,4). Promessas a Davi Uma cidade Vi a Cidade Santa, uma Jerusalém nova (21,2.10). Como uma esposa que se enfeitou para seu marido (21,2). Eis a tenda de Deus (21,3). Seu esplendor é como o de uma pedra preciosíssima (21,11). Ela está cercada por muralha grossa e alta (21,12). Com doze portas e doze alicerces (21,12.14). A praça da cidade é de ouro puro (21,21). No meio da praça (22,2). [Poderão entrar] na Cidade pelas portas (22,14). Sua parte da Cidade (22,19). Um templo Eis a tenda de Deus com os homens (21,3). Ele habitará com eles (21,3). Não vi nenhum templo nela (21,22). O seu templo é o Senhor, e o Cordeiro (21,22). 21 Um rei Ouvi uma voz forte que, do trono, dizia (21,3). Ele será o seu Deus (21,3). Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos (21,4). O que está sentado no trono (21,5). Eu sou o Alfa e o Ômega (21,6). O Senhor, o Deus Todo-poderoso (21,22). Um rio de água da vida saía do trono de Deus e do Cordeiro (22,1). Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro (22,3). É a Deus que deves adorar (22,9). Eu sou o rebento da estirpe de Davi (22,16). Essa análise das duas últimas páginas do Apocalipse é absolutamente essencial. Desse modo, tornamo-nos conhecedores das palavras importantes que permitem descobrir a simplicidade da Bíblia. Essas palavras aparecem do início da Bíblia até os últimos livros de Samuel. Elas designam o projeto de Deus para a humanidade (Gênesis 1-2), projeto esse resgatado pelas promessas a Abraão e Davi (Gênesis 12 a Samuel). Que o projeto de Deus seja formulado em termos de promessas constitui, aliás, uma extraordinária perspectiva referente a Deus! O Deus das promessas é o Deus da gratuidade! E a gratuidade procede do amor. Esses elementos do Apocalipse traçam nosso percurso. Assim sendo, o Antigo Testamento compreende quatro grandes partes: Primeira parte: os onze primeiros capítulos do Gênesis O projeto de Deus para a humanidade: uma criação perfeita e um paraíso. Segunda parte: de Gênesis 12 aos livros de Samuel O tempo das promessas. As promessas a Abraão: um povo, uma terra, uma aliança. As promessas a Davi: uma cidade, um templo, um rei. Tudo é realizado primeiramente sobre a terra. * Gênesis 12-50, Êxodo, Josué, Juízes, Samuel. Terceira parte: os Profetas O desenvolvimento das promessas Tudo será novo * Elias, Amós, Oséias, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Segundo Isaías. Quarta parte: os Sábios O cumprimento das promessas Tudo se cumprirá com a ressurreição dos mortos! * Provérbios, Jó, Eclesiastes, Eclesiástico, Daniel. Essa disposição realça o fio condutor do Antigo Testamento. A primeira parte nos fará apreender o desígnio global de Deus para toda a humanidade (Gn 1-11), o que é primordial. Na segundaparte, observaremos a retomada desse desígnio com as 22 promessas a Abraão e a Davi (Gn 12 a Samuel). Deus tem um único projeto. Gênesis 12 a Samuel se encontram intimamente ligados a Gênesis 1-11, ainda que este último se distinga, desde o início, da história judaica propriamente dita. Essa segunda parte, assim delimitada, possui a grande vantagem de considerar como um conjunto o afresco que vai de Abraão a Davi, pintura infelizmente, e com freqüência, fragmentada. É certamente tradicional dividir o Antigo Testamento em três grandes partes: a Lei, os Profetas e os Sábios. Infelizmente, especialmente na tradição católica, estudamos a Lei por si mesma (o Pentateuco), para em seguida passarmos diretamente aos Profetas. O que vêm a ser então os livros de Josué, dos Juízes, de Samuel e dos Reis? Livros classificados como “históricos” e freqüentemente fadados ao silêncio. Não é de se espantar que as promessas de Deus não sejam enfatizadas nem acompanhadas em seu desenvolvimento. Adotando esta divisão, poderemos discernir melhor as três grandes etapas da história de Israel, tais como o Evangelho de Mateus as revelou: – de Abraão a Davi; – de Davi ao exílio na Babilônia; – do exílio na Babilônia até a Vinda do Messias (Mt 1,17). Esses três períodos marcam justamente a progressão das promessas: as promessas se cumprem primeiramente entre Abraão e Davi, em seguida são aprofundadas pelos profetas no tempo do exílio, e, após o exílio, projetadas no mundo da ressurreição pelos Sábios. Uma outra extraordinária chave de interpretação! Com essas três grandes chaves de leitura – ler a Bíblia como um todo, prestar atenção aos gêneros literários, conhecer as palavras importantes –, podemos abordar o Antigo Testamento de um modo verdadeiramente apropriado, já o considerando como um livro futurista, pois seu desenrolar nos conduzirá ao mundo da ressurreição, no qual Jesus já se encontra! Ora, se tudo já se cumpriu para ele, nada se cumpriu ainda para nós. O Antigo Testamento é, portanto, de uma atualidade impressionante. O caminho que Israel seguiu, e que o próprio Jesus assumiu, é também o nosso. 1 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament, 2.ª ed., Paris, Desclée, 1962, p. 422. 2 GELIN, Albert. Les idées maîtresses de l’Ancien Testament, Foi vivante n° 30. Paris, Cerf, 1966, p. 7. 3 Constituição Dogmática Dei Verbum, Sobre a Revelação Divina, n° 12 e 16. http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei- verbum_po.html 4 AUZOU, Georges. La parole de Dieu, 3.ª ed. Paris, Éditions de l’Orante, 1960, p. 418. 5 DIÉTRICH, Suzanne de. Le dessein de Dieu. Neuchatel, Delachaux et Niestlé, 1965, p. 8. 23 PRIMEIRA PARTE OS ONZE PRIMEIROS CAPÍTULOS DO GÊNESIS O projeto de Deus para a humanidade 24 O CONTEÚDO dos primeiros capítulos do Gênesis é geralmente bem conhecido. Aliás, já se ouviu falar muito a respeito deles, de modo que podemos querer guardar tais histórias numa gaveta, de uma vez por todas. São aparentemente pouco interessantes, ultrapassadas, completamente fora de moda... Por que então nos interessarmos ainda por estes textos sobre a criação em seis dias (Gn 1), o paraíso (Gn 2), Adão e Eva (Gn 3), Caim e Abel (Gn 4), o dilúvio (Gn 6-9), a Torre de Babel (Gn 11)? Certamente, muitas expressões desses capítulos continuam a povoar nossas conversas, tais como: “Estou me sentindo no paraíso”, “esta chuva está parecendo o verdadeiro dilúvio”, “esta empresa é a própria torre de Babel”... Contudo, a compreensão das primeiras páginas da Bíblia permanece quase sempre muito limitada, até mesmo lamentável. De fato, são as páginas mais significativas do Antigo Testamento, nas quais os autores falam a respeito da humanidade em geral, mas também são as mais complexas, de modo que o grande Teólogo Karl Rahner chegou a escrever: “Minha fé não dependerá da questão de saber se os exegetas ou o Magistério da Igreja conseguiram ou não interpretar corretamente os primeiros capítulos do Gênesis!”.1 Bem pretensioso, portanto, quem pretendesse dar a última palavra sobre esses textos! Entretanto, poderemos vislumbrar a mensagem essencial que eles trazem e seu papel fundamental como ponto de partida para o desenvolvimento de toda a Bíblia. Deveremos pelo menos evitar que nossa interpretação se estabeleça a partir de dados inaceitáveis. Ora, o erro mais comum referente a esses textos é o de os considerar ainda ao pé da letra. Desse modo, estima-se pura e simplesmente que: – a criação foi feita em seis dias; – o paraíso existiu no princípio; – o homem foi feito da argila; – depois, foram criados os animais; – em seguida a mulher, a partir da costela do homem; – o primeiro homem se chamava Adão; a primeira mulher, Eva; – uma serpente falou à mulher; – eles tiveram a infelicidade de comer o famoso fruto; – todos nós sofremos e morremos por causa disso; – Deus os puniu e expulsou... Explica-se, em seguida, o relato de Caim e Abel como se fosse a história da primeira família e do primeiro homicídio; o relato do dilúvio como se um homem tivesse realmente reunido machos e fêmeas de todas as espécies de viventes e os tivesse embarcado num navio; o relato da torre de Babel como se todos os homens tivessem se reunido para realizar uma construção gigantesca que atravessaria as nuvens... 25 Prosseguindo por essa abordagem insatisfatória, faz-se ainda uma infinidade de falsas perguntas sobre os textos: Deus criou cada espécie de uma vez por todas ou por meio de um processo evolutivo? Quem pecou primeiro, o homem ou a mulher? Que ato eles puderam cometer? Onde se encontram os querubins que guardam o caminho da árvore da vida? Como os homens podiam viver seiscentos ou novecentos anos? Algumas pessoas ainda imaginam que o paraíso existiu e que acabaremos encontrando a arca de Noé... Pensam que tais descobertas arqueológicas provariam que a Bíblia disse a verdade. Évode Beaucamp dizia: “Aqueles que procuram pela arca de Noé, eu os admiro mais como alpinistas do que como especialistas em Bíblia!”. Os escritores da Bíblia certamente ficariam incomodados ao nos verem, em algum ponto do planeta, correndo atrás de uma árvore bizarra, conhecida como a árvore do conhecimento do bem e do mal! Eles com certeza nos diriam: “Ora, pois! Trata-se apenas de uma imagem!”. Rememoremos aqui a chave de leitura formulada pelo Papa Pio XII: A regra suprema para uma interpretação correta dos textos bíblicos consiste em encontrar e definir o que o autor quis dizer e estar atento aos gêneros de discurso ou de escrita que ele utiliza (Encíclica Divino afflante Spiritu, 1943). Se há textos da Bíblia que não devemos considerar ao pé da letra, os onze primeiros capítulos do Gênesis estão entre eles. Hoje, graças às descobertas de numerosos especialistas nos dois últimos séculos, podemos penetrar melhor no contexto da época em que os livros da Bíblia foram escritos. Inúmeros estudos sobre as línguas antigas, o contexto histórico e social, os costumes e a mentalidade dos autores, seu estilo literário, as imagens de que se utilizaram, os empréstimos que fizeram dos escritos de povos vizinhos... Tudo isso nos permite uma melhor percepção do alcance de seus textos: O resgate das literaturas antigas, que recoloca o Antigo Testamento em seu ambiente natural, é algo absolutamente moderno. O Renascimento, nem a Idade Média, nem a própria antiguidade cristã puderam instituir uma comparação direta entre os textos da Bíblia e seus correspondentes mesopotâmicos, egípcios e cananeus.2 Atualmente conhecemos textos mesopotâmicos sobre a criação, o jardim do Éden, o dilúvio, e sabemos que os autores da Bíblia se inspiraram neles para expor sua própria visão das coisas e do mundo. Desse modo, podemos entender melhor sua mensagem. Portanto, os onze primeiros capítulos do Gênesis devem ser considerados sob uma nova perspectiva, o que nos permitirá descobrir sua riqueza. Esta primeira parte compreenderá dois capítulos: 1- Alguns instrumentos para compreender bem Gênesis 1-11. 2- Interpretação de Gênesis1-11. 26 1 RAHNER, Karl. Est-il possible aujourd’hui de croire? Paris: Mame, 1966, p. 18. 2 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament. 2.ª ed. Paris: Desclée, 1962, p. 410. 27 1 ALGUNS INSTRUMENTOS PARA COMPREENDER BEM GÊNESIS 1- 11 A fim de esclarecer melhor os onze primeiros capítulos do Gênesis, consideremos os seguintes dados: A) Os dois autores de Gênesis 1-11. B) A similaridade com narrativas mesopotâmicas. C) A experiência histórica de Israel na fonte da composição. A) Os dois autores de Gênesis 1-11 Há dois autores na origem desses primeiros capítulos do Gênesis. Os especialistas os nomearam “o escritor Javista” e “o escritor Sacerdotal”. O Javista chama a Deus de “Iahweh” e o Sacerdotal utiliza simplesmente “Deus” (ou Elohim). Cada um dos dois tem um relato próprio da criação. O Javista escreve: “No tempo em que Iahweh Deus fez a terra e o céu” (Gn 2,4b), e o Sacerdotal: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). Esses dois autores podem se encontrar num mesmo texto, como o relato do dilúvio tal qual o conhecemos hoje. O Javista escreve: “Iahweh disse a Noé...” (Gn 7,1), e o Sacerdotal: “Deus disse a Noé...” (Gn 6,13). O autor Javista mostra um Deus pessoal, agindo como um homem. Iahweh é alternativamente oleiro (com argila ele dá forma ao homem), jardineiro (ele planta um jardim), anestesista (ele faz o homem adormecer), cirurgião (ele retira uma costela do homem, colocando carne no lugar), costureiro (ele confecciona túnicas de pele para o homem e a mulher). Além disso, ele passeia no jardim, ao sopro da brisa noturna, e procura pelo homem (“Onde estás?” – Gn 3,9), queixa-se (“Que fizeste?“ – Gn 3,13), expulsa o homem e a mulher, fecha a porta da arca de Noé, desce à Terra para ver a cidade e a torre que os homens construíram, dispersando-os em seguida... Estes são, evidentemente, modos simbólicos de expressão. O escritor Sacerdotal descreve um Deus mais transcendente. Em seu relato da criação, Deus cria num ato exclusivo de sua palavra: “Deus disse... e assim se fez” (Gn 1,29-30). Portanto, cada autor tem seu jeito próprio de apresentar Deus. É preciso salientar que esses dois autores escrevem em períodos distantes, com mais de 400 anos de diferença. O Javista viveu no tempo de Davi e Salomão, por volta de 1000 e 950 antes de Cristo. O Sacerdotal se situa bem depois, no tempo do exílio na Babilônia, por volta de 550 antes de Cristo. 28 A parte maior da composição dos onze primeiros capítulos do Gênesis é atribuída ao escritor Javista. Deve-se a ele o relato do Jardim do Éden (Gn 2), a descrição da “falta” do homem e da mulher (Gn 3), do episódio de Caim e Abel, com um texto sobre a descendência de Caim (Gn 4), um relato sobre o dilúvio, e a narrativa da torre de Babel (Gn 11,1-9). O Sacerdotal acrescentou seu relato da criação em seis dias (Gn 1), uma genealogia que vai de Adão a Noé, seu relato do dilúvio, imbricado no relato do Javista (Gn 6-9), e uma genealogia que vai de Noé a Abraão (Gn 10 e Gn 11,20-26). Feitas tais considerações, temos o seguinte quadro: O fato de haver dois autores que escreveram 950 ou 550 anos antes de Cristo deve nos levar a refletir. Não podemos lhes pedir para nos contar como surgiu o universo, nem como se deu a origem da humanidade no mundo. Aliás, eles não procuram saber como o mundo e a humanidade nasceram – o que compete à ciência –, mas por que há um mundo com seres humanos e por que existe o sofrimento e a morte, o que é completamente diferente. A Bíblia se interessa por uma questão: o destino final do ser humano e de todo o universo. A ciência observa como evoluem a vida, as forças do universo ou o ser humano; ela não afirma o que é a vida, o que é a energia ou o ser humano. Ela também não diz qual o sentido para tudo isso. A questão por que o mundo? é bem diferente da questão como é feito o mundo? Também não é preciso pedir a esses dois autores uma genealogia do gênero humano desde o primeiro homem – aliás, eles não quiseram falar somente do primeiro homem – até o patriarca dos Judeus, Abraão. Hoje nós sabemos que a humanidade surgiu na África há mais de três milhões de anos. Os autores não sabiam disso. Portanto, não devemos considerar seus números como dados matemáticos, 29 procurando saber se Matusalém realmente viveu 969 anos. Perguntas como esta são falsas. Coloquemos em evidência o empreendimento do primeiro escritor da Bíblia, o Javista. É ele quem estabelece os fundamentos da Sagrada Escritura, desde o Gênesis até os livros de Samuel, que são a base da Bíblia. Vivendo no tempo dos reis Davi e Salomão, o Javista empreendeu em primeiro lugar o relato da história de seu povo, remontando, o mais longe que pôde, ao tempo de Abraão, o Patriarca, que viveu por volta de 1850 antes de Cristo. Ele quis rememorar a história da nação judaica, seguindo os principais acontecimentos de que tinha conhecimento. Mas além dessa época, ele quis esboçar uma visão da fundação do mundo (12 a 15 bilhões de anos?) e da humanidade (3 milhões de anos?): A novidade se encontra no autor Javista, o qual, por sua própria autoridade, constrói, como prólogo à história judaica, a história das origens da humanidade em geral.1 No quadro que segue, partindo da direita, o escritor, contemporâneo dos reis Davi e Salomão, reconstitui a História até Abraão; em seguida, até o começo do mundo! A obra do autor Javista é fundamental. É ele quem inaugura todas as palavras importantes da Bíblia: as três promessas a Abraão e a Davi, e o projeto de Deus no início do mundo! Historiador de amplitude única, escritor com uma capacidade narrativa incrível, exemplo maior do humanismo israelita em seu maravilhoso florescimento durante o reinado de Davi e Salomão: o autor Javista também é um grande Teólogo. Ao interpretar a História de Israel, ele desenvolve uma teologia consistente da criação, do pecado, da história da humanidade e da cultura, das promessas patriarcais, da fuga do Egito, da revelação do nome de Deus e da Lei, da terra prometida, enfim... A arquitetura estabelecida pelo Javista foi tão vigorosa, que se impôs a todos os seus sucessores.2 Ora, como o Javista e o Sacerdotal poderiam fazer para tratar adequadamente desse longo período que vai das origens do mundo ou da humanidade até a época de Abraão? Com efeito, para dar uma idéia completa do desígnio de Deus, eles 30 precisavam falar desse período. Para eles, a melhor maneira de retratar a humanidade em geral foi se inspirando nas tradições de outros povos. Para a redação dos onze primeiros capítulos do Gênesis, eles se inspiraram nos textos de seus vizinhos da Mesopotâmia. Este vocábulo designa a região situada entre dois rios, Tigre e Eufrates (meso: no meio; potamós: rio). Atualmente, essa região corresponde ao Iraque e a uma parte da Síria. Os autores emprestaram expressões, símbolos e relatos que foram depois adaptados, para expressar sua visão particular do mundo e de Deus. “No tempo em que as narrativas da Bíblia foram escritas, os textos mesopotâmicos eram conhecidos por todos”.3 No tempo de Davi e Salomão, as fronteiras da terra prometida se estendiam “do rio do Egito até o grande rio” (1Rs 5,1), ou seja, até o Eufrates, nos limites da Mesopotâmia. Portanto, o Javista pôde se inspirar nas narrativas mesopotâmicas. O Sacerdotal, por sua vez, já se encontrava na Mesopotâmia, durante o exílio na Babilônia. As linhas pontilhadas indicam os limites do reino de Salomão, que praticamente iam de encontro às fronteiras da Mesopotâmia, do rio do Egito até o grande rio, o Eufrates. O reino de Salomão compreendia o atual Líbano e uma parte da Jordânia e da Síria. B) As semelhanças com relatos míticos mesopotâmicos A partir da segunda metade do século XIX, descobertas arqueológicas permitiram que um novo olhar fosse lançado sobre os onze primeiros capítulos do Gênesis. 31 Estudiosos como Henry C. Rawlinson conseguiram decifrar uma grande quantidade de textos mesopotâmicos, redigidos sobre placas de argila, em escrita cuneiforme (cuneus: em forme de cunha). Estaé a escrita mais antiga de que se tem conhecimento. Ela surgiu por volta de 3200 antes de Cristo, a partir da troca de faturas entre comerciantes mesopotâmicos. Pouco a pouco, passou-se do desenho (de um boi ou de um pão, por exemplo) ao símbolo, o que possibilitou a criação de um alfabeto. Desde o início da escrita, o homem mostrou que não se preocupava somente com as coisas materiais. Ele se questionava sobre o sentido da vida e procurava responder a essa questão. Os especialistas descobriram narrativas que integram o tecido dos onze primeiros capítulos do Gênesis: narrativas da criação, do jardim do Éden, de dois irmãos (Caim e Abel), do dilúvio, da construção de torres com vários andares. Esses textos remontam a 3000 antes de Cristo. Os primeiros textos da Bíblia se situam bem depois, entre 950 e 550 antes de Cristo. Ora, os relatos mesopotâmicos obedecem a um movimento presente no homem de todos os tempos: remontar às origens do mundo, para sugerir o projeto dos deuses no ato da criação. Parece que aí se encontra uma prática humana comum, desde os tempos mais longínquos. Nós mesmos nos perguntamos, espontaneamente, por que Deus, no início, fez o mundo tal qual existe presentemente. Assim, todos os povos, dos esquimós aos australianos, possuem “lendas”, orais ou escritas, sobre as origens de tudo. Os especialistas em religiões qualificaram esses relatos como míticos.4 Aqui, essa classificação não tem conotação pejorativa. As narrativas míticas, ao efetuarem um retorno ao tempo primordial, em direção à origem do mundo e do homem, visam a três pontos essenciais: – dizer qual o projeto dos deuses, – falar da humanidade em geral, – responder às grandes questões existenciais. A Bíblia se inicia precisamente com dois relatos de criação do mundo que nos fazem remontar “ao princípio” (Gn 1), ao “tempo em que Iahweh Deus fez a terra e o céu” (Gn 2). É muito importante, a fim de compreender bem esses dois relatos, interpretá-los como narrativas míticas. Assim, eles nos revelam o projeto de Deus. Do mesmo modo, os capítulos 3 a 11 tratarão de questões fundamentais relativas à humanidade e à existência: Para explicar as origens do mundo e do homem, o Oriente Antigo tinha seus mitos. Ao analisá-los, chega-se ao que havia de mais profundo na cultura oriental: sua concepção do homem, da vida, do mundo, de Deus.5 Reflitamos sobre três textos mesopotâmicos que influenciaram os autores do Gênesis: o relato Enuma Elish, o mito de Atrahasis e a epopéia de Gilgamesh. 32 – O relato Enuma Elish Eis o início deste poema: Quando no alto o céu não tinha sido ainda nomeado e em baixo a terra não tinha ainda recebido seu nome... Reconhecemos imediatamente a característica de um relato mítico que nos transporta para antes de criação, quando nada ainda está formado. Coloquemos em evidência as palavras céu e terra. Reencontramos esses elementos no relato da criação em seis dias, do autor Sacerdotal: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). De acordo com essa narrativa mesopotâmica, no princípio havia água em toda parte. Encontra-se a mesma representação na Bíblia: “um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gn 1,2). Entre os mesopotâmicos, a criação se opera a partir da separação das águas de cima (o céu azul), das águas que estão embaixo da terra. Essa separação se efetua ao fim de um combate gigantesco entre o deus Marduk e a deusa Tiamat: O Senhor dividiu Tiamat em duas partes, das quais utilizou uma metade para atingir o teto dos céus, traçar seus limites, colocar guardas aos quais confiou a missão de impedir suas águas de saírem (4ª placa). O autor Sacerdotal conserva as idéias de “teto dos céus” (abóbada celeste) e de águas que se separaram, mas rejeita completamente a alegoria de um combate entre os deuses. Para ele, Deus é único e aquilo que por ele é criado se distingue dele: Deus disse: “Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas”, e assim se fez. Deus fez o firmamento que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou o firmamento “céu” (Gn 1,6-8). Portanto, a Bíblia segue a cosmologia dessa época, segundo a qual a terra é plana e não redonda: 33 A representação do universo no tempo dos relatos bíblicos. Logo, é inútil esperar que a Bíblia forneça dados científicos sobre o universo: Os israelitas eram herdeiros de tradições, idéias e principalmente imagens em curso no Oriente. Percebe-se que eles representam o mundo da mesma maneira que todos os semitas. A terra é como uma grande ilha repousando sobre as “águas que estão sob o firmamento”, cujas profundezas são desconhecidas para o homem e das quais brotam mares, lagos, fontes e rios. Acima da terra, está a cúpula de matéria consistente, o “firmamento”, que sustenta as “águas que estão acima” e de onde se lançam a chuva e o orvalho, o granizo e a neve. “O exército celeste”, com astros e estrelas, está pendurado nessa abóbada e nela se move. Ainda mais acima está o “céu” ou “céu dos céus”, conhecido e habitado apenas por Deus.6 Um dos traços mais marcantes da narrativa Enuma Elish é o de apresentar uma criação que surge a partir da palavra de Marduk, deus da Babilônia: Diante dos deuses, seus pais, Marduk assentou-se para receber a soberania. “Tu”, disseram-lhe, “és o mais importante entre os grandes deuses. Para destruir ou criar, ordena e que assim se faça!”. Marduk ordenou. Ao som de sua voz, a constelação foi destruída; em seguida, ele lhe deu uma ordem inversa: a constelação passou a existir novamente (4ª placa). Reconhecemos aqui o refrão de Gênesis 1, que também é uma narrativa de criação pela palavra de Deus: “Deus disse... e assim se fez”. Mas Deus não se diverte de modo nenhum em destruir! Na quinta placa, lê-se: Marduk assentou as estrelas. Determinou o ano e, para cada um dos 12 meses, designou três estrelas... Fez brilhar Nannar [a lua] e lhe confiou a noite... Este cenário é o mesmo da Bíblia; porém, na narrativa bíblica não se nomeiam o sol e a lua, que foram divinizados na Mesopotâmia. Na Bíblia, eles são reduzidos a 34 simples luzeiros. Assim, entre os hebreus, Deus jamais é visto como uma parte do mundo, mas se distingue dele, de modo que o mundo existe diante dele: Deus disse: “Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos. (...) Deus fez os dois luzeiros maiores (...) para comandar o dia e a noite (...) E Deus viu que isso era bom” (Gn 1,14-18). Finalmente é chegado o momento a criação do homem: Marduk, ouvindo o apelo dos deuses, decidiu criar uma bela obra. Em alta voz, fala a Êa e lhe diz o que para si mesmo havia dito: “Eu quero fazer um sistema sangüíneo, fixar uma ossatura e formar um ser humano e que seu nome seja: O Homem! Eu quero criar este ser humano, o Homem, para que, encarregando-o do serviço aos deuses, estes permaneçam em paz” (6ª placa). Na Bíblia, Deus diz igualmente: “Façamos o homem!” (Gn 1,26). Esse plural pode indicar uma deliberação de Deus com sua corte celeste, os anjos.7 Poder-se-ia traduzir: “Façamos a humanidade”, pois é evidente que a expressão “o homem” não designa apenas um primeiro homem, mas toda a espécie humana. Salientemos igualmente que, ao contrário dos relatos mesopotâmicos, a mulher não foi criada abaixo do homem: “Homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). Para Deus, a humanidade é a conjunção entre o masculino e o feminino. Além disso, ao invés de serem escravos dos deuses, como na concepção mesopotâmica, o homem e a mulher são colocados em situação de realeza, à maneira do próprio Deus, que tem o domínio de toda a criação: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1,26). No momento em que redigiu Gênesis 1, o autor Sacerdotal se encontrava exatamente na Mesopotâmia, durante o exílio na Babilônia. Portanto,é fácil constatar que ele se inspirou nas narrativas mesopotâmicas. Pode-se admirar, na passagem anterior, a fé desse escritor, que, no momento em o povo judeu se exilava na Babilônia, substituiu o deus Marduk pelo Deus de Israel, apresentando-o como o criador do mundo cuja palavra é eficaz. Assim, ele preparava a volta do exílio, anunciando-a como a entrada numa terra nova. Por esse motivo, encontramos nesse poema da criação em seis dias o mandamento: “Multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28). Esta era também a meta visada por ocasião da volta à terra prometida. – O mito de Atrahasis (“O Inteligentíssimo”) Este mito se inicia assim: Quando os deuses trabalhavam, sua labuta era pesada e sua tristeza era longa... Eis novamente a característica dos contos míticos encontrada no início da Bíblia: voltar ao mundo dos deuses, antes de criação. Essa representação dos deuses mesopotâmicos trabalhando duro sob o sol pode 35 nos parecer cômica. Mas a intenção dos autores é profunda: eles querem explicar o porquê de nós sofrermos. Este é o tema central de Atrahasis. Acompanhemos a leitura: Abrindo a boca, Êa disse a seus irmãos deuses: “Eis Nintu, a Genitora. Que ela crie um ser humano, o homem, a fim de que ele possa carregar o fardo dos deuses e libertá-los”. Este é o momento importante da criação do homem. Todavia, o projeto dos deuses é fazê-lo sofrer e trabalhar penosamente, de modo que eles mesmos sejam liberados dos trabalhos penosos que executavam no céu. Portanto, os deuses são representados como torturadores que querem o sofrimento do homem. Eis como se explica a condição difícil do homem por nós conhecida. O mito de Atrahasis descreve em seguida a formação do homem a partir da argila misturada ao sangue de um deus que foi degolado: “O próprio deus e o homem se encontram assim misturados na mesma argila”. Na Bíblia, o Javista retoma a idéia de um Deus que forma o homem a partir da argila, mas substitui o sangue de um deus pelo sopro de Deus. O sopro é um outro símbolo da vida. Ele escreve: “Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Os mesopotâmicos explicam o sofrimento no mundo como resultado da vontade de seus deuses, que quiseram se livrar de seus sofrimentos, transferindo-os ao homem: Nintu disse: “Vós me destes uma tarefa que eu cumpri. Vós degolastes um deus, com uma inteligência. Eu suprimi vosso trabalho tão penoso e vossa dura labuta, impondo-os ao homem. De vós eu retirei o jugo e estabeleci a vossa liberdade”. Os escritores da Bíblia, ao contrário, afirmam que Deus tinha um projeto de plenitude e felicidade para o homem. Constatamos que tais relatos, tanto os mesopotâmicos quanto os judaicos, têm por finalidade desvendar o projeto dos deuses (ou de Deus), no momento da criação. O mito de Atrahasis contém igualmente o conto de um dilúvio, mas preferimos considerar o relato do dilúvio presente na epopéia de Gilgamesh. – A epopéia de Gilgamesh Esta narrativa é a que teve maior repercussão. Foi traduzida para vários idiomas antigos, chegando até Megido, em Israel. O texto é emocionante em alguns trechos. Como num romance, o herói possui características universais. Esse personagem carrega em si a pergunta mais profunda de todas: pode o homem vencer a morte? Cada um de nós pode se encontrar nele. Gilgamesh representa o homem que procura pela vida eterna e não pode atingi-la. Gilgamesh é o homem de todos os tempos, que sofre e morre. A mesma regra se aplica aos textos do Gênesis: na figura de Adão, o autor 36 descreve primeiramente o homem em geral (ha Adam, com artigo: o homem) para posteriormente estabelecê-lo como ancestral da humanidade em Gn 4,25 (Adão, sem artigo). Adão representa todos os homens. Adão e Eva são o homem e a mulher de todos os tempos, que sofrem e morrem, assim como Gilgamesh. Desde o início da narrativa, Gilgamesh é representado como um homem de experiência, que fez a volta ao mundo e se interrogou sobre todas as grandes questões: Eu quero tornar conhecido aquele que viu tudo, que soube todas as coisas, perscrutou todos os mistérios ao mesmo tempo: Gilgamesh, o Sábio universal. O versículo seguinte traz estas palavras: “Ele nos transmitiu um saber mais velho que o dilúvio”. Grande número de relatos de dilúvio foi encontrado. “Eles conservam a lembrança de inundações catastróficas que, no quarto e no terceiro milênios, devastaram a baixa Mesopotâmia”.8 O dilúvio aponta para uma data e marca a distinção entre dois períodos. A Bíblia mantém essa divisão: antes e depois do dilúvio. Além disso, a idade dos reis, antes e depois do dilúvio, chega a um número fabuloso na Mesopotâmia: “em média trinta mil anos!”.9 Na Bíblia, antes e depois de Noé, embora impressionante, a idade dos homens é bem menor: Estimava-se que a vida humana tinha diminuído segundo as grandes idades do mundo: ela será apenas de 200 a 600 anos depois do dilúvio e inferior a 200 anos para os Patriarcas. A diminuição dessa longevidade extraordinária, que permanece todavia bem aquém da idade atribuída aos reis sumérios de antes e de depois do dilúvio, está em relação com o progresso do mal no mundo, pois uma longa vida é uma bênção de Deus.10 Gilgamesh mandou “construir o recinto de Uruk”, de onde reinava como ditador. Ninguém ousava afrontá-lo, pois “sem rival era o golpe de suas armas”. Os habitantes de Uruk clamaram pela grande deusa Aruru e lhe pediram para criar um opositor que pudesse afrontar Gilgamesh: Tu que criaste Gilgamesh, cria agora uma réplica dele; que eles lutem entre si e que Uruk fique em paz! E Aruru criou Enkidu “a partir de uma pasta de argila, no deserto”. Na Bíblia, o homem também é formado com argila no deserto, no momento em que ainda não há “nenhum arbusto dos campos sobre a terra” (Gn 2,5). Em seguida, mostra-se Enkidu vivendo “com os animais selvagens”. Essa imagem teve um destino impressionante: ela anuncia não somente Adão com os animais no paraíso em Gênesis 2,19, mas o novo Adão, o próprio Jesus, que estará “no deserto (...) entre as feras” (Mc 1,13)! Assim, símbolos da literatura universal passam pela literatura judaica e pela literatura cristã! 37 Gilgamesh e Enkidu, que deviam se tornar rivais, tornam-se amigos. Então, Gilgamesh expõe seu projeto de matar o deus da morte, para assim “destruir todo o mal no mundo”. Contudo, para conseguir isto, ele quer “subir ao céu” e “obter um renome eterno”. O Javista retomará estas expressões em Gênesis 11: os homens de Babel querem “fazer para si um nome e atravessar os céus”. Gilgamesh e Enkidu conseguem matar o deus da morte. Porém, os outros deuses se vingam, atingindo Enkidu com uma doença: “E Enkidu deitou, doente, diante de Gilgamesh, cujas lágrimas se derramaram torrencialmente”. Gilgamash vê seu amigo morrer: “Que sono é esse que se apoderou de ti? Perdeste a consciência e já não me ouves mais!”. E Endiku não erguia mais a cabeça; seu coração, quando Gilgamesh o tocou, já não batia mais. Surgiu então a grande dúvida de Gilgamesh: “Também eu vou morrer?”. A questão da morte é o grande problema dessa epopéia. “Chorando amargamente, ele vai caminhando, sem rumo, pelo deserto”. Depois se põe a caminho e percorre “um longo itinerário para encontrar seu avô, Uta- Napishtim”, cujo nome significa “encontrei a vida”. Uta-Napishtim e sua mulher foram salvos do dilúvio e levados ao paraíso. Esse episódio servirá de inspiração tanto para o relato de Adão e Eva, como para o de Noé e sua família. Gilgamesh vai encontrar Uta-Napishtim para “interrogá-lo sobre a morte e a vida”, formulando estas grandes questões de maneira notável! Ele chega finalmente “em plena clareira, num jardim com árvores de pedras preciosas. O lápis-lazúli está carregado de frutos agradáveis de se olhar”. Reconhecemos aqui as cenas de Gênesis 2: o “jardim do Éden”, com “toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer” (Gn 2,9) e pedras preciosas: “o ouro e a pedra de ônix” (Gn 2,12). Na entrada do jardim,Gilgamesh é interpelado da seguinte maneira, o que revela claramente a percepção dos deuses na Mesopotâmia: Gilgamesh, para onde corres assim? A vida que persegues, não a encontrarás. Quando os deuses criaram a humanidade, eles lhe deram a morte. A Vida, eles preferiram guardar em suas mãos. Tornamos a encontrar a estrutura clássica das narrativas míticas: remontar ao período que antecede a criação, para explicar o projeto dos deuses. Os deuses mesopotâmicos são deuses monstruosos. O homem está preso à fatalidade. Ao chegar junto a Uta-Napishtim, Gilgamesh lhe ouve contar como foi salvo do dilúvio e levado para longe, com sua mulher, até a foz dos rios (o paraíso). O deus Êa me disse: “Derruba tua casa e constrói um navio. Embarque nele todas as espécies de seres vivos”. Então tracei o plano e desenhei o projeto do navio. Estabeleci para ele seis conveses sucessivos e o dividi em sete andares. Despejei seis quantidades de betume. No sétimo dia, o navio estava completamente pronto. Embarquei todas as espécies vivas que possuía. Também fiz subir ao navio minha família, os rebanhos nômades, os animais selvagens, todos tiveram de subir. Shamash (o deus sol) me disse: “Sobe no navio e fecha bem tua porta”. Eu entrei no navio e fechei bem minha 38 porta. Seis dias e sete noites, a tempestade devastou a terra e a inundação encobriu os humanos. No sétimo dia, a tempestade cessou. Tentei avistar uma margem. A doze léguas duplas emergia um pedaço de terra. No monte Nisir, o navio aportou. No sétimo dia, soltei uma pomba. A pomba partiu, depois voltou: não encontrando nenhum lugar onde pudesse pousar, deu meia-volta. Soltei também uma andorinha, que voou e depois voltou: não encontrando nenhum lugar onde pudesse pousar, deu meia-volta. Soltei um corvo. O corvo partiu e, vendo a diminuição da água, ele come, esvoaça, grita, e não dá meia-volta. Eu os fiz voar aos quatro pontos cardeais e fiz um sacrifício aos deuses. Os deuses sentiram o odor agradável das oferendas. Então, o deus Êa subiu no navio. Tomou minha mão e me fez levantar. Também fez minha mulher levantar e se ajoelhar ao meu lado. Ele tocou nossas testas e, em pé no meio de nós, abençoou-nos e disse: “Outrora, Uta-Napishtim era de condição humana. Agora, que ele e sua mulher sejam deuses como nós! Que Uta-Napishtim more longe, na foz dos rios!” (no paraíso). Então, eles me pegaram e me instalaram bem longe, na foz dos rios (11ª placa). Encontramos todos esses elementos na Bíblia. No relato do dilúvio, Deus manda Noé construir um navio, revesti-lo com betume e fazer entrar nele todas as espécies de seres vivos. Depois disso, Deus fecha a porta atrás de Noé. O dilúvio bíblico dura 40 dias e a arca de Noé acosta no monte Ararat, na Turquia, e não no monte Nisir. Como Uta-Napishtim, Noé solta três pássaros antes de permitir que sua família desembarque. Ele também oferece um sacrifício a Iahweh, que respira o odor agradável das oferendas. E Deus abençoou Noé e sua família. O empréstimo feito da narrativa mesopotâmica de um dilúvio é evidente. Do mesmo modo, no relato bíblico do paraíso, encontramos um casal, e a tentação do homem e da mulher consistiu em querer “tornarem-se como deuses”. Nos escritos mesopotâmicos, este também foi o caso de Uta-Napishtim e sua mulher. Antes de Gilgamesh voltar para casa, Uta-Napishtim lhe indica onde se encontra a “planta da vida”. Gilgamesh vai procurá-la no fundo do mar. Enfim possuindo “o remédio contra a angústia”, ele poderá tomá-lo e “voltar como que ao tempo de sua juventude”. A Bíblia substitui a planta da vida pela “árvore da vida”. O simbolismo é o mesmo: com a planta ou a árvore da vida, o homem não morre mais. Finalmente, no caminho de volta, enquanto Gilgamesh toma banho, uma “serpente sente o odor da planta; silenciosamente, ela sobe da terra e se apodera da planta, e imediatamente troca de pele”. O autor do Gênesis põe igualmente em cena uma serpente, mas no lugar de fazê-la rejuvenescer, ele a faz rastejar todos os dias de sua vida. A epopéia de Gilgamesh não poderia terminar bem, senão teria sido infiel à condição humana que termina com a morte: Nesse dia, Gilgamesh permanece ali e chora, E ao longo de seu nariz escorrem suas lágrimas. Ele diz: “Para qual de meus familiares os meus braços se cansaram? Eu não fiz bem nem mesmo a mim...” Constatamos que os relatos míticos Enuma Elish, Atrahasis e Gilgamesh visam a responder às questões fundamentais: de onde vêm o sofrimento e a morte? A vida tem um sentido? A resposta desses textos é muito pessimista, pois os deuses estão contra 39 o homem desde o início; eles querem antes de tudo seu próprio bem-estar, em detrimento dos homens, a quem deixam como herança o sofrimento e a morte. A vida humana é, portanto, trágica. Os autores bíblicos também estão diante das mesmas questões, mas não crêem que Deus seja monstruoso. Pelo contrário, eles consideram que Deus é bom e “está com o homem”, ainda que o mundo atual não seja como ele o quis. É impressionante como a representação dos deuses monstruosos mesopotâmicos permanece atual. Muitos cristãos dizem ainda hoje: “O Bom Deus me mandou essa provação”, ou “Deus quer a morte”... Frases como estas representam um horror bem tenaz sobre a noção de Deus! – Outras narrativas Outros textos mesopotâmicos foram utilizados pelos escritores da Bíblia. Encontraram-se, por exemplo, vários textos que relatam as disputas entre os pastores e os cultivadores, que representam dois modos de vida muito antigos. Daí, o mito dos dois irmãos, Emesh e Enten, ou Dumizi e Enkindu. Há sempre preferência pelo pastor, em relação ao agricultor. O deus Utu, aliás, rejeita os presentes do agricultor. Nesses relatos, há sempre reconciliação após compromisso. Reconhecemos aí o fundamento do episódio de Caim e Abel, agricultor e pastor, respectivamente (Gn 4). Buscando um ancestral para cada um dos ofícios, os mesopotâmicos fizeram representações populares das origens da civilização: agricultores, pastores, ferreiros, caçadores, construtores de cidades etc. Na Bíblia, esses ancestrais possuem freqüentemente o nome de cidades mesopotâmicas. Sabemos igualmente que os babilônios construíam uma torre em cada uma de suas cidades. Ela tornava possível ao deus da cidade descer uma vez por ano à festa do Ano Novo. O autor bíblico se inspira na torre de Babilônia para criar a torre de Babel, fazendo dela um símbolo. Ele escreve que “Iahweh desceu para ver a cidade e a torre que os homens tinham construído” (Gn 11,5). Podemos acrescentar outros pontos de convergência entre os textos mesopotâmicos e as narrativas da Bíblia: a criação da mulher a partir de uma costela do homem; a imagem dos querubins; o deus escondido atrás da porta, pronto para pular sobre o homem; o nome dos dois rios mesopotâmicos, Tigre e Eufrates; os nomes de cidades como Ashshur, Nínive, Erek, Akkad, a planície no país de Shinear; os tijolos na construção das torres... Declaradamente, os dois autores de Gênesis 1 a 11 conheciam a Mesopotâmia. Portanto, os onze primeiros capítulos do Gênesis foram escritos graças ao empréstimo dos mitos mesopotâmicos. Notamos várias semelhanças: a criação por meio da palavra, a presença das águas antes da organização do mundo, a separação entre as águas de cima e as águas de baixo, o sétimo dia, o jardim do Éden situado na foz dos rios, as árvores sedutoras de se ver, a árvore da vida, o homem formado da argila, o homem em paz com os animais, a criação da mulher a partir da costela do homem, a serpente, o homem e a mulher querendo tornar-se como deuses, o relato do 40 pastor e do agricultor; todo o relato do dilúvio com o navio, o betume, os animais levados para dentro do navio, os três pássaros soltos após o dilúvio, a saída da arca, o sacrifício de odor agradável a Iahweh, a idade fabulosa dos homens anteriores e posteriores ao dilúvio; os tijolos utilizados na construção de torres com vários andares nas cidades mesopotâmicas... Tal concentração de temas mesopotâmicos nos onze primeiros capítulos do Gênesis nos convida aconsiderar os mesmos capítulos como um conjunto e a não os isolar uns dos outros. Esses textos estabelecem uma pré-história à História de Israel, que se inicia propriamente no capítulo 12, com o patriarca Abraão. É evidente que não devemos procurar na Bíblia uma reportagem sobre os primeiros homens, cuja origem remonta, de acordo com a ciência contemporânea, a mais ou menos três milhões de anos: Considerando tudo, trata-se, portanto, de tradições imprecisas e fragmentárias, organizadas em narrativa contínua, cuja função é religar o tempo de Abraão às origens.11 Esses textos nos dão uma visão da humanidade até o fim dos tempos. Com efeito, a partir do momento em que os autores da Bíblia se inspiram nos textos mesopotâmicos, eles falam de toda a humanidade, a de ontem, a de hoje e a de amanhã. Portanto, eles falam de todos nós. Isso muda toda a leitura! Numa única palavra, Adão e Eva representam o homem e a mulher que sofrem e que morrem. Caim que mata Abel ilustra o ódio no mundo. O dilúvio lembra a corrupção e a violência sobre a Terra. A torre de Babel descreve as divisões e incompreensões entre os homens. Embora tenham emprestado temas e elementos de seus vizinhos, os autores bíblicos permanecem judeus. Diante das mesmas questões, eles têm uma percepção de Deus que lhes permite transformar inteiramente as perspectivas dos textos mesopotâmicos. Cada tema é depurado e destituído do pessimismo, propondo-se uma síntese nova. Dessa maneira, a experiência histórica de Deus em Israel é determinante. C) A experiência histórica de Israel na fonte da composição Os estudiosos da Bíblia perceberam que havia pontos comuns entre a estrutura dos textos de Gênesis 2 a 3 e o tema da aliança, encontrado freqüentemente na Bíblia. Comparemo-los: 41 A experiência histórica de Israel é transferida para a humanidade inteira. No primeiro caso, trata-se da formação de um povo particular, Israel, que, posteriormente à saída do Egito, é constituído como povo, no deserto do Sinai. Israel entra na terra de Canaã. No deserto, recebe os dez mandamentos, a fim de permanecer em relação com Deus. No entanto, permanecendo infiel, volta à situação de exílio. Esse exílio consiste em permanecer num outro país, para posteriormente retornar à terra de Israel. No segundo caso, trata-se de toda a humanidade, com quem Deus quer estabelecer uma relação. O homem é criado no deserto e Deus o conduz ao jardim do Éden, que é sem igual. O mandamento dado ao homem e à mulher não diz respeito primeiramente a ações, mas concerne a uma atitude do homem para com Deus. O homem e a mulher, fechando-se em si mesmos, distanciam-se espontaneamente de Deus. O exílio os limita à vida presente, com o sofrimento e a morte. O fim do exílio não consiste apenas na vitória sobre os inimigos de Israel, mas na vitória sobre as forças do mal. Com esse mesmo modelo, o autor vai muito mais além. Em suma, os escritores dos onze primeiros capítulos do Gênesis beberam em três fontes de inspiração: seus desejos humanos mais profundos, as narrativas mesopotâmicas e o senso que tinham de Deus. 42 Dizer isso não implica negar a inspiração do Espírito Santo, cuja ação deve ser pressentida particularmente na experiência histórica de Deus, vivida em Israel. Com efeito, por meio do senso que tinham de Deus, os autores puderam expressar os desejos humanos mais profundos e organizar os elementos emprestados do imaginário mesopotâmico numa síntese nova, reveladora do verdadeiro rosto de Deus. Com essas três ferramentas, nós poderemos empreender o trabalho de interpretação dos onze primeiros capítulos do Gênesis. 1 VON RAD, Gerhard. Théologie de L’Ancien Testament. Génève: Labor et Fides, 1963, p. 125. 2 GUILLET, Jacques. Recherches de science religieuse, n° 48, 1960, p. 333. 3 GRELOT, Pierre. “Homme qui es-tu?” Les onze premiers chapitres de la Génèse, Cahiers Évangile n° 4. Paris: Cerf, 1973, p. 59 [trad. em port.: Homem quem és?: os onze primeiros capítulos do Gênesis. São Paulo: Paulinas, 1986]. 4 Salientemos os trabalhos de Mircea Eliade, de modo particular Le sacré et le profane, Gallimard, 1965. 5 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 48 [trad. em port.: Introdução à Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1971]. 6 AUZOU, Georges. La parole de Dieu. 3.ª ed. Paris: Ed. de l’Orante, 1960, p. 176. 7 BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002, p. 34, nota d. 8 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 50 [trad. em port.: Introdução à Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1971]. 9 Nota da TOB (Traduction Oecuménique de la Bible) [versão brasileira: TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia)], em Gn 5,5. 10 BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002, p. 40, nota f. 11 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 50 [trad. em port.: Introdução à Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1971]. 43 2 INTERPRETAÇÃO DE GÊNESIS 1-11 Algo salta aos olhos quando se comparam os dois primeiros capítulos do livro do Gênesis com os nove seguintes. Os dois primeiros evocam um mundo em que tudo é harmonioso e perfeito, enquanto os nove seguintes descrevem o mundo atual com o mal sob todas as suas formas. Tal constatação orienta nossa interpretação a respeito de tais textos: Gênesis 1 e 2 descrevem o mundo de Deus, enquanto nosso mundo é descrito por Gênesis 3 a 11. A própria ordem dos textos é importante, revelando aquilo que Deus queria fazer (Gn 1-2) e por que ele não pôde fazê-lo (Gn 3-11). Assim sendo, o estudo pode ser dividido em quatro partes: A) Gênesis 1: o significado da narrativa da criação do mundo em seis dias. B) Gênesis 2: o sentido da narrativa do jardim do Éden ou do paraíso. C) Gênesis 3 a 11: o significado do “pecado”, dos episódios de Caim e Abel, do dilúvio e da torre de Babel. D) Síntese geral de Gênesis 1 a 11. A) Gênesis 1: O sentido da narrativa da criação em seis dias Escrito por ocasião do exílio na Babilônia, esse texto do escritor Sacerdotal apresenta a criação do mundo como uma obra divina que se estende por seis dias de trabalho seguidos de um sétimo, durante o qual Deus descansa. É evidente que aqui se aplica a Deus o modelo humano de organização do trabalho, distribuído em uma semana (palavra esta que deriva do número sete). Não devemos nos perguntar quantos milhões de anos podem representar cada um dos dias deste relato da criação. Este não é um texto de caráter científico e todo esforço pela concordância entre os detalhes próprios ao texto e nossos dados científicos consiste numa atitude equivocada. A verdade, quanto à redação do texto relativo aos seis dias da criação, seguidos do sétimo, há de ser buscada no contexto do exílio do povo judeu na Babilônia. Em tal contexto, a fim de se manter como um povo de identidade própria, Israel se esforça por preservar dois costumes ainda hoje presentes: a circuncisão e o sábado. Em Gênesis 1, o autor quis salientar a importância do sábado, mostrando o próprio Deus repousando no sétimo dia, após seu trabalho de criação. Esse relato, além disso, serviu para reforçar a formulação do mandamento de Deus referente ao repouso do sábado, que se torna assim uma instituição propriamente divina: 44 Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra. O sétimo dia, porém, é o sábado de Iahweh teu Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu animal, nem o estrangeiro que está em tuas portas. Porque em seis dias Iahweh fez o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm, mas repousou no sétimo dia; por isso Iahweh abençoou o dia do sábado e o consagrou (Ex 20,9-11). Eis as razões que fundamentam essa visão da criação do mundo em sete dias. Portanto, não devemos buscar em tal concepção qualquer argumento de caráter científico. Mas voltemos ao sentido do texto. À primeira vista, temos a impressão de que se trata de nosso universo atual. De fato, encontramos nele tudo que nos cerca. Em primeiro lugar, os três grandes espaços (o céu, o mar,a terra); em seguida, “tudo o que eles contêm” e que observamos ainda hoje: os astros, os pássaros, os peixes, os animais, os seres humanos. O autor quer certamente dizer que tudo isso é bom e vem de Deus. É verdade. O lado bom do mundo, a ordem que reina na natureza, o sol que se levanta pela manhã, os pássaros que cantam, tudo isto pode evocar um Deus bom, poderoso, inteligente, criador. Esse lado bom existe. Porém, quando olhamos mais atentamente à nossa volta, constatamos também a desordem, as tragédias, a violência, o sofrimento e, por toda parte, a morte. Ora, o texto não relata esse lado mau do mundo, donde se conclui que ele não descreve nosso mundo, mas a criação perfeita: O mal é nela ausente. Deus viu que isso era bom (Gn 1,10). A criação corresponde à vontade de Deus. E assim se fez (Gn 1,9). A mulher é igual ao homem. Homem e mulher ele os criou (Gn 1, 27). Eles são como Deus. À imagem de Deus ele o criou (Gn 1, 27). Eles dominam a matéria. Deus lhes disse: “enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28). Não há violência. Eu vos dou todas as ervas (...) e todas as árvores que dão frutos: isso será vosso alimento (Gn 1,27). A criação é concluída e não há nenhuma angústia Assim foram concluídos o céu e a terra (...). Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou (Gn 2,1-2). Perante os acontecimentos infelizes ou absurdos que acontecem (inundações, terremotos, acidentes brutais, guerras, doenças, entre outros), é difícil pensar que Deus olha para tudo isso dizendo: “Isto é muito bom, é assim que eu quis o mundo”. De fato, o autor Sacerdotal utiliza o mesmo procedimento que os autores mesopotâmicos: remontando a Deus, ele descreve a criação tal como Deus a quis. Ele revela, portanto, o projeto de Deus. Nós sabemos que essa criação perfeita nunca foi concretizada e que antes do homem – no tempo dos dinossauros, por exemplo – já havia muita violência sobre a terra. Assim, já que nunca houve criação perfeita, esse texto constitui também um 45 anúncio do mundo que Deus vai realizar no fim dos tempos. É isto o que as últimas páginas do Apocalipse confirmam, ao retomarem as palavras de Gênesis 1, como já foi visto na introdução: Vi então um céu novo e uma nova terra – pois o primeiro céu e a primeira terra se foram. Nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor e nem dor haverá mais. O que está sentado no trono declarou então: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,1.4-5). O texto de Gênesis 1 quer dizer ainda que um dia, a criação será como Deus sempre quis: tudo será bom; o homem e a mulher serão como Deus, eles não mais conhecerão o sofrimento nem a morte; eles serão verdadeiramente considerados iguais e dominarão a matéria; não haverá violência; o universo estará concluído e não haverá mais angústia. Considerando atentamente o conteúdo dessa página, quantos desejos humanos podemos encontrar nela impressos: que não haja o mal; que o sofrimento e a morte cheguem ao fim; que a matéria nos obedeça; que não seja necessário matar para comer; que não haja luta de classes, mas igualdade entre todos; que não haja mais estresse... E estes desejos são precisamente os desejos de Deus! São João, no prólogo de seu evangelho, que remete igualmente ao início do mundo, afirmará que a Palavra pela qual Deus criou o mundo é seu próprio Filho: “No princípio era o Verbo... No princípio ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele” (Jo 1,1-3). Isto, o autor do Gênesis não pôde conjecturar! Pois os israelitas não podiam conceber um Deus em três pessoas. Essa primeira página, como a segunda que iremos abordar, é muito bela para ser uma descrição de nosso mundo. Ela é absolutamente insuperável! Ela possui o grande mérito de nos mostrar que o mundo atual não é o mundo tal como Deus o quer. É uma afirmação essencial, primordial, também libertadora, que condiciona a justa compreensão de todo o resto da Bíblia e que nos impede de compreender erroneamente a vontade de Deus. Assim, o projeto de Deus para a humanidade é uma criação perfeita. Eis o que Deus queria fazer desde o início e que ele fará no Fim. B) Interpretação do relato do jardim do Éden ou do paraíso Quando nós dizemos: “Eu me sinto no paraíso”, a expressão sempre evoca um estado de plenitude humana, e este sentido nos vem do relato do jardim do Éden. Esse texto foi escrito pelo autor Javista, 400 anos antes do relato da criação em seis dias. Por meio da simbologia do jardim do Éden, ele expressa o projeto de Deus para toda a humanidade. Não se pode deixar de admirar sua grande abertura de espírito: para ele, Deus não está reservado apenas a Israel, mas, como criador do mundo, seu projeto diz respeito a todos os povos. Utilizando os símbolos mesopotâmicos, esse escritor tem um ponto de vista 46 positivo sobre o homem, sobre o mundo e sobre Deus: O homem é um ser terrestre, diferentemente de Deus. Deus modelou o homem com a argila do solo. Deus quer colocar sua própria vida dentro deste ser terrestre. Deus soprou dentro de suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivo. Deus quer fazê-lo morar em seu próprio jardim. Deus plantou um jardim no Éden. Nele colocou o homem. O homem não conhece o sofrimento. Nenhum suor para o cultivar e o guardar. Há abundância. Deus fez brotar todo tipo de árvores de aparência encantadora e carregadas de frutos bons para comer. Um rio saía do Éden. Não há morte. Deus colocou a árvore da vida no meio do jardim. Tudo está submetido ao homem. O homem deu um nome a todos os animais. Homem e mulher são iguais. Da costela retirada do homem, Deus modelou uma mulher e a entregou ao homem. Então o homem bradou: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” (Gn 2,23) . Não há nenhum desequilíbrio interior. Os dois estavam nus e não se envergonhavam um do outro. Há grande familiaridade entre Deus e o homem. Deus caminhava no jardim. Podemos observar que se trata de outro poema, com um cenário bem diferente daquele de Gênesis 1. Assim como o primeiro, esse cenário não é de caráter histórico. Nenhum cientista validaria uma seqüência similar, no que diz respeito à aparição dos seres vivos sobre a terra: o homem criado primeiro, depois os animais, e, finalmente, a mulher! Nesse texto, Deus não cria exclusivamente por meio de sua palavra, mas age como um homem, como o oleiro que modela a argila, e como a mãe judia da época, que soprava dentro das narinas de seu bebezinho para lhe liberar as vias respiratórias. Tornando-se jardineiro, ele planta um jardim, nos moldes de um oásis do Oriente Médio. Trata-se de um lugar semelhante a nenhum outro: nele concentram-se todas as espécies de árvores, algumas para o encanto dos olhos, outras para o deleite do paladar, pelo sabor de seus frutos; há abundância de água, sendo o solo irrigado pelo rio de quatro braços, “fertilizando toda a terra, o que é sugerido pelo número 4, símbolo de universalidade (os quatro pontos cardeais)”.1 O homem cultiva e guarda esse jardim, sem conhecer esforço nem suor. É um mundo no qual a morte não existe, graças à presença da árvore da vida. Como em Gênesis 1, o homem domina a matéria, o que é simbolizado pela totalidade de animais aos quais ele nomeou. A mulher é igual ao homem, o que é simbolizado pelo fato de que ela procede de uma de suas costelas. Além disso, o autor expressa a harmonia interior do homem e da mulher pela nudez com naturalidade. Finalmente, por meio da cena em que Deus caminha no jardim para conversar com o homem e com a mulher, ele manifesta a aliança de Deus 47 com o homem. O autor escolheu a forma poética para expressar os desejos humanos mais profundos, já que teria sido muito difícil expressar o paraíso com números... Essa narrativa é, portanto, alegórica. É evidente que Deus não possui mãos para manipular a argila, nem pés para caminhar em qualquer lugar de nossa terra no qual se situaria o jardim do Éden, e que ele não se tornou anestesista ou cirurgião para criar a mulher. Não se trata de um paraíso terrestre nem histórico. Masesse texto traz a mesma mensagem da criação em seis dias. Ele nos revela a vontade de Deus. Na realidade, seguindo os procedimentos das narrativas míticas, o autor Javista remonta ao período que antecede a criação, a fim de evocar o mundo que Deus gostaria de fazer desde o início. Assim, o paraíso se insere no passado, o passado mais longínquo, pois se refere ao projeto eterno de Deus. Gênesis 3-11 nos revelará por que Deus não pôde realizá-lo desde o início. Ora, já que este paraíso nunca existiu e descreve o projeto de Deus, tal narrativa é também, como em Gênesis 1, um anúncio do mundo que Deus fará no fim dos tempos. É justamente isso que confirma, novamente, a última página do Apocalipse, no qual as mesmas expressões alegóricas são retomadas: “Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus com eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais (...). Mostrou-me depois um rio de água da vida (...). No meio da praça, de um lado e do outro do rio, há árvores da vida (...). Felizes os que lavam suas vestes para terem poder sobre a árvore da Vida e para entrarem na Cidade pelas portas” (Ap 21,3-4; 22,1- 2.14). O relato do jardim do Éden anuncia que um dia o homem, este ser terreno, será refeito por Deus e receberá o Sopro e a Vida divinos; nesse dia, o homem se tornará um ser vivo. Deus o conduzirá ao seu Paraíso, onde ele não conhecerá o sofrimento nem a morte. A harmonia com a natureza será total, a matéria estará submetida ao homem. Haverá igualdade entre o homem e a mulher, que não conhecerão nenhum desequilíbrio interior e estarão em relação perfeita com Deus. O que concluir? Que os dois primeiros capítulos do Gênesis descrevem o mundo de Deus. São duas profecias incomparáveis que englobam as quatro dimensões da pessoa humana: O ponto de vista dos dois escritores é muito importante. Desde o início, eles 48 sustentam que Deus não é autor do mal. Para eles, Deus está em aliança com o homem, é aliado do homem. Estamos longe dos deuses monstruosos da Mesopotâmia. Observemos que esses dois autores não acreditavam na ressurreição dos mortos no momento em que escreviam. É somente no final do Antigo Testamento, por volta de 164 antes de Cristo, com os livros de Daniel e dos Macabeus, que Israel expressará pela primeira vez sua crença na ressurreição, compreendendo pouco a pouco que o projeto de Deus e todos os desejos humanos não podem se cumprir sobre a terra. Abrindo o Novo Testamento, podemos encontrar a admirável leitura que Jesus fez dos textos do Antigo Testamento. Qual é, com efeito, o coração de sua palavra? Ele proclamava: “O Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15; Mt 4,17). Ele retoma de maneira extremamente sintética a grande esperança das duas primeiras páginas da Bíblia: a esperança da criação perfeita e do paraíso. Nisso consiste o essencial de sua mensagem. Além disso, palavra e ação nele se fundem. Ele mostrou, pelos seus gestos, aquilo que Deus quer, aquilo que será o mundo de Deus. Tomando a defesa da mulher, ele indicou que, no início, assim como no porvir, Deus quer a igualdade entre o homem e a mulher. Dirigindo-se a todos os que eram marginalizados, ele revelou que Deus era e será o Rei, o protetor dos pequenos. E Deus mesmo, ao dar-lhe o poder de acalmar a tempestade, de multiplicar os pães, de curar os doentes, de ressuscitar os mortos, de expulsar os demônios, manifestou que um dia o universo será estável, que haverá abundância, que não haverá mais sofrimento, nem morte, nem forças do mal; que a criação perfeita e o paraíso se tornarão realidade! O próprio Jesus viveu dessa grande esperança de Gênesis 1-2. Ele mesmo aguardou a realização da plenitude que viria a este mundo em decorrência de sua própria ressurreição. Na hora de sua morte, ele faz referência ao jardim do Éden, que era a esperança do homem universal formulada desde o surgimento da escrita, por meio das narrativas de Atrahasis e Gilgamesh, e que havia se tornado a esperança judaica: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 22,43). E Deus, ao ressuscitá-lo, cumpriu nele as duas grandes profecias, a da criação perfeita e a do paraíso, de tal modo que, para entrever o que é sua ressurreição, nós podemos retomar as expressões poéticas de tais profecias: ressuscitado no primeiro dia da semana (Mt 28,1), Jesus está na criação onde tudo é bom, onde as trevas foram separadas da luz (Jo 1,5; 12,31; 14,30); perfeita imagem de Deus (Cl 1,15), ele tem o poder de submeter a si todo o universo (Fl 3,21); chegando a um mundo concluído, ele não conhece mais a angústia e vive em paz (Jo 20,19); ele está no “repouso do sétimo dia, reservado ao povo de Deus” (Hb 4,9). Ele está, portanto, na criação perfeita de Gênesis 1. Da mesma maneira, Deus soprou nele e ele se tornou “vivo pelos séculos dos séculos” (Ap 1,18). Mostrando suas chagas a seus discípulos, ele revela que já não conhece mais sofrimento (Jo 20,19). Para se deslocar, ele não se cansa mais (Mt 28,16-17). Em harmonia perfeita com toda a matéria, ele tem a 49 capacidade de materializar seu corpo da maneira como quiser (Mc 16,12). Dispondo da árvore da vida, “a morte não tem mais domínio sobre ele” (Rm 6,9). Para ele, a aliança se cumpriu plenamente, ele está em relação perfeita com Deus. Ele está no paraíso de Gênesis 2. Assim, Jesus é o novo Adão, o homem definitivo, no qual o projeto de Deus se realizou plenamente. O Antigo Testamento nos fala do ressuscitado, que hoje vive. Essas duas primeiras páginas da Bíblia são insuperáveis! Elas revelam o grande desígnio de Deus para nós. Nós podemos dizer que elas constituem o maior sonho que poderíamos imaginar. Mas não se trata de uma grande ilusão. Deus mostrou que a criação perfeita e o paraíso existem e deu garantia disto com a ressurreição de um homem. Considerando agora os capítulos 3 a 11 do Gênesis, vamos entrever o mundo atual e “compreender” por que Deus não pôde realizar seu mundo desde o início. C) Gênesis 3-11: o significado do “pecado”, dos episódios de Caim e Abel, do dilúvio e da torre de Babel Esses capítulos que consideraremos globalmente nos dão uma descrição do mundo atual. É o inverso do mundo de Deus descrito em Gênesis 1-2. Estamos aqui mergulhados no problema mais espinhoso que se possa considerar, ao qual chamamos o problema do mal. Ora, em tal assunto, encontramo-nos diante do imenso enigma do mundo. Não se pode explicar ou tornar compreensível semelhante mistério dentro do qual estamos nós mesmos implicados. A fé não elimina tais questões, mas nos convida a aprofundá-las cada vez mais. O escritor Javista fornece pistas, mas não discorre apenas sobre o problema do mal. Este escritor de gênio, inspirando-se em elementos das narrativas mesopotâmicas, faz uma pintura do mal no mundo em quatro painéis sucessivos: textos sobre o homem e a mulher no paraíso, sobre o episódio de Caim e Abel, sobre o dilúvio, sobre a torre de Babel. Como pudemos ver, uma narrativa mítica é uma narrativa muito séria. Trata-se da tentativa de explicar a situação do homem no mundo. O herói Gilgamesh, por exemplo, representa o homem de ontem, o homem de hoje e o homem de amanhã. Da mesma maneira, em Gênesis 3-11, temos uma visão da humanidade desde o início até o fim dos tempos. Estes textos não são um relato histórico dos primeiros homens, mas dizem respeito a toda a humanidade; portanto, a nós mesmos, como àqueles que nos precederam e àqueles que nos sucederão. Trata-se de um assunto vastíssimo, abordado em algumas páginas aparentemente arcaicas e ultrapassadas, porém, de uma incrível densidade, pelo pouco que as compreendamos em seu sentido mais profundo. O autor, ao mesmo tempo: – descreve o mal observável no mundo, 50 – desvenda um mal interior presente em cada pessoa humana, – desmascara as forças do mal presentes no universo. – O mal observável O escritor Javista viu o mal que existia no mundo e que se manifestava de diferentes maneiras.Ele constatou que, mesmo antes dele, o mundo era o mesmo. Ainda hoje, nós estamos no mesmo mundo. Eis as facetas do mal, apresentadas nos quatro quadros seguintes. Gênesis 3: O Homem e a Mulher Gênesis 4: Caim e Abel Gênesis 6-9: O dilúvio 51 Gênesis 11: A torre de Babel O autor Javista estava consciente do mal presente no mundo, em todos os povos: medo de Deus, vazio interior, dominação do homem sobre a mulher, penas, sofrimento, morte, inveja, ódio, guerras, corrupção, divisões entre os homens. Ele descreveu a humanidade de ontem, de hoje e de amanhã em quatro quadros, dando alguns aspectos do mal no mundo: – O sofrimento e a morte (Gn 3), – Os assassinatos e as guerras (Gn 4), – A corrupção e a violência (Gn 6-9), – A divisão e a incompreensão (Gn 11). A verdade de Gênesis 3-11 é sempre atual. Basta olharmos em torno de nós ou assistirmos aos telejornais, ou simplesmente olharmos para dentro de nós mesmos. Há muito tempo que a Bíblia fez um estudo de nossa sociedade. De um modo superficial, nós consideramos nossa sociedade cada vez mais modernizada. Apesar do grande desenvolvimento técnico, o homem não mudou nada. Gênesis 3-11 descreve bem nosso mundo atual. Surge então a seguinte questão: por que Deus, que queria desde o início um mundo perfeito, o paraíso, não pôde criá-lo? – O mal interior Chegamos à grande descoberta do escritor. Este autor de gênio desce às profundezas do ser humano e descobre, denunciando, ao mesmo tempo, um mal radical, interior, em todas as pessoas e em toda a humanidade. Ele expressa este mal na forma de quatro imagens diferentes, inseridas em quatro quadros. 1 – Gênesis 3: “ser como deuses” Em Gênesis 3, a serpente diz: “Vós sereis como deuses, versados no bem e no mal” (Gn 3,5). Trata-se, certamente, de uma representação alegórica. Uma serpente não fala. O fruto a ser comido é bem singular... É algo bem distinto de uma maçã! Observemos que não é preciso perguntarmos qual dos dois comeu primeiro. O texto obedece simplesmente a um roteiro organizado da seguinte maneira: a serpente fala com a mulher, esta come o fruto e o entrega ao homem. Deus em seguida procura pelo homem e constata que ele comeu o fruto. O homem responde que a mulher lhe deu o fruto, e a mulher explica que a serpente a seduziu. Deus não procura mais. Ele se dirige então à serpente, depois à mulher, depois ao homem. Trata-se de uma 52 estrutura literária que se dispõe da seguinte maneira: O autor bíblico quer transmitir a seguinte mensagem: o homem e a mulher comem este fruto, de modo que nós também o comemos. Essa perspectiva universalista, que é sempre aquela das narrativas míticas, possui a vantagem de não fazer repousar toda a responsabilidade do mal no mundo sobre dois seres humanos. Pobres desses nossos “primeiros pais” ! Nós os culpamos por todos os nossos males! É claro, portanto, que os nomes Adão e Eva são nomes simbólicos. Do mesmo modo que as narrativas mesopotâmicas não remetem a personagens históricos chamados Atrahasis, que significa O todo inteligente, ou Uta- Napishtim, que significa Eu encontrei a vida, o autor de Gênesis 2-3 não revela os nomes reais dos dois primeiros seres humanos. Aliás, a questão de saber se a humanidade começou por um só casal ou por um grupo humano diz respeito à ciência.2 Não é esse o propósito do escritor bíblico. Nós pensamos que ele nos mostra o filme do que se passou no início. Mas ele sabia menos do que nós sobre nossas origens. É extremamente claro que todos os elementos de que ele se utiliza são simbólicos: Nos povos antigos, a origem de todo grupo humano (clã, tribo, povo, cidade) e de todo fato de civilização (profissão, invenção, tipo de vida) era de bom grado representada de modo convencional por um personagem com um nome específico. Trata-se de um “epônimo”. “Adão”, cujo nome significa “Homem”, é o epônimo do gênero humano.3 Entretanto, o texto de Gênesis 3 vai de encontro a um fato que realmente ocorreu no princípio. Pois é desde a chegada da humanidade no universo que o pecado existe. Mas este pecado original é também um pecado atual. O homem e a mulher são todo o gênero humano. Esta é a perspectiva de São Paulo: “A morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Qual é esse “pecado”, esse fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? A epopéia de Gilgamesh pode nos colocar no caminho, por meio das seguintes palavras do deus Êa: Antigamente, Uta-Napishtim era de condição humana. Agora, que ele e sua mulher sejam como nós, deuses! O contraste entre as expressões ser de condição humana e ser como deuses nos indica dois tipos de existência diferentes. A expressão ser como deuses evoca um 53 estado de plenitude em que o ser humano está livre de sua condição presente, que é limitada, sujeita ao sofrimento e à morte. No caso de Uta-Napishtim e de sua mulher, este estado foi concedido pelos deuses, e é exatamente o desejo de Deus na Bíblia: ele quer uma vida plena para o homem, sem sofrimento nem morte. Ele quer que “nós sejamos como ele”: ilimitados. Se nós sonhamos em ser como deuses, é porque Deus semeou em nós essa busca por uma felicidade infinita. Jean-Paul Sartre estava certo ao escrever: O que torna melhor concebível o projeto fundamental da realidade humana é que o homem é um ser que projeta ser Deus. Ser homem é tender a ser Deus; ou, como se queira, o homem é fundamentalmente desejo de ser Deus.4 Nós somos feitos de tal modo que buscamos a plenitude. Não há nada de mal nesta busca pelo infinito inscrita em nós. Contudo, a narrativa bíblica salienta que o homem e a mulher querem chegar à plenitude por si mesmos. O pecado reside numa vontade de chegar à plenitude por nós mesmos. Para o autor bíblico, cada pessoa humana quer se realizar por si só, sem Deus. Tal é o fruto que o homem e a mulher comem: cada um gostaria que Deus não existisse para poder chegar à plenitude por si mesmo. A tentação permanente do ser humano é a de querer ser auto-suficiente. Todo ser humano cai nessa tentação e se fecha a Deus. É esse fechamento que constitui o pecado. É inútil perguntarmos que ato nossos primeiros ancestrais puderam cometer para que nós conhecêssemos o sofrimento e a morte: pecado sexual? idolatria? magia? A reflexão do autor Javista é muito mais profunda e vai além de um ato em particular. Trata-se antes de uma atitude, de um estado de espírito: cada pessoa humana rejeita Deus. Essa rejeição começou com a chegada da humanidade ao mundo, ou seja, com a chegada da consciência ao universo material. Somente o ser humano é capaz desse pecado, pois ele é o único ser capaz de operar um retorno a si mesmo, de se situar na existência e de se situar diante de Deus. Ele é o único, sobre a Terra, a participar do mundo material e do mundo espiritual. Ele é, assim, a consciência da matéria, o lugar no qual ela se torna pessoal e livre. O mandamento referente à árvore do conhecimento não se dirige nem aos animais, nem às plantas, nem às pedras. Em que momento da História o pecado foi possível? Isto é muito difícil de dizer. Desde muito cedo, o homem revelou sua inteligência ao fabricar ferramentas, o que nos remete a aproximadamente dois milhões de anos atrás. Mas ele pode ter produzido ferramentas durante milhares de anos antes de se perguntar sobre Deus, como a criança de um ano que exibe sua inteligência ao brincar com blocos, mas não é capaz ainda de formular uma questão como essa. Entretanto, o que Gênesis 3 afirma é que desde que a humanidade emergiu no mundo, ela se considerou rica o suficiente para subsistir por si mesma. O momento da tentação coincide com a aparição da consciência e da liberdade no mundo: 54 Chega-se à questão última: o advento do homem, com o advento da liberdade, não constituiu por si mesmo um desafio que teve como resultado uma derrota?5 Fato é que o ponto de partida do autor Javista é o estudo das profundezas da pessoa humana. Ele constatou que cada ser humano gostaria de ser seu próprio centro: ninguém quer se realizar com Deus. O exercício da liberdade do homem seorienta em direção a uma recusa. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ser deuses por nós mesmos, é sempre sedutor de se comer. Essa atitude fundamental de fechamento se encontra no homem de todos os tempos, e talvez ainda mais no homem de hoje. Quantos gurus nos pregam a salvação do homem pelo homem! Isto se manifesta de diversas maneiras: colocar-se em relação com a Energia cósmica, alcançar a iluminação, desenvolver a potência do subconsciente ou o poder da mente para conseguir curar todas as doenças, fazer-se congelar para obter da ciência uma vida sem fim, ou mesmo querer decidir por si mesmo aquilo que é o bem e aquilo que é o mal... De todas as maneiras, numa fuga sem direção, sempre buscando em outro lugar aquilo que poderia levar à realização, mostramos como somos radicalmente fechados a Deus. Tal é o mal fundamental, o pecado original e sempre atual descrito no cenário de Gênesis 3. É muito importante compreender que Deus, tal como ele é apresentado no Gênesis, quer que nos tornemos como ele, o que se confirma ainda mais na perspectiva cristã. François Varillon expressou muito bem essa idéia: Deus se tornou homem para que o homem se tornasse Deus. Duas verdades são necessariamente correlativas: a encarnação de Deus e a divinização do homem. Isto é absolutamente tradicional, é o núcleo da fé! Se vocês me perguntarem o que é o homem, eu lhes responderei isto: o homem é algo que pode se divinizar. O mistério de todo homem, o sentido do homem, o significado da vida humana, é a atitude essencial do homem com vistas a se tornar aquilo que Deus é. Freqüentemente chega-se a perguntar: “Não é precisamente o querer se tornar Deus o pecado original?” Aqui repousa um terrível equívoco: sim, o pecado original é o de pretender por suas próprias forças se tornar o que Deus é. Mas o que não é o pecado original e que até é essencial da fé, é que devemos acolher este dom absolutamente singular de nossa divinização. Seremos perfeitamente homens somente quando formos divinizados.6 Karl Rahner também escreveu: O Cristianismo possui uma envergadura infinita. Longe de se perder nos detalhes, ele diz apenas uma coisa: a plenitude absoluta de Deus, que está além de toda idéia, de todo limite e de toda linguagem, introduziu-se por si mesma e sem reservas no coração de sua criatura, a fim de lhe conferir, se ao menos esta o permitir, sua própria glória.7 O projeto de Deus é a realização do homem, sem limites humanos. Mas a tentação, que é o lugar onde pode residir o pecado, o pecado mortal, é a de querermos nos realizar sozinhos, sem relação com Deus. Na verdade, a fé não é natural, nem mesmo a conversão. O que é natural é o desejo de nos mantermos centrados sobre nós mesmos. A fé e a conversão exigem um 55 arrebatamento de nós mesmos. Converter-se é transformar-se completamente, mudar o foco do olhar, descentralizar-se. Para Jesus, isto equivale a perder a própria vida para a reencontrar, ou se tornar como as crianças. Estas duas expressões vão contra a corrente natural do ser humano, que quer se estabelecer por si mesmo e viver independente. Evidentemente a questão do pecado original foi retomada em todos os sentidos no decorrer dos 2000 anos de história da Igreja e “é preciso convir que a abordagem (e não o dogma definido) clássica e tradicional do pecado original não é mais admissível na problemática de hoje”.8 Como toda narrativa mítica, Gênesis 3 possui um alcance universal. A descrição da tentação, na qual o homem e a mulher querem se tornar como deuses por si mesmos, representa a tentação e o pecado de toda a humanidade, desde o início até o fim dos tempos. Querer se realizar sozinho: tal é o significado do fruto da árvore do conhecimento, dentro do primeiro quadro definido pelo autor Javista. 2 – Gênesis 4: “o pecado à porta” Na narrativa de Caim e Abel, o autor expressa a tentação pelas seguintes palavras: “Não jaz o pecado à tua porta, como animal acuado que te espreita; podes acaso dominá-lo?” (Gn 4,7). A expressão é proveniente de uma superstição dos povos mesopotâmicos: eles evitavam pisar sobre a soleira da porta e pulavam por cima dela. Os demônios estariam escondidos ali, prontos para saltar sobre eles. O pecado equivale aqui à serpente que tenta, em Gênesis 3. É uma força maléfica, dissimulada, pronta para se lançar sobre a pessoa, havendo risco de a dominar. A tentação é igualmente vista como um tipo de engrenagem dentro da qual entramos. Ora, esse mal interior, a inveja e o ódio que habitam Caim, torna-se mais forte: Caim mata Abel. O escritor escolheu o exemplo mais aberrante: matar seu próprio irmão. É evidente que essa narrativa não conta a história da primeira família ou do primeiro assassinato ocorrido no mundo. Inspirando-se em diversas narrativas mesopotâmicas que representam dois modos de vida antigos, o do cultivador e o do pastor, o autor Javista quer ilustrar que, desde o início, há assassinatos e guerras no mundo. Portanto, Caim que mata Abel é a representação daquilo que se passa hoje em dia. A cada dia, os homens matam. O pecado está sempre à nossa porta como uma fera escondida que quer nos dominar. A súplica da oração de Jesus tem o mesmo direcionamento: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal” (e não: “Não nos submetas à tentação” (Mt 6,13), como se o próprio Deus fosse o tentador!). Notemos que Jesus, antevendo sua própria morte, evoca a figura de Abel, que representa todos os justos perseguidos e mortos (Mt 23,35). Abel anuncia o Cristo, também vítima do ódio dos homens, esse mal interior presente na humanidade desde 56 o princípio. 3 – Gênesis 6-9: “o coração malvado” Na narrativa do dilúvio, a perspectiva é claramente universalista: a violência e a maldade estão por toda a terra. De onde vem este mal que se pode observar? O autor responde: “A maldade do homem era grande sobre a terra, e era continuamente mau todo desígnio de seu coração” (Gn 6,5). O grande mal é interior: o coração do homem está corrompido. Jesus retoma a mesma afirmação: “Com efeito, é de dentro, do coração dos homens que saem as intenções malignas” (Mc 7,21). Ele interpreta a narrativa do dilúvio como a descrição da situação que será predominante até o final dos tempos: Como nos dias de Noé, será a vinda do Filho do Homem. Como naqueles dias que precederam o dilúvio, estavam eles comendo, bebendo (...) e não perceberam nada até que veio o dilúvio e os levou a todos (Mt 24,37-39). Gênesis 6-9 efetua muito bem seu papel de narrativa mítica, descrevendo o homem de todos os tempos. Nós estamos “nos dias que precedem o dilúvio”: a corrupção e a violência estão por toda a terra. Um dia o fim virá, bem como uma nova ordem mundial. Nesse ínterim, poderemos querer permanecer fiéis a Deus, como Noé, ou continuar no mal. Esse quadro não descreve somente a história passada e a história atual, mas anuncia também o nosso futuro. Com a figura de Noé, apresentado como fiel a Deus, podemos novamente reconhecer a grande abertura de espírito dos dois escritores, o Javista e o Sacerdotal, que salientam que fora de Israel o bem existe na humanidade. Essa figura é muito importante, pois “Noé é apresentado como o segundo pai do gênero humano”.9 O que havia sido dito ao homem e à mulher em Gênesis 1 é repetido à família de Noé: “Sede fecundos, multiplicai-vos, povoai a terra e dominai-a” (Gn 9,7). Deus permanece em aliança com o homem e com toda a criação. De fato, Noé, “o homem justo, íntegro, que andava com Deus” (Gn 6,9), que é salvo do dilúvio com sua família, é também uma prefiguração de Cristo, o qual, juntamente com os seus, será salvo do mundo atual para ingressar em uma nova criação. A arca de Noé é uma imagem da barca que é a Igreja, sacudida pelas águas que simbolizam as forças malignas. Mas Cristo ordenará ao vento e ao mar, e, um dia, far-se-á uma permanente calmaria (Mc 4,36-40). Uma extraordinária profecia está contida no símbolo do arco-íris que aparece no céu após o dilúvio, indicando que a paz retornou. De fato, encontramos o arco-íris no Apocalipse,em uma visão do céu (Ap 4,3). O símbolo do arco-íris, tanto no início como no fim da Bíblia, significa que, um dia, o dilúvio terá acontecido, ocasionando, assim, o fim do mundo atual, e que uma nova ordem do mundo será inaugurada, e a paz restabelecida. O mal terá chegado ao fim. 57 4 – Gênesis 11: “querer atravessar os céus” No relato da torre de Babel, o escritor Javista monta um cenário em que “todo mundo se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras” (Gn 11,1) e os homens queriam fazer-se um nome ao construir uma torre que penetre os céus (Gn 11,4). Penetrar os céus quer dizer o mesmo que querer ser como deuses. É querer chegar à plenitude sem Deus. Aqui, é a humanidade inteira, vista como sociedade (ou império, ou civilização), que quer se realizar por si mesma ao se unificar. O marxismo é um exemplo disso, ao se apresentar por trás da máscara de uma promessa de estabelecimento imediato da justiça sobre a terra, tendo precisamente o projeto de uma sociedade onde toda a humanidade, sem Deus, chegaria a um estado final. Atualmente, o projeto de uma sociedade unificada é retomado por meio de alguns termos como “globalização”, “nova ordem mundial”, “governo mundial”. Esta gigantesca empreitada se apóia sobre o pretexto da aproximação dos povos, favorecida pelo notável desenvolvimento dos meios de comunicação. Mas, uma vez mais, aquilo que é bom em si é utilizado para a escravização da humanidade. A nova ordem planetária, dominada pelo dinheiro, não se preocupa com o aspecto humanitário. Apresentando-se com a máscara da fraternidade, da igualdade, da unidade, uma elite anônima age às escondidas, buscando submeter as pessoas, dominá-las, numerá-las, rotulá-las. Visa-se à uniformização por meio da abolição de culturas particulares. O desígnio de Deus é exatamente outro. O autor do Apocalipse, em sua visão de uma “grande multidão, que ninguém podia contar”, pontua que ela é composta de “todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9). Cada um guarda sua identidade, sua diferença. Recordemos que o nome da torre de Babel provém da torre de Babilônia. Ora, o Apocalipse descreve o mundo atual como sendo a Grande Babilônia, governada pela besta, cujo número é 666 (Ap 13,18). O Novo Testamento denuncia com muita clareza a influência de uma presença maligna no mundo, a de Satanás, que, mostrando a Jesus “todos os reinos da terra, disse-lhe: ‘Eu te darei todo este poder com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser. Por isso, se te prostrares diante de mim, toda ela será tua’” (Lc 4,5-7). Satanás recebeu o domínio sobre o mundo e incita seus adoradores a dominar as pessoas. O projeto da torre de Babel ou da Grande Babilônia está em andamento, inspirado por um espírito de divisão que se apresenta como espírito de unificação. O relato da construção da torre de Babel descreve muito bem nossa sociedade, que, tanto hoje como ontem, quer se realizar sem Deus. Entretanto, sem Deus ninguém se compreende (Gn 11,7-9). O inverso da torre de Babel é profetizado no dia de Pentecostes: aqueles que presenciaram a Ressurreição do Senhor são ouvidos na língua materna de cada povo (At 2,7). Pelo Espírito Santo, que é o Espírito de Amor, a humanidade se reencontra e se respeita em suas diferenças. 58 Assim, no interior desses quatro quadros relativos ao mal no mundo, o escritor Javista sugere o mal interior por meio de quatro expressões simbólicas: – ser como deuses (Gn 3), – o pecado à porta (Gn 4), – o coração perverso (Gn 6), – penetrar os céus (Gn 11). Esses quatro quadros que apresentam o mal observável e o mal interior são extremamente convincentes e nos expõem abertamente o que nós vivemos em nosso “mundo moderno”: somos o homem e a mulher, indiferentes a Deus, que sofremos e morremos. Somos Caim, que espreita o pecado à porta e que mata. Somos os homens de antes do dilúvio, corruptos e violentos por toda a terra. Somos os homens de Babel e gostaríamos de chegar por nós mesmos, como sociedade, a uma fase final da humanidade. Estamos divididos e não nos compreendemos. Mas a reflexão do Javista não cessa. Para explicar por que a humanidade, de uma extremidade a outra de sua história, permanece assim fechada a Deus, o escritor desvenda a presença das forças do mal. – As forças do mal Desde o primeiro versículo de Gênesis 3 aparece a figura da serpente, apresentada como “o mais astuto de todos os animais que Iahweh Deus tinha feito”. Ela é vista como mentirosa por excelência, aquela que “seduz” (Gn 3,13), mas da qual Deus continua a ser o Senhor. Por trás da imagem da serpente se esconde um ser pessoal, anterior ao homem. Ele já existia quando a humanidade surgiu no mundo. O Apocalipse o caracteriza claramente ao lhe dar diferentes nomes: “Foi expulso o grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a terra habitada” (Ap 12,9). O capítulo 20 do Apocalipse revela que ele será finalmente “lançado no lago de fogo e de enxofre, onde já se achavam a Besta e o falso profeta. E serão atormentados dia e noite, pelos séculos dos séculos” (Ap 20,10). O mundo de Deus é inaugurado exatamente após sua expulsão definitiva (Ap 21-22). “Satanás e seus anjos” estarão em atividade “até o fim” (Mt 8,29; 25,41; Ap 12,9). Só então o mundo de Deus poderá se realizar plenamente. A Bíblia, de Gênesis 3 a Apocalipse 20, indica que a rejeição a Deus, de responsabilidade do homem, produz-se sob a influência de uma força maligna que compromete a realização do projeto de Deus: 59 A alegoria da serpente sedutora, inserida desde o início das narrativas de Gênesis 3-11, compreende uma importância fundamental. Ainda que tal representação se defina como um grande enigma, podemos caracterizá-la como uma chave de leitura para a compreensão da Bíblia e da história humana como um todo. Numa época como a nossa, em que reina o espírito racional e científico, a crença na existência do “diabo e seus anjos” (Mt 25,41) é freqüentemente acolhida com ceticismo e cada vez mais desconsiderada. Não podemos estudar a Bíblia com seriedade nos silenciando sobre a presença de Satanás. Certamente esse ser não foi criado como uma criatura maligna, mas é certo que ele rejeitou Deus e que sua revolta repercute no mundo humano. Os teólogos tentaram explicar sua revolta, mas não podemos penetrar no outro mundo e na eternidade. Jesus não procurará explicar a origem do mal. Encarnando-se em nosso mundo, ele será testemunha desse mal e sofrerá seus ataques. Não podemos adentrar na eternidade, mas podemos, sim, afirmar que Satanás, cujo nome significa o Adversário, é um ser livre que rejeitou Deus. Tornando-se inimigo de Deus, ele busca arrastar outros seres conscientes e livres para sua própria rejeição a Deus. É sobretudo aí que se exerce sua atividade. Isso é confirmado pelo texto do Apocalipse, que conserva principalmente seu papel de tentador e sedutor do mundo inteiro. Sua mentira mais perniciosa é a de apresentar Deus como aquele que diminui o homem, quando na verdade Deus quer completar o homem. É fato que, em todo lugar no mundo, a percepção de Deus é freqüentemente falseada. Foi o que aconteceu com os deuses mesopotâmicos, e é o que acontece em muitas religiões do mundo. Uma das maiores contribuições que a Bíblia pode oferecer é a de apresentar, desde os dois primeiros capítulos do Gênesis, um Deus em aliança com o homem e com a mulher. O escritor Javista, a partir de Gênesis 3, quis mostrar que o pecado vem de algo que se encontra acima do homem, como sugestão de um ser pessoal que busca inserir o homem e a mulher em seu projeto de recusa a Deus. E ele o consegue. O homem e a mulher caem em tal tentação: eles se fecham a Deus e querem se realizar sozinhos. A partir dessa atitude de fechamento, fluem todas as ações más: dominação do homem sobre a mulher (Gn 3), assassinatos (Gn 4), corrupção (Gn 6), divisões (Gn 11). Fora de Gênesis 3, o Antigo Testamento raramente faz referência a Satanás. Aliás, 60 é possível perceber uma evolução na compreensão de sua influência.Assim, em 2 Samuel 24,1, está escrito que “a ira de Iahweh se acendeu contra Israel e incitou Davi contra eles”. Mais tarde, em 1 Crônicas 21,1, escreve-se: “Satã levantou-se contra Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel”. Os textos posteriores atribuem a Satanás aquilo que anteriormente havia sido atribuído a Deus. Uma inversão bem instrutiva! As outras afirmações sobre Satanás, também posteriores, são bastante reveladoras: ele é visto como “o Acusador” em Zacarias 3,1-2; aquele que “atinge Jó com uma doença” em Jó 1-2; e aquele que tem “inveja” (Sb 2,24) do homem. Este último texto do livro da Sabedoria: “Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo”, que nos remete a Gênesis 3, indica que o diabo tem inveja do homem e da mulher, que ainda podem chegar à plenitude pessoal por meio de uma relação com Deus. Sua recusa a Deus se processou na eternidade, fixando-o para sempre em sua revolta. Quanto a nós, estamos no tempo e podemos nos voltar para Deus, até que a morte nos estabeleça em nossa atitude de abertura ou de fechamento a Deus: Ao passar pela morte, o homem, enquanto pessoa, chega à realização definitiva e se orienta de uma vez por todas em direção a Deus, ou dele se afasta, segundo a opção feita nesta vida corporal (Jo 9,4; Lc 16,26; 2Cor 5,10). Essa opção fundamental, amadurecida livremente pelo homem neste mundo, numa vida corporal submetida ao tempo, recebe na morte seu caráter definitivo. Tal afirmação confere à vida presente uma seriedade radical.10 No Novo Testamento, a presença de Satanás é confirmada praticamente a cada página, bem como a de outros espíritos malignos, os demônios, que São Paulo nomeia “Principado, Autoridade, Poder” (1Cor 15,24), ou “príncipes deste mundo” (1Cor 2,6). Um combate decisivo se estabelece desde o início da vida pública de Jesus, na qual Satanás está presente como o tentador. Aliás, o fato de Jesus ter sido realmente tentado é da mais alta importância; caso contrário, ele não teria realmente participado de nossa condição humana e não poderia ser o Salvador. Ele é o Salvador precisamente por ter se mantido aberto a Deus ao longo de sua vida terrena, até sua morte na cruz. É por isso que São Marcos o apresenta, desde o início de seu evangelho, como o Novo Adão, tentado por Satanás no deserto. Diferentemente dos textos de Mateus e de Lucas, que narram três tentações de Jesus, o de Marcos não parece indicar um objeto de tentação. De fato, Marcos vai direto à tentação mais profunda, aquela de Gênesis 3, concluindo assim seu relato da tentação de Jesus: “e vivia entre as feras, e os anjos o serviam” (Mc 1,13). Marcos retoma a maneira pela qual os rabinos evocavam Adão no paraíso: como em Gênesis 2, eles remetiam ao homem que vivia com os animais (contudo, eles haviam substituído a cena em que “Deus caminhava no jardim sob a brisa da noite”, pela cena dos anjos que serviam Adão): Marcos 1,13 nos lembra que Jesus viveu entre as feras, as mesmas que respeitavam Adão, segundo os Apocalipses. Viver junto aos animais selvagens é um traço messiânico. O capítulo 11 de Isaías nos 61 assegura que, nos tempos messiânicos, tudo será como no paraíso. Assim o Cristo é apresentado em São Marcos: junto aos animais selvagens, logo depois de uma provação, da qual ele sai vitorioso, diferentemente de Adão.11 De acordo com os evangelhos, Jesus foi tentado de todas as maneiras por Satanás em sua vida terrena, freqüentemente por intermédio de seus próprios discípulos, dentre os quais Pedro, que quer um Messias conquistador (Mc 8,33), ou Tiago e João, que planejam a destruição de uma aldeia samaritana (Lc 9,54-55). É tentado por todos aqueles que querem que ele imponha a fé por meio de milagres: Satanás no deserto (Mt 4,6), seus parentes (Jo 7,3-8), a multidão (Jo 6,15), Herodes (Lc 23,8), os fariseus (Mc 8,11), seus adversários ao pé da cruz (Mc 15,32). Mas se sua vontade fosse a de se impor, ele teria dado uma imagem inconsistente de Deus, que na realidade respeita a liberdade humana. Nós podemos dizer que ele evita os falsos sinais, que são tentações reais, porque meditou longamente sobre as Escrituras. Com efeito, Lucas revela que ele “crescia em sabedoria” (Lc 2,40.52). A sabedoria, para os judeus, provém da Palavra de Deus. Com a idade de 12 anos, vemos o Menino Jesus permanecer em Jerusalém para escutar e questionar os doutores no Templo, que são especialistas. Ele não está ali para lhes ensinar, mas para concretizar aquilo que ele diz: “Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). Deus lhe falava por meio das Escrituras. Se Lucas termina assim esse episódio: “Desceu então com eles a Nazaré e crescia em sabedoria” (Lc 2,51-52), é para mostrar que ele meditou as Escrituras ao longo de toda a sua vida. Esse último versículo compreende o período que vai da idade de 12 anos até o início de sua vida pública. É muito significativo que sua resposta às três tentações de Satanás no deserto tenham sido tiradas das Escrituras. Estas lhe permitem sustentar a verdadeira imagem de Deus e identificar claramente as manobras de Satanás. Assim, a vida de Jesus foi o espaço de uma batalha. Ele buscou iluminação na Palavra de Deus, o Antigo Testamento. Isso pode ser um grande ensinamento para nós. A Bíblia, ao mesmo tempo em que nos revela Deus com clareza, conscientiza-nos a respeito das forças do mal. Proclamando a conversão, Jesus, assim como o escritor Javista, denunciou esse mal radical, presente no interior de cada ser humano, colocando cada homem diante de Deus. Isso quer dizer que a liberdade humana se concretiza profundamente nesta questão fundamental: eu, diante de Deus, o que decido para o meu destino final? Assim, suas primeiras palavras retomam o conteúdo dos 11 primeiros capítulos do Gênesis! Ao proclamar que “O Reino de Deus está próximo”, ele retoma a esperança do mundo perfeito e do paraíso de Gênesis 1-2. Acrescentando: “Convertei-vos!”, ele denuncia o mal radical presente em cada ser humano, tal como está descrito em Gênesis 3-11. Onze capítulos em duas frases! Duas frases infinitamente libertadoras! Essa mensagem vem precisamente retificar as duas mentiras veiculadas na tentação de Gênesis 3. Ela apresenta um Deus que quer a plenitude do ser humano, um Deus que convida o homem a que se volte para Ele, em vez de se fechar sobre si 62 mesmo. Mas não é somente por meio de sua palavra que ele combate as forças do mal. Como profeta do mundo que há de vir, cabe-lhe mostrá-lo por meio de suas ações e particularmente por meio de seus milagres. Ele mesmo afirma realizar esse tipo de feitos pelo poder de Deus e não por suas próprias forças (Mt 12,28; Jo 5,30.36; At 2,22; 10,38; Lc 5,17; Mc 5,30). Mesmo sendo o Filho de Deus, ele “se despojou, tomando a forma de escravo” (Fl 2,6-8), carregando nossos limites humanos. Seus milagres constituem uma ruptura no império das forças do mal. Assim que ele aparece, estas se sentem ameaçadas: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para arruinar-nos?” (Mc 1,24). Se prestássemos um pouco mais de atenção, veríamos que Jesus nos revela, ao expulsar os demônios, que Deus permanece invencível e que um dia sua criação estará definitivamente liberta das forças do mal: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12,28). Assim, ao curar os doentes, ressuscitar os mortos, expulsar os demônios, ele anuncia que o reino de Satanás acabará e que o Reino de Deus virá.12 Se “a mais bela façanha de Satanás foi fazer crer que ele não existia” (Charles Baudelaire), um movimento de conscientização começa a surgir nos dias de hoje. Certamente, não é preciso ver Satanás em toda parte, nem amedrontar o mundo. Contudo, sob o pretexto de querermos apenas pregar a Boa Nova, não podemos deixar as pessoas na ignorância de um dado tão bem atestado do início ao fim da Bíblia. É por isso que o poder de exorcizar foi recolocado em evidência pela Igreja. Certamente, os casos de possessão são raros, mas manifestam a existência de forças do mal agindo em nossomundo. Sobre esse assunto, eis alguns trechos do prefácio de René Laurentin ao livro Nouveaux récits d’un exorciste [Novos relatos de um exorcista], de Pe. Gabriel Amorth: Para além do silêncio ou da dúvida sobre aquele que a Escritura chama de o “príncipe deste mundo”, e mesmo “o deus deste mundo”, Pe. Gabriel Amorth, exorcista de Roma desde 1986, conta sua experiência pouco comum. Este livro vem em boa hora, como sugere o título: – No momento atual, missas negras e cultos diabólicos se multiplicam em toda a Itália e em outros países, com suas cerimônias de possessões e de infestações, às quais a polícia parece se interessar mais do que a Igreja. – No presente instante, inúmeros teólogos negam a existência do demônio, que seria apenas uma personificação ingênua do mal, e até mesmo um mito que se deve banir. – Num clima como esse, a ordem do exorcista foi suprimida, assim como numerosos rituais para expulsar o demônio, inseridos no ritual de batismo. Do século XVII aos últimos anos, os exorcistas diocesanos se tornaram cada vez mais raros. Se os nomeamos hoje, é com freqüência numa perspectiva nova, segundo regras que praticamente convidam a nunca exorcizar: deve-se pronunciar o grande exorcismo apenas quando se tiver certeza da possessão. Ora, Pe. Amorth e outros exorcistas experientes nunca têm essa certeza antes do exorcismo, de modo que o rito é que permite que surja a prova daquilo que antes era somente provável: no ato do exorcismo, o demônio se revela por meio de reações que lhe são próprias, e a libertação produz os últimos indícios de que realmente havia possessão e não obsessão. Os dois livros de Pe. Amorth sensibilizaram a opinião relativa a essa dimensão incontornável do combate espiritual até o mais alto grau. Cento e trinta novos exorcistas foram designados na Itália desde a publicação do primeiro volume. [...] 63 Pe. Amorth não é obcecado pelo demônio, nem um maníaco por exorcismo. De acordo com seu diagnóstico, a maioria das pessoas que se dirigem a ele não estão sob o domínio do demônio. Desse modo, ele as encaminha aos meios comuns na Igreja: oração e sacramentos. Das 20.000 pessoas que ele efetivamente exorcizou, apenas 75 realmente eram possessos. Os outros sofriam de infestações e influências diversas que este livro retrata. Pe. Amorth mostra bem a continuidade entre as tentações ordinárias de Satanás e sua ação extraordinária por infestação ou possessão – portanto, a continuidade entre os sinais correspondentes –, bem como a continuidade entre os meios ordinários da Igreja e o meio extraordinário que é o exorcismo. Junto aos exorcistas que fazem carreira solo, sem diálogo com psiquiatras, e aos sacerdotes que abdicam do exorcismo diante da psiquiatria, como se esta lhes trouxesse a explicação absoluta e totalitária, Pe. Amorth insiste em estabelecer um diálogo interdisciplinar. Diálogo difícil, pois como ele mesmo diz neste livro, poucos psiquiatras estão abertos ao espiritual, embora tenha encontrado recentemente excelentes contatos. Os psiquiatras abertos ao espiritual se deixam alertar quando os remédios específicos permanecem inoperantes ou produzem o efeito contrário, e quando a história do paciente revela interferências tais como a participação em um culto satânico ou em experiências ambíguas, como mesas brancas, evocação de mortos, meditação transcendental com mantras suspeitos etc. É então que eles passam a bola aos exorcistas, de modo que a libertação do paciente constitui a prova da hipótese de possessão, como exemplifica Pe. Amorth neste livro.13 Os casos de possessão, que configuram manifestações mais evidentes da ação de Satanás, revelam que o demônio é absolutamente o contrário do que é Deus, pois o desejo manifestado por ele é o de querer passar por cima da vontade das pessoas, de fazer com elas o que bem entender, de as possuir. Deus, em contrapartida, nunca força a liberdade individual. A partir do texto de René Laurentin, é difícil não reconhecer Satanás em todas as práticas pelas quais as pessoas se deixam seduzir nos dias de hoje: esoterismo, ocultismo, magia, feitiçaria, magnetismo, diálogo com os mortos, mediunidade, vidência, enfim, tudo o que a Bíblia condena formalmente: Que em teu meio não se encontre alguém que (...) faça presságio, oráculo, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou ainda que invoque os mortos (Dt 18,10-11). Ainda hoje, os “oráculos e adivinhos” (Dt 18,14) são numerosos. A crença neles chega a níveis alarmantes. Não é raro ouvirmos pessoas, que chegamos a considerar bastante racionais, discorrerem sobre numerologia, astrologia, karma e vidas passadas, equilíbrio das energias, extraterrestres etc. Algumas delas desfilam carregando uma cruz, bem como talismãs, amuletos, pêndulos ou cristais... Pessoas assim chegam a oferecer incenso para Buda e depois para Jesus... E quantas seitas se formam: algumas extremamente perigosas, dentro das quais se produzem suicídios coletivos ou ainda sacrifícios humanos ofertados ao demônio! Se considerarmos atentamente os denominadores comuns de tais práticas, perceberemos que o que se busca é programar as pessoas – o que equivale, em graus e níveis diferentes, a possuí-las – e, mais fundamentalmente, a distanciá-las de Deus, para sua realização humana sem Deus. A Nova Era elimina claramente o Deus pessoal, substituindo-o pelas energias cósmicas ou pelo “divino em nós”. A rejeição a Deus, ou seja, a 64 tentação das origens da humanidade, permanece bem atual. O discernimento em tudo isso não é fácil. Jesus teve o dom da vidência, o dom da profecia e o dom dos milagres, mas é preciso salientar que eram dons, e não “poderes”. A diferença é grande. Um dom vem de Deus, um poder pode vir de forças ocultas. O Antigo Testamento e Jesus nos convidam a desconfiarmos de “sinais e prodígios”: Quando surgir em teu meio um profeta ou um intérprete de sonhos, e te apresentar um sinal ou um prodígio, – se este sinal ou prodígio que ele te anunciou se realiza e ele te diz: “Vamos seguir outros deuses (que não conheceste) e servi-los”, – não ouças as palavras desse profeta ou desse intérprete de sonhos (Dt 13,2-4). Hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar, se possível, os eleitos. Quanto a vós, porém, ficai atentos. Eu vos preveni a respeito de tudo (Mc 13,22-23). Mas deixemos de lado a evocação a fatos excepcionais – como os casos de possessão – ou de práticas que poderão ser julgadas como pertencentes a uma ínfima camada da população... Se esses fatos e práticas manifestam de modo mais evidente a existência das forças do mal, não nos esqueçamos das manifestações apresentadas nos quatro quadros de Gênesis 3-11, que são mais cotidianos, começando pelas nossas próprias tentações, até os horrores que os meios de comunicação nos exibem incessantemente: exploração de alguns sobre muitos, guerras, corrupção, divisões! Aliás, Jesus salienta dois sinais muito concretos da ação de Satanás que lhe dizem respeito: a mentira e o martírio. Ele sabia que seu processo seria envolvido por mentiras e que ele seria morto pela mão dos homens. Eis o lado visível de sua paixão, que se poderia ter filmado: o mal observável. Mas por trás do que os homens estavam para lhe fazer, ele desmascarou o mentiroso desde o princípio e o pai da mentira. A seus adversários, ele declara: “Vós procurais matar-me, a mim, que vos falei a verdade que ouvi de Deus. Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio” (Jo 8,40.44). Aqui ele faz referência à serpente ardilosa de Gênesis 3 e a Caim, que mata, em Gênesis 4. Mentiras e homicídios são, portanto, sinais de que o homem está possuído pelas forças do mal. O século XX, que foi o século de tantos progressos tecnológicos, foi também o século de duas guerras mundiais. A humanidade permanece possuída pelas forças do mal. Aludindo a uma conversa que teve com o escritor Georges Bernanos, André Malraux afirma: “Eu lhe disse,a respeito dos campos de concentração: Satanás reapareceu no mundo”.14 É impressionante constatar como Jesus, no momento de sua morte, quando todo arsenal do mal está montado contra ele – traição, prisão, abandono dos discípulos, negação de Pedro, mentira, ódio, zombaria, rancor, martírio –, não penetra em tais formas do mal. Ao contrário, ele permanece fiel, livre, verdadeiro, sem ressentimento nem desejo de vingança ou de dominação, encarnando perfeitamente a essência de 65 Deus: fidelidade, respeito à liberdade individual, amor, perdão. Com efeito, ele permanece voltado a Deus, em vez de querer se realizar sozinho. Essas horas foram o momento de uma grande batalha. Aos olhos dos homens, ele foi vencido, mas em seu modo de morrer, ele já era o grande vencedor: “O príncipe deste mundo vem; contra mim, ele nada pode” (Jo 14,30). As forças do mal não conseguiram desintegrar seu interior, nem interromper sua relação com Deus e os homens. Desde o Gênesis, anuncia-se que Satanás será o grande vencido da história humana: “a mulher (...) te esmagará a cabeça” (Gn 3,15). Essa vitória da humanidade repousa sobre a vitória de Jesus, que não caiu na grande tentação. Ao longo de toda a sua vida, ele permaneceu voltado a Deus. No momento de sua morte na cruz, propuseram-lhe de “salvar-se a si mesmo” (Mc 15,30). Mas ele colocou todo o seu futuro humano nas mãos de Deus: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Foi assim que ele venceu o pecado, que é o fechamento a Deus. É por isso que ele é o Novo Adão. Sua ressurreição nos indica aonde conduz uma vida de relação com Deus. Na análise do problema do mal, as perguntas não são resolvidas como em matemática, onde dois mais dois são quatro. Na Bíblia, Deus responde a Jó: “Tu não existias no princípio. Logo não podes compreender o que ultrapassa tuas capacidades. Mas olha ao redor de ti: o universo se mantém e avança apesar do mal. Eu vejo teu sofrimento, ouço teu grito, o que te acontece é uma injustiça. Tens razão de te revoltares. É um bom sinal que tu queiras um mundo melhor. Tens uma idéia boa de mim. Confia em mim. Meu projeto se realizará. Eu extirparei as forças do mal” (cf. Jó 38-42). Jó não tem todas as respostas, mas crê que seu Deus é o Todo-Poderoso, que permanece em aliança com a humanidade e toda a criação. Ele crê que Deus tem um plano final, embora em sua época ainda não se acreditasse na ressurreição dos mortos. Se a questão das forças do mal continua sendo difícil de se abordar, é claro, no entanto, que o autor de Gênesis 3, por meio da alegoria da serpente, já as havia desmascarado, tendo como pano de fundo o nosso mundo humano. D) Síntese geral de Gênesis 1-11 Se considerarmos agora os onze primeiros capítulos do Gênesis, de uma só vez, poderemos entender por que Deus, de acordo com os dois autores, o Javista e o Sacerdotal, não pôde criar um mundo perfeito desde o início. Para elaborar esta síntese, devemos “resgatar aquilo que os escritores quiseram dizer e prestar atenção aos gêneros de discurso que eles utilizam” (Pio XII). Parece evidente que esses capítulos pertencem ao mesmo gênero literário das narrativas mesopotâmicas, por eles tomadas como modelo. São narrativas míticas cujo objetivo essencial é o de remontar a antes da criação, com vistas a relatar o projeto de Deus. São João e São Paulo se utilizam do mesmo procedimento: “No princípio era o Verbo...” (Jo 1,1); “Deus nos escolheu em Cristo, antes da fundação 66 do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1,4). Semelhante perspectiva nos coloca em sintonia com o próprio ponto de vista de Deus. Não podemos ir mais longe. Os autores, desde o ponto de partida, compreenderam que “este mundo da existência humana não é nem pode ser aquele que Deus podia criar”.15 Com efeito, desde a abertura da Bíblia, eles afirmam que o mundo atual não é o mundo tal como Deus gostaria. Eles nos proíbem de pensar que Deus é um torturador. Assim sendo, tomam a contrapartida dos deuses mesopotâmicos, que queriam o sofrimento e a morte do homem. Não afirmemos precipitadamente que o mundo atual depende da vontade de Deus. Ao contrário, o que ele quer, é que tudo seja bom: A razão humana se honra ao se insurgir contra certa teologia que pretende introduzir a morte na obra criadora. Pode ser uma criação divina este “corpo de morte” que atormenta São Paulo (Rm 7,24)? Parece-nos de extrema importância denunciar vigorosamente o caráter absurdo e escandaloso da morte dos homens que lança o cético num impasse metafísico; não há pior infelicidade no mundo, e a teologia sempre soube por que: a morte é o pecado (Rm 5,12; 7,23). Foi a morte espiritual que provocou a morte biológica. Nunca se denunciará em demasia o contratestemunho ou o escândalo de uma catequese inspirada nessa teologia. Deus não é sádico. Como se pode invocar seu mistério de amor para cobrir esta obra demoníaca que é a morte biológica (Hb 2,14)?16 Os autores do Gênesis nos proíbem de pensar também que nosso caráter finito e limitado era necessário, que Deus não nos queria de outra maneira. Eles afirmam, logo de cara, que nós fomos projetados para ser à sua imagem: portanto, mestres da matéria, não sujeitos à fadiga, ao sofrimento, à angústia, à morte: Toda a Escritura testemunha que Deus não coloca limites na distribuição de seus dons. Portanto, não há mais finitude na criação (que Deus queria) no princípio do que no Reino (que virá). Assim, cai o argumento relativo à finitude, tão invocado em nossos dias, referente a uma criação fatalmente pecadora e condenada à infelicidade e à morte. Trata-se de se atribuir a Deus, ainda que ligeiramente, o que depende exclusivamente da decisão humana: o homem é criado “pecável” e não “pecador”; seja original ou individual, nenhum pecado é fatal; somente a liberdade humana pode decidir a respeito dele, e não Deus. É ela, portanto, e somente ela, que insere a finitude no mundo.17 De fato, segundo a Bíblia, Deus não nos criou pecadores. No entanto, tanto para o escritor Javista como para o Sacerdotal, o Criador é Iahweh. Ora, o nome de Iahweh foi revelado a Moisés na ocasião da fuga do Egito, no contexto de uma libertação (Ex 3,13-15; 6,2). Iahweh é o Salvador. Transportando o Deus do Êxodo para o começo do mundo, o Javista viu o Criador como aquele que sabia que teria de salvar a criatura. Deus previu que seria rejeitado. Não era tão difícil de o prever: nós estamos sempre esperando pelo homem novo, e sabemos que o homem deste terceiro milênio não será melhor que o homem do milênio passado. Poderíamos exibir o pensamento dos dois escritores da seguinte maneira: – Deus tinha como projeto uma criação perfeita, um paraíso sem sofrimento nem morte. E, no topo de todo universo material, ele quis seres livres: o homem e a 67 mulher, que são a consciência de todo o universo material. Ele nunca quis criar marionetes (Gn 1-2). – Deus viu com antecedência que, de um extremo a outro da história humana, cada um e todos sucumbiriam à tentação de querer chegar à realização por si sós e se fechariam a ele. Com antecedência, ele respeitou tal decisão, não podendo, portanto, fazer um mundo perfeito desde o início. Assim, o homem e a mulher, únicos seres conscientes do mundo material, fizeram com que a criação fosse redimensionada, tornando-se sujeita às forças do mal. O homem e a mulher permitem que as forças do mal os atinjam, a eles e a toda a criação (Gn 3-11). – Todavia, o projeto de Deus permanece. A partir de Gênesis 3, anuncia-se que as forças do mal serão vencidas. O projeto de Deus se concretizará no final dos tempos. Alinhando esses dados da maneira que segue, podemos visualizar a chave de leitura das narrativas míticas que vale para o conjunto dos onze capítulos: Esse modo global de se considerarem as questões fundamentais que tanto nos preocupam, embora não nos forneça todas as respostas ao problema do mal, pelo menos nos revela a face de Deus na Bíblia. Para os autores, Deus viu com antecedência toda a história do pecado da humanidade. Ele nosviu com antecedência centrados sobre nós mesmos. E então, acrescentam eles, com antecedência ele nos respeitou. Portanto, Deus criou o mundo, mas desde o início este mundo foi perturbado pela recusa de toda a humanidade que viria. Para o autor, com efeito, a própria natureza conhece a desordem por causa do homem: “Maldito é o solo por causa de ti” (Gn 3,17). Nenhuma religião vai tão longe no que diz respeito à responsabilidade humana. Logo, “por causa do homem, a criação está submetida à servidão da corrupção (Rm 8,20)”.18 O ser humano é o único, em todo o universo, capaz de tomar uma decisão diante de Deus. A matéria só se torna consciente, pessoal e livre por meio do homem; além disso, é por causa dele que a criação se encontra perturbada pelo mal. Diante dessa afirmação, François Varillon expressa sérias reticências: Não é Deus, dizem, mas a liberdade humana que é responsável pelo mal. Essa afirmação é válida mas 68 insuficiente. É difícil atribuir todas as formas do mal à liberdade humana. Será por eu fazer mau uso da minha liberdade que existem maremotos, erupções vulcânicas, ciclones, epidemias? Contudo, é difícil afirmar que o pecado é causa da existência de todas as catástrofes. Assim sendo, toda tentativa de explicação do mal fracassa.19 Certamente, é muito difícil obtermos uma resposta satisfatória a respeito do mal que nos vem de fora. No entanto, devemos nos lembrar de que, desde o Gênesis, afirma-se a presença das forças do mal na obra da criação. São João escreve que “o mundo inteiro está sob o poder do Maligno” (1Jo 5,19). O domínio de Satanás abrange tudo, de modo que Jesus, no momento da tempestade (ciclone...) sobre o lago de Tiberíades, dirige-se ao vento e ao mar como a um endemoniado: “Silêncio! Quieto!” (Mc 4,39): Jesus trava um terrível combate contra todas as forças que procuram destruir a humanidade. Sua compreensão do mundo vai além da nossa, que permanece presa aos efeitos secundários. Na origem do mal, de todo o mal, Jesus detecta o pecado, personificado em Satanás.20 Os textos do Gênesis constituem uma profunda reflexão sobre o pecado e sobre o lugar do homem e da mulher no mundo. Recém-chegados ao universo, estes participam de tudo o que veio antes deles: o mineral, o vegetal, o animal. Eles são o ápice e a consciência do mundo. Somente eles são uma matéria que pensa e somente eles podem dizer eu existo, e se posicionar diante de Deus. Ora, o exercício dessa liberdade vai na direção de uma recusa. Os textos do Gênesis estabelecem uma ligação entre essa recusa a Deus pela humanidade inteira e a existência do sofrimento e da morte no mundo: “Porque comeste o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” (porque não queres alcançar a plenitude comigo), “na dor darás à luz filhos, ao pó retornarás”. Essa surpreendente afirmação – relativa à questão mais espinhosa e mais misteriosa que pode existir – nos revela que não é Deus que permite o mal no mundo. O homem e a mulher é que permitem que as forças do mal os atinjam. Assim, silencia-se o bem conhecido adágio: “Deus não quer o mal, mas o permite”. O Gênesis revela que são o homem e a mulher que o permitem. “Segue-se que o mal só é atribuível a Deus na medida em que ele respeita a liberdade humana”.21 Jean-Paul Sartre teve razão ao fazer um de seus personagens dizer: “Sustentarás que Deus permite essas tristezas e sofrimentos inúteis? Quanto a mim, eu afirmo que ele é inocente de tudo” (Le Diable et le Bon Dieu – O diabo e o Bom Deus). Um grande perigo nos espreita quando lemos os textos do Gênesis, pois eles nos dão a impressão de que Deus pune e castiga. De fato, é Deus quem pronuncia estas palavras: “na dor darás à luz filhos, ao pó retornarás“; e é ele quem expulsa o homem do paraíso, quem manda o dilúvio, quem dispersa os povos... Daí tiramos a idéia de um Deus vingativo, colérico. Todavia, o que é dado como palavras e gestos de Deus deve ser visto como a situação na qual o próprio homem se coloca. 69 O cenário de Gênesis 3 é bastante revelador a respeito disso. A partir do instante em que a relação com Deus é rompida, o homem e a mulher vêem por si mesmos que estão nus, o que é diferente de constatar a diferença de sexo um do outro! Sem Deus, encontramo-nos verdadeiramente nus, num enorme vazio. Além do mais, o homem e a mulher espontaneamente se escondem, o que significa que são julgados por si mesmos. Deus, por sua vez, procura-os. De sua parte, a aliança nunca é rompida. Ele continua a amar. E a única coisa que ele faz é constatar o que o homem e a mulher decidiram. Conseqüentemente, os versículos: “Porque comeste... na dor darás à luz filhos, ao pó retornarás” (Gn 3,17.16.19), não expressam os castigos ou as punições de um Deus colérico, mas as lamentações de Deus: “Que fizeste?” (Gn 3,13). Todos os males de Gênesis 3 estão ligados a um “porquê” que é com freqüência esquecido. É assim que o Gênesis nos revela um dos traços mais belos do rosto de Deus: ele jamais força as pessoas, mas respeita sempre a decisão do ser humano que quer chegar à realização pessoal sozinho. Então, ele se retira e deixa o homem entregue a suas próprias forças. O homem e a mulher de Gênesis 3 ilustram o que a humanidade se torna por si mesma ao se fechar a Deus. E o mundo atual torna-se o signo da violência que a humanidade causa a si mesma ao querer inventar seu próprio Deus. Tudo o que ocorre de absurdo no mundo deveria nos prevenir a respeito da seriedade do pecado. Se Deus foi livre ao criar, ele não quis diante de si marionetes programadas à sua maneira. Ele não quis nos possuir, passar por cima de nossa vontade. Ele preferiu ser rejeitado a violar a liberdade de cada indivíduo. Se compreendemos bem, isso quer dizer que Deus nos fez únicos juízes e artesãos de nossa própria criação: ele nos outorga, de certa maneira, o poder de nos dar o ser a nós mesmos.22 Portanto, Deus não fixa o destino dos seres humanos. Cada um fixa seu próprio destino. Jean-Paul Sartre tinha razão, mais uma vez, ao reivindicar uma total liberdade ao homem: “O homem será aquilo que ele fizer de si” (O existencialismo é um humanismo). Deus foi impedido de realizar seu projeto desde o início porque foi infinitamente respeitoso em relação a duas liberdades específicas: a das forças do mal, e a dos homens e das mulheres. Aproximamo-nos aqui de um dado essencial do amor. Quando se ama, deve-se reconhecer diante de si uma outra liberdade. O amor não se força. Deus nunca nos arrastará à força para o céu. Se não o queremos ver, ele nos respeitará. Ele não poderá se revelar. Isso significa que o inferno não é uma criação de Deus, mas uma possibilidade humana. E se afirmamos que o inferno não existe, queremos dizer que não somos livres, que Deus faz de nós o que ele quer. Tudo isso é descrito em duas frases de Gênesis 2, em que são afirmadas duas verdades essenciais: Deus quer que participemos de sua vida – “Deus colocou a 70 árvore da vida no meio do jardim” – e deixa o homem e a mulher livres – e também colocou “a árvore do conhecimento do bem e do mal”. A árvore do conhecimento do bem e do mal enfatiza essa total liberdade de cada ser humano diante de Deus. Essa interpretação global de Gênesis 1-11, que implica que Deus não pôde realizar seu projeto desde o início, tem a vantagem de estar de acordo com o que a ciência nos revela nos dias de hoje. Com efeito, nós sabemos que antes do homem, durante milhões de anos, existiu muita violência na natureza. Os animais se devoravam. Desde o início a finitude e o ciclo da morte estiveram presentes. Nunca existiu, portanto, no passado, uma criação perfeita e o paraíso. Quando o homem chegou ao universo, ele já estava sujeito ao sofrimento e à morte. Sua situação era semelhante àquela de toda criança que vem ao mundo: ela ainda não pecou, e no entanto chora, geme e está fadada à morte. Deus já sabe que ela participará do pecado da humanidade e estará sujeita às forças do mal. O primeiro homem, assim como a criança que nasce hoje, chegou a um mundo no qual já havia desordem, desordem estacausada pela recusa de toda a humanidade. Através dos onze primeiros capítulos do Gênesis, uma grande esperança se desenha, apesar do mal. Suas páginas nos apresentam um Deus benevolente. Ele vê toda a humanidade fechada a ele e anuncia uma vitória da humanidade sobre as forças do mal. Ele vê todos os assassinatos e as guerras no mundo, e entretanto põe um sinal em Caim. Ele vê toda a maldade do homem sobre a terra e se mantém em aliança com o homem e com a criação. Ele vê todos os homens, reunidos em sociedade, tentarem se fazer um nome, e diz a Abraão: “Engrandecerei teu nome. Por ti serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,2-3). Ele retoma então seu projeto do paraíso com a realidade da terra prometida. A Bíblia inteira é, assim, uma longa profecia do paraíso. Ela carrega uma grande esperança: apesar do mal que os homens podem fazer, eles não podem impedir Deus de realizar o mundo tal como ele desejava. É precisamente para significar que Deus continua seu projeto apesar do mal, que foi feita uma lista de nomes de homens que vai de Adão a Noé e de Noé a Abraão. Essa lista simbólica e contínua manifesta que Deus permanece em aliança com o homem e que ele continua agindo na História, de modo que o mundo chegue a um bom resultado. No interior dessa lista, os autores fazem a idade dos homens diminuir progressivamente. Quanto mais o mal se propaga na humanidade, menos o homem vive. O mal carrega, portanto, um gérmen próprio de morte. É um modo de chamar à conversão e de dizer que o futuro do homem deveria se realizar com Deus. Pode-se medir a pertinência, a urgência e a atualidade da mensagem de Jesus, síntese perfeita de todo conteúdo de Gênesis 1-11: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Conclusão Os onze primeiros capítulos do Gênesis são as páginas mais profundas do Antigo 71 Testamento. Nelas, o projeto de Deus é anunciado. São páginas que falam de nós, de toda a humanidade. Elas não resolvem o problema do mal, explicando por que fulano adoeceu, por que tal acidente ocorreu, tal injustiça foi feita. Tudo isso nos indica que o mundo está sujeito às forças do mal, mas não temos todas as respostas às nossas questões. Pelo menos, desde as primeiras páginas da Bíblia, não nos é permitido pensar que Deus nos manda provações e nos dá a morte. A palavra e a ação de Jesus denunciam tal equívoco em relação a Deus: ele anuncia que “o Reino está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25,34); e ao curar os doentes e ressuscitar os mortos pelo poder de Deus, revela que Deus é contra toda doença e toda morte. A ressurreição de Jesus é a grande garantia de Deus sobre as profecias do Gênesis. A nova criação já está começada, e um dia, tudo será bom: “Ainda fica em perspectiva para o povo de Deus um repouso de sábado” (Hb 4,9). O importante é que, apesar de toda desordem no universo, esse universo se mantém e avança, e isso, há bilhões de anos. O sol nasce todas as manhãs. Deus é fiel, e esse lado bom do mundo nos conduz a espreitar o que será o mundo futuro. Nota Afirmar que todo o mal não vem de um só homem, no começo de tudo, pode parecer contradizer os textos de São Paulo: “Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo” (Rm 5,12); “pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens” (Rm 5,18). Observemos que, para evocar o pecado das origens, em primeiro lugar, Paulo faz menção apenas ao homem, Adão, e não ao casal. Ele parte de uma interpretação literal do relato do Gênesis. Na verdade, o que ele quer colocar em evidência é a expressão “um só homem”. Sua intenção é afirmar que a salvação se encontra em um só homem, como ele afirma claramente em 1Cor 15,21: “Por um homem vem a ressurreição dos mortos”. Essa é a mensagem que ele quer proclamar. Ora, em seu tempo, os rabinos sustentavam que todo o mal provinha de um só homem, desde o início. Paulo se apóia sobre essa afirmação e não se pronuncia sobre tal ponto de vista. Pelo contrário, ele quer aproveitá-lo para anunciar que a salvação vem de um só homem. Seu objetivo é salientar o papel fundamental de Jesus na salvação de todos. Seu texto comporta o seguinte significado: “Assim como [vós admitis que] pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo [deveríeis admitir que] da obra de justiça de um só resultou para todos os homens justificação que traz a vida” (Rm 5,18). A oração subordinada (vós admitis que...) serve de apoio à oração principal (deveríeis admitir que...). A afirmação de Paulo se encontra evidentemente na oração principal. Todo esse capítulo da Epístola aos Romanos é construído da seguinte maneira: 72 “Se (como o dizeis) pela falta de um só a multidão morreu, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre a multidão” (Rm 5,15); “(como o dizeis) pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, pela obediência de um só, todos se tornarão justos” (Rm 5,19). Paulo quer salientar exclusivamente o papel de Jesus Cristo, apoiando-se sobre o papel atribuído a Adão. Eis por que Paulo se opõe à Lei como único princípio de salvação. Dela, “vem só o conhecimento do pecado” (Rm 3,20). Devemos nos reconhecer como pecadores para sermos salvos. Caso contrário, tentaremos nos salvar por nós mesmos, e é esse o pecado. O essencial, para Paulo, é não nos gloriarmos, mas nos abrirmos a um Outro que salva. Para São Paulo, todo o mal não provém de um só homem. Nesse mesmo capítulo da Epístola aos Romanos, ele enfatiza a responsabilidade de toda a humanidade: “A morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Todos estão representados em Adão. No entanto, esse capítulo afirma com força que, sem o verdadeiro homem Jesus e sem uma abertura sincera a Deus, não há salvação.23 1 Nota da TOB (Traduction Oecuménique de la Bible) [trad. em port.: TEB (Tradução Ecumência da Bíblia)]. 2 Ver o artigo de R. LAVOCAT sobre o “poligenismo e o monogenismo”, em Supplément au Dictionnaire de la Bible, VIII, 4, 1967. 3 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 48 [trad. em port.: Introdução à Bíblia. São Paulo, Paulinas, 1971]. 4 SARTRE, Jean-Paul. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 1966, p. 653-654. [trad. em port.: O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 2005]. 5 GRELOT, Pierre. “Homme qui es-tu?” Les onze premiers chapitres de la Génèse, Cahiers Évangile n° 4. Paris: Cerf, 1973, p. 59 [trad. em port.: Homem quem és? – os onze primeiros capítulos do Gênesis. São Paulo, Paulinas, 1986]. 6 VARILLON, François. Joie de vivre, joie de croire, 2ª édition. Paris: Centurion, 1981, p. 17-23. 7 RAHNER, Karl. Est-il possible aujourd’hui de croire? Paris: Mame, p. 30. 8 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec, Éditions Anne Sigier, 1988, p. 9. Este livro esclarece de modo significativo a maneira de se considerarem os textos do Gênesis. Todavia, cabe se interrogar sobre a perspectiva do primeiro pecado, “que teria ocorrido no céu” (p. 260 e seguintes). 9 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament. 22.ª ed. Paris: Desclée, 1962, p. 360. 10 RAHNER, Karl. Le chrétien devant la mort, Foi vivante n° 21. Paris: Desclée, 1966, p. 28. 11 GELIN, Albert. L’Homme selon la Bible, Foi vivante n° 75, p. 184-185. 12 Hoje, nas faculdades de Teologia, é de bom tom não se alongar muito num assunto tão incômodo quanto este relativo às forças do mal. De fato, são vistos como modernistas aqueles que consideram tal assunto 73 completamente ultrapassado. Professores, até mesmo padres, afirmam que o poder de exorcizar deveria ser pura e simplesmente retirado dos sacerdotes, pois a Psicologia, a Psiquiatria e a Medicina podem muito bem explicar hoje, por outras razões que não o demônio, o fenômeno que se chamava “possessão”. A partir do século XIX, com efeito, passou-se a repetir que um dia “a ciência será capaz de responder a todas as perguntas”. Trata-se de uma afirmação um tanto precipitada, que traduz o mal-estar experimentadoquando não se consegue perscrutar certos fenômenos que fogem ao domínio da ciência, especialmente os milagres e os casos de possessão. 13 AMORTH, Dom Gabriel. Nouveaux récits d’un exorciste. Paris: Éditions F. X. de Guibert, 1993, p. 5-8 [trad. em port.: Novos relatos de um exorcista. São Paulo: Palavra & Prece, 2008]. 14 MALRAUX, André. Les chênes qu’on abat. Paris: NRF, Gallimard, 1971, p. 58. 15 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec: Éditions Anne Sigier, 1988, p. 8. 16 Ibid., p. 149. 17 Ibid., p. 132-133. 18 Catecismo da Igreja Católica, n° 400. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 113. 19 VARILLON, François. Joie de vivre, joie de croire. 2.ª ed. Paris: Centurion, 1981, p. 270-271. 20 POTIN, Jean. Jésus, ses idées, son action. Paris: Centurion, 1973, p. 50. 21 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec: Éditions Anne Sigier, 1988, p. 90. 22 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec: Éditions Anne Sigier, 1988, p. 225. 23 Ler a esse respeito as observações do Padre Stanislas LYONNET em Les étapes de l’histoire du salut selon l’épitre aux Romains. Paris: Cerf, 1969, p. 55-81. Do mesmo modo, o artigo de Leonard AUDET, c.s.v., “Une lecture de Romains 5,12-21”, em Prêtre et Pasteur, vol. 78, n°11, 1975, p. 621-636. 74 SEGUNDA PARTE DE GÊNESIS 12 AOS LIVROS DE SAMUEL AS PROMESSAS A ABRAÃO E A DAVI 75 Um projeto único, que continua Os onze primeiros capítulos do Gênesis – repletos de imagens e alegorias – nos permitiram visualizar a amplitude e a beleza do projeto eterno de Deus para toda a humanidade (Gn 1-2). De acordo com as últimas páginas do Apocalipse, a realização desse projeto ainda está por vir. Assim, ela é transferida para o fim dos tempos, em virtude do infinito respeito de Deus para com a vontade dos homens e das mulheres que querem chegar à realização por si sós. O pecado desses homens e mulheres é o de quererem ser auto-suficientes. Eles rejeitaram a Deus, permitindo que as forças do mal os atingissem, a eles e a todo o universo material. Daí provém todo o mal no mundo (Gn 3-11). O Novo Testamento anuncia, porém, que a realização do projeto de Deus, prevista para o fim dos tempos, já foi inaugurada com a ressurreição de Jesus. Depois de ter conhecido este mundo limitado – marcado por fadiga, sofrimento, morte, mentira, ódio, corrupção, violência, incompreensão –, Jesus toma posse do universo novo, no qual o ser humano viverá em harmonia consigo mesmo, com os outros, com o mundo e com Deus. Se as profecias do Gênesis já se cumpriram na vida de um homem, as duas palavras-chave de Gênesis 1-2 não são palavras vãs: Deus quer uma criação perfeita ou um paraíso para toda a humanidade. Tal é a sua vontade, que ele manifestou de modo definitivo ao ressuscitar Jesus. Assim, a Bíblia foi muito bem arquitetada: as duas primeiras páginas já contêm todo o projeto de Deus e as duas últimas o transferem para o devir, para a eternidade de Deus, porém com o acontecimento decisivo da ressurreição de um homem, ocorrida dentro do nosso tempo: O projeto de Deus, anunciado desde o princípio, mostra que a Bíblia se interessa prioritariamente pelo significado da existência humana. A religião mesopotâmica e todas as religiões também se interessam por isso. Todavia, diferentemente da projeção do sonho humano que se encontra no personagem Uta-Napishtim, levado pelos deuses ao paraíso, na epopéia de Gilgamesh, a ressurreição de Jesus é um fato real, ocorrido em nossa História. O Ressuscitado apareceu, e se mostrou a testemunhas. Esse acontecimento único faz com que “o futuro esteja definitivamente garantido”.1 Não se pode mais dizer: “Ninguém voltou do outro lado”. Com Jesus, as forças do mal e a morte foram vencidas! 76 Por esse motivo, o Novo Testamento tem a ressurreição de Cristo como cerne e ponto de partida. Eis a Boa Notícia. Sem esse acontecimento, poderíamos continuar sendo balançados pelas proposições dos gurus de todo tipo, e “a própria fé não se nutriria da substância de nenhum acontecimento poderoso o bastante para superar qualquer desfalecimento e qualquer envelhecimento, e nós permaneceríamos sempre aquém do que nos promete a vida”.2 Esse acontecimento é fundamento de uma esperança decisiva. Dando início a esta segunda parte, com certeza não nos esqueceremos do projeto fundamental de Deus! Esse projeto é retomado precisamente com as promessas que Deus dirige a dois homens: Abraão e Davi. Abordaremos um grande conjunto que compreende o livro do Gênesis, a partir do capítulo 12, até os livros de Samuel. Entraremos na história judaica, de modo que os personagens já não serão mais simbólicos como em Gênesis 1-11. Como vimos na introdução, três palavras surgem com Abraão: um povo, uma terra, uma aliança; e três outras com Davi: uma cidade (Jerusalém), um Templo, um rei. Do ponto de vista histórico, a progressão se efetuou da seguinte maneira: os descendentes de Abraão se tornaram um povo numeroso; eles voltaram ao país de seus ancestrais; Deus esteve com eles, fazendo-os sair do Egito e conduzindo-os à terra prometida; nela, Davi fundou uma capital, a cidade de Jerusalém; ele formou o projeto de edificar ali um Templo para Deus, que seu filho Salomão construiu; e Israel recebeu uma forma de governo centrado na figura de um rei. Ocorre ao escritor Javista, que se situa no tempo de Salomão, ou seja, no período final dessa progressão, de ler esse trecho da história como o tempo das promessas de Deus. Tal é o sentido desse período, que vai de Abraão a Davi. Por esse motivo, não podemos fragmentá-lo. De Abraão a Davi é o período inicial da história judaica, como o Evangelho de Mateus nos mostra (Mt 1,17). Ora, as palavras relativas a esse período estão intimamente ligadas a Gênesis 1-11. Com efeito, as realidades presentes no relato do jardim do Éden ecoam nas promessas direcionadas a Abraão e a Davi. Deus tem apenas um projeto: Assim, as duas primeiras partes do Antigo Testamento: Gênesis 1-11 e Gênesis 12 até os livros de Samuel, contêm as bases de toda a Bíblia: o projeto de Deus para a 77 humanidade, e em seguida, as promessas a Abraão e a Davi. Passa-se, assim, do projeto do paraíso, concebido para toda a humanidade, à promessa de uma terra, dirigida a Abraão, e à promessa de um reino, dirigida a Davi. Enfatizemos novamente a extraordinária densidade da mensagem de Jesus, ao proclamar: “O Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15; Mt 4,17). Esse Reino equivale, para ele, à “terra recebida como herança” (Mt 5,4) e corresponde ao paraíso, pois está “preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25,34). Pode-se igualmente observar como os autores relacionaram Gênesis 12 a Gênesis 1-11. Em primeiro lugar, uma lista genealógica integral vai de Adão a Noé e de Noé a Abraão (Gn 5 e 10; 11,10-26). Além disso, a palavra “aliança” reaparece, quando se trata de Noé e de Abraão (Gn 9,12-17;17,2). Isso significa que, por meio da história de Abraão, Deus mantém seu projeto para a humanidade. Em seguida, os onze primeiros capítulos culminam no gigantesco projeto de todos os homens, que querem fazer “um nome” para si, construindo “uma torre cujo ápice penetre os céus” (Gn 11,4). Ora, o que a humanidade não pode realizar por si só é retomado no capítulo 12 por esta palavra de Deus a Abraão: “Eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma bênção” (Gn 12,2). Deus procura alguém que não tem a pretensão de se fazer um nome por si só. Para além de Abraão, ele já pode visualizar a vinda de seu Filho, aquele que confiará plenamente nele. Com efeito, a vitória sobre as forças do mal, já prometida em Gênesis 3,15 e que deve vir pela descendência da mulher, será realizada pela descendência de Abraão, a qual, finalmente, designa “um só” (Gl 3,16), ou seja, Cristo. O projeto de Deus de Gênesis 1-11 continua em Gênesis 12, mediante a história de Abraão e de seu povo. No início de seu Evangelho, Mateus também relaciona essas duas primeiras partes da Bíblia, nestas palavras tão sintéticas: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1).“O livro da origem de...” é uma alusão a Gênesis 2,4 e Gênesis 5,1. Mateus remete, assim, ao “livro da origem do céu e da terra” e ao “livro da descendência de Adão”. Ele evoca o projeto de Deus desde o princípio, e, pela referência a “Jesus”, põe-nos diante do Novo Adão, para o qual o projeto divino se realizou. A expressão filho de Davi, filho de Abraão aponta para os dois personagens do povo judeu que receberam as promessas que deram um novo vigor ao projeto de Deus. Mateus anuncia desde o começo que, em virtude da vinda de Cristo – o Messias, aquele que venceu a morte – , o acesso à criação perfeita, ou ao paraíso, ou à terra prometida, ou ao Reino Celeste, já se efetivou. Essas palavras-chave são inauguradas pelo primeiro autor da Bíblia, o Javista, cujos sucessores terão a oportunidade de precisá-las, embora seja ele a estabelecer os fundamentos da Sagrada Escritura, ao interpretar a história da humanidade em geral, e a história judaica que se desenvolve de Abraão a Davi. É sobre esses fundamentos que Israel baseará a continuidade de sua história. Assim, essa parte da Bíblia que vai do Gênesis até os livros de Samuel é um 78 retorno ao passado, um passado que remonta a épocas tão distantes quanto a própria eternidade de Deus, pois o Deus das promessas é o Deus que quis o paraíso desde o princípio. Deus mantém, portanto, um único projeto. De Gênesis 12 aos livros de Samuel: um olhar sobre o passado de Israel O Javista pôde compor a trama geral do período que compreende Gênesis 12 até os livros de Samuel, pois estava justamente em atitude de considerar a época entre Abraão e Davi. Abraão viveu no início desse período, por volta de 1850 a.C.; Davi se insere no final, entre 1010 e 970. Se o Javista escreve no tempo de Salomão, por volta de 930, ele escreve 900 anos após Abraão! Eis a trama histórica desse período, com os principais acontecimentos, os personagens históricos e os livros cujas bases foram lançadas pelo Javista: O Javista lançou um olhar sobre o passado de Israel, interpretando-o com os olhos de Deus. Ele compreendeu aquilo que Deus havia começado com Abraão e aquilo que havia realizado até a época de Davi. Ele não altera nada: apenas explicita o que já estava exposto nesse período histórico no qual Deus se tornou presente. A história de Israel, lugar da revelação de Deus A partir de Gênesis 12, é através da história de Israel que Deus se revela, e assim será até que o Novo Testamento seja concluído. A partir daí, a Bíblia passa a ser a principal referência para o conhecimento verdadeiro de Deus. Trata-se de um fato único: a história de um povo se torna o lugar da revelação de Deus. Certamente Deus se deu a conhecer através de outras religiões. Mas a experiência que os judeus tiveram foi aquela que Deus legitimou ao ressuscitar seu Filho: 79 É preciso lembrar que o único ponto da terra e do tempo no qual a experiência humana de um povo foi plenamente integrada à revelação de Deus, no qual a linguagem forjada a partir dessa mesma experiência foi incorporada à própria Palavra de Deus, é a experiência histórica de Israel, desde o chamado de Abraão, até a conclusão da época dos apóstolos.3 Se detalharmos um pouco o fio condutor dos acontecimentos que ocorreram de Abraão a Davi, o conjunto pode se resumir a poucas palavras, de modo que podemos nos perguntar como Deus ainda pode nos falar através de uma história tão corriqueira. Que cada um avalie por si mesmo: um dia, um nômade de nome Abraão se desloca em direção à terra de Canaã; seu filho Isaac e seu neto Jacó se instalam ali um após o outro; esses três homens se tornam “os pais” ou os patriarcas do povo judeu; Jacó recebe o nome de “Israel”; um de seus doze filhos, José é vendido pelos irmãos e vai parar no Egito; tornando-se uma espécie de primeiro ministro do Faraó, ele manda trazer seu pai Jacó e as famílias de seus irmãos; os descendentes de Jacó permanecem no Egito por volta de 400 a 430 anos; ao cabo desse longo período, o povo judeu é obrigado a pagar altíssimos tributos; conduzido por Moisés, o povo deixa o Egito e caminha pelo deserto durante 40 anos; com Josué, os hebreus conquistam a terra na qual haviam estado seus antepassados; a permanência na terra de Canaã se prolonga por 200 anos, com os “Juízes”; finalmente, como todos os povos, eles criam uma organização social mais desenvolvida, que toma a forma de uma monarquia, atingindo seu apogeu com Davi e seu filho Salomão, tendo o primeiro fundado uma capital, Jerusalém, e o segundo, construído um Templo para Deus. Novecentos anos de história em algumas linhas e aparentemente nada de extraordinário. E no entanto, um primeiro escritor, depois um segundo, depois um terceiro, depois um quarto... Todos retornando alternadamente a tais acontecimentos, para deles extraírem cada vez mais sentido, o que também nós podemos fazer com alguns elementos de nossas próprias vidas, que hoje podemos considerar bastante ordinários, mas aos quais amanhã, quando estivermos mais velhos, poderemos atribuir importância maior: um encontro, uma palavra ouvida, uma amizade, uma decisão tomada, um golpe duro, um alívio... Quatro tradições referentes ao período em questão De Gênesis 12 aos livros de Samuel, quatro tradições estão presentes. Pudemos encontrar duas delas em Gênesis 1-11: as tradições Javista e Sacerdotal. Além dessas duas, existem também a tradição Eloísta e a tradição Deuteronomista, como são designadas pelos especialistas. Pode ser útil distingui-las, em algumas situações, mas não devemos fazer dessa distinção um objetivo em si mesmo. Como escreve Divo Barsotti: “O que importa para mim não é esta ou aquela tradição – Javista, Eloísta, Sacerdotal – mas o que delas procede como resultado”. 4 Essas quatro tradições se situam por volta de: – 950: o Javista, no tempo de Davi e de Salomão; 80 – 750: o Eloísta, nas tribos do Norte, depois da fragmentação do reino, com a morte de Salomão (931); – 622: o Deuteronomista, antes do exílio, com a reforma no tempo do rei Josias e do profeta Jeremias; – 550: o Sacerdotal, durante o exílio, logo após Ezequiel, um sacerdote. O último escritor viveu, portanto, 1300 anos depois de Abraão. Essas quatro tradições surgem durante o período dos reis, que também é a época dos profetas. O último compilador da Lei e dos Profetas é o escritor Sacerdotal. Podemos reconhecer os quatro autores por meio de algumas particularidades, como as expressões introdutórias: – o Javista: Iahweh disse... – o Eloísta: A palavra de Iahweh foi dirigida... O Anjo de Iahweh lhe disse... – o Deuteronomista: Amarás Iahweh teu Deus... – o Sacerdotal: Deus disse... Salientemos as principais características de cada um. Já observamos que o Javista apresenta um Deus familiar que age como um homem: ele cria a partir da argila como um oleiro ou fecha a porta atrás de Noé. O Eloísta preserva mais a transcendência de Deus, substituindo a fórmula “Iahweh disse”, que é muito direta, por: “A palavra de Iahweh foi dirigida a...”. Muitas vezes, essa palavra chega ao homem por meio de uma visão ou de um sonho, o que ainda preserva a transcendência de Deus. Além disso, “a fim de marcar melhor a distância entre Deus e o homem, o Eloísta fala livremente de um Anjo, ou mesmo de um homem (Gn 22,11-18; 32,23-33)”.5 O Deuteronomista insere a religião no plano de uma relação pessoal interior; o amor se torna a essência da Lei: “Amarás Iahweh teu Deus de todo o teu coração”; o estilo é caloroso e a formulação assume a forma de um diálogo: “Escuta, Israel...”. Quanto ao Sacerdotal, vimos que ele retrata um Deus transcendente que cria exclusivamente por meio de sua palavra. Esse autor gosta de genealogias, dados numéricos, leis, prescrições litúrgicas detalhadas. Isso é compreensível: depois do exílio, não há mais rei, de modo que os sacerdotes passam a governar a nação. Por isso, Tradição Sacerdotal. Todas essas perspectivas sobre Deus são complementares. Ele pode ser percebido ao mesmo tempo como um Deus familiar, próximo, pessoal, interior, e como um 81 Deus grandioso,transcendente, exterior ao mundo, o “Todo-Outro”. A Psicologia da Religião descobriu que esses dois elementos estão presentes no mundo inteiro, em todas as religiões: um Inca que adora a Deus por meio do Sol percebe que Deus está fora dele, distante, mas ao mesmo tempo próximo, pois o aquece. Da mesma maneira, o Deus de Jesus é grandioso, é “o Senhor do céu e da terra”, mas está perto de nós, ao ponto de aprendermos com o Filho a chamarmos a Deus de Pai (Mt 11,25). Essas constatações têm grande importância. Com efeito, podemos observar que os autores utilizam expressões diferentes, mas têm um único objetivo: transmitir a Palavra de Deus. Eles fazem Deus falar. Por isso encontramos expressões como estas, do Gênesis aos livros de Samuel: “Iahweh disse ao homem, à mulher, a Noé, a Abraão, a Isaac, a Jacó, a José, a Moisés, a Josué, a Davi, a Salomão”. Isso não significa que as pessoas realmente tenham ouvido Iahweh, ou o Anjo de Iahweh, ou Deus lhes falar ao ouvido. Toda a Bíblia foi escrita, sem a necessidade de que as pessoas tenham visto e ouvido Deus. Portanto, a Bíblia não foi ditada diretamente do alto. A prova disso é que cada autor tem seu estilo, seu plano, seu modo de conceber Deus. E Deus respeita isso. Alguns autores da Bíblia chegaram a corrigir certos aspectos de uma teologia em curso na época. No tempo de Josué e de Davi, por exemplo, a guerra era considerada santa: Deus “combatia por Israel” e “o livrava de todos os seus inimigos” (Js 23,10; 2Sm 5,19; 7,1). Observemos que isso permanece inteiramente verdadeiro e atual quando consideramos esses textos sob a ótica da nossa luta contra as forças do mal. Deus pode verdadeiramente combatê-las por nós e tanto melhor é que ele possa nos livrar delas! No entanto, a Bíblia rejeitou o Deus da guerra, um Deus de violência.6 Assim, quando Davi tem o projeto de construir um Templo, o autor do livro das Crônicas representa Deus falando desta maneira: “Tu derramaste muito sangue e travaste grandes batalhas; tu não construirás uma casa ao meu nome, pois derramaste muito sangue sobre a terra. Teu filho será um homem de paz. Ele construirá uma casa a meu nome” (1Cr 22,8-10). Uma vez que o Antigo Testamento foi escrito no período de mil anos, é natural que a teologia e a moral evoluam! O próprio Jesus aprofundou a palavra de Deus dirigida a Moisés: “Ouvistes que foi dito aos antigos (...). Eu, porém, vos digo” (Mt 5,21-22). Deus acompanha os rumos tomados pelo povo hebreu e os costumes peculiares a determinadas épocas. Porém, no conjunto dos textos, sobressaem uma convergência e uma unidade tamanhas, no que diz respeito ao rosto de Deus, que o próprio Jesus, ao trazer a revelação definitiva de Deus, viverá da experiência de Deus transmitida pela Lei e pelos Profetas. Aquele a quem ele chama seu Pai é o Deus que quer dar o paraíso, o Deus das promessas, o Deus que ressuscita os mortos. É o Deus do Antigo Testamento. Jesus não veio para “revogar a Lei ou os Profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). Na base da Bíblia, há homens inspirados, que viveram uma experiência de Deus e que reconheceram Deus agindo nos episódios da história de Israel. Foi-lhes dada a 82 tarefa de fazer uma leitura religiosa de tais acontecimentos. A totalidade dos livros que abarcam o período que se estende de Abraão a Davi compreende o seguinte conjunto, cujos cinco primeiros livros constituem a Lei de Moisés, a Torah, ou o Pentateuco (Penta, em grego, significa “cinco”): As quatro tradições presentes nesses livros sobressaem mais em certos lugares. Desse modo, encontram-se as tradições Javista, Eloísta e Sacerdotal em Gênesis 12- 50, no Êxodo e nos Números. A tradição Sacerdotal é predominante no Levítico, sendo de Levi a tribo dos sacerdotes. A tradição Deuteronomista é, evidentemente, aquela mediante a qual foi escrito o livro do Deuteronômio (em grego, deutero significa “segundo”, e nomos, “lei”). Trata-se da atualização da lei efetuada no tempo de Jeremias. Esta tradição vem completar a tradição Javista, no que diz respeito à elaboração dos livros de Josué, dos Juízes, de Samuel e dos Reis. No coração desse período: as promessas de Deus Voltemos ao essencial: as promessas a Abraão e a Davi. Estudaremos com maior atenção os seguintes livros: Gênesis 12-50, Êxodo, Josué, Juízes e os dois livros de Samuel, evocando apenas de passagem o Levítico, os Números e o Deuteronômio, que na verdade são uma retomada do Êxodo, tratando essencialmente da peregrinação do povo pelo deserto, com Moisés. Estudando Gênesis 12-50, percorreremos logo mais a trajetória geral das promessas dirigidas a Abraão, trajetória que se estenderá até o Apocalipse. Acompanharemos em seguida, etapa por etapa, o aprofundamento dessas promessas, considerando o Êxodo, Josué e os Juízes. Os livros de Samuel nos apresentarão as promessas a Davi. 1 SCHLIER, Heinrich. La résurrection de Jésus-Christ. Paris: Salvator, 1969, p. 68. 2 Ibid., p. 53. 3 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament, 2.ª ed. Paris: Desclée, 1962, p. 432. 4 BARSOTTI, Divo. Spiritualité de l’Exode. Paris: Téqui, 1982, p. 67. 5 Introduction au Pentateuque. In: TOB (Traduction Oecuménique de la Bible). Paris: Cerf, 1975, p. 33 [trad. em port.: TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia). São Paulo : Paulinas, 1996]. 6 Ver o livro de Guy LABOUÉRIE: Dieu de violence ou Dieu de tendresse? Paris: Cerf, 1982. 83 1 GÊNESIS 12-50 Rememorar os nomes de Abraão, Isaac e Jacó pode parecer bastante ultrapassado. Para a maioria das pessoas, esses personagens se perderam na Antiguidade. É fato que a explicação dada a Gênesis 12-50 não foi sempre pertinente. Assim, um professor universitário, num curso de 45 horas, conseguiu analisar quatro virtudes de Abraão, considerando apenas quatro versículos. Nenhuma palavra sobre as promessas de Deus, que no entanto se repetem como um refrão, a cada página. Esse professor reproduziu quatro notas isoladas, sem levar em conta o conjunto da sinfonia. Os grandes temas de fundo que repercutem por toda a Bíblia não foram por ele indicados! Lançaremos nossa atenção sobre dois pontos em particular: A) A história dos patriarcas de Israel; B) As três promessas e o desenvolvimento delas ao longo da Bíblia. Descobriremos que essas promessas têm um alcance tamanho, que ainda não se realizaram plenamente para nós. Vistos dessa maneira, esses capítulos do Gênesis não nos trarão à memória apenas o passado, mas iluminarão nosso presente e nosso futuro! A) A história dos patriarcas de Israel – Abraão, Isaac e Jacó: uma história real Ao falarmos de Abraão, estamos falando de uma história real, ocorrida por volta de 1850 antes de Cristo. Do ponto de vista da História, é um tempo bastante recente: as pirâmides do Egito já haviam sido concluídas um milênio antes (2800 a.C.)! Em primeiro lugar, Abraão é reconhecido como o patriarca de dois povos: o povo judeu e o povo árabe. Os judeus descendem de Jacó, nascido da união de Abraão e Sara, sua esposa. Os árabes descendem de Ismael, filho de Abraão com Agar, sua serva. A arqueologia vem mostrando progressivamente que as evidências históricas a respeito de Abraão e de seu clã são bastante sólidas. Estes são alguns dados gerais: • Os textos da Bíblia, apesar de terem sido escritos 900 anos depois de Abraão, afirmam que ele saiu da cidade de Ur, na Baixa-Mesopotâmia. Hoje nós sabemos que um período conturbado acompanhou o declínio da dinastia de Ur, por volta de 1900 antes de Cristo. Um fluxo migratório se dirigiu a Harã, onde viviam sociedades seminômades de mesma origem étnica. Estes dois lugares, Ur e Harã, são 84 mencionados na Bíblia: “Taré tomou seu filho Abrão, seu neto Ló, filho de Arã, e sua nora Sarai, mulher de Abrão. Ele os fez sair de Ur dos caldeus para ir à terra de Canaã, mas, chegados a Harã, aí se estabeleceram. Taré morreu em Harã” (Gn 11,31- 32). • Harã é um vilarejo da Turquia que existe ainda hoje. Seus habitantes vivem de acordo com um modo de vida que permanece praticamente o mesmo desde a época de Abraão. • O clã de Abraão,instalado em Harã, faz parte de um conjunto de várias sociedades de origem aramaica. A Bíblia diz que Jacó era um “arameu errante” (Dt 26,5). Seu tio Labão também é assim designado: “Labão, o arameu” (Gn 31,20.24). • Entre 1900 e 1700, alguns desses grupos se deslocam para a Síria e para a terra de Canaã. Eles são nomeados Habiru, “os homens da areia”. É provável que a designação Hebreus seja uma derivação desse termo. O termo Habiru designaria um grupo étnico dentro do qual se encontram os ancestrais dos judeus. A migração de Abraão parece ter coincidido com os deslocamentos dessas sociedades. A Bíblia menciona que ele deixa sua “terra” e sua “parentela” (Gn 12,1). • O modo de vida dos povos Habiru é o mesmo dos povos seminômades que viviam em tendas, instalavam-se por algum tempo em determinado local e em seguida se transferiam a outra região. São sociedades itinerantes. Na Bíblia, fala-se da terra dos patriarcas como “a terra das peregrinações” (Gn 17,8). Sabe-se que a estabilização do povo hebreu só se daria no tempo de Josué. Tais grupos de seminômades eram constituídos por pastores de pequenos rebanhos que se deslocavam sazonalmente. Para os rebanhos de ovelhas e carneiros, era necessário que os itinerários fossem curtos, as fontes de água freqüentes, além de que houvesse boas pastagens. Por isso, os que criavam ovelhas e carneiros peregrinavam pelas regiões menos desérticas. Trata-se exatamente da zona atribuída pela Bíblia a Abraão: Harã, Siquém, Betel, Hebron, Bersabéia. Cada grupo precisava garantir seus direitos sobre os poços de água potável (Gn 21,25; 26,18), discutir com os outros nômades pelo direito de passagem em regiões de pastagem (Gn 32-33). Existe ainda a possibilidade de se ter acesso a propriedades particulares: Abraão compra o campo de Efron, em Macpela, para sua tumba de família (Gn 23), e Jacó, um campo perto de Siquém (Gn 33,19). A comitiva de Abraão mantém os laços com Harã: Abraão escolherá para seu filho uma esposa vinda de sua parentela (Gn 24,4; 47,43; 48,1-2). Todavia, tendo optado realmente pela terra de Canaã, ele teve de adotar um novo idioma: Sarai se torna Sara e Abrão, Abraão. 85 O Crescente fértil, formado pelo litoral do Mediterrâneo e pela região da Mesopotâmia atravessada por dois grandes rios: o Tigre e o Eufrates. A migração de Abraão: de Ur a Harã e de Harã à terra de Canaã. Tudo isso concorda com as descobertas relativamente recentes de Ugarit e de Mári, que nos permitem reconhecer a integração das tradições patriarcais na vida do segundo milênio antes de Cristo tal como nós a conhecemos hoje. Os costumes de Abraão e de seus descendentes se assemelham aos costumes das sociedades seminômades, proprietárias de carneiros e cabras, que circulam ao longo do “Crescente 86 fértil”. Elas vivem em contato parcial com populações sedentárias, com as quais mantêm relações ora pacíficas, ora bélicas.1 • Alguns dos costumes atestados pela Bíblia já eram comuns em regiões da Mesopotâmia. Por exemplo, quando uma mulher é estéril, ela pode apresentar a seu marido uma serva da qual continuará a ser patroa. É o caso de Sara e Raquel, as esposas de Abraão e Jacó (Gn 16,2; 30,3-9). Tal costume, por si mesmo, é suficiente para provar que Abraão veio realmente da Mesopotâmia. Esse costume se encontra gravado numa estela do rei mesopotâmico Hamurábi, que havia mandado codificar as leis de seu reino. O mesmo costume também se encontra em textos provenientes da cidade de Nuzu. Outro exemplo: o consentimento de Rebeca é pedido antes de ser dada em casamento a Isaac, casamento este arranjado pelo irmão da noiva, Labão (Gn 24,58). Um contrato de casamento encontrado em Nuzu tem gravadas as seguintes palavras: “Com meu consentimento, meu irmão me deu em casamento a...”. Da mesma maneira, em Nuzu, um homem havia cedido seu direito à herança de um jardim em troca de três carneiros. Segundo a Bíblia, Esaú vende seus direitos de primogenitura. Assim, enquanto filho mais velho, ele vendeu seu direito à herança. Além disso, a filha de Labão, Raquel, rouba os ídolos domésticos de seu pai (Gn 31,19.30-35). Em Nuzu, isso era considerado um direito de herança. • Os textos da Bíblia conservam igualmente a marca do Deus El, presente desde muito tempo nas religiões semíticas. El seria o Deus comum, primitivo e muito provavelmente único dos povos semitas, dos quais provêm os ancestrais de Israel. No Gênesis, menciona-se “El-Elyon”, que significa “Deus Altíssimo” ou “Deus dos Céus” (Gn 14,19); “El-Shaddai”, ou seja, “Deus da Montanha” (Gn 17,1); “El-Olam”, “Deus de Eternidade” ou “Deus do Mundo” (Gn 21,33); “El-Roí”, que quer dizer, “Deus de visão” (Gn 16,13). As descobertas de Ras-Shamra nos tornaram possível um conhecimento maior do aspecto solene e universal desse Deus supremo El. Ora, na Bíblia, é o nome de “Iahweh” que se estabeleceu, especialmente a partir da saída do Egito (Ex 3,13-15; 6,2-3). Se a Bíblia mantém a marca do Deus El, isso quer dizer que ela conserva elementos muito antigos, o que não impede que o nome de Iahweh também seja muito antigo: Já estaria ele em uso, no tempo de Abraão, em sua forma inteira ou em sua forma abreviada, como Iah, Iaho ou Iahu? É possível supor que Iahweh tenha sido primeiramente uma das divindades dos antepassados de Abraão: Gn 4,26; 9,26; 15,6-7; 22,14; Ex 3,15.18; 4,5 dizem claramente que Iahweh era o Deus dos antepassados hebreus.2 • Na Mesopotâmia, antiga pátria de Abraão, um velho ritual era usado para efetivar um contrato ou uma aliança entre dois sócios: os envolvidos no contrato passavam no meio de animais divididos pela metade. Aquele que não respeitasse seu compromisso, teria o mesmo destino que tiveram os animais. A Bíblia menciona esse velho ritual, ao relatar a aliança de Deus com Abraão (Gn 15,9-18), com a diferença de que somente Deus passa entre os animais partidos ao meio. O autor quer salientar 87 que, quando se trata de uma promessa, apenas um dos envolvidos se compromete. E isso mostra a gratuidade de Deus. A terra prometida, bem como o paraíso, são dons de Deus. Todas essas indicações mostram que, por trás dos textos da Bíblia referentes à história dos ancestrais de Israel, existem antiqüíssimas tradições orais, tradições de família, transmitidas de geração em geração. O argumento principal dos especialistas, com vistas a sustentar a historicidade dos ancestrais de Israel, é muito simples, mas também bastante consistente: os autores da Bíblia, que escrevem pelo menos 900 anos depois dos acontecimentos relatados, não vivem mais de acordo com o modo de vida, os costumes e a moral de seus antepassados, além de não chamarem mais a Deus do mesmo modo. Assim, “os relatos patriarcais atestam um real enraizamento no meio em que viveram os ancestrais de Israel”.3 A atmosfera que encontramos nos escritos de Gênesis 12-50 é particular: tais capítulos estão repletos de cenas da vida pastoril. É evidente, portanto, que a menção às migrações, com os nomes das cidades da Mesopotâmia e da “terra de Canaã”, o modo de vida dos seminômades, os hábitos e costumes que prevaleciam na Mesopotâmia: tudo isso não poderia ser inventado pelos escritores. Como fundamento dos textos, encontram-se acontecimentos reais, ainda que todo esse material seja retomado, depois de muito tempo, por quatro autores, segundo a síntese teológica própria a cada um. Portanto, Abraão, Isaac e Jacó estão bem enraizados na História. Aqui estamos nos referindo a um passado autêntico, que remonta aos idos de 1850 antes de Cristo. A mesma realidade histórica está presente na história de José, relatada em Gênesis 37-50: “Numerosos traços do relato testemunham certo conhecimento das coisas e dos costumes do Egito antigo, tais como os documentos egípcios no-los revelam”.4 De qualquer maneira, é hora de ver como os escritores releram tais acontecimentos. B) As promessas e o seu desenvolvimento na Bíblia A partir de Gênesis 12, a Palavra de Deus se encarna nas realidades mais humildes: Abraão tem um filho, vive num pedacinho de terra e Deus o acompanha aolongo de toda a sua vida. Origens extremamente modestas às quais os profetas remeterão em horas sombrias, entre eles o segundo Isaías, durante o exílio na Babilônia: “Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu à luz. Ele estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei” (Is 51,2). O Deus da Bíblia está utilizando uma linguagem simples através da história de Abraão e de seu povo. Mais tarde, ele continuará a se revelar dessa maneira, por meio do nascimento de uma criança, no pequeno povoado de Belém. Essa criança cresceu em Nazareth, onde exerceu a carpintaria por mais ou menos trinta anos, indo parar numa cruz. Em verdade, a Sabedoria de Deus não imita a sabedoria dos homens. Essa linguagem tem o grande mérito de não forçar ninguém. Deus jamais se impõe. Ele 88 fala discretamente. Ele realiza as maiores coisas por meio de realidades e personagens insignificantes: “o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é” (1Cor 1,28). Aquilo que começa com Abraão assumirá dimensões que somente Deus poderia conhecer desde o princípio. Por isso, ele deu aos escritores o tempo necessário para que pudessem compreender: pelo menos 900 anos! No tempo de Davi e Salomão, era possível remontar a 900 anos para trás e constatar que: – os descendentes de Abraão se tornaram numerosos, – eles habitavam a terra de seu patriarca, – Deus havia estado com eles ao longo de sua história. É por isso que três palavras importantes são postas em evidência com Abraão, à medida que correspondem a três promessas: um povo, uma terra e uma aliança. Não relevá-las equivaleria a passar ao largo do essencial. Em Gênesis 12-50, graças à tripla promessa constantemente renovada, todo o período da história dos antepassados de Israel é compreendido como o tempo da promessa.5 Lembremos que essas três promessas retomam o projeto de Deus apresentado em Gênesis 2: Portanto, Deus continua a semear uma esperança. A leitura da Bíblia nos torna certos de que não somos os primeiros a viver a precariedade da vida, de que cada geração vive as mesmas incertezas e de que Deus está sempre presente para confirmar que a vida tem um sentido. Toda a Bíblia anuncia o mundo que Deus quer realizar. Se as analisarmos de perto, veremos que as três promessas respondem às três questões mais importantes: – Quem somos? Um povo, e não seres isolados. – Para onde vamos? Para uma terra maravilhosa. – Por quê? Em razão de uma aliança eterna. A resposta a essas três questões primordiais é dada por intermédio da história quase insignificante de um homem que um belo dia se mudou para a terra de Canaã, onde viu nascer seu filho Isaac. Já na imagem dessa primeira peregrinação do grande Patriarca, os autores da Bíblia puderam identificar a eleição de um homem, depois a eleição de um povo, e finalmente a eleição de toda a humanidade. Ser eleito significa ser escolhido e, portanto, amado. 89 No tempo de Abraão, o que há é um esboço. Com efeito, Abraão pôde apenas entrever que seus descendentes seriam numerosos, habitariam a terra em que ele mesmo habitava, e que Deus estaria com eles, como esteve consigo. A fé sempre se inicia na forma de uma semente. Remetendo à época dos Patriarcas, a epístola aos Hebreus afirma que “na fé, todos estes morreram, sem ter obtido a realização da promessa, depois de tê-la visto e saudado de longe” (Hb 11,13). Segundo o Gênesis, Abraão acreditou que Deus lhe daria um filho, saído do seu sangue (Gn 15,4-6). Se hoje o conhecemos como Pai de todos os que crêem, isso não impede que sua fé tenha se deparado com momentos difíceis. Os textos sagrados testemunham sua inquietude: “Meu Senhor Iahweh, continuo sem filho. Eis que não me deste descendência e um dos servos de minha casa será meu herdeiro” (Gn 15,2- 3). Ele chegou até mesmo a procurar sua escrava para garantir essa descendência. Sara já não poderia mais engravidar: “Sara deixara de ter o que têm as mulheres” (Gn 18,11; 31,35), ou seja, a menstruação. Certamente o escritor Sacerdotal aumentou a idade de Abraão e de Sara (100 e 90 anos: Gn 17,7), mas o que é evidente é que Abraão não deixou de acreditar no poder de Deus. Pois “Iahweh visitou Sara, como dissera, e fez por ela como prometera. Sara concebeu e deu à luz um filho a Abraão já velho, no tempo que Deus tinha marcado” (Gn 21,1-2). Deus lhes sorriu. Essa é a etimologia do nome de Isaac. Eles o nomearam assim, pois Deus lhes deu um motivo para sorrir. Dois capítulos relatam essa alegria. Em Gênesis 17, é Abraão quem ri; em Gênesis 18, é Sara! O capítulo 22 do Gênesis relata um momento difícil para a fé de Abraão: o sacrifício de Isaac. Sem dúvida podemos nos aproximar de tal evento da seguinte maneira: Abraão terá se perguntado um dia se não deveria oferecer seu filho em sacrifício, como era costume em outros povos que viviam por perto. Ele estava pronto para executar esse projeto quando finalmente compreendeu que Deus não lhe pediria um gesto tão monstruoso. Esse questionamento de Abraão e aquilo que ele compreendeu interiormente é apresentado pelos escritores na forma de um diálogo com Deus, ou com o Anjo de Iahweh: “Deus disse: Toma teu filho, teu único, que amas, Isaac, e o oferecerás em holocausto sobre uma montanha” (Gn 22,2); “o Anjo disse: Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal!” (Gn 22,12). Ele estava realmente disposto a oferecer seu filho, como os outros povos o faziam a seus deuses: “Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único”, disse-lhe Deus em Gênesis 22,12, e a epístola aos Hebreus salienta que “Abraão ofereceu Isaac” (Hb 11,17). De fato, o que se inicia com Abraão é a vinda de Jesus, o Filho de Deus, o verdadeiro “filho de Abraão” (Mt 1,1), o verdadeiro fiel, aquele que confiará plenamente em Deus, para sua realização pessoal. Nele se condensará todo o povo de Deus que entrará numa terra nova, para uma aliança definitiva com Deus. É por essa razão que por Abraão “serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,3). Enfatizemos aqui que o ser humano é fundamentalmente abençoado por Deus, jamais 90 amaldiçoado. Deus lhe quer bem (bênção), e não mal (maldição). As promessas feitas a Abraão remetem aos sonhos mais imediatos que possamos ter: ter filhos, possuir um pedacinho de terra para nele construir uma casa, e esperar que Deus (ou a vida, ou o destino) nos seja favorável. Assim também a terra prometida corresponde aos nossos anseios mais profundos, sendo descrita como uma terra de repouso, na qual se dorme em segurança. É um mundo no qual não há mais angústia, como no sétimo dia da criação, quando Deus descansa. O Deus das promessas quer realizar os desejos humanos que ele mesmo inscreveu em nós. É por essa razão que a humilde história de Abraão, Isaac e Jacó pode nos alcançar ainda hoje: ela nos ensina que nossa vida tão corriqueira está carregada de significado e tem um futuro promissor. Deus vai mostrando passo a passo que não devemos compreender somente os primeiros livros da Bíblia à luz das promessas. Como afirma Albert Gelin: “A promessa permeia a Bíblia como um todo, fazendo dela o livro da esperança”.6 Seguiremos a trajetória das três promessas, do Gênesis ao Apocalipse. É sobretudo no final do Novo Testamento que elas poderão nos parecer sempre atuais. Podemos ler a progressão em cinco etapas: 1 – As promessas, de Abraão a Josué A realização terrena das promessas 2 – As promessas de acordo com os Profetas O aprofundamento das promessas 3 – As promessas de acordo com os Sábios O resultado das promessas 4 – As promessas para Jesus O cumprimento das promessas 5 – As promessas para nós A atualidade das promessas 1 – As promessas, de Abraão a Josué (1850-1200 a. C.) A realização terrena das promessas Primeiramente, Deus disse a Abraão: “Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas, se as podes contar. Assim será a tua posteridade” (Gn 15,5). Em seguida, disse ainda: “À tua posteridade darei esta terra” (Gn 15,18). Por fim: “Estabelecerei minha aliança entre mim e ti, etua raça depois de ti, de geração em geração, uma aliança perpétua, para ser o teu Deus e o de tua raça depois de ti” (Gn 17,7). Desde que esses textos foram escritos, “três grandes idéias povoam o âmago da alma judia: um Deus, um povo, uma terra”.7 São as três promessas de Deus a Abraão. Essas três promessas extrapolam largamente a vida de Abraão, de modo que nela elas apenas tiveram início. Elas apontam para o futuro e compreendem perspectivas 91 infinitas: são estabelecidas “para sempre” e dizem respeito a “todas as nações” (Gn 12,3; 17,7-8). De Abraão a Josué, essas promessas têm uma realização terrena. Esse período abarca 650 anos (1850-1200 a.C.). • A descendência de Abraão se multiplica Tudo começa de modo bastante humilde: Abraão recebe um filho de Sara (Gn 21,1). Assim, ele já pode visualizar em Isaac uma numerosa descendência. O texto remete a um desejo essencialmente humano: “Sara concebeu e deu à luz um filho a Abraão já velho” (Gn 21,2). É por meio de Isaac que Deus fará de Abraão “um grande povo” (Gn 12,2). A promessa é posteriormente repetida a Isaac: “Eu farei a tua posteridade numerosa como as estrelas do céu, eu lhe darei todas estas terras, e por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 26,4). “A Isaac, dei Jacó e Esaú” (Js 24,4). Jacó, por sua vez, recebe a mesma promessa: “Tua descendência se tornará numerosa como a poeira do solo” (Gn 28,14). Ele tem doze filhos, que se tornarão as doze tribos de Israel. E Jacó vê seu nome ser mudado para Israel, que significa “forte contra Deus” (Gn 32,29). Na ocasião de uma grande fome, Deus lhe diz: “Não tenhas medo de descer ao Egito, porque lá eu farei de ti uma grande nação” (Gn 46,3). Seu filho José se tornou o braço direito do Faraó. No Egito, “os israelitas foram fecundos e se multiplicaram; tornaram-se cada vez mais numerosos e poderosos” (Gn 1,7). O Deuteronômio diz, numa das mais antigas profissões de fé de Israel: “Meu pai (Jacó) era um arameu errante: ele desceu ao Egito e ali residiu com poucas pessoas; depois tornou-se uma grande nação, forte e numerosa” (Dt 26,5). A Bíblia conta que a permanência no Egito durou 400 anos (Gn 15,13) ou 430 anos (Ex 12,40). Esse povo deixa posteriormente o Egito com Moisés, tornando-se verdadeiramente povo de Deus no deserto do Sinai: a mesma lei e a mesma crença religiosa marcam a identidade do povo. Seu Deus é agora conhecido como Iahweh. No livro de Josué, fala-se das “tribos de Israel” (24,1) ou dos “Israelitas” (21,43). A promessa de um povo numeroso anteriormente dirigida a Abraão se cumpriu. De Abraão a Josué, a realização da promessa acompanha o curso normal do tempo 92 e da fecundidade humana. Ela se refere primeiramente a uma raça, a pessoas de mesmo sangue. • Israel entra na terra prometida Também aqui tudo se inicia de maneira bastante humilde. Abraão acompanha com seu pai uma peregrinação que o faz “sair de Ur dos caldeus para ir à terra de Canaã” (Gn 11,31; 15,7). Fixando-se primeiramente em Harã, ele chega em seguida à terra de Canaã. Aí ele vive como estrangeiro, junto aos “cananeus [que] habitavam nesta terra” (Gn 12,6). Ele tem como propriedade apenas “o campo de Efron, que está em Macpela, defronte de Mambré” (Gn 23,17). Ora, ele podia ter esperança de ver sua descendência se estabelecer ali no futuro. A promessa de Deus responde a esse desejo: “Toda a terra que vês, eu a darei, a ti e à tua posteridade para sempre” (Gn 13,15; 17,8). Isaac recebe a mesma promessa: “É a ti e à tua raça que eu darei todas estas terras“ (Gn 26,2-3). E depois, Jacó: “A terra sobre a qual dormiste, eu a dou a ti e à tua descendência” (Gn 28,13). Antes da saída do Egito, José diz a seus irmãos: “Eu vou morrer, mas Deus vos visitará e vos fará subir deste país para a terra que ele prometeu, com juramento, a Abraão, Isaac e Jacó” (Gn 50,24). O livro do Êxodo descreve a marcha de Israel em direção à terra prometida, sendo conduzido por Moisés. Depois, Josué conquista a terra prometida sobre a qual seus antepassados haviam se estabelecido. E ele diz: “Agora, pois, Iahweh vosso Deus concedeu aos vossos irmãos o repouso que lhes havia prometido” (Js 22,4). Com o livro de Josué, acredita-se estar no paraíso: o repouso sucede à chegada. Israel se encontra em sua terra: “Assim, pois, deu Iahweh aos israelitas toda a terra que havia jurado dar a seus pais” (Js 21,43). De Abraão a Josué, a promessa de uma terra se realiza. Trata-se de uma terra material: a terra de Canaã. • Deus mostra sua aliança Afirma-se constantemente na Bíblia que Deus é aliado do homem, de modo a não estar contra, mas a favor dele. Isso é sem dúvida o que a Bíblia tem de mais precioso a dizer sobre Deus. Desde o Gênesis, os autores insistem em afirmar que Deus permanece em aliança com toda a humanidade e com toda a criação (o homem e a mulher no jardim do Éden, Noé e todas as espécies de viventes). Esse desejo de estar com a humanidade se torna objeto de uma promessa feita a Abraão. Deus promete que ficará para sempre com seu povo: “Estabelecerei minha aliança entre mim e ti, e tua raça depois de ti, de geração em geração, uma aliança perpétua, para ser o teu Deus e o de tua raça depois de ti” (Gn 17,7). 93 Os diferentes deslocamentos durante o período que vai de Abraão a Josué: 1 - Abraão, Isaac e Jacó permanecem na terra de Canaã. 2 - Jacó e seus filhos se transferem para o Egito, onde José é ministro do Faraó. 3 - Seus descendentes permanecem no Egito por volta de 400 anos, no vale de Gessen. 4 - Eles deixam o Egito e atravessam o deserto com Moisés, que morre no monte Nebo. 5 - Com Josué, eles retornam à terra de seus antepassados, entrando por Jericó. A aliança remete ao amor de Deus a cada ser humano. No Deuteronômio, as palavras aliança e amor são indissociáveis: “Saberás, portanto, que Iahweh teu Deus 94 é o único Deus, o Deus fiel, que mantém a Aliança e o amor por mil gerações” (Dt 7,9). Para falar mais concretamente: se Deus ama, ele é aliado de Israel e não deixará de agir na História para cuidar de seu povo, fazê-lo sair de sua condição de sofrimento e miséria. A aliança revela que Deus é sensível a toda situação de dor, grito e morte. Com efeito, essa é a essência da percepção judaica de Deus, repercutida desde o Gênesis até o Apocalipse: Deus ama e, amando, ele sempre nos libertará. Deus está presente, em primeiro lugar, na vida de Abraão. Ele simplesmente lhe diz: “Não temas, Abrão! Eu sou o teu escudo” (Gn 15,1). Ele é um Deus pessoal, próximo, ao ponto de associar seu próprio nome ao nome desse homem: “o Deus de Abraão”. Jesus afirmará, a partir dessa simples expressão, que um Deus como esse ressuscita os mortos: “Ora, ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mc 12,27). Se Deus chama Abraão de “meu amigo” (Is 41,8), ele não pode deixar o amigo morrer. Amar é querer eternizar. Esse Deus pessoal acompanha Isaac: “Fica na terra que eu te disser. Habita nesta terra, eu estarei contigo” (Gn 26,2-4). A mesma promessa é repetida a Jacó: “Eu estou contigo e te guardarei em todo lugar aonde fores, e te reconduzirei a esta terra, porque não te abandonarei enquanto não tiver realizado o que te prometi” (Gn 28,15). É principalmente por ocasião da saída do Egito, com a travessia pelo mar, que Deus mostra sua aliança. Tal acontecimento é visto em Israel como a grande intervenção de Deus em favor de seu povo. Essa libertação está ligada à promessa feita aos patriarcas: “Ouvi o gemido dos israelitas e me lembrei da minha aliança. Eu vos libertarei da escravidão e vos resgatarei com o braço estendido. Tomar-vos-ei por meu povo, e serei o vosso Deus. Depois eu vos farei entrar na terra que jurei com a mão estendida dar a Abraão, a Isaac e a Jacó” (Ex 6,5-8). Após a saída do Egito, Deus acompanha os israelitas em sua longa peregrinação pelo deserto do Sinai. “E Iahweh ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem” (Ex 13,21-22), alimentando-os com o maná e as codornizes (Ex 16), dando-lhes a água da rocha (Ex 17), armando sua tenda junto deles (Ex 34,34). Deuspermanece com Israel. Enfim, Deus mostra sua aliança por meio da vitória de Josué: “Iahweh vosso Deus combatia, ele mesmo, por vós, como vos dissera” (Js 23,10). Assim, Deus está presente em toda a história de Israel. Sua presença se manifesta nos episódios da fuga do Egito, da marcha pelo deserto e da conquista da terra prometida. Portanto, Deus é primeiramente o Deus de Abraão, depois o Deus de Isaac, em seguida o Deus de Jacó, e finalmente, o Deus de Israel. Os homens se vão, mas Deus permanece e mantém sua promessa. O período que vai de Abraão a Josué é interpretado pelos redatores da Bíblia como o tempo da realização terrena das três promessas dadas a Abraão: “Assim, pois, deu Iahweh aos israelitas (o povo) 95 toda a terra que havia jurado dar a seus pais (a aliança). Tomaram posse dela e nela se estabeleceram” (Js 21,43) As promessas são verdadeiramente o fio condutor desse período. O livro de Josué termina com esta declaração que se repete por duas vezes: “De todas as promessas que Iahweh fizera à casa de Israel, nenhuma falhou: tudo se cumpriu” (Js 21,45; 23,14). No período de Abraão a Josué, Israel se tornou um grande povo, retornou à terra de seus antepassados e Deus sempre esteve com ele. Com efeito, a consolidação de Israel como povo que se estabelece na terra de seus pais se dará com os Juízes, Saul, Davi e Salomão. Porém, tudo já está concentrado no livro de Josué: Neste imenso arco estendido desde a promessa até seu cumprimento, no tempo de Josué, e que abraça os seis primeiros livros da Bíblia: o tema da história dos patriarcas é tratado apenas de maneira geral. A promessa de Deus, que volta constantemente ao primeiro plano, forneceu uma coesão temática a esse mosaico de narrativas de cores fortes. Com efeito, essa promessa não repercute apenas nos relatos aos quais ela pertenceu desde o início, mas foi nitidamente introduzida depois de muito tempo, graças a um trabalho de transformação que claramente parece obedecer a um plano.8 A história vai continuar e as três promessas vão se aprofundar. 2 – As promessas de acordo com os Profetas (1000-500 a.C.) O aprofundamento das promessas Na época de Davi e de Salomão, acreditava-se: – que o povo de Abraão sempre seria numeroso, – que esse povo sempre ocuparia sua terra, – que Deus estaria sempre com ele. Porém, acontece que tudo acaba se deteriorando e finalmente desmoronando na época dos profetas, que corresponde ao período dos reis. Um período de 500 anos. Em primeiro lugar, logo depois da morte de Salomão, em 931 antes de Cristo, o reino de Davi é dividido em duas partes: o reino do Norte recebe o nome de Reino de Israel; o reino do Sul, torna-se o Reino de Judá (Davi era da tribo de Judá). Dois acontecimentos trágicos atingem esses dois reinos: o reino do Norte desmorona em 721, após a destruição de sua capital, Samaria. Dez tribos são deportadas para a terra dos assírios, onde desaparecem para sempre. O reino do Sul, por sua vez, é destruído em 587, com a queda de sua capital, Jerusalém. A tribo de Judá (que tinha absorvido a tribo de Simeão) é levada para Babilônia. Esses Judenos – donde o nome de Judeus – voltarão do exílio em 538, graças a Ciro, rei dos Persas. Visualizemos esses acontecimentos, com os principais profetas que os interpretaram: 96 Israel se encontra imerso na grande História, sacudido pelas agitações provocadas por conquistadores de três impérios: assírio, persa e babilônio. Por conta de dois exílios sucessivos, que quase provocaram o aniquilamento total do povo de Israel, as três promessas feitas a Abraão parecem querer se apagar: – o povo diminui, – ele está exilado fora de sua terra, – a aliança parece ter se rompido. Contudo, o segundo exílio consistirá num tempo de profunda reflexão. Israel percebe que quando Deus está ausente, falta-lhe o essencial. No entanto, Deus continua a acompanhar o povo eleito e a convidá-lo para que volte ao caminho da fidelidade. Quando Israel se abre a Deus, Deus o faz voltar à terra prometida. Esses acontecimentos são a imagem daquilo que acontece na vida de todo ser humano. Como enfatizamos em outro momento, eles estão presentes na fonte dos textos do Gênesis, no que diz respeito à situação do homem e da mulher no jardim do Éden, os quais, por se esquecerem de Deus, reconhecem que estão nus. Deus os respeita e os deixa entregues ao próprio vazio... A humanidade se dirige por si mesma ao exílio. Mas o projeto de Deus permanece para sempre. Aliás, os profetas não admitem a hipótese de que Deus teria feito promessas que não cumpriria posteriormente: “Deus não é homem, para que minta, nem filho de Adão, para que se retrate. Por acaso ele diz e não o faz, fala e não realiza?” (Nm 23,19). Depois de terem anunciado que Israel perderia tudo, os profetas retomam as três promessas dirigidas a Abraão; entretanto, eles inauguram, para cada uma delas, perspectivas novas. Com eles, tudo será novo. • O povo novo Deus havia dito a Abraão: “Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas, se as podes contar. Assim será a tua posteridade” (Gn 15,5). De fato, com a invasão assíria, em 721, dez tribos simplesmente desaparecem, restando somente a tribo de Judá, também ela ameaçada, como anuncia Isaías: “No seio da terra [reinará] uma grande solidão. E, se nela ficar um décimo [de pessoas], este tornará a ser desbastado como o terebinto e o carvalho, que, uma vez derrubados, deixam apenas um toco; esse toco 97 será uma semente santa” (Is 6,12-13). Com a invasão babilônia, em 587, a tribo de Judá também é deportada, desta vez à Babilônia. Os exilados exprimem seu desespero: “Não somos mais do que um resto no meio das nações para onde nos dispersaste” (Br 2,13). O povo de Abraão diminuiu enormemente. Numa carta dirigida aos exilados, Jeremias profetiza que o exílio desse pequeno resto durará 70 anos (Jr 29,10)! Ele vê o exílio como a morte de todo o povo antigo, que havia conhecido a terra prometida. Todos morrerão no exílio. A mesma perspectiva se encontra em Ezequiel, em sua visão dos “ossos secos” (Ez 37). Entretanto, na mesma carta – cuja finalidade era salvar Israel no exílio –, Jeremias retoma a promessa relativa a um povo numeroso: “Multiplicai-vos aí e não diminuais” (Jr 29,6). Deus multiplicará novamente Israel: “Eu mesmo reunirei o resto de minhas ovelhas de todas as trevas para as quais as dispersei e as farei retornar às suas pastagens: elas serão férteis e se multiplicarão” (Jr 23,3; Ez 34). Após 70 anos, a duração de 3 gerações, os netos voltarão à terra de origem e formarão um povo totalmente novo. As grandes perturbações ocorridas no tempo dos profetas 1 – Os assírios invadem Samaria em 721: exílio das 10 tribos do Norte na Assíria. 2 – Os babilônios destroem Jerusalém em 587: exílio da tribo de Judá em Babilônia. 3 – Os persas vencem os babilônios e os Judenos retornam a Israel em 538. Cada conquistador estende seu império até o Egito, passando pela terra de Israel. O exílio é, para esse pequeno resto de Israel, um tempo de profunda transformação interior, um tempo de retorno a Deus. Israel se dá conta de que não se assemelha mais 98 a seus antepassados: “Ainda que Abraão não nos reconhecesse e Israel não tomasse conhecimento de nós, tu, Iahweh, és nosso pai, nosso redentor” (Is 63,16). Um novo povo começa a nascer, formado por um pequeno resto de “pobres”, um pequeno resto simples diante de Deus, que espera tudo dele: “Deixarei em teu seio um povo pobre e humilde, e procurará refúgio no nome de Iahweh o Resto de Israel” (Sf 3,12-13; também Ez 5,1-5; 6,8-9; Is 4,3; Zc 13,8-9). Tudo renascerá com esse pequeno resto purificado. Um aprofundamento considerável se opera então na compreensão da promessa de uma posteridade numerosa. Doravante, para ser a verdadeira descendência de Abraão, não basta ter o sangue do grande patriarca. É preciso crer como ele, estar em relação com Deus como ele. A verdadeira descendência de Abraão não diz mais respeito a uma única raça, mas a toda a comunidade de fiéis: – Aquele que põe a sua confiança em mim herdaráa terra (Is 57,13). – Os pobres possuirão a terra (Sl 37,11). – O homem que teme a Iahweh, sua descendência possuirá a terra (Sl 25,12-13). Trata-se, portanto, de um povo novo. • Uma nova terra Por outro lado, em 750 antes de Cristo, Amós havia prenunciado o exílio do reino do Norte: “Israel será deportado para longe de sua terra” (Am 7,11). De fato, as dez tribos do Norte deixam a terra prometida em 721. Mais tarde, Jeremias se ergue contra a excessiva autoconfiança dos judeus do Sul, que sobreviveram à invasão assíria. Eles pensavam que as promessas feitas a Abraão lhes dariam todas as seguranças. Em 587, é a vez do povo da Judéia ser deportado, para Babilônia. Para um judeu verdadeiro e sincero, perder a terra prometida significa perder a própria herança. Para ele, nada pode ser pior: À beira dos canais da Babilônia nos sentamos, e choramos com saudades de Sião. Como poderíamos cantar um canto de Iahweh numa terra estrangeira? (Sl 137,1.4). Nossa herança passou a estrangeiros, nossas casas a desconhecidos. Eis por que nosso coração está doente: porque o Monte Sião está desolado (Lm 5,2.17-18). Jeremias e Ezequiel anunciam que esse exílio terminará. Em sua carta aos exilados, Jeremias lhes declara: Construí casas e instalai-vos, casai-vos e gerai filhos e filhas. Porque assim disse Iahweh: “Quando se completarem, para a Babilônia, setenta anos, eu vos visitarei e realizarei a minha promessa de vos fazer retornar a este lugar [Jerusalém]” (Jr 29,5- 6.10). Eles anunciam esse retorno à terra dos antepassados como um novo êxodo, uma libertação da escravidão, mais gloriosa ainda que a saída do Egito: Por isso, eis que dias virão em que não dirão mais: “Vive Iahweh, que fez subir os filhos de Israel da 99 terra do Egito”, mas “Vive Iahweh, que fez subir e retornar a raça da casa de Israel da terra do Norte e de todas as terras para onde os tinha dispersado, para que habitem em seu território” (Jr 23,7-8). Em 539, Ciro, o conquistador persa, esmaga a grande Babilônia. A história das promessas volta a caminhar para frente. O segundo Isaías interpreta essa vitória de Ciro como um gesto de Deus em vistas da libertação de seu povo exilado: Assim diz Iahweh ao seu ungido, a Ciro que tomei pela destra, a fim de subjugar a ele nações: “Foi por causa de meu servo Jacó, por causa de Israel, meu escolhido, que eu te chamei pelo teu nome, e te dou um nome ilustre, embora não me conhecesses. Abra-se a terra e produza a salvação, ao mesmo tempo faça a terra brotar a justiça!” (Is 45,1.4.8). Aqui também a volta à terra prometida aponta para uma realidade material: um retorno à terra dos antepassados: Eu os conduzirei à terra que dera a seus pais (Jr 16,15). Eu vos ajuntarei de entre os povos, reunir-vos-ei das terras, nas quais fostes espalhados e vos darei a terra de Israel (Ez 11,17). Reconduzi-las-ei para o seu solo (Ez 34,13). Assim voltarão os que foram libertados por Iahweh, chegarão a Sião gritando de alegria (Is 35,10). Entretanto, a descrição desse retorno é de uma beleza tão grande, que ultrapassa largamente qualquer realização terrena. Ele aponta para a entrada numa nova terra: Ali haverá uma estrada – um caminho que será chamado caminho sagrado. O impuro não passará por ele. Ele mesmo andará por esse caminho, de modo que até os estultos não se desgarrarão. Assim voltarão os que foram libertados por Iahweh, chegarão a Sião gritando de alegria, trazendo consigo alegria eterna; o gozo e a alegria os acompanharão, a dor e os gemidos cessarão (Is 35,8.10). Criarei novos céus e nova terra; as coisas de outrora não serão lembradas, nem tornarão a vir ao coração. Alegrai-vos, pois, e regozijai-vos para sempre com aquilo que estou para criar: eis que farei de Jerusalém um júbilo e do meu povo uma alegria. Sim, regozijar-me-ei em Jerusalém, sentirei alegria em meu povo. Nela não se tornará a ouvir choro nem lamentação (Is 65,17-19). Como se pode esperar ver a realização dessa profecia neste mundo? Pois a terra prometida corresponde ao paraíso: Então habitareis na terra que dei a vossos pais: sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus. Então dirão: “Esta terra que era uma desolação está agora como o jardim de Éden” (Ez 36,28.35). O último livro da Bíblia, o Apocalipse, dará continuidade a esses textos, a fim de descrever a nova terra e o final dos tempos (Ap 21-22). De fato, quando se está no exílio há alguns anos, imagina-se a volta à terra natal como algo definitivo, no qual nada será mais como antes. As profecias relativas ao retorno procedem do sonho. Sonhamos... e também nos enganamos. Mas Deus não deixará de cumprir um dia aquilo que é profetizado por esses textos. Toda a palavra de Deus tem como ponto de partida as realidades deste mundo, com vistas a dar previsões sobre um mundo definitivo. Notemos que é no tempo do exílio que o autor Sacerdotal escreve o texto da criação em seis dias. Esse texto é 100 profético e anuncia o novo céu e a nova terra. Ele também se refere ao retorno à terra de Israel: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra” (Gn 1,28). • A nova aliança Da parte de Deus, a aliança é para sempre (Gn 17,8). Deus jamais deixa de amar. Se a aliança se rompe, é sempre por iniciativa de Israel. É isso que os profetas, desde Oséias, afirmam por meio desta imagem tão recorrente: Israel é a esposa infiel, Iahweh o esposo rejeitado e esquecido: Processai vossa mãe, processai. Porque ela não é minha esposa, e eu não sou seu esposo (Os 2,4). Como se transformou em prostituta, a cidade infiel? (Is 1,21). Como a mulher que trai o seu companheiro, assim vós me traístes, casa de Israel (Jr 3,20). Pois bem, prostituta, ouve a palavra de Iahweh: dilapidaste o teu dinheiro e descobriste a tua nudez em tuas prostituições com os teus amantes e com todos os teus ídolos imundos (Ez 16,35-36). Os profetas afirmam que Israel não é mais o povo de Deus. A fórmula da aliança com Abraão afirmava, entretanto: “Vós sereis o meu povo e eu serei vosso Deus” (Gn 17,8-9). O que aconteceu? Os profetas denunciam todo tipo de desvios em Israel: exploração dos pequeninos, cerimônias religiosas e peregrinações sem sentido, uma relação falsa com Deus, hipocrisia, observância de leis secundárias, em detrimento dos dez mandamentos... Segundo Jeremias e Ezequiel, o coração humano é doente, o homem é por si mesmo inconvertível, “a sua ferrugem não sairá com o fogo” (Ez 24,12). Deus não pode mais ficar com um povo como esse e por isso se retira. Sua glória abandona Jerusalém, que se tornou uma cidade cheia de crimes (Ez 7,8-11; 10,18-19; 11,22-24). A aliança é rompida. Da parte do povo, o exílio é vivido como uma ausência de Deus: “Meu caminho está oculto a Iahweh; o meu direito passa despercebido a Deus” (Is 40,27). Contudo, também aqui a carta de Jeremias causa grande transformação. No momento em que Deus parece ausente, ele pede ao povo para orar no exílio, longe da terra prometida: “Procurai a paz da cidade, para onde eu vos deportei; rogai por ela a Iahweh, porque a sua paz será a vossa paz” (Jr 29,7). Essas palavras salvarão Israel no exílio. Para Jeremias, o futuro está no exílio. Deus acompanha sem cessar o seu povo. O exílio se torna um tempo de retorno a Deus. Mais uma vez, a esposa infiel volta para seu marido: Quero voltar ao meu primeiro marido, pois eu era outrora mais feliz do que agora (Os 2,9). Iahweh cria algo de novo na terra: a Mulher rodeia seu Marido (Jr 31,22). Deus vem mostrar mais uma vez sua aliança por meio de uma ação. Como na ocasião da fuga do Egito, ele vem retirar Israel de Babilônia, reconduzindo-o de volta para casa. Ele fará ainda mais ao perdoar suas faltas: “Perdoarei sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31,34). Assim, ele permanece fiel a sua promessa: 101 E tu, Israel, meu servo, Jacó, a quem escolhi, descendência de Abraão, meu amigo, tu, a quem tomei desde os confins da terra, a quem chamei desde os recantos longínquos: “Tu és o meu servo, eu te escolhi, não te rejeitei. Não temas, porque estou contigo” (Is 41,8-10). A nova aliançaque havia sido anunciada é agora interiorizada. Não se seguirá mais a Lei como um código vindo de fora. A Lei se tornará interior, a expressão de amor entre dois seres: Eis que dias virão em que concluirei com a casa de Israel (e com a casa de Judá) uma aliança nova. Não como a aliança que concluí com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da terra do Egito – minha aliança que eles próprios romperam, embora eu fosse o seu Senhor. Porque esta é a aliança que concluirei com a casa de Israel depois desses dias. Porei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração. Então serei seu Deus e eles serão meu povo (Jr 31,31-34). Dar-vos-ei um coração novo, porei no vosso íntimo um espírito novo (Ez 36,26; Is 59,21; Ez 11,18- 21). Aqui ainda, as características com as quais se descreve a aliança são irrealizáveis neste mundo: até que a Lei se torne parte integrante de nosso ser, é preciso esperar pela nova terra. Conseqüentemente, as três promessas feitas a Abraão, que ora parecem perdidas, são resgatadas e aprofundadas no tempo dos profetas: o povo eleito já não é mais apenas uma raça, mas um povo de crentes; a terra prometida aponta para uma terra nova; a nova aliança se define por uma transformação do coração. As profecias, apesar de continuarem a se referir ao presente, anunciam as coisas vindouras: “Acontecerá no futuro... Eis que dias virão...”. Simone de Beauvoir dizia algo bastante penetrante a respeito disso: “A beleza da terra prometida é a de prometer promessas novas”.9 3 – As promessas de acordo com os Sábios (500 a.C. – 0) O resultado das promessas Se os profetas viram o exílio como uma morte (Jr 29; Ez 37), eles identificaram o retorno do exílio com a ressurreição de Israel (Ez 37, Is 40-55). Com esse retorno, as promessas de Deus também readquirem vida: o pequeno resto, de volta à terra prometida, multiplica-se novamente, tendo Deus lhe mostrado sua aliança, ao libertá- lo de Babilônia. No entanto, durante o período dos Sábios, a história de Israel continua a conter as mesmas vicissitudes de antes. Não se realizam as grandes profecias portadoras da mensagem de que a terra nova corresponderia ao paraíso. Mais uma vez, os acontecimentos permitirão que as promessas tomem profundidade e que se descubra o seu ponto de chegada. Os sábios não são somente os repetidores dos profetas, mas revelam como se cumprirão as promessas e as profecias. Eles anunciam o futuro definitivo. Em primeiro lugar, no momento do retorno, os exilados são mal recebidos por 102 seus vizinhos, que se opõem à reconstrução de Jerusalém. Em seguida, dois acontecimentos maiores vêm abalar a crença nas promessas: em 331, o Império grego de Alexandre o Grande sucede ao Império persa. Conseqüentemente, a terra de Israel volta a ficar sob tutela estrangeira, o que conduz a uma dura perseguição ao povo judeu, entre 175 e 164, durante o domínio do rei selêucida Antíoco IV. Consideremos essas três etapas com os três livros que lhes correspondem: • O livro de Jó O segundo Isaías havia predito um retorno para o pequeno resto dos exilados (Is 40,1-5; 54,12.13). O livro dos Provérbios, escrito por ocasião da volta do exílio, afirmava igualmente que, permanecendo fiel a Deus, Israel receberia copiosas bênçãos, ainda neste mundo (Pr 10,6.27; 11,31; 13,21). Mas os anos passam e o pequeno resto fiel continua a ser perseguido. Israel vive então uma profunda crise de fé, perguntando-se se ainda é o povo eleito e se Deus está sempre com ele. Os diálogos do livro de Jó, escritos por volta de 450, ilustram essa situação de Israel. O autor coloca em cena um homem íntegro, fiel a Deus e que é, no entanto, atingido por todos os males. De fato, é isso que Israel vive após o exílio. As grandes transformações ocorridas no tempo dos Sábios 103 1 – Após o retorno do exílio, em 538, os judeus encontram dificuldade para reconstruir o Templo e Jerusalém. 2 – Em 331, os Gregos derrotam os persas e conquistam o país dos judeus. 3 – De 175 a 164, Antíoco IV persegue os judeus. Muitos são martirizados. O livro é um grande grito. Jó clama sua inocência e quer questionar o próprio Deus sobre a injustiça que lhe fizeram. Indo ao encontro do livro dos Provérbios, o livro de Jó afirma que a fidelidade a Deus não é gratificante neste mundo. Aquele que é fiel a Deus não é cumulado de favores: Este morre em pleno vigor, de todo tranqüilo e em paz. Aquele morre com alma amargurada, sem ter saboreado a felicidade. E, contudo, jazem no mesmo pó, cobrem-se ambos de vermes (Jó 21,23-26). Jó afirma que o mundo é malfeito, que inocentes são atingidos e que “nas tendas dos ladrões reina Paz” (Jó 12,6). Ora, exprimindo-se assim, Jó paradoxalmente “fala bem de Deus” (Jó 42,7-8). Com efeito, ele não admite que Deus seja mau e, quanto mais reivindica um mundo melhor, mais revela uma idéia correta de Deus. O autor do livro de Jó leva em conta o sofrimento de Israel após o exílio. Mas proíbe Israel de duvidar da eleição e da aliança de Deus, de sua vitória sobre o mal e de seu desígnio final (Jó 42,2-6). Por ora, entretanto, Israel não tem todas as respostas. Por isso, Deus lhe diz: Olha a criação. É verdade que há desordem, mas o sol se levanta a cada manhã. Há ordem apesar da desordem, e portanto, alguém mais Poderoso que o mal (Jó 38). O final do livro anuncia que Jó obtém a restituição de seus bens. O futuro permanece luminoso, mas continua sendo terreno. • O livro do Eclesiastes (Coélet) O Eclesiastes se situa uns duzentos anos após o exílio, por volta de 320 a.C., pouco depois da queda do Império persa, que era bastante favorável aos judeus. É o tempo da expansão do Império grego, com as conquistas de Alexandre, o Grande. O território de Israel é novamente ocupado. Primeiro foram os assírios, em seguida os babilônios, depois os persas e agora, os gregos! Coélet está desiludido. A História não muda. Por isso ele não quer viver na ilusão. Correr atrás do vento não lhe interessa. Duzentos anos se passaram, desde a promessa dos profetas referente a um povo novo, uma nova terra, uma nova aliança. Logo, Coélet afirma: Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer: nada há de novo debaixo do sol ! (Ecl 1,4-9). Essa frase é de extrema importância. Coélet vem dizer a Israel que não adianta esperar a nova terra neste mundo – debaixo do sol –, o que consiste numa grande 104 ilusão. Dessa maneira, ele contesta a interpretação de uma realização terrena das profecias e das promessas de Deus. Para ele, “tudo é vaidade e correr atrás do vento!” (Ecl 1,14). É evidente que ele crê nas promessas. Porém, desconhece onde e quando elas hão de se realizar, ignorando, assim, a sabedoria e o plano final de Deus: Tudo o que Deus fez é apropriado em seu tempo. Também colocou no coração do homem o conjunto do tempo, sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim (Ecl 3,11). Com ele se desenha um tempo do fim. Esse sábio faz com que as promessas e as profecias dêem um salto extraordinário, ao afirmar que é fora da terra e do tempo que elas se cumprirão. Tudo o que se refere a este mundo é frágil e efêmero. Tudo passa, de modo que para tudo há um tempo: “Tempo de nascer e tempo de morrer... Tempo de chorar e tempo de rir...” (Ecl 3,2.4). O homem, como o animal, “volta ao pó” (Ecl 3,20). Conseqüentemente, é “vão” e ilusório – “vaidade das vaidades” (Ecl 1,1) – esperar pela realização terrena das promessas e das profecias. O alcance das afirmações de Coélet é enorme. Ele prepara a perspectiva do final dos tempos e de uma transformação do pó dos túmulos, num outro mundo. Assim, ele representa uma etapa decisiva na compreensão do projeto final de Deus. • O livro de Daniel O livro de Daniel revela “o que acontecerá no fim dos dias”. De fato, trata-se de um apocalipse escrito entre 175-164, no tempo da dura perseguição de AntíocoIV, que quer impor os costumes gregos aos judeus: ele os força a comerem alimentos proibidos e a adorarem a estátua de Zeus, que havia mandado colocar no Templo de Jerusalém. Ora, muitos judeus vão preferir morrer a ser infiéis à Lei de Moisés ou às tradições de Israel. O acontecimento da morte dos mártires, que se mantêm fiéis até o fim, coloca em questão a fidelidade do próprio Deus. Em tal contexto, Israel chegará a afirmar, no fim do Antigo Testamento, que haverá uma ressurreição dos mortos. Assim, a morte passa a ser vista como uma espécie de sono: E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno (Dn 12,2). O livro de Daniel revela que as promessas feitas a Abraão se realizarão no momento da ressurreição dos mortos ! Estamos no auge do Antigo Testamento. As três promessas de um povo numeroso, de uma terra e de uma aliança, dizem respeito ao mundo que virá. Tal é a trajetória das promessas de Deus no Antigo Testamento. Tendo surgido de maneira tão humilde por ocasião da vida de Abraão, elas foram assumindo pouco a pouco dimensões infinitas. A terra prometida não é mais somente a terra de Israel, de 105 modo que a aliança de Deus se manifestará um dia por meio de uma ação mais do que grandiosa: ele fará seu povo passar para o mundo da ressurreição! É no final do Antigo Testamento que aprendemos como se realizará o projeto da criação perfeita e do paraíso, cuja continuidade está presente nas promessas a Abraão. Tendo transferido a realização das promessas para o mundo que há de vir, Israel não poderia ir mais longe. Por isso, havia se cumprido o tempo em que o Messias poderia vir a este mundo. Esse encaminhamento das promessas no Antigo Testamento se casa com o próprio desenrolar de nossas vidas. Primeiramente, nós sonhamos com bens materiais e terrenos. Algumas vezes, chegamos a obtê-los, como no tempo de Josué. No entanto, estamos sempre esperando pelo novo, como no tempo dos Profetas. Um belo dia, nós percebemos, como Coélet, que nem a terra ou o tempo, poderão realizar nossos desejos mais profundos. Concluímos, então, como Daniel, que é preciso uma ressurreição dos mortos para responder a tudo isso. Tal é o limiar da esperança: que a morte seja vencida! Ora, por meio de um acontecimento concreto – a ressurreição de um homem! –, Deus nos dá a garantia de que esse mundo vindouro existe: 4 – As promessas para Jesus O cumprimento das promessas Jesus não vem “revogar a Lei ou os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). Numa só frase, ele resgata toda a esperança judaica: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). O Reino de Deus é tudo ao mesmo tempo: a criação na qual tudo é bom, o paraíso, a terra prometida, o mundo da ressurreição. Por isso, enquanto em seu tempo a terra de Israel permanece ocupada, desta vez pelos romanos, Jesus não busca promover uma conquista terrena que seria conduzida pelas armas. Sua verdadeira batalha se efetua contra as forças do mal. Jesus não só anuncia a esperança do Reino de Deus, como também a vive, esperando pelo momento da entrada na terra prometida. Enquanto Deus Filho feito homem, ele espera ser salvo por Deus Pai e não finge viver nossa condição humana limitada. Quando Deus o ressuscita, as três promessas feitas a Abraão se realizam para ele: sendo a verdadeira descendência de Abraão que confia em Deus, ele entra na terra prometida, onde Deus está para sempre com ele. • O verdadeiro filho de Abraão Desde o início de seu evangelho, Mateus indica que Jesus é o verdadeiro filho de Abraão: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1). Esse título não quer dizer apenas que Cristo pertence à raça de Abraão, mas que ele é fiel e crente como Abraão. Com efeito, os profetas apresentaram a fidelidade 106 como o distintivo do novo povo de Deus. O próprio Jesus havia distinguido bem aqueles que se diziam filhos de Abraão apenas pelo sangue dos que eram verdadeiramente filhos pela fé: “Se fôsseis filhos de Abraão, praticaríeis as obras de Abraão” (Jo 8,39). Na verdade, a expressão “Jesus, filho de Abraão” significa que só Cristo é a verdadeira descendência, o verdadeiro povo de Deus: As promessas foram asseguradas a Abraão e à sua descendência. Não diz: “e aos descendentes”, como referindo-se a muitos, mas como a um só: e à tua descendência, que é Cristo (Gl 3,16). Portanto, Jesus é por si só o verdadeiro herdeiro das promessas, como ele mesmo deixa claro na parábola dos vinhateiros homicidas: Os vinhateiros, porém, vendo o filho, confabularam: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). É ele o primeiro a herdar as promessas e é por ele que elas se cumprem. Quanto a nós, somos “herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8,17). Jesus é o verdadeiro filho de Abraão porque confiou totalmente a Deus seu destino final: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Essa atitude o constitui ao mesmo tempo novo Adão e verdadeiro filho de Abraão. As duas primeiras partes da Bíblia se encontram assim unificadas na pessoa de Jesus. • Ele entra na verdadeira terra prometida Jesus conhece a servidão da nossa condição humana, já descrita em Gênesis 3-11 e retomada nos três grandes momentos de desespero da história de Israel, vislumbrados por nós: a escravidão no Egito (a Lei), o exílio em Babilônia (os Profetas) e a perseguição de Antíoco IV (os Sábios). Aliás, ele revela claramente ter assumido esses momentos de miséria de Israel, ao se apropriar ele mesmo dos três títulos dados a Israel em tais períodos. De fato, Israel é chamado “Filho” por ocasião da saída do Egito (Ex 4,22); “Servo”, durante o exílio em Babilônia (Is 41,8; 44,1) e “Filho do homem”, quando da perseguição de Antíoco (Dn 7,13). Assim, por meio das misérias de Israel, ele assume nossas limitações humanas. Durante toda a sua vida terrena, ele “desejou ardentemente” (Lc 22,15) passar de nosso mundo limitado ao mundo de Deus. Pois, dessa vez, não se trata somente de passar de um país a outro, mas de um mundo a outro. Ele vive o êxodo decisivo: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai” (Jo 13,1). Para ele, a verdadeira terra prometida é uma pessoa: “Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou ao Pai” (Jo 16,28). A ressurreição de Cristo é o selo, a verdadeira assinatura de Deus sobre todas as promessas e profecias, pois estas têm como ponto de chegada a afirmação da ressurreição dos mortos. 107 Em tal acontecimento, Deus confirma que a esperança do paraíso, expressa na epopéia de Gilgamesh e assumida como a esperança judaica, e a própria esperança de Jesus não são vãs. A verdadeira terra prometida existe. O essencial já se realizou: alguém fez a travessia para a verdadeira terra de repouso, na qual não há mais angústia, nem choro, nem dor. “Primogênito dos mortos” (Cl 1,18; At 26,23), Jesus “atravessou os céus” (Hb 4,14) e “está no seio do Pai” (Jo 1,18). Para ele, a promessa da terra está realizada. Conseqüentemente, ele é “o Caminho” (Jo 14,5). • Para ele, a aliança é definitiva Deus mostrou sua aliança agindo na história de Israel. Jesus viveu essa fé na aliança com Deus, de modo particular no momento difícil de sua Paixão: “Eis que chega a hora em que vos dispersareis, cada um para o seu lado, e me deixareis sozinho. Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Nesse momento, ele “apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte” (Hb 5,7). Ao longo de toda a sua existência, ele permanece em relação com Deus. Ele é o fiel perfeito. E Deus age em seu favor, “libertando-o das angústias do Hades” (At 2,24). Ele é o primeiro a experimentar o que é ser salvo definitivamente por Deus. Depois de sua ressurreição, não se pode conceber uma realização mais perfeita da aliança de Deus que não seja aquela que se realizou em Jesus. Deusestá com ele, que não sofre nem morre mais. Ele superou todas as nossas limitações humanas. O Filho agora é um homem para sempre, um homem glorificado. Portanto, as três promessas feitas a Abraão se cumprem em Jesus: verdadeiro filho de Abraão, ele ingressou na terra prometida, mediante uma aliança eterna. Ele mesmo, a fim de estabelecer sua fé na ressurreição dos mortos, referiu-se à expressão que evocava o Deus das promessas, o Deus pessoal dos patriarcas: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó” (Mc 12,26). Aqueles que testemunharam a ressurreição de Jesus interpretam igualmente tal acontecimento como a realização da promessa: “O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos pais glorificou seu servo Jesus” (At 3,13). Assim, “todas as promessas de Deus tiveram nele o seu sim” (2Cor 1,20). 5 – As promessas para nós A atualidade das promessas Os textos do Novo Testamento retomam os do Antigo e afirmam que os fiéis de hoje são a verdadeira descendência de Abraão, que a entrada na terra prometida ainda não se concretizou e que a aliança se realizará plenamente no devir. • Nós somos a descendência de Abraão Se São Paulo afirma que somente o Cristo é a verdadeira descendência prometida a Abraão e o herdeiro das promessas (Gl 3,16), ele não deixa de acrescentar que todos 108 aqueles que crêem no Cristo formam com ele o povo de Deus: Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus (Gl 3,26) Se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa (Gl 3,29). Como nos Profetas, a descendência de Abraão não diz respeito apenas a uma raça, mas a uma comunidade de fiéis: E não é que a palavra de Deus tenha falhado, pois nem todos os que descendem de Israel são Israel, como nem todos os descendentes de Abraão são seus filhos, mas de Isaac sairá uma descendência que terá teu nome (Rm 9,6). Sabei, portanto, que os que são pela fé são filhos de Abraão (Gl 3,7). É por isso que os não-judeus, os pagãos, “são co-herdeiros, membros do mesmo Corpo e co-participantes da Promessa em Cristo Jesus, por meio do evangelho” (Ef 3,6). Assim se realiza a promessa de um povo numeroso: Prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, a Escritura preanunciou a Abraão esta boa nova: Em ti serão abençoadas todas as nações. De modo que os que são pela fé são abençoados juntamente com Abraão, que teve fé (Gl 3,8). Jesus anuncia para todos a realização futura da promessa de uma descendência numerosa, anteriormente feita aos patriarcas de Israel: Eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa no Reino dos Céus, com Abraão, Isaac e Jacó (Mt 8,11). A realização dessa promessa está em andamento. Ela se cumprirá definitivamente no mundo que há de vir: Eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas (Ap 7,9). Tamanho é o alcance final da posteridade de Abraão, tão numerosa quanto as estrelas do céu (Gn 15,5). • Nossa entrada na terra prometida ainda não se realizou Pedro, em sua primeira epístola, afirma que somos “estrangeiros e viajantes neste mundo” (1Pd 2,11), o que nos faz lembrar que Abraão ficou por tempo determinado na terra prometida (Gn 17,8; 28,11; 36,7; 37,1; 47,9; 26,3; 23,4). Assim, somos peregrinos como todos os nossos pais (cf. Sl 39,13). Jesus retomou a promessa da terra prometida: “Felizes os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,4). Ele a associou ao paraíso que Deus quer nos dar desde o início: Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo (Mt 25,34). 109 A entrada na terra prometida de repouso ainda não se realizou. Retomando o texto de Josué, a epístola aos Hebreus declara: “Ora, sendo que ainda continua a promessa de entrar no seu repouso...” (Hb 4,1). Esse único versículo bastaria para mostrar o caráter profético do livro de Josué. Ora, esse repouso da terra prometida é associado ao “repouso de sábado”, que “ainda fica em perspectiva para o povo de Deus” (Hb 4,8-9). Ele equivale ao repouso na criação perfeita, na qual toda a obra de Deus estará concluída (Gn 1). Portanto, a verdadeira terra prometida ainda está por vir: Na fé, todos estes morreram, sem ter obtido a realização da promessa, depois de tê-la visto e saudado de longe, e depois de se reconhecerem estrangeiros e peregrinos nesta terra. Pois aqueles que assim falam demonstram claramente que estão à procura de uma pátria. Eles aspiram, com efeito, a uma pátria melhor, isto é, uma pátria celeste (Hb 11,9-17). O ponto final dessa promessa se encontra novamente no Apocalipse: “Vi então um céu novo e uma nova terra” (Ap 21,1). É no final dos tempos que todo o povo dos que crêem entrará na verdadeira terra prometida. • A aliança ainda não está concluída A partir de agora, a aliança de Deus se iniciou para nós: “Quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento, mas passou da morte à vida” (Jo 5,24). Um dia, Deus provará que realmente está conosco, quando nos fizer passar pela ressurreição: “Aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais” (Rm 8,11). A grande intervenção de Deus ainda está por vir. Um dia, nós viveremos plenamente a aliança com Deus. No mundo da ressurreição, haverá efetivamente intimidade entre Deus e nós: uma relação tranqüila, amorosa. É por isso que o Apocalipse recupera a imagem da “esposa que se enfeitou para seu marido” (Ap 21,2). E a Bíblia termina assim: Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com- eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram (Ap 21,3-4). A fórmula da aliança se torna ainda mais pessoal com estas palavras: “O vencedor receberá esta herança, e eu serei seu Deus e ele será meu filho” (Ap 21,7). As três promessas feitas a Abraão não se realizaram ainda para nós. Um dia, como revela o Apocalipse, seremos uma multidão imensa, incontável, numa terra nova, e Deus estará definitivamente conosco. Conclusão Esse sobrevôo do Gênesis ao Apocalipse nos indica que as promessas: 110 – realizaram-se num primeiro momento sobre a terra, desde Abraão e Josué, – foram renovadas pelos profetas, – foram transferidas para o mundo da ressurreição pelos sábios, – foram cumpridas por Jesus, – ainda hão de se cumprir para nós. Longe de estarem fora de moda e ultrapassadas, elas se referem ao nosso presente e ao nosso futuro. O autor da epístola aos Hebreus, escrevendo após a ressurreição de Jesus – para este período da História que é o nosso –, lembra que nossa esperança está fundada sobre algo sólido e seguro, sobre a promessa de Deus: Desejamos somente que cada um de vós demonstre o mesmo ardor em levar até o fim o pleno desenvolvimento da esperança, para não serdes lentos à compreensão, e sim imitadores daqueles que pela fé e pela perseverança recebem a herança das promessas. Com efeito, quando Deus fez a promessa a Abraão, não havendo um maior por quem jurasse, jurou por si mesmo, dizendo: “Eu te cumularei de bênçãos e te multiplicarei grandemente”. Abraão foi perseverante e viu a promessa realizar-se. Os homens juram por alguém mais importante, e para impedir qualquer contestação recorrem à garantia do juramento. Por isso, Deus mostrou com insistência aos herdeiros da promessa o caráter irrevogável da sua decisão, e interveio com juramento, a fim de que por dois atos irrevogáveis, nos quais não pode haver mentira por parte de Deus, nos comuniquem encorajamento seguro, a nós que tudo deixamos para conseguir a esperança proposta. A esperança, com efeito, é para nós qual âncora da alma, segura e firme, penetrando para além do véu, onde Jesus entrou por nós, como precursor, feito sumo sacerdote para o éon, segundo a ordem de Melquisedec (Hb 6,11-20). Reler os textos de Gênesis 12-50 pode ser uma grande fonte de esperança paraos dias de hoje. Escritas em linguagem simples, a partir de desejos bastante cotidianos, as promessas podem vir ao nosso encontro quando estamos à procura do sentido de nossa existência, uma vez que elas têm como resultado o mundo da ressurreição. Talvez Sara tenha dito a palavra exata, que também diremos quando chegarmos à vida eterna: “Deus me deu motivo de riso, todos os que o souberem rirão comigo” (Gn 21,6). Depois de termos acompanhado a trajetória geral das promessas feitas a Abraão, do Gênesis até o Apocalipse, poderemos empreender o estudo do livro do Êxodo, para seguirmos, passo a passo, seu desenvolvimento. Logo constataremos que a história de Israel prefigura bem a vida de cada um de nós. 1 Introduction à la Génèse. In: TOB (Traduction Oecuménique de la Bible). Paris: Cerf, 1975, p. 39 [trad. em port.: TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia). São Paulo, Paulinas, 1996]. 2 AUZOU, Georges. De la servitude au service, 2.ª ed. Paris: Éditions de l’Orante, 1964, p. 114. 3 Introduction à la Génèse, In: TOB (Traduction Oecuménique de la Bible). Paris: Cerf, 1975, p. 39 [trad. em port.: TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia). São Paulo, Paulinas, 1996]. 111 4 BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002, p. 82, nota d. 5 VON RAD, Gerhard. Théologie de L’Ancien Testament. Génève: Labor et Fides, 1963, p. 147 [trad. em port.: Teologia do Antigo Testamento, 2.ª ed. São Paulo: Aste/Targumim, 2006]. 6 GELIN, Albert. Les idées maîtresses de l’Ancien Testament. Collection Foi vivante. Paris: Cerf, 1966, p. 44. 7 VAUX, R. de. La Génèse. Paris: Cerf, 1962, p. 34. 8 VON RAD, Gerhard. Théologie de L’Ancien Testament. Génève: Labor et Fides, 1963, p. 147 [trad em port.: Teologia do Antigo Testamento, 2.ª ed. São Paulo: Aste/Targumim, 2006]. 9 BEAUVOIR, Simone de. Pyrrhus et Cinéas. Paris: Gallimard, 1944, p. 87. 112 2 O ÊXODO • Seguir, passo a passo, o encaminhamento das promessas Não avançamos aparentemente nada... Só percorremos o livro do Gênesis: de 1 a 11 e de 12 a 50... Entretanto, as palavras importantes que recolhemos nele, permitiram-nos fazer uma viagem do início ao fim da Bíblia! Essas palavras constituem pegadas preciosas, que procuraremos seguir, garantindo o bom percurso do nosso estudo. Quanta gente diz: “Eu comecei a ler a Bíblia, mas parei porque me senti perdido!”. Mas por que a leitura da Bíblia seria complicada, uma vez que Deus conserva nela um único projeto, o da criação perfeita, do paraíso, da terra prometida? Esse projeto, como pudemos observar ao seguirmos a trajetória do Antigo Testamento, somente se realizará com a ressurreição dos mortos. Nesse dia, Deus mostrará sua aliança com toda a humanidade, como já mostrou com Jesus. Agora que conhecemos o traçado geral de nosso itinerário, poderemos parar, ao longo do percurso, em determinados pontos, nos quais muitas descobertas ainda nos restam a fazer. Assim, os livros do Êxodo, de Josué, dos Juízes e de Samuel nos esperam. Em primeiro lugar, poderemos acompanhar, através dos acontecimentos, a realização terrena das promessas feitas aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó. Observaremos como os filhos de Jacó, tendo se tornado escravos no Egito, conseguiram voltar à terra prometida. Esse será o conteúdo dos livros do Êxodo, de Josué e dos Juízes. Depois, ao fim dessa longa etapa, os livros de Samuel nos revelarão três novas promessas, dirigidas agora a Davi, relativas à cidade de Jerusalém, ao Templo e ao rei. Descobriremos, assim, as três outras palavras-chave cujo sentido se aprofundará incessantemente até o fim do Apocalipse, tanto quanto as palavras relativas às promessas dirigidas a Abraão. • Significação da palavra “êxodo” A palavra êxodo vem do grego: ex (do lado de fora) e odos (caminho). Ela evoca a transferência de um lugar para outro. O livro do Êxodo faz jus ao nome, que na verdade abrange dois acontecimentos ali relatados: a saída do Egito e a peregrinação pelo deserto, rumo à terra prometida. • Importância do livro do Êxodo O livro do Êxodo é fundamental, fornecendo um grande número de temas que 113 repercutem por toda a Bíblia: a revelação do nome de Deus, a libertação, a Páscoa, a travessia pelo mar, a peregrinação pelo deserto, a nuvem, o maná, a água do rochedo, a aliança no Sinai, a revelação dos dez mandamentos, o pecado, o culto divino e, de um extremo a outro, a grande figura de Moisés, a coluna religiosa de Israel e aquele cujos traços serão reproduzidos pelo Messias... • Situação do livro do Êxodo O livro do Êxodo é tão revelador de Deus, que muitos preconizam que se comece a explicação da Bíblia por ele. É verdade que encontramos aí aspectos essenciais do Deus da Bíblia: um Deus que se revela na História, por meio dos acontecimentos, revelando-se ainda como libertador. Porém, começando pelo Êxodo, corremos o risco de isolá-lo do livro do Gênesis, que o precede, e do livro de Josué, que o sucede. Conseqüentemente, corremos o risco de não discernir o grande projeto de Deus para toda a humanidade, tal como aparece em Gênesis 1-11 e tal como é resgatado pelas promessas dadas a Abraão em Gênesis 12-50. São essas promessas que se realizam mediante os acontecimentos relatados nos livros do Êxodo e de Josué. Portanto, é melhor começar pelo início, a fim de se evitar uma distorção ou restrição da revelação de Deus, tal como nos foi transmitida pelos redatores da Bíblia. Estes não deixaram de firmar os laços entre o Gênesis, o Êxodo e o livro de Josué. Assim, se por um lado eles nos revelam, por meio do Êxodo, que Deus assume o nome de Iahweh que fez sair do país do Egito, da casa da servidão – nome que se mantém ao longo de todo o Antigo Testamento –, por outro lado esse nome não vem tirar o lugar do nome de Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus das promessas. Bem pelo contrário, esses dois nomes permanecem lado a lado, justamente no momento em que Deus se apresenta a Moisés: Assim dirás aos Israelitas: “Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. É o meu nome para sempre, e é assim que me invocarão de geração em geração” (Ex 3,15). É justamente pelo fato de ser o Deus das promessas, que Deus salva Israel do Egito. Ele age porque prometeu permanecer com Abraão e seus descendentes. Assim, todo o livro do Êxodo está logo de cara ligado às promessas: “E Deus ouviu os seus gemidos; Deus lembrou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacó” (Ex 2,24). Os eventos do Êxodo ocorrem para que se cumpra a promessa. Do ponto de vista teológico, se estamos unidos à promessa, estamos unidos à gratuidade de Deus, ao seu amor. Ora, se Deus ama, é evidente que ele quer salvar. Ele não poderia pretender estar conosco se não agisse no sentido de nos resgatar de nossa miséria e nos conduzir à terra prometida. O Deus das promessas se torna, portanto, o Deus do Êxodo. • O Êxodo, início da História de Israel 114 O que começa aqui é a história de um povo: Com o Êxodo, efetiva-se o nascimento e a formação inicial do povo de Deus. No que se refere ao tempo que o precedeu, conhecia-se, graças às lembranças que se conservaram sobre os patriarcas: uma família, um clã. Mas é por meio da saída do Egito e da aliança do Sinai que Israel se estabelece como povo.1 O Êxodo traz à memória três grandes acontecimentos que determinaram propriamente a fundação do povo de Israel e que marcam três etapas em direção à terra prometida: a saída do Egito, a marcha pelo deserto e a aliança do Sinai. Tais acontecimentos são tão importantes, que ainda hoje três festas são celebradas pelos judeus em memória deles: a Páscoa, como celebração pela saída do Egito; a Festa das Tendas, pela peregrinação no deserto, e o Pentecostes, “que se tornou, após o exílio, uma lembrança da entrega da Lei a Moisés, no Monte Sinai”.2 • O Êxodo, a descrição de nossa vida O Antigo Testamento vem nos encontrar em nosso percurso individual quando, ao lermos a palavra Israel, sentimo-nos referidos por ela. Algo que nos parecia uma velha história, torna-se então a descrição de nossa própria vidae o anúncio de nosso futuro. Tamanha é a originalidade e o poder da palavra de Deus: ela nos alcança, por intermédio da história de um pequeno povo. O Antigo Testamento consiste numa imensa parábola que descreve e orienta nossa própria vida. Em primeiro lugar, a Bíblia nos revela que existe, diante de nós, de acordo com a bela expressão de Divo Barsotti, “a terra prometida do paraíso de Deus”.3 Essa é a esperança fundamental já expressa no Gênesis. Trata-se da nossa “destinação”, de nosso “destino”. Do ponto de vista de Deus, trata-se até de uma “predestinação”, que é absolutamente positiva. O Novo Testamento afirma que estamos destinados a “entrar na liberdade da glória” (Rm 8,21) e que Deus “nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo” (Ef 1,5). Essas perspectivas já estão presentes no livro do Êxodo! Com efeito, desde o início, Deus declara que Israel é seu filho: “Dirás a Faraó: Assim falou Iahweh: o meu filho primogênito é Israel” (Ex 4,22). Extraordinária afirmação! Ela orienta não apenas os acontecimentos que sobrevêm no Êxodo, mas toda a continuação dos acontecimentos, neles compreendida a ressurreição de Jesus e nossa própria ressurreição! O título de filho carrega consigo outros títulos. De fato, Israel é designado como o primogênito. Portanto, ele também é o herdeiro. Ora, a herança, no Antigo Testamento, como também no Novo Testamento, é a terra prometida, e finalmente, o mundo da ressurreição. Além do mais, esse título de primogênito implica que Israel é o eleito de Deus entre todas as nações. Mais profundamente ainda, sendo o filho de Deus, Israel é seu bem-amado, o que 115 foi dito pelo profeta Oséias, aludindo ao período em que Israel era escravo no Egito, no tempo de “sua infância”: “Quando Israel era menino, eu o amei e do Egito chamei meu filho” (Os 11,1). Esse texto de Oséias nos indica o olhar com que Deus observava Israel, quando de sua escravidão. Assim, como filho bem-amado de Deus, Israel é chamado. Ele é eleito. Deus o chama para o livrar do Egito e lhe dar a herança da terra prometida. Consideremos a impressionante concentração de títulos dados a Israel no momento do Êxodo: o filho, o bem-amado, o herdeiro, o eleito. Esses títulos se aplicarão de modo único e pleno a Jesus. O próprio Deus os atribui a ele no momento de seu batismo e de sua transfiguração (Mt 3,17; 17,5; Mc 1,11; 9,7; Lc 3,22; 9,35). Jesus os aplica a si mesmo. Ele se refere a Deus como a seu Pai e se declara herdeiro. E os autores do Novo Testamento atribuirão esses títulos insignes a toda a comunidade dos fiéis! O Êxodo revela, assim, o modo pelo qual Deus olha Israel, olha Jesus e nos olha! Eis que estamos revestidos de uma dignidade incomparável, o que configuraria uma grande fonte de esperança, se, depois de Israel e de Jesus, nós também ousássemos nos perceber como filhos, herdeiros, eleitos, bem-amados! Todavia, mesmo sendo filhos, Israel e Jesus não fogem à miséria da vida presente. Nós também não. E o livro do Êxodo continua a nos encontrar. A seqüência dos acontecimentos, com efeito, descreve bem nossa vida. Assim, no momento de seu nascimento, Israel não se encontra na terra prometida, mas no Egito, num país estrangeiro. Já como filho vindo ao mundo, ele conhece a dor e chora. Por meio de um gesto primeiro – a saída do Egito –, Deus o liberta e o salva, mas em esperança. Essa saída se efetua pela passagem através da água. São Paulo vê aí a prefiguração do batismo: “Os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos atravessaram o mar e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés” (1Cor 10,1). A saída do Egito é, portanto, uma primeira libertação, mas Israel não estará verdadeiramente salvo, a não ser quando entrar na terra prometida, no tempo de Josué. Até que isso aconteça, ele vivencia a longa peregrinação pelo deserto, durante 40 anos, o que representa significativamente a vida humana. Ora, logo depois de seus primeiros passos pelo deserto, assim como a criança cheia de manhas, Israel começa a murmurar, a endurecer a cabeça e a adorar outros deuses. Pacientemente, Deus o acompanha e lhe dá a Lei, para que eles permaneçam em aliança e Israel ingresse na terra prometida a seus antepassados. Além disso, se não nos esquecermos do livro que prepara o Êxodo e do livro que o sucede – os livros do Gênesis e de Josué –, veremos que nossa vida está inscrita no grande projeto de Deus, projeto cujo desenrolar está no próprio encaminhamento das promessas: 116 Aqui nossa vida está representada. A palavra de Deus nos é dirigida por intermédio da pequena história de um pequeno povo. Portanto, a Bíblia nunca é abstrata: ela tem o formato de um relato. Ela narra. E por meio desse relato, Deus fala a todos, em todas as épocas. São Paulo, a respeito dos eventos narrados pelo Êxodo, declara: Estas coisas lhes aconteceram para servir de exemplo e foram escritas para a nossa instrução, nós que fomos atingidos pelo fim dos tempos (1Cor 10,11). Certamente, fica difícil ao homem contemporâneo recorrer a um livro como o Êxodo para iluminar sua vida. A história que nele é narrada parece tão pequena, irrisória e velha... Porém, a linguagem do Êxodo manifesta a discrição de Deus e seu enorme respeito pela liberdade humana: É impressionante, senão maravilhoso, que a história sagrada continue sendo uma história independente, uma história que tem poucos laços com a história do mundo. No seio da História da humanidade se desenrola uma História Sagrada que o mundo não conhece. Ninguém fala de Moisés além dos escritores inspirados por Deus. E esta é a História Sagrada: o mistério de um Deus que age na humildade, porém, secretamente, penetra, invade e transforma.4 Sobre a saída do Egito, nenhuma menção é feita nos anais egípcios. Não se pode nem mesmo estabelecer com exatidão a época (relativa a qual Faraó!) em que tais fatos ocorreram. De acordo com a edição francesa de 1956 da Bíblia de Jerusalém, o episódio do Êxodo teria se passado na época de Merneptah (1224-1214) e a opressão do povo, durante o reinado de Ramsés II (1290-1224), ou então, e talvez melhor, o Êxodo teria acontecido durante a segunda metade do longo reinado de Ramsés II (1290-1224) e o período de opressão se situaria no reinado de Séti Primeiro (1310- 1290) (p. 6). A Tradução Ecumênica da Bíblia (1975) menciona igualmente o nome de Ramsés II: “O nascimento do povo foi um processo complexo que teria começado por volta de 1250, durante o reinado de Ramsés II” (p. 16). Essa data aproximativa de 1250 antes de Cristo é a que se conserva nos estudos recentes. Contudo, ainda que os historiadores um dia nos dessem a data exata da saída do Egito e os geógrafos, o local exato da passagem pelo mar e o traçado preciso da marcha pelo deserto, nada mudaria, pois não está aí a preocupação maior dos escritores da Bíblia. Sabemos, 117 aliás, que o primeiro escritor, o Javista, escreve durante o reinado de Salomão, por volta de 950, ou seja, 300 anos após os acontecimentos. A distância que separa a redação do livro do Êxodo e a realização histórica dos eventos que ele narra não é tão considerável quanto a distância entre a existência histórica dos Patriarcas e a redação do livro do Gênesis, porém não deixa de ser uma distância significativa: Seria melhor dizer que “o livro do Êxodo é composto por História, em vez de dizer: este livro é de História”.5 Nós vamos analisá-lo não apenas para reconstituir uma história passada, mas para identificar nele o nosso presente e entrever o nosso futuro! Caminhar passo a passo com Israel será partir à procura de nós mesmos, de nossa identidade, do sentido de nosso itinerário: Orígenes disse: “Não pense que esses acontecimentos se passaram há muito tempo e que nada de parecido possa lhe acontecer hoje: tudo se realiza em você, espiritualmente...”.6 O estudo acompanhará as três grandes partes do livro do Êxodo:7 A) A fuga do Egito; B) A peregrinação pelo deserto; C) A aliança no Sinai. A) A fuga do Egito Esta parte vai do início do livro do Êxodo até o capítulo 15, versículo21. Oito temas chamarão nossa atenção: 1 – a situação de Israel; 2 – o nascimento e o início da vida de Moisés; 3 – seu chamado e sua missão; 4 – a revelação do Nome de Deus; 5 – as “pragas” do Egito; 6 – a Páscoa; 7 – a passagem pelo mar; 8 – o cântico de Moisés. 1 – A situação de Israel O final do Gênesis menciona que José, ministro do Faraó, conseguiu que seu pai Jacó e seus onze irmãos viessem se estabelecer no Egito com suas famílias, num 118 período de grande fome. O Faraó lhes autorizou a habitar “a terra de Gessen” (Gn 47,5-6). Os primeiros versículos do Êxodo retomam esse episódio desta maneira: Eis os nomes dos israelitas que entraram no Egito com Jacó; cada qual com sua família: Rúben, Simeão, Levi e Judá, Issacar, Zabulon, e Benjamim, Dã e Neftali, Gad e Aser. José, porém, já estava no Egito (Ex 1,1-5). A expressão: “Eis os nomes...” equivale à expressão: “Eis as gerações...” e significa o início de uma história. Portanto, se o Êxodo dá continuidade à história dos Patriarcas, essa história que se inicia também é novidade, acontecimento, no sentido estrito da palavra, ou seja, algo que acontece e aparece. Uma nova era se abre.8 Salientemos que essa lista de nomes dos doze filhos de Jacó é um pouco modificada no primeiro capítulo do livro dos Números: os nomes de Levi e de José não aparecem, de modo que a tribo de Levi, a dos sacerdotes, é citada separadamente e o nome de José, substituído pelos nomes de seus dois filhos, Efraim e Manassés. O Êxodo menciona que, ao chegarem ao Egito, os filhos de Jacó, com suas famílias, “eram, ao todo, setenta pessoas” (Ex 1,5). Porém, esse número não deve ser tomado ao pé da letra: O autor Sacerdotal pretende designar um grupo particular mediante um número perfeito: “setenta” pessoas, associadas aos “doze” nomes das futuras tribos. Não temos aqui um cálculo de recenseamento, mas uma visão e uma apresentação de Israel como unidade, o núcleo étnico e dinâmico que inaugura uma partida.9 Depois, subitamente, o tempo se acelera: um único versículo se refere à morte de José e de “todos os seus irmãos e toda aquela geração” (Ex 1,6) e outro versículo, à permanência dos descendentes de Jacó no Egito: mais de 400 anos! Insiste-se na realização da promessa de um povo numeroso dada a Abraão: “Os israelitas foram fecundos e se multiplicaram; tornaram-se cada vez mais numerosos e poderosos, a tal ponto que o país ficou repleto deles” (Ex 1,7). Duas linhas para cobrir 400 anos! E em seguida, quatro livros inteiros para os 40 anos de Israel no deserto: o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio! Mesmo fenômeno para a vida de Jesus: dois versículos para seus 30 anos em Nazaré (Lc 2,40.51) e em seguida, quatro evangelhos para seus três anos de vida pública. Mas, ao final desses 400 anos, tudo se deteriora para Israel. O Egito muda de governo: “Chegou ao poder sobre o Egito um novo rei, que não conhecia José” (Ex 1,8): Esse versículo parece designar a chegada ao poder do poderoso Ramsés II. Para esse novo rei, não “conhecer” José significa não querer levar em consideração um passado que se considera doravante acabado, significa retirar todo privilégio anteriormente concedido à minoria dos filhos de Jacó e a outros semitas; significa ainda continuar o esforço de reação e de repressão antiasiática empreendido pelos faraós cem anos antes.10 Tendo se tornado numerosos, os filhos de Israel começam a incomodar: “em caso de guerra, aumentará o número dos nossos adversários” (Ex 1,10). Por isso, o Faraó 119 resolve submetê-los à corvéia. E foi assim que Israel “construiu para Faraó as cidades-armazém de Pitom e de Ramsés” (Ex 1,11). O fim do capítulo 1, reportando a ordem do Faraó de matar os meninos recém- nascidos, não deve ser interpretado como referência a uma intenção de genocídio, mas à eliminação de um povo inteiro. Se fosse o caso, o Faraó não teria mais a sua disposição os numerosos trabalhadores de que necessitava para suas enormes construções. Além disso, faz-se menção a apenas duas parteiras egípcias para as mulheres dos Hebreus (1,5): A menção a essas duas únicas mulheres mostraria que se trata apenas de um distrito pouco vasto: a cidade-residência real e seus arredores, por exemplo. No pensamento do escritor, o fato tem proporções modestas. Só se fala do perigo corrido pelos recém-nascidos, por causa de um deles, Moisés.11 O que deve chamar nossa atenção é a situação de sofrimento e de servidão em que se encontra Israel. Certamente, era comum que os monarcas recorressem à corvéia. Davi e Salomão o farão mais tarde em Israel (2Sm 20,24; 1Rs 4,6; 5,28), mas Israel trabalhará então para o seu rei. No Egito, trata-se de trabalhos forçados efetuados para um tirano estrangeiro: “impuseram a Israel inspetores de obras para tornar-lhe dura a vida com os trabalhos que lhe exigiam... Os egípcios obrigavam os israelitas ao trabalho, e tornavam-lhes amarga a vida com duros trabalhos” (Ex 1,11-14). Evidentemente, os trabalhadores são alimentados. Mais tarde, no deserto, eles sentirão falta dos momentos em que estavam “sentados junto à panela de carne e [comiam] pão com fartura” (Ex 16,3). De qualquer maneira, nunca é agradável, animador, nem mesmo enriquecedor trabalhar para um opressor que nos mantém vivos apenas para nos fazer trabalhar, principalmente quando o trabalho é servil: Impuseram a Israel inspetores de obras para tornar-lhe dura a vida com os trabalhos que lhes exigiam. Os egípcios tornavam-lhes amarga a vida com duros trabalhos: a preparação da argila, a fabricação de tijolos, vários trabalhos nos campos, e toda espécie de trabalhos aos quais os obrigavam (Ex 1,11.14). O vocabulário utilizado para descrever a situação de Israel no Egito remete claramente às condições de vida de multidões de pessoas sobre a Terra; quanto aos mais abastados, não são poupados pelas misérias morais e pela opressão psicológica. Também conhecemos “os gemidos” (2,24), “a miséria, as angústias” (3,7). Por intermédio dessa situação, particular a um povo, mais ou menos 1200 anos antes de Cristo: Deus quer vir ao nosso encontro e semear em nós uma esperança. Pois o que Israel viveu no Egito prefigura o sofrimento que não poupa, ainda hoje em nosso mundo, os homens e as mulheres do nosso tempo. Assim, a “servidão” a que Israel está submetido resgata a descrição do mal apresentada em Gênesis 3-11: o trabalho forçado, o sofrimento, a dominação de uns sobre os outros, o ódio, a corrupção, a violência, as divisões... Isso representa nossos próprios sofrimentos, nossas angústias, todo tipo de servidão causada no mundo pelas 120 ditaduras, pelas guerras, pela escravidão... A situação no Egito simboliza a realidade do mundo atual. Em sua introdução à última ceia de Jesus, São João ilustra essa perspectiva de modo inigualável. Esse texto é fundamental, pois insere com precisão um momento fundamental da vida de Jesus no contexto do Êxodo. Lembrando que era a véspera da Páscoa – festa em que se comemora a libertação do Egito –, o Evangelista escreve: Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai... (Jo 13,1). Trata-se aqui do Êxodo definitivo: Jesus é libertado não somente de um gênero de escravidão semelhante àquele do tempo dos faraós, mas também de nossa própria condição terrena, dolorosa e mortal; e ele passa, não mais de um país a outro, mas de um mundo a outro. O Egito se torna, assim, este mundo em que vivemos, e a terra prometida, o próprio mundo de Deus. Deus iniciava, portanto, em escala reduzida, com o êxodo de Israel, algo que se realizaria mais tarde, em maior escala, com Jesus e conosco. Israel no Egito é a imagem de todo o povo de Deus que vive atualmente a condição terrena marcada pelo sofrimento e pela opressão. Este é o primeiro dado sobre a situação de Israel no Egito: o povo de Deus experimenta os gemidos, a miséria, a angústia. Eis um vocabulário absolutamente “moderno”, que também se refere a nós, sob inúmeros aspectos. Ora, o Êxodo nos mostra que Israel, em meio à dor e ao desespero,fez subir a Deus um grito por socorro: Os israelitas, gemendo sob o peso da servidão, gritaram; e do fundo da servidão o seu clamor subiu até Deus (Ex 2,23). O grito é um tema constante em toda a Bíblia, a partir do grito de Abel – grito de todos os inocentes que morrem injustamente – passando pelo grito de Israel em seus três grandes momentos de desespero: a escravidão no Egito (a Lei), o exílio em Babilônia (os Profetas), a perseguição de Antíoco (os Sábios), até o grande grito de Jesus na cruz. O Apocalipse nos diz que um dia “nunca mais haverá clamor” (Ap 21,4). Aqui encontramos novamente o alcance atual e existencial dos textos do Êxodo: o grito de Israel prefigura o grito de Jesus e o nosso. Ora, a Bíblia atesta que Deus responde ao clamor de um pobrezinho. Ela representa Deus com olhos: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito; pois eu conheço as suas angústias” (Ex 3,7); com ouvidos: “Ouvi seu grito por causa dos seus opressores” (Ex 3,7; 2,24); com braços, “mão forte” (3,19), uma destra que “pela força se assinala” (Ex 15,6). Quando Deus estende a mão direita: toda oposição se dissipa. “Com o braço estendido” (Ex 6,6), Deus fará o povo sair do Egito. Posteriormente, o braço de Iahweh glorificará o servo sofredor (Is 53,1). Com efeito, 121 o Novo Testamento proclama que Jesus, no dia de sua ressurreição, foi “exaltado pela direita de Deus” (At 2,33). O livro do Êxodo, ao considerarmos sua repercussão em toda a Bíblia, testemunha que Deus não deixa de ouvir nossos clamores, aos quais um dia colocará fim. Em certos momentos, pode acontecer que, como Israel, tenhamos uma vida tão difícil, que essa esperança pareça inexistente. Jesus dizia ao povo da Galiléia, que pendia ao peso de seus fardos: “Crede no Evangelho” (Mc 1,15). Antes dele, Moisés havia anunciado a Israel, escravizado no Egito: “Deus vos fará entrar na terra que jurou com a mão estendida dar a Abraão, a Isaac e a Jacó”. Mas nos diz o texto: “Eles não ouviram Moisés por causa da ânsia do espírito e da dura escravidão” (Ex 6,9). Aqui, Georges Auzou faz o seguinte comentário: A observação do versículo 9 é de uma psicologia muito exata e freqüentemente verificável. Quando não se tem mais forças, quando se é submetido a uma duríssima servidão: nenhuma mensagem de esperança poderia ser ouvida. Sem algumas condições mínimas e essenciais de existência, o homem já não é suficientemente homem e, portanto, não pode ouvir a Deus.12 Tal era a situação de Israel no Egito, no período de seu nascimento. Tal é nossa situação ao virmos a este mundo: experimentamos o sofrimento e gritamos. Mas sobre nós repousa a promessa de uma terra de descanso. Deus sabe que estamos numa terra estrangeira. De fato, ele nos libertará dela. Essa libertação se realizará por graça de alguém que vai nascer e que será seu enviado... 2 – O nascimento e o início da vida de Moisés O capítulo 2 do Êxodo está centrado sobre o homem que representará um papel primordial, não somente nos episódios da libertação de Israel, da marcha pelo deserto e da aliança no Sinai, mas em toda a continuação da história judaica e até da história cristã. Enquanto Abraão é o pai do povo judeu , Moisés é a coluna da religião judaica: O nome de Moisés, excetuando-se o nome de Jesus, é o mais importante de toda a Bíblia e se tornará o próprio símbolo do Antigo Testamento. Pode-se dizer que esse nome é um dos maiores nomes da história da humanidade.13 A história de Moisés, o menino salvo das águas, é bastante conhecida e freqüentemente contada como uma história bonita. Mas isso não deve nos fazer esquecer do caráter trágico dos acontecimentos. Desde o nascimento, o menino está ameaçado de morte: o Faraó mandou matar os filhos dos hebreus. Essa ordem, como já dissemos, referia-se provavelmente a apenas “um distrito pouco vasto, a cidade- residência real e seus arredores”.14 A mãe esconde seu filho. Após três meses, “como não pudesse mais escondê-lo, tomou um cesto de papiro, calafetou-o com betume e pez, colocou dentro a criança” (Ex 2,3). Ela depõe o cesto entre os juncos, à beira do Nilo. A irmã do menino vigia. 122 Quando a filha do Faraó encontra o menino, que ela acredita ser órfão, resolve adotá- lo. A irmã de Moisés se oferece para encontrar uma ama para o bebê, trazendo-o de volta à própria mãe! Esta aliás recebe um salário! Logo que o menino cresce, a mãe o devolve à filha do Faraó. Aquele que deveria ser morto desde o nascimento pelo Egito é salvo pelo próprio Egito. Dão a ele um nome egípcio (Mosu, ou Més, ou Moses): O nome “Moisés” deriva do verbo egípcio “nascer”. A mesma raiz se encontra em nomes bastante conhecidos: Tutmés (Tot nasceu, ou o filho de Tot), Ramsés (Rá nasceu, ou o filho de Rá).15 A Bíblia conservou o significado egípcio do nome de Moisés ao relatar que “a filha do Faraó o adotou e lhe pôs o nome de Moisés, dizendo: ‘Eu o tirei das águas’” (Ex 2,10). Não obstante, posteriormente, o nome de Moisés foi aparentado a Moshé, em hebraico: O nome egípcio de Moisés foi associado ao verbo hebraico “masha” (retirar). A semelhança fonética é puramente acidental. Contudo, não seria preciso mais, para surgir aí a etimologia popular “tirado das águas” (Ex 2,10).16 De fato, Moisés, retirado das águas, o primeiro a ser salvo do Egito, prefigura algo que será vivido por Israel, quando também for salvo do Egito. O nome é significante da pessoa e do papel que ela representará. Desde a infância até a idade adulta de Moisés, podemos observar de que modo os acontecimentos o preparam para sua futura missão: Sua primeira educação pertence primeiramente à sua mãe. Por meio dela, de sua irmã, de toda a família e parentela, Moisés conheceu um pouco da religião dos Pais, das tradições sobre a origem de seu povo e de seu Deus.17 Posteriormente, ele é “iniciado em toda a sabedoria dos egípcios” (At 7,22). Ele será um homem culto: Não parece duvidoso que Moisés tenha recebido uma formação superior, no ambiente em que se preparavam os altos funcionários do reino. O estudo da escrita, do cálculo, do desenho, da história, da geografia, da medicina, da música e das artes, bem como a iniciação à religião egípcia, a suas doutrinas, à liturgia e aos rituais, tanto quanto aos segredos da magia, tão ligada à existência no Egito, certamente fizeram de Moisés um escriba hábil e sábio. Devido à preocupação que causava ao governo a multidão de asiáticos, ao redor da fronteira oriental, talvez se tenha preparado Moisés, na administração real, para se ocupar desses estrangeiros.18 Entretanto, um acontecimento dramático obrigará Moisés a fugir. Ao se encontrar na região de Gessen, “viu as tarefas que pesavam sobre seus irmãos; viu também um egípcio que feria um dos seus irmãos hebreus. E como olhasse para uma e outra parte e visse que ninguém estava ali, matou o egípcio e o escondeu na areia” (Ex 2,11-12). Esse gesto revela sua total aversão às formas de opressão sofridas pelas pessoas de sua raça, com as quais, doravante, ele quer se identificar. Conseqüentemente, Moisés rompe com o passado. E como a notícia da morte do egípcio se espalhou, ele precisou fugir, seguindo em direção ao deserto. Pode-se pensar que ele não se aventurou 123 sozinho pelo deserto, mas teria se juntado a uma caravana ou a um grupo de beduínos. Assim, ele chega até a região de Madiã. A fuga de Moisés ao país de Madiã. Os madianitas habitam uma região situada na costa oriental do Golfo de Ácaba, mas também se encontram na região do Sinai. São tribos semi-sedentárias que fazem comércio com o Egito e Canaã. É ali que Moisés viverá um longo período de “retiro”, longe do Egito e de seus irmãos. No país de Madiã, ele se casa e tem um filho, a quem dá o nome de Gersam, pois disse: “Sou um imigrante em terra estrangeira” (Ex 2,22). É durante esse período que ele fará pela primeira vez a experiência da vida no deserto. Ele se torna pastor do rebanho de seu sogro, Jetro, que é também sacerdote em Madiã: Moisés entra para uma família que parece descender de Abraão (Gn 25,2), cujos costumes emodo de vida são os mesmos de seus longínquos antepassados. É possível que ele tenha reencontrado ali as tão 124 importantes tradições, próprias à história de Abraão, Isaac e Jacó.19 Caminhada bastante singular a de Moisés: educado em sua tenra idade pela mãe, formado nas grandes escolas do Egito e na corte do Faraó, ele se retira da vida, no deserto, e é introduzido nas tradições relativas ao Deus dos Pais. Tudo isso o prepara para a missão que ele realizará. Um dia, ele voltará ao Egito para ajudar seus irmãos a saírem da servidão; guiá-los-á, durante 40 anos, pelos caminhos áridos do deserto; religará o presente e o passado: com ele, o Deus dos Pais, o Deus El, adorado 600 anos antes e também chamado Iahweh, será o Deus que liberta do Egito; e Moisés trará os dez mandamentos, esse monumento de concisão, marcado ao mesmo tempo pela assinatura do Deus dos hebreus e pela semelhança com um livro muito respeitado no Egito: o Livro dos mortos. Por ora, no entanto, esse homem está casado e vive na terra de Madiã. Mas ele não pode se esquecer dos sofrimentos de seus irmãos, que ficaram na terra de Gessen. Antes de considerarmos o acontecimento que o reconduzirá ao Egito, observemos o paralelo que São Mateus estabelece entre Moisés e os filhos de Israel e a infância de Jesus: Jesus é, ao mesmo tempo, o novo Moisés e o verdadeiro povo de Deus: Esse paralelo não deve apenas nos remeter ao passado, pois o menino de Belém permanece vivo. Se Moisés prefigura o Messias, ele nos revela ao mesmo tempo quem é Jesus: o enviado de Deus, para nos libertar de nossa miséria atual e nos levar à terra prometida definitiva. No Êxodo, Deus já nos revela seu Filho. Todo o Antigo Testamento anuncia o Ressuscitado, que hoje vive. 3 – O chamado e a missão Os chamados de Deus muitas vezes se fazem ouvir após um longo caminho que devemos percorrer. São Paulo foi “educado aos pés de Gamaliel na observância exata da Lei” (At 22,3), antes de se tornar “um instrumento de escol” (At 9,15) do Cristo Ressuscitado. Nem mesmo Jesus inicia sua ação pública antes de crescer em sabedoria e graça em Nazaré (Lc 2,40.52), ou seja, antes de haver meditado a Palavra de Deus ao longo de pelo menos trinta anos. Deus também se expressa por meio de pessoas e acontecimentos: São Paulo 125 encontra Ananias (At 9,17-20), e Jesus, o profeta João (Mc 1,9). Com efeito, a prisão de João representa para Jesus o sinal de que o tempo de preparação terminou (Mc 1,14; Mt 4,12). Todavia, mais do que tudo, na origem de toda missão profética, há um momento forte com Deus, constituindo uma guinada: São Paulo encontra o Ressuscitado no caminho para Damasco (At 9,4); Jesus vive um encontro com Deus no momento de seu Batismo no Jordão (Mt 3,16-17). Portanto, há um momento a partir do qual o homem toma consciência de que Deus o chama. Esse chamado vai de encontro à pessoa, em suas preocupações mais profundas: São Paulo buscava uma salvação diferente daquela que o homem acredita conquistar para si mediante a observância da Lei (Fl 3,9); Jesus veio trazer fogo à Terra (Lc 12,49). Assim também se passa com Moisés. O chamado de Deus o interpela após uma longa preparação e vai ao seu encontro, naquilo que se tornou sua grande preocupação: a situação de seus irmãos explorados no Egito. Além disso, esse chamado tem uma confirmação de seu sogro Jetro: Saindo, Moisés voltou para Jetro, seu sogro, e lhe disse: “Deixa-me ir e voltar a meus irmãos que estão no Egito, para ver se ainda vivem”. Respondeu Jetro: “Vai em paz” (Ex 4,18). Outro elemento concorre para que Moisés volte ao Egito: a morte de seus antigos acusadores. Essa notícia é posta ao lado do chamado de Deus, num segundo relato de sua vocação: Iahweh disse a Moisés, em Madiã: “Vai, volta para o Egito, porque estão mortos todos os que atentavam contra a tua vida!” (Ex 4,19). Tudo isso nos indica que Moisés viveu muitos anos junto ao povo de Madiã. Ele está em sua idade madura. Contudo, ainda que esses anos o tenham tornado um instrumento de escol para realizar sua missão, sendo as circunstâncias favoráveis: na origem da nova direção que sua vida vai tomar, há, mais do que nunca, um momento forte com Deus. Com efeito, é preciso explicar como será possível para um homem vivendo bucolicamente com sua família, lançar-se em tamanha empreitada. A Bíblia não deixa, aliás, de expressar as dúvidas de Moisés: “Quem sou eu para ir a Faraó e fazer sair do Egito os israelitas?” (Ex 3,11); “Perdão, meu Senhor, eu não sou um homem de falar; pois tenho a boca pesada, e pesada a língua” (Ex 4,10); “Perdão, meu Senhor, envia o intermediário que quiseres” (Ex 4,13). A tarefa está acima das capacidades humanas. E a cada vez Deus lhe diz: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12); “Eu estarei em tua boca, e te indicarei o que hás de falar” (Ex 4,12). Esses diálogos expressam exatamente o que se passou ali. Se anos antes Moisés fora forçado a fugir do Egito, ele voltará com toda liberdade, tendo plena convicção de estar voltando como enviado. Moisés não é apenas um sedento de justiça, um libertador que intervém em socorro de seus irmãos: ele é o primeiro enviado de Deus, 126 a quem representará num momento preciso da história de Israel, no contexto de uma saída, de uma libertação, de uma passagem. Com Moisés, a tradição, preservada desde os Patriarcas, recebe uma marca indelével, impressa pelo próprio Deus, naquilo que doravante se manifestará como sua grande intervenção: a saída do Egito. É sobre essa tradição que se apoiarão todos os outros profetas, e de modo decisivo, o próprio Jesus. Os autores da Bíblia compreenderam, ao longo dos séculos, que Moisés era um homem de Deus, que seu modo de ver Deus – como aquele que ia libertar seu povo – revelava algo determinante e essencial sobre o conhecimento de Deus. A saída do Egito, que se referia primeiramente a um grupo de pessoas, ia se tornar o protótipo da ação de Deus em favor de toda a humanidade. Aqui tocamos a própria idéia de Deus, que é percebido de tantas maneiras, por tantas religiões existentes no mundo! Ora, a percepção de Moisés é a que foi confirmada definitivamente por Deus, ao ressuscitar Jesus, “libertando-o das angústias do Hades” (At 2,24). De fato, essa percepção será confirmada para nós, quando também formos libertados da morte. Por isso, os autores da Bíblia não cessaram de remeter à experiência de Moisés, e somente a ele é que reservam expressões como estas: Iahweh, então, falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo (Ex 33,11). Em Israel nunca mais surgiu um profeta como Moisés – a quem Iahweh conhecia face a face (Dt 34,10). Essas imagens poéticas, que exprimem a profundidade da experiência de Moisés, enfatizam igualmente a iniciativa de Deus. Pois uma experiência com Deus vem de Deus. Isso quer dizer que Deus trabalhou na vida de Moisés. Este se pôs a caminho porque estava certo de que Deus libertaria Israel. Houve, portanto, um momento em que Deus lhe fez sentir sua presença, para o chamar, e esse momento coincidia com a escravidão de Israel no Egito. A cena da sarça ardente (Ex 3,1-6) nos mostra precisamente que o primeiro enviado de Deus não inicia uma missão profética sem se sentir chamado e sustentado por Deus. Esse episódio constitui a guinada decisiva na vida de Moisés. A fim de abordarmos bem o texto dessa cena, devemos nos lembrar de que Moisés viveu por volta de 1250 anos antes de Cristo; além disso, os três escritores desse texto – o Javista, o Eloísta e o Sacerdotal – escrevem em 950, 750 e 550 a.C., ou seja, 300, 500 e 700 anos mais tarde. Cada autor tem um jeito próprio de se referir a Deus. O Javista escreve: ”viu Iahweh que ele deu uma volta para ver” (Ex 3,4) ; o Eloísta: “O Anjo de Iahweh lhe apareceu” (Ex 3,2) ; o Sacerdotal: “E Deus o chamou do meio da sarça” (Ex 3,4). Além disso, o texto obedece aos padrões dos relatos de anunciação, freqüentemente utilizados para revelar um nascimento ou uma vocação.20 Encontramos os cinco elementos desse gênero de narrativa em Êxodo 3,1-12: 127 – Iahweh ou oAnjo de Iahweh aparece a Moisés (3,2-6). – O medo toma conta de Moisés: Moisés cobriu o rosto (3,6). – Uma mensagem lhe é anunciada: Eu vi a miséria do meu povo; vai, pois (3,7- 10). – Moisés apresenta uma objeção: Quem sou eu para ir a Faraó? (3,11). – Um sinal lhe é dado: Vós servireis a Deus nesta montanha (3,12). Essas poucas observações já nos indicam que durante séculos a vocação de Moisés “alimenta a reflexão dos Teólogos: procurava-se, em Israel, imaginar quais teriam sido as palavras trocadas entre Deus e Moisés”.21 É evidente que não se buscou tanto reconstituir os detalhes do acontecimento quanto exprimir o significado que ele teria representado na vida de Moisés. Os comentadores podem somente levantar hipóteses a respeito do que poderia ter se passado no deserto, quando “apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro” (Ex 3,1). Robert Michaud fala sobre a existência de um lugar santo em que se produzia “o estranho fenômeno de uma sarça que queimava sem jamais se consumir”: Procura-se ainda hoje uma explicação para tal maravilha: deve-se pensar nos mil raios de sol sobre uma espécie determinada de arbusto? ou na exalação de um gás inflamável? Seja qual for o fenômeno, os peregrinos olhavam o curioso espetáculo como a indiscutível manifestação da divindade.22 Georges Auzou vai de algum modo na mesma direção ao escrever: Moisés havia chegado, ao que tudo indica, até um local tradicionalmente consagrado por um culto. Ele talvez não o conhecesse ou ignorasse sua localização exata. Percebendo que acabara de entrar em contato com um solo “santo”, tira as sandálias em sinal de respeito. Ele compreende, de fato, que Deus se lhe apresentou ali.23 Interessando-se pela formulação inicial, Georges Auzou acrescenta um elemento que pode ajudar a determinar com exatidão o acontecimento: “O anjo de Iahweh lhe apareceu numa chama de fogo, do meio de uma sarça” (Ex 3,2-3): A expressão “Anjo de Iahweh” é clássica nos textos antigos e tem por finalidade anunciar que Iahweh vem pessoalmente. Dizer “Anjo de Iahweh” significa dizer que Deus se torna presente, se manifesta, se faz ouvir, geralmente por um meio ao mesmo tempo natural e extraordinário.24 Baseando-se em outros textos da Bíblia, ele comenta assim a chama de fogo: Deus se torna presente “na chama de fogo”. O fogo que “devora” é o raio, o fogo que vem do céu, o fogo de Deus. O Deus-na-tempestade do Sinai é também chamado “fogo consumidor” (Ex 24,17; Dt 4,24; 9,2). Quando a tempestade é entendida como uma manifestação de Deus, pode-se dizer que Deus “fala”. De um ponto de vista puramente exterior, é possível fazer uma idéia da cena relativa à sarça. Uma tempestade irrompe e um raio cai diante de Moisés. Ele é tomado pelo pavor, pelo medo de ser atingido por um raio. O mesmo terror tomou conta das testemunhas da “teofania” de Êxodo 20,18-19. Pois “não se pode ver Deus sem morrer”, e “ver Deus” é o mesmo que ver seu “fogo”. Ora, após a 128 experiência aterrorizante, Moisés percebe que não morreu! Excepcionalmente, o “fogo” não o “devorou”, nem destruiu nada; a sarça e o santuário permanecem ali! No mistério, prosternado, Moisés percebe a Presença divina que se manifestou.25 Mas os dois autores salientam que o importante está além das aparências: A fim de se manifestar, Deus pode ter utilizado um fenômeno natural. Mas esse fenômeno não explica a experiência religiosa feita por Moisés. O acontecimento exterior foi o meio ou a ocasião. A realidade essencial foi um encontro real com Deus, de algum modo experimentado por Moisés.26 As circunstâncias concretas que envolveram o acontecimento permanecerão desconhecidas. Isso não é tão importante. O essencial basta àquele que crê: o humilde beduíno, meditativo como os beduínos de todos os tempos, não se assemelhará nunca mais aos seus irmãos. Iahweh lhe pede para falar e agir em seu nome. Disso ele não tem nenhuma dúvida.27 Entre todos os filhos do deserto, Deus escolheu apenas um, Moisés, a quem confiou a inconcebível missão de anunciá-lo “de geração em geração” (Ex 3,15).28 O texto expressa algo que Moisés sentiu da parte de Deus: “Viu Iahweh que ele deu uma volta para ver. E Deus o chamou do meio da sarça: Moisés, Moisés” (Ex 3,4). O contexto da tempestade deve ser conservado para que se possa compreender as palavras nele inseridas: “Moisés cobriu o rosto, porque temia olhar para Deus” (Ex 3,6). Com efeito, como nos mostrou Georges Auzou, esse contexto se repete na ocasião da aliança no Sinai, onde Deus manifesta sua glória a Moisés por meio do fogo consumidor, o que remete aos relâmpagos de uma tempestade fulgurante (Ex 19,16-20; 24,17). Nesse momento, Moisés é incapaz de ver Deus, ou sua face, o que significa, concretamente, incapaz de suportar a força da tempestade. Por que não associarmos esse contexto ao episódio da sarça? Tendo o raio atingido o arbusto, diante de Moisés, a tempestade prosseguiu, e Moisés foi incapaz de suportar o esplendor da glória de Deus, manifestada no “fogo” da tempestade. Assim se explicariam as palavras: Moisés cobriu o rosto, porque temia olhar para Deus. Esse final reforçaria a hipótese de uma tempestade. Podemos pensar igualmente que o lugar e a solidão em que Moisés se encontrava teriam facilitado um encontro com Deus. Poderíamos aproximar a experiência de Moisés daquela de que trata o psicólogo da religião Rudolf Otto: Em uma nota dedicada a um livro sobre a África do Sul se encontra o seguinte relato: o autor reproduz certas palavras significativamente pronunciadas por um desses colonos holandeses de alta estatura, fortes, obstinados e silenciosos, que falava apenas de seus carneiros, de seus rebanhos e dos hábitos dos leopardos, assunto sobre o qual tinha autoridade. Depois de ter percorrido, ao calor do sol, por quase duas horas, a imensa planície africana, ele diz lentamente: “Tem uma coisa que eu desejo lhe perguntar há muito tempo. Você é instruído. Quando você está só numa planície como esta e, como agora, o sol lança seus raios sobre os arbustos, não lhe parece que alguma coisa está querendo lhe falar? Não que você ouça o que quer que seja com seus ouvidos, mas é como se você se tornasse tão pequeno, tão pequeno, e o outro tão grande... Então todas as pequenas coisas do mundo lhe parecem não ser mais nada”.29 129 Certamente, não é fácil descrever uma experiência interior, especialmente uma experiência de Deus. Uma coisa, porém, é certa: Moisés voltou ao Egito e foi reconhecido como o homem de Deus em Israel. Os autores da Bíblia compreenderam bem que Deus se tornara presente a ele e o chamou. A experiência que Moisés viveu no deserto foi fundamental e determinou os quarenta anos que se sucederam. Até sua morte, Moisés permaneceu a serviço de seus irmãos. Retornando ao Egito, ele tem a certeza de estar sendo enviado e sabe que Deus não o deixará. Como todos os enviados de Deus, que se põem a caminho, ele não sabe de antemão como tudo se dará. É interessante o fato de que o Deus que o chama e o envia é, ao mesmo tempo, o “Deus de [seus] pais” (Ex 3,6), e “o Deus de seus irmãos” (Ex 3,13), “o Deus dos hebreus” (Ex 3,18): “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó” (Ex 3,6). É precisamente esse Deus das promessas quem vai tomar pela mão a história de seu povo e se revelar como Iahweh, o Salvador: Moisés não se encontra com um Deus novo. O Deus que “aparece” no fogo é o mesmo Deus dos Patriarcas, o Deus que com eles caminhava e se lhes manifestava. Explicitamente, a história é religada ao passado, àquela revelação que havia sido feita aos Patriarcas e transmitida por uma tradição própria aos israelitas. E, uma vez que esse Deus deixou Moisés em vida, isso significa que ele permanecerá com Moisés, pois quer prosseguir com ele a história começada.30 A missão de Moisés está contida numa frase muito curta: “Vai, pois, e eu te enviarei a Faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os israelitas” (Ex 3,10). Essa missão se liga diretamente às três promessas dirigidas a Abraão, a Isaac e a Jacó: o povonumeroso, a terra e a aliança: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo... desci a fim de libertá-lo... para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3,7-8). A ação de Deus se concretizará em dois momentos: libertar Israel da servidão e conduzi-lo a uma “terra boa e vasta” (Ex 3,8). Essa é a missão confiada a Moisés, num momento bem preciso da história de Israel. Mas o Êxodo não é um simples relato sobre acontecimentos passados. Do ponto de vista de Deus, a missão de Moisés anuncia uma outra missão, muito mais decisiva: a missão de seu próprio Filho, que será enviado como o novo Moisés, não somente a uma nação, mas a todos os povos: Deus enviou seu Filho ao mundo, Para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3,17). Deus o envia, não para lutar apenas contra um Faraó, mas contra todas as forças do mal: O Faraó é um verdadeiro tema bíblico, assim como tantos outros monarcas e tiranos cuja lista ele encabeça, prefigurando o Anticristo e o Príncipe deste mundo, Satanás, todos opositores, cuja ruína ilustrará o poder de Iahweh, bem como sua fidelidade para com seu povo sofrido.31 130 E Deus envia seu Filho ao mundo não apenas para libertar um povo de trabalhos forçados, mas para libertar todos os homens de sua condição terrena, sofredora e mortal: Uma vez que os filhos têm em comum carne e sangue, por isso também ele participou da mesma condição, a fim de destruir pela morte o dominador da morte, isto é, o diabo; e libertar os que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte (Hb 2,14-15). Esse texto da epístola aos Hebreus se insere exatamente no interior de um magnífico paralelo entre Jesus e Moisés. Assim como Moisés se identificara com seus irmãos, Jesus não se envergonhou por nos chamar de irmãos (cf. Hb 2,12). A preocupação de Moisés em relação a seus irmãos, escravizados no Egito, nos revela, pois, a preocupação do próprio Filho de Deus a nosso respeito, nós, seus irmãos presentemente oprimidos neste mundo. Mais além, ela exibe a preocupação do próprio Deus ao enviar seu Filho como o novo Moisés: Convinha, de fato, que aquele por quem e para quem todas as coisas existem, querendo conduzir muitos filhos à glória, levasse à perfeição, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles (Hb 2,10). A missão de Jesus, embora tenha um alcance muito mais profundo e universal, se realiza a partir do modelo da missão de Moisés, o irmão que se torna o libertador e guia. Porque é acima de tudo nosso irmão, que o Cristo se fez nosso libertador e nosso guia. E antes de tudo pelo fato de ser Pai, é que Deus o enviou para salvar seus filhos. Certamente, os dois enviados, Moisés e Jesus, não têm a mesma dignidade: Moisés era fiel em toda a sua casa, como servo, para ser testemunha das coisas que deveriam ser ditas. Cristo, porém, na qualidade de filho, está acima de sua casa (Hb 3,5-6). Sob todos os aspectos, a missão de Moisés anuncia a missão de Jesus. O Êxodo nos mostrará agora quem é esse Deus que os enviou. 4 – A revelação do nome de Deus O trecho de Êxodo 3,13-15 tem elementos teológicos de alcance incomparável. Pois, ao revelar seu nome a Moisés, Deus revela quem ele é. O nome, para os hebreus, revela a identidade da pessoa. Essa passagem torna possível, portanto, nada menos do que conhecer Deus! O nome revelado a Moisés é o nome de Iahweh. Esse nome ecoou por todo o Antigo Testamento: “por volta de 6.000 vezes”.32 Ele já era conhecido antes de Moisés, ainda que a tradição sacerdotal pareça afirmar o contrário: 131 Deus falou a Moisés e lhe disse: “Eu sou Iahweh. Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacó como El Shaddai; mas meu nome, Iahweh, não lhes fiz conhecer” (Ex 6,2-3). As duas tradições não são necessariamente contraditórias. A revelação feita a Moisés não é tanto a novidade de uma palavra, mas exatamente o que ela expressa: uma nova compreensão de Deus. Nesse sentido, a tradição sacerdotal pôde dizer que o nome de Iahweh não era conhecido antes de Moisés.33 O texto de Êxodo 3,13-15 nos revelará a significação profunda desse nome. Lembremos que, ao longo desse trecho, um laço de continuidade é firmado entre o Deus que se dá a conhecer como Iahweh e o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Esses dois nomes tornarão a se encontrar lado a lado. Escreve-se, aliás, por três vezes, que ele quer falar aos filhos de Israel, os descendentes de Jacó. As promessas que remontam a Abraão estão, assim, subjacentes a todo o livro do Êxodo; com efeito, são essas promessas que motivam toda a ação de Deus. Desse modo, o período que vai de Abraão a Moisés é unificado: 600 anos! (1850-1250). Agora, com Moisés, a história de Israel enquanto povo tomará um rumo decisivo. O texto assume o formato de um diálogo entre Deus e Moisés. Moisés diz primeiramente: “Quando eu for aos israelitas e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?” (Ex 3,13). Deus responde a Moisés: “Eu sou aquele que é”. Disse mais: “Assim dirás aos israelitas: ‘EU SOU me enviou até vós’”. Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás aos israelitas: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós’” (Ex 3,14-15). Encontram-se três vezes as palavras me enviou até vós: – O Deus de vossos pais me enviou até vós (v. 13). – EU SOU me enviou até vós (v. 14). – Iahweh, o Deus de vossos pais, me enviou até vós (v. 15). Essa constatação já nos indica que a célebre frase Eu sou aquele que é não é uma definição estática de Deus como eterno Ser. Ela já nos adianta uma ação de Deus que se cumprirá por intermédio de Moisés. A palavra Iahweh, do versículo 15, é o mesmo verbo da frase Eu sou, do versículo 14, mas na terceira pessoa. Ela significa: Ele é. Assim, ao falar de si mesmo, Deus diz: Eu sou. E quando outros falam dele, eles dizem: Ele é. Como no hebraico as vogais não são escritas, no versículo 15 da versão original, encontramos apenas as quatro consoantes que formam o “tetragrama sagrado”: YHWH. O nome de Deus deveria sem dúvida ser lido: Yahaweh (Iahweh), mas foi possível lhe acrescentar outras vogais e ser lido Yehowah (Jeová). “Hoje há um consenso para se ler e geralmente se escrever ‘Iahweh’, o que evoca de alguma maneira a pronúncia original e simplifica comodamente a transposição da escrita hebraica”.34 É a palavra Iahweh que se adotou para a tradução da Bíblia de Jerusalém. É preciso assinalar que, após o exílio na Babilônia, “por um respeito que se 132 tornara escrupuloso em relação ao nome sagrado, adquiriu-se o hábito, nos meios intelectuais e religiosos, de se proibir a pronúncia desse nome”.35 O evangelho de Mateus, destinado aos cristãos de origem judaica, obedece a essa regra, substituindo, por exemplo, as palavras Reino de Deus por Reino dos Céus. A Tradução Ecumênica da Bíblia (TOB) convencionou substituir a palavra Iahweh pela expressão O Senhor. Seja lá o que for, devemos examinar o verbo empregado para designar Deus, sobretudo no que diz respeito ao aspecto gramatical. A fórmula Eu sou aquele que sou é lida em hebraico ehyeh asher ehyeh. As informações seguintes, por mais elementares que possam parecer, são extremamente reveladoras: “Ehyeh” é o verbo “hayah” na primeira pessoa do singular do imperfeito, no modo indicativo. Este verbo “hayah” pode ser traduzido como “ser”, “existir”. Trata-se de um verbo ativo: “ser alguém que age”. Ele significa a existência enquanto esta se exerce e se manifesta por sua atividade. “Ser” é “ser/estar em relação”, “agir para”. O tempo do verbo, que é imperfeito, significa que a ação expressa é contínua e permanente, não acabada. Ele pode ser traduzido pelo nosso imperfeito: “eu era”, ou pelo presente: “eu sou”, ou pelo futuro: “eu serei”. O relativo “asher” é invariável e pode ser traduzido por “que” ou “quem”. A tradução literal é: “eu sou quem sou”, mas com esse sentido de duração do imperfeito, a expressão também pode ser traduzida por: “eu serei quem serei”. No versículo 15, “Iahweh” continua a ser o verbo “hayah”,ainda no masculino singular do imperfeito sob a forma indicativa, mas desta vez na terceira pessoa. O verbo, estando no imperfeito, pode ser traduzido por: “Ele era”, ou “ele é”, ou “ele será”.36 O nome de Deus é, portanto, significado por um verbo de ação, no imperfeito, que o abre, ao mesmo tempo, para o passado, o presente e o futuro. A tradução literal seria: Eu era quem era, Eu sou quem sou, Eu serei quem serei. A Tradução Ecumênica da Bíblia levou isso em consideração, traduzindo a frase em questão por: “Eu sou quem eu serei”. É numa ação que Deus se dará a conhecer e continuará a se fazer conhecer dessa maneira. Ora, a ação que o revela como Iahweh é aquela da saída, da libertação de Israel no Egito. Torna-se evidente que o nome de Deus, revelado a Moisés, só pode ser entendido no contexto do êxodo. Deus mostra quem ele é no acontecimento da fuga do Egito. Na ação que ele opera em seu favor, Israel o conhece como aquele que salva. O nome de Deus significa, portanto: Eu sou aquele que liberta, aquele que faz sair, aquele que faz passar. E uma vez que o nome de Deus está aberto ao futuro, essa libertação anuncia outras libertações: “O êxodo será a primeira ‘redenção’ e o protótipo de uma redenção que Deus realizará mais tarde”:37 O nome de Deus está aberto para a história, e a história verificará o conteúdo desse nome. Deus se manifestará progressivamente como Iahweh.38 A expressão: Saberão que eu sou Iahweh tem sua origem no livro do Êxodo 133 (7,5.17; 10,2; 14,4.18; 16,6.12). A saída do Egito e a revelação do nome de Deus formam uma única realidade: “Eu sou Iahweh teu Deus, desde a terra do Egito” (Os 12,10; 13,4; Ez 20,5-6). Os profetas retomarão a expressão: Vocês reconhecerão que eu sou Iahweh, para salientar o caráter profético do nome de Deus. Essa expressão é encontrada 70 vezes em Ezequiel! Se Israel tem uma definição equivalente à de “Iahweh”, é exatamente esta, tantas vezes repetida: “Iahweh-que-nos-fez-sair-do-país-do-Egito-da-casa-da-servidão”.39 O significado da festa da Páscoa, como o veremos, é precisamente o de lembrar, em vista de uma passagem definitiva, esta primeira passagem, do Egito em direção à terra prometida. Três grandes saídas, cada vez mais decisivas, marcam as três etapas mais importantes da história de Israel no Antigo Testamento: – a saída do Egito, durante a servidão imposta pelo Faraó (a Lei): – a saída da Babilônia, após o exílio, durante o reinado de Nabucodonosor (os Profetas), – a saída deste mundo, durante a perseguição de Antíoco (os Sábios). Mediante esta última saída, é revelada a ação por meio da qual Deus será definitivamente Iahweh: a ressurreição dos mortos, que constituirá a última passagem em direção à terra prometida (Dn 12,2). Isso quer dizer que todas as libertações de Israel apontam para essa libertação final. E eis que, no Novo Testamento, ecoa a notícia do acontecimento por meio do qual Deus realiza a dimensão profética de seu nome: Deus se torna “Iahweh” para Jesus, ao fazê-lo sair de nosso mundo de servidão, fazendo-o passar para seu mundo de liberdade. Deus se revela novamente em uma ação, que, desta vez, leva suas outras intervenções a seu cumprimento. O Deus do Êxodo se nomeia de agora em diante: Aquele que ressuscitou Jesus. Se pararmos um pouquinho por aqui, veremos que essa afirmação tem implicações surpreendentes, no que diz respeito ao próprio mistério de Deus. Certamente, o Novo Testamento, apresentando Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, ultrapassa a visão de Deus do Antigo Testamento. Entretanto, devemos considerar que a concepção de Deus dada pelo Êxodo como Iahweh não se perde no interior da concepção trinitária. Bem pelo contrário, ela revela o Ser de Deus e o que foi vivido no interior da própria Trindade. O Novo Testamento afirma, com efeito, que o Filho de Deus desceu do céu (Jo 6,38) e foi enviado pelo Pai ao mundo (Jo 3,17). Vindo ao mundo, ele renunciou às vantagens de sua origem: “Estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,6-7). Ele participou de todos os nossos limites humanos ao “fazer-se carne” (Jo 1,14). 134 Ora, o Novo Testamento afirma que a ressurreição de Jesus é a obra do Pai pelo poder do Espírito Santo. No dia de sua ressurreição, o Pai concede ao Filho uma vida humana sem limites: “Estabelecido Filho de Deus com poder por sua ressurreição dos mortos, segundo o Espírito de santidade” (Rm 1,4). Jesus, o Filho, que se tornara um homem limitado, viveu como um drama pessoal a experiência de ser salvo por Deus. Salvo, no sentido de ressuscitado. Conseqüentemente, o nome revelado a Moisés, formulado a partir de um verbo de ação, permite que se entreveja o movimento presente no interior da própria Trindade. Com efeito, por ocasião da saída do Egito, Deus salva seu filho, Israel, “estendendo a mão direita”, símbolo de seu poder. De igual maneira, quando da ressurreição de Jesus, Deus salva seu Filho Único, “exaltado pela direita de Deus” (At 2,33), pelo poder do Espírito Santo: “E qual é a extraordinária grandeza do seu poder para nós, os que cremos, conforme a ação do seu poder eficaz, que ele fez operar em Cristo, ressuscitando-o de entre os mortos” (Ef 1,19-20). Portanto, o Pai foi Iahweh-Salvador para seu Filho. E o Filho foi libertado pelo Pai e o conheceu pelo nome de Iahweh-Salvador. Isso quer dizer que o Filho não permaneceu definitivamente sob o jugo de nossa vida terrestre, sofredora e mortal. Todavia, mesmo tendo consciência de ser Filho, era como Filho vivendo a partir de então sua relação com o Pai não mais no céu e na eternidade, mas sobre a terra e dentro do tempo, que ele veio ao mundo. Ele vivia sua experiência com Deus de um modo humano, por meio de sua sensibilidade humana, não deixando de exprimir com palavras humanas a situação de servidão à qual se submetera. Apropriando-se do título de Filho do Homem, expressão do livro de Daniel que designa primeiramente um homem limitado em si mesmo, ele indicou que sua ressurreição seria um gesto de Deus para si: “É chegada a hora em que será glorificado o Filho do Homem” (Jo 12,23). Como Israel, nos dias de sua escravidão: “É ele que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido por causa de sua submissão” (Hb 5,7). Ele clamou a Deus que salva: “Pai, salva-me desta hora” (Jo 12,27), “glorifica-me, Pai” (Jo 17,5). O nome de Deus estava em questão, pois esse nome não pode ser glorioso quando seu povo geme e chora. Por isso Jesus diz: “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12,28). Em sua agonia, ele expressou sua fé no Deus do Êxodo, o Deus que ressuscita dos mortos, chegando a afirmar: “Vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26,64). Isso significa que ele se tornaria novamente igual a Deus, no dia de sua ressurreição. Pretensão jamais ouvida antes, julgada blasfematória, que traduzia sua consciência de ser o Filho de Deus, inserido em nossa história humana. Para ele, de fato, sua ressurreição, como gesto do Pai, não somente o libertaria de nossa condição de servidão, mas revelaria quem ele é: O Filho de Deus. Por isso, em São João, ele atribui a si o nome de Deus: “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que Eu, Eu sou” (Jo 8,28). 135 No dia da ressurreição, o Pai introduz seu Filho numa vida humana eterna. Hoje, no seio da Trindade, o Filho é um homem para sempre: “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9). Assim, o Filho é libertado de todas as nossas servidões e tem todas as suas vantagens restabelecidas: “Todo poder me foi dado no céu e sobre a terra” (Mt 28,18). E Deus, depois de o exaltar, “lhe conferiu o nome que está acima de todo nome” (Fl 2,9), o nome de Senhor: Para entendermos bem esse texto, é preciso saber que a palavra grega “Kyrios” (Senhor) havia sido utilizada pelos tradutores gregos da Bíbliahebraica para transcrever o nome divino de Iahweh.40 Constituindo Jesus como “Senhor” (At 2,36) e “fazendo-o assentar à sua direita nos céus” (Ef 1,20), Deus o constituiu seu igual. Por esse motivo, Deus também o constituiu “chefe e Salvador” (At 5,31). É impressionante que, de acordo com o Novo Testamento, Jesus tenha se tornado Salvador de todos, no dia em que ele mesmo foi salvo por Deus: “Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus que vós crucificastes” (At 2,36). É evidente que ninguém, no Antigo Testamento, poderia imaginar que o nome de Deus como “Salvador” teria tais implicações no interior da Trindade. Seria preciso, na continuidade do Novo Testamento, ousar inserir no interior da própria Trindade o movimento “Salvador-Salvo”. Infelizmente, a encarnação do Filho foi freqüentemente apresentada como uma vinda facilitada pela sua origem divina, sem renúncia aos benefícios dessa origem. Em tal perspectiva, sua ressurreição também foi apresentada como algo que não lhe dizia respeito, algo de que ele poderia se privar, ou ainda, o que é pior, como um gesto de seu próprio poder. Tal Teologia falsifica o que há de mais essencial: a própria Essência de Deus, a Encarnação, a Redenção e a Ressurreição. O Antigo Testamento se abre para uma outra perspectiva. Ele afirma, com efeito, em Gênesis 2,4, que o nome de Iahweh é o nome do Criador do mundo. Portanto, o Criador é designado, desde o início, como o Salvador. O autor Javista compreendeu bem que, tendo Deus se manifestado como Salvador no episódio da fuga do Egito, ele também era essencialmente Salvador desde o momento da criação. Esse dado implica outras significações relativas à Trindade em si mesma, que serão tratadas pelo Novo Testamento. Como pudemos ver em Gênesis 1-11, que o Criador seja o Salvador significa que, quando Deus cria, ele sabe que terá de salvar, sabendo de antemão que toda a humanidade vindoura o rejeitaria. Desde toda a Eternidade, portanto, Deus é fundamentalmente Salvador. O nome de Deus no Êxodo é verdadeiro: Eu era quem era, Eu sou quem sou, Eu serei quem serei. Isso quer dizer que a paixão de Cristo estava igualmente no pensamento de Deus, desde a Eternidade: “Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus” (At 2,23). Não que o Pai tenha desejado a morte de seu Filho! 136 São os homens que a quiseram, manifestando por meio dela sua renúncia a Deus. A paixão de Cristo já estava prevista por Deus desde toda a Eternidade, pois quando se ama de verdade, dispõe-se a dar a vida pela pessoa amada. Foi exatamente isso que o Filho, a perfeita imagem e expressão do Pai, mostrou com sua morte humana. Apressemo-nos em acrescentar, entretanto, que a vinda do Filho não está subordinada ao pecado da humanidade. De qualquer maneira, o Filho era aquele que devia vir: “Cristo, conhecido antes da fundação do mundo, mas manifestado no fim dos tempos, por causa de vós” (1Pd 1,20). Isso implica – numa afirmação inacreditável – que, desde toda a Eternidade, o Filho foi amado como aquele que se tornaria um homem: “porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17,24). Portanto, o mundo foi criado para a vinda do Filho: “Ele é a Imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura. É antes de tudo e tudo nele subsiste” (Cl 1,15.17). Logo, não há nada de humilhante para o Filho em se tornar um homem. Esse é o projeto de Deus. Ora, no Cristo que devia vir, “Deus nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1,4). Assim, Deus quer que outros seres, conscientes e livres, sejam amados como o Filho é amado: “Pai, eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17,26). Porém, sabendo Deus que o Cristo seria rejeitado, depois de o desprezo da humanidade ter sujeitado sua criação às forças do mal: a vinda do Filho teve de se concretizar em nossa “forma de escravos” (Fl 1,7). Desse modo, a experiência da Salvação foi vivida pessoalmente pelo Filho... O nome de Deus como Salvador não nos revela somente o que Deus foi para Israel durante a saída do Egito e para Jesus, durante a sua Ressurreição, mas o que ele já era como Criador do mundo: o Salvador, disposto a dar seu Filho, e este, disposto a revelar o amor do Pai. O Novo Testamento expõe assim o que a Trindade, desde toda a Eternidade, estava disposta a investir para a salvação do homem. Vemos que a maneira pela qual Deus se revelou a Moisés, como aquele que ia salvar Israel, é fundamental para o conhecimento de Deus. Na História é que se desenvolvem e se manifestam todas as implicações de seu nome. Certamente, Moisés não pôde entrever tudo isso. Assim como Abraão, ao se deslocar rumo a Canaã, não imaginava o alcance das promessas de Deus, Moisés, retornando ao Egito, não conhecia a profundidade do nome de Deus. O que foi pedido a esses dois homens era para crer que Deus estaria com eles e agiria concretamente na história de cada um deles. Uma vez que o nome de Iahweh implica que a ação divina não está ainda terminada, esse nome conserva todo o seu alcance profético em relação a nós. Tal nome está associado ao nome do Deus que deve realizar o que prometeu: Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás aos israelitas: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. É o meu nome para sempre, e é assim 137 que me invocarão de geração em geração’” (Ex 3,15). Um dia, Deus será Iahweh para nós e nós o conheceremos como aquele que liberta. Ele nos quer livres e tem apenas um projeto: dar-nos um dia seu mundo. Isso quer dizer que ele vê nossa miséria, ouve nossos gemidos, conhece nossas angústias e está definitivamente decidido a nos libertar (cf. Ex 3,7-8). O Êxodo descreve muito bem nosso mundo, ainda que não deixemos de acreditar que nossa sociedade se renova progressivamente. Como cristãos, podemos invocar a Deus pelo nome de Pai, Filho e Espírito Santo, ou ainda pelo nome de Aquele que ressuscitou Jesus. Também podemos invocar o nome de Jesus, a quem o Pai fez Senhor, pelo poder do Espírito Santo. É interessante repararmos como o tetragrama sagrado YHWH “está presente na composição do nome ‘Jesus’, que é uma latinização do grego ‘Iesous’, que resgata o termo ‘Iehoshua’ do Antigo Testamento, composto a partir da forma abreviada YHWH”.41 O nome Jesus significa: “Ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). Muitos magos e gurus por aí se apresentam hoje em dia como salvadores; porém, o homem só poderá receber a salvação definitiva depois de passar pela morte. É nela que tudo se clarifica: Jesus é Senhor e Salvador porque é “o Primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18). Por isso, “não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12). Jesus confiou no Deus que havia se revelado a Moisés. E Deus o salvou. Nós mesmos conheceremos quem é Deus quando ele nos fizer passar ao mundo da ressurreição. E Deus conservará para sempre o nome mediante o qual se apresentou no Êxodo: Desafiando as regras gramaticais, o autor do Apocalipse criou uma fórmula extraordinária que surge como explicação para YHWH (Iahweh): Aquele-que-é, Aquele-que-era e Aquele-que-vem (Ap 1,8).42 Chamando Deus de seu Pai, Jesus não renegou a grande tradição que lhe vinha do Antigo Testamento. Seu Pai era para ele o Salvador. E como lhe ensinava o Antigo Testamento, ele orava para que Deus fosse reconhecido por aquilo que ele é: “Pai, santificado seja teu nome!” (Mt 6,9; Lc 11,2). O Êxodo é o livro da revelação do nome de Deus, nome que adquiriu um sentido inextinguível desde o envio de Moisés para libertar seus irmãos da escravidão no Egito. O envio de Moisés prefigurava o envio do Filho único de Deus a este mundo, para salvar a todos os seus irmãos em estado de servidão. O próprio Jesus, tendo participado de nossa condição terrena, foi salvo pelo Deus do Êxodo, e tal acontecimento anuncia por sua vez que Deus será Iahweh para nós, ao nos fazer passar pelaressurreição. O nome de Deus permanece profético. Precisamos agora ver que antes da grande ação de Deus, qual seja a libertação do povo judeu, algumas calamidades acontecem no Egito, como prelúdio ao êxodo e 138 como sinal de condenação para o Egito. Já que sabemos que a escravidão de Israel é o reflexo da nossa própria condição de servidão, e que a libertação do Egito é o protótipo de nossa passagem ao mundo que há de vir, podemos pressentir que, como pano de fundo dos acontecimentos que antecederam a saída do Egito, delineia-se a imagem do mundo atual. Não paramos de constatar que a palavra de Deus é, ao mesmo tempo, discreta e poderosa: ela vem hoje ao nosso encontro, por intermédio da história de Israel. 5 – As “pragas” do Egito Para situar a narrativa das pragas do Egito – que compreende cinco capítulos (Ex 7-11) –, é preciso considerar os fatos reportados em Êxodo 3-6. Embora sejam redigidos na forma de diálogos com Deus, os textos têm como foco uma verdade histórica que se resume da seguinte maneira: Moisés retornou ao Egito. De acordo com Êxodo 4,20, “sua mulher e seus filhos” o acompanharam. De volta ao Egito, a missão de Moisés, como toda missão, seguiu caminhos concretos: primeiramente, reunir os “anciãos de Israel” (Ex 3,16), pois os hebreus haviam mantido uma organização social no Egito, com chefes de família e líderes tribais; em seguida, fazer-se reconhecer como enviado pelo Deus de seus pais (cf. Ex 3,16); revelar-lhes seu projeto de libertar o povo dos maus-tratos que os egípcios lhe infligiam, para reconduzi-lo ao país de seus antepassados (cf. Ex 3,16-17); tornar-se o representante desse povo diante do Faraó ou da realeza egípcia. Por tudo isso, podemos pensar que o retorno de Moisés junto a seus irmãos não deixou de lhes causar alguma impressão, dando-lhe crédito o conhecimento que tinha da aristocracia e da corte egípcia. Mas também aqui, os textos testemunham a verdade histórica ao enfatizar as reações suscitadas por seu retorno e seu projeto: luzeiro de esperança para o povo, que “creu e ouviu que Iahweh tinha visitado os Israelitas e visto sua miséria” (Ex 4,31); incredulidade para outros, que “não ouviram Moisés, por causa da ânsia do espírito e da dura escravidão” (Ex 6,9). Todo o conteúdo desses capítulos parece bastante verossimilhante, apesar dos numerosos retoques das três tradições neles presentes: Javista, Eloísta e Sacerdotal. Esta terceira salienta o papel de Aarão, irmão de Moisés, pois o sacerdócio lhe será confiado. O plano de Moisés se define no momento de seu encontro com o Faraó: “Deixa- nos ir pelo caminho de três dias de marcha no deserto para sacrificar a Iahweh nosso Deus” (Ex 3,18). Essa súplica, sendo tantas vezes formulada, permite-nos deduzir um costume judaico, bem como uma trégua anual nas corvéias, por ocasião desta festa: Somos levados a pensar que os hebreus do Egito tinham o hábito de celebrar anualmente, nas regiões desérticas a leste do Egito, uma festa tradicional para eles. Parece que se trata, ao mesmo tempo, de uma peregrinação num lugar em que se adora Iahweh, que, nesse caso, já seria conhecido pelo mesmo nome. Para essa celebração, eles podiam se perguntar sobre o tipo de sacrifício a ser feito. Essa festa- peregrinação no deserto era tão normal aos olhos dos egípcios e mais facilmente aceita por eles, que 139 não admitiam que se praticassem em seu país certos sacrifícios de animais, comuns entre os hebreus (Ex 8,22).43 A festa celebrada no deserto deveria ser a Páscoa, pois os animais que não se poderiam sacrificar no Egito eram os cordeiros e os bodes (carneiros e cabritos), exatamente os animais que os hebreus imolavam para a Páscoa: “O deus Amon, venerado em todo o Egito, tinha um carneiro como animal sagrado. Ao longo do delta do Nilo, várias divindades eram adoradas por meio da representação de carneiros, bodes e touros”.44 O costume de uma celebração anual no deserto parece ser confirmado pelo empréstimo de jóias e belas vestimentas junto a amigos egípcios. De acordo com Êxodo 3,22, são as mulheres que as pedem a suas vizinhas egípcias. Certamente, após essa festa no deserto, os hebreus retornavam ao Egito, onde moravam. Ninguém estava interessado em ficar no deserto. A atitude de Moisés é a mesma que se pode verificar em qualquer que seja o povo oprimido: quando estamos privados de meios para uma revolta ou uma rebelião, apelamos ao menos para os direitos anteriormente adquiridos. Assim, a aposta real, naquele ano, era aproveitar-se da festa para fugir do país e nunca mais voltar. É evidente que os acontecimentos, durante a passagem pelo Mar dos Juncos, representarão o sinal de Deus para a saída definitiva do país do Egito e a confirmação de que Moisés realmente era seu enviado. Será escrito, com efeito, a respeito da travessia pelo mar: “Israel viu a proeza realizada por Iahweh contra os egípcios. E o povo temeu a Iahweh, e creram em Iahweh e em Moisés, seu servo” (Ex 14,31). De fato, a missão dos profetas é freqüentemente confirmada pela ação de Deus. O próprio Jesus dirá, por ocasião da ressurreição de Lázaro: “... para que creiam que me enviaste” (Jo 11,42). O governo egípcio não se deixa enganar a respeito da intenção dos hebreus. Toda a resistência do Faraó mostra que ele não quer perder essa mão-de-obra tão preciosa: “Eis que agora a população da terra é numerosa, e vós a fazeis interromper as suas tarefas!” (Ex 5,5). À medida que as discussões vão progredindo, ele consente em deixá-los partir, porém sempre impondo novas condições: “não deveis ir muito longe” (Ex 8,24), ou “ide somente vós os homens” (Ex 10,11), ou “fiquem somente os vossos rebanhos e o vosso gado” (Ex 10,24). O Faraó manifesta, assim, seu medo de não os ver nunca mais. O pedido de Moisés não apenas deixa de ser atendido, como também contribui para agravar a situação: o Faraó impõe corvéias ainda mais duras aos hebreus (Ex 5,6-23). Por ocasião de uma segunda missão, Moisés e Aarão se encontram com os “magos” egípcios (Ex 7,1-13). Embora a tradição Sacerdotal tenha modificado a tradição Javista, transferindo o cajado de Moisés para as mãos de Aarão (Ex 4,2; 7,8), tal encontro não deixa de ser uma verdade histórica. O prodígio das varas 140 transformadas em serpentes não era de pouca importância, pois “os sábios e os encantadores” convocados pelo Faraó (Ex 7,11) eram “feiticeiros no sentido de praticantes de ciências ocultas”.45 Eles realizam prodígios “com seus sortilégios” (Ex 7,11). Tal prática de magia, que pode produzir efeitos espetaculares, era formalmente condenada em Israel (Ex 22,17; Dt 18,10), pois implicava precisamente o apelo às forças ocultas. Que Moisés tenha recebido de Deus, por essa ocasião, a capacidade de realizar o mesmo prodígio, pode parecer surpreendente, mas não impossível. Elias e Eliseu, depois Jesus, realizarão ações desse tipo, como a multiplicação dos pães e a transformação da água em vinho, por exemplo. Contudo, eles nunca o farão para impressionar ou para o deleite dos espectadores, mas para transmitir uma mensagem de Deus. No que diz respeito a tais manifestações, sempre atuais, é preciso discernir quem está na origem do prodígio: Certos fenômenos não são claros o bastante para que possamos interpretá-los como obra de Deus ou obra de Satanás, ou se aquele que os realiza é alguém com carismas especiais ou um mago.46 Essa problemática não é nem um pouco estranha ao texto do Êxodo. É significativo que a palavra nahash (serpente) do escritor Javista (Ex 4,3; 7,15) tenha sido substituída pela palavra tannim (grande serpente do mar) pelo escritor sacerdotal: Esse termo parece menos apropriado, mais misterioso e até mesmo simbólico. Tannim forma com Leviatã e Rahab o trio de monstros aquáticos, que são os auxiliares do abismo das águas hostis e das forças do caos. São personificações do oceano furioso em luta contra Deus. O vocabulário relativo a essa passagem abre caminho para a seguinte interpretação de conjunto: ele pretende mostrar a vitória de Iahweh sobre toda oposição dos egípcios, sobretodas as forças que têm a pretensão de se opor ao desígnio de Deus. A vara de Moisés engolindo as varas dos magos representa a força de Deus, superior a toda resistência e em particular a todo poder mágico.47 Podemos assim apreciar como os autores da Bíblia fazem uma leitura profunda dos acontecimentos que envolvem a fuga do Egito e do combate que aí se trava. Eles salientam que, no momento em que Deus quis libertar seu povo, as forças do mal se manifestaram. Fica assim atestado o fato de que uma ação decisiva de Deus é freqüentemente marcada por um desencadeamento das forças do mal. Contudo, Deus imediatamente se apresenta como o mais forte, o que já é uma advertência ao Faraó. Este demonstrará uma grande resistência. A ação de Jesus também desencadeará a manifestação das forças do mal, por meio de possessões. Mediante a expulsão dos demônios, ele mostrará que Deus é o mais forte (Mc 3,26), mas não se furtará a uma resistência crescente, cujo ponto culminante será o momento de sua própria passagem pela morte. Ele não deixará de denunciar, apesar da oposição concreta e obstinada de seus adversários, a ação das forças hostis a Deus: “Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai” (Jo 8,44). A Bíblia nos ajuda a decifrar melhor o que se passa por trás da nossa existência. Mas a advertência de Moisés não deu em nada. Ao final desse confronto com os 141 feiticeiros, “o coração de Faraó se endureceu e não os ouviu, como Iahweh havia predito” (Ex 7,13). Notaremos que a Bíblia diz, de maneira equivalente, que “o coração de Faraó se endureceu”, ou que “Iahweh endureceu o coração de Faraó, e este não deixou os israelitas partirem” (Ex 10,20; 7,3). A tradição Javista atribui a Deus algo que depende da decisão humana. É nesse contexto da recusa do faraó que algumas catástrofes sobrevêm, porém desta vez, em todo o país do Egito. Aqui nos referimos ao relato das “pragas do Egito” (Ex 7-11). Ao todo, foram dez as pragas do Egito: 1) o Nilo vermelho; 2) as rãs; 3) os mosquitos; 4) as moscas; 5) a peste dos animais; 6) as úlceras; 7) a chuva de pedras; 8) os gafanhotos; 9) as trevas; 10) a morte dos primogênitos. Notemos que a tradição Javista menciona apenas sete pragas, que aparecem também no salmo 78, mas numa ordem diferente. A tradição Eloísta acrescentou a nona praga, ao passo que a Sacerdotal, a terceira e a sexta. As tradições Javista, Eloísta e Sacerdotal voltam a se encontrar na primeira e na décima pragas. Podemos igualmente observar uma amplificação quando as três tradições descrevem a mesma calamidade. Assim, em relação à primeira: A evolução é evidente entre o que é dito pela tradição Javista: “as águas do Rio” (7,17) e o que é apresentado pela tradição sacerdotal: “as águas do Egito, seus rios, seus canais, seus lagos e todos os seus reservatórios... sangue em todo o Egito” (7,19). A tradição Eloísta representa uma etapa intermediária: “toda a água do Rio se converteu em sangue” (7,20b-21a).48 Tornamos a encontrar esse agravamento dos fatos, da parte do autor Sacerdotal, no relato da passagem pelo Mar dos Juncos. Essas observações nos convidam a não considerarmos os dados (cifras e detalhes) desses relatos como reportagens rigorosamente exatas. O que de fato pode ter se passado nos episódios das pragas do Egito? Eis, de acordo com Georges Auzou, “o que parece poder ser dito”: As águas do Nilo, como acontece com freqüência, mas talvez de um modo ainda mais estarrecedor naquele ano, adquirem uma coloração vermelha. Junto aos Israelitas, Moisés interpreta tal fenômeno como um mau agouro para o Egito. Esse mau presságio é transferido para as esferas governamentais, a corte do Faraó. Em outra ocasião, produziu-se um particular aumento na população de rãs e sapos, que pululam em toda a parte. Tal acontecimento é explicado pelos hebreus como uma punição ou um aviso de Iahweh. O mal-estar aumenta quando sobrevêm outras adversidades, como invasões de mosquitos e de moscas, doenças contagiosas atingindo os animais e as pessoas. Essas provações não legitimam o pedido dos estrangeiros que querem celebrar sua festa anual no deserto? Não é o Deus deles que envia todas essas maldições? A questão se torna pungente. Irrompe uma tempestade de granizo, cuja intensidade e alcance produzem um desastre. Ao mesmo tempo ou em outra circunstância, o céu se escurece, a ponto de consternar todos os espíritos. Não há mais dúvida: é preciso atender aos pedidos desses homens que realmente parecem “lançar um feitiço” sobre o Egito, desse Moisés, o mais poderoso dos magos. Finalmente, ocorre a morte do filho primogênito do rei; espalha-se o boato de que essa epidemia que matou a criança real começa a fazer estragos nas famílias egípcias. O homem da oposição, Moisés, se utiliza dessa notícia e, aproveitando-se da decisiva ocasião, revela com palavras mais enérgicas que 142 nunca, a vontade de seu Deus. O “Ide” irremediável é obtido.49 Assim, a partir do momento em que o Faraó, nesse ano, fez saber que não autorizaria aos hebreus prestarem culto a seu Deus no deserto: diversas calamidades, provindas de fenômenos naturais, atingiram o Egito. A cada catástrofe, Moisés e os israelitas acreditam estar diante de sinais de Deus. Finalmente, quando o sofrimento atinge a casa do Faraó, a permissão é concedida. No entanto, os escritores não buscam tanto reproduzir o filme dos acontecimentos, quanto lhes atribuir um significado. Logo, precisamos prestar atenção ao refrão do principal narrador, o Javista: – Deixa o meu povo partir, para que me sirva (Ex 7,26)... – Faraó obstinou seu coração (Ex 8,28)... – Nisto saberás que eu sou Iahweh (Ex 7,17)... Os textos se apresentam como um confronto entre Deus e o Faraó. São os dois personagens principais. É evidente que esses diálogos não são históricos, mas traduzem, em discurso direto, o pensamento do escritor. Ora, como é que ele interpreta, 300 anos depois dos acontecimentos, esse episódio das “pragas do Egito”, que precedeu a libertação de Israel? Como uma luta decisiva entre Deus e as forças do mal. De um lado, Deus quer libertar seu povo; de outro, o Faraó se lhe opõe. E logo de cara é anunciado quem será o mais forte: Iahweh, o libertador que viu a miséria de seu povo e que está decidido a libertá-lo (cf. Ex 3,7- 8). Ao transpormos o episódio das dez pragas para hoje, encontramos nele uma grande esperança. No momento em que conhecemos a condição de servidão de nossa vida humana atual, o livro do Êxodo poderá nos colocar diante de Deus que salva e nos avisar que as calamidades que atingem nosso mundo, ontem e hoje, são sinais a anunciar que este mundo está condenado a desaparecer, para dar lugar a um mundo de liberdade, quando Deus tiver se manifestado, operando a grande libertação. É exatamente isso que Jesus nos mostra quando, por meio das calamidades que estavam para ocorrer em Jerusalém, anuncia uma mensagem relativa ao fim do mundo. Nisto encontramos o mesmo modo de reflexão dos escritores do Êxodo: Quando ouvirdes falar de guerras e subversões, não vos atemorizeis; pois é preciso que primeiro aconteça isso, mas não será logo o fim. Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino. E haverá grandes terremotos e pestes e fomes em todos os lugares; aparecerão fenômenos pavorosos e grandes sinais vindos do céu (Lc 21,9-11). Haverá sinais no sol, na lua a nas estrelas; e na terra, as nações estarão em angústia, inquietas pelo bramido do mar e das ondas; os homens desfalecerão de medo, na expectativa do que ameaçará o mundo habitado, pois os poderes dos céus serão abalados. E, então, verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com poder e grande glória. Quando começarem a acontecer essas coisas, erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação (Lc 21,25-28). As calamidades adquirem um teor apocalíptico no Êxodo: “Haverá então na terra do Egito um grande clamor como nunca houve antes, nem haverá jamais” (Ex 11,6). 143 Esse imenso clamor é diferente do clamor que Israel dirigira a Deus, “do fundo da escravidão” (Ex2,23). O clamor de Israel era uma oração. O clamor dos egípcios é revelador de um enorme pânico diante da iminência de um mundo que está para desabar: “Morreremos todos!” (Ex 12,33). Jesus resgata o teor profético e propriamente apocalíptico desses textos do Êxodo: Naquele tempo haverá grande tribulação, tal como não houve desde o princípio do mundo até agora, nem tornará a haver jamais. E se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma vida se salvaria. Mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados (Mt 24,21-22). Por isso, também vós ficai preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais (Mt 24,44). Assim, as chagas permanecem bastante atuais. A cada dia ouvimos falar a respeito de tragédias naturais: terremotos, furacões, inundações, guerras, seca, epidemias... Essas calamidades não são provocadas por Deus, não mais do que as chagas que atingiram o Egito no tempo dos Faraós. Deus quer que tudo seja bom. Entretanto, todas as catástrofes que ocorrem atualmente deveriam ser para nós um sinal de que nosso mundo está perturbado e ameaçado pelas forças do mal e também está fadado a acabar. Ao mesmo tempo, as pragas que não cessam de surgir em nosso mundo e que a mídia nos exibe diariamente podem se transformar em advertência e apelo à conversão. O que deveria ser apenas negativo e destruidor pode figurar como ocasião de um retorno a Deus. Isso quer dizer que o ensinamento das pragas do Egito se reveste de uma grande atualidade. É exatamente isso o que pensa o autor do Apocalipse, que resgata, remetendo ao fim deste nosso mundo, sete catástrofes semelhantes às pragas do Egito: úlcera, sangue, fogo, rãs, prodígios, terremotos, granizos enormes (Ap 16). Diante dessas tribulações, duas atitudes são possíveis: a conversão ou a blasfêmia. A segunda via é a mais comum: “Os homens, então, abrasados por calor intenso, puseram-se a blasfemar contra o nome de Deus, que tem poder sobre tais pragas. Mas não se converteram para lhe tributar glória” (Ap 16,9.21). Certamente não devemos situar essas calamidades apenas no contexto do fim do mundo. Desastres nos interpelam todos os dias. Por isso, Jesus faz referência ao acidente envolvendo “dezoito [pessoas] que a torre de Siloé matou com sua queda” (Lc 13,4-5). Assim, ele pergunta: “Julgais que a sua culpa tenha sido maior do que a de todos os habitantes de Jerusalém?”. E ele mesmo responde: “Não”. Para ele, as catástrofes não vêm de um Deus vingador e punitivo. No entanto, Jesus se utiliza desse fato para convidar à conversão: “Se não vos arrependerdes, perecereis todos de modo semelhante”, ou seja, conhecereis uma morte ainda pior, a morte que consiste na separação de Deus, “a segunda morte” (Ap 21,8). Assim, no Egito, no mesmo contexto e lugar, o povo de Deus e o povo egípcio testemunharam as mesmas calamidades. Não obstante, o Êxodo diz que um se encontrava na luz e o outro, nas trevas: 144 Estendeu, pois, Moisés a mão para o céu e houve trevas espessas sobre toda a terra do Egito por três dias. Um não via o outro, e ninguém se levantou do seu lugar por três dias; porém, em toda a parte onde habitavam os israelitas havia luz (Ex 10,22-23). Essa também é a nossa situação. O Êxodo nos ensina que há diante de nós sinais que deveriam nos advertir acerca da seriedade do pecado. Esta maneira de compreender os acontecimentos é constante em toda a Bíblia: Poderíamos citar muitos profetas. Limitemo-nos ao exemplo de Amós. Em Amós 4,6-12 são enumeradas algumas catástrofes, que atingiram a Palestina naquele tempo: fome, seca, doença nas plantações, gafanhotos, peste, incêndio. Cada uma delas constitui uma estrofe, mas todas terminam com o mesmo refrão: “Mas não voltastes a mim”. Os Israelitas, diz o profeta, deveriam ter entendido a linguagem de Deus nos acontecimentos como “sinais”, advertências, lições. Os relatos de Êxodo 7-11 são construídos e organizados com a finalidade de que os infortúnios do país do Egito sejam interpretados como palavra de Deus, convite à mudança de atitude, à conversão.50 Os textos sobre as pragas do Egito são carregados de significação: as tragédias que precederam a libertação de Israel são a prova de um sobressalto das forças do mal e ao mesmo tempo uma preparação à ação iminente de Deus em favor de seu povo, além de um chamado à conversão e uma promessa de condenação para aqueles que o rejeitam. E um dia se cumprirá isso que nos anunciam as pragas do Egito: este mundo em que vivemos chegará ao fim (Ap 21,1.4) e Deus fará seu povo passar para o outro lado. Eis que finalmente chegamos a dois grandes episódios, vivenciados por ocasião de duas noites particularmente dramáticas: a noite da Páscoa, que coincidiu com a décima praga (capítulos 12 e 13) e a noite da passagem pelo mar (capítulo 14). Entre essas duas noites, podemos contar alguns dias, pois Israel se desloca de Sucot a Etam (Ex 13,20) e de Etam ao Mar dos Juncos (Ex 14). As famílias que vivenciaram essas duas noites não as puderam esquecer. Quatro autores fixarão o significado delas: o Javista, por volta de 950 antes de Cristo; o Eloísta, por volta de 750 a.C.; o Deuteronomista, por volta de 622 a.C.; e por fim, o Sacerdotal, no tempo do exílio em Babilônia, por volta de 550 a.C. Lembremos desde agora que a passagem de Jesus para o outro mundo se efetuará ao longo de duas noites dramáticas, vividas segundo a mesma seqüência: em primeiro lugar, a noite de sua última ceia, celebrada no contexto da Páscoa judaica, a “quinta- feira santa”; depois, a noite de sua passagem pela morte, a “sexta-feira santa”. Os textos do Êxodo adquirem aqui uma densidade profética notável. Vejamos primeiramente como uma antiga festa de pastores – a Páscoa – relaciona- se com a saída do Egito, e como essa festa passou a garantir a memória de tal acontecimento mediante uma significação totalmente nova. 6 – A Páscoa 145 A Páscoa, cujo ritual é descrito nos capítulos 12 e 13 do Êxodo, é a grande festa dos judeus. É também a festa por excelência dos cristãos. A Páscoa judaica celebra a saída do Egito, episódio fundador do estatuto de Israel como povo; a Páscoa cristã celebra a morte e a ressurreição de Jesus, acontecimento fundador da Igreja. A ressurreição de Jesus não rejeita a saída do Egito, mas a completa. As duas saídas, ou libertações, provêm do mesmo Deus, Iahweh, cujo nome assumiu o significado indelével de Salvador com Moisés. Como pudemos observar, esse nome permaneceria direcionado para o futuro: Deus se revelaria cada vez mais Iahweh, ou seja, aquele que salva, que faz passar. A libertação de Israel foi uma primeira libertação a anunciar outras libertações. A libertação final, já proclamada no Antigo Testamento, é a ressurreição dos mortos (Dn 12,2). Ao ressuscitar Jesus, Deus cumpriu o que fora profetizado na ocasião da libertação de Israel no Egito. A ressurreição de Jesus se realizou, tanto quanto a fuga do Egito, durante a celebração da festa da Páscoa. O próprio Jesus, “criado em Nazaré”, dentro da tradição judaica (Lc 4,16), viu se aproximar essa festa como o momento em que Deus se manifestaria como seu Salvador. Ninguém viveu mais intensamente que ele essa festa: Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13,1). A realização do Êxodo se produziu para Jesus num outro plano, mais decisivo e definitivo, mas segundo o mesmo modelo: o modelo de uma “saída”, de uma “passagem”. O Deus de Jesus continua sendo o Deus de Moisés e dos profetas. Essa ação em favor de Jesus prefigura, por sua vez, nossa própria passagem para a verdadeira terra prometida que há de vir. Deus será Iahweh para nós. Nesse dia, nossa Páscoa terá acontecido. Esses textos se referem ao sentido de nossa existência. Vejamos em que consiste a Páscoa para os judeus, em que consistiu para Jesus e em que consiste para nós. • A Páscoa para os judeus Ainda hoje, todos os anos, os judeus celebram a Páscoa. Eles a celebram há mais de 3.250 anos, já que o episódio dasaída do Egito teria ocorrido há mais ou menos isso. Com efeito, “os traços nômades e domésticos dessa festa sugerem uma origem muito antiga, de modo que essa festa poderia consistir no sacrifício que os Israelitas pediram ao Faraó para celebrar no deserto (Ex 3,18; 5,1); portanto, é provável que ela seja anterior a Moisés e à saída do Egito”.51 Em sociedades de pastores, a Páscoa é a grande festa que estabelece o tempo da migração anual. É celebrada na noite da primeira lua da primavera... Ao amanhecer do dia, põe-se a caminho para se 146 “passar” das magras pastagens às terras férteis.52 O primeiro elemento do ritual da Páscoa é o sacrifício de um animal: Um animal jovem é oferecido a Iahweh – um cordeiro ou um cabritinho, nascido no mesmo ano – a fim de se garantirem as bênçãos divinas para o rebanho. Sua carne é comida ao longo de uma refeição rápida, feita pelos convivas vestidos com trajes de viagem.53 Esse sacrifício da primavera é celebrado em família (a presença de um sacerdote nunca é mencionada).54 Não se trata de um holocausto – ritual em que a vítima é completamente consumida pelo fogo – mas de um sacrifício no qual a vítima ofertada a Deus é assada, antes de ser consumida pelos convivas. A festa consiste, ao mesmo tempo, num sacrifício (oferenda) e numa refeição. Não se pode consumir a vítima fora da casa, nem deixar restos, nem quebrar algum dos ossos. Essa recomendação parece querer dizer, por um lado, que a refeição pascal feita exclusivamente em família simboliza e assegura a unidade familiar; por outro lado, que a oferenda deve ser completa, o que é garantido pela proibição de se cortar o animal em pedaços.55 O segundo elemento do rito da Páscoa se refere à prescrição de se comer pão sem fermento: Outros costumes remetem às refeições-sacrifícios de povos nômades, feitas no acampamento, à noite, após uma etapa percorrida: cozimento rápido em fogo reservado, fatias de pão feito com uma massa não fermentada, assada rapidamente ao calor de brasas ou sobre uma placa quente; um tipo de salada silvestre de ervas comestíveis, mas não cultivadas, hábito e provisão de pastores itinerantes. Tudo isso lembra as refeições de repouso: refeições feitas em grupo, nas condições breves e emergenciais de uma caminhada.56 O pão sem fermento dos nômades é conhecido como pão ázimo (do grego a- zumé). No Egito, Israel comia pão fermentado, mas naquela noite a fuga ocorrera com tanta pressa, que “o povo levou a farinha amassada, antes que se levedasse. Cozeram pães ázimos com a farinha que haviam levado do Egito, pois a massa não estava levedada: expulsos do Egito, não puderam deter-se nem preparar provisões para o caminho” (Ex 12,34.39). Esse fato, vivido durante a noite da saída do Egito, seria mais tarde incorporado a uma festa agrícola que os Israelitas adotaram depois de terem se estabelecido na terra prometida. Uma antiga prática da religião sazonal dos camponeses cananeus considerava como “impuro e ruim, venenoso e mortal, tudo o que é motivo de corrupção e degradação. É o caso de todos os fermentos”.57 Tendo chegado a Canaã, os israelitas adotaram a festa dos Ázimos, que marcava, na primavera, o início da colheita da cevada: os produtos do ano anterior, juntamente com o fermento, contaminariam a nova colheita. Assim se contentavam em comer fatias de pão feito sem fermento. As duas festas, a 147 da Páscoa e a dos Ázimos, ocorrendo na primavera, passaram a ser celebradas ao mesmo tempo.58 A Páscoa é celebrada no dia 14 do mês de Abib ou mês das espigas (chamado Nisan após o exílio).59 Os ázimos provêm de um “ritual de purificação e renovação”.60 Tal costume será evocado por São Paulo: “Purificai-vos do velho fermento para serdes nova massa, já que sois sem fermento” (1Cor 5,7). A festa dos Ázimos, que seria adotada mais tarde e duraria uma semana, encontra suas raízes na “noite dramática da saída precipitada do país do Egito”,61 quando o pão não teve tempo de crescer. Finalmente, como terceiro elemento do rito pascal, temos a aspersão do sangue do animal imolado sobre a porta das casas: Esse rito de aspersão do sangue de uma vítima sobre as portas de entrada das casas, os marcos e soleiras das portas, é antigo no Oriente (onde ainda existe nos dias de hoje): ritual de defesa, de preservação contra os infortúnios, as doenças, os inimigos, as influências nefastas, os maus espíritos.62 Estes são os principais ritos da antiga festa dos pastores: cordeiro imolado; pão ázimo; aplicação de sangue na entrada das casas. Transportemo-nos agora para o momento dessa noite memorável em que Israel saiu do Egito. Sabemos que os descendentes de Jacó, estabelecidos no Egito 400 anos antes, eram pastores. Portanto, é inteiramente razoável pensarmos que a Páscoa representasse para seus descendentes a grande festa anual: Trata-se da festa dos pastores, que, ao que tudo indica, os hebreus conservaram o costume de celebrar, durante sua permanência no Egito. Ela preservava a consciência relativa às origens e ao parentesco nômade do povo hebreu, o culto de suas tradições particulares, sua recusa em adquirir os costumes egípcios, o sentimento de diferença em relação aos egípcios e sem dúvida, uma certa saudade de uma vida mais livre, a esperança de finalmente conhecer a liberdade.63 Querer manter costumes, festas e ritos próprios a seu povo e sua cultura de origem é absolutamente comum entre os povos imigrantes. Quem não observou isso acontecer ainda hoje em grupos de imigrantes italianos, japoneses, árabes, africanos e sobretudo judeus? É bastante provável que a Páscoa já fosse a festa que os hebreus tinham autorização para celebrar anualmente no deserto, mas para a qual eles obtiveram uma proibição do Faraó naquele ano. De fato, é isso o que nos dão a entender as “reuniões de negociação” com a administração egípcia: Faraó chamou Moisés e Aarão, e disse-lhes: “Ide, oferecei sacrifícios ao vosso Deus nesta terra”. Moisés respondeu: “Não convém agir assim, porque os nossos sacrifícios a Iahweh nosso Deus são uma abominação para os egípcios. Se oferecermos, aos olhos dos egípcios, sacrifícios que eles abominam, não haveriam de nos apedrejar? É a três dias de marcha no deserto que iremos sacrificar a Iahweh, nosso Deus, conforme ele nos disse” (Ex 8,21-23). 148 Essas “negociações” nos permitem perceber, como já observamos, a desconfiança do Faraó: ele supõe que os hebreus se aproveitarão da Páscoa para fugir e nunca mais voltar. Por isso a concessão: festejar a Páscoa dentro do Egito! A resposta de Moisés tem toda a chance de estar de acordo com a realidade histórica, pois, como dissemos anteriormente, dentre os animais cujo sacrifício os egípcios consideravam sacrilégio, estavam, exatamente, os carneiros e bodes, portanto, os cordeiros e cabritos, que se imolavam na Páscoa. Todos esses detalhes sobre os costumes tanto dos israelitas como dos egípcios não podem, portanto, ter sido inventados. E assim, naquele ano, tendo chegado o momento da Páscoa, Moisés pôde se apoiar sobre a concessão do Faraó para instruir os israelitas a respeito da festa a ser celebrada no Egito: “Moisés convocou, pois, todos os anciãos de Israel, e disse-lhes: ‘Ide, tomai um animal do rebanho segundo as vossas famílias e imolai a Páscoa’” (Ex 12,21). Georges Auzou comenta: “Lendo apenas esse versículo, podemos pensar que, de acordo com seu autor, a festa da Páscoa é celebrada no Egito e que se trata de uma celebração anual, tradicional e costumeira”.64 Embora o livro do Êxodo tenha sido escrito muito tempo depois dos acontecimentos de que trata, tenha atingido sua configuração atual após a influência de quatro tradições sucessivas – Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal –, embora ainda não nos descreva como os israelitas, naquela noite, celebraram a Páscoa, sendo transferido o relato do ritual para os textos legislativos, escritos com autorização de Moisés: ainda assim esse livro pode guardar o vestígio do que se passou, naquele ano e naquela noite. Portanto, os autores serão perdoados por teremposto nos lábios de Moisés a prescrição para o ritual da festa dos hebreus: eles queriam que este rito se perpetuasse! Porém, a maior parte dessas prescrições fora evidentemente estabelecida muito tempo antes, pelos israelitas no Egito: “Cada um tomará para si um cordeiro por família, um cordeiro para cada casa” (Ex 12,3); “o cordeiro será macho, sem defeito e de um ano. Vós o escolhereis entre os cordeiros ou entre os cabritos” (Ex 12,5); “toda a assembléia da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo” (Ex 12,6); “não quebrareis osso algum” (Ex 12,46); “tomarão do seu sangue e pô-lo-ão sobre os dois marcos e a travessa da porta, nas casas em que o comerem” (Ex 12,7); “naquela noite, comerão a carne assada no fogo; com pães ázimos e ervas amargas a comerão” (Ex 12,8); “é assim que devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias nos pés e vara na mão; comê-lo-eis às pressas” (Ex 12,11). Tal era o ritual imemorial, no coração dos grupos de pastores nômades. Portanto, naquele ano, os hebreus celebraram sua festa no Egito mesmo. O sangue dos cordeiros foi lançado sobre a entrada de suas casas, com a finalidade de os proteger das doenças, das influências nefastas e dos maus espíritos. E eis que, no meio da noite, de acordo com o vocabulário bíblico: “Iahweh feriu todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que deveria sentar-se 149 em seu trono, até o primogênito do cativo, que estava na prisão, e todo o primogênito dos animais” (Ex 12,29). Como havia feito para todas as outras calamidades, o autor atribui a Deus uma epidemia que atinge os primogênitos. Afirmação perigosa: “A linguagem é tipicamente bíblica. Deus é identificado com o mal que atinge, circula, se espalha no Egito, atacando tanto o homem como o animal”.65 É evidente que tal epidemia não provém de Deus. Alguns textos a distinguem do “flagelo destruidor” (Ex 12,13), ou do “Exterminador” que vem para ferir (Ex 12,23). Moisés, no entanto, deu a entender que tudo isso vinha de Deus, que não pudera ser celebrado no deserto... No meio da noite, os egípcios percebem que uma epidemia começou a destruir suas famílias. O próprio Faraó vê seu filho mais velho atingido. Dessa vez, “a permissão irremediável é obtida!”:66 Faraó, chamando Moisés e Aarão, naquela mesma noite, disse: “Levantai-vos e saí do meio do meu povo, vós e os israelitas; ide, servi a Iahweh, como tendes dito. Levai também vossos rebanhos e vosso gado, parti e abençoai a mim também”. Os egípcios pressionavam o povo a que saísse depressa do país, dizendo: “Morreremos todos” (Ex 12,31-33). Aqui ainda, essas palavras podem nos indicar que a epidemia não atingiu o vale de Gessen, em que se encontravam os israelitas, e que estava claro para os egípcios e o Faraó que todas aquelas calamidades procediam do Deus dos hebreus. De seu ponto de vista, os israelitas não puderam certamente se esquecer de que foram poupados no exato momento em que haviam efetuado o rito do sangue do cordeiro aplicado à entrada de suas casas... Eles interpretaram tal prodígio como um sinal da proteção de Deus. Assim, este será o primeiro significado dado por eles à palavra “Páscoa”: Deus “saltou”, “passou adiante” (Ex 12,13), “passou adiante das portas” (Ex 12,23). “Esse ‘salto’, essa ‘passagem’ que isenta e poupa, tem, desse modo, um significado de salvação”.67 Tornamos a encontrar aqui a grande lição veiculada pelas pragas do Egito: “A passagem de Deus representa um julgamento e um castigo, no que diz respeito aos egípcios; intervenção libertadora para os israelitas”.68 Nesse contexto, algumas frases do Êxodo, que vão e voltam como num refrão, assumem um grande significado teológico e propriamente apocalíptico. Assim, Moisés diz ao Faraó: “para que saibas que não há ninguém como Iahweh nosso Deus” (Ex 8,6); “para que saibais que Iahweh fez uma distinção entre o Egito e Israel” (Ex 11,7; 9,4.26; 10,23). Trata-se, definitivamente, de se saber quem tem a última palavra sobre a história humana e que olhar Deus lança sobre aqueles que clamam por socorro. De fato, o Êxodo anuncia que todos os que confiam em Deus serão libertos das forças do mal, apesar de todo e qualquer esforço que estas possam fazer para mantê-los na servidão: “Saberão os egípcios que eu sou Iahweh, quando estender minha mão sobre o Egito e fizer sair do meio deles os israelitas” (Ex 7,5). Com efeito, em meio a esse “grande clamor” (Ex 11,6), o povo de Deus é 150 poupado: Deus “passará adiante dessa porta e não permitirá que o Exterminador entre em vossas casas, para vos ferir” (Ex 12,23). De um lado, o que se vê é a salvação; do outro, o horror. Sabemos que por trás desses acontecimentos, delineia-se o formidável combate entre Deus e as forças do mal, de modo que o Êxodo não cessa de repetir: “O Egito e seus deuses formam uma só coisa”.69 O Faraó e seu povo praticam a magia e recorrem às forças ocultas. Por fim, essas forças se voltam contra eles. Assim, o povo de Deus é um povo de redimidos, que escapa da morte, enquanto o Faraó, adversário de Deus, tem como recompensa a perdição, juntamente com seu povo. Certamente, ao percebermos a gigantesca perspectiva veiculada por esses textos do Êxodo, deixamos de os considerar como uma história velha e ultrapassada. Por intermédio dos acontecimentos daquela noite, podemos perceber a problemática real que se desenha e a palavra de esperança que ecoa hoje para nós. Tal perspectiva nos impede igualmente de pensar que os egípcios, enquanto povo – e assim também os cananeus, os filisteus, os assírios, os babilônios, os gregos etc. – são inimigos de Deus. Muitas passagens da Bíblia deram margem a interpretações desse tipo, parecendo, assim, inapropriadas, até mesmo escandalosas. Podemos citar um trecho do salmo 136: “Nele arrojou Faraó e seu exército, porque eterno é seu amor! Ele matou reis poderosos, porque eterno é seu amor!” (Sl 136,15.18). Em sua história concreta, Israel ficou inegavelmente aliviado por não mais continuar sob a ditadura de um Faraó. Por isso pôde agradecer a Deus. Que povo não deseja escapar do poder arbitrário deste ou daquele déspota pretensioso e sanguinário que se considera o dono do mundo? O Faraó daquele ano foi um desses tiranos. Que a palavra de Deus tenha se apropriado da história real vivida na época de determinado faraó, fazendo dela um símbolo para nossas vidas, não se segue que possamos considerar os egípcios como um povo rejeitado por Deus. Basta-nos transpormos os dados dos textos sobre um outro plano: compreenderemos que o Faraó e seu exército, que mantinham o povo de Deus em estado de servidão, simbolizam as forças do mal, nossos inimigos atuais. Esses textos comportam vários níveis de significação, que o Êxodo estabeleceu muito bem. A própria Bíblia menciona que os hebreus viveram 400 anos no Egito e que, mesmo na época dos últimos faraós, que os oprimiram, mantiveram boas relações com os egípcios. Sabe-se que naquela mesma noite, no momento de sua partida, “os israelitas pediram aos egípcios objetos de prata, objetos de ouro e roupas. Iahweh fez com que seu povo encontrasse graça aos olhos dos egípcios, de maneira que estes lhes davam o que pediam” (Ex 3,21-22; 12,35-36). A Páscoa celebrada naquela noite tem como sentido primeiro o fato de que a epidemia não atravessou a porta das casas dos israelitas: Deus passou adiante, poupou, salvou seu povo. O segundo significado da Páscoa, que vem completar o primeiro, diz respeito à travessia pelo mar, realizada em seguida: Deus então fez passar, e a palavra Páscoa adquiriu o sentido de passagem, saída para um outro lugar. 151 Como não enxergarmos a pertinência desses dois significados para nós? Se Deus faz com que o mal passe longe de nossa porta, especialmente quando a morte se aproxima, isso quer dizer que ele nos distingue e quer nos libertar das forças que nos escravizam; se, em seguida, ele nos faz passar, é porque deseja nos levar a um mundo em que há abundância e paz. Essas duas ações de Deus nos recolocam diante das duas grandes idéias subjacentes a todo o livrodo Êxodo: Deus elegeu Israel, o escolheu, o amou, lhe fez promessas; é precisamente porque ama Israel que Deus age para salvá- lo. Estes são os dois dados fundamentais da experiência judaica de Deus, presentes em Moisés e Abraão: a eleição e a salvação – a primeira se refere ao povo e a segunda, à terra prometida; as duas, porém, se referem ao Deus da aliança. As três promessas feitas aos patriarcas nos dão, assim, um acesso privilegiado ao Deus da Bíblia. Ora, se o Deus do Êxodo é o nosso Deus, nós também somos seus eleitos, escolhidos, amados, e tal eleição anuncia a passagem definitiva que o Deus da aliança operará em nós. Portanto, a mensagem atrelada àquela noite memorável da Páscoa comporta uma grande riqueza. Do ponto de vista da História, dois fatos surgem como elementos incontestáveis daquela noite dramática. Apesar dos acréscimos e das alterações das diversas tradições, os especialistas estão de acordo para dizer que “a Páscoa coincidiu com a partida dos israelitas”.70 É no momento da celebração da festa tradicional dos pastores que a partida se realiza, enquanto o sangue do cordeiro pascal já tinha sido aspergido na entrada das habitações. “Naquele ano, a festa se encontrou assim associada a uma travessia de fronteira que foi definitiva”.71 Os especialistas também estão de acordo em relação ao segundo acontecimento que finalmente foi capaz de garantir a permissão – incluindo a ordem – do Faraó: a “décima” praga, uma epidemia que despertou o pânico dos egípcios. Isso porque: Um laço muito estreito une a narração da décima praga (Ex 11,1-8; 12,29-34), o ritual da Páscoa (12,1-14.21-28.43-51) e a narração da saída do Egito (12,35-42).72 Podemos igualmente convir que os israelitas não foram os únicos a deixar o Egito naquela noite: “Subiu também com eles uma multidão misturada com ovelhas, gado e muitíssimos animais” (Ex 12,38). Havia provavelmente outros semitas, ao longo do deserto, “sociedades de beduínos migrantes, com pressa de deixar mais uma vez os locais em que passavam o inverno. Antes de prosseguirem na contínua busca por água e pastagem, faziam também a refeição pascal, segundo o antiqüíssimo ritual”.73 O livro dos Números fala de uma “turba que estava no meio deles” (Nm 11,4). O fato de “a epidemia e a fuga terem coincidido com a celebração da Páscoa”,74 “a memória de Israel jamais o esqueceria. O povo de Deus saberá para sempre que Abib ou Nisan é o mês do êxodo”:75 “Este mês será para vós o princípio dos meses; será o primeiro mês do ano” (Ex 12,2). 152 Para Moisés e os seus, a noite da Páscoa, “durante a qual Iahweh velou para os fazer sair do Egito”, ficaria para sempre ligada à inesquecível noite da libertação e, desde aquele momento, deveria ser “para todos os israelitas uma vigília para Iahweh, em todas as suas gerações” (Ex 12,42). A Páscoa adquire um significado novo, tornando-se memorial da ação histórica de Deus : A Páscoa, inalterada em seus elementos característicos, foi repensada, no que diz respeito à fé Javista, e transformada, profunda e essencialmente, em seu espírito: perdendo seu apego à religião da natureza e adquirindo um significado novo, ao se tornar memorial histórico. Ela se tornou uma celebração específica da fé no Deus que se revelou na História.76 Há dias, na vida de cada pessoa, como também na vida de um povo, mais importantes e determinantes que outros. Os autores da Bíblia, narrando os acontecimentos da saída do Egito, determinarão aquele dia como o da formação de Israel como povo livre, “quando Israel era menino” (Os 11,1) e mostrarão que o modo pelo qual Deus se manifestou na libertação de Israel está tão carregado de sentido, de modo que “a fé desse povo sofreu uma transformação radical, ou ainda, teve uma origem definitiva. Israel compreenderá que, se Deus lhe falou nessas circunstâncias determinadas, e um dia o salvou, sua fé agora tem como fundamento a própria intervenção, datada e imprevisível, livre e gratuita, pessoal, de Deus em sua história”.77 A expressão “naquele dia” abarca, passo a passo, os diferentes eventos ocorridos durante as duas noites trágicas, a da Páscoa e a da passagem pelo mar: Esta noite, durante a qual Iahweh velou para os fazer sair do Egito, deve ser para todos os israelitas uma vigília para Iahweh, em todas as suas gerações (Ex 12,42). Este dia será para vós um memorial, e o celebrareis como uma festa para Iahweh; nas vossas gerações a festejareis; é um decreto perpétuo (Ex 12,14). Lembrai-vos deste dia, em que saístes do Egito, da casa da escravidão; pois com mão forte Iahweh vos tirou de lá; e, por isso, não comereis pão fermentado (Ex 13,3). É importante alcançarmos o significado do termo memorial para os judeus. Trata- se de um ato, uma celebração extremamente rica em sentido, que engloba três dimensões: a) o passado: rememora-se a ação histórica de Deus ao libertar Israel do Egito; b) o presente: apropria-se, na vida atual, dos benefícios da noite da saída do Egito; c) o futuro: espera-se, para o futuro, uma libertação definitiva. Fazer memória não é somente se lembrar do passado, mas estender a si mesmo os efeitos da libertação passada e fundamentar a própria vida a partir dessa intervenção de Deus, na expectativa de uma libertação melhor. Essas três perspectivas estão bem presentes nos textos do Êxodo. O lembrai-vos nos transporta primeiramente ao passado: “Lembrai-vos deste dia, em que saístes do Egito, da casa da escravidão” (Ex 13,3). O acontecimento mediante 153 o qual Deus se revelou jamais se apagou. Sobre esse gesto é que todas as “gerações” (Ex 12,14) se apoiarão. Conseqüentemente, ao celebrar a Páscoa, Israel não reconhece somente o que Deus fez por aqueles que eram escravos no Egito, mas tem a consciência de que essa libertação permanece atual, uma vez que Deus fez de Israel um povo livre. Reproduzindo o rito da ceia pascal, cada indivíduo torna presente, atual e pessoal esse dia de libertação, podendo perfeitamente aplicar para si os benefícios de tal acontecimento e dizer: “Naquele dia, assim falarás a teu filho: ‘Eis o que Iahweh fez por mim, quando saí do Egito’” (Ex 13,8). Aliás, escreve-se no presente: “Hoje é o mês de Abib, e estais saindo do Egito” (Ex 13,8). “Celebrar a festa é, portanto, sair do Egito”,78 é reconhecer que Deus agiu no passado, para a nossa libertação presente. A Páscoa é “um rito litúrgico que torna presente a todos a Páscoa-passagem- salvação”.79 Veremos as implicações disso para a Eucaristia. Além do mais, ao atualizar anualmente esse dia da libertação, Israel demonstra que crê que Deus pode libertar em todas as épocas, no presente e no futuro. E uma vez que as palavras do Antigo Testamento adquirem um alcance cada vez mais profundo, ao longo dos séculos, segue-se que “o memorial faz não somente reviver a história do êxodo, mas mantém e entretém a espera por uma libertação final, por uma realização definitiva da Páscoa”.80 Assim, para os judeus, passado, presente e futuro se encontram no memorial, pois nele se faz memória de Deus mesmo, o que pressupõe a fé num Deus vivo, que acompanha de perto toda a duração do tempo! Essa é a fé de Israel, que não deixou de celebrar a Páscoa ao longo de toda a sua história. O Antigo Testamento põe em evidência essa festa, especialmente após os acontecimentos importantes que constituíram outras etapas, outras libertações, outras passagens memoráveis: a Páscoa no Sinai (Nm 9), a Páscoa que sucedeu a travessia do Jordão, no momento da entrada na terra prometida (Js 5), a Páscoa das reformas de Ezequias, por volta de 716 antes de Cristo (2Cr 30), e de Josias, em torno de 622 (1Rs 23,21) e finalmente, a Páscoa que sucedeu o retorno do exílio, em 515 (Esd 6,19-22). Esta última Páscoa tem um caráter particular, pelo fato de que o retorno do exílio fora apresentado como um novo êxodo (Is 43,16-21; Is 63,7–64,11). Os profetas se inspiraram na saída do Egito para anunciar a saída de Babilônia. Assim, “a libertação do exílio, com a alegria que ela causou, deu à Páscoa um acréscimo de sentido”.81 Num momentodecisivo, no tempo da dura perseguição de Antíoco, os sábios deviam desvendar o sentido final da Páscoa. Nesse momento também, eles fundamentaram sua esperança a partir do primeiro gesto de Deus, realizado no tempo de Moisés, testemunhando assim a grande oração de Daniel – o Israel fiel: “E agora, Senhor nosso Deus, que por tua mão poderosa fizeste sair o teu povo da terra do Egito, e assim adquiriste uma fama que perdura até hoje, nós pecamos, nós cometemos o mal. Senhor, por todos os teus atos de justiça (...), escuta a prece do teu servo e as suas 154 súplicas” (Dn 9,15-17). A resposta foi o anúncio da ressurreição! (Dn 12,2). As três grandes partes do Antigo Testamento, caracterizadas por três momentos de desespero de Israel – a escravidão no Egito, o exílio em Babilônia e a dura perseguição de Antíoco – progridem em direção a um êxodo final: Ainda aqui, mediremos a dimensão profética do livro do Êxodo! Ninguém poderia imaginar até que ponto a festa da Páscoa, que determinaria o presente, o passado e o futuro, influenciaria também o próprio Deus! Mas o simples fato de se prescrever a Páscoa mediante um “decreto perpétuo” (Ex 12,14) implicava isso! Isso quer dizer que a Páscoa e o nome de Deus, que adquirem sentido com a saída do Egito, estão intimamente ligados. Estando os dois abertos para o futuro, é a história que revelará seu conteúdo: Deus manifestará seu nome ao fazer “passar”. Por isso, celebrar a Páscoa e invocar o nome de Iahweh são duas atitudes que definem o memorial. A tradução literal da resposta de Deus a Moisés é, com efeito: “É o meu nome para sempre, e é assim que me invocarão de geração em geração” (Ex 3,15).82 Deus dá seu nome como memorial: “Isso permite que os homens se lembrem de quem é Deus e que Deus se lembre dos homens que o invocam com esse nome!”.83 Da mesma maneira, celebrar a Páscoa em memória do Deus do Êxodo é proclamar quem é Deus e lhe pedir para manifestar seu nome. É reconhecer que ele era o Salvador no passado, que ele é o Salvador no presente e que ele será o Salvador no futuro, por toda a eternidade! A Páscoa, como memorial, traz, assim, os mesmos níveis de significação do nome de Deus: Eu era, Eu sou, Eu serei. Celebrar a Páscoa é manifestar o nome de Deus e lhe suplicar para operar sua ação decisiva: a passagem para o mundo da ressurreição. Tais como são descritos no Êxodo, os ritos que “observareis” (Ex 12,25), para a noite de Páscoa, compreendem os três gestos principais da antiga festa dos pastores (Ex 12,8.22; 13,3): – comer-se-á a carne de um cordeiro ou de um cabrito assada ao fogo; – comer-se-á com pães ázimos e ervas amargas; – com o sangue do animal, serão marcados a travessa e os marcos da porta. Este último gesto – a aspersão do sangue do cordeiro sobre as portas das casas – desapareceu no tempo da reforma deuteronomista, operada em 622, no tempo do rei Josias. Essa reforma concentrou todos os atos referentes aos cultos e sacrifícios e à liturgia no Templo de Jerusalém: “Não poderás sacrificar a Páscoa numa das cidades que Iahweh teu Deus te dará, mas somente no lugar que Iahweh teu Deus houver escolhido para aí fazer habitar o seu nome” (Dt 16,5-6). Doravante, a Páscoa devia 155 ser celebrada no interior de uma peregrinação a Jerusalém, como seria vista no tempo de Jesus. A festa conservava seu caráter de refeição em família, mas os cordeiros passaram a ser imolados no Templo, pelos sacerdotes. Observemos que os samaritanos conservaram até os dias atuais o rito de aplicação do sangue do cordeiro pascal sobre a porta de entrada de suas habitações. A festa da Páscoa, entre os judeus, possui um caráter todo especial, pelo fato de que seu ritual constitui a questão da hereditariedade. “É como uma iniciação ativa, por contato e treinamento”.84 Excelente maneira de se transmitirem, não somente os costumes e as tradições, mas também seu significado: Quando tiverdes entrado na terra que Iahweh vos dará, como ele disse, observareis este rito. Quando vossos filhos vos perguntarem: “Que rito é este?”, respondereis: “É o sacrifício da Páscoa para Iahweh, que passou adiante das casas dos israelitas no Egito, quando feriu os egípcios, mas livrou as nossas casas” (Ex 12,25-27). Não comereis pão fermentado. Naquele dia, assim falarás a teu filho: “Eis o que Iahweh fez por mim, quando saí do Egito” (Ex 13,3.8). A palavra acompanha o gesto, dando-lhe sentido. Assim, “a revelação se transmite, ao povo de Deus, por meio da tradição oral, segundo um modo propriamente religioso, ao longo de uma celebração sagrada”.85 A Páscoa é “uma festa para Iahweh” (Ex 12,14), pois foi ele quem tudo fez, durante a saída do Egito (Ex 14,14). O louvor adquire aqui um significado especial e culmina no canto dos salmos 113-118, o grande Hallel (palavra que se encontra em Alelu-Iah: louvai o Senhor). A Mishna, código de leis e costumes judaicos, indica com propriedade o espírito por meio do qual os judeus sempre celebraram a Páscoa: A cada geração, é uma dívida para o homem imaginar como se ele mesmo tivesse saído do país do Egito... Não somente nossos pais foram salvos por ele, o Santo, bendito seja; mas também nós, neles fomos salvos... Por isso, a dívida que recai sobre nós é a de agradecer, louvar, celebrar, exaltar, glorificar, engrandecer, adorar e bendizer aquele que se manifestou na vida de nossos pais e em nossa própria vida, por meio destes sinais: ao nos transferir da servidão para a liberdade, do desespero para a alegria, do luto para a festa, das trevas para a grande luz e da opressão para a tranqüilidade. Logo, cantemos diante dele este canto novo: Aleluia!86 A Páscoa, na tradição judaica, traz consigo o significado do nome de Deus, o Salvador. Por isso, na aurora da era cristã, essa festa foi associada à vinda do Messias. Dizia-se correntemente, como mostra o ditado palestino a respeito dessa noite de vigília: “O messias virá nessa noite”.87 Portanto, essa é por excelência a festa da esperança. • A Páscoa para Jesus No tempo de Jesus, “a Páscoa se tornou uma das grandes peregrinações, um dos pontos culminantes do ano litúrgico. Por intermédio da lembrança da libertação do 156 Egito, ela alimenta a esperança na libertação vindoura. Há nessa ocasião o risco de uma explosão de nacionalismo: é quase sempre no momento da Páscoa que os movimentos políticos se afirmam (Lc 13,1) ou que as paixões religiosas se exasperam (At 12). A administração romana vigia para manter a ordem durante as festividades pascais e a cada ano, o procurador sobe a Jerusalém”.88 Aos doze anos, que já é a idade adulta para os judeus, Jesus se dirige a Jerusalém e participa da Páscoa judaica (Lc 2,41-52). Para José e Maria, era costume irem “todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa” (Lc 2,41-42). Fiel a essa tradição, Jesus, durante sua vida pública, sobe três vezes em peregrinação a Jerusalém, a fim de celebrar a Páscoa (Jo 2,13; 6,4; 11,55). Ao longo desses três anos, à medida que a oposição aumenta, a iminência de sua morte se torna cada vez mais inevitável. Ele a vê se aproximar e por três vezes a anuncia abertamente, assim como sua ressurreição próxima (Mc 8,32; 9,30; 10,23). Jesus indica o significado desses acontecimentos que ocorrerão em Jerusalém: eles marcarão o momento no qual a Lei e os Profetas se cumprirão (Lc 18,31; Mc 14,49). Ele mesmo recebe a confirmação disso no momento de sua “transfiguração no alto da montanha”. Tendo subido “para orar” (Lc 9,28), Deus responde à sua oração e lhe manifesta sua glória, como havia feito para Moisés e Elias, estes que viveram uma experiência da glória e da presença de Deus no alto da montanha, por meio das nuvens e dos trovões, o fogo de uma tempestade fulgurante (Ex 19,9.16-20; 24,15-17; 33,18-23; 34,5-8.28-31 e 1Rs 19,8-15). A mesma teofania acontece para Jesus. A glória de Deus se manifesta para ele através do clarão da tempestade, de “uma nuvem luminosa” (Mt 17,5). Por isso, “suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura” (Lc 9,29), “seu rosto resplandeceu como o sol e as suas vestes tornaram-sealvas como a luz” (Mt 17,2). Descendo da montanha, Jesus põe essa manifestação da glória de Deus em relação com a sua ressurreição iminente (Mc 9,9-10). Assim, ele é confirmado em seu projeto de ir a Jerusalém: é lá que a Lei e os Profetas – Moisés e Elias – se cumprirão. Ora, Lucas expressou isso por meio destas palavras: Dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias que, aparecendo envoltos em glória, falavam de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém (Lc 9,29-30). Assim, os êxodos de Israel, que anunciavam o êxodo final da ressurreição dos mortos, se cumpririam, em seu êxodo, sua morte e ressurreição, em Jerusalém. E, como outrora para Israel, esse êxodo de Jesus coincidiria com a Páscoa! Jesus estava consciente disso, de modo que São João expressou bem esse fato ao mencionar a hora de sua realização. A hora, que de início ainda não tinha chegado, mas em seguida se aproxima (Jo 2,4; 7,30; 8,20; 12,23.27), corresponderá finalmente à hora da Páscoa: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai” (Jo 13,1). O tempo se reveste aqui de uma enorme 157 densidade. Não chegou somente o dia de Iahweh, anunciado pelos profetas, mas também a hora! Assim, tendo chegado o momento, Jesus pede a seus discípulos que preparem a Páscoa: Veio o dia dos Ázimos, quando devia ser imolada a páscoa. Jesus então enviou Pedro e João, dizendo: “Ide preparar-nos a Páscoa para comermos” (Lc 22,9). Eles foram, acharam tudo como dissera Jesus, e prepararam a Páscoa” (Lc 22,13). Ao lermos Mateus, Marcos e Lucas, parecer-nos-ia que Jesus, na noite da “quinta- feira santa”, celebrou a Páscoa. A referência ao “primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava a Páscoa” (Mc 14,12; Mt 26,17; Lc 22,7) e ao “canto do hino” (Mc 14,26; Mt 26,30), ao final da refeição, nos levam a pensar nesse sentido. Entretanto, não se trata da ceia pascal propriamente dita. Em nenhum lugar, com efeito, faz-se menção ao cordeiro pascal. De fato, São João fornece várias informações que confirmam que essa refeição aconteceu na vigília da Páscoa. Primeiramente, ele escreve: “Antes da festa da Páscoa... Durante a ceia” (Jo 13,1-2). Além disso, o evangelista reproduz a palavra de Jesus a Judas: “Faze depressa o que estás fazendo”, salientando que “alguns pensavam que Jesus lhe dissera: ‘Compra o necessário para a festa’” (Jo 13,27-29). Quanto ao processo diante de Pilatos, na manhã seguinte, ele relata que os chefes religiosos “não entraram no pretório para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa” (Jo 18,28-29). Ele pontua que era o dia da “Preparação” (Jo 19,31), confirmando essa informação ao declarar que os soldados não quebraram as pernas de Jesus, o que confirma as prescrições das Escrituras relativas ao cordeiro pascal: “Chegando a Jesus e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas” (Jo 19,33). Isso significa que o momento no qual Jesus foi crucificado era exatamente o momento no qual se imolavam os cordeiros no Templo, para a refeição pascal. Portanto, a páscoa propriamente dita ocorreria à noite. Por isso, “os historiadores contemporâneos tendem a preferir a versão de João. Este parece ter conservado a lembrança exata da natureza da última ceia de Jesus, que teria sido uma refeição de despedida, realizada num clima pascal”.89 Entretanto, é certo que Jesus vê chegar a Páscoa daquele ano como aquela durante a qual Deus cumprirá, em sua pessoa, todas as suas promessas e todas as profecias. Pois Deus vai fazê-lo passar pela ressurreição! Ele tem pressa de que a Páscoa se realize para si. Essa Páscoa é a sua Páscoa: Quando chegou a hora, disse-lhes: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer; pois eu vos digo que já não a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus” (Lc 22,15-16). Por isso, durante essa última ceia, ele “deu graças” (Lc 22,17). Ele louva o Deus do êxodo, cuja “direita, pela força se assinala” (Ex 15,6), durante a saída do Egito. Ele sabe que o Pai será Iahweh-Salvador para si, que será “exaltado pela direita de Deus” (At 2,33), pelo poder do Espírito Santo. Esta é a oração de Jesus, na última 158 ceia: “Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho” (Jo 17,1). Durante a ressurreição, o Pai vai gerar seu Filho para uma vida humana final, pelo poder de geração do Espírito Santo (Rm 1,4; Hb 1,5).90 Logo, a salvação será vivida no interior da própria Trindade. Ao mesmo tempo, durante essa última refeição, Jesus desmascara, por trás das ações dos homens, as mesmas forças hostis, anteriormente simbolizadas pela figura do Faraó do Egito, do rei de Babilônia, do ditador Antíoco. Desta vez, o inimigo é claramente nomeado, na hora do combate decisivo: “O príncipe deste mundo vem” (Jo 14,30). E Jesus se dirige à morte com serenidade e tranqüilidade: “Não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Ele crê no Deus das promessas, da eleição, da aliança, do êxodo. E eis que, ao longo dessa refeição festiva, realizada no contexto da Páscoa, Jesus institui um rito novo. Ele não consome um cordeiro – pois a Páscoa seria celebrada no dia seguinte –, mas pão e vinho. Todavia, ele não abandona nenhum elemento da antiga festa dos pastores, mas a leva ao seu pleno cumprimento. Jesus não vem para abolir, e sim para completar. Sua Páscoa mantém suas origens, que estão no episódio da libertação de Israel no Egito. Ao longo dessa última refeição, Jesus sabe, mais que ninguém, o significado do pão sem fermento, do cordeiro imolado e do sangue derramado e que salva. Mas com ele, esses três ritos da ceia pascal adquirem um sentido novo. O pão que ele toma, o pão ázimo, lembra que a saída do Egito se efetuou rapidamente, no meio da noite. Esse pão, associado à prescrição de se comer a páscoa “com os rins cingidos, sandálias nos pés e vara na mão” (Ex 12,11), ou seja, com trajes de viagem, lhe ensina que este mundo é uma terra “de peregrinação”, como já mostrava a vida dos antepassados de Israel (Gn 17,8; 23,4; 26,3; 28,11; 36,7; 37,1; 47,9). Esse pão dos nômades faz Jesus se lembrar de que o homem é “um peregrino” como todos os seus pais (Sl 39) e que é preciso estar pronto para partir. Por isso, naquela noite, Jesus vigia e pede a seus discípulos para também vigiarem (Mt 26,38- 44). Essa noite, como estava prescrito, “deve ser para todos os israelitas uma vigília para Iahweh, em todas as gerações” (Ex 12,42). Além disso, esse pão ázimo, associado ao costume dos agricultores, lhe ensina que é necessário rejeitar todo mau fermento, toda maldade. De fato, não se encontrará nele nenhum ódio, nenhuma revolta. Durante a última ceia, Jesus tem consciência de ser ele o verdadeiro cordeiro pascal. Ele fala que seu próprio sangue será derramado. São João enfatizou bem que nesse mesmo dia – o dia, para os Judeus, começa com o pôr-do-sol –, Jesus foi o verdadeiro cordeiro do qual não se quebrou nenhum osso (Jo 19,36). É claro que esse cordeiro não foi imolado por Deus, mas pelos homens. Com efeito, Jesus já tinha declarado: “Minha vida, ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente” (Jo 10,18). Aliás, por esse motivo ele se diz amado pelo Pai: “Por isso o Pai me ama, porque dou minha vida” (Jo 10,17). Amando “até o fim” (Jo 13,1), ele é a perfeita imagem do 159 Pai, mostrando até onde Deus ama: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Sua morte e seu sangue vertido são o sinal, “a expressão concreta de um amor que vai até o fim de si mesmo”.91 Assim, ele é o cordeiro “sem defeito” (Ex 12,5), imolado pelos homens que “não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Jesus está plenamente consciente de que essa Páscoa marca “sua hora de passar” (Jo 13,1) e dá à sua morte um significado pessoal. De fora, ele parece sucumbir à morte, mas por dentro, ele a vive e a transforma num gesto de amor. Ao ser imolado, ele se oferece inteira e pessoalmente: “Cristo, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha” (Hb 9,14). O Pai não podia rejeitar esse dom que o Filho fazia de si mesmo, dom que exprimia o próprio amor do Paipelos homens. O Filho cumpria perfeitamente a vontade do Pai: amando até o fim, até o sacrifício de sua própria vida. No momento dessa refeição, Jesus sabe que seu sangue, “derramado em favor de muitos” (Mc 14,24) há de libertar, resgatar e salvar, como o sangue do cordeiro, o qual, aspergido sobre as portas das casas, havia outrora salvo Israel e permitido a Deus “discernir” seu povo e poupá-lo do Exterminador. Não obstante, o sangue de Jesus não é um preço que o Filho teria pago e que seria exterior à própria Santíssima Trindade: “Pois sabeis que não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas por sangue precioso, como de cordeiro sem defeitos e sem mácula, o Cristo” (1Pd 1,19). O que salva é o amor: o amor do Pai que entrega seu Filho; o amor do Filho que representa perfeitamente o Pai. Essa é, para Jesus, “a Nova aliança em seu sangue” (Lc 22,20), prova de que Deus está com os homens, de maneira insuperável, pois o Cristo se entregou até a morte. Ao mesmo tempo, esse amor manifestado em Jesus apaga o pecado: “Jesus Cristo, a Testemunha Fiel, o Primogênito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra, aquele que nos ama e nos lavou de nossos pecados com seu sangue” (Ap 1,5). Dessa dimensão interior e amorosa da morte de Jesus, os discípulos jamais se esqueceriam: “Em tudo isto somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou. Pois nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 8,37-39). Da parte de Deus, a aliança não se romperá jamais e Jesus dá uma prova definitiva disso, ao entregar a própria vida. Pão sem fermento, cordeiro imolado, sangue derramado que salva. Tudo isso está presente ao espírito de Jesus, no momento de sua última ceia. Porém, podemos apenas pressentir “o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5). Toda a sua vida pública mostra que ele tinha consciência de ser o Filho, enviado como Profeta e Messias. Sabia que tudo se cumpriria nele, por meio de sua ressurreição iminente: “Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou ao Pai” (Jo 16,27). Assim, a hora de sua última refeição, que ele viu chegar como a hora de seu êxodo, sua passagem, sua páscoa, é ao mesmo tempo a hora do louvor de Deus e a 160 hora do combate decisivo contra o Príncipe das trevas; a hora em que ele é rejeitado, traído, renegado, julgado, flagelado, crucificado, e a hora em que mostra o amor de Deus; a hora da derrota aparente, e a hora em que Deus está prestes a tudo cumprir; a hora por ele vivida no medo e na angústia, e a hora em que se abandona na confiança; a hora que fica gravada no tempo dos homens, mas que marca o fim dos tempos; a hora em que ele se entrega, e a hora em que se pode rejeitá-lo; a hora em que seu sangue vertido por amor poderá libertar ou ser desprezado e escarnecido. Podemos imaginar a extraordinária densidade dos gestos e das palavras de sua última ceia: Enquanto comiam, ele tomou um pão, abençoou, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”. Depois, tomou um cálice, rendeu graças, deu a eles, e todos dele beberam. E disse-lhes: “Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos” (Mc 12,22-24). A expressão o corpo e o sangue significa, em hebraico, a pessoa. Assim, a epístola aos Hebreus descreve a pessoa como o ser feito de “carne e sangue” (Hb 2,14), o que designa nossa condição terrena, limitada, sofredora e mortal. O mesmo versículo acrescenta que Jesus “participou da mesma condição”: ele viveu nossas limitações humanas. Em sua última ceia, trata-se de sua pessoa que vai passar pela ressurreição, conseqüentemente, seu corpo e sangue, que serão glorificados. Logo, sua última ceia é profética. Nesse momento, Jesus não transforma o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue. Ele institui um rito para anunciar como haverá de se tornar presente, depois de ressuscitado. Participar da Eucaristia não é, para falar cruamente, praticar um ritual de antropofagia, mas formar comunhão com a ressurreição de Cristo, com a Pessoa do Ressuscitado. Ora, na Pessoa do Ressuscitado, encontramos o Verbo feito carne, que conheceu o sofrimento e que atravessou a morte. É o Jesus histórico, nascido em Belém e morto na cruz, mas que passou pela ressurreição, por isso “já não morre, a morte não tem mais domínio sobre ele” (Rm 6,9). Em tal perspectiva, podemos compreender as palavras ditas por ele após a multiplicação dos pães: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele (Jo 6,54-55). Seu corpo e sangue se referem a sua pessoa, pois ele diz logo em seguida: “aquele que de mim se alimenta viverá por mim” (Jo 6,57). À questão dos judeus: “Como esse homem pode dar-nos a sua carne a comer?” (Jo 6,52) e à questão de seus próprios discípulos: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (Jo 6,60), Jesus responde que suas palavras devem ser entendidas à luz de sua ressurreição que se aproxima: “Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subir aonde estava antes?... O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que vos disse são espírito e vida!” (Jo 6,63). Assim, a multiplicação dos pães anuncia sua última ceia. Por sua vez, esta última 161 refeição profetiza como ele se dará em comida, depois de ressuscitado, no momento em que, fora do espaço e do tempo e tendo o “poder de se submeter a si todas as coisas” (Fl 3,21), ele poderá, quando seus discípulos repetirem seus gestos, transformar o pão e o vinho em seu corpo e seu sangue gloriosos, tornar-se presente e permitir-lhes participarem de sua ressurreição. Com efeito, Jesus transmite a seus discípulos uma prescrição final: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). O fato de pronunciar tais palavras revela que Jesus está bastante consciente de se encontrar num momento privilegiado, o momento em que Deus realizará a páscoa definitiva, em sua pessoa. Isso depende de uma audácia incrível, de uma fé profunda, e ao mesmo tempo, de uma longa meditação sobre o Antigo Testamento e de um conhecimento notável do significado da tradição judaica. Pois essas palavras são extremamente significativas: Moisés havia mandado “observar este rito” (Ex 12,3; 12,25; 13,5) – o rito do cordeiro pascal, do pão ázimo e da aplicação do sangue do cordeiro; e eis que Jesus prescreve agora a seus discípulos para repetirem os gestos de sua última ceia. Moisés tinha mandado refazer o rito da páscoa, como memorial da saída do Egito. Jesus manda refazer os gestos de sua última ceia, como memorial de sua morte e ressurreição. • A Páscoa para os cristãos Como a Páscoa judaica, a Páscoa cristã se mantém como uma festa em louvor ao Deus do êxodo que, desta vez, “libertou Jesus das angústias do Hades” (At 2,24) e o fez passar pela ressurreição. A Páscoa de Cristo realiza a Páscoa judaica, mas a ultrapassa infinitamente. De fato, ela transmite o mesmo significado de Deus, porém, revela o Pai, que salva seu Filho, pelo poder do Espírito Santo. Uma concepção como essa é completamente inadmissível para os judeus. A Páscoa cristã celebra uma saída, que não é somente a saída do Egito para a terra de Canaã, mas a saída deste mundo para o mundo da ressurreição, a saída derradeira, de que o Antigo Testamento tratou, no livro de Daniel. Jesus leva a Páscoa judaica à plena realização. O discípulo de Jesus conhece o sentido pleno da Páscoa judaica. Do mesmo modo, o indivíduo de fé judaica que adere à fé cristã não abandona a riqueza do Antigo Testamento. Pelo contrário, como escreve São Mateus: “Todo escriba que se tornou discípulo do Reino dos Céus é semelhante ao proprietário que do seu tesouro tira coisas novas e velhas” (Mt 13,52). O cristão, com