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2
Índice
Prefácio
Considerações preliminares
Introdução
PRIMEIRA PARTE: Os onze primeiros capítulos do Gênesis - O projeto de
Deus para a humanidade
1. Alguns instrumentos para compreender bem Gênesis 1-11
A) Os dois autores de Gênesis 1-11
B) As semelhanças com relatos míticos mesopotâmicos
C) A experiência histórica de Israel na fonte da composição
2. Interpretação de Gênesis 1-11
A) Gênesis 1: O sentido da narrativa da criação em seis dias
B) Interpretação do relato do jardim do Éden ou do paraíso
C) Gênesis 3-11: o significado do “pecado”, dos episódios de
Caim e Abel, do dilúvio e da torre de Babel
– O mal observável
– O mal interior
1 – Gênesis 3: “ser como deuses”
2 – Gênesis 4: “o pecado à porta”
3 – Gênesis 6-9: “o coração malvado”
4 – Gênesis 11: “querer atravessar os céus”
– As forças do mal
D) Síntese geral de Gênesis 1-11
SEGUNDA PARTE: De Gênesis 12 aos livros de Samuel - As promessas a
Abraão e a Davi
1 - GÊNESIS 12-50
A) A história dos patriarcas de Israel
B) As promessas e o seu desenvolvimento na Bíblia
1 – As promessas, de Abraão a Josué (1850-1200 a. C.)
2 – As promessas de acordo com os Profetas (1000-500 a.C.)
3 – As promessas de acordo com os Sábios (500 a.C. – 0)
4 – As promessas para Jesus
5 – As promessas para nós
2 - O Êxodo
A) A fuga do Egito
1 – A situação de Israel
2 – O nascimento e o início da vida de Moisés
3
3 – O chamado e a missão
4 – A revelação do nome de Deus
5 – As “pragas” do Egito
6 – A Páscoa
7 – A passagem pelo mar
8 – O cântico de Moisés
B) A caminhada no deserto (Ex 15-18)
1 – A nuvem que guia e cobre com sua sombra
2 – O maná
3 – A água que brota da rocha
C) A Aliança no Sinai (Ex 19-40)
1 – O encontro com Deus: Israel é escolhido povo de Deus
(Ex 19-24)
2 – O dom dos dez mandamentos (Ex 20)
3 – A Tenda da Reunião e a Arca da Aliança (Ex 25-40)
3 - O livro de Josué
A) A conquista da Terra Prometida (Js 1-12)
1 – Raab e os espiões de Josué em Jericó (Js 2)
2 – A passagem do Jordão (Js 3-4)
3 – A celebração da Páscoa e o fim do maná (Js 5,10-12)
4 – A conquista de Jericó (Js 6-12)
5 – Josué e Jesus
B) A partilha da terra entre as tribos (Js 13-21)
C) O fim da carreira de Josué (Js 22-24)
4 - O livro dos Juízes
5 - Os livros de Samuel
A) A figura de Davi
B) As três promessas a Davi e o desenvolvimento delas na Bíblia
1 – As promessas no tempo de Davi e Salomão (1000-931
a.C.)
2 – As promessas de acordo com os Profetas (1000-500 a.C.)
3 – As promessas de acordo com os Sábios (500 a.C.-0)
4 – As promessas para Jesus
5 – As promessas para nós
Conclusão Geral
4
Sinceros agradecimentos
Ao senhor Jean-Paul Desbiens, marista, ex-diretor geral do campus
Notre-Dame-de-Foy por suas reflexões e seus encorajamentos
e ao senhor Raymond Boutin, marianista, emérito professor de francês
do campus Notre-dame-de-Foy pela revisão do texto.
5
E, começando por Moisés e por todos os Profetas, [Jesus] interpretou-
lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito.
(Lc 24,27)
6
PREFÁCIO
A PRESENTE OBRA se configura como um guia de leitura do Antigo
Testamento. Por volta de 1996, Gilles Drolet me pediu para ler os trechos deste livro,
à medida que ele os escrevia. Periodicamente, ele me entregava 10 a 20 páginas de
seus manuscritos, para que eu os comentasse. Sua atitude demonstra uma grande
humildade, e, no final das contas, tudo foi proveitoso para mim em tal processo.
Este guia de leitura assume, em alguns trechos, a aparência de um manual. Ora,
um manual possui o mérito de guiar pela mão, como é sugerido por seu próprio
nome; o guia acompanha, passo a passo, o explorador que se arriscou em um país
desconhecido, mal conhecido ou não muito bem mapeado. É próprio do guia
demarcar o caminho, ao mesmo tempo em que se preserva, como afirma o escritor
Alain, da funesta preocupação de ser completo, o que estraga tantos livros.
Para minha geração, e a fortiori para as gerações precedentes, a Bíblia era um
livro “fechado”. Nas últimas décadas, as pesquisas têm sido tão abundantes e sábias,
que voltamos a ter a impressão de que a Bíblia está reservada aos especialistas.
Consideremos aqui as palavras do cardeal Joseph Ratzinger, que se tornaria o Papa
Bento XVI:
Por meio da pesquisa histórico-crítica, a Sagrada Escritura voltou a ser um livro “aberto”, mas
igualmente um livro “fechado”. Um livro “aberto”: graças aos trabalhos de exegese, nós percebemos a
palavra da Bíblia de um modo novo, em sua originalidade histórica, na variedade de uma história em
constante devir e em expansão, repleta daquelas tensões e contradições que constituem ao mesmo
tempo sua riqueza incalculável. Mas, conseqüentemente, a Escritura voltou a ser um livro “fechado”:
ela se tornou objeto de especialistas; o leigo e até mesmo o Teólogo que não é exegeta não podem
mais se aventurar a opinar sobre ela. De fato, parece que a Bíblia foi retirada da leitura e reflexão dos
fiéis, pois o que resultasse de tal leitura seria considerado reflexão “de amador”. A ciência dos
especialistas ergue uma cerca ao redor do jardim das Escrituras, tornada inacessível ao leitor não
especializado.1
A obra de Gilles Drolet possibilita a compreensão do Antigo Testamento, sem
desviar seu foco de abordagem da pessoa de Cristo, seu cerne e seu alvo.
Dito isso, é necessário nos prevenirmos de uma objeção: Gilles Drolet cita
abundantemente vários autores. De fato, podemos citar outros textos, para marcar um
desacordo ou apresentar uma opinião favorável: “Eu não saberia me expressar melhor
em tão poucas palavras”.
Assinar um prefácio significa autorizar uma obra. Repito simplesmente o que já
disse repetidas vezes ao autor: a leitura destes textos foi extremamente enriquecedora
para mim.
Jean-Paul Desbiens
7
1 RATZINGER, Joseph. Entretien sur la foi. Paris, Fayard, 1985, p. 87 [versão brasileira: RATZINGER,
Joseph & MESSORI, Vittorio. A fé em crise?. São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, 1985].
8
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
A SEDE ESPIRITUAL, ou a busca de sentido, habita o homem desde que ele é
homem. É incontestável, entretanto, num mundo pluralista como o nosso, que essa
sede busque saciar-se em qualquer que seja a fonte. Como prova disso, podemos citar
a abundância de seitas, de gurus, falsos profetas...
Contudo, a humanidade em geral e os cristãos em particular dispõem da fonte de
água viva, dentro deste grande livro que chamamos a Bíblia, considerada a Palavra de
Deus.
Mas a Bíblia assusta, particularmente o Antigo Testamento. Para muitos, o que ela
inspira é um medo do próprio Deus, que para eles é visto como um Deus severo, o
Juiz impiedoso que devemos temer. Basta colocarmos uma Bíblia sobre a carteira de
um estudante de Ensino Médio ou nas mãos da maioria de nossos contemporâneos
para constatarmos esse fato.
Além disso, para a maioria das pessoas, o Antigo Testamento representa um livro
arcaico e ultrapassado ou extremamente denso e complicado para que se possa
aventurar em sua leitura.
Será que este guia de leitura conseguirá mostrar a simplicidade da Bíblia, assim
como sua profundidade e incrível atualidade? Grande pretensão... No entanto, a
Bíblia foi certamente feita para ser lida e entendida. E por todos:
A Bíblia, por ser rústica, é um livro do povo, e continuará sendo. Sabemos a que nível ela promoveu
os pequeninos, os “pobres”: ao nível da preferência de Deus. Por esse e por outros motivos, ela se
dirige verdadeiramente a todos os homens e pode ser compreendida pelos homens mais diferentes.1
Felizmente, nossos predecessores no caminho da fé já nos mostraram o nobre
caminho para a compreensão dos textos bíblicos. Os Atos dos Apóstolos relatam o
episódio de um alto funcionário etíope, o qual, tendo vindo em peregrinação a
Jerusalém, ao voltar para casa, sentado em sua carruagem, lia o profeta Isaías:
Filipe perguntou-lhe: “Entendes o que lês?”. “Como o poderia”, disse ele, “se alguém não me
explicar?”. Abrindo então a boca e partindo deste trecho da Escritura, Filipe anunciou-lhe a Boa Nova
de Jesus (At 8,30-31.35).
Esse exemplo nos revela que nossosmelhores guias a nos ajudar na compreensão
do Antigo Testamento serão aqueles que testemunharam a Ressurreição de Jesus.
Poderemos vislumbrar, com eles, como o projeto de Deus, que havia se tornado
promessa, cumpriu-se plenamente em Jesus Cristo e permanece atual no meio de nós.
Dito isso, é hora de indicar as etapas deste estudo.
A introdução justificará a divisão do Antigo Testamento em quatro partes:
9
1) Os onze primeiros capítulos do Gênesis
2) Do capítulo 12 do Gênesis até os livros de Samuel
3) Os profetas
4) Os sábios
Essa divisão permite compreender o movimento de fundo de todo o Antigo
Testamento. O projeto de Deus aparece na primeira parte e as promessas, na segunda.
A presente obra diz respeito, mais especificamente, a essas duas partes, que vão do
Gênesis até os livros de Samuel. Os profetas e os Sábios, sem ser estudados
sistematicamente, serão, entretanto, evocados e indicarão o aprofundamento e a
compreensão final do projeto e das promessas de Deus. E todo esse conteúdo de
revelação convergirá em direção ao Novo Testamento, em que se encontrará o
cumprimento das promessas do Antigo Testamento, na pessoa de Jesus Cristo.
Poderemos assim apreciar a riqueza dos primeiros livros da Bíblia, que se
desenvolverá de maneira contínua até as últimas páginas do Apocalipse. Ao mesmo
tempo, poderemos admirar a impressionante pedagogia de Deus e seu domínio
absoluto da História humana.
1 AUZOU, Georges. La parole de Dieu, 3.ª ed. Paris, Éditions de l’Orante, 1960, p. 162.
10
INTRODUÇÃO
Algumas chaves de leitura para abrirmos a Bíblia
O ANTIGO TESTAMENTO representa uma massa impressionante de
documentos que foram traduzidos, examinados, comentados, rezados há
aproximadamente 3.000 anos. Contudo, encontramo-nos freqüentemente
despreparados perante todas essas páginas que, além do mais, podem nos parecer
ultrapassadas, enraizadas num tempo ultrapassado. “É história antiga!”, diz-se.
No entanto, bastam apenas algumas chaves de leitura para nos situarmos na
compreensão da Bíblia e, mais ainda, para descobrirmos nela nosso presente e nosso
futuro.
Esta é a proposta deste trabalho: dar uma explicação de conjunto do Antigo
Testamento, colocando em evidência alguns termos importantes, palavras que se
aprofundam sem cessar ao longo da narração e que ressoam até as últimas páginas do
Apocalipse, o derradeiro livro da Bíblia.
Pois este é o movimento característico do Antigo Testamento: as palavras postas
no início assumem constantemente um sentido novo e atingem finalmente um alcance
infinito.
Interessar-se por essa progressão torna possível a percepção da unidade e da
simplicidade da Bíblia, sem a necessidade de nos perdermos nos detalhes. Como dizia
meu antigo professor, Évode Beaucamp, a quem este livro deve bastante: “Há
especialistas que olham tanto para os talos de planta com a lupa, que não percebem as
montanhas!”.
Por certo, a estrutura dos textos, seu autor ou a tradição que os produziu, o
significado preciso das palavras, os dados históricos, geográficos, arqueológicos...
Tudo isso é útil e importante, mas não é suficiente:
Não é correto pensar que, para nos iniciarmos na leitura da Bíblia, seja suficiente lermos, além de sua
tradução, as notas literárias e históricas que colocarão em evidência o que os primeiros leitores serão
capazes de compreender nesses textos. As notas podem ser perfeitamente ortodoxas, sem por outro
lado responder ao que esperamos delas: encontraremos nelas tudo, menos o essencial.1
Em nosso tempo, marcado ao mesmo tempo pela ignorância religiosa e pela
abundância da literatura religiosa, podemos nos espantar, especialmente no meio
católico, pelo lugar insignificante que se dá à explicação da Bíblia. É sem dúvida por
essas razões que ainda hoje alguns se perguntam se nossos primeiros pais de fato
comeram uma maçã no paraíso terrestre, ou se Jonas poderia permanecer três dias no
ventre de uma baleia...
11
Três grandes chaves de leitura
Três chaves de leitura são indispensáveis para uma boa compreensão dos textos da
Bíblia. Elas provêm de três constatações simples: a Bíblia forma um todo, a Bíblia é
uma biblioteca, e a Bíblia veicula palavras importantes, constantemente retomadas e
aprofundadas, que culminam nas duas últimas páginas do Apocalipse.
Primeira chave: a Bíblia como um todo
Pode parecer elementar recordar que a Bíblia se divide em duas grandes partes: o
Antigo e o Novo Testamento. Em conseqüência disso, pode-se afirmar que: em
primeiro lugar, o período de composição do Antigo Testamento (1.000 anos) é muito
mais longo que o do Novo Testamento (50 anos); em segundo lugar, muitas pessoas
são colocadas em evidência no Antigo Testamento, ao passo que no Novo
Testamento, somente uma o é: Jesus. Além disso, uma tendência à unidade se
manifesta de um Testamento a outro, sendo ela pontuada pelas promessas e profecias
que caminham em direção a uma plena realização. Essa tendência à unidade é
coroada pelo anúncio do Messias, “aquele que deve vir”. Por fim, o Antigo
Testamento conhece uma progressão constante até a afirmação final de uma
ressurreição dos mortos, profecia que Deus cumpre no Novo Testamento, com a
Ressurreição de Jesus.
Visualizemos estes dados capitais:
Essa visão de conjunto nos apresenta perspectivas muito fecundas! Já sabemos
que o Antigo Testamento progride, que seu ponto culminante reside na afirmação da
ressurreição dos mortos e que a ressurreição de Jesus o consagra como Messias e
representa a assinatura de Deus em todas as profecias.
Pode-se dizer que o coração pulsante da Bíblia é a ressurreição dos mortos, já
inaugurada pela ressurreição de um homem! É ele quem dá sentido à vida!
12
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Se, ao explicar a Bíblia, não falamos da ressurreição, “vazia é a nossa pregação”
(1Cor 15,14). Logo, as pessoas buscarão em outros lugares o sentido último da vida:
reencarnação, nirvana, corpo estelar, fusão com o Grande Todo etc.
É evidente que, no desenrolar da explicação, nós iremos explorar a chave de
leitura por excelência, ou seja, a pessoa de Jesus de Nazaré, que hoje vive. O Antigo
Testamento nos fala dele.
De fato, é bastante significativo que o Ressuscitado, ele mesmo, caminhando com
os discípulos de Emaús, tenha retomado todo o Antigo Testamento, aplicando-o a si
próprio, como Ressuscitado: “Começando por Moisés [a Lei, o Gênesis] e
percorrendo todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele
dizia respeito” (Lc 24,27).
Isso significa que as profecias que anunciavam o Messias continuam a descrevê-
lo, hoje, em sua Ressurreição. Assim, para apreciar toda a riqueza de Cristo, nós
precisamos não somente do Novo Testamento, mas igualmente do Antigo
Testamento. O ressuscitado continua a dizer: “Era preciso que se cumprisse tudo o
que está escrito sobre mim na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44).
Logo, é necessário tudo compreendermos em sua relação ao Cristo Ressuscitado, por
meio de cuja luz “a mente se abre ao entendimento das Escrituras” (Lc 24,45) e o
coração se torna ardente ao ouvi-lo falar (Lc 24,32).
Albert Gelin tinha razão ao escrever: “O Antigo Testamento é uma imensa
profecia, da qual é preciso encontrar as estruturas mestras; uma terra misteriosa na
qual se discernem caminhos sagrados que desembocam em Cristo”.2
Procedendo desta maneira, nós iremos seguir a linha diretriz do Concílio Vaticano
II:
Como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita, não
menos atenção se deve dar, na investigação do reto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à
unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé. Foi por
isso que Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs tão sabiamente as coisas,
que o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo. Pois, apesar de
Cristo ter estabelecido uma nova Aliança no seu sangue (cf. Lc. 22,20; 1Cor 11,25), os livros do
Antigo Testamento, ao serem integralmente assumidos na pregação evangélica, adquireme
manifestam a sua plena significação no Novo Testamento (cf. Mt 5,17; Lc 24,27; Rm 16,25-26; 2 Cor
3,14-16), que por sua vez iluminam e explicam. 3
Assim, sem uma visão de conjunto, corremos o risco de omitir o essencial:
Existe um significado bíblico de conjunto que atravessa, une e ultrapassa o significado dos livros
considerados em separado. A miopia, em toda leitura e compreensão de texto, é causa freqüente de
engano. Se quisermos alcançar o significado correto da Bíblia, será preciso compreendê-la como um
todo.4
Segunda chave: a Bíblia, uma coleção de livros diferentes
13
Basta estar atento para constatar que a Bíblia ainda é lida e interpretada ao pé da
letra. Tudo é considerado praticamente como uma narrativa histórica. Certamente,
Deus pode ir ao encontro das pessoas por meio desse tipo de leitura, dita
fundamentalista, porém, não devemos colocar a fé lá onde ela não é de forma alguma
requerida.
Por exemplo, a propósito da cena de Gênesis 3, alguns se perguntam se uma
serpente pode realmente ter falado a uma mulher. Alguns responderão: “Não há nada
impossível a Deus!”. Uma resposta como essa pode testemunhar uma certa fidelidade
a Deus e a sua Palavra, mas Deus não espera de nós esse tipo de fé. Da mesma
maneira, com respeito ao relato do dilúvio, é demonstração de um bom espírito
crítico perguntar-se sobre a possibilidade de um homem poder reunir machos e
fêmeas de todas as espécies de seres vivos, para os embarcar num enorme navio
fabricado por ele.
A Bíblia é uma coleção de livros bem diversos. Eis alguns exemplos de escritos
diferentes:
– Um poema: a criação em seis dias (Gn 1).
– Uma narrativa simbólica: Deus passeia pelo jardim do Éden (Gn 2).
– Uma epopéia (na qual se exagera um acontecimento): a travessia do mar (Ex
14).
– Um texto legislativo: o livro do Levítico.
– Um relato histórico: a tomada da cidade de Hasor por Josué (Js 11).
– Arquivos ou anais: os dois livros dos Reis.
– Orações: os Salmos.
– Oráculos: os Profetas.
– Um conto humorístico: Jonas.
– Aconselhamentos: Provérbios.
– Uma peça de teatro ou uma tragédia: o livro de Jó.
– Um poema de amor: o Cântico dos Cânticos.
– Reflexões: Eclesiastes.
– Revelações: o livro de Daniel e o Apocalipse de São João.
– Cartas: as epístolas de São Paulo.
– Testemunhos sobre Jesus: os Evangelhos.
Cada um desses textos possui uma característica própria e manifesta um gênero
literário: simbólico, histórico, poético, épico, apocalíptico... Daí procede a chave de
leitura capital, qualificada em 1943 como regra suprema pelo papa Pio XII, que
autorizava finalmente os católicos a não tomarem literalmente os textos da Bíblia:
A regra suprema para a interpretação dos textos sagrados é descobrir e definir aquilo que o escritor
quis dizer e prestar atenção aos gêneros de discurso que ele utiliza (Encíclica Divino affante Spiritu).
Portanto, é preciso fazer uma distinção entre a mensagem e a maneira pela qual ela
é expressa. Em verdade, a Palavra de Deus se encarnou. Deus respeitou a liberdade de
14
cada escritor, que pôde se exprimir segundo seu jeito próprio de ver, seu plano, sua
arte, seu estilo e o gênero de escrita que ele julgou o mais apropriado para transmitir
sua mensagem. Encontramos, portanto, uma variedade de livros na Bíblia, que
consiste numa pequena biblioteca.
Terceira chave: as palavras importantes, presentes no fim do Apocalipse
Se “muitos ficam imóveis diante da Bíblia como na entrada de uma floresta
impenetrável”,5 é porque as pistas necessárias e os pontos de referência não lhes
foram indicados. O caminho, no entanto, é bem demarcado.
Ora, para alcançar um pouco de altitude, nada pode nos ser tão vantajoso quanto
nos transportarmos ao final da Bíblia. De fato, as últimas páginas de um livro são
sempre importantes. Nelas podemos reencontrar as palavras inauguradas na
introdução, além de percebermos o ponto de convergência e o ponto de chegada dos
grandes temas. Aquilo que aparecia até então de modo velado ou inacessível, até
mesmo incompreensível, manifesta então todo o seu significado.
Esse é o caso da Bíblia. Embora Deus tenha escrito por intermédio de numerosos
escritores, num período de mais de mil anos, todo o seu pensamento parte do Gênesis,
desenvolvendo-se em cada um dos livros, para finalmente culminar nos dois últimos
capítulos do Apocalipse, os capítulos 21 e 22. O autor está consciente, ao cabo dessas
duas páginas, que a revelação está concluída: “Não acrescentem nada, nem retirem
nada das palavras deste livro” (Ap 22,18-19).
Uma análise do final da Bíblia nos permitirá encontrar as palavras importantes que
formam a trama de todo o Antigo Testamento. Teremos assim a confirmação, desde o
início deste estudo, de que estamos seguindo as boas pistas.
Salientemos que esses textos do Apocalipse se caracterizam como uma literatura
de gênero fantástico, fabuloso. Será possível, como nessas duas páginas, exprimir de
modo tão poético os desejos humanos mais profundos?
Apocalipse 21
1 Vi então um céu novo e uma nova terra – pois o primeiro céu e a primeira terra se foram, e o mar já
não existe. 2 Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, uma Jerusalém nova, pronta
como uma esposa que se enfeitou para seu marido. 3 Nisto ouvi uma voz forte que, do trono, dizia:
“Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-
eles, será o seu Deus. 4 Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem
luto, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!”.
5 O que está sentado no trono declarou então: “Eis que eu faço novas todas as coisas”. E continuou:
“Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras”. 6 Disse-me ainda: “Elas se realizaram! Eu
sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim; e a quem tem sede eu darei gratuitamente da fonte de água
viva. 7 O vencedor receberá esta herança, e eu serei seu Deus e ele será meu filho. 8 Quanto aos
covardes, porém, e aos infiéis, aos corruptos, aos assassinos, aos impudicos, aos magos, aos idólatras e
a todos os mentirosos, a sua porção se encontra no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda
15
morte”.
9 Depois, um dos sete Anjos das sete taças cheias com as sete últimas pragas veio até mim e disse-me:
“Vem! Vou mostrar-te a Esposa, a mulher do Cordeiro!” 10 Ele então me arrebatou em espírito sobre
um grande e alto monte, e mostrou-me a Cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de
Deus, 11 com a glória de Deus. Seu esplendor é como o de uma pedra preciosíssima, uma pedra de
jaspe cristalino. 12 Ela está cercada por muralha grossa e alta, com doze portas. Sobre as portas há
doze Anjos e nomes inscritos, os nomes das doze tribos de Israel. 14 A muralha da cidade tem doze
alicerces, sobre os quais estão os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro.
22 Não vi nenhum templo nela, pois o seu templo é o Senhor, o Deus Todo-poderoso, e o Cordeiro. 23
A cidade não precisa do sol ou da lua para a iluminar, pois a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é
o Cordeiro. 24 As nações caminharão à sua luz, e os reis da terra trarão a ela sua glória; 25 suas portas
nunca se fecharão de dia – pois ali já não haverá noite – 26 e lhe trarão a glória e o tesouro das nações.
27 Nela jamais entrará algo de imundo, e nem os que praticam abominação e mentira. Entrarão
somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro.
Apocalipse 22
1 Mostrou-me depois um rio de água da vida, límpido como cristal, que saía do trono de Deus e do
Cordeiro. 2 No meio da praça, de um lado e do outro do rio, há árvores da vida que frutificam doze
vezes, dando fruto a cada mês; e suas folhas servem para curar as nações.
3 Nunca mais haverá maldições. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e seus servos lhe
prestarão culto; 4 verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. 5 Já não haverá noite: ninguém
mais precisará da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e eles
reinarão pelos séculos dos séculos.
6 Disse-me então: “Estaspalavras são fiéis e verdadeiras, pois o Senhor Deus, que inspira os profetas,
enviou o seu Anjo para mostrar aos seus servos o que deve acontecer muito em breve. 7 Eis que eu
venho em breve! Feliz aquele que observa as palavras da profecia deste livro. 8 Eu, João, fui o ouvinte
e a testemunha ocular dessas coisas. Tendo-as ouvido e visto, prostrei-me para adorar o Anjo que me
havia mostrado tais coisas. 9 Ele, porém, me impediu: “Não! Não o faças! Sou servo como tu e como
teus irmãos, os profetas, e como aqueles que observam as palavras deste livro. É a Deus que deves
adorar!”
10 E acrescentou: “Não retenhas em segredo as palavras da profecia deste livro, pois o Tempo está
próximo. 11 Que o injusto cometa ainda a injustiça e o sujo continue a sujar-se; que o justo pratique
ainda a justiça e que o santo continue a santificar-se. 12 Eis que eu venho em breve, e trago comigo o
salário para retribuir a cada um conforme o seu trabalho. 13 Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o
Último, o Princípio e o Fim. 14 Felizes os que lavam suas vestes para terem poder sobre a árvore da
Vida e para entrarem na Cidade pelas portas. 15 Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os
homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira.”
16 Eu, Jesus, enviei meu Anjo para vos atestar estas coisas a respeito das Igrejas. Eu sou o rebento da
estirpe de Davi, a brilhante Estrela da manhã.
17 O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!” Que aquele que ouve diga também: “Vem!” Que o sedento
venha, e quem o deseja receba gratuitamente água da vida.
18 A todo o que ouve as palavras da profecia deste livro, eu declaro: “Se alguém lhes fizer algum
16
acréscimo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. 19 E se alguém tirar algo das palavras
do livro desta profecia, Deus lhe tirará também a sua parte da árvore da Vida e da Cidade santa, que
estão descritas neste livro!”
20 Aquele que atesta estas coisas, diz: “Sim, venho muito em breve!” Amém! Vem, Senhor Jesus.
21 A graça do Senhor Jesus esteja com todos! Amém (Ap 21,1-27; 22,1-21).
Tais visões podem nos deixar um pouco espantados e mesmo confusos. Em
princípio, uma linguagem como essa pode parecer insólita para nossa mentalidade
racional e científica...
No entanto, essas visões têm um alcance incomparável: elas nos desvendam um
futuro absolutamente impenetrável, buscando representar o outro mundo... Por esse
motivo, o apelo à poesia e à linguagem simbólica era indispensável.
Nós que somos tão apegados ao nosso mundo e tão sujeitos ao tempo, eis que
somos subitamente arrebatados de nosso planeta e transportados para além do tempo.
Essas páginas nos revelam que a história humana caminha em direção a um desfecho,
um futuro luminoso. Nossa história tem um sentido, segue uma direção. Somos
convidados a voltar nosso olhar para o futuro.
Entretanto, se o autor nos revela “as coisas que deverão acontecer depois destas”
(Ap 1,19), e “muito em breve” (Ap 1,1; 22,6), é para nos interpelar em nossa vida
presente, neste último período da história que se estende da Ascensão de Cristo até o
seu retorno (Ap 1,18). Em diversas passagens, está escrito que esse retorno está para
acontecer “em breve” (Ap 22,7.12.20). Logo, a vida presente se define por uma
característica extremamente séria: ela é o lugar de uma batalha da qual é preciso sair
“vencedor” (Ap 21,7). Cabe a cada um tomar sua própria decisão diante de Deus, de
modo a estabelecer seu futuro pessoal. Aquele que não quiser se relacionar com Deus
conhecerá “a segunda morte” (Ap 21,8), pior que a morte física. Ele mesmo causará
seu distanciamento de Deus e acabará ficando sozinho. Deus o respeitará. Esse é o
significado destas duras palavras: “Quanto aos covardes, porém, e aos infiéis, aos
corruptos, aos assassinos, aos impudicos, aos magos, aos idólatras e a todos os
mentirosos, a sua porção se encontra no lago ardente de fogo e enxofre, que é a
segunda morte” (Ap 21, 8); “Ficarão de fora os cães, os mágicos, os impudicos, os
homicidas, os idólatras e todos os que amam ou praticam a mentira” (Ap 22,15).
Cada um receberá “o salário conforme o seu trabalho” (Ap 22,12). Trata-se de um
apelo à conversão, apelo que ecoa por toda a Bíblia. O próprio Jesus mudou o foco do
nosso olhar, orientando-o ao futuro, interpelando-nos em nossa vida presente: “O
Reino de Deus está próximo! Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).
Consideremos as palavras-chave dessas páginas que significam a grande
esperança do fim dos tempos.
No capítulo 21, mencionam-se, antes de tudo, um novo céu e uma nova terra.
Essas palavras lembram o primeiro versículo do Gênesis e o projeto inicial de Deus:
“No princípio, Deus criou o céu e a terra”. Portanto, o anúncio de uma criação
perfeita é retomado no Apocalipse.
17
No capítulo 22, o autor faz referência ao rio de água da vida, no meio da praça;
em seguida, à árvore da Vida (22,1.2.14.19). Tais expressões remetem dessa vez ao
segundo capítulo do Gênesis, ao relato do jardim do Éden que também expõe o
projeto de Deus: “Iahweh Deus fez crescer a árvore da vida no meio do jardim. Um
rio saía do Éden para regar o jardim” (Gn 2,9-10).
As duas últimas páginas da Bíblia retomam, assim, as duas primeiras! Elas
reafirmam o projeto que Deus havia concebido desde o princípio: o projeto de uma
criação em que tudo é bom e o projeto do paraíso. Encontramos nelas as mesmas
características do Gênesis: “Ele habitará com eles. Ele enxugará toda lágrima de seus
olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor haverá mais”
(21,3-4).
Essas primeiras e últimas páginas revelam a vontade de Deus. O que Deus quer é
um mundo no qual tudo seja bom, um paraíso em que não haja sofrimento nem
morte.
Essas são as mais belas páginas da Bíblia: no princípio, assim como no fim, não
existe o mal, “nunca mais haverá maldições” (Ap 22,3); tudo é novo, tudo é como
Deus sempre quis. Em dois momentos, é mencionado que “o primeiro céu e a
primeira terra se foram, [que] as coisas antigas se foram” (Ap 21,1.4). Esse mundo
antigo é o mundo atual, corrompido pelo mal, cuja descrição se inicia em Gênesis 3 e
se estende até Apocalipse 20. Desse modo, somos colocados diante do grande enigma
das forças do mal, que aparecem no princípio, por sob a imagem da serpente
astuciosa (Gn 3,1) e que desaparecem no final, quando “o Diabo [é] lançado no lago
de fogo e de enxofre, onde já se achavam a Besta e o falso profeta. E serão
atormentados dia e noite, pelos séculos dos séculos” (Ap 20,10).
Assim, o novo céu e a nova terra coincidem com o paraíso. Trata-se de uma
esperança decisiva, certa: “Estas palavras são fiéis e verdadeiras”, o que se repete por
duas vezes (Ap 21,5; 22,6). Se nós de fato tomássemos consciência de que esse novo
universo um dia existirá, nossa vida seria envolvida por uma grande luz.
Eis as primeiras palavras-chave: criação perfeita e paraíso. Elas, por si mesmas,
expressam e contêm o projeto de Deus.
A quem estão destinados esse novo céu e essa nova terra? O início da Bíblia nos
responde: ao homem e à mulher; portanto, à humanidade inteira. O Apocalipse o
confirma: Deus quer habitar “com os homens” (Ap 21,3).
Ora, no mesmo versículo, os homens são designados como sendo seu povo. Eis
uma outra expressão capital: “Eles serão o seu povo” (Ap 21,3).
18
Tratando-se de todos os homens, esse povo é formado pelo povo de Israel,
evocado por meio da referência às “doze tribos de Israel” (Ap 21,12), e também
formado pela Igreja, evocada pela referência a “Igrejas” e pela menção dos “nomes
dos doze Apóstolos do Cordeiro” (22,16; 21,14). Os escritores da Bíblia haviam
percebido, desde o início, que Deus não podia ser exclusividade de um só povo. O
autor do Apocalipse sela essa perspectiva afirmando que as folhas da árvore da vida
podem curar “as nações” (22,2), ou seja, os pagãos.
Onde viverá esse povo? Na nova terra. Essa expressão, que ainda há pouco
designava a nova criação, compreende igualmente a realidade da terra prometida.
Essa terra é sempre anunciada como uma terra derepouso. Nela encontramos a paz, a
segurança, como é o caso neste versículo: “(...) nem clamor e nem dor haverá mais”
(21,4).
Nessa nova terra, Deus está em relação com o homem e o homem em relação com
Deus. Trata-se da aliança, outra palavra fundamental da Bíblia: Deus é amigo do
homem e seu aliado. Ele está com o homem. As diversas fórmulas da aliança se
encontram aqui: “Eis a tenda de Deus com os homens; eles serão o seu povo, e ele,
Deus-com-eles, será o seu Deus” (21,3). Essa aliança é expressa de maneira ainda
mais pessoal pela seguinte promessa: “Eu serei seu Deus e ele será meu filho” (21,7).
Nós a encontramos igualmente por trás das magníficas imagens da “esposa que se
enfeitou para seu marido” (21,2), e da “mulher do Cordeiro” (21,9).
Eis três outras palavras importantes: povo, terra e aliança.
Ora, essas três palavras aparecem na Bíblia a partir de Gênesis 12 e remetem a três
promessas que Deus dirige a Abraão: este terá numerosos descendentes, que
habitarão a terra prometida, e Deus estará com eles. Essas promessas retomam o
grande projeto de Deus anunciado em Gênesis 1-2, em que toda a humanidade,
dentro de uma criação perfeita, está em relação com Deus.
Assim as palavras criação, paraíso, terra prometida se unem.
Nessa nova terra é construída uma cidade: a nova Jerusalém. Esta também se
confunde com o paraíso! De fato, como no meio do jardim do Éden, “o rio de água da
vida, saía (...) no meio da praça” (Ap 22,1-2). É lá que se encontra igualmente a
árvore da vida, de modo que assim está escrito: “[eles terão] poder sobre a árvore da
Vida e [entrarão] na Cidade pelas portas” (22,14). Menciona-se igualmente, lado a
lado, “a parte da árvore da Vida e da Cidade santa” (22,19). A nova Jerusalém é o
paraíso.
Nessa cidade, “não [se vê] nenhum templo, pois o seu templo é o Senhor, e o
Cordeiro” (21,22). O templo era o sinal da presença de Deus em Jerusalém. Aqui,
esse sinal não é mais necessário, pois se verá a face de Deus (22,4). Todo sinal é
substituído pela presença concreta de Deus. A nova Jerusalém é “a tenda de Deus”
(21,3). Estamos no “céu”, na “Cidade de Deus” (21,2). O universo inteiro está repleto
de sua presença.
Enfim, nessa Cidade se encontra “o trono de Deus e do Cordeiro” (22,3). Deus é
19
efetivamente o rei, “o Deus Todo-poderoso” (21,22), “o que está sentado no trono”
(21,3.5). Ele reina por meio de Jesus, o Ressuscitado, “o rebento da estirpe de Davi”
(22,16). A nova Jerusalém corresponde, portanto, ao Reino de Deus!
Estas são as três últimas palavras-chave: uma cidade, um templo, um rei.
Ora, essas três palavras aparecem na Bíblia nos livros de Samuel e estão em
relação com três promessas que Deus dirige a Davi: em Jerusalém, Deus habitará o
templo, e um descendente de Davi será rei para sempre. Podemos notar, mais uma
vez, que essas três promessas correspondem ao projeto de Deus expresso em Gênesis
1-2, segundo o qual Deus havia criado um lugar ideal para morar com o homem e a
mulher, e para ser seu rei e protetor.
As duas últimas páginas do Apocalipse, escritas em linguagem muito simples,
retomam o projeto de Deus para toda a humanidade, projeto que se tornou promessa
na história de Israel, por meio daquelas promessas dirigidas a Abraão e a Davi.
Eis por que, desde o início de seu Evangelho, São Mateus escreve: “Jesus Cristo,
filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1). O Evangelista designa os dois homens do
Antigo Testamento aos quais Deus dirigiu as promessas. Eis aqui uma ótima chave de
interpretação.
As palavras do Apocalipse que sintetizam o Antigo Testamento são carregadas de
um simbolismo que jamais terminaremos de desvendar: criação perfeita, paraíso,
nova terra, nova Jerusalém, Reino de Deus, morada/tenda de Deus com os homens,
aliança eterna... Por sua própria simplicidade, elas aludem a uma realidade que
sempre nos arrasta para além daquilo que experimentamos.
Agrupemos agora as expressões do Apocalipse analisadas e reparemos como elas
se implicam mutuamente:
Projeto para toda a humanidade
Uma criação
perfeita
Vi então um céu novo e uma nova terra (21,1).
O primeiro céu e a primeira terra se foram (21,1).
Nunca mais haverá choro... (21,4).
As coisas antigas se foram (21,4).
Eis que eu faço novas todas as coisas (21,5).
O paraíso Deus habitará com eles (21,3).
Nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá
mais (21,4).
Mostrou-me depois um rio de água da vida (22,1).
No meio da praça (...), há árvores da vida (22,1-2).
Nunca mais haverá maldições (22,3).
[Terão] poder sobre a árvore da Vida (22,14.19).
Promessas a Abraão
20
Um povo Uma esposa que se enfeitou para seu marido (21,2).
Deus com os homens (21,3).
Eles serão o seu povo (21,3).
Ele será meu filho (21,7).
A mulher do Cordeiro (21,9).
Os nomes das doze tribos de Israel (21,12).
Os doze apóstolos do Cordeiro (21,14).
As nações (21,24).
Os que estão inscritos no livro da vida (21,27).
As nações [dos pagãos] (22,2).
As Igrejas (22,16).
Uma terra Vi então uma nova terra (21,1).
A primeira terra se foi (21,1).
Uma aliança Como uma esposa que se enfeitou para seu marido (21,2).
Deus com os homens (21,3).
Ele habitará com eles (21,3).
Eles serão seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus (21,3).
Eu serei seu Deus, e ele será meu filho (21,7).
A mulher do Cordeiro (21,9).
Seu nome estará sobre suas frontes (22,4).
Promessas a Davi
Uma cidade Vi a Cidade Santa, uma Jerusalém nova (21,2.10). Como uma
esposa que se enfeitou para seu marido (21,2).
Eis a tenda de Deus (21,3).
Seu esplendor é como o de uma pedra preciosíssima (21,11).
Ela está cercada por muralha grossa e alta (21,12).
Com doze portas e doze alicerces (21,12.14).
A praça da cidade é de ouro puro (21,21).
No meio da praça (22,2).
[Poderão entrar] na Cidade pelas portas (22,14).
Sua parte da Cidade (22,19).
Um templo Eis a tenda de Deus com os homens (21,3).
Ele habitará com eles (21,3).
Não vi nenhum templo nela (21,22).
O seu templo é o Senhor, e o Cordeiro (21,22).
21
Um rei Ouvi uma voz forte que, do trono, dizia (21,3).
Ele será o seu Deus (21,3).
Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos (21,4).
O que está sentado no trono (21,5).
Eu sou o Alfa e o Ômega (21,6).
O Senhor, o Deus Todo-poderoso (21,22).
Um rio de água da vida saía do trono de Deus e do Cordeiro (22,1).
Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro (22,3).
É a Deus que deves adorar (22,9).
Eu sou o rebento da estirpe de Davi (22,16).
Essa análise das duas últimas páginas do Apocalipse é absolutamente essencial.
Desse modo, tornamo-nos conhecedores das palavras importantes que permitem
descobrir a simplicidade da Bíblia. Essas palavras aparecem do início da Bíblia até os
últimos livros de Samuel. Elas designam o projeto de Deus para a humanidade
(Gênesis 1-2), projeto esse resgatado pelas promessas a Abraão e Davi (Gênesis 12 a
Samuel). Que o projeto de Deus seja formulado em termos de promessas constitui,
aliás, uma extraordinária perspectiva referente a Deus! O Deus das promessas é o
Deus da gratuidade! E a gratuidade procede do amor.
Esses elementos do Apocalipse traçam nosso percurso.
Assim sendo, o Antigo Testamento compreende quatro grandes partes:
Primeira parte: os onze primeiros capítulos do Gênesis
O projeto de Deus para a humanidade: uma criação perfeita e um paraíso.
Segunda parte: de Gênesis 12 aos livros de Samuel
O tempo das promessas.
As promessas a Abraão: um povo, uma terra, uma aliança.
As promessas a Davi: uma cidade, um templo, um rei.
Tudo é realizado primeiramente sobre a terra.
* Gênesis 12-50, Êxodo, Josué, Juízes, Samuel.
Terceira parte: os Profetas
O desenvolvimento das promessas
Tudo será novo
* Elias, Amós, Oséias, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Segundo Isaías.
Quarta parte: os Sábios
O cumprimento das promessas
Tudo se cumprirá com a ressurreição dos mortos!
* Provérbios, Jó, Eclesiastes, Eclesiástico, Daniel.
Essa disposição realça o fio condutor do Antigo Testamento. A primeira parte nos
fará apreender o desígnio global de Deus para toda a humanidade (Gn 1-11), o que é
primordial. Na segundaparte, observaremos a retomada desse desígnio com as
22
promessas a Abraão e a Davi (Gn 12 a Samuel). Deus tem um único projeto. Gênesis
12 a Samuel se encontram intimamente ligados a Gênesis 1-11, ainda que este último
se distinga, desde o início, da história judaica propriamente dita.
Essa segunda parte, assim delimitada, possui a grande vantagem de considerar
como um conjunto o afresco que vai de Abraão a Davi, pintura infelizmente, e com
freqüência, fragmentada. É certamente tradicional dividir o Antigo Testamento em
três grandes partes: a Lei, os Profetas e os Sábios. Infelizmente, especialmente na
tradição católica, estudamos a Lei por si mesma (o Pentateuco), para em seguida
passarmos diretamente aos Profetas. O que vêm a ser então os livros de Josué, dos
Juízes, de Samuel e dos Reis? Livros classificados como “históricos” e
freqüentemente fadados ao silêncio. Não é de se espantar que as promessas de Deus
não sejam enfatizadas nem acompanhadas em seu desenvolvimento.
Adotando esta divisão, poderemos discernir melhor as três grandes etapas da
história de Israel, tais como o Evangelho de Mateus as revelou:
– de Abraão a Davi;
– de Davi ao exílio na Babilônia;
– do exílio na Babilônia até a Vinda do Messias (Mt 1,17).
Esses três períodos marcam justamente a progressão das promessas: as promessas
se cumprem primeiramente entre Abraão e Davi, em seguida são aprofundadas pelos
profetas no tempo do exílio, e, após o exílio, projetadas no mundo da ressurreição
pelos Sábios. Uma outra extraordinária chave de interpretação!
Com essas três grandes chaves de leitura – ler a Bíblia como um todo, prestar
atenção aos gêneros literários, conhecer as palavras importantes –, podemos abordar
o Antigo Testamento de um modo verdadeiramente apropriado, já o considerando
como um livro futurista, pois seu desenrolar nos conduzirá ao mundo da ressurreição,
no qual Jesus já se encontra! Ora, se tudo já se cumpriu para ele, nada se cumpriu
ainda para nós. O Antigo Testamento é, portanto, de uma atualidade impressionante.
O caminho que Israel seguiu, e que o próprio Jesus assumiu, é também o nosso.
1 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament, 2.ª ed., Paris, Desclée, 1962, p. 422.
2 GELIN, Albert. Les idées maîtresses de l’Ancien Testament, Foi vivante n° 30. Paris, Cerf, 1966, p. 7.
3 Constituição Dogmática Dei Verbum, Sobre a Revelação Divina, n° 12 e 16.
http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-
verbum_po.html
4 AUZOU, Georges. La parole de Dieu, 3.ª ed. Paris, Éditions de l’Orante, 1960, p. 418.
5 DIÉTRICH, Suzanne de. Le dessein de Dieu. Neuchatel, Delachaux et Niestlé, 1965, p. 8.
23
PRIMEIRA PARTE
OS ONZE PRIMEIROS CAPÍTULOS DO GÊNESIS
O projeto de Deus para a humanidade
24
O CONTEÚDO dos primeiros capítulos do Gênesis é geralmente bem conhecido.
Aliás, já se ouviu falar muito a respeito deles, de modo que podemos querer guardar
tais histórias numa gaveta, de uma vez por todas. São aparentemente pouco
interessantes, ultrapassadas, completamente fora de moda... Por que então nos
interessarmos ainda por estes textos sobre a criação em seis dias (Gn 1), o paraíso
(Gn 2), Adão e Eva (Gn 3), Caim e Abel (Gn 4), o dilúvio (Gn 6-9), a Torre de Babel
(Gn 11)?
Certamente, muitas expressões desses capítulos continuam a povoar nossas
conversas, tais como: “Estou me sentindo no paraíso”, “esta chuva está parecendo o
verdadeiro dilúvio”, “esta empresa é a própria torre de Babel”... Contudo, a
compreensão das primeiras páginas da Bíblia permanece quase sempre muito
limitada, até mesmo lamentável.
De fato, são as páginas mais significativas do Antigo Testamento, nas quais os
autores falam a respeito da humanidade em geral, mas também são as mais
complexas, de modo que o grande Teólogo Karl Rahner chegou a escrever: “Minha fé
não dependerá da questão de saber se os exegetas ou o Magistério da Igreja
conseguiram ou não interpretar corretamente os primeiros capítulos do Gênesis!”.1
Bem pretensioso, portanto, quem pretendesse dar a última palavra sobre esses
textos! Entretanto, poderemos vislumbrar a mensagem essencial que eles trazem e seu
papel fundamental como ponto de partida para o desenvolvimento de toda a Bíblia.
Deveremos pelo menos evitar que nossa interpretação se estabeleça a partir de dados
inaceitáveis.
Ora, o erro mais comum referente a esses textos é o de os considerar ainda ao pé
da letra. Desse modo, estima-se pura e simplesmente que:
– a criação foi feita em seis dias;
– o paraíso existiu no princípio;
– o homem foi feito da argila;
– depois, foram criados os animais;
– em seguida a mulher, a partir da costela do homem;
– o primeiro homem se chamava Adão; a primeira mulher, Eva;
– uma serpente falou à mulher;
– eles tiveram a infelicidade de comer o famoso fruto;
– todos nós sofremos e morremos por causa disso;
– Deus os puniu e expulsou...
Explica-se, em seguida, o relato de Caim e Abel como se fosse a história da
primeira família e do primeiro homicídio; o relato do dilúvio como se um homem
tivesse realmente reunido machos e fêmeas de todas as espécies de viventes e os
tivesse embarcado num navio; o relato da torre de Babel como se todos os homens
tivessem se reunido para realizar uma construção gigantesca que atravessaria as
nuvens...
25
Prosseguindo por essa abordagem insatisfatória, faz-se ainda uma infinidade de
falsas perguntas sobre os textos: Deus criou cada espécie de uma vez por todas ou por
meio de um processo evolutivo? Quem pecou primeiro, o homem ou a mulher? Que
ato eles puderam cometer? Onde se encontram os querubins que guardam o caminho
da árvore da vida? Como os homens podiam viver seiscentos ou novecentos anos?
Algumas pessoas ainda imaginam que o paraíso existiu e que acabaremos
encontrando a arca de Noé... Pensam que tais descobertas arqueológicas provariam
que a Bíblia disse a verdade. Évode Beaucamp dizia: “Aqueles que procuram pela
arca de Noé, eu os admiro mais como alpinistas do que como especialistas em
Bíblia!”.
Os escritores da Bíblia certamente ficariam incomodados ao nos verem, em algum
ponto do planeta, correndo atrás de uma árvore bizarra, conhecida como a árvore do
conhecimento do bem e do mal! Eles com certeza nos diriam: “Ora, pois! Trata-se
apenas de uma imagem!”.
Rememoremos aqui a chave de leitura formulada pelo Papa Pio XII:
A regra suprema para uma interpretação correta dos textos bíblicos consiste em encontrar e definir o
que o autor quis dizer e estar atento aos gêneros de discurso ou de escrita que ele utiliza (Encíclica
Divino afflante Spiritu, 1943).
Se há textos da Bíblia que não devemos considerar ao pé da letra, os onze
primeiros capítulos do Gênesis estão entre eles.
Hoje, graças às descobertas de numerosos especialistas nos dois últimos séculos,
podemos penetrar melhor no contexto da época em que os livros da Bíblia foram
escritos. Inúmeros estudos sobre as línguas antigas, o contexto histórico e social, os
costumes e a mentalidade dos autores, seu estilo literário, as imagens de que se
utilizaram, os empréstimos que fizeram dos escritos de povos vizinhos... Tudo isso
nos permite uma melhor percepção do alcance de seus textos:
O resgate das literaturas antigas, que recoloca o Antigo Testamento em seu ambiente natural, é algo
absolutamente moderno. O Renascimento, nem a Idade Média, nem a própria antiguidade cristã
puderam instituir uma comparação direta entre os textos da Bíblia e seus correspondentes
mesopotâmicos, egípcios e cananeus.2
Atualmente conhecemos textos mesopotâmicos sobre a criação, o jardim do Éden,
o dilúvio, e sabemos que os autores da Bíblia se inspiraram neles para expor sua
própria visão das coisas e do mundo. Desse modo, podemos entender melhor sua
mensagem.
Portanto, os onze primeiros capítulos do Gênesis devem ser considerados sob uma
nova perspectiva, o que nos permitirá descobrir sua riqueza.
Esta primeira parte compreenderá dois capítulos:
1- Alguns instrumentos para compreender bem Gênesis 1-11.
2- Interpretação de Gênesis1-11.
26
1 RAHNER, Karl. Est-il possible aujourd’hui de croire? Paris: Mame, 1966, p. 18.
2 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament. 2.ª ed. Paris: Desclée, 1962, p. 410.
27
1
ALGUNS INSTRUMENTOS PARA COMPREENDER BEM GÊNESIS 1-
11
A fim de esclarecer melhor os onze primeiros capítulos do Gênesis, consideremos
os seguintes dados:
A) Os dois autores de Gênesis 1-11.
B) A similaridade com narrativas mesopotâmicas.
C) A experiência histórica de Israel na fonte da composição.
A) Os dois autores de Gênesis 1-11
Há dois autores na origem desses primeiros capítulos do Gênesis. Os especialistas
os nomearam “o escritor Javista” e “o escritor Sacerdotal”. O Javista chama a Deus
de “Iahweh” e o Sacerdotal utiliza simplesmente “Deus” (ou Elohim). Cada um dos
dois tem um relato próprio da criação. O Javista escreve: “No tempo em que Iahweh
Deus fez a terra e o céu” (Gn 2,4b), e o Sacerdotal: “No princípio, Deus criou o céu e
a terra” (Gn 1,1). Esses dois autores podem se encontrar num mesmo texto, como o
relato do dilúvio tal qual o conhecemos hoje. O Javista escreve: “Iahweh disse a
Noé...” (Gn 7,1), e o Sacerdotal: “Deus disse a Noé...” (Gn 6,13).
O autor Javista mostra um Deus pessoal, agindo como um homem. Iahweh é
alternativamente oleiro (com argila ele dá forma ao homem), jardineiro (ele planta um
jardim), anestesista (ele faz o homem adormecer), cirurgião (ele retira uma costela do
homem, colocando carne no lugar), costureiro (ele confecciona túnicas de pele para o
homem e a mulher). Além disso, ele passeia no jardim, ao sopro da brisa noturna, e
procura pelo homem (“Onde estás?” – Gn 3,9), queixa-se (“Que fizeste?“ – Gn 3,13),
expulsa o homem e a mulher, fecha a porta da arca de Noé, desce à Terra para ver a
cidade e a torre que os homens construíram, dispersando-os em seguida... Estes são,
evidentemente, modos simbólicos de expressão.
O escritor Sacerdotal descreve um Deus mais transcendente. Em seu relato da
criação, Deus cria num ato exclusivo de sua palavra: “Deus disse... e assim se fez”
(Gn 1,29-30). Portanto, cada autor tem seu jeito próprio de apresentar Deus.
É preciso salientar que esses dois autores escrevem em períodos distantes, com
mais de 400 anos de diferença. O Javista viveu no tempo de Davi e Salomão, por
volta de 1000 e 950 antes de Cristo. O Sacerdotal se situa bem depois, no tempo do
exílio na Babilônia, por volta de 550 antes de Cristo.
28
A parte maior da composição dos onze primeiros capítulos do Gênesis é atribuída
ao escritor Javista. Deve-se a ele o relato do Jardim do Éden (Gn 2), a descrição da
“falta” do homem e da mulher (Gn 3), do episódio de Caim e Abel, com um texto
sobre a descendência de Caim (Gn 4), um relato sobre o dilúvio, e a narrativa da torre
de Babel (Gn 11,1-9). O Sacerdotal acrescentou seu relato da criação em seis dias
(Gn 1), uma genealogia que vai de Adão a Noé, seu relato do dilúvio, imbricado no
relato do Javista (Gn 6-9), e uma genealogia que vai de Noé a Abraão (Gn 10 e Gn
11,20-26).
Feitas tais considerações, temos o seguinte quadro:
O fato de haver dois autores que escreveram 950 ou 550 anos antes de Cristo deve
nos levar a refletir. Não podemos lhes pedir para nos contar como surgiu o universo,
nem como se deu a origem da humanidade no mundo. Aliás, eles não procuram saber
como o mundo e a humanidade nasceram – o que compete à ciência –, mas por que
há um mundo com seres humanos e por que existe o sofrimento e a morte, o que é
completamente diferente. A Bíblia se interessa por uma questão: o destino final do ser
humano e de todo o universo. A ciência observa como evoluem a vida, as forças do
universo ou o ser humano; ela não afirma o que é a vida, o que é a energia ou o ser
humano. Ela também não diz qual o sentido para tudo isso. A questão por que o
mundo? é bem diferente da questão como é feito o mundo?
Também não é preciso pedir a esses dois autores uma genealogia do gênero
humano desde o primeiro homem – aliás, eles não quiseram falar somente do
primeiro homem – até o patriarca dos Judeus, Abraão. Hoje nós sabemos que a
humanidade surgiu na África há mais de três milhões de anos. Os autores não sabiam
disso. Portanto, não devemos considerar seus números como dados matemáticos,
29
procurando saber se Matusalém realmente viveu 969 anos. Perguntas como esta são
falsas.
Coloquemos em evidência o empreendimento do primeiro escritor da Bíblia, o
Javista. É ele quem estabelece os fundamentos da Sagrada Escritura, desde o Gênesis
até os livros de Samuel, que são a base da Bíblia.
Vivendo no tempo dos reis Davi e Salomão, o Javista empreendeu em primeiro
lugar o relato da história de seu povo, remontando, o mais longe que pôde, ao tempo
de Abraão, o Patriarca, que viveu por volta de 1850 antes de Cristo. Ele quis
rememorar a história da nação judaica, seguindo os principais acontecimentos de que
tinha conhecimento. Mas além dessa época, ele quis esboçar uma visão da fundação
do mundo (12 a 15 bilhões de anos?) e da humanidade (3 milhões de anos?):
A novidade se encontra no autor Javista, o qual, por sua própria autoridade,
constrói, como prólogo à história judaica, a história das origens da humanidade em
geral.1
No quadro que segue, partindo da direita, o escritor, contemporâneo dos reis Davi
e Salomão, reconstitui a História até Abraão; em seguida, até o começo do mundo!
A obra do autor Javista é fundamental. É ele quem inaugura todas as palavras
importantes da Bíblia: as três promessas a Abraão e a Davi, e o projeto de Deus no
início do mundo!
Historiador de amplitude única, escritor com uma capacidade narrativa incrível,
exemplo maior do humanismo israelita em seu maravilhoso florescimento durante o
reinado de Davi e Salomão: o autor Javista também é um grande Teólogo. Ao
interpretar a História de Israel, ele desenvolve uma teologia consistente da criação, do
pecado, da história da humanidade e da cultura, das promessas patriarcais, da fuga do
Egito, da revelação do nome de Deus e da Lei, da terra prometida, enfim... A
arquitetura estabelecida pelo Javista foi tão vigorosa, que se impôs a todos os seus
sucessores.2
Ora, como o Javista e o Sacerdotal poderiam fazer para tratar adequadamente
desse longo período que vai das origens do mundo ou da humanidade até a época de
Abraão? Com efeito, para dar uma idéia completa do desígnio de Deus, eles
30
precisavam falar desse período.
Para eles, a melhor maneira de retratar a humanidade em geral foi se inspirando
nas tradições de outros povos. Para a redação dos onze primeiros capítulos do
Gênesis, eles se inspiraram nos textos de seus vizinhos da Mesopotâmia. Este
vocábulo designa a região situada entre dois rios, Tigre e Eufrates (meso: no meio;
potamós: rio). Atualmente, essa região corresponde ao Iraque e a uma parte da Síria.
Os autores emprestaram expressões, símbolos e relatos que foram depois adaptados,
para expressar sua visão particular do mundo e de Deus. “No tempo em que as
narrativas da Bíblia foram escritas, os textos mesopotâmicos eram conhecidos por
todos”.3
No tempo de Davi e Salomão, as fronteiras da terra prometida se estendiam “do
rio do Egito até o grande rio” (1Rs 5,1), ou seja, até o Eufrates, nos limites da
Mesopotâmia. Portanto, o Javista pôde se inspirar nas narrativas mesopotâmicas. O
Sacerdotal, por sua vez, já se encontrava na Mesopotâmia, durante o exílio na
Babilônia.
As linhas pontilhadas indicam os limites do reino de Salomão, que praticamente iam de encontro às fronteiras
da Mesopotâmia, do rio do Egito até o grande rio, o Eufrates. O reino de Salomão compreendia o atual Líbano
e uma parte da Jordânia e da Síria.
B) As semelhanças com relatos míticos mesopotâmicos
A partir da segunda metade do século XIX, descobertas arqueológicas permitiram
que um novo olhar fosse lançado sobre os onze primeiros capítulos do Gênesis.
31
Estudiosos como Henry C. Rawlinson conseguiram decifrar uma grande quantidade
de textos mesopotâmicos, redigidos sobre placas de argila, em escrita cuneiforme
(cuneus: em forme de cunha). Estaé a escrita mais antiga de que se tem
conhecimento. Ela surgiu por volta de 3200 antes de Cristo, a partir da troca de
faturas entre comerciantes mesopotâmicos. Pouco a pouco, passou-se do desenho (de
um boi ou de um pão, por exemplo) ao símbolo, o que possibilitou a criação de um
alfabeto.
Desde o início da escrita, o homem mostrou que não se preocupava somente com
as coisas materiais. Ele se questionava sobre o sentido da vida e procurava responder
a essa questão.
Os especialistas descobriram narrativas que integram o tecido dos onze primeiros
capítulos do Gênesis: narrativas da criação, do jardim do Éden, de dois irmãos (Caim
e Abel), do dilúvio, da construção de torres com vários andares. Esses textos
remontam a 3000 antes de Cristo. Os primeiros textos da Bíblia se situam bem
depois, entre 950 e 550 antes de Cristo.
Ora, os relatos mesopotâmicos obedecem a um movimento presente no homem de
todos os tempos: remontar às origens do mundo, para sugerir o projeto dos deuses
no ato da criação. Parece que aí se encontra uma prática humana comum, desde os
tempos mais longínquos. Nós mesmos nos perguntamos, espontaneamente, por que
Deus, no início, fez o mundo tal qual existe presentemente. Assim, todos os povos,
dos esquimós aos australianos, possuem “lendas”, orais ou escritas, sobre as origens
de tudo.
Os especialistas em religiões qualificaram esses relatos como míticos.4 Aqui, essa
classificação não tem conotação pejorativa. As narrativas míticas, ao efetuarem um
retorno ao tempo primordial, em direção à origem do mundo e do homem, visam a
três pontos essenciais:
– dizer qual o projeto dos deuses,
– falar da humanidade em geral,
– responder às grandes questões existenciais.
A Bíblia se inicia precisamente com dois relatos de criação do mundo que nos
fazem remontar “ao princípio” (Gn 1), ao “tempo em que Iahweh Deus fez a terra e o
céu” (Gn 2). É muito importante, a fim de compreender bem esses dois relatos,
interpretá-los como narrativas míticas. Assim, eles nos revelam o projeto de Deus.
Do mesmo modo, os capítulos 3 a 11 tratarão de questões fundamentais relativas à
humanidade e à existência:
Para explicar as origens do mundo e do homem, o Oriente Antigo tinha seus mitos. Ao analisá-los,
chega-se ao que havia de mais profundo na cultura oriental: sua concepção do homem, da vida, do
mundo, de Deus.5
Reflitamos sobre três textos mesopotâmicos que influenciaram os autores do
Gênesis: o relato Enuma Elish, o mito de Atrahasis e a epopéia de Gilgamesh.
32
– O relato Enuma Elish
Eis o início deste poema:
Quando no alto o céu não tinha sido ainda nomeado e em baixo a terra não tinha ainda recebido seu
nome...
Reconhecemos imediatamente a característica de um relato mítico que nos
transporta para antes de criação, quando nada ainda está formado. Coloquemos em
evidência as palavras céu e terra. Reencontramos esses elementos no relato da
criação em seis dias, do autor Sacerdotal: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”
(Gn 1,1).
De acordo com essa narrativa mesopotâmica, no princípio havia água em toda
parte. Encontra-se a mesma representação na Bíblia: “um sopro de Deus agitava a
superfície das águas” (Gn 1,2). Entre os mesopotâmicos, a criação se opera a partir da
separação das águas de cima (o céu azul), das águas que estão embaixo da terra. Essa
separação se efetua ao fim de um combate gigantesco entre o deus Marduk e a deusa
Tiamat:
O Senhor dividiu Tiamat em duas partes, das quais utilizou uma metade para atingir o teto dos céus,
traçar seus limites, colocar guardas aos quais confiou a missão de impedir suas águas de saírem (4ª
placa).
O autor Sacerdotal conserva as idéias de “teto dos céus” (abóbada celeste) e de
águas que se separaram, mas rejeita completamente a alegoria de um combate entre
os deuses. Para ele, Deus é único e aquilo que por ele é criado se distingue dele:
Deus disse: “Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das
águas”, e assim se fez. Deus fez o firmamento que separou as águas que estão sob o
firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou o firmamento
“céu” (Gn 1,6-8).
Portanto, a Bíblia segue a cosmologia dessa época, segundo a qual a terra é plana
e não redonda:
33
A representação do universo no tempo dos relatos bíblicos.
Logo, é inútil esperar que a Bíblia forneça dados científicos sobre o universo:
Os israelitas eram herdeiros de tradições, idéias e principalmente imagens em curso no Oriente.
Percebe-se que eles representam o mundo da mesma maneira que todos os semitas. A terra é como
uma grande ilha repousando sobre as “águas que estão sob o firmamento”, cujas profundezas são
desconhecidas para o homem e das quais brotam mares, lagos, fontes e rios. Acima da terra, está a
cúpula de matéria consistente, o “firmamento”, que sustenta as “águas que estão acima” e de onde se
lançam a chuva e o orvalho, o granizo e a neve. “O exército celeste”, com astros e estrelas, está
pendurado nessa abóbada e nela se move. Ainda mais acima está o “céu” ou “céu dos céus”,
conhecido e habitado apenas por Deus.6
Um dos traços mais marcantes da narrativa Enuma Elish é o de apresentar uma
criação que surge a partir da palavra de Marduk, deus da Babilônia:
Diante dos deuses, seus pais, Marduk assentou-se para receber a soberania. “Tu”, disseram-lhe, “és o
mais importante entre os grandes deuses. Para destruir ou criar, ordena e que assim se faça!”. Marduk
ordenou. Ao som de sua voz, a constelação foi destruída; em seguida, ele lhe deu uma ordem inversa:
a constelação passou a existir novamente (4ª placa).
Reconhecemos aqui o refrão de Gênesis 1, que também é uma narrativa de criação
pela palavra de Deus: “Deus disse... e assim se fez”. Mas Deus não se diverte de
modo nenhum em destruir!
Na quinta placa, lê-se:
Marduk assentou as estrelas. Determinou o ano e, para cada um dos 12 meses, designou três estrelas...
Fez brilhar Nannar [a lua] e lhe confiou a noite...
Este cenário é o mesmo da Bíblia; porém, na narrativa bíblica não se nomeiam o
sol e a lua, que foram divinizados na Mesopotâmia. Na Bíblia, eles são reduzidos a
34
simples luzeiros. Assim, entre os hebreus, Deus jamais é visto como uma parte do
mundo, mas se distingue dele, de modo que o mundo existe diante dele:
Deus disse: “Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de
sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos. (...) Deus fez os dois luzeiros maiores (...)
para comandar o dia e a noite (...) E Deus viu que isso era bom” (Gn 1,14-18).
Finalmente é chegado o momento a criação do homem:
Marduk, ouvindo o apelo dos deuses, decidiu criar uma bela obra. Em alta voz, fala a Êa e lhe diz o
que para si mesmo havia dito: “Eu quero fazer um sistema sangüíneo, fixar uma ossatura e formar um
ser humano e que seu nome seja: O Homem! Eu quero criar este ser humano, o Homem, para que,
encarregando-o do serviço aos deuses, estes permaneçam em paz” (6ª placa).
Na Bíblia, Deus diz igualmente: “Façamos o homem!” (Gn 1,26). Esse plural pode
indicar uma deliberação de Deus com sua corte celeste, os anjos.7 Poder-se-ia
traduzir: “Façamos a humanidade”, pois é evidente que a expressão “o homem” não
designa apenas um primeiro homem, mas toda a espécie humana. Salientemos
igualmente que, ao contrário dos relatos mesopotâmicos, a mulher não foi criada
abaixo do homem: “Homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). Para Deus, a
humanidade é a conjunção entre o masculino e o feminino. Além disso, ao invés de
serem escravos dos deuses, como na concepção mesopotâmica, o homem e a mulher
são colocados em situação de realeza, à maneira do próprio Deus, que tem o domínio
de toda a criação: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e
que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos,
todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1,26).
No momento em que redigiu Gênesis 1, o autor Sacerdotal se encontrava
exatamente na Mesopotâmia, durante o exílio na Babilônia. Portanto,é fácil constatar
que ele se inspirou nas narrativas mesopotâmicas. Pode-se admirar, na passagem
anterior, a fé desse escritor, que, no momento em o povo judeu se exilava na
Babilônia, substituiu o deus Marduk pelo Deus de Israel, apresentando-o como o
criador do mundo cuja palavra é eficaz. Assim, ele preparava a volta do exílio,
anunciando-a como a entrada numa terra nova. Por esse motivo, encontramos nesse
poema da criação em seis dias o mandamento: “Multiplicai-vos, enchei a terra e
submetei-a” (Gn 1,28). Esta era também a meta visada por ocasião da volta à terra
prometida.
– O mito de Atrahasis (“O Inteligentíssimo”)
Este mito se inicia assim:
Quando os deuses trabalhavam, sua labuta era pesada e sua tristeza era longa...
Eis novamente a característica dos contos míticos encontrada no início da Bíblia:
voltar ao mundo dos deuses, antes de criação.
Essa representação dos deuses mesopotâmicos trabalhando duro sob o sol pode
35
nos parecer cômica. Mas a intenção dos autores é profunda: eles querem explicar o
porquê de nós sofrermos. Este é o tema central de Atrahasis. Acompanhemos a
leitura:
Abrindo a boca, Êa disse a seus irmãos deuses: “Eis Nintu, a Genitora. Que ela crie um ser humano, o
homem, a fim de que ele possa carregar o fardo dos deuses e libertá-los”.
Este é o momento importante da criação do homem. Todavia, o projeto dos deuses
é fazê-lo sofrer e trabalhar penosamente, de modo que eles mesmos sejam liberados
dos trabalhos penosos que executavam no céu. Portanto, os deuses são representados
como torturadores que querem o sofrimento do homem. Eis como se explica a
condição difícil do homem por nós conhecida.
O mito de Atrahasis descreve em seguida a formação do homem a partir da argila
misturada ao sangue de um deus que foi degolado: “O próprio deus e o homem se
encontram assim misturados na mesma argila”.
Na Bíblia, o Javista retoma a idéia de um Deus que forma o homem a partir da
argila, mas substitui o sangue de um deus pelo sopro de Deus. O sopro é um outro
símbolo da vida. Ele escreve: “Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo,
insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn
2,7).
Os mesopotâmicos explicam o sofrimento no mundo como resultado da vontade
de seus deuses, que quiseram se livrar de seus sofrimentos, transferindo-os ao
homem:
Nintu disse: “Vós me destes uma tarefa que eu cumpri. Vós degolastes um deus, com uma
inteligência. Eu suprimi vosso trabalho tão penoso e vossa dura labuta, impondo-os ao homem. De vós
eu retirei o jugo e estabeleci a vossa liberdade”.
Os escritores da Bíblia, ao contrário, afirmam que Deus tinha um projeto de
plenitude e felicidade para o homem.
Constatamos que tais relatos, tanto os mesopotâmicos quanto os judaicos, têm por
finalidade desvendar o projeto dos deuses (ou de Deus), no momento da criação.
O mito de Atrahasis contém igualmente o conto de um dilúvio, mas preferimos
considerar o relato do dilúvio presente na epopéia de Gilgamesh.
– A epopéia de Gilgamesh
Esta narrativa é a que teve maior repercussão. Foi traduzida para vários idiomas
antigos, chegando até Megido, em Israel. O texto é emocionante em alguns trechos.
Como num romance, o herói possui características universais. Esse personagem
carrega em si a pergunta mais profunda de todas: pode o homem vencer a morte?
Cada um de nós pode se encontrar nele. Gilgamesh representa o homem que procura
pela vida eterna e não pode atingi-la. Gilgamesh é o homem de todos os tempos, que
sofre e morre.
A mesma regra se aplica aos textos do Gênesis: na figura de Adão, o autor
36
descreve primeiramente o homem em geral (ha Adam, com artigo: o homem) para
posteriormente estabelecê-lo como ancestral da humanidade em Gn 4,25 (Adão, sem
artigo). Adão representa todos os homens. Adão e Eva são o homem e a mulher de
todos os tempos, que sofrem e morrem, assim como Gilgamesh.
Desde o início da narrativa, Gilgamesh é representado como um homem de
experiência, que fez a volta ao mundo e se interrogou sobre todas as grandes
questões:
Eu quero tornar conhecido aquele que viu tudo, que soube todas as coisas, perscrutou todos os
mistérios ao mesmo tempo: Gilgamesh, o Sábio universal.
O versículo seguinte traz estas palavras: “Ele nos transmitiu um saber mais velho
que o dilúvio”.
Grande número de relatos de dilúvio foi encontrado. “Eles conservam a lembrança
de inundações catastróficas que, no quarto e no terceiro milênios, devastaram a baixa
Mesopotâmia”.8
O dilúvio aponta para uma data e marca a distinção entre dois períodos. A Bíblia
mantém essa divisão: antes e depois do dilúvio. Além disso, a idade dos reis, antes e
depois do dilúvio, chega a um número fabuloso na Mesopotâmia: “em média trinta
mil anos!”.9 Na Bíblia, antes e depois de Noé, embora impressionante, a idade dos
homens é bem menor:
Estimava-se que a vida humana tinha diminuído segundo as grandes idades do mundo: ela será apenas
de 200 a 600 anos depois do dilúvio e inferior a 200 anos para os Patriarcas. A diminuição dessa
longevidade extraordinária, que permanece todavia bem aquém da idade atribuída aos reis sumérios de
antes e de depois do dilúvio, está em relação com o progresso do mal no mundo, pois uma longa vida
é uma bênção de Deus.10
Gilgamesh mandou “construir o recinto de Uruk”, de onde reinava como ditador.
Ninguém ousava afrontá-lo, pois “sem rival era o golpe de suas armas”.
Os habitantes de Uruk clamaram pela grande deusa Aruru e lhe pediram para criar
um opositor que pudesse afrontar Gilgamesh:
Tu que criaste Gilgamesh, cria agora uma réplica dele; que eles lutem entre si e que Uruk fique em
paz!
E Aruru criou Enkidu “a partir de uma pasta de argila, no deserto”. Na Bíblia, o
homem também é formado com argila no deserto, no momento em que ainda não há
“nenhum arbusto dos campos sobre a terra” (Gn 2,5).
Em seguida, mostra-se Enkidu vivendo “com os animais selvagens”. Essa imagem
teve um destino impressionante: ela anuncia não somente Adão com os animais no
paraíso em Gênesis 2,19, mas o novo Adão, o próprio Jesus, que estará “no deserto
(...) entre as feras” (Mc 1,13)! Assim, símbolos da literatura universal passam pela
literatura judaica e pela literatura cristã!
37
Gilgamesh e Enkidu, que deviam se tornar rivais, tornam-se amigos. Então,
Gilgamesh expõe seu projeto de matar o deus da morte, para assim “destruir todo o
mal no mundo”. Contudo, para conseguir isto, ele quer “subir ao céu” e “obter um
renome eterno”. O Javista retomará estas expressões em Gênesis 11: os homens de
Babel querem “fazer para si um nome e atravessar os céus”.
Gilgamesh e Enkidu conseguem matar o deus da morte. Porém, os outros deuses
se vingam, atingindo Enkidu com uma doença: “E Enkidu deitou, doente, diante de
Gilgamesh, cujas lágrimas se derramaram torrencialmente”.
Gilgamash vê seu amigo morrer:
“Que sono é esse que se apoderou de ti? Perdeste a consciência e já não me ouves mais!”. E Endiku
não erguia mais a cabeça; seu coração, quando Gilgamesh o tocou, já não batia mais.
Surgiu então a grande dúvida de Gilgamesh: “Também eu vou morrer?”. A
questão da morte é o grande problema dessa epopéia.
“Chorando amargamente, ele vai caminhando, sem rumo, pelo deserto”. Depois se
põe a caminho e percorre “um longo itinerário para encontrar seu avô, Uta-
Napishtim”, cujo nome significa “encontrei a vida”. Uta-Napishtim e sua mulher
foram salvos do dilúvio e levados ao paraíso. Esse episódio servirá de inspiração
tanto para o relato de Adão e Eva, como para o de Noé e sua família.
Gilgamesh vai encontrar Uta-Napishtim para “interrogá-lo sobre a morte e a vida”,
formulando estas grandes questões de maneira notável!
Ele chega finalmente “em plena clareira, num jardim com árvores de pedras
preciosas. O lápis-lazúli está carregado de frutos agradáveis de se olhar”.
Reconhecemos aqui as cenas de Gênesis 2: o “jardim do Éden”, com “toda espécie de
árvores formosas de ver e boas de comer” (Gn 2,9) e pedras preciosas: “o ouro e a
pedra de ônix” (Gn 2,12).
Na entrada do jardim,Gilgamesh é interpelado da seguinte maneira, o que revela
claramente a percepção dos deuses na Mesopotâmia:
Gilgamesh, para onde corres assim? A vida que persegues, não a encontrarás. Quando os deuses
criaram a humanidade, eles lhe deram a morte. A Vida, eles preferiram guardar em suas mãos.
Tornamos a encontrar a estrutura clássica das narrativas míticas: remontar ao
período que antecede a criação, para explicar o projeto dos deuses. Os deuses
mesopotâmicos são deuses monstruosos. O homem está preso à fatalidade.
Ao chegar junto a Uta-Napishtim, Gilgamesh lhe ouve contar como foi salvo do
dilúvio e levado para longe, com sua mulher, até a foz dos rios (o paraíso).
O deus Êa me disse: “Derruba tua casa e constrói um navio. Embarque nele todas as espécies de seres
vivos”. Então tracei o plano e desenhei o projeto do navio. Estabeleci para ele seis conveses
sucessivos e o dividi em sete andares. Despejei seis quantidades de betume. No sétimo dia, o navio
estava completamente pronto. Embarquei todas as espécies vivas que possuía. Também fiz subir ao
navio minha família, os rebanhos nômades, os animais selvagens, todos tiveram de subir. Shamash (o
deus sol) me disse: “Sobe no navio e fecha bem tua porta”. Eu entrei no navio e fechei bem minha
38
porta. Seis dias e sete noites, a tempestade devastou a terra e a inundação encobriu os humanos. No
sétimo dia, a tempestade cessou. Tentei avistar uma margem. A doze léguas duplas emergia um
pedaço de terra. No monte Nisir, o navio aportou. No sétimo dia, soltei uma pomba. A pomba partiu,
depois voltou: não encontrando nenhum lugar onde pudesse pousar, deu meia-volta. Soltei também
uma andorinha, que voou e depois voltou: não encontrando nenhum lugar onde pudesse pousar, deu
meia-volta. Soltei um corvo. O corvo partiu e, vendo a diminuição da água, ele come, esvoaça, grita, e
não dá meia-volta. Eu os fiz voar aos quatro pontos cardeais e fiz um sacrifício aos deuses. Os deuses
sentiram o odor agradável das oferendas. Então, o deus Êa subiu no navio. Tomou minha mão e me
fez levantar. Também fez minha mulher levantar e se ajoelhar ao meu lado. Ele tocou nossas testas e,
em pé no meio de nós, abençoou-nos e disse: “Outrora, Uta-Napishtim era de condição humana.
Agora, que ele e sua mulher sejam deuses como nós! Que Uta-Napishtim more longe, na foz dos
rios!” (no paraíso). Então, eles me pegaram e me instalaram bem longe, na foz dos rios (11ª placa).
Encontramos todos esses elementos na Bíblia. No relato do dilúvio, Deus manda
Noé construir um navio, revesti-lo com betume e fazer entrar nele todas as espécies
de seres vivos. Depois disso, Deus fecha a porta atrás de Noé. O dilúvio bíblico dura
40 dias e a arca de Noé acosta no monte Ararat, na Turquia, e não no monte Nisir.
Como Uta-Napishtim, Noé solta três pássaros antes de permitir que sua família
desembarque. Ele também oferece um sacrifício a Iahweh, que respira o odor
agradável das oferendas. E Deus abençoou Noé e sua família. O empréstimo feito da
narrativa mesopotâmica de um dilúvio é evidente. Do mesmo modo, no relato bíblico
do paraíso, encontramos um casal, e a tentação do homem e da mulher consistiu em
querer “tornarem-se como deuses”. Nos escritos mesopotâmicos, este também foi o
caso de Uta-Napishtim e sua mulher.
Antes de Gilgamesh voltar para casa, Uta-Napishtim lhe indica onde se encontra a
“planta da vida”. Gilgamesh vai procurá-la no fundo do mar. Enfim possuindo “o
remédio contra a angústia”, ele poderá tomá-lo e “voltar como que ao tempo de sua
juventude”. A Bíblia substitui a planta da vida pela “árvore da vida”. O simbolismo é
o mesmo: com a planta ou a árvore da vida, o homem não morre mais.
Finalmente, no caminho de volta, enquanto Gilgamesh toma banho, uma “serpente
sente o odor da planta; silenciosamente, ela sobe da terra e se apodera da planta, e
imediatamente troca de pele”. O autor do Gênesis põe igualmente em cena uma
serpente, mas no lugar de fazê-la rejuvenescer, ele a faz rastejar todos os dias de sua
vida.
A epopéia de Gilgamesh não poderia terminar bem, senão teria sido infiel à
condição humana que termina com a morte:
Nesse dia, Gilgamesh permanece ali e chora,
E ao longo de seu nariz escorrem suas lágrimas.
Ele diz: “Para qual de meus familiares os meus braços se cansaram?
Eu não fiz bem nem mesmo a mim...”
Constatamos que os relatos míticos Enuma Elish, Atrahasis e Gilgamesh visam a
responder às questões fundamentais: de onde vêm o sofrimento e a morte? A vida tem
um sentido? A resposta desses textos é muito pessimista, pois os deuses estão contra
39
o homem desde o início; eles querem antes de tudo seu próprio bem-estar, em
detrimento dos homens, a quem deixam como herança o sofrimento e a morte. A vida
humana é, portanto, trágica.
Os autores bíblicos também estão diante das mesmas questões, mas não crêem que
Deus seja monstruoso. Pelo contrário, eles consideram que Deus é bom e “está com o
homem”, ainda que o mundo atual não seja como ele o quis.
É impressionante como a representação dos deuses monstruosos mesopotâmicos
permanece atual. Muitos cristãos dizem ainda hoje: “O Bom Deus me mandou essa
provação”, ou “Deus quer a morte”... Frases como estas representam um horror bem
tenaz sobre a noção de Deus!
– Outras narrativas
Outros textos mesopotâmicos foram utilizados pelos escritores da Bíblia.
Encontraram-se, por exemplo, vários textos que relatam as disputas entre os pastores
e os cultivadores, que representam dois modos de vida muito antigos. Daí, o mito dos
dois irmãos, Emesh e Enten, ou Dumizi e Enkindu. Há sempre preferência pelo
pastor, em relação ao agricultor. O deus Utu, aliás, rejeita os presentes do agricultor.
Nesses relatos, há sempre reconciliação após compromisso. Reconhecemos aí o
fundamento do episódio de Caim e Abel, agricultor e pastor, respectivamente (Gn 4).
Buscando um ancestral para cada um dos ofícios, os mesopotâmicos fizeram
representações populares das origens da civilização: agricultores, pastores, ferreiros,
caçadores, construtores de cidades etc. Na Bíblia, esses ancestrais possuem
freqüentemente o nome de cidades mesopotâmicas.
Sabemos igualmente que os babilônios construíam uma torre em cada uma de
suas cidades. Ela tornava possível ao deus da cidade descer uma vez por ano à festa
do Ano Novo. O autor bíblico se inspira na torre de Babilônia para criar a torre de
Babel, fazendo dela um símbolo. Ele escreve que “Iahweh desceu para ver a cidade e
a torre que os homens tinham construído” (Gn 11,5).
Podemos acrescentar outros pontos de convergência entre os textos
mesopotâmicos e as narrativas da Bíblia: a criação da mulher a partir de uma costela
do homem; a imagem dos querubins; o deus escondido atrás da porta, pronto para
pular sobre o homem; o nome dos dois rios mesopotâmicos, Tigre e Eufrates; os
nomes de cidades como Ashshur, Nínive, Erek, Akkad, a planície no país de Shinear;
os tijolos na construção das torres... Declaradamente, os dois autores de Gênesis 1 a
11 conheciam a Mesopotâmia.
Portanto, os onze primeiros capítulos do Gênesis foram escritos graças ao
empréstimo dos mitos mesopotâmicos. Notamos várias semelhanças: a criação por
meio da palavra, a presença das águas antes da organização do mundo, a separação
entre as águas de cima e as águas de baixo, o sétimo dia, o jardim do Éden situado na
foz dos rios, as árvores sedutoras de se ver, a árvore da vida, o homem formado da
argila, o homem em paz com os animais, a criação da mulher a partir da costela do
homem, a serpente, o homem e a mulher querendo tornar-se como deuses, o relato do
40
pastor e do agricultor; todo o relato do dilúvio com o navio, o betume, os animais
levados para dentro do navio, os três pássaros soltos após o dilúvio, a saída da arca, o
sacrifício de odor agradável a Iahweh, a idade fabulosa dos homens anteriores e
posteriores ao dilúvio; os tijolos utilizados na construção de torres com vários andares
nas cidades mesopotâmicas...
Tal concentração de temas mesopotâmicos nos onze primeiros capítulos do
Gênesis nos convida aconsiderar os mesmos capítulos como um conjunto e a não os
isolar uns dos outros. Esses textos estabelecem uma pré-história à História de Israel,
que se inicia propriamente no capítulo 12, com o patriarca Abraão. É evidente que
não devemos procurar na Bíblia uma reportagem sobre os primeiros homens, cuja
origem remonta, de acordo com a ciência contemporânea, a mais ou menos três
milhões de anos:
Considerando tudo, trata-se, portanto, de tradições imprecisas e fragmentárias, organizadas em
narrativa contínua, cuja função é religar o tempo de Abraão às origens.11
Esses textos nos dão uma visão da humanidade até o fim dos tempos. Com efeito,
a partir do momento em que os autores da Bíblia se inspiram nos textos
mesopotâmicos, eles falam de toda a humanidade, a de ontem, a de hoje e a de
amanhã. Portanto, eles falam de todos nós. Isso muda toda a leitura!
Numa única palavra, Adão e Eva representam o homem e a mulher que sofrem e
que morrem. Caim que mata Abel ilustra o ódio no mundo. O dilúvio lembra a
corrupção e a violência sobre a Terra. A torre de Babel descreve as divisões e
incompreensões entre os homens.
Embora tenham emprestado temas e elementos de seus vizinhos, os autores
bíblicos permanecem judeus. Diante das mesmas questões, eles têm uma percepção
de Deus que lhes permite transformar inteiramente as perspectivas dos textos
mesopotâmicos. Cada tema é depurado e destituído do pessimismo, propondo-se uma
síntese nova.
Dessa maneira, a experiência histórica de Deus em Israel é determinante.
C) A experiência histórica de Israel na fonte da composição
Os estudiosos da Bíblia perceberam que havia pontos comuns entre a estrutura dos
textos de Gênesis 2 a 3 e o tema da aliança, encontrado freqüentemente na Bíblia.
Comparemo-los:
41
A experiência histórica de Israel é transferida para a humanidade inteira. No
primeiro caso, trata-se da formação de um povo particular, Israel, que, posteriormente
à saída do Egito, é constituído como povo, no deserto do Sinai. Israel entra na terra de
Canaã. No deserto, recebe os dez mandamentos, a fim de permanecer em relação com
Deus. No entanto, permanecendo infiel, volta à situação de exílio. Esse exílio consiste
em permanecer num outro país, para posteriormente retornar à terra de Israel.
No segundo caso, trata-se de toda a humanidade, com quem Deus quer estabelecer
uma relação. O homem é criado no deserto e Deus o conduz ao jardim do Éden, que é
sem igual. O mandamento dado ao homem e à mulher não diz respeito primeiramente
a ações, mas concerne a uma atitude do homem para com Deus. O homem e a
mulher, fechando-se em si mesmos, distanciam-se espontaneamente de Deus. O
exílio os limita à vida presente, com o sofrimento e a morte. O fim do exílio não
consiste apenas na vitória sobre os inimigos de Israel, mas na vitória sobre as forças
do mal. Com esse mesmo modelo, o autor vai muito mais além.
Em suma, os escritores dos onze primeiros capítulos do Gênesis beberam em três
fontes de inspiração: seus desejos humanos mais profundos, as narrativas
mesopotâmicas e o senso que tinham de Deus.
42
Dizer isso não implica negar a inspiração do Espírito Santo, cuja ação deve ser
pressentida particularmente na experiência histórica de Deus, vivida em Israel. Com
efeito, por meio do senso que tinham de Deus, os autores puderam expressar os
desejos humanos mais profundos e organizar os elementos emprestados do
imaginário mesopotâmico numa síntese nova, reveladora do verdadeiro rosto de
Deus.
Com essas três ferramentas, nós poderemos empreender o trabalho de
interpretação dos onze primeiros capítulos do Gênesis.
1 VON RAD, Gerhard. Théologie de L’Ancien Testament. Génève: Labor et Fides, 1963, p. 125.
2 GUILLET, Jacques. Recherches de science religieuse, n° 48, 1960, p. 333.
3 GRELOT, Pierre. “Homme qui es-tu?” Les onze premiers chapitres de la Génèse, Cahiers Évangile n° 4.
Paris: Cerf, 1973, p. 59 [trad. em port.: Homem quem és?: os onze primeiros capítulos do Gênesis. São Paulo:
Paulinas, 1986].
4 Salientemos os trabalhos de Mircea Eliade, de modo particular Le sacré et le profane, Gallimard, 1965.
5 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 48 [trad. em port.:
Introdução à Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1971].
6 AUZOU, Georges. La parole de Dieu. 3.ª ed. Paris: Ed. de l’Orante, 1960, p. 176.
7 BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002, p. 34, nota d.
8 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 50 [trad. em port.:
Introdução à Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1971].
9 Nota da TOB (Traduction Oecuménique de la Bible) [versão brasileira: TEB (Tradução Ecumênica da
Bíblia)], em Gn 5,5.
10 BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002, p. 40, nota f.
11 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 50 [trad. em port.:
Introdução à Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1971].
43
2
INTERPRETAÇÃO DE GÊNESIS 1-11
Algo salta aos olhos quando se comparam os dois primeiros capítulos do livro do
Gênesis com os nove seguintes. Os dois primeiros evocam um mundo em que tudo é
harmonioso e perfeito, enquanto os nove seguintes descrevem o mundo atual com o
mal sob todas as suas formas. Tal constatação orienta nossa interpretação a respeito
de tais textos: Gênesis 1 e 2 descrevem o mundo de Deus, enquanto nosso mundo é
descrito por Gênesis 3 a 11.
A própria ordem dos textos é importante, revelando aquilo que Deus queria fazer
(Gn 1-2) e por que ele não pôde fazê-lo (Gn 3-11).
Assim sendo, o estudo pode ser dividido em quatro partes:
A) Gênesis 1: o significado da narrativa da criação do mundo em seis dias.
B) Gênesis 2: o sentido da narrativa do jardim do Éden ou do paraíso.
C) Gênesis 3 a 11: o significado do “pecado”, dos episódios de Caim e Abel, do
dilúvio e da torre de Babel.
D) Síntese geral de Gênesis 1 a 11.
A) Gênesis 1: O sentido da narrativa da criação em seis dias
Escrito por ocasião do exílio na Babilônia, esse texto do escritor Sacerdotal
apresenta a criação do mundo como uma obra divina que se estende por seis dias de
trabalho seguidos de um sétimo, durante o qual Deus descansa. É evidente que aqui
se aplica a Deus o modelo humano de organização do trabalho, distribuído em uma
semana (palavra esta que deriva do número sete). Não devemos nos perguntar
quantos milhões de anos podem representar cada um dos dias deste relato da criação.
Este não é um texto de caráter científico e todo esforço pela concordância entre os
detalhes próprios ao texto e nossos dados científicos consiste numa atitude
equivocada.
A verdade, quanto à redação do texto relativo aos seis dias da criação, seguidos do
sétimo, há de ser buscada no contexto do exílio do povo judeu na Babilônia. Em tal
contexto, a fim de se manter como um povo de identidade própria, Israel se esforça
por preservar dois costumes ainda hoje presentes: a circuncisão e o sábado. Em
Gênesis 1, o autor quis salientar a importância do sábado, mostrando o próprio Deus
repousando no sétimo dia, após seu trabalho de criação. Esse relato, além disso,
serviu para reforçar a formulação do mandamento de Deus referente ao repouso do
sábado, que se torna assim uma instituição propriamente divina:
44
Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra. O sétimo dia, porém, é o sábado de Iahweh teu
Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua
escrava, nem teu animal, nem o estrangeiro que está em tuas portas. Porque em seis dias Iahweh fez o
céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm, mas repousou no sétimo dia; por isso Iahweh abençoou o
dia do sábado e o consagrou (Ex 20,9-11).
Eis as razões que fundamentam essa visão da criação do mundo em sete dias.
Portanto, não devemos buscar em tal concepção qualquer argumento de caráter
científico.
Mas voltemos ao sentido do texto. À primeira vista, temos a impressão de que se
trata de nosso universo atual. De fato, encontramos nele tudo que nos cerca. Em
primeiro lugar, os três grandes espaços (o céu, o mar,a terra); em seguida, “tudo o
que eles contêm” e que observamos ainda hoje: os astros, os pássaros, os peixes, os
animais, os seres humanos. O autor quer certamente dizer que tudo isso é bom e vem
de Deus. É verdade. O lado bom do mundo, a ordem que reina na natureza, o sol que
se levanta pela manhã, os pássaros que cantam, tudo isto pode evocar um Deus bom,
poderoso, inteligente, criador. Esse lado bom existe.
Porém, quando olhamos mais atentamente à nossa volta, constatamos também a
desordem, as tragédias, a violência, o sofrimento e, por toda parte, a morte.
Ora, o texto não relata esse lado mau do mundo, donde se conclui que ele não
descreve nosso mundo, mas a criação perfeita:
O mal é nela ausente. Deus viu que isso era bom (Gn 1,10).
A criação corresponde à
vontade de Deus.
E assim se fez (Gn 1,9).
A mulher é igual ao homem. Homem e mulher ele os criou (Gn 1, 27).
Eles são como Deus. À imagem de Deus ele o criou (Gn 1, 27).
Eles dominam a matéria. Deus lhes disse: “enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28).
Não há violência. Eu vos dou todas as ervas (...) e todas as árvores que dão frutos: isso será vosso
alimento (Gn 1,27).
A criação é concluída e não há
nenhuma angústia
Assim foram concluídos o céu e a terra (...). Deus concluiu no sétimo dia a obra que
fizera e no sétimo dia descansou (Gn 2,1-2).
Perante os acontecimentos infelizes ou absurdos que acontecem (inundações,
terremotos, acidentes brutais, guerras, doenças, entre outros), é difícil pensar que
Deus olha para tudo isso dizendo: “Isto é muito bom, é assim que eu quis o mundo”.
De fato, o autor Sacerdotal utiliza o mesmo procedimento que os autores
mesopotâmicos: remontando a Deus, ele descreve a criação tal como Deus a quis. Ele
revela, portanto, o projeto de Deus.
Nós sabemos que essa criação perfeita nunca foi concretizada e que antes do
homem – no tempo dos dinossauros, por exemplo – já havia muita violência sobre a
terra.
Assim, já que nunca houve criação perfeita, esse texto constitui também um
45
anúncio do mundo que Deus vai realizar no fim dos tempos. É isto o que as últimas
páginas do Apocalipse confirmam, ao retomarem as palavras de Gênesis 1, como já
foi visto na introdução:
Vi então um céu novo e uma nova terra – pois o primeiro céu e a primeira terra se foram. Nunca mais
haverá morte, nem luto, nem clamor e nem dor haverá mais. O que está sentado no trono declarou
então: “Eis que eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,1.4-5).
O texto de Gênesis 1 quer dizer ainda que um dia, a criação será como Deus
sempre quis: tudo será bom; o homem e a mulher serão como Deus, eles não mais
conhecerão o sofrimento nem a morte; eles serão verdadeiramente considerados
iguais e dominarão a matéria; não haverá violência; o universo estará concluído e não
haverá mais angústia.
Considerando atentamente o conteúdo dessa página, quantos desejos humanos
podemos encontrar nela impressos: que não haja o mal; que o sofrimento e a morte
cheguem ao fim; que a matéria nos obedeça; que não seja necessário matar para
comer; que não haja luta de classes, mas igualdade entre todos; que não haja mais
estresse... E estes desejos são precisamente os desejos de Deus!
São João, no prólogo de seu evangelho, que remete igualmente ao início do
mundo, afirmará que a Palavra pela qual Deus criou o mundo é seu próprio Filho:
“No princípio era o Verbo... No princípio ele estava com Deus. Tudo foi feito por
meio dele” (Jo 1,1-3). Isto, o autor do Gênesis não pôde conjecturar! Pois os israelitas
não podiam conceber um Deus em três pessoas.
Essa primeira página, como a segunda que iremos abordar, é muito bela para ser
uma descrição de nosso mundo. Ela é absolutamente insuperável! Ela possui o grande
mérito de nos mostrar que o mundo atual não é o mundo tal como Deus o quer. É
uma afirmação essencial, primordial, também libertadora, que condiciona a justa
compreensão de todo o resto da Bíblia e que nos impede de compreender
erroneamente a vontade de Deus.
Assim, o projeto de Deus para a humanidade é uma criação perfeita. Eis o que
Deus queria fazer desde o início e que ele fará no Fim.
B) Interpretação do relato do jardim do Éden ou do paraíso
Quando nós dizemos: “Eu me sinto no paraíso”, a expressão sempre evoca um
estado de plenitude humana, e este sentido nos vem do relato do jardim do Éden.
Esse texto foi escrito pelo autor Javista, 400 anos antes do relato da criação em
seis dias. Por meio da simbologia do jardim do Éden, ele expressa o projeto de Deus
para toda a humanidade.
Não se pode deixar de admirar sua grande abertura de espírito: para ele, Deus não
está reservado apenas a Israel, mas, como criador do mundo, seu projeto diz respeito
a todos os povos.
Utilizando os símbolos mesopotâmicos, esse escritor tem um ponto de vista
46
positivo sobre o homem, sobre o mundo e sobre Deus:
O homem é um ser terrestre,
diferentemente de Deus.
Deus modelou o homem com a argila do solo.
Deus quer colocar sua
própria vida dentro deste ser
terrestre.
Deus soprou dentro de suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivo.
Deus quer fazê-lo morar em
seu próprio jardim.
Deus plantou um jardim no Éden. Nele colocou o homem.
O homem não conhece o
sofrimento.
Nenhum suor para o cultivar e o guardar.
Há abundância. Deus fez brotar todo tipo de árvores de aparência encantadora e carregadas de frutos bons
para comer. Um rio saía do Éden.
Não há morte. Deus colocou a árvore da vida no meio do jardim.
Tudo está submetido ao
homem.
O homem deu um nome a todos os animais.
Homem e mulher são iguais. Da costela retirada do homem, Deus modelou uma mulher e a entregou ao homem. Então o
homem bradou: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” (Gn 2,23) .
Não há nenhum
desequilíbrio interior.
Os dois estavam nus e não se envergonhavam um do outro.
Há grande familiaridade
entre Deus e o homem.
Deus caminhava no jardim.
Podemos observar que se trata de outro poema, com um cenário bem diferente
daquele de Gênesis 1. Assim como o primeiro, esse cenário não é de caráter histórico.
Nenhum cientista validaria uma seqüência similar, no que diz respeito à aparição dos
seres vivos sobre a terra: o homem criado primeiro, depois os animais, e, finalmente,
a mulher!
Nesse texto, Deus não cria exclusivamente por meio de sua palavra, mas age como
um homem, como o oleiro que modela a argila, e como a mãe judia da época, que
soprava dentro das narinas de seu bebezinho para lhe liberar as vias respiratórias.
Tornando-se jardineiro, ele planta um jardim, nos moldes de um oásis do Oriente
Médio. Trata-se de um lugar semelhante a nenhum outro: nele concentram-se todas as
espécies de árvores, algumas para o encanto dos olhos, outras para o deleite do
paladar, pelo sabor de seus frutos; há abundância de água, sendo o solo irrigado pelo
rio de quatro braços, “fertilizando toda a terra, o que é sugerido pelo número 4,
símbolo de universalidade (os quatro pontos cardeais)”.1 O homem cultiva e guarda
esse jardim, sem conhecer esforço nem suor. É um mundo no qual a morte não existe,
graças à presença da árvore da vida. Como em Gênesis 1, o homem domina a matéria,
o que é simbolizado pela totalidade de animais aos quais ele nomeou. A mulher é
igual ao homem, o que é simbolizado pelo fato de que ela procede de uma de suas
costelas. Além disso, o autor expressa a harmonia interior do homem e da mulher
pela nudez com naturalidade. Finalmente, por meio da cena em que Deus caminha no
jardim para conversar com o homem e com a mulher, ele manifesta a aliança de Deus
47
com o homem.
O autor escolheu a forma poética para expressar os desejos humanos mais
profundos, já que teria sido muito difícil expressar o paraíso com números...
Essa narrativa é, portanto, alegórica. É evidente que Deus não possui mãos para
manipular a argila, nem pés para caminhar em qualquer lugar de nossa terra no qual
se situaria o jardim do Éden, e que ele não se tornou anestesista ou cirurgião para
criar a mulher. Não se trata de um paraíso terrestre nem histórico.
Masesse texto traz a mesma mensagem da criação em seis dias. Ele nos revela a
vontade de Deus. Na realidade, seguindo os procedimentos das narrativas míticas, o
autor Javista remonta ao período que antecede a criação, a fim de evocar o mundo
que Deus gostaria de fazer desde o início. Assim, o paraíso se insere no passado, o
passado mais longínquo, pois se refere ao projeto eterno de Deus. Gênesis 3-11 nos
revelará por que Deus não pôde realizá-lo desde o início.
Ora, já que este paraíso nunca existiu e descreve o projeto de Deus, tal narrativa é
também, como em Gênesis 1, um anúncio do mundo que Deus fará no fim dos
tempos. É justamente isso que confirma, novamente, a última página do Apocalipse,
no qual as mesmas expressões alegóricas são retomadas:
“Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus com
eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte nem
luto, nem clamor, e nem dor haverá mais (...). Mostrou-me depois um rio de água da vida (...). No
meio da praça, de um lado e do outro do rio, há árvores da vida (...). Felizes os que lavam suas vestes
para terem poder sobre a árvore da Vida e para entrarem na Cidade pelas portas” (Ap 21,3-4; 22,1-
2.14).
O relato do jardim do Éden anuncia que um dia o homem, este ser terreno, será
refeito por Deus e receberá o Sopro e a Vida divinos; nesse dia, o homem se tornará
um ser vivo. Deus o conduzirá ao seu Paraíso, onde ele não conhecerá o sofrimento
nem a morte. A harmonia com a natureza será total, a matéria estará submetida ao
homem. Haverá igualdade entre o homem e a mulher, que não conhecerão nenhum
desequilíbrio interior e estarão em relação perfeita com Deus.
O que concluir? Que os dois primeiros capítulos do Gênesis descrevem o mundo
de Deus. São duas profecias incomparáveis que englobam as quatro dimensões da
pessoa humana:
O ponto de vista dos dois escritores é muito importante. Desde o início, eles
48
sustentam que Deus não é autor do mal. Para eles, Deus está em aliança com o
homem, é aliado do homem. Estamos longe dos deuses monstruosos da
Mesopotâmia.
Observemos que esses dois autores não acreditavam na ressurreição dos mortos no
momento em que escreviam. É somente no final do Antigo Testamento, por volta de
164 antes de Cristo, com os livros de Daniel e dos Macabeus, que Israel expressará
pela primeira vez sua crença na ressurreição, compreendendo pouco a pouco que o
projeto de Deus e todos os desejos humanos não podem se cumprir sobre a terra.
Abrindo o Novo Testamento, podemos encontrar a admirável leitura que Jesus fez
dos textos do Antigo Testamento. Qual é, com efeito, o coração de sua palavra?
Ele proclamava: “O Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15; Mt 4,17).
Ele retoma de maneira extremamente sintética a grande esperança das duas
primeiras páginas da Bíblia: a esperança da criação perfeita e do paraíso. Nisso
consiste o essencial de sua mensagem.
Além disso, palavra e ação nele se fundem. Ele mostrou, pelos seus gestos, aquilo
que Deus quer, aquilo que será o mundo de Deus. Tomando a defesa da mulher, ele
indicou que, no início, assim como no porvir, Deus quer a igualdade entre o homem e
a mulher. Dirigindo-se a todos os que eram marginalizados, ele revelou que Deus era
e será o Rei, o protetor dos pequenos. E Deus mesmo, ao dar-lhe o poder de acalmar a
tempestade, de multiplicar os pães, de curar os doentes, de ressuscitar os mortos, de
expulsar os demônios, manifestou que um dia o universo será estável, que haverá
abundância, que não haverá mais sofrimento, nem morte, nem forças do mal; que a
criação perfeita e o paraíso se tornarão realidade!
O próprio Jesus viveu dessa grande esperança de Gênesis 1-2. Ele mesmo
aguardou a realização da plenitude que viria a este mundo em decorrência de sua
própria ressurreição. Na hora de sua morte, ele faz referência ao jardim do Éden, que
era a esperança do homem universal formulada desde o surgimento da escrita, por
meio das narrativas de Atrahasis e Gilgamesh, e que havia se tornado a esperança
judaica: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 22,43).
E Deus, ao ressuscitá-lo, cumpriu nele as duas grandes profecias, a da criação
perfeita e a do paraíso, de tal modo que, para entrever o que é sua ressurreição, nós
podemos retomar as expressões poéticas de tais profecias: ressuscitado no primeiro
dia da semana (Mt 28,1), Jesus está na criação onde tudo é bom, onde as trevas foram
separadas da luz (Jo 1,5; 12,31; 14,30); perfeita imagem de Deus (Cl 1,15), ele tem o
poder de submeter a si todo o universo (Fl 3,21); chegando a um mundo concluído,
ele não conhece mais a angústia e vive em paz (Jo 20,19); ele está no “repouso do
sétimo dia, reservado ao povo de Deus” (Hb 4,9). Ele está, portanto, na criação
perfeita de Gênesis 1. Da mesma maneira, Deus soprou nele e ele se tornou “vivo
pelos séculos dos séculos” (Ap 1,18). Mostrando suas chagas a seus discípulos, ele
revela que já não conhece mais sofrimento (Jo 20,19). Para se deslocar, ele não se
cansa mais (Mt 28,16-17). Em harmonia perfeita com toda a matéria, ele tem a
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capacidade de materializar seu corpo da maneira como quiser (Mc 16,12). Dispondo
da árvore da vida, “a morte não tem mais domínio sobre ele” (Rm 6,9). Para ele, a
aliança se cumpriu plenamente, ele está em relação perfeita com Deus. Ele está no
paraíso de Gênesis 2.
Assim, Jesus é o novo Adão, o homem definitivo, no qual o projeto de Deus se
realizou plenamente. O Antigo Testamento nos fala do ressuscitado, que hoje vive.
Essas duas primeiras páginas da Bíblia são insuperáveis! Elas revelam o grande
desígnio de Deus para nós. Nós podemos dizer que elas constituem o maior sonho
que poderíamos imaginar. Mas não se trata de uma grande ilusão. Deus mostrou que a
criação perfeita e o paraíso existem e deu garantia disto com a ressurreição de um
homem.
Considerando agora os capítulos 3 a 11 do Gênesis, vamos entrever o mundo atual
e “compreender” por que Deus não pôde realizar seu mundo desde o início.
C) Gênesis 3-11: o significado do “pecado”, dos episódios de Caim e Abel, do dilúvio
e da torre de Babel
Esses capítulos que consideraremos globalmente nos dão uma descrição do mundo
atual. É o inverso do mundo de Deus descrito em Gênesis 1-2.
Estamos aqui mergulhados no problema mais espinhoso que se possa considerar,
ao qual chamamos o problema do mal. Ora, em tal assunto, encontramo-nos diante do
imenso enigma do mundo. Não se pode explicar ou tornar compreensível semelhante
mistério dentro do qual estamos nós mesmos implicados. A fé não elimina tais
questões, mas nos convida a aprofundá-las cada vez mais. O escritor Javista fornece
pistas, mas não discorre apenas sobre o problema do mal.
Este escritor de gênio, inspirando-se em elementos das narrativas mesopotâmicas,
faz uma pintura do mal no mundo em quatro painéis sucessivos: textos sobre o
homem e a mulher no paraíso, sobre o episódio de Caim e Abel, sobre o dilúvio,
sobre a torre de Babel.
Como pudemos ver, uma narrativa mítica é uma narrativa muito séria. Trata-se da
tentativa de explicar a situação do homem no mundo. O herói Gilgamesh, por
exemplo, representa o homem de ontem, o homem de hoje e o homem de amanhã.
Da mesma maneira, em Gênesis 3-11, temos uma visão da humanidade desde o
início até o fim dos tempos. Estes textos não são um relato histórico dos primeiros
homens, mas dizem respeito a toda a humanidade; portanto, a nós mesmos, como
àqueles que nos precederam e àqueles que nos sucederão. Trata-se de um assunto
vastíssimo, abordado em algumas páginas aparentemente arcaicas e ultrapassadas,
porém, de uma incrível densidade, pelo pouco que as compreendamos em seu sentido
mais profundo.
O autor, ao mesmo tempo:
– descreve o mal observável no mundo,
50
– desvenda um mal interior presente em cada pessoa humana,
– desmascara as forças do mal presentes no universo.
– O mal observável
O escritor Javista viu o mal que existia no mundo e que se manifestava de
diferentes maneiras.Ele constatou que, mesmo antes dele, o mundo era o mesmo.
Ainda hoje, nós estamos no mesmo mundo.
Eis as facetas do mal, apresentadas nos quatro quadros seguintes.
Gênesis 3: O Homem e a Mulher
Gênesis 4: Caim e Abel
Gênesis 6-9: O dilúvio
51
Gênesis 11: A torre de Babel
O autor Javista estava consciente do mal presente no mundo, em todos os povos:
medo de Deus, vazio interior, dominação do homem sobre a mulher, penas,
sofrimento, morte, inveja, ódio, guerras, corrupção, divisões entre os homens.
Ele descreveu a humanidade de ontem, de hoje e de amanhã em quatro quadros,
dando alguns aspectos do mal no mundo:
– O sofrimento e a morte (Gn 3),
– Os assassinatos e as guerras (Gn 4),
– A corrupção e a violência (Gn 6-9),
– A divisão e a incompreensão (Gn 11).
A verdade de Gênesis 3-11 é sempre atual. Basta olharmos em torno de nós ou
assistirmos aos telejornais, ou simplesmente olharmos para dentro de nós mesmos.
Há muito tempo que a Bíblia fez um estudo de nossa sociedade. De um modo
superficial, nós consideramos nossa sociedade cada vez mais modernizada. Apesar do
grande desenvolvimento técnico, o homem não mudou nada. Gênesis 3-11 descreve
bem nosso mundo atual.
Surge então a seguinte questão: por que Deus, que queria desde o início um
mundo perfeito, o paraíso, não pôde criá-lo?
– O mal interior
Chegamos à grande descoberta do escritor. Este autor de gênio desce às
profundezas do ser humano e descobre, denunciando, ao mesmo tempo, um mal
radical, interior, em todas as pessoas e em toda a humanidade. Ele expressa este mal
na forma de quatro imagens diferentes, inseridas em quatro quadros.
1 – Gênesis 3: “ser como deuses”
Em Gênesis 3, a serpente diz: “Vós sereis como deuses, versados no bem e no
mal” (Gn 3,5). Trata-se, certamente, de uma representação alegórica. Uma serpente
não fala. O fruto a ser comido é bem singular... É algo bem distinto de uma maçã!
Observemos que não é preciso perguntarmos qual dos dois comeu primeiro. O
texto obedece simplesmente a um roteiro organizado da seguinte maneira: a serpente
fala com a mulher, esta come o fruto e o entrega ao homem. Deus em seguida procura
pelo homem e constata que ele comeu o fruto. O homem responde que a mulher lhe
deu o fruto, e a mulher explica que a serpente a seduziu. Deus não procura mais. Ele
se dirige então à serpente, depois à mulher, depois ao homem. Trata-se de uma
52
estrutura literária que se dispõe da seguinte maneira:
O autor bíblico quer transmitir a seguinte mensagem: o homem e a mulher comem
este fruto, de modo que nós também o comemos.
Essa perspectiva universalista, que é sempre aquela das narrativas míticas, possui
a vantagem de não fazer repousar toda a responsabilidade do mal no mundo sobre
dois seres humanos. Pobres desses nossos “primeiros pais” ! Nós os culpamos por
todos os nossos males! É claro, portanto, que os nomes Adão e Eva são nomes
simbólicos. Do mesmo modo que as narrativas mesopotâmicas não remetem a
personagens históricos chamados Atrahasis, que significa O todo inteligente, ou Uta-
Napishtim, que significa Eu encontrei a vida, o autor de Gênesis 2-3 não revela os
nomes reais dos dois primeiros seres humanos. Aliás, a questão de saber se a
humanidade começou por um só casal ou por um grupo humano diz respeito à
ciência.2 Não é esse o propósito do escritor bíblico. Nós pensamos que ele nos mostra
o filme do que se passou no início. Mas ele sabia menos do que nós sobre nossas
origens. É extremamente claro que todos os elementos de que ele se utiliza são
simbólicos:
Nos povos antigos, a origem de todo grupo humano (clã, tribo, povo, cidade) e de todo fato de
civilização (profissão, invenção, tipo de vida) era de bom grado representada de modo convencional
por um personagem com um nome específico. Trata-se de um “epônimo”. “Adão”, cujo nome
significa “Homem”, é o epônimo do gênero humano.3
Entretanto, o texto de Gênesis 3 vai de encontro a um fato que realmente ocorreu
no princípio. Pois é desde a chegada da humanidade no universo que o pecado existe.
Mas este pecado original é também um pecado atual. O homem e a mulher são todo o
gênero humano. Esta é a perspectiva de São Paulo: “A morte passou a todos os
homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12).
Qual é esse “pecado”, esse fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? A
epopéia de Gilgamesh pode nos colocar no caminho, por meio das seguintes palavras
do deus Êa:
Antigamente, Uta-Napishtim era de condição humana.
Agora, que ele e sua mulher sejam como nós, deuses!
O contraste entre as expressões ser de condição humana e ser como deuses nos
indica dois tipos de existência diferentes. A expressão ser como deuses evoca um
53
estado de plenitude em que o ser humano está livre de sua condição presente, que é
limitada, sujeita ao sofrimento e à morte. No caso de Uta-Napishtim e de sua mulher,
este estado foi concedido pelos deuses, e é exatamente o desejo de Deus na Bíblia: ele
quer uma vida plena para o homem, sem sofrimento nem morte. Ele quer que “nós
sejamos como ele”: ilimitados.
Se nós sonhamos em ser como deuses, é porque Deus semeou em nós essa busca
por uma felicidade infinita. Jean-Paul Sartre estava certo ao escrever:
O que torna melhor concebível o projeto fundamental da realidade humana é que o homem é um ser
que projeta ser Deus. Ser homem é tender a ser Deus; ou, como se queira, o homem é
fundamentalmente desejo de ser Deus.4
Nós somos feitos de tal modo que buscamos a plenitude. Não há nada de mal nesta
busca pelo infinito inscrita em nós.
Contudo, a narrativa bíblica salienta que o homem e a mulher querem chegar à
plenitude por si mesmos. O pecado reside numa vontade de chegar à plenitude por
nós mesmos. Para o autor bíblico, cada pessoa humana quer se realizar por si só, sem
Deus. Tal é o fruto que o homem e a mulher comem: cada um gostaria que Deus não
existisse para poder chegar à plenitude por si mesmo.
A tentação permanente do ser humano é a de querer ser auto-suficiente. Todo ser
humano cai nessa tentação e se fecha a Deus. É esse fechamento que constitui o
pecado. É inútil perguntarmos que ato nossos primeiros ancestrais puderam cometer
para que nós conhecêssemos o sofrimento e a morte: pecado sexual? idolatria?
magia? A reflexão do autor Javista é muito mais profunda e vai além de um ato em
particular. Trata-se antes de uma atitude, de um estado de espírito: cada pessoa
humana rejeita Deus.
Essa rejeição começou com a chegada da humanidade ao mundo, ou seja, com a
chegada da consciência ao universo material. Somente o ser humano é capaz desse
pecado, pois ele é o único ser capaz de operar um retorno a si mesmo, de se situar na
existência e de se situar diante de Deus. Ele é o único, sobre a Terra, a participar do
mundo material e do mundo espiritual. Ele é, assim, a consciência da matéria, o lugar
no qual ela se torna pessoal e livre. O mandamento referente à árvore do
conhecimento não se dirige nem aos animais, nem às plantas, nem às pedras.
Em que momento da História o pecado foi possível? Isto é muito difícil de dizer.
Desde muito cedo, o homem revelou sua inteligência ao fabricar ferramentas, o que
nos remete a aproximadamente dois milhões de anos atrás. Mas ele pode ter
produzido ferramentas durante milhares de anos antes de se perguntar sobre Deus,
como a criança de um ano que exibe sua inteligência ao brincar com blocos, mas não
é capaz ainda de formular uma questão como essa. Entretanto, o que Gênesis 3 afirma
é que desde que a humanidade emergiu no mundo, ela se considerou rica o suficiente
para subsistir por si mesma. O momento da tentação coincide com a aparição da
consciência e da liberdade no mundo:
54
Chega-se à questão última: o advento do homem, com o advento da liberdade, não constituiu por si
mesmo um desafio que teve como resultado uma derrota?5
Fato é que o ponto de partida do autor Javista é o estudo das profundezas da
pessoa humana. Ele constatou que cada ser humano gostaria de ser seu próprio
centro: ninguém quer se realizar com Deus. O exercício da liberdade do homem seorienta em direção a uma recusa. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do
mal, ser deuses por nós mesmos, é sempre sedutor de se comer.
Essa atitude fundamental de fechamento se encontra no homem de todos os
tempos, e talvez ainda mais no homem de hoje. Quantos gurus nos pregam a salvação
do homem pelo homem! Isto se manifesta de diversas maneiras: colocar-se em
relação com a Energia cósmica, alcançar a iluminação, desenvolver a potência do
subconsciente ou o poder da mente para conseguir curar todas as doenças, fazer-se
congelar para obter da ciência uma vida sem fim, ou mesmo querer decidir por si
mesmo aquilo que é o bem e aquilo que é o mal... De todas as maneiras, numa fuga
sem direção, sempre buscando em outro lugar aquilo que poderia levar à realização,
mostramos como somos radicalmente fechados a Deus.
Tal é o mal fundamental, o pecado original e sempre atual descrito no cenário de
Gênesis 3.
É muito importante compreender que Deus, tal como ele é apresentado no
Gênesis, quer que nos tornemos como ele, o que se confirma ainda mais na
perspectiva cristã. François Varillon expressou muito bem essa idéia:
Deus se tornou homem para que o homem se tornasse Deus. Duas verdades são necessariamente
correlativas: a encarnação de Deus e a divinização do homem. Isto é absolutamente tradicional, é o
núcleo da fé! Se vocês me perguntarem o que é o homem, eu lhes responderei isto: o homem é algo
que pode se divinizar. O mistério de todo homem, o sentido do homem, o significado da vida humana,
é a atitude essencial do homem com vistas a se tornar aquilo que Deus é.
Freqüentemente chega-se a perguntar: “Não é precisamente o querer se tornar Deus o pecado
original?” Aqui repousa um terrível equívoco: sim, o pecado original é o de pretender por suas
próprias forças se tornar o que Deus é. Mas o que não é o pecado original e que até é essencial da fé,
é que devemos acolher este dom absolutamente singular de nossa divinização. Seremos perfeitamente
homens somente quando formos divinizados.6
Karl Rahner também escreveu:
O Cristianismo possui uma envergadura infinita. Longe de se perder nos detalhes, ele diz apenas uma
coisa: a plenitude absoluta de Deus, que está além de toda idéia, de todo limite e de toda linguagem,
introduziu-se por si mesma e sem reservas no coração de sua criatura, a fim de lhe conferir, se ao
menos esta o permitir, sua própria glória.7
O projeto de Deus é a realização do homem, sem limites humanos. Mas a
tentação, que é o lugar onde pode residir o pecado, o pecado mortal, é a de querermos
nos realizar sozinhos, sem relação com Deus.
Na verdade, a fé não é natural, nem mesmo a conversão. O que é natural é o
desejo de nos mantermos centrados sobre nós mesmos. A fé e a conversão exigem um
55
arrebatamento de nós mesmos. Converter-se é transformar-se completamente, mudar
o foco do olhar, descentralizar-se. Para Jesus, isto equivale a perder a própria vida
para a reencontrar, ou se tornar como as crianças. Estas duas expressões vão contra a
corrente natural do ser humano, que quer se estabelecer por si mesmo e viver
independente.
Evidentemente a questão do pecado original foi retomada em todos os sentidos no
decorrer dos 2000 anos de história da Igreja e “é preciso convir que a abordagem (e
não o dogma definido) clássica e tradicional do pecado original não é mais admissível
na problemática de hoje”.8
Como toda narrativa mítica, Gênesis 3 possui um alcance universal. A descrição
da tentação, na qual o homem e a mulher querem se tornar como deuses por si
mesmos, representa a tentação e o pecado de toda a humanidade, desde o início até o
fim dos tempos.
Querer se realizar sozinho: tal é o significado do fruto da árvore do conhecimento,
dentro do primeiro quadro definido pelo autor Javista.
2 – Gênesis 4: “o pecado à porta”
Na narrativa de Caim e Abel, o autor expressa a tentação pelas seguintes palavras:
“Não jaz o pecado à tua porta, como animal acuado que te espreita; podes acaso
dominá-lo?” (Gn 4,7). A expressão é proveniente de uma superstição dos povos
mesopotâmicos: eles evitavam pisar sobre a soleira da porta e pulavam por cima dela.
Os demônios estariam escondidos ali, prontos para saltar sobre eles.
O pecado equivale aqui à serpente que tenta, em Gênesis 3. É uma força maléfica,
dissimulada, pronta para se lançar sobre a pessoa, havendo risco de a dominar. A
tentação é igualmente vista como um tipo de engrenagem dentro da qual entramos.
Ora, esse mal interior, a inveja e o ódio que habitam Caim, torna-se mais forte: Caim
mata Abel. O escritor escolheu o exemplo mais aberrante: matar seu próprio irmão.
É evidente que essa narrativa não conta a história da primeira família ou do
primeiro assassinato ocorrido no mundo. Inspirando-se em diversas narrativas
mesopotâmicas que representam dois modos de vida antigos, o do cultivador e o do
pastor, o autor Javista quer ilustrar que, desde o início, há assassinatos e guerras no
mundo.
Portanto, Caim que mata Abel é a representação daquilo que se passa hoje em dia.
A cada dia, os homens matam. O pecado está sempre à nossa porta como uma fera
escondida que quer nos dominar. A súplica da oração de Jesus tem o mesmo
direcionamento: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Mal” (e não:
“Não nos submetas à tentação” (Mt 6,13), como se o próprio Deus fosse o tentador!).
Notemos que Jesus, antevendo sua própria morte, evoca a figura de Abel, que
representa todos os justos perseguidos e mortos (Mt 23,35). Abel anuncia o Cristo,
também vítima do ódio dos homens, esse mal interior presente na humanidade desde
56
o princípio.
3 – Gênesis 6-9: “o coração malvado”
Na narrativa do dilúvio, a perspectiva é claramente universalista: a violência e a
maldade estão por toda a terra. De onde vem este mal que se pode observar? O autor
responde: “A maldade do homem era grande sobre a terra, e era continuamente mau
todo desígnio de seu coração” (Gn 6,5). O grande mal é interior: o coração do homem
está corrompido.
Jesus retoma a mesma afirmação: “Com efeito, é de dentro, do coração dos
homens que saem as intenções malignas” (Mc 7,21). Ele interpreta a narrativa do
dilúvio como a descrição da situação que será predominante até o final dos tempos:
Como nos dias de Noé, será a vinda do Filho do Homem. Como naqueles dias que precederam o
dilúvio, estavam eles comendo, bebendo (...) e não perceberam nada até que veio o dilúvio e os levou
a todos (Mt 24,37-39).
Gênesis 6-9 efetua muito bem seu papel de narrativa mítica, descrevendo o
homem de todos os tempos. Nós estamos “nos dias que precedem o dilúvio”: a
corrupção e a violência estão por toda a terra. Um dia o fim virá, bem como uma
nova ordem mundial. Nesse ínterim, poderemos querer permanecer fiéis a Deus,
como Noé, ou continuar no mal. Esse quadro não descreve somente a história passada
e a história atual, mas anuncia também o nosso futuro.
Com a figura de Noé, apresentado como fiel a Deus, podemos novamente
reconhecer a grande abertura de espírito dos dois escritores, o Javista e o Sacerdotal,
que salientam que fora de Israel o bem existe na humanidade. Essa figura é muito
importante, pois “Noé é apresentado como o segundo pai do gênero humano”.9 O que
havia sido dito ao homem e à mulher em Gênesis 1 é repetido à família de Noé:
“Sede fecundos, multiplicai-vos, povoai a terra e dominai-a” (Gn 9,7). Deus
permanece em aliança com o homem e com toda a criação.
De fato, Noé, “o homem justo, íntegro, que andava com Deus” (Gn 6,9), que é
salvo do dilúvio com sua família, é também uma prefiguração de Cristo, o qual,
juntamente com os seus, será salvo do mundo atual para ingressar em uma nova
criação. A arca de Noé é uma imagem da barca que é a Igreja, sacudida pelas águas
que simbolizam as forças malignas. Mas Cristo ordenará ao vento e ao mar, e, um
dia, far-se-á uma permanente calmaria (Mc 4,36-40).
Uma extraordinária profecia está contida no símbolo do arco-íris que aparece no
céu após o dilúvio, indicando que a paz retornou. De fato, encontramos o arco-íris no
Apocalipse,em uma visão do céu (Ap 4,3). O símbolo do arco-íris, tanto no início
como no fim da Bíblia, significa que, um dia, o dilúvio terá acontecido, ocasionando,
assim, o fim do mundo atual, e que uma nova ordem do mundo será inaugurada, e a
paz restabelecida. O mal terá chegado ao fim.
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4 – Gênesis 11: “querer atravessar os céus”
No relato da torre de Babel, o escritor Javista monta um cenário em que “todo
mundo se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras” (Gn 11,1) e os
homens queriam fazer-se um nome ao construir uma torre que penetre os céus (Gn
11,4).
Penetrar os céus quer dizer o mesmo que querer ser como deuses. É querer chegar
à plenitude sem Deus. Aqui, é a humanidade inteira, vista como sociedade (ou
império, ou civilização), que quer se realizar por si mesma ao se unificar. O
marxismo é um exemplo disso, ao se apresentar por trás da máscara de uma promessa
de estabelecimento imediato da justiça sobre a terra, tendo precisamente o projeto de
uma sociedade onde toda a humanidade, sem Deus, chegaria a um estado final.
Atualmente, o projeto de uma sociedade unificada é retomado por meio de alguns
termos como “globalização”, “nova ordem mundial”, “governo mundial”. Esta
gigantesca empreitada se apóia sobre o pretexto da aproximação dos povos,
favorecida pelo notável desenvolvimento dos meios de comunicação. Mas, uma vez
mais, aquilo que é bom em si é utilizado para a escravização da humanidade. A nova
ordem planetária, dominada pelo dinheiro, não se preocupa com o aspecto
humanitário. Apresentando-se com a máscara da fraternidade, da igualdade, da
unidade, uma elite anônima age às escondidas, buscando submeter as pessoas,
dominá-las, numerá-las, rotulá-las. Visa-se à uniformização por meio da abolição de
culturas particulares. O desígnio de Deus é exatamente outro. O autor do Apocalipse,
em sua visão de uma “grande multidão, que ninguém podia contar”, pontua que ela é
composta de “todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9). Cada um guarda sua
identidade, sua diferença.
Recordemos que o nome da torre de Babel provém da torre de Babilônia. Ora, o
Apocalipse descreve o mundo atual como sendo a Grande Babilônia, governada pela
besta, cujo número é 666 (Ap 13,18). O Novo Testamento denuncia com muita
clareza a influência de uma presença maligna no mundo, a de Satanás, que,
mostrando a Jesus “todos os reinos da terra, disse-lhe: ‘Eu te darei todo este poder
com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu a dou a quem eu quiser.
Por isso, se te prostrares diante de mim, toda ela será tua’” (Lc 4,5-7). Satanás
recebeu o domínio sobre o mundo e incita seus adoradores a dominar as pessoas. O
projeto da torre de Babel ou da Grande Babilônia está em andamento, inspirado por
um espírito de divisão que se apresenta como espírito de unificação.
O relato da construção da torre de Babel descreve muito bem nossa sociedade,
que, tanto hoje como ontem, quer se realizar sem Deus. Entretanto, sem Deus
ninguém se compreende (Gn 11,7-9).
O inverso da torre de Babel é profetizado no dia de Pentecostes: aqueles que
presenciaram a Ressurreição do Senhor são ouvidos na língua materna de cada povo
(At 2,7). Pelo Espírito Santo, que é o Espírito de Amor, a humanidade se reencontra e
se respeita em suas diferenças.
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Assim, no interior desses quatro quadros relativos ao mal no mundo, o escritor
Javista sugere o mal interior por meio de quatro expressões simbólicas:
– ser como deuses (Gn 3),
– o pecado à porta (Gn 4),
– o coração perverso (Gn 6),
– penetrar os céus (Gn 11).
Esses quatro quadros que apresentam o mal observável e o mal interior são
extremamente convincentes e nos expõem abertamente o que nós vivemos em nosso
“mundo moderno”: somos o homem e a mulher, indiferentes a Deus, que sofremos e
morremos. Somos Caim, que espreita o pecado à porta e que mata. Somos os homens
de antes do dilúvio, corruptos e violentos por toda a terra. Somos os homens de Babel
e gostaríamos de chegar por nós mesmos, como sociedade, a uma fase final da
humanidade. Estamos divididos e não nos compreendemos.
Mas a reflexão do Javista não cessa. Para explicar por que a humanidade, de uma
extremidade a outra de sua história, permanece assim fechada a Deus, o escritor
desvenda a presença das forças do mal.
– As forças do mal
Desde o primeiro versículo de Gênesis 3 aparece a figura da serpente, apresentada
como “o mais astuto de todos os animais que Iahweh Deus tinha feito”. Ela é vista
como mentirosa por excelência, aquela que “seduz” (Gn 3,13), mas da qual Deus
continua a ser o Senhor.
Por trás da imagem da serpente se esconde um ser pessoal, anterior ao homem.
Ele já existia quando a humanidade surgiu no mundo.
O Apocalipse o caracteriza claramente ao lhe dar diferentes nomes: “Foi expulso o
grande Dragão, a antiga serpente, o chamado Diabo ou Satanás, sedutor de toda a
terra habitada” (Ap 12,9).
O capítulo 20 do Apocalipse revela que ele será finalmente “lançado no lago de
fogo e de enxofre, onde já se achavam a Besta e o falso profeta. E serão atormentados
dia e noite, pelos séculos dos séculos” (Ap 20,10). O mundo de Deus é inaugurado
exatamente após sua expulsão definitiva (Ap 21-22). “Satanás e seus anjos” estarão
em atividade “até o fim” (Mt 8,29; 25,41; Ap 12,9). Só então o mundo de Deus
poderá se realizar plenamente. A Bíblia, de Gênesis 3 a Apocalipse 20, indica que a
rejeição a Deus, de responsabilidade do homem, produz-se sob a influência de uma
força maligna que compromete a realização do projeto de Deus:
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A alegoria da serpente sedutora, inserida desde o início das narrativas de Gênesis
3-11, compreende uma importância fundamental. Ainda que tal representação se
defina como um grande enigma, podemos caracterizá-la como uma chave de leitura
para a compreensão da Bíblia e da história humana como um todo.
Numa época como a nossa, em que reina o espírito racional e científico, a crença
na existência do “diabo e seus anjos” (Mt 25,41) é freqüentemente acolhida com
ceticismo e cada vez mais desconsiderada. Não podemos estudar a Bíblia com
seriedade nos silenciando sobre a presença de Satanás.
Certamente esse ser não foi criado como uma criatura maligna, mas é certo que ele
rejeitou Deus e que sua revolta repercute no mundo humano. Os teólogos tentaram
explicar sua revolta, mas não podemos penetrar no outro mundo e na eternidade.
Jesus não procurará explicar a origem do mal. Encarnando-se em nosso mundo, ele
será testemunha desse mal e sofrerá seus ataques.
Não podemos adentrar na eternidade, mas podemos, sim, afirmar que Satanás,
cujo nome significa o Adversário, é um ser livre que rejeitou Deus. Tornando-se
inimigo de Deus, ele busca arrastar outros seres conscientes e livres para sua própria
rejeição a Deus. É sobretudo aí que se exerce sua atividade. Isso é confirmado pelo
texto do Apocalipse, que conserva principalmente seu papel de tentador e sedutor do
mundo inteiro.
Sua mentira mais perniciosa é a de apresentar Deus como aquele que diminui o
homem, quando na verdade Deus quer completar o homem. É fato que, em todo lugar
no mundo, a percepção de Deus é freqüentemente falseada. Foi o que aconteceu com
os deuses mesopotâmicos, e é o que acontece em muitas religiões do mundo. Uma
das maiores contribuições que a Bíblia pode oferecer é a de apresentar, desde os dois
primeiros capítulos do Gênesis, um Deus em aliança com o homem e com a mulher.
O escritor Javista, a partir de Gênesis 3, quis mostrar que o pecado vem de algo
que se encontra acima do homem, como sugestão de um ser pessoal que busca inserir
o homem e a mulher em seu projeto de recusa a Deus. E ele o consegue. O homem e
a mulher caem em tal tentação: eles se fecham a Deus e querem se realizar sozinhos.
A partir dessa atitude de fechamento, fluem todas as ações más: dominação do
homem sobre a mulher (Gn 3), assassinatos (Gn 4), corrupção (Gn 6), divisões (Gn
11).
Fora de Gênesis 3, o Antigo Testamento raramente faz referência a Satanás. Aliás,
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é possível perceber uma evolução na compreensão de sua influência.Assim, em 2
Samuel 24,1, está escrito que “a ira de Iahweh se acendeu contra Israel e incitou Davi
contra eles”. Mais tarde, em 1 Crônicas 21,1, escreve-se: “Satã levantou-se contra
Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel”. Os textos posteriores
atribuem a Satanás aquilo que anteriormente havia sido atribuído a Deus. Uma
inversão bem instrutiva! As outras afirmações sobre Satanás, também posteriores, são
bastante reveladoras: ele é visto como “o Acusador” em Zacarias 3,1-2; aquele que
“atinge Jó com uma doença” em Jó 1-2; e aquele que tem “inveja” (Sb 2,24) do
homem. Este último texto do livro da Sabedoria: “Foi por inveja do diabo que a morte
entrou no mundo”, que nos remete a Gênesis 3, indica que o diabo tem inveja do
homem e da mulher, que ainda podem chegar à plenitude pessoal por meio de uma
relação com Deus. Sua recusa a Deus se processou na eternidade, fixando-o para
sempre em sua revolta. Quanto a nós, estamos no tempo e podemos nos voltar para
Deus, até que a morte nos estabeleça em nossa atitude de abertura ou de fechamento a
Deus:
Ao passar pela morte, o homem, enquanto pessoa, chega à realização definitiva e se orienta de uma
vez por todas em direção a Deus, ou dele se afasta, segundo a opção feita nesta vida corporal (Jo 9,4;
Lc 16,26; 2Cor 5,10). Essa opção fundamental, amadurecida livremente pelo homem neste mundo,
numa vida corporal submetida ao tempo, recebe na morte seu caráter definitivo. Tal afirmação confere
à vida presente uma seriedade radical.10
No Novo Testamento, a presença de Satanás é confirmada praticamente a cada
página, bem como a de outros espíritos malignos, os demônios, que São Paulo nomeia
“Principado, Autoridade, Poder” (1Cor 15,24), ou “príncipes deste mundo” (1Cor
2,6).
Um combate decisivo se estabelece desde o início da vida pública de Jesus, na
qual Satanás está presente como o tentador. Aliás, o fato de Jesus ter sido realmente
tentado é da mais alta importância; caso contrário, ele não teria realmente participado
de nossa condição humana e não poderia ser o Salvador. Ele é o Salvador
precisamente por ter se mantido aberto a Deus ao longo de sua vida terrena, até sua
morte na cruz. É por isso que São Marcos o apresenta, desde o início de seu
evangelho, como o Novo Adão, tentado por Satanás no deserto. Diferentemente dos
textos de Mateus e de Lucas, que narram três tentações de Jesus, o de Marcos não
parece indicar um objeto de tentação. De fato, Marcos vai direto à tentação mais
profunda, aquela de Gênesis 3, concluindo assim seu relato da tentação de Jesus: “e
vivia entre as feras, e os anjos o serviam” (Mc 1,13).
Marcos retoma a maneira pela qual os rabinos evocavam Adão no paraíso: como
em Gênesis 2, eles remetiam ao homem que vivia com os animais (contudo, eles
haviam substituído a cena em que “Deus caminhava no jardim sob a brisa da noite”,
pela cena dos anjos que serviam Adão):
Marcos 1,13 nos lembra que Jesus viveu entre as feras, as mesmas que respeitavam Adão, segundo os
Apocalipses. Viver junto aos animais selvagens é um traço messiânico. O capítulo 11 de Isaías nos
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assegura que, nos tempos messiânicos, tudo será como no paraíso. Assim o Cristo é apresentado em
São Marcos: junto aos animais selvagens, logo depois de uma provação, da qual ele sai vitorioso,
diferentemente de Adão.11
De acordo com os evangelhos, Jesus foi tentado de todas as maneiras por Satanás
em sua vida terrena, freqüentemente por intermédio de seus próprios discípulos,
dentre os quais Pedro, que quer um Messias conquistador (Mc 8,33), ou Tiago e João,
que planejam a destruição de uma aldeia samaritana (Lc 9,54-55). É tentado por todos
aqueles que querem que ele imponha a fé por meio de milagres: Satanás no deserto
(Mt 4,6), seus parentes (Jo 7,3-8), a multidão (Jo 6,15), Herodes (Lc 23,8), os fariseus
(Mc 8,11), seus adversários ao pé da cruz (Mc 15,32). Mas se sua vontade fosse a de
se impor, ele teria dado uma imagem inconsistente de Deus, que na realidade respeita
a liberdade humana.
Nós podemos dizer que ele evita os falsos sinais, que são tentações reais, porque
meditou longamente sobre as Escrituras. Com efeito, Lucas revela que ele “crescia
em sabedoria” (Lc 2,40.52). A sabedoria, para os judeus, provém da Palavra de Deus.
Com a idade de 12 anos, vemos o Menino Jesus permanecer em Jerusalém para
escutar e questionar os doutores no Templo, que são especialistas. Ele não está ali
para lhes ensinar, mas para concretizar aquilo que ele diz: “Não sabíeis que devo estar
na casa de meu Pai?” (Lc 2,49). Deus lhe falava por meio das Escrituras. Se Lucas
termina assim esse episódio: “Desceu então com eles a Nazaré e crescia em
sabedoria” (Lc 2,51-52), é para mostrar que ele meditou as Escrituras ao longo de
toda a sua vida. Esse último versículo compreende o período que vai da idade de 12
anos até o início de sua vida pública. É muito significativo que sua resposta às três
tentações de Satanás no deserto tenham sido tiradas das Escrituras. Estas lhe
permitem sustentar a verdadeira imagem de Deus e identificar claramente as
manobras de Satanás. Assim, a vida de Jesus foi o espaço de uma batalha. Ele buscou
iluminação na Palavra de Deus, o Antigo Testamento. Isso pode ser um grande
ensinamento para nós. A Bíblia, ao mesmo tempo em que nos revela Deus com
clareza, conscientiza-nos a respeito das forças do mal.
Proclamando a conversão, Jesus, assim como o escritor Javista, denunciou esse
mal radical, presente no interior de cada ser humano, colocando cada homem diante
de Deus. Isso quer dizer que a liberdade humana se concretiza profundamente nesta
questão fundamental: eu, diante de Deus, o que decido para o meu destino final?
Assim, suas primeiras palavras retomam o conteúdo dos 11 primeiros capítulos do
Gênesis! Ao proclamar que “O Reino de Deus está próximo”, ele retoma a esperança
do mundo perfeito e do paraíso de Gênesis 1-2. Acrescentando: “Convertei-vos!”, ele
denuncia o mal radical presente em cada ser humano, tal como está descrito em
Gênesis 3-11. Onze capítulos em duas frases! Duas frases infinitamente libertadoras!
Essa mensagem vem precisamente retificar as duas mentiras veiculadas na
tentação de Gênesis 3. Ela apresenta um Deus que quer a plenitude do ser humano,
um Deus que convida o homem a que se volte para Ele, em vez de se fechar sobre si
62
mesmo.
Mas não é somente por meio de sua palavra que ele combate as forças do mal.
Como profeta do mundo que há de vir, cabe-lhe mostrá-lo por meio de suas ações e
particularmente por meio de seus milagres. Ele mesmo afirma realizar esse tipo de
feitos pelo poder de Deus e não por suas próprias forças (Mt 12,28; Jo 5,30.36; At
2,22; 10,38; Lc 5,17; Mc 5,30). Mesmo sendo o Filho de Deus, ele “se despojou,
tomando a forma de escravo” (Fl 2,6-8), carregando nossos limites humanos.
Seus milagres constituem uma ruptura no império das forças do mal. Assim que
ele aparece, estas se sentem ameaçadas: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste
para arruinar-nos?” (Mc 1,24). Se prestássemos um pouco mais de atenção, veríamos
que Jesus nos revela, ao expulsar os demônios, que Deus permanece invencível e que
um dia sua criação estará definitivamente liberta das forças do mal: “Se é pelo
Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a
vós” (Mt 12,28). Assim, ao curar os doentes, ressuscitar os mortos, expulsar os
demônios, ele anuncia que o reino de Satanás acabará e que o Reino de Deus virá.12
Se “a mais bela façanha de Satanás foi fazer crer que ele não existia” (Charles
Baudelaire), um movimento de conscientização começa a surgir nos dias de hoje.
Certamente, não é preciso ver Satanás em toda parte, nem amedrontar o mundo.
Contudo, sob o pretexto de querermos apenas pregar a Boa Nova, não podemos
deixar as pessoas na ignorância de um dado tão bem atestado do início ao fim da
Bíblia. É por isso que o poder de exorcizar foi recolocado em evidência pela Igreja.
Certamente, os casos de possessão são raros, mas manifestam a existência de forças
do mal agindo em nossomundo. Sobre esse assunto, eis alguns trechos do prefácio de
René Laurentin ao livro Nouveaux récits d’un exorciste [Novos relatos de um
exorcista], de Pe. Gabriel Amorth:
Para além do silêncio ou da dúvida sobre aquele que a Escritura chama de o “príncipe deste mundo”, e
mesmo “o deus deste mundo”, Pe. Gabriel Amorth, exorcista de Roma desde 1986, conta sua
experiência pouco comum. Este livro vem em boa hora, como sugere o título:
– No momento atual, missas negras e cultos diabólicos se multiplicam em toda a Itália e em outros
países, com suas cerimônias de possessões e de infestações, às quais a polícia parece se interessar
mais do que a Igreja.
– No presente instante, inúmeros teólogos negam a existência do demônio, que seria apenas uma
personificação ingênua do mal, e até mesmo um mito que se deve banir.
– Num clima como esse, a ordem do exorcista foi suprimida, assim como numerosos rituais para
expulsar o demônio, inseridos no ritual de batismo. Do século XVII aos últimos anos, os exorcistas
diocesanos se tornaram cada vez mais raros. Se os nomeamos hoje, é com freqüência numa
perspectiva nova, segundo regras que praticamente convidam a nunca exorcizar: deve-se pronunciar o
grande exorcismo apenas quando se tiver certeza da possessão. Ora, Pe. Amorth e outros exorcistas
experientes nunca têm essa certeza antes do exorcismo, de modo que o rito é que permite que surja a
prova daquilo que antes era somente provável: no ato do exorcismo, o demônio se revela por meio de
reações que lhe são próprias, e a libertação produz os últimos indícios de que realmente havia
possessão e não obsessão.
Os dois livros de Pe. Amorth sensibilizaram a opinião relativa a essa dimensão incontornável do
combate espiritual até o mais alto grau. Cento e trinta novos exorcistas foram designados na Itália
desde a publicação do primeiro volume. [...]
63
Pe. Amorth não é obcecado pelo demônio, nem um maníaco por exorcismo. De acordo com seu
diagnóstico, a maioria das pessoas que se dirigem a ele não estão sob o domínio do demônio. Desse
modo, ele as encaminha aos meios comuns na Igreja: oração e sacramentos. Das 20.000 pessoas que
ele efetivamente exorcizou, apenas 75 realmente eram possessos. Os outros sofriam de infestações e
influências diversas que este livro retrata. Pe. Amorth mostra bem a continuidade entre as tentações
ordinárias de Satanás e sua ação extraordinária por infestação ou possessão – portanto, a continuidade
entre os sinais correspondentes –, bem como a continuidade entre os meios ordinários da Igreja e o
meio extraordinário que é o exorcismo.
Junto aos exorcistas que fazem carreira solo, sem diálogo com psiquiatras, e aos sacerdotes que
abdicam do exorcismo diante da psiquiatria, como se esta lhes trouxesse a explicação absoluta e
totalitária, Pe. Amorth insiste em estabelecer um diálogo interdisciplinar. Diálogo difícil, pois como
ele mesmo diz neste livro, poucos psiquiatras estão abertos ao espiritual, embora tenha encontrado
recentemente excelentes contatos. Os psiquiatras abertos ao espiritual se deixam alertar quando os
remédios específicos permanecem inoperantes ou produzem o efeito contrário, e quando a história do
paciente revela interferências tais como a participação em um culto satânico ou em experiências
ambíguas, como mesas brancas, evocação de mortos, meditação transcendental com mantras suspeitos
etc. É então que eles passam a bola aos exorcistas, de modo que a libertação do paciente constitui a
prova da hipótese de possessão, como exemplifica Pe. Amorth neste livro.13
Os casos de possessão, que configuram manifestações mais evidentes da ação de
Satanás, revelam que o demônio é absolutamente o contrário do que é Deus, pois o
desejo manifestado por ele é o de querer passar por cima da vontade das pessoas, de
fazer com elas o que bem entender, de as possuir. Deus, em contrapartida, nunca
força a liberdade individual.
A partir do texto de René Laurentin, é difícil não reconhecer Satanás em todas as
práticas pelas quais as pessoas se deixam seduzir nos dias de hoje: esoterismo,
ocultismo, magia, feitiçaria, magnetismo, diálogo com os mortos, mediunidade,
vidência, enfim, tudo o que a Bíblia condena formalmente:
Que em teu meio não se encontre alguém que (...) faça presságio, oráculo, adivinhação ou magia, ou
que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou ainda que invoque os mortos
(Dt 18,10-11).
Ainda hoje, os “oráculos e adivinhos” (Dt 18,14) são numerosos. A crença neles
chega a níveis alarmantes. Não é raro ouvirmos pessoas, que chegamos a considerar
bastante racionais, discorrerem sobre numerologia, astrologia, karma e vidas
passadas, equilíbrio das energias, extraterrestres etc. Algumas delas desfilam
carregando uma cruz, bem como talismãs, amuletos, pêndulos ou cristais... Pessoas
assim chegam a oferecer incenso para Buda e depois para Jesus... E quantas seitas se
formam: algumas extremamente perigosas, dentro das quais se produzem suicídios
coletivos ou ainda sacrifícios humanos ofertados ao demônio! Se considerarmos
atentamente os denominadores comuns de tais práticas, perceberemos que o que se
busca é programar as pessoas – o que equivale, em graus e níveis diferentes, a
possuí-las – e, mais fundamentalmente, a distanciá-las de Deus, para sua realização
humana sem Deus. A Nova Era elimina claramente o Deus pessoal, substituindo-o
pelas energias cósmicas ou pelo “divino em nós”. A rejeição a Deus, ou seja, a
64
tentação das origens da humanidade, permanece bem atual.
O discernimento em tudo isso não é fácil. Jesus teve o dom da vidência, o dom da
profecia e o dom dos milagres, mas é preciso salientar que eram dons, e não
“poderes”. A diferença é grande. Um dom vem de Deus, um poder pode vir de forças
ocultas. O Antigo Testamento e Jesus nos convidam a desconfiarmos de “sinais e
prodígios”:
Quando surgir em teu meio um profeta ou um intérprete de sonhos, e te apresentar um sinal ou um
prodígio, – se este sinal ou prodígio que ele te anunciou se realiza e ele te diz: “Vamos seguir outros
deuses (que não conheceste) e servi-los”, – não ouças as palavras desse profeta ou desse intérprete de
sonhos (Dt 13,2-4).
Hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar,
se possível, os eleitos. Quanto a vós, porém, ficai atentos. Eu vos preveni a respeito de tudo (Mc
13,22-23).
Mas deixemos de lado a evocação a fatos excepcionais – como os casos de
possessão – ou de práticas que poderão ser julgadas como pertencentes a uma ínfima
camada da população... Se esses fatos e práticas manifestam de modo mais evidente a
existência das forças do mal, não nos esqueçamos das manifestações apresentadas nos
quatro quadros de Gênesis 3-11, que são mais cotidianos, começando pelas nossas
próprias tentações, até os horrores que os meios de comunicação nos exibem
incessantemente: exploração de alguns sobre muitos, guerras, corrupção, divisões!
Aliás, Jesus salienta dois sinais muito concretos da ação de Satanás que lhe dizem
respeito: a mentira e o martírio. Ele sabia que seu processo seria envolvido por
mentiras e que ele seria morto pela mão dos homens. Eis o lado visível de sua paixão,
que se poderia ter filmado: o mal observável. Mas por trás do que os homens estavam
para lhe fazer, ele desmascarou o mentiroso desde o princípio e o pai da mentira. A
seus adversários, ele declara: “Vós procurais matar-me, a mim, que vos falei a
verdade que ouvi de Deus. Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos
de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio” (Jo 8,40.44). Aqui ele faz referência
à serpente ardilosa de Gênesis 3 e a Caim, que mata, em Gênesis 4. Mentiras e
homicídios são, portanto, sinais de que o homem está possuído pelas forças do mal. O
século XX, que foi o século de tantos progressos tecnológicos, foi também o século
de duas guerras mundiais. A humanidade permanece possuída pelas forças do mal.
Aludindo a uma conversa que teve com o escritor Georges Bernanos, André Malraux
afirma: “Eu lhe disse,a respeito dos campos de concentração: Satanás reapareceu no
mundo”.14
É impressionante constatar como Jesus, no momento de sua morte, quando todo
arsenal do mal está montado contra ele – traição, prisão, abandono dos discípulos,
negação de Pedro, mentira, ódio, zombaria, rancor, martírio –, não penetra em tais
formas do mal. Ao contrário, ele permanece fiel, livre, verdadeiro, sem ressentimento
nem desejo de vingança ou de dominação, encarnando perfeitamente a essência de
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Deus: fidelidade, respeito à liberdade individual, amor, perdão. Com efeito, ele
permanece voltado a Deus, em vez de querer se realizar sozinho. Essas horas foram o
momento de uma grande batalha. Aos olhos dos homens, ele foi vencido, mas em seu
modo de morrer, ele já era o grande vencedor: “O príncipe deste mundo vem; contra
mim, ele nada pode” (Jo 14,30). As forças do mal não conseguiram desintegrar seu
interior, nem interromper sua relação com Deus e os homens.
Desde o Gênesis, anuncia-se que Satanás será o grande vencido da história
humana: “a mulher (...) te esmagará a cabeça” (Gn 3,15). Essa vitória da humanidade
repousa sobre a vitória de Jesus, que não caiu na grande tentação. Ao longo de toda a
sua vida, ele permaneceu voltado a Deus. No momento de sua morte na cruz,
propuseram-lhe de “salvar-se a si mesmo” (Mc 15,30). Mas ele colocou todo o seu
futuro humano nas mãos de Deus: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc
23,46). Foi assim que ele venceu o pecado, que é o fechamento a Deus. É por isso
que ele é o Novo Adão. Sua ressurreição nos indica aonde conduz uma vida de
relação com Deus.
Na análise do problema do mal, as perguntas não são resolvidas como em
matemática, onde dois mais dois são quatro. Na Bíblia, Deus responde a Jó: “Tu não
existias no princípio. Logo não podes compreender o que ultrapassa tuas capacidades.
Mas olha ao redor de ti: o universo se mantém e avança apesar do mal. Eu vejo teu
sofrimento, ouço teu grito, o que te acontece é uma injustiça. Tens razão de te
revoltares. É um bom sinal que tu queiras um mundo melhor. Tens uma idéia boa de
mim. Confia em mim. Meu projeto se realizará. Eu extirparei as forças do mal” (cf.
Jó 38-42). Jó não tem todas as respostas, mas crê que seu Deus é o Todo-Poderoso,
que permanece em aliança com a humanidade e toda a criação. Ele crê que Deus tem
um plano final, embora em sua época ainda não se acreditasse na ressurreição dos
mortos.
Se a questão das forças do mal continua sendo difícil de se abordar, é claro, no
entanto, que o autor de Gênesis 3, por meio da alegoria da serpente, já as havia
desmascarado, tendo como pano de fundo o nosso mundo humano.
D) Síntese geral de Gênesis 1-11
Se considerarmos agora os onze primeiros capítulos do Gênesis, de uma só vez,
poderemos entender por que Deus, de acordo com os dois autores, o Javista e o
Sacerdotal, não pôde criar um mundo perfeito desde o início.
Para elaborar esta síntese, devemos “resgatar aquilo que os escritores quiseram
dizer e prestar atenção aos gêneros de discurso que eles utilizam” (Pio XII).
Parece evidente que esses capítulos pertencem ao mesmo gênero literário das
narrativas mesopotâmicas, por eles tomadas como modelo. São narrativas míticas
cujo objetivo essencial é o de remontar a antes da criação, com vistas a relatar o
projeto de Deus. São João e São Paulo se utilizam do mesmo procedimento: “No
princípio era o Verbo...” (Jo 1,1); “Deus nos escolheu em Cristo, antes da fundação
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do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1,4).
Semelhante perspectiva nos coloca em sintonia com o próprio ponto de vista de Deus.
Não podemos ir mais longe.
Os autores, desde o ponto de partida, compreenderam que “este mundo da
existência humana não é nem pode ser aquele que Deus podia criar”.15 Com efeito,
desde a abertura da Bíblia, eles afirmam que o mundo atual não é o mundo tal como
Deus gostaria. Eles nos proíbem de pensar que Deus é um torturador. Assim sendo,
tomam a contrapartida dos deuses mesopotâmicos, que queriam o sofrimento e a
morte do homem. Não afirmemos precipitadamente que o mundo atual depende da
vontade de Deus. Ao contrário, o que ele quer, é que tudo seja bom:
A razão humana se honra ao se insurgir contra certa teologia que pretende introduzir a morte na obra
criadora. Pode ser uma criação divina este “corpo de morte” que atormenta São Paulo (Rm 7,24)?
Parece-nos de extrema importância denunciar vigorosamente o caráter absurdo e escandaloso da morte
dos homens que lança o cético num impasse metafísico; não há pior infelicidade no mundo, e a
teologia sempre soube por que: a morte é o pecado (Rm 5,12; 7,23). Foi a morte espiritual que
provocou a morte biológica.
Nunca se denunciará em demasia o contratestemunho ou o escândalo de uma catequese inspirada
nessa teologia. Deus não é sádico. Como se pode invocar seu mistério de amor para cobrir esta obra
demoníaca que é a morte biológica (Hb 2,14)?16
Os autores do Gênesis nos proíbem de pensar também que nosso caráter finito e
limitado era necessário, que Deus não nos queria de outra maneira. Eles afirmam,
logo de cara, que nós fomos projetados para ser à sua imagem: portanto, mestres da
matéria, não sujeitos à fadiga, ao sofrimento, à angústia, à morte:
Toda a Escritura testemunha que Deus não coloca limites na distribuição de seus dons. Portanto, não
há mais finitude na criação (que Deus queria) no princípio do que no Reino (que virá). Assim, cai o
argumento relativo à finitude, tão invocado em nossos dias, referente a uma criação fatalmente
pecadora e condenada à infelicidade e à morte. Trata-se de se atribuir a Deus, ainda que ligeiramente,
o que depende exclusivamente da decisão humana: o homem é criado “pecável” e não “pecador”; seja
original ou individual, nenhum pecado é fatal; somente a liberdade humana pode decidir a respeito
dele, e não Deus. É ela, portanto, e somente ela, que insere a finitude no mundo.17
De fato, segundo a Bíblia, Deus não nos criou pecadores. No entanto, tanto para o
escritor Javista como para o Sacerdotal, o Criador é Iahweh. Ora, o nome de Iahweh
foi revelado a Moisés na ocasião da fuga do Egito, no contexto de uma libertação (Ex
3,13-15; 6,2). Iahweh é o Salvador. Transportando o Deus do Êxodo para o começo
do mundo, o Javista viu o Criador como aquele que sabia que teria de salvar a
criatura. Deus previu que seria rejeitado. Não era tão difícil de o prever: nós estamos
sempre esperando pelo homem novo, e sabemos que o homem deste terceiro milênio
não será melhor que o homem do milênio passado.
Poderíamos exibir o pensamento dos dois escritores da seguinte maneira:
– Deus tinha como projeto uma criação perfeita, um paraíso sem sofrimento nem
morte. E, no topo de todo universo material, ele quis seres livres: o homem e a
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mulher, que são a consciência de todo o universo material. Ele nunca quis criar
marionetes (Gn 1-2).
– Deus viu com antecedência que, de um extremo a outro da história humana, cada
um e todos sucumbiriam à tentação de querer chegar à realização por si sós e se
fechariam a ele. Com antecedência, ele respeitou tal decisão, não podendo, portanto,
fazer um mundo perfeito desde o início. Assim, o homem e a mulher, únicos seres
conscientes do mundo material, fizeram com que a criação fosse redimensionada,
tornando-se sujeita às forças do mal. O homem e a mulher permitem que as forças do
mal os atinjam, a eles e a toda a criação (Gn 3-11).
– Todavia, o projeto de Deus permanece. A partir de Gênesis 3, anuncia-se que as
forças do mal serão vencidas. O projeto de Deus se concretizará no final dos tempos.
Alinhando esses dados da maneira que segue, podemos visualizar a chave de
leitura das narrativas míticas que vale para o conjunto dos onze capítulos:
Esse modo global de se considerarem as questões fundamentais que tanto nos
preocupam, embora não nos forneça todas as respostas ao problema do mal, pelo
menos nos revela a face de Deus na Bíblia.
Para os autores, Deus viu com antecedência toda a história do pecado da
humanidade. Ele nosviu com antecedência centrados sobre nós mesmos. E então,
acrescentam eles, com antecedência ele nos respeitou.
Portanto, Deus criou o mundo, mas desde o início este mundo foi perturbado pela
recusa de toda a humanidade que viria. Para o autor, com efeito, a própria natureza
conhece a desordem por causa do homem: “Maldito é o solo por causa de ti” (Gn
3,17). Nenhuma religião vai tão longe no que diz respeito à responsabilidade humana.
Logo, “por causa do homem, a criação está submetida à servidão da corrupção
(Rm 8,20)”.18 O ser humano é o único, em todo o universo, capaz de tomar uma
decisão diante de Deus. A matéria só se torna consciente, pessoal e livre por meio do
homem; além disso, é por causa dele que a criação se encontra perturbada pelo mal.
Diante dessa afirmação, François Varillon expressa sérias reticências:
Não é Deus, dizem, mas a liberdade humana que é responsável pelo mal. Essa afirmação é válida mas
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insuficiente. É difícil atribuir todas as formas do mal à liberdade humana. Será por eu fazer mau uso
da minha liberdade que existem maremotos, erupções vulcânicas, ciclones, epidemias? Contudo, é
difícil afirmar que o pecado é causa da existência de todas as catástrofes. Assim sendo, toda tentativa
de explicação do mal fracassa.19
Certamente, é muito difícil obtermos uma resposta satisfatória a respeito do mal
que nos vem de fora. No entanto, devemos nos lembrar de que, desde o Gênesis,
afirma-se a presença das forças do mal na obra da criação. São João escreve que “o
mundo inteiro está sob o poder do Maligno” (1Jo 5,19). O domínio de Satanás
abrange tudo, de modo que Jesus, no momento da tempestade (ciclone...) sobre o lago
de Tiberíades, dirige-se ao vento e ao mar como a um endemoniado: “Silêncio!
Quieto!” (Mc 4,39):
Jesus trava um terrível combate contra todas as forças que procuram destruir a humanidade. Sua
compreensão do mundo vai além da nossa, que permanece presa aos efeitos secundários. Na origem
do mal, de todo o mal, Jesus detecta o pecado, personificado em Satanás.20
Os textos do Gênesis constituem uma profunda reflexão sobre o pecado e sobre o
lugar do homem e da mulher no mundo. Recém-chegados ao universo, estes
participam de tudo o que veio antes deles: o mineral, o vegetal, o animal. Eles são o
ápice e a consciência do mundo. Somente eles são uma matéria que pensa e somente
eles podem dizer eu existo, e se posicionar diante de Deus. Ora, o exercício dessa
liberdade vai na direção de uma recusa.
Os textos do Gênesis estabelecem uma ligação entre essa recusa a Deus pela
humanidade inteira e a existência do sofrimento e da morte no mundo: “Porque
comeste o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal” (porque não queres
alcançar a plenitude comigo), “na dor darás à luz filhos, ao pó retornarás”.
Essa surpreendente afirmação – relativa à questão mais espinhosa e mais
misteriosa que pode existir – nos revela que não é Deus que permite o mal no mundo.
O homem e a mulher é que permitem que as forças do mal os atinjam. Assim,
silencia-se o bem conhecido adágio: “Deus não quer o mal, mas o permite”. O
Gênesis revela que são o homem e a mulher que o permitem. “Segue-se que o mal só
é atribuível a Deus na medida em que ele respeita a liberdade humana”.21
Jean-Paul Sartre teve razão ao fazer um de seus personagens dizer: “Sustentarás
que Deus permite essas tristezas e sofrimentos inúteis? Quanto a mim, eu afirmo que
ele é inocente de tudo” (Le Diable et le Bon Dieu – O diabo e o Bom Deus).
Um grande perigo nos espreita quando lemos os textos do Gênesis, pois eles nos
dão a impressão de que Deus pune e castiga. De fato, é Deus quem pronuncia estas
palavras: “na dor darás à luz filhos, ao pó retornarás“; e é ele quem expulsa o homem
do paraíso, quem manda o dilúvio, quem dispersa os povos... Daí tiramos a idéia de
um Deus vingativo, colérico.
Todavia, o que é dado como palavras e gestos de Deus deve ser visto como a
situação na qual o próprio homem se coloca.
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O cenário de Gênesis 3 é bastante revelador a respeito disso. A partir do instante
em que a relação com Deus é rompida, o homem e a mulher vêem por si mesmos que
estão nus, o que é diferente de constatar a diferença de sexo um do outro! Sem Deus,
encontramo-nos verdadeiramente nus, num enorme vazio. Além do mais, o homem e
a mulher espontaneamente se escondem, o que significa que são julgados por si
mesmos. Deus, por sua vez, procura-os. De sua parte, a aliança nunca é rompida. Ele
continua a amar. E a única coisa que ele faz é constatar o que o homem e a mulher
decidiram.
Conseqüentemente, os versículos: “Porque comeste... na dor darás à luz filhos, ao
pó retornarás” (Gn 3,17.16.19), não expressam os castigos ou as punições de um
Deus colérico, mas as lamentações de Deus: “Que fizeste?” (Gn 3,13). Todos os
males de Gênesis 3 estão ligados a um “porquê” que é com freqüência esquecido.
É assim que o Gênesis nos revela um dos traços mais belos do rosto de Deus: ele
jamais força as pessoas, mas respeita sempre a decisão do ser humano que quer
chegar à realização pessoal sozinho. Então, ele se retira e deixa o homem entregue a
suas próprias forças. O homem e a mulher de Gênesis 3 ilustram o que a humanidade
se torna por si mesma ao se fechar a Deus. E o mundo atual torna-se o signo da
violência que a humanidade causa a si mesma ao querer inventar seu próprio Deus.
Tudo o que ocorre de absurdo no mundo deveria nos prevenir a respeito da seriedade
do pecado.
Se Deus foi livre ao criar, ele não quis diante de si marionetes programadas à sua
maneira. Ele não quis nos possuir, passar por cima de nossa vontade. Ele preferiu ser
rejeitado a violar a liberdade de cada indivíduo.
Se compreendemos bem, isso quer dizer que Deus nos fez únicos juízes e artesãos de nossa própria
criação: ele nos outorga, de certa maneira, o poder de nos dar o ser a nós mesmos.22
Portanto, Deus não fixa o destino dos seres humanos. Cada um fixa seu próprio
destino. Jean-Paul Sartre tinha razão, mais uma vez, ao reivindicar uma total
liberdade ao homem: “O homem será aquilo que ele fizer de si” (O existencialismo é
um humanismo).
Deus foi impedido de realizar seu projeto desde o início porque foi infinitamente
respeitoso em relação a duas liberdades específicas: a das forças do mal, e a dos
homens e das mulheres.
Aproximamo-nos aqui de um dado essencial do amor. Quando se ama, deve-se
reconhecer diante de si uma outra liberdade. O amor não se força. Deus nunca nos
arrastará à força para o céu. Se não o queremos ver, ele nos respeitará. Ele não poderá
se revelar. Isso significa que o inferno não é uma criação de Deus, mas uma
possibilidade humana. E se afirmamos que o inferno não existe, queremos dizer que
não somos livres, que Deus faz de nós o que ele quer.
Tudo isso é descrito em duas frases de Gênesis 2, em que são afirmadas duas
verdades essenciais: Deus quer que participemos de sua vida – “Deus colocou a
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árvore da vida no meio do jardim” – e deixa o homem e a mulher livres – e também
colocou “a árvore do conhecimento do bem e do mal”. A árvore do conhecimento do
bem e do mal enfatiza essa total liberdade de cada ser humano diante de Deus.
Essa interpretação global de Gênesis 1-11, que implica que Deus não pôde realizar
seu projeto desde o início, tem a vantagem de estar de acordo com o que a ciência nos
revela nos dias de hoje. Com efeito, nós sabemos que antes do homem, durante
milhões de anos, existiu muita violência na natureza. Os animais se devoravam.
Desde o início a finitude e o ciclo da morte estiveram presentes. Nunca existiu,
portanto, no passado, uma criação perfeita e o paraíso. Quando o homem chegou ao
universo, ele já estava sujeito ao sofrimento e à morte.
Sua situação era semelhante àquela de toda criança que vem ao mundo: ela ainda
não pecou, e no entanto chora, geme e está fadada à morte. Deus já sabe que ela
participará do pecado da humanidade e estará sujeita às forças do mal. O primeiro
homem, assim como a criança que nasce hoje, chegou a um mundo no qual já havia
desordem, desordem estacausada pela recusa de toda a humanidade.
Através dos onze primeiros capítulos do Gênesis, uma grande esperança se
desenha, apesar do mal. Suas páginas nos apresentam um Deus benevolente. Ele vê
toda a humanidade fechada a ele e anuncia uma vitória da humanidade sobre as forças
do mal. Ele vê todos os assassinatos e as guerras no mundo, e entretanto põe um sinal
em Caim. Ele vê toda a maldade do homem sobre a terra e se mantém em aliança com
o homem e com a criação. Ele vê todos os homens, reunidos em sociedade, tentarem
se fazer um nome, e diz a Abraão: “Engrandecerei teu nome. Por ti serão benditos
todos os clãs da terra” (Gn 12,2-3). Ele retoma então seu projeto do paraíso com a
realidade da terra prometida. A Bíblia inteira é, assim, uma longa profecia do
paraíso. Ela carrega uma grande esperança: apesar do mal que os homens podem
fazer, eles não podem impedir Deus de realizar o mundo tal como ele desejava.
É precisamente para significar que Deus continua seu projeto apesar do mal, que
foi feita uma lista de nomes de homens que vai de Adão a Noé e de Noé a Abraão.
Essa lista simbólica e contínua manifesta que Deus permanece em aliança com o
homem e que ele continua agindo na História, de modo que o mundo chegue a um
bom resultado.
No interior dessa lista, os autores fazem a idade dos homens diminuir
progressivamente. Quanto mais o mal se propaga na humanidade, menos o homem
vive. O mal carrega, portanto, um gérmen próprio de morte. É um modo de chamar à
conversão e de dizer que o futuro do homem deveria se realizar com Deus.
Pode-se medir a pertinência, a urgência e a atualidade da mensagem de Jesus,
síntese perfeita de todo conteúdo de Gênesis 1-11: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de
Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).
Conclusão
Os onze primeiros capítulos do Gênesis são as páginas mais profundas do Antigo
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Testamento. Nelas, o projeto de Deus é anunciado. São páginas que falam de nós, de
toda a humanidade.
Elas não resolvem o problema do mal, explicando por que fulano adoeceu, por que
tal acidente ocorreu, tal injustiça foi feita. Tudo isso nos indica que o mundo está
sujeito às forças do mal, mas não temos todas as respostas às nossas questões.
Pelo menos, desde as primeiras páginas da Bíblia, não nos é permitido pensar que
Deus nos manda provações e nos dá a morte. A palavra e a ação de Jesus denunciam
tal equívoco em relação a Deus: ele anuncia que “o Reino está preparado desde a
fundação do mundo” (Mt 25,34); e ao curar os doentes e ressuscitar os mortos pelo
poder de Deus, revela que Deus é contra toda doença e toda morte.
A ressurreição de Jesus é a grande garantia de Deus sobre as profecias do Gênesis.
A nova criação já está começada, e um dia, tudo será bom: “Ainda fica em
perspectiva para o povo de Deus um repouso de sábado” (Hb 4,9).
O importante é que, apesar de toda desordem no universo, esse universo se
mantém e avança, e isso, há bilhões de anos. O sol nasce todas as manhãs. Deus é
fiel, e esse lado bom do mundo nos conduz a espreitar o que será o mundo futuro.
Nota
Afirmar que todo o mal não vem de um só homem, no começo de tudo, pode
parecer contradizer os textos de São Paulo: “Por meio de um só homem o pecado
entrou no mundo” (Rm 5,12); “pela falta de um só resultou a condenação de todos os
homens” (Rm 5,18).
Observemos que, para evocar o pecado das origens, em primeiro lugar, Paulo faz
menção apenas ao homem, Adão, e não ao casal. Ele parte de uma interpretação
literal do relato do Gênesis. Na verdade, o que ele quer colocar em evidência é a
expressão “um só homem”.
Sua intenção é afirmar que a salvação se encontra em um só homem, como ele
afirma claramente em 1Cor 15,21: “Por um homem vem a ressurreição dos mortos”.
Essa é a mensagem que ele quer proclamar.
Ora, em seu tempo, os rabinos sustentavam que todo o mal provinha de um só
homem, desde o início. Paulo se apóia sobre essa afirmação e não se pronuncia sobre
tal ponto de vista. Pelo contrário, ele quer aproveitá-lo para anunciar que a salvação
vem de um só homem. Seu objetivo é salientar o papel fundamental de Jesus na
salvação de todos.
Seu texto comporta o seguinte significado: “Assim como [vós admitis que] pela
falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo [deveríeis
admitir que] da obra de justiça de um só resultou para todos os homens justificação
que traz a vida” (Rm 5,18). A oração subordinada (vós admitis que...) serve de apoio
à oração principal (deveríeis admitir que...). A afirmação de Paulo se encontra
evidentemente na oração principal.
Todo esse capítulo da Epístola aos Romanos é construído da seguinte maneira:
72
“Se (como o dizeis) pela falta de um só a multidão morreu, com quanto maior
profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se
derramaram sobre a multidão” (Rm 5,15); “(como o dizeis) pela desobediência de um
só homem todos se tornaram pecadores, pela obediência de um só, todos se tornarão
justos” (Rm 5,19). Paulo quer salientar exclusivamente o papel de Jesus Cristo,
apoiando-se sobre o papel atribuído a Adão.
Eis por que Paulo se opõe à Lei como único princípio de salvação. Dela, “vem só
o conhecimento do pecado” (Rm 3,20). Devemos nos reconhecer como pecadores
para sermos salvos. Caso contrário, tentaremos nos salvar por nós mesmos, e é esse o
pecado. O essencial, para Paulo, é não nos gloriarmos, mas nos abrirmos a um Outro
que salva.
Para São Paulo, todo o mal não provém de um só homem. Nesse mesmo capítulo
da Epístola aos Romanos, ele enfatiza a responsabilidade de toda a humanidade: “A
morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Todos estão
representados em Adão. No entanto, esse capítulo afirma com força que, sem o
verdadeiro homem Jesus e sem uma abertura sincera a Deus, não há salvação.23
1 Nota da TOB (Traduction Oecuménique de la Bible) [trad. em port.: TEB (Tradução Ecumência da
Bíblia)].
2 Ver o artigo de R. LAVOCAT sobre o “poligenismo e o monogenismo”, em Supplément au Dictionnaire
de la Bible, VIII, 4, 1967.
3 GRELOT, Pierre. Introduction aux Livres saints. Paris: Librairie Belin, 1963, p. 48 [trad. em port.:
Introdução à Bíblia. São Paulo, Paulinas, 1971].
4 SARTRE, Jean-Paul. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 1966, p. 653-654. [trad. em port.: O ser e o
nada. Petrópolis: Vozes, 2005].
5 GRELOT, Pierre. “Homme qui es-tu?” Les onze premiers chapitres de la Génèse, Cahiers Évangile n° 4.
Paris: Cerf, 1973, p. 59 [trad. em port.: Homem quem és? – os onze primeiros capítulos do Gênesis. São
Paulo, Paulinas, 1986].
6 VARILLON, François. Joie de vivre, joie de croire, 2ª édition. Paris: Centurion, 1981, p. 17-23.
7 RAHNER, Karl. Est-il possible aujourd’hui de croire? Paris: Mame, p. 30.
8 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec, Éditions Anne Sigier, 1988, p. 9. Este livro
esclarece de modo significativo a maneira de se considerarem os textos do Gênesis. Todavia, cabe se
interrogar sobre a perspectiva do primeiro pecado, “que teria ocorrido no céu” (p. 260 e seguintes).
9 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament. 22.ª ed. Paris: Desclée, 1962, p. 360.
10 RAHNER, Karl. Le chrétien devant la mort, Foi vivante n° 21. Paris: Desclée, 1966, p. 28.
11 GELIN, Albert. L’Homme selon la Bible, Foi vivante n° 75, p. 184-185.
12 Hoje, nas faculdades de Teologia, é de bom tom não se alongar muito num assunto tão incômodo quanto
este relativo às forças do mal. De fato, são vistos como modernistas aqueles que consideram tal assunto
73
completamente ultrapassado. Professores, até mesmo padres, afirmam que o poder de exorcizar deveria ser
pura e simplesmente retirado dos sacerdotes, pois a Psicologia, a Psiquiatria e a Medicina podem muito bem
explicar hoje, por outras razões que não o demônio, o fenômeno que se chamava “possessão”. A partir do
século XIX, com efeito, passou-se a repetir que um dia “a ciência será capaz de responder a todas as
perguntas”. Trata-se de uma afirmação um tanto precipitada, que traduz o mal-estar experimentadoquando
não se consegue perscrutar certos fenômenos que fogem ao domínio da ciência, especialmente os milagres e
os casos de possessão.
13 AMORTH, Dom Gabriel. Nouveaux récits d’un exorciste. Paris: Éditions F. X. de Guibert, 1993, p. 5-8
[trad. em port.: Novos relatos de um exorcista. São Paulo: Palavra & Prece, 2008].
14 MALRAUX, André. Les chênes qu’on abat. Paris: NRF, Gallimard, 1971, p. 58.
15 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec: Éditions Anne Sigier, 1988, p. 8.
16 Ibid., p. 149.
17 Ibid., p. 132-133.
18 Catecismo da Igreja Católica, n° 400. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 113.
19 VARILLON, François. Joie de vivre, joie de croire. 2.ª ed. Paris: Centurion, 1981, p. 270-271.
20 POTIN, Jean. Jésus, ses idées, son action. Paris: Centurion, 1973, p. 50.
21 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec: Éditions Anne Sigier, 1988, p. 90.
22 MARLIÈRE, Frédéric. Et leurs yeux s’ouvrirent. Québec: Éditions Anne Sigier, 1988, p. 225.
23 Ler a esse respeito as observações do Padre Stanislas LYONNET em Les étapes de l’histoire du salut
selon l’épitre aux Romains. Paris: Cerf, 1969, p. 55-81. Do mesmo modo, o artigo de Leonard AUDET, c.s.v.,
“Une lecture de Romains 5,12-21”, em Prêtre et Pasteur, vol. 78, n°11, 1975, p. 621-636.
74
SEGUNDA PARTE
DE GÊNESIS 12 AOS LIVROS DE SAMUEL
AS PROMESSAS A ABRAÃO E A DAVI
75
Um projeto único, que continua
Os onze primeiros capítulos do Gênesis – repletos de imagens e alegorias – nos
permitiram visualizar a amplitude e a beleza do projeto eterno de Deus para toda a
humanidade (Gn 1-2). De acordo com as últimas páginas do Apocalipse, a realização
desse projeto ainda está por vir. Assim, ela é transferida para o fim dos tempos, em
virtude do infinito respeito de Deus para com a vontade dos homens e das mulheres
que querem chegar à realização por si sós. O pecado desses homens e mulheres é o de
quererem ser auto-suficientes. Eles rejeitaram a Deus, permitindo que as forças do
mal os atingissem, a eles e a todo o universo material. Daí provém todo o mal no
mundo (Gn 3-11).
O Novo Testamento anuncia, porém, que a realização do projeto de Deus, prevista
para o fim dos tempos, já foi inaugurada com a ressurreição de Jesus. Depois de ter
conhecido este mundo limitado – marcado por fadiga, sofrimento, morte, mentira,
ódio, corrupção, violência, incompreensão –, Jesus toma posse do universo novo, no
qual o ser humano viverá em harmonia consigo mesmo, com os outros, com o mundo
e com Deus.
Se as profecias do Gênesis já se cumpriram na vida de um homem, as duas
palavras-chave de Gênesis 1-2 não são palavras vãs: Deus quer uma criação perfeita
ou um paraíso para toda a humanidade. Tal é a sua vontade, que ele manifestou de
modo definitivo ao ressuscitar Jesus.
Assim, a Bíblia foi muito bem arquitetada: as duas primeiras páginas já contêm
todo o projeto de Deus e as duas últimas o transferem para o devir, para a eternidade
de Deus, porém com o acontecimento decisivo da ressurreição de um homem,
ocorrida dentro do nosso tempo:
O projeto de Deus, anunciado desde o princípio, mostra que a Bíblia se interessa
prioritariamente pelo significado da existência humana. A religião mesopotâmica e
todas as religiões também se interessam por isso. Todavia, diferentemente da
projeção do sonho humano que se encontra no personagem Uta-Napishtim, levado
pelos deuses ao paraíso, na epopéia de Gilgamesh, a ressurreição de Jesus é um fato
real, ocorrido em nossa História. O Ressuscitado apareceu, e se mostrou a
testemunhas. Esse acontecimento único faz com que “o futuro esteja definitivamente
garantido”.1 Não se pode mais dizer: “Ninguém voltou do outro lado”. Com Jesus, as
forças do mal e a morte foram vencidas!
76
Por esse motivo, o Novo Testamento tem a ressurreição de Cristo como cerne e
ponto de partida. Eis a Boa Notícia. Sem esse acontecimento, poderíamos continuar
sendo balançados pelas proposições dos gurus de todo tipo, e “a própria fé não se
nutriria da substância de nenhum acontecimento poderoso o bastante para superar
qualquer desfalecimento e qualquer envelhecimento, e nós permaneceríamos sempre
aquém do que nos promete a vida”.2 Esse acontecimento é fundamento de uma
esperança decisiva.
Dando início a esta segunda parte, com certeza não nos esqueceremos do projeto
fundamental de Deus! Esse projeto é retomado precisamente com as promessas que
Deus dirige a dois homens: Abraão e Davi.
Abordaremos um grande conjunto que compreende o livro do Gênesis, a partir do
capítulo 12, até os livros de Samuel. Entraremos na história judaica, de modo que os
personagens já não serão mais simbólicos como em Gênesis 1-11.
Como vimos na introdução, três palavras surgem com Abraão: um povo, uma
terra, uma aliança; e três outras com Davi: uma cidade (Jerusalém), um Templo, um
rei.
Do ponto de vista histórico, a progressão se efetuou da seguinte maneira: os
descendentes de Abraão se tornaram um povo numeroso; eles voltaram ao país de
seus ancestrais; Deus esteve com eles, fazendo-os sair do Egito e conduzindo-os à
terra prometida; nela, Davi fundou uma capital, a cidade de Jerusalém; ele formou o
projeto de edificar ali um Templo para Deus, que seu filho Salomão construiu; e
Israel recebeu uma forma de governo centrado na figura de um rei.
Ocorre ao escritor Javista, que se situa no tempo de Salomão, ou seja, no período
final dessa progressão, de ler esse trecho da história como o tempo das promessas de
Deus. Tal é o sentido desse período, que vai de Abraão a Davi. Por esse motivo, não
podemos fragmentá-lo. De Abraão a Davi é o período inicial da história judaica,
como o Evangelho de Mateus nos mostra (Mt 1,17).
Ora, as palavras relativas a esse período estão intimamente ligadas a Gênesis 1-11.
Com efeito, as realidades presentes no relato do jardim do Éden ecoam nas promessas
direcionadas a Abraão e a Davi. Deus tem apenas um projeto:
Assim, as duas primeiras partes do Antigo Testamento: Gênesis 1-11 e Gênesis 12
até os livros de Samuel, contêm as bases de toda a Bíblia: o projeto de Deus para a
77
humanidade, e em seguida, as promessas a Abraão e a Davi.
Passa-se, assim, do projeto do paraíso, concebido para toda a humanidade, à
promessa de uma terra, dirigida a Abraão, e à promessa de um reino, dirigida a Davi.
Enfatizemos novamente a extraordinária densidade da mensagem de Jesus, ao
proclamar: “O Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15; Mt 4,17). Esse Reino
equivale, para ele, à “terra recebida como herança” (Mt 5,4) e corresponde ao
paraíso, pois está “preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25,34).
Pode-se igualmente observar como os autores relacionaram Gênesis 12 a Gênesis
1-11. Em primeiro lugar, uma lista genealógica integral vai de Adão a Noé e de Noé a
Abraão (Gn 5 e 10; 11,10-26). Além disso, a palavra “aliança” reaparece, quando se
trata de Noé e de Abraão (Gn 9,12-17;17,2). Isso significa que, por meio da história
de Abraão, Deus mantém seu projeto para a humanidade. Em seguida, os onze
primeiros capítulos culminam no gigantesco projeto de todos os homens, que querem
fazer “um nome” para si, construindo “uma torre cujo ápice penetre os céus” (Gn
11,4). Ora, o que a humanidade não pode realizar por si só é retomado no capítulo 12
por esta palavra de Deus a Abraão: “Eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê
uma bênção” (Gn 12,2). Deus procura alguém que não tem a pretensão de se fazer um
nome por si só. Para além de Abraão, ele já pode visualizar a vinda de seu Filho,
aquele que confiará plenamente nele. Com efeito, a vitória sobre as forças do mal, já
prometida em Gênesis 3,15 e que deve vir pela descendência da mulher, será
realizada pela descendência de Abraão, a qual, finalmente, designa “um só” (Gl 3,16),
ou seja, Cristo. O projeto de Deus de Gênesis 1-11 continua em Gênesis 12, mediante
a história de Abraão e de seu povo.
No início de seu Evangelho, Mateus também relaciona essas duas primeiras partes
da Bíblia, nestas palavras tão sintéticas: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de
Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1).“O livro da origem de...” é uma alusão a Gênesis 2,4 e Gênesis 5,1. Mateus
remete, assim, ao “livro da origem do céu e da terra” e ao “livro da descendência de
Adão”. Ele evoca o projeto de Deus desde o princípio, e, pela referência a “Jesus”,
põe-nos diante do Novo Adão, para o qual o projeto divino se realizou. A expressão
filho de Davi, filho de Abraão aponta para os dois personagens do povo judeu que
receberam as promessas que deram um novo vigor ao projeto de Deus. Mateus
anuncia desde o começo que, em virtude da vinda de Cristo – o Messias, aquele que
venceu a morte – , o acesso à criação perfeita, ou ao paraíso, ou à terra prometida, ou
ao Reino Celeste, já se efetivou.
Essas palavras-chave são inauguradas pelo primeiro autor da Bíblia, o Javista,
cujos sucessores terão a oportunidade de precisá-las, embora seja ele a estabelecer os
fundamentos da Sagrada Escritura, ao interpretar a história da humanidade em geral,
e a história judaica que se desenvolve de Abraão a Davi. É sobre esses fundamentos
que Israel baseará a continuidade de sua história.
Assim, essa parte da Bíblia que vai do Gênesis até os livros de Samuel é um
78
retorno ao passado, um passado que remonta a épocas tão distantes quanto a própria
eternidade de Deus, pois o Deus das promessas é o Deus que quis o paraíso desde o
princípio. Deus mantém, portanto, um único projeto.
De Gênesis 12 aos livros de Samuel: um olhar sobre o passado de Israel
O Javista pôde compor a trama geral do período que compreende Gênesis 12 até
os livros de Samuel, pois estava justamente em atitude de considerar a época entre
Abraão e Davi. Abraão viveu no início desse período, por volta de 1850 a.C.; Davi se
insere no final, entre 1010 e 970. Se o Javista escreve no tempo de Salomão, por volta
de 930, ele escreve 900 anos após Abraão!
Eis a trama histórica desse período, com os principais acontecimentos, os
personagens históricos e os livros cujas bases foram lançadas pelo Javista:
O Javista lançou um olhar sobre o passado de Israel, interpretando-o com os olhos
de Deus. Ele compreendeu aquilo que Deus havia começado com Abraão e aquilo
que havia realizado até a época de Davi. Ele não altera nada: apenas explicita o que já
estava exposto nesse período histórico no qual Deus se tornou presente.
A história de Israel, lugar da revelação de Deus
A partir de Gênesis 12, é através da história de Israel que Deus se revela, e assim
será até que o Novo Testamento seja concluído. A partir daí, a Bíblia passa a ser a
principal referência para o conhecimento verdadeiro de Deus. Trata-se de um fato
único: a história de um povo se torna o lugar da revelação de Deus. Certamente Deus
se deu a conhecer através de outras religiões. Mas a experiência que os judeus
tiveram foi aquela que Deus legitimou ao ressuscitar seu Filho:
79
É preciso lembrar que o único ponto da terra e do tempo no qual a experiência humana de um povo foi
plenamente integrada à revelação de Deus, no qual a linguagem forjada a partir dessa mesma
experiência foi incorporada à própria Palavra de Deus, é a experiência histórica de Israel, desde o
chamado de Abraão, até a conclusão da época dos apóstolos.3
Se detalharmos um pouco o fio condutor dos acontecimentos que ocorreram de
Abraão a Davi, o conjunto pode se resumir a poucas palavras, de modo que podemos
nos perguntar como Deus ainda pode nos falar através de uma história tão corriqueira.
Que cada um avalie por si mesmo: um dia, um nômade de nome Abraão se desloca
em direção à terra de Canaã; seu filho Isaac e seu neto Jacó se instalam ali um após o
outro; esses três homens se tornam “os pais” ou os patriarcas do povo judeu; Jacó
recebe o nome de “Israel”; um de seus doze filhos, José é vendido pelos irmãos e vai
parar no Egito; tornando-se uma espécie de primeiro ministro do Faraó, ele manda
trazer seu pai Jacó e as famílias de seus irmãos; os descendentes de Jacó permanecem
no Egito por volta de 400 a 430 anos; ao cabo desse longo período, o povo judeu é
obrigado a pagar altíssimos tributos; conduzido por Moisés, o povo deixa o Egito e
caminha pelo deserto durante 40 anos; com Josué, os hebreus conquistam a terra na
qual haviam estado seus antepassados; a permanência na terra de Canaã se prolonga
por 200 anos, com os “Juízes”; finalmente, como todos os povos, eles criam uma
organização social mais desenvolvida, que toma a forma de uma monarquia,
atingindo seu apogeu com Davi e seu filho Salomão, tendo o primeiro fundado uma
capital, Jerusalém, e o segundo, construído um Templo para Deus.
Novecentos anos de história em algumas linhas e aparentemente nada de
extraordinário. E no entanto, um primeiro escritor, depois um segundo, depois um
terceiro, depois um quarto... Todos retornando alternadamente a tais acontecimentos,
para deles extraírem cada vez mais sentido, o que também nós podemos fazer com
alguns elementos de nossas próprias vidas, que hoje podemos considerar bastante
ordinários, mas aos quais amanhã, quando estivermos mais velhos, poderemos
atribuir importância maior: um encontro, uma palavra ouvida, uma amizade, uma
decisão tomada, um golpe duro, um alívio...
Quatro tradições referentes ao período em questão
De Gênesis 12 aos livros de Samuel, quatro tradições estão presentes. Pudemos
encontrar duas delas em Gênesis 1-11: as tradições Javista e Sacerdotal. Além dessas
duas, existem também a tradição Eloísta e a tradição Deuteronomista, como são
designadas pelos especialistas. Pode ser útil distingui-las, em algumas situações, mas
não devemos fazer dessa distinção um objetivo em si mesmo. Como escreve Divo
Barsotti: “O que importa para mim não é esta ou aquela tradição – Javista, Eloísta,
Sacerdotal – mas o que delas procede como resultado”. 4
Essas quatro tradições se situam por volta de:
– 950: o Javista, no tempo de Davi e de Salomão;
80
– 750: o Eloísta, nas tribos do Norte, depois da fragmentação do reino, com a
morte de Salomão (931);
– 622: o Deuteronomista, antes do exílio, com a reforma no tempo do rei Josias e
do profeta Jeremias;
– 550: o Sacerdotal, durante o exílio, logo após Ezequiel, um sacerdote.
O último escritor viveu, portanto, 1300 anos depois de Abraão.
Essas quatro tradições surgem durante o período dos reis, que também é a época
dos profetas. O último compilador da Lei e dos Profetas é o escritor Sacerdotal.
Podemos reconhecer os quatro autores por meio de algumas particularidades,
como as expressões introdutórias:
– o Javista: Iahweh disse...
– o Eloísta: A palavra de Iahweh foi dirigida...
O Anjo de Iahweh lhe disse...
– o Deuteronomista: Amarás Iahweh teu Deus...
– o Sacerdotal: Deus disse...
Salientemos as principais características de cada um. Já observamos que o Javista
apresenta um Deus familiar que age como um homem: ele cria a partir da argila como
um oleiro ou fecha a porta atrás de Noé. O Eloísta preserva mais a transcendência de
Deus, substituindo a fórmula “Iahweh disse”, que é muito direta, por: “A palavra de
Iahweh foi dirigida a...”. Muitas vezes, essa palavra chega ao homem por meio de
uma visão ou de um sonho, o que ainda preserva a transcendência de Deus. Além
disso, “a fim de marcar melhor a distância entre Deus e o homem, o Eloísta fala
livremente de um Anjo, ou mesmo de um homem (Gn 22,11-18; 32,23-33)”.5 O
Deuteronomista insere a religião no plano de uma relação pessoal interior; o amor se
torna a essência da Lei: “Amarás Iahweh teu Deus de todo o teu coração”; o estilo é
caloroso e a formulação assume a forma de um diálogo: “Escuta, Israel...”. Quanto ao
Sacerdotal, vimos que ele retrata um Deus transcendente que cria exclusivamente por
meio de sua palavra. Esse autor gosta de genealogias, dados numéricos, leis,
prescrições litúrgicas detalhadas. Isso é compreensível: depois do exílio, não há mais
rei, de modo que os sacerdotes passam a governar a nação. Por isso, Tradição
Sacerdotal.
Todas essas perspectivas sobre Deus são complementares. Ele pode ser percebido
ao mesmo tempo como um Deus familiar, próximo, pessoal, interior, e como um
81
Deus grandioso,transcendente, exterior ao mundo, o “Todo-Outro”. A Psicologia da
Religião descobriu que esses dois elementos estão presentes no mundo inteiro, em
todas as religiões: um Inca que adora a Deus por meio do Sol percebe que Deus está
fora dele, distante, mas ao mesmo tempo próximo, pois o aquece. Da mesma maneira,
o Deus de Jesus é grandioso, é “o Senhor do céu e da terra”, mas está perto de nós, ao
ponto de aprendermos com o Filho a chamarmos a Deus de Pai (Mt 11,25).
Essas constatações têm grande importância. Com efeito, podemos observar que os
autores utilizam expressões diferentes, mas têm um único objetivo: transmitir a
Palavra de Deus. Eles fazem Deus falar. Por isso encontramos expressões como estas,
do Gênesis aos livros de Samuel: “Iahweh disse ao homem, à mulher, a Noé, a
Abraão, a Isaac, a Jacó, a José, a Moisés, a Josué, a Davi, a Salomão”. Isso não
significa que as pessoas realmente tenham ouvido Iahweh, ou o Anjo de Iahweh, ou
Deus lhes falar ao ouvido. Toda a Bíblia foi escrita, sem a necessidade de que as
pessoas tenham visto e ouvido Deus. Portanto, a Bíblia não foi ditada diretamente do
alto. A prova disso é que cada autor tem seu estilo, seu plano, seu modo de conceber
Deus. E Deus respeita isso.
Alguns autores da Bíblia chegaram a corrigir certos aspectos de uma teologia em
curso na época. No tempo de Josué e de Davi, por exemplo, a guerra era considerada
santa: Deus “combatia por Israel” e “o livrava de todos os seus inimigos” (Js 23,10;
2Sm 5,19; 7,1). Observemos que isso permanece inteiramente verdadeiro e atual
quando consideramos esses textos sob a ótica da nossa luta contra as forças do mal.
Deus pode verdadeiramente combatê-las por nós e tanto melhor é que ele possa nos
livrar delas! No entanto, a Bíblia rejeitou o Deus da guerra, um Deus de violência.6
Assim, quando Davi tem o projeto de construir um Templo, o autor do livro das
Crônicas representa Deus falando desta maneira: “Tu derramaste muito sangue e
travaste grandes batalhas; tu não construirás uma casa ao meu nome, pois derramaste
muito sangue sobre a terra. Teu filho será um homem de paz. Ele construirá uma casa
a meu nome” (1Cr 22,8-10). Uma vez que o Antigo Testamento foi escrito no período
de mil anos, é natural que a teologia e a moral evoluam! O próprio Jesus aprofundou
a palavra de Deus dirigida a Moisés: “Ouvistes que foi dito aos antigos (...). Eu,
porém, vos digo” (Mt 5,21-22).
Deus acompanha os rumos tomados pelo povo hebreu e os costumes peculiares a
determinadas épocas. Porém, no conjunto dos textos, sobressaem uma convergência e
uma unidade tamanhas, no que diz respeito ao rosto de Deus, que o próprio Jesus, ao
trazer a revelação definitiva de Deus, viverá da experiência de Deus transmitida pela
Lei e pelos Profetas. Aquele a quem ele chama seu Pai é o Deus que quer dar o
paraíso, o Deus das promessas, o Deus que ressuscita os mortos. É o Deus do Antigo
Testamento. Jesus não veio para “revogar a Lei ou os Profetas, mas para dar-lhes
pleno cumprimento” (Mt 5,17).
Na base da Bíblia, há homens inspirados, que viveram uma experiência de Deus e
que reconheceram Deus agindo nos episódios da história de Israel. Foi-lhes dada a
82
tarefa de fazer uma leitura religiosa de tais acontecimentos.
A totalidade dos livros que abarcam o período que se estende de Abraão a Davi
compreende o seguinte conjunto, cujos cinco primeiros livros constituem a Lei de
Moisés, a Torah, ou o Pentateuco (Penta, em grego, significa “cinco”):
As quatro tradições presentes nesses livros sobressaem mais em certos lugares.
Desse modo, encontram-se as tradições Javista, Eloísta e Sacerdotal em Gênesis 12-
50, no Êxodo e nos Números. A tradição Sacerdotal é predominante no Levítico,
sendo de Levi a tribo dos sacerdotes. A tradição Deuteronomista é, evidentemente,
aquela mediante a qual foi escrito o livro do Deuteronômio (em grego, deutero
significa “segundo”, e nomos, “lei”). Trata-se da atualização da lei efetuada no tempo
de Jeremias. Esta tradição vem completar a tradição Javista, no que diz respeito à
elaboração dos livros de Josué, dos Juízes, de Samuel e dos Reis.
No coração desse período: as promessas de Deus
Voltemos ao essencial: as promessas a Abraão e a Davi. Estudaremos com maior
atenção os seguintes livros: Gênesis 12-50, Êxodo, Josué, Juízes e os dois livros de
Samuel, evocando apenas de passagem o Levítico, os Números e o Deuteronômio,
que na verdade são uma retomada do Êxodo, tratando essencialmente da peregrinação
do povo pelo deserto, com Moisés.
Estudando Gênesis 12-50, percorreremos logo mais a trajetória geral das
promessas dirigidas a Abraão, trajetória que se estenderá até o Apocalipse.
Acompanharemos em seguida, etapa por etapa, o aprofundamento dessas promessas,
considerando o Êxodo, Josué e os Juízes. Os livros de Samuel nos apresentarão as
promessas a Davi.
1 SCHLIER, Heinrich. La résurrection de Jésus-Christ. Paris: Salvator, 1969, p. 68.
2 Ibid., p. 53.
3 GRELOT, Pierre. Sens chrétien de l’Ancien Testament, 2.ª ed. Paris: Desclée, 1962, p. 432.
4 BARSOTTI, Divo. Spiritualité de l’Exode. Paris: Téqui, 1982, p. 67.
5 Introduction au Pentateuque. In: TOB (Traduction Oecuménique de la Bible). Paris: Cerf, 1975, p. 33
[trad. em port.: TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia). São Paulo : Paulinas, 1996].
6 Ver o livro de Guy LABOUÉRIE: Dieu de violence ou Dieu de tendresse? Paris: Cerf, 1982.
83
1
GÊNESIS 12-50
Rememorar os nomes de Abraão, Isaac e Jacó pode parecer bastante ultrapassado.
Para a maioria das pessoas, esses personagens se perderam na Antiguidade. É fato
que a explicação dada a Gênesis 12-50 não foi sempre pertinente. Assim, um
professor universitário, num curso de 45 horas, conseguiu analisar quatro virtudes de
Abraão, considerando apenas quatro versículos. Nenhuma palavra sobre as promessas
de Deus, que no entanto se repetem como um refrão, a cada página. Esse professor
reproduziu quatro notas isoladas, sem levar em conta o conjunto da sinfonia. Os
grandes temas de fundo que repercutem por toda a Bíblia não foram por ele
indicados!
Lançaremos nossa atenção sobre dois pontos em particular:
A) A história dos patriarcas de Israel;
B) As três promessas e o desenvolvimento delas ao longo da Bíblia.
Descobriremos que essas promessas têm um alcance tamanho, que ainda não se
realizaram plenamente para nós. Vistos dessa maneira, esses capítulos do Gênesis não
nos trarão à memória apenas o passado, mas iluminarão nosso presente e nosso
futuro!
A) A história dos patriarcas de Israel
– Abraão, Isaac e Jacó: uma história real
Ao falarmos de Abraão, estamos falando de uma história real, ocorrida por volta
de 1850 antes de Cristo. Do ponto de vista da História, é um tempo bastante recente:
as pirâmides do Egito já haviam sido concluídas um milênio antes (2800 a.C.)!
Em primeiro lugar, Abraão é reconhecido como o patriarca de dois povos: o povo
judeu e o povo árabe. Os judeus descendem de Jacó, nascido da união de Abraão e
Sara, sua esposa. Os árabes descendem de Ismael, filho de Abraão com Agar, sua
serva.
A arqueologia vem mostrando progressivamente que as evidências históricas a
respeito de Abraão e de seu clã são bastante sólidas. Estes são alguns dados gerais:
• Os textos da Bíblia, apesar de terem sido escritos 900 anos depois de Abraão,
afirmam que ele saiu da cidade de Ur, na Baixa-Mesopotâmia. Hoje nós sabemos que
um período conturbado acompanhou o declínio da dinastia de Ur, por volta de 1900
antes de Cristo. Um fluxo migratório se dirigiu a Harã, onde viviam sociedades
seminômades de mesma origem étnica. Estes dois lugares, Ur e Harã, são
84
mencionados na Bíblia: “Taré tomou seu filho Abrão, seu neto Ló, filho de Arã, e sua
nora Sarai, mulher de Abrão. Ele os fez sair de Ur dos caldeus para ir à terra de
Canaã, mas, chegados a Harã, aí se estabeleceram. Taré morreu em Harã” (Gn 11,31-
32).
• Harã é um vilarejo da Turquia que existe ainda hoje. Seus habitantes vivem de
acordo com um modo de vida que permanece praticamente o mesmo desde a época
de Abraão.
• O clã de Abraão,instalado em Harã, faz parte de um conjunto de várias
sociedades de origem aramaica. A Bíblia diz que Jacó era um “arameu errante” (Dt
26,5). Seu tio Labão também é assim designado: “Labão, o arameu” (Gn 31,20.24).
• Entre 1900 e 1700, alguns desses grupos se deslocam para a Síria e para a terra
de Canaã. Eles são nomeados Habiru, “os homens da areia”. É provável que a
designação Hebreus seja uma derivação desse termo. O termo Habiru designaria um
grupo étnico dentro do qual se encontram os ancestrais dos judeus. A migração de
Abraão parece ter coincidido com os deslocamentos dessas sociedades. A Bíblia
menciona que ele deixa sua “terra” e sua “parentela” (Gn 12,1).
• O modo de vida dos povos Habiru é o mesmo dos povos seminômades que
viviam em tendas, instalavam-se por algum tempo em determinado local e em
seguida se transferiam a outra região. São sociedades itinerantes. Na Bíblia, fala-se da
terra dos patriarcas como “a terra das peregrinações” (Gn 17,8). Sabe-se que a
estabilização do povo hebreu só se daria no tempo de Josué. Tais grupos de
seminômades eram constituídos por pastores de pequenos rebanhos que se
deslocavam sazonalmente. Para os rebanhos de ovelhas e carneiros, era necessário
que os itinerários fossem curtos, as fontes de água freqüentes, além de que houvesse
boas pastagens. Por isso, os que criavam ovelhas e carneiros peregrinavam pelas
regiões menos desérticas. Trata-se exatamente da zona atribuída pela Bíblia a Abraão:
Harã, Siquém, Betel, Hebron, Bersabéia. Cada grupo precisava garantir seus direitos
sobre os poços de água potável (Gn 21,25; 26,18), discutir com os outros nômades
pelo direito de passagem em regiões de pastagem (Gn 32-33). Existe ainda a
possibilidade de se ter acesso a propriedades particulares: Abraão compra o campo de
Efron, em Macpela, para sua tumba de família (Gn 23), e Jacó, um campo perto de
Siquém (Gn 33,19). A comitiva de Abraão mantém os laços com Harã: Abraão
escolherá para seu filho uma esposa vinda de sua parentela (Gn 24,4; 47,43; 48,1-2).
Todavia, tendo optado realmente pela terra de Canaã, ele teve de adotar um novo
idioma: Sarai se torna Sara e Abrão, Abraão.
85
O Crescente fértil, formado pelo litoral do Mediterrâneo e pela região da Mesopotâmia atravessada por dois
grandes rios: o Tigre e o Eufrates.
A migração de Abraão: de Ur a Harã e de Harã à terra de Canaã.
Tudo isso concorda com as descobertas relativamente recentes de Ugarit e de Mári, que nos permitem
reconhecer a integração das tradições patriarcais na vida do segundo milênio antes de Cristo tal como
nós a conhecemos hoje. Os costumes de Abraão e de seus descendentes se assemelham aos costumes
das sociedades seminômades, proprietárias de carneiros e cabras, que circulam ao longo do “Crescente
86
fértil”. Elas vivem em contato parcial com populações sedentárias, com as quais mantêm relações ora
pacíficas, ora bélicas.1
• Alguns dos costumes atestados pela Bíblia já eram comuns em regiões da
Mesopotâmia. Por exemplo, quando uma mulher é estéril, ela pode apresentar a seu
marido uma serva da qual continuará a ser patroa. É o caso de Sara e Raquel, as
esposas de Abraão e Jacó (Gn 16,2; 30,3-9). Tal costume, por si mesmo, é suficiente
para provar que Abraão veio realmente da Mesopotâmia. Esse costume se encontra
gravado numa estela do rei mesopotâmico Hamurábi, que havia mandado codificar as
leis de seu reino. O mesmo costume também se encontra em textos provenientes da
cidade de Nuzu. Outro exemplo: o consentimento de Rebeca é pedido antes de ser
dada em casamento a Isaac, casamento este arranjado pelo irmão da noiva, Labão (Gn
24,58). Um contrato de casamento encontrado em Nuzu tem gravadas as seguintes
palavras: “Com meu consentimento, meu irmão me deu em casamento a...”. Da
mesma maneira, em Nuzu, um homem havia cedido seu direito à herança de um
jardim em troca de três carneiros. Segundo a Bíblia, Esaú vende seus direitos de
primogenitura. Assim, enquanto filho mais velho, ele vendeu seu direito à herança.
Além disso, a filha de Labão, Raquel, rouba os ídolos domésticos de seu pai (Gn
31,19.30-35). Em Nuzu, isso era considerado um direito de herança.
• Os textos da Bíblia conservam igualmente a marca do Deus El, presente desde
muito tempo nas religiões semíticas. El seria o Deus comum, primitivo e muito
provavelmente único dos povos semitas, dos quais provêm os ancestrais de Israel. No
Gênesis, menciona-se “El-Elyon”, que significa “Deus Altíssimo” ou “Deus dos
Céus” (Gn 14,19); “El-Shaddai”, ou seja, “Deus da Montanha” (Gn 17,1); “El-Olam”,
“Deus de Eternidade” ou “Deus do Mundo” (Gn 21,33); “El-Roí”, que quer dizer,
“Deus de visão” (Gn 16,13). As descobertas de Ras-Shamra nos tornaram possível
um conhecimento maior do aspecto solene e universal desse Deus supremo El. Ora,
na Bíblia, é o nome de “Iahweh” que se estabeleceu, especialmente a partir da saída
do Egito (Ex 3,13-15; 6,2-3). Se a Bíblia mantém a marca do Deus El, isso quer dizer
que ela conserva elementos muito antigos, o que não impede que o nome de Iahweh
também seja muito antigo:
Já estaria ele em uso, no tempo de Abraão, em sua forma inteira ou em sua forma abreviada, como
Iah, Iaho ou Iahu? É possível supor que Iahweh tenha sido primeiramente uma das divindades dos
antepassados de Abraão: Gn 4,26; 9,26; 15,6-7; 22,14; Ex 3,15.18; 4,5 dizem claramente que Iahweh
era o Deus dos antepassados hebreus.2
• Na Mesopotâmia, antiga pátria de Abraão, um velho ritual era usado para
efetivar um contrato ou uma aliança entre dois sócios: os envolvidos no contrato
passavam no meio de animais divididos pela metade. Aquele que não respeitasse seu
compromisso, teria o mesmo destino que tiveram os animais. A Bíblia menciona esse
velho ritual, ao relatar a aliança de Deus com Abraão (Gn 15,9-18), com a diferença
de que somente Deus passa entre os animais partidos ao meio. O autor quer salientar
87
que, quando se trata de uma promessa, apenas um dos envolvidos se compromete. E
isso mostra a gratuidade de Deus. A terra prometida, bem como o paraíso, são dons
de Deus.
Todas essas indicações mostram que, por trás dos textos da Bíblia referentes à
história dos ancestrais de Israel, existem antiqüíssimas tradições orais, tradições de
família, transmitidas de geração em geração. O argumento principal dos especialistas,
com vistas a sustentar a historicidade dos ancestrais de Israel, é muito simples, mas
também bastante consistente: os autores da Bíblia, que escrevem pelo menos 900
anos depois dos acontecimentos relatados, não vivem mais de acordo com o modo de
vida, os costumes e a moral de seus antepassados, além de não chamarem mais a
Deus do mesmo modo. Assim, “os relatos patriarcais atestam um real enraizamento
no meio em que viveram os ancestrais de Israel”.3 A atmosfera que encontramos nos
escritos de Gênesis 12-50 é particular: tais capítulos estão repletos de cenas da vida
pastoril. É evidente, portanto, que a menção às migrações, com os nomes das cidades
da Mesopotâmia e da “terra de Canaã”, o modo de vida dos seminômades, os hábitos
e costumes que prevaleciam na Mesopotâmia: tudo isso não poderia ser inventado
pelos escritores. Como fundamento dos textos, encontram-se acontecimentos reais,
ainda que todo esse material seja retomado, depois de muito tempo, por quatro
autores, segundo a síntese teológica própria a cada um. Portanto, Abraão, Isaac e Jacó
estão bem enraizados na História. Aqui estamos nos referindo a um passado
autêntico, que remonta aos idos de 1850 antes de Cristo.
A mesma realidade histórica está presente na história de José, relatada em Gênesis
37-50: “Numerosos traços do relato testemunham certo conhecimento das coisas e
dos costumes do Egito antigo, tais como os documentos egípcios no-los revelam”.4
De qualquer maneira, é hora de ver como os escritores releram tais
acontecimentos.
B) As promessas e o seu desenvolvimento na Bíblia
A partir de Gênesis 12, a Palavra de Deus se encarna nas realidades mais
humildes: Abraão tem um filho, vive num pedacinho de terra e Deus o acompanha aolongo de toda a sua vida. Origens extremamente modestas às quais os profetas
remeterão em horas sombrias, entre eles o segundo Isaías, durante o exílio na
Babilônia: “Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu à luz. Ele
estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei” (Is 51,2).
O Deus da Bíblia está utilizando uma linguagem simples através da história de
Abraão e de seu povo. Mais tarde, ele continuará a se revelar dessa maneira, por meio
do nascimento de uma criança, no pequeno povoado de Belém. Essa criança cresceu
em Nazareth, onde exerceu a carpintaria por mais ou menos trinta anos, indo parar
numa cruz. Em verdade, a Sabedoria de Deus não imita a sabedoria dos homens. Essa
linguagem tem o grande mérito de não forçar ninguém. Deus jamais se impõe. Ele
88
fala discretamente. Ele realiza as maiores coisas por meio de realidades e personagens
insignificantes: “o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para
reduzir a nada o que é” (1Cor 1,28).
Aquilo que começa com Abraão assumirá dimensões que somente Deus poderia
conhecer desde o princípio. Por isso, ele deu aos escritores o tempo necessário para
que pudessem compreender: pelo menos 900 anos!
No tempo de Davi e Salomão, era possível remontar a 900 anos para trás e
constatar que:
– os descendentes de Abraão se tornaram numerosos,
– eles habitavam a terra de seu patriarca,
– Deus havia estado com eles ao longo de sua história.
É por isso que três palavras importantes são postas em evidência com Abraão, à
medida que correspondem a três promessas: um povo, uma terra e uma aliança. Não
relevá-las equivaleria a passar ao largo do essencial.
Em Gênesis 12-50, graças à tripla promessa constantemente renovada, todo o período da história dos
antepassados de Israel é compreendido como o tempo da promessa.5
Lembremos que essas três promessas retomam o projeto de Deus apresentado em
Gênesis 2:
Portanto, Deus continua a semear uma esperança. A leitura da Bíblia nos torna
certos de que não somos os primeiros a viver a precariedade da vida, de que cada
geração vive as mesmas incertezas e de que Deus está sempre presente para confirmar
que a vida tem um sentido. Toda a Bíblia anuncia o mundo que Deus quer realizar.
Se as analisarmos de perto, veremos que as três promessas respondem às três
questões mais importantes:
– Quem somos? Um povo, e não seres isolados.
– Para onde vamos? Para uma terra maravilhosa.
– Por quê? Em razão de uma aliança eterna.
A resposta a essas três questões primordiais é dada por intermédio da história
quase insignificante de um homem que um belo dia se mudou para a terra de Canaã,
onde viu nascer seu filho Isaac. Já na imagem dessa primeira peregrinação do grande
Patriarca, os autores da Bíblia puderam identificar a eleição de um homem, depois a
eleição de um povo, e finalmente a eleição de toda a humanidade. Ser eleito significa
ser escolhido e, portanto, amado.
89
No tempo de Abraão, o que há é um esboço. Com efeito, Abraão pôde apenas
entrever que seus descendentes seriam numerosos, habitariam a terra em que ele
mesmo habitava, e que Deus estaria com eles, como esteve consigo. A fé sempre se
inicia na forma de uma semente. Remetendo à época dos Patriarcas, a epístola aos
Hebreus afirma que “na fé, todos estes morreram, sem ter obtido a realização da
promessa, depois de tê-la visto e saudado de longe” (Hb 11,13).
Segundo o Gênesis, Abraão acreditou que Deus lhe daria um filho, saído do seu
sangue (Gn 15,4-6). Se hoje o conhecemos como Pai de todos os que crêem, isso não
impede que sua fé tenha se deparado com momentos difíceis. Os textos sagrados
testemunham sua inquietude: “Meu Senhor Iahweh, continuo sem filho. Eis que não
me deste descendência e um dos servos de minha casa será meu herdeiro” (Gn 15,2-
3). Ele chegou até mesmo a procurar sua escrava para garantir essa descendência.
Sara já não poderia mais engravidar: “Sara deixara de ter o que têm as mulheres” (Gn
18,11; 31,35), ou seja, a menstruação. Certamente o escritor Sacerdotal aumentou a
idade de Abraão e de Sara (100 e 90 anos: Gn 17,7), mas o que é evidente é que
Abraão não deixou de acreditar no poder de Deus. Pois “Iahweh visitou Sara, como
dissera, e fez por ela como prometera. Sara concebeu e deu à luz um filho a Abraão já
velho, no tempo que Deus tinha marcado” (Gn 21,1-2). Deus lhes sorriu. Essa é a
etimologia do nome de Isaac. Eles o nomearam assim, pois Deus lhes deu um motivo
para sorrir. Dois capítulos relatam essa alegria. Em Gênesis 17, é Abraão quem ri;
em Gênesis 18, é Sara!
O capítulo 22 do Gênesis relata um momento difícil para a fé de Abraão: o
sacrifício de Isaac. Sem dúvida podemos nos aproximar de tal evento da seguinte
maneira: Abraão terá se perguntado um dia se não deveria oferecer seu filho em
sacrifício, como era costume em outros povos que viviam por perto. Ele estava pronto
para executar esse projeto quando finalmente compreendeu que Deus não lhe pediria
um gesto tão monstruoso. Esse questionamento de Abraão e aquilo que ele
compreendeu interiormente é apresentado pelos escritores na forma de um diálogo
com Deus, ou com o Anjo de Iahweh: “Deus disse: Toma teu filho, teu único, que
amas, Isaac, e o oferecerás em holocausto sobre uma montanha” (Gn 22,2); “o Anjo
disse: Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal!” (Gn 22,12).
Ele estava realmente disposto a oferecer seu filho, como os outros povos o faziam a
seus deuses: “Agora sei que temes a Deus: tu não me recusaste teu filho, teu único”,
disse-lhe Deus em Gênesis 22,12, e a epístola aos Hebreus salienta que “Abraão
ofereceu Isaac” (Hb 11,17).
De fato, o que se inicia com Abraão é a vinda de Jesus, o Filho de Deus, o
verdadeiro “filho de Abraão” (Mt 1,1), o verdadeiro fiel, aquele que confiará
plenamente em Deus, para sua realização pessoal. Nele se condensará todo o povo de
Deus que entrará numa terra nova, para uma aliança definitiva com Deus. É por essa
razão que por Abraão “serão benditos todos os clãs da terra” (Gn 12,3). Enfatizemos
aqui que o ser humano é fundamentalmente abençoado por Deus, jamais
90
amaldiçoado. Deus lhe quer bem (bênção), e não mal (maldição).
As promessas feitas a Abraão remetem aos sonhos mais imediatos que possamos
ter: ter filhos, possuir um pedacinho de terra para nele construir uma casa, e esperar
que Deus (ou a vida, ou o destino) nos seja favorável. Assim também a terra
prometida corresponde aos nossos anseios mais profundos, sendo descrita como uma
terra de repouso, na qual se dorme em segurança. É um mundo no qual não há mais
angústia, como no sétimo dia da criação, quando Deus descansa.
O Deus das promessas quer realizar os desejos humanos que ele mesmo inscreveu
em nós. É por essa razão que a humilde história de Abraão, Isaac e Jacó pode nos
alcançar ainda hoje: ela nos ensina que nossa vida tão corriqueira está carregada de
significado e tem um futuro promissor.
Deus vai mostrando passo a passo que não devemos compreender somente os
primeiros livros da Bíblia à luz das promessas. Como afirma Albert Gelin: “A
promessa permeia a Bíblia como um todo, fazendo dela o livro da esperança”.6
Seguiremos a trajetória das três promessas, do Gênesis ao Apocalipse. É sobretudo
no final do Novo Testamento que elas poderão nos parecer sempre atuais.
Podemos ler a progressão em cinco etapas:
1 – As promessas, de Abraão a Josué
A realização terrena das promessas
2 – As promessas de acordo com os Profetas
O aprofundamento das promessas
3 – As promessas de acordo com os Sábios
O resultado das promessas
4 – As promessas para Jesus
O cumprimento das promessas
5 – As promessas para nós
A atualidade das promessas
1 – As promessas, de Abraão a Josué (1850-1200 a. C.)
A realização terrena das promessas
Primeiramente, Deus disse a Abraão: “Ergue os olhos para o céu e conta as
estrelas, se as podes contar. Assim será a tua posteridade” (Gn 15,5). Em seguida,
disse ainda: “À tua posteridade darei esta terra” (Gn 15,18). Por fim: “Estabelecerei
minha aliança entre mim e ti, etua raça depois de ti, de geração em geração, uma
aliança perpétua, para ser o teu Deus e o de tua raça depois de ti” (Gn 17,7).
Desde que esses textos foram escritos, “três grandes idéias povoam o âmago da
alma judia: um Deus, um povo, uma terra”.7 São as três promessas de Deus a Abraão.
Essas três promessas extrapolam largamente a vida de Abraão, de modo que nela
elas apenas tiveram início. Elas apontam para o futuro e compreendem perspectivas
91
infinitas: são estabelecidas “para sempre” e dizem respeito a “todas as nações” (Gn
12,3; 17,7-8).
De Abraão a Josué, essas promessas têm uma realização terrena. Esse período
abarca 650 anos (1850-1200 a.C.).
• A descendência de Abraão se multiplica
Tudo começa de modo bastante humilde: Abraão recebe um filho de Sara (Gn
21,1). Assim, ele já pode visualizar em Isaac uma numerosa descendência. O texto
remete a um desejo essencialmente humano: “Sara concebeu e deu à luz um filho a
Abraão já velho” (Gn 21,2). É por meio de Isaac que Deus fará de Abraão “um
grande povo” (Gn 12,2).
A promessa é posteriormente repetida a Isaac: “Eu farei a tua posteridade
numerosa como as estrelas do céu, eu lhe darei todas estas terras, e por tua
posteridade serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 26,4). “A Isaac, dei Jacó
e Esaú” (Js 24,4).
Jacó, por sua vez, recebe a mesma promessa: “Tua descendência se tornará
numerosa como a poeira do solo” (Gn 28,14). Ele tem doze filhos, que se tornarão as
doze tribos de Israel. E Jacó vê seu nome ser mudado para Israel, que significa “forte
contra Deus” (Gn 32,29).
Na ocasião de uma grande fome, Deus lhe diz: “Não tenhas medo de descer ao
Egito, porque lá eu farei de ti uma grande nação” (Gn 46,3). Seu filho José se tornou
o braço direito do Faraó.
No Egito, “os israelitas foram fecundos e se multiplicaram; tornaram-se cada vez
mais numerosos e poderosos” (Gn 1,7). O Deuteronômio diz, numa das mais antigas
profissões de fé de Israel: “Meu pai (Jacó) era um arameu errante: ele desceu ao Egito
e ali residiu com poucas pessoas; depois tornou-se uma grande nação, forte e
numerosa” (Dt 26,5). A Bíblia conta que a permanência no Egito durou 400 anos (Gn
15,13) ou 430 anos (Ex 12,40).
Esse povo deixa posteriormente o Egito com Moisés, tornando-se verdadeiramente
povo de Deus no deserto do Sinai: a mesma lei e a mesma crença religiosa marcam a
identidade do povo. Seu Deus é agora conhecido como Iahweh.
No livro de Josué, fala-se das “tribos de Israel” (24,1) ou dos “Israelitas” (21,43).
A promessa de um povo numeroso anteriormente dirigida a Abraão se cumpriu.
De Abraão a Josué, a realização da promessa acompanha o curso normal do tempo
92
e da fecundidade humana. Ela se refere primeiramente a uma raça, a pessoas de
mesmo sangue.
• Israel entra na terra prometida
Também aqui tudo se inicia de maneira bastante humilde. Abraão acompanha com
seu pai uma peregrinação que o faz “sair de Ur dos caldeus para ir à terra de Canaã”
(Gn 11,31; 15,7). Fixando-se primeiramente em Harã, ele chega em seguida à terra
de Canaã. Aí ele vive como estrangeiro, junto aos “cananeus [que] habitavam nesta
terra” (Gn 12,6). Ele tem como propriedade apenas “o campo de Efron, que está em
Macpela, defronte de Mambré” (Gn 23,17).
Ora, ele podia ter esperança de ver sua descendência se estabelecer ali no futuro.
A promessa de Deus responde a esse desejo: “Toda a terra que vês, eu a darei, a ti e à
tua posteridade para sempre” (Gn 13,15; 17,8).
Isaac recebe a mesma promessa: “É a ti e à tua raça que eu darei todas estas terras“
(Gn 26,2-3). E depois, Jacó: “A terra sobre a qual dormiste, eu a dou a ti e à tua
descendência” (Gn 28,13).
Antes da saída do Egito, José diz a seus irmãos: “Eu vou morrer, mas Deus vos
visitará e vos fará subir deste país para a terra que ele prometeu, com juramento, a
Abraão, Isaac e Jacó” (Gn 50,24).
O livro do Êxodo descreve a marcha de Israel em direção à terra prometida, sendo
conduzido por Moisés. Depois, Josué conquista a terra prometida sobre a qual seus
antepassados haviam se estabelecido. E ele diz: “Agora, pois, Iahweh vosso Deus
concedeu aos vossos irmãos o repouso que lhes havia prometido” (Js 22,4). Com o
livro de Josué, acredita-se estar no paraíso: o repouso sucede à chegada. Israel se
encontra em sua terra: “Assim, pois, deu Iahweh aos israelitas toda a terra que havia
jurado dar a seus pais” (Js 21,43).
De Abraão a Josué, a promessa de uma terra se realiza. Trata-se de uma terra
material: a terra de Canaã.
• Deus mostra sua aliança
Afirma-se constantemente na Bíblia que Deus é aliado do homem, de modo a não
estar contra, mas a favor dele. Isso é sem dúvida o que a Bíblia tem de mais precioso
a dizer sobre Deus.
Desde o Gênesis, os autores insistem em afirmar que Deus permanece em aliança
com toda a humanidade e com toda a criação (o homem e a mulher no jardim do
Éden, Noé e todas as espécies de viventes).
Esse desejo de estar com a humanidade se torna objeto de uma promessa feita a
Abraão. Deus promete que ficará para sempre com seu povo: “Estabelecerei minha
aliança entre mim e ti, e tua raça depois de ti, de geração em geração, uma aliança
perpétua, para ser o teu Deus e o de tua raça depois de ti” (Gn 17,7).
93
Os diferentes deslocamentos durante o período que vai de Abraão a Josué:
1 - Abraão, Isaac e Jacó permanecem na terra de Canaã.
2 - Jacó e seus filhos se transferem para o Egito, onde José é ministro do Faraó.
3 - Seus descendentes permanecem no Egito por volta de 400 anos, no vale de Gessen.
4 - Eles deixam o Egito e atravessam o deserto com Moisés, que morre no monte Nebo.
5 - Com Josué, eles retornam à terra de seus antepassados, entrando por Jericó.
A aliança remete ao amor de Deus a cada ser humano. No Deuteronômio, as
palavras aliança e amor são indissociáveis: “Saberás, portanto, que Iahweh teu Deus
94
é o único Deus, o Deus fiel, que mantém a Aliança e o amor por mil gerações” (Dt
7,9).
Para falar mais concretamente: se Deus ama, ele é aliado de Israel e não deixará de
agir na História para cuidar de seu povo, fazê-lo sair de sua condição de sofrimento e
miséria. A aliança revela que Deus é sensível a toda situação de dor, grito e morte.
Com efeito, essa é a essência da percepção judaica de Deus, repercutida desde o
Gênesis até o Apocalipse: Deus ama e, amando, ele sempre nos libertará.
Deus está presente, em primeiro lugar, na vida de Abraão. Ele simplesmente lhe
diz: “Não temas, Abrão! Eu sou o teu escudo” (Gn 15,1). Ele é um Deus pessoal,
próximo, ao ponto de associar seu próprio nome ao nome desse homem: “o Deus de
Abraão”. Jesus afirmará, a partir dessa simples expressão, que um Deus como esse
ressuscita os mortos: “Ora, ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mc 12,27).
Se Deus chama Abraão de “meu amigo” (Is 41,8), ele não pode deixar o amigo
morrer. Amar é querer eternizar.
Esse Deus pessoal acompanha Isaac: “Fica na terra que eu te disser. Habita nesta
terra, eu estarei contigo” (Gn 26,2-4). A mesma promessa é repetida a Jacó: “Eu estou
contigo e te guardarei em todo lugar aonde fores, e te reconduzirei a esta terra, porque
não te abandonarei enquanto não tiver realizado o que te prometi” (Gn 28,15).
É principalmente por ocasião da saída do Egito, com a travessia pelo mar, que
Deus mostra sua aliança. Tal acontecimento é visto em Israel como a grande
intervenção de Deus em favor de seu povo. Essa libertação está ligada à promessa
feita aos patriarcas: “Ouvi o gemido dos israelitas e me lembrei da minha aliança. Eu
vos libertarei da escravidão e vos resgatarei com o braço estendido. Tomar-vos-ei por
meu povo, e serei o vosso Deus. Depois eu vos farei entrar na terra que jurei com a
mão estendida dar a Abraão, a Isaac e a Jacó” (Ex 6,5-8).
Após a saída do Egito, Deus acompanha os israelitas em sua longa peregrinação
pelo deserto do Sinai. “E Iahweh ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem” (Ex
13,21-22), alimentando-os com o maná e as codornizes (Ex 16), dando-lhes a água da
rocha (Ex 17), armando sua tenda junto deles (Ex 34,34). Deuspermanece com
Israel.
Enfim, Deus mostra sua aliança por meio da vitória de Josué: “Iahweh vosso Deus
combatia, ele mesmo, por vós, como vos dissera” (Js 23,10).
Assim, Deus está presente em toda a história de Israel. Sua presença se manifesta
nos episódios da fuga do Egito, da marcha pelo deserto e da conquista da terra
prometida.
Portanto, Deus é primeiramente o Deus de Abraão, depois o Deus de Isaac, em
seguida o Deus de Jacó, e finalmente, o Deus de Israel. Os homens se vão, mas Deus
permanece e mantém sua promessa.
O período que vai de Abraão a Josué é interpretado pelos redatores da Bíblia como
o tempo da realização terrena das três promessas dadas a Abraão:
“Assim, pois, deu Iahweh aos israelitas (o povo)
95
toda a terra que havia jurado dar a seus pais (a aliança).
Tomaram posse dela e nela se estabeleceram” (Js 21,43)
As promessas são verdadeiramente o fio condutor desse período. O livro de Josué
termina com esta declaração que se repete por duas vezes: “De todas as promessas
que Iahweh fizera à casa de Israel, nenhuma falhou: tudo se cumpriu” (Js 21,45;
23,14).
No período de Abraão a Josué, Israel se tornou um grande povo, retornou à terra
de seus antepassados e Deus sempre esteve com ele. Com efeito, a consolidação de
Israel como povo que se estabelece na terra de seus pais se dará com os Juízes, Saul,
Davi e Salomão. Porém, tudo já está concentrado no livro de Josué:
Neste imenso arco estendido desde a promessa até seu cumprimento, no tempo de Josué, e que abraça
os seis primeiros livros da Bíblia: o tema da história dos patriarcas é tratado apenas de maneira geral.
A promessa de Deus, que volta constantemente ao primeiro plano, forneceu uma coesão temática a
esse mosaico de narrativas de cores fortes. Com efeito, essa promessa não repercute apenas nos relatos
aos quais ela pertenceu desde o início, mas foi nitidamente introduzida depois de muito tempo, graças
a um trabalho de transformação que claramente parece obedecer a um plano.8
A história vai continuar e as três promessas vão se aprofundar.
2 – As promessas de acordo com os Profetas (1000-500 a.C.)
O aprofundamento das promessas
Na época de Davi e de Salomão, acreditava-se:
– que o povo de Abraão sempre seria numeroso,
– que esse povo sempre ocuparia sua terra,
– que Deus estaria sempre com ele.
Porém, acontece que tudo acaba se deteriorando e finalmente desmoronando na
época dos profetas, que corresponde ao período dos reis. Um período de 500 anos.
Em primeiro lugar, logo depois da morte de Salomão, em 931 antes de Cristo, o
reino de Davi é dividido em duas partes: o reino do Norte recebe o nome de Reino de
Israel; o reino do Sul, torna-se o Reino de Judá (Davi era da tribo de Judá).
Dois acontecimentos trágicos atingem esses dois reinos: o reino do Norte
desmorona em 721, após a destruição de sua capital, Samaria. Dez tribos são
deportadas para a terra dos assírios, onde desaparecem para sempre. O reino do Sul,
por sua vez, é destruído em 587, com a queda de sua capital, Jerusalém. A tribo de
Judá (que tinha absorvido a tribo de Simeão) é levada para Babilônia. Esses Judenos
– donde o nome de Judeus – voltarão do exílio em 538, graças a Ciro, rei dos Persas.
Visualizemos esses acontecimentos, com os principais profetas que os
interpretaram:
96
Israel se encontra imerso na grande História, sacudido pelas agitações provocadas
por conquistadores de três impérios: assírio, persa e babilônio.
Por conta de dois exílios sucessivos, que quase provocaram o aniquilamento total
do povo de Israel, as três promessas feitas a Abraão parecem querer se apagar:
– o povo diminui,
– ele está exilado fora de sua terra,
– a aliança parece ter se rompido.
Contudo, o segundo exílio consistirá num tempo de profunda reflexão. Israel
percebe que quando Deus está ausente, falta-lhe o essencial. No entanto, Deus
continua a acompanhar o povo eleito e a convidá-lo para que volte ao caminho da
fidelidade. Quando Israel se abre a Deus, Deus o faz voltar à terra prometida.
Esses acontecimentos são a imagem daquilo que acontece na vida de todo ser
humano. Como enfatizamos em outro momento, eles estão presentes na fonte dos
textos do Gênesis, no que diz respeito à situação do homem e da mulher no jardim do
Éden, os quais, por se esquecerem de Deus, reconhecem que estão nus. Deus os
respeita e os deixa entregues ao próprio vazio... A humanidade se dirige por si mesma
ao exílio. Mas o projeto de Deus permanece para sempre.
Aliás, os profetas não admitem a hipótese de que Deus teria feito promessas que
não cumpriria posteriormente: “Deus não é homem, para que minta, nem filho de
Adão, para que se retrate. Por acaso ele diz e não o faz, fala e não realiza?” (Nm
23,19).
Depois de terem anunciado que Israel perderia tudo, os profetas retomam as três
promessas dirigidas a Abraão; entretanto, eles inauguram, para cada uma delas,
perspectivas novas. Com eles, tudo será novo.
• O povo novo
Deus havia dito a Abraão: “Ergue os olhos para o céu e conta as estrelas, se as
podes contar. Assim será a tua posteridade” (Gn 15,5). De fato, com a invasão assíria,
em 721, dez tribos simplesmente desaparecem, restando somente a tribo de Judá,
também ela ameaçada, como anuncia Isaías: “No seio da terra [reinará] uma grande
solidão. E, se nela ficar um décimo [de pessoas], este tornará a ser desbastado como o
terebinto e o carvalho, que, uma vez derrubados, deixam apenas um toco; esse toco
97
será uma semente santa” (Is 6,12-13).
Com a invasão babilônia, em 587, a tribo de Judá também é deportada, desta vez à
Babilônia. Os exilados exprimem seu desespero: “Não somos mais do que um resto
no meio das nações para onde nos dispersaste” (Br 2,13). O povo de Abraão diminuiu
enormemente.
Numa carta dirigida aos exilados, Jeremias profetiza que o exílio desse pequeno
resto durará 70 anos (Jr 29,10)! Ele vê o exílio como a morte de todo o povo antigo,
que havia conhecido a terra prometida. Todos morrerão no exílio. A mesma
perspectiva se encontra em Ezequiel, em sua visão dos “ossos secos” (Ez 37).
Entretanto, na mesma carta – cuja finalidade era salvar Israel no exílio –, Jeremias
retoma a promessa relativa a um povo numeroso: “Multiplicai-vos aí e não
diminuais” (Jr 29,6). Deus multiplicará novamente Israel: “Eu mesmo reunirei o resto
de minhas ovelhas de todas as trevas para as quais as dispersei e as farei retornar às
suas pastagens: elas serão férteis e se multiplicarão” (Jr 23,3; Ez 34). Após 70 anos, a
duração de 3 gerações, os netos voltarão à terra de origem e formarão um povo
totalmente novo.
As grandes perturbações ocorridas no tempo dos profetas
1 – Os assírios invadem Samaria em 721: exílio das 10 tribos do Norte na Assíria.
2 – Os babilônios destroem Jerusalém em 587: exílio da tribo de Judá em Babilônia.
3 – Os persas vencem os babilônios e os Judenos retornam a Israel em 538.
Cada conquistador estende seu império até o Egito, passando pela terra de Israel.
O exílio é, para esse pequeno resto de Israel, um tempo de profunda transformação
interior, um tempo de retorno a Deus. Israel se dá conta de que não se assemelha mais
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a seus antepassados: “Ainda que Abraão não nos reconhecesse e Israel não tomasse
conhecimento de nós, tu, Iahweh, és nosso pai, nosso redentor” (Is 63,16).
Um novo povo começa a nascer, formado por um pequeno resto de “pobres”, um
pequeno resto simples diante de Deus, que espera tudo dele: “Deixarei em teu seio
um povo pobre e humilde, e procurará refúgio no nome de Iahweh o Resto de Israel”
(Sf 3,12-13; também Ez 5,1-5; 6,8-9; Is 4,3; Zc 13,8-9). Tudo renascerá com esse
pequeno resto purificado.
Um aprofundamento considerável se opera então na compreensão da promessa de
uma posteridade numerosa. Doravante, para ser a verdadeira descendência de Abraão,
não basta ter o sangue do grande patriarca. É preciso crer como ele, estar em relação
com Deus como ele. A verdadeira descendência de Abraão não diz mais respeito a
uma única raça, mas a toda a comunidade de fiéis:
– Aquele que põe a sua confiança em mim herdaráa terra (Is 57,13).
– Os pobres possuirão a terra (Sl 37,11).
– O homem que teme a Iahweh, sua descendência possuirá a terra (Sl 25,12-13).
Trata-se, portanto, de um povo novo.
• Uma nova terra
Por outro lado, em 750 antes de Cristo, Amós havia prenunciado o exílio do reino
do Norte: “Israel será deportado para longe de sua terra” (Am 7,11). De fato, as dez
tribos do Norte deixam a terra prometida em 721.
Mais tarde, Jeremias se ergue contra a excessiva autoconfiança dos judeus do Sul,
que sobreviveram à invasão assíria. Eles pensavam que as promessas feitas a Abraão
lhes dariam todas as seguranças.
Em 587, é a vez do povo da Judéia ser deportado, para Babilônia. Para um judeu
verdadeiro e sincero, perder a terra prometida significa perder a própria herança. Para
ele, nada pode ser pior:
À beira dos canais da Babilônia nos sentamos, e choramos com saudades de Sião. Como poderíamos
cantar um canto de Iahweh numa terra estrangeira? (Sl 137,1.4).
Nossa herança passou a estrangeiros, nossas casas a desconhecidos. Eis por que
nosso coração está doente: porque o Monte Sião está desolado (Lm 5,2.17-18).
Jeremias e Ezequiel anunciam que esse exílio terminará. Em sua carta aos
exilados, Jeremias lhes declara:
Construí casas e instalai-vos, casai-vos e gerai filhos e filhas. Porque assim disse
Iahweh: “Quando se completarem, para a Babilônia, setenta anos, eu vos visitarei e
realizarei a minha promessa de vos fazer retornar a este lugar [Jerusalém]” (Jr 29,5-
6.10).
Eles anunciam esse retorno à terra dos antepassados como um novo êxodo, uma
libertação da escravidão, mais gloriosa ainda que a saída do Egito:
Por isso, eis que dias virão em que não dirão mais: “Vive Iahweh, que fez subir os filhos de Israel da
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terra do Egito”, mas “Vive Iahweh, que fez subir e retornar a raça da casa de Israel da terra do Norte e
de todas as terras para onde os tinha dispersado, para que habitem em seu território” (Jr 23,7-8).
Em 539, Ciro, o conquistador persa, esmaga a grande Babilônia. A história das
promessas volta a caminhar para frente. O segundo Isaías interpreta essa vitória de
Ciro como um gesto de Deus em vistas da libertação de seu povo exilado:
Assim diz Iahweh ao seu ungido, a Ciro que tomei pela destra, a fim de subjugar a ele nações: “Foi
por causa de meu servo Jacó, por causa de Israel, meu escolhido, que eu te chamei pelo teu nome, e te
dou um nome ilustre, embora não me conhecesses. Abra-se a terra e produza a salvação, ao mesmo
tempo faça a terra brotar a justiça!” (Is 45,1.4.8).
Aqui também a volta à terra prometida aponta para uma realidade material: um
retorno à terra dos antepassados:
Eu os conduzirei à terra que dera a seus pais (Jr 16,15).
Eu vos ajuntarei de entre os povos, reunir-vos-ei das terras, nas quais fostes espalhados e vos darei a
terra de Israel (Ez 11,17).
Reconduzi-las-ei para o seu solo (Ez 34,13).
Assim voltarão os que foram libertados por Iahweh, chegarão a Sião gritando de alegria (Is 35,10).
Entretanto, a descrição desse retorno é de uma beleza tão grande, que ultrapassa
largamente qualquer realização terrena. Ele aponta para a entrada numa nova terra:
Ali haverá uma estrada – um caminho que será chamado caminho sagrado. O impuro não passará por
ele. Ele mesmo andará por esse caminho, de modo que até os estultos não se desgarrarão. Assim
voltarão os que foram libertados por Iahweh, chegarão a Sião gritando de alegria, trazendo consigo
alegria eterna; o gozo e a alegria os acompanharão, a dor e os gemidos cessarão (Is 35,8.10).
Criarei novos céus e nova terra; as coisas de outrora não serão lembradas, nem tornarão a vir ao
coração. Alegrai-vos, pois, e regozijai-vos para sempre com aquilo que estou para criar: eis que farei
de Jerusalém um júbilo e do meu povo uma alegria. Sim, regozijar-me-ei em Jerusalém, sentirei
alegria em meu povo. Nela não se tornará a ouvir choro nem lamentação (Is 65,17-19).
Como se pode esperar ver a realização dessa profecia neste mundo? Pois a terra
prometida corresponde ao paraíso:
Então habitareis na terra que dei a vossos pais: sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus. Então
dirão: “Esta terra que era uma desolação está agora como o jardim de Éden” (Ez 36,28.35).
O último livro da Bíblia, o Apocalipse, dará continuidade a esses textos, a fim de
descrever a nova terra e o final dos tempos (Ap 21-22).
De fato, quando se está no exílio há alguns anos, imagina-se a volta à terra natal
como algo definitivo, no qual nada será mais como antes. As profecias relativas ao
retorno procedem do sonho. Sonhamos... e também nos enganamos.
Mas Deus não deixará de cumprir um dia aquilo que é profetizado por esses
textos. Toda a palavra de Deus tem como ponto de partida as realidades deste mundo,
com vistas a dar previsões sobre um mundo definitivo. Notemos que é no tempo do
exílio que o autor Sacerdotal escreve o texto da criação em seis dias. Esse texto é
100
profético e anuncia o novo céu e a nova terra. Ele também se refere ao retorno à terra
de Israel: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra” (Gn 1,28).
• A nova aliança
Da parte de Deus, a aliança é para sempre (Gn 17,8). Deus jamais deixa de amar.
Se a aliança se rompe, é sempre por iniciativa de Israel. É isso que os profetas, desde
Oséias, afirmam por meio desta imagem tão recorrente: Israel é a esposa infiel,
Iahweh o esposo rejeitado e esquecido:
Processai vossa mãe, processai. Porque ela não é minha esposa, e eu não sou seu esposo (Os 2,4).
Como se transformou em prostituta, a cidade infiel? (Is 1,21).
Como a mulher que trai o seu companheiro, assim vós me traístes, casa de Israel (Jr 3,20).
Pois bem, prostituta, ouve a palavra de Iahweh: dilapidaste o teu dinheiro e descobriste a tua nudez em
tuas prostituições com os teus amantes e com todos os teus ídolos imundos (Ez 16,35-36).
Os profetas afirmam que Israel não é mais o povo de Deus. A fórmula da aliança
com Abraão afirmava, entretanto: “Vós sereis o meu povo e eu serei vosso Deus” (Gn
17,8-9). O que aconteceu?
Os profetas denunciam todo tipo de desvios em Israel: exploração dos pequeninos,
cerimônias religiosas e peregrinações sem sentido, uma relação falsa com Deus,
hipocrisia, observância de leis secundárias, em detrimento dos dez mandamentos...
Segundo Jeremias e Ezequiel, o coração humano é doente, o homem é por si mesmo
inconvertível, “a sua ferrugem não sairá com o fogo” (Ez 24,12).
Deus não pode mais ficar com um povo como esse e por isso se retira. Sua glória
abandona Jerusalém, que se tornou uma cidade cheia de crimes (Ez 7,8-11; 10,18-19;
11,22-24). A aliança é rompida.
Da parte do povo, o exílio é vivido como uma ausência de Deus: “Meu caminho
está oculto a Iahweh; o meu direito passa despercebido a Deus” (Is 40,27).
Contudo, também aqui a carta de Jeremias causa grande transformação. No
momento em que Deus parece ausente, ele pede ao povo para orar no exílio, longe da
terra prometida: “Procurai a paz da cidade, para onde eu vos deportei; rogai por ela a
Iahweh, porque a sua paz será a vossa paz” (Jr 29,7). Essas palavras salvarão Israel
no exílio. Para Jeremias, o futuro está no exílio. Deus acompanha sem cessar o seu
povo.
O exílio se torna um tempo de retorno a Deus. Mais uma vez, a esposa infiel volta
para seu marido:
Quero voltar ao meu primeiro marido, pois eu era outrora mais feliz do que agora (Os 2,9).
Iahweh cria algo de novo na terra: a Mulher rodeia seu Marido (Jr 31,22).
Deus vem mostrar mais uma vez sua aliança por meio de uma ação. Como na
ocasião da fuga do Egito, ele vem retirar Israel de Babilônia, reconduzindo-o de volta
para casa. Ele fará ainda mais ao perdoar suas faltas: “Perdoarei sua culpa e não me
lembrarei mais de seu pecado” (Jr 31,34). Assim, ele permanece fiel a sua promessa:
101
E tu, Israel, meu servo, Jacó, a quem escolhi, descendência de Abraão, meu amigo, tu, a quem tomei
desde os confins da terra, a quem chamei desde os recantos longínquos: “Tu és o meu servo, eu te
escolhi, não te rejeitei. Não temas, porque estou contigo” (Is 41,8-10).
A nova aliançaque havia sido anunciada é agora interiorizada. Não se seguirá
mais a Lei como um código vindo de fora. A Lei se tornará interior, a expressão de
amor entre dois seres:
Eis que dias virão em que concluirei com a casa de Israel (e com a casa de Judá) uma aliança nova.
Não como a aliança que concluí com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da
terra do Egito – minha aliança que eles próprios romperam, embora eu fosse o seu Senhor. Porque esta
é a aliança que concluirei com a casa de Israel depois desses dias. Porei minha lei no fundo de seu ser
e a escreverei em seu coração. Então serei seu Deus e eles serão meu povo (Jr 31,31-34).
Dar-vos-ei um coração novo, porei no vosso íntimo um espírito novo (Ez 36,26; Is 59,21; Ez 11,18-
21).
Aqui ainda, as características com as quais se descreve a aliança são irrealizáveis
neste mundo: até que a Lei se torne parte integrante de nosso ser, é preciso esperar
pela nova terra.
Conseqüentemente, as três promessas feitas a Abraão, que ora parecem perdidas,
são resgatadas e aprofundadas no tempo dos profetas: o povo eleito já não é mais
apenas uma raça, mas um povo de crentes; a terra prometida aponta para uma terra
nova; a nova aliança se define por uma transformação do coração.
As profecias, apesar de continuarem a se referir ao presente, anunciam as coisas
vindouras: “Acontecerá no futuro... Eis que dias virão...”.
Simone de Beauvoir dizia algo bastante penetrante a respeito disso: “A beleza da
terra prometida é a de prometer promessas novas”.9
3 – As promessas de acordo com os Sábios (500 a.C. – 0)
O resultado das promessas
Se os profetas viram o exílio como uma morte (Jr 29; Ez 37), eles identificaram o
retorno do exílio com a ressurreição de Israel (Ez 37, Is 40-55). Com esse retorno, as
promessas de Deus também readquirem vida: o pequeno resto, de volta à terra
prometida, multiplica-se novamente, tendo Deus lhe mostrado sua aliança, ao libertá-
lo de Babilônia.
No entanto, durante o período dos Sábios, a história de Israel continua a conter as
mesmas vicissitudes de antes. Não se realizam as grandes profecias portadoras da
mensagem de que a terra nova corresponderia ao paraíso.
Mais uma vez, os acontecimentos permitirão que as promessas tomem
profundidade e que se descubra o seu ponto de chegada. Os sábios não são somente
os repetidores dos profetas, mas revelam como se cumprirão as promessas e as
profecias. Eles anunciam o futuro definitivo.
Em primeiro lugar, no momento do retorno, os exilados são mal recebidos por
102
seus vizinhos, que se opõem à reconstrução de Jerusalém. Em seguida, dois
acontecimentos maiores vêm abalar a crença nas promessas: em 331, o Império grego
de Alexandre o Grande sucede ao Império persa. Conseqüentemente, a terra de Israel
volta a ficar sob tutela estrangeira, o que conduz a uma dura perseguição ao povo
judeu, entre 175 e 164, durante o domínio do rei selêucida Antíoco IV.
Consideremos essas três etapas com os três livros que lhes correspondem:
• O livro de Jó
O segundo Isaías havia predito um retorno para o pequeno resto dos exilados (Is
40,1-5; 54,12.13). O livro dos Provérbios, escrito por ocasião da volta do exílio,
afirmava igualmente que, permanecendo fiel a Deus, Israel receberia copiosas
bênçãos, ainda neste mundo (Pr 10,6.27; 11,31; 13,21).
Mas os anos passam e o pequeno resto fiel continua a ser perseguido. Israel vive
então uma profunda crise de fé, perguntando-se se ainda é o povo eleito e se Deus
está sempre com ele.
Os diálogos do livro de Jó, escritos por volta de 450, ilustram essa situação de
Israel. O autor coloca em cena um homem íntegro, fiel a Deus e que é, no entanto,
atingido por todos os males. De fato, é isso que Israel vive após o exílio.
As grandes transformações ocorridas no tempo dos Sábios
103
1 – Após o retorno do exílio, em 538, os judeus encontram dificuldade para reconstruir o Templo e Jerusalém.
2 – Em 331, os Gregos derrotam os persas e conquistam o país dos judeus.
3 – De 175 a 164, Antíoco IV persegue os judeus. Muitos são martirizados.
O livro é um grande grito. Jó clama sua inocência e quer questionar o próprio
Deus sobre a injustiça que lhe fizeram.
Indo ao encontro do livro dos Provérbios, o livro de Jó afirma que a fidelidade a
Deus não é gratificante neste mundo. Aquele que é fiel a Deus não é cumulado de
favores:
Este morre em pleno vigor, de todo tranqüilo e em paz. Aquele morre com alma amargurada, sem ter
saboreado a felicidade. E, contudo, jazem no mesmo pó, cobrem-se ambos de vermes (Jó 21,23-26).
Jó afirma que o mundo é malfeito, que inocentes são atingidos e que “nas tendas
dos ladrões reina Paz” (Jó 12,6).
Ora, exprimindo-se assim, Jó paradoxalmente “fala bem de Deus” (Jó 42,7-8).
Com efeito, ele não admite que Deus seja mau e, quanto mais reivindica um mundo
melhor, mais revela uma idéia correta de Deus.
O autor do livro de Jó leva em conta o sofrimento de Israel após o exílio. Mas
proíbe Israel de duvidar da eleição e da aliança de Deus, de sua vitória sobre o mal e
de seu desígnio final (Jó 42,2-6).
Por ora, entretanto, Israel não tem todas as respostas. Por isso, Deus lhe diz: Olha
a criação. É verdade que há desordem, mas o sol se levanta a cada manhã. Há
ordem apesar da desordem, e portanto, alguém mais Poderoso que o mal (Jó 38).
O final do livro anuncia que Jó obtém a restituição de seus bens. O futuro
permanece luminoso, mas continua sendo terreno.
• O livro do Eclesiastes (Coélet)
O Eclesiastes se situa uns duzentos anos após o exílio, por volta de 320 a.C.,
pouco depois da queda do Império persa, que era bastante favorável aos judeus. É o
tempo da expansão do Império grego, com as conquistas de Alexandre, o Grande. O
território de Israel é novamente ocupado.
Primeiro foram os assírios, em seguida os babilônios, depois os persas e agora, os
gregos! Coélet está desiludido. A História não muda. Por isso ele não quer viver na
ilusão. Correr atrás do vento não lhe interessa. Duzentos anos se passaram, desde a
promessa dos profetas referente a um povo novo, uma nova terra, uma nova aliança.
Logo, Coélet afirma:
Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O sol se levanta, o sol se deita,
apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O que foi, será, o que se fez, se tornará a
fazer: nada há de novo debaixo do sol ! (Ecl 1,4-9).
Essa frase é de extrema importância. Coélet vem dizer a Israel que não adianta
esperar a nova terra neste mundo – debaixo do sol –, o que consiste numa grande
104
ilusão.
Dessa maneira, ele contesta a interpretação de uma realização terrena das
profecias e das promessas de Deus. Para ele, “tudo é vaidade e correr atrás do vento!”
(Ecl 1,14).
É evidente que ele crê nas promessas. Porém, desconhece onde e quando elas hão
de se realizar, ignorando, assim, a sabedoria e o plano final de Deus:
Tudo o que Deus fez é apropriado em seu tempo. Também colocou no coração do homem o conjunto
do tempo, sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim (Ecl
3,11).
Com ele se desenha um tempo do fim.
Esse sábio faz com que as promessas e as profecias dêem um salto extraordinário,
ao afirmar que é fora da terra e do tempo que elas se cumprirão. Tudo o que se refere
a este mundo é frágil e efêmero. Tudo passa, de modo que para tudo há um tempo:
“Tempo de nascer e tempo de morrer... Tempo de chorar e tempo de rir...” (Ecl
3,2.4). O homem, como o animal, “volta ao pó” (Ecl 3,20). Conseqüentemente, é
“vão” e ilusório – “vaidade das vaidades” (Ecl 1,1) – esperar pela realização terrena
das promessas e das profecias.
O alcance das afirmações de Coélet é enorme. Ele prepara a perspectiva do final
dos tempos e de uma transformação do pó dos túmulos, num outro mundo. Assim, ele
representa uma etapa decisiva na compreensão do projeto final de Deus.
• O livro de Daniel
O livro de Daniel revela “o que acontecerá no fim dos dias”. De fato, trata-se de
um apocalipse escrito entre 175-164, no tempo da dura perseguição de AntíocoIV,
que quer impor os costumes gregos aos judeus: ele os força a comerem alimentos
proibidos e a adorarem a estátua de Zeus, que havia mandado colocar no Templo de
Jerusalém. Ora, muitos judeus vão preferir morrer a ser infiéis à Lei de Moisés ou às
tradições de Israel. O acontecimento da morte dos mártires, que se mantêm fiéis até o
fim, coloca em questão a fidelidade do próprio Deus. Em tal contexto, Israel chegará
a afirmar, no fim do Antigo Testamento, que haverá uma ressurreição dos mortos.
Assim, a morte passa a ser vista como uma espécie de sono:
E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o
opróbrio, para o horror eterno (Dn 12,2).
O livro de Daniel revela que as promessas feitas a Abraão se realizarão no
momento da ressurreição dos mortos ! Estamos no auge do Antigo Testamento. As
três promessas de um povo numeroso, de uma terra e de uma aliança, dizem respeito
ao mundo que virá.
Tal é a trajetória das promessas de Deus no Antigo Testamento. Tendo surgido de
maneira tão humilde por ocasião da vida de Abraão, elas foram assumindo pouco a
pouco dimensões infinitas. A terra prometida não é mais somente a terra de Israel, de
105
modo que a aliança de Deus se manifestará um dia por meio de uma ação mais do
que grandiosa: ele fará seu povo passar para o mundo da ressurreição!
É no final do Antigo Testamento que aprendemos como se realizará o projeto da
criação perfeita e do paraíso, cuja continuidade está presente nas promessas a Abraão.
Tendo transferido a realização das promessas para o mundo que há de vir, Israel
não poderia ir mais longe. Por isso, havia se cumprido o tempo em que o Messias
poderia vir a este mundo.
Esse encaminhamento das promessas no Antigo Testamento se casa com o próprio
desenrolar de nossas vidas. Primeiramente, nós sonhamos com bens materiais e
terrenos. Algumas vezes, chegamos a obtê-los, como no tempo de Josué. No entanto,
estamos sempre esperando pelo novo, como no tempo dos Profetas. Um belo dia, nós
percebemos, como Coélet, que nem a terra ou o tempo, poderão realizar nossos
desejos mais profundos. Concluímos, então, como Daniel, que é preciso uma
ressurreição dos mortos para responder a tudo isso. Tal é o limiar da esperança: que a
morte seja vencida!
Ora, por meio de um acontecimento concreto – a ressurreição de um homem! –,
Deus nos dá a garantia de que esse mundo vindouro existe:
4 – As promessas para Jesus
O cumprimento das promessas
Jesus não vem “revogar a Lei ou os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento”
(Mt 5,17). Numa só frase, ele resgata toda a esperança judaica: “Cumpriu-se o tempo
e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). O
Reino de Deus é tudo ao mesmo tempo: a criação na qual tudo é bom, o paraíso, a
terra prometida, o mundo da ressurreição.
Por isso, enquanto em seu tempo a terra de Israel permanece ocupada, desta vez
pelos romanos, Jesus não busca promover uma conquista terrena que seria conduzida
pelas armas. Sua verdadeira batalha se efetua contra as forças do mal.
Jesus não só anuncia a esperança do Reino de Deus, como também a vive,
esperando pelo momento da entrada na terra prometida. Enquanto Deus Filho feito
homem, ele espera ser salvo por Deus Pai e não finge viver nossa condição humana
limitada.
Quando Deus o ressuscita, as três promessas feitas a Abraão se realizam para ele:
sendo a verdadeira descendência de Abraão que confia em Deus, ele entra na terra
prometida, onde Deus está para sempre com ele.
• O verdadeiro filho de Abraão
Desde o início de seu evangelho, Mateus indica que Jesus é o verdadeiro filho de
Abraão: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1).
Esse título não quer dizer apenas que Cristo pertence à raça de Abraão, mas que
ele é fiel e crente como Abraão. Com efeito, os profetas apresentaram a fidelidade
106
como o distintivo do novo povo de Deus. O próprio Jesus havia distinguido bem
aqueles que se diziam filhos de Abraão apenas pelo sangue dos que eram
verdadeiramente filhos pela fé: “Se fôsseis filhos de Abraão, praticaríeis as obras de
Abraão” (Jo 8,39).
Na verdade, a expressão “Jesus, filho de Abraão” significa que só Cristo é a
verdadeira descendência, o verdadeiro povo de Deus:
As promessas foram asseguradas a Abraão e à sua descendência. Não diz: “e aos descendentes”, como
referindo-se a muitos, mas como a um só: e à tua descendência, que é Cristo (Gl 3,16).
Portanto, Jesus é por si só o verdadeiro herdeiro das promessas, como ele mesmo
deixa claro na parábola dos vinhateiros homicidas:
Os vinhateiros, porém, vendo o filho, confabularam: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e
apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38).
É ele o primeiro a herdar as promessas e é por ele que elas se cumprem. Quanto a
nós, somos “herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8,17).
Jesus é o verdadeiro filho de Abraão porque confiou totalmente a Deus seu destino
final: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Essa atitude o constitui
ao mesmo tempo novo Adão e verdadeiro filho de Abraão. As duas primeiras partes
da Bíblia se encontram assim unificadas na pessoa de Jesus.
• Ele entra na verdadeira terra prometida
Jesus conhece a servidão da nossa condição humana, já descrita em Gênesis 3-11 e
retomada nos três grandes momentos de desespero da história de Israel, vislumbrados
por nós: a escravidão no Egito (a Lei), o exílio em Babilônia (os Profetas) e a
perseguição de Antíoco IV (os Sábios).
Aliás, ele revela claramente ter assumido esses momentos de miséria de Israel, ao
se apropriar ele mesmo dos três títulos dados a Israel em tais períodos. De fato, Israel
é chamado “Filho” por ocasião da saída do Egito (Ex 4,22); “Servo”, durante o exílio
em Babilônia (Is 41,8; 44,1) e “Filho do homem”, quando da perseguição de Antíoco
(Dn 7,13). Assim, por meio das misérias de Israel, ele assume nossas limitações
humanas.
Durante toda a sua vida terrena, ele “desejou ardentemente” (Lc 22,15) passar de
nosso mundo limitado ao mundo de Deus. Pois, dessa vez, não se trata somente de
passar de um país a outro, mas de um mundo a outro. Ele vive o êxodo decisivo:
“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste
mundo para o Pai” (Jo 13,1).
Para ele, a verdadeira terra prometida é uma pessoa: “Saí do Pai e vim ao mundo;
de novo deixo o mundo e vou ao Pai” (Jo 16,28).
A ressurreição de Cristo é o selo, a verdadeira assinatura de Deus sobre todas as
promessas e profecias, pois estas têm como ponto de chegada a afirmação da
ressurreição dos mortos.
107
Em tal acontecimento, Deus confirma que a esperança do paraíso, expressa na
epopéia de Gilgamesh e assumida como a esperança judaica, e a própria esperança de
Jesus não são vãs. A verdadeira terra prometida existe. O essencial já se realizou:
alguém fez a travessia para a verdadeira terra de repouso, na qual não há mais
angústia, nem choro, nem dor. “Primogênito dos mortos” (Cl 1,18; At 26,23), Jesus
“atravessou os céus” (Hb 4,14) e “está no seio do Pai” (Jo 1,18). Para ele, a promessa
da terra está realizada. Conseqüentemente, ele é “o Caminho” (Jo 14,5).
• Para ele, a aliança é definitiva
Deus mostrou sua aliança agindo na história de Israel. Jesus viveu essa fé na
aliança com Deus, de modo particular no momento difícil de sua Paixão: “Eis que
chega a hora em que vos dispersareis, cada um para o seu lado, e me deixareis
sozinho. Mas eu não estou só, porque o Pai está comigo” (Jo 16,32).
Nesse momento, ele “apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e
lágrimas, àquele que o podia salvar da morte” (Hb 5,7). Ao longo de toda a sua
existência, ele permanece em relação com Deus. Ele é o fiel perfeito.
E Deus age em seu favor, “libertando-o das angústias do Hades” (At 2,24). Ele é o
primeiro a experimentar o que é ser salvo definitivamente por Deus.
Depois de sua ressurreição, não se pode conceber uma realização mais perfeita da
aliança de Deus que não seja aquela que se realizou em Jesus. Deusestá com ele, que
não sofre nem morre mais. Ele superou todas as nossas limitações humanas. O Filho
agora é um homem para sempre, um homem glorificado.
Portanto, as três promessas feitas a Abraão se cumprem em Jesus: verdadeiro filho
de Abraão, ele ingressou na terra prometida, mediante uma aliança eterna. Ele
mesmo, a fim de estabelecer sua fé na ressurreição dos mortos, referiu-se à expressão
que evocava o Deus das promessas, o Deus pessoal dos patriarcas: “Eu sou o Deus de
Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó” (Mc 12,26).
Aqueles que testemunharam a ressurreição de Jesus interpretam igualmente tal
acontecimento como a realização da promessa: “O Deus de Abraão, de Isaac, de
Jacó, o Deus de nossos pais glorificou seu servo Jesus” (At 3,13).
Assim, “todas as promessas de Deus tiveram nele o seu sim” (2Cor 1,20).
5 – As promessas para nós
A atualidade das promessas
Os textos do Novo Testamento retomam os do Antigo e afirmam que os fiéis de
hoje são a verdadeira descendência de Abraão, que a entrada na terra prometida
ainda não se concretizou e que a aliança se realizará plenamente no devir.
• Nós somos a descendência de Abraão
Se São Paulo afirma que somente o Cristo é a verdadeira descendência prometida
a Abraão e o herdeiro das promessas (Gl 3,16), ele não deixa de acrescentar que todos
108
aqueles que crêem no Cristo formam com ele o povo de Deus:
Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus (Gl 3,26)
Se vós sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa (Gl 3,29).
Como nos Profetas, a descendência de Abraão não diz respeito apenas a uma raça,
mas a uma comunidade de fiéis:
E não é que a palavra de Deus tenha falhado, pois nem todos os que descendem de Israel são Israel,
como nem todos os descendentes de Abraão são seus filhos, mas de Isaac sairá uma descendência que
terá teu nome (Rm 9,6).
Sabei, portanto, que os que são pela fé são filhos de Abraão (Gl 3,7).
É por isso que os não-judeus, os pagãos, “são co-herdeiros, membros do mesmo
Corpo e co-participantes da Promessa em Cristo Jesus, por meio do evangelho” (Ef
3,6). Assim se realiza a promessa de um povo numeroso:
Prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, a Escritura preanunciou a Abraão esta boa nova: Em
ti serão abençoadas todas as nações. De modo que os que são pela fé são abençoados juntamente com
Abraão, que teve fé (Gl 3,8).
Jesus anuncia para todos a realização futura da promessa de uma descendência
numerosa, anteriormente feita aos patriarcas de Israel:
Eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa no Reino dos Céus, com
Abraão, Isaac e Jacó (Mt 8,11).
A realização dessa promessa está em andamento. Ela se cumprirá definitivamente
no mundo que há de vir:
Eis que vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e
línguas (Ap 7,9).
Tamanho é o alcance final da posteridade de Abraão, tão numerosa quanto as
estrelas do céu (Gn 15,5).
• Nossa entrada na terra prometida ainda não se realizou
Pedro, em sua primeira epístola, afirma que somos “estrangeiros e viajantes neste
mundo” (1Pd 2,11), o que nos faz lembrar que Abraão ficou por tempo determinado
na terra prometida (Gn 17,8; 28,11; 36,7; 37,1; 47,9; 26,3; 23,4). Assim, somos
peregrinos como todos os nossos pais (cf. Sl 39,13).
Jesus retomou a promessa da terra prometida: “Felizes os mansos, porque
herdarão a terra” (Mt 5,4). Ele a associou ao paraíso que Deus quer nos dar desde o
início:
Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do
mundo (Mt 25,34).
109
A entrada na terra prometida de repouso ainda não se realizou. Retomando o texto
de Josué, a epístola aos Hebreus declara: “Ora, sendo que ainda continua a promessa
de entrar no seu repouso...” (Hb 4,1). Esse único versículo bastaria para mostrar o
caráter profético do livro de Josué.
Ora, esse repouso da terra prometida é associado ao “repouso de sábado”, que
“ainda fica em perspectiva para o povo de Deus” (Hb 4,8-9). Ele equivale ao repouso
na criação perfeita, na qual toda a obra de Deus estará concluída (Gn 1).
Portanto, a verdadeira terra prometida ainda está por vir:
Na fé, todos estes morreram, sem ter obtido a realização da promessa, depois de tê-la visto e saudado
de longe, e depois de se reconhecerem estrangeiros e peregrinos nesta terra. Pois aqueles que assim
falam demonstram claramente que estão à procura de uma pátria. Eles aspiram, com efeito, a uma
pátria melhor, isto é, uma pátria celeste (Hb 11,9-17).
O ponto final dessa promessa se encontra novamente no Apocalipse: “Vi então um
céu novo e uma nova terra” (Ap 21,1). É no final dos tempos que todo o povo dos
que crêem entrará na verdadeira terra prometida.
• A aliança ainda não está concluída
A partir de agora, a aliança de Deus se iniciou para nós: “Quem escuta a minha
palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento, mas
passou da morte à vida” (Jo 5,24).
Um dia, Deus provará que realmente está conosco, quando nos fizer passar pela ressurreição: “Aquele
que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais” (Rm 8,11).
A grande intervenção de Deus ainda está por vir. Um dia, nós viveremos plenamente a aliança com
Deus.
No mundo da ressurreição, haverá efetivamente intimidade entre Deus e nós: uma
relação tranqüila, amorosa. É por isso que o Apocalipse recupera a imagem da
“esposa que se enfeitou para seu marido” (Ap 21,2).
E a Bíblia termina assim:
Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-
eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem
luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram (Ap 21,3-4).
A fórmula da aliança se torna ainda mais pessoal com estas palavras: “O vencedor
receberá esta herança, e eu serei seu Deus e ele será meu filho” (Ap 21,7).
As três promessas feitas a Abraão não se realizaram ainda para nós. Um dia,
como revela o Apocalipse, seremos uma multidão imensa, incontável, numa terra
nova, e Deus estará definitivamente conosco.
Conclusão
Esse sobrevôo do Gênesis ao Apocalipse nos indica que as promessas:
110
– realizaram-se num primeiro momento sobre a terra, desde Abraão e Josué,
– foram renovadas pelos profetas,
– foram transferidas para o mundo da ressurreição pelos sábios,
– foram cumpridas por Jesus,
– ainda hão de se cumprir para nós.
Longe de estarem fora de moda e ultrapassadas, elas se referem ao nosso presente
e ao nosso futuro.
O autor da epístola aos Hebreus, escrevendo após a ressurreição de Jesus – para
este período da História que é o nosso –, lembra que nossa esperança está fundada
sobre algo sólido e seguro, sobre a promessa de Deus:
Desejamos somente que cada um de vós demonstre o mesmo ardor em levar até o fim o pleno
desenvolvimento da esperança, para não serdes lentos à compreensão, e sim imitadores daqueles que
pela fé e pela perseverança recebem a herança das promessas.
Com efeito, quando Deus fez a promessa a Abraão, não havendo um maior por quem jurasse, jurou
por si mesmo, dizendo: “Eu te cumularei de bênçãos e te multiplicarei grandemente”. Abraão foi
perseverante e viu a promessa realizar-se.
Os homens juram por alguém mais importante, e para impedir qualquer contestação recorrem à
garantia do juramento. Por isso, Deus mostrou com insistência aos herdeiros da promessa o caráter
irrevogável da sua decisão, e interveio com juramento, a fim de que por dois atos irrevogáveis, nos
quais não pode haver mentira por parte de Deus, nos comuniquem encorajamento seguro, a nós que
tudo deixamos para conseguir a esperança proposta.
A esperança, com efeito, é para nós qual âncora da alma, segura e firme, penetrando para além do véu,
onde Jesus entrou por nós, como precursor, feito sumo sacerdote para o éon, segundo a ordem de
Melquisedec (Hb 6,11-20).
Reler os textos de Gênesis 12-50 pode ser uma grande fonte de esperança paraos
dias de hoje. Escritas em linguagem simples, a partir de desejos bastante cotidianos,
as promessas podem vir ao nosso encontro quando estamos à procura do sentido de
nossa existência, uma vez que elas têm como resultado o mundo da ressurreição.
Talvez Sara tenha dito a palavra exata, que também diremos quando chegarmos à
vida eterna: “Deus me deu motivo de riso, todos os que o souberem rirão comigo”
(Gn 21,6).
Depois de termos acompanhado a trajetória geral das promessas feitas a Abraão,
do Gênesis até o Apocalipse, poderemos empreender o estudo do livro do Êxodo,
para seguirmos, passo a passo, seu desenvolvimento. Logo constataremos que a
história de Israel prefigura bem a vida de cada um de nós.
1 Introduction à la Génèse. In: TOB (Traduction Oecuménique de la Bible). Paris: Cerf, 1975, p. 39 [trad.
em port.: TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia). São Paulo, Paulinas, 1996].
2 AUZOU, Georges. De la servitude au service, 2.ª ed. Paris: Éditions de l’Orante, 1964, p. 114.
3 Introduction à la Génèse, In: TOB (Traduction Oecuménique de la Bible). Paris: Cerf, 1975, p. 39 [trad.
em port.: TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia). São Paulo, Paulinas, 1996].
111
4 BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002, p. 82, nota d.
5 VON RAD, Gerhard. Théologie de L’Ancien Testament. Génève: Labor et Fides, 1963, p. 147 [trad. em
port.: Teologia do Antigo Testamento, 2.ª ed. São Paulo: Aste/Targumim, 2006].
6 GELIN, Albert. Les idées maîtresses de l’Ancien Testament. Collection Foi vivante. Paris: Cerf, 1966, p.
44.
7 VAUX, R. de. La Génèse. Paris: Cerf, 1962, p. 34.
8 VON RAD, Gerhard. Théologie de L’Ancien Testament. Génève: Labor et Fides, 1963, p. 147 [trad em
port.: Teologia do Antigo Testamento, 2.ª ed. São Paulo: Aste/Targumim, 2006].
9 BEAUVOIR, Simone de. Pyrrhus et Cinéas. Paris: Gallimard, 1944, p. 87.
112
2
O ÊXODO
• Seguir, passo a passo, o encaminhamento das promessas
Não avançamos aparentemente nada... Só percorremos o livro do Gênesis: de 1 a
11 e de 12 a 50... Entretanto, as palavras importantes que recolhemos nele,
permitiram-nos fazer uma viagem do início ao fim da Bíblia! Essas palavras
constituem pegadas preciosas, que procuraremos seguir, garantindo o bom percurso
do nosso estudo.
Quanta gente diz: “Eu comecei a ler a Bíblia, mas parei porque me senti perdido!”.
Mas por que a leitura da Bíblia seria complicada, uma vez que Deus conserva nela
um único projeto, o da criação perfeita, do paraíso, da terra prometida? Esse projeto,
como pudemos observar ao seguirmos a trajetória do Antigo Testamento, somente se
realizará com a ressurreição dos mortos. Nesse dia, Deus mostrará sua aliança com
toda a humanidade, como já mostrou com Jesus.
Agora que conhecemos o traçado geral de nosso itinerário, poderemos parar, ao
longo do percurso, em determinados pontos, nos quais muitas descobertas ainda nos
restam a fazer. Assim, os livros do Êxodo, de Josué, dos Juízes e de Samuel nos
esperam.
Em primeiro lugar, poderemos acompanhar, através dos acontecimentos, a
realização terrena das promessas feitas aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó.
Observaremos como os filhos de Jacó, tendo se tornado escravos no Egito,
conseguiram voltar à terra prometida. Esse será o conteúdo dos livros do Êxodo, de
Josué e dos Juízes.
Depois, ao fim dessa longa etapa, os livros de Samuel nos revelarão três novas
promessas, dirigidas agora a Davi, relativas à cidade de Jerusalém, ao Templo e ao
rei. Descobriremos, assim, as três outras palavras-chave cujo sentido se aprofundará
incessantemente até o fim do Apocalipse, tanto quanto as palavras relativas às
promessas dirigidas a Abraão.
• Significação da palavra “êxodo”
A palavra êxodo vem do grego: ex (do lado de fora) e odos (caminho). Ela evoca a
transferência de um lugar para outro. O livro do Êxodo faz jus ao nome, que na
verdade abrange dois acontecimentos ali relatados: a saída do Egito e a peregrinação
pelo deserto, rumo à terra prometida.
• Importância do livro do Êxodo
O livro do Êxodo é fundamental, fornecendo um grande número de temas que
113
repercutem por toda a Bíblia: a revelação do nome de Deus, a libertação, a Páscoa, a
travessia pelo mar, a peregrinação pelo deserto, a nuvem, o maná, a água do rochedo,
a aliança no Sinai, a revelação dos dez mandamentos, o pecado, o culto divino e, de
um extremo a outro, a grande figura de Moisés, a coluna religiosa de Israel e aquele
cujos traços serão reproduzidos pelo Messias...
• Situação do livro do Êxodo
O livro do Êxodo é tão revelador de Deus, que muitos preconizam que se comece
a explicação da Bíblia por ele. É verdade que encontramos aí aspectos essenciais do
Deus da Bíblia: um Deus que se revela na História, por meio dos acontecimentos,
revelando-se ainda como libertador.
Porém, começando pelo Êxodo, corremos o risco de isolá-lo do livro do Gênesis,
que o precede, e do livro de Josué, que o sucede. Conseqüentemente, corremos o
risco de não discernir o grande projeto de Deus para toda a humanidade, tal como
aparece em Gênesis 1-11 e tal como é resgatado pelas promessas dadas a Abraão em
Gênesis 12-50. São essas promessas que se realizam mediante os acontecimentos
relatados nos livros do Êxodo e de Josué. Portanto, é melhor começar pelo início, a
fim de se evitar uma distorção ou restrição da revelação de Deus, tal como nos foi
transmitida pelos redatores da Bíblia.
Estes não deixaram de firmar os laços entre o Gênesis, o Êxodo e o livro de Josué.
Assim, se por um lado eles nos revelam, por meio do Êxodo, que Deus assume o
nome de Iahweh que fez sair do país do Egito, da casa da servidão – nome que se
mantém ao longo de todo o Antigo Testamento –, por outro lado esse nome não vem
tirar o lugar do nome de Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus das promessas.
Bem pelo contrário, esses dois nomes permanecem lado a lado, justamente no
momento em que Deus se apresenta a Moisés:
Assim dirás aos Israelitas: “Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o
Deus de Jacó me enviou até vós. É o meu nome para sempre, e é assim que me invocarão de geração
em geração” (Ex 3,15).
É justamente pelo fato de ser o Deus das promessas, que Deus salva Israel do
Egito. Ele age porque prometeu permanecer com Abraão e seus descendentes. Assim,
todo o livro do Êxodo está logo de cara ligado às promessas: “E Deus ouviu os seus
gemidos; Deus lembrou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacó” (Ex 2,24).
Os eventos do Êxodo ocorrem para que se cumpra a promessa. Do ponto de vista
teológico, se estamos unidos à promessa, estamos unidos à gratuidade de Deus, ao
seu amor. Ora, se Deus ama, é evidente que ele quer salvar. Ele não poderia pretender
estar conosco se não agisse no sentido de nos resgatar de nossa miséria e nos
conduzir à terra prometida. O Deus das promessas se torna, portanto, o Deus do
Êxodo.
• O Êxodo, início da História de Israel
114
O que começa aqui é a história de um povo:
Com o Êxodo, efetiva-se o nascimento e a formação inicial do povo de Deus. No que se refere ao
tempo que o precedeu, conhecia-se, graças às lembranças que se conservaram sobre os patriarcas: uma
família, um clã. Mas é por meio da saída do Egito e da aliança do Sinai que Israel se estabelece como
povo.1
O Êxodo traz à memória três grandes acontecimentos que determinaram
propriamente a fundação do povo de Israel e que marcam três etapas em direção à
terra prometida: a saída do Egito, a marcha pelo deserto e a aliança do Sinai. Tais
acontecimentos são tão importantes, que ainda hoje três festas são celebradas pelos
judeus em memória deles: a Páscoa, como celebração pela saída do Egito; a Festa
das Tendas, pela peregrinação no deserto, e o Pentecostes, “que se tornou, após o
exílio, uma lembrança da entrega da Lei a Moisés, no Monte Sinai”.2
• O Êxodo, a descrição de nossa vida
O Antigo Testamento vem nos encontrar em nosso percurso individual quando, ao
lermos a palavra Israel, sentimo-nos referidos por ela. Algo que nos parecia uma
velha história, torna-se então a descrição de nossa própria vidae o anúncio de nosso
futuro. Tamanha é a originalidade e o poder da palavra de Deus: ela nos alcança, por
intermédio da história de um pequeno povo. O Antigo Testamento consiste numa
imensa parábola que descreve e orienta nossa própria vida.
Em primeiro lugar, a Bíblia nos revela que existe, diante de nós, de acordo com a
bela expressão de Divo Barsotti, “a terra prometida do paraíso de Deus”.3 Essa é a
esperança fundamental já expressa no Gênesis. Trata-se da nossa “destinação”, de
nosso “destino”. Do ponto de vista de Deus, trata-se até de uma “predestinação”, que
é absolutamente positiva. O Novo Testamento afirma que estamos destinados a
“entrar na liberdade da glória” (Rm 8,21) e que Deus “nos predestinou para sermos
seus filhos adotivos por Jesus Cristo” (Ef 1,5).
Essas perspectivas já estão presentes no livro do Êxodo! Com efeito, desde o
início, Deus declara que Israel é seu filho: “Dirás a Faraó: Assim falou Iahweh: o
meu filho primogênito é Israel” (Ex 4,22).
Extraordinária afirmação! Ela orienta não apenas os acontecimentos que sobrevêm
no Êxodo, mas toda a continuação dos acontecimentos, neles compreendida a
ressurreição de Jesus e nossa própria ressurreição!
O título de filho carrega consigo outros títulos. De fato, Israel é designado como o
primogênito. Portanto, ele também é o herdeiro. Ora, a herança, no Antigo
Testamento, como também no Novo Testamento, é a terra prometida, e finalmente, o
mundo da ressurreição.
Além do mais, esse título de primogênito implica que Israel é o eleito de Deus
entre todas as nações.
Mais profundamente ainda, sendo o filho de Deus, Israel é seu bem-amado, o que
115
foi dito pelo profeta Oséias, aludindo ao período em que Israel era escravo no Egito,
no tempo de “sua infância”: “Quando Israel era menino, eu o amei e do Egito chamei
meu filho” (Os 11,1).
Esse texto de Oséias nos indica o olhar com que Deus observava Israel, quando de
sua escravidão. Assim, como filho bem-amado de Deus, Israel é chamado. Ele é
eleito. Deus o chama para o livrar do Egito e lhe dar a herança da terra prometida.
Consideremos a impressionante concentração de títulos dados a Israel no
momento do Êxodo: o filho, o bem-amado, o herdeiro, o eleito. Esses títulos se
aplicarão de modo único e pleno a Jesus. O próprio Deus os atribui a ele no momento
de seu batismo e de sua transfiguração (Mt 3,17; 17,5; Mc 1,11; 9,7; Lc 3,22; 9,35).
Jesus os aplica a si mesmo. Ele se refere a Deus como a seu Pai e se declara herdeiro.
E os autores do Novo Testamento atribuirão esses títulos insignes a toda a
comunidade dos fiéis! O Êxodo revela, assim, o modo pelo qual Deus olha Israel,
olha Jesus e nos olha! Eis que estamos revestidos de uma dignidade incomparável, o
que configuraria uma grande fonte de esperança, se, depois de Israel e de Jesus, nós
também ousássemos nos perceber como filhos, herdeiros, eleitos, bem-amados!
Todavia, mesmo sendo filhos, Israel e Jesus não fogem à miséria da vida presente.
Nós também não. E o livro do Êxodo continua a nos encontrar.
A seqüência dos acontecimentos, com efeito, descreve bem nossa vida. Assim, no
momento de seu nascimento, Israel não se encontra na terra prometida, mas no Egito,
num país estrangeiro. Já como filho vindo ao mundo, ele conhece a dor e chora. Por
meio de um gesto primeiro – a saída do Egito –, Deus o liberta e o salva, mas em
esperança. Essa saída se efetua pela passagem através da água. São Paulo vê aí a
prefiguração do batismo: “Os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, todos
atravessaram o mar e, na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés” (1Cor
10,1). A saída do Egito é, portanto, uma primeira libertação, mas Israel não estará
verdadeiramente salvo, a não ser quando entrar na terra prometida, no tempo de
Josué. Até que isso aconteça, ele vivencia a longa peregrinação pelo deserto, durante
40 anos, o que representa significativamente a vida humana. Ora, logo depois de seus
primeiros passos pelo deserto, assim como a criança cheia de manhas, Israel começa
a murmurar, a endurecer a cabeça e a adorar outros deuses. Pacientemente, Deus o
acompanha e lhe dá a Lei, para que eles permaneçam em aliança e Israel ingresse na
terra prometida a seus antepassados.
Além disso, se não nos esquecermos do livro que prepara o Êxodo e do livro que o
sucede – os livros do Gênesis e de Josué –, veremos que nossa vida está inscrita no
grande projeto de Deus, projeto cujo desenrolar está no próprio encaminhamento das
promessas:
116
Aqui nossa vida está representada. A palavra de Deus nos é dirigida por
intermédio da pequena história de um pequeno povo. Portanto, a Bíblia nunca é
abstrata: ela tem o formato de um relato. Ela narra. E por meio desse relato, Deus fala
a todos, em todas as épocas. São Paulo, a respeito dos eventos narrados pelo Êxodo,
declara:
Estas coisas lhes aconteceram para servir de exemplo e foram escritas para a nossa instrução, nós que
fomos atingidos pelo fim dos tempos (1Cor 10,11).
Certamente, fica difícil ao homem contemporâneo recorrer a um livro como o
Êxodo para iluminar sua vida. A história que nele é narrada parece tão pequena,
irrisória e velha... Porém, a linguagem do Êxodo manifesta a discrição de Deus e seu
enorme respeito pela liberdade humana:
É impressionante, senão maravilhoso, que a história sagrada continue sendo uma história
independente, uma história que tem poucos laços com a história do mundo. No seio da História da
humanidade se desenrola uma História Sagrada que o mundo não conhece. Ninguém fala de Moisés
além dos escritores inspirados por Deus. E esta é a História Sagrada: o mistério de um Deus que age
na humildade, porém, secretamente, penetra, invade e transforma.4
Sobre a saída do Egito, nenhuma menção é feita nos anais egípcios. Não se pode
nem mesmo estabelecer com exatidão a época (relativa a qual Faraó!) em que tais
fatos ocorreram. De acordo com a edição francesa de 1956 da Bíblia de Jerusalém, o
episódio do Êxodo teria se passado na época de Merneptah (1224-1214) e a opressão
do povo, durante o reinado de Ramsés II (1290-1224), ou então, e talvez melhor, o
Êxodo teria acontecido durante a segunda metade do longo reinado de Ramsés II
(1290-1224) e o período de opressão se situaria no reinado de Séti Primeiro (1310-
1290) (p. 6). A Tradução Ecumênica da Bíblia (1975) menciona igualmente o nome
de Ramsés II: “O nascimento do povo foi um processo complexo que teria começado
por volta de 1250, durante o reinado de Ramsés II” (p. 16). Essa data aproximativa de
1250 antes de Cristo é a que se conserva nos estudos recentes. Contudo, ainda que os
historiadores um dia nos dessem a data exata da saída do Egito e os geógrafos, o local
exato da passagem pelo mar e o traçado preciso da marcha pelo deserto, nada
mudaria, pois não está aí a preocupação maior dos escritores da Bíblia. Sabemos,
117
aliás, que o primeiro escritor, o Javista, escreve durante o reinado de Salomão, por
volta de 950, ou seja, 300 anos após os acontecimentos. A distância que separa a
redação do livro do Êxodo e a realização histórica dos eventos que ele narra não é tão
considerável quanto a distância entre a existência histórica dos Patriarcas e a redação
do livro do Gênesis, porém não deixa de ser uma distância significativa:
Seria melhor dizer que “o livro do Êxodo é composto por História, em vez de
dizer: este livro é de História”.5
Nós vamos analisá-lo não apenas para reconstituir uma história passada, mas para
identificar nele o nosso presente e entrever o nosso futuro!
Caminhar passo a passo com Israel será partir à procura de nós mesmos, de nossa
identidade, do sentido de nosso itinerário:
Orígenes disse: “Não pense que esses acontecimentos se passaram há muito tempo e que nada de
parecido possa lhe acontecer hoje: tudo se realiza em você, espiritualmente...”.6
O estudo acompanhará as três grandes partes do livro do Êxodo:7
A) A fuga do Egito;
B) A peregrinação pelo deserto;
C) A aliança no Sinai.
A) A fuga do Egito
Esta parte vai do início do livro do Êxodo até o capítulo 15, versículo21. Oito
temas chamarão nossa atenção:
1 – a situação de Israel;
2 – o nascimento e o início da vida de Moisés;
3 – seu chamado e sua missão;
4 – a revelação do Nome de Deus;
5 – as “pragas” do Egito;
6 – a Páscoa;
7 – a passagem pelo mar;
8 – o cântico de Moisés.
1 – A situação de Israel
O final do Gênesis menciona que José, ministro do Faraó, conseguiu que seu pai
Jacó e seus onze irmãos viessem se estabelecer no Egito com suas famílias, num
118
período de grande fome. O Faraó lhes autorizou a habitar “a terra de Gessen” (Gn
47,5-6). Os primeiros versículos do Êxodo retomam esse episódio desta maneira:
Eis os nomes dos israelitas que entraram no Egito com Jacó; cada qual com sua família: Rúben,
Simeão, Levi e Judá, Issacar, Zabulon, e Benjamim, Dã e Neftali, Gad e Aser. José, porém, já estava
no Egito (Ex 1,1-5).
A expressão: “Eis os nomes...” equivale à expressão: “Eis as gerações...” e significa o início de uma
história. Portanto, se o Êxodo dá continuidade à história dos Patriarcas, essa história que se inicia
também é novidade, acontecimento, no sentido estrito da palavra, ou seja, algo que acontece e
aparece. Uma nova era se abre.8
Salientemos que essa lista de nomes dos doze filhos de Jacó é um pouco
modificada no primeiro capítulo do livro dos Números: os nomes de Levi e de José
não aparecem, de modo que a tribo de Levi, a dos sacerdotes, é citada separadamente
e o nome de José, substituído pelos nomes de seus dois filhos, Efraim e Manassés.
O Êxodo menciona que, ao chegarem ao Egito, os filhos de Jacó, com suas
famílias, “eram, ao todo, setenta pessoas” (Ex 1,5). Porém, esse número não deve ser
tomado ao pé da letra:
O autor Sacerdotal pretende designar um grupo particular mediante um número perfeito: “setenta”
pessoas, associadas aos “doze” nomes das futuras tribos. Não temos aqui um cálculo de
recenseamento, mas uma visão e uma apresentação de Israel como unidade, o núcleo étnico e
dinâmico que inaugura uma partida.9
Depois, subitamente, o tempo se acelera: um único versículo se refere à morte de
José e de “todos os seus irmãos e toda aquela geração” (Ex 1,6) e outro versículo, à
permanência dos descendentes de Jacó no Egito: mais de 400 anos! Insiste-se na
realização da promessa de um povo numeroso dada a Abraão: “Os israelitas foram
fecundos e se multiplicaram; tornaram-se cada vez mais numerosos e poderosos, a tal
ponto que o país ficou repleto deles” (Ex 1,7).
Duas linhas para cobrir 400 anos! E em seguida, quatro livros inteiros para os 40
anos de Israel no deserto: o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio!
Mesmo fenômeno para a vida de Jesus: dois versículos para seus 30 anos em Nazaré
(Lc 2,40.51) e em seguida, quatro evangelhos para seus três anos de vida pública.
Mas, ao final desses 400 anos, tudo se deteriora para Israel. O Egito muda de
governo: “Chegou ao poder sobre o Egito um novo rei, que não conhecia José” (Ex
1,8):
Esse versículo parece designar a chegada ao poder do poderoso Ramsés II. Para esse novo rei, não
“conhecer” José significa não querer levar em consideração um passado que se considera doravante
acabado, significa retirar todo privilégio anteriormente concedido à minoria dos filhos de Jacó e a
outros semitas; significa ainda continuar o esforço de reação e de repressão antiasiática empreendido
pelos faraós cem anos antes.10
Tendo se tornado numerosos, os filhos de Israel começam a incomodar: “em caso
de guerra, aumentará o número dos nossos adversários” (Ex 1,10). Por isso, o Faraó
119
resolve submetê-los à corvéia. E foi assim que Israel “construiu para Faraó as
cidades-armazém de Pitom e de Ramsés” (Ex 1,11).
O fim do capítulo 1, reportando a ordem do Faraó de matar os meninos recém-
nascidos, não deve ser interpretado como referência a uma intenção de genocídio,
mas à eliminação de um povo inteiro. Se fosse o caso, o Faraó não teria mais a sua
disposição os numerosos trabalhadores de que necessitava para suas enormes
construções. Além disso, faz-se menção a apenas duas parteiras egípcias para as
mulheres dos Hebreus (1,5):
A menção a essas duas únicas mulheres mostraria que se trata apenas de um distrito pouco vasto: a
cidade-residência real e seus arredores, por exemplo. No pensamento do escritor, o fato tem
proporções modestas. Só se fala do perigo corrido pelos recém-nascidos, por causa de um deles,
Moisés.11
O que deve chamar nossa atenção é a situação de sofrimento e de servidão em que
se encontra Israel. Certamente, era comum que os monarcas recorressem à corvéia.
Davi e Salomão o farão mais tarde em Israel (2Sm 20,24; 1Rs 4,6; 5,28), mas Israel
trabalhará então para o seu rei.
No Egito, trata-se de trabalhos forçados efetuados para um tirano estrangeiro:
“impuseram a Israel inspetores de obras para tornar-lhe dura a vida com os trabalhos
que lhe exigiam... Os egípcios obrigavam os israelitas ao trabalho, e tornavam-lhes
amarga a vida com duros trabalhos” (Ex 1,11-14). Evidentemente, os trabalhadores
são alimentados. Mais tarde, no deserto, eles sentirão falta dos momentos em que
estavam “sentados junto à panela de carne e [comiam] pão com fartura” (Ex 16,3). De
qualquer maneira, nunca é agradável, animador, nem mesmo enriquecedor trabalhar
para um opressor que nos mantém vivos apenas para nos fazer trabalhar,
principalmente quando o trabalho é servil:
Impuseram a Israel inspetores de obras para tornar-lhe dura a vida com os trabalhos que lhes exigiam.
Os egípcios tornavam-lhes amarga a vida com duros trabalhos: a preparação da argila, a fabricação de
tijolos, vários trabalhos nos campos, e toda espécie de trabalhos aos quais os obrigavam (Ex 1,11.14).
O vocabulário utilizado para descrever a situação de Israel no Egito remete
claramente às condições de vida de multidões de pessoas sobre a Terra; quanto aos
mais abastados, não são poupados pelas misérias morais e pela opressão psicológica.
Também conhecemos “os gemidos” (2,24), “a miséria, as angústias” (3,7). Por
intermédio dessa situação, particular a um povo, mais ou menos 1200 anos antes de
Cristo: Deus quer vir ao nosso encontro e semear em nós uma esperança. Pois o que
Israel viveu no Egito prefigura o sofrimento que não poupa, ainda hoje em nosso
mundo, os homens e as mulheres do nosso tempo.
Assim, a “servidão” a que Israel está submetido resgata a descrição do mal
apresentada em Gênesis 3-11: o trabalho forçado, o sofrimento, a dominação de uns
sobre os outros, o ódio, a corrupção, a violência, as divisões... Isso representa nossos
próprios sofrimentos, nossas angústias, todo tipo de servidão causada no mundo pelas
120
ditaduras, pelas guerras, pela escravidão... A situação no Egito simboliza a realidade
do mundo atual.
Em sua introdução à última ceia de Jesus, São João ilustra essa perspectiva de
modo inigualável. Esse texto é fundamental, pois insere com precisão um momento
fundamental da vida de Jesus no contexto do Êxodo. Lembrando que era a véspera da
Páscoa – festa em que se comemora a libertação do Egito –, o Evangelista escreve:
Antes da festa da Páscoa,
sabendo Jesus que chegara a sua hora
de passar deste mundo para o Pai...
(Jo 13,1).
Trata-se aqui do Êxodo definitivo: Jesus é libertado não somente de um gênero de
escravidão semelhante àquele do tempo dos faraós, mas também de nossa própria
condição terrena, dolorosa e mortal; e ele passa, não mais de um país a outro, mas de
um mundo a outro. O Egito se torna, assim, este mundo em que vivemos, e a terra
prometida, o próprio mundo de Deus.
Deus iniciava, portanto, em escala reduzida, com o êxodo de Israel, algo que se
realizaria mais tarde, em maior escala, com Jesus e conosco. Israel no Egito é a
imagem de todo o povo de Deus que vive atualmente a condição terrena marcada
pelo sofrimento e pela opressão.
Este é o primeiro dado sobre a situação de Israel no Egito: o povo de Deus
experimenta os gemidos, a miséria, a angústia. Eis um vocabulário absolutamente
“moderno”, que também se refere a nós, sob inúmeros aspectos.
Ora, o Êxodo nos mostra que Israel, em meio à dor e ao desespero,fez subir a
Deus um grito por socorro:
Os israelitas, gemendo sob o peso da servidão, gritaram; e do fundo da servidão o seu clamor subiu até
Deus (Ex 2,23).
O grito é um tema constante em toda a Bíblia, a partir do grito de Abel – grito de
todos os inocentes que morrem injustamente – passando pelo grito de Israel em seus
três grandes momentos de desespero: a escravidão no Egito (a Lei), o exílio em
Babilônia (os Profetas), a perseguição de Antíoco (os Sábios), até o grande grito de
Jesus na cruz. O Apocalipse nos diz que um dia “nunca mais haverá clamor” (Ap
21,4). Aqui encontramos novamente o alcance atual e existencial dos textos do
Êxodo: o grito de Israel prefigura o grito de Jesus e o nosso.
Ora, a Bíblia atesta que Deus responde ao clamor de um pobrezinho. Ela
representa Deus com olhos: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito;
pois eu conheço as suas angústias” (Ex 3,7); com ouvidos: “Ouvi seu grito por causa
dos seus opressores” (Ex 3,7; 2,24); com braços, “mão forte” (3,19), uma destra que
“pela força se assinala” (Ex 15,6). Quando Deus estende a mão direita: toda oposição
se dissipa. “Com o braço estendido” (Ex 6,6), Deus fará o povo sair do Egito.
Posteriormente, o braço de Iahweh glorificará o servo sofredor (Is 53,1). Com efeito,
121
o Novo Testamento proclama que Jesus, no dia de sua ressurreição, foi “exaltado pela
direita de Deus” (At 2,33).
O livro do Êxodo, ao considerarmos sua repercussão em toda a Bíblia, testemunha
que Deus não deixa de ouvir nossos clamores, aos quais um dia colocará fim.
Em certos momentos, pode acontecer que, como Israel, tenhamos uma vida tão
difícil, que essa esperança pareça inexistente. Jesus dizia ao povo da Galiléia, que
pendia ao peso de seus fardos: “Crede no Evangelho” (Mc 1,15). Antes dele, Moisés
havia anunciado a Israel, escravizado no Egito: “Deus vos fará entrar na terra que
jurou com a mão estendida dar a Abraão, a Isaac e a Jacó”. Mas nos diz o texto: “Eles
não ouviram Moisés por causa da ânsia do espírito e da dura escravidão” (Ex 6,9).
Aqui, Georges Auzou faz o seguinte comentário:
A observação do versículo 9 é de uma psicologia muito exata e freqüentemente verificável. Quando
não se tem mais forças, quando se é submetido a uma duríssima servidão: nenhuma mensagem de
esperança poderia ser ouvida. Sem algumas condições mínimas e essenciais de existência, o homem já
não é suficientemente homem e, portanto, não pode ouvir a Deus.12
Tal era a situação de Israel no Egito, no período de seu nascimento. Tal é nossa
situação ao virmos a este mundo: experimentamos o sofrimento e gritamos. Mas
sobre nós repousa a promessa de uma terra de descanso. Deus sabe que estamos numa
terra estrangeira. De fato, ele nos libertará dela.
Essa libertação se realizará por graça de alguém que vai nascer e que será seu
enviado...
2 – O nascimento e o início da vida de Moisés
O capítulo 2 do Êxodo está centrado sobre o homem que representará um papel
primordial, não somente nos episódios da libertação de Israel, da marcha pelo deserto
e da aliança no Sinai, mas em toda a continuação da história judaica e até da história
cristã. Enquanto Abraão é o pai do povo judeu , Moisés é a coluna da religião judaica:
O nome de Moisés, excetuando-se o nome de Jesus, é o mais importante de toda a Bíblia e se tornará o
próprio símbolo do Antigo Testamento. Pode-se dizer que esse nome é um dos maiores nomes da
história da humanidade.13
A história de Moisés, o menino salvo das águas, é bastante conhecida e
freqüentemente contada como uma história bonita. Mas isso não deve nos fazer
esquecer do caráter trágico dos acontecimentos. Desde o nascimento, o menino está
ameaçado de morte: o Faraó mandou matar os filhos dos hebreus. Essa ordem, como
já dissemos, referia-se provavelmente a apenas “um distrito pouco vasto, a cidade-
residência real e seus arredores”.14
A mãe esconde seu filho. Após três meses, “como não pudesse mais escondê-lo,
tomou um cesto de papiro, calafetou-o com betume e pez, colocou dentro a criança”
(Ex 2,3). Ela depõe o cesto entre os juncos, à beira do Nilo. A irmã do menino vigia.
122
Quando a filha do Faraó encontra o menino, que ela acredita ser órfão, resolve adotá-
lo. A irmã de Moisés se oferece para encontrar uma ama para o bebê, trazendo-o de
volta à própria mãe! Esta aliás recebe um salário! Logo que o menino cresce, a mãe o
devolve à filha do Faraó. Aquele que deveria ser morto desde o nascimento pelo
Egito é salvo pelo próprio Egito.
Dão a ele um nome egípcio (Mosu, ou Més, ou Moses):
O nome “Moisés” deriva do verbo egípcio “nascer”. A mesma raiz se encontra em nomes bastante
conhecidos: Tutmés (Tot nasceu, ou o filho de Tot), Ramsés (Rá nasceu, ou o filho de Rá).15
A Bíblia conservou o significado egípcio do nome de Moisés ao relatar que “a
filha do Faraó o adotou e lhe pôs o nome de Moisés, dizendo: ‘Eu o tirei das águas’”
(Ex 2,10). Não obstante, posteriormente, o nome de Moisés foi aparentado a Moshé,
em hebraico:
O nome egípcio de Moisés foi associado ao verbo hebraico “masha” (retirar). A semelhança fonética é
puramente acidental. Contudo, não seria preciso mais, para surgir aí a etimologia popular “tirado das
águas” (Ex 2,10).16
De fato, Moisés, retirado das águas, o primeiro a ser salvo do Egito, prefigura
algo que será vivido por Israel, quando também for salvo do Egito. O nome é
significante da pessoa e do papel que ela representará.
Desde a infância até a idade adulta de Moisés, podemos observar de que modo os
acontecimentos o preparam para sua futura missão:
Sua primeira educação pertence primeiramente à sua mãe. Por meio dela, de sua irmã, de toda a
família e parentela, Moisés conheceu um pouco da religião dos Pais, das tradições sobre a origem de
seu povo e de seu Deus.17
Posteriormente, ele é “iniciado em toda a sabedoria dos egípcios” (At 7,22). Ele
será um homem culto:
Não parece duvidoso que Moisés tenha recebido uma formação superior, no ambiente em que se
preparavam os altos funcionários do reino. O estudo da escrita, do cálculo, do desenho, da história, da
geografia, da medicina, da música e das artes, bem como a iniciação à religião egípcia, a suas
doutrinas, à liturgia e aos rituais, tanto quanto aos segredos da magia, tão ligada à existência no Egito,
certamente fizeram de Moisés um escriba hábil e sábio. Devido à preocupação que causava ao
governo a multidão de asiáticos, ao redor da fronteira oriental, talvez se tenha preparado Moisés, na
administração real, para se ocupar desses estrangeiros.18
Entretanto, um acontecimento dramático obrigará Moisés a fugir. Ao se encontrar
na região de Gessen, “viu as tarefas que pesavam sobre seus irmãos; viu também um
egípcio que feria um dos seus irmãos hebreus. E como olhasse para uma e outra parte
e visse que ninguém estava ali, matou o egípcio e o escondeu na areia” (Ex 2,11-12).
Esse gesto revela sua total aversão às formas de opressão sofridas pelas pessoas de
sua raça, com as quais, doravante, ele quer se identificar. Conseqüentemente, Moisés
rompe com o passado. E como a notícia da morte do egípcio se espalhou, ele precisou
fugir, seguindo em direção ao deserto. Pode-se pensar que ele não se aventurou
123
sozinho pelo deserto, mas teria se juntado a uma caravana ou a um grupo de
beduínos.
Assim, ele chega até a região de Madiã.
A fuga de Moisés ao país de Madiã.
Os madianitas habitam uma região situada na costa oriental do Golfo de Ácaba,
mas também se encontram na região do Sinai. São tribos semi-sedentárias que fazem
comércio com o Egito e Canaã.
É ali que Moisés viverá um longo período de “retiro”, longe do Egito e de seus
irmãos. No país de Madiã, ele se casa e tem um filho, a quem dá o nome de Gersam,
pois disse: “Sou um imigrante em terra estrangeira” (Ex 2,22). É durante esse período
que ele fará pela primeira vez a experiência da vida no deserto. Ele se torna pastor do
rebanho de seu sogro, Jetro, que é também sacerdote em Madiã:
Moisés entra para uma família que parece descender de Abraão (Gn 25,2), cujos costumes emodo de
vida são os mesmos de seus longínquos antepassados. É possível que ele tenha reencontrado ali as tão
124
importantes tradições, próprias à história de Abraão, Isaac e Jacó.19
Caminhada bastante singular a de Moisés: educado em sua tenra idade pela mãe,
formado nas grandes escolas do Egito e na corte do Faraó, ele se retira da vida, no
deserto, e é introduzido nas tradições relativas ao Deus dos Pais. Tudo isso o prepara
para a missão que ele realizará. Um dia, ele voltará ao Egito para ajudar seus irmãos a
saírem da servidão; guiá-los-á, durante 40 anos, pelos caminhos áridos do deserto;
religará o presente e o passado: com ele, o Deus dos Pais, o Deus El, adorado 600
anos antes e também chamado Iahweh, será o Deus que liberta do Egito; e Moisés
trará os dez mandamentos, esse monumento de concisão, marcado ao mesmo tempo
pela assinatura do Deus dos hebreus e pela semelhança com um livro muito
respeitado no Egito: o Livro dos mortos.
Por ora, no entanto, esse homem está casado e vive na terra de Madiã. Mas ele não
pode se esquecer dos sofrimentos de seus irmãos, que ficaram na terra de Gessen.
Antes de considerarmos o acontecimento que o reconduzirá ao Egito, observemos
o paralelo que São Mateus estabelece entre Moisés e os filhos de Israel e a infância de
Jesus: Jesus é, ao mesmo tempo, o novo Moisés e o verdadeiro povo de Deus:
Esse paralelo não deve apenas nos remeter ao passado, pois o menino de Belém
permanece vivo. Se Moisés prefigura o Messias, ele nos revela ao mesmo tempo
quem é Jesus: o enviado de Deus, para nos libertar de nossa miséria atual e nos levar
à terra prometida definitiva. No Êxodo, Deus já nos revela seu Filho. Todo o Antigo
Testamento anuncia o Ressuscitado, que hoje vive.
3 – O chamado e a missão
Os chamados de Deus muitas vezes se fazem ouvir após um longo caminho que
devemos percorrer. São Paulo foi “educado aos pés de Gamaliel na observância exata
da Lei” (At 22,3), antes de se tornar “um instrumento de escol” (At 9,15) do Cristo
Ressuscitado. Nem mesmo Jesus inicia sua ação pública antes de crescer em
sabedoria e graça em Nazaré (Lc 2,40.52), ou seja, antes de haver meditado a Palavra
de Deus ao longo de pelo menos trinta anos.
Deus também se expressa por meio de pessoas e acontecimentos: São Paulo
125
encontra Ananias (At 9,17-20), e Jesus, o profeta João (Mc 1,9). Com efeito, a prisão
de João representa para Jesus o sinal de que o tempo de preparação terminou (Mc
1,14; Mt 4,12).
Todavia, mais do que tudo, na origem de toda missão profética, há um momento
forte com Deus, constituindo uma guinada: São Paulo encontra o Ressuscitado no
caminho para Damasco (At 9,4); Jesus vive um encontro com Deus no momento de
seu Batismo no Jordão (Mt 3,16-17). Portanto, há um momento a partir do qual o
homem toma consciência de que Deus o chama. Esse chamado vai de encontro à
pessoa, em suas preocupações mais profundas: São Paulo buscava uma salvação
diferente daquela que o homem acredita conquistar para si mediante a observância da
Lei (Fl 3,9); Jesus veio trazer fogo à Terra (Lc 12,49).
Assim também se passa com Moisés. O chamado de Deus o interpela após uma
longa preparação e vai ao seu encontro, naquilo que se tornou sua grande
preocupação: a situação de seus irmãos explorados no Egito. Além disso, esse
chamado tem uma confirmação de seu sogro Jetro:
Saindo, Moisés voltou para Jetro, seu sogro, e lhe disse: “Deixa-me ir e voltar a meus irmãos que
estão no Egito, para ver se ainda vivem”. Respondeu Jetro: “Vai em paz” (Ex 4,18).
Outro elemento concorre para que Moisés volte ao Egito: a morte de seus antigos
acusadores. Essa notícia é posta ao lado do chamado de Deus, num segundo relato de
sua vocação:
Iahweh disse a Moisés, em Madiã: “Vai, volta para o Egito, porque estão mortos todos os que
atentavam contra a tua vida!” (Ex 4,19).
Tudo isso nos indica que Moisés viveu muitos anos junto ao povo de Madiã. Ele
está em sua idade madura. Contudo, ainda que esses anos o tenham tornado um
instrumento de escol para realizar sua missão, sendo as circunstâncias favoráveis: na
origem da nova direção que sua vida vai tomar, há, mais do que nunca, um momento
forte com Deus.
Com efeito, é preciso explicar como será possível para um homem vivendo
bucolicamente com sua família, lançar-se em tamanha empreitada. A Bíblia não
deixa, aliás, de expressar as dúvidas de Moisés: “Quem sou eu para ir a Faraó e fazer
sair do Egito os israelitas?” (Ex 3,11); “Perdão, meu Senhor, eu não sou um homem
de falar; pois tenho a boca pesada, e pesada a língua” (Ex 4,10); “Perdão, meu
Senhor, envia o intermediário que quiseres” (Ex 4,13). A tarefa está acima das
capacidades humanas. E a cada vez Deus lhe diz: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12); “Eu
estarei em tua boca, e te indicarei o que hás de falar” (Ex 4,12).
Esses diálogos expressam exatamente o que se passou ali. Se anos antes Moisés
fora forçado a fugir do Egito, ele voltará com toda liberdade, tendo plena convicção
de estar voltando como enviado. Moisés não é apenas um sedento de justiça, um
libertador que intervém em socorro de seus irmãos: ele é o primeiro enviado de Deus,
126
a quem representará num momento preciso da história de Israel, no contexto de uma
saída, de uma libertação, de uma passagem. Com Moisés, a tradição, preservada
desde os Patriarcas, recebe uma marca indelével, impressa pelo próprio Deus, naquilo
que doravante se manifestará como sua grande intervenção: a saída do Egito. É sobre
essa tradição que se apoiarão todos os outros profetas, e de modo decisivo, o próprio
Jesus.
Os autores da Bíblia compreenderam, ao longo dos séculos, que Moisés era um
homem de Deus, que seu modo de ver Deus – como aquele que ia libertar seu povo –
revelava algo determinante e essencial sobre o conhecimento de Deus. A saída do
Egito, que se referia primeiramente a um grupo de pessoas, ia se tornar o protótipo da
ação de Deus em favor de toda a humanidade.
Aqui tocamos a própria idéia de Deus, que é percebido de tantas maneiras, por
tantas religiões existentes no mundo! Ora, a percepção de Moisés é a que foi
confirmada definitivamente por Deus, ao ressuscitar Jesus, “libertando-o das
angústias do Hades” (At 2,24). De fato, essa percepção será confirmada para nós,
quando também formos libertados da morte. Por isso, os autores da Bíblia não
cessaram de remeter à experiência de Moisés, e somente a ele é que reservam
expressões como estas:
Iahweh, então, falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo (Ex 33,11).
Em Israel nunca mais surgiu um profeta como Moisés – a quem Iahweh conhecia face a face (Dt
34,10).
Essas imagens poéticas, que exprimem a profundidade da experiência de Moisés,
enfatizam igualmente a iniciativa de Deus. Pois uma experiência com Deus vem de
Deus.
Isso quer dizer que Deus trabalhou na vida de Moisés. Este se pôs a caminho
porque estava certo de que Deus libertaria Israel. Houve, portanto, um momento em
que Deus lhe fez sentir sua presença, para o chamar, e esse momento coincidia com a
escravidão de Israel no Egito.
A cena da sarça ardente (Ex 3,1-6) nos mostra precisamente que o primeiro
enviado de Deus não inicia uma missão profética sem se sentir chamado e sustentado
por Deus. Esse episódio constitui a guinada decisiva na vida de Moisés.
A fim de abordarmos bem o texto dessa cena, devemos nos lembrar de que Moisés
viveu por volta de 1250 anos antes de Cristo; além disso, os três escritores desse texto
– o Javista, o Eloísta e o Sacerdotal – escrevem em 950, 750 e 550 a.C., ou seja, 300,
500 e 700 anos mais tarde. Cada autor tem um jeito próprio de se referir a Deus. O
Javista escreve: ”viu Iahweh que ele deu uma volta para ver” (Ex 3,4) ; o Eloísta: “O
Anjo de Iahweh lhe apareceu” (Ex 3,2) ; o Sacerdotal: “E Deus o chamou do meio da
sarça” (Ex 3,4).
Além disso, o texto obedece aos padrões dos relatos de anunciação,
freqüentemente utilizados para revelar um nascimento ou uma vocação.20
Encontramos os cinco elementos desse gênero de narrativa em Êxodo 3,1-12:
127
– Iahweh ou oAnjo de Iahweh aparece a Moisés (3,2-6).
– O medo toma conta de Moisés: Moisés cobriu o rosto (3,6).
– Uma mensagem lhe é anunciada: Eu vi a miséria do meu povo; vai, pois (3,7-
10).
– Moisés apresenta uma objeção: Quem sou eu para ir a Faraó? (3,11).
– Um sinal lhe é dado: Vós servireis a Deus nesta montanha (3,12).
Essas poucas observações já nos indicam que durante séculos a vocação de Moisés
“alimenta a reflexão dos Teólogos: procurava-se, em Israel, imaginar quais teriam
sido as palavras trocadas entre Deus e Moisés”.21 É evidente que não se buscou tanto
reconstituir os detalhes do acontecimento quanto exprimir o significado que ele teria
representado na vida de Moisés.
Os comentadores podem somente levantar hipóteses a respeito do que poderia ter
se passado no deserto, quando “apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro”
(Ex 3,1).
Robert Michaud fala sobre a existência de um lugar santo em que se produzia “o
estranho fenômeno de uma sarça que queimava sem jamais se consumir”:
Procura-se ainda hoje uma explicação para tal maravilha: deve-se pensar nos mil raios de sol sobre
uma espécie determinada de arbusto? ou na exalação de um gás inflamável? Seja qual for o fenômeno,
os peregrinos olhavam o curioso espetáculo como a indiscutível manifestação da divindade.22
Georges Auzou vai de algum modo na mesma direção ao escrever:
Moisés havia chegado, ao que tudo indica, até um local tradicionalmente consagrado por um culto. Ele
talvez não o conhecesse ou ignorasse sua localização exata. Percebendo que acabara de entrar em
contato com um solo “santo”, tira as sandálias em sinal de respeito. Ele compreende, de fato, que
Deus se lhe apresentou ali.23
Interessando-se pela formulação inicial, Georges Auzou acrescenta um elemento
que pode ajudar a determinar com exatidão o acontecimento: “O anjo de Iahweh lhe
apareceu numa chama de fogo, do meio de uma sarça” (Ex 3,2-3):
A expressão “Anjo de Iahweh” é clássica nos textos antigos e tem por finalidade anunciar que Iahweh
vem pessoalmente. Dizer “Anjo de Iahweh” significa dizer que Deus se torna presente, se manifesta,
se faz ouvir, geralmente por um meio ao mesmo tempo natural e extraordinário.24
Baseando-se em outros textos da Bíblia, ele comenta assim a chama de fogo:
Deus se torna presente “na chama de fogo”. O fogo que “devora” é o raio, o fogo que vem do céu, o
fogo de Deus. O Deus-na-tempestade do Sinai é também chamado “fogo consumidor” (Ex 24,17; Dt
4,24; 9,2). Quando a tempestade é entendida como uma manifestação de Deus, pode-se dizer que
Deus “fala”.
De um ponto de vista puramente exterior, é possível fazer uma idéia da cena relativa à sarça. Uma
tempestade irrompe e um raio cai diante de Moisés. Ele é tomado pelo pavor, pelo medo de ser
atingido por um raio. O mesmo terror tomou conta das testemunhas da “teofania” de Êxodo 20,18-19.
Pois “não se pode ver Deus sem morrer”, e “ver Deus” é o mesmo que ver seu “fogo”. Ora, após a
128
experiência aterrorizante, Moisés percebe que não morreu! Excepcionalmente, o “fogo” não o
“devorou”, nem destruiu nada; a sarça e o santuário permanecem ali! No mistério, prosternado,
Moisés percebe a Presença divina que se manifestou.25
Mas os dois autores salientam que o importante está além das aparências:
A fim de se manifestar, Deus pode ter utilizado um fenômeno natural. Mas esse fenômeno não explica
a experiência religiosa feita por Moisés. O acontecimento exterior foi o meio ou a ocasião. A
realidade essencial foi um encontro real com Deus, de algum modo experimentado por Moisés.26
As circunstâncias concretas que envolveram o acontecimento permanecerão desconhecidas. Isso não é
tão importante. O essencial basta àquele que crê: o humilde beduíno, meditativo como os beduínos de
todos os tempos, não se assemelhará nunca mais aos seus irmãos. Iahweh lhe pede para falar e agir
em seu nome. Disso ele não tem nenhuma dúvida.27
Entre todos os filhos do deserto, Deus escolheu apenas um, Moisés, a quem confiou a inconcebível
missão de anunciá-lo “de geração em geração” (Ex 3,15).28
O texto expressa algo que Moisés sentiu da parte de Deus: “Viu Iahweh que ele
deu uma volta para ver. E Deus o chamou do meio da sarça: Moisés, Moisés” (Ex
3,4).
O contexto da tempestade deve ser conservado para que se possa compreender as
palavras nele inseridas: “Moisés cobriu o rosto, porque temia olhar para Deus” (Ex
3,6). Com efeito, como nos mostrou Georges Auzou, esse contexto se repete na
ocasião da aliança no Sinai, onde Deus manifesta sua glória a Moisés por meio do
fogo consumidor, o que remete aos relâmpagos de uma tempestade fulgurante (Ex
19,16-20; 24,17). Nesse momento, Moisés é incapaz de ver Deus, ou sua face, o que
significa, concretamente, incapaz de suportar a força da tempestade. Por que não
associarmos esse contexto ao episódio da sarça? Tendo o raio atingido o arbusto,
diante de Moisés, a tempestade prosseguiu, e Moisés foi incapaz de suportar o
esplendor da glória de Deus, manifestada no “fogo” da tempestade. Assim se
explicariam as palavras: Moisés cobriu o rosto, porque temia olhar para Deus. Esse
final reforçaria a hipótese de uma tempestade.
Podemos pensar igualmente que o lugar e a solidão em que Moisés se encontrava
teriam facilitado um encontro com Deus. Poderíamos aproximar a experiência de
Moisés daquela de que trata o psicólogo da religião Rudolf Otto:
Em uma nota dedicada a um livro sobre a África do Sul se encontra o seguinte relato: o autor reproduz
certas palavras significativamente pronunciadas por um desses colonos holandeses de alta estatura,
fortes, obstinados e silenciosos, que falava apenas de seus carneiros, de seus rebanhos e dos hábitos
dos leopardos, assunto sobre o qual tinha autoridade. Depois de ter percorrido, ao calor do sol, por
quase duas horas, a imensa planície africana, ele diz lentamente: “Tem uma coisa que eu desejo lhe
perguntar há muito tempo. Você é instruído. Quando você está só numa planície como esta e, como
agora, o sol lança seus raios sobre os arbustos, não lhe parece que alguma coisa está querendo lhe
falar? Não que você ouça o que quer que seja com seus ouvidos, mas é como se você se tornasse tão
pequeno, tão pequeno, e o outro tão grande... Então todas as pequenas coisas do mundo lhe parecem
não ser mais nada”.29
129
Certamente, não é fácil descrever uma experiência interior, especialmente uma
experiência de Deus. Uma coisa, porém, é certa: Moisés voltou ao Egito e foi
reconhecido como o homem de Deus em Israel. Os autores da Bíblia compreenderam
bem que Deus se tornara presente a ele e o chamou. A experiência que Moisés viveu
no deserto foi fundamental e determinou os quarenta anos que se sucederam. Até sua
morte, Moisés permaneceu a serviço de seus irmãos.
Retornando ao Egito, ele tem a certeza de estar sendo enviado e sabe que Deus
não o deixará. Como todos os enviados de Deus, que se põem a caminho, ele não
sabe de antemão como tudo se dará.
É interessante o fato de que o Deus que o chama e o envia é, ao mesmo tempo, o
“Deus de [seus] pais” (Ex 3,6), e “o Deus de seus irmãos” (Ex 3,13), “o Deus dos
hebreus” (Ex 3,18): “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac
e o Deus de Jacó” (Ex 3,6). É precisamente esse Deus das promessas quem vai tomar
pela mão a história de seu povo e se revelar como Iahweh, o Salvador:
Moisés não se encontra com um Deus novo. O Deus que “aparece” no fogo é o mesmo Deus dos
Patriarcas, o Deus que com eles caminhava e se lhes manifestava. Explicitamente, a história é religada
ao passado, àquela revelação que havia sido feita aos Patriarcas e transmitida por uma tradição própria
aos israelitas. E, uma vez que esse Deus deixou Moisés em vida, isso significa que ele permanecerá
com Moisés, pois quer prosseguir com ele a história começada.30
A missão de Moisés está contida numa frase muito curta: “Vai, pois, e eu te
enviarei a Faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os israelitas” (Ex 3,10).
Essa missão se liga diretamente às três promessas dirigidas a Abraão, a Isaac e a
Jacó: o povonumeroso, a terra e a aliança: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo...
desci a fim de libertá-lo... para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta,
terra que mana leite e mel” (Ex 3,7-8).
A ação de Deus se concretizará em dois momentos: libertar Israel da servidão e
conduzi-lo a uma “terra boa e vasta” (Ex 3,8). Essa é a missão confiada a Moisés,
num momento bem preciso da história de Israel.
Mas o Êxodo não é um simples relato sobre acontecimentos passados. Do ponto
de vista de Deus, a missão de Moisés anuncia uma outra missão, muito mais decisiva:
a missão de seu próprio Filho, que será enviado como o novo Moisés, não somente a
uma nação, mas a todos os povos:
Deus enviou seu Filho ao mundo,
Para que o mundo seja salvo por ele
(Jo 3,17).
Deus o envia, não para lutar apenas contra um Faraó, mas contra todas as forças
do mal:
O Faraó é um verdadeiro tema bíblico, assim como tantos outros monarcas e tiranos cuja lista ele
encabeça, prefigurando o Anticristo e o Príncipe deste mundo, Satanás, todos opositores, cuja ruína
ilustrará o poder de Iahweh, bem como sua fidelidade para com seu povo sofrido.31
130
E Deus envia seu Filho ao mundo não apenas para libertar um povo de trabalhos
forçados, mas para libertar todos os homens de sua condição terrena, sofredora e
mortal:
Uma vez que os filhos têm em comum carne e sangue,
por isso também ele participou da mesma condição,
a fim de destruir pela morte o dominador da morte, isto é, o diabo;
e libertar os que passaram toda a vida em estado de servidão,
pelo temor da morte
(Hb 2,14-15).
Esse texto da epístola aos Hebreus se insere exatamente no interior de um
magnífico paralelo entre Jesus e Moisés. Assim como Moisés se identificara com
seus irmãos, Jesus não se envergonhou por nos chamar de irmãos (cf. Hb 2,12). A
preocupação de Moisés em relação a seus irmãos, escravizados no Egito, nos revela,
pois, a preocupação do próprio Filho de Deus a nosso respeito, nós, seus irmãos
presentemente oprimidos neste mundo. Mais além, ela exibe a preocupação do
próprio Deus ao enviar seu Filho como o novo Moisés:
Convinha, de fato, que aquele por quem e para quem todas as coisas existem, querendo conduzir
muitos filhos à glória, levasse à perfeição, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles (Hb
2,10).
A missão de Jesus, embora tenha um alcance muito mais profundo e universal, se
realiza a partir do modelo da missão de Moisés, o irmão que se torna o libertador e
guia. Porque é acima de tudo nosso irmão, que o Cristo se fez nosso libertador e
nosso guia. E antes de tudo pelo fato de ser Pai, é que Deus o enviou para salvar seus
filhos.
Certamente, os dois enviados, Moisés e Jesus, não têm a mesma dignidade:
Moisés era fiel em toda a sua casa, como servo, para ser testemunha das coisas que deveriam ser ditas.
Cristo, porém, na qualidade de filho, está acima de sua casa (Hb 3,5-6).
Sob todos os aspectos, a missão de Moisés anuncia a missão de Jesus. O Êxodo
nos mostrará agora quem é esse Deus que os enviou.
4 – A revelação do nome de Deus
O trecho de Êxodo 3,13-15 tem elementos teológicos de alcance incomparável.
Pois, ao revelar seu nome a Moisés, Deus revela quem ele é. O nome, para os
hebreus, revela a identidade da pessoa. Essa passagem torna possível, portanto, nada
menos do que conhecer Deus!
O nome revelado a Moisés é o nome de Iahweh. Esse nome ecoou por todo o
Antigo Testamento: “por volta de 6.000 vezes”.32 Ele já era conhecido antes de
Moisés, ainda que a tradição sacerdotal pareça afirmar o contrário:
131
Deus falou a Moisés e lhe disse: “Eu sou Iahweh. Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacó como El Shaddai;
mas meu nome, Iahweh, não lhes fiz conhecer” (Ex 6,2-3).
As duas tradições não são necessariamente contraditórias. A revelação feita a Moisés não é tanto a
novidade de uma palavra, mas exatamente o que ela expressa: uma nova compreensão de Deus. Nesse
sentido, a tradição sacerdotal pôde dizer que o nome de Iahweh não era conhecido antes de Moisés.33
O texto de Êxodo 3,13-15 nos revelará a significação profunda desse nome.
Lembremos que, ao longo desse trecho, um laço de continuidade é firmado entre o
Deus que se dá a conhecer como Iahweh e o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó.
Esses dois nomes tornarão a se encontrar lado a lado. Escreve-se, aliás, por três vezes,
que ele quer falar aos filhos de Israel, os descendentes de Jacó. As promessas que
remontam a Abraão estão, assim, subjacentes a todo o livro do Êxodo; com efeito,
são essas promessas que motivam toda a ação de Deus. Desse modo, o período que
vai de Abraão a Moisés é unificado: 600 anos! (1850-1250). Agora, com Moisés, a
história de Israel enquanto povo tomará um rumo decisivo.
O texto assume o formato de um diálogo entre Deus e Moisés. Moisés diz
primeiramente: “Quando eu for aos israelitas e disser: ‘O Deus de vossos pais me
enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?” (Ex 3,13).
Deus responde a Moisés: “Eu sou aquele que é”. Disse mais: “Assim dirás aos
israelitas: ‘EU SOU me enviou até vós’”. Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás
aos israelitas: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o
Deus de Jacó me enviou até vós’” (Ex 3,14-15).
Encontram-se três vezes as palavras me enviou até vós:
– O Deus de vossos pais me enviou até vós (v. 13).
– EU SOU me enviou até vós (v. 14).
– Iahweh, o Deus de vossos pais, me enviou até vós (v. 15).
Essa constatação já nos indica que a célebre frase Eu sou aquele que é não é uma
definição estática de Deus como eterno Ser. Ela já nos adianta uma ação de Deus que
se cumprirá por intermédio de Moisés.
A palavra Iahweh, do versículo 15, é o mesmo verbo da frase Eu sou, do versículo
14, mas na terceira pessoa. Ela significa: Ele é. Assim, ao falar de si mesmo, Deus
diz: Eu sou. E quando outros falam dele, eles dizem: Ele é.
Como no hebraico as vogais não são escritas, no versículo 15 da versão original,
encontramos apenas as quatro consoantes que formam o “tetragrama sagrado”:
YHWH. O nome de Deus deveria sem dúvida ser lido: Yahaweh (Iahweh), mas foi
possível lhe acrescentar outras vogais e ser lido Yehowah (Jeová). “Hoje há um
consenso para se ler e geralmente se escrever ‘Iahweh’, o que evoca de alguma
maneira a pronúncia original e simplifica comodamente a transposição da escrita
hebraica”.34 É a palavra Iahweh que se adotou para a tradução da Bíblia de
Jerusalém.
É preciso assinalar que, após o exílio na Babilônia, “por um respeito que se
132
tornara escrupuloso em relação ao nome sagrado, adquiriu-se o hábito, nos meios
intelectuais e religiosos, de se proibir a pronúncia desse nome”.35 O evangelho de
Mateus, destinado aos cristãos de origem judaica, obedece a essa regra, substituindo,
por exemplo, as palavras Reino de Deus por Reino dos Céus. A Tradução Ecumênica
da Bíblia (TOB) convencionou substituir a palavra Iahweh pela expressão O Senhor.
Seja lá o que for, devemos examinar o verbo empregado para designar Deus,
sobretudo no que diz respeito ao aspecto gramatical.
A fórmula Eu sou aquele que sou é lida em hebraico ehyeh asher ehyeh. As
informações seguintes, por mais elementares que possam parecer, são extremamente
reveladoras:
“Ehyeh” é o verbo “hayah” na primeira pessoa do singular do imperfeito, no modo indicativo. Este
verbo “hayah” pode ser traduzido como “ser”, “existir”. Trata-se de um verbo ativo: “ser alguém que
age”. Ele significa a existência enquanto esta se exerce e se manifesta por sua atividade. “Ser” é
“ser/estar em relação”, “agir para”.
O tempo do verbo, que é imperfeito, significa que a ação expressa é contínua e permanente, não
acabada. Ele pode ser traduzido pelo nosso imperfeito: “eu era”, ou pelo presente: “eu sou”, ou pelo
futuro: “eu serei”.
O relativo “asher” é invariável e pode ser traduzido por “que” ou “quem”. A tradução literal é: “eu sou
quem sou”, mas com esse sentido de duração do imperfeito, a expressão também pode ser traduzida
por: “eu serei quem serei”.
No versículo 15, “Iahweh” continua a ser o verbo “hayah”,ainda no masculino singular do imperfeito
sob a forma indicativa, mas desta vez na terceira pessoa. O verbo, estando no imperfeito, pode ser
traduzido por: “Ele era”, ou “ele é”, ou “ele será”.36
O nome de Deus é, portanto, significado por um verbo de ação, no imperfeito, que
o abre, ao mesmo tempo, para o passado, o presente e o futuro. A tradução literal
seria: Eu era quem era, Eu sou quem sou, Eu serei quem serei. A Tradução
Ecumênica da Bíblia levou isso em consideração, traduzindo a frase em questão por:
“Eu sou quem eu serei”. É numa ação que Deus se dará a conhecer e continuará a se
fazer conhecer dessa maneira.
Ora, a ação que o revela como Iahweh é aquela da saída, da libertação de Israel
no Egito. Torna-se evidente que o nome de Deus, revelado a Moisés, só pode ser
entendido no contexto do êxodo.
Deus mostra quem ele é no acontecimento da fuga do Egito. Na ação que ele opera
em seu favor, Israel o conhece como aquele que salva. O nome de Deus significa,
portanto: Eu sou aquele que liberta, aquele que faz sair, aquele que faz passar.
E uma vez que o nome de Deus está aberto ao futuro, essa libertação anuncia
outras libertações: “O êxodo será a primeira ‘redenção’ e o protótipo de uma
redenção que Deus realizará mais tarde”:37
O nome de Deus está aberto para a história, e a história verificará o conteúdo desse nome. Deus se
manifestará progressivamente como Iahweh.38
A expressão: Saberão que eu sou Iahweh tem sua origem no livro do Êxodo
133
(7,5.17; 10,2; 14,4.18; 16,6.12). A saída do Egito e a revelação do nome de Deus
formam uma única realidade: “Eu sou Iahweh teu Deus, desde a terra do Egito” (Os
12,10; 13,4; Ez 20,5-6). Os profetas retomarão a expressão: Vocês reconhecerão que
eu sou Iahweh, para salientar o caráter profético do nome de Deus. Essa expressão é
encontrada 70 vezes em Ezequiel!
Se Israel tem uma definição equivalente à de “Iahweh”, é exatamente esta, tantas vezes repetida:
“Iahweh-que-nos-fez-sair-do-país-do-Egito-da-casa-da-servidão”.39
O significado da festa da Páscoa, como o veremos, é precisamente o de lembrar,
em vista de uma passagem definitiva, esta primeira passagem, do Egito em direção à
terra prometida.
Três grandes saídas, cada vez mais decisivas, marcam as três etapas mais
importantes da história de Israel no Antigo Testamento:
– a saída do Egito, durante a servidão imposta pelo Faraó (a Lei):
– a saída da Babilônia, após o exílio, durante o reinado de Nabucodonosor (os
Profetas),
– a saída deste mundo, durante a perseguição de Antíoco (os Sábios).
Mediante esta última saída, é revelada a ação por meio da qual Deus será
definitivamente Iahweh: a ressurreição dos mortos, que constituirá a última passagem
em direção à terra prometida (Dn 12,2). Isso quer dizer que todas as libertações de
Israel apontam para essa libertação final.
E eis que, no Novo Testamento, ecoa a notícia do acontecimento por meio do qual
Deus realiza a dimensão profética de seu nome: Deus se torna “Iahweh” para Jesus,
ao fazê-lo sair de nosso mundo de servidão, fazendo-o passar para seu mundo de
liberdade. Deus se revela novamente em uma ação, que, desta vez, leva suas outras
intervenções a seu cumprimento. O Deus do Êxodo se nomeia de agora em diante:
Aquele que ressuscitou Jesus.
Se pararmos um pouquinho por aqui, veremos que essa afirmação tem implicações
surpreendentes, no que diz respeito ao próprio mistério de Deus. Certamente, o Novo
Testamento, apresentando Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, ultrapassa a visão
de Deus do Antigo Testamento. Entretanto, devemos considerar que a concepção de
Deus dada pelo Êxodo como Iahweh não se perde no interior da concepção trinitária.
Bem pelo contrário, ela revela o Ser de Deus e o que foi vivido no interior da própria
Trindade.
O Novo Testamento afirma, com efeito, que o Filho de Deus desceu do céu (Jo
6,38) e foi enviado pelo Pai ao mundo (Jo 3,17). Vindo ao mundo, ele renunciou às
vantagens de sua origem: “Estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser
tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo e tornando-se
semelhante aos homens” (Fl 2,6-7). Ele participou de todos os nossos limites
humanos ao “fazer-se carne” (Jo 1,14).
134
Ora, o Novo Testamento afirma que a ressurreição de Jesus é a obra do Pai pelo
poder do Espírito Santo. No dia de sua ressurreição, o Pai concede ao Filho uma vida
humana sem limites: “Estabelecido Filho de Deus com poder por sua ressurreição dos
mortos, segundo o Espírito de santidade” (Rm 1,4).
Jesus, o Filho, que se tornara um homem limitado, viveu como um drama pessoal
a experiência de ser salvo por Deus. Salvo, no sentido de ressuscitado.
Conseqüentemente, o nome revelado a Moisés, formulado a partir de um verbo de
ação, permite que se entreveja o movimento presente no interior da própria Trindade.
Com efeito, por ocasião da saída do Egito, Deus salva seu filho, Israel,
“estendendo a mão direita”, símbolo de seu poder. De igual maneira, quando da
ressurreição de Jesus, Deus salva seu Filho Único, “exaltado pela direita de Deus”
(At 2,33), pelo poder do Espírito Santo: “E qual é a extraordinária grandeza do seu
poder para nós, os que cremos, conforme a ação do seu poder eficaz, que ele fez
operar em Cristo, ressuscitando-o de entre os mortos” (Ef 1,19-20).
Portanto, o Pai foi Iahweh-Salvador para seu Filho. E o Filho foi libertado pelo Pai
e o conheceu pelo nome de Iahweh-Salvador.
Isso quer dizer que o Filho não permaneceu definitivamente sob o jugo de nossa
vida terrestre, sofredora e mortal. Todavia, mesmo tendo consciência de ser Filho, era
como Filho vivendo a partir de então sua relação com o Pai não mais no céu e na
eternidade, mas sobre a terra e dentro do tempo, que ele veio ao mundo.
Ele vivia sua experiência com Deus de um modo humano, por meio de sua
sensibilidade humana, não deixando de exprimir com palavras humanas a situação de
servidão à qual se submetera. Apropriando-se do título de Filho do Homem,
expressão do livro de Daniel que designa primeiramente um homem limitado em si
mesmo, ele indicou que sua ressurreição seria um gesto de Deus para si: “É chegada a
hora em que será glorificado o Filho do Homem” (Jo 12,23). Como Israel, nos dias de
sua escravidão: “É ele que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e
súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi
atendido por causa de sua submissão” (Hb 5,7). Ele clamou a Deus que salva: “Pai,
salva-me desta hora” (Jo 12,27), “glorifica-me, Pai” (Jo 17,5). O nome de Deus
estava em questão, pois esse nome não pode ser glorioso quando seu povo geme e
chora. Por isso Jesus diz: “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12,28). Em sua agonia, ele
expressou sua fé no Deus do Êxodo, o Deus que ressuscita dos mortos, chegando a
afirmar: “Vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as
nuvens do céu” (Mt 26,64). Isso significa que ele se tornaria novamente igual a Deus,
no dia de sua ressurreição. Pretensão jamais ouvida antes, julgada blasfematória, que
traduzia sua consciência de ser o Filho de Deus, inserido em nossa história humana.
Para ele, de fato, sua ressurreição, como gesto do Pai, não somente o libertaria de
nossa condição de servidão, mas revelaria quem ele é: O Filho de Deus. Por isso, em
São João, ele atribui a si o nome de Deus: “Quando tiverdes elevado o Filho do
Homem, então sabereis que Eu, Eu sou” (Jo 8,28).
135
No dia da ressurreição, o Pai introduz seu Filho numa vida humana eterna. Hoje,
no seio da Trindade, o Filho é um homem para sempre: “Nele habita corporalmente
toda a plenitude da divindade” (Cl 2,9). Assim, o Filho é libertado de todas as nossas
servidões e tem todas as suas vantagens restabelecidas: “Todo poder me foi dado no
céu e sobre a terra” (Mt 28,18).
E Deus, depois de o exaltar, “lhe conferiu o nome que está acima de todo nome”
(Fl 2,9), o nome de Senhor:
Para entendermos bem esse texto, é preciso saber que a palavra grega “Kyrios” (Senhor) havia sido
utilizada pelos tradutores gregos da Bíbliahebraica para transcrever o nome divino de Iahweh.40
Constituindo Jesus como “Senhor” (At 2,36) e “fazendo-o assentar à sua direita
nos céus” (Ef 1,20), Deus o constituiu seu igual.
Por esse motivo, Deus também o constituiu “chefe e Salvador” (At 5,31).
É impressionante que, de acordo com o Novo Testamento, Jesus tenha se tornado
Salvador de todos, no dia em que ele mesmo foi salvo por Deus: “Deus o constituiu
Senhor e Cristo, este Jesus que vós crucificastes” (At 2,36).
É evidente que ninguém, no Antigo Testamento, poderia imaginar que o nome de
Deus como “Salvador” teria tais implicações no interior da Trindade.
Seria preciso, na continuidade do Novo Testamento, ousar inserir no interior da
própria Trindade o movimento “Salvador-Salvo”. Infelizmente, a encarnação do
Filho foi freqüentemente apresentada como uma vinda facilitada pela sua origem
divina, sem renúncia aos benefícios dessa origem. Em tal perspectiva, sua
ressurreição também foi apresentada como algo que não lhe dizia respeito, algo de
que ele poderia se privar, ou ainda, o que é pior, como um gesto de seu próprio poder.
Tal Teologia falsifica o que há de mais essencial: a própria Essência de Deus, a
Encarnação, a Redenção e a Ressurreição.
O Antigo Testamento se abre para uma outra perspectiva. Ele afirma, com efeito,
em Gênesis 2,4, que o nome de Iahweh é o nome do Criador do mundo. Portanto, o
Criador é designado, desde o início, como o Salvador. O autor Javista compreendeu
bem que, tendo Deus se manifestado como Salvador no episódio da fuga do Egito, ele
também era essencialmente Salvador desde o momento da criação. Esse dado implica
outras significações relativas à Trindade em si mesma, que serão tratadas pelo Novo
Testamento.
Como pudemos ver em Gênesis 1-11, que o Criador seja o Salvador significa que,
quando Deus cria, ele sabe que terá de salvar, sabendo de antemão que toda a
humanidade vindoura o rejeitaria. Desde toda a Eternidade, portanto, Deus é
fundamentalmente Salvador. O nome de Deus no Êxodo é verdadeiro: Eu era quem
era, Eu sou quem sou, Eu serei quem serei.
Isso quer dizer que a paixão de Cristo estava igualmente no pensamento de Deus,
desde a Eternidade: “Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a
presciência de Deus” (At 2,23). Não que o Pai tenha desejado a morte de seu Filho!
136
São os homens que a quiseram, manifestando por meio dela sua renúncia a Deus. A
paixão de Cristo já estava prevista por Deus desde toda a Eternidade, pois quando se
ama de verdade, dispõe-se a dar a vida pela pessoa amada. Foi exatamente isso que o
Filho, a perfeita imagem e expressão do Pai, mostrou com sua morte humana.
Apressemo-nos em acrescentar, entretanto, que a vinda do Filho não está
subordinada ao pecado da humanidade. De qualquer maneira, o Filho era aquele que
devia vir: “Cristo, conhecido antes da fundação do mundo, mas manifestado no fim
dos tempos, por causa de vós” (1Pd 1,20).
Isso implica – numa afirmação inacreditável – que, desde toda a Eternidade, o
Filho foi amado como aquele que se tornaria um homem: “porque me amaste antes da
fundação do mundo” (Jo 17,24).
Portanto, o mundo foi criado para a vinda do Filho: “Ele é a Imagem do Deus
invisível, o Primogênito de toda criatura. É antes de tudo e tudo nele subsiste” (Cl
1,15.17). Logo, não há nada de humilhante para o Filho em se tornar um homem.
Esse é o projeto de Deus. Ora, no Cristo que devia vir, “Deus nos escolheu antes da
fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef
1,4). Assim, Deus quer que outros seres, conscientes e livres, sejam amados como o
Filho é amado: “Pai, eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a
fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17,26).
Porém, sabendo Deus que o Cristo seria rejeitado, depois de o desprezo da
humanidade ter sujeitado sua criação às forças do mal: a vinda do Filho teve de se
concretizar em nossa “forma de escravos” (Fl 1,7). Desse modo, a experiência da
Salvação foi vivida pessoalmente pelo Filho...
O nome de Deus como Salvador não nos revela somente o que Deus foi para Israel
durante a saída do Egito e para Jesus, durante a sua Ressurreição, mas o que ele já era
como Criador do mundo: o Salvador, disposto a dar seu Filho, e este, disposto a
revelar o amor do Pai. O Novo Testamento expõe assim o que a Trindade, desde toda
a Eternidade, estava disposta a investir para a salvação do homem.
Vemos que a maneira pela qual Deus se revelou a Moisés, como aquele que ia
salvar Israel, é fundamental para o conhecimento de Deus. Na História é que se
desenvolvem e se manifestam todas as implicações de seu nome.
Certamente, Moisés não pôde entrever tudo isso. Assim como Abraão, ao se
deslocar rumo a Canaã, não imaginava o alcance das promessas de Deus, Moisés,
retornando ao Egito, não conhecia a profundidade do nome de Deus. O que foi pedido
a esses dois homens era para crer que Deus estaria com eles e agiria concretamente na
história de cada um deles.
Uma vez que o nome de Iahweh implica que a ação divina não está ainda
terminada, esse nome conserva todo o seu alcance profético em relação a nós. Tal
nome está associado ao nome do Deus que deve realizar o que prometeu:
Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás aos israelitas: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de
Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. É o meu nome para sempre, e é assim
137
que me invocarão de geração em geração’” (Ex 3,15).
Um dia, Deus será Iahweh para nós e nós o conheceremos como aquele que
liberta. Ele nos quer livres e tem apenas um projeto: dar-nos um dia seu mundo.
Isso quer dizer que ele vê nossa miséria, ouve nossos gemidos, conhece nossas
angústias e está definitivamente decidido a nos libertar (cf. Ex 3,7-8). O Êxodo
descreve muito bem nosso mundo, ainda que não deixemos de acreditar que nossa
sociedade se renova progressivamente.
Como cristãos, podemos invocar a Deus pelo nome de Pai, Filho e Espírito Santo,
ou ainda pelo nome de Aquele que ressuscitou Jesus. Também podemos invocar o
nome de Jesus, a quem o Pai fez Senhor, pelo poder do Espírito Santo.
É interessante repararmos como o tetragrama sagrado YHWH “está presente na
composição do nome ‘Jesus’, que é uma latinização do grego ‘Iesous’, que resgata o
termo ‘Iehoshua’ do Antigo Testamento, composto a partir da forma abreviada
YHWH”.41 O nome Jesus significa: “Ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt
1,21).
Muitos magos e gurus por aí se apresentam hoje em dia como salvadores; porém,
o homem só poderá receber a salvação definitiva depois de passar pela morte. É nela
que tudo se clarifica: Jesus é Senhor e Salvador porque é “o Primogênito dentre os
mortos” (Cl 1,18). Por isso, “não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens
pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12).
Jesus confiou no Deus que havia se revelado a Moisés. E Deus o salvou. Nós
mesmos conheceremos quem é Deus quando ele nos fizer passar ao mundo da
ressurreição. E Deus conservará para sempre o nome mediante o qual se apresentou
no Êxodo:
Desafiando as regras gramaticais, o autor do Apocalipse criou uma fórmula extraordinária que surge
como explicação para YHWH (Iahweh): Aquele-que-é, Aquele-que-era e Aquele-que-vem (Ap 1,8).42
Chamando Deus de seu Pai, Jesus não renegou a grande tradição que lhe vinha do
Antigo Testamento. Seu Pai era para ele o Salvador. E como lhe ensinava o Antigo
Testamento, ele orava para que Deus fosse reconhecido por aquilo que ele é: “Pai,
santificado seja teu nome!” (Mt 6,9; Lc 11,2).
O Êxodo é o livro da revelação do nome de Deus, nome que adquiriu um sentido
inextinguível desde o envio de Moisés para libertar seus irmãos da escravidão no
Egito. O envio de Moisés prefigurava o envio do Filho único de Deus a este mundo,
para salvar a todos os seus irmãos em estado de servidão. O próprio Jesus, tendo
participado de nossa condição terrena, foi salvo pelo Deus do Êxodo, e tal
acontecimento anuncia por sua vez que Deus será Iahweh para nós, ao nos fazer
passar pelaressurreição. O nome de Deus permanece profético.
Precisamos agora ver que antes da grande ação de Deus, qual seja a libertação do
povo judeu, algumas calamidades acontecem no Egito, como prelúdio ao êxodo e
138
como sinal de condenação para o Egito.
Já que sabemos que a escravidão de Israel é o reflexo da nossa própria condição
de servidão, e que a libertação do Egito é o protótipo de nossa passagem ao mundo
que há de vir, podemos pressentir que, como pano de fundo dos acontecimentos que
antecederam a saída do Egito, delineia-se a imagem do mundo atual. Não paramos de
constatar que a palavra de Deus é, ao mesmo tempo, discreta e poderosa: ela vem
hoje ao nosso encontro, por intermédio da história de Israel.
5 – As “pragas” do Egito
Para situar a narrativa das pragas do Egito – que compreende cinco capítulos (Ex
7-11) –, é preciso considerar os fatos reportados em Êxodo 3-6.
Embora sejam redigidos na forma de diálogos com Deus, os textos têm como foco
uma verdade histórica que se resume da seguinte maneira: Moisés retornou ao Egito.
De acordo com Êxodo 4,20, “sua mulher e seus filhos” o acompanharam. De volta ao
Egito, a missão de Moisés, como toda missão, seguiu caminhos concretos:
primeiramente, reunir os “anciãos de Israel” (Ex 3,16), pois os hebreus haviam
mantido uma organização social no Egito, com chefes de família e líderes tribais; em
seguida, fazer-se reconhecer como enviado pelo Deus de seus pais (cf. Ex 3,16);
revelar-lhes seu projeto de libertar o povo dos maus-tratos que os egípcios lhe
infligiam, para reconduzi-lo ao país de seus antepassados (cf. Ex 3,16-17); tornar-se o
representante desse povo diante do Faraó ou da realeza egípcia.
Por tudo isso, podemos pensar que o retorno de Moisés junto a seus irmãos não
deixou de lhes causar alguma impressão, dando-lhe crédito o conhecimento que tinha
da aristocracia e da corte egípcia. Mas também aqui, os textos testemunham a
verdade histórica ao enfatizar as reações suscitadas por seu retorno e seu projeto:
luzeiro de esperança para o povo, que “creu e ouviu que Iahweh tinha visitado os
Israelitas e visto sua miséria” (Ex 4,31); incredulidade para outros, que “não ouviram
Moisés, por causa da ânsia do espírito e da dura escravidão” (Ex 6,9). Todo o
conteúdo desses capítulos parece bastante verossimilhante, apesar dos numerosos
retoques das três tradições neles presentes: Javista, Eloísta e Sacerdotal. Esta terceira
salienta o papel de Aarão, irmão de Moisés, pois o sacerdócio lhe será confiado.
O plano de Moisés se define no momento de seu encontro com o Faraó: “Deixa-
nos ir pelo caminho de três dias de marcha no deserto para sacrificar a Iahweh nosso
Deus” (Ex 3,18).
Essa súplica, sendo tantas vezes formulada, permite-nos deduzir um costume
judaico, bem como uma trégua anual nas corvéias, por ocasião desta festa:
Somos levados a pensar que os hebreus do Egito tinham o hábito de celebrar anualmente, nas regiões
desérticas a leste do Egito, uma festa tradicional para eles. Parece que se trata, ao mesmo tempo, de
uma peregrinação num lugar em que se adora Iahweh, que, nesse caso, já seria conhecido pelo mesmo
nome. Para essa celebração, eles podiam se perguntar sobre o tipo de sacrifício a ser feito. Essa festa-
peregrinação no deserto era tão normal aos olhos dos egípcios e mais facilmente aceita por eles, que
139
não admitiam que se praticassem em seu país certos sacrifícios de animais, comuns entre os hebreus
(Ex 8,22).43
A festa celebrada no deserto deveria ser a Páscoa, pois os animais que não se
poderiam sacrificar no Egito eram os cordeiros e os bodes (carneiros e cabritos),
exatamente os animais que os hebreus imolavam para a Páscoa: “O deus Amon,
venerado em todo o Egito, tinha um carneiro como animal sagrado. Ao longo do delta
do Nilo, várias divindades eram adoradas por meio da representação de carneiros,
bodes e touros”.44
O costume de uma celebração anual no deserto parece ser confirmado pelo
empréstimo de jóias e belas vestimentas junto a amigos egípcios. De acordo com
Êxodo 3,22, são as mulheres que as pedem a suas vizinhas egípcias.
Certamente, após essa festa no deserto, os hebreus retornavam ao Egito, onde
moravam. Ninguém estava interessado em ficar no deserto.
A atitude de Moisés é a mesma que se pode verificar em qualquer que seja o povo
oprimido: quando estamos privados de meios para uma revolta ou uma rebelião,
apelamos ao menos para os direitos anteriormente adquiridos.
Assim, a aposta real, naquele ano, era aproveitar-se da festa para fugir do país e
nunca mais voltar. É evidente que os acontecimentos, durante a passagem pelo Mar
dos Juncos, representarão o sinal de Deus para a saída definitiva do país do Egito e a
confirmação de que Moisés realmente era seu enviado. Será escrito, com efeito, a
respeito da travessia pelo mar: “Israel viu a proeza realizada por Iahweh contra os
egípcios. E o povo temeu a Iahweh, e creram em Iahweh e em Moisés, seu servo” (Ex
14,31). De fato, a missão dos profetas é freqüentemente confirmada pela ação de
Deus. O próprio Jesus dirá, por ocasião da ressurreição de Lázaro: “... para que
creiam que me enviaste” (Jo 11,42).
O governo egípcio não se deixa enganar a respeito da intenção dos hebreus. Toda
a resistência do Faraó mostra que ele não quer perder essa mão-de-obra tão preciosa:
“Eis que agora a população da terra é numerosa, e vós a fazeis interromper as suas
tarefas!” (Ex 5,5). À medida que as discussões vão progredindo, ele consente em
deixá-los partir, porém sempre impondo novas condições: “não deveis ir muito
longe” (Ex 8,24), ou “ide somente vós os homens” (Ex 10,11), ou “fiquem somente
os vossos rebanhos e o vosso gado” (Ex 10,24). O Faraó manifesta, assim, seu medo
de não os ver nunca mais.
O pedido de Moisés não apenas deixa de ser atendido, como também contribui
para agravar a situação: o Faraó impõe corvéias ainda mais duras aos hebreus (Ex
5,6-23).
Por ocasião de uma segunda missão, Moisés e Aarão se encontram com os
“magos” egípcios (Ex 7,1-13). Embora a tradição Sacerdotal tenha modificado a
tradição Javista, transferindo o cajado de Moisés para as mãos de Aarão (Ex 4,2; 7,8),
tal encontro não deixa de ser uma verdade histórica. O prodígio das varas
140
transformadas em serpentes não era de pouca importância, pois “os sábios e os
encantadores” convocados pelo Faraó (Ex 7,11) eram “feiticeiros no sentido de
praticantes de ciências ocultas”.45 Eles realizam prodígios “com seus sortilégios”
(Ex 7,11). Tal prática de magia, que pode produzir efeitos espetaculares, era
formalmente condenada em Israel (Ex 22,17; Dt 18,10), pois implicava precisamente
o apelo às forças ocultas. Que Moisés tenha recebido de Deus, por essa ocasião, a
capacidade de realizar o mesmo prodígio, pode parecer surpreendente, mas não
impossível. Elias e Eliseu, depois Jesus, realizarão ações desse tipo, como a
multiplicação dos pães e a transformação da água em vinho, por exemplo. Contudo,
eles nunca o farão para impressionar ou para o deleite dos espectadores, mas para
transmitir uma mensagem de Deus. No que diz respeito a tais manifestações, sempre
atuais, é preciso discernir quem está na origem do prodígio:
Certos fenômenos não são claros o bastante para que possamos interpretá-los como obra de Deus ou
obra de Satanás, ou se aquele que os realiza é alguém com carismas especiais ou um mago.46
Essa problemática não é nem um pouco estranha ao texto do Êxodo. É
significativo que a palavra nahash (serpente) do escritor Javista (Ex 4,3; 7,15) tenha
sido substituída pela palavra tannim (grande serpente do mar) pelo escritor
sacerdotal:
Esse termo parece menos apropriado, mais misterioso e até mesmo simbólico. Tannim forma com
Leviatã e Rahab o trio de monstros aquáticos, que são os auxiliares do abismo das águas hostis e das
forças do caos. São personificações do oceano furioso em luta contra Deus.
O vocabulário relativo a essa passagem abre caminho para a seguinte interpretação de conjunto: ele
pretende mostrar a vitória de Iahweh sobre toda oposição dos egípcios, sobretodas as forças que têm a
pretensão de se opor ao desígnio de Deus. A vara de Moisés engolindo as varas dos magos representa
a força de Deus, superior a toda resistência e em particular a todo poder mágico.47
Podemos assim apreciar como os autores da Bíblia fazem uma leitura profunda
dos acontecimentos que envolvem a fuga do Egito e do combate que aí se trava. Eles
salientam que, no momento em que Deus quis libertar seu povo, as forças do mal se
manifestaram. Fica assim atestado o fato de que uma ação decisiva de Deus é
freqüentemente marcada por um desencadeamento das forças do mal. Contudo, Deus
imediatamente se apresenta como o mais forte, o que já é uma advertência ao Faraó.
Este demonstrará uma grande resistência. A ação de Jesus também desencadeará a
manifestação das forças do mal, por meio de possessões. Mediante a expulsão dos
demônios, ele mostrará que Deus é o mais forte (Mc 3,26), mas não se furtará a uma
resistência crescente, cujo ponto culminante será o momento de sua própria passagem
pela morte. Ele não deixará de denunciar, apesar da oposição concreta e obstinada de
seus adversários, a ação das forças hostis a Deus: “Vós sois do diabo, vosso pai, e
quereis realizar os desejos de vosso pai” (Jo 8,44). A Bíblia nos ajuda a decifrar
melhor o que se passa por trás da nossa existência.
Mas a advertência de Moisés não deu em nada. Ao final desse confronto com os
141
feiticeiros, “o coração de Faraó se endureceu e não os ouviu, como Iahweh havia
predito” (Ex 7,13). Notaremos que a Bíblia diz, de maneira equivalente, que “o
coração de Faraó se endureceu”, ou que “Iahweh endureceu o coração de Faraó, e
este não deixou os israelitas partirem” (Ex 10,20; 7,3). A tradição Javista atribui a
Deus algo que depende da decisão humana.
É nesse contexto da recusa do faraó que algumas catástrofes sobrevêm, porém
desta vez, em todo o país do Egito. Aqui nos referimos ao relato das “pragas do
Egito” (Ex 7-11).
Ao todo, foram dez as pragas do Egito: 1) o Nilo vermelho; 2) as rãs; 3) os
mosquitos; 4) as moscas; 5) a peste dos animais; 6) as úlceras; 7) a chuva de pedras;
8) os gafanhotos; 9) as trevas; 10) a morte dos primogênitos.
Notemos que a tradição Javista menciona apenas sete pragas, que aparecem
também no salmo 78, mas numa ordem diferente. A tradição Eloísta acrescentou a
nona praga, ao passo que a Sacerdotal, a terceira e a sexta. As tradições Javista,
Eloísta e Sacerdotal voltam a se encontrar na primeira e na décima pragas.
Podemos igualmente observar uma amplificação quando as três tradições
descrevem a mesma calamidade. Assim, em relação à primeira:
A evolução é evidente entre o que é dito pela tradição Javista: “as águas do Rio” (7,17) e o que é
apresentado pela tradição sacerdotal: “as águas do Egito, seus rios, seus canais, seus lagos e todos os
seus reservatórios... sangue em todo o Egito” (7,19). A tradição Eloísta representa uma etapa
intermediária: “toda a água do Rio se converteu em sangue” (7,20b-21a).48
Tornamos a encontrar esse agravamento dos fatos, da parte do autor Sacerdotal, no
relato da passagem pelo Mar dos Juncos.
Essas observações nos convidam a não considerarmos os dados (cifras e detalhes)
desses relatos como reportagens rigorosamente exatas.
O que de fato pode ter se passado nos episódios das pragas do Egito? Eis, de
acordo com Georges Auzou, “o que parece poder ser dito”:
As águas do Nilo, como acontece com freqüência, mas talvez de um modo ainda mais estarrecedor
naquele ano, adquirem uma coloração vermelha. Junto aos Israelitas, Moisés interpreta tal fenômeno
como um mau agouro para o Egito. Esse mau presságio é transferido para as esferas governamentais, a
corte do Faraó.
Em outra ocasião, produziu-se um particular aumento na população de rãs e sapos, que pululam em
toda a parte. Tal acontecimento é explicado pelos hebreus como uma punição ou um aviso de Iahweh.
O mal-estar aumenta quando sobrevêm outras adversidades, como invasões de mosquitos e de moscas,
doenças contagiosas atingindo os animais e as pessoas. Essas provações não legitimam o pedido dos
estrangeiros que querem celebrar sua festa anual no deserto? Não é o Deus deles que envia todas essas
maldições? A questão se torna pungente.
Irrompe uma tempestade de granizo, cuja intensidade e alcance produzem um desastre. Ao mesmo
tempo ou em outra circunstância, o céu se escurece, a ponto de consternar todos os espíritos. Não há
mais dúvida: é preciso atender aos pedidos desses homens que realmente parecem “lançar um feitiço”
sobre o Egito, desse Moisés, o mais poderoso dos magos.
Finalmente, ocorre a morte do filho primogênito do rei; espalha-se o boato de que essa epidemia que
matou a criança real começa a fazer estragos nas famílias egípcias. O homem da oposição, Moisés, se
utiliza dessa notícia e, aproveitando-se da decisiva ocasião, revela com palavras mais enérgicas que
142
nunca, a vontade de seu Deus. O “Ide” irremediável é obtido.49
Assim, a partir do momento em que o Faraó, nesse ano, fez saber que não
autorizaria aos hebreus prestarem culto a seu Deus no deserto: diversas calamidades,
provindas de fenômenos naturais, atingiram o Egito. A cada catástrofe, Moisés e os
israelitas acreditam estar diante de sinais de Deus. Finalmente, quando o sofrimento
atinge a casa do Faraó, a permissão é concedida.
No entanto, os escritores não buscam tanto reproduzir o filme dos acontecimentos,
quanto lhes atribuir um significado. Logo, precisamos prestar atenção ao refrão do
principal narrador, o Javista:
– Deixa o meu povo partir, para que me sirva (Ex 7,26)...
– Faraó obstinou seu coração (Ex 8,28)...
– Nisto saberás que eu sou Iahweh (Ex 7,17)...
Os textos se apresentam como um confronto entre Deus e o Faraó. São os dois
personagens principais. É evidente que esses diálogos não são históricos, mas
traduzem, em discurso direto, o pensamento do escritor.
Ora, como é que ele interpreta, 300 anos depois dos acontecimentos, esse episódio
das “pragas do Egito”, que precedeu a libertação de Israel? Como uma luta decisiva
entre Deus e as forças do mal. De um lado, Deus quer libertar seu povo; de outro, o
Faraó se lhe opõe. E logo de cara é anunciado quem será o mais forte: Iahweh, o
libertador que viu a miséria de seu povo e que está decidido a libertá-lo (cf. Ex 3,7-
8).
Ao transpormos o episódio das dez pragas para hoje, encontramos nele uma
grande esperança. No momento em que conhecemos a condição de servidão de nossa
vida humana atual, o livro do Êxodo poderá nos colocar diante de Deus que salva e
nos avisar que as calamidades que atingem nosso mundo, ontem e hoje, são sinais a
anunciar que este mundo está condenado a desaparecer, para dar lugar a um mundo
de liberdade, quando Deus tiver se manifestado, operando a grande libertação. É
exatamente isso que Jesus nos mostra quando, por meio das calamidades que estavam
para ocorrer em Jerusalém, anuncia uma mensagem relativa ao fim do mundo. Nisto
encontramos o mesmo modo de reflexão dos escritores do Êxodo:
Quando ouvirdes falar de guerras e subversões, não vos atemorizeis; pois é preciso que primeiro
aconteça isso, mas não será logo o fim. Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino. E
haverá grandes terremotos e pestes e fomes em todos os lugares; aparecerão fenômenos pavorosos e
grandes sinais vindos do céu (Lc 21,9-11).
Haverá sinais no sol, na lua a nas estrelas; e na terra, as nações estarão em angústia, inquietas pelo
bramido do mar e das ondas; os homens desfalecerão de medo, na expectativa do que ameaçará o
mundo habitado, pois os poderes dos céus serão abalados. E, então, verão o Filho do Homem vindo
numa nuvem com poder e grande glória. Quando começarem a acontecer essas coisas, erguei-vos e
levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação (Lc 21,25-28).
As calamidades adquirem um teor apocalíptico no Êxodo: “Haverá então na terra
do Egito um grande clamor como nunca houve antes, nem haverá jamais” (Ex 11,6).
143
Esse imenso clamor é diferente do clamor que Israel dirigira a Deus, “do fundo da
escravidão” (Ex2,23). O clamor de Israel era uma oração. O clamor dos egípcios é
revelador de um enorme pânico diante da iminência de um mundo que está para
desabar: “Morreremos todos!” (Ex 12,33).
Jesus resgata o teor profético e propriamente apocalíptico desses textos do Êxodo:
Naquele tempo haverá grande tribulação, tal como não houve desde o princípio do mundo até agora,
nem tornará a haver jamais. E se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma vida se salvaria. Mas,
por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados (Mt 24,21-22).
Por isso, também vós ficai preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais (Mt
24,44).
Assim, as chagas permanecem bastante atuais. A cada dia ouvimos falar a respeito
de tragédias naturais: terremotos, furacões, inundações, guerras, seca, epidemias...
Essas calamidades não são provocadas por Deus, não mais do que as chagas que
atingiram o Egito no tempo dos Faraós. Deus quer que tudo seja bom. Entretanto,
todas as catástrofes que ocorrem atualmente deveriam ser para nós um sinal de que
nosso mundo está perturbado e ameaçado pelas forças do mal e também está fadado a
acabar.
Ao mesmo tempo, as pragas que não cessam de surgir em nosso mundo e que a
mídia nos exibe diariamente podem se transformar em advertência e apelo à
conversão. O que deveria ser apenas negativo e destruidor pode figurar como ocasião
de um retorno a Deus. Isso quer dizer que o ensinamento das pragas do Egito se
reveste de uma grande atualidade.
É exatamente isso o que pensa o autor do Apocalipse, que resgata, remetendo ao
fim deste nosso mundo, sete catástrofes semelhantes às pragas do Egito: úlcera,
sangue, fogo, rãs, prodígios, terremotos, granizos enormes (Ap 16). Diante dessas
tribulações, duas atitudes são possíveis: a conversão ou a blasfêmia. A segunda via é
a mais comum: “Os homens, então, abrasados por calor intenso, puseram-se a
blasfemar contra o nome de Deus, que tem poder sobre tais pragas. Mas não se
converteram para lhe tributar glória” (Ap 16,9.21).
Certamente não devemos situar essas calamidades apenas no contexto do fim do
mundo. Desastres nos interpelam todos os dias. Por isso, Jesus faz referência ao
acidente envolvendo “dezoito [pessoas] que a torre de Siloé matou com sua queda”
(Lc 13,4-5). Assim, ele pergunta: “Julgais que a sua culpa tenha sido maior do que a
de todos os habitantes de Jerusalém?”. E ele mesmo responde: “Não”. Para ele, as
catástrofes não vêm de um Deus vingador e punitivo. No entanto, Jesus se utiliza
desse fato para convidar à conversão: “Se não vos arrependerdes, perecereis todos de
modo semelhante”, ou seja, conhecereis uma morte ainda pior, a morte que consiste
na separação de Deus, “a segunda morte” (Ap 21,8).
Assim, no Egito, no mesmo contexto e lugar, o povo de Deus e o povo egípcio
testemunharam as mesmas calamidades. Não obstante, o Êxodo diz que um se
encontrava na luz e o outro, nas trevas:
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Estendeu, pois, Moisés a mão para o céu e houve trevas espessas sobre toda a terra do Egito por três
dias. Um não via o outro, e ninguém se levantou do seu lugar por três dias; porém, em toda a parte
onde habitavam os israelitas havia luz (Ex 10,22-23).
Essa também é a nossa situação. O Êxodo nos ensina que há diante de nós sinais
que deveriam nos advertir acerca da seriedade do pecado. Esta maneira de
compreender os acontecimentos é constante em toda a Bíblia:
Poderíamos citar muitos profetas. Limitemo-nos ao exemplo de Amós. Em Amós 4,6-12 são
enumeradas algumas catástrofes, que atingiram a Palestina naquele tempo: fome, seca, doença nas
plantações, gafanhotos, peste, incêndio. Cada uma delas constitui uma estrofe, mas todas terminam
com o mesmo refrão: “Mas não voltastes a mim”. Os Israelitas, diz o profeta, deveriam ter entendido a
linguagem de Deus nos acontecimentos como “sinais”, advertências, lições.
Os relatos de Êxodo 7-11 são construídos e organizados com a finalidade de que os infortúnios do país
do Egito sejam interpretados como palavra de Deus, convite à mudança de atitude, à conversão.50
Os textos sobre as pragas do Egito são carregados de significação: as tragédias que
precederam a libertação de Israel são a prova de um sobressalto das forças do mal e
ao mesmo tempo uma preparação à ação iminente de Deus em favor de seu povo,
além de um chamado à conversão e uma promessa de condenação para aqueles que o
rejeitam.
E um dia se cumprirá isso que nos anunciam as pragas do Egito: este mundo em
que vivemos chegará ao fim (Ap 21,1.4) e Deus fará seu povo passar para o outro
lado.
Eis que finalmente chegamos a dois grandes episódios, vivenciados por ocasião de
duas noites particularmente dramáticas: a noite da Páscoa, que coincidiu com a
décima praga (capítulos 12 e 13) e a noite da passagem pelo mar (capítulo 14). Entre
essas duas noites, podemos contar alguns dias, pois Israel se desloca de Sucot a Etam
(Ex 13,20) e de Etam ao Mar dos Juncos (Ex 14).
As famílias que vivenciaram essas duas noites não as puderam esquecer. Quatro
autores fixarão o significado delas: o Javista, por volta de 950 antes de Cristo; o
Eloísta, por volta de 750 a.C.; o Deuteronomista, por volta de 622 a.C.; e por fim, o
Sacerdotal, no tempo do exílio em Babilônia, por volta de 550 a.C.
Lembremos desde agora que a passagem de Jesus para o outro mundo se efetuará
ao longo de duas noites dramáticas, vividas segundo a mesma seqüência: em primeiro
lugar, a noite de sua última ceia, celebrada no contexto da Páscoa judaica, a “quinta-
feira santa”; depois, a noite de sua passagem pela morte, a “sexta-feira santa”. Os
textos do Êxodo adquirem aqui uma densidade profética notável.
Vejamos primeiramente como uma antiga festa de pastores – a Páscoa – relaciona-
se com a saída do Egito, e como essa festa passou a garantir a memória de tal
acontecimento mediante uma significação totalmente nova.
6 – A Páscoa
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A Páscoa, cujo ritual é descrito nos capítulos 12 e 13 do Êxodo, é a grande festa
dos judeus. É também a festa por excelência dos cristãos. A Páscoa judaica celebra a
saída do Egito, episódio fundador do estatuto de Israel como povo; a Páscoa cristã
celebra a morte e a ressurreição de Jesus, acontecimento fundador da Igreja.
A ressurreição de Jesus não rejeita a saída do Egito, mas a completa. As duas
saídas, ou libertações, provêm do mesmo Deus, Iahweh, cujo nome assumiu o
significado indelével de Salvador com Moisés. Como pudemos observar, esse nome
permaneceria direcionado para o futuro: Deus se revelaria cada vez mais Iahweh, ou
seja, aquele que salva, que faz passar.
A libertação de Israel foi uma primeira libertação a anunciar outras libertações. A
libertação final, já proclamada no Antigo Testamento, é a ressurreição dos mortos
(Dn 12,2). Ao ressuscitar Jesus, Deus cumpriu o que fora profetizado na ocasião da
libertação de Israel no Egito.
A ressurreição de Jesus se realizou, tanto quanto a fuga do Egito, durante a
celebração da festa da Páscoa. O próprio Jesus, “criado em Nazaré”, dentro da
tradição judaica (Lc 4,16), viu se aproximar essa festa como o momento em que Deus
se manifestaria como seu Salvador. Ninguém viveu mais intensamente que ele essa
festa:
Antes da festa da Páscoa,
sabendo Jesus que chegara a hora
de passar deste mundo para o Pai,
tendo amado os seus que estavam no mundo,
amou-os até o fim (Jo 13,1).
A realização do Êxodo se produziu para Jesus num outro plano, mais decisivo e
definitivo, mas segundo o mesmo modelo: o modelo de uma “saída”, de uma
“passagem”. O Deus de Jesus continua sendo o Deus de Moisés e dos profetas.
Essa ação em favor de Jesus prefigura, por sua vez, nossa própria passagem para a
verdadeira terra prometida que há de vir. Deus será Iahweh para nós. Nesse dia, nossa
Páscoa terá acontecido. Esses textos se referem ao sentido de nossa existência.
Vejamos em que consiste a Páscoa para os judeus, em que consistiu para Jesus e
em que consiste para nós.
• A Páscoa para os judeus
Ainda hoje, todos os anos, os judeus celebram a Páscoa. Eles a celebram há mais
de 3.250 anos, já que o episódio dasaída do Egito teria ocorrido há mais ou menos
isso. Com efeito, “os traços nômades e domésticos dessa festa sugerem uma origem
muito antiga, de modo que essa festa poderia consistir no sacrifício que os Israelitas
pediram ao Faraó para celebrar no deserto (Ex 3,18; 5,1); portanto, é provável que ela
seja anterior a Moisés e à saída do Egito”.51
Em sociedades de pastores, a Páscoa é a grande festa que estabelece o tempo da migração anual. É
celebrada na noite da primeira lua da primavera... Ao amanhecer do dia, põe-se a caminho para se
146
“passar” das magras pastagens às terras férteis.52
O primeiro elemento do ritual da Páscoa é o sacrifício de um animal:
Um animal jovem é oferecido a Iahweh – um cordeiro ou um cabritinho, nascido no mesmo ano – a
fim de se garantirem as bênçãos divinas para o rebanho. Sua carne é comida ao longo de uma refeição
rápida, feita pelos convivas vestidos com trajes de viagem.53
Esse sacrifício da primavera é celebrado em família (a presença de um sacerdote nunca é
mencionada).54
Não se trata de um holocausto – ritual em que a vítima é completamente
consumida pelo fogo – mas de um sacrifício no qual a vítima ofertada a Deus é
assada, antes de ser consumida pelos convivas. A festa consiste, ao mesmo tempo,
num sacrifício (oferenda) e numa refeição.
Não se pode consumir a vítima fora da casa, nem deixar restos, nem quebrar
algum dos ossos.
Essa recomendação parece querer dizer, por um lado, que a refeição pascal feita exclusivamente em
família simboliza e assegura a unidade familiar; por outro lado, que a oferenda deve ser completa, o
que é garantido pela proibição de se cortar o animal em pedaços.55
O segundo elemento do rito da Páscoa se refere à prescrição de se comer pão sem
fermento:
Outros costumes remetem às refeições-sacrifícios de povos nômades, feitas no acampamento, à noite,
após uma etapa percorrida: cozimento rápido em fogo reservado, fatias de pão feito com uma massa
não fermentada, assada rapidamente ao calor de brasas ou sobre uma placa quente; um tipo de salada
silvestre de ervas comestíveis, mas não cultivadas, hábito e provisão de pastores itinerantes. Tudo isso
lembra as refeições de repouso: refeições feitas em grupo, nas condições breves e emergenciais de
uma caminhada.56
O pão sem fermento dos nômades é conhecido como pão ázimo (do grego a-
zumé). No Egito, Israel comia pão fermentado, mas naquela noite a fuga ocorrera com
tanta pressa, que “o povo levou a farinha amassada, antes que se levedasse. Cozeram
pães ázimos com a farinha que haviam levado do Egito, pois a massa não estava
levedada: expulsos do Egito, não puderam deter-se nem preparar provisões para o
caminho” (Ex 12,34.39).
Esse fato, vivido durante a noite da saída do Egito, seria mais tarde incorporado a
uma festa agrícola que os Israelitas adotaram depois de terem se estabelecido na terra
prometida. Uma antiga prática da religião sazonal dos camponeses cananeus
considerava como “impuro e ruim, venenoso e mortal, tudo o que é motivo de
corrupção e degradação. É o caso de todos os fermentos”.57
Tendo chegado a Canaã, os israelitas adotaram a festa dos Ázimos, que marcava, na primavera, o
início da colheita da cevada: os produtos do ano anterior, juntamente com o fermento, contaminariam
a nova colheita. Assim se contentavam em comer fatias de pão feito sem fermento. As duas festas, a
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da Páscoa e a dos Ázimos, ocorrendo na primavera, passaram a ser celebradas ao mesmo tempo.58
A Páscoa é celebrada no dia 14 do mês de Abib ou mês das espigas (chamado Nisan após o exílio).59
Os ázimos provêm de um “ritual de purificação e renovação”.60 Tal costume será
evocado por São Paulo: “Purificai-vos do velho fermento para serdes nova massa, já
que sois sem fermento” (1Cor 5,7).
A festa dos Ázimos, que seria adotada mais tarde e duraria uma semana, encontra
suas raízes na “noite dramática da saída precipitada do país do Egito”,61 quando o
pão não teve tempo de crescer.
Finalmente, como terceiro elemento do rito pascal, temos a aspersão do sangue do
animal imolado sobre a porta das casas:
Esse rito de aspersão do sangue de uma vítima sobre as portas de entrada das casas, os marcos e
soleiras das portas, é antigo no Oriente (onde ainda existe nos dias de hoje): ritual de defesa, de
preservação contra os infortúnios, as doenças, os inimigos, as influências nefastas, os maus
espíritos.62
Estes são os principais ritos da antiga festa dos pastores: cordeiro imolado; pão
ázimo; aplicação de sangue na entrada das casas. Transportemo-nos agora para o
momento dessa noite memorável em que Israel saiu do Egito.
Sabemos que os descendentes de Jacó, estabelecidos no Egito 400 anos antes,
eram pastores. Portanto, é inteiramente razoável pensarmos que a Páscoa
representasse para seus descendentes a grande festa anual:
Trata-se da festa dos pastores, que, ao que tudo indica, os hebreus conservaram o costume de celebrar,
durante sua permanência no Egito. Ela preservava a consciência relativa às origens e ao parentesco
nômade do povo hebreu, o culto de suas tradições particulares, sua recusa em adquirir os costumes
egípcios, o sentimento de diferença em relação aos egípcios e sem dúvida, uma certa saudade de uma
vida mais livre, a esperança de finalmente conhecer a liberdade.63
Querer manter costumes, festas e ritos próprios a seu povo e sua cultura de origem
é absolutamente comum entre os povos imigrantes. Quem não observou isso
acontecer ainda hoje em grupos de imigrantes italianos, japoneses, árabes, africanos e
sobretudo judeus?
É bastante provável que a Páscoa já fosse a festa que os hebreus tinham
autorização para celebrar anualmente no deserto, mas para a qual eles obtiveram uma
proibição do Faraó naquele ano. De fato, é isso o que nos dão a entender as “reuniões
de negociação” com a administração egípcia:
Faraó chamou Moisés e Aarão, e disse-lhes: “Ide, oferecei sacrifícios ao vosso Deus nesta terra”.
Moisés respondeu: “Não convém agir assim, porque os nossos sacrifícios a Iahweh nosso Deus são
uma abominação para os egípcios. Se oferecermos, aos olhos dos egípcios, sacrifícios que eles
abominam, não haveriam de nos apedrejar? É a três dias de marcha no deserto que iremos sacrificar a
Iahweh, nosso Deus, conforme ele nos disse” (Ex 8,21-23).
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Essas “negociações” nos permitem perceber, como já observamos, a desconfiança
do Faraó: ele supõe que os hebreus se aproveitarão da Páscoa para fugir e nunca mais
voltar. Por isso a concessão: festejar a Páscoa dentro do Egito! A resposta de Moisés
tem toda a chance de estar de acordo com a realidade histórica, pois, como dissemos
anteriormente, dentre os animais cujo sacrifício os egípcios consideravam sacrilégio,
estavam, exatamente, os carneiros e bodes, portanto, os cordeiros e cabritos, que se
imolavam na Páscoa.
Todos esses detalhes sobre os costumes tanto dos israelitas como dos egípcios não
podem, portanto, ter sido inventados.
E assim, naquele ano, tendo chegado o momento da Páscoa, Moisés pôde se apoiar
sobre a concessão do Faraó para instruir os israelitas a respeito da festa a ser
celebrada no Egito: “Moisés convocou, pois, todos os anciãos de Israel, e disse-lhes:
‘Ide, tomai um animal do rebanho segundo as vossas famílias e imolai a Páscoa’” (Ex
12,21). Georges Auzou comenta: “Lendo apenas esse versículo, podemos pensar que,
de acordo com seu autor, a festa da Páscoa é celebrada no Egito e que se trata de uma
celebração anual, tradicional e costumeira”.64
Embora o livro do Êxodo tenha sido escrito muito tempo depois dos
acontecimentos de que trata, tenha atingido sua configuração atual após a influência
de quatro tradições sucessivas – Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal –,
embora ainda não nos descreva como os israelitas, naquela noite, celebraram a
Páscoa, sendo transferido o relato do ritual para os textos legislativos, escritos com
autorização de Moisés: ainda assim esse livro pode guardar o vestígio do que se
passou, naquele ano e naquela noite.
Portanto, os autores serão perdoados por teremposto nos lábios de Moisés a
prescrição para o ritual da festa dos hebreus: eles queriam que este rito se
perpetuasse! Porém, a maior parte dessas prescrições fora evidentemente estabelecida
muito tempo antes, pelos israelitas no Egito: “Cada um tomará para si um cordeiro
por família, um cordeiro para cada casa” (Ex 12,3); “o cordeiro será macho, sem
defeito e de um ano. Vós o escolhereis entre os cordeiros ou entre os cabritos” (Ex
12,5); “toda a assembléia da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo” (Ex
12,6); “não quebrareis osso algum” (Ex 12,46); “tomarão do seu sangue e pô-lo-ão
sobre os dois marcos e a travessa da porta, nas casas em que o comerem” (Ex 12,7);
“naquela noite, comerão a carne assada no fogo; com pães ázimos e ervas amargas a
comerão” (Ex 12,8); “é assim que devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias
nos pés e vara na mão; comê-lo-eis às pressas” (Ex 12,11). Tal era o ritual imemorial,
no coração dos grupos de pastores nômades.
Portanto, naquele ano, os hebreus celebraram sua festa no Egito mesmo. O sangue
dos cordeiros foi lançado sobre a entrada de suas casas, com a finalidade de os
proteger das doenças, das influências nefastas e dos maus espíritos. E eis que, no
meio da noite, de acordo com o vocabulário bíblico: “Iahweh feriu todos os
primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que deveria sentar-se
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em seu trono, até o primogênito do cativo, que estava na prisão, e todo o primogênito
dos animais” (Ex 12,29).
Como havia feito para todas as outras calamidades, o autor atribui a Deus uma
epidemia que atinge os primogênitos. Afirmação perigosa: “A linguagem é
tipicamente bíblica. Deus é identificado com o mal que atinge, circula, se espalha no
Egito, atacando tanto o homem como o animal”.65 É evidente que tal epidemia não
provém de Deus. Alguns textos a distinguem do “flagelo destruidor” (Ex 12,13), ou
do “Exterminador” que vem para ferir (Ex 12,23). Moisés, no entanto, deu a entender
que tudo isso vinha de Deus, que não pudera ser celebrado no deserto...
No meio da noite, os egípcios percebem que uma epidemia começou a destruir
suas famílias. O próprio Faraó vê seu filho mais velho atingido. Dessa vez, “a
permissão irremediável é obtida!”:66
Faraó, chamando Moisés e Aarão, naquela mesma noite, disse: “Levantai-vos e saí do meio do meu
povo, vós e os israelitas; ide, servi a Iahweh, como tendes dito. Levai também vossos rebanhos e
vosso gado, parti e abençoai a mim também”. Os egípcios pressionavam o povo a que saísse depressa
do país, dizendo: “Morreremos todos” (Ex 12,31-33).
Aqui ainda, essas palavras podem nos indicar que a epidemia não atingiu o vale de
Gessen, em que se encontravam os israelitas, e que estava claro para os egípcios e o
Faraó que todas aquelas calamidades procediam do Deus dos hebreus.
De seu ponto de vista, os israelitas não puderam certamente se esquecer de que
foram poupados no exato momento em que haviam efetuado o rito do sangue do
cordeiro aplicado à entrada de suas casas... Eles interpretaram tal prodígio como um
sinal da proteção de Deus. Assim, este será o primeiro significado dado por eles à
palavra “Páscoa”: Deus “saltou”, “passou adiante” (Ex 12,13), “passou adiante das
portas” (Ex 12,23). “Esse ‘salto’, essa ‘passagem’ que isenta e poupa, tem, desse
modo, um significado de salvação”.67 Tornamos a encontrar aqui a grande lição
veiculada pelas pragas do Egito: “A passagem de Deus representa um julgamento e
um castigo, no que diz respeito aos egípcios; intervenção libertadora para os
israelitas”.68
Nesse contexto, algumas frases do Êxodo, que vão e voltam como num refrão,
assumem um grande significado teológico e propriamente apocalíptico. Assim,
Moisés diz ao Faraó: “para que saibas que não há ninguém como Iahweh nosso Deus”
(Ex 8,6); “para que saibais que Iahweh fez uma distinção entre o Egito e Israel” (Ex
11,7; 9,4.26; 10,23). Trata-se, definitivamente, de se saber quem tem a última palavra
sobre a história humana e que olhar Deus lança sobre aqueles que clamam por
socorro. De fato, o Êxodo anuncia que todos os que confiam em Deus serão libertos
das forças do mal, apesar de todo e qualquer esforço que estas possam fazer para
mantê-los na servidão: “Saberão os egípcios que eu sou Iahweh, quando estender
minha mão sobre o Egito e fizer sair do meio deles os israelitas” (Ex 7,5).
Com efeito, em meio a esse “grande clamor” (Ex 11,6), o povo de Deus é
150
poupado: Deus “passará adiante dessa porta e não permitirá que o Exterminador entre
em vossas casas, para vos ferir” (Ex 12,23). De um lado, o que se vê é a salvação; do
outro, o horror.
Sabemos que por trás desses acontecimentos, delineia-se o formidável combate
entre Deus e as forças do mal, de modo que o Êxodo não cessa de repetir: “O Egito e
seus deuses formam uma só coisa”.69 O Faraó e seu povo praticam a magia e
recorrem às forças ocultas. Por fim, essas forças se voltam contra eles. Assim, o povo
de Deus é um povo de redimidos, que escapa da morte, enquanto o Faraó, adversário
de Deus, tem como recompensa a perdição, juntamente com seu povo.
Certamente, ao percebermos a gigantesca perspectiva veiculada por esses textos
do Êxodo, deixamos de os considerar como uma história velha e ultrapassada. Por
intermédio dos acontecimentos daquela noite, podemos perceber a problemática real
que se desenha e a palavra de esperança que ecoa hoje para nós. Tal perspectiva nos
impede igualmente de pensar que os egípcios, enquanto povo – e assim também os
cananeus, os filisteus, os assírios, os babilônios, os gregos etc. – são inimigos de
Deus. Muitas passagens da Bíblia deram margem a interpretações desse tipo,
parecendo, assim, inapropriadas, até mesmo escandalosas. Podemos citar um trecho
do salmo 136: “Nele arrojou Faraó e seu exército, porque eterno é seu amor! Ele
matou reis poderosos, porque eterno é seu amor!” (Sl 136,15.18).
Em sua história concreta, Israel ficou inegavelmente aliviado por não mais
continuar sob a ditadura de um Faraó. Por isso pôde agradecer a Deus. Que povo não
deseja escapar do poder arbitrário deste ou daquele déspota pretensioso e sanguinário
que se considera o dono do mundo? O Faraó daquele ano foi um desses tiranos. Que a
palavra de Deus tenha se apropriado da história real vivida na época de determinado
faraó, fazendo dela um símbolo para nossas vidas, não se segue que possamos
considerar os egípcios como um povo rejeitado por Deus. Basta-nos transpormos os
dados dos textos sobre um outro plano: compreenderemos que o Faraó e seu exército,
que mantinham o povo de Deus em estado de servidão, simbolizam as forças do mal,
nossos inimigos atuais. Esses textos comportam vários níveis de significação, que o
Êxodo estabeleceu muito bem. A própria Bíblia menciona que os hebreus viveram
400 anos no Egito e que, mesmo na época dos últimos faraós, que os oprimiram,
mantiveram boas relações com os egípcios. Sabe-se que naquela mesma noite, no
momento de sua partida, “os israelitas pediram aos egípcios objetos de prata, objetos
de ouro e roupas. Iahweh fez com que seu povo encontrasse graça aos olhos dos
egípcios, de maneira que estes lhes davam o que pediam” (Ex 3,21-22; 12,35-36).
A Páscoa celebrada naquela noite tem como sentido primeiro o fato de que a
epidemia não atravessou a porta das casas dos israelitas: Deus passou adiante,
poupou, salvou seu povo. O segundo significado da Páscoa, que vem completar o
primeiro, diz respeito à travessia pelo mar, realizada em seguida: Deus então fez
passar, e a palavra Páscoa adquiriu o sentido de passagem, saída para um outro
lugar.
151
Como não enxergarmos a pertinência desses dois significados para nós? Se Deus
faz com que o mal passe longe de nossa porta, especialmente quando a morte se
aproxima, isso quer dizer que ele nos distingue e quer nos libertar das forças que nos
escravizam; se, em seguida, ele nos faz passar, é porque deseja nos levar a um mundo
em que há abundância e paz. Essas duas ações de Deus nos recolocam diante das duas
grandes idéias subjacentes a todo o livrodo Êxodo: Deus elegeu Israel, o escolheu, o
amou, lhe fez promessas; é precisamente porque ama Israel que Deus age para salvá-
lo. Estes são os dois dados fundamentais da experiência judaica de Deus, presentes
em Moisés e Abraão: a eleição e a salvação – a primeira se refere ao povo e a
segunda, à terra prometida; as duas, porém, se referem ao Deus da aliança. As três
promessas feitas aos patriarcas nos dão, assim, um acesso privilegiado ao Deus da
Bíblia. Ora, se o Deus do Êxodo é o nosso Deus, nós também somos seus eleitos,
escolhidos, amados, e tal eleição anuncia a passagem definitiva que o Deus da aliança
operará em nós. Portanto, a mensagem atrelada àquela noite memorável da Páscoa
comporta uma grande riqueza.
Do ponto de vista da História, dois fatos surgem como elementos incontestáveis
daquela noite dramática. Apesar dos acréscimos e das alterações das diversas
tradições, os especialistas estão de acordo para dizer que “a Páscoa coincidiu com a
partida dos israelitas”.70
É no momento da celebração da festa tradicional dos pastores que a partida se
realiza, enquanto o sangue do cordeiro pascal já tinha sido aspergido na entrada das
habitações. “Naquele ano, a festa se encontrou assim associada a uma travessia de
fronteira que foi definitiva”.71
Os especialistas também estão de acordo em relação ao segundo acontecimento
que finalmente foi capaz de garantir a permissão – incluindo a ordem – do Faraó: a
“décima” praga, uma epidemia que despertou o pânico dos egípcios. Isso porque:
Um laço muito estreito une a narração da décima praga (Ex 11,1-8; 12,29-34), o ritual da Páscoa
(12,1-14.21-28.43-51) e a narração da saída do Egito (12,35-42).72
Podemos igualmente convir que os israelitas não foram os únicos a deixar o Egito
naquela noite: “Subiu também com eles uma multidão misturada com ovelhas, gado e
muitíssimos animais” (Ex 12,38). Havia provavelmente outros semitas, ao longo do
deserto, “sociedades de beduínos migrantes, com pressa de deixar mais uma vez os
locais em que passavam o inverno. Antes de prosseguirem na contínua busca por
água e pastagem, faziam também a refeição pascal, segundo o antiqüíssimo ritual”.73
O livro dos Números fala de uma “turba que estava no meio deles” (Nm 11,4).
O fato de “a epidemia e a fuga terem coincidido com a celebração da Páscoa”,74
“a memória de Israel jamais o esqueceria. O povo de Deus saberá para sempre que
Abib ou Nisan é o mês do êxodo”:75 “Este mês será para vós o princípio dos meses;
será o primeiro mês do ano” (Ex 12,2).
152
Para Moisés e os seus, a noite da Páscoa, “durante a qual Iahweh velou para os
fazer sair do Egito”, ficaria para sempre ligada à inesquecível noite da libertação e,
desde aquele momento, deveria ser “para todos os israelitas uma vigília para Iahweh,
em todas as suas gerações” (Ex 12,42). A Páscoa adquire um significado novo,
tornando-se memorial da ação histórica de Deus :
A Páscoa, inalterada em seus elementos característicos, foi repensada, no que diz respeito à fé Javista,
e transformada, profunda e essencialmente, em seu espírito: perdendo seu apego à religião da natureza
e adquirindo um significado novo, ao se tornar memorial histórico. Ela se tornou uma celebração
específica da fé no Deus que se revelou na História.76
Há dias, na vida de cada pessoa, como também na vida de um povo, mais
importantes e determinantes que outros. Os autores da Bíblia, narrando os
acontecimentos da saída do Egito, determinarão aquele dia como o da formação de
Israel como povo livre, “quando Israel era menino” (Os 11,1) e mostrarão que o
modo pelo qual Deus se manifestou na libertação de Israel está tão carregado de
sentido, de modo que “a fé desse povo sofreu uma transformação radical, ou ainda,
teve uma origem definitiva. Israel compreenderá que, se Deus lhe falou nessas
circunstâncias determinadas, e um dia o salvou, sua fé agora tem como fundamento a
própria intervenção, datada e imprevisível, livre e gratuita, pessoal, de Deus em sua
história”.77
A expressão “naquele dia” abarca, passo a passo, os diferentes eventos ocorridos
durante as duas noites trágicas, a da Páscoa e a da passagem pelo mar:
Esta noite, durante a qual Iahweh velou para os fazer sair do Egito, deve ser para todos os israelitas
uma vigília para Iahweh, em todas as suas gerações (Ex 12,42).
Este dia será para vós um memorial, e o celebrareis como uma festa para Iahweh; nas vossas gerações
a festejareis; é um decreto perpétuo (Ex 12,14).
Lembrai-vos deste dia, em que saístes do Egito, da casa da escravidão; pois com mão forte Iahweh
vos tirou de lá; e, por isso, não comereis pão fermentado (Ex 13,3).
É importante alcançarmos o significado do termo memorial para os judeus. Trata-
se de um ato, uma celebração extremamente rica em sentido, que engloba três
dimensões:
a) o passado: rememora-se a ação histórica de Deus ao libertar Israel do Egito;
b) o presente: apropria-se, na vida atual, dos benefícios da noite da saída do Egito;
c) o futuro: espera-se, para o futuro, uma libertação definitiva.
Fazer memória não é somente se lembrar do passado, mas estender a si mesmo os
efeitos da libertação passada e fundamentar a própria vida a partir dessa intervenção
de Deus, na expectativa de uma libertação melhor.
Essas três perspectivas estão bem presentes nos textos do Êxodo.
O lembrai-vos nos transporta primeiramente ao passado: “Lembrai-vos deste dia,
em que saístes do Egito, da casa da escravidão” (Ex 13,3). O acontecimento mediante
153
o qual Deus se revelou jamais se apagou. Sobre esse gesto é que todas as “gerações”
(Ex 12,14) se apoiarão.
Conseqüentemente, ao celebrar a Páscoa, Israel não reconhece somente o que
Deus fez por aqueles que eram escravos no Egito, mas tem a consciência de que essa
libertação permanece atual, uma vez que Deus fez de Israel um povo livre.
Reproduzindo o rito da ceia pascal, cada indivíduo torna presente, atual e pessoal esse
dia de libertação, podendo perfeitamente aplicar para si os benefícios de tal
acontecimento e dizer: “Naquele dia, assim falarás a teu filho: ‘Eis o que Iahweh fez
por mim, quando saí do Egito’” (Ex 13,8). Aliás, escreve-se no presente: “Hoje é o
mês de Abib, e estais saindo do Egito” (Ex 13,8). “Celebrar a festa é, portanto, sair do
Egito”,78 é reconhecer que Deus agiu no passado, para a nossa libertação presente. A
Páscoa é “um rito litúrgico que torna presente a todos a Páscoa-passagem-
salvação”.79 Veremos as implicações disso para a Eucaristia.
Além do mais, ao atualizar anualmente esse dia da libertação, Israel demonstra
que crê que Deus pode libertar em todas as épocas, no presente e no futuro. E uma
vez que as palavras do Antigo Testamento adquirem um alcance cada vez mais
profundo, ao longo dos séculos, segue-se que “o memorial faz não somente reviver a
história do êxodo, mas mantém e entretém a espera por uma libertação final, por uma
realização definitiva da Páscoa”.80
Assim, para os judeus, passado, presente e futuro se encontram no memorial, pois
nele se faz memória de Deus mesmo, o que pressupõe a fé num Deus vivo, que
acompanha de perto toda a duração do tempo! Essa é a fé de Israel, que não deixou de
celebrar a Páscoa ao longo de toda a sua história. O Antigo Testamento põe em
evidência essa festa, especialmente após os acontecimentos importantes que
constituíram outras etapas, outras libertações, outras passagens memoráveis: a Páscoa
no Sinai (Nm 9), a Páscoa que sucedeu a travessia do Jordão, no momento da entrada
na terra prometida (Js 5), a Páscoa das reformas de Ezequias, por volta de 716 antes
de Cristo (2Cr 30), e de Josias, em torno de 622 (1Rs 23,21) e finalmente, a Páscoa
que sucedeu o retorno do exílio, em 515 (Esd 6,19-22).
Esta última Páscoa tem um caráter particular, pelo fato de que o retorno do exílio
fora apresentado como um novo êxodo (Is 43,16-21; Is 63,7–64,11). Os profetas se
inspiraram na saída do Egito para anunciar a saída de Babilônia. Assim, “a libertação
do exílio, com a alegria que ela causou, deu à Páscoa um acréscimo de sentido”.81
Num momentodecisivo, no tempo da dura perseguição de Antíoco, os sábios deviam
desvendar o sentido final da Páscoa. Nesse momento também, eles fundamentaram
sua esperança a partir do primeiro gesto de Deus, realizado no tempo de Moisés,
testemunhando assim a grande oração de Daniel – o Israel fiel: “E agora, Senhor
nosso Deus, que por tua mão poderosa fizeste sair o teu povo da terra do Egito, e
assim adquiriste uma fama que perdura até hoje, nós pecamos, nós cometemos o mal.
Senhor, por todos os teus atos de justiça (...), escuta a prece do teu servo e as suas
154
súplicas” (Dn 9,15-17). A resposta foi o anúncio da ressurreição! (Dn 12,2).
As três grandes partes do Antigo Testamento, caracterizadas por três momentos de
desespero de Israel – a escravidão no Egito, o exílio em Babilônia e a dura
perseguição de Antíoco – progridem em direção a um êxodo final:
Ainda aqui, mediremos a dimensão profética do livro do Êxodo! Ninguém poderia
imaginar até que ponto a festa da Páscoa, que determinaria o presente, o passado e o
futuro, influenciaria também o próprio Deus! Mas o simples fato de se prescrever a
Páscoa mediante um “decreto perpétuo” (Ex 12,14) implicava isso!
Isso quer dizer que a Páscoa e o nome de Deus, que adquirem sentido com a saída
do Egito, estão intimamente ligados. Estando os dois abertos para o futuro, é a
história que revelará seu conteúdo: Deus manifestará seu nome ao fazer “passar”. Por
isso, celebrar a Páscoa e invocar o nome de Iahweh são duas atitudes que definem o
memorial. A tradução literal da resposta de Deus a Moisés é, com efeito: “É o meu
nome para sempre, e é assim que me invocarão de geração em geração” (Ex 3,15).82
Deus dá seu nome como memorial: “Isso permite que os homens se lembrem de
quem é Deus e que Deus se lembre dos homens que o invocam com esse nome!”.83
Da mesma maneira, celebrar a Páscoa em memória do Deus do Êxodo é proclamar
quem é Deus e lhe pedir para manifestar seu nome. É reconhecer que ele era o
Salvador no passado, que ele é o Salvador no presente e que ele será o Salvador no
futuro, por toda a eternidade! A Páscoa, como memorial, traz, assim, os mesmos
níveis de significação do nome de Deus: Eu era, Eu sou, Eu serei. Celebrar a Páscoa
é manifestar o nome de Deus e lhe suplicar para operar sua ação decisiva: a passagem
para o mundo da ressurreição.
Tais como são descritos no Êxodo, os ritos que “observareis” (Ex 12,25), para a
noite de Páscoa, compreendem os três gestos principais da antiga festa dos pastores
(Ex 12,8.22; 13,3):
– comer-se-á a carne de um cordeiro ou de um cabrito assada ao fogo;
– comer-se-á com pães ázimos e ervas amargas;
– com o sangue do animal, serão marcados a travessa e os marcos da porta.
Este último gesto – a aspersão do sangue do cordeiro sobre as portas das casas –
desapareceu no tempo da reforma deuteronomista, operada em 622, no tempo do rei
Josias. Essa reforma concentrou todos os atos referentes aos cultos e sacrifícios e à
liturgia no Templo de Jerusalém: “Não poderás sacrificar a Páscoa numa das cidades
que Iahweh teu Deus te dará, mas somente no lugar que Iahweh teu Deus houver
escolhido para aí fazer habitar o seu nome” (Dt 16,5-6). Doravante, a Páscoa devia
155
ser celebrada no interior de uma peregrinação a Jerusalém, como seria vista no tempo
de Jesus. A festa conservava seu caráter de refeição em família, mas os cordeiros
passaram a ser imolados no Templo, pelos sacerdotes. Observemos que os
samaritanos conservaram até os dias atuais o rito de aplicação do sangue do cordeiro
pascal sobre a porta de entrada de suas habitações.
A festa da Páscoa, entre os judeus, possui um caráter todo especial, pelo fato de
que seu ritual constitui a questão da hereditariedade. “É como uma iniciação ativa,
por contato e treinamento”.84 Excelente maneira de se transmitirem, não somente os
costumes e as tradições, mas também seu significado:
Quando tiverdes entrado na terra que Iahweh vos dará, como ele disse, observareis este rito. Quando
vossos filhos vos perguntarem: “Que rito é este?”, respondereis: “É o sacrifício da Páscoa para
Iahweh, que passou adiante das casas dos israelitas no Egito, quando feriu os egípcios, mas livrou as
nossas casas” (Ex 12,25-27).
Não comereis pão fermentado. Naquele dia, assim falarás a teu filho: “Eis o que Iahweh fez por mim,
quando saí do Egito” (Ex 13,3.8).
A palavra acompanha o gesto, dando-lhe sentido. Assim, “a revelação se
transmite, ao povo de Deus, por meio da tradição oral, segundo um modo
propriamente religioso, ao longo de uma celebração sagrada”.85
A Páscoa é “uma festa para Iahweh” (Ex 12,14), pois foi ele quem tudo fez,
durante a saída do Egito (Ex 14,14). O louvor adquire aqui um significado especial e
culmina no canto dos salmos 113-118, o grande Hallel (palavra que se encontra em
Alelu-Iah: louvai o Senhor).
A Mishna, código de leis e costumes judaicos, indica com propriedade o espírito
por meio do qual os judeus sempre celebraram a Páscoa:
A cada geração, é uma dívida para o homem imaginar como se ele mesmo tivesse saído do país do
Egito... Não somente nossos pais foram salvos por ele, o Santo, bendito seja; mas também nós, neles
fomos salvos... Por isso, a dívida que recai sobre nós é a de agradecer, louvar, celebrar, exaltar,
glorificar, engrandecer, adorar e bendizer aquele que se manifestou na vida de nossos pais e em nossa
própria vida, por meio destes sinais: ao nos transferir da servidão para a liberdade, do desespero para a
alegria, do luto para a festa, das trevas para a grande luz e da opressão para a tranqüilidade. Logo,
cantemos diante dele este canto novo: Aleluia!86
A Páscoa, na tradição judaica, traz consigo o significado do nome de Deus, o
Salvador. Por isso, na aurora da era cristã, essa festa foi associada à vinda do
Messias. Dizia-se correntemente, como mostra o ditado palestino a respeito dessa
noite de vigília: “O messias virá nessa noite”.87 Portanto, essa é por excelência a
festa da esperança.
• A Páscoa para Jesus
No tempo de Jesus, “a Páscoa se tornou uma das grandes peregrinações, um dos
pontos culminantes do ano litúrgico. Por intermédio da lembrança da libertação do
156
Egito, ela alimenta a esperança na libertação vindoura. Há nessa ocasião o risco de
uma explosão de nacionalismo: é quase sempre no momento da Páscoa que os
movimentos políticos se afirmam (Lc 13,1) ou que as paixões religiosas se exasperam
(At 12). A administração romana vigia para manter a ordem durante as festividades
pascais e a cada ano, o procurador sobe a Jerusalém”.88
Aos doze anos, que já é a idade adulta para os judeus, Jesus se dirige a Jerusalém e
participa da Páscoa judaica (Lc 2,41-52). Para José e Maria, era costume irem “todos
os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa” (Lc 2,41-42). Fiel a essa tradição, Jesus,
durante sua vida pública, sobe três vezes em peregrinação a Jerusalém, a fim de
celebrar a Páscoa (Jo 2,13; 6,4; 11,55).
Ao longo desses três anos, à medida que a oposição aumenta, a iminência de sua
morte se torna cada vez mais inevitável. Ele a vê se aproximar e por três vezes a
anuncia abertamente, assim como sua ressurreição próxima (Mc 8,32; 9,30; 10,23).
Jesus indica o significado desses acontecimentos que ocorrerão em Jerusalém: eles
marcarão o momento no qual a Lei e os Profetas se cumprirão (Lc 18,31; Mc 14,49).
Ele mesmo recebe a confirmação disso no momento de sua “transfiguração no alto da
montanha”. Tendo subido “para orar” (Lc 9,28), Deus responde à sua oração e lhe
manifesta sua glória, como havia feito para Moisés e Elias, estes que viveram uma
experiência da glória e da presença de Deus no alto da montanha, por meio das
nuvens e dos trovões, o fogo de uma tempestade fulgurante (Ex 19,9.16-20; 24,15-17;
33,18-23; 34,5-8.28-31 e 1Rs 19,8-15). A mesma teofania acontece para Jesus. A
glória de Deus se manifesta para ele através do clarão da tempestade, de “uma nuvem
luminosa” (Mt 17,5). Por isso, “suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura” (Lc
9,29), “seu rosto resplandeceu como o sol e as suas vestes tornaram-sealvas como a
luz” (Mt 17,2). Descendo da montanha, Jesus põe essa manifestação da glória de
Deus em relação com a sua ressurreição iminente (Mc 9,9-10). Assim, ele é
confirmado em seu projeto de ir a Jerusalém: é lá que a Lei e os Profetas – Moisés e
Elias – se cumprirão. Ora, Lucas expressou isso por meio destas palavras:
Dois homens conversavam com ele:
eram Moisés e Elias que,
aparecendo envoltos em glória,
falavam de seu êxodo
que se consumaria em Jerusalém (Lc 9,29-30).
Assim, os êxodos de Israel, que anunciavam o êxodo final da ressurreição dos
mortos, se cumpririam, em seu êxodo, sua morte e ressurreição, em Jerusalém.
E, como outrora para Israel, esse êxodo de Jesus coincidiria com a Páscoa! Jesus
estava consciente disso, de modo que São João expressou bem esse fato ao mencionar
a hora de sua realização. A hora, que de início ainda não tinha chegado, mas em
seguida se aproxima (Jo 2,4; 7,30; 8,20; 12,23.27), corresponderá finalmente à hora
da Páscoa: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de
passar deste mundo para o Pai” (Jo 13,1). O tempo se reveste aqui de uma enorme
157
densidade. Não chegou somente o dia de Iahweh, anunciado pelos profetas, mas
também a hora!
Assim, tendo chegado o momento, Jesus pede a seus discípulos que preparem a
Páscoa:
Veio o dia dos Ázimos, quando devia ser imolada a páscoa. Jesus então enviou Pedro e João, dizendo:
“Ide preparar-nos a Páscoa para comermos” (Lc 22,9). Eles foram, acharam tudo como dissera Jesus,
e prepararam a Páscoa” (Lc 22,13).
Ao lermos Mateus, Marcos e Lucas, parecer-nos-ia que Jesus, na noite da “quinta-
feira santa”, celebrou a Páscoa. A referência ao “primeiro dia dos Ázimos, quando se
imolava a Páscoa” (Mc 14,12; Mt 26,17; Lc 22,7) e ao “canto do hino” (Mc 14,26;
Mt 26,30), ao final da refeição, nos levam a pensar nesse sentido.
Entretanto, não se trata da ceia pascal propriamente dita. Em nenhum lugar, com
efeito, faz-se menção ao cordeiro pascal. De fato, São João fornece várias
informações que confirmam que essa refeição aconteceu na vigília da Páscoa.
Primeiramente, ele escreve: “Antes da festa da Páscoa... Durante a ceia” (Jo 13,1-2).
Além disso, o evangelista reproduz a palavra de Jesus a Judas: “Faze depressa o que
estás fazendo”, salientando que “alguns pensavam que Jesus lhe dissera: ‘Compra o
necessário para a festa’” (Jo 13,27-29). Quanto ao processo diante de Pilatos, na
manhã seguinte, ele relata que os chefes religiosos “não entraram no pretório para não
se contaminarem e poderem comer a Páscoa” (Jo 18,28-29). Ele pontua que era o dia
da “Preparação” (Jo 19,31), confirmando essa informação ao declarar que os soldados
não quebraram as pernas de Jesus, o que confirma as prescrições das Escrituras
relativas ao cordeiro pascal: “Chegando a Jesus e vendo-o já morto, não lhe
quebraram as pernas” (Jo 19,33). Isso significa que o momento no qual Jesus foi
crucificado era exatamente o momento no qual se imolavam os cordeiros no Templo,
para a refeição pascal. Portanto, a páscoa propriamente dita ocorreria à noite. Por
isso, “os historiadores contemporâneos tendem a preferir a versão de João. Este
parece ter conservado a lembrança exata da natureza da última ceia de Jesus, que
teria sido uma refeição de despedida, realizada num clima pascal”.89
Entretanto, é certo que Jesus vê chegar a Páscoa daquele ano como aquela durante
a qual Deus cumprirá, em sua pessoa, todas as suas promessas e todas as profecias.
Pois Deus vai fazê-lo passar pela ressurreição! Ele tem pressa de que a Páscoa se
realize para si. Essa Páscoa é a sua Páscoa:
Quando chegou a hora, disse-lhes: “Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco antes de sofrer;
pois eu vos digo que já não a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus” (Lc 22,15-16).
Por isso, durante essa última ceia, ele “deu graças” (Lc 22,17). Ele louva o Deus
do êxodo, cuja “direita, pela força se assinala” (Ex 15,6), durante a saída do Egito.
Ele sabe que o Pai será Iahweh-Salvador para si, que será “exaltado pela direita de
Deus” (At 2,33), pelo poder do Espírito Santo. Esta é a oração de Jesus, na última
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ceia: “Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho” (Jo 17,1). Durante a ressurreição, o Pai
vai gerar seu Filho para uma vida humana final, pelo poder de geração do Espírito
Santo (Rm 1,4; Hb 1,5).90 Logo, a salvação será vivida no interior da própria
Trindade.
Ao mesmo tempo, durante essa última refeição, Jesus desmascara, por trás das
ações dos homens, as mesmas forças hostis, anteriormente simbolizadas pela figura
do Faraó do Egito, do rei de Babilônia, do ditador Antíoco. Desta vez, o inimigo é
claramente nomeado, na hora do combate decisivo: “O príncipe deste mundo vem”
(Jo 14,30). E Jesus se dirige à morte com serenidade e tranqüilidade: “Não estou só,
porque o Pai está comigo” (Jo 16,32). Ele crê no Deus das promessas, da eleição, da
aliança, do êxodo.
E eis que, ao longo dessa refeição festiva, realizada no contexto da Páscoa, Jesus
institui um rito novo. Ele não consome um cordeiro – pois a Páscoa seria celebrada
no dia seguinte –, mas pão e vinho. Todavia, ele não abandona nenhum elemento da
antiga festa dos pastores, mas a leva ao seu pleno cumprimento. Jesus não vem para
abolir, e sim para completar. Sua Páscoa mantém suas origens, que estão no episódio
da libertação de Israel no Egito. Ao longo dessa última refeição, Jesus sabe, mais que
ninguém, o significado do pão sem fermento, do cordeiro imolado e do sangue
derramado e que salva. Mas com ele, esses três ritos da ceia pascal adquirem um
sentido novo.
O pão que ele toma, o pão ázimo, lembra que a saída do Egito se efetuou
rapidamente, no meio da noite. Esse pão, associado à prescrição de se comer a páscoa
“com os rins cingidos, sandálias nos pés e vara na mão” (Ex 12,11), ou seja, com
trajes de viagem, lhe ensina que este mundo é uma terra “de peregrinação”, como já
mostrava a vida dos antepassados de Israel (Gn 17,8; 23,4; 26,3; 28,11; 36,7; 37,1;
47,9). Esse pão dos nômades faz Jesus se lembrar de que o homem é “um peregrino”
como todos os seus pais (Sl 39) e que é preciso estar pronto para partir. Por isso,
naquela noite, Jesus vigia e pede a seus discípulos para também vigiarem (Mt 26,38-
44). Essa noite, como estava prescrito, “deve ser para todos os israelitas uma vigília
para Iahweh, em todas as gerações” (Ex 12,42). Além disso, esse pão ázimo,
associado ao costume dos agricultores, lhe ensina que é necessário rejeitar todo mau
fermento, toda maldade. De fato, não se encontrará nele nenhum ódio, nenhuma
revolta.
Durante a última ceia, Jesus tem consciência de ser ele o verdadeiro cordeiro
pascal. Ele fala que seu próprio sangue será derramado. São João enfatizou bem que
nesse mesmo dia – o dia, para os Judeus, começa com o pôr-do-sol –, Jesus foi o
verdadeiro cordeiro do qual não se quebrou nenhum osso (Jo 19,36). É claro que esse
cordeiro não foi imolado por Deus, mas pelos homens. Com efeito, Jesus já tinha
declarado: “Minha vida, ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente” (Jo 10,18).
Aliás, por esse motivo ele se diz amado pelo Pai: “Por isso o Pai me ama, porque dou
minha vida” (Jo 10,17). Amando “até o fim” (Jo 13,1), ele é a perfeita imagem do
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Pai, mostrando até onde Deus ama: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá
a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Sua morte e seu sangue vertido são o sinal, “a
expressão concreta de um amor que vai até o fim de si mesmo”.91 Assim, ele é o
cordeiro “sem defeito” (Ex 12,5), imolado pelos homens que “não sabem o que
fazem” (Lc 23,34). Jesus está plenamente consciente de que essa Páscoa marca “sua
hora de passar” (Jo 13,1) e dá à sua morte um significado pessoal. De fora, ele parece
sucumbir à morte, mas por dentro, ele a vive e a transforma num gesto de amor. Ao
ser imolado, ele se oferece inteira e pessoalmente: “Cristo, pelo Espírito eterno, se
ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha” (Hb 9,14). O Pai não podia
rejeitar esse dom que o Filho fazia de si mesmo, dom que exprimia o próprio amor do
Paipelos homens. O Filho cumpria perfeitamente a vontade do Pai: amando até o
fim, até o sacrifício de sua própria vida.
No momento dessa refeição, Jesus sabe que seu sangue, “derramado em favor de
muitos” (Mc 14,24) há de libertar, resgatar e salvar, como o sangue do cordeiro, o
qual, aspergido sobre as portas das casas, havia outrora salvo Israel e permitido a
Deus “discernir” seu povo e poupá-lo do Exterminador. Não obstante, o sangue de
Jesus não é um preço que o Filho teria pago e que seria exterior à própria Santíssima
Trindade: “Pois sabeis que não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou com
ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas por
sangue precioso, como de cordeiro sem defeitos e sem mácula, o Cristo” (1Pd 1,19).
O que salva é o amor: o amor do Pai que entrega seu Filho; o amor do Filho que
representa perfeitamente o Pai. Essa é, para Jesus, “a Nova aliança em seu sangue”
(Lc 22,20), prova de que Deus está com os homens, de maneira insuperável, pois o
Cristo se entregou até a morte. Ao mesmo tempo, esse amor manifestado em Jesus
apaga o pecado: “Jesus Cristo, a Testemunha Fiel, o Primogênito dos mortos, o
Príncipe dos reis da terra, aquele que nos ama e nos lavou de nossos pecados com seu
sangue” (Ap 1,5). Dessa dimensão interior e amorosa da morte de Jesus, os discípulos
jamais se esqueceriam: “Em tudo isto somos mais que vencedores, graças àquele que
nos amou. Pois nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o
presente nem o futuro, nem os poderes, nem qualquer outra criatura poderá nos
separar do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 8,37-39).
Da parte de Deus, a aliança não se romperá jamais e Jesus dá uma prova definitiva
disso, ao entregar a própria vida.
Pão sem fermento, cordeiro imolado, sangue derramado que salva. Tudo isso está
presente ao espírito de Jesus, no momento de sua última ceia. Porém, podemos
apenas pressentir “o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5). Toda a sua vida
pública mostra que ele tinha consciência de ser o Filho, enviado como Profeta e
Messias. Sabia que tudo se cumpriria nele, por meio de sua ressurreição iminente:
“Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou ao Pai” (Jo 16,27).
Assim, a hora de sua última refeição, que ele viu chegar como a hora de seu
êxodo, sua passagem, sua páscoa, é ao mesmo tempo a hora do louvor de Deus e a
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hora do combate decisivo contra o Príncipe das trevas; a hora em que ele é rejeitado,
traído, renegado, julgado, flagelado, crucificado, e a hora em que mostra o amor de
Deus; a hora da derrota aparente, e a hora em que Deus está prestes a tudo cumprir; a
hora por ele vivida no medo e na angústia, e a hora em que se abandona na confiança;
a hora que fica gravada no tempo dos homens, mas que marca o fim dos tempos; a
hora em que ele se entrega, e a hora em que se pode rejeitá-lo; a hora em que seu
sangue vertido por amor poderá libertar ou ser desprezado e escarnecido.
Podemos imaginar a extraordinária densidade dos gestos e das palavras de sua
última ceia:
Enquanto comiam, ele tomou um pão, abençoou, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é o meu
corpo”. Depois, tomou um cálice, rendeu graças, deu a eles, e todos dele beberam. E disse-lhes: “Isto
é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos” (Mc 12,22-24).
A expressão o corpo e o sangue significa, em hebraico, a pessoa. Assim, a
epístola aos Hebreus descreve a pessoa como o ser feito de “carne e sangue” (Hb
2,14), o que designa nossa condição terrena, limitada, sofredora e mortal. O mesmo
versículo acrescenta que Jesus “participou da mesma condição”: ele viveu nossas
limitações humanas. Em sua última ceia, trata-se de sua pessoa que vai passar pela
ressurreição, conseqüentemente, seu corpo e sangue, que serão glorificados. Logo,
sua última ceia é profética. Nesse momento, Jesus não transforma o pão em seu corpo
e o vinho em seu sangue. Ele institui um rito para anunciar como haverá de se tornar
presente, depois de ressuscitado. Participar da Eucaristia não é, para falar cruamente,
praticar um ritual de antropofagia, mas formar comunhão com a ressurreição de
Cristo, com a Pessoa do Ressuscitado. Ora, na Pessoa do Ressuscitado, encontramos
o Verbo feito carne, que conheceu o sofrimento e que atravessou a morte. É o Jesus
histórico, nascido em Belém e morto na cruz, mas que passou pela ressurreição, por
isso “já não morre, a morte não tem mais domínio sobre ele” (Rm 6,9). Em tal
perspectiva, podemos compreender as palavras ditas por ele após a multiplicação dos
pães:
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.
Pois minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come
minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele (Jo 6,54-55).
Seu corpo e sangue se referem a sua pessoa, pois ele diz logo em seguida: “aquele
que de mim se alimenta viverá por mim” (Jo 6,57). À questão dos judeus: “Como esse
homem pode dar-nos a sua carne a comer?” (Jo 6,52) e à questão de seus próprios
discípulos: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (Jo 6,60), Jesus responde
que suas palavras devem ser entendidas à luz de sua ressurreição que se aproxima:
“Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subir aonde estava
antes?... O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que vos disse
são espírito e vida!” (Jo 6,63).
Assim, a multiplicação dos pães anuncia sua última ceia. Por sua vez, esta última
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refeição profetiza como ele se dará em comida, depois de ressuscitado, no momento
em que, fora do espaço e do tempo e tendo o “poder de se submeter a si todas as
coisas” (Fl 3,21), ele poderá, quando seus discípulos repetirem seus gestos,
transformar o pão e o vinho em seu corpo e seu sangue gloriosos, tornar-se presente e
permitir-lhes participarem de sua ressurreição.
Com efeito, Jesus transmite a seus discípulos uma prescrição final: “Fazei isto em
minha memória” (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25).
O fato de pronunciar tais palavras revela que Jesus está bastante consciente de se
encontrar num momento privilegiado, o momento em que Deus realizará a páscoa
definitiva, em sua pessoa. Isso depende de uma audácia incrível, de uma fé profunda,
e ao mesmo tempo, de uma longa meditação sobre o Antigo Testamento e de um
conhecimento notável do significado da tradição judaica. Pois essas palavras são
extremamente significativas: Moisés havia mandado “observar este rito” (Ex 12,3;
12,25; 13,5) – o rito do cordeiro pascal, do pão ázimo e da aplicação do sangue do
cordeiro; e eis que Jesus prescreve agora a seus discípulos para repetirem os gestos de
sua última ceia. Moisés tinha mandado refazer o rito da páscoa, como memorial da
saída do Egito. Jesus manda refazer os gestos de sua última ceia, como memorial de
sua morte e ressurreição.
• A Páscoa para os cristãos
Como a Páscoa judaica, a Páscoa cristã se mantém como uma festa em louvor ao
Deus do êxodo que, desta vez, “libertou Jesus das angústias do Hades” (At 2,24) e o
fez passar pela ressurreição.
A Páscoa de Cristo realiza a Páscoa judaica, mas a ultrapassa infinitamente. De
fato, ela transmite o mesmo significado de Deus, porém, revela o Pai, que salva seu
Filho, pelo poder do Espírito Santo. Uma concepção como essa é completamente
inadmissível para os judeus. A Páscoa cristã celebra uma saída, que não é somente a
saída do Egito para a terra de Canaã, mas a saída deste mundo para o mundo da
ressurreição, a saída derradeira, de que o Antigo Testamento tratou, no livro de
Daniel. Jesus leva a Páscoa judaica à plena realização.
O discípulo de Jesus conhece o sentido pleno da Páscoa judaica. Do mesmo modo,
o indivíduo de fé judaica que adere à fé cristã não abandona a riqueza do Antigo
Testamento. Pelo contrário, como escreve São Mateus: “Todo escriba que se tornou
discípulo do Reino dos Céus é semelhante ao proprietário que do seu tesouro tira
coisas novas e velhas” (Mt 13,52). O cristão, com

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