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Casos Clínicos - Doenças Fúngicas Caso clínico 1: Paciente Masculino, 50 anos iniciou com prurido (coceira) em virilha (bilateral) com surgimento de “vermelhidão” no local. A lesão começou pequena há algumas semanas e vem aumentando. Usou pomada para alergia e não melhorou. Notou que nas bordas da lesão a pele descasca. Caso clínico 2: Masculino, 33 anos, veterinário. Há 2 meses iniciou com manchas no corpo que estão se espalhando. Leve prurido local. As manchas vão aumentando de tamanho, deixando o centro mais claro. Nega uso de medicamentos. Para ambos os casos responda: 1. Suspeita diagnóstica: Resposta: A principal suspeita diagnóstica é de que os pacientes de ambos os casos clínicos apresentam dermatofitoses (também chamadas de tineas), ou seja, doenças causadas por fungos dermatófitos, os quais se alimentam de porções queratinizadas do corpo. Analisando o local de formação das lesões, é possível afirmar que o paciente do caso clínico 1 apresenta Tinea cruris (lesões na região das pregas inguinais) e o paciente do caso clínico 2 apresenta Tinea corporis (lesões no corpo). 2. Provável modo de transmissão: Resposta: O fungo dermatófito que acomete o paciente do caso clínico 1 provavelmente foi transmitido por contato direto com a pele de outros seres humanos infectados (os dermatófitos são contagiosos e frequentemente transmitidos pela exposição à pele descamada, unhas e cabelos contaminados por hifas ou conídios) ou fômites contendo os fungos (toalhas, roupas e chuveiros contaminados, bem como outros objetos semelhantes). Já o paciente do caso clínico 2, por ser um veterinário, provavelmente contraiu a infecção fúngica a partir do contato direto com cães ou gatos infectados por um fungo dermatófito (provavelmente o Microsporum canis). 3. Microrganismo(s) causador (es): Resposta: Os microrganismos causadores das citadas dermatofitoses são os chamados fungos dermatófitos, os quais podem ser dos gêneros Trichophyton (Ex: T. rubrum), Microsporum (Ex: M. canis) ou Epidermophyton (Ex: E. floccosum). 4. Exames complementares: Resposta: O diagnóstico laboratorial das dermatofitoses nos pacientes dos casos clínicos pode ser feito a partir da coleta e exame direto de escamas de pele ou pêlos presentes no local da lesão. O material coletado deve ser colocado em uma lâmina com hidróxido de potássio e em seguida analisado ao microscópio, devendo serem procuradas alterações e estruturas fúngicas como hifas e artroconídeos. Também pode ser feita a cultura da amostra semeando o material coletado em meio ágar Sabouraud (pode ser acrescido de cloranfenicol ou cicloeximida) e em seguida analisando a macromorfologia e a micromorfologia da colônia formada, de modo a identificar o fungo causador das lesões. Também existem alguns testes complementares como o microcultivo (utiliza meio ágar batata) e o teste da perfuração do pêlo. 5. Medicação prescrita: Resposta: No paciente do caso clínico 1 as lesões são localizadas, então o tratamento pode ser tópico (utilizando pomadas ou cremes). Já no caso do paciente do caso clínico 2, se as lesões já forem generalizadas, pode ser mais adequado o tratamento com fármacos administrados pela via oral. Os fármacos que podem ser utilizados no tratamento das dermatofitoses que afetam a pele (como Tinea cruris e Tinea corporis) são os derivados azólicos (como clotrimazol, miconazol, econazol, cetoconazol, fluconazol e itraconazol), terbinafina, amorolfina e griseofulvina. Caso clínico 3: Feminina, 12 meses. Mãe conta que há 10 dias notou o surgimento de vermelhidão em área de fraldas e “pontinhos vermelhos” nas coxas. Nega sinais sistêmicos associados. Sem uso de medicação sistêmica e tópica. Responda: 1. Suspeita diagnóstica: Resposta: A principal suspeita diagnóstica é de que a paciente do caso clínico apresenta a doença candidíase (infecção por Candida localizada) com manifestação clínica cutânea. 2. Microrganismo(s) causador (es): Resposta: Os microrganismos causadores da candidíase são os fungos levedura do gênero Candida. As principais espécies desse gênero são C. albicans, C. parapsilosis, C. tropicalis. C. glabrata e C. krusei. A identificação da espécie que acomete a paciente é importante para que o tratamento seja direcionado e se torne mais eficaz. 3. Fatores predisponentes: Resposta: A utilização constante de fraldas (associada a uma higiene insuficiente) pela paciente pode ter sido um fator predisponente para a candidíase cutânea na região mostrada na imagem, pois esse hábito contribui para o aumento da temperatura e da umidade no local, o que na paciente deve ter causado a proliferação do citado fungo, levando ao desenvolvimento dos sinais clínicos observados. Além disso, podem contribuir para o desenvolvimento de quadros de candidíase nos pacientes em geral fatores como imunidade baixa (associada a doenças como Aids e diabetes, por exemplo), utilização de antibióticos, alterações hormonais, obesidade e traumatismos (queimaduras, maceração da pele). 4. Exames complementares: Resposta: Como a suspeita clínica é de candidíase cutânea, o diagnóstico laboratorial é feito a partir da coleta de escamas de pele da região afetada. O material coletado é então colocado em uma lâmina contendo hidróxido de potássio para que seja feito o exame direto utilizando um microscópio óptico. Quando o paciente apresenta candidíase cutânea, normalmente podem ser visualizados no exame direto blastoconídios de leveduras. Para confirmar o diagnóstico, ainda pode ser feita a cultura do material em tubos contendo meio de cultura ágar Sabouraud, Sabouraud com cloranfenicol e Sabouraud com cloranfenicol e cicloeximida. Quando o resultado da cultura é positivo, serão formadas colônias glabrosas (branco-amareladas) e os blastoconídios poderão ser observados pela coloração de Gram. Ainda pode ser feita a identificação da espécie de Candida que está causando a candidíase cutânea por meio do chamado microcultivo, o qual utiliza como meio de cultura o ágar fubá ou meios cromogênicos como o Cromagar (no qual diferentes espécies apresentam colorações específicas). 5. Medicação prescrita: Resposta: O tratamento da candidíase cutânea deve ser feito por meio de drogas antifúngicas. No caso da paciente do caso clínico, em que as lesões são localizadas, podem ser utilizados antifúngicos tópicos como pomadas contendo derivados azólicos (miconazol ou cetoconazol, por exemplo) e a nistatina. Já em casos refratários de candidíase o mais adequado é a utilização de antifúngicos por via oral, podendo ser utilizado o derivado azólico fluconazol. É importante salientar que além de haver a administração de medicamento deve ser feita a remoção dos fatores predisponentes para a candidíase cutânea na paciente, por meio de medidas como diminuir o uso de fraldas ou aumentar a frequência da troca delas. Caso clínico 4: Feminina, 32 anos, negra, solteira, diarista, natural de Fortaleza, queixa-se de início abrupto de cefaléia, náuseas e confusão mental. Refere febre de 38ºC. Paciente HIV positiva. Contagem de linfócitos TCD4 =100 cels/mm3. Devido suspeita clínica foi solicitada pesquisa direta (inclusive com tinta da China) e uma cultura fúngica e bacteriana no LCR da paciente, foram observados os seguintes achados: Exame direto do LCR (400x) Cultura fúngica Responda: 1. Suspeita diagnóstica: Resposta: A principal suspeita diagnóstica é de que a paciente do caso clínico apresenta uma doença fúngica chamada criptococose. 2. Microrganismo(s) causador (es): Resposta: Os microrganismos causadores da criptococose são os fungos do gênero Cryptococcus. Esses fungos são leveduras capsuladas e podem ser de duas espécies: C. neoformans (acomete principalmente pacientes imunocomprometidos) e C. gatti (afeta pacientes em geral). Tendo em vista que a paciente do caso clínico é HIV positiva (é imunocomprometida) pode-se afirmar que muito provavelmente o microrganismo que está causando nela um quadro de criptococose é o C. neoformans. 3. Quais os principais grupos derisco para adquirir esta doença? Resposta: Os principais grupos de risco para adquirir criptococose são os compostos por pacientes imunocomprometidos. Assim, pode-se dizer que os fatores de risco para criptococose são condições nas quais o sistema imunológico é prejudicado, como Aids (principal), lúpus eritematoso sistêmico, neoplasias, leucemias, linfomas, sarcoidose, uso prolongado de corticóides, transplantes de órgãos sólidos, entre outros. 4. Possíveis diagnósticos diferenciais: Resposta: Em casos de criptococose, pode-se dizer que os possíveis diagnósticos diferenciais são doenças que acometem pacientes imunocomprometidos e podem desenvolver sintomas semelhantes como toxoplasmose, tuberculose, meningoencefalites, sífilis, sarcoidose, histoplasmose, linfomas, nocardiose, leucoencefalopatia multifocal progressiva, entre outros. 5. Exames complementares: Resposta: O diagnóstico laboratorial da criptococose é feito a partir da coleta do líquor (em casos de suspeita de meningite) e de outros materiais como escarro, lavado brônquico, urina, sangue, podendo também ser realizada a biópsia de possíveis lesões. Como a meningite é a principal causadora dos sintomas característicos da doença, o líquor é o material mais recorrentemente coletado para fazer o diagnóstico da criptococose. O líquor coletado é acrescido de um corante chamado de tinta da China. que permite que os fungos cryptococcus (se presentes) sejam identificados no exame direto como áreas não coradas (coloração negativa), assim como mostra a imagem da esquerda exposta após o texto do caso clínico. Para confirmar o diagnóstico também deve ser realizado a cultura do material coletado em meio de cultura ágar Sabouraud, de modo que se o resultado for positivo poderá ser visualizado no tubo de ensaio um aspecto de “leite condensado”, como pode ser observado na imagem da direita exposta após o texto do caso clínico. Esse aspecto se forma pois a presença da cápsula nesses fungos faz com que eles escorram e se depositem na porção inferior do tubo. Além do exame direto e da cultura (principais) podem ser feitos outros exames para diagnosticar a criptococose, como o exame histopatológico do pulmão ou lesões cutâneas do paciente; pode ainda ser feito com o líquor do paciente o teste de aglutinação em látex, o qual é rápido e se baseia na reação antígeno-anticorpo; por fim, ainda podem ser feitos testes de biologia molecular, como o PCR, utilizando qualquer material do paciente que possa conter o fungo. 6. Medicação prescrita: Resposta: No caso da paciente do caso clínico, que é imunossuprimida e já apresenta sintomas de meningite, o mais adequado é a prescrição de anfotericina B por via endovenosa ou até mesmo intratecal, em associação com outras drogas que penetrem melhor no sistema nervoso central como a fluocitosina ou o fluconazol. O mais comum é que seja administrada anfotericina B no início para que o paciente tenha uma resposta clínica imediata e em seguida o tratamento seja continuado com fluconazol, em doses cada vez menores até que o paciente esteja curado (devem ser realizados testes laboratoriais periodicamente para verificar a efetividade do tratamento). Na situação da paciente do caso clínico, que apresenta HIV, talvez seja necessário manter o tratamento por tempo indeterminado como forma de prevenir recidivas. Em casos menos graves de criptococose, no entanto, o tratamento pode ser feito apenas com fluconazol. Caso clínico 5: Homem de 19 anos, agricultor, procedente de Boa Viagem, região de clima semi-árido no Estado do Ceará, queixando-se de dor pleurítica bilateral, acompanhada por febre (não mensurada), adinamia intensa e tosse seca. Foi encaminhado ao Hospital São José, onde realizou radiografia de tórax, que mostrou múltiplos nódulos pulmonares bilaterais. A bacterioscopia, pesquisa de BAAR e culturas para BK e germes piogênicos no escarro foram negativas. Hemoculturas não demonstraram quaisquer microrganismos. Fez uso de oxacilina e gentamicina devido à persistência de febre. Recebeu alta com remissão do quadro clínico e radiológico. Aproximadamente um mês após a alta evoluiu com febre, dispnéia intensa e perda de peso não quantificada, tendo sido readmitido com quadro radiológico similar ao anterior (Fig. 1). O paciente participava ocasionalmente de caçadas a tatus (Dasypus novemcinctus). Relatava que um primo, também participante das caçadas, apresentara quadro clínico semelhante ao seu, no mesmo período, mas com resolução espontânea dos sintomas. Encontrava-se em estado geral grave, taquipnéico, febril (T = 37,8ºC). Não foram encontradas alterações em exame físico de pele e abdome. Realizou tomografia computadorizada de tórax, que evidenciava múltiplos nódulos com cavitações de paredes finas bilaterais. Foi pedido exame direto do escarro e lavado broncoalveolar com KOH para pesquisa de fungos, o que evidenciou os achados na Fig. 2. Responda: 1. Suspeita diagnóstica: Resposta: A suspeita diagnóstica é de que o paciente apresenta uma micose sistêmica ou profunda denominada coccidioidomicose, doença que é causada por fungos dimórficos das espécies Coccidioides posadasii e Coccidioides immitis. O fungo que causa a coccidioidomicose no paciente do caso clínico muito provavelmente é o Coccidioides posadasii, pois esta é a espécie mais frequentemente encontrada no Brasil, principalmente no clima semi-árido do nordeste brasileiro, que é justamente onde o paciente mora. 2. Como o paciente pode ter adquirido a doença? Resposta: O mais provável é que o paciente tenha adquirido a doença ao realizar a caçada de tatus (mencionada no caso clínico), pois essa atividade exige grande contato com o solo do clima semi-árido, local propício à proliferação do fungo Coccidioides posadasii, causador da coccidioidomicose. Assim, sempre que o paciente realizava as referidas caçadas e revolvia a terra, artroconídeos dos referidos fungos se espalhavam pelo ar, permitindo que fossem inalados e causassem a infecção. Outra possível forma de o paciente ter adquirido a doença seria cavando poços artesanais ou realizando qualquer outra atividade que causasse um alto contato com o solo da região onde ele vive. 3. Exames complementares para confirmação do diagnóstico: Resposta: A confirmação do diagnóstico de coccidioidomicose pode ser feito por meio de exames laboratoriais, os quais podem ser feitos a partir da coleta de escarro ou lavado brônquico. O material coletado é então colocado em uma lâmina e acrescido de hidróxido de potássio para que seja realizado o exame direto. O exame direto terá resultado positivo para Coccidioides posadasii quando puderem ser observados pelo microscópio as chamadas esférulas (podem ser grandes, pequenas e podem estar rompidas, liberando endósporos), que são a forma leveduriforme do referido fungo. Essas esférulas podem ser observadas na imagem da direita, exposta após o texto do caso clínico, o que confirma o diagnóstico de coccidioidomicose no paciente. Não é recomendada a confirmação do diagnóstico de coccidioidomicose através da cultura, pois o fungo causador da infecção exige nível de biossegurança 3, havendo alto risco de contaminar a equipe técnica do laboratório caso não sejam tomados os devidos cuidados. Assim, a confirmação do diagnóstico dessa doença deve ser feito a partir de outros métodos como exames histopatológicos e sorológicos (como a imunodifusão e o ELISA). 4. Quais outros diagnósticos diferenciais? Resposta: No caso da coccidioidomicose, deve ser feito diagnóstico diferencial com várias outras doenças como tuberculose, meningite tuberculosa, paracoccidioidomicose, esporotricose, histoplasmose e neoplasias. No Brasil, é importante o diagnóstico diferencial com a leishmaniose visceral (Calazar), sobretudo em áreas onde ocorrem as duas doenças. 5. Medicação prescrita: Resposta: Como o paciente do caso clínico já se encontra em estado geral grave, o recomendado é que o tratamento da coccidioidomicose seja iniciado com administrações endovenosas de anfotericina B (antifúngico sistêmico)e continuado com a administração de derivados azólicos como o itraconazol e o fluconazol (mais utilizado por apresentar maior penetração nos tecidos). Em casos de pacientes com coccidioidomicose em estado não grave, pode ser dispensado o uso da anfotericina B e ser utilizado apenas os derivados azólicos no tratamento. Caso clínico 6: Um grupo de 6 estudantes do curso de medicina da UFC Sobral foi fazer uma exploração de grutas em Ubajara. Durante o período de 3 dias em que estiveram na Serra Grande entraram em diversas cavernas habitadas por morcegos sem proteção respiratória alguma. Cerca de 15 dias após retornarem à Sobral, começaram a sentir cefaléia, dispnéia, dor pleurítica e febre. Fizeram uso de antitérmicos e analgésicos, com pouca melhora dos sintomas. Ao procurarem um médico na Santa Casa de Sobral, foi pedida uma radiografia de tórax que mostrou um infiltrado intersticial. A suspeita inicial foi pneumonia comunitária e todos foram tratados com amoxicilina associada ao ácido clavulânico, mas não surtiu efeito. O PPD não foi reator assim como a pesquisa de BAAR no escarro foi negativa. Como os sintomas continuaram, foi pedido cultivo de escarro em ágar Sabouraud. 1. Qual a patologia mais provável? Resposta: A patologia que acomete os estudantes provavelmente é a histoplasmose, uma micose sistêmica causada pelo fungo dimórfico Histoplasma capsulatum var. capsulatum. 2. Em quais locais podemos mais facilmente contrair a doença? Resposta: O referido fungo está presente na forma de micélio filamentoso principalmente em solos contendo excretas de aves e de morcegos, ricos em compostos nitrogenados, ricos em matéria orgânica e protegidos da incidência direta de raios solares. Assim, indivíduos podem contrair a histoplasmose ao entrar em contato com locais como ocos de árvores, forros de casas, porões, galinheiros e cavernas, pois nesses locais o fungo fica disperso no ar e pode ser inalado, causando a histoplasmose. Os estudantes do caso clínico muito provavelmente adquiriram histoplasmose ao explorarem as grutas em Ubajara sem proteção respiratória. 3. Explicar a patogenia da doença: Resposta: A doença histoplasmose é adquirida a partir da inalação de macroconídios, microconídios e fragmentos de hifas do fungo Histoplasma capsulatum var. capsulatum, os quais tendem a ficar dispersos no ar em ambientes específicos (citados na opção 2). Uma vez inaladas, essas partículas passam por todo o trato respiratório do indivíduo até chegarem aos alvéolos pulmonares, onde entram em contato com macrófagos alveolares e se revertem em leveduras. No interior dos macrófagos, as leveduras podem disseminar-se para os tecidos reticuloendoteliais, como o fígado, o baço, a medula óssea e os linfonodos. Em mais de 95% dos casos, a resposta imunológica celular resultante leva à secreção de citocinas, que levam os macrófagos a inibir o crescimento intracelular das leveduras, de modo que a doença se torna assintomática. No entanto, a depender da quantidade de fungo inalado, do estado imunológico e da idade do indivíduo, a doença pode ter diferentes manifestações clínicas como a forma pulmonar aguda (mais comum em pacientes imunocompetentes), a forma disseminada (mais comum em pacientes imunossuprimidos, como os que possuem HIV) e a forma pulmonar crônica (mais comum em pacientes que já possuíam algum defeito estrutural no pulmão, como enfisema). 4. Quais métodos de diagnóstico apropriados para o agente em questão? Resposta: O diagnóstico laboratorial não pode ser feito a partir do exame direto, pois as leveduras são muito pequenas, mas pode ser feito a partir da cultura fúngica, utilizando materiais como escarro, sangue, medula óssea e raspado de possíveis lesões na pele. A cultura é feita utilizando como meios de cultura o ágar Sabouraud, ágar Sabouraud com cloranfenicol e ágar Sabouraud com cloranfenicol e cicloeximida. O meio de cultura semeado deve ser incubado em temperatura ambiente para que se desenvolvam micélios e as estruturas filamentosas possam ser visualizadas ao microscópio. Como o Histoplasma capsulatum é um fungo de crescimento lento, o resultado da cultura só será observado após cerca de 30 dias. Passado esse tempo, se o fungo estiver presente na amostra poderão ser vistas no tubo de ensaio colônias com aspecto semelhante a algodão. Logo após a cultura é feita a coleta do fungo que é por fim colocado em uma lâmina com o corante lactofenol azul-algodão, o que permite a visualização de hifas, microconídios e macroconídios tuberculados do Histoplasma capsulatum. Caso haja interesse de visualizar as leveduras do referido fungo, é necessário utilizar o meio de cultura ágar Sabouraud acrescido de sangue de carneiro e incubar a 37ºC. É importante salientar que apenas laboratórios como nível de biossegurança 3 podem realizar o cultivo desse fungo. Além da cultura, também podem ser utilizadas para confirmar o diagnóstico técnicas como biópsia, citologia (Giemsa) e histopatologia (PAS e prata metenamina) de linfonodos, nódulos dermais, medula óssea, fígado, baço e lavado broncoalveolar. Ainda podem ser utilizadas técnicas envolvendo a sorologia (ELISA ou imunodifusão dupla) e o diagnóstico molecular (PCR). 5. Qual o tratamento a ser instituído? Resposta: Como os pacientes do caso clínico apresentam a forma pulmonar aguda da histoplasmose, o tratamento pode ser feito utilizando apenas o itraconazol. Por outro lado, se o paciente possuir a forma grave disseminada, o tratamento deve ser feito utilizando inicialmente o antifúngico anfotericina B, por via endovenosa, e depois o tratamento pode ser continuado com a utilização de derivados azólicos como o itraconazol e o fluconazol. 6. A doença poderia ter sido prevenida? Como? Resposta: Sim. Para que a doença fosse prevenida bastava que os estudantes do caso clínico tivessem utilizado equipamentos de proteção individual ao explorar as grutas, como máscaras (com diâmetro dos poros de no máximo 2 micrômetros, como a do tipo N95), as quais evitariam a inalação do fungo causador da histoplasmose. A infecção dos estudantes também seria evitada se as autoridades locais tivessem identificado previamente a contaminação das grutas, o que poderia culminar na sua interdição. De modo geral, a doença também pode ser prevenida realizando a limpeza regular (utilizando máscara adequada) de galinheiros, porões e forros de construções, devendo o local ser molhado antes para evitar a disseminação de partículas do fungo pelo ar. 7. Diferenciar a forma aguda da doença (pacientes previamente saudáveis) e a doença em sua forma disseminada (muito frequente em pacientes HIV positivos): Resposta: A forma aguda da histoplasmose acomete principalmente indivíduos imunocompetentes que acabam inalando o fungo em grande quantidade, como ocorreu com os estudantes do caso clínico citado, os quais inalaram grandes quantidades do fungo ao explorarem as grutas de Ubajara. No entanto, a inalação de grandes quantidades do fungo causador da histoplasmose não ocorre apenas nesse tipo específico de atividade, podendo ocorrer também quando pessoas decidem realizar a limpeza (sem proteção respiratória) de um porão, um forro, um galinheiro ou qualquer outro local onde o fungo Histoplasma capsulatum possa estar presente em grande quantidade. A histoplasmose pulmonar aguda apresenta um amplo espectro de manifestações a depender da idade (tende a ser mais grave em crianças e idosos) e da quantidade de partículas fúngicas inaladas, costumando causar microepidemias (como no caso clínico) pois atividades como explorar cavernas ou limpar o forro de uma casa normalmente são realizadas por várias pessoas ao mesmo tempo. A histoplasmose pulmonar aguda geralmente manifesta sintomas como febre elevada, cefaléia, mialgia, tosse, dor ou opressão retroesternal (dor pleurítica) e dispneia, que são justamente os sintomas apresentados pelos pacientes do caso clínico. A forma aguda da histoplasmose em pacientes imunocompetentes apresenta um bom prognóstico de recuperação. Já a forma disseminada da histoplasmoseacomete principalmente pacientes imunocomprometidos, ou seja, pacientes com AIDS, neoplasias, transplantados ou que utilizam drogas imunossupressoras. Essa é considerada a forma mais grave da doença, pois afeta outros órgãos que não o pulmão (foco extrapulmonar) e apresenta curso progressivo. A histoplasmose disseminada pode manifestar sintomas como febre, tosse, hepatoesplenomegalia, anemia, leucopenia e plaquetopenia.