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Autor: Prof. Vinícius Carneiro de Albuquerque Colaborador: Prof. Gabriel Lohner Grof História Integrada Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Professor conteudista: Vinícius Carneiro de Albuquerque Vinícius Carneiro de Albuquerque é historiador, formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e licenciado pela Faculdade de Educação da mesma universidade. Obteve o título de mestre pelo programa de História Social para o qual apresentou, em 2007, a dissertação Ceará: 1824. A Confederação das Províncias Unidas do Equador contra o Império do Brasil. Seu mestrado foi resultado de diversas discussões historiográficas com as quais teve contato ainda durante a graduação como membro do Programa Especial de Treinamento (PET) sob a tutoria do prof. Dr. István Jancsó, seu orientador depois no mestrado e também professor responsável pela coordenação do Projeto Temático “A fundação do Estado e da Nação Brasileiros, 1750/1850”, grupo de pesquisadores com o qual seu mestrado dialoga constantemente. Suas áreas de interesse são relacionadas à história política e social, principalmente no século XIX, mas também no Brasil e na América Latina, nos séculos XX e XXI. Atualmente é professor do colégio e curso pré‑vestibular Objetivo, instituição na qual atua há mais de dez anos, tendo amplo contato com modernas tecnologias utilizadas na preparação de aulas digitais em diversas plataformas midiáticas. No colégio e curso pré‑vestibular também desenvolveu um vasto trabalho na preparação de material didático para turmas de ensino médio. Vinícius Carneiro de Albuquerque é também professor da Universidade Paulista, na qual trabalha com especial interesse na área de Ensino a Distância voltado para a formação de professores de História. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A345h Albuquerque, Vinicius Carneiro de. História Integrada. / Vinicius Carneiro de Albuquerque. – São Paulo: Editora Sol, 2016. 204 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXII, n. 2‑033/16, ISSN 1517‑9230. 1. História integrada. 2. Interconectividade. 3. Exemplos de usos integrados. CDU 93/99 A‑XIX Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona‑Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Rose Castilho Juliana Mendes Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Sumário História Integrada APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 AS DIFERENTES MANEIRAS DE SE ENSINAR HISTÓRIA E A HISTÓRIA INTEGRADA ............. 11 1.1 A busca de uma História integrada: nem isolamento, nem superficialidade .............. 15 1.2 História Integrada e o olhar para a Mundialização/Globalização .................................... 19 1.3 Cotidiano e mentalidades em História ........................................................................................ 30 2 HISTÓRIA INTEGRADA ................................................................................................................................... 34 2.1 Usos da História Integrada – Sugestões e exemplos: pensar historicamente interdisciplinaridades ................................................................................................................................. 34 2.2 Olhares integrados de História e a produção recente de conhecimento histórico: histórias do Brasil ........................................................................................................................................ 46 3 INTERCONECTIVIDADE E EXEMPLOS DE USOS INTEGRADOS ........................................................ 48 3.1 O Novo Mundo ...................................................................................................................................... 53 4 MEC E MATERIAL DIDÁTICO NA REDE: SOBRE A ETNICIDADE E AS COLÔNIAS ..................... 58 4.1 O olhar europeu sobre o Novo Mundo: estranhamentos e descobrimentos ............... 65 4.2 A época moderna e as propostas de Braudel ........................................................................... 76 4.3 Atlantização do Império Português .............................................................................................. 91 4.4 Novo mundo: tensões e rupturas .................................................................................................. 96 4.5 Iluminismos ............................................................................................................................................ 97 4.6 Revoluções e crise do Antigo Sistema Colonial .....................................................................103 Unidade II 5 ESTUDOS SOBRE A ÁFRICA........................................................................................................................112 5.1 Olhares sobre a África .......................................................................................................................113 6 BRASIL E ÁFRICA: DISCUSSÕES ACERCA DA DIVERSIDADE ÉTNICO‑CULTURAL E DIREITOS HUMANOS ....................................................................................................................................124 6.1 Direitos Humanos e política: discussões atlânticas e continentais ...............................132 6.2 Desqualificação da África: imperialismo e neocolonialismo ............................................137 7 O EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO (ENEM) ...........................................................................153 7.1 O Enem e as possibilidades do estudo de História Integrada ..........................................153 7.2 O Enem e a questão dos afrodescendentes e indígenas ....................................................157 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 7.3 O Enem e a História: entre o nacional e o mundial .............................................................160 7.4 O Enem e alguns aspectos de sua fundamentação teórico‑metodológica ................166 8 COMPETÊNCIAS EM HISTÓRIA .................................................................................................................169 8.1 Objetos de conhecimento em História......................................................................................172 7 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 APRESENTAÇÃO A disciplina de História Integrada, cujo livro‑texto agora se apresenta, tem como objetivo primordial oferecer elementos fundamentais para se pensar criticamente as possibilidades de uso dessa forma específica de se trabalhar a História enquanto disciplina escolar. A abordagem de aspectos teóricos relativos às várias concepções de História é um âmbito importante do material que elaboramos. No entanto, não estivemos presos aos sentidos tradicionalistas e lineares com os quais diversos professores, e também alunos, estão mais acostumados em seu cotidiano. Logo de início, o tratamento dado à ideia de História Integrada apresentou a necessidade de se escolher escrever apenas e tão somente um manual repleto de conteúdos “alinhavados” historicamente para se produzir o olhar integrado ou se produzir um material que problematizasse essa concepção. Escolhemos a segunda alternativa por acreditar que, assim, contemplaríamos os itens expostos em nossa ementa da disciplina ao mesmo tempo que poderíamos desenvolver questionamentos mais ricos sobre as maneiras de se estudar História. Considerando que as percepções da realidade histórica muitas vezes são repletas de avanços e retrocessos que sofrem, constantemente, influências de diferentes olhares e também de estereótipos, buscamos, na medida do possível, escapar dos esquemas lineares e permitir que em determinados momentos os assuntos fossem desenvolvidos em certas direções para depois retomarmos mais adiante um pouco desses aspectos. Nos debates presentes da historiografia e nos relatos de experiências de práticas de diversos professores preocupados com as múltiplas formas de pensar a História em sala de aula transparecem as dificuldades do dia a dia. Mas também surgem as novas ideias e as contribuições para se deixar de lado um pesado tradicionalismo preso aos fatos e noções quase “determinadas” como imóveis. Atualmente cresce a necessidade de os professores de História terem a capacidade de olhar em múltiplas direções, considerando em suas explicações não mais universos fechados em si, mas sim em constante comunicação com o entorno mais próximo ou, até mesmo, nem tão próximo assim. Iniciamos nossa discussão trabalhando aspectos relativos às diversas maneiras de explicar as várias Histórias possíveis. Nossa seleção não está pensada em termos de qualificação. Apenas elegemos um modelo de atuação que consideramos adequado ao desenvolvimento de uma consciência de cidadania e de pertencimento a determinados universos identitários que julgamos relevante para os professores de História. Não hierarquizados em termos de melhor ou pior modelo, apenas escolheremos apresentar possibilidades que enriqueça os trabalhos. A tarefa de selecionar conteúdos sob essa perspectiva apresenta um grande risco de se prender aos esquemas conteudistas e, assim, as discussões relativas a direitos, cidadania, consciência política e histórica, noções identitárias, longa duração, permanências e mudanças em História estão presentes neste texto, apenas não de uma maneira óbvia e linear. Alertamos que isso se dá exatamente em razão 8 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 do modelo de História Integrada que não se prende a linearidades e em diversas ocasiões começa a desenvolver alguns pontos que acabam por nos permitir olhar em diversas outras direções. As discussões passaram pela História mais recente, que trata da globalização/mundialização, procurando debater passados coloniais, etnicidades e o nosso desconhecimento – quase generalizado – do mundo africano e de seus aspectos presentes no Brasil. O cotidiano e as mentalidades apareceram em nossos questionamentos e nos levaram a pensar também nos usos interdisciplinares, que, mesmo não sendo o objeto específico desta disciplina, estão presentes nessa abordagem. Os múltiplos olhares sobre a produção de História do Brasil, mas não apenas essa, colocaram‑nos a necessidade de pensar o Novo Mundo e processos coloniais que provocaram integrações. Uma vez que as histórias coloniais não são lineares, longe disso, as rupturas, os estranhamentos estiveram presentes também na tentativa de demonstrar que sempre podem existir projetos alternativos na História. Passamos a nos deter em aspectos da África, a partir de preocupações com o pouco conhecimento de suas influências em nossa realidade – procurando distanciar‑nos dos estereótipos empobrecedores. Os olhares sobre a África tornam mais apurada a compreensão dessas histórias que são atlânticas. Encerramos apresentando alguns questionamentos modernos que envolvem o Enem, suas estruturas, suas problematizações e concepções de trabalho com História que acreditamos poderem contribuir fundamentalmente com a formação crítica dos alunos e com uma melhor capacidade de observar os múltiplos aspectos da realidade em que se encontram. INTRODUÇÃO Ao buscar o apoio da produção acadêmica mais recente sobre os sentidos da História Integrada, deparamo‑nos com a existência de múltiplas concepções de História que, por vezes, são bastante diferentes, noutras até mesmo colaboram umas com as outras. Uma vez que existem várias concepções, qual a razão desta em específico? Acreditamos que a ideia de superar isolamentos territoriais, de monarquias colonizadoras e mesmo de Estados nacionais seja uma alternativa viável de construção de um olhar complexo e questionador do passado histórico, mas que tenha como referencial fundamental o tempo presente. Quando escolhemos aceitar a noção de Pierre Vilar, de que é o presente que coloca as questões ao passado, os sentidos de se estudar História nos parecem mais relevantes. Escapar de superficialidades melhora o entendimento de uma realidade que, no presente, é globalizada. Isso é irreversível? Não. É possível estudar as realidades de diversos povos em diversos lugares sem levar a Globalização em consideração? Também não. Se adotarmos um posicionamento crítico, entenderemos mais facilmente que devemos utilizar muito mais a ideia de Histórias. Os eventos não são isolados, e o que ocorre em determinadas ocasiões com um povo, por exemplo, também acontece com outros povos. Essa ideia também nos parece enriquecer os olhares sobre a História. 9 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 A busca de olhar em que pontos as vivências se conectam nos impõe discutir origem de povos e preconceitos sobre eles que precisam, urgentemente, ser superados. Se consideramos apenas a obrigatoriedade determinada pelo MEC e estudarmos aspectos da História que até recentemente eram quase apenas vistos rapidamente ou se ressaltando o que é pitoresco, agora o olhar precisa mudar. Nossa realidade, para ser compreendida, deve ser vista juntamente com outras histórias, no próprio Brasil e fora dele. Podemos perceber que os estranhamentos existem como estratégias de sua superação. Dessa maneira, ao tratar dos estudos sobre a África, temos como fundamento a existência, na realidade, de diversas Áfricas, inclusive, dos dois lados do Atlântico. As relações dos homens com o meio em que estão, não como determinismos, mas como necessidade de equalização, aparecem bastante em nossos apontamentos. Caminhamos assim para indicar a necessidade de se questionar os usos que se têm dado aos Direitos Humanos e como a diversidade étnico‑cultural é tratada em materiais e na prática de sala de aula. Por fim, quando tratamos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) buscamos entender e registrar aspectos importantes do tratamento das questões que envolvema História, procurando ir sempre muito mais além da simples apropriação de conteúdos. 11 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Unidade I Nesta unidade procuramos trabalhar diferentes possibilidades de se utilizar a História em sala de aula, não com as preocupações mais específicas da área da didática, mas sim procurando trazer formas diversas de questionamentos e múltiplas possibilidades de tratar conteúdos e questionamentos relevantes. Passamos então a nos aproximar das realidades coloniais e da noção de múltiplas influências, vendo isso ocorrer tanto na montagem do sistema colonial quanto em sua crise. 1 AS DIFERENTES MANEIRAS DE SE ENSINAR HISTÓRIA E A HISTÓRIA INTEGRADA Nos últimos anos, o estudo de História nos ensinos fundamental e médio tem passado por questionamentos fundamentais, e isso acaba se refletindo nas escolhas dos professores da área. Diferentes estratégias podem ser adotadas, com maior ou menor sucesso, a depender do que se quer alcançar e do que se busca quando determinadas práticas, discussões e conteúdos são mobilizados em detrimento de outros modelos. Existem diversas maneiras de se organizar as aulas, e, muitas vezes, isso está ligado com as concepções do professor em articulação, ou subordinação, às diretrizes traçadas pela instituição à qual se vincula. Em alguns casos, as escolhas de concepções acabam por reforçar modelos que têm como foco decorar informações – aspecto empobrecedor das múltiplas possibilidades da abordagem histórica. As propostas e os temas escolhidos podem ser bastante variados, e os conteúdos geralmente devem obedecer a diversos critérios. Além dos referenciais legais, como a Lei de Diretrizes e Bases e os Parâmetros Curriculares Nacionais, muitas são as maneiras de selecionar conteúdos e abordagens. A interseção dos conteúdos produzidos academicamente e de estudos orientados com características de produção historiográfica, quer em uma especialização, quer em dissertações de mestrado ou teses de doutoramento, é um movimento que certamente enriquece as práticas dos professores em sala de aula. A depender de suas leituras, e mesmo de sua produção acadêmica, um docente pode estar mais inclinado a adotar uma concepção ligada à história econômica ou à história social, por exemplo. As discussões ganharam corpo com a entrada em cena de diversas abordagens e olhares que se preocupam com a vida social em múltiplas dimensões. O cultural, o temporal, o regional, o local, o cotidiano e o mundial têm sido alvo de investigações que enriquecem a produção quase cotidianamente. Podemos mencionar ainda a existência das mais diversas publicações de revistas acadêmicas que ajudam na divulgação desses saberes. Os debates acerca dos conceitos e concepções historiográficos envolvem maneiras de aprendizagem. Se a memória e o tempo são elementos importantes nas discussões, o meio ambiente, a cidadania, 12 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I as reflexões acerca de interdisciplinaridades, de história comparada, temática e da História integrada perpassam pela produção de material didático de história. O apelo ao estudo de história comparada representa, em certo sentido, um avanço em relação a abordagens mais tradicionalistas. Passou‑se a conectar e comparar realidades que antes pareciam estanques – distantes demais para terem algo em comum – e depois se descobriu que só será possível realmente avançar se os passos forem dados não no sentido de construir histórias nacionalistas, mas sim pensando novas relações. Dessa maneira, a abordagem que compara, conecta e integra nos parece um ganho significativo da historiografia do século XX. Saiba mais Como maneira de se aproximar do significado das diferentes noções de história, aqui apenas referidas, recomendamos consultar: SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Dicionário de conceitos históricos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2009. Na obra, podem‑se buscar definições para Historiografia, História, Interdisciplinaridade e diversos outros temas essenciais ao conhecimento de história. Tratando da história comparada, de acordo com Secreto (2014, p. 84), ela [...] se apresentou nas primeiras décadas do século XX como a possibilidade de tornar as conclusões históricas mais abrangentes. Em 1928 apareceu um artigo de Marc Bloch na Revue de Synthèse Historique que se converteu em referência para aqueles que refletiram sobre a história comparada (BLOCH, 1963). Bloch propunha estudar paralelamente sociedades vizinhas e contemporâneas, constantemente influenciadas de forma recíproca, sujeitas, pela sua proximidade, às mesmas grandes determinações. Isso formava parte de um programa que ele mesmo começou a realizar a partir do estudo da sociedade feudal. Nancy L. Green, sem deixar de reconhecer o impacto desse artigo, salienta que foi François Simiand o primeiro defensor do método comparativo. Simiand escreveu em 1903 um artigo intitulado “Méthode historique et sciences sociales”, no qual apresentava o método comparativo como o fim de um dos principais males da historiografia, possibilitando a superação dos nacionalismos. Esse método permitiria a pesquisa científica das regularidades e, desta forma, a história deixaria de ser descritiva para ser explicativa. Depois da Primeira Guerra Mundial, e no contexto do primeiro congresso de ciências históricas (1923), Henri Pirenne chamou a atenção para os efeitos negativos do romantismo e do 13 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA nacionalismo do século XIX e insistiu na história comparada como meio de construir sínteses científicas. Mesmo a autora reconhecendo a dificuldade desse método de se espalhar entre os historiadores e de se difundir, já se pode pensar em abordagens complexas que se libertam de conteúdos nacionalistas fechados para sofisticar as análises. [...] o texto de Subrahmanyan apareceu em outro contexto, e a proposta de uma historiografia que buscasse as “conexões” nos processos históricos em espaços e/ou tempos amplos foi bem‑acolhida tanto por uma historiografia em diálogo com a antropologia, como pela história política e a chamada história das “elites”, entre outras. Os impérios foram analisados dessa perspectiva de interseções, de homogeneidade e heterogeneidades. Por outra parte, a história conectada permite manter a dimensão subjetiva, pessoal e individual que a historiografia tem abraçado faz algumas décadas (SUBRAHMANYAN, 2012). Assim, é possível fazer a história de um império tendo como fio condutor um indivíduo, ou um conjunto de administradores, comerciantes etc. Desta forma as histórias conectadas podem transitar entre escalas macro e micro; entre o sincrônico e o diacrônico (SECRETO, 2014, p. 85). Quando tratamos da organização de conteúdos para as aulas, projetos, discussões e mesmo para a seleção com a finalidade de se elaborar materiais de apoio ou didáticos, é importante se ter clareza de que o trabalho é, antes de tudo, pautado por escolhas que nem sempre são tão objetivas quanto gostaríamos que fossem e que possuem influências que podem não estar muito claras. O foco das discussões curriculares precisa considerar que o currículo é muito mais do que um conjunto de conhecimentos e uma determinada composição textual sobre as disciplinas escolares, uma vez que “ele é sempre parte de uma tradição seletiva, resultado da seleção de alguém, da visão de algum grupo acerca do que seja conhecimento legítimo” (APPLE, 1999, p. 59). Nesse sentido, o debate curricular está sempre marcado por tensões, contradições, concessões, conflitos de ordem política, econômica,social, cultural, que influenciam as formas de organização de uma nação (CAIMI, 2009, p. 2). Dessa maneira, as escolhas são incompletas, plenas de tensões e são, como referido, parciais. Consideramos que ter consciência disso apresenta algumas vantagens práticas, uma vez que o professor que trabalha com esse material pode também eleger o que vai trabalhar com mais ênfase. Ainda hoje existem grandes preocupações com os conteúdos, no sentido antigo de um gigantesco acúmulo de dados e informações que, se o docente não tiver cuidado, poderá quase determinar um processo de memorização maçante e bastante improdutivo se o objetivo tiver como uma de suas preocupações a formação crítica e cidadã. Caimi (2009, p. 2), citando Moreira e Silva (1999), afirma que “a temática do currículo precisa ser analisada no âmbito de sua constituição histórica e social, não podendo permanecer 14 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I restrita à organização do conhecimento escolar. Desse ponto de vista, afirmam: ‘O currículo é uma área contestada, é uma arena política’”. O professor de História precisa perceber que, em diferentes épocas, os currículos obedeceram a determinados interesses e, assim, precisa questionar‑se a que serve a estratégia por ele elaborada. Em nosso caso, aqui, temos a intenção de auxiliar você na formação da noção de História integrada. Não é uma opção qualquer, mas que [...] busca integrar os acontecimentos/conhecimentos históricos de diferentes sociedades, consubstanciados num mesmo tempo cronológico, demonstrando como responderam às demandas colocadas pelo seu tempo e como operaram as transformações necessárias (CAIMI, 2009, p. 4). A mesma autora, esclarecendo que partiu de uma análise dos PCNs – Área de História, revela que em alguns materiais as abordagens mais recentes “articulam contextos mundial, regional e local, num cenário de globalização das relações sociais, econômicas, políticas e culturais” (CAIMI, 2009, p. 6). Observação Lembramos que a História integrada é uma das opções possíveis e que pode haver a escolha de uma história tradicional (seriada) e/ou ainda da história temática. Devemos admitir que não se trata simplesmente de ir encadeando conteúdos, deixando “ganchos” de um assunto para o outro, de forma a construir uma impressão de continuidade e de articulação lógica. A articulação deve ser no sentido de demonstrar que em cada um dos aspectos escolhidos existem implicações para o conjunto. Um evento, fato/acontecimento ou outra denominação que receba não se desliga ou se isola, mas, antes, relaciona‑se com diversos outros pontos. A História integrada parte de uma concepção processual da história que pressupõe a conjunção de múltiplas temporalidades para compor a explicação histórica, enfatizando simultaneamente aspectos de natureza econômica, política, social, cultural. Diferentemente da história temática (ou por eixos temáticos), a História integrada não abandona a pretensão de abordar toda a história, de todas as sociedades, tempos e lugares. Esse fator pode se constituir num entrave para a superação do conteudismo que marca muitos programas escolares, cuja preferência recai sobre a quantidade de assuntos em detrimento de um trabalho que prime pela construção do pensamento histórico, pelas relações presente‑passado, pela compreensão da realidade social e pelo desenvolvimento da cidadania. Outro aspecto de crítica que ronda a História integrada (e mais ainda a história intercalada) é o risco de tratar a história da América e do Brasil como meros apêndices da história geral, fortalecendo noções eurocêntricas que há muito são denunciadas na historiografia nacional (CAIMI, 2009, p. 7). 15 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Disso tudo que foi ressaltado no trabalho de Caimi (2009), chama a atenção uma preocupação que julgamos dever estar cada vez mais presente na sala de aula: a noção de que não devemos “tratar a História do Brasil ou da América como meros apêndices da história geral, fortalecendo noções eurocêntricas que há muito são denunciadas na historiografia nacional” (CAIMI, 2009, p. 7). Ao salientar que o professor deve optar por usar a organização da disciplina da maneira para a qual estiver mais bem‑preparado, escolhendo a História integrada se estiver preparado para isso ou mesmo se puder se preparar para isso, Caimi (2009) escapa de uma visão dogmática e determinista de uma organização/modelo melhor que outro, ou um mais moderno, ou, ainda, como o último uso da “moda”. Marcus Vinicius de Morais (2009, p. 201) é enfático ao determinar que “narrar história é, antes de tudo, uma questão de identidade”. O autor ainda enfatiza que o ensino de história é muito relevante, mas que se admitir aspectos de verdade absoluta “terá o poder de sufocar qualquer análise crítica”. Assim, faz o autor a defesa de uma forma de entender a história que nos é muito cara e relevante, pois “a História não é o que, de fato, se viveu, mas sim o que conta sobre o vivido e, principalmente, o modo escolhido para se contar” (MORAIS, 2009, p. 202). Devemos lembrar que, infelizmente, pode haver uma diferença significativa entre utilizar a terminologia de História Integrada e objetivamente esta ser integrada. Para Morais (2009, p. 203), História Integrada, como o próprio nome diz, deveria integrar, completar, totalizar e somar. O Brasil integrado à história da humanidade. Seguimos a argumentação do mesmo autor, que faz uma importante defesa da necessidade de se pensar o que seria mesmo essa História Integrada, para que, posta em prática, possa contribuir com os alunos. Morais (2009) coloca a importância de uma nova História integrada, não apenas como termo, mas, fundamentalmente, como prática. 1.1 A busca de uma História integrada: nem isolamento, nem superficialidade Pensando na prática, aparece a preocupação do sentido desse uso, para além de simples modismos. O que se deseja ao lançar mão desse recurso? O que o professor está propondo para trabalhar em sala com seus alunos e de que maneira isso pode enriquecer problematizações? Em uma terminologia contemporânea, qual seria a meta estabelecida? A História Integrada teria como meta, então, contar uma história do Brasil menos superficial, em que as conexões com os acontecimentos mundiais fossem estabelecidas; história mais rica, cheia de idas e vindas, num processo em que o Brasil não poderia ficar isolado. Narrar as histórias do Brasil e do Mundo juntas seria uma forma de acompanhar a inserção do Brasil num mundo e mercados amplamente globalizados. Uma tentativa de justificar e entender historicamente a participação do Brasil nas teias das relações estabelecidas entre os países. Na era da globalização, o Brasil teria que ser visto como nação complementar de um mundo capitalista ainda maior. A História Integrada tentaria, assim, entender essa incorporação; seria a chance de esclarecer os motivos e as origens do caminho que o Brasil fez e faz para tornar‑se parte integrante de um todo (MORAIS, 2009, p. 205). 16 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Salientamos a preocupação com o aspecto do desenvolvimento de noções de complementaridade. Uma parte não faz sentido sem a compreensão de outras. Não por um esquema reducionista e empobrecedor, mas, ao contrário, pelo aumento da densidade do texto escrito ou das discussões, exemplos e documentos levados para a sala de aula, que devem fazer com que um ponto observado remeta, necessariamente, a diversos outros. A riqueza do texto de Morais (2009) se revela aos poucos com os questionamentos do autor, mas tambémcom suas propostas e exemplos. Seguir critérios alheios, estrangeiros, não teriam contribuído em nossa trajetória de produção didática para desenvolver a História Integrada, antes disso, a subordinação se dá no sentido de se respeitar esquemas da história europeia ou da história geral. O autor é provocativo, no melhor sentido do termo, quando nos lembra que “sabemos mais sobre os jacobinos do que sobre os escravos quilombolas. Sabemos mais sobre a Comuna de Paris do que sobre Palmares” (MORAIS, 2009, p. 206). De uma maneira bem geral, a construção do pensamento histórico, em diversos casos, tem contribuído para que se perceba socialmente que o País é não agente de sua história, mas espectador. Com isso, fortalece‑se a ideia de que tensões e contradições internas desempenham um papel secundário na construção da nação. O Brasil torna‑se, assim, apenas o resultado da História Geral, conforme salientou Morais (2009). Figura 1 – Zumbi, líder negro do Quilombo dos Palmares, na concepção do pintor Antônio Parreiras (1869‑1937) 17 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Figura 2 – Sans‑culotte representado em óleo de Boilly (1761–1845) Ao observar as duas imagens anteriores, procure em sua memória sobre qual das duas você possui mais elementos para discutir e desenvolver aulas. Sobre Zumbi dos Palmares e a resistência negra no Brasil Colonial e, posteriormente, incluindo a abolição e suas consequências, ou sobre a Revolução Francesa, a fase do Terror e os jacobinos? Saiba mais Sobre essa percepção do que conhecemos e do que não conhecemos amplamente, basta olhar a filmografia disponível ao grande público. Sugerimos assistir aos seguintes filmes: GANGA Zumba. Dir. Carlos Diegues. Brasil: Copacabana Filmes, 1963. 100 min. QUILOMBO. Dir. Carlos Diegues. Brasil; França: CDK/Embrafilme, 1984. 119 min. O defeito de origem dessa formação viciada é que não existe crítica ou mesmo possibilidade de sair dessa visão se os seus limites são respeitados. Ao pensar a trajetória do País como errática e gestada fora, sobra pouco para os seus habitantes enquanto agentes. São vítimas e, o que é pior, vítimas passivas e apáticas, uma vez que não lhes cabe a ação, sendo‑lhes retirado até mesmo isso. 18 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Circe Bittencourt (2003), citada por Morais (2009, p. 201) indica o resultado provocado por essa maneira de pensar historicamente e socialmente, “um imobilismo político, uma vez que estaríamos todos na rede de um poder maior e diante de um destino inexorável”: o destino de ser dependentes. Chama a atenção que a colonização não se restringe ao material, ao econômico ou ao natural, que é levado para a Europa. Ela conforma o olhar e o pensamento e, assim, produtos de uma construção desigual organizada fora, não seríamos capazes de sermos outra coisa. Ao trabalhar sobre a problemática do ensino de História, Bittencourt (2011) faz apontamentos que são, muitas vezes, muito lúcidos e instigantes, e, mesmo quando simplesmente nos obrigam a rever as posições mais básicas quanto a métodos e conteúdos, são esclarecedores. Buscando apoio em uma bibliografia fundamental – e muito rica –, aponta: A história entendida ao mesmo tempo como “ciência do passado” e “ciência do presente” gera cuidados para o pesquisador e para o professor. Este, ao propor temas para os alunos estudarem, os quais são solucionados com base nos problemas do presente, precisa estar atento para não incorrer em equívocos tidos como “pecados capitais”. A história ensinada por temas cuja problematização se baseie na história do tempo presente pode cometer o pecado de ser anacrônica, ao apresentar uma trajetória que se inicia no presente e depois retoma o tema em outras sociedades do passado de forma superficial, cobrando dos agentes de outrora valores que são contemporâneos nossos. (BITTENCOURT, 2011, p. 154). O alerta proferido é essencial para não julgamos diferentes épocas e sociedades com valores que, no mínimo, não lhes eram pertinentes e mesmo nem estavam presentes em muitos casos. Assim, como exigir democracia em sociedades onde isso nem ao menos se discutia? Ou ainda, quantas interpretações equívocas não aparecem de aplicações de palavras que parecem iguais, mas cujo sentido histórico foi mudando, por exemplo, tratar da escravidão? Talvez uma boa forma de proceder seja tentar ser menos categórico em termos de classificações absolutas e fechadas e buscar propor justamente a compreensão dos diversos sentidos existentes em determinadas palavras. O outro “pecado capital” é desconsiderar, tanto no presente como no passado, o contexto que fundamenta as diferenças e semelhanças, contando com informações insuficientes para que se entendam as permanências e as mudanças das sociedades estudadas e correndo o risco de reforçar a ideia do presente como um momento histórico “evoluído” e a de outros tempos como “atrasados”. O historiador francês René Rémond, em A Introdução da História do Nosso Tempo, escreveu uma frase que pode sintetizar a importância e os problemas da história do tempo presente para historiadores e professores: “É impossível compreender seu tempo para quem ignora todo o passado; ser uma pessoa contemporânea é também ter consciência das heranças, consentidas ou contestadas” (BITTENCOURT, 2011, p. 154). 19 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Mesmo sendo uma observação para a questão da história do tempo presente ou do presente na história, é um alerta válido para as mais diversas abordagens dos professores. Continuando com a abordagem relativa a métodos e conteúdos e passando para a discussão de História nacional ou mundial, Bittencourt (2011, p. 155) observa que Entre os problemas para a seleção de conteúdos, existe a dúvida sobre privilegiar uma história nacional ou uma história geral ou mundial. Ao longo do ensino de História do Brasil, a História Geral ou “das civilizações” tem sido privilegiada e, na atualidade, a história brasileira tem sido novamente posta em posição secundária, conforme pode ser visto nas tendências de produção didática, voltada para a compreensão do mundo globalizado. Devemos contextualizar a fala da autora para 2011 e discutir que o mesmo é válido para o momento em que vivemos. No entanto, naquela época era válido e embasou suas questões que nos fazem propostas importantes e nos trazem reflexões também muito ricas. 1.2 História Integrada e o olhar para a Mundialização/Globalização Ao problematizar o estudo da História podemos escolher diferentes abordagens, e isso, muitas vezes, está diretamente relacionado com o momento em que vivemos. Se consideramos que as ciências humanas precisam dialogar com as questões colocadas pelo movimento genericamente chamado de Globalização, entenderemos que isso vai aparecer de diferentes maneiras nas falas de diferentes interlocutores. O próprio sentido em que se escolhe olhar para a História e os problemas levantados e debatidos se relacionam com as características das épocas. Na era da mundialização, parece ultrapassado o sentido da História nacional, muitas vezes entendido como responsável pela constituição de uma identidade nacional e ideologicamente comprometida com interesses de determinadas elites dominantes. Se a constituição de um nacionalismo “de direita” fez parte dos objetivos da disciplina, não significa que se possam ignorar os estudos de História do Brasil e deixá‑los em posição subalterna. Com a difusão do culto à globalização, a história nacional pode ser considerada como um conteúdo desnecessário, por ser de cunhoconservador e limitador da modernização. O atual estágio do capitalismo associa a modernização e a tecnologia ao mundo da globalização, e tudo o que se refere a nacionalismo corresponde a uma representação de “atraso”. A política de desnacionalização da economia em seus diversos setores, incluindo os considerados como “base da riqueza nacional” – política essa que envolveu, ou ainda envolve, por exemplo, os confrontos em torno da Companhia Vale do Rio Doce ou da Petrobras –, evidencia que o ideário nacionalista pode ser entendido como retrógrado ou ultrapassado ante os projetos do moderno capitalismo globalizado (BITTENCOURT, 2011, p. 156). 20 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Saiba mais Para saber mais sobre os aspectos mais gerais e também sobre as características mais marcadas da Globalização neoliberal, recomendamos a leitura, especialmente dos Capítulos 1 e 5, da obra: SANTOS, B. S. (Org.). A Globalização e as Ciências Sociais. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2011. Indicamos ainda a leitura de: GREFE, C. Attac: o que querem os críticos da globalização. São Paulo: Globo, 2005. SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, 2006. Além dos textos, vale assistir ao documentário crítico à Globalização que nos apresenta a visão de um dos principais pensadores da realidade brasileira, e mundial, no século XX, Milton Santos: ENCONTRO com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá. Dir. Silvio Tendler. Brasil: Caliban Produções Cinematográficas, 2002. 89 min. O pensamento crítico pode se desenvolver em diversas matrizes e tradições, e a menção à obra de pensadores como Milton Santos e Boaventura de Sousa Santos busca ressaltar que deve‑se cuidar de perceber as mitificações da Globalização e as várias tentativas de ordenar o pensamento crítico para entender a complexidade do quadro em que as sociedades se encontram desde as décadas finais do século XX e início do XXI. Pode‑se, assim, entender que a realidade da Globalização não diz respeito apenas ao Brasil, pois atinge diversas nações e uma parcela significativa da população mundial, e, dessa forma, isso também não é uma possibilidade de entender a História de maneira integrada? É possível separar radicalmente esses papéis? Não parece viável questionar a História do Brasil ignorando‑se os vizinhos e demais países que partilham caminhos comuns. Lembrete Devemos ressaltar a necessidade de, conforme apontado anteriormente a partir do texto de Morais (2009) e também das referências à obra de Milton Santos, não ser um professor que simplesmente adota estratégias levando em consideração modismos. O pensamento crítico deve ser adotado como uma estratégia de leitura crítica, e, nesse sentido, analisar a Globalização pode ser de grande valia. 21 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Da observação selecionada por Bittencourt (2011), podemos destacar dois pontos: o primeiro aponta para um culto à globalização, criticando assim modismos acríticos e de muito pouco embasamento, e o segundo aspecto importante é essa globalização no sentido da desnacionalização do capital. Em uma breve citação, como esta, a seguir, já se pode observar um pensamento crítico: As novas necessidades de análise aprofundada de uma história mundial, no entanto, não podem relegar o conhecimento sobre “‘as coisas e as gentes brasileiras” a segundo plano. O desprezo pelo aprofundamento da história nacional pode estar relacionado a uma abordagem contraditória que vincula os nossos problemas todos às explicações exógenas, as quais os veem determinados por situações supranacionais. Nessa mesma linha de raciocínio, o modelo interpretativo da realidade brasileira é igualmente supranacional. A produção didática mais recente, com exceção da correspondente às séries iniciais do nível fundamental, representa uma diminuição acentuada de conteúdos da história nacional. Trata‑se de tendência associada à concepção de História integrada que merece atenção (BITTENCOURT, 2011, p. 156). O desafio seria tratar da história do Brasil sem ser um pobre nacionalismo requentado ou então não ser um entusiasta da globalização de tudo, colocando o mundial como melhor que qualquer outra análise, como algo positivo em si e que não tivesse consequências várias vezes nefastas para milhões de pessoas. A História integrada conta com uma abordagem que representa inovações, entre as quais a introdução do tempo sincrônico, que permite estabelecer novas posturas nas relações entre tempo e espaço e entre a história nacional e a mundial. Entretanto, constata‑se que os conteúdos de História do Brasil são apresentados, na maior parte dessas obras, escassamente. Uma análise de algumas obras didáticas recentes e com grande vendagem, para o ensino fundamental e para o ensino médio, permite, por exemplo, identificar rápida e facilmente a diluição de conteúdos da história do Brasil. Apenas para exemplificar, em um rápido levantamento quantitativo, em um livro didático para o ensino médio, confeccionado segundo o atual modelo de volume único para as três séries, verifica‑se que dos 42 capítulos apresentados, apenas 12 são efetivamente de conteúdos de história do Brasil. O mesmo pode ser observado em coleção para o ensino fundamental, na qual em um total de 168 capítulos organizados para 4 séries, existem apenas 30 relativos à história brasileira (BITTENCOURT, 2003, p. 188 apud BITTENCOURT, 2011, p. 157). A crítica é contundente e bem‑embasada em termos de quantificação. Comparando‑se volumes, a pouca importância dada aos conteúdos de história do Brasil fica evidente. Pode‑se, no entanto, argumentar que existem diferentes abordagens que podem pautar‑se por temas mais relevantes, em vez de discutir quantidades. O que é verdade em determinados pontos de vista, mas, para séries iniciais, essa divisão é bastante significativa. O desafio que é transitar entre esses vários conteúdos, 22 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I construindo visões integradas, é bastante grande. Por vezes, oscilamos olhando em demasia para o “exterior” e poucas vezes pensamos o nacional em si, esquecendo o entorno imediato e mesmo as questões válidas para situações longínquas, mas que estão de alguma maneira se relacionando com o que ocorre no Brasil. A explicação de Bittencourt (2011) continua no que conserne a não atribuir peso ou culpa à História integrada, mas procurar entender esse movimento de desvalorização da história do Brasil diante de outras discussões. A diminuição dos conteúdos referentes ao Brasil explica‑se não pela sua inserção em uma História integrada, mas pela opção teórica que continua priorizando apenas as explicações estruturais para as situações nacionais ou regionais. A história do Brasil aparece como apêndice da história global, e sua existência deve‑se ao desenvolvimento do capitalismo comercial, a partir da expansão marítima europeia. A macro‑história é a lógica e a chave para a compreensão da nossa condição de país permanentemente periférico do sistema econômico capitalista. As temáticas nacionais deixam de constituir o eixo norteador dos conteúdos, e as explicações históricas são fornecidas externamente. Essa postura já foi predominante nos anos 1960 e 1970 do século passado, momento em que difundiam no ensino de História as explicações fundadas na teoria da dependência, sob o impacto do imperialismo norte‑americano na América Latina. Como afirmam historiadores dedicados a esse período e espaço histórico, o peso do imperialismo impedia que se situassea dinâmica interna de cada país, as relações entre Estado e sociedade, e valorizava‑se exclusivamente a intervenção de potências hegemônicas na história da sociedade brasileira. As análises centravam‑se em uma visão dualista, baseada em categorias de “desenvolvimento” e “subdesenvolvimento”, as quais não expunham os problemas internos criados pelo poder institucional e a série de manobras e conflitos internos para a manutenção dos privilégios das elites nacionais responsáveis pelas desigualdades sociais, econômicas e culturais (BITTENCOURT, 2011, p. 158). Consideramos o trecho adequado, apesar de sua extensão, uma vez que o problema é apontado e, junto com ele, são dadas uma interpretação e uma problematização à altura. Não apenas a constatação de que determinadas práticas ocorriam, mas também a busca do entendimento das motivações e consequências. Ainda seguindo o tom de alerta, Bittencourt (2011, p. 158) continua: Ao enfatizar‑se a integração constante do Brasil a uma história mundial, sem situar devidamente os problemas nacionais e ampliar o conhecimento da realidade brasileira, pode‑se reforçar a ideia de que os conflitos internos e seus agentes sociais desempenham papel secundário na construção de uma nação. Parece‑nos absolutamente necessário salientar que todos os exemplos que trazemos aqui – quando buscamos abrir os primeiros caminhos para uma visão integrada – estão sempre incompletos, sendo assim propostas em aberto. Não se trata de um manual com abordagens e aulas prontas. Nada mais 23 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA distante de nossa proposta. Trata‑se, antes, de uma série de questionamentos que devem pautar‑se pelas muitas preocupações que envolvem as possibilidades de uso da História integrada. Queremos, antes, estabelecer como, muitas vezes, se trabalha história em sala de aula e como isso pode ser feito sem ser nacionalista ou sem abandonar a história do Brasil ao plano da insignificância ou, pior, do pitoresco. A produção historiográfica sobre o Brasil teve significativo crescimento, a partir dos anos [19]70, com historiadores de várias tendências (...) os quais notadamente têm privilegiado a história social e a cultural e renovado a história política. Essa produção pode ser acompanhada nas variadas publicações de livros e de artigos de revistas, como a Revista Brasileira de História da ANPUH [Associação Nacional de História]. Essa recente produção historiográfica sobre o Brasil favorece, sem dúvida, a renovação dos conteúdos escolares. Favorece a revisão de muitos “nós da história”, como a Independência do Brasil e a abolição dos escravos, além de possibilitar uma ruptura com a lógica da história eurocêntrica (BITTENCOURT, 2011, p. 159). Nossas preocupações iniciais estão justamente aí, na questão de apontar a relevância de revisitar temas antes tidos como canônicos e ainda problematizar determinadas visões que, de tão eurocêntricas, quase apagam o restante da história. A noção de uma visão de história mundial como sendo da civilização deve ser questionada, mas não para se jogar tudo fora. Iniciativas como a de Maurice Crouzet, com sua História Geral das Civilizações (CROUZET, 1995) em 17 volumes, que vão da Antiguidade até a História Contemporânea, do século XX, não devem ser desprezadas, e sim utilizadas para desenvolver uma visão muito mais ampla. Se a aula de história não pode ser um longo desfilar da erudição do professor como mostras de um saber superior, ela não pode deixar de lado a necessidade de se entender movimentos amplos e que estão se desenvolvendo em diversas sociedades ao mesmo tempo. A obra não trata apenas da Europa, apesar de sua ênfase, por vezes. No entanto, é preciso ir além e estudar as realidades atlântica, africana, americana e também oriental. Segundo Bittencourt (2011, p. 160): Não se trata de negar a importância e o legado da Europa para a nossa história; trata‑se, antes, de não omitir outras histórias de nossas heranças americanas e africanas. Torna‑se fundamental, como tem sido pleiteado pelo movimento das comunidades negras, o conhecimento da História da África em seus componentes mais complexos, que envolvem nossas heranças, sempre malcompreendidas, das populações negras. Um dos trabalhos recentes que esclarecem com profundidade as relações intrínsecas entre a história da nossa sociedade e a história das sociedades africana escravizadas é o livro Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro: “O Brasil colonial tem sido estudado da mesma maneira que a Lua era observada antes dos voos espaciais: do lado que reflete o Sol, do lado de Portugal, da Europa. Incorporar os eventos transcorridos em Angola à narrativa dos eventos brasileiros é como descobrir o lado escondido da Lua, a metade oculta da história do Brasil” (2000, quarta capa). 24 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Tarefa simples? Claro que não, mas são inegáveis as possibilidades de enriquecimento contidas nessa proposta. Territórios pertencentes a Portugal. Territórios pertencentes à Espanha. Áreas pertencentes à Espanha. Áreas pertencentes a Portugal. Figura 3 – Mapa com visão eurocêntrica do mundo Figura 4 – Mapa do tráfico atlântico de escravos Observando as duas imagens, percebemos uma centralidade na Europa no primeiro caso e a importância fundamental da dinâmica do Atlântico Sul para a história do Brasil com o tráfico de escravos. Sugerimos 25 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA a observação bastante cuidadosa dos mapas, que não são neutros, e procurar observar pontos de vista, centralidades, implicações ideológicas e discursos presentes nessas imagens para se poder perceber a questão da construção dos olhares no mundo, inclusive com o estabelecimento de hierarquias. Saiba mais Uma pesquisa na página da Associação Nacional de História (ANPUH) em suas diversas publicações e frentes de trabalho pode nos auxiliar a problematizar diversos aspectos anteriormente referidos. Acesse: <http://site.anpuh.org/>. Como fonte e repositório da moderna produção historiográfica, recomendamos a leitura da Revista Brasileira de História (RBH), que pode ser encontrada em: REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA. São Paulo: ANPUH, 1997‑. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=0102‑0188&l ng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 28 abr. 2016. Voltando à questão mais específica da Globalização e das formas pelas quais ela pode interferir nas noções de história, trazemos aqui também as discussões relativas à abordagem de uma história regional. As propostas de um ensino de história regional estão relacionadas às políticas econômicas que objetivam fazer frente à hegemonia do imperialismo americano ou constituir uma forma de resistência à globalização. Uma dessas formas de resistência tem sido o desenvolvimento de organizações regionais no âmbito econômico‑político. A União Europeia e o Mercosul são exemplos dessa ação que visa ampliar os mercados nacionais por meio de um processo de integração regional. Em decorrência dessa estratégia surgiram propostas de políticas educacionais para facilitar intercâmbios e desenvolver formas de integração mais sólidas entre os países participantes. No caso do Mercosul, os programas educacionais têm procurado desenvolver uma cooperação científico‑tecnológica, favorecendo o intercâmbio de estudantes e profissionais. [...] é considerado como de importância estratégica o ensino de História e Geografia (BITTENCOURT, 2011, p. 163). No que se refere à maneira de apresentar as interligaçõesdas diversas histórias no continente e mesmo fora dele, poderíamos mencionar: Foi por intermédio de uma “esplêndida pequena guerra” – a frase é do secretário de Estado John Hay – que os Estados Unidos deram, em 1898, 26 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I o primeiro passo na via do imperialismo. Perderam dois mil quatrocentos e quarenta e seis homens na aventura, a maioria vítima de doenças, pois somente duzentos e quarenta e nove foram mortos ou feridos mortalmente em combate. Muito pouco sangrenta, a campanha foi bastante lucrativa, já que permitiu aos Estados Unidos recolher os últimos belos frutos do império espanhol: Cuba, Porto Rico, as Filipinas. No passado, os norte‑americanos ainda não tinham recorrido às armas para ampliar seu território, a não ser ao resolverem “pacificar” as tribos índias e para arrancar ao México as vastas regiões do Oeste: Texas, Novo México, Arizona, Califórnia. Haviam permanecido fiéis à tradição definida pelo discurso de despedida de George Washington, pelas mensagens de Jefferson e pela doutrina de Monroe: os interesses fundamentais do povo norte‑americano não podiam transbordar das suas possessões continentais. A guerra hispano‑americana de 1898, fazendo flutuar a bandeira estrelada sobre os mares, marca o fim, de fato, de um isolacionismo que, apesar disso, sobreviveria ou renasceria de diversas formas, devido às decepções provocadas pela política de intervenção (JULIEN, 1970 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 22). Em sua atuação no Oriente, os Estados Unidos afirmaram que As Filipinas são nossas para sempre, “território pertencente aos Estados Unidos”, como a Constituição as chama. E exatamente além das Filipinas estão os mercados sem limites da China. Não nos retiraremos de nenhuma delas. Não repudiaremos o dever no arquipélago. Não abandonaremos a nossa oportunidade no Oriente. Não renunciaremos nossa parte na missão de nossa raça, depositária, sob as ordens de Deus, da civilização do universo. E nos movimentaremos para frente em nosso trabalho, não uivando lamentos como escravos esmagados por suas cargas, mas com gratidão por uma tarefa digna de nossa força, e dando graças ao Deus todo‑poderoso, por nos ter marcado como Seu povo escolhido, de hoje em diante, para guiar a regeneração do mundo... A força que governa o Pacífico... é a força que rege o mundo. E, como as Filipinas, aquela força é e sempre será a República Norte‑Americana... Seria melhor abandonar este jardim combinado e Gibraltar o Pacífico e calcular o sangue e o tesouro já gastos como uma perda proveitosa, que aplicar qualquer organização acadêmica ao autogoverno destas crianças. Não são capazes de se governar. Como poderiam ser? Não fazem parte de uma raça que se governe (JULIEN, 1970 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 222). Dessa forma, reafirmando a intenção da dominação aliada ao olhar preconceituoso de inferioridade do outro, continua: São orientais, malaios, educados por espanhóis, no pior estado destes últimos. Nada sabem do governo político, exceto do que testemunharam 27 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA do governo fraco, corrupto, cruel e caprichoso da Espanha. Qual é a mágica que alguém empregaria para desfazer em suas mentes e caracteres as impressões de governadores criadas pelo desregramento de três séculos? Qual a alquimia que mudará a qualidade oriental de seu sangue e estabelecerá correntes de autogoverno do deslizar norte‑americano através de suas veias malaias? Num piscar de olhos, como serão exaltados à altura dos povos com autogoverno, que nos levaram milhares de anos para atingir, anglo‑saxões que somos?... Sr. Presidente, esta pergunta é mais profunda que qualquer outra de política partidária: até mais profunda que qualquer pergunta de política isolada de nosso país; até mais profunda que qualquer pergunta de poder constitucional. É elementar. É racial. Deus não separou os povos de língua inglesa e teutônica durante milhares de anos apenas para autocontemplação e autoadmiração vã e ociosa. Não! Tornou‑nos senhores e organizadores do mundo, para estabelecer o sistema onde reina o caos. Deu‑nos o espírito do progresso para superar as forças da reação através da terra. Tornou‑nos competentes em administração para que possamos estabelecer o governo entre povos selvagens e senis. Se não fosse por esta força, o mundo retornaria à barbárie e à noite. E de toda a nossa raça, marcou o povo norte‑americano como a nação escolhida para levar, finalmente, a regeneração ao mundo. É esta a missão divina da América do Norte, e assegura‑nos todo lucro, toda glória, toda a felicidade possível ao homem. Somos os depositários do progresso do mundo, os guardiães de sua paz virtuosa. O julgamento do Senhor está sobre nós: “Em algumas coisas vocês foram fiéis; farei com que vocês governem sobre muitas coisas” (FENTO, 1974 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 222). No entanto, vale lembrar que é possível se apresentar um pensamento que trabalhe a integração não em sentido imperialista exclusivamente, mas de realmente se partilhar trajetórias que contribuam para uma integração regional efetiva. Assim, Bittencourt (2011, p. 163) traz o material a que se refere: A expectativa de uma integração regional está explícita em documentos oficiais dos países pela criação do Setor Educacional do Mercosul: à ideia de mercado comum, que deu início ao Mercosul, nos moldes da União Europeia, agrega‑se a necessidade da construção de um espaço físico, social e culturalmente integrado. E nesse sentido o papel da escola é fundamental. E, dentro da escola, é especialmente por meio do ensino da História e da Geografia que podemos introduzir a formação, tão importante, da consciência cidadã e da consciência de tempo, espaço e fato histórico. Espaço que transcende a esfera do mercado e dos interesses econômicos e que, no contexto do Mercosul, deve ser o lugar em que a sociedade pode interagir em busca de sua identidade. 28 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Lembrete A ideia de identidade precisa ser discutida em História para se evitar o frequente apoio em mitos. Para isso outros campos do conhecimento científico podem nos auxiliar, como as ciências sociais e também a antropologia. Percebe‑se uma preocupação em desenvolver noções identitárias mais amplas que apenas a nacional, colocando em contato direto o nacional e o regional em estudos de casos que levem ao pensamento que faça comparações. E ainda, como aponta Bittencourt (2011, p. 164): As propostas de temas de estudos históricos regionais para os países do Mercosul são: • Estudo histórico das diversas etnias. • Fronteiras como espaços de intercâmbio e isolamento. • Passado colonial na perspectiva de estudos comparados. • Estudo dos conflitos entre Estados nacionais numa perspectiva regional. • As ditaduras militares recentes na América Latina e os circuitos do exílio. • A produção cultural numa perspectiva histórica. Estudos históricos no Mercosul Conflitos regionais Produção cultural Etnias Ditaduras cívico‑militares: violências e exílios Fronteiras: intercânbio ou isolamento? Figura 5 29 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Ainda na senda da escolha dos conteúdos, Bittencourt (2011, p. 166) pontua o aparecimento das discussões sobre a história do cotidiano e, para tanto, lança mão, como exemplo de uma obra (na verdade em 4 volumes) absolutamente emblemáticada historiografia que trabalha nesse sentido, A História da Vida Privada no Brasil: Os estudos da história do cotidiano conduziram historiadores franceses, brasileiros e argentinos, entre outros, à elaboração de coletâneas sobre a história da vida privada, tendo, entretanto, o cuidado de não situar os temas da vida cotidiana de forma isolada dos contextos históricos e dos temas tradicionais. Por exemplo, os autores da obra História da Vida Privada no Brasil advertem que a reconstituição de aspectos cotidianos e da vida privada fez‑se no processo histórico de formação brasileira. Não se pretendeu a reconstituição de hábitos, gestos e amores como se estes nada tivessem que ver com a organização mais ampla da sociedade, da economia, do Estado. Saiba mais Recomendamos a leitura da obra: SOUZA, L. M.; NOVAIS, F. A. (Org.). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Devem ser observados, em especial, o Capítulo 1 (“Condições de privacidade na colônia”, de Fernando A. Novais) e o Capítulo 8 (“A sedução da liberdade: cotidiano e contestação política no final do século XVIII”, de István Jancsó). A relevância dessa matriz talvez venha justamente dessa proposta, que traz em si a ideia de ampliação de olhares. A história do cotidiano, além da história social, está intimamente ligada à história cultural. Um autor importante que trabalha o cotidiano na circularidade entre cultura popular e cultura erudita é o italiano Carlo Ginzburg, que em seu instigante livro O Queijo e os Vermes recupera a vida de um moleiro italiano perseguido e morto pela Inquisição. Para narrar os episódios da vida do moleiro Menocchio, Ginzburg localiza e apresenta a conjuntura da época da Reforma, do poder da Igreja Católica, e situa as transformações ocasionadas pela invenção da imprensa em parte significativa da sociedade europeia do século XVI (BITTENCOURT, 2011, p. 166). 30 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Devemos salientar que mesmo não sendo nosso foco a discussão exclusiva de aspectos didáticos, de Teoria da História, de Historiografia do Brasil e Geral, é claro que devemos dialogar com essas áreas do conhecimento que são parte do terreno por onde caminha o professor de História. Se os novos olhares – mesmo que muitos anos depois não pareçam tão novos assim – contribuíram para melhores práticas, qual a razão de não se aproximar deles? Nenhuma. Leitura obrigatória Como forma de se aproximar da temática das ditaduras, da exclusão de direitos políticos e também de como a América Latina compartilha determinadas realidades, sugerimos a leitura das seguintes obras: FERREIRA, A. P. L.; MÈRCHER, L. Movimentos internos e caminhos futuros. In: ___. História política comparada da América Latina. Curitiba: Intersaberes, 2015. p. 157‑234. Disponível em: <http://unip.bv3.digitalpages. com.br/users/publications/9788544301999>. Acesso em: 28 abr. 2016. FICO, C. A democracia sob teste. In: ___. História do Brasil contemporâneo: da morte de Vargas aos dias atuais. São Paulo: Contexto, 2015. p. 125‑141. Disponível em: <http://unip.bv3.digitalpages.com.br/ users/publications/9788572449359>. Acesso em: 28 abr. 2016. NAPOLITANO, M. A ditadura entre a memória e a história. In: ___. 1964: história do regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014. p. 313‑333. Disponível em: <http://unip.bv3.digitalpages.com.br/users/ publications/9788572448260>. Acesso em: 28 abr. 2016. 1.3 Cotidiano e mentalidades em História Ao abordar o uso da história do cotidiano, e também das mentalidades, Bittencourt (2011, p. 167) aponta que: Autores brasileiros [...] dedicaram‑se aos estudos da religiosidade e suas manifestações diversas, como festas e rituais de enterro, as quais foram reconstituídas para demonstrar as articulações entre a cultura europeia e a africana, a constituição de um catolicismo popular e a constante presença do candomblé. Transparecendo, assim, que não se pode construir uma única abordagem que ignore as múltiplas possibilidades tão arduamente desenvolvidas pelos historiadores de diferentes vertentes, mas com algumas preocupações próximas. 31 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Saiba mais Para ampliar a noção da existência de diferentes sociabilidades na América portuguesa, e enfatizando a necessidade de perceber a importância dos rituais e festas na sociedade de Antigo Regime e no Brasil do século XIX, indicamos a leitura de: REIS, J. J. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Cia. das Letras, 1991. BOSCHI, C. Espaços de sociabilidade na América Portuguesa e historiografia brasileira contemporânea. Varia Hist., Belo Horizonte, v. 22, n. 36, p. 291‑313, jul./dez. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ vh/v22n36/v22n36a04.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2016. JANCSÓ, I.; KANTOR, I. Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa. São Paulo: Hucitec; Edusp; Fapesp; Imprensa Oficial, 2001. 2 v. (Coleção Estante USP – Brasil 500 anos, 3). Bittencourt (2011, p. 167) ainda afirma, citando Heller (1985): Os autores que se ocupam da história do cotidiano, mesmo com posturas diversas em seus fundamentos teóricos, buscam recuperar as relações mais complexas entre os diversos grupos sociais, estabelecendo conexões entre conflitos diários que se inserem em uma forma de política contestatória, e identificar as lutas de resistências a mudanças, o apego a tradições. A importância da história do cotidiano pode ser expressa pela afirmação de Agnes Heller em seu livro O Cotidiano e a História: a Vida Cotidiana é a Vida do Homem Inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam‑se “em funcionamento” todos os sentidos, todas as capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, ideias, ideologias. [...] Repetimos: a vida cotidiana não é alienada necessariamente, em consequência de sua estrutura, mas apenas em determinadas circunstâncias sociais. Em todas as épocas, existiram personalidades representativas que viveram uma cotidianidade não alienada; e, dado que a estruturação científica da sociedade possibilita o final da alienação, essa possibilidade encontra‑se aberta a qualquer ser humano. Percebemos aqui a ênfase nas múltiplas vivências e possibilidades de discussões históricas e historiográficas. O cotidiano pode oferecer questionamentos que vão muito além dos aspectos de simples observação da realidade mais imediata. E o estudo dessas várias relações pode, em alguma medida, contribuir para a construção de alternativas. 32 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I É importante manter espaços de diálogos com diversas matrizes historiográficas, permitindo‑se, por vezes, olhar para situações conflituosas, em momentos de grave crise e ruptura, ou simplesmente perceber como as diversas sociedades organizam seus cotidianos. Saiba mais Ainda sobre o tema, indicamos a leitura de: DANTAS, M. D. (Org.). Revoltas, motins, revoluções. São Paulo: Alameda, 2011. Como exemplo de produção historiográfica sobre o cotidiano indicamos a seguinte obra, que faz parte da coleção “A vida cotidiana”, editada pela Companhia das Letras: MAURO, F. O Brasil no tempo de dom Pedro II: 1831‑1889. São Paulo: Cia. Das Letras, 1991. (Coleção A Vida Cotidiana). A aproximação do cotidiano implica o desenvolvimento de questões que não são de fácil abordagem. Para encerrar esse ciclotratado por Circe Bittencourt (2011) ao discutir Métodos e Conteúdos Escolares, seguimos ainda tributários de seu rico pensamento, que procura, então, questionar a memória e a história local. Ao que parece, isso é quase um desdobramento da observação do cotidiano, do entorno, daquilo que se vive no dia a dia. Dessa forma, é fundamental ter clareza de que em muitos casos são produzidas memórias que se quer apresentar como história, mas que não o são. A memória é, sem dúvida, aspecto relevante na configuração de uma história local tanto para historiadores como para o ensino. O papel do ensino de História na configuração identitária dos alunos é um aspecto relevante para considerar ao proporem‑se estudos de história local. [...] a história local pode simplesmente reproduzir a história do poder local e das classes dominantes, caso se limite a fazer os alunos conhecerem nomes de personagens políticos de outras épocas, destacando a vida e obra de antigos prefeitos e demais autoridades. Para evitar tais riscos, é preciso identificar o enfoque e a abordagem de uma história local que crie vínculos com a memória familiar, do trabalho, da migração, das festas. A questão da memória impõe‑se por ser a base da identidade, e é pela memória que se chega à história local (BITTENCOURT, 2011, p. 169) Devemos salientar que a questão fundamental da memória e da história é objeto de discussões na disciplina de Teoria da História e que aqui fazemos alguns apontamentos para a compreensão das diversas possibilidades. Não estamos, com isso, recusando a importância do estudo da memória – em suas mais variadas manifestações individuais ou coletivas –, mas apenas recordando que a memória e a história são distintas. 33 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA A relação entre história local e memória foi observada com propriedade por Maria Cândida Proença, ao propor essa abordagem para professores portugueses: se o conhecimento histórico é indispensável na construção da identidade, sob o ponto de vista pedagógico‑didático é importante ter em conta o tratamento da memória longa das populações, que nos permite explicar diferentes ritmos de evolução, o estudo da memória coletiva de diferentes grupos de pertença, a pesquisa das memórias locais nos diferentes âmbitos de durações, a reabilitação da memória do trabalho, numa sociedade ocidental que sempre ignorou ou desprezou o trabalho manual, e a memória do tempo curto do acontecimento, que caracteriza o estudo da história do século XX (PROENÇA, 1990, p. 24 apud BITTENCOURT, 2011, p. 169). Podemos afirmar que a preocupação em tentar diferenciar memória e história não pertence a um único grupo de historiadores, a uma “escola”. É um problema contemporâneo daqueles que se dedicam a estudar e lecionar história, trabalhando inevitavelmente com a produção historiográfica. No entanto, aceitamos a repetição de alguns “cânones” historiográficos que muito bem formularam as questões desse tema. Lembramos que podemos considerar a dúvida como o nascimento do pensamento científico e que é via questionamento que se desenvolvem novos patamares de conhecimento. Se o conhecimento histórico‑historiográfico fosse tratado de forma dogmática, sofreria enormes prejuízos em seu desenvolvimento e careceria de seu fundamento crítico. A memória, entretanto, não pode ser confundida com a história, como advertem vários historiadores. As memórias precisavam ser evocadas e recuperadas e merecem ser confrontadas. As dos velhos e de pessoas que ainda estão no setor produtivo ou as de homens e mulheres nem sempre coincidem, mesmo quando se referem ao mesmo acontecimento. No entanto, nenhuma memória, individual ou coletiva, constitui a história. A história “consiste na escolha e construção de um objeto, operação que pode dar‑se a partir de evocações de lembranças” (LE GOFF, 1988 apud BITTENCOURT, 2011, p. 169) e exige, na análise das memórias, um rigor metodológico na crítica e na confrontação com outros registros e testemunhos. De forma resumida, é possível estabelecer as seguintes distinções entre memória e história: Quadro 1 Memória social História Relação coletiva que uma comunidade estabelece com seu passado. Trabalha com a acumulação dessa memória. Funciona pela seleção e eliminação. Reordena o tempo passado, medindo‑o, periodizando‑o e estabelecendo uma crítica sobre sua duração. Realiza omissões. Usa um método para recompor os dados da memória. Corpo vivo do processo de se relacionar com o passado. Confronta as memórias individuais e sociais com outros documentos. Relações com o passado e variações de acordo com idade, sexo, ocupação, origem etc. Situa os testemunhos orais no tempo e no espaço e o “lugar” de onde “falam” Fonte: Bittencourt (2011, p. 170). 34 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Percebemos que existem muitas variantes influenciando o processo e que a memória social opera num nível diferente da história. Percebemos, ainda, que não se trata, em nenhuma hipótese, de se desconsiderar a memória social, como se fosse “inferior” ou mais “pobre” em relação à história. Trata‑se, antes, de perceber as diferenças mais significativas e de trabalhar com as ferramentas que o conhecimento historiográfico pode oferecer para a construção de um pensamento crítico que saiba discernir em meio a diferentes situações sociais e situar as diferentes falas sociais. 2 HISTÓRIA INTEGRADA 2.1 Usos da História Integrada – Sugestões e exemplos: pensar historicamente interdisciplinaridades Pensar historicamente deve levar em consideração esses elementos e ainda mais a questão do espaço onde tudo ocorre. Podemos lançar mão dos conhecimentos de várias outras ciências nesse processo de aprofundamento dos usos da história. Assim, é desejável que busquemos sempre aumentar o arcabouço de conhecimentos em diversas áreas de estudos e pesquisas. Os usos da história interdisciplinar, nesse sentido, podem muito bem nos ajudar a superar algumas dificuldades fundamentais. Estudar sociologia, economia, filosofia, antropologia, geografia pode dar elementos que contribuam para nossa capacidade de analisar as questões. Não estamos aqui elencando esta ou aquela ciência como superior ou inferior, mas sim escolhendo algumas que podem contribuir de forma mais direta. Quando nos deparamos com as situações históricas podemos indagar a respeito do meio em que se dão, meio geográfico propriamente dito. [...] o geógrafo Milton Santos apresentou, em várias de suas obras, importante reflexão sobre espaço geográfico, com uma contribuição preciosa sobre o conceito de lugar. Cada lugar tem suas especificidades e precisa ser entendido por meio da série de elementos que o compõem e de suas funções. Milton Santos sustenta, no entanto, que o lugar só pode ser compreendido dialeticamente levando‑se em conta as relações de produção nele estabelecidas e sendo concebido como uma produção histórica. A história, afirma, atribui funções diferentes ao mesmo lugar. O lugar é um conjunto de objetos que têm autonomia de existência pelas coisas que o formam – ruas, edifícios, canalizações, indústrias, empresas, restaurantes, eletrificação, calçamentos –, mas que não têm autonomia de significação, pois todos os dias novas funções substituem as antigas, novas funções se interpõem e se exercem (SANTOS, 1991, p. 52 apud BITTENCOURT, 2011, p. 171). Para acompanhar as falas do geógrafo Milton Santos, que é um dos mais relevantes pensadores da realidade brasileira, mundial e globalizada no século XX, recomendamos sua extensa bibliografia e também diversos documentários e entrevistas que enriquecem o olhar do professor de história com importantes interpretaçõescom matizes de outra natureza. 35 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Figura 6 – Milton Santos Saiba mais Para entender um pouco mais do pensamento crítico sobre a Globalização, recomendamos a leitura da transcrição da entrevista de Milton Santos no programa Roda Viva, da TV Cultura, exibido em 31 de março de1997: MILTON Santos. Memória Roda Viva, São Paulo, 31 mar. 1997. Disponível em: <http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/112/entrevistados/milton_ santos_1997.htm>. Acesso em: 29 abr. 2016. Bittencourt (2011, p. 172) faz ainda algumas considerações importantes: Esse autor ressalta que cada lugar é diferente de outro, tem sua singularidade, mas é fração de uma totalidade. Ao analisar o atual processo de globalização, pressupõe as relações de cada lugar com a expansão de multinacionais, com a nova forma de atuação do Estado e com a organização social. Afirma assim que as relações de produção atuam na transformação dos lugares, embora seja preciso averiguar a dinâmica dos usos de cada espaço, como ocorre a ação concreta do capitalismo globalizado nessa fração do espaço total. A história do “lugar” como objeto de estudo ganha, necessariamente, contornos temporais e espaciais. Não se trata, portanto, ao se proporem conteúdos escolares da história local, de entendê‑los apenas na história do presente ou de determinado passado, mas de procurar identificar a dinâmica do lugar, as transformações do lugar, as transformações do espaço, e articular esses processos às relações externas, a outros “lugares”. 36 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Bittencourt (2011) passa a tratar de aspectos “práticos” fundamentais em história e se dedica, com bastante afinco, a apresentar os procedimentos metodológicos em práticas interdisciplinares afirmando, inicialmente, que [...] a interdisciplinaridade tem sido objeto de muita discussão entre professores e pesquisadores. Embora ninguém negue sua importância na constituição de um conhecimento escolar não fragmentado que possibilite ao aluno uma compreensão do mundo em sua complexidade e com suas articulações inerentes entre a vida social e a natureza física, biológica, química etc., o desafio é a sua concretização. [...] O rompimento com as formas tradicionais de trabalhar os conteúdos escolares não é uma tarefa fácil. Alguns especialistas do tema da interdisciplinaridade educacional, como é o caso de Ivani Fazenda, destacam a importância do engajamento do docente, enfatizando a necessidade de mudança da postura ante o conhecimento escolar, para que seja possível a realização de um trabalho interdisciplinar nas escolas. A organização curricular mais recente oferece algumas possibilidades, como no caso das propostas com temas transversais. [...] entre as questões que merecem destaque para uma reflexão sobre o trabalho interdisciplinar estão as disciplinas escolares. Para um trabalho como esse, segundo alguns educadores, seria necessário romper com o currículo baseado nas disciplinas (BITTENCOURT, 2011, p. 256). Os desafios são consideráveis, dada a existência de algumas peculiaridades, tais como a própria formação dos docentes, voltada para conhecimentos compartimentados e especializados, passando pelas práticas cotidianas dos alunos expostos a saberes quase estanques. Entender a necessidade de mudanças, no entanto, não significa conseguir uma imediata implementação apenas por ter se envolvido com esses aspectos tão relevantes que procuramos destacar. Talvez, possamos aprender com as tentativas e com os projetos de grandes professores ao ler suas obras canônicas não apenas buscando conteúdos e informações, mas também procurando perceber quais as trajetórias percorridas para que o produto intelectual tivesse determinadas características finais. Quando, ao ler determinadas obras, procuramos apenas desenvolver a prática da apropriação da informação, corremos o risco de não ler realmente os sentidos que determinadas correntes de pensamento tanto procuraram estruturar. [...] para existir interdisciplinaridade, parece óbvio que deve haver, além de disciplinas que estabeleçam vínculos epistemológicos entre si, a criação de uma abordagem comum em torno de um mesmo objeto de conhecimento. Dessa forma, no aspecto epistemológico, o ponto central parece ser o oposto. É fundamental o professor ter profundo conhecimento sobre a sua disciplina, sobre os conceitos, conteúdos e métodos próprios do seu campo de conhecimento, para dialogar com os colegas de outras disciplinas. Os recortes de conteúdos de acordo com problemáticas comuns, a seleção dos conceitos para serem ampliados e aprofundados, enfim, a organização e sistematização de informações que possam se integrar e fornecer uma visão de conjunto do objeto do conhecimento são possíveis apenas se houver 37 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA domínio por parte dos especialistas das áreas. Essa condição é a garantia da preservação de um conhecimento escolar sem superficialidade, que aborde temas interdisciplinares em profundidade (BITTENCOURT, 2011, p. 256). Pode parecer, num primeiro olhar mais rápido, a repetição de uma obviedade falar que cada professor deve conhecer em profundidade seu campo de atuação, mas não é, uma vez que o mais simples – quase usual – é a apropriação rápida de alguns saberes que podem ser construídos em profundas discussões ou longos debates historiográficos ou, o que não é incomum, por meio de pesquisas rápidas em fontes que podem apresentar uma série de problemas e que podem ser questionáveis. O desafio é, então, trabalhar com profundidade determinado campo do conhecimento ao mesmo tempo que se desenvolve um trabalho, e, como afirma Bittencourt (2011, p. 256), conteúdos específicos são ensinados com um método comum a todas as disciplinas. Buscando desenvolver as práticas interdisciplinares, Bittencourt (2011, p. 257) apresenta a proposta de aproximar meio ambiente e história: Os debates e discussões sobre o meio ambiente ou ecologia que visam à educação ambiental parecem pouco familiares nas salas de aula de História. Poluição, degradação de solos, secas, queimadas, lixos, preservação de animais, enchentes devastadoras e demais problemas que envolvem os vários temas ambientais são próprios de educadores e cientistas da natureza e parecem estar bastante distantes das preocupações daqueles que se dedicam aos estudos das sociedades e, especialmente da história. Tratar de um tema que aborda as relações da história com o meio ambiente pode provocar certo estranhamento, como se a história estivesse invadindo o território alheio e se propusesse a entrar em uma espécie de aventura, embrenhando‑se em seara desconhecida, exclusiva das áreas das ciências da natureza. Quando, no entanto, situamos as diversas problemáticas ambientais, podemos perceber como muitos dos temas abordados são também familiares às ciências humanas e como as aproximações entre sociedade e meio ambiente possibilitam enriquecimento mútuo entre as áreas das ciências da natureza – Química, Biologia, Física, Geologia – e as ciências humanas. Podemos notar que, ao lado de uma atitude propositiva, temos uma abertura para a criatividade no tratamento de temas que são, no mínimo, extremamente relevantes sob os mais diversos aspectos e perspectivas. O meio ambiente, assim, não pertence a um ponto de vista único tampouco se reduz a um pequeno “pacote” de conhecimentos extremamente especializados. A proposta é no sentido de aprofundar‑se em cada área em si e superar as compartimentações, buscando dialogar – com qualidade –com diversas áreas de conhecimento. Consideramos que alguns desses “saltos” aconteceram justamente pela abertura que grandes pensadores e pesquisadores se permitiram ao novo, ou seja, estiveram dispostos a avançar em direções que, por vezes, tirava‑os da região de conforto das suas especialidades. Ainda tratando de história e meio ambiente, Bittencourt (2011, p. 258) afirma que 38 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I [...] as aproximações entre as duas áreas, no entanto, são relativamente recentes. Os anos após a Segunda Guerra Mundial foram aqueles que, no dizer de Boaventura dos Santos, corresponderam ao “fim da inocência das ciências naturais e a emergência de uma consciência social crítica sob o impacto do desenvolvimento tecnológico na criação de alienação social, na destruição do meio ambiente e no agravamento das desigualdades entre países centrais e periféricos” (SANTOS, 1989, p. 64). O desenvolvimento científico provocou o crescimento da tecnologia, ampliando o consumismo em uma escala que tornou possível vislumbrar infindáveis possibilidades, mas também limitações dos recursos naturais explorados pelo desenfreado capitalismo de séculos industriais. Pode‑se então constatar que as ciências modernas naturais haviam produzido enorme conhecimento do mundo, submetendo‑o à dominação do homem, mas essa acumulação de conhecimento não havia sido traduzida em sabedoria sobre o mundo. A partir de então, a autora passa a explicar quais seriam as preocupações dos historiadores: [...] os historiadores, nesse contexto, passaram a preocupar‑se com a história social e com uma revisão da história política, na qual incluíam lutas e os movimentos sociais. Sob o impacto das redefinições da história social articulada à política e à cultura surgiu, nos países onde as lutas e movimentos de grupos ambientalistas eram mais atuantes no decorrer dos anos 1960 e 1970, a preocupação com essa problemática em uma perspectiva histórica. Os historiadores, ao se aproximarem das lutas e conflitos vividos no tempo presente, passaram a rever e a reconsiderar o lugar da natureza no viver social (BITTENCOURT, 2011, p. 258). Poderíamos, seguindo esse raciocínio, desenvolver importantes aspectos ligados à terra na sociedade brasileira do início do século XXI. Nesse caso não faltam assuntos a serem propostos, em diversos ângulos, tais como o problema das pressões do capital sobre a terra, transformando‑a em valor, processo intensamente percebido no decorrer do século XIX que utilizou as pressões pela abolição do tráfico negreiro no Atlântico Sul entre a África e o Brasil. Não se trata aqui de ressaltar obviedades, mas de problematizar como a abolição, em qualquer parte das Américas, foi um processo de lutas, de confronto de forças internas e externas e de disputas que extrapolaram um gesto real para se transformar em um espaço de construção de memórias sociais. Diversos temas podem ser mobilizados, e isso ocorre em consonância com os anseios populares, o que corresponde a afirmar que, se a problemática ambiental faz parte da realidade de milhões de pessoas, de alguma maneira vai tornar‑se objeto de estudos. O termo história ambiental passou a ser utilizado por alguns historiadores engajados nos movimentos ambientalistas de seus países, notadamente os norte‑americanos. Um nome de destaque desse grupo de historiadores, Donald Worster, informa que, a partir dos anos 1970, o tom característico dos 39 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA primeiros trabalhos de história e meio ambiente associou‑se a investigações mais rigorosas do ponto de vista teórico‑metodológico, levando tais pesquisadores a aproximar‑me de biólogos, botânicos, geógrafos e demais cientistas com maior tradição na área. E, inversamente, ocorreu o mesmo movimento. Cientistas de formações diversas passaram a dedicar‑se a estudos das relações entre o homem e a natureza em uma perspectiva histórica, ampliando a pesquisa. A história ambiental foi‑se constituindo basicamente em torno de um objetivo comum: investigar como os homens, em diferentes sociedades, ao longo dos séculos, foram afetados pelo meio ambiente e, de maneira recíproca, como o ambiente foi afetado pelos homens. De forma simplificada, os historiadores esclarecem que a “história ambiental trata do papel e do lugar da natureza na vida do homem” (WORSTER, 1991, p. 201 apud BITTENCOURT, 2011, p. 259). O caráter científico da citação nos alerta para pensar fora de esquemas deterministas, muito comuns, infelizmente, de serem encontrados em sala de aula quando se fala de colonizações, por exemplo. Em vez de se explicar a relação do ser humano com o meio e como isso se transforma e é utilizado para um determinado fim, busca‑se a construção de regras quase absolutas. Algumas características surgem nos discursos dos professores de maneira naturalista, como se o ser humano não interferisse no meio e fosse apenas submetido a certas condições, e, assim, onde fica o papel de agente histórico? E a problematização do meio em que se vive? Entre os franceses, Marc Bloch e Fernand Braudel têm sido apontados como precursores de uma abordagem que busca compartilhar, de maneira mais íntima, espaço e tempo, a fim de estabelecer métodos que possibilitem um entrelaçamento entre as paisagens e os homens. Bloch menciona em Introdução à História as necessárias diferenciações entre a história natural e a humana, mas alerta para as vinculações entre as duas áreas e a impossibilidade de interpretações que separassem o mundo natural de um mundo humano. Destaca ainda os impactos gerados pelas ações do homem no equilíbrio ecológico (BITTENCOURT, 2011, p. 261). A autora continua a explicar essa questão utilizando outra referência fundamental da historiografia no século XX, Fernand Braudel, que, com um refinamento de olhar, percebe a questão da relação entre o espaço e o ser humano, e, mais do que isso, da existência de diferentes temporalidades. Em sua obra O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II, publicada em 1949, Braudel recupera a história dos povos do século XVI em torno do mar Mediterrâneo, transformando o mar, com suas paisagens, suas especificidades climáticas, em personagem fundamental para a compreensão das relações de poder econômico e político do período. Esse autor preocupou‑se com as relações entre homem e natureza antes mesmo do advento dos movimentos e das preocupações ambientalistas, não integrando assim a lista dos historiadores dessa área, embora se tenha 40 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I tornado quase uma referência obrigatória, pelo esforço em estabelecer o papel do espaço na construção do tempo histórico e de suas durações (BITTENCOURT, 2011, p. 260). Avançando na produção acadêmica, quando ocorre a intensificação dos debates na década de 1970, Ladurie (apud BITTENCOURT, 2011, p. 261) escreveu: A história ambiental reúne os temas mais antigos com os mais recentes na historiografia contemporânea: a evolução das epidemias e do clima, ambos os atores sendo partes integrantes do ecossistema humano; a série de calamidades naturais agravada por uma falta de antevisão, ou mesmo por uma absurda “disposição” dos colonizadores simplórios; a destruição da natureza causada pelo crescimento populacional e/ou pelos predadores do hiperconsumo industrial, que levam à poluição do ar e da água; o congestionamento humano ou os altos níveis de ruído nas áreas urbanas, num período de urbanização galopante. Considerando que um fator fundamental para a realização da produção historiográfica dequalidade seja o mundo em que ela está inserida, as temáticas se modificam, abordam novas áreas do conhecimento científico, mas também popular, e assim passa a dialogar com o mundo em que está. Segundo Bittencourt (2011, p. 264): Os diversos temas da história ambiental na atualidade têm aproximado o meio ambiente à história cultural, às imagens construídas pelos homens sobre a natureza e ao modo de esta se incorporar à memória individual e coletiva. Um dos trabalhos com esse tipo de abordagem é Paisagem e Memória, de Simon Shama, que apresenta os mitos e as representações sociais em torno de três elementos centrais da natureza: mata, água e rocha. Por essa temática, o autor pretende desenvolver uma reflexão otimista sobre as relações ecológicas atuais, demonstrando que “ao longo dos séculos, se formaram hábitos culturais que nos levaram a estabelecer com a natureza uma relação outra que não a de simplesmente esgotá‑la até a morte” (SHAMA, 1996, p. 24). Aproximando‑nos de um exemplo que envolve o Brasil, a mesma autora remete aos trabalhos de Sérgio Buarque de Holanda, que transitam em diversas áreas do conhecimento e dialogam com outras ciências. [...] nas décadas de 30 a 50 do século XX, especialmente nas obras Monções, Extremo Oeste e Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda, nas quais este intelectual trata dos conflitos e diferenças entre os grupos nativos e os europeus quanto às formas de utilização da fauna, da flora e dos recursos naturais, situando a produção de novas paisagens por diversos grupos sociais a partir da chegada dos portugueses (BITTENCOURT, 2011, p. 264). 41 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Mesmo depois do alerta de que não são estudos propriamente de história ambiental, o valor dessas obras, aqui, não está diminuído, uma vez que colabora para a melhor compreensão das relações dos homens com o meio em que vivem. Apesar da escassez posterior de trabalhos com abordagem que relaciona os temas que mencionamos aqui, próximo aos anos 1980, os trabalhos de Warren Dean, que Bittencourt (2011) coloca na tradição brasilianista, passam a analisar as relações entre a sociedade e o meio ambiente. Ela indica que Dean [...] tratou dos problemas do desmatamento ocorrido no processo de industrialização em São Paulo, notadamente após o governo Juscelino Kubitschek e dos militares, e dos custos ambientais decorrentes de uma visão política que considerava a proteção ambiental como “luxo” de países desenvolvidos (BITTENCOURT, 2011, p. 265). Aproveitando essa temática, acreditamos que, para se desenvolver uma História integrada, seria importante entender não apenas o referido governo JK (1956‑1961) e a Ditadura Cívico‑Militar (1964‑1985) em si, mas o mundo em que se inseriam. O pensamento e as práticas juscelinistas são absolutamente isolados e originais, como se não dialogassem com sua época? Parece que não. Poderíamos indicar a busca de uma visão que envolva os Estados Unidos, as Américas e o Brasil, além da Europa e das discussões na África relativas ao desenvolvimento das sociedades, às liberdades democráticas – ou ausência delas–, e assim por diante. As questões que o Brasil enfrentava são muito próximas da realidade de outros diversos países. Os modelos de dependência econômica escolhidos pelo projeto desenvolvimentista, as relações entre os países durante a Guerra Fria. Faz sentido durante a Guerra Fria se abordar, exclusivamente, os Estados Unidos ou a União Soviética? Para uma compreensão realmente problematizadora, pode‑se excluir o restante das Américas, África e Ásia? Parece que não. Os debates relativos ao desenvolvimento e subdesenvolvimento ultrapassavam fronteiras nacionais. O mesmo acontecia com as lutas pela emancipação das mulheres, dos negros e a fundamental conquista de direitos civis e políticos, dos direitos das minorias à diversidade de orientação sexual, política, religiosa ou quaisquer outras áreas de vida humana que provoquem oposição entre grupos. Se construímos uma visão verdadeiramente integrada – e essa é nossa sugestão de olhar, pois não é nosso objetivo aqui construir um manual com exemplos aplicados e esgotados –, as múltiplas possibilidades são organizadas de acordo com as problemáticas que nascem em cada realidade na qual as aulas de História devem ser desenvolvidas. Está claro que temos as indicações oficiais relativas aos conteúdos a serem tratados no Ensino Médio, por exemplo, mas as abordagens e escolhas dependem dos interesses dos docentes. Assim, diferentes abordagens são possíveis, e a redução dos exemplos prontos contribuiria para um distanciamento do professor em relação às necessidades de seus alunos. Essa noção de ampliação de abordagens é válida para os mais diversos períodos e recortes históricos. Desde os tempos de Colônia, na História das Américas de forma mais ampla, podemos discutir as trocas que ocorreram entre nativos e europeus. A partir do Novo Mundo o restante da humanidade pôde conhecer a batata, o tomate, o cacau, a quinoa, a mandioca e – nos dizeres do conceituado antropólogo Viveiros de 42 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Castro –, o fumo, que foi a vingança dos indígenas em relação ao genocídio que sofreram, uma vez que da população original sobrava algo como 10%! A retribuição europeia a esses novos produtos que se tornaram parte fundamental da dieta ocidental foram as doenças que dizimaram os nativos. Exemplo de aplicação Pesquise no bairro em que mora se existem iniciativas de produção alternativa de alimentos em praças entregues às associações ou a outras instituições que militam para estabelecer novos paradigmas de relacionamento entre o ser humano, seu meio e suas condições materiais de subsistência. Admita‑se que o bom uso das noções lançadas anteriormente de História Integrada depende, essencialmente, de sua familiarização com as abordagens que se tornam cada vez mais densas, em termos de explicação. Foge‑se, dessa maneira, ao simples elencar de informações quase desconexas para que se entenda a existência de fatores comuns e, mais do que isso, entenda‑se como as influências devem ser múltiplas, concomitantes e situadas além do antigo esquema apenas de causa e efeito. O tratamento proposto pelas coleções que adotam a História Integrada oferece concomitantemente a História do Brasil, a da América e a História Geral, podendo seguir ou não a ordem cronológica do estabelecimento das sociedades. Contudo, para que haja integração dessas histórias, é imprescindível que se estabeleçam relações contextualizadas entre os conteúdos tratados, considerando a simultaneidade dos acontecimentos no tempo e no espaço (BRASIL, 2007 apud SILVA, 2011, p. 199). É simples consolidar essas propostas? É claro que não. Em parte, o pouco uso de História Integrada em diversos materiais didáticos contribui para isso. Em parte, porque a prática de muitos professores se acostuma com determinados encadeamentos que podem até dar uma sensação de organização lógica e muito bem‑estruturada, parecendo até mesmo fruto de um árduo trabalho de erudição, mas que é, muitas vezes, superficial. Lido com cuidado, ele carece de informações que dialoguem com a realidade e os modos de vida das pessoas que se alternam no tempo e nos espaços e sofrendo as consequências das constantes mudanças de quaisquer eventos históricos. Anteriormente nos referimos à importância da existência de múltiplos olhares e, dessa maneira, retomamos nossa consideração e nosso respeito ao trabalho de estrangeiros que se interessam pelo Brasil e pelas Américas. Lembramos que não se conhece melhor uma cultura apenas porque se vive nela, senão todas as pessoas nativas de determinadasculturas teriam elevada e extremamente refinada capacidade de compreensão de seu próprio universo, noções sobre a própria trajetória e de sua sociedade e capacidade de explicação de sua realidade ou de conhecimento da história, do Brasil, da América ou de outras regiões. É assim que funciona na prática? Parece que não. Estrangeiros estudando a História do Brasil, por exemplo, podem também contribuir de maneira essencial, uma vez que podem confrontar as práticas e realidades de seu mundo com aquilo que estão vendo e que lhes causa espécie. Os viajantes do século que andaram pelas Américas até o século XIX são fontes extremamente recorrentes. Em termos acadêmicos, a contribuição de trabalhos sérios, dos chamados brasilianistas, pode contribuir para uma sofisticação do olhar. 43 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Observação Brasilianistas são pesquisadores estrangeiros sobre o Brasil. Existe uma tradição norte‑americana recente de estudos relativos ao Brasil que muito contribuem para nossa própria compreensão da história do País. Ao longo das décadas finais do século XX, muitos debates em ciências humanas trataram de questões relevantes para diversos povos e, assim, a Globalização surge como um espaço rico de questionamentos. O olhar pode buscar as relações econômicas dos processos, mas apenas isso já nos basta como explicação? Não vale a pena abordar a produção cultural? A construção de conexões entre sociedades nos faz pensar, também, em espaços de disputas que não surgiram do dia para a noite. A crise de regimes populares nas Américas, que permitiu a desestruturação de regimes mais ou menos populares, abrindo caminho para ditaduras cívico‑militares, e a pressão posterior pela redemocratização podem ser temas de produções com grande qualidade. Adiante trataremos das diferentes visões e usos do conhecimento sobre história e, então, ao chegarmos ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), devemos lembrar que as sociedades sofreram significativas alterações desde o advento da industrialização. A relação entre capital, trabalho e Estado não é a mesma ao longo da história. O que a industrialização causa nas sociedades? Faz sentido querer apenas entender como a Inglaterra rumou para a industrialização e outros países não? E, se o fizeram, demoraram muito? Não se corre o risco de cair em visões com pouca explicação histórica? Os temas que podem ser elaborados envolvem a industrialização (na Europa, nos Estados Unidos) – as mudanças fundamentais dessas sociedades com a invenção da sociedade industrial. Passa‑se a vivenciar organizações sociais e políticas radicalmente diversas do que se conhecia até então. A Europa, de sua posição econômica central nos séculos XVIII e XIX, observa – com maior ou menor capacidade de entender as mudanças em escala mundial – que, no início do século XX, o quadro geral de confronto entre as potências se abalava com tal gravidade que o confronto entre elas parecia cada vez mais próximo. O século XIX, por sua vez, foi atravessado por conflitos relacionados com a opção por diferentes modelos políticos, choque esse entre os que acreditavam piamente nos benefícios do capitalismo quase que sem limites e os interesses do proletariado, que se organizava em torno de suas múltiplas demandas de ordem política e social. Diversas foram as ondas revolucionárias no século XIX. O nacionalismo entra na disputa por corações e mentes, o liberalismo (político e econômico) era amplamente defendido por setores burgueses, que a isso somavam o nacionalismo e, em alguns grupos, um conservadorismo político antipopular. Os setores mais críticos, como socialistas, comunistas e anarquistas, pareciam para alguns a ameaça fundamental a ser confrontada e destruída. Dentro dessas mudanças, ainda aparecem os pensadores positivistas seguindo a matriz estabelecida por Comte e a Igreja Católica, com sua doutrina social, tentando amenizar a gravidade da tensão social provocada pela exploração humana. Lembrete Para se buscar as definições dos diversos termos mencionados, recomendamos a consulta ao Dicionário de Conceitos Históricos. 44 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Nesse “quadro” de profundas mudanças – algumas vezes percebidas com mais clareza na superfície da realidade, no dia a dia das pessoas, outras vezes não tão claras assim – estavam os movimentos de ruptura dentro do próprio sistema capitalista, que evidenciam aspectos críticos. Quando a crise de paradigmas se estabelece, alguns valores coletivos tidos anteriormente como intocáveis, fundamentais e basilares para a estrutura das sociedades correm o risco de serem deixados de lado e, assim, emergem grupos que desconsideram direitos humanos, valores democráticos e respeito às diferenças. Quando os fascismos avançam, o recuo em termos de liberdades democráticas e preservação de direitos fundamentais vai escandalizar as mentes mais progressistas que tomarem conhecimento da realidade a que estavam submetidos milhões de seres humanos no interior de campos de concentração e extermínio nazistas, por exemplo. Figura 7 – Internos do campo de concentração de Dachau ao chegarem os norte‑americanos para libertá‑los Figura 8 – Prisioneiros de um campo de concentração nazista durante a guerra Acreditamos que as alterações do modo de vida que culminaram em sociedades urbanas sob a liderança de políticos razoavelmente carismáticos e com promessas de salvação num mundo caótico e de intensa ameaça de miséria e confrontação após a Crise de 1929 – e as profundas consequências da Grande Depressão – não foram episódicas. Não se trata de uma figura autoritária e carismática aparecendo apenas numa Alemanha em crise. O choque entre setores conservadores e autoritários 45 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA deixava exposto como o sistema comporta em si contradições que, de tempos em tempos, emergem em conflitos que podem se desenvolver e chegar até mesmo a conflagrações em escala mundial. Passadas as crises, muitas vezes tem‑se a ideia de sua gravidade amenizada, quase diminuída, e, assim, não é simples entender como era a condição de vida das pessoas no apogeu das crises. Quando as sociedades coloniais assistiram à instalação da crise que seria depois entendida como a Crise do Antigo Regime e do Antigo Sistema Colonial, quem, naquele século XVIII, já teorizava a subversão da velha ordem? No entanto, começaram a surgir pensadores buscando entender os sentidos das mudanças e mesmo figuras políticas procurando lançar os germes das alterações mais profundas. Quando colonos escolhem o caminho da ruptura com suas metrópoles – como ocorreu na Revolução Americana, que tem como marco simbólico 1776, mas também com a crise do mundo ibérico, que levaria a diversas independências na América Espanhola e também portuguesa, no século XIX –, não está aí colocada a questão das opções. A explosão da revolução no Haiti, onde milhares de recém‑libertos, negros e mestiços explodiram em aberta revolta com as elites coloniais europeias e locais, foi um movimento isolado? Era apenas na região do que seria o Haiti depois que a crise era sentida? Claro que não. As notícias da Revolução Americana circulavam na América Espanhola e no Brasil dos inconfidentes, nas Minas Gerais (1789), dos alfaiates, na Bahia (1798), dos leitores escondidos, no Rio de Janeiro (1794), ou mesmo dos republicanos pernambucanos de 1817. O crepúsculo da velha ordem colonial era percebido de diferentes maneiras e abria espaço para diversos projetos, mas já era percebido. É diferente de crises dentro da ordem colonial, que não propunhamsua superação, mas apenas ajustes, como nos séculos XVII e início do XVIII. Confrontos existiram diversas vezes, mas a organização de projetos para superação radical é parte das imensas novidades do século XVIII. Caro aluno, você pode estar se perguntando a razão pela qual em um momento estamos falando de Segunda Guerra Mundial e depois da Crise do Antigo Regime, não é mesmo? A principal razão disso é estabelecer como referência fundamental a ideia de crise como contribuição para o desenvolvimento do pensamento crítico relativo à História. A razão dessas referências é estabelecer uma compreensão de que os momentos de crise são constantes e têm as mais diversas manifestações. Acreditamos que, para sofisticar nossa capacidade de observar a História e desenvolver mecanismos que facilitem a compreensão de determinadas épocas e situações, precisamos olhar nesse sentido. Isso pode nos ajudar a entender aspectos importantes das sociedades sobre as quais nos debruçamos quando estudamos o mundo colonial, por exemplo. A noção de que os movimentos mais profundos não são particulares de uma sociedade ou outra, para nós, manifesta‑se nesses momentos de crise. Se novamente avançamos um pouco para entender o século XX e suas múltiplas demandas e novidades, deparamo‑nos com os Movimentos de Contracultura. Extrapolando o final do século XX e chegando ao século XXI, estão os movimentos sociais contemporâneos de antiglobalização e antineoliberalismo que buscam a construção de alternativas. A construção de novos olhares chega mesmo a debater a própria sobrevivência de nossa espécie, uma vez que, segundo nossos modelos de desenvolvimento econômico e material mais difundidos, a destruição da natureza e do meio ambiente constituem ameaças em uma 46 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I escala de gravidade potencialmente destruidora do planeta e das formas de organização humanas tal como conhecemos na atualidade. Saiba mais Para entender a conflituosa dinâmica da Globalização, envolvendo questões sociais, liberdade de manifestação e de organização, repressão política e policial e também aspectos ligados às manifestações de ambientalistas, sugerimos assistir ao filme: A BATALHA de Seattle. Dir. Stuart Townsend. Canadá; EUA; Alemanha: Hyde Park Entertainment, 2007. 100 min. 2.2 Olhares integrados de História e a produção recente de conhecimento histórico: histórias do Brasil O trabalho com diferentes concepções de História pode nos trazer desafios no que se refere a organizar materiais, apresentações e mesmo escolher o discurso que será feito aos alunos para se alcançar determinadas problematizações. Considerando que existem diversos recursos possíveis que podem contribuir para dinamizar as relações em torno do conhecimento de História na sala de aula, sugerimos aqui, em especial, a série produzida pela TV Brasil, em 2010, que envolve as Histórias do Brasil. Nas palavras da diretora‑presidente da EBC/TV Brasil, Tereza Cruvinel, [...] a TV Brasil tem muito orgulho da parceria feita para a produção de Histórias do Brasil. “Contribuir para a formação do cidadão é uma das tarefas da TV Pública. Ensinar‑lhe a História de seu pais faz parte desta tarefa. E nada melhor do que fazer isso através de um conteúdo de alta qualidade técnica e estética, com uma narrativa atraente e inteligente. Histórias do Brasil, a série, tem todos estes atributos”, enfatiza. [...] Arthur Fontes disse que a consultoria dos historiadores foi importante para reiterar o compromisso com a veracidade dos fatos. “A nossa intenção é produzir uma série com um rigor tanto histórico quanto estético, raros de ver na programação das nossas TVs. Um programa educativo, mas num formato absolutamente original, e com o aval dos melhores historiadores do país”, revela. “A ideia de trazer cenas da história da vida privada combina bem com a tendência da história nos últimos anos. Foi uma escolha feliz que permite oferecer situações a partir do cotidiano ao longo de várias épocas, sem abandonar o contexto e a compreensão mais ampla da história do Brasil”, completa o editor da RHBN, Luciano Figueiredo. (A HISTÓRIA..., 2011). 47 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Saiba mais Para saber mais sobre a série, inclusive obter a lista de episódios, leia: A HISTÓRIA do Brasil que os brasileiros não conhecem. TV Brasil, Brasília, 30 ago. 2011. Disponível em: <http://tvbrasil.ebc.com.br/historiasdobrasil/ bastidores/estreia‑historias‑do‑brasil>. Acesso em: 2 maio 2015. O pensamento de inevitabilidade pode conduzir o raciocínio para a incapacidade de agir historicamente e, portanto, de ser agente. Mitos em torno da docilidade, da cordialidade – palavra ao mesmo tempo encantadora e enganadora, que, interpretada equivocadamente, nos banaliza –, mas, em se tratando de mitos, os diversos povos e diversas nações os têm, e aqui passa a nos interessar o que ainda é utilizado como referencial identitário. Então a vítima aceita passivamente, sem reagir, em nenhum aspecto, contra o europeu colonizador? Nada mais falso. Não estamos procurando o argumento fácil e factual que esbarra no pitoresco e irresponsável de casos escolhidos para causar impressão, ridicularizar ou tornar mais curioso um olhar ou momento. Qual o valor formativo dessas referências? De que maneira estariam integradas ou seriam os elementos integradores entre o Brasil e o restante da humanidade? Não são e por isso devem ser tratados com muitas ressalvas. Afirmar categoricamente alguns pontos no sentido de que “o brasileiro é isso ou aquilo” também resvala em estereótipos empobrecedores de nossa trajetória e problematizações. Um exemplo aparentemente banal pode nos ajudar a entender como se reduz a história e as pessoas a categorias, no mínimo, fantasiosas. O caso da participação da população brasileira em manifestações sociais pode ser historicamente analisado, discutido, problematizado, explicado ou pesquisado de forma aprofundada e criteriosa ou simplesmente se afirmar que “o brasileiro é um povo pacífico e ordeiro”, com se manifestação fosse, necessariamente, desordem. Na história recente do País, nas últimas décadas do século XX e primeiras do XXI, não correram diversas manifestações, por diversos motivos e com múltiplas consequências? Durante a complicada abertura política do início dos anos de 1980 não ocorreram manifestações que atraíram milhares – possivelmente milhões – de adultos com seus filhos, exigindo “Diretas Já”? Na crise que levou ao impedimento de Fernando Collor de Melo, a juventude não tomou as ruas pela saída do antigo “caçador de marajás”? Quando da enorme onda de protestos que tomou conta de diversas cidades brasileiras em junho de 2013, na ação deflagrada pelo histórico Movimento Passe Livre – e que acabou agregando outras demandas –, não foram incontáveis pessoas mobilizadas? Esses exemplos não seriam casos flagrantes que desmentem o senso comum da passividade e a ideia do imobilismo? 48 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Saiba mais Para saber mais sobre o Movimento Passe Livre e os Vinte Centavos, recomendamos a leitura de: JUDENSNAIDER, E. et al. Vinte centavos: a luta contra o aumento. São Paulo: Veneta, 2013. É fundamental estar atento para o fato de que as construções identitárias conformam, também, práticas sociais. A ideia de imobilismo é perniciosa. Contribuir para fortalecer um imaginário em que prevaleça certo conformismo pode contribuir para nos desenvolver como sociedade democrática e com ampla participação de seus cidadãos? Parece que não. Paulo Miceli (1988 apudMORAIS, 2009, p. 202) alertou para as consequências da construção de noções de impotência: “Alheios aos seus destinos, excluídos das ações decisórias, não há porque interessar‑se por sua história, pois o outro foi, e será sempre, responsável por ela.” Morais (2009) utiliza esse argumento justamente quando procura dar importância para a necessidade de uma história que seja efetivamente integrada e também quando salienta que é preciso que os professores aprendam a superar as lacunas de suas formações para poderem trabalhar efetivamente com esse tipo de proposta. 3 INTERCONECTIVIDADE E EXEMPLOS DE USOS INTEGRADOS A escolha desse modelo tem a vantagem de conseguir mobilizar mais e mais referências que contribuem com a formação dos alunos; no entanto, não é simplesmente por citar diversas informações históricas, dados, fatos, relações simplistas de causa e efeito que essa proposta é tornada realidade. O processo será complexo e difícil se não existir um esforço constante para superar lacunas. Não se faz História integrada apenas com belos títulos e propostas. A maior preocupação deve ser [...] mostrar que os acontecimentos históricos estão o tempo todo interligados e que a interconectividade precisa e deve ser valorizada na explicação do professor. Um assunto não pode ser explicado sem o outro, e o outro não tem sentido sem a explicação do anterior. Não se trata do velho esquema de “causas e consequências”, nem mesmo de precisar de um item para que outro possa ser cronologicamente apresentado. Isso seria ingênuo e, na verdade, cairia na mesma postura de antes: conteúdos intercalados separados ou apenas articulados no trenzinho linear da “causa e efeito, causa e efeito...” (MORAIS, 2009, p. 202). Acreditamos que apresentar esse modelo para ser trabalhado em sala de aula com os alunos, ou mesmo na produção de algum material didático, ou elaboração de um projeto, nos obrigue a estudar não apenas aquele “ponto” que se pretende ser a aula, ou seu tema. Ir além significa dominar aspectos conceituais e saber transitar pelos mais diversos conteúdos. A interdependência de Brasil, Américas e 49 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA História Geral é apontada pelo autor como algo a ser constantemente lembrado. As separações mais comuns, e fáceis de serem construídas, devem ser deixadas de lado. Apesar de um pouco extensos para citações, vamos reproduzir aqui os exemplos dados por Morais (2009), ressaltando que o autor os lançou, justamente, para instigar os professores e demonstrar como as possibilidades são ricas, múltiplas e como se tem um ganho muito representativo como o modelo integrado. Os conteúdos dos boxes colocados em seu texto serão reproduzidos aqui. Um exemplo: o colono português do século XVI, exilado nos trópicos, vem para o Brasil e descreve as novas terras a partir de suas impressões; com isso, acaba interferindo de modo efetivo na vida das pessoas que o cercam. Ver e entender o universo religioso indígena como se fosse povoado pelos sabás das bruxas europeias implicou situações reais no contato entre o colonizador e o indígena. E agora? Onde termina a Europa e onde começa o Brasil? [...] No assunto Brasil Colônia, a chegada da Companhia de Jesus e o projeto de catequese dos jesuítas podem ser vistos a partir de sua vinculação ao Concílio de Trento (1545‑1563), o qual, por sua vez, foi uma resposta às ideias de Martinho Lutero de 1517 que se relacionavam com a postura da Igreja Católica no século XVI. Após a chegada à América, os padres afirmavam que as novas terras eram um presente de Deus para a Europa. Assim, converter os índios era recompor o rebanho de fiéis católicos perdidos pelas “demoníacas” ideias de Lutero. O indígena era visto como uma folha em branco em que os cristãos tentariam imprimir sua fé. Os batismos em massa se vinculavam às tradições milenaristas e escatológicas dos cristãos. Se o fim do mundo estava próximo, era preciso salvar as almas dos indígenas. O olhar cristão sobre o indígena o transformava no bom selvagem, manso e pacífico, como o homem antes do pecado original, no Paraíso bíblico. Relacionar a história da Europa, a mentalidade religiosa e o imaginário europeu com o Descobrimento do Brasil e com o projeto catequético na América é um bom caminho para mostrar aos alunos a conectividade histórica (MORAIS, 2009, p. 202) Pode parecer uma tarefa muito árdua mobilizar tantas referências; no entanto, durante uma explicação que realmente tenha densidade, algumas delas precisam necessariamente estar presentes. Do contrário, as lacunas seriam tantas que a abordagem ficaria, no mínimo, incompleta. Se em nossa formação abordamos temáticas múltiplas, com conteúdos e referências variadas, qual a razão de sempre se tentar separar as “histórias” em compartimentos? Morais (2009, p. 202) aponta que em sua proposta devemos estar atentos para o fato de que a história das mentalidades se mescla com a econômica, a política com a social, a nacional com a internacional. Acreditamos que em certo momento o receio de se perder nas múltiplas referências possa dominar o professor na elaboração de suas aulas. Talvez essa dificuldade só possa ser superada – ainda que parcialmente – pelo esforço em mobilizar e relacionar esses diversos aspectos, mas também se tendo clareza do “lugar” de onde se fala e aonde se quer chegar. Se você tiver uma perspectiva econômica, ela não precisará ser erradicada em nome de 50 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I uma modernização de forma. O que é fundamental é aprender a integrar com os múltiplos possíveis. Parece que aí reside a dificuldade, e o desafio. A vinda da família real para o Brasil, em 1808, é outro bom exemplo. As relações diplomáticas que envolviam Portugal, Espanha, França e Inglaterra podem sugerir interconectividade, na medida em que é difícil separar os interesses de cada um dos países. A relação de Carlota Joaquina com seus parentes na Espanha, o aprisionamento de seus pais e sua vontade de ser regente na América espanhola podem ser relacionados com o processo de independência das colônias espanholas no Novo Mundo. Após a chegada da corte, medidas como a Abertura dos Portos de 1808 e os Tratados de Comércio de 1810 possibilitam um enorme leque de novos estudos para os alunos. A entrada de produtos europeus no Brasil, o garfo, a faca, a “europeização” dos costumes no Rio de Janeiro, as novas roupas e as novas etiquetas fazem parte de um cenário ainda pouco explorado em sala. As reformas de D. João VI nas casas do Rio de Janeiro, por exemplo, demonstram uma tentativa de fazer a Europa “migrar” para o Brasil. Alguns artistas e pintores foram contratados da França pelo rei português, aproveitando que tinham sido expulsos por Napoleão Bonaparte. Esses artistas trouxeram para o Brasil os estilos de arte, pintura e arquitetura franceses, como por exemplo o modelo arquitetônico do Palácio de Versalhes, em forma de cruz, que, muitos anos depois, serviria de inspiração até mesmo para a construção de Brasília. O professor pode trabalhar com a ideia de “representação” europeia do Brasil nas obras de Debret, por exemplo, ou nos relatos de Maria Graham. Outro ponto que deixa clara a inter‑relação na história é o surgimento da imprensa no Rio de Janeiro, que havia deslanchado na Europa de Gutenberg, mas que nascera no Oriente e que agora migrava para esse lado do Atlântico (MORAIS, 2009, p. 202). As sugestões são ainda mais ricas e passam a instigar o professor a mobilizar outras estratégias, como no exemplo a seguir, que poderia ocasionar, inclusive, o desenvolvimento de um projeto integrado com outras disciplinas, e mais, que levasse o aluno a compreendernão apenas conteúdos, mas também diversas estratégias de leituras, desenvolvendo a crítica de textos e se entendendo melhor algumas elaborações que envolvem nossa trajetória histórica. Se tivermos em consideração que não é possível aprofundar os debates sobre o Brasil e suas relações sociais no século XIX se não for levada em consideração a visão científica, ou até mesmo pseudocientífica, que alimentou determinadas convicções, não poderemos criticar e questionar elementos de nossa sociedade estabelecidos ali. Uma análise de teorias do século XIX europeu, como o darwinismo social e o evolucionismo, pode ser extremamente rica para o aprendizado dos alunos. A ideia de que o homem branco constitui uma raça biologicamente superior e que os negros, por outro lado, são inferiores serviu de base teórica para a invasão europeia na África e na Ásia durante o neocolonialismo. O professor pode explorar as ideias de Charles Darwin sobre a biologia em sua obra A Origem 51 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA das Espécies, de 1859, e mostrar como a ideia evolucionista foi interpretada e aplicada à sociedade por pessoas como Spencer e Gobineau, colaborando, por sua vez, para os rumos do desenvolvimento econômico. Essas ideias europeias se relacionaram também com o Brasil e podem ser comparadas e/ou explicadas com o projeto do Estado monárquico brasileiro de trazer imigrantes europeus para as fazendas de café em substituição da mão de obra escrava. A escolha do imigrante europeu, e não do asiático, por exemplo, se vinculou a um projeto de “embranquecimento” da nação brasileira, que deveria fazer parte, agora, do rol das nações civilizadas do mundo (MORAIS, 2009, p. 203). A partir da construção de razões complexas – pertencentes ao mesmo tempo à realidade do Brasil e também do exterior –, as histórias efetivamente se enredam, e sua separação, ou “fatiamento”, empobrece a análise, a visão geral e a problematização. Entender essas articulações tão viscerais permite aos alunos, e quiçá aos professores também, superar uma visão simplista de causa e consequência e também de mera subordinação do Brasil aos movimentos externos. A visão mais enriquecida de influências mútuas talvez possa contribuir para que o olhar vá adiante de lugares comuns. A sofisticação pode chegar ao uso de textos literários e que são históricos – por que não? – e assim as possibilidades de ampliação de repertório são impressionantes. Alguns textos de Machado de Assis, como as crônicas da série “Balas de estalo”, publicada pela Gazeta de Notícias no Rio de Janeiro desde 1883, oferecem material de apoio para o estudo da “questão racial”. Até em textos consagrados, como O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco (1884), podemos encontrar traços de teorias racistas. Obras de Monteiro Lobato (que foi membro de sociedades eugenistas de São Paulo) comparadas com as de outros autores, como do norte‑americano Edgar Rice Burroughs, autor de Tarzan, de 1912, podem ser material interessante para o estudo de questões de “higiene social” e eugenia. Para o mesmo assunto, o professor ainda pode propor a leitura de As Aventuras de Sherlock Holmes, de Conan Doyle, ou O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, ou ainda a narrativa de Euclides da Cunha sobre os sertanejos de Canudos. A análise de textos de Rudyard Kipling, autor do poema “O fardo do homem branco” e do romance Mogli, de 1864, também pode servir aos mesmos propósitos. Em sala de aula, pequenos trechos dessas obras literárias selecionados de antemão podem ser lidos mais atentamente no sentido de identificar sua relação com o conteúdo das teorias defendidas por racistas, eugenistas ou evolucionistas sociais. Nesse trabalho, o aluno, auxiliado pelo professor, desenvolverá uma espécie de desconstrução dos textos (MORAIS, 2009, p. 203). Podem ser agregados a essa discussão exemplos literários e fílmicos. Diversas obras tratam desses aspectos que os textos apontam e dos quais dão os primeiros sinais. O desenvolvimento e a construção estão a cargo do professor, que, dessa maneira, precisa desenvolver um repertório cada vez mais rico. Deve entrar em contato com muitas fontes, dominá‑las e ser capaz de saber quando seu uso se torna mais ou menos relevante. 52 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Considerando nossa proposta de buscar discutir temas importantes na atualidade, fazendo um movimento defendido por Pierre Vilar, em obra de D’Alessio (1998), de olhar para o presente e daí elaborar as questões para se entender o passado e não se afastando do que Marc Bloch, em sua obra Apologia da História, ou O Ofício de Historiador (2014) ressaltava sobre o gosto pela história ser, também, um elemento de diversão, devemos olhar para o nosso mundo contemporâneo, em seus mais diversos aspectos e conflitos, e nele tentar nos entender. Olhar para o passado somente fará sentido se for via presente. Podemos elaborar muitas questões quando olhamos para o nosso entorno e mesmo para o nosso cotidiano. Se na atualidade o viver em cidades marca nossa sociedade – desde os grandes centros até mesmo quando levamos em consideração pequenas cidades –, isso pode entrar nas aulas de história? Sim, claro, e desenvolvendo aspectos dos conflitos cotidianos, que são tão presentes nas vidas de muitos alunos que quase são naturalizados. Entra aí a função desmistificadora do professor de história, quando se parte de um elemento de nosso mundo e se tece uma explicação que articule presente e passado. Morais (2009, p. 203) nos traz mais um apontamento e então discute aspectos importantes para diferentes parcelas da sociedade e da República: A[s] ideia[s] de “progresso” e “evolução”, oriundas da Europa, chegaram ao Brasil também na construção de ferrovias e nas reformas urbanas do Rio de Janeiro, durante o governo do prefeito Pereira Passos, e do bairro Higienópolis, em São Paulo. O professor pode tratar do “favelamento” no Rio de Janeiro, quando as populações dos cortiços foram obrigadas a deixar o centro e a se fixar nos morros, e a construção dos boullevards, como um projeto de “esconder” o problema social na capital e limpar a “sujeira” aos olhos dos visitantes da cidade. Em seguida, se achar interessante, pode abrir uma discussão mais geral sobre favelas e problemas habitacionais. Para salientar que essa forma de trabalhar não é própria de um tema em específico, o mesmo autor alerta para a necessidade de se [...] pensar a complexidade dos processos históricos, as suas conexões e a quase impossível separação entre as “histórias”, na medida em que um acontecimento aparentemente isolado na Europa, por exemplo, ou no Brasil, pode criar uma cadeia de situações, como uma verdadeira avalanche, com resultados inicialmente imprevisíveis (MORAIS, 2009, p. 203). A importância dessa imagem deve ser bem frisada, uma vez que um movimento aparentemente pequeno, sem grande importância, pode, na realidade, simbolizar algo intenso que não teria sido percebido inicialmente. Em seus ricos exemplos, Morais (2009) consegue trabalhar em uma dimensão que parece articular tempos históricos e temáticas que não são tradicionalmente desenvolvidas de forma conjunta. No entanto, se a intenção é aprender como se trabalha de forma integrada e como se consegue incutir isso nos alunos, mais uma vez seus textos são válidos, esclarecedores e sugestivos. 53 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Martinho Lutero, ao criticar a Igreja, certamente não sabia que isso poderia influenciar a vinda de jesuítas para o Brasil e que isso, por sua vez, seria o início da tentativade conversão na América Portuguesa e que hoje o Brasil teria a maioria da população católica. Do mesmo modo, Napoleão Bonaparte, com suas medidas contra os aliados da Inglaterra, jamais poderia prever a chegada de diversas regras de etiqueta ao Brasil em 1808 ou as reformas das casas do Rio de Janeiro a pedido de D. João VI, e muito menos a influência da arquitetura francesa no Brasil do século XX (MORAIS, 2009, p. 203). Em sua conclusão, Morais (2009) retoma a necessidade de se desenvolver uma história com assuntos conectados e, o que nos parece bastante importante, indissociáveis. Esse seria o caminho de uma “História mais completa, mais complexa e menos fragmentada” (MORAIS, 2009, p. 213). Essa noção, que é uma escolha dentre outras, pode nos ajudar a desenvolver a construção de visões mais amplas e mais densas, com múltiplos significados que, além de caminhar juntos, influenciam‑se mutuamente. Não seria essa uma maneira de se escapar daquilo que se percebe como um simples “conteudismo” nas aulas de História? O domínio das informações não é abandonado em favor de uma visão fragmentada e plena de detalhes que, se aparentemente desperta a atenção do alunos e alunas com “curiosidades”, no final acaba por comprometer noções de processos e mesmo a capacidade dos mesmos alunos de pensar historicamente. Ao se tratar de História do Brasil, nos mais diversos manuais, uns mais antigos e outros nem tanto, a visão eurocêntrica de história é predominante. Quando problematizamos isso não quer dizer que nos recusamos a discutir o “evento”, apenas queremos acreditar que sempre houve muito mais e, mudando a abordagem, talvez possamos mudar como os alunos entendem a disciplina de História. 3.1 O Novo Mundo Caro aluno, admitimos que as possibilidades de aplicação desses princípios são consideráveis e devemos apontar que nossa intenção aqui não é desenvolver exemplos completos e prontos. Não visamos esgotar assuntos em todas as suas abordagens possíveis. Longe disso. A cada tema que escolhemos, lançamos algumas possibilidades de análises que, umas vezes, são mais extensas, mas outras, nem tanto. Queremos muito mais demonstrar que sair de visões simplesmente lineares pode nos conduzir por abordagens criativas e sempre mais sugestivas do que o uso de um amontoado de informações que, se não tomarmos cuidado, serão apenas isso: uma série de dados que realmente não fazem sentido para os alunos, talvez nem para nós mesmos em nossa atividade docente. O risco das visões mecanicistas é “matar” o pensamento criativo. Podemos, sim, apropriar‑nos de diversas informações, aspectos mais trabalhados em grandes manuais, ou nem tanto, mas devemos nos preocupar também com o sentido em que organizamos esses pensamentos. Por exemplo, quanto já se escreveu e se falou do descobrimento da América? A vasta bibliografia está disponível para quem quiser fazer uma pesquisa rápida, mas para quem tiver mais tempo, e interesse também, dificilmente o tema se esgotaria. 54 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Saiba mais Como obra de referência e de grande fôlego, sugerimos a leitura de capítulos da seguinte obra: BETHEL, L. (Org.). História geral da América Latina. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2012. 7 v. Em seus sete volumes, trata de temas muito variados e relevantes para a compreensão de um tema tão importante quando discutir a América. No volume I, por exemplo, aborda temas como Mesoamérica antes de 1519; sociedades andinas antes de 1532; índios do Brasil em 1500; populações americanas antes da invasão europeia; conquista europeia e colonização da América; colonização portuguesa e espanhola; a Espanha dos Bourbons e o Império Americano; Portugal e Brasil: economia e política séculos XVIII e XIX; Igreja na América Espanhola e Portuguesa – tudo isso apenas no primeiro volume. Assim, essa obra é uma fonte atual e indispensável para a organização de um curso voltado para essa temática colonial, desde o século XV até o XXI. Ou ainda, para se aproximar das discussões relevantes no mundo contemporâneo, muito mais do que apenas coletar dados e biografias dos próceres das nações. Seguindo essa linha de pensamento, escolhemos uma temática que é tradicional em sua aparência: a colonização da América. No entanto, pode ser tratada com um olhar mais integrado de história segundo o qual a ação dos europeus não ganha lugar privilegiado apenas por ser europeu e os nativos não são tratados como agentes que oscilam entre o pitoresco e o selvagem, simplesmente porque pouco nos voltamos para estudar o assunto. Com isso não estamos afirmando que vamos deixar tudo de lado e recomeçar cada assunto escolhido a partir do zero. Além de ser uma postura que demandaria um tempo de preparação que, muitas vezes, professores com mais prática e tempo de docência não têm, significaria tentar ser alternativo apenas para não se aproximar do que já foi feito. O mais adequado, parece‑nos, é a preocupação com o tratamento dado aos aspectos escolhidos, uma vez que parece claro que os contatos, os descobrimentos, as conquistas e a dominação devem fazer parte de qualquer debate minimamente responsável, mas se falamos que ocorreu [...] troca de alimentos e transmissão de doenças entre os velhos e o novo continente. Os produtos alimentícios originários do Novo Mundo entrelaçaram‑se com os do Velho Mundo, redinamizando as dietas alimentares que diminuíram as fomes e dinamizaram as populações. A batalha das moléstias foi vencida pelo Velho Mundo, responsáveis pela dizimação de milhões de indígenas americanos. Mesmo a revanche do Novo 55 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Mundo, representada pela sífilis, é atualmente questionada, pois se discute se não teria origem na própria Europa, como parecem indicar as pesquisas mais recentes (ARRUDA, 2004, p. 40). Destacamos esse trecho com a finalidade de lembrar o sentido de trocas, ou seja, o nativo do Novo Mundo, ao entrar em contato com o do Velho Mundo, exerce alguma influência sobre ele. Note‑se que essa “alguma” não é um juízo, muito menos uma escala. É, antes, uma maneira de observar que o europeu também se modifica e que não é possível entender a Europa sem se estudar as populações dos novos territórios. Dessa forma, qual a necessidade de simplesmente se reproduzir mais uma vez o olhar europeu, depois o espanto indígena, o domínio europeu e a escravidão, sempre se subordinando a um roteiro europeu? Em países onde o estudo da Antropologia elabora contribuições imensas para os historiadores e professores de História, como o México, a história pode começar a ser contada pela vida dos nativos antes de os europeus aportarem. Em muitos casos, em muito livros didáticos e paradidáticos, quando se trata de nativos, infelizmente, existe uma ênfase no exótico, no curioso ou então na posterior integração à sociedade brasileira, passando, é claro, pela construção imperial acerca do tema. No entanto, a pergunta relativa ao modo de vida e organização de diversos grupos permanece: Quem são? Onde estavam? Como viviam? Objetivando manter a honestidade e o rigor, devemos esclarecer que o melhor caminho, o mais adequado e aprofundado, é lançar mão dos estudos históricos e antropológicos sobre o tema. Uma vez que são muitos e muitos casos, quando se vai trabalhar isso com os alunos, recomenda‑se verticalizar a pesquisa e desenvolver um maior aprofundamento. Apesar das ressalvas, que são úteis para o desenvolvimento de um olhar mais crítico e complexo, grandes manuais podem ajudar, desde que nós tenhamos as perguntas certas e o planejamento adequado do que consultar e de como tratar de determinadas informações. Por exemplo, quando buscamos, em Motae Lopez (2015, p. 24‑25), aprender sobre essas populações, encontramos: Os primeiros habitantes do litoral alimentavam‑se de peixes, moluscos, tartarugas e crustáceos. Moravam próximos a grandes “lixões” de cascas, concheiros imensos também conhecidos pelo nome de “sambaqui”, que em tupi significa justamente “monte de conchas”. A fase de maior acúmulo nos concheiros – alguns deles chegando a mais de 50 metros de altura – ocorreu entre 5 e 2 mil anos atrás. Sua maior concentração deu‑se no litoral, entre os atuais estados do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Os sambaquis apresentam várias camadas arqueológicas, o que leva a crer que tenham sido ocupados várias vezes por grupos diversos. Seus habitantes fabricavam objetos de osso, chifre e concha, tais como pontas de lanças e de flechas, anzóis, lixas, agulhas, adornos, recipientes e bastões de osso de baleia. Trabalhavam a pedra, conheciam a cerâmica e enterravam seus mortos em covas acompanhados de corantes, alimentos, instrumentos de trabalho e adornos. Os portugueses, futuros colonizadores do litoral, utilizariam a cal – de que os concheiros se tornaram fontes abundantes – para construir suas vilas em São Vicente, Santos, Itanhaém, Iguape, Cananeia e também em Salvador. 56 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Vale salientar que as maiores concentrações de sambaquis estavam localizadas na região; conforme Neves e Okumura (2005, p. 528) afirmam, “embora no vale do Ribeira exista a maior concentração de sambaquis fluviais brasileiros, esses sítios também ocorrem em outras regiões do País”. O contato com o colonizador levou à destruição de incontáveis concheiros, e isso nos faz observar que, sem essa prática dos nativos, que construíram depósitos bastante significativos de um material que seria largamente utilizado pelos colonizadores depois, o sistema construtivo em diversas regiões da colônia teria sido diferente. Assim, a história da ocupação e modificação do meio é indissociável da vida indígena. Não se trata de mera esperteza europeia, como pode parecer, mas de uma integração tão profunda que ocorreu em diversas outras áreas da experiência humana. Figura 9 – Concheiro O fato de que o europeu se apropria (e até aprende) acreditamos que seja hoje razoavelmente aceito, no entanto muitas explicações são ainda organizadas segundo a lógica da subordinação à visão eurocêntrica. O que ocorreu, de fato, não foi uma contribuição no sentido benevolente do termo, mas uma apropriação sem a qual o sistema construtivo desenvolvido não seria possível. Quando falamos em sistema defensivo nos lembramos imediatamente de guerra, mas cabe aqui perguntar: guerra contra quem? Como muito bem ressalta o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, entrevistado na série de vídeos da TV Brasil, Histórias do Brasil, no primeiro episódio, os primeiros contatos entre os indígenas e os portugueses não foram belicosos, ao contrário disso, foram bastante amistosos (ANTES..., [s.d.]). O universo cultural de diversos grupos de nativos era tão diferente daquele dos europeus que nem ao menos os reconheceram como inimigos, por não serem, necessariamente, seus inimigos. Devemos ressaltar que havia uma grande diversidade entre esses indígenas e que, ainda no início do século XXI, existem diversas linhas interpretativas quanto às origens dessas populações, se oriundas da Polinésia, se migraram via Estreito de Bering. Embora existam indícios de que este setor do continente tenha sido povoado há pelo menos 20 mil anos, a ocupação de boa parte dessa área ocorreu cerca de 5 mil anos atrás, quando o crescimento demográfico da população que habitava a várzea do rio Amazonas foi significativo. A expansão geográfica fez surgir grupos de habitantes cada vez mais individualizados, pertencentes a dois grandes “troncos” linguísticos, 57 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA o Macro‑Jê e o Macro‑Tupi. Estes dois grupos constituem as principais matrizes linguísticas e genéticas que, em última instância, contribuíram para formar o Brasil atual. Vários indícios demonstram que, entre os atuais estados da Bahia e do Rio de Janeiro, o litoral era povoado por comunidades de caçadores‑coletores originários das nascentes do rio São Francisco e do Araguaia, pertencentes ao tronco Macro‑Jê. A partir dessa região, teriam iniciado seu movimento de dispersão rumo ao litoral e, depois, ao Planalto Brasileiro, o vasto “sertão” ao qual seriam confinados pelos ferozes tupis, quase senhores do litoral na época da chegada dos europeus. Num processo que se desenrolou ao longo de aproximadamente 4 mil anos, os Macro‑Jês subdividiram‑se em diversas famílias linguísticas (MOTA; LOPEZ, 2015, p. 25). Vale salientar que os grupos presentes no atual Brasil tinham grande complexidade e nos dias atuais muitos pesquisadores se dedicam a entender seus múltiplos códigos de desenvolvimento de suas trajetórias, que se confrontaram com a dos portugueses. Se é verdade que a notícia do achamento das terras ocidentais para os portugueses atraiu muitos e muitos aventureiros, devemos imaginar que, junto às oportunidades, sonhos e desejo de melhorar de vida, estavam também a cobiça e os confrontos. Diversos mundos se encontraram e se bateram nesse momento. De acordo com as relevantes observações de Eduardo Viveiros de Castro (ANTES..., [s.d.]), os portugueses encontraram uma terra densamente povoada, ao contrário do que se imagina, e, em sua fala, Castro enfatiza que os europeus foram extremamente bem‑recebidos ao chegarem ao que viria a ser o Brasil. Os europeus foram muito bem‑tratados, como se pode ver desde a Carta de Caminha. Foi à medida que foram revelando sua verdadeira face de uma civilização movida pela cobiça, pela violência e pelo desprezo pelo outro que eles começaram a ser tratados como os outros. Assim, começaram a entrar na categoria de inimigos e começaram a ser capturados e, eventualmente, devorados cerimonialmente, mas nunca foram os inimigos prediletos dos índios. Os inimigos prediletos dos índios eram outros índios. Os europeus estavam ou muito abaixo, ou muito fora do sistema da humanidade verdadeira para os índios. As valiosas observações dos antropólogos e, ressaltado aqui, de Eduardo Viveiros de Castro nos permitem entender que não devemos tratar de estabelecer uma hierarquia unidirecional na qual apenas o modo de entender o mundo dos europeus é que é válido. Ao contrário, esse universo indígena vai, juntamente com outros fatores que podem ser pensados como oriundos da natureza econômica, do universo místico europeu ou mesmo das ritualizações das sociedades do Antigo Regime, informar a atuação dos europeus no Novo Mundo e também em relação aos indígenas. Assim, ocorreram trocas em diversos campos. É comum se ressaltar a questão da alimentação e de palavras que permaneceram, mas podemos também nos questionar como os portugueses, e outros europeus, reagiram ao contato com esses nativos. Podemos afirmar com tranquilidade que se iniciou rapidamente a produção de uma literatura que foi revelando como esses encontros e confrontos foram se dando. 58 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Saiba mais Podemos indicar, como exemplos: VALENTE, J. A. A certidão de nascimento do Brasil: a carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo: Museu Paulista da USP, 1975. CASTRO, S. A carta de Pero Vaz de Caminha: o descobrimento do Brasil. Porto Alegre: L&PM, 2015. LÉRY, J. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte: Edusp, 1980. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. GRUPIONI,L. D. B. (Org.). Índios no Brasil. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, 1994. Nessa última obra indicada, são discutidos problemas como os índios e suas relações com a natureza; índios do presente e do futuro; o indígena e a modernidade; e as terras indígenas no Brasil. Além disso, indicamos também o filme: HANS STADEN. Dir. Luis Alberto Pereira. Brasil; Portugal: Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual, 1998. 92 min. Continuando com esse pensamento, Eduardo Viveiros afirma que a guerra para os tupi‑guarani e os europeus era diferente, uma vez que não era para a conquista territorial, mas algo mais próximo da ideia de duelo e de vingança com a busca de glória e de honra. Ressaltamos aqui o surgimento de estranhamentos, uma vez que os universos culturais foram se mostrando mais do que apenas diferentes, divergentes. 4 MEC E MATERIAL DIDÁTICO NA REDE: SOBRE A ETNICIDADE E AS COLÔNIAS O esforço de incorporar as mais diversas temáticas relativas ao indígena, sua história e a história do Brasil têm produzido uma quantidade bastante razoável de publicações que podem auxiliar o estudante e o professor a formar ideias que encontrem respaldo em boa produção acadêmica. A Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN), publicação com a chancela de uma das mais significativas e respeitadas instituições culturais do País, já tratou do assunto e ofereceu pistas importantes para se buscar essas informações. A leitura da RHBN tem a qualidade de não se prender ao episódico, ao factual, ao exótico, ao extraordinário ou mesmo – como algumas publicações insistem em trabalhar – 59 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA a “verdades” que apenas a alguns eleitos é dado saber e que o grande público ignora. Ou ainda, como se pesquisadores sérios e dedicados, com carreiras consolidadas e intensa aplicação aos estudos, não fossem capazes de debater, o que é uma perniciosa maneira de se desenvolver noções sobre o que pode ser o estudo da História. Podemos indicar aqui uma iniciativa ligada ao Ministério da Educação (MEC) e a outras instituições que têm como iniciativa a difusão de materiais de qualidade: Para professores que quiserem aplicar imediatamente o novo enfoque, o MEC recomenda uma visita ao site Domínio Público, que disponibiliza gratuitamente documentos, artigos, teses, livros, poesias e os quatro volumes da série Vias dos Saberes, resultado de parceria entre a Secad/MEC com o Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento do Museu Nacional da UFRJ (Laced). Organizada no projeto Trilhas de Conhecimentos pelo antropólogo Antônio Carlos Souza Lima, a série Vias dos Saberes contém os seguintes livros: O Índio brasileiro: O que Você Precisa Saber Sobre os Povos Indígenas no Brasil de Hoje, de Gersen José dos Santos Luciano, que discute a identidade e a organização indígenas, o meio ambiente, a situação política dos índios e a contribuição dos povos ao País e ao mundo; A Presença Indígena na Formação do Brasil, de João Pacheco de Oliveira, que aborda o sistema colonial, a ação missionária e a resistência indígena; Povos Indígenas e a Lei dos “Brancos”: o Direito à Diferença, de Ana Valéria Araújo, sobre a evolução dos direitos indígenas no Brasil desde a colonização até hoje, passando pela criação da Fundação Nacional do Índio (Funai); e Manual de Linguística: Subsídios para a Formação de Professores Indígenas na Área de Linguagem, do linguista Marcus Maia, para a formação de professores indígenas na área da linguagem. A antropóloga e linguista Bruna Franchetto, do Museu Nacional da UFRJ, aplaude a nova Lei e afirma que a coleção e muitas outras obras deveriam ser adotadas em todas as escolas. Entre os títulos que já existem, ela destaca Araweté, de Eduardo Viveiros de Castro, Os Índios Antes do Brasil, de Carlos Fausto, e os livros de Madu Gaspar da coleção Descobrindo o Brasil, da editora Zahar. Para Bruna, faltam livros que realcem a diversidade linguística nativa, pois existem mais de 150 línguas indígenas. “Hoje, há artigos que podem formar uma apostila. Mas estamos fazendo dois livros sobre a diversidade linguística pela editora Vieira & Lent”, adianta. Ela recomenda ainda o conteúdo de sites como o do Instituto Socioambiental e o do Museu do Índio. “São sérios e fundamentais”, garante. Outra dica da linguista são os vídeos produzidos pelo projeto Vídeo nas Aldeias, em especial a série que foi promovida pelo MEC, Índios no Brasil, com dez programas, que estão sendo reprisados agora pela TV Brasil (LEMLE; BARBOSA, 2008). 60 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Lemle e Barbosa (2008) acabam por dar vários links e outras indicações bastante relevantes. Saiba mais Com a finalidade de apontar subsídios aos futuros professores, que terão de lidar com essa temática tão rica em sala de aula, recomendamos também realizar pesquisas nos títulos de nossa biblioteca virtual, bem como no site: <http://www.dominiopublico.gov.br>. Como sugestão de pesquisa, apresentamos: FREIRE, C. A. R. A presença indígena na formação do Brasil. Brasília: Ministério da Educação, 2006. Disponível em: <http://www.dominiopublico. gov.br/download/texto/me004372.pdf>. Acesso em: 3 maio 2016. Para se ter a dimensão da riqueza de temáticas, mencionamos um trecho da obra sugerida (FREIRE, 2006, p. 21): O etnólogo Curt Nimuendaju assinalou no seu mapa etno‑histórico a existência de cerca de 1.400 povos indígenas no território que correspondia ao Brasil do descobrimento [...]. Eram povos de grandes famílias linguísticas – tupi‑guarani, jê, karib, aruák, xirianá, tucano etc. – com diversidade geográfica e de organização social. A respeito dos povos Tupi haveria várias hipóteses de sua dispersão sobre o território brasileiro. Arqueólogos como Francisco Noelli defendem o modelo desenvolvido por Donald Lathrap e José Brochado, no qual as rotas de expansão estiveram vinculadas a um centro de origem localizado na “região junto à confluência do Madeira com o Amazonas” (NOELLI, 1996, p. 31). Segundo este modelo, a expansão dos Tupinambá se deu do Baixo Amazonas ao litoral nordestino, chegando até São Paulo, enquanto os Guarani seguiriam para o sul até a foz do rio da Prata. Os povos Tupi eram encontrados em toda a costa e no vale amazônico, onde dividiam o território com grupos da família aruák (nos rios Negro e Madeira) e karib (nas Guianas e no Baixo Amazonas). Toda essa diversidade poderia caber sob uma única denominação de indígenas? Quando retomamos a proposta de apresentar como esses mundos se integram, parece‑nos fundamental lançar o problema da formação dos imaginários, e esse campo nos parece privilegiado para apresentar a integração, uma vez que, mesmo refutando elementos significativos do universo indígena, o europeu passa a viver com eles. 61 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA O contato com vários povos indígenas criou para os europeus a necessidade de compreender e enquadrar essas populações no seu universo mítico e conceitual. Durante o séc. XVI, os relatos sobre o novo mundo identificaram os indígenas como “gentios” (pagãos), “brasis”, “negros da terra” (índios escravizados) e “índios” (índios aldeados) (CUNHA, 1993). A primeira descrição da terra e de seus habitantes, realizada pelo escrivão Pero Vaz de Caminha em 1500, enfocou os índios de forma positiva, “comparando‑os, velada ou abertamente, aos habitantes do Jardim do Éden” (BETTENCOURT, 1992, p. 41). Em alguns trechos da famosa carta remetida ao Rei D. Manuel reportando o achamento do Brasil,Caminha assim sintetizou suas impressões sobre os índios: “Parece‑me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos [...] se os degredados, que aqui hão de ficar, aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual preza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir‑se‑á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa” (CAMINHA, 1999, p. 54). Outros navegadores, como Américo Vespúcio, também descreveram em cartas o contato inicial com os povos indígenas. Além disso, a grande curiosidade que existia nas cortes europeias sobre as novas terras fez com que vários índios fossem levados a Portugal e à França. Essomeric, filho de um chefe indígena carijó, ficou na França, tornando‑se herdeiro do nobre francês Paulmier De Gonneville (PERRONE‑MOISÉS, 1992a). Índios Tupinambá participaram de uma “festa brasileira” para os reis de França em Rouen (1550) (CUNHA, 1993). Coube a missionários religiosos, viajantes e nobres portugueses, franceses e holandeses, que circularam pelo Brasil ou aqui se instalaram, atuarem como cronistas da vida no novo mundo. Os seus relatos foram ilustrados por diversos artistas que divulgaram imagens marcantes para o imaginário europeu. Pero de Magalhães Gandavo, Jean de Léry [...], Hans Staden e André Thevet foram alguns dos autores que associaram texto e imagens em seus relatos. Ao falar “da condição e costumes dos índios da terra”, descrevendo as aldeias e o comportamento dos índios nas guerras e no cotidiano, Gandavo (1980) interpretou o modo de vida indígena de uma forma que se tornou recorrente entre os cronistas, a exemplo de Gabriel Soares de Souza: a falta das letras F, L, e R na língua indígena implicaria uma sociedade sem fé, sem lei e sem rei (FREIRE, 2006, p. 27). 62 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Figura 10 – Reprodução da Carta de Caminha Como tudo, em muitos relatos a ênfase é no estranho, naquilo que desperta inclusive medo. O caso mais emblemático é o da antropofagia, que, sendo um ritual absolutamente fundamental em algumas culturas, noutras era apenas indício de barbárie: [...] os canibais da terra firme e das ilhas cujas terras vão do Cabo de Santo Agostinho às proximidades do Marinhão, são os mais cruéis e desumanos de todos os povos americanos, não passando de uma canalha habituada a comer carne humana do mesmo jeito que comemos carne de carneiro, se não até mesmo com maior satisfação. [...] Não há fera dos desertos d’África ou d’Arábia que aprecie tão ardentemente o sangue humano quanto estes brutíssimos selvagens. Por isso não há nação que consiga aproximar‑se deles, seja cristã ou outra qualquer. [...] Os mais dignos dentre eles não são merecedores de nenhuma confiança. Eis por que os espanhóis e portugueses lhes fazem eventuais represálias, em memória das quais só Deus sabe como devem ser tratados pelos selvagens quando estes os prendem para devorá‑los (THEVET, 1978 apud CUNHA, 1993, p. 27). Considerando que em determinados momentos da história do Brasil setores governamentais se esforçaram em construir determinadas visões de Brasil relativas, por exemplo, ao descobrimento do Brasil e à Independência – com celebrações oficiais e principalmente com a produção fílmica –, tal fato influenciaria a construção de um imaginário nacional. No que diz respeito ao Descobrimento, em 1936 foi produzido o filme O Descobrimento do Brasil. Deve‑se lembrar o contexto histórico varguista rumo à construção de um Estado autoritário que se transformaria 63 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA numa ditadura. Ressalte‑se que essa não é a única obra relevante na construção ou desconstrução desse imaginário, podendo‑se passar pelo quadro de Pedro Américo, A Primeira Missa no Brasil, ou ainda filmes mais recentes, como Caramuru, ou pelos capítulos iniciais da série Histórias do Brasil. Figura 11 – A Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles (1860) Saiba mais Recomendamos assistir integralmente à obra: O DESCOBRIMENTO do Brasil. Dir. Humberto Mauro. Brasil: Brazilia Filme, 1936. 83 min. Para complementar, faça a leitura do artigo: MORETTIN, E. V. Uma análise do filme Descobrimento do Brasil. Revista de História, São Paulo, n. 141, p. 175‑178, 1999. Disponível em: <http://www. revistas.usp.br/revhistoria/article/view/18891/20954>. Acesso em: 3 maio 2016. As construções do imaginário podem servir a objetivos mais ou menos claros, indo desde os discursos oficiais até a discussão acadêmica, que procura entender os sentidos possíveis de determinadas obras. Para entrar em contato com esse material e poder utilizar posteriormente em sala de aula, faremos a sugestão de um exercício. Exemplo de aplicação Sugerimos analisar cenas do filme O Descobrimento do Brasil e também observar o quadro pintado por Pedro Américo, em 1880, intitulado Independência ou Morte (Grito do Ipiranga), buscando também discutir as celebrações oficiais promovidas em 2000 em torno da comemoração de 500 anos da chegada dos portugueses ao atual território do Brasil. 64 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Assim, sugerimos para esse exercício também a leitura de: HERSCHMANN, M.; PEREIRA, C. A. M. E la Nave Va... as celebrações dos 500 anos no Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 14, n. 26, 2000, p. 203‑215. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ ojs/index.php/reh/article/view/2121/1260>. Acesso em: 3 maio 2016. Cunha (1993, p. 29) nos apresenta dois apontamentos importantes na compreensão desses mundos que se fundiam: Ao final, entrechocavam‑se duas concepções sobre a humanidade dos gentios: a) Eram seres humanos que estavam degradados, vivendo como selvagens e canibais, mas possuíam todo o potencial para se tornarem cristãos. Na Idade Média, Santo Agostinho defendeu a conversão dos selvagens. Os inúmeros atributos dados pelos cristãos aos índios – gentios, bárbaros etc. – supunham essa possibilidade. O missionário francês Yves d’Evreux e o português Manoel da Nóbrega defendiam tal posição sintetizando uma visão religiosa sobre os índios. No Diálogo sobre a conversão do gentio, Nóbrega expressou a disposição da “conquista espiritual” dos jesuítas, levando as “palavras reveladas” aos índios, que reagiam muitas vezes com indiferença à pregação jesuítica. Cronistas coloniais, como Gabriel Soares de Souza, Pero de Magalhães Gandavo e Évreux, constataram esse fato. Nóbrega percebia a necessidade de iniciativas missionárias contra essa realidade. Isto foi enfatizado logo no início do diálogo, na discussão entre dois irmãos jesuítas: Gonçalo Álvares, missionário na Capitania do Espírito Santo, e Mateus Nogueira, ferreiro de Jesus Cristo. Gonçalo Álvares: “Por demais é trabalhar com estes! São tão bestiais, que não lhes entra no coração coisa de Deus! Estão tão encarniçados em matar e comer, que nenhuma outra bem‑aventurança sabem desejar! Pregar a estes é pregar em deserto a pedras. Mateus Nogueira: Se tiveram rei, puderam se converter ou se adoram alguma coisa. Mas como não sabem que coisa é crer nem adorar, não podem entender a pregação do Evangelho, pois ela se funda em fazer crer e adorar a um só Deus e a esse só servir; e como este gentio não adora nada, nem crê em nada, tudo o que lhe dizeis se fica nada” (DOURADO, 1958,p.175‑176). b) Eram seres inferiores, animais que não poderiam se tornar cristãos, mas podiam ser escravizados ou mortos. Esta interpretação decorria da divulgação de estereótipos sobre os povos bárbaros, sendo manipulada por colonos em proveito próprio, para legitimar as “guerras justas” e a escravidão (RAMINELLI, 1996). Na pintura religiosa renascentista o 65 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA índio, uma vez submetido aos valores cristãos, tornou‑se humanizado. O pintor holandês Albert Eckhout representou essa ruptura conceitual na sua obra: nos quadros que retratam índios Tupis e “Tapuios”, os índios “aliados” eram pacíficos, trabalhadores, tinham família, andavam vestidos (foram “domesticados”), estavam acessíveis ao trabalho cotidiano, enquanto os índios “bravos” (bárbaros) eram antropófagos que andavam nus, carregando despojos esquartejados como alimentação e guerreavam os colonizadores. Dessa citação podemos ressaltar que o tratamento como bárbaro foi muito persistente no imaginário e que foi construído por meio de diversas “ferramentas”. Seja por mecanismos epistolares, seja em livros, relatos ou ainda em pinturas, o que temos, muitas vezes, é o que o europeu entendeu como o nativo, não o que ele era propriamente dito. 4.1 O olhar europeu sobre o Novo Mundo: estranhamentos e descobrimentos Figura 12 ‑ Dança Tapuia. Óleo sobre tela, 168 x 294 cm Devemos lembrar que é preciso parar com o uso de quadros ou textos simplesmente para reafirmar uma ideia simplista que, geralmente, termina com a expressão em sala de aula “olha como eram realmente”. Sobre a figura, de acordo com a impecável apresentação realizada pelo conceituado Instituto Ricardo Brennand: Este quadro configura uma obra antológica de Albert Eckhout, pois perenizou a cena de dança enquanto registro etnográfico de um ato cerimonial no Novo Mundo. O cenário, mostrado nesta imagem, revela coqueiros (Cocos nucifera) e à direita, no alto, há também um cajueiro (Anacardium occidentale). Embaixo, aos pés de duas mulheres Tapuia, a zoologia é representada pela figura de um tatu (Tolypeutes tricinctus). 66 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Um detalhe levanta a questão de que, possivelmente, esta obra tenha sido produzida por Albert Eckhout no seu regresso à Europa. De acordo com análises acerca da disposição de sombras nesta pintura, verifica‑se que Dança Tapuia tem uma profusão de sombras nos corpos, ao contrário do efeito chapado dos retratos individuais. Considera‑se que esta tela tenha sido realizada a partir de esboços e de vários estudos. Apesar d[e] as duas mulheres parecerem ter posado, não há registros de estudos dessas figuras. Vejamos as particularidades etnológicas encontradas neste quadro. A dança trata da preparação para o confronto com o inimigo e é realizada por oito índios Tapuia. Os índios dançam para guerrear, enquanto as duas índias não integram o círculo da dança. As duas mulheres parecem cochichar. Contudo, há autores que sugerem que o gestual das indígenas indica a possível utilização de um objeto de sopro, como um apito, ou algo que provoque ritmo para os movimentos dos guerreiros. Presume‑se que as duas indígenas estejam grávidas. Os Tapuia trazem tacapes e lanças; os primeiros são pretos e possuem, no meio, de seis a sete penas de arara vermelha (Ara macao); no tocante às lanças, as pontas lanceoladas (são duas) têm semelhanças com as da pintura do Homem Tapuia; há ainda uma de ponta triangular que remete às flechas presentes em Homem Tupinambá. Por último, da forma assimétrica da quarta lança não há referências. Albert Eckhout trabalhou a composição, descortinando semblantes fortes dos Tapuia, principalmente nos olhares. As formas dos corpos denotam exuberância e força, sem estilizações em torno da temática dos guerreiros. Mais envolvente ainda, nesta pintura, é a concepção de movimento, que o pintor elaborou com extrema habilidade. Há um equilíbrio/harmonia de pernas e braços que formam um encadeamento sugestionável de ação. As lanças no alto e uma das pernas sempre flexionadas são fundamentais para a transmissão da vitalidade representativa desta cena. Os oito Tapuia usam cabelos no estilo cogumelo, também chamado de prato, e uma faixa com três penas longas, nas cores vermelha, azuis e vermelhas azuis (sic). Nas orelhas, alguns trazem uma espécie de chumaço branco (provavelmente algodão). Os ornamentos mais comuns são os colares e braceletes de sementes, bem como os de madeira. Em contraposição à nudez completa dos homens retratados nesta tela, as mulheres estão com os órgãos genitais cobertos. O artifício é um molhe de folhas segurado por um cordão na cintura. Estudos sobre o grupo Tapuia indicam que jovens homens e mulheres dançariam juntos ao cair da tarde, ocorrendo, portanto, a idéia de estágios na dança. Desse modo, a dança, como elemento cultural coletivo, foi registrada por Eckhout como atividade social de grande vigor. (INSTITUTO RICARDO BRENNAND, [s.d.]). Percebe‑se assim que o uso de imagens pode ser rico e com grande qualidade. Seguindo o cuidado característico dos trabalhos de Lilia Schwarcz, sugerimos que podemos ir sempre além e desenvolver discussões com os alunos sobre aspectos relevantes, se 67 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Inspirados na ideia do canibalismo, noção utilizada pelos primeiros viajantes, explorada pelo filósofo Montaigne e devidamente relida no século XX, sobretudo por Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago (1928), brasileiros têm a mania de se reinventar, e traduzir falhas em virtudes e prognósticos. Canibalizar costumes, desafiar convenções, enviesar supostos, é ainda uma característica local, um ritual de insubordinação e de não conformismo que, quiçá, nos distingue ou, ao menos, mantém acesa a boa utopia, que é sempre bom admirar e guardar. Tem sido assim desde a chegada das caravelas de Cabral [...]: para uns, breve paraíso; para outros, inferno sem fim; para outros, ainda, espécie de purgatório na Terra, essa história continua atual, apesar de inscrita e desenhada no passado. Afinal, já nos idos de 1630, Frei Vicente do Salvador, um franciscano que se tornou provavelmente nosso primeiro historiador, escreveu um belo opúsculo ao qual chamou de História do Brazil. O nome do País nem ao menos se escrevia com ‘s’, e o frade já concluía: “Nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular” (SCHWARCZ, 2015, p. 18). Assim, podemos partir de aspectos historicamente determinados por programas curriculares, por planos, agendas, discussões preestabelecidas, trabalhar com o passado e contribuir para formar importantes debates sobre o Brasil e a sociedade em que vivemos e em que os alunos estão inseridos, ou mesmo excluídos ou afastados. O livro de Schwarcz (2015) propõe abordagens modernas e bastante afinadas com a produção acadêmica mais contemporânea, ou o que é digno de nota. Além disso, a erudição da autora contribui para uma dimensão bastante importante para todos aqueles que se propõem a olhar para o Brasil e para nossa realidade social tendo como alguns apoios o conhecimento histórico e historiográfico. Um exemplo da imaginação e do conhecimento mobilizados é a referência a Hannah Arendt: “treinar a imaginação para sair em visita” (SCHWARCZ, 2015, p. 19). Alguns momentos desse “viver em colônias” ganham ares terríveis, assustadores. Seu relato nos serve para estabelecer uma dimensão mais humana do processo e escapar de simplesmente ficar elencando sistemas, processos e quase abstraçõespara os alunos. Na obra de Ramos e Morais (2010, p. 10), os autores dedicam o livro “à memória da jovem mulher índia, lançada viva e grávida na fornalha de Fernão Cabral Taíde, senhor de engenho”. Mais à frente, no capítulo dedicado ao senhor de engenho em questão, os autores ainda incluem uma citação de Belchior da Fonseca (1591 apud RAMOS; MORAIS, 2010, p. 97): “[...] ouvi dizer publicamente que o dito Fernão Cabral mandou colocar na fornalha do engenho uma sua escrava da terra, cristã, e a lançaram viva na fornalha, amarrada [...]”. Quantos elementos estão aí presentes para se começar a falar de sistema colonial? A temática de quem são esses nativos, o que eram as “denunciações” e, então, é preciso também tratar do imaginário europeu, de sua religiosidade, dos sentidos relativos ao cristianismo no século XVI, do combate às heresias e revoltas e assim por diante. De um exemplo, que não é simples em função da dimensão de sua crueldade, podemos mobilizar conhecimentos relativos a muitos aspectos da experiência humana. 68 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Saiba mais Para saber mais sobre o “viver em colônias”, sugerimos a leitura de: FURTADO, J. P. (Coord.). O viver em colônia: cultura e sociedade no Brasil colonial. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros/USP, 1999. Devemos esclarecer, nesse momento, que não estamos buscando esgotar todos os conteúdos relativos a uma possível História Integrada, mas, antes, demonstrar como sempre pode ser mais complexo fazer essa abordagem. Talvez por isso mesmo seja interessante não mobilizar logo de início os temas mais horrendos e monstruosos. A construção é de partir para explorações mais “simples” no início e depois ganhar densidade. Pensando dessa maneira, precisamos de alguma maneira praticar o uso de referências que possam ampliar os olhares. Lançar mão de filmes, quadrinhos ou mesmo músicas pode ser uma estratégia que nos obrigue a “amarrar” muitas referências para conseguir conduzir algumas discussões. Ao estabelecer a preocupação em utilizar os mecanismos da História Integrada e, lembrando de como as diversas referências vão se “conectando” cada vez mais, fazer surgir outro ponto, outro assunto, que vai aumentando as problematizações. Podemos, sim, fazer escolhas criativas. A importância da construção da erudição para o professor, além de ser capaz de mobilizar as falas – trabalhos e aspectos do pensamentos – de diversos autores, é também nos municiar de elementos que podem nos ajudar no momento de organizar repertórios. Um exemplo que aparentemente pode soar como banal, que é o uso de uma música corriqueira em alguns círculos, pode ser um “gatilho” ou “gancho” para ampliar o olhar dos alunos. Vamos tomar como exemplo aqui uma letra que pode servir de introdução: Pindorama, do grupo Palavra Cantada: (Terra à vista!) Pindorama, Pindorama É o Brasil antes de Cabral Pindorama, Pindorama É tão longe de Portugal Fica além, muito além Do encontro do mar com o céu Fica além, muito além Dos domínios de Dom Manuel Vera Cruz, Vera Cruz Quem achou foi Portugal Vera Cruz, Vera Cruz Atrás do Monte Pascoal Bem ali Cabral viu 69 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Dia 22 de abril Não só viu, descobriu Toda a terra do Brasil Pindorama, Pindorama Mas os índios já estavam aqui Pindorama, Pindorama Já falavam tupi‑tupi Só depois, vêm vocês Que falavam tupi‑português Só depois com vocês Nossa vida mudou de uma vez Pero Vaz, Pero Vaz Disse em uma carta ao rei Que num altar, sob a cruz Rezou missa o nosso frei Mas depois seu Cabral Foi saindo devagar Do país tropical Para as Índias encontrar Para as índias, para as índias Mas as índias já estavam aqui Avisamos: “olha as índias!” Mas Cabral não entende tupi Se mudou para o mar Ver as índias em outro lugar Deu chabu, deu azar Muitas naus não puderam voltar Mas, enfim, desconfio Não foi nada ocasional Que Cabral, num desvio Viu a terra e disse: “Uau!” Não foi não, foi um fim Foi um plano imperial Pra aportar seu navio Num país monumental Ao Álvares Cabral Ao El‑Rei Dom Manuel Ao índio do Brasil E ainda quem me ouviu 70 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Vou dizer, descobri O Brasil tá inteirinho na voz Quem quiser vai ouvir Pindorama tá dentro de nós Ao Álvares Cabral Ao El‑Rei Dom Manuel Ao índio do Brasil E ainda quem me ouviu Vou dizer, vem ouvir É um país muito sutil Quem quiser descobrir Só depois do ano 2000 Fonte: Peres e Tatit (1998). Quantas referências estão aí presentes, não? Talvez inicialmente pudéssemos apenas mapear alguns dos conteúdos que precisam ser dominados pelo professor para poder mobilizar isso em sala de aula: • O uso da linguagem indígena. • Cabral e os domínios de D. Manuel. • Vera Cruz e o 22 de abril. • Presença indígena ancestral. • A Carta de Pero Vaz. • A navegação atlântica (dificuldades e conhecimentos portugueses). Vale lembrar ainda, como aponta Schwarcz (2015), que a carta de Caminha ficaria inédita até 1773, ou seja, não foi difundida antes do século XVIII, e apenas bem depois disso suas informações começam a circular. Pensamos ainda o quanto se fala da carta e o quanto ela foi efetivamente lida, integralmente. Por aí podemos seguir desenvolvendo possíveis elementos que ganhem destaque para os alunos. Partindo dessa música e dessa lista, podemos, por exemplo, aprofundar a questão do descobrimento: Restaram, porém, poucos documentos acerca dos critérios utilizados pelo governo português para escolher o navegador [Cabral] como comandante da expedição à Índia. No decreto que o nomeia capitão‑mor, menciona‑se apenas “mérito e serviços”. Sabe‑se também que o rei conhecia bem sua corte, além de ser famosa a lealdade de Cabral à Coroa Portuguesa. [...] 71 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA O maior salário era o do capitão‑mor: Cabral recebeu 10 mil cruzados (antiga moeda portuguesa que equivalia a 35 quilos de ouro) e o direito de comprar trinta toneladas de pimenta e mais dez caixas de qualquer outra especiaria, às próprias custas, e revendê‑las na Europa, livre de impostos. Assim, embora a viagem trouxesse muitos perigos, ela poderia garantir que Cabral, após o retorno, se tornasse um homem verdadeiramente rico, já que as especiarias, apesar de muito demandadas, eram extremamente raras (SCHWARCZ, 2015, p. 25). Com essa referência, introduz‑se a questão da sociedade de corte – de privilégios e do poder real –, além de uma discussão sobre riqueza naquela sociedade e também o sentido das navegações. Se, no caso da música e da Carta de Caminha, o elemento religioso tem grande relevância, aqui, ao contrário, fala‑se de valores, inclusive os significativos até para os padrões contemporâneos. Então cabe a questão de inquirir se essas problemáticas eram apenas lusitanas ou estavam presentes em outros países e cortes. A resposta adequada é a segunda observação. O Reino de Portugal não tem a exclusividade da busca do caminho para as Índias. Podemos mencionar, por exemplo, a necessidade do estabelecimento de diversos tratados de limites entre Portugal e Espanha, tal como é o caso da Bula Inter Coetera (1493) e do já bastante notório Tratado de Tordesilhas (1494). Saiba mais Para se ter uma ilustração do Tratado de Tordesilhas, indicamos a produção: O TRATADO de Tordesilhas. Dir. Rafael Jaén. Portugal: The History Channel, 2011. O documentário retrata o contexto de Portugal durante o processo de expansão marítima,por ocasião da assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494. Podemos considerar a força que adquiriu no imaginário popular a Carta de Caminha, mas também vale ressaltar que não é o único registro do evento, uma vez que Mestre João, provavelmente um espanhol chamado João Faras, também anotou seus comentários. No entanto, quem, fora dos círculos acadêmicos mais especializados, trabalha com essa alternativa? A Olimpíada Nacional em História do Brasil é extremamente rica em propostas, documentos e questionamentos, e já apresentou essa diversidade às equipes concorrentes; assim, lentamente, novos olhares podem renovar os ares das salas de aula. E o que se “achou” foi uma suposta “nova” humanidade. Afinal, logo depois do feito, os portugueses começaram a correr várias teorias curiosas sobre a origem dos índios: Paracelso, em 1520, acreditava que eles não descendiam de Adão e que eram como os gigantes, as ninfas, os gnomos e os pigmeus. Cardano, em 1547, apostava que os indígenas surgiram como uma geração espontânea, a partir da decomposição de matéria morta, como 72 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I as minhocas e os cogumelos. Já Pero Vaz assim relatou o que viu: todos pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que cobrisse suas vergonhas [...] E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente deu‑lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaios. A descrição dá início a um tópico ainda hoje frequente no País, que entende a conquista como um “encontro pacífico”, a despeito das diferenças políticas, culturais e linguísticas (SCHWARCZ, 2015, p. 28‑29). Saiba mais Você pode acessar mais informações sobre a Olimpíada Nacional em História do Brasil no seguinte endereço: <http://www.olimpiadadehistoria.com.br/>. Retomamos as discussões do ponto anterior, aquele relativo à questão de quem são esses indígenas, e os apontamentos de Eduardo Viveiros de Castro, referidos anteriormente. Lembramos ainda que Portugal não era exemplo isolado dessa busca por riquezas extraordinárias, e isso rapidamente se transformaria num grande transtorno para os portugueses. A Espanha, unificada pela Coroa de Castela em 1492, sob o comando dos reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão, coroando um esforço de séculos para expulsar da península Ibérica os mouros (muçulmanos), construiu uma identidade que associava a monarquia à defesa do cristianismo e da cristandade em geral. Precisamos apontar que esse elemento foi fundamental para muitos europeus. Esteve presente com muita clareza entre navegadores portugueses, espanhóis e franceses. Como fator complicador do cenário mais amplo de contestações ao poder católico, temos o início da Reforma Luterana no século XVI e, logo depois, o surgimento dos calvinistas e dos anglicanos. Dessas novas manifestações da fé cristã – reformada – e vista pela Santa Sé como heresias, comungavam muitos holandeses, ingleses e também franceses. Assim, as disputas por espaços, pelos mares, por riquezas assumiam pelo menos essas duas dimensões mais evidentes: a da riqueza mercantil e a da defesa, por cada grupo, de seu entendimento do que é a verdadeira fé. Nesse sentido, um verdadeiro “arsenal” foi montado, e o que é muito significativo, e relevante, é que as atuações que, num primeiro momento, são europeias, tornam‑se atlânticas e depois mundiais. 73 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Saiba mais Sugerimos alguns filmes para se registrar a construção do imaginário acerca dos primeiros contatos entre os europeus e os povos nativos das Américas: 1492: a conquista do Paraíso. Dir. Ridley Scott. França/Espanha: Gaumont, 1992. 60 min. COMO era gostoso meu francês. Dir. Nelson Pereira dos Santos. Brasil: Condor Filmes, 1971. 84 min. AGUIRRE, a cólera de Deus. Dir. Werner Herzog. Alemanha: Werner Herzog Filmproduktion, 1972. 93 min. Muitos europeus, diversas vezes sob os auspícios das monarquias aos quais eram subordinados, lançaram‑se às aventuras marítimas buscando ouro e especiarias, e, nessas expedições, seguiam religiosos. Em frotas portuguesas e espanholas, no decorrer do século XVI, havia a presença de religiosos pertencentes às ordens dos dominicanos e jesuítas. Ao entrar em contato com nativos em diversas partes do mundo, eles tinham o importante papel da conversação, que em muito auxiliava na europeização do mundo. Era um sistema de valores morais, sociais, hierárquicos e também econômicos que ia se esparramando pelo mundo e que envolvia os territórios mais próximos da Europa, depois ilhas Atlânticas, litoral africano, as áreas americanas e também as asiáticas. O cenário europeu nos tempos da conquista do Novo Mundo e de circulação pelos mares e oceanos era de confrontos entre as potências e entre religiões, e isso se aplicava também aos novos territórios conquistados. A essas alturas, os portugueses já iam se julgando donos e senhores dos destinos da nova terra, de seus limites e nomes. No entanto, a descoberta não alterou de imediato a rotina e os interesses dos lusitanos, que então só tinham olhos para o Oriente. Por isso, durante certo tempo, a vasta área ficou reservada para o futuro. Mas a concorrência internacional, ameaças estrangeiras e os questionamentos acerca do bilateral Tratado de Tordesilhas não permitiriam que a calmaria ali fosse eterna. Espanhóis já estavam na costa nordeste da América do Sul, e ingleses e franceses, contestando a divisão luso‑espanhola do globo, logo invadiram diferentes pontos do litoral. Francisco I da França, ao questionar o famoso acordo, deixou frase lapidar: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha e me excluiu da partilha”. E já na década de 1530 ficou evidente para D. João III que apenas a soberania do papa legitimando o tratado não daria conta de afugentar os corsários franceses, os quais com 74 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I frequência cada vez maior se estabeleciam nas possessões americanas. A saída foi criar várias frentes colonizadoras, basicamente independentes, que muitas vezes guardavam mais comunicação com a metrópole que entre si (SCHWARCZ, 2015, p. 30). Acreditando que devamos valorizar a ideia de um funcionamento integrado da visão sobre a História, o exemplo mencionado nos auxiliará nessa tarefa se considerarmos que está tudo funcionando como um conjunto na qual as engrenagens se acionam mutuamente, uma vez que as ações ibéricas acionam a entrada de outros europeus no processo, e estes, por sua vez, vão concorrer dentro do sistema articulado por Portugal e Espanha com outras partes do mundo. O palco preferencial será o Atlântico. Caso voltemos um pouco na referência aos jesuítas, vale lembrar que eram portugueses e espanhóis muitas vezes a sair pelo mundo, mas franceses também se engajaram na Companhia, fundada por Ignácio de Loyola. Saiba mais Para conhecer mais da ação catequética jesuíta, sugerimos dois filmes: HÁBITO Negro. Dir. Bruce Beresford. Canadá; Austrália; EUA: Alliance Communications Corporation, 1991. 101 min. A MISSÃO. Dir. Roland Joffé. Inglaterra; França: Warner Bros., 1986. 125 min. Além dos filmes, indicamos o seguinte artigo: BIAS, M. A verdade nua? Revista de História, Rio de Janeiro, 1º jun. 2016. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/em‑dia/a‑verdade‑nua>. Acesso em: 3 maio 2016. Logo, não faz muito sentido, dentro de nossa proposta, tentar excluir a existência dos concorrentes de Portugal. Afinal, atacaram ou não a então América Portuguesa (que não deve ser referida simplesmente como Brasil para não existir a associação direta e equivocada com o país construído depois)? O território sobre o qual estamos nos referindo não seria objeto constante de mudanças de fronteiras, de estruturas, como a criação das Capitanias Hereditárias, em 1534, ou ainda a divisão dos domínios portugueses na América, em 1572, organizando um norte administrado por Salvador e um sul, pelo Rio de Janeiro? Ou ainda, a lembrança de que, do descobrimento até o início de alguma ocupação efetiva, passaram‑se mais de trinta anos, quando, então, em 1532, Martin Afonso funda a Vila de São Vicente. Não estamos dizendo, portanto, que aquilo que Portugal, e outros reinos, criavam nas Américas no século XVI seriam os países que se tornaram independentes, principalmente no decorrer do século XIX. Essa é uma visão criada no próprio século XIX para “justificar” a escrita de histórias nacionais como formas de se inventar um ideário para esses países. No caso do Brasil, o Instituto Histórico e Geográfico teve parte nesse projeto, que contribuiu na formação de um imaginário que vê o Brasil já presente 75 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA naquele momento de descobrimento. É preciso muito cuidado com essa percepção e lembrar o impacto causado pelo descobrimento das terras no Novo Mundo para os portugueses. Inicialmente, quase nada de mudança. O tratamento dado em relatos e buscas por riquezas faz constantes referências ao exótico, aos animais – reais ou fantasiosos – e à madeira da qual se extraía a resina vermelha empregada como corante para tecidos pelos europeus, o pau‑brasil. Como na expansão marítima a dimensão econômica tinha sua importância, aquela madeira foi declarada “estanco”, isto é, monopólio da Coroa. A visão edênica, de paraíso, que certamente acompanhava os primeiros contatos, não era exclusiva e, assim, ligava‑se à dimensão mercantil. Essas relações provocaram a consequência de que, “como observou Immanuel Wallerstein, para Portugal, a lógica de sua geo‑história ditava que a expansão atlântica fosse o empreendimento comercial mais sensato para o Estado” (MOTA; LOPEZ, 2015, p. 47). Apesar de não existir uma colonização sistemática da América Portuguesa nos anos imediatamente pós‑ chegada, pouco a pouco se intensificaram os contatos entre os europeus e os nativos. Se os confrontos não foram a regra dos primeiros contatos, eles começaram cedo, desde a sistematização do poder português, com a instalação do Governo‑Geral, na cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos. Em 1570, a Coroa proibiu a escravização dos índios. Apesar disso, permitia que fossem escravizados os canibais ou aqueles índios feitos prisioneiros nas incursões contra tribos hostis (a “guerra justa”). [...] O aumento das guerras, o cativeiro e a disseminação de doenças, como a varíola, dizimaram boa parte dos tupis do litoral do Brasil. Os que conseguiram fugiram para o interior e travaram uma resistência de séculos contra os conquistadores europeus. A partir do século XVI, a consolidação da conquista portuguesa possibilitou a expansão do cultivo de cana‑de‑açúcar nas chamadas “terras devolutas”, isto é, nas terras tomadas aos nativos, quase sempre as melhores e mais produtivas. A leste da Vila fundada por Tomé de Sousa [Salvador] em 1549, a fronteira agrícola avançava sobre o Recôncavo Baiano, onde a cada ano que passava surgiam novos engenhos de cana‑de‑açúcar. Lá, a colonização deteve‑se nas terras dos aimorés, “tapuias” do litoral. Na capitania de Pernambuco, em 1535, quando da fundação de Olinda por Duarte Coelho, os caetés foram obrigados a retroceder até o rio São Francisco, em Alagoas. [...] No início de 1570, achavam‑se em pleno funcionamento 41 engenhos nessas duas capitanias. As matas forneciam a madeira para aquecer as caldeiras e os tachos de cobre que transformavam a cana em melado e açúcar refinado. Os indígenas subjugados e escravizados forneceram o trabalho na primeira, e mais custosa, etapa de implantação da agroindústria açucareira na colônia (MOTA; LOPEZ, 2015, p. 60). Do trecho selecionado podemos apreender ao menos três características do sistema que os portugueses implementaram no Novo Mundo americano e que já vinham organizando no Atlântico, desde o arquipélago da Madeira, a saber, a estruturação de uma agroindústria altamente lucrativa – a do açúcar –, o uso do trabalho compulsório, que se inicia com os nativos na América, mas que passará 76 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I ao uso de cativos africanos, e a formação de uma nobreza da terra, que o renomado autor Evaldo Cabral de Mello chamou de “açucarocracia”, um termo bastante adequado à realidade que se estruturava então. Além dos conceituados trabalhos de Evaldo Cabral, a terminologia citada começa a fazer parte do vocabulário acadêmico, sendo incorporada à produção mais recente, como é o caso da dissertação de mestrado de Lisboa (2011). Vale lembrar, ainda, que se esboça também aquilo que apareceu na historiografia clássica como o sentido da colonização, que seria seu aspecto mercantil. A ação europeia no Novo Mundo visava ao enriquecimento metropolitano, à difusão de sua religião, de sua visão de mundo e ao entendimento de sua ação civilizatória também, mas era fundamental o lucro. Exportações Importações Figura 13 – Balança comercial favorável As definições de mercantilismo não são uma unanimidade, assim como de Antigo Regime e absolutismo, mas podemos utilizar aquilo que Arruda (2004, p. 81) chamou “absolutização do poder”, pois, segundo esse autor, ocorreu um processo de centralização em diferentes momentos desde o feudalismo, mas entre os séculos XVII e XVIII ocorreu tamanha racionalização e burocratização da forma moderna de Estado que isso seria o absolutismo. Note‑se que não foi um movimento próprio de um único reino. Portugal, Espanha, Inglaterra e o grande símbolo, a França, constituíram modelos cuja alternativa nos parece ser a Holanda. O apoio da nobreza, quer seja de origem fundiária, quer seja a burocracia nobilitada por suas funções no Estado, foi uma característica importante e generalizada, bem como o uso da religião, reformada ou não. Mesmo que o poder real possa ditar a lei, exercer a justiça, administrar e determinar a economia, não havia necessidade de negociações, tanto nos reinos quanto nas colônias? Parece que sim. 4.2 A época moderna e as propostas de Braudel As cortes europeias que foram se articulando em torno dos seus monarcas ao longo da época moderna eram dispendiosas, e, assim, o controle real sobre a economia é importante para que a Coroa sobreviva às tensões da época. 77 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA [...] entre os séculos XVI e XVIII, temos a fase do capitalismo comercial, período no qual a acumulação de capital se dá principalmente na troca de mercadorias e nas atividades comerciais. Neste mesmo período, surge o mercantilismo, conjunto de ideais e práticas econômicas que se constitui na política econômica do capitalismo comercial, correspondendo a este momento de acumulação originária do capital. O objetivo direto da política mercantilista era o fortalecimento do Estado moderno; o seu objetivo indireto, o enriquecimento da burguesia. Num primeiro instante, o mercantilismo visa ao Estado, sem deixar de indiretamente beneficiar a burguesia. Na fase seguinte,a relação se inverte, tornando‑se a burguesia a principal beneficiária, ficando o Estado em segundo plano (ARRUDA, 2004, p. 93). Apesar do caráter sistemático da observação, ela tem o valor de apresentar uma noção que não é válida para um ou outro Estado. A montagem do sistema colonial, o metalismo, a manutenção de uma balança comercial favorável, monopólios e protecionismos possuía nuances, tais como maior ênfase na acumulação direta de metais (bulionismo), o colbertismo francês com a vinculação à indústria ou, no caso dos ingleses, ao comércio, ou ainda o hibridismo holandês, que em parte era comercial e, em parte, industrial. Fica, portanto, a impressão (pois só podemos falar de impressões, dada a insuficiência de uma documentação esparsa) de que sempre houve [setores] especiais da vida econômica condicionados pelo alto lucro e que esses setores variam. Sempre que, sob o impacto da própria vida econômica, há uma destas modificações, um capital ágil vai ao seu encontro, instala‑se, prospera. Note‑se que, regra geral, ele não criou. Essa geografia diferencial do lucro é uma chave para compreender as variações conjunturais do capitalismo, que balança entre o Levante, a América, a Insulíndia, a China, o tráfico negreiro etc. – ou entre o comércio, o banco, a indústria ou mesmo a terra. Às vezes, um grupo capitalista (por exemplo, Veneza no século XVI) abandona sua posição comercial eminente para investir numa indústria (no caso lã), mais ainda na terra e na pecuária; mas isso porque suas ligações com a vida mercantil deixaram de ser as de grande lucro [...] Insistamos nessa qualidade essencial para uma história de conjunto do capitalismo: sua plasticidade a toda prova, sua capacidade de transformação e de adaptação. [...] Na fase chamada mercantil, tal como na sua fase chamada industrial – abarcando ambos os termos uma grande variedade de formas –, o capitalismo teve, como característica essencial, sua capacidade de passar quase instantaneamente de uma forma para outra, de um setor para outro, em caso de crise grave ou de diminuição acentuada das taxas de lucro (BRAUDEL, 1996, p. 381‑382 apud ARRUDA, 2004, p. 100). A visão ampla de Braudel nos permite entender que se trata de uma forma sistêmica complexa, capitalista, que modifica e atua em diferentes espaços movidos, fundamentalmente, pela busca de lucro. 78 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Não será essa uma das discussões fundamentais para entendermos a noção de colônia? Muito mais do que buscar um certo tipo de Brasil, desde as “origens” até o século XIX da independência e o Império e depois da República? A menção ao tráfico negreiro, para nós, é essencial, sendo um dos mecanismos que movimentaram toda essa busca de lucros. Não era esse o fundamento econômico do mercantilismo? Com efeito, por um lado era preciso lutar pelos postulados das sociedades localmente delimitadas, frente ao universalismo tão característico da Idade Média. Os Estados nacionais deslocaram em quase todos os territórios a unidade representada pela Igreja medieval e pelo segundo herdeiro, menos forte, o Estado romano: a monarquia universal encarnada pelo Império. Este aspecto, porém, era de importância secundária, pois em grande parte dos problemas de ordem prática a Idade Média representava um cunho mais particularista do que universalista. Por esse motivo, a força indubitavelmente mais poderosa do mercantilismo se projetava não exclusivamente de fora, mas também a partir de dentro; dirigia‑se contra os organismos sociais mais delimitados, contra as cidades, as províncias, os países e as corporações que haviam reinado na labuta construtiva do Estado em um campo de ação que – do ponto de vista mercantilista – estava sendo usurpado por organismos superiores ao Estado ou inferiores a ele. Vistas as coisas desta maneira, o mercantilismo aparece, primeiramente, como um sistema unificador. Seu adversário era a fusão medieval de universalismo e particularismo e tendia, principalmente, a impor os objetivos do Estado em um campo econômico homogêneo, sujeitando toda a atividade econômica às opiniões mais adaptadas às necessidades do Estado e de seu território, e que se concebiam como que formando uma unidade. [...] Se tomarmos as relações entre a política e o Estado como ponto de partida, surge imediatamente a pergunta: o que o mercantilismo queria fazer com as forças econômicas a bem do Estado? A primeira resposta poderia ser que pretendia servir‑se delas, não a favor dos súditos, mas para fortalecer o poder mesmo do Estado; o poder do Estado em seu aspecto externo, diante dos outros Estados. O poder interno do Estado, frente aos súditos, passava para segundo plano na discussão, a menos que se tratasse da necessidade de uma ingerência do Estado para alcançar determinados fins, e o fortalecimento do poder interno do Estado constituía, na realidade, apenas um aspecto da ação unificadora (HECKSCHER, 1983, p. 5‑6 apud ARRUDA, 2004, p. 100). Heckscher (1983 apud ARRUDA, 2004, p. 100) constrói duas noções importantes para que possamos entender como o mundo conhecido pelos europeus se tornava cada vez mais um mundo capitalista, a saber, a ação unificadora do sistema e a participação do Estado. A superação de um mundo medieval ainda, em muitos aspectos, tornava‑se uma necessidade construída, portanto, junto ao movimento de se lançar aos mares, empreendido inicialmente pelos reinos ibéricos. Nesse sentido, podemos perceber uma construção sistêmica e segundo a qual apenas olhar o Brasil em si não nos permitiria compreender os movimentos mais amplos e – por que não? – essenciais. 79 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA O ponto de partida é, como se sabe, a ideia metalista, ou seja, a identificação de nível de riqueza com o montante de metal nobre existente dentro de cada nação. [...] Assim, a concepção de riqueza identificada com os metais amoedáveis, posto que no desenvolvimento da teoria tenha sido matizada pelos pensadores que aperfeiçoaram o mercantilismo, nada obstante a ideia básica metalista como orientadora da política econômica. Ela envolvia uma conceituação primária da natureza dos bens econômicos, e a suposição de que os lucros se geram no processo de circulação das mercadorias, isto é, configuram vantagens em detrimento do parceiro. Assim, o receituário mercantilista encaminha‑se diretamente para a formulação da doutrina da balança favorável; balança dos contratos na formulação mais tosca, no nível dos mercadores particulares, balança do comércio no plano do intercâmbio internacional. Era a maneira de promover a entrada líquida do bullión, termômetro da riqueza nacional. Daí, a política protecionista: tarifária em primeiro lugar; ligada a esta, fomentista da produção nacional daqueles produtos que concorram vantajosamente no mercado entre as nações. Defesa da saída das matérias‑primas, estímulo às exportações de manufaturas; inversamente, estímulo à entrada dos produtos primários, dificuldade ou mesmo proibição da importação de manufaturados. Para tanto, a produção interna deve ter baixo custo, ainda que para isso se restrinja o consumo interno – a fim de concorrer no exterior. O mercantilismo não é, efetivamente, uma política econômica que vise ao bem‑estar social, como se diria hoje; visa ao desenvolvimento nacional a todo custo. Toda forma de estímulos é legitimada, a intervenção do Estado deve criar todas as condições de lucratividade para as empresas poderem exportar excedentes ao máximo. Daí se propugnar uma política de fomento demográfico, meio de ampliar a força de trabalho nacional, e impedir a elevação dos salários, por exemplo. Neste contexto, vê‑sebem o significado e a posição das colônias. Elas devem constituir‑se em retaguarda econômica da metrópole. Pois que a política mercantilista ia sendo praticada pelos vários Estados modernos em desenfreada competição, necessária se fazia a reserva de certas áreas que pudessem, por definição, aplicar as normas mercantilistas; as colônias garantiriam a autossuficiência metropolitana, meta fundamental da política mercantilista, permitindo assim ao Estado colonizador vantajosamente competir com os demais concorrentes (NOVAIS, 1995, p. 60‑62 apud ARRUDA, 2004, p. 100‑101). Dessa forma, devemos pensar a existência colonial dentro de um projeto maior, europeu, de obtenção de lucros. A colonização não foi um esforço de um reino isolado. Se Espanha e Portugal tiveram áreas extremamente importantes para a realização desses ideais expostos por Novais (1995), a Inglaterra, igualmente, buscou o mesmo caminho, assim como a França e mesmo a Holanda, no momento em que ocupa parte da América Portuguesa, a parte mais rica no século XVII, Pernambuco. 80 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I A colonização europeia, dessa maneira, torna‑se uma empresa mercantil‑capitalista, e isso é comum entre os europeus. Os vastos territórios originalmente voltados para o Atlântico despertaram grande cobiça, ainda mais quando da descoberta de ouro e prata na conquista dos impérios asteca e inca. A Coroa Espanhola assume uma condição de preeminência fundando vice‑reinos: Nova Espanha (desde o México até a América Central); Nova Granada (atuais Equador, Colômbia, Panamá e Venezuela), Vice‑Reino do Peru (Peru, Chile e a Bolívia) e o mais tardio Vice‑reino do Rio da Prata, abarcando os atuais Argentina, Paraguai e Uruguai. A sistematização espanhola do processo descrito ocorreu com o uso de nativos, por meio de formas compulsórias de exploração conhecidas como encomienda e mita, e assim foi muito significativa a aculturação dos nativos no processo de imposição do cristianismo, dizimação de grandes populações e também na introdução de populações negras africanas. Nesse sentido, é absolutamente fundamental esclarecer que não se trata aqui de fazermos uma história colonial completa, depois uma história da crise do século XVIII, das independências do XIX e assim por diante. Precisamos, antes, observar que estava tudo integrado, que a ação da Espanha em seus domínios tinha consequências sobre outras áreas do Atlântico, por exemplo, e assim, quando estivermos em sala de aula com os alunos, estimular o pensamento que busque “dar conta” de múltiplas realidades. Poderíamos aqui nos estender em cada um dos aspectos coloniais e posteriores, mas isso já é objeto de outras disciplinas e outras discussões. Nossa preocupação é enfatizar como pode ser enriquecedor demonstrar que é possível perceber esse mundo integrado. Ao consultar os mais variados autores sobre o passado colonial de diferentes partes do mundo, mas nos detendo mais especificamente nas áreas atlânticas, o problema da mão de obra parece ser relevante em todos os casos, seja para os espanhóis e o universo pré‑colombiano complexo e organizado, seja para os portugueses em contato com índios e depois com a introdução de africanos. Para os ingleses esse também é um aspecto sensível; a presença de servos por contrato ao norte se contrapõe ao escravismo sulista. Para os holandeses, no momento em que conquistam o atual nordeste açucareiro do Brasil, dirigem‑se para a África para dominar fontes fornecedoras de escravos, e o instrumento para isso é a criação da Companhia das Índias Ocidentais. A França consegue estabelecer‑se em diversas áreas, mas sua presença no Caribe não obedece à lógica sublinhada anteriormente? De alguma maneira, essas áreas todas estavam com contato constante, pela realidade geográfica, pela questão econômica, por guerras ou interesses de lucro. Diversas áreas da América Portuguesa foram alvo de ações de franceses que não aceitaram Tordesilhas. A presença francesa no Rio de Janeiro e no Maranhão são exemplos disso, assim como o contato com os nativos para a exploração de pau‑brasil. As incursões inglesas de piratas pelo litoral da América Portuguesa e o domínio holandês de Pernambuco, entre 1630 e 1654, não são exemplos disso? Frequentemente incorremos naquilo que Fernando Novais (1995), acertadamente, apontou como um dos mais comuns e importantes erros dos historiadores, que também podemos estender aos professores de história, que é o erro do anacronismo. Não é incomum se fazer referências à América Portuguesa como se fosse o Brasil, no século XVI e nos posteriores. Isso vale para partes da América Espanhola e também para a confusão entre as Treze Colônias Britânicas da América do Norte e os Estados Unidos. É necessário fazer referência a isso para podermos entender que não é simplesmente porque se viam principalmente nas áreas do Novo Mundo que todos se sentiam explorados pelos reinos europeus (as metrópoles). 81 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Retomando o olhar sobre o universo português nas Américas, percebemos que o referido uso inicial dos nativos como mão de obra tem seu apogeu no século XVI, depois o sistema se modifica. O período de 1540 a 1570 marcou o apogeu da escravidão do gentio nos engenhos do litoral brasileiro em geral e, em especial, nos da Bahia. Em 1545, a capitania de São Vicente, no Sul, possuía seis engenhos e 3 mil escravos, dos quais a grande maioria eram índios. Nessa época, podiam‑se encontrar escravos indígenas também nos engenhos de Pernambuco, da Bahia e de Porto Seguro. Durante as décadas de 1550 e 1560, a indústria açucareira do Nordeste entrou em uma fase de rápida expansão, acompanhada de crescimento semelhante no número de trabalhadores cativos. Em 1570, Pernambuco possuía 23 engenhos e tantos escravos índios que o excedente podia ser exportado para outras capitanias. Em 1583, ainda em Pernambuco, havia 66 engenhos e cerca de 2 mil escravos africanos. Dado que cada engenho explorava provavelmente o trabalho de cem cativos, os índios ainda perfaziam dois terços da força de trabalho nos engenhos dessa capitania, mesmo durante o período de transição para a mão de obra africana (SCHWARTZ, 1988, p.46 apud MOTA; LOPEZ, 2015, p. 62). No momento em que retomamos o olhar sobre a América Portuguesa, o uso da mão de obra nativa ou africana quase nos faz esquecer o restante da dinâmica atlântica, e, assim, precisamos estar alerta. Assim como o evangelho, o filho de Deus foi em nossos dias pregado nessa quarta parte do mundo chamada América, se o empreendimento tivesse continuado tão bem como começou, tanto o reino espiritual como o temporal, aí se achariam enraizados em nossa época e mais de mil súditos da nação francesa aí estariam agora em plena e segura posse, para nosso rei, daquilo que os espanhóis e portugueses deram aos seus (LÉRY, 1961 apud MOTA; LOPEZ, 2015, p. 65). Comentando tal evento, Mota e Lopez (2015, p. 65) ainda enfatizam que: A fundação de vilas e o estabelecimento do governo‑geral à sombra da Igreja Católica na Bahia não dissuadiram os franceses de tentarem fixar aqui uma colônia. Apenas seis anos depois da chegada de Tomé de Sousa à baía de Todos os Santos, a monarquia francesa realizava sua primeira incursão “oficial” no Atlântico Sul – concedia a Nicolas de Villegaignon, cavaleiro de Malta, subsídios para criar a França Antártica na baía de Guanabara, onde já residiam 25 colonos e intérpretes normandos. Quando as notícias de novas terras e a descoberta de metais preciosos na América Espanhola tornaram‑se públicas, o interesse daqueles excluídos do Tratado de Tordesilhas ficou patente. A busca por pau‑brasil alimentava ossonhos de riquezas, e o contato com os nativos dava margem às construções exóticas. 82 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Vasco da Gama Pedro Álvares Cabral Cristóvão Colombo Fernão de Magalhães Figura 14 – As principais viagens da expansão marítimo‑comercial europeia Bula Inter Coetera – 1493 Tratado de Tordesilhas – 1494 Figura 15 – Linha divisória do Tratado de Tordesilhas entre Portugal e Espanha. Apesar da resistência de França, Holanda e Inglaterra, o Novo Mundo foi dividido entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas 83 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA O século XVI foi seguramente um momento de tensões europeias que acabaram se espraiando pelas áreas coloniais. Numa época de disputas e tensões, em que se processava a formação dos Estados nacionais e consolidavam‑se os primeiros impérios coloniais, a dura realidade europeia parecia negar à França seu quinhão na partilha dos novos territórios e rotas comerciais que então se descortinavam. A morte do imperador Maximiliano e a eleição em 1519 de seu neto, o rei Carlos de Habsburgo, da Espanha, para o trono do Sacro Império Romano‑Germânico, jogaram um balde de água fria nas pretensões dos negociantes e armadores da França Atlântica. Em 1521, a França e o Sacro Império iniciaram uma longa e cruenta guerra, que se arrastou por 27 anos e praticamente arruinou a monarquia francesa. Cercado pelas posses de Carlos V, soberano de um império territorial no qual “o sol nunca se punha”, Francisco I teve de reagir aos ataques de seu inimigo em várias frentes e selar, se não uma aliança, pelo menos um pacto de neutralidade com o soberano de Portugal, João III. Nas primeiras três décadas do século XVI [...] o recrudescimento dos ataques da pirataria francesa à navegação lusitana praticamente obrigou a monarquia de Portugal a colonizar o Atlântico Sul. A singularidade das relações diplomáticas entre os dois reinos, eivadas de cinismo, propiciou a existência do corso, uma espécie de pirataria legitimada pela monarquia francesa. O corso diferia da pirataria pura e simples, pelo fato de que, nele, o flibusteiro obtinha das autoridades uma “carta de corso”, ou “carta de marca”, permitindo o assalto a navios pertencentes a Portugal sem que houvesse declaração formal de guerra (MOTA; LOPEZ, 2015, p. 66‑67). Assim, o Atlântico Sul abria‑se como um espaço de obtenção de riquezas fabulosas, mas também de intensas disputas entre diversos reinos, repúblicas e interesses comerciais. A presença de Nicolas Durand de Villegaignon, financiado diretamente pelo rei da França, Henrique II, dá uma certa medida das tensões da época e também é demonstrativo da grande circulação que havia entre o Velho e o Novo Mundo. Um fator de complicação do quadro geral e que deve ser mencionado é a presença de protestantes franceses, huguenotes, na França Antártica e mesmo o fato de que Villegaignon recorreu ao próprio Calvino para que lhe enviasse missionários. Entre os missionários enviados por João Calvino, estava um jovem sapateiro da Borgonha chamado Jean de Léry. Filho de pais reformados, Léry, aos 18 anos, deixou sua cidade natal rumo a Genebra para estudar teologia e assistir às prédicas de João Calvino. Aos 22 anos, embarcou na comitiva de missionários destinada à França Antártica. A ele devemos um dos mais importantes e interessantes relatos sobre a permanência dos franceses na baía de Guanabara e a vida cotidiana de seus aliados tamoios (MOTA; LOPEZ, 2015, p. 71). 84 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Saiba mais Sobre o episódio dos franceses na região do atual Rio de Janeiro, recomendamos assistir ao filme: VERMELHO Brasil. Dir. Sylvain Archambault. Brasil; Portugal; França; Canadá: Conspiração Filmes, 2014. 104 min. Dessa forma, podemos observar um movimento não relacionado apenas às dinâmicas portuguesas, mas indo além. Uma ação francesa, e protestante, coloca a Coroa portuguesa em estado de alerta, ocorrendo um ataque com tropas arregimentadas entre colonos portugueses pelo Governador‑Geral Mem de Sá, fundador da cidade de São Sebastião. A luta do sobrinho Estácio de Sá contra os franceses durou mais de dois anos – e ao final dela ele morre – e a expulsão definitiva levaria uma década. Expulsos do Rio de Janeiro, abrigaram‑se em Sergipe; expulsos do Sergipe, abrigaram‑se na Paraíba; expulsos da Paraíba, abrigaram‑se no Rio Grande do Norte; expulsos do Rio Grande do Norte, abrigaram‑se no Ceará e Maranhão; expulsos do Maranhão e Ceará, abrigaram‑se na Guiana (ABREU, 1929, p. 89‑90 apud MOTA; LOPEZ, 2015, p. 73). Uma contraofensiva católica também faz parte do processo quando foi enviado o capuchinho Claude d’Abbeville, em 1612, para catequizar indígenas na chamada França Equinocial (ou Equinoxial). Considerando a ligação fundamental existente entre os territórios conquistados e os acontecimentos europeus, um dos momentos dramáticos se deu naquilo que se convencionou chamar de União Ibérica. Entre 1580 e 1640 Portugal esteve unido à Espanha em razão do desaparecimento do rei D. Sebastião na trágica batalha de Alcácer‑Quibir, em 1578, contra muçulmanos, e, para agravar o quadro, sem herdeiros diretos. Após o breve reinado de 2 anos do idoso cardeal D. Henrique, a dinastia de Avis se extingue. O rei Filipe II da Espanha, filho de uma princesa portuguesa, reivindica e consegue o trono de Portugal. E o que isso tem que ver com o que se passava no Atlântico? Tudo. Formava‑se um Império Ibérico gigantesco, alvo constante dos rivais da Espanha; considerando que muitos inimigos eram protestantes, o quadro era pior ainda. Mesmo lembrando que existem negociações entre portugueses e a corte de Madri e que as colônias da América portuguesa continuam a ser administradas por portugueses, conforme aponta Mota e Lopez (2015, p. 76), o desgaste é grande. Na América Portuguesa ocorreu um sensível aumento de circulação de pessoas e comércio, uma vez que os limites anteriores perderam o sentido prático. E esse momento contribuiu para uma certa integração de áreas distantes, pois Naquela época, uma média de duzentos navios, com 100 a 400 toneladas de deslocamento, largava cada ano dos portos portugueses com destino ao Brasil, carregados principalmente de tecidos e outros artigos manufaturados. 85 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA É óbvio que era demasiado para as necessidades de importação de uma população calculada em 8.000 vizinhos, e que boa parte daqueles artigos se destinava a ser reexportada do Brasil para o Peru, via rio da Prata, Paraguai e Tucumán. [...] O frete e os direitos eram menores do que os exigidos nas frotas oficiais de Sevilha, o que por si só basta para explicar o crescimento fenomenal do tráfico com o Brasil. Em consequência, o custo daqueles artigos na Sul‑América espanhola era muito menor, quando importados de Portugal, via Brasil e Buenos Aires, do que se sua importação fosse feita pela rota oficial, de Sevilha via “Tierra Firme” (BOXER, 1973, p. 91 apud MOTA; LOPEZ, 2015, p. 77). Assim, nas palavras do eminente historiador, podemos perceber a existência de fluxos de pessoas em um mundo dinâmico, que vai muito além dos esquemas simplistas de uma colônia totalmente fechada, sem vida, subordinada à metrópole exploradora e orientada pela rapacidade. Existe circulação interna e externa de riquezas e de pessoas, isso em diferentes momentos da história. Muitos estudos historiográficos mais recentes procuraram questionar, eentender, as dinâmicas que envolveram a circulação de pessoas, escravos e mercadorias no Atlântico, e, no caso do Brasil, do Atlântico Sul. Nesse sentido, recomendamos a obra de Luis Felipe de Alencastro, O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul Séculos XVI e XVII (2014). No prefácio, o autor escreve: Formação do Brasil no Atlântico Sul: o leitor que bateu o olho na capa do livro estará intrigado com o subtítulo. Quer dizer então que o Brasil se formou fora do Brasil? É exatamente isso: tal é o paradoxo histórico que pretendo demonstrar nas páginas seguintes. Nossa história colonial não se confunde com a continuidade do nosso território colonial. Sempre se pensou o Brasil fora do Brasil, mas de maneira incompleta: o país aparece no prolongamento da Europa. Ora, a ideia exposta neste livro é diferente e relativamente simples: a colonização portuguesa, fundada no escravismo, deu lugar a um espaço econômico e social bipolar, englobando uma zona de produção escravista situada no litoral da América do Sul e uma zona re reprodução de escravos centrada em Angola. Desde o final do século XVI, surge um espaço aterritorial, um arquipélago lusófono composto dos enclaves da América portuguesa e das feitorias de Angola. É daí que emerge o Brasil no século XVIII. Não se trata, ao logo dos capítulos, de estudar de forma comparativa as colônias portuguesas no Atlântico. O que se quer, ao contrário, é mostrar como essas duas partes unidas pelo oceano se completam num só sistema de exploração colonial cuja singularidade ainda marca profundamente o Brasil contemporâneo (ALENCASTRO, 2014, p. 9). Ou ainda, em uma entrevista muito breve dada a Mariluce Moura para a revista Pesquisa Fapesp, Luis Felipe Alencastro esclarece rapidamente seu olhar sobre o Brasil, o Atlântico Sul e a escravidão: 86 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I O ponto central dessa história é, certamente, a visão de que as raízes desta nação encontram‑se não em seu próprio território, mas num espaço transcontinental, luso‑brasileiro e luso‑africano, fortemente sustentado por uma zona econômica formada pelo Brasil e por Angola que se mantém do século XVI até a efetiva extinção do tráfico negreiro em 1850. [...] Estava fazendo uma tese de doutorado com Frédéric Mauro. Ele era discípulo de Fernand Braudel, que liderava um grupo de historiadores que trabalhavam na perspectiva de uma história global, tanto na questão do espaço, que era a Europa nas relações com os países não europeus, como também no aspecto transdisciplinar, envolvendo a geografia, a economia, a demografia e outras ciências (MOURA, 2011, p. 10‑12). Assim, o autor passa a explicar um pouco de sua trajetória e como isso foi importante para a construção de sua visão sobre seu objeto de estudo: Frédéric Mauro trabalhava nessa perspectiva, por exemplo, com o vice‑reino da Nova Espanha e de Vera Cruz, que englobava não só a América Central e o México, mas também as Filipinas. Essa compreensão me deu muita liberdade para ver as relações que Rio, Pernambuco e Bahia tinham com Luanda. Depois, a Bahia tem muito mais relação também com o antigo Daomé, hoje Benin, na Costa da Mina. Isso formava um todo, muito mais do que o Brasil ou a América portuguesa. Porque o Estado do Grão‑Pará e Maranhão, isto é, todo o território do Rio Grande do Norte para cima, estava completamente isolado de Pernambuco, Bahia, Rio etc. [...] Tinha que se fazer a navegação via Lisboa. Eu dou vários exemplos dessa dificuldade: Raposo Tavares e os 1.200 paulistas de sua bandeira saem por esse sertão afora em 1648 e vão chegar a Belém em 1651. É uma das maiores marchas por terra daquela época. Vão até parte da Bolívia, depois sobem pelos rios, chegam em Belém, mas para voltar a São Paulo tiveram que ir a Lisboa porque não tinha navio que viesse para baixo com a correnteza que vai para o norte, a partir do Rio Grande do Norte, e os ventos que sopram para o norte ou para leste e oeste. Se tentassem, o barco os levaria para a Guiana. Inversamente, era bastante fácil ir a Luanda e ao Daomé saindo da costa brasileira abaixo de Pernambuco porque os ventos e as correntes eram favoráveis, tinha navegação disponível e isso teve influência até numa reorganização das dioceses. Depois do período filipino, a Espanha pressionou o papa para não reconhecer o Portugal dos Bragança e aquilo se arrastou até 1669. Bispos morriam e não eram renovados, dioceses ficavam abandonadas. Na reorganização, fizeram uma nova diocese no Maranhão e ela dependia do arcebispado de Lisboa. Criaram o arcebispado da Bahia e ele tinha autoridade sobre a diocese de Luanda (MOURA, 2011, p. 12). Com a sagacidade que a prática da crítica pode ajudar a desenvolver, continua, em mais um trecho da entrevista: 87 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA O problema é que os manuais da escola primária e secundária, e até algum livro ou outro de historiador, mostram que Cabral descobriu o Brasil já tendo as fronteiras do Acre e tudo, quando o processo de formação é muito mais complicado. [...] Uma coisa que ninguém fala é que Os Lusíadas, que é de 1572, poema para o qual Camões se documentou para narrar a epopeia dos descobrimentos, como todo mundo sabe, fala em suas 1.200 estrofes apenas quatro vezes do Brasil. Duas de maneira indireta. Isso dá a dimensão da insignificância que era o Brasil no século XVI. Importante então era a Índia, a Ásia portuguesa. [...] Gostaria que você explicasse o caráter econômico que atribui às expedições mistas de portugueses e brasileiros que foram guerrear na África no século XVII. — Isso é justamente outra forma de mostrar que não tinha ainda Brasil. Os paulistas estavam envolvidos na caça aos índios no Paraguai, produzindo alimentos em São Paulo para venda na própria região, enquanto Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia estavam em ligação marítima com a África e produzindo para exportação. Era outro sistema desde a época espanhola, mas, sobretudo, a partir de 1648 na guerra holandesa. Quando os holandeses chegaram em Recife para controlar o açúcar, perceberam que o que dava dinheiro não era só plantar cana e fazer o açúcar, mas também vender africanos para os senhores de engenho. E eles saíram de Recife em 1641 para atacar Angola e pegar assim os polos do sistema escravista. Quando começou a guerra de guerrilhas em Pernambuco, saiu também uma expedição do Rio de Janeiro, para expulsar os holandeses de Angola em 1648. Ou seja, o Rio era um entreposto comercial desse grande negócio. — Sim, era um nexo comercial nesse negócio que tinha a ver com Buenos Aires. Então, do Rio, os portugueses vão se equipar, financiar uma frota e vão atacar os holandeses em Angola. Não vão levar ajuda para os rebeldes anti‑holandeses de Pernambuco, querem é pegar o deles. Derrotam os holandeses em agosto de 1648, em Luanda, em São Tomé e em Benguela e os expulsam de Angola, o que vai enfraquecê‑los em Pernambuco. A partir desta época, começa a haver uma presença mais ativa, comercial, política e militar, dos colonos do Brasil em Angola, expandindo o tráfico e as bases da ocupação portuguesa na região. É interessante notar que o tráfico inglês, importantíssimo, maior que o português até o final do século XVIII, o tráfico francês, o holandês, todos mandavam seus agentes até as praias e lá tinham seus intermediários locais, mas só os portugueses junto com os colonos brasileiros entraram terra adentro, pilhando e expandindo as redes de tráfico na África e mais exatamente em Angola (MOURA, 2011, p. 12‑15). 88 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 2016 Unidade I Dessa maneira, acreditamos que Alencastro contribui para um olhar não simplista sobre o Brasil e que, além disso, estrutura parte significativa de sua crítica tendo como fundamento que, em seu desenvolvimento, a escravidão, além de imoral, acaba por ser ilegal também – mas isso já para o Império do Brasil. Retornando um pouco após tantas e tão ricas referências, uma vez que falamos aqui de escravos, é preciso também apontar que foi com o açúcar que tudo se estruturou na América Portuguesa. Para que os que não sabem o que custa a doçura do açúcar a quem o lavra, o conheçam e sintam dar por ele o preço que vale; e quem de novo entrar na administração de algum engenho, tenha estas notícias práticas, dirigidas a obrar com acerto, que é o que em toda ocupação se deve desejar e intentar (ANTONIL, 1923, p. 64 apud MOTA; LOPEZ, 2015, p. 89). Se recordarmos que a cultura do açúcar já era uma importante indústria atlântica portuguesa, antes mesmo de o Brasil entrar nesse circuito comercial, isso ajuda a entender como, ao encontrar condições favoráveis, esse produto foi estimulado. Se o início dessa produção na América Portuguesa se deu em São Vicente, a explosão ocorre na Bahia e em Salvador, despertando, mais uma vez, a cobiça estrangeira. Com o açúcar, o tráfico de escravos se estruturava de maneira fundamental e era tão lucrativo que envolvia os dois lados do Atlântico. A expansão da agroindústria do açúcar para o Brasil foi responsável pela intensificação e pelo desenvolvimento do tráfico em grande escala de escravos africanos, tornando‑se um dos setores mais rentáveis do comércio colonial. Durante quase um século, o binômio açúcar/escravidão africana configurou um fenômeno estritamente português. Ao longo do século XVI, negreiros portugueses arremataram também o lucrativo fornecimento de escravos negros para as Índias de Castela – o asiento, contrato cedido pela Coroa castelhana a particulares. As figuras principais desse tráfico abasteciam os mercados hispano‑americanos e atraíam a prata espanhola para os cofres do rei de Portugal (MOTA; LOPEZ, 2015, p. 92). Ainda pensando na época colonial, quando chegamos ao século XVII, essa dinâmica atlântica parece ficar ainda mais evidente, talvez em razão dos conflitos, ou ainda pela circulação de capitais. Saiba mais O trabalho compulsório e o exclusivo metropolitano eram constantes e bastante diversificados no decorrer dos diversos momentos da colonização, mas, em determinados momentos nos quais se precisa entender melhor as estruturas coloniais e suas instituições em termos de permanências ou mudanças, sugerimos a leitura de: 89 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA ALMEIDA, C. M. C.; OLIVEIRA, M. R. Conquista do centro‑sul: fundação da Colônia de Sacramento e achamento das Minas. In: FRAGOSO, J.; GOUVÊA, M. F. (Org.). O Brasil colonial. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. v. 2. p. 267‑334. Uma vez mais, insistimos que não é possível entender a América Portuguesa isolada do restante do universo atlântico: A política de colonização aplicada pelos portugueses no Brasil até meados do século XVII é a mesma utilizada pelos holandeses durante os 35 anos de sua colonização do Nordeste: concentrar a atenção e recursos nos núcleos maiores – para os holandeses, apenas o Recife – e controlar indiretamente as demais povoações. Colocados em face das mesmas condições, dois tipos de colonizadores comportam‑se de forma semelhante (MOTA; LOPEZ, 2015, p. 101). A partir do momento em que se dá a União das Coroas de Espanha e Portugal, sob o comando espanhol, os inimigos da Espanha – principalmente protestantes –, são também inimigos dos lusos. A Espanha tinha problemas importantes com a difícil articulação entre católicos e protestantes e desde 1568 os holandeses, então pertencentes aos domínios dos Habsburgos, passam a lutar por sua independência, ainda mais quando a monarquia espanhola ultra‑católica precisa, desde o Concílio de Trento, de 1545, combater os protestantes, tidos como hereges. A então poderosa monarquia ibérica era, em fins do século XVI, também confrontada nos mares pelos ingleses e desde o episódio da Invencível Armada, de 1588, a força espanhola começa a definhar. Ao se separarem, os holandeses se tornam a República das Províncias Unidas do Norte (Holanda, Zelândia, Frísia, Utrecht, Guéldria, Overissel e Groningen), segundo Mota e Lopez (2015, p. 105), e seus mercadores e guerreiros já possuíam grande experiência naval. O alvo preferencial dos holandeses na América Portuguesa foi Salvador, cidade capital e que, além disso, possuía grande quantidade de engenhos de açúcar no Recôncavo. Fracassada a primeira investida, entre 1624 e 1625, a Companhia das Índias Ocidentais segue para a outra zona de açúcar (outra área fundamental para os portugueses). Insistimos no aspecto religioso desses confrontos, uma vez que eles aparecem constantemente nas falas, documentos e historiografia sobre o período. Caso notório foi o da conversão de nativos potiguares ao calvinismo. Pedro Poti, primo de Filipe Camarão, mesmo preso e mandado a ferros para Portugal, não abjurou sua nova fé. Se o móvel da conquista holandesa da região açucareira foi a inegável busca de lucros, junto a ela estava a “dificílima” missionação calvinista. Na visão holandesa, os calvinistas defendiam a verdadeira religião cristã, levando as disputas também para o campo do sagrado. 90 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Saiba mais Para entender a dinâmica colonial no Brasil, entre os séculos XVI e XVII, principalmente no que tange à invasão holandesa, sugerimos a leitura de: VAINFAS, R. Tempo dos flamengos, a experiência colonial holandesa. In: FRAGOSO, J. L. R.; GOUVÊA, M. F. O Brasil Colonial. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. v. 2. p. 227‑265. Nassau não foi o conquistador do Brasil holandês, mas sua presença, entre 1637 e 1644, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais (WIC), é tida como um lampejo de humanismo na América Portuguesa. Em que pesem a reforma do que hoje é Recife, a relativa tolerância religiosa e a chegada a terras pernambucanas de artistas holandeses que construiriam uma visão flamenga sobre as pessoas e o país, a questão era de obtenção de lucros, e a isso se destinavam a produção açucareira e também o importante tráfico negreiro. Como já mencionado, Alencastro (2014) percebeu a existência de um fluxo atlântico significativo, e a conquista de Pernambuco é seguida pela conquista de São Jorge da Mina, em 1637, e São Paulo de Luanda, em 1641. Figura 16 – Invasão holandesa à América Portuguesa O Período Nassoviano teve prosperidade econômica em seu início, mas no final sofreu dificuldades. A “paz nassoviana” sempre foi precária, conforme aponta Vainfas (2014). Prossegue: O próprio Nassau ordenou [...] as conquistas de Angola e do Maranhão, no mesmo ano de 1641, e não se cansou de alertar a WIC sobre o perigo de 91 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA uma insurreição geral dos luso‑brasileiros contra o domínio holandês. Desse perigo deu prova o levante do Maranhão, em 1642, que resultou na expulsão dos holandeses das terras maranhenses no ano seguinte. João Maurício de Nassau deixou o Brasil em maio de 1644. A partir de sua demissão, a dominação holandesa entra em colapso (VAINFAS, 2014, p. 250). Esse trecho serve para apontar limites e tensões na presença holandesa, posto que, no senso comum, muitas vezes aparecem contrapostas as colonizações portuguesa e holandesa, sendo a primeira tida como opressorae gananciosa, enquanto o período holandês seria de progresso e humanismo. Isso é o que o eminente historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello chamou de “nostalgia nassoviana” (VAINFAS, 2014, p. 260): [...] os holandeses fracassaram no Brasil por diversas razões [...] vale citar, pelo menos, a explicação oferecida por Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil. Embora sublinhasse o caráter arcaico e deletério da colonização portuguesa, Sérgio Buarque discordou dos que celebravam a superioridade do estilo holandês de colonizar. “O zelo animador dos holandeses na sua notável empresa colonial só muito dificilmente transpunha os muros das cidades e não podia implantar‑se na vida rural do nosso nordeste, sem desnaturá‑la e perverter‑se. Assim, a Nova Holanda exibia dois mundos distintos, duas zonas agregadas. O esforço dos colonizadores batavos limitou‑se a erigir uma grandeza de fachada, que só aos incautos podia mascarar a verdadeira, a dura realidade econômica em que se debatiam” A leitura de “clássicos” tem essa força, podendo ser demolidora de mitos. A colonização holandesa é, também, movida pelo comércio e levada a cabo por uma importante companhia comercial que visava justamente ao lucro. 4.3 Atlantização do Império Português O período de 1580‑1640 foi conturbado para os portugueses nas suas relações com as conquistas, pois, se puderam manter certo controle sobre suas possessões, esse momento e o seguinte foram de intensas mudanças. Almeida e Oliveira (2016, p. 267) apontam que estava ocorrendo a mudança rumo ao Atlântico como “polo econômico central do Império, levando o historiador Eduardo D’Oliveira França a falar em ‘atlantização do Império Português’”, e prosseguem: Na América portuguesa ocorreu a expansão da fronteira com o fim de assegurar o estratégico acesso à prata da América espanhola. Nesse sentido, o intenso comércio estabelecido com Buenos Aires e a fundação da Colônia de Sacramento foram etapas decisivas no avanço contínuo pelo sul, a partir de duas principais frentes de colonização – Rio de Janeiro e São Paulo. Articulado a esse movimento e dando‑lhe suporte estava a África e, 92 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I mais especialmente, Angola, a despejar milhares de africanos na América (ALMEIDA; OLIVEIRA, 2016, p. 267‑8). O movimento de atlantização ao qual já nos referimos acabou por articular Rio de Janeiro, Buenos Aires, Lima e Potosí – além das relações com a África. Esse movimento constituiu verdadeiras redes mercantis com um vigoroso comércio atlântico. Vale notar ainda que no continente americano a circulação se intensificou Foi como resultado desse amplo movimento de ocupação, de expansão da fronteira no centro‑sul e da nova dinâmica do Império luso nos Seiscentos que ocorreu a descoberta do ouro, “[...] numa região remota e sinistra umas 200 milhas para o interior do Rio de Janeiro, que foi a partir de então conhecida pelo nome de Minas Gerais”. Tanto a fundação de Sacramento quanto a descoberta das Minas foram, de um lado, um desdobramento das várias tentativas da Coroa portuguesa de sair da crise em que se encontrava e, de outro lado, uma decorrência das ações e dos interesses das elites estabelecidas na América portuguesa. O fato é que a descoberta de ouro em Minas Gerais não se deu ao acaso. Desde o início da ocupação da América portuguesa pairava a expectativa de que, assim como na América espanhola, os preciosos metais aflorassem nessas terras. Diversos autores fazem referência a expedições custeadas pela Coroa portuguesa com tal finalidade desde o descobrimento. [...] a região das Minas Gerais situa‑se a oeste da grande cordilheira da Serra do Mar, barreira natural a quem desejasse abordá‑la pelo lado do oceano. Pelo fato de essa serra ser, na extensão mais próxima a São Paulo, menos alta e mais estreita, o território mineiro foi primeiro abordado por essa via (ALMEIDA; OLIVEIRA, 2016, p. 282). Devemos notar que desenvolver a discussão com os alunos em sala de aula, apelando menos ao episódico e ao curioso, pode ser, inicialmente, algo trabalhoso, mas acreditamos que essa visão mais integrada dos processos possa realmente contribuir para a noção de que existiam projetos, interesses e motivação que passam bem longe da ação grandiosa de heróis e, se pudermos retomar o pensamento de Fernando Novais, no sentido de combater a construção de mitos, então será um importante passo dado. Na colonização, a captura dos indígenas como mão de obra (apresamento ou preamento) já contribuiu para o desenvolvimento de expedições pelo sertão, e a busca de riquezas como ouro, prata e esmeraldas ganhou força. Não estamos assim dizendo que algumas atuações de figuras como Raposo Tavares ou Fernão Dias Paes Leme fossem desprezíveis, apenas que devem ser pensadas em um movimento amplo. Figura emblemática do bandeirismo paulista, Fernão Dias não estava sozinho nesse tipo de empreitada. Pelo contrário, no tipo de sociedade que se estabeleceu na América portuguesa a busca por constante incorporação de novas terras, índios e riquezas era condição sine qua non para a reprodução 93 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA do próprio sistema agrário que aí se forjou e da estrutura hierárquica dele decorrente. Também não foi o único potentado a estabelecer intensa ligação com a monarquia. Numa monarquia corporativa como a portuguesa, os poderes locais e o autogoverno eram vistos como sustentáculos da governabilidade (ALMEIDA; OLIVEIRA, 2016, p. 283‑284). Dessa maneira, descobrir riquezas fabulosas fazia parte de um esforço da Coroa, mas também de indivíduos que desejavam, com isso, participar ainda mais da sociabilidade do Antigo Regime. A historiografia mais recente tem lançado mão de noções derivadas da antropologia para o entendimento do tipo de relações que se estabeleceram entre os indivíduos e, particularmente, entre os súditos e o rei nas sociedades de Antigo Regime, nas quais as instâncias política, econômica, social e cultural se encontravam intimamente interligadas. A economia da graça, derivada da noção de economia do dom de Marcel Mauss, é uma das vias utilizadas para compreender o sistema de mercês na sociedade portuguesa de Antigo Regime. Angela B. Xavier e António M. Hespanha afirmam: a atividade de dar (a liberdade, a graça) integra uma tríade de obrigações: dar, receber e restituir. Estes atos cimentavam a natureza das relações sociais e, a partir destas, das próprias relações políticas. Deste modo, o dom podia acabar por tornar‑se um princípio e epifania do Poder (ALMEIDA; OLIVEIRA, 2016, p. 289). Talvez por isso mesmo é que a Coroa oferecesse a descobridores de ouro privilégios como foro de fidalgo da Casa Real, hábitos militares com tença e senhorio das lavras descobertas, com a única obrigação do pagamento de quinto. Apontando Almeida e Oliveira (2016) que isso representava o claro estabelecimento de um contrato entre partes, entre o rei e seus súditos, no ultramar. Esse episódio da história dos descobrimentos dos veios auríferos nos permite repensar as concepções que opõem de modo esquemático metrópoles versus colônia. Conduz‑nos, por outro lado, a não eliminar as tensões existentes entre centro e periferia, mas a perceber esses dois polos e a vida na colônia de outro modo. Demonstra, além disso, que “a lealdade ao rei, expressa não só na ocupação de diversos cargos e ofícios públicos, mas também (e sobretudo) na participação da conquista de novos territórios, era uma importante moeda de troca nas relações entre essa elite que pretendia se alçar à condição de nobreza e a Coroa” (ALMEIRA; OLIVEIRA, 2016, p. 292). A riqueza conseguida atéos dias atuais é objeto de discussões, mas, se tomarmos em conta o início do processo, será possível perceber que a sequência não foi irrelevante. Nos anos finais do século XVII, a corrida do ouro definitivamente já tivera início. As informações sobre novos achados de grandes proporções situam‑se principalmente entre 1697 e 1704. Em 1699 foram enviados a Portugal 94 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I 725 quilos de ouro, em 1701 seguiram 1.785 quilos e em 1703 já iam 4.350 quilos. Segundo Magalhães Godinho, a quantidade enviada do Brasil para o reino ainda em 1703 era maior do que todo o ouro conseguido por Portugal na Mina e na Guiné durante todo o século XVI (ALMEIDA; OLIVEIRA, 2016, p. 294). Dessa maneira, é compreensível que a atenção portuguesa passasse à América, atraindo, inclusive, milhares de pessoas no decorrer do século XVIII. Como afirmam Almeida e Oliveira (2016, p. 296), “é clássica e emblemática a descrição de Antonil sobre esse contexto”. Cada ano, vêm nas frotas quantidade de portugueses e de estrangeiros, para passarem às Minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos (ALMEIDA; OLIVEIRA, 2016, p. 296). O afluxo foi tão considerável que a Coroa passou a controlar a entrada de livres e também de escravos, e, assim, a importância da região é inegável. No entanto, as dificuldades para controlar de perto as novas regiões torna urgente a organização do poder metropolitano, o que é obtido, inicialmente, favorecendo os primeiros paulistas que chegavam às minas. Mesmo as autoridades no Rio de Janeiro e em Salvador não tinham clareza de como deveriam agir. Muito provavelmente apareçam em qualquer manual escolar que trate da época da mineração os conflitos entre colonos e também com a Coroa ou seus representantes, começando pela Guerra dos Emboabas e pela Revolta de Vila Rica. Junto ao crescimento da produção aurífera vinham a edificação de cidades e a diversificação da produção também voltada para o abastecimento interno da América portuguesa. A conexão entre América e África se intensifica, e a circulação de europeus e a entrada de escravos também. O trabalho compulsório, explorado desde os primórdios da colonização americana, contribuiu decisivamente para a estrutura do Sistema Colonial, que se torna, assim, não apenas uma presença de europeus em diversas partes do globo, mas também a organização de um sistema pautado pela acumulação de capital. Podemos admitir que existam amplos debates sobre a escravidão, seus usos, suas motivações ideológicas, religiosas e econômicas e, mais ainda, sobre as consequências para as sociedades que foram constituídas no Novo Mundo, mas tomamos como referência fundamental que a entrada de africanos nas Américas faz parte de um processo de diáspora e de exploração que fundamenta muitas práticas sociais discriminatórias até os princípios do século XXI. Não estamos, dessa maneira, simplesmente jogando tudo para a colônia, posto que isso contribui de forma limitada e isenta para o que veio depois, como a fase do Império dos Bragança ou ainda a República, alicerçada em preconceitos e oligarquias. Nossa perspectiva tem, no horizonte, que as populações trazidas para as Américas compartilham aspectos comuns desde a época colonial, no tempo imediatamente posterior e nas sociedades que se desenvolveram desde o século XX e início do XXI. Existe uma escravidão no Atlântico que domina relações africanas e americanas ao mesmo tempo. Ao mantermos a visão focalizada no Atlântico, percebemos também que o desenvolvimento político, filosófico e econômico envolvia todos, em diferentes formas, mas envolvia. 95 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Todavia, quando se trabalha em sala de aula com a questão da expansão marítima, do escravismo e do Sistema Colonial, além das grandes construções esquemáticas, acaba por surgir, diversas vezes, a comparação entre as regiões que se desenvolveram mais ou menos, em termos capitalistas. Buscam‑se, muitas vezes, na situação das colônias, diversas explicações, e é preciso cuidado com esse procedimento. Existem mitos construídos em relação às origens da riqueza e da miséria nas Américas e, como tais, são bastante difíceis de serem combatidos e contra‑argumentados. Há casos em que a comparação é um instrumento histórico de escamoteação ideológica. Um desses casos é aquele em que se estabelece um paralelo entre a conquista da América do Norte pelos ingleses e a da América Latina pelos espanhóis. O paralelo é apresentado nos seguintes termos: enquanto que na América Latina a conquista precedeu a colonização, na América do Norte se deu o oposto. Aqui, um punhado de aventureiros ávidos e corajosos, entre 1519 e 1550, devassou e devastou um continente, antes que a Metrópole plantasse uma estrutura colonial. Lá, tudo se iniciou com um grupo de pioneiros que, fugindo dos credores e da intolerância ideológica, buscavam uma nova terra e um novo lar. Essa diferença seria a causa mais profunda do diferente desenvolvimento das duas Américas. Argumenta‑se que os espanhóis vieram para cá com o único objetivo de espoliar, ao passo que os colonos ingleses que se fixaram na América do Norte eram movidos por objetivos mais profundos, como o de povoar e encontrar um lar, o que os vinculava mais estritamente à nova terra. Semelhante argumento – como o que insiste na “indolência tropical” das raças mestiças e no progressivo atraso dos países ibéricos em relação à Inglaterra – tem servido para justificar por que duas regiões, ao longo de um período cronológico relativamente idêntico, apresentavam desenvolvimentos tão díspares. É verdade que o processo de conquista e colonização foi inverso nos dois casos referidos. Há, porém, outros fatores em jogo. Em primeiro lugar, na América do Norte não foram encontrados de início ouro ou especiarias, o que a teria feito integrar‑se imediatamente no contexto mercantilista da época. Daí resultou o fato de que lá surgiram colônias de povoamento, ao contrário da América Latina, onde se formaram colônias de exploração. Por outro lado, coincidiria com a implantação do capitalismo industrial, o que determinou uma fisionomia diferente ao próprio processo de penetração. Entretanto, num caso como noutro, houve uma consequência comum: o extermínio da população indígena. O fundamental na questão do paralelo entre as diferentes formas de ocupação das duas Américas é perceber o quanto ele tem servido para camuflar uma realidade mais profunda, a da dominação de uma América sobre a outra. Claro que a América Latina vive hoje problemas cujas raízes estão em grande parte na forma que assumiu a colonização. E o maior problema é justamente o que decorre da dependência estrutural que foi parte integrante do processo colonizatório, dependência esta perpetuada até hoje, embora como fenômeno transmutado ao longo 96 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I do tempo. Atualmente, o maior beneficiário da histórica dependência latino‑americana são os Estados Unidos da América do Norte. Insistir, portanto, na origem colonial dos males do continente latino‑americano, sem articulá‑los com as responsabilidades da potência dominadora atual, significa emprestar ao contexto social sul‑americano uma dose de fatalismo histórico que se reforça ainda mais na comparação com a “outra América”. Em tal caso,o paralelo com a América do Norte torna‑se um instrumento de realimentação de um complexo de inferioridade, pois escamoteia o papel da grande potência do Norte como parte integrante e cúmplice nas misérias da América mestiça (LOPEZ, 1986, p. 26‑28 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 85‑86). Percebemos aí a cristalização de olhares que deixaram marcas profundas nas diversas maneiras de se avaliar diferentes sociedades coloniais. Cada um dos processos colonizatórios teria um determinado sentido, o que nos coloca o problema da existência dos diversos mundos coloniais apenas em si mesmos e esquecendo a ampla dinâmica colonial muito mais complexa do que o viver em Pernambuco, nas colônias francesas, inglesas ou na Nova Espanha. A construção do olhar de norte e sul não é, assim, neutra e vai determinar noções de povos de uma forma ou de outra. Deve‑se ter em mente que em termos de discurso vai se estabelecendo que certos povos estão para a emancipação assim como outros estariam para a submissão. Pode parecer exagero de discurso, mas quando observamos alguns materiais didáticos, existe, inclusive, a justificativa que de que alguns processos emancipacionistas fracassaram devido à diversidade étnica de seus membros. De uma maneira menos evidente, mas ainda assim presente, o discurso sobre a escravidão também carrega essas práticas, uma vez que se trata de separar negros africanos e indígenas em categorias tão estanques que, para olhares mais desavisados, parece que estavam submetidos a condições radicalmente diferentes nas colônias e até que um grupo não aceitava essa condição (os nativos), enquanto outro deixou‑se escravizar (os africanos). Não são recorrentes no discurso em sala de aula noções sobre a reação dos escravos, como “o índio não se acostumava com o cativeiro, seu espírito de liberdade não era compatível com a escravidão”? Não é assim que muitos manuais, que, apesar de trazerem visões antigas e superadas, ainda “explicam” o início do tráfico negreiro? Não existe aí visão de sistema, de economia e de Antigo Regime. Tudo se resume em características daqueles que foram escravizados ou não. Deve‑se recordar que parte dos nativos apresados pelos bandeirantes era destinada à mão de obra em sua capitania de origem, e outra parte, não irrelevante, era vendida para o atual nordeste açucareiro, em uma dinâmica que confronta esses olhares mais “ligeiros”. 4.4 Novo mundo: tensões e rupturas As sociedades coloniais que se desenvolveram no Novo Mundo Atlântico vivenciaram realidades que em alguns momentos nos facilita desenvolver olhares mais amplos para entender o funcionamento de um mundo com certas organicidades. Devemos notar que é preciso um pouco de cuidado ao desenvolver uma visão integrada para que não se fique preso, necessariamente, a uma série de fatos e dados que podem ser vistos como importantes para 97 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA a construção de um quadro mais geral, mas que, no entanto, acabam por atrapalhar sua elaboração. Se estivermos tentando incutir uma visão mais ampla, dar ênfase ao episódico pode ser uma das maneiras de esvaziar a importância da visão mais geral, e isso não é o nosso objetivo. Não estamos com isso negando a importância de, em alguns momentos, nos determos em alguns textos com os alunos, desenvolver projetos mais específicos e os importantes estudos de caso e estudos de meio. Apenas salientamos que o esforço para que a História Integrada funcione deve trabalhar numa visão em que existe a ocorrência de muitos eventos, interesses e realidades contribuindo para a situação mais geral. Talvez por esse motivo, quando nos aproximamos dos séculos XVIII e XIX, seja um pouco mais simples perceber isso. Foram momentos de intensas mudanças em quase todos os setores da vida das pessoas. Do mais alto funcionário da mais faustosa corte ao camponês mais miserável que luta para sobreviver e vive à sombra da escravidão que ele ou seus antepassados vivenciaram, tudo mudava num ritmo, para eles, alucinante. O que estava em transformação era a própria base das sociedades, e, no caso que mais nos interessa aqui, das sociedades que estamos trabalhando, como as atlânticas, desde as metrópoles até as colônias. Se o século XVIII foi mesmo a Era das Revoluções, muito do que estava dado se alternava numa escala jamais vista. Observação A visão de Era das Revoluções é tributária do célebre historiador de língua inglesa, Eric Hobsbawm, que, entre muitos outros escritos, produziu uma tetralogia absolutamente importante para todo professor de história com uma perspectiva de crítica social, os clássicos A Era das Revoluções, A Era do Capital, A Era dos Impérios e A Era dos Extremos. Se desejamos buscar o sentido das mudanças, talvez seja útil ampliar a visão de forma a perceber o conjunto. Uma vez que as colônias não existiam isoladas, muito do que vivenciavam remetia ao quadro geral. A Europa, controladora do Antigo Sistema Colonial e matriz do Antigo Regime, passava desde o século XVII por alterações substanciais. As mudanças têm tanta relevância que nos acostumamos, inclusive, a falar em uma nova maneira de pensar, o Iluminismo. Inserido num movimento que podemos perceber com a ascensão social da burguesia, novas mentalidades, práticas sociais e econômicas modificam substancialmente o cotidiano. Devemos ter em conta que as alterações não se deram da noite para o dia e muito menos porque alguns melhores do que outros simplesmente existiram. Se apelarmos para a genialidade e o heroísmo, poderemos perder a noção de acumulação e desenvolvimento da experiência humana. 4.5 Iluminismos O racionalismo significou um distanciamento de noções medievais tributárias da Escolástica que, junto à Igreja Católica, formaram as inteligências ocidentais por muitos séculos. Para muitos, as modificações já estavam postas desde fins do século XVI e meados do XVII, com pesquisas e especulações elaboradas por René Descartes, com seu Discurso do Método; com Bacon e com John Locke, autores de língua inglesa, assim como Newton. Talvez aqui a noção de precursores possa contribuir para que os alunos entendam uma visão de movimento amplo, de acumulação de discussões e questões que não são próprias de uma única pessoa. Galileu estava sozinho? PNos parece que não. 98 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Figura 17 – Capa da Enciclopédia, a obra que buscou reunir todo o conhecimento racional produzido até o século XVIII Saiba mais Para se aproximar da complexidade da figura histórica de Galileu Galilei e se fugir às idolatrias cientificistas, recomendamos a aproximação pelo universo das artes. O teatro foi a arte escolhida: LISBOA FILHO, P. N.; LAVARDA, F. C. Galileu. Bauru: Unesp, 2012. Disponível em: <http://wwwp.fc.unesp.br/~lavarda/galileu/a_vida_de_ galileu_2012_03_19.pdf>. Acesso em: 4 maio 2016. Para se aproximar do universo mental da ditadura cívico‑militar vigente no Brasil entre 1964 e 1985, indicamos a leitura do seguinte artigo, que trata do espetáculo “Galileu Galilei”, apresentado pelo Teatro Oficina, de São Paulo: RIBEIRO, N. C. Galileu Galilei de Bertolt Brecht no palco do Oficina: representações do Brasil de 1968. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA, 27., 2004, São Paulo. Anais... São Paulo: ANPUH, 2004. Disponível em: <http://www.anpuhsp.org.br/sp/downloads/CD%20XVII/ST%20VIII/ Nadia%20Cristina%20Ribeiro.pdf>. Acesso em: 4 maio 2016. 99 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA As mudanças atingiram diferentes reinos absolutistas em graus variados, mas geralmente a ênfase dos manuais está emtratar da França e de Portugal. No primeiro caso, talvez porque a reunião de vários pensadores que serão tidos por iluministas, catalisou o processo revolucionário. No segundo caso, a condição de metrópole afetaria diretamente a situação das colônias, para nós, particularmente, da América Portuguesa. A corte francesa atingira o apogeu do fausto e do brilho com Luís XIV, o Rei Sol, mas os tempos no século XVIII eram bastante diferentes. Desde o século XVII, as críticas ao absolutismo se avolumavam. Pensadores com Voltaire atacavam os privilégios da nobreza e o clero. Montesquieu, com seu Espírito das Leis, lança as bases do que será a tripartição de poderes do Estado – antes concentrados na soberania do rei –, o Executivo, o Legislativo e o poder Judicial (Judiciário) seriam separados. Outros pensadores, como Diderot e D’Alembert, os enciclopedistas, afirmavam: A obra que começamos (e que desejamos concluir) tem dois objetivos: como Enciclopédia deve expor tanto quanto possível a ordem e o encadeamento dos conhecimentos humanos; como Dicionário Racionado das Ciências, das Artes e dos Ofícios, deve conter sobre cada ciência e sobre cada arte, quer seja liberal, quer seja mecânica, os princípios gerais em que se baseia (MORAES, 1998, p. 231). Ainda, como ressalta Moraes (1998), havia o pensamento original de Rousseau, com O Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os Homens e O Contrato Social. Para efeito de discussão, suponho que, em certo momento, a humanidade tenha atingido um ponto em que as desvantagens de continuar num estado de natureza ultrapassaram as vantagens. Nestas condições, o estado original da natureza não poderia mais continuar. A espécie humana teria perecido, se não tivesse mudado as suas soluções. Os homens, como seres humanos, não podem desenvolver novos poderes. Mas podem unir e controlar os poderes que já têm. Os homens em estado de natureza podiam se reunir, reunindo suas forças, de maneira a lhes permitir enfrentar qualquer desafio. Tiveram de aprender a trabalhar juntos sob uma direção central. Uma concentração real de poderes humanos só poderia ocasionar o resultado de um acordo entre indivíduos. Mas cada homem, individualmente, apoia‑se em suas forças e em sua liberdade de ação para se proteger e se preservar. Como ele pode limitar sua força e sua liberdade de ação sem se prejudicar e deixar de cuidar de seus interesses? É preciso encontrar alguma forma de associação para reorganizar toda a comunidade para a proteção da pessoa e da propriedade de cada um de seus cidadãos, de tal maneira que cada homem, como é membro voluntário da associação, presta obediência à sua vontade e continua, portanto, tão livre quanto era antes. E este é o problema básico resolvido pelo contrato social. Rousseau, Jean Jacques. O Contrato Social (FENTON, 1974 p. 92 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 147). 100 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I Assim, para construir a ideia da natureza do contrato social, Rousseau continua: As condições do contrato social são determinadas pela natureza do ato (de associação) de tal maneira que a menor modificação as invalidará. Mesmo que as cláusulas de associação nunca tenham sido aceitas formalmente em reunião aberta, são as mesmas em toda parte e são universalmente reconhecidas. Se o contrato social fosse rompido de alguma forma, por alguém, então cada indivíduo poderia imediatamente readquirir todos os direitos que eram seus, em estado de natureza. Reconquistaria sua liberdade natural ao perder a liberdade do contrato social, pela qual privou‑se originalmente de sua liberdade de ação. É possível estabelecer com simplicidade o fundamento do contrato social: cada indivíduo submete todos os seus direitos à comunidade. Como cada homem submete seus direitos sem reservas, são todos iguais. E como são todos iguais, é do interesse de todos tornar a vida agradável para seus companheiros. Como todos [os] direitos foram submetidos à comunidade sem reservas, ninguém tem qualquer reivindicação contra o grupo. Se foram deixados alguns direitos aos indivíduos e ninguém recebeu autoridade para resolver entre os direitos individuais e o bem público, então cada homem tentará ampliar o alcance daqueles direitos que reservou para si. Esta situação significaria que um estado de natureza ainda existe. Todos os direitos devem ser entregues; nenhum pode ser conservado. [...] A fim de que o contrato social não seja apenas uma fórmula vazia, todos precisam compreender que todo indivíduo que se recusa a obedecer à vontade geral deve ser forçado por seus companheiros a fazê‑lo. É uma maneira de dizer que pode ser necessário forçar um homem a ser livre; sendo neste caso a liberdade, a obediência à vontade de todos (FENTON, 1974 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p.146). Escolhemos aqui um nome ao mesmo tempo bastante conhecido – ao menos no âmbito acadêmico –, mais voltado para os estudos da educação, mas que também difere dos demais, uma vez que estabelece princípios que não são apenas a defesa do racionalismo, mas de noções que construirão as modernas bases da democracia. Está claro que o processo geral de mudanças não atinge a todos de uma única vez e muito menos da mesma maneira. As sociedades metropolitanas estavam em mudança, as colônias também. Se o mercantilismo não respondia mais a todas as necessidades econômicas em termos de explicação e fundamentos, outras articulações surgiam, como os fisiocratas franceses, que defendiam uma nova realidade da economia, marcada por uma maior liberalização, sob o lema “Laissez‑faire, laissez‑passer, le monde va de lui même”, cunhado por Gournay no século XVIII, traduzível como: deixai fazer, deixai passar, que o mundo vai por si mesmo. Seria ingênuo acreditar que toda a estrutura de privilégios ignoraria as modificações e críticas que sofria. A racionalidade que, pouco a pouco, se estabelecia chegou também às estruturas dos Estados europeus, e algumas monarquias fizeram modificações substanciais. 101 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Pode‑se perguntar [...] se a filosofia das Luzes, assimilada a um modo de pensamento dominante no seio das elites, penetrara no conjunto das mentes nacionais às vésperas de 1789. Podemos ainda interrogar‑nos sobre a natureza revolucionária desse pensamento das Luzes. Foi ela a fonte de estremecimento psicológico que caracterizou o fim do Ancien Régime e precipitou sua queda? [...] Pode‑se duvidar disso e achar, [...] que a influência social desse pensamento no século XVIII permaneceu muito limitada. Mesmo no seio da minoria capaz de se abeberar dele, os temas profissionais, religiosos e históricos continuaram a dominar as preocupações culturais. Os livros pios eram mais consumidos, na província ou em Paris, que os dos filósofos. Quanto aos gostos intelectuais do povo, continuavam ligados ao sobrenatural, ao maravilhoso e ao fantástico. A nobreza esclarecida era o único grupo da população capaz de compreender e patrocinar a filosofia das Luzes. Não lhe faltou com seu apoio, foi a ela que os grandes escritores do século XVIII deveram o essencial do seu sucesso (SOLÉ, 1989, apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 149). Apresentando o resultado dessas mudanças compilado numa vasta coleção chamada de Enciclopédia: A Enciclopédia foi, em sua origem, uma operação aristocrática. E os nobres parlamentares das províncias encorajam nela, em primeiro lugar, as novas curiosidades da razão. Essas curiosidades permaneceram estranhas, até as vésperas da Revolução, à massa da população, burguesa ou popular. A maioria dos temas das Luzes pouco tinha a ver com seus problemas concretos.As pessoas simples permaneceram no todo mais sensíveis à influência da religião católica. É certo apenas que revolucionários de 1789 – estreita minoria dirigente – foram os herdeiros, utilitaristas e dessacralizadores, da filosofia do século XVIII. Essa filosofia triunfou, portanto, graças à elite esclarecida, no seio da nova ordem, fundando um regime liberal e representativo. Mas essa vontade do país legal não correspondia muito às preocupações do país real. Aparentemente paradoxais, essas opiniões parecem confirmadas por inúmeros estudos recentes, que mostram o frágil enraizamento das Luzes, até a primavera de 1789, numa burguesia profundamente conservadora. Elas limitam sua influência social à parte esclarecida na nobreza [...]. Ao lado dos salões, das academias e do conjunto do establishment intelectual, conquistados pelos novos filósofos, a maioria da opinião pública continuava‑lhes estranha, se não oposta. Obcecados pela fachada “parisiense” da vida francesa, os historiadores por demasiado tempo reconduziram uma cultura nacional que continuava a ser, na província, muito tradicionalista. Como parece fraco no plano social, em relação a esse peso do passado, o de uma filosofia do século XVIII cuja influência se limitou a alguns milhares de leitores! Essa elite minoritária dirigiu logicamente sua luta intelectual contra superstições populares que desprezava, sem alcançá‑las. Foram elas que, no folclore rural, por exemplo, e à sombra complacente da 102 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I religião, constituíram sempre o essencial da cultura nacional (SOLÉ, 1989 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 149). Em quais bases isso se dava? Quais os “alvos preferenciais” das críticas? O racionalismo das Luzes ataca antes de mais nada, em suma, as opiniões da maioria dos franceses. E é forçada a constatar, como na Enciclopédia, sua incapacidade de mudá‑las em profundidade [...] A seu lado, [o autor se refere à intensa religiosidade popular] parece bem insignificante, no plano numérico, a influência do pensamento das Luzes. Tanto mais quanto lhe faltam ao mesmo tempo, como se verá, unidade, audácia real e um verdadeiro público às vésperas de 1789, quando o irracionalismo dos ocultistas impressiona mais os espíritos que o racionalismo dos filósofos. [...] D’Alembert, que foi em parte o corifeu desses profissionais, teve razão ao aprovar com pesar seu bom amigo Frederico II, quando, em 1776, achava que “a França, com todos os filósofos, dos quais se gaba, a torto e a direito, ainda é um dos povos mais supersticiosos e menos adiantados da Europa” (SOLÉ, 1989 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 149). Quando observamos as potencialidades da época, devemos ter em mente que era um projeto mais ou menos organizado de superação do Antigo Regime e, se não foi um caminho linear, é porque a História é repleta de confrontações e alternativas, resistências mesmo das formas da velha ordem que ruía. Ao longo do século XVIII, a reflexão aguçou‑se e tornou‑se cada dia mais audaciosa. Cada geração das Luzes desferiu um golpe no edifício monárquico e abalou‑o até os alicerces. Fénelon afirmou que o poder deveria ser limitado pela autoridade das leis, e Boulainvilliers constatou a anterioridade do poder da Nação sobre a usurpação monárquica. Os parlamentares, reduzidos ao silêncio por Luís XIV, levantaram o princípio do seu direito de controle e da superioridade da lei sobre o rei. Montesquieu elaborou a doutrina da monarquia equilibrada e formulou o célebre princípio dos equilíbrios: “Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder suspenda o poder”. Enfim, Mably e Rousseau foram ainda mais longe: depois deles, a soberania nacional não foi mais contestada abertamente, o direito da Nação prevaleceu sobre o direito divino dos reis. Ao mesmo tempo que o pensamento das “Luzes” fazia ressurgirem princípios há muito encobertos pela teoria do direito divino dos reis, o esmorecimento das crenças religiosas, os ataques da filosofia e da ironia racionalista golpeavam a fé secular na Santa Âmbula (vaso conservado em Reims, onde se guardava o óleo que servia para ungir os reis de França), que, pela graça da sagração, fazia do rei uma espécie de sacerdote e taumaturgo e o investia de um poder sobrenatural, transformando‑o em uma figura ao mesmo tempo benfazeja e terrível, à maneira de um destino intercalado entre os homens e Deus. A essa fé ingênua, a chacota respondia agora. Ao poder 103 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA miraculoso do rei que, no dia seguinte à sagração, curava os abscessos (o Rei te toca, Deus te cure!) opôs‑se a incredulidade e murmurou‑se que essa mágica era só superstição. Esse sinal visível de sua legitimidade divina desmoronou sob o ceticismo geral. Enquanto os radicais prosseguiam sua obra de solapamento e o desprezo se elevava em torno do trono, desenvolvia‑se paralelamente uma atmosfera de prodígios, suscitados por charlatães, transformados em ídolos pela moda, que profetizavam o advento de uma era de felicidade e a iminência de grandes convulsões. [...] Enxertado em uma insatisfação difusa, mas geral, o sucesso do irracional numa sociedade desmoralizada secundava os esforços dos “filósofos” e impunha a ideia de que o regime e a sociedade deveriam sofrer profundas mudanças e que a hora da “regeneração” estava próxima. (CHAUSSINAND‑NOGARET, 1989 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 149‑150). Por acaso, o restante do mundo acompanhava o que acontecia de mais crítico no centro do sistema colonial? Sim, muito mais do que os manuais que compartimentam os eventos e os reduzem a realidades desligadas demonstram, havia uma intensa circulação de ideias que integrava sociedades coloniais, homens de letras e críticos daquela realidade. Pelo menos desde 1786 há provas seguras de que as ideias de revolução estavam em elaboração. Estudantes brasileiros, nas universidades europeias, discutiam a questão da independência. José Joaquim Maia, natural do Rio de Janeiro, matriculou‑se em Coimbra, em 1783, onde estudou Matemática. Em 1786, seguiu para a França onde ingressou na Faculdade de Medicina de Montpellier. Ousadamente, com o pseudônimo de Vendek (FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 149‑150). 4.6 Revoluções e crise do Antigo Sistema Colonial Sugerimos que talvez fosse uma estratégia mais rica se observar realidades outras que não apenas aquelas diretamente ligadas a um passado histórico nacional. Quando abordamos a questão das independências, por exemplo, faz realmente algum sentido pensar uma dinâmica que seja exclusivamente brasileira? Parece que não. Por acaso, não estava o que seria o Brasil visceralmente interligado à realidade de Portugal e, portanto, do mundo atlântico que estalava internamente e onde se começavam a se perceber fissuras que derrubariam esse edifício colonial? Era uma dinâmica própria do Brasil e de Portugal? Da mesma maneira, quando tratamos da escravidão e dos conflitos no continente, cada caso foi tão específico que deve ser desligado do restante da realidade continental? Enquanto se veem as diferenças entre a Revolução Norte‑Americana e a Francesa, diferenças que foram muito felizes para a História subsequente dos Estados Unidos, deveríamos também admitir algumas semelhanças, aceitar as duas como revoluções significativas e vê‑las como as duas principais manifestações de um movimento ainda mais geral, que pode ser denominado revolução democrática do século XVIII. Esta, de maneira mais 104 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I específica,foi um movimento contra a aristocracia, no sentido de uma elite que se autoperpetuava, privilegiada, hereditária, oligárquica ou do grupo governante; e como a aristocracia neste sentido era característica de todo país europeu, e de maneira alguma desconhecida nos Estados Unidos da América, os movimentos contra ela eram movimentos afins, que poderiam ser estimulados um pelo outro (FENTON, 1974 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 216). Podemos recordar, em sala de aula, por exemplo, algo que parece que muitas vezes passa despercebido em função do recorrente discurso eurocêntrico e que hierarquiza percepções: o fato de que a Revolução Americana é de 1776 e a Revolução Francesa é posterior, de 1789. Houve alguma coisa na Revolução Norte‑Americana que correspondia e evocava alguma coisa na Europa, e, portanto, o impacto lá causado pela Revolução Norte‑Americana foi imediato e profundo. Existe aqui outra dificuldade para os historiadores, que acentuam o caráter único e não exportável da Revolução Norte‑Americana. São obrigados a acreditar que muita gente que vivia naquele tempo estava errada. Os conservadores censuravam‑na, os progressistas aclamaram‑na, mas houve um amplo acordo a respeito de um fato – o fato de que a Revolução Norte‑Americana desencadeou, de certa forma, uma série de revoluções em outros países [...] Houve muitas razões para que o nascimento dos Estados Unidos tivesse uma influência revolucionária na Europa. Parecia oferecer uma prova dramática daquilo que os europeus do período das Luzes já acreditavam. A independência do Novo Mundo foi tomada como significando a aurora de uma Nova Era. Confirmava o sentido de progresso e de mudança rápida. A nova Constituição Norte‑Americana e a Declaração de Direitos pareciam provar que as ideias europeias de liberdade e de igualdade, de contrato social e soberania do povo, não podiam existir apenas nos livros, mas também na vida real. Tudo isto inspirou a visão confiante no futuro, sem a qual não pode haver psicologia revolucionária. Também faz parte de uma psicologia revolucionária ter uma atitude negativa, um sentido de alienação ou rejeição da ordem existente. Também isto foi provocado na Europa pela Revolução Norte‑Americana, especialmente entre as pessoas da classe média, que começavam a se ressentir da superioridade da aristocracia, e ficavam ainda mais insatisfeitas com o que ouviam e liam a respeito da América. Em qualquer ordem social pode ser muito perturbador, e solapar as bases da lealdade política, o fato de um grande número de pessoas fixar permanentemente seu pensamento em outro país, que acredita livre dos defeitos do seu, e onde pensa que os desejos mais profundos para o seu país já estão em processo de execução. Quer nós, norte‑americanos de hoje, aprovemos ou não este tipo de coisa, a verdade parecer ser que os Estados Unidos nascentes, nos anos decisivos que precederam a Revolução Francesa, tiveram precisamente esta consequência sobre a ordem existente 105 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA na França e na Europa (FENTON, 1974 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 216). Quando a crise tomou a dimensão que viria a abalar o próprio Sistema Colonial, a circulação de ideias e de homens não era evidente? Quando mencionamos algumas figuras como San Martín ou Bolívar, não estamos buscando erigir monumentos perpétuos à sua grandiosidade e ao seu heroísmo como próceres ou pais da pátria. Desejamos, antes, procurar vislumbrar o que a realidade de onde emergiram nos ajuda a compreender do restante da crise que levaria à superação das condições de operacionalidade daquele mundo que se desestruturava. Ou seja, de que maneira se instaurava a crise. Às costas da América Espanhola chegavam as alternativas da guerra nacional espanhola e as discussões reveladoras das Cortes de Cádiz. Ao mesmo tempo, as tropas espanholas no Novo Mundo, divididas interiormente entre servis e liberais, exteriormente eram a expressão do Império Espanhol e reprimiam onde podiam as tentativas crioulas de reassumir a soberania. Além disso, brotavam na América os interesses regionais privilegiados das classes crioulas, exportadoras e latifundiárias, que geralmente, em relação ao Império Britânico, só pensavam em romper com a Espanha para poderem enriquecer à vontade. Contudo, um punhado de patriotas encabeçava em toda parte a ideia nacional hispano‑americana e começava a levantar exércitos e a propagar a revolução. Quase concluída esta com a derrota completa da luta militar na península, regressavam para a América alguns oficiais crioulos do exército espanhol de San Martín, Alvear, Iriarre. No exército espanhol na América se refletiam não só as contradições básicas em que se dividia a sociedade espanhola, como ainda os próprios antagonismos americanos. Havia oficiais espanhóis índios, como Santa Cruz, que lutaram contra os americanos durante anos antes de se incorporarem à luta pela independência. Do mesmo modo, nas planícies venezuelanas, assim como na Colômbia, os espanhóis contavam com o apoio dos crioulos mais humildes, chamados “castas”, homens de cor, e que eram cavaleiros e combatentes de primeira categoria. Entre os partidários da independência americana, apareceram numerosos espanhóis liberais. Assim, o drama da ruptura no Império hispano‑crioulo se revelará como uma guerra civil, tanto como uma guerra nacional (PINSKY, 1989 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 230). Sofisticando o olhar para se perceber que a realidade era muito mais ampla do que a vida nos vice‑reinos, a visão se amplia. Podemos recordar, ainda, que as próprias elites coloniais no mundo ibérico tinham como parte de sua educação e conclusão de seu amadurecimento um período de estadia no Velho Continente. Era altamente valorizada a estadia entre os metropolitanos, ao menos por alguns períodos, entre membros dessas elites. O que acontecia no centro dos Impérios, de alguma maneira, traria consequências para ambos os lados do Atlântico. Da mesma forma que os acontecimentos americanos de rebeldias e contestações da ordem nos séculos XVII e XVIII provocaram movimentações na Europa. 106 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I A revolução hispano‑americana irrompe como consequência direta da invasão napoleônica. Entretanto, uma longa gestação a tinha precedido, na história da Espanha e das Índias. A ruína irresistível do Império Espanhol se baseava na impotência de sua burguesia em varrer as instituições arcaicas da sociedade espanhola, conjurar os particularismos feudais e regionais, estabelecer o regime capitalista na península e seus domínios ultramarinos, além de situar a Espanha ao nível que os tempos modernos exigiam. Bonaparte abriu inesperadamente uma via de salvação ao povo espanhol através de uma guerra de independência nacional que adquire imediatamente uma perspectiva de reforma interior. As Índias haviam sofrido o mesmo processo de atraso que a metrópole, embora agravado por seu caráter dependente, pela escravidão dos índios e pelo jugo absolutista redobrado. As juntas que se formavam na Espanha se reproduzem em todo o território da América Hispânica. A covardia do liberalismo e o retorno do absolutismo de Fernando VII por causa da queda de Napoleão encerram toda a possibilidade de manter o Império hispano‑americano em bases igualitárias. O fracasso da revolução espanhola abre a etapa das guerras de independência na América. A guerra civil se traslada a este continente, onde combatem espanhóis contra espanhóis e crioulos contra crioulos. O aprofundamento e democratização da luta incorpora logo à guerra as massas indígenas, gaúchas, negras ou mestiças, com o que aindependência adquire um caráter verdadeiramente popular. Esta guerra perseguia um duplo objetivo: impedir que a América hispânica recaísse sob o jugo absolutista e conservar a unidade política do sistema de vice‑reino através de uma confederação de novos grandes Estados. Aquele que fornece a formulação mais categórica, razoável e definida dessa última posição é Simón Bolívar. Seu formidável programa parece num certo momento próximo de realizar‑se. Porém ele rapidamente se dilui e a morte do libertador simboliza o fracasso de manter a unidade na independência (PINSKY, 1989 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 230). Em que pese o tom eurocêntrico de que, em função de Napoleão, o processo de ruptura se desenvolveu, isso pode servir ao menos para desenvolver a compreensão de que o quadro deve ser mais complexo do que o feito heroico de grandes líderes nacionais. No entanto, talvez seja válido alertar que também não ajuda muito transformar Napoleão no herói que muitos preferem tomar para si; apesar de ele ser muito admirado no século XIX por figuras como Pedro I, no Brasil, não quer dizer que sozinho movesse a História. Em um alerta importante e característico de sua grande lucidez no trato das questões americanas, Eduardo Galeano alertou: Ao ataque de lança ou golpes de facão, foram os expropriados os que realmente combateram, quando despontava o século XIX, contra o poder espanhol nos campos da América Latina. A independência não os 107 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA recompensou: traiu as esperanças dos que tinham derramado seu sangue. Quando a paz chegou, com ela se reabriu uma época de cotidianas desditas. Os donos das terras e os grandes mercadores aumentaram suas fortunas, enquanto se ampliava a pobreza das massas populares oprimidas. Ao mesmo tempo, e ao ritmo das intrigas dos novos donos da América Latina, os quatro vice‑reinados do império espanhol se quebraram em pedaços e múltiplos países nasceram como cacos da unidade nacional pulverizada (GALEANO, 1983apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 231). O autor continua, com um refinamento de olhar que, por vezes, falta no discurso esquemático dos professores de História quando resolvem se apoiar apenas em grandes heróis e em situações confortáveis de causas e consequências: A ideia de “nação” que o patriciado latino‑americano engendrou parecia‑se demasiado à imagem de um porto ativo, habitado pela clientela mercantil e financeira do Império Britânico, com latifúndios e socavões à retaguarda. A legião de parasitas que recebera os comunicados da guerra da independência dançando o minueto nos salões das cidades, brindava pela liberdade de comércio em taças de cristais britânicos. Puseram na moda as mais altissonantes palavras de ordem da burguesia europeia: nossos países punham‑se ao serviço dos industriais ingleses e dos pensadores franceses. Porém, qual “burguesia nacional” era a nossa, formada pelos donos de terras, os grandes traficantes, comerciantes e especuladores, os políticos de fraque e doutores sem raízes? A América Latina logo teve suas constituições burguesas, muito envernizadas de liberalismo, mas não teve, em compensação, uma burguesia criadora, no estilo europeu ou norte‑americano, que se propusesse à missão histórica do desenvolvimento de um capitalismo nacional pujante (GALEANO, 1983 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 231). À medida que o discurso é produzido, fica evidente a opção crítica antissistêmica adotada por Galeano, mas, pode‑se concordar ou discordar, e isso não é o fundamental aqui, deve‑se reconhecer que procurou questionar sob um ângulo não muito convencional a realidade americana. Percebendo o funcionamento de mecanismos altamente sofisticados e a emergência de interesses a que genericamente serão tratados como burgueses. As burguesias destas terras nasceram como simples instrumentos do capitalismo internacional, prósperas peças da engrenagem mundial que sangrava as colônias e as semicolônias. Os burgueses de vitrina, agiotas e comerciantes, que açambarcavam o poder político, não tinham o menor interesse em impulsionar a ascensão de manufaturas locais, já mortas ao nascer quando o livre‑cambismo abriu as portas à avalanche de mercadorias britânicas. Seus sócios, os donos das terras, não estavam, por sua vez, interessados em resolver “a questão agrária”, senão na medida de suas próprias conveniências. O latifúndio consolidou‑se sobre o saque, ao longo 108 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I do século XIX. A reforma agrária foi, na região, uma bandeira precoce. Frustração econômica, frustração social, frustração nacional: uma história de traições sucedeu a independência. A América Latina, desgarrada por suas novas fronteiras, continuou condenada à monocultura e à dependência. Em 1824, Simón Bolívar ditou o Decreto de Trujillo para proteger os índios do Peru e reordenar ali o sistema de propriedade agrária: suas disposições legais não feriram em absoluto os privilégios da oligarquia peruana, que permaneceram intactos apesar dos bons propósitos do Libertador, e os índios continuaram tão explorados como sempre (GALEANO, 1983 apud FARIA; MARQUES; BERUTTI, 1993, p. 231). Algumas das grandes questões sobre a América são colocadas aí, como as elites locais alinhadas a interesses externos, a questão da presença de oligarquias, as fronteiras e dependências construídas desde o século XIX, a figura de heróis americanos, a condição de emergência do liberalismo e do livre‑cambismo, a construção de determinadas ideias de nação e do papel dos indígenas na história da América. Resumo Nessa unidade iniciamos apresentando as várias possibilidades de trabalhar História, indo de visões mais conteudistas e tradicionais até construções mais contemporâneas, que devem levar em consideração a visão de História Integrada. Enfatizamos que as multiplicidades não podem ser vistas em termos de melhor ou pior, mas que são escolhas para se alcançar determinadas finalidades. A necessidade de ampliar a capacidade de compreensão da História remonta, pelo menos, às primeiras décadas do século XX, fazendo surgir noções de História Comparada. Havia a busca de novos olhares e estudos que colocavam as sociedades em paralelo, ou que já eram um avanço bastante razoável. A ideia de influências recíprocas sofisticou diversos trabalhos historiográficos, possibilitando, inclusive, olhares para além de reducionismos nacionalistas tão comuns naquele momento de crise mundial. Ao entrar em contato com trabalhos de Circe Bittencourt, tivemos a oportunidade de nos aproximarmos de múltiplas práticas do trabalho com História. Dessa maneira, quando adotamos o trabalho de Bittencourt (2011) como uma importante referência, nos deparamos com a relevante questão de quais conteúdos escolher e também de privilegiar ou não conteúdos ligados à História Geral, do Brasil ou Mundial. Se lembrarmos que, muitas vezes, a História Geral tem sido privilegiada, percebemos que existe a prática de deixar a História do Brasil numa condição secundária em nome de uma visão de mundo globalizado. 109 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA Questionar essas estruturas foi uma preocupação fundamental: olhar os fenômenos em uma perspectiva de integração, de globalização e de mundialização. Para tanto, lançamos mão de estratégias críticas, problematizadoras e não laudatórias dos processos históricos e sociais. Questionamos os olhares dos europeus, e também dos indígenas, no contato entre diversas civilizações e procuramos compreender como issoproduziu o Novo Mundo, em diversos aspectos, mas nos preocupando mais com a formação das diversidades entre vários povos com fator positivo desse processo. Assim, nos aproximamos do Mercosul como um produto de um determinado tempo histórico. O cotidiano e as mentalidades se impuseram, e o estudo das múltiplas identidades também, e, como estratégia, alinhamos‑nos às práticas interdisciplinares, valorizando especialmente a Geografia, com o pensamento crítico de Milton Santos. Desenvolvemos a compreensão de realidades interconectadas e assim passamos a vários exemplos de usos de História integrada. Ressaltando, no entanto, que não vamos esgotá‑los ou mesmo nos prender a cada um deles. Para finalizar, nos preocupamos em estudar algumas concepções de história propostas pelo MEC e como isso aparece na produção didática e nos discursos de história, por meio de reforços de determinadas concepções ou até mesmo na contribuição para o desenvolvimento de um pensamento mais denso sobre as realidades humanas, chegando mesmo ao confronto de projetos sociais e políticos que levaram à superação de determinadas ordens vigentes. Exercícios Questão 1. Leia o texto a seguir: “[...] acontecimentos históricos estão o tempo todo interligados e que a interconectividade precisa e deve ser valorizada na explicação do professor. Um assunto não pode ser explicado sem o outro, e o outro não tem sentido sem a explicação do anterior. Não se trata do velho esquema de ‘causas e consequências’, nem mesmo de precisar de um item para que outro possa ser cronologicamente apresentado. Isso seria ingênuo e, na verdade, cairia na mesma postura de antes: conteúdos intercalados separados ou apenas articulados no trenzinho linear da ‘causa e efeito, causa e efeito’” (MORAIS, 2009, p. 202). O autor apresenta uma visão historiográfica cuja aplicação nos meios escolares tem gerado frutíferos debates no meio acadêmico voltado para os estudos de educação. Assinale a alternativa que melhor corresponde a tal proposta: A) A história integrada recusa o estatuto científico da história na medida em que rechaça completamente a estrutura de conhecimento baseada em causas e consequências. 110 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 Unidade I B) Acompanha debates oriundos da Antropologia que reconhecem um papel ativo dos agentes humanos frente às estruturas sociais e econômicas. C) O autor reforça o papel do Brasil como uma região periférica e como consequência imediata do acúmulo de capital ocorridos nos grandes centros da economia mundial. D) Morais exalta a necessidade de uma maior segmentação dos conteúdos históricos no material didático disponível para erradicar a confusão gerada pela submissão da história brasileira à mundial. E) Reforça a cientificidade da história, relacionando seu método discursivo com aquele empregado nas ciências da natureza. Resposta correta: alternativa B. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: não está em questão recusar tal estatuto, mas conferir à história um discurso que se aproxime com maior adequação à realidade, que é multifacetada e complexa. B) Alternativa correta. Justificativa: desde os anos 1970, a Antropologia e, posteriormente, a História, ao recusar o determinismo estruturalista, dá uma maior atenção ao papel dos agentes humanos. C) Alternativa incorreta. Justificativa: ao contrário, a ideia é recusar a noção de que a história brasileira é um desdobramento inevitável da história mundial. D) Alternativa incorreta. Justificativa: o autor recusa frontalmente essa segmentação, segundo ele, completamente inadequada a essa nova abordagem. E) Alternativa incorreta. Justificativa: não, pois o método empregado nas ciências da natureza – à parte discussões recentes na área de Filosofia da Ciência – é tradicionalmente a “causa e efeito”. Questão 2. (ENADE 2005) Leia o texto a seguir: No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais complexa que a antiga feitoria, mas sempre com o 111 Re vi sã o: R os e - Di ag ra m aç ão : M ár ci o - 17 /0 5/ 20 16 HISTÓRIA INTEGRADA mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É esse o verdadeiro sentido da colonização tropical de que o Brasil é uma das resultantes. Fonte: JUNIOR, C. P. História econômica do Brasil. 1945. Considere, agora, as afirmativas a seguir: I – A antiga feitoria portuguesa na Índia, como a colonização dos trópicos, supunha práticas agrícolas e comerciais. II – A colonização do Brasil estava relacionada a um amplo sistema comercial internacional. III – A colonização do Brasil foi o resultado das determinações francesas e inglesas relativas ao comércio internacional. IV – A produção açucareira no Nordeste Brasileiro fazia parte de uma empresa comercial com ligações internacionais. São corretas as afirmativas: A) I e IV, apenas. B) II e III, apenas. C) III e IV, apenas. D) I e III, apenas. E) II e IV, apenas. Resolução desta questão na plataforma.