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CIDADE MATARAZZO: ANÁLISE PROJETUAL CRÍTICA DE UMA INTERVENÇÃO ARQUITETÔNICA EM UM CONJUNTO PATRIMONIAL UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE MESTRADO EM ARQUITETURA E URBANISMO NATÁLIA BARBOSA HETEM São Paulo 2020 CIDADE MATARAZZO: ANÁLISE PROJETUAL CRÍTICA DE UMA INTERVENÇÃO ARQUITETÔNICA EM UM CONJUNTO PATRIMONIAL UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE MESTRADO EM ARQUITETURA E URBANISMO NATÁLIA BARBOSA HETEM São Paulo 2020 UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE MESTRADO EM ARQUITETURA E URBANISMO NATÁLIA BARBOSA HETEM CIDADE MATARAZZO: ANÁLISE PROJETUAL CRÍTICA DE UMA INTERVENÇÃO ARQUITETÔNICA EM UM CONJUNTO PATRIMONIAL São Paulo 2020 NATÁLIA BARBOSA HETEM CIDADE MATARAZZO: ANÁLISE PROJETUAL CRÍTICA DE UMA INTERVENÇÃO ARQUITETÔNICA EM UM CONJUNTO PATRIMONIAL Dissertação para obtenção de título de mestre em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie. ORIENTADORA: Profa. Dra. Ruth Verde Zein São Paulo 2020 H589c Hetem, Natália Barbosa. Cidade Matarazzo : análise projetual crítica de uma intervençăo arquitetônica em um conjunto patrimonial / Natália Barbosa Hetem 157 f. : il. ; 30 cm Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2020. Orientadora: Ruth Verde Zein . Bibliografia: f. 145-153. 1. Patrimônio. 2. Arquitetura Contemporânea. 3. Análise de obras. I. Zein, Ruth Verde, orientadora. II. Título. CDD 711.4 Bibliotecária responsável: Paola Damato CRB-8/6271 Folha de Identificação da Agência de Financiamento Autor: Natália Barbosa Hetem Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Arquitetura e Urbanismo Título do Trabalho: Cidade Matarazzo: Análise projetual crítica de uma intervenção arquitetônica em um conjunto patrimonial O presente trabalho foi realizado com o apoio de 1: CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo Instituto Presbiteriano Mackenzie/Isenção integral de Mensalidades e Taxas MACKPESQUISA - Fundo Mackenzie de Pesquisa Empresa/Indústria: Outro: 1 Observação: caso tenha usufruído mais de um apoio ou benefício, selecione-os. I Ao apoio e confiança total dos meus pais e irmão no processo deste trabalho e nos caminhos que escolhi seguir. II III AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente aos meus pais, pelo apoio constante e por sempre acreditarem em mim. Ao meu irmão por ser meu companheiro nessa nova fase da minha vida, na cidade de São Paulo. Agradeço muito à minha orientadora, Ruth Verde Zein, por ter me acolhido e aceitado me orientar. Sem ela essa dissertação não sairia dos meus pensamentos e se concretizaria, seus conselhos foram essenciais para me ajudar no mestrado e na minha formação profissional, com todas as oportunidades que me ofereceu ao longo do curso. Aos meus colegas de sala, por estarmos juntos e nos ajudarmos sempre que possível. À minha companheira de estágio docente (que se tornou uma amiga querida), com quem compartilho a orientadora, por termos unido forças para enfrentar o ateliê 7 e adquirir ainda mais conhecimento com essa experiência incrível. À todos os meus amigos da vida, que acompanharam cada etapa minha e acreditam no meu potencial, o carinho e presença de vocês é essencial para mim, para saber que posso seguir em frente e vocês me ajudarão; os momentos felizes, de risadas e distração que compartilhamos contribuiu para a minha saúde mental e para a construção desse trabalho. Obrigada aos professores da pós-graduação e da FAU da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que compartilharam o conhecimento de vocês com tanto amor e brilho nos olhos, mostrando que realmente adoram o que fazem e puderam me inspirar. Por último, obrigada aos profissionais do Arquivo Histórico de São Paulo, da Gestão Documental de Processos, do Condephaat e Conpresp por fornecerem os arquivos necessários para a realização dessa pesquisa, assim como os profissionais da “Cidade Matarazzo”, por me permitir entrar e ver a obra em estudo de perto, principalmente ao Roberto Toffoli por contar de maneira mais detalhada sobre o processo de restauração do local e a Helena Ayoub pela ajuda com a questão histórica. Um último agradecimento a CAPES-PROEX, pela bolsa de estudo modalidade I fornecida, sem ela também não seria possível realizar essa pesquisa. Todos aqui mencionados me ajudaram, inspiraram e contribuíram para essa dissertação e para a minha formação profissional. IV V “Nós somos o nosso patrimônio de cultura. No passado e no presente” Nestor Goulart Reis Filho VI VII RESUMO O presente trabalho trata da atual intervenção arquitetônica (2014-2021) no quarteirão do antigo Hospital Matarazzo na cidade de São Paulo, pelo grupo francês Allard, com a presença de arquitetos internacionais e a construção de novas torres junto ao complexo de edificações históricas e tombadas existente. A dissertação discute essa obra considerando de maneira crítica e referenciada as questões patrimoniais envolvidas em uma intervenção arquitetônica contemporânea, considerando a atualidade dos debates sobre o patrimônio histórico e cultural, a trajetória desses conceitos no mundo e no Brasil, analisando a nova proposta da “Cidade Matarazzo” e comparando com casos similares, em termos de porte e programa de necessidades, de outros projetos de intervenção no Brasil e no mundo. Palavras chaves: Patrimônio. Arquitetura Contemporânea. Análise de obras. ABSTRACT This dissertation analyzes the current architectural intervention (2014- 2021) in the former Matarazzo Hospital block in the city of São Paulo, by the French group Allard, with the presence of international architects and the construction of new towers next to the existing historical and listed buildings complex. It discusses the heritage issues involved in a contemporary architectural intervention from a critical approach, considering the state- of-the-art debates and ideas on the historical and cultural heritage, in the world and in Brazil, analyzing the new proposal of the “City Matarazzo” and comparing it with similar cases, in terms of size and requirements, of other intervention projects in Brazil and in the world. Key words: Heritage. Contemporary Architecture. Analysis of Works. VIII IX LISTA DE FIGURAS Fig. 01: Imagem da localização do terreno do conjunto. 7 Fig. 02: Implantação de todo o complexo na área. 7 Fig. 03: Imagem da implantação da casa de saúde e capela. 9 Fig. 04: Imagem da fachada da casa de saúde. 9 Fig. 05: Planta, fachada e lateral da capela. 10 Fig. 06 e 07: Planta do térreo – acima– e do pavimento superior – em baixo. 11 Fig. 08: Fachada principal da nova edificação. 12 Fig. 09: Planta do térreo. 12 Fig. 10: Planta do primeiro andar. 12 Fig. 11: Fachada. 13 Fig. 12: Corte AB. 13 Fig. 13: Implantação do pavilhão. 13 Fig. 14: Planta de reforma do laboratório. 15 Fig. 15: Mapa do perímetro de tombamento da resolução 5/2014 pelo CONPRESP. 16 Fig. 16: Imagem renderizada da Torre inserida na paisagem, lado com vista para a cidade e o bairro da Bela Vista; 22 Fig. 17: Vista de frente do restauro da maternidade e a Torre Mata Atlântica ao fundo. 22 Fig. 18: Torre Mata Atlântica em construção vista de fora do terreno. 22 Fig. 19: Fundo da maternidade sendo restaurado. 23 Fig. 20: Arcos de apoio para a estrutura original da maternidade, construção do Lobby do Hotel. 23Fig. 21: Restauração da fachada da capela. 23 Fig. 22: Restauração do interior da capela. 23 Fig. 23 e 24: Modelo da suíte de 163m². 25 Fig. 25 e 26: Modelo da suíte de 342m². 26 Fig. 27: Recepção e bar do hotel. 27 Fig. 28: Piscina do hotel. 27 Fig. 29: Fachada de uma das edificações do hospital. 29 Fig. 30: Detalhe da esquadria. 29 Fig. 31: Outra fachada do hospital. 29 Fig. 32: Interior da edificação. 29 Fig. 33: Lay-out sugerido para as lojas de luxo. 30 Fig. 34: Lay-out sugerido para as lojas de luxo. 30 Fig. 35: Perspectiva do mercado orgânico. 33 X Fig. 36, 37 e 38: Mobiliários propostos pelos Irmãos Campana, de bambu, madeira e tubos de acrílico, respectivamente. 33 Fig. 39: Corte com o programa de necessidades da “Casa Bradesco da Criatividade”, de Rudy Ricciotti. 33 Fig.40: Perspectiva do palco do auditório dentro da “Casa Bradesco da Criatividade”. 34 Fig. 41: Perspectiva da área de exposição da “Casa Bradesco da Criatividade”. 34 Fig. 42: Fachada da edificação do centro comercial, de Rudy Ricciotti. 34 Fig. 43: Maquete do showroom do “Boulevard da Diversidade. 35 Fig. 44: Corte esquemático do túnel. 35 Fig. 45: Implantação do Boulevard da Diversidade. 35 Fig. 46: Desenho com o sistema de drenagem e coleta de água da chuva. 36 Fig. 47: Mapa de Bens Tombados, com imóveis tombados pelo Conpresp e ou Condephaat e ou Iphan, na região da Avenida Paulista, em roxo. 66 Fig. 48: Mapa de Bem Tombados com sobreposição do Mapa de Áreas Envoltórias do Conpresp, em amarelo. 67 Fig. 49: Mapa de Bem Tombados com sobreposição do Mapa de Áreas Envoltórias do Conpresp e sobreposição do Mapa de Áreas Envoltórias do Condephaat, em vermelho. 67 Fig. 50: Mapa-mundi com localização de todos os estudos de caso a serem analisados. Desenvolvido pela autora 76 Fig. 51: Mapa de localização do One Central Park, em roxo. 77 Fig. 52: Torres do complexo “One Central Park” em Sydney, Austrália. 78 Fig. 53: Torres do One Central Park ao fundo, parque à frente. 78 Fig. 54: Entrada do “One Central Park Mall”. 78 Fig. 55: Mapa de localização do Duo Central Park, em roxo. 81 Fig. 56: Imagem retratando a proximidade do One Central Park com o Duo Central Park. 81 Fig. 57: Fachada de uma das torres do Duo Central Park. 81 Fig. 58: Visão do pedestre das duas torres, One Central Park e Duo Central Park. 81 Fig. 59: Mapa de localização do “City Center DC”, em verde. 82 Fig. 60: Maquete de desenvolvimento da proposta, com foco na praça central e os edifícios a “protegendo”. 83 Fig. 61: Uma das entradas ao complexo. 85 Fig. 62: Outra entrada do complexo. 85 Fig. 63: Lojas de grife localizadas no pátio interno. 85 Fig. 64: Um dos modelos de planta para o studio. 86 Fig. 65: Um dos modelos propostos de 1 quarto e 1 banheiro. 86 Fig. 66: Um dos modelos de planta proposto para 2 quartos e 2 banheiros. 87 Fig. 67: Modelo proposto para 3 quartos e 2 banheiros. 87 XI Fig. 68: Mapa de localização do projeto London Peninsula Place, em azul marinho, situado na península de Greenwich. 88 Fig. 69: Exterior da Arena O2/Millenium Dome atualmente. 88 Fig. 70: Imagem das torres projetadas por Santiago Calatrava. 89 Fig. 71: Imagem com inserção do projeto de Calatrava na paisagem urbana, ao lado da Arena O2. 89 Fig. 72: Mapa de localização do Corso Itália,23, em azul claro. 91 Fig. 73: Corso Itália atualmente (2019), como sede da Allianz. 91 Fig. 74: Inserção do projeto do escritório SOM na paisagem de Milão. 92 Fig. 75: Fachada da edificação principal do projeto, com a transparência evidenciada. 92 Fig. 76: Mapa de localização da Casa das Rosas, em laranja. Em vermelho a localição da “Cidade Matarazzo”. 94 Fig. 77: Fachada da Casa das Rosas. Foto: Milena Leonel. 95 Fig. 78: Imagem do edifício comercial ao fundo do terreno. 96 Fig. 79: Mapa de localização do projeto Novo Recife, em amarelo. 98 Fig. 80: Área de construção do empreendimento com os armazéns. 98 Fig. 81: Visão de todo o projeto do Novo Recife na área do Cais. 100 Fig. 82: Implantação de todo o projeto do Novo Recife na área do Cais. 102 Fig. 83: Renderização das duas torres que compõem o complexo Mirante do Cais. 102 Fig. 84: Planta de pavimento tipo da torre norte do complexo Mirante do Cais. 103 Fig. 85: Renderização da torre do Parque do Cais. 103 Fig. 86: Imagem em modelo BIM do empreendimento, em corte, mostrando os subsolos. 110 Fig. 87: Esquema da estrutura da torre, em destaque as áreas com concreto pigmentado. 111 Fig. 88: Nuvem de palavras com base na tabela. Realização da autora no site “WordClouds”. 115 Fig. 89 e 90: Fachada do Hospital, sem o telhado (retirado para restauração). 117 Fig. 91: Capela praticamente inteira restaurada no exterior. 118 Fig. 92: Fachada da Maternidade em restauração. Fonte: Instagram da Cidade Matarazzo. 118 Fig. 93: Torre Mata Atlântica em processo de finalização da fachada e Maternidade restaurada. 118 Fig. 94: Construção da fachada de “cipós” do centro comercial do empreendimento. 118 XII LISTA DE TABELA Tabela 1 Processos vistos na Coordenação de Gestão Documental 17 Tabela 2 Palavras chaves citadas na revista L’Architecture D’aujourd’hui 115 XIII LISTA DE ABREVIATURAS CONDEPHAAT Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo CONPRESP Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional INTRODUÇÃO 1 A CIDADE MATARAZZO - DETALHAMENTO TÉCNICO DA OBRA REALIZADA NO LOCAL 7 1.1 Histórico do Hospital 8 1.2 Histórico do Grupo Allard 18 1.3 A proposta de intervenção 20 1.3.1 Etapa 1: Torre Mata Atlântica, maternidade e capela (hotelaria, previsão 2020) 20 1.3.2 Etapa 2: Hospital e lojas (lojas comerciais, previsão 2021) 28 DEBATES E EXPERIÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS SOBRE A INTERVENÇÃO EM BENS PATRIMONIAIS 37 2.1 Teorias e legislações presentes em cartas e protocolos internacionais, breve revisão bibliográfica 38 2.1.1 Cartas internacionais 39 2.1.2 Patrimônio histórico e teorias de restauração 42 2.1.3 Historiografia e memória 55 2.1.4 Questões urbanas relativas ao patrimônio histórico 60 2.2 Normas e legislações aplicáveis ao caso (Plano Diretor de São Paulo, Instrumentos urbanos, Lei de Zoneamento, Condephaat e Conpresp) 62 2.3 As questões relativas aos procedimentos de debate público da proposta 70 SUMÁRIO 1. 2. 2.4 Estudos de caso: projetos com programas similares de intervenções em conjuntos patrimoniais 76 2.4.1 One Central Park, Sidney, Austrália 77 2.4.2 Casos com outros arquitetos 79 2.4.2.1 Duo Central Park, Sidney, Austrália 80 2.4.2.2 City Center DC, Washington, Estados Unidos 83 2.4.2.3 London Peninsula Place, Londres, Inglaterra 88 2.4.2.4 Corso Itália, 23, Milão, Itália 91 2.4.3 Casa das Rosas, São Paulo, Brasil 95 2.4.4 Projeto Novo Recife, Recife (PE), Brasil 98 A “CIDADE MATARAZZO”: ANÁLISE CRÍTICA DAS ESTRATÉGIAS PROJETUAIS 105 3.1 Intervenção e patrimônio 106 3.2 Método construtivo e inovações 109 3.3 Projeto social e maneira de venda ao público 113 CONCLUSÕES 119 REFERÊNCIAS 121 NOTAS 131 ANEXOS 3. 1 Este trabalho vai considerar de maneira detalhada e crítica um importante empreendimento que envolve a intervenção arquitetônica atual sobre um conjunto edificado e de valor histórico e patrimonial, situado em uma região de importante centralidade na cidade de São Paulo, e pretende considerar não apenas o atendimento às diretrizesnecessárias a quaisquer intervenções sobre obras consideradas “de patrimônio histórico”, como os resultados que essa intervenção tenderá a causar em seu entorno, e portanto, os eventuais problemas e benefícios que dessa obra podem resultar, para a sociedade e para seus usuários. A escolha dessa temática nasceu de uma inquietação pessoal, uma questão de afinidade e curiosidade, que vem desde minha infância. Entretanto, as dúvidas que eu sempre tive não foram totalmente dirimidas ao me formar em arquitetura – e de certa forma, elas até se ampliaram. A questão patrimonial e principalmente, o abandono de edificações históricas, é algo que constantemente chateia e faz refletir. Qual a razão de se abandonar, esquecer a história e a memória da cidade? Por que essa memória parece ser um valor importante, em outras cidades, países e continentes, enquanto isso parece ser menos valorizado em nossas cidades? Como aumentar a consciência sobre essa questão, e quais atitudes podem ser adotadas para que essa situação de perda de valores e memórias não mais ocorra? Além de ser uma questão de projeto, o assunto envolve outras dimensões. O que é possível fazer para incentivar o interesse da população por essa preservação e valorização da memória urbana? Acredito que as respostas dessas perguntas são complexas e difíceis de serem respondidas. Nessa dissertação, gostaria de enfrentar apenas alguns aspectos desse tema. Mas pretendo continuar minhas pesquisas e, se possível, dedicar minha vida profissional a essa causa. Cada edificação tem sua época e retrata uma história, que permanece na atualidade, nos recordando a passagem do tempo. Toda edificação possui em si um patrimônio de conhecimentos, e mesmo compreendendo a condição de efemeridade do mundo, parece ser importante aprender com esses ensinamentos. Se não é possível manter tudo, ao menos as edificações e espaços urbanos de maior valor deveriam ser conservados, preservados, restauradas, garantindo que esse legado chegue às novas gerações. Entretanto, INTRODUÇÃO 2 vê-se com muita frequência, nas cidades atuais, o abandono e o desinteresse por obras de grande valor histórico, patrimonial e até mesmo artístico. Isso nos causa indignação e tristeza, não apenas individualmente: trata-se de um patrimônio de toda a sociedade. As causas são complexas. Talvez uma parte da população não se reconheça nessa obra. A ausência de uma educação patrimonial impede que a maioria das pessoas, que não são especialistas no assunto, tenham conhecimento da história: a memória só resiste e subsiste se formos ensinados a reconhecê-la. Entendo que é possível de reverter esta situação. Mas como as mudanças também são necessárias, entendo que uma intervenção contemporânea, propondo novos usos e construções, convivendo em harmonia com o patrimônio existente, podem retirar o estigma de um local “degradado” e voltar a torná-lo significativo na cidade. A arquitetura contemporânea tem um importante papel na intervenção junto a edificações históricas. Embora os usos de um edifício possam se tornar obsoletos, novos usos, escolhidos de maneira adequada, podem revitalizá-lo. Entretanto, novas intervenções podem produzir sejam resultados positivos, sejam negativos – e quase sempre, um pouco de cada coisa é o que se pode finalmente atingir. A atenção e cuidado de um novo projeto em relação às teorias gerais e às diretrizes específicas das cartas patrimoniais internacionais, e das normativas preservacionistas locais, é sempre imprescindível quando se projetam novos usos e novos edifícios em conjuntos que contenham edificações existentes de valor histórico e cultural. Mas teorias, normas e diretrizes não são um corpo fechado e totalmente determinante, como tampouco o são as normas de planejamento constantes em instrumentos legais e políticos, tais como o Estatuto da Cidade (PLANALTO, 2001); ou no caso de São Paulo, nos seus sucessivos planos diretores (Prefeitura de São Paulo, 2014). Um projeto de intervenção requer, além desse conhecimento, e do respeito a essas normas, uma maior sensibilidade e respeito ao valor do que é antigo, que só pode ser atingido pelo amplo estudo e pesquisa de sua história. E finalmente, mas não menos importante, para se chegar a bons resultados todo o processo precisa ser monitorado, questionado e apoiado pela ação conjunta de órgãos governamentais e com a participação ativa dos diversos grupos de interesse social e cultural da sociedade, para que as iniciativas de investidores privados possam ser balizadas e apoiadas de maneira correta, para o benefício de todos, e principalmente, da cidade. 3 Para estudar essa questão numa primeira abordagem de pesquisa, propusemos realizar um estudo em profundidade de um projeto atual, que ainda está em processo de construção, e vem sendo realizado na cidade de São Paulo. Para entender o quanto esse projeto pode ser chamado de “contemporâneo” não apenas por ser de hoje, mas por atender, ou não, o pensamento contemporâneo sobre o tema da preservação e intervenção em conjuntos históricos e patrimoniais, entendemos que seria necessário também estudar, embora com menos profundidade, outros exemplos internacionais e nacionais de semelhante porte e teor. O objeto de estudo selecionado foi o empreendimento batizado como “Cidade Matarazzo”. Trata-se de uma área a poucas centenas de metros da Avenida Paulista, uma das grandes centralidades da cidade, e que esteve abandonado e sem uso por décadas. A história dessa área, sua importância para a cidade, seus edifícios e usos, seu processo de decadência e abandono, e das tentativas de revitalizá-la é abordada no Capítulo 1.1. A situação do local mudou recentemente com a proposta de realização de um grande empreendimento, restaurando o complexo de edificações do antigo Hospital Matarazzo e com a introdução de novos edifícios para hotelaria e comércio. O novo empreendimento tem patrocínio majoritariamente privado com capitais internacionais e apresenta- se como uma oportunidade de “investimento”, mas também, como uma oportunidade de revitalização. Um breve histórico sobre esse grupo de investidores e sobre suas realizações prévias, que como no caso paulistano, também envolveram a presença de renomados arquitetos internacionais, é relatada no capítulo 1.2. Para finalizar o primeiro capítulo, foi feito uma exposição do empreendimento, a mais completa possível – considerando-se que a obra ainda está em andamento – do projeto proposto, em suas diversas etapas. A questão financeira foi um grande motivador para seguir com a pesquisa, surgindo dúvidas como: Como o investimento privado pode reviver um patrimônio histórico esquecido? Qual o papel da influência do capital privado no patrimônio histórico comum? Nessa pesquisa não será aprofundado a temática financeira, por se tratar de um mestrado de arquitetura, então esse assunto será abordado superficialmente. A escolha do tema levou à pesquisa dos debates concernentes às questões teóricas, projetuais e legais atinentes ao tema do patrimônio edificado arquitetônico de valor histórico e patrimonial, 4 tema cada vez mais candente inclusive nas relativamente mais jovens cidades brasileiras, pois cada vez é mais frequente e em breve será quase inevitável que quaisquer projetos tenham que lidar com as questões postas pelas preexistências arquitetônicas e urbanas. A afinidade com esse tema esteve presente na minha formação e graduação em arquitetura, tendo sido abordado no trabalho de conclusão de curso, voltado para as questões de patrimônio na cidade de Ribeirão Preto. Esse trabalho deu início aos meus estudos no tema e despertou um desejo de aprofundá-lo. A possibilidade de morar em São Paulo abriu o interesse por conhecer melhor a cidade e de estudar suas edificações de valor histórico e cultural. O caso de São Paulo, e algumas viagens de estudos realizadas na Europa (curso de Civilização Francesa na Sorbonne em janeiro de2018 e curso de Cidades Inteligentes e Engenharia para Arquitetura Sustentável na EPF – Ecole D’Ingénieurs – e na ESTP – Ecole Spéciale des Travaux Publics – em julho de 2019) ampliou a compreensão de serem questões que, embora relevantes em cada lugar, são também recorrentes em quaisquer situações urbanas, e de abrangência e vigência internacional. A vivência de obras de alto valor patrimonial que foram preservadas, mas ao mesmo tempo, modificadas por grandes intervenções contemporâneas, abriu a compreensão e o interesse em estudar como realizar intervenções no patrimônio da cidade de forma totalmente embasada na teoria, mas também, de maneira inovadora e não convencional, compreendendo as edificações históricas abandonadas e verificando a possibilidade de sua revivescência com o apoio do projeto arquitetônico, valorizando o legado do passado da cidade e entendendo as mudanças sociais e suas demandas atuais. Esses temas são tratados no Capítulo 2 deste trabalho. Nele foi feita uma revisão ampla, mas não exaustiva, sobre os debates e experiências contemporâneas tratando das intervenções projetuais em bens de valor histórico e patrimonial. São consideradas no capítulo 2.1, em breve revisão bibliográfica, as teorias e legislações presentes em cartas e protocolos internacionais; no capítulo 2.2 são abordadas as normas e legislações locais (Condephaat e Conpresp, etc), incluindo, no capítulo 2.3, algumas das questões relativas aos procedimentos de debate público da proposta arquitetônica junto à sociedade, com foco no caso de estudo da “Cidade Matarazzo”. Para terminar esse capítulo foi realizado, de maneira breve, alguns estudos de casos de projetos de intervenções em conjuntos patrimoniais 5 internacionais e nacionais com programas similares ao da “Cidade Matarazzo”, considerando tanto as obras realizadas pelos arquitetos da equipe do projeto paulista, como outros exemplos relevantes, e mesmo, alguns casos polêmicos. No terceiro capítulo, é proposto uma análise do conjunto da “Cidade Matarazzo” à luz dos debates trazidos pelo capítulo 2, tanto nos aspectos teóricos, como nos aspectos projetuais. Nesse capítulo, algumas das inquietações iniciais voltam a ganhar relevância, pois são elas que embasam o enfoque pretendido por esta pesquisa. Muitas cidades passam atualmente pela condição de relativo abandono e/ou degradação de seus centros históricos, a par da configuração de novas centralidades urbanas, acompanhando a expansão do tecido urbano das cidades – e eventualmente, de seu sucessivo abandono e/ou degradação. Muitos edifícios com valor histórico e cultural que conformam a memória da cidade, que fizeram parte de sua história e desenvolvimento, restam abandonados, atingindo progressivamente estados de ruína. O tombamento das edificações segue sendo ainda um dos únicos instrumentos legais que visam garantir a preservação e a conservação desses bens: mas como já foi apontado por várias/os autoras/es, é um instrumento problemático, e em alguns casos, falho e ineficaz (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019). Ademais do restauro clássico, mais cabível em obras de grande valor artístico, com frequência a revitalização dessas obras abandonadas vem se realizando por meio de intervenções, mais ou menos radicais, envolvendo a substituição parcial e/ou a justaposição de novos edifícios em diálogo com os edifícios patrimoniais, geralmente, com vistas a adaptá-los a novos usos, ampliando sua frequência, e gerando mais vida e movimento nesses centros urbanos. Entretanto, uma questão fundamental se coloca. O impacto dessas arquiteturas contemporâneas é sempre positivo? Até onde essas intervenções estão de fato respeitando as edificações antigas e históricas das cidades? E como é possível verificar essa questão e, ainda mais, promover mecanismos para que as soluções propostas sejam efetivamente, adequadas? O trabalho tem como objetivo relatar o que tem sido feito não só na “Cidade Matarazzo”, mas também nas obras e edificações que envolvem o patrimônio histórico em outras regiões do mundo, como essa questão é lidada, ou até mesmo apagada com a chegada da “nova” arquitetura inserida nas localidades. 6 A hipótese inicial desta pesquisa admite a possibilidade de reverter a situação de esquecimento provocada por um edifício abandonado pelo acréscimo e intervenção de novos edifícios, que garantam a realização de novos usos, e a atração de novos usuários. Há diversos exemplos de intervenções nas edificações antigas e patrimônios da cidade que parecem ter resultado em um melhor uso de edifício e em um certo grau de revitalização da região em que ele se situa (alguns desses casos serão revistos no capítulo 2.4.). No caso da Cidade Matarazzo, como o projeto lidou com essa questão? Haverá novos usos – mas esse “novo” lugar, será ele de fato retornado pela população, por seu uso, pela sua afetividade – e pela sua presença? Em especial: será que o novo empreendimento será acessível a todos? Ou promoverá apenas o bem-estar de uma única parcela da população, aquela que já dispões dos privilégios resultantes do fato de se posicionar como a camada social dominante? Essas questões são consideradas no capítulo 3, segundo alguns critérios de análise. No capítulo 3.1 foi abordado mais profundamente a questão de revitalização e restauro das edificações antigas do complexo, como foi feita a intervenção das novas edificações, e o que precisou ser modificado para tal. No capítulo 3.2 vamos abordar as inovações construtivas presentes na obra da nova torre. Na terceira e última parte do capítulo foi feito uma análise do discurso de divulgação presente nas mídias e nas redes sociais do empreendimento, a maneira que está sendo vendido ao público. Finalmente, nas conclusões do trabalho, espera-se responder algumas das inquietações que promoveram sua realização ou, ao menos, busca-se atingir uma maior clareza sobre como interpretar e considerar criticamente essas questões. 7 Como mencionado na introdução, o trabalho trata do caso do projeto conhecido como “Cidade Matarazzo”. Este capítulo é dedicado a detalhar e expor de maneira técnica o que está sendo feito, ao longo de praticamente 10 anos, no local, considerando o histórico e desenvolvimento das obras, as propostas e os agentes envolvidos. Optou-se por estruturar a dissertação iniciando-se pelo objeto de estudo, para depois, com o reconhecimento desse projeto e suas características em mente, explorar a fundamentação teórica dos temas ligados ao patrimônio, para só então verificar como o projeto proposto contempla essas questões; e finalmente, comparando esse com outros casos assemelhados. O objeto de estudo será abordado de maneira cronológica, começando com a história do complexo Matarazzo, abordando a seguir um histórico do empreendedor Alexandre Allard e do Grupo Allard, para depois apresentar a proposta do empreendimento. O projeto está localizado no terreno que o Hospital Matarazzo se situa. Próximo a Av. Paulista, no quadrilátero formado pelas ruas Itapeva, Pamplona, São Carlos do Pinhal e Alameda Rio Claro (figura 01). O antigo complexo hospitalar se transformará em centro comercial, hoteleiro e cultural (figura 02). Será um local multifuncional e que pretende atender diversas demandas da região e da sua população. A CIDADE MATARAZZO - DETALHAMENTO TÉCNICO DA OBRA REALIZADA NO LOCAL Fig. 02: Implantação de todo o complexo na área. Fonte: Cidade Matarazzo. Acesso 17 de fevereiro de 2020 Fig. 01: Imagem da localização do terreno do conjunto. Disponível em: Google Maps – Acesso 09 de maio de 2019 1. 8 O antigo Hospital Matarazzo, inaugurado em 1904, foi construído pela “Societá Italiana de Beneficenza in San Paolo”, com grande investimento do imigrante italiano e industrial Francisco Matarazzo, e seu núcleo original de edifícios são de autoria do arquiteto italiano Giulio Micheli (que chegou em São Paulo em 1888). As outras edificaçõesdo complexo foram construídas posteriormente, ao longo dos anos, até 1974. Conforme os anos passaram várias reformas foram executadas no complexo para melhorar a qualidade de atendimento aos clientes. A sua fama veio devido ser o primeiro hospital organizado em pavilhão e por conta da maternidade. Porém, o conjunto passou por um processo de decadência, em paralelo com a desativação das indústrias do Matarazzo, sendo fechado oficialmente em 1993. Em 1985 aventou-se a possibilidade de sua demolição, considerando tratar-se de área em local de grande importância e dos mais disputados pelos empreendedores e pela especulação imobiliária da cidade. No arquivo histórico de São Paulo1 podem ser encontradas as plantas originais do Hospital e o registro das mudanças feitas com o tempo. Em junho de 2019 a autora visitou o arquivo histórico para consultar os arquivos referentes ao Hospital Umberto I (posteriormente renomeado Hospital Matarazzo), datando de 1915 a 1918. Foi consultado o livro de “Obras particulares – papéis avulsos de 1905 – OPA 417”, onde constava um documento da “Societtá Italiana di Beneficenza per L’ospedale Umberto I”, informando que não haver sido ainda construído o muro e o passeio do terreno devido às obras internas em andamento. Foram consultadas também as caixas dos anos 1915, 1916, 1917, 1918. A caixa 09411 de 1915 continha o Processo OP1915.003.251 ou 120165/15 sobre a Alameda Rio Claro, com o pedido de alvará de licença para construção de uma casa de saúde e capela pelos engenheiro e arquiteto A. Pazzo e G. Bianchi, e as plantas do projeto, que seguem abaixo (figuras 03-07). A caixa POR2 de 1916 continha os documentos 26 e 27 referentes à Alameda Rio Claro. O documento 26 pedia aprovação do projeto de construção para o pavilhão do hospital e alvará de licença para o muro. O 27 tinha como assunto a construção do muro. O documento 26 contém um memorial descritivo que informa que o pavilhão será construído ao lado dos já existentes, com um recuo de 1.1 Histórico do Hospital 9 Fig. 04: Imagem da fachada da casa de saúde. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico Fig. 03: Imagem da implantação da casa de saúde e capela. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico 10 15m, e de forma que converse com os outros. Segundo o memorial, o pavilhão é composto por dois planos, o térreo (com salas para consultórios médicos e hall de espera) e o primeiro andar (com várias salas bem iluminadas). A edificação tem alicerces de concreto com pedregulho e cimento, paredes na fundação com 60 centímetros de largura que se prolongam até o térreo na altura de 1,20 formando o porão de terra socada e o andar ladrilhado. As paredes externas e do corredor do térreo são de 45 centímetros e no primeiro andar de 30 centímetros, as paredes divisórias dos consultórios tem 15 centímetros. Os tijolos são assentados com argamassa de cal e areia e revestidos interna e externamente. O Térreo conta com a presença de banheiros. O forro do primeiro andar possui rede metálica e o do térreo é de reboque. Vigamento do telhado de peroba e cobertura de telhas nacionais. O revestimento externo é de reboco de cal e areia, portas e janelas de pinho de Riga pintadas a óleo com ferragem e vidros usuais. A escada é de cimento armado revestida de mármore. As fachadas são revestidas de cimento, cal e areia com imitações de tijolos e pedras (figuras 08-13). A caixa POR3 de 1917 continha somente o documento 36, com uma solicitação do próprio Francisco Matarazzo para rebaixar a calçada em frente ao Hospital Umberto I e chanfrar as guias da entrada. Fig. 05: Planta, fachada e lateral da capela. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico. 11 Fig. 06 e 07: Planta do térreo – acima– e do pavimento superior – em baixo. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico 12 Fig. 10: Planta do primeiro andar. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico Fig. 08: Fachada principal da nova edificação. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico Fig. 09: Planta do térreo. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico 13 Fig. 13: Implantação do pavilhão. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico Fig. 11: Fachada. Fonte:: SÃOPAULO. Arquivo Histórico Fig. 12: Corte AB. Fonte: SÃOPAULO. Arquivo Histórico 14 A caixa POR2 de 1918 continha o documento 9, sobre as modificações e ampliações a serem feitas no Hospital, e um memorial descritivo dos materiais a serem empregados, com o nome de Heribaldo Siciliano como interessado. Também constava um pedido de aprovação da planta de reforma e alvará de licença para as modificações no laboratório. O memorial informava que o revestimento interno e externo seria de argamassa de cal e areia 1:3 com granulação fina; os forros seriam em estuque sobre telha metálica com argamassa de cal, areia e cimento; as paredes seriam pintadas; haveria uma barra de estuque até uma certa altura e a pavimentação seria feita com “lignite” com superfície lisa (figura 14). O arquivo histórico de São Paulo só tem documentos arquivados até 1937, após essa data eles estão sob a guarda da gestão documental de processos. Em agosto de 2019 a autora visitou a Coordenação de Gestão Documental de São Paulo para fazer a vistoria dos processos relativos ao Hospital Umberto I na avenida Rio Claro. Os processos vistos datam obras desde 1937 até 2017. Como mostra a tabela 1. Para salvaguardar o conjunto do Hospital, prevenindo sua destruição e a construção de novas edificações sem maiores critérios de controle da preservação do conjunto, o Hospital foi tombado pelo CONDEPHAAT pela Resolução SC 29/86 (1986). Na resolução consta que o Hospital e Maternidade Umberto I (ex Hospital Matarazzo) é representativo das instituições imigrantes da cidade de São Paulo, exerceu papel de destaque no atendimento médico, como local de estudo e prática profissional, sendo pioneiro no desenvolvimento de atividades hospitalares na cidade e pelo seu conjunto arquitetônico harmonioso. Esses argumentos foram apresentados para considerar o conjunto como importante histórica e arquitetonicamente, justificando assim o tombamento desse conjunto arquitetônico. Foram estabelecidos três diferentes graus de preservação para os edifícios do conjunto, sendo de grau 1 (preservação integral, permitindo pequenas reformas internas) a Capela e a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo; de grau 2 (preservação de fachadas, coberturas e gabarito) o núcleo original do Hospital, as Casas da Saúde Francisco Matarazzo e Ermelino Matarazzo, a antiga residência das irmãs e o Pavilhão Vitório Emanuele III; de grau 3 (preservação de volumetria) as instalações da cozinha, lavanderia e refeitório, o novo prédio hospitalar, lanchonete e lojas e o estacionamento. Nessa resolução o interior da quadra é considerado como “área 15 envoltória” (tendo como limite as calçadas do terreno). Após alguns anos de discussão, em que algumas partes envolvidas entendiam como demasiado rigorosa a resolução de tombamento, em 2014 efetivou-se uma revisão do tombamento, a pedido do investidor, o qual alegava ser a mesma necessária para que fosse possível e viável realizar algum empreendimento no local. Anteriormente já haviam ocorrido outras solicitações propondo mudanças de usos, que não prosperaram. O CONPRESP (órgão municipal de preservação) também qualificou o conjunto como Zona Especial de Preservação Cultural, segundo a lei n 13.885 de 1975, tombando o conjunto arquitetônico edificado do antigo Hospital Umberto I por meio da Resolução N 05 (figura 15), fornecendo diretrizes bem mais detalhadas sobre o que preservar, de cada edificação, considerando principalmente o Hospital e a Capela. Fig. 14: Planta de reforma do laboratório. Fonte: SÃO PAULO. Arquivo Histórico 16 Com as novas resoluções foi possível postular um novo projeto de aproveitamento do complexo, com a preservação parcial das construções existentes e adição de novas obras. Dessa forma, o empreendimento “Cidade Matarazzo” começou a ser idealizado.Um time de arquitetos e engenheiros pensaram e levaram em consideração às questões patrimoniais e históricas, trazendo na obra de restauração de cada edificação os principais princípios das teorias, assim como tratam o patrimônio como a maior identidade do projeto. Fig. 15: Mapa do perímetro de tombamento da resolução 5/2014 pelo CONPRESP; Acesso 09 de maio de 2019 17 Tabela 1: Processos vistos na Coordenação de Gestão Documental Número do processo Assunto 1978 - 0.011.516-0 Edificação: alvará de construção (20/05/1969) 1986 – 0.009.895-5 Edificação: alvará de construção (13/07/1937) 1986 – 0.009.776-2 Edificação: auto de conclusão/habite-se (25/05/1938) 1986 – 0.009.771-1 Edificação: alvará de construção (07/07/1939) 1986 – 0.016.510-5 Edificação: alvará de reforma (26/02/1942) 1986 – 0.009.821-1 Edificação: transferência de responsabilidade técnica (22/04/1942) 1986 – 0.009.774-6 Edificação: reforma (06/05/1942) 1986 – 0.009.773-8 Edificação: reforma (04/08/1942) 1986 – 0.009.819-0 Edificação: auto de conclusão/habite-se (10/03/1943) 1986 – 0.009.818-1 Edificação: auto de conclusão/habite-se (16/03/1943) 1986 – 0.016.511-3 Edificação: autenticação/visto em planta (19/03/1943) 1986 – 0.009.772-0 Edificação: autenticação/visto em planta (19/03/1943) 1986 – 0.009.896-3 Edificação: auto de conclusão/habite-se (10/05/1943) 1986 – 0.016.518-0 Edificação: reforma (09/02/1949) 1997 - 0.194.650-2 Edificação: alvará de reforma (18/09/1956) 2011 – 0.297.423-0 Edificação: alvará de construção (06/10/1952) 2011 – 0.297.391-9 Edificação: auto de conclusão/habite-se (21/10/1953) 2011 – 0.297.124-0 Edificação: alvará de reforma (15/03/1957) 2011 – 0.296.361-1 Edificação: auto de conclusão parcial (22/06/1960) 2011 – 0.297.140-1 Edificação: auto de conclusão/habite-se (18/08/1960) 2017 – 0.042.559-1 Imóvel tombado/área envoltória: evento/exposição (13/03/2017) *o interessado deixou de ser a Sociedade Beneficente em São Pau- lo e outros (F. Matarazzo) e passou a ser a BM Empreendimentos e Participações SPE LTDA 18 Para contextualizar a realização do empreendimento conhecido como “Cidade Matarazzo” é necessário conhecer melhor seu investidor principal. Alexandre Allard é cidadão francês, embora nascido nos Estados Unidos. Tornou-se muito conhecido nos anos 1990 por ser um dos fundadores da empresa ConsoData, que reunia então a maior quantidade de dados do mundo. Após vender a empresa em 2000, ele passa a dedicar-se a projetos pontuais de reformas, e à medida em que seu volume de obras foi crescendo organizou o Grupo Allard, em 2009 (ENTREPRENDRE)2. O grupo Allard engloba atividades em diversos ramos comerciais: moda (Balmain), mídia (revista L’Architecture D’Aujourd’hui), arte e setor imobiliário e hoteleiro. Sua atuação na compra e reforma de antigas edificações e hotéis em Paris, como o Le Royal Monceau e o Hotel Particulier de Pourtalès, os deixando com serviço e infraestrutura luxuosos, foi bastante divulgada. Segundo o site “Entreprendre” a visão de Allard sobre o próprio grupo é que ele seria, “antes de tudo, uma tribo, que busca colocar seus talentos e conhecimentos ao serviço do belo, da emoção e da arte”3. O hotel 5 estrelas Royal Monceau, em Paris, foi a primeira experiência do grupo Allard na reabilitação de imóveis de luxo. O design de interiores é de autoria de Philippe Starck, que também faz parte da equipe do projeto da Cidade Matarazzo. O Hotel manteve a fachada antiga do edifício e teve o seu interior modificado, com a inserção de móveis e a identidade de Starck. A matéria de “Lifestyle” no site da Forbes diz que o Royal Monceau “é um hotel palácio, e que o que Starck criou é algo ousado, que mistura o clássico com o contemporâneo”4. Segundo o site da Cidade Matarazzo5, Allard gostaria de vender uma experiência de conforto aliada ao luxo, com cinema, arte e chefs internacionais renomados frente aos restaurantes no Royal Monceau. “O Hotel, da rede hoteleira Raffles, oferece aos seus clientes espaços dedicados a arte contemporânea. Livraria de arte, sala de cinema privada, galeria de arte contemporânea, coleção privada com mais de 300 obras de arte e um serviço de concierge de arte: o programa artístico do hotel é multidisciplinar, multimídia e intergeracional”. (ROYALMONCEAU)6 1.2 Histórico do Grupo Allard 19 O projeto que o grupo Allard está realizando no Brasil seguiria essa mesma linha de atuação. A proposta parece ser semelhante à dos empreendimentos na França, mas o porte e escala, no caso paulistano, é muito maior. Na França foi restaurada e reabilitada somente uma edificação, enquanto na “Cidade Matarazzo”, como será visto mais detalhadamente adiante, a proposta envolve um conjunto de edificações cuja reabilitação, para ser viabilizada, envolve ações construtivas complexas. Segundo o site da Cidade Matarazzo, o interesse do grupo Allard pelo complexo do Hospital Matarazzo, e a aquisição do complexo imobiliário em 2008, teria como foco a construção de um hotel e de instalações para o comércio de luxo, gerando renda, mas também teria a ver com a possibilidade potencial de investimento em cultura e arte, revitalizando o legado arquitetônico e cultural existente. Nesse sentido, foram chamados para a equipe de projeto importantes figuras internacionais do mundo artístico, design e arquitetura. O hotel é projeto do escritório do arquiteto francês Jean Nouvel, os interiores do hotel são projeto do designer francês Philippe Starck, e outros artistas e designers irão contribuir com o novo complexo multifuncional. A seguir será tratada cada etapa do empreendimento de maneira detalhada, começando pela Torre Mata Atlântica, projetada pelo escritório de Jean Nouvel; em seguida será abordado o novo uso a ser atribuído ao antigo complexo hospitalar. 20 Será feito a seguir o detalhamento da proposta de empreendimento chamada “Cidade Matarazzo”, em duas etapas, assim como foi definido o projeto. A primeira tratará a Torre Mata Atlântica e o setor de hotelaria e a segunda o Hospital e o setor comercial. 1.3.1 Etapa 1: Torre Mata Atlântica, maternidade e capela (hotelaria, previsão 2020) Segundo o discurso presente no site do empreendimento, o grupo Allard pretende “realizar um sonho brasileiro, mostrando o melhor que há de sua cultura e raízes”. Ainda assim, de fato, os projetos foram idealizados por franceses, que por mais que conheçam e admirem a cultura brasileira, não são de fato brasileiros. Pode-se entender, portanto, que se trata de um empreendimento de parceria franco-brasileira, envolvendo profissionais de grande presença internacional. A proposta para o antigo complexo hospitalar Matarazzo é de restaurar e preservar os edifícios históricos, sendo que somente a Capela será completamente restaurada e terá o uso original mantido. Junto à antiga edificação da maternidade haverá uma nova torre, projetada pelo escritório francês Jean Nouvel, abrigando um grande hotel de luxo, 6 estrelas, da empresa Rosewood Hotels&Resorts. “Encontro entre o histórico e o contemporâneo: um hotel palácio, administrado pelo renomado Rosewood Hotels & Resorts. O edifício histórico será entrelaçado com uma torre moderna projetada por Jean Nouvel – evidência concreta do futuro que ganha vida dentro do coração de São Paulo.” (CIDADEMATARAZZO) Além do grande hotel de luxo haverá uma área para comércio, e será implantando um jardim, com as “árvores mais comuns e famosas brasileiras”, supostamente, “inspirado na Mata Atlântica”, buscando evidenciar uma “brasilidade” aliada ao exotismo do olhar estrangeiro. A torre Mata Atlântica teria sido proposta de maneira a se mesclar na paisagem, dando continuidade ao “parque” Matarazzo, através da presença de vegetação e árvores na sua fachada e 1.3 A proposta de intervenção 21 interiores, além de contar com a presença de materiais locais de fácil acesso como a madeira, o metal com aspecto de madeira e o concreto. SegundoJean Nouvel a ideia de colocar as árvores da torre veio após sua visita à maternidade e ao complexo histórico, onde percebeu que havia muita vegetação e um clima próprio, levantando a sugestão de integrar os dois locais com a presença da vegetação na torre também contrastando com as outras torres presentes na Av. Paulista (L’Archictecture D’Aujourd’hui, Montpellier, França, p.24-27, 2019). Para a volumetria, o arquiteto propôs que o edifício tivesse perfil piramidal, em composição que permite criar vários terraços arborizados, dando soluções distintas para cada lado, com fachada mais aberta, com largos e profundos terraços arborizados, voltada para o parque. Enquanto a fachada com vista para a cidade tem aspecto mais íngreme (figura 16), visando criar um diálogo com os imóveis já existentes, pelo maior uso de concreto armado. As fachadas leste e oeste possuem brises de madeira para proteção solar. O conjunto configura uma torre de 93 metros de altura, englobando o hotel 6 estrelas e um complexo residencial (que possui os serviços hoteleiros – estilo “flats”) com 104 quartos e 126 suítes privadas, mais um spa, área “fitness” e a cobertura privada. Segundo o arquiteto Jean Nouvel, essa nova arquitetura “fala do passado, presente e futuro. Passado devido a técnica de construção em madeira que está há mais de séculos na história. Do presente pois ela se insere de maneira harmônica entre as construções antigas. Do futuro na nova maneira de habitar, com a presença de vegetação e jardins suspensos em São Paulo, com vistas luxuosas, caracterizando uma arte de viver em São Paulo” (JEANNOUVEL)7. A construção da torre está sendo feita em uma área do terreno que não é tombada, porém o seu impacto na paisagem e no complexo tombado será enorme, aspecto que será abordado no capítulo 3. A torre ainda está em construção; a previsão de abertura do Hotel e Capela é para o primeiro semestre de 2021. A visita de campo das obras, pela autora, ocorreu em setembro e outubro de 2019, tendo sido possível acompanhar uma parte das obras de perto, o que ajudou na compreensão do conjunto (figuras 17-22). 22 Fig. 16: Imagem renderizada da Torre inserida na paisagem, lado com vista para a cidade e o bairro da Bela Vista; Disponível em: http://www.jeannouvel.com/projets/ torre-rosewood/ Acesso 14 de maio de 2019 Fig. 18: Torre Mata Atlântica em construção vista de fora do terreno. Foto: Natália Hetem, jun/2019 Fig. 17: Vista de frente do restauro da maternidade e a Torre Mata Atlântica ao fundo. Foto: Natália Hetem, set/2019 23 Fig. 19: Fundo da maternidade sendo restaurado. Foto: Natália Hetem, out/2019 Fig. 20: Arcos de apoio para a estrutura original da maternidade, construção do Lobby do Hotel. Foto: Natália Hetem, out/2019 Fig. 22: Restauração do interior da capela. Foto: Natália Hetem, out/2019 Fig. 21: Restauração da fachada da capela. Foto: Natália Hetem, out/2019 24 O projeto de interiores será realizado pelo designer Philippe Starck. Segundo consta no site do empreendimento, o espaço pensado pelo designer funcionaria como “uma ponte entre a criatividade brasileira e a europeia”. Starck se mostra muito poético na descrição do seu trabalho e no local da “Cidade Matarazzo”: Cidade Matarazzo deu vida a São Paulo e depois dormiu. Cidade Matarazzo está acordando e dará, novamente, vida à São Paulo Não do mesmo jeito. Na primeira vez era feita de carne. A nova é feita de sonhos. Sonho, visão, criatividade, rigor são os pontos da Matarazzo. O sonho é simples; criar uma ilha, criar um pasaíso no meio da cidade, o qual vai se tornar o centro da vida da cidade. Quem quer que seja, em qualquer momento da sua vida, seus sonhos terão seu próprio local na Matarazzo. Como a vida. Para sempre. Ph. S. (STARCK, 2016)8 No poema acima ele faz referência à época em que o local era um hospital, principalmente à Maternidade, e evidencia a drástica mudança que o local sofrerá, se transformando em realizador de sonhos. Mas, sonhos de quem? Dos investidores, do Alexandre Allard, do próprio Starck e dos outros envolvidos. O projeto, por suas características, provavelmente servirá apenas a uma parcela muito pequena da população, amante da arte, cultura e, principalmente, do luxo, para desfrutar dos privilégios que o local oferecerá. No local há um showroom para visita e divulgação, aos possíveis compradores, simulando os espaços das suítes da Torre. E no site da Cidade Matarazzo já existem imagens renderizadas mostrando o projeto das áreas comuns do hotel (figuras 23-28), permitindo ter uma noção de como ficará a obra, quando finalizada. No “press release” da torre hoteleira Mata Atlântica, gerenciada pela rede Rosewood, o grupo Allard aponta esse empreendimento como “o melhor investimento para o mercado de luxo na cidade e no Brasil”. Os acabamentos da torre estão sendo projetados por uma empresa francesa, a Ateliers de France, usando materiais encontráveis no Brasil, pois eles consideram que “o luxo não precisa ser importado”, já que o país tem muitos recursos de alta qualidade. Essas frases 25 anteriores me fazem pensar sobre como, em pleno século 21, ainda se pensa no Brasil como ótimo fornecedor de matéria prima e de mão de obra, mas que segue sob o comando de europeus, sem assumir o papel de líder do próprio destino. Os textos de apresentação do projeto da “Cidade Matarazzo” revelam claramente seu vezo eurocêntrico, embora pretendam estar vestidos de “brasilidade”. Como é um empreendimento de grande porte, segue um resumo dos projetos que estão sendo feitos no complexo: arquitetura da torre por Jean Nouvel; direção artística e suítes (cada uma com 130-450m², com mais de 50 lay-outs diferentes) desenhadas sob medida por Philippe Starck; serviços de hotel por Rosewood Hotel & Resorts; acabamentos por Ateliers de France no Brasil; e paisagismo por Louis Benech. A presença de profissionais brasileiros ocorre somente na administração, mão de obra e fornecimento de materiais, não comparecendo nos estágios dos processos criativos. Fig. 23 e 24: Modelo da suíte de 163m². Fonte: Cidade Matarazzo. Disponível em: https://www. cidadematarazzo.com.br/ suites-tipos Acesso 17 de fevereiro de 2020 26 Além dos profissionais mencionados acima, o escritório franco-brasileiro Triptyque Arquitetura também está presente, sendo responsáveis pelas obras de restauro e reformas no interior do complexo. No subsolo de 31 metros, criado sob a capela, haverá estacionamentos, espaços de apoio ao hotel e espaços de eventos. O antigo Hospital, que será tratado a seguir, será restaurado e abrigará lojas de luxo, um centro cultural e um mercado de produtos orgânicos. Fig. 25 e 26: Modelo da suíte de 342m². Fonte: Cidade Matarazzo. Disponível em: https://www.cidadematarazzo. com.br/suites-tipos Acesso 17 de fevereiro de 2020 27 Fig. 28: Piscina do hotel. Fonte: Cidade Matarazzo. Disponível em: https://www. cidadematarazzo.com.br/hotel-fachada Acesso 17 de fevereiro de 2020 Fig. 27: Recepção e bar do hotel. Fonte: Cidade Matarazzo. Disponível em: https:// www.cidadematarazzo.com.br/hotel- fachada Acesso 17 de fevereiro de 2020 28 1.3.2 Etapa 2: Hospital e lojas (lojas comerciais, previsão 2021) A parte do conjunto que abrigava o antigo Hospital será transformada em uma grande área comercial, mantendo somente alguns elementos originais dos interiores, aqueles que estão indicados nas resoluções de tombamento do Conpresp e do Condephaat, e que também indica que todas as fachadas devem ser restauradas. O processo de restauro e manutenção das fachadas e esquadrias das edificações do hospital ainda não começou, pois o empreendimento deu prioridade às obras da maternidade, da capela, e da Torre. Portanto, a situação em que ele se encontrava quando visitei o local (em 2019) é bastante precária, e praticamente a mesma (ou ainda mais degradada) de quando a área foi comprada há 12 anos atrás (figuras 29-32). O setorque irá abrigar um mercado de produtos de luxo (figuras 33 e 34) adotará soluções de alta tecnologia para o desenvolvimento do sistema de compras, com parceria da empresa multimarcas de roupas Farfetch. Está previsto no projeto um “percurso sensorial” dos interiores, de autoria do designer francês Hubert de Malherbe (L’Archictecture D’Aujourd’hui, Montpellier, França, p.58-67, 2019). Junto do antigo complexo hospitalar também terá implantado a parte cultural e o comércio de produtos orgânicos, onde será empregado mobiliário de autoria dos Irmãos Campana. Todas essas diferentes atividades se complementam e quando finalizadas irão compor o chamado “parque” Matarazzo. Assim como o polêmico túnel a ser implementado, chamado “Boulevard da Diversidade”, que será concluído somente em 2022 (ver adiante). O mercado orgânico que ficará aberto 6 dias na semana, com produtos locais expostos para venda, será uma ação conjunta do empreendimento “Cidade Matarazzo” com a organização “Horta Social Urbana”, que treina moradores de rua para o trabalho agricultural nas fazendas urbanas, com o propósito de promover compartilhamento, autonomia e desenvolver habilidades (L’Archictecture D’Aujourd’hui, Montpellier, França, p.19, 2019). A organização “Horta Social Urbana” atua principalmente nos locais ociosos da cidade de São Paulo, com o seguinte objetivo: “Formar pessoas em situação de rua em técnicas de jardinagem com práticas agroecológicas promovendo seu fortalecimento à reintegração social” (HORTA SOCIAL URBANA). 29 Fig. 31: Outra fachada do hospital. Foto: Natália Hetem, set/2019 Fig. 29: Fachada de uma das edificações do hospital, possível ver a ação do tempo. Foto: Natália Hetem, set/2019 Fig. 30: Detalhe da esquadria. Foto: Natália Hetem, set/2019 Fig. 32: Interior da edificação. Foto: Natália Hetem, set/2019 30 Fig. 34: Lay-out sugerido para as lojas de luxo. Fonte: Cidade Matarazzo. Disponível em: https://www.cidadematarazzo.com. br/empreendimento-retail Acesso 17 de fevereiro de 2020 Fig. 33: Lay-out sugerido para as lojas de luxo. Fonte: Cidade Matarazzo. Disponível em: https://www.cidadematarazzo.com. br/empreendimento-retail Acesso 17 de fevereiro de 2020 31 O design do mobiliário será realizado pelos Irmãos Campana. Os Irmãos Campana propuseram diferentes mobiliários (figuras 35-38) a serem dispostos ao longo do mercado, a partir de ideias e referências ao Brasil e sua cultura, dialogando com o discurso adotado para o complexo. Perto do mercado de produtos orgânicos haverá um centro cultural destinado à divulgação da obra de artistas brasileiros e internacionais, o qual será chamado de “Casa da Criatividade”. O espaço cultural terá patrocínio do banco Bradesco, passando, portanto, a ter o nome de “Casa Bradesco da Criatividade”, e conterá salas de exposição e um auditório no subsolo, entre o complexo hospitalar (figuras 39-41). Próximo da capela haverá uma nova edificação destinada a um centro comercial, pensado e projetado pelo arquiteto francês Rudy Riccioti (figura 42). Segundo o Comercial da Cidade Matarazzo, essa edificação será a primeira com serviços de alto de luxo em São Paulo, pois aproveitará a rede do hotel 6 estrelas e a infraestrutura total do empreendimento, como as lojas, restaurantes e áreas de lazer. A arquitetura da edificação foi projeto de Rudy Riccioti e ele optou, assim como Nouvel, de trazer a questão do verde para a fachada, com a ideologia de cipós. O empreendimento da Cidade Matarazzo é bastante complexo, intervém em diversas áreas e busca ter como foco de sua proposta a presença da arte em todos os ambientes: Mas a arte não estará restrita apenas à Casa da Criatividade, ela vai estar espalhada por todo o empreendimento: nos jardins, nas galerias, nos bares e nos restaurantes. Ao caminhar pelo Matarazzo, será possível respirar arte. Ao todo, 57 artistas brasileiros terão os seus trabalhos expostos aqui. (CIDADEMATARAZZO)9 Além das intervenções dentro do lote, na capela, no hotel, no interior do hospital e com o foco na arte, o empreendimento inclui uma intervenção externa, de caráter urbanístico, visando conectar o conjunto à Avenida Paulista através de um “túnel verde” sob a rua São Carlos do Pinhal (fig. 43 e 44). A ideia seria de maneira a facilitar o acesso dos pedestres ao complexo e seu jardim, desviando a rota de carros para o subsolo. A proposta envolveria uma grande obra de engenharia, e tinha previsão de conclusão para 2022; mas a ideia vem sofrendo forte oposição dos comerciantes estabelecidos nas ruas locais, e por isso foi postergada. 32 No nível da rua seria então criado o “Boulevard da Diversidade”, projeto da arquiteta e urbanista Adriana Levisky. Segundo o plano de trabalho do acordo de cooperação do Boulevard da Diversidade, o projeto pretende transformar o espaço urbano e os hábitos das pessoas que circulam a região (o que é uma grande promessa a ser feita). “Trata-se de uma nova perspectiva para a cidade de São Paulo” (SÃOPAULO)10. É proposto, além do túnel, uma requalificação urbana da alameda das flores (que tem acesso à Av. Paulista, fornecendo então um fácil acesso ao empreendimento), com o objetivo de ampliar o espaço público, e torná-lo aberto ao público (figura 45). Para a requalificação desse ambiente urbano é proposta uma nova paginação de piso, nova iluminação pública, e mobiliário urbano também com desenho dos irmãos Campana. O local terá a implantação de sistema gratuito de acesso à internet via wi-fi, e um projeto paisagístico condizente com o restante do empreendimento. Também será feito um sistema de drenagem e captação da água da chuva (figura 46). O conjunto “Cidade Matarazzo” é um projeto inovador em sua dimensão e com grande complexidade de programa, o que torna difícil de achar casos de comparação aqui no Brasil, principalmente pelo fato de envolver o reuso, em caráter comercial, de edifícios tombados pelos órgãos de patrimônio histórico – um assunto que, por sua novidade e escala, irá afetar de maneira bastante relevante a questão da memória da cidade e dos cidadãos. Por isso o próximo capítulo irá debater a questão patrimonial de edifícios e sítios históricos e como ela vem sendo tratada no campo da teoria e da prática, no Brasil e no mundo, como essas questões vem sendo tratadas também através de debates públicos e abertos, que notificam e informam a população sobre as propostas, permitindo críticas e confrontos; e verificando o exemplo de outros projetos similares, principalmente internacionais, e dois nacionais. 33 Fig. 36, 37 e 38: Mobiliários propostos pelos Irmãos Campana, de bambu, madeira e tubos de acrílico, respectivamente. Fonte: L’Archictecture D ’ A u j o u r d ’ h u i , Montpellier, França, p.18, 2019 Fig. 35: Perspectiva do mercado orgânico. Fonte: Cidade Matarazzo. Disponível em: https://www. cidadematarazzo.com. br/empreendimento - mercado-orgnico Acesso 19 de fevereiro de 2020 Fig. 39: Corte com o programa de necessidades da “Casa Bradesco da Criatividade”, de Rudy Ricciotti. Fonte: L’Archictecture D ’ A u j o u r d ’ h u i , Montpellier, França, p.34, 2019) 34 Fig.41: Perspectiva da área de exposição da “Casa Bradesco da Criatividade”. Fonte: Cidade Matarazzo. Acesso 19 de fevereiro de 2020 Fig.40: Perspectiva do palco do auditório dentro da “Casa Bradesco da Criatividade”. Fonte: Cidade Matarazzo. Acesso 19 de fevereiro de 2020 Fig. 42: Fachada da edificação do centro comercial, de Rudy Ricciotti. Fonte: L’Archictecture D’Aujourd’hui, Montpellier, França, p.33, 2019 35 Fig. 43: Maquete do showroom do “Boulevard da Diversidade. Fonte: Showroom Cidade Matarazzo, foto de Natália Hetem, outubro de 2019 Fig. 44: Corte esquemático do túnel. Fonte: Estadão. Disponível em: https://sao-paulo.estadao.com. br/noticias/geral,sp-megacomplexo-de-luxo-em- antigo-hospital-sera-aberto-em-maio-na-bela- ista,70003024352 Acesso: setembro de 2019 Fig. 45: Implantaçãodo Boulevard da Diversidade. Fonte: Plano de Trabalho de Acordo de Cooperação – Anexo V do Edital n1-2019, pag.3. 36 Fig. 46: Desenho com o sistema de drenagem e coleta de água da chuva. Fonte: Plano de Trabalho de Acordo de Cooperação – Anexo V do Edital n1-2019, 37 O segundo capítulo abordará a questão patrimonial, trazendo as cartas, teorias e a legislação de São Paulo e da região em que o projeto se situa, além dos documentos do CONPRESP e CONDEPHAAT. Também é dividido em partes, a primeira sobre teorias de patrimônio, as cartas internacionais, memória e historiografia. A segunda com legislações aplicadas ao caso, a terceira com as questões relativas ao debate público da proposta e a quarta com os exemplos e breves estudos de casos dos projetos similares em programas e/ou intervenção em pré-existência. Para a realização do trabalho foi feita a leitura sobre os atuais teóricos de restauração, documentos do IPHAN, teses e livros sobre patrimônio e políticas públicas, sobre como agir em uma pré-existência (problema que maioria das cidades têm ao ver necessidade de expandir seu espaço urbano e melhorar sua infraestrutura), pesquisa nos arquivos da cidade de São Paulo e nos órgãos responsáveis (Departamento de Patrimônio Histórico, CONPRESP, IPHAN, CONDEPHAAT) no arquivo histórico da cidade de São Paulo e levantamento e registro de fotos do objeto escolhido. Traz como referências Cesare Brandi, Gustavo Giovannoni e Giovani Carbonara na área de restauro, Jan Gehl e Jane Jacobs para o urbanismo, Castriota para a questão de políticas públicas, Lemos sobre patrimônio no Brasil. Trata da Carta de Atenas de 1931, Carta de Veneza de 1964 e Declaração de Amsterdã de 1975, Halbwach sobre a questão da memória e Waisman sobre historiografia. Fará a leitura e compreensão do plano diretor de São Paulo e do Estatuto da Cidade de 2001 para compreender os instrumentos urbanos que podem ser utilizados, e ver se a obra está de acordo com eles. Foi realizado um levantamento dos conceitos mais importantes para a pesquisa. Começando com as diretrizes das cartas patrimoniais e dos teóricos de restauração e de autores sobre patrimônio, historiografia, memória e sobre a temática urbana para finalizar. Em seguida trata as políticas e instrumentos necessários para a realização de intervenção. Após visto os instrumentos, foi abordado a questão da discussão e divulgação do que vem sendo feito na obra para o público. Por último, será apresentado os outros estudos de caso, que servirão como base para a análise aprofundada do caso da Cidade Matarazzo. DEBATES E EXPERIÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS SOBRE A INTERVENÇÃO EM BENS PATRIMONIAIS 2. 38 Para dar início a coletânea bibliográfica trataremos as cartas internacionais na ordem cronológica de lançamento. A Carta de Atenas de 1931 e a Carta de Veneza de 1964 - que foi criada pelo segundo Congresso de Arquitetos e Especialistas em Edifícios Históricos, criadores também do ICOMOS (Conselho Internacional aos Monumentos Históricos e sítios) - são fundamentais para a discussão de patrimônio, já que são uns dos primeiros documentos a serem feitos do assunto na Europa. Cada uma foi feita em um tempo e leva em consideração o seu contexto, de cidades destruídas após as guerras mundiais. O ICOMOS foi criado após a Carta de Veneza de 1964, em 1965, devido a sugestão da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) para o segundo Congresso de Arquitetos e Especialistas em Edifícios Históricos. É uma organização internacional governamental sem fins lucrativos que se dedica “à promoção da aplicação da teoria, metodologia e técnicas científicas para a conservação do patrimônio arquitetônico e arqueológico. “(ICOMOS). O ICOMOS é uma rede de especialistas que se beneficia do intercâmbio interdisciplinar entre os seus membros, entre os quais estão arquitetos, historiadores, arqueólogos, historiadores de arte, geógrafos, antropólogos, engenheiros e urbanistas. Os membros do ICOMOS contribuem para o aperfeiçoamento da preservação do patrimônio, das normas, e das técnicas para cada tipo de bem do patrimônio cultural: edifícios, cidades históricas, paisagens culturais e sítios arqueológicos. (ICOMOS) 2.1 Teorias e legislações presentes em cartas e protocolos internacionais, breve revisão bibliográfica 39 2.1.1 Cartas internacionais A Carta de Atenas de 1931 é mais voltada para a proteção dos monumentos, pensando em conservá-los e somente restaurar quando for indispensável. A conferência recomenda que se mantenha uma utilização dos monumentos, que assegure a continuidade de sua vida, destinando-os sempre a finalidades que o seu caráter histórico ou artístico. (Carta de Atenas, 1931) A conferência recomenda respeitar, na construção dos edifícios, o caráter e a fisionomia das cidades, sobretudo na vizinhança dos monumentos antigos, cuja proximidade deve ser objeto de cuidados especiais. (Carta de Atenas, 1931) O documento preza pelo emprego adequado de técnicas modernas, sem alterar o caráter da edificação a ser restaurada. Apresenta que deve haver interesse mundial público de salvaguardar os monumentos. Enfatiza a necessidade de uma boa educação para a população adquirir interesse pela obra. Impõe fazer registros e arquivos dos monumentos históricos, com informações e fotos. Segundo Kuhl (s.d.), os anos de 1930 viveu uma grande contradição entre os grupos de arquitetos conservadores e o de arquitetos engajados com o modernismo, pois havia a vontade e necessidade de se modernizar e urbanizar as cidades, assim como a de manter a paisagem urbana. Portanto, começa o pensamento urbanístico que valoriza o modernismo, enquanto a Carta de Atenas de 1931 não leva tanto esse assunto em consideração, sendo o primeiro documento internacional redigido por especialistas de restauração que visa elaborar diretrizes gerais e prioriza a história. A Carta de 1931 se preocupa em fornecer diretrizes para organização de princípios de salvaguarda patrimonial em diversos países, sugere respeito às transformações que a obra sofreu com o tempo, e condena a reconstrução. Atualmente estamos vivendo novamente essa contradição, já que cada vez mais se quer demolir construções antigas para construir novos empreendimentos e valorizar áreas subutilizadas. Porém, pode haver um meio termo nessas relações, como escolher edificações que realmente já estão muito degradadas e não tem valor para a cidade e as demolir, o que acarreta na melhor manutenção e conservação dos edifícios emblemáticos e importantes para a memória de um povo. O local da “Cidade Matarazzo” é um exemplo dessa contradição, pois foi visado ao longo dos anos como um local de grande potencial construtivo, mas não levando em consideração o patrimônio edificado já existente por lá. A proposta de empreendimento atual transformou a visão sob o local, mostrando 40 que há a possibilidade de se construir o novo junto do antigo. Isso será tratado mais detalhadamente nos próximos capítulos. A Carta de Veneza de 1964 é a carta internacional sobre conservação e restauração de monumentos e sítios. É utilizada até hoje como referência nos projetos de preservação e restauração pois se tornou o documento base do ICOMOS, não existe outra carta ou documento que a substitua. Segundo ela, as obras monumentais dos povos são testemunhos das tradições, são consideradas patrimônio comum pela humanidade, e esta deve preservá-las para as gerações futuras. Define monumento histórico como: a criação arquitetônica isolada, bem como o sítio urbano ou rural que dá testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico. Estende-se não só as grandes criações, mas também às obras modestas, que tenham adquirido, com o tempo, uma significação cultural. (Carta de Veneza, 1964) A Carta trata a restauração e a conservação como disciplinas que utilizam colaboração dediferentes áreas e técnicas, com a finalidade de salvaguardar o patrimônio e o testemunho histórico. Em seu texto fica evidente que a conservação exige manutenção constante, é favorecida com uma destinação útil para a cidade, não se deve alterar as características do edifício, e o monumento é inseparável da sua história e testemunho do tempo no local inserido, é intolerável o seu deslocamento. Já a restauração é vista com caráter excepcional, tem como objetivo “conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se no respeito ao material original e aos documentos autênticos” (Carta de Veneza, 1964). Essa ação é precedida de um estudo arqueológico do sítio, respeita as contribuições de épocas que o monumento sofreu, os elementos adicionais que substituem o que falta devem se integrar harmonicamente mas distinguindo-se do original e respeitando a edificação. Para Kuhl (2010), as cartas patrimoniais têm caráter indicativo, prescritivo e são bases para as profissões que atuam em restauração e preservação. No Brasil, o uso da Carta de Veneza não é aprofundado nas questões que a carta aborda, o que seria necessário, já que ela não tem um princípio normativo e sim de diretriz. Kuhl relaciona o contexto de criação da Carta de Veneza e relata que algumas recomendações da Carta de Atenas de 1931 serviram de base à ela. Além da Carta de 1931, ela se baseia em propostas do “restauro crítico” de Brandi, sugere a análise da obra pensando no estético e no histórico, tendo cada caso sua particularidade. 41 Em resumo, as cartas não são leis ou regras que devem sempre ser seguidas, elas complementam as teorias já existentes sobre restauração e conservação, fornecendo recomendações e apoio ao profissional que atua na área. Em 1975 temos a Declaração de Amsterdã como um importante documento sobre patrimônio e que traz conceitos novos de gestão, como o de conservação integrada. Muito voltada para as questões europeias, relata que o patrimônio europeu é integrante do patrimônio cultural do mundo. Traz um sentido amplo de patrimônio, composto por conjuntos, bairros que tenham valor histórico e cultural, além dos bens isolados, e que é dever da população evitar a deterioração e proteger os bens. Aponta o patrimônio como objetivo maior dos planejamentos da área urbana, que devem o considerar e o proteger. É preciso encorajar organizações privadas (no caso principal de estudo deste trabalho o interesse partiu da iniciativa privada) para contribuir no interesse público, é necessária a reprodução de relatórios periódicos do estado de conservação e do desenvolvimento do trabalho em cada país para que seja possível os conservar. Segundo a declaração, sem política de ação e proteção, e sem a conservação integrada não é possível se manter um patrimônio. A conservação do patrimônio deve ser incluída em programas de educação e desenvolvimento cultural para conhecimento do próprio à população. A participação popular deve, então, sempre estar presente. A declaração de 1975 introduz e aborda o conceito de conservação integrada para salvaguarda de patrimônio. A conservação integrada exige adaptações de medidas legislativas e administrativas para ter medidas financeiras apropriadas e convincentes, sendo cada estado responsável por seu próprio método e instrumento. Portanto ela é a base do funcionamento das políticas de salvaguarda, é um plano detalhado de como agir com as políticas públicas que deve ser elaborado pelo governo e instituições privadas, investidores. É então necessárias leis para novas construções, que respeitem o patrimônio. O planejamento deve desencorajar a densificação e promover a reabilitação, estimular o financiamento privado e dar apoio ao proprietário para ele realizar a restauração. A conservação integrada é um passo essencial para dar mais valor ao patrimônio, seja ele edificado ou não, para a preservação do mesmo. 42 2.1.2 Patrimônio histórico e teorias de restauração Um dos pensadores de restauração mais atual e que tem sua teoria recorrente é Cesare Brandi, com a “Teoria da Restauração”. O autor traz a restauração como qualquer intervenção feita para dar novamente eficiência a um produto da atividade humana. Relata o restauro na obra de arte, que vai restabelecer a sua funcionalidade, dando prioridade à estética e depois a história. Segundo ele: “A restauração constitui o monumento metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão para o futuro” (BRANDI, 2004. p.30) e “A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo.” (BRANDI, 2004. p.33) Discute a relação do tempo na obra de arte, que está presente no aspecto fenomenológico, em 3 momentos: quando a obra é formulada, quando se acaba o processo criativo e ela se torna obra e quando ela fica marcada na consciência e então se torna atemporal. Esses tempos são diferentes do tempo histórico do observador, que pode observar uma obra do século passado no século atual. Isso pode se relacionar com a arquitetura e sua questão de passado, presente e futuro, que diferentes épocas e estilos podem conviver juntos e em harmonia nas cidades. Algo que está acontecendo atualmente e de maneira mais recorrente devido ao crescimento da cidade na malha urbana existente. Algo que será altamente evidenciado na “Cidade Matarazzo” quando o empreendimento estiver completo e tiver a nova torre dialogando – e contrastando – com as edificações antigas. O autor aborda diferentes tipos de restauração e como agir frente a elas. Em restauração de ruínas indica que se deve a consolidar e conservar o status atual no qual se encontra, sem realização da intervenção direta, tendo então uma intervenção indireta no ambiente para pensar na melhor preservação do local. O que pode se tornar um problema urbanístico. Em questão estética a ruína deve ser tratada como qual e ser conservada e conectada com o restante do ambiente. “Esteticamente ruína é qualquer remanescente de obra de arte que não pode ser reconduzido à unidade potencial sem se tornar cópia.” (BRANDI, 2004, p.78) Brandi nos alerta que ao se fazer a conservação existem alguns problemas que é preciso tomar cuidado em relação a legitimidade 43 no valor histórico. Existe a remoção de elementos e o refazimento de elementos de uma obra ou edificação. Na remoção, segundo Brandi, se destrói os documentos e a passagem histórica do local, o que pode ser uma falsificação de dados. Acredita que a adição é legítima para a conservação, mas pode ser pior se refazer os elementos, o que seria condenável. Portanto, é preciso pensar isoladamente em cada caso qual a melhor solução, manter as camadas adicionadas ao longo do tempo ou as retirar, pois é um impasse na teoria brandiana que deve ser solucionada com projeto com base na experiência do profissional e na opinião popular. Vai abordar a questão da restauração preventiva, que é relacionada com os materiais constituintes da obra. Esses podem sofrer alterações devido suas composições químicas, o que pode afetar a obra com o tempo, e podem ser prevenidas. A restauração preventiva se vincula então com a restauração, e nada mais é do que a cautela e remoção de perigos, assegurar condições favoráveis a obra, ela exige mais despesa. A maioria da teoria de Brandi do restauro crítico é sobre obras de arte, no apêndice ele trata da restauração de monumentos. São os mesmos princípios, mas pensando também na questão estrutural e na forma da arquitetura, assim como na espacialidade do monumento com seu ambiente, diz para pensar no sítio histórico. Na apresentação de Carbonara do livro traduzido por Beatriz Kuhl, ele explica amplamente a teoria de Brandi. Diz que ele buscouuma configuração ampla e sistemática sobre a questão da restauração com princípios gerais e válidos, como o de se levar em consideração o juízo de valor e que a obra de arte que condiciona a restauração. É uma teoria completa e muito experimentada na arte, escultura e até mesmo na arquitetura, mas para essa última é preciso ampliar métodos e aplicações para se elevar a qualidade das restaurações, portando, é juntar a teoria brandiana com o restauro crítico. Kuhl (2006) traduz o trabalho de Carbonara que relaciona a teoria de Brandi, que é voltada para as artes, com a arquitetura. Afirma que primeiro deve-se reconhecer o objeto como obra, seja este na arquitetura ou na arte. É pensado na restauração sem infringir, tornando o restauro crítico de Brandi a base para novas perspectivas de restauração, como a que Carbonara é vinculado, a restauração “crítico conservativa”, utilizada na arquitetura. Traz que o restauro na obra de arte não se encaixa para o arquitetônico pois ele é tratado de maneira isolada ao seu sítio. Na arquitetura é preciso pensar no todo, fazer o restauro estrutural sem prejudicar o valor histórico, e cada caso 44 apresenta suas próprias características. O caso de estudo principal do trabalho aborda essa questão de uma maneira extremamente inovadora e ousada, que veremos no terceiro capítulo. A autora Nahas (2015) analisa as intervenções de caráter monumental no Brasil. Segundo ela, a prática da restauração e preservação é mais frequente na contemporaneidade, na relação de edifícios do passado com novos usos e com uma destinação útil a um monumento que estava obsoleto. Na visão de Nahas (2015), é preciso adotar a teoria da restauração de Cesare Brandi como referência na produção de arquitetura mundial, fazendo com que o monumento se torne o protagonista da intervenção, já que nele estão os valores e a memória. A arquitetura é passiva em relação ao tempo, sofre com ele e juntos entram em um ciclo, pois as edificações do passado se tornam memória, e as do presente, viram passado no futuro. Segundo a autora, a preocupação com os bens culturais é devida à memória que eles carregam, à toda a história de uma comunidade. Essa questão reflete no modo em que são preservados. Por exemplo, quando um edifício é bem cuidado, significa que sua população quer manter sua memória, mas quando ele se encontra degradado, evidencia a perda da memória e história que lá havia. É preciso encontrar o ponto de equilíbrio entre o que preservar e o que esquecer, conservar os valores dos monumentos, mesmo dando um novo uso a eles. Nahas (2017) analisa a teoria de Giovani Carbonara, restaurador italiano que procura definir o papel da arquitetura contemporânea nos monumentos do passado. Ele traz a questão de refletir sobre o cenário atual da arquitetura, que é a falta de unidade entre a intervenção nova e a edificação passada, sendo a preexistência manipulada para dar as diretrizes que se quer ao projeto (o que podemos notar na “Cidade Matarazzo” de maneira bastante clara). Para Carbonara (NAHAS, 2017), a arquitetura passada acaba servindo de suporte para o novo. O problema principal que o restauro aborda é o fato da conservação e da intervenção alterarem a matéria original, por isso é preciso pensar em como fazer tal trabalho sem modificar sua essência. É preciso ter um limite entre intervenção e o antigo. Para isso, Carbonara desenvolve 5 categorias, “Autonomia/Dissonância”, “Assimilação/Consonância”, “Relação dialética/Reintegração da imagem”, “Intervenção não direta”, “Caso Particular”. O caso da Cidade 45 Matarazzo leva em consideração os 5 pontos, alguns mais do que outros, na obra de restauração das antigas edificações. Foi pensado muito nos primeiros 3 pontos para a restauração das edificações do hospital, mas os últimos dois pontos foram levados menos em consideração, com a inserção da proposta de intervenção da nova torre de arquitetura contemporânea. A 1ª é a “Autonomia/Dissonância” que é a discordância linguística do antigo e do novo, autonomia entre a arquitetura passada e a nova, intervenção feita com mudança de uso do original e respeito ao estético e histórico; A 2ª é a “Assimiliação/Consonância” que são as intervenções baseadas no repertório existente do passado, recuperação dos princípios compositivos do monumento e manutenção do seu uso original. A 3ª é a “Relação dialética/Reintegração da imagem” traz a abordagem crítico-conservativa e de reinterpretação do local, tem maior rigor na aproximação do novo e do antigo, compreensão da história do monumento e de seus valores estéticos para fornecer uma diretriz da arquitetura contemporânea a ele que interaja com seu passado. A 4ª é a “Intervenção não direta” que é constituída de ações minimalistas, intervenções quase inexistentes. A 5ª e última é “Caso Particular” quando se tem intervenções especiais não comentadas nas categorias acima. O trabalho do arquiteto restaurador é sensível e precisa destacar o respeito à edificação, como dito por Carbonara: Quando nos colocamos resilientes diante do passado, compreendemos seus valores intrínsecos, sua vocação funcional, enxergamos a sua beleza artística, histórica e simbólica. Desenvolvemos capacidade de escutar e estabelecer juízo crítico com a obra, alcançando rigor metodológico e limite criativo para um bom projeto de restauro. (NAHAS, 2017) Gustavo Giovannoni é um pensador do urbanismo e aborda questões de patrimônio relacionadas ao traçado urbano já existente nas cidades e áreas centrais. No seu texto “Velhas cidades e a nova construção urbana” ele traz que a construção urbana é um novo ramo de conhecimento que tem contribuição de diversas disciplinas. Para o autor o centro histórico/antigo que se tornou centro comercial deve ser desadensado. Não deve possuir novas construções no velho núcleo para não ter a descaracterização, para isso, sugere se fazer novos bairros se relacionando com o centro antigo e sua 46 sistematização local, que possua infraestrutura para os novos meios de transporte (que são o que permitem o crescimento da cidade). No texto “Verbete: restauro dos monumentos”, elaborado por Giovannoni, discute-se a restauração dos monumentos pela sua visão. Segundo o autor restaurar monumentos é conceito de todo moderno, e diz restauração como reparar ou dar um novo uso. É um tema que merece respeito e demanda cuidados. Aponta que existem já diversas teorias, como a dos historiadores, que valorizam o original, excluindo acréscimos e reduções do documento histórico; a de completar o que falta, muito realizada pelo teórico e artesão Viollet le Duc no século 19; e a intermediária, defendida por Camilo Boito e Giovannoni, que dá importância maior às obras de manutenção e consolidação para salvar o organismo, se preocupam com a salvaguarda de monumentos de todos os tempos e épocas que tenham caráter artístico, com intervenções simples e coerentes. Vai caracterizar os monumentos como mortos e vivos. Sendo o primeiro aquele que remete a Antiguidade e deve se evitar tornar ruína, e o segundo são os palácios e igrejas que devem adquirir uma nova função quando em desuso. Classifica também os tipos de restauro: o de consolidação, o de recomposição (é o acréscimo de partes faltantes), o de liberação (retirada de massas excedentes) e o de complementação/ recomposição (acréscimos reintegram a obra). Se trouxermos a visão de Giovannoni para a contemporaneidade e para a discussão do caso da “Cidade Matarazzo” diria que o seu caso é o de complementação, pois temos a adição de diversos elementos no terreno para o valorizar ainda mais. Diria, inclusive, que o antigo complexo hospitalar Matarazzo pode ser considerado um monumento vivo na nossa atualidade, pois sempre se pensou na mudança de uso do local após a sua decadência. Portanto existem muitas teorias sobre restauração e conservação, uma complementando a outra e fornecendo diretrizes, mas e como agir? É necessárioinstrumentos e políticas, e isso que Castriota trata no seu livro “Patrimônio cultural: conceitos, políticas e instrumentos”. Castriota vai dizer que patrimônio cultural é um conceito que está em rápida expansão e mudança, se renovando cada vez mais com o passar dos anos. A partir do século 21 tem sido uma reflexão 47 central, se tornou mais complexo e passou a interessar mais pessoas. O conceito se expandiu, envolvendo mais disciplinas e perspectivas, surgiu novas categorias. O patrimônio existe devido a tradição e a modernidade, a cultura e sua mudança de valores ao longo do tempo. Na primeira parte do livro se traz os conceitos de patrimônio e preservação. Um assunto relatado é a tradição, que é imóvel da cultura e o presente que a considera e seleciona, ela está em contínuo processo de transformação com o desenvolvimento e aproximação das culturas. A tradição é então a ligação entre o passado e o presente que predomina na modernidade. O tempo se relaciona com a tradição dependendo de cada civilização e o que desejam preservar e manter vivo de sua cultura. Conta a partir da história da arquitetura, enfatizando o fato de que os modernos não se reconhecem no patrimônio e querem apagar os traços do passado, porém o conceito de patrimônio cultural surge nessa época como uma reflexão entre passado e tradição. No Brasil, o movimento preservacionista nasce de intelectuais que buscam a identidade nacional. Em 1920 a preservação do patrimônio é pensada e envolve o Estado, sendo que quem elabora e implementa as políticas de preservação são os modernistas, que não querem romper com a tradição devido a busca da identidade brasileira, fazem então uma leitura do passado, e preservam a arquitetura colonial. Graças a essa atitude dos modernistas brasileiros é que ainda temos alguns exemplares de arquitetura colonial, e de outras épocas pelas cidades do país. Castriota explica de maneira extensa as políticas que envolvem preservação. Trata das alternativas contemporâneas para as políticas de preservação, pois as cidades estão se transformando rapidamente e então destruindo memórias individuais e coletivas, e também porque o conceito de patrimônio se ampliou. O patrimônio arquitetônico passou a envolver também a gestão do espaço ao redor do monumento/edifício isolado. O patrimônio cultural envolve não só a cultura erudita mas como as manifestações populares e o saber fazer. Patrimônio de uma sociedade é então as suas edificações, os espaços, documentos, imagens e palavras, deixa de ser uma área de atuação exclusiva a alguns profissionais e envolve muitos outros e a participação popular. “Qualquer intervenção sobre o patrimônio como uma ação sobre o presente é uma proposta para o futuro” (CASTRIOTA, 2009, p.87). Seguindo os conceitos apresentados por Castriota a proposta de envolver o patrimônio cultural no patrimônio 48 edificado, que vemos na “Cidade Matarazzo”, se mostra altamente positiva para a sua população, porém o que causa incomodo é o fato da cultura brasileira ser abordada pelos estrangeiros, e de ser somente uma parte de nossa cultura (não levando tanto em consideração as manifestações populares), que é tão diversa e rica. Traz a questão do patrimônio ambiental urbano, que é a renovação e transformação da cidade, acompanhando o desenvolvimento da sociedade e o governo orientando para que a paisagem urbana evolua de maneira equilibrada. Se pensa no todo, e como as coisas se relacionam, não só no objeto isolado. A intenção é preservar o equilíbrio da paisagem. Tem como estratégias gerais: priorizar o contexto urbanístico; pensar conjuntamente no espaço histórico e nos novos espaços; priorizar planos mais simples de recuperação de edifícios e conjuntos do que a restauração, que é mais cara; reavaliar a gestão do meio ambiente urbano (como é utilizada em cada região); garantir a permanência da população de baixa renda nas áreas a serem preservadas, priorizar o bem estar dos moradores. Discute a atribuição de valores para o patrimônio. Na conservação os valores são centrais, como pensar em quais bens representam o passado e como intervir para os transmitir às novas gerações. Para edificações se leva em consideração os valores artísticos, estéticos, históricos e valores contemporâneos (como os econômicos e políticos). A ampliação do conceito de patrimônio fez com que toda atribuição de valor fosse explicitada, assim como passou a envolver novos grupos e agentes para políticas públicas, além de envolver o estado e coletividades locais. Em 1985, no Brasil, se teve limitações das políticas de preservação, os técnicos da área que definiam o que preservar, e se focava nos objetos e produtos da elite. A preservação urbana e a preservação arquitetônica são diferentes, porém devem se apoiar, pois a memória que está presente no lugar é interessante para as duas, é necessário promover o espaço público que contém essa história para atrair a memória social. Na questão do patrimônio arquitetônico é preciso pensar na cronologia, tipologia e geografia do objeto. Para a preservação não tornar as edificações em museus e centros culturais é preciso valorizar a memória do espaço e dos diversos grupos sociais, promover encontros e usufruir da ajuda da população para identificar potenciais locais. 49 Castriota relata que no Brasil não se aceita o conceito contemporâneo e ampliado de patrimônio, logo não se tem um tipo definido de intervenção. Se há três modelos teóricos a partir dos termos: preservação, conservação e reabilitação, cada um parte de uma concepção de patrimônio e estabelece um objeto, pressupõe um marco legal e atores diferentes. No modelo de preservação o patrimônio considerado é a coleção de objetos, aqueles que tem excepcionalidade, valor histórico ou estético e que vem da cultura erudita. Os tipos de objetos são então as edificações, estruturas e artefatos individuais. O marco legal é o tombamento, ações do Estado e com arquitetos e historiadores envolvidos. No modelo de conservação o conceito de patrimônio é ampliado, temos o patrimônio ambiental urbano, tem valor cultural e ambiental e valoriza a cultura em um sentido amplo. Os tipos de objetos são os grupos de edificações históricas, paisagens urbanas e espaço público. O marco legal é a área de conservação, com ação do Estado e parte integral do planejamento urbano, envolve, portanto, planejadores urbanos além dos arquitetos e historiadores. A conservação integrada é um dos objetivos centrais do planejamento urbano e regional e envolve gestão e planejamento, é a integração entre preservação do patrimônio e planejamento urbano, resultado da ação técnica de restauro e das funções apropriadas para integrar o patrimônio no ambiente de vida dos cidadãos. O modelo de reabilitação tem a mesma concepção de patrimônio e tipos de objetos que o modelo de conservação. O marco legal é os novos instrumentos urbanísticos, os atores são a sociedade, iniciativa privada/parcerias, e envolve a mais os gestores. O que mais se encaixa para o objeto de estudo. A partir da constituição de 1988 que se pensa mais em políticas urbanas, já que ela tem um capítulo dedicado a esse assunto. Para a preservação, intervenção e conservação acontecer é preciso de normas e leis, que geralmente estão presentes nos planos diretores das cidades e estão no Estatuto da Cidade, que impõem a participação popular como obrigatória na elaboração do plano diretor. A preservação de bens deve ser tratada no plano diretor, com mecanismos mais flexíveis e adequados do que o tombamento para a gestão da mudança das áreas conservadas (páreas especiais, zonas especiais de interesse cultural) e estímulo a preservação (como incentivos e benefícios fiscais). 50 Por fim, Castriota fala sobre instrumentos. Trata do instrumento tradicional da preservação, que é o inventário do patrimônio, utilizado desde 1930. Inventaria-se obras arquitetônicas, acervos de museu, saberes,documentos, é uma maneira de registrar o patrimônio imaterial (práticas, representações, expressões, conhecimentos, técnicas e instrumentos, objetos, artefatos que a comunidade reconhece como formadores de sua cultura). Carlos Lemos (1981) conceitua os tipos de patrimônio, fazendo um histórico internacional e nacional sobre o tema. Ele trata principalmente do patrimônio cultural, que engloba praticamente todas as áreas, como os objetos, artefatos, construções, meio ambiente, o saber fazer, e os usos e costumes, pois o patrimônio de um povo é diversificado e não deve focar somente em uma classe social (a dominante geralmente). Fonseca (2009) também explica o conceito de patrimônio material e imaterial e seu surgimento no Brasil. O patrimônio material é mais conhecido, sendo o bem edificado com alto valor histórico e cultural. O patrimônio imaterial é aquele que tem valor cultural e que não é físico, dando maior abertura as tradições populares. Lemos explica que deve se preservar para se ter a memória das evoluções durante o tempo e que deve haver preservação e aplicá-la em tudo o que for possível, pois com ela é possível manter a identidade cultural do país. “Preservar é guardar objetos, construção e também gravar sons, músicas, depoimentos [...] é manter vivos mesmo que alterados, usos e costumes populares” (LEMOS, 1981, p.29). Segundo Lemos (1981), a questão da preservação no Brasil demorou para ter importância ao governo, ela surgiu anos depois de ser iniciada na Europa. Começou com os proprietários, donos de objetos que gostavam de colecionar e cuidar de seus patrimônios, por volta de 1920. Em 1936, o escritor Mário de Andrade lança um projeto que se torna lei em novembro e define o que é o Patrimônio Artístico Nacional: “todas as obras de arte pura ou de arte aplicada, popular ou erudita, nacional ou estrangeira, pertencente ao poder público, organismos sociais e particulares, nacionais e estrangeiros residentes no Brasil” (LEMOS, 1981, p.38). Em 1937, o ministro da cultura criou o SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional), que no seu início teve problemas para abrir o departamento só para conservação e ações preservadoras, além de ter problemas jurídicos, de documentação 51 e de classificação. Em 1970 começa-se a pensar em preservação de centros urbanos e dos conjuntos de bens naturais, como a cidade de Ouro Preto em Minas Gerais. Atualmente, esse tipo de intervenção é pensado juntamente com a questão social, histórica, política e econômica. Em palestra para a Universidade Estadual Paulista (UNESP) em Bauru (2019), Beatriz Kuhl evidencia o fato de que os bens culturais e os bens arquitetônicos devem e são integrantes do nosso cotidiano, fazem parte da nossa vida e estão ligados ao espaço que vivemos. Deveriam também estar presentes nas políticas e práticas socioculturais. A noção de bem cultural evoluiu com o tempo e se ampliou, considerando tudo aquilo que é testemunho da operosidade humana, de uma sociedade, tornando os bens não só representativos de uma nação mas sim de grupos e comunidades. Essa mudança na concepção de bens culturais fez com que a preservação se tornasse ampla também, começando a querer se preservar obras modestas com significação cultural. Porém essa noção ampla e inclusiva levanta, na prática, muitas dificuldades. Com os bens culturais ampliados, amplia-se também as maneiras de os preservar, tutelar e cuidar, além do instrumento de tombamento (que é mais útil para grandes obras isoladas). Seria positivo para a preservação agir em conjunto com os planos diretores, escolhe-se o tombamento sem ter a interdisciplinaridade. Kuhl menciona que os processos de preservação, muitas vezes, são acusados de serem insuficientes e distantes da realidade, que não levam em conta as necessidades da sociedade contemporânea e de serem economicamente inviáveis. Segundo ela, o patrimônio deve fazer parte dos planos diretores das cidades, deve ser trabalhado de maneira articulada para se elaborar os conflitos de maneira mais adequada, se levar em consideração desde o início as questões culturais. A restauração deve ser trabalhada de maneira conjunta com outros fatores. Nunca devemos perder de vista aquilo que motivou a preservação; nunca perder de vista os fatores mais propriamente culturais, memoriais e simbólicos que estão envolvidos e que fazem parte da preservação. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.42) O Patrimônio Arquitetônico não está apartado da nossa vida cotidiana, que é uma dimensão muito relevante das nossas relações com a cidade, que é parte intrínseca do projeto de cidade, é importante levar em conta essa lógica cultural, e não apenas a lógica de mercado, na hora de refletir sobre esses temas. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.42) 52 Não se deve limitar o restauro e preservação somente a bens isolados. Segundo a professora, o restauro parte do bem isolado e depois se volta para a área envoltória, para se preocupar em proteger de maneira mais efetiva os conjuntos urbanos. Kuhl conta que o sentido da palavra restauro se afastou do sentido comum, mesmo com muitos achando que significa retornar os bens excepcionais ao seu estado original. Atualmente, o restauro é pautado no respeito, pela obra e suas estratificações, e não retoma o estado original, ele conduz a outro estado. “O restauro conduz a um outro estado, levando em conta e respeitando os vários extratos.” (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.45) É preciso dar a uma obra de restauro uso constante, e ela precisa também atender as questões de segurança e acessibilidade, coisas que só podem ser resolvidas a partir de um projeto contemporâneo que respeita a história e o contexto que a obra está inserida. Para Kuhl, a multidisciplinaridade do restauro é necessária, mas na prática ela raramente acontece. “Nos dias de hoje eu vejo, por um lado, um discurso que incita a interdisciplinaridade, mas, por outro, uma pulverização disciplinar, um isolamento cada vez maior das várias disciplinas, não só na restauração.” (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.48). A professora diz que preserva-se atualmente os bens por razões culturais, históricas e também cientificas, pois os bens culturais atingem conhecimentos em vários campos do saber, como biologia, física, química, geografia e sociologia, para citar alguns. “Os princípios de restauração derivam dessa noção de campo disciplinar que atua e constrói seus instrumentos a partir de motivações culturais, éticas e cientificas.” (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.50). Esses princípios que guiam as decisões projetuais e ajudam a escolher o que pertence a reflexão do restauro. Demolir indistintamente não é restauração; transformar aleatoriamente, deformando o documento histórico e a obra como conformada ao longo dos séculos tampouco o é. Mas isso não significa que, num restauro arquitetônico ou numa intervenção urbana ou territorial, coisas não possam ser destruídas de modo algum. Na verdade, a destruição é parte intrínseca dos processos de conservação. Determinadas escolhas têm de ser feitas. É inviável e mesmo indesejável preservar tudo do jeito que está, pois as coisas se transformam de qualquer modo. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.50) O restauro implica, por vezes, uma série de limitações. E muitos arquitetos consideram as premissas do restauro como mero empecilho. Não fazem o paralelo com o projeto do novo. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.53) 53 As “limitações” do projeto devem ser encaradas como impulso, que gerará as soluções. Segundo Kuhl, uma restauração conscienciosa e multidisciplinar contém um maior tempo de estudo e projeto, mas um menor tempo de obra e a intervenção gera menos problemas de execução (o que acontece na “Cidade Matarazzo”, que está em andamento, de resoluções de projeto e legais desde 2010). O viés negativo, para o mercado, é o lucro ser menor. Se a restauração é motivada por questões culturais, éticas e científicas e não visa unicamenteao lucro, tudo é feito de maneira ponderada em função daquilo que motiva a restauração, em função do resultado que se quer atingir para preservar, e não para ter por objetivo o lucro máximo. A margem de lucro, é menor, mas os custos são menores. Existe lucro, ou seja, a operação é viável, bastante viável do ponto de vista econômico, mas é menos lucrativa do que uma intervenção mais invasiva. Falar que o restauro é inviável do ponto de vista econômico, a partir dos dados que nós temos, não procede. É viável e dá lucro, mas é importante não confundir viabilidade com lucro máximo. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.61) Para ela, quando se quer desqualificar o restauro dizem que ele é inviável e que não dá conta das questões contemporâneas. Não é inviável; e dá conta, tem de dar conta. Porque se não desse conta é porque não serve mais, não serve mais falar de restauração. Uma restauração que não dá conta de reinserir o bem de maneira útil e eficiente na sociedade dos dias de hoje, não serve para nada. Mas a restauração serve! E a restauração faz! E faz com que essas coisas funcionem. O campo disciplinar do restauro oferece instrumentos para fazer com que as coisas funcionem. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p. 62) Kuhl acredita que é possível projetar a cidade pensando em termos de preservação de bairros e obras, atendendo às necessidades e exigências contemporâneas. É necessário pensar projetualmente na preservação. “Pensar a preservação, a arquitetura e a cidade, muitas vezes, os projetos de arquitetura se resolvem na ligação com a cidade, na articulação com a cidade.” (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p. 67). Kuhl defende que restauro é projeto, e que o campo da restauração sofre diversos preconceitos e precisa enfrentá-los e construir cidades. Para ela, os instrumentos teórico-metodológicos direcionam, indicam diversos caminhos que precisam ser explorados nos projetos até chegar no que acreditar ser mais adequado para o caso. O restauro não é um instrumento que só serve para limitar; o restauro é necessariamente transformação. Necessariamente transformação para que o bem possa ser apropriado de modo adequado e útil na atualidade. Se o restauro não dá conta disso é porque os instrumentos metodológicos do restauro estão sendo pensados de maneira limitada e inadequada. Pois a limitação 54 não está nos instrumentos, está no uso que nós fazemos desses instrumentos. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p.71) Não existe no restauro uma única solução para um dado problema; existem várias. Sempre existiram e existirão várias soluções, mas várias soluções que nós esperamos que sejam pertinentes ao campo do restauro. (RETTO JÚNIOR e KUHL, 2019, p. 71) Após esse breve panorama dos teóricos e estudiosos de patrimônio, material e imaterial, será abordado a questão da história e da memória. Uma está muito ligada na outra, a história depende da força da memória individual para se criar o coletivo e como resultado criar um elo forte para a valorização do patrimônio histórico. 55 2.1.3 Historiografia e memória Neste tópico abordaremos dois autores muito importantes, a historiadora Marina Waisman e Maurice Halbwach estudioso da memória. Waisman diz como a história não é só uma narração e sim uma sucessão de juízos. Explica o conceito de juízo histórico, que é quando se decide um objeto de estudo e depois outros juízos como análises e instrumentos. Segundo Waisman (2013), a história é constantemente reescrita, já a historiografia permite a dupla leitura do assunto. Na arquitetura a história é vista como a realidade dos acontecimentos, sucessão de fatos, a historiografia são os textos que estudam seu desenvolvimento no tempo. Em ambas temos problemas. Os problemas historiográficos são erros de interpretação da história, relação causal com outros fatos, razões da escolha do objeto de estudo, estão comprometidos com a ideologia do historiador. Já os problemas históricos são resolvidos com a pesquisa e são de ordem técnica. A autora aborda os conceitos de história geral, história da arquitetura e história da arte. Diz que é preciso ter uma distinção para o objeto de estudo de cada uma, e a distinção fundamental é a temporalidade. Na história da arquitetura e da arte o objeto existe, é testemunho histórico, na história geral ele já não existe mais no tempo. Na arte e na arquitetura a obra é protagonista, aquela que reúne os dados mais importantes em si, tem a presença do fato a ser examinado. O fato artístico tem permanência no tempo, além do valor artístico e/ou arquitetônico, o que o torna monumento: “não é o que dura, mas o que permanece” (WAISMAN, 2013, p.13). O monumento é então a lembrança do que permaneceu e a pista do que estudar pelo historiador. O historiador da arte e arquitetura reflete também sobre as demais histórias. Estuda o objeto como fato acontecido, é preciso buscar documentos (como escritos, planos, inventários) referentes ao monumento para o datar, descobrir sua autoria. O documento é tudo aquilo que pode contribuir para esclarecer as características históricas do objeto de estudo (p.14). Uma obra de arte ou de arquitetura pode ser documento para uns e monumento para outros, depende da visão do historiador ou usuário. Obra é o significado, documento são os dados cronológicos. Portanto, a história geral recebe auxílio da história da arte e arquitetura como um documento de cultura. 56 Waisman relata que o tratamento historiográfico é o mesmo para arte e arquitetura devido suas semelhanças, com um enfoque crítico inicialmente na estética. Na arquitetura tem se a questão de que ela obedece às necessidades funcionais interpretadas ideologicamente, elabora códigos de comunicação, pois faz questão de se desvincular da arte e do caminho que percorreram juntos, que exija uma reflexão específica sobre ela. Por exemplo, o esboço, projeto e sua execução são específicos da historiografia arquitetônica. Portanto, a autora conclui que a historiografia da arquitetura progride e se distancia da historiografia da arte. História, teoria e crítica, são os 3 modos de refletir na arquitetura, segundo Waisman. A presença de pautas críticas nos resumos históricos para se aproximarem ao científico. A crítica necessita do apoio de princípios para gerar uma teoria (que tem sua fundamentação na história). A teoria é o sistema de pensamentos que organiza proposições lógicas e dirige a investigação histórica. A história é a descrição dos fatos arquitetônicos. Na arquitetura a teoria pode ser norma, poética (conceitual da época) e filosofia (geral em busca de princípios universais). A autora traz a diferença entre atitude histórica e crítica. A atitude histórica é a valoração e interpretação do fato, com base no significado histórico, já a crítica é a interpretação do fato com base em critérios de valor, como os aspectos da produção da arquitetura (estéticos, tecnológicos e funcionais). Ambas necessitam de métodos históricos e críticos. Os sistemas de valores na arquitetura são dados pela elaboração teórica e histórica, ou comentário crítico. A reflexão que descobre ou revela os problemas e a práxis os resolve ou responde, portanto temos: a teoria, práxis, crítica e nova teoria como um ciclo de pesquisa. A existência dos valores universais na arquitetura é adaptada por e para cada cultura, portanto a problemática de cada cultura que servirá de base para determinar a valoração da proposta arquitetônica. Waisman Aborda a noção de continuidade e descontinuidade. A sucessão de tempo não é linear na história da arquitetura, pois pode se ter avanços, novidades e retrocessos na mesma obra. Porém, é possível construir uma continuidade na arquitetura pois o pensamento interno arquitetônico tem papel de mudança. A autora diz que a arquitetura latino-americana é constituída pela 57 descontinuidade, por rupturas, falta o desenvolvimento de um estilo próprio. O passado é desprezado na América Latina para se pensarno progresso. Para Waisman, a descontinuidade é característica de parte da arquitetura e propostas urbanas que tendem a se fragmentar em intervenções. Segundo Waisman, é “impossível compreender um fato arquitetônico separado de seu contexto urbano” (WAISMAN, 2013, p. 107). O contexto, história e região do fato arquitetônico são extremamente importantes para sua compreensão. “O significado da arquitetura é a própria substância da história e seu conhecimento no objeto último do estudo histórico” (WAISMAN, 2013, p.151) Diz que toda intervenção no espaço construído põe em ação uma ideologia arquitetônica. Sendo que o significado ideológico da arquitetura mistura as intenções do arquiteto com o resultado da obra e o que ela transmite. O significado perdura quando é percebido, não é só na criação, e permite diferentes leituras que derivam de diferentes épocas. O transcorrer da história transforma o sentido inicial, o que é o significado cultural. O tipo é o primeiro elemento para compreender o significado de uma obra. Temos a relação de significado e processo de projeto (que é analisar o coração da criação arquitetônica), significado e processo de produção, e trama urbana (onde o tecido urbano tem mais significado). Ele pode ter caráter ideológico e cultural. “Falar de significado implica falar de um complexo conjunto de problemas” (WAISMAN, 2013, p.182). O complexo Matarazzo possui diversos significados, e portanto, possui também diversos problemas, ele mistura o caráter ideológico e o cultural, dado que se mostra um ambiente extremamente idealizado e conceitual na parte dita de luxo, hoteleira e se mostra com alto caráter cultural na parte histórica e comercial. Ao falar de patrimônio arquitetônico urbano, a autora começa relatando que não se pode definir o que é patrimônio sem antes determinar a partir de qual projeto cultural se valorará o conjunto, assim como não se pode atribuir valor a um objeto sem o relacionar a um grupo humano. Traz o patrimônio como apoio da memória social, e como valor fundamental a presença dos habitantes. Diz que é preciso encontrar um equilíbrio entre preservação da identidade e mudança para cada caso, já que o congelamento de edificações não pode ser a meta de preservação. É preciso identificar o objeto, estudar o que ocorreu nele/quais mudanças sofreu para determinar como intervir. Segundo a autora o patrimônio precisa ser tratado 58 levando em consideração as mudanças que sofreu com o tempo, as mudanças na cidade, e na malha urbana. A arquitetura é então testemunha das etapas históricas. E a “Cidade Matarazzo” se tornará um grande testemunho das mudanças da cidade de São Paulo, mostrando o decorrer das épocas na região da Avenida Paulista e o que ela poderá se tornar no futuro. Olha-se mais em direção ao futuro do que para o passado, portanto a autora traz a ideia que destruir o passado é a ideologia de falso progresso. As intervenções no centro histórico tendem a orientar o desenvolvimento do tecido para respeitar o patrimônio existente. A finalidade da intervenção é então construir o patrimônio do futuro em continuidade com o passado. A “receita para uma intervenção adequada é adotar uma clara posição frente ao significado e ao papel que esses testemunhos históricos desempenham em comum” (WAISMAN, 2013, p.206) Junto do assunto de historiografia e patrimônio é muito importante e recorrente aparecer a questão da memória, que preservar edificações e conjuntos envolve retomar a memória, mas qual memória? Geralmente é sobre a memória coletiva que se discute, mas a individual também tem sua força. Halbwach (1990) vai discutir a memória coletiva e a individual. A memória coletiva tem a presença de testemunhas, uma ou mais pessoas que descrevem os mesmos fatos vistos ao mesmo tempo, não se confunde com a individual. A lembrança (série de pensamentos coletivos emaranhados) é então relativa para quem a viveu, um acontecimento pode ter sido mais marcante para um do que para outro. As lembranças de um grupo estão ligadas e apoiadas a uma outra, para a memória se auxiliar na dos outros é preciso que ela se assemelhe a deles para reconstruir uma em comum. A memória estritamente individual vem da base de toda lembrança, a sua intuição sensível pessoal, ela se constitui de algo que se viveu estritamente sozinha e que não foi compartilhado. Os fatos lembrados por poucos, ou individualmente, geralmente estão em último plano. Ela é limitada no espaço e tempo, pois são pessoais. Cada grupo social tenta manter uma memória semelhante. As memórias são lembradas mais rapidamente quando vinculadas a um grupo de fácil acesso e são mais difíceis quando vinculadas a um grupo já distante. Cada memória individual é um ponto de vista pessoal da coletiva. O autor também discute a memória coletiva e a memória 59 histórica. A memória histórica é mais ampla, acontece quando não se é testemunha do acontecimento, mas sabe que ele existiu pois se leu ou ouviu. É uma memória reflexo de lembranças de outras épocas que se lê e vê, e alguém relatou na época. “Não é na história aprendida, é na história vivida que se apoia nossa memória” (HALBWACH, 1990, p.60). Quando se sabe a história da nação, ela é considerada memória para a pessoa, mas não tem contato com a sua memória individual pois são histórias de épocas diferentes. Se sabe pois é preciso, mas pode não ser importante ou relevante para a individual. A memória coletiva não se confunde com a história (que é a compilação dos fatos que ocuparam maior espaço na memória das pessoas). A história começa onde acaba a tradição, onde apaga a memória social. É preciso escrever a história quando já se está distante da mesma para salvar as lembranças, ela é ponte entre passado e presente. A memória coletiva é contínua, sem separação e limites incertos, o presente não se opõe ao passado, já a história separa os acontecimentos em períodos. A memória de uma sociedade se estende até onde atinge a memória dos grupos que a compôs, ela se esgota quando seus membros individuais desaparecem. Existem mais memórias coletivas do que histórias, elas têm um grupo limitado no espaço e tempo. A história se interessa pelas diferenças, reduz os acontecimentos a termos para apresentar uma imagem única e total, os historiadores buscam ser imparciais e objetivos ao relatá-la. Portanto para o patrimônio e a questão de preservação o que mais é envolvido é a memória coletiva e individual que surgem a partir da histórica. Muitas vezes a sociedade atual não presenciou a construção de uma certa edificação, como as da época colonial, ou as primeiras constituintes do centro, somente temos conhecimento pois foi relatado e se estudou, e foi dito que são importantes de conhecer. Hoje são históricas e fazem parte da memória coletiva da cidade, isso valida o patrimônio, a memória é incentivadora para a preservação, a partir dela, do pouco que permanece de gerações passadas, é que se torna importante a salvaguarda de um conjunto de edificações. 60 2.1.4 Questões urbanas relativas ao patrimônio histórico Para concluir o estudo bibliográfico será abordado as questões urbanas que se conciliam ao assunto de patrimônio, história, memória e cidades. Começando com o trabalho de Jacobs (2000), ela enfatiza as questões de segurança nas calçadas, que são vitais para a cidade. Segundo a autora, quando as calçadas não são seguras e sim temidas, as ruas são menos utilizadas e se tornam cada vez mais inseguras para a sua população, afinal pessoas atraem pessoas e é preciso fazer com que os centros e as cidades sejam atrativos para terem vida, além da importância do contato social. Jacobs (2000) acredita que, para uma cidade ser bem sucedida nos seus bairros é preciso ter diversidade, com mistura de usos, pois uma grande variedade deixa a paisagem urbana viva. Na sua visão, para se gerar diversidade, é preciso ter um distrito que atenda mais de uma função principal, quadrascurtas, distrito com boa porcentagem de edifícios antigos e em estados de conservação variados para gerar renda e densidade alta. A presença de edifícios antigos é importante pois eles têm valor menor do que se construir um novo. O que torna dinâmico um centro é a mistura de edifícios novos e antigos. Para concluir os estudos urbanos trazemos Jan Gehl, que descende da atuação reformadora de Jane Jacobs. Gehl (2010) propõe a retomada da dimensão e da escala humana nas cidades para fornecer maior qualidade de vida a sua população, como ter distâncias curtas para se andar mais a pé, criar espaços públicos mais atrativos e variedade de funções e usos ao longo da cidade. Enfatiza o retorno do pedestre para a cidade, que perdeu o seu espaço com a chegada da indústria automobilística. Para Gehl (2010), é preciso reforçar a questão do pedestre para se ter uma cidade viva, segura, sustentável e saudável. Cidade viva, pois com os pedestres haveria maior uso dos espaços públicos, retomada das zonas de transição (espaços que se tornam agradáveis de transitar e caminhar) e mais vitalidade e tranquilidade. Retoma-se a questão de caminhar para chegar ao destino, utilizando a cidade de uma forma mais dinâmica e concentrada. Cidade segura também conta com a ajuda do pedestre, pois quanto mais pessoas na rua, mais vigiada ela fica, e portanto quanto mais segura e agradável de passear, mais viva ela se torna. A cidade sustentável com relação ao pedestre é que ele contribui para reduzir a emissão de carbono e reduz a poluição gerada por automóveis, indústrias e edifícios, tendo mais pessoas caminhando ou pedalando pela cidade, o que a torna 61 melhor para viver. O empreendimento da “Cidade Matarazzo” segue vários desses conceitos apresentados por Gehl e Jacobs, pretendem valorizar o pedestre, acumular funções em um só local e criar um ambiente diversificado. Gehl e Jacobs pensaram nisso para uma cidade de uma maneira geral, onde se cada bairro atendesse a esses conceitos, a cidade se tornaria mais agradável para habitar. Não é à toa que o empreendimento se chama “Cidade Matarazzo”, pois de fato o que será construído no local se tornará uma espécie de pequena cidade, com vários serviços diferentes a disposição dos usuários que a frequentarem. O que reforça a dúvida anteriormente já apresentada, quem usará e disfrutará de tudo que essa cidade tem a oferecer? Feito este breve panorama bibliográfico de patrimônio, história, memória e urbanismo com os autores que consideramos mais relevante, seguimos adiante. O próximo capítulo é sobre as leis e possíveis normas que envolvem e regulamentam a região do estudo de caso. 62 Essa parte do segundo capítulo trata das normas e leis que afetam direta ou indiretamente o local da obra. O que foi levado em consideração aqui é a legislação da cidade de São Paulo, principalmente o plano diretor e seus instrumentos urbanísticos, a lei de zoneamento, e as resoluções do Condephaat e do Conpresp para a região. O terreno está localizado na Macrozona de Estruturação e Qualificação Urbana, Zona urbana e Macroárea de urbanização consolidada. Segundo a lei 16.402/16 de zoneamento a área está na Zona Eixo de Estruturação da Transformação Urbana (ZEU), o que permite densidade e potencial construtivo alto. É também uma Zona Especial de Preservação Cultural (ZEPEC), o que significa que é um território de preservação de bairros e/ou “conjuntos urbanos específicos e territórios destinados à promoção de atividades econômicas sustentáveis conjugada com a preservação ambiental, além da preservação cultural” (lei 16.402/16, p.4). Art. 21. As Zonas Especiais de Preservação Cultural (ZEPEC) são porções do território destinadas à preservação, valorização e salvaguarda dos bens de valor histórico, artístico, arquitetônico, arqueológico e paisagístico, constituintes do patrimônio cultural do Município, podendo se configurar como elementos construídos, edificações e suas respectivas áreas ou lotes, conjuntos arquitetônicos, sítios urbanos ou rurais, sítios arqueológicos, áreas indígenas, espaços públicos, templos religiosos, elementos paisagísticos, conjuntos urbanos, espaços e estruturas que dão suporte ao patrimônio imaterial ou a usos de valor socialmente atribuído. Parágrafo único. Os imóveis ou áreas que são ou que vierem a ser tombados por legislação municipal, estadual ou federal enquadram-se como ZEPEC. (lei 16.402/16, p.8). No art. 24 da lei 16.402/16 temos: “§ 1º A transferência do direito de construir originada de qualquer imóvel enquadrado como ZEPEC fica condicionada à recuperação e manutenção dos atributos que geraram o seu enquadramento como ZEPEC.” O que quer dizer que é possível construir uma torre alta próxima de uma edificação considerada de valor artístico, histórico e cultural, podendo então todo o potencial construtivo do complexo hospitalar Matarazzo ser transferido para construção da Torre Mata Atlântica no lote, assim como é preciso cuidar deste bem de valor. O tipo de ZEPEC da área é o BIR (Bens Imóveis Representativos), o que significa que são bens de valor histórico e arquitetônico 2.2 Normas e legislações aplicáveis ao caso (Plano Diretor de São Paulo, Instrumentos urbanos, Lei de Zoneamento, Condephaat e Conpresp) 63 (como igrejas e edifícios históricos). Nessa categoria é possível que o proprietário possa usufruir da Transmissão do Direito de Construir (TDC) relativa ao imóvel a ser conservado, o que faz possível vender para construtoras o potencial construtivo da área, para verticalização. A transmissão do direito de construir está regulamentada no Estatuto da Cidade, 2001 e no Plano Diretor, 2014: Art. 122. A transferência do direito de construir correspondente ao potencial construtivo passível de ser utilizado em outro local, prevista nos termos do art. 35 da Lei Federal nº 10.257, de 2001 - Estatuto da Cidade e disciplinada em lei municipal, observará as disposições, condições e parâmetros estabelecidos neste Plano Diretor Estratégico. Art. 123. Fica autorizada a transferência do potencial construtivo de imóveis urbanos privados ou públicos, para fins de viabilizar: I - a preservação de bem de interesse histórico, paisagístico, ambiental, social ou cultural; (PDE 16.050/14) No art. 92 da lei 16.402/16, relativo ao uso do solo temos: “§ 2º Nas ZEPEC-BIR, adicionalmente aos usos permitidos na zona onde o imóvel se localiza, são permitidos ainda usos relacionados à visitação do imóvel e usos acessórios, bem como local de exposições.” Esse parágrafo do art. 92 viabiliza o empreendimento “Cidade Matarazzo” na parte cultural. Agora vamos analisar o plano diretor estratégico de São Paulo, segundo ele a ZEPEC apresenta diversos objetivos, os quais são mais importantes para o estudo deste trabalho os I, III, IV, V, VI, VII: Art. 62. A ZEPEC tem como objetivos: I - promover e incentivar a preservação, conservação, restauro e valorização do patrimônio cultural no âmbito do Município; II - preservar a identidade dos bairros e das áreas de interesse histórico, paisagístico e cultural, valorizando as características históricas, sociais e culturais; III - identificar e preservar imóveis e lugares dotados de identidade cultural, religiosa e de interesse público, cujos usos, apropriações e/ou características apresentam um valor que lhe são socialmente atribuídos pela população; IV - estimular a fruição e o uso público do patrimônio cultural; V - possibilitar o desenvolvimento ordenado e sustentável das áreas de interesse histórico e cultural, tendo como premissa a preservação do patrimônio cultural; VI - propiciar a realização de ações articuladas para melhoria de infraestrutura, turismo, da economia criativa e de desenvolvimento sustentável; VII - integrar as comunidades locais à cultura da preservação e identidade cultural; 64 VIII - propiciar espaços e catalisar manifestações culturais e artísticas; IX - proteger as áreas indígenasdemarcadas pelo governo federal; X - propiciar a preservação e a pesquisa dos sítios arqueológicos; XI - proteger e documentar o patrimônio imaterial, definido nos termos do registro do patrimônio imaterial. (PDE 16.050/14) Além dos objetivos principais acima, o empreendimento será voltado para uma classe dominante e apresentará lugares privados também. Logo, fica a observar se irá conseguir atender todas as demandas culturais e históricas também, e que elas sejam acessíveis a todos. O art. 64 discorre sobre como devem ser criadas as áreas de ZEPEC, no caso do hospital e complexo Matarazzo eles são regulamentados pelo CONPRESP e pelo CONDEPHAAT. Já o art. 65 discorrem sobre os instrumentos urbanísticos aplicáveis em ZEPEC, que são similares aos da lei de zoneamento. Art. 64. As ZEPEC deverão ser identificadas e instituídas por meio dos seguintes instrumentos existentes e os a serem criados: I - tombamento; II - inventário do patrimônio cultural; III - registro das Áreas de Proteção Cultural e Territórios de Interesse da Cultura e da Paisagem; IV - registro do patrimônio imaterial; V - chancela da paisagem cultural; VI - Levantamento e Cadastro Arqueológico do Município - LECAM. § 1º A identificação de bens, imóveis, espaços ou áreas a serem enquadrados na categoria de ZEPEC deve ser feita pelo órgão a partir de indicações apresentadas pelo próprio órgão competente, assim como por munícipes ou entidades representativas da sociedade, a qualquer tempo, ou, preferencialmente, nos Planos Regionais das Subprefeituras e nos Planos de Bairro. § 2º Para os casos de enquadramento em ZEPEC-BIR, AUE, APPa, as propostas deverão ser analisadas por órgão competente, que poderá, caso julgue a proposta pertinente, abrir processo de enquadramento e emitir parecer a ser submetido à aprovação do CONPRESP. (PDE 16.050/14) Art. 65. Aplicam-se nas ZEPEC os seguintes instrumentos de política urbana e patrimonial: I - transferência do potencial construtivo nas ZEPEC-BIR e ZEPEC- APC; II - outorga onerosa do potencial construtivo adicional; III - incentivos fiscais de IPTU e ISS nas ZEPEC-BIR e ZEPEC-APC, regulamentados por lei específica; (PDE 16.050/14) O plano diretor estratégico também recomenda ter uma diretriz para o ordenamento da paisagem, com ação da prefeitura para criar um plano de ordenamento e proteção da paisagem. O empreendimento leva isso em consideração ao pensar no túnel e no 65 “Boulevard da Diversidade”, que tem como proposta geral qualificar o bairro, mas se tornou um assunto polêmico para os usuários da região. O empreendimento também tem como objetivo preservar a paisagem original, mas que será afetada pela intervenção das novas torres a serem implantadas. Segundo o artigo 87: As ações públicas e privadas com interferência na paisagem deverão atender ao interesse público, conforme os seguintes objetivos: I - garantir o direito do cidadão à fruição da paisagem; II - propiciar a identificação, leitura e apreensão da paisagem e de seus elementos constitutivos, públicos e privados, pelo cidadão; III - incentivar a preservação da memória e do patrimônio histórico, cultural, religioso e ambiental e a valorização do ambiente natural e construído; IV - garantir a segurança, a fluidez e o conforto nos deslocamentos de veículos e pedestres, adequando os passeios às necessidades das pessoas com deficiência e mobilidade reduzida; V - proporcionar a preservação e a visualização das características peculiares dos logradouros e das fachadas dos edifícios; VI - contribuir para a preservação e a visualização dos elementos naturais tomados em seu conjunto e em suas peculiaridades ambientais; VII - facilitar o acesso e utilização das funções e serviços de interesse coletivo nas vias e logradouros e o fácil e rápido acesso aos serviços de emergência, tais como bombeiros, ambulâncias e polícia; VIII - condicionar a regulação do uso e ocupação do solo e a implantação de infraestrutura à preservação da paisagem urbana em seu conjunto e à melhorada qualidade de vida da população; IX - condicionar a instalação de galerias compartilhadas para os serviços públicos, principalmente energia elétrica, gás canalizado, saneamento e telecomunicações, desde que compatíveis. (PDE 16.050/14) O artigo 172 do plano diretor de São Paulo é sobre os instrumentos de proteção ao patrimônio cultural. O tombamento é regido pela lei municipal 10.032 de 1985. Art. 172. Os instrumentos de identificação, proteção e valorização do patrimônio cultural paulistano visam à integração de áreas, imóveis, edificações e lugares de valor cultural e social aos objetivos e diretrizes do Plano Diretor Estratégico, e correspondem aos seguintes instrumentos legais: I - tombamento; II - inventário do patrimônio cultural; III - registro das áreas de proteção cultural e Territórios de Interesse da Cultura e da Paisagem; IV - registro do patrimônio imaterial; V - chancela da paisagem cultural; VI - Levantamento e Cadastro Arqueológico do Município – LECAM. (PDE 16.050/14) O plano diretor está bastante baseado no Estatuto da Cidade, mas de maneira mais voltada para a cidade de São Paulo, considerando que o Estatuto fornece diretrizes amplas, e não de maneira regional ou municipal. Na região da Avenida Paulista, próxima do estudo de caso, não se tem muitos objetos considerados patrimônio histórico, ambiental ou cultural, logo a legislação do Conpresp e Condephaat não é tão 66 dominante. Temos algumas marcações de bens tombados e áreas envoltórias, que são do próprio Hospital Matarazzo, do Conjunto Nacional, do casarão da Av. Paulista, do edifício do antigo Banco Sul Americano do Brasil, do MASP (Museu de Arte de São Paulo) e do Parque Trianon e da Casa das Rosas, como evidenciado nos mapas a seguir (figuras 47-49). A “Cidade Matarazzo”, como dito no primeiro capítulo, sofreu uma revisão de tombamento. O local foi tombado pelo órgão municipal, CONPRESP e pelo órgão regional, CONDEPHAAT. No CONDEPHAAT temos a resolução SC 29/86, o “primeiro”, por assim dizer, tombamento do local. A revisão foi feita pelo CONDEPHAAT e pelo CONPRESP, em 2014, e o CONPRESP solta a resolução número 5/2014. Levando em consideração os mapas acima e as resoluções de ambos os órgãos, é possível notar que a área envoltória de preservação do antigo complexo hospitalar é somente as calçadas, não se tem um raio mínimo de preservação da paisagem, o que permite tamanha intervenção que vemos atualmente. Fig. 47: Mapa de Bens Tombados, com imóveis tombados pelo Conpresp e ou Condephaat e ou Iphan, na região da Avenida Paulista, em roxo. Ponto Vermelho indica o lote em que está inserido a “Cidade Matarazzo”. Disponível em: Geosampa. Acesso: 23 de março de 2020 67 Fig. 48: Mapa de Bem Tombados com sobreposição do Mapa de Áreas Envoltórias do Conpresp, em amarelo. Ponto Vermelho indica o lote em que está inserido a “Cidade Matarazzo”. Disponível em: Geosampa. Acesso: 23 de março de 2020 Fig. 49: Mapa de Bem Tombados com sobreposição do Mapa de Áreas Envoltórias do Conpresp e sobreposição do Mapa de Áreas Envoltórias do Condephaat, em vermelho. Ponto Vermelho indica o lote em que está inserido a “Cidade Matarazzo”. Disponível em: Geosampa. Acesso: 23 de março de 2020 68 Artigo 2º- A área ora tombada é delimitada pelo perímetro de proteção conforme descrição / identificação abaixo e, Anexo I que acompanha esta Resolução: I – Perímetro de Proteção: Polígono irregular, que se inicia na intersecção da Rua São Carlos do Pinhal com a Alameda Rio Claro, segue pela Rua São Carlos do Pinhal, Rua Itapeva, deflete à direita seguindo pela linha de divisa laterais dos lotes 009.015.0032-1, deflete à direita na Alameda Rio Claro, segue por esta até o ponto inicial, conformando assim o perímetro. II - Edifício Francisco Matarazzo; III - Edifício Ermelino Matarazzo; IV - Antigo Pavilhão Administrativo; V - Pavilhão Vittório Emanuelle III; VI - Pavilhão de Ambulatórios/ Residênciadas Irmãs; VII - Capela; VIII - Maternidade Condessa Filomena Matarazzo; IX - O Eixo articulador do esquema de circulação horizontal, localizado paralelo à Alameda Rio Claro, elemento de conexão entre os edifícios Francisco Matarazzo, Ermelino Matarazzo, Antigo Pavilhão Administrativo, Pavilhão Vittório Emanuelle III, Pavilhão de Ambulatórios/ Residência das Irmãs. Artigo 5º- Para efeito deste tombamento, estabelece-se como área envoltória do Hospital Umberto I as calçadas adjacentes ao lote tombado na Rua São Carlos do Pinhal, Rua Itapeva, Rua Pamplona e Alameda Rio Claro. (Resolução N 5/2014) Com a análise das resoluções de tombamento dos órgãos municipais é possível perceber que ela não é muito restritiva quanto ao interior do complexo hospitalar, salvo na Capela. A resolução do CONPRESP explica o que deve ser preservado de cada edificação do complexo, e o que pode ser deixado de lado, digamos assim. Como estabelecido no artigo 3º: Fica estabelecida a seguinte proteção dos elementos listados: I - Para os edifícios descritos no Art. 2º, incisos II, IV, V, VI a proteção recai sobre fachadas, volumetria e a estátua do Conde Matarazzo defronte ao Edifício Francisco Matarazzo; II - Para o edifício descrito no Art. 2º, inciso III (Ermelino Matarazzo) a proteção recai sobre fachadas, volumetria, escada com piso de mármore de Carrara, com guarda-corpos de ferro ornamentados e corrimãos de madeira e remanescentes da claraboia original e o busto de Ermelino Matarazzo com a respectiva placa comemorativa em travertino; III - Para o edifício descrito no Art. 2º, inciso VII (Capela), a proteção recai sobre fachadas, volumetria e áreas internas; IV - Para o edifício descrito no Art. 2º, inciso VIII (Maternidade) a proteção recai sobre fachadas e volumetria do corpo principal simétrico, o espaço do saguão do térreo, o esquema de circulação em “U” de ambos os pavimentos e o busto de mármore de D. Filomena Matarazzo; V - Para o elemento descrito no Art. 2º, inciso IX (Eixo articulador), a proteção recai sobre a manutenção da conexão visual de uma ponta à outra do eixo; (Resolução N 5/2014) Na resolução N 5/2014 também consta que qualquer intervenção e proposta de intervenção a ser realizada no local deve ser relatada e previamente analisada e aprovada pelo Departamento de Patrimônio Histórico e pelo CONPRESP. As intervenções devem também seguir as linhagens de preservação patrimonial e 69 principalmente os princípios de distinguibilidade e reversibilidade. Como descrito no artigo 4: III - As novas intervenções deverão valorizar a qualidade dos espaços criados; IV - As novas intervenções deverão buscar conciliar-se e não apagar totalmente as marcas de intervenções pretéritas que buscaram linguagens que unificassem o conjunto, especialmente quando da construção da maternidade nos anos 1940; IX - Fica contemplada a possibilidade das intervenções a seguir exemplificadas, porém não limitadas a elas apenas, desde que criteriosamente justificadas para a valorização do bem tombado e que estejam graficamente expressas com clareza: a) Compatibilizações no interior dos edifícios para atualização de espaços e/ou materiais; b) Demolições de elementos não listados, construções de novos edifícios dentro do perímetro de proteção e intervenções paisagísticas, cujas relações resultantes deverão ser valorizadoras dos elementos listados e da qualidade ambiental do sítio; c) Os projetos para os espaços não edificados do conjunto deverão pautar-se pela percepção das relações visuais, funcionais e perceptivas estabelecidas entres os elementos listados. X - Fica sujeita à aprovação a instalação elementos de paisagismo, identificação e elementos publicitários no interior do perímetro de proteção; XI - Fica sujeita à aprovação a instalação de elementos de mobiliário urbano e publicidade em seus passeios e vias de comunicação limítrofes; (Resolução N 5/2014) É possível perceber o quanto a resolução é favorável ao grande empreendimento que está sendo construído atualmente no local, dado que ela não restringe as novas obras e somente alerta sobre o que deve ser feito quanto a preservação e manutenção do que já existe. Como descrito acima no subitem b do item IX do artigo 4. Logo, em relações legais, a obra está correta. Porém ainda temos dúvidas sobre sua repercussão e se as medidas tomadas para o empreendimento são de fato as melhores. No capítulo seguinte trataremos como a situação foi e está sendo lidada com o público. 70 A obra da “Cidade Matarazzo” é fechada e restrita ao investidor, empresas, construtoras e trabalhadores envolvidos. Por experiência própria, percebe-se que o acesso público é seletivo, e precisa-se de um grande motivo para visitá-la. O local foi poucas vezes aberto ao público para visitar os antigos hospitais, e muito menos para ver a obra. Para a autora ter acesso e poder escrever este trabalho foi preciso de uma enorme quantidade de e-mails, telefonemas, persistência e paciência. Enfim conseguiu entrar no local e mesmo assim havia muitas informações restritas e que não poderiam ser compartilhadas, como alguns processos e documentos presentes no CONDEPHAAT11. O que se tem de registro público sobre a “Cidade Matarazzo” são as audiências públicas feitas na Câmara Municipal de São Paulo, referentes a tópicos e debates sobre as obras na cidade que podem gerar interesse ou impactar a população. Segundo a prefeitura de São Paulo, as audiências públicas são instrumentos de participação popular garantidos pela Constituição Federal de 1988, regulados pela lei Orgânica do Município (SÃOPAULO). A revisão de tombamento do Hospital Umberto I foi assunto na prefeitura e CONDEPHAAT por anos, desde 1986-2013 (WATANABE, 2016). Antes da revisão ser concluída e autorizada, houve diversas outras propostas de arquitetos para mudanças de usos na área e recuperação do local, cada uma registrada em um processo diferente, e as propostas não foram aprovadas. Todas as propostas apresentadas antes da revisão de tombamento foram negadas, pois não atendiam aos termos da resolução de tombamento de 1986. Somente em 2014 que a revisão é concluída, após a compra do imóvel pelo Boulevard Matarazzo empreendimentos e participações Ltda., em 2011 (processo 64865/2011 no CONDEPHAAT). O artigo de Watanabe (2016) explica muito bem os trâmites internos relativos ao caso do Hospital Umberto I, trazendo toda a cronologia de processos, desde 1986 até 2013, processos estes que não tive acesso (devido ser considerado particular). Os registros encontrados das audiências relativas ao projeto da “Cidade Matarazzo” foram poucos. São eles sobre: a proposta inicial do projeto (2013) e o embate com o Condephaat e sobre a proposta do “Boulevard da Diversidade” (2019). As audiências sobre 2.3 As questões relativas aos procedimentos de debate público da proposta 71 o projeto costumam ser propostas pela Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente, que é composta por 7 vereadores. Em outubro de 2013 a audiência pública teve como tema a nova utilização que se daria ao antigo Hospital Umberto Primo (Hospital Matarazzo). Trouxe a discussão da resolução de tombamento de 1986 que estava sendo debatida, já que ela impedia o processo de instalação dos novos equipamentos, o hotel de luxo e o centro cultural. Estava presente um representante dos moradores da Bela Vista, o vereador Marco Aurélio e a vice-presidente do Condephaat. Segundo o representante dos moradores eles estavam de acordo com a proposta, pois possivelmente seria a última opção de preservação do imóvel, o vereador também estava de acordo. Mas a vice-presidente do Condephaat, Valéria Rossi, acredita que o projeto estava em desacordo com algumas determinações da resolução, que posteriormente foi revista, possibilitando o empreendimento. Em outubro de 2019 foi realizada uma audiência pública para discutir um acordo de cooperação para a construção do “Boulevardda Diversidade”, da Associação São Paulo Capital da Diversidade junto ao empreendimento da “Cidade Matarazzo”. A arquiteta e urbanista autora do projeto, Adriana Levisky, o defendeu dizendo que o projeto valorizará o pedestre, os moradores do bairro também se mostraram a favor. Os comerciantes e moradores da Av. Paulista apresentaram dúvidas em relação aos impactos que o projeto teria na região. Foi constatado pelo vereador propositor da audiência, José Police Neto, que é necessário mais debates entre a associação e os moradores: A Câmara se colocou como mediadora desta discussão, trazendo o Executivo, os empreendedores e a sociedade. Não me parece haver divergência na vontade de fazer uma cidade melhor, para os pedestres, com espaços de encontro. A questão é como fazer e como encontrar a solução para o problema que a cidade já tem. (POLICE em SÃO PAULO)12 Na audiência de outubro de 2019, a arquiteta e urbanista Adriana Levisky explica e defende o projeto para a Câmara e para as associações de moradores. Em 2016, começa o primeiro protocolamento na Secretaria de Transporte para justamente saber se, do ponto de vista técnico da operação do trânsito, era viável se propor um projeto como esse. Então, só após o avanço dessa análise é que se deu, então, a perspectiva viável de haver o avanço dos projetos para que ele pudesse ser desenvolvido.” (LEVISKY, audiência 11/10/2019, fl.9) “A associação tem como objetivo final uma doação à Prefeitura desse projeto. Dos 130 milhões desse investimento, 46,4 milhões correspondem à execução das obras e 83 milhões à manutenção ao longo de 30 anos. Esse é o formato que foi apresentado para apreciação da Municipalidade.” (LEVISKY, audiência 11/10/2019, fl.5) 72 “No Condephaat e no Conpresp, o fato de haver essa sinergia proposta de fruição entre o público e o privado, e pelo fato de o empreendimento do Cidade Matarazzo ser um bem tombado e o desejo de remoção de muros para poder promover essa integração, houve a necessidade de fazer o protocolamento nos dois órgãos de patrimônio – estadual e municipal – solicitando interferências nesses muros. Então, essas intervenções também foram, cada uma em seu processo, aprovadas – uma em março, outra em julho de 19. (LEVISKY, audiência 11/10/2019, fl.11) O presidente da Associação São Paulo Capital da Diversidade, Jaques Brault – empreendedor francês e CEO do Grupo Allard – explica o empreendimento e o surgimento da associação: Associação São Paulo Capital da Diversidade, foi criada em 2015, pela cidade Matarazzo, no âmbito de promover valores de cidadania, de educação, de inclusão social, de proteção do meio ambiente e de sustentabilidade. É uma associação sem fins lucrativos e que está fazendo um projeto extraordinário, que nunca foi feito na história de São Paulo e no Brasil mesmo, não temos outro exemplo no mundo. (BRAULT, audiência 11/10/2019, fl.12) O representante da população paulistana, Rodrigo Pereira, questiona a participação pública do diálogo: O que está faltando é diálogo. Não tem nenhuma crítica do empreendimento. É positivo para a sociedade, é positivo para a circunscrição que tem a sua obra. Mas como é que fica a conversa com a população local? É isso que está faltando. E essa audiência pública vem inaugurar esse momento. (PEREIRA, audiência 11/10/2019, fl.15) Fernando Cohen, representante de dois edifícios comerciais na área da instalação do túnel se mostra contra e aponta falta de discussão, divulgação e aviso aos comerciantes da região antes da aprovação do projeto, pois foram apresentados ao projeto somente quando este já estava aprovado e pronto. Os Edifícios Miami Center e Luma são altamente impactos pelo projeto. Nós estamos encravados no túnel. Não nos foi informado em qualquer momento, ou discutido, qual é o impacto desse túnel para o nosso dia a dia. E somos dois edifícios comerciais. (COHEN, audiência 11/10/2019, fl.16) A advogada Rafaela Galletti e representante dos moradores da paulista se posiciona contra a construção do túnel, pois não houve discussão com os moradores e frequentadores da região, foi imposto pelo empreendimento, e por enquanto só se mostrou benéfico a ele. O meu grande questionamento é por que os locais não foram chamados. Essa integração, tão propalada, não houve com quem já está na reunião. Eu contesto essa integração, porque, se uma pessoa não é capaz de fazer integração com seu vizinho imediato, como o Edifício Eluma, como o Edifício Miami Center, como os edifícios residenciais, é difícil entender que isto vai funcionar – a não ser que seja, na parte da obra pública, uma extensão do próprio empreendimento, para ficar mais bacana, entre aspas. O que eu quero dizer é o seguinte: eu preciso, ainda, em nome dos 73 moradores da região da Paulista e de todo o entorno, me convencer e que sejamos convencidos de que o boulevard e o túnel são bons para nós, também, que são bons para a região e não funcionam apenas como um calçadão para tornar o empreendimento, que já é lindo, que já é de primeiro mundo (GALETTI, audiência 11/10/2019, fl.21) Os moradores da região foram notificados pelo empreendimento, e estão, em sua maioria, de acordo com o túnel e obras a serem realizadas. Porém o representante da associação dos moradores da Bela Vista pede um diálogo maior sobre as questões do impacto anteriormente mencionadas, considerando que a av. paulista é a conexão entre a área central e esta será afetada. Francisco Gomes do Conseg. Higienópolis e Vila Buarque diz que “não está havendo transparência com os moradores, que são os grandes concernidos.” (GOMES, audiência 11/10/2019, fl.31) Além do relato de Gomes, houve o relato, controverso, de dois moradores da região, Beto Lago e Marcus Vinícius: O que eu sei é que vai ter uma feira com os móveis mais caros que existem em São Paulo, a moda vai ser a moda mais elitista, o próprio local é de luxo, isso é o que está sendo falado pela Cidade inteira. Então, só me preocupa além de todas essas questões é ser usado o nome da diversidade no projeto que de diversidade não vai ter nada. É um projeto para a elite paulistana em minha opinião. (LAGO, Audiência 11/10/2019, fl. 33) Eu fico feliz aqui, porque todo mundo falou que o projeto da Cidade Matarazzo é importante para a Cidade e para todos nós. Eu posso assegurar que não é um projeto elitista. Eu sou de classe média e espero inclusive frequentar o local. (VINÍCIUS, audiência 11/10/2019, fl.34) Houve diversas opiniões controversas, mas a crítica mais apontada pelos comerciantes e moradores era sobre a construção do túnel, e não de todo o empreendimento. Para finalizar, o poder público respondeu as dúvidas e deu seu parecer. Os empreendedores e a prefeitura ficaram responsáveis pela divulgação e disponibilização de informações para os civis. No término da audiência de outubro foi relatado que seria necessária uma outra audiência. Esta ocorreu em novembro de 2019, exatamente um mês depois da primeira, para responder as dúvidas e questionamentos da população pelo poder público e pelos responsáveis do projeto. No começo da audiência o advogado que representa os edifícios comerciais já expõe seu argumento sobre como o túnel não é necessário para a população no momento e que ele pode alterar massivamente o trânsito e a maneira de habitar no local. O túnel é polêmico e desnecessário, levando em consideração a distância de 74 um quarteirão que ele ocuparia, além de apresentar problemas de execução, segundo Fernando Koin Krounse Dentes. Em resposta a Fernando o presidente da Associação São Paulo Capital da Diversidade, Jacques Brault, começa a mostrar seu ponto de vista. Brault defende o projeto dizendo que ele é exclusivo e beneficiário ao público, um investimento privado que prevê o bem e qualidade de vida geral, global. Após o presidente da associação, Adriana Levisky assume a fala com uma apresentação com as respostas e explicações técnicas dos questionamentosdas outras audiências. Buscando-se checar a viabilidade técnica dessa proposta para, a partir de então, de um processo amadurecido, atendendo a uma série de comunique-se e uma série de correções para poder chegar a um grau de maturidade que pudesse ser apresentado como uma manifestação de interesse social. (LEVISKY, audiência 11/11/2019, fl.17) A audiência de novembro tem se mostrado mais esclarecedora em relação ao projeto do túnel, e menos venda e propaganda do mesmo aos usuários e habitantes da região. Os representantes de moradores ainda se posicionam contra a construção do túnel e contra a falta de transparência pública relativa ao projeto, e não a proposta urbanística em si, apontam que talvez, o investimento poderia ser para manter e requalificar outros ambientes públicos em vez de construir um novo, apontam também que o túnel irá afetar muito o trânsito da região de uma maneira negativa. Os moradores que se posicionam a favor saem como beneficiários do projeto proposto pois aumentará, indiretamente, o valor do imóvel em que habitam. O arquiteto e urbanista Roberto Toffoli, responsável pela parte patrimonial do empreendimento argumenta sobre a questão. Construímos uma forma ou uma ideia do que é qualidade de cidade, de como produzir cidade com qualidade. Isso nasceu no empreendimento Cidade Matarazzo, que é um empreendimento privado dentro de um terreno privado e onde esses conceitos foram maturados e avançam numa proposta de interesse público. (TOFFOLI, audiência 11/11/2019, fl.29) E depois disso houve outras reuniões com a CET e o projeto foi sendo muito adaptado de acordo com o que a CET pediu. Quero fazer outra introdução pequena para vocês. São Paulo tem 22 ou 23 passagens em desnível, túneis ou passagens subterrâneas. Só três ou quatro foram feitas para favorecer pedestres. Em todas as outras só se pensou em automóvel. Esse é um detalhe importante para lembrarmos que esse projeto não é para carro. Esse projeto é para pedestre. Só que temos de dar uma solução para o fluxo da São Carlos do Pinhal - que como muito bem foi dito - que é uma via muito importante principalmente em casos de interrupção da Paulista. (SOLA, Michel, audiência 11/11/2019, fl.31) Estamos questionando uma obra declarada de interesse público, mas que é claramente particular, como ficou claro para a defesa dos seus interesses. (DENTES, Fernando, audiência 11/11/2019, fl.50) 75 O vereador José Police Neto propõe, ao final da audiência, uma reunião técnica para fazer a revisão do projeto feita pelos técnicos que haviam se apresentado, em um período de 15 dias após a audiência. Essa revisão levaria em conta os conflitos mencionados pelos moradores, para fazer uma nova proposta e depois a apresentar a eles. Reunião marcada para o dia 21 de novembro de 2019 na secretaria das subprefeituras. Com base no relato dos registros das audiências mencionadas percebe-se que a divulgação da obra do Boulevard foi tardia, quando o projeto já estava aprovado e prestes a ser executado. Parte da população da região tinha conhecimento e aprovava a obra, a outra parte não foi devidamente noticiada e consultada e por essas e outras razões não estavam de acordo com as obras. Temos os relatos do Boulevard da Diversidade, de suas audiências, discussões e polêmicas geradas, o que é extremamente positivo. Porém, não temos muitas informações (pelo menos não as encontrei), das audiências públicas referentes ao projeto da “Cidade Matarazzo”, da recuperação dos edifícios antigos e da construção da Torre Rosewood, o que de fato é curioso. Porque não discutir esse projeto (já que ele servirá a todos, supostamente) abertamente ao público? Porque não se encontra os processos no Conpresp? Existe isso de processo privado ao dono, que no caso é o investidor? O público, pesquisadores e a população toda de uma maneira geral deveria ter acesso a esses processos, desde a compra do terreno pelo Grupo Allard. Essas questões públicas me inquietam profundamente, considerando que deveriam ser de fácil acesso, principalmente quando é um patrimônio histórico que está em questão, e não são13. 76 Como a pesquisa apresentada tem um caráter crítico, será feita a comparação da obra da “Cidade Matarazzo” com outros casos que apresentam similaridades em programa de necessidades e questões arquitetônicas. O primeiro tópico é um caso do mesmo arquiteto que projetou a Torre Mata Atlântica, Jean Nouvel, com uma torre com identidade visual parecida com a que vem sendo construída na “Cidade Matarazzo”. No segundo tópico são abordados quatro diferentes projetos internacionais que possuem um programa de necessidades e dimensão similares ao da “Cidade Matarazzo”, tornando a pesquisa mais ampla internacionalmente e trazendo novos projetos e arquitetos para a discussão (figura 50). O terceiro tópico é um caso nacional e está situado na cidade de São Paulo, próximo da obra Matarazzo, na Av. Paulista, e é a Casa das Rosas, evidenciando um projeto relativamente bem executado na área e que também possui uma torre no terreno. O quarto e último tópico também é um caso nacional, mas evidenciará uma intervenção que não foi bem executada. 2.4 Estudos de caso: projetos com programas similares de intervenções em conjuntos patrimoniais Fig. 50: Mapa-mundi com localização de todos os estudos de caso a serem analisados. Desenvolvido pela autora 77 2.4.1 One Central Park, Sidney, Austrália A escolha do projeto na Austrália foi devida similaridade no programa de necessidades e para o estudo ter um projeto do mesmo arquiteto presente na “Cidade Matarazzo” como referência. O projeto é prioritariamente residencial, mas possui também uma ideia de parque, faz parte de um projeto de desenvolvimento chamado Fraser’s Broadway, fundado pela multinacional Fraser’s Property, em um terreno industrial, visando valorizar a área (figura 51). O projeto, concluído em 2014, é composto por duas grandes torres, com plantas e árvores na fachada compondo o paisagismo e criando um parque no térreo. Uma torre é de apartamentos residenciais e com 34 andares, a outra tem 12 andares (figura 52), entre elas, temos um andar comercial em comum. Juntas, formam uma paisagem vertical construída em colaboração com o artista e botânico Patrick Blanc, contando que 50% da fachada é composta por plantas. Essa paisagem prolonga verticalmente o parque urbano que se tem ao lado (figura 53), o que cria para os habitantes do local uma grande qualidade de vida. As plantas ajudam na climatização dos apartamentos, pois controlam a insolação direta, de acordo com as estações (bloqueiam a insolação intensa no verão e permitem sua entrada no inverno). Este projeto é similar com a “Cidade Matarazzo” pois além de ser projeto do mesmo escritório francês, possui um conceito parecido, de trazer o parque para a fachada. A torre e o parque são ligados por um terraço, e no piso inferior tem uma praça com um shopping que tem a presença de diversas marcas de lojas e restaurantes, o “One Central Park Mall”, que oferece acesso direto ao centro comercial e ao parque (figura 54). Fig. 51: Mapa de localização do One Central Park, em roxo Fonte: Google Maps 78 Fig. 54: Entrada do “One Central Park Mall”. Fonte: Google Maps Street View. Acesso abril de 2020 Fig. 52: Torres do complexo “One Central Park” em Sydney, Austrália. Disponível em: JEAN NOUVEL. Acesso: 27 de março de 2020 Fig. 53: Torres do One Central Park ao fundo, parque à frente. Disponível em: JEAN NOUVEL. Acesso: 27 de março de 2020. 79 O programa e partido é parecido nos dois projetos, tem- se a parte comercial e a parte residencial. A comercial na “Cidade Matarazzo” promete ser mais elitizada, o que acaba os diferenciando um pouco, mas o princípio é o mesmo, de se ter várias funções no mesmo ambiente. Segundo a descrição no site de Jean Nouvel, o projeto integra de maneira inédita a arquitetura de paisagem e a das torres, e oferece à Sydney umaarquitetura nova e icônica que simboliza o futuro da vila (JEAN NOUVEL)14. Essa última frase do parágrafo anterior chama atenção pois a “promessa” da “Cidade Matarazzo” é muito parecida, de ser algo inédito na cidade de São Paulo, de ser o futuro e inovar a paisagem com uma arquitetura diferente da que vem sendo feita na região e no Brasil. Mas será que vai cumprir essa promessa de vendas? 2.4.2 Casos com outros arquitetos Neste tópico do segundo capítulo será abordado projetos de grande escala e que misturam o uso residencial com o comercial, igual temos na “Cidade Matarazzo”, porém sem tanto foco na questão cultural e de restauro. Não há em si uma edificação a ser restaurada, mantida ou revitalizada nesses projetos, porém todos estão situados em importantes localidades das suas cidades, e próximos de pontos turísticos importantes e históricos. O primeiro projeto a ser analisado aqui faz parte do complexo mencionado anteriormente, é o Duo Central Park, em Sidney. Fica ao lado do One Central Park, porém foi projetado pelo escritório americano Foster + Partners. O segundo projeto também é dos escritórios Fosters + Partners, na cidade de Washington, Estados Unidos, se chama “City Center DC”. O terceiro projeto não está concluído e se apresenta em construção, é do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, situado em Londres, Inglaterra. O último projeto a ser abordado aqui é em Milão, Itália, do escritório americano Skidmore, Owings and Merril (SOM) e tem previsão de conclusão para 2022. 80 2.4.2.1 Duo Central Park, Sidney, Austrália O Duo Central Park, concluído em 2018, está ao lado do One Central Park, no distrito de Chippendale em Sidney (figura 55 e 56). É uma proposta majoritariamente residencial, conectada com uma maneira de habitar luxuosa, segundo o catálogo de vendas do site do empreendimento (CENTRALPARKSIDNEY)15. O escritório americano Fosters + Partners foi convidado para fazer o projeto por conta da seu histórico de projetos bem sucedidos. Segundo o site do escritório, o Duo Central Park é uma parte crucial para todo o desenvolvimento do empreendimento Central Park em Sidney. Explicam o plano do empreendimento, que envolve um bairro histórico e edificações antigas: The masterplan extends the historic area of Chippendale by reinstating the original grid to unite the formerly closed-off land to the north with its surroundings. The new piece of city is anchored by the retention of a number of existing heritage buildings and historic features. (FOSTERS+PARTNERS)16 O Duo Central Park é composto por duas torres adjacentes e oferece novos espaços públicos e áreas comerciais. As torres definem os usos e possuem uma materialidade similar a das edificações do seu entorno para não se distoarem tanto. Possui uma rua interna para valorizar o caminhar do pedestre na região. São 313 apartamentos de luxo e o edifício oferece espaços de lazer, como academia e piscina, além de um espaço infantil e do hotel 5 estrelas. A arquitetetura da torre projetada por Fosters + Partners é extremamente diferente da de Jean Nouvel. As propostas de uso são semelhantes, mas a torre do complexo Duo veio para trazer inovação e luxo para o local, logo a sua estética e materialidade é mais limpa, não possui as plantas na fachada e tem bastante uso do vidro e possui brises para proteção (figura 57). É possível comparar a dimensão da torre com as edificações mais antigas ao lado, o que causa um grande impacto visual. A nova torre chama maior parte da atenção, deixando as edificações mais antigas em segundo plano. Com vista da rua, é possível notar também a diferença entre as fachadas dos dois complexos, One e Duo Central Park (figura 58). Apesar de fazerem parte do mesmo “parque”, o One Central Park e o Duo Central Park não tem similaridades estéticas entre si, afinal, são de épocas e arquitetos diferentes e representam o estilo desses. Sidney possuía esse distrito industrial, que estava abandonado e queriam o revitalizar, trazer as pessoas para lá de 81 Fig. 55: Mapa de localização do Duo Central Park, em roxo. Fonte: Google Maps Fig. 58: Visão do pedestre das duas torres, One Central Park e Duo Central Park. Fonte: Google Maps Street View. Acesso abril de 2020 Fig. 57: Fachada de uma das torres do Duo Central Park. Fonte: Fosters + Partners. Disponível em: https:// www.fosterandpartners.com/projects/duo-central- park/#gallery Acesso 01 de abril de 2020 Fig. 56: Imagem retratando a proximidade do One Central Park com o Duo Central Park. Fonte: Central Park Sidney. Disponível em: https://www.centralparksydney. com/explore/building-central-park/duo- brochure Acesso 01 de abril de 2020 82 maneira agradável, por isso a ideia da parceria comercial/residencial e público/privada. Algo semelhante acontece na “Cidade Matarazzo”, tínhamos um espaço grande e disputado na região central e mais visitada da cidade de São Paulo em estado de abandono. Porém, a escala dos dois projetos em Sidney, comparada com a da “Cidade Matarazzo”, é diferente. Em Sidney se tinha espaço para construir as quatro torres e para adequar todo o programa no local. A “Cidade Matarazzo” se apresenta em um terreno com edificações já existentes, antigas e tombadas, o que faz com que apresente “complicações” e “problemas” de projeto a serem resolvidos não só na prancheta mas como, principalmente, nas questões legais e nos órgãos municipais, como visto anteriormente. Fig. 59: Mapa de localização do “City Center DC”, em verde. Fonte: Google Maps 83 Fig. 60: Maquete de desenvolvimento da proposta, com foco na praça central e os edifícios a “protegendo”. F o n t e : Fosters+Partners. Acesso 02 de abril de 2020 2.4.2.2 City Center DC, Washington, Estados Unidos Ainda no mesmo conceito de complexos e empreendimentos multiusos, com residências e lojas temos o “City Center DC” em Washington, nos Estados Unidos, (figura 59). O projeto, que se iniciou em 2006 e foi concluído em 2014, é do escritório americano Fosters + Partners, tem sua localização privilegiada por estar no final do centro da cidade e em certos pontos oferecer vista para a Casa Branca. O partido do escritório foi “transformar o terreno em pequenas quadras para pedestres, valorizando o caminhar e trazendo uma conexão com o centro e com os bairros históricos e residenciais” (FOSTER+PARTNERS)17. O escritório pensou em 4 edifícios de uso misto, composto por escritórios, condomínios, restaurantes e lojas. Segundo o site, foi projetado pensando na escala humana, em contraste com a área de entorno. São edifícios com no máximo 10 andares que protegem a praça e o espaço público central (figura 60). Segundo o site do escritório: “a alta densidade e uso misto é desenhada para aproximar todos os setores, criando uma área amigável para os pedestres” (FOSTERS+PARTNERS)18. As entradas ao complexo são chamativas e atraentes, entre duas edificações e em baixo de passarelas, com a presença de intervenções artísticas como balões e luzes para incentivar o pedestre a utilizar este espaço (figuras 61 e 62). Existem lojas de diversos tipos, mas assim como os projetos anteriormente mencionados e o projeto da “Cidade Matarazzo”, visa bastante o mercado de luxo, com lojas de grife e alta costura, presentes no espaço aberto, proporcionando qualidade e chamando a atenção dos usuários (figura 63). 84 A parte residencial do complexo propõem o maior aproveitamento de luz e qualidade de vida possível. Os apartamentos possuem planta aberta, alguns possuem até mesmo terraços e varandas para extender à área de lazer para o exterior. O condomínio residencial oferece luz, espaço, ventilação e amenidades em espaços em comum: The building design maximizes natural light through the use of open plan layouts while terraces and balconies offer an extension of the living area to the outdoors. The Residences at CityCenterDC include: Light -- Each unit has floor to ceiling glass designed toallow light to diffuse deep into the residence. Solar shades also help to control the amount of light in the residence without obstructing views from the windows. Space -- The circulation was designed to consider how a resident lives and moves through the home, with multiple paths between rooms leading to an overall connectedness within the open layout. Air -- Every home has at least one 6 feet wide sliding door, that opens to invite fresh air inside. All residences feature a balcony, Juliet balcony, or terrace to provide access to outdoor space. Amenities -- Residents of CityCenter enjoy a vast array of amenities designed by Foster + Partners including a fitness center, spa treatment room, wine cellar & tasting room, conference room, lounges with catering kitchens, private parking, and an extensive roof park with a water feature, outdoor kitchens, an outdoor dining room, picnic sections, a fire-pit, and sundeck (RESIDENCESATCITYCENTER)19 O design do espaço das residências do City Center DC foi elaborado para uma determinada classe social e usuários, assim como os demais projetos já mencionados nesse trabalho. Os apartamentos, que variam de tamanho e lay-out, vão de studios a 1-3 quartos (figuras 64-67), possuem mobiliários e ambientes pensados pelo escritório Fosters + Partners, com materialidades caras e designs rebuscados, voltados para o luxo no habitar. O complexo City Center DC é um bom exemplo de empreendimento multiuso próximo de uma área histórica, pois traz sim um bom ambiente de passeio. Temos diversos pontos em comum, como a grande presença do verde e a venda desse espaço como qualidade de vida, luxo e segurança. Tem-se um escalonamento entre as torres com a presença da vegetação, trazendo movimento, algo semelhante com a “Cidade Matarazzo”, com sua fachada não uniforme na Torre Mata Atlântica. Os interiores das edificações foram todos desenhados e projetados pelos arquitetos, o que agrega um alto valor, já que utilizaram os melhores materiais e design inovador, assim como Starck pretende fazer na “Cidade Matarazzo”. Logo, com ele é possível imaginar como será o empreendimento em São Paulo, considerando que eles apresentam diversos pontos em comum na questão de uso e propósito. 85 Fig. 63: Lojas de grife localizadas no pátio interno. Fonte: Forsters+Partners. Acesso 02 de abril de 2020 Fig. 61: Uma das entradas ao complexo. Fonte: Google Maps Street View. Acesso abril de 2020 Fig. 62: Outra entrada do complexo. Fonte: Forsters+Partners. Acesso 02 de abril de 2020 86 Fig. 64: Um dos modelos de planta para o studio. Fonte: Apartaments at City Center DC. Acesso 02 de abril de 2020 Fig. 65: Um dos modelos propostos de 1 quarto e 1 banheiro. Fonte: Apartaments at City Center DC. Acesso 02 de abril de 2020 87 Fig. 66: Um dos modelos de planta proposto para 2 quartos e 2 banheiros. Fonte: Apartaments at City Center DC. Acesso 02 de abril de 2020 Fig. 67: Modelo proposto para 3 quartos e 2 banheiros. Fonte: Apartaments at City Center DC. Acesso 02 de abril de 2020 88 2.4.2.3 London Peninsula Place, Londres, Inglaterra Outro exemplo a ser estudado é o London Peninsula Place, em Londres na Inglaterra (figura 68). Projeto iniciado em 2016, pelo arquiteto e engenheiro espanhol Santiago Calatrava, e ainda está em construção, sem previsão de término até o momento. O projeto de Calatrava possui um programa de necessidades similar aos demais já apresentados. Será um novo marco na cidade e, segundo o site do arquiteto, irá transformar a península de Greenwich, que já é um local emergente em cultura na cidade de Londres. Envolve uma intervenção urbana, além da arquitetural, “terá novas estações de ônibus e metrô, assim como um novo centro de entretenimento e encontro com cinema, teatro, bares, restaurantes e lojas. Junto do complexo, que será composto por 3 torres de trabalho, apartamentos e hotéis” (CALATRAVA)20. Fig. 69: Exterior da Arena O2/ Millenium Dome atualmente. Fonte: Google Maps Street View Fig. 68: Mapa de localização do projeto London Peninsula Place, em azul marinho, situado na península de Greenwich. Fonte: Google Maps 89 O projeto na área da península de Greenwich é o maior projeto de regeneração de uma área na cidade de Londres. Um investimento de 8.4 bilhões de libras, da empresa Knight Dragon (focada em regenerar bairros e em desenvolvimento urbano), para transformar a área e criar mais de 15.000 habitações em 7 novos bairros com ajuda de outros profissionais e arquitetos. Segundo o site21, o projeto de Calatrava será “o portal para a península e evidenciará a ambição para todo o distrito”. As 3 torres propostas pelo arquiteto se localizam ao lado da “Arena O2”, antigo espaço chamado Millenium Dome (figura 69-71), que foi projetado e construído pelo escritório do arquiteto Richard Rogers (Roger Stirk Harbour + Partners) em 1999 para comemorar a virada do milênio, voltado para exposições de arte. Atualmente a arena funciona com lojas e restaurantes no seu interior. O projeto para a península de Greenwich trará e incentivará as pessoas a visitar e habitar esse local. Fig. 71: Imagem com inserção do projeto de Calatrava na paisagem urbana, ao lado da Arena O2. Fonte: C A L A T R A V A . Acesso 02 de abril de 2020 Fig. 70: Imagem das torres projetadas por Santiago Calatrava. Fonte: CALATRAVA. Acesso 02 de abril de 2020 90 É possível observar na imagem anterior que a península de Greenwich já é bastante densa, com presença de altas edificações, o que faz com que a proposta de Calatrava não seja tão invasiva na paisagem. O tipo de arquitetura é diferente da já existente no local, mas se insere de maneira harmônica. É um projeto de grande escala que vai interferir bastante na dinâmica da região e da cidade de Londres, assim como os outros apresentados em suas respectivas localidades. Quanto a sua relação com a “Cidade Matarazzo”, ela vem com o partido inovador, da maneira que se pensa esse novo espaço frente uma cidade já densa, mas o que é positivo para Londres é a falta de conjuntos históricos na área desse empreendimento, pois torna mais fácil de executar o projeto. 91 2.4.2.4 Corso Itália, 23, Milão, Itália O último exemplo e estudo de caso internacional a ser abordado é um em Milão, na Itália (figura 72), que ainda está na fase de concepção. Tem previsão para conclusão no ano de 2022. É o Corso Itália, 23 do escritório americano Skidmore, Owings and Merrill (SOM), que venceu o concurso internacional para o projeto. O exemplo italiano é diferente dos anteriores pois é uma renovação da antiga sede da Allianz em Milão (figura 73). A sede da Allianz era voltada para o uso comercial e foi projetada nos anos 1960 por três arquitetos italianos, Gio Ponti, Piero Portalupppi e Antonio Fornaroli. O projeto vai transformar a área de 45.000m² em um complexo de escritórios, portanto, diferente dos projetos vistos anteriormente, não terá residências nem lojas na área e manterá o uso original da edificação. Fig. 73: Corso Itália atualmente (2019), como sede da Allianz. Fonte: Google Maps Street View. Acesso abril de 2020 Fig. 72: Mapa de localização do Corso Itália,23, em azul claro. Fonte: Google Maps 92 Fig. 75: Fachada da edificação principal do projeto, com a transparência evidenciada. Fonte: SOM. Acesso 02 de abril de 2020 Fig. 74: Inserção do projeto do escritório SOM na paisagem de Milão. Fonte: SOM. Acesso 02 de abril de 2020 93 Segundo o site da Allianz: “o objetivo é criar um campus na cidade, sendo um melhor lugar para trabalhar, com novas tecnologias inseridas, em uma edificação inteligente, onde os usuários poderão escolher quais gostariam de integrar dependendo das suas necessidades” (ALLIANZ)22. O projeto do escritório SOM se baseia em princípios do arquiteto Gio Ponti e conceitos já existentes na edificação, como a conexão entre a cidade e o seu interior, mas criando uma novaidentidade. O foco do projeto é nas pessoas e na relação interior/ exterior, com espaços flexíveis e adaptáveis às necessidades e demandas de cada escritório. O pátio central será redesenhado e formará o “coração do campus”, pois nele que acontecerão as atividades de lazer e descanso dos funcionários e será aberto para o público. O campus conterá uma academia, centro de negócios e praça de alimentação (CORSOITALIA23). As medidas de intervenção nas edificações históricas pensaram no custo, inovação e sustentabilidade. O grau de intervenção a ser feito em cada edificação depende do valor de cada uma para ao campus. O edifício principal, que será a entrada, será inteiro reformado para se tornar um objeto translúcido (figura 74 e 75). Segundo o site do SOM: “o design pensado por eles traz uma oportunidade histórica de reinserir a área do Corso Itália como um novo lugar de trabalho no bairro para a cidade, concretizando Milão como uma das metrópoles mais vibrantes da Europa e catalisando o desenvolvimento” (SOM)23. O escritório pensou bastante na questão patrimonial e de como intervir de maneira respeitosa, como já dito antes, pensando no valor de cada edifício. Segundo eles a maneira que lidam com o patrimônio é “compreendendo os valores e elementos chaves da arquitetura e design original da edificação”. Para eles “preservação é administrar as mudanças, reconhecendo que alguma adaptação é necessária para as edificações continuarem em uso ao longo do tempo e isso deve ser levado em consideração, garantindo que o espírito original seja mantido”, dizem que “é preciso achar o equilíbrio entre patrimônio, inovação, sustentabilidade, custo e identidade” (CORSOITALIA23)24. Os novos edifícios serão “Smart” (inteligentes), atendendo aos quesitos tecnológicos e sustentáveis. Milão é conhecida pela sua arquitetura, arte e, principalmente, moda e o projeto elaborado por 94 SOM se destaca na paisagem histórica da cidade, dado que é do século 21. Um projeto dessa escala a transformará também em uma cidade de trabalho. A proposta de SOM, que será construída, é bastante inovadora, porém apresenta muitos conceitos clássicos, justamente para tratar da questão histórica e patrimonial. O escritório se norteia bastante no valor patrimonial das edificações, mas acredito que na realidade o edifício proposto não atende muito essas questões. Será uma estrutura e edificação completamente nova a ser inserida no local da antiga de 1960, a linguagem é contemporânea, com uso de muito vidro e transparência, garantindo a relação do interior com a cidade, ela é mais alta que o entorno, se destaca na paisagem da cidade. Este projeto evidencia uma maneira de intervir em edificações e bairros existentes, mesmo com uma intervenção completamente nova, trará uma outra vida ao bairro. Cada projeto mencionado aqui tem sua contribuição para o estudo e análise de caso da “Cidade Matarazzo”. Todos apresentam boas e diferentes abordagens de como intervir em um meio urbano já denso e existente, assim como criar diferentes arquiteturas em programas similares. Eles foram escolhidos por mostrarem maneiras de intervenção no patrimônio das cidades, sendo alguns mais respeitosos do que outros, que são mais invasisos e desconsideram a história. Fig. 76: Mapa de localização da Casa das Rosas, em laranja. Em vermelho a localição da “Cidade Matarazzo”. Fonte: Google Maps. Acesso abril de 2020 95 2.4.3 Casa das Rosas, São Paulo, Brasil A Casa das Rosas foi escolhida como estudo de caso pois apresenta uma história semelhante a do Hospital Matarazzo, assim como a proposta que foi desenvolvida para salvar o patrimônio edificado da demolição, após este ser abandonado. Além da semelhança em relação à maneira de lidar com o patrimônio edificado ela é situada na mesma cidade e muito próxima do estudo de caso, na Av. Paulista (figura 76). Situada na Av. Paulista, do lado oposto a “Cidade Matarazzo”, também sofreu com o tempo e evolução da cidade. Foi construída em 1935, pelo famoso escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, para sua própria família habitar. Funcionou como residência até meados dos anos 1980, mesma data de decadência do Hospital Matarazzo. Foi então tombada pelo Condephaat em 1985 com a Resolução SC 57/85. Na resolução consta que a edificação é remanescente do primeiro período de ocupação da avenida paulista, como dito no artigo 1: Fica tombado como bem cultural de interesse histórico-arquitetônico o imóvel situado na Av. Paulista, no 37, nesta Capital, exemplar tardio remanescente do período cafezista, construído na década de trinta, através de projeto e construção sob a responsabilidade do Escritório Severo Villares, e cujas características correspondem à tipologia predominante na primeira fase de ocupação da Avenida no início do presente século, no que se refere à concepção espacial do edifício e ocupação do lote. (Resolução SC 57/85)25 Atualmente a Casa das Rosas (figura 77) é um museu voltado para a literatura brasileira, desde 2004 quando foi inaugurada, leva o nome do poeta Haroldo de Campos. Tem como missão “Promover o conhecimento, a difusão e a democratização da poesia e da literatura, incentivando a leitura e a criação artística, preservando e Fig. 77: Fachada da Casa das Rosas. Foto: Milena Leonel. Disponível em: https:// re f u gi o s u r b a n o s. co m . b r / casas-predios/casa-das-rosas/ Acesso 03 de abril de 2020 96 problematizando o patrimônio histórico-cultural que abriga, tanto o arquitetônico quanto o acervo Haroldo de Campos” (CASADASROSAS). O que se assemelha ao caso da Cidade Matarazzo é o fato da intervenção realizada no local ter sido inédita na época, e fizeram no fundo do terreno um prédio comercial, o Condomínio Edifício Parque Cultural Paulista (figura 78), para interagir com o restante da avenida, que havia se transformado majoritariamente em comércio e serviço. A Casa das Rosas já dividia espaço com prédios comerciais, bancos, edifícios modernos e o característico trânsito de pessoas e veículos. Ameaçado de demolição, o casarão foi preservado em ação inédita no Brasil. Na parte do terreno que dá para a Alameda Santos, foi liberada a construção de um moderno edifício comercial enquanto a casa foi restaurada e transformada pelo Estado de São Paulo em espaço cultural, inaugurado no ano do centenário da Avenida Paulista, 1991. (CASADASROSAS)26 O prédio comercial no lote da Casa das Rosas tem um gabarito alto devido o instrumento urbano de transferência do direito de construir, podendo usar o potencial construtivo do lote, já que a Casa das Rosas pertence a ZEPEC. A edificação no fundo do lote da Casa das Rosas não é polêmica, ao meu ver, pois funciona perfeitamente bem neste local. A sua interferência na paisagem acontece de maneira harmônica, Fig. 78: Imagem do edifício comercial ao fundo do terreno. Fonte: Google Maps Street View. Acesso abril de 2020 97 ela passa despercebida ao pedestre que caminha na avenida e visita a Casa. É positiva também para quem trabalha no local, que para adentrar no edifício caminha pelos jardins da Casa e tem um grande contato com a edificação histórica. Possui uma harmonia na paisagem, que se dá pela neutralidade dos materiais que compõem a sua fachada, inteira de vidro azul, refletindo o céu e seu entorno, a disfarçando. A fachada possui sim suas complicações em questões térmicas e ambientais, mas foi uma boa solução de projeto, na época, como intervenção no patrimônio. A Casa das Rosas é um grande exemplo de parceria público privada na cidade, pois a edificação antiga pertence ao Estado, fornece um programa cultural a toda a sua população e junto temos o edifício comercial funcionando e aproveitando o espaço e potencial construtivo. Mas será que esse instrumento urbanístico é viável para todas as edificações históricas, já que torna possível criar grandes torres ao lado delas? Se não for bem pensado e elaborado pode afetar muitoa edificação em questão e seu entorno. A “Cidade Matarazzo” utiliza o mesmo instrumento para a construção das novas torres, e não posso falar aqui que o projeto não foi bem pensado, considerando que ficou anos em elaboração e em análise pelos órgãos municipais, mas de fato a intervenção a ser feita no local impactará muito a região, e ainda é cedo dizer que será só de maneira positiva. Veremos mais sobre o caso da “Cidade Matarazzo” no capítulo 3. 98 2.4.4 Projeto Novo Recife, Recife (PE), Brasil Neste capítulo vamos tratar o novo empreendimento imobiliário que se quer construir na cidade de Recife, capital de Pernambuco. O Projeto Novo Recife está localizado no centro da cidade, uma área que totaliza 101.000m² (figura 79), a proposta é de criar grandes torres para habitação, comércios e serviços, voltados para uma elite. É um consórcio entre as empresas Moura Dubeux Engenharia, Ara Empreendimentos Imobiliários, GL Empreendimentos e Queiroz Galvão Construção, no terreno Cais José Estelita, que constava com galpões e armazéns (figura 80) pertencentes à Rede Ferroviária Federal S.A.. Fig. 80: Área de construção do empreendimento com os armazéns. Fonte: Google Maps Street View. Acesso abril de 2020 Fig. 79: Mapa de localização do projeto Novo Recife, em amarelo. Fonte: Google Maps Street View. Acesso abril de 2020 99 O projeto é uma parceria público-privada que vem sendo alvo de críticas e polêmicas desde a compra do terreno pelas 4 empresas. Por todos os seus impactos – sociais, ambientais, na paisagem e no patrimônio histórico e cultural –, o projeto tem sido alvo de críticas de grupos e organizações da sociedade civil contrários à sua implementação. (ROLNIK, 2014) O terreno foi leiloado em 2008 e em 2012 houve a primeira proposta de empreendimento. A área é significativa, historicamente, socialmente e culturalmente para a cidade, esta que é considerada patrimônio mundial pela UNESCO. A construção deste empreendimento luxuoso modificará a região e possivelmente excluirá parte da população. Desde 2014, quando as construtoras começaram a demolição dos antigos galpões, a obra ganhou repercussão e protestos no local, o que fez com que a demolição parasse por um tempo. A obra ficou parada, por motivos legais, até 2017, nesses anos o Movimento Ocupe Estelita fazia manifestações e a ocupava. Em 2018 os assuntos legais estavam sendo resolvidos pelas autoridades e em 2019 foi emitido um novo alvará de demolição dos galpões, a obra continuaria com a ajuda do Iphan. (Em março de 2019) o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) concluiu o levantamento histórico do Cais José Estelita, dentro do processo de licenciamento ambiental do projeto, finalizando, assim, o embargo imposto desde 2014 ao projeto. De acordo com o Iphan, desde o início do embargo, foi feita uma série de exigências ao consórcio, que foram atendidas. O órgão informou, ainda, que a área em questão não é valorada como Patrimônio Ferroviária e nem tombada pela União e, por isso, compete ao instituto avaliar o impacto do empreendimento ao patrimônio arqueológico no escopo do licenciamento ambiental. (G1 – PE)27 A demolição de dois galpões foi concluída e começaram as obras do Mirante do Cais e do Parque do Cais em 2019. O empreendimento propõe, além das torres com uso misto, um parque com variados espaços de convivência, ciclovias e espaços de caminhada “65% de todo o terreno será da população, que vai ganhar parques novinhos em folha, com muito verde, ciclovias e espaços de convivência.” (MOURADUBEUX). Após a polêmica envolvendo os galpões da antiga ferrovia eles incluíram no discurso de vendas a preservação de alguns deles, para fornecer espaços públicos a população e incluíram a questão patrimonial. O projeto Novo Recife prevê a preservação de um conjunto de galpões próximo ao Viaduto das Cinco Pontas além das antigas casas dos funcionários e a oficina de eletrotécnica. Esses espaços 100 Fig. 81: Visão de todo o projeto do Novo Recife na área do Cais. Fonte: Ara Empreendimentos. Acesso abril de 2020 serão administrados pelo poder público e pela iniciativa privada, ou seja, vão ser transformados em museus, cafés, comércio. Os 13 edifícios que irão compor o projeto Novo Recife respeitam a paisagem urbana. As edificações que ficam mais próximas do bairro de São José terão uma altura bem menor, de 12 pavimentos, além de um recuo de 50 metros em comparação com os primeiros edifícios que ficam próximos ao Cabanga Iate Clube. Tudo para não perdermos a total vista do centro histórico. (MOURADUBEUX) O projeto consta com 13 torres e uma nova implantação na área, mais arborizada e voltada ao pedestre. Ao contrário do discurso das construtoras, o local irá sim afetar a paisagem urbana de uma maneira drástica. Por mais que tenham diminuído a altura de algumas torres, como conjunto, elas formarão uma barreira na margem da cidade (figura 81). Bloqueiam a visão do mar, da cidade e do pedestre, trazem complicações climáticas, como o bloqueio do sol e corredores de vento. A implantação do projeto (figura 82) tem suas qualidades, beneficia o pedestre, o caminhar e reúne os serviços em um só local. Porém, a grande crítica relacionada ao projeto é quem irá usufruir de toda essa infraestrutura considerada pública. A parte residencial do projeto já está em comercialização e construção, as edificações Mirante do Cais e Parque do Cais. O complexo Mirante do Cais é um projeto composto por duas torres (figura 83) com uma extensa área de lazer e infraestrutura de alta qualidade, com apartamentos de 262m² e de 268m² (figura 84). 101 O Parque do Cais é uma torre mais baixa e localizada ao lado das anteriores (figura 85). A torre do Parque do Cais tem uma infraestrutura mais simples, com menos áreas comuns que a do Mirante do Cais e possui apartamentos menores, de 32 m² e de 61m², voltado para um público mais jovem. O empreendimento do Novo Recife se vende como o futuro e a nova maneira de habitar e usar o espaço do Cais José Estelita, mas a população que mudar para esse local será pequena, será a classe alta e média alta. O espaço não vai atender as pessoas de vulnerabilidade, que tanto lutaram para que a obra não fosse realizada. O empreendimento feito em Recife e o que está sendo feito em São Paulo, a “Cidade Matarazzo”, tem proporções diferentes, apesar de um programa de necessidades similar. O projeto de Recife, inicialmente, desconsiderou a questão local da história e patrimônio, e é muito mais invasivo visualmente, já que propõe várias torres no terreno, além disso, não apresenta uma proposta cultural concreta para os armazéns que desejam manter, apresentam somente um parque/praça integrado às edificações. O projeto da “Cidade Matarazzo” fez o contrário, iniciou-se baseado na questão cultural e histórica do antigo Hospital Matarazzo, isso esteve e está presente desde sempre no discurso do empreendimento, assim como as iniciativas para a promoção da arte. Outra grande diferença entre os dois projetos é o envolvimento da população, em Recife parte da população vulnerável da cidade se mobilizou contra a obra, o que inclusive fez ela parar por um tempo, houve uma discussão sobre o que seria melhor fazer na área, mesmo que as demandas da população não fossem atendidas posteriormente. Na “Cidade Matarazzo” não houve esse envolvimento da população na discussão do empreendimento, os investidores apresentaram a proposta aos moradores, à prefeitura e aos órgãos patrimoniais, ela foi aceita após revisões e começaram as obras, sem protestos e contradições. Porém, como já se sabia em Recife, as novas construções e novos usos propostos no local irão mudar e afetar a maneira de habitar e visitar a região, que será, provavelmente, mais elitizada, mesmo com os equipamentos destinados a cultura. O capítulo a seguir tratará de maneira crítica o empreendimento da “Cidade Matarazzo”, levando em consideração tudojá visto até o momento. 102 Fig. 83: Renderização das duas torres que compõem o complexo Mirante do Cais. Fonte: Moura Dubeux. Acesso 07 de abril de 2020 Fig. 82: Implantação de todo o projeto do Novo Recife na área do Cais. Fonte: Ara Empred. Acesso abril de 2020 103 Fig. 85: Renderização da torre do Parque do Cais. Fonte: Moura Dubeux. Acesso 07 de abril de 2020 Fig. 84: Planta de pavimento tipo da torre norte do complexo Mirante do Cais. Fonte: Moura Dubeux. Acesso 07 de abril de 2020 104 105 No último e terceiro capítulo é abordado o projeto da Cidade Matarazzo de maneira crítica, a partir de alguns critérios de análise. Os critérios têm como base a obra, o projeto e o patrimônio, levando em consideração tudo o que foi apresentado anteriormente. O primeiro critério a ser analisado aqui foi a maneira que a obra lidou com a questão patrimonial das edificações já existentes e o seu impacto na paisagem. O segundo critério trata do método construtivo adotado para a obra. O último critério a ser visto tem como base o projeto como instrumento social e como foi mostrado e vendido para o público, com uma análise da edição sobre o empreendimento na revista L’Architecture D’Aujourdhui, além da maneira em que ele é apresentado nas redes sociais. A “CIDADE MATARAZZO”: ANÁLISE CRÍTICA DAS ESTRATÉGIAS PROJETUAIS 3. 106 Aqui será visto como foi realizado na prática, após as diretrizes dos órgãos patrimoniais municipais, a restauração do complexo de edifícios hospitalar e da capela. Foi analisado o caso com representações gráficas e mapas de demolição e restauração da capela, maternidade e hospital (Anexo I), com as informações coletadas pela autora. Vale lembrar que a autora não teve acesso ao processo principal do empreendimento, por ser considerado particular e de acesso privado (ver nota 11). Segundo os níveis de preservação dados pelo CONPRESP e pelo CONDEPHAAT a capela presente no complexo é a única que deve ser preservada de maneira integral. Logo, está sendo feita toda a restauração dela, da fachada, interiores e elementos decorativos, como as estátuas e anjos. A restauração da capela chamou muita atenção quando se optou por criar uma nova fundação e estrutura abaixo dela, a suspendendo. Essa suspensão da edificação original foi uma escolha adotada na obra para preservar sua estrutura, travando-a. A solução encontrada foi do professor Mário Franco. Usou- se a seguinte metodologia: travou-se toda a estrutura com viga sanduíche, mais 4 tubulões de cada lado, a cada 50 metros. Depois foi feito um processo de hidrojateamento para descolar a capela da terra. A fundação da capela, originalmente, era rasa, e para mantê-la intacta e ao mesmo tempo instalar o subsolo foi feita uma fundação profunda. Colocaram um novo piso, que é a laje de transição, pois, segundo Roberto Toffoli (consultor de patrimônio da obra), nenhum elemento do piso antigo valia preservar, além do altar. A grande obra de aumentar a fundação foi realizada com o sistema “top&down” (começa de cima para baixo, conforme se escava coloca-se a estrutura de travamento) de escavação. Houve uma monitoração das trincas no interior da capela, assim como das fissuras novas que poderiam surgir com a adaptação da nova estrutura. Esse sistema foi extremamente ousado e custoso para a obra da “Cidade Matarazzo”, foi uma realização de engenharia de fato única, fora do comum, principalmente ao se lidar com um patrimônio. A capela, como dito anteriormente, é a única edificação do complexo que precisava ter sua preservação total, e poderia somente sofrer pequenas alterações no interior, o que aconteceu com a troca 3.1 Intervenção e patrimônio 107 do piso. Foi uma solução muito bem pensada, porém não diria que foi cautelosa. A grande ambição do projeto previa o subsolo para cinema e estacionamento, e por isso a decisão de descer tantos metros abaixo da capela. Por mais que a realização tenha sido feita aos poucos, com muita tecnologia envolvida e com bons profissionais e acompanhamento técnico, foi uma intervenção na construção de quase 100 anos que poderia sim ter feito muitos danos. Na minha visão, as obras de restauração da “Cidade Matarazzo” foram todas baseadas no quesito de ousadia e grandiosidade. As edificações que mais “sofreram” com o empreendimento, em questão estrutural, foram a capela e a maternidade devido a inserção da Torre Mata Atlântica e da Casa Bradesco da Criatividade estar mais próximas a elas do que ao pavilhão do hospital. De uma maneira geral houve um respeito das obras ao patrimônio, pois essa questão foi pensada por diversos arquitetos da área antes de ser executada. Optou-se por focar em duas áreas, a superfície com o conjunto histórico e a sua restauração levando em consideração os princípios e diretrizes de restauração e o subsolo, que foi pensado para ser aproveitado ao máximo com espaços contemporâneos. (AYOUB, Helena, julho 2014) Seguindo a teoria de Brandi, vista no capítulo 2, o restauro da capela, da maternidade e do hospital na “Cidade Matarazzo” optou por retirar alguns elementos e restaurar outros na medida do possível. A retirada do piso original da capela, por exemplo, quando aberta ao público vai evidenciar uma realidade diferente da que era antigamente, podendo criar uma ilusão e um falso histórico. Na visita feita ao local de obras com o consultor de patrimônio, Roberto Toffoli, foi dito que a linha de restauro seguida no empreendimento é a restauro-conservativa, onde se mantém as fissuras e a história que a edificação passou. Para isso, foi preciso fazer a inspeção em todos os edifícios tombados, que foram então registrados e formalizou-se as intervenções e a restauração de cada um. A área do lobby do hotel ficará no subsolo da maternidade e para manter a fachada foi necessária uma solução similar à da capela. Fizeram uma estrutura de sustentação, estilo mão-francesa, para a marquise e pórtico. Houve o escoramento da laje, anastilose dos pisos internos e de algumas peças de mármore. O estacionamento será em volta da maternidade em todo o subsolo. A restauração das fachadas da maternidade já começou, quase 50% da edificação já está restaurada (final de 2019, atualmente – 2020 – já está com 108 a restauração quase completa), assim como a escada de mármore, que marca sua circulação vertical. A maternidade teve parte de sua edificação demolida, para ser possível implementar a Torre Mata Atlântica. Essa edificação demolida era um anexo, o qual foi considerado de grau 3 de preservação na nova resolução de tombamento, permitindo a demolição. O restauro do pavilhão de hospitais será o último da obra, e consta em restaurar a fachada, janelas, esquadrias e cobertura. O interior do hospital, como mencionado no primeiro capítulo do trabalho, será inteiramente modificado, restando somente o corredor original como eixo articulador de conexão entre os edifícios que o compõem, mantendo o senso de conexão entre as edificações. O pavilhão hospitalar se tornará um centro comercial, com a presença de lojas muito famosas e algumas de luxo, próximo a ele terá também o mercado orgânico. Com a análise do Anexo I foi possível notar que o restauro foi feito com base no tombamento e respeitou ao máximo, nos limites do empreendimento, a história e edificações originais. Claramente houve mudanças e adaptações, mas acredito que a memória principal do complexo hospitalar e maternidade Matarazzo vai ser mantida, dado que foi com base na história do local que se começou o empreendimento. No próximo tópico abordamos a Torre Mata Atlântica com mais profundidade e o seu método construtivo. 109 Neste tópico do capítulo 3 foi analisado principalmente o método construtivo da Torre Mata Atlântica e foi feita uma análise de partido da Casa Bradesco da Criatividade, assim como o mercado orgânico. Para a realização deste tópico foi feita uma análise da planta e cortes disponíveisda Torre Mata Atlântica (Anexo II). Na visita de campo realizada em setembro de 2019 foi possível obter dados sobre o sistema construtivo da Torre. A gerenciadora das obras no local é a empresa Tessler Engenharia. A Torre possuirá uma ligação com a edificação da antiga maternidade, a qual se tornará a entrada e lobby do hotel, abaixo das duas e da capela terá um estacionamento de 8 subsolos (figura 86). A questão construtiva da obra chama bastante atenção devido a inovações de engenharia, já que está lidando com uma pré- existência que não se pretende demolir. Para a realização do lobby do hotel e dos subsolos foi preciso suspender a maternidade e a capela, travando a estrutura do existente e as descolando da terra com hidrojateamento. Para o estacionamento foi feita uma escavação de 132.462m³, uma fundação de 5.148m³, a estrutura de concreto possui 12.176m³ e as paredes de retenção são de 5.148m³. Para a realização da Torre foi preciso de uma escavação de 62.000m³, estrutura de concreto de 14.423m³ e paredes de retenção de 3.000m³28. A Torre Mata Atlântica não possui pavimento tipo, a planta que foi analisada no Anexo II mostra a quantidade de apartamentos em um determinado pavimento, que totalizam 7. Sendo os dois nomeados como “G” os que são duplex, possuem terraço e telhado jardim. Os dois nomeados como “M”, são os com duas suítes (as suítes são compostas de quarto, banheiro e closet, uma delas também tem cofre), e os três restantes foram nomeados como “P”, uma suíte (quarto, banheiro, closet e cofre). São um total de 647 terraços diferentes em toda a torre. A Torre foi realizada com concreto armado autoadensável (figura 87), o qual possui um custo mais elevado, mas o acabamento é superior ao convencional. Foram feitas as escadas e o sistema de circulação vertical antes da concretização das lajes, sendo assim, houve uma máxima vedação das fôrmas, para isso foi preciso de mais logística e de uma mão de obra adequada, o que também elevou o custo da obra. Nas áreas aparentes da torre a materialidade 3.2 Método construtivo e inovações 110 será o concreto pigmentado, que possui maior duração e menos manutenção. A obra foi dividida em duas partes, a chamada “shell&core”, relativa à estrutura e ao concreto, e a “fitout”, relativa ao acabamento e aos espaços interiores. A primeira etapa foi a “shell&core”, e foi realizada pelas empresas de engenharia e construtoras, está para ser finalizada. Ao finalizar a primeira etapa entra a de “fitout”, que é realizada pela Triptyque, Philippe Starck e Ateliers de France, nos interiores, móveis e acabamentos. Junto da construção da torre está sendo feita a elaboração da Casa da Criatividade e do mercado orgânico, que foram analisados no anexo III. A Casa da Criatividade atualmente se tornou a Casa Bradesco da Criatividade, tendo o banco brasileiro como patrocinador. O mercado orgânico acontecerá no corredor lateral do terreno, ao lado do complexo de edificações, em frente a capela. A Casa Bradesco da Criatividade será um local para fazer exposições de arte de artistas brasileiros e internacionais, terá em seu subsolo um auditório para peças de teatro e musicais. O espaço faz parte de uma das edificações do complexo hospitalar, com o interior modificado e pensado de uma maneira contemporânea para abrigar o programa de necessidades artístico. Será criado o auditório em dois níveis abaixo do térreo, como mostra o corte do anexo III e a estrutura já existente será adaptada para se tornar uma grande área de exposições. O local apresentará também uma área infantil, para as crianças exercerem sua criatividade e uma área para o “clube da criatividade”, o qual o propósito não ficou muito claro, mas será onde os artistas e o curador poderão se reunir para definir as exposições. A intervenção da Casa Bradesco da Criatividade se mostra menos invasiva do que a da maternidade e a da capela, está de acordo com Fig. 86: Imagem em modelo BIM do empreendimento, em corte, mostrando os subsolos. Fonte: INFRAFM. Disponível em: https://infrafm.com.br/ Textos/1/19579/Conhea- o-megacomplexo-Cidade- Matarazzo Acesso 29 de abril de 2020 111 a nova resolução de tombamento, mantendo a fachada da edificação original e alterando somente o seu interior, de maneira bastante inovadora por Rudy Ricciotti. Além da Casa Bradesco da Criatividade, o centro comercial do empreendimento também é projeto de Rudy Riccioti e possui uma inovação na sua construção. A fachada do edifício será envidraçada, mas coberta por “cipós” de concreto e por um paisagismo, a integrando com o restante do empreendimento. O centro se integra com a Torre Mata Atlântica e com a capela, tendo também um uso no subsolo, com o auditório, salão de festas e locais de “bem estar” (anexo III). Será uma edificação de 5 andares, com um lobby amplo e podendo ter até 30 inquilinos por laje29, podendo ter lay-outs variados. Ao vender o centro comercial eles já traçam um perfil de inquilino que poderia utilizar o local, o que evidencia a questão do uso restrito e com uma classe social em foco. O mercado orgânico é onde acontecerá as trocas e a convivência no empreendimento ao ar livre, promete trazer artesãos brasileiros para vender seus produtos, além da participação do projeto Horta Social Urbana. Assim como toda a proposta de empreendimento o mercado orgânico também trouxe um nome importante na sua concepção, a dupla de designers dos irmãos Campana, famosos internacionalmente com seus designs de móveis diferenciados. Os irmãos Campana pensaram o local como um diálogo entre o urbano e a natureza, propondo uma intervenção com elementos lúdicos e sensoriais (na materialidade dos mobiliários), se basearam em memórias de suas próprias infâncias para o design dos carrinhos e mobiliários a serem inseridos (L’Archictecture D’Aujourd’hui, Montpellier, França, p.16-19, 2019). Fig. 87: Esquema da estrutura da torre, em destaque as áreas com concreto pigmentado. Fonte: Apresentação da Cidade Matarazzo. 25 de setembro de 2019 112 Acredito que a importância do mercado orgânico vai além da questão da natureza presente no meio urbano e denso da cidade de São Paulo e da “Cidade Matarazzo” que se está construindo. Ele representa o pensamento e o povo brasileiro, pois é praticamente o único elemento do empreendimento pensado por brasileiros. Os irmãos Campana se ativeram ao fato da diversidade e pensaram em integrar elementos nacionais. Ao meu ver, o mercado orgânico poderá ser um dos locais mais ricos de troca presente no empreendimento, pois a presença de diversos artesãos brasileiros e da Horta fará com que ele se torne acessível a – praticamente – todos os usuários da cidade de São Paulo, enquanto os demais espaços pensados podem se tornar mais restritos. 113 Neste tópico temos uma análise do marketing da “Cidade Matarazzo”, como foi a divulgação do empreendimento na mídia e nas redes sociais, analisando, principalmente, a edição da revista L’Architecture D’Aujourdhui sobre o empreendimento. A revista é uma produção francesa e foi adquirida pela autora em uma viagem de estudos e lazer para Paris. O fato da revista ser de fácil acesso no exterior e ser escrita em francês e em inglês limita o público que tem acesso a esse conteúdo. Não só é preciso ter conhecimento de uma das duas línguas como é preciso ter os meios (financeiros) para a adquirir, além da venda no mercado brasileiro, que se houve, deve ter sido com poucos exemplares e em livrarias e bancas selecionadas, dado que não a encontrei em território nacional. Isso mostra que a divulgação do produto, vulgo empreendimento da “Cidade Matarazzo”, é muito mais voltada para o exterior, para grandes investidores internacionais e pessoas “poderosas” de todo o mundo do que realmente para o povo brasileiro, a quem se diz ser esse empreendimento. Veremos mais sobre essa questão a seguir. Porém, após o lançamento impresso da revista no exterior, o sitedo empreendimento foi atualizado e colocaram, na parte dos “transformadores”, as entrevistas com os agentes diretos do empreendimento, em português, mas não temos a versão completa da revista. Alexandre Allard é investidor na L’Architecture D’Aujourdhui, o que torna bem claro que o discurso sobre o empreendimento seria positivo e uma maneira de divulgar o projeto. A revista apresenta uma série de entrevistas e citações, com os arquitetos, urbanistas, paisagistas, designers, e outros personagens envolvidos no projeto, que estão listados abaixo: • Alexandre Allard – empresário e visionário do empreendimento, presidente do Grupo Allard • Adriana Levisky – arquiteta e urbanista • João Doria – governador de São Paulo • Bruno Covas – prefeito de São Paulo • Fernando e Humberto Campana (irmãos Campana) – designers, pensadores do mercado orgânico • Antoine Courtois – presidente Ateliers de France • Marcelo Rosembaum – designer • Louis Benech – paisagista • Benedito Abbud – paisagista • Jean Nouvel – arquiteto da Torre Mata Atlântica 3.3 Projeto social e maneira de venda ao público 114 • Rudy Ricciotti – arquiteto do Centro Comercial e da Casa Bradesco da Criatividade • Maurício Linn Bianchi – diretor de construção da “Cidade Matarazzo” • Philippe Starck – arquiteto e designer dos interiores da Torre Mata Atlântica • Radha Arora – presidente da rede Rosewood Hotels & Resorts • Marcello Dantas – diretor de arte • Marc Pottier – diretor de arte • Swiss Beatz – artista musical americano • Sandra Cinto – artista • Vik Muniz – artista • Arne Quinze – artista/escultor, torre/totem Tupi • Oskar Metsavah – fundador da Osklen e “goodwill ambassador” da UNESCO • Morena Leite – chef • Pierre Hermé – chef/confeiteiro • José Neves – CEO Farfetch • Susanne Tide-Frater – diretora de estratégia Farfetch • Anthony Koi – investidor e operador de shoppings • Hubert de Malherbe – designer dos interiores da parte comercial do empreendimento • Chafik Gasmi – designer/arquiteto • Jacques Brault – CEO Cidade Matarazzo Foi feita a leitura da edição da “Cidade Matarazzo” na revista diversas vezes. A cada vez percebia-se uma certa repetição no discurso de palavras com conotações positivas. Por conta disso, algumas palavras foram selecionadas para se realizar a contagem de quantas vezes apareciam ao longo de toda a revista. São essas palavras: experiência, cultura, criatividade, único, diversidade, design, beleza, luxo, arte, histórico, ambição, brasilidade, magia e identidade. Foi possível perceber que as palavras “criatividade”, “identidade”, “diversidade”, “cultura” e “identidade” vieram muitas vezes acompanhadas com a palavra brasileira depois, adjetivando. A palavra “experiência” aparece mais quando se descreve o novo sistema de compras a ser implantado no local, na área do complexo de hospitais. A palavra “único” vem como descrição do projeto, do local. “Design” e “beleza” estão presentes praticamente no mesmo discurso, são associados, assim como o “luxo”. “Luxo” aparece mais quando se fala sobre o hotel e as lojas a serem instaladas. Já a palavra “magia” é mais utilizada por Philippe Starck, que se mostra muito poético ao explicar sua colaboração no projeto. A tabela a seguir mostra a contabilização das palavras. 115 Tabela 2: Palavras chave citadas na revista L’Architecture D’Aujourdhui Fig. 88: Nuvem de palavras com base na tabela. Realização da autora no site “ W o r d C l o u d s ”. Disponível em: h t t p s : / / w w w . wordclouds.com/ Acesso 20 de outubro de 2020 Palavras Quantidade Experiência 36 Cultura 23 Criatividade 23 Único 21 Diversidade 18 Design 16 Beleza/”beauty” 16 Luxo 13 Arte 13 História/histórico 11 Ambição 11 Brasilidade 5 Magia/”magic” 4 Identidade 3 116 Com base na tabela e na nuvem de palavras (figura 88) apresentadas anteriormente é possível perceber que o discurso da revista se vende pela experiência cultural proposta no empreendimento. É com base nela, na cultura e na criatividade que o projeto se norteia. O que garantirá o espaço como “único”, o primeiro hotel 6 estrelas da américa latina, a maior revitalização já feita no Brasil, e assim vai. A próxima categoria de palavras mais mencionadas é ligada a beleza, qualidade, arte, luxo e design, o que de fato é algo que podemos notar desde o lançamento do projeto. “Diversidade” tem um número alto de aparições, o que faz sentido, pois não só o programa de necessidades do complexo é bastante diversificado como os agentes envolvidos neles são muitos. Têm-se os agentes franceses, brasileiros, arquitetos, urbanistas, designers, paisagistas, artistas, curadores e vendedores, é com certeza um projeto que envolve muitas pessoas, mas mesmo assim parte da população paulistana não se vê representada nele, o que é algo a se pensar. A questão da história é mencionada várias vezes, mas não se mostra como a mais importante para o projeto, porém, acredito que deveria, considerando que é a razão de investimento, é a norteadora para todo o projeto se concretizar. Parece que a história foi usada como desculpa para a realização desse enorme empreendimento, e não foi tão considerada como gostariam, pois tudo que será feito, instalado e exposto será novo ao complexo. A palavra “brasilidade”, curiosamente, aparece muito pouco, assim como a palavra “identidade”, mas não é esse projeto que visa evidenciar o que há de mais belo no Brasil? Porque aparece somente 5 vezes no discurso? Há, portanto, contradições no próprio discurso de divulgação, se o fato da brasilidade é o que se julga mais importante para a obra, porque não aparece tanto? Acredito que a possível resposta seja porque não temos ainda mais profissionais brasileiros envolvidos no processo criativo, da proposta, e sim pois boa parte deles só estão envolvidos como mão de obra, e na área de execução. Ao analisar as redes sociais do empreendimento, principalmente o Instagram (@cidadematarazzo), é nítido perceber que eles postam a história, contando sempre que é um local importante para o Brasil e mostrando, as vezes, o passo a passo da obra. O marketing feito em torno do empreendimento é altíssimo, e pelas redes sociais é onde eles têm a oportunidade de interagir com um certo público e vender o projeto de maneira mais humanizada, usando a estratégia de “story-telling”. 117 Acompanho a rede social do empreendimento há dois anos, desde quando comecei a realizar essa pesquisa, e por ela é onde consigo me aproximar da obra e compreender em que etapa está, mesmo que de longe (e considerando que não tive acesso a alguns documentos que deveriam ser públicos e com a pandemia de 2020 não foi mais possível visitar o local). Acompanho com um olhar crítico e como pesquisadora, coletando as informações necessárias e importantes para a pesquisa, como a restauração do Hospital, que eles mostraram que retiraram os telhados (figuras 89 e 90) para restaurar e depois será instalado novamente (algo comum no ramo da restauração), a restauração da Capela e Maternidade (figura 91 e 92), que estão praticamente concluídas e avançaram muito no projeto depois que visitei o local no ano de 2019 e o avanço da obra da Torre Mata Atlântica (figura 93) e do centro comercial (figura 94). O empreendimento da “Cidade Matarazzo” é altamente complexo e aborda diversas questões diferentes. Neste trabalho foi abordado as questões mais técnicas, de execução da proposta e a parte patrimonial e histórica mais em evidência, existem muitas outras que poderiam ser abordadas, mas não caberiam na discussão desta dissertação. A obra consegue ser admirável e polêmica ao mesmo tempo, tornando difícil criar uma opinião firme e concreta sobre ela, mesmo após tanto estudo. Fig. 89 e 90: Fachada do Hospital, sem o telhado (retirado para restauração). Fonte: Instagram da Cidade Matarazzo. 118 Fig. 94: Construção da fachada de “cipós” do centro comercial do empreendimento. Fonte:Instagram da Cidade Matarazzo. Fig. 91: Capela praticamente inteira restaurada no exterior. Fonte: Instagram da Cidade Matarazzo. Fig. 92: Fachada da Maternidade em restauração. Fonte: Instagram da Cidade Matarazzo. Fig. 93: Torre Mata Atlântica em processo de finalização da fachada e Maternidade restaurada. Fonte: Instagram da Cidade Matarazzo. 119 Espero que ao longo dessa dissertação tenha sido possível identificar e conhecer melhor o que vem sendo feito, há praticamente 10 anos, no local do antigo Hospital Matarazzo. Após traçarmos todo o histórico da obra e das edificações, de trazer as questões patrimoniais e legislações mais pertinentes sobre o empreendimento foi possível sanar as dúvidas inicialmente geradas. A primeira questão levantada na introdução deste trabalho foi a financeira, e o papel do investimento privado na restauração de edificações históricas. Após o vasto estudo conclui-se que o investimento privado neste empreendimento foi essencial para manter as edificações antigas ainda presentes na cidade de São Paulo, mesmo que partes dela fossem demolidas. Infelizmente, a questão do dinheiro é fundamental para se realizar obras e – usando os termos de Allard e do marketing da “Cidade Matarazo” – sonhos.Sem ele muito pouco pode ser feito, tanto no âmbito público quanto no privado, o que explica o porquê de muitas outras obras patrimoniais estarem esquecidas. Outra questão colocada foi o impacto das novas arquiteturas contemporâneas a serem inseridas no ambiente histórico, seriam elas positivas, respeitosas ou destrutivas da paisagem? Como podemos ver no segundo e terceiro capítulo a obra estava completamente de acordo com as leis do bairro e da nova resolução de tombamento, mas isso não é o suficiente para analisar esta intervenção. Claro que é preciso seguir as leis, mas elas não levam em consideração o sensível, a memória do local, são muito mais técnicas e práticas. As novas arquiteturas presentes no empreendimento são invasivas na paisagem, por mais que se integrem no verde da quadra e lote em que se situam, elas vão ser facilmente notadas de longe na paisagem que a cidade de São Paulo forma. Além disso, contrastam e conflitam com a arquitetura original pertencente no terreno. Não acredito que tenha sido um empreendimento tão pensado no sensível, foi completamente pensado no mercado – imobiliário e comercial – trazendo, como partido, a questão histórica e da memória. De uma certa maneira foi até mesmo desrespeitoso, se seguirmos completamente os ideais teóricos e as cartas patrimoniais apresentadas no segundo capítulo. O valor histórico e a memória dos imigrantes italianos se perdeu ao longo das obras e desenvolvimento do empreendimento, CONCLUSÕES 120 criando um espaço para os novos representantes, que são os maiores agentes presentes na obra, os franceses. Por último, vamos trazer uma possível resposta a hipótese gerada, que é a de reverter a situação de esquecimento provocada por um edifício abandonado pelo acréscimo e intervenção de novos edifícios, que garantam a realização de novos usos, e a atração de novos usuários. Será que a “Cidade Matarazzo” conseguirá atrair e fornecer o local para a população? E a pergunta que se mostrou presente no decorrer de todo o trabalho: será que o novo empreendimento será acessível a todos? Ou promoverá apenas o bem estar de uma única parcela da população? Essas questões são as mais difíceis de serem respondidas devido ao fato de o empreendimento ainda não estar concluído, porém é possível ter uma noção da resposta levando em consideração tudo que já foi apresentado neste trabalho. A “Cidade Matarazzo” foi pensada pelos mais renomados profissionais, executada com os melhores materiais e mão de obra, está há anos sendo pensada e elaborada de maneira fechada ao público, tudo isso já nos mostra que o local será restrito. O hotel 6 estrelas e a parte comercial, que na verdade se tornará uma espécie de shopping de luxo ao ar livre, tem um público alvo, de muitos privilégios, em foco para o manter funcionando, portanto, acredito que esta parte do empreendimento seja sim, infelizmente, limitada. Espera-se que a parte cultural seja acessível a todos, afinal, cultura é algo que precisa ser cada vez mais divulgado e acessível, a cultura é o verdadeiro luxo de uma sociedade. Também espera-se que o mercado orgânico seja acessível a todos, e principalmente, atrativo para os pedestres e usuários do bairro entrarem e conhecerem o empreendimento a partir dele. Segundo Allard a ideia é de que o uso local mude ao longo do dia, indo de exposições culturais mais baratas de dia aos shows e eventos mais caros durante a noite, permitindo essa diversidade de público (L’Architecture D’Aujourd’hui), o que considero ser extremamente positivo. Portanto, é muito difícil prever o que de fato acontecerá neste local, e como ele será utilizado, por enquanto só foi possível trazer suposições baseadas em fatos. A curiosidade e ansiedade para verem o projeto inteiro concluído é grande, para assim, quem sabe, poder trazer uma nova conclusão para este trabalho, e possivelmente uma conclusão diferente da que trago aqui. 121 ALLARD, Alexandre. Alexandre Allard. Disponível em: https://medium. com/@alexandreallard/alexandre-allard-722d796858cb Acesso: 16 de março de 2020 ALLIANZ. Corso Italia, 23. Disponível em: https://www.allianz- realestate.com/en/newsroom/press-releases/19-10-02-allianz- real-estate-launches-the-redevelopment-of-the-historic-allianz- milanese-headquarters-at-corso-italia-23 Acesso: 02 de abril de 2020 APPARTMENTSATCITYCENTER. Disponível em: https:// apartmentsatcitycenter.securecafe.com/onlineleasing/the- apartments-at-citycenter/floorplans.aspx Acesso: 02 de abril de 2020 ARSENAULT, Bridget. Inside Le Royal Monceau Raffles Paris: A Contemporary Take On A Parisian Grand Dame. 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Cidade Matarazzo, complexo com hotel e shopping, terá centro cultural. VEJASP. Disponível em: https:// vejasp.abril.com.br/cidades/anish-kapoor-casa-bradesco-da- criatividade-cidade-matarazzo/ Acesso: 09 de abril 2020 NOTAS 1 Arquivo Histórico Municipal SMC/PMSP – Praça Cel. Fernando Prestes, 152 – Bom Retiro, São Paulo, SP 2 Disponível em: https://www.entreprendre.fr/alexandre- allard-lhomme-presse-du-luxe-parisien/ Acesso: 16 de março de 2020 3 Tradução da autora: “Le groupe Allard, c’est d’abord une tribu, celle de ceux qui souhaitent mettre leurs talents et leurs savoir-faire au service du Beau, de l’Émotion et de l’Art”. Fonte: ENTREPRENDRE. Disponível em: https://www.entreprendre.fr/alexandre-allard- lhomme-presse-du-luxe-parisien/ Acesso: 16 de março de 2020 4 Tradução da autora: “A palace-grade hotel, what Starck created in the newly unveiled Royal Monceau was bold - an interplay light and angles, melding classic with contemporary.” Fonte: ARSENAULT. Forbes. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/ bridgetarsenault/2019/09/08/inside-le-royal-monceau-raffles-paris- a-contemporary-take-on-a-parisian-grand-dame/#6ddfc56f31e7Acesso: 17 de março de 2020 5 Disponível em: https://www.cidadematarazzo.com.br/ Acesso: 16 de março de 2020 6 Tradução da autora: “Nous offrons à nos clients des espaces dédiés à l’art contemporain. Librairie des arts, salle de cinéma privée, galerie d’art contemporain, collection privée de plus de 300 oeuvres artistiques et service d’Art Concierge : le programme artistique de l’hôtel est multidisciplinaire, multimédia et intergénérationnel.” Fonte: ROYALMONCEAU. Disponível em: https://www.leroyalmonceau.com/ Acesso: 17 de março de 2020 7 Tradução da autora: “Cette architecture parle du passé, d’aujourd’hui et du futur. Du passé puisque l’échelle et les techniques des constructions en bois ont traversé les siècles. D’aujourd’hui par son choix et sa volonté d’appartenance dans un rapport d’échelle et d’amitié aux constructions datées ... Enfin de demain pour annoncer que la fatalité d’habiter en hauteur n’est pas d’oublier les matériaux ... mais, bien au contraire, d’inventer les jardins suspendus de São Paulo avec une végétation luxuriante et des vues insolentes.” Fonte: http:// www.jeannouvel.com/projets/torre-rosewood/ Acesso: 16 de março de 2020 8 Tradução da autora: “Cidade Matarazzo gave life to São Paulo and then fell asleep. Cidade Matarazzo is waking up and will again give life for São Paulo. Not the same way. The first time it was made of flesh. The new one is made of dreams. Dream, vision, creativity, rigor are the assets of Matarazzo. The dream is simple; to create an island, to create a paradise in the middle of the city, which will become the centre of life of the city. Whoever you are, at any moment of your life, your dreams will have their own place at the Matarazzo. Like life. Forever”. Ph.S Fonte: STARCK. Disponível em: https://www.starck. com/starck-reinvente-cidade-matara-p2696 Acesso: 27 de maio de 2019 9 Disponível em: https://www.cidadematarazzo.com.br/ empreendimento-nano-shops-2 Acesso: 19 de fevereiro de 2020 10 Anexo V do Edital n1-2019, pag.2. Disponível em: https:// www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/Anexo%20 V%20do%20Edital%20n%C2%BA%201-2019.pdf Acesso 14 de abril de 2020 11 O CONDEPHAAT e o CONPRESP foram contactados pela autora diversas vezes, presencialmente, via e-mail e por telefone, todas as vezes foi notificado verbalmente que o processo número 2014 - 0.187.500 - 5 era restrito e somente poderia ser acessado se houvesse autorização do proprietário. 12 Câmara Municipal. Disponível em: http://www.saopaulo. sp.leg.br/blog/boulevard-da-diversidade-na-regiao-da-paulista-e- debatido-em-audiencia-na-camara/ acesso 14 de abril de 2020 13 A questão da pandemia de 2020 também afetou a busca de processos nos órgãos responsáveis. 14 Tradução da autora: “One Central Park intègre de manière inédite l’architecture du paysage et celle des tours et offre à Sydney une nouvelle icône architecturale qui symbolise l’avenir durable de la ville.” Disponível em: http://www.jeannouvel.com/projets/one- central-park/ Acesso: 27 de março de 2020 15 Disponível em: https://www.centralparksydney.com/explore/ building-central-park/duo-brochure Acesso 01 de abril de 2020 16 Duo Central Park. Disponível em: https://www. fosterandpartners.com/projects/duo-central-park/ Acesso 01 de abril de 2020 17 Tradução da autora: “Foster + Partners masterplan breaks the site down into smaller, pedestrian blocks that bridge new connections between diverse downtown communities: the historic and predominantly residential neighbourhoods to the north, and the mainly commercial office developments to the south seamlessly with the historic context.” Fonte: FOSTER+PARTNERS. City Center DC. Disponível em: https://www.fosterandpartners.com/projects/ citycenterdc/ Acesso 02 de abril de 2020 18 Tradução da autora: “The high-density, mixed-use scheme is designed to bring everything together, creating a low-carbon, pedestrian friendly quarter” Fonte: FOSTERS+PARTNERS City Center DC. Disponível em: https://www.fosterandpartners.com/projects/ citycenterdc/ Acesso 02 de abril de 2020 19 Disponível em: http://www.residencesatcitycenterdc.com/ design Acesso 02 de abril de 2020 20 Tradução da autora: “The scheme will total 1.4 million sq ft including a new tube and bus station, theatre, cinema and performance venue, bars, shops and a wellbeing hub. Above this will rise three towers of workspaces, apartments and hotels, all connected to the Thames by a stunning new land bridge.” Fonte: CALATRAVA. London Peninsula Place. Disponível em: https://calatrava.com/ projects/london-peninsula-london-118.html Acesso 02 de abril de 2020 21 Tradução da autora: “As the gateway to Greenwich Peninsula, Calatrava’s Peninsula Place signals the intent and ambition for this whole new district.” Fonte: CALATRAVA. London Peninsula Place. Disponível em: https://calatrava.com/projects/london-peninsula- london-118.html Acesso 02 de abril de 2020 22 Tradução da autora: “The goal is to build a campus in the city, a ‘best place to work’ and an asset which is ‘Smart-ready’ – where future occupants will be able to choose which technologies they want to integrate according to their operating requirements” Fonte: ALLIANZ. Disponível em: https://www.allianz-realestate.com/en/ newsroom/press-releases/19-10-02-allianz-real-estate-launches-the- redevelopment-of-the-historic-allianz-milanese-headquarters-at- corso-italia-23 Acesso 02 de abril de 2020 23 Tradução da autora: “SOM’s design realizes a historic opportunity to reinvigorate the Corso Italia area as a new workplace district for the city, cementing Milan as one of the most vibrant metropolises in Europe and catalyzing future development.” Fonte: SOM. Disponível em: https://www.som.com/projects/corso_italia_23 Acesso 02 de abril de 2020 24 Tradução da autora: “Our approach to heritage is rooted in our understanding of the values and key elements of the original architecture and design intent. Preservation is about managing change, acknowledging that some adaptation is necessary for buildings to remain in use over time, and that this must be undertaken whilst ensuring that the spirit of the original design is always maintained. The right balance needs to be found between heritage, innovation, sustainability, cost and identity.” Fonte: CORSOITALIA23. Disponível em: https://www.archiscene.net/mixed-use/corso-italia- 23-som/ Acesso: 02 de abril de 2020 25 Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/upload/5e659_RES.%20 SC%20N%2057%20-%20Casa%20das%20Rosas%20Avenida%20 Paulista%2037.pdf Acesso: 03 de março de 2020 26 Disponível em: https://www.casadasrosas.org.br/ institucional/ Acesso: 03 de março de 2020 27 Disponível em: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/ noticia/2019/03/26/cais-jose-estelita-confira-linha-do-tempo-das- polemicas-envolvendo-o-projeto-novo-recife.ghtml Acesso: 07 de abril de 2020 28 Dados retirados do vídeo de apresentação do empreendimento na data da visita (25/09/2019), fornecidos pela arquiteta Luiza Khouri Estefan, da Cidade Matarazzo 29 Segundo o documento de apresentação do comercial da Cidade Matarazzo CAPA 2 DISSERTAÇÃO VERSÃO FINAL.pdf ANEXO I.pdf ANALISE RESTAURO 01 ANALISE RESTAURO 02 ANALISE RESTAURO 03 ANALISE RESTAURO 04jpg ANEXO II.pdf ANALISE TORRE 1 ANALISE TORRE 2 ANALISE TORRE 3 ANALISE TORRE 4 ANALISE TORRE 5 ANEXO III.pdf ANALISE 01 ANALISE 02 ANALISE 03