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UNIVERSIDADE DE MATO GROSSO
INSTITUTO DE EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA - 2019/1
DOCENTE: FERNANDA CÂNDIDO 
DISCENTES: ADILSON SOARES DOS REIS JÚNIOR, RODRIGO MARTINS DÁVALOS
SANTOS E YASMIN FERREIRA DE ARAGÃO
RESENHA CRÍTICA DA COMÉDIA MUSICAL:
Bo Burnham: Inside
CUIABÁ – MT
2021
FICHA TÉCNICA
Título Original: Bo Burnham: Inside
Duração: 87 minutos
Ano da produção: 2021
Estreia: 30 de maio de 2021
Distribuidora: Netflix
Dirigido por: Bo Burnham
Classificação: 16 anos
Gênero: Comédia e Drama
Nacionalidade: Estadunidense
“BO BURNHAM: INSIDE” E A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA –
CONTEXTUALIZAÇÃO E ANÁLISE CRÍTICA
“Oi. Bem-vindos ao que quer que isto seja”. O especial de comédia Bo Burnham:
Inside, escrito, gravado, editado, dirigido e protagonizado por Bo Burnham, retrata a tentativa
de um artista em entreter virtualmente um público inserido no contexto pandêmico ao mesmo
tempo em que ganha consciência do agravamento de sua agorafobia durante o isolamento
social. A obra, nomeada para seis categorias no Emmy Awards, se desenvolve na mesclagem
entre um show performático e um confessionário, abordando temas como identidade, valores,
sentimentos, dentre outros temas trabalhados pela Abordagem Centrada na Pessoa, teoria
fundada por Carl Rogers. Assim, nessa comédia musical produzida durante um ano em
quarentena, Burnham convida o telespectador para fugir momentaneamente do caos e medo
causados pelo COVID-19 e refugiar-se num pequeno quarto no qual a narrativa se
desenvolve.
O artista inicia a comédia musical com Content, contando ao público que decidiu
trabalhar nesse projeto com o fim de ocupar-se durante a quarentena e distrair-se de
pensamentos depressivos, imaginando que mesmo esse trabalho falhando nesses dois
objetivos, produzi-lo não causaria qualquer male sobre si. Nesse momento, Burnham ressalta
que o arco narrativo do especial tem caráter autorreferencial, logo a obra é uma “tentativa de
transcender a si mesmo e se centrar no homem como objeto próprio” (HOLANDA, 1997, p.
1), isto é, uma análise de sua própria intencionalidade de si em um contexto no qual o contato
com o outro é limitado, talvez até mesmo inviável.
Em seguida, o telespectador é apresentado à Comedy, música em que Burnham reflete
sobre a necessidade da comédia em tempos nos quais parece impossível encontrar ocasiões
para piadas ou motivos para rir. Quando percebe, no entanto, que o comediante pode ter um
papel de facilitador no desenvolvimento do público - e talvez do mundo - ao focar em suas
potencialidades, o artista “separa-se da grande ordem do mundo, para se tornar organizador
dessa ordem” (HOLANDA, 1997, p. 6), ou seja, ele reordena uma narrativa aparentemente
caótica para uma satírica. Com a adoção desse comportamento facilitador, Burnham coloca
em prática o que Rogers (1993) denomina como “atitudes psicológicas facilitadoras”,
trabalhando o potencial humorístico das adversidades ao invés de destacar somente seu lado
negativo. Essa apresentação, juntamente com a projeção de uma imagem sob o comediante na
qual feixes de luz solar contornam uma nuvem, instaura um otimismo na produção,
demonstrando a intencionalidade do homem como alguém capaz de ajudar a sociedade de sua
maneira.
No decorrer do especial, Burnham demonstra em diversos momentos as adversidades
em manter um contato com o outro sem intermediações por meio da internet, especialmente
nas canções FaceTime with my Mom (Tonight) e Sexting. Na primeira, a dificuldade de sua
mãe em utilizar o celular acaba causando problemas durante a conversa entre os dois,
retirando o caráter confortante do diálogo e resultando numa situação estressante para o
artista. Sexting, por sua vez, aborda a falta de espontaneidade no desenvolvimento de
atividades sexuais através de mensagens, demonstrando uma tendência do comediante a se
prender em seus defeitos e desistir da conversa por conta da insegurança. Essa comunicação
mediada pela tecnologia, ainda que necessária durante a quarentena, conforme Holanda
(1997), é resultado de uma sociedade desenvolvida que valoriza o técnico em detrimento das
relações humanas.
Ademais, essa crise nas relações não se limita aos diálogos pessoais, se estendendo
também para a mídia digital nas redes sociais, reflexões trabalhadas na música Problematic.
Nessa, Burnham satiriza os pedidos de desculpas publicados por influenciadores digitais,
tanto pela dramaticidade presente neles quanto pela falta de reflexão necessária para a
genuinidade do arrependimento. Desse modo, ao tentar agir como algo que não é, a persona
adotada pelo artista cria obstáculos na formação de relações construtivas com o público, algo
que poderia ser remediado no momento em que a personagem aceita a si mesma, pois
qualquer mudança é inviável sem essa aceitação.
Tudo isso pode parecer uma direção muito estranha a seguir.
Parece-me válida pelo curioso paradoxo que encerra, pois, quando me
aceito como sou, estou me modificando. Julgo que aprendi isso com
os meus clientes, bem como através da minha experiência pessoal —
não podemos mudar, não nos podemos afastar do que somos enquanto
não aceitarmos profundamente o que somos. (ROGERS, 2009, p. 31)
Então o mundo digital extirpou o homem de sua humanidade? Não necessariamente.
Em White Woman’s Instagram, o comediante brinca com os estereótipos de uma mulher
branca e suas fotos publicadas na rede social através de filmagens no formato 1:1,
referenciando às proporções necessárias para uma imagem ser postada no Instagram. A piada
poderia começar e terminar assim, mas, próximo ao final da música, Burnham usa de técnicas
cinematográficas para ressaltar um momento interessante para a personagem retratada por ele:
a foto preferida dela com sua mãe já falecida. Na cena, o ator lê a descrição da publicação, na
qual a mulher branca relembra dos bons momentos vividos ao lado de sua genitora enquanto o
formato do vídeo muda de 1:1 para 1.85:1, simbolizando o humano por trás da tecnologia,
uma pessoa que sente a alegria da companhia e a dor do luto. No entanto, no momento em que
o discurso começa a adquirir um teor performático, a cena volta ao formato 1:1 e assim
continua até o fim da apresentação.
Nesse momento, o artista apresenta um ambiente facilitador não somente para as
mulheres brancas, mas para todos aqueles que têm dificuldade em estabelecer conexões vitais
e significativas com o outro no mundo virtual. Segundo Rogers (1993), existem três partes
necessárias numa relação facilitadora, sendo eles: 1) autenticidade, ou seja, uma pessoa
transparente, que se permite viver e sentir sem esconder ou invalidar seus sentimentos; 2)
aceitação incondicional, isto é, o ato de acolher a pessoa independente do que ela é e; 3)
compreensão empática, em outras palavras, entender os sentimentos do outro e seus
significados. Então, com a demonstração da vulnerabilidade da personagem e o
desenvolvimento de uma atmosfera acolhedora, Burnham cria a imagem de um homem
sensível, empático e, sobretudo, humano.
Posto isso, é fundamental levar em consideração o fato de que o próprio artista está em
isolamento social, gravando e regravando piadas em um quarto apertado, para um público que
pode ou não apreciar o projeto, ou pior ainda, para público nenhum. Além disso, é importante
ressaltar que Burnham deixou de se apresentar ao vivo em 2016, dedicando essa pausa em sua
carreira para focar na reestruturação do self, que sofria de agorafobia. Anos depois, já com o
self estruturado, o comediante pretendia retornar aos palcos em 2020, no entanto a pandemia e
a quarentena frustraram seus planos. Diante disso, nota-se que é de grande interesse para o
humorista encontrar no público um facilitador para o desenvolvimento de suas potências,
talvez até mesmo uma confirmação da estruturação do self, necessidade essa que foi
impossibilitada devido ao COVID-19 e a intermediação na comunicação, uma medida
essencial na prevenção do vírus.
Os indivíduos possuem dentro desi vastos recursos para a
autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas
atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser
ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes
psicológicas facilitadoras. (ROGERS, 1993, p. 45)
Os meses se passam, Burnham continua desenvolvendo do especial e então chega o
dia de seu aniversário de trinta anos. Ele está sentado num banquinho no meio do quarto
pouco iluminado, um relógio analógico indicando que são 23h58, faltando dois minutos para
o fatídico dia. Nesse intervalo de tempo, o comediante confessa ter desejado finalizar esse
projeto antes de seu aniversário, pois a ideia de comemorar seus trinta anos sem poder sair de
casa e trabalhando sozinho na produção de Inside não lhe agradava de forma alguma,
levando-o a evitar essa possibilidade de todas as formas. O relógio marca meia-noite, e
Turning Thirty começa a reproduzir. A partir desse momento, a obra passa a ter um tom
desesperador, com Burnham entrando em crise existencial, contando piadas autodepreciativas,
externando pensamentos suicidas e relatando sentimentos e sintomas de ansiedade. O
telespectador assiste desnorteado ao colapso do self, sem qualquer poder de intervenção,
enquanto o humorista deita-se na cama e prepara-se para dormir.
Em certo momento, o comediante encontra conforto em sua instabilidade mental e não
mais deseja sair do quarto, entrar em contato com o outro ou com o mundo fora desse
ambiente. Na canção All Eyes on Me, Burnham personifica seu transtorno mental, as letras
uma manifestação sutil da maneira como esses sentimentos convencem o homem a
permanecer nesse estado de sofrimento psíquico, isolando-se e evitando o contato com o
outro. A música, junto de sua melodia pacificadora, é um convite tentador e perigoso para o
abandono de emoções, da empatia, da potencialidade do homem. Seguindo essa performance,
o artista levanta-se da cama, alimenta-se, faz sua higiene bucal, volta a editar os vídeos para o
projeto. E, então, anuncia que Inside está devidamente finalizado.
Ao final do especial, o humorista sai do quarto e é recepcionado com aplausos, um
holofote o iluminando dos pés à cabeça. Aterrorizado, o artista tenta desesperadamente voltar
para dentro do cômodo, sem êxito; a vontade de sair, expressa diversas vezes na duração da
obra, agora é ofuscada pelo medo. Segundo Rogers (1993), essa ansiedade é resultado da
aproximação de uma experiência negada com a consciência da pessoa, pois significam
mudanças na estrutura do self adotado por Burnham, alterações no conforto encontrado no
caos. Dessa maneira, Bo Burnham: Inside termina com uma atmosfera totalmente oposta ao
de seu início, ironizando o objetivo inicial de Burnham em fugir dos sentimentos depressivos.
Ao tentar fugir do que é, ao se privar de experienciar esses sentimentos, o comediante se
fechou para qualquer mudança em seu comportamento, o que foi reforçado pela ausência de
relações facilitadoras com o outro para o desenvolvimento de suas potencialidades.
REFERÊNCIAS
HOLANDA, A. A questão do humanismo. In: HOLANDA. A. Diálogo e psicoterapia:
correlações entre Carl Rogers e Martin Buber. São Paulo: Lemos, 1997.
ROGERS, C. R. Este sou eu. In: ROGERS, C. R. Tornar-se Pessoa. 6ª Ed. São Paulo: WMF
Martins Fontes, 2009.
ROGERS, C. R. Os fundamentos de uma abordagem centrada na pessoa. In: ROGERS,
C. R. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1993.

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