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Estudo de caso CLIENTE DIANTE DE DECISÃO DIFÍCIL SOBRE CUIDADOS DE SAÚDE ENVOLVENDO PERDAS Sra. Cole é uma mulher de 49 anos de idade que se submeteu ao estadiamento do câncer após obter um resultado positivo na biopsia de mama. O cirurgião informou que ela tem um carcinoma ductal in〼‾ltrativo de estádio IIB e discutiu com ela a respeito de dois métodos cirúrgicos diferentes: a conservação da mama ou a mastectomia radical modi〼‾cada (MRM). Se optar pela MRM, Sra. Cole deve decidir se se submeterá a uma reconstrução da mama ou se utilizará uma prótese mamária. A enfermeira percebe que Sra. Cole está trêmula e quase chorando. Sra. Cole diz à enfermeira que está incerta sobre como o seu marido vai reagir caso ela escolha a MRM. Ela também está preocupada com o fato de não mais se sentir uma mulher atraente depois da MRM, porém declara que está com muito medo de tudo, visto que uma amiga morreu de câncer de mama metastático. • • • • • • Foco de competência QSEN | Cuidado centrado na cliente As complexidades inerentes ao sistema de saúde desafiam a enfermeira a demonstrar a integração de competências centrais interdisciplinares específicas. Essas competências visam garantir a prestação de cuidados de qualidade e seguros à cliente (Institute of Medicine, 2003). Os conceitos da Orientação de Qualidade e Segurança para Enfermeiras (QSEN, 2012) são uma referência para o Conhecimento, as habilidades e as atitudes (CHAs) necessários à enfermeira, para que demonstre competência nas suas áreas principais: o cuidado centrado na cliente; o trabalho colaborativo em equipe interdisciplinar e interdependência; a prática baseada em evidência; a melhora da qualidade, a segurança; e a informática. Definição de cuidado centrado na cliente: Reconhecer a cliente ou seu representante como fonte de controle e parceiro de pleno direito no fornecimento de cuidados compassivos e coordenados, com base no respeito a preferências, valores e necessidades da cliente. COMPETÉ;NCIAS ESSENCIAIS APLICAÇÃO E REFLEXÃO Conhecimento Integrar o entendimento das múltiplas dimensões do cuidado centrado na cliente: Preferências, valores da cliente/da família/comunidade Coordenação e integração dos cuidados Informações, comunicação e orientação Conforto físico e apoio emocional Participação da família e dos amigos Transição e continuidade Descreva os fatores que têm impacto na decisão de Sra. Cole sobre a abordagem cirúrgica que ela vai escolher, incluindo a percepção dela sobre as preferências do marido, a percepção de sua feminilidade e a experiência de uma amiga que faleceu de câncer de mama metastático. Identi〼‾que os fatores que devem ser incorporados em seu cuidado, de modo que ela seja capacitada a tomar a melhor decisão para ela. Habilidades Comunicar os valores, as preferências e as necessidades expressas da cliente a outros membros da equipe de saúde. Discuta como você defenderia Sra. Cole, de modo que ela possa receber o melhor cuidado para ela. Como você coordenaria seu cuidado com outros pro〼‾ssionais da equipe de saúde, de modo que isso re〰㰊ita os desejos dela? Atitudes Valorizar a percepção de situações de cuidados da saúde “pelos olhos da cliente”. Respeitar e incentivar expressão individual dos valores, preferências e necessidades expressas da cliente. Re〰㰊ita sobre um momento do passado em que teve medo de perder algo importante para você. Como o medo afetou a sua tomada de decisão? Como você demonstraria empatia no caso de Sra. Cole, que está lhe revelando suas preocupações sobre ter de fazer uma escolha que a força a perder algo de sua identidade feminina ou coloca potencialmente sua vida em risco? Como isso pode ter impacto na tomada de decisão de Sra. Cole? Pense como você analisaria suas próprias vantagens e desvantagens, e identi〼‾que o que você pensa sobre a decisão que tomaria se estivesse em uma situação semelhante a essa cliente. Que decisões diferentes você e outras pessoas tomariam, tendo em vista as mesmas circunstâncias? Existe alguma decisão “certa” ou “errada”? Re〰㰊ita como as preferências e os valores individuais afetam as decisões tomadas sobre os cuidados de saúde. Você pode respeitar as decisões de outras pessoas que diferem das decisões que você tomaria em uma situação semelhante? Por que é importante que a enfermeira demonstre respeito diante da tomada de decisão autônoma das clientes? Cronenwett L, Sherwood G, Barnsteiner J et al. (2007) Quality and safety education for nurses. Nursing Outlook, 55(3), 122131. Institute of Medicine (2003). Health professions education: A bridge to quality. Washington, DC: National Academies Press. QSEN Institute. (2012). Competencies: Prelicensure KSAs. Disponível em: qsen.org/competencies/prelicensureksas 1 2 3 4 5 6 7 8 Objetivos do aprendizado Após ler este capítulo, você será capaz de: Descrever a anatomia e a 〼‾siologia do sistema genital feminino. Descrever as abordagens para a avaliação efetiva dos processos 〼‾siológicos femininos. Identi〼‾car os exames complementares e testes utilizados para determinar a presença de alterações na função reprodutiva feminina e descrever o papel da enfermeira antes, no decorrer e depois desses exames e procedimentos. Identi〼‾car os processos 〼‾siológicos femininos comuns e as implicações de enfermagem relacionadas. Descrever os métodos de contracepção e suas implicações para os cuidados e a orientação em saúde. Descrever as causas e o manejo da infertilidade. Usar o processo de enfermagem para planejar o cuidado à cliente com gravidez ectópica. Desenvolver um plano de orientação para mulheres que estão se aproximando da menopausa ou que a concluíram. Glossário ablação endometrial: procedimento realizado por meio de um histeroscópio, em que o revestimento do útero é cauterizado ou removido para tratar o sangramento uterino anormal amenorreia: ausência de 〰㰊uxo menstrual androgênios: hormônios produzidos pelos ovários e pelas glândulas suprarrenais, que afetam muitos aspectos da saúde feminina, incluindo o desenvolvimento dos folículos, a libido, a oleosidade dos cabelos e da pele e o crescimento dos pelos anexos: as tubas uterinas e os ovários cistocele: fraqueza da parede vaginal anterior, que possibilita a protrusão da bexiga dentro da vagina colo do útero: parte inferior do útero, que se localiza na vagina corpo lúteo: local dentro de um folículo que se modi〼‾ca depois da ovulação para produzir progesterona dismenorreia: menstruação dolorosa dispareunia: relação sexual difícil ou dolorosa endométrio: revestimento mucoso do útero estrogênios: vários hormônios produzidos nos ovários, que desenvolvem e mantêm o sistema genital feminino fase lútea: estágio do ciclo menstrual, em que o endométrio torna-se mais espesso e mais vascularizado fase proliferativa: estágio do ciclo menstrual antes da ovulação, quando o endométrio aumenta fase secretora: estágio do ciclo menstrual em que o endométrio torna-se mais espesso, mais vascularizado, e ocorre ovulação folículo de Graaf: estrutura cística que se desenvolve no ovário quando começa a ovulação fórnice da vagina: parte superior da vagina fundo do útero: corpo do útero hímen: tecido que cobre a abertura da vagina de modo parcial ou completo antes da penetração vaginal histeroscopia: procedimento endoscópico realizado com o uso de um instrumento semelhante a um telescópio longo, inserido através do colo do útero para diagnosticar problemas uterinos hormônio foliculoestimulante (FSH): hormônio liberado pela hipó〼‾se para estimular a produção de estrogênio e a ovulação hormônio luteinizante (LH): hormônio liberado pela hipó〼‾se, que estimula a produção de progesterona menarca: início da função menstrual menopausa: cessação permanente da menstruação, em consequência da perda de atividade folicular ovariana menstruação: desprendimento e liberação do revestimento do útero quando não ocorre concepção ovários: órgãos reprodutivos em formato de amêndoa, que produzemóvulos na ovulação e que desempenham um importante papel na produção de hormônios ovulação: liberação de um óvulo maduro do ovário perimenopausa: o período que antecede imediatamente a menopausa e o primeiro ano depois da menopausa progesterona: hormônio produzido pelo corpo lúteo, que prepara o útero para receber o óvulo fertilizado prolapso uterino: descida do colo do útero e do útero em direção à parte inferior da vagina retocele: fraqueza da parede posterior da vagina, que possibilita a protrusão da cavidade retal dentro da submucosa da vagina vestíbulo da vagina: abertura para o períneo através do óstio da vagina As enfermeiras que prestam cuidados a mulheres precisam compreender as influências físicas, do desenvolvimento, psicológicas e socioculturais sobre a saúde da mulher, bem como sobre as práticas de saúde. É necessário considerar como os medicamentos e as doenças afetam especificamente as mulheres. Além disso, a sexualidade da mulher é complexa e, com frequência, afetada por numerosos fatores, e os problemas relacionados necessitam de cuidadosa avaliação e tratamento. PAPEL DA ENFERMEIRA NA SAÚDE DA MULHER Como a presença das mulheres no mercado de trabalho continua aumentando, elas se defrontam com desafios em seus papéis, estilos de vida e padrões familiares. Além disso, estão expostas a perigos e estresse ambientais, exigindo uma atenção maior sobre a saúde e as práticas de promoção da saúde. Em consequência, muitas mulheres estão tendo maior interesse e responsabilidade pela sua própria saúde e cuidados de saúde. Como as enfermeiras em todos os ambientes deparamse com mulheres com necessidades de cuidado de saúde, elas precisam ter uma compreensão sólida dos problemas singulares relacionados com a saúde da mulher para proporcionar cuidados ideais. Nos EUA, o Affordable Care Act exigirá que as seguradoras privadas cubram os serviços de cuidados preventivos em saúde para mulheres, sem repartição dos custos, como copagamentos, deduções ou cosseguro (Kaiser Family Foundation, 2012). A triagem baseada em evidências e o aconselhamento para depressão, diabetes, colesterol, obesidade, vários cânceres, vírus da imunodeficiência humana (HIV) e doenças sexualmente transmissíveis (DST) também são cobertos (Kaiser Family Foundation, 2012). Uma gama de serviços para mulheres também será coberta sem repartição dos custos. Esses serviços incluem consultas anuais para mulher, suporte para o aleitamento, aconselhamento e triagem para violência íntima, todos os métodos de contracepção aprovados pela agência norteamericana Food and Drug Administration (FDA) e mamografias (Kaiser Family Foundation, 2012). Nesses últimos anos, o foco das pesquisas tem sido a disparidade existente nos cuidados em saúde entre homens e mulheres. Walsh et al. (2009) identificaram áreas que se beneficiariam de uma melhora na saúde da mulher – por exemplo, menos mulheres que homens são tratadas com medicamentos hipolipêmicos, como os inibidores da 3hidroxi3metilglutaril coenzima A (HMG CoA) redutase ( i. e., estatinas) para prevenção da doença cardiovascular (DCV). Em um estudo, foi constatado que apenas 24% das mulheres elegíveis relataram o uso de estatinas (Spatz, Canavan e Desai, 2009). Por conseguinte, é necessário um manejo mais agressivo dos fatores de risco para DCV para atualizar as metas de tratamento. As mulheres têm outras necessidades exclusivas de cuidados em saúde. As mulheres com diabetes apresentam uma taxa de mortalidade maior que os homens com diabetes e correm risco muito mais alto de DCV (Walsh et al., 2009). Uma metanálise verificou a duração dos sintomas vasomotores durante a menopausa, constatando que os sintomas vasomotores alcançaram um pico em 1 ano após a última menstruação, duraram 4 anos na maioria das mulheres e foram frequentemente tratados com terapia hormonal para aliviar os sintomas; todavia, a duração segura desse tratamento não é conhecida (Politi, Shlentz e Col, 2008). AVALIAÇÃO DO SISTEMA GENITAL FEMININO Visão geral da anatomia e fisiologia O sistema genital feminino é complexo, visto que envolve muitas estruturas externas e internas que estão sob controle hormonal. Anatomia do sistema genital feminino O sistema genital feminino consiste em estruturas pélvicas externas e internas. As outras estruturas anatômicas que afetam esse sistema incluem o hipotálamo e a hipófise do sistema endócrino. A mama feminina é incluída em discussões da saúde reprodutiva e é discutida no Capítulo 57. Genitália externa A genitália externa feminina é composta de uma variedade de tipos de tecidos, começando no monte do púbis, que consiste em um coxim espesso de tecido adiposo que cobre a sínfise púbica e a protege durante a relação sexual (Figura 56.1). Seguindo para baixo, encontramse duas pregas espessas de tecido conjuntivo, cobertas com pelos púbicos, denominadas lábios maiores do pudendo, que se estendem do monte do púbis até o períneo. Os lábios maiores do pudendo cobrem a área de formato oval conhecida como vestíbulo, de onde se originam os lábios menores do pudendo. Os lábios menores são duas pregas estreitas de pele sem pelos, que começam no clitóris e se estendem até o frênulo. Essa região é altamente vascularizada e rica em suprimento nervoso e glândulas, que lubrificam a vulva, o nome coletivo para se referir à genitália externa. Os lábios menores do pudendo unem se na parte superior para formar o prepúcio, uma estrutura semelhante a um capuz que cobre parcialmente o clitóris. O clitóris, um órgão erétil localizado abaixo do arco púbico, consiste no corpo do clitóris e glande. Secreta o esmegma, um ferormônio (estimulante erótico olfatório) e é sensível ao toque e à temperatura. Abaixo do clitóris encontrase o óstio externo da uretra, a abertura externa da uretra feminina, que tem a aparência de uma fenda. Abaixo do óstio da uretra, encontrase o vestíbulo da vagina (abertura da vagina). Em cada lado do vestíbulo da vagina, encontramse as glândulas vestibulares maiores (de Bartholin), que secretam muco através de minúsculos ductos situados dentro dos lábios menores do pudendo e externos ao hímen (membrana que circunda o vestíbulo da vagina). O vestíbulo é delimitado pelo clitóris, pelo frênulo do clitóris e pelos lábios maiores e contém o óstio externo da uretra. A glândula de Skene, localizada dentro do óstio externo da uretra, produz muco para lubrificação (Link, 2011). A abertura do hímen varia amplamente entre as mulheres, e o tamanho da abertura não constitui um indicador confiável de experiência sexual (Link, 2011). O frênulo localizase na linha média, abaixo da abertura vaginal onde os lábios maiores e os lábios menores do pudendo se unem. O períneo é a área localizada entre a vagina e o reto ou ânus, que consiste em tecido muscular coberto de pele (Link, 2011). Figura 56.1 Genitália feminina externa. A genitália externa é sustentada por diversos músculos. Os órgãos pélvicos são sustentados pela camada muscular profunda conhecida como músculo levantador do ânus. Esse músculo, que forma a maior parte do diafragma pélvico, é composto pelos músculos iliococcígeo, pubococcígeo e puborretal. Sustenta os órgãos da reprodução e proporciona elasticidade ao assoalho pélvico. Se visualizado em sua parte superior, assemelhase a mãos unidas em concha. Sua principal função consiste em fornecer apoio aos órgãos da pelve quando ocorre elevação da pressão em consequência de tosse e espirro. Quando esse grupo muscular sofre contração, o assoalho pélvico é elevado, mantendo a continência (Marecki e Seo, 2010). Os músculos que contribuem para a resistência do assoalho pélvico podem ser lesionados durante o parto (Mareckie Seo, 2010). Os músculos bulbocavernoso, isquiocavernoso e transverso do períneo circundam e sustentam a vagina e a uretra, bem como o músculo esfíncter do ânus. Estruturas reprodutivas internas As estruturas internas consistem em vagina, útero, ovários e tubas uterinas (trompas de Falópio) (Figura 56.2). Vagina A vagina, um canal tubular revestido por mucosa glandular, mede de 7,5 a 10 cm de comprimento e estendese para cima e para trás, da vulva até o colo do útero. Com paredes finas, pode ser distendida durante o parto, além de ser altamente vascularizada e ter pouca sensação. Anteriormente à vagina, encontramse a bexiga e a uretra, e, posteriormente, o reto. As paredes anterior e posterior da vagina normalmente entram em contato uma com a outra. O fórnice da vagina (parte superior da vagina) circunda o colo do útero (a parte inferior do útero) (Link, 2011). Útero O útero, um órgão muscular em formato de pera, mede aproximadamente 7,5 cm de comprimento e 5 cm de largura em sua parte superior. Suas paredes têm cerca de 1,25 cm de espessura. O tamanho do útero varia, dependendo da paridade (número de gestações), tamanho do recémnascido e anormalidades uterinas (p. ex., fibroides, que constituem um tipo de tumor que pode provocar distorção do útero). Uma mulher nulípara (aquela que não completou uma gestação até o estágio de viabilidade fetal) habitualmente apresenta um útero menor que uma mulher multípara (aquela que completou duas ou mais gestações até o estágio de viabilidade fetal). O útero localizase posteriormente à bexiga e é mantido em posição por diversos ligamentos. Os ligamentos redondos estendemse anterior e lateralmente até o anel inguinal interno e para baixo pelo canal inguinal, onde se unem com os tecidos dos lábios maiores. Os ligamentos largos são pregas do peritônio que se estendem desde as paredes pélvicas laterais e envolvem as tubas uterinas. Os ligamentos uterossacrais estendemse posteriormente até o sacro. Figura 56.2 Estruturas reprodutivas internas femininas. O útero é constituído de quatro partes: colo do útero, fundo do útero, corpo do útero e istmo do útero. O colo do útero é a abertura para o útero, que se projeta para dentro da vagina. Uma parte superior maior, o fundo do útero, é a porção arredondada acima da inserção das tubas uterinas. O corpo do útero é a principal porção do útero, que se localiza entre o fundo e o istmo. O istmo do útero referese ao segmento uterino inferior durante a gravidez e une o corpo ao colo do útero. O colo do útero é dividido em duas partes. A parte acima do local de inserção do colo do útero ao fórnice da vagina é conhecida como porção supravaginal do colo; a porção abaixo do local de inserção que faz protrusão dentro da vagina é conhecida como porção vaginal do colo. O colo do útero é composto de tecido conjuntivo fibroso. O diâmetro varia de 2 a 5 cm, dependendo da história de partos. O comprimento é habitualmente de 2,5 a 3 cm na mulher não grávida. A porção vaginal do colo é lisa, firme e em formato de rosquinha, com uma abertura central visível, denominada óstio externo. O óstio externo é redondo antes do primeiro parto e, com frequência, adquire uma forma em fenda depois do parto. O óstio interno é a abertura no colo do útero para a cavidade uterina. Em resposta a hormônios cíclicos, o colo do útero produz muco, que constitui um importante fator no reconhecimento da fertilidade. A face vaginal do colo do útero é coberta de epitélio escamoso, um local de rápido crescimento celular do câncer e alterações précancerosas do colo do útero. A parede do útero apresenta três camadas. O endométrio, a camada mais interna, é altamente vascularizada e responde à estimulação hormonal na preparação para receber o óvulo em desenvolvimento. O endométrio se desprende se não houver gravidez, resultando em menstruação; quando ocorre gravidez, ele se desprende depois do parto. O miométrio, a camada média, é constituído de várias camadas de músculo liso. A camada externa do miométrio é composta de fibras longitudinais, principalmente no fundo do útero, proporcionando a força necessária para expelir o feto. A camada média do miométrio é constituída de fibras entrelaçadas com vasos sanguíneos, em um padrão de figura em oito, denominado ligadura viva, visto que se contrai depois do parto para ajudar a controlar a perda de sangue (Smith e Chelnow, 2012). A camada interna do miométrio é composta de fibras circulares que estão concentradas em torno do óstio interno do colo uterino para ajudar a manter o colo do útero fechado durante a gravidez. A outra camada do útero é composta de peritônio parietal, que recobre a maior parte do útero. Desse local, as tubas uterinas (ou trompas de Falópio) estendemse para fora, e o seu lúmen é internamente contínuo com a cavidade uterina (Porth e Matfin, 2009). As tubas uterinas ou ovidutos proporcionam a passagem dos óvulos do ovário para o útero. Fazem uma curva ao redor de cada ovário e estão ligadas ao fundo do útero. As tubas uterinas medem cerca de 10 cm de comprimento e são divididas em quatro partes. O infundíbulo da tuba uterina, que é a porção mais distal, é coberto por fímbrias, cujo movimento semelhante a ondas ajuda a empurrar o óvulo para dentro da tuba. A ampola da tuba uterina é habitualmente o local de fertilização do óvulo. Em seguida, a tuba uterina, que mede 0,6 cm de diâmetro no istmo, tornase estreita, terminando na parte mais estreita da porção intersticial, que se abre na cavidade uterina. A tuba uterina também secreta nutrientes para o crescimento e o desenvolvimento do óvulo após a fertilização durante a sua passagem pela tuba uterina até o útero. Ovários Os ovários localizamse atrás dos ligamentos largos e atrás e abaixo das tubas uterinas. São corpos em formato de amêndoa, com cerca de 3 cm de comprimento. Ao nascimento da mulher, eles contêm milhares de diminutas células ou óvulos. Os ovários e as tubas uterinas em conjunto são designados como anexos. Função do sistema genital feminino Ovulação Na puberdade (habitualmente entre 11 e 13 anos de idade), os óvulos começam a amadurecer, e os ciclos menstruais se iniciam (Link, 2011). Na fase folicular, um óvulo aumenta e transformase em uma estrutura cística, denominada folículo de Graaf, até alcançar a superfície do ovário, onde ocorre o seu transporte. O óvulo (ou oócito) é liberado dentro da cavidade peritoneal. Essa liberação periódica do óvulo maduro é conhecida como ovulação. Em geral, o óvulo segue o seu trajeto na tuba uterina, onde é transportado até o útero. Quando é penetrado por um espermatozoide, a célula reprodutiva masculina, ocorre uma união, resultando na concepção. Depois da liberação do óvulo, as células do folículo de Graaf sofrem rápida modificação. Gradualmente, tornamse amareladas e produzem progesterona, um hormônio que prepara o útero para receber o óvulo fertilizado. Em geral, a ovulação ocorre 2 semanas antes do próximo período menstrual. Ciclo menstrual O ciclo menstrual é um processo complexo que envolve os sistemas genital e endócrino. Os ovários produzem hormônios esteroides, predominantemente estrogênios e progesterona. Vários estrogênios diferentes são produzidos pelo folículo ovárico, que consiste no óvulo em desenvolvimento e suas células adjacentes. O estradiol é o mais potente dos estrogênios ovarianos. Os estrogênios são responsáveis pelo desenvolvimento e pela manutenção dos órgãos genitais femininos e pelas características sexuais secundárias associadas à mulher adulta. Além disso, desempenham um importante papel no desenvolvimento da mama e nas alterações cíclicas mensais que ocorrem no útero (Porth e Matfin, 2009). A progesterona também é importante na regulaçãodas alterações que ocorrem no útero durante o ciclo menstrual. É secretada pelo corpo lúteo (local dentro de um folículo) ou pelo folículo ovárico após a liberação do óvulo. A progesterona é o hormônio mais importante para o condicionamento do endométrio (a mucosa que reveste o útero) na preparação para a implantação de um óvulo fertilizado. Quando há gravidez, a secreção de progesterona tornase, em grande parte, uma função da placenta e é essencial para manter uma gravidez normal. Além disso, a progesterona, que atua com o estrogênio, prepara a mama para produzir e secretar leite. Os androgênios são hormônios produzidos pelos ovários e pelas glândulas suprarrenais em pequenas quantidades. Afetam muitos aspectos da saúde da mulher, incluindo o desenvolvimento dos folículos, a libido, a oleosidade dos cabelos e da pele e o crescimento dos pelos (Porth e Matfin, 2009). Dois hormônios gonadotrópicos são liberados pela hipófise: o hormônio foliculoestimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). O FSH é responsável principalmente pela estimulação dos ovários para a secreção de estrogênio. O LH é responsável principalmente por estimular a produção de progesterona. Os mecanismos de retroalimentação regulam, em parte, a secreção de FSH e LH. Por exemplo, os níveis elevados de estrogênio no sangue inibem a secreção de FSH, mas promovem a do LH, enquanto os níveis elevados de progesterona inibem a secreção de LH. Além disso, o hormônio de liberação das gonadotropinas (GnRH) do hipotálamo afeta a taxa de liberação de FSH e LH. A secreção dos hormônios ovarianos segue um padrão cíclico, que resulta em alterações do endométrio uterino e na menstruação (Figura 56.3, Tabela 56.1). Em geral, esse ciclo tem 28 dias de duração, porém existem muitas variações normais (de 21 a 42 dias). Na fase proliferativa, no início do ciclo (exatamente depois da menstruação), o débito de FSH aumenta, e a secreção de estrogênio é estimulada. Isso provoca o espessamento do endométrio, que se torna mais vascularizado. Na fase secretora, próximo à metade do ciclo (dia 14 em um ciclo de 28 dias), o débito de LH aumenta, e ocorre ovulação. Sob o estímulo combinado do estrogênio e da progesterona, o endométrio alcança o seu pico na fase lútea, durante a qual está espesso e altamente vascularizado. Na fase lútea, que começa depois da ovulação, a progesterona é secretada pelo corpo lúteo. Figura 56.3 O ciclo menstrual e as alterações correspondentes no endométrio. • • • • • • • Se o óvulo for fertilizado, os níveis de estrogênio e de progesterona permanecem elevados, e são observadas alterações hormonais complexas da gravidez. Se não houve fertilização do óvulo, o débito de FSH e de LH diminui, a secreção de estrogênio e de progesterona cai, o óvulo sofre desintegração, e o endométrio, que havia se tornado espesso e congesto, tornase hemorrágico. O produto, isto é, o fluxo menstrual, que consiste em sangue velho, muco e tecido endometrial, é liberado através do colo do útero, seguindo pela vagina. Após a interrupção do fluxo menstrual, o ciclo começa novamente; o endométrio prolifera e tornase espesso em resposta à estimulação estrogênica, e ocorre nova ovulação (Porth e Matfin, 2009). Período da menopausa O período da menopausa marca o final da capacidade reprodutiva de uma mulher. Em geral, ocorre entre 45 e 52 anos de idade, mas pode ocorrer precocemente, com 42 anos de idade ou tardiamente, até os 55 anos; a idade mediana é de 51 anos. Esse período é precedido da perimenopausa, que pode começar precocemente, com apenas 35 anos de idade. Podem ocorrer alterações físicas, emocionais e menstruais, e essa transição proporciona outra oportunidade para orientação e promoção da saúde, bem como aconselhamento na prevenção de doença. A menopausa não representa um fenômeno patológico, mas constitui uma parte normal do envelhecimento e amadurecimento. A menstruação cessa, e, como os ovários não são mais ativos, os órgãos genitais tornaramse menores. Não há mais óvulos que amadurecem; por conseguinte, nenhum hormônio ovariano é produzido. (Pode ocorrer menopausa mais precoce se os ovários forem cirurgicamente removidos ou destruídos por radiação ou quimioterapia, ou em decorrência de alguma etiologia desconhecida.) São também observadas alterações multifacetadas em todo o corpo da mulher. Essas alterações são neuroendócrinas, bioquímicas e metabólicas e estão relacionadas com a maturação e o envelhecimento normais (Tabela 56.2). Avaliação A enfermeira, ao coletar informações de uma mulher para a história de saúde e ao realizar o exame físico, encontrase em uma posição ideal para discutir as questões de saúde geral da sua cliente, a promoção da saúde e as preocupações relacionadas com a saúde da mulher. Os temas relevantes incluem aptidão física, nutrição, riscos cardiovasculares, triagem de saúde, sexualidade, menopausa, maustratos, comportamentos de risco para a saúde, bemestar emocional e imunizações. O Boxe 56.1 fornece um resumo da triagem de saúde e questões de aconselhamento selecionadas. História de saúde Além da história de saúde geral, a enfermeira pergunta sobre doenças pregressas e experiências específicas sobre a saúde da mulher. Devemse coletar os seguintes dados: História menstrual (incluindo menarca, duração dos ciclos, duração e quantidade do fluxo, presença de cólicas ou dor, sangramento entre os períodos menstruais ou após relação sexual, sangramento depois da menopausa) Gestações (número de gestações, resultado das gestações) Exposição a medicamentos (dietilestilbestrol [DES], agentes imunossupressores, outros) Dismenorreia (dor na menstruação), dispareunia (dor na relação sexual), dor pélvica Sintomas de vaginite (i. e., odor ou prurido) Problemas com a função urinária, incluindo frequência, urgência e incontinência Problemas intestinais • História sexual TABELA 56.2 Alterações do sistema genital feminino relacionadas com a idade. Alterações Efeitos 䌲ꪫsiológicos Sinais e sintomas Cessação da função ovariana e produção diminuída de estrogênio Ovulação diminuída Início da menopausa Instabilidade vasomotora e 〰㰊utuações hormonais Diminuição da formação óssea Lubri〼‾cação vaginal diminuída Adelgaçamento dos sistemas urinário e genital pH aumentado da vagina Adelgaçamento dos pelos púbicos e enrugamento dos lábios da vulva Diminuição/perda da capacidade de conceber; infertilidade aumentada Menstruação irregular, com cessação 〼‾nal da menstruação Ondas de calor ou rubor; sudorese noturna, transtornos do sono; oscilações do humor; fadiga Perda óssea e risco aumentado de osteoporose e fraturas osteoporóticas; perda de altura Dispareunia, resultando em falta de interesse no sexo Risco aumentado de infecção urinária Incidência aumentada de in〰㰊amação (vaginite atró〼‾ca), com secreção, prurido e sensação de ardência vulvar Relaxamento da musculatura pélvica Prolapso do útero, cistocele, retocele Dispareunia, incontinência, sensação de pressão perineal Boxe 56.1 Triagem de saúde e questões de aconselhamento selecionadas para mulheres 19 a 39 anos de idade Questões de sexualidade e reprodução Exame pélvico anual, que deve começar aos 21 anos de idade Exame clínico anual das mamas Opções de contracepção Comportamentos sexuais de alto risco Saúde e comportamentos de risco Higiene Prevenção de lesão Nutrição Padrões de exercício Risco de abuso, maus-tratos e negligência Uso de tabaco, drogas e bebida alcoólica Estresses da vida Imunizações Exames complementares* Esfregaço de Papanicolaou a cada 3 anos após o início das relações sexuais Triagem para doenças sexualmente transmissíveis, quando indicada 40 a 64 anos de idade Questões de sexualidade e reprodução Exame pélvico anual Exame clínico anual das mamas Opções contraceptivasComportamentos sexuais de alto risco Preocupações com a menopausa Saúde e comportamentos de risco Higiene Perda óssea e prevenção de lesão Nutrição Padrões de exercício Risco de abuso, maus-tratos e negligência Uso de tabaco, drogas e bebida alcoólica Estresses da vida Imunizações Exames complementares* Esfregaço de Papanicolaou a cada 2 a 3 anos depois de três exames negativos consecutivos se não houver nenhuma história de anormalidades cervicais, infecção pelo vírus da imunode〼‾ciência humana ou exposição ao dietilestilbestrol Mamogra〼‾a anual Colesterol e per〼‾l lipídico Triagem para câncer colorretal a partir dos 50 anos Exame de densidade mineral óssea • • • • • Determinação do hormônio tireoestimulante Exames de audição e visão A partir dos 65 anos de idade Questões de sexualidade e reprodução Exame pélvico anual Exame clínico anual das mamas Comportamentos sexuais de alto risco Saúde e comportamentos de risco Higiene Prevenção de lesão, quedas Nutrição Padrões de exercício Risco de abuso, maus-tratos e negligência Uso de tabaco, drogas e bebida alcoólica Estresses da vida Imunizações Exames complementares* Mamogra〼‾a Colesterol e per〼‾l lipídico Triagem para câncer colorretal Exame de densidade mineral óssea Determinação do hormônio tireoestimulante Exames de audição e visão *Os riscos individuais (história familiar, história pessoal) influenciam a necessidade de avaliações específicas e sua frequência. Adaptado de Smith RA, Cokkinides V, Brawley OW. (2012) Cancer screening in the United States, 2012. CA: A Cancer Journal for Clinicians, 62 (2), 129142; e Eliopoulos, C. (2010). Gerontological nursing (7th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. DST e métodos de tratamento Abuso sexual ou físico atual ou anterior Cirurgia ou outros procedimentos anteriores em estruturas do sistema genital (incluindo mutilação genital feminina [MGF] ou circuncisão feminina) Doença crônica ou incapacidade passível de afetar o estado de saúde, a saúde reprodutiva, a necessidade de triagem de saúde ou o acesso aos cuidados de saúde Presença ou história familiar de distúrbio genético. (O Boxe 56.2 fornece informações sobre distúrbios reprodutivos genéticos.) Ao coletar dados relacionados com a saúde reprodutiva, a enfermeira pode instruir a cliente sobre os processos fisiológicos normais, como a menstruação e a menopausa, e avaliar possíveis anormalidades. Muitos problemas apresentados por mulheres jovens ou de meiaidade podem ser corrigidos com facilidade. Entretanto, se não forem tratados, podem resultar em ansiedade e problemas de saúde. Em geral, os problemas relacionados com a sexualidade e o desempenho sexual são mais frequentemente levados à atenção do ginecologista ou à de outros profissionais de saúde; todavia, as enfermeiras que cuidam de mulheres devem considerar essas questões como parte da avaliação de saúde de rotina. História sexual A história sexual inclui dados tanto subjetivos quanto objetivos. A história de saúde e a história sexual, os achados do exame físico e os resultados laboratoriais fazem parte do banco de dados. A finalidade da história sexual consiste em obter informações que proporcionem um quadro da sexualidade e das práticas sexuais da mulher, bem como em promover a saúde sexual. A história sexual possibilita que a cliente discuta abertamente questões e preocupações sexuais com um profissional de saúde informado. Essa informação pode ser obtida após preenchida a história ginecológico obstétrica ou geniturinária. Ao incorporar a história sexual à história de saúde geral, a enfermeira pode passar das áreas de menor sensibilidade para as de maior sensibilidade após estabelecer um rapport inicial. A obtenção da história sexual tornase um processo dinâmico, que reflete uma troca de informações entre a cliente e a enfermeira e proporciona a oportunidade de esclarecer mitos e explorar áreas de preocupação que a cliente pode não ter se sentido confortável para discutir no passado. Ao obter uma história sexual, a enfermeira não deve pressupor a orientação sexual da cliente até que esta seja explicitada. Ao perguntar sobre a saúde sexual, a enfermeira não pode pressupor que a cliente seja casada ou solteira. Perguntar a uma cliente se ela é solteira, casada, viúva ou divorciada pode ser considerado por algumas mulheres como inadequado. Perguntar sobre um parceiro ou sobre atuais relacionamentos significativos pode ser uma maneira menos ofensiva para iniciar uma história sexual. O modelo de avaliação e intervenção sexual PILSETI (permissão, informação limitada, sugestões específicas, terapia intensiva) pode ser utilizado como referência para organizar as intervenções de enfermagem (Annon, 1976). A avaliação começa pela introdução do tema, pedindo permissão à mulher para discutir com ela questões relacionadas com a sexualidade. A enfermeira pode começar explicando a finalidade de obter uma história sexual (p. ex., “Pergunto a todos meus clientes sobre a sua saúde sexual. Posso fazer algumas perguntas a você sobre isso?”). A obtenção da história prossegue com perguntas sobre a atividade sexual atual e a orientação sexual (p. ex., “Você está praticando sexo atualmente? Com um homem, uma mulher ou ambos?”). Perguntas sobre uma possível disfunção sexual podem incluir: “Você está tendo algum problema relacionado com o seu desempenho sexual atual?” Esses problemas podem estar relacionados com medicamentos, alterações na vida, incapacidade ou início de doença física ou emocional. Podese perguntar à cliente sobre o que ela pensa que esteja causando o problema atual (Weber e Kelley, 2010). • • • • • • • • • • • • • • • • Boxe 56.2 GENÉTICA NA PRÁTICA DE ENFERMAGEM Processos reprodutivos Vários distúrbios do sistema genital feminino são in〰㰊uenciados por fatores genéticos. Alguns exemplos incluem: Síndrome hereditária de câncer de mama ou ovário Síndrome hereditária de câncer de cólon sem polipose (risco para câncer de útero) Aplasia de Müller De〼‾ciência de 21-hidroxilase (masculinização feminina) Síndrome de Turner (45,XO) Avaliações de enfermagem Avaliação da história familiar Avaliar a história familiar à procura de outros parentes com anormalidades/problemas reprodutivos semelhantes Investigar a origem étnica (p. ex., populações de judeus asquenaze e mutações hereditárias de câncer de mama/ovário) Investigar sobre parentes com outros cânceres, inclusive cânceres de ovário de início precoce, útero, renal e de próstata. Avaliação da cliente Nas mulheres com puberdade tardia ou amenorreia primária, efetuar um exame à procura das manifestações clínicas da síndrome de Turner (baixa estatura, pescoço alado, mamilos amplamente espaçados) Examinar se há outras anomalias congênitas em mulheres com defeito de Müller, incluindo anomalias renais e vertebrais. Manejo de questões especí䌲ꪫcas à genética Investigar se foram realizados testes genéticos (ácido desoxirribonucleico [DNA] cromossômico, metabólico) em familiar(es) afetado(s) Quando indicado, encaminhar para aconselhamento genético e avaliação adicionais, de modo que os familiares possam discutir a herança, o risco para outros familiares, a disponibilidade de exames genéticos e as intervenções à base de genes Oferecer informações e recursos genéticos apropriados Avaliar o entendimento da cliente em relação às informações genéticas Fornecer apoio às famílias com distúrbios reprodutivos relacionados com a genética recentemente diagnosticados Participar no manejo e na coordenação dos cuidados a clientes com condições genéticas e pessoas com predisposição a desenvolver ou transmitir determinado distúrbio genético. Recursos sobre genética American Cancer Society: oferece informações gerais sobre câncer e recursos de apoio às famílias, www.cancer.org Gene Clinics: fornece uma lista de distúrbios genéticoscomuns, com resumos clínicos atualizados, aconselhamento genético e informações sobre testes genéticos, www.geneclinics.org National Cancer Institute: informações atualizadas sobre a pesquisa de câncer, tratamento e recursos para pro〼‾ssionais de saúde, indivíduos e famílias, www.nci.nih.gov Consulte outros recursos genéticos no Capítulo 8, Boxe 8.6. As informações sobre o desempenho sexual podem ser introduzidas durante a história de saúde (ver Capítulo 5). Ao iniciar uma avaliação sobre questões sexuais, a enfermeira comunica à cliente que as perguntas sobre alterações ou problemas no desempenho sexual são questões de saúde válidas; agindo assim proporciona um ambiente seguro para discutir esses temas delicados. As mulheres jovens podem ficar apreensivas sobre a ocorrência de períodos menstruais irregulares, podem ficar preocupadas sobre a possibilidade de DST ou podem necessitar de contracepção. Elas podem querer obter informações sobre o uso de tampões, contracepção de emergência ou questões relacionadas com a gravidez. As mulheres na perimenopausa podem ter preocupações sobre menstruações irregulares. As mulheres na menopausa podem ficar preocupadas sobre o ressecamento vaginal e o desconforto na relação sexual. As mulheres de qualquer idade podem ter preocupações sobre relacionamentos, satisfação sexual, orgasmo ou masturbação. O risco de DST pode ser avaliado por meio de perguntas sobre o número de parceiros sexuais no último ano ou na vida da cliente. Devese incluir uma pergunta aberta relacionada com a necessidade de informações adicionais da cliente (p. ex., “Você tem alguma dúvida ou preocupação sobre a sua saúde sexual?”). As mulheres podem ser avisadas de que a relação sexual nunca deve ser dolorosa; a ocorrência de dor deve ser investigada por um profissional de saúde. Elas também devem ser incentivadas a falar abertamente sobre seus sentimentos sexuais com o parceiro; em uma relação íntima, os sentimentos são fatos. Corte genital ou mutilação genital feminina A mutilação genital feminina (MGF), também conhecida como corte genital feminino, referese à remoção parcial ou total da genitália feminina externa ou outra lesão aos órgãos femininos. A MGF é ilegal nos EUA e condenada por algumas organizações (p. ex., Organização Mundial da Saúde [OMS], Anestia Internacional). Um número crescente de mulheres que têm acesso ao sistema de saúde dos EUA sofreram MGF antes de imigrar para lá (Turner, 2007), e outras se submeteram à MGF ao chegar aos EUA. Como a MGF pode afetar o desempenho sexual, a higiene menstrual e a função da bexiga, devese considerar a possibilidade de MGF na história sexual, particularmente em mulheres provenientes de culturas e países onde a prática é mais comum (i. e., alguns países africanos subsaarianos). As enfermeiras que cuidam de clientes que sofreram MGF precisam ser sensíveis, empáticas, capacitadas, culturalmente competentes e imparciais (Turner, 2007). É crucial ter respeito pelas crenças, práticas e comportamentos de saúde dos outros, bem como reconhecer a complexidade das questões envolvidas. A enfermeira deve empregar uma terminologia conhecida da mulher; o termo corte é habitualmente mais aceitável do que o termo mutilação. Os espéculos não são usados em alguns países em desenvolvimento, e é necessário explicar a função desse instrumento, devendose utilizar um espéculo de tamanho apropriado para examinar mulheres que sofreram MGF. Violência doméstica 1. 2. 3. 4. 5. • • • • • • A violência doméstica é um termo amplo que abrange o abuso infantil, o abuso do idoso e a violência ou abuso de mulheres e homens por seus parceiros. Aproximadamente 95 a 99% dos casos de violência pelo parceiro são cometidos por homens contra mulheres, e podem ser de natureza emocional, física, sexual ou econômica (Wong, Tiwari, Fong et al., 2011). Essas mulheres são encontradas diariamente na prática de enfermagem. A prevalência da violência pelo parceiro durante a vida de uma mulher é de 10 a 69% (Wong et al., 2011). A violência pelo parceiro envolve desde o medo de um parceiro pelo outro até a agressão física ou sexual repetida em um contexto de controle coercivo, e, de maneira mais ampla, degradação emocional, ameaças e intimidação. A violência raramente é uma ocorrência única em um relacionamento; habitualmente prossegue e aumenta em intensidade. Esse é um ponto importante a enfatizar quando uma mulher declara que o seu parceiro a machucou, porém prometeu mudar. Os agressores podem mudar o seu comportamento, mas não sem aconselhamento e motivação intensos. Quando uma mulher declara que está sendo machucada, é necessário oferecer um cuidado delicado (Boxe 56.3). Ao saber da existência desse importante problema de saúde pública, ao ficar atenta para os problemas relacionados com abuso e ao aprender como obter informações de mulheres sobre a possibilidade de abuso, maustratos e negligência em suas vidas, a enfermeira pode intervir em um problema, que, de outro modo, poderia passar despercebido, salvando, assim, vidas ao fazer com que as mulheres fiquem mais seguras por meio de orientação e apoio. Perguntar a todas as mulheres sobre a ocorrência de violência em sua vida quando em um ambiente seguro (i. e., no consultório com a porta fechada) faz parte de uma avaliação abrangente. (Mais informações sobre violência, abuso e negligência familiar, incluindo agressão sexual e estupro, podem ser encontradas no Capítulo 72; ver mais dados sobre perguntas a formular ao se efetuar uma avaliação para abuso, maustratos e negligência no Boxe 72.8.) Não há sinais ou sintomas específicos que sejam diagnósticos de abuso; entretanto, as enfermeiras podem observar uma lesão que não combina com a descrição de sua ocorrência (p. ex., uma equimose no lado do braço que apareceu depois de “bater contra a porta”). As manifestações de abuso, maustratos e negligência podem envolver tentativas de suicídio, consumo de drogas e de bebidas alcoólicas, consultas frequentes na emergência, dor pélvica inespecífica, queixas somáticas e depressão. Todavia, pode não haver sinais ou sintomas óbvios. As mulheres em situações de abuso apresentam níveis mais altos de depressão e, com frequência, relatam que “não se sentem bem”, possivelmente em decorrência de estresse ou medo e previsão de abuso iminente (Boxe 56.4). Incesto e abuso sexual na infância Mais de uma em cinco mulheres sofreram incesto ou abuso sexual na infância, e, com frequência, as enfermeiras encontram mulheres que sofreram trauma sexual. Foi relatado que as sobreviventes de abuso sexual têm mais problemas de saúde e se submetem mais a cirurgias que as mulheres que não foram vítimas de abuso. Há relatos de que as vítimas de abuso sexual na infância sofrem mais de depressão crônica, transtorno de estresse pós traumático, obesidade mórbida, instabilidade conjugal, problemas gastrintestinais e cefaleia, e também utilizam os serviços de saúde com mais frequência que as pessoas que não foram vítimas. Nas mulheres, a dor pélvica crônica está frequentemente associada a violência física, negligência emocional e abuso sexual na infância (Schuiling e Likis, 2013). As mulheres que sofreram estupro ou abuso sexual podem ficar muito ansiosas em relação a exames pélvicos, trabalho de parto, irradiação pélvica ou da mama ou qualquer tratamento ou exame que inclua abordagem manual ou exija retirar as roupas. As enfermeiras devem estar preparadas para oferecer apoio e encaminhamento a psicólogos, recursos comunitários e grupos de autoajuda. Boxe 56.3 Manejo do abuso sexual, maus-tratos e negligência noti䌲ꪫcados* Tranquilizar a mulher de que ela não está sozinha. Justi䌲ꪫcativa: as mulheres frequentemente acreditamque são as únicas o sofrerem abuso, maus-tratos e negligência nas mãos de seus parceiros. Expressar sua crença de que ninguém deve ser ferido, que o abuso é um erro do agressor e é contra a lei. Justi䌲ꪫcativa: fazer isso deixa que a mulher saiba que ninguém merece sofrer abuso, e que ela não o provocou. Garantir à mulher que a sua informação é con〼‾dencial, embora se torne parte do prontuário. Quando há suspeita de que crianças sofreram ou estejam sofrendo abuso, a lei exige que isso seja noti䌲ꪫcado às autoridades. Nos EUA, alguns estados exigem a noti〼‾cação do abuso íntimo causado pelo cônjuge ou parceiro. As agências de violência doméstica e os grupos de médicos e enfermagem discordam dessa política e estão procurando modi〼‾cá-la. A oposição séria baseia-se no fato de que a noti〼‾cação não assegura nem pode efetivamente garantir a segurança de uma mulher e pode colocá-la em maior perigo. Além disso, pode interferir na vontade de uma cliente de discutir sua vida pessoal e preocupações com pro〼‾ssionais de saúde. Isso coloca uma séria barreira no acesso ao cuidado de enfermagem abrangente. Quando as enfermeiras têm qualquer dúvida a respeito das leis sobre a denúncia de abuso, elas precisam veri〼‾car a sua agência de violência doméstica local ou estadual. Justi䌲ꪫcativa: com frequência, as mulheres têm medo de que suas informações sejam relatadas à polícia ou a serviços de proteção, e que possam perder a guarda de seus 䌲ꪫlhos. Documentar a denúncia de abuso da mulher e fotografar quaisquer lesões visíveis se foi obtido o consentimento formal por escrito. (Os serviços de emergência habitualmente dispõem de uma câmara fotográ〼‾ca quando esta não se encontra no posto de enfermagem.) Justi䌲ꪫcativa: essa medida fornece uma documentação das lesões, que pode ser necessária para procedimentos legais ou criminais posteriores. Fornecer orientação à cliente. Justi䌲ꪫcativa: as seguintes opções podem salvar a vida de uma mulher e seus 䌲ꪫlhos: Informar à mulher que há abrigos disponíveis para garantir sua segurança e de seus 〼‾lhos. (Nos EUA, o tempo de permanência nos abrigos varia de um estado para outro; todavia, com frequência, é de até 2 meses. A equipe frequentemente ajuda no alojamento, emprego e sofrimento emocional que acompanham a ruptura da família.) Fornecer uma lista dos abrigos Informar à mulher que a violência piora, e não melhora Quando uma mulher decide ir para um abrigo, você pode deixá-la fazer uma ligação telefônica Se a mulher decide voltar para o abusador, você não pode fazer nenhum julgamento e deve fornecer informações que a deixarão mais segura do que antes de revelar a sua situação Certi〼‾car-se de que a mulher tem o número de telefone de assistência 24 h que fornece informações e apoio (dispõe-se também de tradução para o espanhol e de um dispositivo para surdos), o número da polícia e o 192 Ajudá-la a estabelecer um plano de segurança caso ela decida voltar para casa. (Um plano de segurança é um plano organizado para evasão com bolsas de roupas embaladas e documentos importantes escondidos em um local seguro.) *N.R.T.: No Brasil, a Lei 10.778/2003 estabelece a obrigatoriedade de notificação de casos de violência contra mulheres atendidas em serviços de saúde públicos ou privados (http://www.brasil.gov.br/saude/2011/01/saudeincluiviolenciadomesticaesexualnalistadeagravosdenotificacaoobrigatoria). Boxe 56.4 PESQUISA DE ENFERMAGEM Depressão e violência pelo parceiro Wong JY, Tiwari A, Fong SY et al. Depression among women exper iencing intimate partner violence in a Chinese community. Nursing Research 2011;60(1), 58-65. • • • • • • • • • • • • • • • Finalidade A depressão representa um importante impacto do abuso para a saúde mental; entretanto, foram realizadas poucas pesquisas sobre a evidência empírica dos fatores associados à depressão entre mulheres chinesas que sofreram abuso. A 〼‾nalidade deste estudo foi identi〼‾car os fatores relacionados com um maior nível de depressão entre mulheres chinesas que sofrem abuso. Metodologia Ao todo, foram incluídas 200 mulheres com média de idade de 38 anos nesse estudo transversal. Foram coletados dados demográ〼‾cos, e os instrumentos usados incluíram o Chinese Abuse Screen, Chinese Beck Depression Inventory Version II, Revised Con〰㰊ict Tactics Scale e Interpersonal Support Evaluation List 12. As entrevistas foram gravadas e, em seguida, transcritas na íntegra. Os dados obtidos foram analisados utilizando uma análise de regressão múltipla estruturada. Resultados Aproximadamente 11% das mulheres relataram a ocorrência de violência pelo parceiro, e 75% relataram níveis de depressão. Os fatores associados a taxas mais altas de depressão foram baixo nível de instrução (p = 0,038), imigração (p = 0,0250), apoio 〼‾nanceiro de amigos e parentes (p = 0,006) e abuso psicológico crônico (p < 0,001). Um fator protetor contra a depressão foi a percepção de apoio social (p < 0,001). Implicações para a enfermagem As enfermeiras precisam reconhecer que um grande número de mulheres que sofreram abuso apresenta níveis moderados a graves de depressão. Além disso, existe a necessidade de aumentar o reconhecimento do impacto prejudicial do abuso sobre a saúde mental das mulheres. É necessário realizar uma triagem para depressão em mulheres que sofreram abuso e providenciar apoio social, particularmente entre as imigrantes, a 〼‾m de reduzir ao mínimo a depressão. Questões de saúde em mulheres com incapacidade funcional Aproximadamente 20% das mulheres têm incapacidade funcional e encontram barreiras físicas estruturais e atitudinais que podem limitar sua plena participação na sociedade. As mulheres com incapacidade funcional podem experimentar estereótipos e maior risco de abuso, maustratos e negligência. Elas relatam que outras pessoas, inclusive profissionais de saúde, frequentemente as equiparam à sua deficiência. Estudos mostraram que as mulheres com incapacidade funcional recebem menos cuidados de saúde de atenção básica e triagem de saúde preventiva que outras mulheres; com frequência, isso se deve a problemas de acesso e aos profissionais de saúde que se concentram mais sobre as causas da deficiência que sobre as questões de saúde que preocupam todas as mulheres (Sudduth e Linton, 2011). Para abordar essas questões, a história de saúde deve incluir perguntas sobre as barreiras aos cuidados de saúde encontradas por mulheres com deficiência e sobre o efeito desta em seu estado de saúde e cuidados de saúde. Outras questões a serem abordadas são identificadas no Boxe 56.5. Quando uma cliente apresenta perda da audição, perda da visão ou outra incapacidade funcional que afeta a comunicação, pode ser necessário obter a assistência de um intérprete ou estabelecer outro método de comunicação. As enfermeiras que examinam mulheres com deficiência podem necessitar de um tempo adicional e da assistência de outros profissionais para certificarse de que sejam obtidas informações acuradas de maneira sensível e sem pressa. As mulheres com deficiência podem ter tido experiências prévias negativas com profissionais de saúde (ShartsHopko, Smeltzer, Ott et al., 2010; Smeltzer, ShartsHopko, Ott et al., 2007), e é importante que as enfermeiras forneçam a essas clientes cuidados adequados e delicados. Devem ser aproveitadas todas as oportunidades para discutir questões e preocupações relacionadas com a saúde de mulheres com deficiência. (Ver discussão mais detalhada sobre os cuidados de saúde a clientes com deficiência no Capítulo 9.) Boxe 56.5 AVALIAÇÃO Avaliação da mulher com incapacidade funcional História de saúde Perguntar diretamente à própria mulher, e não à pessoa acompanhante. Fazer perguntas sobre os seguintes itens: Limitações do autocuidado em decorrência de sua incapacidade (capacidade de se alimentar e de se vestir, uso de dispositivos auxiliares, necessidades de transporte, outraassistência necessária) Limitações sensoriais (tato de〼‾ciente, visão baixa, surdez ou di〼‾culdade de audição) Questões de acessibilidade (capacidade de ir ao médico, transferência para a mesa de exame, acessibilidade do consultório/clínica, experiências anteriores com pro〼‾ssionais de saúde, práticas de triagem de saúde; sua compreensão do exame físico) Alterações cognitivas ou de desenvolvimento que afetam a compreensão Limitações secundárias à incapacidade que afetam questões de saúde geral, saúde reprodutiva e cuidados de saúde Função e preocupações sexuais (aquelas de todas as mulheres e aquelas que podem ser afetadas pela presença de uma condição incapacitante) História menstrual e práticas de higiene menstrual Abuso físico, sexual ou psicológico (incluindo abuso por pro〼‾ssionais de saúde; abuso por negligência, suspensão ou retirada de dispositivos auxiliares ou cuidado pessoal ou de saúde) Presença de incapacidades secundárias (i. e., aquelas decorrentes da incapacidade primária da cliente: úlceras de pressão, espasticidade, osteoporose etc.) Preocupações de saúde relacionadas ao envelhecimento com uma incapacidade. Exame físico Fornecer instruções diretamente à própria mulher, e não à pessoa acompanhante; fornecer instruções por escrito ou gravadas. Perguntar à mulher que tipo de ajuda ela precisa para o exame físico e fornecer assistência, quando necessário: Despir-se e vestir-se Fornecer uma amostra de urina Ficar em pé sobre uma balança para pesagem (oferecer meios alternativos de obter o peso se ela for incapaz de 〼‾car em pé sobre a balança) Deitar e levantar-se da mesa de exame Assumir, mudar e manter as posições Considerar a fadiga apresentada pela mulher durante um exame prolongado e permitir um repouso. Fornecer dispositivos de assistência e outros auxílios/métodos necessários para possibilitar uma comunicação adequada com a cliente (intérpretes, sinalizadores, materiais escritos em letras grandes). Exame completo que estaria indicado para qualquer outra mulher; ter uma incapacidade nunca é uma justi〼‾cativa para omitir partes do exame físico, incluindo exame pélvico. • • Lésbicas e mulheres bissexuais1 As mulheres que se identificam como lésbicas ou bissexuais podem ter preocupações sobre revelação e confidencialidade, atitudes discriminativas e tratamento (ACOG, 2012b) (Boxe 56.6). Não há casos conhecidos de transmissão do HIV entre mulheres, porém as mulheres lésbicas e bissexuais correm maior risco de outras DST (ACOG, 2012b). Faltam também pesquisas sobre o câncer de mama e sobre o câncer de ovário nessa população. De acordo com as recomendações atuais, todas as mulheres devem se submeter a triagem para câncer, incluindo mamografia, triagem para câncer colorretal, terapia hormonal e triagem para osteoporose (ACOG, 2012b). Algumas pesquisas relataram que as lésbicas consomem excessivamente bebidas alcoólicas e drogas em grau maior que as mulheres heterossexuais, visto que os locais que frequentam podem contribuir para o uso abusivo de drogas e bebida alcoólica. Além disso, jovens que se identificam como lésbicas, gays ou bissexuais, ou que carecem de apoio dos pais e da família podem apresentar maiores problemas de saúde mental (p. ex., depressão e uso abusivo de substâncias) (ACOG, 2012b). Considerações gerontológicas As mulheres idosas estão presentes em vários níveis do espectro de saúde; algumas estão ativas em alto nível no seu trabalho ou na família, enquanto outras podem estar muito doentes. As enfermeiras precisam estar preparadas para cuidar das mulheres idosas que podem ser brilhantes, enérgicas e ambiciosas e que estão lidando com várias crises familiares, incluindo seus próprios problemas de saúde, bem como das que estão passando por um problema de saúde que altera a vida ou que comporta risco à vida. As mulheres idosas correm risco de várias condições, incluindo diabetes melito, dislipidemia, hipertensão arterial e doença da tireoide, todas as quais apresentam sintomas que podem ser considerados próprios do envelhecimento. As enfermeiras podem ajudar a evitar a morbidade e a mortalidade por essas condições, incentivando as mulheres a se submeter a triagens de saúde regulares (Thakur e Supiano, 2007). Além disso, o conhecimento relacionado com a prevenção de doença cardíaca, farmacologia, dieta, sinais de demência ou declínio cognitivo, prevenção de quedas, prevenção da osteoporose, cânceres ginecológico e de mama e sexualidade é importante para fornecer cuidados de enfermagem de alto nível. É necessário considerar também as disparidades de saúde, competência cultural e questões ao final da vida. Boxe 56.6 Cuidados de saúde a mulheres lésbicas A lésbica geralmente pode ser de〼‾nida como mulher que faz sexo com mulheres ou parceira com quem está envolvida emocionalmente; todavia, não há nenhuma de〼‾nição universalmente aceita, e existe uma variabilidade nos relacionamentos e preferências sexuais. As lésbicas são encontradas em todos os grupos étnicos e classes socioeconômicas. Podem ser solteiras, celibatárias ou divorciadas, e são observadas em todos os grupos etários, incluindo adolescentes e idosas. As lésbicas frequentemente deparam-se com falta de sensibilidade nas consultas de saúde. Ao serem questionadas se são sexualmente ativas e respondem de modo a〼‾rmativo, a contracepção é imediatamente incentivada, visto que os pro〼‾ssionais de saúde podem supor incorretamente que elas praticam relação heterossexual. À semelhança de muitos outros grupos de mulheres marginalizadas, elas frequentemente se sentem invisíveis e usam pouco os serviços de saúde. Sejam heterossexuais ou homossexuais, as enfermeiras precisam considerar o lesbianismo dentro do continuum do comportamento sexual humano e precisam formular questões neutras sobre o gênero e empregar termos que demonstrem aceitação e isenção de julgamento. As adolescentes lésbicas correm risco de suicídio e de doenças sexualmente transmissíveis (DST). Muitas lésbicas participam na atividade heterossexual e, com frequência, consideram-se de baixo risco para DST. Como o papilomavírus humano, as infecções por herpes e outros microrganismos implicados nas DST são transmitidos por secreções e pelo contato, as lésbicas podem precisar de informações sobre as DST e sobre a contracepção. Quando brinquedos sexuais são utilizados e não são limpos, podem ocorrer infecções pélvicas. As lésbicas apresentam taxas de triagem de saúde menores que outras mulheres. Elas correm alto risco de câncer, doença cardíaca, depressão e consumo em excesso de bebidas alcoólicas. Podem ter maior índice de massa corporal. Podem ter menos 〼‾lhos ou não os ter, e, com frequência, efetuam menos triagens preventivas de saúde que as mulheres heterossexuais. Esses fatores podem aumentar o risco de câncer de cólon, endométrio, ovário e mama, bem como de doença cardiovascular e diabetes melito. As adolescentes lésbicas correm risco de tabagismo e suicídio/depressão. As enfermeiras precisam compreender as necessidades singulares dessa população e fornecer um cuidado delicado e apropriado. Adaptado de American College of Obstetricians and Gynecologists (2012b). Committee Opinion No. 525: Health care for lesbians and bisexual women. Obstetrics and Gynecology, 119(1), 10771084. Exame físico Os exames periódicos e a triagem de rotina para o câncer são importantes para todas as mulheres. Os exames pélvicos e de mama anuais são importantes para todas as mulheres a partir de 21 anos de idade e para as sexualmente ativas, independentemente da idade (ACOG, 2012a; Hawkins, RobertoNichols e StanleyHaney, 2012). As clientes merecem compreensão e apoio, dadas as considerações emocionais e físicas associadas aos exames ginecológicos. As mulheres podem ficar constrangidas pelas perguntas habituais feitas por um ginecologista. Como as condições ginecológicas são de natureza pessoal e particularpara a maioria das mulheres, essas informações são apenas compartilhadas com as pessoas diretamente envolvidas nos cuidados da cliente. A abordagem para o exame ginecológico precisa ser sistemática e completa (Carcio e Secor, 2010). A enfermeira pode aliviar a ansiedade da mulher fornecendo explicações e instruções (Boxe 56.7). Pode ser útil ressaltar que um exame pélvico habitualmente não deve ser desconfortável. Antes de iniciar o exame, pedese à cliente que esvazie a bexiga e forneça uma amostra de urina, se o exame de urina fizer parte da avaliação total. A micção garante o conforto da cliente e facilita o exame, visto que uma bexiga cheia pode tornar desconfortável a palpação dos órgãos pélvicos e tornar o procedimento difícil para o examinador. Boxe 56.7 ORIENTAÇÕES À CLIENTE Exame pélvico O exame pélvico inclui uma avaliação do aspecto da vulva, da vagina e do colo do útero, bem como o tamanho e o formato do útero e dos ovários, para assegurar a saúde reprodutiva e ausência de doença. O fornecimento das seguintes informações à cliente deve fazer com que o exame prossiga de maneira mais tranquila: Você pode ter uma sensação de tumefação ou pressão durante o exame, mas não deve sentir dor. É importante relaxar, visto que, se estiver muito tensa, poderá sentir desconforto É normal sentir-se desconfortável e apreensiva • • • • • • • • • Um espéculo estreito e aquecido será introduzido para visualizar o colo do útero Será obtido um esfregaço de Papanicolaou (Pap) quando indicado, e isso não deve ser desconfortável Você pode observar o exame com um espelho, se preferir O exame habitualmente não demorará mais que 5 min Serão usados campos para reduzir ao mínimo a exposição e o constrangimento. Adaptado de Weber J, Kelley J. (2010) Health assessment in nursing (4th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams e Wilkins. Posicionamento A posição de litotomia em decúbito dorsal é usada mais comumente (Weber e Kelley, 2010). Essa posição oferece várias vantagens: É mais confortável para algumas mulheres Viabiliza melhor contato visual entre a cliente e o examinador Pode proporcionar um modo mais fácil para que o examinador realize o exame bimanual Possibilita que a mulher use um espelho para ver a sua anatomia (se ela assim o desejar) para visualizar qualquer condição que exija tratamento ou para aprender sobre a utilização de determinados métodos contraceptivos. Inspeção Uma vez que a cliente esteja preparada, o examinador inspeciona a genitália externa, examinando os lábios maiores e menores do pudendo e observando o tecido epidérmico dos lábios maiores; a pele dá lugar à mucosa rosada no vestíbulo da vagina. São examinadas as lesões de qualquer tipo (p. ex., verrugas venéreas, lesões pigmentadas [melanoma]). Na mulher nulípara, os lábios menores unemse na abertura da vagina. Em uma mulher que teve filhos por parto vaginal, os lábios menores podem apresentar um espaço entre eles, e o tecido vaginal pode fazer protrusão. O traumatismo da parede vaginal anterior durante o parto pode ter resultado em incompetência da musculatura, e podese observar um abaulamento causado pela bexiga que faz protrusão na submucosa da parede vaginal anterior (cistocele). O traumatismo do parto também pode afetar a parede vaginal posterior, produzindo uma protuberância causada pela protrusão da cavidade retal (retocele). O colo e o útero podem descer sob pressão através do canal vaginal e podem ser observados no vestíbulo da vagina (prolapso uterino). Para identificar essas protrusões, o examinador pede à cliente que faça “força para baixo”. O vestíbulo da vagina não deve apresentar lesões da mucosa superficial. Os lábios menores podem ser separados pelos dedos da mão enluvada, com palpação da parte inferior da vagina. Nas mulheres que não tiveram relação sexual vaginal, um hímen de espessura variável pode ser sentido em toda a circunferência dentro da abertura vaginal. O anel himenal habitualmente possibilita a inserção de um dedo. Raramente, o hímen oclui por completo a entrada da vagina (hímen imperfurado). Exame com espéculo O espéculo bivalve, seja metálico ou de plástico, está disponível em muitos tamanhos (Weber e Kelley, 2010). Os espéculos de metal são limpos e esterilizados entre as clientes. O espéculo de plástico é usado uma única vez. O espéculo pode ser aquecido com uma almofada térmica ou água morna para tornar a inserção mais confortável para a cliente. O espéculo é introduzido delicadamente na porção posterior do vestíbulo da vagina e lentamente avançado até o ápice da vagina; esse procedimento não deve ser doloroso nem desconfortável para a mulher. O espéculo é, então, aberto lentamente. Nos tipos de metal, o parafuso do repouso do polegar é apertado; nos tipos de plástico, um clipe é travado para manter as lâminas em posição (Weber e Kelley, 2010). Inspeção do colo do útero O colo do útero é inspecionado. Nas mulheres nulíparas, o colo do útero tem habitualmente de 2 a 3 cm de largura e é liso. Nas mulheres que tiveram filhos, o colo pode apresentar uma laceração, habitualmente transversa, conferindo ao óstio do útero uma aparência em “boca de peixe”. O epitélio do canal endocervical pode ter crescido sobre a superfície do colo do útero, aparecendo como epitélio de superfície vermelho vivo em toda circunferência do óstio. Em certas ocasiões, o colo do útero de uma mulher cuja mãe fez uso de DES durante a gravidez apresenta uma aparência em coifa (uma face pontiaguda superiormente ou uma crista de tecido circundandoo); isso é avaliado por colposcopia, quando identificado. As alterações malignas podem não ser obviamente diferenciadas do restante da mucosa cervical. Podem aparecer cistos pequenos e benignos na superfície cervical. Esses cistos, denominados cistos de Naboth (de retenção), são habitualmente azulados ou esbranquiçados e constituem um achado normal após o parto (Weber e Kelley, 2010). Um pólipo da mucosa endocervical pode fazer protrusão através do óstio e habitualmente exibe uma coloração vermelhoescura. Os pólipos podem provocar sangramento irregular; raramente são malignos e, em geral, são removidos com facilidade em um ambiente de consultório ou clínica. Um carcinoma pode aparecer como um crescimento semelhante a uma couveflor (Weber e Kelley, 2010). A coloração azulada do colo do útero é um sinal de gravidez em fase inicial (sinal de Chadwick). Obtenção de esfregaços de Papanicolaou e outras amostras O esfregaço de Papanicolaou é obtido ao girar uma pequena espátula no óstio, seguido de escova cervical rodada no óstio. O material obtido é espalhado sobre uma lâmina de vidro e borrifado/fixado imediatamente ou inserido em líquido (preparação fina) (Boxe 56.8). Um pequeno dispositivo semelhante a uma escova também pode ser usado para obter amostras para o esfregaço de Papanicolaou. Boxe 56.8 DIRETRIZES Obtenção de um esfregaço de Papanicolaou ideal Material necessário • • • 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. Espéculo Luvas Lâmina, escova citológica e kit de preparação 〼‾na Implementação Ação de enfermagem Justi䌲ꪫcativa Não obtenha um esfregaço de Papanicolaou (Pap) quando a mulher estiver menstruada ou apresente outro sangramento franco (Exceção: alta suspeita de neoplasia). Se for realizar mais de um exame, obtenha o esfregaço de Papanicolaou em primeiro lugar. Rotule a extremidade congelada da lâmina com o nome da cliente escrito a lápis ou rotule o frasco de preparação 〼‾na do esfregaço de Papanicolaou. Calce as luvas antes de inserir delicadamente o espéculo não lubri〼‾cado. (O espéculo pode ser umedecido com água morna.) Coloque a extremidade mais longa da espátula de Ayre no canal cervical e efetuar uma rotação total para obter uma amostra da exocérvice. Espalhe omaterial obtido sobre a lâmina do esfregaço de Papanicolaou. Introduza uma escova citológica a uma distância de 2 cm dentro do canal cervical e efetue uma rotação de 180°. Role a escova sobre a lâmina do esfregaço de Papanicolaou. (Com esfregaços de Papanicolaou em preparação 〼‾na, as escovas não são espalhadas sobre a lâmina. A espátula e a escova são colocadas em um frasco com conservantes e agitadas.) Em mulheres que se submeteram a uma histerectomia para câncer ginecológico, utilize um aplicador de algodão umedecido com soro 〼‾siológico para obter uma amostra de células do coto vaginal ou da parte posterior da vagina. As mulheres que se submeteram a uma histerectomia para condições benignas não necessitam de esfregaços de Papanicolaou frequentes. Borrife imediatamente a lâmina ou, no caso de uma preparação 〼‾na, gire a escova e a espátula na solução. O sangue obscurece a leitura adequada das células. Ao realizar em primeiro lugar o esfregaço de Papanicolaou, evita-se a possibilidade de um esfregaço sanguinolento. A tinta pode sair ou borrar. A rotulação com um lápis impede uma identi〼‾cação inadequada. As luvas fornecem proteção, e a água morna impede o desconforto. Os lubri〼‾cantes podem obscurecer as células no esfregaço de Papanicolaou. Essa técnica proporciona uma amostra da exocérvice e da junção escamocolunar. Essa técnica fornece uma amostra das células endocervicais e pode coletar amostras de células da junção escamocolunar se estiver alta no canal. O soro 〼‾siológico impede o ressecamento, o que di〼‾culta a interpretação pelo citologista e impede a absorção das células no algodão, melhorando o resultado na lâmina. A exposição à luz ou ao ar provoca distorção das células. Obtémse uma amostra de qualquer material purulento que esteja presente no óstio para cultura. Utilizase um aplicador estéril para obter a amostra, que é imediatamente colocada em meio apropriado para o seu transporte até um laboratório. Na cliente que apresenta alto risco de infecção, são recomendadas culturas de rotina para gonococos e clamídias, em decorrência da alta incidência de ambas as doenças e das complicações de infecção pélvica, lesão da tuba uterina e infertilidade subsequente. Pode haver secreção vaginal, que pode ser normal ou resultar de vaginite. A Tabela 56.3 fornece um resumo das características da secreção vaginal encontrada em diferentes condições. Inspeção da vagina A vagina é inspecionada quando o examinador retira o espéculo. É lisa nas meninas e sofre espessamento depois da puberdade, com muitas rugas (pregas) e redundância no epitélio. Em mulheres na menopausa, a vagina sofre adelgaçamento e exibe menos rugas, dada a diminuição do estrogênio. Palpação bimanual Para completar o exame pélvico, o examinador realiza um exame bimanual (ACOG, 2012a). O examinador deve evitar assustar a cliente, avisandolhe que irá tocar em áreas íntimas (Carcio e Secor, 2010). Os dedos são avançados verticalmente ao longo do canal vaginal, e a parede vaginal é palpada. Qualquer parte firme da parede vaginal pode representar um tecido cicatricial antigo por causa do traumatismo do parto, mas também pode exigir avaliação adicional. Palpação cervical O colo do útero é palpado e avaliado quanto à sua consistência, à sua mobilidade, ao seu tamanho e à sua posição. O colo do útero normal é uniformemente firme, mas não endurecido. O amolecimento do colo do útero é um achado no início da gestação. O endurecimento e a imobilidade do colo do útero podem refletir uma invasão por neoplasia. A dor ao movimento suave do colo do útero é denominada sinal do candelabro positivo (hipersensibilidade positiva ao movimento do colo; registrado como CMT+) e indica habitualmente a presença de infecção pélvica. Palpação do útero Para palpar o útero, o examinador coloca a mão oposta sobre a parede do abdome, a meia distância entre o umbigo e o púbis, e pressiona firmemente em direção à vagina. O movimento da parede do abdome faz com que o corpo do útero desça e o órgão se torne livremente móvel entre a mão empregada para examinar o abdome e os dedos da mão usados para examinar a pelve. O tamanho, a mobilidade e o contorno do útero podem ser estimados pela palpação. A fixação do útero na pelve pode constituir um sinal de endometriose ou de neoplasia maligna. O corpo do útero normalmente tem duas vezes o diâmetro e três vezes o comprimento do colo do útero, e curvase anteriormente em direção à parede do abdome. Algumas mulheres apresentam útero retrovertido ou retrofletido, que aponta posteriormente em direção ao sacro, enquanto outras possuem um útero que não é anterior nem posterior, sendo descrito como útero de linha média. Palpação dos anexos As áreas direita e esquerda dos anexos são palpadas para avaliar as tubas uterinas e os ovários. Os dedos da mão que examina a pelve são movidos primeiro para um lado e, em seguida, para o outro, enquanto a mão que palpa a área abdominal é movida correspondentemente para ambos os lados do abdome e para baixo. Os anexos (ovários e tubas uterinas) são retidos entre as duas mãos e palpados à procura de massa evidente, hipersensibilidade e mobilidade. Em geral, os ovários são ligeiramente hipersensíveis, e a cliente deve ser informada de que a sensação de um discreto desconforto à palpação é normal. • • • • • Palpação vaginal e retal A palpação bimanual da vagina e do fundo de saco é realizada colocandose o dedo indicador na vagina e o dedo médio no reto. Para evitar a contaminação cruzada entre os orifícios vaginal e retal, o examinador coloca luvas novas. Um movimento suave desses dedos no sentido um do outro comprime a parede posterior da vagina e a parede anterior do reto e ajuda o examinador na identificação da integridade dessas estruturas. Durante esse procedimento, a cliente pode sentir vontade de defecar. A enfermeira tranquiliza a cliente dizendolhe que isso tem pouca probabilidade de ocorrer. São fornecidas explicações contínuas para tranquilizar e instruir a cliente sobre o procedimento. Considerações gerontológicas Exames realizados anualmente ajudam a identificação precoce de distúrbios do sistema genital em mulheres idosas (Eliopoulos, 2010). As enfermeiras desempenham um papel importante, incentivando todas as mulheres a realizar um exame ginecológico anual. As mulheres com mais de 65 anos de idade podem decidir interromper a triagem para câncer de colo do útero se foram submetidas a uma histerectomia ou se tiveram três exames citológicos normais e nenhum exame anormal nos últimos 10 anos (Smith, Cokkinides e Brawley, 2012). (Ver Tabela 15.3.) O prurido perineal é anormal nas mulheres idosas e deve ser avaliado, visto que pode indicar um processo patológico (diabetes ou neoplasia maligna). A distrofia vulvar (espessamento ou coloração esbranquiçada do tecido) pode ser visível, e é necessário realizar uma biopsia para excluir a presença de células anormais. Podem ser prescritos cremes de cortisona e hormônio tópicos para alívio sintomático. TABELA 56.3 Características da secreção vaginal. Causa da secreção Sintomas Odor Consistência/coloração Fisiológica Nenhum Nenhum Muco/esbranquiçado Infecção por espécies de Candida Prurido, irritação Odor de levedura ou nenhum Rala a espessa, semelhante a nata/esbranquiçada Vaginose bacteriana Odor De peixe, frequentemente percebido após a relação sexual Rala/acinzentada ou amarelada Infecção por espécies de Trichomonas Irritação, odor Odor fétido Copiosa, frequentemente espumosa/amarelo-esverdeada Atró〼‾ca Ressecamento vulvar ou vaginal Odor fétido discreto e ocasional Habitualmente escassa e mucoide/pode ser tinta de sangue Com o relaxamento da musculatura pélvica, podem ocorrer prolapso uterino e relaxamentodas paredes da vagina. A avaliação apropriada e o reparo cirúrgico podem proporcionar alívio se a cliente for candidata à cirurgia. Depois da cirurgia, a cliente deve saber que o reparo tecidual e a cicatrização podem levar mais tempo com a idade. Os pessários (dispositivos de látex que proporcionam suporte) são frequentemente empregados se a cirurgia for contraindicada ou antes da cirurgia para ver se ela pode ser evitada. Esses dispositivos são adaptados pelo médico e podem reduzir o desconforto e a pressão. O emprego de um pessário exige que a cliente realize exames ginecológicos de rotina para monitorar a ocorrência de irritação ou infecção (Eliopoulos, 2010). A cliente precisa ser avaliada quanto a alergia antes da inserção de um pessário de látex (ver detalhes sobre os pessários no Capítulo 57). Avaliação diagnóstica Numerosos exames complementares podem ser realizados no manejo dos processos fisiológicos femininos. A enfermeira deve instruir a cliente sobre a finalidade, o que esperar e quaisquer efeitos colaterais possíveis relacionados com esses exames antes de sua realização. A enfermeira deve conhecer as contraindicações, as complicações potenciais e as tendências nos resultados. As tendências observadas fornecem informações sobre a evolução da doença, bem como sobre a resposta da cliente ao tratamento. Exame citológico para câncer (esfregaço de Papanicolaou) O esfregaço de Papanicolaou (Pap) é utilizado para detectar o câncer cervical. As secreções cervicais são delicadamente removidas do óstio cervical e podem ser transferidas para uma lâmina de vidro e fixadas imediatamente ao borrifar um conservante ou imergila em solução. Quando o esfregaço de Papanicolaou revela a presença de células atípicas, o método de líquido possibilita o exame para papilomavírus humano (HPV) (ver no Capítulo 57 discussão mais detalhada sobre o HPV, uma DST comum que pode provocar verrugas venéreas ou câncer cervical). As diretrizes para a obtenção de um esfregaço de Papanicolaou ótimo são descritas no Boxe 56.8. A terminologia utilizada para descrever os achados inclui as seguintes categorias: Ausência de células anormais ou atípicas Células escamosas atípicas de significado indeterminado Reações inflamatórias e microrganismos identificados Teste do ácido desoxirribonucleico (DNA) positivo para o HPV Lesões précancerosas e cancerosas do colo do útero identificadas. A cliente pode supor incorretamente que um esfregaço de Papanicolaou anormal significa a existência de câncer. Quando o esfregaço de Papanicolaou (método de imersão em líquido) revela a presença de células atípicas e nenhum tipo de HPV de alto risco, o esfregaço de Papanicolaou seguinte é realizado em 1 ano. Se uma infecção específica estiver causando inflamação, ela é tratada adequadamente, e o esfregaço de Papanicolaou é repetido. Quando o esfregaço de Papanicolaou repetido revela células escamosas atípicas com tipos de HPV de alto risco, podese indicar uma colposcopia. Os esfregaços de Papanicolaou que indicam lesões précancerosas devem ser repetidos em 4 a 6 meses, e devese efetuar uma colposcopia se não houver resolução da lesão. As clientes com esfregaço de Papanicolaou que indicam lesões cancerosas necessitam de colposcopia imediata (Fischbach e Dunning, 2009). Se os resultados do esfregaço de Papanicolaou forem anormais, a notificação, a avaliação e o tratamento imediatos são cruciais. Com frequência, a notificação das clientes é uma responsabilidade das enfermeiras em uma clínica ou ambulatório de cuidados de saúde da mulher. O acompanhamento do esfregaço de Papanicolaou é essencial, visto que ele pode evitar o câncer de colo de útero. As intervenções são individualizadas para atender às necessidades e crenças de saúde da cliente em questão (OchoaFrongia, Thompson, LewisKelly et al., 2012). O aconselhamento intensivo por telefone, os sistemas de rastreamento, os folhetos, vídeos e incentivos financeiros foram utilizados para incentivar o acompanhamento. A enfermeira fornece explicações claras e apoio emocional, juntamente com um protocolo de acompanhamento específico e cuidadosamente elaborado, destinado a suprir as necessidades da cliente. Colposcopia e biopsia cervical Quando o resultado da triagem citológica cervical exige uma avaliação, realizase uma colposcopia. O colposcópio é um instrumento com lente de amplificação, que possibilita ao examinador visualizar o colo do útero e obter uma amostra de tecido anormal para análise (Fischbach e Dunning, 2009). As enfermeiras e ginecologistas necessitam de treinamento especial nessa técnica diagnóstica. Após inserir um espéculo e visualizar o colo do útero e as paredes da vagina, o examinador aplica ácido acético ao colo do útero. Os achados anormais subsequentes que indicam a necessidade de biopsia incluem leucoplaquia (placa esbranquiçada visível antes da aplicação do ácido acético), tecido acetoesbranquiçado (epitélio esbranquiçado após a aplicação do ácido acético), pontilhado (capilares dilatados que ocorrem de acordo com um padrão pontilhado ou salpicado), mosaicismo (padrão semelhante a ladrilho) e padrões vasculares atípicos. Quando as amostras de biopsia revelam a presença de células précancerosas, a cliente habitualmente necessita de crioterapia, terapia com laser ou biopsia em cone (excisão de um cone de tecido invertido do colo do útero). Crioterapia e terapia com laser A crioterapia (congelamento do tecido cervical com óxido nitroso) e o tratamento a laser são empregados no ambiente ambulatorial. A crioterapia pode resultar em cólicas e sensações ocasionais de desmaio (resposta vasovagal). É normal a ocorrência de secreção aquosa durante algumas semanas após o procedimento, à medida que o colo do útero cicatriza; todavia, devese relatar ao médico a ocorrência de sangramento excessivo, dor ou febre (Fischbach e Dunning, 2009). Procedimento de biopsia em cone e excisão eletrocirúrgica por alça Quando os achados de curetagem endocervical indicam alterações anormais, ou nos casos em que a lesão se estende dentro do canal, a cliente pode ser submetida a uma biopsia em cone. Essa biopsia pode ser realizada cirurgicamente ou com um procedimento denominado procedimento de excisão eletrocirúrgica por alça (LEEP), que utiliza um feixe de laser (Fischbach e Dunning, 2009). O LEEP, que é habitualmente realizado no ambiente ambulatorial, está associado a uma alta taxa de sucesso na remoção do tecido cervical anormal. O ginecologista faz uma excisão de uma pequena quantidade de tecido cervical, e o patologista examina as margens da amostra para determinar se a doença está presente. A cliente que recebeu anestesia para uma biopsia cirúrgica em cone é aconselhada a repousar durante 24 h depois do procedimento e a manter um tampão vaginal em posição até que seja removido (habitualmente no dia seguinte). A cliente é instruída a relatar qualquer sangramento excessivo. A enfermeira ou o médico fornece diretrizes sobre a atividade sexual, banho e outras atividades no período pósoperatório. Como o tecido aberto pode ser potencialmente exposto ao HIV e a outros patógenos, a cliente é aconselhada a evitar qualquer relação sexual até que a cicatrização esteja completa e seja verificada no acompanhamento. Biopsia de endométrio (por aspiração) A biopsia de endométrio, que constitui um método de obtenção de tecido endometrial, é realizada como procedimento ambulatorial. Esse procedimento está habitualmente indicado nos casos de sangramento irregular na meiaidade, sangramento na pósmenopausa e sangramento irregular enquanto a cliente faz uso de terapia hormonal ou tamoxifeno. Uma amostra de tecido obtida por biopsia possibilitao diagnóstico de alterações celulares no endométrio. As mulheres que se submetem à biopsia de endométrio podem sentir um leve desconforto. O examinador pode aplicar um tenáculo (instrumento semelhante a um grampo que estabiliza o útero) depois do exame pélvico e, em seguida, inserir uma sonda de aspiração fina, oca e flexível (coletor de amostra) dentro do útero através do colo do útero. Os achados na aspiração podem incluir tecido endometrial normal, hiperplasia ou câncer de endométrio. A hiperplasia simples consiste em um crescimento excessivo do revestimento do útero, que é habitualmente tratada com progesterona. A hiperplasia complexa, que se refere ao crescimento excessivo de células com características anormais, constitui um fator de risco para o câncer de útero, e o tratamento consiste em progesterona e acompanhamento cuidadoso. As mulheres com sobrepeso, aquelas que têm mais de 45 anos de idade, as que apresentam história de nuliparidade e infertilidade ou história familiar de câncer de cólon parecem correr maior risco de hiperplasia. (Ver discussão sobre o câncer de endométrio no Capítulo 57.) Dilatação e curetagem A dilatação e a curetagem (DeC) podem ser diagnósticas (identificam a causa do sangramento irregular) ou terapêuticas (com frequência, interrompem temporariamente o sangramento irregular). O canal cervical é alargado com um dilatador, e o endométrio uterino é raspado com uma cureta. A finalidade do procedimento consiste em obter uma amostra de tecido endometrial ou endocervical para exame citológico, controlar o sangramento uterino anormal e como medida terapêutica para aborto incompleto. Como DeC são habitualmente realizadas sob anestesia e exigem assepsia cirúrgica, esse procedimento é, em geral, realizado no centro cirúrgico. Todavia, pode ser efetuado no ambiente ambulatorial, quando a cliente recebe um anestésico local suplementado com diazepam ou midazolam. A enfermeira explica o procedimento, a preparação e as expectativas quanto ao desconforto e à ocorrência de sangramento no período pós operatório. A cliente é instruída a urinar antes do procedimento. A cliente é colocada na posição de litotomia. O colo do útero é dilatado com um instrumento de dilatação, e são obtidos raspados do endométrio com uma cureta. Um absorvente perineal é usado sobre o períneo depois do procedimento, e relatase a ocorrência de sangramento excessivo. Não há restrições quanto à ingestão nutricional. Se houver desconforto pélvico ou dor lombar, os analgésicos leves proporcionam habitualmente alívio. O médico indica quando a relação sexual pode ser retomada com segurança. Para reduzir o risco de infecção e de sangramento, a maioria dos médicos não aconselha a penetração vaginal nem o uso de tampões por 2 semanas. Exames endoscópicos Laparoscopia (peritonioscopia pélvica) A laparoscopia envolve a inserção de um laparoscópio (um tubo com cerca de 10 mm de largura, semelhante a um pequeno periscópio) na cavidade peritoneal através de uma incisão de 2 cm abaixo do umbigo, a fim de possibilitar a visualização das estruturas pélvicas (Figura 56.4). A laparoscopia pode ser utilizada para fins diagnósticos (p. ex., nos casos de dor pélvica, quando nenhuma causa pode ser encontrada) ou para tratamento. A laparoscopia facilita muitos procedimentos cirúrgicos, como laqueadura tubária, biopsia de ovário, miomectomia, histerectomia e lise de aderências (tecido cicatricial que pode provocar desconforto pélvico). Um instrumento cirúrgico (cânula ou sonda intrauterina) pode ser posicionado dentro do útero para possibilitar a manipulação ou o movimento durante a laparoscopia, proporcionando melhor visualização. Os órgãos pélvicos podem ser visualizados após a injeção intraperitoneal de dióxido de carbono dentro da cavidade. Essa técnica, denominada insuflação, afasta os intestinos dos órgãos pélvicos. Quando uma cliente está se submetendo à esterilização, as tubas uterinas podem ser eletrocoaguladas, suturadas ou ligadas, e um segmento é removido para verificação histológica (os grampos constituem um dispositivo alternativo para ocluir as tubas). Após o término da laparoscopia, o laparoscópio é removido, deixase escapar o dióxido de carbono através da cânula externa, a pequena incisão cutânea é fechada com suturas ou com um grampo, e a incisão é coberta com bandagem adesiva. A cliente é cuidadosamente monitorada durante várias horas para detectar quaisquer sinais indesejáveis, indicando sangramento (mais comumente a partir da lesão vascular para os vasos hipogástricos), lesão intestinal ou vesical ou queimaduras causadas pelo coagulador. Essas complicações são raras, de modo que a laparoscopia é um procedimento de boa relação custo/benefício e seguro, com curta permanência. A cliente pode apresentar dor abdominal ou no ombro relacionada com o uso do gás dióxido de carbono. Histeroscopia A histeroscopia (endoscopia intrauterina transcervical) possibilita uma visualização direta de todas as partes da cavidade uterina por meio de um instrumento óptico iluminado. O procedimento é mais realizado cerca de 5 dias após o término da menstruação, na fase estrogênica do ciclo menstrual. A vagina e a vulva são limpas, e efetuase um bloqueio anestésico paracervical, ou utilizase um spray de lidocaína. O instrumento usado para o procedimento, o histeroscópio, é introduzido no canal cervical e avançado por 1 ou 2 cm sob visualização direta. O líquido de distensão uterina (soro fisiológico ou soro glicosado a 5%) é infundido pelo instrumento para dilatar a cavidade uterina e melhorar a visibilidade. A histeroscopia, que está associada a poucas complicações, mostrase útil para avaliar a patologia endometrial. Figura 56.4 Laparoscopia. O laparoscópio (à direita) é inserido através de pequena incisão no abdome. Uma pinça é inserida por meio do aparelho para prender a tuba uterina. Para melhorar a visualização, uma cânula uterina (à esquerda) é inserida na vagina para empurrar o útero para cima. A insuflação de gás cria uma bolsa de ar (pneumoperitônio), e a pelve é elevada (observe o ângulo), forçando os intestinos para uma localização mais alta no abdome. A histeroscopia pode estar indicada como adjuvante da DeC e da laparoscopia em casos de infertilidade, sangramento inexplicado, retenção de dispositivo intrauterino (DIU) e perda precoce e recorrente da gravidez. O tratamento de algumas condições (p. ex., tumores fibroides) pode ser realizado durante esse procedimento, assim como a esterilização. A histeroscopia está contraindicada para clientes com carcinoma cervical ou endometrial ou com inflamação pélvica aguda. A ablação endometrial (destruição do revestimento uterino) é um procedimento realizado com um histeroscópio e ressector (alça de corte), bola (eletrodo em forma de barril) ou feixe de laser nos casos de sangramento grave que não respondem a outras terapias. Esse procedimento rápido, que é realizado em um ambiente ambulatorial sob anestesia geral, regional ou local, constitui uma alternativa para a histerectomia em algumas clientes. Após a distensão uterina com infusão de líquido, o revestimento do útero é destruído. Podem ocorrer hemorragia, perfuração e queimaduras. Outros procedimentos diagnósticos Outros procedimentos diagnósticos podem ser úteis na avaliação de patologias pélvicas. Esses procedimentos incluem radiografias, enemas baritados, seriografias gastrintestinais, urografia intravenosa (IV) e exames cistográficos. Além disso, como o útero, os ovários e as tubas uterinas estão próximos a estruturas do sistema urinário, os exames complementares urológicos, como exames radiográficos dos rins, ureteres e bexiga e pielografia, sãousados, assim como a angiografia e a cintigrafia com radioisótopos, quando necessário. Outros procedimentos diagnósticos incluem a histerossalpingografia (HSG) e a tomografia computadorizada (TC). Histerossalpingografia e uterotubografia A HSG é um exame radiográfico do útero e das tubas uterinas após a injeção de um agente de contraste. O procedimento diagnóstico é realizado para avaliar a infertilidade ou a permeabilidade tubária e para detectar qualquer condição anormal na cavidade uterina. Algumas vezes, o procedimento é terapêutico, visto que o agente de contraste que flui elimina resíduos ou amolece as aderências. Antes da HSG, podem ser administrados laxativos e um enema para evacuar o intestino, de modo que as sombras gasosas não distorçam os achados radiográficos. Podese prescrever um sedativo ou analgésico leve, como ibuprofeno. A cliente é colocada na posição de litotomia, e o colo do útero é exposto com um espéculo bivalve. Uma cânula é inserida no colo do útero, e o agente de contraste é injetado dentro da cavidade do útero e das tubas uterinas. São obtidas radiografias para mostrar o trajeto e a distribuição do agente de contraste. Algumas clientes apresentam náuseas, vômitos, cólicas e desmaio. Depois do exame, a cliente é aconselhada a usar um absorvente perineal durante várias horas, visto que o agente de contraste radiopaco pode manchar as roupas. Tomografia computadorizada A tomografia computadorizada (TC) apresenta várias vantagens em relação à ultrassonografia, porém implica exposição à radiação e é mais dispendiosa. É mais efetiva que a ultrassonografia para clientes obesas ou para aquelas com intestino distendido. A TC também pode revelar um tumor e qualquer extensão nos linfonodos retroperitoneais e tecido esquelético, embora tenha valor limitado no diagnóstico de outras anormalidades ginecológicas. Ultrassonografia A ultrassonografia é um adjuvante útil para o exame físico, particularmente nas clientes obstétricas ou naquelas com achados anormais no exame pélvico. Tratase de um procedimento simples, com base na transmissão de ondas sonoras, que utiliza ondas ultrassônicas pulsadas em frequências que ultrapassam 20.000 Hz (originalmente, ciclos por segundo) por meio de transdutor colocado em contato com o abdome (varredura abdominal) ou em uma sonda vaginal (ultrassonografia transvaginal). A energia mecânica é convertida em impulsos elétricos que, por sua vez, são amplificados e registrados em uma tela de osciloscópio, enquanto se obtém uma radiografia ou registro em vídeo dos padrões. Todo o procedimento leva de 15 a 30 min e não envolve radiação ionizante nem provoca desconforto, além da bexiga cheia, que é necessária para boa visualização durante o exame abdominal. A ultrassonografia transvaginal não exige uma bexiga cheia; todavia, a sonda vaginal pode provocar leve desconforto em algumas mulheres (Fischbach e Dunning, 2009). Ressonância magnética A ressonância magnética (RM) produz padrões que são mais finos e mais definitivos que outros procedimentos de imagem, além de não expor as clientes à radiação. Todavia, a RM é de maior custo. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança Todos os dispositivos metálicos, incluindo adesivos cutâneos com medicamento que apresentam fundo de alumínio, precisam ser removidos antes da realização da RM, a 䌲ꪫm de evitar queimaduras. MANEJO DOS PROCESSOS FISIOLÓGICOS FEMININOS Muitas preocupações de saúde das mulheres estão relacionadas com alterações normais ou com anormalidades do ciclo menstrual e podem resultar da falta de entendimento da mulher sobre o ciclo menstrual, as alterações de desenvolvimento e fatores que podem afetar o padrão do ciclo menstrual. A orientação das mulheres sobre o ciclo menstrual e sobre as alterações com o passar do tempo constitui um importante aspecto do papel da enfermeira no fornecimento do cuidado de qualidade às mulheres. A orientação deve começar precocemente, de modo que a menstruação e as alterações no ciclo menstrual durante toda a vida possam ser antecipadas e aceitas como parte normal da vida. Menstruação A menstruação, isto é, a descamação e secreção do revestimento do útero observadas se não houver concepção, ocorre aproximadamente a cada 28 ■ dias durante os anos reprodutivos, embora os ciclos normais possam variar de 25 a 35 dias (Porth e Matfin, 2009) (ver Figura 56.3). Em geral, o fluxo dura 4 a 5 dias, e, nesse período, são perdidos 50 a 60 mℓ de sangue. O absorvente perineal (ou o tampão) geralmente é utilizado para absorver a secreção menstrual. Os tampões são utilizados extensamente. Não há evidências significativas dos efeitos indesejados de seu uso, contanto que não haja dificuldade em sua introdução. Todavia, um tampão não deve ser usado por mais de 4 a 6 h, e a sua menor absorção deve ser empregada para evitar a síndrome do choque tóxico (Mayo Clinic, 2011). Se houver dificuldade em remover o tampão ou se ele se fragmentar durante a remoção, devemse utilizar tampões menos absorventes. Se o barbante se romper ou se retrair, a mulher deve agacharse em uma posição confortável, introduzir um dedo na vagina, tentar localizar o tampão e removêlo. Caso se sinta desconfortável para tentar essa manobra, ou se ela não conseguir remover o tampão, deve consultar prontamente um ginecologista. Considerações psicossociais As meninas que estão se aproximando da menarca (o início da menstruação) devem ser orientadas sobre o processo normal do ciclo menstrual antes que ele ocorra. Do ponto de vista psicológico, é muito mais saudável e apropriado referirse a esse evento como um “período menstrual”, em lugar de um “incômodo”. Com nutrição, repouso e exercício adequados, a maioria das mulheres sente pouco desconforto, embora algumas relatem hipersensibilidade da mama e sensação de tumefação 1 ou 2 dias antes do início da menstruação. Outras relatam a ocorrência de fadiga e de algum desconforto na região lombar, nas pernas e na pelve no primeiro dia e alterações do temperamento ou humor. Os desvios discretos do padrão habitual de vida diária são considerados normais, porém um desvio excessivo pode exigir avaliação. O exercício regular e uma dieta saudável demonstraram diminuir o desconforto em algumas mulheres. Almofadas de aquecimento ou o uso de agentes antiinflamatórios não esteroides (AINEs) podem ser muito efetivos para as cólicas. Para mulheres que apresentam cólicas excessivas ou dismenorreia, é apropriado encaminhálas a um ginecologista; após a avaliação, o profissional de saúde pode prescrever contraceptivos orais. Considerações culturais A cultura referese aos conhecimentos, crenças, costumes e valores adquiridos como membros de um grupo racial, étnico, religioso ou social. Os EUA estão se tornando um país culturalmente mais diverso. Vários aspectos da cultura afetam muitos encontros de cuidados de saúde, e esses encontros podem ser positivos quando as enfermeiras compreendem as várias culturas de suas clientes. As visões e as crenças culturais sobre a menstruação diferem. Algumas mulheres acreditam que é prejudicial mudar um absorvente ou tampão com muita frequência; elas pensam que permitir o acúmulo da secreção aumenta o fluxo, o que é considerado desejável. Algumas mulheres acreditam que ficam vulneráveis à doença durante a menstruação. Outras acreditam que é prejudicial nadar, tomar banho de chuveiro, fazer permanente nos cabelos, obturar dentes ou consumir determinados alimentos quando estão menstruadas. Elas também podem evitar o uso de contracepção durante a menstruação. Nessas situações, as enfermeiras encontramse em uma posição para fornecer às mulheres os fatos de maneira aceitável e culturalmente sensível. O objetivo é tomar ciência dessas crenças não expressase profundamente arraigadas e apresentar os fatos com cuidado. Os aspectos dos problemas ginecológicos nem sempre podem ser facilmente expressos. A enfermeira precisa transmitir confiança e abertura, bem como apresentar os fatos de modo a facilitar a comunicação. Sugestões para melhorar o cuidado incluem vencer as barreiras de linguagem, fornecer materiais apropriados na linguagem simples da cliente, perguntar sobre crenças tradicionais e práticas dietéticas e verificar os medos relacionados com o cuidado. Paciência, sensibilidade e um desejo de aprender sobre outras culturas e grupos melhorarão o cuidado de enfermagem de todas as mulheres. Distúrbios menstruais Os distúrbios menstruais podem incluir a síndrome prémenstrual (SPM); a dismenorreia; a amenorreia (ausência de fluxo menstrual); e o sangramento excessivo, o sangramento irregular ou o sangramento entre os ciclos ou não relacionado com os ciclos. Esses distúrbios precisam ser discutidos com um profissional de saúde e tratados de modo individual. Síndrome prémenstrual A síndrome prémenstrual (SPM) referese a um conjunto de sintomas físicos, emocionais e comportamentais, que estão habitualmente relacionados com a fase lútea do ciclo menstrual. A SPM é muito comum e afeta inúmeras mulheres em algum momento de suas vidas (Tharpe, Farley e Jordan, 2013) (Boxe 56.9). Manifestações clínicas Os principais sintomas da SPM incluem sintomas físicos, como cefaleia, fadiga, dor lombar, mamas dolorosas e sensação de distensão abdominal. Os sintomas emocionais e comportamentais podem consistir em irritabilidade geral, oscilações do humor, medo de perder o controle, ingestão alimentar compulsiva e crises de choro. Os sintomas variam amplamente de uma mulher para outra e de um ciclo para o seguinte na mesma mulher. Observase grande variabilidade no grau dos sintomas. Muitas mulheres são afetadas em algum grau, enquanto outras o são em graves proporções. O transtorno disfórico prémenstrual (TDPM) é uma apresentação de SPM, com intensidade acentuada dos sintomas (Hawkins et al., 2012). Manejo clínico Como não há um tratamento isolado nem cura conhecida para a SPM, é conveniente que as mulheres mantenham um registro de seus sintomas, de modo que possam antecipálos e, por conseguinte, lidar com eles. A prática regular de exercícios físicos pode ser valiosa. Embora as mulheres tenham sido aconselhadas a evitar o consumo de cafeína, alimentos ricos em gordura e açúcar refinado, poucas pesquisas comprovam a efetividade de mudanças na dieta. As terapias alternativas que têm sido utilizadas incluem vitaminas B6 (piridoxina) e E, cálcio, magnésio e cápsulas de óleo de prímula (Hawkins et al., 2012). Os tratamentos farmacológicos consistem em inibidores seletivos da recaptação de serotonina (p. ex., fluoxetina), inibidores das prostaglandinas (p. ex., ibuprofeno e naproxeno), diuréticos, agentes ansiolíticos e suplementos de cálcio. Os contraceptivos orais contendo drospirenona (uma • • • • • • • • • • • • • • • • • • • ■ progestina sintética) e esquemas prolongados também podem ser efetivos (Lopez, Kaptein e Helmerhorst, 2008). Manejo de enfermagem A enfermeira obtém a história de saúde, observando o momento que os sintomas começam, bem como sua natureza e intensidade. Em seguida, a enfermeira determina se os sintomas surgem antes ou pouco depois do início do fluxo menstrual. Além disso, a enfermeira pode mostrar à cliente como registrar o momento e a intensidade dos sintomas. Uma história nutricional também é obtida com a finalidade de verificar se a dieta é rica em sal, cafeína ou bebida alcoólica ou pobre em nutrientes essenciais. Boxe 56.9 Manifestações e tratamento da síndrome pré-menstrual Causa Desconhecida; pode estar relacionada com alterações hormonais combinadas com outros fatores (nutrição, estresse e falta de exercício) Muitas mulheres têm alguns sintomas relacionados com a menstruação, porém a síndrome pré-menstrual afeta de 75 a 95% das mulheres em algum momento e representa um complexo de sintomas que resultam em disfunção. Sintomas físicos Retenção de líquido (p. ex., distensão, hipersensibilidade das mamas) Cefaleia Dor lombar. Sintomas afetivos Depressão Raiva Irritabilidade Ansiedade Confusão Isolamento Os sintomas começam nos 5 dias anteriores à menstruação, e observa-se um alívio em 4 dias após o início da menstruação. Em geral, a disfunção ocorre nos relacionamentos, na família, no trabalho ou na escola. Tratamento Uso de apoio social e recursos familiares Dieta nutritiva, consistindo em cereais integrais, frutas e vegetais; o aumento da ingestão de água pode ajudar Inibidores da recaptação de serotonina O alprazolam tem sido efetivo, porém há alto risco de dependência física e psicológica A espironolactona, um agente diurético, pode ser efetivo no tratamento da retenção de líquidos Início/manutenção de um programa de exercícios físicos Técnicas de redução do estresse. Adaptado de Hawkins JW, RobertoNichols DM, StanleyHaney JL. (2012) Guidelines for nurse practitioners in gynecologic settings (10th ed.). New York: Springer; e Tharpe N, Farley C, Jordan R. (2013) Clinical practice guidelines for midwifery e women’s health. Boston: Jones & Barlett, 2013. As metas da cliente podem consistir em reduzir a ansiedade, as oscilações do humor, o choro, a ingestão alimentar compulsiva, o medo de perder o controle, em melhorar a capacidade de enfrentamento dos estressores do dia a dia, em tornar melhores os relacionamentos com a família e colegas de trabalho e aprofundar o conhecimento sobre a SPM. São promovidas medidas de enfrentamento positivo. Isso pode envolver incentivar o parceiro da mulher a oferecer apoio e assistência no cuidado dos filhos. A cliente pode tentar planejar o horário do trabalho para acomodar os dias em que ela fica menos produtiva por causa da SPM. A enfermeira estimula a cliente a usar os exercícios, a meditação, o imaginário e as atividades criativas para reduzir o estresse. A enfermeira também incentiva a cliente a utilizar os medicamentos de acordo com a prescrição e fornece orientações sobre os efeitos desejados dos medicamentos. A participação em um grupo de SPM pode ajudar a cliente a aprender a reconhecer e enfrentar essa condição. Se a cliente tiver sintomas graves de SPM ou de TDPM, a enfermeira efetua uma avaliação quanto a qualquer comportamento suicida, incontrolável e violento. É necessária uma avaliação psiquiátrica imediata para mulheres com qualquer sugestão de tendências suicidas. Em raros casos, o comportamento incontrolável pode levar à violência contra os familiares. Se houver suspeita de abuso, maustratos e negligência dos filhos ou de outros familiares de uma cliente, é importante implantar e seguir os protocolos de notificação sobre violência doméstica. Dismenorreia A dismenorreia primária referese aos casos de menstruação dolorosa, sem nenhuma patologia pélvica identificável. Ocorre no momento da menstruação ou pouco depois. Caracterizase por dor em cólicas, que começa antes ou pouco depois do início do fluxo menstrual e prossegue por 48 a 72 h. Os achados do exame pélvico são normais. Acreditase que a dismenorreia resulte da produção excessiva de prostaglandinas, causando contração dolorosa do útero. Na dismenorreia secundária, a patologia pélvica, como endometriose, tumores como liomiomas ou neoplasias malignas, pólipos e doença inflamatória pélvica (DIP), contribui para os sintomas. Com frequência, as clientes apresentam dor que ocorre vários dias antes da menstruação, com a ovulação e, em certas ocasiões, durante a relação sexual. Pode ser acompanhada de náuseas, diarreia, tontura e dor lombar (Hawkins et al., 2012). ■ ■ Avaliação e achados diagnósticos Efetuase um examepélvico para excluir possíveis distúrbios, como endometriose, DIP, adenomiose e fibroides uterinos. Podese realizar uma laparoscopia para identificar as causas orgânicas (ver Figura 56.4). Manejo Na dismenorreia primária, o motivo para o desconforto é explicado, e a cliente é tranquilizada de que a menstruação é uma função normal do sistema genital. Se a cliente for jovem e estiver acompanhada pela mãe, esta última também pode precisar ser tranquilizada. Muitas jovens esperam períodos menstruais dolorosos se suas mães tiveram essa história pregressa. O desconforto das cólicas pode ser tratado quando a ansiedade e a preocupação sobre a sua etiologia são dissipadas por uma explicação adequada. Em geral, os sintomas regridem com a medicação apropriada. Os medicamentos úteis consistem em antagonistas das prostaglandinas, como AINEs (p. ex., ibuprofeno, naproxeno e ácido mefenâmico) ou ácido acetilsalicílico. Quando um medicamento não proporciona alívio, outro pode ser recomendado. Em geral, esses medicamentos são bem tolerados; todavia, algumas mulheres apresentam efeitos colaterais gastrintestinais. As contraindicações incluem alergia, história de úlcera péptica, sensibilidade a medicamentos que contêm ácido acetilsalicílico, asma e gravidez. Os contraceptivos orais em dose baixa proporcionam alívio em mais de 90% das clientes e podem prescritos para mulheres com dismenorreia que são sexualmente ativas, mas que não desejam engravidar (Hawkins et al., 2012). O calor local de baixo nível e contínuo também pode ser efetivo para aliviar a dismenorreia primária. A terapia com calor e os medicamentos demonstraram atuar de modo satisfatório quando associados. A cliente é incentivada a continuar suas atividades habituais e a aumentar o exercício físico, quando possível, visto que isso alivia o desconforto em algumas mulheres. Aconselhase a administração dos analgésicos antes do início das cólicas, prevendo o desconforto. O manejo da dismenorreia secundária é direcionado para o diagnóstico e o tratamento da causa subjacente (p. ex., endometriose ou DIP) (ver Capítulo 57). Amenorreia A amenorreia ou ausência de fluxo menstrual constitui um sintoma de uma variedade de distúrbios ou disfunções. A amenorreia primária (menarca tardia) referese à situação em que uma jovem, em torno dos 14 anos de idade, ainda não começou a desenvolver as características sexuais secundárias ou que, em torno dos 16 anos ou mais, já apresenta as características sexuais secundárias, porém ainda não começou a menstruar. A amenorreia primária pode ter muitos motivos, incluindo distúrbios genéticos e congênitos, desnutrição e hipertireoidismo (Fritz e Speroff, 2011). A enfermeira incentiva a jovem a expressar suas preocupações e ansiedade sobre esse problema, visto que a cliente pode se sentir diferente de suas colegas. Um exame físico completo, uma história de saúde cuidadosa e a realização de exames laboratoriais simples ajudam a excluir possíveis causas, como distúrbios metabólicos ou endócrinos e doenças sistêmicas. O tratamento é direcionado para corrigir quaisquer anormalidades. A amenorreia secundária (ausência de menstruação por três ciclos ou 6 meses após uma menarca normal) pode ser causada por gravidez, amamentação, menopausa, quantidade insuficiente de gordura corporal (cerca de 22% necessários para menstruação), transtorno alimentar, doença da tireoide, síndrome dos ovários policísticos, síndrome de Asherman, estenose cervical, exercício excessivo ou determinados medicamentos (Hawkins et al., 2012). Nas adolescentes, a amenorreia secundária pode ser causada por transtorno emocional menor relacionado com o fato de estar longe de casa, frequentar a universidade, tensão em decorrência de tarefas escolares ou problemas interpessoais. Os transtornos nutricionais secundários também podem constituir um fator. A obesidade pode resultar em anovulação e amenorreia subsequente. Os transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, frequentemente resultam em ausência de menstruação, visto que a diminuição da gordura corporal e do aporte calórico afeta a função hormonal. O exercício intenso pode induzir distúrbios menstruais. As atletas competitivas frequentemente apresentam amenorreia. Em certas ocasiões, a disfunção hipofisária ou tireoidiana pode provocar amenorreia. Essas disfunções podem ser tratadas com sucesso por meio de tratamento do distúrbio endócrino subjacente. A menstruação infrequente (oligomenorreia) pode estar relacionada com distúrbios da tireoide, síndrome do ovário policístico ou insuficiência ovariana prematura. As mulheres que são HIVpositivas estão propensas a períodos menstruais ausentes e precisam ser avaliadas para gravidez, distúrbios da tireoide, hiperprolactinemia e menopausa. Sangramento uterino anormal O sangramento uterino disfuncional é definido como a ocorrência de sangramento indolor e irregular de origem endometrial, que pode ser excessivo, prolongado ou sem padrão. O sangramento uterino disfuncional pode ocorrer em qualquer idade, porém é mais comum nos extremos opostos da vida reprodutiva. Em geral, é secundário à anovulação (falta de ovulação) e é comum em adolescentes e mulheres que se aproximam da menopausa. As adolescentes respondem por muitos casos de sangramento uterino anormal; com frequência, elas não ovulam de modo regular à medida que o eixo hipófiseovário amadurece. As mulheres na prémenopausa também apresentam essa condição, dada a ovulação irregular secundária à diminuição na produção de hormônio ovariano. Outras causas podem incluir fibroides, obesidade e disfunção hipotalâmica. O sangramento vaginal anormal ou incomum, que é atípico quanto ao momento de ocorrência ou quantidade, precisa ser avaliado, visto que ele pode constituir, possivelmente, a manifestação de um distúrbio importante. Efetuase um exame físico, e a cliente é avaliada quanto a determinadas condições, como gravidez, neoplasia, infecção, anormalidades anatômicas, distúrbios endócrinos, traumatismo, discrasias sanguíneas, disfunção das plaquetas e distúrbios hipotalâmicos. Menorragia A menorragia referese à ocorrência de sangramento prolongado ou excessivo no período do fluxo menstrual regular. Nas jovens, a etiologia está habitualmente relacionada com distúrbio endócrino; em uma fase mais avançada da vida, a menorragia resulta habitualmente de distúrbios inflamatórios, tumores do útero ou desequilíbrio hormonal. As mulheres com menorragias são estimuladas a procurar um médico e a descrever a quantidade de sangramento por meio da contagem e nível de saturação de absorventes (i. e., a quantidade em um absorvente perineal, ou em um tampão, e a quantidade saturada por hora). A persistência do sangramento intenso pode resultar em anemia. Além disso, pode constituir um sinal de distúrbio hemorrágico ou a consequência de terapia anticoagulante. O tratamento pode consistir em ablação endometrial ou histerectomia. ■ ■ ■ • • • • • • • • Metrorragia A metrorragia (sangramento vaginal entre períodos menstruais regulares) constitui, provavelmente, a forma mais significativa de disfunção menstrual, visto que pode indicar a presença de câncer, tumores benignos do útero ou outros problemas ginecológicos. Essa condição exige avaliação e tratamento imediatos. Embora o sangramento entre períodos menstruais por mulheres em uso de contraceptivos orais geralmente não seja grave, a ocorrência de sangramento irregular em mulheres que recebem terapia hormonal (TH) deve ser avaliada. A menometrorragia, que também exige avaliação, consiste na ocorrência de sangramento vaginal intenso entre e durante os períodos menstruais. Dispareunia A dispareunia (relação sexual difícil ou dolorosa) pode ser superficial, profunda, primária ou secundária, e pode ocorrerno início, durante ou depois da relação sexual. A dispareunia pode estar relacionada com muitos fatores, incluindo lesão durante o parto; falta de lubrificação vaginal, história de incesto, abuso sexual ou agressão; endometriose; infecção pélvica ou vaginal; ressecamento vaginal causado por aleitamento ou menopausa; distúrbios gastrintestinais; fibroides; infecção urinária; DST; ou vulvodinia (dor vulvar que acomete mulheres de todas as idades, sem nenhuma causa física discernível). Dependendo da causa da dispareunia, podem ser prescritos aconselhamento, lubrificação adicional ou antidepressivos (Schuiling e Likis, 2013). As questões de saúde das mulheres relacionadas com a sexualidade podem ser afetadas por numerosos fatores. Por conseguinte, essas questões precisam ser consideradas com seriedade, ser avaliadas cuidadosamente e tratadas. Contracepção Nos EUA, há aproximadamente 62 milhões de mulheres que estão dentro da faixa etária reprodutiva (i. e., entre 15 e 44 anos). As sexualmente ativas e que não querem engravidar, mas têm o potencial de engravidar se elas e seus parceiros não usarem um método contraceptivo, correm risco de gravidez não planejada. Por conseguinte, aproximadamente 43 milhões de mulheres em idade reprodutiva correm risco de gravidez não planejada. Noventa e três por cento das mães com filhos e 86% das mulheres sem filhos usam contraceptivos (Alan Guttmacher Institute, 2012). O planejamento familiar beneficia mães, recémnascidos, famílias e comunidades. Também nos EUA, com o Affordable Care Act, uma lista predefinida de serviços preventivos precisa ser coberta, sem nenhum custo para o consumidor, por todos os planos de saúde privados, contratados a partir de 1o de agosto de 2012. Esses serviços incluem o fornecimento de todos os métodos contraceptivos aprovados pela FDA, juntamente com procedimentos de esterilização e aconselhamento contraceptivos para todas as mulheres (Alan Guttmacher Institute, 2012). As enfermeiras podem fornecer informações e apoio, perguntando diretamente às mulheres para quando elas planejam sua próxima gravidez e sobre suas necessidades de contracepção. Muitas mulheres sexualmente ativas ou que estão considerando tornarse sexualmente ativas podem beneficiarse de um aprendizado sobre contracepção. As enfermeiras que estão envolvidas em ajudar as clientes a fazer escolhas contraceptivas precisam ouvir, ter tempo para responder às perguntas e ensinar e ajudar as clientes a escolher o método preferido. É importante que as mulheres recebam informações imparciais e neutras, compreendam os benefícios e os riscos de cada método, aprendam sobre as alternativas e como utilizálas e recebam um reforço positivo e aceitação de sua opção. Algumas mulheres receberam informações errôneas (i. e., a contracepção causa câncer e ganho de peso). As adolescentes que se preocupam com o fato de que possam ser incapazes de engravidar no futuro podem não ter vontade de usar a contracepção. Abstinência A abstinência ou celibato é a única maneira totalmente efetiva de evitar a gravidez. A abstinência pode não ser uma opção desejada ou disponível para muitas mulheres, em decorrência de expectativas culturais, de seus próprios valores e de suas necessidades sexuais e as do parceiro. Esterilização Após a abstinência, a esterilização por oclusão tubária bilateral ou por vasectomia constitui o meio mais efetivo de contracepção. Ambos os procedimentos precisam ser considerados como permanentes, visto que nenhum deles é facilmente reversível. As mulheres e os homens que optam por esses métodos devem estar certos de que eles não querem mais ter filhos, não importa como possam mudar as circunstâncias em suas vidas. A vasectomia (esterilização masculina) e a laqueadura tubária (esterilização feminina) são comparadas na Tabela 56.4. (Ver discussão sobre a vasectomia no Capítulo 59.) Contracepção hormonal Os contraceptivos orais bloqueiam a estimulação ovariana, impedindo a liberação de FSH da adenohipófise. Na ausência de FSH, não há amadurecimento de um folículo, e, consequentemente, não ocorre ovulação. As progestinas (formas sintéticas de progesterona) suprimem o surto de LH, impedem a ovulação e também tornam o muco cervical impenetrável para os espermatozoides. Os agentes contraceptivos hormonais podem ser orais, transdérmicos, vaginais ou injetáveis. Os contraceptivos orais combinados, que contêm estrogênios e progestinas, são atualmente utilizados por muitas mulheres para evitar a gravidez (Hatcher, Trussel, Nelson et al., 2011). TABELA 56.4 Comparação dos métodos de esterilização. Método de esterilização Vantagens Desvantagens Vasectomia Altamente efetiva Alivia da mulher a carga da contracepção De baixo custo a longo prazo Permanente De alto custo a curto prazo Efeitos a longo prazo graves sugeridos (embora atualmente não comprovados) Permanente (embora a reversão seja possível, é de elevado custo e exige uma cirurgia altamente técnica e de grande porte, e os resultados não podem ser garantidos) Arrependimento em 5 a 10% das clientes • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Procedimento altamente aceitável para a maioria das clientes Muito segura Realizada rapidamente Nenhuma proteção contra DST, incluindo HIV Inefetivo até que os espermatozoides remanescentes no sistema genital sejam ejaculados Esterilização tubária histeroscópica e laparoscópica Baixa incidência de complicações Recuperação rápida Deixa pequena ou nenhuma cicatriz Realizada rapidamente Permanente Reversão difícil e de alto custo Procedimentos de esterilização tecnicamente difíceis Necessita de cirurgião, centro cirúrgico (condições assépticas), assistentes treinados, medicamentos, equipamento cirúrgico (o Essure® [inserção de mola ou espiral nas tubas uterinas], exige histeroscopia em lugar de cirurgia) De alto custo no momento de sua realização Quando falha, alta probabilidade de gravidez ectópica Sem proteção contra DST, incluindo HIV DST, doenças sexualmente transmissíveis; HIV, vírus da imunodeficiência humana. O Boxe 56.10 apresenta uma comparação dos diferentes esquemas de contraceptivos orais, enquanto o Boxe 56.11 descreve os benefícios e os riscos do uso de contraceptivos orais. Boxe 56.10 FARMACOLOGIA Comparação dos esquemas de contraceptivos hormonais São dois os tipos de contraceptivos hormonais: combinados (que consistem em um estrogênio e uma progestina) e apenas progestina. Preparações combinadas (pílulas, adesivos transdérmicos, anéis vaginais) As preparações monofásicas suprem a mesma dose de estrogênio e de progestina durante 21 dias As preparações bifásicas e as pílulas trifásicas variam na quantidade dos componentes hormonais durante o ciclo Em geral, levam a um 〰㰊uxo menstrual menor que o normal, que resulta da retirada. Preparações de apenas progestina ou minipreparações As preparações fornecem menos proteção contra a contracepção que as preparações combinadas Cerca de 40% das mulheres em uso de preparações c om progestina apenas apresentam ciclos ovulatórios As preparações com progestina apenas são úteis para mulheres que apresentam efeitos colaterais relacionados com estrogênios (p. ex., cefaleia, hipertensão, dor na perna, cloasma ou alteração na coloração da pele, ganho de peso ou náuseas) com as pílulas combinadas As preparações com progestina apenas são úteis para mulheres durante a lactação que necessitam de um método contraceptivo hormonal Depo-Provera®, uma injeção de apenas progestina, que dura por 3 meses Implanon®, um implante subdérmico, que dura 3 anos. Boxe 56.11 FARMACOLOGIA Benefícios e riscos dos contraceptivos hormonais combinados Benefícios Prevenção de gravidez não planejada Diminuição das cólicas e do sangramento Ciclode sangramento regular Incidência diminuída de anemia Diminuição na acne com algumas formulações Proteção contra o câncer de útero e de ovário Incidência diminuída de gravidez ectópica Proteção contra a doença benigna da mama Incidência diminuída de infecção pélvica Riscos Raros em mulheres saudáveis Efeitos colaterais incômodos (p. ex., sangramento de escape, hipersensibilidade das mamas) Náuseas, ganho de peso, alterações do humor Pequeno risco aumentado de desenvolver coágulos sanguíneos, acidente vascular encefálico (AVE) ou ataque cardíaco, relacionado mais com o tabagismo que com o uso isolado de contraceptivos orais Possível incidência aumentada de tumores hepáticos benignos e distúrbios da vesícula biliar Sem proteção contra doenças sexualmente transmissíveis (possível risco aumentado com sexo não seguro) Contraindicações As contraindicações absolutas para contraceptivos hormonais incluem ocorrência atual ou pregressa de distúrbio tromboembólico, doença vascular • • • • encefálica ou doença arterial; enxaquecas com auras visuais, câncer de mama suspeito ou diagnosticado; neoplasia dependente de estrogênio atual ou pregressa, suspeita ou diagnosticada; gravidez; tumores hepáticos benignos ou malignos atuais ou pregressos; disfunção hepática; distúrbios da coagulação; hiperlipidemia congênita; e sangramento vaginal anormal (ACOG, 2006). As contraindicações relativas incluem hipertensão, icterícia induzida por bile, fase aguda da mononucleose e doença falciforme. A hipertensão controlada em mulheres jovens, não tabagistas e saudáveis nos demais aspectos geralmente não representa contraindicação para o emprego de agentes combinados, porém exige o uso de dose baixa e monitoramento cuidadoso da pressão arterial. As mulheres com mais de 35 anos de idade que fumam correm risco de problemas cardíacos e não devem usar contraceptivos hormonais. Em certas ocasiões, surgem complicações neurooculares, porém não foi estabelecida uma relação de causa e efeito. Se for constatada a ocorrência de distúrbios visuais, os contraceptivos hormonais devem ser interrompidos. O Boxe 56.12 oferece um resumo das diretrizes para orientação às clientes que são importantes para mulheres em uso de contraceptivos hormonais combinados. Os distúrbios médicos coexistentes podem tornar a contracepção um problema complexo. Entre esses, citamse: hipertensão crônica, distúrbios dos lipídios, diabetes, enxaqueca, fibroides, obesidade, lúpus, depressão, convulsões e infecção pelo HIV ou síndrome de imunodeficiência adquirida. A contracepção precisa ser considerada individualmente em mulheres que apresentam essas condições, e os médicos podem prescrever contraceptivos hormonais injetáveis ou DIU (ACOG, 2006). Métodos de contracepção hormonal Nos EUA, diversos métodos hormonais de controle de natalidade foram aprovados pela FDA. Os métodos combinados incluem o uso conjunto de pílulas anticoncepcionais orais, anel vaginal e adesivo transdérmico. Os métodos apenas com progestina incluem pílulas ou minipílulas apenas com progestina, contracepção de emergência apenas com progestina, injeção única a cada 3 meses, sistema intrauterino de liberação de levonorgestrel e implante de bastão único subdérmico. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança As clientes precisam estar cientes de que os contraceptivos hormonais as protegem contra a gravidez, mas não contra as DST nem contra a infecção pelo HIV. Além disso, o sexo com vários parceiros ou o sexo sem preservativo também podem resultar em infecções por clamídia e outras infecções, incluindo a infecção pelo HIV. Contraceptivos orais Muitas mulheres usam preparações de contraceptivos orais contendo estrogênios e progestinas sintéticos. Dispõese de uma variedade de formulações. Os esquemas prolongados de agentes contraceptivos hormonais orais constituem uma opção para mulheres que apresentam sangramento menstrual intenso ou desconfortável, ou que desejam ter menos períodos menstruais. Com o uso desses esquemas, as mulheres podem ter uma ocorrência aumentada de sangramento de escape; o sangue pode ser marromescuro, em lugar de vermelho. Pode ser mais difícil dizer se ocorre gravidez com esse método, embora sua probabilidade seja menor se as pílulas forem tomadas de acordo com a prescrição. Existem estudos em andamento para avaliar os riscos de exposição a níveis aumentados de estrogênio decorrentes desse método. Boxe 56.12 ORIENTAÇÕES À CLIENTE Uso de contraceptivos combinados Usar preservativos para se proteger contra doenças sexualmente transmissíveis Tomar pílula exatamente na mesma hora do dia ou colocar o adesivo 1 vez/semana ou remover o anel vaginal após 3 semanas Suspender ou diminuir o tabagismo Relatar imediatamente os seguintes sinais/sintomas: Dores abdominais Dores torácicas Cefaleia Problemas oculares (visão embaçada ou manchas) Dores intensas nas pernas Contraceptivos transdérmicos O adesivo transdérmico de norelgestromina e etinilestradiol, de coloração bege e do tamanho de uma caixa de fósforo, libera continuamente estrogênio e progestina. Esse adesivo é trocado semanalmente, durante 3 semanas, e na quarta nenhum adesivo é usado, resultando em sangramento por retirada. A efetividade do adesivo transdérmico de norelgestromina e etinilestradiol é comparável àquela dos contraceptivos orais. Seus riscos assemelhamse àqueles dos contraceptivos orais e incluem risco aumentado de formação de tromboêmbolos venosos. O adesivo pode ser aplicado no tronco, no tórax, nos braços ou nas coxas; não deve ser aplicado nas mamas. O adesivo é conveniente e mais facilmente lembrado que uma pílula diária, porém não é tão efetivo para mulheres que pesam mais de 90 kg. Um efeito colateral adicional associado ao uso do adesivo consiste na possibilidade de reação cutânea, como irritação, rubor, alterações pigmentares ou erupção no local de aplicação do adesivo (Hatcher et al., 2011). Contraceptivos vaginais O anel vaginal de etonogestrel/etinil estradiol é um contraceptivo hormonal combinado, que libera estrogênio e progestina. É inserido na vagina e mantido durante 3 semanas para, em seguida, ser removido, resultando em sangramento por retirada. É tão efetivo quanto os agentes contraceptivos orais e resulta em níveis sanguíneos hormonais mais baixos que os obtidos com contraceptivos orais. O anel vaginal de etonogestrel/etinil estradiol é flexível, não exige mensuração de tamanho nem adaptação e mostrase efetivo quando colocado em qualquer parte na vagina. As clientes algumas vezes são relutantes em considerar o emprego de métodos vaginais de contracepção, a não ser que sejam discutidos abertamente e oferecidos como alternativa conveniente para outras vias de administração. Algumas mulheres sentemse desconfortáveis com esse método e podem temer que o anel possa migrar ou seja desconfortável ou percebido pelo parceiro. A enfermeira pode ajudar a eliminar esses conceitos errôneos. A cliente pode ser ■ ■ informada de que, embora algumas mulheres percebam ligeira elevação na secreção vaginal, esse método efetivo de contracepção demonstrou aumentar o lactobacilo que promove a saúde vaginal (ACOG, 2006). O anel vaginal de etonogestrel/etinil estradiol habitualmente é mais dispendioso que os contraceptivos orais. Contraceptivos injetáveis Uma injeção intramuscular de progestina de ação longa, a cada 3 meses, inibe a ovulação e proporciona um método contraceptivo confiável, privativo e conveniente (Karch, 2012). Dispõese também de uma formulação subcutânea. Pode ser usada por mulheres durante a lactação e por aquelas que apresentam hipertensão, doença hepática, enxaquecas, doença cardíaca e hemoglobinopatias. Com seu uso contínuo, as mulheres devem ser preparadas para uma diminuição dos episódios de sangramentoirregular e pequeno sangramento ou para amenorreia. As vantagens da progestina de ação longa intramuscular consistem em redução da menorragia, dismenorreia e anemia em consequência do sangramento menstrual intenso. Seu uso pode diminuir o risco de infecção pélvica, tem sido associado a melhora do estado hematológico em mulheres com doença falciforme e não interfere na efetividade dos agentes anticonvulsivantes. Diminui o risco de câncer de endométrio, DIP, endometriose e fibroides uterinos (Hatcher et al., 2011). Os possíveis efeitos colaterais da progestina de ação longa intramuscular incluem sangramento menstrual irregular, distensão abdominal, cefaleia, queda de cabelos, desejo sexual diminuído, perda óssea e redução ou aumento de peso. O contraceptivo não protege contra DST. A fertilidade pode ser retardada quando as mulheres suspendem sua administração; por conseguinte, outros métodos de contracepção podem ser mais apropriados para a mulher que deseja conceber em 1 ano após a interrupção da contracepção. A progestina de ação longa intramuscular está contraindicada para mulheres grávidas e para as que apresentam sangramento vaginal anormal de etiologia desconhecida, câncer de mama ou pélvico, ou sensibilidade à progestina sintética. Os efeitos a longo prazo sobre lactentes de mães que amamentam com o uso da progestina de ação longa intramuscular não são conhecidos, porém acreditase que sejam insignificantes. Implantes O etonogestrel na forma de implante subdérmico de bastão único é habitualmente colocado dentro do braço por meio de uma pequena incisão (Karch, 2012). É efetivo por um período de 3 anos. O implante subdérmico de etonogestrel pode provocar sangramento irregular, mas pode melhorar a dismenorreia e não afeta a densidade óssea. Esse contraceptivo pode ser usado por mulheres durante a lactação. Dispositivo intrauterino O dispositivo intrauterino (DIU) é um pequeno dispositivo de plástico, habitualmente em forma de “T”, que é inserido na cavidade uterina para evitar a gravidez. Um cordão preso ao DIU fica visível e palpável no óstio do colo do útero. O DIU evita a concepção ao provocar uma reação inflamatória local, que impede a fertilização. As vantagens incluem a efetividade do dispositivo por longo período, poucos efeitos sistêmicos ou nenhum e redução do erro da cliente (ACOG, 2011). A efetividade desse método de controle da natalidade reversível se equipara à da esterilização e maior que a dos métodos de barreira. As desvantagens incluem possível sangramento excessivo, cólicas e dores lombares; ligeiro risco de gravidez tubária; risco discreto de infecção pélvica por ocasião de sua inserção; deslocamento do dispositivo; e, raramente, perfuração do colo do útero e do útero. Se houver gravidez com um DIU em posição, o dispositivo é imediatamente removido para evitar qualquer infecção. Pode ocorrer aborto espontâneo com a remoção do dispositivo. O DIU não é habitualmente usado em mulheres que não tiveram filhos, visto que um pequeno útero nulíparo pode não o tolerar. As mulheres com vários parceiros, as que apresentam menstruações intensas ou com cólicas ou aquelas com história de gravidez ectópica ou infecção pélvica devem ser incentivadas a usar outros métodos de contracepção. Barreiras mecânicas Diafragma O diafragma é um dispositivo contraceptivo efetivo, que consiste em uma mola flexível arredondada (de 50 a 90 mm de largura), coberta com uma capa de borracha de látex semelhante a uma cúpula. Uma geleia ou creme espermicida (contraceptivo) é usado para revestir o lado côncavo do diafragma antes de introduzilo profundamente na vagina, cobrindo o colo do útero por completo. O espermicida inibe a entrada dos espermatozoides no canal cervical. O diafragma não é sentido pela usuária nem por seu parceiro quando adaptado e inserido de maneira adequada. Como as mulheres variam de tamanho, o diafragma deve ser medido e adaptado por um médico experiente. A mulher é instruída no uso e cuidado do dispositivo. Uma demonstração de retorno assegura que a mulher possa inserir corretamente o diafragma, cobrindo o colo do útero. Toda vez que a mulher for utilizar o diafragma, ela deve examinálo cuidadosamente. Ao segurálo contra uma luz intensa, deve certificarse de que não apresente orifícios puntiformes, rachaduras nem lacerações. Em seguida, ela aplica a geleia ou o creme espermicida e insere o diafragma. O diafragma deve permanecer em posição durante pelo menos 6 h após a relação sexual (não mais que 12 h). É necessário um espermicida adicional quando mais de 6 h transcorreram antes da relação sexual e antes de cada novo ato sexual. Ao ser removido, o diafragma deve ser limpo por completo com sabão neutro e água, enxaguado e seco antes de ser guardado em seu recipiente original. As desvantagens incluem as reações alérgicas em clientes sensíveis ao látex e incidência aumentada de infecções urinárias. Foi relatada a ocorrência de síndrome do choque tóxico em algumas usuárias de diafragma, porém esse evento é raro. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança A enfermeira precisa avaliar a mulher quanto a uma possível alergia ao látex, visto que o uso de métodos de barreira contendo látex (p. ex., diafragma, capuz cervical, preservativos masculinos) pode provocar reações alérgicas graves, incluindo ana䌲ꪫlaxia, em clientes com alergia ao látex. Capuz cervical O capuz cervical é muito menor (de 22 a 35 mm) que o diafragma e cobre apenas o colo do útero. Se mulher consegue sentir o colo do útero, ela ■ habitualmente pode aprender a usar um capuz cervical. A principal vantagem é que o capuz pode ser mantido em posição por 2 dias depois do coito. Embora seja conveniente para uso, o capuz cervical pode provocar irritação cervical; por conseguinte, antes de adaptar um capuz, a maioria dos médicos solicita um esfregaço de Papanicolaou, que é repetido após 3 meses. O capuz é utilizado com um espermicida e não exige o acréscimo de espermicida para uma nova relação sexual. Preservativo feminino O preservativo feminino foi desenvolvido para oferecer um controle de proteção de barreira para as mulheres – proporcionar proteção contra as DST e o HIV, bem como contra a gravidez. O preservativo feminino consiste em um cilindro de poliuretano com um fundo em uma extremidade sustentado por um anel que reveste o colo do útero e, na outra extremidade, por um anel aberto que cobre o períneo (Figura 56.5). As vantagens consistem em certo grau de proteção contra as DST (i. e., HPV, herpesvírus simples e HIV) (Hatcher et al., 2011). As desvantagens incluem a incapacidade de usar o preservativo feminino em algumas posições (i. e., em pé). As mulheres constataram que esse pode ser ruidoso e deslizante. Espermicidas Os espermicidas são feitos de nonoxinol9 ou octoxinol e estão disponíveis para venda livre como espumas, géis, películas e supositórios, bem como em preservativos. Os espermicidas não protegem as mulheres contra o HIV ou outras DST (Alan Guttmacher Institute, 2012). As vantagens dos espermicidas consistem em sua natureza não hormonal, serem controlados pela usuária, não causarem efeitos colaterais sistêmicos e serem imediatamente efetivos (Hatcher et al., 2011). Preservativo masculino O preservativo masculino é uma cobertura impermeável, de adaptação firme, aplicada ao pênis ereto antes de sua introdução no canal vaginal. A extremidade do preservativo é segura entre os dedos ao ser aplicado para deixar um espaço para o líquido ejaculado. Quando não se deixa espaço, a ejaculação pode provocar uma laceração ou orifício no preservativo e reduzir sua efetividade. O pênis, com o preservativo na posição, é removido da vagina enquanto ainda ereto para evitar o extravasamento do ejaculado. Na atualidade, dispõese de preservativos nos tamanhosgrande e pequeno. O preservativo de látex também cria uma barreira contra a transmissão de DST (gonorreia, infecção por clamídia e HIV) por meio dos líquidos orgânicos e pode reduzir o risco de transmissão de herpesvírus. Todavia, os preservativos naturais (aqueles feitos de tecido animal) não protegem contra a infecção pelo HIV. As enfermeiras precisam reforçar para as mulheres o fato de que elas têm o direito de insistir que seus parceiros masculinos utilizem preservativos e o direito de se recusarem a ter uma relação sexual sem preservativo, embora as mulheres em relacionamentos abusivos possam aumentar seu risco de violência, maustratos e negligência ao fazer isso. Algumas mulheres carregam preservativos com elas para garantir sua disponibilidade. As enfermeiras devem estar familiarizadas e confortáveis com instruções sobre o uso de preservativos, visto que muitas mulheres precisam saber como se proteger contra o HIV e outras DST. Entretanto, os preservativos não conferem uma proteção completa contra as DST, visto que o HPV pode ser transmitido por contato da pele com a pele. Outras DST podem ser transmitidas quando qualquer parte da pele com lesão é exposta a líquidos orgânicos. Essa informação deve ser incluída na orientação à cliente. A enfermeira precisa considerar a possibilidade de alergia ao látex. Podem ocorrer também edema e prurido. Os possíveis sinais de alerta de alergia ao látex incluem prurido oral após soprar em uma bola ou ao consumir kiwis, bananas, abacaxis, maracujá, abacate ou castanhas. Como muitos contraceptivos são feitos de látex, as clientes que sentem ardência ou prurido ao usarem contraceptivos de látex são instruídas a procurar seu médico. As alternativas para os preservativos de látex podem incluir o preservativo feminino e o preservativo masculino feitos de poliuretano. Coito interrompido ou retirada O coito interrompido (remoção do pênis da vagina antes da ejaculação) requer um cuidadoso controle pelo parceiro masculino. Embora seja frequentemente utilizado para evitar gravidez e seja melhor que usar nenhum método, é considerado um método de contracepção inseguro. ■ ■ Figura 56.5 Preservativo feminino. Para inserir o preservativo feminino, segurar o anel interno entre o polegar e o dedo médio. Colocar o dedo indicador na bolsa, entre o polegar e os outros dedos, e apertar o anel. Deslizar o preservativo dentro da vagina o máximo que conseguir avançar. O anel interno mantém o preservativo em posição. Métodos de ritmo e naturais O planejamento familiar natural referese a qualquer método de regulação da concepção que se baseie na percepção de sinais e sintomas de fertilidade durante o ciclo menstrual. As vantagens dos métodos contraceptivos naturais incluem: (1) não são perigosos para a saúde; (2) não têm custo; e (3) são aceitos por algumas religiões que desaprovam outros métodos de contracepção. As desvantagens é que exigem disciplina pelo casal, que precisa monitorar o ciclo menstrual e absterse de sexo durante a fase fértil. Os métodos atuais incluem o método do calendário, o método da temperatura corporal basal, o método da ovulação e o método sintotérmico. Os métodos do calendário e da temperatura corporal basal são mais antigos que o método da ovulação e o método sintotérmico. Com frequência, são utilizadas combinações desses métodos (Fehring, Schneider, Raviele et al., 2007). Estimase que a fase fértil (durante a qual é necessária a abstinência sexual) ocorra aproximadamente cerca de 14 dias antes da menstruação, embora possa ocorrer entre o 10o e o 17o dia. Os espermatozoides podem fertilizar um óvulo até 72 h depois da relação sexual, e o óvulo pode ser fertilizado durante 24 h após deixar o ovário. O índice de gravidez com o método do ritmo (i. e., do calendário) é de cerca de 40% por ano. As mulheres que determinam cuidadosamente seu “período menstrual seguro”, com base em um registro preciso das datas de menstruação durante pelo menos 1 ano, e que seguem uma fórmula cuidadosamente elaborada podem alcançar uma proteção muito efetiva. É necessário um longo período de abstinência durante cada ciclo. Esses prérequisitos exigem tempo e controle maior que os de muitos casais. As mudanças no muco cervical e na temperatura corporal basal decorrentes das alterações hormonais relacionadas com a ovulação formam a base científica para o método sintotérmico de regulação da ovulação. Cursos sobre planejamento familiar natural são oferecidos em muitos hospitais católicos e em algumas clínicas de planejamento familiar. Os dispositivos de detecção da ovulação estão disponíveis na maioria das farmácias. A presença da enzima guaiacol peroxidase no muco cervical sinaliza a ovulação com 6 dias de antecedência e também afeta a viscosidade da mucosa. Kits de testes de venda livre são fáceis de usar e confiáveis, porém podem ser de alto custo. Os kits de predição da ovulação são mais efetivos para planejar a concepção que para evitála. Entretanto, se forem usados em combinação com as alterações no muco cervical e o método do calendário, podem ser efetivos; há necessidade de pesquisas adicionais (Carcio e Secor, 2010). A ducha não constitui um método contraceptivo e pode aumentar as chances de concepção, em vez de diminuílas. Contracepção de emergência A necessidade de contracepção de emergência pode surgir após um episódio de relação sexual sem proteção. Por conseguinte, as enfermeiras precisam ter conhecimento sobre a concepção de emergência como opção para as mulheres, bem como as indicações para sua utilização. Evidentemente, não é apropriada para a prevenção da gravidez a longo prazo, visto que não é tão efetiva quanto os contraceptivos orais ou outros métodos confiáveis usados de modo regular. Todavia, é valiosa após uma relação sexual quando não se pretende engravidar e em situações de emergência, como estupro, preservativo ou diafragma defeituoso, ou lacerado, ou outras situações que possam resultar em contracepção indesejada. As mulheres precisam ter conhecimento da contracepção de emergência e do modo de obtêla. ■ Métodos de contracepção de emergência Métodos hormonais Uma dose adequada de estrogênio e uma progestina no momento apropriado ou um medicamento apenas com progestina depois da relação sexual sem contracepção efetiva, ou quando algum método falha, podem evitar a gravidez ao inibir ou retardar a ovulação. Esse método não interrompe a gravidez estabelecida e não provoca aborto. Na atualidade, a contracepção de emergência é livre para venda e é segura para mulheres de todas as idades. Quanto mais precoce for a administração da contracepção de emergência, mais efetiva será. Nos EUA, é considerada segura e efetiva pela FDA e pode ser adquirida em embalagens de Plan B® (progestina apenas) de contracepção de emergência com um livreto informativo para a cliente (ACOG, 2013a). Esse método só deve ser usado até 5 dias após a relação sexual desprotegida. As náuseas, que constituem um efeito colateral comum, podem ser reduzidas ao mínimo pela administração do medicamento nas refeições ou com um agente antiemético. Outros efeitos colaterais, como mamas doloridas e sangramento irregular podem ocorrer, porém são transitórios. As clientes que utilizam esse método devem ser avisadas sobre o índice de possíveis falhas e também aconselhadas sobre outros métodos contraceptivos. Não há contraindicações conhecidas para uso desse método, exceto uma gravidez estabelecida (Allen e Goldberg, 2007). A enfermeira revê com a cliente as instruções para a contracepção de emergência, com base no esquema medicamentoso prescrito. Se a mulher estiver amamentando, prescrevese uma formulação apenas com progestina. Para evitar expor os lactentes a hormônios sintéticos peloleite materno, a cliente pode ordenhar manualmente o leite e alimentar o lactente com copinho por 24 h após o tratamento. A cliente deve ser informada de que seu próprio período menstrual pode começar alguns dias antes ou depois da data esperada. É instruída a retornar para um teste de gravidez se não houver nenhum período menstrual em 3 semanas, e deve fazer outra consulta para providenciar um método regular de contracepção se não utilizar nenhum no momento. Inserção de dispositivo intrauterino póscoito A inserção de dispositivo intrauterino (DIU) póscoito, outro modo de contracepção de emergência, envolve a inserção de um DIU contendo cobre dentro de 5 dias após uma relação sexual em mulheres que desejam esse método de contracepção; todavia, pode ser inadequado para algumas mulheres ou se houver contraindicações. O mecanismo de ação não é conhecido, porém acreditase que o DIU interfira na fertilização (Allen e Goldberg, 2007). A cliente pode sentir desconforto no momento da inserção e pode ter períodos menstruais mais intensos e com aumento das cólicas. As contraindicações incluem suspeita ou confirmação de gravidez, ou qualquer contraindicação para o uso regular de DIU de cobre. A cliente deve ser informada do risco de a inserção do DIU interromper uma gravidez já existente. Manejo de enfermagem As clientes que utilizam a contracepção de emergência podem ficar ansiosas, constrangidas e carecer de informações sobre o controle da natalidade. A enfermeira deve apoiar e ser imparcial, fornecendo fatos e orientação apropriada à cliente. Se a cliente usar repetidamente esse método de controle da natalidade, deve ser informada de que o índice de fracasso com esse método é mais alto que com outro usado de modo regular. Nos EUA, um serviço de informações por telefone grátis opera 24 h em inglês e espanhol, fornecendo informações e encaminhamentos para profissionais de saúde.2 As enfermeiras podem orientar as mulheres e informálas sobre as opções de contracepção de emergência para reduzir as gestações indesejadas e os abortos.3 (Ver mais informações na seção “Recursos”, no final deste capítulo.) Aborto A interrupção da gravidez ou expulsão do produto da concepção antes que o feto seja viável é denominada aborto. O feto é geralmente considerado viável em qualquer momento do quinto ao sexto mês de gestação em diante. Aborto espontâneo Estimase que 1 em cada 5 a 10 concepções termine em aborto espontâneo. A maioria ocorre por alguma anormalidade no feto, que impossibilita sua sobrevivência. Outras causas podem incluir doenças sistêmicas, desequilíbrio hormonal ou anormalidades anatômicas. Quando uma mulher grávida apresenta sangramento e cólicas, o diagnóstico é de ameaça de aborto, visto que o aborto real é habitualmente iminente. O aborto espontâneo ocorre mais comumente no segundo ou terceiro mês de gestação. Há vários tipos de aborto espontâneo, dependendo da natureza do processo (ameaça, inevitável, incompleto ou completo). Na ameaça de aborto, o colo do útero não sofre dilatação. Com repouso no leito e tratamento conservador, é possível evitar o aborto. Se isso não for possível, o aborto é iminente. Se apenas parte dos tecidos é eliminada, o aborto é designado como incompleto. Um procedimento de esvaziamento ou curetagem (DeC ou dilatação e evacuação [DeE]) ou a administração de misoprostol oral são habitualmente necessários para remover o tecido remanescente. Quando o feto e todos os tecidos relacionados são espontaneamente evacuados, o aborto é designado como completo, e não há necessidade de nenhum tratamento adicional. Aborto habitual O aborto habitual ou recorrente é definido como abortos sucessivos, repetidos e espontâneos de causa desconhecida. Até 60% dos abortos podem resultar de anomalias cromossômicas. Depois de dois abortos consecutivos, a cliente é encaminhada para aconselhamento e testes genéticos, e são investigadas outras causas possíveis. Quando o sangramento ocorre em uma mulher grávida com história pregressa de aborto habitual, são empregadas medidas conservadoras, como repouso no leito e administração de progesterona para sustentar o endométrio e preservar a gravidez. O aconselhamento de apoio é crucial nessa condição estressante. O repouso no leito, a abstinência sexual, uma dieta leve e nenhum esforço na defecação podem ser recomendados em um esforço de evitar o aborto espontâneo. Se houver suspeita de infecção, podem ser prescritos antibióticos. Na condição conhecida como colo incompetente ou disfuncional, o colo do útero dilatase de modo indolor no segundo trimestre de gravidez, ■ • • • 1. • 2. • • • 3. • • resultando frequentemente em aborto espontâneo. Nesses casos, podese utilizar um procedimento cirúrgico, denominado cerclagem cervical, para evitar a dilatação prematura do colo do útero, embora sua efetividade seja incerta. A cerclagem do colo do útero consiste na realização de uma sutura em bolsa de tabaco ao redor do colo do útero, no nível do óstio interno. Em geral, aconselhase o repouso no leito para manter o peso do útero fora do colo. Cerca de 2 a 3 semanas antes do parto ou no início do trabalho de parto, a sutura é cortada. Em geral, o parto é feito por cesariana. Manejo clínico Após a ocorrência de aborto espontâneo, todos os tecidos eliminados pela vagina são recuperados para exame, quando possível. A cliente e todas as pessoas que cuidam dela são alertadas para preservar qualquer material eliminado. No raro caso de sangramento maciço, a cliente pode necessitar de transfusões de hemoderivados e reposição de líquidos. Podese estimar o volume de sangramento com o registro o número de absorventes perineais e o seu grau de saturação durante 24 h. Quando ocorre aborto incompleto, podese prescrever ocitocina para produzir contrações uterinas antes da DeC ou da aspiração uterina. Manejo de enfermagem Como as clientes vivenciam perda e ansiedade, o apoio emocional e a compreensão constituem aspectos importantes do cuidado de enfermagem. As mulheres podem estar em sofrimento ou podem sentirse aliviadas, dependendo de seus sentimentos em relação à gravidez. É valioso oferecer oportunidades para que a cliente fale e expresse suas emoções, além de dar indícios para que a enfermeira planeje um cuidado mais específico. Aborto eletivo O aborto eletivo referese ao término induzido da gravidez de modo voluntário e é habitualmente realizado por profissionais de saúde habilitados. Nos EUA, em 1973, a Suprema Corte em Roe v. Wade definiu que as decisões sobre a realização de aborto cabem à mulher e a seu médico no primeiro trimestre.4 No segundo trimestre, o Estado pode regular a prática visando à saúde da mulher e, durante as últimas semanas de gestação, pode optar por proteger a vida do feto, exceto quando necessário para preservar a vida ou a saúde da mulher. A taxa de aborto nos EUA está entre as mais elevadas no mundo ocidental industrializado. Esses números indicam a necessidade de orientação contraceptiva efetiva, informações sobre a contracepção de emergência e aconselhamento. Manejo clínico Antes de realizar o procedimento do aborto (Boxe 56.13), uma enfermeira ou um conselheiro treinados em aconselhamento na gravidez devem conversar com a cliente e desvendar seus medos, sentimentos e opções. Em seguida, a enfermeira identifica a opção da cliente (i. e., continuar a gestação e a maternidade, continuar a gestação seguida de oferecimento da criança para adoção ou interromper a gestação por meio de aborto). Se o aborto for escolhido, a cliente se submete a um exame pélvico para determinar o tamanho do útero. Além disso, podese efetuar uma ultrassonografia pélvica. Os exames laboratoriais antes da realização de um aborto devem incluir teste de gravidez para confirmar a gestação, donível de hematócrito para excluir a presença de anemia e determinação do fator Rh. As clientes com anemia podem necessitar de suplementação de ferro, e as clientes Rh negativas podem necessitar de imunoglobulina Rho(D) para evitar a isoimunização. Antes do procedimento, todas as clientes devem ser submetidas à triagem para DST, a fim de evitar a introdução ascendente de patógenos, através do colo do útero, durante o procedimento. Boxe 56.13 Tipos de abortos eletivos Aspiração a vácuo O colo do útero é dilatado manualmente com instrumentação ou por laminária (pequenos supositórios contendo algas marinhas que intumescem ao absorver a água) Um aspirador uterino é introduzido Aplica-se a sucção, e os tecidos são removidos do útero. Trata-se do tipo mais comum de procedimento para interromper a gravidez, utilizado precocemente na gestação, com até 14 semanas. A laminária pode ser empregada para amolecer e dilatar o colo do útero antes do procedimento. Dilatação e evacuação Dilatação cervical com laminária, seguida de aspiração a vácuo. Indução do trabalho de parto Esses procedimentos contribuem com menos de 1% de todos os abortos eletivos e, em geral, são realizados em ambiente hospitalar. A instilação de soro 〼‾siológico ou ureia resulta em contrações uterinas Embora sejam raras, podem ocorrer complicações graves, incluindo colapso cardiovascular, edema cerebral, edema pulmonar, insu〼‾ciência renal e coagulação intravascular disseminada. Prostaglandinas As prostaglandinas são introduzidas no líquido amniótico ou por supositório vaginal ou injeção intramuscular em uma fase mais avançada da gravidez As contrações uterinas fortes começam dentro de 4 h e resultam habitualmente em aborto Podem ocorrer efeitos colaterais gastrintestinais (p. ex., náuseas, vômitos, diarreia e cólicas abdominais). Ocitocina IV Utilizada para abortos mais tardios por indicações genéticas. Exige que a cliente passe pelo trabalho de parto. Aborto clínico Mifepristona A mifepristona (originalmente conhecida como RU-486) é um antagonista da progesterona, que impede a implantação do óvulo • • • • • • • Administrada VO dentro de 10 dias após o período menstrual esperado, a mifepristona produz aborto clínico na maioria das clientes Combinada com um supositório de prostaglandina, a mifepristona provoca aborto em até 95% das clientes Pode ocorrer sangramento prolongado. Outros efeitos colaterais podem incluir dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia. Esse método pode não ser utilizado em mulheres com insu〼‾ciência suprarrenal, asma, terapia a longo prazo com corticosteroides, dispositivo intrauterino em posição, por〼‾ria ou história de alergia à mifepristona ou a outras prostaglandinas. É menos efetiva quando utilizada em gestações com mais de 49 dias a contar do início do último período menstrual. Metotrexato O metotrexato também tem sido usado para interromper a gravidez, visto que é letal para o feto. Foi constatado que o metotrexato está associado a um risco mínimo e a poucos efeitos colaterais na mulher. Seu baixo custo pode proporcionar uma alternativa para algumas mulheres. Misoprostol O misoprostol é um análogo sintético da prostaglandina, que produz apagamento cervical e contrações uterinas Inserido por via vaginal, o misoprostol é efetivo para interromper uma gestação em cerca de 75% dos casos Quando combinado com metotrexato ou mifepristona, o misoprostol tem alto índice de efetividade. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança As mulheres que recorrem a tentativas não habilitadas para interromper a gravidez podem 䌲ꪫcar criticamente doentes em consequência de infecção, hemorragia ou ruptura do útero. Quando uma mulher empreende esses esforços para interromper a gravidez, a atenção médica imediata, a administração de antibióticos de amplo espectro e a reposição de líquidos e hemoderivados podem ser necessárias antes de serem feitas tentativas cuidadosas para evacuar o útero. As interrupções cirúrgicas incluem DeC ou aspiração do conteúdo uterino a vácuo. Podem ser também administrados medicamentos. A mifepristona, anteriormente conhecida como RU486, é usada no início da gravidez (até 49 dias a contar do último período menstrual). Esse fármaco atua ao bloquear a progesterona. Ocorrem cólicas e sangramento semelhantes a um período menstrual intenso. Após aconselhamento e consentimento e, com frequência, uma ultrassonografia para confirmar a gravidez, administrase mifepristona, seguida de uma dose de misoprostol por via oral (VO) ou vaginal. Se a gravidez persistir, realizase uma aspiração a vácuo. As contraindicações incluem gravidez ectópica, insuficiência suprarrenal, alergia aos medicamentos, distúrbio hemorrágico, síndrome do intestino irritável ou distúrbios convulsivos descontrolados. Várias mortes por sepse ocorreram após aborto clínico; nos EUA, os pesquisadores e a FDA estão monitorando rigorosamente a morbidade e a mortalidade associadas ao aborto clínico. Na atualidade, não há evidências de que um aborto clínico ou cirúrgico prévio possa aumentar o risco de resultados adversos em futuras gestações (Virk, Zhang e Olsen, 2007). Manejo de enfermagem A orientação da cliente constitui um importante aspecto do cuidado a mulheres que decidem interromper uma gestação. A cliente que se submete ao aborto eletivo é informada sobre o que o procedimento envolve e a evolução esperada após sua realização. A cliente é agendada para uma consulta de acompanhamento 2 semanas depois do procedimento e é instruída sobre os sinais e sintomas que devem ser relatados (i. e., febre, sangramento intenso ou dor). Efetuase uma revisão dos métodos contraceptivos disponíveis com a cliente nessa ocasião. A efetividade depende do método utilizado e da extensão com que a mulher e seu parceiro seguem as instruções para uso. Uma mulher que usou qualquer método de controle de natalidade deve ser avaliada quanto à sua compreensão sobre o método e sobre seus efeitos colaterais potenciais, bem como quanto à sua satisfação com o método. Quando a mulher não utiliza nenhum método de contracepção, a enfermeira explica todos os métodos disponíveis e seus benefícios e riscos, e igualmente ajuda a cliente a optar por um método de contracepção a ser adotado após o aborto. As questões de aprendizado relacionadas, como a necessidade de usar dispositivos contraceptivos de barreira (i. e., preservativos) para a proteção contra a transmissão de DST e da infecção pelo HIV e a disponibilidade de contracepção de emergência, estão se tornando cada vez mais importantes. O apoio psicológico constitui outro aspecto importante do cuidado de enfermagem. A enfermeira precisa estar ciente de que as mulheres interrompem a gravidez por muitos motivos. Algumas podem optar por interromper a gestação por causa de defeitos genéticos graves, porque foram estupradas ou engravidaram em relacionamentos incestuosos ou por um parceiro abusivo. O cuidado de uma mulher que se submete à interrupção da gravidez é estressante, e devese fornecer uma assistência de modo seguro e imparcial. As enfermeiras têm o direito de recusarse a participar de um procedimento que seja contrário às suas crenças religiosas, porém são profissionalmente obrigadas a não impor suas crenças e seus julgamentos às clientes. Infertilidade A infertilidade é definida como a incapacidade de um casal de concretizar a gravidez depois de 1 ano de relação sexual sem proteção (Hatcher et al., 2011). A infertilidade primária referese ao casal que nunca teve filho. A infertilidade secundária significa que houve, pelo menos, uma concepção, mas que, no momento atual, o casal não pode engravidar. Com frequência, tratase de um problema físico complexo, cujas causas estão habitualmente relacionadas com azoospermia, anovulação ou obstrução tubária. Achados diagnósticos Fatoresovarianos e da ovulação A determinação do nível sérico de progesterona e o índice de ovulação constituem exames complementares realizados para definir se a ovulação é regular e se o endométrio progestacional é adequado. O índice de ovulação envolve um teste de urina com fita reagente para verificar se ocorreu o surto de LH que precede a ruptura folicular. • • • • • • • • • • Fatores tubários e uterinos A HSG é usada para excluir a possibilidade de anormalidades uterinas ou tubárias. Um agente de contraste injetado no útero pelo colo do útero produz um contorno do formato da cavidade uterina e permeabilidade das tubas. Algumas vezes, esse processo remove o muco ou os tecidos que estão alojados nas tubas. A laparoscopia possibilita a visualização direta das tubas uterinas e de outras estruturas pélvicas e pode ajudar a identificar condições passíveis de interferir na fertilidade (p. ex., endometriose). Os fibroides, os pólipos e as malformações congênitas constituem possíveis fatores etiológicos que afetam o útero. Sua presença pode ser determinada por exame pélvico, histeroscopia, ultrassonografia com soro fisiológico (uma variação da ultrassonografia) e HSG. A endometriose, mesmo quando leve, está associada a redução da fertilidade (Schuiling e Likis, 2013). Fatores masculinos Uma análise do sêmen fornece informações sobre o número de espermatozoides (densidade), o percentual das formas em movimento, a qualidade do movimento anterógrado (progressão anterógrada) e morfologia (formato e forma). Um volume de 2 a 6 mℓ de sêmen alcalino aquoso é normal. Uma contagem normal é de 60 a 100 milhões de espermatozoides/mℓ. Todavia, a incidência de impregnação é diminuída apenas quando a contagem fica reduzida a menos de 20 milhões de espermatozoides/mℓ. Os homens também podem ser afetados por varicoceles (veias varicosas ao redor do testículo), que diminuem a qualidade do sêmen ao aumentar a temperatura testicular. A ejaculação retrógrada ou ejaculação dentro da bexiga é avaliada por um exame de urina após a ejaculação. Os exames de sangue para os parceiros masculinos podem incluir determinações dos níveis de testosterona, FSH e LH (ambos os quais estão envolvidos na manutenção da função testicular) e prolactina. Manejo clínico O tratamento da infertilidade é complexo e, com frequência, exige uma tecnologia avançada. O tipo específico de tratamento depende da causa do problema, quando esta pode ser identificada. Muitos casais inférteis apresentam resultados normais para ovulação, produção de espermatozoides e permeabilidade das tubas uterinas. A disfunção ovulatória é complexa, porém muitas mulheres com distúrbios da ovulação apresentam síndrome dos ovários policísticos (ver Capítulo 57) e podem ser tratadas com clomifeno, para induzir ovulação, ou com agentes de sensibilização da insulina. Uma vez normalizados os níveis de insulina, a ovulação ocorre com frequência. Algumas mulheres apresentam níveis elevados de prolactina, que inibem a ovulação; por conseguinte, são tratadas com agentes dopaminérgicos após a exclusão de adenoma hipofisário por RM. Se uma mulher tiver insuficiência ovariana prematura, podese considerar a doação de oócitos. Terapia farmacológica A ovulação induzida por meios farmacológicos é realizada quando as mulheres não ovulam por si mesmas ou ovulam de modo irregular. Essas mulheres são frequentemente tratadas com clomifeno para estimular a ovulação. O tratamento com gonadotropina também pode ser usado quando não ocorre concepção. Vários outros medicamentos são utilizados, dependendo da causa principal de infertilidade (Boxe 56.14). São usados exames de sangue e ultrassonografias para monitorar a ovulação. Podem ocorrer gestações múltiplas (i. e., gêmeos, trigêmeos ou mais) com o uso desses medicamentos. Além disso, pode ocorrer a síndrome de hiperestimulação ovariana (SHEO). Essa patologia caracterizase por ovários multicísticos aumentados e é complicada por um deslocamento de líquido do espaço intravascular para dentro da cavidade abdominal. O desvio de líquido pode resultar em ascite, derrame pleural e edema; além disso, pode ocorrer hipovolemia. Os fatores de risco consistem em idade mais jovem, história de síndrome dos ovários policísticos, níveis séricos elevados de estradiol, maior número de folículos e gravidez. Boxe 56.14 FARMACOLOGIA Medicamentos que induzem a ovulação O citrato de clomifeno é um antagonista dos estrogênios, que aumenta a liberação de gonadotropinas, resultando em ruptura folicular e ovulação. O clomifeno é utilizado quando o hipotálamo não está estimulando a hipó〼‾se a liberar o hormônio foliculoestimulante (FSH) e o hormônio luteinizante (LH). Esse medicamento estimula os folículos no ovário. É habitualmente administrado por 5 dias, começando no quinto dia do ciclo menstrual. A ovulação deve ocorrer dentro de 4 a 8 dias após a última dose. As clientes recebem instruções sobre o momento da relação sexual para facilitar a fertilização As menotropinas, uma combinação de FSH e de LH, podem ser usadas para estimular os ovários a produzir óvulos. Esses agentes são administrados em mulheres com de〼‾ciências de FSH e de LH. Quando seguidas de administração de gonadotropina coriônica humana, as menotropinas estimulam os ovários, de modo que o monitoramento por ultrassonogra〼‾a e pela determinação dos níveis de hormônios é essencial, visto que pode ocorrer estimulação excessiva A folitropina alfa, a folitropina beta e a urofolitropina podem ser utilizadas para o tratamento de distúrbios da ovulação ou para estimular um folículo e a produção do óvulo para inseminação intrauterina ou fertilização in vitro ou outras tecnologias de reprodução assistida Os agonistas do hormônio de liberação da gonadotropina (leuprolida, acetato de nafarrelina) suprimem o FSH, impedem a liberação prematura do óvulo e diminuem os 〼‾broides A bromocriptina pode ser usada no tratamento da infertilidade, dados os níveis elevados de prolactina Os supositórios vaginais de progesterona (progesterona em óleo) ajudam a melhorar o revestimento uterino depois da ovulação A urofolitropina, que contém FSH com pequena quantidade de LH, é utilizada em alguns distúrbios (p. ex., síndrome dos ovários policísticos) para estimular o crescimento dos folículos. Em seguida, administra-se clomifeno para estimular a ovulação A gonadotropina coriônica, que simula o LH, libera um óvulo após hiperestimulação e sustenta o corpo lúteo A metformina pode ser utilizada na síndrome dos ovários policísticos para induzir uma ovulação regular O ácido acetilsalicílico e a heparina podem ser usados para evitar a perda recorrente da gestação em clientes com níveis elevados de anticorpos antifosfolipídio. Inseminação artificial A inseminação artificial referese ao depósito de sêmen dentro do órgão genital feminino por meios artificiais. Quando os espermatozoides não conseguem penetrar normalmente no canal cervical, podese considerar a inseminação artificial, utilizando o sêmen do cônjuge, ou parceiro, ou o de um doador. Quando os espermatozoides do parceiro da mulher são defeituosos ou estão ausentes (azoospermia), ou quando há risco de transmissão de doença genética, podemse utilizar os espermatozoides de um doador. São estabelecidas garantias para abordar as questões legais, éticas, emocionais e religiosas. Obtémse um consentimento por escrito para proteger todas as partes envolvidas, incluindo a mulher, o doador e a criança gerada. O sêmen do doador é congelado, e o doador é avaliado para garantir que esteja livre de distúrbios genéticos e DST, incluindo infecção pelo HIV. Determinadas condições precisam ser satisfeitas para que o sêmen seja transferido para a vagina ouo útero. A mulher não deve apresentar nenhuma anormalidade do sistema genital, as tubas uterinas devem estar pérvias, e os óvulos devem estar disponíveis. No homem, os espermatozoides precisam ser normais quanto ao formato, quantidade, motilidade e resistência. O tempo de ovulação deve ser determinado o mais acuradamente possível, de modo que os 2 ou 3 dias durante os quais a fertilização é possível a cada mês possam ser usados para o tratamento. A ultrassonografia e os exames de sangue com determinação dos níveis de vários hormônios são usados para definir o melhor momento da inseminação e para monitorar a ocorrência de SHEO. A fertilização raramente é obtida com uma única inseminação. Em geral, a inseminação é tentada entre os dias 10 e 17 do ciclo; podem ser feitas três tentativas diferentes durante um ciclo. A mulher pode ter recebido clomifeno ou outros medicamentos para estimular a ovulação antes da inseminação. A receptora é colocada na posição de litotomia sobre a mesa de exame, um espéculo é inserido, e a vagina e o colo do útero são limpos com um swab com ponta de algodão para remover qualquer secreção em excesso. Os espermatozoides são lavados antes da inserção para remover substâncias bioquímicas e para selecionar o espermatozoide mais ativo. O sêmen é coletado em uma seringa estéril, e uma cânula é acoplada. Em seguida, o sêmen é dirigido para o óstio externo. Na inseminação intrauterina, o sêmen é inserido dentro da cavidade do útero. Fertilização in vitro A fertilização in vitro (FIV) envolve a estimulação ovariana, a recuperação de óvulos, a fertilização e a transferência do embrião. Esse procedimento é realizado, em primeiro lugar, ao estimular o ovário a produzir múltiplos óvulos, habitualmente com medicamentos, visto que as taxas de sucesso são maiores com mais de um embrião. São muitos os protocolos diferentes para induzir a ovulação com um ou mais agentes. As clientes são cuidadosamente selecionadas e avaliadas, e os ciclos são monitorados cuidadosamente por meio de ultrassonografia e monitoramento dos níveis hormonais. No momento adequado, os óvulos são recuperados por ultrassonografia transvaginal. Os espermatozoides e os óvulos são incubados ao mesmo tempo por até 36 h, e os embriões são transferidos no período de cerca de 48 h após a recuperação. A implantação deve ocorrer entre 3 e 5 dias. A transferência intratubária de gametas (TITG), uma variação da FIV, constitui o tratamento de escolha para clientes com insuficiência ovariana. A TITG é considerada na infertilidade inexplicada e nos casos em que há desconforto com a FIV por motivos religiosos. As indicações mais comuns para a FIV e para a TITG consistem em lesão tubária irreparável, endometriose (ver Capítulo 57), infertilidade inexplicada, espermatozoides inadequados e exposição ao DES. As taxas de sucesso para a TITG variam de 20 a 30%. Outras tecnologias de reprodução assistida Na injeção intracitoplasmática de espermatozoides (IICE), um óvulo é recuperado, conforme descrito anteriormente, e um único espermatozoide é injetado através da zona pelúcida, pela membrana do óvulo e dentro do citoplasma do oócito. O óvulo fertilizado é, em seguida, transferido de volta para a doadora. A IICE constitui o tratamento de escolha na infertilidade de fator masculino grave. As mulheres que não podem produzir seus próprios óvulos (i. e., insuficiência ovariana prematura) têm a opção de usar os óvulos de uma doadora após estimulação dos ovários da doadora. A receptora também recebe hormônios na preparação para esses procedimentos. Os casais também podem escolher essa modalidade quando a parceira apresenta um distúrbio genético que pode ser transmitido aos filhos. Manejo de enfermagem As intervenções de enfermagem que são apropriadas quando se trabalha com casais durante a avaliação de infertilidade consistem em ajudar a reduzir o estresse no relacionamento, incentivar a cooperação, proteger a privacidade, promover o entendimento e encaminhar o casal a recursos adequados, quando necessário. Como as avaliações e os tratamentos para a infertilidade são de elevado custo, consomem tempo, são invasivos e estressantes e nem sempre bemsucedidos, os casais precisam de apoio para enfrentar juntos esse processo. O tabagismo é fortemente desestimulado, visto que exerce um efeito adverso sobre o sucesso da reprodução assistida. Em muitos programas de infertilidade, são enfatizados a dieta, o exercício, as técnicas de redução de estresse, a suplementação com ácido fólico, a manutenção da saúde e a prevenção de doença. Os casais também podem considerar a adoção, viver sem filhos e mães de aluguel (participação de substituta para gerar o feto do casal infértil). As enfermeiras podem ser ouvintes valiosas e podem atuar como fontes de informações nessas deliberações. Nos EUA, a RESOLVE: The National Infertility Association, um grupo de autoajuda sem fins lucrativos, que fornecem informações e apoio a clientes inférteis, foi fundada por uma enfermeira que tinha dificuldade em conceber. A literatura sobre infertilidade produzida por esse grupo e outros grupos constitui um importante recurso para clientes e profissionais.5 (Ver seção “Recursos”, no final deste capítulo.) Cuidados de saúde préconcepção/periconcepção As enfermeiras podem desempenhar um papel decisivo ao incentivar todas as mulheres de idade reprodutiva, inclusive as com doença crônica ou deficiência, a considerar questões que possam afetar a saúde durante a gravidez (Smeltzer, 2007; Smeltzer e WetzelEffinger, 2009). As mulheres que planejam suas gestações e que estão saudáveis e bem informadas tendem a ter melhores resultados. Essa é uma questão importante, visto que metade de todas as gestações nos EUA não é planejada. As enfermeiras podem fazer a diferença por meio de orientação e aconselhamento, que antes da concepção podem diminuir a incidência de defeitos congênitos. As mulheres tabagistas devem ser incentivadas a parar de fumar, e pode ser útil oferecer aulas de cessação do tabagismo. As mulheres devem tomar suplementos de ácido fólico para evitar defeitos do tubo neural. As mulheres com diabetes devem ter um bom controle da glicemia antes da concepção. É necessário avaliar a imunidade contra a rubéola e outras imunizações, bem como uma história de defeitos genéticos; pode ser adequado efetuar um aconselhamento genético. As mulheres que recebem medicamentos teratogênicos e as que apresentam distúrbios genéticos devem ser incentivadas a discutir sobre contracepção efetiva e planos de gravidez com seu médico (ver Boxe 56.2). Gravidez ectópica A incidência de gravidez ectópica e o risco de morte por gravidez ectópica estão diminuindo. Entretanto, a gravidez ectópica continua sendo a principal causa de morte relacionada com a gravidez no primeiro trimestre. Ocorre gravidez ectópica quando um óvulo fertilizado (um blastocisto) implantase em qualquer tecido diferente do revestimento uterino (p. ex., tuba uterina, ovário, abdome, colo do útero ou tecido cicatricial de cesariana antiga). O local mais comum de implantação ectópica é a tuba uterina (ACOG, 2010) (Figura 56.6). As possíveis causas de gravidez ectópica incluem salpingite, aderências peritubárias (após infecção pélvica, endometriose, apendicite), anormalidades estruturais da tuba uterina (raras e habitualmente relacionadas com a exposição ao DES), gravidez ectópica e cirurgia tubária pregressas, vários abortos induzidos anteriores (particularmente quando seguidos de infecção), tumores que distorcem a tuba uterina e DIU e agentes contraceptivos apenas com progestina. A DIP parece constituir o principal fator de risco, e a melhora na terapiaantibiótica para essa doença evita habitualmente o fechamento completo da tuba uterina, mas pode deixar uma estenose ou estreitamento, predispondo à implantação ectópica. As chances de gravidez ectópica recorrente são três vezes maiores quando uma patologia infecciosa constituiu a causa da primeira gravidez ectópica. Depois da segunda gravidez ectópica, devese considerar a reprodução assistida. Os fatores de risco são importantes, porém todas as mulheres precisam ser orientadas sobre o tratamento precoce e manter alto índice de suspeita em caso de um período menstrual que não parece normal, presença de dor ou dor com suspeita de gravidez. As mulheres podem ter hemorragia fatal com ruptura de gravidez ectópica quando demoram a procurar assistência médica ou quando seus médicos não estão atentos para a possibilidade desse diagnóstico. Manifestações clínicas Os sinais e os sintomas variam, dependendo da ocorrência de ruptura tubária. O atraso da menstruação em 1 a 2 semanas, seguido de sangramento discreto (sangramento pequeno) ou o relato de uma menstruação discretamente anormal sugerem a possibilidade de gravidez ectópica. Os sintomas podem surgir tardiamente, com dolorimento vago no lado afetado (provavelmente em decorrência das contrações uterinas e da distensão da tuba uterina) e podem evoluir para dor aguda em cólica. A maioria das clientes apresenta alguma dor pélvica ou abdominal e algum sangramento pequeno. Podem ocorrer sintomas gastrintestinais, tontura ou vertigem. As clientes podem pensar que o sangramento anormal consiste em um período menstrual, particularmente quando houve menstruação recente e foi normal. Figura 56.6 Locais de gravidez ectópica. Se houver implantação na tuba uterina, esta tornase cada vez mais distendida e pode sofrer ruptura se a gravidez ectópica não for detectada em 4 a 6 semanas ou mais após a concepção. Quando a tuba uterina sofre ruptura, o óvulo é liberado dentro da cavidade abdominal, e a mulher apresenta dor excruciante, tontura, desmaio, náuseas e vômitos, dada a reação peritoneal ao sangue que escapa da tuba uterina. Podem ocorrer falta de ar e sintomas de choque, e os sinais de hemorragia são evidentes – pulso rápido e filiforme, pressão arterial diminuída, temperatura subnormal, inquietação, palidez e sudorese. Posteriormente, a dor tornase generalizada no abdome e irradiase para o ombro e para o pescoço, por causa do acúmulo de sangue intraperitoneal que irrita o diafragma. Avaliação e achados diagnósticos A gravidez ectópica deve ser diagnosticada prontamente para evitar a hemorragia com risco à vida, que constitui a principal complicação da ruptura. Durante o exame vaginal, podese palpar grande massa de sangue coagulado que se acumulou na pelve, atrás do útero, ou massa anexial hipersensível, embora frequentemente não haja achados anormais. Se houver suspeita de gravidez ectópica, a cliente é avaliada por ultrassonografia e pela determinação dos níveis de gonadotropina coriônica humana (hCG). Se o resultado da ultrassonografia não for conclusivo, a determinação da hCG é repetida. Os níveis de hCG (o hormônio diagnóstico da gravidez) duplicam no início da gestação normal a cada 3 dias, porém estão reduzidos na gestação anormal ou atópica. Um aumento menor que o normal deve levar à suspeita. Os níveis séricos de progesterona também são medidos. Os níveis inferiores a 5 ng/mℓ são considerados anormais, enquanto os níveis acima de 25 ng/mℓ estão associados a uma gravidez com desenvolvimento normal. Todavia, sua utilidade clínica é limitada (ACOG, 2010). A ultrassonografia transvaginal, o método habitual de diagnóstico, pode detectar uma gravidez entre 5 e 6 semanas a partir do último período menstrual. O movimento cardíaco detectável do feto fora do útero na ultrassonografia constitui um forte sinal de gravidez ectópica. Em certas ocasiões, a ultrassonografia não é definitiva, e o diagnóstico deve ser estabelecido com auxílios diagnósticos combinados (níveis de betahCG e de progesterona, ultrassonografia, exame pélvico e parecer clínico). Em certas ocasiões, o quadro clínico torna o diagnóstico relativamente fácil. Entretanto, quando os sinais e os sintomas clínicos não são • • • • • conclusivos, como frequentemente é o caso, podem ser necessários outros procedimentos. A laparoscopia pode ser usada, visto que o médico pode detectar visualmente uma gravidez ectópica não rota e, por conseguinte, evitar o risco de sua ruptura. Manejo clínico Manejo cirúrgico Quando a cirurgia é realizada precocemente, quase todas as clientes recuperamse rapidamente; se houver ruptura tubária, a mortalidade aumenta. O tipo de cirurgia é determinado pelo tamanho e pela extensão da lesão tubária local. A cirurgia conservadora consiste em “ordenhar” uma gestação ectópica partindo da tuba uterina. A ressecção da tuba uterina afetada com anastomose terminoterminal pode ser efetiva. Alguns cirurgiões procuram salvar a tuba com uma salpingotomia, que consiste em abrir e evacuar a tuba e em controlar o sangramento. A cirurgia mais extensa inclui remover a tuba isoladamente (salpingectomia) ou com o ovário (salpingoooforectomia). Dependendo da quantidade perdida de sangue, a terapia com hemoderivados e o tratamento do choque hemorrágico podem ser necessários antes e no decorrer da cirurgia. A cirurgia também pode ser indicada às mulheres com pouca probabilidade de aderir ao monitoramento rigoroso ou às que vivem a uma distância muito grande do serviço de saúde para obter o monitoramento necessário com o tratamento não cirúrgico. Terapia farmacológica Outra opção é o uso do metotrexato sem cirurgia. Como o metotrexato interrompe a gravidez ao interferir na síntese de DNA e na multiplicação das células, ele interrompe a gravidez ectópica inicial, pequena e não rota. A cliente precisa estar hemodinamicamente estável, não ter doença renal ou hepática ativa, não apresentar sinais de trombocitopenia ou leucopenia, assim como a gravidez ectópica mostrada na ultrassonografia precisa ser muito pequena e não rota. Outras indicações podem incluir ausência de atividade cardíaca fetal e ausência de sangramento abdominal ativo. Na maioria dos casos, administrase uma dose intramuscular de metotrexato de 50 mg/m2. O uso oral do metotrexato é considerado menos efetivo, e a injeção direta na massa ectópica raramente é empregada (ACOG, 2010). Os efeitos colaterais do metotrexato consistem em cólica abdominal, mucosite e lesão renal e hepática. Ocorreram reações alérgicas em clientes que receberam doses altas. Os AINEs podem aumentar a toxicidade do metotrexato, e o ácido fólico pode reduzir sua eficácia (ACOG, 2010). PROCESSO DE ENFERMAGEM Cliente com gravidez ectópica Avaliação A história de saúde inclui o padrão menstrual e qualquer sangramento (mesmo discreto) desde o último período menstrual. A enfermeira obtém a descrição da dor da cliente e sua localização. A enfermeira pergunta à cliente se ocorreu alguma dor em cólica aguda. Em seguida, a enfermeira anota se a dor se irradia para o ombro e o pescoço (possivelmente causada pela ruptura e pressão sobre o diafragma). Além disso, a enfermeira monitora os sinais vitais, o nível de consciência e a natureza e a quantidade do sangramento vaginal. Quando possível, a enfermeira avalia como a cliente está lidando com a gravidez anormal e a possível perda. Diagnóstico Diagnósticos de enfermagem Com base nos dados da avaliação, os principais diagnósticos de enfermagem podem incluir os seguintes: Dor aguda relacionada com a progressão da gravidez tubária Pesar relacionado com a perda da gravidez e o efeito antecipado sobre futuras gestações Conhecimento deficiente relacionado com o tratamentoe o efeito sobre futuras gestações Problemas colaborativos/complicações potenciais Com base nos dados de avaliação, as potenciais complicações podem incluir as seguintes: Hemorragia Choque hemorrágico. Planejamento e metas As principais metas podem consistir em alívio da dor, aceitação e resolução do luto e da perda da gravidez; maior conhecimento sobre a gravidez ectópica, seu tratamento e resultados; e ausência de complicações. Intervenções de enfermagem Alívio da dor A dor abdominal associada à gravidez ectópica pode ser descrita como dor em cólica ou dor contínua intensa. Se a cliente tiver de se submeter à cirurgia, os medicamentos préanestésicos podem proporcionar alívio da dor. No período pósoperatório, são administrados agentes analgésicos de modo liberal; isso promove a deambulação precoce e possibilita à cliente tossir e respirar profundamente. Apoio ao processo de luto Os níveis de sofrimento das clientes variam. Se a gravidez era desejada, a perda pode ser ou não expressa de modo verbal pela cliente e por seu parceiro. O impacto pode não ser totalmente percebido até muito tempo depois. A enfermeira deve estar disponível para ouvir e oferecer apoio. O parceiro da cliente, quando adequado, deve participar nesse processo. Mesmo quando a gravidez não foi planejada, há a sensação de perda e pode ocorrer uma reação de pesar. Monitoramento e manejo de complicações potenciais As complicações potenciais da gravidez ectópica consistem em hemorragia e choque. A avaliação cuidadosa é essencial para detectar o 1. a. b. 2. 3. 4. a. b. c. d. e. • • • • desenvolvimento dessas complicações. O monitoramento contínuo dos sinais vitais, o nível de consciência, a quantidade de sangramento e o equilíbrio hídrico fornecem informações sobre a possibilidade de hemorragia e sobre a necessidade de se preparar a terapia intravenosa. Indicase o repouso no leito. Os níveis de hematócrito, hemoglobina e gasometria arterial são monitorados para avaliar o estado hematológico e a adequação da perfusão tissular. Os desvios significativos nesses valores laboratoriais são relatados imediatamente, e a cliente é preparada para uma possível cirurgia. Pode haver necessidade de terapia com hemoderivados se a perda de sangue foi rápida e extensa. Quando ocorre choque hipovolêmico, o tratamento é direcionado para restabelecer a perfusão tissular e o volume sanguíneo adequado. (Ver discussão sobre os líquidos e medicamentos IV usados no tratamento do choque no Capítulo 14.) A enfermeira desempenha um importante papel na prevenção ao ficar atenta para as clientes com sangramento anormal que podem correr risco de gravidez ectópica e ao encaminhálas imediatamente para tratamento. É necessário manter um elevado índice de suspeita na prática diária quando uma mulher em idade reprodutiva, principalmente se não faz uso de método efetivo de contracepção com regularidade, queixase de desconforto abdominal ou sangramento anormal. Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados. Quando a cliente sofreu hemorragia e choque com risco à vida, essas complicações são abordadas e tratadas antes que se possa iniciar qualquer orientação aprofundada. Nesse momento, a atenção da cliente e da enfermeira concentrase na crise, não no aprendizado. Em um momento posterior, a cliente começa a fazer perguntas sobre o que aconteceu e por que foram realizados determinados procedimentos, os quais serão explicados utilizando termos que possam ser compreensíveis para a cliente angustiada e apreensiva. O parceiro da cliente será orientado junto, quando possível. Depois que a cliente se recuperar do desconforto pósoperatório, pode ser mais conveniente abordar quaisquer questões e preocupações que ela e o parceiro tenham, incluindo o efeito dessa gravidez ou de seu tratamento sobre futuras gestações. A cliente deve ser avisada de que pode ocorrer recidiva da gravidez ectópica. A cliente é instruída sobre as possíveis complicações e orientada a relatar os sinais e sintomas iniciais. É importante rever os sinais e os sintomas com a cliente e instruíla a relatar imediatamente a ocorrência de um período menstrual anormal. Cuidados contínuos. Dado o risco de gestações ectópicas subsequentes, a cliente é orientada a procurar aconselhamento préconcepção antes de considerar uma futura gestação, bem como a buscar cuidado prénatal precoce. O contato de acompanhamento possibilita que a enfermeira responda a perguntas e esclareça informações para a cliente e seu parceiro. Reavaliação Entre os resultados esperados estão: A cliente sente alívio da dor. Relata diminuição na dor e no desconforto. Deambula, conforme prescrição; realiza os exercícios de tosse e respiração profunda. A cliente começa a aceitar a perda da gestação e expressa luto ao verbalizar seus sentimentos e reações à perda. A cliente verbaliza entendimento das causas da gravidez ectópica. A cliente não apresenta complicação. Não exibe sinais de sangramento, hemorragia ou choque. Apresenta uma quantidade diminuída de secreção (no absorvente perineal). Apresenta turgor e coloração normais da pele. Exibe sinais vitais estáveis e débito urinário adequado. Os níveis de betahCG normalizamse. Perimenopausa A perimenopausa referese ao período que se estende desde os primeiros sinais da menopausa – habitualmente ondas de calor, ressecamento da vagina ou menstruação irregular – até além da cessação completa da menstruação. Foi também definida como o período em torno da menopausa, com duração de 1 ano após o último período menstrual. Com frequência, as mulheres têm crenças variadas sobre o envelhecimento, e estas precisam ser consideradas nos cuidados ou nas orientações dirigidos a clientes na perimenopausa. Manejo de enfermagem Com frequência, as mulheres na perimenopausa beneficiamse de informações sobre as alterações fisiológicas sutis em andamento. Esse momento tem sido descrito como uma oportunidade para ensinar as mulheres sobre as estratégias de promoção da saúde e de prevenção de doença. Ao discutirem preocupações relacionadas com a saúde para mulheres na meiaidade, as enfermeiras devem considerar as seguintes questões: Sexualidade, fertilidade, contracepção e DST Gravidez não planejada (se a contracepção não for usada de maneira correta e regular) Uso de contraceptivos orais – esses fornecem às mulheres na perimenopausa proteção contra o câncer de útero, câncer de ovário, anemia, gravidez e alterações fibrocísticas da mama, bem como alívio dos sintomas da perimenopausa (Alan Guttmacher Institute, 2012). Essa opção deve ser discutida com mulheres na perimenopausa. As mulheres que fumam e com 35 anos ou mais de idade não devem receber contraceptivos orais, dado o risco aumentado de DCV. A contracepção foi discutida detalhadamente neste capítulo Saúde da mama. Cerca de 16% dos casos de câncer de mama ocorrem em mulheres na perimenopausa, de modo que o autoexame da mama, os exames físicos de rotina e as mamografias são fundamentais. Menopausa A menopausa referese à cessação fisiológica permanente da menstruação associada ao declínio da função ovariana (Porth e Matfin, 2009). A maioria das mulheres deixa de menstruar entre 48 e 55 anos de idade. A pósmenopausa é o período que começa aproximadamente 1 ano após a cessação da menstruação. A menopausa pode estar associada a alguma atrofia do tecido mamário e dos órgãos genitais, perda da densidade óssea e alterações vasculares. A menopausa começa de modo gradual e é habitualmente assinalada por alterações na menstruação. O fluxo mensal pode aumentar ou diminuir, tornarse irregular e, por fim, cessar. Com frequência, o intervalo entre os períodos menstruais é maior; não é raro haver um lapso de vários meses entre os períodos. As alterações que sinalizam a menopausa começam a ocorrer precocemente, no finalda terceira década de vida, quando a ovulação ocorre com menos frequência, os níveis de estrogênio flutuam e os níveis de FSH aumentam em uma tentativa de estimular a produção de estrogênio (Porth e Matfin, 2009). Sangramento na pósmenopausa O sangramento que ocorre em 1 ano após cessar a menstruação na menopausa precisa ser investigado, e devese considerar a possibilidade de neoplasia maligna até prova em contrário. Podese utilizar uma ultrassonografia transvaginal para medir a espessura do revestimento endometrial (Fischbach e Dunning, 2009). O revestimento uterino em mulheres na pósmenopausa deve ser fino, dados os baixos níveis de estrogênio. Um revestimento mais espesso justifica uma avaliação adicional por meio de biopsia endometrial ou DeC. Manifestações clínicas Em razão dessas alterações hormonais, algumas mulheres percebem menstruações irregulares, hipersensibilidade das mamas e alterações do humor muito tempo antes que ocorra a menopausa. Acreditase que as ondas de calor e a sudorese noturna relatadas por algumas mulheres sejam causadas por alterações hormonais, indicando uma instabilidade vasomotora. Essas podem variar quanto à sua intensidade, desde uma sensação de calor pouco perceptível até uma sensação de calor extremo, acompanhado de sudorese profusa, causando desconforto, transtorno do sono e fadiga subsequente. Outras alterações físicas podem incluir aumento da perda óssea (ver Capítulo 42). Todo o sistema geniturinário é afetado pelos níveis reduzidos de estrogênio. As alterações na área vulvovaginal podem incluir adelgaçamento gradual dos pelos púbicos e enrugamento gradual dos lábios do pudendo. As secreções vaginais diminuem, e as mulheres podem relatar dispareunia (desconforto durante a relação sexual). O pH vaginal aumenta durante a menopausa, predispondo a mulher a infecções bacterianas e vaginite atrófica. Em consequência, podem ocorrer secreção, prurido e queimação vulvar. Algumas mulheres relatam a ocorrência de fadiga, esquecimento, ganho de peso, irritabilidade, transtorno do sono, sensação de “depressão” e sensações de pânico. As queixas da menopausa precisam ser avaliadas com cuidado, visto que podem indicar outros distúrbios. Na maioria dos casos, as mulheres têm poucos problemas e sentese aliviadas por ficarem livres dos períodos menstruais. Considerações psicológicas As reações e os sentimentos das mulheres em relação à perda da capacidade de reprodução podem variar. Algumas podem se sentir confusas em relação a seu papel como mulher, enquanto outras têm uma sensação de liberdade sexual e pessoal. As mulheres podem se sentir aliviadas pelo fato de a fase reprodutiva de suas vidas estar encerrada. As visões pessoais de cada mulher sobre a menopausa e as circunstâncias afetam a sua resposta e precisam ser consideradas de modo individual. As enfermeiras precisam ser sensíveis a todas as possibilidades e reconhecer os indícios fornecidos pela cliente. Manejo clínico As mulheres que se aproximam da menopausa frequentemente têm muitas preocupações acerca de sua saúde – algumas baseadas em uma história familiar de doença cardíaca, osteoporose ou câncer. Cada mulher precisa estar o mais capacitada possível sobre as opções de saúde e deve ser incentivada a discutir suas preocupações com seu médico, de modo que possa tomar uma decisão fundamentada sobre o manejo dos sintomas da menopausa e a manutenção de sua saúde. Terapia hormonal Foi constatado que a TH ou a terapia hormonal da menopausa (anteriormente designada como terapia de reposição hormonal [TRH]) aumenta alguns problemas de saúde e é menos efetiva na prevenção de outros distúrbios do que se acreditava previamente. Embora a TH diminua as ondas de calor e reduza o risco de fraturas osteoporóticas e de câncer colorretal, os estudos realizados mostraram que essa aumenta o risco de câncer de mama, ataque cardíaco, acidente vascular encefálico (AVE) e coágulos sanguíneos (Heiss, Wallace, Anderson et al., 2008). Por conseguinte, os benefícios da TH são inadequados diante do risco aumentado desses outros distúrbios. Em razão desses achados, muitas mulheres interromperam a TH ou têm relutância em iniciála. Embora algumas mulheres optem por usar a TH em baixas doses seguindo aconselhamento de seus médicos, o efeito dessas doses baixas não foi estudado. A recomendação atual para o tratamento das ondas de calor com TH consiste em usar a menor dose possível pelo intervalo mais curto possível. As enfermeiras precisam estar orientadas sobre as questões relacionadas com esse assunto para serem capazes de responder às perguntas das mulheres sobre o uso da TH. Métodos de administração Tanto o estrogênio quanto a progestina são prescritos a mulheres que não se submeteram a histerectomia; a progestina impede a proliferação do revestimento uterino e a hiperplasia. As mulheres que não têm mais útero, por terem realizado histerectomia, podem tomar estrogênio sem progestina (i. e., estrogênio sem oposição), visto que não há mais o risco de hiperplasia do revestimento uterino induzida pelo estrogênio. Embora seja observado ligeiro aumento no risco de AVE em mulheres que utilizam apenas estrogênio após a histerectomia, o risco de câncer de mama permanece inalterado (Heiss et al., 2008). Algumas mulheres administram tanto estrogênio quanto progestina diariamente; outras usam estrogênio por 25 dias consecutivos a cada mês, com progestina administrada em ciclos (p. ex., 10 a 14 dias do mês). As mulheres que tomam TH por 25 dias frequentemente têm sangramento após • • concluir a progestina. Outras mulheres fazem uso diário de estrogênio e progestina e, em geral, não apresentam sangramento. Em certas ocasiões, exibem um pequeno sangramento irregular, que deve ser avaliado por seu médico. A administração de progestina pode ser oral, transdérmica, vaginal ou intrauterina. Os adesivos de estrogênio, que são trocados 1 ou 2 vezes/semana, representam outra opção, porém exigem uso combinado de uma progestina se a cliente ainda tiver o útero. Outro tipo de adesivo proporciona tratamento com estrogênio e progestina. A pele deve estar seca na região de aplicação, e a limpeza com álcool pode melhorar a adesão. O tratamento vaginal com um creme de estrogênio, supositório ou anel de estradiol pode ser usado para sintomas vasomotores, ressecamento ou atrofia vaginais (Karch, 2012). O anel de estradiol consiste em um pequeno anel vaginal flexível que libera lentamente o estrogênio em pequenas doses durante 3 meses. Riscos e benefícios A TH é contraindicada para mulheres com história de câncer de mama, trombose vascular, comprometimento da função hepática, câncer de útero e sangramento vaginal anormal não diagnosticado. O risco de tromboembolismo venoso aumenta com a TH (ACOG, 2013b). As mulheres que optam pela TH devem ser instruídas sobre sinais e sintomas de trombose venosa profunda (TVP) e de embolia pulmonar (EP) e orientadas a relatar imediatamente a ocorrência desses sinais e sintomas (ver discussão sobre a TVP no Capítulo 30 e sobre a EP no Capítulo 23). As mulheres que recebem TH devem ser avaliadas quanto à ocorrência de rubor nas pernas, hipersensibilidade, dor torácica e falta de ar. Além disso, precisam ser informadas sobre a importância do cuidado de acompanhamento regular, incluindo exame físico e mamografia anuais. Indicase uma biopsia de endométrio para qualquer sangramento irregular. Como o risco de complicações aumenta proporcionalmente ao tempo de utilização da TH, esta deve ser usada pelo menor tempo possível (Karch, 2012). O estrogênio, empregado isoladamente ou em combinação com uma progestina, não diminui o risco de demência nem de comprometimento cognitivo. Terapia alternativapara as ondas de calor Como as mulheres frequentemente procuram informações sobre alternativas para o uso da TH, as enfermeiras precisam ter conhecimento sobre outras abordagens que as mulheres possam utilizar para promover a saúde nos períodos de perimenopausa e pósmenopausa. As ondas de calor problemáticas têm sido tratadas com baixas doses de venlafaxina e outros medicamentos. De modo semelhante, a vitamina B6 e a vitamina E podem ser efetivas. Algumas mulheres se interessam por outros tratamentos alternativos (p. ex., estrogênios e progestinas naturais, black cohosh, ginseng, dongquai ou produtos à base de soja e várias outras preparações fitoterápicas). Todavia, são poucos os dados sobre sua segurança e efetividade. Por conseguinte, a avaliação das mulheres na menopausa deve abordar o uso de terapias complementares e alternativas e de suplementos. Manutenção da saúde óssea A aceleração da perda óssea em consequência de osteoporose e deterioração da microestrutura do tecido ósseo ocorre na menopausa e leva a maior fragilidade óssea e risco de fraturas. (A osteoporose e seu tratamento são descritos detalhadamente no Capítulo 42.) Manutenção da saúde cardiovascular Diversas estratégias podem ajudar a diminuir o risco de doença cardíaca em mulheres, incluindo mudanças no estilo de vida e estratégias comportamentais. (A prevenção e o tratamento da DCV são discutidos detalhadamente no Capítulo 25.) Estratégias comportamentais Como sinalizado, a prática regular de exercícios físicos é benéfica. Pode também reduzir o estresse, aumentar o bemestar e melhorar a autoimagem. Além disso, o exercício de sustentação de peso pode evitar a perda de tecidos muscular e ósseo. As mulheres também são incentivadas a participar de outras atividades de promoção da saúde, as quais incluem triagem de saúde regular, recomendada para mulheres na época da menopausa, a saber: exames ginecológicos, mamografias, colonoscopia, testes de sangue oculto nas fezes e de densidade mineral óssea, se houver risco de osteoporose. Terapia nutricional As mulheres são estimuladas a diminuir o consumo de gorduras e de calorias e a aumentar a ingestão de cereais integrais, fibras, frutas e vegetais. Manejo de enfermagem As enfermeiras podem incentivar as mulheres a encarar a menopausa como uma alteração natural, resultando em ausência de sintomas relacionados com a menstruação. Não há nenhuma relação entre menopausa e problemas de saúde mental; todavia, as circunstâncias sociais (p. ex., filhos adolescentes, parceiros doentes e pais dependentes ou doentes) que podem coincidir com a menopausa podem ser estressantes. Devemse empreender medidas para promover a saúde geral (ACOG, 2012a). A enfermeira explica à cliente que a cessação das menstruações é uma ocorrência normal, que raramente é acompanhada de sintomas ou doença nervosa. A duração média de vida esperada atualmente depois da menopausa para a mulher é de 30 a 35 anos, o que pode abranger o mesmo número de anos da fase reprodutiva de sua vida. O desejo sexual normal continua, e as mulheres mantêm sua resposta habitual ao sexo por muito tempo depois da menopausa. Muitas mulheres depois da menopausa apresentam saúde melhor que antes, particularmente as que sofriam de dismenorreia. A avaliação feita pela mulher sobre ela própria e o seu valor, agora e no futuro, tende a afetar a sua reação emocional à menopausa. A orientação e o aconselhamento da cliente sobre estilos de vida saudáveis, promoção da saúde e triagem de saúde são de suma importância (ACOG, 2012a) (Boxe 56.15). Boxe 56.15 LISTA DE VERIFICAÇÃO DO CUIDADO DOMICILIAR Mulher que se aproxima da menopausa Ao concluírem as orientações sobre os cuidados domiciliares, a cliente ou o cuidador familiar serão capazes de: CLIENTE CUIDADOR FAMILIAR Descrever a menopausa como um período normal na vida da mulher. ✓ ✓ Assinalar que a fadiga e o estresse podem agravar as ondas de calor. ✓ ✓ • • • • • • ° ° ° ° ° • ° ° ° ° ° ° ° ° Explicar que uma dieta nutritiva e o controle do peso aumentam o bem-estar físico e emocional. ✓ ✓ Explicar a razão da prática de exercícios físicos durante pelo menos 30 min, 3 ou 4 vezes/semana, para manter uma boa saúde. ✓ ✓ Descrever a participação em atividades externas como bené〼‾ca para reduzir a ansiedade e a tensão. ✓ ✓ Identi〼‾car as seguintes alterações que ocorrem frequentemente na meia-idade: saída de casa dos 〼‾lhos, envelhecimento, dependência dos pais, possível perda de entes queridos. ✓ ✓ Descrever essa fase da vida como detentora do potencial de crescimento intelectual, realização pessoal e início de novas atividades. ✓ ✓ Explicar os seguintes pontos sobre a atividade sexual: A atividade sexual frequente ajuda a manter a elasticidade da vagina. ✓ A contracepção é aconselhada até 1 ano depois da última menstruação. ✓ O sexo seguro é importante em qualquer idade. ✓ O funcionamento sexual pode ser aumentado na meia-idade. ✓ Identi〼‾car a razão do exame físico anual para a triagem de problemas e para promover a saúde geral. ✓ Identi〼‾car estratégias e métodos para evitar ou tratar os seguintes problemas: Prurido ou sensação de queimação na área vulvar: consultar o médico para excluir anormalidades dermatológicas e, quando apropriado, para obter uma prescrição de creme lubri〼‾cante ou hormonal. ✓ Dispareunia (relação sexual dolorosa) devido ao ressecamento vaginal: usar um lubri〼‾cante hidrossolúvel, creme hormonal ou espuma contraceptiva. ✓ Diminuição do tônus muscular perineal e controle vesical: praticar diariamente os exercícios de Kegel (contrair os músculos perineais como se fosse interromper a micção; prender por 5 a 10 s e relaxar; repetir com frequência durante o dia). ✓ Pele seca: usar creme emoliente neutro e loções para evitar o ressecamento da pele. ✓ Controle do peso: participar de um grupo de apoio para redução do peso, como vigilantes do peso ou grupo semelhante, quando apropriado, ou consultar uma nutricionista para orientação sobre a tendência a ganhar peso, particularmente nos quadris, nas coxas e no abdome. ✓ Osteoporose: observar o aporte recomendado de cálcio e vitamina D, incluindo suplementos de cálcio, quando indicado, para diminuir o processo da osteoporose; evitar o tabagismo, o consumo de bebida alcoólica e a cafeína em excesso, que aumentam a perda óssea. Realizar exercícios de sustentação de peso. Efetuar teste de densitometria óssea, quando apropriado. ✓ Risco de infecção urinária (ITU): ingerir 6 a 8 copos de água diariamente, como possível maneira de reduzir a incidência de ITU relacionada com as alterações atró〼‾cas da uretra. ✓ Sangramento vaginal: relatar imediatamente qualquer sangramento depois de 1 ano sem menstruação ao médico, não importa quão mínimo seja. ✓ Exercícios de pensamento crítico 1 Uma estudante universitária de 20 anos de idade chega à clínica de saúde da escola para um exame ginecológico, visto que ela pretende ter relação sexual com seu novo namorado. Ela pede conselhos sobre como evitar a gravidez e as DST. Qual a base de evidências para os métodos contraceptivos para essa estudante universitária? Especi〼‾car os critérios empregados para avaliar a força das evidências para as práticas que você identi〼‾ca. 2 Uma cliente de 28 anos de idade acompanhada de seu parceiro retorna a seu serviço pós-operatório depois de uma gravidez ectópica. Está alerta e orientada no momento de despertar. O nível de dor é de 4 (na escala numérica de 0 a 10) e ela está chorando. A pressão arterial é de 128/78 mmHg, a frequência cardíaca de 128 bpm, a frequência respiratória é de 18 incursões/min e regular, e a temperatura é de 36,7°C. Descreva suas prioridades para avaliação e cuidado de enfermagem dessa cliente e de seu parceiro. 3 Duranteseu exame físico anual, uma mulher de 45 anos de idade declara estar preocupada com a aproximação da menopausa. Identi〼‾que quais avaliações adicionais são necessárias nesse momento. Desenvolva um plano de orientação que inclua elementos de importância crucial necessários a essa mulher que se aproxima da menopausa. Que recursos você recomendaria? Referências *O asterisco indica pesquisa em enfermagem. **Os asteriscos duplos indicam referência clássica. Livros **Annon, J. S. (1976). The behavioral treatment of sexual problems. Honolulu, HI: Enabling Systems. Carcio, H., & Secor, M. C. (2010). Advanced health assessment of women (2nd ed.). New York: Springer. Eliopoulos, C. (2010). Gerontological nursing (7th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Fischbach, F. T., & Dunning, M. B. (2009). A manual of laboratory and diagnostic tests (8th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Fritz, M. A., & Speroff, L. (2011). Clinical gynecologic endocrinology and infertility. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Hatcher, R., Trussell, J., Nelson, A., et al. (2011). Contraceptive technology (20th ed.). New Tork: Ardent Media. Hawkins, J. W., RobertoNichols, D. M., & StanleyHaney, J. L. (2012). Guidelines for nurse practitioners in gynecologic settings (10th ed.). New York: Springer. Karch, A. 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Recursos American Congress of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), www.acog.org American Society for Reproductive Medicine (ASRM), www.asrm.org Amnesty International (resource for activists to end FGM), www.amnesty.org Association of Reproductive Health Professionals (ARHP), www.arhp.org Association of Women’s Health, Obstetric and Neonatal Nurses (AWHONN), www.awhonn.org DES Action USA, www.desaction.org Emergency Contraception, ec.princeton.eduFemale Genital Cutting Education and Networking Project (provides fact sheets, state policies, periodicals), www.fgmnetwork.org Futures Without Violence (formerly Family Violence Prevention Fund), www.endabuse.org Guttmacher Institute, www.guttmacher.org Health Promotion for Women With Disabilities, Villanova University College of Nursing, www.nurseweb.villanova.edu/womenwithdisabilities National Coalition Against Domestic Violence (NCADV), www.ncadv.org North American Menopause Society (NAMS), www.menopause.org Nurse Practitioners in Women’s Health (NPWH), www.npwh.org Planned Parenthood Federation of America, www.plannedparenthood.org RESOLVE: The National Infertility Association, www.resolve.org Sexuality Information and Education Council of the United States (SIECUS), www.siecus.org ___________ 1 N.R.T.: No Brasil, o Ministério da Saúde aprovou a Portaria 2.836/2011, que trata da Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt2836_01_12_2011.html). 2 N.R.T.: No Brasil, a contracepção de emergência na forma de pílulas orais está regulamentada em norma técnica do Ministério da Saúde, desde 1996, para uso em ações de planejamento familiar (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/anticoncepcao_emergencia_perguntas_respostas_2ed.pdf). 3 N.R.T.: No Brasil, um recurso é A REDE CE – Rede Brasileira de Promoção de Informações e Disponibilização da Contracepção de Emergência (http://redece.org/sobrearedece/). 4 N.R.T.: No Brasil, o Ministério da Saúde, em 2011, publicou a segunda edição da Atenção humanizada ao abortamento: norma técnica (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_humanizada_abortamento_norma_tecnica_2ed.pdf). 5 N.R.T.: No Brasil, a Portaria 3.149/2012, do Ministério da Saúde, trata dos recursos financeiros aos estabelecimentos de saúde que realizam procedimentos de atenção à reprodução humana assistida, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo fertilização in vitro e/ou injeção intracitoplasmática de espermatozoides (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt3149_28_12_2012.html). 1 2 3 4 5 6 7 Objetivos do aprendizado Após ler este capítulo, você será capaz de: Comparar os vários tipos de infecções vaginais, bem como os sinais, sintomas e tratamentos de cada uma delas. Utilizar o processo de enfermagem como referência para o cuidado à cliente com infecção vulvovaginal. Utilizar o processo de enfermagem como referência para o cuidado à cliente com herpes genital. Discutir os sinais e os sintomas, o manejo e o cuidado de enfermagem dos processos in瘀漀amatórios e distúrbios estruturais do sistema genital feminino. Comparar os sinais e sintomas, o manejo e as implicações do cuidado de enfermagem dos distúrbios benignos e malignos do sistema genital feminino. Usar o processo de enfermagem como referência para o cuidado à cliente que se submete a histerectomia. Descrever o manejo de enfermagem para a cliente que se submete a radioterapia para o câncer do sistema genital feminino. Glossário abscesso: coleção de material purulento braquiterapia: radiação liberada por um dispositivo interno colocado próximo ao tumor candidíase: infecção causada por espécies de Candida ou leveduras; também designada como vaginite por monília ou infecção por levedura cervicite mucopurulenta: in瘀漀amação do colo do útero com exsudato; quase sempre relacionada com uma infecção por clamídias cisto de Bartholin: tumor benigno em forma de saco cheio de conteúdo em uma das duas glândulas vestibulares, ou de Bartholin, na vulva cistocele: deslocamento da bexiga para baixo em direção à vagina colporra䎋 a: reparo da vagina condilomas: crescimentos verrucosos, indicando a presença do papilomavírus humano conização: procedimento em que um fragmento de tecido cervical em formato de cone é removido em consequência da detecção de células anormais; também denominada biopsia em cone crioterapia: destruição tecidual por congelamento (p. ex., com nitrogênio líquido) displasia: termo relacionado com alterações celulares anormais; pode ser encontrada no esfregaço de Papanicolaou e em relatos de biopsia cervical distro䎋 a vulvar: espessamento ou lesões da vulva; provoca habitualmente prurido e pode exigir biopsia para excluir a possibilidade de neoplasia maligna doença in䎐 amatória pélvica (DIP): condição in瘀漀amatória da cavidade pélvica, habitualmente de uma infecção sexualmente transmissível ducha: lavagem do canal vaginal com líquido endocervicite: in瘀漀amação da mucosa e das glândulas do colo do útero endometriose: presença de tecido endometrial em localizações anormais; provoca dor na menstruação, cicatrização e possível infertilidade enterocele: protrusão da parede intestinal na direção da vagina exenteração pélvica: procedimento cirúrgico de grande porte, que consiste na remoção dos órgãos pélvicos fístula: abertura anormal entre dois órgãos ou locais (p. ex., vesicovaginal, entre a bexiga e a vagina; retovaginal, entre o reto e a vagina) hifas: estruturas 攀lamentosas longas e rami 攀cadas características de fungos como Candida, visualizadas ao exame microscópico histerectomia: remoção cirúrgica do útero líquen escleroso: distúrbio benigno da vulva miomectomia: remoção cirúrgica de 攀broides uterinos ooforectomia: remoção cirúrgica do ovário perineorra䎋 a: reparo cirúrgico de lacerações perineais procedimento de excisão por eletrocautério de alça (PEEA [LEEP – loop eletrocautery excision procedure]): cirurgia com alça de alta frequência (CAF) em que se utiliza laser para remover uma 攀na camada de tecido cervical após achados de biopsia anormais retocele: protrusão do reto em direção à vagina salpingite: in瘀漀amação da tuba uterina salpingo-ooforectomia: remoção do ovário e da tuba uterina (a remoção da tuba uterina apenas é uma salpingectomia) síndrome dos ovários policísticos (SOPC): distúrbio endócrino complexo, que resulta em anovulação crônica, excesso de androgênio e múltiplos cistos ovarianos terapia lipossomal: quimioterapia liberada em um lipossomo, um carreador de medicamento atóxico tumor 䎋 broide: tumor habitualmente benigno, que se origina no tecido muscular do útero vaginite: in瘀漀amação da vagina, habitualmente secundária a uma infecção vestibulite: in瘀漀amação do vestíbulo da vulva vestibulodinia: tipo mais comum de vulvodinia, caracterizada por dor aguda em resposta à pressão aplicada sobre a área vestibular da vulva vulvectomia: remoção do tecido da vulva vulvite: in瘀漀amação da vulva, habitualmente secundária a uma infecção ou irritação vulvodinia: condição dolorosa que afeta a vulva Os distúrbios do sistema genital feminino podem ser insignificantes ou graves; todavia, com frequência, produzem ansiedade e angústia. Alguns distúrbios são autolimitados e somente provocam discreta inconveniência para a mulher; outros comportam risco à vida e exigem atenção imediata e terapia a longo prazo. Muitos distúrbios são controlados pela cliente em casa, enquanto outros necessitam de hospitalização e intervenção cirúrgica. As enfermeiras não apenas precisam ter um conhecimento acerca desses distúrbios, como também precisam ser sensíveis às preocupações e ao possível desconforto da cliente ao discutir e lidar com esses distúrbios. INFECÇÕES VULVOVAGINAIS As infecções vulvovaginais são comuns, e as enfermeiras desempenham um importante papel, fornecendo informações passíveis de evitar sua ocorrência. Para ajudar a evitar essas infecções, as mulheres precisam compreender sua própria anatomia e saúde vulvovaginal. A vagina é protegida contra a infecção por seu pH normalmente baixo (de 3,5 a 4,5), que é mantido, em parte, pelas ações do Lactobacillus acidophilus, a bactéria predominante do ecossistema vaginal saudável. Essas bactérias suprimem o crescimento dos anaeróbios e produzem ácidoláctico, que mantém o pH normal, e peróxido de hidrogênio, que é tóxico para os anaeróbios. O risco de infecção aumenta se a resistência da mulher for reduzida por estresse ou doença, se o pH for alterado ou se for introduzido um patógeno. É necessária a continuidade de pesquisas sobre as causas e os tratamentos, com maneiras mais apropriadas de estimular o crescimento dos lactobacilos. O epitélio da vagina é altamente responsivo ao estrogênio, que induz a formação de glicogênio. A degradação subsequente do glicogênio em ácido láctico contribui para a produção de um pH vaginal baixo. Quando o estrogênio diminui durante a lactação e a menopausa, o glicogênio também é reduzido. Com a formação reduzida de glicogênio, podem ocorrer infecções. Além disso, à medida que a produção de estrogênio cessa durante os períodos de peri e pósmenopausa, a vagina e os lábios do pudendo podem sofrer atrofia (tornamse finos), de modo que a área vaginal fica mais suscetível a infecções. Quando as clientes são tratadas com antibióticos, a flora vaginal normal é reduzida. Isso resulta em alteração do pH e crescimento de fungos. Outros fatores que podem iniciar infecções ou predispor a elas incluem o contato com um parceiro infectado e o uso de roupas apertadas, não absorventes e que retêm calor e umidade. Alerta de domínio do conceito As enfermeiras devem ser capazes de identi䎋 car os fatores de risco das infecções vulvovaginais, a 䎋 m de instruir efetivamente as clientes sobre a • • • • • • • • • • • • • • • prevenção desses distúrbios comuns. O Boxe 57.1 fornece um resumo dessa informação essencial. A vaginite (inflamação da vagina) referese a um grupo de condições que provocam sintomas vulvovaginais, como prurido, irritação, sensação de queimação e secreção anormal. A vaginite bacteriana constitui a causa mais comum, seguida da candidíase vulvovaginal e tricomoníase (Centers for Disease Control and Prevention [CDC], 2010a) (Tabela 57.1). Outros tipos incluem a vaginite descamativa, a vaginite atrófica, várias condições dermatológicas da vulva e a vulvodinia. A secreção vaginal normal, que pode ocorrer em quantidades discretas durante a ovulação ou exatamente antes do início da menstruação, tornase clara a branca, inodora e viscosa. Fica mais profusa quando há vaginite. A vaginite pode ser acompanhada de uretrite, dada a proximidade da uretra em relação à vagina. A secreção da vaginite pode provocar prurido, dor, rubor, sensação de queimação ou edema, que podem ser agravados pela micção e defecação. Uma vez identificado o agente etiológico, prescrevese o tratamento apropriado (discutido mais adiante). Esse tratamento pode incluir um medicamento oral ou um medicamento local que é inserido na vagina por meio de um aplicador. Boxe 57.1 FATORES DE RISCO Infecções vulvovaginais Pré-menarca Gravidez Perimenopausa/menopausa Higiene pessoal de 攀ciente Roupas íntimas apertadas Roupas sintéticas Ducha frequente Alergia Uso de contraceptivos orais Uso repetido ou a longo prazo de antibióticos de amplo espectro Diabetes melito Baixos níveis de estrogênio Relação sexual com parceiro infectado Contato orovaginal (as leveduras podem residir na boca e no trato gastrintestinal) Infecção pelo vírus da imunode 攀ciência humana. Adaptado de Schuiling KD, Likis FE. (2013) Women’s gynecologic health (2nd ed.). Burlington, MA: Jones & Bartlett Candidíase A candidíase vulvovaginal é uma infecção fúngica ou por leveduras, causada por cepas de Candida (Tabela 57.1). Candida albicans é responsável pela maioria dos casos, porém outras cepas, como Candida glabrata, também podem ser implicadas. Muitas mulheres com ecossistema vaginal saudável abrigam Candida, porém são assintomáticas. Determinadas condições favorecem a mudança de um estado assintomático para a colonização com sintomas. Por exemplo, o uso de antibióticos diminui as bactérias, alterando, dessa maneira, os microrganismos protetores naturais que estão habitualmente presentes na vagina. Embora possam ocorrer infecções a qualquer momento, elas são observadas mais comumente durante a gravidez ou na presença de uma condição sistêmica, como diabetes melito ou infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), ou quando as clientes estão tomando determinados medicamentos, como corticosteroides ou contraceptivos orais (Schuiling e Likis, 2013). As informações sobre a incidência são incompletas, visto que não há um mecanismo para relatar os casos. Manifestações clínicas As manifestações clínicas incluem secreção vaginal que provoca prurido e irritação subsequente. A secreção pode ser aquosa ou espessa, porém exibe habitualmente uma aparência esbranquiçada, semelhante a um queijo cottage. Em geral, os sintomas são mais intensos exatamente antes da menstruação e podem ser menos responsivos ao tratamento durante a gravidez. O diagnóstico é estabelecido pela identificação microscópica dos esporos e das hifas (estruturas filamentosas longas e ramificadas) em uma lâmina de vidro preparada de uma amostra de secreção misturada com hidróxido de potássio. Na presença de candidíase, o pH é de 4,5 ou menos (Schuiling e Likis, 2013). As manifestações podem ser muito simples, ocorrendo esporadicamente em mulheres saudáveis; ou recorrentes e complicadas, em mulheres portadoras de diabetes melito ou grávidas, imunocomprometidas ou obesas. TABELA 57.1 Infecções vaginais e vaginite. Infecção Causa Manifestações clínicas Estratégias de manejo Candidíase Candida albicans, glabrata ou tropicalis In瘀漀amação do epitélio vaginal, produzindo prurido, irritação avermelhada Secreção esbranquiçada, semelhante a queijo, 攀xada ao epitélio Erradicar o fungo por meio da administração de um agente antifúngico. Alguns cremes e supositórios vaginais usados com mais frequência são o miconazol e o clotrimazol Rever outros fatores etiológicos (p. ex., antibioticoterapia, roupas íntimas de náilon, roupas apertadas, gravidez e contraceptivos orais) Avaliar quanto à presença de diabetes melito e infecção pelo vírus da imunode 攀ciência humana em clientes com monília recorrente Vaginose bacteriana associada a Gardnerella Gardnerella vaginalis e anaeróbios vaginais Habitualmente sem edema ou eritema da vulva ou da vagina Secreção branco-acinzentada ou branco- amarelada, que adere à vulva externa e às paredes da vagina Administrar metronidazol, com instruções sobre a necessidade de evitar o consumo de álcool ao usar esse medicamento Se a infecção for recorrente, deve-se tratar o parceiro Vaginite por Trichomonas vaginalis Trichomonas vaginalis In瘀漀amação do epitélio vaginal, produzindo sensação de queimação e ardência Secreção vaginal amarelo-esbranquiçada ou amarelo-esverdeada espumosa Aliviar a in瘀漀amação, restaurar a acidez e restabelecer a 瘀漀ora bacteriana normal; fornecer metronidazol oral para a cliente e o parceiro Bartolinite (infecção da glândula vestibular maior) Escherichia coli T. vaginalis Esta 攀lococo Estreptococo Gonococo Eritema ao redor da glândula vestibular Tumefação e edema Glândula vestibular com abscesso Drenar o abscesso; fornecer antibioticoterapia; excisar a glândula das clientes com bartolinite crônica Cervicite – aguda e crônica Chlamydia Gonococo Estreptococo Muitas bactérias patogênicas Secreção purulenta profusa Dor nas costas Polaciúria e urgência Determinar a etiologia – realizar um exame citológico do esfregaço cervical e de culturas apropriadas. Erradicar o microrganismo gonocócico, quando presente: penicilina (conforme solicitado) ou espectinomicina ou tetraciclina, se a cliente for alérgica à penicilina Tetraciclina, doxiciclina para erradicar as clamídias Erradicar outras causasVaginite atró 攀ca Falta de estrogênio; de 攀ciência de glicogênio Secreção e irritação decorrente do pH alcalino das secreções vaginais Fornecer terapia com estrogênio vaginal tópico; melhorar a nutrição, se necessário; aliviar o ressecamento com o uso de medicamentos umidi 攀cantes Adaptada de Karch AM. (2012) 2012 Lippincott’s nursing drug guide. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Manejo clínico A meta do manejo consiste em eliminar os sintomas. Os tratamentos incluem agentes antifúngicos, como creme de miconazol, nistatina, clotrimazol e terconazol. Esses agentes são introduzidos na vagina com um aplicador na hora de dormir. Há ciclos de tratamento disponíveis de 1, 3 e 7 noites (Karch, 2012). Dispõese também de medicação oral (fluconazol) em uma dose única. Devese observar um alívio em 3 dias. Alguns cremes vaginais estão disponíveis sem prescrição; todavia, as clientes são aconselhadas a usar esses cremes apenas se tiverem certeza de ter uma infecção por levedura ou monília. Com frequência, as clientes utilizam esses remédios para outros problemas diferentes das infecções por leveduras. Se uma mulher não tiver certeza sobre a causa dos sintomas ou se não obter alívio após o uso desses cremes, ela deve ser instruída a procurar imediatamente cuidados de saúde. As infecções por levedura podem tornarse recorrentes ou complicadas. As mulheres podem ter mais de quatro infecções em 1 ano e sintomas graves, por causa de condições preexistentes, como diabetes melito ou imunossupressão. A imunidade celular pode constituir um fator. As mulheres com infecções recorrentes por leveduras beneficiamse de um exame ginecológico completo. Vaginose bacteriana A vaginose bacteriana é causada pela proliferação de bactérias anaeróbicas e Gardnerella vaginalis normalmente encontrada na vagina e na ausência de lactobacilos (ver Tabela 57.1). Os fatores de risco incluem uso de duchas após a menstruação, tabagismo, vários parceiros sexuais e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST). A vaginose bacteriana não é considerada uma DST, porém está associada à atividade sexual, e a incidência está aumentada em parceiros sexuais da mesma mulher (Schuiling e Likis, 2013). Manifestações clínicas A vaginose bacteriana pode ocorrer durante todo o ciclo menstrual e não provoca desconforto local nem dor. Mais de 50% das clientes com vaginose bacteriana não percebem quaisquer sintomas. A secreção, quando percebida, é mais densa que o normal e apresenta coloração brancoacinzentada a brancoamarelada. Caracterizase por odor semelhante ao de peixe, que é particularmente percebido após a relação sexual ou durante a menstruação, dado o aumento do pH vaginal. O pH da secreção é habitualmente superior a 4,7, por causa das aminas que resultam das enzimas dos anaeróbios. O odor semelhante a peixe pode ser prontamente detectado pela adição de uma gota de hidróxido de potássio a uma lâmina de vidro com uma amostra de secreção vaginal, que libera aminas, constituindo o denominado teste de “exalação” positivo. Ao exame microscópico, as células vaginais estão recobertas por bactérias e são descritas como “células indicadoras”. Os lactobacilos, que atuam como defesa natural do hospedeiro, estão habitualmente ausentes. A vaginose bacteriana não é habitualmente considerada uma condição grave, embora possa estar associada a trabalho de parto prematuro, ruptura prematura das membranas, endometrite e infecção pélvica (Schuiling e Likis, 2013). Manejo clínico O metronidazol, administrado por via oral 2 vezes/dia, durante 1 semana, mostrase efetivo; dispõese também de um gel vaginal. O creme vaginal ou os óvulos (supositórios ovais) de clindamicina também são efetivos. O tratamento dos parceiros das clientes não parece ser efetivo, porém o uso de preservativos pode ser valioso. Pesquisas estão explorando a ligação entre a deficiência de vitamina D e a vaginose bacteriana (Harris, 2011). Tricomoníase Trichomonas vaginalis é um protozoário flagelado, que provoca uma DST comum, frequentemente denominada trico. Nos EUA, ocorrem cerca de 3,7 milhões de casos por ano (CDC, 2010b). A tricomoníase pode ser transmitida por um portador assintomático que abriga o microrganismo no trato urogenital (ver Tabela 57.1). Pode aumentar o risco de contrair o HIV de um parceiro infectado e pode desempenhar um papel no desenvolvimento de neoplasia cervical, infecções pósoperatórias, resultados adversos da gravidez, doença inflamatória pélvica (DIP) e infertilidade. A incidência é 10 vezes mais alta em mulheres afrodescendentes, e aproximadamente 85% das mulheres são assintomáticas (Schuiling e Likis, 2013). • Manifestações clínicas As manifestações clínicas consistem em secreção vaginal, que é rala (algumas vezes espumosa), de coloração amarelada a amareloesverdeada, de odor fétido e muito irritativa. Em consequência, pode surgir uma vulvite associada, com sensação de queimação e prurido vulvovaginais. O diagnóstico é estabelecido mais frequentemente pela detecção microscópica dos microrganismos etiológicos móveis e, com menos frequência, por cultura. A inspeção com espéculo frequentemente revela eritema (rubor) vaginal e cervical, com múltiplas petéquias pequenas (“manchas em morango”) (Schuiling e Likis, 2013). O teste de secreção de Trichomonas demonstra um pH superior a 4,5. Manejo clínico O tratamento mais efetivo para a tricomoníase consiste em metronidazol ou tinidazol. Ambos os parceiros recebem uma dose de ataque única ou uma dose menor, 3 vezes/dia, durante 1 semana (CDC, 2010a). A dose única é mais conveniente; por conseguinte, a adesão tende a ser maior. Em certas ocasiões, foi constatado ser o tratamento durante 1 semana mais efetivo. Algumas clientes queixamse de sabor metálico desagradável, porém transitório, quando tomam metronidazol. Ocorrem náuseas e vômitos, bem como sensação de calor e rubor (reação do tipo dissulfiram) quando esse medicamento é tomado com uma bebida alcoólica. As clientes são fortemente aconselhadas a absterse de álcool durante o tratamento e por 24 h após tomar metronidazol ou por 72 h após completar um ciclo de tinidazol (CDC, 2010a). Considerações gerontológicas Depois da menopausa, a mucosa vaginal tornase mais delgada e pode sofrer atrofia. Essa condição pode ser complicada por infecções causadas por bactérias piogênicas, resultando em vaginite atrófica (ver Tabela 57.1). A leucorreia (secreção vaginal) pode causar prurido e sensação de queimação. O manejo assemelhase àquele da vaginose bacteriana na presença de bactérias. Os hormônios estrogênicos, administrados por via oral ou inseridos na vagina em creme, também podem ser efetivos para restaurar o epitélio. A vaginite inflamatória descamativa constitui uma apresentação purulenta rara, porém grave de infecção vaginal, que ocorre principalmente em mulheres brancas na perimenopausa. Resulta em inflamação vaginal, secreção e dispareunia. O tratamento local com antiinflamatórios e antibióticos é habitualmente efetivo (Sobel, Reichman, Misra et al., 2011). PROCESSO DE ENFERMAGEM Cliente com infecção vulvovaginal Avaliação A mulher com sintomas vulvovaginais deve ser examinada o mais cedo possível após o aparecimento dos sintomas. Deve ser instruída a não usar ducha (lavagem do canal vaginal), visto que essa prática remove a secreção vaginal necessária para estabelecer o diagnóstico. A área é observada quanto à presença de eritema, edema escoriação e secreção. Cada um dos microrganismos que causam infecção produz suaprópria secreção e efeito característicos (ver Tabela 57.1). Pedese à cliente que descreva qualquer secreção ou outros sintomas, como odor, prurido ou sensação de queimação. Com frequência, ocorre disúria em consequência da irritação local do meato urinário. Pode ser necessário excluir a possibilidade de infecção urinária obtendose uma amostra de urina para cultura e antibiograma. A cliente é questionada sobre a ocorrência de fatores passíveis de contribuir para a infecção vulvovaginal: Fatores físicos e químicos, como umidade constante causada por roupas apertadas ou sintéticas, perfumes e talcos, sabonetes, banho de espuma, higiene deficiente e uso de produtos de higiene íntima femininos • • • • • • • • Fatores psicogênicos (p. ex., estresse, medo de DST, abuso sexual) Condições clínicas ou fatores endócrinos, como predisposição a Monilia em uma cliente portadora de diabetes melito Uso de medicamentos, como antibióticos, que podem alterar a flora vaginal e possibilitar o sobrecrescimento de monílias Novo parceiro sexual, vários parceiros sexuais, infecção vaginal pregressa. A cliente também é questionada sobre fatores passíveis de contribuir para a infecção, incluindo práticas de higiene (ducha) e uso ou não de preservativos. A enfermeira precisa avaliar o emprego de terapias complementares ou alternativas; algumas das opções relatadas incluem consumo de iogurte, comprimidos de acidophilus, alho, acupuntura, glicosamina e mudanças nutricionais, como dietas pobres em carboidratos e oxalato (Nyirjesy, Robinson, Mathew et al., 2011). A enfermeira pode preparar um esfregaço vaginal (exame a fresco) para ajudar no diagnóstico da infecção. Um método comum para preparar o esfregaço consiste em coletar as secreções vaginais com um aplicador e colocálas em duas lâminas de vidro separadas. Uma gota de soro fisiológico é adicionada a uma das lâminas, enquanto uma gota de hidróxido de potássio a 10% é adicionada a outra lâmina para exame microscópico. Na presença de vaginose bacteriana, a lâmina com soro fisiológico adicionado revelará células epiteliais pontilhadas com bactérias (células indicadoras). Na presença de espécies de Trichomonas, são observadas pequenas células móveis. Na presença de leveduras, a lâmina com hidróxido de potássio revela as características típicas. A secreção associada à vaginose bacteriana exala um odor forte quando misturada com hidróxido de potássio. O teste do pH da secreção com papel de nitrazina ajuda a estabelecer o diagnóstico correto (Schuiling e Likis, 2013). Diagnóstico Diagnósticos de enfermagem Com base nos dados da avaliação, os principais diagnósticos de enfermagem podem incluir os seguintes: Conforto prejudicado relacionado com sensação de queimação, odor ou prurido, dado o processo infeccioso Ansiedade relacionada com os sintomas estressantes Risco de infecção ou disseminação da infecção Conhecimento deficiente acerca das medidas apropriadas de higiene e prevenção. Planejamento e metas As principais metas podem consistir em alívio do desconforto, redução da ansiedade relacionada com os sintomas, prevenção de reinfecção ou da infecção do parceiro sexual e aquisição de conhecimento sobre métodos de prevenção das infecções vulvovaginais e manejo de autocuidado. Intervenções de enfermagem Alívio do desconforto O tratamento com a medicação apropriada alivia habitualmente o desconforto. Em certas ocasiões, podem ser recomendados banhos de assento, que podem proporcionar alívio temporário dos sintomas. Redução da ansiedade As infecções vulvovaginais são incômodas e exigem tratamento. A cliente que apresenta esse tipo de infecção pode ficar muito ansiosa sobre o significado dos sintomas e as possíveis causas. A explicação da causa dos sintomas pode reduzir a ansiedade relacionada com o medo de uma doença mais grave. Discutir as maneiras de ajudar a evitar infecções vulvovaginais pode auxiliar a cliente a adotar estratégias específicas para diminuir a infecção e os sintomas relacionados. Prevenção da reinfecção ou da disseminação da infecção As instruções fornecidas às clientes devem incluir o fato de que a candidíase vulvovaginal não é uma DST, e que a incidência pode ser diminuída completando o tratamento, evitando agentes antibióticos desnecessários, usando roupas íntimas de algodão e evitando o uso de duchas. As estratégias de prevenção para infecções vaginais incluem promoção de repouso adequado, redução dos estresses da vida e dieta saudável com baixo conteúdo de 1. a. b. c. 2. 3. a. açúcares refinados (Schuiling e Likis, 2013). A cliente precisa ser informada sobre a importância do tratamento adequado para ela própria e para seu parceiro, quando indicado. Outras estratégias para evitar a persistência ou a disseminação da infecção consistem em absterse de relação sexual quando infectada, tratamento dos parceiros sexuais e reduzir a irritação da área afetada. Quando são prescritos medicamentos, como antibióticos, para qualquer infecção, a enfermeira fornece orientações à cliente sobre as precauções habituais relacionadas com o uso desses medicamentos. Se ocorrer prurido vaginal, vários dias após seu uso, a cliente pode ser tranquilizada de que não se trata habitualmente de uma reação alérgica, mas de que pode ser uma infecção por levedura ou monília em consequência da alteração das bactérias vaginais. Devese prescrever um tratamento para a infecção por monília, quando indicado. Outra meta do tratamento consiste em reduzir a irritação tecidual causada pela arranhadura ou pelo uso de roupas apertadas. A área precisa ser mantida limpa por meio de banho diário e higiene adequada após a micção e a defecação. A utilização de um secador de cabelos no ajuste frio seca a região, e a aplicação de corticosteroides tópicos pode diminuir a irritação. Quando for orientar a cliente sobre os medicamentos a serem usados, como supositórios e dispositivos, como aplicadores, para a aplicação de creme ou pomada, a enfermeira pode demonstrar o procedimento utilizando um modelo plástico da pelve e da vagina. A enfermeira também deve ressaltar a razão da higiene das mãos antes e depois de cada administração de medicamento. Para evitar que o medicamento saia da vagina, a cliente deve permanecer deitada por 30 min após a inserção, quando possível. A cliente é informada de que pode ocorrer saída do medicamento, e o uso de um absorvente perineal pode ser útil. Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados. As condições vulvovaginais são tratadas de modo ambulatorial, a não ser que a cliente apresente outros problemas clínicos. A orientação da cliente, o tato e a tranquilização são aspectos importantes do cuidado de enfermagem. As mulheres podem expressar vergonha, culpa ou raiva e podem ficar preocupadas com a possibilidade de que a infecção seja grave ou que possa ter sido adquirida de um parceiro sexual. (Em alguns casos, os planos de tratamento incluem o parceiro.) A enfermeira avalia a necessidade de aprendizagem da cliente sobre o problema imediato. A cliente precisa identificar as características da secreção normal em comparação com uma secreção anormal. Com frequência, surgem perguntas sobre o uso da ducha. Normalmente, a ducha e o uso de sprays de higiene íntima feminina são desnecessários, visto que os banhos diários de chuveiro ou de banheira e a higiene adequada depois da micção e da defecação mantêm a área perineal limpa. A ducha tende a eliminar a flora normal, reduzindo a capacidade do corpo de conter a infecção. Além disso, as duchas repetidas podem resultar em ruptura e irritação química do epitélio vaginal e têm sido associadas a outrosdistúrbios pélvicos. Não há dados que respaldem qualquer benefício da ducha (CDC, 2010a). No caso de infecções recorrentes por leveduras, o períneo deve ser mantido o mais seco possível. Recomendase o uso de roupas íntimas largas e de algodão, em lugar de roupas sintéticas apertadas, não absorventes e que retêm o calor. O autoexame da vulva é uma boa prática de saúde para todas as mulheres. Familiarizarse com a própria anatomia e relatar qualquer achado que pareça novo ou diferente podem levar à detecção precoce e ao tratamento de qualquer distúrbio recente. As enfermeiras também podem desempenhar um papel na instrução das mulheres sobre os riscos da relação sexual desprotegida, particularmente com parceiros que tiveram relação sexual com outras pessoas. Reavaliação Os resultados esperados da cliente podem incluir: Apresenta aumento do conforto. Higieniza o períneo, conforme instrução. Relata alívio do prurido. Mantém débito urinário nos limites normais e sem disúria. Apresenta alívio da ansiedade. Permanece livre de infecção. Não apresenta sinal de inflamação, prurido, odor ou disúria. b. 4. a. b. c. d. e. Relata que a secreção vaginal parece normal (rala, transparente, não espumosa). Participa no autocuidado. Toma medicamento, conforme prescrição. Usa roupas íntimas absorventes. Evita relações sexuais desprotegidas. Somente utiliza duchas, quando prescritas. Realiza regularmente autoexame da vulva e relata qualquer achado novo ao médico. Papilomavírus humano O papilomavírus humano (HPV) é a DST mais comum nos EUA; estimase que essa infecção seja adquirida por 6,2 milhões de clientes por ano, ocorrendo a maioria dos casos em adolescentes e adultos jovens (CDC, 2012a). A maioria das infecções é autolimitada e assintomática, enquanto outras podem causar cânceres cervicais e anogenitais. As infecções podem ser latentes (assintomáticas e detectadas apenas por testes de hibridização do ácido desoxirribonucleico [DNA] para HPV), subclínicas (visualizadas apenas após a aplicação de ácido acético, seguida de inspeção sob aumento) ou clínicas (condilomas acuminados visíveis). Fisiopatologia O HPV pode ser encontrado em lesões da pele, colo do útero, vagina, ânus, pênis e cavidade oral. Há mais de 100 tipos de HPV. Alguns são de baixo risco, visto que têm pouca probabilidade de causar alterações cancerosas. Incluem os tipos 6, 11, 42, 43, 44, 54, 61, 70 e 72. As cepas mais comuns do HPV, 6 e 11, causam habitualmente condilomas (crescimentos verrucosos) na vulva. Com frequência, são visíveis ou podem ser palpados pelas clientes. Os condilomas raramente são prémalignos, porém constituem manifestação externa do vírus. As cepas 6 e 11 estão associadas a baixo risco de câncer cervical. Os tipos oncogênicos de alto risco, incluindo 16, 18, 31 e 45, acometem o colo do útero, causando alterações celulares e displasia (detectadas no esfregaço de Papanicolaou [Pap]). Os efeitos dessas cepas são habitualmente invisíveis no exame, mas podem ser observados na colposcopia (Castle, 2011). Os tipos de HPV de alto risco são responsáveis por quase todos os casos de câncer cervical (Pruitt, 2012). A incidência do HPV em mulheres jovens e sexualmente ativas apresentase elevada. Com frequência, a infecção desaparece como consequência de uma resposta efetiva do sistema imune. Acreditase que duas proteínas produzidas pelos tipos de HPV de alto risco possam interferir na supressão tumoral pelas células normais. Os fatores de risco incluem ter idade jovem, ser sexualmente ativa, ter vários parceiros sexuais e fazer sexo com um parceiro que tem ou teve diversas parceiras. Entretanto, o HPV pode ser transmitido por outros meios, e a sua presença foi identificada em meninas jovens que não eram sexualmente ativas. A transmissão perinatal está sendo pesquisada, assim como a autoinoculação. Manejo clínico As opções de tratamento para as verrugas genitais externas pelo médico consistem na aplicação tópica de ácido tricloroacético, podofilina, crioterapia, bem como remoção cirúrgica. Os agentes tópicos que podem ser aplicados pelas clientes às lesões externas incluem podofilox e imiquimode. Como a segurança da podofilina, do imiquimode e do podofilox durante a gravidez ainda não foi determinada, esses agentes não devem ser usados durante a gestação. O eletrocautério e a terapia com laser constituem terapias alternativas que podem estar indicadas para clientes com grande quantidade ou área de verrugas genitais. O tratamento erradica habitualmente as verrugas perineais ou condilomas. Entretanto, podem regredir de modo espontâneo sem tratamento e também podem sofrer recidiva, mesmo com tratamento. Quando o tratamento inclui a aplicação de um agente tópico pela cliente, é preciso que ela seja cuidadosamente orientada sobre o uso do agente prescrito e deve ser capaz de identificar as verrugas e aplicar o medicamento nessas. A cliente é instruída a antecipar a ocorrência de dor leve ou irritação local com o uso desses agentes. As mulheres com HPV devem realizar anualmente esfregaços de Papanicolaou, dado o potencial de HPV de provocar displasia (alterações celulares anormais). Muitos aspectos permanecem desconhecidos no que concerne à doença subclínica e latente pelo HPV. Com frequência, as mulheres são expostas ao HPV por parceiros que desconhecem ser portadores. O uso de preservativos pode reduzir a probabilidade de transmissão, porém a transmissão também pode ocorrer durante o contato da pele com a pele em áreas não protegidas por preservativos. Em muitos casos, as clientes ficam com raiva por ter verrugas ou HPV e não sabem quem as infectou, visto que o período de incubação pode ser longo, e os parceiros podem não ter sintomas. Ações de enfermagem importantes consistem em reconhecer o sofrimento emocional ao ser diagnosticada a DST e oferecer apoio e fatos. Prevenção A prevenção do HPV é a melhor estratégia. O Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP) de CDC recomenda a vacinação de rotina de meninos e meninas entre 11 e 12 anos de idade, antes de se tornarem sexualmente ativos.1 A vacina é administrada em três doses intramusculares, sendo a dose inicial seguida de uma segunda dose em 2 meses, e a terceira dose, em 6 meses após a primeira. A administração de todas as três doses da vacina é importante para o desenvolvimento da imunidade (Teitelman, Stringer, Nguyen et al., 2011). Embora essa vacina seja considerada um importante avanço clínico, com potencial de diminuir o impacto da doença causada pelo HPV tanto em homens quanto em mulheres, ela não substitui outras estratégias importantes na prevenção do HPV. As mulheres ainda precisam de triagem para câncer cervical, conforme recomendado (Pruitt, 2012). Infecção por herpesvírus tipo 2 (herpes genital, herpesvírus simples) O herpes genital é uma infecção viral recorrente pelo restante da vida, que provoca lesões herpéticas (bolhas) na genitália externa e, em certas ocasiões, na vagina e no colo do útero. Tratase de uma DST; todavia, pode ser transmitido de modo assexual de superfícies úmidas ou por autotransmissão (i. e., tocar uma úlcera e, em seguida, tocar a área genital). A infecção inicial é habitualmente muito dolorosa e dura cerca de 1 semana, mas também pode ser assintomática. As recidivas são menos dolorosas e, em geral, produzem sintomas de menor intensidade (Schuiling e Likis, 2013). Algumas clientes apresentam poucas recidivas ou nenhuma, enquanto outras exibem surtos frequentes. As recidivas podem estar associadas a estresse, queimadura solar, procedimentos dentários ou repouso inadequado ou nutrição precária, ou quaisquer situações que possamsobrecarregar o sistema imune. Nos EUA, pelo menos 50 milhões de pessoas têm infecção por herpes genital, e a maioria não foi diagnosticada (CDC, 2012b). A prevalência de outras DST diminuiu um pouco, possivelmente em razão do uso aumentado de preservativos; todavia, o herpes pode ser transmitido por contato com a pele não coberta por um preservativo. A transmissão é possível até mesmo quando um portador não apresenta sintomas (disseminação subclínica). As lesões aumentam a vulnerabilidade à infecção pelo HIV e a outras DST. As vacinas contra o herpes genital estão em fase de ensaios clínicos; todavia, no momento atual, não existe nenhuma vacina comercialmente disponível (CDC, 2012b). Fisiopatologia Existem nove tipos de herpesvírus que pertencem a três grupos diferentes que provocam infecções nos seres humanos (Porth e Matfin, 2009). Incluem o herpes simples tipo 1 (HSV1), habitualmente associado a úlceras nos lábios; herpes simples tipo 2 (HSV2), habitualmente associado ao herpes genital; varicelazoster; vírus Epstein Barr, citomegalovírus, vírus linfotrópico B humano; e outros. Há uma considerável superposição entre o HSV1 e o HSV2, que são clinicamente indistinguíveis (Porth e Matfin, 2009). Para adquirir a infecção, parece ser necessário haver um íntimo contato humano com a boca, orofaringe, mucosa, vagina ou colo do útero. Outros locais suscetíveis incluem lacerações cutâneas e conjuntivas. Em geral, o vírus é destruído em temperatura ambiente por ressecamento. Quando a replicação viral diminui, o vírus ascende pelos nervos sensitivos periféricos e permanece inativo nos gânglios nervosos. Pode ocorrer outro surto quando o hospedeiro é submetido a um estresse. Nas mulheres grávidas com herpes ativo, os lactentes • • • • nascidos por parto vaginal podem ser infectados pelo vírus. Se isso ocorrer, há risco de morbidade e mortalidade fetais; por conseguinte, podese realizar um parto por cesariana se houver reativação do vírus próximo ao momento do parto. Manifestações clínicas Ocorrem prurido e dor à medida que a área infectada tornase avermelhada e edemaciada. A infecção pode começar com máculas e pápulas, progredindo para a formação de vesículas e úlceras. Com frequência, o estado vesicular aparece como uma bolha, que posteriormente coalesce, ulcera e forma uma crosta. Nas mulheres, os lábios do pudendo constituem o principal local habitual, embora o colo do útero, a vagina e a pele perianal possam ser afetados. Nos homens, a glande, o prepúcio ou o corpo do pênis geralmente são afetados. Podem ocorrer sintomas semelhantes aos da gripe entre 3 e 4 dias após o aparecimento das lesões. Com frequência, observase a incidência de linfadenopatia inguinal (aumento dos linfonodos na virilha), elevação mínima da temperatura, malestar, cefaleia, mialgia (dores musculares) e disúria (dor na micção). A dor fica evidente durante a primeira semana e, em seguida, diminui. As lesões duram de 4 a 15 dias antes da formação de crosta (Schuiling e Likis, 2013). Raramente, podem surgir complicações por causa da disseminação extragenital, como as nádegas, a parte superior das coxas ou até mesmo os olhos, em consequência de tocar as lesões e, em seguida, outras áreas. As clientes devem ser aconselhadas a lavar as mãos depois de qualquer contato com as lesões. Outros problemas potenciais incluem meningite asséptica, transmissão neonatal e estresse emocional grave relacionado com o diagnóstico. Manejo clínico No momento atual, não há cura para a infecção pelo HSV2; entretanto, a meta do tratamento consiste em aliviar os sintomas. As metas do manejo incluem evitar a disseminação da infecção, proporcionar conforto às clientes, diminuir os riscos potenciais de saúde e iniciar um programa de aconselhamento e orientação. Três agentes antivirais orais – o aciclovir, o valaciclovir e o fanciclovir – podem suprimir os sintomas e reduzir a evolução da infecção (Schuiling e Likis, 2013). Esses agentes mostramse efetivos para reduzir a duração das lesões e evitar as recidivas. A resistência e os efeitos colaterais a longo prazo não parecem constituir problemas importantes. Os episódios recorrentes são, com frequência, mais leves que o episódio inicial. PROCESSO DE ENFERMAGEM Cliente com infecção genital por herpes Avaliação A história de saúde e o exame físico e pélvico são importantes para estabelecer a natureza da condição infecciosa. Além disso, as clientes são avaliadas quanto ao risco de DST. O períneo é inspecionado à procura de lesões dolorosas. Os linfonodos são examinados e, com frequência, estão aumentados e hipersensíveis durante um episódio de HSV. Diagnóstico Diagnósticos de enfermagem Com base nos dados da avaliação, os principais diagnósticos de enfermagem podem incluir os seguintes: Dor aguda relacionada com as lesões genitais Risco de infecção ou disseminação da infecção Ansiedade relacionada com o diagnóstico Conhecimento deficiente sobre a doença e seu manejo. Planejamento e metas As principais metas podem consistir em alívio da dor e do desconforto, controle da infecção e sua disseminação, • • • alívio da ansiedade, conhecimento e participação no esquema de tratamento e autocuidado, bem como conhecimento sobre as implicações para o futuro. Intervenções de enfermagem Alívio da dor As lesões devem ser mantidas limpas, e são recomendadas práticas de higiene apropriadas. Os banhos de assento podem aliviar o desconforto. As roupas devem ser limpas, largas, macias e absorventes. O ácido acetilsalicílico e outros agentes analgésicos são habitualmente efetivos para controlar a dor. Devese evitar o uso de pomadas e pósoclusivos, visto que impedem que as lesões sequem. A cliente é incentivada a aumentar o consumo de líquidos, a ficar atenta para a possível distensão da bexiga e a entrar em contato imediatamente com seu médico se não conseguir urinar por causa do desconforto. Pode ocorrer micção dolorosa se a urina entrar em contato com as lesões herpéticas. O desconforto com a micção pode ser reduzido derramandose água morna sobre a vulva durante a micção ou com banhos de assento. Quando são prescritos aciclovir oral ou outros agentes antivirais, a cliente é instruída sobre quando tomar a medicação e sobre os efeitos colaterais a serem observados, como exantema e cefaleia. Para promover a recuperação, são recomendados repouso, líquidos e dieta nutritiva. Prevenção da infecção e sua disseminação O risco de reinfecção e de disseminação da infecção para outras pessoas ou para outras estruturas do corpo pode ser reduzido pela higiene adequada das mãos, uso de métodos de barreira no contato sexual e adesão aos esquemas de medicamentos prescritos. Evitar o contato quando houver lesões óbvias não elimina o risco, visto que o vírus pode ser disseminado na ausência de sintomas, e as lesões podem não ser visíveis. Alívio da ansiedade A preocupação com a presença de infecção por herpes, as futuras ocorrências de lesões, assim como o impacto da infecção sobre os futuros relacionamentos e a gravidez podem provocar considerável ansiedade na cliente. As enfermeiras servem de fontes importantes de apoio, ouvindo as preocupações das clientes e fornecendo informações e orientação. A cliente pode ficar com raiva de seu parceiro se este for a provável fonte de infecção. Pode precisar de assistência para discutir a infecção e suas implicações com seus parceiros sexuais atuais e futuras relações sexuais. A enfermeira pode encaminhar a cliente a um grupo de apoio para ajudar a lidar com o diagnóstico (ver seção “Recursos”, no final deste capítulo).Aumento do conhecimento sobre a doença e seu tratamento As orientações à cliente constituem uma parte essencial do cuidado de enfermagem para a pessoa com infecção por herpes genital. Isso inclui uma explicação adequada sobre a infecção e seu modo de transmissão, as estratégias de manejo e tratamento, as estratégias para minimizar a disseminação da infecção, a razão de participar no esquema de tratamento e as estratégias de autocuidado. Dado o risco aumentado de HIV e de outras DST na presença de lesões cutâneas, uma parte importante da orientação da cliente envolve instruíla a se proteger contra a exposição ao HIV e a outras DST (Boxe 57.2). Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados. As medidas de autocuidado para pessoas com herpes genital são apresentadas no Boxe 57.2. Boxe 57.2 LISTA DE VERIFICAÇÃO DO CUIDADO DOMICILIAR Cliente com herpes genital Ao concluírem as orientações sobre os cuidados domiciliares, o cliente e o cuidador familiar serão capazes de: CLIENTE CUIDADOR FAMILIAR Explicar que o herpes é transmitido principalmente por contato direto. ✓ ✓ Explicar que a abstinência sexual é necessária por um breve período (a relação sexual deve ser evitada durante o tratamento, porém outras opções, como segurar a mão e beijar, são aceitáveis). ✓ ✓ Explicar que a relação sexual durante um surto de herpes não apenas aumenta o risco de transmissão, como ✓ ✓ • • • • • • • • • • • 1. 2. a. b. c. d. 3. a. b. c. 4. a. b. c. d. também aumenta a probabilidade de contrair o vírus da imunode 攀ciência humana e outras infecções sexualmente transmissíveis. Explicar que a transmissão é possível até mesmo na ausência de lesões ativas. ✓ ✓ Explicar que os preservativos podem proporcionar alguma proteção contra a transmissão viral. ✓ ✓ Explicar que o obstetra deve ser informado sobre a história de herpes. Nos casos de recidiva por ocasião do parto, pode-se considerar uma cesariana. ✓ ✓ Descrever as práticas apropriadas de higiene (lavagem das mãos, limpeza perineal, lavagem delicada das lesões com sabão neutro e água corrente e secagem leve das lesões) e a razão de evitar pomadas oclusivas, sabonetes com perfumes fortes ou banhos de espuma. ✓ ✓ Explicar que o controle da condição pode exigir mudanças no comportamento sexual e o uso de medicamentos. ✓ ✓ Descrever as estratégias para evitar a autoinfecção (p. ex., evitar tocar as lesões durante um surto). ✓ ✓ Fornecer a justi 攀cativa para evitar a autoinfecção (i. e., as lesões podem 攀car infectadas devido a germes nas mãos, e o vírus presente na lesão pode ser transmitido da mão para outra área do corpo ou para outra pessoa). ✓ ✓ Descrever as estratégias de promoção da saúde: Usar roupas largas e confortáveis; consumir uma dieta balanceada; obter repouso e relaxamento adequados. ✓ ✓ Fornecer a justi 攀cativa para evitar a exposição ao sol, visto que pode provocar recidivas (e câncer de pele). ✓ ✓ Identi 攀car a razão de tomar os medicamentos de acordo com a prescrição, manter as consultas de acompanhamento com o médico e relatar recidivas repetidas (que podem não ser tão graves quanto o episódio inicial). ✓ ✓ Descrever os possíveis benefícios de se juntar a um grupo para compartilhar soluções e experiências e ouvir sobre tratamentos mais recentes (ver seção de Recursos). ✓ ✓ Reavaliação Entre os resultados esperados estão: A cliente percebe a redução da dor e do desconforto. A cliente mantém a infecção sob controle. Demonstra técnicas de higiene apropriadas. Administra os medicamentos, conforme prescrição. Consome líquidos em quantidades adequadas. Avalia seu próprio estilo de vida atual (dieta, consumo adequado de líquidos, práticas sexuais mais seguras, controle do estresse). A cliente utiliza estratégias para reduzir a ansiedade. Verbaliza as questões e as preocupações relacionadas com a infecção por herpes genital. Discute as estratégias para lidar com as questões e preocupações com os parceiros sexuais atuais e futuros. Inicia o contato com o grupo de apoio, quando indicado. A cliente explica sobre o herpes genital e as estratégias para controlar e reduzir as recidivas. Identifica os métodos de transmissão da infecção por herpes, bem como as estratégias para evitar a transmissão para outras pessoas. Discute as estratégias para reduzir a recidiva das lesões. Toma os medicamentos, conforme prescrição. Não relata nenhuma recidiva das lesões. Endocervicite e cervicite A endocervicite é uma inflamação da mucosa e das glândulas do colo do útero, que pode ocorrer quando os microrganismos têm acesso às glândulas cervicais após uma relação sexual e, com menos frequência, após determinados procedimentos, como aborto, manipulação intrauterina ou parto vaginal. Sem tratamento, a infecção pode se estender para o útero, as tubas uterinas e a cavidade pélvica. A inflamação pode irritar o tecido cervical, resultando em perda de sangue ou sangramento e cervicite mucopurulenta (inflamação do colo do útero com exsudato). Chlamydia e gonorreia As clamídias e a gonorreia constituem as causas mais comuns de endocervicite, embora Mycoplasma também possa estar envolvido. Nos EUA, as clamídias respondem por cerca de 2,5 milhões de infecções a cada ano; são encontradas mais comumente em pessoas jovens e sexualmente ativas, com mais de um parceiro e são transmitidas por meio de relação sexual (CDC, 2012c). CDC precisa ser notificado e pode resultar em complicações graves, incluindo infecção pélvica, risco aumentado de gravidez ectópica e infertilidade (CDC, 2012c). As infecções do colo do útero por clamídias frequentemente não produzem sintomas; todavia, podem ocorrer secreção cervical, dispareunia, disúria e sangramento. Outras complicações incluem conjuntivite e perihepatite. Se uma mulher grávida for infectada, o resultado pode ser natimorto, morte neonatal e trabalho de parto prematuro. A infecção por clamídias e a gonorreia frequentemente coexistem (Schuiling e Likis, 2013). O colo do útero inflamado em consequência dessa infecção pode fazer com que a mulher se torne mais vulnerável à transmissão do HIV por um parceiro infectado. A gonorreia também constitui uma importante causa de DIP, infertilidade tubária, gravidez ectópica e dor pélvica crônica (CDC, 2012d). A maioria das mulheres com gonorreia não apresenta sintomas; todavia, sem tratamento, muitas podem desenvolver DIP (CDC, 2012d). O diagnóstico pode ser confirmado por meio de cultura da urina ou por outros métodos, como o uso de swab para obter uma amostra de secreção cervical ou de secreção peniana do parceiro da cliente (CDC, 2012c). Manejo clínico É recomendado por CDC o tratamento da infecção por clamídias com doxiciclina durante 1 semana ou com azitromicina em dose única. Em virtude da alta incidência de coinfecção por clamídias e gonorreia, o tratamento para gonorreia também deve incluir o tratamento para clamídias (CDC, 2012c). Os parceiros também devem ser tratados. As mulheres grávidas são advertidas para não tomar tetraciclina, por causa dos efeitos adversos potenciais sobre o feto. Nesses casos, podese prescrever eritromicina. Em geral, os resultados são satisfatórios quando o tratamento é iniciado precocemente. As possíveis complicações de um tratamento tardio ou da falta de tratamento consistem em doença tubária, gravidez ectópica, DIP e infertilidade. Devemse obter culturas de clamídias e de outras DST de todas as clientes que sofreram agressão sexual quando procuraram pela primeira vez assistência médica. As clientes são tratadas de modo profilático. Em seguida, as culturas devem ser repetidas em 2 semanas.Recomendase uma triagem anual para clamídias para todas as mulheres jovens sexualmente ativas e para as mulheres de mais idade com novos parceiros sexuais ou com vários parceiros (CDC, 2012c). Manejo de enfermagem Todas as mulheres sexualmente ativas podem correr risco de clamídias, gonorreia e outras DST, incluindo o HIV. As enfermeiras podem ajudar as clientes a avaliar seu próprio risco. O reconhecimento do risco constitui a primeira etapa antes que sejam efetuadas mudanças no comportamento. As clientes devem ser desencorajadas de pressupor que um parceiro seja “seguro” sem uma discussão aberta e honesta. As atitudes profissionais sem julgamento, o aconselhamento orientacional e a dramatização podem ser úteis. Como as clamídias, a gonorreia e outras DST podem ter um grave efeito sobre a saúde e a fertilidade futuras, e tendo em vista que muitos desses distúrbios podem ser evitados pelo uso de preservativos e espermicidas, assim como pela escolha cuidadosa dos parceiros, as enfermeiras podem desempenhar um importante papel no aconselhamento das clientes sobre práticas sexuais mais seguras. A morbidade e a mortalidade podem ser reduzidas ao explorar opções com as clientes, considerar os déficits de conhecimento e corrigir as informações errôneas. As clientes devem ser aconselhadas a encaminhar os parceiros para avaliação e tratamento. Todas as mulheres sexualmente ativas com 25 anos de idade ou menos devem se submeter a triagem anual. Aquelas acima dessa idade devem ser submetidas a triagem se houver fatores de risco. Os testes devem ser repetidos 3 meses após o tratamento. Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados As enfermeiras podem orientar as mulheres e ajudálas a melhorar as habilidades de comunicação e iniciar discussões a respeito do sexo com seus parceiros.2 Comunicarse com os parceiros sobre sexo, riscos, adiar a relação sexual e adotar comportamentos sexuais mais seguros, incluindo o uso de preservativos, são medidas que podem salvar a vida. Algumas mulheres jovens relatam fazer sexo, porém não se sentem confortáveis o suficiente para discutir questões de risco sexual. As enfermeiras podem ajudar as mulheres a defender sua própria saúde, discutindo a sua segurança com os parceiros antes da atividade sexual. Reforçar a necessidade de triagem anual para clamídias e outras DST constitui parte importante da orientação à cliente. As instruções também incluem a necessidade da cliente de absterse de relação sexual até que todos seus parceiros sexuais sejam tratados (CDC, 2012c). Doença inflamatória pélvica A doença inflamatória pélvica (DIP) é uma condição inflamatória da cavidade pélvica, que pode começar com cervicite e que acomete o útero (endometrite), as tubas uterinas (salpingite), os ovários (ooforite), o peritônio pélvico ou o sistema vascular pélvico. A infecção, que pode ser aguda, subaguda, recorrente ou crônica e localizada ou disseminada, é habitualmente causada por bactérias, mas pode ser atribuída a um vírus, fungo ou parasito. As causas comuns consistem em gonorreia e clamídias, porém a maioria dos casos está associada a mais de um microrganismo. De acordo com estimativas, ocorrem 750 mil casos de DIP a cada ano (CDC, 2011a). As consequências podem ser a curto e a longo prazos. As tubas uterinas podem ficar estreitas e apresentar cicatrizes, aumentando o risco de gravidez ectópica (os ovos fertilizados ficam retidos na tuba), infertilidade, dor pélvica recorrente, abscesso tuboovariano (coleção de material purulento) e doença recorrente. A verdadeira incidência da DIP não é conhecida, visto que alguns casos são assintomáticos, enquanto outros têm apresentação atípica (CDC, 2011a; Turner, 2012). Fisiopatologia A patogenia exata da DIP ainda não foi estabelecida, porém presumese que os microrganismos penetram habitualmente no corpo através da vagina, passam pelo canal cervical, colonizam a endocérvix e ascendem até o útero. Em várias condições, os microrganismos podem prosseguir seu trajeto para uma ou ambas as tubas uterinas e os ovários, alcançando a pelve. Nas infecções bacterianas que ocorrem depois do parto ou de aborto, os patógenos sofrem disseminação direta pelos tecidos que sustentam o útero por meio dos vasos linfáticos e sanguíneos (Figura 57.1A). Durante a gravidez, o aumento do suprimento sanguíneo necessário para a placenta proporciona uma via mais ampla para a infecção. Essas infecções pósparto e pósaborto tendem a ser unilaterais. As infecções podem provocar inflamação perihepática quando o microrganismo invade o peritônio. Nas infecções por gonorreia, os gonococos atravessam o canal cervical e penetram no útero, onde o ambiente, particularmente durante a menstruação, possibilita sua rápida multiplicação e disseminação para as tubas uterinas e para o interior da pelve (ver Figura 57.1B). A infecção é habitualmente bilateral. Em raros casos, os microrganismos (p. ex., tuberculose) têm acesso aos órgãos genitais por meio da corrente sanguínea partindo dos pulmões (ver Figura 57.1C). Uma das causas mais comuns de salpingite (inflamação da tuba uterina) consiste nas clamídias, possivelmente acompanhada de gonorreia. A infecção pélvica é, com mais frequência, sexualmente transmitida; entretanto, pode ocorrer também em consequência de procedimentos invasivos, como biopsia endometrial, aborto, histerectomia ou inserção de dispositivo intrauterino. A vaginose bacteriana (uma infecção da vagina) pode predispor as mulheres à infecção pélvica. Os fatores de risco consistem em idade muito jovem na ocasião da primeira relação sexual, vários parceiros sexuais, relações sexuais frequentes, relação sexual sem preservativos, sexo com parceiro portador de DST e história pregressa de DST ou de infecção pélvica prévia. Manifestações clínicas Os sintomas de infecção pélvica começam habitualmente com secreção vaginal, dispareunia, dor pélvica abdominal inferior e hipersensibilidade que ocorre após a menstruação. A dor pode aumentar com a micção ou com a defecação. Outros sintomas são: febre, malestar generalizado, anorexia, náuseas, cefaleia e, possivelmente, vômitos. No exame pélvico, a hipersensibilidade intensa pode ser observada à palpação do útero ou movimento do colo (hipersensibilidade com movimento cervical). Os sintomas podem ser agudos e graves ou de baixo grau e sutis (CDC, 2011a). Figura 57.1 Via de disseminação dos microrganismos nas infecções pélvicas. A. A infecção bacteriana disseminase da vagina para o útero e pelos vasos linfáticos. B. A gonorreia disseminase pela vagina, alcançando o útero e, em seguida, as tubas uterinas e os ovários. C. A infecção bacteriana pode alcançar os órgãos genitais através da corrente sanguínea (disseminação hematogênica). Complicações Podese verificar o desenvolvimento de peritonite pélvica ou generalizada, abscessos, estenoses e obstrução das tubas uterinas. A obstrução pode provocar gravidez ectópica no futuro, se um ovo fertilizado não conseguir atravessar uma estenose tubária, ou o tecido cicatricial pode ocluir as tubas, resultando em esterilidade. As aderências são comuns e, com frequência, resultam em dor pélvica crônica; por fim, podem exigir a remoção do útero, das tubas uterinas e dos ovários. Outras complicações incluem bacteriemia com choque séptico, dor pélvica e abdominal crônica e DIP recorrente (Schuiling e Likis, 2013). Manejo clínico Prescrevese antibioticoterapia de amplo espectro, habitualmente uma combinação de ceftriaxona, azitromicina e doxiciclina. As mulheres são, com mais frequência, tratadas de modo ambulatorial e monitoradas cuidadosamente.As indicações para hospitalização incluem emergências cirúrgicas, gravidez, ausência de resposta clínica à terapia antimicrobiana oral, incapacidade de seguir ou de tolerar um esquema oral ambulatorial, doença grave (i. e., presença de náuseas, vômitos ou febre alta) e abscesso tuboovariano (Schuiling e Likis, 2013). É necessário o tratamento dos parceiros sexuais para evitar a reinfecção. Manejo de enfermagem A enfermeira avalia os efeitos tanto físicos quanto emocionais da DIP. A cliente pode um dia sentirse bem e no seguinte apresentar sintomas vagos e desconforto. Também pode sofrer de constipação intestinal e dificuldades menstruais. Se a cliente for hospitalizada, a enfermeira a prepara para uma avaliação diagnóstica mais detalhada e • • • • • • • • intervenção cirúrgica, conforme prescrição. É necessário um registro preciso dos sinais vitais, equilíbrio hídrico, bem como das características e quantidade da secreção vaginal para orientar a terapia. A enfermeira administra agentes analgésicos, conforme prescrição, para alívio da dor. O repouso adequado e uma dieta saudável são incentivados. Além disso, a enfermeira reduz a transmissão da infecção para outras pessoas ao seguir as práticas apropriadas de controle da infecção e realizar a higiene meticulosa das mãos. Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados A cliente deve ser informada sobre a necessidade de precauções e deve ser incentivada a participar do tratamento para evitar infectar outras pessoas e protegerse de uma reinfecção. O uso de preservativos é essencial para evitar a infecção e suas sequelas. Caso ocorra reinfecção, ou se houver disseminação da infecção, os sintomas podem consistir em dor abdominal, náuseas, vômitos, febre, malestar, secreção vaginal purulenta com odor fétido e leucocitose. A orientação à cliente consiste em explicar como ocorrem as infecções pélvicas, como essas podem ser controladas e evitadas e seus sinais e sintomas associados. O Boxe 57.3 fornece um resumo das diretrizes e instruções fornecidas à cliente. Todas as clientes que tiveram DIP necessitam ser informadas sobre os sinais e sintomas de gravidez ectópica (dor, sangramento anormal, menstruação atrasada, desmaio, tontura e dor no ombro), visto que estão propensas a essa complicação. (Ver discussão sobre gravidez ectópica no Capítulo 56.) Infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e síndrome de imunodeficiência adquirida Qualquer discussão sobre infecções vulvovaginais e DST precisa incluir o tópico do HIV e da síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS), que é descrita no Capítulo 37. Estimase que 25% dos portadores sejam mulheres (CDC, 2011b).3 Como a infecção pelo HIV pode ser detectada por meio de exame prénatal e triagem para DST, as enfermeiras e outros profissionais envolvidos na saúde da mulher são, com frequência, os primeiros a fornecer cuidados a uma cliente com infecção pelo HIV. Por conseguinte, os profissionais de saúde precisam ter conhecimento sobre esse distúrbio e ser sensíveis aos problemas e preocupações dessas mulheres. Boxe 57.3 LISTA DE VERIFICAÇÃO DO CUIDADO DOMICILIAR Cliente com doença in䎐 amatória pélvica Ao concluírem as orientações sobre os cuidados domiciliares, o cliente e o cuidador familiar serão capazes de: CLIENTE CUIDADOR FAMILIAR Explicar que qualquer dor pélvica ou secreção anormal, particularmente as que ocorrem após ato sexual, parto ou cirurgia pélvica, devem ser avaliadas o mais rápido possível. ✓ ✓ Explicar que podem ser prescritos antibióticos após a inserção de dispositivos intrauterinos. ✓ ✓ Descrever os procedimentos de cuidados perineais apropriados (limpar-se da frente para trás depois da defecação ou micção). ✓ ✓ Explicar que a ducha reduz a 瘀漀ora natural que combate os microrganismos infectantes e que pode introduzir bactérias para cima. ✓ ✓ Identi 攀car a razão de consultar um médico se perceber a ocorrência de secreção ou odor vaginais incomuns. ✓ ✓ Discutir a razão de seguir as práticas de saúde (i. e., nutrição apropriada, exercício físico e controle do peso), bem como práticas sexuais mais seguras (i. e., utilizar preservativos, evitar vários parceiros sexuais). ✓ ✓ Explicar a razão do uso regular de preservativos antes da relação sexual e de qualquer contato pênis-vagina se houver probabilidade de transmitir a infecção. ✓ ✓ Explicar a necessidade de realizar exame ginecológico pelo menos 1 vez/ano. ✓ ✓ Uma vez obtido o consentimento formal, a enfermeira ou um conselheiro oferecem um teste para as mulheres que correm risco de ser infectadas pelo HIV. Como as clientes podem relutar em discutir comportamentos de risco, devese oferecer uma triagem de rotina a todas as mulheres entre 13 e 64 anos de idade em todos os ambientes de cuidados à saúde (Schuiling e Likis, 2013). A detecção precoce possibilita o tratamento imediato para retardar a progressão da doença. A enfermeira também precisa lembrar que muitas mulheres não se consideram como pessoas com risco de adquirir infecção pelo HIV. (Ver discussão mais detalhada da infecção pelo HIV e AIDS no Capítulo 37.) As mulheres com HIV e as com parceiros que têm HIV devem ser aconselhadas sobre a prática de sexo seguro e ser informadas sobre os perigos do sexo desprotegido. O uso irregular de preservativos resulta em uma taxa mais elevada de soroconversão. Como existe risco de transmissão perinatal, as decisões sobre conceber ou utilizar um meio de contracepção devem basearse na orientação, informações acuradas e cuidado. As mulheres grávidas são aconselhadas a realizar um teste para HIV. O emprego de agentes antirretrovirais por mulheres grávidas diminui significativamente a transmissão perinatal da infecção pelo HIV. Por conseguinte, o uso desses agentes durante a gravidez é de importância crucial e precisa ser discutido. Para as mulheres que desejam evitar a concepção, o uso de preservativos isoladamente ou em associação com contraceptivos orais constitui uma possível opção. DISTÚRBIOS ESTRUTURAIS Fístulas da vagina A fístula é uma abertura anormal entre dois órgãos ocos internos ou entre um órgão oco interno e o exterior do corpo. O nome da fístula indica as duas áreas que apresentam uma conexão anormal – por exemplo, uma fístula vesicovaginal é uma abertura entre a bexiga e a vagina, enquanto uma fístula retovaginal referese a uma abertura entre o reto e a vagina (Figura 57.2). As fístulas podem ser de origem congênita, porém são mais comuns nos países em desenvolvimento, dadas as complicações do trabalho de parto em mulheres. Nos EUA, as fístulas ocorrem mais frequentemente em consequência de lesões, tais como de uma lesão sofrida durante cirurgia, parto vaginal, doença do intestino irritável, radioterapia ou processo patológico, como carcinoma (Wong, Wong, Rezvan et al., 2012). Manifestações clínicas Os sintomas dependem do defeito específico. Por exemplo, em uma cliente com fístula vesicovaginal, a urina escapa continuamente na vagina. No caso de fístula retovaginal, ocorre incontinência fecal, e os flatos são liberados através da vagina. A combinação de secreção fecal com leucorreia resulta em odor fétido de controle difícil. Avaliação e achados diagnósticos É importante obter uma história dos sintomas apresentados pela cliente para identificar as alterações estruturais e avaliar o impacto dos sintomas sobre a qualidade de vida dessa mulher. Embora não haja especificidade relatada para seu uso, o corante azul de metileno é frequentemente empregado para ajudar a delinear o trajeto da fístula (Wong et al., 2012). Na fístula vesicovaginal, ocorante é instilado na bexiga e aparece na vagina. Após a obtenção de um resultado negativo com o teste do azul de metileno, injetase índigo carmim por via intravenosa (IV); o aparecimento do corante na vagina indica uma fístula ureterovaginal. Em seguida, a cistoscopia ou a urografia excretora intravenosa podem ser utilizadas para determinar a localização exata. Figura 57.2 Locais comuns de fístulas vaginais. Vesicovaginal – entre a bexiga e a vagina. Uretrovaginal – entre a uretra e a vagina. Vaginoperineal – entre a vagina e a área perineal. Ureterovaginal – entre o ureter e a vagina. Retovaginal – entre o reto e a vagina. Manejo clínico A meta consiste em eliminar fístula e em tratar a infecção e a escoriação. A fístula pode cicatrizar sem intervenção cirúrgica; todavia, a cirurgia é frequentemente necessária. Se o médico determinar que uma fístula cicatrizará sem intervenção cirúrgica, o cuidado é planejado para aliviar o desconforto, evitar a infecção e melhorar o autoconceito e as capacidades de autocuidado da cliente. As medidas empregadas para promover a cicatrização incluem nutrição adequada, duchas e enemas de limpeza, repouso e administração dos antibióticos intestinais prescritos. Uma fístula retovaginal cicatriza mais rapidamente quando a cliente ingere uma dieta pobre em resíduos e quando o tecido afetado drena apropriadamente. As irrigações perineais mornas promovem a cicatrização. Algumas vezes, a fístula não cicatriza e não pode ser cirurgicamente reparada. Nessa situação, o cuidado precisa ser planejado e implantado individualmente. A limpeza, os banhos de assento frequentes e as duchas desodorizantes são necessários, assim como absorventes perineais e roupas íntimas protetoras. É necessário proceder a um cuidado meticuloso da pele para evitar escoriações. A aplicação de cremes suaves ou polvilhar levemente com talco podem produzir alívio. Além disso, a atenção para as necessidades sociais e psicológicas da cliente constitui um aspecto essencial do cuidado. Se houver necessidade de reparo cirúrgico de uma fístula, o tratamento préoperatório de qualquer vaginite existente é importante para assegurar o sucesso do tratamento. Em geral, utilizase a via de acesso vaginal para o reparo das fístulas vesicovaginal e uretrovaginal; a via de acesso abdominal é empregada para o reparo de fístulas que são maiores ou complexas. As fístulas de reparo difícil ou que são muito grandes podem exigir reparo cirúrgico com desvio urinário ou fecal. Podemse utilizar técnicas de transferência de tecido (enxerto cutâneo ou tecidual) (Wong et al., 2012). Como as fístulas estão habitualmente relacionadas com traumatismo obstétrico, cirúrgico ou por radiação, devese avaliar cuidadosamente sua ocorrência em uma cliente sem parto vaginal prévio ou sem história de cirurgia. A doença de Crohn ou o linfogranuloma venéreo constituem outras causas possíveis. A despeito da melhor intervenção cirúrgica possível, as fístulas podem sofrer recidivas. Depois da cirurgia, o acompanhamento médico prossegue durante pelo menos 2 anos para monitorar a possível ocorrência de recidiva. 1. 2. 3. Prolapso de órgãos pélvicos | Cistocele, retocele, enterocele A idade e a paridade podem produzir tensão sobre os ligamentos e as estruturas que compõem a pelve feminina e o assoalho pélvico. O parto pode resultar em lacerações da musculatura de sustentação, resultando em fraqueza estrutural. A deficiência hormonal também pode desempenhar um papel. Em mulheres idosas, podese verificar a presença de algum grau de prolapso (enfraquecimento das paredes vaginais, possibilitando a descida dos órgãos pélvicos e a sua protrusão em direção ao canal vaginal). Os fatores de risco incluem idade, paridade e parto vaginal, podendo haver também uma predisposição familiar. A cistocele é um deslocamento da bexiga para baixo, em direção ao orifício vaginal (Figura 57.3), em decorrência de lesão das estruturas de sustentação vaginais anteriores. Em geral, resulta de lesão e tensão durante o parto. A condição surge habitualmente em alguns anos, quando ocorre atrofia genital associada ao envelhecimento; todavia, mulheres mais jovens, multíparas e na prémenopausa também podem ser afetadas. A retocele é uma protrusão do reto para cima, empurrando a parede posterior da vagina para a frente. Tanto a retocele quanto as lacerações perineais, que são consequentes a lacerações musculares abaixo da vagina, podem afetar os músculos e os tecidos do assoalho pélvico e ocorrer durante o parto. Algumas vezes, as lacerações podem seccionar por completo as fibras do esfíncter anal (laceração completa). A enterocele é uma protrusão da parede intestinal em direção à vagina. O prolapso resulta de um enfraquecimento das estruturas de sustentação do próprio útero; o colo do útero cai e pode fazer protrusão desde a vagina. Se ocorrer prolapso completo, ele também pode ser designado como procidência. Manifestações clínicas Como a cistocele provoca abaulamento da parede vaginal anterior para baixo, a cliente pode relatar uma sensação de pressão pélvica e problemas urinários, tais como incontinência, polaciúria e urgência. Além disso, podem ocorrer dor na região lombar e dor pélvica. Os sintomas da retocele assemelhamse aos da cistocele, com uma exceção: em lugar dos sintomas urinários, as clientes podem apresentar pressão retal. Em clientes com lacerações completas, podem ocorrer constipação intestinal, eliminação incontrolável de gases e incontinência fecal. O prolapso pode resultar em sensação de pressão, ulcerações e sangramento. Pode ocorrer dispaurenia com esses distúrbios. Manejo clínico Os exercícios de Kegel, que consistem em contrair ou retesar os músculos vaginais, são prescritos para ajudar a fortalecer esses músculos enfraquecidos (Schuiling e Likis, 2013). Os exercícios são mais efetivos nos estágios iniciais da cistocele. Os exercícios de Kegel são fáceis de realizar e são recomendados para todas as mulheres, incluindo aquelas com músculos do assoalho pélvico fortes (Boxe 57.4). Boxe 57.4 ORIENTAÇÕES À CLIENTE Realização de exercícios de Kegel (músculo pélvico) Finalidade: Fortalecer e manter o tônus do músculo pubococcígeo, que sustenta os órgãos pélvicos; reduzir e evitar a incontinência de estresse e o prolapso uterino; aumentar a sensação durante a relação sexual; e acelerar a cicatrização pós-parto Ficar atenta para a função da musculatura pélvica ao contrair os músculos perivaginais e o esfíncter anal como se fosse interromper a urina ou a defecação, porém sem contrair os músculos abdominais, das nádegas ou da parte interna das coxas. Sustentar a contração dos músculos por até 10 segundos, seguido de pelo menos 10 segundos de relaxamento. Realizar esses exercícios 30 a 80 vezes/dia. Figura 57.3 Representação diagramática dos três tipos mais comuns de relaxamento do assoalho pélvico. A. Cistocele. B. Retocele. C. Enterocele. As setas indicam os locais de protrusão máxima. É possível utilizar um pessário para evitar a cirurgia (Lone, Thakar, Sultan et al., 2011). Esse dispositivo é inserido na vagina e posicionado para manter um órgão, como a bexiga, o útero ou o intestino, adequadamente alinhado na presença de cistocele, retocele ou prolapso. Os pessários têm habitualmente uma forma de anel ou rosca e são fabricados de vários materiais, como borracha ou plástico (Figura 57.4). Os pessários de borracha devem ser evitados em mulheres com alergia ao látex. O tamanho e o tipo de pessário são selecionados e adaptados por um ginecologista. A cliente deve ter o pessário removido, examinado e limpo pelo médico a intervalos prescritos. Por ocasião dessas verificações, as paredes vaginais devem ser examinadasà procura de pontos de pressão ou sinais de irritação. Normalmente, a cliente não sente dor nem desconforto ou secreção com o uso de um pessário; todavia, se houver irritação crônica, podem ser necessárias medidas alternativas. Uma esfera de Colpexin™ constitui outro dispositivo não cirúrgico utilizado para o tratamento do prolapso de órgãos pélvicos. Esse dispositivo intravaginal assemelhase a um pessário, porém sustenta e facilita o exercício dos músculos do assoalho pélvico. É removido diariamente para limpeza. Manejo cirúrgico Em muitos casos, a cirurgia ajuda a corrigir as anormalidades estruturais. O procedimento para o reparo da parede vaginal anterior é denominado colporrafia anterior, enquanto o reparo de uma retocele é denominado colporrafia posterior, e o reparo de lacerações perineais, perineorrafia. Com frequência, esses reparos são realizados por meio de laparoscópio, levando a internações curtas e bons resultados. Um laparoscópio é inserido por uma pequena incisão abdominal, a pelve é visualizada, e são efetuados os reparos cirúrgicos. Uma malha cirúrgica é algumas vezes usada, porém tem sido associada à complicação de erosão vaginal (American College of Obstetricians and Gynecologists [ACOG], 2011a). A agência norteamericana Food and Drug Administration (FDA, 2012) recomendou a realização de mais estudos de póscomercialização comparando a malha cirúrgica com produtos derivados de tecidos nas cirurgias para prolapso de órgãos pélvicos. Prolapso uterino Em geral, o útero e o colo do útero localizamse em ângulos retos ao eixo longitudinal da vagina, com o corpo do útero ligeiramente inclinado para a frente. Em condições normais, o útero movese livremente ao exame. As variações individuais podem resultar em posição anterior, média ou posterior do útero. A posição do útero para trás, conhecida como retroversão e retroflexão, não é rara (Figura 57.5). Se houver enfraquecimento das estruturas que sustentam o útero (geralmente em consequência do parto), o útero pode deslocarse para baixo pelo canal vaginal (prolapso) e até mesmo aparecer externamente ao orifício vaginal (procidência) (Figura 57.6). À medida que o útero desce, ele pode arrastar consigo as paredes vaginais e até mesmo a bexiga e o reto. Os sintomas consistem em pressão e problemas urinários (incontinência ou retenção), dado o deslocamento da bexiga. Os sintomas são agravados quando a mulher tosse, levanta um objeto pesado ou permanece em pé por um longo período. Atividades normais, até mesmo subir escadas, podem agravar os sintomas. Manejo clínico Há opções cirúrgicas e não cirúrgicas para o tratamento. Com a cirurgia, o útero é suturado em sua posição e reparado para fortalecer e retesar as faixas musculares. Nas mulheres na pósmenopausa, o útero pode ser removido (histerectomia) ou reparado por colpopexia. A colpoclise ou fechamento vaginal pode constituir uma opção para as mulheres que não desejam ter relações sexuais nem ter filhos. O tratamento conservador, incluindo uso de pessários, treinamento da musculatura do assoalho pélvico ou ambos, pode resultar habitualmente em melhora sintomática (Cullingan, 2012). Os pessários podem constituir o tratamento de escolha para mulheres idosas ou sem condições de tolerar a cirurgia (Lone et al., 2011). Figura 57.4 Exemplos de pessários. A. Vários formatos e tamanhos de pessários disponíveis. B. Inserção de um tipo de pessário. Figura 57.5 Posições do útero. A. A posição mais comum do útero detectada à palpação. B. Na retroversão, o útero sofre rotação posterior como uma única unidade. C. Na retroflexão, o fundo curvase posteriormente. D. Na anteversão, o útero inclinase para a frente, como uma única unidade. E. Na anteflexão, o útero curvase anteriormente. Figura 57.6 Prolapso completo do útero através do introito. Manejo de enfermagem Implantação das medidas de prevenção É possível evitar alguns distúrbios relacionados com o “relaxamento” dos músculos pélvicos (cistocele, retocele e prolapso uterino). Durante a gravidez, as visitas iniciais ao médico possibilitam a detecção precoce de problemas. Durante o período pósparto, a mulher pode ser instruída a realizar exercícios dos músculos pélvicos, comumente conhecidos como exercícios de Kegel, para aumentar a massa muscular e fortalecer os músculos que sustentam o útero, e, em seguida, continuar com eles como medida preventiva (Schuiling e Likis, 2013). As demoras na obtenção de avaliação e tratamento podem resultar em complicações, como infecção, ulceração cervical, cistite e hemorroidas. A enfermeira incentiva a cliente a procurar tratamento imediato para esses distúrbios estruturais. Implantação do cuidado de enfermagem préoperatório Antes da cirurgia, a cliente precisa conhecer a extensão da intervenção proposta, as expectativas para o período pós operatório e o efeito da cirurgia sobre o desempenho sexual futuro. Além disso, a cliente que se submete a um reparo de retocele precisa saber que, antes da cirurgia, podem ser prescritos um laxativo e um enema de limpeza. Pode ser solicitada a administrálos em casa, no dia anterior à cirurgia. A cliente é habitualmente colocada em posição de litotomia para cirurgia, com atenção especial para a colocação e remoção de ambas as pernas simultaneamente dos estribos, a fim de evitar qualquer tensão muscular e pressão excessiva sobre as pernas e as coxas. As outras intervenções préoperatórias assemelhamse às descritas no Capítulo 17. Início do cuidado de enfermagem pósoperatório As metas no pósoperatório imediato consistem na prevenção da infecção e da pressão sobre qualquer linha de sutura existente. Isso pode exigir o cuidado perineal e impedir o uso de curativos. A cliente é incentivada a urinar poucas horas após a cirurgia para cistocele e laceração completa. Se a cliente não urinar nesse período e relatar qualquer desconforto ou dor na região da bexiga depois de 6 h, ela precisa ser cateterizada. Podese indicar um cateter de demora por 2 a 4 dias, de modo que algumas mulheres podem retornar para casa com um cateter em posição. Vários outros métodos de cuidado da bexiga são descritos no Capítulo 55. Depois de cada micção ou evacuação, o períneo pode ser limpo com soro fisiológico estéril morno e, em seguida, seco com material absorvente estéril, se houver uma incisão perineal. Após um reparo perineal externo, o períneo é mantido o mais limpo possível. Sprays, disponíveis para comercialização, contendo uma combinação de soluções antisséptica e anestésica, são suavizantes e efetivos, da mesma forma que a aplicação local de uma bolsa de gelo pode aliviar o desconforto. Todavia, o peso da bolsa de gelo deve repousar sobre o leito e não sobre a cliente. O cuidado pósoperatório de rotina assemelhase àquele fornecido após uma cirurgia abdominal. A cliente é posicionada no leito com a cabeça e os joelhos ligeiramente elevados. A cliente pode ir para casa no dia da cirurgia ou no dia seguinte; a duração da internação depende da conduta cirúrgica utilizada. Depois de uma cirurgia para laceração perineal completa (através do esfíncter retal), são necessários cuidados e atenção especiais. A bexiga é drenada através do cateter para evitar a tensão sobre as suturas. Durante toda a recuperação, são administrados agentes emolientes fecais à noite, depois que a cliente inicia uma dieta branda. Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados Antes da alta, são fornecidas orientações e demonstrações sobre limpeza, prevenção da constipação intestinal, exercícios indicados, incluindo recomendaçõesde evitar levantar objetos pesados ou permanecer em pé por períodos prolongados. A cliente é instruída a relatar qualquer dor pélvica, secreção incomum, incapacidade de realizar a higiene pessoal e sangramento vaginal. Cuidados contínuos A cliente é aconselhada a continuar os exercícios perineais, que são recomendados para melhorar a força e o tônus musculares. Devese lembrar a cliente sobre a necessidade de retornar ao ginecologista para uma consulta de acompanhamento e de consultar o médico sobre o momento seguro para retomar a atividade sexual. DISTÚRBIOS BENIGNOS Vulvite e vulvodinia A vulvite (inflamação da vulva) pode ocorrer com outros distúrbios, como diabetes melito, problemas dermatológicos ou higiene deficiente, ou pode ser secundária à irritação causada por uma secreção vaginal relacionada com uma vaginite específica. A vulvodinia é uma síndrome de dor vulvar crônica. Os sintomas podem consistir em sensação de queimação, ardência, irritação ou dor em punhalada. A síndrome tem sido descrita como primária, com início na primeira inserção de tampão ou experiência sexual, ou secundária, surgindo vários meses ou anos após a primeira inserção de tampão ou experiência sexual. As mulheres acometidas têm habitualmente entre 18 e 25 anos de idade. A vulvodinia pode ser classificada como orgânica, quando apresenta uma etiologia conhecida (infecção, traumatismo ou irritantes), ou como idiopática, se não houver nenhuma causa conhecida. Pode ser crônica ou ininterrupta, intermitente ou episódica, ou pode ocorrer apenas em resposta ao contato (Schuiling e Likis, 2013). A fisiopatologia permanece desconhecida. A vestibulodinia é o tipo mais frequente de vulvodinia, que provoca dor intensa à pressão sobre o vestíbulo ou a parte posterior da abertura da vagina. Manejo clínico Os métodos de tratamento para a vulvodinia variam e dependem da etiologia. Foram utilizados tratamentos tópicos (i. e., estrogênios, corticosteroides, ácido tricloroacético), cirurgia e interferona, bem como biofeedback e mudanças dietéticas. Alguns casos parecem ser semelhantes à neuralgia periférica e podem responder ao tratamento com agentes antidepressivos tricíclicos. As clientes com dispareunia ou relação sexual dolorosa podem beneficiarse do encaminhamento a um terapeuta com experiência em disfunção sexual (Schuiling e Likis, 2013). Cistos vulvares O cisto de Bartholin resulta da obstrução de um ducto em uma das glândulas pares de Bartholin ou glândulas vestibulares secretoras de muco localizadas no terço posterior da vulva, próximo ao vestíbulo. Esse cisto constitui o distúrbio vulvar mais comum. Um cisto simples pode ser assintomático; entretanto, a ocorrência de cisto infectado ou abscesso pode causar desconforto. A infecção pode ser decorrente de um microrganismo gonocócico, Escherichia coli ou Staphylococcus aureus e pode produzir um abscesso, com ou sem comprometimento dos linfonodos inguinais. Os cistos do ducto de Skene podem resultar em pressão, dispareunia, alteração do jato urinário e dor, particularmente na presença de infecção. Além disso, podem ocorrer cistos vestibulares, localizados inferiormente ao hímen. Os cistos podem ser tratados por meio de ressecção ou laser, ablação com nitrato de prata e punção. Os cistos assintomáticos não necessitam de tratamento. Pode ocorrer neoplasia maligna, habitualmente em mulheres com mais de 40 anos de idade, de modo que se pode considerar a realização de drenagem e biopsia (Schuiling e Likis, 2013). Manejo clínico O tratamento habitual para o cisto de Bartholin sintomático ou abscesso consiste em drenagem. Se o cisto for assintomático, não há necessidade de tratamento. O calor úmido ou os banhos de assento podem promover a drenagem e a resolução. Se houver necessidade de drenagem, dispõese de muitos métodos, porém as melhores práticas não foram estabelecidas (Wechter, Wu, Marzano et al., 2009). O uso de um cateter de Word constitui um dos métodos. Esse cateter, que consiste em uma pequena haste de látex com balão inflável na extremidade distal, cria um trato que preserva a glândula e possibilita a drenagem. Podese administrar um analgésico não opioide antes desse procedimento ambulatorial. Injetase um agente anestésico local, e efetuase uma incisão ou utilizase uma lanceta, e o cisto é irrigado com soro fisiológico; o cateter é inserido e inflado com 2 a 3 mℓ de água. Em seguida, a haste do cateter é introduzida na vagina para possibilitar a liberdade de movimento. O cateter é mantido na posição por 4 a 6 semanas até ocorrer a reepitelização do trato (Schuiling e Likis, 2013). A cliente é informada de que deve esperar a ocorrência de secreção, visto que o cateter possibilita a drenagem do cisto. É instruída a entrar em contato com seu médico caso sinta dor, visto que o balão pode ser muito grande para a cavidade, e pode haver necessidade de remover o líquido. A higiene de rotina é incentivada. Distrofia vulvar A distrofia vulvar é uma condição encontrada em mulheres idosas, que provoca ressecamento e espessamento da pele sobre a vulva ou pápulas esbranquiçadas e ligeiramente elevadas, fissuras ou máculas. Em geral, os sintomas consistem em graus variáveis de prurido, porém algumas clientes podem não exibir sintomas. Algumas clientes com câncer de vulva apresentam distrofia associada (o câncer de vulva é discutido mais adiante, neste capítulo). A biopsia com acompanhamento cuidadoso constitui a intervenção padrão (Schuiling e Likis, 2013). As distrofias benignas incluem líquen plano, líquen crônico simples, líquen escleroso (distúrbio benigno da vulva), hiperplasia de células escamosas, vestibulite vulvar (inflamação do vestíbulo da vulva) e outras dermatoses. Manejo clínico O tratamento habitual consiste em corticosteroides tópicos (i. e., cremes de hidrocortisona). A vaselina, cujo uso é diminuído à medida que os sintomas regridem, pode aliviar o prurido. Os corticosteroides tópicos mostramse efetivos no tratamento da hiperplasia de células escamosas. Com frequência, o tratamento é concluído entre 2 e 3 semanas, porém devese efetuar uma avaliação constante quanto à atrofia vulvar, pelo menos anualmente (Schuiling e Likis, 2013). Se forem detectadas células malignas da biopsia, utilizamse a excisão local, a terapia com laser, a quimioterapia local e o tratamento imunológico. A vulvectomia é evitada, quando possível, para poupar a cliente do estresse da desfiguração e possível disfunção sexual. Manejo de enfermagem As principais responsabilidades de enfermagem para clientes com distrofias vulvares concentramse na orientação. Os tópicos importantes incluem higiene e automonitoramento para sinais e sintomas de complicações. Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados As instruções para clientes com distrofias vulvares benignas incluem a razão de manter uma boa higiene pessoal e conservar a vulva seca. Recomendase a aplicação de lanolina ou de óleo vegetal hidrogenado para aliviar o ressecamento. Os banhos de assento podem ser úteis, porém não devem ser realizados em excesso, visto que pode ocorrer ressecamento ou aumento do ressecamento. A cliente é instruída a notificar o seu médico sobre qualquer alteração ou ulceração, visto que pode ser necessária a realização de biopsia para excluir o carcinoma de células escamosas. Ao incentivar todas as clientes a realizar regularmente um autoexame genital e a procurar a avaliação por um médico na presença de qualquer prurido, lesões ou sintomas incomuns, as enfermeiras podem ajudar a evitar as complicações e a progressão das lesõesvulvares. Devese efetuar uma avaliação constante, pelo menos anualmente. Cistos de ovário O ovário constitui um local comum para o desenvolvimento de cistos, que podem consistir em aumentos simples dos constituintes ovarianos normais, do folículo de Graaf ou do corpo lúteo, ou que podem surgir em consequência do crescimento anormal do epitélio ovariano. Com frequência, os cistos ovarianos são detectados em um exame pélvico de rotina. Embora esses cistos sejam geralmente benignos, devem ser avaliados, entretanto, para excluir a possibilidade de câncer de ovário, particularmente em mulheres na pósmenopausa (ACOG, 2007, reafirmado em 2009). A cliente pode ou não relatar a ocorrência de dor abdominal aguda ou crônica. Os sintomas de ruptura de cisto simulam várias emergências abdominais agudas, como apendicite ou gravidez ectópica. Os cistos maiores podem produzir tumefação abdominal e exercer pressão sobre os órgãos abdominais adjacentes. O cuidado de enfermagem pósoperatório depois da cirurgia para remoção de cisto de ovário assemelhase àquele depois de uma cirurgia abdominal, com uma exceção. A acentuada redução da pressão intraabdominal que resulta da remoção de um cisto muito grande leva habitualmente a uma considerável distensão abdominal. Isso pode ser evitado, em certo grau, pela aplicação de uma cinta abdominal bem ajustada. Alguns cirurgiões discutem a opção de uma histerectomia quando a mulher deve se submeter à remoção bilateral dos ovários, em decorrência de massa suspeita; essa conduta pode aumentar a expectativa de vida e evitar uma segunda cirurgia posteriormente. A preferência da cliente constitui uma prioridade na determinação de sua adequação. A síndrome dos ovários policísticos (SOPC) é um tipo de desequilíbrio hormonal ou distúrbio cístico que acomete os ovários. Essa condição endócrina complexa envolve um distúrbio da rede ou eixo hipotálamohipófise e ovário, resultando em anovulação crônica e excesso clínico de androgênio, frequentemente com múltiplos cistos ovarianos pequenos. A SOPC é comum e ocorre em aproximadamente 6% das mulheres em idade fértil (Hall, 2011). As características podem incluir obesidade, resistência à insulina, comprometimento da tolerância à glicose, dislipidemia, apneia de sono e infertilidade. Os sintomas estão relacionados com o excesso de androgênio. A queixa de apresentação pode consistir em períodos menstruais irregulares, devido à falta de ovulação regular, infertilidade, obesidade e hirsutismo. Os cistos formamse nos ovários, visto que o meio hormonal é incapaz de produzir ovulação de maneira regular. O diagnóstico baseiase em critérios clínicos, incluindo hiperandrogenismo, disfunção menstrual e ovários policísticos na ultrassonografia. Dois desses três critérios precisam ser preenchidos para estabelecer o diagnóstico (Schuiling e Likis, 2013). As mulheres com SOPC correm risco aumentado de desenvolver condições físicas, incluindo diabetes melito, aumento dos lipídios sanguíneos e doença cardiovascular, bem como numerosos problemas psicossociais, como raiva, frustração e ansiedade (Hall, 2011; Weiss e Bulmer, 2011) (Boxe 57.5). Boxe 57.5 PESQUISA DE ENFERMAGEM Convivência com a síndrome dos ovários policísticos Weiss TR, Bulmer SM. Young women’s experiences living with polycystic ovary syndrome. Journal of Obstetric, Gynecologic, and Neonatal Nursing, 2011:40(6), 709- 718. Finalidade A 攀nalidade desse estudo foi explorar a experiência psicossocial de conviver com a síndrome dos ovários policísticos em mulheres no 攀nal da adolescência e início da segunda década de vida. Essa síndrome ocorre entre 5 e 10% de todas as mulheres de idade fértil; contudo, poucos estudos abordaram as experiências dessas mulheres jovens. Metodologia Esse estudo utilizou uma metodologia fenomenológica qualitativa. Foram realizadas entrevistas aprofundadas com 12 mulheres jovens de 18 a 23 anos de idade. As mulheres foram recrutadas em campi universitários. Achados Vários temas surgiram das respostas das participantes sobre preocupações relacionadas com o futuro (i. e., problemas futuros de saúde, incluindo câncer, diabetes melito e doença cardíaca), sentimento de inferioridade física, enfrentamento dos sintomas, relação médico-cliente, busca de informações e apoio e como lidar com uma condição crônica. Implicações para a enfermagem As enfermeiras devem trabalhar com médicos e clientes para desenvolver um plano holístico abrangente de cuidado que inclua as questões psicossociais. As clientes podem necessitar de instruções para desenvolver habilidades de comunicação efetiva com seu médico. Os grupos de apoio podem ser valiosos, quando disponíveis. É essencial incentivar a prática de exercícios regulares e uma boa nutrição para ajudar essas mulheres a otimizar seu estado de saúde na adolescência e durante toda a vida. Manejo clínico O tratamento dos cistos ovarianos grandes consiste habitualmente em sua remoção cirúrgica. Todavia, podem ser utilizados contraceptivos orais em clientes jovens e saudáveis para suprimir a atividade ovariana e tratar pequenos cistos que parecem ser fisiológicos ou estar cheios de líquido. Os contraceptivos orais também são habitualmente prescritos para o tratamento da SOPC (Weis, 2011). Quando há desejo de engravidar, os medicamentos para estimular a ovulação (clomifeno) são frequentemente efetivos. A modificação do estilo de vida é de importância crucial, e o controle do peso faz parte do plano de tratamento. Uma perda de peso de apenas 5% do peso corporal total pode ajudar no tratamento do desequilíbrio hormonal e infertilidade (Schuiling e Likis, 2013). A metformina frequentemente regula os períodos menstruais e pode ajudar a perder peso. As mulheres com esse diagnóstico correm risco aumentado de câncer endometrial dada a anovulação. Tumores benignos do útero | Fibroides (liomiomas, miomas) Estimase que os tumores fibroides ou miomatosos do útero ocorrem em 25 a 40% das mulheres durante os anos reprodutivos (Schuiling e Likis, 2013). Acreditase que as mulheres sejam geneticamente predispostas ao desenvolvimento dessa condição, que é quase sempre benigna. Os fibroides originamse no tecido muscular do útero e podem ser solitários ou múltiplos, no revestimento (intracavitários), na parede muscular (intramurais) e na superfície externa (serosos) do útero. Em geral, desenvolvemse lentamente nas mulheres entre 25 e 40 anos de idade e podem ficar muito grandes. Pode ocorrer um surto de crescimento com aumento do tumor fibroide na década que antecede a menopausa, possivelmente relacionado com os ciclos anovulatórios e com os elevados níveis de estrogênio sem oposição. Os fibroides constituem um motivo comum para a histerectomia, visto que esses frequentemente resultam em menorragia, cujo controle pode ser difícil. Manifestações clínicas Os fibroides podem não produzir sintomas ou podem causar sangramento vaginal anormal. Os outros sintomas decorrem da pressão exercida sobre os órgãos adjacentes e consistem em dor, dor na região lombar, pressão, distensão abdominal, constipação intestinal e problemas urinários. Podem ocorrer menorragia (sangramento excessivo) e metrorragia (sangramento irregular), visto que os fibroides podem distorcer o revestimento uterino (Figura 57.7). Os fibroides podem interferir na fertilidade. Manejo clínico O tratamento dos fibroides uterinos pode consistir em intervenção médica ou cirúrgica e depende, em grande parte, do tamanho, dos sintomas e da localização, bem como da idade da mulher e de seus planos reprodutivos. Em geral, os fibroides sofrem retração e desaparecem durante a menopausa, quando não há mais produção de estrogênio. A observação e o acompanhamentosimples podem constituir todo o tratamento necessário. A cliente com sintomas menores é rigorosamente monitorada. Se ela planejar ter filhos, o tratamento deve ser o mais conservador possível. Como regra, os grandes tumores que provocam sintomas de pressão devem ser removidos cirurgicamente (miomectomia). Podese realizar uma histerectomia se os sintomas forem graves e se a idade reprodutiva estiver concluída (ver discussão adiante sobre o cuidado de enfermagem para uma cliente submetida a histerectomia). • • • • • • Figura 57.7 Miomas (fibroides). Os que invadem a cavidade uterina são denominados miomas intracavitários. Foram desenvolvidas várias alternativas para a histerectomia no tratamento do sangramento excessivo em decorrência de fibroides (Schuiling e Likis, 2013), a saber: Ressecção histeroscópica dos miomas: utilizase um laser por meio de um histeroscópio introduzido através do colo do útero; não há necessidade de incisão nem permanecer internada durante a noite Miomectomia laparoscópica: remoção de fibroide com um laparoscópio inserido por uma pequena incisão abdominal Miólise laparoscópica: uso de laser ou agulhas elétricas para cauterizar e reduzir o tamanho do fibroide Criomiólise laparoscópica: utilizase uma corrente elétrica para coagular o fibroide Embolização da artéria uterina (EAU): são injetadas partículas de álcool polivinílico ou de gelatina nos vasos sanguíneos que suprem o fibroide através da artéria femoral, resultando em infarto e consequente retração. Essa terapia percutânea guiada por imagem oferece uma alternativa para a terapia hormonal ou a cirurgia. A EAU pode resultar em complicações raras, porém graves, como dor, infecção, amenorreia, necrose e sangramento. Apesar de sua raridade, podem ocorrer morte e insuficiência ovariana. As mulheres precisam analisar cuidadosamente os riscos e os benefícios, particularmente se ainda não completaram a sua idade reprodutiva. Foi constatado que esse procedimento provoca menos complicações que a histerectomia, porém as mulheres podem necessitar de tratamento adicional no futuro (Hickey, Marino e Brownfoot, 2012) Cirurgia por ultrassonografia focada guiada por ressonância magnética (SUSFgRM): A energia ultrassônica é aplicada através da parede abdominal para destruir o fibroide. Esse procedimento não invasivo foi aprovado pela FDA para mulheres na prémenopausa com sintomas desagradáveis devido a fibroides e que não querem mais ter filhos. Tratase de um tratamento ambulatorial. Os medicamentos (p. ex., leuprolida) ou outros análogos do hormônio de liberação das gonadotropinas (GnRH), que induzem um ambiente temporário semelhante à menopausa, podem ser prescritos para diminuir o tamanho dos fibroides. Esse tratamento consiste em injeções mensais, que podem provocar ondas de calor e ressecamento vaginal. Em geral, o tratamento é de curta duração (i. e., antes da cirurgia) para reduzir o tamanho dos fibroides, possibilitando a realização mais fácil da cirurgia, e para aliviar a anemia, que pode ocorrer em consequência do fluxo menstrual intenso. Esse tratamento é utilizado de modo temporário, visto que leva a sintomas vasomotores e perda da densidade óssea. Os agentes antifibróticos estão em fase de investigação para o tratamento a longo prazo dos fibroides. A mifepristona, um antagonista da progesterona, também é utilizada. Endometriose A endometriose é uma doença crônica que afeta 6 a 10% das mulheres em idade fértil (Falcone e Lebovic, 2011). Tratase de uma lesão ou lesões benignas que contêm tecido endometrial (semelhante ao que reveste o útero), encontradas na cavidade pélvica, fora do útero. A endometriose extensa pode causar poucos sintomas, enquanto uma lesão isolada pode causar sintomas graves. Tratase de uma importante causa de dor pélvica crônica e infertilidade. A endometriose tem sido diagnosticada com mais frequência, em consequência do uso aumentado da laparoscopia. É alta a incidência entre as clientes que geram filhos em uma idade avançada e entre as que têm menos filhos. Nos países em que a tradição favorece o casamento precoce e ter filhos cedo, a endometriose é rara. Parece existir também uma predisposição familiar à endometriose; ela é mais comum nas mulheres cujas parentas próximas são afetadas. Outros fatores que podem sugerir um risco aumentado incluem ciclo menstrual mais curto (com menos de 27 dias), fluxo menstrual durante mais de 7 dias, obstrução do efluxo e idade mais jovem na menarca. Em geral, a endometriose é observada em mulheres jovens e nulíparas entre 25 e 35 anos de idade, bem como em adolescentes, particularmente naquelas com dismenorreia que não responde aos agentes antiinflamatórios não esteroides (AINEs) nem aos contraceptivos orais (Falcone e Lebovic, 2011). Fisiopatologia O tecido endometrial de localização imprópria responde à estimulação hormonal ovariana e depende dela. Durante a menstruação, esse tecido ectópico sangra, em sua maior parte, em áreas sem saída, o que provoca dor e formação de aderências. Em geral, as lesões são pequenas e pregueadas, com uma aparência de queimado com pó azul/acastanhado/acinzentado e aparência castanha ou azulescura, indicando sangramento retido. O tecido endometrial contido em um cisto ovariano não tem saída para o sangramento; essa formação é designada como pseudocisto ou cisto achocolatado. Em consequência, podem ocorrer aderências, cistos e tecido cicatricial, causando dor e infertilidade (Hall, 2011). A endometriose pode aumentar o risco de câncer de ovário. Na atualidade, a teoria mais bem aceita sobre a origem das lesões endometriais é a teoria do transplante, que sugere que o refluxo da menstruação (menstruação retrógrada) transporta o tecido endometrial para locais ectópicos através das tubas uterinas. Não se sabe por que algumas mulheres com menstruação retrógrada desenvolvem endometriose, e outras não. O tecido endometrial também pode disseminarse pelos canais linfáticos ou venosos. Manifestações clínicas Os sintomas variam, porém incluem dismenorreia, dispareunia e desconforto ou dor pélvicos. Podem ocorrer disquezia (dor na evacuação) e irradiação da dor para as costas ou para as pernas. Em consequência, podem ocorrer depressão, perda do trabalho em decorrência de dor e dificuldades de relacionamento. Pode haver infertilidade, causada por fibrose e aderências, ou por uma variedade de substâncias (prostaglandinas, citocinas, outros fatores) produzidas pelos implantes da endometriose e pelo tecido cicatricial em locais anatômicos. Avaliação e achados diagnósticos É necessário obter uma história de saúde, incluindo relato do padrão menstrual, para identificar os sintomas específicos. No exame pélvico bimanual, nódulos hipersensíveis fixos são algumas vezes palpados, e a mobilidade uterina pode ser limitada, indicando aderências. O exame laparoscópico confirma o diagnóstico e ajuda no estadiamento da doença. No estágio 1, as clientes apresentam lesões superficiais ou mínimas; no estágio 2, ocorre comprometimento leve; no estágio 3, observase comprometimento moderado; e, no estágio 4, comprometimento extenso e aderências densas, com obliteração do fundo de saco. Manejo clínico O tratamento depende dos sintomas, do desejo de engravidar da cliente e da extensão da doença. Se a mulher não apresentar sintomas, o exame de rotina pode ser tudo o que é necessário. Outras terapias para graus variáveis de sintomas podem incluir AINE, contraceptivos orais, agonistas do GnRH ou cirurgia. Com frequência, a gravidez alivia os sintomas, visto que não ocorrem ovulação nem menstruação. Terapia farmacológicaAs medidas paliativas incluem o uso de medicamentos, como agentes analgésicos e inibidores das prostaglandinas, para alívio da dor. A terapia hormonal mostrase efetiva para suprimir a endometriose e aliviar a dismenorreia (dor menstrual). Os contraceptivos orais proporcionam alívio efetivo da dor e podem evitar a progressão da doença (Schuiling e Likis, 2013). Raramente, podem ocorrer efeitos colaterais com os contraceptivos orais, como retenção hídrica, ganho de peso e náuseas. Em geral, esses efeitos colaterais podem ser tratados com troca da marca ou da formulação do medicamento. Além dos contraceptivos orais, dispõese também de vários tipos de terapia hormonal. Um androgênio sintético, o danazol, provoca atrofia do endométrio e amenorreia subsequente. O medicamento inibe a liberação de gonadotropinas, com estimulação mínima dos hormônios sexuais. As desvantagens desse medicamento são o seu elevado custo e a possível ocorrência de efeitos colaterais desagradáveis, como fadiga, depressão, ganho de peso, pele oleosa, diminuição do tamanho das mamas, acne leve, ondas de calor e atrofia vaginal (Schuiling e Likis, 2013). Os agonistas do GnRH reduzem a produção de estrogênio e provocam amenorreia subsequente. Os efeitos colaterais estão relacionados com os baixos níveis de estrogênio (p. ex., ondas de calor e ressecamento vaginal). A perda da densidade óssea é, com frequência, compensada pelo uso concomitante de estrogênio. A leuprolida, um agonista do GnRH, é injetada mensalmente para suprimir os hormônios e induzir uma menopausa artificial, evitando, dessa maneira, os efeitos menstruais e aliviando a endometriose. Com frequência, utilizase uma combinação de terapias clínicas (Schuiling e Likis, 2013). A maioria das mulheres continua o tratamento, apesar dos efeitos colaterais, e os sintomas diminuem em 80 a 90% das mulheres com endometriose leve a moderada. Não são utilizados medicamentos hormonais em clientes com história de sangramento vaginal anormal ou doença hepática, cardíaca ou renal. A densidade óssea é acompanhada cuidadosamente, dado o risco de perda óssea; a terapia hormonal é habitualmente a curto prazo. Manejo cirúrgico Quando as medidas conservadoras não são úteis, a cirurgia pode ser necessária para aliviar a dor e aumentar a possibilidade de gravidez. A cirurgia pode ser combinada com o uso de terapia clínica. O procedimento selecionado depende da cliente. A laparoscopia pode ser utilizada para fulgurar (corte realizado com corrente de alta frequência) os implantes endometriais e liberar as aderências. A cirurgia com laser constitui outra opção, que se tornou possível com a laparoscopia. A terapia com laser vaporiza ou coagula os implantes endometriais, destruindo, assim, esse tecido. Outras opções cirúrgicas incluem a endocoagulação e a eletrocoagulação, a laparotomia, a histerectomia abdominal, a ooforectomia (remoção do ovário), a salpingoooforectomia bilateral (remoção do ovário e da tuba uterina) e a apendicectomia. Muitas mulheres necessitam de intervenção adicional após a cirurgia conservadora; por conseguinte, a histerectomia total constitui o procedimento definitivo. Manejo de enfermagem A história de saúde e o exame físico concentramse nos sintomas específicos (p. ex., dor pélvica), no efeito dos medicamentos prescritos e nos planos reprodutivos da mulher. Essa informação ajuda a definir o plano de tratamento. A explicação dos vários procedimentos diagnósticos pode ajudar a aliviar a ansiedade da cliente. As metas da cliente incluem alívio da dor, da dismenorreia e dispaurenia e prevenção da infertilidade. À medida que o tratamento progride, a mulher com endometriose e seu parceiro podem concluir que a gravidez não é facilmente possível, e o impacto psicossocial desse reconhecimento precisa ser identificado e abordado. Alternativas, como fertilização in vitro ou adoção, podem ser discutidas em um momento apropriado, oferecendose as referências necessárias. O papel da enfermeira na orientação da cliente consiste em dissipar os mitos e incentivar a cliente a procurar tratamento se houver dismenorreia ou dispareunia. A Endometriosis Association (ver seção “Recursos”, no final deste capítulo) é uma instituição útil para clientes que buscam informações adicionais e apoio para essa doença, que pode provocar dor incapacitante e sofrimento emocional intenso.4 Dor pélvica crônica A dor pélvica crônica é um distúrbio comum das mulheres, que pode estar relacionada com vários dos distúrbios ginecológicos anteriormente discutidos. A dor pélvica crônica – isto é, dor pélvica que persiste por mais de 6 meses – pode ser cíclica ou intermitente e não cíclica (Baron, Florendo, Sandbo et al., 2011). As causas podem ser de origem reprodutiva, geniturinária ou gastrintestinal. A dor pélvica crônica pode estar associada a uma história de abuso sexual e físico, DIP, endometriose, cistite intersticial, distúrbios musculoesqueléticos, síndrome do intestino irritável e cirurgia prévia, resultando em aderências abdominais. A dismenorreia, a dispareunia e a dor na parte inferior do abdome também podem estar associadas a abuso sexual e físico. Com frequência, é difícil tratar a dor pélvica crônica. O tratamento depende dos resultados do exame físico e exames complementares, igualmente pode incluir antidepressivos, analgésicos e contraceptivos orais; agonistas do GnRH; exercício físico; e vários procedimentos cirúrgicos (Schuiling e Likis, 2013). (Ver discussão mais detalhada sobre violência, abuso sexual e negligência familiar no Capítulo 72.) Adenomiose Na adenomiose, o tecido que reveste o endométrio invade a parede uterina. A incidência é mais elevada em mulheres multíparas (Schuiling e Likis, 2013). Os sintomas consistem em hipermenorreia (sangramento excessivo e prolongado), dismenorreia, polimenorreia (sangramento anormalmente frequente) e dor pélvica. Os achados ao exame físico na palpação incluem útero aumentado, firme e hipersensível. O tratamento depende da gravidade do sangramento e da intensidade da dor. A histerectomia pode constituir a melhor opção para proporcionar alívio dos sintomas. Hiperplasia endometrial A hiperplasia endometrial (acúmulo de tecido endometrial) pode ser um precursor do câncer endometrial e, com frequência, resulta do estrogênio de qualquer origem sem oposição. A terapia com estrogênio isoladamente, sem progesterona, em uma mulher com útero pode provocar essa doença. As mulheres com ciclos anovulatórios, SOPC ou obesidade podem apresentar níveis circulantes elevados de estrogênio. O tamoxifeno também pode constituir um fator etiológico. O diagnóstico é estabelecido com base nos achados da espessura do endométrio na biopsia ou ultrassonografia. A hiperplasia com atipia em um relato de doença ou biopsia indica risco de progressão. O tratamento com progestina pode ser efetivo, porém podese aconselhar a realização de histerectomia se a doença de uma biopsia endometrial revelar atipia. O sangramento anormal constitui o sintoma mais comum. CONDIÇÕES MALIGNAS O câncer ginecológico referese a qualquer câncer que surge nos órgãos genitais de uma mulher (CDC, 2010c). De acordo com a American Cancer Society (ACS, 2012), a incidência projetada para os cânceres do sistema genital feminino nos EUA inclui cerca de 12.170 novos casos de câncer cervical; 47.130 novos casos de câncer de útero; 22.280 novos casos de câncer de ovário; 2.680 novos casos de câncer vaginal; e 4.490 novos casos de câncer de vulva.5 O câncer de colo do útero constitui a terceira causa mais comum de morte por câncer entre mulheres no • ° ° •• • • • • • • • • • • mundo inteiro, e a incidência está diminuindo. Embora seja difícil detectar ou evitar alguns cânceres, o exame pélvico anual com um esfregaço de Papanicolaou é um método indolor e relativamente barato de detecção precoce (CDC, 2010c). Os profissionais de saúde podem incentivar as mulheres a seguir essa prática de saúde, realizando exames que são para orientação e apoio e que oferecem às mulheres uma oportunidade para fazer perguntas e esclarecer informações errôneas. As mulheres com diagnóstico de neoplasias malignas ginecológicas sofrem ansiedade relacionada com o prognóstico. A ocorrência de sintomas físicos pode causar maior sofrimento psicológico. A intervenção direcionada para os sintomas físicos e psicológicos exige uma abordagem multidisciplinar. As enfermeiras devem estar cientes de que estão sendo conduzidos ensaios clínicos contínuos para identificar tratamentos efetivos para muitas doenças. Com frequência, encontramse em uma posição para responder perguntas sobre os estudos clínicos e para incentivar as clientes a considerar sua participação, quando apropriado. A participação das mulheres na pesquisa do câncer pode não ocorrer, em parte, pelo fato de que elas não estão cientes das pesquisas relevantes em andamento (ver ClinicalTrial.gov na seção “Recursos”, no final deste capítulo).6 Câncer de colo do útero A morte por câncer de colo do útero tornouse menos comum, dada a detecção precoce das alterações celulares pelo esfregaço de Papanicolaou (CDC, 2010c). Todavia, continua sendo o terceiro câncer mais comum do sistema genital feminino, e, nos EUA, estimase que acometa mais de 12 mil mulheres por ano (CDC, 2010c). Os fatores de risco são apresentados no Boxe 57.6. As medidas preventivas incluem exames pélvicos regulares e exames de Papanicolaou para todas as mulheres, particularmente mulheres idosas que passaram da idade reprodutiva. O aconselhamento preventivo deve incentivar o adiamento da primeira relação sexual, a prevenção da infecção pelo HPV, a prática apenas de sexo seguro, a cessação do tabagismo e a imunização contra o HPV. Existem vários tipos diferentes de câncer cervical. A maioria desses cânceres consiste em carcinomas de células escamosas, enquanto o restante é constituído por adenocarcinomas ou por carcinomas adenoescamosos mistos. Os adenocarcinomas começam nas glândulas produtoras de muco e, com frequência, decorrem da infecção pelo HPV. A maioria dos cânceres cervicais, quando não são detectados nem tratados, disseminase para os linfonodos pélvicos regionais, e a recidiva local não é rara. Boxe 57.6 FATORES DE RISCO Câncer de colo do útero Atividade sexual: Vários parceiros sexuais Idade precoce (< 20 anos) por ocasião da primeira relação sexual (expõe o colo do útero jovem e vulnerável a vírus potenciais de um parceiro) Sexo com homens não circuncidados Contato sexual com homens cujas parceiras tiveram câncer cervical Ter 攀lhos precocemente Exposição ao papilomavírus humano, tipos 16 e 18 Infecção pelo vírus da imunode 攀ciência humana e outras causas de imunode 攀ciência Tabagismo e tabagismo passivo Exposição ao dietilestilbestrol in utero História familiar de câncer cervical Baixo nível socioeconômico (pode estar relacionado com o casamento precoce e ter 攀lhos precocemente) De 攀ciências nutricionais (os níveis de folato, betacaroteno e vitamina C são mais baixos nas mulheres com câncer de colo do útero que nas mulheres sem esse câncer) Infecção cervical crônica Estado de sobrepeso. Adaptado de Eggert J. (2010). Cancer basics. Pittsburgh: Oncology Nursing Society; e Schuiling KD, Likis FE. (2013). Women’s gynecologic health (2nd ed.). Burlington, MA: Jones & Bartlett. Manifestações clínicas O câncer cervical no estágio inicial raramente produz sintomas. Quando presentes, os sintomas podem passar despercebidos, na forma de secreção vaginal aquosa e rala, frequentemente observada depois de uma relação sexual ou da ducha. Quando surgem sintomas como secreção, sangramento irregular ou dor ou sangramento após uma relação sexual, a doença pode estar avançada. Não deve ocorrer doença avançada se todas as mulheres tiverem acesso a cuidados ginecológicos e aproveitarem esses cuidados. O papel da enfermeira no acesso ao cuidado e sua utilização é crucial. No câncer de colo do útero avançado, a secreção vaginal aumenta gradualmente e tornase aquosa e, por fim, escura e com odor fétido, causada por necrose e infecção. O sangramento, que ocorre a intervalos irregulares entre os períodos menstruais (metrorragia) ou depois da menopausa, pode ser discreto (apenas o suficiente para manchar as roupas íntimas) e aparece habitualmente após traumatismo leve ou pressão (p. ex., relação sexual, ducha ou esforço durante a defecação). À medida que a doença continua, o sangramento pode persistir e aumentar. A presença de doença avançada é sinalizada pela ocorrência de dor nas pernas, disúria, sangramento retal e edema dos membros. À medida que avança, o câncer pode invadir os tecidos fora do colo do útero, incluindo as glândulas linfáticas anteriores ao sacro. Em um terço das clientes com câncer de colo do útero invasivo, a doença acomete o fundo. Os nervos nessa região podem ser afetados, produzindo dor excruciante na região lombar e nas pernas, que é aliviada apenas com grandes doses de analgésicos opioides. Se progredir, a doença frequentemente provoca emaciação extrema e anemia, que é habitualmente acompanhada de febre (causada por infecção secundária e abscessos na massa ulcerante) e de formação de fístula. Como a taxa de sobrevida para o câncer in situ é de 100%, e a taxa para mulheres com câncer de colo do útero em estágios mais avançados diminui acentuadamente, a detecção precoce é essencial. Avaliação e achados diagnósticos O diagnóstico pode ser estabelecido com base nos resultados anormais do esfregaço de Papanicolaou, seguidos dos resultados de biopsia, identificando a presença de displasia grave (neoplasia intraepitelial cervical do tipo III [CIN III], lesões intraepiteliais escamosas de alto grau [HGSIL, também designadas como HSIL], ou carcinoma in situ). As infecções pelo HPV estão habitualmente envolvidas nessas condições. A triagem deve começar em 3 anos após o início da relação sexual ou aos 21 anos de idade (Smith, Cokkinides e Brawley, 2012) (ver Tabela 15.3). A citologia em meio líquido possibilita a realização simultânea do teste para HPV. O carcinoma in situ é tecnicamente classificado como displasia grave e é definido como câncer que se estendeu por toda a espessura no epitélio de colo do útero, porém sem ultrapassálo. Com frequência, é designado como câncer préinvasivo. Em seus estágios muito iniciais, o câncer de colo do útero é identificado microscopicamente pelo esfregaço de Papanicolaou. Nos estágios mais avançados, o exame pélvico pode revelar um grande crescimento avermelhado ou uma lesão ulcerativa profunda. A cliente pode relatar manchas de sangue ou secreção sanguinolenta. Quando a cliente é diagnosticada com câncer invasivo de colo do útero, o estadiamento clínico estima a extensão da doença, de modo que o tratamento possa ser planejado de modo mais específico e o prognóstico possa ser razoavelmente previsto. O sistema de tumor, linfonodos e metástases (TNM) é o sistema de estadiamento mais amplamente utilizado. Nesse sistema, “T” referese ao tamanho e à localização do tumor primário, “N” descreve o comprometimento dos linfonodos, e “M” referese às metástases ou disseminação da doença (Schuiling e Likis, 2013). (Ver discussão detalhada sobre o estadiamento do câncer no Capítulo 15.) Os sinais e os sintomas são avaliados, e são efetuados radiografias, exames laboratoriais e exames especiais,como biopsia e colposcopia (Schuiling e Likis, 2013). Dependendo do estágio do câncer, outros exames e procedimentos podem ser realizados para estabelecer a extensão da doença e o tratamento apropriado. Esses exames podem incluir dilatação e curetagem (DeC), tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM), urografia intravenosa, cistografia, tomografia por emissão de pósitrons e radiografias baritadas. O tratamento • • • • • • depende do estágio da doença. Manejo clínico Lesões precursoras ou préinvasivas Quando são encontradas lesões precursoras, como lesões intraepiteliais escamosas de baixo grau (LGSIL, também designadas como LSIL; CIN I e II; ou displasia leve a moderada) por colposcopia e biopsia, é possível realizar um monitoramento cuidadoso por meio da realização frequente de esfregaços de Papanicolaou ou tratamento conservador. O tratamento conservador pode consistir em monitoramento, crioterapia (congelamento com nitrogênio líquido) ou terapia com laser. Para remover as células anormais, podese utilizar também um procedimento de excisão por eletrocautério de alça (PEEA), no qual uma alça de arame fina com laser é utilizada para cortar uma fina camada de tecido cervical. O PEEA é um procedimento ambulatorial, que leva apenas alguns minutos e é habitualmente realizado no consultório do ginecologista. Administrase analgesia antes do procedimento, e injetase um agente anestésico local na região. Esse procedimento possibilita que o patologista examine a amostra de tecido removido para determinar se as margens do tecido estão livres de doença. Outro procedimento, designado como biopsia em cone ou conização (remoção de uma porção do colo do útero em formato de cone), é efetuado quando os achados de biopsia revelam a presença de CIN II ou HGSIL (equivalente a displasia grave) e carcinoma in situ. Se o câncer cervical préinvasivo (carcinoma in situ) acomete a mulher no fim de sua vida reprodutiva, recomendase habitualmente uma histerectomia simples (remoção apenas do útero) (Schuiling e Likis, 2013). Se a mulher estiver grávida ou desejar ter filhos, e a invasão for menos de 1 mm, a conização pode ser suficiente. São necessários exames de acompanhamento frequentes para monitorar a ocorrência de recidiva (Schuiling e Likis, 2013). As clientes que apresentam lesões precursoras ou prémalignas necessitam ser tranquilizadas de que não apresentam câncer invasivo. Todavia, a razão de um acompanhamento rigoroso deve ser enfatizada, visto que a condição, se permanecer sem tratamento por um longo período, pode evoluir para o câncer. As clientes com câncer de colo do útero in situ também precisam saber que se trata habitualmente de um tipo de câncer de crescimento lento e não agressivo, o qual não se espera que venha a sofrer recidiva após o tratamento apropriado. Câncer invasivo O tratamento do câncer invasivo de colo do útero depende do estágio da lesão, da idade e do estado de saúde geral da cliente e do julgamento e da experiência do médico. A cirurgia e a radioterapia (intracavitária e externa) são utilizadas com mais frequência. Os procedimentos cirúrgicos que podem ser utilizados para o tratamento do câncer de colo do útero estão resumidos no Boxe 57.7. Com frequência, surgem questões éticas no tratamento dos cânceres invasivos, as quais estão resumidas no Boxe 57.8. É primordial efetuar um acompanhamento frequente após a cirurgia, visto que o risco de recidiva é elevado, e a sua ocorrência é habitualmente observada nos primeiros 2 anos. Com frequência, as recidivas ocorrem no quarto superior da vagina, e a obstrução ureteral pode constituir um sinal. A perda de peso, o edema das pernas e a dor pélvica podem constituir sinais de obstrução linfática e metástase. Boxe 57.7 Procedimentos cirúrgicos para o câncer de colo do útero Histerectomia total: remoção do útero, do colo do útero e dos ovários Histerectomia radical: remoção do útero, dos ovários, tubas uterinas, parte proximal da vagina e linfonodos bilaterais por meio de uma incisão abdominal (Nota: “radical” indica que uma área extensa dos tecidos paravaginais, paracervicais, parametriais e uterossacrais é removida com o útero) Histerectomia vaginal radical: remoção por via vaginal do útero, dos ovários, das tubas uterinas e da parte proximal da vagina Linfadenectomia pélvica bilateral: remoção dos linfonodos e vasos linfáticos ilíacos comuns, ilíacos externos, hipogástricos e obturadores Exenteração pélvica: remoção dos órgãos pélvicos, incluindo a bexiga ou o reto e os linfonodos pélvicos, com construção de um conduto de desvio, colostomia e vagina Traquelectomia radical: remoção do colo do útero e de linfonodos selecionados para preservar a capacidade reprodutiva de uma mulher de idade fértil com • • câncer de colo do útero. Adaptado de Eggert J. (2010) Cancer basics. Pittsburgh: Oncology Nursing Society; e Schuiling KD, Likis FE. (2013) Women’s gynecologic health (2nd ed.). Burlington, MA: Jones & Bartlett. A radiação, que frequentemente constitui parte do tratamento para reduzir a doença recorrente, pode ser fornecida por um feixe externo ou por braquiterapia (método pelo qual a fonte de radiação é colocada próximo ao tumor em uma fonte vedada) ou por ambos. O campo a ser irradiado e a dose e o método de irradiação são determinados pelo estágio, pelo volume do tumor e pelo comprometimento dos linfonodos (Eggert, 2010). São utilizadas diversas abordagens quimioterápicas para o tratamento do câncer de colo do útero avançado. Essas abordagens são frequentemente usadas em combinação com cirurgia e radioterapia. Há estudos em andamento para encontrar a melhor abordagem para tratar o câncer de colo do útero avançado (Eggert, 2010). A estenose vaginal constitui um efeito colateral frequente da radiação. Podese utilizar a terapia preventiva, como o uso de um dilatador vaginal, para evitar a estenose vaginal grave permanente. Algumas clientes com recidivas do câncer de colo do útero são consideradas para exenteração pélvica, que consiste na remoção de vários órgãos pélvicos. Tratase de um procedimento cirúrgico complexo e extenso, que é reservado para mulheres com alta probabilidade de cura. O edema de perna unilateral, a dor isquiática e a obstrução ureteral indicam uma provável progressão da doença. As clientes com esses sintomas apresentam doença avançada e não são consideradas candidatas a esse procedimento cirúrgico de grande porte. A cirurgia é complexa, visto que é realizada próximo ao intestino, bexiga, ureteres e grandes vasos. As possíveis complicações consistem em embolia pulmonar (EP), edema pulmonar, infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico, hemorragia, sepse, obstrução do intestino delgado, formação de fístula, obstrução do conduto ileal, disfunção da bexiga e pielonefrite, mais frequentemente nos primeiros 18 meses do pósoperatório. Devese evitar a constrição venosa no período pós operatório. As clientes com veias varicosas ou com história de doença tromboembólica podem ser tratadas de modo profilático com heparina. São prescritas meias de compressão para reduzir o risco de trombose venosa profunda (TVP). O cuidado de enfermagem a essas clientes é complexo e exige a coordenação e o cuidado por profissionais de saúde experientes. A exenteração pélvica é discutida de modo mais detalhado mais adiante neste capítulo. Boxe 57.8 DILEMAS ÉTICOS E se a cliente se recusa a tomar decisões próprias com autonomia? Situação Você trabalha no serviço de ginecologia oncológica de um centro de ciência da saúde universitário. Sua cliente é uma mulher de 24 anos de idade que nasceu em um paísda África subsaariana. É estudante de pós-graduação de engenharia na universidade. A cliente está internada no serviço com diagnóstico recente de câncer de colo do útero avançado, que foi descoberto quando procurou o serviço de emergência com dor pélvica refratária e edema de ambas as pernas. Você está presente quando o cirurgião explica à cliente e ao seu esposo que, na opinião dele, ela deveria se submeter a exenteração pélvica e descreve as implicações desse procedimento cirúrgico. O marido da cliente quer saber se existe algum procedimento diferente que possa ser realizado para preservar a capacidade da cliente de futuramente ter 攀lhos. O cirurgião observa que isso é possível, porém não aconselhável, tendo em vista a extensão e a disseminação da massa tumoral, e que o tipo alternativo de cirurgia com preservação de órgãos está associado a um prognóstico mais sombrio para a cliente. O marido insiste em sua decisão de que o cirurgião não realize a exenteração pélvica. Ele observa que a vida de sua esposa não teria sentido em seu país de origem se ela for incapaz de ter 攀lhos. Durante toda a discussão, a cliente permanece silenciosa. Ao ser indagada sobre o que deseja fazer, ela declara que se submeterá a qualquer tratamento que o marido escolher. Discussão Existem algumas culturas que seguem princípios paternalistas; o homem, “chefe de família”, é quem toma as principais decisões, incluindo aquelas relacionadas com o cuidado da saúde. A cliente pode obedecer às suas normas culturais quando lhe diz que aceitará qualquer decisão tomada por seu marido. Entretanto, é provável que possa estar se sentindo coagida ou obrigada a aceitar as decisões do marido. Análise Descreva os princípios éticos que estão em con瘀漀ito nesse caso (ver Boxe 3.3). Que princípio deve prevalecer durante a avaliação dessa cliente? Descreva qualquer preocupação que você possa ter quanto à preservação da autonomia da cliente. Que passos você poderia seguir para garantir a preservação de sua autonomia? • • • • • Suponha que tenha conversado em particular com a cliente e que tenha constatado que ela entendeu que, caso não se submeta a uma exenteração pélvica, pode colocar sua própria vida em maior perigo, ao mesmo tempo que não garante necessariamente que poderá ser capaz de ter 攀lhos no futuro. Como você pode, como pro 攀ssional, reconciliar a decisão dela de pôr a própria vida em maior perigo, de modo que possa obedecer às suas normas culturais (i. e., ser obediente ao esposo)? Esse tipo de decisão realmente preserva sua autonomia? Recursos Consulte no Capítulo 3, Boxe 3.6, os recursos sobre ética. Câncer de útero (endométrio) Embora a incidência do câncer do endométrio uterino (fundo ou corpo do útero) esteja estabilizada, a taxa de mortalidade desse câncer aumentou, possivelmente por causa do aumento do tempo de sobrevida e comorbidades coexistentes. Nos EUA, o câncer de útero é o câncer ginecológico de ocorrência mais frequente. Depois do câncer de mama, câncer colorretal e câncer de pulmão, o câncer de endométrio constitui o quarto câncer mais comum em mulheres. Mais de 42.100 novos casos de câncer de útero ocorrem a cada ano, com mais de 7.800 mortes (ACS, 2012). Na maioria das mulheres, o diagnóstico é estabelecido entre 55 e 64 anos de idade (Grube, Ammon e Killen, 2011). Muitas mulheres com câncer de endométrio são obesas; a obesidade aumenta os riscos de morbidade e de mortalidade dessa doença. O câncer de útero é duas vezes mais frequente nas mulheres brancas que nas afrodescendentes, que têm um prognóstico menos favorável, tornando necessária a realização de pesquisas para explicar essa disparidade (AlmadronesCassidy, 2010). A exposição cumulativa ao estrogênio é considerada o principal fator de risco (Boxe 57.9). Essa exposição ocorre com o uso da terapia com estrogênio sem a administração de progestina, menarca precoce, menopausa tardia, nuliparidade e anovulação. Outros fatores de risco incluem infertilidade, diabetes melito e uso de tamoxifeno. Utilizado para o tratamento ou a prevenção do câncer de mama, o tamoxifeno pode causar proliferação do revestimento uterino (ACOG, 2011b). As mulheres que fazem uso desse medicamento devem ser monitoradas por seus oncologistas e/ou ginecologistas. Fisiopatologia Os cânceres de útero são, em sua maioria, endometrioides (i. e., originamse do revestimento do útero). Há três tipos. O tipo 1, que responde por cerca de 80% dos casos, está relacionado com o estrogênio e ocorre em mulheres mais jovens, obesas e na perimenopausa. É habitualmente de baixo grau, com prognóstico favorável. O tipo 2, que ocorre em cerca de 10% dos casos, é de alto grau e consiste habitualmente em células serosas ou células claras. As mulheres com mais idade e as afrodescendentes correm maior risco de desenvolver o tipo 2. O tipo 3, que também é observado em cerca de 10% dos casos, é o tipo hereditário e genético, e alguns desses casos estão relacionados com a síndrome de Lynch II, também conhecida como câncer colorretal sem polipose hereditário (Schuiling e Likis, 2013). Boxe 57.9 FATORES DE RISCO Câncer de útero Idade – habitualmente > 50 anos; idade mediana, 64 anos Obesidade que resulta em níveis aumentados de estrona (relacionados com o excesso de peso), dada a conversão da androstenediona em estrona na gordura corporal, o que expõe o útero ao estrogênio sem oposição Terapia com estrogênio sem oposição (estrogênio utilizado sem progesterona, que compensa o risco de estrogênio sem oposição) Outros – nuliparidade, obesidade do tronco, menopausa tardia (depois dos 52 anos de idade) e uso de tamoxifeno. Adaptado de Eggert J. (2010). Cancer basics. Pittsburgh: Oncology Nursing Society; e Schuiling KD, Likis FE. (2013). Women’s gynecologic health (2nd ed.). Burlington, MA: Jones & Bartlett. Avaliação e achados clínicos Todas as mulheres devem ser incentivadas a fazer exames anuais, incluindo um exame ginecológico. Toda mulher que está apresentando sangramento irregular deve ser avaliada imediatamente. Se uma mulher na menopausa tiver sangramento, devese efetuar uma aspiração ou biopsia endometrial para excluir a possibilidade de hiperplasia, que é um possível precursor do câncer endometrial. O procedimento é rápido e habitualmente indolor. A ultrassonografia transvaginal também pode ser utilizada para medir a espessura do endométrio (Grube et al., 2011). (As mulheres na pósmenopausa devem ter um endométrio muito fino, dados os baixos níveis de estrogênio; a observação de um revestimento mais espesso justifica uma investigação adicional.) A biopsia ou a aspiração para exame patológico do tecido são diagnósticas. Manejo clínico O tratamento do câncer de endométrio consiste em estadiamento cirúrgico, histerectomia total ou radical (discutida mais adiante, neste capítulo), e salpingoooforectomia bilateral e amostragem de linfonodos (Galic e Gupta, 2012). A laparoscopia ou a cirurgia laparoscópica assistida por robô é menos invasiva que a cirurgia abdominal. A amostragem de linfonodos e a visualização do peritônio podem ser realizadas em muitas mulheres dessa maneira. É necessário monitorar os níveis do antígeno de câncer 125 (CA125), visto que a presença de níveis elevados constitui um preditor significativo de doença extrauterina ou metástases. Dependendo do estágio, a abordagem terapêutica é individualizada e baseiase no estágio, no tipo, na diferenciação, no grau de invasão e no comprometimento de linfonodos. Podese utilizar a radiação na forma de radiação de feixe externo ou braquiterapia vaginal (Schuiling e Likis, 2013). A radioterapia pélvica total pode ser usada se houver qualquer disseminação além do útero. Em geral, ocorre câncer recorrente dentro da abóboda vaginal ou na porção superior da vagina, e as metástases são habitualmente observadasnos linfonodos ou no ovário. As lesões recorrentes na vagina são tratadas com cirurgia e radiação. As lesões recorrentes além da vagina são tratadas com terapia hormonal ou quimioterapia. Com frequência, utilizase a terapia com progestina. As clientes devem ser preparadas para alguns efeitos colaterais, como náuseas, depressão, exantema ou retenção hídrica discreta em consequência da terapia com progestina. Câncer de vulva O câncer primário de vulva representa 5% de todas as neoplasias malignas ginecológicas e é observado principalmente em mulheres na pósmenopausa, embora sua incidência esteja aumentando em mulheres mais jovens. A idade mediana é de 50 anos para o câncer limitado à vulva, e de 70 anos para o câncer de vulva invasivo (Schuiling e Likis, 2013). Os possíveis fatores de risco consistem em tabagismo, infecção pelo HPV, infecção pelo HIV e imunossupressão. O carcinoma de células escamosas responde pela maioria dos tumores vulvares primários. O câncer da glândula de Bartholin, o sarcoma vulvar e o melanoma maligno são menos comuns. Pouco se sabe sobre o que provoca essa doença; todavia, o risco aumentado pode estar relacionado com a irritação crônica da vulva. Nas mulheres mais jovens, a infecção pelo HPV pode estar implicada, particularmente pelos tipos 16, 18 e 31. A prevenção inclui retardar o início da atividade sexual para evitar a exposição precoce ao HPV, a administração de vacina contra HPV e evitar o tabagismo. Os exames pélvicos regulares, os esfregaços de Papanicolaou e autoexame da vulva são úteis para a detecção precoce. As mulheres com irritação ou prurido persistentes devem ser incentivadas a buscar reavaliação. Manifestações clínicas O prurido e o dolorimento constituem os sintomas mais comuns do câncer de vulva. Ocorre prurido em metade de todas as clientes com neoplasia maligna vulvar. Podese verificar também a presença de sangramento, secreção de odor fétido e dor, que habitualmente constituem sinais de doença avançada. As lesões cancerosas da vulva são visíveis e acessíveis e exibem crescimento relativamente lento. As lesões iniciais aparecem na apresentação de dermatite crônica; posteriormente, as clientes podem perceber um nódulo que continua crescendo, transformandose em um crescimento duro, ulcerado e semelhante a uma couveflor. Devese realizar biopsia em toda lesão vulvar que persiste, ulcera ou não cicatriza rapidamente com a terapia apropriada. As neoplasias malignas vulvares podem aparecer como nódulo ou massa, rubor ou lesão que não consegue cicatrizar. Manejo clínico As lesões intraepiteliais vulvares são préinvasivas e também denominadas carcinoma vulvar in situ. Podem ser tratadas por excisão local, ablação com laser, aplicação de cremes quimioterápicos ou criocirurgia. Quando há carcinoma vulvar invasivo, o tratamento pode incluir uma ampla excisão ou remoção da vulva (vulvectomia). Um esforço é feito para individualizar o tratamento, dependendo da extensão da doença. Uma ampla excisão só é realizada se os linfonodos estiverem normais. As lesões mais pervasivas exigem vulvectomia com dissecção profunda dos linfonodos pélvicos. A vulvectomia é muito efetiva para prolongar a vida; todavia, com frequência, é seguida de complicações (i. e., cicatrizes, ruptura da ferida, edema de perna, estenose vaginal ou retocele). Para reduzir as complicações, removese apenas o tecido necessário. Podese utilizar a radiação com feixe externo, resultando em irritação semelhante a uma queimadura solar, que habitualmente desaparece em 6 a 12 meses. A terapia com laser e quimioterapia constituem outras opções possíveis de tratamento. Se uma área disseminada estiver acometida, ou se a doença estiver avançada, podese realizar vulvectomia radical, com dissecção inguinal bilateral. A profilaxia com antibióticos e heparina pode ser prescrita no período pré operatório e continuada no pósoperatório para evitar a ocorrência de infecção, TVP e EP. São aplicadas meias de compressão para reduzir o risco de tromboembolia venosa (TEV). Embora o papel da quimioterapia sistêmica no tratamento do câncer de vulva ainda não esteja bem estabelecido, a quimioterapia pode ser valiosa quando usada em combinação com a radioterapia para o tratamento da doença avançada. A combinação de radioterapia e quimioterapia pode reduzir o tamanho do câncer, resultando em cirurgia subsequente menos extensa (Eggert, 2010). É difícil conduzir ensaios clínicos para determinar o tratamento mais efetivo, visto que há poucas clientes com esse tipo de câncer. A morbidade com a recidiva da doença é alta, e os padrões de recidiva variam. A reconstrução após vulvectomia é realizada por cirurgias plásticas, quando apropriado e se a cliente o desejar. Manejo de enfermagem Obtenção da história de saúde A história de saúde constitui um instrumento valioso para estabelecer um rapport com a cliente. O motivo pelo qual a cliente busca os cuidados de saúde é evidente. O que a enfermeira pode desvendar com habilidade é o motivo da demora, se houver, na procura por cuidados médicos – por exemplo, por causa de pudor, fatores econômicos, negação, negligência ou medo (parceiros abusivos algumas vezes impedem que as mulheres busquem os cuidados de saúde). Os fatores envolvidos em qualquer demora na procura dos cuidados de saúde e tratamento também podem afetar a recuperação. Os hábitos de saúde e o estilo de vida da cliente são examinados, e avaliase a sua receptividade à orientação. Os fatores psicossociais também são avaliados. A preparação préoperatória e o apoio psicológico começam nesse momento. Fornecimento do cuidado no préoperatório Alívio da ansiedade Antes da cirurgia, devese deixar que a cliente tenha tempo para conversar e fazer perguntas. Com frequência, o medo diminui quando uma mulher, que irá se submeter a uma ampla excisão da vulva ou vulvectomia, aprende que existe uma boa possibilidade de ter relações sexuais subsequentes. A enfermeira reforça a informação que o cirurgião forneceu à cliente e considera suas dúvidas e preocupações. Preparação da pele para a cirurgia A preparação da pele pode incluir a limpeza da parte inferior do abdome, área inguinal, parte superior das coxas e vulva com detergente germicida durante vários dias antes do procedimento cirúrgico. A cliente pode ser instruída a realizar essa limpeza em casa. Fornecimento do cuidado no pósoperatório Alívio da dor Em razão da ampla excisão, a cliente pode sentir dor intensa e desconforto, mesmo com movimento mínimo. Por conseguinte, são administrados agentes analgésicos de maneira preventiva (i. e., durante as 24 h, nos horários estabelecidos), para aliviar a dor, aumentar o nível de conforto da cliente e possibilitar sua mobilidade. Podese utilizar a analgesia controlada pela cliente (ver Capítulo 12) para aliviar a dor e promover o conforto. O posicionamento cuidadoso utilizando travesseiros aumenta habitualmente o conforto da cliente, assim como massagens suavizantes nas costas. Uma posição de Fowler baixa ou, em certas ocasiões, um travesseiro colocado sob os joelhos reduz a dor ao aliviar a tensão sobre a incisão; todavia, devem ser feitos esforços para evitar a pressão atrás dos joelhos, o que aumenta o risco de TVP. O posicionamento da cliente em decúbito lateral, com travesseiros entre as pernas e contra a região lombar, proporciona conforto e reduz a tensão sobre a ferida cirúrgica. Melhora da integridade da pele Podese utilizar um colchão de redução de pressão para evitar as úlceras de decúbito. Mudar de uma posição para outra requer tempo e esforço; o uso deum trapézio sobre o leito pode ajudar a cliente a se mover com maior facilidade. A extensão da incisão cirúrgica e o tipo de curativo são considerados quando se escolhem estratégias para promover a integridade da pele. A pele intacta precisa ser protegida da drenagem e da umidade. Os curativos são trocados, quando necessário, para assegurar o conforto da cliente, realizar o cuidado e a irrigação da ferida (conforme prescrição) e para possibilitar a observação do local cirúrgico. A ferida é, em geral, limpa diariamente com irrigações de soro fisiológico morno ou outras soluções antissépticas, conforme prescrição, ou podese pôr um curativo transparente sobre a ferida para reduzir a exposição ao ar e a dor subsequente. A aparência do local cirúrgico e as características da drenagem são avaliadas e documentadas. Após a remoção dos curativos, podese utilizar uma armação de leito para manter as roupas de cama afastadas do local cirúrgico. A cliente é sempre protegida quando chegam visitas ou outra pessoa ao quarto. Apoio da sexualidade positiva e desempenho sexual A cliente que se submete a uma cirurgia vulvar apresenta habitualmente preocupações acerca de sua imagem corporal, atração sexual e desempenho. É importante estabelecer uma relação de confiança entre a enfermeira e a cliente, para que esta se sinta confortável em expressar suas preocupações e medos. A cliente é incentivada a discutir também as suas preocupações com seu parceiro sexual. Como as alterações na sensação e desempenho sexuais dependem da extensão da cirurgia, a enfermeira precisa saber sobre a existência de quaisquer alterações estruturais e funcionais decorrentes da cirurgia. O encaminhamento da cliente e de seu parceiro a um conselheiro sexual pode ajudálos a abordar essas alterações e a retomar uma atividade sexual satisfatória. Monitoramento e manejo de complicações potenciais A localização, a extensão e a exposição do local cirúrgico e da incisão fazem com que a cliente corra risco de contaminação do local e infecção e sepse. A cliente é monitorada rigorosamente quanto ao aparecimento de sinais e sintomas locais, assim como dos sistêmicos de infecção: drenagem purulenta, rubor, aumento da dor, febre e contagem elevada de leucócitos. A enfermeira ajuda na obtenção de amostras para cultura, se houver suspeita de infecção, e administra antibióticos, conforme prescrição. A higiene das mãos – que constitui sempre uma medida primordial na prevenção da infecção – é de suma importância, juntamente com o uso de máscaras, sempre que houver uma área extensa de tecido exposto. Os cateteres, os drenos e os curativos são manuseados cuidadosamente com luvas para evitar a contaminação cruzada. Uma dieta pobre em resíduos impede o esforço na defecação, bem como a contaminação da ferida. A cliente corre risco de complicações de TEV, que inclui TVP e EP, em decorrência de posicionamento necessário durante a cirurgia, edema pósoperatório e imobilidade necessária para promover a cicatrização. São aplicadas meias de compressão elástica, e podem ser prescritas outras medidas profiláticas para clientes de alto risco. A cliente é incentivada, e lembrada, a realizar exercícios com os tornozelos para minimizar o represamento venoso, que leva à TVP. A cliente é incentivada e auxiliada na mudança de posição, utilizando uma barra de trapézio sobre o leito. A pressão atrás dos joelhos é evitada quando se posiciona a cliente, visto que isso pode aumentar o represamento venoso. A cliente é examinada à procura de sinais e sintomas de TVP (dor nas pernas, rubor, calor e edema) e EP (dor torácica, taquicardia, dispneia). A ingestão de líquidos é incentivada para evitar a desidratação, que também aumenta o risco de TVP. A extensão da incisão cirúrgica e, possivelmente, a ampla excisão de tecido aumentam o risco de sangramento e hemorragia nos pósoperatório. São aplicados curativos compressivos depois da cirurgia para minimizar esse risco. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança A cliente precisa ser rigorosamente monitorada quanto ao aparecimento de sinais de hemorragia e choque hipovolêmico resultante. Esses sinais podem incluir diminuição da pressão arterial, aumento da frequência do pulso, redução do débito urinário, diminuição do estado mental e pele fria e pegajosa. Quando ocorrem hemorragia e choque, as intervenções consistem em reposição hídrica, terapia com hemoderivados e medicamentos vasopressores. Os resultados laboratoriais (p. ex., hematócrito e níveis de hemoglobina) e o monitoramento hemodinâmico são utilizados para avaliar a resposta da cliente ao tratamento. Dependendo da causa específica da hemorragia, a cliente pode retornar ao centro cirúrgico. (Ver discussão detalhada sobre o choque no Capítulo 14.) Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação da cliente sobre autocuidados A preparação da cliente para a alta hospitalar começa antes da admissão no hospital. A cliente e a sua família são informadas sobre o que esperar durante os períodos pósoperatório imediato e de recuperação. Dependendo das alterações decorrentes da cirurgia, a cliente e a sua família podem necessitar de instruções sobre o cuidado da ferida, o cateterismo urinário e possíveis complicações. A cliente é incentivada a compartilhar suas preocupações e a assumir uma responsabilidade crescente pelo seu próprio cuidado. É incentivada e auxiliada a aprender a cuidar da ferida cirúrgica. Efetuase um encaminhamento para cuidados domiciliares, quando indicado. As enfermeiras estão em uma posição ideal para orientar e demonstrar para as mulheres a realizar autoexames regulares da vulva. Com o uso de um espelho, as clientes podem ver o que constitui a anatomia feminina normal e aprender sobre as alterações que devem ser relatadas (p. ex., lesões, úlceras, massas e prurido persistente). As enfermeiras devem incentivar as mulheres a procurar os cuidados de saúde se perceberem qualquer anormalidade, visto que o câncer de vulva constitui uma das mais curáveis de todas as neoplasias malignas. Cuidados contínuos As clientes podem ter alta precocemente durante a recuperação pósoperatória para a casa ou para uma instituição subaguda. Nessa fase, são avaliados o estado físico e as respostas psicológicas da cliente à cirurgia. Além disso, a cliente é avaliada quanto à ocorrência de complicações e cicatrização da ferida cirúrgica. Durante as visitas domiciliares, a enfermeira examina o ambiente para determinar se há necessidade de efetuar modificações para facilitar o cuidado. A visita domiciliar é utilizada para reforçar a orientação anterior e avaliar o entendimento da cliente e da família, bem como a participação nas estratégias de tratamento prescritas. Os telefonemas de acompanhamento dados pela enfermeira à cliente entre as visitas domiciliares servem habitualmente para tranquilizar a cliente e a sua família, que podem ser responsáveis pela realização dos procedimentos complexos de cuidado. É importante dispensar uma atenção às respostas psicológicas da cliente, visto que ela pode ficar desencorajada e deprimida, em decorrência das alterações da imagem corporal e da recuperação lenta. A comunicação entre a enfermeira envolvida no cuidado pósoperatório imediato da cliente e a enfermeira de cuidados domiciliares é essencial para assegurar a continuidade do cuidado. Câncer de vagina O câncer de vagina é raro e leva habitualmente anos para se desenvolver (ACS, 2012). O câncer primário de vagina é raro e habitualmente de origem escamosa. Podem ocorrer melanoma maligno e sarcomas. Os cânceres devagina são, em sua maioria, secundários e invasivos por ocasião do diagnóstico. Os fatores de risco consistem em câncer de colo do útero prévio, exposição in utero ao dietilestilbestrol (DES), câncer de vagina ou de vulva pregresso, radioterapia prévia, história de HPV ou uso de pessário. Qualquer cliente com história pregressa de câncer de colo do útero deve ser examinada regularmente à procura de lesões vaginais. Os pessários vaginais, que são utilizados para sustentar os tecidos que sofreram prolapso, podem constituir uma fonte de irritação crônica. Dessa maneira, foram associados ao câncer de vagina, porém apenas quando os dispositivos não eram cuidados de modo apropriado (i. e., o dispositivo não era limpo regularmente ou a cliente não retornava ao médico regularmente para exames da vagina). Com frequência, as clientes não apresentam sintomas, mas podem relatar a ocorrência de sangramento discreto após a relação sexual, sangramento espontâneo, secreção vaginal, dor e sintomas urinários ou retais (ou ambos). Com frequência, o diagnóstico é estabelecido com base no esfregaço de Papanicolaou. Incentivar um acompanhamento rigoroso constitui o principal foco das intervenções de enfermagem para mulheres que foram expostas ao DES in utero. É essencial fornecer apoio emocional às mães que receberam DES antes da descoberta do risco envolvido, bem como às filhas que foram expostas ao medicamento in utero. Manejo clínico O tratamento das lesões precoces pode incluir excisão local, quimioterapia tópica ou laser. A terapia com laser constitui uma opção de tratamento comum no câncer de vagina e de vulva no estágio inicial. A cirurgia para as lesões mais avançadas depende do tamanho e do estágio do câncer. Se houver necessidade de vaginectomia radical, a vagina pode ser reconstruída com tecido do intestino, músculo ou enxertos cutâneos. Depois da cirurgia reconstrutora da vagina e radioterapia, a relação sexual regular pode ser útil para evitar a estenose vaginal. Os lubrificantes hidrossolúveis são úteis para reduzir a dor durante a relação sexual (dispareunia). Após a cirurgia, a radioterapia pode ser administrada por uma variedade de métodos, incluindo radiação com feixe externo, que habitualmente é um procedimento ambulatorial, ou braquiterapia, que consiste em radioterapia interna. A radiação interna pode ser administrada com material radioativo intracavitário contido em uma semente, fio, agulha ou sonda, que é posicionado em uma cavidade, como a do útero ou da vagina. A radiação intersticial constitui outro tipo de tratamento com radiação interna, em que o material radioativo é colocado dentro do câncer ou próximo a ele, mas não no interior de uma cavidade corporal; esse tipo de radiação é usado nas neoplasias malignas de colo de útero e ovário. Esses tratamentos podem ser administrados em dose alta por um curto período, ou em dose baixa, que pode exigir maior tempo. O tratamento durante a hospitalização ou durante a terapia ambulatorial depende de diversos fatores, incluindo o estado da cliente e a modalidade de administração. Câncer das tubas uterinas As neoplasias malignas das tubas uterinas constituem o tipo menos comum de câncer genital (ACS, 2012). Embora esse tipo de câncer possa ocorrer em qualquer idade, a média por ocasião do diagnóstico é de 55 anos. Os sintomas consistem em dor abdominal, sangramento anormal e secreção vaginal. Podese detectar uma tuba uterina aumentada na ultrassonografia, quando dilatada ou cheia de líquido, ou a tuba uterina pode aparecer como massa ou ser palpável. O tratamento habitual consiste em cirurgia, seguida de radioterapia. Câncer de ovário O câncer de ovário constitui a principal causa de mortes por câncer ginecológico nos EUA (Blewitt, 2010). Apesar do exame físico cuidadoso, é frequentemente difícil detectar tumores de ovário, visto que estes habitualmente têm uma localização profunda na pelve. No momento atual, não há um mecanismo de triagem precoce. Os antígenos associados ao tumor são úteis para determinar o cuidado de acompanhamento depois do diagnóstico e tratamento, mas não na triagem geral inicial (Li, 2012). Epidemiologia Uma em 70 mulheres desenvolverá câncer de ovário durante a sua vida. A história familiar constitui o fator de risco mais significativo (Hunn e Rodriguez, 2012). A incidência desse tipo de câncer aumenta depois dos 40 anos de idade, e 50% das mulheres por ocasião do diagnóstico têm mais de 60 anos (Blewitt, 2010). A frequência do câncer de ovário é maior nos países industrializados e acomete mulheres de todas as raças e origens étnicas. A maioria dos casos é de ocorrência aleatória, porém 5 a 10% dos cânceres de ovário são familiares (Blewitt, 2010). Na maioria dos casos, as mutações ocorrem no gene BRCA1 e, algumas vezes, no gene BRCA2. Uma história familiar de parente em primeiro grau (mãe, filha ou irmã), a idade avançada, a menarca precoce, a menopausa tardia e a obesidade podem aumentar o risco de câncer de ovário. Todavia, a maioria das mulheres que desenvolve câncer de ovário não exibe nenhum fator de risco conhecido, e não foi estabelecido um fator etiológico definitivo. As clientes com preocupações relativas à sua história familiar devem ser encaminhadas a um centro de genética do câncer para obter informações e efetuar exames, quando indicado (ver Capítulo 8). As mulheres com tipos hereditários de câncer de ovário tendem a ser mais jovens que a idade mediana quando o diagnóstico é estabelecido. Foi constatado que a ooforectomia profilática em mulheres com mutações genéticas está associada a um risco diminuído de câncer de ovário e outros cânceres ginecológicos, bem como do câncer de mama, constituindo uma opção para as mulheres que concluíram a idade reprodutiva (Schuiling e Likis, 2013). O câncer de cólon sem polipose hereditário eleva o risco de câncer de útero e aumenta ligeiramente o risco de câncer de ovário. Fisiopatologia Os tipos de tumores incluem os tumores de células germinativas, que se originam das células produtoras de óvulos; os tumores de células do estroma, que surgem nas células do tecido conjuntivo que produzem hormônios; e os tumores epiteliais, que se originam da superfície externa do ovário. Os cânceres de ovário são, em sua maioria, de origem epitelial. Dos numerosos tipos diferentes de células no câncer de ovário, os tumores epiteliais constituem 90% dos casos. Os tumores de células germinativas e os tumores do estroma respondem pelos outros 10% (Schuiling e Likis, 2013). O carcinoma peritoneal primário está estritamente relacionado com o câncer de ovário. O carcinoma peritoneal primário extraovariano (CPPEO) assemelhase, histologicamente, ao câncer de ovário e pode ocorrer em mulheres com e sem ovários. Os sintomas e o tratamento são semelhantes. Dada a possibilidade de CPPEO, a ooforectomia diminui a probabilidade, mas não garante que a cliente não desenvolverá carcinoma. Manifestações clínicas Os sintomas do câncer de ovário são inespecíficos e podem consistir em aumento da circunferência abdominal, pressão pélvica, distensão abdominal, dor na região lombar, constipação intestinal, dor abdominal, urgência urinária, indigestão, flatulência, aumento do tamanho da cintura, dor nas pernas e dor pélvica. Com frequência, os sintomas são vagos, de modo que muitas mulheres tendem a ignorálos. O câncer de ovário é frequentemente silencioso, porém o aumento do abdome pelo acúmulo de líquido constitui um sinal comum. Todas as mulheres com sintomas gastrintestinais e sem causa conhecida devem ser avaliadas quanto ao potencial de câncer de ovário. Sintomas gastrintestinais vagos, não diagnosticadose persistentes devem alertar a enfermeira quanto à possibilidade de neoplasia maligna ovariana inicial. Um ovário palpável em uma mulher que já está na menopausa é imediatamente investigado, visto que os ovários normalmente tornamse menores e menos palpáveis depois da menopausa. Avaliação e achados diagnósticos Qualquer ovário aumentado precisa ser investigado. Com frequência, o exame pélvico não detecta a presença de câncer de ovário no estágio inicial, e as técnicas de imagem pélvica nem sempre são definitivas. Os tumores I. II. III. IV. ovarianos são classificados como benignos, se não houver nenhuma proliferação ou invasão; como limítrofes, se houver proliferação, porém sem invasão; e como malignos, se houver invasão. De todos os novos casos de tumores ovarianos, 15% são classificados como limítrofes e apresentam baixo potencial de malignidade. Todavia, por ocasião do diagnóstico, os cânceres de ovário estão, em sua maioria, em estágio avançado (Blewitt, 2010; Gershenson, 2012). Os exames diagnósticos podem incluir RM, ultrassonografias transvaginal e pélvica, radiografias de tórax e exame de sangue para CA125. Uma TC de abdome com ou sem contraste pode ser realizada para excluir a presença de metástases (Blewitt, 2010). Manejo clínico Manejo cirúrgico O estadiamento, a exploração e a redução cirúrgicos da massa tumoral constituem a base do tratamento. A remoção cirúrgica é o tratamento de escolha. O estadiamento do tumor pelo sistema TNM é realizado para orientar o tratamento (Boxe 57.10). O tratamento provável envolve uma histerectomia abdominal total, com remoção das tubas uterinas e dos ovários e, possivelmente, do omento (salpingoooforectomia e omentectomia bilaterais), redução da massa tumoral, amostragem dos linfonodos paraaórticos e pélvicos, biopsias do diafragma, biopsias peritoneais aleatórias e lavados citológicos. O manejo pósoperatório pode incluir taxanos ou quimioterapia à base de platina (discutida na próxima seção). Os tumores limítrofes assemelhamse ao câncer de ovário, porém apresentam resultados muito mais favoráveis. As mulheres com diagnóstico desse tipo de câncer tendem a ser mais jovens (em torno dos 40 anos). Utilizase conduta cirúrgica conservadora. O ovário afetado é removido, porém o útero e o ovário contralateral podem permanecer na posição. Pode não haver necessidade de terapia adjuvante. Terapia farmacológica A quimioterapia é habitualmente administrada por via intravenosa em base ambulatorial, utilizando uma combinação de platina e taxanos. O paclitaxel mais a carboplatina são utilizados com mais frequência, em razão de seus excelentes benefícios clínicos e toxicidade controlável. Podem ocorrer leucopenia, neurotoxicidade e febre. Como o paclitaxel frequentemente provoca leucopenia, as clientes também podem necessitar de um fator de estimulação de colônias de granulócitos. O paclitaxel está contraindicado para clientes com hipersensibilidade a medicamentos formulados em óleo de mamona polioxietilado, bem como para aquelas com neutropenia basal. Dados os possíveis efeitos cardíacos adversos, o paclitaxel não é administrado a clientes com distúrbios cardíacos. A hipotensão, a dispneia, o angioedema e a urticária indicam reações graves que habitualmente ocorrem logo após a administração da primeira e segunda doses. As enfermeiras que administram quimioterapia estão preparadas para ajudar no tratamento da anafilaxia. As clientes devem ser preparadas para a queda inevitável dos cabelos. A carboplatina pode ser empregada no tratamento inicial e em clientes com recidiva. É utilizada com cautela em clientes com comprometimento renal. Em geral, são administrados seis ciclos. Uma resposta clínica positiva consiste na normalização do marcador tumoral CA125, resultados negativos na TC e exames físico e ginecológico normais. Boxe 57.10 Principais estágios do câncer de ovário O câncer está contido no ovário (ou dos ovários). O câncer está localizado em um ou em ambos os ovários e acometeu outros órgãos (i. e., útero, tubas uterinas, bexiga, cólon sigmoide ou reto) na pelve. O câncer acomete um ou ambos os ovários, e veri 攀ca-se a presença de um ou de ambos os seguintes itens: (1) o câncer disseminou-se além da pelve até o revestimento do abdome; e (2) o câncer disseminou-se para os linfonodos. Estágio mais avançado do câncer de ovário. O câncer está localizado em um ou em ambos os ovários. Há metástases a distância para o fígado, os pulmões ou outros órgãos fora da cavidade peritoneal; existem células do câncer de ovário na cavidade pleural na doença de estádio IV. Adaptado de Blewitt K. (2010) Ovarian cancer: Listen for the disease that whispers. Nursing, 40(11), 2431. A terapia lipossomal (administração de quimioterapia em um lipossomo) possibilita o uso da maior dose possível de quimioterapia para o tumoralvo, com redução dos efeitos adversos. Os lipossomos são utilizados como carreadores de medicamento, visto que são atóxicos, biodegradáveis, facilmente disponíveis e de custo relativamente baixo. Essa quimioterapia encapsulada possibilita uma duração de ação prolongada e melhor direcionamento do tratamento. A encapsulação da doxorrubicina diminui a incidência de náuseas, vômitos e alopecia. As clientes precisam ser monitoradas quanto a supressão da medula óssea e efeitos gastrintestinais e cardíacos. A poliquimioterapia intravenosa e intraperitoneal constitui uma opção para algumas clientes. Entretanto, esse tratamento pode resultar em dor, fadiga e efeitos tóxicos hematológicos, gastrintestinais, metabólicos e neurológicos, diminuindo, assim, a qualidade de vida (Eggert, 2010). Em razão desses efeitos, a decisão quanto ao uso da quimioterapia intraperitoneal é individualizada. A engenharia genética e a identificação de genes de câncer podem tornar a terapia gênica uma futura possibilidade, e esse tipo de terapia está em fase de investigação. As tecnologias proteômicas emergentes (análise de proteína baseada no tecido) parecem ser promissoras; podem possibilitar um diagnóstico mais precoce e a tomada de decisão quanto ao tratamento. Novos biomarcadores necessitam de maior validação, porém os padrões de assinatura proteica estão sendo atualmente testados. Essas tecnologias podem levar a estratégias de tratamento individualizadas para o câncer de ovário epitelial. A recidiva do câncer de ovário é comum, e muitas clientes podem necessitar de tratamento com múltiplos agentes. O tratamento é direcionado para o controle do câncer, a manutenção da qualidade de vida e o alívio. As preparações lipossomais, a administração intraperitoneal de medicamento, as vacinas anticâncer, os anticorpos monoclonais dirigidos contra os antígenos de câncer, a terapia gênica e os tratamentos antiangiogênicos (para impedir a formação de novos vasos sanguíneos em um esforço de interromper o crescimento do câncer de ovário) podem ser utilizados no tratamento da recidiva. Muitos agentes são estudados em ensaios clínicos no câncer de ovário avançado. Manejo de enfermagem As medidas de enfermagem incluem aquelas relacionadas com o plano de tratamento da cliente, que pode incluir cirurgia, quimioterapia, cuidados paliativos ou uma combinação deles. O apoio emocional, as medidas de conforto e a informação, juntamente com a atenção e os cuidados, constituem importantes componentes do cuidado de enfermagem para a cliente e a sua família (Blewitt, 2010). As intervenções de enfermagem após a cirurgia pélvica para remover o tumor assemelhamse àquelas depois de outras