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ENVOLVIDOS Porque Toda história tem um começo PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Sônia Tedesco Melo 1ª Edição PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Copyright © 2019 Sônia Tedesco Melo Todos os direitos reservados. Criado no Brasil. Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o consentimento por escrito da autora. A violação dos direitos PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. TÍTULO ORIGINAL ENVOLVIDOS ( Série ENTRELAÇADOS) CAPA EVY MACIEL REVISÃO PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ANDREA DI PALMA ELI ALVES PATRÍCIA OLIVEIRA PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON "Morrestes achando que amava. Matastes pensando que era amor. Dominado pelo egoísmo da paixão, nos fez ver que não te conhecíamos como deveríamos e, por tua atitude, demonstrou que não PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON conhecias o amor. Descansem em paz." William Shakespeare PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ESCLARECIMENTOS Esse livro nasceu depois que uma leitora querida fez um comentário sobre “Entrelaçados” ter a ajudado a resolver uma questão pela qual ela estava passando, e me fez ver que a história da Nana não só merecia, como precisava, ser contada como um tributo ao fato da vida não ser uma coisa estanque, cimentada e sim dinâmica. Afetos de quem nunca pensaríamos nos afastar se vão dando lugar a outros que nos fazem esquecer que um dia já tivemos uma vida sem eles. As estradas mais certas mudam seus traçados diariamente sem que percebamos e em um piscar de olhos podemos nos encontrar em um destino totalmente novo e nem por isso menos admirável. Talvez a maior beleza da vida seja justamente sua infindável capacidade de nos surpreender. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Peço que vocês tenham isso em mente, principalmente quem leu antes “Entrelaçados”, talvez a história da Nana possa gerar alguns sentimentos conflituosos em vocês, mas também os fará conhecer muito melhor nossos personagens queridos. Quem não leu “Entrelaçados” pode escolher ler depois e seguir a cronologia ou não. A ordem não alterará a história, mas talvez dê perspectivas bem diferentes. No fim do livro coloquei uma lista das músicas que me acompanharam durante o processo de escrita do livro para ajudar a entrar no clima. Espero que gostem, ou que criem outras e, por favor, dividam comigo. Por fim, me desculpem o tempo que eu demorei para lançar “Envolvidos”, estava justamente em um desses momentos mágicos em que a vida nos tira do traçado pré-determinado e nos apresenta ao maravilhoso desconhecido. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON AGRADECIMENTOS Mais do que nunca eu tenho muito que agradecer e a tantas pessoas que sequer caberia em um livro inteiro, ainda mais em uma simples página. Meus filhos que são tudo para mim e como se não bastasse ainda me incentivam o tempo todo e é PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON isso que me impulsiona sempre. À minha mãe, eu implico com você porque te amo e quero te ver brilhar com toda a intensidade que eu sei que você tem, mas te amo muito e sou infinitamente grata por ser sua filha, mesmo que eu não diga ou demonstre muito isso. À minha tia Angela por ter lido A Bela e A Fera pra mim, no Tesouro da Juventude, foi aí que meu amor pelos livros começou. Ah sim, e só por tudo além disso. À Lena, minha sogra, anjo que Deus me deu. Minhas amigas queridas, Déa e Patty que revisaram esse livro mais uma vez e que não me deixaram desistir do meu sonho, eu amo vocês e vou ser eternamente grata por tudo o que vocês sempre fizeram e fazem por mim. À propósito... Eli que nunca desistiu de mim, mesmo quando eu virei uma ermitã ranzinza e acho que é uma das poucas pessoas que conseguiram entender o meu exílio necessário, obrigada, Eli, eu cheguei a ponto de achar que não tinha mais como voltar e você sempre esteve lá me mostrando a saída, com sua mão estendida para mim.. Fran, minha anjinha doidinha, Leti e Deia, sempre se fazendo presente de uma forma ou de outra, me mostrando que eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON nunca estive sozinha. Sarinha que foi essencial para esse livro ( ela quem traduziu as partes em espanhol) obrigada, você sempre vai ser meu talismã, pequenininha. Adriana Cavenagh, recebi todos os seus recados e morro de vergonha de te deixar na mão, juro que vou fazer o possível para voltar a todo o vapor e atender suas expectativas, você foi muito importante para que eu não desistisse de tudo, você não sabe o quanto! Minha filhota Cris, que pega no meu pé também pelo Pietro e a Ju ( eu juro, eu vou voltar pra eles, vou vencer esse meu bloqueio com os dois e vou acabar o livro logo). Sheilinha, nem sei o que falar do seu carinho e do seu apoio. Sassa, Jo, Nessa, Beth, Morgana, Liis, Nanda, Claudinha, Line, Evelyne, Adriana, Nina, Cleo, Neuza, Aline, Fê, Dani, Edi, Sue e tantas outras amigas que os livros me trouxeram e que eu só posso agradecer muito por isso, porque nem consigo ver minha vida sem ter conhecido essas pessoas lindas. Drica Rosa, pelo seu comentário lindo sobre Entrelaçados, ainda me emociono quando lembro. Aliás a todos que leram meus livros e comentaram, fizeram críticas, todos vocês me ajudaram muito. Camila, Natalie, Tia Marluce amo vocês tanto PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que dói e sempre vou amar. Bete, Célia, Rosane, obrigada por me ajudarem a levantar, se não fosse por vocês e a fé que vocês me ajudaram a descobrir em mim, eu não teria conseguido, também. Enfim, cada pessoa que me empurrou ou me segurou durante esse período, muito obrigada. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON SINOPSE Adriana era a pessoa mais livre e independente que alguém poderia conhecer, nada ou ninguém a mantinha presa por muito tempo. A única exceção era Gabriel Ferraz, sua paixão da adolescência e o seu maior ponto fraco, com quem ela “esbarrou” durante sua estadia em Barcelona. Esse encontro rápido e inesquecível trará muitos frutos além de uma acalorada paixão e uma intensa aventura. Se preparem para ouvir a nossa fantasminha contar através de suas memórias, os detalhes de um amor que não atravessou o tempo, no entanto os marcou eternamente. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Com vocês, a história antes da história… PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PREFÁCIO Quantos erros nós temos o direito de cometer em uma vida? Será que sempre teremos a chance de repará-los? E se não tivermos? E se os nossos erros afetarem diretamente a vida de outras pessoas, aquelas que mais amamos? Minha cabeça está um turbilhão. Faz meia hora que eu desliguei o telefone e pela primeira vez em meses eu consigo enxergar com clareza, ou pelo menos acho que sim. Se a conclusão a que eu cheguei depois dessa maldita ligação estiver certa o meu erro dessa vez não tem perdão: meu orgulho e minha cabeça dura podem ter dado fim à coisa mais bonita que eu jamais vivi. Minha cabeça dói tanto, meu pensamento PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON turvo não permite destrinchar exatamente o que aconteceu. Eu sei que eu já fui uma garota destemida, segura e que me safava de todas, mas isso foi antes... Agora eu só queria entender o que fez tudo desandar dessa maneira,logo quando eu achava estar vivendo meu conto de fadas. Vou deitar um pouco, esperar a dor passar, me lembrar de tudo e ver onde exatamente eu errei... PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 1 Família ê, Família ah, Família... Acho que é melhor começar do começo. Do verdadeiro começo dessa história: quando eu soube que ganharia um irmão. Eu tinha nove anos e me assustei com os soluços angustiados que vinham do quarto de meus pais e resolvi descobrir o que estava havendo, ouvindo sorrateiramente atrás da porta. A voz macia e acolhedora do meu pai consolava aquela pessoa frágil, que em nada lembrava minha mãe sempre tão forte e equilibrada, enquanto ela se desesperava. — Eu não acredito Rubens! Logo agora que eu fui chamada para trabalhar no melhor curso vestibular do Rio, não podia acontecer isso! Nunca que eu vou ter outra chance como essa novamente. — Claro que vai! Quem vê você falando desse jeito pode achar que você tem uma doença terminal e não que carrega uma notícia tão boa nesse papel. Um bebê, Rutinha! Tem coisa PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON melhor do isso? Um moleque para ir comigo no Maraca ou outra princesinha como a Adriana, linda como você, meu bem! — Eu já tenho um bebê Rubens, um bebê grande, independente, que quase não me dá mais trabalho. Eu não vou saber lidar com mais uma criança, dar aulas e ainda te ajudar na loja! — Querida, diminui seu tempo na loja, eu te ajudo mais em casa, tudo vai se ajustar. Quantos casais têm mais de um filho e o mundo não acabou por causa disso? — Eu sou uma pessoa horrível, não sou? A minha mãe chorava e soluçava e eu me preocupava com ela. Pela voz do meu pai eu podia sentir que ele também, e isso me deixava mais apavorada ainda. Nada no mundo preocupava meu pai. — Não chora, não fala assim, sabe que o bebê já sente e nós não queremos que ele se sinta rejeitado, não é mesmo? Você não é horrível, você é linda, minha loira! Eu te amo muito! A você, a Adriana e a essa sementinha aqui, que veio para deixar nossa família mais linda, Rutinha. Eu empurrei a porta do quarto dos meus pais, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON devagarinho, e vi meu pai de joelhos na frente da minha mãe, que estava sentada na ponta da cama, beijando amorosamente a barriga dela e depois se levantando e beijando o rosto da minha mãe, apagando a trilha de lágrimas que escorriam pela sua face com beijos suaves. Eles eram tão diferentes e tão lindos juntos! Ele, alto, forte, moreno, sempre de barba, o que deixava ele mais com cara de pai ainda e me dava uma cosquinha engraçada quando ele me beijava. Ela, loira, pequena e delicada como uma flor, com os seus lindos olhos azuis, que eu modestamente puxei, sempre brilhantes como duas estrelas. Ele, de temperamento doce e justo, nunca elevando o tom de voz para zangar comigo, sempre me explicando tudo duzentas vezes se necessário, emotivo ao extremo, alegre e festivo, dispensava toda a atenção do mundo para mim e para minha mãe. Ela, geniosa como o inferno! Muito inteligente, organizada, racional e séria, tão séria que beirava o melancólico, nunca desperdiçava seus sorrisos, era quem colocava ordem na nossa PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON casa, sempre gritando ordens e reclamações, apesar de não ser nada rígida comigo, muito pelo contrário, até parecia se divertir com minhas travessuras. Aliás, verdade seja dita, se uma coisa os dois tinham em comum era o fato de não conseguirem ficar bravos comigo nem por um instante, e com tudo isso eu tinha a certeza de que era a criança mais amada do mundo. Vendo os dois ali, tão apaixonados, eu também sentia que era a filha dos pais que mais se amavam no mundo também. Aquela cena nunca sairia da minha cabeça, o príncipe ajoelhado diante de sua princesa cuidando dela com todo o amor do mundo. Um dia eu também teria o meu príncipe e ele seria tão forte, lindo e amoroso quanto era o meu pai! Depois desse dia minha mãe parecia mais conformada. Assim enquanto a barriga dela ficava cada vez maior, meu pai e eu ficávamos cada vez mais eufóricos. Ele fazia questão que eu participasse de tudo, me designando como a guardiã do bebê, o que me encheu de senso de responsabilidade a primeira vez na minha vida. Talvez por isso, ao invés de ciúme eu já sentia um amor imenso e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON cuidava do enxoval do bebê como se fosse uma coleção de roupas da Barbie, obrigando meu pai a comprar tudo o que eu via pela frente, o que deixava minha mãe louca. — Outra roupa Rubens? Nem sabe o sexo do bebê, vai encher a casa de roupa amarela e verde. Espera pelo menos saber o que vai ser. Ah! Eu adorava ficar pensando no que o bebê seria, em como ele seria! Eu estava torcendo por uma menininha para brincar comigo e ela seria tão minha amiga quanto a minha inseparável Lívia. Minha mãe torcia o nariz quando eu dizia isso, falando que queria ver, que depois que o bebê não fosse mais novidade eu nem ligaria para ele. Eu a amava, mas às vezes ela era tão burra! Só ela que não via: meu irmão e eu seríamos os maiores amigos do mundo! Por isso, quando eu soube que era uma menina quase saí de órbita! Eu os acompanhei ao ultrassom apesar de ter sido obrigada a aguardar na recepção pelo que pareceu um ano inteiro até que eles voltassem e meu pai se abaixasse na minha frente e me desse a notícia, todo animado. — Adriana, você acertou! Nós vamos ganhar uma menininha! Outra princesinha linda para o PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON papai, eu estou tão feliz, e você, meu doce? Eu pulei no pescoço do meu pai quase fazendo ele cair no chão. — Oba! Papai, eu vou brincar tanto com minha irmãzinha! Eu posso escolher o nome dela? Minha mãe não parecia tão animada quanto ele. — Não entendo toda essa alegria, Rubens. Não era você quem queria um menino para levar ao futebol? Meu pai se levantou e segurando minha mãe pela cintura a aproximou dele e a beijou na testa, enquanto a outra mão deslizava sobre o pequeno monte que era a sua barriga. — É claro que eu estou feliz, Rutinha, meu bebê está cheio de saúde, por que eu não estaria? Menino, menina, pouco importa, só importa que vai ser muito amado. Além do mais a Adriana sempre viu jogo comigo e isso não faz dela menos menina, pensando bem acho que estar rodeado de lindas mulheres não é tão ruim assim, não é mesmo? Soltou a minha mãe e piscou para mim. — Então mocinha como você quer chamar a PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON nossa bonequinha? — Ah! Eu acho o nome da minha professora tão lindo! Ela se chama Ana Paula, mas eu não quero que a nenê tenha mais nome do que eu, então ela poderia ser Paula? Você gosta desse nome, mamãe? Era a primeira vez que ela sorria desde que ela saiu da sala do exame. — Muito lindo, meu amor, se você quer que ela se chame Paula, Paula vai ser. Se meu pai achava que saber o sexo do bebê faria minha mãe mais participativa dos preparativos para a chegada da Paulinha, ele estava muito enganado. Comigo ela era a mãe carinhosa e cuidadosa de sempre, mas tudo que ela fazia para o bebê era no automático, e mais do que isso, implicava com tudo o que meu pai fazia para ela, achava tudo exagerado e desnecessário. Até o quartinho lilás que eu ajudei meu pai a decorar, toda feliz por que ele tinha pintado da cor que eu escolhi, comprado cada coisinha que eu pedi fazendo com que parecesse realmente um quarto de princesa. Quando ficou pronto meu pai parecia que ia estourar de orgulho de mim, dizendo que eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON levava jeito para decoração e devia ser arquiteta, minha mãe também elogiou muito, bem como ela gostava. Enunciou cada acerto como se fosse uma prova e ela estivesse aferindo minha nota, mas mesmo assim eu fiquei muito envaidecida com a aprovação deles, mas logo depois de elogiar, minha mãe soltou uma longa explicação sobre o quanto apesar de estar orgulhosa de mim e do papai ela achava desnecessário um gasto tão alto para em um quarto principalmente depois dela ter perdido a chance de melhorar o salário dela.Olha, meu pai adorava o chão que minha mãe pisava, sempre dizia que não acreditava que ela, linda e inteligente como era, tinha olhado para ele, e sempre tinha algo doce para dizer a ela, perdoando seu mau humor e até achando graça do jeito dela, mas naquele dia eu vi meu pai perdendo a linha com a minha mãe, me pediu que fosse para a casa da Lívia e quando voltei minha mãe estava com cara de choro, deitada no sofá e o papai não estava em casa, só voltou bem mais tarde, o que eu nunca tinha visto ele fazer. Durante dias o clima lá em casa pesou, meu pai falando entre os dentes com minha mãe e ela PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON chorosa pelos cantos. Depois, ele viu que não valia a pena e voltou a agradá-la como sempre e ela, por sua vez, ficou mais receptiva às coisas que nós fazíamos pela bebê. Infelizmente, porém, logo que a Paulinha nasceu a indiferença da minha mãe se transformou em uma depressão brutal que parecia roubar toda a vontade de viver. Passava horas lá deitada, sem ânimo para nada, mal cuidava da nenê e nem mesmo quis amamentá-la por muito tempo. Meu pai se virava em dois para dar conta de cuidar da Paulinha como podia e da loja, nunca reclamando de nada. Bem verdade que a tarefa mais difícil era a loja mesmo, a Paulinha era o bebê mais bonzinho do mundo, quase não chorava, passava seus dias olhando minha mãe com aqueles olhões escuros que pareciam perguntar quando ela seria vista, quando minha mãe daria algum tempo para ela. Confesso que cheguei a ficar brava com minha mãe pelo jeito que ela tratava minha irmãzinha, mesmo que meu pai, sempre ele, tivesse me explicado que minha mãe estava doente e precisava de carinho e amor. Poxa a nenê também precisava! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Assim que nosso laço se estreitou, eu passava horas só brincando com minha irmãzinha enquanto meu pai estava trabalhando, e mesmo quando minha mãe conseguiu sair do seu torpor e começou a reagir, cuidando melhor de si mesma e até da Paulinha eu ainda ficava por perto, ajudando sempre. Por isso foi natural que a primeira palavra dela fosse “nana”, tentativa super complicada e engraçadinha de falar “Adriana”, praticamente me rebatizando, já que a partir dali ninguém mais me chamaria pelo nome fora da escola. Também foi normal que, tão logo ela começasse a andar, grudasse em mim e na Lívia. Na verdade, Paulinha e minha mãe nunca conseguiram reatar o vínculo perdido, e por mais que ela quando menor tivesse gasto muita energia tentando ser quem achava que minha mãe gostaria (super responsável, independente, caprichosa “menina maravilha”), a mamãe na maior parte do tempo a ignorava simplesmente, só abrindo exceção para as coisas relacionadas à escola onde ela cobrava excelência da Paulinha mais do que tinha cobrado alguma vez de mim. Meu pai dizia que nessas horas era o sangue PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON alemão que falava mais alto e minha mãe se transformava em um oficial da Gestapo, e eu pensava comigo mesma que com a Paulinha ela era sempre assim. Uma tremenda nazista, pronta para reprimir qualquer riso, fala ou ato da filha. Com o tempo a Paulinha se adiantava a ela, tendo o caderno mais limpo e organizado de toda a escola, o uniforme mais limpo, a atividade mais completa e as notas mais altas, sempre foram menção honrosa onde estudou e onde quer que fosse era elogiada e admirada, principalmente por mim e pelo meu pai. Minha mãe, no entanto, não parecia entender que ela fazia aquilo procurando sua aprovação e com o tempo ela simplesmente se isolou da minha mãe, continuando a ser a menina maravilhosa que era, mas saindo do caminho da minha mãe tanto quanto podia. Acredito que foi por isso que eu era tão terrível! Eu queria mostrar para minha mãe o quanto a Paulinha era boa, mas quanto mais eu aprontava mais minha mãe achava graça, chegava até a elogiar a minha “personalidade”. Que personalidade que nada! Eu era uma peste mesmo! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Junto com a Lívia eu deixava a vizinhança de cabelo em pé, andávamos de “skate” com os meninos, subíamos em árvore, empinávamos pipa! Eu vivia machucada e quebrada, não perdia uma oportunidade de testar os meus limites. Talvez por isso que meu pai não sentia falta de ter um menino, em matéria de molecagem eu deixava qualquer garoto no chinelo. Mesmo assim para a minha mãe, tudo que eu fazia era perfeito, chegando mesmo a dizer que o meu espírito era livre, que eu tinha nascido para brilhar. Ela própria não tinha nada disso, era rígida e presa as suas próprias convicções. Já a Paulinha me seguia como uma sombra, mas sempre a uma distância salutar para ela, nunca se sujava, ou fazia algo perigoso, ou mesmo tinha muitos amigos. Seu Universo se restringia a mim, a Lívia e a Malu, sua melhor amiga, quando muito ela conversava com o Davi, irmão da Malu, e mesmo assim porque ele sempre estava por perto. O que fazia a alegria da minha bonequinha era um lugar calmo onde ela poderia sentar e ler um livro, sem que ninguém a incomodasse. A PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON coitadinha se esforçava tanto para ser transparente para minha mãe que se comportava como se ela realmente o fosse. Mas não era! Ela era linda e tão doce que mesmo sem fazer nenhum esforço encantava a todos onde quer que nós fossemos. Meu pai estourava de orgulho o que só piorava a situação dela com a mamãe, isso sem falar que, se ela fosse difícil de lidar, seria mais fácil de encontrar motivo para implicar com ela, mas isso minha mãe simplesmente não tinha. Com o passar dos anos nossas diferenças se acentuavam tanto quanto o nosso amor crescia. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 2 Ninguém vai resistir se eu usar os meus poderes para o mal Acredito que todo esse excesso de amor e aprovação que eu tinha em casa fez de mim uma adolescente fora do comum, sem as neuras da idade e muito mais autoconfiante que o normal. Talvez mais do que o recomendado, nunca fui modesta e sabia o meu valor, sabia que era bonita e tinha uma legião de garotos atrás de mim para confirmar isso, mas nenhum havia mexido comigo. Não alguém que realmente fizesse o meu coração bater mais forte. Isso só mudou quando que mudei de escola para fazer o Ensino Médio no Colégio prestigiado em que a minha mãe dava aula. Estudar num colégio em que a sua mãe leciona é uma experiência única porque te obriga a ver uma faceta totalmente diferente da pessoa que te criou. No meu caso, descobri que ela era uma PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON espécie de pop star do ensino, que além de conseguir uma taxa de aprovação no Vestibular absurda (do tipo que só não passava quem fosse muito burro, ou não quisesse aprender mesmo), tinha o dom de fazer os alunos assimilarem toda a matéria como se fosse um processo de osmose. Isso sem falar que onze em cada dez alunos que estudavam com ela achavam-na o máximo. Nunca entendi o porquê, mas minha mãe trabalhando se transformava, deixava a mulher cri cri e implicante de lado para dar as aulas mais animadas e disputadas da escola. Difícil só era saber que em parte o sucesso das suas aulas se devia ao fato dela ser linda e os alunos serem monstrinhos tarados com os hormônios em ebulição. Por sorte, minha mãe, sendo A minha mãe, tirava isso de letra usando a autoridade na medida certa, nunca permitindo que os alunos a desrespeitassem, e continuando a ser a professora maneira, que todos amavam. Nenhuma turma amava mais a minha mãe do que a Turma de Elite. Os boyzinhos do último ano, filhinhos de papai que estavam ali porque os pais exigiam que eles se destacassem em tudo para não envergonhar suas abastadas famílias, e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que colocavam minha mãe num pedestal por fazer entrar algo nas cabeças ocas de suas preciosas crias. E no meio dessa Turma de Elite, um deles se destacava mais do que outros: era o queridinho da escola, o mais bonito, mais engraçado, o que liderava os outros, o que tinha o sorriso mais lindo e que iluminava tudo a sua volta. Não poracaso foi a primeira paixão da minha vida. Gabriel Ferraz era a materialização do príncipe encantado dos meus sonhos. Além de ser lindo com os seus cabelos castanhos sempre um pouco longos demais para ser considerado “certinho”, mas nunca demais para que parecessem descuidados, o seu nariz proeminente e aqueles olhos miúdos, que pareciam estar sempre mirando algo. Isso para não falar do corpo delgado e longilíneo, esculpido nas ondas do mar, graças às manhãs que ele dedicava à prática do surf. Sem que eu estivesse preparada alguma coisa acordou em mim, e quando eu o via meu corpo todo agia como uma máquina: coração a mil, boca seca, frio na barriga, isso sem falar do PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON despertar de partes minhas com as quais eu ainda não estava intimamente ligada na época. O meu lado romântico aflorou loucamente e eu mesma não sabia quem era aquela menina suspirosa que corria na hora em que o sinal do intervalo tocava só para ficar de longe, o observando, secando... Ele fazia com que eu me sentisse tão boba e fraca e para mim isso era uma vergonha, afinal eu era aquela que os garotos babavam quando passava e nunca o contrário. Acredito que por orgulho eu guardei aqueles sentimentos somente para mim. Como dizia a música do Lulu Santos “... Se amanhã não for nada disso, caberá só a mim, esquecer. O que eu ganho, o que eu perco ninguém precisa saber…”. Nem mesmo a Lívia sabia da minha paixonite, eu não ia ter paciência para escutar ela debochando da minha obsessão, então, para todos os efeitos somente estava ficando chata, já que não queria mais sair tanto e quando saía implicava com cada garoto que ela achava bonito. Mal sabia ela que para mim naquele momento, só um garoto mereceria minha atenção PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON e para minha inteira decepção, nem meus lindos olhos azuis, nem meu cabelo loiro natural, minha pele de pêssego ou meu corpo perfeito me faziam digna da sua atenção, a ponto de eu apostar, sem medo de errar, que ele sequer notara a minha presença, sempre tão ocupado com seus amigos e distraído pelas meninas da idade dele, que viviam o rodeando. Ele nunca me daria uma segunda olhada e mesmo que o fizesse me acharia uma pirralha, então eu preferia continuar a proteger o meu imenso orgulho naquele jogo bobo de observá-lo de longe, mas nem por isso deixando de sonhar com o dia que ele me notaria, e perceberia como nós fomos feitos um para o outro. Acho que essa minha postura contida e reservada acabaria se rompendo e eu daria um jeito de chamar a atenção do Gabriel, se tinha uma coisa que eu não sabia, essa coisa era perder. No entanto, de repente as coisas acabaram tomando um rumo totalmente diferente quando uma garota esquisita que estudava na minha sala resolveu do nada se tornar a minha amiga. Aquilo era muito estranho, já que até aquele PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON momento ela tinha evitado contato comigo e com todos os outros alunos e nós até gostávamos disso. Ela tinha pose de quem se achava superior a todos, com suas roupas de grife, e seus acessórios caros, fazendo força para parecer mais velha e era como se ela estivesse pronta para um editorial de moda de uma revista estrangeira. Na verdade, era bastante cômico, mas ela não se dava conta disso. Aliás, não se dava conta disso nem de nada. Nem das brincadeiras que faziam com ela por causa do pai dela, figurão de Brasília, ou do seu nariz em pé. A menina simplesmente não estava na mesma sintonia que todos nós. No começo até pensei que ela estivesse se aproximando de mim por causa da minha mãe, afinal não era raro que achassem que fazer amizade comigo traria acesso fácil ao conteúdo das provas ou mesmo que eu pudesse interceder por eles no caso de ficarem pendurados. Coitados! Se conhecessem a mim ou a minha mãe eles saberiam que não era bem assim que as coisas aconteciam. Eu nunca trairia a confiança dela a esse ponto e o fato de eu pedir ajuda para um PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON amigo só faria com que ele ficasse em seu radar…E ninguém gostaria de ficar no radar da Professora Ruth! Logo vi que a menina não tinha interesse nenhum em quem era a minha mãe, ela parecia ser só uma garota fútil e mimada com sérios problemas de sociabilização que queria fazer pelo menos uma amizade, mesmo que a outra parte, no caso eu, não fizesse esforço algum para interagir com ela. Era ela quem ficava andando atrás de mim. Despejando suas baboseiras, me perguntando sobre garotos, contando mil e uma vantagens que não me importavam nem um pouco e antes que eu me desse conta, ela conseguiu o que nem a Lívia tinha conseguido: que eu confessasse a minha paixão pelo Gabriel. Sua reação sobre a minha confidência foi tão sem sentido quanto tudo o que ela fazia ou dizia. ─ Não Adriana, você não pode estar falando do Gabriel Ferraz! O bad boy da escola? ─ Ele não é um “bad boy”, eu nunca o vi fazendo nada de mais, ele é muito lindo e gostoso, isso sim! ─ Ah! Adriana você é quem sabe, mas eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ficaria longe dele, além de tudo ele é o maior pegador da escola, e trata as garotas como lixo, usa e descarta. Você é melhor que isso, não é não? Era bem verdade que ele era realmente um pegador, eu nunca tinha visto ele com uma garota duas vezes, mas e daí? Ele podia mudar, por que não? Além do mais eu seria muito hipócrita se não reconhecesse que eu mesma não era muito diferente com os garotos que ficava e na nossa idade, nada mais normal do que isso. Quem sabe éramos justamente o que o outro estava precisando? Olhei rindo para a Heloísa que estava visivelmente irritada comigo. ─ Ficar com um monte de garotas tudo bem, mas eu ouvi falar que ele as obriga a transarem com ele e depois não olha mais para a cara delas. Tipo: nunca mais! E aí se elas ficarem correndo atrás, ele as trata abaixo de cachorro! ─ Heloísa, você tem certeza disso? Por que eu não imagino o gato do Gabriel precisando obrigar alguém a alguma coisa. Ela se sentiu desafiada pela minha desconfiança nas coisas absurdas que ela dizia e continuou o seu ataque: PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Ai Adriana, como você é inocente! Gente como ele não faz as coisas por que precisa, faz por que pode. O pai dele é dono de um dos maiores impérios industriais do país, ele nunca vai se responsabilizar por nada que fizer, deixa de ser boba! O negócio dele é se aproveitar das ingênuas e brincar com elas, as humilhando. Se eu estou te falando é porque eu sei. Tenho uma amiga que caiu no papo dele, coitadinha, ficou arrasada. Eu não fazia ideia que ele fosse tão rico assim, e imaginar ele como uma pessoa fria e cruel a ponto de magoar as garotas com que ele ficava e até mesmo as forçando ao que não queriam tirou boa parte do encanto que tinha por ele. A Heloísa sentindo que as palavras dela estavam fazendo efeito continuava a detonar o Gabriel de todas as formas possíveis. ─ Além de tudo, ele é um arruaceiro, já ouvi cada história dele! Nada de bom vinha daí, e mesmo assim minha curiosidade foi maior. ─ Que tipo de coisa você ouviu sobre ele? ─ Que ele e aquele menino que vive grudado nele, o Lucas, aprontam todas! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Ai Heloísa, se é para fazer fofoca pelo menos faz direito! Diz logo o que você ouviu. ─ Que esse menino está envolvido com drogas. ─ Ah, para Heloísa! Nada a ver! Duvido! Ele não tem cara disso não. ─ Como eu disse Adriana, você é muito ingênua e não está acostumada com pessoas ricas, nesses meios tudo isso é normal, não se engane por aquela carinha de bom menino, não. Não pude deixar de pensar na ironia de logo a filha do político corrupto me dar esse sermão, mas, por outro lado, em pelo menos uma coisa ela estava certa, eu já tinha visto minha cota de playboys para saber que o conceito de correto e errado deles era bem mais elástico do que o nosso. Eu até podia ser meio doidinha e gostar de coisas perigosas, mas me amava demais continuar aficionada em um garoto problema desses. Decidi deixar o Gabriel de lado,mas o fiz com um gosto amargo na boca, de quem tinha deixado para trás algo que não queria deixar, de quem desistiu sem tentar, e para me conformar eu ficava me repetindo os argumentos da PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Heloísa, que com a graça de Deus, logo após essa fase de “BBF” decidiu, de novo, que eu não merecia a “honra” da sua magnânima e suprema companhia e voltou a me ignorar como se nunca tivesse me conhecido. Para mim, foi uma imensa alegria, eu não aguentava mais aquele lengalenga daquela louca mesmo. Quanto ao Gabriel, apesar de não querer mais nada com ele, ou pelo menos de fingir isso tão bem que às vezes até eu mesma acreditava, eu continuava a observá-lo de longe e quanto mais fazia isso, mais ficava confusa: ele e sua turma sempre estavam no olho do furacão da escola, eram os responsáveis pelas maiores bagunças, mas também participavam ativamente de todas as atividades beneficentes que o Colégio promovia, o que não combinava com a ideia de um boyzinho arrogante, ele também continuava a “passar o rodo” nas meninas do Colégio, e chegou até a engrenar um namoro com uma garota da turma dele, mas eu nunca tinha ouvido de nenhum término traumático ou de alguma garota maltratada por ele, e olha que essas coisas sempre viravam notícias. Muito pelo contrário o que eu assisti durante todo o ano foi a fila de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON apaixonadas só aumentar o que me enchia de um irracional ciúme, mas ao mesmo tempo me fazia cada vez mais feliz por só ter me aberto sobre a minha paixonite para a louca da Heloísa. Eu que não seria vista como mais uma a suspirar pelo Gabriel Ferraz, e até fazia graça com as meninas que se jogavam em cima dele. Essa dúvida ficou entranhada em mim, mesmo depois da luxuosa Noite de Formatura, em que eu e meu pai acompanhamos minha mãe. A Paulinha como era muito pequena iria passar a noite com a Malu, sua amiguinha, e durante todo o trajeto minha mãe não parava de tagarelar sobre o quanto ela estava orgulhosa dessa turma em especial. ─ No começo do ano esses meninos não queriam saber de nada Rubens, agora todos estão aptos a escolherem o curso que bem entenderem por que têm condições de disputar qualquer vaga. Mas de todos, eu não posso negar que meu aluno predileto é o Gabriel, que menino, meu amor! Tão educadinho, gentil, aplicado, interessado nas aulas, humilde, nem parece que é tão rico! Nana, você sabe de quem eu estou falando, não sabe? Vesti minha cara de pôquer e tentei PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON desconversar. ─ Sei lá, mãe! São uns quinhentos Gabrieis só no meu período. ─ Mas só um deles é O Gabriel Ferraz, Nana! ─ Gabriel Ferraz? Não, nunca conheci ele não, nem sei quem é. Minha mãe olhou para trás como se eu fosse louca, e com certeza farejando minha mentira em meio a tantos “não”. ─ Adriana, você nunca viu o Gabriel Ferraz no recreio, nem viu nenhuma colega sua dando em cima dele? Conta outra, minha filha, duvido que mesmo você que é sempre tão cheia de si seja imune ao charme daquele garoto! Meu pai deu uma gargalhada sonora enquanto pegava a mão da minha mãe e a beijava. ─ Que isso, minha loira, assim eu fico com ciúmes. Era engraçado e repulsivo ver os dois flertando como dois namorados, por que pais não se mancavam que ninguém queria participar da intimidade deles? Eu só me encolhi no banco traseiro, esperando que aquela demonstração de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON carinho explícita levasse embora o assunto Gabriel, mas eu não estava com sorte, minha mãe retomou a conversa ao mesmo tempo, em que jogava mais charme para o meu pai. ─ Você sabe que o meu fraco são os morenos bonitos, mas eu já tenho o meu e aquele lá é bem uns 25 anos fora da minha faixa etária. Mas… Já ouviu falar no “genro que mamãe pediu a Deus? ”, essa mamãe aqui adoraria ter um genro daqueles: bonito, educado, super gente fina, nem vou falar do dinheiro por que isso não é o mais importante, mas eu confesso que eu acho no que você e o Gabriel seriam sim um casalzinho lindo, ah isso eu acho Nana! Eu também já achei mamãe, no passado. ─ Para de falar bobeira mãe! E nem pense em me jogar em cima de aluno ou ex-aluno seu, viu?! ─ Tudo bem, mas eu posso sonhar, não posso? Eu bufei e fechei a cara, cruzando meus braços. ─ Não mãe, não pode sonhar com a minha vida não, obrigada! Ela e meu pai riram, debochados e eu passei PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON a festa me escondendo da minha mãe toda vez que ela chegava perto dos seus alunos, morta de medo que ela me fizesse passar algum tipo de vergonha, assim mesmo eu pude assistir a Formatura do Gabriel e admirá-lo por uma última vez, tão lindo de smoking como “gente grande” com aquela carinha de menino levado dele. Pelo resto da noite, me permiti olhar para ele o quanto eu pude, toda vez que minha mãe não estava por perto, e não quis lembrar das coisas que a Heloísa tinha dito, aquela pobre coitada com certeza era louca. Não era possível que tamanha perfeição da natureza por fora, fosse metade que ela descreveu por dentro. Bem, eu, pelo menos, esperava que não. Também o que importava àquela altura? Provavelmente nunca mais eu o veria. Nossos caminhos eram tão diferentes, nossas vidas tão opostas. Por isso quis memorizar cada detalhe do Gabriel. Afinal, mesmo que ele nunca soubesse, ele tinha sido o meu primeiro amor. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 3 Sabe Gente, é Tanta Coisa Pra gente Saber... Com o passar dos anos o Gabriel foi se tornando um ponto desfocado nas memórias dos meus dias de Colégio. Perdendo o seu valor e entrando para a caixa “das coisas que eu preferia esquecer”. Eu ria toda vez que lembrava como eu tinha sido boba e infantil. Mas a verdade é que, em algum lugar lá no fundo sempre existiu um traço do que eu senti. Às vezes eu me pegava pensando sobre ele. Como ele estaria? Cada dia mais bonito? Ou tinha entrado para aquele grupo de pessoas que nós mal podemos reconhecer quando saímos da escola? Será que as coisas que a Heloísa disse eram verdadeiras? Se fossem, será que ele já tinha colocado a cabeça no lugar? Eu esperava do fundo do meu coração que sim. Afinal seria um pecado um menino que tinha todas as oportunidades na mão desperdiça- las por bobeira, mas como era o que a gente mais via por aí... Enfim, ele tinha virado uma daquelas lembranças que mesmo perdendo a cor nunca se PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON apagavam completamente da nossa mente. Muito menos do coração. Já do meu lado, nunca mais amarrei bode por nenhum garoto. Também nunca mais senti as mesmas coisas que eu tinha sentido pelo Gabriel. Nunca mais “sinos tocando” ou “mãos suadas”. E Deus, como eu sentia falta disso! Foi procurando por essas sensações que eu engrenei o meu primeiro namoro sério, com meu amigo Rafael. Ele era uma boa companhia, e me tratava como uma princesa. Foram dois anos maravilhosos, com um cara maneiro, que me tratava muito bem, tinha gostos parecidos com os meus e foi com quem eu tive a minha primeira vez, que era também a primeira vez dele, e que foi linda e desajeitada, com todo o carinho, inexperiência e afobação que nossos 17 anos nos permitia. Ainda assim, nunca despertou em mim mais do que desejo e amizade.Com o tempo a segunda foi prevalecendo até que nossos horários não combinavam, nossos programas eram diferentes, nosso cansaço maior que a vontade de estar junto e todas essas desculpas que marcam o fim de um PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON relacionamento. E então foi isso... Cada um para o seu lado e sorrisos sem graça quando nos encontrávamos, até que pudéssemos voltar a ser os amigos de antes, sem drama nem culpa. A melhor coisa que eu tirei daí e que eu fiz questão de levar para todos os meus relacionamentos foi exatamente a falta de drama e cobranças. Eu estava sempre com quem queria, porque queria, e acreditava que acontecia o mesmo do outro lado, fazendo questão de dar ao outro a mesma liberdade que eu exigia, perdeu o encantohora e eu parti para outra. Sem olhar para trás, nem me arrepender. Talvez essa falta de envolvimento na minha vida sentimental se devesse ao fato de que naquele momento, outro amor, muito maior e muito mais forte me preenchia e saciava: a Arquitetura, que tinha todo o meu foco e dedicação. Desde o momento em que eu ingressei na Faculdade eu me enfiei de cara nos meus estudos, totalmente apaixonada por todo o Universo ligado a construção, urbanismo, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON paisagismo, arte… Eu sempre soube o que queria fazer, mas nunca imaginei que isso fosse me completar tanto. De repente, eu que sempre fora uma tremenda porra louca estava centrada e tinha a certeza que era uma arquiteta nata. Amava entrar na mente dos clientes e criar, dar forma aos seus sonhos e suas necessidades, gerando soluções de problemas que eles mesmos não sabiam que tinham e entregando projetos que agradavam a mente e encantavam o coração. Para chegar a esse objetivo eu estudei como louca, lia dia e noite, caçava curso, seminário, o que fosse interessante para minha formação eu estava atrás. Me formei com as melhores notas e logo fui contratada por um dos maiores escritórios da cidade, onde rapidamente aprendi os segredos da profissão e formei um vasto portfólio, lotado de clientes influentes e satisfeitos, que me indicavam para outros clientes influentes. Profissionalmente eu não podia pedir mais do que isso, nem financeiramente. Como eu não tinha saído de casa e meu pai PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON não aceitava de jeito nenhum que eu ajudasse com as despesas meu dinheiro era para comprar roupas, sapatos e mimos para mim e a Paulinha, que séria e ajuizada como era ainda reclamava comigo eu não devia gastar com ela. Eu nunca a escutava, claro. Adorava agradá-la. Acredito até que ela era o real motivo de eu não sair de casa. Tinha medo que o dia em que eu o fizesse ela se fechasse de vez na sua casca, já que quanto mais crescia, mais introspectiva ela se mostrava. Era difícil não ser tímida e reservada quando qualquer coisa que ela fizesse era constantemente comparada comigo. O que era terrivelmente injusto dado a nossa diferença de idade, a minha vivência muito maior do que a dela e nossas personalidades tão opostas. Como se alguma dessas coisas fosse impedir minha mãe de ficar a cada dia mais crítica com relação a ela. Era um ciclo infinito, quanto mais minha mãe criticava, mais a Paulinha se fechava e mais minha mãe criticava por que a Paulinha era antissocial, mosca-morta etc... O começo da adolescência da minha irmã apertou algum gatilho na minha mãe e, durante um período seu antagonismo com a Paulinha era insuportável. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Pelo menos até o dia que minha mãe passou de todos os limites. Nós estávamos todos à mesa do almoço, conversando sobre amenidades e a Paulinha disse naturalmente que passaria à tarde em casa. Sua amiga Malu e o irmão dela, Davi acompanhariam a mãe deles, Cláudia, que era cineasta, a uma filmagem no interior. Isso foi o motivo que bastou para minha mãe, do alto de sua altivez começar seu ataque à minha irmã. ─ Paulinha, você não tem nenhuma amiga além da Malu? Por que quando você não está incomodando sua irmã e a Lívia grudando nelas, está enfiada na casa da Malu? A Paulinha nunca a desafiava, nunca a desrespeitava, simplesmente a respondia com a indiferença de quem já tinha feito disso um hábito. ─ Eu tenho alguns amigos, mãe. Só que nós gostamos de nos divertir de formas diferentes. A Malu também, mas ela respeita o meu jeito. Mesmo ela talvez eu não visitasse tanto se você não insistisse que eu preciso sair mais. Se dependesse de mim, eu passaria todo o meu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON tempo livre em casa, lendo. ─ Não é saudável que uma menina da sua idade fique tanto tempo com a cara enfiada nos livros Paulinha. Não é possível que você não tenha nada melhor para fazer do que isso! Eu olhei para o meu pai e ele balançava a cabeça, contrariado, enquanto acabava de comer e a Paulinha continuava a responder calmamente o interrogatório da nossa mãe. ─ Eu tenho, mãe. Só que prefiro ler a fazer qualquer outra dessas coisas. Eu não penso que isso seja ruim. É só o meu jeito. Além do mais, se eu quero ser uma boa advogada ler muito é essencial, você como professora deveria entender isso. ─ Como também é importante que um advogado tenha vivência, ter argumentos e seja desinibido para conseguir falar em um julgamento. E não é que eu não te entenda, acho que é bom que você goste de ler. O problema é o exagero, olha a sua irmã: a Nana se formou em arquitetura sem precisar ficar com a cara dentro de livro o tempo todo. Saía, tinha amigas, sempre se arrumou e foi vaidosa. Você é só livro, livro, livro e de vez em quando encher o saco da Malu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ou ficar andando atrás da sua irmã e da Lívia. A Paulinha olhou para mim como se pedisse uma confirmação se minha mãe estava certa, e eu prontamente saí em sua defesa. ─ Ei mãe, peraí! Ela e a Malu são melhores amigas desde sempre, como eu e a Lívia. Eu tenho certeza que a Malu adora estar com a Paulinha. Da mesma forma quando eu incluo a Paulinha nos meus programas é por que eu adoro estar com ela e fazer coisas para ela. Não é só que a Paulinha não atrapalha, ela é importante para nós, sem ela não tem a mesma graça. Que graça teria ir na piscina da casa dos avós da Lili sem a Paulinha? Ou na praia, no shopping? Nenhuma. Só não levamos a Paulinha em programas que não são para a idade dela. E isso por enquanto. Pisquei em direção a ela, que sorriu agradecida e cúmplice, mas minha mãe agia como se não tivesse me ouvido e continuava suas acusações. ─ Eu não estou dizendo que a Malu não goste da Paulinha, mas não dava para pelo menos aprender um pouco com ela? Ela é sempre tão animada, cheia de vida, se veste como uma PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON menina da idade de vocês… Minha mãe não dava trégua, e a Paulinha simplesmente olhou para ela, suspirou, pediu licença para sair da mesa e foi em direção ao quarto dela. Sem choro, nem malcriação, mas visivelmente chateada com as alfinetadas da minha mãe, que não via, ou fingia não ver que quem a empurrava para esses hábitos solitários era ela mesma com tantas cobranças ridículas. Outro efeito da falta de tato com que minha mãe agia com a Paulinha é que a cada dia ela se isolava mais dela também. Sempre buscando a mim ou ao meu pai, que como o pai perfeito que era a enchia de amor, carinho e aprovação, e essa cumplicidade entre os dois era o único motivo pelo qual meus pais brigavam. ─ Poxa Rutinha, precisa falar assim com a menina? Ela não dá trabalho nenhum, qual o seu problema com ela? Juro que não entendo! A Paula é a filha que qualquer mãe sonha: responsável, organizada, obediente. ─ É claro que não entende! Vive passando a mão na cabeça da Paulinha. Ela tem que ser mais pra frente, mais atirada, Rubens! Obediente, sei! Essa menina é uma banana! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Era revoltante de ver como a minha mãe não tinha ideia de quem era a filha dela, e de que pessoa forte, determinada e corajosa ela era. ─ Não é assim não, mãe. Você não conhece tão bem a Paulinha, ela é tímida e calma, mas ninguém a faz de boba não. Ela tem até fama de esquentadinha. É só respeitar o ritmo dela. ─ Ritmo, Nana? Essa menina é parada! Eu só falo por que me preocupo, ela não vai poder ficar a vida toda na sua sombra. Um dia ela vai ter que andar pelas próprias pernas e vamos ser sinceros, ela já não veio com tantos encantos assim. Tudo bem que realmente é esforçada, mas você acha que só isso vai ser suficiente para ela sobreviver ao mundo real? Por que ela não tem sua beleza, nem seu carisma, se ela não for pelo menos mais atirada e simpática não vai chegar a lugar nenhum! ─ Mãe! Como você pode dizer uma besteira dessas? A Paulinha é uma das meninas mais lindas que eu já conheci! Você como mãe deveria ver suas filhas mais bonitas do que são realmente e não ocontrário! Como você pode dizer que falta “encantos” a ela? O que eu não daria para ter aquele cabelo todo, ou PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON aqueles olhões expressivos, fortes, que ela tem! Para de comparar ela comigo! Eu realmente espero que minha irmã não tenha nenhuma dúvida do quanto ela é realmente muito bonita. Isso sem falar que ela é muito mais inteligente, aplicada, responsável do que eu jamais fui. A Paulinha nunca vai precisar ficar na sombra de ninguém, eu só consigo ver um futuro maravilhoso e brilhante para ela. Se alguém tem luz própria aqui nessa casa, esse alguém é ela. ─ Tudo bem que ela realmente é estudiosa, e isso é mérito meu, que peguei no pé dela logo que vi o quanto ela era propensa a ser passiva e acomodada, por isso peguei mais no pé dela do que no seu. Mas nota alta sozinha não vai adiantar de nada. Se ela não se destacar mais, se fazer notar. Eu detesto fazer o papel da bruxa, mas vocês parecem cegos e não veem que se a Paula continuar desse jeito a única coisa que vai restar para ela é um futuro medíocre. Foi nessa hora que meu pai perdeu a linha, jogou o guardanapo na mesa e se levantou. ─ Para agora com esse festival de barbaridades, Ruth! Eu não te reconheço quando você fala assim da nossa filha mais nova. Não PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON parece a mulher linda, inteligente e amorosa por quem eu me apaixonei. Não parece a mãe maravilhosa que encheu a Nana de autoestima e confiança. Não parece a professora que compreende a cabeça dos alunos e consegue chegar a cada um com carinho e dedicação. Não é possível que essa seja a mesma mulher que não consegue enxergar o tesouro que tem nas próprias mãos. Você não sabe como me deixa triste quando eu te vejo ser tão mesquinha e cruel com uma menina que desde que nasceu só me trouxe alegria e orgulho. Até agora eu tenho me mantido quieto, Ruth, pelo tanto que te amo, por que eu sei o quanto foi difícil para você lutar com a depressão quando ela nasceu, e porque eu tenho certeza que você não faz por mal, mas eu amo nossas filhas do mesmo jeito que te amo, e te amo mais quando me lembro que foi você quem me deu esses dois tesouros que são nossas, e por tudo isso a partir de agora não vou mais tolerar que você trate dessa maneira degradante e maldosa a Paulinha. Nunca mais repita as coisas horríveis que você disse para minha filha novamente, ou você vai conhecer um lado meu que nenhum de nós de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON nós vai gostar! Se levantou da mesa abruptamente, deixando que sua cadeira caísse no chão, saindo pela porta como um trovão e nos deixando atônitas, essa era a segunda vez que eu via meu pai nervoso, e pelo mesmo motivo. Minha mãe ficou branca como cera, olhando na direção em que ele saiu e eu não pude deixar passar em branco. ─ Me desculpa mãe, mas o papai está coberto de razão. Na verdade, eu acho até que ele demorou muito para te dar esse sacode. Sua implicância com a Paulinha é visível. Cuida disso porque seja qual for o motivo que você ache que tenha para tratar ela assim, uma coisa é certa: ela não tem culpa nenhuma disso e não merece pagar pelas suas neuras. Por mais que eu detestasse deixar minha mãe daquele jeito, fragilizada, eu detestava muito mais o que ela fazia a Paulinha. Por isso eu também me afastei e fui em direção ao quarto da minha irmã, onde a encontrei fazendo justamente o que minha mãe tinha praticamente a proibido de fazer. Essa menina era meu orgulho! Uma verdadeira rebelde! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Oi bonequinha, posso entrar? O que você está lendo? Ela levantou o rosto me olhando com aquele olhar carente que me quebrava o coração e me mostrou a capa de um livro do Fernando Sabino. ─ Oi Nana. Claro que pode, a mamãe já acabou o discurso dela? Sentei-me ao seu lado na cama, acariciando seu cabelo sedoso e macio, ao que ela respondeu, se deitando e aconchegando em meu colo ─ Acabou e está pianinho lá embaixo. Também pudera! Depois do esporro que ela levou do papai vai te dar um bom descanso. Te garanto isso ─ Eu não queria nada disso. Por que ela simplesmente não me deixa em paz? Ela deu de ombros e fechou os olhos, deixando cair uma lágrima. ─ Liga não, ela é chata e implicante assim mesmo. ─ Eu não ligo, afinal ela já não liga pra mim mesmo. ─ Não fala assim, é claro que ela liga! É só o jeito dela de demonstrar o quanto ela se preocupa com você. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Preferia então que ela não se preocupasse mais comigo. Me esquecer estava de bom tamanho, eu adoraria que ela nunca se lembrasse da minha presença e simplesmente me deixasse quieta ao invés de me alfinetar o tempo todo. ─ Eu sei que ela pode ser uma grande megera, mas não é só com você. Ela abriu os olhos, me encarando em desafio: ─ Ela é assim com você também, Nana? Não, ela nunca era assim comigo, nem com mais ninguém. Mas eu não precisava dizer isso a ela. ─ Claro que é! Ela só não pega tanto no meu pé por que agora sou adulta, mas na sua idade? Você não lembra, mas a mamãe me deixava doida! Além do mais, você sabe… A depressão dela está sempre indo e vindo, pode ter alguma coisa a ver… Ela queria que eu acreditasse que ela tinha aceitado minhas mentiras e deixado para lá, mas seu rostinho triste sempre denunciava seus sentimentos reais e tudo que eu queria naquela hora era mudar de casa no mesmo dia e levar minha irmãzinha comigo, para longe daquela rejeição tão injusta! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Hein, gatinha você sabe que eu te amo muito não sabe? E que eu morro de orgulho da pessoa linda por dentro e por fora que é você. Ela acenou com a cabeça, mas ainda estava magoada. ─ Você não pode se importar com o que ela fala, quando ela está assim, ela fala muita bobeira. ─ Fala sim, mas tem razão em um monte de coisa também, mas eu não ligo, eu só gostaria que ela aceitasse que eu nunca vou ser como você. Eu dei uma gargalhada alta, jogando minha cabeça para trás e batendo palmas histericamente. ─ Graças a Deus Paulinha! Ninguém aguentaria duas pestes como eu não! Essa é a maior prova da loucura da nossa mãe. Que mãe no mundo ia querer duas filhas indisciplinadas, irresponsáveis e teimosas como eu? Eu rezo todos os dias que não tenha filhos parecidos comigo e sim, que por um milagre eles pareçam com a tia! Mas ela não riu comigo, esse bichinho realmente a estava comendo por dentro. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Você sabe que não é isso, a mamãe não aceita que eu não sou linda como você… E ela. Ou descolada, ou espontânea… Ela não se conforma que eu seja... eu! Eu me levantei a obrigando a sentar-se, peguei um espelho que ela tinha em cima da cômoda, sentei-me novamente ao seu lado e a confrontei com seu reflexo. ─ Olha bem para você Paulinha. Agora me diz sinceramente o que tem de feio aí, não… Melhor, faz o seguinte… Me diz o que tem em você que seja menos que muito lindo. Ela ficou olhando, olhando… ─ Eu não tenho seus olhos azuis, nem seu cabelo loiro. ─ Não foi isso que eu te pedi, Paulinha! Olha para você e me diz se consegue ver alguma coisa em você que não seja bonito. Ela passou a brincar com o espelho fazendo caretas e mostrando língua, depois me entregou- o de volta. ─ Bem… Eu tenho esses olhos imensos, mas na verdade isso não me incomoda, eu até gosto deles, sei lá… Acho que combinam comigo. Fora isso não tem nada de errado PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON comigo, mas é óbvio que para a nossa mãe tem sim. Apertei a bochecha dela, brincadeira que automaticamente a deixava irritada e ri. ─ Deixa de bobeira, toda mãe acha que as filhas são a coisa mais linda do mundo, por que logo a nossa que tem motivos reais para pensar isso, não acharia? É só não ligar para a implicância dela e saber o quanto você é linda, por que é mesmo! E não é que não há nada de errado com você, na verdade tem tudo de perfeito, seus olhos combinam com você por que são como os livros que você tanto ama. Um livro que conta uma história única: e é a sua. Eu posso ver cada sentimento,cada pensamento e decisão que você toma só de olhar para eles, e isso por que você é transparente assim. Seus cabelos são tão lindos e volumosos e aí como eu queria ter cabelos assim! Seu narizinho, sua boca, cada parte de você é linda demais e nunca deixe de acreditar nisso e nem que quem quer que seja, nem mesmo nossa mãe, te convença do contrário. Ela gesticulou que “tanto fazia” e se aconchegou no meu colo de novo, e eu fiquei PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON fazendo cafuné nela e conversando um tempão, era uma pena que minha mãe não se permitisse ter momentos como esse com a Paulinha, com certeza era ela quem mais perdia. Depois desse dia a relação delas melhorou um bocado, minha mãe se esforçando para ser mais carinhosa e a Paulinha, sendo a Paulinha, o que já era muito. Ainda assim a relação delas nunca foi o que se poderia chamar de saudável e próxima e o que em outra garota poderia ser motivo para rebeldia, para minha irmã resultou numa personalidade independente e resolvida, só se tornado melhor à medida que ela crescia, já dando pistas da mulher incrível que ela viria a tornar-se. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 4 Amigo é Coisa Para Se Guardar Do Lado Esquerdo Do Peito Depois desse período era como se minha vida tivesse realmente entrado nos trilhos. Comecei a colher os frutos do meu trabalho e podia me dar ao luxo de relaxar mais e desfrutar a vida, me divertindo como nunca. Foi nessa época em que eu fiz minhas maiores loucuras. A paz decretada entre minha mãe e a Paulinha me dava a tranquilidade que eu precisava para poder me jogar de vez na minha vida e sempre que podia, jogava uma mochila nas costas, ou saía puxando minha mala, invariavelmente com a Lívia a tira colo. Juntas nós fomos para São Thomé das Letras e passamos um mês rodando o Nordeste. Viajamos para a Nova Iorque e Buenos Aires, pulamos de paraquedas, saltamos pontes de bungeejump, fizemos rapel, trilha, arborismo... A Lívia sempre medrosa no começo, mas nada que rapidamente as minhas técnicas de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON convencimento não resolvessem e logo ela estaria se divertindo tanto quanto eu. Ela nunca faria nada disso sem a minha pressão, e eu, em compensação não teria ido a um terço dos shows de rock que fui, muito menos nos recitais de balé, que eram a sua paixão. Nossas baladas eram épicas e as paixões que despertávamos fizeram história. O engraçado era que no fundo, nós éramos duas bobonas românticas, sonhando com nossos príncipes encantados, quer dizer… no meu caso trocaria de bom grado o cavalo branco por uma moto superpotente. Já a Lívia só ficaria feliz com o pacote inteiro e bem tradicional, o próprio cavalheiro andante pronto a salvá-la da torre. Nós mesmas debochávamos das nossas ideias estúpidas, mas depois de um tempo minha amiga meio que cansou do joguinho da conquista. Dizia não ver mais graça em ficar cada dia com um cara diferente que estava na hora de encontrar uma pessoa legal, e aos poucos foi ficando cada vez mais seletiva até que simplesmente só me acompanhava por força do hábito. Como já disse, eu também queria um PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON príncipe encantado, só que para mim ainda não tinha tocado as doze badaladas, e eu ia aproveitar “o baile” enquanto pudesse. Claro que por mais que nossa amizade continuasse forte como sempre, nós estávamos numa encruzilhada em nossas vidas e caminhos estavam sendo escolhidos. O dela, óbvio, era abraçar o conto de fadas com tudo que tinha direito. Quem diria que o príncipe da Lili a estaria esperando na minha casa? E que seria justamente o melhor amigo encrenqueiro do Gabriel, meu amor de adolescência? Calcula o meu susto ao chegar com a Lívia em casa e encontrar aquele homem enorme (aliás, como ele tinha crescido desde o colégio!) Sentado na mesa da cozinha, brincando com minha mãe e combinando com ela aulas particulares de matemática! Pior do que isso foi só olhar para trás e encontrar a Lívia, parada, congelada, olhando para ele como se fosse um pedaço gigantesco de bolo de chocolate (e olha que a Lili era uma chocólatra de respeito). Eu ainda tentei dar meia volta e sair dali, mas a trouxa petrificada no meio PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON do caminho me atrapalhou e minha mãe me chamou de volta. ─ Nana! Vem aqui para conhecer meu ex- aluno, Lucas. Lucas, a Adriana estudou no Colégio na mesma época que você, talvez você se lembre dela. Ele se levantou e estendeu a mão para mim, todo dentes e sorrisos, parecendo muito simpático, mas eu não comprava aquela pose de bonzinho. Ele me encarou um pouco antes de responder à minha mãe. ─ Tenho certeza que nunca a vi na escola, eu reconheceria o rosto da professora na hora, como são parecidas! Muito prazer Adriana, eu sou o Lucas. Aposto que sua mãe falava muito da minha turma. Nós éramos o terror da escola. Eu sorri amarelo para ele que sequer pareceu notar, já que seu olhar tinha atravessado meu ombro e se dirigia a grande pamonha derretida da minha amiga. Eu devo fazer um parêntese aqui para explicar que naquela hora eu nunca iria dar o braço a torcer, já que minha maior preocupação era livrar minha amiga da confusão que eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON achava que o Lucas significava, mas na minha atual condição de visitante ao passado, não posso deixar de reconhecer que estava testemunhando uma das cenas mais raras e lindas de se ver: o nascimento de um grande amor à primeira vista. Ah sim, hoje, através das minhas recordações eu sou capaz até de ouvir os pássaros cantando e ver os coraçõezinhos voando entre eles, mas naquele momento eu e minha cabeça dura só conseguíamos ver no Lucas um grande perigo, do qual eu deveria proteger minha amiga a qualquer custo. Quando eu percebi o motivo daquela cara abobada dele, saí da frente e a Lívia deu um passo em sua direção como se os dois estivessem magnetizados. Minha mãe se adiantou e fez as apresentações. ─ Lucas essa é a melhor amiga da Nana e praticamente minha filha honorária, Lívia. Ela também acaba de se formar em Direito, vocês com certeza têm muito em comum para conversar. Eles riam um para o outro como dois bocós e eu encarei como missão de vida não permitir que logo minha melhor amiga, minha cúmplice, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON minha irmã de alma se apaixonasse por aquele cara, mesmo percebendo que minha missão era fadada ao fracasso. O Lucas parecia que tinha esquecido o motivo pelo qual estava na minha casa e ficou conversando com a Lili como se eles se conhecessem há anos e não como dois completos desconhecidos. Minha mãe “sacou” o clima na hora e gesticulou comigo para que saíssemos da cozinha deixando-os a sós. Ah tá! Mas nunca! ─ Lívia nós não íamos com a Paulinha pegar uma piscina na casa da sua avó? Ela me olhou espantada e apontou com o olho para o Lucas. Eu saí bufando e minha mãe não entendeu nada, chegou até a me puxar de lado para me repreender. ─ Deixa a Lívia, Nana! Eu hein! Nunca te vi atrapalhar paquera da sua amiga. ─ Com aquele cara? Você sabe a fama que ele tinha? Ele era praticamente um marginal na escola! ─ Nana você deve estar confundindo ele com outra pessoa! O Lucas sempre foi um amor de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON garoto. Muito brincalhão, divertido, mas sempre dentro do razoável e respeitoso. O que eu não daria para ter mais alunos como ele e o seu amigo, o Gabriel! Aliás, que menino de ouro aquele também. O Lucas me disse que ele está morando na Europa e fazendo muito sucesso por lá. Eu acho que a Lívia não poderia arrumar um namorado melhor e os dois ainda têm a mesma profissão. Muita coincidência, não acha? Eu fiz uma careta imitando a minha mãe o elogiando e continuei a expor meus argumentos. ─ Estou confundindo uma pinoia! É que você não sabia o que falavam dele nos corredores. Diziam que eles estavam envolvidos até com droga, tá? Se bem que na verdade não eram exatamente “os corredores”, foi só aquela menina louca, mas na dúvida eu não ia deixar minha amiga entrarnuma roubada, certo? Minha mãe fez uma cara de desprezo e zombou de mim. ─ O Lucas e o Gabriel? Ah conta outra! Isso parece ciúme, isso sim. Na formatura deles, você chegou a jurar que nunca tinha ouvido falar no Gabriel, agora ele era chefe de gangue? Tá bom, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Adriana! É medo de perder a amiga, ou você também gostou do bonitão de olhos azuis? ─ Não é nada disso, mãe! Argh, deixa para lá! Você quando começa a defender seus alunos me dá enjoo. Muito contrariada fiz o que minha mãe mandou e deixei os dois em paz. O cara de pau acabou aceitando o convite para almoçar conosco e nem depois de comer como um porco parecia muito inspirado a ir embora. Eu já estava quase colocando uma vassoura virada atrás da porta, quando ele, finalmente, se despediu. A Lili me puxou pela mão e subimos como loucas as escadas. Chegando no meu quarto, ela se jogou na minha cama e declarou. ─ Nana, eu acabo de conhecer o homem da minha vida! Eu sentei na minha poltrona jangada e fiz pouco da declaração dela. ─ Mas já? Você conversou meia hora com o cara e vocês já vão se casar e ter muitos filhos juntos e blá, blá, blá... Uma almofada rolou para o meu lado e eu devolvi na mesma hora. ─ Nossa você está chata hoje hein, Nana! Me PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON deixa sonhar em paz com meu gigantesco príncipe de olhos azuis. E vamos para minha casa para você me ajudar com a roupa que eu vou usar mais tarde quando o Lucas vier me buscar. ─ O quê? Você vai sair com ele hoje mesmo? ─ Sim! Não é maravilhoso? ─ Ah não, não é não! Vai devagar aí! Lívia eu me lembro dele quando era um garoto, e ele aprontava todas, não sei se é o cara ideal para você. Ele era um galinha! ─ Ai Nana que caretice! Cara ideal! Além do mais quem somos nós duas para falar de alguém que aprontou quando era adolescente? O que eu sei é que eu nunca me senti tão à vontade com nenhum homem antes e não vou mentir, estou fascinada por ele. O pouco que nós conversamos já deu para perceber o quanto temos em comum, e não é a só a profissão, é a visão de mundo. Isso sem falar que ele é bem-humorado, qualidade rara de se encontrar em alguém tão novo e bonito. Bonito não, Lindo! Ai amiga acho que eu estou correndo o sério risco de me apaixonar pelo Lucas. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Corria o risco! A Lívia já estava com os quatro pneus e o estepe arriados pelo inimigo! A mim caberia o papel de ficar por perto e de olho no grandalhão, e ele ia se ver comigo se vacilasse com minha amiga! ─ Tudo bem Lili, se você gostou tanto assim dele eu fico quieta, mas você me promete que não vai mergulhar de cabeça? A resposta dela veio acompanhado de um revirar de olhos irônico. ─ Eu vou prometer por que sei que quando você invoca com alguma coisa não há Cristo que tire da sua cabeça, mas não se esqueça de que quem tem bom faro para pessoas aqui sou eu. Não é à toa que quis ser advogada. Você só erra seus julgamentos, quanto cara bom você colocou para correr e por quantos complicados você se apaixonou jurando que eram os melhores do mundo? Então, eu posso te dizer que meu faro superaguçado não captou nada que não fosse gostosura vinda do ex-aluno gato da sua mãe. ─ Você quem sabe Lili, espero mesmo que você esteja certa. Mas por precaução vou ficar de olho nele. E eu era sincera, as duas pessoas que eu mais PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON torcia na minha vida eram a Lívia e a Paulinha e só por isso eu não faria nada para sabotar qualquer chance dela ser feliz. Por isso eu resolvi acompanhar aquele namoro a uma distância saudável, e graças a Deus que eu fiz isso! Aos poucos a má impressão que eu tive sobre o Lucas foi se dissolvendo e a forma apaixonada e dedicada com que ele tratava a minha amiga foi me ganhando. Ele não deixava dúvidas do tanto que estava apaixonado pela Lívia e o amor deles foi construído desde os primeiros dias em cima de muito companheirismo e compreensão. Só um perfeito idiota não conseguiria ver que aqueles dois eram partes de uma coisa só. Essa sinergia era tão grande que o Lucas até deixou de lado a ideia de prestar concurso público e os dois começaram a batalhar para abrir um escritório para eles. No começo era para ser uma coisa pequena, para os dois somente, mas logo o pai da Lívia, Henrique Lancaster, cirurgião cardíaco superprestigiado, e pai meio ausente, fez questão de patrocinar a compra do terreno e a construção PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON de um prédio. Os pais do Lucas ajudaram com o resto da infraestrutura e é claro que eu fiz questão de presenteá-los com o planejamento da obra. Acho que foi o meu projeto mais amado, coloquei todo o carinho que eu tinha pela minha amiga em cada detalhe para que seu sonho se realizasse da melhor forma possível. E enquanto a obra ia tomando forma e corpo, a minha amizade pelo Lucas ia sendo construída, tijolo por tijolo. E essa foi uma construção muito mais demorada do que a de qualquer edificação, porque mesmo depois que eu tinha certeza que o Lucas era realmente apaixonado pela Lívia e que eu estava errada em relação a ele, eu ainda me ressentia da falta que minha amiga me fazia, apesar da generosidade dele em me incluir nos programas deles sempre que possível, mas eu me sentia a irmãzinha chata segurando vela, principalmente por que esse era o comportamento do Lucas comigo: ele agia como um irmão mais velho que tinha por obrigação cuidar de mim e implicava com todos os meus namorados e pretendentes, me fazendo evitar sair PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON com ele o máximo possível. Mesmo sabendo que isso, da forma dele era uma grande prova de carinho, me irritava demais! A Lívia então determinou dias das meninas em que ela seria só a minha boa e velha amiga de sempre. Mas eu sabia que isso tudo eram paliativos, a verdade é que minha amiga estava em uma nova fase de vida, onde cedo ou tarde eu perderia meu espaço, eles se casariam, teriam sua linda família e eu seria apenas a tia Nana que os visitaria de tempos em tempos e era exatamente assim que devia ser. Minha amiga, quase irmã estava amadurecendo e isso soou o gongo dentro de mim: estava chegando a hora de deixar para trás todo comportamento da adolescência que eu insistia em continuar arrastando comigo, trocar as noites de sexo casual, os namoradinhos descartáveis e dar chance para um relacionamento de verdade, com compromisso. Pelo menos na teoria isso parecia funcionar bem, na prática eu teria que acabar com a minha persistente mania de me boicotar, meu padrão de qualidade inatingível e ainda driblar o meu recém “empossado” irmão mais velho, mas já PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON percebia que era questão de tempo para que surgisse a pessoa certa. Era como se algo dentro de mim gritasse que tinha chegado a hora. E quando meu chefe me chamou todo eufórico na sala dele, me dando as melhores notícias que eu poderia receber, eu senti que era o ponto inicial da grande virada na minha vida. ─ Adriana, um grande amigo espanhol meu vai ministrar um curso de especialização em Arte e História da Arquitetura Catalã, é uma oportunidade única e esse curso tem tudo a ver com você, sua proposta de trabalho, sua assinatura pessoal, então eu acho imprescindível que você o faça. Você sabe que seu nome já é uma marca e como tal a gente tem sempre que investir nela e esse é tipo de coisa que agrega um valor incalculável. Sem modéstia eu sabia sim que o nome Adriana Neumann, que era como eu assinava profissionalmente, a cada dia se destacava mais no meu meio profissional e, principalmente, com os clientes e participar desse curso seria um divisor de águas para mim. Agradeci emocionada a oportunidade que eu estava recebendo e a confiança que o escritório PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON depositava em mim. Acertamos todas as providências a serem tomadas, as burocracias e tal e eu fui para casa radiante com a notícia. Meu pai e minha mãe estavam na sala vendo TV quando eu cheguei, eu gritei pela Paulinha e ela veio correndo,assustada com o meu escândalo. ─ Nossa! O que está acontecendo aqui? Incêndio? ─ Não, Paulinha, ótimas notícias e eu queria dar para todos ao mesmo tempo. Ela se sentou no braço do sofá em que nossos pais estavam sentados e os três sincronizadamente projetaram seus corpos para frente, me dando total atenção. ─ Hoje meu chefe me chamou na sala dele para me convidar para fazer um curso na Espanha, com tudo pago pela Firma, com um dos maiores arquitetos catalão, justamente sobre Arte, História e Arquitetura da região dele! Eu pulava e gritava como uma louca e logo os três pularam em mim e me juntaram em um delicioso abraço de família. Quando nos separamos a Paulinha com sua sinceridade juvenil foi primeira a confessar. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Nana eu não faço ideia por que a gente está comemorando, mas você está tão feliz que eu fiquei também. Meu pai e minha mãe riram dela como se o que ela disse fosse uma enorme besteira, mas logo gesticularam para eu continuasse minha explicação. É claro que eles também não faziam ideia do porquê da minha felicidade, e como disse minha bonequinha estavam felizes somente pela minha felicidade. Família linda essa minha, eu iria sentir muita saudade deles enquanto estivesse fora! ─ Eu estou comemorando porque vou ficar três meses estudando tudo sobre os temas que eu mais amo na minha profissão, os meus ídolos, suas técnicas e conhecer in loco suas inspirações. Outra vez a Paulinha se fez porta-voz do trio. ─ Ah Nana você vai ficar todo esse tempo longe de nós? ─ Paulinha, não é todo esse tempo, são somente três meses, e infelizmente é o preço de poder realizar um grande sonho. Ela voltou a me abraçar. ─ Como eu disse se você está feliz, eu também estou, mas eu vou sentir tanta falta de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON você quando não estiver. Nada tem a mesma graça quando você não está por perto. Eu também sentiria, mas era eu precisava ir nessa viagem, algo me dizia que eu aprenderia muito mais do que matérias acadêmicas durante a minha estadia na Europa... PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 5 A Beleza é Mesmo Tão Fugaz E pronto! Aqui estava eu... linda, leve e loira do alto dos meus 27 anos rumo a realizar um dos meus maiores sonhos! Conhecer a Espanha e fazer um curso extremamente útil para o meu currículo na terra dos meus ídolos Gaudí e Salvador Dalí. Era tudo mágico demais! As ruas, as pessoas, toda a agitação de grande metrópole com todas as cores e a arquitetura única das ruas traçadas por Cerdá, os edifícios modernos convivendo em harmonia com as cores e formas de Gaudí, de Luís de Domènech i Mantaner e tantos outros ícones da minha profissão. O professor do curso, o tal amigo do meu chefe, Miguel, era um renomado historiador e arquiteto que dissecaria a história da arquitetura e da arte catalã e a sua influência sobre a arquitetura moderna. Era um sonho, a união dos meus três temas preferidos em todo o mundo, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON arquitetura, arte e história em um só tópico! Acho que nunca na minha vida eu tinha me entusiasmado tanto com algo como eu estava com os próximos três meses. Um sentimento tão forte de que eles seriam decisivos na minha vida me deixava fora do chão de felicidade, eu estava pronta para tirar desse tempo todas as experiências que ele me trouxesse. Por isso fiz questão de chegar uma semana antes de o curso começar e aos poucos ir explorando aquela cidade que tanto me encantava. Hospedei-me em uma pensione do Barri Gòtic, que era um charme, com toda aquela aura de antiguidade misturada com vida boêmia. Tinha certeza que dali eu poderia explorar o lado divertido de Barcelona e apesar de um pouco longe do meu curso, era de fácil acesso. Isso sem falar que meu quarto era muito confortável e acolhedor, com roupa de cama de qualidade, colcha artesanal, paredes pintadas em um tom de azul que combinava com meus olhos e com o mar da Espanha, que eu poderia ver ao fundo da paisagem que entrava em meu quarto através das lindíssimas portas francesas que saiam para a PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sacada. Os donos da hospedaria, Fernando e Pilar, um casal de seus 50 e poucos anos, divertidíssimos e extremamente paternais eram a cereja no alto do bolo, fazendo com que ficar hospedada lá fosse como estar em casa, só que com muitos benefícios. Passei muitas horas dos meus primeiros dias com eles, treinando meu espanhol e me informando sobre o dia a dia da cidade que seria a minha nos próximos meses. Cheguei inclusive a acompanhar a Pilar a algumas compras, e aprender a andar nas ruas próximas, em pouco tempo eles praticamente me adotaram como filha postiça e, no entanto, isso, ao invés de fazer minha saudade mais fácil de ser controlada, tinha efeito reverso, fazendo com que, ao ver o tratamento tão delicado que um tinha com o outro e a forma doce com que tratavam a mim e aos hospedes, eu sentisse mais falta dos meus pais. Mesmo assim fui firme a só liguei no dia em que cheguei a Barcelona, mantendo a promessa que eu tinha feito para mim mesma de que não ligaria a todo o momento, pois sabia muito bem que isso só aumentaria o meu sofrimento e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON quando eu menos desse conta já estaria entrando em um avião de volta para casa, sem nem sequer começar meu curso. Depois dele iniciado eu tinha certeza que nada mais me faria desistir, mas até lá eu seria forte. No primeiro dia de curso estava tão empolgada quanto uma criança que vai para a escola a primeira vez e como tal caprichei na produção. Coloquei uma calça jeans bem justa no corpo, uma blusa verde oliva de manga comprida, por causa do friozinho que já fazia lá fora, mas com um decote que nem o cachecol leve que me envolvia o pescoço conseguia tampar e uma bota de salto fino, para finalizar uma maquiagem bem caprichada e voilá... Estava preparada para arrasar pelas ruas da Espanha, quem sabe até não arrumava algum espanhol caliente. Por que ô lugar que tinha homem bonito e gostoso! E estava nos meus objetivos de viagem arrumar um deles para mim. Antes de ir para o curso eu achei que já estava forte o bastante e dei uma ligada para casa, falei com a minha bonequinha, Paulinha. Já PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON estava morrendo de saudades da minha baixinha. Desde que ela nasceu eu nunca fiquei tanto tempo longe dela. Mesmo dando minhas escapadas, eu voltava rápido para me certificar que estava tudo bem com ela, não que fosse necessário já que ela era a criatura mais responsável e autossuficiente que vivia abaixo do sol, mas levando em conta o histórico dela e da mamãe nunca se sabia ao certo como elas iriam se comportar (ou melhor, como minha mãe se comportaria com ela), então eu não arriscava e esse era um dos motivos pelo qual eu sabia que tinha que evitar ligar muito. Não me entendam mal, minha mãe gostava da Paulinha, claro que gostava! Toda mãe gosta dos filhos, não é mesmo? Mas, mesmo tendo melhorado muito, não era exatamente a mãe mais paciente do mundo com ela, e sem eu por perto minha mãe tendia a ficar um pouco mais ácida do que o normal. Quando ela ouviu minha voz ao telefone deu um grito histérico, alguma coisa de adolescente ela tinha que ter! ─ Nana! Que saudade! Eu não quero mais ficar nessa casa sem você! Está tudo sem graça, o PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON papai só trabalha e a mamãe reclama de tudo! Volta logo! ─ Ei calma bonequinha, eu acabei de chegar. ─ Ah não! Parece que tem um século que você está aí! Ela bufou e eu tive que rir. ─ Deixa de exagero, já, já vou estar de volta com um monte de presentes. Fala o que você quer... qualquer coisa, que eu levo para você. ─ Eu não quero presente nenhum, eu só quero você. Volta logo Nana! ─ Ai que bonitinha! Humm... fica assim não, três meses voam e depois a gente mata a saudade, tá bom? Fora isso está tudo bem aí? ─ Além do fato de daqui a três meses você vai ter que visitar o meu túmulo, porque eu vou ter morrido de tédio? Sim, está tudo bem.A mamãe usando todo o pouco tempo dela em que ela não está trabalhando para pegar no meu pé, o papai usando todo o tempo em que não está trabalhando para tirar ela do meu pé... enfim, o de sempre. ─ Você é uma graça mesmo bonequinha! Já te disse, fica o menos na reta e não liga, é só o jeito dela. Outra coisa: se fosse para você morrer PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON de tédio por estudar você teria morrido há muitos anos, isso é tudo o que você faz! Fica boazinha que eu te levo vários livros, então. Agora eu vou para minha primeira aula, e estou superansiosa! Depois a gente se fala, te amo muito tá? ─ Eu também te amo, mas se é assim, eu vou te mandar uma lista de livros que você poderia trazer para mim. Boa aula Nana. ─ Pode deixar, obrigada querida, fique com Deus! ─ Você também. E Nana... Volta logo! Só de falar com ela já me recarregou com a energia que eu precisava para encarar minha tão esperada aula. A Universidade onde seria ministrado o curso era enorme e dei um jeito de descobrir logo onde era a sala, para ser uma das primeiras a chegar e ficar na primeira fila. Em um auditório lotado como esse ficar atrás seria garantia de pouco aproveitamento do que fosse dito e eu não me daria a esse luxo, eu sorveria cada palavra que o professor derramasse. Quando a aula enfim teve início eu fiz questão de participar ativamente. Eu era insuportavelmente nerd, e o professor me pediu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que o auxiliasse, descrevendo determinadas lâminas sobre o processo criativo usado por Gaudí na elaboração de suas obras. Bem, eu acho que ele tinha feito isso como uma forma de me calar, tipo... eu falaria algo errado, morreria de vergonha e pararia de interromper a aula dele. Se a intenção era essa, ele "bateu o rabo na cerca" como dizia meu pai. Eu descrevi a forma como ele usava barbantes para elevar as peças soltas das maquetes e assim, com a ajuda de espelhos tinha uma melhor perspectiva do projeto. No fim o professor, Miguel, deu uma risada e me parabenizou perguntando o meu nome e qual o meu país de origem. [1]─ Muy bien, tu explicación me encantó mucho. Cual es tu nombre, cariño?Y qué país vienes? ─ Gracias profesor, mi nombre es Adriana Neumann y yo vengo de Brasil. Na hora eu nem pensei, simplesmente dei o nome que eu tinha adotado profissionalmente, Adriana Neumann, e o professor teceu vários elogios a mim chegando a me chamar de brilhante. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Eu aceitei o elogio, não era nem um pouco modesta quanto à minha profissão, eu sabia que o que ele chamava de brilhantismo, nada mais era do que muito estudo e dedicação e isso eu tinha sim, sabia o valor que isso agregava a minha marca como profissional. No fim da aula eu estava arrumando as minhas coisas para ir embora, quando ouvi uma voz masculina me chamando a atenção. ─ Nossa que bom ter outro brasileiro com quem conversar! Eu levantei a cabeça, já sorrindo, sim era realmente muito bom ouvir nosso idioma natal um pouco para matar a saudade! Quando meus olhos encontraram os dele, eu fiquei totalmente muda com o choque. Era inacreditável que depois de todos esses anos, tão longe de casa eu iria encontrar logo ele, que tinha sido a grande paixão da minha adolescência. Mas não havia como negar! É claro que estava muito mais... muito mais tudo! Muito maior, com um corpo grande e visivelmente definido, que nem de longe lembrava o corpo franzino da adolescência, muito mais bonito com seus traços infantis de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON menino que a gente queria colocar no colo tendo sido substituídos por uma feição muito mais bela, marcante, máscula e intensa daquelas que nos fazem querer pular no colo de um homem... sua barba por fazer e seu olhar que estava muito mais aguçado do que o do moleque que eu conheci. Enfim... muito, muito mais homem! No entanto, eu reconheceria o Gabriel Ferraz onde ele estivesse, passasse o tempo que fosse. Rapidamente eu me forcei a lembrar das coisas horríveis que eu sabia sobre ele e fechei a cara antes de responder, definitivamente eu não estava ali para ser a próxima presa do garanhão riquinho e filhinho de papai. ─ Me desculpe, mas essa brasileira aqui está muito focada em aprender e infelizmente não está a fim de socializar. Com licença, por favor. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 6 Pra Ser Sincero Não Espero de Você Mais do que Educação A forma com que o Gabriel estava parado na frente da minha cadeira não me permitia sair, mas apesar do meu pedido ele não se mexeu do lugar. Típico encrenqueiro! Meu Deus, nós éramos adultos e não estávamos no pátio do colégio, na hora do recreio. ─ Ei calminha aí! Tudo bem, eu já entendi que você faz o gênero CDF, mas custa ao menos ser educada? Meu nome é Gabriel Ferraz, e eu só quis me oferecer para te ajudar em qualquer coisa que você precise enquanto estiver em Barcelona, eu já moro aqui há um tempo, mas tudo bem, eu já entendi o recado. Tirou o corpo da minha frente e fez um sinal para que eu passasse. Eu me senti péssima, afinal de contas ele só estava sendo educado, não fazia ideia dos motivos que eu tinha para querer PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON distância dele e na verdade nem sabia da minha existência! Minha paixonite sempre foi platônica, principalmente depois do aviso que a... Como era mesmo o nome dela? Bem, a menina estranha que estudava comigo me deu. Isso sem falar que nós éramos adultos, profissionais e teríamos que conviver por três meses ainda. Que malfaria ser civilizada com ele? Levantei-me, ficando cara a cara com ele que ainda permanecia parado no degrau inferior. Seus olhos castanhos, estreitos como os de uma águia, me deixavam tonta e confusa, minando a minha hostilidade de segundos atrás e fazendo com que me desse conta da imensa grosseria que eu acabara de cometer. Meu rosto queimava de vergonha e eu esperava que isso fizesse com que o Gabriel não me odiasse. ─ Gabriel me perdoe, eu não precisava ter sido tão estúpida! Olha, eu realmente estou muito focada no meu curso, apesar de não gostar de ser vista como uma CDF, mas eu não soube me expressar. Vamos começar de novo, por favor? Fiz minha melhor cara de gato de botas e ele me estendeu a mão enquanto sorria vitorioso. ─ Muito prazer, Gabriel Ferraz. Eu já moro PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON aqui há algum tempo, fiquei muito feliz em saber que havia uma brasileira no curso aí eu pensei em vir me apresentar e ver se você precisa de qualquer coisa enquanto estiver por aqui. Eu vou adorar te ajudar, se você não me agredir a cada vez que nos encontrarmos então, será perfeito. Eu encolhi meus ombros, me desculpando novamente, é claro que ele não me perdoaria fácil por isso, também eu realmente fui uma estúpida e sem razão para isso... quer dizer... sem razão racional para isso. ─ Bem, eu sou Adriana Ca... ─ ele já tinha ouvido meu nome de mentirinha, por que não continuar assim? Muito mais seguro, pelo menos enquanto eu não o conhecesse bem e pudesse tirar minhas próprias conclusões sobre sua verdadeira índole, além do que, se a amizade dele com o Lucas fosse igual ao passado, só seria mais “aporrinhação” para minha cabeça. Enfim, melhor manter dessa forma. ─ ...Neumann. Cheguei à cidade há uma semana, mas já procurei conhecer um pouquinho. Te agradeço muito, mas depois do show de grosseria que eu acabei de dar eu nunca teria coragem de te incomodar de novo. Novamente me perdoe, eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON juro que normalmente não sou assim. ─ Que isso! Estamos começando de novo, não estamos? É só passar uma borracha e não precisa se acanhar, eu juro que não sou um babaca que vai usar esse pequeno incidente contra você, ok? Ele parecia sincero quando disse isso, mas ainda assim eu permaneceria com o pé atrás. Nós crescemos e amadurecemos, eu pelo menos, mas quem me garantia que ele não era mesmo um babaca, como antes? O pior é que tanto quanto antes você diria tudo ao olhar para ele, menos que não era um bom moço. Alémdo mais tinha o Lucas. Eu também tinha uma péssima impressão do Lucas e, no entanto, não poderia estar mais errada com relação a ele, então, do mesmo jeito eu poderia estar errada em relação ao Gabriel, não poderia? Ai que confusão! Adriana, foca! Você está aqui para se aperfeiçoar na sua profissão e não para arrumar encrenca, certo? Mesmo que seja uma encrenca alta, morena, com um sorriso de enlouquecer, e que tenha sido o primeiro garoto a protagonizar os seus sonhos molhados. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Saí da aula como uma tonta e nem quis ficar muito tempo no meu quarto, passei o resto da tarde fora, fui ao cinema, passeei um pouco e quando a noite chegou ajudei Pilar com os serviços enquanto conversávamos sobre qualquer coisa que me distraísse do que ocorrera mais cedo. Antes de dormir eu tentei me convencer de que não havia sido nada de mais, e que nós dois simplesmente seríamos colegas de curso. Depois da forma como eu tinha me comportado, duvido que ele voltasse mesmo a falar comigo, por isso não tinha motivo para tanta angústia. No entanto no dia seguinte qual não foi a minha surpresa ao chegar à sala de aula e encontrar o Gabriel sentado na mesa do lado da que eu tinha ocupado no dia anterior? Eu não queria repetir o meu fiasco, por isso reduzi ao máximo nossa interação naquela manhã, um “oi” e um meio sorriso ao passar de cabeça baixa e tomar meu lugar. Gabriel, por sua vez, não parava de falar, chamando minha atenção o tempo todo, com brincadeiras e observações espirituosas. Deus, seria impossível me concentrar nas aulas ao lado desse crianção! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Mas ficar com raiva dele era tão impossível quanto conseguir não rir do cinismo com que ele disfarçava como um adolescente bobo quando o professor nos olhava sério por causa do ruído que o incomodava. E como quem não queria nada, Gabriel Ferraz fez nas nossas poucas horas de aula com que toda minha resistência a ele caísse por terra. Mesmo assim foi uma surpresa o convite que ele me fez ao nos despedirmos. ─ Você já foi ao ParcGüel? ─ Ainda não... eu já estive na Sagrada Família, até tentei assistir à missa, mas não consegui, claro. Fiquei como uma panaca olhando cada detalhe e me perdi totalmente neles. ─ Vamos lá então! Eu estou meio sem ter o que fazer hoje à tarde e já tem um tempo que eu não vou lá. ─ Se você já foi qual a graça de ir novamente? Não precisa ser meu guia Gabriel. Não quero te dar trabalho e também acho que até prefiro ir sozinha assim eu não me distraio e posso observar melhor. Ele arqueou a sobrancelha e me deu um PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sorriso arrogante. ─ Adriana, eu poderia ir mil vezes e ainda assim não me cansaria do Parc, e seria um prazer poder ir lá novamente com alguém que teria o mesmo interesse que eu. Mas se você acha que eu seria uma distração tão grande... Ele nem imaginava o quanto já havia me distraído, quantas vezes eu passei aulas inteiras olhando pela janela vendo-o jogando bola no pátio, perdendo totalmente a noção do tempo. ─ Convencido! Não é que você me distraia, é que eu quero fazer esse passeio, sozinha. Mas obrigada pelo convite, assim mesmo. Mesmo concordando sua expressão era algo entre frustrado e decepcionado quando nos despedimos. No dia seguinte havia um embrulho na minha mesa, e quando olhei em volta para saber de onde aquilo tinha surgido e dei de cara com um Gabriel tímido que eu não sabia que existia. ─ Acabei passando pelo ParcGüell mesmo você não querendo me acompanhar e comprei uma bobeirinha pra você na loja do Museu. Ele gesticulou para que eu pegasse o lindo pacote que estava na minha frente, envolto com PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON uma folha de papel seda azul claro e com um laço da mesma cor, porém em uma tonalidade mais forte. Dentro havia em estojo coberto de veludo azul que por si só já denunciava o requinte da peça que ele embalava, e não deu outra... A tal bobeirinha era um colar de prata de lei com um medalhão lindíssimo, de um estilo totalmente Gaudí, com um mosaico em mil tons de azul, mas que no fim, juntos, formavam um tom único e bem familiar... ─ É da cor exata dos seus olhos. Era verdade. Não um azul tão claro quanto, ou somente um azul qualquer. O medalhão nas minhas mãos era quase uma representação artística do meu olho e eu não podia acreditar em tamanha sensibilidade. ─ Quando eu vi esse medalhão na vitrine me lembrei imediatamente de você e não pude resistir a te presentear com ele. O fato de ele ter reparado em mim a esse ponto me assustou um pouco e eu tentei devolver o presente, era demais para quem ele não conhecia a sequer uma semana e era somente uma conhecida. ─ Gabriel, isso é uma joia e não uma PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON qualquer, esse colar é maravilhoso! Eu estou totalmente sem palavras para descrevê-lo. Você vai me desculpar, mas não há forma de eu aceitá- la. É demais, Gabriel! Além de ter certeza que é uma pequena fortuna, não tem o mínimo cabimento eu aceitar um presente desses, tão... tão... cheio de significado de uma pessoa que eu conheço há menos de três dias e com quem eu não tenho qualquer vínculo além de sermos colegas de profissão e curso! Perdoe-me Gabriel, mas eu não posso. Estiquei o embrulho desfeito na direção dele, seu rosto estampava a sua surpresa, como se alguém se negar a receber um presente dele fosse a coisa mais impensável do mundo. E como se fosse necessário provar isso ele não aceitou o presente de volta, o empurrando de volta para mim. ─ Adriana, independentemente do valor, eu vi esse colar e achei que seria imperdoável que ele não fosse seu, só isso. Por favor, aceite. Sua sinceridade era evidente e, depois da cena patética que eu protagonizara no dia em que nos conhecemos, tudo o que eu não queria era o aborrecer novamente por coisa boba. Mas aquela PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON joia era tudo, menos uma bobeira. Além do mais, até que ponto isso não fazia parte de um jogo de sedução dele? Para um menino rico como ele, o que seria uma joia dessas? Quanto a mim, acreditar nele poderia muito bem custar meu coração, e esse era um preço muito caro para eu arriscar. ─ Gabriel... olha, eu realmente ficaria muito sem graça. E eu não quero que você tenha ideias... eu já te disse qual é o meu foco e eu não quero dar a entender outra coisa que não isso. Ele passou as mãos pelo cabelo demonstrando a sua irritação com o rumo daquela conversa. ─ Ok Adriana, eu não vou negar que você chamou e muito a minha atenção. Você é linda e com certeza sabe disso. Mas eu já entendi, você deixou bem claro qual é o seu foco, aliás, claro demais! É só um presente, presente de amigo ou de quem gostaria de ser seu amigo, para de encanar com isso. Eu vou ficar realmente muito chateado se você não aceitá-lo. Eu não pude mais recusar, nem podia fingir que não tinha ficado encantada, tanto com o objeto quanto com o gesto do Gabriel, e tudo isso PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON me deixava ainda mais confusa. Mas eu não engoli nem por um segundo essa balela de “querer ser só meu amigo”. Amigo, sei! Amigos eu tinha aos montes e nenhum deles fez minha pele cantar ao entrar em contato com a deles, como no momento em que os dedos do Gabriel tocaram a pele sensível do meu pescoço, quando eu pedi que ele colocasse ali o colar. Também nenhum amigo tinha dado um suspiro cortado na minha nuca daquela forma. E eu tinha certeza que nenhum amigo parecia tão excitado quanto ele quando me virei. Mesmo assim embarquei na nossa “amizade”, nossos interesses e a sua simpatia tornaram natural nosso entrosamento cada vez maior. Gabriel tinha o dom de encantar quem estivesse à sua volta, e eu me vi novamente presa ao seu magnetismo. A única coisa que traria algum alívio para mim seria desabafar com a Lívia, mas nem isso eu podia, já que estava decidida a não envolvê-la nisso, não pelo menos até que fosse algo, se um dia isso chegasse a ser "algo”. Eu sabia que o Lucas e o Gabriel ainda eram grandes amigos e PERIGOSASNACIONAIS PERIGOSAS ACHERON não queria que meu “irmão mais velho” auto empossado metesse o nariz na minha vida, mais uma vez. Quer dizer... eu não poderia falar o nome do Gabriel, nem nada que o identificasse, mas eu acho que não haveria mal em contar o milagre, contanto que o nome do santo fosse resguardado, não é mesmo? No fim de mais de uma hora de inquietação e nervoso acabei pegando meu celular e chamei minha amiga. A desculpa que meu cérebro me dava era a de que eu realmente precisava dar notícias para ela. ─ Oi Lili, que saudade! ─ Ah Nana! Sua desnaturada, já são quase duas semanas que você não fala comigo! Eu estou com saudades, poxa! A gente nunca ficou tanto tempo sem se falar... Isso era verdade, e eu me senti péssima, a pior amiga de todos os tempos. Estava tão preocupada com os meus próprios problemas que tinha me esquecido de ligar para ela todos os dias, mas não podia dar meu braço a torcer sobre isso, nem confessar que apesar da saudade que eu estava sentindo naquele momento, eu não tive muito tempo para me lamentar por não estar em PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON casa, perto da minha família e dela, pelo menos não nessa semana... ─ Me desculpa Lili, É tanta coisa que eu tenho que pesquisar para o curso que quando chega o fim do dia eu estou morta! ─ Mentira, você já está aí há duas semanas e só essa semana começaram suas aulas, você não se importa comigo mesmo, grande amiga! Só com muito amor para suportar as cobranças da Lívia! Agora só sobraria duas táticas para mim: implorar seu perdão ou contra- atacar, a confundindo e fazendo com que ela esquecesse do meu furo. Ou talvez, um pouco dos dois... ─ Tá bom, Lili, você tem razão: eu sou uma péssima melhor amiga e você tem todo o direito de ficar tão brava comigo que nem queira saber o porquê eu estar te ligando a essa hora. Com certeza eu não mereço ter uma confidente tão boa quanto você, pode deixar, boa noite tá? Manda um beijo para a sua mãe, tchau. Suspirei fundo e esperei um segundo antes de ouvir o grito dela do outro lado da linha. ─ Nem pense nisso, Adriana Cavalcanti, eu juro que sou capaz de romper relações com você PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON de verdade! Pode desembuchar o que aconteceu? Pelo tom da sua voz já até posso adivinhar: tem homem na parada! Sim, minha amiga me conhecia como ninguém e eu ri alto da sua reação. ─ Agora você vai ficar quietinha e me deixar falar, sem drama? ─ Fico, mas você tem que falar tudo. ─ Então... tem esse cara que é brasileiro e estuda comigo e é tão gato Lili! Alto, moreno, lindo, musculoso, inteligente. Já disse que ele é lindo? Então... desde o primeiro dia que ele chegou em mim, com aquele papo de “Que legal! Mais alguém do Brasil!”, e fica tentando chamar a minha atenção, ontem ele me chamou para ir com ele ao ParcGüel e eu disse que não podia. Você acredita que hoje quando eu cheguei no curso tinha um pacote na minha mesa e era uma joia maravilhosa, um magnífico colar de mosaico em tons de azul que formam a cor exata dos meus olhos. ─ Espera aí, Nana. Como assim? Do nada? É bijuteria de hippie, não é? ─ Que bijuteria de hippie o que Lili! Uma joia em prata de lei e cerâmica fina produzido na PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mais perfeita técnica trencadís, a mesma usada nas obras de Gaudí, com certeza uma peça assinada por um design de renome, um luxo! ─ O cara te deu uma joia assinada, sem que vocês sequer tivessem se beijado? Puta merda, esse aposta alto hein?! Depois do primeiro beijo ele vai te dar um brinco de pérolas de Majorca e quando vocês forem para a cama, um diamante Tiffany de 50 pontos. ─ Ai Lili, você sabe muito bem que eu não me importo com nada disso, muito pelo contrário, isso tudo está pesando justamente contra ele. ─ Por quê? ─ Ah Lili, você sabe muito bem que eu nunca curti filhinho de papai e até onde eu sei é exatamente o que ele é. ─ Por que ele te deu um presente? Ah Nana! Vê se cresce! O cara com certeza está na sua, quis te agradar, que mal tem ele te dar um agrado? A não ser que ele seja um babaca e que tenha usado isso para te manipular não vejo nenhum mal. Eu suspirei fundo, sem saber como explicar meu ponto de vista sem entrar em todos os PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON detalhes. ─ Não é isso, na verdade ele deixou bem claro que era só um presente de amigo, mas sei lá... ─ Nana, agora sério, eu não sei o que está dando em você, mas você nunca foi assim. Você gostou dele e ele de você? Não cria problema, vive essa aventura. Vocês estão os dois longe de casa, se nem aqui você se prende, por que faria isso aí? Se der certo, beleza. Senão vocês se divertiram e passaram um bom tempo juntos. ─ Tudo o que você disse é verdade, mas o problema é que pela primeira vez na minha vida eu estou com medo. Ah amiga, se tem alguém com um enorme potencial para fazer com que eu queira mais do uma aventura é o... É esse cara! ─ Nana, eu não estou te conhecendo, o que esse cara tem de tão especial afinal de contas? Como eu poderia explicar a ela que eu já o conhecia e que já tinha me apaixonado por ele antes? ─ Não sei, não sei mesmo Lili. Só sei que quando ele está no mesmo lugar que eu, me dá um nervoso que eu nunca senti antes, quando ele fala comigo, ele olha dentro dos meus olhos e é PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON como se ele me hipnotizasse porque mesmo que eu quisesse não poderia olhar para nenhum outro lugar. Agora, soma a isso tudo o fato dele ser lindo, - por que eu já te disse que ele é lindo, não disse? - me fazer rir como nunca ninguém fez, gostar das mesmas coisas que eu e por mais que eu ache que ele é uma péssima ideia, a cada minuto eu me pego cada vez mais imaginado que essa péssima ideia deve ser uma ótima coisa. Eu a escutei puxando o ar do outro lado da linha, ela estava assustada, e para falar a verdade, eu também estava. Só quando coloquei pra fora tudo o que estava me roendo por dentro é que eu pude ver o tamanho da minha encrenca. Eu estava muito fodida da minha vida! ─ Olha minha amiga linda, vou te dar a notícia de uma vez que é para não doer tanto: você já está irrevogavelmente apaixonada por esse cara, então, mostra que você é a Nana cheia de confiança que eu conheço e vai atrás do que o seu coração quer. Só me faz um favor? Não deixa o coração totalmente exposto tá? Você está muito longe e eu não posso conferir se esse cara é tudo isso que você está falando e você sabe que eu não confio muito no seu discernimento. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Mesmo assim, não se esqueça que eu estou aqui por você e cruzo o Atlântico rapidinho para dar uns socos nesse sujeito se for o caso. ─ Lili, a brava da dupla não eu? ─ Sim, é verdade, mas você nunca esteve assim... boba, por um cara antes. Acho que os papéis se inverteram... ─ Então esse é o seu diagnóstico, Doutora? ─ Sim, Sra. Cavalcanti, você sofre do mal de amor, e o remédio que eu prescrevo é que você se jogue de uma vez nos braços do tal gostoso, e depois me conte tudo! Nós duas gargalhamos como as palhaças que éramos e nos despedimos. Como sempre conversar com a Lívia tinha me ajudado muito, mas eu ainda estava confusa e na dúvida, mas eu tinha decidido que ia deixar o barco correr e ver onde ele me levaria. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 7 Si Tú Me Miras Te Enseñaré a Decir te Quiero, Sin Hablar Pela manhã, fui em direção ao Campus com as mesmas indecisões da noite e vamos combinar que o Gabriel não me ajudava em nada! Se tornou quase um stalker, me perseguindo e aonde quer que eu fosse ele não me deixava em paz, mesmo que de um jeito fofo. Prestava atenção mais em mim do que nas aulas e no fim da semana acabou me convencendo, já que eu não tinha ido ao ParcGüell com ele, que pelo menos fosse à Casa Batlló, o icônico edifício modernista também construído por Antoni Gaudi para ser a residência do rico industrial Josep Batlló Casanovas, e ainda teve a desfaçatez de dizer que seria somente uma pesquisa de campo, não um encontro. Muito cara de pau, isso sim!Mas era um cara de pau tão adorável, eu tinha que reconhecer... PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Acabei concordando em encontrá-lo no sábado pela manhã, no Passeig de Gràcia, passeio público na área central de Barcelona onde se localizava o prédio que visitaríamos, apesar de sua insistência boba em me buscar. Ele não ficou feliz com isso, mas teve que engolir. Paciência, eu sempre fui uma mulher independente e não seria agora que mudaria isso. Passei a bendita noite de sexta em cólicas! Uma ansiedade louca que eu não sabia de onde vinha... Talvez fosse a distância que havia entre esse o Gabriel do presente e do das minhas memórias. Esse Gabriel simplesmente não combinava em nada com a descrição de playboy drogado e irresponsável que aquela menina tinha feito dele na época de escola, bem... Também ela tinha sido a única a falar algo menos que incrível sobre o Gabriel. Minha mãe foi sua fã número um e o Lucas, apesar da distância e do tempo, ainda o considerava seu melhor amigo. Em outras palavras todos os conhecidos que tínhamos em comum e eram da minha inteira confiança, o adoravam e a única opinião diferente vinha de uma menina mimada, sem noção e que, até onde PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON eu sabia, podia ter algum motivo naquela cabeça aluada para me querer longe do Gabriel. E mais do que qualquer coisa, a pessoa com quem eu estava convivendo era a definição de “gente fina”: humilde, simpático ao extremo, divertido, inteligente, responsável. Nada que lembrasse remotamente a imagem de “rebelde sem causa” que eu tinha dele, muito pelo contrário, cada vez que eu descobria mais uma peça do que era o belo quebra-cabeça Gabriel Ferraz, mais eu me encantava com o que era revelado. Por isso, acordei naquele sábado decidida a me manter aberta aos meus instintos e ver onde eles me levariam. Como sabiamente tinha apontado minha amiga, o pior que poderia acontecer seria eu ter desfrutado de momentos inesquecíveis ao lado de um homem gostoso, educado e inteligente. Eu poderia pensar em milhares de coisas piores do que isso... E em poucas melhores. Eu já podia me ver nos braços do Gabriel enquanto me arrumava com um simples vestido de verão com flores azuis do exato tom do colar que o Gabriel me deu e sandálias douradas. O PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON azul do medalhão e da minha roupa faziam com que a cor dos meus olhos estourasse de tanto brilho, por isso passei uma maquiagem bem levinha e básica: rímel, um delineador, gloss clarinho e um pouquinho de blush... Um look casual e angelical para disfarçar minhas intenções nem um pouco inocentes. Desci as escadas e dei de cara com a Pilar, que elevou ainda mais minha autoestima, quando saiu detrás da bancada da recepção e me avaliou, depois de me fazer dar um giro em meu eixo, para ela pudesse ver melhor. ─ Chica, lohermosa que eres! Dejaráconun tipo consuerte? ─ Voy a salirconuncompañero de classe. ─ Es muy hermosa, que Dios te guarde y cuide. ─ Gracias Pilar, hasta luego. Graças a minha amiga saí para meu encontro irradiando autoconfiança. Avistei o Gabriel ainda de longe, ao chegar ao local combinado. Ele estava logo em frente ao prédio, mas de perfil em relação a mim, parecia ansioso olhando seu relógio e me procurando com olhar justamente do lado oposto onde eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON estava, e eu gostei disso, assim poderia o observar um pouco em segredo antes de ser localizada. Porque aquela era uma imagem para se queimar na retina e gravar para sempre no cérebro: aquele homem tão integrado àquela paisagem cosmopolita e histórica como se pertencesse àquele lugar e eu tinha certeza que ele teria essa mesma aparência em qualquer outro lugar. Gabriel, seu porte majestoso e suas atitudes de menino de “boa família” seriam bem- vindos e bem quistos por onde ele fosse. Meu coração tremeu em meu peito e confesso que temi um pouco, seria muito fácil me apaixonar por aquele homem espetacular que estava na minha frente e isso poderia terminar muito mal para mim... Era como se eu estivesse entrando em um campo de batalhas sem arma ou proteção alguma e eu deveria ter isso em mente o tempo todo se não quisesse me machucar. Sua aparência só servia para piorar minha situação, era uma manhã agradável em Barcelona, e ele enfeitava a rua em seu jeans e uma camiseta preta que deixava claro o quanto ele estava em forma. Pela primeira vez eu vislumbrava as tatuagens que subiam e se PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON escondiam em sua roupa, me fazendo fantasiar com o restante daquela body art. Sorria, pensando como seria divertido explorar cada traço daqueles quando ele finalmente olhou diretamente para mim, tirando seus óculos escuros e fazendo com que eu me sentisse flagrada, como se ele pudesse ler minha mente e adivinhar os pensamentos nada “amistosos” que povoavam minha mente naquele instante. Com passos largos e seguros ele rapidamente me alcançou, me cumprimentando com um leve beijo no rosto e aquele sorriso que fazia com que tudo dentro de mim derretesse, segurou minha cintura, me obrigando a acompanha-lo até o prédio à nossa frente, que parecia um palácio de um conto de fadas pós-moderno e que ao mesmo tempo que harmonizava com as construções que o ladeavam, se destacava de todas elas, demostrando o cuidado que o arquiteto teve de atender as expectativas do seu cliente. Me sentia como uma criança deslumbrada em seu primeiro passeio ao parque de diversões. Me encantava com tudo o que via como se estivesse descobrindo um novo mundo. Nada do que eu estudara na faculdade e vira em vídeos e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON fotos me preparou para a grandeza do que estava na minha frente. Cada pequeno detalhe tão pensado para se integrar ao conceito visionário da casa, as soluções simplesmente geniais para os problemas triviais, o tema tão singular e fantástico escolhido pelo artista e a maneira brilhante com que ele deu vida à cada elemento de forma a escrever uma linda história somente usando elementos arquitetônicos para isso. Gabriel também se mostrava encantado, ainda que não fosse sua primeira visita e ostentava todo seu conhecimento, descrevendo cada minucia da construção que eu só conhecia na teoria tão bem que eu estava quase acreditando que o objetivo daquele passeio era mesmo uma "pesquisa de campo". Pelo menos até que percebi que ele não tirava os olhos de mim, nem mesmo enquanto descrevia as maravilhas daquele lugar. Depois de um tempo eu já nem sabia para quem eram os elogios que saiam da sua boca bem desenhada e estava prendendo minha atenção mais do que as escadas em forma de vértebras ou os vitrais que remediam a seres marinhos. Por fim, ele pareceu se esquecer do estávamos fazendo ali e passou a PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON só me olhar com uma intensidade que me desconcertava. ─ O que foi? ─ Eu estou só observando como você combina com esse lugar. Fiz uma careta, fingindo estar chateada. ─ Excêntrica e exagerada? Ele balançou a cabeça e me atirou o mais perfeito conjunto de sorriso safado e olhar de gavião já visto, chegou bem perto de mim antes de falar pausadamente. ─ Não... Singular, alegre, cheia de vida e com muitos pequenos detalhes lindos que se juntam formando uma obra prima. Ele foi falando e passando o dedo pelo meu rosto, como se estivesse me mostrando o que dizia... alcançou o meu queixo e o puxou para o alto, encontrando minha boca no meio do caminho, me tocando suavemente, aproveitando que eu resfoleguei, para contornar os meus lábios vagarosamente com os seus antes de se aprofundar em minha boca, a explorando, brincando comigo, me provocando e por fim tomando tudo de mim com força e determinação. Nunca em minha vida eu tinha sido beijada PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON daquela forma, e sabia que nunca mais ia querer ser beijada de outra forma novamente. Quando nos separamos, eu que normalmente era atirada e cheia de atitude estava sem graça e tímida como uma colegial, a colegial que sonhou tantas vezes com esse momento,o Gabriel tinha conseguido a proeza de me desconcertar. Ele, no entanto, estava mais dono de si do que eu já tinha visto e isso o fez mais sexy do que nunca. Não havia nada no mundo que mexesse mais comigo do que um homem seguro. A forma que ele continuava olhando diretamente em meus olhos, aumentava o meu constrangimento, mas ao mesmo tempo me excitava de uma forma que eu nunca senti. Minha boca seca e minha respiração rasa eram provas irrefutáveis do meu estado. ─ Você é muito linda, Adriana! Eu passaria o dia olhando para esses olhos. E talvez passe um dia, mas infelizmente eu acho que por ora você tem coisa melhor para fazer com eles não tem? ─ Nada que eu consiga lembrar... ─ Nada mesmo? Jura que eu prendo mais a sua atenção que a obra de Gaudí? Bem isso é realmente muita coisa a julgar pelo modo apaixonado com que você estava examinando PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON cada milímetro. Na verdade, eu estava ficando meio enciumado. Não pude conter uma risada. ─ Por isso você me beijou? Para ganhar a minha atenção? ─ Depende... consegui? ─ Conseguiu sim, toda a minha atenção é sua agora, Gabriel! Ele me deu outro beijo, dessa vez mais rápido e se afastou, com cara de quem está fazendo um tremendo esforço. ─ Eu vou cobrar essa atenção mais tarde, agora não seria justo com você roubar a sua diversão. Vamos acabar a nossa visita para que você possa babar mais um pouco nas obras, vamos...─ Eu me sinto uma caipira deslumbrada, mas não consigo evitar, tudo aqui me encanta de uma forma... é literalmente como um sonho que se materializou. ─ Adriana, acho que nem em festa junina você conseguiria se passar por uma caipira, tudo em você exala refinamento, e você sabe disso muito bem. Quanto a tudo te encantar, eu fico feliz, porque eu estou com a mesma sensação que você, parece que o meu melhor sonho se PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON transformou em realidade bem aqui na minha frente... Não fosse sua voz grave e sexy, ou a possessividade com que suas mãos ainda agarravam meus quadris, me colando ao seu corpo, seu olhar cheio de tesão fixo em mim deixava bem claro do que ele estava falando. E pela primeira vez naquele dia eu tive medo e, me desvencilhei dele, sorrindo sem graça e dizendo que gostaria de ver logo tudo o que a casa poderia me mostrar. Ele estendeu a mão para mim e a partir daquele momento, mesmo que ele tenha dito que queria que eu aproveitasse o passeio, já não havia clima para isso, as cores vibrantes da casa desbotaram. Eu já não conseguia mais me fixar em nada e mesmo quando o Gabriel me chamava a atenção para uma ou outra curiosidade, o que me prendia era menos o conhecimento que ele estava passando, do que aquela voz grave e rouca que a pouco tinha me dito coisas tão bonitas. Ele percebeu minha falta de concentração e logo sugeriu que fossemos almoçar. Durante o almoço, o Gabriel conduziu a conversa o tempo inteiro. Na verdade, eram PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON muitos interesses em comum, mesmo sem contar a arquitetura e com isso o assunto não faltava, mesmo assim obviamente uma hora nós tivemos que ir embora e eu lamentei quando nos separamos. Ele fez questão de me levar até a porta da minha pensione e insistiu para que nos encontrássemos naquele mesmo dia, mais tarde, para jantarmos e saímos para dançar. Contrariando todo o bom senso eu cedi, e ele ficou de me buscar ao cair da noite. Deus me protegesse de não estar sendo precipitada! Eu entrei no meu quarto e me joguei na cama. O. que. era. Gabriel. Ferraz? Que beijo, Deus! Se aqueles beijos e a forma de me tratar como se eu fosse a joia mais rara de todo mundo fosse indício de como seria o resto eu realmente tinha tirado a sorte grande! Foi naquele momento que eu fiz a minha escolha, eu iria fazer como a Lívia disse... eu iria me jogar de cabeça na atração que nós dois sentíamos! Eu era maior de idade, vacinada, dona do PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON meu nariz, não era nenhuma garotinha e mais o importante... sabia muito bem o que eu queria. E nesse momento eu queria o Gabriel mais do que já tinha desejado qualquer outra coisa! E se ele também me queria, qual era o problema? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 8 Um Anjo de Vestido, Uma Libido do Cacete Se pela manhã eu fiz a linha santinha, com um look simplesinho e básico, ia investir tudo no meu lado sensual para garantir que minha noite com o Gabriel fosse o sucesso que eu esperava. Vesti uma calça preta de cetim e um body dourado com decote cache coer literalmente até o umbigo, um par de sandálias pretas que me deixariam quase da altura dele de tão altos e bijuterias de cristal swarovski preto. Abusei da maquiagem, de forma que novamente destacasse a cor dos meus olhos, mas desta vez de uma forma muito mais sexy, com um esfumado em azul cobalto, muitas e muitas camadas de rímel. Finalizei com cachos desalinhados que eu esperava que passassem a ideia de que o Gabriel era mais do que bem-vindo a desarrumá-los o quanto quisesse. Fiz caras e bocas para o espelho, adorando minha nova persona e saí do meu quarto, cheia PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON de expectativas. Já do alto da escada da pensione eu o avistei. E era uma visão de tirar o fôlego! Ele vestia uma calça jeans escura e um blazer escuro sobre uma camisa clara e estava conversando animado com o Fernando, muito lindo, muito charmoso! Quando eu já estava quase no fim da escada o barulho do meu salto chamou a sua atenção e a cara que ele fez poderia ter me feito ganhar a noite, se eu não tivesse planos muito mais, hãn... consistentes para ele. Seus olhos estreitos viajaram de alto a baixo pelo meu corpo e quando voltaram e encontraram os meus, o fogo que saía deles junto com o sorriso safado que ele ostentava não deixavam a menor sombra de dúvida de que o meu visual tinha sido aprovado e muito a julgar pela forma com que ele se ajeitou. Homens... tão previsíveis! Tudo bem, eu também estava mais do que excitada por aquele homem absurdamente comível e para ser sincera depois da forma com que ele me olhou, eu tenho certeza de que o fundo do body era uma sopa só! A diferença é que eu conseguia fingir indiferença ao chegar PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON perto e cumprimentá-lo com um beijo suave, já ele tinha um palmo de língua para fora e não poderia esconder de ninguém a cerca de um quilômetro o quanto ele estava afetado. Gostei disso. Principalmente porque ao contrário do que normalmente acontecia nesses casos ele, apesar de visivelmente ter gostado do que viu não se intimidou e parecia tão confiante como nunca. O filho da puta sabia que era gostoso! Despedimo-nos do meu simpático amigo e anfitrião, o Gabriel gastando seu catalão perfeito, eu no meu espanhol capenga. Ao sairmos ele me puxou de encontro ao seu corpo e sussurrou no meu ouvido. ─ Adriana eu nunca vi uma mulher tão linda quanto você está agora! Essa noite vai ser um teste para o meu autocontrole. Eu dei uma piscadinha para ele. ─ E para que autocontrole, Gabriel? Esquece dele hoje e vamos curtir o que Barcelona nos trouxer. ─Você não sabe o que está pedindo, garota. ─ Não sou uma garota, Gabriel. Por isso sei muito bem do que estou falando. Vamos, joga PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON seu autocontrole nesse lixo. O meu eu deixei lá em cima. Ele riu enquanto procurava algo no seu paletó e jogava na lata de lixo em frente ao prédio do qual saímos. ─ Feito. Autocontrole no lixo, ainda bem que eu não trouxe muito mesmo. Tenho certeza que na segunda-feira na aula eu vou precisar de uma dose extra. Sorri vitoriosa e feliz! Era bom estar com uma pessoa cheia de humor e leve como o Gabriel. ─ Que bom! Então, “autocontroles” devidamente esquecidos, vamos nos jogar na famosa noite de Barcelona. Jantamos em um restaurante muito bonito e requintado, não muito longe dali, depois fomos a um bar bem simples e ficamos conversando, mesmo eu ainda não me sentindo segura para falar de assuntos pessoais não faltavam assuntos em comum paraa minha sorte. Acabamos na pequena pista de dança e não era exatamente uma surpresa que o Gabriel soubesse dançar, mas a forma com que eu me sentia bem dançando com ele me pegou PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON desprevenida... Seu jeito desenvolto e sensual me acendeu e foi irresistível o provocar me mexendo de forma convidativa, me sentia tão bem como nunca tinha me sentindo antes. Eu resolvi me divertir um pouco com ele e quando tocou uma música do Black Eyed Peas, fiz um pequeno show e comecei a dançar na sua frente, o instigando com uma coreografia sexy, me virando e olhando por sobre meu ombro para ter certeza se estava atingindo o meu objetivo. Oh, sim! Eu tive plena certeza disso quando ele me enlaçou pela cintura e me levou até um canto afastado do bar, me prendendo à parede e me devorou, deliciosamente, com seus beijos fortes, intensos e famintos. Enquanto moía seu quadril contra a minha barriga, me prensando e me deixando fora de mim de tesão ao senti-lo totalmente enrijecido ao se esfregar em mim. ─ Porra Adriana, você é gostosa demais, audaciosa demais. Você é um perigo pra sanidade mental de qualquer um. Ele falava com aquela voz grossa, grave, cheia de desejo, enquanto segurava meu quadril, de forma a me aproximar ainda mais dele, ao mesmo tempo em que me enlouquecia, me PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON beijando como um louco, chupando o meu pescoço e mordiscando minha orelha, eu não suportava mais. ─ Gabriel, pelo amor de Deus, me tira logo daqui. Ele ainda me olhou como se procurando ter certeza do que eu queria com as minhas palavras e depois de me provocar mais um pouco, foi ao balcão pagar nossa conta e me puxou para fora do bar, se dirigindo para o seu carro. ─ Não Gabriel, vamos para a pousada mesmo. ─ Nem pensar Adriana, eu vou te fazer gritar tão alto que você vai ser expulsa de lá. Vamos para o meu apartamento, não é tão longe daqui. Eu acabei cedendo, já que era assim né? Mas antes o puxei para mais um beijo e ele chocou minhas costas com a lataria do seu carro, nós dois éramos fogo e gasolina e a explosão era certa. O Gabriel se afastou de mim rindo. ─ Adriana, a gente realmente precisa sair daqui agora, senão eu vou acabar fazendo uma loucura. Dei de ombros e fiz biquinho. ─ E quem disse que eu ligo para isso? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Ele puxou meu queixo para que eu levantasse o meu rosto e disse, me olhando com aqueles olhos de águia. ─ Eu não podia estar mais errado quando te julguei a primeira vez que te vi. Toda lindinha com esse cabelo loiro, esses olhos azuis e CDF. Eu jurava que estava na frente de anjo. Eu ri e ele enfiou a mão nos meus cabelos, me puxando para ele. ─ Quem diria que você é essa bruxa provocante, Adriana? Depois de um último beijo, ele abriu a porta para que eu entrasse, deu a volta para entrar e arrancou com o carro como se a sua vida dependesse disso. O caminho até sua casa pareceu muito longo e quando finalmente entramos na garagem do seu prédio e saímos do carro, voltamos ao nosso fervoroso ataque. Na manhã seguinte eu culparia o delicioso vinho espanhol, mas hoje eu ia aproveitar esse homem delicioso de todas as formas que eu pudesse. Gabriel abriu a porta do seu elegante apartamento, acendeu algumas luzes, estrategicamente colocadas para criar o clima PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON perfeito e ligou o sistema de som (Esse é o lado ruim de namorar um arquiteto... Eu sabia exatamente o motivo de tudo aquilo e não gostei de pensar que esse ambiente era exatamente o "matadouro" que eu projetaria para um cliente mulherengo criar a atmosfera perfeita para seduzir). Gabriel não perdeu tempo em me mostrar nada e me levou com ele até o enorme sofá creme, me sentando em seu colo, com minhas pernas abertas sobre ele. Meu sexo latejava como nunca ao sentir o contato com sua ereção evidente mesmo por sob o jeans. Seus lábios gostosos me faziam arfar e arquejar projetando meu corpo de encontro ao seu ao me beijar o pescoço, sua barba causava um leve pinicar que despertava cada terminação nervosa do meu corpo, suas hábeis e ágeis mãos me desvencilhando da minha blusa, abaixando as alças até que elas caíssem e me deixassem nua da cintura para cima... Meus seios inchados praticamente esfregando no seu rosto e ele fazendo muito bom uso dessa posição, sugando fortemente meus mamilos endurecidos, os puxando com os dentes, passando a língua PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON demoradamente lento, aliviando a sensação dolorosa que seus dentes deixavam. Eu rebolava em seu pau por cima das nossas roupas e ele devorava meus seios, os dois perdidos de desejo... Suas mãos fortes me apertando em todas as partes, enquanto eu desabotoava sua camisa e passava as mãos por seu peito. Ele me virou e me deitou no sofá ficando em pé na minha frente me olhando como se eu fosse um prato de comida diante de um faminto... Apesar de eu provavelmente parecer um caos, blusa embolada na cintura, cabelo por toda parte e maquiagem desfeita e ele ainda aquela obra prima da natureza com seu abdômen sarado e seus braços tatuados. ─ Você é realmente um absurdo de gostosa, fogosa e linda, mas a partir de agora quem comanda sou eu, ok? Quem era eu para contrariar? Até mesmo porque eu tinha certeza que estava entregue a mãos que sabiam bem o que estavam fazendo. Eu fiz biquinho e assenti me contorcendo preguiçosamente no sofá. Ele se abaixou e pegou meu pé, arrancando minha sandália e a jogando longe, e fazendo o PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mesmo com o outro pé. Ele voltou até o sofá e pairou sobre mim, me beijando enquanto desabotoava a minha calça e colocava sua mão dentro dela procurando a lateral do body, o afastando e encontrando meu clitóris inchado. Ele o tocava com maestria, me fazendo gemer forte como uma louca, quando eu não aguentava mais e meu orgasmo estava por fio ele se afastou mais uma vez, puxando meu lábio inferior ao final do nosso beijo e tirou minha calça, meu body indo junto. Eu estava totalmente nua e exposta, deitada em seu sofá e não tinha uma gota de vergonha, meu único sentimento naquela hora era a urgência em ter o Gabriel dentro de mim o mais rapidamente possível, por isso eu tentei me levantar e agilizar o processo... Mas o Gabriel levava a sério o papel de manda chuva e me empurrou de volta ao mesmo tempo em que caía de joelhos na minha frente e me puxava, escancarada, de encontro a sua boca. ─ Deus, Gabriel! A minha teoria de que ele era um homem faminto se confirmou pela maneira com que ele me saboreou avidamente, passando sua língua PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON quente por cada milímetro do meu sexo, antes de encontrar meu clitóris que incendiava por atenção e lambê-lo vagarosamente deixando claro o quanto ele estava, realmente, se deliciando com isso. Aquela era a melhor coisa que eu tinha sentido até aquele momento, e eu me entreguei totalmente àquela sensação, me contorcendo e me esfregando de encontro a ele, enquanto ele me explorava mais e mais com sua boca gulosa, sugando meus sucos de forma totalmente obscena fazendo com que eu me mexesse descontrolada, procurando o êxtase cada vez mais próximo. E isso só fez o Gabriel me torturar mais, tirando sua boca de mim, para minha misericórdia ele introduziu dois dos seus longos e grossos dedos em mim e ia rodando e arremetendo fortemente em minha boceta, que os sugava e eu estava muito próxima de gozar para raciocinar com alguma coerência. Ele levantou seu rosto e ficou me olhando, seus dedos me enlouquecendo, mas eu queria mais. ─ Gabriel volta para o que você estava fazendo agora! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Ele riu antes de voltar. ─ Mandona! Ele passou a sugar ferozmente o meu núcleo enquanto seus dedos se moviam cada vez mais rápido em mim e em pouco tempo eu comecei a sentir um forte tremor involuntário tomar conta das minhas pernas e meu corpo sendo tomado por um delicioso orgasmo, onde eu gritei o nome do Gabriel e gemi alto, enquanto me contraía na sua frente. Ele não meabandonou enquanto meus espasmos não tinham se dissipado e ele não havia me sorvido totalmente. Eu estava numa deliciosa nuvem pós- orgasmo quando ele me pegou no colo. ─ Vem, deliciosa! Que agora eu quero te comer na minha cama. Eu só assenti, rindo como uma boba, molenga que estava, ele me levou para o seu quarto e me colocou no meio da sua cama king size. Eu cheguei mais para o alto da cama, me apoiei na cabeceira e fiquei observando ele se livrar dos calçados e da calça sem nunca quebrar o contato visual comigo ou tirar aquele sorriso lindo do rosto. Meu Deus do céu! O Gabriel PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON tirando suas roupas era um espetáculo digno de se ver. E quando ele finalmente tirou sua cueca, eu juro que salivei! Aquele pênis potente era o complemento ideal para a perfeição que era aquele homem! Ele subiu na cama e rapidamente estava sobre mim, seu corpo quente em contato com o meu me inflamava mais ainda. Ele recomeçou sua investida, me beijando enquanto com os dedos espalhavam o resultado da minha excitação cada vez mais e mais abundante e os enfiava em mim, me preparando. Com uma mão eu segurava em suas costas musculosas e com a outra procurei sua ereção, rodeei meu dedo na cabeça já úmida e também espalhei o líquido para facilitar o contato com a minha mão que se pôs a subir e descer, fazendo o Gabriel mais violento em seus beijos, nós dois enlouquecidos de vontade. Ele se separou um pouco de mim, e foi o suficiente para que eu soltasse um gemido, inconformada, mas depois eu percebi que ele tinha apenas se esticado para alcançar a camisinha no criado mudo, a qual ele rapidamente colocou no seu incrivelmente rígido PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON pênis. Eu me abri para ele enquanto ele posicionava em cima de mim apoiado em seus cotovelos e sem nunca parar de me admirar com um olhar selvagem... Mas que ainda naquele momento, com todo o tesão que saltava de seus olhos, era possível perceber uma ternura que me tirava do chão, ou no caso... Da cama. Ele entrou em mim lentamente, meu corpo se adaptando às suas proporções, me preenchendo, me esticando de uma forma enlouquecedora. ─ Porra Adriana estar dentro de você é o paraíso! Do meu ponto de vista não era muito diferente, o Gabriel também parecia o céu para mim. Cada estocada precisa que ele dava me fazia ver estrelas e eu me abandonei naquele mar de inconsciência enquanto outro orgasmo se aproximava. Deixei-me aproveitar ao máximo a sensação dos seus golpes fortes e certeiros, suas palavras sacanas e ao mesmo tempo doces, nossos gemidos e os movimentos cada vez mais rápidos e profundos. Gabriel mudou de posição, de uma maneira que ele conseguiria chegar ao meu clitóris e então deu seu golpe de misericórdia apertando ali PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON e detonando uma deliciosa explosão em meu corpo, o mais delicioso orgasmo que eu já havia experimentado, me fazendo gritar como uma louca o seu nome e o arranhando como uma gata selvagem. Ainda assim outra onda se aproximou de mim ao sentir a resposta dele aos meus espasmos em forma de um gozo forte, seu rosto desfigurado de prazer enquanto também urrava, com uma voz gutural e crua, o meu nome. Ele caiu sobre mim, com o cuidado de não me esmagar com o seu peso e nós ficamos algum tempo de testas coladas, tentando controlar nossas respirações. Meu coração parecia que iria sair pela boca, ele passou a mão ternamente pelo meu rosto... Depois meu nariz... Contornou meu maxilar... Que homem perfeito era aquele? ─ Muito linda... muito, mas muito deliciosa. Nós nos separamos para que ele pudesse descartar a camisinha, mas ele logo voltou, puxando a coberta que ficássemos debaixo dela, encaixados, nos acariciando sem nenhuma intenção. Um clima bom de intimidade que faria uma pessoa que estivesse vendo de fora duvidar que fosse a primeira vez que fazíamos amor, mas PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON parecia tão natural ficar assim com o Gabriel. ─ Você é uma caixa de surpresas, Adriana. ─ Boas ou ruins? ─ Todas maravilhosas! ─ Por que você está dizendo isso? No que foi que eu te surpreendi? ─ Em tudo, a primeira vez que a gente conversou, você foi tão... Você sabe! Além do mais eu prometi que não falaria mais nisso. Mesmo assim eu acabei criando pra você uma imagem de frieza e distância que não poderia estar mais longe da realidade. Eu me virei para ele, me debruçando no seu peito e o encarando. ─ E qual seria essa realidade? ─ Eu tenho certeza que você sabe, porque você não é nem um pouco modesta. Eu gargalhei... realmente o Gabriel em tão pouco tempo já me decifrou totalmente. Não, eu não era mesmo modesta! ─ Mesmo assim eu quero ouvir de você. ─ Eu não esperava uma mulher tão decidida, fogosa e safada. ─ Já sei Gabriel... você pensou que eu era uma alemã fria e insensível e acabou com uma PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sueca safada e insaciável. Ele me olhou com a cara mais divertida e nos girou, ficando sobre mim novamente. ─ Insaciável é? ─ Do que você me apresentou agora mesmo? Eu acho que eu não vou conseguir me saciar! Não tem como se saciar de algo tão bom! ─ Bom saber, agora essa vai ser a minha missão então. Ele passou um bom tempo provando que poderia me saciar, mas a cada hora eu ficava mais e mais viciada nos seus toques, seus beijos e mais do que tudo na forma forte com que ele me possuía. No final, acabamos caindo exaustos, eu sobre o seu peito tonificado, mal conseguindo abrir os olhos ou articular uma frase inteira. Ainda assim não daria meu braço a torcer. ─ Saciada minha linda? ─ Não, só cansada demais para continuar por hoje. ─ Amanhã então eu continuo na minha missão. Agora descansa vai. ─ E nem pense em desistir Gabriel! Foi só o que eu consegui dizer antes de cair PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON em um sono gostoso. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 9 Amo o Teu Cheiro e Tua Cor Na manhã seguinte eu acordei e a cama estava vazia. Confesso que fiquei meio decepcionada. Então me levantei, procurei o banheiro, fiz minha higiene matinal, domei meus cabelos em um coque estranho, peguei uma camisa dele que estava jogada na cama e fui procurá-lo meio sem graça. A noite passada tinha sido perfeita, mas o dia seguinte sempre era uma incógnita. Eu abri a porta do quarto e fiz o caminho de volta para a sala, que à luz do começo da manhã ficava ainda mais bonita do que eu tinha observado ontem através da penumbra que reinava quando chegamos. Era realmente muito acolhedor, prático, organizado e másculo. Eu conseguia adivinhar muito dele só olhando o que ele tinha feito ali, era uma espécie de hobby para mim desnudar a alma das pessoas através das suas moradias, seus hábitos e seus gostos. Vi minha roupa dobrada no canto do sofá e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON minhas sandálias perto delas no chão, o que eu achei muito atencioso da parte dele, seu blazer e sua camisa, arrumados da mesma forma cuidadosa em uma cadeira próxima, mas dele mesmo nem sinal. Foi então que eu escutei alguns barulhos e os acompanhei até que eu o achei na cozinha, abri a porta devagarzinho e coloquei só a cabeça lá dentro, o espionando. Gabriel estava uma tentação, só de short, seu peitoral perfeito e seus braços tatuados totalmente expostos mexiam comigo de uma força vigorosa, e misturadas com as lembranças da noite passada me aqueciam e excitavam automaticamente. Fiquei quieta durante alguns instantes me divertindo com a forma com que ele parecia estar todo atrapalhado preparando o café, até que de repente ele se deu conta da minha presença e se virou, vindo ao meu encontro me puxando para ele e me rodando no alto enquanto me beijava... Impossível não me sentir leve como uma criança. ─ Bom dia minha linda! Ia perguntar se te acordei, mas pelo que eu vejo você acordou cedo. O cheiro do meu sabonete fica melhor em PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON você do que mim, mas ainda prefiro os nossos cheiros juntos. Ele estava cheirando meu pescoço e eu me derretia nos seus braços,de onde eu nunca mais queria sair. ─ A gente mistura nossos cheiros de novo. Eu também gosto muito dessa fragrância. ─ Gostei dessa ideia, mas primeiro o café. – Ele disse apontando para ilha no meio da cozinha. ─ Eu acordei e não te achei... Fiz charminho enquanto sentava na cadeira alta da bancada e ele retornava para o fogão, à minha frente. ─ Desculpa, eu realmente achei que ia acabar isso aqui a tempo de levar para você na cama, mas eu sou um desastre com a cozinha. Eu tentei segurar o riso, mas foi mais forte do que eu. ─ Eu pude perceber isso. Você mora sozinho Gabriel, como é que você se vira? Ele encolheu os ombros, parecendo envergonhado de ter uma fraqueza descoberta. ─ Confesso que eu sou meio preguiçoso com isso, de manhã normalmente eu como uma fruta, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON um pão e um café preto e durante o dia eu como fora. Eu me levantei e fui de encontro a ele. ─ Deixa eu te ajudar. O que falta? Ele me mostrou o que tinha na geladeira e na dispensa e rapidamente eu preparei um café digno de hotel de luxo, ele tentando me ajudar, mas realmente faltava jeito. ─ Eu ainda melhoro, você vai ver. Vou ser um verdadeiro Chef, é minha outra meta de vida. ─ Outra? ─ Sim, a primeira é te deixar totalmente saciada, esqueceu? Eu ri, enquanto o enlaçava com meus braços e o puxava para um beijo suave. ─ Deixa de ser bobo! Você também não tem problema em saber o quanto é bom, lindo e gostoso e sabe muito bem o quanto me deixou saciada, esgotada e satisfeita. Eu não sou uma pessoa desse tipo de joguinhos e você vai perceber que eu falo o que penso e sinceramente eu nunca me senti da forma com que me senti ontem Gabriel. Mas não deixe isso lhe subir à cabeça, eu ainda quero que você continue se esforçando para me manter assim, viu? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Sim senhora Adriana, eu prometo não descansar da minha missão, fica tranquila. Eu fiquei ali, agarrada no pescoço dele, rindo como uma boba, ele me olhando com uma ternura que eu nunca tinha recebido de nenhum homem antes. Mas a minha barriga realmente estava nas costas de tanta fome e aquilo quebrou o clima romântico. ─ Eu estou com fome Gabriel. Ele arqueou a sobrancelha de forma sugestiva e eu balancei minha cabeça. ─ De comida! Eu realmente preciso de combustível, homem! Se você vai continuar tão aplicado em me saciar, pelo menos me alimente, senão eu vou desmaiar em seus braços, e não vai ser de prazer. Nos sentamos na bancada para fazermos nosso desjejum, mas não conseguíamos tirar os olhos um do outro. Gabriel me comendo com os olhos descaradamente e eu adorando a cara safada com que ele fazia isso. Rapidamente alimentar meu corpo deixou de ser importante, eu pulsava de desejo e tive a ideia louca de repetir a cena de um filme antigo do Polanski, que sempre me deixou acessa. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Olhando fixamente para seus olhos peguei a garrafa de leite e comecei a beber o líquido direto do gargalo, deixando cair um pouco pelo canto da minha boca, de forma que ele ao escorrer formasse o leito de um rio branco, que abria seu caminho ao se embrenhar através da gola da camisa do Gabriel que eu vestia. Seus olhos viraram duas linhas de tão forte com que ele os apertava, eu podia ouvir sua respiração forte e descompassada, o tesão era palpável quando ele esticou a mão e abriu lentamente a camisa que eu vestia, fazendo com que ela deslizasse pelo meu braço e caísse abandonada no chão, sem nenhum momento tirar seus olhos aquilinos de mim ou permitir que seus dedos esbarrassem na minha pele, que fervia com a expectativa. Levei novamente a garrafa à boca, repetindo a minha performance só que agora enchendo mais a minha boca, soltando o líquido aprisionado de uma só vez, molhando meu corpo nu, a sensação fria sobre a pele fazendo meus mamilos eriçarem. O Gabriel, finalmente, quebrou o contato comigo, totalmente hipnotizado por meus seios inchados e melados PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON pela bebida. Aproximou-se mais de mim, baixando sua boca, mamando o leite que escorria através deles, sorvendo e chupando o caminho percorrido por aquele rio, chupando meus seios avidamente, os limpando, um de cada vez, lambendo e depois sugando os bicos intumescidos, suas mãos abertas em minhas costas, forçando com que eu me aproximasse ainda mais, facilitando assim o ataque da sua boca hábil. Eu gemia, deliciada, minhas mãos apoiadas nos seus ombros largos eram a única coisa que me impedia de cair, já que eu não possuía mais nenhum controle sobre o meu corpo e quando eu senti a proximidade de mais um orgasmo, o Gabriel se deteve, levantou o seu corpo, se encaixando entre minhas pernas, buscando meus lábios para um beijo profundo e demorado, explorando minha boca enquanto agarrava a minha bunda e me tirava da banqueta, somente para me colocar sentada na bancada, sem parar o seu beijo, suas mãos traçando o seu caminho através das minhas coxas me faziam sentir como se milhares de pequenas explosões ocorressem sob a minha pele, mesmo quando elas se PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON separaram vagarosamente, indo uma em direção ao meu seio esquerdo, que o Gabriel segurou em taça o massageando firmemente. Sua outra mão se alojou entre minhas dobras, seus dedos sumindo entre elas, brincando com minha necessidade, sem se aproximar do meu clitóris, fazendo com isso que o nosso momento se estendesse e que minha excitação se tornasse dolorosa de tão urgente, só então ele permitiu o meu gozo, com dois dos seus dedos dentro de mim enquanto o seu polegar pressionava suavemente a origem do meu desconforto. Antes que eu me desse conta, o Gabriel já tinha colocado o preservativo e me penetrava de forma impetuosa, batendo de encontro a mim que deitara no granito da bancada e arqueava meu corpo a cada golpe, os absorvendo junto com a mistura de sentimentos e sensações que inundavam o meu corpo e minha alma antes que o meu orgasmo puxasse o dele e nós dois gritássemos juntos. Ele ainda ficou ali, parado dentro de mim, seus olhos faiscando enquanto me encarava, passou os olhos por todo o meu corpo com um sorriso de aprovação antes de se afastar e me puxar de encontro ao seu peito, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON beijando meu cabelo ternamente. ─ Você é deliciosa. Eu ri e dei de ombros, me colocando de pé e o observando descartar a camisinha. ─ E você é precavido. Ele me deu uma piscada sacana que disse tudo. É claro que ele não ia deixar escapar uma oportunidade e isso me deliciava. ─ Xiii, vou ter que limpar a sua cozinha toda, olha como está o chão. ─ Depois a gente vê isso, primeiro eu acho que vamos ter que limpar você. Eu sentia a minha pele repuxando por causa do leite sobre ela, então não poderia negar que a ideia do Gabriel era melhor do a minha. O banho se prolongou mais do que devia, e nós acabamos por tirar um cochilo, e quando acordamos já era hora do almoço. Gabriel fez questão de pedir nossa refeição, e me ajudar na bagunça que nós fizemos juntos. Depois de nos alimentarmos ficamos jogados no sofá da sala assistindo a um filme e eu dormi antes do primeiro intervalo, efeito colateral benéfico do conforto que eu sentia ao estar junto ao corpo do Gabriel. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Ao acordar, totalmente presa nos braços dele, seu rosto encaixado no meu pescoço me fazendo cócegas com sua respiração na minha pele, eu percebi que já estava escurecendo e eu tinha passado o dia todo ali. Me senti desconfortável com aquilo, como se eu tivesse abusando da hospitalidade dele, impondo minha presença, mesmo que ele não tenha feito nada que demonstrasse desagrado por eu não ter ido embora ainda. Consegui, com muita dificuldade virar meu corpo até que estivesse de frente para ele, e quase desisti de acordá-lo só para poder ficar olhando seu lindo rosto que parecia mais tranquilo durante o sono, porém meu senso de dever tocou alto em minha cabeça e eu beijei seu rosto até que ele abrisse os olhos e sorrisse preguiçosamente para mim. ─ Oi, abandonamoso filme, não é? Vamos ver outro, então. Ele só podia estar de brincadeira! ─ De jeito nenhum, lindo. Eu preciso ir embora. Eu me sentei para poder sair dali e me vestir para ir embora. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Mas ser contrariado não estava nos planos do Gabriel, ele me agarrou, não me permitindo sair e me jogou de volta no sofá, nos virando e ficando em cima de mim. ─ Não vai não! Passa a noite comigo, por favor? Se fosse só o que ele dizia ainda seria fácil negar, mas o problema era a carinha de cachorrinho carente que ele fazia, eu tinha que me manter firme. Não fazia sentindo algum que eu ficasse mais ali. ─ De novo, Gabriel? Eu já estou aqui há quase 24 horas, isso é um absurdo! Ele me beijou o pescoço e recomeçou a sua suave tortura em mim. ─ Não está bom? Me diz que você não está gostando que eu deixo você ir, senão você fica mais essa noite comigo. ─ Estou amando Gabriel, mesmo assim, ficar não é uma opção para mim hoje, infelizmente. ─ Se está bom, por que você não fica só mais essa noite? ─ Porque eu preciso, Gabriel. Porque você vai se cansar de mim rápido demais, porque nós dois precisamos de espaço. Eu preciso fazer PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON minhas coisas, você também deve ter um monte de trabalho te esperando... ─ Quanto a ter um monte de trabalho você pode até estar certa, mas nada mais importante do que ficar de bobeira com você. Além do mais, não acho que seja possível me cansar assim tão fácil de você, não... Ele não me dava espaço, nem parava com suas técnicas de persuasão totalmente covardes. Eu o empurrei carinhosamente e me coloquei de pé. ─ Pode ter certeza que vai, se a gente não der um espaço. Terça nós nos vemos no curso. ─ Ah não! Só na terça não! Não quero ficar dois dias inteiros sem te ver. Amanhã eu te busco para jantar, sem discussão! Eu acabei concordando. Na verdade, não podia dizer que tinha tanta coisa para fazer mesmo, e já estava usando toda a minha independência e força de vontade para sair pela porta do Gabriel, não me restava muito para lutar outra guerra. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 10 Me Beija e Me Faz Esquecer Me surpreendia com a rapidez com que estávamos nos envolvendo, em menos de duas semanas nós dois já estávamos viciados na presença um do outro. Eu era a mais reticente pelos motivos de sempre, o Gabriel, no entanto, sempre acabava me convencendo a dormir em sua casa ou à passarmos mais tempo juntos em passeios, almoços, jantares... Para ele não havia nada de mais no fato de nós estarmos praticamente grudados o tempo todo e deixava isso claro sempre que queria. Se fosse qualquer outro eu teria mandado caçar seu rumo, mas o Gabriel tinha o dom de silenciar, ou pelo menos abaixar meu tom autoritário. Pela primeira vez na minha vida eu cedia pelo menos um pouco do controle da minha vida. E cada vez que me dava conta disso, um frio se instalava no fundo das minhas entranhas. Um medo de perder de vez as rédeas da minha vida, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON porque o Gabriel me dominava de uma forma que o faria sem pensar duas vezes e eu ainda gostaria disso. Foi usando desse domínio que ele me “convenceu” a fazer nossa primeira viagem juntos. Era sexta-feira e depois de irmos juntos para o curso e almoçarmos, Gabriel ao invés de ir trabalhar resolveu ir comigo para a pensione e me “informou” que eu deveria fazer uma mala para acompanha-lo. Um alarme soou alto dentro de mim, me colocando na defensiva e eu parti como uma louca, de dedo em riste, para cima do Gabriel. ─ Eu não vou passar meu fim de semana inteiro em seu apartamento, Gabriel! Ele tentou me apaziguar com um abraço, eu rapidamente me desvencilhei e impus uma distância entre nós dois, aborrecida. Ele deu de ombros, abriu minha cômoda, tirando várias peças de roupas aleatórias e jogou em cima da minha cama, ignorando completamente minha recusa em acompanha-lo. ─ Claro que não, Adriana. Por isso mesmo que eu estou pegando essas roupas, se nós PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ficássemos o fim de semana inteiro dentro de casa você não precisaria delas. Eu queria te fazer uma surpresa, mas como você invocou, vou ter que te dizer meus planos: vou te levar a uma cidadezinha medieval aqui perto e vamos passar um ótimo final de semana cercados por História, arquitetura antiga, ótimos restaurantes, sua presença radiante e esse humor reluzente. Agora desemburra essa cara e me ajuda, pega uma bolsa pra colocar essas coisas. Droga! Seu argumento era incontestável, mas eu não lhe daria a vitória. Então me calei e só acabei fazendo a mala eu mesma porque o Gabriel podia seu um ótimo arquiteto, mas morreria de fome se fosse estilista e eu não teria uma peça de roupa decente para sair enquanto estivéssemos na tal cidadela. Ele percebeu o quanto me custava dar o braço a torcer e me deixou quieta enquanto saíamos, mas não sem o seu já conhecido e naquele momento tão irritante sorriso de “sou mesmo o fodão”. O caminho que percorremos até lá era tão lindo, tão encantador que eu não consegui segurar meu mau humor por muito tempo. O fato PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON do Gabriel ter baixado a bola e pelo menos parecer arrependido, me agradando por todo o caminho, ajudou um pouco para melhorar meu estado de espírito e eu fingi que não entendi que o grande truque dele era me paparicar. Eu não podia negar que era uma menina mimada e não resistia ao seu jogo, mesmo sabendo que isso me colocava em suas mãos. Chegamos tarde à cidade de Girona e fomos direto para o hotel, queria dizer que aproveitamos muito do ambiente luxuoso, mas a verdade é que só pedimos nosso jantar no quarto, e mesmo assim eu só comi por que meu namorado super carinhoso me obrigou. Tivemos um dia agitado e nossa discussão pré-viagem extinguiu o resto da minha energia. Só pensava em dormir gostoso, embalada pelos lençóis de algodão egípcio, os edredons macios e meu apoio predileto para descansar... os braços do Gabriel. Por sorte a noite de sono foi o que nos bastou para acordarmos revigorados, já que o Gabriel resolveu me levar para conhecer todos os pontos turísticos da cidadezinha. O primeiro sendo o obrigatório e pitoresco El Cul De La Lleona. Sim, isso mesmo que parece uma escultura PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON de uma pequena leoa que deveria ter o bumbum beijado pelos visitantes que quisessem ter sorte e retornar à cidade. Rimos demais de tudo aquilo, mas como tradição era tradição lá ia eu beijar o derrière da estátua quando uma senhora quase secular segurou meu braço bruscamente. Me assustei com sua atitude hostil e sua figura que parecia saída de um livro infantil com suas roupas escuras, um xale característico daquela região, as costas arqueadas de quem carrega o mundo sobre si e o rosto vincado de uma existência longa e difícil. Ela me puxou, impedindo que eu me aproximasse da estátua e falando alto no idioma local. ─ No va a tornar aquíamb o sense ajuda de Lleona.[2] Puxei o meu braço de volta assustada, mas ao encará-la senti uma dor tão grande em seu semblante que cheguei a me preocupar com ela, por isso não a afastei quando ela chegou mais perto de mim e segurou meu rosto com sua mão fria, baixando o tom de voz e me olhando com o que parecia pena ou condescendência. ─ Espanya que esportarà al seu major tresor, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON però no va tornar aquí. Que Déurebila seva ànimaen La seva Glòria, fill.[3] Eu entendia muito pouco do catalão, praticamente só as palavras comuns ao espanhol, mas o pouco que eu compreendi me fez arrepiar. O Gabriel que era fluente em catalão, parecia ainda mais assustado do que eu pela maneira com que enlaçou a minha cintura, me puxou de encontro a ele e se apressou em me tirar dali, deixando para trás uma nota alta de Euro na mão da senhora. ─ O que foi que a senhora disse, Gabriel? Que eu não vou mais voltar aqui? Ele forçou um sorriso, mas era visível que o presságio da velha o tinha afetado também.─ Bobeira Adriana, não se preocupa com isso, com certeza é alguma velha cigana que fica tentando se aproveitar dos turistas. Vamos esquecer isso, ok? Vamos, ainda temos muitos lugares para visitar. ─ Gabriel, eu não posso esquecer o que eu nem sei, o que ela falou exatamente? Ele se esquivou, mas vendo que eu não desistiria de entender o que tinha acabado de acontecer, acabou me dizendo. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Ela disse que você levará da Espanha seu maior tesouro, mas nunca voltará para cá. ─ E depois? Ela disse algo sobre Deus. Ele me olhou demoradamente antes de falar e eu não precisava de nenhum detector de mentiras para ver que ele não falaria a verdade para mim mesmo. ─ Ela te abençoou, Adriana. Como uma reza. Eu o olhei com desconfiança e não ia aceitar essa balela assim não. ─ Parecia mais um vaticínio que uma benção. Ele bufou, mostrando sua impaciência com o assunto e obviamente o dando por encerrado, me abraçou e beijou meus cabelos, dizendo contra eles. ─ Vamos esquecer esse assunto, é só uma senhora acostumada a falar as coisas certas para impressionar as pessoas e tirar dinheiro delas, além do mais quem sabe seu tesouro não sou eu? Se eu for embora com você por que voltaria a Espanha, não teria mais motivo nenhum, não é? Eu o afastei socando levemente o seu peito. ─ Convencido! Eu ainda vou voltar muitas vezes à Espanha, com ou sem você, com ou sem PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON beijar a bunda da leoa! Eu ainda podia ter continuado a brigar. Que raiva de ser tratada como idiota! É óbvio que a mulher tinha dito algo de muito ruim, e sendo sobre mim era meu direito saber o que era! Mas ele sorriu para mim tão lindamente que de repente nada do que a velha senhora havia dito tinha alguma importância. E tudo já era assunto antigo quando ele segurou meu queixo e me prendeu em um beijo terno e protetor, me apertando contra ele tão fortemente que eu precisei me apoiar em seus braços. Ele parecia não querer me soltar e quando o fez ainda me olhou alguns segundos antes de decretar: ─ Eu não quero falar mais sobre isso por que não quero dar força para o que eu sei ser uma bobeira, ok? Eu balancei lentamente a minha cabeça, concordando a contra gosto. Pelo pouco que eu entendi e o comportamento renitente do Gabriel eu pressentia que, talvez, fosse melhor permanecer na ignorância. Nós ainda visitamos algumas atrações históricas, apreciando as construções antigas, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON suas histórias, seus fantasmas... O quarteirão judeu que contava como viveu esse povo através dos séculos, e toda perseguição que eles sofreram pelas mãos da inquisição, fomos a catedral e terminamos nosso passeio com uma caminhada às Muralhas que permitiam a mais bela vista da cidade. Em nenhum momento eu deixei de pensar no que a velha dissera. A imaginação era sempre mais cruel que a realidade e eu tentava imaginar o que a senhora falou para o Gabriel não querer me dizer, por isso eu me obriguei a memorizar o máximo de palavras para consultar a Pilar ou o Fernando sobre o significado delas logo que eu voltasse à Barcelona. Ele ainda me levou ao tal restaurante que ele tinha dito e realmente era o máximo, só não era melhor do que estar com ele em qualquer lugar que fosse. Andamos mais um tanto após o almoço e voltamos ao hotel para tirar um cochilo (eu estava ficando boa nessa coisa de siesta, essa ia ser uma rotina que eu sentiria falta quando retornasse ao Brasil). Mais tarde jantamos no maravilhoso restaurante que havia no hotel PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mesmo. Ao voltarmos para o quarto o Gabriel me fez esquecer velhas ciganas, presságios e bumbuns de leoas. A única coisa que me angustiava era o fato de estar me tornando a cada dia mais dependente dele e precisava forçar a minha mente para que esquecer que o nosso tempo era pouco e nossas vidas totalmente incompatíveis, em pouco tempo um oceano nos separaria e de repente era isso que a senhora queria me alertar, eu levaria a lembrança desses dias comigo, mas não poderia retornar a eles. Eu esperava realmente que o “no va a tornar aquí” fosse figurado, eu estava amando a Espanha e gostaria de retornar tantas vezes fossem suficientes para me fartar desse lugar mágico. Mas o que eu realmente temia era que não pudesse voltar a viver o que estava vivendo agora. O Gabriel tinha toda uma vida estruturada na Europa e eu não largaria minha família, meu país, minha profissão por ninguém, por mais que eu gostasse dele. Sempre achei que esse era o tipo de sacrifício que você faria e se arrependeria PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON para sempre, culpando a pessoa por sua infelicidade e terminando com qualquer chance de felicidade. Voltamos no domingo à noite e ele passou a noite comigo, antes de nos recolhermos precisamos contar para meus pais “emprestados” como havia sido a viagem, e por isso ficamos sentados com a Pilar e o Fernando na sala de estar, em frente à acolhedora lareira, tomando uma deliciosa sangria e conversando durante algum tempo, Pilar ria da forma como eu fui emburrada para a viagem e dizia que pela minha cara, ela realmente se preocupou que eu perdesse as belezas da região fazendo “pirraça”. O Gabriel complementou, dizendo que uma coisa que ele já sabia sobre mim, é que eu era super teimosa, e não sei por que, mas me incomodou ver como eles me percebiam tão facilmente e eu devia estar vermelha de constrangimento, já que o Fernando mandou que parassem de me incomodar e dissesse que eu já podia ganhar o título de “Catalã Honorária” já que a principal característica de um catalão era exatamente a imensa teimosia. Nós todos rimos e ele se animou a contar uma história folclórica PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sobre isso. A Pilar levou as mãos à cabeça e exclamou: ─ Ya era! Ahoraelo irá hablar e nadielo para. Solo van a salir de aqui por lamañana! Uma historia lleva a la outra e cuando te dá cuenta, lanocheacabó.[4] Já que era assim, eu aproveitei para me aconchegar mais ao Gabriel, colocando meus pés sob meu corpo e me aninhando ao seu lado, enquanto o Fernando contava a história de um agricultor catalão que ia à Madri trabalhar fora da época de plantio e voltava para casa, saudoso e apressado, quando essa se aproximava, para cuidar das plantações de sua família. Jesus, o encontrando no caminho o pedira que reconhecesse o poder de Deus agradecendo pela volta à sua terra ao que o Catalão se negava veementemente, e Jesus o castigava o transformando em sapo, passavam anos e Jesus lhe dava outra chance e obtinha a mesma resposta e ele sofria o mesmo castigo, e assim foi durante anos a fio até que já no fim de sua vida Jesus faz pela última vez a pergunta ao catalão: ─ A donde vásCatalán?[5] E surpreendentemente o teimoso e ancião PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON viajante responde: ─ Voy a Cataluña, gracias a Dios.[6] E quando Jesus o ia parabenizar por ter aprendido a lição, ele soltou, convicto: ─ Y si Dios no quiere... sapo![7] Todos gargalharam e eu realmente podia me identificar com o personagem da história que meu amigo catalão me contou, eu era do tipo que me ferrava, mas não dava o braço a torcer, e mesmo que o Gabriel tenha acabado me convencendo a me divertir no passeio eu passei o tempo todo com a sensação ruim de estar perdendo uma batalha. Um gosto de derrota na boca que era absolutamente irracional, já que nós tivemos um ótimo tempo por lá. Bem, claro que sem contar com a história da velha praguejenta. É... Essa história era uma boa lição para mim, e se eu não fosse realmente tão orgulhosa e birrenta, a teria apreendido e levado para a minha vida. Infelizmente, naquela época eu tinha tudo menos a capacidade de reconhecer um erro e tentar aprender com ele. Quem sabe se eu fosse mais madura e racional eu não poderia ter mudado toda nossa história? No entanto, deixei PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que meu orgulho me levasse ainda mais perto da realização do desígnio da velha catalã. PERIGOSAS NACIONAISPERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 11 Mas e Se o Amor Chegar Para Nós... Segunda-feira pela manhã eu não queria deixar o Gabriel ir embora, tampouco ele queria ir, mas eu era a única que estava em período sabático, ele tinha que trabalhar e apesar de não falar nada, eu imaginava que a nossa viagem o tivesse deixado com trabalho acumulado por que apesar de ficar protelando para sair da minha cama pela manhã, disse que nós só poderíamos nos ver no dia seguinte, no curso. Mais uma vez eu queria reclamar, mas sabia que ia acabar o prejudicando. Porque eu sabia pela cara de quem estava indo para a forca que eu tivesse pedido, ele teria ficado. Na terça nosso reencontro foi explosivo, parecia que estávamos afastados há meses e não por pouco mais de vinte e quatro horas, eu me joguei em seus braços como uma personagem de algum filme brega, e ao fim da aula tivemos que nos separar novamente, e novamente o fizemos PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON com o coração na mão. Talvez tenha sido essa urgência em encontra- lo que me fez chegar mais cedo na quarta-feira. Eu estava ansiosa e desassossegada desde cedo, um aperto no meu peito que eu não conseguia identificar a causa, por isso saí antes do meu horário usual e fiquei aguardando a aula começar estudando, lendo algo que eu não conseguia assimilar, distraída demais quando ouvi uma voz feminina e estridente me chamar. ─ Adriana? Adriana Cavalcante? Eu me virei de encontro à voz e demorei alguns instantes a me lembrar de onde eu conhecia aquela garota de pose arrogante. E quando me dei conta de quem era quase não pude acreditar. Quais eram as chances de depois de tantos anos, estarmos juntos em uma escola eu, o Gabriel e a Heloísa? ─ Heloísa? ─ Sabia que você não tinha me esquecido! Nós fomos tão amigas no Ensino Médio, não era mesmo? Nunca mais te vi! Você também está matriculada nesse curso? Você também é arquiteta? Que coincidência! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Meu Deus! A menina parecia uma metralhadora, não me deixava sequer falar e eu fiquei lá, espantada como estava, sem saber o que fazer ou dizer até que o Gabriel chegou sorrindo e veio direto na minha direção, passando pela Heloísa como se ela fosse um fantasma e se abaixando para me beijar. ─ Bom dia, meu amor. Chegou cedo hoje, o que houve? Era impossível para eu resistir ao charme dele e eu sempre acabava me comportando como uma adolescente boba, me esquecendo até do nosso dispensável público. ─ Eu não aguentava de saudade, me deu um aperto aqui. Apertei minhas mãos contra meu peito e ele as segurou e as beijou nas palmas, uma de cada vez. ─ Eu também estava louco para chegar logo e poder te ver. Você está linda. Me derreti mais um pouco por ele, no entanto o nó no meu peito não se dissolveu, ao contrário, quando eu percebi que a Heloísa ainda estava ali, em pé nos olhando espantada o aperto aumentou e eu me dei conta que o fato dela PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON estudar conosco tinha um enorme risco para nós. Ela nos conhecia, sabia de coisas que o Gabriel não sabia sobre mim e que eu preferia que não soubesse por enquanto. Rezei que ela não soltasse nada enquanto eu apresentava o Gabriel para ela, torci que ela entendesse a sutileza do meu gesto, quando eu os “apresentei”. ─ Gabriel, essa é Heloísa, nós nos conhecemos do Rio, estudamos juntas e nunca mais a vi, uma grande coincidência ela estar nesse curso. Ele se virou e lhe estendeu a mão, a olhando com curiosidade, como se lembrasse de alguma coisa. Putz, eu estava encrencada! ─ Tudo bem? Eu te conheço de algum lugar? Seu rosto não é estranho para mim. Como ele estava de costas para mim eu sinalizei para ela que não falasse de mim, mas ela me ignorou ou não entendeu meus sinais. ─ Gabriel, nós fizemos a mesma faculdade, você estava um pouco adiantado, mas eu creio que nos esbarramos bastante por lá. Além do mais, vira e mexe nos encontramos em algum PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON curso. Se bem me lembro, uns quatro nos últimos anos. Respirei aliviada, a resposta dela não me entregava. O Gabriel por sua vez ficou sem graça com o fora que dera, e coçou a cabeça tentando se justificar. ─ Poxa me desculpa, eu não sou muito bom em reconhecer rostos, é mesmo tipo uma doença sabe? Vivo passando vergonha por isso. Não era mesmo, visto que também não tinha me reconhecido, o que mesmo que ele realmente nunca tivesse reparado em mim na escola era incrível que ele não havia notado a minha semelhança com a minha mãe depois de ter estudado com ela tanto tempo. Nós éramos tão parecidas que chegavam a me parar na rua para perguntar se era filha da professora Ruth, e o Gabriel sequer se deu conta disso. Pra minha sorte o professor tinha acabado de chegar e chamou o Gabriel, então eu pude ter um tempo a sós com a menina de novo. ─ Adriana é isso mesmo que eu entendi? Depois de tanto tempo você finalmente conseguiu laçar o Gabriel Ferraz? Determinada hein?! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Eu não gostei do jeito que ela falou aquilo nem de como me olhou como se eu fosse uma espertalhona que tivesse cercado o Gabriel e forçado uma situação. Me empertiguei e expliquei para ela, não dando margem à dúvidas sobre o meu caráter. ─ Foi tudo uma enorme coincidência, Heloísa. Eu nunca podia imaginar que encontraria outro brasileiro nesse curso, diga lá que encontraria o Gabriel... ou você. Nós nos encontramos no primeiro dia do curso, e estamos namorando. Inclusive pude ver que ele não é nada daquilo que você dizia, como você mesma já deve saber. Ela pareceu se desconcertar com a minha constatação e tentou arrumar o que disse antes. ─ Claro, Adriana quem poderia saber, não é mesmo? Na verdade, se formos levar em conta os diversos cursos, congressos e tudo o mais que nossa profissão envolve, é um milagre que tanto vocês não tenham se encontrado antes quanto que nós duas ficamos tanto tempo sem saber uma da outra! Ela parecia tão emocionada com nosso encontro que eu me fiz mais conciliadora, afinal PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON precisava da colaboração dela. ─ Sim, isso é verdade. Mas Heloísa eu quero te pedir um imenso favor. O Gabriel não faz ideia de que eu estudei na mesma escola que ele, que minha mãe foi sua professora, nada disso. – Precisei rir ─ Como você mesma viu, fisionomia não é o forte dele. Além do mais minha melhor amiga namora aquele amigo dele, lembra? Que vivia grudado nele naquela época? O Lucas? Então. E ele cismou que é meu irmão mais velho cria caso com todos os meus namorados como se fosse meu pai, eu não quero me meter na amizade deles sem ao menos ter certeza que o nosso lance é realmente sério. Então Heloisa, por favor, não fala nada sobre isso com ele, tá? Ela deu de ombros, voltando a ser a Heloísa de quem eu me lembrava, com cara de quem pouco se importava com tudo o que eu estava falando. ─ Tanto faz Adriana, isso é problema seu. O Gabriel já estava voltando quando eu me lembrei. ─ Ah sim, e não me chame de Adriana Cavalcante ok? Aqui todos me conhecem por Adriana Neumann. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Ela revirou os olhos e bufou. ─ Já disse Adriana: tanto faz! O Gabriel se sentou do meu lado e aula começou. Eu estava um pouco mais tranquila, parecia que a Heloísa não iria criar problema, mas eu não gostava do que eu estava fazendo, por mais inocente que fosse o Gabriel tinha todo o direito de ficar com raiva de mim quando descobrisse a verdade. Eu tinha que contar para ele, e o faria, mas só quando nós dois estivéssemos mais fortes. Era muito mais chata essa mentirada quando ele começava a falar e falar sobre o seu grande amigo Lucas e nossa! Ele realmente adorava o Lucas! Tá, tudo bem o Lucas também falava nele de vez em quando, mas eu conhecia o Lucas e ele amava todo mundo, e a partir do momento que você estava dentro do círculo de amizades dele, pronto! Você era “pessoa dele” e isso significava todo um pacote que incluía lealdade cega, proteção ferrenha e companheirismo a toda prova. Mesmo assim era bonito de vercomo o Gabriel se referia a ele, e eu percebia que isso era uma coisa deles, eles compartilhavam o mesmo PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON modo de ver as coisas, mas o que quase valia a pena o meu “faz-de-conta” era o que o Gabriel dizia que ouvia do Lucas sobre a noiva dele. A gente nunca sabe o que vai na cabeça dos outros. O Lucas parecia sim muito apaixonado e tudo, mas a certeza de que ele idolatrava a minha amiga eu só tive mesmo através do Gabriel em um dia em que eu estava com ele, deitada em seu colo, no sofá da sala enquanto ele falava com o Lucas. Eu me contorcia para não dar um furo, fingindo estar concentrada no filme que passava na televisão e comendo pipoca. ─ Ela está aqui comigo, Lucas. Sim, você precisa conhecê-la, ela é linda, parece um anjo. E é tão divertida, vocês se dariam bem. Ah, se o Lucas soubesse de quem ele estava falando com certeza iria rir. Para ele eu era mais para a capetinha que o infernizou durante um bom tempo, do que anjo, e nos dar bem? Agora até podia ser, mas demorou muito para isso acontecer! O Gabriel realmente me via muito diferente do que eu era na verdade. ─ Tá, pode deixar eu falo com ela... sim, eu sei... tá, dá um beijo na Lívia e diz que de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON repente a gente vai se conhecer mais rápido do que imaginava. Sim, sério, estou pensando em voltar para o Rio. Eu me fingi de morta, mas não posso negar que meu coração parou durante um segundo com aquela informação. O Gabriel estava pensando em voltar ao Rio? O que isso queria dizer para nós dois? Ele não disse nada sobre o caso e eu não puxei o assunto, mas confesso que naquele momento ele plantou uma sementinha de esperança dentro de mim. ─ Meu amigo Lucas te mandou um beijo e disse que espera te conhecer logo. ─ Sério? Mas por que ele quer me conhecer? ─ Ele disse que precisa conhecer a garota que colocou coleira em mim. Eu ri dele e tentei também não me afetar por isso, com certeza era brincadeira deles, era melhor eu não levar as coisas que ele dizia muito a sério. Em pouco tempo nós nos afastaríamos e eu não queria me dar além do limite e depois me ferir drasticamente, mas algo na forma com que ele me olhava me dizia que ele estava falando sério com relação a isso e eu escolhi desanuviar aquele clima pesado de confissão brincando com PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON aquilo. Coloquei uma pipoca na boca dele e disse dengosa, fazendo um charminho exagerado, bem debochada. ─ Eu? Eu não te coloquei coleira alguma Gabriel, eu nunca colocaria coleira em ninguém, eu amo a liberdade, a minha e a de quem está comigo. Ele riu, balançando a cabeça, fazendo pouco da minha ceninha. ─ E é exatamente isso que me prende a você. Você é livre, transparente e direta. Mas se o Lucas disse isso, deve estar certo, ele mesmo é um homem irremediavelmente encoleirado pela noiva e eu não posso negar que meu amigo nunca esteve melhor. ─ Essa noiva dele então deve ser uma bruxa tirana. ─ Acho que não, pelo que ele diz é uma menina muito doce e companheira, ele é louco por ela e ela parece corresponder a ele. ─ Que ótimo para o seu amigo, agora vamos deixar a conversa de lado e partir para a ação. Me levantei, procurando a sua boca e o atacando com tudo, terminando de vez com aquela conversa e rezando para que ele fosse PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON compreensivo quando descobrisse que eu sabia exatamente de quem ele falava. Com certeza descobriria que de transparente eu não tinha nada. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 12 Você é Mais do Que Sei, Mais Que Pensei Por mais que eu quisesse me manter lúcida e com o pé no chão, meu relacionamento com o Gabriel era um trem desgovernado! Ele era tão intenso e envolvente, sempre exigindo mais de mim, querendo minha companhia a todo o tempo. E quem disse que eu podia ou queria dizer não a ele? Pior, quem disse que eu queria? Eu estava embarcando naquela loucura, ainda que não fosse cem por cento honesta com ele, e ele fazia questão que eu conhecesse cada parte mínima da sua vida, sempre tão transparente e isso me desarmava com relação a ele. Como eu fui tola ao achar que esse homem tão cheio de qualidades podia ser um riquinho mimado, me sentia mal quando me lembrava disso e aproveitei para questionar a Heloísa sobre o porquê dela ter dito aquelas coisas do Gabriel. Ela me disse que nem se lembrava do que tinha dito e parecia tão alheia ao problemão que criou PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que eu acreditei. Aquela menina era estranha antes e ainda continuava tanto quanto, era autocentrada e fútil, com certeza não pensava para falar, não devia ter feito por mal... Quanto mais tempo eu passava com o Gabriel mais eu percebia que ela não o conhecia, porque se conhecesse não falaria tanta asneira sobre ele, não havia homem mais gentil, atencioso e correto que ele. Sim, eu estava encantada, se antes era uma paixonite de criança movida pela beleza que os anos só aumentou, agora era mais, era admiração no seu estado mais puro. Eu admirava tudo naquele homem: sua humildade, seu caráter, seu profissionalismo, sua inteligência, sua entrega a tudo que ele fazia, sem medidas, sem desculpas. E amava a forma como ele agia comigo, como se eu fosse preciosa, e não só por causa da minha beleza, o Gabriel parecia ver uma Adriana que eu mesma não conhecia, e me fazia querer ser aquela Adriana para ele. Era isso... O Gabriel me fazia querer ser melhor. Outra coisa que eu aprendi sobre ele e que só fez aumentar o meu apreço foi perceber que apesar de ter nascido rico pra caramba o Gabriel PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON estava longe de ser uma pessoa cheia de mimos e vontades satisfeitas. Na verdade, ele sequer tinha um bom relacionamento com a mãe como eu pude comprovar quando no dia que nós saímos da aula e resolvemos tomar um café ali perto da Escola Politécnica mesmo. A Heloísa veio atrás da gente, ávida com uma revista na mão, mostrando ao Gabriel uma foto, que ele viu e fez cara de pouco caso, deixando a Heloísa visivelmente chateada. Eu peguei a revista da mão dela e vi uma foto de duas mulheres lindas e elegantíssimas em uma festa, na legenda dizia que eram Maria Olívia e Júlia Ferraz e que estavam em uma festa em um Iate na Côte d’Azur, devolvi a revista para a dona, que parecia uma fã com a mais nova de fofocas sobre seu ídolo, e perguntei ao meu namorado. ─ São da sua família Gabriel? Ele me respondeu com um sorriso tímido e meio sem graça. Me apontando cada uma delas: ─ Minha mãe e minha irmã. Eu já imaginava a resposta e não me surpreendi, só serviu para que eu constatasse de onde veio aquele porte de rei que ele tinha, ainda PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que não usasse, e a beleza também. As duas pareciam modelos, mesmo a mais velha não ficava devendo a nenhuma gatinha por aí, sem dúvida esses genes por si só já eram uma herança e tanto. Eu só não compreendia o comportamento indiferente do Gabriel, até mesmo porque isso era uma coisa tão diferente do jeito dele ser normalmente, então eu sondei, falando animada. ─ Isso quer dizer que você vai ter visitas em breve? Ele me olhou como se eu tivesse dito que todas as pessoas criariam asas em minutos. ─ Não mesmo Adriana, não existe a mínima chance que as duas apareçam por aqui. Graças a Deus! ─ Mas elas estão aqui pertinho Gabriel, e quanto tempo você não vai ao Brasil? Elas devem estar morrendo de saudades de você! Ele deu uma gargalhada que nada tinha de engraçado. Era cínica e arranhava, não parecia com algo que o Gabriel fizesse normalmente. ─ O quê? Elas com saudades? De mim? Não minha linda, elas nem estão se dando conta de que estão perto de onde eu vivo. Pode ter certeza que elas não gastariam suas vassouras voando até PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON aqui, mesmo sendo realmente muito perto. Eu me espantei, ainda que tenha achado muito engraçado. Nada daquilo parecia com o meu namorado sempre tão educado, mesmo assim não consegui segurar o riso. ─ Gabriel eu não acreditoque você acabou de chamar sua mãe e sua irmã de bruxas! ─ Desculpa. Nenhuma bruxa merece ser comparada aquelas duas. A Heloísa que não tinha ido embora, muito pelo contrário, por conta própria pegou uma cadeira e ficou ali na nossa mesa escutando a conversa, não parecia ter achado a mesma graça que eu e tinha o cenho fechado como se o Gabriel tivesse ofendido alguém da família dela e não da dele próprio. ─ Também não acredito! Eu sempre admirei muito a Júlia Ferraz, Gabriel. Não acredito que você sendo irmão dela não reconheça o valor que ela tem! O Gabriel continuou a zombaria, sem se afetar pela defesa apaixonada da fã da irmã dele. ─ Justamente por ser irmão dela e ter sido criado junto com essa cobrinha que eu sei bem o que ela vale, Heloísa. Não se engane, nem tudo PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que reluz é ouro e minha querida maninha realmente pode brilhar, mas por dentro é tão oca quanto um santo barroco. A Heloísa era realmente uma figura! Ela se ofendeu tanto pela observação do Gabriel sobre sua própria família que se despediu e foi embora. Ainda bem, eu gostaria de conversar com o Gabriel sobre o que ele dissera e não queria público. ─ O que acontece com vocês Gabriel? Por que você acha que sua mãe não viria aqui para te ver? Eu não acredito nisso, mãe é mãe, a minha mesmo vive pegando no pé da minha irmãzinha, mas eu não tenho dúvidas que ela nunca deixaria de ir onde ela estivesse, nem que fosse para torrar a paciência dela. Mãe é assim mesmo... Ele me olhou com se pedisse desculpa por algo. ─ Sim, eu acho que esse é comportamento de mães normais, ou pelo menos de mães normais e amorosas, mas esse não é exatamente o caso da Maria Olívia, Adriana. Ela é muito mais fria do que isso. Você pode ter certeza que ela nem se lembra de mim na maioria dos dias, ainda mais que ela já tem os dois filhos perfeitos ao lado PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON dela. Realmente lembrar de mim e de como ela falhou terrivelmente na minha criação, permitindo que eu me tornasse uma pessoa que pensa e age de acordo com suas próprias convicções, para ela seria trágico, a obrigaria a se chatear e isso faria com que ela enrugasse a testa, criando alguma linha de expressão ou pior ainda daria início a uma de suas terríveis crises de enxaqueca que sempre acometem ela quando se vê obrigada a pensar em algo que a desagrade. ─ Nossa, Gabriel! Me desculpa, é sua mãe, mas a pessoa que você está descrevendo não me dá vontade nenhuma de conhecer! Eu ainda não posso acreditar que ela seja realmente assim, não mesmo. Como uma pessoa fútil como você disse que ela é, pode ter te dado à luz e criado? Tudo o que você disse é o extremo oposto a você. ─ Exato e esse é justamente o nosso maior problema, nós não poderíamos ser mais diferentes e ela não tem nenhum respeito por isso, porque para ela só tem um jeito correto de ser: o dela. ─ Como assim? No que exatamente você a frustrou? ─ Basicamente em tudo: ela queria que eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON estudasse Administração de Empresas para dividir com o meu irmão o controle dos negócios da família. Ela queria que eu fosse mais manso e controlável como meus irmãos e se eu a deixasse com certeza já teria arrumado um casamento com uma das filhas insuportáveis das amigas dela. A última parte me chocou e irritou. Com certeza eu estava longe de ser a nora ideal para ela então. A simples arquiteta vinda de uma família de classe média e empregada em um escritório, mesmo sendo um dos maiores do Brasil, ainda assim eu não deixava de ser uma mera assalariada. E quanto ao resto era tão incompreensível para mim que a mãe dele se apegasse a coisas tão insignificantes perto do orgulho que ela deveria ter de tudo o que ele tinha conquistado. ─ Mas Gabriel você é um arquiteto de renome aqui na Europa, você é uma pessoa feliz e realizada, é honesto, íntegro, o que mais uma mãe poderia querer para o filho? Ele deu de ombros, tinha parado de se proteger do cinismo e agora exalava uma tristeza que eu conhecia bem. Ele tinha a mesma PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON expressão que a Paulinha quando falava da mamãe. O que dava nessas mulheres que não entendiam a sua importância perante os filhos? ─ Uma vez eu fiz uma pergunta parecida com essa para ela e sabe qual foi a sua resposta? Que não importava que eu fosse feliz, eu não tinha realizado nenhum dos planos que ela tinha traçado para a minha vida. Eu já tentei entender de todas as formas o comportamento da minha mãe, Adriana, mas a verdade só está contida nessa frase. Não acho nem que seja pessoal contra mim, na verdade ela é tão egocêntrica que não me reconhece como um ser autônomo, eu sou somente um apêndice dela que se perdeu por não seguir seus desejos. Fiquei com pena dele e mais uma vez o comparei com a Paulinha, como duas mães tão desajeitadas podiam ter dois filhos tão maravilhosos e não perceber? E como duas pessoas tão bondosas podiam ter tido uma infância tão carente de cuidados maternos? A Paulinha tinha a mim, ao meu pai, à Lívia e agora até o Lucas que a tratava como a mim, como se fosse sua cunhada ou irmã mais nova. Desejei que o Gabriel também tivesse tido PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON alguém com que ele pudesse contar e que desse o amor que ele merecia. ─ E o seu pai? Ele também é como ela? Nem precisava resposta, a forma como seu rosto se iluminou a simples menção dele já deixou claro que o pai devia ser o contrário da esposa. ─ Não mesmo! Meu pai é uma pessoa incrível, muito simples, foi criado na fazenda dos meus avós, um lugar lindo que um dia eu faço questão de te levar, e ensinado por eles que não havia nenhuma diferença entre ele e qualquer outra pessoa, incluindo, claro, os empregados da Fazenda. Olhando para ele hoje, de terno e todo elegante você não diz, mas meu pai já limpou muito estábulo e remexeu em esterco e eu mesmo já fiz alguma coisa lá na Fazenda, confesso que por mais que tentasse nunca levei muito jeito, mas nem por isso deixei de tentar e tanto meu pai quanto eu, temos muitos amigos lá. ─ Então está explicado: você puxou a beleza da sua mãe e o caráter do seu pai, é isso? Ele riu. ─ O coroa é bonitão. Mas você está certa, eu pareço mais com minha mãe e meu irmão é meu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON inverso, é a cara do nosso pai, mas é ainda pior do que minha mãe, porque se ela é fútil e egocêntrica, ele é só mau caráter mesmo, sempre querendo levar vantagem e competindo comigo por coisas que eu nem quero. Aliás, competindo comigo por tudo, desde que eu nasci. ─ Gabriel, que coisa horrível viver assim, eu e minha irmã nos damos tão bem que só de pensar nela, meu peito aperta de saudades. Isso sem falar que eu tenho muito amor tanto da minha mãe quanto do meu pai. Não consigo imaginar como era para você, só tendo o seu pai para te ajudar. ─ Meu pai, minha avó e a Eugênia, minha babá e quem me criou de verdade. No fundo minha mãe não fez muita falta mesmo, e meus irmãos eram mais velhos, então a gente não tinha muito em comum. ─ Mesmo assim. Eu sou bem mais velha que minha irmã, mas não abro mão da companhia dela, de jeito nenhum. Ela é meu xodozinho. Ele me lançou um olhar tão carinhoso, tocou meu rosto e me deu beijo suave, puxando levemente meu lábio inferior, antes de falar. ─ Mas você é um anjo. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Não sou Gabriel, sou só uma garota normal. Uma garota normal que ama sua família. Acabei com aquele assunto baixo astral, não conseguia mais ver o Gabriel tão triste. E acho que foi a única vez que eu o vi assim tão vulnerável. Normalmente o Gabriel era uma fonte de energia ambulante, sempre muito animado, agitado, o que casava perfeitamente com a minha personalidade. Era o companheiro perfeito para as minhas aventuras e como tínhamos segunda- feira como dia livre, ele sempre marcava seus trabalhos para os outros dias e assim ganhávamos um dia nos nossos fins de semana para fazermos pequenas viagens... Escalamos os Pireneus, fomos ao sul da França, acampamos em umlugar mágico na fronteira entre os dois países, ele me levou por aldeias medievais, construções moderníssimas e museus espetaculares. Eu tinha fome de conhecimento e ele era o tutor perfeito. Até mesmo no seu dia-a-dia ele me incluía e eu achava isso incrível. Eu estava louca de saudade dos meus projetos, meus materiais e minha cabeça PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON fervilhava de ideias. Detestava ficar tanto tempo sem trabalhar assim, então um dia nós estávamos em sua casa quando ele me disse que precisava trabalhar um pouco, eu me esforcei o máximo que consegui para não me meter no trabalho dele... Até me aconcheguei no sofá do seu escritório, ficando assim bem longe de sua prancheta, mas Gabriel sendo Gabriel, logo percebeu minha inquietação. ─ Ei, Adriana... vem cá! Eu sei que você está louca para colocar a mão na massa e eu realmente estou com algumas dúvidas aqui. Quem sabe você não poderia me ajudar? Precisava de ajuda nada! Cara de pau! Mas essa era a deixa que eu estava esperando ansiosa. Me levantei puxando uma banqueta e ficamos durante horas discutindo o projeto da casa de um empresário local. O Gabriel era incrível e na obra em si eu não podia mudar nada, estava tudo absolutamente perfeito. O que não me impediu de dar inúmeras ideias para o paisagismo, além de ajudá-lo com umas questões relativas ao uso de tecnologias sustentáveis na construção. Enquanto eu fazia meus esboços ele me PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON olhava atentamente, me desconcentrando com a intensidade com que ele fazia isso. Depois de um tempo ele ordenou uma pausa e me levou de volta ao sofá, desta vez aninhada a ele e com uma taça de vinho nas mãos. ─ Eu achava que gostava da minha profissão, mas devo confessar que você é a pessoa mais apaixonada por arquitetura que eu já vi, Adriana. Eu sempre gostei de desenhar e criar, mas acredito só fui me interessar por arquitetura por ser algo totalmente contrário aos negócios da minha família, que eu nunca quis fazer parte. Mas esses olhos azuis ganham vida quando você está falando ou fazendo algo relativo ao trabalho e isso é incrível. Eu posso apostar que tem uma história por trás desse amor todo, então me diz... por que você se encantou por prédios, construções e tudo isso? ─ Tem sim, mas eu não vou contar porque você vai rir de mim Gabriel, é uma história muito boba e eu nunca falei sobre isso com ninguém! ─ Mais um motivo para falar comigo, quem mais poderia entender você do que alguém que compartilhe a sua paixão? Além do mais eu não acredito que seja boba, eu aposto que é uma PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON história linda e divertida, como você. ─ Ok, mas não ri hein? Ele fez o sinal de juramento, mas eu sabia que ele riria por que era realmente uma história tola e ridícula. Mesmo assim eu quis partilhá-la com ele. Com tanta coisa a esconder eu me sentia bem por mostrar a ele nuances da minha alma que mais ninguém conhecia. De certa forma me parecia uma espécie de compensação. ─ Bom... Sempre, desde a minha primeira lembrança eu era encantada pelas cores e pelas formas, quer dizer, eu acho que toda criança é encantada por essas coisas em algum nível, mas eu extrapolava todos eles. Adorava como esses elementos se uniam e faziam coisas, certas cores “namoravam” e outras, meus desenhos sempre eram os mais belos da classe e eu cheguei mesmo a ganhar alguns concursos escolares por isso. Então... nessa época, e eu era bem pequena com toda certeza, toda vez que passávamos pela Ponte Rio - Niterói, eu via um castelo verde água flutuando nas águas da baía da Guanabara, que é claro que eu não sabia que tinha esse nome, mas enfim, eu via um castelo encantado da minha cor predileta em todo o mundo bem no meio do PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mar... Eu olhei para o Gabriel, para me certificar que ele não estava rindo disso tudo, mas ele permanecia atento a tudo que eu falava, então continuei... ─ Você imagina o quanto isso era mágico para uma menininha de quatro, cinco anos, até maiorzinha..., mas uma garotinha que sonha com príncipes encantados e tudo mais? Eu simplesmente achava que aquele era um castelo mágico, só meu. Depois que eu cresci um pouco achava que era fruto da minha imaginação e nunca disse para ninguém que eu via um castelo flutuando na água, iam me chamar de louca. E eu nem briguei com o Gabriel por ele estar rindo, por que não era escárnio e sim o tipo de sorriso “que coisa mais engraçadinha”... ─ Adriana, você achava que o Palácio da Ilha Fiscal era uma ilusão? Eu me senti tão estúpida ao assumir isso! Eu nunca tive coragem de falar sobre isso com ninguém, essa história com certeza fazia de mim uma criança esquisita! Mas mesmo constrangida eu confirmei o que eu disse, fazendo careta de mim mesma, enquanto explicava de novo. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Primeiro eu achei que era mágico e depois que era alucinação... até que eu estudei sobre o Último Baile do Império e no livro tinha uma foto do Palácio, o meu Palácio, o meu Castelo Encantado, imagina como eu me senti? Era um misto de alívio de não ser tão louca a ponto de ver coisas e uma decepção tão grande pelo meu Castelo não ser mágico, ou especial e muito menos meu ... ─ Isso é tão a sua cara... não tem porque ficar sem graça. Então daí vem a sua paixão pelo colorido vivo das obras de Gaudí? ─ Sim, acho que sim e quando eu cresci e vi que pessoas criavam aqueles castelos, e que eu também podia criar os meus, ainda que modernos, mas mesmo assim lugares onde as pessoas iriam criar suas vidas e suas histórias, eu achei que isso seria mágico também. ─ E segundo a sua interpretação você seria uma fada madrinha? E eu seria um mago? ─ Não sei se eu gosto muito da ideia não... Descartei minha taça de vinho na mesinha lateral e subi em seu colo, passando meus braços em volta do seu pescoço e me colando ao seu corpo quente. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Não Gabriel, na minha história o único personagem que cabe a você é de príncipe encantado, meu príncipe! Ele puxou minha blusa fora de mim, e começou a brincar com meus seios, sem parar de falar. ─ Você não precisa ficar sem graça em se abrir comigo Adriana. São essas coisas que me encantam em você: é toda fodona, cheia de atitude, independente e de repente me mostra esse outro lado tão romântico e sonhador. Falando nisso, eu aceito o cargo de seu príncipe, com prazer, aliás... com muito prazer. Eu corei com essa observação, o Gabriel devia estar me achando uma criança idiota depois dessa conversa toda! Eu e minha boca grande e sem filtro! Com certeza ele acharia que eu sou do tipo desesperada para casar e fugiria de mim como um louco! Mas dele não parecer muito assustado não. Pelo contrário... se a medida fosse a forma como ele parecia animado, eu diria até mesmo que ele tinha realmente se interessado pelo cargo. Queria acreditar que o Gabriel estava gostando da ideia de ser meu porque eu já sabia que era totalmente dele. O PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Gabriel não era só o meu príncipe encantado. O Gabriel era o meu Palácio da Ilha Fiscal. Tudo o que eu sonhei em uma única pessoa, bom demais para ser verdade e como quando eu era criança estava vivendo isso sozinha, isolada por medo de ser bom demais para ser real, achando que meu sonho viraria fumaça se mais alguém soubesse dele. O pior de tudo era saber que se isso me acontecesse eu não poderia simplesmente planejar outro "palácio". Os sonhos que eu estava construindo tiveram suas bases fincadas em nuvens e no fim acabariam caindo em cima de mim e me destruindo... Porque eu nunca mais seria a mesma depois do Gabriel. Nenhum homem teria o mesmo gosto, a mesma força, nenhum me faria sentir tão bem como eu me sentia em seus braços, mesmo tendo ideia disso e ainda ouvindo a voz que me dizia para não ir com tudo, eu já não podia mais fazer nada. Eu estava irremediavelmente apaixonada pelo Gabriel Ferraz, e a certeza disso me pegou com tanta força que eu precisava externar o que eu sentia. E fizisso olhando dentro de seus olhos intensos, no momento em que meu homem PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON maravilhoso cravava suas mãos fortes em minha bunda e levantava meu quadril, me encaixando nele. Minha confissão saiu como um suplício. ─ Gabriel, eu acho que estou me apaixonando por você. Ele parou e olhou no fundo dos meus olhos, me fitando com seus olhos quase negros, estreitos, focados de uma forma tão profunda em mim que eu tinha certeza que ele podia ver minha alma através deles. Por um instante eu tive medo de ter estragado tudo, mas logo em seguida, seus lindos olhos brilharam como nunca, ainda que escurecidos pelo tesão e ele me beijou com tanto furor que eu sabia: o Gabriel também me amava! Quando nossos lábios se separaram, meu amor colou sua testa na minha, daquele jeito só seu, ao mesmo tempo em que se movia cadenciadamente embaixo de mim, segurando meu quadril de forma a comandar meus movimentos em um ritmo perfeito de encontro a ele, me tirando o juízo e disse quase sem fôlego. ─ Ainda bem Adriana! Porque eu já tenho certeza que te amo! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Eu sorri vitoriosa, mas nem tive tempo de raciocinar sobre o que isso implicava. Gabriel se transformou depois disso, seu desejo o tornando voraz, suas mãos cravando em meu quadril com força, me baixando na sua direção ao mesmo tempo em que ele também arremetia de encontro a mim e abocanhava meu seio... Nossos corpos em total comunhão produzindo baques surdos ao se encontrarem, a sensação mais incrível do mundo de que eu tinha encontrado o meu lugar, e esse lugar era o corpo do Gabriel! O nosso ápice chegou como um grande terremoto, rompendo nossas barreiras e nos imprimindo indelevelmente na pele um do outro. ─ Adriana eu te amo tanto! ─ Eu também Gabriel, eu também te amo tanto! Ficamos lá, embolados no sofá, saboreando a compreensão do nosso amor. Nunca a vida tinha sido tão linda quanto foi naqueles dias e em muito pouco tempo eu descobriria que nunca mais ela seria... PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 13 Só Me Deixe Quando o Lado Bom For Menor do Que o Ruim E então tudo era encanto, magia, felicidade... Hoje, ao fechar meus olhos e me recordar dessa época chego mesmo a ver aquela leve bruma envolvendo as minhas memórias, era tudo tão lindo e idílico. Eu sabia que aquele era o ápice da minha vida, e tanto me maravilhava com aquela felicidade toda, quanto me apavorava o medo de acordar cedo demais do meu sonho. Mesmo assim às vezes aquilo tudo me irritava, eu sempre fui livre e de repente tinha que dar satisfação de onde ia, do que eu sentia, do que estava pensando. Não que o Gabriel fizesse isso por mal ou para me controlar, mas ele queria saber tudo de mim, me virar do avesso, decifrar cada aspecto da minha vida e eu não estava pronta para isso. Eu queria preservar a minha privacidade a todo custo. Ele chegou a me convidar para trabalhar como freelance em seu escritório enquanto eu estivesse na Espanha, e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON apesar de reconhecer que seria ótimo profissionalmente, recusei imediatamente. Eu necessitava daquelas horas longe do Gabriel e de tudo o que ele fazia comigo, um tempo que fosse só meu, ainda que meu peito ardesse com a sua falta eu sabia que isso era necessário para conseguir manter minha individualidade. Me atormentava não conseguir compreender se a origem do meu medo vinha da intensidade dos nossos sentimentos ou do fato de que eu estava rapidamente me transformando em uma Adriana que eu não conhecia, insegura, dependente do afeto dele, da sua aprovação constante, até mesmo me tornei uma pessoa ciumenta como nunca imaginei ser. Aliás, éramos os dois verdadeiros monstros de ciúmes, ele não perdia a oportunidade de reafirmar sua posse sobre mim, implicando com todo e qualquer pobre coitado que ousasse olhar em minha direção, cismou até com o nosso professor, que segundo ele me dava atenção demais. Foi ele, justamente, o pivô da nossa primeira (e única) briga para valer. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Estávamos jantando em um restaurante perto do apartamento dele quando Miguel, o professor do nosso curso entrou e, tão logo me viu veio em nossa direção, cumprimentou meu namorado e concentrou toda a sua atenção em mim, me questionando sobre um tópico da aula anterior e ignorando a presença do meu aborrecido acompanhante e por mais que eu tentasse cortar sua conversa ele parecia muito animado para se dar conta que atrapalhava o nosso jantar. O Gabriel não se fez de rogado e deu uma pigarreada alta chamando a atenção do Miguel, que constrangido, pediu licença e sumiu restaurante adentro. Quando olhei para o Gabriel ele parecia prestes a explodir de raiva. ─ Esse Miguel é um folgado. ─ Ah Gabriel, não pira, tá? ─ Você adora não é? Respirei fundo para controlar o meu próprio gênio, mas não estava gostando nem um pouco do rumo que estava tomando esse incidente bobo. ─ Eu adoro o que exatamente, Gabriel? ─ Ser o centro das atenções, fazer esses joguinhos. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON E gesticulou como se houvesse algum tabuleiro invisível à nossa frente. ─ Gabriel, pensa bem antes de falar mais alguma coisa. Eu estava dando atenção para o nosso professor, eu não tenho culpa se ele não tem noção, você queria que eu fosse grossa com o coitado? Por quê? Em nenhum momento ele foi desrespeitoso comigo ou com você. Eu não vou ser grossa com alguém só por que você se sentiu preterido. Falei baixo e entredentes, fuzilando o Gabriel com meu olhar de raiva. ─ Você não se sentiu desrespeitada, mas eu sim! Desde o primeiro dia do curso que esse cara baba em você, e mesmo sabendo que nós estamos juntos vem aqui e fala com você como se eu não estivesse aqui, você acha isso muito respeitoso? ─ Ele chegou te cumprimentando e depois se dirigiu a mim e começou a falar de um assunto pelo qual EU me mostrei interessada, o que ele tem por mim é admiração pela minha inteligência. Então deixa de ser um babaca, menino mimado que está acostumado a ter todos os holofotes no grande Gabriel Ferraz, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON amorzinho de todos, inclusive com várias professoras suspirando: “Aí que bom menino é esse Gabriel! Que aluno maravilhoso! Nem meus filhos são tão bons quanto o Gabriel! ” E fica feliz por mim ou pelo menos engole esse ciúme bobo! Agora Gabriel por mim sinceramente já deu por hoje, tchau, fica com Deus! Me levantei, furiosa e fiz que ia sair, mas a mão firme do Gabriel acorrentou meu braço antes que eu me afastasse. ─ Adriana, para de show e senta aí para a gente conversar, se depois você quiser ir para a sua casa eu mesmo te levo. Você não vai sair pela rua a essa hora e sozinha. Ele estava tão furioso quanto eu e logo percebi que a pior coisa a ser feita era ficar ali. Eu me conhecia muito bem, sabia que aí sim ele teria motivos para chamar de show o que eu faria. Soltei meu punho do seu aperto e balancei minha cabeça, negando tudo o que ele sugeriu. ─ Show? Vai por mim, Gabriel, você ainda não me viu dando um show. Olha, se eu ficar vai ser pior, minha cabeça está quente e a sua também e nós dois vamos falar merda e depois não poderemos voltar atrás. É melhor que eu vá PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON agora, depois a gente se fala. Passei pelo salão do restaurante como uma bala e com a cabeça baixa, se o idiota do professor se colocasse na minha frente eu acabaria sendo tão grossa quanto o Gabriel queria mais cedo e perderia a minha razão. Nem bem cruzei a porta da frente e já senti a presença do Gabriel do meu lado. ─ Acho melhor você voltar e terminar o seu jantar. Sério, Gabriel! ─ Adriana, por favor, vamos conversar. Pelo seu tom de voz eu diria que ele estava mais calmo. Eu, por outro lado, estava fervendo de raiva da irracionalidade e a possessividade do Gabriel. ─ Gabriel, por favor, amanhã você me liga, por favor, me dá esse tempo. Eu preciso pensar em paz. Entrei no primeiro táxie deixei-o lá, plantado, olhando o carro se distanciar, até que virássemos a esquina. Não queria falar com a Pilar sobre a briga com o Gabriel, na verdade eu não queria uma cópia, queria minha mãe de verdade, o colo dela pra ser mais exata, por isso passei pela recepção PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON da Pousada com todo cuidado para fugir dela. Infelizmente não dei a mesma sorte com seu marido e tão logo subi a escada, dei de cara com o Fernando me olhando sério, me lembrando tanto do meu próprio pai que eu não resisti e derramei as lágrimas que eu estava segurando desde que deixei o Gabriel. ─ ¿Quépasó contigo, señorita? ─ Nada Fernando, echo de menos mi casa, és solo eso. ─ Señorita... El diabro sabe más por viejo que por diablo. Quéés que hiciste, Gabriel? Se tu necessitas, yoresuelvo com él. ─ Gracias, mi amigo, pero no és necessário. Fue solamente una pelea de enamorados. ─ Tu eres la que sabe, querida. Pero si necesitas me llama. ─ Yolosé y estou agradecida. Buenas noches, Fernando. Entrei em meu quarto, fechei a porta atrás de mim e caí em minha cama, chorando como a boba que eu era. Quando consegui parar de chorar a sensação de falta da minha casa falou mais alto e eu liguei para lá. Minha mãe atendeu na hora, toda PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON empolgada. ─ Oi mãe. ─ Oi meu amor! Finalmente eu consigo falar com você. Como estão as coisas por aí, Nana? Como era de se esperar minhas lágrimas voltaram com força total logo que ouvi a voz da minha mãe, que por sua vez entrou em desespero quando percebeu meu choro. ─ Você está chorando? O que houve, minha filha? Eu ainda tentei disfarçar e mudar o rumo da nossa conversa. ─ Nada não, mãe. Só estou com muita saudade de vocês. ─ Mentira, Adriana! Eu te conheço muito bem, você não choraria só por causa disso. O que foi? Alguém te magoou? É algum namoradinho que você arrumou aí? Suspirei fundo. Muito bem, Adriana! Como se não conhecesse sua própria mãe, é claro que ela, lá do outro lado do oceano conseguiria descobrir a origem do meu mal só pelo tom da minha voz. ─ Você realmente me conhece bem demais, eu estou saindo com um carinha aqui e nós PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON tivemos uma briga boba, não se preocupe, é que eu estou muito emotiva aqui sem vocês ou a Lívia. ─ E desde quando uma briga boba com um “carinha” te deixa assim, filha? Emotiva ou não, você não é assim. Tem mais coisa aí. Ou não foi uma briga tão boba, ou ele é mais do que alguém com quem você está saindo. ─ Acho que é isso, ele realmente não é como qualquer outro cara com que eu me relacionei. Ele é muito especial. Eu não estou sabendo como lidar com meus sentimentos por ele, é tudo muito novo para mim, muito forte. ─ Estou vendo... não quero ser chata, filha, mas eu não consigo achar especial alguém que te faz chorar à toa assim. Adriana, vale a pena ficar assim por alguém que você acabou de conhecer? ─ Vale mamãe. O pior é que vale. Para falar a verdade essa é a primeira vez em que eu realmente encontrei alguém que vale a pena qualquer coisa. ─ Mesmo perder a sua essência? Deixar de ser a Nana alegre e desencanada que a gente ama tudo? Eu não gosto de te ver triste dessa forma, e não consigo imaginar ninguém que valha isso. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Não é assim, mamãe. Nós realmente tivemos uma briga boba por ciúmes. ─ Bom, espero que não tenha sido mesmo. De qualquer forma, não é a melhor primeira impressão que eu poderia ter dele não é mesmo? Ouvir minha mãe falar assim, me fez ver o quanto eu estava sendo irracional e exagerada. Envolvê-la nessa bagunça foi a pior ideia que eu poderia ter tido. ─ Não mamãe, realmente não foi a melhor primeira impressão que você poderia ter tido dele, e a culpa é minha em te falar dele logo quando estamos brigados. Eu te garanto que você o adoraria, mais que isso, aposto o que você quiser que ele é realmente o genro que você pediu a Deus. Quando pronunciei essa frase é que me dei conta das bobagens que eu disse para o Gabriel sobre ele ser o preferido das professoras. Que merda! De todas as coisas imbecis que eu poderia ter dito essa estava num nível bem elevado. Que desculpas eu daria a ele para falar uma coisa tão nem nexo? Com sorte ele esqueceria disso, ou acharia que era coisa de mulher doida, que fala o que vem na cabeça na PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON hora da briga. Me despedi da minha mãe com o peito mais apertado do que antes. Como eu podia cobrar alguma coisa do Gabriel quando eu mentia para ele sobre coisas tão bobas? Como eu podia reclamar do que fosse quando ele se dava tanto no nosso relacionamento e eu só jogava migalhas para ele? ─ A verdade é que nós dois fizemos besteira, e só de falar com você eu me lembrei que eu fiz uma muito maior do que o ciúme bobo dele. Deixa pra lá, mamãe. Não se preocupe comigo, só de conversar um pouco com você eu percebi que estava uma tempestade em copo d’água. Me deu até um soninho, vou dormir um pouquinho e descansar, amanhã com certeza isso tudo já vai ter passado. ─ Fica com Deus, meu amor, mas não se rebaixe para ninguém viu? Eu te criei para que soubesse exatamente o seu valor, não faça menos que isso. Minha mãe e toda a sua teoria que não resistia e um beijo do meu pai. ─ Sim, mamãe, eu sei, eu sei... pode deixar, fica tranquila, te amo. Manda beijo pro pai e pra PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Paulinha. ─ Mando sim, pode deixar, fica bem querida e se cuide. Desliguei o telefone e fiquei vários minutos ali, deitada, com meus olhos fechados, a cabeça a mil, pensando no que eu tinha dito e em como o Gabriel entenderia aquilo, se é que ele entenderia alguma coisa, em que eu me afundava mais fundo nessa mentirada a cada dia e em como eu ia fazer para sair do poço que eu mesma tinha cavado. Fui tomar um banho para me livrar da tensão e na volta tomei coragem e conferi as ligações perdidas e mensagens do telefone. Adriana me liga pra dizer que chegou bem. Adriana para de bobeira, eu sei que me excedi, liga pra mim. Amor, me liga por favor, estou preocupado. Se vc não me ligar eu vou até aí. Adriana, vem aqui embaixo porque o Fernando se recusa a me deixar subir e eu não saio daqui sem te ver. Coloquei uma legging sobre meu short de dormir e desci correndo as escadas, tendo que me controlar para não rir da cena à minha frente: um PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Gabriel muito irritado, com a mão nos bolsos da calça e atitude desafiadora para o Fernando, que tinha se plantado em frente à escada de forma a impedi-lo de subir ao segundo andar. A Pilar, do lado do Gabriel, conversava com ele, que somente negava com a cabeça, rechaçando o que ela dizia. Cheguei ao patamar do térreo e falei para o meu guarda costas que estava tudo bem, eu iria conversar com o Gabriel. ─ Adriana, estás segura que quieres hablar com él?. ─ Si, Fernando. Y además, pobrecito, la culpa no és de él, la culpa también fue mia. Com um grunhido ele retirou seu corpo do caminho do Gabriel lhe permitido a passagem, mas ao mesmo tempo o avisando quando ele passou por ele. ─ Mujeres! Subo, muchacho, pero sepa que yoestoy de ojo em esse joven. O Gabriel me puxou pelas mãos até que estávamos dentro do meu quarto ─ Está mais calma? Passei bufando por ele, cruzei meus braços enquanto aguardava que ele fechasse a porta. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Não muito. Eu não disse que precisava de tempo? ─ Você não retornou as minhas mensagens. ─ Porque eu disse que precisava de um tempo! - quase gritei com a “sonsice” dele ─ Mal cheguei e tomei um banho, Gabriel! Isso definitivamente não pode ser considerado “um tempo”! ─ Eu fiquei preocupado com você, Adriana. Você saiu do restaurante como uma fera e não respondeu as minhas mensagens, por isso vim ver se estava tudo bem. ─ E o Fernando com certeza disse que eu tinha chegado em segurança. ─ E chorando. Eu não podia ir embora e te deixar assim porque eu fui imbecil ciumento. Droga! Seria tão mais fácil ficar irada se ele pelo menos colaborassenão sendo tão fofo. Mesmo assim não me rendi, apertei mais meus braços a minha volta. ─ Foi mesmo, que bom que você sabe! Ele se aproximou de mim lentamente e cuidadoso como quem se aproxima de animal selvagem e eu com certeza parecia um, então me enlaçou. Permiti, apoiando minha cabeça em seu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON peito, não por ele, mas por mim que precisava sentir seu calor naquele momento e ter a certeza do que ele ainda me amava. Mas não dei o braço a torcer, meus braços permanecendo caídos ao lado do meu corpo enquanto ele me apertava. ─ Ei, me desculpa amor. Eu não queria pirar uma coisa tão boba, mas vamos concordar que o Miguel é vidrado em você e eu não tenho sangue de barata. Quando vi já tinha falado merda. O afastei nervosa. ─ Nem comece! Será possível que você ache que a única forma que um homem poderia me admirar é essa? Eu adoro as aulas do Miguel e tenho certeza que o único interesse que ele tem em mim é acadêmico. Sim, ele foi meio grosseiro hoje à noite, agindo como se você não estivesse presente, mas é porque na última aula nós deixamos o assunto em suspenso. Não há, nem nunca houve qualquer insinuação dele em relação a mim. Agora, por favor, Gabriel eu realmente gostaria de ter um tempo para mim, até para que eu consiga processar a nossa noite e te dar o perdão que você me pediu. Seria patético, se não me ferisse tanto ver PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON aquele homem enorme e forte se encolher de dor à minha frente, antes de perguntar. ─ Você está terminando comigo, Adriana? Como se eu pudesse, de alguma forma, ser capaz disso! Mas eu precisava respirar e o Gabriel estava tornando isso impossível com suas crises de ciúmes, essa presença sufocante. ─ Não Gabriel! Eu juro que eu só preciso de um espaço para mim. Mesmo amuado ele não discutiu mais comigo. Depois de puxar meu corpo e me deixar tonta com um beijo desesperado ele somente se virou e saiu do meu quarto, me deixando sozinha com aquela sensação ruim de que eu estava exagerando, o erro dele não justificava a minha reação intempestiva. Ainda assim prossegui com minha birra por mais alguns dias. Ia ao curso, sentava ao seu lado, conversávamos, eu o beijava, mas ao fim cada um ia para o seu lado. Não aceitava mais nenhum convite dele e insistia na ideia de que devíamos nos manter afastados por um tempo. Eu estava obstinada em manter meu espaço a todo custo. Descobri que meu caso era mais grave do PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que eu pensava, porque mesmo com ele longe e sendo livre para respirar à vontade, era como se o ar que eu não compartilhava com o Gabriel não me saciasse mais, a sensação de sufocamento ainda oprimia meu peito, talvez até mais agora. E isso me dava um medo imenso, por mais que eu quisesse amar e ser amada nunca pensei que esse sentimento me deixasse tão vulnerável. E tudo isso me fez um poço sem fim de insegurança e incoerência. Por fim, minha pirraça terminou pelo mesmo motivo que começou: ciúme doentio, irracional e ridículo, só que desta vez protagonizado por mim. Eu estava chegando para a aula, em nosso terceiro ou quarto de dia de “bico” e encontrei duas colegas de curso sentadas perto dele, conversando, rindo e jogando o cabelo de um lado para o outro como duas retardadas. Ridículas! O Gabriel parecia estar tão desconfortável quanto eu estive com o Miguel e tão logo me viu se levantou e veio em minha direção, que estava furiosa como nunca, mas com controle o suficiente para saber que tinha que dirigir meu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ciúme para quem de direito. Por isso, me aproximei das duas, pedindo licença para sentar no lugar que eu usava todos os dias e no qual uma das muchachas estava esparramada. Beijei meu namorado, sorrindo de volta para ele, deixando claro para as duas que nós até podíamos estar brigados, mas isso não mudava o fato de que ele era única e exclusivamente meu. Como elas não fizeram movimento algum para sair de perto, eu, com o máximo de educação que eu tinha perguntei se elas não tinham nada melhor para fazer do que ficar servindo de vela para mim e para o meu namorado. Só então as duas folgadas sorriram amarelo e saíram não antes de dar a péssima desculpa de que só queriam perguntar algo ao Gabriel, respondi que podiam perguntar para mim mesma, mas magicamente elas esqueceram o que tinham de tão importante para falar com o meu namorado. Ele riu arrogante quando elas se afastaram. ─ Parece que não sou o único ciumento aqui afinal de contas. Olhei com raiva para ele, que imediatamente PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON se forçou a segurar o riso debochado. ─ Pode tirar esse sorriso presunçoso do rosto, Gabriel. São duas situações totalmente diferentes. ─ Se você diz... Eu bufei, irritada com o poder que o Gabriel tinha sobre mim e mais ainda por ele saber disso. ─ Não abusa da sorte... O Miguel entrou começando a aula, mas o tempo todo o Gabriel só olhava para mim. Quando saímos dessa vez fomos direto para o seu apartamento o que fez com que ele ficasse exultante e fizemos a paz da melhor maneira possível. Enquanto estávamos nus, exaustos e saciados em sua cama, ele entrelaçou seus dedos nos meus, fez com que eu levantasse meu rosto, que até o momento descansava em seu peito, e jogou a bomba de uma só vez. ─ Adriana, esses dias eu pensei muito sobre nós e sobre uma vontade que eu já tenho há um tempo e decidi que vou para o Rio com você. Eu não quis me precipitar e agir como uma louca que acha que está sendo pedida em casamento ou algo parecido por isso perguntei, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON como para sondar o terreno: ─ Você vai visitar a sua família, meu amor? ─ Bom, até vou em algum momento, provavelmente quando eles me acharem e não tiver mais nenhuma escolha. Porque eu estou indo para ficar, Adriana. Estou indo para ficar com você. Meu coração parecia que ia rasgar o meu peito e sair pulando entre nós dois, eu nem soube o que dizer. Sim, eu queria que o Gabriel voltasse ao Brasil para ficar comigo. A ideia de que nossos momentos estavam com o tempo contado me deixava doente, mas ao mesmo tempo isso era tão precipitado! Ele tinha toda uma vida constituída na Espanha, deixar tudo isso para trás por mim dava ao nosso relacionamento um peso difícil de carregar, colocava nas minhas costas uma responsabilidade que me apavorava enormemente. Eu acho que me perdi nos meus pensamentos e quando voltei o Gabriel me olhava com aquele olhar de menino pidão, com certeza esperando alguma resposta ou pelo menos alguma reação ao comunicado dele. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Isso é incrível, Gabriel! Imediatamente sua expressão suavizou e seus lábios se abriram naquele sorriso que era uma das minhas coisas prediletas no mundo. ─ Você jura que gostou da ideia? Confesso que tive medo de estar colocando os pés pelas mãos, você é sempre tão arredia. Passei a mão em seu rosto e o beijei suavemente seus lábios. ─ Juro, meu amor? Eu estava justamente nervosa com a proximidade do fim do curso e em consequência do meu retorno ao Rio. Me angustiava a ideia da gente se separar, e eu acho que meio que estava nos boicotando por isso, desculpa. ─ Eu estava apavorado com a ideia de te perder. ─ Mesmo estando feliz eu preciso te perguntar se você tem certeza se é isso mesmo que você quer, se você já pensou direito em todas as consequências da sua volta ao Brasil. Eu disso isso por que você tem uma carreira aqui, tem amigos, seu apartamento, sua vida hoje é aqui na Espanha, Gabriel. Você tem certeza que quer realmente começar tudo de novo? Além do mais PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON existem os problemas com a sua família, uma que eu já percebi que é um dos motivos para você morar tão longe. ─ Você não quer que eu vá com você? Como um homem tão perfeito podia ser tão inseguro? Só podia ser por causa da criação de merda que a afetada da mãe deu para ele! ─ Quero Gabriel. É o que eu mais quero na minha vida! Mas eu nunca te pediria alguma coisa que fosse contraa sua própria vontade. Eu não poderia viver com a consciência de que você é infeliz por minha causa é por isso que eu amo tanto a liberdade, eu não quero nunca me sentir presa a alguém e nem quero que alguém se sinta preso a mim. Nem mesmo te amando como eu te amo, ou por que eu te amo tanto a ponto não conseguir imaginar você sofrendo por minha causa. ─ Eu não te culparia por uma decisão que tomei sozinho, meu amor. Olha Adriana, eu nunca parei muito tempo em nenhum lugar mesmo. Na verdade, não há nada de tão importante assim aqui na Espanha para mim. É só mais um lugar em que eu passei uma temporada, como eu já fiz outras vezes em outros PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON lugares antes. Apesar de todos os problemas, meu lar sempre foi o Brasil e nunca passou pela minha cabeça não voltar mais para lá, na verdade eu sempre pensei nesse tempo por aqui como uma grande especialização. Adquiri experiência, vivência e conhecimento, além de ter feito contatos que me seguirão aonde eu for. Amigos eu tenho no mundo inteiro, mas nenhum chega perto do Lucas, de quem eu morro de saudades e que está lá, segurando a data do seu casamento para que eu possa estar com ele, e eu faço questão que seja assim. E tem você, que me pegou com esse jeito despachado e livre. Eu sei que vou ter que me organizar, mas não é nada do mundo. E nenhum esforço é demais para ficar com você. Eu te amo, Adriana, a única coisa impensável é ficar sem você. Eu fiquei totalmente sem ação diante daquelas palavras, então resolvi mostrar aquele homem maravilhoso, que eu sabia não merecer, o quanto eu também o amava. Passei minha perna pelo seu quadril, me deitei sobre ele o beijei febrilmente e passei o resto da noite mostrando em gestos o quanto ele era importante para mim. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 14 Só Eu Sei Que Foi Melhor Assim ─ O que você vai fazer com seu escritório? Eu e o Gabriel estávamos almoçando em um restaurante perto da Escola Politécnica, já havíamos passado os últimos dias conversando sobre os preparativos para a volta do Gabriel para o Brasil e ainda não havíamos discutido sobre tudo, as questões surgiam o tempo todo, era tanta coisa para resolver e tão pouco tempo para isso. Eu, sempre mais agitada e prática do que ele, estava ligada em 220 volts, uma angústia, uma sensação ruim de que alguma coisa ia dar errado, por isso eu precisava percorrer todos os preparativos para ter certeza de que não estávamos esquecendo de nada. ─ Passar para um amigo que trabalha comigo, Alejandro, você o conheceu quando foi lá. Sim, eu me lembrava do simpático espanhol que o Gabriel me apresentou e pelo pouco que nós conversamos parecia muito competente. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Como ficam os clientes, seus outros colegas e os funcionários com tudo isso? O Gabriel parecia ter tudo sob controle, ao menos era o que a sua tranquilidade me passava. ─ Não muda nada para ninguém. Confio plenamente no Alejandro para continuar a atender os meus clientes. Só vou acabar os projetos que já estão em andamento, quanto ao resto do pessoal da minha equipe toda se disseram chateados com a minha saída, mas parece que entenderam que nada vai mudar para eles, e isso foi uma condição que eu impus na venda. ─ No Rio as coisas estão mais fáceis do que aqui, não é? Eu esperava que sim, porque a bagunça não poderia ser maior. ─ Sim, meu apartamento está pronto pra gente entrar, a Eugênia sempre manda alguém para limpar e ver como as coisas estão. Eu queria rir da certeza que ele tinha de eu ia morar com ele sem que ele ao menos tivesse me pedido isso. Tá tudo bem, com certeza na mesma hora que ele me pedisse eu iria sem pensar duas vezes, e é óbvio que ele sabia, então por que ficar PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON fazendo joguinho, ele me conhecia e sabia muito bem que eu era mais prática e objetiva que isso. ─ E quanto ao escritório? ─ Meu pai comprou uma sala imensa para mim quando eu me formei, ela esteve alugada durante um bom tempo, mas está desocupada agora e tem uma ótima localização. Você vai antes e arruma tudo para começarmos a trabalhar quando eu chegar. Você está ansiosa? ─ Muito! Eu vou ter que fazer muita coisa, tenho que pedir demissão, meu chefe provavelmente vai me odiar por ter pagado um curso super caro e eu dar as costas para ele assim. ─ A gente o reembolsa, Adriana. Me irritava profundamente essa mania do Gabriel de se apresentar como solução de todos os meus problemas, principalmente quando ele colocava o dinheiro e não ele como a salvação. Eu cresci como uma mulher independente e não iria mudar por causa dele e sua fortuna de berço. ─ Primeiro: a gente não reembolsa nada! Eu o reembolso! Você não vai pagar nada para mim. Você não vai resolver problema que é meu. Segundo: é claro que eu já ia fazer o reembolso, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mesmo assim estou com a sensação de que estou o apunhalando pelas costas. Nós trabalhamos juntos desde que eu saí da faculdade e ele me deu todas as oportunidades de crescer e agora eu simplesmente saio nem sequer dar tempo para ele se adaptar e colocar alguém no meu lugar, sei lá... parece tão ingrato da minha parte. ─ Entendo o que você quer dizer, mas o que você quer fazer então? ─ Como vou primeiro eu poderia continuar a trabalhar com ele por alguns meses ainda. Enquanto isso, eu organizo o nosso escritório nas horas vagas. Vai dar tempo para você colocar tudo nos eixos por aqui também, e pelo que eu pude ver pela forma com que organiza suas coisas você vai realmente precisar desse tempo extra. Falando nisso pode deixar que da parte administrativa do nosso escritório cuido eu, não sei como você consegue trabalhar naquela bagunça! ─ Você vai ficar pegando no meu pé porque eu não marco minhas coisas com uma caneta de glitter? ─ Não Gabriel, vou pegar no seu pé porque é impossível achar o que quer que seja na bagunça PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON do seu escritório, seus papéis estão jogados para tudo que é lado! ─ Eu adoraria dizer que é exagero seu e que eu consigo entender minha bagunça, mas você tem toda razão, eu sou péssimo nessa coisa toda de organização mesmo... Justo nessa hora a Heloísa se aproximou da nossa mesa e sem a menor cerimônia sentou-se em uma das cadeiras desocupadas para só então nos cumprimentar. ─ Oi tudo bem com vocês? Sobre o que vocês estão falando tão entusiasmados que nem me viram chegar? Em outra situação eu hesitaria em abrir dessa forma uma decisão tão pessoal, mas o Gabriel estava tão orgulhoso dos nossos planos que eu não resisti e contei a novidade para a Heloísa. ─ É que o Gabriel resolveu voltar para o Brasil comigo e nós estávamos fazendo planos. ─ Na verdade quando você chegou a Adriana estava me massacrando por que eu sou um pouquinho bagunceiro. ─ Pouquinho, Gabriel? Você é um vendaval! Eu e meu namorado brincávamos e ríamos, por isso eu demorei para perceber que a Heloísa PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON estava estática desde que eu tinha dito para ela nossos planos. ─ O que foi Heloísa? Você está aérea... Como se tivesse despertado do seu transe ela deu um intenso olhar na minha direção e depois, se voltando para o Gabriel disse: ─ Nada não. Jura Gabriel que você quer voltar para o Brasil? Deus me livre! Quando saí fiz como a Carlota Joaquina, bati os sapatos para que não trouxesse nem a poeira de lá! ─ Que isso Heloísa, nosso país é tão lindo, tão rico, tem um problema bem grave que são os poli... você sabe né Heloísa? Mesmo eu tendo parado a tempo ela entendeu bem o que eu quis dizer... Essa menina até que era legalzinha às vezes, mas não por um tempo longo, as ideias tacanhas que ela tinha, iriam em algum momento, me fazer explodir, isso era certo. De qualquer forma eu a aturava por saber que seria por muito pouco tempo, em breve eu e o Gabriel estaríamos a um oceano de distância dela e como a própria fez questão de salientar, ela não tinha intenção nem mesmode visitar o Brasil, então eu ia empurrando com a barriga a PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON presença dela. Mesmo assim esse tipo de discurso ia completamente de encontro ao que eu acreditava: que o único problema realmente grave que nosso país enfrentava era que políticos corruptos como o pai da Heloísa saqueavam os cofres públicos sem dó nem piedade, fazendo com que nosso sistema de ensino, nossa saúde e demais demandas da população fossem severamente negligenciadas e mesmo assim, o povo ainda tinha força para levantar todos os dias e lutar com alegria. Eu era fã do meu país e não permitiria que ela falasse mal dele na minha frente. O Gabriel concordava comigo. ─ A Adriana está coberta de razão, Heloísa. Além do mais eu vim para a Europa para conhecer coisas novas, respirar novos ares, mas nunca foi intenção morar aqui definitivamente. Não foi à toa que eu mantive meu apartamento pronto para que eu voltasse a qualquer momento. E não existe momento mais perfeito do que agora. A forma intensa, direta e intensa com que o Gabriel me olhava, me aquecia o rosto e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sussurrava, silenciosamente, uma miríade de sentimentos que me deixavam tonta. Um medo inesperado se apoderou de mim, uma angustia tão grande que eu sentia como se houvesse uma mão apertando meu coração. Algo me dizia para aproveitar os olhares que o Gabriel me dava, pois eu não podia garantir por quanto tempo eles seriam meus. Me esforcei para sufocar aquela voz agourenta que inquietava minha alma. Forcei um sorriso para o Gabriel antes de me virar, mais uma vez para a Heloísa, e explicar o problema que se apresentava. ─ De qualquer forma o que nós estávamos discutindo era a incapacidade de organização do Gabriel. Nós temos muito pouco tempo para arrumarmos tudo e irmos embora. Sinceramente eu sou muito organizada com minhas próprias coisas, mas não faço ideia de por onde começar a ordenar aquela bagunça, e nem tenho tempo para isso, em poucas semanas eu tenho que voltar. Joguei minha cabeça entre as mãos, e o Gabriel ficou massageando meus ombros. Coitado! Eu mesma me sentia uma megera implicante PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON e percebi que aquele poderia ser um grande problema para o nosso relacionamento, a gente precisaria chegar a um meio termo ou eu seria a bruxa que brigava por qualquer coisa e ele o lambão que perde documentos importantes ou não sabe onde colocou algum material necessário para o trabalho. Mas eu confiava que isso não era nada grave, cada um cedendo um pouco e de repente eu até poderia aprender a não ser tão severa e (se Deus quisesse!) ele melhoraria a sua capacidade de organização. ─ Não se preocupe com isso, amor. Eu dou um jeito, de repente contrato uma pessoa para fazer isso por mim, eu já li em algum jornal ou revista que existem profissionais que fazem esse tipo de trabalho. ─ Uma pessoa estranha para mexer em seus documentos pessoais, Gabriel? Não acho isso seguro. ─ Bom, se o problema de vocês dois é esse, ele não existe mais. Estou mesmo sem trabalho e meu dinheiro já está no fim. Eu poderia fazer esse serviço para o Gabriel, sempre fui ótima com organização, além do mais tenho o diferencial de ser amiga de vocês e como PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON arquiteta entendo dos documentos sei como organiza-los, o que vocês acham? ─ Heloísa, você está falando sério? Você faria isso para a gente? ─ Sim, claro! Sem problema algum, na verdade seria uma ótima oportunidade para mim também. ─ Poxa Heloísa, você foi enviada por Deus, só pode! Vai ajudar tanto a mudança do Gabriel, muito obrigada Heloísa, nós vamos ser eternamente gratos a você. Com o peso da organização tendo sido retirado das nossas costas, nós pudemos nos dedicar mais a nós mesmos. O tempo urgia e mesmo naquele momento achando que nossa separação seria apenas temporária só a ideia de não nos vermos todos os dias feria como uma inconveniente pedra no sapato, que você não consegue esquecer por nem um minuto que está ali e te tira todo o prazer da caminhada. Em compensação nossos momentos juntos eram cada vez mais carregados de emoção, eu estava uma montanha russa de emoções extremas e por sorte o Gabriel era calmo e compreensivo. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Mesmo assim eu percebia que tudo isso também mexia com ele, o tornando cada vez mais inseguro e passional. A única coisa que nos distraía eram os nossos planos. Deitados no sofá, na cama do apartamento dele, sentados em frente ao notebook ou a prancheta nós passávamos horas conversando sobre o nosso futuro. Assim eu descobri, aliviada, que ele queria filhos, no entanto não conseguimos concordar na quantidade, eu não acreditava que daria conta de mais do que dois, já por ele nós teríamos um time de futebol! Ele chegou mesmo a improvisar uma lista dos nomes, dos quais os primeiros eram Bernardo por causa do treinador de vôlei e Arthur por causa do Zico. Sim, é claro que ele tinha que ser flamenguista, assim só de cara ele, sem ainda ter sido apresentados aos meus pais já tinha motivo para conquistar os dois. Eu não queria sair de perto dos meus pais e ele não se importou com isso, principalmente por que eu o tranquilizei que eles não eram do tipo sem noção que não desgruda, não que ele parecesse se incomodar com isso. Parecia não se importar nem que eles fossem, o Gabriel parecia PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON tão carente de uma estrutura familiar repleta de carinho que com certeza em pouco tempo estaria mais dependente da minha família do que eu mesma. Ainda existiam os planos para o nosso escritório que fazíamos juntos, tão emocionados por estarmos construindo juntos o primeiro pedaço do nosso sonho que era difícil acreditar que aquilo tudo era realmente real, que estava de fato acontecendo! Nesses momentos, invariavelmente, meu peito voltava a apertar, e eu sempre tornava a calar a maldita voz que insistia em jogar água em meus planos. Por isso, e pela minha eterna mania de manter para mim mesma os meus maiores momentos, eu, ciumenta da minha própria felicidade, a quis proteger com unhas e dentes, continuei a mantendo secreta por quanto tempo fosse possível, com medo de que, quando todos soubessem a magia se evaporaria e eu acordaria do meu idílio. Minha mãe e a Lívia sabiam que havia um rapaz e intuíam que existia muito mais do que eu falava, mas me conhecendo não insistiam PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON demais, só pediam que eu fosse com calma e me cuidasse. Coitadas! Não sabiam da missa o terço! Quando eu desembarcasse no Rio de Janeiro com a novidade de que meu namorado viria logo atrás com armas e bagagens e nós não só moraríamos juntos como abriríamos um escritório de Arquitetura juntos, minha mãe desmaiaria e a Lívia ficaria catatônica! Mas tinha finalmente chegado o momento em que eu deveria dizer ao Gabriel toda a verdade, e arcar com as consequências. Eu rezava fervorosamente para que eu ele me entendesse e não fizesse disso um cavalo de batalha, mas o medo esfriava a minha espinha cada vez que eu pensava nisso. Acreditei a isso o fato de ter me sentido tão mal naquela manhã, o último dia de aula, quando o Gabriel disse que não iria ao curso por que tinha muita coisa para fazer. Por mim estava perfeito, eu passaria o dia sozinha, tomando coragem para contar ao Gabriel que, mesmo que essa não fosse a minha intenção eu o enganara. Assisti a aula com o coração na mão e um peso enorme no estômago. Me despedi do PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Miguel e dei graças aos céus que o Gabriel não tivesse vindo por que assim eu e o mestre conseguimos conversar calmamente e sem um touro bufante ao nosso redor. Agradeci a fantástica oportunidade e trocamos contato, ele prometeu que me procuraria quando fosse ao Brasil visitar o meu chefe. O atualizei que provavelmente não me encontraria mais trabalhando para ele, mas sim por conta própria, junto com o Gabriel. Ele me felicitou e eu pedi que ele não comentasse nada com o seu amigo, pelo menos não antesque eu o fizesse, ele me prometeu que não falaria nada e me desejou toda a sorte do mundo. Saí do Campus sentindo uma melancolia ácida, que misturava tantos sentimentos que eu nem saberia enumerar: medo, angústia, saudade adiantada, insegurança... Eu me sentia um lixo quando encontrei a Heloísa atônita, parecendo uma barata tonta, me puxando para um café próximo ao lugar em que nós estávamos. ─ Adriana, se prepara. Você tem que ser forte, eu fiz uma descoberta terrível sobre o Gabriel! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 15 A Maldade do Tempo Fez Eu Me Afastar De Você Não que alguma vez ela pareceu remotamente sã, mas sem dúvida nenhuma a Heloísa estava mais estranha do que de costume, não falava nada que fizesse sentido e se comportava como uma louca. ─ Heloísa, calma. O que aconteceu? Você parece totalmente alterada. ─ Adriana eu preciso falar com você, eu descobri coisas horríveis, e preciso te alertar. Eu gosto muito de você para te deixar ser enganada dessa forma. ─ Deus do céu, você está me preocupando. Vamos nos sentar e você me fala o que está acontecendo. Busquei uma mesa nos fundos do café e me sentei em frente a ela, tentando entender o que estava acontecendo. ─ Por favor, Heloísa se acalme eu não consigo entender o que você quer comigo e nem PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON por que está tão nervosa. Ela respirou fundo e pegou as minhas mãos as pressionando no tampo da mesa. ─ Adriana eu descobri que o Gabriel está te traindo! Eu não queria ter que te contar essas coisas, mas eu não pude deixar que ele continuasse a fazer isso eu vejo o quanto você o ama e eu não dormiria em paz sabendo das coisas que sei e não te falando. Eu não podia acreditar no que eu estava ouvindo e não porque achasse que uma única palavra que saía da boca daquela surtada fosse verdadeira. Só era inacreditável que ela tentasse pela segunda vez o mesmo truquinho barato para me afastar do Gabriel. ─ Heloísa para agora! De novo com isso? Você me desculpa, mas por causa dos seus achismos eu já perdi muito tempo com o Gabriel. Da primeira vez nós éramos crianças e até foi bom que não tivesse acontecido nada na época, mas agora que nossa história decolou, o Gabriel tem sido meu tudo, nunca fui mais feliz na minha vida e você vem novamente com essas suas histórias? ─ Desculpa Adriana eu não queria me meter PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON no relacionamento de vocês que me acolheram com tanto carinho desde que eu cheguei à Barcelona, nem quero ser a causadora da sua infelicidade, mas também não posso ficar parada e ver o Gabriel te enganar assim na sua cara e não fazer nada! Isso também não seria nem um pouco justo com você que está aí se doando totalmente a uma relação unilateral, enquanto o Gabriel sai por aí te sacaneando! Eu não podia acreditar em nada do que aquela garota falava, ela era maluca, estava delirando. Ou estava morrendo de inveja da relação incrível que nós tínhamos. Era isso com certeza, como eu fui tão cega? Ela não tinha ninguém, só vivia na nossa aba, nos seguindo como um cãozinho sem dono, permitimos por pena, mas então eu vi com clareza, é óbvio que ela estava interessada no Gabriel, como eu fui boba! Também quem não estaria? Aquele homem lindo, perfeito e rico e se tem uma coisa que a Heloísa nunca escondeu foi sua ambição. ─ Qual o seu interesse nessa conversa, Heloísa? Por que você quer me afastar do Gabriel mais uma vez? Você acha que eu sou PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON idiota? Falou aquelas coisas horríveis sobre o Gabriel e ainda assim continuou o orbitando em volta dele, fazendo a mesma Faculdade, os mesmos cursos, esbarrando nele nos lugares? Não foi isso mesmo que você disse quando nos reencontramos? Aliás, estranho você ter entrado nesse curso com quase um mês de atraso, você veio atrás dele Heloísa? Por isso essa historinha? Oh meu Deus, como eu fui boba! Eu confiava em você! Você não é esquecida ou se enganou. Você é má e invejosa desde sempre foi. Puxei minha bolsa em meu ombro e me levantei rudemente. Não ficaria sentada escutando essa mal-amada falando do Gabriel, nunca! Ela segurou minha mão com força e quando eu ia puxá-la para me desvencilhar dela, meus olhos encontraram os dela e eu balancei, ela me olhava suplicante. ─ Por favor, Adriana eu tenho provas do que eu estou falando. Eu não quero nada com o Gabriel, eu juro! Minha única motivação é não suportar ver uma injustiça dessas sendo cometida debaixo do meu nariz, eu gosto tanto de você, por favor, não me odeie por tentar te proteger. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Ainda que algo dentro de mim berrasse para que eu saísse daquele lugar no mesmo instante, minhas malditas inseguranças acabaram levando a melhor quando ela falou em provas. Achei que não haveria problema eu ficar, ela não poderia me mostrar nada que desabonasse o Gabriel aos meus olhos. Poderia? ─ Eu só continuo essa conversa sem pé nem cabeça se você me mostrar alguma coisa consistente contra o Gabriel, se você não tiver nem se dê o trabalho de continuar com essas acusações. Ela tirou vários envelopes da bolsa dela e de dentro deles saltaram fotos do Gabriel com outras mulheres, mulheres lindas, três ou quatro delas. Eu devolvi para a Heloísa sem ter demorado em analisá-las, não sairia nada de proveitoso daquilo. ─ Isso não me diz nada, Heloísa! O Gabriel não era virgem quando nós começamos o nosso relacionamento, muito menos eu. O que me importam essas fotos? ─ Adriana, olha as datas... São recentes. Ele saiu com essas garotas enquanto já estava com você. Eu achei essas fotos na câmera dele, eu sei PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que foi uma invasão, mas depois de me deparar com esses papéis, eu sabia que tinha que ir a fundo. Ela empurrou em minha direção uns papéis que ela tinha tirado de outro envelope. Ela tinha a minha atenção e eu deixei meu corpo cair pesado de volta na cadeira e peguei todas as fotos, todos os papéis... Notas fiscais, comprovantes de pagamento, extrato de cartão de crédito e passei a examiná-los com mais atenção... Alguns eu reconhecia, tinham sido de presentes que o Gabriel me deu, mas outros, principalmente do último mês e de dias dos quais eu lembro-me muito bem que nós não estávamos juntos, um dos dias foi quando estávamos brigados e todos os outros depois disso, dias em que eu insistira em não ir até o apartamento dele. Não, ele não seria tão babaca! Seria? Não era possível! Todas as juras de amor, toda a entrega, os nossos planos, não tinha como tudo isso ser mentira! Ele ia mudar toda a vida por minha causa, eu não podia ter me enganado tanto, eu simplesmente não podia acreditar, por mais que tudo estivesse provado e comprovado, por A PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mais B na minha frente em forma de pequenos pedaços de papéis que pareciam queimar em minhas mãos... Joias; Flores; Roupas caras; Duas noites em hotéis de cidadezinhas em que nós fomos, porém, em dias que eu certamente não estava com ele. ─ Nada disso faz sentido! O Gabriel está a ponto de mudar toda a vida dele por minha causa, ele vai voltar para o Brasil, largar a clientela que construiu aqui, enfim... eu não consigo entender como uma pessoa que não está cem por cento com a outra se compromete assim. ─ Adriana, o Gabriel nunca teve intenção nenhuma de voltar ao Brasil, eu estou trabalhando com ele e em nenhum momento ele parou de agendar clientes, tem vários projetos no começo, e a cada dia chegam mais. Sim, eu estava arrumando as coisas dele e foi assim que eu achei todas essas coisas, mas não é para ele partir da Europa. Desculpa, eu sei que machuca ouvir isso, mas com certeza ele só inventou isso para que você continuasse com ele. Essa conversa de voltar ao Brasil não começou logo depois que vocês brigaram? Com certeza ele teve medo que você resolvesse acabar com tudo de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON uma vez. Minha postura era rígida e dura, minhas mãos agarradas ao assento de minha cadeira,pois eu sentia que o chão me faltava e que sem esse apoio eu cairia, mas minha mente, em compensação, era um caos, nada fazia sentido e eu não conseguia entender como ela podia ter forjado aquelas fotos, mas também não conseguia acreditar que fossem reais. ─ Heloísa, me diz qual é o verdadeiro motivo que você tem para fazer isso comigo? Ela então estendeu as mãos, pedindo que eu segurasse e eu fui obrigada a largar a minha segurança para que ela apertasse minhas mãos na dela com tanta força que parecia que ia quebra- las. ─ Adriana, por favor acredita em mim. Eu sei que antes eu falei aquelas coisas todas, mas eu também era uma criança e não sabia do que falava, mas agora eu mesma vi e trouxe para você as provas. Te juro Adriana, meu único motivo foi não aceitar que um filhinho de papai, um bonvivant sacaneie uma menina legal como você, que todo mundo vê que é uma mulher legal, que o respeita e nunca faria algo PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON semelhante com ele! Sabe Adriana? Eu mesma já fui traída e sei como isso acaba com a gente, por isso não poderia deixar uma pessoa que mesmo conhecendo a pouco tempo eu já quero tão bem ser feita de boba, acreditando que o namorado é um príncipe quando ele não passa de um cretino traidor! Ela parecia realmente tão sincera e compungida que eu balancei. Além do mais ela tinha passado por essa situação, o que explicava o comportamento tão passional dela. Mesmo assim eu precisava conversar com o Gabriel, tirar essas coisas todas a limpo e ver o que ele tinha para me falar e depois pensar com calma nessa loucura toda que estava acontecendo. Até mesmo por que nada disso fazia sentido. ─ Heloísa, eu preciso ir embora, preciso falar com o Gabriel e ver o que ele tem a me falar sobre isso. Seus olhos saltaram das órbitas e ela pareceu mais louca do que nunca quando me pediu que não fosse. ─ Não Adriana! Não por favor, não vá lá. Não vai adiantar nada e você ainda vai sair de lá PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON humilhada, eu sei, já passei por isso. ─ Me desculpa Heloísa, eu não posso imaginar pelo que você passou, mas isso não tem nada a ver com a sua história. Eu vou sim confrontar o Gabriel com coisas que você me disse e quero ouvir da boca dele que ele me traiu. Se isso tudo for mesmo verdade eu mereço ouvir da boca dele, enquanto o olho nos olhos. ─ Adriana eu não queria te dizer, mas agora mesmo ele está no apartamento dele com outra mulher! Se não fosse isso eu iria esperar outra ocasião para te falar, mas quando ele pediu que hoje eu não fosse ao apartamento dele eu desconfiei que tinha algo de errado e eu vi quando a mulher entrou no prédio. Gente! Isso era caso de internação, eu sabia onde o Gabriel estava! Ele iria aproveitar que era a última aula e não perderia nada de importante para marcar uma reunião com um dos principais clientes do escritório e aproveitar a ocasião para informa-lo que não estaria mais à frente dos projetos. ─ Você está mentindo Heloísa! Ele não veio porque tinha que fazer uma apresentação para um cliente antigo do escritório! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Você tem certeza disso Adriana? Então liga para o escritório e peça para falar com ele. Fiz sem titubear, era a melhor forma de acabar com aquela palhaçada! Falei diretamente com sua secretária particular que gaguejou quando eu me apresentei, falando que infelizmente o Gabriel não tinha ido ao escritório naquele dia, e nem iria pelo resto do dia, já que ele tinha pedido que esvaziasse a agenda por todo o dia. Me segurando em um fio mínimo de esperança eu ainda perguntei sobre a reunião com o cliente que ele tinha me dito o nome e eu repeti a ela, e a pobre totalmente sem graça me garantiu que não havia nenhuma reunião planejada com esse cliente, pelo menos não tão cedo. Desliguei o telefone sem nem mesmo ter me despedido: o Gabriel mentira sobre a reunião! E se ele mentia sobre uma coisa tão boba ele podia ter mentido sobre tudo. Inclusive essa mentira só podia ser para encobrir o que a Heloísa tinha dito. O Gabriel estava, nesse mesmo minuto, me traindo! Me segurando em um último fio de esperança ainda tentei o achar pelo seu celular PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sem sucesso, todas minhas tentativas caíram na caixa postal. Eu sentia meu coração parando no meu peito, minha vida se esvaindo e um vazio imenso tomando conta do espaço que antes era preenchido pelo Gabriel, ou seja... de tudo dentro de mim. A Heloísa continuava falando, falando e falando, mas eu simplesmente desliguei. Esse era o expediente que eu e minha mãe usávamos quando algo nos atingia fundo, nos isolávamos do exterior e nos afundávamos na nossa tristeza. Por mais que eu tentasse alguma reação, depois que eu tive a certeza da traição do Gabriel, nada mais tinha importância. Acho que eu sequer encontraria o caminho de volta para a minha pensione se a Heloísa não tivesse do meu lado, por isso mal consegui falar coisa com coisa para a Pilar quando ela, vendo o estado cambaleante em que eu entrei, veio me abraçar, suportando todo o meu peso, que eu simplesmente joguei sobre ela, finalmente me dando o direito de chorar. ─ Cariño, por Dios! ¿Qué passa? Seu tom de voz era tão carinhoso e doído que PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON eu me senti com liberdade para lhe confidenciar o que tinha acontecido. Ela não pareceu muito crédula da versão dos fatos e olhou a Heloísa de cima a baixo, obviamente não gostando do que via, mas quando eu pedi a Heloísa que lhe mostrasse as fotos, ela própria percebeu que não havia o que fazer, me ajudou a arrumar as minhas malas, enquanto a Heloísa conseguia um voo para mim de volta para o Brasil, o mais rápido possível. Nos despedimos tristemente, e eu prometi estar logo de volta para visitá-la e telefonar sempre que possível, pedi que em hipótese alguma desse meu contato para o Gabriel e que nem dissesse o motivo que eu fui embora. O cretino com certeza iria saber, mas eu não queria passar recibo do quanto eu estava ferida por causa da sua traição. O Fernando disse que quebraria a sua cara quando ele chegasse ali e eu pedi que não fizesse nada, isso com certeza daria a ele a satisfação de saber que eu tinha sido mexida por ele, eu preferia que ele simplesmente nunca mais tivesse notícias minhas, pela minha parte faria o melhor possível para não saber mais dele, para não ouvir PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON o seu nome e com certeza nunca mais olharia para a cara dele! A Heloísa dirigiu loucamente para o aeroporto e eu aproveitei para pedir ao meu pai que fosse me buscar, dando a ele o horário e portão em que eu desembarcaria, mas tentando me desviar do seu interrogatório, principalmente quando percebeu, pela minha voz, que eu estava chorando. ─ Papai, por favor, aí nós conversamos, eu já estou chegando no aeroporto e não posso me demorar a fazer o check in porque o voo sai logo. Tchau, eu te amo! Bom, nada do que eu disse era mentira e eu realmente tinha muito pouco tempo para fazer tudo o que era preciso. Me despedi da Heloísa e ela magicamente tinha um comprimido para dormir que foi a minha salvação durante toda a duração da minha viagem. Pelo menos durante o tempo do meu sono eu ainda pude ter a ilusão que tudo estava bem e que conforme nós tínhamos planejado tantas vezes nos últimos meses essa separação seria só um até breve e não o adeus definitivo ao homem que PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mais mexeu comigo durante a minha vida. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 16 Simplesmente Aconteceu, Não Tem Mais Você e Eu Cheguei ao Rio e passei por toda a burocracia do desembarque totalmente letárgica, não sabia se ainda pelo efeito do remédio ou pelo vazio que eu sentia dentro de mim. A única coisa que eu sei é que fui um zumbi até o momento em que saí pelo portão e vi meu pai e a Paulinha me esperando. A partir daí não vi, nem pensei em mais nada, só me joguei nos braços do meu pai sentindo o aperto tão familiar e caloroso, me sentindo finalmenteprotegida, que fez com que minhas defesas cedessem mais uma vez e meu choro recomeçasse, agora mais forte e desesperado que antes, fazendo com que meu corpo tremesse violentamente, e meu pai acentuasse seu aperto. ─ Meu amor! O que é isso? O que aconteceu com você minha filha? Eu não conseguia falar nada e nem queria, só conseguia chorar descontrolada e só não caí, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON pois, estava amparada por meu pai e minha irmãzinha, que mesmo sem saber por que eu chorava daquela maneira chorava também, me perguntando o que havia acontecido comigo e passando, docemente as mãos nos meus cabelos. Não tenho ideia de quanto tempo se passou até que eu tivesse tranquila o suficiente para conseguir falar, entre profundos soluços: ─ Papai, por favor, me leva para casa? Eu preciso muito. Lá eu converso com vocês direito. ─ Adriana, o que aconteceu com você minha filha? Eu nunca te vi assim! Meus lábios tremiam, assim como todo o meu corpo, e eu não queria falar nada com meu pai naquele instante, talvez nunca quisesse. ─ Não aqui papai. Eu não posso, não consigo, nem esse é o lugar para esse tipo de conversa. Me leva para casa? Por favor? E antes que eu recomeçasse meu choro meu pai me puxou pelo ombro enquanto com a mão desocupada empurrava o carrinho com minha bagagem, minha irmãzinha segurava a minha mão e limpava meu rosto quando as lágrimas escorriam sem que eu pudesse conter. No carro, durante todo o trajeto ficamos os PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON três em silêncio, meu pai receoso de me empurrar demais e a Paulinha completamente mortificada, me sentei no banco do carona e descansei minha cabeça no vidro, as luzes da cidade que eu tanto amava passando por mim como raios desformes, as paisagens lindas, as praias, tudo sendo remotamente registrado por mim, a mão do meu pai em cima da minha e seus olhares que me garantiam que tudo ia ficar bem. Ah papai, como eu queria acreditar nisso! Mal o carro encostou em nossa garagem, eu saí correndo em direção à nossa casa, para subir as escadas mais rápido do que meu pai pudesse me alcançar para insistir em me tirar a verdade. A Paulinha deve ter tentado me alcançar já que eu ouvi meu pai dizendo a ela, quando eu destrancava a porta: “Deixa filha, sua irmã precisa ficar sozinha por um tempo, depois ela vai conversar com a gente, me ajuda, vem. ” Meu pai era tão perfeito que doía, e eu só poderia agradecer por isso, pois eu pude entrar para o banheiro e me demorar em um banho quente o suficiente para espantar o frio que se instalara em minha alma, nem que fosse por pelo curto tempo em que a água caía em mim, eu só PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON queria que ela fosse capaz de levar para longe todas as lembranças do Gabriel, as boas e as ruins, que pudesse lavar o meu coração e afastar aqueles sentimentos horríveis. Por fim meus joelhos cederam e eu fiquei ali, jogada no chão do banheiro permitindo que as últimas ondas de choro saíssem com força enquanto a água caía em meu corpo. Depois desse banho terapêutico eu me sentia quase melhor, coloquei meu pijama mais confortável, meu chinelo e desci as escadas, torcendo que me deixassem em paz e simplesmente esquecessem a minha crise de choro. Para meu azar, quando eu desci a própria Gestapo, perfeitamente representada pela minha mãe, já estava me esperando, mão na cintura e cara de quem não ia me deixar escapar dessa sem explicar direitinho o motivo de estar com aquele estado de espírito. ─ O que aconteceu Adriana? Eu chego correndo do meu trabalho, louca de saudades da minha filha mais velha que eu não vejo há três longos meses e quando eu entro ao invés de uma festa eu encontro um clima de enterro? Seu pai e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON a Paulinha falaram que você chegou chorando e não quis dizer por que. Pode sentar garotinha e me contar direitinho o que houve nessa bendita viagem para te deixar desse jeito. A Dona Ruth não aliviava, o sangue alemão falava mais alto que tudo e eu sabia muito bem que com ela não adiantava enrolar, era melhor despejar de uma vez e eu fiz, mas antes eu dei uma olhada com muita raiva para o meu pai e para a Paulinha. Esses dois fofoqueiros! Como se eles não conhecessem a fera. ─ Não culpe o seu pai, Adriana! Você realmente achou que eu não perceberia esse olho inchado, esse nariz vermelho e essa cara amassada? Pode vir aqui e falar o que houve. E dessa vez fala a verdade, nada daquela história de “estou chorando de saudades de vocês”, não engoli pelo telefone, não vou engolir ao vivo. Eu desabei mais uma vez no seu colo, nós duas sentadas no sofá e resumi ao máximo minha história para minha mãe, basicamente falei que tinha me apaixonado e sido traída, sem maiores detalhes. Minha mãe era uma raposa e não acreditou na minha versão ínfima dos fatos, mas deixou por isso mesmo e tratou de colocar panos PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON quentes em cima do caso, como ela sempre fazia. ─ Tem mais coisa aí Adriana, mas se você não quer falar eu não vou insistir. É claro que isso não foi só porque você terminou um namoro, não seria a primeira vez e você nunca ficou desse jeito, mas eu vou respeitar o seu silêncio. Como não podia deixar de ser, o pior mesmo foi quando a Lívia chegou do escritório e veio me ver. Era absurdo como mesmo não sabendo de onde vinham tantas lágrimas, elas vinham e vinham sem parar, e toda vez que eu achava que elas tinham finalmente secado elas voltavam com mais força. Minha amiga como não podia deixar de ser, ficou tão doída quanto eu, chorava comigo enquanto eu dava a minha "versão" extremamente reduzida e modificada, não sossegava com ideia de querer saber mais sobre o "cara que me sacaneou". Eu precisei inventar uma história, claro! Disse que ele tinha voltado para o Brasil, que morava em São Paulo e não dei o nome dele, óbvio, uma vez que ela queria por todos os meios investigá-lo. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Imagina? Mal sabia ela que só precisaria dessa informação, o nome dele, para descobrir exatamente quem era o "bandido", apelido gentil que ela lhe deu. Só a Lili para resumir tão bem tanta coisa que eu queria expressar. Bandido. Era tudo que ele era para mim... Roubou meu coração, minha alma, minha vida e minha paz, porque agora eu estava tão longe dele e poderia simplesmente voltar a ter a minha rotina de volta... Minha família, meus amigos, meu emprego, meu Rio de Janeiro onde estavam todas as coisas que eu amava, ou pelo menos tinha sido assim um dia... Agora era tudo tão vazio, todas as minhas cores tinham ficado em Barcelona, os sons, os cheiros e os toques fortes do Gabriel. Deus, eu estava tão mal! A Lívia não levou bem minha decisão de não falar sobre o "bandido", como a minha mãe, mas no fim eu a convenci que só precisava de sorvete, chocolate e colo e nessa matéria minha amiga não decepcionava, não havia colo e ombros melhores para se chorar e ser consolada. Pela manhã eu estava decidida a voltar a ser algo mais parecido comigo mesma. Não tinha PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON dado a ninguém o poder de comandar a minha vida desse jeito e não seria naquele momento que eu faria isso. Me arrumei para ir ao escritório e desci as escadas como se nada tivesse acontecido. Minha mãe estava de saída para o trabalho, então somente me avaliou com o olhar e me perguntou se eu estava bem, quando eu balancei positivamente a cabeça, ela ainda me olhou meio de lado e franziu a boca deixando claro que não engolia a minha resposta, mas ainda assim cumpriria a promessa de não se meter... Deu um beijo em mim e outro no meu pai e saiu com a Paulinha, que me olhava com aqueles olhões tristes e preocupados, mas não antes que eu desse um beijo nela e murmurasse que estava bem. Meu pai, todo coração como era, ao ficar a sós comigo me deu um abraço. ─ Eu sei que você não está nada bem, só não se afogue em trabalho para mascarar o que você está sentindo, dê tempo ao tempo e se quiser desabafar eu estou aqui tá? ─ Obrigada papai, eu sei disso, mas eurealmente não quero falar mais nada sobre isso. Eu me apaixonei, achei que tinha descoberto o PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON grande amor da minha vida e me decepcionei, só isso. Não fui a primeira mulher a sofrer uma decepção e o mundo não para cada vez que isso ocorre. Agora eu preciso esquecer tudo isso e ter minha vida de volta. ─ Eu não acho que esquecer seja assim tão fácil Nana, ainda mais se esse rapaz mexeu com você dessa forma. De qualquer forma não vai ser trabalhando como uma louca que você vai encontrar o alento que precisa. Eu assenti e fui fazer justamente o contrário e como ele previu: me sepultei no trabalho. Logo no dia que eu voltei fui me apresentar para o meu chefe e ele veio me cumprimentar, todo feliz dizendo que o Miguel tinha ligado e tecido elogios a mim o que o deixou exultante, me inteirei dos seus planos para mim e me tranquei em meu escritório para me preparar para meus próximos dias de trabalho. Como meu pai disse não foi nada fácil afastar o Gabriel dos meus pensamentos e cada coisa me lembrava dele, definitivamente não ajudava que boa parte das nossas conversas foram justamente sobre nossos trabalhos. Mesmo assim eu me forcei a ocupar a minha mente o PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON tanto quanto possível e assim durante as semanas seguintes eu tornei mais workaholic do que jamais tinha sido, fazendo mil visitas, trabalhando muitas horas extras, me internando no trabalho... O pouco tempo que eu tinha em casa gastava trancada no quarto, coisa que eu nunca fiz, e até o fato de onde eu fosse a Paulinha estar por perto, me vigiando, me irritava. Eu me segurava para não ser estúpida com ela, meu pai e minha mãe, mas confesso que nem sempre conseguia e só a Lívia não dava a mínima para o meu gênio, me empurrando e desafiando o tempo todo e assim não permitia que eu me isolasse de tudo. Em alguns dias em que a saudade falava mais alto que raiva, eu até me permitia contar a ela sobre a gente. Nesses momentos eu revivia todo o encanto que vivi e a Lívia me escutava calada, às vezes no fim ela mesma tinha chorado e declarava que nunca perdoaria o “bandido” por ter me feito tão feliz só para me destruir depois. E assim, bom como era revisitar aquele tempo mágico era horrível ter que voltar para um presente em que o Gabriel era o cretino que tinha me magoado tanto e não o homem que me PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON segurava ao dormir. E aí eu passava horas sem dormir, revirando em minha cama, meu estômago com um nó que não passava, imaginando o que eu tinha feito de errado, o que eu tinha feito, como ele estaria... Lembrava dos olhares apaixonados que ele me dava, da forma protetora com que ele agia, todos o carinho e cumplicidade... Como alguém podia fingir aquilo? Nada fazia sentido, nada encaixava... Quando eu já estava quase me convencendo disso e o procurando, pelo menos para que a gente colocasse as coisas em pratos limpos e terminasse da forma certa, a Heloísa me mandou por e-mail fotos do Gabriel com outra garota, seguindo a vida sem o drama que eu estava fazendo, com certeza sem ter sofrido nem mesmo por um dia. Aquilo feriu ainda mais o meu orgulho e eu me senti um lixo, uma coisa que foi usada e jogada fora, sem nenhum lamento por isso. Esse foi o dia em que passei mal a primeira vez, ou melhor, a primeira vez que eu me dei conta que estava passando mal desde que chegara, já que durante as primeiras semanas em PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON que eu estive de volta estava tão obcecada com o Gabriel que sequer notara qualquer coisa que estava acontecendo comigo. Mesmo assim eu coloquei a culpa no nervoso que eu tinha sentido ao ver aquelas fotos. Os dias se seguiram e eu só piorava, nada parando no meu estômago pela manhã, o enjoo horrível a cada cheiro mais forte, o humor oscilante e quando minha mãe começou a me olhar inquisidoramente a cada vez que me encontrava no corredor, saindo pálida do lavabo, já era ridículo fugir do que estava na cara... A desgraça nunca vinha sozinha. Eu estava grávida do Gabriel! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 17 Eu Vi a Mulher Preparando Outra Pessoa Quando eu assumi para mim mesma que essa possibilidade não só existia, como era mais provável do que estar doente ou somatizando meu estado de espírito, os sintomas se intensificaram absurdamente e eu não passava mal somente pela manhã, mas durante todo o dia, no meu trabalho, no caminho, à noite. Passei até a evitar de almoçar com meus colegas naqueles dias, era melhor ficar na minha até que confirmasse a causa dos meus enjoos. Depois de um tempo fugindo das pessoas resolvi parar de infantilidade e encarar a verdade, fosse ela qual fosse, só que eu não conseguiria fazer isso sozinha, por isso chamei a Lívia e contei para ela a minha desconfiança. Ela ficou mais nervosa do que eu mesma e começou a andar de um lado para outro em meu quarto. ─ Ai Nana, como você deu um mole desses? Que pergunta! Queria dizer que ela sabia PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON muito bem como aconteceu, mas estava com zero de vontade de fazer graça. ─ Sei lá Lili, aconteceu poxa! Nas primeiras vezes a gente usou camisinha, depois bobeamos algumas vezes e aí já viu né? Acabamos confiando na sorte... Ela parou, cruzou os braços e me encarou, uma sobrancelha levantada, a imagem da dona da razão. ─ Boa coisa com que se contar, principalmente quando ela definitivamente não tem estado do seu lado, não é mesmo? Eu não acredito Nana! Você sempre foi tão responsável e cuidadosa. ─ Já disse Lili: a-con-te-ceu! Eu estava cega de apaixonada, achava que era o homem da minha vida, que eu ia casar com ele, o que importava engravidar agora ou daqui a um, dois anos? Me ferrei! Agora já era! Dá pra ser minha amiga aqui e deixar os discursos pra D. Ruth e o Sr. Rubens? ─ Rá, rá, pode colocar a D. Joana nessa lista! Minha mãe vai pirar com você quando souber! Vai repetir cada sermão sobre sexo seguro e te lembrar de quantas vezes que ela colocou PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON camisinha nas nossas bolsas. ─ Então Lili, bronca eu vou ter um monte, de você eu só quero apoio! Fiz biquinho e nem precisei me esforçar muito para soltar as minhas eternas lágrimas. Na mesma hora sua pose se foi e ela se deu conta de que não era aquilo que eu precisava, se sentou na minha cama, me puxando para um abraço carinhoso. ─ Ah Nana, é claro que eu vou te apoiar, seja qual for o resultado nós estamos juntas nessa, você sabe disso, eu sempre vou estar aqui Nana, mesmo que eu esteja muito puta porque você foi uma anta! Sua voz doce e cuidadosa era o contrário do seu discurso nervoso e eu sabia que podia sim contar com a minha amiga para o que quer que fosse. ─ E então? Como vamos fazer? Eu corro na farmácia e compro um exame? ─ Melhor não, vamos no laboratório e eu faço um exame de sangue de uma vez. Já fugi demais desse resultado, agora eu quero certeza do que eu já sei aqui dentro. E assim fizemos, liguei para o trabalho PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON avisando que só iria trabalhar na parte da tarde e seguimos para o laboratório mais próximo das nossas casas, fizeram a coleta do sangue e fomos fazer um lanche enquanto esperávamos a hora da entrega do resultado. Tentamos nos distrair e conversar sobre outros assuntos, mas nada prendia mais a nossa atenção que o tictac do relógio da lanchonete, nós duas hipnotizadas pelo objeto pendurado na parede, fazendo cada minuto parecer uma eternidade. ─ Você sabe que vai ter que procurar esse carinha e falar com ele se o exame der positivo, não sabe? Eu respirei fundo e desviei o olhar da Lívia enquanto sussurrava um sim totalmente falso. Eu sabia que provavelmente tinha sim que avisá-lo, afinal, ele era o pai, no entanto só de pensar nessa hipótese meu estômago dava um nó de nervoso, minha mão suava frio e minha pulsação ficava irregular. Estava desenvolvendo “Pânico a Gabriel” e só a ideia de falar com ele me apavorava muito mais do que a de ter um filho, mesmo que eu o criasse sozinha.Além do mais, ainda que o Gabriel tenho PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON dito que queria filhos como eu poderia ter certeza de que isso era verdade quando todo o resto não era? Quem sabe qual seria a sua reação se eu o procurasse e dissesse que estava grávida? Ele poderia ficar feliz e mesmo nós não estando juntos ele poderia participar da vida do bebê, mas ele também poderia ficar irado, renegar meu filho, me acusar de golpista, afinal bem ou mal meu filho seria herdeiro dele. Eu não queria testar qual seria a reação dele, muito menos expor meu filhinho a nenhum tipo de rejeição, por isso resolvi, mesmo antes de ter certeza que estava mesmo grávida, que eu iria assumi-lo sozinha. Quando finalmente chegou o momento da verdade eu já sabia o que estava escrito antes mesmo de abrir o envelope, então eu não fiz firula nenhuma, abri e confirmei logo a notícia que mudaria minha vida de vez. ─ Positivo. Estou ferrada! Ela me segurou pela cintura e nos levou até ao sofá da recepção do laboratório, não parando de falar por um minuto enquanto eu assimilava o quão fodida era a minha situação. ─ Fica calma Nana, eu estou aqui, lembra? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Pode ficar tranquila que tudo vai dar certo, a gente faz com que dê, ok? Eu vou ter um afilhado!!!! Já pensou que legal?! Ah amiga, não importa como foi e nem o bandido do pai, eu já sei que essa criança vai ser tão linda e vou estragar tanto ele ou ela! E o Lucas? A Paulinha, seus pais? Nana não se preocupa com nada, essa criança vai ser criada cercada de muito amor e cuidado. Isso era verdade, meu filho ia ser cercado de muito amor e isso era o que mais importava. Pouco me importava se o Gabriel não colocasse os olhos sobre meu bebê, eu seria suficiente para suprir as todas as necessidades dele e no que me faltasse competência, habilidade ou experiência a imensa rede de apoio que nós tínhamos à nossa volta complementaria com tranquilidade! Pensar dessa forma fez com que a ideia de que eu teria um filho, literalmente, tomasse corpo, despertando um amor que já era o sentimento mais forte e gostoso que eu já havia experimentado na minha vida. Caraca! Eu teria um filho! Um filho do Gabriel, que foi feito com muito amor, pelo menos da minha parte, e que seria tão lindo! Com certeza a criança mais linda PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON do mundo! E então todo medo e insegurança se desfizeram como por encanto e a força do meu amor pelo meu pequeninho foi criando raiz no meu peito, uma raiz forte e profunda de onde eu tiraria a coragem para enfrentar qualquer problema que me aparecesse na frente. Fechei os olhos, puxei uma longa e lenta respiração, abri meus olhos e sorri para minha amiga. ─ É Lili, acho que agora é só pensar em todas as roupas, brinquedos e trecos de bebê que a gente vai ter que comprar, não é? Ela bateu palmas, toda animada com a perspectiva de se acabar nas compras. ─ Sim! Tomara que seja uma menininha, eu vou poder encher de lacinhos e vestidinhos, sapatinhos, tudo rosa! Eu a deixei falar e ri do jeito afetado dela, mas algo dentro de mim me dizia que seria um menino. Sei lá, podia ser bobeira minha, mas eu tinha essa sensação muito forte, mesmo assim resolvi não cortar o barato da Lívia, fosse o que fosse ela iria mimá-lo da mesma forma. Fomos almoçar e apesar de extremamente tentada a tirar o resto do dia de folga eu me PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON forcei a ser responsável e ir trabalhar, totalmente aérea, louca para que chegasse logo a noite e eu revelasse para toda a minha família a notícia que eu trazia comigo. Como nós sempre podemos contar com a Lei de Murphy quando menos precisamos dela, meu dia foi arrastado e cheio de problemas para resolver, mesmo assim eu estava animada e contagiada com um novo ânimo, acho que era a isso que chamavam de “estado de graça”. Ao fim do dia esse entusiasmo todo deu uma breve queda quando eu pensei na melhor forma de contar aos pais sobre o bebê. Porque você pode ser maior de idade, ter uma carreira de sucesso, uma conta corrente recheada e toda a independência do mundo que contar para os seus pais que está grávida e que seu filho vai nascer sem pai presente não é uma coisa que você faça com tranquilidade. Mesmo assim estava decidida a fazê-lo de uma vez, fosse qual fosse a reação dos meus pais não mudaria minhas resoluções sobre minha gravidez, nem meus sentimentos pelo meu filho. Cheguei em casa e como era dia em que minha mãe não tinha aula noturna, já estavam PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON todos em casa, fui tomar um banho e me arrumar para o jantar e quando voltei me sentei calada por alguns instantes, procurando as palavras certas que eu deveria usar, enquanto meus pais e a Paulinha estavam preocupados com a refeição e um assunto sobre um aluno difícil que estava dando problema para minha mãe durante o ano. Meu pai foi o primeiro a notar que eu estava inquieta e me indagou com a voz preocupada o que havia comigo. Eu suspirei fundo e olhei para as três pessoas que formavam a minha pequena, mas amorosa família e me emocionei em pensar que em pouco tempo teríamos mais uma pessoinha no nosso núcleo, e que todo esse amor seria dele também. Criei coragem e soltei de uma vez. ─ Eu estou grávida. O ambiente congelou no tempo, meu pai e a Paulinha me olhando atônitos, visivelmente sem saber o que falar ou fazer. Minha mãe, muito tranquila agiu como se a notícia não fosse nada demais. ─ Eu já desconfiava Nana, não precisa fazer essa cara porque ninguém aqui vai te dar nenhum sermão. Você tem 27 anos, pelo amor de Deus! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Tem uma profissão, e responsabilidade o suficiente para saber o que está fazendo, pelo menos eu espero que sim. Era isso que você queria, filha? Era? Eu acho que não conscientemente, mas sendo honesta eu sabia todos os riscos e não fiz questão nenhuma de me proteger então, em algum nível eu devia querer sim, além do mais eu não poderia pensar em ninguém melhor para ser pai de um filho meu do que o Gabriel... Mesmo que ele nunca soubesse desse filho. ─ Foi inesperado, mamãe, mas eu não posso dizer que estou triste com isso. Estou amedrontada, insegura, surpresa, mas tão feliz que eu acho que mesmo sem saber eu queria sim ser mãe logo, só que não agora, nem nessa situação. ─ Acho que isso não é uma opção mais não é filha? O momento é agora e a situação é a que se apresenta, mas isso não precisa ser uma coisa ruim, se é o que você quer estamos aqui para te apoiar. A você e ao bebê. Meus olhos estavam rasos de água, minha mãe pegou minhas mãos por cima da mesa e as segurou embaixo das delas, meu pai e minha PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON irmã a copiaram todos eles, demonstrando em um gesto que estariam comigo e eu me envergonhei que cheguei a ventilar a hipótese de que a minha gravidez seria, ainda que por um segundo, mal recebida. Eu deveria saber que no que dependesse deles eu teria todo o apoio do mundo e o melhor tipo de apoio, o que não cobra, só cuida e joga para a frente. O clima não poderia estar melhor, até que meu pai lembrasse a parte mais inconveniente da minha gravidez. ─ Nana e o pai da criança? Eu não sei o que aconteceu entre vocês, pela forma que você chegou da Espanha a gente sabe que não acabou bem, mas agora as coisas são diferentes, não é? Você tem que entrar em contato com ele e dar a notícia, filha. Ainda que eu soubesse que meu pai, assim como a Lívia mais cedo, tinha razão eu não tinha força para encarar o Gabriel depois de tudo e como eu já disse não submeteria meu filho ao risco de uma rejeição, então eu teria que dar um jeito deles entenderem que essa não era uma opção válida. ─ Eu não vou comunicar a ele minha PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON gravidez. Dessa vez foi a minha mãe que chiou. ─ O que você acabou de dizer, Adriana? Você ficou louca? ─ Eu não quero que ele fique sabendo que eu fiquei grávida, até onde eu sei essa gravidez não estava nos planos dele. ─ Como não estavam nos seus. ─ Sim mãe eusei, mas eu não sei como ele reagiria já que o nosso término foi tão... tempestuoso. ─ Espera aí Adriana. Agora é hora de separar as coisas, você vai ter uma criança que vai querer saber sobre o pai dela, e tem um cara por aí que pode ter sido canalha no relacionamento de vocês, mas tem o direito de saber que vai ser pai, e mesmo que ele não queira, que não tenha planejado, o que for... Tem tanta obrigação com essa criança quanto você! Até mesmo por que com certeza ele participou por livre e espontânea vontade da parte boa, não foi? Não ia ser fácil para fazê-los entender que eu realmente preferia assumir meu filho sozinha a ter que procurar o Gabriel novamente. ─ Eu não quero que ele saiba, ele não merece PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON um presente desses além do mais eu nem sei mais como entrar em contato com ele que também saiu de Barcelona quando o curso acabou, e eu nunca cheguei a pegar o endereço dele aqui no Brasil. Só sei que ele morava em São Paulo. Menti descaradamente, tentando acabar com a insistência dela. ─ Não é possível que você não tenha nenhum contato com ele Adriana! Rede social, nome completo, telefone... meu Deus do céu, ele é brasileiro, arquiteto, não pode ser difícil assim para acha-lo! Não seria nada fácil despistar a minha mãe e eu acabei sendo forçada a jogar sujo. ─ A minha decisão já está tomada. Essa criança vai ser criada por mim única e exclusivamente, se vocês não podem aceitar isso tudo bem. Eu vou morar sozinha, só eu e o meu filho e aí ninguém vai se meter na minha vida! Meu pai como sempre fez o papel de conciliador e pôs panos quentes na nossa discussão. ─ Calma Nana! Não precisa disso, depois a gente conversa melhor, mas se você não quer PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mesmo avisar ao rapaz eu te respeito, mesmo achando que é uma tremenda bobeira da sua parte e egoísmo, você está tomando essa decisão pensando somente em você. Abaixei a cabeça e fiquei quieta, eu sabia que meu pai tinha razão e eu não tinha nenhum argumento lógico para refutar a acusação que ele estava me fazendo. Eu estava sim, sendo extremamente egoísta e pensando somente no desconforto de estar novamente próxima ao Gabriel, e lá no fundo eu sabia que eu ficaria destruída se eu confirmasse que ele tinha realmente seguido a vida dele enquanto eu estava parada, ainda presa nas nossas memórias, sem a mínima vontade de ter mais alguém que não fosse ele, mesmo que eu não estivesse grávida, a ideia de ter outro homem na minha vida nem passava pela minha cabeça, pelo menos não por um longo tempo. No entanto, lá no fundo eu sabia que em algum momento eu teria que contar a ele, talvez o fizesse logo que o bebê nascesse, já registrado para deixar claro que eu não queria nada dele ou quando ele for maiorzinho e perguntar pelo pai, sei lá! Mas agora, frágil como eu estava, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sentimental e desnorteada eu não tinha nem onde arrumar forças para isso. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 18 Onde Será Que Você Está Agora? Depois de passado o susto inicial a cada dia eu me entusiasmava mais com a ideia de ser mãe, algo dentro de mim tinha despertado um instinto materno que eu nunca imaginei ter e me vi enlouquecida de amores pelo meu pequeno. Marquei logo a minha primeira consulta pré- natal com a Dr. Simone que foi a ginecologista que acompanhou a mim e a Lívia desde adolescentes e era amiga pessoal da Joana. Logo de cara ela me disse que não tinha gostado de o fato da minha pressão estar muito alta, o que foi um susto, do alto da minha ignorância eu achava que pressão alta fosse uma doença ligada exclusivamente ao excesso de peso e má alimentação e nunca poderia pensar que eu, que sempre fui magra e tinha uma alimentação mais ou menos normal poderia apresentar essa alteração. De qualquer forma fui à nutricionista e comecei a fazer a dieta que ela me passou. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Infelizmente nem sempre eu podia seguir à risca devido a reuniões, visitas a obras, horários irregulares, mas sempre que eu podia tentava me alimentar melhor pela saúde do meu bebê. Meus pais e a Lívia se entusiasmaram e logo espalharam a novidade para a vizinhança inteira. Enchiam-me de dengo e superproteção, mas ninguém ficou mais animado com minha gravidez que a Paulinha. Minha bonequinha passava todo o tempo que eu estava em casa me cobrindo de paparicos, comprava coisinhas para o bebê com a sua mesada e se preparava para ser a tia do ano da sua forma, lendo tudo que lhe caía nas mãos sobre gravidez e cuidados com bebê, e fazia questão de fazer parte de toda a preparação. Eu deixava, aliás, eu adorava esses momentos. No começo minha preocupação foi incluí-la para que ela não se sentisse deixada de lado e preterida, mas logo eu vi que para ela era mais do que isso, ela realmente amava se sentir incluída, mas não havia nem um pingo de ciúmes, era puro amor de irmã e tia coruja. Nem mesmo no meu trabalho a minha gravidez foi um empecilho, na verdade como eu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON tinha voltado da Espanha com o gás todo e estava trabalhando como uma louca, com mal- estar e tudo, o meu chefe creditou ao bebê a minha performance de super mulher. ─ É Adriana, eu sabia que essa viagem ia te fazer bem, mas não imaginava que fosse tanto. Voltou uma profissional mais focada, mais determinada, mais linda do que nunca e ainda trouxe esse lindo tesouro com você. Se eu soubesse já teria te enviado para algum curso a mais tempo. Trouxe um tesouro... Aquelas palavras me recordaram o vaticínio da velha cigana, se era a isso que ela se referia ela tinha acertado na mosca, o que mais estaria certo na previsão dela? Eu nunca mais voltaria à Espanha? Um sentimento forte me apertou o peito, minha velha amiga angústia me envolvendo em suas garras fortes. Me obriguei a dar um sorriso amarelo para meu chefe, agradeci seus elogios e pedi licença, sob a desculpa que tinha que dar andamento a um projeto e me exilei no meu escritório pelo resto do dia, as lembranças daquela tarde queimando dentro de mim, eu não sabia por que PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON eu estava tão afetada, talvez fosse pela confirmação de que, pelo menos uma coisa ela acertara e se ela acertara isso, poderia acertar tudo o que poderia significar também que meu caminho não cruzaria com o do Gabriel novamente a não ser que ele voltasse para o Brasil. Mas era isso que eu queria não era? Talvez não. Talvez eu não quisesse falar com ele só pelo medo de encarar a verdade, mas sozinha comigo eu não poderia negar que eu ainda tinha esperança de que ele saberia a minha condição de alguma forma e viesse por conta própria, se não por mim, pelo menos pelo nosso filho. Mentira! Eu queria com todas as minhas forças que ele desse um jeito de me encontrar e dissesse que tudo aquilo era mentira, que me provasse que a Heloísa era uma louca que tinha forjado todas aquelas provas contra ele e me pedindo para voltar. Mas isso nunca aconteceu... Os dias corriam, minha barriga crescia, mas nada indicava que o Gabriel em algum momento pelo menos lamentou a minha ausência. Não que PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON eu procurasse saber, evitava até muito contato com o Lucas, por esse tempo, era melhor não saber nada do que saber algo que me feriria mais. Tinha dias que eu me arrependia de não ter me aberto para ele, de não ter dado pistas de onde ele me encontraria, tinha dias que eu achava que eu tinha feito o certo, que era melhor que nós nunca mais nos encontrássemos e tinha dias que eu achava que se ele quisesse mesmo teria dado um jeito de me achar. Uma arquiteta no Rio, com o meu nome, se existisse vontade mesmo ele daria um jeito... A verdade é que se por fora eu me esforçava para ser a mais radiante e feliz grávida que todos já viram, por dentro eu era uma tremenda bagunça emocional alternando todos os sentimentos ao longo do dia... Triste por estar sozinha, empolgada com o bebê, assustada com a responsabilidade, possessa de ciúmesdo Gabriel, amedrontada com a possibilidade da minha pressão não estabilizar, de ocorrer algo com meu filho... E por isso cada exame era cercado de muita expectativa, como foi a ultrassom morfológica, que além de determinar se estava tudo PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON transcorrendo bem com meu pequeno também diria, se tudo desse certo, o seu sexo. Estava tão empolgada, queria poder falar com ele o chamando pelo nome, e apesar do meu coração gritar a certeza que dentro de mim crescia um lindo, forte e saudável rapazinho, ainda tinha escrúpulos de chama-lo pelo nome que eu havia escolhido. A Lívia e a Paulinha foram as escolhidas para me acompanhar, já que minha mãe não fazia muita questão de participar dessa parte mais, digamos, sentimental da minha gravidez e eu não achava necessário que meu pai deixasse a loja nas mãos dos empregados só para me acompanhar, apesar da sua insistência. O exame decorreu sem nenhum problema, a médica me tranquilizando sobre todas as verificações de anatomia, órgãos e medidas, coraçãozinho batendo a mil e finalmente o momento que todas nós esperávamos. ─ Adriana você deu muita sorte, temos aqui um verdadeiro exibicionista aqui, pode ver você mesma, não tem como se enganar. Eu ri, emocionada, realmente a ultrassom 3D não deixava dúvidas. Meu filho anunciava seu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON sexo com toda pompa que a ocasião pedia. E eu queria tanto que os meses corressem para que eu pudesse beijar e apertar aquele pedacinho de amor que crescia dentro de mim. ─ Oi, Bernardo. Pronunciar o nome que nós escolhemos e que eu continuava firme na determinação de manter, fez a ausência do Gabriel mais palpável. Como eu queria que ele estivesse comigo agora! Suspirei fundo, segurando o choro, e segurando firme a mão da Paulinha que não saiu do meu lado durante todo o exame. ─ Esse vai ser o nome? Que lindo! Pois bem, Adriana, o Bernardo se encontra perfeito e bem desenvolvido para 21 semanas, parabéns! Me troquei e saí da sala com minhas duas escudeiras que insistiram em me levar para comprar as primeiras roupinhas de rapaz do Bernardo e eu não pude fazer nada para impedi- las, não que eu realmente quisesse impedir alguma coisa, na verdade depois de uma pequena resistência eu me deixei levar ao Shopping mais próximo e me acabei de comprar roupinhas, sapatinhos, tênis, bonés... Nunca imaginei que o mundo em azul fosse tão divertido! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Quando chegamos em casa meu pai gritou de felicidade, me pegou no colo, falou com o neto, disse que fazia questão de comprar o uniforme do Flamengo para o neto dele, fez uma festa danada! O Lucas, que veio direto para minha casa quando chegou do escritório, para buscar a Lívia também fez altos planos com o afilhado, o que me dizia que eu teria sérios problemas para colocar limites na educação do Bernardo. Só minha mãe, como sempre, não demonstrou grande entusiasmo, aproveitando a oportunidade para me cutucar. ─ Imagino como ficaria feliz o pai dele se soubesse que teria um filho! Desculpa Nana, mas eu não posso deixar de lamentar por tudo o que esse rapaz está perdendo por conta da sua teimosia. Espero sinceramente que até o bebê nascer você reflita sobre isso e mude de ideia. A observação dela teve o mesmo efeito de gotas de limão em um litro de leite fervente: azedou o clima na mesma hora, a Lívia e o Lucas pediram licença e se despediram alegando que tinham que trabalhar cedo no outro dia, meu pai gesticulou para minha mãe ficar quieta o que PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON provocou uma carranca que provavelmente se transformaria em discussão mais tarde e de repente só a Paulinha e eu estávamos na sala. ─ Ela não perde uma... Eu tive que rir, pelo menos para uma coisa isso serviu, a Paulinha tinha saído do radar dela. ─ Tá vendo? Eu não te disse que não era nada contra você? Agora o alvo dela sou eu. O jeito com que a Paulinha deu de ombros e continuou a me olhar, mordendo nervosamente a parte interna da boca indicava que ela queria me dizer algo e estava com medo. ─ Você concorda com ela, não é? Ela levantou as sobrancelhas como quem diz “você sabe né?”, mas não disse nada. ─ Eu sei Paulinha que eu devia falar com o pai dele, mas é que são tantas coisas envolvidas. Eu sei que em algum momento eu vou ter que fazer isso, mas agora eu quero focar somente no Bernardo, tá bom? ─ Você é quem sabe Nana... Se você não quer falar com ele, não fala. É só que eu penso que o bebê precisa de um pai. ─ Claro amor, precisa sim. Só que as coisas não são tão simples assim. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Não tem problema Nana, de qualquer forma não faltará amor pelo Bernardo aqui em casa, você sabe, não sabe? ─ Sei sim bonequinha, vocês são a família mais perfeita que ele poderia escolher. Na verdade, se você pensar, com tanto carinho assim nem faz falta mais ninguém. Ela deu de ombros novamente e se jogou em mim, me abraçando fortemente e me beijando demoradamente na bochecha, antes de subir para seu quarto e me deixar sozinha na sala. Deitei no sofá, repentinamente exausta demais até para subir as escadas e deixei minha mente vagar através do tempo e do oceano, lembrando de cada momento vivido com o Gabriel. Aquele Gabriel com certeza estaria adorando a ideia de ser pai, me enchendo de cuidados e botando a mão na massa com relação aos cuidados e responsabilidades do bebê. Deus! O que eu estava fazendo? E se o Bernardo não me perdoasse por impedi-lo de conviver com o seu pai? Adormeci no meio daqueles devaneios e acordei com meu pai me chamando. ─ Nana, meu amor. Vá dormir no seu quarto PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON senão você vai acordar moída amanhã. Sentei-me sonolenta no sofá e meu pai sentou-se do meu lado, com um copo de suco de maçã, o meu preferido, na mão. ─ Não fica chateada com ela, é só preocupação. ─ Eu sei que estou errada, papai. Na verdade, é bom que ela me chacoalhe um pouco. Eu vou tentar entrar em contato com o pai do Bernardo, ok? Ele bateu na minha perna e apertou, sorrindo daquele jeito bobo dele. ─ Eu sabia que mesmo teimosa como você é, você não seria tão egoísta assim e saberia separar as coisas. Muito bem, filha! A partir de agora são os interesses do Bernardo sempre à frente dos seus, não se esqueça disso. ─ Pode deixar pai, só peço uns dias para me preparar para essa conversa, não vai ser fácil e eu não sei como ele vai reagir. ─ Quanto tempo você precisar, e não importa a reação dele, só faça o seu dever. De qualquer forma nem você, nem o Bernardo vão precisar de nada dele mesmo, vocês têm a nós. No entanto, se você estiver enganada e ele ficar feliz com a PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON notícia, o bebê só ganha. Assenti e me levantei indo para a minha cama decidida a mudar de atitude quanto a relação do Gabriel com o nosso filho. Como eu disse para o meu pai eu demorei ainda alguns dias para me preparar psicologicamente para conversar com o Gabriel e mesmo assim, como a covarde que eu sou, decidi que era melhor mandar uma mensagem e dar a ele a chance de me retornar ou não, me isentando assim de qualquer culpa, se ele não ligasse eu pelo menos tinha tentado! Achei por bem não adiantar nada e mandei um recado básico e conciso para o número que eu ainda sabia de cor: Gabriel, preciso falar com você com urgência, é realmente muito importante, por favor, me retorne nesse número. Adriana Meu estômago torcia de nervoso e eu não consegui segurar e coloquei meu almoço todo fora, coisa que eu já não fazia mais há meses. Quando retornei já havia uma resposta para mim, e apesar do medo do conteúdo daquela mensagem eu a abri rapidamente. Pra quê? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Preferiria nunca o ter feito! A resposta sequer foi digitada por ele, ou pelo menos era isso que estava escrito, em espanhol. Este es el teléfono privado Gabriel y aquí es sunovia, por favor elimine este número e ir a su oficina si elsujeto es professional em el caso de lamateriapersonal simplemente olvide.[8]Eu sabia que não devia ter tentado entrar em contato com ele! Era esse meu medo, ele já tinha seguido em frente e pelo jeito era uma perua insuportável, nunca que eu permitiria que meu filho convivesse com uma mulher grossa e sem educação dessas. Estava decidido de uma vez por todas, o Bernardo seria minha responsabilidade exclusiva e no que dependesse de mim o Gabriel nunca saberia da existência dele! Disse ao meu pai e a minha mãe somente que tinha tentado entrar em contato com ele e não obtive resposta, e pedi que eles não falassem mais nisso perto de mim, pela cara de derrota deles se via que eu tinha atingido meu objetivo e não voltaram a tocar no assunto comigo. Por PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mais que me doesse estava sepultado e eu poderia seguir em frente, me concentrando unicamente no Bernardo. Mesmo assim alguns dias depois disso aconteceu uma coisa muito estranha, depois de tantos meses eu recebi um telefonema da Heloísa, que como um abutre cheirando a carniça procurou saber sobre minha vida de uma forma muito entusiasmada. ─ Adriana querida, quantas saudades! O que você me conta de novo? Minha primeira reação foi a pior possível. Tudo o que eu queria na minha vida era esquecer o Gabriel e tudo que me lembrasse a sua existência, e que não fosse meu filho, e principalmente não queria nenhuma espécie de contato com Heloísa, seu veneno e insinuações constantes. Mas mesmo assim, por educação eu não a despachei de imediato. ─ Oi Heloísa, sumiu hein? Comigo está tudo bem, e você, ainda está na Espanha? ─ Sim, ainda, quer dizer... devo ir logo para uma temporada em Milão, estou conseguindo um estágio por lá, sabe como é não é? Desde que você foi embora eu estou desempregada e o PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON dinheiro que eu tinha guardado acabando... ─ Você não deveria ter se demitido Heloísa, você não tinha nada a ver com o problema entre o Gabriel e eu. ─ De maneira nenhuma Adriana, nunca que eu continuaria a trabalhar para aquele sujeitinho! Já me basta que esses dias dei de cara com ele e a iludida da vez em um restaurante, precisava ver a cara dele quando me viu! Cumprimentou-me sem graça, nem perguntou sobre você, também com a namorada com cara de poucos amigos do lado... Então ele estava mesmo namorando! E pelo jeito a “iludida da vez” como disse a Heloísa, sem perceber que esse título era o que eu ostentava há poucos meses atrás, era mesmo a grosseirona que eu tinha pensado. Ou somente mais viva do que eu. Antes que eu parasse para pensar concordei com ela. ─ É... Eu tive uma amostra de educação dela esses dias. Caramba! Ela não ia deixar meu deslize sair desapercebido, dando um trinado agudo em meu ouvido ─ Como assim Adriana? Você entrou em contato com o Gabriel? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Eu tentei, mas não consegui. Eu precisava falar algo com ele, a namorada dele viu meu recado primeiro e com certeza não repassou para ele, mas tudo bem, não tem mais importância mesmo. ─ Mas o que era tão importante assim para você o procurar depois de tanto tempo? ─ É que eu estou grávida, Heloísa. Desde o princípio eu achei melhor que o Gabriel não soubesse, mas depois de saber que seria um menino eu amoleci e fiquei pensando que de repente o Gabriel gostasse da novidade. Mas não deu e foi melhor assim, meu filho não precisa conviver com a rejeição do pai nem com madrastas bruxas. Mesmo depois que eu havia acabado de falar a linha continuou em silêncio por alguns segundos e quando a Heloísa conseguiu falar a surpresa em sua voz era evidente. ─ Nossa Adriana, eu nem sei o que dizer! Não imaginava que você estava grávida. ─ Nem eu Heloísa, só descobri semanas após a minha chegada. ─ Você é realmente uma mulher fantástica Adriana! E está coberta de razão, quem precisa PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON de um pai irresponsável quando tem como mãe uma pessoa tão ajuizada quanto você, não é mesmo uma pessoa especial Adriana e não deixe que ninguém te convença do contrário, até mesmo só eu que estava aqui e vi toda a cachorrada que o Gabriel aprontou com você. ─ Não quero mais pensar nisso Heloísa, são águas passadas, não vão trazer nada de bom. Meu futuro e único interesse na minha vida atualmente é meu filho e para tê-lo em paz eu faço qualquer coisa, por isso eu lhe peço que se você encontrar novamente com o Gabriel não fale nada sobre mim, por favor. ─ Claro Adriana, pode ficar tranquila. Se depender de mim o Gabriel nunca saberá nada sobre essa criança... ─ Que bom poder contar com você Heloísa, muito obrigada, de verdade. Você tem sido uma ótima amiga para mim. ─ Ah querida, não precisa agradecer... Não mesmo. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON CAPÍTULO 19 Você Verá Que É mesmo Assim, Que a História Não Tem Fim Após esse maldito telefonema da Heloísa eu estava mais determinada do que nunca a deixar o Gabriel para trás e fechar de vez esse capítulo da minha vida, me abrindo de vez para o da maternidade e me concentrando somente nele. Gastei os últimos meses da minha gestação preparando a vinda do Bernardo em alto estilo, era como se eu precisasse suprir a falta do pai dele fazendo mais do que o necessário, me tornando obsessiva com tudo que fosse relacionado com meu filho. Reformei o antigo escritório do meu pai que servia mais de depósito de documentos fiscais e nele fiz um quarto dos sonhos todo em azul, com um lindo cenário com pássaros, móveis claros e muito bem construídos, planejados para crescer junto com ele, preparei um canto com todos os brinquedos educativos e estimulantes de coordenação motora, fala, andar e tudo o quanto PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON as revistas especializadas indicavam como recomendáveis para bebês. Eu e a Paulinha ficamos viciadas nesse tipo de revista e passávamos horas deitadas no sofá ou na minha cama, lendo, lendo e lendo. Minha pequenininha crescia a olhos vistos durante esses meses deixando a carinha de moleca para começar aos poucos a insinuar a mulher em que ela estava se transformando, cada dia mais linda e mais ignorante de sua própria beleza. Me enchia de cuidados, dividindo toda a experiência da gravidez, o bom através dos preparativos e o mal que era basicamente ir comigo em todas as consultas e ouvir a médica dizer mais uma vez que estava cada vez mais preocupada com minha pressão. Era uma droga, mas por mais que eu fizesse ela não se estabilizava e eu podia perceber que a cada telefonema da Heloísa eu me descompensava mais e pior ficava o meu estado. Eu me preocupava demais com minha saúde e com o que poderia acontecer com o Bernardo por causa disso e meu mau humor era insuportável até mesmo para mim. Mesmo assim PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON a Paulinha não saía do meu lado e isso era uma das poucas coisas que me acalmavam. As posições tinham se invertido: já não era mais eu a tomar conta da minha irmãzinha, ela era quem cuidava de mim e do meu pequeno, com tanto amor e carinho que me emocionava. Um dia estávamos as duas revirando as roupas do Bernardo e as arrumando pela enésima vez quando eu precisei sair por um instante e a deixei fazendo a tarefa sozinha por um tempo. Na volta me detive ao ver minha mãe entrando no quarto. Ela era a menos empolgada com todos os cuidados com o Bernardo, apesar de ter dobrado os que já tinha comigo, cuidando ela própria da minha dieta, ficando de olho em mim e censurando toda e qualquer extravagância que eu fizesse. Mas raramente entrava no quarto do Bernardo e virava e mexia deixava claro que estava insatisfeita com a minha decisão de deixar o Gabriel à parte da minha gravidez, por isso eu estranhei a aproximação dela e fiquei quieta parada na parte de fora do quarto, escutando o que ela diria a Paulinha, eu realmente esperava que ela não pegasse no pé da garota gratuitamente. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Do ângulo em que eu estava podia vê-la perfeitamente quando ela sentou em frente à Paulinha e começou a dobrar as roupinhas, sorrindo para minha irmã, que separava as peçase dava para ela. ─ Você tem sido uma grande companheira da sua irmã, Paulinha, eu tenho observado isso. Mesmo sem poder ver eu sabia que a Paulinha dava de ombros para essa afirmação da minha mãe, talvez tão surpresa quanto eu mesma. ─ Também a Nana sempre foi muito mais sua mãe do eu mesma não é? Uau! Eu morreria e não escutaria a minha mãe reconhecer uma fraqueza! O que estava acontecendo com o gélido coração da D. Ruth? ─ Que isso mamãe, ela só era mais acessível por ter mais tempo do que você. ─ Nós sabemos que não é isso Paulinha. Vendo a forma cúmplice com que vocês duas se relacionam, principalmente agora, eu confesso que me deu um certo ciúme. Queria poder merecer os olhares de admiração que você lança para a sua irmã ou para seu pai e até mesmo o Bernardo que nem nasceu parece ter mais seu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON amor do que eu. Mudei de posição e vi a Paulinha congelada com seus grandes e expressivos olhos castanhos rasos de lágrimas e totalmente inerte ante ao ataque verborrágico da nossa mãe. Sua boca se movia sem que qualquer som realmente saísse por um bom tempo. ─ Ma-mamãe, não é nada disso, eu te amo tanto quanto a eles, você sabe, não é? Ela então se aproximou dela sorrindo, colocou uma mecha de cabelo caído atrás da orelha e com o indicador recolheu uma lágrima que caía e acariciou sua bochecha. ─ Claro que sim Paulinha, eu nunca duvidei disso, você é incrivelmente bondosa e nunca foi uma filha má, mesmo que muitas vezes tivesse motivo. É só que vendo a forma com que você e sua irmã interagem eu percebi que perdi muito tempo sendo chata, exigente e intransigente com você e mesmo que eu achasse que tinha os meus motivos, nada desculpa o fato de nunca ter deixado claro que apesar do meu jeito eu te amo muito e me orgulho da pessoa que você é. Paulinha encolhia os ombros e se abraçava, incomodada com essa postura nova da pessoa PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mais rígida que nós conhecíamos. ─ Sabe Paulinha quando soube que teria você, outro filho não estava mais em meus planos. Nos do seu pai? Sempre! Mas eu estava tão focada na minha carreira e estudos que estava feliz somente com a Nana, que já era uma mocinha e não me dava nenhum trabalho além do básico. Eu fui muito egoísta. Quando você nasceu, seu pai e a própria Nana faziam questão de te mimar e eu me sentia tão mal com isso, parecia que seu pai achava que você precisava ser protegida de mim, me sentia uma péssima mãe, isso me consumiu até que a depressão levasse a melhor e eu não me orgulho de ter realmente me tornado o que todos esperavam de mim. Por outro lado, tanto quanto agora, parecia que você era tão melhor cuidada por eles do que por mim mesma... Eu tive ciúmes Paulinha. A verdade nua, crua é que sua mãe é uma mulher mesquinha a esse ponto! Ter ciúmes da forma como seu próprio bebê é tratado. Tive tanto ciúme de que eles se preocupassem tanto com você quanto do fato de não parecer que eu fazia menor diferença para você. Me doía quando te elogiavam, me doía saber que ao contrário da PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Nana, que todo elogio a ela também era, de alguma forma, a mim mesma, já que ela sempre foi tão parecida comigo e a educação que eu dei a ela sempre foi tão evidente, mas quando elogiavam você, quando eu mesma via como suas características sobressaiam, eu sabia que não tinha nada meu nisso. Sim, você é uma garota especial e isso é mérito seu, só e unicamente seu! Seu pai e irmã podem até levar uma fatia do crédito pelo zelo com você, mas se você não fosse uma pessoa tão bonita por dentro, tão incrível a ponto de nunca ter se revoltado contra mim, nunca ter sequer me desafiado e me dado qualquer razão que fosse para reclamar de você, se você não fosse essa pessoa, nem seu pai nem sua irmã poderiam ter feito quem você é hoje e a mulher que eu sei que você vai ser. Minha irmã tremia, sem saber como agir e minha mãe a enlaçou, a apertando fortemente contra seu peito como eu nunca tinha visto. ─ Me desculpa, meu bebê, eu sei que te feri durante esse tempo todo que eu te deixei de lado, e não reconheci a garota fantástica que você é, você não merece a mãe que tem. Mesmo assim eu, desse jeito torto e errado te amo muito e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON queria aprender um pouquinho com você a ser uma pessoa melhor. Mas eu não sei se eu tenho jeito não. Agora mesmo, vocês estão tão empolgados e preocupados em mostrar apoio a Nana e eu aqui, mesquinha como sempre, me preocupando com o que esse bebê pode trazer de problema, sua irmã doente, esse pai desaparecido, a carreira dela... Na mesma hora a Paulinha saiu do seu estado de choque e contestou nervosa a minha mãe. ─ Mamãe, não fala isso! O Bernardo só vai trazer coisa boa para a Nana e todos nós. Ele não é o seu pai, ou a falta dele, nem o problema de pressão da Nana, e nem vai atrapalhar em nada a carreira dela, nós todos estamos aqui justamente para garantir que isso não aconteça! Como você pode pensar esse tipo de coisa? Com um suspiro fundo minha mãe afundou seu corpo, em uma atitude de desistência. ─ Não sei Paulinha, como eu disse, sou mesmo uma mesquinha desmancha prazeres. E não duvido que a criança se revele uma benção tão grande quanto você, mas eu não sei apagar esse lado calculista de mim. Meu coração doeu por ver minha mãe falar PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON aquelas coisas, eu poderia dizer que ela baixou no meu conceito por expor seus piores defeitos de forma tão seca, e principalmente pelas coisas horríveis que ela disse sobre meu filho, mas uma melancolia me gelou o sangue, deu uma pena tão grande dela. Minha mãe, que eu sempre tinha tido como uma mulher forte, mesmo através das crises depressivas, agora me parecia uma menina inconsequente, insegura e imatura demais. Tão superficial a ponto de ver o nascimento de uma criança, não como a felicidade que era, e sim como fonte de problemas. Pobre da minha mãe. Não sei se motivada pelo mesmo sentimento de misericórdia, Paulinha puxou minha mãe para o seu colo, beijando sua testa e falando com ela, agora baixo demais para que eu conseguisse ouvir e eu agradeci a isso. Tudo que eu tinha acabado de testemunhar tinha sido demais para mim. Meu peito estava apertado e como minha cabeça começou a fisgar decidi deixar as duas a sós e fui para a cozinha tomar meu remédio de pressão e pensar sobre tudo o que eu ouvi. Cheguei à conclusão que minha mãe tinha sido a mais fraca na nossa família e que sua PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON atitude de valentona não passava de fachada para sua insegurança. Mas eu não concordava com ela que eu era tão parecida com ela, e nem estava dizendo para me enaltecer, mas eu nunca seria tão fria com um filho quanto ela. No entanto, tinha que reconhecer que minha maneira de nunca me envolver demais, de sempre esperar o pior e não dar chance às coisas boas era herança direta da minha mãe. Mas então... tinha a situação com o Gabriel, em que pela primeira vez eu consegui me abrir um pouco e voi lá! Nem nas minhas piores suposições o nosso caso poderia ter terminado tão mal. Eu ainda estava sentada, apoplética, à mesa de almoço quando minha mãe desceu, com os olhos inchados e passou por mim em direção ao filtro, onde se serviu e tomou sua água em grandes goles, entre soluços abafados. ─ Eu ouvi você. ─ E agora você me odeia? ─ Não. Como sei que a Paulinha também não. Mas foi um choque ouvir da sua boca por mais que às vezes eu pensasse essas coisas sobre você, por causa da forma com que você tratava a PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON minha irmã. ─ Eu não sou perfeita, Nana! Eu sei que a gente costuma idealizar a mãe como um ser perfeito e imaculado, mas infelizmente a mãe de vocês duas é só uma pessoa cheia de defeitos e erros para tentar consertar. ─ Tudo bem, mamãe. Não estou te julgando, todos nós somos exatamente isso, não é mesmo? Pessoas errando e acertando. ─ Acho que sim, vou descansar agora filha. Sua irmã foi dormir. Pelo menos hoje fiz meu papel de mãe direito.─ Não seja tão rígida com você, mamãe. Você errou, reconheceu, isso é um grande passo. ─ Sim, assim espero! Outro suspiro e com um beijo nos meus cabelos ela subiu novamente as escadas. Após esse episódio elas realmente pareceram mais amorosas uma com a outra e como, com o passar dos meses todos pareciam empenhados em me manter calma e longe de qualquer risco da minha pressão subir, minha família parecia, como nunca, uma família de comercial de margarina. Sem brigas, muito riso e tranquilidade. O pior é que como eu estava cada PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON dia mais nervosa, até isso me incomodava e eu podia sentir o cheiro do medo neles, como uma fera selvagem, a cada vez que eu aparecia. Eu estava como uma megera, mas não podia fazer nada para melhorar. Minha pressão só subia e eu acabei por pedir a minha médica que não falasse sobre isso na frente da Paulinha e da Lívia, ia dar tudo certo, eu sabia, mas elas alarmadas só iria me prejudicar ainda mais. Pelo sim, pelo não tomei várias decisões e arrumei todas as coisas de forma que, Deus nos livre e guarde, acontecesse algo a mim tanto o Bernardo quanto a Paulinha estariam seguros e bem encaminhados. Parecia bobeira essa porção de arranjos que eu estava fazendo, no entanto seria melhor pecar por excesso do que por falta, e nada disso teria importância quando eu saísse da maternidade com meu pequeno no colo... Quanto a assegurar o futuro da minha irmã parecia o justo, já que eu tinha recursos guardados suficiente para isso e eu sabia que meus pais não tinham mais do que um fundo de emergência guardado no banco, nada que PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON realmente garantisse conforto e segurança para a Paulinha se algo desse errado na sua meta de cursar uma faculdade pública. Também troquei de carro e esse simples gesto foi o que mais marcou a mudança na minha vida. Eu não seria mais a garota em um FIAT 500 bonitinho, seria a mãe em uma Mitsubishi Outlander e isso tinha um significado muito maior do que parecia. Queria dizer não mais irresponsabilidades, não mais inconsequências, não mais liberdade... mas teria o Bernardo e isso me bastaria e compensaria qualquer perda. Faltando dois meses para o fim da gestação a Dra. Simone bateu o martelo e me obrigou a entrar de licença previamente, em uma última tentativa que a pressão baixasse, o me fez correr com os projetos que eu podia correr e passar para meu substituto os projetos em andamento. Qual não foi a minha surpresa ao saber que o arquiteto que me substituiria seria ninguém mais do que Miguel, o professor do curso que eu fiz em Barcelona? Sua cara de surpreso quando me viu entrar na sala quase rolando de tão gorda era uma piada, PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON mas logo que ele se refez do susto me deu um abraço e disse o quanto tinha sentido minha falta e o quanto estava feliz em poder trabalhar comigo. ─ Infelizmente só por alguns dias Miguel, na verdade você não vai trabalhar comigo e sim no meu lugar. ─ Verdade? Apontei a imensa causa do meu afastamento, rindo para ele. ─ Sim, amigo. Em poucos dias eu saio de licença, um pouco antecipada por causa de um pequeno problema. ─ Algo sério? ─ Não, nada com que se preocupar SE eu fizer o repouso necessário e tomar alguns cuidados bobos. Eu o levei para a sala que compartilharíamos e tão logo ele se viu a sós comigo, me perguntou em seu esforçado português com sotaque. ─ E Gabriel, Adriana, ele sabe do bebê? Virei-me de costas para ele e caminhei até a janela, observando a rua e fugindo do seu olhar de condenação. ─ O que te faz pensar que a criança é do PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Gabriel? ─ Por favor, Adriana, não me tomes por um tolo! ─ Desculpa Miguel. Você tem razão é sim do Gabriel, mas ele não sabe e nem deve saber, por favor, se você estiver com ele na sua volta para a Espanha não conte nada. Eu saí de lá brigada com o Gabriel e determinada a não ter mais nada com ele. Eu não sabia que estava grávida, mas isso não muda nada. O bebê é meu, Miguel, só meu, entendido? Virei-me de volta, com os braços cruzados, analisando se ele ia me contestar. ─ Tu sabes melhor Adriana, pero... ─ Mas o que, Miguel? Não tem mas! Ele não merece esse filho e pronto! ─ Perdona me, é que... Sabes? Eu o vi há poucos dias, ele estava naquele restaurante onde encontrei vocês dois e ele ficou furioso quando fui falar com você. - Não consegui segurar uma pequena risada ao lembrar da cena que eu e o Gabriel fizemos aquela noite. ─ O homem não parecia o mesmo, estava descuidado, estranho e bebeu uma enormidade durante o tempo em que fiz minha refeição. Quando acabei e fui lhe PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON cumprimentar ele disse coisas sem nexo, chegando a me acusar de ter roubado você dele. Pedi ao garçom que o ajudasse e fui embora antes que ele se exaltasse mais. Adriana não faço ideia do que aconteceu entre vocês, seja lá o que for mexeu com esse rapaz e se ele não sabe sobre o bebê... Yo no lo sé, pero... él merece la verdade, Adriana... As palavras dele me pegaram desprevenida e me abalaram muito mais do que eu deveria mostrar. Balancei minhas mãos para cima e para baixo em meus braços, como se estivesse frio, e na verdade estava, não no ambiente, mas dentro de mim, se concentrando principalmente em meu estômago. ─ A situação é difícil Miguel, por favor, esqueça tudo isso. Fugi em direção ao banheiro, deixando para trás o Miguel com uma expressão que devia parecer tão perdida quanto a minha própria. Molhei meu rosto e minha nunca e me sentei no sanitário, esperando me sentir melhor. Eu estava tonta e a já familiar dor de cabeça começava a me rondar. Precisava ficar calma, pelo meu filho e por mim mesma. Puxava o ar lentamente e PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON soltava mais ainda, procurando me concentrar no ritmo da minha respiração e não em tudo o que o Miguel dissera. Não podia ser verdade. Eu não podia ir por esse caminho, não... Eu não podia estar tão errada. Além do mais o que adiantava isso tudo naquele momento? Merda! Eu dava um passo para frente e dois para trás o tempo todo! Quando eu já estava esquecendo o Gabriel o Miguel chega com essa história, droga! Alcancei a pia e me arrumei novamente, torcendo para a maquiagem fizesse mais do que o seu serviço e escondesse minha cara inchada e vermelha. O Miguel estava sentado na cadeira de frente à mesa que seria dele desde então e quando viu que eu tinha saído se levantou e cruzou a sala, com suas passadas largas, para me consolar, mas eu estava tão cega e determinada a não voltar a sofrer pelo Gabriel que eu o afastei friamente. ─ Por favor, Miguel, eu estava falando sério. Que esse assunto acabe aqui, não quero saber mais nada do Gabriel. Vamos nos ater ao nosso serviço, eu tenho que te passar muita coisa e pouco tempo para fazer isso. Os próximos dias foram de muito trabalho PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON por isso eu tratei de cortar o climão que tinha se instaurado entre nós, acabou que foi muito agradável esse tempo. O Miguel era um profissional excelente, um bom papo e um homem galante, deixando claro que as cismas do Gabriel com ele não eram tão infundadas assim, apesar dele nunca ter atravessado a linha comigo. Era respeitoso e cordial, a única coisa que me incomodava um pouco era o olhar de piedade que eu percebia às vezes. Não havia motivo nenhum para ter pena de mim e isso era quase ofensivo, mesmo assim eu procurava ignorar e seguir trabalhando da melhor forma possível. No meu último dia de trabalho meus colegas fizeram uma enorme festa e Chá de Bebê e eu precisei que a Lívia fosse até ao escritório para levarmos as coisas do Bernardo em dois carros. Duas semanas depois foi a vez da Lívia e da Paulinha aprontarem para mim outro Chá de Bebê, esse sim oficial com todas as nossas amigas presentes e era tanta coisa que eu tinha certeza que não precisaria comprar roupa, calçado, fralda e utensílios para o Bernardo por todos os primeiros anos dele. Meu pequeno nem ao menos tinha nascido e jáera cercado por rios PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON de amor! As últimas semanas têm sido um pavor... Pela primeira vez desde que voltei da Espanha tenho tido tempo de sobra e passo todo ele tentando me ocupar com algo para não pirar. Sabe quando os pensamentos não vêm ordenados e sim como bolas elásticas que ficam quicando na sua cabeça e voando para todos os cantos? Tipo assim! Com isso a pressão só sobe, estou inchada e irritada 25 horas por dia. Ser mãe deveria ser o ponto alto da vida de uma mulher, então por que tudo é tão complicado? O telefone toca e só de ver aquele nome na tela meu humor baixou muitos graus. Maldita Heloísa, não me deixa em paz de forma nenhuma! Essa é primeira vez que ela liga depois da minha conversa com o Miguel e vou tirar a limpo essa história de uma vez por todas. ─ Adriana, querida! Como vai? E o bebê já nasceu? Ela sempre foi assim? Por que de repente eu não suportava esse excesso de simpatia? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON ─ Oi Heloísa, ainda não, mas é para qualquer hora. ─ Que bom querida, você deve estar tão feliz. ─ Claro que estou. Feliz e ansiosa para conhecer meu filho. Heloísa para que você ligou? Falo secamente, deixando claro que não estou com paciência para conversa fiada. Ela me responde com o tom magoado mais falso que eu já tinha ouvido, mal disfarçando sua irritação. ─ Nossa Adriana, só liguei para saber de você e do seu bebê. O que houve com você? ─ O que houve comigo, Heloísa? Vou te falar o que houve comigo. Eu estou prestes a dar à luz uma criança que é fruto do grande amor da minha vida e vou fazer isso sozinha, e sabe Heloísa eu tenho me questionado muito se estou certa em fazer as coisas desse modo. Sabe quem é o arquiteto que está me substituindo? O Miguel. E sabe o que ele me disse? Que encontrou o Gabriel bêbado e o acusando de ter fugido comigo. ─ Adriana, isso não... ─ Não Heloísa! – corto bruscamente. ─ PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Dessa vez, você só escuta. Essas coisas simplesmente não batem. Eu fui burra em ter te ouvido e não ter dado chance para ele se explicar. Seja o que tenha acontecido, seja com quem ele estiver, tão logo o Bernardo nasça eu vou entrar em contato com ele e jogar as cartas na mesa, estou disposta a escutar o lado dele, o mesmo que você me impediu de ouvir de forma tão contundente. Eu não faço isso por mim, mas pelo meu filho que tem o direito de saber quem é o pai, e pelo próprio Gabriel que tem o direito de pelo menos escolher se quer ou não participar da vida do nosso filho. Agora Heloísa, você me perdoa, mas eu não quero mais ouvir seus argumentos, você sempre consegue me levar para longe do que eu quero. Não me faça mais essas ligações insistentes, elas fazem mal a mim e ao meu filho. Adeus. Melhor encerrar a ligação sem dar a ela sequer a possibilidade de responder, e é isso que eu faço. Tudo isso é uma bela porcaria e agora me dou conta do quanto eu posso ter sido injusta esse tempo todo com o Gabriel. Eu devia falar com a Lili, me abrir e pedir que o Lucas PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON verificasse se é verdade que ele está mal. Eu me afastei tanto do Lucas nos últimos meses com medo dele falar algo do Gabriel ou de que ele juntasse dois e dois e descobrisse quem era o pai do Bê, que não me dei conta que a chave de tudo estava em me abrir com a Lili e ele. Os dois mais do que tudo eram nossos amigos e iriam nos ajudar. Deus, como eu fui burra! Burra, teimosa e egoísta! Minha cabeça dói tanto! A ideia de ter sido injusta durante esse tempo todo me pegou como um golpe na boca do estômago e me fez enjoar. Coloca para fora tudo o que tinha comido e a minha cabeça agora parece um campo de guerra, dor de um lado, sentimento de culpa do outro! Eu tomo os remédios que a médica tinha me passado, uns tranquilizantes fraquinhos, que não afetariam o Bernardo, mas a dor só piora. Agora vou ter que chamar alguém, não vai ter jeito! ─ Mãe! Mãe me ajuda, por favor! Minha cabeça está doendo muito. Ok, Dona Ruth essa cara aí não é o que eu chamo de ajuda! ─ Nana, desde quando você está sentindo PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON essa dor? ─ Desde mais cedo, há umas duas ou três horas. Tentei dormir um pouco para ver se passava, mas só piorou. Escolho não falar que começou depois do telefonema da Heloísa, eu teria que explicar tudo para ela e agora estou tão letárgica que não consigo sequer conectar meus pensamentos. ─ E só agora você me chama? Adriana isso pode ser sério, vamos correr para o hospital agora! Não conseguia mais articular minha fala, então só concordei em um sussurro. ─ Tá... Minha mãe corre pra cá, a Paulinha pega chave de carro, meu pai as bolsas e eu estou tonta, a cabeça estourando, não consigo mais entender muita coisa. Paulinha corre como louca, quero falar que não foi assim que eu ensinei a ela, mas não consigo, minha língua está estranha, fico quieta, estou agitada, minha mãe está chorando, passando a mão no meu cabelo, pedindo para eu ficar aqui, ficar com ela. Chora não mãe! Eu estou aqui, não estou? Chegamos ao hospital, meu pai corre na frente, não vejo mais PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON nada, acordo numa sala iluminada. Um monte de vozes, pessoas nervosas, falando depressa. ─ Doutora anda logo, estamos perdendo ela. A pressão não para de subir. Estão perdendo quem? Devem estar falando de mim. A cabeça ainda dói, dói demais! Alguma coisa está muito errada, eu estou com medo. Penso no Bernardo, não pode acontecer nada com ele. Penso no Gabriel, se acontecer algo comigo o Bernardo nunca vai conhecer o pai, o Gabriel não vai saber do filho! Meu Deus, o que eu fiz? Mas agora, meu medo é que ele esteja em perigo, não pode! Ele tem que ficar bem! Chamo alguém com a mão. ─ Por favor, meu bebê, salva o meu bebê. Ela me olha por sobre a máscara, tem dor nos olhos dela, mas ela aperta a minha mão. ─ Fica tranquila Adriana, nós vamos salvar o bebê. Ela se vira para frente e grita. ─ Doutora, por favor, ela não vai aguentar. Eu acho que não vou mesmo, a dor é terrível! Eu escuto um grito, um choro forte, é ele! O Bernardo está bem! Graças a Deus! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Não vejo e nem escuto mais nada! PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON EPÍLOGO Você poderia imaginar que o pior era estar longe das pessoas que eu amava, ou pior... Não poder sequer ter segurado o Bernardo em meus braços. Não. O pior era a consciência do mal que minhas decisões provocariam para ele, para a Paulinha, minha mãe, meu pai, a Lívia... Era vê-los sofrer por mim sem poder fazer nada para ajuda-los. Minha mãe rejeitando meu filhinho e novamente errando com a Paulinha, deixando-a sozinha sem opção a não ser puxar para si a responsabilidade de cuidar do Bernardo, já que eu fui irresponsável e infantil demais para, pelo menos, ter dito a alguém quem era o pai dele. Saber que o Gabriel sofria pelo fim do nosso relacionamento e que tão longe dele tinha um pedacinho nosso que só teria ele no mundo e que por minha causa os dois estavam afastados e minha irmãzinha se sobrecarregando com obrigações que não eram dela, rasgavam meu PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON peito com a dor mais cruel do que eu poderia imaginar. Me senti terrivelmente culpada quando minha mãe não suportou a minha perda, mesmo sabendo que isso era só a parte visível de uma doença que já a comia por dentro há muitos anos. A depressão, a frieza, a rigidez eram somente os sintomas da mágoa que ela sentia por julgar que não tinha conseguido da vida tudo o que ela podia ou merecia, por não ter alcançado o patamar de vida que ela sonhou profissionalmente e, depois, ver seu sonho projetado em mim mais uma vez se esfacelar. Mas estranhamente minha culpa e dor foram se desfazendo à medida que eu via como a Paulinha se comportava com o Bernardo. Escutei cada uma das conversas que ela tinha com ele, sempre tão amável e maternal. Vi como ela vencia sozinha e determinada, cada nova descoberta sobre como cuidar de um bebê,sem nunca reclamar, nem com as pessoas, nem mesmo sozinha. A forma com que acolhia ele em seus braços amorosos, como eu sonhei em fazer tantas vezes, o cheirando e segurando seus pequenos dedos PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON gorduchinhos. O desvelo com que cuidava de cada necessidade dele sem que ninguém tivesse a ensinado a fazer isso. O Bernardo crescia lindo, saudável e esperto. E nesse processo nascia uma mulher forte, determinada, carinhosa. Quando nossa mãe enfim veio ao meu encontro, ao invés de chorar e se lamentar, a Paulinha a perdoou e seguiu cuidando não só do Bernardo agora, mas do meu pai e da casa também. Às vezes eu sentia sim uma pontada de ciúmes de ver como ela me substituíra, mas então eu reconhecia que tinha sido o melhor que poderia acontecer para o meu filho. Minha irmã pequena era muito melhor para ele do que eu jamais poderia ter sido. Mas isso não mudava o fato de que ela era uma menina apenas e me cortava o coração de ver como ela congelara a sua própria vida para assumir tarefas que caberiam a mim... ou ao Gabriel. Cada vez mais a ideia de que ele era o que faltava ao Bernardo me atormentava. O quanto eu poderia interferir na minha atual condição? Se PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON me fosse dada, ao menos, a oportunidade de sussurrar ao ouvido Gabriel que voltasse ao Brasil, eu tinha certeza de que tudo se precipitaria e se resolveria. Nem em mil anos eu poderia prever o que aconteceu a partir daí, e me exigiu um grande desprendimento, e, mais do que isso: a humildade de reconhecer de que fui uma simples ponte entre as duas pessoas que eu mais amei em vida e o meu amor maior, que era meu maior legado e minha obra mais perfeita. Testemunhei da minha posição privilegiada o nascimento de algo mágico. A cada vez que eu via nos olhos do Gabriel um brilho diferente, que nunca me pertenceu e que era todo dirigido a minha irmã mais nova, a cada vez que eu percebia o quanto ele a venerava realmente e que era tão justa essa veneração porque ela era tudo o que ele precisava e eles se combinavam de uma forma nós nunca iríamos nos combinar. E isso era exatamente do que meu filho precisava. E então as coisas se encaixaram todas em seus lugares certos... Cada um de nós nada mais era do que uma única engrenagem acoplada PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON numa estrutura muito maior do que podíamos ver, e a cada um coube se ligar às outras engrenagens e assim, fazer a roda girar. Ou melhor, fomos um elo, ligados uns aos outros de forma invisível, mas formando correntes eternas que por sua vez se juntavam a outras correntes construindo nossa rede de afetos e amores. Eu fui o elo entre a Paulinha e o Gabriel, mas eles estavam destinados a algo muito maior. Estavam destinados a formarem sua própria corrente. Um lindo cordão, só deles, onde meu filho amado e seus irmãos, meus lindos sobrinhos, seriam as contas mais lindas, minha irmã tão responsável e correta e o meu ex-amor, meu amor eterno e cunhado seriam os elos mais fortes e que se uniria a muitas outras correntes, tocando e influenciando com seu exemplo de amor e compreensão todos os amigos e pessoas próximas. Um cordão tão lindo quanto aquele com o qual eu fui presenteada por um certo homem charmoso anos atrás, quem diria que aquele gesto daria início a uma história tão intensa? Quem diria que aquela história seria somente o início de PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON algo muito maior? PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON Play List Envolvidos (Músicas para entrar no clima da história) 1 - ORAÇÃO – A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE 2 – AVENTURA – EDUARDO DUSEK (Essa música é simplesmente a essência da Nana) 3 – WHAT A WONDERFUL WORLD – LOUIS ARMSTRONG 4 – FAMÍLIA – TITÃS 5 –EDUCAÇÃO SENTIMENTAL- KID ABELHA 6 – EU PRECISO APRENDER A SER SÓ – ELIS REGINA 7 – CANÇÃO DA AMÉRICA – MILTON NASCIMENTO 8 – APENAS MAIS UMA DE AMOR – LULU SANTOS 9 – PRA SER SINCERO – ENGENHEIROS DO HAWAI 10 – SI TÚ ME MIRAS – ALEJANDRO SANZ 11 - GAROTA NACIONAL – SKANK PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON 12 – PAIXÃO – KLEITON E KLEDIR 13 – BEM QUE SE QUIS – MARISA MONTE 14 – TÁ COMBINADO – GAL COSTA 15 – VOCÊ – TIM MAIA 16 – FAREWELL – RIHANNA 17 – PISCAR O OLHO – TIÊ 18 – NOITE – TIÊ 19 – SIMPLESMENTE ACONTECEU – ANA CAROLINA 20 – FORÇA ESTRANHA – CAETANO VELOSO 21 – METADE – ADRIANA CALCANHOTO 22 – BRINCAR DE VIVER 23 – ALÉM DO HORIZONTE – NARA LEÃO 24 – ZERO – LINIKER E OS CARAMELOWS [1] ─ Muito bem, sua explicação me encantou muito. Qual o seu nome, querida? E de que país vem? ─ Obrigada, professor. Meu nome é Adrian Neumann e venho do Brasil. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON [2] Você não retornará aqui, com ou sem ajuda da leoa . [3]Da Espanha você levará o seu maior tesouro, mas não chegará a voltar aqui. Que Deus receba a tua alma em Sua Glória, criança . [4]Pronto! Agora vocês acordaram um monstro! Só vão sair daqui pela manhã, uma história leva a outra e quando se vê, já foi a noite embora! [5] Aonde vais Catalão? [6] Eu vou a Catalunha, graças a Deus! [7] E se Deus não quiser... Sapo! [8] Esse é o telefone privado do Gabriel e aqui é a namorada dele, por gentileza delete esse número e se dirija ao seu escritório se o assunto for profissional, no caso de assunto pessoal simplesmente o esqueça. PERIGOSAS NACIONAIS PERIGOSAS ACHERON