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ENVOLVIDOS
Porque Toda história
tem um começo
 
 
 
 
PERIGOSAS NACIONAIS
PERIGOSAS ACHERON
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PERIGOSAS NACIONAIS
PERIGOSAS ACHERON
 
 
Sônia Tedesco Melo
1ª Edição
PERIGOSAS NACIONAIS
PERIGOSAS ACHERON
Copyright © 2019 Sônia
Tedesco Melo
Todos os direitos reservados.
Criado no Brasil. 
Esta é uma obra de ficção. Seu
intuito é entreter as pessoas.
Nomes, personagens, lugares e
acontecimentos descritos são
produtos da imaginação da
autora. Qualquer semelhança
com nomes, datas e
acontecimentos reais é mera
coincidência.
PERIGOSAS NACIONAIS
PERIGOSAS ACHERON
Esta obra segue as regras da
Nova Ortografia da Língua
Portuguesa.
São proibidos o
armazenamento e/ou a
reprodução de qualquer parte
dessa obra, através de
quaisquer meios — tangível
ou intangível — sem o
consentimento por escrito da
autora.
A violação dos direitos
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PERIGOSAS ACHERON
autorais é crime estabelecido
na lei n°. 9.610/98 e punido
pelo artigo 184 do Código
Penal.
 
 
TÍTULO ORIGINAL
ENVOLVIDOS ( Série
ENTRELAÇADOS)
 
CAPA
EVY MACIEL
 
REVISÃO
PERIGOSAS NACIONAIS
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ANDREA DI PALMA
ELI ALVES
PATRÍCIA OLIVEIRA
 
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"Morrestes achando que
amava.
Matastes pensando que era
amor.
Dominado pelo egoísmo da
paixão,
nos fez ver que não te
conhecíamos como
deveríamos
e, por tua atitude,
demonstrou que não
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conhecias o amor.
Descansem em paz."
William Shakespeare
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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ESCLARECIMENTOS
 
Esse livro nasceu depois que uma leitora
querida fez um comentário sobre “Entrelaçados” ter
a ajudado a resolver uma questão pela qual ela
estava passando, e me fez ver que a história da
Nana não só merecia, como precisava, ser contada
como um tributo ao fato da vida não ser uma coisa
estanque, cimentada e sim dinâmica.
Afetos de quem nunca pensaríamos nos afastar
se vão dando lugar a outros que nos fazem esquecer
que um dia já tivemos uma vida sem eles. As
estradas mais certas mudam seus traçados
diariamente sem que percebamos e em um piscar
de olhos podemos nos encontrar em um destino
totalmente novo e nem por isso menos admirável.
Talvez a maior beleza da vida seja justamente
sua infindável capacidade de nos surpreender.
PERIGOSAS NACIONAIS
PERIGOSAS ACHERON
Peço que vocês tenham isso em mente,
principalmente quem leu antes “Entrelaçados”,
talvez a história da Nana possa gerar alguns
sentimentos conflituosos em vocês, mas também os
fará conhecer muito melhor nossos personagens
queridos.
Quem não leu “Entrelaçados” pode escolher ler
depois e seguir a cronologia ou não. A ordem não
alterará a história, mas talvez dê perspectivas bem
diferentes.
No fim do livro coloquei uma lista das músicas
que me acompanharam durante o processo de
escrita do livro para ajudar a entrar no clima.
Espero que gostem, ou que criem outras e, por
favor, dividam comigo.
Por fim, me desculpem o tempo que eu demorei
para lançar “Envolvidos”, estava justamente em um
desses momentos mágicos em que a vida nos tira
do traçado pré-determinado e nos apresenta ao
maravilhoso desconhecido.
 
 
 
 
 
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AGRADECIMENTOS
 
Mais do que nunca eu tenho muito que
agradecer e a tantas pessoas que sequer caberia em
um livro inteiro, ainda mais em uma simples
página.
Meus filhos que são tudo para mim e como se
não bastasse ainda me incentivam o tempo todo e é
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isso que me impulsiona sempre.
À minha mãe, eu implico com você porque te
amo e quero te ver brilhar com toda a intensidade
que eu sei que você tem, mas te amo muito e sou
infinitamente grata por ser sua filha, mesmo que eu
não diga ou demonstre muito isso.
À minha tia Angela por ter lido A Bela e A
Fera pra mim, no Tesouro da Juventude, foi aí que
meu amor pelos livros começou. Ah sim, e só por
tudo além disso.
À Lena, minha sogra, anjo que Deus me deu.
Minhas amigas queridas, Déa e Patty que
revisaram esse livro mais uma vez e que não me
deixaram desistir do meu sonho, eu amo vocês e
vou ser eternamente grata por tudo o que vocês
sempre fizeram e fazem por mim. À propósito... Eli
que nunca desistiu de mim, mesmo quando eu virei
uma ermitã ranzinza e acho que é uma das poucas
pessoas que conseguiram entender o meu exílio
necessário, obrigada, Eli, eu cheguei a ponto de
achar que não tinha mais como voltar e você
sempre esteve lá me mostrando a saída, com sua
mão estendida para mim.. Fran, minha anjinha
doidinha, Leti e Deia, sempre se fazendo presente
de uma forma ou de outra, me mostrando que eu
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nunca estive sozinha. Sarinha que foi essencial para
esse livro ( ela quem traduziu as partes em
espanhol) obrigada, você sempre vai ser meu
talismã, pequenininha. Adriana Cavenagh, recebi
todos os seus recados e morro de vergonha de te
deixar na mão, juro que vou fazer o possível para
voltar a todo o vapor e atender suas expectativas,
você foi muito importante para que eu não
desistisse de tudo, você não sabe o quanto! Minha
filhota Cris, que pega no meu pé também pelo
Pietro e a Ju ( eu juro, eu vou voltar pra eles, vou
vencer esse meu bloqueio com os dois e vou acabar
o livro logo). Sheilinha, nem sei o que falar do seu
carinho e do seu apoio. Sassa, Jo, Nessa, Beth,
Morgana, Liis, Nanda, Claudinha, Line, Evelyne,
Adriana, Nina, Cleo, Neuza, Aline, Fê, Dani, Edi,
Sue e tantas outras amigas que os livros me
trouxeram e que eu só posso agradecer muito por
isso, porque nem consigo ver minha vida sem ter
conhecido essas pessoas lindas. Drica Rosa, pelo
seu comentário lindo sobre Entrelaçados, ainda me
emociono quando lembro. Aliás a todos que leram
meus livros e comentaram, fizeram críticas, todos
vocês me ajudaram muito.
Camila, Natalie, Tia Marluce amo vocês tanto
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que dói e sempre vou amar. Bete, Célia, Rosane,
obrigada por me ajudarem a levantar, se não fosse
por vocês e a fé que vocês me ajudaram a descobrir
em mim, eu não teria conseguido, também.
Enfim, cada pessoa que me empurrou ou me
segurou durante esse período, muito obrigada.
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SINOPSE
 
 
 
 
Adriana era a pessoa mais livre e
independente que alguém poderia conhecer, nada
ou ninguém a mantinha presa por muito tempo.
A única exceção era Gabriel Ferraz, sua
paixão da adolescência e o seu maior ponto
fraco, com quem ela “esbarrou” durante sua
estadia em Barcelona.
Esse encontro rápido e inesquecível trará
muitos frutos além de uma acalorada paixão e
uma intensa aventura.
Se preparem para ouvir a nossa fantasminha
contar através de suas memórias, os detalhes de
um amor que não atravessou o tempo, no entanto
os marcou eternamente.
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Com vocês, a história antes da história… 
 
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PREFÁCIO
Quantos erros nós temos o direito de cometer
em uma vida? Será que sempre teremos a chance
de repará-los? E se não tivermos? E se os nossos
erros afetarem diretamente a vida de outras
pessoas, aquelas que mais amamos?
Minha cabeça está um turbilhão. Faz meia
hora que eu desliguei o telefone e pela primeira
vez em meses eu consigo enxergar com clareza,
ou pelo menos acho que sim. Se a conclusão a
que eu cheguei depois dessa maldita ligação
estiver certa o meu erro dessa vez não tem
perdão: meu orgulho e minha cabeça dura podem
ter dado fim à coisa mais bonita que eu jamais
vivi.
Minha cabeça dói tanto, meu pensamento
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turvo não permite destrinchar exatamente o que
aconteceu.
Eu sei que eu já fui uma garota destemida,
segura e que me safava de todas, mas isso foi
antes...
Agora eu só queria entender o que fez tudo
desandar dessa maneira,logo quando eu achava
estar vivendo meu conto de fadas.
Vou deitar um pouco, esperar a dor passar,
me lembrar de tudo e ver onde exatamente eu
errei...
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CAPÍTULO 1
Família ê, Família ah, Família...
 
Acho que é melhor começar do começo.
Do verdadeiro começo dessa história:
quando eu soube que ganharia um irmão.
Eu tinha nove anos e me assustei com os
soluços angustiados que vinham do quarto de
meus pais e resolvi descobrir o que estava
havendo, ouvindo sorrateiramente atrás da porta.
A voz macia e acolhedora do meu pai
consolava aquela pessoa frágil, que em nada
lembrava minha mãe sempre tão forte e
equilibrada, enquanto ela se desesperava.
— Eu não acredito Rubens! Logo agora que
eu fui chamada para trabalhar no melhor curso
vestibular do Rio, não podia acontecer isso!
Nunca que eu vou ter outra chance como essa
novamente.
— Claro que vai! Quem vê você falando
desse jeito pode achar que você tem uma doença
terminal e não que carrega uma notícia tão boa
nesse papel. Um bebê, Rutinha! Tem coisa
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melhor do isso? Um moleque para ir comigo no
Maraca ou outra princesinha como a Adriana,
linda como você, meu bem!
— Eu já tenho um bebê Rubens, um bebê
grande, independente, que quase não me dá mais
trabalho. Eu não vou saber lidar com mais uma
criança, dar aulas e ainda te ajudar na loja!
— Querida, diminui seu tempo na loja, eu te
ajudo mais em casa, tudo vai se ajustar. Quantos
casais têm mais de um filho e o mundo não
acabou por causa disso?
— Eu sou uma pessoa horrível, não sou?
A minha mãe chorava e soluçava e eu me
preocupava com ela. Pela voz do meu pai eu
podia sentir que ele também, e isso me deixava
mais apavorada ainda. Nada no mundo
preocupava meu pai.
— Não chora, não fala assim, sabe que o
bebê já sente e nós não queremos que ele se sinta
rejeitado, não é mesmo? Você não é horrível,
você é linda, minha loira! Eu te amo muito! A
você, a Adriana e a essa sementinha aqui, que
veio para deixar nossa família mais linda,
Rutinha.
Eu empurrei a porta do quarto dos meus pais,
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devagarinho, e vi meu pai de joelhos na frente da
minha mãe, que estava sentada na ponta da cama,
beijando amorosamente a barriga dela e depois
se levantando e beijando o rosto da minha mãe,
apagando a trilha de lágrimas que escorriam pela
sua face com beijos suaves.
Eles eram tão diferentes e tão lindos juntos!
Ele, alto, forte, moreno, sempre de barba, o
que deixava ele mais com cara de pai ainda e me
dava uma cosquinha engraçada quando ele me
beijava.
Ela, loira, pequena e delicada como uma flor,
com os seus lindos olhos azuis, que eu
modestamente puxei, sempre brilhantes como
duas estrelas.
Ele, de temperamento doce e justo, nunca
elevando o tom de voz para zangar comigo,
sempre me explicando tudo duzentas vezes se
necessário, emotivo ao extremo, alegre e festivo,
dispensava toda a atenção do mundo para mim e
para minha mãe.
Ela, geniosa como o inferno! Muito
inteligente, organizada, racional e séria, tão séria
que beirava o melancólico, nunca desperdiçava
seus sorrisos, era quem colocava ordem na nossa
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casa, sempre gritando ordens e reclamações,
apesar de não ser nada rígida comigo, muito pelo
contrário, até parecia se divertir com minhas
travessuras.
Aliás, verdade seja dita, se uma coisa os dois
tinham em comum era o fato de não conseguirem
ficar bravos comigo nem por um instante, e com
tudo isso eu tinha a certeza de que era a criança
mais amada do mundo. Vendo os dois ali, tão
apaixonados, eu também sentia que era a filha
dos pais que mais se amavam no mundo também.
Aquela cena nunca sairia da minha cabeça, o
príncipe ajoelhado diante de sua princesa
cuidando dela com todo o amor do mundo. Um
dia eu também teria o meu príncipe e ele seria
tão forte, lindo e amoroso quanto era o meu pai!
Depois desse dia minha mãe parecia mais
conformada. Assim enquanto a barriga dela
ficava cada vez maior, meu pai e eu ficávamos
cada vez mais eufóricos.
Ele fazia questão que eu participasse de tudo,
me designando como a guardiã do bebê, o que
me encheu de senso de responsabilidade a
primeira vez na minha vida. Talvez por isso, ao
invés de ciúme eu já sentia um amor imenso e
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cuidava do enxoval do bebê como se fosse uma
coleção de roupas da Barbie, obrigando meu pai
a comprar tudo o que eu via pela frente, o que
deixava minha mãe louca.
— Outra roupa Rubens? Nem sabe o sexo do
bebê, vai encher a casa de roupa amarela e verde.
Espera pelo menos saber o que vai ser.
Ah! Eu adorava ficar pensando no que o
bebê seria, em como ele seria! Eu estava
torcendo por uma menininha para brincar comigo
e ela seria tão minha amiga quanto a minha
inseparável Lívia. Minha mãe torcia o nariz
quando eu dizia isso, falando que queria ver, que
depois que o bebê não fosse mais novidade eu
nem ligaria para ele. Eu a amava, mas às vezes
ela era tão burra! Só ela que não via: meu irmão
e eu seríamos os maiores amigos do mundo!
Por isso, quando eu soube que era uma
menina quase saí de órbita! Eu os acompanhei ao
ultrassom apesar de ter sido obrigada a aguardar
na recepção pelo que pareceu um ano inteiro até
que eles voltassem e meu pai se abaixasse na
minha frente e me desse a notícia, todo animado.
— Adriana, você acertou! Nós vamos ganhar
uma menininha! Outra princesinha linda para o
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papai, eu estou tão feliz, e você, meu doce?
Eu pulei no pescoço do meu pai quase
fazendo ele cair no chão.
— Oba! Papai, eu vou brincar tanto com
minha irmãzinha! Eu posso escolher o nome
dela?
Minha mãe não parecia tão animada quanto
ele.
— Não entendo toda essa alegria, Rubens.
Não era você quem queria um menino para levar
ao futebol?
Meu pai se levantou e segurando minha mãe
pela cintura a aproximou dele e a beijou na testa,
enquanto a outra mão deslizava sobre o pequeno
monte que era a sua barriga.
— É claro que eu estou feliz, Rutinha, meu
bebê está cheio de saúde, por que eu não estaria?
Menino, menina, pouco importa, só importa que
vai ser muito amado. Além do mais a Adriana
sempre viu jogo comigo e isso não faz dela
menos menina, pensando bem acho que estar
rodeado de lindas mulheres não é tão ruim assim,
não é mesmo?
Soltou a minha mãe e piscou para mim.
— Então mocinha como você quer chamar a
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nossa bonequinha?
— Ah! Eu acho o nome da minha professora
tão lindo! Ela se chama Ana Paula, mas eu não
quero que a nenê tenha mais nome do que eu,
então ela poderia ser Paula? Você gosta desse
nome, mamãe?
Era a primeira vez que ela sorria desde que
ela saiu da sala do exame.
— Muito lindo, meu amor, se você quer que
ela se chame Paula, Paula vai ser.
Se meu pai achava que saber o sexo do bebê
faria minha mãe mais participativa dos
preparativos para a chegada da Paulinha, ele
estava muito enganado. Comigo ela era a mãe
carinhosa e cuidadosa de sempre, mas tudo que
ela fazia para o bebê era no automático, e mais
do que isso, implicava com tudo o que meu pai
fazia para ela, achava tudo exagerado e
desnecessário. Até o quartinho lilás que eu ajudei
meu pai a decorar, toda feliz por que ele tinha
pintado da cor que eu escolhi, comprado cada
coisinha que eu pedi fazendo com que parecesse
realmente um quarto de princesa.
Quando ficou pronto meu pai parecia que ia
estourar de orgulho de mim, dizendo que eu
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levava jeito para decoração e devia ser arquiteta,
minha mãe também elogiou muito, bem como ela
gostava. Enunciou cada acerto como se fosse
uma prova e ela estivesse aferindo minha nota,
mas mesmo assim eu fiquei muito envaidecida
com a aprovação deles, mas logo depois de
elogiar, minha mãe soltou uma longa explicação
sobre o quanto apesar de estar orgulhosa de mim
e do papai ela achava desnecessário um gasto tão
alto para em um quarto principalmente depois
dela ter perdido a chance de melhorar o salário
dela.Olha, meu pai adorava o chão que minha
mãe pisava, sempre dizia que não acreditava que
ela, linda e inteligente como era, tinha olhado
para ele, e sempre tinha algo doce para dizer a
ela, perdoando seu mau humor e até achando
graça do jeito dela, mas naquele dia eu vi meu
pai perdendo a linha com a minha mãe, me pediu
que fosse para a casa da Lívia e quando voltei
minha mãe estava com cara de choro, deitada no
sofá e o papai não estava em casa, só voltou bem
mais tarde, o que eu nunca tinha visto ele fazer.
Durante dias o clima lá em casa pesou, meu
pai falando entre os dentes com minha mãe e ela
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chorosa pelos cantos. Depois, ele viu que não
valia a pena e voltou a agradá-la como sempre e
ela, por sua vez, ficou mais receptiva às coisas
que nós fazíamos pela bebê.
Infelizmente, porém, logo que a Paulinha
nasceu a indiferença da minha mãe se
transformou em uma depressão brutal que
parecia roubar toda a vontade de viver. 
Passava horas lá deitada, sem ânimo para
nada, mal cuidava da nenê e nem mesmo quis
amamentá-la por muito tempo. Meu pai se virava
em dois para dar conta de cuidar da Paulinha
como podia e da loja, nunca reclamando de nada.
Bem verdade que a tarefa mais difícil era a loja
mesmo, a Paulinha era o bebê mais bonzinho do
mundo, quase não chorava, passava seus dias
olhando minha mãe com aqueles olhões escuros
que pareciam perguntar quando ela seria vista,
quando minha mãe daria algum tempo para ela.
Confesso que cheguei a ficar brava com
minha mãe pelo jeito que ela tratava minha
irmãzinha, mesmo que meu pai, sempre ele,
tivesse me explicado que minha mãe estava
doente e precisava de carinho e amor.
Poxa a nenê também precisava!
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Assim que nosso laço se estreitou, eu
passava horas só brincando com minha
irmãzinha enquanto meu pai estava trabalhando,
e mesmo quando minha mãe conseguiu sair do
seu torpor e começou a reagir, cuidando melhor
de si mesma e até da Paulinha eu ainda ficava
por perto, ajudando sempre.
Por isso foi natural que a primeira palavra
dela fosse “nana”, tentativa super complicada e
engraçadinha de falar “Adriana”, praticamente
me rebatizando, já que a partir dali ninguém mais
me chamaria pelo nome fora da escola. Também
foi normal que, tão logo ela começasse a andar,
grudasse em mim e na Lívia.
Na verdade, Paulinha e minha mãe nunca
conseguiram reatar o vínculo perdido, e por mais
que ela quando menor tivesse gasto muita
energia tentando ser quem achava que minha
mãe gostaria (super responsável, independente,
caprichosa “menina maravilha”), a mamãe na
maior parte do tempo a ignorava simplesmente,
só abrindo exceção para as coisas relacionadas à
escola onde ela cobrava excelência da Paulinha
mais do que tinha cobrado alguma vez de mim.
Meu pai dizia que nessas horas era o sangue
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alemão que falava mais alto e minha mãe se
transformava em um oficial da Gestapo, e eu
pensava comigo mesma que com a Paulinha ela
era sempre assim. Uma tremenda nazista, pronta
para reprimir qualquer riso, fala ou ato da filha.
Com o tempo a Paulinha se adiantava a ela,
tendo o caderno mais limpo e organizado de toda
a escola, o uniforme mais limpo, a atividade mais
completa e as notas mais altas, sempre foram
menção honrosa onde estudou e onde quer que
fosse era elogiada e admirada, principalmente
por mim e pelo meu pai. Minha mãe, no entanto,
não parecia entender que ela fazia aquilo
procurando sua aprovação e com o tempo ela
simplesmente se isolou da minha mãe,
continuando a ser a menina maravilhosa que era,
mas saindo do caminho da minha mãe tanto
quanto podia.
Acredito que foi por isso que eu era tão
terrível! Eu queria mostrar para minha mãe o
quanto a Paulinha era boa, mas quanto mais eu
aprontava mais minha mãe achava graça,
chegava até a elogiar a minha “personalidade”.
Que personalidade que nada! Eu era uma
peste mesmo!
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Junto com a Lívia eu deixava a vizinhança de
cabelo em pé, andávamos de “skate” com os
meninos, subíamos em árvore, empinávamos
pipa! Eu vivia machucada e quebrada, não perdia
uma oportunidade de testar os meus limites.
Talvez por isso que meu pai não sentia falta de
ter um menino, em matéria de molecagem eu
deixava qualquer garoto no chinelo. Mesmo
assim para a minha mãe, tudo que eu fazia era
perfeito, chegando mesmo a dizer que o meu
espírito era livre, que eu tinha nascido para
brilhar.
Ela própria não tinha nada disso, era rígida e
presa as suas próprias convicções.
Já a Paulinha me seguia como uma sombra,
mas sempre a uma distância salutar para ela,
nunca se sujava, ou fazia algo perigoso, ou
mesmo tinha muitos amigos. Seu Universo se
restringia a mim, a Lívia e a Malu, sua melhor
amiga, quando muito ela conversava com o Davi,
irmão da Malu, e mesmo assim porque ele
sempre estava por perto.
O que fazia a alegria da minha bonequinha
era um lugar calmo onde ela poderia sentar e ler
um livro, sem que ninguém a incomodasse. A
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coitadinha se esforçava tanto para ser
transparente para minha mãe que se comportava
como se ela realmente o fosse.
Mas não era!
Ela era linda e tão doce que mesmo sem
fazer nenhum esforço encantava a todos onde
quer que nós fossemos. Meu pai estourava de
orgulho o que só piorava a situação dela com a
mamãe, isso sem falar que, se ela fosse difícil de
lidar, seria mais fácil de encontrar motivo para
implicar com ela, mas isso minha mãe
simplesmente não tinha.
Com o passar dos anos nossas diferenças se
acentuavam tanto quanto o nosso amor crescia. 
 
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CAPÍTULO 2
 
Ninguém vai resistir se eu usar os meus
poderes para o mal
 
Acredito que todo esse excesso de amor e
aprovação que eu tinha em casa fez de mim uma
adolescente fora do comum, sem as neuras da
idade e muito mais autoconfiante que o normal.
Talvez mais do que o recomendado, nunca fui
modesta e sabia o meu valor, sabia que era bonita
e tinha uma legião de garotos atrás de mim para
confirmar isso, mas nenhum havia mexido
comigo. Não alguém que realmente fizesse o
meu coração bater mais forte.
Isso só mudou quando que mudei de escola
para fazer o Ensino Médio no Colégio
prestigiado em que a minha mãe dava aula.
Estudar num colégio em que a sua mãe leciona é
uma experiência única porque te obriga a ver
uma faceta totalmente diferente da pessoa que te
criou.
No meu caso, descobri que ela era uma
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espécie de pop star do ensino, que além de
conseguir uma taxa de aprovação no Vestibular
absurda (do tipo que só não passava quem fosse
muito burro, ou não quisesse aprender mesmo),
tinha o dom de fazer os alunos assimilarem toda
a matéria como se fosse um processo de osmose.
Isso sem falar que onze em cada dez alunos que
estudavam com ela achavam-na o máximo.
Nunca entendi o porquê, mas minha mãe
trabalhando se transformava, deixava a mulher
cri cri e implicante de lado para dar as aulas mais
animadas e disputadas da escola. Difícil só era
saber que em parte o sucesso das suas aulas se
devia ao fato dela ser linda e os alunos serem
monstrinhos tarados com os hormônios em
ebulição. Por sorte, minha mãe, sendo A minha
mãe, tirava isso de letra usando a autoridade na
medida certa, nunca permitindo que os alunos a
desrespeitassem, e continuando a ser a professora
maneira, que todos amavam.
Nenhuma turma amava mais a minha mãe do
que a Turma de Elite. Os boyzinhos do último
ano, filhinhos de papai que estavam ali porque os
pais exigiam que eles se destacassem em tudo
para não envergonhar suas abastadas famílias, e
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que colocavam minha mãe num pedestal por
fazer entrar algo nas cabeças ocas de suas
preciosas crias.
E no meio dessa Turma de Elite, um deles se
destacava mais do que outros: era o queridinho
da escola, o mais bonito, mais engraçado, o que
liderava os outros, o que tinha o sorriso mais
lindo e que iluminava tudo a sua volta.
Não poracaso foi a primeira paixão da
minha vida.
Gabriel Ferraz era a materialização do
príncipe encantado dos meus sonhos. Além de
ser lindo com os seus cabelos castanhos sempre
um pouco longos demais para ser considerado
“certinho”, mas nunca demais para que
parecessem descuidados, o seu nariz proeminente
e aqueles olhos miúdos, que pareciam estar
sempre mirando algo. Isso para não falar do
corpo delgado e longilíneo, esculpido nas ondas
do mar, graças às manhãs que ele dedicava à
prática do surf.
Sem que eu estivesse preparada alguma coisa
acordou em mim, e quando eu o via meu corpo
todo agia como uma máquina: coração a mil,
boca seca, frio na barriga, isso sem falar do
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despertar de partes minhas com as quais eu ainda
não estava intimamente ligada na época.
O meu lado romântico aflorou loucamente e
eu mesma não sabia quem era aquela menina
suspirosa que corria na hora em que o sinal do
intervalo tocava só para ficar de longe, o
observando, secando...
Ele fazia com que eu me sentisse tão boba e
fraca e para mim isso era uma vergonha, afinal
eu era aquela que os garotos babavam quando
passava e nunca o contrário. Acredito que por
orgulho eu guardei aqueles sentimentos somente
para mim. Como dizia a música do Lulu Santos
“... Se amanhã não for nada disso, caberá só a
mim, esquecer. O que eu ganho, o que eu perco
ninguém precisa saber…”.
Nem mesmo a Lívia sabia da minha
paixonite, eu não ia ter paciência para escutar ela
debochando da minha obsessão, então, para
todos os efeitos somente estava ficando chata, já
que não queria mais sair tanto e quando saía
implicava com cada garoto que ela achava
bonito.
Mal sabia ela que para mim naquele
momento, só um garoto mereceria minha atenção
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e para minha inteira decepção, nem meus lindos
olhos azuis, nem meu cabelo loiro natural, minha
pele de pêssego ou meu corpo perfeito me faziam
digna da sua atenção, a ponto de eu apostar, sem
medo de errar, que ele sequer notara a minha
presença, sempre tão ocupado com seus amigos e
distraído pelas meninas da idade dele, que
viviam o rodeando.
Ele nunca me daria uma segunda olhada e
mesmo que o fizesse me acharia uma pirralha,
então eu preferia continuar a proteger o meu
imenso orgulho naquele jogo bobo de observá-lo
de longe, mas nem por isso deixando de sonhar
com o dia que ele me notaria, e perceberia como
nós fomos feitos um para o outro.
Acho que essa minha postura contida e
reservada acabaria se rompendo e eu daria um
jeito de chamar a atenção do Gabriel, se tinha
uma coisa que eu não sabia, essa coisa era
perder.
No entanto, de repente as coisas acabaram
tomando um rumo totalmente diferente quando
uma garota esquisita que estudava na minha sala
resolveu do nada se tornar a minha amiga.
Aquilo era muito estranho, já que até aquele
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momento ela tinha evitado contato comigo e com
todos os outros alunos e nós até gostávamos
disso. Ela tinha pose de quem se achava superior
a todos, com suas roupas de grife, e seus
acessórios caros, fazendo força para parecer mais
velha e era como se ela estivesse pronta para um
editorial de moda de uma revista estrangeira. Na
verdade, era bastante cômico, mas ela não se
dava conta disso. Aliás, não se dava conta disso
nem de nada. Nem das brincadeiras que faziam
com ela por causa do pai dela, figurão de
Brasília, ou do seu nariz em pé. A menina
simplesmente não estava na mesma sintonia que
todos nós.
No começo até pensei que ela estivesse se
aproximando de mim por causa da minha mãe,
afinal não era raro que achassem que fazer
amizade comigo traria acesso fácil ao conteúdo
das provas ou mesmo que eu pudesse interceder
por eles no caso de ficarem pendurados.
Coitados!
Se conhecessem a mim ou a minha mãe eles
saberiam que não era bem assim que as coisas
aconteciam. Eu nunca trairia a confiança dela a
esse ponto e o fato de eu pedir ajuda para um
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amigo só faria com que ele ficasse em seu
radar…E ninguém gostaria de ficar no radar da
Professora Ruth!
Logo vi que a menina não tinha interesse
nenhum em quem era a minha mãe, ela parecia
ser só uma garota fútil e mimada com sérios
problemas de sociabilização que queria fazer
pelo menos uma amizade, mesmo que a outra
parte, no caso eu, não fizesse esforço algum para
interagir com ela.
Era ela quem ficava andando atrás de mim.
Despejando suas baboseiras, me perguntando
sobre garotos, contando mil e uma vantagens que
não me importavam nem um pouco e antes que
eu me desse conta, ela conseguiu o que nem a
Lívia tinha conseguido: que eu confessasse a
minha paixão pelo Gabriel. Sua reação sobre a
minha confidência foi tão sem sentido quanto
tudo o que ela fazia ou dizia.
─ Não Adriana, você não pode estar falando
do Gabriel Ferraz! O bad boy da escola?
─ Ele não é um “bad boy”, eu nunca o vi
fazendo nada de mais, ele é muito lindo e
gostoso, isso sim!
─ Ah! Adriana você é quem sabe, mas eu
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ficaria longe dele, além de tudo ele é o maior
pegador da escola, e trata as garotas como lixo,
usa e descarta. Você é melhor que isso, não é
não?
Era bem verdade que ele era realmente um
pegador, eu nunca tinha visto ele com uma
garota duas vezes, mas e daí? Ele podia mudar,
por que não? Além do mais eu seria muito
hipócrita se não reconhecesse que eu mesma não
era muito diferente com os garotos que ficava e
na nossa idade, nada mais normal do que isso.
Quem sabe éramos justamente o que o outro
estava precisando?
Olhei rindo para a Heloísa que estava
visivelmente irritada comigo.
─ Ficar com um monte de garotas tudo bem,
mas eu ouvi falar que ele as obriga a transarem
com ele e depois não olha mais para a cara delas.
Tipo: nunca mais! E aí se elas ficarem correndo
atrás, ele as trata abaixo de cachorro!
─ Heloísa, você tem certeza disso? Por que
eu não imagino o gato do Gabriel precisando
obrigar alguém a alguma coisa. Ela se sentiu
desafiada pela minha desconfiança nas coisas
absurdas que ela dizia e continuou o seu ataque:
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─ Ai Adriana, como você é inocente! Gente
como ele não faz as coisas por que precisa, faz
por que pode. O pai dele é dono de um dos
maiores impérios industriais do país, ele nunca
vai se responsabilizar por nada que fizer, deixa
de ser boba! O negócio dele é se aproveitar das
ingênuas e brincar com elas, as humilhando. Se
eu estou te falando é porque eu sei. Tenho uma
amiga que caiu no papo dele, coitadinha, ficou
arrasada.
Eu não fazia ideia que ele fosse tão rico
assim, e imaginar ele como uma pessoa fria e
cruel a ponto de magoar as garotas com que ele
ficava e até mesmo as forçando ao que não
queriam tirou boa parte do encanto que tinha por
ele. A Heloísa sentindo que as palavras dela
estavam fazendo efeito continuava a detonar o
Gabriel de todas as formas possíveis.
─ Além de tudo, ele é um arruaceiro, já ouvi
cada história dele!
Nada de bom vinha daí, e mesmo assim
minha curiosidade foi maior.
─ Que tipo de coisa você ouviu sobre ele?
─ Que ele e aquele menino que vive grudado
nele, o Lucas, aprontam todas!
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─ Ai Heloísa, se é para fazer fofoca pelo
menos faz direito! Diz logo o que você ouviu.
─ Que esse menino está envolvido com
drogas.
─ Ah, para Heloísa! Nada a ver! Duvido! Ele
não tem cara disso não.
─ Como eu disse Adriana, você é muito
ingênua e não está acostumada com pessoas
ricas, nesses meios tudo isso é normal, não se
engane por aquela carinha de bom menino, não.
Não pude deixar de pensar na ironia de logo
a filha do político corrupto me dar esse sermão,
mas, por outro lado, em pelo menos uma coisa
ela estava certa, eu já tinha visto minha cota de
playboys para saber que o conceito de correto e
errado deles era bem mais elástico do que o
nosso. Eu até podia ser meio doidinha e gostar de
coisas perigosas, mas me amava demais
continuar aficionada em um garoto problema
desses.
Decidi deixar o Gabriel de lado,mas o fiz
com um gosto amargo na boca, de quem tinha
deixado para trás algo que não queria deixar, de
quem desistiu sem tentar, e para me conformar
eu ficava me repetindo os argumentos da
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Heloísa, que com a graça de Deus, logo após
essa fase de “BBF” decidiu, de novo, que eu não
merecia a “honra” da sua magnânima e suprema
companhia e voltou a me ignorar como se nunca
tivesse me conhecido. Para mim, foi uma imensa
alegria, eu não aguentava mais aquele lengalenga
daquela louca mesmo.
Quanto ao Gabriel, apesar de não querer
mais nada com ele, ou pelo menos de fingir isso
tão bem que às vezes até eu mesma acreditava,
eu continuava a observá-lo de longe e quanto
mais fazia isso, mais ficava confusa: ele e sua
turma sempre estavam no olho do furacão da
escola, eram os responsáveis pelas maiores
bagunças, mas também participavam ativamente
de todas as atividades beneficentes que o Colégio
promovia, o que não combinava com a ideia de
um boyzinho arrogante, ele também continuava a
“passar o rodo” nas meninas do Colégio, e
chegou até a engrenar um namoro com uma
garota da turma dele, mas eu nunca tinha ouvido
de nenhum término traumático ou de alguma
garota maltratada por ele, e olha que essas coisas
sempre viravam notícias. Muito pelo contrário o
que eu assisti durante todo o ano foi a fila de
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apaixonadas só aumentar o que me enchia de um
irracional ciúme, mas ao mesmo tempo me fazia
cada vez mais feliz por só ter me aberto sobre a
minha paixonite para a louca da Heloísa. Eu que
não seria vista como mais uma a suspirar pelo
Gabriel Ferraz, e até fazia graça com as meninas
que se jogavam em cima dele.
Essa dúvida ficou entranhada em mim,
mesmo depois da luxuosa Noite de Formatura,
em que eu e meu pai acompanhamos minha mãe.
A Paulinha como era muito pequena iria passar a
noite com a Malu, sua amiguinha, e durante todo
o trajeto minha mãe não parava de tagarelar
sobre o quanto ela estava orgulhosa dessa turma
em especial.
─ No começo do ano esses meninos não
queriam saber de nada Rubens, agora todos estão
aptos a escolherem o curso que bem entenderem
por que têm condições de disputar qualquer vaga.
Mas de todos, eu não posso negar que meu aluno
predileto é o Gabriel, que menino, meu amor!
Tão educadinho, gentil, aplicado, interessado nas
aulas, humilde, nem parece que é tão rico! Nana,
você sabe de quem eu estou falando, não sabe?
Vesti minha cara de pôquer e tentei
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desconversar.
─ Sei lá, mãe! São uns quinhentos Gabrieis
só no meu período.
─ Mas só um deles é O Gabriel Ferraz,
Nana!
─ Gabriel Ferraz? Não, nunca conheci ele
não, nem sei quem é.
Minha mãe olhou para trás como se eu fosse
louca, e com certeza farejando minha mentira em
meio a tantos “não”.
─ Adriana, você nunca viu o Gabriel Ferraz
no recreio, nem viu nenhuma colega sua dando
em cima dele? Conta outra, minha filha, duvido
que mesmo você que é sempre tão cheia de si
seja imune ao charme daquele garoto!
Meu pai deu uma gargalhada sonora
enquanto pegava a mão da minha mãe e a
beijava.
─ Que isso, minha loira, assim eu fico com
ciúmes.
Era engraçado e repulsivo ver os dois
flertando como dois namorados, por que pais não
se mancavam que ninguém queria participar da
intimidade deles? Eu só me encolhi no banco
traseiro, esperando que aquela demonstração de
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carinho explícita levasse embora o assunto
Gabriel, mas eu não estava com sorte, minha mãe
retomou a conversa ao mesmo tempo, em que
jogava mais charme para o meu pai.
─ Você sabe que o meu fraco são os morenos
bonitos, mas eu já tenho o meu e aquele lá é bem
uns 25 anos fora da minha faixa etária. Mas… Já
ouviu falar no “genro que mamãe pediu a Deus?
”, essa mamãe aqui adoraria ter um genro
daqueles: bonito, educado, super gente fina, nem
vou falar do dinheiro por que isso não é o mais
importante, mas eu confesso que eu acho no que
você e o Gabriel seriam sim um casalzinho lindo,
ah isso eu acho Nana!
Eu também já achei mamãe, no passado.
─ Para de falar bobeira mãe! E nem pense
em me jogar em cima de aluno ou ex-aluno seu,
viu?!
─ Tudo bem, mas eu posso sonhar, não
posso?
Eu bufei e fechei a cara, cruzando meus
braços.
─ Não mãe, não pode sonhar com a minha
vida não, obrigada!
Ela e meu pai riram, debochados e eu passei
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a festa me escondendo da minha mãe toda vez
que ela chegava perto dos seus alunos, morta de
medo que ela me fizesse passar algum tipo de
vergonha, assim mesmo eu pude assistir a
Formatura do Gabriel e admirá-lo por uma
última vez, tão lindo de smoking como “gente
grande” com aquela carinha de menino levado
dele.
Pelo resto da noite, me permiti olhar para ele
o quanto eu pude, toda vez que minha mãe não
estava por perto, e não quis lembrar das coisas
que a Heloísa tinha dito, aquela pobre coitada
com certeza era louca. Não era possível que
tamanha perfeição da natureza por fora, fosse
metade que ela descreveu por dentro. Bem, eu,
pelo menos, esperava que não.
Também o que importava àquela altura?
Provavelmente nunca mais eu o veria. Nossos
caminhos eram tão diferentes, nossas vidas tão
opostas. Por isso quis memorizar cada detalhe do
Gabriel. Afinal, mesmo que ele nunca soubesse,
ele tinha sido o meu primeiro amor.
 
 
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CAPÍTULO 3
Sabe Gente, é Tanta Coisa Pra gente
Saber...
Com o passar dos anos o Gabriel foi se
tornando um ponto desfocado nas memórias dos
meus dias de Colégio. Perdendo o seu valor e
entrando para a caixa “das coisas que eu preferia
esquecer”. Eu ria toda vez que lembrava como eu
tinha sido boba e infantil.
Mas a verdade é que, em algum lugar lá no
fundo sempre existiu um traço do que eu senti.
Às vezes eu me pegava pensando sobre ele.
Como ele estaria? Cada dia mais bonito? Ou
tinha entrado para aquele grupo de pessoas que
nós mal podemos reconhecer quando saímos da
escola? Será que as coisas que a Heloísa disse
eram verdadeiras? Se fossem, será que ele já
tinha colocado a cabeça no lugar?
Eu esperava do fundo do meu coração que
sim. Afinal seria um pecado um menino que
tinha todas as oportunidades na mão desperdiça-
las por bobeira, mas como era o que a gente mais
via por aí... Enfim, ele tinha virado uma daquelas
lembranças que mesmo perdendo a cor nunca se
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apagavam completamente da nossa mente. Muito
menos do coração.
Já do meu lado, nunca mais amarrei bode por
nenhum garoto. Também nunca mais senti as
mesmas coisas que eu tinha sentido pelo Gabriel.
Nunca mais “sinos tocando” ou “mãos suadas”.
E Deus, como eu sentia falta disso!
Foi procurando por essas sensações que eu
engrenei o meu primeiro namoro sério, com meu
amigo Rafael.
Ele era uma boa companhia, e me tratava
como uma princesa. Foram dois anos
maravilhosos, com um cara maneiro, que me
tratava muito bem, tinha gostos parecidos com os
meus e foi com quem eu tive a minha primeira
vez, que era também a primeira vez dele, e que
foi linda e desajeitada, com todo o carinho,
inexperiência e afobação que nossos 17 anos nos
permitia.
Ainda assim, nunca despertou em mim mais
do que desejo e amizade.Com o tempo a segunda
foi prevalecendo até que nossos horários não
combinavam, nossos programas eram diferentes,
nosso cansaço maior que a vontade de estar junto
e todas essas desculpas que marcam o fim de um
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relacionamento.
E então foi isso...
Cada um para o seu lado e sorrisos sem graça
quando nos encontrávamos, até que pudéssemos
voltar a ser os amigos de antes, sem drama nem
culpa.
A melhor coisa que eu tirei daí e que eu fiz
questão de levar para todos os meus
relacionamentos foi exatamente a falta de drama
e cobranças. Eu estava sempre com quem queria,
porque queria, e acreditava que acontecia o
mesmo do outro lado, fazendo questão de dar ao
outro a mesma liberdade que eu exigia, perdeu o
encantohora e eu parti para outra. Sem olhar
para trás, nem me arrepender.
Talvez essa falta de envolvimento na minha
vida sentimental se devesse ao fato de que
naquele momento, outro amor, muito maior e
muito mais forte me preenchia e saciava: a
Arquitetura, que tinha todo o meu foco e
dedicação.
Desde o momento em que eu ingressei na
Faculdade eu me enfiei de cara nos meus
estudos, totalmente apaixonada por todo o
Universo ligado a construção, urbanismo,
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paisagismo, arte…
Eu sempre soube o que queria fazer, mas
nunca imaginei que isso fosse me completar
tanto.
De repente, eu que sempre fora uma tremenda
porra louca estava centrada e tinha a certeza que
era uma arquiteta nata. Amava entrar na mente
dos clientes e criar, dar forma aos seus sonhos e
suas necessidades, gerando soluções de
problemas que eles mesmos não sabiam que
tinham e entregando projetos que agradavam
a mente e encantavam o coração.
Para chegar a esse objetivo eu estudei como
louca, lia dia e noite, caçava curso, seminário, o
que fosse interessante para minha formação eu
estava atrás.
Me formei com as melhores notas e logo fui
contratada por um dos maiores escritórios da
cidade, onde rapidamente aprendi os segredos da
profissão e formei um vasto portfólio, lotado de
clientes influentes e satisfeitos, que me
indicavam para outros clientes influentes.
Profissionalmente eu não podia pedir mais
do que isso, nem financeiramente.
Como eu não tinha saído de casa e meu pai
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não aceitava de jeito nenhum que eu ajudasse
com as despesas meu dinheiro era para comprar
roupas, sapatos e mimos para mim e a Paulinha,
que séria e ajuizada como era ainda reclamava
comigo eu não devia gastar com ela. Eu nunca a
escutava, claro. Adorava agradá-la.
Acredito até que ela era o real motivo de eu
não sair de casa. Tinha medo que o dia em que
eu o fizesse ela se fechasse de vez na sua casca,
já que quanto mais crescia, mais introspectiva ela
se mostrava. Era difícil não ser tímida e
reservada quando qualquer coisa que ela fizesse
era constantemente comparada comigo. O que
era terrivelmente injusto dado a nossa diferença
de idade, a minha vivência muito maior do que a
dela e nossas personalidades tão opostas.
Como se alguma dessas coisas fosse impedir
minha mãe de ficar a cada dia mais crítica com
relação a ela. Era um ciclo infinito, quanto mais
minha mãe criticava, mais a Paulinha se fechava
e mais minha mãe criticava por que a Paulinha
era antissocial, mosca-morta etc... O começo da
adolescência da minha irmã apertou algum
gatilho na minha mãe e, durante um período seu
antagonismo com a Paulinha era insuportável.
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Pelo menos até o dia que minha mãe passou
de todos os limites.
Nós estávamos todos à mesa do almoço,
conversando sobre amenidades e a Paulinha disse
naturalmente que passaria à tarde em casa. Sua
amiga Malu e o irmão dela, Davi acompanhariam
a mãe deles, Cláudia, que era cineasta, a uma
filmagem no interior.
Isso foi o motivo que bastou para minha
mãe, do alto de sua altivez começar seu ataque à
minha irmã.
─ Paulinha, você não tem nenhuma amiga
além da Malu? Por que quando você não está
incomodando sua irmã e a Lívia grudando nelas,
está enfiada na casa da Malu?
A Paulinha nunca a desafiava, nunca a
desrespeitava, simplesmente a respondia com a
indiferença de quem já tinha feito disso um
hábito.
─ Eu tenho alguns amigos, mãe. Só que nós
gostamos de nos divertir de formas diferentes. A
Malu também, mas ela respeita o meu jeito.
Mesmo ela talvez eu não visitasse tanto se você
não insistisse que eu preciso sair mais. Se
dependesse de mim, eu passaria todo o meu
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tempo livre em casa, lendo.
─ Não é saudável que uma menina da sua
idade fique tanto tempo com a cara enfiada nos
livros Paulinha. Não é possível que você não
tenha nada melhor para fazer do que isso!
Eu olhei para o meu pai e ele balançava a
cabeça, contrariado, enquanto acabava de comer
e a Paulinha continuava a responder calmamente
o interrogatório da nossa mãe.
─ Eu tenho, mãe. Só que prefiro ler a fazer
qualquer outra dessas coisas. Eu não penso que
isso seja ruim. É só o meu jeito. Além do mais,
se eu quero ser uma boa advogada ler muito é
essencial, você como professora deveria entender
isso.
─ Como também é importante que um
advogado tenha vivência, ter argumentos e seja
desinibido para conseguir falar em um
julgamento. E não é que eu não te entenda, acho
que é bom que você goste de ler. O problema é o
exagero, olha a sua irmã: a Nana se formou em
arquitetura sem precisar ficar com a cara dentro
de livro o tempo todo. Saía, tinha amigas, sempre
se arrumou e foi vaidosa. Você é só livro, livro,
livro e de vez em quando encher o saco da Malu
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ou ficar andando atrás da sua irmã e da Lívia.
A Paulinha olhou para mim como se pedisse
uma confirmação se minha mãe estava certa, e eu
prontamente saí em sua defesa.
─ Ei mãe, peraí! Ela e a Malu são melhores
amigas desde sempre, como eu e a Lívia. Eu
tenho certeza que a Malu adora estar com a
Paulinha. Da mesma forma quando eu incluo a
Paulinha nos meus programas é por que eu adoro
estar com ela e fazer coisas para ela. Não é só
que a Paulinha não atrapalha, ela é importante
para nós, sem ela não tem a mesma graça. Que
graça teria ir na piscina da casa dos avós da Lili
sem a Paulinha? Ou na praia, no shopping?
Nenhuma. Só não levamos a Paulinha em
programas que não são para a idade dela. E isso
por enquanto.
Pisquei em direção a ela, que sorriu
agradecida e cúmplice, mas minha mãe agia
como se não tivesse me ouvido e continuava suas
acusações.
─ Eu não estou dizendo que a Malu não
goste da Paulinha, mas não dava para pelo menos
aprender um pouco com ela? Ela é sempre tão
animada, cheia de vida, se veste como uma
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menina da idade de vocês…
Minha mãe não dava trégua, e a Paulinha
simplesmente olhou para ela, suspirou, pediu
licença para sair da mesa e foi em direção ao
quarto dela. Sem choro, nem malcriação, mas
visivelmente chateada com as alfinetadas da
minha mãe, que não via, ou fingia não ver que
quem a empurrava para esses hábitos solitários
era ela mesma com tantas cobranças ridículas.
Outro efeito da falta de tato com que minha mãe
agia com a Paulinha é que a cada dia ela se
isolava mais dela também. Sempre buscando a
mim ou ao meu pai, que como o pai perfeito que
era a enchia de amor, carinho e aprovação, e essa
cumplicidade entre os dois era o único motivo
pelo qual meus pais brigavam.
─ Poxa Rutinha, precisa falar assim com a
menina? Ela não dá trabalho nenhum, qual o seu
problema com ela? Juro que não entendo! A
Paula é a filha que qualquer mãe sonha:
responsável, organizada, obediente.
─ É claro que não entende! Vive passando a
mão na cabeça da Paulinha. Ela tem que ser mais
pra frente, mais atirada, Rubens! Obediente, sei!
Essa menina é uma banana!
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Era revoltante de ver como a minha mãe não
tinha ideia de quem era a filha dela, e de que
pessoa forte, determinada e corajosa ela era.
─ Não é assim não, mãe. Você não conhece
tão bem a Paulinha, ela é tímida e calma, mas
ninguém a faz de boba não. Ela tem até fama de
esquentadinha. É só respeitar o ritmo dela.
─ Ritmo, Nana? Essa menina é parada! Eu só
falo por que me preocupo, ela não vai poder ficar
a vida toda na sua sombra. Um dia ela vai ter
que andar pelas próprias pernas e vamos
ser sinceros, ela já não veio com tantos encantos
assim. Tudo bem que realmente é esforçada, mas
você acha que só isso vai ser suficiente para ela
sobreviver ao mundo real? Por que ela não tem
sua beleza, nem seu carisma, se ela não for pelo
menos mais atirada e simpática não vai chegar a
lugar nenhum!
─ Mãe! Como você pode dizer uma besteira
dessas? A Paulinha é uma das meninas mais
lindas que eu já conheci! Você como mãe
deveria ver suas filhas mais bonitas do que são
realmente e não ocontrário! Como você pode
dizer que falta “encantos” a ela? O que eu não
daria para ter aquele cabelo todo, ou
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aqueles olhões expressivos, fortes, que ela tem!
Para de comparar ela comigo! Eu realmente
espero que minha irmã não tenha nenhuma
dúvida do quanto ela é realmente muito bonita.
Isso sem falar que ela é muito mais inteligente,
aplicada, responsável do que eu jamais fui. A
Paulinha nunca vai precisar ficar na sombra de
ninguém, eu só consigo ver um futuro
maravilhoso e brilhante para ela. Se alguém tem
luz própria aqui nessa casa, esse alguém é ela.
─ Tudo bem que ela realmente é estudiosa, e
isso é mérito meu, que peguei no pé dela logo
que vi o quanto ela era propensa a ser passiva e
acomodada, por isso peguei mais no pé dela do
que no seu. Mas nota alta sozinha não vai
adiantar de nada. Se ela não se destacar mais, se
fazer notar. Eu detesto fazer o papel da bruxa,
mas vocês parecem cegos e não veem que se a
Paula continuar desse jeito a única coisa que vai
restar para ela é um futuro medíocre.
Foi nessa hora que meu pai perdeu a linha,
jogou o guardanapo na mesa e se levantou.
─ Para agora com esse festival de
barbaridades, Ruth! Eu não te reconheço quando
você fala assim da nossa filha mais nova. Não
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parece a mulher linda, inteligente e amorosa por
quem eu me apaixonei. Não parece a mãe
maravilhosa que encheu a Nana de autoestima e
confiança. Não parece a professora que
compreende a cabeça dos alunos e consegue
chegar a cada um com carinho e dedicação. Não
é possível que essa seja a mesma mulher que não
consegue enxergar o tesouro que tem nas
próprias mãos. Você não sabe como me deixa
triste quando eu te vejo ser tão mesquinha e cruel
com uma menina que desde que nasceu só me
trouxe alegria e orgulho. Até agora eu tenho me
mantido quieto, Ruth, pelo tanto que te amo, por
que eu sei o quanto foi difícil para você lutar
com a depressão quando ela nasceu, e
porque eu tenho certeza que você não faz por
mal, mas eu amo nossas filhas do mesmo jeito
que te amo, e te amo mais quando me lembro
que foi você quem me deu esses dois tesouros
que são nossas, e por tudo isso a partir de agora
não vou mais tolerar que você trate dessa
maneira degradante e maldosa a Paulinha. Nunca
mais repita as coisas horríveis que você disse
para minha filha novamente, ou você vai
conhecer um lado meu que nenhum de nós de
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nós vai gostar!
Se levantou da mesa abruptamente, deixando
que sua cadeira caísse no chão, saindo pela porta
como um trovão e nos deixando atônitas, essa era
a segunda vez que eu via meu pai nervoso, e pelo
mesmo motivo. Minha mãe ficou branca como
cera, olhando na direção em que ele saiu e eu não
pude deixar passar em branco.
─ Me desculpa mãe, mas o papai está
coberto de razão. Na verdade, eu acho até que ele
demorou muito para te dar esse sacode. Sua
implicância com a Paulinha é visível. Cuida
disso porque seja qual for o motivo que
você ache que tenha para tratar ela assim, uma
coisa é certa: ela não tem culpa nenhuma disso e
não merece pagar pelas suas neuras.
Por mais que eu detestasse deixar minha mãe
daquele jeito, fragilizada, eu detestava muito
mais o que ela fazia a Paulinha. Por isso eu
também me afastei e fui em direção ao quarto da
minha irmã, onde a encontrei fazendo justamente
o que minha mãe tinha praticamente a proibido
de fazer.
Essa menina era meu orgulho! Uma
verdadeira rebelde!
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─ Oi bonequinha, posso entrar? O que você
está lendo?
Ela levantou o rosto me olhando com aquele
olhar carente que me quebrava o coração e me
mostrou a capa de um livro do Fernando Sabino.
─ Oi Nana. Claro que pode, a mamãe já
acabou o discurso dela?
Sentei-me ao seu lado na cama, acariciando
seu cabelo sedoso e macio, ao que ela respondeu,
se deitando e aconchegando em meu colo
─ Acabou e está pianinho lá embaixo.
Também pudera! Depois do esporro que ela
levou do papai vai te dar um bom descanso. Te
garanto isso
─ Eu não queria nada disso. Por que ela
simplesmente não me deixa em paz?
Ela deu de ombros e fechou os olhos,
deixando cair uma lágrima.
─ Liga não, ela é chata e implicante assim
mesmo.
─ Eu não ligo, afinal ela já não liga pra mim
mesmo.
─ Não fala assim, é claro que ela liga! É só o
jeito dela de demonstrar o quanto ela se preocupa
com você.
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─ Preferia então que ela não se preocupasse
mais comigo. Me esquecer estava de bom
tamanho, eu adoraria que ela nunca se lembrasse
da minha presença e simplesmente me deixasse
quieta ao invés de me alfinetar o tempo todo.
─ Eu sei que ela pode ser uma grande
megera, mas não é só com você.
Ela abriu os olhos, me encarando em desafio:
─ Ela é assim com você também, Nana?
Não, ela nunca era assim comigo, nem com
mais ninguém. Mas eu não precisava dizer isso a
ela.
─ Claro que é! Ela só não pega tanto no meu
pé por que agora sou adulta, mas na sua idade?
Você não lembra, mas a mamãe me deixava
doida! Além do mais, você sabe… A depressão
dela está sempre indo e vindo, pode ter alguma
coisa a ver…
Ela queria que eu acreditasse que ela tinha
aceitado minhas mentiras e deixado para lá, mas
seu rostinho triste sempre denunciava seus
sentimentos reais e tudo que eu queria naquela
hora era mudar de casa no mesmo dia e levar
minha irmãzinha comigo, para longe daquela
rejeição tão injusta!
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─ Hein, gatinha você sabe que eu te amo
muito não sabe? E que eu morro de orgulho da
pessoa linda por dentro e por fora que é você.
Ela acenou com a cabeça, mas ainda estava
magoada.
─ Você não pode se importar com o que ela
fala, quando ela está assim, ela fala muita
bobeira.
─ Fala sim, mas tem razão em um monte de
coisa também, mas eu não ligo, eu só gostaria
que ela aceitasse que eu nunca vou ser como
você.
Eu dei uma gargalhada alta, jogando minha
cabeça para trás e batendo palmas
histericamente.
─ Graças a Deus Paulinha! Ninguém
aguentaria duas pestes como eu não! Essa é a
maior prova da loucura da nossa mãe. Que mãe
no mundo ia querer duas filhas indisciplinadas,
irresponsáveis e teimosas como eu? Eu rezo
todos os dias que não tenha filhos parecidos
comigo e sim, que por um milagre eles pareçam
com a tia!
Mas ela não riu comigo, esse
bichinho realmente a estava comendo por dentro.
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─ Você sabe que não é isso, a mamãe não
aceita que eu não sou linda como você…
E ela. Ou descolada, ou espontânea… Ela não se
conforma que eu seja... eu!
Eu me levantei a obrigando a sentar-se,
peguei um espelho que ela tinha em cima da
cômoda, sentei-me novamente ao seu lado e a
confrontei com seu reflexo.
─ Olha bem para você Paulinha. Agora me
diz sinceramente o que tem de feio aí,
não… Melhor, faz o seguinte… Me diz o que
tem em você que seja menos que muito lindo.
Ela ficou olhando, olhando…
─ Eu não tenho seus olhos azuis, nem seu
cabelo loiro.
─ Não foi isso que eu te pedi, Paulinha! Olha
para você e me diz se consegue ver alguma coisa
em você que não seja bonito.
Ela passou a brincar com o espelho fazendo
caretas e mostrando língua, depois me entregou-
o de volta.
─ Bem… Eu tenho esses olhos imensos,
mas na verdade isso não me incomoda, eu até
gosto deles, sei lá… Acho que combinam
comigo. Fora isso não tem nada de errado
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comigo, mas é óbvio que para a nossa
mãe tem sim.
Apertei a bochecha dela, brincadeira que
automaticamente a deixava irritada e ri.
─ Deixa de bobeira, toda mãe acha que as
filhas são a coisa mais linda do mundo, por que
logo a nossa que tem motivos reais para pensar
isso, não acharia? É só não ligar para a
implicância dela e saber o quanto você é linda,
por que é mesmo! E não é que não há nada de
errado com você, na verdade tem tudo de
perfeito, seus olhos combinam com você por que
são como os livros que você tanto ama. Um livro
que conta uma história única: e é a sua. Eu posso
ver cada sentimento,cada pensamento e decisão
que você toma só de olhar para eles, e isso por
que você é transparente assim. Seus cabelos são
tão lindos e volumosos e aí como eu queria ter
cabelos assim! Seu narizinho, sua boca, cada
parte de você é linda demais e nunca deixe de
acreditar nisso e nem que quem quer que seja,
nem mesmo nossa mãe, te convença do
contrário.
Ela gesticulou que “tanto fazia” e se
aconchegou no meu colo de novo, e eu fiquei
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fazendo cafuné nela e conversando um tempão,
era uma pena que minha mãe não se permitisse
ter momentos como esse com a Paulinha, com
certeza era ela quem mais perdia.
Depois desse dia a relação delas
melhorou um bocado, minha mãe se esforçando
para ser mais carinhosa e a Paulinha, sendo a
Paulinha, o que já era muito.
Ainda assim a relação delas nunca foi o que
se poderia chamar de saudável e próxima e o que
em outra garota poderia ser motivo para rebeldia,
para minha irmã resultou numa personalidade
independente e resolvida, só se tornado melhor à
medida que ela crescia, já dando pistas da mulher
incrível que ela viria a tornar-se.
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CAPÍTULO 4
Amigo é Coisa Para Se Guardar Do Lado
Esquerdo Do Peito
 
Depois desse período era como se minha
vida tivesse realmente entrado nos trilhos.
Comecei a colher os frutos do meu trabalho e
podia me dar ao luxo de relaxar mais e desfrutar
a vida, me divertindo como nunca.
Foi nessa época em que eu fiz minhas
maiores loucuras. A paz decretada entre minha
mãe e a Paulinha me dava a tranquilidade que eu
precisava para poder me jogar de vez na minha
vida e sempre que podia, jogava uma mochila
nas costas, ou saía puxando minha mala,
invariavelmente com a Lívia a tira colo.
Juntas nós fomos para São Thomé das Letras
e passamos um mês rodando o Nordeste.
Viajamos para a Nova Iorque e Buenos Aires,
pulamos de paraquedas, saltamos pontes de
bungeejump, fizemos rapel, trilha, arborismo...
A Lívia sempre medrosa no começo, mas
nada que rapidamente as minhas técnicas de
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convencimento não resolvessem e logo ela
estaria se divertindo tanto quanto eu. Ela nunca
faria nada disso sem a minha pressão, e eu, em
compensação não teria ido a um terço dos shows
de rock que fui, muito menos nos recitais de
balé, que eram a sua paixão.
Nossas baladas eram épicas e as paixões que
despertávamos fizeram história. O engraçado era
que no fundo, nós éramos duas bobonas
românticas, sonhando com nossos príncipes
encantados, quer dizer… no meu caso trocaria de
bom grado o cavalo branco por uma moto
superpotente. Já a Lívia só ficaria feliz com o
pacote inteiro e bem tradicional, o próprio
cavalheiro andante pronto a salvá-la da torre.
Nós mesmas debochávamos das nossas
ideias estúpidas, mas depois de um tempo minha
amiga meio que cansou do joguinho da
conquista. Dizia não ver mais graça em ficar
cada dia com um cara diferente que estava na
hora de encontrar uma pessoa legal, e aos poucos
foi ficando cada vez mais seletiva até que
simplesmente só me acompanhava por força do
hábito.
Como já disse, eu também queria um
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príncipe encantado, só que para mim ainda não
tinha tocado as doze badaladas, e eu ia aproveitar
“o baile” enquanto pudesse.
Claro que por mais que nossa amizade
continuasse forte como sempre, nós estávamos
numa encruzilhada em nossas vidas e caminhos
estavam sendo escolhidos. O dela, óbvio, era
abraçar o conto de fadas com tudo que tinha
direito.
Quem diria que o príncipe da Lili a estaria
esperando na minha casa? E que seria justamente
o melhor amigo encrenqueiro do Gabriel, meu
amor de adolescência?
Calcula o meu susto ao chegar com a Lívia
em casa e encontrar aquele homem enorme
(aliás, como ele tinha crescido desde o colégio!)
Sentado na mesa da cozinha, brincando com
minha mãe e combinando com ela aulas
particulares de matemática!
Pior do que isso foi só olhar para trás e
encontrar a Lívia, parada, congelada, olhando
para ele como se fosse um pedaço gigantesco de
bolo de chocolate (e olha que a Lili era uma
chocólatra de respeito). Eu ainda tentei dar meia
volta e sair dali, mas a trouxa petrificada no meio
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do caminho me atrapalhou e minha mãe me
chamou de volta.
─ Nana! Vem aqui para conhecer meu ex-
aluno, Lucas. Lucas, a Adriana estudou no
Colégio na mesma época que você, talvez você
se lembre dela.
Ele se levantou e estendeu a mão para mim,
todo dentes e sorrisos, parecendo muito
simpático, mas eu não comprava aquela pose de
bonzinho.
Ele me encarou um pouco antes de responder
à minha mãe.
─ Tenho certeza que nunca a vi na escola, eu
reconheceria o rosto da professora na hora, como
são parecidas! Muito prazer Adriana, eu sou o
Lucas. Aposto que sua mãe falava muito da
minha turma. Nós éramos o terror da escola.
Eu sorri amarelo para ele que sequer pareceu
notar, já que seu olhar tinha atravessado meu
ombro e se dirigia a grande pamonha derretida da
minha amiga.
Eu devo fazer um parêntese aqui para
explicar que naquela hora eu nunca iria dar o
braço a torcer, já que minha maior preocupação
era livrar minha amiga da confusão que eu
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achava que o Lucas significava, mas na minha
atual condição de visitante ao passado, não posso
deixar de reconhecer que estava testemunhando
uma das cenas mais raras e lindas de se ver: o
nascimento de um grande amor à primeira vista.
Ah sim, hoje, através das minhas recordações
eu sou capaz até de ouvir os pássaros cantando e
ver os coraçõezinhos voando entre eles, mas
naquele momento eu e minha cabeça dura só
conseguíamos ver no Lucas um grande perigo,
do qual eu deveria proteger minha amiga a
qualquer custo.
Quando eu percebi o motivo daquela cara
abobada dele, saí da frente e a Lívia deu um
passo em sua direção como se os dois estivessem
magnetizados. Minha mãe se adiantou e fez as
apresentações.
─ Lucas essa é a melhor amiga da Nana e
praticamente minha filha honorária, Lívia. Ela
também acaba de se formar em Direito, vocês
com certeza têm muito em comum para
conversar.
Eles riam um para o outro como dois bocós e
eu encarei como missão de vida não permitir que
logo minha melhor amiga, minha cúmplice,
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minha irmã de alma se apaixonasse por aquele
cara, mesmo percebendo que minha missão era
fadada ao fracasso.
O Lucas parecia que tinha esquecido o
motivo pelo qual estava na minha casa e ficou
conversando com a Lili como se eles se
conhecessem há anos e não como dois completos
desconhecidos. Minha mãe “sacou” o clima na
hora e gesticulou comigo para que saíssemos da
cozinha deixando-os a sós.
Ah tá! Mas nunca!
─ Lívia nós não íamos com a Paulinha pegar
uma piscina na casa da sua avó?
Ela me olhou espantada e apontou com o
olho para o Lucas.
Eu saí bufando e minha mãe não entendeu
nada, chegou até a me puxar de lado para me
repreender.
─ Deixa a Lívia, Nana! Eu hein! Nunca te vi
atrapalhar paquera da sua amiga.
─ Com aquele cara? Você sabe a fama que
ele tinha? Ele era praticamente um marginal na
escola!
─ Nana você deve estar confundindo ele com
outra pessoa! O Lucas sempre foi um amor de
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garoto. Muito brincalhão, divertido, mas sempre
dentro do razoável e respeitoso. O que eu não
daria para ter mais alunos como ele e o seu
amigo, o Gabriel! Aliás, que menino de ouro
aquele também. O Lucas me disse que ele está
morando na Europa e fazendo muito sucesso por
lá. Eu acho que a Lívia não poderia arrumar um
namorado melhor e os dois ainda têm a mesma
profissão. Muita coincidência, não acha?
Eu fiz uma careta imitando a minha mãe o
elogiando e continuei a expor meus argumentos.
─ Estou confundindo uma pinoia! É que
você não sabia o que falavam dele nos
corredores. Diziam que eles estavam envolvidos
até com droga, tá?
Se bem que na verdade não eram exatamente
“os corredores”, foi só aquela menina louca, mas
na dúvida eu não ia deixar minha amiga entrarnuma roubada, certo?
Minha mãe fez uma cara de desprezo e
zombou de mim.
─ O Lucas e o Gabriel? Ah conta outra! Isso
parece ciúme, isso sim. Na formatura deles, você
chegou a jurar que nunca tinha ouvido falar no
Gabriel, agora ele era chefe de gangue? Tá bom,
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Adriana! É medo de perder a amiga, ou você
também gostou do bonitão de olhos azuis?
─ Não é nada disso, mãe! Argh, deixa para
lá! Você quando começa a defender seus alunos
me dá enjoo.
Muito contrariada fiz o que minha mãe
mandou e deixei os dois em paz. O cara de pau
acabou aceitando o convite para almoçar conosco
e nem depois de comer como um porco parecia
muito inspirado a ir embora. Eu já estava quase
colocando uma vassoura virada atrás da porta,
quando ele, finalmente, se despediu.
A Lili me puxou pela mão e subimos como
loucas as escadas. Chegando no meu quarto, ela
se jogou na minha cama e declarou.
─ Nana, eu acabo de conhecer o homem da
minha vida!
Eu sentei na minha poltrona jangada e fiz
pouco da declaração dela.
─ Mas já? Você conversou meia hora com o
cara e vocês já vão se casar e ter muitos filhos
juntos e blá, blá, blá...
Uma almofada rolou para o meu lado e eu
devolvi na mesma hora.
─ Nossa você está chata hoje hein, Nana! Me
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deixa sonhar em paz com meu gigantesco
príncipe de olhos azuis. E vamos para minha
casa para você me ajudar com a roupa que eu
vou usar mais tarde quando o Lucas vier me
buscar.
─ O quê? Você vai sair com ele hoje
mesmo?
─ Sim! Não é maravilhoso?
─ Ah não, não é não! Vai devagar aí! Lívia
eu me lembro dele quando era um garoto, e ele
aprontava todas, não sei se é o cara ideal para
você. Ele era um galinha!
─ Ai Nana que caretice! Cara ideal! Além do
mais quem somos nós duas para falar de alguém
que aprontou quando era adolescente? O que eu
sei é que eu nunca me senti tão à vontade com
nenhum homem antes e não vou mentir, estou
fascinada por ele. O pouco que nós conversamos
já deu para perceber o quanto temos em comum,
e não é a só a profissão, é a visão de mundo. Isso
sem falar que ele é bem-humorado, qualidade
rara de se encontrar em alguém tão novo e
bonito. Bonito não, Lindo! Ai amiga acho que eu
estou correndo o sério risco de me apaixonar
pelo Lucas.
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Corria o risco! A Lívia já estava com os
quatro pneus e o estepe arriados pelo inimigo! A
mim caberia o papel de ficar por perto e de olho
no grandalhão, e ele ia se ver comigo se vacilasse
com minha amiga!
─ Tudo bem Lili, se você gostou tanto assim
dele eu fico quieta, mas você me promete que
não vai mergulhar de cabeça?
A resposta dela veio acompanhado de um
revirar de olhos irônico.
─ Eu vou prometer por que sei que quando
você invoca com alguma coisa não há Cristo que
tire da sua cabeça, mas não se esqueça de que
quem tem bom faro para pessoas aqui sou eu.
Não é à toa que quis ser advogada. Você só erra
seus julgamentos, quanto cara bom você colocou
para correr e por quantos complicados você se
apaixonou jurando que eram os melhores do
mundo? Então, eu posso te dizer que meu faro
superaguçado não captou nada que não fosse
gostosura vinda do ex-aluno gato da sua mãe.
─ Você quem sabe Lili, espero mesmo que
você esteja certa. Mas por precaução vou ficar de
olho nele.
E eu era sincera, as duas pessoas que eu mais
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torcia na minha vida eram a Lívia e a Paulinha e
só por isso eu não faria nada para sabotar
qualquer chance dela ser feliz.
Por isso eu resolvi acompanhar aquele
namoro a uma distância saudável, e graças a
Deus que eu fiz isso!
Aos poucos a má impressão que eu tive sobre
o Lucas foi se dissolvendo e a forma apaixonada
e dedicada com que ele tratava a minha amiga foi
me ganhando.
Ele não deixava dúvidas do tanto que estava
apaixonado pela Lívia e o amor deles foi
construído desde os primeiros dias em cima de
muito companheirismo e compreensão. Só um
perfeito idiota não conseguiria ver que aqueles
dois eram partes de uma coisa só.
Essa sinergia era tão grande que o Lucas até
deixou de lado a ideia de prestar concurso
público e os dois começaram a batalhar para
abrir um escritório para eles.
No começo era para ser uma coisa pequena,
para os dois somente, mas logo o pai da Lívia,
Henrique Lancaster, cirurgião cardíaco
superprestigiado, e pai meio ausente, fez questão
de patrocinar a compra do terreno e a construção
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de um prédio. Os pais do Lucas ajudaram com o
resto da infraestrutura e é claro que eu fiz
questão de presenteá-los com o planejamento da
obra.
Acho que foi o meu projeto mais amado,
coloquei todo o carinho que eu tinha pela minha
amiga em cada detalhe para que seu sonho se
realizasse da melhor forma possível.
E enquanto a obra ia tomando forma e corpo,
a minha amizade pelo Lucas ia sendo construída,
tijolo por tijolo.
E essa foi uma construção muito mais
demorada do que a de qualquer edificação,
porque mesmo depois que eu tinha certeza que o
Lucas era realmente apaixonado pela Lívia e que
eu estava errada em relação a ele, eu ainda me
ressentia da falta que minha amiga me fazia,
apesar da generosidade dele em me incluir nos
programas deles sempre que possível, mas eu me
sentia a irmãzinha chata segurando vela,
principalmente por que esse era o
comportamento do Lucas comigo: ele agia como
um irmão mais velho que tinha por obrigação
cuidar de mim e implicava com todos os meus
namorados e pretendentes, me fazendo evitar sair
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com ele o máximo possível. Mesmo sabendo
que isso, da forma dele era uma grande prova de
carinho, me irritava demais!
A Lívia então determinou dias das meninas
em que ela seria só a minha boa e velha amiga de
sempre. Mas eu sabia que isso tudo eram
paliativos, a verdade é que minha amiga estava
em uma nova fase de vida, onde cedo ou tarde eu
perderia meu espaço, eles se casariam, teriam sua
linda família e eu seria apenas a tia Nana que os
visitaria de tempos em tempos e era exatamente
assim que devia ser.
Minha amiga, quase irmã estava
amadurecendo e isso soou o gongo dentro de
mim: estava chegando a hora de deixar para trás
todo comportamento da adolescência que eu
insistia em continuar arrastando comigo, trocar
as noites de sexo casual, os namoradinhos
descartáveis e dar chance para um
relacionamento de verdade, com compromisso.
Pelo menos na teoria isso parecia funcionar bem,
na prática eu teria que acabar com a minha
persistente mania de me boicotar, meu padrão de
qualidade inatingível e ainda driblar o meu
recém “empossado” irmão mais velho, mas já
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percebia que era questão de tempo para que
surgisse a pessoa certa. Era como se algo dentro
de mim gritasse que tinha chegado a hora.
E quando meu chefe me chamou todo
eufórico na sala dele, me dando as melhores
notícias que eu poderia receber, eu senti que era
o ponto inicial da grande virada na minha vida.
─ Adriana, um grande amigo espanhol meu
vai ministrar um curso de especialização em Arte
e História da Arquitetura Catalã, é uma
oportunidade única e esse curso tem tudo a ver
com você, sua proposta de trabalho, sua
assinatura pessoal, então eu acho imprescindível
que você o faça. Você sabe que seu nome já é
uma marca e como tal a gente tem sempre que
investir nela e esse é tipo de coisa que agrega um
valor incalculável.
Sem modéstia eu sabia sim que o nome
Adriana Neumann, que era como eu assinava
profissionalmente, a cada dia se destacava mais
no meu meio profissional e, principalmente, com
os clientes e participar desse curso seria um
divisor de águas para mim.
Agradeci emocionada a oportunidade que eu
estava recebendo e a confiança que o escritório
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depositava em mim. Acertamos todas as
providências a serem tomadas, as burocracias e
tal e eu fui para casa radiante com a notícia.
Meu pai e minha mãe estavam na sala vendo
TV quando eu cheguei, eu gritei pela Paulinha e
ela veio correndo,assustada com o meu
escândalo.
─ Nossa! O que está acontecendo aqui?
Incêndio?
─ Não, Paulinha, ótimas notícias e eu queria
dar para todos ao mesmo tempo.
Ela se sentou no braço do sofá em que
nossos pais estavam sentados e os três
sincronizadamente projetaram seus corpos para
frente, me dando total atenção.
─ Hoje meu chefe me chamou na sala dele
para me convidar para fazer um curso na
Espanha, com tudo pago pela Firma, com um dos
maiores arquitetos catalão, justamente sobre
Arte, História e Arquitetura da região dele!
Eu pulava e gritava como uma louca e logo
os três pularam em mim e me juntaram em um
delicioso abraço de família. Quando nos
separamos a Paulinha com sua sinceridade
juvenil foi primeira a confessar.
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─ Nana eu não faço ideia por que a gente
está comemorando, mas você está tão feliz que
eu fiquei também.
Meu pai e minha mãe riram dela como se o
que ela disse fosse uma enorme besteira, mas
logo gesticularam para eu continuasse minha
explicação. É claro que eles também não faziam
ideia do porquê da minha felicidade, e como
disse minha bonequinha estavam felizes somente
pela minha felicidade. Família linda essa minha,
eu iria sentir muita saudade deles enquanto
estivesse fora!
─ Eu estou comemorando porque vou ficar
três meses estudando tudo sobre os temas que eu
mais amo na minha profissão, os meus ídolos,
suas técnicas e conhecer in loco suas inspirações.
Outra vez a Paulinha se fez porta-voz do trio.
─ Ah Nana você vai ficar todo esse tempo
longe de nós?
─ Paulinha, não é todo esse tempo, são
somente três meses, e infelizmente é o preço de
poder realizar um grande sonho.
Ela voltou a me abraçar.
─ Como eu disse se você está feliz, eu
também estou, mas eu vou sentir tanta falta de
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você quando não estiver. Nada tem a mesma
graça quando você não está por perto.
Eu também sentiria, mas era eu precisava ir
nessa viagem, algo me dizia que eu aprenderia
muito mais do que matérias acadêmicas durante
a minha estadia na Europa...
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO 5
A Beleza é Mesmo Tão Fugaz
 
E pronto!
Aqui estava eu... linda, leve e loira do alto
dos meus 27 anos rumo a realizar um dos meus
maiores sonhos! Conhecer a Espanha e fazer um
curso extremamente útil para o meu currículo na
terra dos meus ídolos Gaudí e Salvador Dalí.
Era tudo mágico demais!
As ruas, as pessoas, toda a agitação de
grande metrópole com todas as cores e a
arquitetura única das ruas traçadas por Cerdá, os
edifícios modernos convivendo em harmonia
com as cores e formas de Gaudí, de Luís de
Domènech i Mantaner e tantos outros ícones da
minha profissão.
O professor do curso, o tal amigo do meu
chefe, Miguel, era um renomado historiador e
arquiteto que dissecaria a história da arquitetura
e da arte catalã e a sua influência sobre a
arquitetura moderna. Era um sonho, a união dos
meus três temas preferidos em todo o mundo,
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arquitetura, arte e história em um só tópico!
Acho que nunca na minha vida eu tinha me
entusiasmado tanto com algo como eu estava
com os próximos três meses. Um sentimento tão
forte de que eles seriam decisivos na minha vida
me deixava fora do chão de felicidade, eu estava
pronta para tirar desse tempo todas as
experiências que ele me trouxesse.
Por isso fiz questão de chegar uma semana
antes de o curso começar e aos poucos ir
explorando aquela cidade que tanto me
encantava.
Hospedei-me em uma pensione do Barri
Gòtic, que era um charme, com toda aquela aura
de antiguidade misturada com vida boêmia.
Tinha certeza que dali eu poderia explorar o lado
divertido de Barcelona e apesar de um pouco
longe do meu curso, era de fácil acesso. Isso sem
falar que meu quarto era muito confortável e
acolhedor, com roupa de cama de qualidade,
colcha artesanal, paredes pintadas em um tom de
azul que combinava com meus olhos e com o
mar da Espanha, que eu poderia ver ao fundo da
paisagem que entrava em meu quarto através das
lindíssimas portas francesas que saiam para a
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sacada. Os donos da hospedaria, Fernando e
Pilar, um casal de seus 50 e poucos anos,
divertidíssimos e extremamente paternais eram a
cereja no alto do bolo, fazendo com que ficar
hospedada lá fosse como estar em casa, só que
com muitos benefícios.
Passei muitas horas dos meus primeiros dias
com eles, treinando meu espanhol e me
informando sobre o dia a dia da cidade que seria
a minha nos próximos meses. Cheguei inclusive
a acompanhar a Pilar a algumas compras, e
aprender a andar nas ruas próximas, em pouco
tempo eles praticamente me adotaram como filha
postiça e, no entanto, isso, ao invés de fazer
minha saudade mais fácil de ser controlada, tinha
efeito reverso, fazendo com que, ao ver o
tratamento tão delicado que um tinha com o
outro e a forma doce com que tratavam a mim e
aos hospedes, eu sentisse mais falta dos meus
pais.
Mesmo assim fui firme a só liguei no dia em
que cheguei a Barcelona, mantendo a promessa
que eu tinha feito para mim mesma de que não
ligaria a todo o momento, pois sabia muito bem
que isso só aumentaria o meu sofrimento e
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quando eu menos desse conta já estaria entrando
em um avião de volta para casa, sem nem sequer
começar meu curso. Depois dele iniciado eu
tinha certeza que nada mais me faria desistir,
mas até lá eu seria forte.
No primeiro dia de curso estava tão
empolgada quanto uma criança que vai para a
escola a primeira vez e como tal caprichei na
produção.
Coloquei uma calça jeans bem justa no
corpo, uma blusa verde oliva de manga
comprida, por causa do friozinho que já fazia lá
fora, mas com um decote que nem o cachecol
leve que me envolvia o pescoço conseguia
tampar e uma bota de salto fino, para finalizar
uma maquiagem bem caprichada e voilá... Estava
preparada para arrasar pelas ruas da Espanha,
quem sabe até não arrumava algum espanhol
caliente. Por que ô lugar que tinha homem bonito
e gostoso!
E estava nos meus objetivos de viagem
arrumar um deles para mim.
Antes de ir para o curso eu achei que já
estava forte o bastante e dei uma ligada para
casa, falei com a minha bonequinha, Paulinha. Já
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estava morrendo de saudades da minha baixinha.
Desde que ela nasceu eu nunca fiquei tanto
tempo longe dela. Mesmo dando minhas
escapadas, eu voltava rápido para me certificar
que estava tudo bem com ela, não que fosse
necessário já que ela era a criatura mais
responsável e autossuficiente que vivia abaixo do
sol, mas levando em conta o histórico dela e da
mamãe nunca se sabia ao certo como elas iriam
se comportar (ou melhor, como minha mãe se
comportaria com ela), então eu não arriscava e
esse era um dos motivos pelo qual eu sabia que
tinha que evitar ligar muito.
Não me entendam mal, minha mãe gostava
da Paulinha, claro que gostava! Toda mãe gosta
dos filhos, não é mesmo? Mas, mesmo tendo
melhorado muito, não era exatamente a mãe mais
paciente do mundo com ela, e sem eu por perto
minha mãe tendia a ficar um pouco mais ácida
do que o normal.
Quando ela ouviu minha voz ao telefone deu
um grito histérico, alguma coisa de adolescente
ela tinha que ter!
─ Nana! Que saudade! Eu não quero mais
ficar nessa casa sem você! Está tudo sem graça, o
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papai só trabalha e a mamãe reclama de tudo!
Volta logo!
─ Ei calma bonequinha, eu acabei de chegar.
─ Ah não! Parece que tem um século que
você está aí!
Ela bufou e eu tive que rir.
─ Deixa de exagero, já, já vou estar de volta
com um monte de presentes. Fala o que você
quer... qualquer coisa, que eu levo para você.
─ Eu não quero presente nenhum, eu só
quero você. Volta logo Nana!
─ Ai que bonitinha! Humm... fica assim não,
três meses voam e depois a gente mata a
saudade, tá bom? Fora isso está tudo bem aí?
─ Além do fato de daqui a três meses você
vai ter que visitar o meu túmulo, porque eu vou
ter morrido de tédio? Sim, está tudo bem.A
mamãe usando todo o pouco tempo dela em que
ela não está trabalhando para pegar no meu pé, o
papai usando todo o tempo em que não está
trabalhando para tirar ela do meu pé... enfim, o
de sempre.
─ Você é uma graça mesmo bonequinha! Já
te disse, fica o menos na reta e não liga, é só o
jeito dela. Outra coisa: se fosse para você morrer
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de tédio por estudar você teria morrido há muitos
anos, isso é tudo o que você faz! Fica boazinha
que eu te levo vários livros, então. Agora eu vou
para minha primeira aula, e estou superansiosa!
Depois a gente se fala, te amo muito tá?
─ Eu também te amo, mas se é assim, eu vou
te mandar uma lista de livros que você poderia
trazer para mim. Boa aula Nana.
─ Pode deixar, obrigada querida, fique com
Deus!
─ Você também. E Nana... Volta logo!
Só de falar com ela já me recarregou com a
energia que eu precisava para encarar minha tão
esperada aula.
A Universidade onde seria ministrado o
curso era enorme e dei um jeito de descobrir logo
onde era a sala, para ser uma das primeiras a
chegar e ficar na primeira fila. Em um auditório
lotado como esse ficar atrás seria garantia de
pouco aproveitamento do que fosse dito e eu não
me daria a esse luxo, eu sorveria cada palavra
que o professor derramasse.
Quando a aula enfim teve início eu fiz
questão de participar ativamente. Eu era
insuportavelmente nerd, e o professor me pediu
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que o auxiliasse, descrevendo determinadas
lâminas sobre o processo criativo usado por
Gaudí na elaboração de suas obras. Bem, eu acho
que ele tinha feito isso como uma forma de me
calar, tipo... eu falaria algo errado, morreria de
vergonha e pararia de interromper a aula dele. Se
a intenção era essa, ele "bateu o rabo na cerca"
como dizia meu pai.
Eu descrevi a forma como ele usava
barbantes para elevar as peças soltas das
maquetes e assim, com a ajuda de espelhos tinha
uma melhor perspectiva do projeto. No fim o
professor, Miguel, deu uma risada e me
parabenizou perguntando o meu nome e qual o
meu país de origem.
[1]─ Muy bien, tu explicación me encantó
mucho. Cual es tu nombre, cariño?Y qué país
vienes?
─ Gracias profesor, mi nombre es Adriana
Neumann y yo vengo de Brasil.
Na hora eu nem pensei, simplesmente dei o
nome que eu tinha adotado profissionalmente,
Adriana Neumann, e o professor teceu vários
elogios a mim chegando a me chamar de
brilhante.
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Eu aceitei o elogio, não era nem um pouco
modesta quanto à minha profissão, eu sabia que
o que ele chamava de brilhantismo, nada mais
era do que muito estudo e dedicação e isso eu
tinha sim, sabia o valor que isso agregava a
minha marca como profissional.
No fim da aula eu estava arrumando as
minhas coisas para ir embora, quando ouvi uma
voz masculina me chamando a atenção.
─ Nossa que bom ter outro brasileiro com
quem conversar!
Eu levantei a cabeça, já sorrindo, sim era
realmente muito bom ouvir nosso idioma natal
um pouco para matar a saudade!
Quando meus olhos encontraram os dele, eu
fiquei totalmente muda com o choque. Era
inacreditável que depois de todos esses anos, tão
longe de casa eu iria encontrar logo ele, que tinha
sido a grande paixão da minha adolescência. Mas
não havia como negar! É claro que estava muito
mais... muito mais tudo!
Muito maior, com um corpo grande e
visivelmente definido, que nem de longe
lembrava o corpo franzino da adolescência,
muito mais bonito com seus traços infantis de
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menino que a gente queria colocar no colo tendo
sido substituídos por uma feição muito mais bela,
marcante, máscula e intensa daquelas que nos
fazem querer pular no colo de um homem... sua
barba por fazer e seu olhar que estava muito mais
aguçado do que o do moleque que eu conheci.
Enfim... muito, muito mais homem!
No entanto, eu reconheceria o Gabriel Ferraz
onde ele estivesse, passasse o tempo que fosse.
Rapidamente eu me forcei a lembrar das coisas
horríveis que eu sabia sobre ele e fechei a cara
antes de responder, definitivamente eu não
estava ali para ser a próxima presa do garanhão
riquinho e filhinho de papai.
─ Me desculpe, mas essa brasileira aqui está
muito focada em aprender e infelizmente não
está a fim de socializar. Com licença, por favor.
 
 
 
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CAPÍTULO 6
Pra Ser Sincero Não Espero de Você Mais
do que Educação
 
A forma com que o Gabriel estava parado na
frente da minha cadeira não me permitia sair,
mas apesar do meu pedido ele não se mexeu do
lugar.
Típico encrenqueiro!
Meu Deus, nós éramos adultos e não
estávamos no pátio do colégio, na hora do
recreio.
─ Ei calminha aí! Tudo bem, eu já entendi
que você faz o gênero CDF, mas custa ao menos
ser educada? Meu nome é Gabriel Ferraz, e eu só
quis me oferecer para te ajudar em qualquer
coisa que você precise enquanto estiver em
Barcelona, eu já moro aqui há um tempo, mas
tudo bem, eu já entendi o recado.
Tirou o corpo da minha frente e fez um sinal
para que eu passasse. Eu me senti péssima, afinal
de contas ele só estava sendo educado, não fazia
ideia dos motivos que eu tinha para querer
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distância dele e na verdade nem sabia da minha
existência! Minha paixonite sempre foi platônica,
principalmente depois do aviso que a... Como era
mesmo o nome dela? Bem, a menina estranha
que estudava comigo me deu. Isso sem falar que
nós éramos adultos, profissionais e teríamos que
conviver por três meses ainda. Que malfaria ser
civilizada com ele?
Levantei-me, ficando cara a cara com ele que
ainda permanecia parado no degrau inferior.
Seus olhos castanhos, estreitos como os de uma
águia, me deixavam tonta e confusa, minando a
minha hostilidade de segundos atrás e fazendo
com que me desse conta da imensa grosseria que
eu acabara de cometer. Meu rosto queimava de
vergonha e eu esperava que isso fizesse com que
o Gabriel não me odiasse.
─ Gabriel me perdoe, eu não precisava ter
sido tão estúpida! Olha, eu realmente estou muito
focada no meu curso, apesar de não gostar de ser
vista como uma CDF, mas eu não soube me
expressar. Vamos começar de novo, por favor?
Fiz minha melhor cara de gato de botas e ele
me estendeu a mão enquanto sorria vitorioso.
─ Muito prazer, Gabriel Ferraz. Eu já moro
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aqui há algum tempo, fiquei muito feliz em saber
que havia uma brasileira no curso aí eu pensei
em vir me apresentar e ver se você precisa de
qualquer coisa enquanto estiver por aqui. Eu vou
adorar te ajudar, se você não me agredir a cada
vez que nos encontrarmos então, será perfeito.
Eu encolhi meus ombros, me desculpando
novamente, é claro que ele não me perdoaria
fácil por isso, também eu realmente fui uma
estúpida e sem razão para isso... quer dizer... sem
razão racional para isso.
─ Bem, eu sou Adriana Ca... ─ ele já tinha
ouvido meu nome de mentirinha, por que não
continuar assim? Muito mais seguro, pelo menos
enquanto eu não o conhecesse bem e pudesse
tirar minhas próprias conclusões sobre sua
verdadeira índole, além do que, se a amizade
dele com o Lucas fosse igual ao passado, só seria
mais “aporrinhação” para minha cabeça. Enfim,
melhor manter dessa forma. ─ ...Neumann.
Cheguei à cidade há uma semana, mas já
procurei conhecer um pouquinho. Te agradeço
muito, mas depois do show de grosseria que eu
acabei de dar eu nunca teria coragem de te
incomodar de novo. Novamente me perdoe, eu
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juro que normalmente não sou assim.
─ Que isso! Estamos começando de novo,
não estamos? É só passar uma borracha e não
precisa se acanhar, eu juro que não sou um
babaca que vai usar esse pequeno incidente
contra você, ok?
Ele parecia sincero quando disse isso, mas
ainda assim eu permaneceria com o pé atrás. Nós
crescemos e amadurecemos, eu pelo menos, mas
quem me garantia que ele não era mesmo um
babaca, como antes? O pior é que tanto quanto
antes você diria tudo ao olhar para ele, menos
que não era um bom moço. Alémdo mais tinha o
Lucas. Eu também tinha uma péssima impressão
do Lucas e, no entanto, não poderia estar mais
errada com relação a ele, então, do mesmo jeito
eu poderia estar errada em relação ao Gabriel,
não poderia?
Ai que confusão! Adriana, foca!
Você está aqui para se aperfeiçoar na sua
profissão e não para arrumar encrenca, certo?
Mesmo que seja uma encrenca alta, morena,
com um sorriso de enlouquecer, e que tenha sido
o primeiro garoto a protagonizar os seus sonhos
molhados.
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Saí da aula como uma tonta e nem quis ficar
muito tempo no meu quarto, passei o resto da
tarde fora, fui ao cinema, passeei um pouco e
quando a noite chegou ajudei Pilar com os
serviços enquanto conversávamos sobre qualquer
coisa que me distraísse do que ocorrera mais
cedo. Antes de dormir eu tentei me convencer de
que não havia sido nada de mais, e que nós dois
simplesmente seríamos colegas de curso. Depois
da forma como eu tinha me comportado, duvido
que ele voltasse mesmo a falar comigo, por isso
não tinha motivo para tanta angústia.
No entanto no dia seguinte qual não foi a
minha surpresa ao chegar à sala de aula e
encontrar o Gabriel sentado na mesa do lado da
que eu tinha ocupado no dia anterior? Eu não
queria repetir o meu fiasco, por isso reduzi ao
máximo nossa interação naquela manhã, um “oi”
e um meio sorriso ao passar de cabeça baixa e
tomar meu lugar. Gabriel, por sua vez, não
parava de falar, chamando minha atenção o
tempo todo, com brincadeiras e observações
espirituosas.
Deus, seria impossível me concentrar nas
aulas ao lado desse crianção!
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Mas ficar com raiva dele era tão impossível
quanto conseguir não rir do cinismo com que ele
disfarçava como um adolescente bobo quando o
professor nos olhava sério por causa do ruído que
o incomodava. E como quem não queria nada,
Gabriel Ferraz fez nas nossas poucas horas de
aula com que toda minha resistência a ele caísse
por terra.
Mesmo assim foi uma surpresa o convite que
ele me fez ao nos despedirmos.
─ Você já foi ao ParcGüel?
─ Ainda não... eu já estive na Sagrada
Família, até tentei assistir à missa, mas não
consegui, claro. Fiquei como uma panaca
olhando cada detalhe e me perdi totalmente
neles.
─ Vamos lá então! Eu estou meio sem ter o
que fazer hoje à tarde e já tem um tempo que eu
não vou lá.
─ Se você já foi qual a graça de ir
novamente? Não precisa ser meu guia Gabriel.
Não quero te dar trabalho e também acho que até
prefiro ir sozinha assim eu não me distraio e
posso observar melhor.
Ele arqueou a sobrancelha e me deu um
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sorriso arrogante.
─ Adriana, eu poderia ir mil vezes e ainda
assim não me cansaria do Parc, e seria um prazer
poder ir lá novamente com alguém que teria o
mesmo interesse que eu. Mas se você acha que
eu seria uma distração tão grande...
Ele nem imaginava o quanto já havia me
distraído, quantas vezes eu passei aulas inteiras
olhando pela janela vendo-o jogando bola no
pátio, perdendo totalmente a noção do tempo.
─ Convencido! Não é que você me distraia, é
que eu quero fazer esse passeio, sozinha. Mas
obrigada pelo convite, assim mesmo.
Mesmo concordando sua expressão era algo
entre frustrado e decepcionado quando nos
despedimos.
No dia seguinte havia um embrulho na
minha mesa, e quando olhei em volta para saber
de onde aquilo tinha surgido e dei de cara com
um Gabriel tímido que eu não sabia que existia.
─ Acabei passando pelo ParcGüell mesmo
você não querendo me acompanhar e comprei
uma bobeirinha pra você na loja do Museu.
Ele gesticulou para que eu pegasse o lindo
pacote que estava na minha frente, envolto com
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uma folha de papel seda azul claro e com um
laço da mesma cor, porém em uma tonalidade
mais forte. Dentro havia em estojo coberto de
veludo azul que por si só já denunciava o
requinte da peça que ele embalava, e não deu
outra... A tal bobeirinha era um colar de prata de
lei com um medalhão lindíssimo, de um estilo
totalmente Gaudí, com um mosaico em mil tons
de azul, mas que no fim, juntos, formavam um
tom único e bem familiar...
─ É da cor exata dos seus olhos.
Era verdade. Não um azul tão claro quanto,
ou somente um azul qualquer. O medalhão nas
minhas mãos era quase uma representação
artística do meu olho e eu não podia acreditar em
tamanha sensibilidade.
─ Quando eu vi esse medalhão na vitrine me
lembrei imediatamente de você e não pude
resistir a te presentear com ele.
O fato de ele ter reparado em mim a esse
ponto me assustou um pouco e eu tentei devolver
o presente, era demais para quem ele não
conhecia a sequer uma semana e era somente
uma conhecida.
─ Gabriel, isso é uma joia e não uma
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qualquer, esse colar é maravilhoso! Eu estou
totalmente sem palavras para descrevê-lo. Você
vai me desculpar, mas não há forma de eu aceitá-
la. É demais, Gabriel! Além de ter certeza que é
uma pequena fortuna, não tem o mínimo
cabimento eu aceitar um presente desses, tão...
tão... cheio de significado de uma pessoa que eu
conheço há menos de três dias e com quem eu
não tenho qualquer vínculo além de sermos
colegas de profissão e curso! Perdoe-me Gabriel,
mas eu não posso.
Estiquei o embrulho desfeito na direção dele,
seu rosto estampava a sua surpresa, como se
alguém se negar a receber um presente dele fosse
a coisa mais impensável do mundo. E como se
fosse necessário provar isso ele não aceitou o
presente de volta, o empurrando de volta para
mim.
─ Adriana, independentemente do valor, eu
vi esse colar e achei que seria imperdoável que
ele não fosse seu, só isso. Por favor, aceite.
Sua sinceridade era evidente e, depois da
cena patética que eu protagonizara no dia em que
nos conhecemos, tudo o que eu não queria era o
aborrecer novamente por coisa boba. Mas aquela
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joia era tudo, menos uma bobeira. Além do mais,
até que ponto isso não fazia parte de um jogo de
sedução dele? Para um menino rico como ele, o
que seria uma joia dessas? Quanto a mim,
acreditar nele poderia muito bem custar meu
coração, e esse era um preço muito caro para eu
arriscar.
─ Gabriel... olha, eu realmente ficaria muito
sem graça. E eu não quero que você tenha
ideias... eu já te disse qual é o meu foco e eu não
quero dar a entender outra coisa que não isso.
Ele passou as mãos pelo cabelo
demonstrando a sua irritação com o rumo
daquela conversa.
─ Ok Adriana, eu não vou negar que você
chamou e muito a minha atenção. Você é linda e
com certeza sabe disso. Mas eu já entendi, você
deixou bem claro qual é o seu foco, aliás, claro
demais! É só um presente, presente de amigo ou
de quem gostaria de ser seu amigo, para de
encanar com isso. Eu vou ficar realmente muito
chateado se você não aceitá-lo.
Eu não pude mais recusar, nem podia fingir
que não tinha ficado encantada, tanto com o
objeto quanto com o gesto do Gabriel, e tudo isso
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me deixava ainda mais confusa. Mas eu não
engoli nem por um segundo essa balela de
“querer ser só meu amigo”.
Amigo, sei!
Amigos eu tinha aos montes e nenhum deles
fez minha pele cantar ao entrar em contato com a
deles, como no momento em que os dedos do
Gabriel tocaram a pele sensível do meu pescoço,
quando eu pedi que ele colocasse ali o colar.
Também nenhum amigo tinha dado um suspiro
cortado na minha nuca daquela forma. E eu tinha
certeza que nenhum amigo parecia tão excitado
quanto ele quando me virei.
Mesmo assim embarquei na nossa
“amizade”, nossos interesses e a sua simpatia
tornaram natural nosso entrosamento cada vez
maior. Gabriel tinha o dom de encantar quem
estivesse à sua volta, e eu me vi novamente presa
ao seu magnetismo.
A única coisa que traria algum alívio para
mim seria desabafar com a Lívia, mas nem isso
eu podia, já que estava decidida a não envolvê-la
nisso, não pelo menos até que fosse algo, se um
dia isso chegasse a ser "algo”. Eu sabia que o
Lucas e o Gabriel ainda eram grandes amigos e
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não queria que meu “irmão mais velho” auto
empossado metesse o nariz na minha vida, mais
uma vez.
Quer dizer... eu não poderia falar o nome do
Gabriel, nem nada que o identificasse, mas eu
acho que não haveria mal em contar o milagre,
contanto que o nome do santo fosse resguardado,
não é mesmo? No fim de mais de uma hora de
inquietação e nervoso acabei pegando meu
celular e chamei minha amiga. A desculpa que
meu cérebro me dava era a de que eu realmente
precisava dar notícias para ela.
─ Oi Lili, que saudade!
─ Ah Nana! Sua desnaturada, já são quase
duas semanas que você não fala comigo! Eu
estou com saudades, poxa! A gente nunca ficou
tanto tempo sem se falar...
Isso era verdade, e eu me senti péssima, a
pior amiga de todos os tempos. Estava tão
preocupada com os meus próprios problemas que
tinha me esquecido de ligar para ela todos os
dias, mas não podia dar meu braço a torcer sobre
isso, nem confessar que apesar da saudade que
eu estava sentindo naquele momento, eu não tive
muito tempo para me lamentar por não estar em
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casa, perto da minha família e dela, pelo menos
não nessa semana...
─ Me desculpa Lili, É tanta coisa que eu
tenho que pesquisar para o curso que quando
chega o fim do dia eu estou morta!
─ Mentira, você já está aí há duas semanas e
só essa semana começaram suas aulas, você não
se importa comigo mesmo, grande amiga!
Só com muito amor para suportar as
cobranças da Lívia! Agora só sobraria duas
táticas para mim: implorar seu perdão ou contra-
atacar, a confundindo e fazendo com que ela
esquecesse do meu furo. Ou talvez, um pouco
dos dois...
─ Tá bom, Lili, você tem razão: eu sou uma
péssima melhor amiga e você tem todo o direito
de ficar tão brava comigo que nem queira saber o
porquê eu estar te ligando a essa hora. Com
certeza eu não mereço ter uma confidente tão boa
quanto você, pode deixar, boa noite tá? Manda
um beijo para a sua mãe, tchau.
Suspirei fundo e esperei um segundo antes
de ouvir o grito dela do outro lado da linha.
─ Nem pense nisso, Adriana Cavalcanti, eu
juro que sou capaz de romper relações com você
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de verdade! Pode desembuchar o que aconteceu?
Pelo tom da sua voz já até posso adivinhar: tem
homem na parada!
Sim, minha amiga me conhecia como
ninguém e eu ri alto da sua reação.
─ Agora você vai ficar quietinha e me deixar
falar, sem drama?
─ Fico, mas você tem que falar tudo.
─ Então... tem esse cara que é brasileiro e
estuda comigo e é tão gato Lili! Alto, moreno,
lindo, musculoso, inteligente. Já disse que ele é
lindo? Então... desde o primeiro dia que ele
chegou em mim, com aquele papo de “Que legal!
Mais alguém do Brasil!”, e fica tentando chamar
a minha atenção, ontem ele me chamou para ir
com ele ao ParcGüel e eu disse que não podia.
Você acredita que hoje quando eu cheguei no
curso tinha um pacote na minha mesa e era uma
joia maravilhosa, um magnífico colar de mosaico
em tons de azul que formam a cor exata dos
meus olhos.
─ Espera aí, Nana. Como assim? Do nada? É
bijuteria de hippie, não é?
─ Que bijuteria de hippie o que Lili! Uma
joia em prata de lei e cerâmica fina produzido na
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mais perfeita técnica trencadís, a mesma usada
nas obras de Gaudí, com certeza uma peça
assinada por um design de renome, um luxo!
─ O cara te deu uma joia assinada, sem que
vocês sequer tivessem se beijado? Puta merda,
esse aposta alto hein?! Depois do primeiro beijo
ele vai te dar um brinco de pérolas de Majorca e
quando vocês forem para a cama, um diamante
Tiffany de 50 pontos.
─ Ai Lili, você sabe muito bem que eu não
me importo com nada disso, muito pelo
contrário, isso tudo está pesando justamente
contra ele.
─ Por quê?
─ Ah Lili, você sabe muito bem que eu
nunca curti filhinho de papai e até onde eu sei é
exatamente o que ele é.
─ Por que ele te deu um presente? Ah Nana!
Vê se cresce! O cara com certeza está na sua,
quis te agradar, que mal tem ele te dar um
agrado? A não ser que ele seja um babaca e que
tenha usado isso para te manipular não vejo
nenhum mal.
Eu suspirei fundo, sem saber como explicar
meu ponto de vista sem entrar em todos os
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detalhes.
─ Não é isso, na verdade ele deixou bem
claro que era só um presente de amigo, mas sei
lá...
─ Nana, agora sério, eu não sei o que está
dando em você, mas você nunca foi assim. Você
gostou dele e ele de você? Não cria problema,
vive essa aventura. Vocês estão os dois longe de
casa, se nem aqui você se prende, por que faria
isso aí? Se der certo, beleza. Senão vocês se
divertiram e passaram um bom tempo juntos.
─ Tudo o que você disse é verdade, mas o
problema é que pela primeira vez na minha vida
eu estou com medo. Ah amiga, se tem alguém
com um enorme potencial para fazer com que eu
queira mais do uma aventura é o... É esse cara!
─ Nana, eu não estou te conhecendo, o que
esse cara tem de tão especial afinal de contas?
Como eu poderia explicar a ela que eu já o
conhecia e que já tinha me apaixonado por ele
antes?
─ Não sei, não sei mesmo Lili. Só sei que
quando ele está no mesmo lugar que eu, me dá
um nervoso que eu nunca senti antes, quando ele
fala comigo, ele olha dentro dos meus olhos e é
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como se ele me hipnotizasse porque mesmo que
eu quisesse não poderia olhar para nenhum outro
lugar. Agora, soma a isso tudo o fato dele ser
lindo, - por que eu já te disse que ele é lindo, não
disse? - me fazer rir como nunca ninguém fez,
gostar das mesmas coisas que eu e por mais que
eu ache que ele é uma péssima ideia, a cada
minuto eu me pego cada vez mais imaginado que
essa péssima ideia deve ser uma ótima coisa.
Eu a escutei puxando o ar do outro lado da
linha, ela estava assustada, e para falar a verdade,
eu também estava. Só quando coloquei pra fora
tudo o que estava me roendo por dentro é que eu
pude ver o tamanho da minha encrenca.
Eu estava muito fodida da minha vida!
─ Olha minha amiga linda, vou te dar a
notícia de uma vez que é para não doer tanto:
você já está irrevogavelmente apaixonada por
esse cara, então, mostra que você é a Nana cheia
de confiança que eu conheço e vai atrás do que o
seu coração quer. Só me faz um favor? Não
deixa o coração totalmente exposto tá? Você está
muito longe e eu não posso conferir se esse cara
é tudo isso que você está falando e você sabe que
eu não confio muito no seu discernimento.
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Mesmo assim, não se esqueça que eu estou aqui
por você e cruzo o Atlântico rapidinho para dar
uns socos nesse sujeito se for o caso.
─ Lili, a brava da dupla não eu?
─ Sim, é verdade, mas você nunca esteve
assim... boba, por um cara antes. Acho que os
papéis se inverteram...
─ Então esse é o seu diagnóstico, Doutora?
─ Sim, Sra. Cavalcanti, você sofre do mal de
amor, e o remédio que eu prescrevo é que você
se jogue de uma vez nos braços do tal gostoso, e
depois me conte tudo!
Nós duas gargalhamos como as palhaças que
éramos e nos despedimos. Como sempre
conversar com a Lívia tinha me ajudado muito,
mas eu ainda estava confusa e na dúvida, mas eu
tinha decidido que ia deixar o barco correr e ver
onde ele me levaria.
 
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CAPÍTULO 7
Si Tú Me Miras Te Enseñaré a Decir te
Quiero, Sin Hablar
 
Pela manhã, fui em direção ao Campus com
as mesmas indecisões da noite e vamos combinar
que o Gabriel não me ajudava em nada! Se
tornou quase um stalker, me perseguindo e aonde
quer que eu fosse ele não me deixava em paz,
mesmo que de um jeito fofo.
Prestava atenção mais em mim do que nas
aulas e no fim da semana acabou me
convencendo, já que eu não tinha ido ao
ParcGüell com ele, que pelo menos fosse à Casa
Batlló, o icônico edifício modernista também
construído por Antoni Gaudi para ser a
residência do rico industrial Josep Batlló
Casanovas, e ainda teve a desfaçatez de dizer que
seria somente uma pesquisa de campo, não um
encontro.
Muito cara de pau, isso sim!Mas era um cara de pau tão adorável, eu
tinha que reconhecer...
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Acabei concordando em encontrá-lo no
sábado pela manhã, no Passeig de Gràcia,
passeio público na área central de Barcelona
onde se localizava o prédio que visitaríamos,
apesar de sua insistência boba em me buscar. Ele
não ficou feliz com isso, mas teve que engolir.
Paciência, eu sempre fui uma mulher
independente e não seria agora que mudaria isso.
Passei a bendita noite de sexta em cólicas!
Uma ansiedade louca que eu não sabia de onde
vinha...
Talvez fosse a distância que havia entre esse
o Gabriel do presente e do das minhas memórias.
Esse Gabriel simplesmente não combinava em
nada com a descrição de playboy drogado e
irresponsável que aquela menina tinha feito dele
na época de escola, bem... Também ela tinha sido
a única a falar algo menos que incrível sobre o
Gabriel. Minha mãe foi sua fã número um e o
Lucas, apesar da distância e do tempo, ainda o
considerava seu melhor amigo. Em outras
palavras todos os conhecidos que tínhamos em
comum e eram da minha inteira confiança, o
adoravam e a única opinião diferente vinha de
uma menina mimada, sem noção e que, até onde
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eu sabia, podia ter algum motivo naquela cabeça
aluada para me querer longe do Gabriel.
E mais do que qualquer coisa, a pessoa com
quem eu estava convivendo era a definição de
“gente fina”: humilde, simpático ao extremo,
divertido, inteligente, responsável. Nada que
lembrasse remotamente a imagem de “rebelde
sem causa” que eu tinha dele, muito pelo
contrário, cada vez que eu descobria mais uma
peça do que era o belo quebra-cabeça Gabriel
Ferraz, mais eu me encantava com o que era
revelado.
Por isso, acordei naquele sábado decidida a
me manter aberta aos meus instintos e ver onde
eles me levariam. Como sabiamente tinha
apontado minha amiga, o pior que poderia
acontecer seria eu ter desfrutado de momentos
inesquecíveis ao lado de um homem gostoso,
educado e inteligente.
Eu poderia pensar em milhares de coisas
piores do que isso... E em poucas melhores.
Eu já podia me ver nos braços do Gabriel
enquanto me arrumava com um simples vestido
de verão com flores azuis do exato tom do colar
que o Gabriel me deu e sandálias douradas. O
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azul do medalhão e da minha roupa faziam com
que a cor dos meus olhos estourasse de tanto
brilho, por isso passei uma maquiagem bem
levinha e básica: rímel, um delineador, gloss
clarinho e um pouquinho de blush... Um look
casual e angelical para disfarçar minhas
intenções nem um pouco inocentes.
Desci as escadas e dei de cara com a Pilar,
que elevou ainda mais minha autoestima, quando
saiu detrás da bancada da recepção e me avaliou,
depois de me fazer dar um giro em meu eixo,
para ela pudesse ver melhor.
─ Chica, lohermosa que eres! Dejaráconun
tipo consuerte?
─ Voy a salirconuncompañero de classe.
─ Es muy hermosa, que Dios te guarde y
cuide.
─ Gracias Pilar, hasta luego.
Graças a minha amiga saí para meu encontro
irradiando autoconfiança.
Avistei o Gabriel ainda de longe, ao chegar
ao local combinado. Ele estava logo em frente ao
prédio, mas de perfil em relação a mim, parecia
ansioso olhando seu relógio e me procurando
com olhar justamente do lado oposto onde eu
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estava, e eu gostei disso, assim poderia o
observar um pouco em segredo antes de ser
localizada. Porque aquela era uma imagem para
se queimar na retina e gravar para sempre no
cérebro: aquele homem tão integrado àquela
paisagem cosmopolita e histórica como se
pertencesse àquele lugar e eu tinha certeza que
ele teria essa mesma aparência em qualquer
outro lugar. Gabriel, seu porte majestoso e suas
atitudes de menino de “boa família” seriam bem-
vindos e bem quistos por onde ele fosse. Meu
coração tremeu em meu peito e confesso que
temi um pouco, seria muito fácil me apaixonar
por aquele homem espetacular que estava na
minha frente e isso poderia terminar muito mal
para mim... Era como se eu estivesse entrando
em um campo de batalhas sem arma ou proteção
alguma e eu deveria ter isso em mente o tempo
todo se não quisesse me machucar.
Sua aparência só servia para piorar minha
situação, era uma manhã agradável em
Barcelona, e ele enfeitava a rua em seu jeans e
uma camiseta preta que deixava claro o quanto
ele estava em forma. Pela primeira vez eu
vislumbrava as tatuagens que subiam e se
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escondiam em sua roupa, me fazendo fantasiar
com o restante daquela body art. Sorria,
pensando como seria divertido explorar cada
traço daqueles quando ele finalmente olhou
diretamente para mim, tirando seus óculos
escuros e fazendo com que eu me sentisse
flagrada, como se ele pudesse ler minha mente e
adivinhar os pensamentos nada “amistosos” que
povoavam minha mente naquele instante.
Com passos largos e seguros ele rapidamente
me alcançou, me cumprimentando com um leve
beijo no rosto e aquele sorriso que fazia com que
tudo dentro de mim derretesse, segurou minha
cintura, me obrigando a acompanha-lo até o
prédio à nossa frente, que parecia um palácio de
um conto de fadas pós-moderno e que ao mesmo
tempo que harmonizava com as construções que
o ladeavam, se destacava de todas elas,
demostrando o cuidado que o arquiteto teve de
atender as expectativas do seu cliente.
Me sentia como uma criança deslumbrada
em seu primeiro passeio ao parque de diversões.
Me encantava com tudo o que via como se
estivesse descobrindo um novo mundo. Nada do
que eu estudara na faculdade e vira em vídeos e
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fotos me preparou para a grandeza do que estava
na minha frente. Cada pequeno detalhe tão
pensado para se integrar ao conceito visionário
da casa, as soluções simplesmente geniais para
os problemas triviais, o tema tão singular e
fantástico escolhido pelo artista e a maneira
brilhante com que ele deu vida à cada elemento
de forma a escrever uma linda história somente
usando elementos arquitetônicos para isso.
Gabriel também se mostrava encantado,
ainda que não fosse sua primeira visita e
ostentava todo seu conhecimento, descrevendo
cada minucia da construção que eu só conhecia
na teoria tão bem que eu estava quase
acreditando que o objetivo daquele passeio era
mesmo uma "pesquisa de campo".
Pelo menos até que percebi que ele não
tirava os olhos de mim, nem mesmo enquanto
descrevia as maravilhas daquele lugar. Depois de
um tempo eu já nem sabia para quem eram os
elogios que saiam da sua boca bem desenhada e
estava prendendo minha atenção mais do que as
escadas em forma de vértebras ou os vitrais que
remediam a seres marinhos. Por fim, ele pareceu
se esquecer do estávamos fazendo ali e passou a
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só me olhar com uma intensidade que me
desconcertava.
─ O que foi?
─ Eu estou só observando como você
combina com esse lugar.
Fiz uma careta, fingindo estar chateada.
─ Excêntrica e exagerada?
Ele balançou a cabeça e me atirou o mais
perfeito conjunto de sorriso safado e olhar de
gavião já visto, chegou bem perto de mim antes
de falar pausadamente.
─ Não... Singular, alegre, cheia de vida e
com muitos pequenos detalhes lindos que se
juntam formando uma obra prima.
Ele foi falando e passando o dedo pelo meu
rosto, como se estivesse me mostrando o que
dizia... alcançou o meu queixo e o puxou para o
alto, encontrando minha boca no meio do
caminho, me tocando suavemente, aproveitando
que eu resfoleguei, para contornar os meus lábios
vagarosamente com os seus antes de se
aprofundar em minha boca, a explorando,
brincando comigo, me provocando e por fim
tomando tudo de mim com força e determinação.
Nunca em minha vida eu tinha sido beijada
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daquela forma, e sabia que nunca mais ia querer
ser beijada de outra forma novamente.
Quando nos separamos, eu que normalmente
era atirada e cheia de atitude estava sem graça e
tímida como uma colegial, a colegial que sonhou
tantas vezes com esse momento,o Gabriel tinha
conseguido a proeza de me desconcertar. Ele, no
entanto, estava mais dono de si do que eu já tinha
visto e isso o fez mais sexy do que nunca. Não
havia nada no mundo que mexesse mais comigo
do que um homem seguro. A forma que ele
continuava olhando diretamente em meus olhos,
aumentava o meu constrangimento, mas ao
mesmo tempo me excitava de uma forma que eu
nunca senti. Minha boca seca e minha respiração
rasa eram provas irrefutáveis do meu estado.
─ Você é muito linda, Adriana! Eu passaria o
dia olhando para esses olhos. E talvez passe um
dia, mas infelizmente eu acho que por ora você
tem coisa melhor para fazer com eles não tem?
─ Nada que eu consiga lembrar...
─ Nada mesmo? Jura que eu prendo mais a
sua atenção que a obra de Gaudí? Bem isso é
realmente muita coisa a julgar pelo modo
apaixonado com que você estava examinando
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cada milímetro. Na verdade, eu estava ficando
meio enciumado.
Não pude conter uma risada.
─ Por isso você me beijou? Para ganhar a
minha atenção?
─ Depende... consegui?
─ Conseguiu sim, toda a minha atenção é sua
agora, Gabriel!
Ele me deu outro beijo, dessa vez mais
rápido e se afastou, com cara de quem está
fazendo um tremendo esforço.
─ Eu vou cobrar essa atenção mais tarde,
agora não seria justo com você roubar a sua
diversão. Vamos acabar a nossa visita para que
você possa babar mais um pouco nas obras,
vamos...─ Eu me sinto uma caipira deslumbrada,
mas não consigo evitar, tudo aqui me encanta de
uma forma... é literalmente como um sonho que
se materializou.
─ Adriana, acho que nem em festa junina
você conseguiria se passar por uma caipira, tudo
em você exala refinamento, e você sabe disso
muito bem. Quanto a tudo te encantar, eu fico
feliz, porque eu estou com a mesma sensação
que você, parece que o meu melhor sonho se
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transformou em realidade bem aqui na minha
frente...
Não fosse sua voz grave e sexy, ou a
possessividade com que suas mãos ainda
agarravam meus quadris, me colando ao seu
corpo, seu olhar cheio de tesão fixo em mim
deixava bem claro do que ele estava falando. E
pela primeira vez naquele dia eu tive medo e, me
desvencilhei dele, sorrindo sem graça e dizendo
que gostaria de ver logo tudo o que a casa
poderia me mostrar.
Ele estendeu a mão para mim e a partir
daquele momento, mesmo que ele tenha dito que
queria que eu aproveitasse o passeio, já não
havia clima para isso, as cores vibrantes da casa
desbotaram. Eu já não conseguia mais me fixar
em nada e mesmo quando o Gabriel me chamava
a atenção para uma ou outra curiosidade, o que
me prendia era menos o conhecimento que ele
estava passando, do que aquela voz grave e rouca
que a pouco tinha me dito coisas tão bonitas. Ele
percebeu minha falta de concentração e logo
sugeriu que fossemos almoçar.
Durante o almoço, o Gabriel conduziu a
conversa o tempo inteiro. Na verdade, eram
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muitos interesses em comum, mesmo sem contar
a arquitetura e com isso o assunto não faltava,
mesmo assim obviamente uma hora nós tivemos
que ir embora e eu lamentei quando nos
separamos.
Ele fez questão de me levar até a porta da
minha pensione e insistiu para que nos
encontrássemos naquele mesmo dia, mais tarde,
para jantarmos e saímos para dançar.
Contrariando todo o bom senso eu cedi, e ele
ficou de me buscar ao cair da noite. Deus me
protegesse de não estar sendo precipitada!
Eu entrei no meu quarto e me joguei na
cama.
O. que. era. Gabriel. Ferraz?
Que beijo, Deus!
Se aqueles beijos e a forma de me tratar
como se eu fosse a joia mais rara de todo mundo
fosse indício de como seria o resto eu realmente
tinha tirado a sorte grande!
Foi naquele momento que eu fiz a minha
escolha, eu iria fazer como a Lívia disse... eu iria
me jogar de cabeça na atração que nós dois
sentíamos!
Eu era maior de idade, vacinada, dona do
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meu nariz, não era nenhuma garotinha e mais o
importante... sabia muito bem o que eu queria. E
nesse momento eu queria o Gabriel mais do que
já tinha desejado qualquer outra coisa!
E se ele também me queria, qual era o
problema?
 
 
 
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CAPÍTULO 8
Um Anjo de Vestido, Uma Libido do
Cacete
 
Se pela manhã eu fiz a linha santinha, com
um look simplesinho e básico, ia investir tudo no
meu lado sensual para garantir que minha noite
com o Gabriel fosse o sucesso que eu esperava.
Vesti uma calça preta de cetim e um body
dourado com decote cache coer literalmente até o
umbigo, um par de sandálias pretas que me
deixariam quase da altura dele de tão altos e
bijuterias de cristal swarovski preto. Abusei da
maquiagem, de forma que novamente destacasse
a cor dos meus olhos, mas desta vez de uma
forma muito mais sexy, com um esfumado em
azul cobalto, muitas e muitas camadas de rímel.
Finalizei com cachos desalinhados que eu
esperava que passassem a ideia de que o Gabriel
era mais do que bem-vindo a desarrumá-los o
quanto quisesse.
Fiz caras e bocas para o espelho, adorando
minha nova persona e saí do meu quarto, cheia
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de expectativas.
Já do alto da escada da pensione eu o avistei.
E era uma visão de tirar o fôlego! Ele vestia uma
calça jeans escura e um blazer escuro sobre uma
camisa clara e estava conversando animado com
o Fernando, muito lindo, muito charmoso!
Quando eu já estava quase no fim da escada o
barulho do meu salto chamou a sua atenção e a
cara que ele fez poderia ter me feito ganhar a
noite, se eu não tivesse planos muito mais, hãn...
consistentes para ele.
Seus olhos estreitos viajaram de alto a baixo
pelo meu corpo e quando voltaram e
encontraram os meus, o fogo que saía deles junto
com o sorriso safado que ele ostentava não
deixavam a menor sombra de dúvida de que o
meu visual tinha sido aprovado e muito a julgar
pela forma com que ele se ajeitou. Homens... tão
previsíveis!
Tudo bem, eu também estava mais do que
excitada por aquele homem absurdamente
comível e para ser sincera depois da forma com
que ele me olhou, eu tenho certeza de que o
fundo do body era uma sopa só! A diferença é
que eu conseguia fingir indiferença ao chegar
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perto e cumprimentá-lo com um beijo suave, já
ele tinha um palmo de língua para fora e não
poderia esconder de ninguém a cerca de um
quilômetro o quanto ele estava afetado.
Gostei disso. Principalmente porque ao
contrário do que normalmente acontecia nesses
casos ele, apesar de visivelmente ter gostado do
que viu não se intimidou e parecia tão confiante
como nunca.
O filho da puta sabia que era gostoso!
Despedimo-nos do meu simpático amigo e
anfitrião, o Gabriel gastando seu catalão perfeito,
eu no meu espanhol capenga.
Ao sairmos ele me puxou de encontro ao seu
corpo e sussurrou no meu ouvido.
─ Adriana eu nunca vi uma mulher tão linda
quanto você está agora! Essa noite vai ser um
teste para o meu autocontrole.
Eu dei uma piscadinha para ele.
─ E para que autocontrole, Gabriel? Esquece
dele hoje e vamos curtir o que Barcelona nos
trouxer.
─Você não sabe o que está pedindo, garota.
─ Não sou uma garota, Gabriel. Por isso sei
muito bem do que estou falando. Vamos, joga
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seu autocontrole nesse lixo. O meu eu deixei lá
em cima.
Ele riu enquanto procurava algo no seu
paletó e jogava na lata de lixo em frente ao
prédio do qual saímos.
─ Feito. Autocontrole no lixo, ainda bem que
eu não trouxe muito mesmo. Tenho certeza que
na segunda-feira na aula eu vou precisar de uma
dose extra.
Sorri vitoriosa e feliz! Era bom estar com
uma pessoa cheia de humor e leve como o
Gabriel.
─ Que bom! Então, “autocontroles”
devidamente esquecidos, vamos nos jogar na
famosa noite de Barcelona.
Jantamos em um restaurante muito bonito e
requintado, não muito longe dali, depois fomos a
um bar bem simples e ficamos conversando,
mesmo eu ainda não me sentindo segura para
falar de assuntos pessoais não faltavam assuntos
em comum paraa minha sorte.
Acabamos na pequena pista de dança e não
era exatamente uma surpresa que o Gabriel
soubesse dançar, mas a forma com que eu me
sentia bem dançando com ele me pegou
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desprevenida... Seu jeito desenvolto e sensual me
acendeu e foi irresistível o provocar me mexendo
de forma convidativa, me sentia tão bem como
nunca tinha me sentindo antes.
Eu resolvi me divertir um pouco com ele e
quando tocou uma música do Black Eyed Peas,
fiz um pequeno show e comecei a dançar na sua
frente, o instigando com uma coreografia sexy,
me virando e olhando por sobre meu ombro para
ter certeza se estava atingindo o meu objetivo.
Oh, sim! Eu tive plena certeza disso quando
ele me enlaçou pela cintura e me levou até um
canto afastado do bar, me prendendo à parede e
me devorou, deliciosamente, com seus beijos
fortes, intensos e famintos. Enquanto moía seu
quadril contra a minha barriga, me prensando e
me deixando fora de mim de tesão ao senti-lo
totalmente enrijecido ao se esfregar em mim.
─ Porra Adriana, você é gostosa demais,
audaciosa demais. Você é um perigo pra
sanidade mental de qualquer um.
Ele falava com aquela voz grossa, grave,
cheia de desejo, enquanto segurava meu quadril,
de forma a me aproximar ainda mais dele, ao
mesmo tempo em que me enlouquecia, me
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beijando como um louco, chupando o meu
pescoço e mordiscando minha orelha, eu não
suportava mais.
─ Gabriel, pelo amor de Deus, me tira logo
daqui.
Ele ainda me olhou como se procurando ter
certeza do que eu queria com as minhas palavras
e depois de me provocar mais um pouco, foi ao
balcão pagar nossa conta e me puxou para fora
do bar, se dirigindo para o seu carro.
─ Não Gabriel, vamos para a pousada
mesmo.
─ Nem pensar Adriana, eu vou te fazer gritar
tão alto que você vai ser expulsa de lá. Vamos
para o meu apartamento, não é tão longe daqui.
Eu acabei cedendo, já que era assim né? Mas
antes o puxei para mais um beijo e ele chocou
minhas costas com a lataria do seu carro, nós
dois éramos fogo e gasolina e a explosão era
certa. O Gabriel se afastou de mim rindo.
─ Adriana, a gente realmente precisa sair
daqui agora, senão eu vou acabar fazendo uma
loucura.
Dei de ombros e fiz biquinho.
─ E quem disse que eu ligo para isso?
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Ele puxou meu queixo para que eu
levantasse o meu rosto e disse, me olhando com
aqueles olhos de águia.
─ Eu não podia estar mais errado quando te
julguei a primeira vez que te vi. Toda lindinha
com esse cabelo loiro, esses olhos azuis e CDF.
Eu jurava que estava na frente de anjo.
Eu ri e ele enfiou a mão nos meus cabelos,
me puxando para ele.
─ Quem diria que você é essa bruxa
provocante, Adriana?
Depois de um último beijo, ele abriu a porta
para que eu entrasse, deu a volta para entrar e
arrancou com o carro como se a sua vida
dependesse disso. O caminho até sua casa
pareceu muito longo e quando finalmente
entramos na garagem do seu prédio e saímos do
carro, voltamos ao nosso fervoroso ataque.
Na manhã seguinte eu culparia o delicioso
vinho espanhol, mas hoje eu ia aproveitar esse
homem delicioso de todas as formas que eu
pudesse.
Gabriel abriu a porta do seu elegante
apartamento, acendeu algumas luzes,
estrategicamente colocadas para criar o clima
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perfeito e ligou o sistema de som (Esse é o lado
ruim de namorar um arquiteto... Eu sabia
exatamente o motivo de tudo aquilo e não gostei
de pensar que esse ambiente era exatamente o
"matadouro" que eu projetaria para um cliente
mulherengo criar a atmosfera perfeita para
seduzir).
Gabriel não perdeu tempo em me mostrar
nada e me levou com ele até o enorme sofá
creme, me sentando em seu colo, com minhas
pernas abertas sobre ele. Meu sexo latejava como
nunca ao sentir o contato com sua ereção
evidente mesmo por sob o jeans. Seus lábios
gostosos me faziam arfar e arquejar projetando
meu corpo de encontro ao seu ao me beijar o
pescoço, sua barba causava um leve pinicar que
despertava cada terminação nervosa do meu
corpo, suas hábeis e ágeis mãos me
desvencilhando da minha blusa, abaixando as
alças até que elas caíssem e me deixassem nua da
cintura para cima... Meus seios inchados
praticamente esfregando no seu rosto e ele
fazendo muito bom uso dessa posição, sugando
fortemente meus mamilos endurecidos, os
puxando com os dentes, passando a língua
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demoradamente lento, aliviando a sensação
dolorosa que seus dentes deixavam.
Eu rebolava em seu pau por cima das nossas
roupas e ele devorava meus seios, os dois
perdidos de desejo... Suas mãos fortes me
apertando em todas as partes, enquanto eu
desabotoava sua camisa e passava as mãos por
seu peito. Ele me virou e me deitou no sofá
ficando em pé na minha frente me olhando como
se eu fosse um prato de comida diante de um
faminto... Apesar de eu provavelmente parecer
um caos, blusa embolada na cintura, cabelo por
toda parte e maquiagem desfeita e ele ainda
aquela obra prima da natureza com seu abdômen
sarado e seus braços tatuados.
─ Você é realmente um absurdo de gostosa,
fogosa e linda, mas a partir de agora quem
comanda sou eu, ok?
Quem era eu para contrariar? Até mesmo
porque eu tinha certeza que estava entregue a
mãos que sabiam bem o que estavam fazendo.
Eu fiz biquinho e assenti me contorcendo
preguiçosamente no sofá.
Ele se abaixou e pegou meu pé, arrancando
minha sandália e a jogando longe, e fazendo o
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mesmo com o outro pé. Ele voltou até o sofá e
pairou sobre mim, me beijando enquanto
desabotoava a minha calça e colocava sua mão
dentro dela procurando a lateral do body, o
afastando e encontrando meu clitóris inchado.
Ele o tocava com maestria, me fazendo gemer
forte como uma louca, quando eu não aguentava
mais e meu orgasmo estava por fio ele se afastou
mais uma vez, puxando meu lábio inferior ao
final do nosso beijo e tirou minha calça, meu
body indo junto.
Eu estava totalmente nua e exposta, deitada
em seu sofá e não tinha uma gota de vergonha,
meu único sentimento naquela hora era a
urgência em ter o Gabriel dentro de mim o mais
rapidamente possível, por isso eu tentei me
levantar e agilizar o processo... Mas o Gabriel
levava a sério o papel de manda chuva e me
empurrou de volta ao mesmo tempo em que caía
de joelhos na minha frente e me puxava,
escancarada, de encontro a sua boca.
─ Deus, Gabriel!
A minha teoria de que ele era um homem
faminto se confirmou pela maneira com que ele
me saboreou avidamente, passando sua língua
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quente por cada milímetro do meu sexo, antes de
encontrar meu clitóris que incendiava por
atenção e lambê-lo vagarosamente deixando
claro o quanto ele estava, realmente, se
deliciando com isso. Aquela era a melhor coisa
que eu tinha sentido até aquele momento, e eu
me entreguei totalmente àquela sensação, me
contorcendo e me esfregando de encontro a ele,
enquanto ele me explorava mais e mais com sua
boca gulosa, sugando meus sucos de forma
totalmente obscena fazendo com que eu me
mexesse descontrolada, procurando o êxtase cada
vez mais próximo.
E isso só fez o Gabriel me torturar mais,
tirando sua boca de mim, para minha
misericórdia ele introduziu dois dos seus longos
e grossos dedos em mim e ia rodando e
arremetendo fortemente em minha boceta, que os
sugava e eu estava muito próxima de gozar para
raciocinar com alguma coerência.
Ele levantou seu rosto e ficou me olhando,
seus dedos me enlouquecendo, mas eu queria
mais.
─ Gabriel volta para o que você estava
fazendo agora!
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Ele riu antes de voltar.
─ Mandona!
Ele passou a sugar ferozmente o meu núcleo
enquanto seus dedos se moviam cada vez mais
rápido em mim e em pouco tempo eu comecei a
sentir um forte tremor involuntário tomar conta
das minhas pernas e meu corpo sendo tomado
por um delicioso orgasmo, onde eu gritei o nome
do Gabriel e gemi alto, enquanto me contraía na
sua frente. Ele não meabandonou enquanto meus
espasmos não tinham se dissipado e ele não
havia me sorvido totalmente.
Eu estava numa deliciosa nuvem pós-
orgasmo quando ele me pegou no colo.
─ Vem, deliciosa! Que agora eu quero te
comer na minha cama.
Eu só assenti, rindo como uma boba,
molenga que estava, ele me levou para o seu
quarto e me colocou no meio da sua cama king
size.
Eu cheguei mais para o alto da cama, me
apoiei na cabeceira e fiquei observando ele se
livrar dos calçados e da calça sem nunca quebrar
o contato visual comigo ou tirar aquele sorriso
lindo do rosto. Meu Deus do céu! O Gabriel
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tirando suas roupas era um espetáculo digno de
se ver. E quando ele finalmente tirou sua cueca,
eu juro que salivei! Aquele pênis potente era o
complemento ideal para a perfeição que era
aquele homem!
Ele subiu na cama e rapidamente estava
sobre mim, seu corpo quente em contato com o
meu me inflamava mais ainda. Ele recomeçou
sua investida, me beijando enquanto com os
dedos espalhavam o resultado da minha
excitação cada vez mais e mais abundante e os
enfiava em mim, me preparando. Com uma mão
eu segurava em suas costas musculosas e com a
outra procurei sua ereção, rodeei meu dedo na
cabeça já úmida e também espalhei o líquido
para facilitar o contato com a minha mão que se
pôs a subir e descer, fazendo o Gabriel mais
violento em seus beijos, nós dois enlouquecidos
de vontade.
Ele se separou um pouco de mim, e foi o
suficiente para que eu soltasse um gemido,
inconformada, mas depois eu percebi que ele
tinha apenas se esticado para alcançar a
camisinha no criado mudo, a qual ele
rapidamente colocou no seu incrivelmente rígido
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pênis. Eu me abri para ele enquanto ele
posicionava em cima de mim apoiado em seus
cotovelos e sem nunca parar de me admirar com
um olhar selvagem... Mas que ainda naquele
momento, com todo o tesão que saltava de seus
olhos, era possível perceber uma ternura que me
tirava do chão, ou no caso... Da cama.
Ele entrou em mim lentamente, meu corpo se
adaptando às suas proporções, me preenchendo,
me esticando de uma forma enlouquecedora.
─ Porra Adriana estar dentro de você é o
paraíso!
Do meu ponto de vista não era muito
diferente, o Gabriel também parecia o céu para
mim. Cada estocada precisa que ele dava me
fazia ver estrelas e eu me abandonei naquele mar
de inconsciência enquanto outro orgasmo se
aproximava. Deixei-me aproveitar ao máximo a
sensação dos seus golpes fortes e certeiros, suas
palavras sacanas e ao mesmo tempo doces,
nossos gemidos e os movimentos cada vez mais
rápidos e profundos.
Gabriel mudou de posição, de uma maneira
que ele conseguiria chegar ao meu clitóris e
então deu seu golpe de misericórdia apertando ali
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e detonando uma deliciosa explosão em meu
corpo, o mais delicioso orgasmo que eu já havia
experimentado, me fazendo gritar como uma
louca o seu nome e o arranhando como uma gata
selvagem.
Ainda assim outra onda se aproximou de
mim ao sentir a resposta dele aos meus espasmos
em forma de um gozo forte, seu rosto
desfigurado de prazer enquanto também urrava,
com uma voz gutural e crua, o meu nome.
Ele caiu sobre mim, com o cuidado de não
me esmagar com o seu peso e nós ficamos algum
tempo de testas coladas, tentando controlar
nossas respirações. Meu coração parecia que iria
sair pela boca, ele passou a mão ternamente pelo
meu rosto... Depois meu nariz... Contornou meu
maxilar... Que homem perfeito era aquele?
─ Muito linda... muito, mas muito deliciosa.
Nós nos separamos para que ele pudesse
descartar a camisinha, mas ele logo voltou,
puxando a coberta que ficássemos debaixo dela,
encaixados, nos acariciando sem nenhuma
intenção. Um clima bom de intimidade que faria
uma pessoa que estivesse vendo de fora duvidar
que fosse a primeira vez que fazíamos amor, mas
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parecia tão natural ficar assim com o Gabriel.
─ Você é uma caixa de surpresas, Adriana.
─ Boas ou ruins?
─ Todas maravilhosas!
─ Por que você está dizendo isso? No que
foi que eu te surpreendi?
─ Em tudo, a primeira vez que a gente
conversou, você foi tão... Você sabe! Além do
mais eu prometi que não falaria mais nisso.
Mesmo assim eu acabei criando pra você uma
imagem de frieza e distância que não poderia
estar mais longe da realidade.
Eu me virei para ele, me debruçando no seu
peito e o encarando.
─ E qual seria essa realidade?
─ Eu tenho certeza que você sabe, porque
você não é nem um pouco modesta.
Eu gargalhei... realmente o Gabriel em tão
pouco tempo já me decifrou totalmente.
Não, eu não era mesmo modesta!
─ Mesmo assim eu quero ouvir de você.
─ Eu não esperava uma mulher tão decidida,
fogosa e safada.
─ Já sei Gabriel... você pensou que eu era
uma alemã fria e insensível e acabou com uma
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sueca safada e insaciável.
Ele me olhou com a cara mais divertida e nos
girou, ficando sobre mim novamente.
─ Insaciável é?
─ Do que você me apresentou agora mesmo?
Eu acho que eu não vou conseguir me saciar!
Não tem como se saciar de algo tão bom!
─ Bom saber, agora essa vai ser a minha
missão então.
Ele passou um bom tempo provando que
poderia me saciar, mas a cada hora eu ficava
mais e mais viciada nos seus toques, seus beijos
e mais do que tudo na forma forte com que ele
me possuía.
No final, acabamos caindo exaustos, eu sobre
o seu peito tonificado, mal conseguindo abrir os
olhos ou articular uma frase inteira. Ainda assim
não daria meu braço a torcer.
─ Saciada minha linda?
─ Não, só cansada demais para continuar por
hoje.
─ Amanhã então eu continuo na minha
missão. Agora descansa vai.
─ E nem pense em desistir Gabriel!
Foi só o que eu consegui dizer antes de cair
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em um sono gostoso.
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CAPÍTULO 9
Amo o Teu Cheiro e Tua Cor
 
Na manhã seguinte eu acordei e a cama
estava vazia. Confesso que fiquei meio
decepcionada. Então me levantei, procurei o
banheiro, fiz minha higiene matinal, domei meus
cabelos em um coque estranho, peguei uma
camisa dele que estava jogada na cama e fui
procurá-lo meio sem graça. A noite passada tinha
sido perfeita, mas o dia seguinte sempre era uma
incógnita.
Eu abri a porta do quarto e fiz o caminho de
volta para a sala, que à luz do começo da manhã
ficava ainda mais bonita do que eu tinha
observado ontem através da penumbra que
reinava quando chegamos. Era realmente muito
acolhedor, prático, organizado e másculo. Eu
conseguia adivinhar muito dele só olhando o que
ele tinha feito ali, era uma espécie de hobby para
mim desnudar a alma das pessoas através das
suas moradias, seus hábitos e seus gostos.
Vi minha roupa dobrada no canto do sofá e
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minhas sandálias perto delas no chão, o que eu
achei muito atencioso da parte dele, seu blazer e
sua camisa, arrumados da mesma forma
cuidadosa em uma cadeira próxima, mas dele
mesmo nem sinal.
Foi então que eu escutei alguns barulhos e os
acompanhei até que eu o achei na cozinha, abri a
porta devagarzinho e coloquei só a cabeça lá
dentro, o espionando.
Gabriel estava uma tentação, só de short, seu
peitoral perfeito e seus braços tatuados
totalmente expostos mexiam comigo de uma
força vigorosa, e misturadas com as lembranças
da noite passada me aqueciam e excitavam
automaticamente.
Fiquei quieta durante alguns instantes me
divertindo com a forma com que ele parecia estar
todo atrapalhado preparando o café, até que de
repente ele se deu conta da minha presença e se
virou, vindo ao meu encontro me puxando para
ele e me rodando no alto enquanto me beijava...
Impossível não me sentir leve como uma criança.
─ Bom dia minha linda! Ia perguntar se te
acordei, mas pelo que eu vejo você acordou
cedo. O cheiro do meu sabonete fica melhor em
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você do que mim, mas ainda prefiro os nossos
cheiros juntos.
Ele estava cheirando meu pescoço e eu me
derretia nos seus braços,de onde eu nunca mais
queria sair.
─ A gente mistura nossos cheiros de novo.
Eu também gosto muito dessa fragrância.
─ Gostei dessa ideia, mas primeiro o café. –
Ele disse apontando para ilha no meio da
cozinha.
─ Eu acordei e não te achei...
Fiz charminho enquanto sentava na cadeira
alta da bancada e ele retornava para o fogão, à
minha frente.
─ Desculpa, eu realmente achei que ia acabar
isso aqui a tempo de levar para você na cama,
mas eu sou um desastre com a cozinha.
Eu tentei segurar o riso, mas foi mais forte
do que eu.
─ Eu pude perceber isso. Você mora sozinho
Gabriel, como é que você se vira?
Ele encolheu os ombros, parecendo
envergonhado de ter uma fraqueza descoberta.
─ Confesso que eu sou meio preguiçoso com
isso, de manhã normalmente eu como uma fruta,
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um pão e um café preto e durante o dia eu como
fora.
Eu me levantei e fui de encontro a ele.
─ Deixa eu te ajudar. O que falta?
Ele me mostrou o que tinha na geladeira e na
dispensa e rapidamente eu preparei um café
digno de hotel de luxo, ele tentando me ajudar,
mas realmente faltava jeito.
─ Eu ainda melhoro, você vai ver. Vou ser
um verdadeiro Chef, é minha outra meta de vida.
─ Outra?
─ Sim, a primeira é te deixar totalmente
saciada, esqueceu?
Eu ri, enquanto o enlaçava com meus braços
e o puxava para um beijo suave.
─ Deixa de ser bobo! Você também não tem
problema em saber o quanto é bom, lindo e
gostoso e sabe muito bem o quanto me deixou
saciada, esgotada e satisfeita. Eu não sou uma
pessoa desse tipo de joguinhos e você vai
perceber que eu falo o que penso e sinceramente
eu nunca me senti da forma com que me senti
ontem Gabriel. Mas não deixe isso lhe subir à
cabeça, eu ainda quero que você continue se
esforçando para me manter assim, viu?
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─ Sim senhora Adriana, eu prometo não
descansar da minha missão, fica tranquila.
Eu fiquei ali, agarrada no pescoço dele, rindo
como uma boba, ele me olhando com uma
ternura que eu nunca tinha recebido de nenhum
homem antes. Mas a minha barriga realmente
estava nas costas de tanta fome e aquilo quebrou
o clima romântico.
─ Eu estou com fome Gabriel.
Ele arqueou a sobrancelha de forma
sugestiva e eu balancei minha cabeça.
─ De comida! Eu realmente preciso de
combustível, homem! Se você vai continuar tão
aplicado em me saciar, pelo menos me alimente,
senão eu vou desmaiar em seus braços, e não vai
ser de prazer.
Nos sentamos na bancada para fazermos
nosso desjejum, mas não conseguíamos tirar os
olhos um do outro. Gabriel me comendo com os
olhos descaradamente e eu adorando a cara
safada com que ele fazia isso. Rapidamente
alimentar meu corpo deixou de ser importante,
eu pulsava de desejo e tive a ideia louca de
repetir a cena de um filme antigo do Polanski,
que sempre me deixou acessa.
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Olhando fixamente para seus olhos peguei a
garrafa de leite e comecei a beber o líquido
direto do gargalo, deixando cair um pouco pelo
canto da minha boca, de forma que ele ao
escorrer formasse o leito de um rio branco, que
abria seu caminho ao se embrenhar através da
gola da camisa do Gabriel que eu vestia. Seus
olhos viraram duas linhas de tão forte com que
ele os apertava, eu podia ouvir sua respiração
forte e descompassada, o tesão era palpável
quando ele esticou a mão e abriu lentamente a
camisa que eu vestia, fazendo com que ela
deslizasse pelo meu braço e caísse abandonada
no chão, sem nenhum momento tirar seus olhos
aquilinos de mim ou permitir que seus dedos
esbarrassem na minha pele, que fervia com a
expectativa.
Levei novamente a garrafa à boca, repetindo
a minha performance só que agora enchendo
mais a minha boca, soltando o líquido
aprisionado de uma só vez, molhando meu corpo
nu, a sensação fria sobre a pele fazendo meus
mamilos eriçarem. O Gabriel, finalmente,
quebrou o contato comigo, totalmente
hipnotizado por meus seios inchados e melados
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pela bebida. Aproximou-se mais de mim,
baixando sua boca, mamando o leite que escorria
através deles, sorvendo e chupando o caminho
percorrido por aquele rio, chupando meus seios
avidamente, os limpando, um de cada vez,
lambendo e depois sugando os bicos
intumescidos, suas mãos abertas em minhas
costas, forçando com que eu me aproximasse
ainda mais, facilitando assim o ataque da sua
boca hábil.
Eu gemia, deliciada, minhas mãos apoiadas
nos seus ombros largos eram a única coisa que
me impedia de cair, já que eu não possuía mais
nenhum controle sobre o meu corpo e quando eu
senti a proximidade de mais um orgasmo, o
Gabriel se deteve, levantou o seu corpo, se
encaixando entre minhas pernas, buscando meus
lábios para um beijo profundo e demorado,
explorando minha boca enquanto agarrava a
minha bunda e me tirava da banqueta, somente
para me colocar sentada na bancada, sem parar o
seu beijo, suas mãos traçando o seu caminho
através das minhas coxas me faziam sentir como
se milhares de pequenas explosões ocorressem
sob a minha pele, mesmo quando elas se
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separaram vagarosamente, indo uma em direção
ao meu seio esquerdo, que o Gabriel segurou em
taça o massageando firmemente. Sua outra mão
se alojou entre minhas dobras, seus dedos
sumindo entre elas, brincando com minha
necessidade, sem se aproximar do meu clitóris,
fazendo com isso que o nosso momento se
estendesse e que minha excitação se tornasse
dolorosa de tão urgente, só então ele permitiu o
meu gozo, com dois dos seus dedos dentro de
mim enquanto o seu polegar pressionava
suavemente a origem do meu desconforto.
Antes que eu me desse conta, o Gabriel já
tinha colocado o preservativo e me penetrava de
forma impetuosa, batendo de encontro a mim que
deitara no granito da bancada e arqueava meu
corpo a cada golpe, os absorvendo junto com a
mistura de sentimentos e sensações que
inundavam o meu corpo e minha alma antes que
o meu orgasmo puxasse o dele e nós dois
gritássemos juntos. Ele ainda ficou ali, parado
dentro de mim, seus olhos faiscando enquanto
me encarava, passou os olhos por todo o meu
corpo com um sorriso de aprovação antes de se
afastar e me puxar de encontro ao seu peito,
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beijando meu cabelo ternamente.
─ Você é deliciosa.
Eu ri e dei de ombros, me colocando de pé e
o observando descartar a camisinha.
─ E você é precavido.
Ele me deu uma piscada sacana que disse
tudo. É claro que ele não ia deixar escapar uma
oportunidade e isso me deliciava.
─ Xiii, vou ter que limpar a sua cozinha toda,
olha como está o chão.
─ Depois a gente vê isso, primeiro eu acho
que vamos ter que limpar você.
Eu sentia a minha pele repuxando por causa
do leite sobre ela, então não poderia negar que a
ideia do Gabriel era melhor do a minha.
O banho se prolongou mais do que devia, e
nós acabamos por tirar um cochilo, e quando
acordamos já era hora do almoço. Gabriel fez
questão de pedir nossa refeição, e me ajudar na
bagunça que nós fizemos juntos.
Depois de nos alimentarmos ficamos jogados
no sofá da sala assistindo a um filme e eu dormi
antes do primeiro intervalo, efeito colateral
benéfico do conforto que eu sentia ao estar junto
ao corpo do Gabriel.
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Ao acordar, totalmente presa nos braços dele,
seu rosto encaixado no meu pescoço me fazendo
cócegas com sua respiração na minha pele, eu
percebi que já estava escurecendo e eu tinha
passado o dia todo ali. Me senti desconfortável
com aquilo, como se eu tivesse abusando da
hospitalidade dele, impondo minha presença,
mesmo que ele não tenha feito nada que
demonstrasse desagrado por eu não ter ido
embora ainda.
Consegui, com muita dificuldade virar meu
corpo até que estivesse de frente para ele, e quase
desisti de acordá-lo só para poder ficar olhando
seu lindo rosto que parecia mais tranquilo
durante o sono, porém meu senso de dever tocou
alto em minha cabeça e eu beijei seu rosto até
que ele abrisse os olhos e sorrisse
preguiçosamente para mim.
─ Oi, abandonamoso filme, não é? Vamos
ver outro, então.
Ele só podia estar de brincadeira!
─ De jeito nenhum, lindo. Eu preciso ir
embora.
Eu me sentei para poder sair dali e me vestir
para ir embora.
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Mas ser contrariado não estava nos planos do
Gabriel, ele me agarrou, não me permitindo sair
e me jogou de volta no sofá, nos virando e
ficando em cima de mim.
─ Não vai não! Passa a noite comigo, por
favor?
Se fosse só o que ele dizia ainda seria fácil
negar, mas o problema era a carinha de
cachorrinho carente que ele fazia, eu tinha que
me manter firme. Não fazia sentindo algum que
eu ficasse mais ali.
─ De novo, Gabriel? Eu já estou aqui há
quase 24 horas, isso é um absurdo!
Ele me beijou o pescoço e recomeçou a sua
suave tortura em mim.
─ Não está bom? Me diz que você não está
gostando que eu deixo você ir, senão você fica
mais essa noite comigo.
─ Estou amando Gabriel, mesmo assim, ficar
não é uma opção para mim hoje, infelizmente.
─ Se está bom, por que você não fica só mais
essa noite?
─ Porque eu preciso, Gabriel. Porque você
vai se cansar de mim rápido demais, porque nós
dois precisamos de espaço. Eu preciso fazer
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minhas coisas, você também deve ter um monte
de trabalho te esperando...
─ Quanto a ter um monte de trabalho você
pode até estar certa, mas nada mais importante
do que ficar de bobeira com você. Além do mais,
não acho que seja possível me cansar assim tão
fácil de você, não...
Ele não me dava espaço, nem parava com
suas técnicas de persuasão totalmente covardes.
Eu o empurrei carinhosamente e me coloquei de
pé.
─ Pode ter certeza que vai, se a gente não der
um espaço. Terça nós nos vemos no curso.
─ Ah não! Só na terça não! Não quero ficar
dois dias inteiros sem te ver. Amanhã eu te busco
para jantar, sem discussão!
Eu acabei concordando. Na verdade, não
podia dizer que tinha tanta coisa para fazer
mesmo, e já estava usando toda a minha
independência e força de vontade para sair pela
porta do Gabriel, não me restava muito para lutar
outra guerra.
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CAPÍTULO 10
Me Beija e Me Faz Esquecer
 
Me surpreendia com a rapidez com que
estávamos nos envolvendo, em menos de duas
semanas nós dois já estávamos viciados na
presença um do outro.
Eu era a mais reticente pelos motivos de
sempre, o Gabriel, no entanto, sempre acabava
me convencendo a dormir em sua casa ou à
passarmos mais tempo juntos em passeios,
almoços, jantares... Para ele não havia nada de
mais no fato de nós estarmos praticamente
grudados o tempo todo e deixava isso claro
sempre que queria. Se fosse qualquer outro eu
teria mandado caçar seu rumo, mas o Gabriel
tinha o dom de silenciar, ou pelo menos abaixar
meu tom autoritário. Pela primeira vez na minha
vida eu cedia pelo menos um pouco do controle
da minha vida.
E cada vez que me dava conta disso, um frio
se instalava no fundo das minhas entranhas. Um
medo de perder de vez as rédeas da minha vida,
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porque o Gabriel me dominava de uma forma
que o faria sem pensar duas vezes e eu ainda
gostaria disso.
Foi usando desse domínio que ele me
“convenceu” a fazer nossa primeira viagem
juntos.
Era sexta-feira e depois de irmos juntos para
o curso e almoçarmos, Gabriel ao invés de ir
trabalhar resolveu ir comigo para a pensione e
me “informou” que eu deveria fazer uma mala
para acompanha-lo.
Um alarme soou alto dentro de mim, me
colocando na defensiva e eu parti como uma
louca, de dedo em riste, para cima do Gabriel.
─ Eu não vou passar meu fim de semana
inteiro em seu apartamento, Gabriel!
Ele tentou me apaziguar com um abraço, eu
rapidamente me desvencilhei e impus uma
distância entre nós dois, aborrecida. Ele deu de
ombros, abriu minha cômoda, tirando várias
peças de roupas aleatórias e jogou em cima da
minha cama, ignorando completamente minha
recusa em acompanha-lo.
─ Claro que não, Adriana. Por isso mesmo
que eu estou pegando essas roupas, se nós
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ficássemos o fim de semana inteiro dentro de
casa você não precisaria delas. Eu queria te fazer
uma surpresa, mas como você invocou, vou ter
que te dizer meus planos: vou te levar a uma
cidadezinha medieval aqui perto e vamos passar
um ótimo final de semana cercados por História,
arquitetura antiga, ótimos restaurantes, sua
presença radiante e esse humor reluzente. Agora
desemburra essa cara e me ajuda, pega uma bolsa
pra colocar essas coisas.
Droga! Seu argumento era incontestável, mas
eu não lhe daria a vitória. Então me calei e só
acabei fazendo a mala eu mesma porque o
Gabriel podia seu um ótimo arquiteto, mas
morreria de fome se fosse estilista e eu não teria
uma peça de roupa decente para sair enquanto
estivéssemos na tal cidadela.
Ele percebeu o quanto me custava dar o
braço a torcer e me deixou quieta enquanto
saíamos, mas não sem o seu já conhecido e
naquele momento tão irritante sorriso de “sou
mesmo o fodão”.
O caminho que percorremos até lá era tão
lindo, tão encantador que eu não consegui
segurar meu mau humor por muito tempo. O fato
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do Gabriel ter baixado a bola e pelo menos
parecer arrependido, me agradando por todo o
caminho, ajudou um pouco para melhorar meu
estado de espírito e eu fingi que não entendi que
o grande truque dele era me paparicar. Eu não
podia negar que era uma menina mimada e não
resistia ao seu jogo, mesmo sabendo que isso me
colocava em suas mãos.
Chegamos tarde à cidade de Girona e fomos
direto para o hotel, queria dizer que
aproveitamos muito do ambiente luxuoso, mas a
verdade é que só pedimos nosso jantar no quarto,
e mesmo assim eu só comi por que meu
namorado super carinhoso me obrigou. Tivemos
um dia agitado e nossa discussão pré-viagem
extinguiu o resto da minha energia. Só pensava
em dormir gostoso, embalada pelos lençóis de
algodão egípcio, os edredons macios e meu apoio
predileto para descansar... os braços do Gabriel.
Por sorte a noite de sono foi o que nos bastou
para acordarmos revigorados, já que o Gabriel
resolveu me levar para conhecer todos os pontos
turísticos da cidadezinha. O primeiro sendo o
obrigatório e pitoresco El Cul De La Lleona.
Sim, isso mesmo que parece uma escultura
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de uma pequena leoa que deveria ter o bumbum
beijado pelos visitantes que quisessem ter sorte e
retornar à cidade. Rimos demais de tudo aquilo,
mas como tradição era tradição lá ia eu beijar o
derrière da estátua quando uma senhora quase
secular segurou meu braço bruscamente.
Me assustei com sua atitude hostil e sua
figura que parecia saída de um livro infantil com
suas roupas escuras, um xale característico
daquela região, as costas arqueadas de quem
carrega o mundo sobre si e o rosto vincado de
uma existência longa e difícil.
Ela me puxou, impedindo que eu me
aproximasse da estátua e falando alto no idioma
local. 
─ No va a tornar aquíamb o sense ajuda de
Lleona.[2]
Puxei o meu braço de volta assustada, mas
ao encará-la senti uma dor tão grande em seu
semblante que cheguei a me preocupar com ela,
por isso não a afastei quando ela chegou mais
perto de mim e segurou meu rosto com sua mão
fria, baixando o tom de voz e me olhando com o
que parecia pena ou condescendência.
─ Espanya que esportarà al seu major tresor,
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però no va tornar aquí. Que Déurebila seva
ànimaen La seva Glòria, fill.[3]
Eu entendia muito pouco do catalão,
praticamente só as palavras comuns ao espanhol,
mas o pouco que eu compreendi me fez arrepiar.
O Gabriel que era fluente em catalão, parecia
ainda mais assustado do que eu pela maneira
com que enlaçou a minha cintura, me puxou de
encontro a ele e se apressou em me tirar dali,
deixando para trás uma nota alta de Euro na mão
da senhora.
─ O que foi que a senhora disse, Gabriel?
Que eu não vou mais voltar aqui?
Ele forçou um sorriso, mas era visível que o
presságio da velha o tinha afetado também.─ Bobeira Adriana, não se preocupa com
isso, com certeza é alguma velha cigana que fica
tentando se aproveitar dos turistas. Vamos
esquecer isso, ok? Vamos, ainda temos muitos
lugares para visitar.
─ Gabriel, eu não posso esquecer o que eu
nem sei, o que ela falou exatamente?
Ele se esquivou, mas vendo que eu não
desistiria de entender o que tinha acabado de
acontecer, acabou me dizendo.
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─ Ela disse que você levará da Espanha seu
maior tesouro, mas nunca voltará para cá.
─ E depois? Ela disse algo sobre Deus.
Ele me olhou demoradamente antes de falar
e eu não precisava de nenhum detector de
mentiras para ver que ele não falaria a verdade
para mim mesmo.
─ Ela te abençoou, Adriana. Como uma reza.
Eu o olhei com desconfiança e não ia aceitar
essa balela assim não.
─ Parecia mais um vaticínio que uma
benção.
Ele bufou, mostrando sua impaciência com o
assunto e obviamente o dando por encerrado, me
abraçou e beijou meus cabelos, dizendo contra
eles.
─ Vamos esquecer esse assunto, é só uma
senhora acostumada a falar as coisas certas para
impressionar as pessoas e tirar dinheiro delas,
além do mais quem sabe seu tesouro não sou eu?
Se eu for embora com você por que voltaria a
Espanha, não teria mais motivo nenhum, não é?
Eu o afastei socando levemente o seu peito.
─ Convencido! Eu ainda vou voltar muitas
vezes à Espanha, com ou sem você, com ou sem
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beijar a bunda da leoa!
Eu ainda podia ter continuado a brigar. Que
raiva de ser tratada como idiota!
É óbvio que a mulher tinha dito algo de
muito ruim, e sendo sobre mim era meu direito
saber o que era!
Mas ele sorriu para mim tão lindamente que
de repente nada do que a velha senhora havia
dito tinha alguma importância. E tudo já era
assunto antigo quando ele segurou meu queixo e
me prendeu em um beijo terno e protetor, me
apertando contra ele tão fortemente que eu
precisei me apoiar em seus braços. Ele parecia
não querer me soltar e quando o fez ainda me
olhou alguns segundos antes de decretar:
─ Eu não quero falar mais sobre isso por que
não quero dar força para o que eu sei ser uma
bobeira, ok?
Eu balancei lentamente a minha cabeça,
concordando a contra gosto. Pelo pouco que eu
entendi e o comportamento renitente do Gabriel
eu pressentia que, talvez, fosse melhor
permanecer na ignorância.
Nós ainda visitamos algumas atrações
históricas, apreciando as construções antigas,
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suas histórias, seus fantasmas...
O quarteirão judeu que contava como viveu
esse povo através dos séculos, e toda perseguição
que eles sofreram pelas mãos da inquisição,
fomos a catedral e terminamos nosso passeio
com uma caminhada às Muralhas que permitiam
a mais bela vista da cidade.
Em nenhum momento eu deixei de pensar no
que a velha dissera. A imaginação era sempre
mais cruel que a realidade e eu tentava imaginar
o que a senhora falou para o Gabriel não querer
me dizer, por isso eu me obriguei a memorizar o
máximo de palavras para consultar a Pilar ou o
Fernando sobre o significado delas logo que eu
voltasse à Barcelona.
Ele ainda me levou ao tal restaurante que ele
tinha dito e realmente era o máximo, só não era
melhor do que estar com ele em qualquer lugar
que fosse.
Andamos mais um tanto após o almoço e
voltamos ao hotel para tirar um cochilo (eu
estava ficando boa nessa coisa de siesta, essa ia
ser uma rotina que eu sentiria falta quando
retornasse ao Brasil). Mais tarde jantamos no
maravilhoso restaurante que havia no hotel
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mesmo.
Ao voltarmos para o quarto o Gabriel me fez
esquecer velhas ciganas, presságios e bumbuns
de leoas. A única coisa que me angustiava era o
fato de estar me tornando a cada dia mais
dependente dele e precisava forçar a minha
mente para que esquecer que o nosso tempo era
pouco e nossas vidas totalmente incompatíveis,
em pouco tempo um oceano nos separaria e de
repente era isso que a senhora queria me alertar,
eu levaria a lembrança desses dias comigo, mas
não poderia retornar a eles.
Eu esperava realmente que o “no va a tornar
aquí” fosse figurado, eu estava amando a
Espanha e gostaria de retornar tantas vezes
fossem suficientes para me fartar desse lugar
mágico.
Mas o que eu realmente temia era que não
pudesse voltar a viver o que estava vivendo
agora.
O Gabriel tinha toda uma vida estruturada na
Europa e eu não largaria minha família, meu
país, minha profissão por ninguém, por mais que
eu gostasse dele. Sempre achei que esse era o
tipo de sacrifício que você faria e se arrependeria
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para sempre, culpando a pessoa por sua
infelicidade e terminando com qualquer chance
de felicidade.
Voltamos no domingo à noite e ele passou a
noite comigo, antes de nos recolhermos
precisamos contar para meus pais “emprestados”
como havia sido a viagem, e por isso ficamos
sentados com a Pilar e o Fernando na sala de
estar, em frente à acolhedora lareira, tomando
uma deliciosa sangria e conversando durante
algum tempo, Pilar ria da forma como eu fui
emburrada para a viagem e dizia que pela minha
cara, ela realmente se preocupou que eu perdesse
as belezas da região fazendo “pirraça”.
O Gabriel complementou, dizendo que uma
coisa que ele já sabia sobre mim, é que eu era
super teimosa, e não sei por que, mas me
incomodou ver como eles me percebiam tão
facilmente e eu devia estar vermelha de
constrangimento, já que o Fernando mandou que
parassem de me incomodar e dissesse que eu já
podia ganhar o título de “Catalã Honorária” já
que a principal característica de um catalão era
exatamente a imensa teimosia. Nós todos rimos e
ele se animou a contar uma história folclórica
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sobre isso. A Pilar levou as mãos à cabeça e
exclamou:
─ Ya era! Ahoraelo irá hablar e nadielo para.
Solo van a salir de aqui por lamañana! Uma
historia lleva a la outra e cuando te dá cuenta,
lanocheacabó.[4]
Já que era assim, eu aproveitei para me
aconchegar mais ao Gabriel, colocando meus pés
sob meu corpo e me aninhando ao seu lado,
enquanto o Fernando contava a história de um
agricultor catalão que ia à Madri trabalhar fora
da época de plantio e voltava para casa, saudoso
e apressado, quando essa se aproximava, para
cuidar das plantações de sua família.
Jesus, o encontrando no caminho o pedira
que reconhecesse o poder de Deus agradecendo
pela volta à sua terra ao que o Catalão se negava
veementemente, e Jesus o castigava o
transformando em sapo, passavam anos e Jesus
lhe dava outra chance e obtinha a mesma
resposta e ele sofria o mesmo castigo, e assim foi
durante anos a fio até que já no fim de sua vida
Jesus faz pela última vez a pergunta ao catalão:
─ A donde vásCatalán?[5]
E surpreendentemente o teimoso e ancião
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viajante responde:
─ Voy a Cataluña, gracias a Dios.[6]
E quando Jesus o ia parabenizar por ter
aprendido a lição, ele soltou, convicto:
─ Y si Dios no quiere... sapo![7]
Todos gargalharam e eu realmente podia me
identificar com o personagem da história que
meu amigo catalão me contou, eu era do tipo que
me ferrava, mas não dava o braço a torcer, e
mesmo que o Gabriel tenha acabado me
convencendo a me divertir no passeio eu passei o
tempo todo com a sensação ruim de estar
perdendo uma batalha. Um gosto de derrota na
boca que era absolutamente irracional, já que nós
tivemos um ótimo tempo por lá. Bem, claro que
sem contar com a história da velha praguejenta.
É... Essa história era uma boa lição para
mim, e se eu não fosse realmente tão orgulhosa e
birrenta, a teria apreendido e levado para a minha
vida.
Infelizmente, naquela época eu tinha tudo
menos a capacidade de reconhecer um erro e
tentar aprender com ele. Quem sabe se eu fosse
mais madura e racional eu não poderia ter
mudado toda nossa história? No entanto, deixei
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que meu orgulho me levasse ainda mais perto da
realização do desígnio da velha catalã.
 
 
 
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CAPÍTULO 11
Mas e Se o Amor Chegar Para Nós...
 
Segunda-feira pela manhã eu não queria
deixar o Gabriel ir embora, tampouco ele queria
ir, mas eu era a única que estava em período
sabático, ele tinha que trabalhar e apesar de não
falar nada, eu imaginava que a nossa viagem o
tivesse deixado com trabalho acumulado por que
apesar de ficar protelando para sair da minha
cama pela manhã, disse que nós só poderíamos
nos ver no dia seguinte, no curso. Mais uma vez
eu queria reclamar, mas sabia que ia acabar o
prejudicando.
Porque eu sabia pela cara de quem estava
indo para a forca que eu tivesse pedido, ele teria
ficado.
Na terça nosso reencontro foi explosivo,
parecia que estávamos afastados há meses e não
por pouco mais de vinte e quatro horas, eu me
joguei em seus braços como uma personagem de
algum filme brega, e ao fim da aula tivemos que
nos separar novamente, e novamente o fizemos
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com o coração na mão.
Talvez tenha sido essa urgência em encontra-
lo que me fez chegar mais cedo na quarta-feira.
Eu estava ansiosa e desassossegada desde cedo,
um aperto no meu peito que eu não conseguia
identificar a causa, por isso saí antes do meu
horário usual e fiquei aguardando a aula começar
estudando, lendo algo que eu não conseguia
assimilar, distraída demais quando ouvi uma voz
feminina e estridente me chamar.
─ Adriana? Adriana Cavalcante?
Eu me virei de encontro à voz e demorei
alguns instantes a me lembrar de onde eu
conhecia aquela garota de pose arrogante. E
quando me dei conta de quem era quase não
pude acreditar.
Quais eram as chances de depois de tantos
anos, estarmos juntos em uma escola eu, o
Gabriel e a Heloísa?
─ Heloísa?
─ Sabia que você não tinha me esquecido!
Nós fomos tão amigas no Ensino Médio, não era
mesmo? Nunca mais te vi! Você também está
matriculada nesse curso? Você também é
arquiteta? Que coincidência!
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Meu Deus! A menina parecia uma
metralhadora, não me deixava sequer falar e eu
fiquei lá, espantada como estava, sem saber o
que fazer ou dizer até que o Gabriel chegou
sorrindo e veio direto na minha direção,
passando pela Heloísa como se ela fosse um
fantasma e se abaixando para me beijar.
─ Bom dia, meu amor. Chegou cedo hoje, o
que houve?
Era impossível para eu resistir ao charme
dele e eu sempre acabava me comportando como
uma adolescente boba, me esquecendo até do
nosso dispensável público.
─ Eu não aguentava de saudade, me deu um
aperto aqui.
Apertei minhas mãos contra meu peito e ele
as segurou e as beijou nas palmas, uma de cada
vez.
─ Eu também estava louco para chegar logo
e poder te ver. Você está linda.
Me derreti mais um pouco por ele, no
entanto o nó no meu peito não se dissolveu, ao
contrário, quando eu percebi que a Heloísa ainda
estava ali, em pé nos olhando espantada o aperto
aumentou e eu me dei conta que o fato dela
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estudar conosco tinha um enorme risco para nós.
Ela nos conhecia, sabia de coisas que o Gabriel
não sabia sobre mim e que eu preferia que não
soubesse por enquanto.
Rezei que ela não soltasse nada enquanto eu
apresentava o Gabriel para ela, torci que ela
entendesse a sutileza do meu gesto, quando eu os
“apresentei”.
─ Gabriel, essa é Heloísa, nós nos
conhecemos do Rio, estudamos juntas e nunca
mais a vi, uma grande coincidência ela estar
nesse curso.
Ele se virou e lhe estendeu a mão, a olhando
com curiosidade, como se lembrasse de alguma
coisa.
Putz, eu estava encrencada!
─ Tudo bem? Eu te conheço de algum lugar?
Seu rosto não é estranho para mim.
Como ele estava de costas para mim eu
sinalizei para ela que não falasse de mim, mas
ela me ignorou ou não entendeu meus sinais.
─ Gabriel, nós fizemos a mesma faculdade,
você estava um pouco adiantado, mas eu creio
que nos esbarramos bastante por lá. Além do
mais, vira e mexe nos encontramos em algum
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curso. Se bem me lembro, uns quatro nos últimos
anos.
Respirei aliviada, a resposta dela não me
entregava. O Gabriel por sua vez ficou sem graça
com o fora que dera, e coçou a cabeça tentando
se justificar.
─ Poxa me desculpa, eu não sou muito bom
em reconhecer rostos, é mesmo tipo uma doença
sabe? Vivo passando vergonha por isso.
Não era mesmo, visto que também não tinha
me reconhecido, o que mesmo que ele realmente
nunca tivesse reparado em mim na escola era
incrível que ele não havia notado a minha
semelhança com a minha mãe depois de ter
estudado com ela tanto tempo. Nós éramos tão
parecidas que chegavam a me parar na rua para
perguntar se era filha da professora Ruth, e o
Gabriel sequer se deu conta disso.
Pra minha sorte o professor tinha acabado de
chegar e chamou o Gabriel, então eu pude ter um
tempo a sós com a menina de novo.
─ Adriana é isso mesmo que eu entendi?
Depois de tanto tempo você finalmente
conseguiu laçar o Gabriel Ferraz? Determinada
hein?!
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Eu não gostei do jeito que ela falou aquilo
nem de como me olhou como se eu fosse uma
espertalhona que tivesse cercado o Gabriel e
forçado uma situação. Me empertiguei e
expliquei para ela, não dando margem à dúvidas
sobre o meu caráter.
─ Foi tudo uma enorme coincidência,
Heloísa. Eu nunca podia imaginar que
encontraria outro brasileiro nesse curso, diga lá
que encontraria o Gabriel... ou você. Nós nos
encontramos no primeiro dia do curso, e estamos
namorando. Inclusive pude ver que ele não é
nada daquilo que você dizia, como você mesma
já deve saber.
Ela pareceu se desconcertar com a minha
constatação e tentou arrumar o que disse antes.
─ Claro, Adriana quem poderia saber, não é
mesmo? Na verdade, se formos levar em conta
os diversos cursos, congressos e tudo o mais que
nossa profissão envolve, é um milagre que tanto
vocês não tenham se encontrado antes quanto
que nós duas ficamos tanto tempo sem saber uma
da outra!
Ela parecia tão emocionada com nosso
encontro que eu me fiz mais conciliadora, afinal
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precisava da colaboração dela.
─ Sim, isso é verdade. Mas Heloísa eu quero
te pedir um imenso favor. O Gabriel não faz
ideia de que eu estudei na mesma escola que ele,
que minha mãe foi sua professora, nada disso. –
Precisei rir ─ Como você mesma viu, fisionomia
não é o forte dele. Além do mais minha melhor
amiga namora aquele amigo dele, lembra? Que
vivia grudado nele naquela época? O Lucas?
Então. E ele cismou que é meu irmão mais velho
cria caso com todos os meus namorados como se
fosse meu pai, eu não quero me meter na
amizade deles sem ao menos ter certeza que o
nosso lance é realmente sério. Então Heloisa, por
favor, não fala nada sobre isso com ele, tá?
Ela deu de ombros, voltando a ser a Heloísa
de quem eu me lembrava, com cara de quem
pouco se importava com tudo o que eu estava
falando.
─ Tanto faz Adriana, isso é problema seu.
O Gabriel já estava voltando quando eu me
lembrei.
─ Ah sim, e não me chame de Adriana
Cavalcante ok? Aqui todos me conhecem por
Adriana Neumann.
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Ela revirou os olhos e bufou.
─ Já disse Adriana: tanto faz!
O Gabriel se sentou do meu lado e aula
começou. Eu estava um pouco mais tranquila,
parecia que a Heloísa não iria criar problema,
mas eu não gostava do que eu estava fazendo,
por mais inocente que fosse o Gabriel tinha todo
o direito de ficar com raiva de mim quando
descobrisse a verdade. Eu tinha que contar para
ele, e o faria, mas só quando nós dois
estivéssemos mais fortes.
Era muito mais chata essa mentirada quando
ele começava a falar e falar sobre o seu grande
amigo Lucas e nossa! Ele realmente adorava o
Lucas!
Tá, tudo bem o Lucas também falava nele de
vez em quando, mas eu conhecia o Lucas e ele
amava todo mundo, e a partir do momento que
você estava dentro do círculo de amizades dele,
pronto! Você era “pessoa dele” e isso significava
todo um pacote que incluía lealdade cega,
proteção ferrenha e companheirismo a toda
prova. Mesmo assim era bonito de vercomo o
Gabriel se referia a ele, e eu percebia que isso era
uma coisa deles, eles compartilhavam o mesmo
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modo de ver as coisas, mas o que quase valia a
pena o meu “faz-de-conta” era o que o Gabriel
dizia que ouvia do Lucas sobre a noiva dele.
A gente nunca sabe o que vai na cabeça dos
outros. O Lucas parecia sim muito apaixonado e
tudo, mas a certeza de que ele idolatrava a minha
amiga eu só tive mesmo através do Gabriel em
um dia em que eu estava com ele, deitada em seu
colo, no sofá da sala enquanto ele falava com o
Lucas. Eu me contorcia para não dar um furo,
fingindo estar concentrada no filme que passava
na televisão e comendo pipoca.
─ Ela está aqui comigo, Lucas. Sim, você
precisa conhecê-la, ela é linda, parece um anjo. E
é tão divertida, vocês se dariam bem.
Ah, se o Lucas soubesse de quem ele estava
falando com certeza iria rir. Para ele eu era mais
para a capetinha que o infernizou durante um
bom tempo, do que anjo, e nos dar bem? Agora
até podia ser, mas demorou muito para isso
acontecer!
O Gabriel realmente me via muito diferente
do que eu era na verdade.
─ Tá, pode deixar eu falo com ela... sim, eu
sei... tá, dá um beijo na Lívia e diz que de
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repente a gente vai se conhecer mais rápido do
que imaginava. Sim, sério, estou pensando em
voltar para o Rio.
Eu me fingi de morta, mas não posso negar
que meu coração parou durante um segundo com
aquela informação. O Gabriel estava pensando
em voltar ao Rio? O que isso queria dizer para
nós dois? Ele não disse nada sobre o caso e eu
não puxei o assunto, mas confesso que naquele
momento ele plantou uma sementinha de
esperança dentro de mim.
─ Meu amigo Lucas te mandou um beijo e
disse que espera te conhecer logo.
─ Sério? Mas por que ele quer me conhecer?
─ Ele disse que precisa conhecer a garota
que colocou coleira em mim.
Eu ri dele e tentei também não me afetar por
isso, com certeza era brincadeira deles, era
melhor eu não levar as coisas que ele dizia muito
a sério. Em pouco tempo nós nos afastaríamos e
eu não queria me dar além do limite e depois me
ferir drasticamente, mas algo na forma com que
ele me olhava me dizia que ele estava falando
sério com relação a isso e eu escolhi desanuviar
aquele clima pesado de confissão brincando com
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aquilo. Coloquei uma pipoca na boca dele e disse
dengosa, fazendo um charminho exagerado, bem
debochada.
─ Eu? Eu não te coloquei coleira alguma
Gabriel, eu nunca colocaria coleira em ninguém,
eu amo a liberdade, a minha e a de quem está
comigo.
Ele riu, balançando a cabeça, fazendo pouco
da minha ceninha.
─ E é exatamente isso que me prende a você.
Você é livre, transparente e direta. Mas se o
Lucas disse isso, deve estar certo, ele mesmo é
um homem irremediavelmente encoleirado pela
noiva e eu não posso negar que meu amigo
nunca esteve melhor.
─ Essa noiva dele então deve ser uma bruxa
tirana.
─ Acho que não, pelo que ele diz é uma
menina muito doce e companheira, ele é louco
por ela e ela parece corresponder a ele.
─ Que ótimo para o seu amigo, agora vamos
deixar a conversa de lado e partir para a ação.
Me levantei, procurando a sua boca e o
atacando com tudo, terminando de vez com
aquela conversa e rezando para que ele fosse
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compreensivo quando descobrisse que eu sabia
exatamente de quem ele falava.
Com certeza descobriria que de transparente
eu não tinha nada.
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CAPÍTULO 12
Você é Mais do Que Sei, Mais Que Pensei
 
Por mais que eu quisesse me manter lúcida e
com o pé no chão, meu relacionamento com o
Gabriel era um trem desgovernado!
Ele era tão intenso e envolvente, sempre
exigindo mais de mim, querendo minha
companhia a todo o tempo. E quem disse que eu
podia ou queria dizer não a ele? Pior, quem disse
que eu queria? Eu estava embarcando naquela
loucura, ainda que não fosse cem por cento
honesta com ele, e ele fazia questão que eu
conhecesse cada parte mínima da sua vida,
sempre tão transparente e isso me desarmava
com relação a ele.
Como eu fui tola ao achar que esse homem
tão cheio de qualidades podia ser um riquinho
mimado, me sentia mal quando me lembrava
disso e aproveitei para questionar a Heloísa sobre
o porquê dela ter dito aquelas coisas do Gabriel.
Ela me disse que nem se lembrava do que tinha
dito e parecia tão alheia ao problemão que criou
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que eu acreditei. Aquela menina era estranha
antes e ainda continuava tanto quanto, era
autocentrada e fútil, com certeza não pensava
para falar, não devia ter feito por mal...
Quanto mais tempo eu passava com o
Gabriel mais eu percebia que ela não o conhecia,
porque se conhecesse não falaria tanta asneira
sobre ele, não havia homem mais gentil,
atencioso e correto que ele. Sim, eu estava
encantada, se antes era uma paixonite de criança
movida pela beleza que os anos só aumentou,
agora era mais, era admiração no seu estado mais
puro. Eu admirava tudo naquele homem: sua
humildade, seu caráter, seu profissionalismo, sua
inteligência, sua entrega a tudo que ele fazia, sem
medidas, sem desculpas. E amava a forma como
ele agia comigo, como se eu fosse preciosa, e
não só por causa da minha beleza, o Gabriel
parecia ver uma Adriana que eu mesma não
conhecia, e me fazia querer ser aquela Adriana
para ele. Era isso... O Gabriel me fazia querer ser
melhor.
Outra coisa que eu aprendi sobre ele e que só
fez aumentar o meu apreço foi perceber que
apesar de ter nascido rico pra caramba o Gabriel
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estava longe de ser uma pessoa cheia de mimos e
vontades satisfeitas. Na verdade, ele sequer tinha
um bom relacionamento com a mãe como eu
pude comprovar quando no dia que nós saímos
da aula e resolvemos tomar um café ali perto da
Escola Politécnica mesmo.
A Heloísa veio atrás da gente, ávida com
uma revista na mão, mostrando ao Gabriel uma
foto, que ele viu e fez cara de pouco caso,
deixando a Heloísa visivelmente chateada. Eu
peguei a revista da mão dela e vi uma foto de
duas mulheres lindas e elegantíssimas em uma
festa, na legenda dizia que eram Maria Olívia e
Júlia Ferraz e que estavam em uma festa em um
Iate na Côte d’Azur, devolvi a revista para a
dona, que parecia uma fã com a mais nova de
fofocas sobre seu ídolo, e perguntei ao meu
namorado.
─ São da sua família Gabriel?
Ele me respondeu com um sorriso tímido e
meio sem graça. Me apontando cada uma delas:
─ Minha mãe e minha irmã.
Eu já imaginava a resposta e não me
surpreendi, só serviu para que eu constatasse de
onde veio aquele porte de rei que ele tinha, ainda
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que não usasse, e a beleza também. As duas
pareciam modelos, mesmo a mais velha não
ficava devendo a nenhuma gatinha por aí, sem
dúvida esses genes por si só já eram uma herança
e tanto. Eu só não compreendia o comportamento
indiferente do Gabriel, até mesmo porque isso
era uma coisa tão diferente do jeito dele ser
normalmente, então eu sondei, falando animada.
─ Isso quer dizer que você vai ter visitas em
breve?
Ele me olhou como se eu tivesse dito que
todas as pessoas criariam asas em minutos.
─ Não mesmo Adriana, não existe a mínima
chance que as duas apareçam por aqui. Graças a
Deus!
─ Mas elas estão aqui pertinho Gabriel, e
quanto tempo você não vai ao Brasil? Elas
devem estar morrendo de saudades de você!
Ele deu uma gargalhada que nada tinha de
engraçado. Era cínica e arranhava, não parecia
com algo que o Gabriel fizesse normalmente.
─ O quê? Elas com saudades? De mim? Não
minha linda, elas nem estão se dando conta de
que estão perto de onde eu vivo. Pode ter certeza
que elas não gastariam suas vassouras voando até
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aqui, mesmo sendo realmente muito perto.
Eu me espantei, ainda que tenha achado
muito engraçado. Nada daquilo parecia com o
meu namorado sempre tão educado, mesmo
assim não consegui segurar o riso.
─ Gabriel eu não acreditoque você acabou
de chamar sua mãe e sua irmã de bruxas!
─ Desculpa. Nenhuma bruxa merece ser
comparada aquelas duas.
A Heloísa que não tinha ido embora, muito
pelo contrário, por conta própria pegou uma
cadeira e ficou ali na nossa mesa escutando a
conversa, não parecia ter achado a mesma graça
que eu e tinha o cenho fechado como se o
Gabriel tivesse ofendido alguém da família dela
e não da dele próprio.
─ Também não acredito! Eu sempre admirei
muito a Júlia Ferraz, Gabriel. Não acredito que
você sendo irmão dela não reconheça o valor que
ela tem!
O Gabriel continuou a zombaria, sem se
afetar pela defesa apaixonada da fã da irmã dele.
─ Justamente por ser irmão dela e ter sido
criado junto com essa cobrinha que eu sei bem o
que ela vale, Heloísa. Não se engane, nem tudo
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que reluz é ouro e minha querida maninha
realmente pode brilhar, mas por dentro é tão oca
quanto um santo barroco.
A Heloísa era realmente uma figura! Ela se
ofendeu tanto pela observação do Gabriel sobre
sua própria família que se despediu e foi embora.
Ainda bem, eu gostaria de conversar com o
Gabriel sobre o que ele dissera e não queria
público.
─ O que acontece com vocês Gabriel? Por
que você acha que sua mãe não viria aqui para te
ver? Eu não acredito nisso, mãe é mãe, a minha
mesmo vive pegando no pé da minha irmãzinha,
mas eu não tenho dúvidas que ela nunca deixaria
de ir onde ela estivesse, nem que fosse para
torrar a paciência dela. Mãe é assim mesmo...
Ele me olhou com se pedisse desculpa por
algo.
─ Sim, eu acho que esse é comportamento de
mães normais, ou pelo menos de mães normais e
amorosas, mas esse não é exatamente o caso da
Maria Olívia, Adriana. Ela é muito mais fria do
que isso. Você pode ter certeza que ela nem se
lembra de mim na maioria dos dias, ainda mais
que ela já tem os dois filhos perfeitos ao lado
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dela. Realmente lembrar de mim e de como ela
falhou terrivelmente na minha criação,
permitindo que eu me tornasse uma pessoa que
pensa e age de acordo com suas próprias
convicções, para ela seria trágico, a obrigaria a se
chatear e isso faria com que ela enrugasse a testa,
criando alguma linha de expressão ou pior ainda
daria início a uma de suas terríveis crises de
enxaqueca que sempre acometem ela quando se
vê obrigada a pensar em algo que a desagrade.
─ Nossa, Gabriel! Me desculpa, é sua mãe,
mas a pessoa que você está descrevendo não me
dá vontade nenhuma de conhecer! Eu ainda não
posso acreditar que ela seja realmente assim, não
mesmo. Como uma pessoa fútil como você disse
que ela é, pode ter te dado à luz e criado? Tudo o
que você disse é o extremo oposto a você.
─ Exato e esse é justamente o nosso maior
problema, nós não poderíamos ser mais
diferentes e ela não tem nenhum respeito por
isso, porque para ela só tem um jeito correto de
ser: o dela.
─ Como assim? No que exatamente você a
frustrou?
─ Basicamente em tudo: ela queria que eu
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estudasse Administração de Empresas para
dividir com o meu irmão o controle dos negócios
da família. Ela queria que eu fosse mais manso e
controlável como meus irmãos e se eu a deixasse
com certeza já teria arrumado um casamento
com uma das filhas insuportáveis das amigas
dela.
A última parte me chocou e irritou. Com
certeza eu estava longe de ser a nora ideal para
ela então. A simples arquiteta vinda de uma
família de classe média e empregada em um
escritório, mesmo sendo um dos maiores do
Brasil, ainda assim eu não deixava de ser uma
mera assalariada. E quanto ao resto era tão
incompreensível para mim que a mãe dele se
apegasse a coisas tão insignificantes perto do
orgulho que ela deveria ter de tudo o que ele
tinha conquistado.
─ Mas Gabriel você é um arquiteto de
renome aqui na Europa, você é uma pessoa feliz
e realizada, é honesto, íntegro, o que mais uma
mãe poderia querer para o filho?
Ele deu de ombros, tinha parado de se
proteger do cinismo e agora exalava uma tristeza
que eu conhecia bem. Ele tinha a mesma
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expressão que a Paulinha quando falava da
mamãe. O que dava nessas mulheres que não
entendiam a sua importância perante os filhos?
─ Uma vez eu fiz uma pergunta parecida
com essa para ela e sabe qual foi a sua resposta?
Que não importava que eu fosse feliz, eu não
tinha realizado nenhum dos planos que ela tinha
traçado para a minha vida. Eu já tentei entender
de todas as formas o comportamento da minha
mãe, Adriana, mas a verdade só está contida
nessa frase. Não acho nem que seja pessoal
contra mim, na verdade ela é tão egocêntrica que
não me reconhece como um ser autônomo, eu
sou somente um apêndice dela que se perdeu por
não seguir seus desejos.
Fiquei com pena dele e mais uma vez o
comparei com a Paulinha, como duas mães tão
desajeitadas podiam ter dois filhos tão
maravilhosos e não perceber? E como duas
pessoas tão bondosas podiam ter tido uma
infância tão carente de cuidados maternos? A
Paulinha tinha a mim, ao meu pai, à Lívia e
agora até o Lucas que a tratava como a mim,
como se fosse sua cunhada ou irmã mais nova.
Desejei que o Gabriel também tivesse tido
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alguém com que ele pudesse contar e que desse o
amor que ele merecia.
─ E o seu pai? Ele também é como ela?
Nem precisava resposta, a forma como seu
rosto se iluminou a simples menção dele já
deixou claro que o pai devia ser o contrário da
esposa.
─ Não mesmo! Meu pai é uma pessoa
incrível, muito simples, foi criado na fazenda dos
meus avós, um lugar lindo que um dia eu faço
questão de te levar, e ensinado por eles que não
havia nenhuma diferença entre ele e qualquer
outra pessoa, incluindo, claro, os empregados da
Fazenda. Olhando para ele hoje, de terno e todo
elegante você não diz, mas meu pai já limpou
muito estábulo e remexeu em esterco e eu
mesmo já fiz alguma coisa lá na Fazenda,
confesso que por mais que tentasse nunca levei
muito jeito, mas nem por isso deixei de tentar e
tanto meu pai quanto eu, temos muitos amigos lá.
─ Então está explicado: você puxou a beleza
da sua mãe e o caráter do seu pai, é isso?
Ele riu.
─ O coroa é bonitão. Mas você está certa, eu
pareço mais com minha mãe e meu irmão é meu
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inverso, é a cara do nosso pai, mas é ainda pior
do que minha mãe, porque se ela é fútil e
egocêntrica, ele é só mau caráter mesmo, sempre
querendo levar vantagem e competindo comigo
por coisas que eu nem quero. Aliás, competindo
comigo por tudo, desde que eu nasci.
─ Gabriel, que coisa horrível viver assim, eu
e minha irmã nos damos tão bem que só de
pensar nela, meu peito aperta de saudades. Isso
sem falar que eu tenho muito amor tanto da
minha mãe quanto do meu pai. Não consigo
imaginar como era para você, só tendo o seu pai
para te ajudar.
─ Meu pai, minha avó e a Eugênia, minha
babá e quem me criou de verdade. No fundo
minha mãe não fez muita falta mesmo, e meus
irmãos eram mais velhos, então a gente não tinha
muito em comum.
─ Mesmo assim. Eu sou bem mais velha que
minha irmã, mas não abro mão da companhia
dela, de jeito nenhum. Ela é meu xodozinho.
Ele me lançou um olhar tão carinhoso, tocou
meu rosto e me deu beijo suave, puxando
levemente meu lábio inferior, antes de falar.
─ Mas você é um anjo.
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─ Não sou Gabriel, sou só uma garota
normal. Uma garota normal que ama sua família.
Acabei com aquele assunto baixo astral, não
conseguia mais ver o Gabriel tão triste.
E acho que foi a única vez que eu o vi assim
tão vulnerável.
Normalmente o Gabriel era uma fonte de
energia ambulante, sempre muito animado,
agitado, o que casava perfeitamente com a minha
personalidade. Era o companheiro perfeito para
as minhas aventuras e como tínhamos segunda-
feira como dia livre, ele sempre marcava seus
trabalhos para os outros dias e assim
ganhávamos um dia nos nossos fins de semana
para fazermos pequenas viagens...
Escalamos os Pireneus, fomos ao sul da
França, acampamos em umlugar mágico na
fronteira entre os dois países, ele me levou por
aldeias medievais, construções moderníssimas e
museus espetaculares. Eu tinha fome de
conhecimento e ele era o tutor perfeito.
Até mesmo no seu dia-a-dia ele me incluía e
eu achava isso incrível.
Eu estava louca de saudade dos meus
projetos, meus materiais e minha cabeça
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fervilhava de ideias.
Detestava ficar tanto tempo sem trabalhar
assim, então um dia nós estávamos em sua casa
quando ele me disse que precisava trabalhar um
pouco, eu me esforcei o máximo que consegui
para não me meter no trabalho dele... Até me
aconcheguei no sofá do seu escritório, ficando
assim bem longe de sua prancheta, mas Gabriel
sendo Gabriel, logo percebeu minha inquietação.
─ Ei, Adriana... vem cá! Eu sei que você está
louca para colocar a mão na massa e eu
realmente estou com algumas dúvidas aqui.
Quem sabe você não poderia me ajudar?
Precisava de ajuda nada! Cara de pau!
Mas essa era a deixa que eu estava esperando
ansiosa. Me levantei puxando uma banqueta e
ficamos durante horas discutindo o projeto da
casa de um empresário local. O Gabriel era
incrível e na obra em si eu não podia mudar
nada, estava tudo absolutamente perfeito. O que
não me impediu de dar inúmeras ideias para o
paisagismo, além de ajudá-lo com umas questões
relativas ao uso de tecnologias sustentáveis na
construção.
Enquanto eu fazia meus esboços ele me
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olhava atentamente, me desconcentrando com a
intensidade com que ele fazia isso.
Depois de um tempo ele ordenou uma pausa
e me levou de volta ao sofá, desta vez aninhada a
ele e com uma taça de vinho nas mãos.
─ Eu achava que gostava da minha profissão,
mas devo confessar que você é a pessoa mais
apaixonada por arquitetura que eu já vi, Adriana.
Eu sempre gostei de desenhar e criar, mas
acredito só fui me interessar por arquitetura por
ser algo totalmente contrário aos negócios da
minha família, que eu nunca quis fazer parte.
Mas esses olhos azuis ganham vida quando você
está falando ou fazendo algo relativo ao trabalho
e isso é incrível. Eu posso apostar que tem uma
história por trás desse amor todo, então me diz...
por que você se encantou por prédios,
construções e tudo isso?
─ Tem sim, mas eu não vou contar porque
você vai rir de mim Gabriel, é uma história muito
boba e eu nunca falei sobre isso com ninguém!
─ Mais um motivo para falar comigo, quem
mais poderia entender você do que alguém que
compartilhe a sua paixão? Além do mais eu não
acredito que seja boba, eu aposto que é uma
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história linda e divertida, como você.
─ Ok, mas não ri hein?
Ele fez o sinal de juramento, mas eu sabia
que ele riria por que era realmente uma história
tola e ridícula. Mesmo assim eu quis partilhá-la
com ele. Com tanta coisa a esconder eu me
sentia bem por mostrar a ele nuances da minha
alma que mais ninguém conhecia. De certa forma
me parecia uma espécie de compensação.
─ Bom... Sempre, desde a minha primeira
lembrança eu era encantada pelas cores e pelas
formas, quer dizer, eu acho que toda criança é
encantada por essas coisas em algum nível, mas
eu extrapolava todos eles. Adorava como esses
elementos se uniam e faziam coisas, certas cores
“namoravam” e outras, meus desenhos sempre
eram os mais belos da classe e eu cheguei
mesmo a ganhar alguns concursos escolares por
isso. Então... nessa época, e eu era bem pequena
com toda certeza, toda vez que passávamos pela
Ponte Rio - Niterói, eu via um castelo verde água
flutuando nas águas da baía da Guanabara, que é
claro que eu não sabia que tinha esse nome, mas
enfim, eu via um castelo encantado da minha cor
predileta em todo o mundo bem no meio do
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mar...
Eu olhei para o Gabriel, para me certificar
que ele não estava rindo disso tudo, mas ele
permanecia atento a tudo que eu falava, então
continuei...
─ Você imagina o quanto isso era mágico
para uma menininha de quatro, cinco anos, até
maiorzinha..., mas uma garotinha que sonha com
príncipes encantados e tudo mais? Eu
simplesmente achava que aquele era um castelo
mágico, só meu. Depois que eu cresci um pouco
achava que era fruto da minha imaginação e
nunca disse para ninguém que eu via um castelo
flutuando na água, iam me chamar de louca.
E eu nem briguei com o Gabriel por ele estar
rindo, por que não era escárnio e sim o tipo de
sorriso “que coisa mais engraçadinha”...
─ Adriana, você achava que o Palácio da Ilha
Fiscal era uma ilusão?
Eu me senti tão estúpida ao assumir isso! Eu
nunca tive coragem de falar sobre isso com
ninguém, essa história com certeza fazia de mim
uma criança esquisita! Mas mesmo constrangida
eu confirmei o que eu disse, fazendo careta de
mim mesma, enquanto explicava de novo.
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─ Primeiro eu achei que era mágico e depois
que era alucinação... até que eu estudei sobre o
Último Baile do Império e no livro tinha uma
foto do Palácio, o meu Palácio, o meu Castelo
Encantado, imagina como eu me senti? Era um
misto de alívio de não ser tão louca a ponto de
ver coisas e uma decepção tão grande pelo meu
Castelo não ser mágico, ou especial e muito
menos meu ...
─ Isso é tão a sua cara... não tem porque ficar
sem graça. Então daí vem a sua paixão pelo
colorido vivo das obras de Gaudí?
─ Sim, acho que sim e quando eu cresci e vi
que pessoas criavam aqueles castelos, e que eu
também podia criar os meus, ainda que
modernos, mas mesmo assim lugares onde as
pessoas iriam criar suas vidas e suas histórias, eu
achei que isso seria mágico também.
─ E segundo a sua interpretação você seria
uma fada madrinha? E eu seria um mago?
─ Não sei se eu gosto muito da ideia não...
Descartei minha taça de vinho na mesinha
lateral e subi em seu colo, passando meus braços
em volta do seu pescoço e me colando ao seu
corpo quente.
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─ Não Gabriel, na minha história o único
personagem que cabe a você é de príncipe
encantado, meu príncipe!
Ele puxou minha blusa fora de mim, e
começou a brincar com meus seios, sem parar de
falar.
─ Você não precisa ficar sem graça em se
abrir comigo Adriana. São essas coisas que me
encantam em você: é toda fodona, cheia de
atitude, independente e de repente me mostra
esse outro lado tão romântico e sonhador.
Falando nisso, eu aceito o cargo de seu príncipe,
com prazer, aliás... com muito prazer.
Eu corei com essa observação, o Gabriel
devia estar me achando uma criança idiota
depois dessa conversa toda! Eu e minha boca
grande e sem filtro! Com certeza ele acharia que
eu sou do tipo desesperada para casar e fugiria de
mim como um louco! Mas dele não parecer
muito assustado não. Pelo contrário... se a
medida fosse a forma como ele parecia animado,
eu diria até mesmo que ele tinha realmente se
interessado pelo cargo. Queria acreditar que o
Gabriel estava gostando da ideia de ser meu
porque eu já sabia que era totalmente dele. O
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Gabriel não era só o meu príncipe encantado.
O Gabriel era o meu Palácio da Ilha Fiscal.
Tudo o que eu sonhei em uma única pessoa,
bom demais para ser verdade e como quando eu
era criança estava vivendo isso sozinha, isolada
por medo de ser bom demais para ser real,
achando que meu sonho viraria fumaça se mais
alguém soubesse dele.
O pior de tudo era saber que se isso me
acontecesse eu não poderia simplesmente
planejar outro "palácio". Os sonhos que eu estava
construindo tiveram suas bases fincadas em
nuvens e no fim acabariam caindo em cima de
mim e me destruindo... Porque eu nunca mais
seria a mesma depois do Gabriel. Nenhum
homem teria o mesmo gosto, a mesma força,
nenhum me faria sentir tão bem como eu me
sentia em seus braços, mesmo tendo ideia disso e
ainda ouvindo a voz que me dizia para não ir
com tudo, eu já não podia mais fazer nada.
Eu estava irremediavelmente apaixonada
pelo Gabriel Ferraz, e a certeza disso me pegou
com tanta força que eu precisava externar o que
eu sentia. E fizisso olhando dentro de seus olhos
intensos, no momento em que meu homem
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maravilhoso cravava suas mãos fortes em minha
bunda e levantava meu quadril, me encaixando
nele.
Minha confissão saiu como um suplício.
─ Gabriel, eu acho que estou me
apaixonando por você.
Ele parou e olhou no fundo dos meus olhos,
me fitando com seus olhos quase negros,
estreitos, focados de uma forma tão profunda em
mim que eu tinha certeza que ele podia ver
minha alma através deles. Por um instante eu tive
medo de ter estragado tudo, mas logo em
seguida, seus lindos olhos brilharam como
nunca, ainda que escurecidos pelo tesão e ele me
beijou com tanto furor que eu sabia: o Gabriel
também me amava!
Quando nossos lábios se separaram, meu
amor colou sua testa na minha, daquele jeito só
seu, ao mesmo tempo em que se movia
cadenciadamente embaixo de mim, segurando
meu quadril de forma a comandar meus
movimentos em um ritmo perfeito de encontro a
ele, me tirando o juízo e disse quase sem fôlego.
─ Ainda bem Adriana! Porque eu já tenho
certeza que te amo!
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Eu sorri vitoriosa, mas nem tive tempo de
raciocinar sobre o que isso implicava. Gabriel se
transformou depois disso, seu desejo o tornando
voraz, suas mãos cravando em meu quadril com
força, me baixando na sua direção ao mesmo
tempo em que ele também arremetia de encontro
a mim e abocanhava meu seio... Nossos corpos
em total comunhão produzindo baques surdos ao
se encontrarem, a sensação mais incrível do
mundo de que eu tinha encontrado o meu lugar, e
esse lugar era o corpo do Gabriel!
O nosso ápice chegou como um grande
terremoto, rompendo nossas barreiras e nos
imprimindo indelevelmente na pele um do outro.
─ Adriana eu te amo tanto!
─ Eu também Gabriel, eu também te amo
tanto!
Ficamos lá, embolados no sofá, saboreando a
compreensão do nosso amor. Nunca a vida tinha
sido tão linda quanto foi naqueles dias e em
muito pouco tempo eu descobriria que nunca
mais ela seria...
 
 
 
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CAPÍTULO 13
Só Me Deixe Quando o Lado Bom For
Menor do Que o Ruim
 
E então tudo era encanto, magia, felicidade...
Hoje, ao fechar meus olhos e me recordar
dessa época chego mesmo a ver aquela leve
bruma envolvendo as minhas memórias, era tudo
tão lindo e idílico. Eu sabia que aquele era o
ápice da minha vida, e tanto me maravilhava
com aquela felicidade toda, quanto me apavorava
o medo de acordar cedo demais do meu sonho.
Mesmo assim às vezes aquilo tudo me
irritava, eu sempre fui livre e de repente tinha
que dar satisfação de onde ia, do que eu sentia,
do que estava pensando. Não que o Gabriel
fizesse isso por mal ou para me controlar, mas
ele queria saber tudo de mim, me virar do
avesso, decifrar cada aspecto da minha vida e eu
não estava pronta para isso. Eu queria preservar a
minha privacidade a todo custo. Ele chegou a me
convidar para trabalhar como freelance em seu
escritório enquanto eu estivesse na Espanha, e
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apesar de reconhecer que seria ótimo
profissionalmente, recusei imediatamente.
Eu necessitava daquelas horas longe do
Gabriel e de tudo o que ele fazia comigo, um
tempo que fosse só meu, ainda que meu peito
ardesse com a sua falta eu sabia que isso era
necessário para conseguir manter minha
individualidade.
Me atormentava não conseguir compreender
se a origem do meu medo vinha da intensidade
dos nossos sentimentos ou do fato de que eu
estava rapidamente me transformando em uma
Adriana que eu não conhecia, insegura,
dependente do afeto dele, da sua aprovação
constante, até mesmo me tornei uma pessoa
ciumenta como nunca imaginei ser. Aliás,
éramos os dois verdadeiros monstros de ciúmes,
ele não perdia a oportunidade de reafirmar sua
posse sobre mim, implicando com todo e
qualquer pobre coitado que ousasse olhar em
minha direção, cismou até com o nosso
professor, que segundo ele me dava atenção
demais.
Foi ele, justamente, o pivô da nossa primeira
(e única) briga para valer.
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Estávamos jantando em um restaurante perto
do apartamento dele quando Miguel, o professor
do nosso curso entrou e, tão logo me viu veio em
nossa direção, cumprimentou meu namorado e
concentrou toda a sua atenção em mim, me
questionando sobre um tópico da aula anterior e
ignorando a presença do meu aborrecido
acompanhante e por mais que eu tentasse cortar
sua conversa ele parecia muito animado para se
dar conta que atrapalhava o nosso jantar. O
Gabriel não se fez de rogado e deu uma
pigarreada alta chamando a atenção do Miguel,
que constrangido, pediu licença e sumiu
restaurante adentro. Quando olhei para o Gabriel
ele parecia prestes a explodir de raiva.
─ Esse Miguel é um folgado.
─ Ah Gabriel, não pira, tá?
─ Você adora não é?
Respirei fundo para controlar o meu próprio
gênio, mas não estava gostando nem um pouco
do rumo que estava tomando esse incidente
bobo.
─ Eu adoro o que exatamente, Gabriel?
─ Ser o centro das atenções, fazer esses
joguinhos.
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E gesticulou como se houvesse algum
tabuleiro invisível à nossa frente.
─ Gabriel, pensa bem antes de falar mais
alguma coisa. Eu estava dando atenção para o
nosso professor, eu não tenho culpa se ele não
tem noção, você queria que eu fosse grossa com
o coitado? Por quê? Em nenhum momento ele foi
desrespeitoso comigo ou com você. Eu não vou
ser grossa com alguém só por que você se sentiu
preterido.
Falei baixo e entredentes, fuzilando o
Gabriel com meu olhar de raiva.
─ Você não se sentiu desrespeitada, mas eu
sim! Desde o primeiro dia do curso que esse cara
baba em você, e mesmo sabendo que nós
estamos juntos vem aqui e fala com você como
se eu não estivesse aqui, você acha isso muito
respeitoso?
─ Ele chegou te cumprimentando e depois se
dirigiu a mim e começou a falar de um assunto
pelo qual EU me mostrei interessada, o que ele
tem por mim é admiração pela minha
inteligência. Então deixa de ser um babaca,
menino mimado que está acostumado a ter todos
os holofotes no grande Gabriel Ferraz,
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amorzinho de todos, inclusive com várias
professoras suspirando: “Aí que bom menino é
esse Gabriel! Que aluno maravilhoso! Nem meus
filhos são tão bons quanto o Gabriel! ” E fica
feliz por mim ou pelo menos engole esse ciúme
bobo! Agora Gabriel por mim sinceramente já
deu por hoje, tchau, fica com Deus!
Me levantei, furiosa e fiz que ia sair, mas a
mão firme do Gabriel acorrentou meu braço
antes que eu me afastasse.
─ Adriana, para de show e senta aí para a
gente conversar, se depois você quiser ir para a
sua casa eu mesmo te levo. Você não vai sair
pela rua a essa hora e sozinha.
Ele estava tão furioso quanto eu e logo
percebi que a pior coisa a ser feita era ficar ali.
Eu me conhecia muito bem, sabia que aí sim ele
teria motivos para chamar de show o que eu
faria. Soltei meu punho do seu aperto e balancei
minha cabeça, negando tudo o que ele sugeriu.
─ Show? Vai por mim, Gabriel, você ainda
não me viu dando um show. Olha, se eu ficar vai
ser pior, minha cabeça está quente e a sua
também e nós dois vamos falar merda e depois
não poderemos voltar atrás. É melhor que eu vá
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agora, depois a gente se fala.
Passei pelo salão do restaurante como uma
bala e com a cabeça baixa, se o idiota do
professor se colocasse na minha frente eu
acabaria sendo tão grossa quanto o Gabriel
queria mais cedo e perderia a minha razão. Nem
bem cruzei a porta da frente e já senti a presença
do Gabriel do meu lado.
─ Acho melhor você voltar e terminar o seu
jantar. Sério, Gabriel!
─ Adriana, por favor, vamos conversar.
Pelo seu tom de voz eu diria que ele estava
mais calmo. Eu, por outro lado, estava fervendo
de raiva da irracionalidade e a possessividade do
Gabriel.
─ Gabriel, por favor, amanhã você me liga,
por favor, me dá esse tempo. Eu preciso pensar
em paz.
Entrei no primeiro táxie deixei-o lá,
plantado, olhando o carro se distanciar, até que
virássemos a esquina.
Não queria falar com a Pilar sobre a briga
com o Gabriel, na verdade eu não queria uma
cópia, queria minha mãe de verdade, o colo dela
pra ser mais exata, por isso passei pela recepção
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da Pousada com todo cuidado para fugir dela.
Infelizmente não dei a mesma sorte com seu
marido e tão logo subi a escada, dei de cara com
o Fernando me olhando sério, me lembrando
tanto do meu próprio pai que eu não resisti e
derramei as lágrimas que eu estava segurando
desde que deixei o Gabriel.
─ ¿Quépasó contigo, señorita?
─ Nada Fernando, echo de menos mi casa, és
solo eso.
─ Señorita... El diabro sabe más por viejo
que por diablo. Quéés que hiciste, Gabriel? Se tu
necessitas, yoresuelvo com él.
─ Gracias, mi amigo, pero no és necessário.
Fue solamente una pelea de enamorados.
─ Tu eres la que sabe, querida. Pero si
necesitas me llama.
─ Yolosé y estou agradecida. Buenas noches,
Fernando.
Entrei em meu quarto, fechei a porta atrás de
mim e caí em minha cama, chorando como a
boba que eu era.
Quando consegui parar de chorar a sensação
de falta da minha casa falou mais alto e eu liguei
para lá. Minha mãe atendeu na hora, toda
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empolgada.
─ Oi mãe.
─ Oi meu amor! Finalmente eu consigo falar
com você. Como estão as coisas por aí, Nana?
Como era de se esperar minhas lágrimas
voltaram com força total logo que ouvi a voz da
minha mãe, que por sua vez entrou em desespero
quando percebeu meu choro.
─ Você está chorando? O que houve, minha
filha?
Eu ainda tentei disfarçar e mudar o rumo da
nossa conversa.
─ Nada não, mãe. Só estou com muita
saudade de vocês.
─ Mentira, Adriana! Eu te conheço muito
bem, você não choraria só por causa disso. O que
foi? Alguém te magoou? É algum namoradinho
que você arrumou aí?
Suspirei fundo.
Muito bem, Adriana! Como se não
conhecesse sua própria mãe, é claro que ela, lá
do outro lado do oceano conseguiria descobrir a
origem do meu mal só pelo tom da minha voz.
─ Você realmente me conhece bem demais,
eu estou saindo com um carinha aqui e nós
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tivemos uma briga boba, não se preocupe, é que
eu estou muito emotiva aqui sem vocês ou a
Lívia.
─ E desde quando uma briga boba com um
“carinha” te deixa assim, filha? Emotiva ou não,
você não é assim. Tem mais coisa aí. Ou não foi
uma briga tão boba, ou ele é mais do que alguém
com quem você está saindo.
─ Acho que é isso, ele realmente não é como
qualquer outro cara com que eu me relacionei.
Ele é muito especial. Eu não estou sabendo como
lidar com meus sentimentos por ele, é tudo muito
novo para mim, muito forte.
─ Estou vendo... não quero ser chata, filha,
mas eu não consigo achar especial alguém que te
faz chorar à toa assim. Adriana, vale a pena ficar
assim por alguém que você acabou de conhecer?
─ Vale mamãe. O pior é que vale. Para falar
a verdade essa é a primeira vez em que eu
realmente encontrei alguém que vale a pena
qualquer coisa.
─ Mesmo perder a sua essência? Deixar de
ser a Nana alegre e desencanada que a gente ama
tudo? Eu não gosto de te ver triste dessa forma, e
não consigo imaginar ninguém que valha isso.
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─ Não é assim, mamãe. Nós realmente
tivemos uma briga boba por ciúmes.
─ Bom, espero que não tenha sido mesmo.
De qualquer forma, não é a melhor primeira
impressão que eu poderia ter dele não é mesmo?
Ouvir minha mãe falar assim, me fez ver o
quanto eu estava sendo irracional e exagerada.
Envolvê-la nessa bagunça foi a pior ideia que eu
poderia ter tido.
─ Não mamãe, realmente não foi a melhor
primeira impressão que você poderia ter tido
dele, e a culpa é minha em te falar dele logo
quando estamos brigados. Eu te garanto que você
o adoraria, mais que isso, aposto o que você
quiser que ele é realmente o genro que você
pediu a Deus.
Quando pronunciei essa frase é que me dei
conta das bobagens que eu disse para o Gabriel
sobre ele ser o preferido das professoras. Que
merda! De todas as coisas imbecis que eu
poderia ter dito essa estava num nível bem
elevado. Que desculpas eu daria a ele para falar
uma coisa tão nem nexo? Com sorte ele
esqueceria disso, ou acharia que era coisa de
mulher doida, que fala o que vem na cabeça na
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hora da briga.
Me despedi da minha mãe com o peito mais
apertado do que antes. Como eu podia cobrar
alguma coisa do Gabriel quando eu mentia para
ele sobre coisas tão bobas? Como eu podia
reclamar do que fosse quando ele se dava tanto
no nosso relacionamento e eu só jogava migalhas
para ele?
─ A verdade é que nós dois fizemos besteira,
e só de falar com você eu me lembrei que eu fiz
uma muito maior do que o ciúme bobo dele.
Deixa pra lá, mamãe. Não se preocupe comigo,
só de conversar um pouco com você eu percebi
que estava uma tempestade em copo d’água. Me
deu até um soninho, vou dormir um pouquinho e
descansar, amanhã com certeza isso tudo já vai
ter passado.
─ Fica com Deus, meu amor, mas não se
rebaixe para ninguém viu? Eu te criei para que
soubesse exatamente o seu valor, não faça menos
que isso.
Minha mãe e toda a sua teoria que não
resistia e um beijo do meu pai.
─ Sim, mamãe, eu sei, eu sei... pode deixar,
fica tranquila, te amo. Manda beijo pro pai e pra
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Paulinha.
─ Mando sim, pode deixar, fica bem querida
e se cuide.
Desliguei o telefone e fiquei vários minutos
ali, deitada, com meus olhos fechados, a cabeça a
mil, pensando no que eu tinha dito e em como o
Gabriel entenderia aquilo, se é que ele entenderia
alguma coisa, em que eu me afundava mais
fundo nessa mentirada a cada dia e em como eu
ia fazer para sair do poço que eu mesma tinha
cavado.
Fui tomar um banho para me livrar da tensão
e na volta tomei coragem e conferi as ligações
perdidas e mensagens do telefone.
Adriana me liga pra dizer que chegou bem.
Adriana para de bobeira, eu sei que me
excedi, liga pra mim.
Amor, me liga por favor, estou preocupado.
Se vc não me ligar eu vou até aí.
Adriana, vem aqui embaixo porque o
Fernando se recusa a me deixar subir e eu não
saio daqui sem te ver.
Coloquei uma legging sobre meu short de
dormir e desci correndo as escadas, tendo que me
controlar para não rir da cena à minha frente: um
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Gabriel muito irritado, com a mão nos bolsos da
calça e atitude desafiadora para o Fernando, que
tinha se plantado em frente à escada de forma a
impedi-lo de subir ao segundo andar. A Pilar, do
lado do Gabriel, conversava com ele, que
somente negava com a cabeça, rechaçando o que
ela dizia.
Cheguei ao patamar do térreo e falei para o
meu guarda costas que estava tudo bem, eu iria
conversar com o Gabriel.
─ Adriana, estás segura que quieres hablar
com él?.
─ Si, Fernando. Y además, pobrecito, la
culpa no és de él, la culpa también fue mia.
Com um grunhido ele retirou seu corpo do
caminho do Gabriel lhe permitido a passagem,
mas ao mesmo tempo o avisando quando ele
passou por ele.
─ Mujeres! Subo, muchacho, pero sepa que
yoestoy de ojo em esse joven.
O Gabriel me puxou pelas mãos até que
estávamos dentro do meu quarto
─ Está mais calma?
Passei bufando por ele, cruzei meus braços
enquanto aguardava que ele fechasse a porta.
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─ Não muito. Eu não disse que precisava de
tempo?
─ Você não retornou as minhas mensagens.
─ Porque eu disse que precisava de um
tempo! - quase gritei com a “sonsice” dele ─ Mal
cheguei e tomei um banho, Gabriel! Isso
definitivamente não pode ser considerado “um
tempo”!
─ Eu fiquei preocupado com você, Adriana.
Você saiu do restaurante como uma fera e não
respondeu as minhas mensagens, por isso vim
ver se estava tudo bem.
─ E o Fernando com certeza disse que eu
tinha chegado em segurança.
─ E chorando. Eu não podia ir embora e te
deixar assim porque eu fui imbecil ciumento.
Droga! Seria tão mais fácil ficar irada se ele
pelo menos colaborassenão sendo tão fofo.
Mesmo assim não me rendi, apertei mais meus
braços a minha volta.
─ Foi mesmo, que bom que você sabe!
Ele se aproximou de mim lentamente e
cuidadoso como quem se aproxima de animal
selvagem e eu com certeza parecia um, então me
enlaçou. Permiti, apoiando minha cabeça em seu
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peito, não por ele, mas por mim que precisava
sentir seu calor naquele momento e ter a certeza
do que ele ainda me amava.
Mas não dei o braço a torcer, meus braços
permanecendo caídos ao lado do meu corpo
enquanto ele me apertava.
─ Ei, me desculpa amor. Eu não queria pirar
uma coisa tão boba, mas vamos concordar que o
Miguel é vidrado em você e eu não tenho sangue
de barata. Quando vi já tinha falado merda.
O afastei nervosa.
─ Nem comece! Será possível que você ache
que a única forma que um homem poderia me
admirar é essa? Eu adoro as aulas do Miguel e
tenho certeza que o único interesse que ele tem
em mim é acadêmico. Sim, ele foi meio grosseiro
hoje à noite, agindo como se você não estivesse
presente, mas é porque na última aula nós
deixamos o assunto em suspenso. Não há, nem
nunca houve qualquer insinuação dele em
relação a mim. Agora, por favor, Gabriel eu
realmente gostaria de ter um tempo para mim,
até para que eu consiga processar a nossa noite e
te dar o perdão que você me pediu.
Seria patético, se não me ferisse tanto ver
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aquele homem enorme e forte se encolher de dor
à minha frente, antes de perguntar.
─ Você está terminando comigo, Adriana?
Como se eu pudesse, de alguma forma, ser
capaz disso! Mas eu precisava respirar e o
Gabriel estava tornando isso impossível com
suas crises de ciúmes, essa presença sufocante.
─ Não Gabriel! Eu juro que eu só preciso de
um espaço para mim.
Mesmo amuado ele não discutiu mais
comigo. Depois de puxar meu corpo e me deixar
tonta com um beijo desesperado ele somente se
virou e saiu do meu quarto, me deixando sozinha
com aquela sensação ruim de que eu estava
exagerando, o erro dele não justificava a minha
reação intempestiva.
Ainda assim prossegui com minha birra por
mais alguns dias.
Ia ao curso, sentava ao seu lado,
conversávamos, eu o beijava, mas ao fim cada
um ia para o seu lado. Não aceitava mais nenhum
convite dele e insistia na ideia de que devíamos
nos manter afastados por um tempo. Eu estava
obstinada em manter meu espaço a todo custo.
Descobri que meu caso era mais grave do
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que eu pensava, porque mesmo com ele longe e
sendo livre para respirar à vontade, era como se o
ar que eu não compartilhava com o Gabriel não
me saciasse mais, a sensação de sufocamento
ainda oprimia meu peito, talvez até mais agora. E
isso me dava um medo imenso, por mais que eu
quisesse amar e ser amada nunca pensei que esse
sentimento me deixasse tão vulnerável. E tudo
isso me fez um poço sem fim de insegurança e
incoerência.
Por fim, minha pirraça terminou pelo mesmo
motivo que começou: ciúme doentio, irracional e
ridículo, só que desta vez protagonizado por
mim.
Eu estava chegando para a aula, em nosso
terceiro ou quarto de dia de “bico” e encontrei
duas colegas de curso sentadas perto dele,
conversando, rindo e jogando o cabelo de um
lado para o outro como duas retardadas.
Ridículas!
O Gabriel parecia estar tão desconfortável
quanto eu estive com o Miguel e tão logo me viu
se levantou e veio em minha direção, que estava
furiosa como nunca, mas com controle o
suficiente para saber que tinha que dirigir meu
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ciúme para quem de direito.
Por isso, me aproximei das duas, pedindo
licença para sentar no lugar que eu usava todos
os dias e no qual uma das muchachas estava
esparramada. Beijei meu namorado, sorrindo de
volta para ele, deixando claro para as duas que
nós até podíamos estar brigados, mas isso não
mudava o fato de que ele era única e
exclusivamente meu.
Como elas não fizeram movimento algum
para sair de perto, eu, com o máximo de
educação que eu tinha perguntei se elas não
tinham nada melhor para fazer do que ficar
servindo de vela para mim e para o meu
namorado. Só então as duas folgadas sorriram
amarelo e saíram não antes de dar a péssima
desculpa de que só queriam perguntar algo ao
Gabriel, respondi que podiam perguntar para
mim mesma, mas magicamente elas esqueceram
o que tinham de tão importante para falar com o
meu namorado.
Ele riu arrogante quando elas se afastaram.
─ Parece que não sou o único ciumento aqui
afinal de contas.
Olhei com raiva para ele, que imediatamente
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se forçou a segurar o riso debochado.
─ Pode tirar esse sorriso presunçoso do
rosto, Gabriel. São duas situações totalmente
diferentes.
─ Se você diz...
Eu bufei, irritada com o poder que o Gabriel
tinha sobre mim e mais ainda por ele saber disso.
─ Não abusa da sorte...
O Miguel entrou começando a aula, mas o
tempo todo o Gabriel só olhava para mim.
Quando saímos dessa vez fomos direto para o
seu apartamento o que fez com que ele ficasse
exultante e fizemos a paz da melhor maneira
possível.
Enquanto estávamos nus, exaustos e saciados
em sua cama, ele entrelaçou seus dedos nos
meus, fez com que eu levantasse meu rosto, que
até o momento descansava em seu peito, e jogou
a bomba de uma só vez.
─ Adriana, esses dias eu pensei muito sobre
nós e sobre uma vontade que eu já tenho há um
tempo e decidi que vou para o Rio com você.
Eu não quis me precipitar e agir como uma
louca que acha que está sendo pedida em
casamento ou algo parecido por isso perguntei,
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como para sondar o terreno:
─ Você vai visitar a sua família, meu amor?
─ Bom, até vou em algum momento,
provavelmente quando eles me acharem e não
tiver mais nenhuma escolha. Porque eu estou
indo para ficar, Adriana. Estou indo para ficar
com você.
Meu coração parecia que ia rasgar o meu
peito e sair pulando entre nós dois, eu nem soube
o que dizer. Sim, eu queria que o Gabriel
voltasse ao Brasil para ficar comigo. A ideia de
que nossos momentos estavam com o tempo
contado me deixava doente, mas ao mesmo
tempo isso era tão precipitado! Ele tinha toda
uma vida constituída na Espanha, deixar tudo
isso para trás por mim dava ao nosso
relacionamento um peso difícil de carregar,
colocava nas minhas costas uma
responsabilidade que me apavorava
enormemente.
Eu acho que me perdi nos meus pensamentos
e quando voltei o Gabriel me olhava com aquele
olhar de menino pidão, com certeza esperando
alguma resposta ou pelo menos alguma reação ao
comunicado dele.
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─ Isso é incrível, Gabriel!
Imediatamente sua expressão suavizou e seus
lábios se abriram naquele sorriso que era uma
das minhas coisas prediletas no mundo.
─ Você jura que gostou da ideia? Confesso
que tive medo de estar colocando os pés pelas
mãos, você é sempre tão arredia.
Passei a mão em seu rosto e o beijei
suavemente seus lábios.
─ Juro, meu amor? Eu estava justamente
nervosa com a proximidade do fim do curso e em
consequência do meu retorno ao Rio. Me
angustiava a ideia da gente se separar, e eu acho
que meio que estava nos boicotando por isso,
desculpa.
─ Eu estava apavorado com a ideia de te
perder.
─ Mesmo estando feliz eu preciso te
perguntar se você tem certeza se é isso mesmo
que você quer, se você já pensou direito em todas
as consequências da sua volta ao Brasil. Eu disso
isso por que você tem uma carreira aqui, tem
amigos, seu apartamento, sua vida hoje é aqui na
Espanha, Gabriel. Você tem certeza que quer
realmente começar tudo de novo? Além do mais
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existem os problemas com a sua família, uma
que eu já percebi que é um dos motivos para
você morar tão longe.
─ Você não quer que eu vá com você?
Como um homem tão perfeito podia ser tão
inseguro? Só podia ser por causa da criação de
merda que a afetada da mãe deu para ele!
─ Quero Gabriel. É o que eu mais quero na
minha vida! Mas eu nunca te pediria alguma
coisa que fosse contraa sua própria vontade. Eu
não poderia viver com a consciência de que você
é infeliz por minha causa é por isso que eu amo
tanto a liberdade, eu não quero nunca me sentir
presa a alguém e nem quero que alguém se sinta
preso a mim. Nem mesmo te amando como eu te
amo, ou por que eu te amo tanto a ponto não
conseguir imaginar você sofrendo por minha
causa.
─ Eu não te culparia por uma decisão que
tomei sozinho, meu amor. Olha Adriana, eu
nunca parei muito tempo em nenhum lugar
mesmo. Na verdade, não há nada de tão
importante assim aqui na Espanha para mim. É
só mais um lugar em que eu passei uma
temporada, como eu já fiz outras vezes em outros
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lugares antes. Apesar de todos os problemas,
meu lar sempre foi o Brasil e nunca passou pela
minha cabeça não voltar mais para lá, na verdade
eu sempre pensei nesse tempo por aqui como
uma grande especialização. Adquiri experiência,
vivência e conhecimento, além de ter feito
contatos que me seguirão aonde eu for. Amigos
eu tenho no mundo inteiro, mas nenhum chega
perto do Lucas, de quem eu morro de saudades e
que está lá, segurando a data do seu casamento
para que eu possa estar com ele, e eu faço
questão que seja assim. E tem você, que me
pegou com esse jeito despachado e livre. Eu sei
que vou ter que me organizar, mas não é nada do
mundo. E nenhum esforço é demais para ficar
com você. Eu te amo, Adriana, a única coisa
impensável é ficar sem você.
Eu fiquei totalmente sem ação diante
daquelas palavras, então resolvi mostrar aquele
homem maravilhoso, que eu sabia não merecer, o
quanto eu também o amava. Passei minha perna
pelo seu quadril, me deitei sobre ele o beijei
febrilmente e passei o resto da noite mostrando
em gestos o quanto ele era importante para mim.
 
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CAPÍTULO 14
Só Eu Sei Que Foi Melhor Assim
 
─ O que você vai fazer com seu escritório?
Eu e o Gabriel estávamos almoçando em um
restaurante perto da Escola Politécnica, já
havíamos passado os últimos dias conversando
sobre os preparativos para a volta do Gabriel
para o Brasil e ainda não havíamos discutido
sobre tudo, as questões surgiam o tempo todo,
era tanta coisa para resolver e tão pouco tempo
para isso. Eu, sempre mais agitada e prática do
que ele, estava ligada em 220 volts, uma
angústia, uma sensação ruim de que alguma
coisa ia dar errado, por isso eu precisava
percorrer todos os preparativos para ter certeza
de que não estávamos esquecendo de nada.
─ Passar para um amigo que trabalha
comigo, Alejandro, você o conheceu quando foi
lá.
Sim, eu me lembrava do simpático espanhol
que o Gabriel me apresentou e pelo pouco que
nós conversamos parecia muito competente.
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─ Como ficam os clientes, seus outros
colegas e os funcionários com tudo isso?
O Gabriel parecia ter tudo sob controle, ao
menos era o que a sua tranquilidade me passava.
─ Não muda nada para ninguém. Confio
plenamente no Alejandro para continuar a
atender os meus clientes. Só vou acabar os
projetos que já estão em andamento, quanto ao
resto do pessoal da minha equipe toda se
disseram chateados com a minha saída, mas
parece que entenderam que nada vai mudar para
eles, e isso foi uma condição que eu impus na
venda.
─ No Rio as coisas estão mais fáceis do que
aqui, não é?
Eu esperava que sim, porque a bagunça não
poderia ser maior.
─ Sim, meu apartamento está pronto pra
gente entrar, a Eugênia sempre manda alguém
para limpar e ver como as coisas estão.
Eu queria rir da certeza que ele tinha de eu ia
morar com ele sem que ele ao menos tivesse me
pedido isso. Tá tudo bem, com certeza na mesma
hora que ele me pedisse eu iria sem pensar duas
vezes, e é óbvio que ele sabia, então por que ficar
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fazendo joguinho, ele me conhecia e sabia muito
bem que eu era mais prática e objetiva que isso.
─ E quanto ao escritório?
─ Meu pai comprou uma sala imensa para
mim quando eu me formei, ela esteve alugada
durante um bom tempo, mas está desocupada
agora e tem uma ótima localização. Você vai
antes e arruma tudo para começarmos a trabalhar
quando eu chegar. Você está ansiosa?
─ Muito! Eu vou ter que fazer muita coisa,
tenho que pedir demissão, meu chefe
provavelmente vai me odiar por ter pagado um
curso super caro e eu dar as costas para ele
assim.
─ A gente o reembolsa, Adriana.
Me irritava profundamente essa mania do
Gabriel de se apresentar como solução de todos
os meus problemas, principalmente quando ele
colocava o dinheiro e não ele como a salvação.
Eu cresci como uma mulher independente e não
iria mudar por causa dele e sua fortuna de berço.
─ Primeiro: a gente não reembolsa nada! Eu
o reembolso! Você não vai pagar nada para mim.
Você não vai resolver problema que é meu.
Segundo: é claro que eu já ia fazer o reembolso,
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mesmo assim estou com a sensação de que estou
o apunhalando pelas costas. Nós trabalhamos
juntos desde que eu saí da faculdade e ele me deu
todas as oportunidades de crescer e agora eu
simplesmente saio nem sequer dar tempo para
ele se adaptar e colocar alguém no meu lugar, sei
lá... parece tão ingrato da minha parte.
─ Entendo o que você quer dizer, mas o que
você quer fazer então?
─ Como vou primeiro eu poderia continuar a
trabalhar com ele por alguns meses ainda.
Enquanto isso, eu organizo o nosso escritório nas
horas vagas. Vai dar tempo para você colocar
tudo nos eixos por aqui também, e pelo que eu
pude ver pela forma com que organiza suas
coisas você vai realmente precisar desse tempo
extra. Falando nisso pode deixar que da parte
administrativa do nosso escritório cuido eu, não
sei como você consegue trabalhar naquela
bagunça!
─ Você vai ficar pegando no meu pé porque
eu não marco minhas coisas com uma caneta de
glitter?
─ Não Gabriel, vou pegar no seu pé porque é
impossível achar o que quer que seja na bagunça
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do seu escritório, seus papéis estão jogados para
tudo que é lado!
─ Eu adoraria dizer que é exagero seu e que
eu consigo entender minha bagunça, mas você
tem toda razão, eu sou péssimo nessa coisa toda
de organização mesmo...
Justo nessa hora a Heloísa se aproximou da
nossa mesa e sem a menor cerimônia sentou-se
em uma das cadeiras desocupadas para só então
nos cumprimentar.
─ Oi tudo bem com vocês? Sobre o que
vocês estão falando tão entusiasmados que nem
me viram chegar?
Em outra situação eu hesitaria em abrir dessa
forma uma decisão tão pessoal, mas o Gabriel
estava tão orgulhoso dos nossos planos que eu
não resisti e contei a novidade para a Heloísa.
─ É que o Gabriel resolveu voltar para o
Brasil comigo e nós estávamos fazendo planos.
─ Na verdade quando você chegou a Adriana
estava me massacrando por que eu sou um
pouquinho bagunceiro.
─ Pouquinho, Gabriel? Você é um vendaval!
Eu e meu namorado brincávamos e ríamos,
por isso eu demorei para perceber que a Heloísa
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estava estática desde que eu tinha dito para ela
nossos planos.
─ O que foi Heloísa? Você está aérea...
Como se tivesse despertado do seu transe ela
deu um intenso olhar na minha direção e depois,
se voltando para o Gabriel disse:
─ Nada não. Jura Gabriel que você quer
voltar para o Brasil? Deus me livre! Quando saí
fiz como a Carlota Joaquina, bati os sapatos para
que não trouxesse nem a poeira de lá!
─ Que isso Heloísa, nosso país é tão lindo,
tão rico, tem um problema bem grave que são os
poli... você sabe né Heloísa?
Mesmo eu tendo parado a tempo ela
entendeu bem o que eu quis dizer... Essa menina
até que era legalzinha às vezes, mas não por um
tempo longo, as ideias tacanhas que ela tinha,
iriam em algum momento, me fazer explodir,
isso era certo.
De qualquer forma eu a aturava por saber
que seria por muito pouco tempo, em breve eu e
o Gabriel estaríamos a um oceano de distância
dela e como a própria fez questão de salientar,
ela não tinha intenção nem mesmode visitar o
Brasil, então eu ia empurrando com a barriga a
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presença dela.
Mesmo assim esse tipo de discurso ia
completamente de encontro ao que eu acreditava:
que o único problema realmente grave que nosso
país enfrentava era que políticos corruptos como
o pai da Heloísa saqueavam os cofres públicos
sem dó nem piedade, fazendo com que nosso
sistema de ensino, nossa saúde e demais
demandas da população fossem severamente
negligenciadas e mesmo assim, o povo ainda
tinha força para levantar todos os dias e lutar
com alegria.
Eu era fã do meu país e não permitiria que
ela falasse mal dele na minha frente.
O Gabriel concordava comigo.
─ A Adriana está coberta de razão, Heloísa.
Além do mais eu vim para a Europa para
conhecer coisas novas, respirar novos ares, mas
nunca foi intenção morar aqui definitivamente.
Não foi à toa que eu mantive meu apartamento
pronto para que eu voltasse a qualquer momento.
E não existe momento mais perfeito do que
agora.
A forma intensa, direta e intensa com que o
Gabriel me olhava, me aquecia o rosto e
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sussurrava, silenciosamente, uma miríade de
sentimentos que me deixavam tonta. Um medo
inesperado se apoderou de mim, uma angustia
tão grande que eu sentia como se houvesse uma
mão apertando meu coração. Algo me dizia para
aproveitar os olhares que o Gabriel me dava, pois
eu não podia garantir por quanto tempo eles
seriam meus.
Me esforcei para sufocar aquela voz
agourenta que inquietava minha alma. Forcei um
sorriso para o Gabriel antes de me virar, mais
uma vez para a Heloísa, e explicar o problema
que se apresentava.
─ De qualquer forma o que nós estávamos
discutindo era a incapacidade de organização do
Gabriel. Nós temos muito pouco tempo para
arrumarmos tudo e irmos embora. Sinceramente
eu sou muito organizada com minhas próprias
coisas, mas não faço ideia de por onde começar a
ordenar aquela bagunça, e nem tenho tempo para
isso, em poucas semanas eu tenho que voltar.
Joguei minha cabeça entre as mãos, e o
Gabriel ficou massageando meus ombros.
Coitado!
Eu mesma me sentia uma megera implicante
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e percebi que aquele poderia ser um grande
problema para o nosso relacionamento, a gente
precisaria chegar a um meio termo ou eu seria a
bruxa que brigava por qualquer coisa e ele o
lambão que perde documentos importantes ou
não sabe onde colocou algum material necessário
para o trabalho. Mas eu confiava que isso não era
nada grave, cada um cedendo um pouco e de
repente eu até poderia aprender a não ser tão
severa e (se Deus quisesse!) ele melhoraria a sua
capacidade de organização.
─ Não se preocupe com isso, amor. Eu dou
um jeito, de repente contrato uma pessoa para
fazer isso por mim, eu já li em algum jornal ou
revista que existem profissionais que fazem esse
tipo de trabalho.
─ Uma pessoa estranha para mexer em seus
documentos pessoais, Gabriel? Não acho isso
seguro.
─ Bom, se o problema de vocês dois é esse,
ele não existe mais. Estou mesmo sem trabalho e
meu dinheiro já está no fim. Eu poderia fazer
esse serviço para o Gabriel, sempre fui ótima
com organização, além do mais tenho o
diferencial de ser amiga de vocês e como
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arquiteta entendo dos documentos sei como
organiza-los, o que vocês acham?
─ Heloísa, você está falando sério? Você
faria isso para a gente?
─ Sim, claro! Sem problema algum, na
verdade seria uma ótima oportunidade para mim
também.
─ Poxa Heloísa, você foi enviada por Deus,
só pode! Vai ajudar tanto a mudança do Gabriel,
muito obrigada Heloísa, nós vamos ser
eternamente gratos a você.
Com o peso da organização tendo sido
retirado das nossas costas, nós pudemos nos
dedicar mais a nós mesmos.
O tempo urgia e mesmo naquele momento
achando que nossa separação seria apenas
temporária só a ideia de não nos vermos todos os
dias feria como uma inconveniente pedra no
sapato, que você não consegue esquecer por nem
um minuto que está ali e te tira todo o prazer da
caminhada.
Em compensação nossos momentos juntos
eram cada vez mais carregados de emoção, eu
estava uma montanha russa de emoções extremas
e por sorte o Gabriel era calmo e compreensivo.
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Mesmo assim eu percebia que tudo isso também
mexia com ele, o tornando cada vez mais
inseguro e passional.
A única coisa que nos distraía eram os
nossos planos. Deitados no sofá, na cama do
apartamento dele, sentados em frente ao
notebook ou a prancheta nós passávamos horas
conversando sobre o nosso futuro. Assim eu
descobri, aliviada, que ele queria filhos, no
entanto não conseguimos concordar na
quantidade, eu não acreditava que daria conta de
mais do que dois, já por ele nós teríamos um
time de futebol! Ele chegou mesmo a improvisar
uma lista dos nomes, dos quais os primeiros
eram Bernardo por causa do treinador de vôlei e
Arthur por causa do Zico. Sim, é claro que ele
tinha que ser flamenguista, assim só de cara ele,
sem ainda ter sido apresentados aos meus pais já
tinha motivo para conquistar os dois.
Eu não queria sair de perto dos meus pais e
ele não se importou com isso, principalmente por
que eu o tranquilizei que eles não eram do tipo
sem noção que não desgruda, não que ele
parecesse se incomodar com isso. Parecia não se
importar nem que eles fossem, o Gabriel parecia
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tão carente de uma estrutura familiar repleta de
carinho que com certeza em pouco tempo estaria
mais dependente da minha família do que eu
mesma.
Ainda existiam os planos para o nosso
escritório que fazíamos juntos, tão emocionados
por estarmos construindo juntos o primeiro
pedaço do nosso sonho que era difícil acreditar
que aquilo tudo era realmente real, que estava de
fato acontecendo!
Nesses momentos, invariavelmente, meu
peito voltava a apertar, e eu sempre tornava a
calar a maldita voz que insistia em jogar água em
meus planos.
Por isso, e pela minha eterna mania de
manter para mim mesma os meus maiores
momentos, eu, ciumenta da minha própria
felicidade, a quis proteger com unhas e dentes,
continuei a mantendo secreta por quanto tempo
fosse possível, com medo de que, quando todos
soubessem a magia se evaporaria e eu acordaria
do meu idílio.
Minha mãe e a Lívia sabiam que havia um
rapaz e intuíam que existia muito mais do que eu
falava, mas me conhecendo não insistiam
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demais, só pediam que eu fosse com calma e me
cuidasse.
Coitadas! Não sabiam da missa o terço!
Quando eu desembarcasse no Rio de Janeiro
com a novidade de que meu namorado viria logo
atrás com armas e bagagens e nós não só
moraríamos juntos como abriríamos um
escritório de Arquitetura juntos, minha mãe
desmaiaria e a Lívia ficaria catatônica!
Mas tinha finalmente chegado o momento
em que eu deveria dizer ao Gabriel toda a
verdade, e arcar com as consequências. Eu
rezava fervorosamente para que eu ele me
entendesse e não fizesse disso um cavalo de
batalha, mas o medo esfriava a minha espinha
cada vez que eu pensava nisso.
Acreditei a isso o fato de ter me sentido tão
mal naquela manhã, o último dia de aula, quando
o Gabriel disse que não iria ao curso por que
tinha muita coisa para fazer. Por mim estava
perfeito, eu passaria o dia sozinha, tomando
coragem para contar ao Gabriel que, mesmo que
essa não fosse a minha intenção eu o enganara.
Assisti a aula com o coração na mão e um
peso enorme no estômago. Me despedi do
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Miguel e dei graças aos céus que o Gabriel não
tivesse vindo por que assim eu e o mestre
conseguimos conversar calmamente e sem um
touro bufante ao nosso redor. Agradeci a
fantástica oportunidade e trocamos contato, ele
prometeu que me procuraria quando fosse ao
Brasil visitar o meu chefe. O atualizei que
provavelmente não me encontraria mais
trabalhando para ele, mas sim por conta própria,
junto com o Gabriel. Ele me felicitou e eu pedi
que ele não comentasse nada com o seu amigo,
pelo menos não antesque eu o fizesse, ele me
prometeu que não falaria nada e me desejou toda
a sorte do mundo.
Saí do Campus sentindo uma melancolia
ácida, que misturava tantos sentimentos que eu
nem saberia enumerar: medo, angústia, saudade
adiantada, insegurança...
Eu me sentia um lixo quando encontrei a
Heloísa atônita, parecendo uma barata tonta, me
puxando para um café próximo ao lugar em que
nós estávamos.
─ Adriana, se prepara. Você tem que ser
forte, eu fiz uma descoberta terrível sobre o
Gabriel!
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CAPÍTULO 15
A Maldade do Tempo Fez Eu Me Afastar
De Você
 
Não que alguma vez ela pareceu
remotamente sã, mas sem dúvida nenhuma a
Heloísa estava mais estranha do que de costume,
não falava nada que fizesse sentido e se
comportava como uma louca.
─ Heloísa, calma. O que aconteceu? Você
parece totalmente alterada.
─ Adriana eu preciso falar com você, eu
descobri coisas horríveis, e preciso te alertar. Eu
gosto muito de você para te deixar ser enganada
dessa forma.
─ Deus do céu, você está me preocupando.
Vamos nos sentar e você me fala o que está
acontecendo.
Busquei uma mesa nos fundos do café e me
sentei em frente a ela, tentando entender o que
estava acontecendo.
─ Por favor, Heloísa se acalme eu não
consigo entender o que você quer comigo e nem
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por que está tão nervosa.
Ela respirou fundo e pegou as minhas mãos
as pressionando no tampo da mesa.
─ Adriana eu descobri que o Gabriel está te
traindo! Eu não queria ter que te contar essas
coisas, mas eu não pude deixar que ele
continuasse a fazer isso eu vejo o quanto você o
ama e eu não dormiria em paz sabendo das
coisas que sei e não te falando.
Eu não podia acreditar no que eu estava
ouvindo e não porque achasse que uma única
palavra que saía da boca daquela surtada fosse
verdadeira. Só era inacreditável que ela tentasse
pela segunda vez o mesmo truquinho barato para
me afastar do Gabriel.
─ Heloísa para agora! De novo com isso?
Você me desculpa, mas por causa dos seus
achismos eu já perdi muito tempo com o Gabriel.
Da primeira vez nós éramos crianças e até foi
bom que não tivesse acontecido nada na época,
mas agora que nossa história decolou, o Gabriel
tem sido meu tudo, nunca fui mais feliz na minha
vida e você vem novamente com essas suas
histórias?
─ Desculpa Adriana eu não queria me meter
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no relacionamento de vocês que me acolheram
com tanto carinho desde que eu cheguei à
Barcelona, nem quero ser a causadora da sua
infelicidade, mas também não posso ficar parada
e ver o Gabriel te enganar assim na sua cara e
não fazer nada! Isso também não seria nem um
pouco justo com você que está aí se doando
totalmente a uma relação unilateral, enquanto o
Gabriel sai por aí te sacaneando!
Eu não podia acreditar em nada do que
aquela garota falava, ela era maluca, estava
delirando. Ou estava morrendo de inveja da
relação incrível que nós tínhamos.
Era isso com certeza, como eu fui tão cega?
Ela não tinha ninguém, só vivia na nossa aba,
nos seguindo como um cãozinho sem dono,
permitimos por pena, mas então eu vi com
clareza, é óbvio que ela estava interessada no
Gabriel, como eu fui boba!
Também quem não estaria? Aquele homem
lindo, perfeito e rico e se tem uma coisa que a
Heloísa nunca escondeu foi sua ambição.
─ Qual o seu interesse nessa conversa,
Heloísa? Por que você quer me afastar do
Gabriel mais uma vez? Você acha que eu sou
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idiota? Falou aquelas coisas horríveis sobre o
Gabriel e ainda assim continuou o orbitando em
volta dele, fazendo a mesma Faculdade, os
mesmos cursos, esbarrando nele nos lugares?
Não foi isso mesmo que você disse quando nos
reencontramos? Aliás, estranho você ter entrado
nesse curso com quase um mês de atraso, você
veio atrás dele Heloísa? Por isso essa historinha?
Oh meu Deus, como eu fui boba! Eu confiava em
você! Você não é esquecida ou se enganou. Você
é má e invejosa desde sempre foi.
Puxei minha bolsa em meu ombro e me
levantei rudemente. Não ficaria sentada
escutando essa mal-amada falando do Gabriel,
nunca!
Ela segurou minha mão com força e quando
eu ia puxá-la para me desvencilhar dela, meus
olhos encontraram os dela e eu balancei, ela me
olhava suplicante.
─ Por favor, Adriana eu tenho provas do que
eu estou falando. Eu não quero nada com o
Gabriel, eu juro! Minha única motivação é não
suportar ver uma injustiça dessas sendo cometida
debaixo do meu nariz, eu gosto tanto de você,
por favor, não me odeie por tentar te proteger.
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Ainda que algo dentro de mim berrasse para
que eu saísse daquele lugar no mesmo instante,
minhas malditas inseguranças acabaram levando
a melhor quando ela falou em provas. Achei que
não haveria problema eu ficar, ela não poderia
me mostrar nada que desabonasse o Gabriel aos
meus olhos. Poderia?
─ Eu só continuo essa conversa sem pé nem
cabeça se você me mostrar alguma coisa
consistente contra o Gabriel, se você não tiver
nem se dê o trabalho de continuar com essas
acusações.
Ela tirou vários envelopes da bolsa dela e de
dentro deles saltaram fotos do Gabriel com
outras mulheres, mulheres lindas, três ou quatro
delas. Eu devolvi para a Heloísa sem ter
demorado em analisá-las, não sairia nada de
proveitoso daquilo.
─ Isso não me diz nada, Heloísa! O Gabriel
não era virgem quando nós começamos o nosso
relacionamento, muito menos eu. O que me
importam essas fotos?
─ Adriana, olha as datas... São recentes. Ele
saiu com essas garotas enquanto já estava com
você. Eu achei essas fotos na câmera dele, eu sei
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que foi uma invasão, mas depois de me deparar
com esses papéis, eu sabia que tinha que ir a
fundo.
Ela empurrou em minha direção uns papéis
que ela tinha tirado de outro envelope. Ela tinha
a minha atenção e eu deixei meu corpo cair
pesado de volta na cadeira e peguei todas as
fotos, todos os papéis... Notas fiscais,
comprovantes de pagamento, extrato de cartão de
crédito e passei a examiná-los com mais
atenção... Alguns eu reconhecia, tinham sido de
presentes que o Gabriel me deu, mas outros,
principalmente do último mês e de dias dos quais
eu lembro-me muito bem que nós não estávamos
juntos, um dos dias foi quando estávamos
brigados e todos os outros depois disso, dias em
que eu insistira em não ir até o apartamento dele.
Não, ele não seria tão babaca! Seria?
Não era possível!
Todas as juras de amor, toda a entrega, os
nossos planos, não tinha como tudo isso ser
mentira! Ele ia mudar toda a vida por minha
causa, eu não podia ter me enganado tanto, eu
simplesmente não podia acreditar, por mais que
tudo estivesse provado e comprovado, por A
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mais B na minha frente em forma de pequenos
pedaços de papéis que pareciam queimar em
minhas mãos... Joias; Flores; Roupas caras; Duas
noites em hotéis de cidadezinhas em que nós
fomos, porém, em dias que eu certamente não
estava com ele.
─ Nada disso faz sentido! O Gabriel está a
ponto de mudar toda a vida dele por minha
causa, ele vai voltar para o Brasil, largar a
clientela que construiu aqui, enfim... eu não
consigo entender como uma pessoa que não está
cem por cento com a outra se compromete assim.
─ Adriana, o Gabriel nunca teve intenção
nenhuma de voltar ao Brasil, eu estou
trabalhando com ele e em nenhum momento ele
parou de agendar clientes, tem vários projetos no
começo, e a cada dia chegam mais. Sim, eu
estava arrumando as coisas dele e foi assim que
eu achei todas essas coisas, mas não é para ele
partir da Europa. Desculpa, eu sei que machuca
ouvir isso, mas com certeza ele só inventou isso
para que você continuasse com ele. Essa
conversa de voltar ao Brasil não começou logo
depois que vocês brigaram? Com certeza ele teve
medo que você resolvesse acabar com tudo de
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uma vez.
Minha postura era rígida e dura, minhas
mãos agarradas ao assento de minha cadeira,pois
eu sentia que o chão me faltava e que sem esse
apoio eu cairia, mas minha mente, em
compensação, era um caos, nada fazia sentido e
eu não conseguia entender como ela podia ter
forjado aquelas fotos, mas também não
conseguia acreditar que fossem reais.
─ Heloísa, me diz qual é o verdadeiro motivo
que você tem para fazer isso comigo?
Ela então estendeu as mãos, pedindo que eu
segurasse e eu fui obrigada a largar a minha
segurança para que ela apertasse minhas mãos na
dela com tanta força que parecia que ia quebra-
las.
─ Adriana, por favor acredita em mim. Eu
sei que antes eu falei aquelas coisas todas, mas
eu também era uma criança e não sabia do que
falava, mas agora eu mesma vi e trouxe para
você as provas. Te juro Adriana, meu único
motivo foi não aceitar que um filhinho de papai,
um bonvivant sacaneie uma menina legal como
você, que todo mundo vê que é uma mulher
legal, que o respeita e nunca faria algo
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semelhante com ele! Sabe Adriana? Eu mesma já
fui traída e sei como isso acaba com a gente, por
isso não poderia deixar uma pessoa que mesmo
conhecendo a pouco tempo eu já quero tão bem
ser feita de boba, acreditando que o namorado é
um príncipe quando ele não passa de um cretino
traidor!
Ela parecia realmente tão sincera e
compungida que eu balancei. Além do mais ela
tinha passado por essa situação, o que explicava
o comportamento tão passional dela.
Mesmo assim eu precisava conversar com o
Gabriel, tirar essas coisas todas a limpo e ver o
que ele tinha para me falar e depois pensar com
calma nessa loucura toda que estava
acontecendo. Até mesmo por que nada disso
fazia sentido.
─ Heloísa, eu preciso ir embora, preciso falar
com o Gabriel e ver o que ele tem a me falar
sobre isso.
Seus olhos saltaram das órbitas e ela pareceu
mais louca do que nunca quando me pediu que
não fosse.
─ Não Adriana! Não por favor, não vá lá.
Não vai adiantar nada e você ainda vai sair de lá
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humilhada, eu sei, já passei por isso.
─ Me desculpa Heloísa, eu não posso
imaginar pelo que você passou, mas isso não tem
nada a ver com a sua história. Eu vou sim
confrontar o Gabriel com coisas que você me
disse e quero ouvir da boca dele que ele me traiu.
Se isso tudo for mesmo verdade eu mereço ouvir
da boca dele, enquanto o olho nos olhos.
─ Adriana eu não queria te dizer, mas agora
mesmo ele está no apartamento dele com outra
mulher! Se não fosse isso eu iria esperar outra
ocasião para te falar, mas quando ele pediu que
hoje eu não fosse ao apartamento dele eu
desconfiei que tinha algo de errado e eu vi
quando a mulher entrou no prédio.
Gente! Isso era caso de internação, eu sabia
onde o Gabriel estava! Ele iria aproveitar que era
a última aula e não perderia nada de importante
para marcar uma reunião com um dos principais
clientes do escritório e aproveitar a ocasião para
informa-lo que não estaria mais à frente dos
projetos.
─ Você está mentindo Heloísa! Ele não veio
porque tinha que fazer uma apresentação para
um cliente antigo do escritório!
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─ Você tem certeza disso Adriana? Então
liga para o escritório e peça para falar com ele.
Fiz sem titubear, era a melhor forma de
acabar com aquela palhaçada!
Falei diretamente com sua secretária
particular que gaguejou quando eu me
apresentei, falando que infelizmente o Gabriel
não tinha ido ao escritório naquele dia, e nem iria
pelo resto do dia, já que ele tinha pedido que
esvaziasse a agenda por todo o dia. Me
segurando em um fio mínimo de esperança eu
ainda perguntei sobre a reunião com o cliente
que ele tinha me dito o nome e eu repeti a ela, e a
pobre totalmente sem graça me garantiu que não
havia nenhuma reunião planejada com esse
cliente, pelo menos não tão cedo.
Desliguei o telefone sem nem mesmo ter me
despedido: o Gabriel mentira sobre a reunião! E
se ele mentia sobre uma coisa tão boba ele podia
ter mentido sobre tudo. Inclusive essa mentira só
podia ser para encobrir o que a Heloísa tinha
dito. O Gabriel estava, nesse mesmo minuto, me
traindo!
Me segurando em um último fio de
esperança ainda tentei o achar pelo seu celular
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sem sucesso, todas minhas tentativas caíram na
caixa postal.
Eu sentia meu coração parando no meu peito,
minha vida se esvaindo e um vazio imenso
tomando conta do espaço que antes era
preenchido pelo Gabriel, ou seja... de tudo dentro
de mim.
A Heloísa continuava falando, falando e
falando, mas eu simplesmente desliguei. Esse era
o expediente que eu e minha mãe usávamos
quando algo nos atingia fundo, nos isolávamos
do exterior e nos afundávamos na nossa tristeza.
Por mais que eu tentasse alguma reação, depois
que eu tive a certeza da traição do Gabriel, nada
mais tinha importância.
Acho que eu sequer encontraria o caminho
de volta para a minha pensione se a Heloísa não
tivesse do meu lado, por isso mal consegui falar
coisa com coisa para a Pilar quando ela, vendo o
estado cambaleante em que eu entrei, veio me
abraçar, suportando todo o meu peso, que eu
simplesmente joguei sobre ela, finalmente me
dando o direito de chorar.
─ Cariño, por Dios! ¿Qué passa?
Seu tom de voz era tão carinhoso e doído que
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eu me senti com liberdade para lhe confidenciar
o que tinha acontecido. Ela não pareceu muito
crédula da versão dos fatos e olhou a Heloísa de
cima a baixo, obviamente não gostando do que
via, mas quando eu pedi a Heloísa que lhe
mostrasse as fotos, ela própria percebeu que não
havia o que fazer, me ajudou a arrumar as
minhas malas, enquanto a Heloísa conseguia um
voo para mim de volta para o Brasil, o mais
rápido possível.
Nos despedimos tristemente, e eu prometi
estar logo de volta para visitá-la e telefonar
sempre que possível, pedi que em hipótese
alguma desse meu contato para o Gabriel e que
nem dissesse o motivo que eu fui embora. O
cretino com certeza iria saber, mas eu não queria
passar recibo do quanto eu estava ferida por
causa da sua traição.
O Fernando disse que quebraria a sua cara
quando ele chegasse ali e eu pedi que não fizesse
nada, isso com certeza daria a ele a satisfação de
saber que eu tinha sido mexida por ele, eu
preferia que ele simplesmente nunca mais tivesse
notícias minhas, pela minha parte faria o melhor
possível para não saber mais dele, para não ouvir
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o seu nome e com certeza nunca mais olharia
para a cara dele!
A Heloísa dirigiu loucamente para o
aeroporto e eu aproveitei para pedir ao meu pai
que fosse me buscar, dando a ele o horário e
portão em que eu desembarcaria, mas tentando
me desviar do seu interrogatório, principalmente
quando percebeu, pela minha voz, que eu estava
chorando.
─ Papai, por favor, aí nós conversamos, eu já
estou chegando no aeroporto e não posso me
demorar a fazer o check in porque o voo sai logo.
Tchau, eu te amo!
Bom, nada do que eu disse era mentira e eu
realmente tinha muito pouco tempo para fazer
tudo o que era preciso.
Me despedi da Heloísa e ela magicamente
tinha um comprimido para dormir que foi a
minha salvação durante toda a duração da minha
viagem.
Pelo menos durante o tempo do meu sono eu
ainda pude ter a ilusão que tudo estava bem e que
conforme nós tínhamos planejado tantas vezes
nos últimos meses essa separação seria só um até
breve e não o adeus definitivo ao homem que
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mais mexeu comigo durante a minha vida.
 
 
 
 
 
 
 
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CAPÍTULO 16
Simplesmente Aconteceu, Não Tem Mais
Você e Eu
 
Cheguei ao Rio e passei por toda a
burocracia do desembarque totalmente letárgica,
não sabia se ainda pelo efeito do remédio ou pelo
vazio que eu sentia dentro de mim.
A única coisa que eu sei é que fui um zumbi
até o momento em que saí pelo portão e vi meu
pai e a Paulinha me esperando. A partir daí não
vi, nem pensei em mais nada, só me joguei nos
braços do meu pai sentindo o aperto tão familiar
e caloroso, me sentindo finalmenteprotegida,
que fez com que minhas defesas cedessem mais
uma vez e meu choro recomeçasse, agora mais
forte e desesperado que antes, fazendo com que
meu corpo tremesse violentamente, e meu pai
acentuasse seu aperto.
─ Meu amor! O que é isso? O que aconteceu
com você minha filha?
Eu não conseguia falar nada e nem queria, só
conseguia chorar descontrolada e só não caí,
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pois, estava amparada por meu pai e minha
irmãzinha, que mesmo sem saber por que eu
chorava daquela maneira chorava também, me
perguntando o que havia acontecido comigo e
passando, docemente as mãos nos meus cabelos.
Não tenho ideia de quanto tempo se passou
até que eu tivesse tranquila o suficiente para
conseguir falar, entre profundos soluços:
─ Papai, por favor, me leva para casa? Eu
preciso muito. Lá eu converso com vocês direito.
─ Adriana, o que aconteceu com você minha
filha? Eu nunca te vi assim!
Meus lábios tremiam, assim como todo o
meu corpo, e eu não queria falar nada com meu
pai naquele instante, talvez nunca quisesse.
─ Não aqui papai. Eu não posso, não
consigo, nem esse é o lugar para esse tipo de
conversa. Me leva para casa? Por favor?
E antes que eu recomeçasse meu choro meu
pai me puxou pelo ombro enquanto com a mão
desocupada empurrava o carrinho com minha
bagagem, minha irmãzinha segurava a minha
mão e limpava meu rosto quando as lágrimas
escorriam sem que eu pudesse conter.
No carro, durante todo o trajeto ficamos os
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três em silêncio, meu pai receoso de me
empurrar demais e a Paulinha completamente
mortificada, me sentei no banco do carona e
descansei minha cabeça no vidro, as luzes da
cidade que eu tanto amava passando por mim
como raios desformes, as paisagens lindas, as
praias, tudo sendo remotamente registrado por
mim, a mão do meu pai em cima da minha e seus
olhares que me garantiam que tudo ia ficar bem.
Ah papai, como eu queria acreditar nisso!
Mal o carro encostou em nossa garagem, eu
saí correndo em direção à nossa casa, para subir
as escadas mais rápido do que meu pai pudesse
me alcançar para insistir em me tirar a verdade.
A Paulinha deve ter tentado me alcançar já que
eu ouvi meu pai dizendo a ela, quando eu
destrancava a porta: “Deixa filha, sua irmã
precisa ficar sozinha por um tempo, depois ela
vai conversar com a gente, me ajuda, vem. ”
Meu pai era tão perfeito que doía, e eu só
poderia agradecer por isso, pois eu pude entrar
para o banheiro e me demorar em um banho
quente o suficiente para espantar o frio que se
instalara em minha alma, nem que fosse por pelo
curto tempo em que a água caía em mim, eu só
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queria que ela fosse capaz de levar para longe
todas as lembranças do Gabriel, as boas e as
ruins, que pudesse lavar o meu coração e afastar
aqueles sentimentos horríveis. Por fim meus
joelhos cederam e eu fiquei ali, jogada no chão
do banheiro permitindo que as últimas ondas de
choro saíssem com força enquanto a água caía
em meu corpo.
Depois desse banho terapêutico eu me sentia
quase melhor, coloquei meu pijama mais
confortável, meu chinelo e desci as escadas,
torcendo que me deixassem em paz e
simplesmente esquecessem a minha crise de
choro.
Para meu azar, quando eu desci a própria
Gestapo, perfeitamente representada pela minha
mãe, já estava me esperando, mão na cintura e
cara de quem não ia me deixar escapar dessa sem
explicar direitinho o motivo de estar com aquele
estado de espírito.
─ O que aconteceu Adriana? Eu chego
correndo do meu trabalho, louca de saudades da
minha filha mais velha que eu não vejo há três
longos meses e quando eu entro ao invés de uma
festa eu encontro um clima de enterro? Seu pai e
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a Paulinha falaram que você chegou chorando e
não quis dizer por que. Pode sentar garotinha e
me contar direitinho o que houve nessa bendita
viagem para te deixar desse jeito.
A Dona Ruth não aliviava, o sangue alemão
falava mais alto que tudo e eu sabia muito bem
que com ela não adiantava enrolar, era melhor
despejar de uma vez e eu fiz, mas antes eu dei
uma olhada com muita raiva para o meu pai e
para a Paulinha. Esses dois fofoqueiros! Como se
eles não conhecessem a fera.
─ Não culpe o seu pai, Adriana! Você
realmente achou que eu não perceberia esse olho
inchado, esse nariz vermelho e essa cara
amassada? Pode vir aqui e falar o que houve. E
dessa vez fala a verdade, nada daquela história
de “estou chorando de saudades de vocês”, não
engoli pelo telefone, não vou engolir ao vivo.
Eu desabei mais uma vez no seu colo, nós
duas sentadas no sofá e resumi ao máximo minha
história para minha mãe, basicamente falei que
tinha me apaixonado e sido traída, sem maiores
detalhes. Minha mãe era uma raposa e não
acreditou na minha versão ínfima dos fatos, mas
deixou por isso mesmo e tratou de colocar panos
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quentes em cima do caso, como ela sempre fazia.
─ Tem mais coisa aí Adriana, mas se você
não quer falar eu não vou insistir. É claro que
isso não foi só porque você terminou um
namoro, não seria a primeira vez e você nunca
ficou desse jeito, mas eu vou respeitar o seu
silêncio.
Como não podia deixar de ser, o pior mesmo
foi quando a Lívia chegou do escritório e veio
me ver.
Era absurdo como mesmo não sabendo de
onde vinham tantas lágrimas, elas vinham e
vinham sem parar, e toda vez que eu achava que
elas tinham finalmente secado elas voltavam com
mais força.
Minha amiga como não podia deixar de ser,
ficou tão doída quanto eu, chorava comigo
enquanto eu dava a minha "versão"
extremamente reduzida e modificada, não
sossegava com ideia de querer saber mais sobre o
"cara que me sacaneou". Eu precisei inventar
uma história, claro! Disse que ele tinha voltado
para o Brasil, que morava em São Paulo e não
dei o nome dele, óbvio, uma vez que ela queria
por todos os meios investigá-lo.
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Imagina? Mal sabia ela que só precisaria
dessa informação, o nome dele, para descobrir
exatamente quem era o "bandido", apelido gentil
que ela lhe deu.
Só a Lili para resumir tão bem tanta coisa
que eu queria expressar. Bandido. Era tudo que
ele era para mim... Roubou meu coração, minha
alma, minha vida e minha paz, porque agora eu
estava tão longe dele e poderia simplesmente
voltar a ter a minha rotina de volta... Minha
família, meus amigos, meu emprego, meu Rio de
Janeiro onde estavam todas as coisas que eu
amava, ou pelo menos tinha sido assim um dia...
Agora era tudo tão vazio, todas as minhas
cores tinham ficado em Barcelona, os sons, os
cheiros e os toques fortes do Gabriel.
Deus, eu estava tão mal!
A Lívia não levou bem minha decisão de não
falar sobre o "bandido", como a minha mãe, mas
no fim eu a convenci que só precisava de sorvete,
chocolate e colo e nessa matéria minha amiga
não decepcionava, não havia colo e ombros
melhores para se chorar e ser consolada.
Pela manhã eu estava decidida a voltar a ser
algo mais parecido comigo mesma. Não tinha
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dado a ninguém o poder de comandar a minha
vida desse jeito e não seria naquele momento que
eu faria isso.
Me arrumei para ir ao escritório e desci as
escadas como se nada tivesse acontecido. Minha
mãe estava de saída para o trabalho, então
somente me avaliou com o olhar e me perguntou
se eu estava bem, quando eu balancei
positivamente a cabeça, ela ainda me olhou meio
de lado e franziu a boca deixando claro que não
engolia a minha resposta, mas ainda assim
cumpriria a promessa de não se meter... Deu um
beijo em mim e outro no meu pai e saiu com a
Paulinha, que me olhava com aqueles olhões
tristes e preocupados, mas não antes que eu desse
um beijo nela e murmurasse que estava bem.
Meu pai, todo coração como era, ao ficar a
sós comigo me deu um abraço.
─ Eu sei que você não está nada bem, só não
se afogue em trabalho para mascarar o que você
está sentindo, dê tempo ao tempo e se quiser
desabafar eu estou aqui tá?
─ Obrigada papai, eu sei disso, mas eurealmente não quero falar mais nada sobre isso.
Eu me apaixonei, achei que tinha descoberto o
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grande amor da minha vida e me decepcionei, só
isso. Não fui a primeira mulher a sofrer uma
decepção e o mundo não para cada vez que isso
ocorre. Agora eu preciso esquecer tudo isso e ter
minha vida de volta.
─ Eu não acho que esquecer seja assim tão
fácil Nana, ainda mais se esse rapaz mexeu com
você dessa forma. De qualquer forma não vai ser
trabalhando como uma louca que você vai
encontrar o alento que precisa.
Eu assenti e fui fazer justamente o contrário
e como ele previu: me sepultei no trabalho.
Logo no dia que eu voltei fui me apresentar
para o meu chefe e ele veio me cumprimentar,
todo feliz dizendo que o Miguel tinha ligado e
tecido elogios a mim o que o deixou exultante,
me inteirei dos seus planos para mim e me
tranquei em meu escritório para me preparar para
meus próximos dias de trabalho.
Como meu pai disse não foi nada fácil
afastar o Gabriel dos meus pensamentos e cada
coisa me lembrava dele, definitivamente não
ajudava que boa parte das nossas conversas
foram justamente sobre nossos trabalhos. Mesmo
assim eu me forcei a ocupar a minha mente o
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tanto quanto possível e assim durante as semanas
seguintes eu tornei mais workaholic do que
jamais tinha sido, fazendo mil visitas,
trabalhando muitas horas extras, me internando
no trabalho...
O pouco tempo que eu tinha em casa gastava
trancada no quarto, coisa que eu nunca fiz, e até
o fato de onde eu fosse a Paulinha estar por
perto, me vigiando, me irritava. Eu me segurava
para não ser estúpida com ela, meu pai e minha
mãe, mas confesso que nem sempre conseguia e
só a Lívia não dava a mínima para o meu gênio,
me empurrando e desafiando o tempo todo e
assim não permitia que eu me isolasse de tudo.
Em alguns dias em que a saudade falava
mais alto que raiva, eu até me permitia contar a
ela sobre a gente. Nesses momentos eu revivia
todo o encanto que vivi e a Lívia me escutava
calada, às vezes no fim ela mesma tinha chorado
e declarava que nunca perdoaria o “bandido” por
ter me feito tão feliz só para me destruir depois.
E assim, bom como era revisitar aquele tempo
mágico era horrível ter que voltar para um
presente em que o Gabriel era o cretino que tinha
me magoado tanto e não o homem que me
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segurava ao dormir.
E aí eu passava horas sem dormir, revirando
em minha cama, meu estômago com um nó que
não passava, imaginando o que eu tinha feito de
errado, o que eu tinha feito, como ele estaria...
Lembrava dos olhares apaixonados que ele me
dava, da forma protetora com que ele agia, todos
o carinho e cumplicidade... Como alguém podia
fingir aquilo? Nada fazia sentido, nada
encaixava...
Quando eu já estava quase me convencendo
disso e o procurando, pelo menos para que a
gente colocasse as coisas em pratos limpos e
terminasse da forma certa, a Heloísa me mandou
por e-mail fotos do Gabriel com outra garota,
seguindo a vida sem o drama que eu estava
fazendo, com certeza sem ter sofrido nem mesmo
por um dia. Aquilo feriu ainda mais o meu
orgulho e eu me senti um lixo, uma coisa que foi
usada e jogada fora, sem nenhum lamento por
isso.
Esse foi o dia em que passei mal a primeira
vez, ou melhor, a primeira vez que eu me dei
conta que estava passando mal desde que
chegara, já que durante as primeiras semanas em
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que eu estive de volta estava tão obcecada com o
Gabriel que sequer notara qualquer coisa que
estava acontecendo comigo. Mesmo assim eu
coloquei a culpa no nervoso que eu tinha sentido
ao ver aquelas fotos.
Os dias se seguiram e eu só piorava, nada
parando no meu estômago pela manhã, o enjoo
horrível a cada cheiro mais forte, o humor
oscilante e quando minha mãe começou a me
olhar inquisidoramente a cada vez que me
encontrava no corredor, saindo pálida do lavabo,
já era ridículo fugir do que estava na cara... A
desgraça nunca vinha sozinha.
Eu estava grávida do Gabriel!
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CAPÍTULO 17
Eu Vi a Mulher Preparando Outra Pessoa
 
Quando eu assumi para mim mesma que essa
possibilidade não só existia, como era mais
provável do que estar doente ou somatizando
meu estado de espírito, os sintomas se
intensificaram absurdamente e eu não passava
mal somente pela manhã, mas durante todo o dia,
no meu trabalho, no caminho, à noite.
Passei até a evitar de almoçar com meus
colegas naqueles dias, era melhor ficar na minha
até que confirmasse a causa dos meus enjoos.
Depois de um tempo fugindo das pessoas
resolvi parar de infantilidade e encarar a verdade,
fosse ela qual fosse, só que eu não conseguiria
fazer isso sozinha, por isso chamei a Lívia e
contei para ela a minha desconfiança.
Ela ficou mais nervosa do que eu mesma e
começou a andar de um lado para outro em meu
quarto.
─ Ai Nana, como você deu um mole desses?
Que pergunta! Queria dizer que ela sabia
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muito bem como aconteceu, mas estava com zero
de vontade de fazer graça.
─ Sei lá Lili, aconteceu poxa! Nas primeiras
vezes a gente usou camisinha, depois bobeamos
algumas vezes e aí já viu né? Acabamos
confiando na sorte...
Ela parou, cruzou os braços e me encarou,
uma sobrancelha levantada, a imagem da dona
da razão.
─ Boa coisa com que se contar,
principalmente quando ela definitivamente não
tem estado do seu lado, não é mesmo? Eu não
acredito Nana! Você sempre foi tão responsável
e cuidadosa.
─ Já disse Lili: a-con-te-ceu! Eu estava cega
de apaixonada, achava que era o homem da
minha vida, que eu ia casar com ele, o que
importava engravidar agora ou daqui a um, dois
anos? Me ferrei! Agora já era! Dá pra ser minha
amiga aqui e deixar os discursos pra D. Ruth e o
Sr. Rubens?
─ Rá, rá, pode colocar a D. Joana nessa lista!
Minha mãe vai pirar com você quando souber!
Vai repetir cada sermão sobre sexo seguro e te
lembrar de quantas vezes que ela colocou
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camisinha nas nossas bolsas.
─ Então Lili, bronca eu vou ter um monte, de
você eu só quero apoio!
Fiz biquinho e nem precisei me esforçar
muito para soltar as minhas eternas lágrimas. Na
mesma hora sua pose se foi e ela se deu conta de
que não era aquilo que eu precisava, se sentou na
minha cama, me puxando para um abraço
carinhoso.
─ Ah Nana, é claro que eu vou te apoiar, seja
qual for o resultado nós estamos juntas nessa,
você sabe disso, eu sempre vou estar aqui Nana,
mesmo que eu esteja muito puta porque você foi
uma anta!
Sua voz doce e cuidadosa era o contrário do
seu discurso nervoso e eu sabia que podia sim
contar com a minha amiga para o que quer que
fosse.
─ E então? Como vamos fazer? Eu corro na
farmácia e compro um exame?
─ Melhor não, vamos no laboratório e eu
faço um exame de sangue de uma vez. Já fugi
demais desse resultado, agora eu quero certeza
do que eu já sei aqui dentro.
E assim fizemos, liguei para o trabalho
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avisando que só iria trabalhar na parte da tarde e
seguimos para o laboratório mais próximo das
nossas casas, fizeram a coleta do sangue e fomos
fazer um lanche enquanto esperávamos a hora da
entrega do resultado.
Tentamos nos distrair e conversar sobre
outros assuntos, mas nada prendia mais a nossa
atenção que o tictac do relógio da lanchonete,
nós duas hipnotizadas pelo objeto pendurado na
parede, fazendo cada minuto parecer uma
eternidade.
─ Você sabe que vai ter que procurar esse
carinha e falar com ele se o exame der positivo,
não sabe?
Eu respirei fundo e desviei o olhar da Lívia
enquanto sussurrava um sim totalmente falso. Eu
sabia que provavelmente tinha sim que avisá-lo,
afinal, ele era o pai, no entanto só de pensar
nessa hipótese meu estômago dava um nó de
nervoso, minha mão suava frio e minha pulsação
ficava irregular. Estava desenvolvendo “Pânico a
Gabriel” e só a ideia de falar com ele me
apavorava muito mais do que a de ter um filho,
mesmo que eu o criasse sozinha.Além do mais, ainda que o Gabriel tenho
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dito que queria filhos como eu poderia ter certeza
de que isso era verdade quando todo o resto não
era? Quem sabe qual seria a sua reação se eu o
procurasse e dissesse que estava grávida?
Ele poderia ficar feliz e mesmo nós não
estando juntos ele poderia participar da vida do
bebê, mas ele também poderia ficar irado,
renegar meu filho, me acusar de golpista, afinal
bem ou mal meu filho seria herdeiro dele.
Eu não queria testar qual seria a reação dele,
muito menos expor meu filhinho a nenhum tipo
de rejeição, por isso resolvi, mesmo antes de ter
certeza que estava mesmo grávida, que eu iria
assumi-lo sozinha.
Quando finalmente chegou o momento da
verdade eu já sabia o que estava escrito antes
mesmo de abrir o envelope, então eu não fiz
firula nenhuma, abri e confirmei logo a notícia
que mudaria minha vida de vez.
─ Positivo. Estou ferrada!
Ela me segurou pela cintura e nos levou até
ao sofá da recepção do laboratório, não parando
de falar por um minuto enquanto eu assimilava o
quão fodida era a minha situação.
─ Fica calma Nana, eu estou aqui, lembra?
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Pode ficar tranquila que tudo vai dar certo, a
gente faz com que dê, ok? Eu vou ter um
afilhado!!!! Já pensou que legal?! Ah amiga, não
importa como foi e nem o bandido do pai, eu já
sei que essa criança vai ser tão linda e vou
estragar tanto ele ou ela! E o Lucas? A Paulinha,
seus pais? Nana não se preocupa com nada, essa
criança vai ser criada cercada de muito amor e
cuidado.
Isso era verdade, meu filho ia ser cercado de
muito amor e isso era o que mais importava.
Pouco me importava se o Gabriel não colocasse
os olhos sobre meu bebê, eu seria suficiente para
suprir as todas as necessidades dele e no que me
faltasse competência, habilidade ou experiência a
imensa rede de apoio que nós tínhamos à nossa
volta complementaria com tranquilidade!
Pensar dessa forma fez com que a ideia de
que eu teria um filho, literalmente, tomasse
corpo, despertando um amor que já era o
sentimento mais forte e gostoso que eu já havia
experimentado na minha vida. Caraca! Eu teria
um filho! Um filho do Gabriel, que foi feito com
muito amor, pelo menos da minha parte, e que
seria tão lindo! Com certeza a criança mais linda
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do mundo! E então todo medo e insegurança se
desfizeram como por encanto e a força do meu
amor pelo meu pequeninho foi criando raiz no
meu peito, uma raiz forte e profunda de onde eu
tiraria a coragem para enfrentar qualquer
problema que me aparecesse na frente.
Fechei os olhos, puxei uma longa e lenta
respiração, abri meus olhos e sorri para minha
amiga.
─ É Lili, acho que agora é só pensar em
todas as roupas, brinquedos e trecos de bebê que
a gente vai ter que comprar, não é?
Ela bateu palmas, toda animada com a
perspectiva de se acabar nas compras.
─ Sim! Tomara que seja uma menininha, eu
vou poder encher de lacinhos e vestidinhos,
sapatinhos, tudo rosa!
Eu a deixei falar e ri do jeito afetado dela,
mas algo dentro de mim me dizia que seria um
menino. Sei lá, podia ser bobeira minha, mas eu
tinha essa sensação muito forte, mesmo assim
resolvi não cortar o barato da Lívia, fosse o que
fosse ela iria mimá-lo da mesma forma.
Fomos almoçar e apesar de extremamente
tentada a tirar o resto do dia de folga eu me
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forcei a ser responsável e ir trabalhar, totalmente
aérea, louca para que chegasse logo a noite e eu
revelasse para toda a minha família a notícia que
eu trazia comigo.
Como nós sempre podemos contar com a Lei
de Murphy quando menos precisamos dela, meu
dia foi arrastado e cheio de problemas para
resolver, mesmo assim eu estava animada e
contagiada com um novo ânimo, acho que era a
isso que chamavam de “estado de graça”.
Ao fim do dia esse entusiasmo todo deu uma
breve queda quando eu pensei na melhor forma
de contar aos pais sobre o bebê.
Porque você pode ser maior de idade, ter
uma carreira de sucesso, uma conta corrente
recheada e toda a independência do mundo que
contar para os seus pais que está grávida e que
seu filho vai nascer sem pai presente não é uma
coisa que você faça com tranquilidade. Mesmo
assim estava decidida a fazê-lo de uma vez, fosse
qual fosse a reação dos meus pais não mudaria
minhas resoluções sobre minha gravidez, nem
meus sentimentos pelo meu filho.
Cheguei em casa e como era dia em que
minha mãe não tinha aula noturna, já estavam
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todos em casa, fui tomar um banho e me arrumar
para o jantar e quando voltei me sentei calada
por alguns instantes, procurando as palavras
certas que eu deveria usar, enquanto meus pais e
a Paulinha estavam preocupados com a refeição
e um assunto sobre um aluno difícil que estava
dando problema para minha mãe durante o ano.
Meu pai foi o primeiro a notar que eu estava
inquieta e me indagou com a voz preocupada o
que havia comigo.
Eu suspirei fundo e olhei para as três pessoas
que formavam a minha pequena, mas amorosa
família e me emocionei em pensar que em pouco
tempo teríamos mais uma pessoinha no nosso
núcleo, e que todo esse amor seria dele também.
Criei coragem e soltei de uma vez.
─ Eu estou grávida.
O ambiente congelou no tempo, meu pai e a
Paulinha me olhando atônitos, visivelmente sem
saber o que falar ou fazer. Minha mãe, muito
tranquila agiu como se a notícia não fosse nada
demais.
─ Eu já desconfiava Nana, não precisa fazer
essa cara porque ninguém aqui vai te dar nenhum
sermão. Você tem 27 anos, pelo amor de Deus!
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Tem uma profissão, e responsabilidade o
suficiente para saber o que está fazendo, pelo
menos eu espero que sim. Era isso que você
queria, filha?
Era? Eu acho que não conscientemente, mas
sendo honesta eu sabia todos os riscos e não fiz
questão nenhuma de me proteger então, em
algum nível eu devia querer sim, além do mais
eu não poderia pensar em ninguém melhor para
ser pai de um filho meu do que o Gabriel...
Mesmo que ele nunca soubesse desse filho.
─ Foi inesperado, mamãe, mas eu não posso
dizer que estou triste com isso. Estou
amedrontada, insegura, surpresa, mas tão feliz
que eu acho que mesmo sem saber eu queria sim
ser mãe logo, só que não agora, nem nessa
situação.
─ Acho que isso não é uma opção mais não é
filha? O momento é agora e a situação é a que se
apresenta, mas isso não precisa ser uma coisa
ruim, se é o que você quer estamos aqui para te
apoiar. A você e ao bebê.
Meus olhos estavam rasos de água, minha
mãe pegou minhas mãos por cima da mesa e as
segurou embaixo das delas, meu pai e minha
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irmã a copiaram todos eles, demonstrando em
um gesto que estariam comigo e eu me
envergonhei que cheguei a ventilar a hipótese de
que a minha gravidez seria, ainda que por um
segundo, mal recebida. Eu deveria saber que no
que dependesse deles eu teria todo o apoio do
mundo e o melhor tipo de apoio, o que não
cobra, só cuida e joga para a frente.
O clima não poderia estar melhor, até que
meu pai lembrasse a parte mais inconveniente da
minha gravidez.
─ Nana e o pai da criança? Eu não sei o que
aconteceu entre vocês, pela forma que você
chegou da Espanha a gente sabe que não acabou
bem, mas agora as coisas são diferentes, não é?
Você tem que entrar em contato com ele e dar a
notícia, filha.
Ainda que eu soubesse que meu pai, assim
como a Lívia mais cedo, tinha razão eu não tinha
força para encarar o Gabriel depois de tudo e
como eu já disse não submeteria meu filho ao
risco de uma rejeição, então eu teria que dar um
jeito deles entenderem que essa não era uma
opção válida.
─ Eu não vou comunicar a ele minha
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gravidez.
Dessa vez foi a minha mãe que chiou.
─ O que você acabou de dizer, Adriana?
Você ficou louca?
─ Eu não quero que ele fique sabendo que eu
fiquei grávida, até onde eu sei essa gravidez não
estava nos planos dele.
─ Como não estavam nos seus.
─ Sim mãe eusei, mas eu não sei como ele
reagiria já que o nosso término foi tão...
tempestuoso.
─ Espera aí Adriana. Agora é hora de separar
as coisas, você vai ter uma criança que vai querer
saber sobre o pai dela, e tem um cara por aí que
pode ter sido canalha no relacionamento de
vocês, mas tem o direito de saber que vai ser pai,
e mesmo que ele não queira, que não tenha
planejado, o que for... Tem tanta obrigação com
essa criança quanto você! Até mesmo por que
com certeza ele participou por livre e espontânea
vontade da parte boa, não foi?
Não ia ser fácil para fazê-los entender que eu
realmente preferia assumir meu filho sozinha a
ter que procurar o Gabriel novamente.
─ Eu não quero que ele saiba, ele não merece
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um presente desses além do mais eu nem sei
mais como entrar em contato com ele que
também saiu de Barcelona quando o curso
acabou, e eu nunca cheguei a pegar o endereço
dele aqui no Brasil. Só sei que ele morava em
São Paulo.
Menti descaradamente, tentando acabar com
a insistência dela.
─ Não é possível que você não tenha
nenhum contato com ele Adriana! Rede social,
nome completo, telefone... meu Deus do céu, ele
é brasileiro, arquiteto, não pode ser difícil assim
para acha-lo!
Não seria nada fácil despistar a minha mãe e
eu acabei sendo forçada a jogar sujo.
─ A minha decisão já está tomada. Essa
criança vai ser criada por mim única e
exclusivamente, se vocês não podem aceitar isso
tudo bem. Eu vou morar sozinha, só eu e o meu
filho e aí ninguém vai se meter na minha vida!
Meu pai como sempre fez o papel de
conciliador e pôs panos quentes na nossa
discussão.
─ Calma Nana! Não precisa disso, depois a
gente conversa melhor, mas se você não quer
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mesmo avisar ao rapaz eu te respeito, mesmo
achando que é uma tremenda bobeira da sua
parte e egoísmo, você está tomando essa decisão
pensando somente em você.
Abaixei a cabeça e fiquei quieta, eu sabia
que meu pai tinha razão e eu não tinha nenhum
argumento lógico para refutar a acusação que ele
estava me fazendo. Eu estava sim, sendo
extremamente egoísta e pensando somente no
desconforto de estar novamente próxima ao
Gabriel, e lá no fundo eu sabia que eu ficaria
destruída se eu confirmasse que ele tinha
realmente seguido a vida dele enquanto eu estava
parada, ainda presa nas nossas memórias, sem a
mínima vontade de ter mais alguém que não
fosse ele, mesmo que eu não estivesse grávida, a
ideia de ter outro homem na minha vida nem
passava pela minha cabeça, pelo menos não por
um longo tempo.
No entanto, lá no fundo eu sabia que em
algum momento eu teria que contar a ele, talvez
o fizesse logo que o bebê nascesse, já registrado
para deixar claro que eu não queria nada dele ou
quando ele for maiorzinho e perguntar pelo pai,
sei lá! Mas agora, frágil como eu estava,
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sentimental e desnorteada eu não tinha nem onde
arrumar forças para isso.
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CAPÍTULO 18
Onde Será Que Você Está Agora?
 
Depois de passado o susto inicial a cada dia
eu me entusiasmava mais com a ideia de ser mãe,
algo dentro de mim tinha despertado um instinto
materno que eu nunca imaginei ter e me vi
enlouquecida de amores pelo meu pequeno.
Marquei logo a minha primeira consulta pré-
natal com a Dr. Simone que foi a ginecologista
que acompanhou a mim e a Lívia desde
adolescentes e era amiga pessoal da Joana.
Logo de cara ela me disse que não tinha
gostado de o fato da minha pressão estar muito
alta, o que foi um susto, do alto da minha
ignorância eu achava que pressão alta fosse uma
doença ligada exclusivamente ao excesso de peso
e má alimentação e nunca poderia pensar que eu,
que sempre fui magra e tinha uma alimentação
mais ou menos normal poderia apresentar essa
alteração.
De qualquer forma fui à nutricionista e
comecei a fazer a dieta que ela me passou.
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Infelizmente nem sempre eu podia seguir à risca
devido a reuniões, visitas a obras, horários
irregulares, mas sempre que eu podia tentava me
alimentar melhor pela saúde do meu bebê.
Meus pais e a Lívia se entusiasmaram e logo
espalharam a novidade para a vizinhança inteira.
Enchiam-me de dengo e superproteção, mas
ninguém ficou mais animado com minha
gravidez que a Paulinha.
Minha bonequinha passava todo o tempo que
eu estava em casa me cobrindo de paparicos,
comprava coisinhas para o bebê com a sua
mesada e se preparava para ser a tia do ano da
sua forma, lendo tudo que lhe caía nas mãos
sobre gravidez e cuidados com bebê, e fazia
questão de fazer parte de toda a preparação.
Eu deixava, aliás, eu adorava esses
momentos. No começo minha preocupação foi
incluí-la para que ela não se sentisse deixada de
lado e preterida, mas logo eu vi que para ela era
mais do que isso, ela realmente amava se sentir
incluída, mas não havia nem um pingo de
ciúmes, era puro amor de irmã e tia coruja.
Nem mesmo no meu trabalho a minha
gravidez foi um empecilho, na verdade como eu
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tinha voltado da Espanha com o gás todo e
estava trabalhando como uma louca, com mal-
estar e tudo, o meu chefe creditou ao bebê a
minha performance de super mulher.
─ É Adriana, eu sabia que essa viagem ia te
fazer bem, mas não imaginava que fosse tanto.
Voltou uma profissional mais focada, mais
determinada, mais linda do que nunca e ainda
trouxe esse lindo tesouro com você. Se eu
soubesse já teria te enviado para algum curso a
mais tempo.
Trouxe um tesouro... Aquelas palavras me
recordaram o vaticínio da velha cigana, se era a
isso que ela se referia ela tinha acertado na
mosca, o que mais estaria certo na previsão dela?
Eu nunca mais voltaria à Espanha? Um
sentimento forte me apertou o peito, minha velha
amiga angústia me envolvendo em suas garras
fortes.
Me obriguei a dar um sorriso amarelo para
meu chefe, agradeci seus elogios e pedi licença,
sob a desculpa que tinha que dar andamento a
um projeto e me exilei no meu escritório pelo
resto do dia, as lembranças daquela tarde
queimando dentro de mim, eu não sabia por que
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eu estava tão afetada, talvez fosse pela
confirmação de que, pelo menos uma coisa ela
acertara e se ela acertara isso, poderia acertar
tudo o que poderia significar também que meu
caminho não cruzaria com o do Gabriel
novamente a não ser que ele voltasse para o
Brasil.
Mas era isso que eu queria não era?
Talvez não.
Talvez eu não quisesse falar com ele só pelo
medo de encarar a verdade, mas sozinha comigo
eu não poderia negar que eu ainda tinha
esperança de que ele saberia a minha condição de
alguma forma e viesse por conta própria, se não
por mim, pelo menos pelo nosso filho. Mentira!
Eu queria com todas as minhas forças que ele
desse um jeito de me encontrar e dissesse que
tudo aquilo era mentira, que me provasse que a
Heloísa era uma louca que tinha forjado todas
aquelas provas contra ele e me pedindo para
voltar.
Mas isso nunca aconteceu...
Os dias corriam, minha barriga crescia, mas
nada indicava que o Gabriel em algum momento
pelo menos lamentou a minha ausência. Não que
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eu procurasse saber, evitava até muito contato
com o Lucas, por esse tempo, era melhor não
saber nada do que saber algo que me feriria mais.
Tinha dias que eu me arrependia de não ter
me aberto para ele, de não ter dado pistas de
onde ele me encontraria, tinha dias que eu
achava que eu tinha feito o certo, que era melhor
que nós nunca mais nos encontrássemos e tinha
dias que eu achava que se ele quisesse mesmo
teria dado um jeito de me achar. Uma arquiteta
no Rio, com o meu nome, se existisse vontade
mesmo ele daria um jeito...
A verdade é que se por fora eu me esforçava
para ser a mais radiante e feliz grávida que todos
já viram, por dentro eu era uma tremenda
bagunça emocional alternando todos os
sentimentos ao longo do dia... Triste por estar
sozinha, empolgada com o bebê, assustada com a
responsabilidade, possessa de ciúmesdo Gabriel,
amedrontada com a possibilidade da minha
pressão não estabilizar, de ocorrer algo com meu
filho...
E por isso cada exame era cercado de muita
expectativa, como foi a ultrassom morfológica,
que além de determinar se estava tudo
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transcorrendo bem com meu pequeno também
diria, se tudo desse certo, o seu sexo.
Estava tão empolgada, queria poder falar
com ele o chamando pelo nome, e apesar do meu
coração gritar a certeza que dentro de mim
crescia um lindo, forte e saudável rapazinho,
ainda tinha escrúpulos de chama-lo pelo nome
que eu havia escolhido.
A Lívia e a Paulinha foram as escolhidas
para me acompanhar, já que minha mãe não fazia
muita questão de participar dessa parte mais,
digamos, sentimental da minha gravidez e eu não
achava necessário que meu pai deixasse a loja
nas mãos dos empregados só para me
acompanhar, apesar da sua insistência.
O exame decorreu sem nenhum problema, a
médica me tranquilizando sobre todas as
verificações de anatomia, órgãos e medidas,
coraçãozinho batendo a mil e finalmente o
momento que todas nós esperávamos.
─ Adriana você deu muita sorte, temos aqui
um verdadeiro exibicionista aqui, pode ver você
mesma, não tem como se enganar.
Eu ri, emocionada, realmente a ultrassom 3D
não deixava dúvidas. Meu filho anunciava seu
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sexo com toda pompa que a ocasião pedia. E eu
queria tanto que os meses corressem para que eu
pudesse beijar e apertar aquele pedacinho de
amor que crescia dentro de mim.
─ Oi, Bernardo.
Pronunciar o nome que nós escolhemos e
que eu continuava firme na determinação de
manter, fez a ausência do Gabriel mais palpável.
Como eu queria que ele estivesse comigo agora!
Suspirei fundo, segurando o choro, e segurando
firme a mão da Paulinha que não saiu do meu
lado durante todo o exame.
─ Esse vai ser o nome? Que lindo! Pois bem,
Adriana, o Bernardo se encontra perfeito e bem
desenvolvido para 21 semanas, parabéns!
Me troquei e saí da sala com minhas duas
escudeiras que insistiram em me levar para
comprar as primeiras roupinhas de rapaz do
Bernardo e eu não pude fazer nada para impedi-
las, não que eu realmente quisesse impedir
alguma coisa, na verdade depois de uma pequena
resistência eu me deixei levar ao Shopping mais
próximo e me acabei de comprar roupinhas,
sapatinhos, tênis, bonés... Nunca imaginei que o
mundo em azul fosse tão divertido!
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Quando chegamos em casa meu pai gritou de
felicidade, me pegou no colo, falou com o neto,
disse que fazia questão de comprar o uniforme
do Flamengo para o neto dele, fez uma festa
danada!
O Lucas, que veio direto para minha casa
quando chegou do escritório, para buscar a Lívia
também fez altos planos com o afilhado, o que
me dizia que eu teria sérios problemas para
colocar limites na educação do Bernardo. Só
minha mãe, como sempre, não demonstrou
grande entusiasmo, aproveitando a oportunidade
para me cutucar.
─ Imagino como ficaria feliz o pai dele se
soubesse que teria um filho! Desculpa Nana, mas
eu não posso deixar de lamentar por tudo o que
esse rapaz está perdendo por conta da sua
teimosia. Espero sinceramente que até o bebê
nascer você reflita sobre isso e mude de ideia.
A observação dela teve o mesmo efeito de
gotas de limão em um litro de leite fervente:
azedou o clima na mesma hora, a Lívia e o Lucas
pediram licença e se despediram alegando que
tinham que trabalhar cedo no outro dia, meu pai
gesticulou para minha mãe ficar quieta o que
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provocou uma carranca que provavelmente se
transformaria em discussão mais tarde e de
repente só a Paulinha e eu estávamos na sala.
─ Ela não perde uma...
Eu tive que rir, pelo menos para uma coisa
isso serviu, a Paulinha tinha saído do radar dela.
─ Tá vendo? Eu não te disse que não era
nada contra você? Agora o alvo dela sou eu.
O jeito com que a Paulinha deu de ombros e
continuou a me olhar, mordendo nervosamente a
parte interna da boca indicava que ela queria me
dizer algo e estava com medo.
─ Você concorda com ela, não é?
Ela levantou as sobrancelhas como quem diz
“você sabe né?”, mas não disse nada.
─ Eu sei Paulinha que eu devia falar com o
pai dele, mas é que são tantas coisas envolvidas.
Eu sei que em algum momento eu vou ter que
fazer isso, mas agora eu quero focar somente no
Bernardo, tá bom?
─ Você é quem sabe Nana... Se você não
quer falar com ele, não fala. É só que eu penso
que o bebê precisa de um pai.
─ Claro amor, precisa sim. Só que as coisas
não são tão simples assim.
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─ Não tem problema Nana, de qualquer
forma não faltará amor pelo Bernardo aqui em
casa, você sabe, não sabe?
─ Sei sim bonequinha, vocês são a família
mais perfeita que ele poderia escolher. Na
verdade, se você pensar, com tanto carinho assim
nem faz falta mais ninguém.
Ela deu de ombros novamente e se jogou em
mim, me abraçando fortemente e me beijando
demoradamente na bochecha, antes de subir para
seu quarto e me deixar sozinha na sala. Deitei no
sofá, repentinamente exausta demais até para
subir as escadas e deixei minha mente vagar
através do tempo e do oceano, lembrando de
cada momento vivido com o Gabriel.
Aquele Gabriel com certeza estaria adorando
a ideia de ser pai, me enchendo de cuidados e
botando a mão na massa com relação aos
cuidados e responsabilidades do bebê.
Deus! O que eu estava fazendo?
E se o Bernardo não me perdoasse por
impedi-lo de conviver com o seu pai? Adormeci
no meio daqueles devaneios e acordei com meu
pai me chamando.
─ Nana, meu amor. Vá dormir no seu quarto
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senão você vai acordar moída amanhã.
Sentei-me sonolenta no sofá e meu pai
sentou-se do meu lado, com um copo de suco de
maçã, o meu preferido, na mão.
─ Não fica chateada com ela, é só
preocupação.
─ Eu sei que estou errada, papai. Na verdade,
é bom que ela me chacoalhe um pouco. Eu vou
tentar entrar em contato com o pai do Bernardo,
ok?
Ele bateu na minha perna e apertou, sorrindo
daquele jeito bobo dele.
─ Eu sabia que mesmo teimosa como você é,
você não seria tão egoísta assim e saberia separar
as coisas. Muito bem, filha! A partir de agora são
os interesses do Bernardo sempre à frente dos
seus, não se esqueça disso.
─ Pode deixar pai, só peço uns dias para me
preparar para essa conversa, não vai ser fácil e eu
não sei como ele vai reagir.
─ Quanto tempo você precisar, e não importa
a reação dele, só faça o seu dever. De qualquer
forma nem você, nem o Bernardo vão precisar de
nada dele mesmo, vocês têm a nós. No entanto,
se você estiver enganada e ele ficar feliz com a
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notícia, o bebê só ganha.
Assenti e me levantei indo para a minha
cama decidida a mudar de atitude quanto a
relação do Gabriel com o nosso filho.
Como eu disse para o meu pai eu demorei
ainda alguns dias para me preparar
psicologicamente para conversar com o Gabriel e
mesmo assim, como a covarde que eu sou, decidi
que era melhor mandar uma mensagem e dar a
ele a chance de me retornar ou não, me isentando
assim de qualquer culpa, se ele não ligasse eu
pelo menos tinha tentado!
Achei por bem não adiantar nada e mandei
um recado básico e conciso para o número que
eu ainda sabia de cor:
Gabriel, preciso falar com você com
urgência, é realmente muito importante, por
favor, me retorne nesse número.
Adriana
Meu estômago torcia de nervoso e eu não
consegui segurar e coloquei meu almoço todo
fora, coisa que eu já não fazia mais há meses.
Quando retornei já havia uma resposta para mim,
e apesar do medo do conteúdo daquela
mensagem eu a abri rapidamente. Pra quê?
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Preferiria nunca o ter feito!
A resposta sequer foi digitada por ele, ou
pelo menos era isso que estava escrito, em
espanhol.
Este es el teléfono privado Gabriel y aquí es
sunovia, por favor elimine este número e ir a su
oficina si elsujeto es professional em el caso de
lamateriapersonal simplemente olvide.[8]Eu sabia que não devia ter tentado entrar em
contato com ele! Era esse meu medo, ele já tinha
seguido em frente e pelo jeito era uma perua
insuportável, nunca que eu permitiria que meu
filho convivesse com uma mulher grossa e sem
educação dessas.
Estava decidido de uma vez por todas, o
Bernardo seria minha responsabilidade exclusiva
e no que dependesse de mim o Gabriel nunca
saberia da existência dele!
Disse ao meu pai e a minha mãe somente que
tinha tentado entrar em contato com ele e não
obtive resposta, e pedi que eles não falassem
mais nisso perto de mim, pela cara de derrota
deles se via que eu tinha atingido meu objetivo e
não voltaram a tocar no assunto comigo. Por
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mais que me doesse estava sepultado e eu
poderia seguir em frente, me concentrando
unicamente no Bernardo.
Mesmo assim alguns dias depois disso
aconteceu uma coisa muito estranha, depois de
tantos meses eu recebi um telefonema da
Heloísa, que como um abutre cheirando a carniça
procurou saber sobre minha vida de uma forma
muito entusiasmada.
─ Adriana querida, quantas saudades! O que
você me conta de novo?
Minha primeira reação foi a pior possível.
Tudo o que eu queria na minha vida era esquecer
o Gabriel e tudo que me lembrasse a sua
existência, e que não fosse meu filho, e
principalmente não queria nenhuma espécie de
contato com Heloísa, seu veneno e insinuações
constantes. Mas mesmo assim, por educação eu
não a despachei de imediato.
─ Oi Heloísa, sumiu hein? Comigo está tudo
bem, e você, ainda está na Espanha?
─ Sim, ainda, quer dizer... devo ir logo para
uma temporada em Milão, estou conseguindo um
estágio por lá, sabe como é não é? Desde que
você foi embora eu estou desempregada e o
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dinheiro que eu tinha guardado acabando...
─ Você não deveria ter se demitido Heloísa,
você não tinha nada a ver com o problema entre
o Gabriel e eu.
─ De maneira nenhuma Adriana, nunca que
eu continuaria a trabalhar para aquele sujeitinho!
Já me basta que esses dias dei de cara com ele e a
iludida da vez em um restaurante, precisava ver a
cara dele quando me viu! Cumprimentou-me sem
graça, nem perguntou sobre você, também com a
namorada com cara de poucos amigos do lado...
Então ele estava mesmo namorando! E pelo
jeito a “iludida da vez” como disse a Heloísa,
sem perceber que esse título era o que eu
ostentava há poucos meses atrás, era mesmo a
grosseirona que eu tinha pensado. Ou somente
mais viva do que eu. Antes que eu parasse para
pensar concordei com ela.
─ É... Eu tive uma amostra de educação dela
esses dias.
Caramba! Ela não ia deixar meu deslize sair
desapercebido, dando um trinado agudo em meu
ouvido
─ Como assim Adriana? Você entrou em
contato com o Gabriel?
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─ Eu tentei, mas não consegui. Eu precisava
falar algo com ele, a namorada dele viu meu
recado primeiro e com certeza não repassou para
ele, mas tudo bem, não tem mais importância
mesmo.
─ Mas o que era tão importante assim para
você o procurar depois de tanto tempo?
─ É que eu estou grávida, Heloísa. Desde o
princípio eu achei melhor que o Gabriel não
soubesse, mas depois de saber que seria um
menino eu amoleci e fiquei pensando que de
repente o Gabriel gostasse da novidade. Mas não
deu e foi melhor assim, meu filho não precisa
conviver com a rejeição do pai nem com
madrastas bruxas.
Mesmo depois que eu havia acabado de falar
a linha continuou em silêncio por alguns
segundos e quando a Heloísa conseguiu falar a
surpresa em sua voz era evidente.
─ Nossa Adriana, eu nem sei o que dizer!
Não imaginava que você estava grávida.
─ Nem eu Heloísa, só descobri semanas após
a minha chegada.
─ Você é realmente uma mulher fantástica
Adriana! E está coberta de razão, quem precisa
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de um pai irresponsável quando tem como mãe
uma pessoa tão ajuizada quanto você, não é
mesmo uma pessoa especial Adriana e não deixe
que ninguém te convença do contrário, até
mesmo só eu que estava aqui e vi toda a
cachorrada que o Gabriel aprontou com você.
─ Não quero mais pensar nisso Heloísa, são
águas passadas, não vão trazer nada de bom.
Meu futuro e único interesse na minha vida
atualmente é meu filho e para tê-lo em paz eu
faço qualquer coisa, por isso eu lhe peço que se
você encontrar novamente com o Gabriel não
fale nada sobre mim, por favor.
─ Claro Adriana, pode ficar tranquila. Se
depender de mim o Gabriel nunca saberá nada
sobre essa criança...
─ Que bom poder contar com você Heloísa,
muito obrigada, de verdade. Você tem sido uma
ótima amiga para mim.
─ Ah querida, não precisa agradecer... Não
mesmo.
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CAPÍTULO 19
Você Verá Que É mesmo Assim, Que a
História Não Tem Fim
 
Após esse maldito telefonema da Heloísa eu
estava mais determinada do que nunca a deixar o
Gabriel para trás e fechar de vez esse capítulo da
minha vida, me abrindo de vez para o da
maternidade e me concentrando somente nele.
Gastei os últimos meses da minha gestação
preparando a vinda do Bernardo em alto estilo,
era como se eu precisasse suprir a falta do pai
dele fazendo mais do que o necessário, me
tornando obsessiva com tudo que fosse
relacionado com meu filho.
Reformei o antigo escritório do meu pai que
servia mais de depósito de documentos fiscais e
nele fiz um quarto dos sonhos todo em azul, com
um lindo cenário com pássaros, móveis claros e
muito bem construídos, planejados para crescer
junto com ele, preparei um canto com todos os
brinquedos educativos e estimulantes de
coordenação motora, fala, andar e tudo o quanto
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as revistas especializadas indicavam como
recomendáveis para bebês. Eu e a Paulinha
ficamos viciadas nesse tipo de revista e
passávamos horas deitadas no sofá ou na minha
cama, lendo, lendo e lendo.
Minha pequenininha crescia a olhos vistos
durante esses meses deixando a carinha de
moleca para começar aos poucos a insinuar a
mulher em que ela estava se transformando, cada
dia mais linda e mais ignorante de sua própria
beleza.
Me enchia de cuidados, dividindo toda a
experiência da gravidez, o bom através dos
preparativos e o mal que era basicamente ir
comigo em todas as consultas e ouvir a médica
dizer mais uma vez que estava cada vez mais
preocupada com minha pressão.
Era uma droga, mas por mais que eu fizesse
ela não se estabilizava e eu podia perceber que a
cada telefonema da Heloísa eu me
descompensava mais e pior ficava o meu estado.
Eu me preocupava demais com minha saúde
e com o que poderia acontecer com o Bernardo
por causa disso e meu mau humor era
insuportável até mesmo para mim. Mesmo assim
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a Paulinha não saía do meu lado e isso era uma
das poucas coisas que me acalmavam.
As posições tinham se invertido: já não era
mais eu a tomar conta da minha irmãzinha, ela
era quem cuidava de mim e do meu pequeno,
com tanto amor e carinho que me emocionava.
Um dia estávamos as duas revirando as
roupas do Bernardo e as arrumando pela enésima
vez quando eu precisei sair por um instante e a
deixei fazendo a tarefa sozinha por um tempo.
Na volta me detive ao ver minha mãe entrando
no quarto. Ela era a menos empolgada com todos
os cuidados com o Bernardo, apesar de ter
dobrado os que já tinha comigo, cuidando ela
própria da minha dieta, ficando de olho em mim
e censurando toda e qualquer extravagância que
eu fizesse. Mas raramente entrava no quarto do
Bernardo e virava e mexia deixava claro que
estava insatisfeita com a minha decisão de deixar
o Gabriel à parte da minha gravidez, por isso eu
estranhei a aproximação dela e fiquei quieta
parada na parte de fora do quarto, escutando o
que ela diria a Paulinha, eu realmente esperava
que ela não pegasse no pé da garota
gratuitamente.
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Do ângulo em que eu estava podia vê-la
perfeitamente quando ela sentou em frente à
Paulinha e começou a dobrar as roupinhas,
sorrindo para minha irmã, que separava as peçase dava para ela.
─ Você tem sido uma grande companheira
da sua irmã, Paulinha, eu tenho observado isso.
Mesmo sem poder ver eu sabia que a
Paulinha dava de ombros para essa afirmação da
minha mãe, talvez tão surpresa quanto eu
mesma.
─ Também a Nana sempre foi muito mais
sua mãe do eu mesma não é?
Uau! Eu morreria e não escutaria a minha
mãe reconhecer uma fraqueza! O que estava
acontecendo com o gélido coração da D. Ruth?
─ Que isso mamãe, ela só era mais acessível
por ter mais tempo do que você.
─ Nós sabemos que não é isso Paulinha.
Vendo a forma cúmplice com que vocês duas se
relacionam, principalmente agora, eu confesso
que me deu um certo ciúme. Queria poder
merecer os olhares de admiração que você lança
para a sua irmã ou para seu pai e até mesmo o
Bernardo que nem nasceu parece ter mais seu
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amor do que eu.
Mudei de posição e vi a Paulinha congelada
com seus grandes e expressivos olhos castanhos
rasos de lágrimas e totalmente inerte ante ao
ataque verborrágico da nossa mãe. Sua boca se
movia sem que qualquer som realmente saísse
por um bom tempo.
─ Ma-mamãe, não é nada disso, eu te amo
tanto quanto a eles, você sabe, não é?
Ela então se aproximou dela sorrindo,
colocou uma mecha de cabelo caído atrás da
orelha e com o indicador recolheu uma lágrima
que caía e acariciou sua bochecha.
─ Claro que sim Paulinha, eu nunca duvidei
disso, você é incrivelmente bondosa e nunca foi
uma filha má, mesmo que muitas vezes tivesse
motivo. É só que vendo a forma com que você e
sua irmã interagem eu percebi que perdi muito
tempo sendo chata, exigente e intransigente com
você e mesmo que eu achasse que tinha os meus
motivos, nada desculpa o fato de nunca ter
deixado claro que apesar do meu jeito eu te amo
muito e me orgulho da pessoa que você é.
Paulinha encolhia os ombros e se abraçava,
incomodada com essa postura nova da pessoa
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mais rígida que nós conhecíamos.
─ Sabe Paulinha quando soube que teria
você, outro filho não estava mais em meus
planos. Nos do seu pai? Sempre! Mas eu estava
tão focada na minha carreira e estudos que estava
feliz somente com a Nana, que já era uma
mocinha e não me dava nenhum trabalho além
do básico. Eu fui muito egoísta. Quando você
nasceu, seu pai e a própria Nana faziam questão
de te mimar e eu me sentia tão mal com isso,
parecia que seu pai achava que você precisava
ser protegida de mim, me sentia uma péssima
mãe, isso me consumiu até que a depressão
levasse a melhor e eu não me orgulho de ter
realmente me tornado o que todos esperavam de
mim. Por outro lado, tanto quanto agora, parecia
que você era tão melhor cuidada por eles do que
por mim mesma... Eu tive ciúmes Paulinha. A
verdade nua, crua é que sua mãe é uma mulher
mesquinha a esse ponto! Ter ciúmes da forma
como seu próprio bebê é tratado. Tive tanto
ciúme de que eles se preocupassem tanto com
você quanto do fato de não parecer que eu fazia
menor diferença para você. Me doía quando te
elogiavam, me doía saber que ao contrário da
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Nana, que todo elogio a ela também era, de
alguma forma, a mim mesma, já que ela sempre
foi tão parecida comigo e a educação que eu dei
a ela sempre foi tão evidente, mas quando
elogiavam você, quando eu mesma via como
suas características sobressaiam, eu sabia que
não tinha nada meu nisso. Sim, você é uma
garota especial e isso é mérito seu, só e
unicamente seu! Seu pai e irmã podem até levar
uma fatia do crédito pelo zelo com você, mas se
você não fosse uma pessoa tão bonita por dentro,
tão incrível a ponto de nunca ter se revoltado
contra mim, nunca ter sequer me desafiado e me
dado qualquer razão que fosse para reclamar de
você, se você não fosse essa pessoa, nem seu pai
nem sua irmã poderiam ter feito quem você é
hoje e a mulher que eu sei que você vai ser.
Minha irmã tremia, sem saber como agir e
minha mãe a enlaçou, a apertando fortemente
contra seu peito como eu nunca tinha visto.
─ Me desculpa, meu bebê, eu sei que te feri
durante esse tempo todo que eu te deixei de lado,
e não reconheci a garota fantástica que você é,
você não merece a mãe que tem. Mesmo assim
eu, desse jeito torto e errado te amo muito e
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queria aprender um pouquinho com você a ser
uma pessoa melhor. Mas eu não sei se eu tenho
jeito não. Agora mesmo, vocês estão tão
empolgados e preocupados em mostrar apoio a
Nana e eu aqui, mesquinha como sempre, me
preocupando com o que esse bebê pode trazer de
problema, sua irmã doente, esse pai
desaparecido, a carreira dela...
Na mesma hora a Paulinha saiu do seu estado
de choque e contestou nervosa a minha mãe.
─ Mamãe, não fala isso! O Bernardo só vai
trazer coisa boa para a Nana e todos nós. Ele não
é o seu pai, ou a falta dele, nem o problema de
pressão da Nana, e nem vai atrapalhar em nada a
carreira dela, nós todos estamos aqui justamente
para garantir que isso não aconteça! Como você
pode pensar esse tipo de coisa?
Com um suspiro fundo minha mãe afundou
seu corpo, em uma atitude de desistência.
─ Não sei Paulinha, como eu disse, sou
mesmo uma mesquinha desmancha prazeres. E
não duvido que a criança se revele uma benção
tão grande quanto você, mas eu não sei apagar
esse lado calculista de mim.
Meu coração doeu por ver minha mãe falar
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aquelas coisas, eu poderia dizer que ela baixou
no meu conceito por expor seus piores defeitos
de forma tão seca, e principalmente pelas coisas
horríveis que ela disse sobre meu filho, mas uma
melancolia me gelou o sangue, deu uma pena tão
grande dela. Minha mãe, que eu sempre tinha
tido como uma mulher forte, mesmo através das
crises depressivas, agora me parecia uma menina
inconsequente, insegura e imatura demais. Tão
superficial a ponto de ver o nascimento de uma
criança, não como a felicidade que era, e sim
como fonte de problemas. Pobre da minha mãe.
Não sei se motivada pelo mesmo sentimento
de misericórdia, Paulinha puxou minha mãe para
o seu colo, beijando sua testa e falando com ela,
agora baixo demais para que eu conseguisse
ouvir e eu agradeci a isso. Tudo que eu tinha
acabado de testemunhar tinha sido demais para
mim.
Meu peito estava apertado e como minha
cabeça começou a fisgar decidi deixar as duas a
sós e fui para a cozinha tomar meu remédio de
pressão e pensar sobre tudo o que eu ouvi.
Cheguei à conclusão que minha mãe tinha
sido a mais fraca na nossa família e que sua
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atitude de valentona não passava de fachada para
sua insegurança. Mas eu não concordava com ela
que eu era tão parecida com ela, e nem estava
dizendo para me enaltecer, mas eu nunca seria
tão fria com um filho quanto ela. No entanto,
tinha que reconhecer que minha maneira de
nunca me envolver demais, de sempre esperar o
pior e não dar chance às coisas boas era herança
direta da minha mãe.
Mas então... tinha a situação com o Gabriel,
em que pela primeira vez eu consegui me abrir
um pouco e voi lá! Nem nas minhas piores
suposições o nosso caso poderia ter terminado
tão mal.
Eu ainda estava sentada, apoplética, à mesa
de almoço quando minha mãe desceu, com os
olhos inchados e passou por mim em direção ao
filtro, onde se serviu e tomou sua água em
grandes goles, entre soluços abafados.
─ Eu ouvi você.
─ E agora você me odeia?
─ Não. Como sei que a Paulinha também
não. Mas foi um choque ouvir da sua boca por
mais que às vezes eu pensasse essas coisas sobre
você, por causa da forma com que você tratava a
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minha irmã.
─ Eu não sou perfeita, Nana! Eu sei que a
gente costuma idealizar a mãe como um ser
perfeito e imaculado, mas infelizmente a mãe de
vocês duas é só uma pessoa cheia de defeitos e
erros para tentar consertar.
─ Tudo bem, mamãe. Não estou te julgando,
todos nós somos exatamente isso, não é mesmo?
Pessoas errando e acertando.
─ Acho que sim, vou descansar agora filha.
Sua irmã foi dormir. Pelo menos hoje fiz meu
papel de mãe direito.─ Não seja tão rígida com você, mamãe.
Você errou, reconheceu, isso é um grande passo.
─ Sim, assim espero!
Outro suspiro e com um beijo nos meus
cabelos ela subiu novamente as escadas.
Após esse episódio elas realmente pareceram
mais amorosas uma com a outra e como, com o
passar dos meses todos pareciam empenhados
em me manter calma e longe de qualquer risco
da minha pressão subir, minha família parecia,
como nunca, uma família de comercial de
margarina. Sem brigas, muito riso e
tranquilidade. O pior é que como eu estava cada
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dia mais nervosa, até isso me incomodava e eu
podia sentir o cheiro do medo neles, como uma
fera selvagem, a cada vez que eu aparecia. Eu
estava como uma megera, mas não podia fazer
nada para melhorar.
Minha pressão só subia e eu acabei por pedir
a minha médica que não falasse sobre isso na
frente da Paulinha e da Lívia, ia dar tudo certo,
eu sabia, mas elas alarmadas só iria me
prejudicar ainda mais.
Pelo sim, pelo não tomei várias decisões e
arrumei todas as coisas de forma que, Deus nos
livre e guarde, acontecesse algo a mim tanto o
Bernardo quanto a Paulinha estariam seguros e
bem encaminhados.
Parecia bobeira essa porção de arranjos que
eu estava fazendo, no entanto seria melhor pecar
por excesso do que por falta, e nada disso teria
importância quando eu saísse da maternidade
com meu pequeno no colo...
Quanto a assegurar o futuro da minha irmã
parecia o justo, já que eu tinha recursos
guardados suficiente para isso e eu sabia que
meus pais não tinham mais do que um fundo de
emergência guardado no banco, nada que
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realmente garantisse conforto e segurança para a
Paulinha se algo desse errado na sua meta de
cursar uma faculdade pública.
Também troquei de carro e esse simples
gesto foi o que mais marcou a mudança na minha
vida.
Eu não seria mais a garota em um FIAT 500
bonitinho, seria a mãe em uma Mitsubishi
Outlander e isso tinha um significado muito
maior do que parecia. Queria dizer não mais
irresponsabilidades, não mais inconsequências,
não mais liberdade... mas teria o Bernardo e isso
me bastaria e compensaria qualquer perda.
Faltando dois meses para o fim da gestação a
Dra. Simone bateu o martelo e me obrigou a
entrar de licença previamente, em uma última
tentativa que a pressão baixasse, o me fez correr
com os projetos que eu podia correr e passar para
meu substituto os projetos em andamento.
Qual não foi a minha surpresa ao saber que o
arquiteto que me substituiria seria ninguém mais
do que Miguel, o professor do curso que eu fiz
em Barcelona?
Sua cara de surpreso quando me viu entrar na
sala quase rolando de tão gorda era uma piada,
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mas logo que ele se refez do susto me deu um
abraço e disse o quanto tinha sentido minha falta
e o quanto estava feliz em poder trabalhar
comigo.
─ Infelizmente só por alguns dias Miguel, na
verdade você não vai trabalhar comigo e sim no
meu lugar.
─ Verdade?
Apontei a imensa causa do meu afastamento,
rindo para ele.
─ Sim, amigo. Em poucos dias eu saio de
licença, um pouco antecipada por causa de um
pequeno problema.
─ Algo sério?
─ Não, nada com que se preocupar SE eu
fizer o repouso necessário e tomar alguns
cuidados bobos.
Eu o levei para a sala que compartilharíamos
e tão logo ele se viu a sós comigo, me perguntou
em seu esforçado português com sotaque.
─ E Gabriel, Adriana, ele sabe do bebê?
Virei-me de costas para ele e caminhei até a
janela, observando a rua e fugindo do seu olhar
de condenação.
─ O que te faz pensar que a criança é do
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Gabriel?
─ Por favor, Adriana, não me tomes por um
tolo!
─ Desculpa Miguel. Você tem razão é sim do
Gabriel, mas ele não sabe e nem deve saber, por
favor, se você estiver com ele na sua volta para a
Espanha não conte nada. Eu saí de lá brigada
com o Gabriel e determinada a não ter mais nada
com ele. Eu não sabia que estava grávida, mas
isso não muda nada. O bebê é meu, Miguel, só
meu, entendido?
Virei-me de volta, com os braços cruzados,
analisando se ele ia me contestar.
─ Tu sabes melhor Adriana, pero...
─ Mas o que, Miguel? Não tem mas! Ele não
merece esse filho e pronto!
─ Perdona me, é que... Sabes? Eu o vi há
poucos dias, ele estava naquele restaurante onde
encontrei vocês dois e ele ficou furioso quando
fui falar com você. - Não consegui segurar uma
pequena risada ao lembrar da cena que eu e o
Gabriel fizemos aquela noite. ─ O homem não
parecia o mesmo, estava descuidado, estranho e
bebeu uma enormidade durante o tempo em que
fiz minha refeição. Quando acabei e fui lhe
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cumprimentar ele disse coisas sem nexo,
chegando a me acusar de ter roubado você dele.
Pedi ao garçom que o ajudasse e fui embora
antes que ele se exaltasse mais. Adriana não faço
ideia do que aconteceu entre vocês, seja lá o que
for mexeu com esse rapaz e se ele não sabe sobre
o bebê... Yo no lo sé, pero... él merece la
verdade, Adriana...
As palavras dele me pegaram desprevenida e
me abalaram muito mais do que eu deveria
mostrar. Balancei minhas mãos para cima e para
baixo em meus braços, como se estivesse frio, e
na verdade estava, não no ambiente, mas dentro
de mim, se concentrando principalmente em meu
estômago.
─ A situação é difícil Miguel, por favor,
esqueça tudo isso.
Fugi em direção ao banheiro, deixando para
trás o Miguel com uma expressão que devia
parecer tão perdida quanto a minha própria.
Molhei meu rosto e minha nunca e me sentei no
sanitário, esperando me sentir melhor. Eu estava
tonta e a já familiar dor de cabeça começava a
me rondar. Precisava ficar calma, pelo meu filho
e por mim mesma. Puxava o ar lentamente e
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soltava mais ainda, procurando me concentrar no
ritmo da minha respiração e não em tudo o que o
Miguel dissera. Não podia ser verdade. Eu não
podia ir por esse caminho, não... Eu não podia
estar tão errada. Além do mais o que adiantava
isso tudo naquele momento? Merda! Eu dava um
passo para frente e dois para trás o tempo todo!
Quando eu já estava esquecendo o Gabriel o
Miguel chega com essa história, droga!
Alcancei a pia e me arrumei novamente,
torcendo para a maquiagem fizesse mais do que
o seu serviço e escondesse minha cara inchada e
vermelha.
O Miguel estava sentado na cadeira de frente
à mesa que seria dele desde então e quando viu
que eu tinha saído se levantou e cruzou a sala,
com suas passadas largas, para me consolar, mas
eu estava tão cega e determinada a não voltar a
sofrer pelo Gabriel que eu o afastei friamente.
─ Por favor, Miguel, eu estava falando sério.
Que esse assunto acabe aqui, não quero saber
mais nada do Gabriel. Vamos nos ater ao nosso
serviço, eu tenho que te passar muita coisa e
pouco tempo para fazer isso.
Os próximos dias foram de muito trabalho
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por isso eu tratei de cortar o climão que tinha se
instaurado entre nós, acabou que foi muito
agradável esse tempo. O Miguel era um
profissional excelente, um bom papo e um
homem galante, deixando claro que as cismas do
Gabriel com ele não eram tão infundadas assim,
apesar dele nunca ter atravessado a linha comigo.
Era respeitoso e cordial, a única coisa que me
incomodava um pouco era o olhar de piedade
que eu percebia às vezes. Não havia motivo
nenhum para ter pena de mim e isso era quase
ofensivo, mesmo assim eu procurava ignorar e
seguir trabalhando da melhor forma possível.
No meu último dia de trabalho meus colegas
fizeram uma enorme festa e Chá de Bebê e eu
precisei que a Lívia fosse até ao escritório para
levarmos as coisas do Bernardo em dois carros.
Duas semanas depois foi a vez da Lívia e da
Paulinha aprontarem para mim outro Chá de
Bebê, esse sim oficial com todas as nossas
amigas presentes e era tanta coisa que eu tinha
certeza que não precisaria comprar roupa,
calçado, fralda e utensílios para o Bernardo por
todos os primeiros anos dele. Meu pequeno nem
ao menos tinha nascido e jáera cercado por rios
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de amor!
 
 
As últimas semanas têm sido um pavor...
Pela primeira vez desde que voltei da
Espanha tenho tido tempo de sobra e passo todo
ele tentando me ocupar com algo para não pirar.
Sabe quando os pensamentos não vêm ordenados
e sim como bolas elásticas que ficam quicando
na sua cabeça e voando para todos os cantos?
Tipo assim! Com isso a pressão só sobe, estou
inchada e irritada 25 horas por dia.
Ser mãe deveria ser o ponto alto da vida de
uma mulher, então por que tudo é tão
complicado?
O telefone toca e só de ver aquele nome na
tela meu humor baixou muitos graus. Maldita
Heloísa, não me deixa em paz de forma
nenhuma! Essa é primeira vez que ela liga depois
da minha conversa com o Miguel e vou tirar a
limpo essa história de uma vez por todas.
─ Adriana, querida! Como vai? E o bebê já
nasceu?
Ela sempre foi assim? Por que de repente eu
não suportava esse excesso de simpatia?
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─ Oi Heloísa, ainda não, mas é para qualquer
hora.
─ Que bom querida, você deve estar tão
feliz.
─ Claro que estou. Feliz e ansiosa para
conhecer meu filho. Heloísa para que você ligou?
Falo secamente, deixando claro que não
estou com paciência para conversa fiada.
Ela me responde com o tom magoado mais
falso que eu já tinha ouvido, mal disfarçando sua
irritação.
─ Nossa Adriana, só liguei para saber de
você e do seu bebê. O que houve com você?
─ O que houve comigo, Heloísa? Vou te
falar o que houve comigo. Eu estou prestes a dar
à luz uma criança que é fruto do grande amor da
minha vida e vou fazer isso sozinha, e sabe
Heloísa eu tenho me questionado muito se estou
certa em fazer as coisas desse modo. Sabe quem
é o arquiteto que está me substituindo? O
Miguel. E sabe o que ele me disse? Que
encontrou o Gabriel bêbado e o acusando de ter
fugido comigo.
─ Adriana, isso não...
─ Não Heloísa! – corto bruscamente. ─
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Dessa vez, você só escuta. Essas coisas
simplesmente não batem. Eu fui burra em ter te
ouvido e não ter dado chance para ele se
explicar. Seja o que tenha acontecido, seja com
quem ele estiver, tão logo o Bernardo nasça eu
vou entrar em contato com ele e jogar as cartas
na mesa, estou disposta a escutar o lado dele, o
mesmo que você me impediu de ouvir de forma
tão contundente. Eu não faço isso por mim, mas
pelo meu filho que tem o direito de saber quem é
o pai, e pelo próprio Gabriel que tem o direito de
pelo menos escolher se quer ou não participar da
vida do nosso filho. Agora Heloísa, você me
perdoa, mas eu não quero mais ouvir seus
argumentos, você sempre consegue me levar
para longe do que eu quero. Não me faça mais
essas ligações insistentes, elas fazem mal a mim
e ao meu filho. Adeus.
Melhor encerrar a ligação sem dar a ela
sequer a possibilidade de responder, e é isso que
eu faço.
Tudo isso é uma bela porcaria e agora me
dou conta do quanto eu posso ter sido injusta
esse tempo todo com o Gabriel. Eu devia falar
com a Lili, me abrir e pedir que o Lucas
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verificasse se é verdade que ele está mal. Eu me
afastei tanto do Lucas nos últimos meses com
medo dele falar algo do Gabriel ou de que ele
juntasse dois e dois e descobrisse quem era o pai
do Bê, que não me dei conta que a chave de tudo
estava em me abrir com a Lili e ele. Os dois mais
do que tudo eram nossos amigos e iriam nos
ajudar.
Deus, como eu fui burra! Burra, teimosa e
egoísta!
Minha cabeça dói tanto! A ideia de ter sido
injusta durante esse tempo todo me pegou como
um golpe na boca do estômago e me fez enjoar.
Coloca para fora tudo o que tinha comido e a
minha cabeça agora parece um campo de guerra,
dor de um lado, sentimento de culpa do outro! Eu
tomo os remédios que a médica tinha me
passado, uns tranquilizantes fraquinhos, que não
afetariam o Bernardo, mas a dor só piora. Agora
vou ter que chamar alguém, não vai ter jeito!
─ Mãe! Mãe me ajuda, por favor! Minha
cabeça está doendo muito.
Ok, Dona Ruth essa cara aí não é o que eu
chamo de ajuda!
─ Nana, desde quando você está sentindo
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essa dor?
─ Desde mais cedo, há umas duas ou três
horas. Tentei dormir um pouco para ver se
passava, mas só piorou.
Escolho não falar que começou depois do
telefonema da Heloísa, eu teria que explicar tudo
para ela e agora estou tão letárgica que não
consigo sequer conectar meus pensamentos.
─ E só agora você me chama? Adriana isso
pode ser sério, vamos correr para o hospital
agora!
Não conseguia mais articular minha fala,
então só concordei em um sussurro.
─ Tá...
Minha mãe corre pra cá, a Paulinha pega
chave de carro, meu pai as bolsas e eu estou
tonta, a cabeça estourando, não consigo mais
entender muita coisa. Paulinha corre como louca,
quero falar que não foi assim que eu ensinei a
ela, mas não consigo, minha língua está estranha,
fico quieta, estou agitada, minha mãe está
chorando, passando a mão no meu cabelo,
pedindo para eu ficar aqui, ficar com ela. Chora
não mãe! Eu estou aqui, não estou? Chegamos ao
hospital, meu pai corre na frente, não vejo mais
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nada, acordo numa sala iluminada. Um monte de
vozes, pessoas nervosas, falando depressa.
─ Doutora anda logo, estamos perdendo ela.
A pressão não para de subir.
Estão perdendo quem? Devem estar falando
de mim. A cabeça ainda dói, dói demais! Alguma
coisa está muito errada, eu estou com medo.
Penso no Bernardo, não pode acontecer nada
com ele. Penso no Gabriel, se acontecer algo
comigo o Bernardo nunca vai conhecer o pai, o
Gabriel não vai saber do filho! Meu Deus, o que
eu fiz?
Mas agora, meu medo é que ele esteja em
perigo, não pode! Ele tem que ficar bem!
Chamo alguém com a mão.
─ Por favor, meu bebê, salva o meu bebê.
Ela me olha por sobre a máscara, tem dor nos
olhos dela, mas ela aperta a minha mão.
─ Fica tranquila Adriana, nós vamos salvar o
bebê.
Ela se vira para frente e grita.
─ Doutora, por favor, ela não vai aguentar.
Eu acho que não vou mesmo, a dor é terrível!
Eu escuto um grito, um choro forte, é ele! O
Bernardo está bem! Graças a Deus!
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Não vejo e nem escuto mais nada!
 
 
 
 
 
 
 
 
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EPÍLOGO
Você poderia imaginar que o pior era estar
longe das pessoas que eu amava, ou pior... Não
poder sequer ter segurado o Bernardo em meus
braços.
Não. O pior era a consciência do mal que
minhas decisões provocariam para ele, para a
Paulinha, minha mãe, meu pai, a Lívia...
Era vê-los sofrer por mim sem poder fazer
nada para ajuda-los. Minha mãe rejeitando meu
filhinho e novamente errando com a Paulinha,
deixando-a sozinha sem opção a não ser puxar
para si a responsabilidade de cuidar do Bernardo,
já que eu fui irresponsável e infantil demais para,
pelo menos, ter dito a alguém quem era o pai
dele.
Saber que o Gabriel sofria pelo fim do nosso
relacionamento e que tão longe dele tinha um
pedacinho nosso que só teria ele no mundo e que
por minha causa os dois estavam afastados e
minha irmãzinha se sobrecarregando com
obrigações que não eram dela, rasgavam meu
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peito com a dor mais cruel do que eu poderia
imaginar.
Me senti terrivelmente culpada quando
minha mãe não suportou a minha perda, mesmo
sabendo que isso era só a parte visível de uma
doença que já a comia por dentro há muitos anos.
A depressão, a frieza, a rigidez eram somente
os sintomas da mágoa que ela sentia por julgar
que não tinha conseguido da vida tudo o que ela
podia ou merecia, por não ter alcançado o
patamar de vida que ela sonhou
profissionalmente e, depois, ver seu sonho
projetado em mim mais uma vez se esfacelar.
Mas estranhamente minha culpa e dor foram
se desfazendo à medida que eu via como a
Paulinha se comportava com o Bernardo.
Escutei cada uma das conversas que ela tinha
com ele, sempre tão amável e maternal.
Vi como ela vencia sozinha e determinada,
cada nova descoberta sobre como cuidar de um
bebê,sem nunca reclamar, nem com as pessoas,
nem mesmo sozinha.
A forma com que acolhia ele em seus braços
amorosos, como eu sonhei em fazer tantas vezes,
o cheirando e segurando seus pequenos dedos
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gorduchinhos. O desvelo com que cuidava de
cada necessidade dele sem que ninguém tivesse a
ensinado a fazer isso.
O Bernardo crescia lindo, saudável e esperto.
E nesse processo nascia uma mulher forte,
determinada, carinhosa.
Quando nossa mãe enfim veio ao meu
encontro, ao invés de chorar e se lamentar, a
Paulinha a perdoou e seguiu cuidando não só do
Bernardo agora, mas do meu pai e da casa
também.
Às vezes eu sentia sim uma pontada de
ciúmes de ver como ela me substituíra, mas
então eu reconhecia que tinha sido o melhor que
poderia acontecer para o meu filho. Minha irmã
pequena era muito melhor para ele do que eu
jamais poderia ter sido.
Mas isso não mudava o fato de que ela era
uma menina apenas e me cortava o coração de
ver como ela congelara a sua própria vida para
assumir tarefas que caberiam a mim... ou ao
Gabriel.
Cada vez mais a ideia de que ele era o que
faltava ao Bernardo me atormentava. O quanto
eu poderia interferir na minha atual condição? Se
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me fosse dada, ao menos, a oportunidade de
sussurrar ao ouvido Gabriel que voltasse ao
Brasil, eu tinha certeza de que tudo se
precipitaria e se resolveria.
Nem em mil anos eu poderia prever o que
aconteceu a partir daí, e me exigiu um grande
desprendimento, e, mais do que isso: a
humildade de reconhecer de que fui uma simples
ponte entre as duas pessoas que eu mais amei em
vida e o meu amor maior, que era meu maior
legado e minha obra mais perfeita.
Testemunhei da minha posição privilegiada o
nascimento de algo mágico. A cada vez que eu
via nos olhos do Gabriel um brilho diferente, que
nunca me pertenceu e que era todo dirigido a
minha irmã mais nova, a cada vez que eu
percebia o quanto ele a venerava realmente e que
era tão justa essa veneração porque ela era tudo o
que ele precisava e eles se combinavam de uma
forma nós nunca iríamos nos combinar.
E isso era exatamente do que meu filho
precisava.
E então as coisas se encaixaram todas em
seus lugares certos... Cada um de nós nada mais
era do que uma única engrenagem acoplada
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numa estrutura muito maior do que podíamos
ver, e a cada um coube se ligar às outras
engrenagens e assim, fazer a roda girar.
Ou melhor, fomos um elo, ligados uns aos
outros de forma invisível, mas formando
correntes eternas que por sua vez se juntavam a
outras correntes construindo nossa rede de afetos
e amores.
Eu fui o elo entre a Paulinha e o Gabriel, mas
eles estavam destinados a algo muito maior.
Estavam destinados a formarem sua própria
corrente. Um lindo cordão, só deles, onde meu
filho amado e seus irmãos, meus lindos
sobrinhos, seriam as contas mais lindas, minha
irmã tão responsável e correta e o meu ex-amor,
meu amor eterno e cunhado seriam os elos mais
fortes e que se uniria a muitas outras correntes,
tocando e influenciando com seu exemplo de
amor e compreensão todos os amigos e pessoas
próximas.
Um cordão tão lindo quanto aquele com o
qual eu fui presenteada por um certo homem
charmoso anos atrás, quem diria que aquele gesto
daria início a uma história tão intensa? Quem
diria que aquela história seria somente o início de
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algo muito maior?
 
 
 
 
 
 
 
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Play List Envolvidos (Músicas para
entrar no clima da história)
 
1 - ORAÇÃO – A BANDA MAIS BONITA
DA CIDADE
2 – AVENTURA – EDUARDO DUSEK (Essa
música é simplesmente a essência da Nana)
3 – WHAT A WONDERFUL WORLD –
LOUIS ARMSTRONG
4 – FAMÍLIA – TITÃS
5 –EDUCAÇÃO SENTIMENTAL- KID
ABELHA
6 – EU PRECISO APRENDER A SER SÓ –
ELIS REGINA
7 – CANÇÃO DA AMÉRICA – MILTON
NASCIMENTO
8 – APENAS MAIS UMA DE AMOR –
LULU SANTOS
9 – PRA SER SINCERO – ENGENHEIROS
DO HAWAI
10 – SI TÚ ME MIRAS – ALEJANDRO
SANZ
11 - GAROTA NACIONAL – SKANK
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12 – PAIXÃO – KLEITON E KLEDIR
13 – BEM QUE SE QUIS – MARISA MONTE
14 – TÁ COMBINADO – GAL COSTA
15 – VOCÊ – TIM MAIA
16 – FAREWELL – RIHANNA
17 – PISCAR O OLHO – TIÊ
18 – NOITE – TIÊ
19 – SIMPLESMENTE ACONTECEU – ANA
CAROLINA
20 – FORÇA ESTRANHA – CAETANO
VELOSO
21 – METADE – ADRIANA CALCANHOTO
22 – BRINCAR DE VIVER
23 – ALÉM DO HORIZONTE – NARA
LEÃO
24 – ZERO – LINIKER E OS
CARAMELOWS
 
 
[1] ─ Muito bem, sua explicação me encantou
muito. Qual o seu nome, querida? E de que país
vem?
 ─ Obrigada, professor. Meu nome é Adrian
Neumann e venho do Brasil.
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[2] Você não retornará aqui, com ou sem ajuda da
leoa .
 
[3]Da Espanha você levará o seu maior tesouro, mas
não chegará a voltar aqui. Que Deus receba a tua
alma em Sua Glória, criança .
[4]Pronto! Agora vocês acordaram um monstro! Só vão sair daqui
pela manhã, uma história leva a outra e quando se vê, já foi a noite
embora!
[5] Aonde vais Catalão?
[6] Eu vou a Catalunha, graças a Deus!
[7] E se Deus não quiser... Sapo!
[8] Esse é o telefone privado do Gabriel e aqui é a namorada
dele, por gentileza delete esse número e se dirija ao seu
escritório se o assunto for profissional, no caso de assunto
pessoal simplesmente o esqueça.
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