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BIOÉTICA 
Samantha Brum Leite
Alívio da dor de pacientes 
terminais e morte 
medicamente assistida
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Analisar aspectos relevantes dos tratamentos de alívio da dor de 
pacientes terminais.
 � Reconhecer o funcionamento do princípio de duplo efeito para alívio 
da dor.
 � Identificar em que contextos a sedação paliativa é eticamente aceita. 
Introdução
Neste capítulo, você vai estudar sobre a terminalidade da vida. Muitas 
doenças ou condições clínicas acarretam danos cuja cura não é possível; 
desse modo, os pacientes em seu estado terminal, normalmente, apre-
sentam a dor como um sintoma inerente. Nesses casos, a conduta a ser 
realizada com o paciente deve ser baseada nos cuidados paliativos, que 
se tratam de uma forma humanizada de aliviar os sintomas associados 
à doença. 
Uma das formas de aliviar a dor é por meio da sedação paliativa, a qual 
é confundida com outros conceitos como eutanásia e suicídio assistido e, 
por isso, pode suscitar levantamentos éticos sobre a sua realização.
Paciente terminal e cuidados paliativos
Antes de pensar sobre os desafios de um paciente em condição de termi-
nalidade, é importante determinar o que é um paciente terminal. Podemos 
considerar um paciente terminal quando ele se torna irrecuperável, ou seja, a 
morte será um processo certo e que não é possível reverter. Além disso, não 
há critérios que estabelecem a terminalidade como algo fixo; o processo pode 
ser diferente conforme o diagnóstico e os aspectos de prognóstico de cada 
indivíduo. (GUTIERREZ, 2001).
Diante disso, deve-se ressaltar que, apesar da terminalidade, essa condição 
não representa que não há mais nada a se fazer, pelo contrário, há diversas 
formas de se trabalhar com pacientes terminais, sobretudo, para que não haja 
sofrimento. O cuidado com esse tipo de paciente envolve o alívio da dor, a 
diminuição do desconforto, a garantia da autonomia e a promoção de conforto 
e manutenção da dignidade. A denominação para esse tipo de tratamento é 
cuidado paliativo (GUTIERREZ, 2001).
O cuidado paliativo baseia-se na valorização da vida e entende a morte 
como um processo natural. O Cuidado Paliativo é uma abordagem que tem 
como objetivo promover a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, 
que enfrentam doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio da 
prevenção e alívio do sofrimento. Requer uma identificação precoce, avalia-
ção e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial 
e espiritual.
Além disso, o cuidado paliativo deve ser entendido como uma humanização 
do tratamento, não devendo considerar apenas os protocolos e as condutas da 
prática de atendimento. Sobre os cuidados paliativos:
 � é necessário tanto em condições crônicas como em condições de risco 
e limitação de vida;
 � não há um limite de tempo ou prognóstico no tratamento paliativo;
 � pode ser realizado em todos os níveis de atenção, desde a primária até 
quaternária;
 � é prestado independentemente do local onde o indivíduo esteja, seja na 
sua residência ou na unidade de internação hospitalar.
Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida2
A abordagem do cuidado paliativo, apesar de parecer ser um processo 
único, se difere conforme a OMS classifica para adultos e crianças (Quadro 1). 
Para as crianças o cuidado é total: corpo, mente, espírito, além de estender os 
cuidados de apoio para a família. Conforme o Manual de Cuidados Paliativos 
da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP):
[...] Cuidados Paliativos estão indicados para todos os pacientes (e familiares) 
com doença ameaçadora da continuidade da vida, em concomitância com 
os cuidados curativos, por qualquer diagnóstico, com qualquer prognóstico, 
seja qual for a idade, e a qualquer momento da doença em que eles tenham 
expectativas ou necessidades não atendidas (CARVALHO; PARSONS, 2012, 
documento on-line).
Princípios dos cuidados 
paliativos conforme a OMS
Princípios dos cuidados paliativos 
para crianças conforme a OMS
 � Promover o alívio da dor e de 
outros sintomas angustiantes.
 � Afirmar a vida e considerar a morte 
como um processo normal da vida.
 � Não acelerar nem adiar a morte.
 � Integrar os aspectos psicológicos e 
espirituais no cuidado ao paciente.
 � Oferecer um sistema de suporte e 
apoio que possibilite ao paciente 
viver o mais ativamente possível 
até o momento da morte.
 � Oferecer sistema de suporte para 
auxiliar os familiares durante a 
doença do paciente e ao enfrentar 
o luto.
 � Abordagem multiprofissional 
para focar as necessidades dos 
pacientes e seus familiares, 
incluindo aconselhamento sobre 
o luto.
 � Melhorar a qualidade de vida e 
influenciar positivamente o curso 
da doença.
 � Iniciar no momento do 
diagnóstico, independentemente 
se a criança receber ou não o 
tratamento direcionado para a 
doença;
 � Os profissionais de saúde devem 
avaliar e aliviar o sofrimento físico, 
psicológico e social;
 � Abordagem multidisciplinar 
para focar as necessidades dos 
pacientes e seus familiares e fazer 
uso de recursos comunitários 
disponíveis, mesmo que sejam 
limitados;
 � Pode ser fornecido em instalações 
de cuidados terciários, em centros 
de saúde comunitários e até 
mesmo em lares de crianças.
Quadro 1. Princípios dos cuidados paliativos conforme a OMS
(Continua)
3Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida
Fonte: Adaptado de WHO (2014).
Quadro 1. Princípios dos cuidados paliativos conforme a OMS
Princípios dos cuidados 
paliativos conforme a OMS
Princípios dos cuidados paliativos 
para crianças conforme a OMS
 � Deve ser iniciado o mais 
precocemente possível, 
juntamente com outras medidas 
de prolongamento da vida, como 
a quimioterapia e a radioterapia 
e incluir todas as investigações 
necessárias para melhor 
compreender e gerenciar situações 
clínicas estressantes.
(Continuação)
Além do cuidado paliativo, há o cuidado hospice, que consiste em um 
cuidado paliativo a qualquer paciente que necessite dos cuidados e cuja ex-
pectativa de vida for inferior a seis meses. Normalmente o atendimento é 
realizado em casa ou em casas de repouso. Os cuidadores tentam controlar 
a dor e outros sintomas para que uma pessoa possa permanecer tão alerta e 
confortável quanto possível (CAMPBELL, 2011).
Um dos aspectos que deve ser considerado no tratamento de pacientes 
terminais é o respeito aos princípios bioéticos, visto que todas as decisões da 
equipe devem considerar a beneficência e a não maleficiência e cujos pro-
cedimentos devem se basear na autonomia do paciente. As condutas são em 
função da manutenção da qualidade de vida e da dignidade humana durante o 
período de ocorrência da doença na terminalidade da vida, na morte e no luto.
Além disso, conforme o Código de Ética Médica, há várias determinações 
relacionadas ao cuidado com pacientes terminais para o tratamento paliativo 
(BRASIL, 2019):
 � Capítulo I – Princípios fundamentais: nas situações clínicas irrever-
síveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos 
diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes 
sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados.
 � Capítulo V – Relação com pacientes e familiares: salvo por motivo justo, 
comunicado ao paciente ou à sua família, o médico não abandonará o 
Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida4
paciente por este ter doença crônica ou incurável e continuará a assisti-
-lo e a propiciar-lhe os cuidados necessários, inclusive os paliativos.
 � Capítulo V – Relação com pacientes e familiares: nos casos de doença 
incurável e terminal, deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos 
disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis 
ou obstinadas, levando sempre em consideração a vontade expressa 
do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal.
Para a determinaçãoda conduta a ser seguida com os pacientes, o Victoria 
Hospice, no Canadá, desenvolveu, em 1996, a Palliative Performance Scale 
(PPS), cuja tradução seria Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos 
(Quadro 2). O objetivo dessa elaboração era de realizar a avaliação funcional 
do paciente e assim determinar a evolução da doença. Segundo o documento, 
a PPS tem utilidades:
 � é um excelente instrumento de comunicação que descreve rapidamente 
o estado funcional atual do paciente;
 � pode ser útil como critério de avaliação de capacidade de trabalho e 
outras medidas e comparações;
 � parece ter valor prognóstico.
%
Deam-
bulação
Atividade 
e evidência 
da doença
Autocui-
dado
Ingesta
Nível da 
consciência
100 Completa Atividade 
normal e 
trabalho; sem 
evidência de 
doença
Completo Normal Completa
90 Completa Atividade 
normal e 
trabalho; 
alguma 
evidência de 
doença
Completo Normal Completa
Quadro 2. Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos
(Continua)
5Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida
Fonte: Adaptado de Victoria Hospice Society (2009).
Quadro 2. Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos
%
Deam-
bulação
Atividade 
e evidência 
da doença
Autocui-
dado
Ingesta
Nível da 
consciência
80 Completa Atividade 
normal com 
esforço; alguma 
evidência de 
doença
Completo Normal 
ou 
reduzida
Completa
70 Reduzida Incapaz para 
o trabalho; 
doença 
significativa
Completo Normal 
ou 
reduzida
Completa
60 Reduzida Incapaz para 
hobbies/
trabalho 
doméstico; 
doença 
significativa
Assistência 
ocasional
Normal 
ou 
reduzida
Completa 
ou períodos 
de confusão
50 Maior parte 
do tempo 
sentado ou 
deitado
Incapacitado 
para qualquer 
trabalho; 
doença extensa
Assistência 
conside-
rável
Normal 
ou 
reduzida
Completa 
ou períodos 
de confusão
40 Maior parte 
do tempo 
acamado
Incapaz para 
a maioria das 
atividades; 
doença extensa
Assistência 
quase 
completa
Normal 
ou 
reduzida
Completa ou 
sonolência; 
+/- confusão
30 Totalmente 
acamado
Incapaz para 
qualquer 
atividade; 
doença extensa
Depen-
dência 
completa
Depen-
dência 
com-
pleta
Completa ou 
sonolência; 
+/- confusão
20 Totalmente 
acamado
Incapaz para 
qualquer 
atividade; 
doença extensa
Depen-
dência 
completa
Mínima 
a pe-
quenos 
goles
Completa ou 
sonolência; 
+/- confusão
10 Totalmente 
acamado
Incapaz para 
qualquer 
atividade; 
doença extensa
Depen-
dência 
completa
Cuida-
dos com 
a boca
Completa ou 
sonolência; 
+/- confusão
0 Morte - - - -
(Continuação)
Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida6
Para o entendimento da Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos, a definição 
de alguns conceitos é importante. Acesse o link a seguir e consulte o documento 
elaborado pelo Victoria Hospice, que traz informações referentes à interpretação de 
cada um dos itens da escala.
https://qrgo.page.link/h3QhU
Em dados divulgados pela OMS, em 2014 o Brasil foi considerado por-
tador do nível 3a na Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos junto 
com Rússia, México e países do Sudeste Asiático, no desenvolvimento de 
cuidados paliativos, o que representa que ele tem uma provisão isolada. 
A classificação é em:
 � Nível 1: nenhuma atividade detectada;
 � Nível 2: em capacitação;
 � Nível 3a: provisão isolada;
 � Nível 3b: provisão generalizada;
 � Nível 4a: integração preliminar;
 � Nível 4b: integração avançada.
Não é obrigatório que se tenha locais exclusivos para a prestação do atendi-
mento paliativo, no entanto, é importante que se tenha profissionais de saúde e 
equipes que sejam referência nesse cuidado para orientar melhor quais ações 
paliativas serão desempenhadas conforme os pacientes. Assim destaca-se a 
relevância de se ter profissionais de saúde que estejam preparados para atender 
pacientes na terminalidade (GOMES; OTHERO, 2016; VASQUES et al., 2016). 
Aspectos importantes para o alívio da dor
Para a análise de definição de qual conduta paliativa deve ser estabelecida para 
cada paciente, primeiro é necessário entender o conceito de dor. Segundo a 
Associação Internacional para o Estudo da Dor, a dor pode ser entendida como 
uma experiência sensitiva e emocional desagradável, associada a dano real 
ou potencial dos tecidos, ou descrita em termos de tais lesões. De modo que 
7Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida
“a dor é uma experiência única e individual, modificada pelo conhecimento 
prévio de um dano que pode ser existente ou presumido, ou seja, em qualquer 
situação a dor é o que o paciente refere e descreve”.
Classificar corretamente a dor é um desafio, visto que ela pode ser disposta 
de várias formas, como mecanismo fisiopatológico, perfil de duração, noci-
cepção e localização. A determinação da evolução dos sintomas depende de: 
identificação da causa da dor, seu mecanismo e fatores não físicos envolvidos 
com a expressão e a discriminação detalhada da dor (a qual depende de boa 
anamnese, exame físico e complementar, além da avaliação funcional). 
Logo, fatores como idade, sexo, doença ou condição clínica prévia também 
são fatores diferenciais quando se trata de pacientes terminais. Com o envelhe-
cimento da população, as doenças crônico-degenerativas tendem a aumentar. 
Majoritariamente, os adultos que necessitam de cuidados paliativos vão a óbito 
por doenças cardiovasculares (38,5%) e câncer (34%), seguidos por doenças 
respiratórias crônicas (10,3%), HIV/AIDS (5,7%) e diabetes (4,5%). Aqueles que 
necessitam de cuidados paliativos e que morrem de HIV/AIDS se concentram 
na faixa etária mais jovem (de 15 a 59 anos), enquanto aqueles que morrem de 
Alzheimer, Parkinson, doenças respiratórias crônicas, doenças cardiovascu-
lares, diabetes, artrite reumatoide e câncer estão predominantemente na faixa 
etária mais avançada (BRASIL, 2009; WHO, 2014; GAYOSO et al., 2018).
Após o entendimento da dor e quais são as variáveis associadas a ela, o 
tratamento para o seu alívio deve ser um trabalho realizado por uma equipe 
multidisciplinar com base em tratamentos farmacológicos e não farmacoló-
gicos, como apoio psicológico e social, fisioterapia e apoio religioso, dentre 
outros. Cuidados básicos também de acompanhamento convencional das 
doenças, como colheita de materiais para a realização de exames, aspiração 
de secreções, presença de cateteres e tubos devem ser conduzidos de modo 
a minimizar os desconfortos associados, considerando os riscos e benefícios 
do seu uso. 
Para o tratamento farmacológico, conforme a OMS, a abordagem por 
analgésicos deve considerar o grau da dor pela Escala Visual Numérica (EVN), 
determinada pelo próprio paciente. 
 � Dor leve (EVN 1 a 3): paracetamol ou dipirona.
 � Dor moderada (EVN 4 a 6): combinação de opioide fraco ou opioide 
forte em dose baixa, com paracetamol ou dipirona.
 � Dor intensa (EVN 7 a 10): combinação de opioide forte com paracetamol 
ou dipirona.
Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida8
Outros medicamentos, como anti-inflamatórios, podem ser administra-
dos concomitantemente caso seja necessário. Entretanto, deve-se optar pelo 
tratamento mais simples e cuja via de administração seja menos invasiva.
O tratamento não farmacológico pode se basear em medidas físicas e 
reabilitadoras, como técnicas de relaxamento, terapia física por aplicação de 
calor ou frio (conforme a situação), acupuntura, massoterapia, neuroestimu-
lação elétrica transcutânea e procedimentos anestésicos e neurocirúrgicos, 
medidas educativas, psicoemocionais e comportamentais e, ainda, terapias 
alternativas como Pilates e musicoterapia, dentre outras. Essas abordagens 
geralmente ocorrem de forma complementar ao uso de medicações e devem ser 
empregadas como humanização. Talvez esse seja um dos maiores desafios em 
relação aos cuidados paliativos. São necessários recursos humanos que sejam 
capazes de tratar as diversas implicações associadas à dor, mas também de 
tratar o sofrimento psicológico, decorrenteda sua condição clínica, e fornecer 
apoio emocional. Cuidadores familiares aptos devem ser treinados, equipados 
e encorajados por médicos a fornecer cuidados básicos de enfermagem e ad-
ministração de medicamentos. De forma complementar, há o aconselhamento 
espiritual, o qual deve ser facilitado, caso o paciente assim deseje, respeitando 
as crenças e as necessidades do paciente e da família (WHO, 2018; GAYOSO 
et al., 2018; ALVES NETO, 2009).
Além de todos esses aspectos, até que o paciente terminal realmente receba 
um tratamento para o controle da dor, algumas intercorrências podem ocorrer, 
como a não adesão ao tratamento, a resistência à prescrição de opioides como 
tratamento de escolha pelos médicos ou o pensamento de que a dor é um 
processo inevitável em razão da condição clínica (BRASIL, 2009).
Segundo dados da OMS divulgados em 2011, mais de 29 milhões de pessoas morreram 
de doenças exigindo cuidados paliativos, sendo a maioria adultos (94%), dos quais 
69% têm mais de 60 anos e 25% têm 15 a 59 anos. Apenas 6% de todas as pessoas 
que necessitam de cuidados paliativos são crianças. Com base nessas estimativas, a 
cada ano no mundo, cerca de 377 adultos (mais de 15 anos) em 100 mil habitantes e 
63 crianças (menos de 15 anos) em 100 mil pessoas precisarão de cuidados paliativos 
no final da vida.
9Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida
Princípio de duplo efeito para alívio da dor
Uma das formas de tratamento paliativo quando a doença já se encontra em 
estágio avançado com presença de vários sintomas causadores de sofrimento 
físico, psicoemocional e/ou espiritual é a sedação paliativa. Pela ANCP (BRA-
SIL, 2009, documento on-line), entende-se a sedação paliativa como “[...] a 
administração deliberada de fármacos em doses e combinações necessárias 
para reduzir o nível de consciência, com o consentimento do paciente ou de 
seu responsável, e possui o objetivo de aliviar adequadamente um ou mais 
sintomas refratários em pacientes com doença terminal avançada”. Não há um 
protocolo especifico e há grande variabilidade em aspectos como o momento 
mais adequado para a realização, as medicações escolhidas, a dose das drogas, 
a via de administração e a duração da sedação.
A sedação paliativa tem como indicações em quadros de delírio agitado, 
dispneia e dor, classificados como (1) sintomas refratários, além de (2) quadro 
agudo ameaçador da vida em tempo curto e (3) morte iminente (horas a dias) 
com sofrimento intenso. Antes de realizar o procedimento, é indispensável que 
se tenha um entendimento e um tratamento da angústia do paciente, visto que, 
apesar de haver sofrimento existencial, ele pode estar acordado, alerta, lúcido 
e sem sintoma físico associado. Desse modo, a distinção entre os sintomas dos 
sentimentos de angústia, ansiedade, frustração, impotência, onipotência, falta 
de informação e medo da própria morte devem ser interpretados e diferenciados 
em relação à situação de incurabilidade e morte próxima. 
Assim, temos a presença do princípio do duplo efeito, que determina que 
a sedação paliativa é moralmente aceita conforme duas premissas: (1) diminui 
o sofrimento físico e psicológico e (2) diminui o tempo de vida do paciente. 
Apesar da negatividade da redução do tempo de vida, há mais benefícios ao 
indivíduo, o que remete ao princípio da beneficência. O objetivo é aliviar o 
sofrimento e, se após a conduta clínica não se tem outras formas de aliviar o 
sofrimento, se tornar aceitável (BRASIL, 2009).
Veja a Figura 1 a seguir.
Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida10
Figura 1. Algoritmo para indicação de sedação paliativa.
Fonte: Brasil (2009, documento on-line).
Sintomas refratários
Sofrimento insuportável
Prognóstico limitado
Sem outras opções de tratamento sem 
comprometer o nível de consciência
Consulta com especialista
Competência do paciente
Dúvidas?
SIM
SIMNÃO
Valorizar o desejo 
da família1
o) Vontades 
antecipadas, 
diretrizes prévias
2o) Valores e desejos 
prévios 
(história clínica)
3o) Família, agregados
Desejo explícito do paciente
SIM
Consentimento informado 
(verbal ou escrito)
• Compartilhar 
a decisão com a 
equipe
• Registrar no 
prontuárioINDICAR SEDAÇÃO PALIATIVA
SIM
Dúvidas?
Consulta com especialista
Considerações éticas sobre sedação paliativa
Pela indicação da sedação paliativa, ela se torna aceitável com base no princípio 
de duplo efeito, importante para o alívio da dor. Para isso, deve-se distin-
guir o que é sedação paliativa, eutanásia e suicídio assistido, visto que o não 
conhecimento de em que consiste cada um desses procedimentos acarreta 
implicações éticas à sedação paliativa. Conforme a Academia Nacional de 
Cuidados Paliativos – ANCP (c2017), os conceitos são os seguintes.
11Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida
 � Sedação paliativa: uso de medicamentos sedativos específicos para 
aliviar sofrimento intolerável causado por sintomas refratários e que 
reduzem o nível de consciência. Utilizada em pacientes com doença 
avançada terminal e com o consentimento do paciente (ou responsável).
 � Eutanásia: é a ação deliberada de provocar uma morte rápida por meio 
da administração de drogas letais, a pedido do paciente.
 � Suicídio assistido: o médico prove os meios (medicação, prescrição e 
informação) ou outras formas de intervir no nível de consciência para 
o paciente cometer o suicídio.
Dentre os procedimentos realizados na terminalidade há a distanásia, cujo conceito 
é caracterizado por um conjunto de tratamentos médicos que visam a estender a 
sobrevida do paciente em fase terminal, deixando em segundo plano a qualidade de 
vida dele. Já a ortotanásia determina que a morte siga seu processo natural conside-
rando a qualidade de vida.
A principal diferença entre as condutas diz respeito ao sujeito que realiza a 
ação, visto que na sedação paliativa e na eutanásia é o médico ou alguém que 
realiza, enquanto no suicídio assistido é o paciente que provoca a sua própria 
morte. Pela legislação brasileira, o suicídio assistido é considerado crime pelo 
art. 122 do Código Penal.
[...] Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que 
o faça:
Pena – reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de 
um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza 
grave.
Parágrafo único. A pena é duplicada:
Aumento de pena
I – se o crime é praticado por motivo egoístico;
II – se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade 
de resistência. (BRASIL, 1940, documento on-line).
Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida12
Veja a seguir o Quadro 3:
Fonte: Adaptado de Carvalho e Parsons (2012).
Sedação paliativa Eutanásia
Intenção Aliviar sintoma 
refratário/sofrimento
Provocar a morte para 
cessar o sofrimento
Meios Diminuir o nível 
de consciência
Terminar com a vida
Processo – drogas 
e doses
Drogas sedativas 
ajustadas à resposta 
do paciente
Drogas letais que 
garantam uma 
morte rápida
Objetivo Alívio do sofrimento Morte rápida
Morte por causa natural Sim Não
Quadro 3. Diferenças entre sedação paliativa e eutanásia
O processo de morte em pacientes terminais é visto por uma perspectiva 
humanizada que deve ser complementada por um olhar técnico para conseguir 
determinar todos os aspectos relacionados à dor. O alívio da dor, não só física 
como emocional, deve ser o objetivo das equipes multidisciplinares cujo foco 
é no tratamento ao paciente e, de forma mais abrangente, à família. Desse 
modo, mesmo com todas as discussões éticas que envolvem as diferentes 
formas de se terminar com a vida, é de conhecimento de todos que o respeito 
à dignidade do paciente deve ser mantido durante essa fase terminal. Sobre a 
sedação paliativa, pode-se dizer que esta respeita os princípios de autonomia, 
requer consentimento informado por parte do paciente e mantém a qualidade 
de vida (LIZ et al., 2018).13Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida
A ANCP é a principal entidade de representação multiprofissional da prática paliativa 
no Brasil e tem várias sedes espalhadas pelo país. No site indicado a seguir você pode 
acompanhar as principais informações e os principais documentos associados ao 
assunto.
www.paliativo.org.br/
ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS [ANCP]. c2017. Disponível em: https://
paliativo.org.br/. Acesso em: 9 set. 2019.
ALVES NETO, O. Dor: princípios e prática. Porto Alegre: Artmed, 2009.
BRASIL. Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de cuidados paliativos. Rio 
de Janeiro: Diagraphic, 2009. Disponível em: https://www.santacasasp.org.br/upSrv01/
up_publicacoes/8011/10577_Manual%20de%20Cuidados%20Paliativos.pdf. Acesso 
em: 1 set. 2019.
BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica: Resolução CFM n° 
2.217, de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e 
2.226/2019. Brasília, DF: CFM, 2019. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/
PDF/cem2019.pdf. Acesso em: 1 set. 2019. 
BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF, 1940. 
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm. Acesso 
em: 1 set. 2019.
CAMPBELL, M. L. Nurse to nurse: cuidados paliativos em enfermagem. Porto Alegre: 
AMGH, 2011.
CARVALHO, R. T. de; PARSONS, H. A. (org.). Manual de cuidados paliativos. 2. ed. São Paulo: 
ANCP, 2012. Disponível em: http://biblioteca.cofen.gov.br/wp-content/uploads/2017/05/
Manual-de-cuidados-paliativos-ANCP.pdf. Acesso em: 1 set. 2019.
GAYOSO, M. V. et al. Comfort level of caregivers of cancer patients receiving palliative 
care. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 26, e3029, 2018. Disponível em: http://
www.scielo.br/pdf/rlae/v26/pt_0104-1169-rlae-26-e3029.pdf. Acesso em: 1 set. 2019.
GOMES, A. L. Z.; OTHERO, M. B. Cuidados paliativos. Estudos Avançados, v. 30, n. 88, 
p. 155−166, 2016. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ea/v30n88/0103-4014-
-ea-30-88-0155.pdf. Acesso em: 1 set. 2019.
Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida14
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VASQUES, T. C. S. et al. Percepção dos trabalhadores de enfermagem acerca do cuidado 
ao paciente em terminalidade no ambiente hospitalar. Texto & Contexto Enfermagem, 
v. 25, n. 3, p. 1−7, 2016. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tce/v25n3/pt_0104-
0707-tce-25-03-0480014.pdf. Acesso em: 1 set. 2019.
VICTORIA HOSPICE SOCIETY. Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos: ver-
são 2 (EDCP v2). 2009. Disponível em: https://victoriahospice.org/wp-content/uplo-
ads/2019/07/pps_-_portuguese_brazilian_-_sample.pdf. Acesso em: 9 set. 2019.
WHO. Global atlas of palliative care at the end of life. London: WHO, 2014. Disponível em: 
https://www.who.int/nmh/Global_Atlas_of_Palliative_Care.pdf. Acesso em: 1 set. 2019.
WHO. Integrating palliative care and symptom relief into primary health care: a WHO guide 
for planners, implementers and managers. Geneva: World Health Organization, 2018. 
Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/274559. Acesso em: 1 set. 2019.
Leitura recomendada
DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde. Diretriz para cuidados paliativos 
em pacientes críticos adultos admitidos em UTI protocolo de acolhimento e classificação 
de risco nas portas fixas de urgência e emergência adulto. Brasília, DF, 2018. Disponível 
em: http://www.saude.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2018/04/3.-Diretrizes-para-
-Cuidados-Paliativos.pdf. Acesso em: 1 set. 2019.
15Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida

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