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BIOÉTICA Samantha Brum Leite Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Analisar aspectos relevantes dos tratamentos de alívio da dor de pacientes terminais. � Reconhecer o funcionamento do princípio de duplo efeito para alívio da dor. � Identificar em que contextos a sedação paliativa é eticamente aceita. Introdução Neste capítulo, você vai estudar sobre a terminalidade da vida. Muitas doenças ou condições clínicas acarretam danos cuja cura não é possível; desse modo, os pacientes em seu estado terminal, normalmente, apre- sentam a dor como um sintoma inerente. Nesses casos, a conduta a ser realizada com o paciente deve ser baseada nos cuidados paliativos, que se tratam de uma forma humanizada de aliviar os sintomas associados à doença. Uma das formas de aliviar a dor é por meio da sedação paliativa, a qual é confundida com outros conceitos como eutanásia e suicídio assistido e, por isso, pode suscitar levantamentos éticos sobre a sua realização. Paciente terminal e cuidados paliativos Antes de pensar sobre os desafios de um paciente em condição de termi- nalidade, é importante determinar o que é um paciente terminal. Podemos considerar um paciente terminal quando ele se torna irrecuperável, ou seja, a morte será um processo certo e que não é possível reverter. Além disso, não há critérios que estabelecem a terminalidade como algo fixo; o processo pode ser diferente conforme o diagnóstico e os aspectos de prognóstico de cada indivíduo. (GUTIERREZ, 2001). Diante disso, deve-se ressaltar que, apesar da terminalidade, essa condição não representa que não há mais nada a se fazer, pelo contrário, há diversas formas de se trabalhar com pacientes terminais, sobretudo, para que não haja sofrimento. O cuidado com esse tipo de paciente envolve o alívio da dor, a diminuição do desconforto, a garantia da autonomia e a promoção de conforto e manutenção da dignidade. A denominação para esse tipo de tratamento é cuidado paliativo (GUTIERREZ, 2001). O cuidado paliativo baseia-se na valorização da vida e entende a morte como um processo natural. O Cuidado Paliativo é uma abordagem que tem como objetivo promover a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento. Requer uma identificação precoce, avalia- ção e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual. Além disso, o cuidado paliativo deve ser entendido como uma humanização do tratamento, não devendo considerar apenas os protocolos e as condutas da prática de atendimento. Sobre os cuidados paliativos: � é necessário tanto em condições crônicas como em condições de risco e limitação de vida; � não há um limite de tempo ou prognóstico no tratamento paliativo; � pode ser realizado em todos os níveis de atenção, desde a primária até quaternária; � é prestado independentemente do local onde o indivíduo esteja, seja na sua residência ou na unidade de internação hospitalar. Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida2 A abordagem do cuidado paliativo, apesar de parecer ser um processo único, se difere conforme a OMS classifica para adultos e crianças (Quadro 1). Para as crianças o cuidado é total: corpo, mente, espírito, além de estender os cuidados de apoio para a família. Conforme o Manual de Cuidados Paliativos da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP): [...] Cuidados Paliativos estão indicados para todos os pacientes (e familiares) com doença ameaçadora da continuidade da vida, em concomitância com os cuidados curativos, por qualquer diagnóstico, com qualquer prognóstico, seja qual for a idade, e a qualquer momento da doença em que eles tenham expectativas ou necessidades não atendidas (CARVALHO; PARSONS, 2012, documento on-line). Princípios dos cuidados paliativos conforme a OMS Princípios dos cuidados paliativos para crianças conforme a OMS � Promover o alívio da dor e de outros sintomas angustiantes. � Afirmar a vida e considerar a morte como um processo normal da vida. � Não acelerar nem adiar a morte. � Integrar os aspectos psicológicos e espirituais no cuidado ao paciente. � Oferecer um sistema de suporte e apoio que possibilite ao paciente viver o mais ativamente possível até o momento da morte. � Oferecer sistema de suporte para auxiliar os familiares durante a doença do paciente e ao enfrentar o luto. � Abordagem multiprofissional para focar as necessidades dos pacientes e seus familiares, incluindo aconselhamento sobre o luto. � Melhorar a qualidade de vida e influenciar positivamente o curso da doença. � Iniciar no momento do diagnóstico, independentemente se a criança receber ou não o tratamento direcionado para a doença; � Os profissionais de saúde devem avaliar e aliviar o sofrimento físico, psicológico e social; � Abordagem multidisciplinar para focar as necessidades dos pacientes e seus familiares e fazer uso de recursos comunitários disponíveis, mesmo que sejam limitados; � Pode ser fornecido em instalações de cuidados terciários, em centros de saúde comunitários e até mesmo em lares de crianças. Quadro 1. Princípios dos cuidados paliativos conforme a OMS (Continua) 3Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida Fonte: Adaptado de WHO (2014). Quadro 1. Princípios dos cuidados paliativos conforme a OMS Princípios dos cuidados paliativos conforme a OMS Princípios dos cuidados paliativos para crianças conforme a OMS � Deve ser iniciado o mais precocemente possível, juntamente com outras medidas de prolongamento da vida, como a quimioterapia e a radioterapia e incluir todas as investigações necessárias para melhor compreender e gerenciar situações clínicas estressantes. (Continuação) Além do cuidado paliativo, há o cuidado hospice, que consiste em um cuidado paliativo a qualquer paciente que necessite dos cuidados e cuja ex- pectativa de vida for inferior a seis meses. Normalmente o atendimento é realizado em casa ou em casas de repouso. Os cuidadores tentam controlar a dor e outros sintomas para que uma pessoa possa permanecer tão alerta e confortável quanto possível (CAMPBELL, 2011). Um dos aspectos que deve ser considerado no tratamento de pacientes terminais é o respeito aos princípios bioéticos, visto que todas as decisões da equipe devem considerar a beneficência e a não maleficiência e cujos pro- cedimentos devem se basear na autonomia do paciente. As condutas são em função da manutenção da qualidade de vida e da dignidade humana durante o período de ocorrência da doença na terminalidade da vida, na morte e no luto. Além disso, conforme o Código de Ética Médica, há várias determinações relacionadas ao cuidado com pacientes terminais para o tratamento paliativo (BRASIL, 2019): � Capítulo I – Princípios fundamentais: nas situações clínicas irrever- síveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados. � Capítulo V – Relação com pacientes e familiares: salvo por motivo justo, comunicado ao paciente ou à sua família, o médico não abandonará o Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida4 paciente por este ter doença crônica ou incurável e continuará a assisti- -lo e a propiciar-lhe os cuidados necessários, inclusive os paliativos. � Capítulo V – Relação com pacientes e familiares: nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal. Para a determinaçãoda conduta a ser seguida com os pacientes, o Victoria Hospice, no Canadá, desenvolveu, em 1996, a Palliative Performance Scale (PPS), cuja tradução seria Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos (Quadro 2). O objetivo dessa elaboração era de realizar a avaliação funcional do paciente e assim determinar a evolução da doença. Segundo o documento, a PPS tem utilidades: � é um excelente instrumento de comunicação que descreve rapidamente o estado funcional atual do paciente; � pode ser útil como critério de avaliação de capacidade de trabalho e outras medidas e comparações; � parece ter valor prognóstico. % Deam- bulação Atividade e evidência da doença Autocui- dado Ingesta Nível da consciência 100 Completa Atividade normal e trabalho; sem evidência de doença Completo Normal Completa 90 Completa Atividade normal e trabalho; alguma evidência de doença Completo Normal Completa Quadro 2. Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos (Continua) 5Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida Fonte: Adaptado de Victoria Hospice Society (2009). Quadro 2. Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos % Deam- bulação Atividade e evidência da doença Autocui- dado Ingesta Nível da consciência 80 Completa Atividade normal com esforço; alguma evidência de doença Completo Normal ou reduzida Completa 70 Reduzida Incapaz para o trabalho; doença significativa Completo Normal ou reduzida Completa 60 Reduzida Incapaz para hobbies/ trabalho doméstico; doença significativa Assistência ocasional Normal ou reduzida Completa ou períodos de confusão 50 Maior parte do tempo sentado ou deitado Incapacitado para qualquer trabalho; doença extensa Assistência conside- rável Normal ou reduzida Completa ou períodos de confusão 40 Maior parte do tempo acamado Incapaz para a maioria das atividades; doença extensa Assistência quase completa Normal ou reduzida Completa ou sonolência; +/- confusão 30 Totalmente acamado Incapaz para qualquer atividade; doença extensa Depen- dência completa Depen- dência com- pleta Completa ou sonolência; +/- confusão 20 Totalmente acamado Incapaz para qualquer atividade; doença extensa Depen- dência completa Mínima a pe- quenos goles Completa ou sonolência; +/- confusão 10 Totalmente acamado Incapaz para qualquer atividade; doença extensa Depen- dência completa Cuida- dos com a boca Completa ou sonolência; +/- confusão 0 Morte - - - - (Continuação) Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida6 Para o entendimento da Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos, a definição de alguns conceitos é importante. Acesse o link a seguir e consulte o documento elaborado pelo Victoria Hospice, que traz informações referentes à interpretação de cada um dos itens da escala. https://qrgo.page.link/h3QhU Em dados divulgados pela OMS, em 2014 o Brasil foi considerado por- tador do nível 3a na Escala de Desempenho em Cuidados Paliativos junto com Rússia, México e países do Sudeste Asiático, no desenvolvimento de cuidados paliativos, o que representa que ele tem uma provisão isolada. A classificação é em: � Nível 1: nenhuma atividade detectada; � Nível 2: em capacitação; � Nível 3a: provisão isolada; � Nível 3b: provisão generalizada; � Nível 4a: integração preliminar; � Nível 4b: integração avançada. Não é obrigatório que se tenha locais exclusivos para a prestação do atendi- mento paliativo, no entanto, é importante que se tenha profissionais de saúde e equipes que sejam referência nesse cuidado para orientar melhor quais ações paliativas serão desempenhadas conforme os pacientes. Assim destaca-se a relevância de se ter profissionais de saúde que estejam preparados para atender pacientes na terminalidade (GOMES; OTHERO, 2016; VASQUES et al., 2016). Aspectos importantes para o alívio da dor Para a análise de definição de qual conduta paliativa deve ser estabelecida para cada paciente, primeiro é necessário entender o conceito de dor. Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor, a dor pode ser entendida como uma experiência sensitiva e emocional desagradável, associada a dano real ou potencial dos tecidos, ou descrita em termos de tais lesões. De modo que 7Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida “a dor é uma experiência única e individual, modificada pelo conhecimento prévio de um dano que pode ser existente ou presumido, ou seja, em qualquer situação a dor é o que o paciente refere e descreve”. Classificar corretamente a dor é um desafio, visto que ela pode ser disposta de várias formas, como mecanismo fisiopatológico, perfil de duração, noci- cepção e localização. A determinação da evolução dos sintomas depende de: identificação da causa da dor, seu mecanismo e fatores não físicos envolvidos com a expressão e a discriminação detalhada da dor (a qual depende de boa anamnese, exame físico e complementar, além da avaliação funcional). Logo, fatores como idade, sexo, doença ou condição clínica prévia também são fatores diferenciais quando se trata de pacientes terminais. Com o envelhe- cimento da população, as doenças crônico-degenerativas tendem a aumentar. Majoritariamente, os adultos que necessitam de cuidados paliativos vão a óbito por doenças cardiovasculares (38,5%) e câncer (34%), seguidos por doenças respiratórias crônicas (10,3%), HIV/AIDS (5,7%) e diabetes (4,5%). Aqueles que necessitam de cuidados paliativos e que morrem de HIV/AIDS se concentram na faixa etária mais jovem (de 15 a 59 anos), enquanto aqueles que morrem de Alzheimer, Parkinson, doenças respiratórias crônicas, doenças cardiovascu- lares, diabetes, artrite reumatoide e câncer estão predominantemente na faixa etária mais avançada (BRASIL, 2009; WHO, 2014; GAYOSO et al., 2018). Após o entendimento da dor e quais são as variáveis associadas a ela, o tratamento para o seu alívio deve ser um trabalho realizado por uma equipe multidisciplinar com base em tratamentos farmacológicos e não farmacoló- gicos, como apoio psicológico e social, fisioterapia e apoio religioso, dentre outros. Cuidados básicos também de acompanhamento convencional das doenças, como colheita de materiais para a realização de exames, aspiração de secreções, presença de cateteres e tubos devem ser conduzidos de modo a minimizar os desconfortos associados, considerando os riscos e benefícios do seu uso. Para o tratamento farmacológico, conforme a OMS, a abordagem por analgésicos deve considerar o grau da dor pela Escala Visual Numérica (EVN), determinada pelo próprio paciente. � Dor leve (EVN 1 a 3): paracetamol ou dipirona. � Dor moderada (EVN 4 a 6): combinação de opioide fraco ou opioide forte em dose baixa, com paracetamol ou dipirona. � Dor intensa (EVN 7 a 10): combinação de opioide forte com paracetamol ou dipirona. Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida8 Outros medicamentos, como anti-inflamatórios, podem ser administra- dos concomitantemente caso seja necessário. Entretanto, deve-se optar pelo tratamento mais simples e cuja via de administração seja menos invasiva. O tratamento não farmacológico pode se basear em medidas físicas e reabilitadoras, como técnicas de relaxamento, terapia física por aplicação de calor ou frio (conforme a situação), acupuntura, massoterapia, neuroestimu- lação elétrica transcutânea e procedimentos anestésicos e neurocirúrgicos, medidas educativas, psicoemocionais e comportamentais e, ainda, terapias alternativas como Pilates e musicoterapia, dentre outras. Essas abordagens geralmente ocorrem de forma complementar ao uso de medicações e devem ser empregadas como humanização. Talvez esse seja um dos maiores desafios em relação aos cuidados paliativos. São necessários recursos humanos que sejam capazes de tratar as diversas implicações associadas à dor, mas também de tratar o sofrimento psicológico, decorrenteda sua condição clínica, e fornecer apoio emocional. Cuidadores familiares aptos devem ser treinados, equipados e encorajados por médicos a fornecer cuidados básicos de enfermagem e ad- ministração de medicamentos. De forma complementar, há o aconselhamento espiritual, o qual deve ser facilitado, caso o paciente assim deseje, respeitando as crenças e as necessidades do paciente e da família (WHO, 2018; GAYOSO et al., 2018; ALVES NETO, 2009). Além de todos esses aspectos, até que o paciente terminal realmente receba um tratamento para o controle da dor, algumas intercorrências podem ocorrer, como a não adesão ao tratamento, a resistência à prescrição de opioides como tratamento de escolha pelos médicos ou o pensamento de que a dor é um processo inevitável em razão da condição clínica (BRASIL, 2009). Segundo dados da OMS divulgados em 2011, mais de 29 milhões de pessoas morreram de doenças exigindo cuidados paliativos, sendo a maioria adultos (94%), dos quais 69% têm mais de 60 anos e 25% têm 15 a 59 anos. Apenas 6% de todas as pessoas que necessitam de cuidados paliativos são crianças. Com base nessas estimativas, a cada ano no mundo, cerca de 377 adultos (mais de 15 anos) em 100 mil habitantes e 63 crianças (menos de 15 anos) em 100 mil pessoas precisarão de cuidados paliativos no final da vida. 9Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida Princípio de duplo efeito para alívio da dor Uma das formas de tratamento paliativo quando a doença já se encontra em estágio avançado com presença de vários sintomas causadores de sofrimento físico, psicoemocional e/ou espiritual é a sedação paliativa. Pela ANCP (BRA- SIL, 2009, documento on-line), entende-se a sedação paliativa como “[...] a administração deliberada de fármacos em doses e combinações necessárias para reduzir o nível de consciência, com o consentimento do paciente ou de seu responsável, e possui o objetivo de aliviar adequadamente um ou mais sintomas refratários em pacientes com doença terminal avançada”. Não há um protocolo especifico e há grande variabilidade em aspectos como o momento mais adequado para a realização, as medicações escolhidas, a dose das drogas, a via de administração e a duração da sedação. A sedação paliativa tem como indicações em quadros de delírio agitado, dispneia e dor, classificados como (1) sintomas refratários, além de (2) quadro agudo ameaçador da vida em tempo curto e (3) morte iminente (horas a dias) com sofrimento intenso. Antes de realizar o procedimento, é indispensável que se tenha um entendimento e um tratamento da angústia do paciente, visto que, apesar de haver sofrimento existencial, ele pode estar acordado, alerta, lúcido e sem sintoma físico associado. Desse modo, a distinção entre os sintomas dos sentimentos de angústia, ansiedade, frustração, impotência, onipotência, falta de informação e medo da própria morte devem ser interpretados e diferenciados em relação à situação de incurabilidade e morte próxima. Assim, temos a presença do princípio do duplo efeito, que determina que a sedação paliativa é moralmente aceita conforme duas premissas: (1) diminui o sofrimento físico e psicológico e (2) diminui o tempo de vida do paciente. Apesar da negatividade da redução do tempo de vida, há mais benefícios ao indivíduo, o que remete ao princípio da beneficência. O objetivo é aliviar o sofrimento e, se após a conduta clínica não se tem outras formas de aliviar o sofrimento, se tornar aceitável (BRASIL, 2009). Veja a Figura 1 a seguir. Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida10 Figura 1. Algoritmo para indicação de sedação paliativa. Fonte: Brasil (2009, documento on-line). Sintomas refratários Sofrimento insuportável Prognóstico limitado Sem outras opções de tratamento sem comprometer o nível de consciência Consulta com especialista Competência do paciente Dúvidas? SIM SIMNÃO Valorizar o desejo da família1 o) Vontades antecipadas, diretrizes prévias 2o) Valores e desejos prévios (história clínica) 3o) Família, agregados Desejo explícito do paciente SIM Consentimento informado (verbal ou escrito) • Compartilhar a decisão com a equipe • Registrar no prontuárioINDICAR SEDAÇÃO PALIATIVA SIM Dúvidas? Consulta com especialista Considerações éticas sobre sedação paliativa Pela indicação da sedação paliativa, ela se torna aceitável com base no princípio de duplo efeito, importante para o alívio da dor. Para isso, deve-se distin- guir o que é sedação paliativa, eutanásia e suicídio assistido, visto que o não conhecimento de em que consiste cada um desses procedimentos acarreta implicações éticas à sedação paliativa. Conforme a Academia Nacional de Cuidados Paliativos – ANCP (c2017), os conceitos são os seguintes. 11Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida � Sedação paliativa: uso de medicamentos sedativos específicos para aliviar sofrimento intolerável causado por sintomas refratários e que reduzem o nível de consciência. Utilizada em pacientes com doença avançada terminal e com o consentimento do paciente (ou responsável). � Eutanásia: é a ação deliberada de provocar uma morte rápida por meio da administração de drogas letais, a pedido do paciente. � Suicídio assistido: o médico prove os meios (medicação, prescrição e informação) ou outras formas de intervir no nível de consciência para o paciente cometer o suicídio. Dentre os procedimentos realizados na terminalidade há a distanásia, cujo conceito é caracterizado por um conjunto de tratamentos médicos que visam a estender a sobrevida do paciente em fase terminal, deixando em segundo plano a qualidade de vida dele. Já a ortotanásia determina que a morte siga seu processo natural conside- rando a qualidade de vida. A principal diferença entre as condutas diz respeito ao sujeito que realiza a ação, visto que na sedação paliativa e na eutanásia é o médico ou alguém que realiza, enquanto no suicídio assistido é o paciente que provoca a sua própria morte. Pela legislação brasileira, o suicídio assistido é considerado crime pelo art. 122 do Código Penal. [...] Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça: Pena – reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave. Parágrafo único. A pena é duplicada: Aumento de pena I – se o crime é praticado por motivo egoístico; II – se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. (BRASIL, 1940, documento on-line). Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida12 Veja a seguir o Quadro 3: Fonte: Adaptado de Carvalho e Parsons (2012). Sedação paliativa Eutanásia Intenção Aliviar sintoma refratário/sofrimento Provocar a morte para cessar o sofrimento Meios Diminuir o nível de consciência Terminar com a vida Processo – drogas e doses Drogas sedativas ajustadas à resposta do paciente Drogas letais que garantam uma morte rápida Objetivo Alívio do sofrimento Morte rápida Morte por causa natural Sim Não Quadro 3. Diferenças entre sedação paliativa e eutanásia O processo de morte em pacientes terminais é visto por uma perspectiva humanizada que deve ser complementada por um olhar técnico para conseguir determinar todos os aspectos relacionados à dor. O alívio da dor, não só física como emocional, deve ser o objetivo das equipes multidisciplinares cujo foco é no tratamento ao paciente e, de forma mais abrangente, à família. Desse modo, mesmo com todas as discussões éticas que envolvem as diferentes formas de se terminar com a vida, é de conhecimento de todos que o respeito à dignidade do paciente deve ser mantido durante essa fase terminal. Sobre a sedação paliativa, pode-se dizer que esta respeita os princípios de autonomia, requer consentimento informado por parte do paciente e mantém a qualidade de vida (LIZ et al., 2018).13Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida A ANCP é a principal entidade de representação multiprofissional da prática paliativa no Brasil e tem várias sedes espalhadas pelo país. No site indicado a seguir você pode acompanhar as principais informações e os principais documentos associados ao assunto. www.paliativo.org.br/ ACADEMIA NACIONAL DE CUIDADOS PALIATIVOS [ANCP]. c2017. Disponível em: https:// paliativo.org.br/. Acesso em: 9 set. 2019. ALVES NETO, O. Dor: princípios e prática. Porto Alegre: Artmed, 2009. BRASIL. Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de cuidados paliativos. Rio de Janeiro: Diagraphic, 2009. Disponível em: https://www.santacasasp.org.br/upSrv01/ up_publicacoes/8011/10577_Manual%20de%20Cuidados%20Paliativos.pdf. Acesso em: 1 set. 2019. BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica: Resolução CFM n° 2.217, de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e 2.226/2019. Brasília, DF: CFM, 2019. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/ PDF/cem2019.pdf. Acesso em: 1 set. 2019. BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília, DF, 1940. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm. Acesso em: 1 set. 2019. CAMPBELL, M. L. Nurse to nurse: cuidados paliativos em enfermagem. Porto Alegre: AMGH, 2011. CARVALHO, R. T. de; PARSONS, H. A. (org.). Manual de cuidados paliativos. 2. ed. São Paulo: ANCP, 2012. Disponível em: http://biblioteca.cofen.gov.br/wp-content/uploads/2017/05/ Manual-de-cuidados-paliativos-ANCP.pdf. Acesso em: 1 set. 2019. GAYOSO, M. V. et al. Comfort level of caregivers of cancer patients receiving palliative care. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 26, e3029, 2018. Disponível em: http:// www.scielo.br/pdf/rlae/v26/pt_0104-1169-rlae-26-e3029.pdf. Acesso em: 1 set. 2019. GOMES, A. L. Z.; OTHERO, M. B. Cuidados paliativos. Estudos Avançados, v. 30, n. 88, p. 155−166, 2016. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ea/v30n88/0103-4014- -ea-30-88-0155.pdf. Acesso em: 1 set. 2019. Alívio da dor de pacientes terminais e morte medicamente assistida14 GUTIERREZ, P. L. O que é o paciente terminal?. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 47, n. 2, p. 85−109, 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ramb/v47n2/a10v47n2. pdf. Acesso em: 1 set. 2019. LIZ, A. M. et al. A terminalidade da vida e os aspectos bioéticos. 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