FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos
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FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanaticos


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contrário, sua pro-
priedade ficaria visada pelos cangaceiros e poderia ser depre-
dada. Outras vezes, Lampião exigia abrigo inviolável em fa-
zendas estrategicamente situadas. Estas se tornavam então seu
pouso habitual, lugar onde se ocultava e onde descansava se-
manas ou meses, para refazer as forças das longas caminhadas
pelos sertões, desde o Ceará até a Bahia. A fazenda-coito é
também, algumas vezes, o quartel-general do bando, o lugar

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 M. da Rocha, ob. cit., pág. 105.

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onde ele se reabastece de armas e munições compradas por in-
termédio do fazendeiro \u2014 coiteiro \u2014 ou de seus empregados.
É sabido que Lampião foi sempre otimamente provido de ma-
terial bélico, inclusive fuzis, privativos das forças armadas. É
sabido também que em Juazeiro, em 1926, os chefes locais lhe
forneceram abundante armamento para combater a Coluna
Prestes. Mas não era só esta a origem das armas modernas
conseguidas pelos cangaceiros. Eles as compravam normal-
mente não só através dos fazendeiros amigos, dos coiteiros,
como de alguns de seus perseguidores. Numa entrevista que
manteve Lampião com um dos grandes fazendeiros de Alago-
as, coronel Joaquim Resende, de Pão de Açúcar, disse-lhe o
chefe cangaceiro que, quanto às forças estaduais que o perse-
guiam, ele "se arranjava a seu gosto", "fazendo nessa ocasião
graves acusações a vários oficiais que andavam em sua perse-
guição"

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.

Muito diversa da ação dos cangaceiros é a dos fanáticos,
em autênticos movimentos de massa, como o foram Canudos,
o Contestado e, em proporções bem menores, mas de suma
importância por certas particularidades, o Caldeirão do Beato
Lourenço, na chapada do Araripe.

Em todos estes casos temos uma característica funda-
mental comum: necessidade de ocupar uma determinada,
área de terra. Isto, por si só, já é motivo de profundas inquie-
tações por parte dos grandes proprietários, porque, no míni-
mo, seria exemplo perigoso a propagar-se, caso subsistisse.
Entretanto, o mais sério é que, ao contrário do cangaço, redu-
tos como esses criam raízes entre as massas pobres do cam-
po, atraindo-as em proporções crescentes, pondo em xeque as
fazendas das vizinhanças e, portanto, a própria ordem estabe-
lecida.

Não significa isto que as massas rurais congregadas em
Canudos, no Contestado ou no Caldeirão tivessem consciência
da necessidade de por fim às relações semifeudais de produção
e de estabelecer relações de novo tipo, de tipo capitalista, por
exemplo. Conhecendo-se o nível de evolução em que se en-
contram ainda hoje as atrasadas massas camponesas do Nor-

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 Idem, ob. cit., pág. 120.

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deste (como em outras regiões), pode-se avaliar o que seria a
sua consciência nos fins do século passado e começos deste
século, quando o capitalismo estava muitíssimo menos evoluí-
do, a penetração capitalista na agricultura era mínima, no Nor-
deste quase nula, e, portanto, muito menor a influência da ci-
dade sobre o campo. As populações rurais viviam quase com-
pletamente isoladas das influências progressistas da cidade,
mergulhadas no obscurantismo semifeudal. Suas lutas \u2014 em
Canudos, no Contestado, no Caldeirão \u2014 tinham um caráter
social progressista, na medida em que traduziam aspirações de
libertar-se da terrível exploração do latifúndio, que tudo con-
denava à estagnação. Tentavam fugir ao seu domínio concen-
trando-se em grandes aglomerações. Uma vez vítimas da
agressão, pegavam em armas e resistiam até a morte.

Enquanto conseguiam sobreviver, esses movimentos de
pobres do campo se organizavam, espontaneamente, em for-
mas de trabalho cooperativo. Em Canudos, uma parte do pro-
duto do trabalho destinava-se à "companhia", isto é, à cole-
tividade formada em torno do Conselheiro. No Caldeirão do
Beato Lourenço vigorava o mesmo regime de distribuição do
produto do trabalho.

Corresponde esse fenômeno a uma etapa da luta pela pos-
se da terra no Brasil? Influiria nisso a tradição indígena? De-
via influir mais ainda o estágio em que se encontrava o desen-
volvimento da própria sociedade sertaneja, atrasada no sentido
capitalista, ainda com fortes remanescentes de feudalismo no
campo.

Numa zona desprovida de meios de transporte fáceis, sem
grandes núcleos urbanos que pudessem impulsionar o incre-
mento da produção agrícola em larga escala, com uma econo-
mia seminatural dominando vastas áreas, a produção de sub-
sistência era o suficiente. Ademais, o homem do campo tinha
que lutar com uma série de obstáculos para conseguir cultivar
a terra. Em primeiro lugar, no Nordeste, sobretudo, a falta
mesmo de boas terras. As terras de Canudos eram das mais
áridas da Bahia. As do Caldeirão, um "sítio intratável e es-
téril", segundo referem os conhecedores do lugar. As terras
férteis, naturalmente, já se encontravam, de longa data, apos-
sadas pelos latifundiários, ou, quando se repartia a proprieda-

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de, eram distribuídas entre seus herdeiros, tendendo nova-
mente para a reconstituição do latifúndio. O homem sozinho
não podia enfrentar o cultivo de uma terra sáfara, que recla-
mava a escavação de poços ou barragens, cacimbas para al-
cançar as águas profundas, cisternas para acumular as águas
das chuvas, irrigação, adubos, animais. Tal como em Canudos,
no Caldeirão, os seguidores do Beato Lourenço fabricavam
eles mesmos seus instrumentos de trabalho e muitos objetos de
uso, inclusive os grosseiros tecidos com que se vestiam.

Este fato revela, de uma parte, que na década de 20 e
mesmo na de 30, quando foi destruída a concentração dos
camponeses do Beato Lourenço, ainda era fragílima a atração
exercida pela economia mercantil sobre as populações do Ca-
riri. E, note-se, o núcleo do Caldeirão vai formar-se no mais
próspero município da zona, o Crato. De outra parte \u2014 é uma
conclusão lógica \u2014 mostra que a balança ainda pendia em fa-
vor da economia seminatural, cuja rotina impedia a necessária
divisão social do trabalho e a criação de um amplo mercado de
mão-de-obra. Em resumo, o poderio econômico no vale ainda
se encontrava nas mãos dos latifundiários, de cuja tirania eco-
nômica \u2014 exercida até pela inércia \u2014 tentavam libertar-se os
míseros sem terra e sem ocupação certa, que acompanhavam
os taumaturgos, que ingressavam nos bandos do cangaço, ou
que se alugavam como capangas dos coronéis.

Dos três elementos gerados direta ou indiretamente pelo
latifúndio semifeudal, sobrevive, até os nossos dias, aquele
que é o seu filho dileto: o capanga ou cabra. Continua ele a
manter guarda na grande fazenda, embora os coronéis sejam
hoje apenas a sombra do que foram no passado, até mesmo um
passado de pouco mais de um quarto de século. Se a defendia,
inicialmente contra os índios, depois contra os posseiros, mais
tarde contra os cangaceiros e os fanáticos, hoje procura defen-
dê-la contra o proletário rural sem terra e que ronda, em núme-
ro crescente, a grande propriedade pré-capitalista. Os ca-
pangas, ainda hoje, são os assalariados do crime político nos
sertões de Alagoas, os que marcam com ferro em brasa mem-
bros das ligas camponesas em Pernambuco, os que assaltam
posseiros ali no Estado do Rio, a duas horas da segunda cidade
do País e sua capital até bem pouco tempo. As autoridades es-

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tatais respeitam-lhes o chefe, o grande fazendeiro ou usineiro
e, à eclosão de uma luta no campo, as próprias forças federais
se colocam muitas vezes ao lado dos capangas do coronel con-
tra os que lutam pela terra, na mais evidente contra-prova da
aliança virtual ainda hoje em vigor entre a burguesia e o lati-
fúndio semifeudal.

II PARTE

Canudos e o Conselheiro

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Se Euclides